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CARTA DA SAGRADA CONGREGAÇÃO - PARA A DOUTRINA DA FÉ AO REV.

PADRE EDWARD
SCHILLEBEECKX Roma, 20 de Novembro de 1980

Meu Reverendo Padre

Há tempos que a nossa Congregação está em contacto convosco para clarificar as posições cristológicas que
expusestes no vosso livro Jezus. Het verhaal van een levende.

Já a 20 de Outubro de 1976 — por intermédio do Cardeal Willebrands que ela informava do exame em acto —
a Congregação, tendo verificado que o livro continha proposições ambíguas que podiam ser perigosas para os
vossos leitores, vos dirigir uma lista de perguntas sobre o conteúdo da obra e o método utilizado.

A 13 de Abril de 1977, respondestes a essas perguntas numa carta que fornecia diversas explicações; estas não
eliminavam todas as dificuldades, como vos foi explicado numa "apreciação da resposta", que o nosso
Dicastério vos enviou a 6 de Julho de 1978.

Entretanto, tínheis publicado Gerechtigheid en liefde. Genade en bevrijding, segundo livro da trilogia sobre a
cristologia que tínheis anunciado. Alguns meses mais tarde, fizestes chegar à Congregação o vosso opúsculo
Tussentijds verhaal over twee Jesus boeken, acompanhado de um cartão que dizia: "Neste livrinho expliquei-
me sobre passagens um pouco obscuras ou discutidas dos meus livros sobre Jesus Cristo...".

Do exame atento desta última publicação resultou que esta continha sem dúvida clarificações interessantes, mas
que apesar disso a vossa própria posição se mantinha ambígua sobre pontos fundamentais da fé católica. E
assim, por motivo da gravidade das questões examinadas, a Congregação para a Doutrina da Fé decidiu
convidar-vos para um colóquio de ajustamento, em conformidade com os artigos 13-15 da sua Ratio agendi.
Por intermédio do Cardeal Willebrands, foi-vos pedido a 6 de Julho de 1978 de ter a bondade de vir a Roma,
para clarificar a vossa posição cristológica numa discussão com representantes do nosso Dicastério. A mesma
carta indicava-vos também os pontos essenciais sobre que versaria o colóquio previsto.

Depois de novos contactos, atrasados, entre outras causas, pela morte sucessiva dos Papas Paulo VI e João
Paulo I, o Cardeal Willebrands informou a Congregação (carta de 30 de Junho de 1979) que aceitáveis
participar no colóquio. Assim, depois das trocas epistolares indispensáveis para determinar o momento e as
modalidades do colóquio, este pôde realizar-se nos dias 13, 14 e 15 de Dezembro de 1979, na sede da
Congregação, participando Mons. Bovone, Moderador dos encontros, Sua Ex.cia Dom A. Descamps, e os
Podres A. Patfoort, OP. e J. Galot, S J.

Ao dar-se o encontro com as Autoridades da Congregação, que precedeu imediatamente o colóquio, foi-vos
recordado que o objectivo deste não era proceder a um julgamento, nem tomar decisões, mas completar as
informações sobre a vossa posição cristológica. E acrescentou-se que no fim do colóquio se procederia à
redacção de um relatório que, uma vez aceito pelas duas partes, seria em seguida apresentado ao exame dos
Cardeais Membros da Congregação para a Doutrina da Fé.

Reunidos em Congregação ordinária, os Cardeais procederam a tal exame, à luz das explicações dadas por vós
na resposta escrita de 13 de Abril de 1977 e no colóquio de 13 a 15 de Dezembro de 1979.

Verificaram que o processo seguido se mostrara útil, tendo permitido que vos explicásseis sobre a finalidade, o
método e o género literário dos vossos escritos, e que dissipásseis certo número de ambiguidades.

Formulando as suas conclusões, que forais aprovadas pelo Santo Padre, os Cardeais insistiram em que estas
valiam unicamente para as três obras indicadas no princípio desta carta.

Em consequência, falando em nome deles, na minha qualidade de Prefeito desta Congregação desejo
comunicar-vos o que segue:

1° — A Congregação toma nota dos esclarecimentos, das clarificações e rectificações que apresentastes no
Colóquio e na vossa carta, quanto ao que se refere às vossas obras publicadas (cf. Doc. Anexo, pp. 1-4).
2º — Julga todavia que em certos pontos as explicações fornecidas não bastaram para desfazer as ambiguidades
(cf. Doc. Anexo, pp. 4-5).

Por esta razão, peço-vos:

1) que façais conhecer ao público que tens acesso às vossas obras os esclarecimentos, clarificações e
rectificações que resultam das explicações recentes que destes à Congregação. É necessário, com efeito,
considerar que o livro Jezus... foi conhecido por vasto público. E assim as vossas explicações que, sobre pontos
decisivos, vão mais longe que as afirmações dos livros publicados, são importantes não só para o Magistério
eclesiástico, mas igualmente para os vossos leitores que têm o direito de ser informados sobre indicações de tal
alcance.

2) que revejais, à luz da doutrina católica, os pontos sobre que pesa ainda certa ambiguidade, e que manifesteis
publicamente a vontade de vos conformar com esta petição.

Além disso, é preciso reconhecer que, apesar da amplidão do seu programa, o colóquio não pôde levar
suficientemente longe os esclarecimentos que pediriam, por um lado, a maneira segundo a qual vós considerais
as relações entre a Revelação e a experiência, e, por outro lado, o papel que atribuís em teologia a uma
"manuductio" de tipo apologótico. Por causa disto e das dúvidas que prevalecem ainda, a Congregação, que se
abstém por agora de formar juízo a este respeito, não pode dispensar-se de sublinhar a necessidade de uma
perfeita conformidade com os princípios a que deve ajustar-se todo o trabalho teológico. No que diz respeito à
relação entre Revelação e experiência (com as suas consequências para o papel normativo dos ensinamentos
formais da Bíblia e dos documentos do Magistério), ela chama em especial a vossa atenção para o que está
exposto na Declaração Mysterium Ecclesiae, 5 (AAS, LXV, 1973, pp. 402-404).

Agradecer-vos-ia, meu Reverendo Padre, que me fizésseis saber que meio vos parece mais eficaz para
satisfazer os pedidos que exprimi. Por seu lado, a Congregação pensaria num artigo que vós prepararíeis de
acordo com ela, tomando por guia o documento junto à presente carta. Mas está pronta a considerar qualquer
outro meio que poderíeis propor.

Enviamos uma cópia desta carta a Sua Em.cia o Cardeal J. Willebrands, que segue este assunto na qualidade de
grão-chanceler da Universidade de Nimega, e outra ao Reverendíssimo Mestre-Geral da Ordem dos Frades
Pregadores, vosso Ordinário.

Esperando uma resposta favorável da vossa parte, peço-vos "que aceiteis, meu Reverendo Padre, a expressão
dos meus sentimentos de respeitosa dedicação.

FRANJO CARD. SEPER - Prefeito

NOTA ANEXA

A presente nota destina-se a explicitar a comunicação geral da Congregação enunciada na carta que vai junta.
As observações que encerra são fundadas essencialmente na relação do colóquio de 13 a 15 de Dezembro de
1979 (= Colóquio) e na resposta escrita do Prof. Schillebeeckx, datada de 13 de Abril de 1977, às perguntas que
lhe apresentara, igualmente por escrito, a Congregação (= Carta).

I. Esclarecimentos, precisações e rectificações que apresentou o Professor Schillebeeckx

A — ESCLARECIMENTO DE ORDEM DOGMÁTICA

Nota preliminar

O Autor não pretende apresentar uma cristologia completa, mas desejaria, por meio dos resultados da exegese
histórico-crítica, aproximar da pessoa de Jesus as pessoas que se encontram nas margens da Igreja e da fé. O
seu trabalho deseja ser obra de "manuductio", de apologética num sentido, de teologia fundamental (Colóquio,
4).

1) O Prof. Schillebeeckx "concedeu" que "o teólogo, quando se aplica a uma investigação exegética ou
histórica, não pode considerar sinceramente que deva abandonar as afirmações de fé da Igreja católica", em
particular "o que foi definido pelos concílios ecuménicos e as declarações infalíveis dos Papas", e que "nos seus
juízos efectivos sobre a realidade das coisas, o teólogo dogmático deve tomar como regra suprema do seu
pensamento não o seu próprio conceito do Jesus da história, mas o pensamento da Igreja sobre Jesus"
(Colóquio, 4-5). Por conseguinte, toda a interpretação se deve preocupar com ser uma tradição fiel e
homogénea das fórmulas de fé que permanecem "verdadeiras para sempre" (Colóquio, 3).

2) Diferentemente do que fizera nas suas obras, e em particular no epílogo de Tussentijds verhaal over twee
Jezus boeken, já não fugiu ao reconhecimento explícito da divindade de Jesus nos termos mesmos da Igreja
(Colóquio, 5 fim, 6 fim). Reconheceu a pré-existência da Pessoa divina do Filho (Colóquio, 6 Carta, 5, par. 2,
1.4 perto do fim) e uma "identificação hipostática" do Filho de Deus com "a maneira de ser pessoalmente
humana" de Jesus.

3) Declarou que na relação de Jesus com o Pai está implicado para Ele a consciência de ser o Filho único, isto,
embora Jesus não tenha empregado Ele próprio a expressão "o Filho" (Colóquio, 10), e que a identificação
explícita entre o Reino de Deus e Jesus é explicação legítima da consciência que Jesus teve de si mesmo,
consciência que se pode descobrir na antiga tradição (Carta, 16).

4) Declarou que "acreditava, em virtude do Magistério da Igreja que se exprimiu sobre este ponto", no
nascimento virginal do Jesus (Colóquio, 14).

5) Reconheceu que "o sacrifício de Jesus é expiação pelos nossos pecados" (Colóquio, 8).

6) Declarou que "para (ele), é claro que Jesus quis fundar a Igreja" (escolha dos Doze como representantes das
Doze tribos de Israel - Colóquio, 11).

B — CLARIFICAÇÃO SOBRE O ALCANCE DE CERTAS FÓRMULAS E RACIOCÍNIOS

1) No que diz respeito ao mistério da Encarnação:

— a expressão "identificação hipostática" do Verbo e da humanidade de Jesus, expressão que o A. declara


preferir à de união hipostática (Jezus..., p. 545, 1.7 perto do fim), não exclui para ele a realidade da união
hipostática (Colóquio, p. 7, 1.11: "admito a união hipostática"); o A. manifestou-se convencido de chegar
verdadeiramente ao conteúdo desta (Carta, p. 14, 1.8: "segundo julga, está aí a união hipostática na sua pura
forma"), e de estar de acordo com Calcedónia quando este fala de "unus et idem" que é ao mesmo tempo
verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

— a expressão "maneira de ser pessoalmente humana" ou "humanidade personalista" ou ainda "Jesus é


'humanamente pessoa' ", não significa para ele que o homem Jesus tenha uma pessoa humana (Colóquio, 7.6-9),
mas pretende unicamente sublinhar a plenitude humana de Jesus como "verus honro" (Colóquio, 7, 1.14 e 16).
Como teólogo dogmático nunca diz que Jesus é pessoa humana (Colóquio, p. 6, duas últimas linhas - nb. é dito
muito melhor na Carta, p. 13, 122, 30-51, etc.).

2) No que diz respeito à instituição da Eucaristia, clarificou que "os textos da instituição (da Eucaristia), tais
como nós os lemos (nas) fórmulas litúrgicas", são "uma anamnese histórica do que se passou na última Ceia",
que "a origem destas palavras (sacramentais) e de toda a Eucaristia se situa na última Ceia e no que Jesus disse
e fez na última Ceia" (Colóquio, 12).

C — RECTIFICAÇÕES E AJUSTAMENTOS DO AUTOR


O A. declarou que as rectificações seguintes se impuseram a si, em parte pelo aprofundamento da sua
investigação, em parte pela tomada de consciência de que alguns dos seus conceitos não eram "felizes" e
abriam a porta a mal-entendidos.

Estas rectificações e estes ajustamentos aplicam-se aos dados e às proposições seguintes:

1) "Os títulos de honra "Filho de Deus" e "o Filho" são identificações cristãs de Jesus de Nazaré (enunciadas) a
seguir à sua morte. Jesus nunca se designou como "o Filho" ou "o Filho de Deus"; nenhum texto sinóptico (sub-
entende-se: mantido pela crítica!) se orienta nesta direcção" (Jezus..., p. 211).

— Rectificação: "frase um pouco exageradamente apodíctica; mitigada em Gerechtigheid..." (Colóquio, 10).

2) Em Marcos 14, 25 (narrativa da instituição), "nota-se um cunho pós-pascal impresso pela Igreja, quer dizer,
na segunda metade do versículo: até ao dia em que eu a beberei nova no reino de Deus" (Jezus..., p. 253).

— Rectificação: "expressão infeliz; o que é secundário é a combinação das duas partes do "logion"; considero
estas duas partes como "ipsissima verba"; cf. Tussentijds... (Colóquio, 12-13).

3) "Em Jezus... (p. 284) "eu não ligava suficientemente o túmulo vazio e a ressurreição. Reparei depois que este
laço era para os autores do Novo Testamento mais íntimo do que eu pensara antes. Neste sentido, a descoberta
do túmulo vazio pode ser sinal medianeiro da fé. (Há neste ponto evolução no meu pensamento de "Jezus..."
para "Tussentijds"). (Colóquio, 15).

4) "A 'comunidade Q' não conhece aparições".

— Rectificação: "Esta parte é aliás a mais hipotética do meu livro. Se bem que a tenha como séria, não ignoro
as dúvidas que existem a propósito desta 'comunidade Q'. A minha intenção é somente dizer que a fé da
comunidade na ressurreição não se baseia unicamente no sinal do túmulo vazio e nas aparições" (Colóquio, 16).

5) Embora o que o Autor afirma no colóquio quanto às aparições não seja inteiramente satisfatório (cf. abaixo
II, 3), encontra-se por vezes na Carta (p. 17) uma clarificação e ao mesmo tempo uma rectificação de alguma
importância. Interpretando a origem das afirmações sobre as aparições, o Padre Schillebeeckx utiliza o conceito
de "metanoia" (conversão). Esta maneira de falar apresenta o perigo de não observar suficientemente a
diferença qualitativa entre as aparições com que Jesus beneficiou os seus discípulos, e uma "experiência de
conversão" como tal. Neste contexto a afirmação seguinte é importante: "Talvez empregar eu a palavra
'conversão' num sentido tanto moral como sobretudo cristológico se preste a equívoco. Em todo o caso, para
mim, nesta terminologia de 'conversão', a cristofania é essencial, como esta o é na terminologia de aparição:
oophtè. É o Cristo vivo, o Ressuscitado, que abre os olhos".

II. Limites dos resultados obtidos e ambiguidades que subsustem

1) A resposta dada à pergunta sobre a conceição virginal de Jesus Cristo é correcta do ponto de vista formal,
mas apresenta-se como limitadíssima no seu valor e no seu alcance, quando o Autor declara: "Creio em virtude
do Magistério" (Colóquio, 14).

2) Sobre certos pontos importantes (cf. acima, n. 1) o Autor concede que a fé da Igreja tem força de obrigação
para ele como teólogo dogmático, ou ainda para a teologia dogmática. Mas, bastantes vezes, as afirmações que
aparecem nas suas obras ressoam como se esta validez se limitasse ao teólogo dogmático no sentido estrito. Tal
fundamentação da fé vale, pelo contrário, para todas as disciplinas da teologia católica, mesmo que elas
trabalhem com métodos parcialmente diferentes.

3) As afirmações feitas no colóquio a propósito da relação existente entre ressurreição e aparições não são
inteiramente satisfatórias (Colóquio, 16-18). Isto vale não só para algumas hipóteses utilizadas na explicação da
origem histórica da fé pascal (Colóquio, 16), mas também — o que mais interessa ao julgamento da
Congregação para a Doutrina da Fé — para algumas afirmações centrais a este propósito, como por exemplo:
"mas as aparições, enquanto tais, não são o fundamento formal da nossa fé na ressurreição" (Colóquio, 16). Tal
afirmação não responde à dificuldade que foi levantada no Colóquio e cuja ambiguidade permanece (cf. todavia
a citação da Carta apresentada acima).

4) A rejeição sistemática e repetida da palavra anhypostasia (cf. Jezus 534, 1, 31 ss.; 538, 1, 5 perto do fim; 540
1, 3 perto do fim; 543, 1, 8; Colóquio 7, 1.11: "prefiro evitar a anhypostasia implicada no neocalcedonismo")
será fonte permanente de ambiguidades. É sabido que o autor quer "somente negar (com isso) que haja uma
lacuna humana na humanidade de Jesus (Carta, p. 13, última linha)", mas a palavra hypóstase não é a palavra
pessoa, não tem para os nossos contemporâneos o sentido de natureza espiritual, mas o de realidade distinta e
independente na existência. Portanto, rejeitar a anhypostasia não se limita a negar toda a lacuna na humanidade
de Jesus, mas tende a fazer ver nela uma realidade distinta e independente na existência e a fazer imaginar "o
impensável 'frente a frente' entre o homem Jesus e o Filho de Deus", que o próprio Schillebeeckx quer afastar
(Jezus p. 543, 1.13 perto do fim). O leitor oscilará nos dois sentidos: pessoa humana, não pessoa humana.

FRANJO CARD. SEPER Prefeito

"Jesus: a história de um vivente". Obra fundamental de Schillebeeckx trouxe um Jesus vivo

07 Janeiro 2017

"Não obstante, apesar de todas as críticas recebidas (juntamente com os elogios), o livro permaneceu sendo
simbólico para mim, juntamente – como diria Schillebeeckx – com a 'narrativa' de minha vida. Não posso
resumir aqui todos os finos detalhes desta tese densamente sustentada. Mas duas coisas permanecem, para mim,
importantes: o livro trouxe o Jesus vivo para mim, e me presenteou com uma hermenêutica viva",
escreve Ormond Rush, padre da diocese de Townsville, Austrália, e professor na Universidade Católica
Australiana, de Brisbane, ao comentar a importante obra Jesus: a história de um vivente, de Edward
Schillebeeckx, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 19-12-2016. A tradução é de Isaque
Gomes Correa.

Eis o artigo.

Jesus: An Experiment in Christology (“Jesus: a história de um vivente”, publicado no Brasil pela Paulus,
2008, 743p.)
De Edward Schillebeeckx
Seabury Press, 1979

As Escrituras eram a minha disciplina favorita no seminário. No final da década de 1960 e início da década
seguinte, as palestras que assistíamos eram todas sobre o método histórico. Eu tinha um interesse particular
naquilo que estava na moda, a chamada “busca pelo Jesus histórico”. Sem dúvida, fui hermeneuticamente
ingênuo quanto aos limites do método histórico-crítico e fiquei claramente otimista demais quanto a ser capaz
de voltar com sucesso para dentro daquele “mundo por detrás do texto”.

A perspectiva na época, porém, era animadora. Jesus me fascinava. Como ele era? Era uma busca espiritual
tanto quanto intelectual. Também durante aqueles anos no seminário, alguns de nós fazíamos estudos extras na
Universidade de Queensland, instituição local. Aí fiz um curso de estudos bíblicos em 1971. Lembro o quão
provocativo foi para mim a vez que puseram a seguinte questão como tema para um ensaio: “Qual a
significação para a teologia contemporânea da busca pelo Jesus histórico?”

Nos meus primeiros anos de ministério pastoral, após a ordenação em 1975, continuei a ler tudo o que se
relacionava às Escrituras, especialmente nos estudos sobre Jesus. Meus jovens amigos padres e eu estávamos
idealisticamente determinados a sempre “mantermos atualizadas as nossas leituras”.

Em pouco tempo, fui sedentamente absorvido pela obra de Hans Küng intitulada “Ser Cristão”. Logo em
seguida, uma tradução de “Jesus”, do padre dominicano Edward Schillebeeckx, publicada em 1979,
originariamente escrita no mesmo ano da obra de Küng, 1974. Na ocasião, eu atuava numa paróquia rural
chamada Charters Towers, no interior da região nordeste da Austrália.
À noite, punha-me a ler “Jesus”, de Schillebeeckx, que de forma alguma é uma leitura fácil. Foram noites
longas; levei dois meses para concluir o tomo de 750 páginas. Talvez de modo triunfante, no lado de dentro da
capa de meu exemplar escrevi a lápis: “Leitura terminada em 7 de julho de 1980”.

O livro me fascinou com o retrato que apresenta de Jesus e suas propostas de reconstruir como os seus
primeiros discípulos o vieram a interpretar, trajetória que se inicia antes de sua morte e que continua depois de
sua ressurreição.

Dirigindo-se a uma Europa em crise religiosa, Schillebeeckx quis apresentar um Jesus dando o devido respeito
à investigação histórica, todavia com uma visão para o contexto dos crentes e não crentes europeus
contemporâneos. Vendo hoje, 35 anos depois, esse é provavelmente o livro mais influente da minha vida, tanto
espiritualmente como intelectualmente.

Em pouco tempo tive conhecimento dos pontos fracos da obra. Nem todas as resenhas acadêmicas da época
eram positivas (embora muitas fossem brilhantes). Logo depois de terminar a leitura, o biblista Raymond
Brown veio à nossa diocese para uma série de palestras. Aconteceu que eu era o diretor diocesano de
comunicação. Pensei que seria bom entrevistá-lo para uma rádio local, onde eu mantinha um programa regular.

Quando chegou perto do final da entrevista, pensei fazer uma pergunta sobre o livro (de um modo um tanto
egoísta, mais para matar a minha própria curiosidade, não para o bem do público que, de fato, não precisava
ouvir sobre um holandês nascido na Bélgica chamado Schillebeeckx). Brown me surpreendeu com sua
criticidade. Havia pontos particulares da exegese com os quais ele discordava; partes do livro que eram
demasiado especulativas; e ele acreditava que a obra teria sido melhor se Schillebeeckx tivesse ampliado o
escopo dos autores que cita e daqueles a quem pediu para ler os originais antes da publicação.

Não obstante, apesar de todas as críticas recebidas (juntamente com os elogios), o livro permaneceu sendo
simbólico para mim, juntamente – como diria Schillebeeckx – com a “narrativa” de minha vida.

Não posso resumir aqui todos os finos detalhes desta tese densamente sustentada. Mas duas coisas
permanecem, para mim, importantes: o livro trouxe o Jesus vivo para mim, e me presenteou com uma
hermenêutica viva.

Em primeiro lugar, apesar de sua densidade acadêmica, o texto me tocou pela perspectiva renovada sobre Jesus.
Nesse tocante, dois capítulos em particular permanecem joias especiais. Na Parte 2 sobre o Evangelho de Jesus
Cristo, o primeiro capítulo trata “da mensagem salvadora de Jesus” e o segundo capítulo, “do modo de vida de
Jesus”. Elas examinam o objetivo fundamental de Jesus, o reino de Deus, as parábolas, a prática comunhão de
mesa, sua visão de Deus e a visão divina para a humanidade: “O riso, não o choro, é o propósito mais profundo
que Deus deseja” para a humanidade.

E o mais importante de tudo, a própria experiência íntima de Jesus do Deus que ele pregou como Abba: “A
fonte dessa mensagem e práxis, demolindo uma noção opressora de Deus, era a sua experiência de Abba, sem a
qual o retrato do Jesus histórico fica drasticamente manchado, sua mensagem emasculada e sua práxis concreta
(embora ainda significativa e inspiradora) é roubada do significado que ele próprio lhe deu”.

Jesus é a nossa janela para dentro de Deus, a nossa entrada para dentro d’Ele. Frases lapidares do livro ainda se
fazem presentes em minhas aulas: a história do Jesus humano é a “história de Deus”, “a parábola do próprio
Deus”, “‘Deus traduzido’ para nós”; ele é o “místico e o exegeta de Deus”.

Em segundo lugar, o livro trouxe uma hermenêutica viva para mim. A ousadia pura deste seu projeto me
animou. Em uma deliberada “cristologia a partir da base”, o autor estava tentando traçar a gênese da crença
cristã em Jesus Cristo reconstruindo o processo hermenêutico que deu origem aos Evangelhos.

A começar com os discípulos pré-Páscoa e como eles teriam interpretado Jesus, o autor passa a mostrar como
isso permaneceu sendo, após a Ressurreição, a base de uma interpretação contínua e mais completa dele.
Trabalhando sobre as formulações finais do Novo Testamento, ele propõe marcos interpretativos que bem
poderiam ter sido operantes aos que primeiro testemunharam Jesus, o seu modo de vida, suas ações e
ensinamentos. O fato de que ele era o último profeta, enviado por Deus, constituiu uma interpretação inicial
central.

Os princípios hermenêuticos que orientam a obra “Jesus” estariam todos resumidos na seção introdutória da
obra subsequente de Schillebeeckx: “Christ: The Experience of Jesus as Lord”. Este texto serve, como disse
certa vez Schillebeeckx, como uma conclusão para o primeiro volume. Aqui ele fala mais explicitamente e de
maneira mais abrangente sobre a hermenêutica.

Propõe duas importantes teses que capturam o que o volume “Jesus” tinha a intenção de demonstrar. Não existe
revelação divina sem experiência humana, e toda experiência humana já é interpretação. Embora a revelação
divina não se reduza à experiência humana, a revelação somente pode ser mediada através de uma tal
experiência interpretativa. O que temos nos quatro Evangelhos são os resultados de um longo processo,
fundamentado na realidade de Jesus de Nazaré. Representação alguma diz tudo, porque ele foi interpretado de
maneiras diferentes. Mas cada um captura fielmente o mesmo Jesus.

Acompanhei Schillebeeckx na medida em que seu pensamento se desenvolveu nos anos seguintes, com sua
hermenêutica, por exemplo, acolhendo a teoria crítica. Mas o livro “Jesus” permaneceu, para mim, simbólico.

Quando fui convidado, em 1987, pelos bispos de meu estado para cursar licenciatura em teologia fundamental
na Universidade Gregoriana em Roma, a minha virada hermenêutica continuou girando. Minha monografia foi
sobre a metodologia teológica de Schüssler Fiorenza. Aqui, um nome esteve o tempo todo presente: Hans
Robert Jauss, com a noção de hermenêutica da recepção.

Foi a hermenêutica de Jauss que mais tarde se tornou o foco de meus estudos doutorais, também na
Gregoriana. Para Jauss, há três elementos que contribuem para a comunicação efetiva do significado: aquele
que deseja se comunicar; a articulação real da comunicação em palavras e atos; e aqueles que estão recebendo
essa comunicação. Todos os três são importantes. Mas este terceiro elemento da tríade era particularmente
significativo para Jauss: o receptor.

Grande parte disso eu vim saber por meio de Schillebeeckx, todavia a necessidade de ajustar a sua
hermenêutica já se encontrava um pouco mais clara para mim. No entanto, continuei a aprender com ele através
de seu pensamento permanentemente em desenvolvimento, que sempre iria desafiar os meus próprios
horizontes.

Relendo recentemente “Jesus” de Schillebeeckx, percebi que, naquela primeira leitura em 1980, estavam sendo
lançadas as sementes de um livro que eu escreveria três décadas depois: “The Eyes of Faith: The Sense of the
Faithful and the Church’s Reception of Revelation”. Na seção central deste livro, tento mostrar como o
processo de interpretação da fé no Novo Testamento na Igreja primitiva explorado por Schillebeeckx é, para
nós, “o” exemplo paradigmático daquilo que veio a se chamar “sensus fidei” (o sentido da fé) dos cristãos
individuais (como Lucas) e o “sensus fidelium” de uma comunidade inteira (como a comunidade de Lucas, e o
círculo mais amplo das comunidades cristãs) em questão nos primórdios da Igreja.

Como capa do livro, deliberadamente escolhi um afresco de Giotto, da Capela Scrovegni, em Pádua, Itália,
com Jesus no meio lavando os pés de Pedro, cercado pelos discípulos com aqueles olhos de amêndoas
penetrantes giottoesco olhando com superioridade inquirindo: Quem é este Jesus que torna a salvação divina
tão tangível? A imagem captura bem a própria investigação penetrante de Schillebeeckx presente em seu livro.

A obra “Jesus”, porém, não fala somente sobre Jesus. Fala também sobre aqueles que primeiramente o
interpretaram. E a autoridade divina que a Igreja reconhece ao testemunho destes homens nos autoriza a imitá-
los em uma investigação contínua da fé, com o nosso próprio “sensus fidei”. Mas este é um outro assunto, para
uma Igreja sinodal emergente.

Estive pensado enquanto olhava para meu exemplar de “Jesus” cheio de anotações e partes sublinhadas:
quando pegamos um livro e o lemos, nunca sabemos aonde ele poderá nos levar, tanto tempo depois de termos
terminado de lê-lo na primeira vez.