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18/04/2019 10 sugestões para descolonizar o inconsciente - por Suely Rolnik

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10 sugestões para descolonizar o Categorias

inconsciente – por Suely Rolnik CURSOS (1)


ENTREVISTAS-
Setembro 2, 2018 por Anderson dos Santos
TRANSCRITAS (11)
FILMES/VÍDEOS/
ÁUDIOS (17)
POEMAS (18)
TEXTOS E OUTROS
ESCRITOS (62)

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18/04/2019 10 sugestões para descolonizar o inconsciente - por Suely Rolnik

1. Desanestesiar a vulnerabilidade às forças em seus diagramas variáveis, potência da


subjetividade em sua experiência fora-do-sujeito;

2. Ativar o saber-do-corpo: a experiência do mundo em sua condição de vivo, cujas forças


produzem efeitos em nossa condição de vivente;

3. Desobstruir o acesso à tensa experiência do estranho-familiar;

4. Não denegar a fragilidade resultante da desterritorialização desestabilizadora que o


estado estranho-familiar promove inevitavelmente;
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5. Não interpretar a fragilidade e seu desconforto como ‘coisa ruim’, nem projetar sobre
eles leituras fantasmáticas (ejaculações precoces do ego, provocadas por seu medo de
desamparo e falência e suas consequências imaginárias: o repúdio, a rejeição, a exclusão
social e a humilhação);

6. Não ceder à vontade de conservação das formas e à pressão que esta exerce contra a
vontade de potência da vida em seu impulso de produção de diferença. Sustentar-se no fio
tênue deste estado instável até que a imaginação criadora construa um lugar de corpo-e-
fala que, por ser portador da pulsação do estranho-familiar, seja capaz de atualizar o
mundo virtual que esta experiência anuncia, permitindo assim que as formas agonizantes
acabem de morrer;

7. Não atropelar o tempo próprio da imaginação criadora, para evitar o risco de


interromper a germinação de um mundo e, com isso, tornar a imaginação vulnerável a
deixar-se desviar pelo regime colonial-cafetinístico. Tal desvio transforma a imaginação
criadora em mera ‘criatividade’ a serviço da reprodução do status quo que, mascarado de
‘novidade’, torna-se sedutor e mobiliza o desejo de consumo;

8. Não abrir mão do desejo em sua ética de afirmação da vida, o que implica em mantê-la
fecunda, fluindo em seu processo ilimitado de diferenciação;

9. Não negociar o inegociável: tudo aquilo que impediria a afirmação da vida, em sua
essência de potência de criação. Aprender a distinguí-lo do negociável: tudo aquilo que se
poderia reajustar porque não obstaculiza a manifestação da força vital instituinte mas, ao
contrário, gera as condições objetivas para que ela se realize em seu destino de produção
de acontecimento;

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10. Praticar o pensamento em sua plena função: indissociavelmente ética, estética, política,
crítica e clínica. Isto é, reimaginar o mundo em cada gesto, palavra, relação, modo de existir
– toda vez que a vida assim o exigir;

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Vale lembrar que este trabalho de artesania de si, do qual depende a descolonização na
esfera micropolítica, implica um esforço constante que jamais atinge sua plena e
definitiva realização. Ao longo de nossa existência, oscilamos entre políticas do desejo
que variam entre seus dois extremos.

De um lado, a submissão ao poder dos fantasmas que nos trazem de volta para nosso
personagem habitual na cena colonial-capitalística, com o qual participamos das
relações de abuso (o que inclui o personagem da vítima).

De outro, um trabalho sem fim para desmanchar este personagem, nos


reapropriarmos da pulsão e, por ela guiados, criarmos um outro personagem, que esteja
à altura da vida, encarnando sua potência de transfiguração. 

É neste horizonte que situam-se as pistas e sugestões aqui indicadas; elas trazem as
marcas dos limites atuais de meu trabalho nesta direção.

Sendo este um trabalho infinito de cada um e de muitos, tais pistas e sugestões estão aqui
para serem revistas, reajustadas, ampliadas, transformadas, multiplicadas ou até mesmo
abandonadas em favor de outras, mais precisas e fecundas.

É isto o que espero com a apresentação destas ideias. 

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