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As Teorias Contemporâneas da Justiça

Vinicius Azevedo Coelho[1]

[1] Graduado em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e poó s-


graduando em Filosofia e Teoria do Direito pela PUC Minas

Sumaó rio:Introduçaã o; 1. Utilitarismo; 2. A igualdade liberal; 3. Libertarismo;


4. Marxismo; 5. Comunitarismo; Conclusaã o; Refereê ncias Bibliograó ficas.

Resumo: Este artigo tem a intençaã o de fornecer uma introduçaã o e uma


avaliaçaã o das principais escolas de pensamento que dominam os debates
contemporaê neos na teoria da justiça. O material abrangido eó composto das
principais obras juríódicas e políóticas no que diz respeito ao aê mago do que eó
constituir uma sociedade justa, livre e boa.

Palavras-chave: Utilitarismo; Igualitarismo; Libertarismo; Marxismo;


Comunitarismo.

Introdução

O presente estudo se pauta sobre as teorias contemporaê neas da justiça


dentro de cada uma das grandes escolas do pensamento políótico atual: o
utilitarismo, o igualitarismo liberal, o libertarismo, o marxismo e o
comunitarismo. Saã o postas em discussaã o as obras dos mais influentes
pensadores da teoria da justiça, como Bentham, Mill, Rawls, Nozick, Marx, Sandel
e outros. A escolha desses autores se justifica, tendo em vista que, aleó m de
grandes filoó sofos, dedicaram-se com profundidade tanto aà cieê ncia juríódica quanto
aà justiça, deixando notaó veis contribuiçoã es ao desenvolvimento recente desses
temas.

Assim, examina-se, inicialmente, a concepçaã o utilitarista de justiça, que tem


por objetivo produzir o maior grau de felicidade possíóvel para o maior nuó mero de
pessoas alcançaó vel. Bentham e Mill saã o os principais nomes do utilitarismo.

Em seguida, analisa-se a concepçaã o de justiça do igualitarismo liberal, com


foco na obra de John Rawls. Para os igualitaó rios, eó de suma importaê ncia que a
igualdade econoê mica e social seja um princíópio fundamental na sociedade.

Adiante, aborda-se a teoria do libertarismo, que defende a liberdade


individual e de mercado sob todos os seus aspectos. O pensamento de Nozick eó
seu expoente.

Segue-se, logo apoó s, a anaó lise da concepçaã o de justiça no marxismo, base de


praticamente todo o pensamento críótico do direito.

Por fim, este estudo se debruça na teoria do comunitarismo, que


transcende a justiça individual para o conceito de justiça da comunidade. Sandel
eó um dos mais importantes comunitaristas.
Conveó m salientar, ainda, que naã o constitui propoó sito do presente artigo
submeter a um aprofundado exame críótico das complexas teorias desses
renomados pensadores. O que se objetiva aqui eó uma exposiçaã o das linhas
fundamentais dessas concepçoã es sobre a justiça que contribuíóram sobremodo
para a doutrina jusfilosoó fica contemporaê nea.

1. Utilitarismo

A teoria do utilitarismo ganhou corpo no pensamento políótico do britaê nico


Jeremy Bentham (1748-1832) e de John Stuart Mill (1806-1873). O utilitarismo
se contrapoã e, em um primeiro momento, aos naturalistas - aqueles que
acreditam que as leis existem de acordo com um direito natural e contratualista.

Partindo das ideias aristoteó licas a respeito da justiça e do “bem comum”,


Bentham pressupoã e que um ato ou procedimento moralmente correto eó aquele
que produz a maior felicidade para os membros da sociedade. Esta eó a esseê ncia
do chamado “caó lculo felitíócio”: quanto maior o nuó mero dos beneficiados por uma
decisaã o políótica ou por uma legislaçaã o, maior seraó a felicidade da comunidade.
Filosoficamente, pode-se resumir a doutrina utilitarista pela frase: “agir sempre
de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar” (Princíópio do bem-estar
maó ximo).

O utilitarismo eó um tipo de eó tica normativa segundo a qual uma açaã o eó


moralmente correta se tende a promover a felicidade e condenaó vel se tende a
produzir a infelicidade, considerada naã o apenas a felicidade do agente da açaã o
mas tambeó m a de todos afetados por ela. A teoria utilitarista rejeita o egoíósmo,
opondo-se a que o indivíóduo deva perseguir os seus proó prios interesses, mesmo
aà s custas dos outros, e se opoã e tambeó m a qualquer teoria eó tica que considere
açoã es ou tipos de atos como certos ou errados independentemente das
consequeê ncias que eles possam ter.

O utilitarismo, assim, difere radicalmente das teorias eó ticas que fazem o


caraó ter de bom ou mal de uma açaã o depender do motivo do agente porque, de
acordo com a teoria utilitarista, eó possíóvel que um resultado positivo seja
produzido a partir de uma motivaçaã o negativa do indivíóduo.

Bentham expoã e o conceito central da utilidade no primeiro capíótulo do livro


Introduçaã o aos Princíópios da Moral e Legislaçaã o, da seguinte forma:

Por princíópio da utilidade, entendemos o princíópio segundo o qual toda a


açaã o, qualquer que seja, deve ser aprovada ou rejeitada em funçaã o da sua
tendeê ncia de aumentar ou reduzir o bem-estar das partes afetadas pela açaã o. (...)
Designamos por utilidade a tendeê ncia de alguma coisa em alcançar o bem-estar, o
bem, o belo, a felicidade, as vantagens, etc. O conceito de utilidade naã o deve ser
reduzido ao sentido corrente de modo de vida com um fim imediato.[2]

Will Kymlicka aponta dois pontos atrativos da teoria utilitarista: o bem-


estar que ele busca promover e o seu consequencialismo. Nesse sentido:
O bem que o utilitarismo busca promover – a felicidade, a prosperidade ou
o bem-estar – eó algo que todos buscamos na nossa vida e na vida dos que
amamos. Os utilitaristas simplesmente exigem que essa busca do bem-estar
humano ou utilidade seja feita imparcialmente, para todos na sociedade. Sejamos
ou naã o filhos de Deus, tenhamos ou naã o uma alma ou um livre-arbíótrio, podemos
sofrer ou ser felizes, podemos estar em melhor ou pior situaçaã o. Naã o importa
quaã o seculares sejamos, naã o podemos negar que a felicidade eó valiosa, jaó que eó
algo que valorizamos na nossa vida.

[...]

O consequencialismo impede proibiçoã es morais evidentemente arbitraó rias


(a homossexualidade, o jogo, a dança, a bebida, os palavroã es etc.). Ele exige que
qualquer um que condene algo como moralmente errado mostre quem eó
prejudicado com isso, ou seja, que demonstro como a vida de algueó m torna-se
pior. [...] O utilitarismo fornece um teste para assegurar que as regras servem
para uma funçaã o uó til, diferente de outras teorias morais, mesmo as motivadas
por uma preocupaçaã o com o bem-estar humano, que parecem consistir em um
conjunto de regras a serem seguidas, sejam quais forem as consequeê ncias.[3]

O utilitarismo se tornou a teoria da justiça mais influente do seó culo XX.


Nesse períóodo, a tradicional economia do bem-estar e das políóticas puó blicas foi
dominada por essa abordagem. Historicamente, o utilitarismo foi bastante
progressista. Exigiu que costumes e autoridades que haviam oprimido as pessoas
durante seó culos fossem testados em confronto com o padraã o do desenvolvimento
humano. Em sua melhor forma, o utilitarismo eó uma poderosa arma contra o
preconceito e a superstiçaã o, oferecendo um padraã o e um processo que desafiam
os que reivindicam autoridade em nome da moralidade (KYMLICKA, 2006, p. 14).

Dentro desse contexto utilitarista, o pensamento de Bentham era


identificado com reformas – a reforma penal, as provisoã es para o bem estar-
social, a ampliaçaã o da democracia - visando garantir a soberania popular ao
estender o sufraó gio para todas as classes sociais e a igualdade do volto secreto,
bem como submeter o governo a eleiçoã es perioó dicas.

Os utilitaristas contemporaê neos, ao contraó rio dos tradicionais, saã o


surpreendentemente conservadores. Enquanto os utilitaó rios originais estavam
dispostos a julgar os coó digos sociais existentes no altar do bem-estar humano, os
utilitaó rios contemporaê neos argumentam que haó razoã es para seguir a moralidade
cotidiana acriticamente (KYMLICKA, 2006, p. 60).

A fundamentaçaã o conformista destes pensadores utilitaristas


contemporaê neos reside na dificuldade de previsaã o das consequeê ncias humanas,
pois os julgamentos do homem sobre o que maximiza a utilidade saã o imperfeitos.
Os ganhos de novas regras saã o incertos, ao passo que as convençoã es existentes jaó
provaram seu valor (pelo fato de terem sobrevivido ao teste da evoluçaã o cultural)
e as pessoas formaram expectativas em torno delas (KYMLICKA, 2006, p. 61).
Dessa forma, os utilitaó rios modernos restringem o grau em que o utilitarismo
deve ser usado como princíópio críótico ou mesmo como princíópio de avaliaçaã o
políótica.

Amartya Sem elenca as desvantagens enfocadas na teoria utilitarista de


justiça:

1) A indiferença distributiva: o caó lculo utilitarista tende a naã o levar em


consideraçaã o as desigualdades na distribuiçaã o da felicidade (importa apenas a
soma total, independentemente do quanto sua distribuiçaã o seja desigual).
Podemos estar interessados na felicidade geral e contudo desejar prestar atençaã o
naã o apenas nas magnitudes agregadas, mas tambeó m nos graus de desigualdade
na felicidade.

2) Descaso com os direitos, liberdades e outras consideraçoã es


desvinculadas da utilidade: a abordagem utilitarista naã o atribui importaê ncia
intríónseca a reivindicaçoã es de direitos e liberdades (eles saã o valorizados somente
indiretamente e apenas no grau em que influenciam as utilidades.

3) Adaptaçaã o e condicionamento mental: nem mesmo a visaã o que a


abordagem utilitarista tem do bem-estar individual eó muito soó lida, pois ele pode
ser facilmente influenciado por condicionamento mental e atitudes adaptativas.
[4]

Aleó m disso, Robert Nozick desenvolveu um forte argumento contra o


hedonismo do bem-estar utilitarista: A concepçaã o hedonista de utilidade estaó
errada, pois as coisas que valem a pena fazer e ter na vida naã o podem ser
reduzidas a um estado mental como a felicidade (NOZICK, 1974, p. 42).

2. A igualdade liberal

Os liberais igualitaó rios, representados principalmente por John Rawls,


enxergam a sociedade como uma combinaçaã o de identidades e da eclosaã o de
conflitos entre diferentes concepçoã es individuais acerca do bem e da vida com
dignidade. De origem anglo-americana, a teoria da igualdade liberal trata de
questoã es a respeito da justiça, nas quais a igualdade econoê mica e social eó
concebida como um dos valores fundamentais das sociedades capitalistas
liberais.

John Rawls, em Uma Teoria da Justiça (publicado em 1971), foi um dos


primeiros pensadores a fornecer uma alternativa sistemaó tica ao utilitarismo.
Rawls relaciona o conceito de justiça com o conceito de equidade, remetendo a
posiçaã o inicial de igualdade humana ao estado de natureza da teoria tradicional
do contrato social. Como diz ele, “meu objetivo eó apresentar uma concepçaã o de
justiça que generalize e eleve a um grau superior de abstraçaã o a conhecida teoria
do contrato social, como encontrado, digamos, em Locke, Rousseau e Kant”
(RAWLS, 2002, p.11). Para Rawls, o objetivo do contrato eó determinar princíópios
de justiça a partir de uma posiçaã o de igualdade. Na teoria de Rawls,
A posiçaã o original de igualdade corresponde ao estado de natureza na
teoria tradicional do contrato social. A posiçaã o original naã o eó , naturalmente,
considerada como um estado de coisas histoó rico e real, muito menos uma
condiçaã o primitiva da cultura. EÉ compreendida como uma situaçaã o puramente
hipoteó tica, descrita de modo que conduza certa concepçaã o de justiça. [5]

Rawls determina os princíópios da justiça a partir dessa situaçaã o hipoteó tica


de liberdade equitativa. Saã o eles: Princíópio da Igualdade e Princíópio da Diferença.

Primeiro princíópio – Cada pessoa deve ter um direito igual ao sistema total
mais extenso de liberdades baó sicas compatíóveis com um sistema de liberdade
similar para todos.

Segundo princíópio – As desigualdades sociais e econoê micas devem ser


ordenadas de modo que sejam:

(a) para o maior benefíócio dos que teê m menos vantagens, e

(b) vinculadas a cargos e posiçoã es abertos a todos sob condiçoã es de


igualdade de oportunidade equitativas.[6]

Segundo esses princíópios, alguns bens sociais saã o mais importantes do que
outros e, portanto, naã o podem ser sacrificados para melhorar outros bens
(KYMLICKA, 2006, p. 68). As liberdades iguais teê m precedeê ncia sobre a igual
oportunidade, que tem precedeê ncia sobre os recursos iguais. Entretanto, dentro
de cada categoria, permanece a ideia de que uma desigualdade soó eó permitida se
beneficia os que se encontram em pior situaçaã o.

Rawls afirma que esses princíópios se aplicam inicialmente aà estrutura


baó sica da sociedade, orientam a atribuiçaã o de direitos e deveres e regulam as
vantagens econoê micas e sociais. O primeiro princíópio se aplica aà liberdade
políótica; liberdade de expressaã o e reuniaã o; liberdade de conscieê ncia e
pensamento; liberdades da pessoa (proteçaã o contra a opressaã o e agressaã o fíósica e
psicoloó gica) e o direito aà propriedade privada. O segundo princíópio se aplica aà
distribuiçaã o de renda e riqueza e ao escopo das organizaçoã es que fazem uso de
diferenças de autoridade e de responsabilidade (RAWLS, 2002, p. 64-65).

Rawls apresenta dois argumentos em defesa dos seus princíópios da justiça.


O primeiro eó uma comparaçaã o de sua teoria com o que ele considera ser a
ideologia prevalecente no que tange aà justiça distributiva – o ideal da igualdade
de oportunidade. Rawls argumenta que sua teoria se ajusta melhor aà s
instituiçoã es atuais de justiça, e que isso oferece uma especificaçaã o melhor dos
princíópios ideais de equidade a que a ideologia prevalecente recorre. O segundo
argumento relaciona-se ao que Rawls chama de contrato social hipoteó tico. Para
ele, se as pessoas, em um tipo de estado preó -social, tivessem de escolher quais
princíópios deveriam governar sua sociedade, escolheriam seus dois princíópios.

Para que as partes, na posiçaã o original, possam escolher os dois princíópios


da justiça, Rawls descreve o seguinte raciocíónio: naã o eó razoaó vel que uma pessoa
espere mais do que uma parte igual na divisaã o dos bens sociais primaó rios, aleó m
de naã o ser racional que concorde em obter menos. Logo, essa pessoa deveria
escolher de antemaã o um princíópio que preveja uma distribuiçaã o igual para todos,
bem como outro que assegure uma igualdade equitativa de oportunidades.
Poreó m, eó preciso lidar ainda com a suposta exigeê ncia de desigualdades
econoê micas e institucionais. As partes na posiçaã o original saã o mutuamente
desinteressadas e cobertas pelo veó u da ignoraê ncia. Devem, assim, lidar com o fato
da desigualdade, prevendo um princíópio que a permita contanto que ela venha a
melhorar a situaçaã o de todos, inclusive daqueles que podem vir a ser, uma vez
levantando o veó u da ignoraê ncia, os menos favorecidos. As partes chegam, assim,
ao princíópio da diferença.

Para Alex Callinicos, os argumentos de Rawls representam, em comparaçaã o


aà s realidades das democracias liberais contemporaê neas, uma completa utopia.
Sob a eó gide neoliberal, o processo eleitoral eó cada vez mais dominado por
corporaçoã es midiaó ticas e por partidos políóticos financiados por grandes
empresas; p acesso aà riqueza e aà educaçaã o estaó distribuíódo de forma desigual. A
instabilidade econoê mica e a contíónua restruturaçaã o das corporaçoã es imprimem
insegurança permanente ao funcionamento do mercado. As condiçoã es míónimas
de Rawls para uma políótica liberal constituem uma flagrante recriminaçaã o ao
liberalismo que existe na praó tica, e, implicitamente, uma demanda que clama por
uma transformaçaã o social radical (CALLINICOS, 2007, p. 257).

3. Libertarismo

O libertarismo eó uma teoria que tem como fundamento a defesa da


liberdade em todos os seus aspectos, da naã o-agressaã o, da propriedade privada e
da supremacia do indivíóduo. Os libertaó rios, aleó m de defenderem a liberdade de
mercado, exigem limitaçoã es ao uso do Estado para a políótica social (KYMLICKA,
2006, p. 119). Suas raíózes remontam aà escolaó stica espanhola e ao renascimento e
iluminismo escoceê s, que foram responsaó veis por moldar o liberalismo claó ssico.

A teoria libertarista defende seu compromisso com o mercado recorrendo a


uma noçaã o mais ampla de liberdade pessoal – o direito de cada indivíóduo decidir
livremente como empregar seus poderes e posses da maneira que achar melhor.
Expoã e Kymlicka a respeito do libertarismo:

As pessoas teê m direito de dispor dos seus bens e serviços livremente e teê m
este direito, seja ele ou naã o a melhor maneira de assegurar a produtividade. Em
outras palavras, o governo naã o tem nenhum direito de interferir no mercado,
mesmo para aumentar a eficieê ncia.[7]

Kymlicka explica a relaçaã o do mercado com a justiça na teoria libertarista:

Se supusermos que todos saã o titulares dos bens que possuem atualmente
(suas “posses”), entaã o, uma distribuiçaã o justa eó simplesmente qualquer
distribuiçaã o que resulte das trocas livres das pessoas. Qualquer distribuiçaã o que
resulte de uma situaçaã o justa por meio de transfereê ncias livres eó , por sua vez,
justa. O governo tributar estas trocas contra a vontade de qualquer um eó injusto,
mesmo que os tributos sejam usados para compensar os custos extraordinaó rios
das deficieê ncias naturais imerecidas de algueó m. A uó nica tributaçaã o legíótima eó a
que se destina a levantar receitas para manter as instituiçoã es de fundo
necessaó rias para proteger o sistema de livre troca – por exemplo, o sistema de
políótica e o de justiça necessaó rios para fazer cumprir as trocas livres das pessoas.
[8]

Robert Nozick (1938-2002), um dos principais teoó ricos do libertarismo,


afirma que

Os indivíóduos teê m direitos e haó coisas que nenhuma pessoa ou grupo pode
fazer a eles (sem violar seus direitos). Taã o fortes e abrangentes saã o esses direitos
que suscitam a questaã o do que, se eó que alguma coisa, o Estado e seus
funcionaó rios podem fazer.[9]

Assim, para Nozick, o Estado deve ser míónimo, limitado aà s funçoã es estritas
de proteçaã o contra força, roubo, fraude, imposiçaã o de contratos, etc. Qualquer
estado mais amplo violaria os direitos das pessoas de naã o serem forçadas a fazer
certas coisas e seria, portanto, injustificado (NOZICK, 1974, p. Ix). Portanto, naã o
existiria educaçaã o puó blica, assisteê ncia meó dica puó blica, transporte, estradas, entre
outros. Tudo isso envolve tributaçoã es coercivas de algumas pessoas contra a sua
vontade, violando a maó xima libertarista “de cada um, como escolher, para cada
um, como escolhido”.

Para Nozick, eó injusto compensar os desfavorecidos natural ou socialmente


em prejuíózo das trocas livres. EÉ injusto porque as pessoas saã o titulares de suas
posses (desde que adquiridas justamente), e, nesse sentido, “ser titular” significa
“ter um direito absoluto de dispor livremente delas como quiser, contanto que
isso naã o envolva força nem fraude”. O indivíóduo eó livre para fazer o que quiser
com seus recursos, pode gastaó -los adquirindo bens ou serviços de outros ou pode
simplesmente daó -los a outros ou decidir recusaó -los a outros (ateó mesmo ao
governo). Ningueó m teraó direito de tiraó -los do indivíóduo, mesmo que seja para
impedir que os desfavorecidos morram de fome (KYMLICKA, 2006, p. 119).

Sendo assim, o libertarismo naã o eó uma teoria da igualdade ou da vantagem


muó tua. Antes, como o proó prio nome sugere, eó uma teoria da liberdade. Nesta
visaã o, a igualdade e a liberdade saã o rivais na disputa da fidelidade moral e o que
define o libertarismo eó justamente o seu reconhecimento da liberdade como
premissa moral fundamental e sua recusa de comprometer a liberdade pela
igualdade.

4. Marxismo

O marxismo, enquanto filosofia políótica, procurou se afastar do idealismo


presente na filosofia alemaã aà sua eó poca, preocupando-se em trilhar os caminhos
de uma filosofia concreta, da praó xis, orientada para a transformaçaã o do velho
ponto de vista da sociedade burguesa para o novo modelo da humanidade
socializada, atraveó s da praó xis revolucionaó ria. EÉ atraveó s da praó tica humana, da
produçaã o, das relaçoã es de trabalho, que Marx acredita ser possíóvel alcançar a
compreensaã o do homem enquanto ser social e políótico.

Na filosofia marxista, saã o as relaçoã es de produçaã o que condicionam todas


as demais relaçoã es sociais humanas. O conjunto das relaçoã es de produçaã o forma
a estrutura econoê mica da sociedade, a base sobre a qual se levanta a
superestrutura juríódica e políótica. EÉ o modo de produçaã o que condiciona o
processo social e políótico em geral. Tais relaçoã es, no capitalismo, saã o sempre
desiguais: saã o orientadas por capitalistas, que, por possuíórem os meios de
produçaã o, numa estrutura social na qual a maioria naã o possui, podem comprar o
trabalho livre das multidoã es. Essa relaçaã o entre os exploradores burgueses e os
trabalhadores explorados (proletariado) eó o nuó cleo do modo de produçaã o do
Estado capitalista (MASCARO, 2013, p. 285).

O marxismo define o Estado capitalista como forma de organizaçaã o que os


burgueses se daã o necessariamente, para a garantia recíóproca de sua propriedade
e de seus interesses. O Estado constitui o trabalhador como sujeito de direito,
livre, e por meio dessa condiçaã o políótica, o trabalhador pode “livremente” vender
seu trabalho aos capitalistas, tendo por fundamento uma relaçaã o juríódica, e naã o a
mera força (como no escravagismo) ou servidaã o (no caso do feudalismo). Assim,
o direito serve para atender aà s necessidades da circulaçaã o mercantil capitalista,
garantindo a liberdade negocial e a igualdade formal, constituindo a todos como
sujeitos de direito. Poreó m, esta forma políótica, sendo correspondente das
necessidades da exploraçaã o capitalista, naã o eó o horizonte final da açaã o políótica
humana de todos os tempos: eó somente a plena forma políótica do capitalismo
(MASCARO, 2013, p. 292).

A loó gica que preside o direito eó intimamente ligada aà loó gica da reproduçaã o
do capital. O marxismo altera a compreensaã o do direito, que passa a ser
entendido como produto da necessidade histoó rica das relaçoã es produtivas
capitalistas. Da mesma forma que o Estado, o direito naã o nasce da vontade geral
– portanto naã o eó fundado no contrato social – nem de um direito natural. O
direito naã o estaó ligado aà s necessidades do bem comum, nem a verdades juríódicas
transcendentes. Estaó relacionado aà proó pria praó xis, aà histoó ria social e produtiva do
homem. Somente as relaçoã es de produçaã o capitalistas necessitam de um aparato
juríódico que lhe sirva de suporte. EÉ a partir da esfera da circulaçaã o – na
exploraçaã o da mais valia, no lucro, no contrato – que o direito desempenha papel
fundamental ao capitalismo.

Na teoria marxista, naã o haó de se falar em reforma da sociedade por meio do


direito, pois o direito eó a proó pria manutençaã o do capitalismo, ainda que este seja
situado em distintos patamares. Ateó mesmo os valores tradicionalmente
vendidos por universais, como os direitos humanos, remanescem sob forma
juríódica e, portanto, capitalista. Para Marx, sua superaçaã o eó necessaó ria. A
superaçaã o da justiça burguesa ocorreria com o advento do socialismo. Nos
dizeres de Marx e Engels:

Em uma fase superior da sociedade comunista, apoó s a subordinaçaã o


escravizadora do indivíóduo aà divisaã o do trabalho ter desaparecido, apoó s o
trabalho ter se tornado naã o apenas um meio de vida, mas uma necessidade
primordial da vida, apoó s as forças produtivas tambeó m terem aumentado com o
desenvolvimento geral do indivíóduo e todas as fontes da riqueza cooperativa
fluíórem com mais abundaê ncia – soó entaã o poderaó ser cruzado inteiramente o
horizonte estreito do direito burgueê s e poderaó a sociedade inscrever em seus
estandartes: de cada um conforme sua capacidade, a cada um conforme suas
necessidades![10]

Sendo assim, para o marxismo, a justiça eó uma necessidade lamentaó vel no


presente, mas uma bandeira para uma forma superior de comunidade sob
condiçoã es de abundaê ncia. Nesse sentido expoã e Kymlicka a respeito da justiça
marxista:

Os marxistas acreditam que a justiça, longe de ser a primeira virtude das


instituiçoã es sociais, eó algo de que a comunidade verdadeiramente boa naã o tem
necessidade. A justiça eó adequada apenas se estamos nas “circunstaê ncias da
justiça”, circunstaê ncias que criam os tipos de conflitos que soó podem ser
resolvidos pelos princíópios de justiça. [...] Se pudeó ssemos eliminar os conflitos
entre os objetivos das pessoas ou a escassez de recursos, nesse caso naã o teríóamos
nenhuma necessidade de uma teoria de igualdade juríódica e estaríóamos em
melhor situaçaã o sem ela.[11]

5. Comunitarismo

A teoria comunitarista da justiça surgiu em meados da deó cada de 1980, a


partir do cenaó rio poó s Guerra Fria. Em oposiçaã o ao individualismo liberal, o
comunitarismo tem como principal vertente a crença nas comunidades como
base de sustentaçaã o para um mundo melhor, em detrimento do pensamento
individualista proposto pela filosofia liberal. Sandel e Taylor saã o dois dos
principais teoó ricos do comunitarismo.

Segundo Sobottka (2003, p.582), uma das principais causas de provocaçaã o


dos comunitaristas para com os liberalistas seria a tese de que os seres humanos
naã o saã o indivíóduos isolados, sem atributos proó prios, independentes de relaçoã es e
influencias sociais. Pelo contraó rio, saã o membros de comunidades nas quais
aprendem e com as quais compartilham valores eó ticos e identidade.

Ademais, o exercíócio dos direitos individuais, sob a oó ptica liberalista faria


com que o ser humano perdesse o instinto de coesaã o solidaó ria e, por conseguinte,
ameaçasse aquilo que se entende por cidadania e democracia. O liberalismo
propoã e que o conceito de cidadania seja entendido “como sendo primeiramente
um status juríódico de liberdades subjetivas iguais” (FORST, 2010, p.116). No
entanto, a críótica comunitarista recai justamente sobre isso, pois para o modelo
comunitarista a teoria políótica do liberalismo criaria um indivíóduo egoíósta e
alheio aà s preocupaçoã es sociais, um cidadaã o privatista que deixaria a questaã o do
bem comum a encargo somente do Estado. Assim, o comunitarismo propoã e uma
cidadania que deve ser entendida como aquela constituíóda pela eó tica das
virtudes, voltada para a construçaã o de uma comunidade políótica determinada
pelos mesmos valores eó tico-culturais, onde todos teraã o suas identidades
vinculadas.

Segundo Kymlicka,

Em uma sociedade comunitaó ria, o bem comum eó concebido como uma


concepçaã o substantiva da boa vida que define o “modo de vida” da comunidade.
Este bem comum, em vez de ajustar-se ao padraã o das prefereê ncias das pessoas,
proveê um padraã o pelo qual estas prefereê ncias saã o avaliadas. O modo de vida da
comunidade forma a base para uma hierarquizaçaã o puó blica de concepçoã es do
bem e o peso dado aà s prefereê ncias de um indivíóduo depende do quanto ele se
conforma com o bem comum ou em que medida contribuiu para este. A busca
puó blica dos objetivos compartilhados que definem o modo de vida da
comunidade naã o eó , portanto, limitada pela exigeê ncia de neutralidade. Ela tem
precedeê ncia sobre o direito dos indivíóduos aos recursos e liberdades necessaó rios
para que busquem suas proó prias concepçoã es de bem. Um Estado comunitaó rio
pode e deve encorajar as pessoas a adotar concepçoã es de bem que se ajustem ao
modo de vida da comunidade, ao mesmo tempo em que desencoraja concepçoã es
do bem que entrem em conflito com aquelas. Um Estado comunitaó rio envolve
uma hierarquizaçaã o puó blica do valor de diferentes modos de vida.[12]

A teoria comunitarista preveê , entaã o, que a comunidade políótica deve ser


aquela em que os cidadaã os devem estar integrados eticamente e culturalmente e,
por possuíórem os mesmos valores e as mesmas virtudes, agiraã o orientados para
o bem comum, constituindo verdadeiramente a devida democracia.

Uma vez construíóda a democracia efetiva, constroó i-se, por conseguinte, a


efetiva justiça. Na concepçaã o de justiça comunitarista, o que importa eó o fim (o
bem), e naã o os meios para atingir esse fim. Em outras palavras, se existe
determinada lei em uma comunidade essa lei eó tida como meio para atingir um
fim, mas essa lei soó seraó realmente justa se a finalidade que ela protege for justa,
ou seja, a justiça eó o fim, pois ela eó o proó prio bem, e todos os meios destinados a
atingir a justiça saã o vaó lidos. O comunitarismo visa a construçaã o do bem,
utilizando os mecanismos necessaó rios para isso. Nesse caso, vale ressaltar que a
concepçaã o comunitarista se equipara a teleologia, sendo a justiça um bem
instrumental necessaó rio para atingir um bem final: a felicidade. Quando a
comunidade políótica eó justa ela consegue alcançar tambeó m o status de ser feliz.

Para alcançar o bem comum, segundo a proó pria concepçaã o do


comunitarismo, eó necessaó rio um pressuposto políótico. Este pressuposto políótico
nada mais eó do que a eó tica e cultura que devem ser compartilhadas/integradas
por toda comunidade. EÉ nesse cenaó rio que surge a importaê ncia das instituiçoã es
sociais como influenciadoras da formaçaã o dos indivíóduos.

Conclusão

Ao realizar este estudo, a opçaã o por analisar as teorias da justiça do


utilitarismo, igualitarismo, libertarismo, marxismo e comunitarismo foi feita
porque, aleó m da sua inegaó vel atualidade, constituem abordagens racionais de
temas fundamentais da Filosofia do Direito.

O utilitarismo ainda eó muito difundido no aê mbito da justiça contemporaê nea,


mesmo que tenha perdido seu caraó ter liberal e se transformado em um
pensamento conservador.

A igualdade liberal, exposta principalmente na teoria da justiça de Rawls,


busca integrar as liberdades civis e políóticas com os direitos econoê micos, sociais
e culturais. Transforma-se em modelo para os governos socialdemocratas que se
instalaram no mundo ocidental. Entre o liberalismo extremado e o socialismo
ortodoxo, Rawls propoã e uma alternativa intermediaó ria, a que denomina "justiça
como equidade".

O libertarismo compartilha com a igualdade liberal um compromisso com o


princíópio do respeito pelas escolhas das pessoas, mas rejeita o princíópio da
retificaçaã o das circunstaê ncias desiguais em favor das liberdades individuais e do
livre-mercado com a míónima intervençaã o estatal possíóvel.

O marxismo, por sua vez, continua como o principal baluarte do


pensamento críótico do direito, servindo como base de variadas reflexoã es
contemporaê neas a respeito da justiça e do papel do direito na sociedade,
explicitando o velho discurso, poreó m sempre atual, da desigualdade social
vigente no capitalismo e da exploraçaã o das massas de trabalhadores por poucos
burgueses que concentram a propriedade privada dos meios de produçaã o em
suas maã os.

Por fim, o comunitarismo surge como uma teoria da justiça capaz de


abandonar as concepçoã es individuais do liberalismo e traçar novos paraê metros
sociais da vida em comunidade, visando o bem-estar coletivo, poreó m sem a
radicalidade pregada pelos marxistas.

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[3] KYMLICKA, Will. Filosofia Políótica Contemporaê nea. Saã o Paulo: Martins
Fontes, 2006, p. 13.

[4] SEN, Amartya Kumar. Desenvolvimento como liberdade. Traduçaã o de


Laura Teixeira Motta. Saã o Paulo: Companhia das Letras, 2000.

[5] RAWLS, John. Uma Teoria da Justiça. Saã o Paulo: Martins Fontes, 2002, p.
12.

[6] Ibid., p. 39.

[7] KYMLICKA, Will. Filosofia Políótica Contemporaê nea. Saã o Paulo: Martins
Fontes, 2006, p. 121.

[8]Ibid., p. 122.

[9] NOZICK, Robert. Anarchy, State, and Utopia. Nova York: Basic Books,
1974, p. Ix.

[10] MARX, K. E ENGELS, F. Marx/Engels: Selected Works in One Volume.


Lawrence and Wishart: Londres, 1968, p. 320-321.

[11] KYMLICKA, Will. Filosofia Políótica Contemporaê nea.Saã o Paulo: Martins


Fontes, 2006, p. 209.

[12] KYMLICKA, Will. Filosofia Políótica Contemporaê nea. Saã o Paulo: Martins
Fontes, 2006, p. 264-265.