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A Instituição Militar no Brasil: Um Ensaio Bibliográfico

Edmundo Campos Coelho

Há alguns anosJ$ Cpdoc edito u um a valiosa contrar algum trabalho que estabeleça de m a­
bibliografia sobre o tenentism o. São dezenas de neira razoável as vinculações do tenentism o
livros e artigos nos quais este m ovim ento m ilitar com os processos e estruturas peculiares do
ou é o objeto particular da análise ou ocupa Exército, em bora não faltem os que explorem
lugar de destaque. Com raras exceções, a razão suas relações com as classes médias, com as oli­
de tan to interesse é bastante simples: o tenentis­ garquias ou com a sociedade civil de um a m a­
m o é geralm ente considerado um fator im por­ neira geral. A parentem ente o tenentism o consti­
tante para o entendim ento do período de tra n ­ tuiu-se a despeito e apesar do Exército da épo­
sição da Velha para a República Nova através da ca, e a com preensão do prim eiro dispensa intei­
Revolução de 30 e do Estado Novo. Ora, a cha­ ram ente a compreensão do segundo.
m ada década dos 30 tornou-se para os historia­ Mesmo o Estado Novo, que apesar da apa­
dores, sociólogos e cientistas p o líticos brasilei­ rência civil foi, efetivam ente, um regime instala­
ros (e para boa p arte dos brazilianists) um a fa­ do e m antido m ilitarm ente, inspirou quase ne­
se crucial na história pátria, algo sem elhante ao nhum a análise da instituição m ilitar do país ou
que foi o R enascim ento para a história da cultu­ das relações entre civis e m ilitares. Certam ente
ra européia. E , analogamente, parece ser um que é difícil discorrer sobre este regime sem
destes períodos inesgotáveis em m atéria para re­ m encionar, com certa ênfase, figuras m ilitares
flexão e análise, a esfinge que propõe enigmas como as de Góes M onteiro e D utra, para citar /
dentro de enigmas mas que, um a vez decifrados, os mais notáveis. Mas a tendência é sem pre a de
revelarão a chave para a com preensão da histó­ “politizar” estes personagens, vê-los pelo m es­
ria mais recente do país. É provável que algum mo ângulo com que se vê Getúlio Vargas ou
dia alguém , com um a visão subversiva desta his­ qualquer outra eminência civil. De certa form a,
tória, inicie a desm ontagem do m ito, tal como o a “ politização” produz a “paisanização” dos
Renascim ento foi desnudado com o a época do m ilitares, despindo-os da forte m arca da insti­
mero “ estilo b rilhante” segundo N isbet: o tem ­ tuição castrense. O processo parece ser análogo
po dos paradoxos, das inversões de sentido, dos ao do exorcism o ou da psicanálise: é como se os
m o ts d ’e sprit, da simples exuberância verbal. estudiosos, sofrendo de algum profundo traum a
Seja com o for, é a década dos 30 (a revolu­ com os sím bolos, m arcas, hábitos, m entalidade
ção ou o Estado Novo) e não o tenentism o ou e procedim ento das instituições m ilitares neces­
as Forças Arm adas que ocupam o centro do sitassem revelar a sua dimensão mais “fam iliar”
cenário na abundante literatura sobre os tenen­ (ou “paisana” ) dissolvendo nela a ou tra zona: a
tes e seu m ovim ento. De fa to , será difícil en- do perigo, da am eaça, do desconhecido.

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E m tu d o isso há tam bém m uito de op o rtu ­ m ação acadêm ica no e xterior não deixaram de
nismo m etodológico, no sentido de que sempre perceber o grau inédito de autonom ia com
foi mais fácil estudar o tenentism o desvinculado que se com portavam as Forças Arm adas, e tra ­
do Exército, porque sem pre foi m uito difícil ter taram de aplicar ao seu estudo o que haviam
acesso ao E xército por quaisquer vias. Os tenen­ aprendido no c ontato com a área de estudos de
tes deixaram traços visíveis de suas idéias e “sociologia m ilitar” , das relações civis-militares
ações porque tinham em vista exatam ente a ou da m oderna teoria das organizações. Muitos
audiência externa, e nisto eram desviantes com desses cientistas sociais eram (ou são) bastante
relação ao padrão de com unicação m ilitar que jovens, estavam em início de carreira, não fa­
visa usualm ente o público interno. Só recente­ ziam parte do establishm ent das ciências sociais,
m ente os arquivos m ilitares tornaram -se acessí­ não tinham com prom issos com os m itos das
veis aos estudiosos; mas ainda assim, são poucos interpretações convencionais e sentiam-se livres
os que se aventuram a pesquisá-los ou a p ro ­ para trabalhar num a área ou tem a marginal.
curar nos escaninhos do Arquivo Nacional as Creio que, d e n tro da produção acadêm ica
ordens-do-dia, as circulares, os ofícios, os rela­ brasileira, o prim eiro trabalho a tratar especi­
tórios, as atas e os com unicados que revelam as ficam ente da instituição m ilitar foi o artigo “ On
articulações internas da organização m ilitar. No the B elief System o f the Brazilian M ilitary”
Brasil este trabalho “arqueológico” vem sendo (Carvalho, 1968). Em 1971, tam bém mimeo-
diligentem ente feito por José Murilo de Carva­ grafado, circulou um estudo sobre o E xército
lho, e d aí a sua im portantíssim a contribuição intitulado “ Em Busca de Identidade: Relações
para o nosso conhecim ento das vinculações en­ Civis-Militares no Brasil” (Coelho, Iuperj,
tre a organização m ilitar e o quadro político da 1971). Há um trabalho anterior, “ As Forças
década dos 30. Aos poucos tem sido possível Armadas com o F orça P o lítica” (Torres, 1966)
superar o equívoco de se tom ar o todo (Exérci­ que não chega a ser um a análise das instituições
to) por um a de suas partes (“tenentes”), aban­ m ilitares, resumindo-se a um a reiteração, sem
donando-se teses tam bém equivocadas com o a m aiores discussões, da função “ m oderadora”
do “ E xército com o representante po lítico das das Forças Armadas. E ntre os autores estran­
classes m édias”, originalm ente form ulada para geiros, o trabalho mais antigo parece ser o de
dar conta apenas do tenentism o. Sim mons, ‘'The Rise o f th e Brazilian Military
Muito bem . Se a década dos 30 foi o nosso Class, 1870-1890” (1957); no período mais re­
Renascim ento político (e provavelm ente tam ­ cente, os prim eiros parecem te r sido as teses de
bém econôm ico e social), o período que se H ahner (1966) e Manwaring (1968). E xcluím os
inicia em 31 de m arço de 1964 é fo rte candida­ da listagem dos trabalhos acadêm icos restritos
to a se to rn ar a nossa Idade das Trevas, num a ao estudo das instituições m ilitares brasileiras
intrigante inversão cronológica que tem rem eti­ todos os que tratam do regime m ilitar im plan­
do m uitos analistas de volta aos anos 30, à tado em 1964, coletâneas de artigos publicados
nossa velha esfinge, com referência especial ao na im prensa diária por jornalistas, e os cham a­
intervencionism o “ controlador” (para usar a e x ­ dos “ estudos de área” onde as Forças Arm adas
pressão de Carvalho) que im põe a hegem onia brasileiras são estudadas em perspectivas com ­
m ilitar d entro do E stado Novo. Este é o in te r­ parada ju n to com as de ou tro s pa/ses do con­
vencionism o dos generais, do estado-m aior, mas tinente. C ertam ente encontram -se em todos
provavelm ente cessam a í as semelhanças mais eles excelentes interpretações, m as as institui­
aparentes com o m ovim ento m ilitar de 1964. ções m ilitares brasileiras não constituem o foco
As instituições m ilitares (sobretudo o E xército) da análise.1
são outras no segundo caso, até m esm o no Em 1971 aparece tam bém o livro de Ste-
estilo de intervenção. Elas irrom pem sem meias p a n 2 que se tornaria rapidam ente referência
m edidas na esfera política, sem subterfúgios ou obrigatória para os estudiosos do tem a. Há vá­
disfarces paisanos. Elas são mais fortes, bem rias razões para o m erecido sucesso desse livro:
mais m odernas, mais conscientes de seu poder, o au to r utiliza um a vasta literatu ra sobre as rela­
e talvez por isso m enos reticentes em aplicar ções civis-militares, testa alguns m odelos teó ­
com petentem ente sua força. Mas é com o se ricos com inform ações organizadas de maneira
tam bém à força (ou pela força) se impusessem à habilidosa e com petente, e elabora um quadro
atenção de alguns poucos observadores brasilei­ interpretativo que se tornou o padrão de refe­
ros postados às janelas das universidades. Um rência para o estudo do m ovim ento m ilitar de
núm ero reduzido de sociólogos e cientistas p o lí­ 1964. Stepan não deixa de exam inar as teses
ticos que nos anos setenta com pletavam sua fo r­ mais correntes na literatura convencional (a do

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poder “ m oderador” do E xército, e a da “repre­ tração geográfica) nem fatores institucionais
sentação política de classe m édia” ), nem subes­ (origem social) explicam por si sós o com porta­
tim a as questões de m étodo. Seu livro constitui, m ento das instituições m ilitares; de fa to , ne ­
assim, um bom ponto de partida para a aprecia­ nh u m fa to r isoladam ente pode explicar o com ­
ção da literatura mais recente. Na impossibilida­ portam ento político destas instituições porque
de de proceder a um a revisão mais detalhada elas são um subsistem a do sistem a político
desta produção acadêm ica, organizei a exposi­ maior, não estão isoladas e fechadas sobre si
ção em torno de alguns tem as que m e parecem mesmas (coesas, m onolíticas sob a égide da dis­
mais im portantes ciplina e da hierarquia organizacionais) m as, ao
contrário, estão sujeitas a to d as as influências
A Questão do Paradigma: políticas que afetam qualquer o u tro a to r p o líti­
O Modelo Organizacional co. Esta é um a conclusão decepcionante e ex­
cessivamente fácil po rq u e dispensa o analista de
Stepan (1971) não se propõe explicar o comprom issos com qualquer estru tu ra explica­
com portam ento político dos m ilitares brasilei­ tiva específica. A noção de sub-sistem a como
ros em todas as intervenções; ele está basica­ princípio analítico é por dem ais genérico para
m ente interessado em dar conta da m udança no ter qualquer utilidade. Adem ais, se nenhum fa ­
padrão de com portam ento m ilitar, que teria se to r isoladam ente é capaz de explicar o com por­
verificado em m arço de 1964. Em outros ter­ tam ento dos m ilitares, é de se presum ir que não
mos: Stepan propõe que m udado o com por­ tenham todos o m esm o peso na explicação, que
tam ento, m uda tam bém o m odelo de interpre­ uns explicam mais do que ou tro s e caberia a
tação. O padrão “ m oderador” , que prevaleceu Stepan sugerir quais deles dão conta de um a
até recentem ente, esgotou-se em 1964, e assim maior proporção da variança.
já não é adequado o m odelo correspondente de Ê exatam ente o que faz Carvalho (1974) ao
análise. V oltarei, mais tard e, a este ponto. estudar o com portam ento político das Forças
Há um o u tro m odelo que Stepan critica, e que Arm adas na Prim eira República. E m bora obser­
está associado aos “estudos de área” . De fato, vando que se trata de um prim eiro passo em
mais do que um m odelo trata-se de um w ishful direção a um en tendim ento mais com pleto, Car­
th inking e consiste em postular o seguinte: por valho com prom ete-se claram ente com um a pers­
serem as instituições m ilitares das regiões “ não- pectiva organizacional de analise, e certam ente
ocidentais” (isto é, países subdesenvolvidos ou não é por acaso que seleciona alguns dos fatores
em desenvolvim ento) as únicas que apresentam estruturais estudados por Stepan: recrutam ento
um alto grau de coesão interna, de disciplina e (de oficiais e praças), efetivos (inclusive distri­
organização; e por serem elas as únicas institui­ buição geográfica), a estru tu ra do corpo de o fi­
ções m odernas e verdadeiram ente nacionais, po­ ciais (pirâm ide de estratificação), o ensino m ili­
de-se esperar que constituam um instrum ento tar e as ideologias de intervenção. Com estas
fundam ental no desenvolvim ento e m oderni­ variáveis ele m onta, en tão , um quadro interpre-
zação daquelas regiões. tativo que dá conta das diferenças no c om porta­
Pois bem , Stepan procura invalidar esta tese m ento político do E xército e da M arinha, e es­
m ostrando, nos capítulos I e 11, que as Forças tabelece associações b astante claras e n tre os fa­
Arm adas brasileiras (na verdade, basicam ente o tores. Por exem plo: “ a grande predom inância
E xército) não são coesas nem m onolíticas em num érica dos tenentes, aliada ao baixo grau de
term os de hierarquia de com ando (por exem ­ controle hierárquico d entro da organização, da­
plo: a dispersão geográfica dos efetivos militares va a este grupo de oficiais condições privilegia­
dá um grande poder de resistência a oficiais su­ das de rebelião” (p. 151); ou de com o a m udan­
balternos que estejam no com ando de guarni­ ça no padrão de re cru tam en to , produzida pela
ções locais o u regionais) ou de expressão nacio­ introdução da Lei do Sorteio M ilitar, levou a
nal (os interesses regionais freqüentem ente cap­ sociedade a abrir-se ao Exército reduzindo o
turam a lealdade dos com andos de unidades). distanciam ento e n tre am bos (p. 127-32). Em
No capítulo III Stepan exam ina o efeito das trabalhos posteriores, Carvalho (1982, 1983) es­
origens sociais sobre o com portam ento dos ofi­ clarece a form a pela quais fatores estruturais da
ciais, e o alvo aqui é a tese de que, devido a este organização foram im portantíssim os para a im ­
lato r, o E xército representa politicam ente as plantação do projeto hegem ônico do E xército
classes m édias. A conclusão a que chega é a dentro do Estado Novo. Todavia, acho m enos
seguinte: nem fatores organizacionais (efetivos, aceitável, inclusive por certa am bigüidade e con­
padrão de re cru tam en to , dispersão ou concen­ fusão conceituai, a análise das relações entre

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ideologia e intervencionismo no artigo de 1974. É im portante observar, todavia, que em bora
Voltarei-a este ponto quando tratar da tese da Carvalho e Barros enfatizem , sem lhes conceder
função “moderadora” . exclusividade, os fatores estruturais internos da
instituição m ilitar, parece-m e que a am bos falta
O utro trabalho que inequivocam ente acen­ um paradigma de análise organizacional, um
tu a a im portância de variáveis estruturais, é o de m odelo explícito do que seja um a organização,
Barros (1978). E ste é provavelm ente o estudo de com o ela interage com seu am biente externo
que mais detalhadam ente exam inou o sistema e de com o ela se ad ap ta o u reage a ele através
de ensino m ilitar e seus fortes efeitos na confor­ de m odificações em sua e strutura interna. Tam ­
m ação da “m entalidade m ilitar” dos oficiais do bém Stepan não avança neste p o n to , a não ser
Exército brasileiro; mais ainda, Barros m ostra num sentido negativo: há um m odelo ou para­
como m esm o os processos inform ais de sociali­ digma a ser invalidado, mas infelizm ente tra­
zação do m ilitar estão sob o controle da insti­ ta-se de algo há m uito superado. Os m odelos
tuição em grau m uito mais alto do que geral­ fechados, consistentes e racionais de organi­
m ente ocorre em outras profissões. De fa to , o zação, supostam ente energizados por um a lógi­
processo de socialização do oficial se d á num ca baseada num a estruturação interna particular
am biente fechado, virtualm ente impermeável (m uito à m aneira da burocracia weberiana inspi­
aos efeitos externos, e produz um tipo d e indi­
rada no exército prussiano) há m uito foram
víduo que difere m arcadam ente do civil. Assim,
abandonados na m oderna teoria organizacional.
a análise de Barros, ao invés de dissolver a di­
Stepan, para usar um a expressão am ericana, de­
mensão m ilitar em algum a particularidade paisa­
cidiu bater em cavalo m orto. Se o seu propósito
na, explora os m ecanism os que acentuam -na e
era dem onstrar que as organizações m ilitares es­
lhe. dão especificidade irredutível.
tão longe de se aproxim arem do ideal de coe­
E m com paração com estes estudos, u n rtra - são, m onolitism o e isolam ento (e existe por aca­
balho curioso é o de F o ijaz (1983) sobre o te­ so algum tipo de organização que satisfaça estes
nentism o. Segundo a autora, “ a compreensão critérios? ), ele poderia tê-lo feito sem necessi­
do significado político do tenentism o passa ne­ dade de apelar para um recurso analítico tão
cessariamente por um a análise do E xército en­ antiquado. De fa to , a dem onstração é desne­
quanto organização” (p. 5). Observando a si­ cessária: há to ta l concordância n a literatura o r­
m ultaneidade do surgim ento do tenentism o ganizacional em q u e organizações (de qualquer
com a profissionalização do ensino m ilitar tipo) são sistemas “abertos” aos influxos e x ­
através da Missão Francesa, conclui Forjaz que ternos. Seja como fo r, o certo é que Stepan
os tenentes ficaram im unes à m entalidade pro­ desloca o m odelo “fech ad o ” mas não põe o utro
fissional que então se form ava, e que sua o p o ­ em seu lugar.
sição ao ensino m ilitar francês “ coloca a ques­ E m bora não seja este o lugar para fazer revi­
tão das clivagens ideológicas no Exército no sões de teoria organizacional, lem bro que as
contexto do processo de m odernização” (p. 6). chamadas “teorias contingenciais” , tanto quan­
Esta é um a form a curiosa de dem onstrar o efei­ to as de “ coalizões” e de “ sistem as debilm ente
to de fatores organizacionais de socialização integrados” enfatizam exatam ente os inter­
form al: o que ocorre com os que não sofrem câmbios das organizações com o m eio am bien­
sua influência. E a inferência é óbvia, e bem te, acentuando a variedade de estratégias tanto
huntingtoniana: a profissionalização pro d u z o de adaptação ao q u a n to de dom inação sobre o
não-intervencionism o, e os tenentes eram m e­ am biente externo. Organizações são sistemas
nos profissionais do que o restante do corpo de fortem ente orientados para sua própria sobre­
oficiais. Torna-se, assim, tam bém mais fácil afir­ vivência (a um n ível básico e m ínim o de aspira­
m ar a persistência dos efeitos da origem de clas­ ção), m as tam bém para o controle da m aior ex ­
se: “não se apagaram totalm ente os valores e tensão possível do seu m eio am biente. Se conse­
expectativas decorrentes das condições de classe guem ou não atingir estes propósitos é um a
dos tenentes, com o pudem os observar na análi­ questão em pírica, m as será sem pre um a função
se do program a ten en tista e na sua atuação con­ da capacidade das organizações extrair recursos
creta no im ediato pós-30, enfrentando as oligar­ do am biente para se fortalecerem . E o que é
quias” (p. 9). O problem a com o argum ento é mais im portante: estratégias de aquisição o u ex­
que ele não resiste às evidências de que a m o­ tração de recursos são sem pre de natureza p olí­
dernização do E xército e a profissionalização tica, quer sejam orientadas para as condições
do ensino m ilitar levou a mais, e não a m enos internas (seleção da elite, controle das oposi-
intervencionism o (N unn, 1972). ções, expurgos etc.) ou para as externas (form a-
ção de coalizões, cerimoniais públicos pera difu­ do “ espírito de corpo” na organização m ilitar),
são dos valores organizacionais etc.). e isto tan to mais q u a n to ela disponha d e pouco
poder político. D e qualquer m odo, o im p o rtan ­
É sobre estes m odelos que Coelho (1976) te é que coisas com o coesão interna, m onolitis-
estudou a evolução das relações entre o Exérci­ m o, “ab ertu ra” ou isolam ento são variáveis,
to e a sociedade, procurando m ostrar com o o nunca atributos. Mas, por mais que este p onto
primeiro parte de estratégias de acom odação e seja reiterado, o espectro de um a instituição
adaptação à segunda para chegar a estratégias de castrense coesa, hom ogênea e m o nolítica sem ­
controle sobre ela. A análise é institucional; isto pre encontrará seus exorcistas, com o Peixoto; e
é, a história da organização é investigada com o a fórm ula ritual pode ser a m etáfora do “ parti­
propósito de descobrir um a constelação de indí­ do m ilitar’ (Peixoto, 1980b; R ouquié, 1980)
cios que revelem a natureza, o caráter, o ethos que, se pouco acrescenta à análise, parece servir
da organização. O m étodo interpretativo utiliza­ para tranqüilizar os atorm entados.
do foi sugerido por Selznick,3 mas no essencial
orienta-se pela docum entary analysis de Mann- Mas, bem feitas as contas, nem o próprio
heim .4 Como observou Schneider (1982), os Stepan (1971) escapa da perspectiva organiza­
trabalhos de Carvalho e de Barro s são consis­ cional (ou organizacional/institucional, com o
tentes com o de Coelho, este servindo, com o quer Peixoto). Em últim a análise, o que fez
ponte entre os prim eiros. Mas, talvez porque.o com que em 1964 os m ilitares se decidissem
m odelo organizacional seja mais explícito no úl­ pela intervenção se, segundo Stepan, 80 a 90%
tim o, é ele o que mais restrições suscitou. dos oficiais eram , ao final de 1963, ou legalis­
tas, ou leais a G oulart ou politicam ente indife­
Mais de dois terços do artigo de Peixoto rentes? (p. 139) Ainda é ele que nos diz que
(1980a) sobre m odelos de interpretação ocupa- “os oficiais passaram a achar cada vez mais que
se da análise institucional, e o alvo é o livro de seu papel m oderador d estruía sua própria uni­
Coelho no qual, segundo Peixoto, o fenôm eno dade e integridade com o instituição” (p. 138);
m ilitar, em ú ltim a instância, se explica por si já em 1961, após a renúncia de Jânio Q uadros,
m esmo (p. 28); o aparelho m ilitar é analisado “o receio de dividir novam ente o E xército cons­
com o um a estrutura m o nolítica (p. 28); subesti­ tituiu um obstáculo decisivo contra qualquer
mam-se as clivagens internas e faz-se um corte tentativa de golpe” (p. 139); e novam ente em
radical entre organização m ilitar e sociedade ci­ março de 1964 “ as repercussões (dos m otins
vil. Os com entários de Peixoto confundem duas dos m arinheiros) dentro do quadro de oficiais
ordens de questões: a prim eira diz respeito à foram profundas. A questão da auto preservação
proposição de que nas organizações m ilitares institucional por m eio do controle da disciplina
prevalece a ótica dos interesses corporativos que militar figurava entre as questões acerca das
serve com o o filtro através do qual os m ilitares quais os oficiais m ilitares, divididos no plano
com põem sua interpretação do m undo, e esta ideológico, tinham o mais elevado acordo inter­
afirm ação é análogoa a de que as empresas eco­ no” (p. 150). N um trabalho posterior sobre os
nôm icas interpretam o m undo da perspectiva da m ilitares brasileiros e peruanos Stepan (1973)
m axim ização do lucro (quando conseguem so­ voltaria a dizer: “ a defesa da instituição m ilitar
breviver à com petição de m ercado); a segunda foi um a das chaves para a entrada dos novos
diz respeitô às conseqüências da predom inância profissionais na política nacional. Se, todavia, a
dos interesses corporativos sobre o com por­ desunião interna aum enta com relação às p o líti­
tam ento da organização m ilitar. C om o as orga­ cas ou aos problem as sucessórios, a defesa da
nizações são procuradoras de recursos no am bi­ instituição pode m uito bem ser um a das chaves
ente externo, o im perativo da m axim ização do para a saída, p o r m eio de um a ju n ta provisória”
lucro im põe estratégias de “ p o lítica externa” à (p. 65). E m últim a instância, Stepan não tem
empresa, ta l com o os interesses corporativos à como refugar ante o peso específico dos interes­
organização m ilitar. O que varia, em am bos os ses corporativos dentre os quais a autopreser-
casos, é o grau de “ abertura” da organização, e vação institucional é o mais básico. D e fa to , e
é im portante especificar os fatores de variação. como sugere Stepan (1971) no cap ítu lo 7, po­
De m aneira geral, se o am biente externo é hóstil derosas tensões econôm icas e políticas com o as
a organização dará ênfase a estratégias internas que ocorreram no período 1961-64 só resulta­
de desem penho (redução de despesas de cus­ ram no abandono da postura “ m oderadora”
teio, m aior racionalidade nos procedim entos; porque passaram pelo filtro dos interesses cor­
ênfase no preparo profissional, fortalecim ento porativos.

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Ideologia e Intervenção: da doutrina da ESG e situa as suas bases geopo-
A Escola Superior de Guerra líticas em trabalhos publicados já em 1925 por
m ilitares brasileiros. Assim, mais do que um a
Segundo Stepan (1971), o m ovim ento mi­ m udança radical, parece te r havido um a longa
litar de 1964 distingue-se das intervenções an­ evolução no pensam ento dos m ilitares no curso
teriores por um a m udança de ideologia: os m ili­ da qual fo i se cristalizando a concepção de um
tares abandonam as idéias e norm as de com por­ novo papel para as Forças Arm adas. Por outro
tam ento associadas à função “ m oderadora", lado, e m esm o aceitando-se que o m odelo da
substituindo-as pela doutrina da segurança in­ função “m oderadora” descreva adequadam ente
terna e do desenvolvim ento. De m oderadores, um padrão em piricam ente verificável de com­
transform am -se em dirigentes da p o lítica nacio­ portam ento, é discutível se as intervenções
nal. As origens desta m udança situam-se no tra ­ ocorridas no perío d o a n terior a 1964 ajustam-se
balho de elaboração doutrinária da Escola Supe­ ao m odelo. Por exem plo, M arkoff e B aretta per­
rior de Guerra-ESG, e é neste ponto que Stepan guntam se o fato de os m ilitares retirarem -se
cria o “ m ito da ESG” logo incoporado na pro­ logo após cada intervenção, devolvendo o poder
dução acadêm ica sobre o período (Rizzo, 1976; aos civis, não se deve mais à incapacidade da
A deraldo, 1978; D ebert, 1 9 8 4 ;Dreifuss, 1984). instituição castrense em perm anecer no poder
Mais tarde, Stepan (1973) traduziria a m udança do que à internalização de certas norm as de
no padrão de com portam ento m ilitar em te r­ com portam ento.
m os do abandono do m odelo do “antigo profis­
Q uanto à ESG, o próprio Stepan (1971) re­
sionalism o” (ênfase na defesa externa e nos as­
pectos puram ente profissionais da função m ili­ conhece que ela perdeu m uito de sua influência
após o governo Castelo Branco, observando que
tar, restrições à am pliação do papel institu ­
Costa e Silva não era esguiano e nem recrutou
cional das Forças Arm adas, neutralidade p o líti­
esguianos para com por sua equipe. Mas foi Bar-
ca) pelo m odelo do “novo profissionalism o”
ros (1978) quem prim eiro questionou o “m ito
(ênfase na segurança interna, ampliação do pa­
da ESG” . E , ao contrário de Stepan, ele vê co­
pel da instituição m ilitar, aceitação dos aspectos
políticos da profissão, gerencialismo político- mo razão para o ostracism o da E scola após o
governo C astelo Branco “a crescente consciên­
m ilitar).
cia entre os oficiais com posição de poder que
McCann (1 9 7 9 ) foi o prim eiro a observar se a ESG m antivesse o papel que tivera im edia­
que, de um a perspectiva histórica, o “ velho” e o tam ente após 1964, a adm inistração central te­
“ novo” profissionalism o estiveram sem pre mes­ ria suas m ãos atadas por um grupo cujo envol­
clados ou polarizaram grupos de oficiais ao lon­ vimento nos m eandros da adm inistração seria
go da evolução do E xército; o “ novo profissio­ intolerável, pois que a doutrina da ESG não
nalism o” de fato nada tem de novo, além do concedia a necessária flexibilidade exigida pela
que os m ilitares brasileiros jam ais tiveram , d.e si p o lítica” (p. 171). Barros não deixa de observar
mesmos, qualquer imagem tão consistente, nem (num a n o ta à página 170), a este respeito, o
alcançaram elaborar para suas instituições um a estilo “ projetivo-especulativo” no pensam ento
definição clara de missão. Tam bém M arkoff e esguiano. M arkoff e Baretta vão mais longe ao
Baretta (1985) observam que o padrão do “ve­ afirm ar que nem m esm o Castelo Branco e Gol-
lho profissionalism o” é inconsistente com a bery do C outo e Silva foram esguianos na p rá ti­
função “ m oderadora” : de fa to , o prim eiro su­ ca, e um a vez no poder já cogitavam de devol­
põe a abstenção m ilitar das atividades políticas, vê-lo aos civis em prazo relativam ente c urto. Os
ao passo que a segunda legitim a a intervenção. mais destacados esguianos teriam sido os m enos
Ademais, o “velho profissionalism o” supõe um desviantes com relação ao padrão “m o d era d o r” ,
am biente em que as elites políticas civis aceitem ao contrário do que deixa supor a tese de Ste­
a legitim idade dos governantes e não apelem pa pan. M iyam oto (1984) tam bém levanta sérias
ia as instituições m ilitares, o que evidentem ente questões q u a n to a influência d a Escola: ela não
não se aplica ao Brasil. E teria havido realm ente teria sido nem o “ cerne da elite” , nem teria tido
um a m udança radical de pensam ento entre os peso específico na elaboração das políticas do
militares brasileiros? Coelho (1976) sugere que regime.
a doutrina da Segurança Nacional é, em grande
parte, apenas um aprofundam ento, adaptação e De onde, e n tã o , teria Stepan tirad o a im por­
sistematização do pensam ento doutrinário de tância que atribui à ESG? M arkoff e Baretta
Góes M onteiro. Tam bém H inson, Jr. (1978) argum entam que Stepan privilegiou m etodologi­
chama a atenção para a falta de originalidade cam ente a E scola Superior de G uerra. Isto é: a

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ESG é um a entidade bem identificada, tem um me que foi um corpo doutrinário sem elhante
currículo bem definido que pode ser exam ina­ ao da ESG que p erm itiu, em 1937, a im plem en­
do, um quadro de instrutores acessíveis para en­ tação de um projeto hegem ônico do Exército
trevistas e cuja produção intelectual pode ser dentro do Estado Novo.
pesquisada facilm ente, e um corpo de estagiá­
rios que editam um a revista. Tudo exatam ente Ideologia e Intervencionism o:
ao inverso do que ocorria com os “ linha d u ra” . o Poder “M oderador”
E porque foi mais fácil estudá-la, Stepan a tri­
buiu à ESG um a posição central que ela efetiva­ Se entendo corretam ente o sentido do ter­
m ente não teve (pelo m enos não tão im portante m o “função m oderadora” , é de se supor que o
quanto a da corrente anti-esguiana). Q uanto ao exercício desta função implicasse na neutralida­
pensam ento da ESG, é possível que não passe de de quem a exerce frente aos interesses em
de um a “pseudo-ideologia” com o querem conflito, num a posição de equidistância e n tre as
M arkoff e B aretta, ou um a coleção de “ platitu- partes. O “ m o d erad o r” , que se assemelha ao ár­
des” com o descobriu Dreifuss (1984). bitro ou juiz, deveria ser um estranho, no senti­
Mas, ainda que seja certo que Stepan exage­ do simmeliano do term o: objetivo, no sentido de
rou quanto à influência da ESG e de sua doutri­ ser livre, de não estar preso por relações que
na no m ovim ento de 1964; e adm itindo-se, ain­ possam prejudicar sua percepção, seu e n te n ­
da, que o pensam ento form ulado pela Escola dim ento e sua avaliação da situação.5
seja apenas um a “pseudoideología” com pouca Ora, se, com o quer Stepan (1971), a insti­
consistência interna, ainda assim não fica de­ tuição m ilitar é um subsistem a do sistem a p o lí­
m onstrado que a dou trin a não teve im portância tico e, com o tal, está sujeita às mesmas influên­
dentro da instituição m ilitar. De fato, idéias ser­ cias a que se subm etem os dem ais atores p o lí­
vem a vários propósitos, e um a doutrina (ou ticos, então os m ilitares estão, por definição,
“pseudoideologia”) não tem apenas um a função incom patibilizados com a função “ m oderado­
instrum ental de orientar com portam entos e po­ ra ” . Isto é, a instituição m ilitar tem interesse
líticas. Adem ais, qualquer corpo doutrinário em butidos, seja na m anutenção do status quo,
contém term os cujo sentido não é unívoco, m as seja na sua m udança e, assim, é parte do confli­
que m udam em função do c o n te x to , o que dá to. Em piricam ente, é perfeitam ente observável
ao conjunto um a grande flexibilidade sem ânti­ que o E xército (e por extensão, as Forças Ar­
ca. Assim, penso que um a doutrina pode ter madas) tem interesses corporativos, e que pela
um a função expressiva, m uito pouco instrum en­ ótica desses interesses os m ilitares fazem suas
tal no sentido de, que ela não cria com prom issos avaliações e decidem pela intervenção (ou pela
com nenhum a linha de com portam ento em par­ não-intervenção). O recurso ao argum ento da
ticular. E la pode funcionar basicam ente com o função “m oderadora” é lógica e em piricam ente
catalizadora de auto-consciência, d entro de um a insustentável. Stepan refere-se a esta função co­
função quase que puram ente afetiva, principal­ m o u m padrão d e com portam ento em pirica­
m ente quando ela procura se relacionar a algum m ente observável, pelo m enos até 1964, mas
sím bolo que lhe conceda ou lhe acrescente, de- não se dá conta de que ela é mais consistente
rivativam ente, um a certa aura (sím bolos com o com o m odelo de organização “ fechada” e iso­
Nação, Soberania Nacional, Objetivos Nacionais lada da sociedade do que com o m odelo de or­
Perm anentes e outros assem elhados têm um a ganização aberta às influências políticas da so­
grande força expressiva). ciedade global.
Pois bem . Creio que a doutrina da ESG tem H á um elem ento no padrão de com porta­
sido exam inada pelo ângulo quase exclusivo de m ento “ m oderador” ao qúal Stepan d á m uita
sua função instrum ental, mas não com o um dis­ ênfase, m as que com plica a análise. Trata-se do
curso afetivo destinado ao âm bito dos quartéis. papel das elites civis na legitimação da inter­
Se isto é correto, a doutrina pode ter tido um a venção “m oderadora” : “ em ta l m odelo das rela­
grande im portância no fortalecim ento do sen­ ções e n tre civis e m ilitares, estes são cham ados
tido de com unidade dentro da instituição m ili­ repetidas vezes para agir com o m oderadores da
tar, da auto-consciência dos oficiais quanto ao atividade p olítica, m as lhes é negado sistem a­
poder e com petência profissional da corporação ticam ente o direito de ten ta r dirigir quaisquer
e do seu destino com um . Nas condições que m udanças d entro do sistem a p o lítico ” (1971, p.
antecederam o m ovim ento de 1964, isto pode 50); ou ainda, “ to d o s os principais protagonis­
não ter sido determ inante, o que não significa tas p olíticos procuram cooptar os m ilitares. A
que não tenha sido m uito im portante. Parece- norm a é um m ilitar p o litizado” (p. 50).

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Se as coisas efetivam ente se passam desse os m ilitares ao intervencionism o. Estas ideolo­
m odo, há um evidente deslocam ento da idéia gias são consideradas com o m ecanism os de
do poder “m o d erad o r” do âm bito da institui­ adpatação de um a organização (a m ilitar) que,
ção m ilitar para o âm bito da sociedade civil. Os quando transplantada para o utro contexto so-
m ilitares seriam , neste caso, apenas o instru­ cietal, conserva a dim ensão “ profissional” e os
m ento de todos os principais protagonistas po­ aspectos estruturais do m odelo original (o m o­
líticos, cada qual interessado em ter a insti­ delo da organização m ilitar profissional e politi­
tuição m ilitar ao seu lado. Creio que isto se cam ente neutra), m as desenvolve um padrão de
ajusta perfeitam ente bem ao fato de que, no com portam ento diferente e oposto. Nestes ter­
Brasil, foram os p o lítico s civis os que form u­ mos, Carvalho parece adm itir que estam os tra­
laram a concepção de um poder “ m oderador” tan d o com ideologias genuinas, isto é, com con­
associado à instituição m ilitar. Seja com o for, a ju n to de crenças que geram norm as e que efeti­
instrum entalidade p o lítica da idéia é inconsis­ vamente m oldam o com portam ento. No caso da
ten te com sua concepção abstrata; isto é, há ideologia do soldado-cidadão isto pode ter sido
um a evidente contradição, em term os, entre a verdadeiro, já que a idéia não era inconsistente
idéia e o padrão em piricam ente verificável de com a doutrina positivista adotada por m uitos
com portam ento que nada tem de m oderador. dos oficiais “ científicos” que desejavam a que­
Mas h á o u tra alternativa de interpretação: Pei­ da da M onarquia. A inda assim, é necessário en­
xoto (1980a) critica Stepan por fazer da legiti­ fatizar que o m ovim ento m ilitar que proclam ou
mação das intervenções um m onopólio dos gru­ o regime republicano não fo i liderado por estes
pos civis, o que reduziria os m ilitares a um a oficiais, mas pelos “tarim beiros” a quem a idéia
atitude de passividade, “ simples espectadores do cidadão-soldado desagradava por ser um a
que são cham ados a intervir de tem pos em tem ­ ameaça à hierarquia e à disciplina. O surgim ento
pos no desenrolar do jogo” (p. 37). Ele propõe, desta mesma idéia n o s pronunciam entos de che­
inversam ente, que os m ilitares, aliados aos civis, fes m ilitares por ocasião das diversas interven­
sempre tentaram m udar as regras do jogo, e a ções que se sucederam d urante a primeira e se­
formação de um a “ coligação vitoriosa” de civis gunda Repúblicas (inclusive no c o n te xto do
e m ilitares reflete mais adequadam ente os inte­ movim ento m ilitar d e 1964), dificilm ente pode
resses convergentes: “a legitim idade será criada ser considerado da m esm a perspectiva. O pro­
na m edida em que a coligação que deseja o gol­ blem a da “cidadania” do m ilitar perm aneceu
pe de Estado ganha terre n o sobre seus adver­ como questão m uito secundária entre as preo­
sários” (p. 37). Mas, é óbvio que tam bém nesta cupações dos oficiais; mais ainda, há fortes indí­
vertente de interpretação h á um a inconsistência cios de que no longo processo de profissiona­
patente entre a idéia de poder “m oderador” e o lização, m odernização e fortalecim ento da insti­
padrão em pírico de com portam ento. S e, n a in­ tuição m ilitar a q u e stã o d a cidadania passou a
terpretação de Stepan. o que há é um a coopta- ser vista com o fator d e enfraquecim ento da or­
ção dos m ilitares por algum a facção civil (o que ganização. Não é d ifíc il conceber, todavia, que
destrói a idéia de m oderação o u arbitram ento), as posições dos m ilitares q u a n to ao problem a
no m odelo de P eixoto h á um a aliança de inte­ são bastante am bígüas. No que diz respeito à
resses civis e m ilitares na “coligação vitoriosa” ideologia do poder m o d erad o r, penso que a am ­
(o que tam bém d á por terra com a idéia de bigüidade é m ais de C arvalho, com o tentarei
moderação ou arbitram ento). T anto um a quan­ mostrar em seguida.
to o u tra interpretação sugere que se abandone a Em seu trabalho d«e 1974 ele amplia o esque­
idéia de função “moderadora” para descrever as ma original para inciiuir entre as ideologias mili­
intervenções m ilitares. Ela é mais adequada, de tares a noção do “ soldado profissional” politi­
fato, com o descrição de um discurso de justifi­ cam ente neutro, e estabelece os seguintes pares:
cação, um instrum ento retórico que por preten ­ cidadão-soldado/intervenção reform ista, solda­
der gerar efeitos im portantes deve ser identi­ do profissional/não-intervenção, e solàaào-cor-
ficado pelo que realm ente é. poração/intervenção M oderadora. Com relação
fíão estou persuadido de que Carvalho ten h a a este últim o par, Cairvalho quer cham ar a aten ­
estabelecido esta distinção em seus trabalhos so­ ção para o fato de q u e se tra ta do “ interven­
bre os m ilitares brasileiros. Em seu artigo de cionismo dos g e n era is, ou do estado m aior, o
1968 ele descreve “ noções” , “ elem entos” ou intervencionism o da organização com o um to d o
“ideologias” que com põem o “sistem a de cren­ e não apenas de seto»res subalternos” (p. 161).
ça” dos m ilitares e que são: a do cidadão-solda­ Teríam os, assim, u m a com binação onde do pri­
do e a do poder m oderador, am bas predispondo meiro par entraria ai aceitação d a intervenção

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com o algo legítim o, e do segundo par o espírito posições hierárquicas elevadas. Não creio que
corporativo com a aceitação da nòrm a hierár­ isto seja correto; pelo contrário, parece-m e que
quica. O problem a surge quando Carvalho inter­ a escolha dos ocupantes de altos cargos na hie­
preta a expressão de Góes M onteiro “ fazer a rarquia m ilitar obedece mais a critérios de leal­
política do E xército e não a p o lítica no E xér­ dade política ao presidente da República do
cito ” com o a “ primeira form ulação mais siste­ que a critérios estritam ente profissionais. Assim
m ática” da ideologia do poder m oderador (p. são co n titu íd o s os fam osos “ dispositivos m ilita­
160). A não ser que se entenda por função ou res” de que se cercam todos os presidentes: de
poder m oderador algo inteiram ente diferentg» da oficiais profissionais apenas no sentido de que
concepção convencional do term o ou do "seu pode-se presum ir que são com petentes, que per­
uso corrente na literatura, não vejo com o correram todas as etapas da carreira m ilitar, mas
Carvalho possa estar correto, e m enos ainda não no sentido de que são apolíticos ou politi­
quando ele acrescenta com o exem plo o golpe cam ente neutros. Creio que conceitualm ente
de 1937. E m dois trabalhos subseqüentes não se ganha em clareza associando-se “profis­
(1982, 1983), a expressão “ intervenção m ode­ sionalism o” (no sentido de atitu d e não-inter-
radora” é substituída por “intervencionism o vencionista ou passiva) com prestígio e hierar­
c ontrolador” e “intervencionism o conserva­ quia. De fa to , apenas as duas últim as exibem
d o r” , respectivam ente. Esta é um a evolução um alto grau de associação entre si, m as não
conceituai interessante se considerarm os que a com a prim eira dim ensão. Desta form a, a rela­
função m oderadora não é apenas controladora ção que se pode estabelecer é entre “ interven­
(no sentido de que ela está atenta a desvios com ção” e hierarquia, e não entre “intervenção” e
relação às regras do jogo), m as tam bém conser­ “profissionalism o” .
vadora (no sentido de que a intervenção, quan­ Creio que o problem a com a tipologia elabo­
do ocorre, visa restabelecer as regras do jogo e rada por Carvalho (os pares de elem entos) é que
m anter o status q uo) que m e leva a crer que Car­ ela é historicam ente datada, e por isso não pode
valho ainda não solucionou satisfatoriam ente a alcançar o nível de generalidade pretendida
questão. Adem ais, creio que é tam bém im por­ (além da ambigüidade já m encionada com rela­
tante distinguir o “intervencionism o” da “in­ ção à função “m oderadora”). Cada um dos ele­
tervenção ” , e não se tra ta de um m ero jogo de m entos do que Carvalho chama de “ sistem a de
palavras. O “ intervencionism o” apo n ta para a crença” m ilitar pode ter sido um fa to r de adap­
disposição em intervir, mas a “intervenção” in­ tação organizacional em períodos m uito par­
dica capacidade ou poder para intervir. Além ticulares; supor a sua perm anência em períodos
disso, se o “intervencionism o” pode estar sem ­ sucessivos implica exam inar a hipótese de que a
pre associado a um sistema de crença ou ideolo­ organização perde sua capacidade adaptativa e
gia, isto não ocorre necessariam ente com a “ in­ se enfraquece. Não creio que isto seja um a boa
tervenção” , que pode ser apenas reativa e obe­ hipótese.
decer aos im perativos dos interesses corpo­
rativos (por exem plo: am eaças à integridade da
instituição m ilitar). Finalm ente, não seria supér­ Militares e o Estado:
fluo observar que as “intervenções” foram sem ­ Modernização e Profissionalização
pre de generais, m as nunca de oficiais subal­
ternos aos quais resta a alternativa do “interven­ O objetivo fundam ental da instituição mili­
cionism o” (em bora não seja exclusividade de­ tar, aquele que dá sentido à sua existência, é a
les). Isto é: o “ intervencionism o” gera revoltas, segurança do E stado, e a proteção deste consti­
m otins ou rebeliões, mas para que haja uma “in­ tui a preocupação básica dos m ilitares. Os in te ­
tervenção” o fa to r hierárquico é sem pre decisi­ resses corporativos da instituição podem ser en­
vo. Com o m e parece um a contradição, em ter­ tendidos em term os deste objetivo fundam en­
m os, falar de “ intervenção fracassada” , o que tal, mas a relação entre os prim eiros e este últi­
quero dizer é que o “ intervencionism o” só se m o é m ediatizada por um conjunto de atitudes
concretiza num a “intervenção” quando conta que, na literatura especializada, tem sido identi­
com o suporte da hierarquia. D iferentem ente, ficado com a “m entalidade m ilitar” : o naciona­
Carvalho (1970) observa que os intervencio­ lismo, um a visão pessim ista sobre a natureza hu­
nistas só têm sucesso quando conseguem o m ana e o alarmismo, isto é, propensão a fazer
apoio dos “profissionais” , em bora n o te que es­ estimativas exageradas sobre as probabilidades
tes são freqüentem ente não apenas os oficiais de conflitos arm ados (guerra, revoluções e tc .).6
de mais prestígio mas tam bém os ocupantes de T anto na natureza quanto na sociedade a vida
seria um a guerra perm anente pela sobrevivência,' nacional apontem para a concepção de um Esta­
e apenas os mais fortes sobreviveriam ; o hom em do fo rte, pairando acim a dos interesses parti­
é o lobo do hom em , os estados tendem à expan­ culares das diversas classes sociais e com m ar­
são e à conquista dos mais fracos, e o pacifismo cante presença em todos os setores da socieda­
constitui um a dou trin a irresponsável que am ea­ de.
ça a segurança do Estado. Inversam ente, a pre- Seja como fo r, o fato é que as iniciativas de
pração para a guerra deve ser um estado perm a­ m odernização e profissionalização das institui­
nente das sociedades nacionais, e a existência de ções m ilitares partiram sem pre dos próprios ofi­
forças arm adas fortes, m odernas e profissionais ciais, e não das elites políticas ou de qualquer
é um fa to r essencial de segurança e sobrevi­ outro setor da burocracia estatal. As Forças Ar­
vência do E stado. No e n tan to , forças arm adas madas tornaram -se, assim, o segm ento mais m o­
fortes, m odernas e profissionais só podem exis­ dernizado do E stado, e de 1937 a 1945 com an­
tir em sociedades desenvolvidas, q u e disponham daram a m odernização do segm ento civil da bu­
de indústrias capazes de fornecer equipam entos rocracia. Fracassaram , todavia, to d o s os esfor­
adequados aos m ilitares, e que tenham controle ços de State building, o que era debitado pelos
sobre seus recursos industriais e naturais (fontes m ilitares à deterioração das elites dirigentes, às
de energia, recursos estratégicos etc.). suas lutas internas, à sua incapacidade de se arti­
0 longo processo de m odernização e profis­ cularem para a tarefa de construção do Estado
sionalização das instituições m ilitares brasileiras nacional. Os reflexos deste estado de coisas den­
(H ilton, 1982; McCann, 1980, 1983, 1984) re­ tro da instituição m ilitar não passaram desaper­
vela to d a a constelação destas atitudes, objeti­ cebidos a parcelas da oficialidade: a prática de
vos e interesses, e com o eles estão estreitam ente “ privatização” das funções do E stado m anifes­
associados. E n tre ta n to , a m odernização e pro­ tava-se nas tentativas de “privatizar” setores da
fissionalização das instituições m ilitares ocorre­ instituição m ilitar alinhando-as com interesses
ram no co n tex to de um a sociedade bastante políticos de frações da elite civil. As crises polí-
fragm entada e de um Estado fraco. De fato, o tico-m illtares eram expressões das crises do Es­
Estado brasileiro dificilm ente pode ser caracte­ tado. E os m om entos de hegem onia das Forças
rizado historicam ente com o entidade distinta Armadas dentro do Estado constituem tam bém
das “associações” civis, alicerçada na concepção esforços de dar-lhe autonom ia frente às diferen­
am plam ente com partilhada de um a ordem legí­ tes classes sociais. Mas, nestes m om entos, o pro­
tim a, a ser m antida pelo exercício da au to ri­ fissionalismo m ilitar transform a-se em m ilitaris­
dade investida nos cargos form ais de governo. mo profissional que é a aplicação de conceitos
Ou, dito de ou tra form a: a construção de um m ilitares a questões sociais, econôm icas e políti­
Estado fo rte nunca esteve na agenda das elites cas (N unn, 1972).
políticas brasileiras, m uito mais interessadas em
O E stado Novo e o regim e autoritário im ­
fortalecer suas bases locais de poder. Conse­ plantado em 1964 pelas Forças Arm adas consti­
qüentem ente, nunca se interessaram tam bém no
tuem os dois m om entos de hegem onia m ilitar, e
fortalecim ento, m odernização e profissionaliza­ de vigência do m ilitarism o profissional. Am bos
ção de forças arm adas nacionais, recaindo sua
se co nstituíram em projetos de fortalecim ento
preferência em instituições m ilitares regionais do E stado, de im plantação de m odelos autori­
como a Guarda Nacional e as Polícias Militares
tários de organização nacional, de educação e
estaduais.
form ação de elites. F inalm ente, foram m om en­
Ao ressentim ento contra as elites políticas, tos de graves dilem as para as instituições m ilita­
contra as oligarquias dom inantes e a té m esm o res. Em prim eiro lugar, projetos hegem ônicos
segm entos da burocracia esta tal, soma-se, no como os de 1937 e 1964 colocam sem pre a
pensam ento m ilitar, a preocupação com a falta questão da duração d a perm anência das Forças
de coesão nacional solapada pela predom inância Arm adas no poder. Talvez em 1937 o problem a
de interesses particularistas. E é no pensam ento não fosse tão grave porque os m ilitares não
autoritário (de A lberto T orres a Oliveira Viana) exerceram diretam ente o poder; mas em 1964 a
que os m ilitares buscam os m odelos de organi­ questão do prazo era m uito mais sério porque o
zação nacional, com o é no prim eiro destes auto­ governo direto das Forças A rm adas não pode
res que eles nutrem a concepção de que o país é ter duração indefinida sem que elas deixem de
pouco mais do que um a “ exploração” colonial ser o que são. Por o u tro lado, o projeto de cons­
(Hinson, Jr., 1978; McCann, 1980). Não surpre­ trução ou fortalecim ento do Estado não pode
ende que a conjunção do nacionalism o econô­ se confundir com a m anutenção de um Estado
mico com as idéias autoritárias de organização de exceção tam bém de prazo indefinido. T anto

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um quanto o utro constituem contradições cm ESG “ a dem ocracia é indispensável, mas tem
seus próprios term os. Além disso, e com o sc viu que ser forte e com ‘guarda-chuva’” (1983, p.
no período pós-64, os m ilitares enfrentam o 4). O Serviço Nacional de Inform ações, SNI te ­
problem a de com patibilizar a dualidade de sta- ria que sofrer um processo de desintoxicação
tus das Forças Arm adas, que é criada pelo exer­ (fora do poder) para não se constituir em desa­
cício direto do poder: o staíus de insl ituiçSo c o fio. Num a perceptiva análise, Góes (1984) an te­
de governo (Stepan, 1971). Aqui o principal cipava a emergência dc um Estado h íb rid o onde
problem a consiste em que a dualidade de staíus civis conviveriam com os m ilitares que penetra­
constitui uma séria am eaça à integridade da ins­ ram no aparelho burocrático estatal, mas ao
tituição. Por exem plo, a ausência de regras for­ m esmo tem po desenhava o quadro do poder
mais para indicação de oficiais à presidência da tentacular do SNI com o instância paralela às
República leva a sérios conflitos e disputas in­ Forças Arm adas stricto sensu. Tam bém alertava
ternas, abala os princípios de disciplina e hierar­ para o fato de que m uito im provavelm ente as
quia; mas, sim ultaneam ente, estes conflitos e I 'orças Arm adas possam vir a ser eliminadas
disputas entre facções m ilitares enfraquecem a com o participantes dos processos políticos; isto
instituição com o governante e debilitam o regi­ ó, há que se interpretar adequadam ente a ex­
me, forçando um a escalada da repressão. Isto pressão “ volta aos q uartéis” , mais uma metáfo-
leva a que setores das Forças Armadas queiram ia do que expressão literal. Mas, e nquanto Gocs
vê-las novam ente fora do poder para se preser­ tala dc preservação de “ capacidade de tutela in­
varem, enquanto ou tro s insistem em que elas se direta do sistema p o lític o ” e de “ parceria com
m antenham no poder seja porque julgam não civis na condução do E stado” (p. 374), Dreifuss
estar term inada a “ m issão” , seja porque criaram e Dulci (1983) referem-se a um a “ postura arbi­
interesses de outra ordem na m anutenção do trai por parte da instituição m ilitar, regulando
regime de governo m ilitar direto. de form a não ostensiva o jogo sócio-político, de
acordo com regras previam ente estabelecidas”
(p. 115). Não deixam de observar, todavia, que
A “ Saída” : Retorno aos Quartéis? estas regras não se acham ainda elaboradas e
que há possibilidades de focos potenciais de
Carvalho escreveu o trabalho clássico sobre a a trito dentro da instituição m ilitar. Isto para o
“e ntrada” dos m ilitares no poder em 1937, e já processo de abertura: para depois, a solução do
existe um a razoável literatura sobre a “en tra d a ” papel das Forças Arm adas na sociedade só virá
de 1964. As análises de “ saídas” são, entre­ de um a discussão interna de suas relações com o
tan to , escassas, e a últim a é ainda m uito recente E stado e a sociedade, e de um d eb ate amplo
para que se possa ter um a avaliação mais ade­ com os diversos segm entos da sociedade.
quada dos seus aspectos especificam ente m ilita­
res. É certo que dispom os de várias análises so­
bre a fase e os processos da “ab ertura” , mas
Perspectivas de uma
seria injusto avaliá-la já em pleno p e río d o de
Sociologia Militar no Brasil
dem ocracia. A este respeito vale a observação
de Bendix segundo a qual sabemos mais sobre o
passado (m esm o o recente) do que teríam os di­ O s estudos sobre a instituição m ilitar no
reito de saber, e assim é m uito forte a tendência Brasil foram quase to d o s feitos sob o estím ulo
em com eter a “ falácia do determ inism o retros­ de intervenções armadas no processo político.
pectivo” . Alguns autores, e n tre ta n to , colocaram Poderia quase afirm ar que o que conhecem os
questões im portantes sobre o com portam ento e sobre os m ilitares é um sub-produto das análises
o papel dos m ilitares nesta nova fase de dem o­ de intervenções. Este é um fato obviam ente
com preensível, mas não deixa de constituir um
cracia plena, em bora tenham escrito seus estu­
dos antes das eleições de m arço de 1985. forte desvio. Afinal, as intervenções m ilitares
são apenas o aspecto mais espetacular do com ­
Escrevendo em 1983, Stepan não via ne­ p o rtam ento da instituição, geralm ente o m o­
nhum projeto da “ linha d u ra” para os anos se­ m en to de explosão de tendências que se for­
guintes, observava a perda de influência da m am ao longo dos períodos de norm alidade:
ESG, mas tam bém m udanças im portantes na frustrações, isolam ento ou reclusão dentro de
doutrina: ela ficou mais flexível, tam bém mais um universo socialm ente estreito, crise perm a­
“a b erta” à nova dinâm ica do Estado e da socie­ n e n te de identidade profissional e assim por di­
dade civil, mas perm anece intolerante à oposi­ ante. À exceção do trabalho de Barros (1978)
ção “ contestadora” . Com o diz Stepan, para a pouco foi estudado sobre as form as de lazer a
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que se entregam os m ilitares, seus hábitos no vocam através das intervenções. E por esta via
âm bito fam iliar, o cotidiano dos quartéis, as co­ talvez até cheguemos a entender m elhor as pró­
m em orações e cerimoniais da instituição e todo prias intervenções. H á um interessante trabalho
o universos sim bólico que m arca a vida do sol­ de Costa (1984) onde ela nos m ostra com o os
dado. É problem ático continuar insistindo so­ encontros (no sentido goffm aniano do term o)
bre o caráter “a b erto ” das instituições m ilitares, entre subalternos rebelados e seus oficiais com-
mas enfatizando apenas a dim ensão p o lítica da põem-se, sim ultaneam ente, de rancor e afeto,
abertura. Alguém observou que do sociologísm o tal com o são os encontros entre pais e filhos.
que consistia em atribuir às lutas e conflitos de Pois bem , o trabalho não faz avançar m uito o
classe a perm anente disposição dos m ilitares em nosso conhecim ento sobre as revoltas de subal­
intervir na arena política, passam os ao extrem o ternos, mas esclarece m uito sobre a com binação
do politicism o que consiste em a tribuir tu d o à de rancor e afeto na vida diária dos quartéis,
natureza do Estado. Mas, num caso com o no ainda que o m arco interpretativo freudiano seja
outro, o problem a sempre foi as intervenções e bastante artificial, e a ênfase esteja na dimensão
a necessidade de explicá-las. Creio que é neces­ m anipulativa (de poder) dos sentim entos.
sário voltar não ao sociologismo, m as à socio­ De qualquer form a, creio que Costa sugeriu
logia para resgatar a instituição m ilitar com o uma linha m uito rica de análise, destas que são
objeto legítim o de análise por si mesma, e não urgentem ente necessárias para a constituição de
pelos traum atism os de toda ordem que elas pro­ uma sociologia das organizações m ilitares.

(Recebido para publicação em m aio de 1985)

Notas
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2. No te x to , as referências às páginas do trabalho de Stepan seguem a num eração da tradução em


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