Você está na página 1de 2

A Dramaturgia Narrativa de Comunidade

Julio Larroyd

A transposição de um texto em prosa para o teatro pode seguir caminhos


diversos na sua constituição: o texto narrativo pode ser um dispositivo para se
pensar uma certa situação, a recriação da trama ou ate mesmo a transposição
fiel do texto para o palco. O diretor de Comunidade, espetáculo livremente
inspirado no livro de Camus, O Estrangeiro, optou pela fidelidade ao texto.
O gênero dramático tem sua base na ação, é isso é o que menos se
encontra no espetáculo. A grande riqueza de Comunidade está na palavra,
naquilo que é dito, mas não é exibido. Se por um lado ele é abundante no
discurso é escasso em teatralidade.
Nessa performance solo, Ismael Canappele rompe com um cânone do
drama: a ação. O que se tem em cena é a fluição do relato existencial de um m.
Meursault contemporâneo.
A proposta de dialogismo com o espectador ancora-se em outra
perspectiva: ao ouvir o relato da personagem, que é feito de maneira linear, o
espectador precisa recorrer à representação imagética que completa a
dramaturgia discursiva.
A opção Canappele pelo não “mínimo de movimento”, conforme transcrito
no programa da peça, é uma forma de dramaturgia que rompe com o tradicional
e em alguma medida, esse pode ser o ponto critico do espetáculo e nesse
sentido, as exibições de vídeos e os recursos midiáticos amezinham essa
percepção a dar uma certa mobilidade à peça.
O que eclode no espetáculo, na minha percepção, é o brilhante texto de
Camus, que serve de interface para a narrativa das experiências pessoais do
ator/diretor. Como que se Ismael encontrasse nas palavras do autor argelino a
sua outra face do espelho, não sendo preciso criar o seu relato vivencial, afinal,
a experiência de ser um estrangeiro fora e dentro de sua pátria, de si mesmo já
fora criada por Camus.
Muitos elementos subjetivos da personagem camoniana estão ali a
indiferença, a incapacidade de estabelecer vínculos e afetos com o outro, o
narcisismo expresso através da apatia dele com as demais personagens, e
porque não dizer com o espectador? Sim! Essa experiência narcísica ultrapassa
a quarta parede e chega ao espectador em um grand finale: ao término do
espetáculo fecham-se as cortinas e Ismael não retorna ao palco. Uma espécie
de suspensão do gozo final da relação entre ator espectador que são os
aplausos. A para aplausos a plateia é silenciada. Fica um “não dito”, estabelece-
se, uma cisão, um hiato na relação estabelecida até então com o espectador.