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Teontologia Básica

João Alves dos Santos

Aula 12: A Triunidade de Deus


Introdução

Nesta aula estudaremos mais um aspecto do ser de Deus, talvez o mais


misterioso e incompreensível de todos. Tudo que vimos até aqui a respeito de
Deus, sua natureza, seus nomes e atributos, diz respeito não a uma pessoa só,
mas a três. Nossa tendência é sempre pensar nesses nomes e atributos revelados
na Bíblia como se referindo apenas ao Pai, mas é preciso ter em mente que a
Divindade subsiste em três pessoas, e tudo que já temos estudado se aplica tanto
ao Pai quanto ao Filho e ao Espírito Santo.

1. O Conceito de Trindade

Não é possível formular um conceito racional da Trindade, pois não há qualquer


elemento de comparação em nosso conhecimento humano a que possamos nos
apegar. Temos que depender inteiramente da revelação bíblica a respeito desse
fato. A doutrina da Trindade é exclusiva do Cristianismo. Nenhuma outra
religião concebe um Deus que subsista em três pessoas distintas, mas que seja um
só ser, um só Deus. Pela natureza misteriosa e incompreensível desta doutrina,
ela tem sido negada e combatida por muitos ao longo de toda a história da Igreja.
E não tem sido diferente em nossos dias.

É preciso admitir, de início, que a doutrina não é ensinada de modo explícito na


Bíblia.
Não há um texto que categoricamente diga que “há três pessoas na Divindade: o Pai,
o Filho e o Espírito Santo; estas três pessoas são um só Deus verdadeiro e eterno, da mesma
substância, iguais em poder e glória, embora distintas pelas suas propriedades pessoais”,
na forma como a doutrina está formulada pelo Catecismo Maior de Westminster
(pergunta 9). Mas isto não quer dizer que a doutrina não tem base bíblica. Ela é
deduzida de inúmeros textos que falam de Deus e que o apresentam como sendo
trinitário, ou, talvez melhor dizendo, que falam de distintas sedes de
personalidade às quais ações e qualidades divinas são atribuídas, como veremos
mais adiante.
2

Na formulação da doutrina os teólogos têm usado termos com significados


específicos. O primeiro e mais básico é a própria palavra “Trindade” (do latim,
Trinitas). O termo não se encontra na Escritura, pois ela não usa termos técnicos
(e nem formula a doutrina, como vimos), conquanto eles sejam necessários nas
formulações teológicosistemáticas. O termo “Trindade” significa “três em um”,
“os três que são um” ou ainda “um que é três” (trinus-unus). Como explica A. A.
Hodge, “ele exprime bem o fato central da grande doutrina de uma só essência
subsistindo eternamente como três Pessoas” [1]. O mesmo Hodge esclarece que
“a palavra grega que significa trindade foi empregada primeiro nesta conexão por
Teófilo, bispo de Antioquia, na Síria, de 168 a

[1] A.A. Hodge, Esboços de Teologia, São Paulo, PES, 2001, p. 220.
183. O termo latino Trinitas foi usado primeiro por Tertuliano, por volta do ano
220 – Eccl. Hist., Mosheim, vol 1, p. 121, nota 1” [2].

Outro termo usado no estudo da doutrina é “substância”. Atualmente a palavra


é usada como sinônimo da essência divina, como vimos na formulação do
Catecismo Maior. Desta forma, afirma-se que as três pessoas têm a mesma
substância ou essência. Mas a palavra já foi utilizada como sinônimo de
“subsistência” ou modo de existência, equivalendo ao nosso conceito atual de
Pessoa Divina [3]. Usada neste sentido, enquanto a Deidade tem uma e a mesma
essência, tem três ”subsistências” ou pessoas. Outros nomes atualmente usados
com o mesmo sentido de substância são “natureza” e “ser”. Dizemos que as três
pessoas têm a mesma natureza e constituem um só ser.

Outra palavra que mudou de sentido ao longo do seu uso teológico foi o termo
grego hypostasis. Etimologicamente ele significa a mesma coisa que a sua forma
latina “susbstância” (sub-stare) ou seja, “estar sob” ou “debaixo de”, daí a ideia
de “aquilo que subjaz” a alguma coisa, ou a “essência” de alguma coisa. É termo
bíblico, usado com a ideia de confiança ou firme convicção em 2 Coríntios 9.4;
11.17 e Hebreus 1.3; 3.13; 11.1. O uso de Hebreus 1.3 é o mais literal,
etimologicamente, pois fala da fé como o “fundamento” ou a “essência” das
coisas que se esperam. A.A. Hodge diz que até meados do século IV a palavra,
quando empregada em relação à Trindade, trazia a ideia de substância e é nesse
sentido que ela é usada nos Credos de Niceia, em 325 A.D. Assim, afirmava-se
que na Trindade há só uma hypostasis. Como alguns a usassem, todavia, como
sinônimo de pessoas, a palavra passou a ter esse sentido, por consenso, a partir
de Atanásio. Hoje ela é usada na forma adjetivada para designar a união de duas
naturezas em uma só pessoa em Cristo, com o nome de união hipostática [4].
3

Ainda uma outra palavra usada nesta conceituação da Trindade é


“subsistência”. Como vimos, ela se distingue de substância, pois enquanto esta
última se refere àquilo que as três pessoas têm em comum, no seu ser, aquela (a
subsistência) se refere ao seu modo de existência, àquilo que as pessoas têm como
propriedades individuais e que as distinguem das demais, como pessoas
distintas. Já vimos que Deus é um ser pessoal e agora temos que ter em mente
que Deus é um ser “tripessoal”, isto é, que de um modo inalcançável ao nosso
entendimento, ele subsiste em três pessoas, embora não sejam três deuses. Deus
é um e Deus é “três”, mas não no mesmo sentido. Deus é um em seu ser
(substância) e três em suas pessoas (subsistência). A.A. Hodge se expressa sobre
esse mistério da seguinte forma:

Esse modo distinto de existência, que constitui a única essência divina coordenadamente
em três pessoas separadas, é um mistério infinito que não podemos compreender e que,
por isso, nos é impossível definir adequadamente, e só podemos conhecê-lo até onde nos
é revelado. Tudo o que sabemos a respeito é que essa distinção, chamada personalidade,
abrange todas essas propriedades incomunicáveis, que pertencem eternamente ao Pai, ao
Filho e ao Espírito Santo, separadamente, e não a todos em comum; que ela é a base para
Eles Se congregarem em conselhos, para Se amarem mutuamente e para atuarem uns sobre
os outros, isto é, para interagirem, como, e.g., para o Pai enviar o Filho, e para o Pai e o
Filho enviarem o Espírito Santo, e para o uso dos pronomes pessoais Eu, Tu, Ele, na
revelação que qualquer das Pessoas faz de Si e das outras [ 5].

[2] Ibid.
[3] A.A. Hodge cita Turretino (Tomo 1, locus 2, perg. 23) como exemplo desse uso (op.
cit., p. 221). [4] Ver A.A. Hodge, op. cit., pp. 221-222. [5] Ibid, pp. 222-223.
Outros termos usados para expressar teologicamente as relações entre as
pessoas da Trindade são “Trindade Ontológica” e “Trindade Econômica”. Por
Trindade Ontológica se quer dizer as distinções eternas e imanentes de
propriedades que as pessoas da Trindade guardam entre si, no que diz respeito
ao seu próprio ser ou essência (daí o termo “ontológica”). Assim, atribui-se ao Pai
as propriedades de “exclusividade” e
“paternidade”, por gerar eternamente o Filho e inspirar eternamente o Espírito.
Ao Filho, a propriedade de “filiação”, por ser eternamente gerado do Pai e
inspirar eternamente, com o Pai, o Espírito. Ao Espírito é atribuída a propriedade
de “processão” ou “procedência”, por proceder eternamente do Pai e do Filho. A
Confissão de Fé de Westminster assim formula essas distinções: “Na unidade da
Divindade há três pessoas de uma mesma substância, poder e eternidade - Deus o Pai,
Deus o Filho e Deus o Espírito Santo, O Pai não é de ninguém - não é nem gerado, nem
procedente; o Filho é eternamente gerado do Pai; o Espírito Santo é eternamente
procedente do Pai e do Filho”. Tais propriedades são deduzidas de passagens como
1 João 5.18 e João 15.26
4

Por Trindade Econômica se quer dizer as distinções de funções que as pessoas


da Trindade guardam entre si, na economia (administração) da obra da redenção.
Esta expressão ‘Trindade Econômica” tem sido considerada como imprópria por
muitos, pois não expressa distinções trinitárias, mas relações diferentes dessas
pessoas na obra específica da redenção.

Até mesmo o que as distinções consensualmente chamadas de trinitárias ou


ontológicas significam não está totalmente claro, a nosso ver, no ensino bíblico.
Certamente não podemos conceber que a ideia de geração, atribuída a Jesus, seja
a mesma que conhecemos e usamos no nosso relacionamento humano. Jesus
Cristo é Deus e Deus não é criado nem derivado de ninguém. Não teve início.
Novamente temos aí uma linguagem de acomodação. A relação Pai e Filho que
encontramos na Trindade não pode ter o sentido de existência derivada (um do
outro), mas provavelmente de comunhão de atributos e de relacionamento
íntimo. A figura mais próxima que conhecemos de igualdade de atributos e de
natureza e de intimidade de relacionamento é a do pai para com o seu filho ou
do filho para com o seu pai. Assim, a primeira pessoa é chamada de Pai e a
segunda de Filho. Quando o Filho é introduzido ao mundo oficialmente para o
seu ministério público, por ocasião do seu batismo, recebe essa proclamação do
Pai: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.” (Mt 3.17).

Da mesma forma, quando Jesus fala que vai enviar, da parte do Pai, o Espírito
da verdade, que dele procede, não sabemos se ele estava realmente se referindo
a uma propriedade distintiva do Espírito ou se estava apenas dizendo que o envio
do Espírito procede do Pai. Os teólogos e as confissões reformadas, em geral, têm
entendido a expressão como se referindo a uma qualidade distintiva do Espírito
[6], mas parece mais

[6] A Confissão Belga, em seu Artigo 8, diz: “A Trindade: Um Só Deus, Três Pessoas: o Pai, o Filho
e o Espírito Santo2). Conforme esta verdade e esta palavra de Deus, cremos em um só Deus1), que
é um único ser, em que há três Pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo 2). Estas são, realmente e
desde a eternidade, distintas conforme os atributos próprios de cada Pessoa. O Pai é a causa, a
origem e o princípio de todas as coisas visíveis e invisíveis3). O Filho é o Verbo, a sabedoria e a
imagem do Pai. O Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, é a eterna força e o poder 5). Esta
distinção não significa que Deus está dividido em três, pois a Sagrada Escritura nos ensina que
cada um destes três, o Pai e o Filho e o Espírito Santo, tem sua própria existência, distinta por
seus atributos, de tal maneira, porém, que estas três pessoas são um só Deus. É claro, então, que
o Pai não é o Filho e que o Filho não é o Pai; que, também, o Espírito Santo não é o Pai ou o Filho.
Entretanto, estas Pessoas, assim distintas, não são divididas nem confundidas entre si. Porque
somente o Filho se tornou homem, não o Pai ou o Espírito Santo. O Pai
natural entender a passagem como falando da procedência do Espírito em seu
caráter funcional de consolador, e, portanto, de natureza econômica. Seja como
for, o que é certo é que nem filiação nem procedência significam dependência ou
5

derivação de existência. Os atributos divinos, especialmente os da eternidade e


aseidade, impedem esse entendimento.

2. Evidências Bíblicas da Trindade

Como dissemos no início, a doutrina da Trindade não é explicitamente ensinada


na Bíblia, mas pode ser deduzida, de modo convincente, de diversos textos
bíblicos, tanto os que dão a entender uma pluralidade de pessoas na Divindade
como os que atribuem personalidade e qualidades divinas às distintas pessoas
que a constituem. É possível também ver uma progressão no modo como este
ensino é revelado nas Escrituras. Ele é menos claro no AT e mais evidente no NT.

A. A Trindade no Antigo Testamento

1. Nomes de Deus no plural

Uma das evidências já sugerida em aulas anteriores é o fato de alguns nomes de


Deus estarem no plural, como é o caso de Elohim e Adonai. Alguns têm entendido
essa forma como o plural de majestade, um modo de referência semelhante ao
que hoje usamos para reis e autoridades, a quem nos dirigimos como “Vossa
Majestade” ou “Vossa Reverendíssima”. Esta é uma probabilidade remota, pois,
como observa Morton Smith, não há qualquer registro do uso de plural de
majestade pelos hebreus, com referência aos reis de Israel ou Judá” [7]. É mais
provável que seja mesmo uma antecipação germinal da ideia da pluralidade de
pessoas na Divindade, mais tarde revelada de modo mais claro na Escritura. É
verdade que não podemos deduzir daí que são três as pessoas, mas, pelo menos,
que são mais de uma.

2. Verbos e pronomes no plural

Alguns dos verbos usados no AT para a ação de Deus estão no plural, assim
como alguns pronomes a eles relacionados. Em Gênesis 1.26 lemos: “Também disse
Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”. É interessante
que o primeiro verbo está no singular, “disse Deus”, embora Elohim seja plural.
Mas o segundo verbo, que descreve aquilo que os teólogos têm chamado de
“conselho da Trindade” na criação, está no plural, “façamos”, e da mesma forma
os pronomes das expressões “nossa imagem” e “nossa semelhança”. De igual
forma, alguns têm visto nestas expressões o “plural de majestade”, análogo ao
plural de modéstia que hoje usamos quando nos referimos a nós mesmos em
expressões como “temos a satisfação de anunciar”, ou coisa semelhante. Já vimos
que esse tipo de uso não é encontrado na
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jamais existiu sem seu Filho6) e sem seu Espírito Santo, pois todos os três têm igual eternidade, no
mesmo ser. Não há primeiro nem último, pois todos os três são um só em verdade, em poder, em
bondade e em misericórdia.
1) 1Co 8:4-6. 2) Mc 3:16,17; Mt 28:19. 3) Ef 3:14,15. 4) Pv 8:22-31; Jo 1:14; Jo 5:17-26; 1Co 1:24; Cl 1:15-

20; Hb 1:3; Ap 19:13. 5) Jo 15:26. 6) Mq 5:1; Jo 1:1,2.”


http://spindleworks.com/library/kroeze/belgic_p0rt.
htm ) [7] Morton Smith, op. cit., capítulo 10.

literatura do AT. Nem poderia Deus estar falando com os anjos, pois eles não
participaram da criação do homem, nem foi o homem criado à imagem e
semelhança deles. O melhor modo de se entender essas formas plurais é ver nelas
o ensino, ainda que embrionário, da doutrina de que Deus não subsiste em uma
só pessoa.

Uso semelhante encontramos em Gênesis 3.22: “Então, disse o SENHOR (Yahweh)


Deus (Elohim): Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do
mal”; em Gênesis 11.7: “Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem”; Isaías
6.8: “A quem enviarei, e quem há de ir por nós?” e Eclesiastes 12.1: “Lembra-te do teu
Criador nos dias da tua mocidade”, onde a palavra “criador”, no texto hebraico, é
uma forma verbal ( no particípio) flexionada no masculino plural. Uma tradução
literal dessa expressão seria “lembra-te dos teus criadores”. Curioso é que em
algumas dessas passagens, como em Gênesis 3.22 e Isaías 6.8, temos uma
combinação de verbos tanto no singular como no plural, sugerindo tanto a ideia
de pluralidade de pessoas como a unidade do ser de Deus.

3. A trindade de pessoas sugerida

Alguns textos do AT também têm sido considerados como sugerindo a


existência de três pessoas na Divindade, tais como: “Os céus por sua palavra se
fizeram, e, pelo sopro de sua boca, o exército deles” (Sl 33.6); “Manda a sua palavra e
o derrete; faz soprar o vento, e as águas correm” (Sl 147.18). Aplicar essas expressões
“sua palavra” ao Filho e “sopro” ou “vento” ao Espírito talvez seja ler mais do
que está no texto, ainda que este entendimento seja possível à luz do restante da
revelação bíblica, mas passagens como a da tríplice bênção araônica (Nm 6.24-
26), quando comparada com a da bênção apostólica (2Co 13.14) e da vinda
profetizada do Messias (Is 11.1-5; 48.16; 53.9–12 e 61.1; 63.9-12) parecem mesmo
indicar uma trindade de pessoas na Divindade. Em alguns, a presença das três
pessoas está claramente delineada, como na declaração profética do Messias, no
Salmo 61.1: “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim” e em Isaías 63.7-11,
onde temos uma referência ao Senhor (Yahweh) como o Deus de Israel, ao “Anjo
da sua face”, que foi o salvador do povo, e ao Espírito Santo que estava no meio
do povo e foi contristado pela sua rebelião.
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4. Qualidades e atos divinos atribuídos às três pessoas, separadamente

Há textos no AT que atribuem às distintas pessoas da Trindade qualidades e


ações que pertencem exclusivamente a Deus, comprovando que, de modo
subjacente, essa doutrina é ensinada. Como não há necessidade de se comprovar
a existência e divindade do Pai, limitar-nos-emos apenas às pessoas do Filho e do
Espírito Santo:

a) Com relação ao Filho

1) É chamado de Senhor (Adon) no Salmo 110.1, conforme já visto na lição 5:


“Disse o SENHOR ao meu senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus
inimigos debaixo dos teus pés” (cf. Mt 22.41-45) e de Deus (Elohim) no Salmo 45.6:
“O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; cetro de equidade é o cetro do teu reino”. O
escritor de Hebreus interpreta essa passagem como se referindo ao Filho (Hb
1.18).

2) É geralmente identificado como sendo o “Anjo do Senhor”, referido em


passagens como Gênesis 16.13; Êxodo 3.2-6; 23.20-22; Números 22.35,38 e Juízes
2.1-2; 6.11.14.

Nestas passagens o “Anjo do Senhor” apresenta-se com características divinas.


Como o
Filho é o revelador do Pai (Jo 1.18), entende-se que este “Anjo do Senhor” seja a
Segunda Pessoa da Trindade, em sua obra pré-encarnada.

3) É geralmente identificado como sendo a sabedoria mencionada em


Provérbios 8. 2231. Embora a sabedoria mencionada na parte anterior do capítulo
possa ser entendida como uma personificação dessa virtude (sabedoria), é difícil
entender a linguagem desses versículos como se referindo a menos do que a uma
pessoa da Divindade: É dito que ela estava com Deus desde a eternidade e era o
seu arquiteto, era a sua delicia e folgava perante ele todo o tempo.

4) Recebe títulos divinos como em Isaías 9.6: “Porque um menino nos nasceu,
um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso
Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”, em Miqueias 5.2: “E tu,
Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá
o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da
eternidade” e em Jeremias 23.6: “Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro;
será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa” (Yahweh –
tsidkenu, cf. aula 5).
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b) Com relação ao Espírito

1) É mencionado como agindo na criação, em Gênesis 1.2: “A terra, porém, estava


sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por
sobre as águas. ”

2) É apresentado como a fonte e o doador da força e da coragem (Jz 3.10; 6.34;


11.29; 13.2,5; 1Sm 11.6; Jó 32.8; Is 11.2), da santidade ((Sl 51.12; Is 63.10); da
profecia (Nm 11.25, 29; 24.2–3; Mq 3.8) e, de modo especial, o assistente e
sustentador da obra do Messias (Is 11.2; 42.1; 61.1).

3) Foi prometido para ser derramado sobre toda a carne no futuro, o que
aconteceu no Pentecostes (Jl 2.28–29; Is 32.13; 44.3; Ez 36.26–27).

4) É referido em termos que se aplicam a uma pessoa distinta de outras, como em


Isaías 40.13: “Quem guiou o Espírito do SENHOR? Ou, como seu conselheiro, o
ensinou?”, Neemias 9.20: “E lhes concedeste o teu bom Espírito, para os ensinar”;
Salmo 51.11: ... “nem me retires o teu Santo Espírito.”; Salmo 139.7: “Para onde me
ausentarei do teu Espírito?”.

5) É chamado de Espírito Santo em passagens como Salmo 51.11 e Isaías 63.10,11.

É preciso admitir que sem a revelação do Novo Testamento não seria possível a
alguém formar a ideia da Trindade de modo claro, tanto que os judeus eram e
ainda são unitarianos (só creem em uma pessoa divina). Mas, à luz da nova
revelação do NT, a verdade desse fato pode ser vista como já presente na
revelação antiga (AT).

B. A Trindade no Novo Testamento

Com a vinda encarnada do Filho e o derramamento do Espírito no Pentecostes,


o fato da existência de três pessoas na Trindade ficou mais evidente. Ainda não
temos, mesmo no NT, uma afirmação explícita da Trindade, como afirmamos no
início da aula, mas não deveríamos mesmo esperar tal afirmação. Da mesma
forma como Deus não “gasta tempo” para provar sua existência, ele não “gasta
tempo” para provar a sua triunidade. Ela simplesmente é apresentada, de modo
natural, nos limites do que é exigido pelo conteúdo da revelação.
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1. A qualidade divina é atribuída às três pessoas

Embora o conceito básico de Deus como um só ser (um só Deus), ensinado no


AT, esteja presente igualmente no NT (Jo 17.3; Rm 3.30; 1Co 8.4) [8], a ideia de
que há mais de uma pessoa na Divindade brota naturalmente de vários fatos da
revelação.

a) Em relação ao Filho

1) Ele é preexistente e a criação do mundo lhe é atribuída. Antes da criação


ele já existia. Em João 1.1. lemos que “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com
Deus, e o Verbo era Deus”. A criação de todas as coisas é atribuída não só ao Pai,
como Deus (representando a Trindade), mas também ao Filho. Em João 1.3 lemos
que “todas as coisas foram feitas por intermédio dele (o Verbo), e, sem ele, nada do que
foi feito se fez” e em Colossenses 1.16 Paulo diz que “nele (no Filho) foram criadas
todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam
soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele”.

2) Ele é chamado de "Deus": “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e
ele será chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco) (Mt 1.23); “No
princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1); “deles são
os patriarcas, e também deles descende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos,
Deus bendito para todo o sempre. Amém!” (Rm 9.5); “aguardando a bendita esperança e
a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tt 2.13); “mas
acerca do Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; e: Cetro de equidade é o cetro
do seu reino” (Hb 1.8); “aos que conosco obtiveram fé igualmente preciosa na justiça do
nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 1.1). Os apóstolos também reconheceram
a sua divindade: “Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado
entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho,
Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1Jo 5.20); “Respondeu-lhe Tomé:
Senhor meu e Deus meu!” (Jo 20.28), etc.

3) Ele recebe títulos divinos: “Senhor” (só o nome “Senhor Jesus Cristo”
ocorre 62 vezes no NT, como em Rm 1.7 e 1Co 1.2), “salvador” (Lc 1.47 e mais 40
outras ocorrências), “Alfa e Omega” (Ap 21.5-6);”Rei” (2Pe 1.11; 1Co15.25; Ap
11.15); “soberano” (Jd 4), etc.

[8] Devemos nos lembrar que os autores do NT eram judeus, com exceção de Lucas, e tinham o
AT como sua Escritura.
4) Ele recebe a adoração que só é devida a Deus: Mt 8.2; 14.33; Fp 2.11; Hb
1.6; Ap 1.5-6; 5.8-14; 7.10.
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5) Ele reivindica ou exerce a mesma autoridade que Deus tem: Mt 28.19; Jo


5.22-23; 14.1; At 7.59-60; 2Co 13.13; Fp 2.9-10.

6) Ele realiza obras divinas como: perdoar pecados (Mt 9.6), ressuscitar e
vivificar os mortos espiritualmente (Jo 5.21); receber as orações dos homens (At
7.60; Rm 10.13; 2Co 12.8-9), conceder a vida eterna (Jo 10.28), enviar o Espírito
Santo (Jo 16.7,14), santificar (Ef 5.26), julgar (2Co 5.10; Mt 25.31-32; Jo 5.22), etc.

b) Em relação ao Espírito

1) Ele é chamado de “Senhor” em 2 Coríntios 3.17-18: “Ora, o Senhor é o Espírito;


e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. E todos nós, com o rosto desvendado,
contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória
em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” . “Senhor”, nessa
passagem, é o equivalente a Yahweh no AT.

2) Ele é chamado de "Deus" em Atos 5. 4: “Então, disse Pedro: Ananias, por que
encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando
parte do valor do campo? Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não
estaria em teu poder? Como, pois, assentaste no coração este desígnio? Não mentiste
aos homens, mas a Deus”. Para Pedro, em sua declaração inspirada, o Espírito
Santo é Deus.

3) Ele realiza obras divinas: conhece as profundezas de Deus e os seus


pensamentos (1Co 2.10-11); revela as coisas de Deus (Lc 2.26; 1Co 2.10) moveu
os autores das Escrituras (1Pe 1.21); regenera espiritualmente (Jo 3.5-7 cf.1Jo
3.9); santifica (1Pe 1.2), impede certas ações humanas e move a outras (Mt
10.16; Lc 2.27; 2.4; At 16.6; At 21.4); assistiu a Jesus em seu ministério terreno,
desde a sua concepção até sua morte e ressurreição (Mt 1.18; 3.16; 4.1; 12.15, 28;
Lc 4.14,18; 10.21; Jo 3.34; 14.17,26; 15.26;16.13; At 1.2); habita no crente,
representando a Trindade (Jo 14.17-23; 1Co 3.16); ensinou os apóstolos (Jo
14.26); deu testemunho de Cristo, depois da sua ascensão (Jo 15.26);
testemunha no nosso coração que somos filhos de Deus (Rm 8.16) e interce por
nós (Rm 8.26).

4) Nenhuma blasfêmia contra ele será perdoada (Mt 12.31) [9].

[9] A blasfêmia contra o Espírito tem sido considerada pelos estudiosos como uma incredulidade
deliberada, ou seja, a recusa deliberada da aceitação de Jesus como o Messias e Salvador, depois
de todas as evidências dadas por Deus, como aconteceu com os judeus incrédulos, que tinham as
11

Escrituras e as obras de Cristo como testemunhas de sua origem divina e de sua messianidade. É
o pecado contra o único remédio que pode salvar o pecador: a fé em Cristo (At 4.12). É pecado
contra o Espírito porque é ele (o Espírito) quem convence “o mundo do pecado, da justiça e do
juízo” (Jo 16.8).

5) Que o Espírito Santo é uma pessoa, e não apenas uma força ou influência
divina, pode ser comprovado pelas atividades que realiza e sentimentos que tem,
alguns já vistos acima, tais como:

a) Ele convence os pecadores; Jo 16.8-11.

b) Ensinou os apóstolos: Jo 16.13.

c) Consolou os apóstolos depois da partida de Cristo: Jo 14.16; 15.26; 16.7.

d) Pode ser entristecido: Ef 4.30.

e) Habita nos crentes: 1Co 3.16.

2. A Trindade pode ser deduzida de passagens que falam claramente


em três pessoas

a) Por ocasião do batismo de Jesus: “Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que
se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E
eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt
3.16-17). Aqui temos o Filho sendo batizado, o Espírito descendo sobre ele em
forma de pomba e o Pai fazendo a declaração do seu amor a ele.

b) Por ocasião da Grande Comissão: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as


nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.19). Aqui
Jesus mandou batizar em nome da Trindade. O batismo estabelece uma relação
do batizando com as três pessoas, igualmente.

c) Na chamada “Benção Apostólica”: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor


de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós” (2Co 13.13). As três
pessoas são mencionadas nesta bênção, que tem sido considerada como a
equivalente no NT à bênção araônica no AT.

d) No ensino da diversidade dos dons: “Ora, os dons são diversos, mas o Espírito
é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há
diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos” (1Co
12.4-6). Aqui três termos diferentes são usados para quem dá os dons, “Espírito”,
“Senhor” e “Deus”, sugerindo as três pessoas da Trindade.
12

e) No ensino da unidade do corpo de Cristo: “há somente um corpo e um


Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só
Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age
por meio de todos e está em todos” (Ef 4.4-6). De novo, os mesmos três termos são
usados, como em 1 Coríntios 12.4-6.

f) No prefácio da 1ª carta de Pedro: “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai,


em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo”
(1Pe 1.2).

g) No final da carta de Judas: “Vós, porém, amados, edificando-vos na vossa fé


santíssima, orando no Espírito Santo, guardai-vos no amor de Deus, esperando a
misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna” (Jd 20-21)

Estes textos são suficientes para mostrar que a doutrina da Trindade é ensinada
no Novo Testamento. Quando afirmamos que esse ensino não é explícito é apenas
no sentido em que não há uma “formulação teológica” da Trindade, assim como
não há uma “formulação teológica” de quem é Deus. Mas a doutrina está
claramente revelada no NT.

3. Formulação da Doutrina

Usamos no início da aula a formulação da Trindade que encontramos no


Catecismo
Maior de Westminster, que consideramos objetiva e adequada: “Ha três pessoas na
Divindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo; estas três pessoas são um só Deus verdadeiro
e eterno, da mesma substância, iguais em poder e glória, embora distintas pelas suas
propriedades pessoais”. Nesta formulação encontramos um resumo do que
discutimos nesta aula e que podem ser reduzidos a três pontos:

A. Deus subsiste em três pessoas distintas

Isto significa que o Pai não é o Filho e nem o Espírito, o Filho não é o Pai e nem
o Espírito, e o Espírito não é o Pai e nem o Filho. A distinção de pessoas é
fundamental para se entender as relações existentes entre elas, que encontramos
na Bíblia. Daí a necessidade de fazer-se diferenciação entre dois aspectos dessa
distinção: o ontológico e o econômico (ou mediatorial). Ontologicamente elas se
distinguem apenas nas suas propriedades e relações como “pessoas separadas
uma das outras” (sedes autônomas de personalidade), na qualidade de Pai, Filho
e Espírito Santo, sem haver qualquer subordinação ou dependência entre si.
Economicamente ou mediatorialmente, elas se distinguem em funções, que
implicam, às vezes, subordinação. É nesse sentido mediatorial que Jesus se
13

apresenta como subordinado ao Pai (Jo 4.34; 5.30; 1Co 15.28) e o Espírito como
subordinado ao Pai e ao Filho (Jo 15.26; 16.7).

Esta distinção entre as pessoas da Trindade têm sido representada por um


gráfico que, embora de modo imperfeito, pode dar uma ideia deste
relacionamento (clique aqui para abrir o gráfico)

Neste gráfico, os círculos externos representam as pessoas distintas e o círculo


interno representa o ser ou a natureza essencial de Deus. Assim, o Pai não é o
Filho nem o Espírito Santo; o Filho não é o Pai nem o Espírito Santo; o Espírito
Santo não é o Pai nem o Filho. Mas o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo
é Deus. Os círculos assim dispostos formam um triângulo, símbolo da Trindade.

B. Cada pessoa é plenamente Deus

A divindade de cada pessoa já foi discutida individualmente. O que é preciso


dizer agora é que não é a soma das três pessoas que constitui a Divindade. Cada
uma das pessoas é Deus, verdadeiro Deus, conforme o ensino bíblico
demonstrado. Os atributos de qualquer das pessoas é atributo de todas as outras.
A formulação acima mencionada as qualifica como “iguais em poder e glória”.

C. Há um só Deus

A pluralidade e distinção de pessoas não implica pluralidade de deuses. De


modo misterioso, e totalmente incompreensível, as três pessoas distintas
constituem um só ser, um só Deus. É o que D. James Kennedy chama de “absurdo
matemático” [10] e de fato o é, para as nossas mentes. Ninguém pode querer
entender ou explicar a Deus em termos matemáticos, pois a equação que teríamos
seria: 1+1+1=1. Se tivéssemos mais de um ser na Divindade teríamos que ser
politeístas (ou triteístas), como de fato as seitas nos acusam de ser. Não temos a
pretensão de explicar isso racionalmente. Apenas nos apoiamos no ensino bíblico
que enfaticamente ensina a unicidade de Deus, tanto no Antigo como no Novo
Testamento: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4, cf.
Mc 21.29); “Como podeis crer, vós os que aceitais glória uns dos outros e, contudo, não
procurais a glória que vem do Deus único?” (Jo 5.44) “ao Deus único e sábio seja dada
glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos. Amém!” (Rm 16.27); “Assim,
ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos.
Amém!” (1Tm 1.17); “ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor
nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos
os séculos. Amém!” (Jd 24); “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e
os homens, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5); “visto que Deus é um só, o qual justificará,
por fé, o circunciso e, mediante a fé, o incircunciso” (Rm 3.30), etc.
14

4. Conceitos Errôneos da Trindade

Nosso espaço não permite uma discussão aprofundada das várias heresias que
surgiram tentando explicar o mistério da Trindade. Iremos aqui apenas
apresentar duas. O fato é que sempre que se quis explicar ou racionalizar o
assunto, acabou-se em desvio do ensino bíblico, por negar um ou mais pontos da
revelação. De um modo geral, quem nega a Trindade é chamado de unitariano,
mas existem diferentes formas de unitarianismo:

A. O Modalismo

É a crença em que aquilo que chamamos de pessoas são apenas modos ou


formas diferentes de Deus se revelar. De acordo com os modalistas, às vezes Deus
se revela como Pai, às vezes como Filho e às vezes como Espírito. Assim, no AT
Deus teria se revelado como Pai, no NT como Filho e depois do Pentecostes como
Espírito Santo. Embora de modo inconsciente, essa crença não está muito distante
do conceito que hoje alguns cristãos têm de Deus. Muitos, embora não negando
a Trindade, costumam dizer que o AT foi a dispensação do Pai, o NT, a
dispensação do Filho e a era atual é a dispensação do Espírito. Daí a ênfase que
se dá ao ministério do Espírito em nossos dias, com orações dirigidas a ele e até
cultos em seu exclusivo (ou predominante) louvor [11]. O modalismo teve ao
longo da história diferentes ênfases e diferentes nomes. Ele

[10] Cf. J. James Kennedy, Quem é Deus, Editora Cultura Cristã, 2000, p. 99. Recomendo a
leitura desse pequeno livro por sua linguagem simples e acessível.
[11] Nossas orações devem ser dirigidas ao Pai (Mt 6.6,9), em nome de Cristo (Jo 14.13-14) e
confiadas na intercessão do Espírito (Rm 6.26) É assim que a Bíblia nos ensina a orar, ainda que
não oramos a uma só pessoa, mas à Trindade. Também nossa adoração ou culto deve ser dirigido
às três pessoas da Trindade e não a uma, em particular, ou de modo preferencial. Como nas
relações econômicas o Pai representa a
é conhecido também como “sabelianismo” (por causa de Sabélio, um pregador
do século III que ensinou a heresia) e “monarquianismo modalista”, não só por
causa do ensino modalista, mas por causa da ênfase em um só “monarca”
absoluto e soberano.

B. O Arianismo

O nome vem de Ário, bispo de Alexandria (c. 250-336 d.C.). Ário negava a plena
divindade do Filho e do Espírito Santo. Para ele, o Filho foi criado antes do
restante da criação e, portanto, não é eterno. É superior ao restante da criação,
mas não igual ao Pai em atributos. Cria que o Filho é “semelhante” ao Pai em
natureza, mas não “igual” ou “da mesma natureza” do Pai. Sua “base bíblica”
15

foram os textos que supostamente afirmam que o Filho foi “gerado” pelo Pai,
como João 1.14; 3.16, 18; 1João 4.9 e, principalmente, Colossenses 1.15, onde Cristo
é chamado de “o primogênito de toda a criação” [12]. A heresia ariana foi
condenada no Concílio de Niceia (325 d.C.) que afirmou que o filho é “da
essência do Pai, Luz da Luz, Deus verdadeiro do Deus verdadeiro, gerado, não
criado, sendo da mesma substância do Pai” [13]. O Concílio de Constantinopla,
em 381, acrescentou a expressão “antes de todas as eras” após “gerado do Pai”
para deixar claro que esse “gerar” não tem sentido temporal, mas eterno [14].

Outras heresias com relação a essa doutrina surgiram e foram combatidas pela
Igreja, e muitas ainda estão aí, presentes em nossos dias. Isto serve para
demonstrar que não tem sido fácil, ao longo da história da Igreja, aceitar de modo
sereno e confiante uma doutrina tão misteriosa, mas ao mesmo tempo tão
verdadeira, das Escrituras.

Aplicação prática

Trindade, dirigimo-nos a ela quando nos dirigimos ao Pai (Jo 4.23). Não estamos com isto
querendo dizer que Deus só ouve a oração feita desta forma ou que só assim se adora a Deus.
Mas estamos dizendo que quando exaltamos uma pessoa, em nosso culto, em detrimento das
outras, estamos demonstrando um conceito errado de Deus e da sua triunidade. Toda ação de
qualquer pessoa da Trindade, em particular, é uma ação de Deus.
[12] O sentido da palavra “primogênito”, no contexto desta passagem, não é o de “primeiro
criado”, como requer a etimologia, mas o de “o mais importante” ou “o que tem a primazia”,
conforme o contexto. Conforme a legislação mosaica, um filho primogênito seria o principal
herdeiro dos bens deixados por seu pai (Dt 21.17). Todavia, a primogenitura em Israel era
um direito que poderia inclusive ser transferido Foi o caso de Jacó, que comprou de seu irmão
o direito da primogenitura, embora ele não fosse o primeiro nascido de Isaque, e mesmo o
caso de Isaque que, embora tenha herdado direito até maior do que o de primogênito (ele
herdou tudo cf. Gn 24.36), não era filho único de Abraão e nem o primeiro. Primogenitura,
com relação a Cristo, assim como geração, nada tem a ver com criação ou início de existência,
mas com direitos e prerrogativas. No v. 18 de 1 Colossenses é explicado o sentido da
primogenitura de Cristo “para em todas as coisas ter a primazia”. Também em Hebreus 1.6,
quando o termo é usado para Cristo, o contexto é o de honra e adoração, não o de nascimento:
“E, novamente, ao introduzir o Primogênito no mundo, diz: E todos os anjos de Deus o
adorem”. Uma boa explicação desse uso bíblico do termo podemos encontrar no Salmo 89.27,
onde Deus diz que vai fazer de Davi (prefigurando a Cristo e seu reino messiânico) o seu
primogênito: “Fá-lo-ei, por isso, meu primogênito, o mais elevado entre os reis da terra”. Davi não
era o primogênito de sua família, mas Deus o faria o “seu primogênito”, o mais “elevado
entre os reis da terra”. Certamente Deus não estava falando apenas de Davi, mas do seu
próprio Filho.
[13] Citação de W. Grudem, op. cit., p. 179, extraída de Philip Schaff, Creeds of Christendom, 3 vs.
(Grand Rapids: Baker, 1983), 1:28-29).
[14] Ibid.
16

Não é uma questão secundária acreditar ou não na Trindade. Jesus deixou claro
que quem não honra o Filho também não honra o Pai (Jo 5.23) e que quem não
crê no Filho está sob a ira de Deus (Jo 3.35) porque não crê no testemunho do Pai
sobre ele (Jo 3.33; 5.37). Se ambos fossem a mesma pessoa, bastaria honrar o Pai
que automaticamente estar-se-ia honrando o Filho. Bastaria ter o Pai para se ter
o Filho. Crer na pessoa do Filho é uma questão que decide o futuro eterno de
alguém. João disse que “Aquele que crê no Filho de Deus tem, em si, o testemunho.
Aquele que não dá crédito a Deus o faz mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus
dá acerca do seu Filho. E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida
está no seu Filho. Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de
Deus não tem a vida” (1Jo 5.10-12). Por outro lado, se Jesus é uma pessoa menor do
que Deus, como creem os arianos, não podemos confiar na sua obra expiatória e
nem adorá-lo. A Bíblia, então, não faz sentido quando diz que todo o joelho deve
se dobrar diante do seu nome (Fp 2.10) e que ele é digno de “receber o poder, e
riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor” (Ap 5.12). Como vimos,
a Bíblia ensina tanto a divindade do Filho quanto a do Espírito. Se o Filho e o
Espírito não são pessoas divinas, não temos um Deus verdadeiro para crer. Seu
testemunho é falso. Não nos sobra alternativa: ou cremos na Trindade ou não
podemos crer no Deus do Cristianismo.

___________________

Leitura obrigatória:

A Trindade - Capítulo 6, por Loraine Boettner.

A Trindade - Capítulo 9, por Loraine Boettner.

Leitura opcional:

Um e Três: Trindade, da Bíblia de Estudo de Genebra.

Uma Breve Definição da Trindade, por James White.

A Divina Trindade, por Herman Bavinck.

A Divina Trindade, por W. E. Best.

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