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História de Portugal em datas/coord. António Simões Rodrigues. 4ª ed.

Lisboa:
Temas e Debates, 2007. 471 p.(Obra completa)

Notas Prévias:
- Unidade de Produção de Informação do Serviço de Apoio ao Estudante com
Deficiência da Universidade do Porto
- Organização da Paginação: rodapé

HISTÓRIA DE PORTUGAL EM DATAS


Coordenador:
António Simões Rodrigues

Autores:
Rui Grilo Capelo
Augusto José Monteiro
João Paulo Avelãs Nunes
António Simões Rodrigues
Luís Filipe Torgal
Francisco Manuel Vitorino

NOTA DE APRESENTAÇÃO

Luís Reis Torgal

«História nova» versus «História velha»... Chamou-se também a esta


«positivista», «factual», «política», «narrativa»... e tantos outros nomes. O certo é
que a revolução teórica e metodológica iniciada, segundo é comum dizer-se, em
1929 com os Annales - ou talvez antes, com Henri Berr e a sua Revue de
Synthèse Historique, ou na realidade mesmo muito antes, em França como em
Itália, na Inglaterra ou na Alemanha, em Portugal como em Espanha, na Europa
como na América.. - procurava ultrapassar os vícios de uma história que parecia
limitar-se a seguir o rumo cronológico, a narrar os factos, a analisar o superficial.
Ao invés, era intento científico dos «novos historiadores» penetrar nos grandes
espaços e nos tempos longos, caracterizar as estruturas e as conjunturas
históricas, fazer uma história social e de profundidade. Então surge, num contexto
de relacionamento interdisciplinar com outras ciências, um novo vocabulário e
processos de observação que se pretendiam diferentes, onde a quantificação
(com a sua magia do rigor matemático) e os modelos teóricos se impunham.
Felizmente, talvez o radicalismo deste debate tenha sido já ultrapassado.
Embora subsistam ainda indefectíveis adeptos da «história estrutural» e «social»
e fervorosos defensores da «história narrativa» e «política», julgo que hoje não se
insiste por demais nesta oposição, como duas realidades consideradas
antitéticas. Creio que se tem geralmente por certo que o estudo dos factos ou das
biografias pode (ou tem de) supor a análise das estruturas e das conjunturas,
assim como o estudo destas não pode desconhecer os factos e as
personalidades; considera-se como verdadeiro que o «político» se tem de
entender na sua relação com o «social» e o «social» na sua Delação??? com o
«político».
Contudo, para se entender melhor a antiguidade e o alcance deste
movimento em Portugal, recorde-se o testemunho sempre respeitável de
Alexandre Herculano, através de um passo da Carta IV das Cartas sobre a
História de Portugal, quando o «pai» da nossa moderna historiografia criticava os
antigos textos de História:

«Em nenhum deles se apercebe, ao menos de leve, por entre as


averiguações de datas, por entre as descrições de batalhas ou de triunfos, de
noivados ou de saimentos de grandes e senhores, que ao lado disso, e dando
individualmente gesto e cor a esses mesmos factos pessoais, passaram gerações
com costumes, crenças e instituições diversas, ou antes opostas em grande parte
às nossas; que dessa sociedade, desses homens, na sucessão das eras e da
natureza, veio a sociedade moderna, veio a geração actual; que para existir a
espantosa diferença de aspecto, que há entre o presente e os tempos primitivos,
foram necessárias grandes revoluções na índole social da nação».

Foi importante que este tipo de crítica se fizesse para trazer à História a
interpretação que lhe faltava, mas saliente-se que nem por isso Herculano, como
os verdadeiros «novos historiadores», deixaram de procurar ser rigorosos na
fixação das datas, de se interessar pela captação dos factos, de caracterizar
personagens. E se a historiografia portuguesa acabou insistentemente por
redundar, durante algumas décadas do século XX, numa «historiografia factual»
com algumas vantagens também em relação ao rigor cronológico e ao interesse
pelas personalidades, situação que foi causadora da discussão tardia e até de um
certo radicalismo doentio de apelo à «História Nova», que se verificou depois de
1974, é porque, indiscutivelmente, o autoritarismo de quase 40 anos abafou a
saudável polémica que deve existir sempre no domínio científico, sob pena da sua
estagnação. Por isso chega a preocupar-me uma certa ideia de consenso que
quase acompanha hoje o labor dos nossos historiadores...

[6]

Mas é inquestionável que dois factores são fundamentais como


coordenadas da História: o espaço e o tempo. Poderá entender-se a História
como predominantemente «política» ou predominantemente «social», mas não
deixaremos nunca de aceitar que ela se insere num espaço maior ou menor (daí o
facto de se falar de conceitos clássicos, como História Universal, História
Nacional, História Local e Regional, hoje de tanto significado, ou de conceitos
novos, como «complexo histórico-geográfico»), num tempo mais curto ou mais
longo, e a cronologia tem uma grande importância. Aliás, não foi por acaso, nem
tal realidade está verdadeiramente ultrapassada, que a primeira cadeira de
História do ensino liceal quando este se organizou no século XIX, se chamou,
mais amplamente (englobando, pois, outras áreas), «Geografia, Cronologia e
História», e que o primeiro curso universitário de História, organizado pela reforma
de 1911, era de Ciências Histórico-Geográficas. E o certo é que essa ligação da
História à Geografia mantém-se na tradição universitária de certos países como é
o caso da vizinha Espanha, onde se encontram em algumas Universidades
Faculdades de Geografia e História.
Os atlas históricos e as cronologias cuidadas - cronologia significa
«ciência» (logos) do «tenpo» (cronos) - continuam, portanto, a ser preciosos e
imprescindíveis instrumentos de trabalho para o historiador, bem como para o
professor e o estudante de História, também como obviamente, para o cidadão
interessado na História por simples curiosidade ou imperativos profissionais. Até
porque se, como já vulgarmente se diz, «a História está na moda», tal não resulta
de meras operações de marketing, mas sim do facto de ela ter alargado tal
maneira o seu campo de acção - e isso deve-se, em boa parte, é justo dizê-lo ao
debate proporcionado pela movimento da «História Nova» (continuemos a
chamar-lhe assim por mais discutível que seja hoje o emprego deste conceito) - a
ponto de se tornar fundamental o seu conhecimento no âmbito de várias áreas
científicas e técnicas.
Se a primeira grande cronologia sobre História de Portugal se deve à
organização de Joel Serrão, que a inseriu no volume IV do seu clássico Dicionário
de História de Portugal, embora depois a tornasse editorialmente independente,
outras cronologias gerais e especializadas ou regionalizadas surgiram, em
particular para a História Contemporânea, de que se destacam, para o caso da I
República, a de Fernando Castro Brandão, e, para o caso da Ditadura Militar, do
Estado Novo e do pós-25 de Abril até 1985, a de João Morais e de Luís Violante.
Esta é mais uma cronologia de História de Portugal. Começou por ser um
mero apêndice à História de Portugal, dirigida por José Mattoso, inserido no seu
volume VIII, mas passou a ter autonomia. E essa autonomia não lhe advém
apenas da sua independência como volume, mas sim do esclarecimento e do
desenvolvimento que lhe foram conferidos por um grupo de historiadores e,
particularmente, por docentes de Didáctica da História e por professores de
História do ensino secundário, muito sensíveis à importância deste auxiliar para o
seu trabalho quotidiano. Com certeza terá defeitos e qualidades como qualquer
outra obra deste género. Esta minha Nota de Apresentação não significa, de
resto, qualquer responsabilidade em relação à sua elaboração ou coordenação.
De qualquer forma, não deixarei de defender esta «dama», pois o esforço
requerido para uma obra deste tipo é, na verdade, muito grande e exige o controlo
quase impossível de uma gama de conhecimentos que não pode deixar de
resultar, na prática, da consulta de textos de segunda mão, onde às vezes se
repetem erros, difíceis de detectar. Além disso, se a História é sempre uma
escolha, uma cronologia histórica também o é, com a desvantagem de ser uma
selecção onde as faltas mais facilmente se detectam.
Coimbra, 23 de Julho de 1994

[7]
(Legenda: Coroa votiva de Recesvinto (Madrid, Museu Arqueológico Nacional).

[8]

ANTES DE PORTUGAL

Rui Grilo Capelo

As referências cronológicas deste período reportam-se aos seguintes temas: o


Passado Proto-Histórico e Romano, a época Sueva e Visigótica, o Garb-al-
Andaluz e Portugal no Reino Asturiano-Leonês.
A presença humana no actual território português revela-se, já no
Paleolítico Inferior, através de várias indústrias líticas como as pré-acheulenses.
Apesar de muitos dados sérios e fiáveis que alguns dos nossos
investigadores têm perseguido e revelado (sobretudo a partir da década de 80), as
dificuldades na concretização de uma cronologia proto-histórica são coincidentes
com a inexistência de uma Pré-História de Portugal.
As balizas temporais de períodos de longa duração, estabelecidos como
Paleolítico Médio e Superior, Epipaleolítico, Mesolítico, Neolítico, Calcolítico,
Bronze (Inicial, Médio e Final), Primeira Idade do Ferro, Segunda Idade do Ferro,
provocam naturais controvérsias face às diversidades regionais e, muitas vezes, à
falta de aferição de critérios entre escolas. Como paradigma exemplar desta ainda
actual realidade, basta observar a abertura de qualquer cronologia (mesmo as
mais recentes) e ver apontado o século V a. C. como a datação provável para o
início da Idade do Ferro em Portugal. Argumentos discutíveis conduzem a essa
constatação, veementemente recusada por autores que defendem uma maior
antiguidade para esta realidade cultural.
Deste modo, aguardando novos desenvolvimentos das investigações em
curso, por parte de arqueólogos e historiadores da Pré-História, parece-nos
correcta a opção de iniciar a cronologia da História de Portugal, a partir do
domínio romano no nosso território.

Antes De Cristo

237 - Após a derrota de Cartago na I Guerra Púnica, Amílcar Barca, vencidos os


conflitos internos, desembarca em Gades, com intenLção de alargar a área de
influência púnica.

218 - O exército romano, sob o comando de Cneio Cornélio Cipião, entra pela
primeira vez na Península Ibérica, como resposta à conquista de Sagunto, por
Aníbal.

209 - Públio Cornélio Cipião, com um golpe audacioso, toma Nova Cartago.

206 - A cidade de Gades, através de um pacto, entrega-se ao poder de Roma.


Com esta rendição, termina a II Guerra Púnica e o domínio cartaginês na
Península Ibérica.

197 - Primeira divisão administrativa romana da Península: Hispânia Ulterior e


Citerior.

c. 194-193
Os Lusitanos revoltam-se contra a dominação romana e iniciam a resistência
armada.

155 - Início da Guerra Lusitana.

[9]
(Legenda: «Pactos» do Castro de Monte Murado, Vila Nova de Gaia.)

150 - Sérvio Sulpício Galba, através de um ardil, derrota os Lusitanos.

147 - Os Lusitanos, chefiados por Viriato, recomeçam a luta contra os Romanos.

140 - Trégua precária entre Romanos e Lusitanos. Viriato é reconhecido como


amicus populi Romani.

139 - Quinto Servílio Cipião reabre as hostilidades e manda assassinar Viriato.

138 - A Hispânia Ulterior começa a ser governada por Décio Júnio Bruto que
fortifica a cidade de Olisipo para servir de base a operações militares.

c. 134-133
Cipião Emiliano conquista Numância na Hispânia Citerior.

80-72 - Período de resistência de Sertório contra Metelo e Pompeu. O chefe dos


Lusitanos acaba por ser assassinado.

61 - O pretor Júlio César assume o governo da Hispânia Ulterior.

56 - Início do governo de Pompeu na Hispânia, no âmbito do triunvirato com


Marco Crasso e Júlio César.

45 - Júlio César derrota os filhos de Pompeu na Batalha de Munda.


44- - Fuga de Sexto Pompeu das Hispânias e início da pacificação definitiva do
território.
Júlio César é assassinado em Roma.

29 - Octaviano Augusto concentra seis legiões na Península para o assalto final


às regiões ainda não ocupadas.

27 - Na Península Ibérica, a província Ulterior é dividida em duas, Bética e


Lusitânia.

25 - Augusto funda a cidade de Julia Augusta Emérita (Mérida), futura capital da


Lusitânia.

19 - Roma consegue, finalmente, o domínio efectivo de toda a Hispânia.

16-13
Reorganização dos territórios provinciais.
Fundação da divisão administrativa dos conventus.

Depois De Cristo

7-9
«Pactos» (Castro de Monte Murado), entre um cidadão romano - D. Júlio Cilo - e
indígenas túrdulos.

68 - Sulpício Galba, legado da Tarraconense, revolta-se contra Roma.


Autoproclama-se imperador da Hispânia com o apoio do legado da Lusitânia.

73-74
Vespasiano, por édito, concede o direito latino aos aglomerados urbanos da
Península Ibérica.

98 - Trajano, natural da Hispânia, é aclamado imperador de Roma.

[10]

c. 182-188
Existência de comunidades cristãs organizadas, e não já simples fiéis isolados.

212 - O imperador Caracala concede a cidadania romana a todos os súbditos do


Império (Constituição Antonina ou Édito de Caracala).

284-288
Nova organização administrativa da Hispânia, sob Diocleciano. Divisão em cinco
províncias: Tarraconense, Cartaginense, Bética, Lusitânia e Galécia, que
perdurará até à perda da Península Ibérica por Roma.
297 - Instituição da Galécia como província separada definitiva, com os três
conventus de Bracara, Lucus e Asturica.

300-304
Concílio de Elvira, o primeiro concílio peninsular referenciado.

303-305
Perseguição de Diocleciano aos cristãos, com várias vítimas na Península Ibérica.

380-385
Repressão eclesiástica contra o priscilianismo.
Medidas do I Concílio de Saragoça que conduziram à execução dos
responsáveis.

400 - I Concílio de Toledo.

407-428
Decretos do imperador Teodósio II contra maniqueus, priscilianistas e donatistas.

409 - Alanos, Vândalos e Suevos entram na Península Ibérica, depois de um


acordo com os partidários de Máximo, pretendente rebelde ao título imperial.

411 - Na sequência de um acordo com o imperador Honório, repartição dos


invasores por zonas de influência. Os Alanos ocupam a Lusitânia e a
Cartaginense Ocidental. Os Suevos e os Vândalos Asdingos ficam na Galécia. Os
Vândalos Silingos ocupam a Bética.

414 - Viagem de Paulo Orósio, clérigo de Braga, a Hipona, para se encontrar com
Santo Agostinho.

415 - Os Romanos, face às pilhagens e depredações praticadas pelos Alanos e


Silingos, pedem auxílio aos Visigodos.

c.415
Baquiário, presbítero de Braga, escreve a obra De fide, retractando-se do
priscilianismo.

419 - Os Vândalos Asdingos atacam os Suevos que conseguem resistir com o


apoio dos Romanos.

420 - Recontro em Braga, entre os Vândalos de Gunderico e os Suevos.

c.427
Idácio, autor de uma Crónica, é ordenado bispo de Chaves.
428 - Suevos e Romanos são derrotados pelos Alanos na Batalha de Mérida.

448 - Requiário, rei dos Suevos, converte-se ao cristianismo.

454 - Os povos hispano-romanos pedem auxílio a Teodorico II, rei dos Visigodos,
contra as incursões suevas.

456 - Teodorico II vence os Suevos na Batalha de Orbigo.

457 - Requiário, rei dos Suevos, é preso e condenado à morte. O reino suevo é
entregue a Agiulfo, cliente do rei visigodo.

467 - Conímbriga é devastada pelos Suevos. A população transfere-se para a


actual Coimbra.

468 - Lusídio, governador romano de Lisboa, entrega esta cidade aos Suevos.

[11]

(Legenda: Ara com referência a Flavia Coninbriga (Condeixa-a-Nova, Museu


Monográfico de Conímbriga.)

470 - Morte de Idácio de Chaves.


Início das campanhas de Eurico, rei dos Visigodos. Anexa grande parte da
Galiza Meridional e Central, da Lusitânia e da Tarraconense.

550 - Conversão do rei dos Suevos, Carrarico.


Chegada de S. Martinho de Dume à corte sueva.
556 - Criação da diocese de Dume por Carrarico.
S. Martinho de Dume é eleito bispo.

561 - I Concílio de Braga: solenização da conversão dos Suevos.

570-574 - Leovigildo, rei dos Visigodos, inicia acções militares que lhe conferem
inteira supremacia sobre a Hispânia.

579 - Morte de S. Martinho de Dume.

585 - Leovigildo incorpora a monarquia sueva no reino visigótico.

[12]

589 - III Concílio de Toledo: conversão oficial do reino visigodo (Recaredo) ao


cristianismo.

599 - Concílio de Barcelona.

624 - Os Visigodos, pela conquista dos últimos territórios bizantinos, dominam


toda a Península Ibérica.

633 - IV Concílio de Toledo sob a liderança de Isidoro de Sevilha.

646 - VII Concílio de Toledo.

656 - X Concílio de Toledo. S. Frutuoso, bispo de Dume, é eleito bispo de Braga.

675 - III Concílio de Braga: artigos de fé e artigos disciplinares.

681 - XII Concílio de Toledo. O bispo de Toledo é nomeado primaz das Espanhas.

710 - Eleição de Rodrigo, último rei dos Visigodos.

711 - Início da islamização da Península Ibérica.


O berbere Taric derrota Rodrigo na Batalha de Guadalete.

713 - I campanha de Muça ben Nusayr, conquistando Medina Sidónia, Sevilha e


Mértola.

714 - II campanha de Muça ben Nusayr. Campanhas de Abd al-Aziz nos


territórios da Lusitânia, conquistando Évora, Santarém e Coimbra.
Os muçulmanos controlam praticamente toda a Hispânia.

718 - Pelágio revolta-se contra os muçulmanos.


722 - Resistência dos Asturianos em Covadonga. O reino das Astúrias
assume protagonismo.

739-757 - Campanhas de Afonso I sobre a Galiza, Alto Ebro e vale do Douro.

740-756 - Revolta dos Berberes da Península Ibérica que desencadeia uma


guerra civil. Esta situação facilita os sucessos de Afonso I.

768-774 - Reinado de Aurélio.

774-783 - Reinado de Silo. Nestes reinados verificam-se dificuldades dos


Asturianos face à resistência da Galiza.

778 - Carlos Magno é derrotado em Roncesvales.

(Legenda: Reconstituição presumível fórum de Conímbriga (Condeixa-a-Nova,


Museu Monográfico de Conímbriga.)

[13]

798 - Expedição de Afonso II até Lisboa.


(Legenda: Fernando I de Leão e Castela e a rainha D. Sancha (Universidade de
Santiago de Compostela, Biblioteca).

839 - Expedição de Afonso II à região de Viseu.

842-850 - Reinado de Ramiro I que alarga o reino asturiano a Navarra.

844 - Os Normandos atacam a Península com incursões a Lisboa, Beja e Algarve.

850-866 - Reinado de Ordonho I. Extensão do reino asturiano até aos limites da


Galiza. Repovoamento de Tui, Astorga e Leão.

866-910
Reinado de Afonso III. Conquista da faixa ocidental da Península até ao Mondego.
Repovoamento de Portucale, Coimbra, Viseu, Lamego e Leão.

868 - Reconquista e repovoamento da zona entre o Minho e o Douro, pelo conde


Vímara Peres.

878 - Coimbra é integrada no reino das Astúrias por acção do conde


Hermenegildo Guterres.

(Legenda: o rei D. Afonso III de Leão cm a rainha Ximena e um bispo (Oviedo,


Arquivo da Catedral).

910 - Partilha de territórios entre os filhos de Afonso III. Ordonho fica com a Galiza
e tem o apoio dos condes portucalenses.

913 - Expedição de Ordonho II a Évora.


916 - Reacção do emir Abd al-Rahman III que culminou com a derrota de
Ordonho II em Valdejunquera.

924 - O papa Leão X envia um legado à Península Ibérica, reconhecendo a


ortodoxia e legitimidade da liturgia visigótica mantida pelos moçárabes.

926-930 - Residência em Viseu, de Ramiro, senhor da Galiza, futuro Ramiro II.


Notícia do casamento de Mumadona Dias com o conde Hermenegildo (Mendo)
Gonçalves.

950 - Mumadona Dias, à morte do marido, reparte os territórios pelos filhos.


Gonçalo Mendes assume a chefia da Terra Portucalense.

[14]

(Legenda: Vista norte da fortificação da Alcáçova de Mértola.)

953 - Grande incursão muçulmana na Galiza.

955 - Ordonho III investe sobre Lisboa.

959 - Doação de vastos domínios e livros ao Mosteiro de Guimarães, por


Mumadona Dias.

961-971 - Intensificação das incursões normandas.

c.962 - Revolta do conde de Portucale, Gonçalo Mendes, contra Sancho I de


Leão.

966 - O conde de Coimbra, Gonçalo Moniz, revolta-se contra Sancho I de Leão.

981-1002 - Campanhas de Almançor, conquistando Coimbra (987) e Santiago de


Compostela (997).
982 - Bermudo II é eleito pelos condes galegos e ungido em Santiago de
Compostela.

987 - Revolta do conde Gonçalo Mendes contra Bermudo II. Derrota dos
revoltosos.

999 - Referências à morte de Mumadona Dias.

1028 - Afonso V morre durante o cerco a Viseu. Sucede-lhe seu filho Bermudo III,
sob tutela navarra.

1035 - Bermudo III, em território português, derrota os muçulmanos em César,


terra de Santa Maria.

1037 - Fernando I, herdeiro do condado de Castela, derrota Bermudo III que é


morto na Batalha de Tamarón. A dinastia navarra substitui os reis de Leão.

1044 - Os Abássidas tomam Mértola.

1056 - Concílio de Compostela.

1057-1058 - Fernando I de Leão e Castela conquista, respectivamente, Lamego e


Viseu.

1063 - O papa Alexandre II prega em Espanha a primeira cruzada. Concílio de


Compostela.

1064 - Reconquista de Coimbra pelo moçárabe Sisnando. Fernando Magno


nomeia-o governador.

[15]

(Legenda: Porta de Almedina (Coimbra).)


1065 - Início do reinado de Afonso VI em Leão, e dos seus irmãos Sancho II em
Castela e Garcia na Galiza e Portucale.

1070 - A Sé episcopal é restaurada em Braga.

1070-1080 - Os costumes cluniacenses são adoptados em muitos mosteiros de


Entre Douro e Minho.

(Legenda: Guerreiros a pé com o seu chefe (Leão, Igreja de São Isidro).)

1071 - Nuno Mendes, conde de Portucale, revolta-se contra Garcia. A Batalha de


Pedroso custou-lhe a derrota e a vida.

1073 - Afonso VI concentra na sua pessoa as coroas de Leão, Castela, Galiza e


Portucale.

1080 - Concílio de Burgos: abolição oficial do rito moçárabe. Sisnando toma parte
na invasão a Granada. O bispado de Coimbra é restabelecido.

1085 - Afonso VI conquista Toledo.

1086 - Os Almorávidas derrotam Afonso VI em Zalaca.

1087 - Primeira vinda do conde D Raimundo à Península. Esponsórios com D.


Urraca, filha de Afonso VI.

1089 - Sagração da nova Catedral de Braga pelo arcebispo Bernardo de Toledo,


primaz de toda a Península.
[16]

(Legenda: O conde D. Henrique e D. Teresa numa pintura do século XVII (Braga,


Biblioteca).)

1090-1091 - D Raimundo casa com D Urraca Afonso VI entrega-lhe o governo do


território da Galiza

1091 - Deposição do bispo de Braga D. Pedro, motivada pela sua nomeação


como metropolita pelo antipapa Clemente III. Morte do conde D Sisnando,
governador de Coimbra

1092 - Tomada de posse do bispo Crescónio de Coimbra, com o triunfo da


introdução da liturgia romana

1093 - O rei de Badajoz entrega a Afonso VI as cidades de Santarém e Lisboa-


Sintra. O governo das mesmas e confiado a D Raimundo, que delega o de
Santarém em Soeiro Mendes da Maia.

1095 - Conquista de Lisboa pelos Almorávidas, com a derrota do conde D


Raimundo.

1096 - Casamento de D Henrique de Borgonha com D Teresa, filha de Afonso VI,


recebendo como dote as terras a sul do rio Minho (condados Portucalense e de
Coimbra). D. Henrique concede foral a cidade de Guimarães.
Sagração em Santarém de Geraldo de Moissac como arcebispo de Braga
pelo primaz de Toledo
1099 - Maurício Burdino e nomeado sucessor de Crescomo, como bispo de
Coimbra

[17]

(Legenda: Estátua de D. Afonso Henriques (Lisboa, Museu do Carmo).)

[18]

Idade Média

Rui Grilo Capelo • Augusto José Monteiro /João Paulo Avelãs Nunes • António
Simões Rodrigues Luís Filipe Torgal • Francisco Manuel Vitorino

Esta sumária introdução à temática medieval visa apenas estabelecer uma ligação
entre o mundo europeu além-Pirenéus e os acontecimentos que marcaram o viver
dos povos peninsulares e sobretudo a realidade portuguesa.
O mundo ibérico, embora enquadrado no espaço europeu, nunca deixou de
ser uma região periférica, com características específicas, fruto do cruzamento de
povos com culturas e civilizações próprias.
Se na Alta Idade Média europeia assistimos ao nascimento dos reinos
germânicos, a períodos de grande instabilidade política, de enfraquecimento do
poder central, de predomínio de uma economia ruralizada, na Península Ibérica,
embora se tenha vivido uma situação análoga, particularmente no Norte, já que no
Centro e no Sul, áreas com ligações privilegiadas aos povos mediterrânicos, não
assistimos a um fenómeno total de ruralização.
A península hispânica, encruzilhada de povos e culturas, que vão da
germânica, da romano-cristã, da romana à judaica e bizantina, gerou uma
mentalidade que no Centro e no Sul não perdeu completamente as características
urbanas, muito mais abertas.
Na Península, ao contrário do que acontecia para além-Pirenéus, o poder
político não se fragmentou tanto, os reis acabaram por conseguir uma articulação
mais afirmativa do seu poder em relação ao poder senhorial.
Os reinos cristãos que se foram construindo a partir da região montanhosa
das Astúrias, dando origem ao movimento da reconquista cristã, souberam
habilmente aproveitar as desinteligências entre Berberes e Árabes. Na verdade
toda a luta pela reconquista desenvolve-se à volta de dois factores, de um lado a
coesão dos cristãos, do outro a menor unidade dos muçulmanos. Quando estes
factores se invertiam, os seguidores de Alá retomavam as posições perdidas. As
fronteiras, logicamente, estavam longe de serem linhas definidas, as flutuações
eram constantes.
Sem nos perdermos nessas lutas entre cristãos e mulçumanos, nem tão-
pouco nas rivalidades havidas nos reinos cristãos saídos desses confrontos,
apenas nos limitamos a recordar que Fernando, o Magno, em 1064, levava a
fronteira até à linha do Mondego, conquistando a importante cidade de Coimbra.
No século seguinte, seu filho Afonso VI de Leão e Castela conseguia, através do
esforço militar, da ajuda dos cavaleiros francos e da política de alianças com os
príncipes muçulmanos divididos, estender a sua zona de influência até ao Tejo.
Desenvolvia-se a ideia de um Império Hispânico, onde Afonso VI imporia a sua
autoridade.
Entre os cavaleiros francos, muitos dos quais oriundos da aristocracia,
vieram D. Raimundo e D. Henrique que acabariam por casar com as filhas de
Afonso VI, respectivamente D. Urraca e D. Teresa. A D. Raimundo seria dada a
tenência da Galiza que se estendia até ao Mondego, enquanto a D. Henrique
seria concedido o Condado Portucalense, em 1096. Seria deste condado que iria
nascer o futuro reino de Portugal.
Quer o conde D. Henrique, quer sua mulher D. Teresa, tentaram libertar-se
dos laços feudais que prendiam o condado ao rei de Leão. A intromissão da
família galega dos Travas provocou a revolta da nobreza nortenha portucalense
que em S. Mamede (1128) afastou D. Teresa do poder e o entregou a seu filho
Afonso Henriques.
Este lutou em três frentes: libertar-se dos laços de vassalagem em relação
ao seu primo AlfonsoVII, rei de Leão e Castela, e imperador das Hespanhas;
alargar o território na luta contra os Mouros; e, finalmente, pela via diplomática,
prestar vassalagem à Santa Sé, conseguindo desta o reconhecimento do reino de
Portugal.

[19]
À medida que se consolidava o reino de Portugal, Guimarães antiga
residências dos condes, era substituída por Coimbra, que se tornaria no centro da
Monarquia a partir de 1131. Ali, a corte encontrou apoio no importante centro
cultural que foi o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, fundado em 1131, e
directamente subordinado à Cúria Romana.
Em 1145(6) D. Afonso Henriques casou com Matilde, filha do conde de
Sabóia, facto que revela o contacto com países do Centro da Europa. -=
Nestas lutas contra os muçulmanos, D. Afonso Henriques e os seus
continuadores contaram com o importante auxílio das cruzadas que se dirigiam à
Palestina. Também obtiveram o apoio de ordens militares, estas constituídas por
monges soldados disciplinados e bem armados que tiveram um papel importante
nas lutas da reconquista e na fixação das populações nas áreas fronteiriças de
maior risco.
A conquista de Santarém, tomada de assalto em Março de 1147 e a de
Lisboa que se renderia em 24 de Outubro do mesmo ano, dois centros urbanos e
comerciais importantes, e ainda a ocupação das praças fortes de Sintra, Almada e
Palmela, consolidara a posição do rei, assegurara o domínio cristão da linha do
Tejo, abrindo o caminho para investidas em direcção ao sul.
O desastre de Badajoz (1169), que não só o impede de tomar essa praça
estratégica, como o faz cair prisioneiro do rei de Leão, vai-lhe limitar a sua futura
actividade guerreira , por incapacidade física.
Entretanto, os Almóadas atacam e reconquistam praças alentejanas, pondo
em perigo a linha do Tejo.
O início do reinado de D. Sancho I será marcado pelo desenvolvimento de
intensa actividade guerreira, primeiro na fronteira islâmica contra os Almóadas e
depois na fronteira leonesa. As guerras em várias frentes tornaram a situação
difícil, particularmente os muçulmanos reocupavam muitas das praças perdidas e
punham em perigo a linha do Tejo, chegando a cercar Santarém em 1184.
Este estado de guerra levou à necessidade de repovoar as regiões
fronteiriças, concedendo cartas de foral, atraindo assim populações. Também as
ordens militares foram fundamentais para resistir às investidas do inimigo e fixar
as populações.
As dificuldades vividas no reino nos finais do século XII e princípios do
seguinte com fomes, pestes e outras calamidades faziam aumentar as tensões
sociais, onde se confrontavam oficiais régios, burgueses, clérigos e os bispos de
Coimbra e do Porto.
D. Afonso II foi um defensor dos direitos régios, estabelecendo uma política
de centralização jurídico-administrativa inspirada nos princípios do direito romano,
por influência de canonistas como Vicente Hispano. As medidas do rei
agudizariam os conflitos que vinham do reinado anterior com a nobreza e o clero.
Em 1211 a chancelaria régia ao inventariar os bens da coroa, tentava
controlar os abusos senhoriais.
A política de centralização de poder vai continuar com D. Sancho II, mas
cada vez mais se agravam os conflitos com a hierarquia da Igreja, interessada em
manter os seus privilégios.
Embora neste reinado se tenha iniciado a fase final da reconquista, os
conflitos com os bispos portugueses agravam-se, apresentando estes queixas ao
papa Inocêncio IV. A Santa Sé vai responsabilizar D. Sancho II pela anarquia
reinante em Portugal. O monarca acabaria por ser destituído e o trono entregue a
seu irmão Afonso III, que marcará o fim da reconquista portuguesa.
Em 1258 D. Afonso III continuando a política de centralização, ordenou
Inquirições Gerais, fundamento da profunda obra de reorganização administrativa.
Em 1217 entravam as ordens mendicantes em Portugal que tiveram um
papel decisivo na divulgação da cultura e até na conciliação da sociedade
desavinda.
D. Dinis ao continuar a política dos seus antecessores mais directos, teve
de enfrentar no princípio do seu reinado a oposição de uma parte da nobreza,
mas o rei inflexível ia-se impondo, apoiando-se na população e nos concelhos.

[20]

A paz política que se seguiu permitiu o desenvolvimento económico do


país, o aperfeiçoamento do aparelho administrativo do Estado.
São desta época numerosas medidas de apoio ao desenvolvimento do
comércio interno e externo. A nível interno o rei fomenta o desenvolvimento das
feiras francas, que tiveram um papel importante no crescimento económico e na
articulação da agricultura com o comércio. No plano social as feiras contribuíram
para o aproximar das gentes, formar o espírito de comunidade e até o espírito
nacional.
Em 1293, D. Dinis confirmava a bolsa marítima, destinada a custear os
prejuízos dos naufrágios. A actividade dos portos marítimos cresce, Lisboa
tornava-se numa grande cidade mercantil. Mas outros acontecimentos
importantes se verificaram neste reinado. Em 1297, o Tratado de Alcanizes definia
as fronteiras portuguesas, praticamente as que hoje temos. Anos antes, em 1290
era criada a Universidade portuguesa expressão do desenvolvimento cultural que
acompanhou o crescimento económico e animação do mundo urbano.
A guerra civil que marcou os últimos anos do reinado de D. Dinis era
resultado das divisões reinantes no seio da nobreza. O mal-estar social
generalizava-se, as transformações económicas tinham agitado a sociedade, as
exigências dos diferentes grupos sociais faziam recrudescer os conflitos. Nada era
como dantes. O homem nobre tinha em muitos casos, contra vontade, de
renunciar à sua dignidade, e trabalhar como se fosse vilão. Se os nobres
empobreciam já o mesmo não se pode dizer dos mercadores das cidades ou os
grandes lavradores que ao afirmarem o seu poder económico não tardaram a
entrar em conflito com o povo da cidade ou do campo.
O reinado de D. Afonso IV confirma o rumo da centralização, ainda mais
consolidada com D. Pedro I, «amado pelo povo e temido pelos grandes».
A Europa viveu no século XIV uma grave crise económica, fruto de
condições climatéricas adversas, de calamidades como a fome e a peste. A
quebra demográfica fez oscilar as estruturas sociais. A guerra, a exigência dos
exércitos permanentes, o reforço da autoridade régia, a importância crescente dos
impostos reais faz agudizar os conflitos sociais.
Portugal não fugiu a este contexto, o insucesso das guerras fernandinas
contra Castela, provocaram um descontentamento geral agravado com o
casamento do rei com Leonor Teles. A morte do rei, o casamento de sua única
filha com o rei de Castela, a acção da regente levaram à revolta popular que
acabaria por colocar o Mestre da Avis no trono de Portugal e modificar, em pouco
tempo a situação social e política do país. Afirmada a independência nacional
depois da Batalha de Aljubarrota, vemos os mais importantes lugares da
administração pública serem ocupados por uma nobreza renovada, que pouco
tinha a ver com a nobreza tradicional.
No campo da cultura, a revolução também se fez sentir, caminhamos para
uma cultura essencialmente laica, para o apagamento da cultura trovadoresca
galego-portuguesa. Avançamos no sentido de uma literatura histórica, de uma
literatura de pendor educativo destinada à formação moral, intelectual e prática
dos governantes.
A dinastia de Avis abriria a Portugal novos caminhos, a conquista das
praças marroquinas e a expansão atlântica. Também os rumos desta nova política
expansionista provocaram desinteligências no seio da sociedade portuguesa,
agudizadas no período da regência de D. Pedro (1439-1448) e culminadas com a
Batalha de Alfarrobeira. Seria com D. Afonso V, um rei ainda impregnado de
espírito feudal, que se iriam concretizar as conquistas africanas, mudar o rumo da
expansão portuguesa e consolidar o poder de uma nobreza até então
enfraquecida.
Portugal com D. João II voltar-se-ia, tal como pretendera o infante D.
Pedro, para a expansão marítima que fez aproximar continentes, povos e
civilizações.
O românico, o primeiro grande estilo medieval europeu, exprimia entre nós
o espírito de cruzada, a época da Reconquista. Os templos com o seu aspecto de
fortaleza são pesados e sóbrios. A sua planta tinha a forma de cruz latina,
simbolizando o Cristo crucificado. A sobriedade das formas era apenas atenuada
pelos frescos e pela escultura, meio utilizados

[21]

para levar, pela imagem, a mensagem cristã. A arte românica desenvolveu-se


sobretudo no Norte e Centro do país, a partir do século XII.
Se nas cidades mais importantes se construíram catedrais, segundo as
directrizes dos arquitectos vindos de além-Pirenéus como aconteceu em Coimbra,
Braga, Lisboa, Porto e Évora; se nalgumas regiões se ergueram edifícios
conventuais segundo as normas da arquitectura cluniacense; seria no mundo
rural, onde se erguem pequenos templos, que podemos encontrar o mais
característico românico português.
A partir do século XIII com o crescimento económico, com o desabrochar
do mundo urbano, com o novo espírito difundido pelas ordens mendicantes,
assistimos à passagem do românico para o gótico. O estilo ogival, localizado mais
no Sul do país, desenvolveu-se até ao século XV, reflectindo novas soluções
arquitectónicas, acentuando a verticalidade das linhas, abrindo o interior a uma
grande luminosidade, graças aos vitrais das amplas janelas e das monumentais
rosáceas. A luz interior vai realçar a enorme riqueza decorativa desta arte.
O Mosteiro da Batalha, cuja construção se iniciou no século XIV, tornou-se
na mais bela e harmoniosa expressão do gótico português.

1100 - Viagem a Roma do arcebispo de Braga, D. Geraldo, para obter do papa,


Pascoal II, a dignidade metropolítica para a Sé de Braga, a título definitivo. D.
Geraldo levou a efeito um conjunto de reformas a nível eclesiástico, moral e
administrativo, conseguindo, desta forma, aniquilar os focos de resistência anti-
romana na sua diocese. A autonomia eclesiástica de Braga seria o prenúncio da
independência do Condado Portucalense.
[Setembro] Auxílio do conde D. Henrique a Afonso VI, rei de Leão, na sua
qualidade de vassalo, na Batalha de Malagón, contra os Almorávidas.

1101 - Delimitação papal das fronteiras da diocese de Coimbra.

1102 - Eleição de Diego Gelmírez, antigo escriba do conde D. Raimundo de


Borgonha (Senhor da Galiza), para arcebispo de Santiago de Compostela. Foi um
dos maiores prelados compostelanos: reformou o cabido, concluiu a catedral,
começada em 1077 pelo seu antecessor, engrandeceu a sua diocese com bens e
privilégios e conseguiu que esta ficasse isenta de Braga e fosse elevada a
metrópole pela transferência para ela das dioceses sufragâneas de Mérida.
Diego Gelmírez, arcebispo de Santiago de Compostela, organiza o roubo
das relíquias dos santos mais venerados em Braga, com o fim de eliminar esta
cidade como centro de peregrinação que o bispo Pedro aí pretendera criar e
transferir para Compostela a supremacia eclesiástica sobre a antiga província da
Galécia.

1103 - Viagem do bispo de Braga, D. Geraldo, a Roma, obtendo confirmação da


jurisdição sobre todas as dioceses da Galiza, nomeadamente, Astorga,
Mondonedo, Orense, Tui e, ainda em Portugal, sobre o Porto, Coimbra, Lamego e
Viseu.
Batalha de Vatalandi, perto de Santarém, entre muçulmanos e cristãos,
com a morte de Soeiro Fromarigues, senhor de Grijó.

[22]
(Legenda: D. Afonso VI, rei de Leão (Catedral, Santiago de Compostela).)

1105 - Pacto sucessório entre o conde D. Henrique e o conde D. Raimundo pelo


qual, por morte de D. Afonso VI, o primeiro reconhecia o segundo como o legítimo
herdeiro dos reinos de Leão, Castela e Galiza e prometia defendê-lo contra
qualquer homem ou mulher, na qualidade de seu vassalo. Raimundo, por sua vez,
jurava conceder a Henrique o território de Toledo, com um terço dos seus
tesouros, ou o reino da Galiza.

1105 - [Março] Nascimento de Afonso Raimundes, filho do conde D. Raimundo e


de D. Urraca, posteriormente coroado rei da Galiza e imperador D. Afonso VII.

1107 - Morte do conde D. Raimundo da Borgonha.

1108 - Morte de Soeiro Mendes da Maia, protector da rainha D. Teresa, e o mais


categorizado auxiliar do conde D. Henrique, ficando encarregado de o substituir,
na qualidade de autoridade máxima do Condado Portucalense durante as suas
longas ausências.
Morte do arcebispo de Braga D. Geraldo, depois de um governo curto mas
intenso, em que reorganizou a escola da catedral e o cabido, continuou as obras
da Sé, recuperou bens eclesiásticos usurpados, reformou o culto e a liturgia com
a introdução do rito romano e recuperou, para a sua igreja, os direitos de
metrópole de toda a província de Galiza. Sucedeu-lhe Maurício Burdino,
personalidade porventura mais maleável, já que durante o exercício das suas
funções não se verificaram conflitos graves com os seus diocesanos de Coimbra
e Braga.

1109 - Morte de Afonso VI, segundo filho de Fernando Magno e da rainha


Sancha. Foi rei de Leão, Castela e Galiza e intitulado imperador de Espanha.
1109-1110 - Viagens de D. Henrique a França para consultar o abade de Cluny
acerca das decisões tomadas pelas Cortes de Toledo, onde se procurou resolver
o problema da sucessão ao trono, após a morte do conde D. Raimundo.

(Legenda: D. Raimundo de Borgonha (Catedral, Santiago de Compostela).)

[23]

1110 - Intriga do arcebispo de Santiago de Compostela, Diego Gelmírez,


empenhado em acabar com a concorrência de Braga como centro de
peregrinação, levando à destruição da parte já construída da Sé desta diocese,
pelos maiorinos da condessa D. Teresa.

1111 - Revolta em Coimbra de moçárabes, liderada por Martim Moniz, contra a


autoridade do conde D. Henrique. O conde aceita as principais reivindicações dos
antigos dirigentes moçárabes sublevados, concedendo o foral à cidade.
Ofensiva almorávida que originou a reconquista de Santarém e ameaçou
Coimbra.

1112 - Atribuição pelo conde D. Henrique dos forais de Sátão, Soure, Tavares e
Azurara da Beira, com o objectivo de reforçar os privilégios das comunidades
locais e para as encorajar a participar na defesa do território cristão, então
gravemente ameaçado pelos Almorávidas.
[Abril] Morte do conde D. Henrique, senhor do Condado de Portucale na cidade de
Astorga, tendo determinado que o seu corpo fosse sepultado em Braga.

1113 - Restauração da diocese do Porto e sagração episcopal do arcediago Hugo


de Compostela, fiel clérigo do arcebispo de Santiago Diego Gelmírez.
1115 - Participação de D. Teresa, viúva do conde D. Henrique, na cúria régia de
Leão. Isenção da diocese do Porto em relação à metrópole bracarense.

1116 - [Abril] O Bispo do Porto obtém da cúria papal a colocação da diocese de


Lamego sob a sua administração.

1117 - Invasão almorávida que ameaçou gravemente Coimbra e os seus


domínios. Os Mouros forçaram os habitantes do Castelo de Soure, que defendia a
cidade pelo sul, a abandonar o lugar, tomaram Miranda do Corvo e o Castelo de
Santa Eulália, a jusante de Montemor-o-Velho.
D. Teresa, viúva do conde D. Henrique, começa a usar nos documentos o
título de «rainha».

1118 - Eleição como arcebispo de Braga, de Paio Mendes, proveniente da


nobreza portucalense. Depois de um período em que as principais dioceses
portuguesas foram entregues a bispos franceses, os altos postos da Igreja
passam a ser confiados a clérigos pertencentes às famílias nobres da região.

1120 - Concessão papal de direitos sobre dioceses da antiga Lusitânia ao


arcebispo de Compostela. Este facto levou a intermináveis questões entre Braga e
Compostela, que haviam de prolongar-se durante quase toda a Idade Média.

1121 - Início do desempenho de funções governativas no Condado Portucalense,


por Fernão Peres de Trava, membro eminente da

(Legenda: Conde D. Henrique de Borgonha (Catedral de Santiago de


Compostela).)

[24]
nobreza galega. Desempenhou funções militares de vigilância junto à fronteira
muçulmana e terá vivido maritalmente com D. Teresa. O seu papel preponderante
na corte portucalense afastou dela os principais membros da nobreza nacional,
acentuou a oposição do arcebispo de Braga, grande adversário de Diego
Gelmírez, e acabou por suscitar a revolta aberta dos barões portucalenses
quando estes obtiveram o apoio do infante Afonso Henriques.
Invasão e saque de Portugal pelas tropas de D. Urraca, rainha de Leão e
Castela e de Diego Gelmírez, arcebispo de Compostela. Este facto foi de grande
humilhação para D. Teresa, que teve de recuar e de se refugiar no Castelo de
Lanhoso, onde acabou por se submeter a sua irmã D. Urraca.
Viagem do arcebispo de Braga, Paio Mendes, a Roma para defender os
seus direitos contra o arcebispo de Santiago de Compostela. Em Junho de 1121
conseguia o reconhecimento papal dos direitos metropolíticos sobre as dioceses
de Viseu, Lamego e Idanha que pertenciam anteriormente à província de Mérida,
e que deviam ser, por isso, teoricamente sufragâneas de Compostela. No
regresso da sua viagem, foi preso por D. Teresa, conseguindo a sua libertação
graças à intervenção do papa.
Afastamento da corte de D. Teresa dos representantes das mais poderosas
e prestigiadas famílias nobres do Condado Portucalense, nomeadamente os
senhores de Sousa (Soeiro e Gonçalo Mendes), os de Ribadouro (Ermígio, Egas
e Mendo Moniz), da Maia (Paio Soares), e ainda Sancho Nunes de Barbosa, um
nobre de origem galega, todos favorecidos pelo conde D. Henrique com cargos da
maior confiança.

1122 - Casamento de Urraca Henriques, filha de D. Henrique e de D. Teresa, com


Bermudo Peres de Trava, membro da poderosa família nobre dos Travas da
Galiza.

1125 - Data provável da investidura de D. Afonso Henriques, armado cavaleiro em


Zamora.

1126 - Morte de D. Urraca e coroação de Afonso Raimundes como rei de Leão e


Castela.

1127 - [Abril] Acordo de Paz por tempo determinado entre D. Teresa, Fernão
Peres de Trava e Afonso VII em Zamora.
[Setembro-Outubro] Afonso VII invade a Galiza e submete as forças de D.
Teresa, que recusava prestar-lhe serviços de vassalagem e pretendia exercer
autoridade sobre Portugal e o condado de Toronho.
Cerco de Guimarães por D. Afonso VII com o objectivo de exigir de D.
Afonso Henriques a prestação de serviços de vassalagem. A oposição de Afonso
Henriques aos invasores contou com a colaboração empenhada dos nobres
portucalenses, facto que contrastou com a passividade de Fernão Peres de Trava.
Conquista por Afonso Henriques dos castelos de Neiva e Feira, na terra de
Santa Maria, a sua mãe D. Teresa.
1128 - [Março] Tentativa de pacificação entre D. Teresa, Fernão Peres de Trava e
a nobreza portucalense revoltada.

(Legenda: D. Urraca, rainha de Leão e Castela (Catedral, Santiado de


Compostela).)

[25]

[Junho] Batalha de S. Mamede. Este confronto decisivo saldou-se pela


vitória de D. Afonso Henriques e dos barões portucalenses, que rejeitaram a
autoridade dos Travas no condado e escolheram o infante para seu chefe. A
facção vitoriosa, ao afastar Fernão Peres e D. Teresa, recusava-se a aceitar a
política da alta nobreza galega e do arcebispo de Compostela e reclamava a
inviabilidade de um reino que englobasse a Galiza e Portugal.

1129 - Entrega, por D. Afonso Henriques aos Templários, do Castelo de Soure,


que defendia as cidades de Coimbra das invasões sarracenas vindas do Sul.

1130 - Expedição de D. Afonso VII a Portugal, a que se associou o arcebispo de


Compostela, Diego Gelmírez, e alguns condes galegos, para exigir de D. Afonso
Henriques o abandono das regiões galegas de Límia e Toronho.
Morte da condessa D. Teresa, mãe de Afonso Henriques.

1131 - Início da construção do Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, que surgirá


como o centro cultural mais original e importante do princípio da nacionalidade e
tornar-se-á senhor de direitos eclesiásticos em Leiria e de grandes domínios em
todo o vale do Mondego, nas faldas setentrionais da serra da Estrela e numa
vasta área em redor de Coimbra.
D. Afonso Henriques abandona Guimarães, antiga residência dos condes
de Portucale, e faz de Coimbra o centro das suas deslocações através dos seus
domínios. Coimbra torna-se então a «capital» da monarquia que em breve se iria
formar.

1134 - Introdução da regra de Santo Agostinho e suas observâncias em muitos


mosteiros antigos do Norte do país, que pertenciam, em grande parte, a famílias
da nobreza local média e inferior.

1135 - Construção do Castelo de Leiria por D. Afonso Henriques, facto que se


enquadra numa política militar ofensiva que visava combater os castelos de
Santarém, Sintra e outros da mesma região. Os Mouros reagiram violentamente,
acabando por arrasar o castelo em 1140.

(Legenda: D. Afonso Henriques agradece a intervenção divina na Batalha de


Ourique (Capela do Salvador, Terroso, Póvoa de Varzim).)

[26]

Morte de Ermígio Moniz, irmão de Egas Moniz, que desempenhava funções


de grande importância sobre o território do condado. A sua morte marca o fim da
concentração de cargos curiais de grande responsabilidade nas principais famílias
da nobreza no Norte.

1136-1145 - Egas Moniz, pertencente a uma poderosa família de Entre Douro e


Minho, uma das trinta que originaram a nobreza de Portugal, desempenha o
importantíssimo cargo de alferes-mor de Afonso Henriques.

1137 - Ocupação por D. Afonso Henriques dos condados de Toronho e Límia, na


Galiza.
[Julho] Assinatura de um tratado de paz em Tui, entre D. Afonso VII e D.
Afonso Henriques. Foi um pacto feudal não demasiado rígido em que Afonso VII
se contentava com uma garantia vaga de fidelidade, considerando o seu primo
como vassalo de origem régia, o que reforçaria o seu título de imperador. Afonso
Henriques, por seu lado, submetia-se astuciosamente ao acto e continuava a
governar o condado sem grande oposição.

1139-1140 - Batalha de Ourique, onde as forças de D. Afonso Henriques obtêm a


sua primeira grande vitória contra os muçulmanos. Afonso Henriques adquire nela
particular prestígio, passando desde então a intitular-se rei.

1140 - Destruição do Castelo de Leiria pelos muçulmanos.

1141 - Nova invasão de Toronho por D. Afonso Henriques que não desiste de se
apoderar de territórios situados na fronteira galega. D. Afonso VII dirige-se com o
seu exército para a Galiza, acabando por entrar em confronto com D. Afonso
Henriques perto de Valdevez.

(D. Afonso VII, de Leão e Castela (Catedral, Santiago de Compostela).)

1143 - Conferência de Zamora. Tratado de paz celebrado entre Afonso Henriques


e D. Afonsonso VII de Leão, na presença do legado papal Guido de Vico, depois
do qual é reconhecido ao infante português o título de rei.
Homenagem vassálica de D. Afonso Henriques ao papa, colocando-se a si
e ao reino de Portugal sob a protecção de Roma em troca de um censo anual de
quatro onças de ouro.

1144 - Ataque ao Castelo de Soure pelos muçulmanos.


1145 - Casamento de D. Afonso Henriques com Mafalda, filha do conde Amadeu
II de Sabóia e Piemonte.

1147 - Conquista de Santarém por D. Afonso Henriques após operação


«relâmpago» que terá eventualmente contado com a colaboração alguns
habitantes da cidade.

[27]

Conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques com o auxílio dos cruzados.


Depois desta cidade seguiu-se o domínio de Sintra, Almada e Palmela,
importantes fortalezas necessárias à defesa de Lisboa.

1148 - Restauração por D. Afonso Henriques a conselho de D. João Peculiar,


arcebispo de Braga, das dioceses de Lisboa, Viseu e Lamego, pertencentes
outrora à metrópole de Mérida e que, portanto, deveriam ser sufragâneas de
Santiago de Compostela. Os bispos nomeados para estas cidades foram
sagrados pelo arcebispo de Braga o que suscitou os protestos de Afonso VII junto
da cúria romana.

1151 - Tentativa frustrada de conquistar Alcácer do Sal.


Tentativa de aliança do almóada Ibn Qasi, governador de Silves, com D.
Afonso Henriques contra Abd Al-Mumin, senhor do Garb. A aliança viria, porém, a
custar a vida a Ibn Qasi, assassinado pela população de Silves, no mesmo ano.

1153 - Fundação da abadia cisterciense de Alcobaça que ocupou um vasto


domínio concedido pelo rei. O seu propósito era povoar uma região pouco
habitada, mas fértil, da Estremadura e proceder à sua organização.

1154 - Tentativa fracassada de resolução dos conflitos entre Braga e Santiago de


Compostela, efectuada em Tui pelo legado pontifício, cardeal Jacinto.

1157-1169 - Concessão de forais a vários concelhos perto da fronteira leonesa. A


criação nesta zona de municípios autónomos, dotados de privilégios, destinava-se
a formar as malhas de uma rede defensiva contra as possíveis agressões
militares leonesas a partir de Cidade Rodrigo.

1158 [ou 1160] - Conquista de Alcácer do Sal por D. Afonso Henriques, com o
auxílio de alguns cruzados, após um cerco de dois meses.
Assinatura do Pacto de Sahagún, entre os reis D. Fernando II, de Leão, e
D. Sancho III, de Castela, celebrado depois da morte de Afonso VII. O acordo
estipulava a divisão entre os dois reis da zona muçulmana a reconquistar e a
partilhar o reino de Portugal, se viessem a apoderar-se dele. Contudo, a morte de
Sancho III no mesmo ano veio comprometer o ataque comum de leoneses e
castelhanos contra Portugal.
1159 - Nova ocupação de Tui, capital do condado de Toronho, por D. Afonso
Henriques.
Doação do rei português, à Ordem dos Templários, do Castelo de Ceras,
com todos os seus termos, incluindo Tomar, onde vieram a edificar o seu
convento e castelo.

1160 - Doação de povoações no Centro de Portugal a colonos francos.


Início da construção do Castelo dos Templários, em Tomar.
Início da edificação da Sé de Lisboa.

(D. Afonso VII, de Leão e Castela (gravura do século XVIII).)

[28]

Assinatura do tratado de paz no mosteiro beneditino de Celanova, na Galiza,


entre D. Afonso Henriques e Fernando II, comprometendo-se o primeiro a restituir
a cidade de Tui e o respectivo território, promessa que não veio a cumprir.

1162 - Ocupação do território galego de Límia pelo rei de Portugal.

1163 - Ocupação de Salamanca por D. Afonso Henriques.

1165 - Celebração do Tratado de Paz de Pontevedra entre os reis de Portugal e


de Leão, selado com a promessa de casamento da 2ª filha de Afonso Henriques,
Urraca Afonso, com D. Fernando II, e, posteriormente, o abandono definitivo do
rei de Portugal de Tui. É provável que por essa ocasião os dois reis tivessem
também chegado a acordo sobre as áreas de conquista portuguesa e leonesa em
território muçulmano.
Conquista definitiva de Évora aos muçulmanos por Geraldo, Sem-Pavor,
que, agindo por sua conta e risco, com um bando de salteadores marginais e
aventureiros, tomou aos muçulmanos várias cidades alentejanas e espanholas.
1166 - Concessão do foral de Évora, o único que está, relacionado com a última
fase da reconquista afonsina, e que foi ditado pelo propósito de atribuir privilégios
a habitantes de um lugar expostos a perigosos ataques dos inimigos muçulmanos.
Conquista de Serpa, Juromenha e Montánchez por Geraldo, Sem-Pavor.
Estas conquistas integram-se numa campanha militar ambiciosa que visava
dominar Badajoz, grande centro militar muçulmano nesta zona da fronteira.
Casamento de Urraca Afonso, segunda filha de Afonso Henriques com
Fernando II de Leão.
Doação, por Afonso Henriques, aos Templários de um terço das terras que
conquistassem no Alentejo.
Aprisionamento de Afonso Henriques por Fernando II de Leão, depois da
tentativa frustrada da conquista de Badajoz. O rei de Leão concedeu-lhe a
liberdade depois de lhe exigir que cessasse os ataques a esta cidade.
Superintendência do infante D. Sancho, filho de Afonso Henriques, em
alguns aspectos da governação do reino.
Afastamento de Pêro Pais da Maia do cargo de alferes-mor de Afonso
Henriques, eventualmente relacionado com o desastre de Badajoz, ou com a
entrega da governação do reino ao infante D. Sancho. Incompatibilizado com o rei
de Portugal, passou ao reino de Leão, onde D. Fernando II lhe confiou o mesmo
cargo na sua corte.

1170 - Concessão de foral aos muçulmanos livres de Lisboa e de outras


povoações ao sul do Tejo, por Afonso Henriques.

1172 - Estabelecimento da ordem de Santiago em Portugal, sendo-lhe concedido


Arruda e, talvez pela mesma data, Alcácer, Almada e Palmela.
Cerco provável de Beja por Geraldo, Sem-Pavor. A cidade foi assaltada de
surpresa,

(Legenda: D. Sancho I).)


[29]

arrasada, incendiada e em Janeiro de 1173 abandonada pelas forças cristãs.


. Afonso Henriques associa seu filho, D. Sancho I, no governo do reino.

1173 - Celebração de um Pacto de Tréguas entre Yusuf I, imperador almóada, e


os embaixadores régios de Portugal.

1174 - Casamento de D. Sancho, herdeiro da coroa de Portugal, com D. Dulce,


filha de Raimundo Berenguer IV, rei de Aragão. Esta cerimónia permitiu o
reatamento da aliança entre os dois reinos.
Repovoamento de Beja pelos Almóadas e reconstrução das suas
muralhas, facto que consolidava uma importante posição militar dos muçulmanos
face à cidade de Évora, já dominada pelos cristãos.

1175 - Separação matrimonial de Fernando II, de Leão, de Urraca Afonso, irmã de


D. Sancho I, por pressão da Santa Sé e dos eclesiásticos do seu reino. Este
acontecimento gerou uma prolongada questão acerca dos domínios leoneses que
D. Urraca tinha recebido como dote, que culminou numa guerra aberta entre os
dois reinos.
Criação por Afonso Henriques, ou Sancho I, em Évora, de uma ordem
militar portuguesa, que adoptou os costumes e as regras da ordem castelhana de
Calatrava e que passou a desempenhar um importante papel na defesa da cidade
face à crescente ameaça muçulmana.

1178 - Importante expedição do infante D. Sancho em território muçulmano, que


alcançou e destruiu os arredores de Sevilha, na margem direita do rio
Guadalquivir.

1179 - Reconhecimento do título de rei a Afonso Henriques pelo papa Alexandre


III, através da bula Manifestis Probatum. Este diploma tomava o rei e os seus
herdeiros sob a protecção da Santa Sé, declarava Portugal como um reino
pertencente a S. Pedro e prometia o auxílio papal para a defesa da dignidade
régia.
Organização da defesa de Lisboa pelos freires de Évora, pertencentes à
futura Ordem de Calatrava, em virtude dos crescentes ataques marítimos
muçulmanos sofridos pela cidade.
Concessão pelo rei de Portugal de novos forais a Lisboa, Évora e
Santarém, a partir de um modelo criado para esta última cidade. Este foral,
permitiu organizar melhor a vida económica e a administração, destes centros
urbanos e facilitar a fixação das populações em locais ameaçados pelo inimigo,
assegurando assim a sua defesa contra novos ataques.

1179-1181 - Ataques mouros a várias praças do Sul de Portugal, nomeadamente


Abrantes, Coruche, Évora e Lisboa, que exigiram por parte dos Portugueses um
reforço da defesa, do território dominado.
1180 - Derrota do infante D. Sancho na Batalha de Arganal, junto a Cidade
Rodrigo, perante o exército do reino de Leão. Este facto levou os Portugueses a
abdicarem temporariamente de reaver os territórios localizados na região do
Ribacoa.

1182 - Julião Pais era nomeado, por D. Afonso Henriques, chanceler-mor. A este
funcionário da cúria régia, estava confiado o selo real com que eram autenticados
os diplomas régios. O chanceler tinha funções muito amplas, controlando os
diversos funcionários administrativos e ocupando chefia da magistratura. Tendo
origem no reino de Leão, insere-se na progressiva organização e implantação da
máquina administrativa do poder.

1184 - Os Almóadas reconquistam os territórios até à linha do Tejo. Dado o facto


de se encontrarem ainda pouco consolidadas as fronteiras a sul do Tejo, eram
frequentes os ataques dos Mouros. O emir de Marrocos, Yusuf I, preparou uma
grande expedição que atravessou o estreito de Gibraltar em Maio de 1184,
dirigindo-se a Sevilha onde se juntaram milhares de homens de armas. Daí
partiram os ataques à li nha fronteiriça do Tejo chegando a cercar Santarém, que
contudo, não caiu nas mãos dos invasores.

[30]

1185 - Falecia, a 6 de Dezembro, D. Afonso Henriques subindo ao trono D.


Sancho I que seria aclamado rei três dias depois, em Coimbra. D. Sancho I
prosseguirá a política do pai no reforço da defesa fronteiriça e, também, no
recomeço da ofensiva. é de destacar o esforço realizado para atrair habitantes às
regiões conquistadas, atribuindo cartas de foral de forma a consolidar o
repovoamento.

1186 - D. Sancho I faz doação de Almada, Palmela e Alcácer do Sal à Ordem de


Santiago. Inserido no esforço de reconquista e repovoamento, são feitas
importantes concessões às ordens militares, cujos cavaleiros eram disciplinados e
dispunham de bom armamento, fundamental para enfrentar a cavalaria
muçulmana. Eram criados os concelhos de Gouveia e Covilhã e, nesse mesmo
ano, nascia o futuro rei D. Afonso II (filho de D. Sancho I e da rainha D. Dulce).

1185-1186 - Criação da diocese de Évora, que seria consagrada em 1204.

1186-1188 - D. Sancho I, continuando a sua política de povoamento tentou atrair


habitantes às povoações da fronteira, face ao perigo de incursões vindas de
Cáceres e de Badajoz. Concedeu forais a várias povoações como Gouveia e
Covilhã em 1186, Viseu, Avô, Folgozinho, Bragança e Penarroias em 1187, e
Valhelhas em 1188.
1189 - D. Sancho I aproveitando a passagem de uma armada de cruzados,
alemães e dinamarqueses, pelo porto de Lisboa, com o seu auxílio conquistou a
costa algarvia. São conquistados os Castelos de Alvor, Silves e Albufeira.

(D. Afonso IX, de Leão (Catedral, Santiago de Compostela).)

[31]

A partir desse momento D. Sancho I passa a intitular-se Rei de Portugal e dos


Algarves.

1190 - Os Almóadas, sob o comando de Almansor, atacaram com três exércitos


as posições portuguesas. Um dos exércitos cercou Silves que conseguiu resistir.
Outro avançou sobre Évora, tendo sido repelido. O terceiro exército, comandado
pelo califa, atacou Torres Novas e Tomar, tendo a primeira destas praças sido
destruída. O lento avanço das tropas muçulmanas ia dando possibilidade aos
camponeses de recolherem as colheitas e de se protegerem nos castelos.

1191 - Nova incursão almóada, sob o comando de Almançor, reconquistando


Silves, Alcácer do Sal, Palmela e Almada. Com estas conquistas Lisboa e
Santarém ficavam à mercê das investidas muçulmanas a partir de Alcácer. O
território português ficava, assim, consideravelmente reduzido, e das praças a sul
do Tejo, apenas Évora ficou nas mãos dos Portugueses. Cidade de fronteira,
Évora constituía um importante entreposto de comércio, pelo que a sua
manutenção interessava a ambas as partes. Na sequência da importância das
ligações entre os reinos cristãos da Península, D. Teresa, filha de D. Sancho I,
casa com D, Afonso IX de Leão.
[Maio] Em Huesca, foi assinado um acordo entre os reis de Portugal, Leão e
Aragão contra o rei de Castela.

1192-1210 - Portugal foi assolado por várias fomes e pestes. Estas calamidades
teriam sido provocadas pelas invasões almóadas e pela guerra com o reino de
Leão. Estando nós perante uma economia de base agrícola, facilmente se
compreendem os efeitos negativos das catástrofes naturais ou dos efeitos
devastadores da guerra. Na sequência das pestes que assolaram o reino, morre a
rainha D. Dulce, em 1198.

1192 - D. Sancho I concede foral a Penacova. Nesta época aparece referenciada,


em Portugal, a existência de moinhos de vento.
D. Sancho I, revelando preocupações culturais concede uma importância
de quatrocentos morabitinos ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra para que
mande alguns dos seus monges estudar em França.
Entre 1192 e 1195 D. Sancho I outorga forais a Marmelar, Pontével, Povos
e S. Vicente da Beira. Concede, ainda, à Ordem de Santiago de Espada, a torre e
os paços da alcáçova de Santarém. No ano seguinte, concede o edifício de
Santos-o-Velho à mesma Ordem de Santiago. Doa, também, aos Hospitalários
a região de detesta, para aí construírem o Castelo de Belver.

1194 - As nossas relações com o Norte da Europa, designadamente com Bruges,


são confirmadas pela notícia do naufrágio de um navio português, carregado de
madeira, azeite e melaço.

1195 - Dando sequência a uma política de povoamento de regiões estratégicas,


D. Sancho I concede doações a estrangeiros (Francos e Flamengos). A povoação
de Pontével foi concedida a colonos franceses. Nos anos que se seguem, são
concedidas as terras de Montalvo de Sor e Azambuja a colonos flamengos e
Sesimbra a colonos francos com outorga de foral. D. Sancho I repovoa o Castelo
de Leiria, concedendo à região a categoria de município.
Nesse mesmo ano nascia, em Lisboa, a mais conhecida figura da cultura
portuguesa do tempo, Sto. António de Lisboa. Nascido numa família de
mercadores, ingressou no Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra. Aí tomou contacto
com o centro de cultura de nível europeu. Homem culto, conhecedor da filosofia
grega, abriu-se à contemplação da natureza, de acordo com o espírito
franciscano. Na Itália as suas pregações mereciam o elogio dos teólogos pela
clareza e profundidade da cultura revelada, aprendida no Mosteiro de Santa Cruz.

1196 - D. Sancho I celebra um tratado de aliança com Afonso VIII de Castela,


Afonso II de Aragão e o rei de Navarra. Trava-se uma

[32]

guerra entre D. Sancho I e o rei de Leão, concedendo o papa ao monarca


português, e aos seus exércitos, as mesmas indulgências outorgadas pela Santa
Sé aos que combatiam os infiéis.
(D. Afonso II)

1197 - D. Sancho I conquista as praças de Tui e Pontevedra.

1197-1206 - Continuando uma política de defesa e tentativas de consolidação de


fronteiras. D. Sancho I concede aos templários várias povoações fronteiriças
(Idanha, Açafa e Idanha-a-Nova).

1198 - Combates fronteiriços, contra os Leoneses, nas regiões da Beira Alta e


Trás-os Montes, onde perderam a vida alguns membros das mais importantes
famílias da nobreza portuguesa.

1199 - O papa Inocêncio III intervém no diferendo entre a Sé de Braga e a de


Santiago de Compostela, determinando que as dioceses do Porto, Coimbra,
Viseu, Tui, Orense, Mendonhedo, Lugo e Astorga fiquem dependentes da
metrópole bracarense.
Concessão de foral à Guarda.
Chega a Portugal uma embaixada inglesa do João Sem-Terra, para pedir a
mão de uma infanta portuguesa.

1200 - Benavente é povoada pela Ordem de Calatrava. O mestre desta ordem


concederia carta de foral a Coruche.

1207-1210 - Agitação envolvendo o rei de um lado, a nobreza, o bispo do Porto, e


posteriormente o de Coimbra, do outro. Insere-se nos conflitos de vária ordem que
marcaram os finais do reinado de D. Sancho I. O litígio do rei com os bispos,
resultava da indefinição entre os dois poderes. Estes conflitos com a Igreja
culminaram com a excomunhão do rei português pelo papa Inocêncio III.
1210 - Testamento de D. Sancho I, pelo qual o rei isenta o clero de serviço militar,
excepto em caso de invasão mulçumana. O rei concilia-se com os bispos do Porto
e de Coimbra.

1211 - [26 de Março] Falece D. Sancho I, sucedendo-lhe D. Afonso II. Este


monarca nascido em Coimbra em 1185, era filho varão de D. Sancho I e de Dulce
de Aragão. Foi o monarca um defensor dos direitos régios, estabelecendo os
fundamentos de uma política de centralização jurídico-administrativa, inspirada
nos princípios do direito romano. Defendia a supremacia da justiça régia em
relação à senhorial e a autonomia do poder civil perante o poder eclesiástico.
A chancelaria régia ao inventariar os bens da coroa possibilitava um maior
controle dos abusos senhoriais.
D.Afonso II expediu cartas de confirmação em que procurava ratificar todas
as concessões e doações de privilégios concedidos pelos monarcas seus
antecessores. A partir de 1220, o rei, a quem faltava um cadastro dos bens da
coroa em certas regiões dominadas pela senhoralização, mandava proceder às
Inquirições. Afonso II

[33]

reúne a cúria donde provavelmente terá saído a 1ª Lei de Desamortização que


proíbe aos mosteiros e ordens religiosas a compra de bens fundiários excepto
para fins previstos. Este ano os conflitos fronteiriços na fronteira sul eram
constantes. Os Almóadas atacavam e conseguiam ocupar Salvaterra, um
poderoso castelo-fortaleza da Ordem de Calatrava.
a luta contra as prerrogativas senhoriais de suas irmãs, D. Afonso II viu-se
envolvido em guerra com o rei Afonso IX de Leão a quem as infantas D. Teresa,
D. Sancha e D. Mafalda tinham pedido auxílio. Os exércitos leonês e o de nobres
exilados portugueses atacavam o Norte, ocupando grandes áreas da região
transmontana.

1212 - Em virtude do conflito com as infantas e o incumprimento do testamento de


D. Sancho I, os juízes pontifícios excomungaram o rei e lançaram um interdito
sobre o reino. Mais tarde, o papa ordenava aos juizes a absolvição do rei.
Afonso II e o rei leonês celebraram um tratado de paz. Afonso II não
empreendeu grandes expedições para alargamento do território, porque
provavelmente estava preocupado com a segurança fronteiriça das regiões
transmontanas e beirã. Mas dentro da política dos seus antecessores, procurando
garantir a segurança do país, foi concedendo às ordens militares grandes áreas
nas regiões da Beira Baixa e Alentejo.
Em 1217, os Portugueses conquistavam aos Almóadas definitivamente
Alcácer do Sal, com o auxílio dos cruzados frísios e alemães.

1215 - Morre o chanceler Julião Pais sucedendo-Ihe o seu discípulo Gonçalo


Mendes.
(Legenda: D. Sancho II)

1217 - Rei Soeiro Gomes funda o 1º convento dominicano em Portugal, na serra


de Montejunto, perto de Alenquer. Os franciscanos também terão chegado a
Portugal por esta altura, tendo fundado eremitérios nos Olivais em Coimbra, em
Guimarães e em Alenquer. Mas, pouco a pouco, foram -se espalhando pelo país.
As ordens mendicantes, dominicanas e franciscanas, tiveram grande importância
entre nós, graças a uma grande aceitação popular e de se dedicarem ao
apostolado nos centros urbanos ao contrário dos conventos beneditinos
cistercienses virados para os meios rurais. Foram muitas vezes os intérpretes das
directivas da Santa Sé, como também serviam de árbitros nos conflitos entre
religiosos, ou entre a Igreja e a Coroa. No campo do ensino a sua influência foi
enorme. A teologia, mesmo na Universidade esteve a cargo dos seus monges.
E começavam os conflitos entre D. Afonso II e a Santa Sé, porque o
monarca pretendia manter o exercício do poder fiscal e judicial nos territórios
submetidos, não aceitando a quase total isenção dos clérigos.
Entrada em funcionamento do primeiro livro de registo oficial dos diplomas
régios.

1218 - A bula Manifestis Probatum, do papa Honório III, confirma a D. Afonso II os


privilégios a Portugal pela Santa Sé. O papa Honório III põe termo ao litígio entre
o arcebispos de Braga e de Toledo, já que este último pretendia ser o primaz de
toda

[34]

a Península. D. Afonso II faz sujeitar ao dízimo eclesiástico todos os seus


rendimentos nas dioceses de Braga, Coimbra, Porto, Lisboa, Viseu, Lamego,
Idanha e parte portuguesa de Tui.
Afonso IX de Leão continua nas suas investidas contra a região fronteiriça
de Trás-os-Montes.
A vitória de Afonso VIII em Navas de Tolosa contra os muçulmanos deu-lhe
supremacia militar sobre outros reinos cristãos peninsulares. Daí ter conseguido
convencer o rei de Leão a retirar-se dos territórios portugueses.

1219 - Celebrou-se o Tratado de Baronal, consagrando a aliança entre D. Afonso


II e D. Afonso IX de Leão contra o novo rei de Castela, Fernando III. Os conflitos,
no entanto, entre Portugal e Leão só acabariam em 1230, depois da morte de
Afonso IX. As coroas de Leão e Castela uniam-se e o objectivo principal
passava a ser a luta contra o poder muçulmano.

1221 - Santo António de Lisboa assiste em Assis à reunião do Capítulo Geral da


Ordem Franciscana, com a presença do fundador da Ordem, S. Francisco.

1222 - É consagrado o mosteiro cisterciense de Alcobaça. D. Afonso Henriques


doara àquela Ordem extensos territórios para que os seus monges os
arroteassem, e ali fixassem população. A construção do primitivo mosteiro terá
começado em meados do século XII. Este mosteiro abriu, em 1269, a 1ª escola
pública. A sua biblioteca onde trabalhavam copistas, foi famosa. Não foi menos
importante a sua acção de ensinar aos camponeses novas técnicas de exploração
agrícola e de aproveitamento dos produtos. Foi também notável a sua actividade
no campo da assistência.

1223 - Morre D. Afonso II, sucedendo-lhe D. Sancho II, nascido em Coimbra, em


1209. Filho de D. Afonso II e D. Urraca, neto do rei de Castela Afonso VIII. Tinha
13 anos e de acordo com o testamento paterno ficaria até à idade de governar (14
anos) sob tutela dos grandes senhores: chanceler Gonçalo Mendes, o mordomo-
mor Pedro Anes e o deão de Lisboa, Mestre Vicente. Estas personalidades
levaram o jovem monarca a reconciliar o poder real com a Igreja.

1226 - D. Sancho II aproveitando as guerras de Afonso IX de Leão contra os


muçulmanos, tentou conquistar Elvas sem êxito. A derrota de D. Sancho II teria
provocado o agravamento das relações entre os partidários do rei e os seus
adversários. A vitória do primeiro levou para o exílio o infante D. Afonso.

(Legenda: Santo António (Lisboa, Museu Nacional de arte Antiga).)


[35]

1229 - D. Sancho II ocupa Elvas, concedendo-lhe foral. Os avanços prosseguiram,


conquistando Juromenha.
Os Leoneses, entretanto, apoderaram-se de Badajoz, tornando a fronteira
muçulmana muito mais frágil. As tropas cristãs puderam então avançar mais
facilmente pelos campos alentejanos.

1231 - Morre em Pádua, Santo António de Lisboa, uma das figuras mais notáveis
da Igreja e da Cultura do seu tempo.
Celebra-se o Acordo de Sabugal, entre D. Sancho II e Fernando III, pelo
qual nos era devolvida Chaves.

1232 - Iniciava-se a fase final da reconquista com a tomada de Moura e Serpa.


Provavelmente ainda nesse ano Beja seria incorporada no território português.

1234 - Conquista de Aljustrel.

1238 - Conquista de Mértola e Alfagar de Pena.

1239-1240 - Conquista definitiva de Aiamonte e de Caceia.

1240 - Conquista de Alvor.

1242 - Conquista de Tavira e Paderne.

1243 - Bispos portugueses apresentavam queixa ao papa Inocêncio IV sobre a


desordem reinante em Portugal, onde os oficiais régios abusariam da sua
autoridade, perante a incapacidade do rei exercer um papel conciliador. Os
desencontros do rei com as autoridades eclesiásticas já vinham de longe, o papa
Gregório IX, por queixa do bispo de Lisboa, em 1231, em bula, decretava
interdição do país. As lutas entre membros da nobreza eram constantes, os
conflitos dos bispos com as ordens mendicantes agravavam-se, e o rei mostrava-
se impotente para pacificar a sociedade portuguesa. O conde Afonso de Bolonha
vai em peregrinação a Santiago de Compostela. Bispos portugueses, ricos-
homens e povo teriam pedido ao papa um governador para o reino e sugerido o
nome de Afonso de Bolonha.

1245 - [Fevereiro] Ordem papal para a separação de D Sancho II e D. Mécia


Lopes de Haro por terem casado sem dispensa de consanguinidade. Era uma
forma de evitar que o rei tivesse filhos legítimos, o que iria complicar ainda mais a
situação.
[Março] Publicação da bula Inter Alia Desiderabilia responsabilizando D.
Sancho II pela anarquia em Portugal.
[Julho] Declaração de D Sancho II como rex inutilis pelo papa, no Concílio
de Lipon, face às acusações dos bispos portugueses.
[Agosto] Lide de Gaia em que os partidários de D. Sancho II venceram os
seus adversários.
[Setembro] D. Afonso, conde de Bolonha, celebra um pacto com os bispos
portugueses, onde faz promessas genéricas.
[Dezembro] D. Afonso chega a Lisboa em plena guerra civil. O príncipe
Afonso de Castela, o futuro Afonso X, militarmente apoiava D Sancho II e pela via
diplomática acusava o conde de Bolonha de violências injustificadas. Os
trovadores da época dão conta das traições de vários alcaides de castelos da
Beira.
Pedro Hispano, nascido em Lisboa, faz os seus estudos na escola
catedralícia, seguindo depois para Paris, onde completou os seus estudos
leccionando na Faculdade de Artes. Em Siena (1245), leccionou medicina, sendo
considerado um homem formado em todos os ramos do saber, na verdade
cultivou filosofia, a medicina, a teologia e a matemática. Em 1276 era escolhido
para papa, tomando o nome de João XXI.

1247 - O conde de Bolonha era derrotado em Leiria. Mas a partir daí, D Sancho II
foi sendo abandonado. O príncipe de Castela regressava ao seu país e talvez com
ele o próprio D Sancho II.

[36]

1248 - D. Sancho II morre desterrado em Toledo, subindo então ao trono seu


irmão, o conde de Bolonha, D. Afonso III. Este monarca era filho de D. Afonso II e
D. Urraca. Em França, viveu na corte de Luís IX, onde teve a oportunidade de
desenvolver a sua cultura e aprender a gerir negócios públicos. Casou com D.
Matilde, condessa de Bolonha, por isso foi elevado à dignidade de conde e
vassalo de Luís IX.

(Legenda: D. Afonso III)


1249 - D. Afonso III toma Faro, Albufeira, Porches e Silves, marcando o fim da
reconquista portuguesa.

1250-1251 - Guerra entre Portugal e Castela pela posse do Algarve.

1250 - Afonso III reúne as Cortes em Guimarães ouvindo as queixas do clero


contra o banditismo e desordem em muitos lugares do reino e contra as violências
dos funcionários régios.
A implantação da ordem iria custar alguns conflitos com os grupos
privilegiados.

1252-1254 - Os bispos do Porto e de Coimbra e o Mestre dos Templários estavam


em conflito com o rei por continuarem os abusos dos funcionários régios. A
reclamação que fizeram junto do papa valeu ao monarca uma censura (Agosto de
1254).

1253 - O papa insistia para que fosse estabelecida a paz entre Castela e Portugal,
sendo nesse ano assinado um Tratado de Paz.
Era publicada a Lei do Tabelamento dos preços dos produtos. Portugal,
aliás como outros países europeus, estava a sofrer efeitos de uma série de maus
anos agrícolas, que provocaram fomes e carestia de géneros. O rei pela Lei da
Almotaçaria procurou fixar os preços, proibindo a exportação de cereais e metais
preciosos.

1254 - [Fevereiro-Março] Nas Cortes de Leiria, o rei procurava que os


representantes do clero, da nobreza e os procuradores do concelho, o apoiassem
na desvalorização da moeda, medida que acabou por não ser concretizada A
presença dos procuradores dos concelhos tornou-se a partir daqui habitual nas
reuniões das Cortes, tal como já acontecia no reino de Leão.

1254-1256 - D. Afonso III, estrategicamente, tenta colocar eclesiásticos da sua


confiança à frente das dioceses.

1255 - Os «Serviços públicos» iam sendo transferidos pouco a pouco para a


cidade de Lisboa, onde a corte passou a residir mais tempo.
Foral de Vila Nova de Gaia para incrementar o seu porto e atrair o
comércio, principalmente o internacional. A coroa reservava para si metade dos
direitos alfandegários que entrassem em Gaia ou no Porto.

1258 - Medidas de fomento do comércio interno, concedendo várias cartas de


privilégios a feiras, isentando de impostos os seus frequentadores.
Realização de Inquirições Gerais, que

[37]
compiladas se tornariam num dos mais curiosos monumentos da documentação
medieval portuguesa.

1261 - Nascimento de D. Dinis. Nasce da união entre D. Afonso III e de D. Beatriz,


filha bastarda de Afonso X de Castela, num contexto de alguma conflitualidade
entre os dois reinos a propósito da posse do Algarve. A solução do casamento
parece ter feito encaminhar a questão a favor do rei português. D. Dinis seria
aclamado, em Lisboa, em 1279, inaugurando um longo reinado de 46 anos.
Nomeação do 1º meirinho-mor do reino. Cargo de nomeação régia
encarregado de garantir a intervenção do poder régio no plano judicial, mesmo em
terras de regime senhorial. O meirinho estava habilitado a intervir em questões
que implicassem a pena de degredo, a violação do caminho público, a vigilância
do cumprimento das ordens do rei, a violência sobre mulheres, a perseguição de
«ladrão conhecido», nas agressões contra juizes ou prelados de igreja, etc.
Realização de Cortes em Coimbra com intensa actividade legislativa. Para
além de poderem ter servido para anunciar o resultado das Inquirições,
recentemente feitas aos abusos das classes possidentes em relação à
apropriação de direitos régios, as Cortes de Coimbra dedicaram-se também a
tratar do problema da moeda. À intensão de desvalorização da moeda, opuseram-
se as Cortes, de tal forma, que o rei decidiu substituir tal decisão pelo lançamento
de um imposto sobre o rendimento. Ficariam livres desse imposto os bispos,
chefes de ordens militares, cavaleiros e cónegos.

1262 - Promulgação de leis regulando e limitando as taxas de juro.


Os bispos portugueses pedem ao papa a legitimação do casamento de D.
Afonso III com D. Beatriz. Facto que parece fazer transparecer um clima de
apaziguamento entre o rei e o clero. Isto apesar da celeuma levantada no seio do
clero, pelas Inquirições mandadas realizar em 1258 e de alguns conflitos mantidos
com o bispo do Porto, a propósito da jurisdição sobre a cobrança de direitos em
relação a mercadorias que desciam o Douro.

1262-1264 - Abandono da corte régia por vários nobres, com o fortalecimento das
facções fiéis ao rei. Em consonância com o espírito que presidiu à execução das
Inquirições e à consequente repressão dos abusos senhoriais, operaram-se
dentro da própria corte algumas mudanças no que diz respeito aos dententores
dos mais importantes cargos. O rei procurou substituir alguns representantes da
velha nobreza senhorial, por nobres de segunda linha, mas da sua confiança.

1263 - Desvalorização régia da moeda em cerca de 25 por cento.


Acordo de Afonso III com o rei de Castela acerca do Algarve. O rei de
Castela reservaria para si o poder de distribuir os bens da coroa situados no
Algarve Ocidental, conceder forais, manter as doações já feitas, etc. Estas
prerrogativas significavam reservar para si a titularidade senhorial sobre o
território. Todavia, ao enfeudar o Algarve a D. Dinis, seu neto, com a obrigação de
este lhe prestar ajuda em tempo de guerra, ficava em aberto a possibilidade de
libertação da tutela.
Legitimação papal do casamento de D. Afonso III com D. Beatriz.

1264 - Renúncia de Afonso X de Castela aos direitos sobre o Algarve. Com a


revolta dos mudéjares da Andaluzia, Afonso X necessita do auxílio de D. Afonso
III, pelo que se propõe ceder-lhe as regalias que havia reservado para si sobre a
região. Reserva, no entanto, para si o penhor dos castelos já atribuídos e a
obrigação do serviço militar de 50 cavaleiros. Afonso X desistirá, pouco depois,
destas condições, renunciando também a todos os direitos sobre o Algarve
(Tratado de Badajoz de 1267).
Nomeação de D. João de Aboim como mordomo-mor, em substituição de
Gil Martins de Riba de Vizela, que abandona o país.

[38]

1265 - Auxílio de D. Afonso III ao rei de Castela, na revolta mudéjar.


Início do aperfeiçoamento régio do sistema judicial. À semelhança do que
se passará nos planos administrativo e executivo (em que paulatinamente vai
construindo um aparelho burocrático sobre o qual assenta a centralização do
poder), também no aspecto judicial a política centralizadora levada a cabo por D.
Afonso III produzirá os seus frutos. Assim, para além de dotar o tribunal régio de
um corpo de magistrados para despachar casos correntes, cria também um
conjunto de leis que regulam os mecanismos da justiça.

1267 - Celebração do Tratado de Badajoz entre Portugal e Castela, pelo qual este
reino renuncia definitivamente à posse do Algarve, legitimando para sempre a
integração do Algarve em Portugal.

1268 - Apresentação de um libelo ao papa, por parte dos bispos portugueses,


queixando-se de Afonso III, e lançamento de um interdito sobre o reino. Vendo no
rei, devido à sua acção contra a apropriação de direitos régios, o maior opositor
em relação às suas imunidades e privilégios, os bispos do reino apresentaram ao
papa, em 43 artigos, todo um conjunto de acusações. Desde violências na
administração civil, atentados contra a liberdade, imunidades e privilégios
eclesiásticos, confiscação de bens, prisões, espoliações, recusa do pagamento
dos dízimos, encarcerar os bispos nas igrejas ou mosteiros, etc., de tudo o rei era
acusado. Apesar das acções desencadeadas no sentido de se defender, tendo o
rei enviado delegados à cúria papal, conseguido testemunhos concelhios sobre a
normalidade da sua actuação, os bispos lançaram o interdito sobre o reino, sendo
depois levantado pelo papa.
Envio de delegados régios à cúria papal, obtendo o levantamento do
interdito.

1270 - Doação do senhorio de Portalegre, Marvão, Arronches e Vide ao infante D.


Afonso, irmão de D. Dinis.
1272-1275 - Concessão de novas cartas de privilégios a feiras. A medida fora já
tomada em 1258, sendo agora retomada. Isentando de impostos os seus
frequentadores, o rei procurava estimular o desenvolvimento do comércio interno.

1272 - D. Afonso III promulga a lei sobre os padroeiros. A lei tentava prevenir
contra a multiplicação e abusos dos padroeiros. O direito de padroado radicava no
direito de propriedade, isto é, no facto de o mosteiro ou a igreja terem sido
fundados por determinada pessoa, a qual reservava para si parte do benefício.
Primitivamente esse direito limitava-se a apresentar ao bispo (para confirmação)
uma pessoa idónea para prover ao governo do mosteiro. Posteriormente os
padroeiros (e seus descendentes) começaram a pretender desfrutar
abusivamente dos bens das comunidades religiosas.

1273 - Publicação de bula Scire debes fili, de Gregório X, acerca das questões
com o clero. Recordando ao rei as principais acusações dos bispos, feitas no
libelo de 1268, o papa solicitava ao rei a imunidade em relação aos bispos, para
que pudessem regressar ao reino sem receio de represálias. D. Afonso III reúne
as Cortes em Santarém para tratar do asssunto.

1273-1274 - Realização das Cortes de Santarém, para resolução do diferendo


com a Igreja. Aí, na presença dos delegados papais, o rei cria uma comissão para
averiguar e reparar as ofensas e prejuízos à Igreja, o que parece ter feito
apaziguar a questão até 1275.

1275-1290 - Publicação da constituição apostólica De regno Portugaliae


obrigando à reparação dos agravos feitos à Igreja, sob pena de interdito do reino.
O papa decretava uma série de prazos que, a não serem cumpridos, podiam
implicar o interdito geral sobre o reino. Estas disposições não surtiriam efeito, por
enquanto, pois o papa morre em 1276.

1276 - Ascensão de Pedro Hispano ao pontificado,

[39]

com o nome de João XXI. Nasceu em Lisboa, onde fez os primeiros estudos, indo
depois para Paris. Aí se tornou conhecido, assim como em outros pontos da
Europa culta, como é o caso da corte de Frederico II. Cultivou a filosofia, a
medicina, a teologia e a matemática. Como papa, procurou dar cumprimento às
disposições de Gregório X sobre a questão com D. Afonso III, lançando mesmo o
interdito sobre o reino de Portugal. Morre em 1277.
(Legenda: Pedro Hispano (papa João XXI).)

1278 - D. Afonso III entrega o governo do reino a D. Dinis.

1279 - Juramento de submissão à Santa Sé por parte de D. Afonso III, que,


continuando excomungado, manda redigir um documento onde declara submeter-
se ao papa e ordena a entrega de várias terras à Igreja. Morre a 16 de Fevereiro,
tendo já cerimónias litúrgicas. Inicia-se o reinado de D. Dinis, que é aclamado rei
em Lisboa.

1281 - Estabelecimento das bases do contrato de casamento de D. Dinis com D.


Isabel de Aragão. Dando corpo ao tradicional papel político/diplomático do
casamento, D. Dinis procurou a aliança com o reino de Aragão, com importância
política e económica fundamental, através do seu casamento com a filha de Pedro
III, o Grande, Isabel de Aragão (futura Rainha Santa Isabel).
Reunião na Guarda para iniciar as conversações com os bispos para
resolução das questões com o clero, continuando o reino sujeito ao interdito. O
reino estaria interdito até 31 de Janeiro de 1290, tendo o seu levantamento
constituído um acontecimento notável, como consta do Livro de Noa de Santa
Cruz de Coimbra.
Início da luta armada entre D. Dinis e o infante D. Afonso, seu irmão.
Insere-se no combate travado entre D. Dinis e o poder senhorial, tentando limitar
ou impedir a sua proliferação, questão que marca todo o reinado de D. Dinis. O rei
pretendia evitar a criação de um potentado feudal hereditário junto à fronteira, no
importante senhorio atribuído ao infante por doação de seu pai em 1270, das vilas
de Portalegre, Marvão, Arronches e Vide.

1282 - Assinatura de Concordata entre os bispos e o rei, sancionada pelo papa


em 1289, depois de alterada.
Acordo de D. Dinis com o seu irmão Afonso, em Badajoz. D. Afonso
compromete-se a destruir as muralhas que havia construído (sem consentimento
do rei, o que constituiu pretexto para o conflito), ser armado cavaleiro e a tornar-se
seu vassalo.
Casamento de D. Dinis com D. Isabel de Aragão.
1282-1290 - Período áureo da atribuição de forais e realização de contratos de
aforamento pelo rei. O reinado de D. Dinis constitui um período ímpar no que diz
respeito à preocupação de assegurar a eficácia e a reordenação do aparelho
administrativo, destinado a garantir a cobrança de foros e rendas da coroa. O
elevado número de contratos de aforamento, com o natural aumento das
prestações exigidas, revela uma preocupação significativa com a máquina fiscal.
Ao atribuir imensos forais e cartas de aforamento, a preocupação do rei não se
prendia apenas com o aumento dos rendimentos da coroa, mas sobretudo
com o

[40]

fomento das actividades agrícolas e comerciais (atente-se no elevado número de


cartas de concessão de feiras francas), e com o estímulo da organização
concelhia.

1284 - Realização de Inquirições Gerais. Seguindo a política já levada a cabo por


seu pai e avô, D. Dinis desenvolveu uma luta persistente contra todos os senhores
que gozassem ilegitimamente de direitos senhoriais, lesando a jurisdição régia.
Nestas Inquirições, para além dos foros e rendas pagas ao rei, tratou-se
sobretudo de problemas de jurisdição, como funções de direitos, demandas e
conflitos ocorridos anteriormente entre as duas partes.
Exigência papal de alteração na Concordata de 1282.

1284-1295 - Concessão de privilégios a feiras francas. As feiras francas, se bem


que instituídas desde o fim do século XII, foram parcimoniosamente distribuídas
durante o reinado de D. Dinis (e os que se lhe seguiram). O objectivo era,
sobretudo, estimular o povoamento de determinada região, ou insuflar-lhe vida
nova, o que não raras vezes significou a decadência de outras regiões que não
beneficiavam do privilégio. Desta feita, o privilégio recaiu sobre locais de
penetração e de circulação no interior, como o Douro e a estrada da Beira, e
sobre zonas de troca intensa como a Estremadura.

1285 - Realização das Cortes em Lisboa. Protesto dos nobres contra a quebra
das imunidades senhoriais nas Inquirições. Este clima de contestação terá
contribuído para o desencadear da revolta do infante D. Afonso contra D. Dinis.
Promulgação da lei de taxação dos tabeliães.
(Legenda: Rainha Santa Isabel e D. Dinis (Sala dos Capelos, Universidade de
Coimbra).)

[41]

c. 1285 - Início da composição do Livro Velho de Linhagens. São assim


denominados os livros em que se encontram registadas as genealogias de
famílias nobres. Pretendia-se, com isso, conhecer a pertença a uma família, de
tais ou tais privilégios.

1286 - Interdição régia da compra de bens de raiz aos eclesiásticos e às


instituições religiosas. Medida que tinha como objectivo impedir o aumento
indiscriminado do seu já considerável poder.
Instituição do ensino da Teologia em Lisboa, por iniciativa régia.
Associação do infante D. Afonso, irmão do rei, a Álvaro Nunes de Lara,
contra Sancho IV de Castela.

1287 - Lutas entre D. Dinis e o seu irmão D. Afonso: cerco de Arronches.


Acordo de Paz de Badajoz. Além de renovar os compromissos assumidos
em 1282, obrigava-se a fazer com que os seus alcaides, dos castelos de Marvão
e Portalegre, prestassem homenagem ao rei como garantia de que não utilizariam
contra ele essas duas fortalezas. Trocava ainda a vila de Arronches pela de
Armamar.

1288 - Realização das Cortes de Guimarães; nomeação de uma comissão mista


para deliberar sobre os protestos senhoriais contra as Inquirições. Evitando
astuciosamente uma confrontação directa, tenta colocar a questão no plano do
direito, ao nomear uma comissão para arbitar o diferendo.
Realização de Inquirições Gerais.
Apresentação de pedido à Santa Sé para a fundação da Universidade
Portuguesa. O florescimento cultural e artístico vivido no reinado de D. Dinis não
conheceu rival até à dinastia de Avis. A corte régia tornou-se um local de encontro
de artistas e poetas, campo onde o próprio rei se distinguiu, incentivando uma
cultura laica e secularizada, de que foi testemunho a notável livraria de D. Dinis. É
neste contexto cultural que surge a petição ao papa para a fundação do Estudo
Geral. Refira-se, no entanto, que a primeira carta régia, onde se refere a
existência do Estudo Geral em Lisboa, de 1 de Março de 1290, é anterior à bula
do papa Nicolau IV que data de 9 de Agosto desse ano, o que mostra a
antecipação de D. Dinis à autorização pontifícia.
Autorização papal à Ordem de Santiago para a eleição de um provincial
independente do da Hispânia. Questão que se integra no esforço de
nacionalização e de independência, levado a cabo por D. Dinis, visível ainda na
preocupação com a tomada de outras medidas, como sendo: fixação de
fronteiras, reforço do poder militar, incluindo o sector naval, a adopção do
português pela chancelaria e a criação de uma universidade portuguesa, etc.

1289 - Sanção papal do acordo definitivo do rei português com o papa


(Concordata dos 40 artigos).

1290 - Aprovação papal do Estudo Geral (Universidade) fundado por D. Dinis.


Fundada com sede em Lisboa, a Universidade conheceu até 1377 uma
mobilidade geográfica muito grande, migrando para Coimbra quatro vezes. A
partir de 1537, por acção de D. João III, fixa-se definitivamente nesta cidade.
Concessão de privilégios a mercadores portugueses pelo rei de França.
Publicação solene da sentença judicial sobre os resultados das Inquirições
de 1288 e aplicação local da mesma. Significava a refirmação do poder régio,
demonstrando, na prática, que a prerrogativa de distribuir dons e poderes aos
membros da sua corte era reservada exclusivamente ao rei.

1291 - Encontro em Cidade Rodrigo entre D. Dinis e Sancho IV para tratar do


casamento de D. Constança com o príncipe herdeiro de Castela. Mais uma vez a
política de casamentos funcionava como meio de estabelecer ou reforçar
alianças.
Realização das Cortes de Coimbra: protestos senhoriais em relação à
aplicação da

[42]

sentença sobre as Inquirições. As sentenças resultantes das Inquirições


desencadearam, obviamente, alguns protestos, embora a confirmação e
legitimação de muitos direitos senhoriais tivesse dividido parte da nobreza. Para,
de alguma forma, minimizar os protestos, D. Dinis promulgou a interdição das
ordens religiosas herdarem os bens dos seus professos.
Assinatura da Concordata de 5 artigos com os bispos do Porto, Guarda,
Lamego e Viseu.

1293 - Criação de uma bolsa dos mercadores, sancionada pelo rei. Em


concordância com a tendência expansiva da economia europeia, Portugal
conheceu no final do século XIII um significativo desenvolvimento das actividades
económicas. Embora de forte base agrícola, a economia portuguesa assistiu a um
surto das actividades marítimas, das quais resultam acções como a presente.
Outras acções foram conseguidas, nomeadamente a presença de mercadores
portugueses em França, Inglaterra e Flandres, onde beneficiam de vários
privilégios, nomeadamente a isenção de impostos. Exemplo do que acabamos de
dizer é, ainda, o estabelecimento da liberdade de tráfego entre Portugal e a
Inglaterra.
Esfriamento nas relações luso-castelhanas, com a protecção de D. Dinis a
D. João Nunes de Lara e a anulação do contrato de casamento do herdeiro do
trono, pelo rei de Castela, em benefício da filha de Filipe, o Belo.

1295 - Compromisso de Maria de Molina e do tutor do herdeiro de Castela à


entrega de Moura, Serpa, Aroche e Aracena a Portugal, em troca da neutralidade
de D. Dinis em relação ao conflito criado com a sucessão de Sancho IV.

1296 - Auxílio de D. Dinis aos adversários do rei de Castela, com ocupação de


Salamanca, Tordesilhas e Simancas. Face ao reacender dos conflitos, D. Dinis
toma o partido do iníante D. João e avançam com o intuito de chegar a
Valhadolid. D. Dinis não atinge Valhadolid, mas incorpora no reino de Portugal a
comarca de Ribacoa.
Adopção da língua vulgar (português) pela Chancelaria régia.

1297 - Assinatura do Tratado de Alcanises, pelo qual se estabelecem as fronteiras


do reino de Portugal e de Castela. Aí se estabelece que as praças tomadas por D.
Dinis em Ribacoa permaneçam na sua posse, juntamente com Olivença, Campo
Maior, Ouguela e São Félix de Galegos. Portugal desiste da posse de Aracena,
Valência, Ferreira, Esparregal e Aiamonte. O pacto era ratificado, como de
costume, com a promessa de casamento de Fernando IV com D. Constança, filha
de D. Dinis, e de Afonso, herdeiro do trono português com D. Beatriz, infanta de
Castela. Este tratado fixou até hoje, com pequenas alterações, as fronteiras entre
Portugal e Castela.

1298 - Fundação régia do primeiro condado português (Barcelos), em favor de


João Afonso de Albuquerque.
Invasão do território castelhano por D. Dinis, sem consequências bélicas.

1299 - Continuação da luta entre D. Dinis e o infante D. Afonso, cujo resultado foi
a troca dos seus senhorios perto da fronteira castelhana por outros do interior:
recebe Ourem e Sintra. Estava consumado o desejo de D. Dinis de o desapossar
de fortalezas situadas demasiado próximo da fronteira.

1300 - Reunião de D. Dinis em Cidade Rodrigo com os monarcas de Castela, para


ultimar negociações diplomáticas com a Santa Sé, em relação à legitimação de
Fernando IV e ao casamento deste com D. Constança.
c. 1300 - Criação dos corpos de besteiros, os chamados besteiros do conto, a
fornecer pelos concelhos. O desejo de D. Dinis de dispor de um exército mais
operacional, mais disponível e fiel, do que o recrutado pelos processos feudais,
levou-o a instituir a obrigação de cada concelho fornecer e armar uns tantos
besteiros. Como o serviço e conservação das bestas (armas) implicavam
despesas,

[43]

os besteiros eram tirados de indivíduos que possuíam um certo rendimento.

1301-1307 - Realização de Inquirições Gerais, desta feita em quase todo o Minho


e em parte da Beira.

1301-1308 - Concessão de privilégios a feiras francas.

1302 - Casamento de D. Constança e de D. Fernando IV de Castela.

1303 - Empréstimo de um milhão de maravedis por D. Dinis a Fernando IV para


combater os seus adversários. Tendo renascido a oposição ao rei de Castela, D.
Dinis foi chamado a auxiliar o genro ficando os rendimentos da cidade de Badajoz
como penhor do seu pagamento.
Cortes de Coimbra; lei sobre os tabeliães e os selos dos concelhos. Já
fizemos referência à preocupação reorganizativa do poder no reinado de D. Dinis.
Para além do sector administrativo, também o aparelho judicial mereceu a sua
atenção. A presente lei constitui uma grande inovação na medida em que atribui à
coroa um instrumento de controle burocrático dos concelhos, colocados assim na
sua dependência.

1304 - Arbitragem de D. Dinis do conflito entre Castela e Aragão e entre o rei de


Castela e os pretendentes ao trono (acordos de Torrelas e Tarazona). A
superioridade política de D. Dinis era, a partir de agora, reconhecida na Península,
sendo o rei português chamado a sancionar os acordos entre os vários reinos.

1305 - Proibição de os nobres armarem cavaleiros a vilãos dos concelhos,


reservando para o rei este privilégio. Esta é uma medida que se insere numa
tendência crescente em D. Dinis de apertar os laços que unem os concelhos ao
rei. Tendência que não é visível apenas na intromissão maior dos funcionários
régios no campo fiscal, mas também na utilização do próprio vínculo de natureza
senhorial que os torna seus súbditos. A fidelidade do concelho começava a ser
prestada não tanto pelo concelho enquanto colectividade, mas por cada um dos
seus vizinhos, agora súbditos do rei. Desta forma se compreende que, através
desta lei, se queira evidenciar as relações individuais dos súbditos com o rei.
Publicação do regimento dos tabeliães.
1307 - Novo empréstimo de D. Dinis a Fernando IV, durante as lutas entre este e
João Nunes de Lara. O auxílio (monetário e militar) de D. Dinis a seu genro voltará
a acontecer, poucos anos depois, durante a guerra com Granada.
Nomeação do primeiro almirante português, Nuno Fernandes Cogominho.
Na sequência da política nacionalizadora levada a cabo por D. Dinis, e do
interesse que o comércio marítimo começava a despertar, também o problema da
criação e organização de uma frota naval fez parte das preocupações do rei. Daí a
nomeação de um almirante que ficava encarregado de tal tarefa.
Contenda entre o D. Dinis e o bispo de Tui, cuja diocese vinha até ao rio
Lima, devido ao facto de o rei não permitir que os clérigos desta parte do território
português mandassem redigir os seus documentos aos notários daquela cidade.

1308 - Celebração do tratado de comércio com o rei de Inglaterra, o que significa,


em conjunto com outros indícios (nomeadamente a concessão de privilégios aos
mercadores portugueses por Filipe, o Belo, em Harfleur, 1310), a expansão do
comércio português em direcção ao Norte da Europa.
Proibição régia da incorporação dos bens dos Templários (extintos por
ordem do papa Clemente V em virtude de acusações de Filipe, o Belo) noutras
instituições eclesiásticas e início do processo de incorporação na coroa.

1309 - Concordata entre o rei, o bispo e o cabido de Lisboa. A partir de 1290,


apesar de não terem terminado por completo os atritos entre a coroa e os bispos,
deixou de ser necessária a intervenção da Santa Sé.

[44]

Casamento do herdeiro D. Afonso com D. Beatriz, irmã de Fernando IV e filha de


Sancho IV de Castela e de Maria de Molina.
Transferência da Universidade de Lisboa para Coimbra.

1310 - Pacto entre D. Dinis e Fernando IV no sentido de este não permitir a


alienação dos bens dos Templários.

1312 - Sentença régia sobre a herança de João Afonso de Albuquerque. Tendo


Afonso Sanches (bastardo régio e genro de João Afonso de Albuquerque) sido
favorecido na herança, Martim Gil de Sousa (alferes-mor e também genro de
Albuquerque), descontente com a sentença, decide abandonar a corte. Facto que
revela uma divisão no seio da nobreza de corte, com o propósito do rei em
premiar a lealdade de alguma nobreza média e inferior.
Embaixada da corte de Aragão para demarcação da fronteira e resolução
de alianças matrimoniais. Durante vários anos a política externa portuguesa foi
dominada pelas relações com Castela. No entanto, a superioridade política de
Portugal passava também pela posição privilegiada que mantinha junto da corte
aragonesa, em parte devido à acção favorável de D. Isabel.

1314 - Demarcação da fronteira luso-castelhana na zona de Moura e Noudar.


Sucessão de Pedro Afonso no condado de Barcelos. Elemento da baixa
nobreza, também objecto de favores régios, era alferes-mor e caíra em desgraça
quando se aliou ao partido senhorial para atacar Afonso Sanches.

1315-1317 - Anos de intensa pluviosidade que, ao fazer apodrecer as sementes,


determinou a perda das colheitas e a vinda da fome e da peste. Visto hoje numa
perspectiva menos dramática, na medida em que se relativizou o efeito e a
abrangência da crise e das suas consequências, a nível sectorial e espacial, o
século XIV marca, sem dúvida, uma interrupção no crescimento (em algumas
regiões) que se vinha verificando desde há três séculos. A fome, seguida da
peste, são fenómenos cíclicos em economias de base agrícola, onde a
irregularidade do clima e o esgotamento dos solos podem determinar uma boa ou
uma má colheita.

1316 - Exílio em Castela de D. Raimundo de Cardona, testamenteiro de Martim


Gil de Sousa e mordomo-mor do príncipe D. Afonso, o que veio aumentar a
clivagem no seio da alta nobreza, empurrando o príncipe ainda mais para o lado
dos descontentes que, vendo nele um aliado, o incitavam à revolta. O conflito
entre o rei e o príncipe herdeiro era iminente, tendo o papa encarregado o
arcebispo de Compostela da conciliação entre ambos.
Início do conflito de D. Dinis com os bispos do Porto e de Lisboa.
Confirmação da sentença relativa às Inquirições de 1307. A entrega da
apreciação do resultado das Inquirições feita pelo rei a dois comissários, na
sequência das queixas dos nobres, fez arrastar o processo durante alguns anos,
tendo as sentenças anteriores acabado por ser confirmadas.

1317 - Nomeação do genovês Manuel Pessanha para o comando da frota real, a


quem foram dadas as condições para organizar uma armada militarmente eficaz,
o que revela a dinâmica que tinha adquirido o comércio marítimo na vida do país.
O papa encarrega o bispo de Évora de excomungar os inimigos do rei.

1318 - Embaixada à Santa Sé para negociar a restauração da província


portuguesa da Ordem de Santiago e para criação da Ordem de Cristo com os
bens dos Templários. O papa aceitou a criação da ordem, atribuindo-lhe a Ordem
de Calatrava, sujeitando-a à jurisdição espiritual do abade de Alcobaça e fixando
a sua sede em Castro Marim (1319).
Exílio dos bispos do Porto e de Lisboa em Avinhão, em consequência do
conflito com o rei.

[45]

1319 - Início da guerra entre D. Dinis e o filho, futuro rei Afonso IV, que,
encarnando a revolta de todos os nobres que se consideravam prejudicados pela
forma como o rei usava o poder judicial para reprimir os abusos senhoriais, exige
que lhe seja entregue a justiça do reino.
1320 - Concessão pela Santa Sé da aplicação do dízimo de todas as rendas
eclesiásticas do reino ao financiamento de uma armada para combater os
muçulmanos. O objectivo fundamental era o de combater a pirataria sarracena
que assolava as costas portuguesas.
Primeiro manifesto de. D. Dinis contra o príncipe D. Afonso, em
consequência do conflito que opunha ambos.

1321 - Aprovação dos primeiros estatutos da Ordem de Cristo.


Assassinato do bispo de Évora pelos partidários do príncipe D. Afonso. O
rei havia conseguido, por seu intermédio, uma bula papal que excomungava todos
aqueles que incitavam o príncipe à violência.
Segundo e terceiro manifestos de D. Dinis contra o príncipe D. Afonso. O
rei pretendia com isso o apoio popular para a acção armada que viria a rebentar
pouco tempo depois.
Conquista de Coimbra e outras localidades pelo príncipe D. Afonso.

(Legenda: D. Afonso IV.)

1322 - Primeiro acordo entre D. Dinis e o príncipe D. Afonso. Por acção de D.


Isabel iniciaram-se as conversações de paz, findas as quais o príncipe receberia o
senhorio das povoações que havia conquistado (Coimbra, Montemor, Feira, Gaia
e Porto).

1323 - Recomeço da guerra civil em consequência de, nas Cortes de Lisboa, D.


Afonso não ver satisfeitas algumas das suas reivindicações.

1324 - Combate entre as forças do rei e as do infante em Santarém. O rei decide


fazer algumas cedências às pretensões do príncipe, nomeadamente aumentando-
lhe as rendas e comprometendo-se a retirar o cargo de mordomo-mor a Afonso
Sanches.

1325 - Morte de D. Dinis e subida ao trono de D. Afonso IV.


O rei convoca as Cortes, em Évora, para que os representantes dos três
estados lhe jurem obediência.

1326 - Lutas entre Afonso IV e os seus meios-irmãos. O primeiro a conhecer a


vingança do rei foi Afonso Sanches, acusado de traidor e condenado a desterro
perpétuo, sendo-lhe confiscados os bens No ano seguinte, a mesma sorte
chegava a João Afonso, agora com a sentença de morte.
Afonso Sanches invade Portugal, com forças castelhanas, destruindo tudo
à sua passagem pelos territórios junto à fronteira. Um conflito que durou três anos
e ameaçava agravar-se já que Afonso XI tomou o partido de Albuquerque, sogro
de Afonso Sanches, seu vassalo. Dada a doença de

[46]

Afonso Sanches, o conflito é interrompido e as tréguas assinadas, sendo-lhes


entregues os bens confiscados em 1329.

1327-1331 - Instituição dos juízes de fora. Os juízes de fora, como o próprio


nome indica, eram indivíduos, geralmente letrados, nomeados pelo rei para
substituir os juízes de dentro (que são naturais da terra) na aplicação da justiça.
Considerava D. Afonso IV que os naturais da terra teem hi muitos parentes e
amigos e outros que com eles hão dividos de conlacia e doutros semelhaveis e
alguns com outros hi malquerenças e desamor, ou hão receança deles, por os
quais o dereito presume que tão compridamente não farão dereito come os
estranhos… Os juízes de fora parece terem-se generalizado durante a peste
negra, dado o aumento brutal dos testamentos e, com eles, as deixas e heranças
à Igreja. Esta medida representava, como se compreende, outro passo importante
no caminho da centralização do poder.

1328 - Casamento da infanta D. Maria de Portugal com Afonso XI de Castela.

1329 - Confirmação da aliança perpétua entre Afonso IV e os reis de Castela e


Aragão.

1331-1340 - Reforma régia do modo de actuação parlamentar dos deputados do


povo nas Cortes de Santarém.
Ínício da organização do desembargo régio, uma espécie de tribunal de
última instância ao qual competia desembargar com o rei as petições de perdão e
outras graças, como expedição de cartas de privilégios e liberdades, legitimações,
etc.

(Depois de) 1331 - Instituição dos besteiros do conto.

1332 - Regulamentação do cargo de corregedor. Magistrados, inicialmente


designados por meirinhos, a quem cumpre a administração da justiça A sua
principal atribuição era correger, ou seja, emendar os erros, violências ou
quaisquer outras faltas na administração da justiça, averiguando o desempenho
dos juízes dos concelhos e dos juízes de fora. Passaram a actuar cada vez mais
junto das populações e mesmo dos senhorios privados, onde tinham acesso.

1333-1334 - Novo período de fomes.

1335 - Inquirições em Trás-os-Montes.

1336 - Parte integrante das complexas relações dinástico-diplomáticas


desenvolvidas durante o reinado de D. Afonso IV – decisivamente marcadas pela
Guerra dos Cem Anos, que envolveu a Inglaterra e a França e, indirectamente, os
vários reinos peninsulares -, é estabelecido o acordo de casamento entre o infante
D .Pedro de Portugal e D. Constança Manuel, filha de D. Juan Manuel (rival de D.
Afonso XI na luta pelo trono de Castela).

c. 1336 - Provavelmente chefiada pelo almirante-mor de Portugal Manuel


Pessanha (militar e marinheiro genovês ao qual D. Dinis havia entregue o
comando e a responsabilidade de desenvolver uma «frota de guerra»
portuguesa), chega às Canárias a primeira das várias «expedições» enviadas
àquele arquipélago por sucessivos monarcas portugueses.

1336-1339 - No contexto da guerra civil castelhana que opunha D. Juan Manuel


ao rei D. Afonso XI, desenvolve-se um novo conflito entre as coroas portuguesa e
castelhana. Esta guerra feudal ter-se-á iniciado em resultado do apoio prestado
por D. Afonso IV a D. Juan Manuel, rompendo assim os laços de solidariedade
estabelecidos com D. Afonso XI aquando do casamento deste com a infanta D.
Maria de Portugal (entretanto praticamente repudiada pelo monarca castelhano).

1338 - Resultado do processo de aproximação diplomática, político-militar e


comercial ocorrido, no primeiro quartel do século XIV, entre as coroas inglesa e
portuguesa, aos mercadores de ambos os países são atribuídos diversos tipos de
privilégios (sobretudo de natureza fiscal). As mesmas

[47]

«benesses» são concedidas a mercadores de outras proveniências,


nomeadamente aos italianos (florentinos, genoveses, etc.).

1339 - [Julho] Perante a constatação de que seria impossível a qualquer das


partes alterar o equilíbrio de forças existente, por influência do papa e do rei de
França, é celebrado em Sevilha um Tratado de Paz entre os Reis de Portugal e
Castela.

1339-1348 - Importante instrumento de reforço do poder real (nos planos


administrativo, económico e político), as Inquirições foram periodicamente
retomadas pelos monarcas portugueses durante a Idade Média. D. Afonso IV
ordenou a realização de um processo de Inquirições na região do Porto que se
prolongou por mais de nove anos.

1340 - Afonso IV promulga uma «Lei Pragmática», género de documento legal


que, também durante a Idade Média, foi utilizado como instrumento de limitação
das despesas em bens sumptuários (e dos níveis de individamento
correspondentes), de tabelamento e estabilização dos preços dos bens de luxo,
de preservação das hierarquias (dos respectivos símbolos e ritos) relativamente
às pretensões dos «novos-ricos».
Procurando contribuir para o «restabelecimento» do tesouro régio,
significativamente depauperado em resultado das despesas realizadas e dos
empréstimos contraídos durante a guerra contra o rei de Castela, D. Afonso IV
decreta uma nova desvalorização (ou «quebra») da moeda.
[30 de Outubro] Em resposta ao esforço expansionista protagonizado, em
1339, pelos reinos muçulmanos de Granada e Marrocos, Afonso XI de Castela e
Afonso IV de Portugal unem-se para combater os rivais «infiéis» do Sul. A Batalha
do Salado resulta na vitória dos monarcas cristãos, marcando assim o fim das
esperanças muçulmanas de reconquistar partes significativas (ou a totalidade) da
Península Ibérica.

c. 1340 - D. Afonso IV promulga um conjunto de determinações legais visando a


reforma da administração concelhia. Tratou-se de mais um esforço no sentido da
uniformização de procedimentos e do reforço da capacidade de intervenção dos
funcionários régios na vida dos concelhos.

1343 - D. Afonso IV ordena a realização de Inquirições na região de Entre Douro e


Minho.

1345 - Eclode um conflito entre D. Afonso IV e o bispo do Porto em torno da


jurisdição sobre a cidade do Porto. No seguimento da decisão do rei de se
apoderar pela força dos direitos senhoriais sobre a cidade, o bispo interdita a
diocese. Tal como em outras situações semelhantes, o rei contou com o apoio
dos habitantes do «burgo»
Procurando obter o reconhecimento internacional da tutela portuguesa
sobre as Canárias (evitando simultaneamente que esses mesmos «direitos da
achamento e conquista» sejam «usurpados» pelo monarca castelhano), D. Afonso
IV escreve ao papa Clemente VI dando conhecimento das viagens já realizadas
àquele arquipélago atlântico por marinheiros e soldados portugueses.
[31 de Outubro] Nasce em Coimbra o infante D. Fernando, primeiro filho de
D. Afonso IV e herdeiro natural da coroa portuguesa.

1345-1346 - Dando seguimento a uma orientação estratégica da política externa


portuguesa iniciada na década de 30 (e que tinha por objectivo essencial
aumentar a capacidade de resistência relativamente a Castela), D. Afonso IV
renova os esforços de estabelecimento de mais amplos acordos político-militares
comerciais com a coroa inglesa.
1347-1352 - A população portuguesa diminui significativamente em resultado,
quer da escassez e da correspondente subida dos preços dos cereais (elemento
essencial da dieta alimentar das classes populares), quer dos efeitos
devastadores da primeira epidemia da «peste negra» (chegada a Portugal em
1348, originária do Extremo Oriente transportada para a Europa nas pulgas dos
ratos e dos homens).

[48]

1349 - Correspondendo aos protestos e exegências dos snhores de terras (nobres


e eclesiásticos) e de outros proprietários agrícolas, por intermédio de um
documento legal enviado a todos os concelhos, D. Afonso IV procura minorar os
problemas de falta de mão-de-obra servil e assalariada, de aumento do custo
dessa mesma mão-de-obra e de escassez de produtos agrícolas.
Tentando reduzir o inabitual fluxo de terras e direitos senhoriais das mãos
de leigos (nobres ou plebeus) para a posse de eclesiásticos – resultado do surto
de peste negra –, D. Afonso IV promulga uma lei na qual se proíbe a
apresentação dos testamentos aos vigários episcopais e se ordena que os
mesmos passem a ser registados junto dos juízes régios existentes em diversas
localidades.

1353 - Alargando e sistematizando os privilégios e outras medidas avulsas já


acordadas entre os monarcas de ambos os países e entre estes e os
representantes respectivos, é assinado o primeiro tratado comercial entre Portugal
e Inglaterra, válido por cinquenta anos.

1355 - Procurando evitar o envolvimento da família real portuguesa em mais um


processo de guerra civil entretanto desencadeado em Castela, D. Afonso IV
ordena o assassinato de D. Inês de Castro (mulher «clandestina» do infante D.
Pedro desde a morte da sua primeira esposa, em 1348 ou 1349).
D. Pedro revolta-se contra a autoridade do pai, dando início a uma guerra
civil que, termina em Agosto de 1355, sob a mediação do arcebispo de Braga D.
Gonçalo Pereira. Do Tratado de Canaveses (resultante do acordo que permitiu
encerrar as hostilidades) deriva a associação do infante D. Pedro às actividades
de governação do país.

1355-1356 - Em várias regiões do país voltam a fazer-se

(Legenda: Episódio de Inês de Castro, por Columbano (Lisboa, Museu Militar).)

[49]

sentir os efeitos da fome (resultado directo de más colheitas sucessivas e da


própria guerra civil) e de uma nova epidemia de «peste negra».
1357 - [11 de Abril] Nasce em Lisboa o futuro D. João I, filho «bastardo» de D.
Pedro I e de D. Teresa Lourenço, senhora nobre de origem galega. É um
representante típico da categoria dos «filhos segundos», segmento da nobreza
que se via afastado da posse dos bens e direitos senhoriais devido ao facto de os
mesmos serem quase exclusivamente herdados pelo primeiro filho varão de cada
família.
[28 de Maio] Com a idade de 66 anos, morre em Lisboa D. Afonso IV,
tendo reinado durante 32 anos. Sobe naturalmente ao trono, com 37 anos, o
infante D. Pedro I.
Ao conceder a D. João Afonso Telo o título de conde de Barcelos, D. Pedro
I outorga ainda a este membro da nobreza um privilégio inabitual em Portugal, a
possibilidade de transmitir hereditariamente o título e os direitos feudais
correspondentes.

1358 - Procurando consolidar a situação de relativa estabilidade que então


caracterizava as relações entre Portugal e Castela, os monarcas respectivos (D.
Pedro I de Portugal e D. Pedro, o Cruel, de Castela) assinam um tratado de
aliança.

1361 - Ao instituir o «Beneplácito Régio», D. Pedro I introduz um novo instrumento


de consolidação do poder real e de autonomização do mesmo relativamente à
Santa Sé (em Roma). De acordo com este documento legal, os textos pontifícios
(bulas, breves, etc.) só poderiam ser divulgados em Portugal pelo clero uma vez
obtida a respectiva autorização régia.

1361-1365 - Deflagram em diversas regiões do país novos surtos de «peste


negra», aos quais corresponde um significativo aumento da mortalidade, a fuga
das populações (e sobretudo dos mais ricos e privilegiados) para zonas não
afectadas, a implementação de um conjunto de medidas «policiais», sanitárias e
rituais que, de acordo com os conhecimentos e os quadros mentais da época,
teriam por objectivo impedir o alastramento da doença.

1363 - Com a idade de 6 anos, o futuro D. João I (filho bastardo de D. Pedro I) é


investido pelo próprio rei no cargo de Mestre da Ordem de Avis (uma das
principais ordens religioso-militares existentes em Portugal).

1366 - Tendo por objectivo reforçar os laços dinásticos existentes entre as famílias
reais de Portugal e Castela, D. Pedro I de Portugal estabelece com D. Pedro I de
Castela (e depois, com Henrique de Trastâmara, Henrique II de Castela) um
tratado que estabelece as condições de casamento do infante D. Fernando com
uma infanta castelhana.

1367 - [18 de Janeiro] Falecimento de D. Pedro e subida ao trono de D. Fernando


I.
1369-1370 - Resultado indirecto das rivalidades e alianças que se desenvolveram
em torno da Guerra dos Cem Anos e, de forma mais imediata, da guerra civil
surgida em Castela devido ao assassinato de D. Pedro I, decorre a primeira das
guerras entre Portugal e Castela ocorridas durante o reinado de D. Fernando.
Procurando obviar às inevitáveis dificuldades de tesouraria, o rei português
ordena uma nova «quebra da moeda». D. Fernando assina ainda tratados de
aliança militar com os reinos de Granada – o último estado muçulmano da
Península Ibérica -1369) e Aragão (1370).

1371 - [Março] Por intermédio de um tratado assinado em Alcoutim, é


restabelecida a paz entre Portugal e Castela. Encontrando-se numa situação de
relativa superioridade (mais estratégica do que militar), D. Fernando tratado
abdicou das suas pretensões ao trono de Castela, mas obteve, em contrapartida,
um alargamento do território do reino

[50]

(Legenda: Túmulo de D. Pedro I (Mosteiro de Alcobaça).)

de Portugal para leste e para norte (à custa de Castela) e o acordo para o seu
casamento com a filha primogénita de Henrique II.
Ao casar com D. Leonor Teles, D. Fernando provoca levantamentos
populares em Lisboa e incumpre a última cláusula do Tratado de Alcoutim,
levando à sua revogação.

1372 - Pela primeira vez na história portuguesa, durante as Cortes de Leiria é


reconhecido aos representantes do «povo» (aos «homens-bons» dos concelhos)
o direito, quer de indicar temas que gostariam de discutir com o monarca, quer de
tomar decisões (mesmo quando estas contrariavam a vontade expressa do rei).
É assinado em Tui um novo acordo de paz entre Portugal e Castela.
Depois da violação pelo monarca português de uma das cláusulas do Tratado de
Alcoutim, tudo regressou ao status quo de antes da última guerra.
[Julho] Representantes de D. Fernando e do duque de Lencastre redigem
em Tagilde um tratado (ratificado por Fernando I de Portugal e Eduardo III de
Inglaterra em Junho de 1373) no qual a coroa portuguesa se compromete a apoiar
a Inglaterra contra Henrique II de Castela e contra a França (no âmbito da Guerra
dos Cem Anos).

1372-1373 - Em resultado do apoio prestado por Portugal à Inglaterra e de


acções militares realizadas contra interesses mercantis castelhanos, deflagra uma
nova guerra entre Portugal e Castela. Entrando pela fronteira beirã, o exército do
rei de Castela avança até Lisboa. A cidade é cercada e, na sua maior parte,
ocupada. Tal como nas outras regiões por onde foram passando as tropas
castelhanas, também aqui à vitória militar correspondeu o «direito» de efectuar
pilhagens.

1373 - [24 de Março] Perante a derrota e a humilhação sofridas, D. Fernando


assina, em Santarém, um novo Tratado de Paz. Entre outras concessões, o rei
português obriga-se a anular a aliança estabelecida com a Inglaterra e a apoiar
Castela e a França.
[Junho] É assinado em Westminster um novo (e mais abrangente) tratado
de colaboração político-militar e comercial entre Portugal e a Inglaterra. Esta
atitude do rei de Portugal, que contraria em absoluto os compromissos assumidos
em Março desse mesmo ano, é bem ilustrativa da impossibilidade

[51]

de, na Idade Média, contando apenas com pequenos exércitos feudais e com um
embrionário aparelho de Estado, fazer cumprir os acordos e tratados
internacionais.
D. Fernando ordena a realização de Inquirições na região do Alto Alentejo.

1373-1374 - Em protesto contra governação realizada por D. Fernando (contra as


guerras sucessivas, a desvalorização continuada da moeda e a correspondente
subida dos preços dos bens essenciais, o poder crescente de certos sectores da
nobreza, etc.), ocorrem em Abrantes, Tomar, Leiria, Santarém, Portel e
Montemor-o-Velho revoltas populares.

1373-1375 - Procurando evitar as pilhagens de guerra, aumentar a capacidade


militar e reforçar a presença simbólica do poder real nas principais cidades do
reino, em colaboração com as vereações concelhias respectivas, D. Fernando
determina a construção, alargamento ou reconstrução de muralhas em Lisboa,
Évora, Porto, Braga, Coimbra, Santarém, Viana, Ponte de Lima, Beja, etc.
1374 - Com o objectivo de satisfazer algumas das reivindicações apresentadas
pelas «élites» dos concelhos (durante ou após os levantamentos de protesto
contra a política régia), D. Fernando promulga, quer algumas medidas de reforma
da «administração pública», quer legislação que tem por principal objectivo evitar
e penalizar alguns dos «abusos» mais habitualmente praticados pelos nobres
contra o «povo» e contra os próprios interesses patrimoniais da coroa.

1375 - A Lei das Sesmarias resulta do empenhamento de D. Fernando (e dos


seus principais conselheiros) em intervir de forma a atenuar algumas das mais
graves consequências da «crise do século XIV» na agricultura portuguesa, e
equilibrar os interesses (por vezes contraditórios) dos diversos grupos sociais
privilegiados (ou semiprivilegiados) e da coroa.
Procura-se tabelar os salários e fixar os camponeses à terra, «combater» a
mendicidade, evitar a substituição do cultivo de cereais (muito exigente em
mão-de-obra) por outro tipo de culturas ou pela criação de gado (mais
facilmente comercializáveis, menos dependentes de uma mão-de-obra
abundante), penalizar fortemente os proprietários que deixem as suas terras
abandonadas, etc.

1377-1380 - D. Fernando aprova um conjunto de legislação destinada a apoiar o


desenvolvimento da marinha mercante e, sobretudo, do comércio de longo curso
(intra-europeu). Empenha-se, assim, na «protecção» de uma actividade
económica largamente proveitosa para a coroa, fundamental para a promoção de
contactos e relações internacionais, fonte de empréstimos e origem de «técnicos»
em matéria financeira e fiscal - indispensáveis aos monarcas medievais uma vez
que não existia ainda um aparelho de Estado com capacidade para intervir
permanentemente em todo o território tutelado. Fundou a Companhia das Naus
(em 1380), concedeu prémios à construção de navios de maior tonelagem e
reforçou mecanismos de consolidação da comunidade de mercadores (sobretudo
de Lisboa e Porto) tão fundamentais como os seguros marítimos, os socorros
mútuos, as bolsas de comércio, os sistemas de fretagem, etc.

1377 - Por decisão de D. Fernando, inicia-se um período relativamente longo (até


1537) durante o qual a Universidade se fixa em Lisboa. Esta opção, se por um
lado resultou de pressões nesse sentido feitas pelos burgueses de Lisboa, terá
ainda estado ligada à necessidade de aproximar aquela escola de ensino superior
da cidade portuguesa onde mais se tinham desenvolvido a administração pública,
as instituições religiosas, as actividades económicas e os contactos
internacionais.

1380 - É redigido em Estremoz um novo tratado no qual se confirma a aliança


político-militar já existente entre as coroas de Portugal e de Inglaterra. Previa-se a
realização de uma guerra conjunta contra Castela

[52]
destinada colocar no trono daquele país o duque de Lencastre), a possibilidade de
Portugal se expandir territorialmente para norte e para leste à custa de Castela, o
envio para o nosso país de um contingente de 2000 mercenários ingleses, o
casamento da infanta D. Beatriz (de 8 anos) com um membro da família real
inglesa.
Se até então (e desde 1378), no contexto do Grande Cisma do Ocidente,
D. Fernando impusera à Igreja portuguesa o apoio ao papa de Avinhão, Clemente
VII (patrocinado pela França e por Castela), notificaria imediatamente a hierarquia
eclesiástica portuguesa da necessidade de voltar a obedecer ao papa de Roma,
Urbano VI (apoiado pela Inglaterra) o que aconteceu em 1381.

1381-1382 - Antecipando os projectos luso-britânicos, D. João I de Castela


invade Portugal, dando início à III «guerra fernandina» com Castela. O infante D.
João, filho de D. Pedro e de D. Inês de Castro, refugiado em Castela desde 1380,
invade Portugal ao lado do rei castelhano.
Mesmo com o apoio dos mercenários ingleses (aliás pouco empenhados
em travar combate e excessivamente voltados para a pilhagem), os Portugueses
são sucessivamente derrotados em pequenos confrontos terrestres e na batalha
naval de Saltes. Lisboa é cercada mas resiste à conquista. Perante esta situação
de impasse, sem vencedores nem vencidos, Portugueses e Castelhanos decidem
negociar a paz, acordada em Elvas, em Agosto de 1382, à margem dos Ingleses
(odiados por ambas as partes). D. Fernando e a Igreja portuguesa passam de
novo a apoiar o papa de Avinhão.

1383 - [2 de Abril] Com o objectivo de consolidar a paz estabelecida no Acordo de


Elvas, é assinado o Tratado de Salvaterra de Magos (depois «ratificado» pelas
Cortes de Santarém). Estabeleceu-se que a infanta D. Beatriz, herdeira do trono
português, casaria com o herdeiro da coroa castelhana. No entanto, falecida
precocemente a rainha de Castela, D. Beatriz acaba por desposar (com apenas
11 anos) o próprio D. João I de Castela.
[Outubro-Dezembro] Depois da morte de D. Fernando (em 22 de Outubro,
com
(Legenda: Túmulo de D. Fernando (Lisboa, Museu Arqueológico do Carmo).)

[53]

38 anos), concretizando uma das cláusulas do Tratado de Salvaterra de Magos (e


apesar dos protestos populares), D. Leonor Teles assume o cargo de regente de
Portugal em nome de D. Beatriz e de D. João de Castela.
A pedido dos «homens bons» de diversos concelhos, a regente D. Leonor
Teles demite «os judeus» de todos os cargos públicos até então ocupados por
membros desta comunidade minoritária que, se por um lado foi sempre segregada
e periodicamente perseguida, por outro manteve ao longo da Idade Média um
arreigado espírito de autonomia e de preservação da sua identidade étnico-
cultural e religiosa.
Perante o acto de aclamação dos novos monarcas e da regente, em
diversas localidades do país eclodem movimentos de revolta e contestação. Em
Lisboa, no dia 6 de Dezembro, liderado por D. João, Mestre de Avis, um grupo
constituído por jovens membros da pequena nobreza («filhos segundos») e por
«burgueses», assassina o conde João Fernandes Andeiro, principal conselheiro
de D. Leonor Teles. A população desta cidade é mobilizada para a rebelião, que
deflagra também em outras zonas do país. Procurando dar corpo a uma
alternativa à regência de D. Leonor e à integração em Castela, D. João, Mestre de
Avis aceita, após algumas hesitações, ser proclamado «Regedor e Defensor do
Reino». Substituiria o seu meio-irmão, o infante D. João, enquanto este fosse
prisioneiro do rei de Castela.
Acusado de apoiar a regente e os reis de Castela, é assassinado o bispo
de Lisboa. A população desta cidade esboça ainda uma tentativa de assalto à
judiaria. Na sequência de todos estes acontecimentos, com o apoio de parte
significativa da nobreza portuguesa, o rei de Castela invade Portugal.
1384 - Retomando o esquema seguido nos anteriores conflitos, D. João de
Castela cerca Lisboa. A capacidade de resistência da cidade — reforçada pelo
apoio prestado por outras localidades e pelas muralhas construídas entre 1373 e
1375 — bem como o surto de peste que atacou as tropas castelhanas, levaram ao
levantamento do bloqueio.
No Alentejo, chefiados por Nuno Álvares Pereira — um outro «filho
segundo» da nobreza portuguesa escolhido pelo Mestre de Avis para coordenar
as operações militares na região sul do país —, os Portugueses derrotam os
Castelhanos na Batalha de Atoleiros. Tratou-se de um primeiro exemplo da
superioridade militar dos exércitos constituídos por besteiros e archeiros (soldados
plebeus) e por cavalaria ligeira relativamente às tradicionais hostes feudais
(modalidade ainda predominante nos contingentes castelhanos).
O Alentejo é ainda palco de levantamentos populares (essencialmente
protagonizados por camponeses assalariados) que, se por um lado podem ser
integrados na conjutura de guerra civil e de conflito entre Portugal e a coroa de
Castela, assumem igualmente características típicas das revolta camponesas
(antifeudais) ocorridas na segunda metade do século XIV em várias regiões da
Europa.

(Legenda: D. Nuno Álvares Pereira.)

1385 - No decorrer das Cortes de Coimbra, afastados os outros possíveis


candidatos ao trono (D. Beatriz, D. João e D. Dinis

[54]

os dois últimos filhos de D. Pedro I e de D. Inês de Castro) devido à intervenção


do legista João das Regras, dos representantes de grande parte dos concelhos e
dos «filhos segundos» de muitas famílias da nobreza, D. João, Mestre de Avis, é
aclamado rei de Portugal.
Nas Batalhas de Aljubarrota, Trancoso e Valverde, com o apoio de
soldados ingleses, médios e pequenos exércitos de soldados plebeus (besteiros e
archeiros) enquadrados por nobres «filhos segundos» derrotam sucessivamente
contingentes militares castelhanos recrutados e organizados ainda de acordo com
uma lógica essencialmente feudal.

1386 - Os reis de Castela, que continuam a intitular-se reis de Portugal, nomeiam,


em seu nome, regente de Portugal o infante D. João (filho de D. Pedro e D. Inês
de Castro).

1386-1387 - Através do Tratado de Windsor, assinado por representantes do rei


de Portugal e do rei de Inglaterra, aquela potência europeia reconhece
explicitamente o novo monarca e a nova dinastia resultantes das decisões
tomadas nas Cortes de Coimbra.
Paralelamente às iniciativas tomadas com o objectivo de «privilegiar» os
seus apoiantes (élites concelhias, «filhos segundos» da nobreza, mercadores e
financeiros de Lisboa e Porto) e consolidar o poder recém-adquirido, D. João I
inicia o processo de reconstituição do «aparelho de Estado» e de reestabilização
das finanças régias. Nesse sentido, ordena uma nova desvalorização (ou
«quebra») da moeda e assegura a aprovação em Cortes do Imposto das Sisas
(1387). Trata-se do primeiro imposto geral e permanente, aplicável a todas as
transacções comerciais realizadas no país por pessoas de qualquer estrato social
(incluindo o rei e a rainha). A quantia assim cobrada representou, durante o
reinado de D. João I, mais de três quartos das rendas públicas.

1387 - Utilizando uma vez mais o contrato matrimonial como instrumento de


reforço dos laços político-diplomáticos entre «Estados», dando cumprimento a
uma das cláusulas do Tratado de Windsor, D. João I de Portugal casa com D.
Filipa de Lencastre (membro da família real inglesa).

1388 - Com o objectivo de comemorar a fundação de uma nova dinastia e de


celebrar o «patrocínio divino» à vitória das tropas portuguesas na Batalha de
Aljubarrota, D. João I ordena a construção do Mosteiro de Santa Maria da Vitória
(mais conhecido por Mosteiro da Batalha). A primeira parte

(Legenda: Batalha de Aljobarrotra (Londres, British Library).)


[55]

daquele que é hoje considerado um dos principais exemplos do estilo gótico em


Portugal, deve-se ao mestre português Afonso Domingues.

1389 - Nas Cortes realizadas em Lisboa, D. João I faz aprovar um conjunto de


legislação que visa reforçar a capacidade de intervenção da administração régia.
Retira-se à nobreza o controlo directo (no âmbito da dependência feudal) sobre
grande parte dos homens mobilizáveis para a guerra (generalizando a quase todo
o país e transferindo para a coroa o mecanismo de recrutamento e pagamento
dos soldados iniciado com os «besteiros do conto», inicialmente da
responsabilidade dos concelhos urbanos). Criam-se soluções que permitiam a
recuperação de parte importante das terras doadas pelo novo monarca como
prémio dos serviços prestados por alguns dos que apoiaram a sua causa
(preocupação mais tarde generalizada por D. Duarte através da chamada «Lei
Mental»). Decreta-se uma nova «quebra da moeda» e determina-se a concessão,
pelos «homens bons» dos principais concelhos do país, de um «empréstimo
forçado» ao rei. Inicia-se, pela primeira vez em Portugal, um esforço de
compilação e sistematização de todas as leis em vigor (tarefa concluída apenas
durante o reinado de D. Afonso V).

1391 - Renovando tradicionais hábitos de «moralização dos costumes» e de


defesa dos símbolos e ritos que delimitavam as fronteiras entre os diversos
grupos (ou «ordens») sociais, D. João I promulga uma «Lei Pragmática».
[31 de Outubro] Nasce em Viseu o infante D. Duarte, primeiro filho de D.
João I e herdeiro natural ao trono de Portugal.

1392 - No âmbito do longo e contraditório processo de reforço do poder real, de


sofisticação e autonomização do aparelho administrativo do «Estado»
relativamente à família real e às modalidades «feudais» de exercício desse
mesmo poder, D. João I aceita separar a «Casa do Cível» (tribunal superior cada
vez mais afastado da pessoa do próprio rei, já quase sempre sediado em Lisboa
ou Santarém) da «Casa da Justiça da Corte» (tribunal superior que fazia parte
integrante da corte, que acompanhava o rei para onde quer que este se
deslocasse e que dava corpo à imagem do monarca como instância última de
recurso, fonte de justiça e árbitro supremo de todas as disputas).
(Legenda: Fachada principal do Mosteiro da Batalha)

[56]

1393 - Retribuindo o apoio prestado pelo rei e pela Igreja portuguesa (no contexto
da aliança com Inglaterra), o papa de Roma, Bonifácio IX, autoriza, através da
bula In eminentiddimae dignitatis, a criação do arcebispado de Lisboa. Para além
de outras razões, esta alteração na hierarquia da Igreja portuguesa terá resultado
da necessidade de reconhecer, também no plano religioso, a importância
crescente de Lisboa no contexto do país e enquanto base essencial de suporte do
poder real.

1395 - Dando continuidade ao esforço de verificação de títulos de propriedade e


de direitos senhorais efectivamente concedidos, de anulação e punição dos
«abusos e usurpações» eventualmente cometidos (sobretudo por nobres, clérigos
e instituições eclesiásticas) relativamente ao património da coroa, D. João I
ordena a realização de Inquirições na região da Beira Alta e Trás-os-Montes.

1396-1402 - Depois de um período relativamente longo marcado por pequenos


conflitos, pela realização de pilhagens em ambos os lados da fronteira e pela
negociação de tréguas precárias (desrespeitadas pelos dois contendores),
reinicia-se a guerra com Castela. A partir do reino vizinho, os exilados
portugueses e a coroa castelhana apoiam a tentativa do infante D. Dinis (filho de
D. Pedro I e de D. Inês de Castro, tio de D. Beatriz) de reclamar pelas armas os
direitos ao trono português.

1401 - Do casamento de D. Afonso (conde de Barcelos e duque de Bragança)


com D. Brites, filha de D. Nuno Álvares Pereira, resulta a constituição de uma das
maiores casas senhoriais portuguesas (origem da futura Casa de Bragança), só
contrabalançada pelo património fundiário e de direitos feudais na posse dos
monarcas e pelas casas senhoriais constituídas por D. João I em favor dos seus
próprios filhos.

1402 - De acordo com os hábitos medievais de «bom governo» (origem de muitos


dos «princípios económicos» depois sistematizados pelos teóricos mercantilistas)
e procurando evitar a fuga de metais preciosos (da «boa moeda») para zonas da
Europa onde as actividades económicas e os tesouros régios (ou senhoriais)
vivessem situações de maior desafogo e prosperidade, D. João I promulga
legislação que proíbe a exportação de metais preciosos.
Em resultado, quer da constatação de que seria impossível a qualquer uma
das partes alterar significativamente a situação existente no reino vizinho, quer da
redução significativa dos níveis de conflitualidade político-militar existentes na
Europa, representantes dos reis de Portugal e Castela assinam um acordo de
tréguas que será respeitado durante dez anos. No final deste período, o Acordo
de Segóvia (de 1411) marca o fim «definitivo» das hostilidades.

(Legenda: D. João I (Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga).)

1402-1406 - Encerrando um longo processo de conflito e negociação no qual se


encontravam envolvidos a Igreja, os «burgueses» (habitantes plebeus dos
«burgos») e o rei, D. João I consegue obter a transferência a seu favor da
jurisdição sobre Braga e sobre o Porto.

[57]

Desta alteração, apoiada pelos habitantes das duas cidades e aceite,


respectivamente, pelo arcebispo de Braga e pelo bispo do Porto, resultou ainda
um reforço da autonomia e das «liberdades» dos dois mais importantes concelhos
do Norte do país.
1404 - Utilizando uma modalidade de benesse régia que é, em simultâneo, um
instrumento de «povoamento» e valorização de regiões economicamente pouco
exploradas (modalidade essa depois adoptada como solução-tipo da primeira fase
da expansão colonial portuguesa), D. João I concede ao genovês Giovanni di
Palma «privilégio» para a exploração de uma plantação de cana-de-açúcar no
Algarve.

1408 - A partir das Cortes de Évora terá provavelmente tido início em Portugal a
concessão regular por parte da coroa de um subsídio (ou «assentamento») que
visava assegurar aos «filhos segundos» das famílias da grande e média nobreza
(privados de rendimentos próprios pelo sistema de herança unilinear) a
possibilidade de continuar a viver na corte sem perda de estatuto socioeconómico.

1411 - Tratado de Paz de Segóvia, entre Portugal e Castela, que põe termo ao
prolongado conflito entre os dois países.
Primeiro alvará para um engenho de papel nas margens do rio Lis, em
Leiria.

1412 - Ano provável em que D. Duarte foi associado ao poder por D. João I.
D. João I oferece-se para cooperar na conquista do reino de Granada; D.
Fernando de Aragão, um dos tutores de D. João II de Castela, não aceita esse
apoio.
Cortes de Lisboa.

1412-1414 - Crise cerealífera e consequente carestia. A falta de pão significava


fome.

1412 (?) - Livro da Ensinança do Bem Cavalgar toda a Sela, de D. Duarte (escrito
após 1412).

1413 - Cortes de Lisboa.


Segundo Zurara, o prior do Hospital desloca-se à Sicília. Aporta então a
Ceuta, para obter informações, e anima o rei a avançar com o projecto de a
tomar.

1414 - Cortes de Lisboa.


Carta régia de 24 de Março: proibido levar a terra de mouros, em navios do
reino ou estranhos, pão, castanha, avelãs, nozes, aço, ferro, arames, etc.
O Conselho de Estado aprova a tomada de Ceuta.
Aceleram-se os preparativos secretos de expedição, que ficaram a cargo
de D. Henrique, D. Pedro e de seu meio-irmão D. Afonso. É recrutada gente de
várias regiões do reino.
Peste.
1415 - A armada comandada por D. Henrique vinda do Porto, chega a Lisboa no
dia 15 de Julho.
A 18 de Julho, em vésperas da partida para Ceuta, morre em Odivelas, de
peste, de D. Filipa de Lencastre.
Em 25 de Julho, parte de Lisboa a armada, composta de mais de 200
embarcações, para a conquista de Ceuta. Chega no dia seguinte a Lagos. Na
frota ia o próprio rei, seus filhos D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique e D. Afonso e D.
Nuno Álvares Pereira. (Se o empreendimento não tivesse resultado, teria sido
provavelmente considerado tão «temerário» e «incauto» como Alcácer Quibir!).
Em 28 de Julho é lida a Bula de Cruzada, concedendo absolvição plenária
a todos os participantes. Só então é divulgado o verdadeiro destino da missão.
Em 21 de Agosto dá-se o desembarque português em Ceuta. A praça foi
tomada com alguma facilidade, tal como prognosticara João Afonso, vedor da
Fazenda, uns anos antes, ao sugerir a possibilidade do «filhamento» desta praça:
«E isto é a cidade de Ceuta, que é em terra de África, que

[58]

é uma mui notável cidade e mui azaeda para se tomar» (Zurara, Crónica da
Tomada de Ceuta, Cap. IX). A conquista de Ceuta foi o primeiro passo da
expansão portuguesa. Razões e vontades várias confluíram para a realização
desta empresa. Dado o cuidado e a antecedência com que foi preparada, pode
concluir-se da sua importância. No entanto, Ceuta permanecia uma ilha no meio
dos inimigos, pois todas as vias de comércio foram desviadas pelos Mouros.
(Após a conquista de Ceuta os nossos reis são «reis» e «senhores». Reis de
Portugal e do Algarve e senhores de Ceuta.)
Purificação e conversão da mesquita de Ceuta em templo cristão, dedicado
a Nossa Senhora da Assunção. Aqui D. João I arma seus filhos cavaleiros.
A defesa de Ceuta fica a cargo de D. Pedro de Meneses.
Já em Tavira, após o regresso de Ceuta, são concedidos os títulos de
duque de Coimbra e de Viseu, respectivamente aos infantes D. Pedro e D.
Henrique. Dá-se assim a introdução em Portugal do título de duque.
Lei que regulamenta a acção dos cambistas, restringindo a sua actividade
às cidades de Lisboa e Porto.
Utilização pela marinha portuguesa do barco denominado varinel (barinel).
(Legenda: Infante D. Henrique (políptico de Nuno Gonçalves. Lisboa, Museu
Nacional de Arte Antiga).)

1415-1416 - Realizam-se expedições às ilhas Canárias, por iniciativa do infante


D. Henrique.

1415-1433 - Livro da Montaria, de D. João I. (A redacção definitiva parece não


ser do próprio D. João I.)

1416 - Carta régia cometendo ao infante D. Henrique «as coisas do provimento e


defensão da cidade de Ceuta».
Concedidas aos infantes D. Pedro e D. Henrique as alcaidarias-mores das
cidades de Coimbra e Viseu, respectivamente.
Cortes de Estremoz.

1418 - Crise cerealífera e consequente fome.


Cortes de Santarém.
Cerco de Ceuta por forças marroquinas.
Revisão do regimento dos corregedores de 1340.
Criação da diocese de Ceuta por bula de Martinho V.
Bula de Martinho V recomendando à cristandade que auxilie D. João I na
guerra movida em África contra os «infiéis». Bula de Martinho V, Super gregum
dominicanum, autorizando os Portugueses a comerciar com os infiéis.
Fernão Lopes é dado já nesta data como escrivão e guarda-mor do arquivo
real da Torre do Tombo.

1418-1433 - Livro da Virtuosa Benfeitoria, do infante D. Pedro. Obra de


doutrinação moral prática com a qual o autor pretende, sobretudo, incutir nos
nobres o dever de exercerem «benefício». (Redigido entre 1418 e 1433.)

[59]
(Legenda: João Gonçalves Zarco (Lisboa, Museu Militar.)

1419 - João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira desembarcam na ilha de


Porto Santo (data provável).
Bula de Martinho V concedendo, por sete anos, uma indulgência plenária in
articulo mortis a todos os que fossem para Ceuta e aí permanecessem.
Em Julho, João Gonçalves Zarco terá aportado à ilha da Madeira,
proveniente de Porto Santo (uma de várias datas possíveis).
Descerco de Ceuta.
Atribuída a D. Henrique a intenção de tomar Gibraltar, a partir de Ceuta (o
que não fez por condições atmosféricas adversas e também porque o seu pai o
chamara a Portugal).
Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal.

1420 - João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu Perestrelo


reconhecem a ilha da Madeira, onde realizam a primeira tentativa de povoamento.
A administração da Ordem de Cristo é cedida, pelo papa, a D. Henrique, a
rogo do rei. Os vultuosos proventos desta Ordem serão investidos na guerra
contra o «infiel» e na expansão atlântica.
Vem a Portugal o cosmógrafo, cartógrafo e construtor de instrumentos
náuticos, Jacome de Maiorca.
Bula Romanus Pontifex regulando definitivamente a fundação do bispado
de Ceuta, cuja diocese abrangia o reino de Fez e as regiões marítimas do reino de
Granada.

1421 - Provável início das tentativas para reconhecimento das terras além do
cabo Não.
Bula de Martinho V determinando que a igreja de Ceuta seja elevada a
catedral. Bula de Martinho V confirmando a nomeação do 1.º bispo nomeado
para Ceuta.
D. Henrique recebe o monopólio da estacada no Ródão (para reter o peixe)
e do relego de Viseu.

1422 - [22 de Agosto] Carta régia, ordenando que a era de César (ou de Augusto)
seja substituída pela era de Cristo. (O 1.º ano da era de César correspondia ao
ano 38 a.C.; quando se deu a alteração estava-se, por conseguinte, no ano de
1460 da era de César).
Bula de Eugénio IV, declarando que a cidade de Ceuta ficava sob a
protecção pontifícia.
D. Henrique recebe o direito de conceder terras suas e da Ordem de Cristo
em regime de sesmaria.
Elaboração da reforma do rol dos besteiros do conto. Este rol tem servido,
a partir do historiador oitocentista Rebelo da Silva para, de uma forma crítica, se
estabelecer o cômputo absoluto da população.

1422-1427 - Crise cerealífera; fome.

1422-1433 - Descobrimento da costa de África até ao cabo Bojador.

[60]

1424 - A mandado do infante D. Henrique, uma frota transportando 2500 homens


e 120 cavalos, sob o comando de Fernando de Castro, tenta a conquista da.
Grã-Canária.
Reconhecimento papal do direito de Portugal ao domínio sobre as ilhas não
cristianizadas do arquipélago das Canárias.
O infante D. Pedro, o das «Sete Partidas», parte para o seu périplo
europeu, só regressando ao reino em 1428.
Carta náutica de Zuane Pezzigano, representando as costas da Europa e
da África, incluindo os arquipélagos atlânticos segundo a forma então corrente.
D. Henrique recebe o direito de doação de casas para saboaria em
Santarém.

1425 - Nova expedição terá sido dirigida às Canárias.


Ocupação e colonização efectivas das ilhas da Madeira e Porto Santo (data
aproximada).

1425-1426 - O infante D. Pedro escreve uma «carta manifesto» ao irmão D.


Duarte, então co-governador do reino e futuro rei, com opiniões seguras e
«modernas» para a época, sobre política eclesiástica, cultural, militar, judicial,
financeira e social.

1426 - Bula do papa Martinho V na qual ele mostra a sua estranheza pelo facto de
os bispos não reagirem às interferências do rei no poder episcopal.
Concílio de Braga, para defesa das liberdades eclesiásticas.
Viagem provável de Frei Gonçalo Velho pela costa africana, até à Terra
Alta.

1427 - Realiza-se outra expedição contra a Grã-Canária, sob o comando de Antão


Gonçalves.
Um navio pilotado por Diogo de Silves, terá atingido o arquipélago dos
Açores, segundo o mapa de Valseca (ilhas orientais e centrais).
É aprovada uma Concordata de 94 artigos entre o rei e os bispos que
resolve os litígios pendentes, dentro da linha geral de supremacia do poder real.
Cortes de Lisboa.

1428 - Casamento de D. Duarte com D. Leonor de Aragão.


O infante D. Pedro traz de Veneza o livro de Marco Polo e um mapa-múndi
para o seu irmão D. Henrique.
O infante D. Henrique recebe facilidades para a sua indústria de sabão em
Lisboa.

1429 - Peste.

1430 - Cortes de Santarém.


Início das relações comerciais com a Prússia.

1431 - Tratado de Medina del Campo entre Portugal e Castela.


Descobrimento da ilha de Santa Maria por Gonçalo Velho.
Morte de D. Nuno Álvares Pereira.

1431-1432 - Cartas régias assinadas pelo infante D. Duarte em nome do rei.

1431-1433 - Crónica do Condestabre de Portugal, de autor anónimo. (Esta


crónica foi aproveitada por Fernão Lopes.)

1432 - Peste.
Tratado de paz com Castela.
Estabelece-se a indivisibilidade nos aforamentos perpétuos de bens da
coroa.
Nascimento do príncipe D. Afonso, futuro D. Afonso V, em Sintra, a 15 de
Janeiro.
Presumível descobrimento da ilha de S. Miguel, Açores.
Desembarca na Praia dos Lobos, ilha de Santa Maria, Açores, a expedição
de

[61]
(Legenda: Gil Eanes (Lisboa, Museu Militar).)

Gonçalo Velho com o fim de proceder ao seu povoamento.

1433 - Morte de D. João I, em Lisboa, a 15 de Agosto. D. Duarte sobe ao trono,


com cerca de 42 anos de idade.
Cortes de Leiria-Santarém.
Vã tentativa de Gil Eanes para dobrar o cabo Bojador.
Carta de mercê ao infante D. Henrique de todas as presas feitas por
quaisquer navios e fustas que armar à sua custa.
D. Duarte faz doação das ilhas da Madeira, Porto Santo e Desertas ao
infante D. Henrique. Este passaria a dispor de plenos poderes sobre o
arquipélago. (Ressalvados para o rei os direitos de pena de morte ou mutilação e
o da cunhagem de moeda.)
Nasce o infante D. Fernando, o segundo filho de D. Duarte, que virá a ser
adoptado por seu tio D. Henrique e do qual será herdeiro.
Carta de mercê a Gil Eanes do ofício de escrivão dos navios que vierem ao
porto de Lisboa.
O infante D. Henrique consegue o exclusivo do sabão.

1434 - Gil Eanes, natural de Lagos e escudeiro do infante, dobra o cabo Bojador,
«fronteira do mar impossível» e marco importante no reconhecimento da costa de
África. Conta Zurara que nos mareantes causava grande espanto e medo ter de
passar o Cabo Bojador: «(...) o mar é tão baixo que a uma légua de terra não há
de fundo mais que uma braça. As correntes são tamanhas que navio que lá passe
jamais poderá tornar.» (Zurara, Crónica dos Feitos da Guiné).
D. Duarte encarrega Fernão Lopes de «pôr em crónica» as «estórias dos
reis que antigamente em Portugal foram», assim como os feitos de D. João I.
Atribui-lhe uma tença vitalícia de 14 000 réis.
O infante D. Henrique promove nova expedição às Canárias, por
consentimento e mandado de D. Duarte.
Rodrigo Rebelo, Pedro Reinei e João Colaço viajam pela Senegalândia
interior em demanda do Prestes João das índias.
Regimento dos Capitães de Ceuta.
[8 de Abril] Promulgação da Lei Mental, assim chamada «por ser primeiro
feita segundo a vontade e tenção del-rei D. João o primeiro», que em seu tempo a
aplicara, em casos isolados, embora a não formalizasse. A Lei Mental
determinava que todas as terras e bens doados pela coroa, no passado ou no
futuro, só poderiam ser herdados pelo filho varão primogénito. Simultaneamente
pretendia fazer regressar à coroa certos bens que haviam sido doados por D.
João I. Abriram-se, no entanto, excepções ao teor da Lei Mental. Nomedamente,
D. Afonso, conde de Barcelos, tronco da futura Casa de Bragança, obteve isenção
para os seus bens por Carta de mercê deste mesmo ano de 1434.
D. Henrique fixa-se no Sul do país.

1435 - Gil Eanes terá voltado, juntamente com Afonso Gonçalves Baldaia, ao
cabo Bojador, atingindo a Angra dos Ruivos ou dos Cavalos, 50 léguas além do
famoso cabo. Peste.

[62]

1436 - Cortes de Évora. Nelas anuncia-se uma expedição militar a África.


Afonso Gonçalves Baldaia chega à Pedra da Galé e explora a reentrância
marítima que denomina Rio do Ouro.
O infante D. Henrique perfilha o seu sobrinho e afilhado D. Fernando,
constituindo-o como seu herdeiro universal.
Bula de Eugênio IV estimulando a conquista de Marrocos. O papa Eugênio
IV reconhece os direitos de Castela à posse das ilhas Canárias.

1436-1441 - Crise cerealífera e consequente fome.

1437 - Proclama-se solenemente em Lisboa a Bula da Santa Cruzada. Expedição


a Tânger, comandada por D. Henrique. Derrota portuguesa. O infante D.
Fernando é feito refém, juntamente com os seus companheiros, com garantia de
que Portugal cumpriria a promessa de restituir Ceuta. É levado de Tânger para
Arzila.

(Legenda: Infante D. Fernando (Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga).)


1437-1438 - Leal Conselheiro, por D. Duarte.

1437-1441 - Peste.

1438 - O infante D. Fernando é transferido de Arzila para Fez.


Cortes de Leiria reunidas, no final do reinado de D. Duarte, para resolver os
problemas levantados com o desastre de Tânger, nomeadamente tratar do
resgate de D. Fernando contra a entrega de Ceuta. As posições dividem-se, tal
como se haviam dividido antes da expedição a Tânger. D. Henrique, ausente no
Algarve, não assiste às Cortes.
Morte de D. Duarte, em Tomar, a 9 de Setembro, provavelmente de peste
bubónica que então grassava intensamente no país. Em testamento indica a
libertação de D. Fernando (mesmo entregando Ceuta) e a regência de D. Leonor.
O governo passa para D. Leonor, por vontade de D. Duarte expressa em
testamento, como atrás foi referido. A rainha regente seria também tutora do rei,
D. Afonso V, até que este atingisse os 14 anos.
Oposição à regência de D. Leonor por parte da Nação, dos concelhos e de
grande parte da nobreza. Temia-se que a regente pudesse pôr em perigo a
independência e a paz do reino, manobrada pelos seus irmãos, os infantes de
Aragão, então em guerra com Castela.
Cortes de Torres Novas reunidas para prestar juramento e menagem ao rei
D. Afonso V e estudar a questão polémica da regência. Nestas cortes o infante D.
Henrique apresenta uma proposta, que foi aprovada, conhecida por «Regimento
do Reino de 1438», na qual estabelece uma partilha de poder pela rainha, pelo
infante D. Pedro e por umas

[63]

«cortes restritas», instituídas para esse efeito. (Esta solução não agrada a
ninguém.)
Ano provável da morte do Mestre André Dias, autor da obra poética
religiosa Laudes e Cantigas Espirituais.

1439 - Cortes em Lisboa. Nelas D. Pedro é declarado, de modo «revolucionário»,


por pressão do povo, «regedor e defensor do reino» tal como o fora seu pai, D.
João I além de tutor e curador do rei. D. Pedro profere uma declaração pró-
nobiliárquica e concede mercês e direitos a Lisboa (retira-lhe o encargo de
aposentadoria).
Muitos alunos universitários preferem ir terminar em Bolonha, Paris ou
Oxford, os seus estudos, obtendo lá os graus. D. Pedro acede ao pedido, exigindo
aos estudantes uma satisfação pecuniária à Universidade portuguesa onde
haviam iniciado os estudos.
Por carta de mercê, D. Henrique recebe autorização para cortar madeira
para os seus navios, casas e quaisquer obras, nos pinhais régios do Ribatejo.
Carta de Gabriel de Valseca feita em Maiorca, onde já se representam as
nove ilhas dos Açores.
Cartas de confirmação da doação das ilhas da Madeira, Porto Santo e
Desertas ao infante D. Henrique.
Carta de privilégio a D. Henrique e aos moradores das ilhas da Madeira,
Porto Santo e Desertas, isentando-os das sisas e portagens, por 5 anos, de tudo
o que trouxessem daqueles lugares para o reino.
Carta régia na qual se afirma que o infante D. Henrique mandara lançar
ovelhas nas «sete ilhas dos Açores» e que, se fosse vontade do monarca, as
mandaria povoar. Trata-se do 1.º documento oficial que refere o arquipélago.
Confirmação da regência de D. Pedro pelo monarca D. Afonso V, ainda
menor.

1440 - O regente D. Pedro confia ao seu amigo D. Álvaro Vasques de Almada a


alcaidaria de Lisboa, em 5 de Abril.
Efectua-se nova expedição às Canárias, sob o comando de D. Fernando
de Castro, governador da Casa do infante D. Henrique.
Fundação pelos franciscanos do 1. º Convento na ilha da Madeira.
Carta de doação do infante D. Henrique da capitania-donatária de Machico
(Madeira), a Tristão Vaz Teixeira.

(Legenda: D. Afonso V (Estugarda, Landes Bibliothek).)

1441 - Viagem ao cabo Branco de Nuno Tristão, «cavaleiro mancebo criado de


moço pequeno na câmara do infante» e de Antão Gonçalves ao Rio do Ouro,
onde vai buscar peles e óleo de foca, dando assim início a uma fase económica
dos Descobrimentos. Aqui encontram-se os dois navegadores. Com eles chegam
a Portugal — a Lagos — alguns dos primeiros cativos negros, correspondendo à
instrução de «filhar gente» dada pelo infante. (Anteriormente era costume «filhar»
Canários e Marroquinos, em assaltos.)
Data provável da utilização da caravela nas Descobertas. Sobre a barca e
o varinel até aí usados, tinha a vantagem de, com as suas velas triangulares ou
latinas, poder navegar pelo largo e à bolina. A caravela,

[64]

barco por excelência das Descobertas, foi usada pela primeira vez por Nuno
Tristão na referida viagem ao cabo Branco.
Primeiro moinho para o fabrico de pasta de papel, em Leiria.
Cortes de Torres Vedras.

1442 - Bula de Eugênio IV concedendo a remissão plenária de todos os pecados


aos que concorressem para a defesa de Ceuta ou marchassem contra os
«infiéis».
Nova bula de Eugénio IV concedendo indulgências plenárias a todos os
que participassem nas expedições da Ordem de Cristo contra os sarracenos.
O infante D. Pedro, então regente do reino, doa a seu meio-irmão D.
Afonso, conde de Barcelos, a vila de Bragança e com ela o título de duque.
Constitui-se assim a Casa Ducal de Bragança. (A verdadeira sede do ducado viria
no entanto a estabelecer-se em Vila Viçosa.) Entre o «neo-senhorialismo»
emergente, o poderio dos duques de Bragança vai revelar-se enorme...
Falecimento do infante D. João, filho de D. João I.
Cortes de Évora.
Estabelecimento de feira franca anual na vila de Pombal (senhorio de D.
Henrique).

1442 ou 1443 - Antão Gonçalves volta ao Rio do Ouro. No regresso terá trazido o
1. º ouro africano e alguns escravos.

1443 - Nuno Tristão terá atingido as ilhas de Gete, Garças e Arguim, no golfo de
Arguim.
Carta régia que atesta já a existência de colonos nos Açores, isentando-os
de pagarem décimas ou portagens (por cinco anos) de tudo quanto fosse trazido
das ilhas para o continente.
Morre o infante D. Fernando, em Fez.
Carta régia de 22 de Outubro, do regente D. Pedro, em nome de D. Afonso
V, concedendo ao infante D. Henrique o monopólio da navegação, guerra e
comércio das terras para além do Cabo Bojador, desta forma: «Dom Afonso (...)
fazemos saber como o infante D. Henrique meu muito prezado e amado tio (...) se
meteu a mandar seus navios a saber parte da terra que era além do cabo Bojador
(...) e nos disse que sua vontade era mandar seus navios mais adiante (...) e que
nos pedia por mercê que lhe déssemos nossa carta, que nenhum não fosse
àquelas terras sem seu mandado e licença assim para guerra como para
mercadorias, e que de aqueles a que ele assim mandasse ou desse licença lhe
déssemos o direito do quinto ou dízima do que de lá trouxessem, segundo a nós
pertence. E (...) defendemos que em vida do dito meu tio ninguém não passe
além do dito cabo Bojador sem seu mandado e licença (...)»
O regente D. Pedro doa a D. Henrique a vila de Gouveia e o cabo de
Transformar (S. Vicente) e uma légua em seu redor.

1444 - Data provável da constituição da companhia de Lagos, organizada por


Lançarote de Lagos (Lançarote Pessanha), escudeiro do infante D. Henrique e
almoxarife do rei em Lagos. Esta companhia realiza operações de comércio na
costa africana.
Uma frota algarvia de seis caravelas, organizada por Lançarote de Lagos,
parte para o golfo de Arguim, abordando diversas ilhas. Foram então capturados
mais de duas centenas de escravos.
Procede-se, em Lagos, à partilha dos referidos escravos, a que assistiu o
infante D. Henrique. A cena dessa partilha é inpressionantemente descrita por
Zurara: «Mas qual seria o coração, por duro que ser pudesse, que não fosse
pungido de piedoso sentimento, vendo assim aquela companha? Que uns tinham
as caras baixas e os rostos lavados em lágrimas, olhando uns contra os outros;
outros estavam gemendo mui dorosamente, esguardando a altura dos céus,
firmando os olhos em eles, tradando altamente, como se pedissem socorro ao
Padre da Natureza; outros feriam o seu rosto com suas palmas, lançando-se
estendidos no meio do chão; outros faziam lamentações em maneira de canto,

[65]

segundo o costume de sua terra (...). Mas para seu dó ser mais acrescentado,
sobrevieram aqueles que tinham carregado da partilha e começaram de os
apartar uns dos outros, a fim de porem os seus quinhões em igualeza; onde
convinha de necessidade apartarem os filhos dos padres e as mulheres dos
maridos e os irmãos uns dos outros. A amigos nem a parentes não se guardava
nenhuma lei, somente cada um caía onde a sorte o levava!» Ao infante, que «era
ali em cima dum poderoso cavalo, acompanhado de suas gentes», couberam do
quinto que lhe pertencia «46 almas», (Zurara, Crónica da Guiné.)
Carta de doação e confirmação do almirantado a Lançarote Pessanha.
Terceira viagem de Nuno Tristão que atinge uma região que Zurara
apelidou de Terra dos Negros, próxima da foz do rio Senegal.
Dinis Dias atinge o promontório de cabo Verde e a ilha das Palmas. O
escudeiro Álvaro Fernandes fica em terra para obter informações sobre a região.
Carta de privilégios e isenção aos moradores das ilhas da Madeira, Porto
Santo e das outras ilhas do infante D. Henrique, do pagamento de dízima e
portagem de todas as mercadorias que trouxessem para o continente.
O infante D. Henrique manda em caravelas Antão Gonçalves, Diogo Afonso
e Gomes Pires ao Rio do Ouro.
Bula de Eugênio IV em que confere ao bispo D. Frei João Manuel o título
de primaz de África.
Estabelecimento de feira franca anual na cerca da Vala de Viseu, senhorio
de D. Henrique.
D. Afonso V, através do infante D. Pedro, passa a D. Henrique uma carta
de privilégio no sentido de nenhum navio poder ir às Canárias sem seu
consentimento. (Verifica-se assim que as ilhas Canárias ainda eram consideradas
como domínio português.)
A Ordem de Avis torna-se independente da Ordem castelhana de
Calatrava, à qual até esta data estava ligada.
Cortes de Évora.

(Legenda: Gomes Eanes de Azerara: iluminura da Crónica da Tomada de Ceuta)

1445 - Morre em Toledo D. Catarina de Aragão, viúva de D. Duarte, que havia


«fugido» para Castela, aquando da crise política de 1438-1439.
Álvaro Fernandes atinge o cabo dos Mastos ou o cabo Vermelho.
João Fernandes interna-se pelo Rio do Ouro em demanda de informações
sobre Prestes João.
A Casa dos Tratos de Arguim inicia as suas actividades comerciais em
Lagos. No mesmo ano inicia-se a construção da feitoria de Arguim, primeiro
estabelecimento comercial dos Portugueses na África negra.
Viagem de Gonçalo de Sintra, em que descobre a Angra a que deu o seu
nome e onde morrerá combatendo os indígenas.
Bula de Eugénio IV, Romanus Pontifex, mandando incorporar na igreja de
Ceuta, certas rendas das igrejas de Tui e Badajoz.

[66]

Sai de Portugal Vicente Dias de Lagos, numa caravela do infante e levando


a bordo Luís de Cadamosto. Terá atingido o rio Gâmbia.
Carta do regente D. Pedro concedendo a seu irmão, o infante D. Henrique,
o monopólio vitalício do pastel para a tinturaria.
Expedição contra os mouros da ilha de Tider que sai de Lagos sob o
comando de Lançarote.
D. Fernando, conde de Arraiolos, filho do duque de Bragança, é feito
governador de Ceuta.
Verifica-se a ruptura nas relações entre D. Afonso, 1.º duque de Bragança,
e seu meio-irmão D. Pedro.
Crise cerealífera e consequente fome (1445-1446).

1446 - [15 de Janeiro] D. Afonso V atinge a maioridade — 14 anos —, dando-se a


transferência formal de poderes para o jovem rei.
Carta de louvor de D. Afonso V em que se congratula pelo modo como o
regente, seu tio D. Pedro, administrara o seu reino.
Cortes de Lisboa: entre os assuntos nelas tratados, sobressai a ratificação
do matrimónio entre o rei e D. Isabel, filha do infante D. Pedro.
Estêvão Afonso atinge o rio Gâmbia, na região dos Mandingas.
Expedição de Álvaro Fernandes, que terá atingido o rio Casamansa e a
enseada final de Varela, no limite norte da actual Guiné-Bissau, passando 110
léguas além de cabo Verde.
Início da construção do Castelo de Arguim por Soeiro Gomes, e a mandado
do infante D. Henrique (ver 1449 e 1461).
João Infante, filho de Nuno Tristão, descobre o rio Grande (rio Geba, na
actual Guiné-Bissau?).
Nuno Tristão parte para mais um reconhecimento da costa africana,
atingindo o rio do Nuno (rio Nunez, Guiné francesa). Será morto nesta empresa
pelos nativos.
Os franciscanos fundam o 1.º convento na ilha de Santa Maria (Açores).
Segundo Zurara, foram neste ano 51 caravelas às terras da Guiné.
Doação, pelo infante D. Henrique, da capitania de Porto Santo a
Bartolomeu Perestrelo.

1447 - Cortes de Évora. O motivo principal da sua convocação relaciona-se com a


votação de pedidos destinados às festas de casamento entre D. Afonso e D.
Isabel.
Carta régia concedendo a D. Pedro a isenção do pagamento da dízima das
mercadorias trazidas ao reino pelos moradores da «sua ilha» (S. Miguel), como
incentivo ao povoamento desta.
Publicação das Ordenações Afonsinas, 1.ª compilação oficial das leis.
Viagem de Álvaro Fernandes, que terá chegado à ilha dos Bancos.
A caminho de Londres, passa por Lisboa o cartógrafo André Bianco.

1448 - O duque de Bragança e seu filho, conde de Ourém, conquistam influência


junto de D. Afonso V.
O regente D. Pedro é afastado do poder, conforme nos prova a carta de
louvor de 11 de Julho deste ano (totalmente idêntica à de 15 de Janeiro de 1446,
já referida). D. Afonso V demite partidários do tio dos cargos que ocupavam.
O infante D. Pedro parte para o seu ducado de Coimbra, em fins de Julho e
logo se começam a notar sintomas de deterioração nas suas relações com o rei.
Carta de confirmação da doação ao infante D. Henrique, do cabo de
Transfalmenar (S. Vicente) e de uma légua em seu redor.

1449 - Edificação do Forte de Arguim, por Soeiro Mendes, que ali ficara como
governador (ver 1446 e 1461).
Confirmação geral de todas as graças, privilégios e mercês e liberdades
concedidas

[67]

aos carpinteiros e petintais que serviam nos navios del-rei.


D. Afonso V cede a D. Henrique as ilhas Berlengas e o Baleal.
Após vários agravos do rei ao seu tio D. Pedro e, frustradas as hipóteses
de reconciliação, os exércitos real e ducal enfrentam-se junto ao ribeiro de
Alfarrobeira, perto de Alverca, a 20 de Maio. Na breve batalha morre D. Pedro e o
seu amigo D. Álvaro Vaz de Almada, conde de Avranches. O corpo do ex-regente
ficou três dias insepulto e acabou por ser depositado na igreja de Alverca. (Só em
1454 condescendeu D. Afonso V em mandar inumá-lo em pedra, no Mosteiro da
Batalha.) Com a morte de D. Pedro em Alfarrobeira «triunfa» uma nova política,
de orientação senhorial, imprimindo um novo rumo à expansão político-militar
(conquistas em Marrocos). Sob o seu mandato o país havia-se lançado
abertamente na política de descobrimentos, desviando-se do objectivo norte-
africano, para privilegiar a expansão comercial e marítima. D. Pedro, que havia
votado pela entrega de Ceuta que considerava «sumidouro de homens, armas e
dinheiro», num parecer profético (que alguns autores põem em dúvida), não
entregou a praça quando regente. Talvez por algumas importantes cidades
votarem pela sua conservação.
O filho do ex-regente, D. Pedro, condestável do reino e Mestre de Avis,
parte para Castela e é substituído nos cargos pelo infante D. Fernando, irmão de
D. Afonso V.

1450 - Bula de Nicolau V, concedendo a D. Afonso V todos os territórios


descobertos a mandado de D. Henrique.
Carta de doação do infante D. Henrique, a favor de Jácome de Bruges,
«natural do condado de Flandres», como donatário da ilha de Jesus Cristo (ilha
Terceira).
Carta de doação da capitania do Funchal (parte ocidental da ilha da
Madeira) a João Gonçalves Zarco.
D. Afonso V concede a D. Henrique o exclusivo da pesca do coral nos
mares do reino e da sua venda durante 5 anos.
D. Henrique recebe o governo da praça de Ceuta.
Pela letra «Querelam dilecte», de 21 de Maio, o papa manifesta a sua
estranheza pela forma desumana como tinha sido tratado o corpo de D. Pedro,
duque de Coimbra, que permaneceu insepulto por durante três dias.
Gomes Eanes de Zurara sucede a Fernão Lopes como cronista real.
Data provável da Crónica da Tomada de Ceuta, de Zurara. Esta é a terceira
parte da Crónica de D. João I, cujas 1.ª e 2.ª partes foram escritas por Fernão
Lopes.

1451 - É concedida ao cronista Gomes Eanes de Zurara a tença anual de 6 mil


reais.
Carta de confirmação régia da doação pelo infante D. Henrique da ilha da
Madeira (parte ocidental) a João Gonçalves Zarco.
D. Afonso V concede a D. Henrique permissão para construir moinhos de
vento na alcáçova de Santarém e em barcos do Tejo, de Constância a Lisboa.
Cortes de Santarém (primeiras Cortes da pós-regência). Um dos motivos
que levou à sua convocação prendia-se com o lançamento do pedido destinado a
custear as despesas do casamento da irmã do rei, D. Leonor, com o imperador
Frederico III da Alemanha.
Os procuradores dos concelhos requerem em Cortes uma lei pragmática
contra o luxo de alguns.
D. Afonso V outorga aos fidalgos que os apelos e agravos idos de suas
terras sejam sentenciados, sem recurso, na Casa do Cível de Lisboa.

1452 - É fundado pelos franciscanos o 1.º convento em Angra, na ilha Terceira


(Açores).
Missão enviada por D. João II de Castela a D. Afonso V, para tratar das
negociações sobre as Canárias.
Provável descobrimento ou reconhecimento, por Diogo de Teive, das ilhas
ocidentais dos Açores, Flores e Corvo, que aparecem de

[68]

signadas pelos nomes de S. Tomás e Santa Maria num mapa que pertenceu a D.
Henrique.
D. Henrique manda erguer a Ermida de Santa Maria de Belém.
Perdão geral de D. Afonso V, em 8 de Abril, concedido à gente miúda de
Coimbra, Montemor-o-Velho, Penela, Tentúgal, Vila Nova de Anços, Aveiro, Lousã
e Miranda, habitantes das terras de D. Pedro falecido em Alfarrobeira.
Bulas de Nicolau V, concedendo a D. Afonso V a faculdade de conquistar
terras aos «infiéis» e subjugá-los.
Bula de Nicolau V, confirmando que fossem desviadas certas rendas das
igrejas de Tui e Badajoz para a de Ceuta.
Autorização do infante D. Henrique para que Diogo de Teive montasse uma
fábrica de açúcar na Madeira.
Crise cerealífera e fome (que se prolonga até 1455).
(Legenda: Panorâmica de Ceuta)

1453 - D. Pedro, filho do ex-regente morto em Alfarrobeira, regressa a Portugal e


é reempossado, a 30 de Maio, no mestrado de Avis.
Expedição de Cid de Sousa que não terá ultrapassado o limite de Álvaro
Fernandes (cabo dos Mastros).
D. Afonso V doa, em aparente contradição com as disposições
testamentárias de D. Henrique, a ilha do Corvo (Açores) a D. Afonso, duque de
Bragança.
Data provável do manuscrito da Crónica do Descobrimento e Conquista da
Guiné, de Gomes Eanes de Zurara. Esta Crónica tem por herói o infante D.
Henrique, a quem, segundo Zurara, se deve a iniciativa de todas as viagens de
descobrimento realizadas até à sua morte. (Nasce o «mito» do Infante...).
A partir desta data o Estudo Geral de S. Francisco de Lisboa é equiparado
à Universidade.
A queda de Constantinopla e o avanço dos Turcos na Europa, geraram um
movimento de Cruzada contra o «infiel», conduzido pelo papa. Esse movimento
desperta grande entusiasmo em D. Afonso V.

1454 - Ano em que Fernão Lopes, «por seu prazimento» e por estar «tam velho e
flaco que per si nom pode bem servir o dito ofício», foi substituído por Gomes
Eanes de Zurara no cargo de «guardador» da Torre do Tombo.
D. Henrique alicia o jovem veneziano, recentemente chegado à Vila do
Infante, Cadamosto, para as suas navegações.
Ratificam-se, por bula de Nicolau V, as conquistas africanas do cabo Não
até à costa da Guiné, inclusive, em favor de D. Afonso V, infante D. Henrique e
seus sucessores.
Embaixada de Castela a Portugal sobre questões relacionadas com a
conquista da Guiné.
D. Afonso V entrega à Ordem de Cristo, que seu tio D. Henrique «muito
acrescentara», a administração espiritual e jurisdição de todas as terras
conquistadas e por conquistar da Guiné, Núbia, Etiópia, etc. Tais direitos seriam
confirmados por Nicolau V na bula Romanus Pontifex.
1455 - [8 de Janeiro] Bula de Nicolau V Romanus Pontifex, concedendo ao rei de
Portugal, seus sucessores e ao infante, as terras descobertas ou a descobrir
pelos Portugueses: «E esta conquista que vai desde o cabo Bojador e do cabo
Não, correndo por toda a Guiné, passando além dela vai para a plaga

[69]

meridional, declaramos pelo teor da presente que também tocou e pertenceu ao


mesmo rei D. Afonso e a seus sucessores e ao infante, com exclusão de
quaisquer outros e que perpetuamente lhes tocam e cabem por direito.» Um claro
e real interesse pelas viagens além do cabo Bojador só começa verdadeiramente
a tomar vulto no texto deste bula (Luís de Albuquerque, Os Descobrimentos
Portugueses, Ed. Alfa, Pág. 33).
D. Afonso V legaliza a prática do corso.
D. Afonso V iliba das acusações de infâmia e traição os partidários de seu
tio D. Pedro, morto em Alfarrobeira, fossem vivos ou falecidos, restituindo-lhes os
privilégios e cargos que lhes havia confiscado.
Vitória naval de Mitilene, na Grécia, junto ao litoral turco.
[Março] Cortes de Lisboa. A última vez que em Cortes se faz menção
explícita da falta de população. A partir daí multiplicam-se os indícios de
recuperação demográfica. Nestas Cortes foram concedidos os pedidos com
destino ao casamento de D. Joana, irmã de D. Afonso V, com Henrique IV de
Castela.
[5 de Maio] Nasce em Lisboa o infante D. João, filho de D. Afonso V (futuro
D. João II).
[Junho-Julho] Nova reunião de Cortes em Lisboa convocadas com o fim de
ser jurado o príncipe herdeiro, o futuro D. João II.
[2 de Dezembro] Morre D. Isabel, mulher de D. Afonso V

1455-1456 - Viagens de Cadamosto.

1456 - Presumível descoberta de algumas ilhas do arquipélago de Cabo Verde:


Boavista, Santiago, Maio e Sal.
Diogo Gomes, comandando uma pequena frota de 3 caravelas, chega ao
estuário do rio Geba e a algumas ilhas Bijagós, na actual Guiné-Bissau.
Provável obtenção de malagueta na região do rio Geba (Guiné-Bissau)
pelos Portugueses.
Bula papal concedendo a D. Afonso V o estabelecimento, na cidade de
Ceuta, de 4 conventos, correspondentes a igual número de ordens militares
existentes no reino.
Mercê do ofício de capitão-mor do reino a D. Fernando de Almada, filho do
conde de Avranches morto em Alfarrobeira.
Bula de Calisto III, Inter Caetara, de 13 de Março, confirmando a
concessão à Ordem de Cristo de todos os poderes espirituais sobre as «ilhas,
vilas, portos, terras e lugares adquiridos e a adquirir desde o cabo Bojador e o
cabo Não, decorrendo por toda a Guiné e por toda a plaga meridional até os
Indos».
Cortes de Lisboa, convocadas com o objectivo de reunir meios pecuniários
para a participação na cruzada papal contra os Turcos. Circunstâncias várias, na
conjuntura internacional, impediram que o monarca pudesse participar neste
«simulacro de cruzada» para libertar Constantinopla do domínio dos Turcos (que
a haviam tomado em 1453).

1456-1458 - Peste.

1457 - Mapa-múndi de Frei Mauro, feito em Veneza por mandado de D. Afonso V,


onde se exprime a convicção da circum-navegabilidade da África.
Doação, em 26 de Dezembro, por D. Henrique, à Ordem de Cristo, da
vintena dos direitos de escravos, ouro, pescaria, etc, resgatados na terra da
Guiné, desde o cabo Não.
Aparecimento do cruzado, moeda quase de ouro puro (com o peso de 3,58
g) muito importante nas transações comerciais internacionais.
Alvará de 7 de Outubro que proíbe exportações de couro, devido ao dano
que isso causava ao povo, «fazendo encarecer a calçadura».

1457-1458 - Interrupção das viagens de exploração

[70]

marítima, em virtude dos preparativos para a conquista de Alcácer Ceguer.

(Legenda: Diogo Gomes (Lisboa, Museu da Marinha).)

1458 - Confirmação régia da concessão pelo infante D. Henrique à Ordem de


Cristo (de 26 de Dezembro de 1457).
[Outubro] Parte de Lagos a esquadra portuguesa, chefiada por D. Afonso V
e com a participação de D. Henrique, rumo ao Norte de África, para a conquista
de Alcácer Ceguer.
[24 de Outubro] D. Afonso V entra vitorioso em Alcácer Ceguer.
[13 de Novembro] Os mouros de Fez cercam Alcácer Ceguer.

1459 - Os mouros de Fez levantam o cerco a Alcácer Ceguer.


[2 de Setembro] Novo cerco de Alcácer Ceguer pelos mouros de Fez.
Carta de privilégio aos moradores do Porto, isentando-os do pagamento da
dízima dos mastros e vergas que importassem.
Cortes de Lisboa. Nestas Cortes critica-se a política régia de largas
doações à nobreza. Através delas revelam-se também indícios de recuperação
demográfica.
D. Afonso V cria a Ordem de Espada (hoje Torre e Espada), para premiar
serviços nas campanhas africanas.

1460 - As Cortes convocadas para Santarém não chegam a reunir, por doença do
rei.
Cortes de Évora.
A parceria de Diogo Gomes e António da Noli descobre 5 ilhas orientais de
Cabo Verde.
Carta régia concedendo a capitania da Ribeira Grande, Cabo Verde, a
António da Noli.
Pedro de Sintra terá alcançado a Serra Leoa, limite das terras descobertas,
na costa ocidental africana, sob a «direcção» do infante D. Henrique.
Carta do infante D. Henrique doando as ilhas Terceira e Graciosa (Açores)
ao infante D. Fernando, seu sobrinho e filho adoptivo.
Carta de doação do infante D. Henrique das ilhas cabo verdianas, então
conhecidas pelos nomes de S. Luís, S. Dinis, S. Jorge, S. Tomás e Santa Joana,
a D. Afonso V.
Doação do «espiritual» das ilhas Terceira e Graciosa à Ordem de Cristo,
pelo infante D. Henrique.
Doação das ilhas de S. Miguel e Santa Maria (Açores) pelo infante D.
Henrique à Ordem de Cristo.
[28 de Outubro] Testamento do infante D. Henrique. Por ele verifica-se que
a Casa senhorial do infante, regedor e governador da Ordem de Cristo, duque de
Viseu e senhor da Covilhã, estava entre as mais poderosas forças económicas do
reino. D. Fernando, seu filho adoptivo, passou assim a deter o maior senhorio de
Portugal. (O filho de D. Fernando será o rei de Portugal, D. Manuel I.)
[13 de Novembro] Morte do infante D. Henrique.
Doação, por D. Afonso V, a seu irmão D. Fernando, das ilhas da Madeira,
Porto Santo e Desertas e das ilhas açorianas que lhe haviam sido doadas por seu
tio D. Henrique. Doa-lhe também as ilhas de S. Miguel e Santa Maria (Açores) que
o infante havia confirmado à Ordem de Cristo.

[71]
1461 - Segundo João de Barros, D. Afonso V manda construir o Castelo de
Arguim por Soeiro Mendes (ver 1446 e 1449).
Breve de Pio II, Dum Tuam, concedendo o mestrado da Ordem de Cristo a
D. Afonso V.
Bula conferindo o mestrado da Ordem de Cristo ao infante D. Fernando.
Pedro de Sintra atinge o cabo de Santana.
Descobrimento das ilhas de Santa Luzia e S. Nicolau, em Cabo Verde, por
Diogo Afonso.

1462 - Inicia-se o povoamento da ilha de Santiago (Cabo Verde) com escravos


negros provenientes da Costa da Guiné, além de cativos mouros de Marrocos.
Descobrimento das ilhas de Santo Antão e S. Vicente (Cabo Verde).
D. Afonso faz doação ao infante D. Fernando das 12 ilhas de Cabo Verde.
Nasce Afonso de Albuquerque.

1463 - Crónica de D. Pedro de Meneses, de Zurara.


Luís de Cadamosto regressa à Itália.
Navigazione, de Cadamosto.
Carta régia transferindo de Lagos para Lisboa a Feitoria do «Trato de
Arguim».
Nova expedição de D. Afonso V que parte de Lisboa para o Norte de África,
na qual se incorpora seu irmão D. Fernando.

1464 - Tentativa falhada de conquistar Tânger (com perda de 300 homens, entre
mortos e cativos).
Concessão régia da capitania-mor de Arguim a Soeiro Mendes de Évora.
Peste.
Concedido a Bragança o foro de cidade. É o primeiro aglomerado que
recebe tal «honra», embora não fosse sede de bispado. Os duques de Bragança
não queriam ser duques de uma vila.

1465 - Cortes da Guarda. A escolha do local deve estar relacionada com a vinda
de D. Leonor, rainha de Castela, à referida localidade, onde «requer», a seu irmão
D. Afonso V, um tratado recíproco de aliança.

1466 - Privilégios concedidos aos moradores da ilha de Santiago (Cabo Verde) e


doação das alçadas civil e criminal ao infante D. Fernando, que começara a
povoar a dita ilha havia 4 anos.

1467-1468 - Crise cerealífera e fome.

1468 - Cortes de Santarém.


Carta de Grazioso Benincasa que assinala pela 1.ª primeira vez as ilhas de
Cabo Verde e 5 novos topónimos entre aquele cabo e o cabo Mesurado.
Carta régia sobre o povoamento da ilha do Faial, nos Açores.
Crónica de D. Duarte de Meneses, de Gomes Eanes de Zurara.
Entrega da capitania do Faial, Açores, a Josse van Huerter.
Cortes de Santarém.

1469 - Nasce o infante D. Manuel, filho do infante D. Fernando, duque de Viseu,


futuro rei.
Ataque a Anafé, actual Casablanca, na costa marroquina.
Carta régia concedendo a João e Pedro de Lugo o comércio da planta de
urzela, existente em Cabo Verde.
Contrato firmado entre D. Afonso V e Fernão Gomes, sobre o comércio da
Guiné: «Como El-Rei pelos negócios do Reino andava ocupado (...) arrendou (o
negócio da Guiné) pelo tempo de cinco anos a Fernão Gomes, um cidadão
honrado de Lisboa, por duzentos mil réis cada ano. Com a condição de que em
cada um desses cinco anos fosse obrigado a descobrir pela costa adiante 100
léguas (...)» (João de Barros, Ásia, Década I.)

[72]

1470 - Soeiro da Costa prossegue os descobrimentos do cabo Mesurado até ao


das Três Pontas.
Morre em Setúbal, D. Fernando, filho adoptivo de D. Henrique, aquele que
acumulara um rol impressionante de títulos e de terras e que fora o senhor «mais
rico» de Portugal.
O estrangeiro João de Bardi é autorizado a cambiar moeda.
Nuno Gonçalves pinta um retábulo para a capela do Paço de Sintra.

1471 - [18 de Agosto] Deixa Lagos a expedição com destino a Marrocos,


comandada por D. Afonso V. Em 24 do mesmo mês dá-se a conquista de Arzila.
Consagração da mesquita de Arzila em templo cristão, com o orago de S.
Bartolomeu, por ter sido a vila tomada no dia daquele santo.
Carta de mercê, como primeiro capitão e regedor de Arzila a D. Henrique
de Meneses, conde de Valença.
Ocupação de Tânger pelos Portugueses, depois de abandonada pelos
Mouros. Após a ocupação desta praça, o rei de Portugal passa a intitular-se «D.
Afonso, por graça de Deus, rei de Portugal e dos Algarves, daquém e dalém-mar
em África» (Rui de Pina, Crónica de D. Afonso V).
Cortes de Santarém.

1471-1472 - João de Santarém e Pedro Escobar descobrem as ilhas de S. Tomé


e Príncipe.

1472 - Fundação pelos franciscanos do Convento de Santo António de Tânger.


Xisto IV cede faculdades ao arcebispo de Lisboa e ao bispo de Lamego
para erigirem bispados em Tânger, Arzila e Alcácer Ceguer.
1472-1473 - Fernando Pó descobre os Camarões e depois a ilha Formosa que
tomará o seu nome.
Cortes de Coimbra-Évora. Nestas Cortes os povos mostram o seu júbilo
pelo aumento da população: «A Deus louvores pela gente crescer em vossos
reinos» e dão sugestões sobre o modo de minorar os custos da casa do rei; são
desencadeadas grandes reformas, sobretudo nas áreas da Justiça, da Fazenda e
da Defesa.
Crise cerealífera e consequente fome.

1473 - Doação régia das ilhas Desertas e Porto Santo a D. Diogo, duque de Viseu
e Beja.
Carta régia prorrogando por mais um ano o arrendamento do comércio da
Guiné concedido a Fernão Gomes.
Doação régia do lugar de Larache, na África do Norte, a D. Fernando,
duque de Guimarães.
Carta de privilégios aos moradores de Anafé (Norte de África).
Contrato matrimonial entre o príncipe D. João (futuro D. João II) e D.
Leonor (irmã do futuro rei D. Manuel I e do duque de Viseu que será assassinado
por D. João II).
Frequentavam então o Estudo de Lisboa 41 moços, filhos de nobres e
funcionários da corte, todos a expensas régias.

1473-1474 - Lopo Gonçalves descobriu e denominou o rio Gabão e, mais para


sul, o cabo de Lopo Gonçalves.

1474 - Doação a Fernão Teles de «quaisquer ilhas que indo ele ou mandando
seus navios ou homens nas partes do mar oceano (...) achar».
Confirmação régia da venda da capitania da ilha de S. Miguel (Açores), por
João Soares de Albergaria a Rui Gonçalves da Câmara.
Carta régia dividindo a ilha Terceira (Açores) em duas capitanias, ficando
Álvaro Martins Homem com a da Praia e João Vaz de Corte-Real com a de Angra.
Ordenação proibindo a intromissão de estranhos no comércio e pescarias
da Guiné

[73]

(e declarados como monopólio régio em favor do príncipe D. João).


D. João passa a dirigir a «política atlântica».
Carta régia concedendo facilidades em impostos e materiais aos
construtores das naus.

1475 - Houve a intenção de se proceder a um «levantamento» geral dos


habitantes do reino. Não se sabe se o recenseamento referido foi ou não
efectuado.
Cortes de Évora, reunidas para o rei obter os meios indispensáveis à
invasão de Castela (pedido de um empréstimo).
[18 de Maio] Nasce o príncipe D. Afonso, filho de D. João II.
[Maio] Segue D. Afonso V para Castela, na defesa dos direitos sucessórios
da princesa D. Joana, a Beltraneja (sua sobrinha e noiva), contra os Reis
Católicos. D. Afonso V estava então imbuído do sonho de unidade entre os dois
reinos peninsulares. Dentro desse plano decidiu contrair casamento com a
sobrinha, o qual porém não teve validade, visto o papa não ter concedido a
dispensa necessária à sua efectivação. Deixa então como regente do reino o seu
filho D. João (futuro D. João II) que se encarrega das navegações e comércios
atlânticos.
Data aproximada da carta de Soligo, incluindo a representação dos Açores,
localizados com notável precisão.
Doação régia dos ofícios de almirantado do reino e de monteiro-mor a Lopo
Vaz de Castelo Branco.
Fernão Teles obtém uma nova concessão régia, ampliando a anterior, de
quaisquer ilhas povoadas, incluindo a das Sete Cidades.
Rui Sequeira descobre o cabo de Santa Catarina, concluindo o ciclo dos
descobrimentos do reinado de D. Afonso V.
Termo do contrato de Fernão Gomes para o comércio da Guiné e avanço
das descobertas para sul.
O título de barão deixa de ser apenas honorífico e torna-se nobiliárquico,
quando o Dr. João Fernandes da Silveira foi tornado «barão de Alvito».
Crise cerealífera e fome (que perdura até 1478).

1476 - [2 de Março] Batalha de Toro, entre D. Afonso V e os Reis Católicos,


integrada na Guerra da Sucessão de Castela. (Nesta batalha participa também o
príncipe D. João.) Derrota do exército português comandado por D. Afonso V.
Deslocação de D. Afonso V a França (por via marítima) para conseguir a
ajuda do Luís XI, na defesa do seu projecto relativamente ao trono de Castela.
Na sua viagem pela França, D. Afonso V, encontra-se com o seu primo,
Carlos o Temerário, então em luta com o rei de França. (Carlos o Temerário,
último duque da Borgonha e do Brabante e conde da Flandres, era filho de Filipe
o Bom e da portuguesa D. Isabel, filha de D. João I).
Auto de juramento do príncipe D. Afonso filho de D. João II.
É nomeado cardeal D. Jorge da Costa.
Álvaro Teixeira é nomeado donatário de Tetuão, para que promovesse o
seu povoamento.
Introdução do título de visconde.

1477 - Cortes de Montemor-o-Novo. Nestas Cortes manifesta-se grande


preocupação pelo estado em que se encontrava o tesouro. Revelam-se também
indícios de recuperação demográfica.
Cortes de Santarém-Lisboa. O príncipe D. João, regente na ausência do
rei, D Afonso V, toma a iniciativa de fazer reunir conjuntamente o clero, a nobreza
e os concelhos. A ideia fracassou, por recusa do clero e da nobreza.
Em Novembro, regressa D. Afonso V de França, onde, em vão, procurara
apoio
[74]

junto de Luís XI para o seu projecto de união dos dois reinos peninsulares
(Portugal e Castela).
Primeiras contas públicas elaboradas sistematicamente.

1477-1479 - Peste.

1478 - Cortes de Lisboa. [16 de Abril] D. Afonso V escreve a seu filho, o príncipe
D. João, concedendo-lhe poderes para nomear e destituir capitães, cercar as
tropas inimigas e realizar tudo o que entendesse necessário para a condução da
guerra com Castela. (Esta carta prova que D. Afonso V não havia ainda desistido
das suas intenções de combater os Reis Católicos).
Primeiro orçamento da coroa elaborado sistematicamente.

1479 - Ratificação do tratado de amizade de Saint-Jean-de-Luz, realizado entre os


Reis Católicos e Luís XI de França. (Este tratado representava o termo das
pretensões portuguesas à coroa castelhana.)
Tratado das Terçarias de Moura, base preliminar do tratado de paz luso-
espanhol, assinado na vila de Alcáçovas.
[4 de Setembro] Assinatura do Tratado de Alcáçovas, que pôs fim à Guerra
da Sucessão de Castela. D. Afonso V reconhece aos Reis Católicos a realeza de
Castela e abandona definitivamente qualquer pretensão sobre as Canárias. Este
tratado atribui a Portugal o senhorio da Guiné, Madeira, Açores e Cabo Verde e a
conquista do reino de Fez, e à Espanha o senhorio das Canárias e a conquista do
reino de Granada. O paralelo das Canárias passa a então ser a linha divisória da
expansão portuguesa e castelhana (norte para Espanha, com excepção dos
Açores e da Madeira e sul para Portugal).
Fundação em Cacheu, Guiné, de uma feitoria.

1480 - Entre esta data e 1485 principiaram a elaborar-se os primeiros guias ou


manuais de navegação por latitudes, contendo o regimento do Norte e o
regimento da declinação solar com as respectivas tábuas.
Apresamento de um navio castelhano, surpreendido na Mina a traficar
ilicitamente.
[3 de Fevereiro] Nasce Fernão de Magalhães.
[6 de Março] Efectua-se a ratificação espanhola em Toledo, do Tratado de
Alcáçovas. Ratificação portuguesa a 8 de Setembro.
Carta de mercê da capitania de Alcácer Ceguer a Rui Vaz Pereira.
Convenção entre Portugal e Castela para tratar com os mouros de Granada
e da Berberia.
Lei condenando a açoites, confiscação de bens e degredo todos aqueles
que negociassem com as conchas existentes no litoral cabo-verdiano, sem licença
régia.
D. Afonso V ordena que sejam lançadas ao mar as tripulações de navios
estrangeiros encontrados ao sul das Canárias.

1480-1481 - Imprensa xilográfica em Leiria.

[75]

(Legenda: A armada de Vasco da Gama (Libro da Armada, Academia das


Ciências de Lisboa).)

[76]

1480-1620 - Rui Grilo Capelo.


As balizas temporais deste capítulo percorrem o período entre 1480 e 1620, «o
longo século XVI português», na expressão de Joaquim Romero Magalhães, que
justifica, de forma convincente, a opção assumida. Procura-se a reconstrução de
algumas estruturas e, logo de início, mostrar que a viragem política personificada
na chegada ao trono de D. João II, traduz os primórdios da edificação do Estado
Moderno em Portugal. Paralelamente, a instalação permanente na Fortaleza de S.
Jorge da Mina, as novas rotas do Cabo e do Brasil, o consequente
desenvolvimento do capitalismo comercial a uma escala transcontinental, são
acontecimentos importantes e significativos de uma profunda mudança.
Por outro lado, e numa perspectiva de História do Poder, o período
abarcado neste trabalho termina no dealbar de uma nova política para a unidade
hispânica — o projecto de mudança e de ruptura do conde-duque de Olivares —
posta em prática após a morte de Filipe II. A situação económica altera-se, face à
transferência dos interesses mercantis do Mediterrâneo (crise estrutural, 1619-
1622) para o Atlântico.
A cronologia aqui proposta tentará seguir, sempre que possível, os
seguintes temas e subtemas: O PODER — o enquadramento do espaço nacional,
as estruturas políticas de unificação, a cultura política, os equilíbrios sociais do
poder; POPULAÇÃO E ECONOMIA - as estruturas populacionais, as estruturas
da produção agrícola e pastoril, a indústria, a estrutura das trocas; SOCIEDADE E
CULTURA — língua e memória, a vida cultural, a conjuntura artística e as
mudanças de gosto, a sociedade; CONJUNTURA POLÍTICA — os régios
protagonistas do poder.
O século XVI, ainda que apenas analisado com finalidades cronológicas,
apresenta, para além do rigor sempre exigível, dificuldades acrescidas, quer
atendendo à complexidade das problemáticas envolventes, quer pela profusão de
acontecimentos considerados importantes. A simples constatação que o
«fenómeno» da expansão tem merecido, só por si, cronologias especializadas,
conduz-nos a um critério, simultaneamente selectivo e criativo, e à convicção de
uma tarefa forçosamente incompleta.

1481 - Morte de D. Afonso V e início do reinado de D. João II.


Bula de Xisto IV, Eterni regis, confirmando a posse das terras descobertas
desde os cabos Bojador e Não, por toda a Guiné, até à extremidade meridional
daquelas paragens.
Bula de Xisto IV, Propter tuam, concedendo indulgência plenária de todos
os pecados aos cristãos mortos na Mina. Diogo de Azambuja parte de Lisboa com

[77]

a incumbência de edificar a Fortaleza de S. Jorge da Mina.


Cortes de Évora. Conflitos entre a coroa e a nobreza. A Casa da Mina é
instalada em Lisboa.

(Legenda: D. João II (século XV, Toledo).)


1482 - A Feitoria-Fortaleza de S. Jorge da Mina começa a ser construída.
Cortes de Santarém.
A capitania da ilha do Pico é concedida a Josse van Huerter.

1482-1483 - Expedição de Diogo Cão à costa ocidental africana, atingindo o cabo


Lobo.

1483 - Entrevista de Almeirim entre D, João II e D. Fernando, terceiro duque de


Bragança.
Carta régia para Fernão Dulmo, capitão da ilha Terceira, Açores, prosseguir
nas tentativas de novos descobrimentos.
Por ordem de D. João II efectua-se a prisão, julgamento e execução do
duque de Brangança. Fuga do marquês de Montemor, do conde de Faro e de
outros acusados.
João Vaz Corte-Real recebe a capitania de S. Jorge, Açores.
Nomeação de Francisco Justo Baldino, bispo de Ceuta.
Carta de mercê de almirante do reino a Pêro de Albuquerque.

1484 - D. Diogo, 4.º duque de Viseu, é assassinado por D. João II. Execução do
bispo de Évora, D. Garcia de Meneses. Prisão, exílio ou execução de outros
implicados na conspiração.
D. João II concede honra de fidalguia a Diogo Cão e uma tença anual de
dez mil reais brancos.
A rainha D. Leonor funda um hospital nas Caldas da Rainha.

1485 - Oração de obediência ao papa Inocêncio VIII, por Vasco Fernandes de


Lucena.
Carta de Pedro Reinel, contendo a representação do cabo Padrão na foz
do Congo.
Diogo Cão volta a viajar na costa africana, atingindo a serra Parda.

(Legenda: D. Leonor, por José Malhoa (Museu Malhoa, Caldas da Rainha).)


[78]

Concessão da saboaria da ilha de Santiago, Cabo Verde, a Rodrigo


Afonso, senhor da mesma.
Cartas de mercê a Diogo de Azambuja e a Lopo Vaz de Azevedo.
D. João II introduz modificação no brasão do reino.
A indicação de «Senhorio da Guiné» é acrescentada aos títulos do
monarca.
Carta de doação da capitania de S. Tomé ao escudeiro João de Paiva.
Carta régia concedendo privilégios aos habitantes da ilha de S. Tomé, que
incluiria o foral.
Tratado de aliança entre D. João II e Carlos VIII de França.

1486 - Fundação da Casa dos Escravos.


D. João II submete a cidade de Azamor à sua suserania.
Viagem de João Afonso de Aveiro que, percorrendo a costa do Malabar,
terá atingido o reino de Benim.
Diogo Cão coloca o seu último padrão além do cabo Negro e regressa ao
Tejo, depois de ter atingido a serra Parda.
Cristóvão Colombo fixa-se em Espanha.
Concessão do foro de cidade a S. Jorge da Mina.
Fernão Dulmo transmite a João Afonso do Estreito, natural da Madeira, os
direitos para as viagens exploratórias que lhe haviam sido concedidos em
3/3/1483.
Carta de mercê de capitão, regedor e governador de Tânger a D. João de
Meneses, que deixa Arzila, em favor de Álvaro Fana.
Bartolomeu Dias, patrão da nau régia S. Cristóvão, recebe uma tença anual
de 6000 reais brancos.

1487 - Procurando o Prestes João, Mem Rodrigues e Pedro de Astoniga,


internam-se pela Tamala dos Fulos.
Abolição do beneplácito régio.
Pêro de Évora e Gonçalo Eanes atingem Tombuctu e Tucurol, no interior
de África.
O Pentateuco em hebraico é impresso em Faro.
Partida de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, em busca de informações
sobre o Prestes João.
Viagem de Bartolomeu Dias, culminando na travessia do cabo da Boa
Esperança.
Carta régia, tomando para a coroa o exclusivo da exportação do açúcar
destinada aos portos do Levante, e dos couros para toda a parte.

1488 - Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã chegam a Adém. Aquele segue para a
Etiópia e este para o Índico.
Carta de Andrea Bianco em que claramente são registados os primeiros
descobrimentos portugueses.
Bartolomeu Dias, depois de aportar em Angra dos Vaqueiros, atinge o rio
do Infante, terminando aqui a sua viagem, bem como os descobrimentos sob o
reinado de D. João II.
Carta de D. João II ao alcaide e moradores de Safim, renovando e
confirmando o Tratado de Paz e Amizade, assinado por seu pai com aquela
cidade.

1489 - O Tratado de Confissom é editado em Chaves. Considera-se o mais antigo


livro cristão publicado em Portugal.
Início da construção da Fortaleza da Graciosa, junto ao rio Larache.
D. João II recebe em Beja uma embaixada do rei do Congo.
O mapa-múndi do cartógrafo alemão Henricus Martellus, regista as últimas
viagens de Diogo Cão e Bartolomeu Dias.
Pêro da Covilhã chega a Sofala.
D. João II ordena o abandono de Larache.
Os Mouros tomam a Fortaleza da Graciosa.

[79]

O arquipélago de Cabo Verde é doado por D. João II ao infante D. Manuel,


duque de Beja e futuro monarca.
O rei de Bemobi (território entre a Gâmbia e o Senegal) é baptizado e faz
doação dos seus estados ao rei de Portugal.
Ratificação e renovação do Tratado de Windsor.

1490 - Cortes de Évora.


Casamento do infante D. Afonso com D. Isabel, filha dos Reis Católicos.
Carta de mercê de capitão e regedor de Arzila a D. Vasco Coutinho, conde
de Borba.
Expedição ao Congo comandada por Gonçalo de Sousa. Este morre na
viagem.

1491-1494 - Explorações na América do Norte por Pêro de Barcelos e João


Fernandes Labrador.

1491 - Pêro da Covilhã, após ter percorrido o Oriente até Sofala, regressa ao
Cairo.
Viagem terrestre de Martins Lopes à Ásia.
Chegada à foz do Zaire-Congo da embaixada de D. João II, chefiada por
Rui de Sousa. Os religiosos portugueses fundam a primeira igreja no Congo.
Morte do infante D. Afonso.
(Legenda: Última página do Tratado de Tordesilhas.)

1492 - Criação do Hospital Real de Todos-os-Santos, em Lisboa.


Expulsão dos judeus de Espanha, alguns dos quais (Abraão Zacuto)
procuram abrigo em Portugal.
A península do Lavrador terá sido descoberta na viagem de Pêro de
Barcelos e João Fernandes Labrador.
Viagem de Cristóvão Colombo às Antilhas.

1493 - Conversações em Madrid sobre o domínio dos mares.


A flotilha de Cristóvão Colombo aporta à ilha de Santa Maria, Açores, onde
é recebida de forma pouco hospitaleira.
Encontro entre D. João II e Cristóvão Colombo, após o qual este parte para
Castela.
Promulgação de duas bulas de Alexandre VI, marcando uma nova linha
divisória para a partilha do mundo não cristão.
Mercê da capitania da ilha de S. Tomé, de juro e herdade, a Álvaro de
Caminha.
Carta de Jerónimo Munzer a D. João II.
Segunda viagem de Cristóvão Colombo à América.

1494 - Pêro da Covilhã atinge a Etiópia. Nunca fará a viagem de regresso.


Tratado de Tordesilhas, entre Portugal e Castela, após longas e complexas
negociações.
Publicação em Braga do Breviarium Braccarense, por um editor alemão.

1495 - João Fernandes Labrador terá alcançado a Gronelândia.


[80]

Convenção entre D. João II e os Reis Católicos, prorrogando o termo da


partida das caravelas, dos astrólogos e dos pilotos, que deveriam traçar a linha de
demarcação consignada no Tratado de Tordesilhas.
O arquipélago de Cabo Verde é definitivamente integrado nos bens da
coroa.
Testamento de D. João II redigido em Alcácer do Sal.
Morte de D. João II e subida ao trono de D. Manuel.
Epidemia de peste em Évora.
Cortes de Montemor-o-Novo.
Publicação da tradução portuguesa da obra Vita Christi.

1496 - Expulsão dos judeus e mouros que haviam recusado o baptismo.


Carta régia retirando aos estrangeiros a possibilidade de residirem na ilha
da Madeira, com o fim de impedir manipulações e agiotagem sobre a produção
açucareira local.
Regresso a Portugal do duque de Bragança. A Casa de Bragança inicia a
recuperação do prestígio perdido.
Bulas de Alexandre VI, Cum Charissimus e Exímiae devotionis. Na
primeira, exorta os cristãos a ajudarem. D. Manuel nas suas empresas contra os
infiéis; na segunda, concede licença ao monarca português para comerciar com
os mouros, à excepção de armas, ferro e «cousas proibidas».
Publicação da obra De Republica Gubernanda per Regem, de Diogo Lopes
Rebelo.
É publicada a tradução do romance de cavalaria História de Vespasiano.
Abraão Zacuto publica o Almanach Perpetuum, obra de grande importância
para a astrologia e navegação.

1497 - Partida para a Índia da armada de Vasco da Gama.


D. Manuel I casa com D. Isabel, viúva do infante D. Afonso.
Carta régia concedendo a capitania da Ribeira Grande a D. Branco de
Aguiar, filho de António da Nola.
Baptismo forçado dos judeus menores de 25 anos, e separação dos filhos
menores aos judeus não convertidos.
Início dos trabalhos da reforma dos forais.
Carta régia autorizando o comércio livre a estrangeiros em Arzila e no reino
de Fez.
Incorporação do arquipélago da Madeira nos domínios da coroa.
Nasce João de Barros.

1497-1499 - Diário da primeira viagem de Vasco da Gama à índia, por Álvaro


Velho.

1498 - Cortes de Lisboa. [Maio] Chegada de Vasco da Gama a Calecut e partida


de regresso a Portugal (Agosto).
Terceira viagem de Colombo à América.
Ordenação régia limitando a produção de açúcar na ilha da Madeira.
D. Manuel I concede à Ordem de S. Jerónimo, o local em Belém onde se
erguerá o respectivo mosteiro.

(Legenda: Cristovão Colombo.)

[81]

(Legenda: Casamento de D. Manuel I com D. Leonor (Lisboa, Museu de S.


Roque.)

Fundação da Misericórdia de Lisboa por D. Leonor.


Duarte Pacheco Pereira dirige uma expedição secreta, para além da
divisória de Tordesilhas.
Morte da rainha D. Isabel.
Isenção parcial das sisas a igrejas, mosteiros e pessoas eclesiásticas.

1499 - Cortes de Lisboa.


Transferência da feitoria real portuguesa de Bruges para Antuérpia.
Instituição das misericórdias do Porto e de Évora.
Concessão da ilha de S. Tomé a Fernão de Melo.
Criação da diocese de Safim.
Bula de Alexandre VI, Cum sicut nobis, concedendo a D. Manuel o direito
de padroado em todas as igrejas fundadas nas terras conquistadas aos mouros
de África.
Vasco da Gama entra solenemente em Lisboa, no regresso da sua viagem
à índia, sendo recebido na corte.

[82]

Antes de 1500
Livro de Rotear, de um anónimo.

1500 - Mercê da capitania da ilha de S. Tomé, de juro e herdade, a Fernão de


Melo, alcaide-mor de Évora.
Carta de concessão a Vasco da Gama do título de dom e do cargo de
almirante da índia.
Tença anual de 4000 reais ao piloto Pêro Escobar, pelos serviços
prestados na Guiné e na viagem para a índia.
Mensagem de D. Manuel para o rei de Calecut.
Pedro Álvares Cabral chega a terra brasileira.
De Porto Seguro, Brasil, Pêro Vaz de Caminha escreve uma carta a D.
Manuel com detalhada descrição da nova terra.
Chegada à índia da armada de Pedro Álvares Cabral, que aporta a Cochim,
devido à resistência oferecida em Calecut.
Doação régia a Gaspar e Miguel Corte-Real das terras que descobrissem.
Expedição de Diogo Dias ao golfo de Adém.
Diário Anónimo da Viagem de Pedro Álvares Cabral ao Brasil e à índia.

c. 1500 - Estatutos manuelinos da Universidade de Coimbra.

1500-1501 - Descobrimento da Terra Nova, por Gaspar Corte-Real.

1501 - Publicação provável do Livro de Marinharia, de André Pires.


Parte de Cochim, em viagem de retorno, a frota de Álvares Cabral. Arriba a
Cananor e daí ruma a Portugal.
Larga do Tejo a terceira armada para a Índia, sob o comando de João da
Nova.
Envio de uma frota em auxílio de Veneza, contra os Turcos.
Segundo casamento de D. Manuel, com a infanta D. Maria.
Parte de Lisboa uma expedição, presumivelmente comandada por Gaspar
de Lemos, destinada a verificar a extensão da nova terra descoberta — o Brasil.
Gaspar Corte-Real terá voltado à Terra Nova em viagem da qual não
regressará, desconhecendo-se o que terá ocorrido.
Carta de D. Manuel aos Reis Católicos, dando-lhes parte da descoberta do
Brasil.

(Legenda: Duarte Pacheco Pereira)

1501-1506 - Grão-Vasco pinta o retábulo para a Sé de Viseu.

1502 - Nascimento do infante D. João.


Cortes de Lisboa.
António do Campo descobre as hoje chamadas Patta Islands.
Planisfério português chamado de Cantino, onde figuram desenhados o
mapa do Brasil e a costa oriental da Ásia.
Nasce Damião de Góis.
Descobrimento das ilhas de Ascensão e S. Helena, por João da Nova.

[83]

Segunda viagem de Vasco da Gama à Índia: conquista de Calecut e


estabelecimento de uma feitoria em Cochim.
Valentim Fernandes publica uma versão portuguesa do Livro de Marco
Polo.
Miguel Corte-Real parte de Lisboa em demanda de seu irmão Gaspar.
Tributo do rei de Quíloa a D. Manuel I.
Primeira referência documental à Casa da Índia.
Introdução do milho em Portugal.
Regimentos e reformas manuelinas: Regimento do Senado da Câmara de
Lisboa, Regimento dos Oficiais das vilas, cidades e lugares destes reinos, reforma
dos pesos e medidas.
Criação de uma feitoria em Moçambique.
Diário da Segunda Viagem de Vasco da Gama à Índia, de Tomé Lopes.
Diário Anónimo da Segunda Viagem de Vasco da Gama à Índia.
Auto da Visitação ou Monólogo do Vaqueiro, de Gil Vicente.

(Legenda: Damião de Góis.)

1503 - Fernando de Noronha descobre as ilhas que hoje têm o seu nome.
Capítulos de Paz, entre D. Manuel I e os Reis Católicos, sobre os navios
espanhóis que navegassem para a costa da Guiné.
D. Manuel I estabelece uma convenção com os Welser, para a venda de
mercadorias da Índia.
Parte para a Índia a frota de D. Francisco de Almeida.
Surto de fome e epidemia no país.
Vicente Sodré terá chegado à ilha de Socotorá.
Afonso de Albuquerque é enviado à Índia.
Transformação da feitoria de Cochim em fortaleza, por D. Francisco de
Almeida e Afonso de Albuquerque, passando a funcionar como sede do Estado
da Índia.
Gonçalo Coelho chefia uma expedição ao Brasil.
Assinatura do primeiro contrato de arrendamento das receitas de Cabo
Verde e Guiné, pelo período de três anos, a favor de Gil Álvares, Bartolomeu
Jerónimo e Pedro Francisco.
(Legenda: D. Francisco de Almeida.)

[84]

1503-1504 - Notícias de actividades de comércio e corso nas costas do Brasil, por


parte de navios franceses.

1504 - Parte para a Índia o capitão-mor, Lopo Soares com uma frota de treze
velas e mil e duzentas pessoas.
Regimento do Hospital de Todos-os-Santos, outorgado por D. Manuel I.
Aparecimento do escudo de prata.
Regimento das capelas, hospitais e albergarias e confrarias da cidade de
Lisboa.
Negociação de novo contrato entre os Welser e a coroa portuguesa.
Bula aprovando os novos estatutos da Ordem de Cristo.
Publicação da obra Mundus Novus, de Américo Vespúcio.
Acordo com Castela sobre a demarcação das fronteiras.
Bula Orthodoxae fidei nostrae, concedendo a el-rei, por dois anos, a
cruzada para a guerra de África.
Arrendamento das ilhas de Santiago e Fogo, Cabo Verde, pelo visconde de
Vila Nova da Cerveira.
Instituição da devoção e procissão do «Anjo Custódio do Reino».

1505 - Início da reforma das Ordenações, a cargo de Rui Boto, Rui da Grã e João
Cotrim.
Grande epidemia de origem tifóide, em Lisboa, com numerosas vítimas.
Destruição de Mombaça, por ordem de D. Francisco de Almeida.
Por ordem régia, Lopes Sequeira faz construir a Fortaleza de Santa Cruz,
no cabo de Guer.
Carta régia estabelecendo a orgânica administrativa da Índia. A feitoria de
Sofala passa a centralizar o resgate do ouro da costa africana.
Carta régia nomeando D. Francisco de Almeida, primeiro vice-rei da Índia.
D. Manuel I autoriza a construção da fortaleza de Mazagão (Marrocos).
D. Francisco de Almeida conquista Quíloa e Mombaça.
Duarte Pacheco Pereira regressa do Oriente. Início provável da redacção
do Esmeraldo de Situ Orbis.
O primeiro elefante visto no reino chega numa armada da Índia.

1506 - Levantamento antijudaico em Lisboa. Grande morticínio.


A coroa assume o monopólio do comércio das especiarias.
Viagem de D. Lourenço de Almeida ao Noroeste de Ceilão.
Construção de um castelo em frente à ilha de Mogador, por Diogo de
Azambuja.
Diário da Viagem de D. Francisco de Almeida à Índia, de Hans Mayr.
Partida para a Índia de Tristão da Cunha e Afonso de Albuquerque.
Durante a rota

(Legenda: Afonso de Albuquerque.)

[85]

acham-se as ilhas que tomam o nome do primeiro daqueles.


Nasce em Navarra, Francisco Xavier, o futuro Apóstolo das Índias.
Afonso de Albuquerque e Tristão da Cunha erguem uma fortaleza em
Socotorá.
Crónica da Guiné, resumo e arranjo do manuscrito de Paris da Crónica de
Zurara, elaborado por Valentim Fernandes.
Breve do papa Júlio II, concedendo indulgência plenária a quantos
morressem na Índia ou em viagem de ida ou regresso.
Diploma transferindo para Vasco Anes Corte-Real, as doações das terras
descobertas pelos irmãos Gaspar e Miguel.
É concluída a Custódia de Belém.
1506-1511 - Grão-Vasco pinta o retábulo para a Sé de Lamego.

1507 - A epidemia de 1505 estende-se à província.


Os judeus passam a ficar submetidos às leis gerais do reino.
Afonso de Albuquerque inicia uma campanha militar: conquista Calaiate,
Curiate, Mascate, Soar, Orçafão e Ormuz, cidades que passam a ser tributárias
do reino de Portugal.
Relação do Piloto Anónimo, publicado em Vicênda, sobre a descoberta do
Brasil.
Descripcã de Cepta por su Costa de Mauritânia e Ethiopia... e Das Ylhas do
Mar Oceano, de Valentim Fernandes.
Afonso de Albuquerque dá início à construção da fortaleza de Ormuz.
D. Francisco de Almeida destrói a armada do Samorim.

1508 - Cerco de Arzila.


Nova missão religiosa é enviada às terras do Congo, constituída por treze
frades Loios.
Conquista de Safim. Navios franceses percorrem as costas do Brasil.
Criação da cidade do Funchal. Carta régia, concedendo privilégios aos
impressores, a fim de promover a «arte da tipografia» no reino e seus domínios.
Parte do Tejo a esquadra de Diogo Lopes de Sequeira, com a intenção de
descobrir a passagem por Madagáscar.
Tomada de Dabul, na Índia, por D. Francisco de Almeida.

1509 - Regimento das Cazas das Índias e da Mina.


Vitória de D. Francisco de Almeida sobre os Rumes, em Diu.
Uma armada de quinze velas comandada por D. Fernando Coutinho, parte
para a Índia. Instalação da feitoria de Melinde.
Tratado de Paz com o rei de Malaca. Diogo Lopes de Sequeira estabelece
aí uma feitoria. Convenção luso-espanhola, em Sintra, sobre as demarcações das
conquistas em África, até ao cabo Bojador.

(Legenda: Frontispício do Livro das Obras de Garcia de Resende, 1554.)


[86]

Substituição de D. Francisco de Almeida por Afonso de Albuquerque, no


cargo de vice-rei da Índia.
Aparecimento do tostão.
Primeira referência ao cultivo do arroz (Santarém).
Regimento de Munique.
D. Francisco de Almeida regressa ao reino.
Liber de Triplici Motu..., de Álvaro Tomás.
Auto da índia, Auto Pastoril Castelhano, de Gil Vicente.
Ratificação do juramento sobre a posse de Belez de Gomera, entre D.
Manuel e D. Joana de Castela.

1509-1510 - Trabalho de levantamento gráfico das fortalezas, por Duarte de


Armas.

1510 - Ano provável do nascimento de Fernão Mendes Pinto, em Montemor-o-


Velho.
Morre D. Francisco de Almeida.
Conquista definitiva de Goa por Afonso de Albuquerque.
Novo surto de epidemias.
Auto dos Reis Magos, Auto da Fé, de Gil Vicente.

1511 - Presumível descobrimento da ilha de Timor por Francisco António Taveira


que, com outros franciscanos, havia ido para a ilha de Solor.
Afonso de Albuquerque conquista Malaca e levanta uma fortaleza.
Primeira expedição oficial portuguesa ao Pacífico, partindo de Malaca.
Descoberta da ilha de Ternate, no arquipélago das Molucas, por Francisco
Serrão.
Ínicio das viagens exploratórias ao Sertão, saídas de Sofala e tendo como
principal protagonista, António Fernandes, degredado em Moçambique.
Expedição portuguesa ao reino do Pegu.
Início da organização do município de Goa.
Chegada provável a Lisboa de Georg Herwart, agente dos Fugger.
Diário da Viagem da Nau Bretoa ao Cabo Frio, de Duarte Fernandes.

1512 - D. Afonso, rei do Congo, envia a Lisboa uma embaixada chefiada por seu
primo D. Pedro, que depois seguirá para Roma.
Livro I das Ordenações Manuelinas.
Conquista do Forte de Benastarim, por Afonso de Albuquerque.
Demarcação da posse portuguesa e castelhana de Velez, entre D. Manuel
e D. Joana de Castela.
Artigos das Sisas.
Velho da Horta, de Gil Vicente.
Extinção das feitorias de Quíloa e Melinde.
Embaixada ao Sião conduzida por António de Miranda de Azevedo.
Nasce em Évora o infante D. Henrique, futuro cardeal, regente e monarca
de Portugal.

1512-1514 - Crónica de D. Duarte, de Rui de Pina.

(Legenda: Fernão de Magalhães (Kunsthistorische Museum, Viena).)

[87]

1513 - Livro II das Ordenações Manuelinas.


Afonso de Albuquerque empreende a exploração do mar Vermelho.
Afonso de Albuquerque tenta, sem êxito, conquistar Adém.
Viagem de Malaca à China, por Jorge Álvares.
Representação do embaixador de Castela a D. Manuel, sobre a divisão dos
mares destes reinos.
Embaixada enviada ao papa Leão X, por D. Manuel, como sinal de
obediência.
Parte de Lisboa a armada de D. Jaime de Bragança, para conquistar
Azamor. A cidade é tomada e Rui Barreto é nomeado seu capitão.
Carta de Afonso de Albuquerque a D. Manuel, informando ter celebrado a
paz com os reis, desde Ormuz até Coromandel.
Miguel Ferreira é enviado como embaixador à Pérsia.
Mapas e cartas de Francisco Rodrigues.

1513-1514 - Trabalhos de drenagem do Mondego.

1514 - Chega a Roma a embaixada de D. Manuel, chefiada por Tristão da Cunha.


Edição completa das Ordenações Manuelinas.
Edificação da fortaleza de Mazagão.
Criação da diocese do Funchal. D. Diogo Pinheiro é confirmado como
bispo.
Nuno Fernandes de Ataíde toma Tednest (Marrocos) aos Mouros.
Conclusão da reforma geral dos legados pios e estabelecimento de
assistência: Regimento de como os contadores das comarcas hão-de prover
sobre as capelas, hospitais, albergarias, confrarias, gafarias, obras, terças e
residos.
Exortação da Guerra, de Gil Vicente.
Livro de Marinharia, de João de Lisboa.

c. 1514 - Padronização das medidas do reino, a partir das seguidas em Lisboa.


Crónica Del-Rei D. Afonso III, de Rui de Pina.

1514-1515 - António Fernandes viaja de Sofala para os reinos de Monomotapa e


Bútua.

1515 - A embaixada de D. Rodrigo de Lima chega à corte do negus da Etiópia.


Ormuz é conquistada pela segunda vez, por Afonso de Albuquerque. A
fortaleza é reconstruída.
Lopo Soares de Albergaria chega a Goa.
Morte de Afonso de Albuquerque.
Lopo Soares assume o governo da índia.
Quem Tem Farelos? Auto de Mofina Mendes ou Mistérios da Virgem, de Gil
Vicente.

c. 1515 - Crónica del-Rei D. João II, de Garcia de Resende.


Crónica dos Senhores Reis de Portugal, de Cristóvão Rodrigues Acenheiro.

1515-1518 - Obras, de Francisco Sá de Miranda.

1515-1519 - Construção da Torre de Belém.

1516 - Construção da Fortaleza de Santa Cruz de Agadir.


João Coelho faz o reconhecimento das paragens setentrionais do golfo de
Bengala.
Lopo Soares de Albergaria zarpa de Goa, rumo ao mar Roxo.
Promulgação dos Regimentos e Ordenações da Fazenda d‘el-Rei.
Início da construção da Fortaleza de Chaul.
Edição do Livro de Duarte Barbosa.

c. 1516 - Publicação do Regimento de Évora.

[88]

1517 - Sublevação de escravos na ilha de S. Tomé.


Criação do Terreiro do Trigo.
Fernão de Magalhães e Rui Faleiro passam para o serviço da coroa
espanhola.
Chegada dos Portugueses a Cantão. Embaixada à China, chefiada por
Tomé Pires.
Aparecimento do meio-tostão.
Morte da rainha D. Maria.
Colégio de S. Tomás é fundado por D. Manuel.
Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente.
Nascimento provável de Francisco de Holanda.

1518 - Viagem de Simão da Silva, por via terrestre, ao Congo.


Fundação da fortaleza-feitoria em Columbo, Ceilão, por Lopo Soares de
Albergaria.
Casamento de D. Manuel com D. Leonor de Castela.
Por repetidas instâncias de D. Manuel I, Leão X assina a bula In Partibus,
elevando o príncipe do Congo, D. Henrique, à dignidade de bispo de Utica. Será o
primeiro bispo negro da cristandade.
Diogo Lopes de Sequeira é nomeado governador da índia.
Reportório dos Tempos, tradução e edição de Valentim Fernandes.
Auto da Alma, de Gil Vicente.

(Legenda: Francisco Álvares, Verdadeira Informação das Terras do Prestes João,


1540)

1519 - Partida de Fernão de Magalhães que, ao serviço de Espanha, irá realizar a


primeira viagem de circum-navegação.
Alteração da legislação de cobrança das sisas.
Atlas de Lopo Homem e Jorge Reinel.
Na Índia, Jorge de Albuquerque submete o reino de Pacém.
D. Álvaro de Noronha, governador de Azamor, assalta, com êxito, a vila de
Umbre.
Alvará determinando o monopólio régio de comércio com o Congo.
Tratado da Prática de Arismética..., de Gaspar Nicolas.
Auto da Barca da Glória, de Gil Vicente.

1520 - Travessia do estreito e entrada no Pacífico, por Fernão de Magalhães.


A reforma dos forais é concluída por D. Manuel.
Ordenações da Índia.
Expedição de Diogo Lopes de Sequeira a Maçuá e a Arquico.
Regimento dado pelo governador da índia, a D. Rodrigo de Lima, para
chefiar uma embaixada ao imperador da Etiópia.
Crónica do Imperador Clarimundo, de João de Barros.
Criação régia da Casa da Saúde, em Lisboa.

[89]

Crónicas dos Sete Primeiros Reis de Portugal, de um anónimo.


Regimento para Manuel Pacheco e Baltazar de Castro explorarem as terras
do Congo e Angola.

c. 1520 - Verdadeira Informaçam das Terras do Prestes João, do Padre Francisco


Álvares, participante na embaixada à Etiópia.

1521 - Morte de D. Manuel I e subida ao trono de D. João III.


Edição da versão definitiva das Ordenações Manuelinas.
Morre Fernão de Magalhães em Cebu, Filipinas.
Nomeação de D. Duarte de Meneses como 4.º governador da Índia.
Levantamento do rei de Ormuz contra os Portugueses.

(Legenda: D. João III, por Cristovão Lopes (Lisboa, Museu Nacional de Arte
Antiga).)
1521-1522 - Maus anos agrícolas, grave crise de fome e surto de epidemias.

1521-1529 - Conflito entre Portugal e Espanha sobre as ilhas Molucas.

1522 - Estabelecimento de uma carreira regular de comércio, entre Cochim e a


China. António de Brito chega a Ternate e aí constrói uma fortaleza. A capitania
de S. Tomé é incorporada nos bens da coroa. Chegada da frota que realizou a
primeira viagem de circum-navegação. Imposição do monopólio português do
comércio do cravo. A abóbada do transepto do Mosteiro dos Jerónimos é fechada
por João de Castilho. Celebração de dois tratados com o rei das Molucas.

1523 - Parte de Moçambique uma expedição às ilhas de Querimba.


Novo surto de epidemias. Acusações feitas contra os Imhoff, de tentativa
de monopólio das especiarias, através de um contrato estabelecido com o
monarca português. Damião de Góis é nomeado secretário da feitoria de
Antuérpia. Contra os Juízos dos Astrólogos, de Frei António Beja.

1524 - Convenção luso-espanhola, em Vitória, para a demarcação das ilhas


Molucas.
Carta régia de nomeação de letrados, astrólogos e pilotos, com faculdade
de julgarem e determinarem a posse das Molucas.
Conferência de Badajoz: o problema das Molucas continua por resolver.
[24 de Março] D. Vasco da Gama, conde

[90]

da Vidigueira e almirante da Índia, parte para o Oriente, para tomar posse do


cargo de vice-rei. No final do ano, Vasco da Gama morre em Cochim. Sucede-lhe
D. Henrique de Meneses, 5.º governador da Índia.
Abandono da Fortaleza de Pacém. Ano provável do nascimento de Luís
Vaz de Camões. Farsa de Inês Pereira, Auto Pastoril Português, Comédia do
Viúvo, Auto dos Físicos, de Gil Vicente.

(Legenda: Pedro Nunes.)


1525 - D. Henrique de Meneses assalta e arrasa Panane, na Índia.
Casamento de D. João III com D. Catarina de Áustria.
Cortes de Torres Novas.
Crescimento significativo da exploração de sal no rio Sado.
Ataque muçulmano a Malaca.
João de Barros é nomeado tesoureiro da Casa da Índia, Mina e Ceuta,
cargo que exerce durante três anos.
Morte da rainha D. Leonor.

c. 1525 - Criação da Casa das Rainhas.

1526 - Morre o 5.º governador da Índia, D. Henrique de Meneses, em Cananor.


Lopo Vaz de Sampaio, assume (interinamente) o governo da Índia.
Cerco da fortaleza de Calecut pelo samorim.
Criação de 50 bolsas de estudo, por D. João III, no Colégio Universitário de
Santa Bárbara, em Paris.
Casamento da infanta D. Isabel com Carlos V.
Embarcações inglesas começam a frequentar a costa da Guiné.

1526-1529 - Segunda expedição de Cristóvão Jacques à costa brasileira.

1527 - D. João III ordena o primeiro «numeramento» da população portuguesa: 1


200 000 habitantes.
Mapa-múndi de Diogo Ribeiro, desenhado para regular a divisão luso-
espanhola das terras descobertas no Extremo Oriente.
Encabeçamento das sisas — quantitativo fixo, recebido através dos
concelhos.
Notícias de forte epidemia.
Surgem, pela primeira vez, barcos franceses nas águas de Moçambique.

1528 - D. Nuno da Cunha, 7.º governador, parte para a Índia com onze naus.
António de Azevedo Coutinho, embaixador em Castela, recebe plenos
poderes para tratar com Carlos V a questão das Molucas.

1528-1529 - António Tenreiro viaja, por terra, da Índia para Portugal.

1529 - Tratado de Saragoça, entre D. João III e Carlos V, sobre a posse das ilhas
Molucas. A Espanha desiste das suas pretensões.

[91]
(Legenda: Esquerda-Nuno da Cunha; Direita-Garcia de Noronha)

O rei do Monomotapa faz doação a Portugal das Terras, depois


denominadas Lourenço Marques.
Pedro Nunes é nomeado cosmógrafo do reino.

1530 - Partida da expedição de Martim Afonso de Sousa ao rio da Prata.


Data do plano de colonização do Brasil.
Morre D. Diogo Lopes de Sequeira, fidalgo, navegador e 3.º governador da
Índia.

1530-1532 - Diário da Navegação de Pêro Lopes de Sousa pela Costa do Brasil


até ao Rio Uruguay.

1531 - Epitome rerum gestarum in India a Lusitanis, de André de Resende.


Terramoto em Lisboa.
D. Nuno Cunha, depois de conquistar a ilha de Beth, faz um ataque
frustrado a Diu.
Prossegue a viagem de Martim Afonso de Sousa: Pernambuco, baía de
Todos-os-Santos, baía da Guanabara, S. Vicente, ilha de Cananeia, rio da Prata.
D. João III requer a Roma autorização para o estabelecimento da
Inquisição em Portugal.

1532 - Criação da cidade de S. Vicente, no Brasil, e início da cultura do açúcar.


Criação da Mesa da Consciência e Ordens.
Carta régia, estabelecendo o regime de donatarias no Brasil.
Rópica Pnefma, de João de Barros.

c. 1532 - Início da reorganização administrativa e judicial do reino.


Trabalhos no edifício da cordoaria de Lisboa.
1533 - Corsários franceses infestam o litoral brasileiro.
D. Nuno da Cunha conquista a cidade de Baçaim.

[92]

Criação das dioceses de Angra do Heroísmo, Cabo Verde, S. Tomé e Goa.


A diocese do Funchal é elevada a arcebispado.
Erasmo de Roterdão é convidado para vir ensinar em Portugal.
Encomium Erasmi, de André de Resende.
André de Gouveia é nomeado reitor da Universidade de Paris.
Glenardo visita Évora.
João de Barros é nomeado feitor da Casa da Índia.

1534 - Mapa de Gaspar Viegas, com a representação do Brasil e locais


identificados na respectiva costa.
Lavram-se as cartas de doação das capitanias de Martim Afonso de Sousa,
Pêro Lopes de Sousa e Vasco Fernandes Coutinho, respectivamente, S. Vicente,
S. Amaro-Itamaraca e Espírito Santo.
Garcia da Orta parte de Lisboa para Goa, como físico do capitão-mor.
Nasce, nas Canárias, o padre José de Anchieta.
Cerco a Safim.
A capitania de Ilhéus é concedida a Vasco Fernandes Coutinho.
Foral do Rio de Janeiro.
Paulo III cria o bispado de S. Salvador.
Oratio pro Rostris, de André de Resende.

1535 - Cortes de Évora.


A fortaleza de Diu é entregue aos Portugueses.
No âmbito da reforma humanista, Frei Brás de Barros estabelece os dois
novos colégios de S. Miguel e de Todos-os-Santos no Mosteiro de Santa Cruz, em
Coimbra.
A vila de S. Tomé é elevada a cidade.
As penas de degredo para S. Tomé, mudam, por alvará, para o Brasil.
Arte de Marear, de Francisco Faleiro.
Dialoghi di Amore, de Leão Hebreu.
Antimoria, de Aires Barbosa.

1536 - Estabelecimento do Santo Ofício.


Francisco Pereira Coutinho chega ao Brasil como primeiro donatário da
Baía. Nomeação de André Feio como primeiro corregedor de Cabo Verde e
Guiné. Grammatica, de Fernão de Oliveira.

1537 - D. João III transfere a Universidade para Coimbra.


Viagem ao interior do Congo por Manuel Pacheco.
Fernão Mendes Pinto parte para a Índia.
Paulo III nomeia D. João de Albuquerque bispo de Goa.
Tentativas de demarcação precisa da fronteira luso-castelhana.
Tratado em Defensam da Carta de Marear, de Pedro Nunes. Tábuas do
Sol, de Pedro Nunes. Tratado da Esfera, tradução de Pedro Nunes.

c. 1537 - Regimento de Navegación y Rotero de Muchos Lugares, de André Pires.

1538 - Primeiro cerco a Diu, por Turcos e Rumes.


Anulação do encabeçamento das sisas.
Lei contra a mendicidade.
Parte para a Índia, D. Garcia de Noronha, nomeado 3.º vice-rei da Índia. Na
armada viaja D. João de Castro, capitaneando a nau Gripo.
Roteiro de Lisboa a Goa, de D. João de Castro.
Impressão dos capítulos das Cortes de 1525 e 1535.

[93]

1538-1539 - Roteiro de Goa a Diu, de D. João de Castro.


Diogo de Gouveia Júnior é nomeado reitor da Universidade de Paris.

1539 - Início da actividade do Santo Ofício em Lisboa. Nomeação do cardeal D.


Henrique como inquisidor-mor.
Corso francês na costa da Guiné.
Destruição de Mombaça.
Fundação de uma feitoria em Nagasáqui.
Início da peregrinação de Fernão Mendes Pinto pelos mares e terras do
Extremo Oriente.
Reforma régia do Regimento da Casa dos Vinte e Quatro.
Morre num naufrágio, D. Nuno da Cunha, governador da Índia durante dez
anos.
Commentarii rerum gestarum in India, de Damião de Góis.
Foral da ilha de Ascensão.

1539-1540 - Problematum Libre quinque, de António Luís.

1540 - Santo Ofício inicia a censura.


Primeiros autos-de-fé.
Estabelecimento dos jesuítas em Portugal.
Verdadeira Informação das Terras do Prestes João, de Francisco Álvares.
Uma embaixada do rei de Benim chega a Portugal.
Fernão Mendes Pinto visita o Sião.
Contrato de Paz, entre D. Garcia de Noronha e o rei de Calecut.
Morre D. Garcia de Noronha, 3.º vice-rei da Índia. Assume funções D.
Estêvão da Gama, 8.º governador da índia.
Nomeação de Frei Bernardo da Cruz, como bispo de S. Tomé.
Gramática, CartInha para Aprender a Ler, Diálogo da Viciosa Vergonha, de
João de Barros.
Prática de Aritmética, de Rodrigo Mendes.

c. 1540 - Tentativa de determinar as longitudes de muitas cidades, vilas e aldeias


do reino.

1541 - Isak do Cairo viaja, por terra, da Índia a Portugal.


Nomeação de Martim Afonso de Sousa, como 9.º governador da índia.
Cristóvão da Gama chefia uma expedição em auxílio do rei da Etiópia, nas
suas lutas contra os muçulmanos.
Evacuação de Safim e Azamor.
Criação do Tribunal do Santo Ofício no Porto.
Estêvão da Gama inicia uma exploração ao litoral africano do mar
Vermelho.
Perda de Santa Cruz no cabo de Guer.
Criação do bispado de Miranda do Douro.
Bula Licet apostolicae sedis, autorizando D. João III a demolir as igrejas
dos lugares de Africa abandonados pelos Portugueses.
Roteiro de Goa a Suez ou do mar Roxo, de D. João de Castro.

1542 - As forças militares portuguesas abandonam as praças de Safim e Azamor.


Chegada de S. Francisco Xavier a Goa.
Primeira viagem confirmada dos Portugueses ao Japão, realizada por
Francisco Zeimoto, António Peixoto e António da Mota. No mesmo ano chegará
também Fernão Mendes Pinto.
André do Campo parte do México, atravessa o território do Texas e penetra
no de Kansas.
Fernão Mendes Pinto terá tomado conhecimento do chá, pela primeira vez,
no Japão.
D. Estêvão da Gama deixa o governo da

[94]

Índia. Martim Afonso de Sousa toma posse, como 9.º governador.


Morte de D. Cristóvão da Gama na Etiópia.
Exploração da costa da Califórnia por João Rodrigues Cabrilho.
D. Gonçalo Pinheiro é transferido da diocese de Safim para a de Tânger.
Estabelecimento do Colégio dos Jesuítas em Coimbra.
De Crepusculis, de Pedro Nunes.
De nobilitate civile e De nobilitate christiana, de Jerónimo Osório.
(Legenda: Panorâmica de Arzila.)

1542-1543 - Data provável da morte de Grão-Vasco.

1543 - Fundação das primeiras misericórdias no Brasil.


Casamento da infanta D. Maria com o príncipe herdeiro de Espanha, Filipe.
Morte de João Rodrigues Cabrilho.
Pro Aristotele..., de António Gouveia.
Diálogo Evangélico sobre os Artigos da Fé contra o Talmud dos Judeus, de
João de Barros.
Após a morte de Cabrilho, Bartolomeu Ferrelo assume o comando da
expedição.
Em Baçaim, é assinado um Contrato de Paz com o rei de Cambala.

1544 - Edificação de uma feitoria em Quelimane.


Fernão Mendes Pinto volta a Goa.
Cortes de Almeirim.
Incorporação definitiva de Bardez e Salsete nos Estados da Índia.
Instituição do Tribunal da Relação das Índias, para julgar em 2.ª instância.
Construção de um novo álveo no Tejo, a 10 km de Santarém.
Regimento para as Armadas.
D. Francisco de Lima, enviado a Castela, representa Portugal numa
Convenção entre Carlos V e Francisco I de França, para tratar de «cousas do
mar, demarcações, terras, ilhas descobertas ou a descobrir...».
Novos Estatutos da Universidade e reunião de todas as Faculdades no
«Paço das Escolas».
Alvará contra a mendicidade.

1544-1549 - Cartas de Damião de Góis a D. João III.

1545 - Damião de Góis regressa a Portugal, convidado para mestre do príncipe.


Assume, também, as funções de guarda-mor da Torre do Tombo.
Construção da Fortaleza de S. Sebastião, na ilha de Moçambique.
Damião de Góis é denunciado à Inquisição pelo padre Simão Rodrigues.
D. João de Castro é nomeado governador da Índia.
Martim Afonso de Sousa, 9.º governador da Índia, deixa Goa de regresso a
Portugal.
Chegada de S. Francisco Xavier a S. Tomé de Meliapor.
Instalação de Duarte Coelho em Pernambuco (capitania da «Nova
Lusitânia»).
Commentarius in M. Tullii Ciceronis Tópica, de António de Gouveia.
S. Francisco Xavier aporta a Malaca.
Da capitania do Espírito Santo, Brasil, sai o primeiro açúcar brasileiro de
que se tem notícia concreta.

[95]

D. Jaime de Lencastre é confirmado como bispo de Ceuta.

c. 1545 - Tratado da Sphaera, de D. João de Castro.


Regimentos Portugueses de Navegação, Taboas Solares Quadrienais para
1517-1520 e Colecção de Roteiros para a Índia...

1545-1552 - Tentativa de reorganização aduaneira do Estado da Índia, por Simão


Botelho.

1546 - Segundo cerco de Diu. S. Francisco Xavier viaja para a ilha de Amboína e
aporta às Molucas. Assalto geral e violento das forças do rei de Cambaia à
cidade de Diu. Na destruição de um dos baluartes de Diu, morre D. Fernando de
Castro, filho de D. João de Castro.
Enceta-se o sistema de adjudicação da armação e organização do
transporte da carreira da Índia, por contratadores. Provisão régia destinada a
proteger a madeira de sobreiro para a construção naval (demarcando-se uma
área ao longo do Tejo, de Abrantes a Lisboa, estendendo-se 10 léguas para sul).
D. João de Castro parte de Goa, em auxílio de Diu. Ataca e desbarata as
forças inimigas. Morre D. João Parvi, bispo de Cabo Verde. Elevação de Ponta
Delgada, Açores, à categoria de cidade. João Fernandes publica uma edição dos
Adágios, de Erasmo. De Arte Atque Navigandi Libro Duo, de Pedro Nunes.
Damiano Góis Equitis Lusitani. Verbis lovaniensis Obsídio, de Damião de
Góis.

(Legenda: Colégio das Artes de Coimbra.)


1547 - D. Diogo de Meneses toma de assalto a cidade de Baroche, na costa de
Cambaia.
Questão com a França, motivada pela presença de barcos seus, em cabo
Frio.
D. João de Castro regressa a Goa, após ter reconstruído a fortaleza de Diu.
Fundação régia do Colégio das Artes, em Coimbra.
Bula papal subordina a Inquisição portuguesa à autoridade régia.
Primeiro rol de livros proibidos pelo Santo Ofício.
Pedro Nunes é nomeado cosmógrafo-mor.
Álvaro da Fonseca é nomeado reitor da Universidade de Paris.
Tratado de Paz entre D. João III e o rei de Fez.
Alvará determinando que a partida de navios para o Brasil, seja
obrigatoriamente conhecida do governador da Casa do Cível.
D. João III concede a D.João de Castro o título de 4.º vice-rei da Índia.
Morte de D. Martinho de Portugal, arcebispo do Funchal, que nunca
assumiu a sua diocese.

1548 - Colégio das Artes inicia a sua actividade no espaço dos colégios crúzios de
S. Miguel e de Todos-os-Santos, cedidos de

[96]

empréstimo. André de Gouveia é encarregado.


Os primeiros missionários jesuítas chegam Ambasse, no Congo.
Morre em Goa D. João de Castro, 4.º vice-rei da Índia, assistido por S.
Francisco Xavier.
Garcia de Sá toma posse como 10.º governador da Índia.
Assinatura do Regimento, em 48 capítulos, para a criação de um Governo-
geral no Brasil, que Tomé de Sousa assumirá.
Francisco de Holanda escreve Da Pintura Antiga.
André de Gouveia morre em Junho, sucedendo-lhe Diogo de Gouveia, o
Moço, na direcção do Colégio das Artes.
Commentarius de rebus a Lusitanis in India apud Dium Gestis anno
Salustis Nostrae 1546, de Diogo de Teive.

1549 - Informação das Terras do Brasil, do padre Manuel da Nóbrega.


Tomé de Sousa é nomeado governador-geral do Brasil.
Encerramento da feitoria de Antuérpia, por ordem de D. João III.
Abandono de Alcácer Ceguer.
Criação da diocese de Portalegre.
Subordinação hierárquica do Colégio das Artes à Universidade.
Legislação sobre a posse de cavalos e armas.
S. Francisco Xavier viaja pela China e navega para o Japão.
Morte de Garcia de Sá, 10.º governador da Índia.
Jorge Cabral é investido nas funções de 11.º governador da Índia.
Inauguração do novo povoado de S. Salvador da Baía, que será a capital
da América portuguesa por mais de duzentos anos.
O padre Manuel da Nóbrega oficia uma missa solene no local da Baía.
De Gloria libri quinque, de Jerónimo Osório.

(Legenda: Cardeal D. Henrique)

1550 - Processos inquisitoriais contra alguns professores do Colégio das Artes.


Abandono de Arzila.
Criação da diocese da Baía de Todos-os-Santos.
Primeiros contactos com Macau.
Edição da Suma Oriental, de Tomé Pires.
Regista-se grande emigração de habitantes da ilha de S. Tomé para o
Brasil.
Nomeação do 5.º vice-rei da Índia, D. Afonso de Noronha.
Jorge Cabral deixa o governo da índia.
Expedição falhada de Miguel Henriques ao rio S. Francisco (Brasil).

c. 1550 - Restabelecimento das relações sino-portuguesas.


Obras, de Bernardim Ribeiro.
Estabelecimento de uma feitoria em Sanchuang.

[97]

1551 - Diogo de Teive é libertado e reconduzido, no ano seguinte, nas funções de


professor do Colégio das Artes.
Incorporação na coroa dos mestrados de Santiago e Avis.
Rol dos Livros Defesos, sendo inquisidor-mor o cardeal D. Henrique.
Início da publicação de História do Descobrimento e Conquista da índia, de
Fernão Lopes de Castanheda.
D. Francisco Gaspar do Casal é confirmado como bispo do Funchal.
Regimento da Misericórdia de Santos, Brasil.
Manuel de Sousa Sepúlveda defende heroicamente Cochim.
Vitória das forças portuguesas sobre o exército do príncipe Elembe, da
região de Malabar.

1552 - Os rios de Quama são descobertos por Gaspar Veiga, tomando desde
então incremento o resgate de ouro de Moçambique.
Embarca para o Brasil o 1.º bispo da Baía, D. Pêro Fernandes Sardinha, na
armada de Fernão Soares de Albergaria.
Breve de Júlio III, autorizando o rei de Portugal a comerciar com os infiéis
em cavalos e metais.
O bispo de Tânger, D. Gonçalo Ribeiro, é nomeado para a diocese de
Viseu.
Casamento do herdeiro do trono, infante D. João, com a infanta D. Joana,
filha de Carlos V.
Aprovação régia do primeiro regimento do Santo Ofício.
Início da publicação das Décadas da Ásia, de João de Barros.
Naufrágio do barco onde regressava ao reino, Manuel de Sousa de
Sepúlveda, com a sua mulher Leonor e filhos.
Morte de S. Francisco Xavier (Sanchuang — China).

1552-1553 - António Leitão é nomeado reitor da Universidade de Paris.

1553 - Morte de D. João Afonso de Albuquerque primeiro bispo de Goa.


Carta régia nomeando D. Duarte da Costa, 2.º governador-geral do Brasil.
Tomé de Sousa deixa o cargo.
Fundação do Colégio de Santo Antão, em Lisboa, pelos jesuítas.
O padre José de Anchieta viaja para o Brasil.
Nomeação do licenciado Jorge Fernandes, como primeiro cirurgião do
Brasil.
S. Inácio de Loiola nomeia o padre Manuel da Nóbrega, provincial dos
jesuítas no Brasil.
Os Turcos sitiam Ormuz.
O padre Manuel da Nóbrega procede à admissão solene de 50
catecúmenos indígenas e funda a aldeia de Piratininga.
Samuel Usque, judeu português emigrado, edita em Ferrara, Itália, a obra,
A Consolação às Tribulações de Israel.

1554 - Nasce, em Lisboa, D. Sebastião.


Morte do herdeiro do trono, infant D. João.
Criação do Colégio de S. Paulo, em Piratininga, por Manuel da Nóbrega.
Notícia da existência em Lisboa de quatrocentos e trinta ourives.
Carta de Lopo Homem (Planisfério), assinalando as ilhas de Veniaga, junto
com as ilhas de Cantão. Representa, pela primeira vez, o arquipélago japonês.
Bula nomeando o jesuíta D. João Nunes Barreto, patriarca da Abissínia.
D. Pedro de Mascarenhas assume o cargo de 6.º vice-rei da Índia.
Fernão Mendes Pinto terá embarcado, como noviço da Companhia de
Jesus, para evangelizar no Japão.

[98]

Relação do Naufrágio de Sepúlveda.

1555 - Parte de Goa Diogo Dias, para negociar com o imperador da Abissínia a
total obediência à Igreja de Roma.
Contrato de Paz feito entre o Mealecão e D. Pedro de Mascarenhas, vice-
rei da índia.
D. João III ordena a entrega da direcção do Colégio das Artes ao padre
Diogo Mirão, povincial da Companhia de Jesus em Portugal.
Os jesuítas fundam o Colégio do Espírito Santo (Évora).
Ocupação francesa do Rio de Janeiro.
Morte em Goa de D. Pedro de Mascarenhas, 6.º vice-rei da Índia.
Francisco Barreto é nomeado 12.º governador da Índia.
Nomeação de Manuel de Andrade como ouvidor-geral e capitão-mor de
Cabo-Verde.
Início da instalação de uma feitoria em Macau.
O principal do Colégio das Artes em Coimbra, Diogo de Teive, entrega o
edifício aos jesuítas.

(Legenda: Universidade de Évora.)

1556 - Livro Primeiro do Cerco de Diu, de Lopo de Sousa Coutinho.


Chegam a Lisboa as ossadas de Afonso de Albuquerque.
Naufraga o barco em que seguia para o reino o primeiro bispo do Brasil, D.
Pêro Fernandes Sardinha, que é morto e devorado pelos índios.
Nomeação de Mem de Sá como governador-geral do Brasil.
1557 - Morte de D. João III e início da regência de D. Catarina de Áustria.
Comentários de Afonso de Albuquerque, de Brás de Albuquerque.
Deixa o governo-geral do Brasil, D. Duarte da Costa.
Paulo III eleva a Catedral de Goa à qualidade de metropolita. Criação das
dioceses de Cochim e Malaca.
Lei «para tirar dinheiro fora do reino», que revela já uma preocupação pré-
mercantilista com as espécies monetárias.
Missão à Abissínia do bispo D. André de Oviedo, para tentar a conversão
do negus à Igreja de Roma.
Morte de António Galvão, cronista e governador das Molucas.
Aporta à Baía o novo governador-geral do Brasil, Mem de Sá.

1558 - Bula de Paulo IV, elevando o bispado de Goa a arcebispado e separando-o


do de Lisboa.
Nomeação de Luís Martins de Evangelho, corregedor e capitão-mor interino
de Cabo Verde.
Nomeação de D. Constantino de Bragança como 7.º vice-rei da índia.
Conquista da França antárctica (ilhéu da baía de Guanabara).

[99]

Lei da prata.
Insurreição dos índios na capitania do Espírito Santo.
Foral da vila de Piratininga, na capitania de S. Vicente, Brasil.
Deixa Goa o 12.º governador da Índia, Francisco Barreto.
Fernão Mendes Pinto regressa a Lisboa, vindo da Índia.

(Legenda: Luís de Camões.)

1559 - D. Constantino de Bragança assalta Damão, expulsando os mercenários


da Etiópia.
Transformação do Colégio do Espírito Santo em Universidade (Évora).
Pragmática contra o luxo.
Criação dos portos secos entre Portugal e Castela.
Bombaim é cedida a D. Constantino de Bragança, vice-rei da Índia.
Morte do cronista Fernão Lopes de Castanheda, em Coimbra.
Vitória portuguesa sobre uma coligação de príncipes de Malabar, que
pretendiam conquistar a Fortaleza de Cananor.
Alvará mandando expulsar as prostitutas da cidade de S. Tomé.
Chegada à Baía de D. Pedro Leitão, novo bispo.
Partida de Lisboa da armada de Paulo Dias de Novais, levando mais
jesuítas para a conversão dos gentios de Angola.
Auto da Paixão, do padre Francisco Vaz.

1560 - Alvará para a junção da Casa dos Contos e dos Contos do Reino.
Autorização do papa para o estabelecimento da Inquisição em Goa.
Construção dos fortes de Jafanapatam (Oriente), Sena e Tete
(Moçambique).
Brás Cubas descobre ouro e esmeraldas no sertão de S. Paulo.
Ocupação do litoral brasileiro até ao rio S. Francisco, na sequência de uma
expedição contra os Índios.
Mem de Sá expulsa (temporariamente) os Franceses da baía da
Guanabara.
Paulo Dias de Novais atinge o rio Quanza e Pungo-Andongo.
Alvará mandando cessar o pagamento de juros a cargo da Casa da Índia.
D. Gaspar de Leão Pereira, arcebispo de Goa, viaja para a Índia com os
dois primeiros inquisidores.
Comédia dos Vilhalpandos, de Sá de Miranda.
Atlas, de Fernão Vaz Dourado.
Repertório dos Cinquo Livros das Ordenações, de Duarte Nunes de Leão.

c. 1560 - Tratado em que se contam muito por Extenso as Cousas da China.., de


Gaspar Cruz.

1560-1565 - Datas das duas edições do Itinerário da índia a Portugal por Terra, de
António Tenreiro.

1561 - Luís de Camões, após um período de degredo, regressa a Goa.

[100]

Estácio de Sá parte do porto de Santos para Guanabara.


Nomeação de D. Francisco Coutinho como 8.º vice-rei da Índia.
Morte do padre Gonçalo da Silveira, durante a catequização no reino da
Monomotapa (ÁfricaOriental).
Primeira edição do mais antigo mapa do reino de Portugal, de Fernando
Álvares Seco. Atlas Universal, de Diogo Homem.
Publicação dos Mapas de Bartolomeu Velho. Corografia, de Gaspar
Barreiros. Opera iuris civilis, de António de Gouveia.

c.1561 - Lendas da Índia, de Gaspar Correia.

(Legenda: D. Frei Bartolomeu dos Mártires.)

1562 - Os Mouros cercam Mazagão.


Cortes de Lisboa. D. Catarina de Áustria renuncia à regência do reino. O
cardeal D. Henrique assume a regência do reino. Instituição do Conselho de
Estado por D. Henrique. Bernardo de Alpoim é nomeado Corregedor e capitão-
mor de Cabo Verde. Execução, pelo Santo Ofício, de Frei Valentim da Luz,
acusado de ser «erasmizante». Epistola ad Serenissimam Elisabetham Angliae
Reginam, de Jerónimo Osório.

(Legenda: Martim Afonso de Sousa.)


1563 - Legislação portuguesa sobre os portos secos entre Portugal e Castela.
Aprovação e promulgação dos Estatutos da Universidade de Évora.
Atlas, de Lázaro Luís.
Tratado..., de António Galvão.
Colóquios dos Simples e Drogas e Cousas Medicinais da Índia, de Garcia
da Orta.
Repositório dos Tempos, de Valentim Fernandes.

1563-1572 - Imagem da Vida Cristã, de Heitor Pinto.

[101]

1564 - Morte de D. Francisco Coutinho, 8.º vice-rei da Índia.


Toma posse como 13.º governador da Índia, João de Mendonça.
Lourenço Pires de Távora parte de Lisboa para reforçar a defesa de
Tânger. É nomeado governador da cidade.
Morte de Martim Afonso de Sousa, antigo governador da Índia.
D. Antão de Noronha é nomeado 9.º vice-rei da Índia.
Novo Regimento para o Terreiro do Trigo.
Início do povoamento da região da Guanabara (Brasil).
Promulgação dos decretos do Concílio de Trento como leis do reino.
Institutiones Dialecticarum, de Pedro da Fonseca.
Catecismo, de Frei Bartolomeu dos Mártires.
Relação do Naufrágio da Nau S. Bento.

1564-1565 - Entrada em vigor definitiva do encabeçamento das sisas.

1565 - Publicação de o Itinerário, de Mestre Afonso, cirurgião da Índia,


descrevendo o roteiro feito por terra de Ormuz ao reino.
Estácio de Sá lança os fundamentos da cidade do Rio de Janeiro, junto à
baía de Guanabara.
Primeiro ataque dos índios Tamoios às forças de Estácio de Sá, junto do
Rio de Janeiro.
Alcune Cose del Paese de Ia China…, de Galeote Pereira.

1566 - Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel, de Damião de Gois.


A cidade do Funchal é atacada por corsários franceses e rocheleses.
Itinerário da Terra Sancta e suas Particularidades…, de Pantaleão de
Aveiro.
Transladação dos restos mortais de Afonso de Albuquerque para o
Convento da Graça, em Lisboa.
(Legenda: D. Sebastião, por Cristóvão Lopes.)

1567 - Mem de Sá, trazendo reforços, junta-se a Estácio de Sá, para a derradeira
ofensiva contra os Franceses instalados no Rio de Janeiro.
Morte de Estácio de Sá, ferido em combate.
Mem de Sá transfere a recém-fundada cIdade do Rio de Janeiro para o
morro de S. Januário, por razões de defesa.
Lei proibindo a saída de cristãos-novos para as colónias.
Crónica do Príncipe D. João, o Segundo do Nome, de Damião de Góis.
Proezas da Segunda Távola Redonda, de Jorge Ferreira de Vasconcelos.
Libro de Algebra em Arithmetica y Geometria, de Pedro Nunes.

1568 - Termina a regência do cardeal D. Henrique.


D. Sebastião assume o trono aos 14 anos.

[102]

D. Luís de Ataíde, 3.º conde de Atouguia da Baleia, é nomeado 10.º vice-rei


de Índia.
Memória apresentada pelo embaixador potuguês em Londres, reclamando
contra as navegações clandestinas inglesas nos domínios territoriais portugueses.
Alvará proibindo a venda de pão a estrangeiros.
Atlas, de Fernão Vaz Dourado, que já representa o Japão, bem como a
costa norte-americana desde a Terra dos Cortes-Reais até à Terra do Labrador.
Atlas Universal, de Diogo Homem é impresso em Dresda.

1569 - Abertura de Nagasáqui ao comércio português.


Fundação da Misericórdia de Macau.
Compilação da legislação extravagante às Ordenações.
Legislação sobre a posse de cavalos e armas.
D. Luís de Ataíde parte para Goa com poderosas forças navais e terrestres
para punir os habitantes de Onor, cidade que ocupará.
Instruções para D. António Fogaça passar à corte de Londres, a fim de
reclamar da prática inglesa de comerciar directamente nos domínios de Portugal.
Tratado das Cousas da China, de Frei Gaspar da Cruz.
Informação das cousas de Maluco, dada, em 1559, ao senhor D.
Constantino de Bragança, vice-rei da Índia, de Gabriel Rebelo.
Auto das Regateiras, de António Ribeiro.

1569-1570 - «Peste Grande», causando elevada mortalidade em Lisboa.

1570 - Fim do monopólio da coroa no comércio com o Oriente, excepto nas


remessas de prata e cobre.
D. Luís de Ataíde repele, dificilmente, um assalto a Goa.
Criação da diocese de Elvas. Pragmáticas contra o luxo. Alvará sobre os
ociosos e vadios. Reunião das dioceses de Ceuta e Tânger.
Regimento dos capitães-mores e mais capitães. Francisco Gouveia é
enviado ao rei do Congo com forte contingente armado. Morte de Frei Gaspar da
Cruz. Luís de Camões regressa a Lisboa, vindo do Oriente.
Nomeação de D. Luís Fernandes de Vasconcelos como 4.º governador-
geral do Brasil, em substituição de Mem de Sá. Morrerá na viagem, em luta contra
os corsários no mar dos Açores.
Provisão concedendo isenção de tributos aos engenhos do açúcar, a
estabelecer no prazo de 10 anos.
Promulgação da 1.ª lei sobre a escravidão dos índios do Brasil, restringindo
a sua prática a alguns casos concretos.
Quarenta jesuítas que viajavam para o Brasil, chefiados pelo padre Inácio
de Azevedo, são martirizados perto das Canárias por calvinistas franceses.
Morte do padre Manuel da Nóbrega no Rio de Janeiro. Morre, em Pombal,
o historiador João de Barros.
Tentativa de divisão do Oriente em duas áreas, sob a autoridade,
respectivamente, do vice-rei e de um governador. Soldado Práctico, de Diogo do
Couto.
Edição dos Roteiros Portugueses, de António Vicente Rodrigues.

1571 - Nomeação de D. António de Noronha como 11.º vice-rei da índia.


Morte de D. Francisco Jorge Fernando, primeiro bispo de Cochim.

[103]

Violento assalto do rajá de Nizam à praça de Chaul, que consegue resistir.


Tratado de Paz com o rajá de Nizam. Nova chacina de jesuítas no mar dos
Açores, quando se dirigiam para o Brasil.
Carta de doação da nova capitania de Angola a Paulo Dias de Novais.
Luís de Camões obtém de D. Sebastião o alvará para a publicação de Os
Lusíadas.
Regimento sobre como hão-de ir armados os navios que deste reino
navegarem. Tratado de Paz com Midal-Khan que, sem sucesso, havia cercado
Goa. Lei sobre os panos.
Edição da obra De Crepusculis, de Pedro Nunes. Damião de Gois é
processado pela Inquisição.
De rebus Emmanuelis gestis libri duodecum e De regis institutione et
disciplina, libri octo, de Jerónimo Osório.

1572 - Tratado de Paz e Amizade com Isabel de Inglaterra, pelo qual é


reconhecido o domínio português sobre os seus territórios descobertos.
Morte de Mem de Sá, 3.º governador-geral do Brasil e irmão do poeta Sá
de Miranda.
Damião de Góis é condenado pela Inquisição.
Editam-se Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões. Concessão do título de
primaz do Oriente ao arcebispo de Goa. D. Sebastião concede uma tença a Luís
de Camões.
Carta de nomeação de Luís Brito de Almeida como governador das
capitanias do Norte do Brasil, com a capital em S. Salvador da Baía.
D. Sebastião promulga o Regimento dos FiIhamentos.
Carta régia criando duas capitais no Brasil: S. Salvador da Baía e S.
Sebastião do Rio de Janeiro.
A capela-mor do Mosteiro dos Jerónimos é concluída por Jerónimo de
Ruão.
Regimentos dos Offtciaes Mecânicos da Cidade de Lisboa, de Duarte
Nunes de Leão.
Gramática, de Manuel Álvares.

(Legenda: D. António, prior do Crato.)

1573 - Nomeação do 14.º governador da Índia, António Moniz Barreto.


Por má administração, o 11.º vice-rei da Índia, D. António de Noronha, é
intimado a entregar o governo.
Rui Sousa de Carvalho, capitão-mor de Tânger, morre num recontro
armado com os Mouros.
D. Sebastião desvaloriza a moeda.
António Moniz Barreto assume o governo do vice-rei destituído.
Jornada de D. Sebastião pelo Alentejo e Algarve.

1574 - Expedição fracassada de D. Sebastião ao Norte de África.


D. Sebastião nomeia D. António, prior do Crato, capitão-mor de Tânger.

[104]

Edição do poema em 22 cantos – Sucesso do segundo cerco de Diu,


estando D. João de Mascarenhas por capitão da fortaleza, de Jerónimo Corte-
Real.
Morte de Damião de Góis.
Nova legislação sobre o encabeçamento das sisas.
Reorganização aduaneira do Estado da Índia.
Carta de donataria de Angola concedida a Paulo Dias de Novais.
Gregório XIII concede a tença das décimas para a guerra de África.
De justicia caelesti libri decem, de Jerónimo Osório.
Regras que ensinam a Maneira de Escrever a Ortografia da Língua
Portuguesa, de Pêro de Magalhães de Gândavo.

1574-1576 - Expedições portuguesas para tentar ocupar a região de Paraíba


(Brasil).

1575 - Conclusão da Fortaleza de S. Sebastião, na cidade de S. Tomé.


Regresso de Paulo Dias de Novais a Angola, como donatário da capitania
criada por D. Sebastião.
Atribuição dos primeiros graus académicos no Real Colégio da Baía
(Brasil).
Bula Super Specula Militantis Ecclesiae, de Gregório XIII, criando a diocese
de Macau e conferindo-lhe jurisdição sobre a China, Japão e Coreia.
Roteiro... desde o Cabo da Boa Esperança até os das Correntes, de
Manuel de Mesquita Perestrelo.
Viagem por terra de Sebastião Tourinho, de Porto Seguro a Caravelas.
D. Sebastião reforma a minguada tença atribuída a Luís de Camões.

1576 - Encontro de D. Sebastião e Filipe II em Guadalupe, propondo o primeiro


uma acção militar conjunta.
Paulo Dias de Novais funda S. Paulo de Luanda.
Criação de celeiros comuns em Évora.
Trabalhos de drenagem do Tejo.
Ataques de corsários franceses e rocheleses à ilha de Santa Maria.
Instituição do monopólio da venda do sal a favor da coroa.
Confirmação de D. Diogo Nunes de Figueiredo como bispo de Macau.
António Moniz Barreto termina as funções como 14.º governador da Índia.
A população do Brasil é calculada em 57 000 indivíduos (incluindo
escravos).
História da Província de Santa Cruz, de Pêro de Magalhães de Gândavo.
Ortografia da Língua Portuguesa, de Duarte Nunes de Leão.

1577 - D. Sebastião reocupa Arzila.


Nomeação do 5.º governador-geral do Brasil, D. Diogo Lourenço da Veiga,
com jurisdição sobre todo o território da colónia. Termina a administração
separada do Norte e do Sul.
Alvará revogando a proibição dos cristãos-novos passarem às colónias.
É novamente nomeado como vice-rei da Índia, D. Luís de Ataíde, 3.º conde
de Atouguia.
D. Diogo de Noronha assume o cargo de 15.º governador da Índia.
Provisão conferindo a Salvador Correia de Sá o governo do Rio de Janeiro,
subordinado ao governo geral.
Parte para a Índia, pela segunda vez, o 12.º vice-rei, D. Luís de Ataíde.
Nomeação régia de Miguel Moura, encarregado de anunciar a Filipe II a
intenção de D. Sebastião passar a África.
Efectivação da transferência da sede do bispado do Algarve, de Silves para
Faro (bula de 1540).

[105]

Grave surto pestífero nos arredores do Porto.

1578 - Oposição do cardeal D. Henrique à jornada de África, recusando a


regência do reino.
Tomada de posse de um grupo de governadores que asseguram a
regência.
Destruição pelos indígenas da Fortaleza de Acra, na costa da Mina.
Início da grande viagem de Duarte Lopes aos lagos Niassa, Alberto Nianza,
Vitória Nianza e Tanganhica.
Bula de Gregório XIII em favor da expedição a África.
Junta de nobres no Paço de Santos, a quem D. Sebastião declarou os seus
projectos africanos.
Filipe II envia a D. Sebastião a embaixada do duque de Medinaceli para
dissuadir o soberano português dos seus propósitos de passar ao Norte de África.
Expedição e derrota de Alcácer Quibir, com a morte do rei.
Aclamação régia do cardeal D. Henrique.
Pedido de dispensa papal das ordens sacras do cardeal D. Henrique.
Revogação de várias medidas legislativas do reinado de D. Sebastião.
De vera sapientia libri quinque, de Jerónimo Osório.
Morte de Pedro Nunes.

1579 - Morte de Tomé de Sousa (1.º governador-geral do Brasil).


Morte de Luís de Camões.
Lei contra a mendicidade.
Chega a Marrocos a embaixada de D. Francisco da Costa, com o fim de
resgatar centenas de fidalgos ali cativos.
Cortes de Lisboa.
Segunda provisão régia destinada a proteger a madeira de sobreiro para a
construção naval, numa área que servia o estaleiro da Ribeira das Naus,
alargando a zona protegida de 1546 a 10 léguas a norte do Tejo de Abrantes a
Lisboa.

1580 - Cortes de Almeirim-Santarém.


Morte do cardeal D. Henrique.
Aclamação régia de D. António, prior do Crato, em Santarém.
Invasão de Portugal pelo exército espanhol.
Derrota de D. António na Batalha de Alcântara e saque dos arrabaldes de
Lisboa.
Entrada de Filipe II em Portugal.
Crise do açúcar em S. Tomé.
Surto de peste.
Paulo Dias de Novais estabelece-se em Macunde (Angola).
Doação de Nagasáqui aos jesuítas.
Conclusão da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto.

1581 - Aclamação régia de Filipe I de Portugal nas Cortes de Tomar,


comprometendo-se o rei a respeitar o princípio da monarquia dualista.
Entrada de Filipe I em Lisboa.
D. António, prior do Crato, refugia-se em Inglaterra, procurando obter
auxílio militar.
Vitória da baía da Salga, na Terceira, sobre os navios espanhóis.
Início dos trabalhos de efectivação da ligação Lisboa-Madrid, através do
Tejo.
Isagoge Philosophica, de Pedro da Fonseca.

1581-1583 - Rebelião açoriana ao domínio espanhol.

1582 - Derrota nos Açores da esquadra luso-francesa de Strozzi, pela armada


espanhola.
Introdução do calendário gregoriano em Portugal.

[106]

Criação da Relação do Porto.


Legislação da reforma judiciária.
Criação do Conselho de Portugal.
Paulo Dias de Novais estabelece-se em Massangano, na confluência dos
rios Quanza e Lucala.
Morte de Frei Tomé de Jesus, cativo de Alcácer Quibir.

1582-1590 - Suspensão das alfândegas fronteiriças com Castela.

1583 - Cortes de Lisboa, onde o infante D. Filipe é jurado herdeiro do reino de


Portugal.
Regresso de Filipe I a Madrid, delegando o governo de Portugal no cardeal-
arquiduque Alberto de Áustria, seu sobrinho.
Francis Drake, corsário inglês, actua nas costas brasileiras.
Evangelização do Japão pelos franciscanos.
A resistência a Filipe I termina nos Açores, com a derrota da esquadra
francesa.
Frei Heitor Pinto, por não aceitar o domínio estrangeiro, é desterrado para a
Espanha.

1584 - Inicia-se a edificação da Fortaleza de Mascate.

1585 - Proibição do comércio com a Holanda.

1586 - Ruptura das relações diplomáticas e proibição do comércio com a


Inglaterra.

1587 - Ocupação de Ampaza e Mombaça por Martim Afonso de Melo.


Francis Drake ataca as costas do Algarve e saqueia Sagres.
Antigo reino de Benguela é atingido pelos Portugueses.
Mateus Álvares é enforcado como «falso S. Sebastião».
Castro, de António Ferreira.
Tratado Descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa.
Primeira Parte dos Autos e Comédias Portuguesas, colectânea organizada
por Afonso Lopes.

(Legenda: Filipe II de Espanha (Valência, Museu de Bels-Artes.)


1588 - Derrota da Invencível Armada.
Vários portos brasileiros são atacados por corsários ingleses.
Criação da diocese de Funai (Japão).
Memoriais de Diogo Ferreira dirigidos a Filipe I, sobre o território angolano.
Concórdia, de Luís de Molina.

1589 - Auxílio naval dos Ingleses a D. António, prior do Crato, com ataque falhado
a Lisboa.
Arzila é restituída ao sultão Almançor.
Diálogos, de Frei Amador Arrais.
Saudades da Terra, de Gaspar Frutuoso.
Tratado del Consejo y de los Consejeros de los Príncipes (2.ª ed.), de
Bartolomeu Filipe.

c. 1590 - Relação do Reino do Congo..., de Duarte Lopes e Fellipo Pigafetta.


Narrativa Epestolas de uma viagem e Missão

[107]

Jesuítica pela Bahia, Ilheos, Porto Seguro..., de Fernão Cardim.

1591 - Criação do Conselho da Fazenda.


Edificação de dois teatros em Lisboa.

1592 - As terras de Goiás (Brasil) são percorridas por Sebastião Marinho.

1592-1606 - Comentários a Aristóteles, de Manuel de Góis, Baltazar Álvares e


Sebastião Couto.

1593 - Estatutos Filipinos da Universidade de Coimbra.


Criação do imposto do «consulado».
Regresso a Castela de Alberto de Áustria, substituído pelos governadores
D. Miguel de Castro, D. João da Silva, D. Francisco de Mascarenhas, D. Duarte
de Castelo-Branco e Miguel de Moura.
Itinerário da Terra Santa, de Frei Pantaleão de Aveiro.
Relação de todas as Rendas da Coroa deste Reino de Portugal, de
Francisco Carneiro.
De Antiquitatibus Lusitanae, de André de Resende.

1594 - Ataque inglês ao porto do Recife.


Filipe I cria a Aula de Risco do Paço da Ribeira.
Edificação da Fortaleza de Mombaça na África Oriental.
Manuel de Mascarenhas Homem toma parte na conquista do Rio Grande
do Norte.
Tratado Breve dos Reinos da Guiné, de Álvares de Almada.
1595 - Morte de D. António, prior do Crato, em Paris.
Corso dos Ingleses (Drake) nos mares da América espanhola.
Novo saque do porto do Recife.
Revolta popular em Lisboa.
Conclusão das Ordenações Filipinas.
Lectiones Mathematicae, de André Avelar.
Regimento Náutico, de João Baptista Lavanha.

1595-1604 - Organização do arquivo de Goa, por Diogo do Couto, cronista e


guarda-mor da Torre do Tombo da índia.

(Legenda: Filipe III de Espanha (Museu do Escorial).)

[108]

Tentativa holandesa de conquista de S. Jorge da Mina.


Criação da diocese de Angola e Congo. D. Miguel Rangel é nomeado
bispo.
Saque e incêndio de Faro pelas tropas do Conde de Essex.
O Lima, de Diogo Bernardes.
Romanceiro, de Francisco Rodrigues Lobo.

1596-1600 - Grave crise agrícola.

1597 - Surto de fome.


Os franciscanos são expulsos do Japão.
Os franceses são derrotados no Potengi (Rio Grande do Norte, Brasil).
Monarquia Lusitana, 1.ª parte, de Frei Bernardo de Brito.

1598 - Morte de Filipe I e início do reinado de Filipe II.


Restabelecimento do monopólio régio sobre o comércio da Ásia.
Cerco da barra de Lisboa pelos Ingleses.
Os Holandeses ocupam várias zonas no Oriente.

1598-1603 - Surto de «peste pequena».

1599 - Povoamento de Paraíba (Brasil).


Submissão completa das ilhas de Banda (Oriente) ao domínio holandês.
André Furtado Mendonça é nomeado capitão-mor do Malabar.
Ratio Studiorum, regulamento pedagógico das escolas jesuítas.

1600 - Nomeação de Cristóvão de Moura como vice-rei e capitão-geral da gente


de guerra em Portugal.
Inserção da diocese de Angalame-Cranganor no padroado português.
Concessão de foral à ilha do Príncipe.
Os Portugueses deixam as Molucas.
Morte de Frei Amador Arrais.
Primeira Parte das Chrónicas dos Reis de Portugal, de Duarte Nunes de
Leão.
História da Vida do Padre Francisco Xavier, de João de Lucena.

(Legenda: Francisco Rodriques Lobo.)

1601 - A Índia é dividida em duas províncias: Goa e Malabar.


Primavera, de Francisco Rodrigues Lobo.

1602 - Surto de peste.


A Fortaleza de Cambambe, na margem do rio Quanza, começa a ser
construída.
Relação do Naufrágio da Nau Santiago, do padre Godinho Cardoso.

1603 - Publicação das Ordenações Filipinas.


Concessão da feitoria de Malaca a André Furtado de Mendonça.
Início do domínio das terras do Ceará (Brasil), com a expedição de Pêro
Coelho de Sousa.

[109]

Chronographia, Repertório dos Tempos, de Manuel de Figueiredo.


Elogio dos Reis de Portugal, de Frei Bernardo de Brito.

c. 1603 - Diários Anónimos da Carreira da índia nos anos de 1595, 1596, 1597,
1600 e 1603.

1604 - Perdão geral aos cristãos-novos.


Criação do Conselho da índia.
Ataque dos Holandeses à Fortaleza de Moçambique.
Conclusão da construção da Fortaleza de Cambambe.
Sonetos, Éclogas e Outras Rimas, de Baltazar Estaço.
Relação dos Sucessos do Galeão Santiago, de Melchior Estácio do Amaral.

1604-1627 - Os Holandeses tentam conquistar Macau.

1605 - Conquista holandesa da ilha de Amboína.


Instalação da Companhia Holandesa das índias Orientais nas ilhas de
Maluco.
Éclogas, de Francisco Rodrigues Lobo.

1606 - Criação da diocese de Meliapor por Paulo V.


Filipe II funda a capitania da Serra Leoa.
D. Jorge de Melo comanda o assalto à Fortaleza de Coulão.
Arte de Navegar, de Simão de Oliveira.
Origem da Língua Portuguesa, de Duarte Nunes de Leão.
Jornada do Arcebispo de Goa, de Frei António Gouveia.

1607 - Remodelação do Conselho de Portugal.


Livro de Toda a Fazenda Real e Património de Portugal, índias e Ilhas
Adjacentes, de Figueiredo Falcão.
Jornada de África, de Jerónimo Mendonça.

ANTES DE 1608

Ethiópia Oriental…, de João dos Santos.


1608 - Nasce D. Francisco Manuel de Melo.
Nasce o padre António Vieira.
Do Sítio de Lisboa, de L. M. de Vasconcelos.
Pastor Peregrino, de F. Rodrigues Lobo.

1609 - Conquista de Ceilão pelos Holandeses.


Estabelecimento da primeira feitoria holandesa no Japão.
Criação da Relação da Baía.
Reunião de 39 000 cruzados para oferecer a Filipe II pela sua vinda a
Portugal.
Monarquia Lusitana, 2.ª parte, de Frei Bernardo de Brito.

1609-1622 - «Trégua dos Doze Anos», entre a Espanha e a Holanda.

1610 - Condestabre, de Rodrigues Lobo.


Descripçao do Reino de Portugal, de Duarte Nunes de Leão.

Antes de 1611

Roteiro de Navegaçam e Carreira da Índia…, de Vicente Rodrigues e Diogo


Afonso.

(Legenda: Filipe IV de Espanha.)

[110]
(Legenda: Lisboa em 1619, quando do desembarque de Filipe III)

1611 - Dicionário de Português-Latim, de Agostinho Barbosa.


Itinerário da Índia por terra, de Frei Gaspar de S. Bernardino.

1612 - Reforma dos Estatutos da Universidade de Coimbra.


Criação da diocese de Moçambique.
Relação das Cortes Presentes, de Francisco Rodrigues Lobo.

1613 - Conquista do Pegu por Filipe de Brito.


Segundo Regimento do Santo Ofício.
Crónica de D. João III, de Francisco de Andrade.
Defensio Fidei Catholicae, de Francisco Suarez.

1614 - Perseguição aos jesuítas no Japão, que os leva a abandonar esse reino.
Extinção do Conselho da Índia.
Batalha de Guaxenduba, no Maranhão, entre Portugueses e Franceses.
Edição póstuma de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto.
Quarta Década da Ásia de João de Barros, por João Baptista Lavanha.

1615 - Conquista definitiva do Maranhão aos Franceses.

1616 - Tentativas inglesas para se apoderarem de Cochim.


Construção da Fortaleza do Presépio, na Amazónia.
Frei Bernardo de Brito é nomeado cronista-mor da Torre do Tombo.

1616-1621 - Luís Mendes de Vasconcelos exerce a função governativa em


Angola.

1617 - Os Portugueses são expulsos do Japão pelos Holandeses.


Assalto mouro à ilha de Porto Santo, fazendo cativa quase toda a
população.
Fundação de S. Filipe de Benguela, por Manuel Cerveira Pereira.
1617-1618 - Levantamento do litoral português, sob a direcção de Luís de
Figueiredo Falcão.

1619 - Cortes de Lisboa, em que o infante de Espanha é jurado herdeiro do trono


português, na presença de Filipe II. Revolta dos Tupinambás (Amazónia).
Corte na Aldeia, de Rodrigues Lobo.
Vida de Frei Bartolomeu dos Mártires, de Frei Luís de Sousa.

[111]

[112]

1620-1807

Augusto José Monteiro

Estamos em presença de um longo período, em relação ao qual existe uma


abundante – e, em muitos casos, qualificada - produção historiográfica. A acção
conjugada da extensão do período e da extensa bibliografia tornam,
compreensivelmente, mais difícil (e complexa) a acção de realizar uma introdução
breve. Que caminhos e vias privilegiar? O que valorizar,que deixar na sombra?
Que ecos repercutir, que silêncios guardar? Na impossibilidade de dizer o muito
que deveria ser dito, tivemos de optar - opção problemática como todas as opções
- e, por isso, limitámo-nos, apenas, a discorrer um pouco sobre as datas que
balizam o período.
Esta larga e substancial fatia do Antigo Regime português começa por ser
balizada, a montante, pela data de 1620. Ora, em 1621, inicia-se o reinado de
Filipe IV. Podia nada querer significar. Mas não é isso que acontece. Com a
subida ao trono do sucessor de Filipe III, vaiser posta em prática, de facto – por
circunstâncias várias que explicam a acção do seu homem forte (o conde-duque
de Olivares) – uma política bem mais intervencionista e um modelo de governo
mais activo. «1621: crise estrutural do mundo mediterrâneo (1619-1622).
Afirmação do Atlântico como eixo dos interesses mercantis. Economia outra num
espaço diferente. [...] Vai subir ao Poder o conde de Olivares e com ele a
consciência de uma necessidade de uma nova política para a unidade hispânica.
Financeiramente imperativa para salvar o centro castelhano, financeiramente
irrealizável em tempos de penúria. E é por isso que a política que Olivares lidera é
de mudança. O sonho da unidade hispânica torna-se pesadelo» (Joaquim Romero
de Magalhães, História de Portugal, direcção de José Mattoso, vol. III, p.8).
Mesmo para António Manuel Hespanha preocupado essencialmente em
fazer, para estes tempos que vão de 1620 a 1807, um «ensaio de descrição dos
modos como o Poder – ou os poderes - se distribuiu e organizou na sociedade
portuguesa do Antigo Regime» preocupado em analisar a arquitectura dos
poderes e em fazer a história da sociedade corporativa, se este período
apresenta, dada a óptica de análise, uma unidade muito problemática, a baliza
inicial não lhe parece muito arbitrária. É que, por volta de 1620 pode situar-se, na
sua opinião, «o início de uma política - de resto fracassada em 1640, mas com
reincidências posteriores - de reforma da constituição política da sociedade e de
concentração de poderes». Refere-se este autor ao projecto político
«protagonizado pelo conde-duque de Olivares, que - como já foi notado - não
difere essencialmente do conde de Castelo Melhor e mais tarde de Pombal (ou
mesmo dos liberais). Em todos eles, de facto, germina um projecto de ruptura,
que, sobretudo, nos domínios fiscal e da organização da alta administração,
institui modelos novos de pensar a sociedade e o Poder e de organizar,
correspondentemente, a malha institucional. Embora este projecto só dê frutos no
fim do período que nos ocupa, a sua primeira manifestação poderia servir de
pretexto suficiente para aí se abrir um volume (embora não, decerto, para aí se
abrir uma época)».
O período é balizado, a jusante, pelo ano de 1807 que, embora se afigure
uma data mais arbitrária, se apresenta, contudo, suficientemente significativa. É o
ano em que se dá a invasão de Portugal pelas tropas francesas - porque a
governação se mantém fiel a compromissos e interesses que vinham marcando,
com indesmentível proveito, a sua política externa que visava, acima de tudo,
salvaguardar a neutralidade -; é o ano da fuga (retirada estratégica) da família
real, para a imensa colónia brasileira (que tão profundo significado havia ganho
para Portugal ao longo de Seiscentos e, em particular, de Setecentos), para tentar
salvar a dinastia de Bragança e o próprio Império. Das decisivas consequências
de tudo isto, não cabe aqui falar...
[113]

Se utilizarmos a periodização de Vitorino Magalhães Godinho, esta data


poderia, eventualmente, servir para marcar, mais ou menos, o fim de um
complexo «histórico geográfico» iniciado por volta de 1670-1680 (período de uma
séria crise comercial) e que convir terminar «quando o Antigo Regime entra em
crise, em fins do século XVIII ou começo do século XIX…» (in Ensaios II, Lisboa,
1968, p .12). Assim sendo, o ano de 1807 não será de todo desajustado…
António Manuel Hespanha – face à perspectiva de análise adoptada -
exprime sem dúvidas quanto ao termo final. Segundo este autor as grandes
rupturas ter-se-iam verificado com «o advento das concepções e práticas políticas
centralizadoras do iluminismo, que em Portugal, se manifestam no reinado de D.
José. Assim, 1750 seria, deste ponto de vista uma data que assinalaria o ‘princípio
do fim‘ desta sociedade corporativa. […] Ou, se quisessem abarcar as últimas
consequências dos novos paradigmas políticos, fundado individualismo, no
contratualismo, na centralização, no legalismo, então, 1820 poderia justificar-se
como o fim do princípio do período seguinte» (História de Portugal, vol. IV, pp.6).
Se é muito o que muda e o que se altera ao longo de todo este período –
há mesmo quem considere a centúria de Setecentos como um dos séculos
solares da nossa história (com todos os riscos que envolve todo e qualquer juízo
valorativo) -, são muitas as inicias e os imobilismos… A sociedade, que
corresponde à monarquia absoluta (menos centralizadora do que se julgava, com
mais limitações e resistências do que se pensava!), entra em convulsão, para em
boa parte morrer no final de Setecentos e nas revoluções liberais do terço do
século XIX. Portugal chegou ao fim deste período enredado em estruturas
arzantes…
Cabe-nos propor uma cronologia. É isso que vamos intentar, cientes de
que não podemos ser tão comentada e ilustrada, por circunstâncias de vária
ordem, como pretendíamos. Fica para uma melhor oportunidade que pensamos
não estar longe.

1620 - Ano «estéril de pão».


Surto epidémico de tabardilho (tifo exantemático) com elevado número de
vítimas.
Lisboa conta ± 165 ooo habitantes (cerca de IO ooo são escravos). Mais
que qualquer outra cidade da Península (menos que Londres, Paris, ou
Nápoles…)
A colónia portuguesa de Sevilha constitui a quarta parte da população da
cidade.
Acordo anglo-holandês que vai ter gravosas consequências para o Império
português (A Holanda não intervinha no golfo Pérsico; a Inglaterra «deixaria em
paz» a Insulíndia.)

1621
[31 de Março] Morre Filipe III. Sucede-lhe o filho, Filipe IV (apenas com 16
anos).
[18 de Abril] «Levantamento» de Filipe IV na Sé de Lisboa.
Gaspar Filipe de Guzman, conde (depois duque) de Olivares, assume às
rédeas do poder que mantém, como ministro poderoso, até 1643. O «olivarismo»
procura instaurar, em Portugal, um modelo «mais activo» de governo que
revolucionasse sob o impulso da coroa, a constituição do reino e o seu viver
habitual.
Surto de fome no reino.
Motim em Barcelos (motivado por questões de sisas).

[114]

Fim de trégua (de 12 anos) com a Holanda.


Fundação da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais. Perigosa
«inflexão» no Atlântico português, com todas as consequências daí resultantes.
«Deteriora-se» a situação no Oriente‖.
Os Holandeses tomam a ilha de Banda.
Constituição do estado do Maranhão (Brasil).
Início das «viagens» dos bandeirantes (Brasil).
Relação das Rendas da Fazenda Real, no Reino de Portugal e suas
Conquistas, da autoria de Fernando Loureiro.
Anacephaleoses id est summa capita ceterum regum Lusitaniae, de
António de Vasconcelos (editado em Antuérpia). Acentua-se a identificação dos
Portugueses com os Lusitanos.
Morte do escritor Francisco Rodrigues Lobo.

(Legenda: Reresentação alegórica da Lusitânia (Lisboa, Biblioteca Nacional).)

1622 - Fome (que afecta em especial Lisboa) e «preços altos».


Os cristãos-novos são proibidos de ascenderem à cátedra na Universidade
de Coimbra.
Proibição de usar «artifícios de fogos» em festejos populares e de santos.
Eleito para grão-mestre de Malta, Luís Mendes de Vasconcelos.
Ormuz é conquistada pelos Persas com o auxílio dos Ingleses. (A praça
rende-se em Maio.) Os Ingleses obtêm um saque considerável.
[Junho] Cerco holandês a Macau. Os Holandeses são rechaçados (para o
que contribui o socorro enviado de Manila).
Os Holandeses atacam, sem êxito, S. Jorge da Mina.
Ataques holandeses à costa portuguesa (foz do Tejo, barra do Porto,
Aveiro…).
Mouros e turcos fazem «incursões» na costa algarvia.
Tractatus de Manu Regia, de Gabriel Pereira de Castro. (Trata das relações
entre os poderes espiritual e temporal.)
Duarte Gomes Solís: Discursos sobre los Comercios de Ias dos Indias.
(Defende-se a necessidade de reter a prata em Espanha.)

1623 - [31 de Janeiro] Carta de lei que estabelece que os funcionários públicos
devem proceder à declaração de bens.
[Março] Cessa o bloqueio de uma armada anglo-holandesa a Goa. (Iniciado
em Dezembro de 1622.)
Repelido o ataque anglo-holandês a Mascate.
Motim anticastelhano em Lisboa. Populares (em especial «moços e
maraos») arremetem contra o «quartel dos castelhanos».
Fome e «preços altos».
Expedição portuguesa pelo rio Ankobra (a partir de Achém), fundação de
um forte em Duma e início da exploração aurífera. Ribeiras do Mondego (novela
pastoril), de Elói de Sá Sotto Mayor. É editada La Jornada del Rei D.Filipe III a

[115]

Portugal, por Francisco Rodrigues Lobo.


História de S. Domingos (1.ª parte), de Frei Luís de Sousa (2.ª e 3.ª partes:
1662 a 78.)

(Legenda: São Jorge da Mina, gravura (Lisboa, Biblioteca Nacional).)


1624 - [Maio] Auto-de-fé; sentenciado pelo fogo o lente canonista da Universidade
de Coimbra, António Homem (acusado de sodomia).
[Maio] Conquista de Salvador pelos Holandeses. Grande consternação no
reino. O «trato da Baía» era já considerado o de maior rendimento para o país.
[4 de Junho] Carta régia que expulsa de Lisboa das pessoas «inquietas e
escandalosas».
Tentativa de criação de uma Companhia Geral do Comércio, para defender
a Índia dos Holandeses.
Os Franceses são expulsos do Ceará.
Venda de «padrões de juros», com o intuito de preparar expedições para
combater os Holandeses no Brasil.
António de Andrade, sacerdote jesuíta, atravessa o Tibete (de oeste para
leste).
Relação Sumaria das Cousas do Maranhão, Simão Estácio da Silveira.
Discursos Vários Políticos, por Manuel Severim de Faria. (Num deles
propõe-se a transferência da corte para Lisboa.)
Manuel Bocarro Francês: Anacephaleosis da Monarchia Lusitana. (Introduz
na epopeia o mito do «Quinto Império» universal.)
Publicado novo Index expurgatório (330 títulos). Mostra a crescente
censura à imprensa (de 1581 a 1624: aumento de 251%).

1625 - [Março] Provisão que tenta interessar as câmaras e os particulares no


lançamento de uma Companhia de Comércio para Oriente.
Canonização da rainha Santa Isabel.
Grande «penúria» de prata e de cobre no mercado ibérico.
Em vários portos portugueses «trata-se e contrata-se» (descobertamente)
com os Holandeses.
Os Holandeses tentam, de novo, a conquista de S. Jorge da Mina.
É rechaçado o ataque holandês a Espírito Santo (Brasil).
[Abril] Chega à Baía uma armada das duas coroas (espanhola e
portuguesa) com «60 velas».
[Maio] Reconquista da cidade de Salvador. Vencidos os Holandeses,
renasce a crença na unidade do Brasil português.
[I de Agosto] Lei que proíbe o uso de coches em Lisboa. Levanta forte
contestação dos «influentes». (Suspensa em 1626.)
Estabelecimento de uma importante feira permanente no Dundo (povoação
angolana junto do rio Cuanza).
Editado (em Valhadolid) o De justo Imperio Lusitanorum Asiatico, de Frei
Serafim de Freitas. Resposta a Hugo Grócio, teorizador da doutrina do mare
liberum, no sentido da defesa do monopólio da navegação por parte das
monarquias ibéricas, pela força da «prescrição imemorial» e do «jus
consuetudinis».

[116]
1626 - Extensão da Inquisição às colónias africanas.
Preparações militares em Lisboa contra a Inglaterra.
Expulsão dos missionários do Japão (por um período de 15 anos).
Empréstimo contraído junto dos homens de negócios de Lisboa para
socorrer a Índia.
Arte de Música, de António Fernandes.
Campos Elísios, do padre João Nunes Freire.
Novo Descobrimento do Grã Catayo ou Reinos de Tibet, por António de
Andrade.
Discurso de Ia jurídica y verdadera razón de Estado, de Barbosa Homem.

1627 - Carestia de cereais e fomes.


Medidas para promover o arroteamento e enxugo das lezírias, pauis e
baldios.
«Édito da graça»: concede aos cristãos-novos indulto de crime, habilitação
para cargos seculares, permissão de venderem os bens e saírem do país.
(Oposição da Igreja e da Inquisição.)
Desastre com a frota do Brasil. Naufraga na Biscaia. (Perdem-se centenas
de vidas e mercadorias de grande valor.)
Ataque, sem êxito, a Salvador, do almirante holandês Piet Hayn.
Novo ataque (infrutífero) dos Holandeses a Macau.
É já rendoso, a avaliar pelo contrato celebrado, o negócio da pesca da
baleia em frente da Baía.
Publicação das Definições e Estatutos das Ordens Militares (regulam o
funcionamento das Ordens de Cristo, Santiago e Avis).
Frei Vicente do Salvador: História do Brasil (primeira obra do género escrita
em contacto com as terras e as gentes).
Ley Regia de Portugal, de João Salvado de Araújo. Defende a ideia da
«mediação popular» (a mais popular na literatura política portuguesa seiscentista).
Laura de Anfriso, de Manuel da Veiga (Tagarro de sobrenome).

(Legenda: Mapa da província do Alentejo (Manuel de Faria e Sousa, Epítome de


las Historias Portuguesas, 1628)
1628 - Acentua-se a «pressão fiscal» (para obtenção de fundos que permitam
socorrer o Estado da Índia).
É proibido o «trato e o comércio» com os Holandeses em todo o Império.
Criação da Companhia de Navegação e Comércio da Índia Oriental (recebe
o regimento em Agosto).
[Agosto] Manifestação anticastelhana em Lisboa. Os «maraos» são os
principais protagonistas.
Ocupação e fortificação, pelos Holandeses, da ilha da Palma (a sul da
península de Cabo Verde).
Sobe a produção açucareira no Brasil. São contabilizados 235 engenhos
(«antes mais que menos»).
António Raposo Tavares e Manuel Preto destroem os estabelecimentos
dos jesuítas no Paraná e aprisionam os Índios aí refugiados.
Ópera (pela primeira vez) em Portugal,

[117]

pelos cantores que faziam parte da comitiva do duque de Sabóia.


É fundada a Academia dos Singulares.
Alegación en favor de Ia Compania de la India Oriental, por Duarte Gomes
Solís.
Epítome de Ias Historias Portuguesas, de Manuel de Faria e Sousa.
Rimas Várias, por António Álvares Soares.

1629 - Motins em Santarém e Alcácer do Sal.


Motim das «maçarocas» no Porto. O secretário Francisco de Lucena, que
fora à cidade «pedir ajuda» para a Índia (que se traduzia em novos tributos), foi
atacado pelo povo miúdo. (A população receava que os tributos pudessem recair,
também, sobre a fiação tradicional do linho.)
Prossegue o aumento da produção açucareira no Brasil. Os números
apontam para 346 engenhos. (Principais núcleos: Pernambuco, 150; Baía, 80; Rio
de Janeiro, 60.)
Malaca sofre um ataque, que é repelido, do rei de Achém.
Miscelânea, de Miguel Leitão de Andrade.

1630
[Janeiro] Profanação das hóstias sagradas na Igreja de Santa Engrácia.
Motins antijudaicos em Lisboa, Setúbal, Santarém, Torres Novas,
Portalegre, Évora e Coimbra. (O crime de profanação das hóstias é atribuído aos
judeus.)
[Fevereiro] Conquista de Olinda e Recife pelos Holandeses. (Pernambuco
era a capitania com maior número de moradores brancos; Olinda a «capital
açucareira» do Brasil.)
Motim da juventude cristã-velha da Universidade de Coimbra que tenta
expulsar os «colegas» com sangue judaico. De 4 a 9 de Março é grande a
agitação. (Aos estudantes juntam-se rapazes e moços dos escolares.)
[Maio] Carta régia que manda proceder ao confisco dos bens dos «judeus»
que abandonem o reino.
[28 de Junho] Carta régia que reafirma o respeito das leis que impediam o
desempenho de cargos públicos e ofícios da justiça e da fazenda aos «judeus»,
seus familiares e descendentes.
[Julho] Motim em Setúbal (Julho). Reacção dos moradores contra a
«aposentadoria» de um corpo militar. Como razões mais profundas: efeitos da
baixa exploração salineira (provocada pela ausência de mercadores flamengos e
ingleses).
A construção de novos mosteiros passa a depender de autorização régia.
[29 de Outubro] Morre D. Teodósio, 7.º duque de Bragança. D. João (futuro
rei) herda o senhorio da casa ducal.
Ataque inglês a Ceilão. Os Portugueses restabelecem-se sob a chefia do
conde de Linhares.
De Frei António Brandão é publicada a 3.ª parte da Monarquia Lusitana.

1631 - Surge um novo «Secretário da Índia e Conquistas.


Reinstituição do estanque do sal em favor da fazenda real.
Introdução do imposto régio das meias-anatas (sobre os rendimentos
efectivos dos ofícios e outras mercês). Para os ofícios públicos: pagamento de
metade do rendimento anual do cargo, na altura do provimento. (Grande reacção
proveniente dos grupos politicamente poderosos.)
Perturbações em Beja: a autoridade encarregada de proceder a uma
«leva» de soldados (para o Brasil) é impedida de fazer o recrutamento.
[10 de Novembro] Carta régia que obriga aos navios carregados de açúcar
voltarem, do Brasil, agrupados em frota.
Empréstimo destinado à recuperação de Pernambuco (para o qual
contribuem 196 mercadores).
[12 de Dezembro] Publicação do Regimento do Cirurgião-Mor.
Prosseguem os preparativos para a armada,

[118]

de socorro ao Brasil: Filipe IV oferece 500 000 cruzados da sua fazenda e indulta
os presos (com culpas leves) que queiram embarcar na armada.
Entra em declínio o poderio dos Portugueses no golfo Pérsico e na costa
arábica.
Batalha de Abrolhos (entre os Pernambucanos e os Holandeses).
Olinda é incendiada pelos Holandeses.
Assalto dos Dinamarqueses a Coulão.
Os Árabes e os Cafres massacram os Portugueses em Mombaça.
Flores de España, Excelencias de Portugal, de António de Sousa de
Macedo. (O livro surge, não por acaso, numa fase de agudização de conflitos,
devido à política do conde-duque Olivares.)
(Legenda: Miguel de Vasconcelos: cena da Revolução de 1640)

1632 - Mantém-se, com protestos gerais, a finta

[119]

de 500 000 cruzados para socorrer o Brasil.


Finta sobre os homens abastados do reino (a fim de recolher dinheiro para
armar as naus da Índia).
[Fevereiro] Reacção dos moradores de Setúbal contra o «estanque do sal».
(O «monopólio» é suspenso.)
Os Holandeses penetram em Alagoas.
Mombaça é recuperada.
Publicação da 4.ª parte da Monarquia Lusitana, por Frei António Brandão
(continuador de Bernardo de Brito).
Morte de Frei Luís de Sousa (um dos mestres da língua portuguesa).

1633 - Casamento do duque de Bragança (futuro D. João IV), com D. Luísa de


Gusmão (da casa de Medina Sidónia).
Compra da água da Quinta de Chelas. (Só correrá no Terreiro do Paço com
D. João IV.)
[13 de Abril] Carta régia que extingue a Companhia do Comércio da Índia,
Oriental, por falta de capitais.
Ataque holandês ao porto brasileiro de Nazaré (no cabo de Santo
Agostinho). São tomados 21 navios carregados de açúcar; muitos produtos,
dinheiro e munições.
Breve Relação do Estado da Ethiópia antes do Pregão [...], de Manuel
Barradas.
Tratado da boa criação e polícia cristã, de Frei Pedro de Santa Maria.

1634
[Janeiro] Assinada uma trégua com a Inglaterra.
A duquesa de Mântua, Margarida de Sabóia, é nomeada regente (vice-
rainha) de Portugal. (Chega a Lisboa a 23 de Dezembro.)
Miguel de Vasconcelos, na reorganização do governo de Portugal por
Olivares, é escolhido para escrivão da Fazenda do Reino.
Tumultos populares no Porto.
[Maio] Atentado frustrado (com armas de fogo) contra a vida de Miguel de
Vasconcelos. Mais uma manifestação da oposição portuguesa (em que o ano de
1634 é fértil), contra o «autoritarismo» de Olivares e o aumento da carga fiscal.
[Dezembro] Os Holandeses apoderam-se de Paraíba.
Os Portugueses são expulsos da Etiópia.
O Japão fecha-se aos Portugueses. O xógun proíbe o comércio com
Macau. (O Império Português é privado de uma importante fonte de prata e de um
significativo escoadouro da seda chinesa.)
Malaca Conquistada, por Francisco de Sá de Meneses.

1634-1638

Tentativas da diplomacia francesa para apoiar uma conspiração portuguesa


contra a Espanha.

1635 - Miguel de Vasconcelos é nomeado secretário de Estado.


Falta de pão no Alentejo, Beira (e outras partes do reino).
[6 de Março] Decreto que alarga o imposto do real-d‘água a todo o reino. A
aplicação do imposto (agora régio e geral) é feita em proveito integral da coroa.
Pagamento de um real por cada arrátel de carne e outro por canada de vinho (que
se vendam por miúdo ao público).
[12 de Julho] Carta régia que aumenta um quarto do cabeção das sisas que
passa a reverter para a coroa.
Extensão a Portugal do lançamento de 5 por cento sobre todos os bens.
Motim em Viana provocado pela cobrança de um «donativo».
Motim em Arcozelo (terra próxima de S. Pedro do Sul). A população rebela-
se contra os exactores fiscais. Aqui é o alfoz (o campo) que se vai manifestar.
A comunidade portuguesa do Peru é praticamente aniquilada, devido às
perseguições da Inquisição.

[120]

Os Holandeses, tomada Paraíba, ocupam a maior parte de Pernambuco.


Assinatura, com os Holandeses, de uma trégua para o Oriente.
Livros das Plantas de Todas as Fortalezas, Cidades e Povoaçoens do
Estado da Índia Oriental, de António Bocarro.
De Manuel Tomás é editada Insulana (exaltação da ilha da Madeira).

c.1635 - Difusão, em Portugal, da laranja doce da China. Os Portugueses


«espalham-na» pelo Mediterrâneo e por diversos países europeus. (O nome da
laranja doce «trai», em várias línguas, a «origem» portuguesa. Os próprios Árabes
a «rebaptizaram» com um nome que evoca Portugal.)

1636
[Abril] Motim em Chaves quando o provedor de Moncorvo pretende
proceder à imposição de novos tributos. Mais tarde, o provedor de Guimarães é
também expulso da vila.
[Julho] Motim em Vila Real. Trata-se também, provavelmente, de um
movimento «cabeças principais e autores» são eclesiásticos.
[31 de Outubro] Novo regimento do real-d‘água, para obter «cabedais»
para a defesa do Ultramar.
Publicação (póstuma) de Ulisseia ou Lisboa Edificada, de Gabriel Pereira
de Castro.

1637
[Janeiro] Chega ao Recife, o conde João Maurício de Nassau-Siegen, nomeado
para governar a colónia. Vai dar corpo a um Brasil holandês (1637-1644).
[Março] Proibição de conceder «estancos» às «pessoas poderosas».
Medida de Miguel de Vasconcelos que «irrita» a nobreza.
[Junho] Manda proceder-se ao inventário de todas as fazendas pelos
corregedores, constando que era para cobrar o «quinto». (A medida, que levanta
uma enorme inquietação, não teve, todavia, efeito.)
Tentativa de impor em Portugal o imposto do papel selado. Provoca uma
tal reacção (mesmo por parte dos ministros) que a sua execução veio a ser
suspensa.
[Julho-Agosto] Motim de pescadores de Lisboa.
«Alterações de Évora». O ponto máximo das contestações ao real-d‘água e
ao aumento do cabeção das sisas verifica-se em 1637, tendo Évora como
«epicentro». Évora rebela-se em 21 de Agosto. (Em princípios de Dezembro de
1637, a cidade havia já admitido os novos impostos.)
O «fogo» ateia-se ao Algarve que se começa a amotinar antes de 29 de
Setembro. Aqui é sobretudo o campo (o termo) que se manifesta. Entre os
principais centros urbanos atacados pelos camponeses contam-se os de Silves,
Tavira e Faro. Mas há núcleos urbanos que lideram o movimento como acontece
em Aljezur e (talvez) em Lagoa. Os levantamentos algarvios são populares,
«plebeios» e têm um carácter mais violento. (Não significa, contudo, que não
tivessem contado, aqui e ali, com o apoio de elementos do clero e da nobreza.) A
nobreza de Faro, pelo menos a do governo citadino, opôs-se pelas armas (com
outros elementos do poder municipal e outras autoridades) à entrada na cidade
dos amotinados do campo. As pacificações ocorrem, de um modo geral, entre
meados de Dezembro (de 1637) e meados de Janeiro (de 1638). As sentenças
para os «exceptuados» do perdão geral são executadas, com alguns
enforcamentos, em Março.
Os Holandeses apoderam-se da capitania de Sergipe.
Uma armada holandesa (enviada de Pernambuco) toma a Fortaleza de S.
Jorge da Mina.
Início do bloqueio holandês à barra de Goa (que dura até 1644).
O bandeirante Pedro Teixeira explora o Amazonas e alcança o Peru (anos
de 1637 e 1638).

Levantamentos populares

A partir dos primeiros anos do segundo

[121]

quartel de Seiscentos verifica-se uma queda de rendimento. «É sob o pano de


fundo deste abaixamento de rendimentos (incluindo os comerciais) que se
movimentam as personagens dos levantamentos populares antifiscais, anti-
senhoriais e antijudaicos.» As épocas de crise económica amplificam a violência.
(Nos movimentos antijudaicos há, evidentemente, envolventes de carácter
religioso.)
António de Oliveira, O Motim dos Estudantes de Coimbra contra os
Cristãos-Novos em 1630, Sep. De «Biblos», LVII (1981), Coimbra, pp. 597-598
(nt.2).
O ponto máximo das contestações dá-se em 1637, tendo Évora como
«epicentro». A onda foi-se «propagando em tempos diversos, cobrindo uma boa
parte do país: do Algarve à margem direita do Tejo com forte infiltração na serra
da Estrela, e abalos mais ou menos intensos ao norte do Douro, como Porto e
Bragança, e uma tentativa de rebelião em Braga». (Aliás, o Norte de Portugal fica
menos insensível, do que se tem pensado, aos levantamentos de 1637-1638.) Só
no Alentejo a rebelião atinge 60 lugares. As alterações fazem-se sentir, mesmo,
em Ponta Delgada. «A força dos levantamentos é de raiz popular, tanto nos meios
urbanos como rurais. A amotinação era uma forma normal de reagir do povo, uma
defesa contra a agressão da injustiça do fisco, do senhor ou da fome […].
A mentalidade colectiva, formada ou exacerbada pela presença do exactor
régio ou senhorial, leva espontaneamente à acção. Algumas das vezes. Outras, o
movimento é preparado em segredo, por conjurados, e a acção pode desenrolar-
se com comando definido.»
António de Oliveira, Levantamentos populares no arcebispado de Braga em
1635-37, Sep. de «Bracara Augusta», Vol. XXXIV, Julho-Dezembro de 1980,
pp.12 e 23.
«A revolta informe, o ‗motim‘ ou a ‗comoção‘ eram típicos da massa
inorgânica (isto é, não corporativamente estruturada) da plebe… Eram
movimentos sem forma, nem cabeça, tumultuários, embora de violência extrema.
As razões da sua eclosão eram normalmente aquelas que afectam os grupos
mais pobres da população: a crise de abastecimento, o agravamento dos
impostos sobre bens de consumo (como os ‗reais-d‘água‘ sobre a carne, o vinho,
nas revoltas de 1637) ou apenas boatos da sua iminência; em suma, aquilo que
os pobres sentiam, nas suas necessidades mais básicas, como um sintoma do
mau governo. Os seus chefes não existiam ou cobriam-se sob nomes míticos
(como o ‗Manuelinho‘, da revolta de Évora). A sua táctica era informe, embora
pontilhada de modelos comportamentais e de rituais típicos […]. O seu projecto
era a emenda do ‗mau governo‘, normalmente diagnosticado apenas ao nível
mais imediato dos responsáveis políticos locais, pois o rei continua a ser sede da
justiça […]. Tal como irrompia, a revolta desfazia-se também subitamente, perante
uma procissão com a hóstia, ou uma relíquia alçadas, ou com a saída em forma
dos notáveis locais, decorados com os seus símbolos de autoridade. E, se não,

(D. João IV, 8.º duque de Bragança (Lisboa, Museu Militar)

[122]

pelo simples esgotamento , pois, salvo instrumentalização por outros grupos mais
capazes de arquitectarem um projecto político de curso mais longo, o povo miúdo
não tinha horizontes políticos que excedessem o viver quotidiano.»
António Manuel Hespanha, «A resistência aos poderes», in História de
Portugal (dir. de José Mattoso), vol. IV, pp. 451-452.
«Mas o decénio de 630 é a baixa-mar – estamos nos tempos de
dificuldade. Tempos, portanto, de dificuldades para os produtores.
Por toda a Europa Ocidental estamos em conjuntura de miséria das
massas populares e de motins da arraia-miúda (coube a Joel Serrão o mérito de
integrar as ‗alterações‘ portuguesas neste contexto geral). A imposição fiscal é
que os desencadeia frequentemente. […]
Mas o grande motor da Restauração vão ser as ‗alterações‘ de Évora e do
Algarve, com eco complacente noutros pontos do país. Revoltas da fome – o
preço do trigo sobe em Évora de 1623 a 1637 inclusive […] – e contra a opressão
fiscal a que a crise do Império forçava o Estado.»
Vitorino Magalhães Godinho, «1580 e a Restauração» (Dicionário de
História de Portugal, art: «Restauração») in Ensaios II, Lisboa, 1968, pp. 273-275.

1638 - Chamados a Madrid (para consulta) os bispos de Évora, Lisboa e Braga;


os condes de Basto, de Portalegre e de Miranda; os desembargadores Francisco
Leitão e Pedro Vieira.
Alterações graves em Guimarães (antes de 18 de Abril). Alguns homens
«facinorosos» senhoreiam-se de Guimarães.
O cônsul francês em Lisboa, Saint-Pé, é incumbido de prometer ajuda aos
Portugueses em caso de revolta contra o domínio espanhol.
Tomada de Arguim pelos Holandeses. Ocupação do Ceará pelos
Holandeses.
Van Diemen inicia as campanhas de Ceilão (apoiando-se nos Cingaleses)
que se prolongarão por 21 anos.
Salvador resiste a uma poderosa esquadra comandada pelo próprio
Nassau. (O que não obsta à existência efectiva do Brasil holandês.)

1639
[26 de Janeiro] Carta régia que recruta 6000 soldados de infantaria e 1500
de cavalaria à custa do reino para servirem nas frentes de luta em que a Espanha
está envolvida.
[Abril] O duque de Bragança (D. João) é nomeado general-de-mar-e-terra
de Portugal.
[Junho] Em Almada, onde se desloca, o duque de Bragança é informado
por alguns nobres do plano da «conjura».
[Setembro] No porto de Pangim, os Holandeses queimam alguns dos
melhores barcos portugueses (destinados ao socorro de Malaca).
É pedida à nobreza portuguesa (como também à espanhola) a organização
de «coronelias», ou seja, o recrutamento e sustento de um certo número de
soldados para as guerras da monarquia espanhola.
Constituída uma armada para socorrer Pernambuco.
Decretada no Japão a imediata e permanente cessação de todo o comércio
com Macau.
Comentários dos Lusíadas, de Manuel de Faria e Sousa.

1639-1640 - Desacatos em Coruche, Serpa e Moura.


Conquista holandesa das fortalezas de Ceilão (Batacolau e Galé).
[Janeiro] Batalha de Paraíba. Sem vencer, os Holandeses conseguem
afastar uma significativa força hispano-portuguesa.

1640 - Eclode verdadeiramente a esperada revolta da Catalunha.


Nobres portugueses são mandados apresentar em Madrid. Entre os que se
recusam a cumprir a ordem do conde-duque de Olivares, conta-se o duque de
Bragança.

[123]

[Novembro] Os «conjurados» portugueses experimentam receio de que a


dilação prejudique a sua empresa. O «levantamento» é marcado para 1 de
Dezembro.
[1 de Dezembro] Os conjurados e os seus aderentes (em número de 120)
dirigem-se ao Paço da Ribeira. Miguel de Vasconcelos é morto. D. Miguel de
Almada proclama, do balcão principal, a liberdade da pátria e a realeza do duque
de Bragança.
No mesmo dia põe-se cerco ao Castelo de S. Jorge (a guarnição entrega-
se); neutralizam-se os galeões espanhóis (surtos no Tejo); inicia-se o ataque às
fortalezas da barra (que se entregam nos dias imediatos). A vida da população de
Lisboa não sofre praticamente alterações.
Escolhidos os governadores do reino, ordenam aos tribunais para
continuarem em funções e solicitam às câmaras e outras instituições que
«apelidem» o duque de Bragança por rei.
[2 de Dezembro] Santarém é a primeira terra a aclamar o novo rei.
[3 de Dezembro] A notícia do 1.º de Dezembro chega ao duque de
Bragança, que se encontra em Vila Viçosa.
[11 de Dezembro] Decreto que cria o Conselho de Guerra.
[13 de Dezembro] Motim popular em Guimarães contra o corregedor.
[15 de Dezembro] Juramento solene do monarca.
O papa (por influência dos jesuítas) expede «breves» a declarar e
salvaguardar a «liberdade» dos índios.
Motins no Rio, Santos e S. Paulo contra os jesuítas (são mesmo
«escorraçados» da última localidade).
Ulissipo, de António de Sousa de Macedo.
Philosophia Moral, de Frei Aleixo de Santo António.
Novo Regimento impresso do Santo Ofício. (O 1.º impresso é de 1613.)
População portuguesa: cerca de 2 milhões de habitantes (466 000 fogos;
em 1620: 475 000 fogos).

(Legenda: Conde-duque de Olivares, por Velázquez (São Paulo, Museu de Arte).)

Da Restauração…
«...Situa-se por alturas de 1620 a mudança radical que tende a apagar os
privilégios do Reino de Portugal e a levá-lo, para além da unidade dinástica, à
unificação institucional ; por conseguinte, os conjurados de 1640 visam o regresso
à forma legítima – o mesmo é dizer, tradicional, anterior a 1580 ou pelo menos
1620 – de Estado e governo [...]. 1640 reenvia-nos desde logo a 1580, sem cuja
compreensão não a poderemos compreender.
Simplesmente, 1580 é muito mais um ponto de chegada do que um ponto
de partida : não será excessivo dizer-se que consagra dinasticamente a viragem
de estrutura de meados do século [...].
Com a interligação económica confluía a penetração cultural [...].

[124]

(Legenda: António de Sousa Macedo.)

Nobreza, alto clero e grande burguesia convergem, pois, em esperar


decisivos proveitos da união dinástica […].
Para surpreendermos as forças que realizaram a Restauração temos, pois,
de analisar as transformações que ou modificaram o equilíbrio social ou
modificaram as posições políticas das mesmas classes. Jaime Cortesão
considerou que consistiram essencialmente na passagem do império de oriental a
atlântico, mudando a base económica das especiarias para o açúcar, e
correlativamente na passagem de um capitalismo monopolizador e restrito à
capital (e a um que outro grande centro) a uma proliferação de actividades
marcantis dispersa por portos provinciais e assim gerando uma burguesia média
ampla […].
… Como é que evolui a conjuntura e qual a pressão desta no sentido de
desencadear 1640? […].
… No oriente a situação deteriora-se a olhos vistos a partir de 1621 […].
Percorramos agora o Atlântico. […] Também aqui a perigosa inflexão se
situa em 1621, fim da trégua com a Holanda […].
A nobreza e os letrados honrados deixam esmagar as sublevações
[populares] que podem pôr em causa a ordem social estabelecida, e até ajudam
sem pejo a esse esmagamento; mas tiram daí a lição de que têm eles de realizar
a sua conspiração palaciana, a fim de evitar que venha a triunfar um movimento
vindo de baixo.
À ameaça de subversão social que os motins ‗de baixo‘ representavam,
correspondia, de cima, a ameaça, para a nobreza e classes possidentes, não
apenas de levas militares para os campos de batalha além-Pirenéus, mas
também a suspensão do pagamento de tenças, mercês e parte dos
assentamentos enquanto o reino não consentisse em novos tributos […].
Ora o império espanhol embrenhava-se cada vez mais na Europa
continental, em detrimento dos horizontes oceânicos, quando o império português,
que sempre vivera dos mares, assentava no açúcar e tabaco brasileiros, nos
negros de Angola, no ‗trigo do mar‘, no sal metropolitano que exportava para os
‗rebeldes‘ do Norte.
Em 1 de Dezembro de 1640, pois, uma organização conspirativa de nobres
e letrados, que sabe poder contar com a adesão popular mas não recorre ao povo
para a realização de seus intentos, por um golpe de palácio restitui o trono a
quem pertence imprescritivelmente e restaura o Estado na forma anterior à tirania
[…] quer dizer, voltam à primeira forma, anterior a 1620, ou mesmo a 1580 […].
Restauração é uma realização nobiliárquica […]. E é-o apenas
parcialmente. Nobres houve que ficariam ao serviço de Espanha […].
Quanto à Igreja, ao poderosíssimo estado eclesiástico, também se divide.
[…] Os jesuítas colaboram na Restauração, apoiam-na […].
O povo está ausente em 1 de Dezembro de 1640. Ou melhor: não é ele
que age – dura lição, a de 1637 […].
Qual a atitude e comportamento da burguesia Os letrados […] entram na
conspiração e alinham com a Restauração […]. No partido espanhol também
figuram […].
Há um grupo numeroso e poderoso de homens de negócios que apoiam e
servem a Restauração, e graças aos quais se torna possível ela manter-se contra
ventos e marés. Seriam sobretudo os que estavam ligados às exportações
brasileiras e tratos com os países da Europa Setentrional.»
Vitorino Magalhães Godinho, «1580 e a Restauração» in Ensaios II, PP.
257-259, 263, 270-271, 275-279,281-283.

[125]

A «conjura» de 1640
Mas esta aproximação das camadas politicamente dirigentes (como, nas vésperas
da Restauração, o partido dos ‗populares‘, composto por aristocratas e letrados)
era dificultada pelo facto de estas não poderem, de acordo com os códigos
estereotipados da sociedade moderna, nem desencadear, nem comprometer-se
com tais movimentos [motins da plebe].
À natureza explícita da revolta opõe-se o carácter dissimulado da
resistência contesã. Esta exprime-se de acordo com o modelo de comportamento
da ‗simulação/dissimulação‘ […].
Entre uma coisa e outra estava o modelo da ‗conjuntura‘, como o foi a de
1640. Tratava-se de uma forma de resistência tipicamente aristocrática, herdeira
directa das conjurationes e ligas medievais. Partilhava com a dissimulação o
segredo das intenções, mas, em contrapartida, consumava-se, como a revolta,
num acto de ruptura violenta, embora organizado, dirigido por normas rituais e
capitancado. […] A conjura era um movimento de poucos (em Portugal, os ‘40
conjurados‘), não principalmente porque o segredo não se pudesse manter entre
muitos, mas porque por um lado, se baseava numa rede de laços pessoais
preexistentes e íntimos, e, por outro se formalizava num juramento…»
António Manuel Hespanha, «A resistência aos poderes» in História de
Portugal, (dir. de José Mattoso), vol. IV, pp. 452-453.

1641 - [14 de Janeiro] Parte de Lisboa em missão à Catalunha o padre Inácio de


Mascarenhas. Assinado um tratado de auxílio mútuo.
[14 de Janeiro] Malaca cai em poder dos Holandeses.
[21 de Janeiro] Concessão de liberdade de tráfico aos mercadores
holandeses vindos de Portugal.
[28 de Janeiro] Cortes de Lisboa. Procede-se ao juramento do monarca e
do príncipe herdeiro (D. Teodósio). Novos impostos só seriam lançados com o
consentimento das Cortes. Justifica-se, em termos jurídicos, a «revolta» de 1640.
(Os tópicos «nacionalistas» ocupam aí lugar mínimo.)
[2 de Fevereiro] Prisão, do infante D. Duarte (irmão de D João IV), em
Viena, por pressão do governo espanhol.

(Legenda: Planta de Malaca (António Bocarro, Livro do Estado da Índia Oriental,


1635).)

[126]

[8 de Fevereiro] Embaixada de D. Duarte de Almada e do Dr. Francisco de


Andrade Leitão a Inglaterra.
[27 de Fevereiro] Abolidas as «meias-anatas».
[1 de Junho] Tratado de aliança e confederação entre D. João IV e o rei de
França.
[12 de Junho] Tratado de «aliança» com os Estados Gerais das Províncias
Unidas. Os Holandeses aceitam suspender as hostilidades por 10 anos, mas
exigem liberdade de comércio. Entretanto, prossegue a consolidação de posições
holandesas com várias conquistas no Império português…
[29 de Junho] Tratado de Estocolmo, de aliança com a Suécia.
[Agosto] São executados, entre outros, alguns dos principais acusados de
promoverem a conjura: marquês de Vila Real, duqu de Caminha (filho do
marquês), conde de Armamar, Pedro de Baeça… O arcebispo de Braga é preso.
[24 de Agosto] Luanda é tomada pelos Holandeses. A conquista de Angola
torna-os senhores da principal fonte de escravos para o Brasil.
[5 de Setembro] Instituído o imposto da décima - «décima militar» - para
ajudar a cobrir as despesas militares. «Criado pelas Cortes, respeitava à décima
de todas as rendas de bens de raiz, juros, ordenados, tenças, outras rendas ou
honra de ofícios, do tratado e meneio…»
[12 de Setembro] Confirmados os «reais-d‘água».
[30 de Outubro] Lei que dilata as áreas de competência do Desembargo do
Paço.
Desvalorização monetária.
Restabelecida a procissão anual, em acção de graças, pela vitória de
Aljubarrota.
Conspiração contra D. João IV. Visa a manutenção da situação anterior a
1640. A conjura conta com elementos da nobreza e tem como principal instigador
o arcebispo de Braga.
O povo amotina-se em Braga, apresentando como reivindicações a
destituição da câmara e a criação dos Vinte e Quatro.
Ceuta não reconhece a secessão. Mantém-se sob o domínio espanhol.
Os Holandeses apoderam-se de S. Tomé.
Publicação, em Lisboa, da primeira «Gazeta» portuguesa: Gazeta em Que
Se Relatam as Novas Todas Que Houve Nesta Corte e Que Vieram de Várias
Partes no Mês de Novembro de 1641. (Torna-se o órgão informativo da
Restauração.)

1642 - [29 de Janeiro] Tratado de paz anglo-luso. Os Ingleses exigem, entre


outros privilégios, liberdade de comércio nalguns pontos do Império (costa de
África e S. Tomé).
[Março] Missão a Haia para reclamar a restituição das possessões
portuguesas em África.
Cortes de Lisboa.
Quebra da moeda.
O estanco do tabaco é extinto (no entusiasmo antifiscal da Restauração).
Reforma do Conselho da Fazenda.
Abolição dos monopólios reais nas Índias e na Guiné, com excepção do da
canela.
Ataque castelhano ao Algarve (cerco de Alcoutim e de Castro Marim).
Aprisionamento no Tejo de 22 navios de Hamburgo, Lubeque e Danzigue
que se dirigiam a Málaga (e a outros portos do Mediterrâneo). Pela intercessão
das cidades hanseáticas, as naus prosseguem viagem…
Conquista holandesa do forte de Achém (Oriente).
Revolta anti-holandesa no Maranhão.
Enviada nova embaixada a França. Esforços, infrutíferos, para estabelecer
uma «liga formal».
D. Miguel de Portugal, enviado à cúria pontifícia, retira-se de Roma sem
obter audiência do sumo pontífice.

[127]

Usurpação, Retenção e Restauração de Portugal, por João Pinto Ribeiro.

1643 - [24 de Janeiro] Alvará que restabelece, por três anos, o imposto das
meias-anatas (com o nome de «novos direitos»).
[29 de Janeiro] Lei que revalida as Ordenações Filipinas.
Criação da Junta dos Três Estados (para administrar e supervisionar a
arrecadação de impostos e administrar os arsenais militares).
Criação do Conselho Ultramarino (Decreto de 14 de Julho).
[29 de Novembro] Alvará que cria o cargo de secretário de Estado das
«Mercês e Expediente» para além do único secretário de Estado existente.
Criação da Casa das Rainhas de Portugal.
Desvalorização monetária.
Execução de Francisco de Lucena (secretário de Estado de D. João IV),
acusado de conspirar contra o rei.
Proposta do padre António Vieira solicitar o regresso dos «judeus
mercadores» que andavam pela Europa. (Por haver reconhecido o «miserável
estado do Reino».)
Estreitamento das relações comerciais com as cidades hanseáticas.
Chegada a Haia (onde vai permanecer até 1650) de Francisco de Sousa
Coutinho.
Arte de Reinar, por António Carvalho da Parada. Do mesmo autor:
Justificação dos Portugueses sobre a acção de libertarem seu reino da obediência
de Castela.
Chronicas d‘El-Rei D. João de Gloriosa Memória, o I desse Nome, de
Duarte Nunes de Leão.

1644 - Batalha de Montijo (na Estremadura espanhola). A difícil vitória portuguesa


revigora o ideal de restauração.
Cerco de Elvas.
Problemas na Companhia das Índias Ocidentais (holandesa) obrigam
Maurício de Nassau a regressar à Holanda.
Insurreições nos territórios brasileiros ocupados pela Companhia das Índias
Ocidentais.
[5 de Fevereiro] Partida de Lisboa da embaixada de Gonçalo de Siqueira
ao Japão.
Justa Aclamação do Serenissímo Rei de Portugal, D João o IV, de
Francisco Velasco de Gouveia.
Impressas, pela primeira vez, em Nantes, as Trovas de Bandarra (que
corriam em cópias.

1645 - Cortes de Lisboa.


Instituição do sistema de passaportes reais.
Insurreição contra os Holandeses: Batalha do Monte das Tabocas, com
vitória pernambucana. (A «maré» vai começar a virar a favor dos interesses
portugueses.)
Conquista de várias zonas brasileiras em poder dos Holandeses: Sergipe,
Rio de S. Francisco, Porto Calvo…
Nova embaixada a Roma. A Santa Sé

(Legenda: Padre António Vieira.)

[128]

persiste em não reconhecer a monarquia portuguesa.


Lusitania liberata ab injusto Castellanorum dominio, de António de Sousa
de Macedo. (Mais uma obra da abundante «literatura» justificativa e legitimadora
da Restauração.)
Ecco Polytico e História de los Movimientos y Separación de Cataluña, de
Francisco Manuel de Melo.
Publicada (em Madrid) Población General de España, de Rodrigo Mendez
Silva. (Os dados referentes a Portugal são, provavelmente, de 1636 a 1639.)
Exclamaciones Politicas, de Luís Marinho de Azevedo.

1646 - Cortes de Lisboa. (Tomadas importantes decisões para a prossecução da


guerra.)
Quebra da moeda.
Nossa Senhora da Conceição é proclamada padroeira de Portugal (com
festa solene a 8 de Dezembro.)
Os jesuítas são novamente expulsos de Santos (só em 1653 regressam a
S. Paulo).
Proposta do padre António Vieira para que a Inquisição acabe com o
confisco dos bens dos sentenciados. (A coroa atende o pedido três anos depois.)
Rimas Várias, de Sóror Violante do Céu.

1646-1647 - Missões do padre António Vieira a Paris e Haia. Tenta obter o apoio
de Mazarino para o resgate das terras do Brasil (ocupadas pelos Holandeses);
proposta de casamento de D.Teodósio (herdeiro do trono) com a filha do duque
de Orleães.
Lutas no Brasil contra os Holandeses.

1647 - Tentativa frustrada de regicídio.


Crise de cereais (que afecta em especial Lisboa).
Preso pela Inquisição o assentista Duarte da Silva (o mais influente
negociante do comércio externo).
Estabelecimento, em Portugal, dos capuchinhos franceses da província da
Bretanha (popularmente designados por «frades barbadinhos»).
Lei que proíbe a escravização dos Índios. (Renovada em 1649.)
Salvador Correia de Sá obtém o título de governador e capitão-general de
Angola. (Instala-se no Rio de Janeiro.)
Criação da Aula de Fortificações e Arquitectura Militar (instituída na Ribeira
das Naus).
É fundada a Academia dos Generosos (que funciona regularmente até
1667).
Manifesto de Portugal, de D. Francisco Manuel de Melo.
Manifestum Pro Regno Lusitaniae, por Frei Francisco de Santo Agostinho
de Macedo. (Impresso em França em defesa dos direitos de D. João IV.)
Cessa a publicação da primeira «Gazeta».

1647-1648 - De Dezembro de 47 a Dezembro de 48 os Holandeses aprisionam


249 navios (sobre os 300 que habitualmente percorrem o Atlântico todos os anos).

1648 - Cerco de Olivença pelo marquês de Leganés (as tropas castelhanas são
mal sucedidas).
Vieira e Negreiros triunfam na primeira Batalha dos Montes Guararapes.
Derrota do general holandês Von Schoppe, que pretendia liquidar a insurreição
dos Pernambucanos. Os colonos contam com a colaboração dos «pretos» e dos
Índios.
Salvador Correia de Sá (e Benevides) reconquista Luanda e expulsa os
Holandeses de Angola. (A expedição portuguesa sai do Brasil a 12 de Maio.) A
Holanda perde o mercado de escravos, o que contribui para dificultar o domínio
do Nordeste brasileiro.
[Setembro] Após ter libertado Angola, Salvador Correia de Sá reconquista
S. Tomé.
[129]

Tratado de ajuste luso-holandês sobre as dissidências relativas ao Brasil.


Tratado de Vestefália (que põe termo à Guerra dos Trinta Anos). Portugal
não consegue ser incluído no tratado.
O «bandeirante» Raposo Tavares sai de S. Paulo, com destino a ocidente,
para realizar um grande périplo que o vai levar a Belém.

1649 - [19 de Fevereiro] Segunda Batalha dos Montes Guararapes com derrota
dos Holandeses, vencidos pelo «exército» de Francisco Barreto.
[10 de Março] Alvará que institui a Companhia Geral de Comércio para o
Brasil. Recebe o monopólio das exportações de farinha, bacalhau, azeite e vinho
e das importações de pau-brasil. É incumbida, ainda, de «comboiar» os navio
Smercantes entre o Brasil e Portugal.
[30 de Novembro] Refugiam-se no Tejo os príncipes carlistas ingleses
Rubert e Maurício. As simpatias portuguesas com

(Legenda: Batalha de Guararapes (pormenor) Pintor anónimo (Museu do Rio de


Janeiro).)

[130]

os «realistas» provocam sérios conflitos com a «República» inglesa.


Cortes de Tomar.
Fénix da Lusitânia, de Manuel Tomás.
Summa Politica, por Sebastião César de Meneses.

1650 - Crise comercial (com prolongamento até 1660).


Mascate cai sob o domínio persa.
A hostilização do governo de Cromwell leva à guerra com a Inglaterra.
Aproveitamento de especiarias no vale do Amazonas.
D. António de Sousa de Macedo estabelece negociações (que se
prolongam pelo ano de 1651 na Holanda sobre o ultramar português.
Relaçam dos Sucessores da Armada […] de 1649, Francisco Manuel de
Melo.
De Frei Francisco Brandão: 5ª parte da Monarquia Lusitana.

1651 - Raposo Tavares termina a grande bandeira que se traduz na «circum-


navegação» da pseudo-ilha brasileira.
Publicada a Vida de Dom João de Castro, Quando Vizo-Rei da Índia, de
Jacinto Freire de Andrade.
Dá-se à estampa, em Haia, Armonia Política […], de António de Sousa de
Macedo.

1652
[19 de Novembro] Decreto que diz que os comendadores das Ordens e os
donatários da coroa passam a pagar a dupla décima, ou o «quinto».
Existem em Portugal 448 conventos (337 do sexo masculino e 111 do
feminino).
Reaparece a Relação da Baía (havia sido extinta em 1626).
A Praia torna-se oficialmente a capital de Cabo Verde (acarretando o
declínio da Ribeira Grande).
Calaturé (fortaleza de Ceilão) é conquistada pelos Holandeses.
A diplomacia portuguesa tenta conseguir a paz com o governo de
Cromwell. D. João de Rodrigues e Sá desloca-se a Londres com ordens para
assinar os artigos preliminares do tratado de paz.
Arte de Furtar (atribuída ao padre António Vieira). Autoria provável do
jesuíta Manuel da Costa. Obra de grande valor literário e informativo (e de
penetrante crítica social) sobre o período da Restauração. Fraudulentamente
datada de «Amsterdão…1652». (Impressa, provavelmente, em Lisboa, no ano de
1743.)
ludex Perfectus, de Tomé de Velasco.

1653
[15 de Maio] Morte do príncipe herdeiro D. Teodósio. O filho segundo de D.
João, D. Afonso (futuro herdeiro do trono) sofre de graves perturbações mentais.
[Outubro] Cortes de Lisboa para jurar D. Afonso como sucessor e tratar da
«defesa e conservação» do reino.
Recontro de Arronches.
Reconquista de Pernambuco aos Holandeses, com a capitulação de Van
Loo. O Recife não resiste ao cerco da armada de Pedro Jacques de Magalhães.
Estatutos da Universidade de Coimbra.

1654
[Janeiro] Tratado de capitulação dos Holandeses residentes no Brasil.
Marca a sua expulsão e a reconstituição do Brasil português.
[10 de Julho] Assinatura do Tratado de Westminster de paz e aliança entre
Portugal e a Inglaterra. Abre o Império português ao livre comércio inglês e
concede outros privilégios aos súbditos britânicos residentes em Portugal. Por
força das circunstâncias, Portugal tem de inclinar-se perante este diktat e é
arrastado, política e economicamente, para o âmbito de influência da Grã-
Bretanha. (D. João IV vai protelar a ratificação.)
Prosseguimento das Cortes de Lisboa.
Constituição da Casa do Infantado. Vasto património senhorial (criado em
1654-55) para sustento dos infantes secundogénitos. Começa por beneficiar o
infante D. Pedro.

[131]

Notícias Recônditas do Modo de Proceder da Inquisição Portuguesa.


(Provável colaboração do padre António Vieira).

1655
[7 de Setembro] Tratado de aliança e amizade entre D. João IV e Luís XIV.
[Novembro] Chega a Roma Francisco de Sousa Coutinho. Não lhe é
reconhecido o título de embaixador.
Surto de fome no reino.
Publicação (póstuma) de Notícias de Portugal, por Manuel Severim de
Faria.
Obras Métricas, de D. Francisco Manuel de Melo. Edição integral das
produções líricas (Lião).

1656
[Maio] Fundação da Companhia de Cacheu e Rios, para a Guiné.
Destinada ao tráfego de escravos.
[9 de Junho] Ratificação do tratado pelo governo português (a 9 de Junho).
[8 de Novembro] Morte de D. João IV.
[15 de Novembro] Juramento e aclamação do novo rei D. Afonso que
apenas conta 13 anos. D. Luísa de Gusmão assume a regência.
Ultimato do governo de Cromwell: a esquadra de Blake e Montagu entra no
Tejo para exigir a ratificação do tratado de 1654.
Paz com a rainha Ginga do Congo. (A «soberana» converte-se ao
cristianismo).
História Seráfica da Ordem dos Frades Menores (1.ª parte), por Frei
Manuel da Esperança; (2ª parte: 1666).

1657
[Abril] Olivença é tomada pelos exércitos espanhóis.
Estado de guerra entre Portugal e a Holanda. Os Holandeses mantêm o
Tejo bloqueado, durante três meses, com 40 navios.
D. Afonso atinge 14 anos. (A regência deveria terminar.)
Criação da Junta do Tabaco.
Hospital das Letras, de D. Francisco Manuel de Melo.

1658
[OUTUBRO-DEZEMBRO] Elvas é cercada pelas tropas castelhanas.
Cerco (fracassado) de Badajoz.
Abolidos os «estanques» da Companhia de Comércio do Brasil (vinhos,
farinhas, te e bacalhau).
Termo do domínio português em Ceilão, com a conquista das últimas
praças pelos Holandeses.
Ataque paulista às missões do Paraguai.

1659
[15 de Março] Regimento dos linhos.
Manifestações de fome.
Reposição do «estanco» régio do tabaco.
Nas ilhas açorianas dão-se violentas erupções vulcânicas.
A Fazenda real é autorizada a servir-se dos bens dos penitenciados pela
Inquisição (contrariamente às bases da Companhia do Comércio do Brasil).
Batalha das Linhas de Elvas. Em meados de Janeiro, as tropas
portuguesas, comandadas por D. Sancho Manuel e o conde de Cantanhede,
conseguem, nos campos de Elvas, a 1.ª grande vitória da Restauração.
Portugal não «entra» na Paz dos Pirenéus (assinada entre a Espanha e a
França).
Rompimento das relações diplomáticas com a Suécia (que reconhecera
Filipe IV como rei de Portugal).
História Geral da Ethiopia [...], de Manuel de Almeida.
Luís de Abreu e Melo: Avisos para o Paço.

1660
[22 de Junho] Morre o embaixador Francisco de Sousa Coutinho,
considerado o primeiro diplomata de carreira português.
[24 de Dezembro] Regimento que institui o imposto do papel selado. O
imposto é levantado com o fim da guerra.

[132]
(Legenda. D. Luísa de Gusmão (Lisboa, Museu Nacional dos Coches.)

Chega a Portugal o conde de Schomberg (alemão ao serviço da França),


para desempenhar as funções de «mestre-de-campo-general». (Importante acção
nas campanhas da Restauração.)

1661
[Abril-Maio] Motim no Porto contra o imposto do papel selado. Despoletado
pelos procuradores dos mesteres. O povo comete os costumados desacatos
contra as autoridades.
[23 de Junho] Tratado de paz e aliança entre Carlos II e Afonso VI.
Acordado o casamento de D. Catarina (irmã de D. Afonso VI) com o rei inglês.
Portugal deve pagar 2 milhões de cruzados (como dote da princesa) e ceder a
posse de Tânger e do porto e ilha de Bombaim. Ratifica os tratados anteriores,
concedendo grandes facilidades aos Ingleses. A Inglaterra garante apoio
internacional e a vinda para Portugal de mercenários ingleses.
Ano «estéril», responsável pela existência de fome em várias zonas do
reino.
«Paz» luso-holandesa. Os Holandeses conservam as conquistas feitas no
Oriente e gozam de liberdade de comércio em todo o Império e dos mesmos
privilégios dos Ingleses. Tratado desastroso para Portugal: como preço de
reconhecer a sua evicção (irremediável) do Brasil, de Angola e de S. Tomé, a
Holanda recebe 4 milhões de cruzados (pagáveis em 16 anos).
Rebeliões no Pará e Maranhão que visam a expulsão dos jesuítas.

1662
[30 de Maio] Casamento de D. Catarina com Carlos II.
Chegada a Portugal de 2700 ingleses (2000 de infantaria e 700 de
cavalaria). Destacados para as zonas mais nevrálgicas do Alentejo.
[16 de Junho] Prisão de António Conti, valido de D. Afonso VI.
[26 de Junho] Golpe de Estado palaciano que põe termo à regência de
Luísa de Gusmão. O governo é entregue a D. Afonso VI. D. Luís de Vasconcelos
e Sousa (3.º conde de Castelo Melhor) parece ter sido o «cérebro» da manobra
que afasta a rainha da vida pública. (É apoiado por um grupo de fidalgos mais
inovadores.)
[15 de Novembro] Decreto que incorpora no Estado a Companhia de
Comércio do Brasil passando a constituir uma «Junta de Comércio» (cuja função
essencial era a de organizar comboios de barcos para o Brasil).
Entrega de Tânger à Inglaterra.
Nomeação de Castelo Melhor como gentil-homem da câmara do rei.
Segue-se a nomeação como «escrivão da puridade» (por Carta de 21 de Julho).
Durante a sua «governação» vão travar-se as campanhas mais decisivas da
Guerra da Restauração. A sua actuação corresponde a mais uma tentativa
(depois da do conde-duque de Olivares) de instaurar em Portugal um modelo
«mais activo» de governo.
António de Sousa de Macedo é escolhido para secretário de Estado.

[133]

1663
[Janeiro] Inicia-se a publicação do periódico Mercúrio Português.
Destinado, em especial às «novas» da guerra.
[22 de Maio] Évora capitula.
[Julho] Batalha do Ameixial (perto de Estremoz. As tropas portuguesas,
comandadas por D. Sancho Manuel e Pedro Jacques de Magalhães, alcançam a
mais decisiva vitória da Restauração e recuperam Évora.
[21 de Setembro] Regimento da Junta do Comércio.
D. Luísa de Gusmão retira-se da Corte.
Conquista de Cochim e de Cananor pelos Holandeses.
Portugal ratifica o Tratado com a Holanda (esquiva-se à sua aplicação até
ao novo Tratado de 1669).
Academia dos Singulares (realiza sessões até 1665).
Europa Portuguesa (ed. póstuma), de Manuel de Faria e Sousa.
(Legenda: D. Afonso VI (Lisboa, Museu Nacional dos Coches).)

1664
Batalha de Castelo Rodrigo. (Nova vitória das armas portuguesas.)
Publicada, em Roma, a 1 Parte das Cartas Familiares, de D. Francisco
Manuel de Melo.

1665
[18 de Janeiro] Auto de entrega e posse da ilha de Bombaim aos Ingleses.
[17 de Julho] Batalha de Montes Claros (perto de Estremoz). A vitória
portuguesa é saudada como um êxito nacional. (Última grande batalha das
campanhas da Restauração.)
[17 de Setembro] Morte de Filipe IV.
Batalha de Ambuíla (com vitória sobre o rei do Congo).
Relação do Novo Caminho que fez por Terra e Mar da Índia para Portugal,
do padre Manuel Godinho.
Fidalgo Aprendiz (edição autónoma), de D. Francisco Manuel de Melo.

1666
[24 de Agosto] Morre D. Francisco Manuel de Melo.
Morte de D. Luísa de Gusmão.
Casamento de Afonso VI com Maria Francisca Isabel de Sabóia,
Mademoiselle d‘Aumale.
Asia Portuguesa (1.º tomo), de Manuel de Faria e Sousa; (2.º tomo, 1674;
3.º tomo, 1675).

1667
[31 de Março] Assinatura do tratado de aliança ofensiva e defensiva (por 10
anos),

[134]

entre Afonso VI e Luís XIV, contra Carlos II de Espanha.


[Julho] Suspenso o Mercúrio Português.
Grave crise política. Afastamento (em Setembro) do conde de Castelo
Melhor por pressão dos partidários do infante D. Pedro. (Castelo Melhor é votado
ao exílio.) A revolução palaciana leva ao afastamento definitivo do secretário
António de Sousa de Macedo (5 de Outubro). D. Afonso VI é forçado a abdicar (23
de Novembro). Vencida a «tendência» chefiada pelo rei e por Castelo Melhor, vai
iniciar-se a regência de D. Pedro (irmão de Afonso VI).

(Legenda: D. Pedro II (Sintra, Palácio Nacional).)

1668
[5 de Janeiro] Tratado de Madrid que firma a paz com a Espanha.
(Ratificado em Lisboa a 13 de Fevereiro.) Assinado em nome de D. Afonso VI
(embora o governo já estivesse nas mãos de D. Pedro). Decisiva a mediação de
Carlos II de Inglaterra que fica como garante da paz. Cessação imediata das
hostilidades e paz perpétua; reconhecida a legitimidade do monarca português;
confirmada a cedência da praça de Ceuta à Espanha.
[24 de Março] Sentença de nulidade do matrimónio de D. Afonso VI com
Maria Francisca de Sabóia.
[8 de Maio] Decreto instituindo que os nobres portugueses que
permanecessem em Espanha perderiam as fazendas que eram «constituídas»
por bens da coroa.
Casamento do regente D. Pedro com Maria Francisca de Sabóia.
Cortes de Lisboa. D. Pedro é jurado príncipe herdeiro.
Suspensão das décimas e, provavelmente, do «quinto» (a que eram
obrigados donatários e comendadores).
Introduzida em Portugal a Congregação do Oratório de S. Filipe Néri. (Vai
desempenhar um importante papel no campo pedagógico.)
Publicação (em Paris) de Aristipo ou o Homem da Corte, de Duarte Ribeiro
de Macedo.
Duarte Ribeiro de Macedo (diplomata em Paris) inicia a correspondência
com o governo de Lisboa, fornecendo informações sobre as realizações do
«colbertismo».

(Legenda: D. Maria Francisca de Sabóia por Josefa de Óbidos (Lisboa, Museu


Nacional dos Coches).)

1669
[1de Janeiro] Breve «Dilectum Filium». O papa compromete-se a resolver o

[135]

diferendo com Portugal e reconhece a independência portuguesa.


[2 de Abril] Pelo breve «Quicquid Incolumi» a Santa Sé aceita finalmente
um embaixador português.
[Junho] Novo Tratado de «aliança e comércio» com a Holanda.
Consagração da «capitulação» de 1661.
[18 de Julho] Carta régia que manda continuar a cobrança dos «reais» para
a fortificação das fronteiras. Haviam sido suspensos com o fim da guerra.
Inicia-se uma grave crise económica (que se prolonga até 1692).
Afonso VI é desterrado para a ilha Terceira.
Os bispos eleitos, depois da Restauração, são confirmados pelo papa.
Publicado (em Paris) o Panegírico Historico Geneológico da Serenissima
Casa de Nemours, de Duarte Ribeiro de Macedo.
Início da publicação de Comentaria ad ordinationes regni portugalliae, por
Manuel Álvares Pegas.

1670
[8 de Janeiro] Alvará que consagra os procedimentos eleitorais municipais.
Bula de Clemente XI que reconhece a restauração da Monarquia
portuguesa.
Culminar da crise dos engenhos do açúcar no Brasil.
Nascimento e Geneologia do Conde D. Henrique, Pai de D. Afonso I, Rei
de Portugal, de Duarte Ribeiro de Macedo.
Arte de Galanteria, de D. Francisco de Portugal.
Castrioto Lusitano, de Frei Rafael de Jesus.

1671 - Publicação do «Regimento das Mercês», destinado a regular os


«requerimentos das pessoas que pedem satisfação de serviços». (Estabelece-se
o processo de remuneração de serviços, bem como as regras de sua
transmissibilidade.)
Luís Castilho de Almeida «viaja» por todo o Norte do Mato Grosso.
O governo do Brasil incita Fernão Dias Pais Leme a procurar esmeraldas e
prata. Inicia a exploração mineira na capitania do Espírito Santo.
Conquista de Pungo-Andongo e criação do respectivo «presídio». O reino
indígena de Angola (ou Dongo) é incorporado no território português.
Poesias Várias, de André Nunes da Silva.
André da Silva Mascarenhas: Destruição de Espanha (com plágios da obra
Viriato Trágico, ainda inédita).

1672
[19 de Setembro] Alteração do regimento da Junta do Comércio que
continua a ter como principal tarefa a organização dos comboios marítimos.
[17 de Outubro] Pragmática anti -sumptuária.
Perseguição, pela Inquisição, aos cristãos-novos de Lisboa, na sequência
do sacrilégio da Igreja de Odivelas.
Proposta de fundação, pelos cristãos-novos, de uma Companhia de
Comércio para a índia.
O governador-geral do Brasil concede poderes discricionários e o título de
«governador da Terra das Esmeraldas» a Fernão Dias Pais Leme.
Publica-se a 6.ª parte da Monarquia Lusitana, de Frei Francisco Brandão.

1673 - Conspiração destinada a repor no trono D. Afonso VI.


A ilha de Santa Helena passa definitivamente para a posse da Inglaterra.
Chegada ao Pará dos primeiros açorianos recrutados para a «colonização
por casais» do Brasil.

1674 - Cortes de Lisboa. São dissolvidas quando tentam opinar sobre despesas
públicas.
D. Afonso VI é transferido dos Açores e encarcerado no Palácio de Sintra.
Os inquisidores são privados de exercício.

[136]

Publicação do Regimento para os Armazéns da Guiné e Índia e Armadas.

(Legenda: D. Luís de Meneses, conde da Ericeira (1632-1690).)

1674-1681

Fernão Dias Pais Leme, com o filho e o genro Manuel da Borba Gato, exploram o
território de Sabarábuçu (Minas Gerais) à procura de pedras preciosas.

1675
[10 de Abril] Novo regimento das minas de estanho.
D. Luís de Meneses, 3.º conde da Ericeira, é nomeado vedor da Fazenda.
(Vai ser um dos principais responsáveis, no período de crise económica, pela
organização e relançamento da indústria portuguesa.)
Intensificação dos investimentos industriais manufactureiros (de 1675 a
1680).
Organização de uma armada para combater os corsários no Norte de
Angola.
Eva e Ave, ou Maria Triunfante [...], de António de Sousa de Macedo.
Publicação de Nova Lusitânia, História da Guerra Brasílica, por Francisco
de Brito Freire.
Discurso sobre a Introdução das Artes no Reino, de Duarte Ribeiro de
Macedo. Obra escrita em Paris onde o autor era embaixador. (Defende soluções
«colbertistas».) Corre em cópias manuscritas. (É editada em 1817.)

1676 - Elevação do bispado de Baía a metropolitano.


Criação dos bispados do Rio de Janeiro e de Olinda.
Nobiliarchia portuguesa, de Vilas Boas Sampaio.

1677 - Pragmática anti-sumptuária. As pagmáticas eram leis que proibiam o uso


de um conjunto de artigos considerados de luxo. Visavam directamente a
protecção da indústria nacional; «teoricamente» não violavam os tratados de
comércio firmados com as potências estrangeiras (cujo apoio era necessário a
Portugal).
Criação do bispado de Maranhão.
Vida da Imperatriz Teodora, de Duarte Ribeiro de Macedo.
Vida e Acções de D. João I, de D. Francisco Xavier de Meneses.

1678 - D. Luís de Meneses manda vir artífices (de Itália) para aperfeiçoarem o
fabrico da seda.
Prossegue o incremento da plantação de amoreiras. (Os oficiais de justiça
deviam mandá-las plantar nas zonas da sua jurisdição.)
O papa Inocêncio XI suspende o Tribunal da Inquisição.

1679 - Cortes de Lisboa.


Decreto que cria juntas de jurisconsultos para a reforma das Ordenações.
História de Portugal Restaurado (1 vol.), de D. Luís de Meneses, 3.º conde
da Ericeira. (II vol., 1698.) Constitui, provavelmente, a mais importante obra sobre
a conjuntura restauracionista.

[137]

Inicia-se a publicação dos Sermões do padre António Vieira. (Até 1699


saem 13 tomos - ou partes - por ele revistos.)

1680
[4 de Janeiro] Alvará que cria a Companhia da Cabo Verde e de Cacheu
Destinada ao tráfego de escravos.
Incremento da exportação do vinho do Porto para Inglaterra.
Início da construção das Fortaleza de S. João Baptista de Ajudá (no
Daomé).
Fundação da colónia do Sacramento.
Obtenção do monopólio do comércio com Cantão.
Europa Portuguesa, do padre Manuel Faria e Sousa.
Morre Duarte Ribeiro de Macedo.
1681
[7 de Maio] Tratado provisório entre o regente D. Pedro e Carlos II de
Espanha: é concedida a Portugal a conservação da colónia do Sacramento.
[Agosto] É restabelecido o Santo Ofício.
Os teatinos abrem um convento em Portugal.
África Portuguesa, de Manuel de Faria e Sousa.

1682 - Fundação da Companhia Negreira do Pará e Maranhão. Recebe o


monopólio de algumas mercadorias e do tráfego de escravos para o Brasil.
(Sociedade de curta vida.)
Bartolomeu Bueno da Silva «peregrina» por Goiás.
Morre Frei António das Chagas.
Morte de António de Sousa Macedo (jurista, escritor e diplomata).

1683
[12 de Agosto] Morte de D. Afonso VI.
Início do reinado de D. Pedro II.
Morte da rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia.
Invasão de Goa pelo chefe marata Sambagi.
Concessão papal, ao Santo Ofício, de jurisdição plena em matéria
espiritual.
Monarquia Lusitana (7.ª parte), por Frei Rafael de Jesus.
Faíscas de Amor Divino, de Frei António das Chagas.

(Legenda: Planta de Goa (António Bocarro, 1635).)

[138]
(Legenda: Padre Manuel Bernardes.)

1684 - Pronunciamento de Beckman, em S. Luís do Maranhão, contra a


Companhia Negreira. (Segundo alguns autores, trata-se de um dos primeiros
movimentos autonomistas brasileiros.)
Rebeliões (que se prolongam no ano seguinte) no Maranhão e Pará para
expulsar os jesuítas (e contrabalançar a sua influência entre os índios).
Abandono de Goa, ordenando-se a edificação de uma nova capital em
Mormugão.
Cartas Espirituais (1.ª parte), por Frei António das Chagas, (2.ª parte:
1687).

1685 - Crise na exportação vinícola.


Castelo Melhor regressa do exílio.
Macau deixa de ser o único entreposto para o comércio externo da China.
É criado o ‖presídio‖ de Quilengues (Angola).
Arte de criar bem os filhos na idade da puerícia, de Alexandre de Gusmão.

1686 - Pragmática que proíbe o uso de panos estrangeiros.


Fixam-se, em Portugal, os capuchinhos italianos.
De Manuel Álvares Pegas: Tratado sobre os norgados.
Exercícios Espirituais, pelo padre Manuel Bernardes.

1687 - Casamento de D. Pedro II com Maria Sofia Isabel de Neuburgo.


Crise monetária (que se arrasta pelo ano de 1688).
Primeira experiência portuguesa de papel-moeda.
Inicia-se a construção de uma fortaleza em Bissau.
Fundação de uma companhia para monopolizar o comércio do Reino, do
Oriente e de Moçambique (Cartas Régias de 14 e 16 de Março).
1688
[4 de Agosto] Quebra da moeda-metal.
Pragmática anti-sumptuária.
Reconquista de Larache pelos Marroquinos.

1689 - Nascimento do infante D. João (futuro rei).

1690
[26 de Maio] Morte de D. Luís de Meneses, 3.º conde da Ericeira, que se
suicida.
A sede da Companhia de Cacheu e Cabo Verde instala-se na ilha do
Príncipe. (Principal objectivo: fornecer escravos às índias Espanholas.)
Nova «pragmática».
Sermões Genuínos, de Frei António das Chagas.

1691 - Surto de fome no Brasil que provoca uma grave crise.

[139]

1692
[11 de Junho] Novo regimento dado às ferrarias de Tomar e Figueiró.
Fundação da capitania de Bissau.
Introduzida a cátedra de Ciências Matemáticas no quadro das disciplinas
da Universidade de Évora.
Abecedario real, e regia instrução de prIncipes lusitanos, por Frei João dos
Prazeres.

1693
[20 de Janeiro] Chega a Lisboa a rainha D. Catarina (viúva de Carlos II de
Inglaterra).
[4 de Abril] Breve papal que permite a veneração em imagem da princesa
Santa Joana (filha de D. Afonso V).
Início de um período de expansão económica (que perdura até 1714).
Melhoria do aparelho sanitário com o Regimento que se há de observar
sucedendo haver peste [...]
Descoberta provável do tão desejado ouro nos sertões de Casa da Casca
(Minas Gerais), pelo paulista António Rodrigues Arzão.
Política predicável, de Frei Manuel dos Anjos (obra escrita cerca de 1650).
(Legenda: Santa Joana (Aveiro, Antigo Convento de Jesus).)

1693-1695

Descoberta de minas de ouro no Brasil.

1694 - Fundação da Fortaleza da Ponta da Mina e de uma alfândega, na Guiné.


Descoberta de veios de ouro nas barrancas de Itonorana (Minas Gerais)
por Bartolomeu Bueno de Siqueira.

(Legenda: D. Luís da Cunha.)

1695 a 1696 - Cerco de Mombaça (a fortaleza mais ao norte da África Oriental)


pelos Árabes.
Do padre Manuel Bernardes: Luz e Calor.
1697 - D. Luís da Cunha parte para Londres como enviado extraordinário.
Morre o padre António Vieira. Figura marcante de Seiscentos e um dos
maiores prosadores da língua portuguesa.
O 4.º conde da Ericeira traduz L‘Art Poétique, de Boileau.

1697-1698

Última reunião das Cortes Gerais dos Três

[140]

Estados (no Antigo Regime) para jurarem herdeiro do trono D. João (filho de D.
Pedro II). A historiografia tradicional, ao considerar-se estar-se já na fase
«clássica do absolutismo», vê a decadência das Cortes como um indicador seguro
do declínio da capacidade de comunicação dos poderes da periferia com o centro.
Conclusão que pode ser vista como precipitada. (Ver Nuno Gonçalo Monteiro,
«Os Concelhos e as Comunidades» in História de Portugal – dir. de José Mattoso
-, vol. IV, p. 310.)

1698
[28 de Março] Decreto que estabelece uma «décima reduzida», os 4,5 por
cento cobrados em termos semelhantes.
Conquista de Mombaça pelos árabes de Omã.

1699
[10 de Junho] Extinção da «Companhia do Reino, do Oriente e de
Moçambique» pelos próprios accionistas.
Morte da segunda mulher de D. Pedro (Maria Sofia Isabel de Neuburgo).
Nasce Sebastião José de Carvalho e Melo (futuro marquês de Pombal).
Nova «pragmática».
Liquidação de contencioso entre a França e Portugal, relativo às
possessões a norte do Amazonas.
Lisboa dá as «boas-vindas» a 514 kg de ouro (enviados directamente do
Rio).
Viriato Trágico (edição póstuma), de Brás Garcia de Mascarenhas.

1700 - Chegada às minas do Brasil dos provedores dos quintos (colectores de


impostos).
Tentativa francesa de ocupação de Bissau.

1701 - D. Pedro II assina com Luís XIV um tratado de aliança, reconhecendo


Filipe V como rei de Espanha.
Decreto sobre a mendicidade.

1702 - Lei anti-sumptuária.


Regimento das Minas de Ouro do Brasil.
(Legenda: Mombaça (gravura do século XVII).)

[141]

Fundação da Casa dos Quintos (Rio de Janeiro) para fundição do ouro.

1703 - Portugal rompe com a França.


Tratado de aliança defensiva com a Inglaterra e a Holanda.
[31 de Março] Tratado de aliança defensiva e ofensiva com o Império, a
Inglaterra e a Holanda. O governo português muda de posição e de campo na
Guerra da Sucessão de Espanha. Razões de política geoeconómica levam-no a
apoiar a candidatura do arquiduque Carlos ao trono de Espanha, ao lado da
Inglaterra e da Holanda (potências marítimas), do Império e da Sabóia. Uma vez
imposto o novo soberano, Portugal seria pago com compensações territoriais (na
Península e na América Latina).
Estabelecido em Timor um protectorado português.
[27 de Dezembro] Portugal e a Inglaterra assinam o Tratado de Methuen.
Tratado de comércio, conhecido pelo nome do negociador inglês (John Methuen).

Do Tratado de Methuen…
Os «panos de lã e mais fábricas de lanifícios de Inglaterra» eram
livremente admitidos, «para sempre», em Portugal; os vinhos portugueses com
destino à Inglaterra pagariam menos um terço dos direitos «para igual quantidade
ou medida de vinho de França». No que respeita a Portugal, o tratado só foi
tornado exequível a partir de 19/4/1704, quando foram revogados, para os
lanifícios ingleses, as disposições da recente pragmática. Aquela mesma regalia é
aplicada, a partir de 1705, aos panos holandeses, e, pouco depois, é também
aplicada aos panos franceses. Os Ingleses só vendiam mais por mérito próprio.
É necessário ter em conta o «interesse inglês pelo mercado português,
quer por motivo da exportação dos seus lanifícios, quer por motivo – e julgamos
que sobretudo por isso – do afluxo a Portugal do ouro brasileiro. O vinho
português começou por construir um bom frete de retorno para os barcos ingleses
que frequentavam Portugal […]. Ganhando na venda dos seus tecidos, ganhavam
com a carga de regresso».
O aumento de exportação de vinho do Porto, depois de Methuen, «não foi
nem brusco, nem espectacular. Integra-se no crescimento geral do comércio
inglês em Portugal».
«Desde 1677 (relacionado com a baixa da venda do açúcar e do seu preço)
que se discutia em Inglaterra a necessidade de fornecer ao comércio português
alguma reciprocidade nos meios de pagamentos […]. A compensação necessária
acabou por se fixar no vinho: os Ingleses tinham, em qualquer caso, de o adquirir
no estrangeiro; era natural que o fizessem onde mais lhes convinha. Estes
factores têm muito peso para explicar a subida do vinho do Porto no mercado
inglês, de que o Tratado de Methuen é uma consequência, muito mais que uma
causa […].»
«A áspera presença da indústria inglesa já existia efectiva e
constantemente em Portugal, com a solene garantia de tratados e jogando com a
necessidade política portuguesa do apoio externo e de mercados, que tanto
pesaram na elaboração dos instrumentos diplomáticos de 1642, 1654 e 1661.»
Na opinião deste autor, o Tratado de Methuen pouco terá afectado a
indústria local (em especial a do interior), defendida, pelas suas características, da
concorrência estrangeira. «É fácil demosntrar que, tanto depois como antes do
Tratado de Methuen, continuou a existir indústria de lanifícios em Portugal, com
amplo e seguro consumo.»
A hipótese de que o tratado influenciou desfavoravelmente a indústria de
luxo, embora válida, «parece desviar o problema para um campo secundário». O
atraso da indústria manufactureira estaria correlacionado com a chegada do ouro
brasileiro (quatro anos antes do Tratado). «Mas quando em Portugal aparece a
forma mais prestigiada de pagamento […], o ouro, toda a política manufactureira
perdeu muito da sua razão de ser, que era a economia de meios de pagamento.»
(Ver Jorge Borges de Macedo, Methuen, Tratado de 1703, in Dicionário de
História de Portugal.).

[142]
(Legenda: D. João V (Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo).)

As bases da preponderância da Grã-Bretanha no comércio externo são


lançadas nos 60 anos que vão entre os tratados de 1642 e 1703.
À quase inevitabilidade da aliança político-militar com a Inglaterra
(independentemente do preço a pagar), consagrada nos tratados de 1642 e 1661,
«vieram juntar-se, sobretudo a partir da última década do século XVII, as
vantagens de uma certa complementaridade entre as duas economias e os
respectivos mercados».
Mas é o ouro a mercadoria mais cobiçada na época mercantilista, que faz
de Portugal um parceiro comercial profundamente desejado. Daí a apetência da
Inglaterra.
«Nestes termos, o Tratado de Methuen começou por representar sobretudo
a consagração formal de situações/tendências de facto preexistentes, como, aliás,
é hoje quase unanimemente reconhecido. Mas parece-nos igualmente irrecusável
que, depois de assinado, constituiu ele próprio um dinamizador daquelas
tendências. Ou seja, contribuiu para reforçar a integração da economia
portuguesa na área de influência inglesa, para manter o mercado nacional aberto
às exportações inglesas e para consolidar a posição dos vinhos portugueses no
mercado daquele país.»
Uma certa «complementaridade» (como já vimos) nas relações económicas
luso-britânicas foi dando progressivamente lugar, ao longo de Setecentos, à
denominação, quase asfixiante, do sistema económico português pelos interesses
ingleses.
(José Vicente Serrão, O quadro económico…, in História de Portugal, dir. de José
Mattoso, vol. IV, pp. 102-109.)

1704 - Portugal envolve-se na Guerra da Sucessão de Espanha.


[Setembro] O arquiduque Carlos (aclamado rei de Espanha em Viena, no
ano de 1703) desembarca em Lisboa. Tenta penetrar, sem êxito, em Espanha.
(Abandona Portugal em 1705.)
Violências na Beira e no Alentejo, provocadas pelas incursões de exércitos
estrangeiros. (A situação prolonga-se em 1705).
Serão Político, de Frei Lucas de Santa Catarina.

1705
[8 de Maio] Rendição de Valência de Alcântara. Capitulação da Praça de
Albuquerque às tropas portuguesas (comandadas pelo conde de Galveias).
O marquês das Minas retoma Salvaterra do Extremo, Segura, Zebreira,
Castelo Branco e Monsanto.

1706 - Grande ofensiva contra Espanha por um exército (constituído por


Portugueses, Ingleses e Holandeses) sob o comando do marquês das Minas.
[14 de Abril] Rendição da Fortaleza de Alcântara. Conquista de várias
terras da Estremadura espanhola; marcha pela zona de Cidade Rodrigo e
Salamanca.
[28 de Junho] O marquês das Minas entra em Madrid, onde faz aclamar o
arquiduque Carlos de Áustria com o título de Carlos III. Filipe V havia-se retirado
para Burgos. (Revoltas populares, de apoio a Filipe V, cortam o caminho de
regresso ao exército português.) As reacções das forças afectas a Filipe V adiam
a solução do conflito.
[9 de Dezembro] Morte de D Pedro II. Início do reinado de D. João V.

[143]

Aumento de impostos pelo novo rei, sem consulta prévia às cortes.


De Frei Manuel Bernardes: inicia-se a publicação da Nova Floresta ou Silva
de Vários Apotegmas. (A obra, em 5 vols., será publicada até 1728); Exercícios
Espirituais, precedidos de Prática da Oração Mental.
Corografia Portugueza e Descripçam Topográfica do Famoso Reyno de
Portugal […], do padre António Carvalho da Costa. (A publicação vai de 1706 a
1712.)

1707
[25 de Abril] Batalha de Almansa (Espanha). As forças do arquiduque
Carlos, que incluem os contingentes portugueses, sofrem pesada derrota.
[26 de Maio] Capitulação de Serpa, às forças do duque de Ossuna.
[15 de Novembro] Reorganização do exército por alvará.
Motins em Lisboa.
Guerra dos «Emboabas», em Minas Gerais Brasil. (Prolonga-se até 1710.)
Emboabas, nome pejorativo dado pelos Paulistas aos forasteiros (em especial aos
Portugueses). Ferozes lutas opõem os Paulistas às tropas oficiais e aos
«forasteiros». Os Emboabas vencem os seus adversários (1709). A animosidade
estende-se até à constituição em Minas Gerais de um governo próprio,
independente do do Rio de Janeiro. (Decreto de 09/11/1709: criação da capitania
de S. Paulo e Minas.)
Anales Societas Jesu in Lusitania, do padre António Franco.
1708
[6 de Maio] Lei que reitera antigas pragmáticas contra o luxo.
[9 de Julho] Viena de Áustria: casamento, por procuração, entre D. João V
e Dona Maria Ana.
[20 de Dezembro] Regimento das ordenanças militares.
[Dezembro] Fome generalizada a todo o reino.
[Dezembro] Começa a entrar no Tejo a frota do Brasil com uma carga
avaliada em 54 milhões de cruzados (ouro, diamantes e outros géneros).
É arrasada a fortaleza de Bissau e extinta a capitania.

(Legenda: Bartolomeu de Gusmão)

1709
[4 de Abril] É nomeado, pela última vez, um patriarca para a Etiópia. (Não
chegará a exercer o seu múnus.)
[20 de Abril] Bartolomeu de Gusmão ensaia, no Terreiro do Paço, o seu
aeróstato. Outras experiências com máquinas voadoras: 8 de Agosto e 3 de
Outubro.
Necessária autorização régia para fundar novos conventos no Brasil
(Determinação de Abril).
[7 de Maio] Batalha do Caia: tropas portuguesas são derrotadas nas
cercanias de Badajoz.
[25 de Novembro] Decreto que proíbe a emigração para o Brasil.

[144]

Introdução da cultura do café em Cabo Verde (ilha de S. Nicolau).


Bartolomeu Lourenço de Gusmão redige o Manifesto Sumário para os que
Ignoram Poder-se Navegar pelo Elemento do Ar.

1710
[Fevereiro] Combate entre tropas espanholas e a guarnição de Castelo de
Vide.
[Março] Grandes atrasos nos soldos militares, por dependerem das rendas
do contrato do tabaco que havia falido.
[8 de Junho] A praça de Miranda do Douro cai em poder das forças
espanholas.
[Setembro] Ataque a vários pontos do litoral brasileiro por uma esquadra
francesa comandada por Duclerc (corsário). O Rio de Janeiro é cercado.
[17 de Setembro] Morre o padre Manuel Bernardes.
[20 de Setembro] Proibida, por alvará, a entrada no reino de vinhos,
aguardentes cervejas e outras bebidas.
[10 de Dezembro] Batalha de Vila Viçosa. Mais um desastre para Portugal.
(As tropas de Filipe V derrotam as forças do arquiduque Carlos.)
Guerras dos «Mascates». Guerra civil em Pernambuco (que aí se prolonga
até 1711).

MASCATES
Designação que os brasileiros de Olinda davam aos portugueses
negociantes que habitavam o Recife. Rivalidades entre Olinda e Recife (elevada a
cidade em 1710) e hostilidades entre «lealistas» (que defendem a autoridade real)
e «separatistas» levam a violentos conflitos. Em 1711 chega um novo governador,
Félix de Mendonça. A ordem é restabelecida e o Recife conserva os seus
privilégios. Concede-se, no entanto, que o capitão-general resida, durante 6
meses no anos, em Olinda.
Criação de uma Companhia de Comércio com Macau.
O Porto é dividido em 3 bairros: Santa Catarina, Santo Ovídio e Cedofeita.
Oriente Conquistado, do padre Francisco de Sousa.

1711
[8 de Fevereiro] Determina-se por alvará que só integrados em frotas
comerciais, os navios estrangeiros podem comerciar nos portos do Brasil.
[15 de Março] Recuperada a praça de Miranda do Douro (ocupada pelos
Espanhóis).
[Junho] Cerco de Elvas pelas forças espanholas do marquês de Bay.
[Julho] S. Paulo (Brasil) ascende a cidade.
[Agosto] Uma força naval francesa comandada pelo corsário Duguay Trouin
força a barra do Rio de Janeiro A cidade capitula em Outubro.
[Setembro-Outubro] Cerco a Campo Maior, pelas forças espanholas do
marquês de Bay. (A praça não é ocupada.)
[Setembro] Corsários franceses tomam a ilha das Cobras, junto ao Rio de
Janeiro.

1712
[Fevereiro] Os procuradores dos mesteres apresentam, à Câmara de
Lisboa, um quadro negro da situação económica e financeira do país.
[28 de Março] Decreto que proíbe o envio de degredados para o Brasil.
[Outubro] Começa a chegar ao Tejo, a frota do Brasil (com uma carga
estimada no valor de 50 milhões de cruzados).
[27 de Novembro] Portugal assina, no Congresso de Utreque, um armistício
com a França e a Espanha: suspensão de armas (por 4 meses) entre D. João V e
os reis Luís XIV e Filipe V.
Saque da ilha de Santiago (em Cabo Verde), por uma armada francesa.
Provisão de D. João V (dirigida ao reitor da Universidade de Coimbra),
proibindo que se introduzam formas novas de dar

[145]

lição nas cadeiras de Filosofia do Colégio das Artes.


Início da publicação do Vocabulário Português e Latino, do padre Rafael
Bluteau. (A publicação, em 10 vols. termina em 1727.)

1713
[16 de Março] Legislação que reitera a proibição do curso de moeda
cerceada.
[11 de Abril] Assinatura, no Congresso de Utreque, do Tratado de Paz e
Amizade, entre D. João V e Luís XIV. (Ratificado em 18/04 e 09/05.)
[24 de Junho] Regimento dos Ministros e Oficiais da Justiça e da Fazenda.
[24 de Junho] Alvará que introduz algumas alterações no funcionamento do
Desembargo do Paço.

1714
[26 de Março] Reatam-se as relações diplomáticas com a França.
[6 de Junho] Nasce o infante D. José (futuro rei), filho de D. João V e de
Dona Maria Ana.
Crise comercial ligada à economia brasileira.

1715
[Janeiro] Breve do papa a D. João V, solicitando socorro contra os Turcos.
Os navios portugueses (que saem de Lisboa a 5 de Julho) não chegam a tempo
de se incorporarem na armada papal.
[6 de Fevereiro] Tratado de paz e amizade entre D. João V e Filipe V de
Espanha, assinado em Utreque. Garantido por Jorge I de Inglaterra. (Ratificado
em Março.) A única vantagem consistiu na entrega a Portugal do território e
colónia do Sacramento. O tratado de Utreque põe termo à Guerra da Sucessão de
Espanha. Filipe V é rei de Espanha; os tratados secretos e o oficial muito pouco
deixaram a Portugal.
[10 de Agosto] Inicia-se a publicação da chamada Gazeta de Lisboa:
Historia Annual Chronologica, e Política do Mundo e Especialmente da Europa.
(Publicação semanal Termina em 1741.)
[18 de Agosto] Faz a sua entrada em Paris a magnificente embaixada do
conde da Ribeira Grande.
[20 de Agosto] Reforma do exército, com o objectivo de reduzir alguns dos
efectivos.
[25 de Novembro] Carta régia: da décima volta-se aos 4,5 por cento.
Cresce bruscamente, após 1715, a exportação de vinhos para Inglaterra.
José Freire de Monterroio Mascarenhas: Relação dos Progressos das
Armas na índia.
Publicação do Tratado Analytico e Apologetico, de Manuel Rodrigues
Leitão (escrito nos meados do século XVII).

(Legenda: Alexandre de Gusmão.)

1716
[6 de Janeiro] O papa solicita novamente socorros navais contra os Turcos.
A armada portuguesa regressa, uma vez mais, a Lisboa, sem participar na luta.
[Novembro] D. João V obtém do papa a criação do patriarcado de Lisboa.
Bula In suprema apostolatus solio, de Clemente XI. Insere-se numa política de
prestígio da coroa, procurando colocar as relações entre Portugal e a Santa Sé ao
nível das de outras grandes potências. (Alguns dos incidentes diplomáticos do
período joanino,

[146]

que têm na base questões protocolares, explicam-se por uma política de


prestígio.)
[Novembro] Tropas portuguesas tomam posse da colónia do Sacramento,
entregue pela Espanha (por força do Tratado de Utreque).
Abre em Lisboa a Academia dos Anónimos.

1717
[15 de Janeiro] Divisão de Lisboa em duas circunscrições administrativas:
ocidental e oriental.
[Fevereiro] D. João V nomeia Alexandre de Gusmão seu agente
diplomático em França.
[Fevereiro] O monarca concede ao patriarca de Lisboa as mesmas
prerrogativas que eram conferidas, no reino, aos cardeais da Santa Sé.
[Abril] Volta a sair de Lisboa uma armada para auxiliar as forças papais
contra o turco. O encontro naval vai dar-se no cabo de Matapão (19/07). Os
Turcos são derrotados.
[15 de Julho] Nasce o infante D. Pedro, futuro marido de D. Maria I.
[Julho] É permitida por decreto a exportação de azeite, que havia sido
suspensa por exigência de abastecimento do mercado interno.
[4 de Outubro] Grande incêndio em Lisboa (junto à Rua de Cima).
[Dezembro] Primeira reunião, no palácio do conde da Ericeira (em Lisboa)
da futura Academia Real da História Portuguesa. (Alguns autores identificam este
acto com a fundação da Academia.)
Abertura da manufactura de papel da Lousã.
História Insulana, do padre António Cordeiro.
Arte de Navegar, de Manuel Pimentel.
Lançamento da 1.ª pedra da Biblioteca da Universidade de Coimbra.

1718
[6 de Janeiro] Publica-se a Gazeta de Lisboa Ocidental.
[9 de Março] Carta régia que permite a escravização dos Índios
antropófagos do Brasil.
«Quádrupla Aliança». Portugal vai manter-se neutral.
[Novembro] Lavram-se os pequenos cruzados ou cruzadinhos.
Nova Arte de Conceitos, de Francisco Leitão Ferreira. (A publicação vai até
1721.)
Pedro Supico de Morais: Colecção Política de Vários Apotegmas.
História do Futuro e Livro Antiprimeiro da História do Futuro (edições
póstumas), do padre António Vieira.

1719
[8 de Fevereiro] Estabelecidas, no Brasil, por decreto, as Casas de
Fundição e Moeda.
[4 de Março] O papa cria o bispado do Grão-Pará.
[6 de Março] Violento tremor de terra no Algarve e em Lisboa.
[10 de Março] Volta a proibir-se, por

(Legenda: Interior da Biblioteca da Universidade de Coimbra.)

[147]

decreto, a exportação de azeite.


[Abril] Lourenço Bartolomeu de Gusmão obtém a patente para uma
aeronave da sua invenção.
[23 de Outubro] Corrida de touros em Odivelas com a presença da corte. (A
tourada é um espectáculo, que envolve grandes festejos, presenciado muitas
vezes pela família real.)
[30 de Novembro] Atraca ao Tejo urna frota da Nova Inglaterra com
provimento de bacalhau.
[10 de Dezembro] Lei de expulsão dos ciganos.
[Dezembro] O infante D. Francisco caça no distrito de Serpa. (Peças
abatidas: 2540 lebres, 11 285 coelhos e 6823 perdizes).
Manuel de Azevedo Fortes é investido no cargo de engenheiro-mor do
reino.

(Legenda: A Passarola, de Bartolomeu de Gusmão.)

c. 1720 - Exploração das jazidas de ouro de Baía e Mato Grosso.

1720
[1 de Fevereiro] Extinção definitiva da Companhia Geral do Comércio do
Brasil.
[20 de Fevereiro] Por decreto o porto brasileiro de Santos é declarado
aberto.
[Fevereiro] Criação da capitania de Minas Gerais, que se separa de S.
Paulo.
[14 de Março] Lei que manda confiscar todo o ouro proveniente do Brasil,
que não tivesse sido registado.
Proibida a emigração, sem passaporte, para o Brasil (em virtude da
descoberta de minas auríferas). Nova intervenção da coroa que limita a
emigração, com o intuito de estancar a despovoação do reino. (A emigração
andaria pelas 8 a 10 mil saídas anuais.)
[Março] Início da cunhagem do dobrão em ouro (no valor de 24 000 réis) e
do meio-dobrão.
[23 de Julho] Data aprazada para o início da aplicação do imposto dos
quintos, sobre a produção mineira do Brasil.
[12 de Setembro] Alexandre de Gusmão parte para Roma, com a
incumbência de obter o chapéu cardinalício para o núncio, Vicente Bichio (como
acontecia com os seus homólogos em Paris, Viena e Madrid).
[16 de Setembro] Alvará que isenta de direitos a exportação de açúcar.
[20 de Setembro] Breve de Clemente XI que concede ao patriarca de
Lisboa, pro tempore, o poder de sagrar e dar insígnias aos monarcas
portugueses.
[Outubro] No Brasil é restaurada a cobrança dos quintos por avença.
Medidas preventivas, no Algarve, contra a cólera (que alastra em Marselha
e no Sul de Espanha).
Início de um surto manufactureiro (inter-médio, pela dimensão, no contexto
do século XVIII) que se prolonga até 1740.
Devido à oposição francesa à participação de Portugal na Paz de Cambrai,
dá-se um arrefecimento nas relações diplomáticas com a França. As duas nações
ficam ao nível de simples enviados. (O embaixador Mornay deixa Lisboa e o
conde de Ribeira Grande deixa Paris.)
Criação, em Lisboa, da Academia dos Retóricos.
[8 de Dezembro] Decreto que cria a Academia Real da História Portuguesa.
Academia destinada a recriar a História de Portugal, eclesiástica e civil (de um
ponto de vista erudito e monumental). D. Manuel Caetano de Sousa foi o principal
inspirador e o primeiro presidente.

[148]

Enviados para Angola os judeus e ciganos detidos no reino.


Vários sobas angolanos revoltam-se contra a coroa portuguesa.
Alexandre de Gusmão: Cálculo sobre a Perda do Dinheiro do Reino.
Devera Ter os Engenheiros, de Azevedo Fortes.
Apresentação, provável, da 1.ª ópera italiana em Lisboa.

(Legenda: Manuel de Azevedo Fortes.)

1721
[14 de Janeiro] Aprovação régia dos estatutos da Academia Real da
História Portuguesa.
[19 de Março] Entrada no porto de Setúbal de mais de 40 embarcações
holandesas para carregar sal.
[27 de Março] Proibido, por alvará, o comércio particular aos funcionários
superiores ultramarinos.
[30 de Maio] Primeira sessão da Academia dos Laureados, em Santarém.
[17 de Setembro] Insubordinação das religiosas do Convento das Mónicas
(dirigem-se, de cruz alçada, ao Terreiro do Paço, clamando terem fome).
Navios estrangeiros são autorizados a comerciar em Cabo Verde.
Aliança anglo-luso relativa à Índia.
Reflexões sobre o estudo Académico para a Academia Real da História
Portuguesa, pelo 4.º conde da Ericeira.
Frei Manuel Guilherme: Escada Mística de Jacob para Subir ao Céu da
Perfeição.
Duarte Ribeiro de Macedo: Discursos Políticos e Obras Métricas (ed.
póstuma).
Regras da Língua Portuguesa, Espelho da Língua Latina, por D. Jerónimo
Contador de Argote.
Apólogos Dialogais (ed. póstuma), de D. Francisco Manuel de Melo.

(Legenda: Sóror Mariana Alcofrado.)

1722
[4 de Abril] Ordem régia para a cunhagem do escudo (no valor de 1600
réis).
[28 de Maio] Ordem régia restabelecendo as Casas de Fundição das Minas
em Vila Rica.
[Junho] Indígenas angolanos são vencidos na província de Quilengues.

[149]
[30 de Julho] D. João V assiste a uma sessão de trabalhos na Academia
Real de História.
[Dezembro] Chega a Lisboa o padre João Mourão, 1.º enviado diplomático
do imperador da China à corte de Lisboa.
[27 de Dezembro] Violento tremor de terra no Algarve.
Criação da manufactura vidreira de Coina.
Concedido o monopólio do tabaco ao comerciante alemão Paulo Klotz.
Criação de uma Academia Médica.
Tratado Sobre o Modo mais Fácil e mais Correcto de Fazer as Cartas
Geográficas, de Manuel de Azevedo Fortes.

1723
[19 de Abril] Lotaria a favor dos meninos enjeitados.
[16 de Maio] Sai do Tejo uma nau para dar caça aos corsários ingleses que
operavam nas costas de Angola.
[28 de Julho] Morre Sóror Mariana Alcoforado.
[15 de Outubro] É registada, em Lisboa, a passagem de um cometa.
Surto de febre-amarela em Lisboa.
Canta-se, no Palácio Real de Lisboa, a ópera Le Ninfe del Tago.

1724
[Janeiro] Constituição da Companhia da Ilha do Corisco para o comércio
com os portos de Angola.
[26 de Setembro] Bartolomeu Lourenço de Gusmão, acossado pela
Inquisição, foge do país e refugia-se em Espanha.
[12 de Outubro] Forte abalo de terra sentido em Lisboa, Porto, Eivas,
Santarém e Portimão.
[19 de Novembro] Furacão em Lisboa, responsável pelo naufrágio de 62
embarcações surtas no Tejo.
Luís XV envia para a corte de Lisboa um novo embaixador: o Abade de
Livry chega a Lisboa (15/09) e deixará Portugal sem apresentar credenciais.
História Tripartida Compreendida em Três Estados, de Frei Agostinho de
Santa Maria.
Manuel da Fonseca Borralho: Luzes da Poesia […].
O mensageiro do rei do Camboja, para comunicar com o capitão inglês
Alexander Hamilton, entrega-lhe cartas escritas em língua portuguesa. (Episódio
significativo da importância que o português continuava a ter, como língua franca,
no Oriente.)
(Legenda: António José da Silva.)

1725 - Corte de relações entre Portugal e França, na sequência do incidente com


o embaixador Abade de Livry. (O embaixador francês comunica - 15/01 - ao
governo português, a ordem que tinha para se retirar de Lisboa por o secretário de
Estado, Diogo de Mendonça, não lhe ter feito a

[150]

primeira visita particular. Retira-se de Lisboa a 30 de Janeiro.) Durante 14 anos


ficam interrompidas as missões diplomáticas entre as duas coroas, com ausência
de relações ao nível de embaixadas. Mantêm-se as relações económicas e
culturais. (A representação de França vai ficar confiada a um cônsul e a
portuguesa a um encarregado de negócios.)
[24 de Maio] Instruções dadas a José da Cunha Brochado, nomeado para
uma missão especial à corte de Madrid, para ajustar com a Espanha uma liga
ofensiva e defensiva.
[Julho e Dezembro] Ataques mouros à praça de Mazagão.
Entram, durante o ano, no Hospital de Todos-os-Santos, 1678 crianças
expostas, tendo falecido 405 (Gazeta de Lisboa, de 10/01/1726).
No porto de Lisboa dão entrada ao longo do ano: 391 navios ingleses, 66
holandeses, 15 suecos e 149 portugueses.
Nicolau Nasoni inicia as pinturas da capela-mor da Sé do Porto.
Termina a construção da fachada (actual) do Mosteiro de Alcobaça.
Exploração das jazidas auríferas de Goiás (Brasil).

1726 - Criação de uma nova fundição de ferro em Lisboa.


Reorganização das ferrarias de Tomar e Fisgueiró.
Estabelecido o Arraial da Barra, o 1.º em terras de Goiás, destinado à
exploração do ouro.
António José da Silva, o Judeu, é preso, (conjuntamente com a mãe).
Ribeiro Sanches, perseguido pela Inquisição, abandona o país.
Arquilegio Medicinal em que se dá notícia das águas de caldas, fontes, rios
[…], de Francisco da Fonseca Henriques.

1727
[Janeiro] Fundação no Brasil, da vila do Bom Jesus (onde antes se
implantou o respectivo arraial mineiro).
[18 de Maio] Chega a Pequim a embaixada de Alexandre Mettelo de Sousa
e Menezes. (Tinha partido de Lisboa em 12/04/1724.)
[12 de Junho] Procissão do Corpo de Deus com a participação de D. João
V.
Tratado matrimonial dos infantes portugueses e espanhóis (negociado em
Setembro e Outubro).
Introdução do café no Brasil.
Instalação da 1.ª loja maçónica em Lisboa.
Publicada a 8.ª parte da Monarquia Lusitana, por Frei Manuel dos Santos.
Catálogo Cronológico, Genealógico e Crítico das Rainhas de Portugal e
seus Filhos, de D. José de Barbosa.
Frei Agostinho de Santa Maria: Meditações e Suspiros de Santo Agostinho.
Dissertação sobre o Número Era, de José Soares da Silva.

1728 - D. João V corta relações com a Santa Sé, por a cúria ter elevado ao
cardinalato Monsenhor Firrão, ascensão que fora prometida ao ex-núncio Bichi.
Insubordinação de nobres.
Publicadas as Prosas Portuguesas, de Rafael Bluteau.
Manuel de Azevedo Fortes: O Engenheiro. (A publicação continua em
1729.)
Últimos Fins do Homem, do padre Manuel Bernardes.
Prosa Portuguesa Recitada em Diversos Congressos Académicos, de
Rafael Bluteau.

1729
[10 de Janeiro] Regimento das minas de ouro do Brasil.
[19 de Janeiro] Casamentos de Dona Maria Bárbara, filha de D. João V
com o futuro rei de Espanha, Fernando VI, e do príncipe D. José com Dona
Mariana

[151]

Vitória, filha de Filipe V de Espanha.


[20 de Junho] Decreto que autoriza o Senado de Lisboa a regular os
géneros, sobre os quais se lançariam impostos, para a construção do Aqueduto
das Águas Livres.
[22 de Setembro] O Conselho Ultramarino determina que se «atalhe» o
desenfreado comércio feito pelos missionários do Brasil (com graves prejuízos
para a Fazenda real).
[30 de Outubro] Violento incêndio no Estanco Real do Tabaco de Lisboa
que causa elevados danos.
[8 de Dezembro] Inauguração da Fábrica de pólvora de Barcarena.
Exploração das jazidas diamantíferas de Cerro Frio (Brasil).
Novas unidades manufactureiras de couros (Alenquer).
Inicia-se a publicação de A Mocidade Enganada e Desenganada, do padre
Manuel Consciência (obra em 6 vols.; último vol.: 1738).
Notícias Cronológicas da Universidade de Coimbra, de Francisco Leitão
Ferreira.

c. 1730 - Surge, em Lisboa, a ópera de Bonecos, no Teatro do Bairro Alto


(instalado num salão do conde de Soure, adaptado para o efeito).

1730-1735

Intensificação da luta antijudaica e recrudescimento do papel da Inquisição.

1730
[24 de Junho] Nomeação de um superintendente para as minas de
diamantes do Brasil.
[24 de Setembro] Grande incêndio no Porto destrói muitas casas e causa
elevados prejuízos materiais.
Memórias para a História de Portugal que Compreendeu o Governo del-rei
D. João I, do ano de 1383 até ao de 1433 (3 vols.), por João Soares da Silva.
Padre José Pereira Beirão: Crónica do Muito Alto e Muito Esclarecido
Príncipe D. Sebastião.
Estímulo Prático para Seguir o Bem e Fugir do Mal, de Frei Manuel
Bernardes.
Histórias da América Portuguesa desde o ano de 1500 ao seu
descobrimento até o de 1724, de Sebastião da Rocha Pita.
(Legenda: Mafra: vista aérea do convento.)

[152]

António Correia de Lemos: Almanaque Universal para 1731 com um


resumo Cronológico […] do que tem sucedido em Portugal, Espanha […].
É mandada construir em Itália a Capela de S. João Baptista (destinada à
Igreja de S. Roque, em Lisboa).
Sagração da Basílica do Convento de Mafra (com a presença do rei e do
príncipe herdeiro).

1731
[Fevereiro] Grandes cheias no Tejo.
[8 de Março] Fundação da Academia dos Unidos em Torre de Moncorvo,
Trás-os-Montes.
[16 de Março] Por Carta régia, os terrenos diamantíferos no Brasil devem
ser arrematados por contrato. (Por falta de arrematantes, o primeiro contrato só se
veio a efectivar em 1739.)
[Maio] Trabalham na construção do Convento de Mafra 15 470 operários
(entre canteiros, entalhadores, carpinteiros, etc.).
[30 de Agosto] É fundada a Academia Bracarense.
[24 de Setembro] O papa concede, finalmente, o cardinalato ao ex-núncio
em Lisboa, Monsenhor Bichi. (A recusa da concessão tinha levado ao corte de
relações com a Santa Sé em 1728.)
[Dezembro] Aprovada a construção da Igreja da Irmandade dos Clérigos do
Porto, cuja traça será encomendada a Nicolau Nasoni.
Manifestações de quebra de disciplina conventual (que se prolongam até
1740).
A Preciosa: Alegoria Moral (1731 a 1733), de Soror Maria do Céu.
Desafios para os Meninos da Escola, de Paulo Gomes da Silva Barbosa.
1732
[10 de Março] Alvará que proíbe a vinda para o reino de mulheres
residentes no Brasil.
[Abril] Inicia-se a construção da Igreja dos Clérigos no Porto.
[Agosto] Início da construção, em Lisboa, do Aqueduto das Águas Livres.
[16 de Setembro] Explosão do paiol de munições de Campo Maior
(provocada pela queda de um raio). Inúmeros mortos, 302 feridos e grandes
prejuízos.
Reatamento de relações com a Santa Sé. Sanado o conflito, com a
chegada (17/09), a Lisboa, do novo núncio, a Lisboa.
[24 de Dezembro] Decreto que cria duas Academias Militares, em Elvas e
Almeida, a juntar às já existentes (em Lisboa e Viana).
[27 de Dezembro] Um sismo destrói parcialmente Loulé.
Greve dos pedreiros de Mafra.
Descoberta de diamantes na Baía. (Vedado o acesso pelo vice-rei, para
evitar a concorrência à região das Minas. Só em 1832 estas jazidas foram
exploradas.)
O Conselho Ultramarino manifesta-se alarmado com a emigração para o
Brasil.
A população portuguesa é de cerca de 2 143 000 habitantes.
Tomás Pinto Brandão: O Pinto Renascido Empenado e Desempenado,
Primeiro Voo.
História de Tânger, de D. Francisco Xavier de Meneses.
A Academia Universal de Vária Erudição, do padre Manuel Consciência.
Evidência Apologética e Crítica, de Manuel Azevedo Fortes.
De Anselmo Caetano [...] Castello Branco: Ennaea (hermético texto sobre
alquimia; procura-se racionalizar o oculto).
Lista de Fogos e Almas que há nas Terras de Portugal [...], do marquês de
Abrantes (incorporada na Geografia Histórica [...] de Luiz Caetano de Lima).

1733 - Conclusão da Torre da Universidade de Coimbra.


Talha dourada barroca da Igreja de S. Francisco, Porto.

[153]

Apresenta-se a primeira ópera portuguesa em estilo italiano.


Sóror Violante do Céu: Parnaso Lusitano dos Divinos e Humanos Versos
(ed. póstuma).
Frei Jerónimo de Belém: Excelências da Mulher Forte.
Relação e Descrição da Guiné [...], de André Alves de Almeida.
Vida do grande D. Quixote de Ia Mancha e do gordo Sancho Pança, de
António José da Silva.

1734
[Janeiro] Cerco da praça de Mazagão, que se estenderá por quase um
mês.
[2 de Fevereiro] Fortes abalos de terra em Faro e Portimão.
[6 de Fevereiro] Proibição de se jogar o Entrudo.
[13 de Fevereiro] Morre o padre Rafael Bluteau.
[24 de Março] A coroa impõe, por Regimento, a capitação da população
das zonas auríferas.
[10 de Maio] Provisão do Conselho da Fazenda: proibidos os vidros
estrangeiros (salvo espelhos, garrafas e frascos de vidro verde).
[10 de Agosto] Um incêndio devasta casas de 59 famílias na Rua Nova de
Almada (em Lisboa).
[5 de Outubro] Escritura lavrada a favor do francês Robert Godin, para
estabelecer uma fábrica de sedas em Lisboa.
[17 de Dezembro] Nasce a infanta D. Maria (futura rainha), filha do príncipe
D. José e Dona Mariana Vitória.
Francisco Xavier de Oliveira, o Cavaleiro de Oliveira, perseguido pela
Inquisição, deixa o país.
Parecer redigido pelo cardeal da Mota (Advoga as vantagens da criação de
manufacturas.)
Descoberta de novas jazidas de ouro em Mato Grosso (Brasil).
Trabalham, na zona de Cerro Frio, na exploração de diamantes, entre 5000
a 6000 escravos.
Portugal Ilustrado pelo Sexo Feminino, Notícia Histórica de Muitas Heroínas
Portuguesas [...], do padre Manuel Tavares.
Apontamentos para a Educação de um Menino Nobre, de Martinho de
Mendonça (de Pina e Proença).

(Legenda: Aqueduto das Águas Livres de Lisboa.)

[154]

Esopaida, de António José da Silva.


Geografia Histórica de todos os Estados Soberanos da Europa, de Luís
Caetano de Lima. (Publicação terminada em 1736.)
1735
[14 de Janeiro] Regimento dos Ourives.
[17 de Janeiro] Lei que pune com pena de morte, os falsificadores de ouro.
Cortes de relações com a Espanha e ameaça de guerra. Um incidente,
com o embaixador português em Madrid, desencadeia a crise (já latente). Um
preso espanhol refugia-se (em 20/02) na legação portuguesa em Madrid. Na
sequência dos acontecidos, a casa de Pedro Álvares Cabral (embaixador em
Madrid) é invadida e são presos alguns dos criados. Lisboa paga na mesma
moeda: como represália, a residência do embaixador espanhol é também invadida
e são presos alguns dos seus servidores (13/03). A guerra torna-se eminente.
[3 de Março] Saem de Lisboa dois religiosos com a incumbência de
resgatarem portugueses cativos em Marrocos.
[4 de Abril] Decreto que proíbe a promoção a cabo, furriel, sargento, alferes
ou tenente a quem não soubesse ler e escrever.
[6 de Junho] Chega ao Tejo uma armada inglesa para apoiar Portugal no
conflito aberto com a Espanha.
[Setembro] Aceite a mediação da França no litígio luso-espanhol.
[Outubro] Incorporação da ilha do Príncipe nos bens próprios da coroa.
[Novembro] Ataque espanhol à colónia do Sacramento.
Inicia-se o período de apogeu da produção de ouro brasileiro.
Bernardo Gomes de Brito: História Trágico Marítima (2 vols.: 1735-1736).
Compilação de folhetos impressos ou manuscritos referentes a naufrágios. (Os
mais antigos remontam a meados de Quinhentos. O texto das edições originais foi
alterado pelo compilador.)
Sóror Maria do Céu: Obras Várias e Admiráveis.
Crónica del-rei D. Pedro I de Portugal, do padre José Pereira Beirão.
Vida do Infante D. Luís, de D. José de Portugal.
António Caetano de Sousa: História Genealógica da Casa Real Portuguesa
(13 vols.: 1735-1748).
Suplemento Histórico ou Memórias e Notícias da Célebre Ordem dos
Templários (Tomos I e II), de Alexandre Ferreira.
António José da Silva, Encantos de Medeia.
Padre Manuel Consciência: Floresta Novíssima (2.º vol.: 1737).
Nicolau Nasoni restaura a Sé de Lamego.
Existe já, em Lisboa, uma casa especializada em ópera, o Teatro da
Trindade ou Academia de Música.

1736-1739

Repressão da insubordinação monacal.

1736
[28 de Fevereiro] Decreto que obriga, que o transporte de ouro, diamantes
e outras pedras preciosas (do Brasil) tem de ser feito exclusivamente nos cofres
das frotas.
[Março] Regimento dos capitães-de-mar-e-guerra.
[28 de Julho] Alvará que cria a Secretaria de Estado dos Negócios
Estrangeiros e da Guerra (assumida por Marco António de Azevedo Coutinho).
Reorganizadas as outras Secretarias de Estado que passam a ser designadas
por: Negócios Interiores do Reino e Negócios da Marinha e Domínios
Ultramarinos. Com esta reforma, o Conselho de Estado reduz-se à reunião dos
secretários de Estado; os Conselhos da Guerra e o Ultramarino perdem
competências e funções.
[Outubro] Novas disposições sobre o regime das coudelarias.
[Novembro] Mazagão é, uma vez mais, atacada.

[155]

É proibida a venda de tabaco estrangeiro em Portugal e nos seus domínios.


Fundação do Forte Jesus Maria José, que marca a posse das terras que
irão formar o estado do Rio Grande do Sul.
Imposição de um mandarinato em Macau pelos Chineses.
Surto mineiro em Portugal (zonas de Coimbra e Aveiro).
Alexandre de Gusmão denuncia a aliança inglesa e os efeitos nefastos do
Tratado de Methuen e propõe a aproximação à França no seu escrito Grande
Instrução [...] dirigido a D. Luís da Cunha e Marco António de Azevedo Coutinho
Representadas as obras de António José da Silva: Anfitrião e Labirinto de
Creta. Diogo Barbosa de Machado: Memórias para a História de Portugal, Que
Comprehendem o Governo d‘El-Rei D. Sebastião [...], 4 vols. (1736 a 1751).
Ortografia da Língua Portuguesa, do padre Luís C. de Lima.

1737
[12 de Janeiro] Após condenação por um tribunal local, são degolados, na
província chinesa de Tonquim, alguns jesuítas.
[1 de Fevereiro] Em Lisboa é observado um cometa.
[16 de Março] «Pazes» com a Espanha. Convenção luso-espanhola sobre
o incidente com o embaixador português, por mediação da Inglaterra e da
Holanda.
[Março] Reatamento das relações diplomáticas com a França. Seria o novo
enviado especial, de acordo com um despacho do governo francês, a fazer a
primeira visita protocolar ao secretário de Estado português. (Ver 1740.)
D. Luís da Cunha é nomeado embaixador em Paris (notificação à corte de
França em Abril).
[Maio] Termo do conflito armado luso-espanhol na zona da Prata (a sul do
Brasil).
Nova manufactura de couros em Lisboa.
Representada a peça Guerras do Alecrim e Manjerona, de António José da
Silva.
Jacob de Castro Sarmento: Teórica verdadeira das Marés.
Tratados vários, do padre Manuel Bernardes.
(Legenda: Diogo Barbosa Machado.)

1738
[19 de Julho] É concedida a Carvalho e Melo a qualidade de familiar do
Santo Ofício.
[28 de Julho] Zarpa do Tejo uma flotilha da Armada Real para dar caça aos
navios mouros que atacavam a costa portuguesa.
Criação da Lotaria pela Misericórdia de Lisboa.
D. Luís da Cunha redige Instruções Inéditas a Marco António de Azevedo
Coutinho (analisa as causas da crise da economia e apresenta soluções).
Memória do valor da moeda de Portugal, pelo 4.º Conde da Ericeira.
António José da Silva, Precipício de Faetonte.

1739
[Janeiro] Lei dos Tratamentos. Alarga todo o leque capaz de receber o
tratamento de «excelência» e o de «senhoria». Consagra e delimita a primeira
élite da monarquia, na qual têm lugar os grandes eclesiásticos e seculares (que
não incluem

[156]

viscondes e barões) e alguns altos dignitários.


Carvalho e Melo é representante de Portugal em Inglaterra. Entrega
credenciais em Março. (A 1.ª audiência pública, na corte de Londres, fora em
Novembro de 1738).
[18 de Abril] Decreto que recusa o despacho, na Alfândega de Lisboa, às
mercadorias do Oriente que não sejam transportadas em navios portugueses.
[16 de Maio] Reitera-se, por decreto, a proibição do uso de sola e atanados
estrangeiros.
Conquista de Baçaim pelos Maratas. Entrega de Baçaim e da província do
Norte da Índia (Maio), com exclusão de Damão e Diu.
[Agosto] Tentativas francesas para se apoderarem de algumas áreas de
Bissau.
[18 de Outubro] António José da Silva, por setença do Santo Ofício, é
queimado num auto-de-fé.
[25 de Outubro] Abalos de terra em Portimão.
Solar de Mateus, Vila Real.
António Caetano de Sousa: Memórias Históricas e Genealógicas dos
Grandes de Portugal. (Esforço de consagração linhagística de um grupo
reconhecidamente restrito).
Descripçam Corografica do Reyno de Portugal [...], de António de Oliveira
Freire.

1740
[Janeiro] Aparece, em Lisboa, o hebdomadário O Expresso da Corte e
Emprego de Curiosidades nas Cidades de Lisboa Ocidental e Oriental.
[Fevereiro] Provimento de várias cadeiras da Faculdade de Leis da
Universidade de Coimbra.
[1 de Junho] O conde de Chavigny, novo representante diplomático da
França, visita o secretário de Estado de acordo com a regra protocolar
portuguesa.
Os Maratas conquistam Chaul e as aldeias da jurisdição de Damão.
Início da construção da Igreja do Senhor Jesus da Pedra, em Óbidos.
Campanha a favor da «sesta» e em Lisboa.

1741
[Março] Concessão de privilégios à fábrica de vidros de Coina.
[Agosto] Publica-se o periódico Mercúrio Político e Histórico.
[Agosto] Termina a publicação da Gazeta de Lisboa Ocidental.
Fundação do Colégio do Patriarcal.
Cartas Femininas, do Cavaleiro de Oliveira.
De João Evangelista: Suplemento da História Cronológica dos Papas,
Emperadores e Reis que tem reinado na Europa.
Diogo Barbosa Machado inicia a publicação da Biblioteca Lusitana (4 vols.).
Recolha de biografias e bibliografias de escritores.
Carvalho e Melo redige as Causas da Ruína do Comércio Português.
Escadório do Santuário do Bom Jesus, Braga.

1742
[25 de Março] Demarcação, por alvará, dos bairros de Lisboa.
[10 de Maio] D. João V, acometido por grave doença, fica parcialmente
paralisado.
[25 de Maio] A rainha Dona Maria Ana assume a regência por incapacidade
do monarca.
[Julho-Agosto] O monarca permanece um mês nas Caldas, onde procura
remédio para a sua doença. (Para facilitar a deslocação são arranjados os
caminhos entre Aveiras de Baixo e Óbidos.)
[Agosto] D. João reconhece a filiação dos chamados Meninos da Palhavã
(D. António, D. Gaspar e D. José).
Morre em Lisboa, Carlos Seixas, músico e compositor.
Orbe Celeste, de Sóror Madalena Glória.
A velhice Instruída e Destruída, do padre Manuel Consciência,

[157]

1743
[14 de Março] Preso em Lisboa Jean Coustor, venerável de uma loja
maçónica estabelecida em Lisboa.
[Novembro] Chega a Lisboa, regressado da sua missão diplomática em
Londres, Sebastião de Carvalho e Melo.
[21 de Dezembro] Morte de D. Francisco Xavier de Meneses, 4.º conde da
Ericeira.
Cartas familiares, políticas e críticas. Discursos sérios e jocosos [...], Haia,
2 vols., de Francisco Xavier Oliveira (Cavaleiro de Oliveira).
Séries dos Reis de Portugal, Reduzidas a Tábuas Genealógicas, de
António Caetano de Sousa.
Reportório das Ordenações do Reyno de Portugal novamente recopiladas
com as Remissões de todos os Doutores do Reyno [...], de M. Mendes de Castro.
Obras do Doutor Duarte Ribeiro de Macedo (reúne os escritos do autor já
publicados e alguns inéditos).
Conclusão do Palácio dos Governadores no Rio de Janeiro.
Conclusão da Igreja Matriz da Póvoa do Varzim.

1744 - Pauta alfandegária para a saída dos artigos: é grande a variedade de


tecidos referidos que são produzidos em Portugal. (A lista alarga-se em relação
aos mencionados na pauta de 1723.)
A coroa vai procurar controlar, cada vez mais, com legislação apropriada, a
administração dos baldios feita pelas câmaras e o processo da sua privatização.
[21 de Junho] Auto-de-fé em Lisboa. Setenciados 22 homens e 11
mulheres acusados de maçónicos. (Primeira sentença contra maçãos radicados
no país.)
[4 de Outubro] Entra em funcionamento o Chafariz das Amoreiras, ligado
ao Aqueduto das Águas Livres.
Manuel Martin Firme: Tratado da Esgrima.
António Caetano de Sousa acrescenta um 4.º vol. ao Agiológio Lusitano
[...], de Jorge Cardoso.
Manuel de Azevedo Fortes: Lógica Racional Geométrica e Analítica.
(Combate os dogmas e artimanhas da silogística escolástica, ainda que
renovada.)
(Legenda: Carlos Seixas.)

1745 - Um incêndio destrói muitas casas na Ribeira das Naus, em Lisboa.


[Julho] Sebastião de Carvalho e Melo chega a Viena, como enviado
especial e ministro plenipotenciário. (Casa, em Dezembro, com Dona Leonor
Ernestina, condessa de Daurín.)
[Agosto] Regimento das fronteiras.
[Agosto] Fundação da Academia dos Aventureiros, em Santarém.
[Outubro] D. João faz mais uma das suas habituais visitas às Caldas.
(Estas deslocações tornam-se frequentes nos anos que se seguem.)
[25 de Dezembro] Parcialmente destruídos os Paços Reais da Ribeira das
Naus por um grande incêndio.
Corpus Ilustrium Poetaram Lusitanorum qui Latine Scripserunt (1745-1748);
recolha de poemas em latim de vários autores

[158]

portugueses, pelos padres António dos Reis e Manuel Monteiro.


João Baptista de Castro: Mapa de Portugal, Antigo e Moderno, 3 vols.
(Lisboa, 1745-1748).
Nicolau Nasoni executa o retábulo do altar-mor da Igreja de Santo
Ildefonso, no Porto.
João Frederico Ludovice projecta o altar-mor da Igreja de S. Domingos
(Lisboa).

1746
[Maio] Criada em S. Paulo uma Junta de Missões, para se ocupar de
questões relacionadas com os índios.
[9 de Junho] Fernando VI e Dona Maria Bárbara (filha de D. João V)
ascendem ao trono de Espanha.
[31 de Agosto] Por resolução régia os casais açorianos que se queiram
estabelecer no Brasil são transportados à custa da Fazenda real.
Decisão do Conselho Ultramarino de colonizar Santa Catarina (Brasil).
[Setembro] Fundação da Academia Tirões Bracarenses.
Querela dita do sigilismo.

Luís António Verney: Verdadeiro Método de Estudar.


«Eu acho nos antigos filósofos espalhados alguns pensamentos que nós hoje
recebemos como certos; mas sem método, sem razão, sem demonstração: e,
pela maior parte, por via de conjectura. Com tudo isso, não se devem comparar, e
muito menos preferir, aos nossos filósofos modernos. Eles não tinham os
telescópios, para observar os astros, nem os engiscópios, para os invisíveis, e
mais os instrumentos sem número de que o método moderno enriqueceu a física.
Todas estas máquinas, ou se inventaram no século passado, ou neste presente, e
todos os dias se vão inventando. E que utilidade não resultou destas
experiências? Que desenganos não temos alcançado mediante estas
observações? As leis do movimento, que, segundo Aristóteles, são chave para
penetrar os segredos da natureza, hoje estão demonstradas, e mediante as ditas
explicam-se muitos efeitos de que se ignoravam a causa. […]».
«Na verdade o primeiro princípio de todos os estudos deve ser a gramática
da própria língua. […] Julgo que este deve ser o primeiro estudo da mocidade, e
que a primeira coisa que se lhe deve apresentar é uma gramática da sua língua,
curta e clara;

(Legenda: Auto-de-fé execução de condenados da Inquisição no Terreiro do


Paço, em Lisboa.)

[159]
porque, neste particular, a voz do mestre faz mais do que os preceitos. E não se
deve intimidar os rapazes com mau modo ou pancadas, como todos os dias
suceder; mas, com grande paciência, explicar-lhe as regras, e, sobretudo,
mostrar-lhe, nos seus mesmos discursos, ou em algum livro vulgar e carta bem
escrita e fácil o exercício e a razão de todos estes preceitos. […]» (Luís António
Verney, Verdadeiro Método de Estudar.)
Memórias Históricas Geográficas e Políticas Observadas de Paris a Lisboa,
de Pedro de Aucourt e Padilha.
Novo Método para se aprender a Gramática Latina, de Frei Manuel
Monteiro

(Legenda: Luís António Verney.)

1747
[Abril] Sagração da igreja do Palácio das Necessidades, em Lisboa.
Conclusão da Catedral de Mariana, Brasil.
[Agosto] No palácio do marquês de Alegrete estabelece-se uma Academia,
denominada Congresso dos Ocultos.
[4 de Outubro] Morre o cardeal da Mota, secretário de Estado dos Negócios
Estrangeiros que, na prática, exercia as funções de «primeiro-ministro». (A
administração pública, já perturbada com a doença do rei, ressente-se ainda mais
com a morte do cardeal.)
Convenção postal luso-espanhola.
Início da construção do Palácio de Queluz.
Montagem da Capela de S. João Baptista na Igreja de S. Roque (em
Lisboa).
D. Frei Manuel do Cenáculo cria, em Coimbra, a Academia de Liturgia.
Crítica à Famosa Tragédia de Cid, pelo marquês de Valença.
Elogios das Rainhas, Mulheres dos Cinco Reis de Portugal do Nome de
João, por D. José de Portugal.

1748
[1 de Abril] Parte de Lisboa para a Índia uma esquadra, de cinco naus de
guerra, em missão de soberania.
[Maio] Criação da capitania do Mato Grosso.
[Junho] Colocação da 1.ª pedra do Real Colégio de S. Paulo em Coimbra,
segundo traçado do arquitecto João Famossi.
[Junho] Abre-se ao culto a Igreja dos Clérigos.
[23 de Dezembro] O papa Bento XIV concede a D. João e seus sucessores
o título e denominação de «Fidelíssimo».
Transferência da manufactura de vidros de Coina para a Marinha Grande.
Termina a publicação dos Sermões, do padre António Vieira.
Padre Francisco José Freire (Cândido Lusitano): Arte Poética ou Regras da
verdadeira Física; Método Breve e Fácil para Estudar a História Portuguesa.
D. Luís da Cunha: redige, provavelmente, o Testamento Político (1747-
1749). Propostas ao príncipe D. José para solucionar os «males» da economia
portuguesa. Sugere a nomeação do futuro marquês de Pombal para uma
Secretaria de Estado.

1749
[28 de Março] Morte de Manuel de Azevedo Fortes (engenheiro-mor do
reino e autor de vários escritos).
[19 de Abril] Alvará que proíbe a exportação do trapo (para protecção da
fábrica de papel da Lousã).

[160]

[24 de Maio] Pragmática proibindo o uso de roupa branca bordada e de


sedas estrangeiras.
[3 de Julho] Arrematação do contrato para o envio de 4 mil colonos
açorianos, com destino à ilha de Santa Catarina (Brasil).
[9 de Outubro] Morre, em Paris, D. Luís da Cunha. Reformista setecentista
que preconiza um reforço do poder do rei que como bom pai de família devia zelar
pela felicidade dos súbditos Na qualidade de diplomata, toma contacto com as
reformas europeias. (Os primeiros liberais utilizam o seu Testamento Político
como panfleto legitimador da revolução.)
[20 de Dezembro] Plenos poderes conferidos ao visconde de Vila Nova da
Cerveira, diplomata português em Madrid, para negociar o Tratado dos Limites do
Brasil.
Criação da capitania de Goiás (Brasil), com sede na Vila Boa.
Frei Pedro Monteiro: História da Santa Inquisição do Reino de Portugal e
Suas Conquistas (parte I).
Publica-se o Zodíaco Lusitano, 1.º periódico portuense.
Parecer do magistrado José Vaz de Carvalho. (Defende uma política de
desenvolvimento de cariz agrícola.) Parecer do desembargador Manuel de
Almeida e Carvalho. (Defende a adopção de medidas proteccionistas para a
agricultura e a indústria.)
Discurso Político, Histórico e Jurídico, pelo desembargador Nicolau F.
Xavier da Silva. (Justifica a legislação anti-sumptuária.)
Política moral e civil, Aula da Nobreza Lusitana, de Damião António de
Lemos Faria e Castro. Conhecimentos das mais variadas áreas e matérias para
formação da nobreza (entendida mais como somatório de qualidades que de
heranças).
Índice Geral, de António Caetano de Sousa.

1750
[13 de Janeiro] Tratado de Madrid ou dos Limites, entre D. João e
Fernando VI (de Espanha) sobre os «limites» das possessões portuguesas e
espanholas na América Meridional. O Tratado dos Limites consta de duas partes:
uma de estruturação geográfica dos territórios portugueses e espanhóis e outra
de defesa contra ataques inimigos. (O território ocupado pelos Portugueses, após
Tordesilhas é, cada vez mais, de facto, bastante diferente do que lhe pertencia de
jure; o acordo de Tordesilhas é anulado e fixa-se uma nova fronteira (?).)
Alexandre de Gusmão, grande responsável pelo tratado, procura assegurar a
Portugal a posse do Rio Grande do Sul. A colónia de Sacramento é cedida à
Espanha e Portugal recebe o território dos Sete Povos das Missões e outras áreas
no interior do continente. O tratado é inovador, porque se baseia no princípio das
fronteiras naturais. A colónia portuguesa não chega a ser entregue; é

(Legenda: Palácio Nacional de Queluz.)

[161]
(Legenda: esquerda- D. Frei Manuel do Cenáculo (Lisboa, Biblioteca Nacional)
Direita- D. José I (Rio de Janeiro, Museu Nacional de História.)

é grande a resistência dos índios dos Sete Povos (Guerra Guarani, 1753-1756).
Estes acontecimentos levam ao Tratado do Pardo (ver 1761).
[19 de Maio] Morre Marco António de Azevedo Coutinho, secretário de
Estado e diplomata. [31 de Julho] Morre D. João V. D. José ascende ao trono.
[2 de Agosto] Nomeação de Sebastião José de Carvalho e Melo para
secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra e de Diogo
Mendonça Corte-Real como secretário da Marinha e Ultramar.
[7 de Setembro] Aclamação de D. José, em Lisboa, nos Paços da Ribeira.
[9 de Setembro] Contrato da pesca das baleias da ilha de Santa Catarina,
Brasil.
[11 de Setembro] João Frederico Ludovici é nomeado arquitecto-mor do
reino.
[21 de Setembro] Juramento de D. José como protector da Universidade de
Coimbra.
[5 de Dezembro] Alvará que restabelece o imposto dos quintos para
substituir a capitação dos moradores de Minas Gerais.
O fogo consome o Hospital de Todos-os-Santos (mandado erguer por D.
Manuel).
Prenúncios de crise na mineração brasileira.
A Fábrica das Sedas (fundada por Robert Godin), então sem laborar, é
sujeita a controle estatal e passa a «Real Fábrica das Sedas».
Alexandre de Gusmão redige um parecer sobre o projecto de alvará que
altera a lei da pragmática de 1749 (propõe a aplicação de medidas proteccionistas
e refere-se à situação das manufacturas).

1751
[16 de Janeiro] Decreto que reduz os direitos de entrada do açúcar e do
tabaco; concedido um bónus de 50 por cento para a reexportação destas
mercadorias.
[6 de Março] Instruções para a cobrança do quinto do ouro.
[10 de Março] Aviso para se lavrar, nas Casas da Moeda do Brasil, moedas
provinciais de ouro, prata e cobre.
[15 de Março] Lei contra o delito de pôr cornos nas portas (dos maridos
enganados.)

[162]

[1 de Abril] Regimentos da extracção dos tabacos e açúcar do Brasil.


[21 Abril] Pragmática anti-sumptuária, visando em especial, a proibição de
panos estrangeiros.
[25 de Maio] Alvará que cria a Junta de Administração dos Depósitos
Públicos da Corte e Cidade de Lisboa. Visa instalar-se um modelo de escrita
contabilística que permita o controle das receitas e despesas. Ao instituir-se os
depósitos públicos em Lisboa (extensivos ao Porto e províncias em 1777) cria-se
um importante fundo de punção creditícia.
[25 de Junho] Regimento do monteiro-mor.
[14 de Julho] Concessão a Henrique Smith da primeira fábrica, em Lisboa,
de refinação de açúcar.
[17 de Julho] Fogo no Palácio Real de Lisboa.
[14 de Outubro] Alvará que proíbe o transporte de escravos do Brasil para
quaisquer zonas coloniais que não fossem portuguesas.
Criada a Relação do Rio de Janeiro.
Inauguração da Capela de S. João Baptista na Igreja de S. Roque em
Lisboa.
De Re Logica, de Luís António Verney.
Amusement Periodique, do Cavaleiro de Oliveira.
Padre Teodoro de Almeida: Recreação Filosófica ou Diálogo sobre a
Filosofia Natural […]. (10 vols. 1751-1759).

1752
[Abril] Autonomia de Moçambique do governo do Estado da índia;
instituição da Capitania-Geral de Moçambique.
[27 de Maio] Aviso que determina a vistoria de mercadorias comestíveis por
oficiais de saúde.
[15 de Junho] Lei insistindo para que os missionários ensinem o português
aos indígenas do Brasil.
[23 de Dezembro] Pauta para o despacho dos portos secos, molhados e
vedados das alfândegas.
Concedidos privilégios aos plantadores de amoreiras.
Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, de Matias Aires.
Padre António Pereira de Figueiredo: Novo Método de Gramática Latina.

1753
[1 de Janeiro] Regimento do preço do tabaco.
[16 de Março] Fundação da Companhia do Comércio Oriental. Trata-se,
verdadeiramente, de uma concessão monopolista feita ao grande mercador
Feliciano Velho Oldemberg. (Termina na falência 3 anos e meio depois.)
[Março] Entra solenemente em Pequim a embaixada de Francisco de Assis
Pacheco de Sampaio.
[5 de Maio] Alvará facultando o descobrimento de quaisquer minas na
América.
[24 de Maio] Concedidos privilégios a Manuel Leitão de Oliveira para o
estabelecimento de uma refinaria de açúcar em Lisboa.
[28 de Junho] Decreto que providencia «a bem do bom fabrico» do tabaco.

(Legenda: Padre Teodoro de Almeida (Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do


Tombo).

[163]

[30 de Junho] Decreto que manda fabricar a pólvora por conta da Fazenda
real.
[4 de Julho] Naus de guerra zarpam de Lisboa para dar caça aos corsários
barbarescos.
[11 de Agosto] Alvará estabelecendo o monopólio régio para os diamantes
do Brasil.
[23 de Agosto] Extinção dos executores dos Contos do Reino.
[2 de Outubro] Alvará contra a feitura ou publicação de sátiras ou libelos
famosos.
[19 de Novembro] Proibição aos estrangeiros de andarem a vender pelas
ruas.
[31 de Dezembro] Morre Alexandre de Gusmão, principal inspirador e
definidor da política externa portuguesa entre 1735 e 1750.
A ilha do Príncipe é incorporada nos bens da coroa, por aquisição feita ao
seu donatário.
Restabelecimento da capitania de Bissau.
Polémica sobre a definibilidade do mistério da Conceição de Maria.
Catecismo Histórico, do padre José de Mesquita e Quadros.
Fundação, Antiguidade e Grandeza da Mui Insígne Cidade de Lisboa, por
Luís Marinho de Azevedo.
Cláudio Manuel da Costa: Labirinto de Amor.
Começa a tomar vulto a Escola de Escultura de Mafra.

1754
[14 de Janeiro] Decreto que cria, na Universidade de Coimbra, a cadeira de
Controvérsias.
[Janeiro] Religiosos da Ordem da Santíssima Trindade vão a Argel resgatar
cativos.
[28 de Março] Provisão que manda reunir uma colecção completa de todas
as leis e ordens expedidas para o Brasil.
[26 de Maio] Resolução permitindo o jogo das cartas e proibindo devassas
das casas de jogo.
[Junho] Representação no teatro da corte, da ópera L‘ Eroe Cinese,
musicada por Pietro Metastasio.
[9 de Julho] Lei que proíbe a venda de pólvora em casas particulares.
[14 de Agosto] Morre Dona Maria Ana de Áustria, viúva de D. João V.
[9 de Novembro] Alvará sobre a posse dos morgados.
[20 de Novembro] Regimento do Conselho da Fazenda.
O Bom Gosto Refinado na Recriação e na Utilidade, de Félix José da
Costa.
Inicia-se a construção da Torre dos Clérigos.

1755
[10 de Janeiro] Decreta-se o comércio franco em Moçambique.
[15 de Janeiro] Alvará que procura regularizar a partida, torna-viagem e
carregação das frotas do Brasil.
[18 de Fevereiro] Destruída por um incêndio a Rua do Príncipe, nas
cercanias do Terreiro do Paço.
[Fevereiro] Criação de grande número de igrejas no Brasil.
[Março] Criação da capitania do Rio Negro.
[4 de Abril] Alvará que declara isentos de qualquer infâmia quantos
casassem com índias da América.
[Maio] Instituída no Porto a Ordem Terceira da Trindade.
[6 de Junho] Lei que restitui aos índios do estado do Grão-Pará e
Maranhão a liberdade das suas pessoas e bens.
[7 de Junho] Criação da Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão.
(Estabelecimento da Companhia por Alvará de 30/10/1756.)
[30 de Setembro] Abolida a Mesa do Bem Comum e restabelecida a Junta
do

[164]
Comércio (que aquela havia substituído). A Junta é um organismo semioficial, que
congrega os interesses do Estado e dos negociantes mais influentes e abastados.
Destinada, essencialmente, a coordenar o fomento industrial.
[1 de Novembro] (Dia de Todos-os-Santos) Regista-se em Lisboa, pelas
9.30 da manhã, um intenso terramoto. A «maior catástrofe» do século, com
manifestos reflexos políticos, económicos e culturais, vai dar a Carvalho e Melo a
oportunidade de mostrar a sua capacidade dirigente e eficiência executiva; a
maneira como enfrenta a situação decorrente da catástrofe vai fazer dele o
homem forte do rei.
[2 de Novembro] Consulta de Carvalho e Melo ao cardeal-patriarca sobre o
destino a dar aos corpos que jaziam nas ruas de Lisboa.
[4 de Novembro] Decreto que obriga os mercadores a um donativo de 4 por
cento sobre os direitos aduaneiros que se cobravam pelas mercadorias
importadas.
Decreto que estabelece a forma de processar os crimes por furto.
Decreto contra os vadios e ociosos.
[6 de Novembro] Aviso que ordena que as forcas, para a execução dos
réus dos roubos, fossem altas quanto possível, «ficando eles nelas até o tempo os
consumir».
[7 de Novembro] Portaria a convocar a «Casa do 24» para os mesteres
concorrerem nas obras de misericórdia.
[8 de Novembro] Novo tremor de terra. (Repete-se 3 dias depois.)
Ordenam-se preces públicas no reino por causa dos sismos.
[14 de Novembro] Alvará que determina a reconstrução da Ribeira das
Naus.
[29 de Novembro] Decreto para se proceder à medição e tombo das
praças, ruas, edifícios, etc., da zona arruinada de Lisboa (para evitar futuros
pleitos aquando da reedificação da cidade).
[1 de Dezembro] Aviso para não se alterarem os preços dos materiais e
ordenados dos artífices nas obras dos prédios de Lisboa.
[5 de Dezembro] Ordenada a visita geral a todas as embarcações surtas no
Tejo, para
(Legenda: Terramoto: ruínas da Casa da Ópera, em Lisboa.)

[165]

detectar embarques de mercadorias furtadas.


[8 de Dezembro] Carta de Luís XV para D. José, significando-lhe a mágoa
pelo terramoto.
[24 de Dezembro] Manuel da Maia, engenheiro-mor do reino, apresenta o
seu primeiro plano para a reconstrução de Lisboa.
Incentivada a colonização na zona da foz do Amazonas.
A Casa do Risco de Lisboa substitui a Aula do Paço da Ribeira.
Cartas Filológicas, de Francisco de Pina e Melo.
Palácio dos marqueses de Castelo Melhor (hoje Palácio Foz), Lisboa.
Abre ao culto a Capela da Lapa, Porto.

1756
[Fevereiro] Derrota dos índios que se opõem à demarcação fronteiriça dos
domínio luso-espanhóis e submissão dos que se opunham à reinstalação em
outras áreas.
[15 de Maio] Os ciganos são obrigados, por Aviso, a servir nas obras
públicas de Lisboa.
[15 de Junho] Decreta-se que nenhum rural pode exigir salário superior ao
percebido no ano anterior.
Derrota dos Portugueses em Goa pelos Maratas. D. Luís de Mascarenhas,
46.º vice-rei da Índia, morre em combate (26/06) contra o rei de Sunda em Ponda.
[16 de Julho] Alvará que cria a Companhia Geral da Agricultura das vinhas
do Alto Douro. Estatutos da Companhia (31/08). Para se obter capital para a sua
fundação, ordena-se que o dinheiro dos cofres da Casa de Relação do Porto seja
dado a juros (Carta régia de 29/09).
[17 de Agosto] Decreto que condena os implicados numa conjura contra
Carvalho e Melo.
[30 de Agosto] O secretário de Estado, Diogo de Mendonça Corte-Real,
caído em desgraça, é degredado.
Sebastião de Carvalho e Melo deixa a Secretaria dos Negócios
Estrangeiros e da Guerra e assume (31/08) a dos Negócios do Reino. (D. Luís da
Cunha Manuel havia sido nomeado, em Maio, para a «pasta» dos Negócios
Estrangeiros.)
[30 de Novembro] Alvará que permite o estabelecimento de uma fábrica de
cal em Lisboa, propriedade de Guilherme Stephen.
Criação da Companhia de Pesca da Baleia.
Relatório de Francisco de Assis Pacheco de Sampaio, relatando a sua
enviatura à China (no ano de 1752).
Canonização da princesa Joana.
Fundação da Arcádia Lusitana ou Olisiponense.
António Ribeiro Sanches: Origem da Denominação de Cristão-Velho e
Cristão-Novo em Portugal; Tratado da Conservação da Saúde dos Povos.
Dissertação Filisófica sobre o Terramoto de Portugal do 1.º de Novembro
de 1755 [...], de Veríssimo Moreira de Mendonça.
Vida do Infante D. Henrique, de Francisco José Freire.
Eusébio da Veiga: Planetário Lusitano para o Ano de 1757.

1757
[5 de Janeiro] Alvará concedendo aos funcionários do Estado «inteira
liberdade» para participarem nos negócios das Companhias privilegiadas.
[5 de Janeiro] Decreto que ordena a mudança da fábrica de pólvora da
Ribeira de Alcântara (Lisboa), para a de Barcarena.
Extinção das diversas tesourarias (em Lisboa); os seus depósitos devem
transitar para o Depósito Público (Alvará de 13 de Janeiro). São acoplados à
«Junta de Administração dos Depósitos Públicos...»
[17 de Fevereiro] Decreto que estabelece uma fábrica de cal em Lisboa,
propriedade régia.
[20 de Fevereiro] Lei que concede privilégios aos criadores de bichos-da-
seda.

[166]

[Fevereiro] Tumultos no Porto, contra a Companhia Geral da Agricultura


das Vinhas do Alto Douro.
[2 de Abril] Decreto que obriga a por a indicação de origem a todas as
peças de seda fabricadas no reino.
[4 de Maio] Considerados nulos os depósitos feitos a particulares.
[12 de Maio] Alvará que determina a abertura de mais fábricas de cal, tijolo,
telha e madeira (para incrementar a construção civil).
[Julho] Primeira sessão da Arcádia Lusitana.
[6 de Julho] Alvará confirmando os estatutos da Real Fábrica de Sedas do
Rato.
[Agosto] Iniciada a mudança da Torre do Tombo do Castelo de S. Jorge
para o Mosteiro de S. Bento da Saúde. (Só é aqui, definitivamente instalada em
1862.)
[30 de Agosto] Alvará que providencia para se manter a qualidade da
produção vinícola do Douro.
[14 de Outubro] Execução, no Porto, de 17 implicados na revolta contra a
Companhia das Vinhas do Alto Douro.
[24 de Outubro] As peças de seda fabricadas no reino ficam livres de
direitos e devem ser seladas nas alfândegas.
[3 de Novembro] Alvará relativo à enfiteuse: os arredondamentos por dez
anos (ou mais) deixariam de provocar transferência do domínio útil.
[10 de Novembro] Alvará que aplica severas medidas para combater o
contrabando.
[13 de Dezembro] Estatutos dos mercadores de retalho.

(Legenda: Marquês de Pombal (Lisboa, Museu da Cidade.)

1758
[11 de Janeiro] Alvará que declara a liberdade de comércio com Angola.
[26 de Janeiro] Alvará fixando os direitos a pagar pelos escravos: 8700 réis
se tiverem a altura de 4 palmos craveiros e 4350 réis se não atingirem tal medida.
[1 de Fevereiro] Determina-se a construção de 6 faróis nas costas do reino.
[20 de Março] Carta régia que declara os

[167]

«chins» livres e hábeis para os empregos públicos.


[8 de Abril] Decreto proibindo a sola e atanados fabricados fora do reino.
[Maio] São dadas como provadas as acusações de Pombal contra a
Companhia de Jesus.
[8 de Maio] Alvará declarando livres todos os índios do Brasil.
[12 de Maio] Alvará que regula a reedificação da cidade de Lisboa.
[15 de Julho] Regulamento da Casa de Seguros de Lisboa.
[29 de Julho] Alvará que proíbe qualquer actividade comercial aos
empregados e assalariados da Companhia do Grão-Pará e Maranhão.
[27 de Agosto] Morte de Dona Maria Bárbara (filha de D. João V), rainha de
Espanha.
[3 de Setembro] Atentado contra D. José. O atentado vai propiciar o
exacerbamento do regalismo. Sacralizada a pessoa do monarca, são
considerados sacrílegos quaisquer crítica ou atentado que lhe sejam dirigidos.
[3 de Outubro] Alvará acerca dos direitos dos quintos.
[Dezembro] Prisão dos Távoras acusados de estarem implicados no
atentado e início dos interrogatórios dos presumíveis réus.
[22 de Dezembro] Iniciadas as buscas nas casas da Companhia de Jesus
(em resultado do atentado ao monarca).
Início da segunda fase das obras do Palácio de Queluz (por acção de D.
Pedro, irmão do rei).

(Legenda: O papa Clemente (XIV).)

1759
[Janeiro] Prisão de diversos jesuítas, entre os quais o padre Gabriel
Malagrida.
[13 de Janeiro] Os Távoras e o duque de Aveiro são executados em
Lisboa. São-lhes confiscados os bens. A inusitada violência do suplício imposto
aos sentenciados (em particular aos Távoras) suscitou vivas reacções na Europa
ilustrada. (Marca decisivamente as representações construídas pela posteridade
sobre o período pombalino.)
[19 de Janeiro] Ordem para sequestrar todos os bens móveis e de raiz,
rendas, pensões, etc., dos padres da Companhia de Jesus.
[Março] Fundação da Real Fábrica de Chapéus de Tomar.
[11 de Abril] Elevação da vila de Aveiro à categoria de cidade.
Início da reforma do ensino: instituição da Aula do Comércio (estatuto de
19 de Abril).
[28 de Junho] Alvará que cria a instrução secundária do Estado. Extintas as
escolas reguladas pelo método inaciano.
[28 de Junho] Alvará que proíbe de imediato o uso De Institutione
Grammatica Libri Tres, a célebre Arte, do padre Manuel Alves.
[Junho] Os jesuítas são suspensos de confessar e pregar.
[Junho] Sebastião José de Carvalho e Melo é agraciado com o título de
conde de Oeiras.
[Junho] Funda-se a Academia Brasílica dos Renascidos (S. Salvador da
Baía). Extinta em fins de Novembro.
[5 de Julho] Morre D. António Caetano de Sousa.

[168]

[19 de Julho] Francisco de Xavier de Mendonça Furtado (irmão de


Sebastião de Carvalho e Melo) é nomeado secretário de Estado adjunto da pasta
do reino.
[29 de Agosto] Resolução que nomeia professores régios.
[3 de Setembro] Decreto que expulsa a Companhia de Jesus de Portugal e
seus domínios (no 1.º aniversário sobre a tentativa de regicídio).
[3 de Setembro] Lançada a primeira pedra da Igreja da Memória em Lisboa
(assinalando o atentado contra D. José).
[5 de Outubro] Pastoral do cardeal de Lisboa sobre a extinção da
Companhia.
Criação da Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba.
Extinta a Universidade de Évora.
A Conquista de Goa por Afonso de Albuquerque (poema épico), por
Francisco de Pina e Melo.
Breve Instrucçam para Ensignar a Doutrina Christãa, Ler e Escrever aos
Meninos (ainda o catecismo como texto para aprender).
Ribeiro Sanches: Cartas sobre a Educação da Mocidade.
Demarcação da Praça do Rossio em Lisboa; instruções para a sua
reedificação.

1760
[25 de Janeiro] Alvará que regula os direitos e o frete a cobrar, por cada
escravo saído de Angola.
[Junho] Casamento da futura rainha D. Maria com seu tio (o infante D.
Pedro).
[25 de Julho] Decreto que cria «a Intendência-Geral da Polícia da Corte e
do Reino». Além dos Serviços Centrais, a Intendência funcionava, em Lisboa,
com a «Guarda Real da Polícia» e o «Comissário da Polícia». Órgão criado pelo
absolutismo pombalino, «com ampla e ilimitada jurisdição na matéria da mesma
Polícia...» Com a sua criação dá-se uma «desconcentração» entre a função
judicial e a função policial. Aspectos mais inovadores: a prevenção da
criminalidade, a que se vai juntar a preocupação com medidas de política
demográfica.
[15 de Julho] Expulsão do núncio apostólico e corte de relações com a
Santa Sé.

(Legenda: Suplício dos Távoras, aguarela de Alberto de Sousa, a partir da gravura


contemporânea.)

[169]

[22 de Julho] Retoma a publicação a Gazeta de Lisboa.


[Julho] Encerramento da Academia de Portugal em Roma.
[Agosto] Morre Eugênio dos Santos (um dos arquitectos da Lisboa
pombalina).
[5 de Outubro] Isenção de impostos sobre peles e couros fabricados no
reino.
[18 de Outubro] Regimento dos juÍzes executores e oficiais da Fazenda
real.
[18 de Outubro] Tratado de paz entre o vice-rei da índia e o rei de Sunda.
[5 de Novembro] Distribuição dos mesteres pelos respectivos arruamentos
da Baixa lisboeta.
[16 de Dezembro] Alvará que faculta à Companhia de Vinhos do Alto Douro
o estabelecimento de fábricas de aguardente.
Provável introdução da batata em Portugal neste ano.
História Universal Antiga e Moderna, pelo padre João Baptista de Castro.
Arte de dançar à francesa (tradução do francês), por José Tomás Cabreira.
(«A maneira de fazer francesa é um referente de moda» essencial na 1.ª metade
do século XVIII).

1761
[9 de Fevereiro] Alvará incentivando a criação de manufacturas de
picheleiros e «de latoeiros de lima».
[12 de Fevereiro] Tratado do Pardo, entre D. José e Carlos III de Espanha.
Anula o Tratado de Madrid de 1750.
[7 de Março] Criado o Colégio Real dos Nobres. (Aberto 5 anos depois.)
[2 de Abril] Alvará que equipara os cristãos da índia aos naturais do reino.
[2 de Abril] Alvará que determina a total liberdade para os índios do Brasil.
[18 de Abril] Cessa o monopólio do fabrico e venda dos produtos pelas
corporações.
[4 de Maio] Decreto que isenta de direitos o café.
[Junho] Proibida a cultura da cana-sacarina no Maranhão.

(Legenda: António Ribeiro Sanches.)

[Junho] Criação da capitania de S. José do Piauí (Brasil).


[19 de Setembro] Alvará que proíbe o carregamento e transporte para
Portugal de escravos dos portos do Brasil, África e Ásia.
Abolição do tráfico da escravatura na metrópole: declarados libertos e
forros os escravos que entrarem em Portugal. (Pretendia-se que os escravos
negros não saíssem do Brasil.)
[21 de Setembro] Auto-de-fé no Rossio: executado o padre Malagrida com
mais 56 sentenciados.
[13 de Novembro] Edital que providencia a bem da pureza dos vinhos de
exportação.
[17 de Novembro] Edital que cria em Luanda uma Alfândega (para
cobrança dos direitos que cabiam à corte).
[17 de Novembro] Decreto que obriga as embarcações que voltam da India
a fazer escala em Angola.
[22 de Novembro] Lei que tenta pôr cobro ao «reconhecimento» do direito
dos filhos aos ofícios dos pais.

[170]
[25 de Dezembro] Lei que incorpora na coroa os bens seculares dos
jesuítas.
Grande reforma da administração financeira. Criados os cargos de
tesoureiro-mor e de inspector-geral do Tesouro. Criação do «Erário Régio» (Carta
de Lei de 22/12) – extintos o cargo de contador-mor e os Contos do Reino –
dirigido por um presidente que acumulava com as funções de inspector-geral (o
próprio marquês de pombal exerceu ambos os cargos até 1777). A instauração da
unidade orçamental contabilística manifesta um novo sentido da unidade do
poder.
Estabelecimento da aula de Retórica na Universidade de Coimbra.
Publica-se a Gazeta Literária ou Notícia Exacta dos Principais Escritos que
Modernamente se vão Publicando na Europa.
Postilhão de Apolo (recolhe composições de Seiscentos e Setecentos).
Gertrudes Margarida de Jesus: Primeira Carta Apologética em Favor e
Defesa das Mulheres.

1762
[2 de Abril] Alvará que proíbe a utilização, em Lisboa, de carruagens de
mais de duas bestas.
[16 de Março, 1 e 23 de Abril] Pró-memórias: a Espanha e a França
pressionam o governo português para aderir ao Pacto de família (assinado em
1761) e envolvê-lo na luta contra a Grã-Bretanha. O governo português mantém a
neutralidade. A guerra é inevitável.
[Abril] Decretos que mandam aumentar o número de tropas nos regimentos
de infantaria, cavalaria e outros.
[Abril, Maio, Junho] Início das hostilidades com retirada de embaixadores
dos respectivos países (Portugal, Espanha e França); interrupção das relações e
declarações de guerra.
«Guerra fantástica» com a Espanha. São ocupadas, entre outras, as
praças de: Vimioso (Maio); Miranda do Douro (Maio), após violenta explosão do
paiol que destrói boa parte do núcleo urbano; Castelo Rodrigo e Almeida (Agosto);
Burgoyne, chefiando tropas luso-britânicas, passa o Tejo e ataca Valência
(Agosto).
[Abril, Setembro, Outubro e Dezembro] Legislação que relança a décima
em substituição do imposto dos 4,5 por cento, por motivo da chamada «guerra
fantástica». Os próprios eclesiásticos ficam obrigados (são isentos em 1777 e
voltam a pagá-la em 1796).
[Julho] O conde de Lippe é nomeado marechal-general do exército
português. Reformulação «estatizante e autoritária» do aparelho militar com a
acção do conde de Lippe.
Forças espanholas põem cerco à colónia do Sacramento que se rende, em
fins de Outubro, às forças de Pedro de Cevallos.
[30 de Novembro] Armistício entre os exércitos de Portugal e Espanha.
Suspensa a Gazeta de Lisboa. (Volta a publicar-se 15 anos depois.)
Frei Sebastião de Santo António: Conversações Familiares sobre a
Eloquência do Púlpito.
Memórias Cronológicas e Críticas para a História da Cirurgia Moderna, de
M. Lima Bezerra.
Inauguração, no Porto, do 1.º teatro lírico da cidade.

1763
[Janeiro] O Brasil é elevado a vice-reino; a capital é transferida de S.
Salvador da Baía para o Rio de Janeiro.
[10 de Fevereiro] Tratado de Paris. Adesão de D. José ao tratado definitivo
entre a França, Inglaterra e Espanha que põe termo à guerra do «Pacto de
Família». A Espanha restitui a colónia do Sacramento e todas as praças tomadas
na guerra.
[Setembro] Morre o arquitecto Carlos Mardel.
[24 de Outubro] Edital que manda demolir todas as barracas de madeira e
de pano, levantadas em Lisboa após o terramoto.
[Dezembro] Publica-se o Hebdomadário Lisbonense, Papel Curioso,
Noticioso, Útil e de Notícias Públicas.

[171]

Destruição da ponte romana de Amarante.


Conclusão das obras da Igreja dos Clérigos, Porto.
Inicia-se uma grave crise económica (que se prolonga até 1770).
As casas das ordens religiosas, já expulsos os jesuítas, ascendem a 538
(407 masculinas e 131 femininas).
Ribeiro Sanches: Método para Aprender a Estudar Medicina (Paris);
Discurso sobre a América Portuguesa.

1764
[Março] Criação do Arsenal Real do Exército.
(Legenda: Conde de Lippe (Lisboa, Banco de Portugal).)

[31 de Maio] Deflagra violento incêndio na Alfândega de Lisboa.


Intensificação do fomento da indústria. Criação de uma fábrica de cutelaria
em Lisboa (Junho).
[Julho] Iniciam-se obras de fortificação da praça de Almeida.
[30 de Setembro] Medidas legislativas contra o contrabando.
Criação de fábricas de pentes, marfim, caixas de papelão, verniz e lacre
(Outubro).
Alvará que autoriza João Baptista Locatelli a estabelecer uma fábrica de
grude em Lisboa (24 de Dezembro).
Publica-se em Lisboa o Diário Universal de Medicina, Cirurgia e Farmácia.
Extinção da Arcádia Lusitana.

1765
[1 de Janeiro] Tremor de terra em Lisboa. (A 13/9 sente-se, novamente, um
fraco tremor.)
[2 de Janeiro] Alvará que manda concretizar o plano que cria o Terreiro
Público (área para abastecimento da população na Ribeira de Lisboa).
[13 de Março] Criação de fábricas de relógios.
[6 de Abril] Lei que reinvoca o princípio do beneplácito régio, para impedir
em Portugal os efeitos do breve Apostolicum Pascendi, pelo qual o papa
confirmava de novo o instituto da Companhia de Jesus.
[27 de Julho] Regimento das Lezírias e Pauis.
[10 de Setembro] Alvará que abole as frotas e esquadras para o Rio de
Janeiro e Baía; franqueada a liberdade de comércio com todos os domínios.
[Outubro] Mandadas arrancar as vinhas dos campos do Tejo, Mondego e
Vouga.
[16 de Dezembro] Criação de fábricas de serralharia.
[20 de Dezembro] Decreto que termina com o monopólio do sabão e
estabelece condições para a administração das saboarias por conta do Estado.

[172]

Doctrina veteris Ecclesia de supremo regum in clericos potestate [...], de


António Pereira de Figueiredo. (Obra apologética da corrente regalista «que
desemboca no princípio das igrejas nacionais», que pauta, em parte, a política
pombalina.)
Lançada a 1.ª pedra da Cadeia e Tribunal da Relação do Porto.
Conclusão do Real Colégio de S. Paulo, em Coimbra.
Conclusão da parte central do Seminário Maior (Coimbra).

1766 - Procede-se ao arranque de vinhas (para a cultura do pão). Pombal tende a


acusar a vinha de se expandir à custa das terras de cereal. (Sabe-se, hoje em dia,
que a expansão da vinha, no século XVIII, se realizou, de uma forma geral, à
custa de terrenos virgens ou da intensificação policultural).
[19 de Fevereiro] Abertura solene do Real Colégio dos Nobres.
[25 de Junho] Carta de lei limitadora do direito de testar. Protecção aos
herdeiros legítimos contra as «fraudulentas e ímpias negociações dos
testamentos».
[3 de Julho] Alvará que determina sobre a forma de proceder aos
aforamentos dos baldios a bem dos concelhos. Transfere para as câmaras, nos
concelhos onde os donatários não tinham o direito de os aforar, maninhos e
logradouros comuns. Exige-se consulta à Mesa do Desembargo do Paço para
fazer novos aforamentos de baldios, a fim de evitar abusos e «compadrios» nos
aforamentos (que eram feitos por pensões diminutas).
[30 de Junho] Carta régia que proíbe, no Brasil, as indústrias de ourives,
fiadores de ouro, de sedas e algodões tecidos.
[2 de Agosto] Decreto que extingue as capitanias dos Açores; passam a ser
governadas por um capitão-general.
[22 de Agosto] Alvará, concedido a Augusto Ludovico Thymme, para a
criação, em Lisboa, de uma fábrica de folhetas para cravação de diamantes.
[14 de Outubro] Alvará estabelecendo as formas como os donatários
deverão requerer cartas de confirmação das doações dos bens da coroa.
[23 de Dezembro] Alvará que determina que sejam incorporadas na coroa
todas as saboarias do reino. O conde Castelo Melhor, que perde o monopólio, é
compensado com o título de marquês e importantes bens fundiários.
Tentativa Teológica, do padre António Pereira de Figueiredo.
Ribeiro Sanches redige (o manuscrito) Moyens pour conserver le
commerce déja établi en Russie et pour le faire fleurir à perpetuité.
Igreja de S. Francisco de Assis em Ouro Preto (traça do Aleijadinho).

1767 - Inicia-se a exportação do algodão brasileiro para Inglaterra.


[28 de Abril] Provisão régia que reitera a obrigatoriedade do plantio da
mandioca nas fazendas do Brasil, em função do número dos respectivos
trabalhadores.
[7 de Agosto] Alvará que concede privilégios aos directores da Real Fábrica
de Chapéus de Pombal para aquisição de matérias-primas.
[Novembro] Providências sobre o serviço dos aguadeiros de Lisboa.
Breve A quo die do papa Clemente XIII, com vista ao reatamento de
relações com Portugal.
Tratado de Ortografia, de Frei Luís de Monte Carmelo.
Portugal Sacro e Profano (1767-68), de Paulo Dias de Niza (aliás Padre
Luís Cardoso). Não passa de uma lista alfabética de freguesias. (Dados alusivos a
1760.)

1768
[5 de Fevereiro] Criada em Lisboa, a Real Mesa Censória, por iniciativa de
Carvalho e Melo. Retirava à Inquisição os poderes do exame prévio e de censura
dos livros. Aglutina todos os órgãos de censura existentes. Clara separação entre
o domínio secular e eclesiástico: no que respeita à matéria episcopal e pontifícia
ficaram as inspecções

[173]

a cargo do Santo Ofício, arcebispos e bispos e para o Desembargo do Paço


ficaram as matérias de autoridade régia (Carta de lei de 17/12).
[Agosto] Queimadas, em praça pública, muitas fazendas de contrabando,
por mandado da Junta do Comércio.
[24 de Dezembro] Alvará que institui a Impressão Régia ou Régia Oficina
Tipográfica.
Decreto que obriga os sucessores das «casas puritanas» a casar-se fora
do grupo. (O grupo puritano da nobreza da corte excluía as outras casas de
grandes das suas alianças.)
Transferência para Díli da capital de Timor.
Proíbe-se a publicação e divulgação das profecias de Bandarra.
Inicia-se a publicação de Dedução Chronologica e Analytica, de José
Seabra da Silva. Repositório da teoria política do absolutismo iluminista
português. Reafirmação do regalismo. Demonstram-se, ainda, os «horrorosos
estragos» que a Companhia de Jesus em Portugal e seus domínios.
A população portuguesa é calculada em 2 400 000 habitantes.

1769
[23 de Janeiro] Decreto que cria, em Pombal, uma fábrica de chapéus finos
de propriedade régia.
[Março] Abandonada a praça de Mazagão. (A população vai para o Brasil,
onde funda a colónia de Vila Nova de Mazagão.)
[5 de Abril] Decreto que atribui a censura dos livros, retirada à Inquisição, à
competência da Real Mesa Censória.
[5 de Maio] Decreto autorizando o estabelecimento, na Lousã, de uma
fábrica de papel de escrever.
[6 de Maio] Alvará que cria a Junta das Confirmações. Ao sujeitar os ofícios
a confirmação régia são os mesmos considerados como bens da coroa e
insusceptíveis de apropriação patrimonial. Medida de indesmentível significado
político. (Prosseguida pela Lei da «Boa Razão» e pela Carta de lei sobre o
provimento dos ofícios de 23/11/1770).
Legislação sobre a enfiteuse: alvará régio (12 de Maio) que combate a
consolidação dos prazos das igrejas.
[20 de Maio] Alvará que declara a Inquisição como Tribunal Régio.
[8 de Junho] Alvará que cria uma fábrica de louça fina em Lisboa.
[7 de Julho] Alvará que concede a Guilherme Stephens, um subsídio para o
estabelecimento da Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande.
[17 de Julho] Alvará para protecção dos sapais e marinhas de Tavira.
[18 de Julho] Lei da Boa Razão. Derroga grande parte do «velho» direito
português. Deixa de ter fundamento jurídico o direito consuetudinário; acaba com
a relevância do direito canónico nos tribunais civis. Reduz, ainda, o domínio de
aplicação do direito romano. Visa-se pôr fim à «precedência (prática) da doutrina
e da jurisprudência sobre a lei do soberano».
[31 de Julho] Alvará que cria uma fábrica, em Lisboa, de cartas de jogar
(pertença do monarca).
[26 de Agosto] Francisco de Castro é autorizado a estabelecer uma fábrica
de tecidos de linho em Abrantes.
Fundação da Fábrica de chapéus de Elvas.
[Setembro] Trégua luso-marroquina.
Carta de lei (9 de Setembro) que sanciona o direito de renovação pela
chamada equidade bartolina.
[Outubro] Nomeação do 1.º cônsul-geral da Rússia em Lisboa.
[16 de Outubro] Concessão do título de marquês ao conde de Oeiras.
[17 de Outubro] Decreto que estipula penas para os atravessadores de
vinho.
[26 de Outubro] Alvará que proíbe as devassas sobre os concubinatos.

[174]

[3 de Dezembro] O rei é agredido por um demente (com «duas pauladas»),


em Vila Viçosa.
Inicia-se a construção da Igreja dos Mártires, em Lisboa (projecto de
Reinaldo Manuel dos Santos).
Demonstração Teológica, do padre António Pereira de Figueiredo.
Instrução sobre a Cultura das Amoreiras e Criação dos Bichos-da-Seda, de
Rafael Bluteau.

(Legenda: Eugénio dos Santos (Lisboa, Banco de Portugal).)

1770
[4 de Janeiro] Martinho de Melo e Castro assume a Secretaria de Estado
da Marinha e Domínio Ultramarinos (por morte, a 05/11/69, do irmão do marquês
de Pombal, titular do cargo).
[Janeiro] A Casa da Rainha fica sob a administração do Erário Régio.
[7 de Abril] Licença para a fundação, no Porto, de uma refinaria de açúcar
(propriedade de João Batalha Freire).
[19 de Maio] Autorização para o estabelecimento de uma fábrica de
camurça, pelicas e pergaminhos (em Trancão).
[Maio] Restabelecimento das relações diplomáticas com a Santa Sé: chega
a Lisboa o núncio apostólico, Innocêncio Conti.
[Julho] Breve de Clemente XIV suprimindo, em Portugal, os mosteiros dos
cónegos regulares de Santo Agostinho.
[13 de Julho] Morre Domingos dos Reis Quita (poeta bucólico).
[3 de Agosto e 9 de Setembro] Leis sobre o morgadio: impõem um
equilibrado respeito pelos direitos naturais de todos os filhos à herança;
concretizam as condições juridicamente necessárias para a subsistência dos
morgados anteriores e instituição de novos morgados.
Clemente XIV cria várias dioceses.
[Agosto] Pinhel é elevada a cidade.
[30 de Agosto] Carta de lei que determina a inscrição de todos os
comerciantes de Lisboa na Junta do Comércio.
[6 de Outubro] Edital da Real Mesa Censória, proibindo inúmeras obras
literárias.
[12 de Outubro] Criação de uma fábrica régia de pentes de marfim em
Lisboa (cuja propriedade passará depois para Gabriel da Cruz).
[23 de Outubro] Lei que diz que os cargos da República nada mais são que
«uma comissão simples e precária do Príncipe...»
[7 de Novembro] Proibida a importação de louça estrangeira. Excepção
para a da índia, quando transportada em navios portugueses.
Legislação sobre o provimento e serventia dos ofícios. Proibida a
transmissão de empregos por herança (alvará de 23 de Novembro).
[27 de Novembro] Descoberta de um grupo de franco-mações na ilha da
Madeira (informação do governador do Funchal).
[10 de Dezembro] Proibição de importação de chapéus estrangeiros.
[23 de Dezembro] Criada a Junta de Providência Literária.
A Real Fábrica das Sedas é encarregada de fomentar a cultura de
amoreiras.
Declaração do comércio como profissão «nobre, necessária e proveitosa».

[175]

Sobre a Utilidade dos Jardins Botânicos, de Domingos Vandelli.


Rimas, de João Xavier de Matos.
De Frei Manuel do Cenáculo: Memórias Históricas do Ministério do Púlpito.
De Sacerdotio et Imperio [...], de António Ribeiro dos Santos (Afirmação de
concepções regalistas. Nesta obra e na Dedução Chronologica contém-se a ideia
da unidade do Poder: o soberano é a única fonte de direito, o poder absoluto não
pode ser cerceado pelos privilégios; constituição de um «núcleo duro» de poderes
inseparáveis da pessoa do rei.)
Execução da estátua equestre de D. José I.

1771
[26 de Janeiro] Alvará que constitui os Açores como província de Portugal.
[3 de Fevereiro] Auto-de-fé em Goa com 91 sentenciados.
[25 de Fevereiro] Extinta a Feitoria de Linhos.
[9 de Abril] Preso, no Limoeiro, o poeta Pedro Correia Garção.
[Junho] Clemente XIV concede novamente a bula de Cruzada (publicada
em Novembro de 1772).
[Junho] Criação da Cordoaria Nacional.
[4 de Junho] O Ensino passa a depender da Real Mesa Censória.
[12 de Julho] Criada, em Lisboa, a Inspecção Geral dos Diamantes. A
coroa fica com o contrato exclusivo da sua exploração (Regimento de 02/08).
[Julho] Regulamento dos teatros.
[Agosto] Apresenta-se ao monarca o parecer da Junta da Providência
Literária, acerca do estado das Artes e Ciências no reino.
[6 de Setembro] Apedrejada a carruagem do marquês de Pombal, à saída
do paço. O autor do «crime» é imediatamente detido.
[22 de Outubro] Alvará que autoriza a criação de uma fábrica de chapéus
finos, no Porto.
[14 de Dezembro] Edital proibindo 72 obras latinas e portuguesas.
[16 de Dezembro] Criação da Superintendência dos contrabandos.
(Ampliadas as suas atribuições em 1773 e 1774).
[16 de Dezembro] Criação do cargo de conservador dos privilegiados.
Figueira da Foz é promovida a vila; Castelo Branco recebe o título de
cidade.
Início da construção da Real Fábrica de Lanifícios de Portalegre.
Isenção de direitos para os chapéus fabricados no reino e seus domínios;
os privilégios concedidos à fábrica de Pombal são estendidos às restantes
fábricas de chapéus.
Legislação relativa à libertação de escravos negros.
Hissope (manuscrito), de Cruz e Silva.
António José dos Reis Lobato, Arte da Grammatica de Língua Portuguesa
(oficialmente adoptada para a aprendizagem da leitura e da escrita).

1771-1777

Medidas pombalinas que levam à abolição de cerca de 15 000 vínculos


«insignificantes» (isto é, de baixo rendimento). Suspensas, em 1777, por nova
legislação de D. Maria.

1772
[13 de Março] Alvará sobre as causas da decadência do Colégio dos
Nobres.
[5, 8 e 10 de Abril] Tremores de terra em Lisboa. Não causam danos.
[17 de Maio] Sublevação dos negros e habitantes das plantações do
Maranhão.
[Junho] Chega a Lisboa a «Nau dos Quintos» (com 7,5 milhões de
cruzados e um cofre de diamantes, avaliado em 1,5 milhões de cruzados).
[10 de Junho] Alvará que concede a Pietro Schiappa, uma fábrica de
serralharia, a fundar em Pernes.
[Agosto] Novos Estatutos da Universidade de Coimbra conhecidos por
«pombalinos» (12 de Agosto). Pode falar-se num

[176]

ousado projecto de refundação da Universidade.


[10 de Agosto] Morre Diogo Barbosa de Machado.
[18 de Agosto] Estatutos do Colégio Real de Mafra.
[20 de Agosto] Decreto que separa o Maranhão, uma vez mais, da
capitania do Pará.
[Setembro] Francisco de Lemos recebe a mercê do cargo de reformador da
Universidade e reitor (pelo período de três anos). O marquês de Pombal,
nomeado plenipotenciário e lugar-tenente da Universidade, permanece em
Coimbra (de 22/09 a 24/10) para inspeccionar as realidades académicas e fazer
entrega dos novos estatutos.
[1 de Setembro] Reforma da Inquisição.
[10 de Setembro] Instituição do Subsídio Literário. Imposto sobre o
consumo: imposição de 1 real por canada de vinho, 4 réis pela de aguardente,
160 réis pela pipa de vinagre. (Substitui as colectas do cabeção das sisas,
destinadas aos mestres de ler e escrever, de solfa e gramática).
Autorizada a criação, no Porto, de uma fábrica de chapéus finos e de uma
outra, em Lisboa, propriedade de Gabriel Millet (15/09).
[Outubro] Incorporação do Colégio das Artes na Universidade de Coimbra.
[14 de Outubro] Provisão cedendo a Igreja do Colégio dos Jesuítas, para
nela se estabelecer a Sé Nova de Coimbra.
[6 de Novembro] Lei que reforma o estudos menores: criadas novas
escolas no reino e seus domínios que são colocadas sob a inspecção da Real
Mesa Censória; organizado o ensino primário oficial (com a criação de 479
lugares «no reino» para mestres de ler, escrever e contar).
[10 de Novembro] Morte de Correia Garção (o membro mais prestigioso da
Arcádia Lusitana).
Compêndio Histórico [...], redigido a mandado do marquês (libelo
acusatório contra o poder escolástico dos jesuítas).
Nicolau Luís da Silva: Dona Inês de Castro.

A reforma do ensino

«É verdade que a celebrada Lei de 6 de Novembro de 1772 constitui uma das


primeiras tentativas no mundo de organização de um ensino primário oficial; mas,
se se entendeu que este deveria abranger o Reino e todos os seus domínios, não
se entendia que devesse compreender todas as crianças. Aos ‗braços e mãos do
corpo político [trabalhadores rurais e fabris] bastariam […] as instruções dos
Párocos‘. Nas escolas elementares ‗pombalinas‘ o ensino compreendia, além do
catecismo, ler, escrever e contar, rudimentos gramaticais da língua materna, as
quatro ‗espécies‘ (operações) de artmética e regras de civilidade.» […] (Rui
Grácio, Ensino Primário e Analfabetismo in Dicionário de História de Portugal).
« A expulsão dos jesuítas e a instituição da Aula do Comércio, em 1759, a
fundação do Real Colégio dos Nobres, em 1761 (aberto em 1766), a criação da
Real Mesa Censória (1768) e da Junta de Providência Literária (1770), a que se
seguem as reformas dos estudos menores e da Universidade, em 1772, mostram
a vitalidade com que o pedagógico aparecia ao Poder na procura de alterações da
cultura e das mentalidades. […] Os esforços desenvolvidos entre 1759 e 1772
marcam uma importante fase na história do ensino das primeiras letras e
secundário, aquilo que então se chamava ‗estudos menores‘.» (António Camões
Gouveia, Estratégias de interiorização da disciplina, in História de Portugal, dir. de
José Mattoso, vol. IV, pp. 432 e 433).

1773
[12 de Janeiro] Alvará que determina que só pode abrir tavernas quem
«levante» estalagens para cómodos dos viajantes.
[15 de Janeiro] Alvará que cria a a Compania Geral das Reais Pescas do
Reino do Algarve.
[18 de Janeiro e 18 de Fevereiro] Reforma territorial do Algarve. Integrada
num projecto de racionalização jurisdicional e territorial, em marcha desde
meados de

[177]

Setecentos, marcado por desígnios utilitaristas.


[Janeiro] Criação do Almirantado.
[Fevereiro] Chegam a Coimbra as «máquinas» e instrumentos de física
experimental e de astronomia.
[7 de Fevereiro] Auto-de-Fé em Goa, com 124 sentenciados.
[16 de Fevereiro] Abolidos os atestados de «limpeza de sangue».
Mandados queimar os registos cadastrais dos cristãos-novos.
[25 de Maio] Carta de lei que abole a distinção entre cristão-novos e
cristãos-velhos.
[20 e 25 de Junho] Alvarás que autorizam a fundação de fábricas de
chapéus finos em Sobral e no Porto.
[5 de Julho] Morre o poeta Cândido Lusitano (de seu verdadeiro nome
Francisco José Freire).
[5 de Julho] Alvará que cria uma fábrica de tecidos de lã, em Cascais.
[9 de Julho] Carta de lei em defesa da propriedade agrícola e da sua
eficiente alorização.
[21 de Julho] Breve de Clemente XIV extinguindo a Companhia de Jesus
em toda a cristandade, atendendo à iniciativa tomada anteriormente por diversos
monarcas.
[Setembro] Portimão obtém o foro de cidade.
[2 de Outubro] Alvará que cria uma fábrica régia de tecidos de linho, em
Alcobaça.
[14 de Outubro] Proibição dos porcos andarem dispersos nas ruas de
Lisboa.
[11 de Novembro] Incrementa-se o número de cadeiras e professores das
Escolas Menores. Criadas mais 47. (O que perfaz, no total, 526).
Agitação palaciana que termina com o afastamento de José Seabra da
Silva.
Conquista e submissão de Ponda, na índia, com submissão dos Maratas.
Escola moral, política, cristã, jurídica, de Diogo Guerreiro Camacho de
Aboim. (Os reis são proclamados vice-deuses na terra.)
Laboratórios de Química da Universidade de Coimbra.
Inicia-se a demolição do Castelo de Coimbra.

1774
[Janeiro] Carta de lei cjue altera a administração do governo da índia. É
suprimida a Relação de Goa (15/01). Regimento da Alfândega de Goa (20/01).
[5 de Janeiro] Isenção de direitos, por 10 anos, nas importações de tecidos
de algodão.
[11 de Janeiro] Tratado de paz entre D. José e o sultão de Marrocos.
[Fevereiro] Ordenada a extinção da Inquisição de Goa. (Despacho de
Pombal de 10/02.)
[12 de Abril] Clemente XIV cria o bispado de Aveiro.
[24 de Abril] Prisão de José Seabra da Silva.
Fundação da Vila Real de Santo António.
[1 de Junho] Estabelecimento de uma fábrica de charões em Lisboa.
[9 de Julho] As capitanias do Maranhão e do Piauí desmembram-se do
Pará.
[18 de Agosto] Alvará que cria uma fábrica régia de linhos.
[20 de Agosto] Fundação régia, em Lisboa, de uma fábrica de botões de
casquinha (que passará à propriedade de Francisco Guilobel).
[20 de Agosto] Lei que reforma a organização judiciária.
[1 de Setembro] Regimento pombalino do Tribunal do Santo Ofício. Torna-
se um simples tribunal político.
Concessão aos naturais da índia portuguesa de direitos iguais aos dos
metropolitanos.
Deslocação a Coimbra do botânico Júlio

[178]

Mattizi, para plantar espécies raras no Jardim Botânico (em formação).

1775
[25 de Maio] Carta de lei: progressiva restrição das isenções da nobreza ao
pagamento do direito senhorial da jugada. (Os privilégios «corporativos» da
nobreza iam-se limitando. O fenómeno acentua-se na última década do século
XVIII, com uma série de disposições que representam a virtual extinção das
isenções tributárias das ordens privilegiadas.)
[9 de Junho] Legislação relativa ao casamento e à família.
[16 de Junho] Primeira pedra da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro.
[6 de Julho] Inauguração da Estátua Equestre de D. José I, no Terreiro do
Paço.
[27 de Julho] Autorizada a fundação de uma fábrica de papel de escrever.
[5 de Agosto] Alvará que cria uma fábrica de chitas, em Azeitão,
propriedade de Magalhães e Larche.
[11 de Outubro] É executado João Baptista Pelle, o presumível autor do
atentado contra o marquês de Pombal.
[17 de Outubro] Autorizada a criação de uma fábrica de tecidos de lã em
Penafiel.
[16 de Novembro] Concedida licença para fundar, no Porto, uma fábrica de
linhas.
[23 de Novembro] Abre o mercado da Praça da Figueira em Lisboa.
César, de Teotónio Gomes de Carvalho.
1776
[24 de Janeiro] Graves incidentes na Trafaria (Repressão do motim por
Pina Manique.)
[8 de Fevereiro] Alvará que cria, no Porto, uma fábrica de camurças,
pelicas e pergaminhos.
[8 de Março] Concedida licença para estabelecer uma fábrica de pratear
metais, em Lisboa.
[Abril] Rio Grande, no Sul do Brasil, temporariamente na posse de
Espanha, é recuperado pelas armas portuguesas.
[2 de Maio] Autorizado o estabelecimento de uma fábrica de fivelas de
metal, em Lisboa, propriedade de Francisco Loian.
Licença para a fundação de uma fábrica de quinquilharias em Lisboa.
[10 de Maio] Autorização para Pietro Schiappa estabelecer, em Pernes,
uma fábrica de limas.
[21 de Maio] Alvará que autoriza a criação de uma fábrica de tapeçarias em
Tavira.
[10 de Junho] Concedida autorização para uma fábrica de espelhos em
Lisboa.
[4 de Julho] Carta de lei relativa à enfiteuse: destrinça entre os contratos
sujeitos às regras do emprazamento e os que se deveriam julgar segundo as
normas de locação.
[4 de Julho] Decreto que ordena o encerramento dos portos portugueses
aos navios das colónias americanas (em revolta contra a Inglaterra).
[Outubro] Autorizado o estabelecimento de uma fábrica de fogo na
Panasqueira; concedida autorização para fundar, no Porto, uma fábrica de botões
de unha; licença concedida a Mateus Walker para estabelecer, em Lisboa, uma
fábrica de limas.
[29 de Novembro] A rainha Dona Mariana Vitória assume a regência por
doença de D. José.
[Novembro] O monarca proíbe a entrada do marquês de Pombal na
Câmara Real.
A população do Brasil é estimada em 1 900 000 habitantes.
O Circo (teatro), de Manuel de Figueiredo.
[31 de Dezembro] Contrato régio para a fundação em Lisboa de uma
cutelaria (a propriedade passará para António João Chalter).
Fundação régia de uma fábrica de relógios, em Lisboa (a propriedade
passará para António Durand).

[179]
(Legenda: D. Maria I (Museu de Aveiro).)

1777
[20 de Fevereiro] Pedro de Cevallos apodera-se de Santa Catarina (no Sul
do Brasil).
[21 de Fevereiro] Perdão régio que concede a liberdade a Frei Manuel de
Anunciação, bispo de Coimbra (preso desde 1768 sob acusação de crime de lesa-
majestade). Reposto (07/07) na administração da sua diocese.
[24 de Fevereiro] Morre D. José, 25.º rei de Portugal. D. Maria sobe ao
trono.
[4 de Março] D. Maria defere o pedido de exoneração do marquês de
Pombal. (Deixa a corte a caminho do exílio, na vila de Pombal.)
[7 de Março] Perdão régio concedido aos marqueses de Távora e de
Alorna.
[13 de Março] Nomeação do novo ministério. O lugar de marquês de
Pombal é ocupado pelo visconde de Vila Nova de Cerveira (futuro marquês de
Ponte de Lima) e pelo marquês de Angeja. Os restantes secretários de Estado
mantiveram-se. A substituição do marquês de Pombal pelo visconde de Vila Nova
da Cerveira tem sido utilizada como prova da chamada «viradeira» política de D.
Maria. O certo é que o restante gabinete era pombalino, o que traduz o cuidado
posto na transição política de um para outro reinado, bem como a «manutenção
da linha reformista josefino-pombalina». Além disso, as «reformas mariano-
joaninas» provam justamente o contrário de um movimento de retorno. (Ver José
Subtil, in História de Portugal, dir. de José Mattoso, vol. IV, p. 179).
[10 de Maio] Decreto que promove diversos membros da nobreza que se
haviam conservado «desafectos» ao marquês de Pombal.
[13 de Maio] Aclamação de D. Maria I no Terreiro do Paço. (Na coroação
da rainha serve-se, pela primeira vez, com a baixela Germain.)
[17 de Maio] O marquês de Alorna é declarado isento de culpa de
inconfidência e são-lhe restituídas as honras a que tinha direito. Declarada a
inocência do conde de S. Lourenço e do visconde de Vila Nova de Cerveira.
[20 de Maio] A colónia de Sacramento entrega-se, sem luta, às forças
espanholas de Pedro de Cevallos.
[18 de Julho] Alvará que cria a Junta de Administração das Fábricas do
Reino e Águas Livres. (Extinta a Junta de Fábricas do Reino.)
[1 de Outubro] Tratado de Santo Ildefonso. Assinatura com a Espanha do
Tratado preliminar de paz e limites na América Meridional. Portugal entrega a
colónia de Sacramento e recebe, em troca, a ilha de Santa Catarina.
[21 de Outubro] Ilibado de culpas o antigo secretário de Estado José
Seabra da Silva (permitido o regresso de Angola onde estava desterrado).
Publicação de um Novo Regimento das Mercês. (Afinam-se os processos
de controle e fiscalização dos provimentos.)
Ribeiro Sanches: redige o manuscrito Algumas Causas da Perda da
Agricultura em Portugal depois do Ano de 1640. Apontamentos para promover
Toda a Sorte de Trabalho em Portugal (defende que o crédito agrícola levaria a
estimular o investimento no sector).

[180]

1778
[Janeiro] Criação da Academia Real da Fortificação, Artilharia e Desenho.
[5 de Janeiro] Decreto que extingue a Companhia do Grão-Pará e
Maranhão.
[11 de Março] Tratado do Pardo: de aliança, de neutralidade e comércio
entre D. Maria e Carlos III de Espanha. Põe termo à guerra na América
Meridional; Portugal cede as ilhas de Fernão Pó e Ano Bom.
[Abril] Restabelece-se o Tribunal da Relação de Goa.
[1 de Julho] Prisão de José Anastácio da Cunha pela Inquisição.
[13 de Julho] Regimento de todos os oficiais da Armada.
[20 de Julho] Concordata entre Pio VI e D. Maria I, sobre o direito de
Padroado.
[Agosto] Filinto Elísio, fugido da Inquisição, chega a França.
[Agosto] Partem, para Argel, religiosos da Ordem da Santíssima Trindade
para reagatar portugueses cativos.
[Agosto] Reaparece a Gazeta de Lisboa.
[26 de Agosto] Sismo na região de Lisboa.
[23 de Outubro] Criação da Escola de Fiação de Trás-os-Montes.
João Jacinto Magalhães é enviado a Londres para comprar uma máquina a
vapor.

1779
[20 de Janeiro] Criação da Aula de Pilotos.
[Julho] Entrega da ilha de Ano Bom à Espanha (conforme o estipulado pelo
Tratado de Pardo).
[5 de Agosto] Criação da Academia Real da Marinha.
[Agosto] Reforma dos Estudos Menores. A partir daqui muitas escolas cujo
número se eleva já a 720 são encerradas e a regência de outras é entregue a
religiosos.
[14 de Novembro] Grandiosa procissão do Senhor dos Passos, em Lisboa,
a pedir o termo da inclemente seca.
[26 de Novembro] Extinção do Tribunal da Inquisição de Goa (que havia
sido determinado por carta régia de 15/01/1774).
[27 de Novembro] Criação no Porto, de uma Aula Pública de Debuxo e
Desenho.
[24 de Dezembro] Fundação da Academia Real das Ciências de Lisboa,
por iniciativa do 2.º duque de Lafôes, do abade Correia da Serra e com o apoio de
Domingos Vandelli e do visconde de Barbacena. Tem como mecenas a rainha D.
Maria. É dividida em duas classes, a das Letras e a das Ciências. (De realçar,
como no caso da Academia da História, a proximidade do Poder e a
«aristocratização» dos seus membros e dos saberes.)
Colocação da 1.ª pedra da Basílica da Estrela.
Termina a construção do Observatório Astronómico de Coimbra.
Apresentação, no Real Teatro de Queluz, da serenata La Galatea, da
autoria do maestro António da Silva.

Primeiro Estatuto da Academia Real das Ciências

«[…] Como a observação e o cálculo são os caminhos que conduzem mais


seguramente ao conhecimento da natureza, origem das ciências, a que a
Academia se dedica, serão os académicos destinados para elas repartidos em
duas classes: os da primeira indagarão a qualidade, leis e propriedades dos
corpos por meio da observação e da análise, os efeitos e novas propriedades que
resultarão da combinação de uns com outros, e o como e o porquê dos
fenómenos naturais; e ficará para os segundos o quanto deles, e as relações e
propriedades da grandeza, tanto em geral como em particular. As Belas-Letras,
por serem uma parte indispensável da Instrução Nacional, farão a terceira classe,
a qual se deverá aplicar particularmente aos vários ramos da Literatura
Portuguesa. […] Se formará uma junta ou comissão para a Indústria, composta de
oito sócios, eleitos de três em três anos, por meio da qual cheguem as luzes e
cuidado da Academia até aos últimos ramos da Indústria Popular. Os membros
desta junta promoverão à competência o

[181]

aumento da Agricultura, das Artes e da Indústria Popular, empregando para este


fim todos os meios que lhes são possíveis. […]» (Cit. por José Sivestre Ribeiro, in.
História dos Estabelecimentos Científicos, Literários e Artísticos de Portugal, II,
Lisboa, 1872, pp. 39-42.)

1780
[4 de Abril] Abertura da Academia do Nu (da qual o pintor Vieira Lusitano
foi grande animador).
[8 de Maio] Decreto que extingue a Companhia de Pernambuco e Paraíba.
(Liberdade de comércio em todas as regiões que eram monopólio da Companhia.)
[20 de Maio] Fundação da Casa Pia de Lisboa. Inicialmente vocacionada
para a recolha de mendigos, mais tarde vai acolher e educar jovens. (Desaparece
em 1807, com as Invasões Francesas; reabre em 1812.)
[20 de Maio] Edital expulsando da cidade de Lisboa os mendigos que dela
não fossem naturais.
Diogo Inácio de Pina Manique toma posse como superintendente da
Intendência-Geral da Polícia. (Permanece à frente da instituição até 1805.)
[15 de Junho] Pina Manique introduz a obrigatoriedade do registo da
correspondência nas repartições públicas.
[4 de Julho] Abertura solene da Academia Real das Ciências.
Ordens da Intendência (31/07) para que os provedores elaborem mapas
estatísticos da população (transmitidas para o Norte em 03/02/81).
[29 de Agosto] Três abalos de terra de fraca intensidade, em Lisboa.
[18 de Setembro] Criação da Junta de Arrecadação e Distribuição da
Fazenda da Guiné.
[Setembro] Instituição de uma sociedade de comércio para as ilhas de
Cabo Verde.
[Novembro] Inicia-se, por iniciativa de Pina Manique, a iluminação pública
de Lisboa. Acendem-se 770 candeeiros na Baixa lisboeta.

(Legenda: Alegoria a Pina Manique (quadro de Domingos Sequeira, Lisboa,


Museu Nacional de Arte Antiga).)
c. 1780 - Parecer e Propostas sobre o Fomento da Agricultura, de Domingos
Vandelli.

1781
[15 de Janeiro] Morre a rainha Dona Mariana Vitória (mulher de D. José).
[27 de Março] Pina Manique decreta a obrigatoriedade da inspecção
sanitária das prostitutas.
[23 de Maio] Sentença que absolve a memória dos Távoras.
[30 de Maio] Pina Manique é nomeado administrador-geral das Alfândegas
de Lisboa.
[23 de Julho] Edital do intendente-geral da Polícia (Pina Manique)
regulando a oferta de trabalho para os indigentes.
[16 de Agosto] Decreto que condena o marquês de Pombal (obrigado a
manter-se afastado da corte 20 léguas; são-lhe perdoadas quaisquer penas
corporais).
[23 de Agosto] Criação em Lisboa da Aula Régia do Desenho de Figura e
Arquitectura Civil.
[26 de Agosto] Último auto-de-fé em Coimbra com 16 sentenciados.

[182]

[16 de Setembro] Último auto-de-fé em Évora, com 8 sentenciados.


[Outubro] Alegada tentativa de regicídio contra Dona Maria I.
Regulamentada a cultura do arroz. Proibida a sua importação (para
promover a produção metropolitana e brasileira).
A Academia de Ciências inicia a organização de um Museu de História
Natural.

1782
[18 de Janeiro] Luísa Todi dá um segundo concerto em Viena de Áustria.
[14 de Fevereiro] Reforma pautal: visa-se a reorganização «económica»
das alfândegas.
[14 de Fevereiro] Criação da Companhia dos Guardas-Marinhas.
[8 de Maio] Morre, em Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo.
[10 de Maio] Proibição às mulheres do Brasil de virem para o reino, sem
prévia autorização do rei.
Portugal, que durante a Guerra da Independência Americana se manteve
neutral, adere à Liga dos Neutros (14 de Julho). Tem como desfecho a assinatura
de acordos bilaterais com os Estados Unidos e a Rússia. (Acordo de
«neutralidade armada» com Catarina II da Rússia 24/07.)
Fundação do presídio de Lourenço Marques (marca o início da colonização
dessa zona).
Teatro do Salitre, Lisboa.
De Luís Ferrari de Mordau: sai o texto Despertar da Agricultura de Portugal
(Pontos de vista tributários do pensamento fisiocrático).
Dado à estampa o Suplemento à Obra da Agricultura, de L. F. Mordaun.
Memória Histórica sobre a agricultura portuguesa, de Veríssimo Álvares da
Silva.

1783
[Janeiro] A cantora lírica Luísa Todi realiza nova viagem a Viena de Áustria.
[2 de Janeiro] Criação da Sociedade de Comércio das Ilhas de Cabo
Verde.
[15 de Fevereiro] Decreto em que Portugal reconhece a independência dos
Estados Unidos da América do Norte. Assinado um Tratado de Amizade.
(Revogada a proibição de entrada dos navios norte-americanos nos portos
portugueses.)
[24 de Maio] O intendente Pina Manique reconhece, oficialmente, a
instituição das rodas dos expostos.
[14 de Outubro] Morre, em Paris, António Ribeiro Sanches.
[18 de Outubro] Morre, em Mackney, Francisco Xavier de Oliveira
(Cavaleiro de Oliveira).
Criação da cadeira de Terapêutica Cirúrgica na Universidade de Coimbra.
O drama de Martinelli, musicado por João de Sousa Carvalho, é
apresentado no Teatro da Real Câmara.

1784
[20 de Maio] Santarém é flagelada por um furacão.
[6 de Junho] Bocage é dado como desertor.
[6 de Outubro] Determinação sobre os esponsais.
Oratória Sagrada, com música de Haydn, no Real Teatro de Queluz.
Início da construção da Igreja do Bom Jesus do Monte, Braga.
D. Rodrigo de Sousa Coutinho escreve as Reflexões Políticas sobre os
meios de Criar e Fundar Solidamente em Portugal a Cultura e Manufactura da
Seda.

1785 - Casamento dos infantes portugueses com os infantes espanhóis: D. João


casa com D. Carlota Joaquina; Dona Mariana Vitória com o infante de Espanha,
D. Gabriel de Bourbon.
[5 de Janeiro] Alvará que proíbe o estabelecimento, no Brasil, de
manufacturas (com excepção das de algodão grosseiro).
[22 de Abril] Morre a Madre Paula, celebrada como amante de D. João V.

[183]

Missão exploradora às terras do Sul de Angola.


Criação da Aula Régia de Desenho e Arquitectura Civil, em Lisboa.
[20 de Outubro] Proibida no reino a circulação de moeda estrangeira.

1786
[30 de Janeiro] Tratado franco-português. Reconhecidos os direitos de
Portugal sobre o território de Cabinda.
[14 de Fevereiro] Proibida a importação de meias de seda de cor.
[4 de Abril] Bocage parte para a índia.
[25 de Maio] Morre D. Pedro III, filho de D. João V, rei consorte.
[2 de Agosto] Breve de Pio VI à rainha, sobre as perseguições aos cristãos
na China.
[6 de Setembro] Destinados lugares públicos em Lisboa, para a venda
exclusiva de peixe.
Abade de Jazente (Paulino António Cabral), Poesias (2 vols.: 1786 e 1787).

1787
[3 de Janeiro] Inaugurado o Observatório Astronómico da Academia de
Ciências de Lisboa (instalado no Castelo de S. Jorge).
[7 de Fevereiro] Alvará que concede, à fábrica de louça de Domingos
Vandelli (Coimbra), o privilégio da exclusividade de venda na Beira e Minho.
[24 de Março] Chega a Lisboa William Beckford que escreverá as suas
impressões sobre Portugal.
[Junho] Reforma da Real Mesa Censória. Passa a designar-se Mesa da
Comissão Geral sobre o Exame e Censura dos Livros.
[20 de Dezembro] Tratado de amizade, navegação e comércio entre D.
Maria e Catarina II da Rússia-Sampetersburgo. (Apenas será ratificado em 1798.)
Grande «animação cultural» com espectáculos de belo canto nos teatros
de Lisboa e Queluz, na Embaixada de Espanha e palácio do marquês do Louriçal.

(Legenda: Bocage e as Ninfas (Museu de Setúbal).)

1788
[29 de Março] Decreto que entrega a particulares a exploração das
Fábricas e Manufacturas de Portalegre, Fundão e Covilhã.
[5 de Junho] Lei que cria a Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e
Navegação destes Reinos e seus Domínios, em substituição da Junta de
Administração das Fábricas do Reino e Águas Livres.
[31 de Julho] Privilégios às fábricas de lanifícios do reino.
[Outubro] Proibição das sedas da índia.
[11 de Novembro] Morre o príncipe herdeiro D. José (filho de D. Maria I e
de D. Pedro).
[Dezembro] Criação da Secretaria de Estado dos Negócios da Fazenda.
(Só organizada definitivamente em 1801.)
[13 de Dezembro] Pela Inquisição são, ainda, capitalmente justiciados 15
réus de fé.
Significativas remodelações nos gabinetes de secretários de Estado. Para
além de outros, José Seabra da Silva, caído em desgraça durante o consulado
pombalino, assume a pasta do Reino; o visconde de Vila Nova de Cerveira é
indigitado para a nova Secretaria de Estado dos Negócios da Fazenda.
Sobe à cena, no Teatro do Salitre, Idílio, musicado por Marques Portugal.

[184]

Discurso Jurídico-Económico-Político em Que se Mostra a Origem dos


Pastos Que Neste Reino Chamam Comumns [...], de Domingos de Oliveira.
Elementos de Química, de Vicente Coelho Seabra da Silva Teles.

1789
[3 de Fevereiro] Decreto que cria uma Junta de Exame e revisão de um
novo Código Legislativo. Projecto do Novo Código de Direito Público (apresentado
por Pascoal José de Melo Freire).
[16 de Junho] Alvará que estabelece a liberdade da pesca e concede
incentivos fiscais aos pescadores.
[19 de Junho] Nova formulação das Ordens Militares. O papa confere o
grão-mestrado e perpétua administração das três Ordens Militares a S. M.
Fidelíssima (18/08).
[20 de Junho] Criação de uma aula de Anatomia no Hospital de Chaves, a
que se seguem outras (em Elvas e no Porto).
A Intendência organiza uma estatística detalhada das mortes violentas
ocorridas no reino (para diagnosticar causalidades criminais).
Prisão do Tiradentes (principal responsável pela Inconfidência Mineira) e do
poeta Tomás António Gonzaga.

A cantora Luísa Todi deixa (Paris), após uma temporada triunfal.


Inicia-se a publicação das Memórias Económicas da Academia Real das
Ciências de Lisboa. Entre os autores figuram, com notáveis memórias, José
Joaquim Soares de Barros, D. Rodrigo da Sousa Coutinho e Domingos Vandelli.
Dicionário da Língua Portuguesa (1.ª edição), de Morais da Silva.
José Joaquim Soares de Barros: «Memórias sobre as causas da diferente
população de Portugal em diversos tempos da Monarquia», in Memórias
Económicas da Academia das Ciências de Lisboa. (Contém dados alusivos a
1768 (?) e 1776.)

1789-1794

Institutiones luris Civilis et Criminalis Lusitani, de Pascoal de Melo Freire. (A norma


geral, escrita, impõe-se agora às normas consuetudinárias locais.)
1790
[7 de Janeiro] Regimento da Fábrica de Panos de Portalegre.
[10 de Fevereiro] Aviso que proíbe a admissão de de noviços(as) nos
mosteiros e conventos.
[27 de Março] Projecto da Academia Real das Ciências para a criação de
escolas agrícolas em todas as províncias.
[31 de Maio] Primeiras escolas femininas: por resolução régia criam-se, em
Lisboa, 18 escolas para meninas.
[Julho] Importantes projectos de reordenamento político-administrativo: (Lei
(19/07) que diminui grandemente os poderes dos donatários das terras,
cerceando-lhes o direito de justiça. Determina a extinção das ouvidorias e as
isenções de correição. Os donatários deixam de poder designar ouvidores para os
respectivos concelhos. Completada por legislação subsequente de 1792.) A
extensão das jurisdições senhoriais, sobretudo laicas, já se havia restringido
drasticamente antes de 1790.
Abolição das donatárias no Brasil.
Carta de lei de 13/07, que determina a demarcação das diferentes
comarcas do Reino.
Conferidas ao Desembargo do Paço atribuições no reordenamento político-
administrativo (na sequência da Carta de Lei de 19/07.)
[Julho] Reforma da organização judicial e simplificação das normas do
processo.
A administração e direcção das escolas passa para a Real Mesa da
Comissão Geral sobre o Exame e Censura dos Livros (continuadora da acção da
Real Mesa Censória).
Termina a construção da Basílica da Estrela.
Princípios Mathematicos, de José Anastácio da Cunha.

[185]

Memórias Económicas [...], tomo II. (Num dos estudos, Tomás António de
Vilanova Portugal reflecte sobre a circulação mercantil).
Inicia-se a publicação de O Correio Mercantil e Económico de Portugal.
Francisco António Moraes de Campos escreve O Príncipe Perfeito.
Motivos da Decadência da Agricultura da Província do Alentejo, e
Remédios para o Seu Estabelecimento, de Manuel José Correia da Serra.
(Legenda: D. Carlota Joaquina (Lisboa, Museu Nacional dos Coches).)

1791
[17 de Janeiro] Tratado de paz com o rei de Sunda (Goa).
[14 de Fevereiro] Decreto que confere o contrato de diamantes brutos da
América a Joaquim Pedro Quintela.
[22 de Março] Alvará que ordena o encanamento do Mondego.
[28 de Março] Alvará para a abertura de estradas do reino (incluindo a de
Lisboa ao Porto).
[27 de Julho] Criação do cargo de superintendente dos Tabacos das
Províncias.
[21 de Novembro] Carta régia que estabelece preceitos para proteger os
negros sertanejos de Angola.
[27 de Novembro] Forte sismo em Lisboa e Beja.
[6 de Dezembro] Luís XVI agradece à rainha o apoio à causa monárquica.
Abolição das organizações corporativas.
Plano da «Intendência» de construção de novos cemitérios (expressa
intenções sanitárias e objectivos de registo e controle da mortalidade).
Criação da cadeira de Botânica e Agricultura na Universidade de Coimbra,
de que foi 1.º titular Avelar Brotero.
Memórias Económicas [...], tomo III. Destaque para: «Memórias sobre o
estado da agricultura e comércio do Alto Douro»; «Memória sobre os juros
relativamente à cultura das terras».
Manuel Maria Barbosa du Bocage: Rimas (publicados 3 vols. em vida do
autor: 1791, 1799 e 1804).

1792
[7 de Janeiro] Regulamento sobre o alargamento das competências do
Desembargo do Paço, com vista à organização racional do espaço administrativo.
[7 de Janeiro] Alvará que estabelece critérios de racionalização territorial,
enquanto não se operava uma reforma definitiva das comarcas. (Tinham-se criado
algumas novas comarcas para englobar as terras compreendidas nas ouvidorias
que tinham sido extintas pela Lei de 19/07/1790.)
[10 de Janeiro] Noticiado o estado de insanidade da rainha, pela Gazeta de
Lisboa.
[10 de Fevereiro] O príncipe D. João assume a governação.
[12 de Fevereiro] Inicia-se no Porto a Lotaria da Misericórdia.

[186]

[20 de Março] Morre, em Roma, Luís António Verney.


[18 de Abril] O poeta Tomás António Gonzaga é condenado a degredo (em
Moçambique), sob a acusação de ter participado na «Inconfidência Mineira».
Leitura das sentenças (19/04) dos implicados na Inconfidência; enforcamento
(21/04) de José da Silva Xavier, o Tiradentes.
[8 de Maio] Morre, em Paris, Vicente de Sousa Coutinho (diplomata
português em França durante 29 anos).
[25 de Maio] Desembarca na ilha de Bolama um grupo de ingleses; régulos
da Guiné cedem a ilha para uma feitoria inglesa.
[27 de Julho] O Papa despacha o breve da beatificação da infanta Dona
Mafalda (filha de D. Sancho I).
Início da construção da Casa Pia (Porto).
Discurso Político sobre a Agricultura, Particularmente a de Portugal;
Discurso sobre a Moeda, Particularmente a de Portugal, de António de Araújo
Travassos. (Detecta-se a presença do legado teórico de Adam Smith.)
Tomás António de Vilanova Portugal: Qual foi a origem e quais os
progressos, e as variações da jurisprudência dos Morgados em Portugal.
História Sagrada em verso, de Domingos Caldas Barbosa.
Inicia-se a publicação das Memórias da Língua Portuguesa, da Academia
Real das Ciências.

1793
[Março-Abril] A Convenção francesa tenta obter, sem sucesso, a
neutralidade portugesa.
[10 de Abril] Informado o governo espanhol da decisão portuguesa de
entrar na liga contra a França.
[25 de Maio] Carta de lei que põe termo às qualificações e denominações
dos cristãos-novos.
[3 de Junho] Criação da Contadoria dos Armazéns da Guiné e Índia.
[15 de Julho] Tratado de auxílio mútuo e convenção militar luso-espanhola.
[Setembro] Embarque das divisões portuguesas para a campanha do
Rossilhão.
[26 de Setembro] Tratado entre D. Maria e o rei inglês sobre o mútuo
auxílio contra a França.
[3 de Novembro] Deixam Bolama os ingleses que ali se tentaram radicar.
[Dezembro] Tropas inglesas desembarcam em Lisboa.
Corso aos navios portugueses pela França.
Lei visando o estabelecimento de um cadastro do país.
Inauguração do Teatro de S. Carlos.
A Academia de Ciências publica o Dicionário da Língua Portuguesa (não
passa do 1.º vol.).

1794 - Participação portuguesa na campanha do Rossilhão.


[7 de Janeiro] Estabelecimento em Portugal e seus domínios, de uma
Farmacopeia Geral.
[Abril] Derrota e desorganização completa dos exércitos luso-espanhóis,
comandados pelo conde La Union.
[7 de Agosto] Auto-de-fé, em Lisboa, com um sentenciado.
[13 de Agosto] Renhido combate próximo de Palau (Espanha) contra os
Franceses.
[Outubro] Intimado a sair de Paris o único funcionário em funções na
legação portuguesa.
[30 de Outubro] Entrega credenciais o primeiro ministro português,
residente em Washington, Cipriano Ribeiro Freire.
[Novembro] Novo desastre dos aliados com retirada em direcção a Gerona.
[17 de Dezembro] Criada a Junta da Directoria-Geral dos Estudos e
Escolas do Reino, para proceder à «arrumação» dos estudos menores. Substitui a
extinta Real

[187]

Mesa da Comissão Geral sobre o Exame e Censura dos Livros. Com a abolição
deste organismo, as atribuições, que lhe eram confiadas, são, de novo, cometidas
ao Santo Ofício e à Mesa do Desembargo do Paço.
Fundação da 1.ª fábrica de fiação em Tomar.
Publicação do periódico Mercúrio Histórico, Político e Literário de Lisboa.
Ensaio sobre o Comércio de Portugal e suas Colónias [...], de José
Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho.
Reflexões sobre o Estado da Agricultura de Portugal [...], de Agostinho
Inácio da Costa Quintela.
Corografia Económica Política da Província da Beira (manuscrito), por
Jerónimo Couceiro de Almeida. Realizada para a projectada reforma das
comarcas.
Nova Arte de Escrever, de António Jacinto de Araújo.
Termina a construção do Palácio de Queluz.
Conclusão da Igreja da Conceição Nova, Lisboa.

1795
[24 de Janeiro] Concerto vocal, no Teatro de S. Carlos, a cargo da cantora
Joaquina Conceição Lapinha.
A Espanha negoceia, após o malogro da ofensiva do Rossilhão,
bilateralmente, com a França, os preliminares da Paz de Santo Ildefonso.
Ratificado pelo Tratado de Basileia (Junho). Portugal é excluído das negociações.
[1 de Junho] Edital que autoriza, a título excepcional, a importação de
algodão fiado, para acorrer às necessidades das fábricas de estamparia.
[30 de Junho] Autorizada a Academia das Ciências de Lisboa a nomear
pessoas aptas para a recolha de lápides e inscrições que se achassem pelo reino.
[30 de Julho] Reconhecimento da autoridade dos bispos em matéria de
censura de livros.
José de Abreu Bacelar Chichorro, Memória Económico-Política da
Província da Estremadura.
Demonstração das Grandes Utilidades que devem resultar a todos aqueles
que empreenderem a fiação e tecelagem do algodão em Portugal, de Jácome
Ratton.

1796
[6 de Janeiro] Início da Aula de Diplomática na Universidade de Coimbra.
[17 de Janeiro] Forte abalo de terra em Lisboa.
[29 de Fevereiro] Onda de frio e queda de neve em Lisboa.
[29 de Fevereiro] Alvará da fundação da Real Biblioteca Pública da Corte e
do Reino (Lisboa). Abre ao público em 13/05/97.
[5 de Abril] Decreto que ordena a aquisição de terrenos para cemitérios
públicos.
[13 de Maio] Carta de lei criando um porto franco em Lisboa.
[19 de Julho] Edital que suspende as relações políticas e comerciais com
os Estados Gerais das Províncias Unidas.
[16 de Agosto] Alvará concedendo aos proprietários a liberdade de
armarem os seus respectivos navios.
[17 de Setembro] Decreto de neutralidade a observar-se nos portos
portugueses, face ao conflito europeu.
[24 de Outubro] Suprimida a isenção da décima aos eclesiásticos;
supressão da isenção de sisa aos cavaleiros das ordens militares; os bens da
coroa são sujeitos a uma dupla décima (o quinto), mesmo que o donatário seja
eclesiástico.
[26 de Outubro] Criação da Junta da Fazenda da Marinha.
[29 de Outubro] Lançamento de um empréstimo de 10 milhões de cruzados
(ao juro de 5%).
[2 de Dezembro] Carta régia que isenta de censura as publicações da
Universidade de Coimbra.
D. Rodrigo de Sousa Coutinho elabora

[188]

um Projecto de Carta de Lei sobre o Restabelecimento do Crédito Público.


Análise sobre a Justiça do Comércio do Resgate de Escravos, de José
Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho.
Mapa do Estado Actual da Província de Trás-os-Montes [...] (manuscrito),
de Columbano Pinto Ribeiro de Castro. (Obra de grande riqueza, feita pelo juiz
demarcante, com preocupações postas ao serviço de uma nova estratégia de
conhecimento do território, voltada para a medição, a contagem e as reformas
económicas.)

1797
[18 de Janeiro] A coroa expropria o ofício de correio-mor. Extinção do
cargo. Os Correios passam para a órbita da Secretaria de Estado dos Negócios
Estrangeiros, que irá reorganizar o serviço de Postas, Correios e Diligências.
[22 de Fevereiro] Criação da Companhia de Seguros Tranquilidade
Recíproca.
[7 de Março] Barbosa du Bocage é transferido do Limoeiro e entra nos
cárceres da Inquisição. (Em 1798 é transferido para o Mosteiro de S. Bento da
Saúde.)
[10 de Março] Alvará que restaura o uso do papel selado.
[13 de Maio] Alvará lançando um novo empréstimo de 12 milhões de
cruzados, a 6%.
[13 de Maio] Inaugurado o Teatro de S. João no Porto.
[Junho] Extinta a publicação do Mercúrio Histórico, Político e Literário de
Lisboa.
[Junho] Chega a Lisboa um exército inglês de 6000 homens.
[Junho] Descoberto um plano revolucionário no Rio Grande do Sul, Brasil.
[13 de Julho] As apólices de valor inferior a 50 000 réis devem ser
recebidas pelo seu valor nominal.
[10 de Agosto] Paris: Tratado de paz luso-francês, cujas cláusulas incluíam
uma avultada indemnização à França, exclusão de apoio militar e logístico à
Inglaterra e restrições à entrada de navios ingleses nos nossos portos
continentais. (As negociações arrastam-se pelo ano de 1798; o tratado jamais
será assinado).
[23 de Setembro] O tratado é ratificado, parcialmente, pelo governo
português.
[2 de Outubro] Concessão do título de conde de Évora-Monte a Godoy,
«príncipe da Paz».
[28 de Dezembro] Decreto do Directório que manda prender, em Paris, o
plenipotenciário português, António de Araújo de Azevedo.
Criação do cargo de intendente-geral da Polícia do Exército.
Alvará sobre o papel moeda.
Convenção secreta franco-espanhola para a invasão do território
português, caso Portugal não abdicasse do tráfego inglês nos seus portos.
Início da publicação de História e Memórias, da Academia Real das
Ciências.
O Secretário Português, do padre Francisco José Freire. (Tratado de
epistolografia para bem saber escreve cartas.)

1798
[20 de Janeiro] Aviso que isenta de censura as publicações da Academia
Real das Ciências de Lisboa.
[3 de Fevereiro] O governo britânico notifica Portugal da enviatura de um
emissário a Espanha, para lograr uma paz em separado.
[28 de Março] O plenipotenciário português, António de Araújo Azevedo,
que havia sido preso, é expulso de França por decreto do Directório.
[12 de Maio] Carta régia abolindo o Directório dos Índios do Brasil.
[18 de Maio] Alvará que autoriza a pesca livre da baleia.
[22 de Junho] Ratificação pelo sultão de Marrocos do Tratado de paz luso-
marroquino de 11/01/74.
[30 de Junho] Criação da Sociedade Real Marítima, Militar e Geográfica
(com fins culturais e científicos).

[189]

[6 de Setembro] Alvará que estabelece o regulamento das estalagens,


casas de pasto, diligências...
[14 de Setembro] Estabelecimento de um serviço de diligências entre
Lisboa e Coimbra.
[19 de Outubro] Decreto com medidas para «animar e promover» a
introdução da escravatura na capitania do Grão-Pará (Brasil).
[16 de Novembro] Portaria que incentiva o cultivo da batata no arquipélago
dos Açores.
[27 de Dezembro] Ratificação, em Sampetersburgo, do tratado de comércio
de 1787: Tratado de Amizade, Navegação e Comércio entre D. Maria I e Paulo I
da Rússia.
Novas tentativas, por parte de Portugal, para renegociar o Tratado de
10/08/97. (Revelam-se infrutíferas.)
Inconfidência Baiana.
Inaugurado um serviço regular de mala-posta entre Lisboa e Porto.
No decurso do ano entram no porto de Lisboa 1696 navios e saem 1525.
Expedição do Dr. Lacerda e Almeida que tenta a travessia da costa oriental
à contra-costa africana (Moçambique-Angola).
Recenseamento da população. «Censo de Pina Manique» (razoavelmente
seguro). Recenseamento com intuitos militares. A política de defesa volta a ser
uma preocupação fundamental.
Criação do Observatório Real da Marinha.
João Pedro Ribeiro: Observações Históricas e Críticas para Servirem de
Memórias ao Systema da Diplomacia Portuguesa.
Publicado o Curso de Estudo para o Uso do Comércio e da Fazenda, de
José Maria Dantas Pereira.
D. Rodrigo de Sousa Coutinho elabora, cerca de 1798, um Projecto de
Carta de Lei sobre Reformas na Agricultura.
A General view of the State of Portugal (Londres), do inglês James Murphy.
(Esteve em Portugal entre 1788 e 1790.)
Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, Elucidário das Palavras, Termos e
Frases que em Portugal Antigamente se Usaram (1798-1799).

(Legenda: Mala-posta Lisboa-Coimbra-Porto, 1798-1864 (óleo de José Pedro


Roque).)

[190]

1799
[23 de Janeiro] União das fábricas de Portalegre, Covilhã e Fundão.
[1 de Abril] Regimento provisório do Correio, criando correios em todas as
cidades e vilas principais.
Frustradas as negociações com a França, retornam a Lisboa (11 de Maio)
os diamantes que se destinavam a pagar a indemnização estipulada no tratado de
10/08/97.
[25 de Maio] Medidas de protecção aos pinhais.
[15 de Julho] O príncipe D. João assume a regência de direito, durante o
impedimento de D. Maria I. (A regência prolonga-se até 1816, ano da morte da
rainha.)
[Setembro] Ocupação simbólica de Goa pelos Ingleses.
Alterações ministeriais provocadas pela «recaída política» de José Seabra
da Silva.
Plano de «instrução pública» de Garção Stocker. (Primeiro grande projecto
de instrução pública.)
Entrada em actividade da Junta da Directoria-Geral dos Estudos e Escolas
do Reino (criada em 1794), que terá o papel de coordenação do ensino.

1800 - A «França de Napoleão» retoma o projecto de invasão de Portugal.

1801
[7 de Março] Novo empréstimo de 12 milhões de cruzados, constante de 20
000 acções de 240 réis cada uma.
[6 de Junho] Assinatura de acordos com a Espanha e a França.
«Guerra das Laranjas» com a Espanha. Desta ofensiva relâmpago, em
Maio, resulta a perda de Olivença.
Interrupção das reuniões do Conselho de Estado. (Revitalizado com a
revolução liberal.)
Inconfidência Pernambucana.
É fundada a Escola de Medicina e Cirurgia de Goa.
A «Junta dos Estudos...» pede a criação de 200 escolas. (São apenas
abertas 21 entre 1809-1820.)
Criação da Guarda Real da Polícia.
Contam-se em Lisboa 5 lojas maçónicas.
A população portuguesa anda pelos 3 milhões de habitantes (2 931 930).

1801-1802

Recenseamento geral da população, por ordem de Rodrigo de Sousa Coutinho e


José António de Sá: Tábuas Topográficas e Estatísticas de todas as Comarcas de
Portugal.

1802 - Recepção do novo embaixador francês, general Lannes, em Lisboa, com


«grande aparato».
Afastamento, com a contribuição do embaixador francês, do carismático
intendente Pina Manique.
Na noite de Santo António a populaça de Lisboa ouve a marcha da
Marselhesa (tocada em honra do Santo).
Fundação da grande loja maçónica portuguesa: o Grande Oriente Lusitano.
Ampliados os privilégios concedidos aos plantadores de amoreiras.
Instalação da fábrica de papel de Vizela.
Inicia-se a construção do Palácio da Ajuda (de Francisco Fabri).

1803
[Julho] Motins de Campo de Ourique.
[19 de Dezembro] Convenção obtida pelo diplomata Lannes, garantindo a
neutralidade portuguesa.
Fundação do Colégio da Luz (antecessor do Colégio Militar).
A Aula de Desenho e Debuxo é incorporada na Academia Real da Marinha
e Comércio.
João António Carvalho Rodrigues da Silva escreve a Memória sobre o
Estado actual das Fábricas de Lanifícios da Vila da Covilhã [...].
Manuel Luís da Veiga (comerciante) escreve Escola Mercantil sobre o
Comércio.

[191]
(Legenda: Duque de Lafões (Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa).)

Joaquim José Rodrigues de Brito: Memórias Políticas sobre as Verdadeiras


Bases da Grandeza das Nações […].

1804
[24 de Janeiro] Abolido, de novo, o imposto do papel selado.
[11 de Dezembro] Alvará com disposições para regulamentar os
aforamentos dos maninhos e montados. O processo de apropriação privada dos
maninhos caminha a par com a afirmação do «individualismo agrário».
Napoleão reconhece a neutralidade de Portugal.
A presença do «partido francês», no governo português, é reforçada com a
ascensão de António de Araújo Azevedo à Secretaria dos Negócios Estrangeiros.
Uma viagem de exploração em Moçambique alcança o rio Tete.
Tratado de amizade e fraternidade entre as duas obediências: os Grandes
Orientes de França e Portugal.
José da Silva Lisboa (sob anonimato) redige os Princípios de Economia
Política […] (considerado o 1.º manual de economia publicado em Portugal).
Diário da Agricultura (1804-1806), de Francisco Soares Franco.

1805
[20 de Abril] Decreto sobre o Regimento Geral do Correio.
Junot chega a Lisboa como embaixador. (Na sua passagem por Madrid fica
praticamente decidido o projecto de invasão franco-espanhola.)
Proposta do príncipe D. João para a criação de seminários em todas as
dioceses.
Ordenada a criação de cemitérios públicos.

1806
[21 de Novembro] Napoleão decreta o Bloqueio Continental, em Berlim.
Exige-se o encerramento dos portos portugueses à navegação britânica e a
confiscação dos bens dos súbditos ingleses estacionados em Portugal.
Enviada a Portugal uma esquadra inglesa, para negociar o apoio militar e
político contra a França.
Conspiração de Mafra (intentada contra o príncipe D. João por um grupo de
aristocratas que pretendem o seu afastamento do poder).
Os pombeiros Pedro João Baptista e Amaro José chegam ao Cazembe no
interior da África Austral.
Morre o duque de Lafões.
Colecção dos principais autores da Historia Portuguesa, da Academia Real
das Ciências (8 vols.: 1806-1809).

1807
[Julho] Napoleão ordena o encerramento dos portos portugueses à
Inglaterra.
Encerramento dos portos, mas autorização de residência aos ingleses.
[11 de Outubro] Ordem a Junot para a invasão.
[27 de Outubro] Tratado de Fontainebleau. Projecto de ocupação conjunta
e divisão do território português em 3 partes: uma para o rei da Etrúria, outra para
a Espanha e ainda outra que ficaria sob a tutela de Napoleão.
Convenção secreta entre Portugal e a Inglaterra: prevê-se a transferência
da sede da

[192]

monarquia para o Brasil e a ocupação da Madeira por tropas inglesas (enquanto


durassem as operações militares no continente).
Prisão e sequestro dos bens dos Ingleses (numa) tentativa de evitar a
invasão).
1.ª invasão francesa. Junot invade Portugal. Concentração das tropas
francesas em Abrantes. (Um emissário do príncipe D. João tenta dissuadir Junot
de avançar sobre Lisboa.)
São emitidos mais de 11 000 passaportes em Lisboa, pela Intendência-
Geral da Polícia, antes da entrada do exército invasor. Vai ser grande a «sangria
de gentes e de dinheiro».
[26 de Novembro] Nomeação do Conselho de Regência, composto por
nove personalidades representativas da nobreza, clero e magistratura.
[29 de Novembro] Uma deputação de personalidades ligadas à Regência, à
Academia das Ciências e à Maçonaria dirige-se a Sacavém para pedir a
protecção de Junot.
[29 de Novembro] A corte parte para o Rio de Janeiro.
Junot entra em Lisboa acompanhado por uma escolta da Guarda Real da
Polícia.
Governo de Junot. As estruturas do Estado quase não sofrem alterações.
As classes dirigentes «participam» no processo; dá-se apenas um
«afrancesamento» das instituições. Esta situação mantém-se entre 30/11/1807 e
01/12/1808 (data em que é extinto o Conselho de Regência e proclamada,
oficilalmente, a destruição da Casa Real de Bragança).
Transferência, para o Rio de Janeiro, da Academia Real dos Guardas-
Marinhas.
Os operários arsenalistas fundam um montepio.
Balbi estima a população portuguesa em 3 199 000 habitantes.

[193]

(Legenda: Alegoria à Constituição de 1822, por Domingos Sequeira (Lisboa,


Museu Nacional de Arte Antiga).)

[194]

1808-1890
Luís Filipe Torgal

A alvorada oitocentista na Europa é marcada pelo processo de desagregação das


estruturas do Antigo Regime, contestadas pelo emergir da Ideia Liberal, que
entretanto havia sido concretizada em França em 1789. No período pós-
revolucionário, os exércitos napoleónicos, ávidos de sentimentos imperialistas,
invadem a Europa como mensageiros da trilogia «Liberdade, Igualdade e
Fraternidade». No âmbito deste comportamento paradoxal os Franceses
penetram em terras portuguesas no ano de 1807.
Esta data lapidar constitui para o nosso país, até certo ponto, uma fronteira
que separa o Portugal Moderno do Portugal Contemporâneo. Desde então
constata-se a afirmação crescente das ideias inovadoras que irão contribuir para
edificar novas estruturas políticas, económicas, sociais e culturais.
Em Portugal, a Revolução Liberal teve, evidentemente, características
específicas, bem diferentes da Revolução Francesa, que apesar do processo
contra-revolucionário que se lhe seguiu, deixou traços profundos de
transformação na sociedade de França. As velhas estruturas portuguesas
dificilmente se modificaram e, assim, o processo revolucionário foi lento,
incompleto e irregular.
O pronunciamento militar do Porto, ocorrido em 1820, se criou condições
para a concretização efectiva do liberalismo em Portugal, assumiu-se inicialmente,
sobretudo como um golpe de Estado nacionalista contra a presença opressiva da
Inglaterra no nosso território. Porém, depois da Martinhada, o movimento
radicaliza-se e toma o sentido do liberalismo progressista, abrindo caminho ao
período do vintismo, responsável pela elaboração da Constituição de 1822, que
constituiu um documento avançado para a época.
O evoluir do liberalismo será bloqueado pelos sectores sociais
conservadores e tradicionalistas, identificados com a velha ordem absolutista,
unidos em torno do infante D. Miguel e da rainha D. Carlota Joaquina. Estes
desencadeiam uma série de golpes contra-revolucionários que levam o
«clemente» D. João VI, em 1823, a abolir a Constituição e a revogar as Cortes
liberais.
Após a morte do rei, o imperador do Brasil, D. Pedro I, procurará conciliar
liberais e absolutistas ao outorgar a Carta Constitucional de 1826, de carácter
mais moderado e tradicional. Mas, a reacção da facção miguelista será
implacável. A ânsia de controlar os acontecimentos do país em seu proveito leva
D. Miguel e os seus partidários a tomarem uma atitude de intransigência para com
os valores do liberalismo, criando um clima de terror e opressão antiliberal que
desemboca na guerra civil. Esta terminará em 1834, com a Convenção de Évora-
Monte que consagra a vitória das forças liberais e o exílio definitivo de D. Miguel.
Depois de 1834, a ameaça absolutista parece definitivamente controlada,
mas um novo período de instabilidade política implanta-se em Portugal, motivado
pela fragmentação crescente da família liberal que, de resto, desde o início se
manteve profundamente desunida por divergências ideológicas insanáveis. De um
lado, os cartistas, adeptos de um liberalismo moderado regidos pelos princípios da
Carta de 1826; do outro, os herdeiros do vintismo, defensores de um liberalismo
avançado.
Em 1836 a Revolução de Setembro coloca os progressistas no poder,
iniciando o chamado setembrismo, durante o qual, é redigida a Constituição de
1838, que se afigura como um compromisso entre a Constituição de 1822 e a
Carta Constitucional de 1826. Todavia, a incapacidade política dos setembristas
coloca de novo os cartistas no poder, curiosamente pela mão de um antigo
setembrista radical, Costa Cabral, que em 1842 repõe

[195]

em vigor a Carta Constitucional. O setembrismo é, assim, substituído pelo


cabralismo, que adoptou a bandeira da ordem e do desenvolvimento económico.
A tendência autoritária e repressiva de Costa Cabral suscita fortes
movimentos de protesto contra o regime – revoltas da Maria da Fonte e Patuleia –
provocando o seu enfraquecimento.
Em 1851 ocorre um movimento que vai marcar a vida política portuguesa
da segunda metade do século XIX, a Regeneração, originada pelo golpe do duque
de Saldanha que depõe Costa Cabral. Correspondeu a um período de
estabilidade política «rotativista» que permitiu introduzir significativas reformas
políticas, económicas e administrativas criando uma imagem de paz e de
progresso.
Na década de 70 a «estabilidade» da Regeneração é, porém, questionada
por uma nova geração de homens que colocam em evidência as contradições da
monarquia constitucional e alertam para a crise económica, política e cultural com
que se debate o país É dentro deste clima contestatário que surgem as
Conferências Democráticas do Casino Lisbonense que pretendem propor, em
última análise, um novo rumo para os destinos de Portugal. No seio desta geração
de 70 germinam concepções socialistas e sobretudo republicanas. O movimento
republicano organizar-se-á a partir da década de 70 no meio de efervescentes
debates ideológicos que originam a cisão dentro do partido.
A inépcia dos governos monárquicos vai progressivamente desgastando a
imagem da monarquia, que cada vez aparece mais identificada, no domínio da
opinião, com uma verdadeira oligarquia de demagogos e incompetentes. Este
facto beneficia os republicanos que intensificam a sua propaganda, sobretudo
depois do Ultimatum inglês de 1890, que tem como objectivo ganhar uma base
social de apoio com vista à conquista do poder. No ano de 1890 parece
desencadear-se, de uma forma decididamente clara, a crise do regime
monárquico, anunciando o princípio do fim de um sistema que se irá desmoronar
formalmente em 5 de Outubro de 1910.

1808
[21 de Janeiro] Chegada da família real – D. Maria I e o príncipe D. João –,
acompanhada da respectiva corte, ao Brasil. A primeira invasão das tropas
napoleónicas e espanholas, comandadas pelo ex-embaixador em Lisboa, general
Junot, provocou esta fuga precipitada, que causou grande polémica entre os
políticos da época.
[22 de Janeiro] Abertura dos portos brasileiros ao tráfego internacional e
aos aliados de Portugal. Esta decisão régia, tomada sob pressão inglesa, fez
desabar o sistema baseado no «pacto colonial», em vigor desde a época
pombalina, que submetia os interesses do comércio brasileiro ao monopólio de
Portugal, favorecendo particularmente a Inglaterra, que se encontrava
especialmente voltada para os mercados brasileiro e português, e colocando a
metrópole, pelo menos temporariamente, na dependência da colónia do Brasil.
[Fevereiro] O crescente «afrancesamento» ideológico e institucional que o
país viveu depois da saída da família real culminou na dissolução do Conselho de
Regência e na destituição oficial da Casa de Bragança levada a cabo pelo general
Junot. Na sequência destes factos, Junot forma um governo composto por
portugueses e franceses da sua confiança.
[Fevereiro-Março] Com o objectivo prioritário de colocar o exército
português

[196]

ao serviço da causa napoleónica, Junot alicia os militares a alistarem-se em três


legiões de voluntários destinados a engrossar o exército imperial francês na luta
contra as monarquias absolutas europeias. Estas legiões partirão para França em
Março.
Na sequência de um decreto ordenado por Napoleão, que institui nas
nações dominadas um imposto extraordinário de 100 milhões de francos, Junot
lança sobre o reino de Portugal uma contribuição de 40 milhões de cruzados que
deveriam ser pagos à França imperial. À Junta do Comércio são cobrados 6
milhões. O ouro e a prata das igrejas, pelo menos de Lisboa, começam a ser
recolhidos. Aos prelados pedem-se maiores sacrifícios sobre os povos, já
agravados com uma subida em flecha dos preços e avultadas requisições
agrícolas. Os bens da Casa Real e dos nobres que tinham abandonado o país
são sujeitos a confisco.
[26 de Abril] Com o objectivo fundamental de firmar e fixar os termos da
aliança de Portugal ao sistema continental, Napoleão recebe em Baiona a
«Deputação Portuguesa» em que se encontram representados, entre outras
distintas personalidades da nobreza e clero, a Regência, a Universidade e a
Inquisição. Este encontro, para além de permitir a clarificação do quadro político
que unia as duas nações, constitui formalmente uma prova de fidelidade das mais
ilustres figuras da Nação a Napoleão.
[23 de Maio] «Súplica» de Constituição a Napoleão realizada por um
conjunto de personalidades adeptas dos ideais liberais, no sentido de obterem do
imperador a outorga de um documento que originaria uma nova estruturação da
organização político-admmistrativa portuguesa. Este pedido pretendia, afinal,
tornar Portugal um Estado constitucional independente entre as «nações
confederadas», regido pelos valores liberais da igualdade civil e fiscal, liberdade
de imprensa e de culto, e sistema tripartido de poderes. A oposição popular
sistemática contra Junot e o domínio francês fez, no entanto, sepultar
definitivamente a primeira sugestão de um texto constitucional liberal, em sentido
moderno, no espaço territorial português.
(Legenda: Duque de Wellington (caricatura inglesa).)

[Junho-Julho] Imcia-se uma vaga de insurreições contra o domínio francês,


que começa no Porto, mas rapidamente se alastra a todo o país. São motins
populares de fome e penúria dirigidos contra o poder invasor francês, mas são
também revoltas antiliberais organizadas pelas classes dominantes em prol da
restauração da união entre o trono e o altar que os invasores franceses faziam
perigar.
[1 a 5 de Agosto] Desembarque de um corpo expedicionário de cerca de 13
500 ingleses comandados pelo general Arthur Wellesley, futuro duque de
Wellington, em Lavos, na margem sul do estuário do Mondego. A intervenção
militar inglesa, que ocorre numa fase adiantada da campanha da restauração
nacional, por pressão do novo embaixador em Londres, D. Domingos de Sousa
Coutinho, era de resto ansiada por sectores da sociedade portuguesa desde o
início da ocupação francesa.
[17 a 21 de Agosto] Confrontações em Roliça e Vimeiro entre as tropas
aliadas, constituídas pelo exército inglês, comandadas pelo general Wellesley e
pelos soldados portugueses dirigidos pelo general Bernardim Freire de Andrade, e
o exército francês. Estas batalhas saldaram-se por uma vitória das forças anglo-
lusas, forçando os Franceses, comandados por Junot, a assinar

[197]

a rendição que porá fim à primeira invasão.


[30 de Agosto] Assinatura da Convenção de Sintra entre a Inglaterra e a
França, mas sem o aval das autoridades portuguesas. Este tratado significou a
rendição das forças francesas e o seu consequente abandono do território
nacional. No entanto, é elaborado em termos benévolos para os Franceses, que
puderam saquear aquilo que quiseram, e muito benéfico para os Ingleses, que
mantiveram a posse de grande número de praças e de fortes, o que originou
veementes protestos da parte das autoridades portuguesas, nomeadamente de
Bernardim Freire de Andrade.
Criação do Banco do Brasil, com a finalidade essencial de estabilizar o
orçamento do Império, viabilizar as obrigações do Estado e cobrir as
necessidades orçamentais da Monarquia.

1809
[Março-Maio] Segunda invasão francesa, comandada pelo general Soult,
que em Março entrou em Portugal, venceu as serranias do Alto Douro e Trás-os-
Montes e atingiu o Porto, onde se manteve durante um mês. Em Maio, sob
pressão do exército anglo-luso, os Franceses são obrigados, novamente, a
retirarem-se, sofrendo a última derrota já em território espanhol, na Batalha de
Talavera.
[Março] São presas e colocadas fora da capital, com residência fixa, várias
personalidades, a maior parte das quais ligadas à Maçonaria e ao Grande Oriente
Lusitano, cujo arquivo cai sob a alçada da polícia. Esta medida integra-se numa
política de reconstituição do poder central, levada a cabo em Portugal pelas forças
britânicas apostadas em punir todos os suspeitos de jacobinismo e «afeição» aos
Franceses.
Ocupação da Guiana Francesa pelas forças portuguesas no Brasil, que
permanecerá em poder das forças luso-brasileiras até ao Congresso de Viena
(1815). Esta invasão, que permitiu o alargamento do território brasileiro, integra-se
na política de renovação administrativa, judicial e de desenvolvimento económico
que o príncipe regente, entretanto instalado no Rio de Janeiro, começa a pôr em
prática na colónia portuguesa, que parece vocacionada para substituir Lisboa
como centro do Império.
Publicação do primeiro quotidiano português, Diário Lisbonense.

1810
Assinatura entre Portugal e Inglaterra dos Tratados do Comércio e Amizade
e de Aliança e Navegação que passam a assegurar aos Britânicos o acesso
preferencial dos seus produtos a todos os territórios portugueses, com a
concessão de privilégios especiais, mesmo em relação aos produtos portugueses.
A partir de então, o movimento industrial português entra em depressão face ao
profundo impacto da industrialização inglesa que permite a colocação no país de
produtos manufacturados de qualidade superior a preços competitivos.
[Junho] Terceira invasão francesa, comandada pelo marechal Massena,
que penetra em Portugal pela Beira Alta à frente de um poderoso exército
composto por 80 000 homens. Toma Almeida e Viseu; contudo será travado no
Buçaco pelo exército anglo-luso liderado por Wellesley, futuro duque de
Wellington. A vitória do Buçaco será acompanhada por um recuo estratégico do
exército anglo-luso até às Linhas de Torres, onde se constitui uma fortificação
tendo em vista a defesa de Lisboa.
[27 de Setembro] Batalha do Buçaco entre o exército francês invasor,
comandado por Massena, e o exército anglo-português, comandado por
Wellesley. O exército francês sai derrotado neste violento recontro, onde as forças
do general inglês tiram partido da natureza acidentada do terreno. Apesar da
derrota, Massena prosseguiu a marcha rumo a Lisboa, não conseguindo, no
entanto, ultrapassar as fortificações de Torres Vedras.
[Setembro] Prisão e exílio de cerca de cinquenta personalidades ligadas à
magistratura, comércio, exército, profissões liberais e clero, acusadas de
colaboracionismo durante a ocupação francesa e de conotações ideológicas
liberais. Este processo, conhecido pela designação de «Setembrizada» inseriu-se
em toda uma estratégia de política repressiva desencadeada pelas forças.

[198]

britânicas, com a sanção formal do príncipe regente.

1810-1811
[Outubro-Março] Retenção das forças francesas nas linhas fortificadas de
Torres Vedras que impedem a chegada do exército invasor a Lisboa. O exército
de Massena, incapaz de transpor este obstáculo, recuará definitivamente,
retomando já em Março de 1811 o caminho da fronteira.

1811 - Pedro João Baptista e Anastácio Francisco chegam a Tete, em


Moçambique, concluindo uma série de viagens de exploração iniciadas em 1802.

1812
[Julho] Criação da instituição Vacínica, por iniciativa de alguns médicos,
sócios da Academia Real das Ciências de Lisboa. Este organismo visou introduzir
e divulgar em Portugal a vacina descoberta por Jenner na última década do
século XVIII, como meio privilegiado de combate contra as doenças infecto-
contagiosas, com particular destaque para o flagelo da varíola, um dos males
endémicos mais mortais do século XIX.

1814 - Tratado de Paris, impondo a Portugal a cedência da Guiana.

(Legenda: A batalha do Buçaco (gravura inglesa).)


1815 - Congresso de Viena reunindo os representantes das principais potências
europeias com vista ao restabelecimento da antiga ordem internacional, afectada
desde a Revolução Francesa e consequente acção imperialista de Napoleão.
Deste Congresso resultou a formação da Santa Aliança, entre os governos
conservadores da maioria dos países participantes, com o objectivo de suster a
expansão das ideias liberais e consolidar os absolutismos régios ameaçados.
Portugal participou nesta reunião; contudo, não obteve as compensações
pretendidas.
Tentativa de remodelação do exército português efectuada pelo general
Beresford, que pretendia introduzir um novo regulamento e recrutamento militar
que acarretava despesas extraordinárias, promovia militares ingleses em
detrimento dos nacionais e punha em causa ambições de poder dos
governadores portugueses. Na sequência deste facto, a oposição antibritânica
consolida-se.
No âmbito dos Acordos de Viena, estipula-se a redução do tráfico de
escravos a sul do equador.
Publicação da Carta de lei que criou o «Reino Unido de Portugal, Brasil e
Algarves.»

[199]

O Brasil, que havia sido a «jóia da coroa» portuguesa, devido às suas riquezas
naturais, ascende da condição de colónia à situação de reino, ficando em pé de
igualdade com a metrópole.

(Legenda: William Beresford)

1816
[20 de Março] Morte de D. Maria I, que reinou, de facto, até 1792, altura em
que, já viúva, manifestou sinais de demência, tendo sido, por isso, chamado à
governação o príncipe D. João, que veio a assumir a regência do reino em 1799 e,
posteriormente, a ser oficialmente proclamado rei de Portugal.

1817 - Criação em Lisboa da conspiração da Sociedade Secreta e paramaçónica


revolucionária «Supremo Conselho Regenerador de Portugal, Brasil e Algarves»,
com o objectivo de afastar ingleses e outros estrangeiros do controlo militar do
país e de promover «a salvação e independência» de Portugal através da
formação de um novo governo. Os membros desta sociedade eram, na sua
maioria, militares regressados a Portugal, depois de prestarem serviço no exército
napoleónico, e mações, como o carismático grão-mestre, general Gomes Freire
de Andrade. A teia revolucionária é descoberta pelas autoridades portuguesas e
inglesas e os seus responsáveis são severamente julgados, sendo deportados,
exilados e, os mais importantes, condenados à morte e executados por
enforcamento, o que veio a acontecer ao general Gomes Freire de Andrade, tido
como o líder da conspiração.
Primeira tentativa de introdução de uma máquina a vapor em Portugal com
fins industriais.
Revolta em Pernambuco levada a cabo por brasileiros «filhos da terra»,
liderados por Domingos José Mártires, que instituíra no Recife uma loja maçónica.
O movimento, que apresentou um carácter simultaneamente republicano e
antiportuguês, foi, à semelhança das anteriores conjurações mineira e baiana,
precursor da independência do Brasil. Não teve um triunfo duradouro em virtude
do desentendimento entre as facções, da falta de apoios externos e da
intervenção do exército.

1818 - D. João VI promovia no Rio de Janeiro (dois anos depois da morte da


rainha D. Maria I) a cerimónia da sua aclamação. O novo monarca demonstrava
assim a vontade de se manter no Brasil, apesar das pressões que a partir de 1814
se começam a abater sobre ele no sentido de regressar a Portugal.
Fundação, no Porto, do Sinédrio, associação secreta paramaçónica criada
pela acção conjunta dos juristas Manuel Fernandes Tomás e José da Silva
Carvalho. Inicialmente sem projecto revolucionário, depois da notícia do triunfo da
revolução liberal em Espanha, o Sinédrio transforma-se em movimento militante
contra o regime absoluto dominado por ingleses, passando à acção em 24 de
Agosto de 1820.
[Março] Alvará publicado por ordem dos governadores de Lisboa, depois do
consentimento

[200]

do rei D. João VI, proibindo as sociedades secretas, em Portugal. Esta medida


integra-se no contexto da política repressiva das autoridades portuguesas e
inglesas contra os partidários da mudança para um regime liberal, genuinamente
português.
1819 - Representação de Lucrécia, de Almeida Garrett.

1820
[Julho] Segunda viagem de Beresford ao Brasil, para obter de D. João VI
poderes políticos e militares mais alargados, para travar as intrigas de alguns
membros da regência e controlar os partidários do liberalismo.
[24 de Agosto] Pronunciamento militar no Porto, que contou com a adesão
popular e larga participação de comerciantes e magistrados, que se revoltam
contra o regime absoluto conduzido por uma regência controlada pela
interferência inglesa. Esta revolta, iniciada no Campo de Santo Ovídio, deu origem
a uma alteração dinâmica na sociedade portuguesa, ao pôr em causa as
estruturas de um Estado de Antigo Regime, abrindo caminho à aplicação em
Portugal dos valores do liberalismo.
Na sequência do movimento liberal ocorrido no Porto, em 24 de Agosto,
constitui-se nesta cidade a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, que
integra, entre outros, o brigadeiro António da Silveira, os coronéis Sebastião
Cabreira e Bernardo Sepúlveda e os burgueses Manuel Fernandes Tomás, José
Ferreira Borges e José da Silva Carvalho. O numeroso governo da Junta do Porto
marcha em seguida rumo a Lisboa, com o intuito de provocar a queda da regência
e aí fazer chegar a revolução liberal.
Beresford é proibido de desembarcar em Portugal quando regressa do
Brasil, devido à eclosão da revolução portuguesa, que veio, de resto, pôr fim à sua
carreira no nosso país. Voltará, contudo, em 1826 a pedido da regente D. Isabel
Maria para proteger o vacilante regime liberal. Mas a oposição que se lhe deparou
fê-lo partir definitivamente para Inglaterra.

(Legenda: D. João VI, por Domingos Sequeira (Lisboa, Palácio de S. Bento).


[11 de Novembro] Eclosão da Martinhada, conflito que opôs, no dia de S.
Martinho, uma facção constituída por uma estranha e paradoxal aliança de
personalidades conservadoras, absolutistas, liberais radicais e militares
empenhada em controlar o poder nascido de uma revolução para a qual
consideravam ter dado um contributo decisivo, a um outro grupo que integrava
liberais moderados, maioritários nos órgãos dirigentes (Junta do Governo
Supremo do Reino e Junta Preparatória das Cortes). O que começou por ser uma
revolta politicamente dominada pelos conservadores e absolutistas culminou no
seu afastamento do campo da revolução vintista e na radicalização desta no
sentido liberal.
O governo que tomou posse após a revolução, e depois de afastada a
ameaça conservadora que emergiu na Martinhada, restabelecia a ordem pública
interna, regulava

[201]

a forma das eleições e elaborava um projecto pioneiro de Constituição moderada


da autoria do membro do governo Frei Francisco de S. Luís que apontava para a
formação de duas câmaras governativas.
[Dezembro] Formação de uma nova Junta Provisional, presidida por Freire
de Andrade, decano da Sé de Lisboa, resultante da fusão dos movimentos
revolucionários do Porto e Lisboa. Esta promove as primeiras eleições por
sufrágio indirecto que determinam a escolha de uma maioria burguesa de
comerciantes, proprietários e burocratas, que passam a integrar as Cortes
Constituintes.

1820-1821

Introdução em Portugal da máquina a vapor aplicada à indústria, depois de já ter


começado a ser utilizada no Brasil. O início do uso da energia a vapor pela
indústria no nosso país coincide, portanto, com o emergir da revolução portuguesa
de 1820 que procurará limitar a concorrência industrial britânica através de
medidas incentivadoras ao desenvolvimento da indústria nacional.

1821
[26 de Janeiro] Reunião das Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes
da Nação Portuguesa, escolhidas em eleições por sufrágio indirecto. A sua tarefa
fundamental e prioritária foi elaborar o mais antigo texto constitucional português,
que consolidasse os princípios do movimento liberal revolucionário de 1820.
[Fevereiro] Juramento das bases de uma futura Constituição por D. João
VI, no Brasil, que entretanto, face à pressão do governo metropolitano e depois de
uma longa polémica no seio da própria corte, decidirá, contra sua vontade,
regressar a Portugal.
[20 de Março] Supressão e abolição de alguns «direitos banais». Este
decreto, perfeitamente integrado dentro do espírito liberal, pretende abolir tributos
e imposições que remontam ao período senhorial, contribuindo para uma maior
liberalização das actividades agrícolas e um acesso dos estratos sociais mais
vastos aos meios de produção.
Extinção do Tribunal do Santo Ofício. O espírito tolerante e laico do
liberalismo, que assimilou os valores do iluminismo, entendeu desde logo extinguir
este órgão católico repressivo, ao mesmo tempo que pugna pela secularização da
sociedade, da cultura e das instituições e por uma não interferência da Igreja nos
poderes do Estado.
Fundação da primeira instituição bancária em Portugal – o Banco de Lisboa
–, que contribuirá decisivamente para a liberalização da economia e dinamização
do mercado. Este banco será, simultaneamente, comercial, concessor de créditos,
aceitante de depósitos, intermediário na oferta e procura de capitais e banco
emissor exclusivo até 1835. Em 1846 fundir-se-á com a Companhia Confiança
Nacional, dando origem ao Banco de Portugal.
[5 de Maio] Publicação do decreto que inicia o processo de desamortização
do período liberal, o qual se traduz no desmantelamento de corporações e de
estabelecimentos religiosos e laicos, na nacionalização dos bens da coroa e na
incorporação dos seus bens na Fazenda Nacional, que posteriormente os
transferirá, por meio de venda em hasta pública, para o domínio privado.

(Legenda: Gomes Freire de Andrade)

[202]

[4 de Julho] Após diversos adiamentos, a família real acaba por regressar


definitivamente a Portugal. Com ela veio um séquito de cerca de 4000 indivíduos:
ministros, oficiais, diplomatas e as suas famílias, além de deputados às Cortes
pelo Rio de Janeiro. Depois do desembarque, na Praça do Comércio, o rei
deslocou-se para a Sala das Cortes, no Convento das Necessidades, onde
novamente jurou as bases da Constituição. Inicia-se, assim, em Portugal o
exercício efectivo da monarquia constitucional, onde o rei é chamado a
desempenhar um novo papel e os cidadãos passam a poder intervir mais
activamente, através dos seus representantes nas Cortes.
Abolição da censura prévia e regulamentação do exercício da liberdade de
imprensa, segundo projecto de Soares Franco, posteriormente aprovado pelas
Cortes vintistas.
Início da aplicação da máquina a vapor à navegação no Tejo. Em 1823
efectuar-se-á a ligação marítima por «vapor» entre Lisboa e Porto. Apesar destes
factos pronunciarem o advento de uma nova era para os transportes portugueses,
a navegação tradicional através de diversos tipos de embarcações – barca
serrana (no Mondego), o moliceiro (na ria de Aveiro) e o rabelo (no Douro) –
continuará em voga ainda por muitas décadas, até mesmo após o advento dos
transportes ferroviários, possibilitando as respectivas ligações, face ao deficiente e
incompleto sistema viário.
Integração no território brasileiro da banda oriental do Uruguai, conquistada
e anexada de 1816 a 1820, que permitia navegar sem restrições pela bacia do rio
da Prata e ter acesso fácil à província do Mato Grosso. Em 1821 era este território
integrado no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, com o nome de Província
Cisplatina, mas apenas até 1828, ano em que se tornará independente como
República Oriental do Uruguai.
Almeida Garrett publica Retrato de Vénus.

1822
[3 de Junho] Publicação do decreto sobre a lei dos foros que vem ao
encontro das aspirações dos camponeses, ao reduzir para a metade as rações e
para a quarentena os laudémios Este diploma, que no entanto apenas se aplicava
às terras cujos direitos eram regulamentados por carta foral, integra-se num
ambicioso plano de reforma que visa remover os principais obstáculos ao
desenvolvimento da agricultura, libertando a terra de excessivas cargas tributárias
que ascendiam ao regime agrícola senhorial.
[7 de Setembro] Proclamação da Independência do Brasil. O regresso de
D. João VI a Lisboa, em 1821, as medidas desastrosas das Cortes portuguesas
relativamente ao Brasil, que decretam o seu retrocesso à situação de simples
colónia e hostilizam o príncipe D. Pedro que ficara entre os Brasileiros, aliados à
onda liberal autonomista que no século XIX invadiu toda a América Latina,
levaram a que o Brasil proclamasse a independência pela boca do príncipe D.
Pedro Portugal viria em 1825 a reconhecer este acto proclamado nas margens do
no Ipiranga.
[23 de Setembro] Promulgação da Constituição portuguesa, que se afasta
(Legenda: Frontispício da Constituição de 1822.)

[203]

frontalmente do regime absoluto, ao instituir um sistema de poderes tripartido


(poder executivo: rei e ministros; poder legislativo: cortes; poder judicial: tribunais),
ao prever ainda a liberdade individual e a livre expressão de pensamento, a
igualdade de todos os cidadãos perante a lei, a supremacia das cortes legislativas
e a defesa da monarquia, com óbvia redução dos poderes do rei.
[1 de Outubro] Juramento da Constituição por D. João VI. A rainha, D.
Carlota Joaquina, que desde cedo assume muito claramente a sua oposição à
revolução de 1820, recusa-se a jurar a Constituição, dedicando-se a conspirar
com o núcleo importante de absolutistas no sentido de planear a contra-revolução.
[12 de Outubro] D. Pedro é aclamado imperador do Brasil, recebendo o
título de D. Pedro I.
Prisão de um conjunto de conspiradores antiliberais que se reuniam em
Lisboa, numa oficina tipográfica situada na Rua Formosa, para preparar a contra-
revolução absolutista. Planeavam a dissolução das Cortes, convocando-as
seguidamente à moda antiga, a deposição do rei, substituindo-o pelo infante D.
Miguel, e até, provavelmente, o assassinato de alguns vintistas.
Fundação da Sociedade Promotora da Indústria Nacional, constituída por
capitalistas, comerciantes, industriais e intelectuais, que procurou por vários meios
ao seu alcance chamar a atenção para a realidade industrial, o que não estaria na
primeira linha de prioridades vintistas.

1823
[23 de Fevereiro] Rebelião contra-revolucionária liderada pelo general
Manuel da Silveira, conde de Amarante, e outros militares que haviam sido
afastados depois da Martinhada. A revolta contra o governo liberal, no Norte do
país, é dominada pelas forças militares afectas ao governo. O conde de Amarante
é derrotado, os seus bens são confiscados, sendo obrigado a refugiar-se em
Espanha. Esta sua acção foi um sinal evidente dos ventos de mudança que se
avizinhavam e onde ele teve um papel de destaque.
[Março] Extinção de todas as portagens, íncluindo as que se encontrassem
doadas, vendidas ou vinculadas, com algumas excepções relativas à Alfândega
de Lisboa e ao pescado do Algarve.
[27 de Maio] Sublevação de D. Miguel, denominada Vila-Francada. Foi
sobretudo uma demonstração militar de forças políticas absolutistas contrárias ao
liberalismo, ocorrida em Vila Franca de Xira. O infante D. Miguel obedecia a um
plano conspirador, a que não era estranha a influência da rainha, D. Carlota
Joaquina, para destronar o rei, de quem se dizia que era coagido pelo governo
liberal. Na sequência do golpe contra-revolucionário é abolida a vigência da
Constituição de 1822, o rei nomeia outro executivo, atribuindo a D. Miguel o
comando do exército, restitui à rainha as prerrogativas que lhe haviam sido tiradas
e manda soltar os presos por motivos políticos. O Partido Absolutista obtém assim
a sua primeira vitória significativa depois dos acontecimentos de 1820.
[18 de Junho] Nomeação de uma Junta presidida pelo marquês de
Palmela, integrando 14 membros, entre os quais predominavam os nomes mais
conhecidos do movimento conservador, para preparar o projecto da carta de lei
fundamental da monarquia portuguesa. Em fim de Dezembro do mesmo ano a
Junta tinha já definido um texto constitucional moderado que, contudo, não é
colocado em prática devido às manobras das forças absolutistas.
[19 de Junho] Criação de uma Junta, onde predominavam nomes
consagrados do movimento conservador para examinar as leis das Cortes
vintistas e propor as que estivessem de acordo com os verdadeiros princípios do
direito público. Depois de seis meses de análise da obra legislativa das Cortes
vintistas, é publicada uma Carta de lei em 18 de Dezembro que revogava os seus
decretos e ordens numa relação circunstanciada. Apenas se mantém em vigor o
decreto da criação do Banco de Lisboa.
[2 de Julho] As Cortes Extraordinárias auto-suspendem os seus trabalhos
na sequência da Vila-Francada, não sem antes cerca de 60 deputados terem
apresentado

[204]
(Legenda: D. Miguel I (Lisboa, Banco de Portugal)

uma «Declaração e Protesto», na sessão de 30 de Junho, em que alguns


parlamentares defenderam com toda a veemência nos seus discursos a
Constituição, jurando «Liberdade ou Morte» e «Constituição sem alterações».
[26 de Outubro] Projecto de conjuração, envolvendo D. Miguel e D. Carlota
Joaquina, para o afastamento do rei D. João VI, que deveria ser preso em Vila
Viçosa, e substituído no trono por D. Miguel. A polida acabou por frustrar esta
tentativa de golpe de Estado, capturando alguns dos seus implicados.

1824
[4 de Janeiro] Carta de lei declarando em vigor as leis tradicionais. Esta
decisão régia põe fim à vigência da Constituição de 1822 e permite o regresso à
tradicional ordem jurídica do Antigo Regime.
[Janeiro] Conclusão dos trabalhos de preparação da Carta fundamental da
monarquia e proposta ao rei de restabelecimento das antigas Cortes. Apenas
depois do golpe absolutista malogrado da Abrilada o rei decidiu convocar em
Junho os três estados do reino.
[Fevereiro] Assassinato em Salvaterra do marquês de Loulé, confidente e
conselheiro de D. João VI e início da perseguição aos seus ministros mais
próximos, duque de Palmela e conde de Subserra.
[Abril] Abrilada. Golpe absolutista premeditado pelos opositores de D. João
VI e liderado pelo infante D. Miguel, que acusava a Maçonaria de pretender
assassinar o rei e a família real. As forças revoltosas acabam por prender os
conselheiros de D. João VI e sequestrá-lo no Palácio da Bemposta. A intervenção
do corpo diplomático estrangeiro no sentido de libertar o rei permitiu que este se
refugiasse num navio inglês estrategicamente colocado no Tejo, onde irá
determinar o exílio de D. Miguel e intimidar a rainha, D. Carlota Joaquina a sair de
Portugal.
[Maio] Exílio do infante D. Miguel para Viena, decretado por D. João VI na
sequência do golpe absolutista malogrado da Abrilada.
[Junho] Dissolução da Junta anteriormente convocada para examinar as
leis emanadas pelas extintas Cortes vintistas. Convocação por D. João VI das
Cortes à moda antiga com a presença dos três estados do reino: clero, nobreza e
povo. Contudo, tal nunca chegou a realizar-se, nem em 1825, nem em 1826, ano
da morte do rei.
[Junho] Revogação da Lei dos Forais. Esta determinação surge na
sequência das sucessivas revoltas contra-revolucionárias que criaram uma
conjuntura política pouco propícia a mudanças económicas de fundo. O seu
cumprimento permitiu a recuperação do poder dos grupos privilegiados, afectos à
ordem absolutista, cujos rendimentos provinham das estruturas tradicionais da
propriedade.
[26 de Outubro] Nova tentativa de revolta militar miguelista em Lisboa,
visando assassinar os ministros de D. João VI, forçar a abdicação do rei e
estabelecer uma regência a favor da rainha «humilhada», D. Carlota Joaquina.
Fundação da Fábrica da Vista Alegre, em Ílhavo. O principal dinamizador
deste projecto, na sua primeira fase caracterizada pela produção de vidro e, já
nos anos 1830, pela introdução, em Portugal, do fabrico de porcelana, foi José
Ferreira Pinto Basto.
Almeida Garrett publica Camões.

[205]

(Legenda: D. Pedro IV)

1825
[15 de Novembro] O governo português reconhece a independência do
Brasil e assina com o novo Estado um Tratado de Paz e Aliança. Este acordo
permite a permanência de mercadores nacionais no Brasil e a continuidade da
corrente de emigração lusa rumo à ex-colónia de Portugal.
Fundação das Escolas Régias de Cirurgia de Lisboa e Porto que vieram
melhorar a qualidade do ensino e da prática da cirurgia em Portugal, já que, em
Coimbra, a Faculdade de Medicina dava sobretudo relevo à formação médica não
cirúrgica.

1826
[6 de Março] D. João VI nomeia um conselho de regência, sendo regente a
infanta D. Isabel Maria. O decreto assinado pelo rei clarifica a questão da
regência, no sentido de procurar evitar uma eventual subida ao poder de D.
Carlota Joaquina.
[10 de Março] Morte de D. João VI e início da regência da infanta D. Isabel
Maria, que coincide com um período de indefinição e instabilidade política, que
culmina com a outorga da Carta Constitucional enviada por D. Pedro I.
[29 de Abril] Outorga da Carta Constitucional concedida por D. Pedro ainda
no Brasil, que seguia de perto o modelo brasileiro, influenciado, por sua vez, pelo
modelo francês. A Carta, que garantia à nobreza hereditária as suas regalias,
considerava a existência de quatro poderes do Estado: o legislativo, pertencia às
cortes compostas por duas câmaras (Câmara dos Deputados e Câmara dos
Pares), o moderador, que pertencia privativamente ao rei, o executivo, que cabia
ao monarca e ao governo, e o judicial, na mão dos juizes e jurados. A Constituição
Outorgada continua, portanto, a afirmar o poder monárquico, sem manifestar
declarada inimizade à ideia constitucional. Nesta perspectiva permite um maior
consenso político, pois pretendia agradar às tradicionais classes privilegiadas,
assim como aos proprietários e aos grandes burgueses, que questionavam o
liberalismo de cunho vintista. Foi o texto constitucional que mais tempo esteve em
vigor (1826-1828, 1834-1836, 1842-1910).
[2 de Maio] Abdicação, por D. Pedro, da coroa de Portugal na sua filha D.
Maria da Glória. Esta deveria casar com o seu tio, o infante D. Miguel, que juraria
a Carta.
(Legenda: D. Maria II (Coimbra, Sala dos Capelos da Universidade)

[206]

[31 de Julho] Juramento, festivamente celebrado, da Carta Constitucional,


por liberais de Lisboa e Porto.
[Julho-Outubro] Plano dos contra-revolucionários portugueses e espanhóis
para a união ibérica. As forças políticas contra-revolucionárias uniram-se às
espanholas congéneres, dando origem a um amplo movimento de contestação ao
liberalismo, dinamizado por uma Junta Apostólica Ibérica, que tinha grande apoio
em Portugal por parte da rainha D. Carlota Joaquina.
[Agosto] Conspiração movida pelo corpo da polícia, pretendendo substituir
o infante regente pela rainha.
[24 de Agosto] Plano dos liberais peninsulares, exilados em Gibraltar, que
concebia a união de Portugal, Espanha e Brasil, sob o reinado de D. Pedro, então
imperador do Brasil. Este projecto conspirativo surge num momento em que a
ideia de um federalismo liberal ibérico, promovida por exilados portugueses e
espanhóis em Inglaterra, adquire maior dinamismo.
[4 de Outubro] D. Miguel, em Viena, decide-se a jurar a Carta
Constitucional outorgada por D. Pedro.
[30 de Outubro] Abertura das câmaras legislativas, onde a infanta D. Isabel
pronunciou um importante discurso de salvaguarda das instituições liberais.
[Outubro] Desembarque de um corpo expedicionário inglês, para a defesa
do regime da Carta Constitucional. Embora o apoio da Inglaterra à Carta
Outorgada por D. Pedro não fosse claro a este país, não convinha que em
Portugal prevalecesse um «partido apostólico», de tendência absolutista e contra-
revolucionária, que dominava a Espanha e que tinha grande apoio em Portugal
por parte da rainha.
Almeida Garrett publica D. Branca.

1827 - Confronto em Coruche entre forças liberais e miguelistas.


D. Pedro nomeia D. Miguel seu lugar-tenente para reger o remo em
obediência à Carta, durante a menoridade de sua filha D. Maria da Glória.

(Legenda: Marechal-duque de Saldanha (Porto, Museu Nacional Soares dos Reis)

[24 e 28 de Julho] Demissão do ministro da Guerra, Saldanha. Este acto


desencadeia um amplo movimento em seu apoio, que ficou conhecido com o
nome de «Archotadas» (uma vez que constituía uma manifestação nocturna
realizada à luz de archotes), em que é elaborada uma proclamação
«republicana». Saldanha será, contudo, o primeiro liberal a exilar-se em França.

1828
[22 de Fevereiro] Regresso de D. Miguel a Lisboa. Jura a Carta no Palácio
da Ajuda, assume a regência e nomeia um executivo. Contudo, a partir de Março
contraria anteriores resoluções e imprime uma nova mudança no processo político
em Portugal, optando por uma concepção prática de poder absoluto.
[Março] D. Miguel dissolve a Câmara dos Deputados e nomeia uma Junta
para preparar a convocação da antiga assembleia dos três estados do reino.
Cerimónia em que o rei usou os símbolos da sua realeza (manto e ceptro) numa
demonstração clara de regresso à monarquia absoluta.
Assassinato dos lentes de Coimbra, próximo

[207]
de Condeixa, quando se dirigiam a Lisboa para felicitar D. Miguel, em
representação da Universidade, por um grupo de estudantes liberais que
integravam a associação secreta dos Divodignos.
[Abril] Retirada dos principais agentes diplomáticos europeus, radicados em
Portugal, conseguindo o governo de D. Miguel apenas obter o reconhecimento da
Espanha, do Vaticano e dos Estados Unidos.
[Maio] Revoltas liberais por todo o país, face ao domínio miguelista. No
Porto constitui-se um governo revolucionário – a Junta do Porto.
[Junho] Belfastada. Desembarque no Porto de um grupo de exilados
liberais que chegam de Inglaterra no navio Belfast. Não se entendendo com os
membros da Junta Revolucionária portuense, regressam a Inglaterra ainda antes
da contra-ofensiva miguelista.
[23 a 25 de Junho] Reunião dos três estados do reino – clero, nobreza e
povo – aclamando o infante D. Miguel como rei absoluto.
Cisão dos liberais no exílio, agrupados em duas correntes: palmelistas que
tinham em Palmela o chefe e defendiam uma orientação moderada, anglófila, e
saldanhistas, que consideravam Saldanha o seu chefe carismático, sendo um
grupo mais radical e francófilo.
Almeida Garrett publica Adozinda.

1829 - Violenta acção repressiva desencadeada pelo governo miguelista sobre os


liberais que permaneceram em Portugal. Traduziu-se em inúmeros homicídios,
prisões e condenações à morte por fuzilamento e enforcamento.
[9 de Janeiro] Sublevação do corpo militar da Brigada da Marinha,
conhecida como a «Revolta do Brigadeiro Moreira». Nela estavam
comprometidos, entre muitos outros, o cardeal-patriarca, D. Patrício, e José
Ferreira Borges. Pretendia afastar D. Miguel do poder e entregar a regência à
infanta D. Isabel.

(Legenda: Marquês de Palmela.)


Batalha da Praia, entre liberais exilados na ilha Terceira e miguelistas, que
culmina com a vitória dos liberais.
Almeida Garrett publica Lírica de João Mínimo e Da Educação.

1830 - Constituição do Conselho da Regência Liberal na ilha Terceira, nomeado


por D. Pedro e presidido pelo marquês de Palmela.
Criação da Escola de Veterinária em Lisboa, que em 1853 vem a
incorporar-se no Instituto Agrícola de Lisboa.
É publicado Portugal na Balança da Europa, de Almeida Garrett.

1831 - Revolta do Regimento de Infantaria 4 de Lisboa no apogeu do terror


miguelista, na qual estava implicado Alexandre Herculano, que abandonou o país
em 1831, rumo a Inglaterra.
[7 de Abril] Abdicação da coroa brasileira por D. Pedro a favor do seu filho
de cinco anos, D. Pedro de Alcântara. Ainda no mesmo ano, D. Pedro chegará à
Europa para lutar contra D. Miguel em nome da Carta e dos direitos da filha D.
Maria.

[208]

1831-1832

Correia Monteiro e Pedroso Gamito fazem a viagem de Tete a Cazembe em


Moçambique.

1832 - D. Pedro, depois de abdicar da coroa brasileira, chega à Europa onde


assume a regência de Portugal em nome de D. Maria II. Em Londres, não foi bem
acolhido pelos liberais mais radicais, que receavam os plados do ex-imperador,
«em quem viam um D. Miguel ao avesso». Mas esse facto não impediu que se
envidassem esforços para a preparação das operações militares destinadas ao
desembarque dos liberais em Portugal sob as ordens de D. Pedro.
[8 de Julho] Desembarque do exército liberal, constituído por cerca de 8000
homens e mais de 50 navios, um pouco a norte do Porto, perto do Mindelo, na
praia de Arnosa do Pampelido. A operação de desembarque desenrolou-se sem
qualquer resistência por parte do inimigo que parece ter sido apanhado de
surpresa.
[9 de Julho] Entrada do exército liberal no Porto onde, por medo ou por
suspeição dos seus habitantes, D. Pedro não teve recepção entusiástica.
Dirigindo-se aos Paços do Conselho, leu uma proclamação na qual pretendia
sossegar os Portuenses quanto às intenções da sua pessoa, prometia devolver a
paz e pôr termo à tirania miguelista, respeitar as vidas e os bens dos particulares,
impedir vinganças, dar recompensas pela lealdade e patriotismo da população,
devolver o trono legítimo a D. Maria e fazer de novo cumprir a Carta
Constitucional.
[Julho] Legislação de Mouzinho da Silveira: abolição dos pequenos
morgados; extinção dos impostos do dízimo e das sisas; revogação dos foros,
censos e rações; reorganização das finanças públicas, da justiça e da divisão
administrativa. A promulgação destes múltiplos diplomas publicados pelo poder
liberal visaram a construção de um Estado Moderno, da economia e da sociedade
burguesas e, simultaneamente, a abolição das estruturas do «Portugal Velho», de
características senhoriais.
[Dezembro] Remodelação do governo liberal, com o afastamento de
Mouzinho da Silveira, substituído por José da Silva Carvalho e Joaquim António
de Aguiar, nas pastas da Fazenda e da Justiça, respectivamente. Mouzinho da
Silveira fora o grande reformador do liberalismo português, mas o seu carácter
moderado e a sua seriedade moral impediram a longevidade da sua carreira
política. Sendo por isso votado ao ostracismo, chegou ao fim da sua vida pobre e
abandonado.

1832-1833

Cerco do Porto pelas forças miguelistas que destacaram para a cidade do Norte
cerca de 80 000 homens. Apesar da abissal superioridade do exército absolutista,
este cerco duraria cerca de um ano. Em meados de 1833, a situação era
desesperada para os liberais: fome, epidemias, deserções, atraso no pagamento
dos soldos, indisciplina e revoltas, para além das eternas divergências entre
Palmela e Saldanha que faziam prever um fim trágico para a aventura
constitucional. Perante a iminência da vitória dos absolutistas, os liberais enviam

(Legenda: Alexandre Herculano.)

[209]

para o Algarve, por via marítima, uma coluna de 2500 homens, comandados pelo
duque da Terceira que marchará posteriormente sobre Lisboa e alterará o rumo
dos acontecimentos em favor dos liberais.
1833
[24 de Junho] Desembarque das tropas constitucionais, comandadas pelo
duque da Terceira no Algarve. Um mês depois de se ter apeado nestas paragens,
o duque entrava vitoriosamente em Lisboa.
[Junho] Derrota da esquadra miguelista junto ao cabo de São Vicente, no
Algarve, infligida pelas forças liberais comandadas pelo almirante mercenário
Napier.
[24 de Julho] Entrada das tropas do duque da Terceira em Lisboa, depois
de ter destroçado, junto de Almada, a divisão comandada pelo general Teles
Jordão – ele próprio foi linchado por soldados enraivecidos, por ser conhecido
como odioso torcionário da repressão miguelista.
Desembarque do regente D. Pedro e dos membros do seu governo em
Lisboa.
Fixação em Santarém do quartel-general de D. Miguel, depois deste
abandfonar Braga com o objectivo de preparar a ocupação de Lisboa.
Aprovação do Código Comercial Português, da autoria de Ferreira Borges,
que vigorou até 1888. Este documento regulamentou o comércio português,
renovando e actualizando os processos e técnicas comerciais de acordo com os
princípios do liberalismo económico.
Extinção da Casa de Suplicação (30 de Julho) e do Desembargo do Paço
(3 de Agosto) e instalação do Supremo Tribunal da Justiça.
[Outubro] Epidemia de cólera que afectou quase todo o país, provocando
cerca de 40 000 óbitos.

1834
[Janeiro] Conquista de Leiria e Torres Novas por Saldanha que, entretanto,
também derrota na Batalha de Pernes as hostes miguelistas, local de fulcral
importância para o abastecimento de pão a Santarém, onde as tropas de D.
Miguel se encontravam entrincheiradas.
[Fevereiro] Derrota das forças miguelistas na Batalha de Almoster, no
Ribatejo.
[Março-Maio] Conquista liberal do Minho, Trás-os-Montes e Beiras. Nesta
última região, quase todas as localidades caem sem dificuldade, porque as
respectivas populações se dispõem a aclamar a causa constitucional.
[22 de Abril] Assinatura do Tratado da Quádrupla Aliança, na sequência de
um projecto patrocinado pela Inglaterra e pela França visando um acordo entre
Portugal e Espanha, no qual ambas as coroas peninsulares se comprometiam a
pôr termo às guerras civis e previam o exílio de D. Miguel e D. Carlos, este último
pretendente absolutista à coroa de Espanha, exilado em Portugal. Este tratado foi
assinado pelos reis de França e de Inglaterra e pelas rainhas de Portugal e de
Espanha.
[7 de Maio] Extinção da Casa dos Vinte e Quatro. Órgão que remonta ao
tempo de D. João I, sendo apenas oficializado no reinado de D. Manuel I, tinha a
função de zelar pelos interesses dos mesteirais na administração municipal.
[16 de Maio] Batalha de Asseiceira, onde as forças liberais comandadas
pelo marechal duque da Terceira desbarataram as tropas realistas, abrindo
caminho para a aproximação de Santarém, derradeiro reduto miguelista, e para a
consequente ocupação da cidade.
[26 de Maio] Concessão ou Convenção de Évora-Monte, negociada entre
os marechais liberais Saldanha e Terceira, e o marechal miguelista José António
de Azevedo Lemos que colocava termo à guerra civil sangrenta através da
rendição e exílio de D. Miguel. D. Pedro, em troca da deposição das armas,
acabou por ter para com o adversário uma grande clemência concedendo uma
amnistia geral a todos os prisioneiros políticos, o regresso livre dos vencidos às
respectivas casas, a posse de todas as fazendas e bens pessoais, a garantia de
que os militares miguelistas manteriam os postos que possuíam. A D. Miguel

[210]

(Legenda: Monumento em que se guarda a uma com o coração de D. Pedro IV


(Porto, Igreja da Lapa.)

era atribuído o pagamento de uma pensão e garantida a posse dos bens próprios,
não podendo, todavia, regressar a Portugal.
[30 de Maio] Extinção das ordens religiosas masculinas e nacionalização
dos seus bens. Esta medida radical, da responsabilidade exclusiva do regente D.
Pedro e do ministro Joaquim António de Aguiar conhecido por isso por «o Mata-
Frades», tornara-se inevitável: pela crise persistente das ordens religiosas, pelo
contributo que estas prestaram ao regime miguelista, pela convicção generalizada
da sua inutilidade, pela convergência de interesses particulares e públicos e,
ainda, pela tendência secularizante do tempo.
[Junho] D. Miguel chega a Itália e renega a Concessão de Évora-Monte.
Divulga entretanto um manifesto em que promete regressar a Portugal logo que
lhe fosse possível reconquistar o trono – ilusória esperança que acalentou até a
sua morte, em 1866. Em consequência ser-lhe-ia recusada a pensão de 60 contos
anuais que anteriormente lhe fora reconhecida no Tratado de Évora-Monte.
Realização de eleições, decretadas por D. Pedro, para reunir as Cortes. O
sufrágio era masculino, indirecto e censitário: só os maiores de 25 anos ou de 21
anos, conforme o estado civil e o estatuto profissional, detentores de um
rendimento anual líquido não inferior a 100 000 réis, poderiam votar nas
assembleias paroquiais. Os escolhidos nestas, possuidores de um rendimento a
partir de 200 000 réis, reuniam-se depois nas capitais de província e elegiam, por
sua vez, os deputados, que, entre outras condições, teriam que auferir de uma
renda não inferior a 400 000 réis.
[15 de Agosto] Abertura solene das Cortes, reunidas num antigo convento
extinto, o de São Bento da Saúde, entretanto adaptado para as novas funções.
No discurso que D. Pedro proferiu na sessão de abertura propôs à consideração
dos parlamentares se deveria ou não continuar como regente durante a
menoridade da rainha e se o autorizavam a celebrar o casamento desta com um
príncipe estrangeiro. Depois de aceso debate, obteve resposta favorável às suas
pretensões.
[24 de Setembro] Morte de D. Pedro IV com 36 anos.
[22 de Dezembro] Lei da Liberdade de Imprensa.
Novo ministério nomeado pela rainha D. Maria II, presidido pelo duque de
Palmela.
Criação da Associação das Casas de Asilo da Infância Desvalida, com a
inauguração do primeiro estabelecimento. Considerada uma das mais importantes
novidades dos governos liberais em matéria de assistência, esta associação irá
inaugurar, na segunda metade do século XIX, estabelecimentos por todo o país,
proporcionando às crianças órfãs ou provenientes de famílias pobres, agasalho,
educação moral e cívica e instrução elementar.
Entrada em vigor do Código Comercial de Ferreira Borges, elaborado e
aprovado em 1833.
Fundação de associações comerciais por todo o país que emergem no
contexto do triunfo do liberalismo. O seu objectivo foi

[211]

a defesa intransigente dos seus associados, demarcando-se, porém, do


alinhamento de qualquer tendência política.

1834-1836

Gravíssima situação das Finanças Públicas. A dívida pública portuguesa


ultrapassava largamente, nos meados da década de 30, a meia centena de milhar
de contos, tendo-se agravado substancialmente nos anos subsequentes, e os
défices orçamentais situavam-se entre os 3000 e os 4000 contos de réis. A causa
principal da depressão radica nos empréstimos externos e internos, com juros
elevados, contraídos para fazer face às despesas da guerra. A venda dos bens
nacionais afigurou-se como «tábua de salvação» para o estado ruinoso do
Tesouro Público.

1835
[26 de Janeiro] Casamento de D. Maria II com o príncipe Augusto de
Leuchtenberg, que morreria pouco depois.
[15 de Abril] Carta de lei ordenando a venda em hasta pública dos bens
nacionais. Esta medida surgiu aos olhos de muitos como o remédio para todos os
males de que o país sofria. Invocaram-se vantagens económicas, porque era
indispensável entregar estes bens a pessoas com capacidades para desenvolver
a agricultura, produzir riqueza e fomentar a prosperidade do país; projectaram-se
intenções sociopolíticas, porque era necessário multiplicar o número de
propriedades, dividindo os prédios, que poderiam ser adquiridos por amplas
camadas da população, a fim de se alargar a base social de apoio do novo
regime; e perspectivaram-se imensos benefícios financeiros para o Tesouro
Público, entretanto vítima de uma enorme dívida pública.
[25 de Abril] Reformas na administração geral e municipal. O continente é
dividido em dezassete distritos administrativos e as ilhas adjacentes em três. Os
distritos, governados por um magistrado de nomeação real, são divididos em
concelhos à frente dos quais se encontra um administrador escolhido pelo
governo de uma lista apresentada pela câmara. A circunscrição menor, a
paróquia, é governada por um comissário. Estas bases foram, posteriormente,
desenvolvidas pelo Decreto de 18 de Julho do mesmo ano.
[Setembro] Lei obrigando à construção de cemitérios e regulamentos sobre
funerais, que provocou a oposição popular ligada a tradicionais crenças religiosas
e que não abdicava de enterrar os seus mortos nas igrejas.
[7 de Setembro] Tentativa de criação do Conselho Superior de Instrução
Pública em Lisboa. Seria seu presidente um ministro do reino, «na sua qualidade
de ministro de Instrução Pública». Pela primeira vez se alude expressamente à
figura do «ministro de Instrução Pública» (ainda que não se crie autonomamente
essa pasta) e se tira a Coimbra e à Universidade a superintendência do órgão
máximo de administração do ensino. No entanto, mercê dos protestos da
Universidade, esta medida não foi posta em prática.
Criação do Banco Comercial do Porto, facto que se integra no contexto de
uma política de liberalização económica e de dinamização do mercado.
Fundação da Sociedade Farmacêutica Lusitana.
Publicação do Código Farmacêutico Lusitano, de autoria de Agostinho
Albano da Silveira Pinto, médico da Real Câmara e doutor em Filosofia. Esta obra
substituiu a antiga farmacopeia preconizada pelos Estatutos da Universidade de
1772, da autoria de Francisco Tavares, médico e lente da Faculdade de Medicina
de Coimbra.

1836
[Janeiro] Casamento de D. Maria com Fernando II de Saxe-Coburgo-Gotha.
Ficava assim assegurada a protecção da rainha e justificada a esperança de que
deste enlace conjugal resultasse um sucessor ao trono português, o que não
tardou a concretizar-se com o nascimento do príncipe herdeiro, futuro rei Pedro V.
[15 de Agosto] Convocação de Cortes Extraordinárias, dissolução do
Parlamento pela rainha e marcação de eleições na sequência da instabilidade
política criada pela

[212]

(Legenda: O ―Remexido‖.)

divergência permanente entre as duas câmaras parlamentares - Câmara


dos Pares e Câmara dos Deputados - e pela oposição crescente de um grupo
político que punha em causa o modelo de regime definido pela Carta
Constitucional.
[Setembro] Revolução de Setembro. As eleições antecipadas, realizadas
através de um sufrágio censitário indirecto e fortemente restritivo, elegeram os
mais ricos, que se identificavam com o partido conservador do governo. Contudo,
no Porto, venceu o partido da oposição, anticartista, identificado com os
interesses de uma pequena e média burguesia ascendente, industrial e comercial,
e membros das profissões liberais. Os deputados oposicionistas do Norte, recém-
eleitos, foram entusiasticamente recebidos ao chegarem a Lisboa, com «morras»
à Carta e «vivas» à Constituição de 1822. Perante a incapacidade de controlar a
revolta, o governo conservador do duque da Terceira, apresentou a demissão,
sendo nomeado em sua substituição um ministério favorável aos revoltosos, que
adoptou a lei orgânica vintista (Constituição de 1822), que duraria até as futuras
Cortes Constituintes aprovarem um novo texto constitucional.
[3 de Novembro] Belenzada. Demissão do governo setembrista de Passos
Manuel decretada por D. Maria II e sua substituição por outro de feição cartista.
Foi uma tentativa de golpe de Estado palaciano com a colaboração discreta do
príncipe D. Fernando, a ingerência do rei Leopoldo I da Bélgica e com eventuais
apoios diplomáticos da Inglaterra e da França. Contudo, Passos Manuel
recuperaria de novo o Poder, beneficiando da colaboração do marquês de Sá da
Bandeira, do apoio popular e da Guarda Nacional que fizeram abortar o golpe de
Estado.
[17 de Novembro] Decreto da criação de liceus. Estas escolas secundárias
passam a ministrar um ensino com maior conteúdo prático, não se limitando
apenas a preparar os alunos que ascendem ao ensino superior, mas também a
preparar cidadãos que a ele não aspiram e que necessitam de conhecimentos
científicos e técnicos indispensáveis aos usos da vida moderna.
Graves distúrbios sociais no Algarve, provocados pela actuação terrorista
das guerrilhas pró-miguelistas, dos quais a mais temível foi liderada por José
Joaquim de Sousa Reis, «o Remexido». Em 1838, este lavrador abastado, que
lutou de forma aventureira pela defesa da sociedade rural que o liberalismo se
propunha transformar, foi fuzilado pelo poder liberal instituído.
Política de reconstrução ultramarina implementada pelo marquês de Sá da
Bandeira.
Proibição da importação e da exportação de escravos nas colónias
portuguesas situadas ao sul do equador.
Primeira grande reforma geral do ensino.
Fusão das Faculdades de Cânones e de Leis na Faculdade de Direito,
decretada pela reforma de Passos Manuel.
Criação das Escolas Médico-Cirúrgicas de Lisboa e Porto.
Fundação das Escolas de Farmácia de Coimbra, Lisboa e Porto.
Criação do Conservatório Real de Lisboa. Criação da Academia de Belas-
Artes em

[213]

Lisboa e da Academia Portuense de Belas-Artes.


Publicação da obra A Voz ao Profeta, de Alexandre Herculano.

1836-1837

Medidas de reorganização das Forças Armadas, inspiradas por Sá da Bandeira,


que lançaram as bases de uma modernização efectiva do exército e da sua
«regularização» institucional. Dividiu-se o território do continente e das ilhas em
10 divisões militares, regularizou-se o uso de uniformes, adoptaram-se regras
mais claras para corrigir a arbitrária forma de promoção de oficiais, organizou-se o
serviço de saúde, criou-se a Escola do Exército, reformou-se o Colégio Militar e
lançou-se a instalação das escolas de primeiras letras nos regimentos.
[18 de Novembro-5 de Janeiro] Criação dos Conservatórios de Artes e
Ofícios de Lisboa e Porto, por Passos Manuel. Estas escolas constituem uma
nova etapa no sentido da criação de um ensino politécnico, que havia iniciado os
seus primeiros passos em Portugal no tempo do marquês de Pombal.

(Legenda: visconde de Sá da Bandeira.)

(Legenda: Passos Manuel (Porto, Museu Nacional de Soares dos Reis).)

1837
[Janeiro] Atentado frustrado contra o príncipe consorte, D. Fernando.
[Maio] Conjura das Marmotas. Conspiração de um grupo de antigos oficiais
de D. Miguel que se reúnem no lugar das Marmotas, perto de Loures, para
estudar a hipótese de repor no trono o antigo rei D. Miguel. Os conspiradores
acabarão, contudo, por ser presos pelo governo e o seu respectivo material de
guerra capturado.
[12 de Julho-Setembro] Revolta dos Marechais. Insurreição militar
desencadeada pelos cartistas, com o apoio de Leopoldo I da Bélgica, comandada
pelos marechais duques de Saldanha e da Terceira, com o fim de restabelecer a
Constituição Outorgada por D. Pedro. A sublevação não conseguiu obter o apoio
da Guarda Nacional de Lisboa e deparou com a resistência dos exércitos
setembristas do marquês de Sá da Bandeira e do conde de Bonfim, acabando por
ser anulada. Terceira e Saldanha, os dois marechais revoltosos, foram obrigados
a exilar-se.
[16 de Setembro] Nascimento do príncipe herdeiro, filho de D. Maria e de
D. Fernando, futuro rei D. Pedro V, aclamado em 1855.
Nova Reforma da organização judiciária.

[214]

Fundação da Escola Politécnica de Lisboa e da Academia Politécnica do


Porto. Instituição de ensino superior que visavam formar especialistas para os
diversos sectores económicos e para a instituição militar.
Publicação em Lisboa do periódico O Panorama, redigido por Alexandre
Herculano.

1838
[Março] Revolta do Arsenal. Sublevação de setembristas radicais, que
reuniam no Arsenal da Marinha, com o objectivo de exigirem um ministério
«genuinamente» setembrista, sem a inclusão de personalidades moderadas. O
marquês de Sá da Bandeira, então presidente do governo, decidiu pactuar com os
revoltosos, demitindo alguns ministros, dissolvendo, todavia, o batalhão sedicioso
e dispersando as forças insurrectas.
[4 de Abril] Juramento da Constituição de 1838. Este texto constitucional
procurou conciliar a Constituição de 1822 com a Carta Constitucional de 1826,
suprimindo o radicalismo do texto vintista, mas alargando significativamente a
intervenção da soberania nacional, que a Carta restringia. Os seus princípios
fundamentais apontam para a definição da soberania popular como base
democrática do poder, retorno ao esquema tripartido de poderes, domínio efectivo
do poder real, que condiciona o poder legislativo através da sanção e do veto
definitivo, bicameralismo electivo e temporário e consagração do regime
censitário. Apesar do compromisso entre as duas facções políticas, o documento
não uniu os Portugueses, pois não agradava aos setembristas mais fervorosos,
nem aos cartistas mais ortodoxos. Em 1842, Costa Cabral restaura a Carta
Constitucional, anulando a vigência da Constituição de 1838.
[9 de Abril] Nova lei eleitoral que dividiu o país em 24 círculos eleitorais, aos
quais se juntavam mais três correspondentes às ilhas e às possessões
ultramarinas. O número total de deputados era de 142, eleitos pelos 27 círculos e
de 71 o número de senadores. A eleição far-se-ia por sufrágio directo e censitário,
mas menos restritivo do que o estipulado na Carta Constitucional

(Legenda: António Bernardo da Costa Cabral.)

de 1826. Todos os eleitores eram considerados elegíveis para deputados, mas


para ser eleitor era necessário ter mais de 25 ou 21 anos de idade, conforme o
estado civil e o estatuto socioprofissional, e possuir um rendimento anual mínimo
de 80$000 réis. Para ser eleito senador era indispensável ter no mínimo 35 anos e
ser comerciante ou industrial com rendimento anual não inferior a 4 contos de
réis, ou ser proprietário com rendimento de 2 contos, ou exercer cargo público
superior.
Publicação de A Harpa do Crente, de Alexandre Herculano.

1839
[Abril] Queda dos governos setembristas do marquês de Sá da Bandeira e
do barão da Ribeira de Sabrosa.
[Novembro] Ascensão de Costa Cabral, membro proeminente do novo
governo de tendência cartista, mas antigo revolucionário comprometido com
algumas das actuações mais radicais do setembrismo.
Início da carreira de sertanejo de Silva Porto. A partir do Bié, em Angola, e
até à data da sua morte, em 1890, percorreu toda a África Central acompanhado
dos seus pombeiros, tomando-se ali o melhor representante da soberania
portuguesa e precursor das futuras explorações científicas.

[215]

1840 - Fundação do jornal A Revolução de Setembro, por José Estêvão, notável


orador parlamentar português que professou as ideias do setembrismo.
Publicação de D. Filipa de Vilhena, de Almeida Garrett.
1841
[21 de Maio] Decreto que institui a «Novíssima Reforma Judiciária», que
entra em vigor em 27 de Outubro.
Nomeação do primeiro reitor leigo da Universidade de Coimbra, D.
Sebastião Correia de Sá e Meneses, conde de Terena. Este facto demonstra a
tendência para a secularização na Universidade que se encontra em sintonia com
a afirmação do liberalismo em Portugal.

1841-1842

Restabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a Santa Sé,


permitindo uma aproximação entre a Igreja e o liberalismo.

1842
[27 de Janeiro] Golpe militar dirigido por Costa Cabral e pelo duque da
Terceira com o objectivo de repor a Carta Constitucional.
[10 de Fevereiro] Restabelecimento da vigência da Carta Constitucional de
1826.
[24 de Fevereiro] Tomada de posse do governo presidido pelo duque da
Terceira, com enorme influência de Costa Cabral, que surge como ministro do
Reino. Seria um longo governo de tendência conservadora e autoritária que
procurou adoptar uma política de reorganização do Estado e reconstrução
económica do país, a qual se prolongaria por mais de quatro anos, período que
ficou conhecido para a história por «cabralismo».
[3 de Julho] Tratado assimilando o tráfico negreiro à pirataria, permitindo à
Royal Navy inspeccionar os navios com bandeiras portuguesas.
Entrada em vigor do Código Administrativo de tendência centralizadora,
que introduziu maior disciplina na administração local. Permaneceu em vigência
durante 36 anos, sendo apenas alterado com a publicação do Código de 6 de
Maio de 1878.
Publicação de O Alfageme de Santarém, de Almeida Garrett, e das Cartas
sobre a História de Portugal, de Alexandre Herculano.

1843 - Publicação das obras Viagens na Minha Terra, Frei Luís de Sousa e
Romanceiro, de Almeida Garrett. Alexandre Herculano edita as obras O Bobo (1ª
versão) e Apontamentos para a História dos Bens da Coroa e Forais (que se
concluiria em 1844).

1843-1847

Viagem ao interior de África, cabeceiras do rio Sene e ao Bié, por Joaquim


Rodrigues Graça.

1844
[4 de Fevereiro] Revolta militar malograda em Torres Novas, desencadeada
pelas forças setembristas radicais, contra o governo de Costa Cabral. O fracasso
da sublevação resultou, sobretudo, da falta de apoio popular e do exército, que se
manteve fiel a Costa Cabral.
[20 de Setembro] Criação em Coimbra do Conselho Superior de Instrução
Pública, presidido pelo ministro do Reino, sendo o reitor da Universidade o vice-
presidente. Esta medida vai contra a tendência centralista do governo de Costa
Cabral, mantendo Coimbra o domínio dos poderes do ensino.
Fundação da Companhia Nacional dos Tabacos e da Companhia das
Obras Públicas.
Criação da província de Macau, Solor e Timor, que anteriormente
pertenciam ao Estado da Índia, nomeação do respectivo governador, que passa a
residir em Macau, e designação de um governador subalterno para o território
timorense.
Reforma do ensino com o estabelecimento de obrigatoriedade de
frequência no ensino primário para as crianças dos 7 aos 15 anos, residentes nas
povoações onde existissem escolas. Esta reforma dividia a instrução primária em
dois graus. No primeiro aprendia-se a ler, escrever e a contar,

[216]

princípios gerais de moral, doutrina cristã e civilidade, exercícios gramaticais e


princípios de geografia e história portuguesas. No segundo, completavam-se os
estudos do primeiro grau e aprendia-se gramática portuguesa, desenho linear,
geografia e história geral, história sagrada do Antigo e Novo Testamento,
aritmética e geografia com aplicação à indústria e escrituração.
Publicadas as obras O Pároco da Aldeia e Eurico, o Presbítero, de
Alexandre Herculano.

1844-1845

[18 de Setembro-26 de Novembro] Novas leis da saúde que proíbem o


enterramento dos mortos fora das igrejas, originando uma forte mobilização
popular, sobretudo nos meios rurais, contra o regime de Costa Cabral, difusor
desta legislação.

1845 - Transformação de Macau em porto livre, iniciando-se, por esta altura, a


exportação de mão-de-obra chinesa, que aqui assumia o carácter de tráfico de
escravos, enviados para as plantações de Cuba e do Peru. Este comércio, que
tanto contribui para a prosperidade de Macau e de alguns mercadores de Lisboa,
foi extinto em 1874.
Publicadas as obras O Arco de Santana e Flores sem Fruto, de Almeida
Garrett.

1846 - Grave crise económica, agravada pelo mau ano agrícola, provocado pela
praga da batata e pela intensa seca que se fez sentir. Consequentemente, o
aumento dos preços dos cereais e dos produtos de primeira necessidade e a
baixa dos salários aceleram a crise geral de subsistência, incrementando o mal-
estar social.
[Abril] Rebelião da Maria da Fonte. Foram motins populares, que eclodiram
primeiro no Norte (Vieira do Minho), desencadeados espontaneamente por
camponeses contra as novas leis de saúde e a reforma do sistema tributário
decretadas pelo governo autoritário e centralizador de Costa Cabral.
Posteriormente, este movimento veio colher o apoio dos sectores políticos
miguelistas, setembristas e de cartistas dissidentes, cujos objectivos eram,
sobretudo, derrubar o governo de Costa Cabral, o que veio a acontecer em 18 de
Maio.
[Maio] Formação de um novo ministério chefiado pelo duque de Palmela,
chamado ao poder após a queda de Costa Cabral.
[22 de Junho] Lei concluindo a extinção dos forais.
[6 de Outubro] A Emboscada. Golpe de Estado organizado por Costa
Cabral, a partir de Madrid, e dirigido por Saldanha. Foi um golpe palaciano
realizado com o apoio da rainha D. Maria II e que conduziu à exoneração do
duque de Palmela e à constituição de um ministério que continuaria uma política
governamental de cariz centralizador, similar à cabralista.

(Legenda: A Patuleia (Lisboa, Arquivo Histórico-Militar).)

[217]

[De 8 de Outubro até Junho de 1847] A Patuleia. Segunda fase das


sublevações, iniciadas com o movimento da Maria da Fonte, comandadas por
setembristas, miguelistas e dissidentes cartistas, contra o ministério ilegítimo de
inspiração cabralista, presidido pelo duque de Saldanha e que beneficiou do apoio
da rainha. Formam-se Juntas revolucionárias em diversos pontos do país que se
rebelam contra o governo da capital. Este, incapaz de dominar as forças
revoltosas, solicita, ao abrigo da Quádrupla Aliança, a intervenção da Espanha, da
Inglaterra e da França. A intervenção estrangeira vem decidir a contenda a favor
da rainha e do poder cartista instituído.
Inauguração do Teatro Nacional D. Maria II.
Publicação do primeiro volume da História de Portugal, de Alexandre
Herculano.

1847
[29 de Junho] Assinatura da Convenção do Gramido que coloca termo à
guerra civil, firmando a derrota das forças revoltosas e consagrando a vitória do
governo cartista.
[Agosto] Eleições, realizadas em condições desvantajosas para os
setembristas, que dão a vitória ao ministério de Saldanha e ao próprio Costa
Cabral.
Epidemia de febre tifóide, que se prolongará por dois anos.
Fundação da Sociedade Secreta de S. Miguel da Ala, que reunia adeptos
absolutistas, interessados em derrubar o regime liberal.

1848
[Março] Eleições que vêm acentuar as divergências entre cartistas.
Nomeadamente acentuam-se as hostilidades entre os irmãos José da Silva
Cabral e António Bernardo Costa Cabral, defendendo alguns como facto
unificador da família cartista o regresso a Portugal de António Bernardo Costa
Cabral, ainda exilado em Espanha.
[29 de Maio] Criação da Carbonária Lusitana, sociedade secreta, de
carácter conspirativo, fundada em Coimbra, adversária do clericalismo e
identificada com os valores do republicanismo.
Primeira tentativa de iluminar Lisboa a gás.
Publica-se A Sobrinha do Marquês, de Almeida Garrett, e O Monge de
Cister, de Alexandre Herculano.

1849
[Junho] Regresso ao poder de Costa Cabral, que, apoiado por Saldanha,
assumirá a chefia do executivo governamental.
[Dezembro] Reorganização militar do país que, contudo, nunca chegou a
vigorar em alguns dos seus aspectos. Nela se separava Portugal em três grandes
divisões militares territoriais: Lisboa, Porto e Évora, passando os Açores e a
Madeira à condição de comandos militares. Era também aumentado o número de
soldados das diversas armas, criando-se ainda unidades especializadas de
comunicação, como é o caso de um batalhão de engenharia e de um corpo de
serviço telegráfico.
Chegada a Moçâmedes, em Angola, do primeiro grupo de colonos.
Constituição da Comissão Geológica, dependente da Academia de
Ciências de Lisboa, que tinha como funções essenciais determinar a elaboração
do cadastro geológico de Portugal e rectificar as cartas geológicas preexistentes.

1850
[4 de Setembro] Promulgada uma lei de repressão ao tráfico de escravos
no Brasil. A partir desta data, muitos negreiros foram presos ou declarados
persona non grata, o que os levou a abandonar os negócios e a refugiarem-se em
Portugal, trazendo consigo somas avultadas de capitais líquidos.
Promulgação de legislação contra a liberdade de imprensa, «Lei das
Rolhas», emitida no segundo período do cabralismo, e que gerou acesos
protestos em todo o país.
O governo português, com o objectivo de contrariar a crescente influência
holandesa em Timor, publica um decreto que separava o governo de Solor e
Timor do de Macau, nomeando em seguida Lopes de Lima governador e
comissário da nova província de Timor.
Fundação da Associação dos Operários,

[218]

facto que marca em Portugal o início do movimento operário.


Publica-se Eu e o Clero, Considerações Pacíficas, Lendas e Narrativas e
Solemnia Verba, de Alexandre Herculano. É, ainda, editado O Anátema, de
Camilo Castelo Branco.
[Abril] Golpe político-militar, preparado clandestinamente em casa de
Alexandre Herculano e chefiado militarmente pelo marechal-duque de Saldanha,
que deu origem ao governo constitucional regenerador.
[22 de Maio] Início do movimento da Regeneração, com a formação de um
novo governo constitucional presidido por Saldanha, que contou com a
participação de Rodrigo da Fonseca Magalhães e António Maria Fontes Pereira
de Melo. Foi caracterizado por uma estabilidade política «rotativista», que permitiu
introduzir em Portugal significativas reformas políticas, económicas e
administrativas, criadoras de uma imagem de paz e progresso. A Revolução da
Janeirinha, em 1868, marca o fim do período da Regeneração.
Cedência de parte do território da província de Timor aos Holandeses,
efectuada pelo governador da província Lopes da Silva, sem qualquer consulta ao
governo de Lisboa. Este acto visava resolver de imediato a aflitiva situação
financeira que ali se vivia. Lopes da Silva seria preso pela sua decisão, vindo a
morrer em desgraça a caminho de Portugal.

1852
[5 de Junho] Promulgação do Acto Adicional à Carta Constitucional de
1826. O documento, constituído por 16 artigos, substitui o sistema eleitoral de
eleição indirecta da Carta pelo sistema de eleição directa da Constituição de
1838; diminui a capacidade de eleitor; abole a pena de morte para os crimes
políticos; impõe a aprovação pelas cortes dos tratados internacionais antes da sua
ratificação pelo rei; e reforça, ainda, o poder local, depois do centralismo
administrativo dos governos cabralistas. O Acto Adicional procurou pôr termo à
divisão entre cartistas e setembristas, tornando a Carta praticamente aceitável por
todos e contribuindo para a estabilização da vida política nacional.
(Legenda: António Maria de Fontes Pereira de Melo.)

Cisão dos progressistas em dois grupos: o Partido Progressista Dissidente,


ou Histórico, e o Partido Progressista Regenerador. O primeiro, que incluía antigos
setembristas, propunha modelos mais liberais e democráticos no plano
constitucional. O segundo, mais conservador, defendia que a centralização
política e administrativa era imprescindível para atingir a riqueza, a prosperidade e
o desenvolvimento económico. Esta cisão político-partidária inaugura entre nós o
sistema de rotativismo bipartidário de governação.
[13 de Dezembro] Uniformização do sistema de pesos e medidas que
rompe com a diversidade herdada do Antigo Regime, onde as medidas variavam
em cada província, em cada concelho e em cada paróquia. Expressa-se a função
da uniformidade dos pesos e medidas juntamente com a língua e a moeda única,
com vista à unidade política da Nação.
[16 de Dezembro] Fundação do Instituto Agrícola de Lisboa.
[30 de Dezembro] Fundação do Instituto Industrial de Lisboa.

[219]
[Dezembro] Eleições com vitória dos regeneradores e cartistas sobre a
coligação que agrupava históricos, cartistas e miguelistas.
Criação do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, medida de
extraordinário alcance para o desmantelamento da estrutura ministerial de tipo
«Antigo Regime», até então em vigor. Passam para a esfera de competência do
novo ministério os assuntos relativos aos equipamentos colectivos, a produção e a
circulação de bens.
I Exposição Agrícola Portuguesa.
Grande desenvolvimento do ensino técnico levado a cabo durante a
Regeneração, através da acção do Ministério das Obras Públicas, Comércio e
Indústria, cuja pasta foi primeiro ocupada por Fontes Pereira de Melo.
Entrada em vigor do Código Penal, que supera definitivamente muitas das
disposições das Ordenações até então em vigência. Recorrendo
fundamentalmente a fontes estrangeiras (Código de Napoleão de 1810, Código
Espanhol de 1848, Código Brasileiro de 1831, etc.), o primeiro Código Penal
Português consagra o princípio nullum crimes sine lege, assim como proíbe a
interpretação extensiva e a analógica. Os juizes vêem o seu poder discricionário
bastante limitado.
Início da publicação de O Instituto de Coimbra, que, oficialmente pelo
menos, ainda hoje existe e é considerada a mais antiga revista científica editada
em Portugal.
Fundação do Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes
Laboriosas, Associação que, juntamente com a Sociedade dos Artistas
Lisbonenses, criada em 1850, marcará em Portugal o início do movimento
operário.

1853 - Morte de D. Maria II e regência de D. Fernando, na menoridade de D.


Pedro V.
Silva Porto atinge o Lui, no Barotze, e daí envia para leste o pombeiro João
da Silva.
Começa a alastrar a praga do oídio, que atingiu sobretudo o Algarve, o
distrito da Guarda, o Minho e a região do Douro, especializada na viticultura. A
produção arrolada baixou drasticamente, o que contribuirá para uma profunda
crise vinícola que não deixou de motivar a grave recessão comercial de 1858-
1859.
(Legenda: D. Pedro V (Lisboa, Museu Nacional dos Coches).)

São publicadas as Folhas Caídas, de Almeida Garrett.

1854
[29 de Julho] Instituição do sistema de padrão ouro clássico, muito antes de
o terem feito os restantes países da Europa, que adoptaram este regime durante
a segunda metade do século XIX.
Abolição dos prazos em Moçambique, estabelecendo-se o sistema de
arrendamento por tempo limitado.
Início da publicação da História da Origem e do Estabelecimento da
Inquisição em Portugal, de Alexandre Herculano.
Morre Almeida Garrett.

1855
[16 de Setembro] Aclamação de D. Pedro V no próprio dia em que
completava 18 anos e atingia a maioridade para governar.
Exposição Industrial no Porto.
Participação de Portugal na Exposição Universal de Paris, evento muito
significativo

[220]

e tipicamente característico da civilização industrial de meados de Oitocentos.

1855-1856

Acentuado fluxo migratório da população poruguesa para o Brasil, como


consequência do desajustamento entre o aumento demográfico e a evolução da
economia nacional.
Epidemia de cólera no Centro e Sul do país e na Madeira que irá vitimar
milhares de pessoas.

1856
[6 de Junho] Novo ministério assume funções sob a presidência do
marquês de Loulé, tio do rei D. Pedro V e chefe dos progressistas históricos. Em
termos de política económica, propunha-se continuar a política regeneradora do
governo que lhes antecedera, promovendo o desenvolvimento nacional
protagonizado por uma política de transportes e criação de mercados
internacionais, que decorria em simultâneo com a execução de iniciativas
regionais e o aceleramento de economias particulares.
Inauguração do primeiro troço de caminho-de-ferro, Lisboa-Carregado (36
km), introduzido em Portugal pela equipa governamental de Fontes Pereira de
Melo, com o objectivo de facilitar e promover a circulação de pessoas e bens e,
simultaneamente, dinamizar o mercado.
Publica-se Onde Está a Felicidade? de Camilo Castelo Branco.
1857
[Agosto-Dezembro] Epidemias de febre-amarela que atingiram extrema
gravidade em Lisboa, contagiando cerca de 16 000 a 17 000 pessoas (quase 10%
da população da capital), elevando-se o número de mortos a perto de 5000. As
péssimas condições de salubridade existentes na maioria das freguesias da
cidade nos meados do século XIX explicam a propagação da doença e o
acréscimo da taxa de mortalidade.
Criação em Huíla de uma colónia militar agrícola.
Abertura ao público da telegrafia eléctrica que facilitou a comunicação e
viria a revelar-se um elemento essencial à funcionalidade dos transportes
ferroviários.
Criação da Comissão Central de Estatística do Reino.

1857-1862

Entrada ilegal da Congregação Religiosa Irmãs da Caridade em Portugal. Este


facto, que se integrou numa estratégia delineada pela Igreja Católica para o
restabelecimento da sua influência na sociedade portuguesa, originou uma longa
polémica entre os adeptos de uma sociedade livre e secularizada e os defensores
da restauração de um modelo social clericalizado e ideologicamente dominado
pelo catolicismo. As religiosas francesas acabarão por ser expulsas em 1862.

1858 - Casamento de D. Pedro V com a princesa Estefania de Hohenzollern


Sigmaringen.
A Companhia União Mercantil estabelece as primeiras carreiras regulares,
a vapor, da metrópole para Angola.
A linha férrea do Norte atinge a Ponte do Asseca.
Fundação do Museu de História Natural da Escola Politécnica de Lisboa,
sucedâneo do Antigo Museu do Palácio da Ajuda, por J. V. Barbosa du Bocage.

1858-1859

Primeira legislação tendente à criação na capital do Curso Superior de Letras, que


contou com o empenhamento pessoal do próprio rei D. Pedro V.

1859
[16 de Março] Regresso ao poder dos regeneradores que constituem um
novo ministério presidido pelo duque da Terceira, tendo Fontes Pereira de Melo
assumido a pasta do Reino. As desinteligências entre Fontes Pereira de Melo, D.
Pedro V e o duque de Saldanha, que se prendem com concepções diferentes da
prática do poder moderador e da intervenção régia na política governativa
regeneradora, levam à demissão do ministério em 1860.

1860 - Supressão dos morgados e capelas ainda existentes.


Fundação da Associação Industrial Portuguesa.
[221]

Renovação da tentativa de estabelecimento dos Ingleses na baía de


Lourenço Marques, em Moçambique.
Reforma do ensino secundário, por Fontes Pereira de Melo, chamada
oficialmente «Regulamento para os Liceus Nacionais», que define uma
estruturação curricular de cinco anos e divide os liceus por categorias – liceus de
primeira e segunda – de acordo com as suas condições.

1861
[Abril] Desamortização dos bens das freiras e das igrejas, que se traduziu
no desmantelamento dos seus bens e incorporação destes na Fazenda Nacional.
Estas medidas inserem-se na política da década de 60, marcada por um novo
impulso no processo de alienação dos bens nacionais.
[24 de Maio] Fundação da Associação 1º de Dezembro de 1640, que surge
como reacção às concepções iberistas emergentes na época. As suas intenções
estavam voltadas para o enaltecimento da gesta histórica antiespanhola, para o
culto da independência nacional e para a inoculação do sentimento nacional na
mentalidade popular portuguesa.
Morte de D. Pedro V e início do reinado de D. Luís.
Exposição Industrial Portuguesa, realizada no Porto.
Conclusão da linha férrea do Barreiro a Vendas Novas e de Pinhal Novo a
Setúbal.
São publicadas as Memórias do Cárcere, de Camilo Castelo Branco.

1861-1863

Conquista pelos Portugueses do sultanato de Angoche em África.

1862 - Casamento de D. Luís com a princesa D. Maria Pia de Sabóia.


Proibição em Portugal do funcionamento das congregações religiosas.

1862
[Agosto] Tratado de Tien-Tsin, entre Portugal e a China, reconhecendo
Macau como território inteiramente português.
(Legenda: Antero de Quental, por Columbano (Lisboa, Museu Nacional de Arte
Contemporânea).)

[Dezembro] Movimento de contestação estudantil em Coimbra. Criação da


Sociedade do Raio, formada, entre outros, por Antero de Quental, Alberto
Sampaio e José Falcão, que, com o intuito de protestar contra os valores
conservadores e retrógrados da Universidade, leva a efeito uma serie de
manifestações de protesto exigindo a demissão do seu reitor Basílio Sousa Pinto.
Publicação da obra O Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco.

1863
[19 de Maio] Decreto do governo regenerador abolindo definitivamente os
morgados, com excepção para a Casa de Bragança.
[Julho] Reorganização do crédito hipotecário, da responsabilidade do ministro da
Fazenda, Joaquim Tomás Lobo.
Nascimento do infante Carlos, futuro rei D. Carlos I.
Conclusão da linha férrea até Évora (Linha do Sul) e ligação com a fronteira
espanhola (Linha do Leste).
Exposição Agrícola e Industrial em Braga.
Exposição da indústria têxtil no Teatro D. Maria II.
Criação da cadeira de Histologia e Fisiologia

[222]

na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

1864
[Abril-Maio] Rolinada. Rebelião estudantil em Coimbra contra o governo do
duque de Loulé e o seu ministro Rolim de Moura, que se traduziu no abandono da
cidade rumo ao Porto, «berço da liberdade», em comboio especial.
Primeiro recenseamento sistemático de toda a população do reino: 3 829
618 h.
Conclusão da linha férrea do Norte até Gaia e do Sul até Beja.
Criação do Banco Nacional Ultramarino, que instala o seu centro de
operações em Luanda, especializando-se com empréstimos em dinheiro aos
plantadores e mantendo uma estreita ligação com a rede mercantil de Lisboa. A
partir de 1870 quase desaparece, vindo contudo a ser salvo nos finais desta
década graças à ajuda do governo e aos capitais provenientes de bancos
estrangeiros.
Campanhas militares na Zambézia em África.
Fundação do Diário de Notícias.

1865
[17 de Abril] Organização de um ministério presidido pelo marquês de
Loulé, englobando históricos e regeneradores, a que se chamou «governo de
fusão». O governo «fusionista» sofre uma forte onda de contestação em 1867,
quando procura colocar em prática uma reforma fiscal, sendo em 1868 demitido
pela Revolta da Janeirinha.
Criação do Partido Reformista, face à incapacidade política de
regeneradores e históricos. Os reformistas ascendem, posteriormente, ao poder
pela Janeirinha (1868), governando em sintonia com as massas populares que os
apoiaram, aplicando uma política que visou a organização das finanças do
Estado, através da reforma dos serviços públicos e de um sistema tributário mais
justo.
Realização da Exposição Internacional do Porto (indústria) no Palácio de
Cristal.
Publicação das Odes Modernas, de Antero de Quental.

1865-1866

Questão Coimbrã. Questão que opôs a escola ultra-romântica agrupada em redor


de António Feliciano Castilho, à nova geração irreverente de académicos de
Coimbra, onde se integram Antero de Quental e Teófilo Braga. Mais do que uma
mera pugna literária entre o velho ultra-romantismo e o novo realismo, a Questão
Coimbrã revelou uma nova geração de individualidades que se evidenciaram no
futuro e pretenderam alterar a ordem social, económica, política e cultural vigente,
introduzindo em Portugal novas correntes espirituais que se difundiam na Europa
de então.

1866 - Desamortização dos bens das câmaras, paróquias, irmandades, confrarias,


hospitais, recolhimentos, misericórdias e outras instituições pias.

1866-1869
Envio de quatro expedições portuguesas à Alta Zambézia. Constituíram as
«Guerras do Bonga», concluídas sem sucesso, mas reeditadas de forma vitoriosa
em 1887-1888.

1867 - Publicação do Código Civil do visconde de Seabra, considerado a mais


relevante reforma jurídica do século XIX português.
Entrada em vigor do Código Administrativo.
Abolição da pena de morte para os crimes civis.
Extinção das rodas de enjeitados e sua substituição por hospícios
destinados a admitir não só expostos mas também crianças abandonadas (com
pais conhecidos) e indigentes.
Publicação da obra As Pupilas do Sr. Reitor, de Júlio Dinis.

1868
[1 de Janeiro] Revolta da Janeirinha, no Porto. Movimento de
descontentamento popular para com a política de agravamento fiscal decretada
pelo governo, constituído pela fusão de regeneradores e históricos.

[223]

A contestação da Janeirinha provoca a demissão do executivo governamental e a


formação de um novo governo, presidido pelo conde de Ávila, que sentirá sérias
dificuldades em prosseguir o programa fontista de reconstrução económica.
Fundação da Companhia das Águas de Lisboa.
Adopção da unificação de pesos e medidas, da responsabilidade de
Fradesso da Silveira.
Publicação da obra Portugal perante a Revolução de Espanha, de Antero
de Quental, e aparecimento no Porto do jornal O Primeiro de Janeiro.
[Fevereiro] Abolição de todas as formas de escravatura em todos os
domínios portugueses, mantendo-se, no entanto, os escravos com alguma ligação
«aos senhores» até 1878, provavelmente pela impossibilidade de se efectuar o
pagamento das indemnizações previstas na lei.
[28 de Agosto] Desamortização dos passais, dos baldios e dos bens dos
estabelecimentos de instrução pública.

1869-1870

Legislação de fomento ultramarino decretada pelo então ministro dos Negócios da


Marinha e Ultramar, Rebelo da Silva. Reformava o ensino e o serviço de saúde,
instituía as «colónias penais do ultramar», promovia a descentralização
administrativa e militar, fomentava as obras públicas e a exploração mineira.

1870
[19 de Maio] A Saldanhada. Golpe militar, liderado por Saldanha, em que
este impõe ao rei D. Luís a demissão do ministério do duque de Loulé. O governo
que daqui sairá durará cerca de cem dias, não resistindo às fortes críticas da
opinião pública. O duque de Saldanha é exilado em Londres, onde falece, em
1876, com 86 anos.
[Julho] Criação do Supremo Tribunal Administrativo, formado a partir da
separação entre o Conselho de Estado «político» e o Conselho de Estado
«administrativo».
Início da «escalada» de África, que provocará um processo de competição
entre as diversas nações europeias com interesses neste continente, e que
apenas acalmará depois da realização da Conferência de Berlim.
Criação do Centro Democrático de Lisboa, por Casimiro Gomes, Felizardo
de Lima e João Bonança. Organização de inspiração republicana, federalista e
socializante.
Tentativa de reintrodução das ordens religiosas em Portugal.
Criação do Ministério da Instrução Pública, surgido durante o curto governo
ditatorial saído do golpe de Estado do duque de Saldanha. As intenções de
organização do novo ministério, que durou apenas 69 dias, foram rapidamente
revogadas pelo novo governo de Sá da Bandeira.
Instalação de um cabo submarino que ligava Portugal a Inglaterra.
Publicação das obras Os Mistérios da Estrada de Sintra, de Ramalho
Ortigão e Eça de Queirós, e História da Literatura Portuguesa, de Teófilo Braga.

1871
[Maio-Junho] Realização das Conferências Democráticas do Casino
Lisbonense, que contaram com a participação activa de Antero de Quental,
Teófilo Braga, Eça de Queirós, Manuel de Arriaga, Batalha Reis, Oliveira Martins,
José Fontana, entre outros. As conferências pretendiam agitar a opinião pública
para o debate das grandes correntes filosóficas, literárias, políticas, sociais e
científicas emergentes na Europa e, simultaneamente, propor um novo rumo para
os destinos de Portugal em sintonia com algumas das correntes inovadoras
apresentadas.
[26 de Julho] Proibição da continuação das Conferências do Casino,
decretada pelo presidente do Conselho, marquês de Ávila e Bolama, com o
argumento de que estas prelecções procuravam sustentar doutrinas e
proposições que atacavam a religião e as instituições do Estado.
Epidemias de filoxera, causando graves danos

[224]

na vinha. A existência da doença, proveniente da América do Norte, foi


oficialmente reconhecida no nosso país neste ano, propagando-se por toda a
região duríense, onde se manteve até à década de 80.
Publicação de As Farpas, de Ramalho Ortigão.

1871-1872
Grande Revolta dos Dembos, no Norte de Angola, face à tentativa de penetração
e ocupação pelos Portugueses dos seus territórios.

1872
[Janeiro] Fundação da Associação Fraternidade Operária, nascida graças
aos esforços de Antero de Quental, Nobre França, José Fontana e Brito Monteiro.
A defesa do socialismo de tendência radicalizante valeu-lhe o ataque de outras
organizações operárias mais moderadas, de conotação demoliberal, que
acusavam esta Associação de pregar a anarquia, a extinção completa da lei e a
destruição da família.
Primeiro grande movimento grevista. Destacaram-se neste ano cerca de 29
acções de greve.
Inauguração da primeira Escola do Conde de Ferreira em Alenquer.
Joaquim Ferreira dos Santos, próspero comerciante no Brasil e em África e digno
defensor da causa constitucional, deixou antes da sua morte um legado para a
construção de 120 escolas com moradias para professores. Estas escolas, que
tinham todas um traço arquitectónico semelhante, constituem até então o plano
mais vasto de construção de escolas com base num legado particular.
Início da reorganização da Secção Zoológica do Museu da Universidade de
Coimbra levada a cabo por Albino Giraldes.
Publicação das obras Os Fidalgos da Casa Mourisca, de Júlio Dinis, e A
Teoria do Socialismo, de Oliveira Martins.

1873 - Conclusão da linha férrea de Évora a Estremoz.


Publicação do tomo primeiro de Opúsculos, de Alexandre Herculano.

1875 - Resolução a favor de Portugal do conflito com a Inglaterra relativo à


soberania sobre a baía de Lourenço Marques, e ocupação dos territórios a norte
do Ambriz na foz do rio Zaire. Na sequência da decisão tomada pelo presidente
da República Francesa, marechal Mac Mahon, que arbitrou o processo, o governo
português comprometeu-se a conceder facilidades e direito de preferência à
Inglaterra, em caso de alienação daqueles territórios.
Tratado de Amizade e Comércio com o Transval, e início das tentativas de
estabelecimento do caminho-de-ferro em Moçambique.
Fundação do Partido Socialista Português (Partido Operário Socialista)
criado por José Fontana, seu grande inspirador, e Antero de Quental.
Fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa pelo publicista e escritor
Luciano Cordeiro. Era uma instituição de iniciativa privada, da qual fazia parte
uma elite difusa constituída por professores do ensino superior, civil e militar, aos
quais se vão juntando elementos das profissões liberais, comerciantes, industriais
e numerosos oficiais do exército. Iria tornar-se o fulcro do renascimento colonial
português, despertando o interesse da opinião pública para as questões do
Império e preparando desde logo as primeiras grandes viagens de exploração
científica protagonizadas por Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens,
destinadas a reconhecer a bacia do Zaire e as suas relações com o Zambeze e
com os Grandes Lagos.
Início da construção da ponte de ferro sobre o Douro, D. Maria Pia, da
autoria de Gustave Eiffel.
Publicação da primeira versão de O Crime do Padre Amaro, de Eça de
Queirós.

1875-1878

Pierre Savorgnam de Brazza encontra a via de penetração na África Central e


celebra o primeiro tratado com o «makoko» dos Bateques, um soberano do
coração da África negra.

[225]

1876
[7 de Setembro] Nascimento do Partido Progressista, surgido da fusão do
Partido Histórico e do Partido Reformista no Pacto da Granja. O objectivo deste
acordo formal foi criar um novo partido, suposto herdeiro do espírito da Patuleia,
que reunisse todos os elementos progressistas, por forma a obter uma base
enérgica e robusta de apoio para o exercício do poder.
Fundação em Lisboa do Centro Eleitoral Republicano Democrático, que
integrava diversas sensibilidades do movimento republicano português. Esta
agremiação moderada, adversa do princípio revolucionário, procurou difundir os
valores do republicanismo segundo os princípios legais e pacíficos da escola
liberal evolucionista.
Publicação da Cartilha Maternal ou Arte de Leitura, de João de Deus,
método de ensino da leitura que teve uma enorme difusão no tempo (e, ainda
hoje, tem os seus adeptos), graças sobretudo à criação, em 1882, de Escolas
Móveis pelo Método de João de Deus.

1877
[Abril] Entrada em vigor do Código de Processo Civil, que altera muitas das
disposições da Novíssima Reforma Judiciária, terminando a reforma judiciária.
A via férrea chega ao Porto.

1877-1878

Viagem de exploração científica de Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens,


financiada por subscrição nacional, que percorre as regiões de Benguela, as
terras da Iaca, determinando os cursos dos rios Cubango, Luanda e Tohicapa.

1877-1879

Serpa Pinto vai de Benguela ao Bié e estuda as nascentes do rio Cuanza.

1878
[Outubro] Eleição que constituíram uma verdadeira efeméride para os
republicanos, que conseguiram eleger o seu primeiro deputado, Rodrigues de
Freitas, pelo Porto.
Novo Código Administrativo, considerado por muitos o mais centralizador
das nossas leis administrativas. Manteve a divisão do território (distritos,
concelhos e paróquias), assim como as mesmas magistraturas. Os conselhos
municipais são suprimidos. Os conselhos de distrito continuam a desempenhar
funções contenciosas. A tutela do governo reduz-se ao mínimo, as decisões dos
corpos administrativos executam-se prontamente.
Censo da população portuguesa: 4 160 315 habitantes.
Primeira experiência de iluminação eléctrica em Lisboa.
Início do funcionamento do Observatório Astronómico da Ajuda.
Publicação de O Primo Basílio, de Eça de Queirós.

1878-1879

Assinatura do Tratado da Índia entre Portugal e Inglaterra, que visava sobretudo a


construção de um caminho-de-ferro ligando o porto de Mormugão à Índia britânica
com vista a beneficiar o desenvolvimento económico de Goa.

1879 - Criação do Centro Republicano Federal, que embora procure evitar a


polémica frontal com outras versões mais moderadas do republicanismo, defende
o afastamento deste movimento dos partidos monárquicos.
Ascensão ao poder do Partido Progressista, com um gabinete presidido por
Anselmo Braamcamp.
Separação administrativa da Guiné de Cabo Verde.
Tratado Luso-Britânico de Lourenço Marques, que determinou a proibição
da venda de armas portuguesas aos Zulos. Este Acordo polémico, pelas
cedências efectivas feitas à Grã-Bretanha, gerou um movimento de protesto
liderado sobretudo pelo Partido Republicano.
Fundação da Sociedade Broteriana, que impulsionou os estudos da flora
portuguesa num período em que além dos trabalhos de Avelar Brotero e das
explorações britânicas de F. Welwitsch feitas sob a protecção da Academia Real
das Ciências de Lisboa, nada mais havia de substancial.

[226]
(Legenda: Rosto do 1º número de O Século.)

1880
[10 de Junho] Comemorações do tricentenário da morte de Camões,
aproveitadas pelos republicanos que associam o nome glorioso de Camões ao
possível e necessário renascimento da pátria. De norte a sul do país realizaram-
se diversas actividades (prémios literários, inauguração de bibliotecas, de bairros
populares, vendas de chapéus, de lenços e calçados «à Camões») que tiveram o
seu expoente em Lisboa, no grande cortejo cívico do dia 10 de Junho. O governo
do Partido Progressista e o rei D. Luís, que entenderam a iniciativa como um
propósito político de movimento revolucionário, não aderiram plenamente ao
acontecimento.
Tentativas, entre os republicanos, de fundar o Centro Republicano
Democrático e o Centro Republicano de Lisboa, com o objectivo de criar e tornar
viável a constituição de um grande partido que unisse todos os republicanos.
Fundação do jornal O Século.
Realização em Lisboa do IX Congresso Internacional de Antropologia e
Arqueologia Pré-Histórica.
Publicação das obras O Brasil e as Colónias Portuguesas e Elementos de
Antropologia, de Oliveira Martins. São ainda editados O Mandarim, de Eça de
Queirós, e A Corja, de Camilo Castelo Branco.

1881
[Janeiro] Criação do Centro Eleitoral Republicano Federal do Círculo 96,
também designado por Clube Henriques Nogueira, que se empenhou na
unificação partidária das diversas facções do republicanismo português.
Lançamento do movimento de Subscrição Nacional Permanente, destinado
ao estabelecimento de «Estações Civilizadoras nos Territórios Sujeitos e
Adjacentes ao Domínio Português em África», pela Sociedade de Geografia de
Lisboa.
Publicação do Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins.

1882 - Celebrações do Centenário Pombalino nas cidades de Lisboa, Porto e


Coimbra, promovidas por republicanos e anticlericais, que se transformaram em
manifestações antijesuíticas e, de uma forma geral, numa campanha
anticongreganista.
Conclusão da linha férrea da Beira Alta e linha do Minho até Valença.
Inauguração dos primeiros Jardins de Infância em Lisboa e Porto, por
iniciativa do governo liderado por José Luciano de Castro.
Publicação de A Brasileira de Prazins, de Camilo Castelo Branco.

1883 - Realização do Congresso da Comissão Organizadora do Partido


Republicano, que decorreu no Clube Henriques Nogueira, e que coroou todo um
trabalho de superação de clivagens clubísticas, permitindo a coexistência nos
órgãos da direcção do Partido Republicano, dos federalistas, dos moderados e
dos patriarcas.
Instituição dos Museus Industriais de Lisboa e do Porto durante o ministério
de Fontes Pereira de Melo.
Publicação da obra Contos Tradicionais do Povo Português, de Teófilo
Braga.

[227]

1884
[Fevereiro] Tratado com a Inglaterra, pelo qual este país reconhece a
soberania portuguesa nas regiões das duas margens do rio Zaire até as fronteiras
do novo Estado do Congo, em troca de facilidades de comércio e navegação do
Zaire e Zambeze.
Fundação em Portugal da primeira fábrica de adubos químicos, na Póvoa
de Santa Iria.
Expedição de Henrique Dias de Carvalho ao Quibundo, Cubango e Cassai.
Expedição de Serpa Pinto e Augusto Cardoso ao Niassa.
Deslocação dos primeiros colonos da Madeira para Angola.
Reorganização militar, de Fontes Pereira de Melo. Implicou a fixação da
composição das armas e a dimensão das diversas unidades O alongamento do
serviço obrigatório a 12 anos, ainda que distribuído por três fases de serviço «nas
fileiras», como «primeira reserva» e como «segunda reserva», e a divisão do
continente em quatro divisões militares territoriais (fixadas em Lisboa, Porto,
Évora e Viseu), estabelecendo-se ainda comandos militares para as ilhas.
Conferência de Berlim, onde os países europeus definem as condições em
que se processará o domínio do continente africano. A partir de então define-se
um novo conceito de direito colonial baseado na ocupação efectiva dos territórios
africanos que anula os direitos históricos tradicionais, sobretudo dos Portugueses,
os quais se traduziam na prioridade da descoberta. Depois desta data, acelera-se
o processo das conquistas militares em África, por parte das potências europeias.
Expedição de Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, atravessando a
África, de Luanda a Tete com o objectivo de explorar o território interior de Angola
e concretizar o plano de ocupação das regiões compreendidas entre Angola e
Moçambique.
«Expedição Científica Pinheiro Chagas» de Serpa Pinto e Augusto
Cardoso.
Expedição de Henrique de Carvalho à Lunda.
Fundação do Ateneu Comercial do Porto.

1885
[2 de Julho] Criação das cadeiras de Antropologia, Paleontologia Humana e
Arqueologia Pre-Histórica da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra,
por iniciativa de Bernardino Machado.
[24 de Julho] Acto Adicional à Carta

(Legenda: Conferência de Berlim, aberta em 1884 e encerrada em 26-2-1885.)

[228]

Constitucional, que visa uma progressiva democratização do sistema político


através do poder do rei e da supressão pariato hereditário e fixação do número de
membros da Câmara dos Pares. Esta passa a ser composta por 100 membros
vitalícios, nomeados pelo rei, por 50 deputados eleitos por sufrágio directo e pelos
pares de direito próprio.
Projecto político «Vida Nova», preconizado por figuras do Partido
Progressista como Oliveira Martins, António Cândido e Carlos Lobo de Ávila,
admiradores do cesarismo de Bismarck e do modelo político alemão. Este
projecto defendia o reforço aos poderes do Executivo e do próprio rei, libertando-o
do papel simbólico até aí desempenhado.

1886 - Celebração do convénio com a França que garantia que este país não se
viria a opor ao projecto português de ocupação de uma parcela do território
africano entre Angola e Moçambique.
Celebração de um convénio com a Alemanha onde era delimitado o
território reivindicado por Portugal, colorido a rosa numa carta geográfica em
anexo (mapa cor-de-rosa) e se reconhecia os direitos portugueses a essa região
desde que não fossem contestados por uma terceira potência estrangeira.

(Legenda: D. Luís.)
(Legenda: Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, na África Central.)

Discordância da Inglaterra ao plano do «mapa cor-de-rosa», uma vez que


colidia com o projecto do famoso explorador inglês Cecil Rhodes de unir o Cairo
ao Cabo através de uma linha férrea.
Início da construção do caminho-de-ferro de Lourenço Marques.
Inauguração da Ponte D. Luís, no Porto.
Novo Código Administrativo que procurou corrigir os excessos
descentralizadores do Código Administrativo de 1878.
Novo Código Penal, que substitui definitivamente o Código de 1852.
Legislação de Emídio Navarro, ministro das Obras Públicas, e do governo
progressista chefiado por José Luciano de Castro relativa a organização do ensino
técnico.

[229]
(Legenda: A ponte de D. Luís, no Porto.)

Fundação de um laboratório de Microbiologia na Faculdade de Medicina da


Universidade de Coimbra.
Publicação das obras Sonetos Completos e A Filosofia da Natureza dos
Naturalistas, de Antero de Quental.

1887 - Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde.


Conclusão da Linha do Douro.
Publicação da declaração de princípios do Grupo Comunisto-Anarquista de
Lisboa.
Publicação de A Relíquia, de Eça de Queirós.

1887-1888

Conclusão vitoriosa das «Guerras do Bonga» na Alta Zambézia.

1888 - Fundação do Centro Democrático Radical, no Porto, que assume uma


atitude de confronto com os directores lisboetas do Partido Republicano e defende
a incompatibilidade e intransigência de acordos entre republicanos e os partidos
monárquicos da esquerda dinástica.
Restauração da Ordem Beneditina em Portugal.
António Maria Cardoso chega a Niassa, onde instala a sua missão de
estudo.
Viagens de agentes britânicos disfarçados a territórios da África
portuguesa. Tratado entre a Inglaterra e o régulo Lobengula, colocando a
Machona sob influência inglesa. Protesto infrutífero do cônsul português no Cairo.
Criação da Companhia de Moçambique, por Paiva de Andrade.

[230]

Novo Código Comercial Português, organizado com base num projecto do


ministro da Justiça, Veiga Beirão.
Fundação da Sociedade Carlos Ribeiro, de estudos antropológicos.
Publicação de Os Maias, de Eça de Queirós.

1889
[Novembro-Dezembro] Atritos diplomáticos de Portugal com a Inglaterra
pela posse da área do Zumbo.
Morte de D. Luís e início do reinado de D. Carlos.
A linha férrea do Sul chega a Faro.
Iluminação eléctrica da Avenida da Liberdade, em Lisboa.
Paiva Couceiro ocupa Barotze, território da região do Zambeze.

[231]
(Legenda: As Eleições Municipais de 1908, por Veloso Salgado (Lisboa, Museu da
Cidade).

[232]

1890-1926

Francisco Manuel Vitorino

Se o objectivo deste capítulo fosse o de tratar cronologicamente o período que


medeia entre Ultimato de 11 de Janeiro de 1890 e o golpe militar de 28 de Maio
de 1926, do ponto de vista meramente político, a tarefa estaria com certeza
facilitada, dada a riqueza e a variedade de acontecimentos que, quase
diariamente, proliferam. No entanto, apesar da tentação, procurou não ser esse o
nosso propósito. Sem predefinir de forma aritmética a equitatividade dos
assuntos, procurou-se diversificar os registos incluindo, sempre que possível,
dados de natureza cultural e mental, por forma a quebrar o sempre tradicional
predomínio dos aspectos políticos e económicos. A riqueza do período e a
variedade dos assuntos a abordar justificam a dificuldade de uma análise
exaustiva, bem como, a existência de outras propostas relativamente às opções
feitas.
O ano de 1890 marcado, por um lado, pelo Ultimato, e por toda a agitação
política e social que se lhe seguiu, e por outro, pela crise financeira que veio
agravar a já difícil situação de endividamento do país (criada pela política de
«progresso material» levada a cabo pela Regeneração), foi ainda marcado pela
ascensão daquela que viria a tornar-se na maior força política fora do sistema
rotativo: o Partido Republicano. Aproveitando-se da instabilidade governativa, da
corrupção administrativa e da subversão dos mecanismos eleitorais (através das
divisões dos círculos), e do caciquismo eleitoral que se foi intensificando na parte
final do constitucionalismo monárquico, o Partido Republicano foi-se afirmando
como alternativa de poder (dando o mote com a revolta de 31 de Janeiro de
1891). A ditadura de João Franco e o regicídio (que, diga-se, em boa parte a ela
se deveu), deram início a um período de maior liberdade política, o que permitiu
um acentuado crescimento do movinto republicano, angariando milhares de
simpatizantes. No entanto, a dificuldade de conquista do poder por via eleitoral
começava a dividir os dirigentes republicanos, ganhando cada vez mais adeptos a
solução revolucionária (do Congresso do PRP de Abril de 1909, saíu um novo
Directório a quem foi confiada tal tarefa).
Com mais de 60% da população activa a viver no sector primário ou
agrícola, com uma estratégia de desenvolvimento económico assente num sector
industrial profundamente dependente do exterior, quer a nível de matérias-primas,
quer de maquinaria, o país chegava ao fim do século com uma dívida pública
astronómica e com um agravamento significativo do nível de vida da população.
Do ponto de vista cultural e mental o país continuava a viver os reflexos da
europeização da cultura e das elites intelectuais, que haviam confrontado, na
segunda metade do século, duas correntes, uma mais ligada ao status quo, outra,
contestando-a, deixando transparecer as influências do exterior, nomeadamente
do progresso das ideias republicanas, socialistas e positivistas. No entanto,
começava a desenhar-se, ao aproximarmo-nos do fim do século, uma certa perda
de vivacidade e acentuado negativismo no confronto intelectual. A imagem da
decadência começava a pairar sobre as elites intelectuais.
No campo do entretenimento, para além da abundância de uma vasta
literatura de divulgação, o teatro (e a música) continuava a reinar na arte do
espectáculo, quer através dos temas históricos ou de «actualidade», quer,
sobretudo, do espectáculo musical.
A I República Portuguesa, instaurada com a Revolução de 5 de Outubro de
1910 é, antes de mais, o fruto de um ideal de sociedade e de pátria regenerada,
liberta da corrupção, do escândalo e do compadrio, que, passando da
intelectualidade e da pequena e média burguesias para o campo do
descontentamento popular, desde cedo se viu enredada em dificuldades e
contradições. Esta alternativa de regime em que se foi constituindo o movimento
republicano, e este desejo de passar do «velho» para o «novo», havia de
confrontar-se com

[233]

um país economicamente em crise, com uma conflitualidade social crescente,


apanhado numa teia de relações internacionais em que se começava a desenhar
um conflito em larga escala, e em relação ao qual seria muito difícil fugir.
Inaugurando o processo de laicização da sociedade, o novo regime institui
a separação do Estado e da Igreja, introduz o divórcio, a validade exclusiva do
casamento civil, a protecção aos filhos ilegítimos, etc. No campo dos direitos,
liberdades e garantias fundamentais, a República, ainda que de uma forma parcial
e, por vezes, contraditória, introduz um novo quadro legal da estrutura judiciária e
algumas melhorias no campo social (direito à greve, protecção social, etc.). Ao
nível do ensino, a República realizou um importante esforço no sentido de
melhorar quantitativa e qualitativamente o processo. No entanto, os resultados
ficaram bastante aquém das expectativas. O analfabetismo baixou de 75,1% para
67,8% entre 1911 e 1930, mas, o crescimento global da população acabou por
anular os valores conseguidos. Nos restantes graus de ensino deram-se passos
bastante positivos.
Legislação de vanguarda, sem dúvida em muitos aspectos, no entanto,
para ser aplicada a estruturas demasiado sólidas e arcaicas, que muito
dificilmente a absorveriam.
Ao nível político, ao pretender criar um quadro constitucional
fundamentalmente assente no Parlamento, a Constituição de 1911 deu vida a um
regime que faria reviver todo um conjunto de cisões, conflitos, confrontações e
instabilidade política que o caracterizaria até ao fim (45 governos constitucionais
até 1926). Sucederam-se as eleições, autárquicas, legislativas e presidenciais.
Multiplicaram-se as formações políticas e acentuou-se a diversificação ideológica,
nunca como então o acesso ao poder foi tão facilitado e, ao mesmo tempo, a
queda desse mesmo poder tão rápida e definitiva.
A I Guerra Mundial, e a decisão de nela participar, fez comprometer todos
os ideais de regeneração do país. Agudizou-se a crise económica e, por via dela,
a conflitualidade social, com greves, golpes e perturbação constante. Conjuntura
que facilitará a intromissão cada vez maior na vida política das forças da ordem e
favorecerá recurso a soluções de cariz autoritário. (O consolado ditatorial sidonista
e, mais tarde, o golpe de 28 de Maio de 1926, são disso o exemplo.) Com a
economia de guerra e a crise que se lhe seguiu, a desorientação na política
económica é total. Não existe qualquer planificação económica, deixando às mãos
dos especuladores privados a defesa dos seus privilégios. A espiral inflacionista
que se registou, acabou por prejudicar sobretudo as classes médias e o
operariado, sectores que haviam constituído a base de apoio do novo regime.
A seguir à guerra, os partidos republicanos, também eles divididos,
começaram a revelar alguma dificuldade em gerir um processo político cada vez
mais espartilhado entre a agitação operária de base anarco-sindicalista, que
contava com conjuntura externa propícia, e a reorganização crescente das forças
conservadoras, encabeçadas pelas elites católicas e por monárquicos
tradicionalistas. Desta forma, os índices de instabilidade política atingiram o grau
mais elevado de sempre (14 governos entre Maio de 1919 e Janeiro de 1922).
No campo da literatura, das artes plásticas e na música a República viu
nascer importantes correntes estéticas, nomeadamente do modernismo, cujas
tomadas de posição acabarão por escandalizar os defensores de padrões
estéticos mais conservadores. Na arquitectura, o decorativismo da Arte Nova cede
o lugar à utilização do ferro na construção urbana.
A seguir à I Guerra Mundial assistimos, também, à alteração do próprio
ritmo de vida quotidiana. Estamos na época do jazz, dos ritmos frenéticos dos
anos 20, do cinema, do cabaret, acompanhados pelos novos padrões estéticos da
moda e da beleza feminina. Ombreando com os restantes formas de divertimento,
não podemos deixar de fazer uma referência ao desporto, particularmente o
futebol, que começa a ganhar uma popularidade notável.

[234]

1890
[11 de Janeiro] Ultimato inglês em resposta à tentativa de Portugal de
ocupar as regiões compreendidas entre Angola e Moçambique, dando corpo a um
projecto consagrado pela Regeneração de fundar a África Meridional portuguesa
da costa atlântica à contracosta (no mapa a cor-de-rosa). Tais projectos, porém,
chocavam com os interesses ingleses de estabelecer um Império Britânico do
Cabo ao Cairo. É uma questão que se insere num movimento de expansão
colonial levado a cabo pela Europa na segunda metade do século XIX, em
consequência da crise que ia derivando do desenvolvimento do capitalismo
industrial. A industrialização maciça criava nos países europeus a necessidade
cada vez maior de procurar mercados para o escoamento dos seus produtos e
que funcionassem, ao mesmo tempo, como fornecedores de matérias-primas. No
prosseguimento dessa estratégia, o princípio da ocupação efectiva, consagrado
definitivamente após a Conferência de Berlim, reunida em 1885, substituía o
antigo princípio do direito histórico, que tinha garantido até agora a Portugal, na
qualidade de descobridor, a posse dos seus territórios coloniais.
[14 de Janeiro] Governo chefiado pelo regenerador, Serpa Pimentel. Este
governo viu-se confrontado com uma opinião pública descontente com a atitude
da Inglaterra, por um lado, e com a necessidade de agir com diplomacia, por
outro, sob pena de pôr em risco a soberania portuguesa em Angola e
Moçambique.
[Março] Promulgação da nova lei de imprensa que tentou fazer face aos
ataques cerrados levados a cabo pela imprensa portuguesa ao governo e à
Monarquia. Denunciava-se, sobretudo, a passividade das instituições em relação
ao comportamento da Inglaterra.
[Maio] O 1º de Maio é comemorado em Lisboa, pela primeira vez.
[19 de Maio] Nasce, em Lisboa, o poeta Mário de Sá-Carneiro.
[Junho] Morre Camilo Castelo Branco (n. 1825). É o termo de uma vida
agitada e instável e de uma personalidade impulsiva, irreverente e insatisfeita.
Filho bastardo, órfão de pai e de mãe foi, desde cedo, entregue ao cuidado de
familiares e religiosos em Trás-os-Montes. Fixa-se mais tarde no Porto, onde leva
uma vida atribulada, boémia, cheia de duelos e rixas amorosas. Escreve na prisão
a sua mais importante obra: Amor de Perdição, que é expressão do ultra-
romantismo que o caracterizava. Envereda desde cedo por uma literatura
confessional, de carácter autobiográfico, baseada na sua tumultuosa vida
sentimental, criando tipos e descrevendo costumes numa linguagem depurada e
vernácula, e utilizando um vocabulário extremamente rico. O sofrimento vivido, a
cegueira e a psicose da morte, qual herói romântico, levam-no ao suicídio na sua
casa em S. Miguel de Seide.
[20 de Agosto] Tratado assinado entre Portugal e Inglaterra, pelo qual se
delimitavam as possessões portuguesas ao norte do Zambeze, se reconhecia em
todos os territórios africanos de ambos os países a liberdade religiosa de culto e
ensino, se acentua a liberdade recíproca de navegação e comércio nos rios,
lagos, canais e portos marginais no interior, e se proclama inteiramente livre, para
os navios de todas as nações, a navegação no Zambeze, Chire e seus afluentes.
Deste modo, não só se confirma a perda de tudo o que Portugal já tinha sido
obrigado a abandonar pelo Ultimatum, como ainda se abria mão de territórios não
contestados ao norte e ao sul do Zambeze, e se facultava um novo campo à
colonização inglesa ao ser permitida a liberdade de culto, de comércio e de
navegação. Este tratado, considerado como mais uma humilhação infligida por
Inglaterra a Portugal, deu origem, à semelhança do que acontecera com o
acatamento do Ultimatum, a uma nova onda de manifestações de protesto.
[Outubro] Constituição de um novo governo, agora chefiado por João
Crisóstomo. Substituía o de Serpa Pimentel que não resistira à contestação do
acordo com a Inglaterra para pôr termo à questão levantada com o Ultimatum.
Inauguração do Coliseu dos Recreios, Local de encontro de uma pequena
burguesia

[235]
(Legenda: Alfredo Keil.)

que adopta os comportamentos das classes dominantes sobretudo o gosto pela


ópera italiana. Prática corrente, durante a segunda metade do século XIX (no S.
Carlos, no S. João ou no Coliseu), era importar a mercadoria artística
internacional distribuída pelas companhias italianas, em detrimento da produção
nacional, por companhias nacionais. Para além de muito raramente, e sem êxito,
se ouvir ópera em português, só excepcionalmente é que os cantores portugueses
eram chamados a integrar as companhias estrangeiras. Era frequente a
hostilidade e desconfiança do meio para com os artistas portugueses.
Alfredo Keil compõe A Portuguesa. Desde 1880, altura das comemorações
do tricentenário da morte de Camões, que a temática patriótica se vinha
intensificando na produção literária e artística, e também na música, como
principal veículo de divulgação dos ideais republicanos. Escrita para um
espectáculo teatral (na sequência do Ultimatum), popularizada imediatamente
como canto patriótico, proibida depois da revolução de 31 de Janeiro de 1891, foi
proclamada Hino Nacional pela Assembleia Nacional Constituinte de 1911 (com
letra de Henrique Lopes de Mendonça).
Paiva Couceiro, depois do suicídio de Silva Porto, realiza a exploração do
Bailundo ao Mussulo, impondo a soberania portuguesa em toda a região do
Cubango em Angola Era a tentativa de Portugal de defender o avanço britânico na
região.
Constituição da Liga Patriótica do Norte, presidida por Antero de Quental
que se vai insurgir contra a dependência política e económica de Portugal em
relação a Inglaterra.
Antero de Quental, Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade de
Século XIX.
José Frederico Laranjo, Liberdade e Associação.
Raul Brandão, Impressões e Paisagens.
D. João de Castro, O Livro Branco.
Roberto Belarmino da Rosa Frias, A Alimentação do Operário Baseada
sobre os Princípios da Termodinâmica.
1891
[5 a 7 de Janeiro] Congresso do Partido Republicano. Aprovação do
programa oficial do Partido Republicano elaborado por Bernardino Pinheiro,
Azevedo e Silva, Francisco Homem Cristo, Jacinto Nunes, Manuel de Arriaga e
Teófilo Braga. O articulado do novo programa procurava conciliar os programas
republicanos anteriores (unitarista e federalista), reforçando a vertente
nacionalista e interclassista, não perdendo de vista o aspecto cultural,
fundamental na consumação do ideal republicano. As reformas deviam
subordinar-se, ainda, a dois aspectos fundamentais: a organização dos poderes
do Estado e a fixação das garantias individuais (Nota 1 – Sobre este assunto, cfr.
F. Catroga, 1991.).
[31 de Janeiro] Primeira tentativa gorada de implantação da República no
Porto. Da janela da Câmara Municipal, na Praça de D. Pedro, Alves dos Reis
anuncia os nomes do elenco governativo provisório (Rodrigues de Freitas,
professor; Joaquim Bernardo Soares, desembargador; José Mana Correia da
Silva, general de divisão; Joaquim de Azevedo Albuquerque, lente da Academia
Politécnica; José Ventura dos Santos Reis, médico; Licímo Pinto Leite, banqueiro;
António Joaquim de Morais

[236]

(Legenda: Henrique de Paiva Couceiro.)

Caldas, professor, e Alves da Veiga, advogado). Acção levada a cabo pelos


militares em condições bastante desordenadas, acabou por ser dominada pela
Guarda Municipal que disparou contra a multidão concentrada na Praça da
Batalha. Embora fracassada, teve importantes reflexos na evolução do movimento
republicano, desencadeando um processo revolucionário irreversível que
culminou nos acontecimentos de 5 de Outubro de 1910.
Convém referir que o militantismo antimonárquico conhece um significativo
impulso durante a década de 80. Antes disso, o conflito entre facções dentro do
movimento republicano, bem como o seu carácter clubístico, colocam dúvidas a
alguns historiadores sobre a possibilidade de ser considerado, sequer, como
organização partidária (Nota 2 - Cfr. F. Catroga, 1991.).
Nos anos 80, o estímulo moral provocado pelas comemorações
camonianas, o decréscimo do nível de vida das populações e o consequente
aumento tributário, as discussões sobre a influência crescente do elemento
clerical (jesuítico), que atingiram o seu ponto alto nas comemorações pombalinas,
o aumento da repressão, levada a cabo pelos governos monárquicos, etc., viram
emergir a rede orgânica do movimento republicano português.
[20 de Fevereiro] Portaria que tentava reforçar a vigilância policial, no
sentido de evitar agitações de rua. A liberdade de reunião e associação foi
cerceada em nome da manutenção da paz social.
[Fevereiro] Empréstimo concedido ao Estado português (36 000 contos) por
financeiros portugueses, franceses e alemães em troca do monopólio do tabaco.
Após ter sido extinto em 1864 e restaurado em 1888 sob a administração directa
do Estado, o contrato do tabaco foi a condição exigida pelos financeiros
envolvidos. Do lado português destacam-se Henry de Burnay e a Casa Fonsecas,
Santos e Viana; do lado estrangeiro predominava o Comptoir National d‘Escompte
de Paris.
Congresso das Associações de Classe, de onde saem resoluções no
sentido de reivindicar uma tarifa aduaneira proteccionista, a regulamentação do
trabalho das mulheres e das crianças, a fiscalização da higiene e segurança nas
fábricas, a criação de tribunais de trabalho e a responsabilidade patronal no que
diz respeito a acidentes de trabalho. Decidiu-se ainda no Congresso comemorar o
1° de Maio, utilizando estas comemorações para reivindicar a jornada de 8 horas
de trabalho. É visível a identificação entre estas reivindicações e as concessões
governamentais que foram feitas pouco tempo depois.
[23 de Março] Lei que aprovava o contrato de trabalho de 25 de Fevereiro
garantindo a jornada de 8 horas e fixando uma tarifa de salários mínimos.
[14 de Abril] Decreto que regulamenta o trabalho de mulheres e menores
nas indústrias. Trata-se de legislação operária que, à semelhança da que data de
10 de Fevereiro e 7 de Agosto de 1890 e da que sairá em Março de 1893,
regulamenta, entre outras questões, as condições de emprego, a duração da
jornada de trabalho, o repouso semanal, e a higiene e segurança nos
estabelecimentos industriais que empregavam trabalhadores menores. (Ver 16 de
Março de 1893.)

[237]

[21 de Abril] Morre Elias Garcia, deputado e chefe do Partido Republicano.


[9 de Maio] Decreto que autoriza a formação de associações operárias, ao
mesmo tempo que limita os seus direitos à esfera exclusivamente profissional.
Proibia ainda os agrupamentos federais e nacionais e submetia a eleição dos
dirigentes a aprovação governamental. Este decreto foi bastante importante, pois
rompeu definitivamente com a situação anterior de alguma imprecisão no que diz
respeito à legalidade das associações operárias, já que o Código Civil de 1867 era
impreciso nesta matéria.
[15 de Maio] Encíclica Rerum Novarum, do papa Leão XIII, onde são
lançadas as bases da futura doutrina social da Igreja. Foram transmitidas à Igreja
e ao mundo do trabalho directrizes sólidas sobre o relacionamento do patronato
com os operários e sobre o papel dos governos e da Igreja na solução dos
problemas laborais.
[25 de Maio] Perante o agravamento da crise financeira e a chegada das
notícias sobre a assinatura do novo Tratado Luso-Britânico, o governo demite-se
No entanto, D. Carlos encarregou o general João Crisóstomo de Abreu e Sousa
de constituir outro ministério, que viria a manter-se até Janeiro do ano seguinte.
[28 de Maio] Celebração de um tratado entre Portugal e Inglaterra
(substituía o acordo firmado no ano anterior) pelo qual, em troca de algumas
concessões inglesas na região do Zumbo, o Governo português reconhecia a
nova fronteira de Manica, onde perdia as zonas mineiras mais ricas, acedia à
liberdade de navegação e prometia construir um caminho-de-ferro que fosse da
Beira à fronteira da antiga Rodésia (actual Zimbabwe). O tratado é bastante
contestado em Lisboa por ser, em alguns aspectos, mais gravoso para Portugal
do que o assinado em 20 de Agosto de 1890, na sequência do Ultimatum.
[Junho] Realização de um Congresso do Partido Socialista Português em
Coimbra.
[29 de Agosto] Morre Latino Coelho, dirigente e deputado do Partido
Republicano.

(Legenda: D. Carlos.)

É preso e encarcerado no Limoeiro, por delito de imprensa, o jornalista e


divulgador dos ideais republicanos Heliodoro Salgado.
[11 de Setembro] Morre Antero de Quental. Representante máximo da
geração que a partir da década de 60, e até ao fim do século XIX, virá a
desempenhar um papel decisivo no debate de ideias em Portugal. Com Teófilo
Braga, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Adolfo Coelho e
Alberto Sampaio, integra a chamada geração de 70. Impulsiona importantes
iniciativas como as Conferências do Casino Lisbonense e foi o principal actor da
polémica que ficou conhecida com as designações de Questão Coimbrã, ou
Questão do Bom Senso e do Bom Gosto, e que opôs o grupo de Coimbra
(constituído pelos atrás citados) a António Feliciano de Castilho e o seu grupo
(João de Lemos, Pinheiro Chagas, Bulhão Pato etc.).
[8 de Outubro] Criação, em Lisboa, do primeiro Hospital Veterinário.
Ficando na dependência da Direcção-Geral de Agricultura, o hospital era
constituído por duas secções, uma destinada a servir de banco e enfermaria, e,
em simultâneo, de local de ensino para os alunos dessas áreas, e outra com
estabelecimentos auxiliares anexos.

[238]

Crise financeira e bancária. Desde o fim do ano anterior que o Estado


sentia dificuldades para fazer face ao défice orçamental, honrar os encargos da
dívida e para socorrer alguns bancos e companhias ferroviárias e coloniais que se
encontravam à beira da falência. À baixa das exportações de productos agrícolas
e às oscilações do câmbio brasileiro (originado pelo descalabro financeiro da
República e pela queda dos preços do café, a principal exportação brasileira, facto
que fez estancar a saída de emigrantes portugueses), acrescentou-se a elevação
dos compromissos externos do Estado e de empresas privadas, e o crescimento
das importações. Embora não se tivesse chegado à situação de bancarrota o
público reagiu activamente, correndo em massa aos depósitos bancários e à
conversão das notas. O Banco de Portugal ficou sem reservas e os outros bancos
acabaram por suspender os pagamentos.
Conclusão da linha férrea do Oeste.
Matriculou-se a primeira mulher na Universidade de Coimbra. Domitilia
Hormizinda Miranda de Carvalho, nascida em 1871 na freguesia de S. Martinho
de Travanca, concelho da Feira, frequentou nesse ano o 1° ano da Faculdade de
Matemática.
Publicação da obra Os Filhos de D. João I e Portugal em África, de Oliveira
Martins.
Trindade Coelho, Os Meus Amores.
José Frederico Laranjo, Princípios de Economia Política.
Guilherme Alves Moreira, O Lucro e a Questão Económica.
António Maximo Lopes, Memória sobre Economia Agrícola.
J. M. Gonçalves Viana, O Anátema. Filosofia e Crítica Social.
Teixeira Bastos, A Crise.
Manifesto dos Emigrados da Revolução Republicana Portuguesa de 31 de
Janeiro de 1891.
Abel Botelho, O Barão de Lavos.
D. João da Câmara, a peça Alcácer Quibir.

1892
[30 de Janeiro] Publicação de um conjunto
(Legenda: Oliveira Martins.)

de medidas com vista ao saneamento financeiro do país. Oliveira Martins,


responsável pela pasta das Finanças do governo de Dias Ferreira, promulgava
então o lançamento de uma taxa entre 5% e 20% sobre os ordenados, soldos e
pensões, a criação de adicionais de 10% a 20% à contribuição pessoal, à
sumptuária, à da renda de casas e à industrial, estabelecimento de uma taxa de
30% sobre os rendimentos da dívida pública interna, a ideia de um acordo com os
credores externos para renegociar a dívida e, finalmente, a intenção de cortar
todas as despesas supérfluas do serviço público A mistura de austeridade e
pressão fiscal levou a que o défice passasse de 14 653 contos no orçamento de
1891-1892, para 120 contos no orçamento de 1893-1894.
[Janeiro] Governo chefiado por José Dias Ferreira, do qual viria a fazer
parte como ministro da Fazenda, Oliveira Martins. Dada a situação de quase
bancarrota em que o país se encontrava, muitos consideravam este governo
como um governo de salvação nacional.
[26 de Fevereiro] Carta de lei que previa que os deputados às Cortes gerais
exercessem a sua actividade sem remuneração, beneficiando apenas de
passagem gratuita nos

[239]

caminhos-de-ferro e nos navios do Estado.


[24 de Março] Realização, no Porto, de um Congresso das Associações de
Classe. Estavam representadas neste congresso 34 associações, por 59
delegados. Divergências entre marxistas, possibilistas, autonomistas e
anarquistas, acerca da manifestação do 1° de Maio, levaram ao abandono do
congresso pelos representantes da zona sul, tendo estas convocado outro
congresso, desta feita para Lisboa.
[Junho] Julgamento de Heliodoro Salgado. Jornalista e escritor, foi um dos
grandes defensores dos ideais republicanos, do anticlericalismo, da instrução
popular e do acesso das classes trabalhadoras a um mais elevado nível de vida.
[Julho] Novo Congresso das Associações de Classe. Reafirma-se aqui a
autonomia das associações operárias em relação aos partidos políticos
(sobretudo Republicano e Socialista, cuja ligação ao movimento operário nunca
foi, segundo Villaverde Cabral, muito profunda). As ligações existentes entre os
primeiros passos do movimento operário e o poder estabelecido, levam o referido
autor a afirmar que: a Monarquia joga com a «economia» contra os republicanos e
ganha a batalha «política» (Nota 3 - Cfr Manuel Villaverde Cabral, 1988, p. 78.).
O poder político tentou criar condições para o estabelecimento de um
equilíbrio social, de forma a reduzir as possibilidades de aliança entre o
movimento republicano e o reformismo operário. Esta intensão é visível nas
considerações proferidas pelo governo acerca do Decreto de 9 de Maio de 91,
onde se lê: «Se estas associações [operárias] se mantiverem à margem da
política, poderão tornar-se elementos de ordem e de progresso (Nota 4 – Cfr.
Cabral, 1988.).» Por outro lado, ainda, o governo tenta envolver alguns dirigentes
socialistas em iniciativas estatais, como sejam a sua participação na comissão de
elaboração do regime das bolsas de trabalho, ou na elaboração de relatórios
sobre a situação salarial.
[Outubro] Portugal fazia-se representar nas festas comemorativas do 4.°
Centenário do Descobrimento da América. Para esta exposição levou-se um
modelo da caravela S. Rafael, em que Vasco da Gama efectuara a primeira
viagem ao Oriente.
Instauração de novas pautas alfandegárias A pressão no sentido do reforço
da protecção alfandegária faz-se sentir, de uma forma mais marcada, a partir do
final da década de 80, no entanto o agravamento da crise económica no princípio
dos anos 90, acelerou a sua efectivação. Os efeitos destas medidas no
relançamento da economia portuguesa, nomeadamente ao nível do crescimento
industrial, foram evidentes (Nota 5 – Cfr. Cabral, 1988.). Fundação das chamadas
cozinhas económicas, por acção da duquesa de Palmela. Forneciam refeições
completas, ou fracções, aos indigentes, por preços módicos ou gratuitas.
António Nobre, Só.
José de Arriaga, História da Revolução de Setembro.
J. Fernandes Alves, Homenagem a José Fontana.
Felizardo de Lima, A Solução Nacional.
Sebastião Magalhães Lima, O Socialismo na Europa.
Oliveira Martins, Inglaterra de Hoje.
Henrique Lopes de Mendonça, Estudos sobre Navios Portugueses nos
Séculos XV e XVI.
Abel Botelho, a peça Vencidos da Vida.
Campos Júnior, a peça A Filha do Regedor.
Fialho de Almeida, Vida Irónica.

1893
[19 de Fevereiro] Demissão do segundo governo de Dias Ferreira, que
significou o fim das soluções extrapartidárias tentadas por D. Carlos para fazer
frente à grave situação de crise que o país atravessava. O novo governo, chefiado
por Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro, dirigente do Partido Regenerador, marcou o
reinício do

[240]

(Legenda: Hintze Ribeiro.)

rotativismo político. Até Maio de 1906 assistiu-se novamente à alternância no


poder dos dois partidos mais representativos da cena política nacional:
Regenerador e Progressista. No espaço de cerca de 13 anos sucederam-se 8
ministérios.
O estabelecimento do rotativismo em Portugal, andou desde sempre ligado
a práticas fraudulentas que, progressivamente, foram desvirtuando os
mecanismos eleitorais, viciando resultados e deformando a opinião do eleitorado.
O facto de o rotativismo monárquico ser constituído, mais por organizações
congregadoras de elites, do que por partidos de massas com bases eleitorais
específicas, entre outras razões, levou a que se tivessem desenvolvido diversos
tipos de caciquismo (administrativo, patronal, clerical, político), que
desempenharam um papel fundamental na subversão completa do sistema.
[Março] Publicação do decreto sobre a criação das bolsas de trabalho.
[16 de Março] Decreto que regulamenta o trabalho das mulheres e dos
menores. A idade legal era fixada em 16 anos para os rapazes e 21 para as
raparigas. Entre outras disposições (vidé 14 de Abril de 1891), previa ainda a
proibição de trabalhar durante quatro semanas após o parto, assim como
obrigação, para as fábricas que empregassem mais de 50 mulheres, de instalar
uma
(Legenda: Bernardino Machado.)

creche a menos de 300 metros da fábrica. Previa-se ainda a possibilidade de as


mães se ausentarem do trabalho a fim de amamentar os filhos.
De lembrar, que a legislação operária produzida no quadro da crise dos
primeiros anos da década de 90, a que se tem vindo a fazer referência desde
1891, apesar de prever a fiscalização do seu cumprimento, não passou em
grande parte de meras disposições escritas. No entanto, importa reter que este
quadro legal permitia ao operariado uma força reivindicativa maior.
[Julho] Publicação de uma lei que limita a liberdade de reunião. As notícias
acerca da proximidade de uma situação de bancarrota fizeram aumentar as
movimentações em prol da institucionalização de uma República. Assim, os
promotores ou organizadores de reuniões passaram a ter a obrigatoriedade de
informar da sua realização, com antecedência de 24 ou 48 horas, os
governadores civis ou os administradores dos concelhos.
[30 de Setembro] Decreto de Bernardino Machado que, no sentido de
tentar resolver o problema do despovoamento no Alentejo, prevê a instalação de
colónias agrícolas nos terrenos incultos do Estado.
[23 de Outubro] Eleições para o Parlamento que confirmaram o apoio ao
Partido

[241]

Regenerador no governo. Os círculos republicanos conseguiram eleger 3


deputados (Lisboa, Porto e Santiago do Cacém), todavia o rei decide dissolver o
Parlamento e marcar novas eleições para o dia 7 de Março de 1894 (viriam a ser
adiadas para 15 de Abril).
Sampaio Bruno, Notas de Exílio.
Bento Carqueja, A Liberdade de Imprensa.
D. João da Câmara, a peça Os Velhos.
Júlio de Castilho, A Ribeira de Lisboa.
D. João de Castro, Os Malditos.
João de Deus, Campo de Flores.
Ernesto da Silva, Fontana e Sousa Brandão; Proletários e Burgueses.
1894
[Janeiro] Realização do Congresso Cooperativista, no qual estão
representadas 30 cooperativas. O congresso, debruçou-se, entre outros assuntos,
sobre a possibilidade de se constituírem em federação, embora ressalvando a sua
natural autonomia e independência e ainda, sobre possível melhoramento da
legislação que as rege (Nota 6 - Sobre este assunto, cfr. Carlos da Fonseca, s.d.,
vol. II.).
Aprovação do decreto que dissolve as Associações Comercial, Industrial
Portuguesa e dos Logistas de Lisboa. Após convocação de um grande comício
para 29 de Janeiro no Coliseu dos Recreios (que o Governo Civil não deixou
concretizar), bem como o convite ao comércio de Lisboa para fechar as portas em
protesto contra a nova lei de contribuição industrial, o governo de Hintze Ribeiro
mandou dissolver estas associações.
[14 de Março] Decreto sobre a mendicidade.
[Março] Celebração, no Porto, do 5° Centenário do nascimento do infante
D. Henrique. Um grande cortejo histórico, organizado pela Câmara Municipal, teve
a presença do rei e da rainha que permaneceram no Porto durante a primeira
semana de Março.
[15 de Abril] Primeiras eleições após a nomeação de Hintze Ribeiro para
chefe do ministério. O Parlamento resultante deste acto eleitoral viria a ser
encerrado no final do mesmo ano (28 de Novembro), dando-se início a um
período de ditadura. Dois deputados republicanos foram eleitos pelo círculo de
Lisboa. Marcada para 3 de Maio a abertura do Parlamento, foi depois transferida
para 1 de Outubro.
[Maio] Congresso Nacional das Associações de Classe, onde é fundada a
Confederação Nacional das Associações de Classe. Neste Congresso é decidida
a intervenção dos trabalhadores nas eleições para os corpos legislativos e
administrativos. O movimento operário começava a aproximar-se mais dos
Partidos Republicano e Socialista. Progressivamente, o Partido Socialista ia
retomando o controlo do movimento. A Confederação das Associações de Classe
era constituída pelas federações de Lisboa, Porto e Tomar. A Confederação
representava, de certo modo, a CGT da época.
[Julho] Decreto estabelecendo os Sindicatos Patronais Agrícolas (não
confundir com Sindicatos Rurais). O principal objectivo destas associações era
facilitar a análise das terras e aumentar o emprego e garantia dos adubos
químicos, pelo que, dificilmente se poderiam considerar órgãos de classe, que
servissem de protecção e defesa dos interesses dos proprietários.
[Agosto] Morre Oliveira Martins. Escritor, pensador, historiador, Oliveira
Martins, integrou, juntamente com Antero, Eça, Teófilo, Ortigão entre outros, a
famosa geração de 70, que encarnou a reforma da mentalidade e da cultura na 2ª
metade do século XIX.
Criação da primeira fábrica de cimento em Portugal, a Fábrica Tejo, em
Alhandra.
É publicada a obra Carácter e Influência da Obra do Infante, de Henrique
Lopes de Mendonça.
Martins de Carvalho, Programa do Centro de Estudos Sociais; O
Socialismo Científico.
Marques Gomes, Lutas Caseiras Portugal de 1834 a 1851.

[242]

Sebastião Magalhães Lima, O 1° de Maio.


Eduardo Maia, A Autoridade e a Anarquia.
Heliodoro Salgado, A Insurreição de Janeiro.
J.M. Gonçalves Viana, A Evolução Anarquista em Portugal.
Visconde de Ouguela, A Luta Social.
Teixeira Bastos, A Crise – Estudo sobre a Situação Política, Financeira,
Económica e Moral da Nação Portuguesa nas Suas Relações com a Crise
Comtemporânea.

1895
[28 de Março] Publicação do decreto, revogando a lei eleitoral de 1884, que
permitia a representatividade das forças políticas minoritárias. A área dos círculos
eleitorais coincide agora com os distritos administrativos, o que permite ao
governo Hintze Ribeiro-João Franco um controlo mais apertado das eleições. As
cidades de Lisboa e Porto não eram destacadas dos restantes distritos, como
acontecia anteriormente, o que visava impedir a eleição de forças oposicionistas
ao regime, em especial o Partido Republicano, cuja expressão eleitoral era mais
significativa naqueles centros urbanos. Atribuía ainda o direito de voto
exclusivamente aos indivíduos maiores de 21 anos que fossem colectados em
500 réis ou mais de contribuições directas (o valor mínimo exigido anteriormente
eram 1$000 réis), ou que soubessem ler e escrever. Apesar de baixar a quota
censitária para metade, retirava a qualidade de eleitor aos chefes de família, o
que fazia afastar um bom número de cidadãos pertencentes às camadas mais
desfavorecidas da população, entre as quais o Partido Republicano tinha maior
expressão eleitoral.
[14 de Agosto] Reforma do ensino secundário de Jaime Moniz. Acentua-se
o pendor humanístico no plano de estudos, valorizando-se as línguas vivas e o
latim em detrimento das disciplinas científicas. (...) No total dos tempos lectivos de
todo o curso liceal (da 1ª à 7ª classes), as disciplinas de Física, Química e História
Natural, Matemática e Desenho, representavam apenas 1/3 da carga horária,
preenchendo as línguas modernas, o Latim, Geografia, História e Filosofia, os
restantes 2/3 (Nota 7 – Cfr. S. Campos Matos, 1990, pp. 25 e 179.).
[Outubro] Visita a Lisboa do presidente da República Francesa, Émile
Loubet. À medida que nos aproximávamos do final do século, a propaganda
republicana subia de tom. Por todo o país se multiplicavam os comícios e as
manifestações que não perdiam a oportunidade para reforçar o sentimento
antimonárquico e para se impor progressivamente como partido de massas. À
semelhança do que já havia acontecido a propósito das comemorações do
tricentenário da morte de Camões (1880), do centenário da morte de Pombal
(1882) e das manifestações de desagravo pelo Ultimatum inglês, também a visita
desta personalidade foi aproveitada como motivo da propaganda republicana.
Congresso do Partido Socialista Português em Tomar. O Partido Socialista
propunha uma reforma das sociedades humanas, onde o princípio da máxima
socialização da riqueza estivesse presente. Defendia, entre outros princípios, a
abolição do Estado, o sufrágio universal, ampla participação directa do povo,
educação igual e gratuita para todos, igualdade de direitos adquirida pelo trabalho,
assistência, etc.
[17 de Novembro] Realização de novas eleições que não contaram com a
presença das forças da oposição, em resposta à publicação da nova lei eleitoral.
Em consequência destas eleições a câmara eleita compunha-se apenas de
partidários do governo (regeneradores), tendo ficado conhecida pela designação
de Solar dos Barrigas.
A sucessão de eleições neste período acompanhou, como acontecera na
anterior fase rotativista, as vicissitudes dos governos. O princípio eleitoral, um dos
princípios fundamentais da legitimação do poder liberal, foi constantemente
violado pela monarquia constitucional. A prerrogativa régia do poder moderador
(prevista na Carta Constitucional de 1826) conferia ao soberano, entre outras, a
capacidade de nomear e demitir os membros do governo, pelo

[243]

(Legenda: Mouzinho de Albuquerque.)

que a distorção do princípio electivo era, naturalmente, subvertida. A formação


dos governos não dependia dos resultados eleitorais, mas, ao contrário, eram as
eleições que sancionavam os ministérios previamente nomeados (significativo é o
facto de as eleições terem sido sempre ganhas pelos governos que as
organizavam). A proeminência do poder executivo, em vez do legislativo, e a
frequência dos actos eleitorais, acabou por acarretar o descrédito e
desvalorização total do princípio eleitoral. Realizaram-se eleições ainda em 1897,
1899, 1900 (duas vezes), 1901, 1905 e 1906).
[29 de Dezembro] Prisão de Gungunhana em Chaimite por Mouzinho de
Albuquerque. António Enes desembarcara em Lourenço Marques, como
comissário régio, em 13 de Janeiro, com o propósito de atacar Gungunhana,
chefe dos Xanganas, que ameaçara transformar o seu remo num protectorado
inglês. O chefe indígena é trazido para Portugal e exibido nas ruas à população. É
colocado no Forte de Monsanto e depois levado para Angra do Heroísmo onde
definha até à morte. Sobre este acontecimento diria Teixeira Bastos: «(…) foi sem
dúvida uma lamentável recrudescência do militarismo, do espírito de conquista e
de predomínio da força; como lamentável é, no fim do século XIX, o emprego da
guerra como elemento de civilização (Nota 8 – Cfr. P. Ramos de Almeida, 1979.
Atente-se ainda no tratamento ao tema dado pelo cinema, nos filmes Chaimite, de
Jorge Brum do Canto, de 1953, e, mais recentemente, o filme Aqui Del Rei, de
António Pedro de Vasconcelos.
Nasce, em Vila Viçosa, Florbela Espanca.
Joaquim de Vasconcelos descobre os painéis de S. Vicente de Fora.
Congresso anticlerical realizado pelos socialistas.
Decreto limitando à idade mínima de 12 anos, a admissão de menores na
construção civil.
Fortunato de Almeida, A Questão Social.
Abel Botelho, funda (teatro) e O Livro de Alda.
Alberto Osório de Castro, Exiladas.
Afonso Costa, A Igreja e a Questão Social.
Lopo José de Figueiredo, Trabalhos Apresentados ao Congresso Nacional
de Tuberculose.
Oliveira Martins, Cartas Peninsulares.
A. X. Silva Pereira, O Jornalismo Português.
J. M. Gonçalves Viana, A Evolução Anarquista em Portugal (2ª parte).

1896
[11 de Janeiro] Morre João de Deus (n. 1830). Poeta e pedagogo, cultivou
temas como o amor, a vida e a morte, e a sátira de contorno e espírito popular.
Em 1870 publica a Cartilha Maternal tornando-se, durante gerações, no método
de iniciação à leitura preferido pelos educadores portugueses.
[13 de Fevereiro] Lei de João Franco que procurava reprimir as acções
violentas que iam acontecendo em protesto contra a ditadura de Hintze Ribeiro. A
lei ameaçava com a deportação para as colónias a quem perturbasse a ordem
social.
[Maio] Publicação de uma lei sobre as instituições de previdência operária.
[5 de Maio] Entrada em vigor do Código

[244]
(Legenda: João Franco.)

de Processo Comercial. Desde a reforma do Código Comercial de 1887, por


iniciativa de Viega Beirão, sentia-se a necessidade de um instrumento que
facultasse a sua execução e, ao mesmo tempo, reunisse legislação avulsa e
dispersa que entretanto foi aparecendo.
[Julho] Azedo Gneco representa os socialistas portugueses no Congresso
Internacional Socialista de Londres.
Primeiro espectáculo público de cinema no Teatro do Príncipe Real (Porto).
Aprovado o novo Código Administrativo.
Lei contra os anarquistas.
Fialho de Almeida, Madona do Campo Santo.
Raul Brandão, História de Um Palhaço.
Maria Amália Vaz de Carvalho, Cartas a Uma Noiva, Pelo Mundo Fora.
Silva Cordeiro, A Crise em Seus Aspectos Morais.
Augusto Fuschini, Liquidações Políticas Vermelhos e Azuis.
Costa Goodolfim, Questões Sociais. O Capital – O Trabalho – A miséria.
Silva Mendes, O Socialismo Libertário ou o Anarquismo.
Visconde de Ouguela, A Questão Social, Evolução e Socialismo e A
Questão Social – O Proletariado Europeu.
Ernesto da Silva, A Ideia Federativa, O Que É Ser Socialista?
Leite de Vasconcelos, inicia a publicação de Religiões da Lusitânia.
Anselmo de Andrade, A Terra.

1897
[Fevereiro] Novo governo liderado por José Luciano de Castro. Significava
o fim quatro anos de governo regenerador e o regresso do Partido Progressista.
[18 de Março] Carta de lei que cria as chamadas Escolas Normais, para
habilitação de professores de instrução primária.
[Março] Realização de um Congresso Operário em Lisboa.
[2 de Maio] Novas eleições que deram a vitória ao Partido Progressista.
[Agosto] Os inspectores industriais são obrigados por lei a fazerem a
estatística dos acidentes de trabalho.
Criação da Carbonária Portuguesa por António Augusto Duarte da Luz
Almeida. Associação paralela da Maçonaria, esta pretendia ser uma agremiação
filantrópica, filosófica, mutualista e apartidária, aquela apontava para a
prossecução de objectivos político-conspirativos (Nota 9 – Cfr. F. Catroga, 1991,
pp. 137-138.). Parece ter sido introduzida em Portugal após a Revolução de 1820,
tendo tido grande actividade durante a primeira metade do século, altura em que
entra num longo marasmo até ao início da década de 90. Renasce com a
indignação nacional subsequente ao Ultimatum e progressivamente vai-se
aproximando dos meios anarquistas e republicanos radicais. Estará por detrás da
tentativa de implantação da República em 1908 e dos acontecimentos de 1910.
Realização de eleições, nas quais não participou o Partido Republicano
como protesto

[245]

pelas limitações impostas pela legislação eleitoral que restringia a participação


das minorias.
[5 de Setembro] Realização do 7° Congresso do Partido Republicano, em
Coimbra.
Teixeira Bastos, A Dissolução do Regime Capitalista; Os Interesses
Nacionais.
Ladislau Batalha, A Burla Capitalista – Crítica da Sociedade
Contemporânea.
Abel Botelho, a peça Parnaso; A Imaculável.
D. João da Câmara, a peça Triste Viuvinha.
Maria Amália Vaz de Carvalho, A Arte de Viver na Sociedade.
Júlio de Castilho, A Mocidade de Gil Vicente, O Poeta, Quadros da Vida
Portuguesa dos Séculos XV e XVI.
Costa Goodolfim, As Misericórdias.
Manuel José da Silva, Pequeno Manual do Povo.
Teixeira Bastos, Interesses Nacionais – o interesse público, o trabalho
nacional, as colónias.

1898
[17,18 e 19 de Maio] Celebração, em Lisboa, do 4° Centenário do
Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia.
[30 Agosto] Tratado Anglo-Germânico prevendo, em cláusula secreta, a
divisão das possessões portuguesas ao sul do equador. Os Alemães ficariam com
as regiões ao norte do Zambeze e o Sul de Angola, e Timor, ficando para os
Ingleses a baía da Lagoa e a parte norte de Angola. Este acordo resulta da
pressão alemã que sabendo da tentativa portuguesa de negociar um novo
empréstimo em Londres, a aproveita.
[Outubro] Decreto de Elvino de Brito sobre segurança e higiene no trabalho.
Nasce Ferreira de Castro.
Surgimento da CUF (Companhia União Fabril) por fusão da Companhia
Aliança Fabril (ligada ao fabrico de sabões, velas de estearina, óleos, glicerina,
etc.), com a sua

(Legenda: Alfredo da Silva.)

principal concorrente, a União Fabril. Por detrás deste empreendimento, que deu
origem a um dos principais grupos económicos portugueses até ao 25 de Abril,
estava Alfredo da Silva (1871-1942), figura excepcional no panorama industrial
português. Expandiu a sua actividade a diversos ramos da indústria que abarcam
desde os sabões, velas de estearina, adubos químicos, sulfates ácidos, fundição,
construção de navios de aço, transportes, tabacos, etc. O seu nome fica ligado a
grupos económicos como a Companhia União Fabril, a Sociedade Geral de
Comércio, Indústria e Transportes, a Tabaqueira, etc.
Existem em Lisboa 193 associações mutualistas, com o total de 102 052
associados.
É criada a Direcção-Geral de Estatística e dos Próprios Nacionais.
Teixeira Bastos, Bolsas de Trabalho; Habitações Operárias; Tribunais de
Árbitros Avindoures; O Primeiro de Maio.
Ladislau Batalha, Pátria e Conversão – Verdades Amargas; Astronomia
Social; Zé Sisudo e Zé Pagante.
Abel Botelho, Mulheres da Beira.
Sampaio Bruno, O Brasil Mental.
D. João da Câmara, a peça O Beijo do Infante.

[246]

Bento Carqueja, O Imposto e a Riqueza Pública em Portugal.


Amália Vaz de Carvalho, A Vida do Duque de Palmela.
João de Castro, Vida Dolorosa.
Trindade Coelho, Dezoito Anos em África e manual Político do Cidadão
Português.
Conde de Ficalho, Viagem de Pedro da Covilhan.
José de Macedo, O Cooperativismo; A Socialização do Ensino.
Sebastião de Magalhães Lima, O Federalismo.
Henrique Lopes de Mendonça, Bartolomeu Dias e a Rota da Índia e
Apontamentos Sobre o Piloto Pêro de Alenquer.
António de Serpa Pimentel, O Anarquismo. A Questão Social

1899
[23 de Março] Decreto sobre a mendicidade.
[19 de Abril] Nasce em Loulé, Duarte Pacheco, que virá a ser o grande
ministro das Obras Públicas do Estado Novo e marcará de forma indelével a
primeira parte do consulado salazarista.
[26 de Julho] Publicação da Lei dos Cereais, também conhecida por «Lei
da Fome». A isenção de direitos de importação de cereais, em resposta à quebra
de produção, levou a que abundasse o trigo estrangeiro sem que o nacional
obtivesse escoamento. Face à contestação do mundo rural, o governo viu-se
obrigado a ceder, restabelecendo o imposto à entrada de cereais.
[26 de Julho] Reforma da legislação eleitoral. Reintroduz os círculos
uninominais (revogados pela legislação de 1895), exceptuando-se Lisboa e Porto,
que constituíam círculos plurinominais, embora sem representação de minorias.
[Julho] Entrada em vigor do Código das Falências.
[Agosto] Publicação da lei que estipulava o financiamento do fundo
especial de beneficência pública, destinado à defesa sanitária contra a
tuberculose.
Epidemia de peste bubónica no Porto, com origem provável em Bombaim e
cujos efeitos o governo procurou atalhar através de um cordão sanitário em volta
da cidade. As medidas impostas, apesar de necessárias, foram consideradas
prejudiciais para a economia da cidade, tendo o Partido Republicano aproveitado
o descontentamento popular para eleger três deputados nas eleições de 26 de
Novembro.
[Setembro] Nasce o poeta José Régio (José Maria dos Reis Pereira).
[14 de Outubro] Tratado de Windsor entre Portugal e a Inglaterra. São
reafirmados os anteriores tratados de amizade entre os dois países, e é garantida
a integridade dos domínios portugueses, bem como é inviabilizado o tratado
anglo-alemão do ano anterior.
[18 de Novembro] Realização do 8° Congresso do Partido Republicano, em
Lisboa.
[26 de Novembro] Novo acto eleitoral que já contou com a participação dos
republicanos, que, no Porto, elegeram três deputados: Afonso Costa, Paulo
Falcão, Xavier Esteves. Perante estes resultados as eleições foram anuladas, por
alegadas irregularidades, e repetidas em 18 de Fevereiro de 1900.
Fundação da primeira União Velocipédica Portuguesa.
Campos Júnior, O Marquês de Pombal (ficção).
Henrique Cardoso, A Crise Portuguesa e os Partidos Revolucionários.
Maria Amália Vaz de Carvalho, Em Portugal e no Estrangeiro.
Augusto Fuschini, O Presente e o Futuro de Portugal.
Ernesto da Silva, Elogio Histórico de Roberto Owen.
Eurico de Seabra, A circulação fiduciária nas suas relações com a crise
monetária em Portugal.

[247]

A. A. Pires de Lima publica, em O Instituto (vols. XLVI e XLVIII, e separata),


uma dissertação sobre o marxismo.
A. C. de Almeida Leitão, Do Crédito e da Circulação Fiduciária.

1900
[Janeiro] A Real Associação de Agricultura lança um manifesto ao país,
exigindo medidas prontas e eficazes contra a crise vinícola que se vinha sentindo,
e que ainda se acentuou mais nos anos seguintes. A febre de replantar vinha, que
resultara das perdas causadas pela filoxera, juntamente com uma quebra
estrutural da exportação de vinho, dada a concorrência estrangeira, levou a que
se começassem a sentir dificuldades no seu escoamento.
[12 de Fevereiro] José Bento Ferreira de Almeida, antigo ministro da
Marinha e Ultramar, discursa na Câmara de Deputados, em que defende a venda
das colónias (à excepção de Angola e S. Tomé e Príncipe), para com cujo produto
se poder pagar a dívida externa e fomentar o desenvolvimento do país.
[18 de Fevereiro] Novas eleições, onde o Partido Republicano não só
manteve a votação anterior como a alargou.
[2 de Março] Morte de António de Serpa Pimentel, chefe do Partido
Regenerador, tendo sido substituído por Hintze Ribeiro.
[12 de Março] Abertura das Cortes, já com a presença dos deputados
republicanos, onde durante três meses criaram um ambiente de grande
contestação que atingiu as próprias instituições e acelerou a queda do ministério,
gasto já por três anos de governo.
[Março] Morre o poeta António Nobre. Nasceu no Porto, cursou Direito em
Coimbra e Letras na Sorbonne. Cantou o drama da solidão e a saudade da Pátria
e marca uma viragem na poesia nacional, quanto à métrica e ao ritmo dos seus
versos. Publicou em Paris o livro de poemas Só (1892), tendo saído póstuma a
colectânea Despedidas.
[25 de Junho] Nomeação do novo governo de Hintze Ribeiro que sucedeu a
José
(Legenda: António Nobre.)

Luciano de Castro. Este governo duraria até Fevereiro de 1903.


[Julho] Realiza-se em Lisboa um Congresso anticlerical, organizado pelos
Círios Civis (socialistas). À medida que se aproximava do fim do século tendia a
aumentar o número de organizações que se opunham ao clericalismo.
[16 de Agosto] Morre em Paris, onde desempenhava as funções de cônsul-
geral, o escritor Eça de Queirós. Tendo cursado Direito em Coimbra durante a
década de 60 do século XIX, facilmente se compreendera que tenha convivido
com todos os intelectuais da sua geração, e que haveria de ficar conhecida pela
Geração de 70. Participou nas Conferências do Casino, mas dedicou-se cedo à
carreira consular, tendo, saído novo, de Portugal. Cultor de um humor irónico, de
uma arte narrativa e de uma grande riqueza imagética caracterizou, como
ninguém, a sociedade portuguesa do século XIX.
[Setembro] Os socialistas portugueses fazem-se representar por Jean
Jaurès no Congresso Socialista Internacional de Paris.
[16 de Setembro] Começa a publicar-se o jornal O Mundo, que, depois da
instauração da República e na sequência das dissidências dentro do Partido
Republicano,

[248]

dará voz à facção afecta a Afonso Costa e Bernardino Machado.


[25 de Novembro] Novas eleições onde Republicanos, findas as
consequências da peste perderam a maioria no Porto, não conseguindo eleger
nenhum deputado. Durante quase seis anos progressistas e regeneradores,
ocupariam a totalidade dos lugares.
O Censo de 1900 indicava uma taxa de analfabetismo na ordem dos 74%.
Portugal participa na Exposição Universal de Paris.
Nasce Ricardo Espírito Santo (m. 1955). Seu pai fundara a Casa Silva,
Beirão & Cia., que se transformará mais tarde no Banco Espírito Santo e
Comercial de Lisboa.
Nasce José Gomes Ferreira.
Fialho de Almeida, À Esquina.
João Bonança, O Século e o Clero.
Abel Botelho, Sem Remédio – Etologia de Um Fraco.
D. João da Câmara, Contos.
Bento Carqueja, O Futuro de Portugal. Questões Económicas e Sociais.
Eugénio de Castro, Constança.
Coelho Cunha, A Peste do Porto de 1899.
Costa Goodolfim, L‘Assistance Publique en Portugal.
Almada Negreiros, La Main d‘oeuvre en Afrique. Memoire présentée au
Congrès Colonial de 1900 à Paris, à la séance du 3 Août.
Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires.
Heliodoro Salgado, A Igreja e o Proletariado Europeu.

1901
[17 de Fevereiro] Ocorre a chamada Questão Calmon. À saída da missa da
Igreja da Trindade, no Porto, um grupo de homens tenta raptar (com a conivência
da visada) a filha do cônsul do Brasil naquela cidade. O objectivo do rapto era
conduzi-la a uma casa religiosa para onde desejava entrar contra a vontade dos
pais. Este acontecimento gerou protestos e manifestações hostis contra as
instituições clericais. Na sequência destas manifestações, que se prolongaram por
todo o ano, o governo regenerador ordena um inquérito (Decreto de 18 de Abril)
às casas religiosas, restringindo a sua existência àquelas que se dedicassem «à
instrução ou beneficência ou à propaganda da fé e civilização no Ultramar».
De referir que o Decreto de 18 de Abril foi uma forma hábil de legalizar a
existência de ordens religiosas, uma vez que era fácil alegar a prossecução dos
intuitos em causa. Desta forma a questão religiosa acabou por
(Legenda: Eça de Queirós (caricatura em bronze).)

[249]

se agravar, sendo o regime acusado de demasiado próximo da Igreja.


[11 de Abril] Surge o Centro Nacional Académico, depois Centro
Académico de Democracia Cristã de Coimbra. Instituição que, à semelhança de
muitas outras [União Católica Portuguesa (1882), Círculos Católicos de Operários
(1897), Partido Nacionalista (1903), Congressos das Agremiações Católicas
Populares de Portugal (1906), Federação das Juventudes Católicas Portuguesas
(1913), União Popular Católica (1913), Centro Católico Português (1917),
Juventude Universitária Feminina (1922), etc.], se integra num movimento lento de
recuperação por parte da Igreja e da «acção católica», da hegemonia perdida com
a instauração em Portugal do Liberalismo, primeiro, e da I República, depois (Nota
10 - Sobre este assunto, cfr. J. P. Avelãs Nunes e outros, 1993.). Para além de
tentar responder ao avanço das ideias anticatólicas, este tipo de organização
enquadra-se na nova orientação da Igreja delineada com a encíclica Rerum
Novarum, de 1891, na qual se defende uma maior atenção a dar, pela Igreja, às
questões sociais e à organização dos católicos nesse sentido.
[Maio] João Franco sai do Partido Regenerador levando consigo 25
deputados. Este grupo dará origem ao Partido Regenerador-Liberal.
[Junho] Realiza-se, em Coimbra, a 3ª Conferência Nacional do Partido
Socialista Português.
[8 de Agosto] Publicação da última lei eleitoral da Monarquia, da autoria de
Hintze Ribeiro que, embora retomando a representação minoritária, é uma das
mais restritivas leis eleitorais, uma vez que tende a afastar da Câmara as
representações republicanas e franquistas. Dividindo as cidades de Lisboa e Porto
em dois círculos cada uma, juntava-lhes extensas zonas rurais adjacentes, para
que os votos destas pudessem superar os votos urbanos, de possível tendência
republicana. No quadro desta lei foram suprimidas as comissões de
recenseamento eleitoral. Ficou conhecida por ignóbil porcaria.
Entre 1900 e 1906, os vários ministérios enveredaram por caminhos de
centralização e repressão do poder. Num total de sete anos e nove meses, as
Câmaras mantiveram-se encerradas durante seis anos e três meses. Para além
do encerramento das Câmaras, procedeu-se ainda à supressão de jornais,
dissolução de câmaras municipais, intervenção violenta das polícias, deportação
para as colónias de anarquistas, etc. (Nota 11 – Cfr. A.H. Oliveira Marques
(coord.), 1991.).
[6 de Outubro] Realização de eleições legislativas onde se aplicou a ignóbil
porcaria, tendo sido apenas eleito um franquista.
[2 de Dezembro] Inauguração em Lisboa, pelo rei D. Carlos, do Congresso
Colonial Nacional. Dois aspectos, entre muitos outros, foram defendidos: por um
lado, a manutenção das instituições indígenas, que não se opusessem à moral e
à justiça, por outro lado, a necessidade de incutir nos indígenas a noção de
propriedade territorial. Foi ainda referida a necessidade de se dar maior
autonomia e poder aos governadores, bem como de legislação separada para
africanos e europeus.
[24 de Dezembro] Decreto de Hintze Ribeiro que reforma o ensino primário.
O ensino passa a ser obrigatório e gratuito durante três anos, concluindo-se com o
exame do 1° grau (3ª classe). A título de curiosidade, diga-se, ainda, que o
vencimento dos professores continuava a manter-se o mais baixo da função
pública.
Reforma dos serviços de saúde e beneficência, decretada por Hintze
Ribeiro. Pretende-se, com esta reforma, intervir num conjunto de campos, a
saber: defesa contra as epidemias, estatística demográfico-sanitária, combate às
doenças infecciosas, salubridade de lugares e habitações, inspecção de
substâncias alimentícias, higiene da indústria e do trabalho, polícia mortuária, etc.
Todavia, os serviços de saúde e assistência existentes fora de Lisboa
continuavam a reger-se por leis orgânicas especiais,

[250]

não ficando directamente dependentes do Ministério do Reino.


[Dezembro] Reforma militar de Pimentel Pinto. O país era dividido em três
Circunscrições Militares: Norte, Centro e Sul. Cada uma subdividida em duas
Divisões Militares Territoriais a que havia a acrescentar as dos Açores e da
Madeira.
Lei bancária que atribui ao BNU o monopólio da actividade bancária nas
colónias.
Afonso Costa, deputado republicano apela, na Câmara dos Deputados, à
substituição das instituições do regime pelos republicanos.
Por proposta de Jaime Moniz, dá-se a reforma do Curso Superior de
Letras.
Lei de Hintze Ribeiro que legaliza o regresso de frades e freiras, expulsos
em virtude das leis anticlericais do marquês de Pombal e de Joaquim António de
Aguiar.
É publicada a obra A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós.
Abel Botelho, Amanhã.
D. João da Câmara, a peça Rosa Enjeitada.
Campos Júnior, Luís de Camões (ficção).
Eugénio de Castro, Depois da Ceifa.
Carneiro de Moura, O Século XIX em Portugal.
Manuel José da Silva, Princípios Socialistas.

1902
[5 e 6] de Janeiro Realiza-se, em Coimbra, o Congresso do Partido
Republicano. No princípio do século, os efeitos da repressão monárquica, por um
lado, e as dissidências no seio da partido, por outro, levaram a alguma quebra de
actuação no movimento republicano. Desta forma, no Congresso de Coimbra,
foram retirados os poderes ao Directório e entregues a três juntas directivas
(norte, centro e sul), medida que parece ter animado, de alguma forma, os
organismos de base. A agudização dos conflitos sociais, momento propício à
acção da propaganda, irá favorecer ao

(Legenda: Afonso Costa.)

longo da década o esforço de reorganização do partido.


[8 de Janeiro] Suicida-se em Lisboa Joaquim Mouzinho de Albuquerque,
militar de carreira, que se destacou pelas suas campanhas em África,
nomeadamente a que levaria à prisão de Gungunhana.
[Janeiro] Nascimento do Partido Nacionalista de Jacinto Cândido.
[Março/Abril] Faz-se sentir uma forte agitação nas Universidades do Porto,
Coimbra e na Politécnica de Lisboa, onde ocorrem motins estudantis. As aulas
foram encerradas, só reabrindo em Abril. A partir daqui a degradação da
autoridade e a fraqueza crescente do poder foram sendo notórias. Nas escolas e
universidades (Março de 1903, Janeiro de 1906, Março de 1907), no mundo
operário, nas sessões parlamentares (em consequência de insultos e agressões
entre deputados as sessões foram sucessivamente suspensas), nas forças
armadas, na imprensa, etc., a agitação e a contestação ao regime era constante
(Nota 12 – Cfr. Oliveira Marques (coord.), 1991.).
[Abril] Realização do II Congresso Galaico-Português, em Viana do
Castelo.
[Setembro] Publicação de um decreto-lei

[251]

que determina o reforço da «segurança interna».


Realização, em Aveiro, de um Congresso das Associações de Classe.
Neste congresso, inteiramente dominado pelos socialistas, era aprovada uma
moção declaradamente antigreve. A decisão de recorrer à greve passava a ser
submetida à aprovação da federação, o que revela uma certa oposição dos
movimentos socialista e reformista em relação à generalização das greves, bem
como à ideia de greve geral (em vão, pois elas vão aparecer logo no ano
seguinte). Revela, ainda, segundo Villaverde Cabral, o receio de alguns dirigentes
sindicais de que a opção frequente da greve possa pôr em causa as suas
ambições políticas.
Inicia-se o alargamento a toda a cidade de Lisboa da iluminação eléctrica
pelas Companhias Reunidas de Gás e Electricidade.
É criada a Escola de Medicina Tropical e o Hospital Colonial.
É inaugurada a linha férrea de Beja a Pias e Moura.
Sampaio Bruno publica a obra, A Ideia de Deus.
Anselmo de Andrade, Portugal Económico. Teorias e Factos.
Agostinho de Campos, Analfabetismo e Educação.
Maria Amália Vaz de Carvalho, Figuras de Ontem e de Hoje.
Ruy Ennes Ulrich, Estudos de Economia Social – I. Crises Económicas
Portuguesas.
João Meneses, A Nova Fase do Socialismo.
Ernesto da Silva, Teatro Livre e Arte Social.
Anselmo de Andrade, Portugal Económico.

1903
[27 de Fevereiro] Demissão do governo de Hintze Ribeiro, que não
conseguiu resistir à contestação crescente. A pedido do rei, Hintze Ribeiro
continuou com outro ministério.
[Março] «Greve geral» em Coimbra. Embora não possa ser considerada
inteiramente operária, já que assume um carácter sobretudo popular contra a
carestia de vida e a pressão fiscal (teve por motivo os selos das licenças e multas
aos pequenos vendedores do mercado), ela representa uma manifestação de
resistência popular à progressiva penetração capitalista em Portugal. A greve,
para além de alastrar a vários sectores e localidades do país, representa o início
de uma nova fase das lutas operárias, nomeadamente através do recurso à
«greve geral».
O associativismo de classe desenvolveu-se de forma mais consistente a
partir da década de 80 do século XIX, sob o impulso, embora contraditório, do
ideário socialista e, mais tarde, do movimento anarquista. Embora tenha mostrado
alguma hesitação perante a forma como os industriais procuram reorganizar-se
durante a crise de inícios da década, não se pode deixar de reconhecer ao
movimento operário, segundo Villaverde Cabral, alguma actividade e esforço
organizativo. As greves do final do século representam, segundo o autor, uma
generalização do princípio organizativo (Nota 13 - Cfr. Cabral, 1988, p. 85.).
Desde o princípio do século e até à queda da Monarquia, o desenvolvimento da
organização dos trabalhadores numa lógica de classe evolui significativamente.
As greves da primeira década do nosso século, testemunham a crescente
insatisfação face ao evoluir da situação política, e são o reflexo da ascensão
republicana, da tendência associativista crescente e, sobretudo, da ligação do
anarquismo ao movimento dos trabalhadores (Nota 14 - Sobre o problema da
ascensão do sindicalismo revolucionário no início do séc. XX, cfr. V Cabral, 1988,
p. 131 e s. Até 1907, esta vaga de fundo praticamente não pára.).
[Abril] Realiza-se, em Braga, o III Congresso Galaico-Português.
[16 de Maio] Consumou-se a dissidência de João Franco no seio dos
regeneradores, com a formação do Centro Regenerador-Liberal. Opondo-se ao
sistema rotativo, a quem atribuía as culpas da degradação da

[252]

situação política, o novo agrupamento apontava para o fortalecimento do poder


executivo.
[Maio] Imponente manifestação de 2600 viticultores que, desfilando por
Lisboa, levavam ao Parlamento uma mensagem pedindo a adopção de medidas
urgentes contra o problema da crise do vinho. A crise resultava, sobretudo, de um
excesso de produção, por um lado, e da concorrência, no mercado internacional,
de vinhos de outras proveniências, por outro. Contra a acentuada queda dos
preços, os governos tentam legislar até 1907.
[3 de Julho] Realiza-se, em Viana do Castelo, o Congresso do Partido
Nacionalista, no qual é aprovado o programa do partido, onde os princípios do
catolicismo e do nacionalismo assumem importância primordial.
[Julho] Greves operárias no Porto. Começando pelos tecelões, rapidamente
se generalizam a todas as categorias assalariadas da cidade, bloqueando a
produção e a circulação durante vários dias.
[7 de Dezembro] Movimento grevista dos metalúrgicos que, iniciado na
Empresa Industrial Portuguesa, manter-se-á durante semanas recorrendo a
violentos confrontos com a polícia.
Fundação do Real Automóvel Club de Portugal. Embora os adeptos do
desporto automóvel fossem já, ao tempo, em número significativo, na prática
mostrou-se sempre como um desporto de elite. Desta forma, o Real Automóvel
Club de Portugal, bem cedo se transformou numa associação pragmática de
utentes.
Eduardo VII de Inglaterra e Afonso XIII de Espanha visitam Portugal,
retribuindo a visita do rei D. Carlos.
Fortunato de Almeida publica a obra, História das Instituições em Portugal.
Raul Brandão publica, A Farsa.
Maria Amália Vaz de Carvalho, Cérebros e Corações.
António Costa Lobo, História da Sociedade em Portugal no Século XV.
Manuel Moreira Feio, Regime da Propriedade nas Colónias.
José Frederico Laranjo, As Ditaduras Políticas e os Amigos das
Instituições.

1904
[4 e 5 de Fevereiro] Os trabalhadores portuários e os metalúrgicos das
casas Street, Ornellas, Vulcano, Dargent, Colares, Boqueirão, Previdente, etc.,
aderem às greves das indústrias metalúrgicas, iniciadas no ano anterior. Apesar
do número de operários envolvidos, o movimento fracassaria completamente.
[25 de Junho] Novo acto eleitoral, após a decisão de Hintze Ribeiro em
dissolver o Parlamento. O triunfo foi para o Partido Regenerador.
[18 de Outubro] Cai o governo de Hintze Ribeiro, aquando da discussão
parlamentar a propósito dos novos contratos do tabaco e dos fósforos.
[20 de Outubro] José Luciano de Castro, chefe do Partido Progressista, é
convidado a formar governo. Marcado pela questão dos tabacos, pela crise
vinícola e pela dinâmica republicana crescente, o regresso dos progressistas ao
poder duraria até Março de 1906.
[Outubro] Publicação de legislação que facilita a obtenção de empréstimos
pelos círculos operários católicos.
[16 de Novembro] Por ocasião da visita de D. Carlos a Eduardo VII de
Inglaterra é assinado o tratado de arbitragem que é conhecido por Segundo
Tratado de Windsor (o anterior é de 1899).
[Dezembro] Motim dos estudantes do Seminário de Bragança, revoltados
contra os excessos disciplinares ou menos vocacionados para a carreira
eclesiástica, do qual resulta algumas expulsões.
É concluída a linha férrea da Beira Baixa e o ramal Setil-Vendas Novas.
Inicia-se o consumo particular de luz eléctrica em Lisboa.
Visitas a Portugal da rainha Alexandra de Inglaterra, do imperador
Guilherme II da

[253]

Alemanha e do presidente da República Francesa, Émile Loubet.


Surge a primeira sala de projecção de filmes do país, O Salão Ideal, em
Lisboa.
Nasce o médico e escritor Miguel Torga (Adolfo Rocha).
Instalação da primeira linha telefónica entre Lisboa e Porto.
Sampaio Bruno publica, O Encoberto.
Carolina Michaelis de Vasconcelos edita o Cancioneiro da Ajuda.
Abel Botelho, Os Lázaros – Figuras de Hoje.
D. João de Castro, Redenção.
Latino Coelho, Marquês de Pombal (biografia).
Pe. Pinheiro Marques, O Socialismo e a Igreja.
Basílio Teles, Carestia de Vida nos Campos. Cartas a Um Lavrador.

1905
[1 de Maio] Dissidência de José Maria de Alpoim em relação ao Partido
Progressista, levando consigo mais seis deputados do partido, dando origem à
chamada Dissidência Progressista.
[12 de Agosto] Publicação do Regulamento Policial dos Mendigos da
Cidade de Lisboa.
[29 de Agosto] Decreto que promulga a reforma do Ensino Secundário, da
autoria do ministro Eduardo José Coelho. Introduz algumas modificações na
reforma de Jaime Moniz, mormente no que se refere ao plano de estudos. Na
presente reforma, o número de disciplinas de Letras passou a ser equilibrado com
o de Ciências, durante o curso geral, aumentando também o peso do Francês,
dando-se ao aluno a possibilidade de optar pelo Inglês ou pelo Alemão a partir do
2° ano. O número total de horas de ensino baixou para 26 (curso geral) e 22
(cursos complementares). O esquema de base adoptado aqui serviu de referência
a todas as reformas posteriores (1918, 1919 e 1921), que não passaram de
retoques ao esquema de 1905.
[10 de Setembro] A crescente obstrução Parlamentar levou a que José
Luciano de Castro conseguisse o encerramento das Cortes.
Promulgação do Código do Processo Comercial.
Termina a construção da linha férrea entre Estremoz e Vila Viçosa.
Criação da Liga de Educação Nacional.
Maria Amália Vaz de Carvalho publica, As Nossas Filhas.
Luís Gonçalves, A Evolução do Movimento Operário em Portugal.
Fernando Emídio da Silva, O Operariado na Questão Social; As Classes
Operárias, Traços para a Sua História.
Basílio Teles, Do Ultimatum ao 31 de Janeiro.
Ruy Ennes Ulrich, Ordens e Congregações Religiosas em Portugal (desde
1834 a 1904).

1906
[Fevereiro] Fundação do Círculo de Estudos Sociais Teófilo Braga.
[21 de Março] Após a queda do governo progressista de José Luciano de
Castro, forma-se o último governo em que participou Hintze Ribeiro, e que duraria
apenas dois meses. Terminaria aqui a fase do rotativismo partidário iniciado em
1893.
[19 de Maio] João Franco é nomeado chefe do governo dando início a um
governo ditatorial. O fortalecimento do poder real, de que D. Carlos era partidário,
já há muito vinha sendo anunciado. A origem da defesa de tal fortalecimento,
residia na crise que a partir da década de 80 começou a avolumar-se na
sociedade portuguesa, pondo em causa a eficácia do constitucionalismo rotativo.
A partir de meados da década, as críticas cederam lugar à defesa de soluções
alternativas autoritárias que permitissem colmatar os males do regime liberal.
A população é perseguida no Rossio em Lisboa, quando aguardava a
chegada dos candidatos de esquerda. É a chamada «chacina do Rossio».
[5 de Junho] Dissolução das Cortes e

[254]

marcação de novas eleições para o mês de Agosto.


Realiza-se no Porto, um Congresso do Republicano.
Congresso das agremiações populares católicas em Lisboa.
A linha férrea do Sul chega a Vila Real de Sannto António.
[19 de Agosto] Realização de eleições, nas quais foram eleitos por Lisboa
os candidatos do Partido Republicano, Afonso Costa, António José de Almeida,
Alexandre Braga e João de Meneses.
[29 de Setembro] Abertura do Parlamento. A luta política recrudescia de tal
forma que, na sessão de 20 de Novembro, o deputado republicano Afonso Costa
proferia a seguinte frase: Por menos do que fez o Sr. D. Carlos, rolou no
cadafalso a cabeça de Luís XIV.
[4 de Novembro] Eleições autárquicas do Porto, onde os republicanos
coligados com alguns monárquicos oposicionistas se apoderaram da respectiva
Câmara.
[Novembro] João Franco traz ao Parlamento a questão dos adiantamentos.
O governo admitia que, ao longo dos anos, se haviam feito, pelo Ministério da
Fazenda, «adiantamentos» de somas avultadas aos vários membros da família
real. Esta questão mereceu o protesto exaltado dos deputados republicanos que,
na sessão tumultuosa de 20 de Novembro, foram expulsos da Câmara e
suspensos por um mês.
Fundação da Escola Superior Colonial.
É criado em Lisboa o primeiro liceu feminino. Enquanto no ensino primário
se foi fazendo um grande esforço por alargar a sua frequência, no caso do ensino
secundário o acesso dependia das possibilidades económicas dos pais. Os liceus
eram, portanto, frequentados por uma minoria de alunos, também porque a sua
localização era restrita às cidades (e não a todas). Nos começos do século XX,
existiam liceus ou escolas municipais secundárias em 31 localidades.
Realiza-se o primeiro Campeonato de Futebol, entre os clubes de Lisboa e
arredores. À data da proclamação da República contavam-se já no país
numerosos clubes de Futebol. A União Portuguesa de Futebol, com carácter
nacional, é fundada em 1914. A partir da década de 20, o futebol torna-se uma
das modalidades mais praticadas, desenvolvendo-se um autêntico culto popular
pelos grandes jogadores.
Raul Brandão publica, Os Pobres.
Sampaio Bruno, Os Modernos Publicistas Portugueses.
Maria Amália Vaz de Carvalho, Ao Correr do Tempo.
Campos Lima, A Questão Social.
J. M. Esteves Pereira, A Indústria Portuguesa (Séculos XII a XIX).
Ruy Ennes Ulrich, Legislação Operária Portuguesa.

1907
[14 de Fevereiro] Aprovada a lei que reconhece a liberdade de associação
sem autorização prévia.
[Março] Greve académica iniciada em Coimbra, originada pela reprovação
do candidato a Doutor José Eugénio Dias Ferreira e que se insere num
movimento generalizado de contestação ao governo de João Franco. Os actos
hostis contra membros do júri, e a respectiva reacção do governo, ordenando a
suspensão dos trabalhos escolares, provocaram a solidariedade de alguns
professores republicanos que, assim, politizaram o acontecimento. Dispondo de
maioria parlamentar, o governo apoiado pela Concentração Liberal (constituída
pela aliança com os progressistas) não conseguia dominar o Parlamento cujas
sessões decorriam em clima agitado. O movimento de contestação alargou-se a
outras universidades.
[11 de Abril] Face aos ataques constantes da imprensa republicana e
dissidente-progressista, João Franco faz aprovar uma nova lei de imprensa, que
pelo seu carácter repressivo ficou conhecida como lei contra a imprensa.
[12 de Abril] Decreto do governo de João

[255]

Franco que encerrava a sessão legislativa com o fundamento de que já durara o


prazo constitucional de três meses. Seria dissolvida a 10 de Maio, sem que
tivessem sido marcadas novas eleições. A Concentração Liberal de Progressistas
e Franquistas teria então os dias contados. Inicia-se aqui, efectivamente, o
governo ditatorial.
[1 de Maio] O jornal A Luta inicia a sua actividade. Dirigido por Brito
Camacho, vai ter papel fundamental na formulação do ideário da facção (dentro
do Partido Republicano) que dará origem, em 1912, à União Republicana.
[23 de Maio] Decreto que manda encerrar as matrículas na Universidade de
Coimbra, considerando também admitidos a exame apenas os estudantes
naturais da cidade. A greve nas escolas continuava e o clima de condenação da
ditadura, acompanhada de agitação social, agrava-se dia a dia por todo país: o
Partido Republicano procedia a frequentes e violentos comícios; comissões das
Câmaras dos Deputados e dos Pares entregavam ao rei mensagens de protesto;
algumas câmaras municipais fizeram, inclusivamente, aprovar moções contra a
ditadura.
Rebenta um surto de greves no sector industrial, em várias regiões do país,
nomeadamente Setúbal, Covilhã e Porto. Como principal motivo de luta estaria a
resistência por parte do operariado mais qualificado (como é o caso dos
soldadores e dos rolheiros), em relação à introdução de nova maquinaria. Através
do recurso ao trabalho morto, o patronato tentava enfraquecer os grupos com
maior força reivindicativa.
Começa a funcionar o chamado «gabinete negro», instituído pela lei de
imprensa. Era uma espécie de conselho fiscal da imprensa, composto por
delegados do ministério público, que examinavam o seu conteúdo a aplicavam a
lei repressiva.
Criação da Federação Geral do Trabalho, de orientação sindicalisto-
revolucionária.
[6 de Junho] Publicação do decreto de João Franco que dissolve a Câmara
Municipal de Lisboa. Pretendia João Franco uma melhor articulação entre a
administração

(Legenda: Assassinato de D. Carlos (reconstituição).)

local e o poder central, relativamente às verbas concedidas à primeira Câmara do


país. Semelhante medida será tomada relativamente a outras instituições (Juntas
Gerais, Comissões Distritais, Câmaras Municipais e Juntas de Paróquia),
substituindo-as por Comissões Administrativas.
[20 de Junho] Publicação de nova lei de imprensa que agravava a de 11 de
Abril, proibindo os escritos, desenhos ou impressos, atentatórios da ordem
pública. Reforçava ainda os poderes dos governadores civis para poderem decidir
sobre novas publicações.
Os jornais O Mundo e O País são suspensos temporariamente.
[1 de Agosto] Morre Ernesto Hintze Ribeiro, chefe do Partido Regenerador,
que fora durante cerca de vinte anos um dos principais actores do figurino rotativo.
[7 de Agosto] Decreto de João Franco que, em consequência de
reivindicações antigas e das mais recentes greves do sector industrial, promulga o
descanso semanal obrigatório. Contudo, o facto de deixar a sua regulamentação
ao cuidado das Câmaras Municipais, e permitir aos patrões designar o dia de
descanso dos subordinados, significava permitir toda a espécie de abusos em

[256]

prejuízo dos trabalhadores. Em 1908, com a queda do franquismo, a lei caducou,


tendo-se voltado à situação anterior.
[30 de Agosto] Decreto de João Franco simplificava o processo de
expulsão dos inquilinos.
Surgimento das teses que defendiam um sindicalismo revolucionário à
maneira francesa. Eram defendidas, entre outros, por Emílio Costa.
Realiza-se, no Porto, o II Congresso das Associações Populares Católicas.
Publica-se a revista literária Nova Silva, da qual faziam parte Jaime
Cortesão, Álvaro Pinto, Leonardo Coimbra e Cláudio Basto.
Manuel de Arriaga, Harmonias Sociais, O Problema Humano e a Futura
Organização Social.
Sampaio Bruno, A Questão Religiosa.
Brito Aranha, Factos e Homens do Meu Tempo.
Velhinho Correia, O Ensino e a Educação em Portugal.
José Malhoa, o quadro Os Bêbedos (ou Festejando o S. Martinho).

1908
[28 de Janeiro] Tentativa de golpe revolucionário para derrubar a
Monarquia. A acção repressiva da ditadura provocara uma mudança na definição
da estratégia do Partido Republicano. Gradualmente, a linha que defendia a
acção revolucionária imediata foi ganhando terreno face à linha mais moderada.
Esta redefinição de estratégia leva à aliança com outras forças das quais se
destacam a Carbonária, entre os civis, e a Corporação dos Sargentos, entre os
militares. Uma denúncia levou à prisão dos principais chefes: Luz de Almeida,
Afonso Costa, Egas Moniz, João Chagas, e António José de Almeida, que
mantivera os contactos entre o Directório do Partido Republicano Português e a
organização revolucionária. Privado pelos seus principais chefes, o movimento
veio para a rua mas foi sufocado pelas forças fiéis ao governo.
[31 de Janeiro] Decreto que previa a deportação para qualquer província
ultramarina, dos indivíduos que atentassem contra a segurança do Estado.
[1 de Fevereiro] Assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro D. Luís
Filipe. O ano de 1908 iniciara-se com a prisão indiscriminada de vários chefes
republicanos (António José de Almeida, Afonso Costa, etc.). À agitação que se ia
tornando irreprimível, a ditadura continuava a responder com a repressão. Ao
regressar a Lisboa no primeiro dia de Fevereiro, vindo de Vila Viçosa, no Terreiro
do Paço a família real é alvejada dentro da carruagem onde seguia (Nota 15 -
Sobre a descrição do atentado na versão do jornal O Século, cfr. António Reis,
1989, (dir) Vol. 2, p 91.). D. Carlos nascera a 28/9/1863, e era filho de D. Luís e D.
Maria Pia de Sabóia, tendo-se casado em 1886 com D. Maria Amélia de Orleães.
Pintor e cientista, D. Carlos participou em várias investigações oceanográficas.
Como pintor conquistou vários prémios em competições internacionais, sendo
considerado um dos mais fortes intérpretes do mar português.
D. Manuel II sobe ao trono com apenas 18 anos.
Queda do ministério de João Franco, que não resistiu aos ataques da
oposição, por um lado, e às vozes que começavam a

(Legenda: D. Manuel II, D. Amélia e D. Afonso.)

[257]

responsabilizá-lo pelo regicídio, devido à publicação do Decreto de 31 de Janeiro,


por outro. No dia 5 de Fevereiro seguiu para o exílio.
Constituição do ministério de Ferreira do Amaral. O primeiro gabinete da
chamada acalmação. O novo ministério libertou os presos políticos, autorizou o
regresso dos exilados, reconduziu as câmaras municipais, enfim, anulou as
medidas mais contestadas do anterior governo.
[5 de Abril] Realização de novas eleições. O regicídio, e consecutiva subida
ao trono de D. Manuel II, trouxeram consigo a demissão do ministério de João
Franco. O governo do almirante Ferreira do Amaral era constituído por membros
dos partidos tradicionais (regeneradores e progressistas), e alguns
independentes. Caracterizou-se, como já referimos, por uma relativa brandura e
transigência, o que permitiu o crescimento rápido do movimento republicano que
saiu institucionalmente reforçado após as eleições (elegeu 7 deputados). No
entanto, as esperanças de que a breve trecho o partido viesse a ascender ao
poder por via eleitoral, eram praticamente nulas.
[Abril] Realização do I Congresso Nacional do Livre Pensamento, em
Lisboa. Grupo não católico (à semelhança de outros como a Maçonaria, a Junta
Liberal, a Associação Propagadora do Registo Civil, fundada em 1895, etc.), que
se intitulava sem religião, tinha como objectivo fundamental o combate ao
clericalismo, tendência que, como já referimos, se encontrava em franca
ascensão.
I Congresso Pedagógico de Instrução Primária e Popular. Os debates em
torno da instrução foram uma constante neste período. Este congresso voltou a
realizar-se, sempre em Abril, em 1909, 1912 e 1914.
Fundação da Academia de Ciências de Portugal, de cariz republicano.
[Maio] Projecto de lei de Estêvão Vasconcelos, sobre acidentes de
trabalho.
[1 de Novembro] Realização de eleições municipais, onde os republicanos
ganharam a Câmara de Lisboa e outras na zona do vale do Tejo, do Alentejo e do
Algarve.
[Dezembro] Queda do governo de Ferreira do Amaral. O novo governo
assentava numa coligação e era chefiado pelo regenerador dissidente Campos
Henriques.
Concluída a linha férrea de Évora a Arraiolos e a Moura.
Fundação do diário sindicalista A Greve e do semanário anarquista O
Protesto.
Lino Neto, A Questão Agrária. Para resolver o problema agrário português,
o autor defende a expropriação e distribuição da terra, através da colectivização
parcial do solo.
O grupo da Nova Silva organiza os «Amigos do A. B. C.
Norberto de Araújo, Negócio da China.
Júlio de Castilho, Fastos Portugueses.
J. de Oliveira Simões, A Evolução da Indústria Portuguesa.
A. Teixeira Júdice, Notas sobre Portugal.

1909
[Março] Motins vinícolas em todo o vale do Douro, que se inserem no
contexto da crise do sector, que se vinha acentuando desde inícios do século.
[11 de Abril] Sucede a Campos Henriques, o progressista Sebastião Teles.
[23 de Abril] Terramoto que atingiu a região de Benavente, Salvaterra de
Magos e Samora Correia, tendo provocado alguns mortos e significativas
destruições, numa região já bastante assolada pelas cheias do Tejo.
[24 e 25 de Abril] Congresso do Partido Republicano Português realizado
em Setúbal onde, pela primeira vez, esteve representada uma organização
feminina, a recém-criada Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. O
crescimento da facção que defendia a acção revolucionária era tal, que do
congresso saiu um novo Directório a quem foi confiado o mandato imperativo de
fazer a revolução. Eram seus membros efectivos Teófilo Braga, Basílio Teles,
José Relvas, Eusébio Leão e Cupertino Ribeiro. Dos 18 meses que mediaram
entre o Congresso de Setúbal e a Revolução de 5 de

[258]

Outubro, multiplicaram-se os trabalhos de organização do movimento para


evitar que repetissem os malogros de 1891 e 1908. Ao Directório foi cometida a
tarefa de nomear um comité revolucionário, do qual faziam parte João Chagas,
Afonso Costa, António José de Almeida e Cândido dos Reis.
[14 de Maio] Novo governo chefiado pelo regenerador dissidente Venceslau
de Lima.
[Julho] Realização de um Congresso Nacional Operário. O congresso
reuniu-se em duas secções: em Lisboa, a partir do dia 4, com os representantes
de 28 sindicatos, 4 centros socialistas e algumas cooperativas; no Porto, a partir
do dia 25, com 57 associações de classe representadas. Em Lisboa, as
divergências entre socialistas e partidários da autonomia sindical levou ao
abandono dos sindicalistas revolucionários, que convocaram um congresso
dissidente a iniciar-se a 5 de Setembro. Nele se discutiu protecção do trabalho
das crianças e das mulheres, a batalha pelas 8 horas de trabalho e as relações
entre o movimento cooperativo e a organização sindical. De notar que anarco-
comunistas e sindicalistas revolucionários não as viam com bons olhos.
[Julho] O republicano Consiglieri Pedroso é eleito presidente da Sociedade
de Geografia de Lisboa, uma importante instituição científica. O movimento
republicano, para além de politicamente forte, tendia a dominar as mais
importantes instituições de cultura.
[28 de Outubro] Decreto que regulamentava as condições de segurança do
trabalho na indústria da construção civil. Imediatamente os empreiteiros do Porto
se prepararam para provocar um lock-out, tendo a medida legislativa sido
suspensa.
[26 de Novembro] Segundo as sugestões do Congresso Operário de Julho,
e por intervenção do próprio rei, foi ordenada uma Inquirição operária. As várias
Assoçiações de Classe deveriam, assim, responder a um inquérito minucioso
sobre a situação do operariado.
[29 de Novembro] São eleitas 122 juntas juntas de paróquia republicanas.

(Legenda: Machado Santos.)

[22 de Dezembro] Toma posse o novo governo progressista chefiado por


Veiga Beirão.
A comissão executiva da Junta Liberal organiza uma manifestação popular
que congrega mais de cem mil pessoas. Organização paramaçónica de
propaganda liberal, a Junta foi fundada em 1900 com o objectivo de combater o
clericalismo. Tendo à sua frente homens como Miguel Bombarda, António Aurélio
da Costa Ferreira, Egas Moniz, Cândido dos Reis, etc., desenvolveu intensa
actividade na propagação dos ideais republicanos, liberais e progressistas.
Maria Amália Vaz de Carvalho, A Marquesa de Alorna; No Meu Cantinho.
Costa Lobo, Origens do Sebastianismo – História e Prefiguração
Dramática.
Marnoco e Sousa, Economia Nacional.
Augusto de Castro, a peça Chá das Cinco.
J. S. Coelho, Quem É Ferrer.
Constâncio Roque da Costa, Problemas de Economia Nacional.

[259]

1910
[1 de Janeiro] As agremiações filiadas no Partido Republicano Português
elevam-se a 167.
[Fevereiro] Edita-se, em Coimbra, a publicação anarquista O Clarão.
[29 e 30 de Abril] Realização, no Porto, do Congresso do Partido
Republicano. O congresso foi dominado pelo receio de que Inglaterra não
aceitasse a implantação da República em Portugal. Foi aí eleita uma comissão
para sondar as potências europeias sobre a questão.
[14 de Junho] A Maçonaria decide, em assembleia geral, nomear uma
«comissão de resistência» encarregada de colaborar de forma mais activa com a
Carbonária. Dessa comissão faziam parte, José de Castro, Miguel Bombarda,
Machado Santos, Francisco Grandela entre outros. António José de Almeida e
Cândido dos Reis são os representantes do Directório republicano, nesta
comissão.
[26 de Junho] Formação do ministério regenerador, presidido por Teixeira
de Sousa, que vem a conseguir a dissolução do Parlamento a 26 de Junho.
[28 de Agosto] Eleições para o Parlamento onde o Partido Republicano
consegue eleger 14 deputados.
[5 de Setembro] Realiza-se um Congresso Cooperativista e Sindicalista.
Surto de greves por todo o país, incidindo principalmente nas regiões de
forte implantação operária da margem Sul do Tejo, e trabalhadores da cortiça do
Alentejo e Algarve. As reivindicações prendiam-se com a defesa do trabalho,
através da proibição de exportação de cortiça em bruto.
[3 de Outubro] Assassinato do Dr. Miguel Bombarda. Acontecimento que
quase comprometeu todo o plano de acção revolucionária, uma vez que gerou
incontroladas manifestações de indignação popular.
[4 de Outubro] Os cruzadores S. Rafael e Adamastor bombardeiam o
Palácio das Necessidades e o Rossio. A escolha dos primeiros dias de Outubro,
nomeadamente o dia 4, para realizar a revolução dependeu da presença no Tejo
de algumas unidades navais, consideradas indispensáveis para o êxito das
operações. O sinal para o início das operações, deveria partir exactamente
dessas unidades navais, ao qual responderia Artilharia I. Mercê de alguma
desarticulação entre os vários intervenientes no processo, o sinal não chegou a
ser activado, pelo que, face a informações desmoralizadoras e perante o malogro
iminente da acção, Cândido dos Reis suicida-se na madrugada do dia 4 de
Outubro.

(Legenda: Barricadas na Avenida durante a Revolução do 4 de Outubro de 1910.)

[260]

(Legenda: Teófilo Braga.)

Perante incertezas e hesitações as forças revoltosas concentraram-se na


Rotunda, local onde, durante a manhã, foram chegando inúmeros efectivos civis
armados pertencentes à Carbonária e comandados por Machado Santos, bem
como militares rebeldes que iam engrossando e moralizando o acampamento. O
bombardeamento dos navios estacionados no Tejo ao Palácio das Necessidades
e ao Rossio, e o receio de um desembarque em massa, acentuou o desequilíbrio
de forças a favor dos revoltosos. Durante o resto da noite de 4 para 5 de Outubro,
as forças monárquicas vão esmorecendo.
Em face do desenrolar dos acontecimentos, o rei foge para Mafra,
embarcando depois na Ericeira em direcção a Gibraltar e a Inglaterra.
[5 de Outubro] Cerca das 10 horas da manhã, a República é proclamada
nos Paços do Concelho de Lisboa.
É constituído um governo provisório presidido por Teófilo Braga, professor
da Universidade de Lisboa. A morte de Miguel Bombarda (assassinado na
madrugada de 3 para 4 de Outubro), e de Cândido dos Reis (que se suicidou na
noite do dia 5, após a chegada de notícias desmoralizadoras face à forma como
decorriam os acontecimentos), e o afastamento de Basílio Telles,
desguarneceram as possibilidades de constituição do elenco governativo. A
escolha de Teófilo Braga, praticamente protagonizada por Afonso Costa, viria a
ser polémica entre os membros do Directório. Reservas e oposições viriam ainda
a ser manifestadas pelos membros da Carbonária, a quem nenhuma pasta fora
atribuída.
Seja como for, em menos de um ano, o governo provisório conseguiu
cumprir alguns dos pontos principais do programa republicano, bem como
consolidar o novo regime, assegurar a ordem pública interna e alcançar o
reconhecimento por parte das potências estrangeiras.
[6 de Outubro] Proclamação da República no Porto e noutras localidades
da província, facto que vai acontecendo, paulatinamente, nos dias que se
seguem. O anúncio da implantação da República foi chegando à província por
meio de telégrafo, não se registando resistência significativa. Entretanto, em
Lisboa, fazem-se tentativas para acalmar os ânimos populares e parar com as
manifestações que possam pôr em perigo vidas e propriedades.

(Legenda: José Relvas proclama a República.)

[261]
[8 de Outubro] Publicação dos decretos que instituem a expulsão dos
jesuítas e o encerramento dos conventos. São expulsas de Portugal as ordens
religiosas. Sendo a laicização do Estado e da sociedade um dos temas
fundamentais da propaganda republicana, aliás, monarquia e clericalismo
confundiam-se, não admira que uma das primeiras medidas a ser tomadas tivesse
como pano de fundo a questão religiosa. A 18 de Outubro foi abolido o ensino da
doutrina cristã e o juramento religioso nos tribunais e noutros actos oficiais. A 20
de Outubro, o núncio apostólico abandona Lisboa, a 3 de Novembro estabelece-
se o divórcio e, a 25 de Dezembro, é introduzido o princípio do casamento como
contrato de validade exclusivamente civil.
Tentando erradicar com rapidez os vestígios do regime deposto o governo
provisório tomou algumas medidas, a saber: abolição do Conselho de Estado e da
Câmara dos Pares, demissão de funcionários da Casa Real, abolição de títulos,
distinções e direitos de nobreza, adopção de uma nova bandeira e hino nacionais,
entre outras medidas de carácter liberal, entretanto contrariadas pelo franquismo.
Afonso Costa manda a polícia prender os padres que fossem encontrados
na rua, a fim de evitar abusos. De tal forma que, no dia 10, encontram-se na
Cadeia do Limoeiro 46 padres, no Forte de Caxias 82 e no Arsenal da Marinha
233 freiras.
[10 de Outubro] Assalto popular e destruição dos jornais de Lisboa, Liberal
(ex-progressista) e Portugal (ultramontano).
[12 de Outubro] É criada a Guarda Republicana.
Decreto que manda considerar feriados os dias 1 e 31 de Janeiro, 5 de
Outubro e 1 e 25 de Dezembro.
[13 de Outubro] Portaria que nomeia uma comissão para proceder ao
arrolamento de todos os bens pertencentes aos palácios reais.
[14 de Outubro] Chega a Inglaterra, após passagem por Gibraltar, a Família
Real. Dias antes, o governo português havia sido informado de que D. Manuel II
seria recebido como simples particular.
[17 de Outubro] Criação de uma comissão para estudar a reorganização do
exército. É de referir que as dificuldades de relacionamento entre o novo regime e
o exército, que não aderiu, aliás, activamente aos acontecimentos de 4 e 5 de
Outubro irão ser agravadas pelo tipo de reestruturação que se procura
implementar na organização: um exército miliciano, em detrimento de um corpo
profissional.
Decreto do ministro José Relvas que impõe limites à circulação fiduciária.
Os crónicos défices do orçamento, tão criticados pelos republicanos durante a
vigência dos governos monárquicos, continuam após a implantação da República.
O endividamento continua, também, a ser o método mais usado para financiar os
défices orçamentais, recorrendo-se sobretudo ao aumento da circulação
fiduciária.
[24 de Outubro] Decreto que determina que o Teatro D. Maria II se
denomine Teatro Nacional.
[26 de Outubro] Decreto que aprova os estatutos da Academia de Ciências
de Portugal. Fundada em 1907 por acção de Teófilo Braga, a Academia tentava
colmatar alguma quebra de produção científica da Academia de Ciências de
Lisboa, bem como um certo elitismo (de outra ordem que não eminentemente
científico), em que esta havia caído. Tendo como grande objectivo o progresso e a
integração filosófica dos principais ramos do saber humano, a Academia viria a ter
o seu Regulamento Geral em 27 de Janeiro de 1911. Não tendo correspondido
inteiramente ao que dela se esperava, não sobreviveu muito tempo à morte de
Teófilo Braga (1924).
[Outubro] Realiza-se o Congresso do Livre-Pensamento.
[3 de Novembro] Promulgação da Lei do Divórcio. Lei que marca uma
viragem significativa na conceptualização utilizada no Direito Civil português, na
medida em que, ao definir o casamento como um contrato, susceptível de
dissolução, estava também a consagrar, pelo menos teoricamente, a igualdade
entre os cônjuges.

[262]

Embora previsto na lei, o divórcio nunca se generalizou, não tendo mesmo


expressão fora das grandes cidades. Pressionados pela tradição, pela existência
de filhos, pela delimitação de papéis dentro do casal e pela representação social e
simbólica do casamento, os cônjuges resolviam aguentar todas as situações
menos agradáveis.
[10 de Novembro] A Inglaterra reconhece de facto a República Portuguesa.
[11 de Novembro] Afonso Costa propõe a transladação dos restos mortais
do marquês de Pombal para o Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa.
[12 de Novembro] Primeira lei do inquilinato do novo regime. A principal
novidade desta disposição era o pagamento das rendas de casa ao mês, em vez
de ao semestre ou ao trimestre. Muito do agrado dos inquilinos de menores
posses, a lei foi contestada pelos proprietários. No entanto, os senhorios ficariam
com bastantes regalias, sobretudo a que lhes permitia aumentar a renda findo
cada período de arrendamento.
[15 de Novembro] Greve dos trabalhadores da Carris que marca o início de
uma vaga grevista, a primeira após o advento da República. A substituição do
regime monárquico pelo republicano, parece não ter impedido a continuação do
movimento operário, enquanto tal, no plano dos objectivos. O movimento grevista
ganha, de facto, amplitude em finais de 1910, atingindo o seu ponto culminante
(em sintonia, aliás, com o que se passava internacionalmente), durante o ano de
1911. De tal forma que, no conjunto dos dois anos considerados, ter-se-ão
registado 237 greves. Cabeça das razões da luta estarão, grosso modo, os
salários e os horários de trabalho. Neste mesmo mês, registaram-se greves em
outros sectores, a saber: Companhia de Gás e Electricidade; Companhia das
Águas, etc.
[1 de Dezembro] Inauguração da Bandeira Nacional Republicana, segundo
o modelo de Columbano Bordalo Pinheiro.
[6 de Dezembro] Decreto de Brito Camacho que, embora reconhecendo o
direito à greve e ao lock-out, regulamentava severamente esse mesmo direito. Em
consequência da vaga grevista do mês de Novembro, instituía-se a proibição dos
piquetes e a exigência de pré-aviso com uma semana de antecedência. Os meios
operários reagiram e a directiva ficou conhecida como decreto burla.
[25 de Dezembro] Promulgação das «Leis da Família». Na sequência da
Lei do Divórcio, também esta introduz princípios originais no Direito Civil
português. Embora ao homem e à mulher coubessem tarefas e responsabilidades
perfeitamente definidas, segundo critérios baseados no sexo (ao homem cabem
tarefas de protecção, à mulher tarefas de gestão da moral familiar), a lei introduz
um princípio original, que é o da protecção dos filhos ilegítimos e perfilhados, e
suas mães.
[29 de Dezembro] É aberto ao público o Museu da Revolução, instalado no
Convento do Quelhas, em Lisboa. Os museus, cuja função cultural, a par das
bibliotecas, é inegável, existiam de forma escassa pelo país. Em Lisboa, onde
estavam concentrados a maior parte deles, muitos não se encontravam abertos, e
outros só abriam um dia por semana. Com o andar dos anos foram abrindo outros
museus na capital: o Nacional da Marinha (1910), o Nacional de Arte
Contemporânea (1911), o de S. Nicolau (1914), o Agrícola Colonial e o de Bordalo
Pinheiro (1916), o de João de Deus (1917), o Comercial e o de Nun‘Alvares
(1918). A partir de 1910 abriram ao público cerca de treze museus regionais.
São extintas as Faculdades de Teologia e de Direito Canónico.
Publicada a Lei da Liberdade de Imprensa.
É parcialmente restabelecido o Código Administrativo de 6 de Maio de
1878.
Inicia a sua publicação o semanário O Sindicalista.
Machado dos Santos dirige o diário republicano radical O Intransigente.
Publica-se, no Porto, a revista literária A Águia.
Henrique de Carvalho, Cartas Vermelhas – Ao Rei e ao Povo.

[263]

Maria Amália Vaz de Carvalho, Duquesa de Palmela – In Memoriam.


Augusto Casimiro, A Vitória do Homem.
Augusto de Castro, a peça Vertigem.
Trindade Coelho, Autobiografia e Cartas.
Azedo Gneco, Reclamações Operárias.

1911
[4 de Janeiro] Estreia no Teatro da Rua dos Condes, a peça Cinco de
Outubro, original de Mário Monteiro.
[6 de Janeiro] Assalto às redacções dos jornais monárquicos de Lisboa,
Correio da Manhã e Diário Ilustrado.
Primeira récita no Teatro Nacional da peça Pena Última, de Henrique de
Mendonça.
[7 de Janeiro] Primeira greve geral ferroviária. É o culminar de uma vaga de
greves no caminho-de-ferro, que se iniciara em 16 de Novembro do ano anterior.
Registam-se, ainda, outros movimentos grevistas na região de Setúbal e Lisboa.
No primeiro caso, aquando das greves das operárias da indústria de conservas
morrem mesmo dois operários às mãos da GNR. Neste mesmo período, ocorrem,
também, greves e insurreições no mundo rural, nomeadamente no Alentejo e no
Ribatejo, cujo principal móbil se prende com questões salariais.
[10 de Janeiro] É decretado o descanso semanal obrigatório, ao domingo,
para todo o assalariado.
[15 de Janeiro] Inicia a sua publicação o jornal República, dirigido por
António José de Almeida.
A Carbonária e batalhões de voluntários, manifestam-se, em Lisboa, a
favor do governo e contra as greves e reivindicações operárias.
[17 de Janeiro] O Daily Mail, de Londres, publica uma entrevista com D.
Manuel de Bragança, sobre a sua disponibilidade de voltar a Portugal.
[19 de Janeiro] Primeira apresentação, no Teatro Nacional em Lisboa, da
peça Bi, original de Victoriano Braga e Vasconcelos e Sá.
[21 de Janeiro] Decreto que extingue o culto religioso na capela da
Universidade de Coimbra e cria um museu de arte no mesmo edifício.
[25 de Janeiro] Primeira récita da peça Pátria Livre, original de Ernesto do
Carmo, no Teatro da Rua dos Condes, em Lisboa.
[28 de Janeiro] Decreto que esclarece que os dias feriados decretados pelo
governo da República correspondem, para todos os efeitos, aos dias santificados
mandados guardar pela legislação anterior.
[1 de Fevereiro] Populares invadem o Centro Académico de Democracia
Cristã, destruindo o mobiliário.
[4 de Fevereiro] Estreia, no Teatro da Avenida em Lisboa, a revista Nem
mais nem menos, de Guedes de Oliveira.
[13 de Fevereiro] Nomeação de uma comissão, para estudar as causas da
decadência do teatro português e respectivas reformas. O teatro, como o cinema,
era dos divertimentos mais procurados fora de casa. Portugal dispunha de uma
rede de teatros que cobria praticamente todo o país, com especial realce para
Lisboa e o Porto, com algumas dezenas de salas de espectáculo. Todos os
restantes distritos, sobretudo os do Sul, onde a concentração urbana impunha um
maior número de salas, dispunham de teatros, muitos deles localizados nas sedes
de concelho, realidade que, infelizmente, hoje quase desconhecemos. Os
espectáculos eram variados, indo a preferência para a farsa e a comédia, não
faltando o drama, a mágica, a opereta e o vaudeville, a revista e o music-hall, a
declamação poética, o circo, etc. A ópera via-se sobretudo em Lisboa e no Porto.
[15 de Fevereiro] Portaria que cria uma comissão para o estudo do
problema da ortografia. Pretendia-se introduzir alterações na ortografia por forma
a aproximá-la mais da fonética. Integravam esta comissão Aniceto dos Reis
Gonçalves Viana, Carolina Michaèlis de Vasconcelos, Cândido de Figueiredo,
Adolfo Coelho e Leite de Vasconcelos.

[264]

[18 de Fevereiro] Instituição do registo obrigatório. Manda encerrar os livros


de registo paroquiais, tornando obrigatória a inscrição no registo civil dos factos
essenciais relativos ao indivíduo e à família, e à ‖composição da sociedade,
nomeadamente dos nascimentos, casamentos e óbitos.
[23 de Fevereiro] Bispos tomam posição numa pastoral colectiva, contra a
supressão do juramento religioso, a expulsão das congregações, a lei do divórcio,
e restantes medidas anticlericais postas em prática pela República. Afonso Costa,
ministro da Justiça, proíbe a sua leitura nas igrejas. A resistência a estas medidas
proliferou por todo o país, durante os anos de 1911 e 1912, replicando o governo
com prisões e o desterro para fora das dioceses a todos aqueles que se lhe
opusessem.
Confrontos, no Porto, entre manifestantes e membros do Círculo Católico e
da Associação Católica.
[1 de Março] Brito Camacho cria as bases da regulamentação do crédito
agrícola. Definia o que se considerava por crédito agrícola e fixava o seu
objectivo. São regulamentadas as Caixas de Crédito Agrícola Mútuo com uma
organização de tipo cooperativo e um âmbito de freguesia. Contam com fundos
próprios advindos dos depósitos, e com um fundo do Estado para crédito agrícola.
O sistema levou alguns anos a expandir-se.
[14 de Março] Decreto que, em conjunto com outro de 5 de Abril,
revogando a lei eleitoral de 1901 (a chamada ignóbil porcaria), em que se tentava
afogar os votos urbanos com os votos rurais, estabelecia um regime eleitoral
misto. Alargava-se, ainda, substancialmente o sufrágio, concedendo-o a todos os
portugueses maiores de 21 anos (não especificando o sexo), que soubessem ler e
escrever ou que, não o sabendo, fossem chefes de família há mais de um ano.
Refira-se, no entanto, que este decreto não instituía, como fora sempre defendido
pelo Partido Republicano, o sufrágio universal.
[18 de Março] Decreto que cria um Arquivo Nacional, o da Torre do Tombo,
bem como uma Inspecção das Bibliotecas Eruditas e Arquivos, a quem passou a
competir o estudo da situação dos arquivos existentes fora de Lisboa e a criação
de arquivos distritais. A partir de 1915 surgiram novos arquivos, a saber: Arquivo
dos Feitos Findos (1915), o Arquivo dos Registos Paroquiais e Registo Civil
(1916), o Arquivo das Congregações (1917), os Arquivos Distritais de Leiria, Évora
e Bragança (1916), o de Braga (1917) e o Arquivo Histórico Militar (1921). A
integração dos livros de registo de baptizados, casamentos e óbitos, abundantes
após a separação da Igreja do Estado, no Arquivo Nacional e nos distritais, foi
decidida por Decreto de 9 de Junho de 1915.
[22 de Março] Decreto que cria as Universidades de Lisboa e Porto,
reunindo, cada uma delas, as escolas de ensino superior já existentes. É criada,
também, uma Faculdade de Letras em Coimbra, em substituição da Faculdade de
Teologia, já extinta.
Em 1910, a Universidade de Coimbra, a única existente, era frequentada
por 1262 alunos, dos quais 5 eram do sexo feminino. As faculdades eram as de:
Teologia, Direito, Matemática, Medicina e Filosofia. Progressivamente, foram
sendo criados, em Lisboa e Porto, cursos superiores de carácter técnico no
âmbito da engenharia, economia ou agronomia, continuando Coimbra com as
faculdades tradicionais. Em 1926, o número de alunos no conjunto das três
universidades, passou para 4117. A capital contava já com 51,7% dos estudantes,
enquanto Coimbra se ficava pelos 28,2% (44% no início do século).
[25 de Março] Concerto, no S. Carlos em Lisboa, pelo Orfeão Académico
de Coimbra.
[29 de Março] Decreto que, revogando o de 1901, reorganiza os serviços
de instrução primária. Cria oficialmente o ensino infantil para os dois sexos,
escolas infantis em cada um dos bairros de Lisboa e Porto, em todas as capitais
de distrito e nas sedes dos principais concelhos, atribuindo-lhes professoras
diplomadas pelas escolas normais. Apesar da legislação que foi sendo publicada,
o ensino oficial infantil tardou a aparecer, por falta de verbas.

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Quanto ao ensino primário, este decreto declarava-o laico e


descentralizado. Em termos organizativos, o ensino primário era distribuído por
três graus: o elementar, obrigatório com duração de três anos; o complementar,
com duração de dois anos; o superior, com duração de três anos. Destes, só
funcionou regularmente o ensino elementar. Este decreto continha, ainda, um
conjunto de medidas tendentes à protecção e dignificação do professor primário,
como é o caso da concessão de dispensa de serviço (dois meses ao todo), sem
perda de vencimento, às professoras durante o último período de gravidez e em
seguida ao parto, inspecção sanitária escolar, aumento de vencimento, etc.
[10 de Abril] Récita no S. Carlos, em Lisboa, com a apresentação de O
Primeiro Beijo, de Júlio Dantas.
[19 de Abril] Decreto que concedia às três universidades autonomia
económica e científica, definia-as como laicas, e uniformizava a respectiva
organização interna.
[20 de Abril] É publicada a Lei de Separação entre o Estado e a Igreja.
Declara livres todos os cultos, proibindo o ensino do cristianismo nas escolas,
nacionalizando os bens da Igreja e supervisando as manifestações de culto.
Apesar do seu toque de tolerância e imparcialidade frente a quaisquer crenças
religiosas, a Lei de Separação tinha um cunho profundamente revolucionário. Isto,
sobretudo, no que diz respeito à tentativa de entregar o culto aos cidadãos,
corporativamente organizados. A Igreja Católica ficava, assim, numa posição de
subserviência em relação ao povo católico como jamais havia estado. Como
resposta a esta lei, o Vaticano corta relações diplomáticas com Portugal, o mesmo
acontecendo com os prelados portugueses em relação ao regime.
[21 e 22 de Abril] Estreiam, respectivamente, no Teatro da Avenida em
Lisboa, a revista É Provisório, e no Teatro Nacional de Lisboa, a peça Infelicidade
Legal, de Coelho de Carvalho.
[3 de Maio] Decreto que organiza um corpo nacional de tropas,
denominado Guarda Nacional Republicana, e extingue
(Legenda: Columbano, Auto-Retrato (Lisboa, Museu Nacional de Arte
Contemporânea).)

a Guarda Republicana de Lisboa e Porto. Ao ser proclamada a República as


forças militarizadas portuguesas consistiam na Guarda Municipal (criada em 1834
e regida pala legislação de 1890), a Guarda Fiscal (regida por decreto de 1901 a
1908) e a Polícia Civil de Lisboa. A GNR, extensiva a todo o país, tinha como
funções velar pela segurança pública, policiando povoações, estradas, pontes,
vias férreas, linhas telegráficas e telefónicas, etc., arcando com o exclusivismo
militar das forças armadas. Foi durante anos a guarda pretoriana do novo regime.
Depois de 1919, e até 1922, a GNR conheceu uma significativa ampliação e
capacidade de intervenção na vida pública, fazendo e desfazendo ministérios e
impondo a sua vontade, se necessário, pela força das armas.
[14 de Maio] Abertura da exposição de pintura de Columbano Bordalo
Pinheiro, na Academia de Belas-Artes de Lisboa.
[21 de Maio] Decreto que regulamenta as Escolas Normais Superiores.
[22 de Maio] Decreto que institui o escudo

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como moeda oficial, em substituição do real. Medida que se insere nas


preocupações do governo provisório, em marcar a transição do novo regime com
a alteração principais símbolos do Estado, por forma a a criar uma barreira
psicológica que dificulte qualquer restauração. O escudo dividir-se-ia em cem
partes iguais, denominadas centavos, correspondendo assim um centavo a dez
réis do actual sistema monetário. Não se tratava, portanto, de uma reforma
monetária, mas somente de uma alteração do processo de conta.
[25 de Maio] Publica-se a nova Lei de Assistência. A reforma dos serviços
de assistência pública foi um dos propósitos fundamentais da República. A
Constituição de 1911 reconhecia, no seu articulado, «o direito à assistência
pública», no entanto a expulsão das ordens religiosas trouxe problemas à
concretização deste princípio, já que na sua dependência estavam grande parte
dos asilos, hospitais, etc. Era, então criada a Direcção-Geral de Assistência, na
dependência da qual ficavam os organismos oficiais de beneficência. Foi instituído
um Fundo Nacional de Assistência e um organismo específico para o administrar.
Era a tentativa, ainda que incipiente em termos de implantação no território, de
uma rede de assistência pública. Calcula-se que no final da guerra beneficiariam
do serviço de assistência existente na capital, cerca de 5000 pessoas.
[28 de Maio] Realização de eleições legislativas. O Partido Republicano e o
governo mostravam preocupação pela urgência das eleições, sem as quais as
potências europeias não reconheciam o novo regime. Em aspectos fundamentais
a legislação eleitoral mantém-se semelhante à anterior. Pode votar todo cidadão
com 21 anos de idade, que saiba ler e escrever, ou seja chefe de família (há 850
000 eleitores no país, dos quais só votarão 60%). Mantêm-se os círculos
plurinominais, recusando-se, no entanto, os grandes círculos distritais. A
representação das minorias é consagrada através do recurso ao princípio da
representação proporcional (método de Hondt), nos distritos de Lisboa e Porto.
Nos restantes círculos recorreu-se ao princípio da lista incompleta. Os
monárquicos não concorreram, e os socialistas elegeram dois deputados.
Realiza-se, em Lisboa, o IV Congresso Internacional de Turismo. O
turismo, um dos novos prazeres conquistados pelas classes médias no princípio
do século, conheceu um notável incremento com o aparecimento do comboio e do
automóvel, aliados à criação gradual de infra-estruturas e de novos hábitos e
modas.
[10 de Junho] Cortejo cívico em Lisboa, em homenagem a Luís de
Camões.
Récita de