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“A entrevista de tipo qualitativo: considerações

epistemológicas, teóricas e metodológicas”


Jean Poupart (2008)

Disciplina: Métodos qualitativos de pesquisa.


Docente: Dr. Sérgio Luís Boeira
Discente: Lourenço Kawakami Tristão
Introdução
Divisão do texto:

1. Examina os argumentos de ordem epistemológica, ético-política e


metodológica;
2. Expõe princípios associados à “arte” de fazer os outros falarem e de realizar
uma entrevista;
3. Traz a importância da questão do viés nos debates sobre as entrevistas.

*fundo: Operários (TARSILA DO AMARAL, 1933)


Os argumentos de ordem epistemológica, ético-política e metodológica como base do recurso à
entrevista de tipo qualitativo.

(Epistemológico) A análise das realidades Autores importantes:


sociais segundo a perspectiva dos atores
sociais ● William Isaac Thomas: "Se as pessoas
definem certas situações como reais, elas
● Ponto de vista dos atores sociais e de são reais em suas conseqüências."
considerá-lo para compreender e ● George Herbert Mead: Escola de Chicago,
interpretar as suas realidades; criador do Interacionismo Simbólico
● A importância do sentido que eles ● Herbert Blumer: Escola de Chicago,
mesmos conferem às suas ações (as cunhou o termo Interacionismo Simbólico
condutas não falam por si); para descrever o trabalho de Mead e de
outros autores
Os argumentos de ordem epistemológica, ético-política e metodológica como base do recurso à
entrevista de tipo qualitativo.

Controvérsias: b. (pós-estruturalista) as interpretações


tanto dos atores sociais como dos
● Determinantes sociais versus pesquisadores são narrativas que
Perspectivas; apresentam versões da realidade;
● Como realizar o diálogo entre a visão do
pesquisador e as diferentes versões da c. (pós-modernista) a análise deve
realidade dos atores entrevistados. Como produzir “múltiplas vozes”, um diálogo
criterizá-las? entre as vozes do pesquisador e dos
a. (pós-positivista) as interpretações atores sociais, em vez de uma versão
que os atores sociais oferecem não única sobre a realidade.
devem ser confundidas com a
“realidade como ela é”;
Os argumentos de ordem epistemológica, ético-política e metodológica como base do recurso à
entrevista de tipo qualitativo.

(Ético-político) Denunciar os preconceitos, ● Como agir quando o pesquisador tem uma


as práticas discriminatórias e as iniquidades visão antagônica ao dos grupos
estudados?
● Explora em profundidade a vida dos
atores sociais, podendo denunciar de
dentro práticas discriminatórias ou de
exclusão;
● Compensa a falta de poder desses atores
sociais;
● Como risco, pode tornar-se um
instrumento de controle sobre as
populações estudadas.
Os argumentos de ordem epistemológica, ético-política e metodológica como base do recurso à
entrevista de tipo qualitativo.

(Metodológica) Uma ferramenta de ● Melhor forma de expor o ponto de vista


informação sobre as entidades sociais e um dos atores (não-dirigidas):
instrumento privilegiado de exploração do ○ O entrevistado é capaz de explorar por si
vivido dos atores sociais. mesmo as dimensões de sua experiência,
cabendo ao entrevistador dar a
oportunidade para isso;
● Meio eficaz para a coleta de informações
○ Favorece o surgimento de dimensões
(semi-estruturadas ou não-dirigidas): novas não imaginadas;
○ (positivista) permitem reconstruir a ○ Oferece a possibilidade de aprofundar-se
realidade pelo cruzamento de ângulos de no assunto, até próximo da saturação;
vista; ○ Permite compreender de forma mais
○ (construtivista) intérpretes parciais da ampla a trajetória social e os contextos.
realidade, assim com o pesquisador;
● Diretividade versus Não-diretividade,
○ (pós-estruturalista) “novidadeiros” que
criam e moldam a realidade.
“advogado do diabo”
Princípios e estratégias subjacentes à arte de fazer falar o outro

Obter a colaboração do entrevistado Colocar o entrevistado à vontade por


elementos de encenação
● Como vencer resistências: tempo,
interesse, sentimento de cobaia, ● Quanto mais a vontade, mais abordará
privacidade invadida, de não estar à questões significativas;
altura, represálias; ● “Esquecer” tudo que possa obstaculizar a
● Negociação, a colaboração nunca é enunciação dos discursos;
definitivamente adquirida; ● Escolhas como lugar, equipamentos, e até
● Estratégias: vestuário influenciam;
○ Convencer do interesse e utilidade da ● Demonstrar estar atento, interessado e
investigação; empático pela fala do entrevistado;
○ Utilizar a rede social ou inserir-se em uma;
○ Criar vínculos durante a entrevista;
○ Autoridade de terceiros.
Princípios e estratégias subjacentes à arte de fazer falar o outro

Ganhar a confiança do entrevistado Levar o entrevistado a tomar a iniciativa do


relato e a envolver-se
● Tranquilizar em relação ao uso das falas
dos entrevistados; ● Evitar interromper o entrevistado, respeitar
● Garantir anonimato, e reforçar a os momentos de silêncio, de forma que
independência do entrevistador de grupos ele possa encadear as ideias por si
que poderiam gerar conflitos; mesmo, utilizar técnicas de reformulação
● Dobram-se às regras elementares da para esclarecer temas abordados;
sociabilidade, recorrendo-se ao conjunto ● O discurso mais significativo é aquele no
das competências sociais do qual o entrevistado se refere ao seu
entrevistador. próprio vivido, fala de forma mais pessoal
e particular.
Reflexões sobre os vieses e a construção social dos discursos

Os diferentes tipos de vieses (Positivistas)

● Dispositivos de investigação (forma das ● Condições de laboratório, entrevistas


questões, técnicas de registro, tempo e individuais, entrevistas estruturadas,
lugar); pré-investigação e pré-testes,
● Relação social entrevistador-entrevistado generalizações;
(homologia, representação do
entrevistador - quem é, o que quer saber, (Qualitativas)
que grupo representa, outros
● Ambiente natural, não estruturadas,
entrevistados, etc. -);
entrevistas na presença de terceiros são
● Contexto da pesquisa (confiabilidade das
válidas, discurso espontâneo
falas).
Reflexões sobre os vieses e a construção social dos discursos

Mitos da padronização e da não-diretividade A entrevista como discurso socialmente


construído
● Crítica à padronização: omissão de tudo o
que não está representado nas ● Pfohl (1978) considera que é totalmente
categorias; Desconsideração do contexto ilusório querer suprimir o jogo das
da entrevista; interações e relações sociais que intervêm
● Crítica à não-diretividade: definição dos na constituição dos diagnósticos [para
temas e direcionamento das intervenções; tornar a pesquisa neutra], já que ele é
intervenções não verbais. inerente ao próprio processo do
diagnóstico;
● Consideração do contexto durante a
análise;
● Vantagens de pertencer ao grupo na sua
compreensão;
REFERÊNCIAS
POUPART, Jean; et al.. A pesquisa qualitativa: Enfoques epistemológicos e metodológicos.
Petrópolis: Vozes, 2008
“A entrevista de tipo qualitativo: considerações
epistemológicas, teóricas e metodológicas”
Jean Poupart (2008)

Disciplina: Métodos qualitativos de pesquisa.


Docente: Dr. Sérgio Luís Boeira
Discente: Lourenço Kawakami Tristão