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A feudo-clericalização dos séculos XI-XII, Hilário Franco Júnior – algumas considerações

1. Dois sentidos para o termo “feudalismo”: 1) No sentido estrito, ele refere-se aos vínculos
feudo-vassálicos, isto é às relações político-militares entre membros da aristocracia; e 2) No
sentido lato, designa um tipo de sociedade com formas próprias de organização econômica,
política, social e cultural.

2. O autor destaca que alguns autores confundem feudo com senhorio.

3. Para Hilário Franco Júnior, “o que se deve chamar de feudalismo ou termo correlato (modo
de produção feudal, sociedade feudal, sistema feudal etc.) é o conjunto da formação social
dominante no Ocidente da Idade Média Central, com suas facetas política, econômica,
ideológica, institucional, social, cultural, religiosa”.

4. O que o autor procura fazer no texto é uma análise das relações sociais do feudalismo (ou
do que ele chama de feudo-clericalismo).

5. Para Hilário Franco Jr., o termo feudo-clericalismo explicita melhor o papel central da Igreja
naquela sociedade.

6. A Igreja foi a maior detentora de terras naquela sociedade essencialmente agrária,


destacando-se, portanto, no jogo de concessão e recepção de feudos.

7. A Igreja controlava as manifestações mais íntimas da vida dos indivíduos: a consciência


através da confissão; a vida sexual através do casamento; o tempo através do calendário
litúrgico; o conhecimento através do controle sobre as artes, as festas, o pensamento; a
própria vida e a própria morte através dos sacramentos (só se nascia verdadeiramente com o
batismo, só se tinha o descanso eterno no solo sagrado do cemitério).

8. A Igreja foi a legitimadora das relações horizontais sacralizando o contrato feudo-vassálico, e


das relações verticais justificando a dependência servil.

9. Como produtora de ideologia, a Igreja traçava a imagem que a sociedade deveria ter de si
mesma: a sociedade dividida em ordem é uma criação da Igreja medieval (oratores , bellatores
e laboratores)

10. Adalberto de Laon (1025):

“O domínio da fé é uno, mas há um triplo estatuto na Ordem. A lei humana impõe duas
condições: o nobre e o servo não estão submetidos ao mesmo regime. Os guerreiros são
protetores das igrejas. Eles defendem os poderosos e os fracos, protegem todo mundo,
inclusive a si próprios. Os servos, por sua vez, têm outra condição. Esta raça de infelizes não
tem nada sem sofrimento. Fornecer a todos alimentos e vestimenta: eis a função do servo. A
casa de Deus, que parece una, é portanto tripla: uns rezam, outros combatem e outros
trabalham. Todos os três formam um conjunto e não se separam: a obra de uns permite o
trabalho dos outros dois e cada qual por sua vez presta seu apoio aos outros”.

11. Para Hilário Franco Júnior, o clero é colocado fora do âmbito da lei humana, pois estando
mais próximo de Deus, a quem serve, possui inegável superioridade. (questionável)
12. Nobres e servos se definem por nascimento. Daí o fato de o clero, grupo social que não se
auto-reproduz devido ao celibato, requisitar seus membros na nobreza, toda ela “de sangue de
reis”, portanto algo sagrada.

13. A natureza reservou aos servos o trabalho, a tarefa de por meio do seu esforço, do suor do
seu rosto, alimentar os demais. Feios e grosseiros (como os textos repetem à saciedade), os
servos expressavam por essas características físicas sua condição de pecadores. O trabalho era
imposto a eles como forma de resgatar as faltas. Era uma penitência.

14. Logo, havia uma igualdade na desigualdade, uma multiplicidade na unidade, como não
poderia deixar de ser para a sociedade humana, que é um mero reflexo da Cidade de Deus: o
discurso clerical não negava a desigualdade, justificava-a através da reciprocidade de
obrigações

15. A palavra ordo não designa apenas as três ordens, tendo um duplo sentido. Primeiro: corpo
social isolado dos demais, investido de responsabilidades específicas. Segundo: organização
justa e boa do universo, que deve ser mantida pela moral e pelo poder.

16. A sociedade de ordens dividia os homens em grupos de relativa fixidez, pois a classificação
de cada indivíduo partia de uma determinação, de uma ordem, divina. A ordem terrestre
deveria imitar a ordem celeste.

17. Com tal engenharia ideológica, ficava estabelecida a eternidade da posse do principal meio
de produção da época, a terra, por parte dos clérigos e guerreiros, bem como a expropriação
que realizavam do produto do trabalho camponês.

18. Ao clero competia a mediação entre Deus e o Homem.

19. À medida que se ia acentuando o enfraquecimento do poder monárquico, os bispos


assumiam funções tipicamente reais, procurando proteger suas terras, que tinham recebido
imunidade, arriscada porém a nada valer diante da debilitação do poder central. Assim, graças
ao prestígio, riqueza e poder, não transmissíveis hereditariamente devido ao celibato, o clero
passou cada vez mais a atrair elementos da ordem guerreira.

20. A nobreza era inicialmente composta de uma pequena elite, indivíduos pertencentes a
antigas linhagens, geralmente de altos servidores Carolíngios. Diante da necessidade de
defender suas terras das invasões dos séculos IX-X, aqueles indivíduos passaram a armar e
sustentar elementos de origem social humilde.

21. Como a técnica militar que prevalecia cada vez mais era a cavalaria, esses elementos de
origem social mais humilde passaram a ser conhecidos por milites, “cavaleiros”. Portanto,
guerreiros servidores, inferiorizados em relação ao dominus (senhor) possuidor de muitas
terras, de um castelo no qual se centralizava a defesa da região e detentor do poder de ban.

22. Procurando exercer controle sobre essa força emergente, a Igreja aos poucos foi
cristianizando o título de cavaleiro. Para tanto criou a cerimônia de adubamento, de forte
componente litúrgico, e que nos séculos XI e XII acabaria por se tornar um verdadeiro
sacramento (exagero do autor).
23. Graças ao novo prestígio da condição cavaleiresca, mesmo os nobres passaram a se armar
como milites, e foi então ocorrendo uma fusão entre aqueles dois níveis da aristocracia laica.

24. Laboratores: embora existissem camponeses livres e escravos (a depender da conjunção


espaço tempo), a mão-de-obra servil era a que predominava.

25. Os servos eram trabalhadores dependentes. Recebiam do senhor lotes de terra, os


mansos, de cujo cultivo dependia sua sobrevivência e em troca da qual realizavam o
pagamento de determinadas taxas àquele senhor. Trabalhavam ainda em lugares e tarefas
indicados pelo senhor, sem nenhum tipo de remuneração. Em contrapartida, tinham a posse
vitalícia e hereditária de seus mansos e a proteção militar proporcionada pelo senhor.

26. Na sociedade medieval de ordens, havia de um lado, duas camadas identificadas quanto às
origens e aos interesses, detentoras de terra e, assim, de poder econômico, político e judicial
(clérigos e guerreiros), de outro lado, uma massa formada principalmente por despossuídos e
dependentes, os trabalhadores.

27. Em tal modelo social, havia três formas de relações sociais: uma horizontal na camada
dominante, outra horizontal na camada dominada e outra vertical entre os dois grandes
grupos.

28. Primeira forma de relação social (horizontal na camada dominante): ocorria pelo contrato
feudo-vassálico.

29. Segunda forma de relação social (horizontal na camada dominada): dava-se por acordos
para empreendimentos comuns, diante das dificuldades de um trabalhador realizar sozinho
certas tarefas, como arar um campo ou arrotear uma área.

30. Terceira forma de relação social: exploração da aristocracia do trabalho do camponês.


Fundamental, estava na base da primeira (forma de a aristocracia dividir as terras e o produto
do trabalho camponês) e da segunda (forma de os laboratores poderem concretizar seu papel
social, de produtores).

31. Contrato feudo-vassálico: tratava-se de uma expressão, talvez a mais importante e


conhecida, dos laços de parentesco artificial que soldavam as relações naquela sociedade de
forte espírito coletivista: alguém se tornava “moço” (vassalus) de um “ancião” (senior),
estabelecendo um pseudoparentesco entre pai e filho. Da mesma forma que nas relações
paternais-filiais biológicas, também aqui devia haver respeito e fidelidade, um sustentando,
outro servindo, um liderando, outro lutando.

32. Os laços feudo-vassálicos eram estabelecidos por três atos: homenagem, fidelidade e
investidura.

32.1. Homenagem: ato de um indivíduo tornar-se “homem” de outro.

32.2. Fidelidade: juramento feito sobre a Bíblia ou relíquias de santos c muitas vezes selado
por um beijo entre as partes.
32.3. Investidura: ato pelo qual o indivíduo que se tornava senhor feudal entregava ao outro,
agora vassalo, um objeto (punhado de terra, folhas, ramo de árvore etc.) simbolizador do
feudo que lhe concedia.

33. O feudo, de forma coerente com o caráter essencialmente agrário daquela sociedade, era
quase sempre um ou mais senhorios. Ou seja, terra com seus respectivos camponeses, de cujo
trabalho o vassalo passaria a viver.

34. O feudo podia ainda ser a cessão de um direito (por exemplo, taxar os usuários de uma
estrada ou ponte), de um cargo e sua correspondente remuneração (senescal, tesoureiro etc.)
ou simplesmente a entrega de uma determinada quantia, em moedas ou produtos (feudo-
renda ou feudo de bolsa).

35. Em troca do feudo o vassalo devia o consilium (o aconselhamento, a participação no


tribunal senhorial) e sobretudo o auxilium, o serviço militar quando requisitado pelo senhor
dentro de certas condições (número de cavaleiros, tipo de equipamento, número de dias de
convocação etc.).

36. Além do aspecto militar, o auxilium implicava ajuda econômica em determinadas


circunstâncias: pagamento de resgate do senhor caso ele fosse aprisionado, cerimônia de
adubamento do filho primogênito do senhor, casamento da filha primogênita do senhor,
partida do senhor para uma Cruzada.

37. Respeitados os direitos e obrigações recíprocos, os laços feudo-vassálicos eram vitalícios.


Rompidos pela morte de uma das partes, cessavam os compromissos da outra. Mas o contrato
poderia ser continuado, havendo interesse das partes (tendência à hereditariedade dos laços).

38. A partir de meados de século XI, com a expansão demográfica e econômica, começaram a
aparecer as primeiras contradições do sistema trinitário da sociedade de ordens.

38. 1. A disputa pela apropriação do excedente gerado provocava conflitos entre camponeses
e senhores, geralmente redundando em pressão por parte destes (novas taxas) e resistência
passiva por parte daqueles (absenteísmo, sonegação, fuga).

38. 2. Afloravam também tensões entre os segmentos laico e clerical da aristocracia pela posse
das riquezas produzidas pelos laboratores.

39. Em tal contexto social e exteriorizando as necessidades espirituais da época, as Cruzadas


são organizadas. O contexto social mostrava o surgimento de dois novos grupos, que de uma
forma ou de outra vislumbravam nas Cruzadas a solução para suas dificuldades: os nobres sem
terra e os servos desenraizados.

40. Um desses novos grupos era o dos nobres sem terra, isto é, filhos secundogênitos em
número cada vez maior, produto do crescimento demográfico. O direito feudal excluía-os da
herança de bens imobiliários para que a terra não fosse dividida e não se comprometessem as
relações contratuais senhor-vassalo.
40. 1. Muitos daqueles secundogênitos tomavam a batina (numa mobilidade social horizontal),
recebendo assim terras da Igreja. Mas tal processo revelava seus limites frente ao acentuado
incremento populacional.

41. Os servos desenraizados eram produto da continuada fragmentação dos mansos. Não
estando protegida por uma norma como a que garantia a indivisibilidade dos feudos, a terra
dos camponeses era repartida entre seus filhos.

41. 1. Quando estes passaram a ser mais numerosos, a porção que cabia a cada um deles
tornou-se insuficiente para seu sustento, para a formação de sua própria família. Muitos
abandonavam a terra — o que não incomodava os senhores naquele contexto de ampla oferta
de mão-de-obra — em busca de alternativas de vida.

41. 2. Os que tinham melhor sorte conseguiam voltar-se para atividades artesanais e
mercantis, que também estavam em expansão. Os que não alcançavam o mesmo sucesso
passavam a viver de expedientes temporários, caíam facilmente no banditismo e na miséria.

42. As Cruzadas pretendiam combater tal situação ao abrir uma válvula de escape que aliviasse
as tensões sociais. Tentavam promover o reenquadramento da sociedade no modelo clerical.
Buscavam colocar toda a sociedade cristã sob controle do papado. Revelaram-se, porém,
apenas outra idealização. Elas aceleraram a dinâmica social e trouxeram à tona (ou facilitaram)
novos problemas.

42. 1. O fracasso das Cruzadas ofuscou muito da autoridade moral do clero. Seu poder de
intermediação com a Divindade começou a ser colocado em xeque: por que Deus permitira a
derrota cristã? As heresias, expressões da crescente oposição à sociedade feudo-clerical,
ganharam terreno e proliferaram nos séculos XII-XIII.

42. 2. Em segundo lugar, a aristocracia laica também foi, é claro, tocada pelo movimento
cruzadístico, que por quase dois séculos (1096-1270) levou dezenas de milhares de seus
membros para o Oriente Médio ou para a Península Ibérica. Excetuada a glória que isso
proporcionava, a maioria de seus participantes nada ganhou com as Cruzadas.

43. Muitas famílias nobres dilapidaram seu patrimônio para participar das Cruzadas, na
esperança de por meio delas obter senhorios maiores do que os que possuíam. Muitas outras
linhagens simplesmente desapareceram, em virtude da morte de seus representantes
masculinos.

44. A decadência aristocrática teve como contrapartida a emergência de novos grupos sociais.
Saídos todos eles da crise feudo-clerical, foram elementos dissolventes daquela sociedade,
cuja crise então se acelerava.

44.1. Foi esse o caso de um campesinato livre, que, se nunca tinha desaparecido, fora bastante
reduzido pelo processo de feudo-senhorialização, mas que desde o século XII crescia com as
dificuldades da aristocracia, obrigada a aceitar a quebra dos laços de servidão. Aquele grupo
também cresceu pela compra da liberdade, pois todo senhor precisava de mais recursos para
sustentar uma família maior devido ao crescimento demográfico e para partir em Cruzada.
Cresceu igualmente pela fuga, com os servos se aproveitando da ausência do senhor que se
fizera cruzado.

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