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Augusto dos Anjos Nota sobre o texto

EU E OUTRAS POESIAS Esta é a primeira edição extensivamente anotada de Eu e outras


poesias. O texto é integral, incluindo os 58 poemas do único livro
publicado em vida pelo autor, mais os 47 que ele escreveu depois dessa
publicação, reunidos postumamente sob o título geral de “Outras
Apresentação, notas e comentários poesias”. O estabelecimento do texto foi feito a partir das duas
Sérgio Alcides primeiras edições originais: Eu (Rio de Janeiro, ed. do autor, 1912) e Eu
(Poesias completas), organizada e prefaciada por Órris Soares (Paraíba do
Norte, Imprensa Oficial, 1920).
A atualização ortográfica procurou não interferir na sonoridade
do texto. Manteve-se, por exemplo, a variação das palavras que o autor
escrevia ora de um modo, ora de outro (como “coisa”/“cousa”,
“dois”/“dous”, “epigênese”/“epigênesis”). As consoantes mudas
importantes sob o aspecto sonoro foram preservadas, quando ainda
dicionarizados (“céptico”, “epiléptico”), ou quando sugerem um efeito
especial (como a aliteração em “pseudopsalmo”). A mesma
preocupação justificou a conservação de certos arcaísmos (“tactil” e
“tactis”, em vez de “tátil” e “táteis”; “reptil”, em vez de “réptil”).
Nessas ocorrências, a forma atual da palavra é indicada nas notas. O
mesmo é feito nos casos de “licença poética”, quando uma palavra tem
a pronúncia alterada para obedecer ao ritmo ou à rima (“Esquilo” em
vez de “Ésquilo”, “omega” em vez de “ômega”, “periféria” em vez de
“periferia”).
Nos casos de dúvida, a decisão foi tomada através da consulta de
três edições modernas: Eu. Outras poesias. Poemas esquecidos, 30ª edição,
organizada por Antônio Houaiss, com posfácio de Francisco de Assis
Barbosa (Rio de Janeiro, Livraria São José, 1965); Augusto dos Anjos:
Poesia e prosa, edição crítica organizada e prefaciada por Zenir Campos
Reis (São Paulo, Ática, 1977); e a Obra completa, edição crítica
organizada e prefaciada por Alexei Bueno (Rio de Janeiro, Nova
Aguilar, 1994).
Para o trabalho de anotação, foram consultadas as notas incluídas
em duas pequenas antologias: Augusto dos Anjos: Poesia, organizada e
anotada por Antônio Houaiss (Rio de Janeiro, Agir, 1960, Col. Nossos
Clássicos); e Augusto dos Anjos, organizada e anotada por Zenir Campos
2004 Reis (São Paulo, Abril, 1982, Col. Literatura Comentada).

[Para a 'Série Bom Livro', da Ed. Ática]

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EU Monólogo de uma Sombra

“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,


Do cosmopolitismo das moneras...
Polipo de recônditas reentrâncias,
Larva do caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!

A simbiose das coisas me equilibra.


Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Pairando acima dos mundanos tectos,


Não conheço o acidente da Senectus
– Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!
À MEMÓRIA DE MEU PAI
Na existência social, possuo uma arma
À minha Mãe – Córdula C. R. dos Anjos
À minha Mulher – Ester Fialho R. dos Anjos – O metafisicismo de Abhidharma –
À minha filhinha – Glória E trago, sem bramânicas tesouras,
Aos meus irmãos Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.

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Com um pouco de saliva quotidiana Tal a finalidade dos estames!
Mostro meu nojo à Natureza Humana. Mas ele viverá, rotos os liames
A podridão me serve de Evangelho... Dessa estranguladora lei que aperta
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques Todos os agregados perecíveis,
E o animal inferior que urra nos bosques Nas eterizações indefiníveis
É com certeza meu irmão mais velho! Da energia intra-atômica liberta!

Tal qual quem para o próprio túmulo olha, Será calor, causa úbiqua de gozo,
Amarguradamente se me antolha, Raio X, magnetismo misterioso,
À luz do americano plenilúnio, Quimiotaxia, ondulação aérea,
Na alma crepuscular de minha raça Fonte de repulsões e de prazeres,
Como uma vocação para a Desgraça Sonoridade potencial dos seres,
E um tropismo ancestral para o infortúnio. Estrangulada dentro da matéria!

Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias, E o que ele foi: clavículas, abdômen,
Trazendo no deserto das idéias O coração, a boca, em síntese, o Homem,
O desespero endêmico do inferno, – Engrenagem de vísceras vulgares –
Com a cara hirta, tatuada de fuligens Os dedos carregados de peçonha,
Esse mineiro doido das origens, Tudo coube na lógica medonha
Que se chama o Filósofo Moderno! Dos apodrecimentos musculares!

Quis compreender, quebrando estéreis normas, A desarrumação dos intestinos


A vida fenomênica das Formas, Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Que, iguais a fogos passageiros, luzem... Dentro daquela massa que o húmus come,
E apenas encontrou na idéia gasta Numa glutoneria hedionda, brincam,
O horror dessa mecânica nefasta, Como as cadelas que as dentuças trincam
A que todas as cousas se reduzem! No espasmo fisiológico da fome.

E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes, É uma trágica festa emocionante!


Sobre a esteira sarcófaga das pestes A bacteriologia inventariante
A mostrar, já nos últimos momentos, Toma conta do corpo que apodrece...
Como quem se submete a uma charqueada, E até os membros da família engulham,
Ao clarão tropical da luz danada, Vendo as larvas malignas que se embrulham
O espólio dos seus dedos peçonhentos. No cadáver malsão, fazendo um s.
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E foi então para isto que esse doudo Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Estragou o vibrátil plasma todo, Hirto, observa através a tênue trança
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!... Dos filamentos fluídicos de um halo
Num suicídio graduado, consumir-se, A destra descarnada de um duende,
E após tantas vigílias, reduzir-se Que, tateando nas tênebras, se estende
À herança miserável de micróbios! Dentro da noite má, para agarrá-lo!

Estoutro agora é o sátiro peralta Cresce-lhe a intracefálica tortura,


Que o sensualismo sodomista exalta, E de su’alma na caverna escura,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo... Fazendo ultra-epilépticos esforços,
Como que, em suas células vilíssimas, Acorda, com os candieiros apagados,
Há estratificações requintadíssimas Numa coreografia de danados,
De uma animalidade sem castigo. A família alarmada dos remorsos.

Brancas bacantes bêbedas o beijam. É o despertar de um povo subterrâneo!


Suas artérias hírcicas latejam, É a fauna cavernícola do crânio
Sentindo o odor das carnações abstêmias, – Macbeths da patológica vigília,
E à noite, vai gozar, ébrio de vício, Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
No sombrio bazar do meretrício, As incestuosidades sangüinárias
O cuspo afrodisíaco das fêmeas. Que ele tem praticado na família.

No horror de sua anômala nevrose, As alucinações tactis pululam.


Toda a sensualidade da simbiose, Sente que megatérios o estrangulam...
Uivando, à noite, em lúbricos arroubos, A asa negra das moscas o horroriza;
Como no babilônico sansara, E autopsiando a amaríssima existência
Lembra a fome incoercível que escancara Encontra um cancro assíduo na consciência
A mucosa carnívora dos lobos. E três manchas de sangue na camisa!

Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda. Míngua-se o combustível da lanterna


Negra paixão congênita, bastarda, E a consciência do sátiro se inferna,
Do seu zooplasma ofídico resulta... Reconhecendo, bêbedo de sono,
E explode, igual à luz que o ar acomete, Na própria ânsia dionísica do gozo,
Com a veemência mavórtica do ariete Essa necessidade de horroroso,
E os arremessos de uma catapulta. Que é talvez propriedade do carbono!
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Ah! Dentro de toda a alma existe a prova Era a elégia panteísta do Universo,
De que a dor como um dartro se renova, Na podridão do sangue humano imerso,
Quando o prazer barbaramente a ataca... Prostituído talvez, em suas bases...
Assim também, observa a ciência crua, Era a canção da Natureza exausta,
Dentro da elipse ignívoma da lua Chorando e rindo na ironia infausta
A realidade de uma esfera opaca. Da incoerência infernal daquelas frases.

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa, E o turbilhão de tais fonemas acres


Abranda as rochas rígidas, torna água Trovejando grandíloquos massacres,
Todo o fogo telúrico profundo Há-de ferir-me as auditivas portas,
E reduz, sem que, entanto, a desintegre, Até que minha efêmera cabeça
À condição de uma planície alegre Reverta à quietação da treva espessa
A aspereza orográfica do mundo! E à palidez das fotosferas mortas!

Provo desta maneira ao mundo odiento


Pelas grandes razões do sentimento, 2. moneras: microorganismos hipotéticos, unicelulares e sem núcleo, que,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria segundo o biólogo evolucionista alemão Ernst Haeckel (1834-1919),
E os trovões gritadores da dialética, terão sido os ancestrais de todas as formas de vida hoje existentes.
Que a mais alta expressão da dor estética Haeckel criou a palavra “monera” a partir do grego antigo monéres,
significando originalmente “único”, “solitário”. Na biologia atual, o
Consiste essencialmente na alegria. termo designa uma espécie de bactérias unicelulares.
3. polipo, pólipo: parasita que integra o filo dos celenterados inferiores,
Continua o martírio das criaturas: de corpo cilíndrico e oco, desprovido de nervos e de músculos.
– O homicídio nas vielas mais escuras, 4. telúrico: relativo à Terra.
7. simbiose: interação entre seres vivos num mesmo ambiente.
– O ferido que a hostil gleba atra escarva, 8. mônada: organismo simples dotado de autopercepção individual; na
– O último solilóquio dos suicidas – filosofia do racionalista alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-
E eu sinto a dor de todas essas vidas 1716), o termo representa o aspecto imaterial, indivisível e eterno
dos seres existentes no universo, através do qual eles manifestam
Em minha vida anônima de larva!” percepção e vontade própria, agregando-se entre si, como as
consciências dos indivíduos humanos.
Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos, 14. Senectus: em latim, significa “velhice”, e o termo aparece aqui
Da luz da lua aos pálidos venábulos, personificando a senectude, o envelhecimento.
15. universitária: universal.
Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo, 20. metafisicismo: a metafísica, parte da filosofia que trata das realidades
Julgava ouvir monótonas corujas, que transcendem os sentidos e a experiência humana; Abhidharma:
Executando, entre caveiras sujas, escola de filosofia budista que pretendia demonstrar a inexistência
A orquestra arrepiadora do sarcasmo! de um “eu” permanente e que teve seus ensinamentos

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compendiados na obra enciclopédica Abhidharma-kosa (O tesouro de 92. sodomista, sodomita: relativo a Sodoma, antiga cidade palestina
Abhidharma), do século V. célebre pela devassidão dos seus habitantes.
21. bramânicas tesouras: expressão difícil de elucidar; no Brahmanismo, 97. bacantes: sacerdotisas do culto de Baco, o deus do vinho e da luxúria.
religião indiana, as tesouras simbolizam um instrumento com o qual 98. hírcicas: relativas ao bode, animal que era sacrificado no culto de
o iniciado pode cortar seus laços com o mundo terreno, Baco.
desprendendo-se do egoísmo e da vaidade individual; elas aparecem 101. meretrício: a prostituição.
na representação de várias divindades, como as deusas Shoshika e 103. nevrose: distúrbio emocional, doença dos nervos.
Chinamasta, e também são usadas em diferentes ritos, como o 106. babilônico: luxuriante, licencioso; sansara: segundo Antonio Houaiss,
Chudakarma, que é a primeira tonsura de um menino. “o vocábulo designa o mercado das cidades babilônicas, sobretudo
22. azêmola: animal de carga. de Ur, onde, além das mercancias, se encontravam mulheres que,
32. se me antolha: do verbo “antolhar-se”, pôr-se diante dos olhos. para amealharem dote para futuro casamento, levavam vida
36. tropismo: conjunto de reações instintivas dos seres vivos aos comparável à das ainda existentes gueixas japonesas”.
estímulos externos. 111. zooplasma ofídico: o material orgânico celular dos ofídios, que são as
40. hirta: inflexível, rígida. serpentes.
44. fenomênica: relativa a “fenômeno”, que é tudo o que se manifesta ao 113. mavórtica: que tem a força de Marte, o deus da guerra; ariete, aríete:
nosso redor. antiga máquina de guerra para derrubar as muralhas de uma
50. sarcófaga: devoradora da carne. fortaleza; o acento foi deslocado como licença poética.
52. charqueada: abatedouro de bois onde também se salga a carne (no 114. catapulta: arma antiga que lançava sobre o inimigo projéteis de
preparo do charque). grande tamanho.
55. estames: termo ambíguo, que pode significar os fios da tecelagem, os 116. através a: através da.
fios da existência (em sentido figurado) ou o órgão reprodutivo 117. fluídicos: impalpáveis, intangíveis; halo: auréola luminosa que
masculino das flores; Zenir Campos Reis anota uma outra circunda os astros.
possibilidade: “em Haeckel, [significa] um órgão-folha inútil, sem 119. tênebras: trevas.
importância”. 118. destra: a mão direita.
56. liames: ligação, laço. 121. intracefálica: que está dentro da cabeça.
59. eterizações: desagregações, evaporações. 128. cavernícola: habitante de cavernas.
61. úbiqua, ubíqua: que está em toda parte, onipresente; o acento foi 129. Macbeths: referência ao guerreiro medieval Macbeth, que usurpou o
deslocado como licença poética. trono da Escócia e cuja história é narrada numa peça de William
63. Quimiotaxia: conjunto de reações dos organismos a estímulos Shakespeare (1564-1616), A tragédia de Macbeth; representa aqui,
químicos. como assinala Houaiss, o remorso.
76. glutoneria: a voracidade e a avidez característica dos glutões, que 130. rembrandtescas: referência ao pintor holandês Rembrandt van Rijn
comem demais. (1606-1669), mestre da técnica do chiaroscuro (claro-escuro), que cria
80. inventariante: que faz o inventário, descrição e partilha do patrimônio efeitos dramáticos a partir do jogo de luzes e sombras.
de um morto. 133. tactis: táteis, palpáveis.
84. malsão: nocivo à saúde. 134. megatérios: preguiças-gigantes que viveram na pré-história.
86. plasma: a matéria vital das células. 136. autopsiando: do verbo “autopsiar”, fazer a autópsia de um cadáver,
87. cenóbios: em geral, são os conventos onde vivem os monges, mas a para determinar a causa da morte.
palavra também designa as colônias de seres unicelulares que, 137. cancro: câncer.
juntos, formam um único organismo e assim representam, para 142. dionísica, dionisíaca: relativa ao deus grego Dionisos (Baco, para os
Haeckel, o elo evolutivo entre os protozoários e os metazoários. romanos); “dionisíaco” é tudo o que é desordenado, caótico e
91. Estoutro: este outro; sátiro: semideus que, segundo os antigos, incontrolável.
habitava as florestas e tinha chifres e pernas de bode; em sentido 146. dartro: designação de vários tipos de doenças da pele.
figurado, homem devasso. 149. ignívoma: que vomita fogo, expele chamas.

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156. orográfica: relativa à orografia, que é a descrição das montanhas. Agonia de um Filósofo
159. abstrusa: obscura, incompreensível.
160. dialética: na filosofia, designa um modo de buscar a verdade através
do contraste entre princípios opostos.
165. atra: escura, sombria; escarva: do verbo “escarvar”, arranhar, sulcar. Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
166. solilóquio: fala de alguém consigo mesmo. Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...
170. venábulos: espécie de lanças usadas para a caça; desinvertendo o
verso: “Aos pálidos venábulos da luz da lua”.
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
175. elégia, elegia: poema lírico em tom triste de lamento; o acento foi Com a eólica fúria do harmatã inquieto!
deslocado como licença poética; panteísta: relativa ao panteísmo,
doutrina segundo a qual Deus e o mundo são um único ser, estando Assisto agora à morte de um inseto!...
a divindade associada à natureza e à substância que subjaz a todas
as coisas existentes.
Ah! todos os fenômenos do solo
182. grandíloquos: grandiloqüentes, pomposos. Parecem realizar de pólo a pólo
186. fotosferas: camadas externas das estrelas, que irradiam luz e calor. O ideal de Anaximandro de Mileto!

No hierático areopago heterogêneo


Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...

Rasgo dos mundos o velário espesso;


E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!

1. Phtah-Hotep, Ptah-Hotep: livro de sabedoria do antigo Egito, que data


aproximadamente de 2200 a. C.
2. Rig-Veda: livro sagrado do hinduísmo, cuja composição foi iniciada
por volta de 1200 a. C.
4. eólica: relativa ao vento; harmatã: vento quente e seco que sopra em
direção ao Saara.
6. fenômenos: todas as coisas que se manifestam ao nosso redor.
8. Anaximandro de Mileto: filósofo grego da Antigüidade (611?-547? a.
C.); formulou a teoria sobre a pluralidade dos mundos e supôs que
todas as coisas existentes formam um “Todo infinito” a partir da
mesma substância indefinida, universal.
9. hierático: sagrado; areopago, areópago: assembléia, tribunal (por
derivação do nome dado ao antigo tribunal de Atenas, sobre a
colina de Ares).

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11. Haeckel: Ernst Haeckel (1834-1919), biólogo evolucionista alemão, O Morcego
autor de obras de divulgação científica como A evolução do homem
(1874) e Enigmas do universo (1899), nas quais expôs sua visão do
Monismo, doutrina evolucionista que rejeita qualquer tipo de
separação entre a matéria e o espírito, negando a existência de um Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
mundo “espiritual” para além da natureza e postulando a teoria de Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
que todas as coisas se formaram a partir de uma única substância
universal, inclusive as almas individuais; alma cenobial: a alma dos
Na bruta ardência orgânica da sede,
“cenóbios”, que são colônias de seres unicelulares que, juntos, Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
formam um único organismo e assim representam, para Haeckel, o
elo evolutivo entre os protozoários e os metazoários. “Vou mandar levantar outra parede...”
12. velário: toldo que se usava na Antigüidade para cobrir os anfiteatros
e os circos ao ar livre.
– Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
13. Goethe: Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), poeta, E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
dramaturgo e cientista alemão, autor do poema dramático Fausto, Circularmente sobre a minha rede!
que em suas obras científicas observou aspectos comuns a todas as
formas orgânicas e postulou a existência da mesma origem natural
para os diversos seres vivos.
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!


Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

4. ígneo: quente como o fogo.

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Psicologia de um Vencido A Idéia

Eu, filho do carbono e do amoníaco, De onde ela vem?! De que matéria bruta
Monstro de escuridão e rutilância, Vem essa luz que sobre as nebulosas
Sofro, desde a epigênesis da infância, Cai de incógnitas criptas misteriosas
A influência má dos signos do zodíaco. Como as estalactites duma gruta?!

Profundissimamente hipocondríaco, Vem da psicogenética e alta luta


Este ambiente me causa repugnância... Do feixe de moléculas nervosas,
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que, em desintegrações maravilhosas,
Que se escapa da boca de um cardíaco. Delibera, e depois, quer e executa!

Já o verme – este operário das ruínas – Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Que o sangue podre das carnificinas Chega em seguida às cordas do laringe,
Come, e à vida em geral declara guerra, Tísica, tênue, mínima, raquítica...

Anda a espreitar meus olhos para roê-los, Quebra a força centrípeta que a amarra,
E há de deixar-me apenas os cabelos, Mas, de repente, e quase morta, esbarra
Na frialdade inorgânica da terra! No mulambo da língua paralítica!

2. rutilância: brilho, esplendor. 3. criptas: cavernas, grutas.


3. epigênesis, epigênese: a formação gradual de estruturas cada vez mais 5. psicogenética: relativa à psicogênese, que é a origem dos processos
complexas, num embrião, a partir de uma única célula mentais ou psicológicos, da mente e da personalidade individuais.
indiferenciada, ou ovo fecundado. 9. absconso: oculto, escondido.
10. do laringe: a palavra “laringe” é mais conhecida como do gênero
feminino, mas também se usava antigamente no masculino
(seguindo o exemplo da sua origem etimológica, grega).
11. Tísica: tuberculosa.

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O Lázaro da Pátria 8. tenazes: garras; em sentido figurado, representam tudo o que provoca
angústia ou desconforto.
10. elefantíasis, elefantíase: doença crônica que provoca o aumento ou o
inchaço de partes do corpo.
Filho podre de antigos Goitacazes,
Em qualquer parte onde a cabeça ponha,
Deixa circunferências de peçonha,
Marcas oriundas de úlceras e antrazes.

Todos os cinocéfalos vorazes


Cheiram seu corpo. À noite, quando sonha,
Sente no tórax a pressão medonha
Do bruto embate férreo das tenazes.

Mostra aos montes e aos rígidos rochedos


A hedionda elefantíasis dos dedos...
Há um cansaço no Cosmos... Anoitece.

Riem as meretrizes no Cassino,


E o Lázaro caminha em seu destino
Para um fim que ele mesmo desconhece!

Título: Lázaro é o homem que Jesus fez ressuscitar, em Betânia, depois


de quatro dias de morto, segundo o Evangelho de João (capítulo
11); na linguagem corrente, o nome indica pessoa doente de lepra.
1. Goitacazes: grupo indígena extinto que até o século XVII habitava a
região costeira desde o Espírito Santo até o Paraíba do Sul, no
Estado do Rio de Janeiro.
4. antrazes: infecções da pele popularmente conhecidas com o nome de
“carbúnculo”, também podendo afetar tecidos e órgãos internos;
são provocadas por um bacilo transmitido pela carne contaminada
ou por dejetos de animais, que recentemente passou a ser usado em
armas biológicas.
5. cinocéfalos: uma espécie de macacos com a cabeça semelhante à do
cão, como o lêmure-voador; no Egito antigo, eram considerados
animais sagrados.

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Idealização da Humanidade Futura Soneto

Rugia nos meus centros cerebrais Ao meu primeiro filho nascido


A multidão dos séculos futuros morto com 7 meses incompletos.
– Homens que a herança de ímpetos impuros 2 Fevereiro de 1911.
Tornara etnicamente irracionais! –
Agregado infeliz de sangue e cal,
Não sei que livro, em letras garrafais, Fruto rubro de carne agonizante,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos, Filho da grande força fecundante
Realizavam-se os partos mais obscuros, De minha brônzea trama neuronial,
Dentre as genealogias animais!
Que poder embriológico fatal
Como quem esmigalha protozoários Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Meti todos os dedos mercenários Em tua morfogênese de infante
Na consciência daquela multidão... A minha morfogênese ancestral?!

E, em vez de achar a luz que os Céus inflama, Porção de minha plásmica substância,
Somente achei moléculas de lama Em que lugar irás passar a infância,
E a mosca alegre da putrefação! Tragicamente anônimo, a feder?!...

Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,


Panteisticamente dissolvido
6. monturos: amontoado de coisas repulsivas, lixo. Na noumenalidade do NÃO SER!
9. protozoários: seres unicelulares.
6. sinergia: ação associada de vários órgãos para cumprir uma única
função.
7. morfogênese: o desenvolvimento da forma e da estrutura de um
organismo.
9. plásmica: relativa ao plasma, a matéria vital das células.
13. Panteisticamente: conforme o panteísmo, doutrina segundo a qual
Deus e o mundo são um único ser, estando a divindade associada à
natureza e à substância que subjaz a todas as coisas existentes.
14. noumenalidade, numenalidade: segundo o filósofo alemão Immanuel
Kant (1724-1804), é a realidade em si, que só pode ser apreendida
através do pensamento, de maneira limitada; opõe-se à
fenomenalidade das coisas apreensíveis pelos sentidos.
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Versos a um Cão O Deus-Verme

Que força pôde, adstrita a embriões informes, Fator universal do transformismo,


Tua garganta estúpida arrancar Filho da teleológica matéria,
Do segredo da célula ovular Na superabundância ou na miséria,
Para latir nas solidões enormes?! Verme – é o seu nome obscuro de batismo.

Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes, Jamais emprega o acérrimo exorcismo


Suficientíssima é, para provar Em sua diária ocupação funérea,
A incógnita alma, avoenga e elementar, E vive em contubérnio com a bactéria,
Dos teus antepassados vermiformes. Livre das roupas do antropomorfismo.

Cão! – Alma de inferior rapsodo errante! Almoça a podridão das drupas agras,
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a Janta hidrópicos, rói vísceras magras
A escala dos latidos ancestrais... E dos defuntos novos incha a mão...

E irá assim, pelos séculos, adiante, Ah! Para ele é que a carne podre fica,
Latindo a esquisitíssima prosódia E no inventário da matéria rica
Da angústia hereditária dos teus pais! Cabe aos seus filhos a maior porção!
1. transformismo: sinônimo de “evolucionismo”, doutrina segundo a qual
as espécies se formam por meio de sucessivas transformações de
1.adstrita: ligada, pertencente. organismos anteriores.
3.célula ovular: o óvulo fecundado. 2. teleológica: que se dirige fatalmente para o próprio fim.
5.obnóxia: servil, sem vontade própria, nefasta. 5. acérrimo: muito obstinado.
7.avoenga: recebida por herança. 7. contubérnio: convivência ou coabitação, como no concubinato, em que
8.vermiformes: que têm a forma de vermes. há união conjugal sem casamento.
9. rapsodo: na Grécia antiga, espécie de andarilho que vivia de recitar 8. antropomorfismo: segundo o biólogo evolucionista alemão Ernst
poemas de cidade em cidade. Haeckel (1834-1919), é a doutrina que separa o ser humano do
13. prosódia: no contexto, fala metrificada e recitada oralmente. restante da natureza e que, do ponto de vista da ciência moderna,
incorre em três erros: considera o homem como o centro e o ápice
da Criação, supõe que ele foi criado por um Deus à sua imagem e
semelhança, e o idolatra, propagandeando a imortalidade de sua
alma.
9. drupas: as frutas de um só caroço; agras: ácidas, azedas.
10. hidrópicos: os corpos inchados pela retenção de líquido.
13. inventário: descrição e partilha do patrimônio de um morto.
22 23
Debaixo do Tamarindo As Cismas do Destino

No tempo de meu Pai, sob estes galhos, I


Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira Recife. Ponte Buarque de Macedo.
De inexorabilíssimos trabalhos! Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos, Pensava no Destino, e tinha medo!
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira Na austera abóbada alta o fósforo alvo
E a paleontologia dos Carvalhos! Das estrelas luzia... O calçamento
Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,
Quando pararem todos os relógios Copiava a polidez de um crânio calvo.
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri, Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Voltando à pátria da homogeneidade, Como uma pele de rinoceronte
Abraçada com a própria Eternidade Estendida por toda a minha vida!
A minha sombra há de ficar aqui!
A noite fecundava o ovo dos vícios
Animais. Do carvão da treva imensa
Caía um ar danado de doença
4. inexorabilíssimos: muito severos e inevitáveis. Sobre a cara geral dos edifícios!
8. paleontologia: ciência que estuda as formas de vida pré-históricas, por
meio de fósseis; Carvalhos: referência tanto às árvores desse gênero
quanto ao sobrenome da família do autor, por parte de mãe. Tal uma horda feroz de cães famintos,
10. necrológios: notícias de falecimentos. Atravessando uma estação deserta,
Uivava dentro do eu, com a boca aberta,
A matilha espantada dos instintos!

Era como se, na alma da cidade,


Profundamente lúbrica e revolta,
Mostrando as carnes, uma besta solta
Soltasse o berro da animalidade.
24 25
E aprofundando o raciocínio obscuro, Ah! Com certeza, Deus me castigava!
Eu vi, então, à luz de áureos reflexos, Por toda a parte, como um réu confesso,
O trabalho genésico dos sexos, Havia um juiz que lia o meu processo
Fazendo à noite os homens do Futuro. E uma forca especial que me esperava!

Livres de microscópios e escalpelos, Mas o vento cessara por instantes


Dançavam, parodiando saraus cínicos, Ou, pelo menos, o ignis sapiens do Orco
Bilhões de centrossomas apolínicos Abafava-me o peito arqueado e porco
Na câmara promíscua do vitellus. Num núcleo de substâncias abrasantes.

Mas, a irritar-me os globos oculares, É bem possível que eu um dia cegue.


Apregoando e alardeando a cor nojenta, No ardor desta letal tórrida zona,
Fetos magros, ainda na placenta, A cor do sangue é a cor que me impressiona
Estendiam-me as mãos rudimentares! E a que mais neste mundo me persegue!

Mostravam-me o apriorismo incognoscível Essa obsessão cromática me abate.


Dessa fatalidade igualitária, Não sei por que me vêm sempre à lembrança
Que fez minha família originária O estômago esfaqueado de uma criança
Do antro daquela fábrica terrível! E um pedaço de víscera escarlate.

A corrente atmosférica mais forte Quisera qualquer coisa provisória


Zunia. E, na ígnea crostra do Cruzeiro, Que a minha cerebral caverna entrasse,
Julgava eu ver o fúnebre candieiro E até ao fim, cortasse e recortasse
Que há de me alumiar na hora da morte. A faculdade aziaga da memória.

Ninguém compreendia o meu soluço, Na ascensão barométrica da calma,


Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas, Eu bem sabia, ansiado e contrafeito,
O vento bravo me atirava flechas Que uma população doente do peito
E aplicações hiemais de gelo russo. Tossia sem remédio na minh’alma!

A vingança dos mundos astronômicos E o cuspo que essa hereditária tosse


Enviava à terra extraordinária faca, Golfava, à guisa de ácido resíduo,
Posta em rija adesão de goma-laca Não era o cuspo só de um indivíduo
Sobre os meus elementos anatômicos. Minado pela tísica precoce.
26 27
Não! Não era o meu cuspo, com certeza Porque, se no orbe oval que os meus pés tocam
Era a expectoração pútrida e crassa Eu não deixasse o meu cuspo carrasco,
Dos brônquios pulmonares de uma raça Jamais exprimiria o acérrimo asco
Que violou as leis da Natureza! Que os canalhas do mundo me provocam!

Era antes uma tosse úbiqua, estranha,


Igual ao ruído de um calhau redondo
Arremessado, no apogeu do estrondo, II
Pelos fundibulários da montanha!
Foi no horror dessa noute tão funérea
E a saliva daqueles infelizes Que eu descobri, maior talvez que Vinci,
Inchava, em minha boca, de tal arte, Com a força visualística do lince,
Que eu, para não cuspir por toda a parte, A falta de unidade na matéria!
Ia engolindo, aos poucos, a hemoptísis!
Os esqueletos desarticulados,
Na alta alucinação de minhas cismas, Livres do acre fedor das carnes mortas,
O microcosmos líquido da gota Rodopiavam, com as brancas tíbias tortas,
Tinha a abundância de uma artéria rota, Numa dança de números quebrados!
Arrebentada pelos aneurismas.
Todas as divindades malfazejas,
Chegou-me o estado máximo da mágoa! Siva e Arimã, os duendes, o Yn e os trasgos,
Duas, três, quatro, cinco, seis e sete Imitando o barulho dos engasgos,
Vezes que eu me furei com um canivete, Davam pancadas no adro das igrejas.
A hemoglobina vinha cheia de água!
Nessa hora de monólogos sublimes,
Cuspo, cujas caudais meus beiços regam, A companhia dos ladrões da noite,
Sob a forma de mínimas camândulas, Buscando uma taverna que os acoite,
Benditas sejam todas essas glândulas, Vai pela escuridão pensando crimes.
Que, quotidianamente, te segregam!
Perpetravam-se os atos mais funestos,
Escarrar de um abismo noutro abismo, E o luar, da cor de um doente de icterícia,
Mandando ao Céu o fumo de um cigarro, Iluminava, a rir, sem pudicícia,
Há mais filosofia neste escarro A camisa vermelha dos incestos.
Do que em toda a moral do Cristianismo!
28 29
Ninguém, de certo, estava ali, a espiar-me, Tempo viria, em que, daquele horrendo
Mas um lampião lembrava, ante o meu rosto, Caos de corpos orgânicos disformes,
Um sugestionador olho, ali posto Rebentariam cérebros enormes,
De propósito, para hipnotizar-me! Como bolhas febris de água, fervendo!

Em tudo, então, meus olhos distinguiram, Nessa época que os sábios não ensinam,
Da miniatura singular de uma aspa A pedra dura, os montes argilosos
À anatomia mínima da caspa, Criariam feixes de cordões nervosos
Embriões de mundos que não progrediram! E o neuroplasma dos que raciocinam!

Pois quem não vê aí, em qualquer rua, Almas pigméias! Deus subjuga-as, cinge-as
Com a fina nitidez de um claro jorro, À imperfeição! Mas vem o Tempo, e vence-O,
Na paciência budista do cachorro E o meu sonho crescia no silêncio,
A alma embrionária que não continua?! Maior que as epopéias carolíngias!

Ser cachorro! Ganir incompreendidos Era a revolta trágica dos tipos


Verbos! Querer dizer-nos que não finge, Ontogênicos mais elementares,
E a palavra embrulhar-se no laringe, Desde os foraminíferos dos mares
Escapando-se apenas em latidos! À grei liliputiana dos polipos.

Despir a putrescível forma tosca, Todos os personagens da tragédia,


Na atra dissolução que tudo inverte, Cansados de viver na paz de Buda,
Deixar cair sobre a barriga inerte Pareciam pedir com a boca muda
O apetite necrófago da mosca! A ganglionária célula intermédia.

A alma dos animais! Pego-a, distingo-a, A planta que a canícula ígnea torra,
Acho-a nesse interior duelo secreto E as coisas inorgânicas mais nulas
Entre a ânsia de um vocábulo completo Apregoavam encéfalos, medulas
E uma expressão que não chegou à língua! Na alegria guerreira da desforra!

Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos, Os protistas e o obscuro acervo rijo


Nos antiperistálticos abalos Dos espongiários e dos infusórios
Que produzem nos bois e nos cavalos Recebiam com os seus órgãos sensórios
A contração dos gritos instintivos! O triunfo emocional do regozijo!
30 31
E apesar de já ser assim tão tarde, Prostituição ou outro qualquer nome,
Aquela humanidade parasita, Por tua causa, embora o homem te aceite,
Como um bicho inferior, berrava, aflita, É que as mulheres ruins ficam sem leite
No meu temperamento de covarde! E os meninos sem pai morrem de fome!

Mas, refletindo, a sós, sobre o meu caso, Por que há de haver aqui tantos enterros?!
Vi que, igual a um amneota subterrâneo, Lá no “Engenho” também, a morte é ingrata...
Jazia atravessada no meu crânio Há o malvado carbúnculo que mata
A intercessão fatídica do atraso! A sociedade infante dos bezerros!

A hipótese genial do microzima Quantas moças que o túmulo reclama!


Me estrangulava o pensamento guapo, E após a podridão de tantas moças,
E eu me encolhia todo como um sapo Os porcos espojando-se nas poças
Que tem um peso incômodo por cima! Da virgindade reduzida à lama!

Nas agonias do delirium tremens, Morte, ponto final da última cena,


Os bêbedos alvares que me olhavam, Forma difusa da matéria imbele,
Com os copos cheios, esterilizavam Minha filosofia te repele,
A substância prolífica dos sêmens! Meu raciocínio enorme te condena!

Enterravam as mãos dentro das goelas, Diante de ti, nas catedrais mais ricas,
E sacudidos de um tremor indômito Rolam sem eficácia os amuletos.
Expeliam, na dor forte do vômito, Oh! Senhora dos nossos esqueletos
Um conjunto de gosmas amarelas. E das caveiras diárias que fabricas!

Iam depois dormir nos lupanares E eu desejava ter, numa ânsia rara,
Onde, na glória da concupiscência, Ao pensar nas pessoas que perdera,
Depositavam quase sem consciência A inconsciência das máscaras de cera
As derradeiras forças musculares. Que a gente prega, com um cordão, na cara!

Fabricavam destarte os blastodermas, Era um sonho ladrão de submergir-me


Em cujo repugnante receptáculo Na vida universal, e, em tudo imerso,
Minha perscrutação via o espetáculo Fazer da parte abstrata do Universo
De uma progênie idiota de palermas. Minha morada equilibrada e firme!
32 33
Nisto, pior que o remorso do assassino, Ah! Como o ar imortal a Dor não finda!
Reboou, tal qual, num fundo de caverna, Das papilas nervosas que há nos tatos
Numa impressionadora voz interna, Veio e vai desde os tempos mais transatos
O eco particular do meu Destino: Para outros tempos que hão de vir ainda!

Como o machucamento das insônias


Te estraga, quando toda a estuada Idéia
III Dás ao sôfrego estudo da ninféia
E de outras plantas dicotiledôneas!
“Homem! por mais que a Idéia desintegres,
Nessas perquisições que não têm pausa, A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua
Jamais, magro homem, saberás a causa Que da ígnea flama bruta, estriada, espirra;
De todos os fenômenos alegres! A formação molecular da mirra,
O cordeiro simbólico da Páscoa;
Em vão, com a bronca enxada árdega, sondas
A estéril terra, e a hialina lâmpada oca As rebeladas cóleras que rugem
Trazes, por perscrutar (oh! ciência louca!) No homem civilizado, e a ele se prendem
O conteúdo das lágrimas hediondas. Como às pulseiras que os mascates vendem
A aderência teimosa da ferrugem;
Negro e sem fim é esse em que te mergulhas
Lugar do Cosmos, onde a dor infrene O orbe feraz que bastos tojos acres
É feita como é feito o querosene Produz; a rebelião que, na batalha,
Nos recôncavos úmidos das hulhas! Deixa os homens deitados, sem mortalha,
Na sangueira concreta dos massacres;
Porque, para que a Dor perscrutes, fora
Mister que, não como és, em síntese, antes Os sanguinolentíssimos chicotes
Fosses, a refletir teus semelhantes, Da hemorragia; as nódoas mais espessas,
A própria humanidade sofredora! O achatamento ignóbil das cabeças,
Que ainda degrada os povos hotentotes;
A universal complexidade é que Ela
Compreende. E se, por vezes, se divide, O Amor e a Fome, a fera ultriz que o fojo
Mesmo ainda assim, seu todo não reside Entra, à espera que a mansa vítima o entre,
No quociente isolado da parcela! – Tudo que gera no materno ventre
A causa fisiológica do nojo;
34 35
As pálpebras inchadas na vigília, As diferenciações que o psicoplasma
As aves moças que perderam a asa, Humano sofre na mania mística,
O fogão apagado de uma casa, A pesada opressão característica
Onde morreu o chefe da família; Dos 10 minutos de um acesso de asma;

O trem particular que um corpo arrasta E (conquanto contra isto ódios regougues)
Sinistramente pela via férrea, A utilidade fúnebre da corda
A cristalização da massa térrea, Que arrasta a rês, depois que a rês engorda,
O tecido da roupa que se gasta; À morte desgraçada dos açougues...

A água arbitrária que hiulcos caules grossos Tudo isto que o terráqueo abismo encerra
Carrega e come; as negras formas feias Forma a complicação desse barulho
Dos aracnídeos e das centopéias, Travado entre o dragão do humano orgulho
O fogo-fátuo que ilumina os ossos; E as forças inorgânicas da terra!

As projeções flamívomas que ofuscam, Por descobrir tudo isto, embalde cansas!
Como uma pincelada rembrandtesca, Ignoto é o gérmen dessa força ativa
A sensação que uma coalhada fresca Que engendra, em cada célula passiva,
Transmite às mãos nervosas dos que a buscam; A heterogeneidade das mudanças!

O antagonismo de Tifon e Osíris, Poeta, feto malsão, criado com os sucos


O homem grande oprimindo o homem pequeno, De um leite mau, carnívoro asqueroso,
A lua falsa de um parasseleno, Gerado no atavismo monstruoso
A mentira meteórica do arco-íris; Da alma desordenada dos malucos;

Os terremotos que, abalando os solos, Última das criaturas inferiores


Lembram paióis de pólvora explodindo, Governada por átomos mesquinhos,
A rotação dos fluidos produzindo Teu pé mata a uberdade dos caminhos
A depressão geológica dos pólos; E esteriliza os ventres geradores!

O instinto de procriar, a ânsia legítima O áspero mal que a tudo, em torno, trazes,
Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, Análogo é ao que, negro e a seu turno,
O juramento dos guerreiros priscos Traz o ávido filóstomo noturno
Metendo as mãos nas glândulas da vítima; Ao sangue dos mamíferos vorazes!
36 37
Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes Um dia comparado com um milênio
A perfeição dos seres existentes, Seja, pois, o teu último Evangelho...
Hás de mostrar a cárie dos teus dentes É a evolução do novo para o velho
Na anatomia horrenda dos detalhes! E do homogêneo para o heterogêneo!

O Espaço – esta abstração spencereana Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo
Que abrange as relações de coexistência A apodrecer!... És poeira, e embalde vibras!
É só! Não tem nenhuma dependência O corvo que comer as tuas fibras
Com as vértebras mortais da espécie humana! Há de achar nelas um sabor amargo!”

As radiantes elipses que as estrelas


Traçam, e ao espectador falsas se antolham,
São verdades de luz que os homens olham IV
Sem poder, no entretanto, compreendê-las.
Calou-se a voz. A noite era funesta.
Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes, E os queixos, a exibir trismos danados,
Que essa mão, de esqueléticas falanges, Eu puxava os cabelos desgrenhados
Dentro dessa água que com a vista abranges, Como o rei Lear, no meio da floresta!
Também prova o princípio de Arquimedes!
Maldizia, com apóstrofes veementes,
A fadiga feroz que te esbordoa No estentor de mil línguas insurrectas,
Há de deixar-te essa medonha marca, O convencionalismo das Pandectas
Que, nos corpos inchados de anasarca, E os textos maus dos códigos recentes!
Deixam os dedos de qualquer pessoa!
Minha imaginação atormentada
Nem terás no trabalho que tiveste Paria absurdos... Como diabos juntos,
A misericordiosa toalha amiga, Perseguiam-me os olhos dos defuntos
Que afaga os homens doentes de bexiga Com a carne da esclerótica esverdeada.
E enxuga, à noite, as pústulas da peste!
Secara a clorofila das lavouras.
Quando chegar depois a hora tranqüila, Igual aos sustenidos de uma endecha,
Tu serás arrastado, na carreira, Vinha-me às cordas glóticas a queixa
Como um cepo inconsciente de madeira Das coletividades sofredoras.
Na evolução orgânica da argila!
38 39
O mundo resignava-se invertido 37. apriorismo: condição independente da razão humana; incognoscível:
impossível de conhecer.
Nas forças principais do seu trabalho... 42. ígnea: chamejante, como o fogo.
A gravidade era um princípio falho, 48. hiemais: invernais.
A análise espectral tinha mentido! 51. goma-laca: laca, espécie de resina vegetal, de cor vermelha.
58. ignis sapiens: jogo de palavras a partir da expressão homo sapiens
(“homem sapiente”), na qual ignis, em latim, significa “fogo”; Orco:
O Estado, a Associação, os Municípios o Inferno.
Eram mortos. De todo aquele mundo 65. cromática: relativa à cor.
Restava um mecanismo moribundo 68. escarlate: cor vermelha muito viva.
E uma teleologia sem princípios. 72. aziaga: agourenta.
73. barométrica: relativa à pressão atmosférica.
80. tísica: tuberculose.
Eu queria correr, ir para o inferno, 82. crassa: grossa, espessa.
Para que, da psiquê no oculto jogo, 85. úbiqua, ubíqua: que está em toda parte, onipresente; o acento foi
Morressem sufocadas pelo fogo deslocado como licença poética.
86. calhau: seixo, fragmento de rocha.
Todas as impressões do mundo externo! 88. fundibulários: atiradores armados de fundas, estilingues.
92. hemoptísis, hemoptise: expectoração de sangue dos pulmões, que é
Mas a Terra negava-me o equilíbrio... um dos sintomas da tuberculose.
Na Natureza, uma mulher de luto 96. aneurisma: dilatação anormal de um vaso sangüíneo.
101. caudais: torrentes abundantes.
Cantava, espiando as árvores sem fruto, 102. camândulas: contas grossas de rosário.
A canção prostituta do ludíbrio! 109. orbe: esfera, globo.
111. acérrimo: muito forte.
II
114. Vinci: Leonardo da Vinci (1452-1519), pintor, arquiteto e cientista
I do Renascimento italiano.
1. Ponte Buarque de Macedo: a mais extensa da capital pernambucana, 122. Siva, Shiva: uma das maiores divindades do hinduísmo, deus da
ligando a Av. Rio Branco à Praça da República, sobre a junção dos destruição e da dissolução cósmica; Arimã: segundo o zoroastrismo,
rios Capibaribe e Beberibe. é o princípio do mal, do caos e da morte; duendes: seres imaginários
2. casa do Agra: no início do século XX, era a principal funerária da de origem européia e estatura pequenina que fazem travessuras para
cidade. assustar as pessoas; Yn, yin: o princípio fundamental que, para as
7. Sáxeo: pétreo, de pedra; atro: preto, sombrio; vidrento: parecido com o antigas doutrinas chinesas, preside às manifestações passivas, frias e
vidro. escuras do universo, em interação com o princípio oposto yang;
27. genésico: que produz a geração de filhos. trasgos: demônios caseiros que fazem pequenas diabruras.
29. escalpelos: bisturis usados em dissecações. 124. adro: o pátio externo em frente às igrejas católicas.
31. centrossomas: centrossomos ou citríolos, partículas celulares ligada à 127. acoite: do verbo “acoitar”, abrigar.
reprodução; apolínicos, apolíneos: relativos ao deus grego Apolo; 130. icterícia: síndrome que deixa a pele amarelada.
“apolíneo” é tudo o que exprime beleza, força, equilíbrio e 131. pudicícia: pudor.
harmonia. 135. sugestionador: intimidador.
32. vitellus: vitelo, material nutritivo contido no óvulo dos animais. 138. aspa: antigo instrumento de tortura formado por dois pedaços de
pau cruzados, em X.

40 41
147. no laringe: a palavra “laringe” é mais conhecida como do gênero 201. delirium tremens: distúrbio psíquico freqüente em alcoólatras e
feminino, mas também se usava antigamente no masculino viciados em ópio, caracterizado por tremores, suores, agitação e
(seguindo o exemplo da sua origem etimológica, grega). alucinações.
152. necrófago: que se alimenta da carne de animais mortos. 202. alvares: pálidos.
158. antiperistálticos: em sentido contrário ao movimento normal do 209. lupanares: prostíbulos, bordéis.
aparelho digestivo, dito peristáltico, que é de cima para baixo. 210. concupiscência: a luxúria dos prazeres carnais.
168. neuroplasma: o material orgânico das células nervosas. 213. blastodermas: as células que formam o invólucro de um embrião.
169. pigméias: diminutas, por derivação de “pigmeu”, indivíduo 215. perscrutação: pesquisa.
pertencente a certas etnias de origem africana, caracterizadas pela 216. progênie: geração, prole.
baixa estatura. 223. carbúnculo: infecção que afeta o gado.
172. epopéias carolíngias: longos poemas narrativos que relembram os 227. espojando-se: do verbo “espojar-se”, revolver-se, rolar.
feitos heróicos da cavalaria no tempo do Império Carolíngio, da 230. imbele: indefesa.
dinastia de Carlos Magno (742-814); a mais famosa delas é a Canção III
de Rolando (séculos XI ou XII). 250. perquisições: investigações.
174. ontogênicos: relativos à ontogenia, que é a história do 252. fenômenos: todas as coisas que se manifestam ao nosso redor.
desenvolvimento de cada ser vivo em particular, desde o embrião 253. árdega: árdua.
até a idade adulta. 254. hialina: translúcida, clara.
175. foraminíferos: seres marinhos unicelulares. 255. perscrutar: pesquisar.
176. grei: povo; liliputiana: habitante de Liliput, ilha imaginada pelo 258. infrene: desenfreada.
satirista anglo-irlandês Johnathan Swift (1667-1745) em seu 260. hulhas: carvões.
romance As viagens de Gulliver, na qual as pessoas não medem mais 270. papilas: pequenas saliências existentes na superfície dos dedos,
do que seis polegadas; polipos: pólipos, parasitas que integram o filo ligadas a terminais nervosos sensitivos.
dos celenterados inferiores, de corpo cilíndrico e oco, desprovido 271. transatos: passados, remotos.
de nervos e de músculos. 274. estuada: agitada, vibrante.
178. Buda: título que significa “O Sábio” e foi dado a Sidarta Gautama 275. ninféia: espécie de planta aquática.
(563?-483? a. C.), o fundador do Budismo. 276. dicotiledôneas: que no momento de sua germinação, apresentam duas
180. ganglionária célula intermédia: de acordo com o biólogo evolucionista folhas embrionárias, chamadas “cotilédones”.
alemão Ernst Haeckel (1834-1919), a “célula psíquica ou 277. diáfana: transparente; áscua: tição, brasa.
ganglionária intermédia” é aquela que desempenha as funções da 279. mirra: planta aromática.
consciência e da vontade individuais, sendo assim a sede celular da 285. feraz: fecundo, fértil; bastos: espesso, cerrado; tojos: espécie de
alma; no sistema nervoso dos seres primitivos, situa-se entre uma arbusto.
“célula sensória sensível” (com a função da sensibilidade) e uma 292. hotentotes: povo nômade de pastores do sudoeste da África.
“célula muscular motora” (com a função do movimento). 293. ultriz: vingativa; fojo: um tipo de armadilha para animais bravos.
181. canícula ígnea: forte calor. 305. hiulcos: fendidos.
185. protistas: seres vivos unicelulares. 308. fogo-fátuo: clarão visível à noite nos pântanos e nos cemitérios,
186. espongiários: animais invertebrados primitivos, como as esponjas; atribuído à decomposição de matérias orgânicas.
infusórios: seres unicelulares que se locomovem por meio de cílios. 309. flamívomas: que vomitam chamas.
194. amneota, amniota: vertebrado cujo embrião é envolvido por 310. rembrandtesca: referência ao pintor holandês Rembrandt van Rijn
membrana protetora, como os répteis, as aves e os mamíferos. (1606-1669), mestre da técnica do chiaroscuro (claro-escuro), que cria
197. microzima: microorganismo que supostamente age como um efeitos dramáticos a partir do jogo de luzes e sombras.
fermento na propagação de certas doenças contagiosas e na 313. Tifon: mais conhecido como Set ou Setesh, que no panteão dos
putrefação de alimentos e cadáveres. deuses do antigo Egito representa o espírito do mal; Osíris: o irmão
198: guapo: ousado. benévolo de Tifon, que o matou.

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315. parasseleno, parasselênio: halo de luz que às vezes se observa ao 394. estentor: vozerio muito forte; insurrectas: que se insurgiram,
redor da lua. rebelaram-se.
322. ovante: triunfante. 395. Pandectas: compêndio do Direito romano compilado no século VI
323. priscos: antigos. da era cristã.
325. psicoplasma: material orgânico celular que, segundo Haeckel, 400. esclerótica: a parte branca do globo ocular.
constitui a base material da alma e da atividade psíquica. 402. endecha: tipo de lamento fúnebre em versos.
329. regougues: do verbo “regougar”, falar em tom áspero e gutural. 403. cordas glóticas: as cordas vocais.
341. malsão: nocivo à saúde. 408. análise espectral: conjunto de técnicas que permitem definir a
343. atavismo: a hereditariedade latente que permite o reaparecimento, composição físico-química de um corpo a partir da luminosidade
num descendente, de um traço só notado nos seus ascendentes que ele emite.
remotos. 412. teleologia: finalidade fatal para a qual tudo no mundo se orienta.
347. uberdade: fertilidade. 414. psiquê: alma, mente; desinvertendo o trecho: “no jogo oculto da
351. filóstomo: um tipo de morcego. psiquê”
357. spencereana: referência ao filósofo inglês Herbert Spencer (1820- 420. ludíbrio: engano.
1903), que tentou explicar todos os fenômenos do mundo a partir
da teoria da evolução.
362. se antolham: do verbo “antolhar-se”, pôr-se diante dos olhos.
365. éter: de acordo com Haeckel, é a “matéria imponderável” (ou seja,
sem peso) que preenche os espaços vazios e constitui uma das duas
formas existentes da substância primordial que gerou todo o
Cosmos (sendo a outra a “massa”, que é a “matéria ponderável”).
366. falanges: pequenos ossos dos dedos.
368. o princípio de Arquimedes: a teoria da hidrostática, estabelecida pelo
matemático e físico grego Arquimedes (287-212 a. C.), segundo a
qual todo corpo submergido num fluido sofre um empuxo vertical,
de baixo para cima, igual ao peso do fluido por ele desalojado.
369. esbordoa: do verbo “esbordoar”, atacar com bordoadas.
371. anasarca: edema ou inchaço provocado em várias partes do corpo
devido à retenção anormal de líquidos.
376. pústula: pequeno tumor na pele, com formação de pus.
379. cepo: tronco de árvore cortado na transversal.
384. E do homogêneo para o heterogêneo: referência à definição de
“evolução” por Spencer: “é a mudança de uma homogeneidade
indefinida e incoerente para uma heterogeneidade definida e
coerente, através de diferenciações e integrações contínuas”.
IV
390. trismos: efeitos de um distúrbio nervoso que impedem a abertura da
boca e são um sintoma da infecção por tétano.
392. rei Lear: lendário monarca inglês que teria enlouquecido na velhice,
personagem de uma das maiores tragédias de William Shakespeare
(1564-1616), Rei Lear.
392. apóstrofes: afirmações polêmicas, num debate.

44 45
Budismo Moderno Sonho de um Monista

Tome, Dr., esta tesoura, e... corte Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo


Minha singularíssima pessoa. Viajávamos, com uma ânsia sibarita,
Que importa a mim que a bicharia roa Por toda a pró-dinâmica infinita,
Todo o meu coração, depois da morte?! Na inconsciência de um zoófito tranqüilo.

Ah! Um urubu pousou na minha sorte! A verdade espantosa do Protilo


Também, das diatomáceas da lagoa Me aterrava, mas dentro da alma aflita
A criptógama cápsula se esbroa Via Deus – essa mônada esquisita –
Ao contato de bronca destra forte! Coordenando e animando tudo aquilo!

Dissolva-se, portanto, minha vida E eu bendizia, com o esqueleto ao lado,


Igualmente a uma célula caída Na guturalidade do meu brado,
Na aberração de um óvulo infecundo; Alheio ao velho cálculo dos dias,

Mas o agregado abstrato das saudades Como um pagão no altar de Proserpina,


Fique batendo nas perpétuas grades A energia intracósmica divina
Do último verso que eu fizer no mundo! Que é o pai e é a mãe das outras energias!

6. diatomáceas: espécie de algas unicelulares. Título: “monista” é todo seguidor da corrente filosófica e científica do
7. criptógama cápsula: em certas plantas, órgão reprodutor oculto ou Monismo, doutrina evolucionista que rejeita qualquer tipo de
microscópico, de que são exemplos os esporos e os gametas; se separação entre a matéria e o espírito, negando a existência de um
esbroa: do verbo “esbroar-se”, reduzir-se a pó. mundo “espiritual” para além da natureza e postulando a teoria de
8. destra: a mão direita. que todas as coisas se formaram a partir de uma única substância
universal, inclusive as almas individuais.
1. Esquilo, Ésquilo: dramaturgo grego (525-456 a. C.), autor da tragédia
Prometeu acorrentado, que narra a história do semideus que foi punido
por Zeus por ter entregue aos homens o fogo, último elemento que
lhes faltava para criarem uma civilização própria; o acento foi
deslocado como licença poética.
2. sibarita: lasciva, luxuriosa

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3. pró-dinâmica: conceito monista que exprime a força criadora do Solitário
Cosmos, segundo o biólogo evolucionista alemão Ernst Haeckel
(1834-1919).
4. zoófito: animal invertebrado que se parece com uma planta.
5. Protilo: hipoteticamente, a substância primordial do universo, que Como um fantasma que se refugia
segundo os monistas teria se diferenciado num processo de Na solidão da natureza morta,
evolução, assumindo as variadas formas existentes.
7. mônada: organismo simples dotado de autopercepção individual; na
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
filosofia do racionalista alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646- Eu fui refugiar-me à tua porta!
1716), o termo representa o aspecto imaterial, indivisível e eterno
dos seres existentes no universo, através do qual eles manifestam Fazia frio e o frio que fazia
percepção e vontade própria, agregando-se entre si, como as
consciências dos indivíduos humanos.
Não era esse que a carne nos conforta...
12. Proserpina, Prosérpina: que na mitologia greco-romana era a deusa da Cortava assim como em carniçaria
fertilidade e do mundo subterrâneo. O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!


E eu saí, como quem tudo repele,
– Velho caixão a carregar destroços –

Levando apenas na tumbal carcaça


O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

48 49
Mater Originalis O Lupanar

Forma vermicular desconhecida Ah! Por que monstruosíssimo motivo


Que estacionaste, mísera e mofina, Prenderam para sempre, nesta rede,
Como quase impalpável gelatina, Dentro do ângulo diedro da parede,
Nos estados prodrômicos da vida; A alma do homem polígamo e lascivo?!

O hierofante que leu a minha sina Este lugar, moços do mundo, vede:
Ignorante é de que és, talvez, nascida É o grande bebedeouro coletivo,
Dessa homogeneidade indefinida Onde os bandalhos, como um gado vivo,
Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. Todas as noites, vêm matar a sede!

Nenhuma ignota união ou nenhum nexo É o afrodístico leito do hetairismo,


À contingência orgânica do sexo A antecâmara lúbrica do abismo,
A tua estacionária alma prendeu... Em que é mister que o gênero humano entre,

Ah! de ti foi que, autônoma e sem normas, Quando a promiscuidade aterradora


Oh! Mãe original das outras formas, Matar a última força geradora
A minha forma lúgubre nasceu! E comer o último óvulo do ventre!

Título: em latim, significa “Mãe original”. Título: um “lupanar” é um prostíbulo, um bordel.


1. vermicular: semelhante ao verme. 7. bandalhos: canalhas, patifes.
4. prodrômicos: ancestrais, anteriores. 9. afrodístico: destinado aos prazeres da carne; hetairismo: prostituição.
5. hierofante: sacerdote que, na Grécia antiga, instruía os iniciados em
cultos esotéricos.
8. Herbert Spencer: filósofo inglês (1820-1903) que tentou explicar todos
os fenômenos do mundo a partir da teoria da evolução

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Idealismo Último Credo

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo! Como ama o homem adúltero o adultério
O amor na Humanidade é uma mentira. E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
É. E é por isto que na minha lira Amo o coveiro – este ladrão comum
De amores fúteis poucas vezes falo. Que arrasta a gente para o cemitério!

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! É o transcendentalíssimo mistério!


Quando, se o amor que a Humanidade inspira É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,
É o amor do sibarita e da hetaíra, É a morte, é esse danado número Um
De Messalina e de Sardanapalo?! Que matou Cristo e que matou Tibério!

Pois é mister que, para o amor sagrado, Creio, como o filósofo mais crente,
O mundo fique imaterializado Na generalidade decrescente
– Alavanca desviada do seu fulcro – Com que a substância cósmica evolui...

E haja só amizade verdadeira Creio, perante a evolução imensa,


Duma caveira para outra caveira, Que o homem universal de amanhã vença
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! O homem particular que eu ontem fui!

7. sibarita: pessoa que, a exemplo dos habitantes da antiga cidade grega 6. nous: palavra do grego antigo que significa “inteligência”,
de Síbaris, se entrega aos prazeres da carne; hetaíra, hetaira: “entendimento”; segundo Anaxágoras (499-428 a. C.), é o Princípio
prostituta. Supremo, que constitui a origem de todas as coisas; para Platão
8. Messalina: imperatriz romana do século I d. C., casada com Cláudio I, (427?-347 a. C.), é o Espírito ou Mente Superior, que indica a
que tinha reputação de infiel e lasciva; Sardanapalo: lendário presença da consciência divina no ser humano, através da razão;
monarca da Assíria (século IX a. C.), famoso por cultuar a luxúria. pneuma: também do grego antigo, significa “espírito”, “sopro”; para
os filósofos estóicos gregos do período helenístico (séculos IV a I
a. C.), representa a alma universal que é a “causa contínua” de
todos os corpos existentes, dirigindo o crescimento e o
desenvolvimento dos seres animados; ego sum qui sum: em latim,
significa “eu sou aquele que sou”; no livro do Êxodo (capítulo 3,
versículo 14), foi a resposta dada por Deus a Moisés, que lhe
perguntara o seu nome.

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7. número Um: na Cabala, representa o princípio da energia criadora de O Caixão Fantástico
Deus, do qual tudo procede, e para o qual o espírito e a matéria são
indissociáveis.
8. Tibério: Tiberius Julius Caesar Augustus (42 a. C. - 37 d. C.), segundo
imperador romano. Célere ia o caixão, e, nele, inclusas,
Cinzas, caixas cranianas, cartilagens
Oriundas, como os sonhos dos selvagens,
De aberratórias abstrações abstrusas!

Nesse caixão iam talvez as Musas,


Talvez meu Pai! Hoffmânnicas visagens
Enchiam meu encéfalo de imagens
As mais contraditórias e confusas!

A energia monística do Mundo,


À meia-noite, penetrava fundo
No meu fenomenal cérebro cheio...

Era tarde! Fazia muito frio.


Na rua apenas o caixão sombrio
Ia continuando o seu passeio!

4. abstrusas: obscuras, incompreensíveis.


5. Musas: na mitologia grega, são as nove filhas de Zeus e de
Mnemósine (a Memória), inspiradoras das artes liberais; são elas:
Clio (da História), Euterpe (da Música), Talia (da Comédia),
Melpômene (da Tragédia), Terpsícore (da Dança), Urânia (da
Astronomia), Érato (da Poesia Lírica), Polímnia (da Retórica) e
Calíope (da Poesia Épica).
6. Hoffmânicas: referência ao escritor romântico alemão E. T. A.
Hoffmann (1776-1822), mestre da narrativa fantástica, versando
temas sobrenaturais e grotescos; visagens: vultos, assombrações.
9. energia monística: a força criadora oriunda de um único princípio,
segundo o biólogo evolucionista alemão Ernst Haeckel (1834-1919)
e outros pensadores monistas.

54 55
11. fenomenal: termo ambíguo, significando tanto “excepcional” quanto Solilóquio de um Visionário
“fenomênico” (relativo a “fenômeno”, que é tudo o que se
manifesta ao nosso redor).

Para desvirginar o labirinto


Do velho e metafísico Mistério,
Comi meus olhos crus no cemitério,
Numa antropofagia de faminto!

A digestão desse manjar funéreo


Tornado sangue transformou-me o instinto,
De humanas impressões visuais que eu sinto,
Nas divinas visões do íncola etéreo!

Vestido de hidrogênio incandescente,


Vaguei um século, improficuamente,
Pelas monotonias siderais...

Subi talvez às máximas alturas,


Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,
É necessário que inda eu suba mais!

8. íncola etéreo: o habitante do éter, que segundo o biólogo evolucionista


alemão Ernst Haeckel (1834-1919), é a “matéria imponderável” (ou
seja, sem peso) que preenche os espaços vazios e constitui uma das
duas formas existentes da substância primordial que gerou todo o
Cosmos (sendo a outra a “massa”, que é a “matéria ponderável”).

56 57
A um Carneiro Morto Vozes da Morte

Misericordiosíssimo carneiro Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,


Esquartejado, a maldição de Pio Tamarindo de minha desventura,
Décimo caia em teu algoz sombrio Tu, com o envelhecimento da nervura,
E em todo aquele que for seu herdeiro! Eu, com o envelhecimento dos tecidos!

Maldito seja o mercador vadio Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos!
Que te vender as carnes por dinheiro, E a podridão, meu velho! E essa futura
Pois tua lã aquece o mundo inteiro Ultrafatalidade de ossatura,
E guarda as carnes dos que estão com frio! A que nos acharemos reduzidos!

Quando a faca rangeu no teu pescoço, Não morrerão, porém, tuas sementes!
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso E assim, para o Futuro, em diferentes
Teus olhos – fontes de perdão – perdoaram! Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,

Oh! tu que no Perdão eu simbolizo, Na multiplicidade dos teus ramos,


Se fosses Deus, no Dia de Juízo, Pelo muito que em vida nos amamos,
Talvez perdoasses os que te mataram! Depois da morte, inda teremos filhos!

2-3. Pio Décimo: o papa santo Pio X, Giuseppe Melchiorre Sarto (1835-
1914), que chegou ao papado em 1903 e foi canonizado em 1953,
por Pio XII; publicou em 1907 a encíclica “Pascendi”, condenando
como “síntese de todas as heresias” o modernismo religioso, que
pretendia reconciliar o catolicismo e a ciência moderna.
13. Dia de Juízo: o Juízo Final, julgamento a ser realizado por Deus no
fim dos tempos, quando premiará os justos e punirá os pecadores.

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Insânia de um Simples Os Doentes

Em cismas patológicas insanas,


É-me grato adstringir-me, na hierarquia
Das formas vivas, à categoria
Das organizações liliputianas;
I
Ser semelhante aos zoófitos e às lianas,
Ter o destino de uma larva fria, Como uma cascavel que se enroscava,
Deixar enfim na cloaca mais sombria A cidade dos lázaros dormia...
Este feixe de células humanas! Somente, na metrópole vazia,
Minha cabeça autônoma pensava!
E enquanto arremedando Éolo iracundo,
Na orgia heliogabálica do mundo, Mordia-me a obsessão má de que havia,
Ganem todos os vícios de uma vez, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava,
Um fígado doente que sangrava
Apraz-me, adstrito ao triângulo mesquinho E uma garganta de órfã que gemia!
De um delta humilde, apodrecer sozinho
No silêncio de minha pequenez! Tentava compreender com as conceptivas
Funções do encéfalo as substâncias vivas
Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam...
2. adstringir-me: do verbo “adstringir-se”, comprimir-se, limitar-se.
4. liliputianas: referência à ilha de Liliput, imaginada pelo satirista anglo-
irlandês Johnathan Swift (1667-1745) em seu romance As viagens de
E via em mim, coberto de desgraças,
Gulliver, na qual as pessoas não medem mais do que seis polegadas. O resultado de bilhões de raças
5. zoófitos: animais invertebrados que se parecem com plantas; lianas: Que há muitos anos desapareceram!
plantas trepadeiras parasitas.
7. cloaca: fossa onde se atiram dejetos e imundícies.
9. Éolo: na mitologia grega, é o deus dos ventos.
10. heliogabálica: referência a Heliogábalo (205-222 d. C.), imperador de II
Roma conhecido pela crueldade e pela devassidão.
12. delta: a quarta letra do alfabeto grego, de forma triangular, Minha angústia feroz não tinha nome.
correspondente ao nosso d.
Ali, na urbe natal do Desconsolo,
Eu tinha de comer o último bolo
Que Deus fazia para a minha fome!
60 61
Convulso, o vento entoava um pseudopsalmo. Ah! Somente eu compreendo, satisfeito,
Contrastando, entretanto, com o ar convulso A incógnita psiquê das massas mortas
A noite funcionava como um pulso Que dormem, como as ervas, sobre as hortas,
Fisiologicamente muito calmo. Na esteira igualitária do teu leito!

Caíam sobre os meus centros nervosos, O vento continuava sem cansaço


Como os pingos ardentes de cem velas, E enchia com a fluidez do eólico hissope
O uivo desenganado das cadelas Em seu fantasmagórico galope
E o gemido dos homens bexigosos. A abundância geométrica do espaço.

Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Meu ser estacionava, olhando os campos
Mas, em cima de um túmulo, um cachorro Circunjacentes. No Alto, os astros miúdos
Pedia para mim água e socorro Reduziam os Céus sérios e rudos
À comiseração dos transeuntes! A uma epiderme cheia de sarampos!

Bruto, de errante rio, alto e hórrido, o urro


Reboava. Além jazia aos pés da serra, III
Criando as superstições de minha terra,
A queixada específica de um burro! Dormia em baixo, com a promíscua véstia
No embotamento crasso dos sentidos,
Gordo adubo de agreste urtiga brava, A comunhão dos homens reunidos
Benigna água, magnânima e magnífica, Pela camaradagem da moléstia.
Em cuja álgida unção, branda e beatífica,
A Paraíba indígena se lava! Feriam-me o nervo óptico e a retina
Aponevroses e tendões de Aquiles,
A manga, a ameixa, a amêndoa, a abóbora, o álamo Restos repugnantíssimos de bílis,
E a câmara odorífera dos sumos Vômitos impregnados de ptialina.
Absorvem diariamente o ubérrimo húmus
Que Deus espalha à beira do teu tálamo! Da degenerescência étnica do Ária
Se escapava, entre estrépitos e estouros,
Nos de teu curso desobstruídos trilhos, Reboando pelos séculos vindouros,
Apenas eu compreendo, em quaisquer horas, O ruído de uma tosse hereditária.
O hidrogênio e o oxigênio que tu choras
Pelo falecimento dos teus filhos!
62 63
Oh! desespero das pessoas tísicas, Não haver terapêutica que arranque
Adivinhando o frio que há nas lousas, Tanta opressão como se, com efeito,
Maior felicidade é a destas cousas Lhe houvessem sacudido sobre o peito
Submetidas apenas às leis físicas! A máquina pneumática de Bianchi!

Estas, por mais que os cardos grandes rocem E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba
Seus corpos brutos, dores não recebem; A erguer, como um cronômetro gigante,
Estas dos bacalhaus o óleo não bebem, Marcando a transição emocionante
Estas não cospem sangue, estas não tossem! Do lar materno para a catacumba!

Descender dos macacos catarríneos, Mas vos não lamenteis, magras mulheres,
Cair doente e passar a vida inteira Nos ardores danados da febre hética,
Com a boca junto de uma escarradeira, Consagrando vossa última fonética
Pintando o chão de coágulos sangüíneos! A uma recitação de misereres.

Sentir, adstritos ao quimiotropismo Antes levardes ainda uma quimera


Erótico, os micróbios assanhados Para a garganta onívora das lajes
Passearem, como inúmeros soldados, Do que morrerdes, hoje, urrando ultrajes
Nas cancerosidades do organismo! Contra a dissolução que vos espera!

Falar somente uma linguagem rouca, Porque a morte, resfriando-vos o rosto,


Um português cansado e incompreensível, Consoante a minha concepção vesânica,
Vomitar o pulmão na noite horrível É a alfândega, onde toda a vida orgânica
Em que se deita sangue pela boca! Há de pagar um dia o último imposto!

Expulsar, aos bocados, a existência


Numa bacia autômata de barro,
Alucinado, vendo em cada escarro
O retrato da própria consciência! IV
Começara a chover. Pelas algentes
Querer dizer a angústia de que é pábulo, Ruas, a água, em cachoeiras desobstruídas,
E com a respiração já muito fraca Encharcava os buracos das feridas,
Sentir como que a ponta de uma faca, Alagava a medula dos Doentes!
Cortando as raízes do último vocábulo!
64 65
Do fundo do meu trágico destino, E sentia-se pior que um vagabundo
Onde a Resignação os braços cruza, Microcéfalo vil que a espécie encerra,
Saía, com o vexame de uma fusa, Desterrado na sua própria terra,
A mágoa gaguejada de um cretino. Diminuído na crônica do mundo!

Aquele ruído obscuro de gagueira A hereditariedade dessa pecha


Que a noite, em sonhos mórbidos, me acorda, Seguiria seus filhos. Dora em diante
Vinha da vibração bruta da corda Seu povo tombaria agonizante
Mais recôndita da alma brasileira! Na luta da espingarda contra a flecha!

Aturdia-me a tétrica miragem Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos


De que, naquele instante, no Amazonas, Uma desesperada ânsia improfícua
Fedia, entregue a vísceras glutonas, De estrangular aquela gente iníqua
A carcaça esquecida de um selvagem. Que progredia sobre os seus despojos!

A civilização entrou na taba Mas, diante a xantocróide raça loura,


Em que ele estava. O gênio de Colombo Jazem, caladas, todas as inúbias,
Manchou de opróbrios a alma do mazombo, E agora, sem difíceis nuanças dúbias,
Cuspiu na cova do morubixaba! Com uma clarividência aterradora,

E o índio, por fim, adstrito à étnica escória, Em vez da prisca tribo e indiana tropa
Recebeu, tendo o horror no rosto impresso, A gente deste século, espantada,
Esse achincalhamento do progresso Vê somente a caveira abandonada
Que o anulava na crítica da História! De uma raça esmagada pela Europa!

Como quem analisa uma apostema,


De repente, acordando na desgraça,
Viu toda a podridão de sua raça
Na tumba de Iracema!... V
Era a hora em que arrastados pelos ventos,
Ah! Tudo, como um lúgubre ciclone, Os fantasmas hamléticos dispersos
Exercia sobre ele ação funesta Atiram na consciência dos perversos
Desde o desbravamento da floresta A sombra dos remorsos famulentos.
À ultrajante invenção do telefone.
66 67
As mães sem coração rogavam pragas E, como um homem doido que se enforca,
Aos filhos bons. E eu, roído pelos medos, Tentava, na terráquea superfície,
Batia com o pentágono dos dedos Consubstanciar-me todo com a imundície,
Sobre um fundo hipotético de chagas! Confundir-me com aquela coisa porca!

Diabólica dinâmica daninha Vinha, às vezes, porém, o anelo instável


Oprimia meu cérebro indefeso De, com o auxílio especial do osso masséter,
Com a força onerosíssima de um peso Mastigando homeomérias neutras de éter
Que eu não sabia mesmo de onde vinha. Nutrir-me de matéria imponderável.

Perfurava-me o peito a áspera pua Anelava ficar um dia, em suma,


Do desânimo negro que me prostra, Menor que o anfióxus e inferior à tênia,
E quase a todos os momentos mostra Reduzido à plastídula homogênea,
Minha caveira aos bêbedos da rua. Sem diferenciação de espécie alguma.

Hereditariedades politípicas Era (nem sei em síntese o que diga)


Punham na minha boca putrescível Um velhíssimo instinto atávico, era
Interjeições de abracadabra horrível A saudade inconsciente da monera
E os verbos indignados das Filípicas. Que havia sido minha mãe antiga!

Todos os vocativos dos blasfemos, Com o horror tradicional da raiva corsa


No horror daquela noite monstruosa, Minha vontade era, perante a cova,
Maldiziam, com voz estentorosa, Arrancar do meu próprio corpo a prova
A peçonha inicial de onde nascemos. Da persistência trágica da força.

Como que havia na ânsia de conforto A pragmática má de humanos usos


De cada ser, ex.: o homem e o ofídio, Não compreende que a Morte que não dorme
Uma necessidade de suicídio É a absorção do movimento enorme
E um desejo incoercível de ser morto! Na dispersão dos átomos difusos.

Naquela angústia absurda e tragicômica Não me incomoda esse último abandono.


Eu chorava, rolando sobre o lixo, Se a carne individual hoje apodrece,
Com a contorção neurótica de um bicho Amanhã, como Cristo, reaparece
Que ingeriu 30 gramas de nux vomica. Na universalidade do carbono!
68 69
A vida vem do éter que se condensa, E ensangüentava os dedos da mão nívea
Mas o que mais no Cosmos me entusiasma Com o sentimento gasto e a emoção pobre,
É a esfera microscópica do plasma Nessa alegria bárbara que cobre
Fazer a luz do cérebro que pensa. Os saracoteamentos da lascívia...

Eu voltarei, cansado da árdua liça, De certo, a perversão de que era presa


À substância inorgânica primeva, O sensorium daquela prostituta
De onde, por epigênesis, veio Eva Vinha da adaptação quase absoluta
E a stirpe radiolar chamada Actissa! À ambiência microbiana da baixeza!

Quando eu for misturar-me com as violetas, Entanto, virgem fostes, e, quando o éreis,
Minha lira, maior que a Bíblia e a Fedra, Não tínheis ainda essa erupção cutânea,
Reviverá, dando emoção à pedra, Nem tínheis, vítima última da insânia,
Na acústica de todos os planetas! Duas mamárias glândulas estéreis!

Ah! Certamente, não havia ainda


Rompido, com violência, no horizonte,
O sol malvado que secou a fonte
VI De vossa castidade agora finda!
À álgida agulha, agora, alva, a saraiva
Caindo, análoga era... Um cão agora Talvez tivésseis fome, e as mãos, embalde,
Punha a atra língua hidrófoba de fora Estendestes ao mundo, até que, à toa,
Em contrações miológicas de raiva. Fostes vender a virginal coroa
Ao primeiro bandido do arrabalde.
Mas, para além, entre oscilantes chamas,
Acordavam os bairros da luxúria... E estais velha! – De vós o mundo é farto,
As prostitutas, doentes de hematúria, E hoje, que a sociedade vos enxota,
Se extenuavam nas camas. Somente as bruxas negras da derrota
Freqüentam diariamente vosso quarto!
Uma, ignóbil, derreada de cansaço,
Quase que escangalhada pelo vício, Prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes
Cheirava com prazer no sacrifício Longe da mancebia dos alcouces,
A lepra má que lhe roía o braço! Nas quietudes nirvânicas mais doces,
O noivado que em vida não tivestes!
70 71
VII A estática fatal das paixões cegas,
Rugindo fundamente nos neurônios,
Quase todos os lutos conjugados, Puxava aquele povo de demônios
Como uma associação de monopólio, Para a promiscuidade das adegas.
Lançavam pinceladas pretas de óleo
Na arquitetura arcaica dos sobrados. E a ébria turba que escaras sujas masca,
À falta idiossincrásica de escrúpulo,
Dentro da noite funda um braço humano Absorvia com gáudio absinto, lúpulo
Parecia cavar ao longe um poço E outras substâncias tóxicas da tasca.
Para enterrar minha ilusão de moço,
Como a boca de um poço artesiano! O ar ambiente cheirava a ácido acético,
Mas, de repente, com o ar de quem empesta,
Atabalhoadamente pelos becos, Apareceu, escorraçando a festa,
Eu pensava nas coisas que perecem, A mandíbula inchada de um morfético!
Desde as musculaturas que apodrecem
À ruína vegetal dos lírios secos. Saliências polimórficas vermelhas,
Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo,
Cismava no propósito funéreo Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo
Da mosca debochada que fareja Tamanho aberratório das orelhas.
O defunto, no chão frio da igreja,
E vai depois levá-lo ao cemitério! O fácies do morfético assombrava!
– Aquilo era uma negra eucaristia,
E esfregando as mãos magras, eu, inquieto, Onde minh’alma inteira surpreendia
Sentia, na craniana caixa tosca, A Humanidade que se lamentava!
A racionalidade dessa mosca,
A consciência terrível desse inseto! Era todo o meu sonho, assim inchado,
Já podre, que a morféia miserável
Regougando, porém, argots e aljâmias, Tornava às impressões tactis palpável,
Como quem nada encontra que o perturbe, Como se fosse um corpo organizado!
A energúmena grei dos ébrios da urbe
Festejava seu sábado de infâmias.

72 73
VIII É possível que o estômago se afoite
(Muito embora contra isto a alma se irrite)
Em torno a mim, nesta hora, estriges voam, A cevar o antropófago apetite,
E o cemitério, em que eu entrei adrede, Comendo carne humana, à meia-noite!
Dá-me a impressão de um boulevard que fede,
Pela degradação dos que o povoam. Com uma ilimitadíssima tristeza,
Na impaciência do estômago vazio,
Quanta gente, roubada à humana coorte, Eu devorava aquele bolo frio
Morre de fome, sobre a palha espessa, Feito das podridões da Natureza!
Sem ter, como Ugolino, uma cabeça
Que possa mastigar na hora da morte; E hirto, a camisa suada, a alma aos arrancos,
Vendo passar com as túnicas obscuras
E nua, após baixar ao caos budista, As escaveiradíssimas figuras
Vem para aqui, nos braços de um canalha, Das negras desonradas pelos brancos;
Porque o madapolão para a mortalha
Custa 1$200 ao lojista! Pisando, como quem salta, entre fardos,
Nos corpos nus das moças hotentotes
Que resta das cabeças que pensaram?! Entregues, ao clarão de alguns archotes,
E afundado nos sonhos mais nefastos, À sodomia indigna dos moscardos;
Ao pegar num milhão de miolos gastos,
Todos os meus cabelos se arrepiaram. Eu maldizia o deus de mãos nefandas
Que, transgredindo a igualitária regra
Os evolucionismos benfeitores Da Natureza, atira a raça negra
Que por entre os cadáveres caminham, Ao contubérnio diário das quitandas!
Iguais a irmãs de caridade, vinham
Com a podridão dar de comer às flores! Na evolução de minha dor grotesca,
Eu mendigava aos vermes insubmissos,
Os defuntos então me ofereciam Como indenização dos meus serviços,
Com as articulações das mãos inermes, O benefício de uma cova fresca.
Num prato de hospital, cheio de vermes,
Todos os animais que apodreciam! Manhã. E eis-me a absorver a luz de fora,
Como o íncola do pólo ártico, às vezes,
Absorve, após a noite de seis meses,
Os raios caloríficos da aurora.
74 75
Nunca mais as goteiras cairiam Um céu calamitoso de vingança
Como propositais setas malvadas, Desagregava, déspota e sem normas,
No frio matador das madrugadas, O adesionismo biôntico das formas
Por sobre o coração dos que sofriam! Multiplicadas pela lei da herança!

Do meu cérebro à absconsa tábua rasa A ruína vinha horrenda e deletéria


Vinha a luz restituir o antigo crédito, Do subsolo infeliz, vinha de dentro
Proporcionando-me o prazer inédito Da matéria em fusão que ainda há no centro,
De quem possui um sol dentro de casa. Para alcançar depois a periféria!

Era a volúpia fúnebre que os ossos Contra a Arte, oh! Morte, em vão teu ódio exerces!
Me inspiravam, trazendo-me, ao sol claro, Mas, a meu ver, os sáxeos prédios tortos
À apreensão fisiológica do faro Tinham aspectos de edifícios mortos,
O odor cadaveroso dos destroços! Decompondo-se desde os alicerces!

A doença era geral, tudo a extenuar-se


Estava. O Espaço abstrato que não morre
Cansara... O ar que, em colônias fluidas, corre,
IX Parecia também desagregar-se!
O inventário do que eu já tinha sido
Espantava. Restavam só de Augusto Os pródromos de um tétano medonho
A forma de um mamífero vetusto Repuxavam-me o rosto... Hirto de espanto,
E a cerebralidade de um vencido! Eu sentia nascer-me n’alma, entanto,
O começo magnífico de um sonho!
O gênio procriador da espécie eterna
Que me fizera, em vez de hiena ou lagarta, Entre as formas decrépitas do povo,
Uma sobrevivência de Sidarta, Já batiam por cima dos estragos
Dentro da filogênese moderna; A sensação e os movimentos vagos
Da célula inicial de um Cosmos novo!
E arrancara milhares de existências
Do ovário ignóbil de uma fauna imunda, O letargo larvário da cidade
Ia arrastando agora a alma infecunda Crescia. Igual a um parto, numa furna,
Na mais triste de todas as falências. Vinha da original treva noturna,
O vagido de uma outra Humanidade!
76 77
E eu, com os pés atolados no Nirvana, 89. macacos catarríneos: os primatas catarrinos, que se caracterizam pelo
septo nasal estreito e têm as narinas voltadas para baixo; são
Acompanhava, com um prazer secreto, ancestrais diretos do homem, conforme Haeckel.
A gestação daquele grande feto, 83. adstritos: ligados, pertencentes.
Que vinha substituir a Espécie Humana! 83-4. quimiotropismo / Erótico: a predisposição química que leva duas
células (por exemplo um espermatozóide e um óvulo) a se atraírem,
fundindo-se numa terceira.
95. pábulo: alimento.
I 102. Bianchi: o construtor de aparelhos científicos francês Barthélémy-
2. lázaros: doentes de lepra. Urbain Bianchi (1821-1898), inventor de uma máquina pneumática
11. Spencer: o filósofo inglês Herbert Spencer (1820-1903), que tentou rotatória capaz de produzir o vácuo, apresentada na Exposição
explicar todos os fenômenos do mundo a partir da teoria da Universal de 1855, em Paris.
evolução; Haeckel: Ernst Haeckel (1834-1919), biólogo evolucionista 108. febre hética: a tuberculose.
alemão, autor de obras de divulgação científica como A evolução do 110. misereres: preces por piedade; da expressão em latim “miserere
homem (1874) e Enigmas do universo (1899), nas quais expôs sua visão nobis”, que significa “tem piedade de nós” e consta do texto em
do Monismo, doutrina evolucionista que rejeita qualquer tipo de latim da missa.
separação entre a matéria e o espírito, negando a existência de um 111. quimera: sonho, fantasia, ilusão.
mundo “espiritual” para além da natureza e postulando a teoria de 112. onívora: que come de tudo.
que todas as coisas se formaram a partir de uma única substância 116. vesânica: enlouquecida.
universal, inclusive as almas individuais. IV
II 119. algentes: frias.
19. pseudopsalmo, pseudo-salmo: os salmos eram cânticos sagrados dos 131. tétrica: fúnebre, horrível.
hebreus; manteve-se aqui a ortografia da primeira edição, que traz 133. glutonas: que comem demais, gulosas.
um efeito de aliteração perdido na grafia hoje corrente. 136. Colombo: o navegador genovês Cristóvão Colombo (1436-1506).
37. álgida: muito fria. 137. opróbrios: injúrias, infâmias; mazombo: descendente de estrangeiros
39. álamo: choupo, espécie de árvore ornamental. (sobretudo portugueses) nascido no Brasil colonial.
41. ubérrimo: muito fecundo. 138. morubixaba: cacique.
42. tálamo: leito conjugal; em sentido figurado, o leito do rio. 143. apostema: um tipo de abscesso.
48. psiquê: a alma, mente. 146. Iracema: a índia tabajara dos “lábios de mel”, heroína do romance
52. eólico: relativo ao vento; hissope: aspersório, instrumento com o qual homônimo do cearense José de Alencar (1829-1877), que se
o padre asperge a água benta sobre os fiéis. apaixona pelo português Martim.
56. circunjacentes: que estão nos arredores. 152. microcéfalo: pessoa de cabeça pequena.
III 156. Dora em diante: doravante, de agora em diante.
64. aponevroses: membranas fibrosas que envolvem os músculos 159. antojos: os desejos que acometem as mulheres grávidas.
esqueléticos; tendões de Aquiles: os que ligam a perna ao calcanhar. 163. xantocróide: de aparência amarela e saudável.
65. bílis: líquido esverdeado e viscoso segregado pelo fígado. 164. inúbias: espécie de trombeta indígena.
66. ptialina: a saliva fermentada. 167. prisca: antiga.
67. Ária: povo dito ariano, de origem indo-européia, que invadiu a V
Índia no período védico (por volta do ano 1500 a.C.). 172. hamléticos: alusão a Hamlet, o melancólico príncipe da Dinamarca,
71. tísicas: tuberculosas. cuja história é narrada numa peça de William Shakespeare (1564-
75. cardos: uma espécie de praga vegetal. 1616), A tragédia de Hamlet.
174. famulentos: faminto, voraz.
181. onerosíssima: muito pesada.

78 79
183. pua: broca ou ponta aguda. 235. liça: luta, combate.
187. politípicas: de variados tipos. 236. primeva: primitiva, original.
190. Filípicas: os três discursos do orador grego Demóstenes (384?-322 237. epigênesis, epigênese: a formação gradual de estruturas cada vez
a. C.) contra Filipe II da Macedônia, proferidos entre 351 e 341 a. mais complexas, num embrião, a partir de uma única célula
C. indiferenciada, ou ovo fecundado.
193. estentorosa: muito forte e ruidosa. 238. a stirpe radiolar chamada Actissa: a estirpe dos seres radiolários, que
201. neurótica: nervosa. são protozoários marinhos; sua origem estaria na espécie Actissa
202. nux vomica, noz-vômica: substância tóxica extraída da casca e das radiata.
sementes da árvore de mesmo nome; na homeopatia, é usada em 240. Fedra: a última e mais famosa tragédia escrita pelo classicista
pequenas doses no tratamento de males que vão desde a gastrite e a francês Jean Racine (1633-1699).
enxaqueca até a neurastenia e a “ressaca” alcoólica. VI
205. consubstanciar-me: do verbo “consubstanciar-se”, unir-se, identificar- 243. saraiva: granizo.
se. 245. hidrófoba: que tem hidrofobia, raiva.
207. anelo: desejo, anseio. 246. miológicas: musculares.
208. osso masséter: masseter, mandíbula. 249. hematúria: emissão de urina com sangue.
209. homeomérias, homeomerias: segundo o filósofo grego Anaxágoras 260. sensorium: o sistema fisiológico humano da percepção e da
(499-428 a. C.), quaisquer porções do mundo material que, apesar sensibilidade.
de conterem toda a variedade do mundo, possam ser caracterizadas 263. Entanto: no entanto, todavia.
por uma substância preponderante ou dominante; éter: segundo 271. embalde: inutilmente.
Haeckel, é a “matéria imponderável” (ou seja, sem peso) que 280. mancebia: vida desregrada; alcouces: prostíbulos, bordéis.
preenche os espaços vazios e constitui uma das duas formas 281. nirvânicas: relativas ao Nirvana, que segundo os budistas é o estado
existentes da substância primordial que gerou todo o Cosmos espiritual de beatitude e felicidade no qual se atinge a extinção do
(sendo a outra a “massa”, que é a “matéria ponderável”). sofrimento por meio da anulação do desejo e da consciência
210. imponderável: sem peso e impalpável. individual.
211. Anelava: do verbo “anelar”, desejar. VII
212. anfióxus: animal marinho pequeno e transparente, considerado o 303. Regougando: do verbo “regougar”, falar em tom áspero e gutural;
mais primitivo dos vertebrados; tênia: solitária, espécie de verme argots: gíria, em francês; aljâmias, aljamias: palavras de uma língua
parasita. incompreensível; o acento foi deslocado como licença poética.
213. plastídula: termo criado por Haeckel para designar as moléculas do 305. energúmena: boçal, ignorante; grei: povo.
plasma celular, como a unidade mais básica da vida. 311. escaras: crosta que se forma em certas partes da pele das pessoas
214. diferenciação: o desenvolvimento, num embrião, de órgãos e partes acamadas.
corporais a partir de estruturas mais simples. 313. gáudio: alegria; absinto: bebida alcoólica muito forte e tóxica; lúpulo:
216. atávico: transmitido por atavismo, que é a hereditariedade latente um componente da cerveja.
que permite o reaparecimento, num descendente, de um traço só 314. tasca: taberna.
notado nos seus ascendentes remotos. 315. ácido acético: ácido de cheiro forte presente, por exemplo, no
217. monera: micoorganismos hipotéticos, unicelulares e sem núcleo, vinagre.
que, segundo Haeckel, terão sido os ancestrais de todas as formas 318. morfético: pessoa doente de lepra.
de vida hoje existentes. Haeckel criou a palavra “monera” a partir 319. polimórficas: de formas variadas.
do grego antigo monéres, significando originalmente “único”, 320. perspícuo: aguçado, penetrante.
“solitário”. Na biologia atual, o termo designa uma espécie de 323. fácies: o rosto.
bactérias unicelulares. 324. eucaristia: ponto culminante da missa, quando o padre celebra o
219. corsa: bárbara. vinho e a hóstia.
233. plasma: a matéria vital das células. 328. morféia: lepra.

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329. tactis: táteis. Asa de Corvo
331. estriges: feiticeiras.
332. adrede: de propósito.
333. boulevard: bulevar, avenida (em francês).
335. coorte: legião, multidão. Asa de corvos carniceiros, asa
337. Ugolino: Ugolino della Gherardesca, nobre italiano morto em 1289, De mau agouro que, nos doze meses,
que é retratado por Dante Alighieri (1265-1321) na Divina comédia,
no canto XXXIII do “Inferno”, roendo a cabeça de outro
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
condenado. O telhado de nossa própria casa...
341. madapolão: tecido grosso de algodão ou lã.
342. 1$200: leia-se “um conto e duzentos”, subentendendo-se mil e Perseguido por todos os reveses,
duzentos réis (na época, a moeda corrente também se chamava
“real”, mas o plural era diferente dos nossos atuais “reais”).
É meu destino viver junto a essa asa,
352. inermes: indefesas, inofensivas. Como a cinza que vive junto à brasa,
357. cevar: alimentar; antropófago: que come carne humana. Como os Goncourts, como os irmãos siameses!
363. hirto: inflexível, rígido.
365. escaveiradíssimas: muito descarnadas.
368. hotentotes: pertencentes a essa etnia do Sul da África.
É com essa asa que eu faço este soneto
369. archotes: tochas. E a indústria humana faz o pano preto
370. sodomia: devassidão; moscardos: uma espécie de mosca. Que as famílias de luto martiriza...
374. contubérnio: convivência ou coabitação, como no concubinato, em
que há união conjugal sem casamento; quitandas: mercados, praças.
380. íncola: habitante.
É ainda com essa asa extraordinária
382. caloríficos: que transmitem calor. Que a Morte – a costureira funerária –
387. absconsa: oculta, escondida. Cose para o homem a última camisa!
IX
395. inventário: descrição e partilha do patrimônio de um morto.
398. cerebralidade: o conjunto dos fenômenos que ocorrem no cérebro.
401. Sidarta: Sidarta Gautama, o Buda (563?-483? a. C.). 8. os Goncourts: os irmãos franceses Edmond e Jules de Goncourt
402. filogênese: filogenia, a história de toda a linhagem evolutiva de um (respectivamente, 1822-1896 e 1830-1870), que escreveram obras
ser vivo, desde os seus mais remotos ancestrais. em colaboração.
409. adesionismo biôntico: a união biológica.
411. deletéria: prejudicial, danosa.
414. periféria: periferia, o espaço ao redor; o acento foi deslocado como
licença poética.
416. sáxeos: pétreos.
423. pródromos: prenúncios.
431. letargo larvário: a letargia comparável à de uma larva.
432. furna: caverna, cova.
435. Nirvana: ver nota ao verso 281.

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Uma Noite no Cairo Resplandece a celeste superfície.
Dorme soturna a natureza sábia...
Em baixo, na mais próxima planície,
Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.

Noite no Egito. O céu claro e profundo Vaga no espaço um silfo solitário.


Fulgura. A rua é triste. A Lua Cheia Troam kinnors! Depois tudo é tranqüilo...
Está sinistra, e sobre a paz do mundo Apenas, como um velho stradivário,
A alma dos Faraós anda e vagueia. Soluça toda a noite a água do Nilo!

Os mastins negros vão ladrando à lua...


O Cairo é de uma formosura arcaica. 11. atro: escuro, sombrio.
13. misereres: preces por piedade; da expressão em latim “miserere
No ângulo mais recôndito da rua nobis”, que significa “tem piedade de nós” e consta do texto em
Passa cantando uma mulher hebraica. latim da missa.
19. razzia: razia, incursão rápida em território inimigo, para saqueá-lo;
O Egito é sempre assim quando anoitece! note-se que a palavra italiana originalmente é paroxítona (soando
como “ratzía”).
Às vezes, das pirâmides o quedo 22. conúbio: casamento; infando: nefando, abominável.
E atro perfil, exposto ao luar, parece 29. silfo: na mitologia céltica, o gênio do ar.
Uma sombria interjeição de medo! 30. kinnors: uma espécie de cítara, citada no livro do Gênesis (capítulo
4, versículo 21).
31. stradivário, estradivário: violino de qualidade excelente, como os
Como um contraste àqueles misereres, construídos pelo célebre fabricante Antonio Stradivari (1644-1737),
Num quiosque em festa a alegre turba grita, de Cremona.
E dentro dançam homens e mulheres
Numa aglomeração cosmopolita.

Tonto do vinho, um saltimbanco da Ásia,


Convulso e roto, no apogeu da fúria,
Executando evoluções de razzia
Solta um brado epiléptico de injúria!

Em derredor duma ampla mesa preta


– Última nota do conúbio infando –
Vêem-se dez jogadores de roleta
Fumando, discutindo, conversando.
84 85
O Martírio do Artista Duas Estrofes

(À memória de João de Deus)


Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova?
Tutti torniamo alla gran madre antica
Que em suas fronetais células guarda! E il nostro nome appena si ritrova.
Petrarca
Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento, A queda do teu lírico arrabil
Como o soldado que rasgou a farda De um sentimento português ignoto
No desespero do último momento! Lembra Lisboa, bela como um brinco,
Que um dia no ano trágico de mil
Tenta chorar e os olhos sente enxutos!... E setecentos e cinqüenta e cinco,
É como o paralítico que, à míngua Foi abalada por um terremoto!
Da própria voz e na que ardente o lavra
A água quieta do Tejo te abençoa.
Febre de em vão falar, com os dedos brutos, Tu representas toda essa Lisboa
Para falar, puxa e repuxa a língua, De glórias quase sobrenaturais,
E não lhe vem à boca uma palavra! Apenas com uma diferença triste,
Com a diferença que Lisboa existe
E tu, amigo, não existes mais!
2. elipsoidal: que tem a forma geométrica da elipse.
4. fronetais células: as células do pensamento, que, segundo o biólogo
evolucionista alemão Ernst Haeckel (1834-1919), seriam a sede
corporal da alma. Dedicatória: João de Deus (1830-1896) foi um poeta português, autor
de Campo de flores (1893).
Epígrafe: em italiano, significa “Ai! cegos! de que vale o tanto
afadigarmo-nos? / Todos regressamos à grande mãe antiga / E
dificilmente se reencontra o nosso nome”; o trecho pertence ao
poema Triunfo da morte, do italiano Francesco Petrarca (1304-1374),
mas é citado por Augusto dos Anjos de maneira truncada; a versão
original é assim: “O ciechi, el tanto affaticar che giova? / Tutti
tornate a la gran madre antica, / e ’l vostro nome a pena si ritrova”
(“Ó cegos, de que vale o tanto afadigar-vos? / Todos regressais à
grande mãe antiga, / E dificilmente se reencontra o vosso nome”).
1. arrabil: espécie de rabeca.

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O Mar, a Escada e o Homem Decadência

“Olha agora, mamífero inferior, Iguais às linhas perpendiculares


“À luz da epicurista ataraxia, Caíram, como cruéis e hórridas hastas,
“O fracasso de tua geografia Nas suas 33 vértebras gastas
“E do teu escafandro esmiuçador! Quase todas as pedras tumulares!

“Ah! jamais saberás ser superior, A frialdade dos círculos polares,


“Homem, a mim, conquanto ainda hoje em dia, Em sucessivas atuações nefastas,
“Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia Penetrara-lhe os próprios neuroplastas,
“Voando ao vento o vastíssimo vapor, Estragara-lhe os centros medulares!

“Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me!” Como quem quebra o objeto mais querido
E a verticalidade da Escada íngreme: E começa a apanhar piedosamente
“Homem, já transpuseste os meus degraus?!” Todas as microscópicas partículas,

E Augusto, o Hércules, o Homem, aos soluços, Ele hoje vê que, após tudo perdido,
Ouvindo a Escada e o Mar, caiu de bruços Só lhe restam agora o último dente
No pandemônio aterrador do Caos! E a armação funerária das clavículas!

2. epicurista: relativa ao Epicurismo, doutrina do filósofo grego 2. hastas: lanças.


materialista Epicuro (341-270 a. C.), que propõe a indiferença 7. neuroplastas: os núcleos das células nervosas.
diante da morte e associa o bem aos prazeres moderados e
espirituais; ataraxia: estado mental sereno e inteiramente livre de
perturbações e inquietações, buscado pelos epicuristas e os céticos
da Antigüidade.
9. árdega: ousada, impetuosa; singre-me: do verbo “singrar”, navegar.
12. Augusto: alusão ambígua a si próprio e ao primeiro imperador
romano, Octavianus Augustus (63 a. C. - 14 d. C.); Hércules: herói da
mitologia grega famoso por sua força extraordinária.

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Ricordanza della mia Gioventù A um Mascarado

A minha ama-de-leite Guilhermina Rasga esta máscara ótima de seda


Furtava as moedas que o Doutor me dava. E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos...
Sinhá-Mocinha, minha Mãe, ralhava... É noite, e, à noite, a escândalos e incestos
Via naquilo a minha própria ruína! É natural que o instinto humano aceda!

Minha ama, então, hipócrita, afetava Sem que te arranquem da garganta queda
Susceptibilidades de menina: A interjeição danada dos protestos,
“– Não, não fora ela! –” E maldizia a sina, Hás de engolir, igual a um porco, os restos
Que ela absolutamente não furtava. Duma comida horrivelmente azeda!

Vejo, entretanto, agora, em minha cama, A sucessão de hebdômadas medonhas


Que a mim somente cabe o furto feito... Reduzirá os mundos que tu sonhas
Tu só furtaste a moeda, o oiro que brilha... Ao microcosmos do ovo primitivo...

Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama, E tu mesmo, após a árdua e atra refrega,
Eu furtei mais, porque furtei o peito Terás somente uma vontade cega
Que dava leite para a tua filha! E uma tendência obscura de ser vivo!

Título: em italiano, “Lembrança da minha juventude”. 2. palimpsestos: antigo manuscrito sobre material que, como o
2. doutor: apelido de um primo do pai do poeta, Aprígio Carlos Pessoa pergaminho, podia ser raspado e reutilizado para outra camada de
de Melo. escritura.
3. Sinhá-Mocinha: apelido da mãe do poeta, D. Córdula. 4. aceda: do verbo “aceder”, assentir, aquiescer.
9. hebdômadas: semanas.
12. atra: sombria, agourenta.

90 91
Vozes de um Túmulo Contrastes

Morri! E a Terra – a mãe comum – o brilho A antítese do novo e do obsoleto,


Destes meus olhos apagou!... Assim O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,
Tântalo, aos reais convivas, num festim, O que o homem ama e o que o homem abomina,
Serviu as carnes do seu próprio filho! Tudo convém para o homem ser completo!

Por que para este cemitério vim?! O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Por quê?! Antes da vida o angusto trilho Uma feição humana e outra divina
Palmilhasse, do que este que palmilho São como a eximenina e a endimenina
E que me assombra, porque não tem fim! Que servem ambas para o mesmo feto!

No ardor do sonho que o fronema exalta Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Construí de orgulho ênea pirâmide alta... Por justaposição destes contrastes,
Hoje, porém, que se desmoronou Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,

A pirâmide real do meu orgulho, Às alegrias juntam-se as tristezas,


Hoje que apenas sou matéria e entulho E o carpinteiro que fabrica as mesas
Tenho consciência de que nada sou! Faz também os caixões do cemitério!...
3. Tântalo: personagem da mitologia grega que roubou os manjares dos
deuses para mostrá-los aos homens, e foi por isso condenado à sede 7. a eximenina e a endimenina: a exina e a intina, membranas externa e
e à fome eternas, porque a água e o alimento se afastavam dele interna, respectivamente, do grão de pólen.
sempre que tentava alcançá-los. 9. Eclesiastes: o Pregador ou o Sábio, a quem se atribui esse livro
6. angusto: apertado, estreito. sapiencial do Antigo Testamento.
9. fronema: do grego antigo phrónema, que quer dizer “pensamento”; na
filosofia do biólogo evolucionista alemão Ernst Haeckel (1834-
1919), é o “órgão [humano] do pensamento”.
10. ênea: de bronze.

92 93
Gemidos de Arte Por que Jeová, maior do que Laplace,
Não fez cair o túmulo de Plínio
Por sobre todo o meu raciocínio
Para que eu nunca mais raciocinasse?!

Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles


I Carinhos, com que guarda meus sapatos,
Por que me deu consciência dos meus atos
Para eu me arrepender de todos eles?!
Esta desilusão que me acabrunha
É mais traidora do que o foi Pilatos!... Quisera antes, mordendo glabros talos,
Por causa disto, eu vivo pelos matos, Nabucodonosor ser no Pau d’Arco,
Magro, roendo a substância córnea da unha. Beber a acre e estagnada água do charco,
Dormir na manjedoura com os cavalos!
Tenho estremecimentos indecisos
E sinto, haurindo o tépido ar sereno, Mas a carne é que é humana! A alma é divina.
O mesmo assombro que sentiu Parfeno Dorme num leito de feridas, goza
Quando arrancou os olhos de Dionisos! O lodo, apalpa a úlcera cancerosa,
Beija a peçonha, e não se contamina!
Em giro e em redemoinho em mim caminham
Ríspidas mágoas estranguladoras, Ser homem! escapar de ser aborto!
Tais quais, nos fortes fulcros, as tesouras Sair de um vente inchado que se anoja,
Brônzeas também giram e redemoinham. Comprar vestidos pretos numa loja
E andar de luto pelo pai que é morto!
Os pães – filhos legítimos dos trigos –
Nutrem a geração do Ódio e da Guerra... E por trezentos e sessenta dias
Os cachorros anônimos da terra Trabalhar e comer! Martírios juntos!
São talvez os meus únicos amigos! Alimentar-se dos irmãos defuntos,
Chupar os ossos das alimarias!
Ah! Por que desgraçada contingência
À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Barulho de mandíbulas e abdômens!
Da rocha brava, numa ininterrupta E vem-me com um desprezo por tudo isto
Adesão, não prendi minha existência?! Uma vontade absurda de ser Cristo
Para sacrificar-me pelos homens!
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Soberano desejo! Soberana Avisto o vulto das sombrias granjas
Ambição de construir para o homem uma Perdidas no alto... Nos terrenos baixos,
Região, onde não cuspa língua alguma Das laranjeiras eu admiro os cachos
O óleo rançoso da saliva humana! E a ampla circunferência das laranjas.

Uma região sem nódoas e sem lixos, Ladra furiosa a tribo dos podengos.
Subtraída à hediondez de ínfimo casco, Olhando para as pútridas charnecas
Onde a forca feroz coma o carrasco Grita o exército avulso das marrecas
E o olho do estuprador se encha de bichos! Na úmida copa dos bambus verdoengos.

Outras constelações e outros espaços Um pássaro, alvo artífice da teia


Em que, no agudo grau da última crise, De um ninho, salta, no árdego trabalho,
O braço do ladrão se paralise De árvore em árvore e de galho em galho,
E a mão da meretriz caia aos pedaços! Com a rapidez duma semicolcheia.

Em grandes semicírculos aduncos,


Entrançados, pelo ar, largando pêlos,
II Voam à semelhança de cabelos
Os chicotes finíssimos dos juncos.
O sol agora é de um fulgor compacto,
E eu vou andando, cheio de chamusco, Os ventos vagabundos batem, bolem
Com a flexibilidade de um molusco, Nas árvores. O ar cheira. A terra cheira...
Úmido, pegajoso e untuoso ao tacto! E a alma dos vegetais rebenta inteira
De todos os corpúsculos do pólen.
Reúnam-se em rebelião ardente e acesa
Todas as minhas forças emotivas A câmara nupcial de cada ovário
E armem ciladas como cobras vivas Se abre. No chão coleia a lagartixa.
Para despedaçar minha tristeza! Por toda a parte a seiva bruta esguicha
Num extravasamento involuntário.
O sol de cima espiando a flora moça
Arda, fustigue, queime, corte, morda!... Eu, depois de morrer, depois de tanta
Deleito a vista na verdura gorda Tristeza, quero, em vez do nome – Augusto,
Que nas hastes delgadas se balouça! Possuir aí o nome dum arbusto
Qualquer ou de qualquer obscura planta!
96 97
III O cupim negro broca o âmago fino
Do teto. E traça trombas de elefantes
Pelo acidentadíssimo caminho Com as circunvoluções extravagantes
Faísca o sol. Nédios, batendo a cauda, Do seu complicadíssimo intestino.
Urram os bois. O céu lembra uma lauda
Do mais incorruptível pergaminho. O lodo obscuro trepa-se nas portas.
Amontoadas em grossos feixes rijos,
Uma atmosfera má de incômoda hulha As lagartixas dos esconderijos
Abafa o ambiente. O aziago ar morto a morte Estão olhando aquelas coisas mortas!
Fede. O ardente calor da areia forte
Racha-me os pés como se fosse agulha. Fico a pensar no Espírito disperso
Que unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança,
Não sei que subterrânea e atra voz rouca, Como um anel enorme de aliança,
Por saibros e por cem côncavos vales, Une todas as coisas do Universo!
Como pela avenida das Mappales,
Me arrasta à casa do finado Tôca! E assim pensando, com a cabeça em brasas
Ante a fatalidade que me oprime,
Todas as tardes a esta casa venho. Julgo ver este Espírito sublime,
Aqui, outrora, sem conchego nobre, Chamando-me do sol com as suas asas!
Viveu, sentiu e amou este homem pobre
Que carregava canas para o engenho! Gosto do sol ignívomo e iracundo
Como o reptil gosta quando se molha
Nos outros tempos e nas outras eras, E na atra escuridão dos ares olha
Quantas flores! Agora, em vez de flores, Melancolicamente para o mundo!
Os musgos, como exóticos pintores,
Pintam caretas verdes nas taperas. Essa alegria imaterializada,
Que por vezes me absorve, é o óbolo obscuro,
Na bruta dispersão de vítreos cacos, É o pedaço já podre de pão duro
À dura luz do sol resplandecente, Que o miserável recebeu na estrada!
Trôpega e antiga, uma parede doente
Mostra a cara medonha dos buracos. Não são os cinco mil milhões de francos
Que a Alemanha pediu a Jules Favre...
É o dinheiro coberto de azinhavre
Que o escravo ganha, trabalhando aos brancos!
98 99
Seja este sol meu último consolo; 21. Laplace: o matemático e astrônomo francês Pierre Simon, Marquês
de Laplace (1749-1827).
E o espírito infeliz que em mim se encarna 22. Plínio: o naturalista romano Caius Plinius Secundus, ou Plínio o
Se alegre ao sol, como quem raspa a sarna, Velho (23-79 d. C.), que morreu asfixiado enquanto examinava de
Só, com a misericórdia de um tijolo!... perto uma erupção do Vesúvio, onde ficou sepultado.
29. glabros: sem pêlos.
30. Nabucodonosor: rei da Babilônia, morto no ano 562 a. C., que destruiu
Tudo enfim a mesma órbita percorre Jerusalém em 586 a. C.; consta do livro bíblico de Daniel que ele
E as bocas vão beber o mesmo leite... teria enlouquecido e vivido isolado entre as feras do campo antes de
A lamparina quando falta o azeite reconhecer a divindade de Jeová; Pau d’Arco: o nome do engenho da
Morre, da mesma forma que o homem morre. família do poeta, na Várzea do Paraíba.
37: se anoja: do verbo “anojar-se”, que significa tanto “incomodar-se”
quanto “enlutar-se”.
Súbito, arrebentando a horrenda calma, 44. alimarias, alimárias: animais de carga; o acento foi deslocado como
Grito, e se grito é para que meu grito licença poética.
Seja a revelação deste Infinito II
64. untuoso: escorregadio.
Que eu trago encarcerado na minh’alma! 77. podengos: cães de caça.
78. charnecas: charcos, pântanos.
Sol brasileiro! Queima-me os destroços! 80. verdoengos: esverdeados.
Quero assistir, aqui, sem pai que me ame, 82. árdego: árduo.
85. aduncos: curvo, em forma de gancho.
De pé, à luz da consciência infame, 94. coleia: do verbo “colear”, arrastar-se sinuosamente.
À carbonização dos próprios ossos! III
102. Nédios: luzidios.
Pau d’Arco, 4-5-1907. 105. hulha: carvão.
106. aziago: agourento, que dá azar.
109. atra: tenebrosa, medonha.
111. Mappales: Mappalia, localidade além dos muros de Cartago, onde
I foi enterrado o mártir cristão S. Cipriano, decapitado no ano 258 d.
1. acabrunha: do verbo “acabrunhar”, abater, prostrar. C.
4. córnea: que tem a natureza dos cornos dos animais. 134. gneiss: gnaisse, tipo de rocha cristalina.
6. haurindo: do verbo “haurir”, aspirar; tépido: morno. 141. ignívomo: que vomita fogo; iracundo: irascível, colérico.
7-8. Parfeno, Dionisos: personagens de identificação difícil; Dionisos 141. reptil: réptil.
pode ser o deus grego do vinho e da luxúria, que na infância foi 146. óbolo: esmola, dádiva.
devorado pelos Titãs e reconstituído por sua mãe, Semele; mas 150. Jules Favre: estadista francês (1809-1880) que, após a derrota da
também pode ser um dos muitos mártires da Igreja cristã primitiva França na guerra Franco-Prussiana, em 1871, negociou o tratado de
que tinham esse nome e morreram entre os séculos II e III paz com a recém-unificada Alemanha, que exigiu dos franceses
(católicos e ortodoxos reconhecem pelo menos 15 santos e beatos pesadas indenizações.
chamados Dionisos, entre os quais o padroeiro da França, morto 151. azinhavre: camada verde que se forma na superfície dos objetos de
em 258 d. C. e mais conhecido como São Denis). cobre e latão, quando expostos ao ar úmido.
18. híspida: dura, retesada; sáxea: pétrea.

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Versos de Amor É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
A um poeta erótico Como anda a garça acima dos açudes!

Para reproduzir tal sentimento


Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Marsias – o inventor da flauta –
Vou inventar também outro instrumento!
Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a... Ilusão treda! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo
O amor, poeta, é como a cana azeda, Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
A toda a boca que o não prova engana. Possam todas as línguas decliná-lo,
Possam todos os homens compreendê-lo!
Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo, Para que, enfim, chegando à última calma
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo, Meu podre coração roto não role,
Todas as ciências menos esta ciência! Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d’alma!
Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo,
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte Pau d’Arco – Agosto – 1907.
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo. 2. treda: traiçoeira.
10. acinte: de propósito.
16. consoante o qual: segundo o qual.
Oposto ideal ao meu ideal conservas. 18. éter: segundo o biólogo evolucionista alemão Ernst Haeckel (1834-
Diverso é, pois, o ponto outro de vista 1919), é a “matéria imponderável” (ou seja, sem peso) que preenche
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta como um fluido os espaços vazios e constitui uma das duas formas
existentes da substância primordial que gerou todo o Cosmos
Modo de ver, consoante o qual, o observas. (sendo a outra a “massa”, que é a “matéria ponderável”).
21. transubstanciação: mudança de substância.
Porque o amor, tal como eu o estou amando, 22. imponderabilíssima: muito imponderável, impossível de pesar.
É espírito, é éter, é substância fluida, 26. cauta: cautelosa.
27. Marsias, Mársias: na mitologia grega, sátiro natural da Frígia que
É assim como o ar que a gente pega e cuida, Zeus teria transformado em rio.
Cuida, entretanto, não o estar pegando!

102 103
Sonetos E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
I “Acorda-o!” deixa-o, Mãe, dormir primeiro!

A meu Pai doente E saí para ver a Natureza!


Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Para onde fores, Pai, para onde fores, Nem uma névoa no estrelado véu...
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas, Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Eu, para amenizar as minhas dores! Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!
Que cousa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas III
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!
Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra.
Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria, Em seus lábios que os meus lábios osculam
Indiferente aos mil tormentos teus Microrganismos fúnebres pululam
De assim magoar-te sem pesar havia?! Numa fermentação gorda de cidra.

– Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
É bom, é justo, e sendo justo, Deus, A uma só lei biológica vinculam,
Deus não havia de magoar-te assim! E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!...

II Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos


Roída toda de bichos, como os queijos
A meu Pai morto Sobre a mesa de orgíacos festins!...
Madrugada de Treze de Janeiro. Amo meu Pai na atômica desordem
Rezo, sonhando, o ofício da agonia. Entre as bocas necrófagas que o mordem
Meu Pai nessa hora junto a mim morria E a terra infecta que lhe cobre os rins!
Sem um gemido, assim como um cordeiro!

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26. flóreas: vistosas, belas. Depois da Orgia
27. Elias: profeta bíblico que teria vivido no século IX a. C. e cuja
história é narrada nos livros dos Reis; seu filho e sucessor, Eliseu,
viu quando o Senhor o arrebatou aos céus, numa carruagem de
fogo, no meio de um redemoinho (Segundo Reis, capítulo 2, O prazer que na orgia a hetaíra goza
versículo 12). Produz no meu sensorium de bacante
33. hórrida hidra: a Hidra de Lerna da mitologia grega, pavorosa serpente
de sete cabeças abatida por Hércules; em sentido figurado,
O efeito de uma túnica brilhante
representa uma fonte inesgotável de males e destruições; “hidra” é Cobrindo ampla apostema escrofulosa!
também o nome de um microorganismo hidrozoário.
36. clepsidra: antigo instrumento para medir o tempo. Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
41. necrófagas: que se alimentam de cadáveres.
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.

Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia


Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,

Semelhante a um cachorro de atalaia


Às decomposições da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!
1. hetaíra, hetaira: prostituta.
2. sensorium: o sistema fisiológico humano da percepção e da
sensibilidade; bacante: sacerdotisa do culto de Baco, o deus do vinho
e da luxúria.
4. apostema escrofulosa: tipo de abscesso dos gânglios linfáticos.
5. anelo: do verbo “anelar”, desejar.
7. estuante: ardente, febril.
9. alfaia: adorno.
12. cachorro de atalaia: cão de guarda.

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A Árvore da Serra Vencido

– As árvores, meu filho, não têm alma! No auge de atordoadora e ávida sanha
E esta árvore me serve de empecilho... Leu tudo, desde o mais prístino mito,
É preciso cortá-la, pois, meu filho, Por exemplo: o do boi Ápis do Egito
Para que eu tenha uma velhice calma! Ao velho Niebelungen da Alemanha.

– Meu pai, por que sua ira não se acalma?! Acometido de uma febre estranha
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Sem o escândalo fônico de um grito,
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho... Mergulhou a cabeça no Infinito,
Esta árvore, meu pai, possui minh’alma!... Arrancou os cabelos na montanha!

– Disse – e ajoelhou-se, numa rogativa: Desceu depois à gleba mais bastarda,


“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” Pondo a áurea insígnia heráldica da farda
E quando a árvore, olhando a pátria serra, À vontade do vômito plebeu...

Caiu aos golpes do machado bronco, E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria
O moço triste se abraçou com o tronco O vencido pensava que cuspia
E nunca mais se levantou da terra! Na célula infeliz de onde nasceu.

Paraíba, 1909.
9. rogativa: pedido veemente.
2. prístino: antigo, primitivo.
3. Ápis: na religião do Egito antigo, o touro sagrado de Mênfis, que se
dizia ser a encarnação de Osíris e que simbolizava a energia criadora
da natureza.
4. Niebelungen: referência ao Cantar dos Nibelungos, poema medieval
(século XIII) que narra os mitos germânicos, fonte de inspiração
para o ciclo de dramas musicais O anel dos Nibelungos, do compositor
alemão Richard Wagner (1813-1883).
10. insígnia heráldica: sinal em brasão de armas.

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O Corrupião Noite de um Visionário

Escaveirado corrupião idiota,


Olha a atmosfera livre, o amplo éter belo,
E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo, Número cento e três. Rua Direita.
Que do fundo do chão todo o ano brota! Eu tinha a sensação de quem se esfola
E inopinadamente o corpo atola
Mas a ânsia de alto voar, de à antiga rota Numa poça de carne liquefeita!
Voar, não tens mais! E pois, preto e amarelo,
Pões-te a assobiar, bruto, sem cerebelo – “Que esta alucinação tactil não cresça!”
A gargalhada da última derrota! – Dizia; e erguia, oh! céu, alto, por ver-vos,
Com a rebeldia acérrima dos nervos
A gaiola aboliu tua vontade. Minha atormentadíssima cabeça.
Tu nunca mais verás a liberdade!...
Ah! Tu somente ainda és igual a mim. É a potencialidade que me eleva
Ao grande Deus, e absorve em cada viagem
Continua a comer teu milho alpiste. Minh’alma – este sombrio personagem
Foi este mundo que me fez tão triste, Do drama panteístico da treva!
Foi a gaiola que te pôs assim!
Depois de dezesseis anos de estudo
1. escaveirado: de rosto descarnado. Generalizações grandes e ousadas
2. éter: o céu, em sentido figurado.
3. alga criptógama: no reino vegetal, as algas pertencem ao grupo das Traziam minhas forças concentradas
criptógamas, que se reproduzem através de esporos ou gametas (e Na compreensão monística de tudo.
não de sementes); úsnea: planta que é uma espécie de líquen.
Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme
Me aspergia, banhava minhas tíbias,
E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias,
Cortando o melanismo da epiderme.

Arimânico gênio destrutivo


Desconjuntava minha autônoma alma
Esbandalhando essa unidade calma,
Que forma a coerência do ser vivo.
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E eu saí a tremer com a língua grossa E todas essas formas que Deus lança
E a volição no cúmulo do exício, No Cosmos, me pediam, com o ar horrível,
Como quem é levado para o hospício Um pedaço de língua disponível
Aos trambolhões, num canto de carroça! Para a filogenética vingança!

Perante o inexorável céu aceso A cidade exalava um podre báfio:


Agregações abióticas espúrias, Os anúncios das casas de comércio,
Como uma cara, recebendo injúrias, Mais tristes que as elégias de Propércio,
Recebiam os cuspos do desprezo. Pareciam talvez meu epitáfio.

A essa hora, nas telúricas reservas, O motor teleológico da Vida


O reino mineral americano Parara! Agora, em diástoles de guerra,
Dormia, sob os pés do orgulho humano, Vinha do coração quente da terra
E a cimalha minúscula das ervas. Um rumor de matéria dissolvida.

E não haver quem, íntegra, lhe entregue, A química feroz do cemitério


Com os ligamentos glóticos precisos, Transformava porções de átomos juntos
A liberdade de vingar em risos No óleo malsão que escorre dos defuntos,
A angústia milenária que o persegue! Com a abundância de um geyser deletério.

Bulia nos obscuros labirintos Dedos denunciadores escreviam


Da fértil terra gorda, úmida e fresca, Na lúgubre extensão da rua preta
A ínfima fauna abscôndita e grotesca Todo o destino negro do planeta,
Da família bastarda dos helmintos. Onde minhas moléculas sofriam.

As vegetalidades subalternas Um necrófilo mau forçava as lousas


Que os serenos noturnos orvalhavam, E eu – coetâneo do horrendo cataclismo –
Pela alta frieza intrínseca, lembravam Era puxado para aquele abismo
Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. No rodomoinho universal das cousas!

E no estrume fresquíssimo da gleba


Formigavam, com a símplice sarcode, 3. inopinadamente: inesperadamente.
O vibrião, o ancilóstomo, o colpode 5. tactil: tátil, palpável.
E outros irmãos legítimos da ameba! 7. acérrima: muito forte.

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12. panteístico: relativo ao panteísmo, doutrina segundo a qual Deus e o 68. geyser: gêiser, fonte com erupções periódicas de água quente; deletério:
mundo são um único ser, estando a divindade associada à natureza prejudicial, danoso.
e à substância que subjaz a todas as coisas existentes. 73. necrófilo: pessoa que sofre de necrofilia, atração sexual pelos
16. monística: de acordo com o Monismo, doutrina evolucionista que cadáveres.
rejeita qualquer tipo de separação entre a matéria e o espírito,
negando a existência de um mundo “espiritual” para além da
natureza e postulando a teoria de que todas as coisas se formaram a
partir de uma única substância universal, inclusive as almas
individuais.
17. aguadilha: secreção corporal; no caso, é o suor; inerme: indefeso,
inofensivo.
19. sirtes: recifes, bancos de areia.
20. melanismo: escurecimento da pele causado pelo excesso do pigmento
da melanina nas células.
21. Arimânico: alusão a Arimã que, segundo o zoroastrismo, é o
princípio do mal, do caos e da morte.
23. esbandalhando: do verbo “esbandalhar”, esfarrapar, despedaçar.
26. volição: força de vontade; exício: estrago, arruinamento.
29. inexorável: inabalável, implacável.
30. Agregações abióticas: corpos sem vida.
33. telúricas: relativas à Terra.
36. cimalha: cornija, moldura superior de uma fachada, em arquitetura.
38. ligamentos glóticos: os tecidos que formam a glote, na laringe.
41. Bulia: do verbo “bulir”, mexer-se, agitar-se.
43. abscôndita: escondida, oculta.
44. helmintos: uma espécie de vermes.
45. vegetalidades: seres vegetais.
50. símplice: simples, que não se desdobra nem se multiplica; sarcode: a
parte fluida das células.
51. vibrião: espécie de bactéria; ancilóstomo: espécie de parasita; colpode:
microorganismo unicelular do grupo dos ciliados.
52. ameba: microorganismo unicelular do grupo dos protozoários.
56. filogenética: relativa à filogenia, que é a história de toda a linhagem
evolutiva de um ser vivo, desde os seus mais remotos ancestrais.
57. báfio, bafio: cheiro de umidade e mofo; o acento foi deslocado como
licença poética.
59. elégias, elegias: poemas líricos em tom triste de lamento; outro
deslocamento de acento como licença poética; Propércio: o poeta
romano Sextus Propertius (50-16 a. C.).
61. teleológico: que se dirige fatalmente para o próprio fim.
62. diástoles: dilatações.
67. malsão: nocivo.

114 115
Alucinação à Beira-Mar Vandalismo

Um medo de morrer meus pés esfriava. Meu coração tem catedrais imensas,
Noite alta. Ante o telúrico recorte, Templos de priscas e longínquas datas,
Na diuturna discórdia, a equórea coorte Onde um nume de amor, em serenatas,
Atordoadoramente ribombava! Canta a aleluia virginal das crenças.

Eu, ególatra céptico, cismava Na ogiva fúlgida e nas colunatas


Em meu destino!... O vento estava forte Vertem lustrais irradiações intensas
E aquela matemática da Morte, Cintilações de lâmpadas suspensas
Com os seus números negros, me assombrava! E as ametistas e os florões e as pratas.

Mas a alga usufrutuária dos oceanos Como os velhos Templários medievais


E os malacopterígios subraquianos Entrei um dia nessas catedrais
Que um castigo de espécie emudeceu, E nesses templos claros e risonhos...

No eterno horror das convulsões marítimas, E erguendo os gládios e brandindo as hastas,


Pareciam também corpos de vítimas No desespero dos iconoclastas
Condenadas à Morte, assim como eu! Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Pau d’Arco – 1904.


2. telúrico: relativo à Terra. 2. priscas: antigas.
4. diuturna: alongada, que se prolonga no tempo; a equórea coorte: as 3. nume: divindade mítica, gênio.
ondas, sendo “coorte” o nome que se dava a uma divisão das 5. ogiva: abóbada que culmina em ângulo agudo, típica das igrejas
legiões do exército romano. medievais; fúlgida: brilhante, cintilante; colunatas: fileira de colunas.
5. ególatra: que cultua o “eu”; céptico, cético: que não crê na capacidade 6. lustrais: purificantes.
humana de atingir a verdade. 8. florões: ornatos circulares no alto das abóbadas.
9. usufrutuária: que usufrui. 9. Templários: cavaleiros religiosos da Ordem do Templo, fundada em
10. malacopterígios subraquianos: espécie de peixe de nadadeiras moles. 1118, em Jerusalém, para defender os lugares santos cristãos, e
dissolvida em 1317.
12. gládios: espadas curtas, com dois gumes; hastas: lanças.
13. iconoclastas: destruidores de imagens; entre os séculos VIII e IX,
foram os partidários da doutrina que combatia o culto às imagens,
acusando-o de idolatria.

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Versos Íntimos Vencedor

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável Toma as espadas rútilas, guerreiro,


Enterro de tua última quimera. E à rutilância das espadas, toma
Somente a Ingratidão – esta pantera – A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Foi tua companheira inseparável! Meu coração – estranho carniceiro!

Acostuma-te à lama que te espera! Não podes?! Chama então presto o primeiro
O Homem, que, nesta terra miserável, E o mais possante gladiador de Roma.
Mora, entre feras, sente inevitável E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Necessidade de também ser fera. Nenhum pôde domar o prisioneiro.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro! Meu coração triunfava nas arenas.
O beijo, amigo, é a véspera do escarro, Veio depois um domador de hienas
A mão que afaga é a mesma que apedreja. E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
Apedreja essa mão vil que te afaga, E não pôde domá-lo enfim ninguém,
Escarra nessa boca que te beija! Que ninguém doma um coração de poeta!

Pau d’Arco – 1901 Pau d’Arco – 1902

2. quimera: sonho, fantasia, ilusão. 1. rútilas: rutilante, brilhante.


Data: é possível que esta data, que consta da primeira edição, esteja 3. adaga: espada curta e larga; gládio: espada curta, com dois gumes.
errada; o poema foi publicado pela primeira vez em 2 de setembro 5. presto: logo, sem demora.
de 1906, no jornal paraibano O Comércio, com data deste ano.

118 119
A Ilha de Cipango Soa o rumor fatídico dos ventos,
Anunciando desmoronamentos
De mil lajedos sobre mil lajedos...
E ao longe soam trágicos fracassos
De heróis, partindo e fraturando os braços
Nas pontas escarpadas dos rochedos!

Estou sozinho! A estrada se desdobra Mas de repente, num enleio doce,


Como uma imensa e rutilante cobra Qual se num sonho arrebatado fosse,
De epiderme finíssima de areia... Na ilha encantada de Cipango tombo,
E por essa finíssima epiderme Da qual, no meio, em luz perpétua, brilha
Eis-me passeando como um grande verme A árvore da perpétua maravilha,
Que, ao sol, em plena podridão, passeia! À cuja sombra descansou Colombo!

A agonia do sol vai ter começo! Foi nessa ilha encantada de Cipango,
Caio de joelhos, trêmulo... Ofereço Verde, afetando a forma de um losango,
Preces a Deus de amor e de respeito Rica, ostentando amplo floral risonho,
E o Ocaso que nas águas se retrata Que Toscanelli viu seu sonho extinto
Nitidamente reproduz, exata, E como sucedeu a Afonso Quinto
A saudade interior que há no meu peito... Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho!

Tenho alucinações de toda a sorte... Lembro-me bem. Nesse maldito dia


Impressionado sem cessar com a Morte O gênio singular da Fantasia
E sentindo o que um lázaro não sente, Convidou-me a sorrir para um passeio...
Em negras nuanças lúgubres e aziagas Iríamos a um país de eternas pazes
Vejo terribilíssimas adagas, Onde em cada deserto há mil oásis
Atravessando os ares bruscamente. E em cada rocha um cristalino veio.

Os olhos volvo para o céu divino Gozei numa hora séculos de afagos,
E observo-me pigmeu e pequenino Banhei-me na água de risonhos lagos
Através de minúsculos espelhos. E finalmente me cobri de flores...
Assim, quem diante duma cordilheira Mas veio o vento que a Desgraça espalha
Pára, entre assombros, pela vez primeira, E cobriu-me com o pano da mortalha,
Sente vontade de cair de joelhos! Que estou cosendo para os meus amores!
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Desde então para cá fiquei sombrio! 40. Toscanelli: Paolo dal Pozzo Toscanelli (1397-1482), cosmógrafo e
matemático italiano, cujos mapas teriam sido usados na viagem do
Um penetrante e corrosivo frio descobrimento da América.
Anestesiou-me a sensibilidade 41. Afonso Quinto: rei de Portugal (1432-1481).
E a grandes golpes arrancou as raízes 65. feral: fúnebre.
Que prendiam meus dias infelizes 67. oblonga: oval.
A um sonho antigo de felicidade!

Invoco os Deuses salvadores do erro.


A tarde morre. Passa o seu enterro!...
A luz descreve zigzags tortos
Enviando à terra os derradeiros beijos.
Pela estrada feral dous realejos
Estão chorando meus amores mortos!

E a treva ocupa toda a estrada longa...


O Firmamento é uma caverna oblonga
Em cujo fundo a Via-Láctea existe.
E como agora a lua cheia brilha!
Ilha maldita vinte vezes a ilha
Que para todo o sempre me fez triste!

Pau d’Arco – 1904

Título: é como autores europeus chamavam o Japão em fins da Idade


Média.
2. rutilante: brilhante, cintilante.
15. lázaro: pessoa doente de lepra.
16. aziagas: agourentas, que dão azar.
17. adagas: espécie de espada curta e larga.
20. pigmeu: de baixa estatura, como os indivíduos pertencentes a essa
etnia africana.
35. Colombo: o navegador genovês Cristóvão Colombo (1436-1506).
39. floral: conjunto de flores.

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Mater Quando chegar depois tua velhice
Batida pelos bárbaros invernos,
Relembrarás chorando o que eu te disse,
À sombra dos sicômoros eternos!
Como a crisálida emergindo do ovo
Para que o campo flórido a concentre, Pau d’Arco, 1905.
Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novo
Ser, entre dores, te emergiu do ventre! Título: em latim, quer dizer “mãe”.
2. flórido: florido.
5. haurindo: do verbo “haurir”, obter, colher.
E puseste-lhe, haurindo amplo deleite, 8. éfebos, efebos: rapazes; o acento foi deslocado como licença poética;
No lábio róseo a grande teta farta Esparta: uma das principais cidades da Grécia antiga.
– Fecunda fonte desse mesmo leite 15. biscuit: termo francês que significa peça de porcelana muito delicada.
17. fragílimo: muito frágil; venusto: gracioso.
Que amamentou os éfebos de Esparta. – 18. gêmulas: pequenas gemas, embriões.
20. álamo: choupo, espécie de árvore ornamental.
Com que avidez ele essa fonte suga! 23. pomas: seios
Ninguém mais com a Beleza está de acordo, 28. sicômoros: árvore grande e ornamental originária da Europa.
Do que essa pequenina sanguessuga,
Bebendo a vida no teu seio gordo!

Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo


Essas humanas cousas pequeninas
A um biscuit de quilate muito raro
Exposto aí, à amostra, nas vitrinas.

Mas o ramo fragílimo e venusto


Que hoje nas débeis gêmulas se esboça
Há de crescer, há de tornar-se arbusto
E álamo altivo de ramagem grossa.

Clara, a atmosfera se encherá de aromas,


O Sol virá das épocas sadias...
E o antigo leão, que te esgotou as pomas,
Há de beijar-te as mãos todos os dias!

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Poema Negro Nesta sombria análise das cousas,
Corro. Arranco os cadáveres das lousas
E as suas partes podres examino...
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podridão daquele embrulho hediondo
A Santos Neto Reconheço assombrado o meu Destino!
Para iludir minha desgraça, estudo. Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
Intimamente sei que não me iludo. Então meu desvario se renova...
Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Como que, abrindo todos os jazigos,
Nos meus olhares fúnebres, carrego A Morte, em trajos pretos e amarelos,
A indiferença estúpida de um cego Levanta contra mim grandes cutelos
E o ar indolente de um chinês idiota! E as baionetas dos dragões antigos!

A passagem dos séculos me assombra. E quando vi que aquilo vinha vindo


Para onde irá correndo minha sombra Eu fui caindo como um sol caindo
Nesse cavalo de eletricidade?! De declínio em declínio; e de declínio
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem: Em declínio, com a gula de uma fera,
– Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? Quis ver o que era, e quando vi o que era,
E parece-me um sonho a realidade. Vi que era pó, vi que era esterquilínio!

Em vão com o grito do meu peito impreco! Chegou a tua vez, oh! Natureza!
Dos brados meus ouvindo apenas o eco, Eu desafio agora essa grandeza,
Eu torço os braços numa angústia douda Perante a qual meus olhos se extasiam...
E muita vez, à meia-noite, rio Eu desafio, desta cova escura,
Sinistramente, vendo o verme frio No histerismo danado da tortura
Que há de comer a minha carne toda! Todos os monstros que os teus peitos criam!
É a Morte – esta carnívora assanhada – Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Serpente má de língua envenenada Com o teu chicote frio de madrasta
Que tudo que acha no caminho come... Tu me açoitaste vinte e duas vezes...
– Faminta e atra mulher que, a 1 de Janeiro, Por tua causa apodreci nas cruzes,
Sai para assassinar o mundo inteiro, Em que pregas os filhos que produzes
E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Durante os desgraçados nove meses!
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Semeadora terrível de defuntos, A desagregação de minha Idéia
Contra a agressão dos teus contrastes juntos Aumenta. Como as chagas da morféia,
A besta, que em mim dorme, acorda em berros; O medo, o desalento e o desconforto
Acorda, e após gritar a última injúria, Paralisam-me os círculos motores.
Chocalha os dentes com medonha fúria Na Eternidade, os ventos gemedores
Como se fosse o atrito de dous ferros! Estão dizendo que Jesus é morto!

Pois bem! Chegou minha hora de vingança. Não! Jesus não morreu! Vive na serra
Tu mataste o meu tempo de criança Da Borborema, no ar de minha terra,
E de segunda-feira até domingo, Na molécula e no átomo... Resume
Amarrado no horror de tua rede, A espiritualidade da matéria
Deste-me fogo quando eu tinha sede... E ele é que embala o corpo da miséria
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo! E faz da cloaca uma urna de perfume.

Súbito outra visão negra me espanta! Na agonia de tantos pesadelos


Estou em Roma. É Sexta-feira Santa. Uma dor bruta puxa-me os cabelos.
A treva invade o obscuro orbe terrestre. Desperto. É tão vazia a minha vida!
No Vaticano, em grupos prosternados, No pensamento desconexo e falho
Com as longas fardas rubras, os soldados Trago as cartas confusas de um baralho
Guardam o corpo do Divino Mestre. E um pedaço de cera derretida!

Como as estalactites da caverna, Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.


Cai no silêncio da Cidade Eterna Eu, somente eu, com a minha dor enorme
A água da chuva em largos fios grossos... Os olhos ensangüento na vigília!
De Jesus Cristo resta unicamente E observo, enquanto o horror me corta a fala,
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente O aspecto sepulcral da austera sala
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! E a impassibilidade da mobília.

Não há ninguém na estrada da Ripetta. Meu coração, como um cristal, se quebre;


Dentro da igreja de São Pedro, quieta, O termômetro negue minha febre,
As luzes funerais arquejam fracas... Torne-se gelo o sangue que me abrasa,
O vento entoa cânticos de morte. E eu me converta na cegonha triste
Roma estremece! Além, num rumor forte, Que das ruínas duma casa assiste
Recomeça o barulho das matracas. Ao desmoronamento de outra casa!
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Ao terminar este sentido poema Eterna Mágoa
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos...
Rola-me na cabeça o cérebro oco. O homem por sobre quem caiu a praga
Por ventura, meu Deus, estarei louco?! Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Daqui por diante não farei mais versos. Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!
Paraíba – 1906
Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Dedicatória: Santos Neto foi um jornalista paraibano, amigo de infância
Quer resistir, e quanto mais resiste
de Augusto dos Anjos e seu contemporâneo na Faculdade de Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.
Direito do Recife, filho de Artur Aquiles, o dono do jornal
oposicionista O Comércio, para o qual o poeta colaborou com muitos Sabe que sofre, mas o que não sabe
poemas entre 1901 e 1907.
22. atra: escura, agourenta.
É que essa mágoa infinda assim não cabe
34. trajos: trajes. Na sua vida, é que essa mágoa infinda
35. cutelos: instrumentos cortantes.
36. dragões: soldados de cavalaria. Transpõe a vida do seu corpo inerme;
42. esterquilínio: depósito de estrume.
47. histerismo: histeria, descontrole emocional.
E quando esse homem se transforma em verme
69. orbe: globo, esfera. É essa mágoa que o acompanha ainda!
70. prosternados: curvados em sinal de adoração.
72. Divino Mestre: Jesus Cristo. Pau d’Arco – 1904
74. Cidade Eterna: Roma.
79. estrada da Ripetta: a Via di Ripetta, em Roma, que foi aberta na época
do Renascimento e é uma três grandes avenidas que partem da 12. inerme: indefeso, inofensivo.
Piazza del Popolo.
80. igreja de S. Pedro: a maior basílica cristã, em Roma, próxima ao
Vaticano.
86. morféia: lepra.
91-2. serra / Da Borborema: parte da cordilheira do mesmo nome, que
alcança vários estados do Nordeste do Brasil e tem seu ponto
culminante no pico do Jabre, na Paraíba.
96. cloaca: fossa onde se atiram dejetos e imundícies.

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Queixas Noturnas A Noite vai crescendo apavorante
E dentro do meu peito, no combate,
A Eternidade esmagadora bate
Numa dilatação exorbitante!

Quem foi que viu a minha Dor chorando?! E eu luto contra a universal grandeza
Saio. Minh’alma sai agoniada. Na mais terrível desesperação...
Andam monstros sombrios pela estrada É a luta, é o prélio enorme, é a rebelião
E pela estrada, entre estes monstros, ando! Da criatura contra a natureza!

Não trago sobre a túnica fingida Para essas lutas uma vida é pouca
As insígnias medonhas do infeliz Inda mesmo que os músculos se esforcem;
Como os falsos mendigos de Paris Os pobres braços do mortal se torcem
Na atra rua de Santa Margarida. E o sangue jorra, em coalhos, pela boca

O quadro de aflições que me consomem E muitas vezes a agonia é tanta


O próprio Pedro Américo não pinta... Que, rolando dos últimos degraus,
Para pintá-lo, era preciso a tinta O Hércules treme e vai tombar no caos
Feita de todos os tormentos do homem! De onde seu corpo nunca mais levanta!

Como um ladrão sentado numa ponte É natural que esse Hércules se estorça,
Espera alguém, armado de arcabuz, E tombe para sempre nessas lutas,
Na ânsia incoercível de roubar a luz, Estrangulado pelas rodas brutas
Estou à espera de que o Sol desponte! Do mecanismo que tiver mais força.

Bati nas pedras dum tormento rude Ah! Por todos os séculos vindouros
E a minha mágoa de hoje é tão intensa Há de travar-se essa batalha vã
Que eu penso que a Alegria é uma doença Do dia de hoje contra o de amanhã,
E a Tristeza é minha única saúde. Igual à luta dos cristãos e mouros!

As minhas roupas, quero até rompê-las! Sobre histórias de amor o interrogar-me


Quero, arrancado das prisões carnais, É vão, é inútil, é improfícuo, em suma;
Viver na luz dos astros imortais, Não sou capaz de amar mulher alguma
Abraçado com todas as estrelas! Nem há mulher talvez capaz de amar-me.
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O amor tem favos e tem caldos quentes 8. atra: sombria, mal-iluminada.
10. Pedro Américo: pintor paraibano (1843-1905) célebre por quadros
E, ao mesmo tempo que faz bem, faz mal; como O grito do Ipiranga e A batalha do Avaí.
O coração do Poeta é um hospital 14. arcabuz: antiga arma de fogo, de cano curto e largo.
Onde morreram todos os doentes. 31. prélio: combate.
35. coalhos: coágulos.
39. Hércules: referência ao herói da mitologia grega famoso por sua
Hoje é amargo tudo quanto eu gosto: força extraordinária.
A bênção matutina que recebo... 41. se estorça: do verbo “estorcer-se”, contorcer-se, ter convulsões.
E é tudo: o pão que como, a água que bebo, 57. gosto: do verbo “gostar” em sentido transitivo direto, provar.
O velho tamarindo a que me encosto! 70. Orfeu: na mitologia grega, cantor e poeta tão suave e melodioso que,
com os sons de sua lira, era capaz de domar as feras e deter os rios.

Vou enterrar agora a harpa boêmia


Na atra e assombrosa solidão feroz
Onde não cheguem o eco duma voz
E o grito desvairado da blasfêmia!

Que dentro de minh’alma americana


Não mais palpite o coração – esta arca,
Este relógio trágico que marca
Todos os atos da tragédia humana! –

Seja esta minha queixa derradeira


Cantada sobre o túmulo de Orfeu;
Seja este, enfim, o último canto meu
Por esta grande noite brasileira!

Melancolia! Estende-me a tu’asa!


És a árvore em que devo reclinar-me...
Se algum dia o Prazer vier procurar-me
Dize a este monstro que eu fugi de casa!

Pau d’Arco – 1906

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Insônia Por que cumpri o universal ditame?!
Pois se eu sabia onde morava o Vício,
Por que não evitei o precipício
Estrangulando minha carne infame?!

Noute. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Até que dia o intoxicado aroma


Passou de certo por aqui chorando! Das paixões torpes sorverei contente?
Assim, em mágoa, eu também vou passando E os dias correrão eternamente?!
Sonâmbulo... sonâmbulo... sonâmbulo... E eu nunca sairei desta Sodoma?!

Que voz é esta que a gemer concentro À proporção que a minha insônia aumenta
No meu ouvido e que do meu ouvido Hieroglifos e esfinges interrogo...
Como um bemol e como um sustenido Mas, triunfalmente, nos céus altos, logo
Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Toda a alvorada esplêndida se ostenta.

– Por que é que este gemido me acompanha?! Vagueio pela Noute decaída...
Mas dos meus olhos no sombrio palco No espaço a luz de Aldebarã e de Argos
Súbito surge como um catafalco Vai projetando sobre os campos largos
Uma cidade ao mapa-múndi estranha. O derradeiro fósforo da Vida.

A dispersão dos sonhos vagos reúno. O Sol, equilibrando-se na esfera,


Desta cidade pelas ruas erra Restitui-me a pureza da hematose
A procissão dos Mártires da Terra E então uma interior metamorfose
Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Nas minhas arcas cerebrais se opera.

Vejo diante de mim Santa Francisca O odor da margarida e da begônia


Que com o cilício as tentações suplanta Subitamente me penetra o olfato...
E invejo o sofrimento desta Santa, Aqui, neste silêncio e neste mato,
Em cujo olhar o Vício não faísca! Respira com vontade a alma campônia!

Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse, Grita a satisfação na alma dos bichos.


Depois de embebedado deste vinho, Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos.
Sair da vida puro como o arminho As árvores, as flores, os corimbos,
Que os cabelos dos velhos embranquece! Recordam santos nos seus próprios nichos.
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Com o olhar a verde periféria abarco. 48. campônia: do campo.
51. corimbos: uma espécie de flores.
Estou alegre. Agora, por exemplo, 53. periféria, periferia: o espaço ao redor; o acento foi deslocado como
Cercado destas árvores, contemplo licença poética.
As maravilhas reais do meu Pau d’Arco! 58. Atro: escuro, agourento.
61. pábulo: alimento.
64. leito de Procusto: situação na qual o indivíduo se vê constrangido por
Cedo virá, porém, o funerário, um padrão implacável e inflexível; na mitologia grega, Procusto era
Atro dragão da escura noute, hedionda, um bandido que obrigava suas vítimas a se deitarem num leito de
Em que o Tédio, batendo na alma, estronda ferro, estirando-as até as extremidades, se fossem mais curtas, ou
Como um grande trovão extraordinário. cortando-lhes as partes que sobrassem, se fossem mais compridas.

Outra vez serei pábulo do susto


E terei outra vez de, em mágoa imerso,
Sacrificar-me por amor do Verso
No meu eterno leito de Procusto!

Pau d’Arco – 1905.

1. noctâmbulo: noctívago, aquele que anda a esmo durante a noite.


11. catafalco: estrado alto sobre o qual se coloca o caixão, num velório.
16. Giordano Bruno: filósofo italiano (1548–1600) acusado de heresia e
condenado pela Inquisição católica a ser queimado vivo na fogueira.
17. Santa Francisca: Santa Francisca Romana (1384-1440), uma das
grandes místicas do século XV.
18. cilício: cinto ou cordão com cerdas afiadas ou correntes de ferro,
cheio de pontas cortantes, usado sobre a pele pelos penitentes.
23. arminho: tudo o que é muito branco, tal como o pêlo desse pequeno
animal.
32. Sodoma: cidade oriental que, segundo o livro bíblico do Gênesis, foi
destruída pelo fogo dos céus como castigo divino pela devassidão
de seus habitantes.
34. hieroglifos, hieróglifos: ideogramas do sistema de escrita do antigo
Egito.
38. Aldebarã: uma das 20 estrelas mais brilhantes do céu, pertencente à
constelação do Touro; Argos: uma das principais constelações
visíveis do hemisfério Sul.
42. hematose: processo pelo qual o sangue deixa os pulmões carregado de
oxigênio.
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Barcarola Mas desgraçado do pobre
Que em meio da Vida cai!
Esse não volta, esse vai
Para o túmulo que o cobre.

Cantam nautas, choram flautas Vagueia um poeta num barco.


Pelo mar e pelo mar O Céu, de cima, a luzir
Uma sereia a cantar Como um diamante de Ofir
Vela o Destino dos nautas. Imita a curva de um arco.

Espelham-se os esplendores A Lua – globo de louça –


Do céu, em reflexos, nas Surgiu, em lúcido véu.
Águas, fingindo cristais Cantam! Os astros do Céu
Das mais deslumbrantes cores. Ouçam e a Lua Cheia ouça!

E em fulvos filões doirados Ouça do alto a Lua Cheia


Cai a luz dos astros por Que a sereia vai falar...
Sobre o marítimo horror Haja silêncio no mar
Como globos estrelados. Para se ouvir a sereia.

Lá onde as rochas se assentam Que é que ela diz?! Será uma


Fulguram como outros sóis História de amor feliz?
Os flamívomos faróis Não! O que a sereia diz
Que os navegantes orientam. Não é história nenhuma.

Vai uma onda, vem outra onda É como um réquiem profundo


E nesse eterno vaivém De tristíssimos bemóis...
Coitadas! não acham quem, Sua voz é igual à voz
Quem as esconda, as esconda... Das dores todas do mundo.

Alegoria tristonha “Fecha-te nesse medonho


Do que pelo Mundo vai! “Reduto de Maldição,
Se um sonha e se ergue, outro cai; “Viajeiro da Extrema-Unção,
Se um cai, outro se ergue e sonha. “Sonhador do último sonho!
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“Numa redoma ilusória Tristezas de um Quarto Minguante
“Cercou-te a glória falaz,
“Mas nunca mais, nunca mais
“Há de cercar-te essa glória!

“Nunca mais! Sê, porém, forte. Quarto Minguante! E, embora a lua o aclare,
“O poeta é como Jesus! Este Engenho Pau d’Arco é muito triste...
“Abraça-te à tua Cruz Nos engenhos da várzea não existe
“E morre, poeta da Morte!” Talvez um outro que se lhe equipare!

– E disse e porque isto disse Do observatório em que eu estou situado


O luar no Céu se apagou... A lua magra, quando a noite cresce,
Súbito o barco tombou Vista, através do vidro azul, parece
Sem que o poeta o pressentisse! Um paralelepípedo quebrado!

Vista de luto o Universo O sono esmaga o encéfalo do povo.


E Deus se enlute no Céu! Tenho 300 quilos no epigastro...
Mais um poeta que morreu, Dói-me a cabeça. Agora a cara do astro
Mais um coveiro do Verso! Lembra a metade de uma casca de ovo.

Cantam nautas, choram flautas Diabo! não ser mais tempo de milagre!
Pelo mar e pelo mar Para que esta opressão desapareça
Uma sereia a cantar Vou amarrar um pano na cabeça,
Vela o Destino dos nautas! Molhar a minha fronte com vinagre.

Aumentam-se-me então os grandes medos.


9. fulvos: amarelos; filões: veios.
O hemisfério lunar se ergue e se abaixa
15. flamívomos: que vomitam chamas. Num desenvolvimento de borracha,
30. Ofir: região oriental citada no Antigo Testamento, onde os navios Variando à ação mecânica dos dedos!
do rei Salomão iam buscar o diamante e outras riquezas.
45. réquiem: composição musical feita sobre o texto da missa dedicada
aos mortos, iniciada pela expressão em latim “requiem aeternam”,
Vai-me crescendo a aberração do sonho.
que significa “repouso eterno”. Morde-me os nervos o desejo doudo
De dissolver-me, de enterrar-me todo
Naquele semicírculo medonho!
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Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Então dois ossos roídos me assombraram...
Quem sabe se não é porque não saio – “Por ventura haverá quem queira roer-nos?!
Desde que, 6ª feira, 3 de Maio, Os vermes já não querem mais comer-nos
Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! E os formigueiros já nos desprezaram”.

A lâmpada a estirar línguas vermelhas Figuras espectrais de bocas tronchas


Lambe o ar. No bruto horror que me arrebata, Tornam-me o pesadelo duradouro...
Como um degenerado psicopata Choro e quero beber a água do choro
Eis-me a contar o número das telhas! Com as mãos dispostas à feição de conchas.

– Uma, duas, três, quatro... E aos tombos, tonta Tal uma planta aquática submersa,
Sinto a cabeça e a conta perco; e, em suma, Antegozando as últimas delícias
A conta recomeço, em ânsias: – Uma... Mergulho as mãos – vis raízes adventícias –
Mas novamente eis-me a perder a conta! No algodão quente de um tapete persa.

Sucede a uma tontura outra tontura. Por muito tempo rolo no tapete.
– Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Súbito me ergo. A lua é morta. Um frio
Responde a Vida – aquela grande aranha Cai sobre o meu estômago vazio
Que anda tecendo a minha desventura! – Como se fosse um copo de sorvete!

A luz do quarto diminuindo o brilho A alta frialdade me insensibiliza;


Segue todas as fases de um eclipse... O suor me ensopa. Meu tormento é infindo...
Começo a ver coisas de Apocalipse Minha família ainda está dormindo
No triângulo escaleno do ladrilho! E eu não posso pedir outra camisa!

Deito-me enfim. Ponho o chapéu num gancho. Abro a janela. Elevam-se fumaças
Cinco lençóis balançam numa corda, Do engenho enorme. A luz fulge abundante
Mas aquilo mortalhas me recorda, E em vez do sepulcral Quarto Minguante
E o amontoamento dos lençóis desmancho. Vi que era o sol batendo nas vidraças.

Vêm-me à imaginação sonhos dementes. Pelos respiratórios tênues tubos


Acho-me, por exemplo, numa festa... Dos poros vegetais, no ato da entrega
Tomba uma torre sobre a minha testa, Do mato verde, a terra resfolega
Caem-me de uma só vez todos os dentes! Estrumada, feliz, cheia de adubos.
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Côncavo, o céu, radiante e estriado, observa 3. várzea: a região da Várzea do Paraíba, ou seja, a planície cortada por
esse rio; o Engenho Pau d’Arco, da família do poeta, ficava às
A universal criação. Broncos e feios, margens do rio Una, afluente do Paraíba.
Vários reptis cortam os campos, cheios 10. epigastro: epigástrio, a região superior do abdome.
Dos tenros tinhorões e da úmida erva. 43. Apocalipse: referência ao último livro da Bíblia cristã, atribuído a S.
João Evangelista, contendo revelações sobre o fim dos tempos; em
grego, o título significa “revelação”.
Babujada por baixos beiços brutos, 57. espectrais: fantasmagóricas; tronchas: tortas.
No húmus feraz, hierática, se ostenta 63. raízes adventícias: raízes que foram transplantadas de um lugar para
A monarquia da árvore opulenta outro.
Que dá aos homens o óbolo dos frutos. 83. reptis: répteis.
84. tinhorões: ervas de uma espécie comum no Brasil, às vezes coloridas
de branco ou vermelho.
De mim diverso, rígido e de rastos 85. babujada: molhada, babada.
Com a solidez do tegumento sujo 86. feraz: fecundo, fértil.
Sulca, em diâmetro, o solo um caramujo 88. óbolo: esmola, dádiva.
90. tegumento: o revestimento do corpo de um animal, como a pele e os
Naturalmente pelos mata-pastos. pêlos.
92. mata-pastos: uma espécie de arbustos.
Entretanto, passei o dia inquieto, 96. Hamleto: o melancólico príncipe da Dinamarca, cuja história é
A ouvir, nestes bucólicos retiros, narrada numa peça de William Shakespeare (1564-1616), A tragédia
de Hamlet.
Toda a salva fatal de 21 tiros 97. Tebas: principal cidade da Beócia, na Grécia antiga, destruída por
Que festejou os funerais de Hamleto! Alexandre o Grande no ano 336 a. C.
100. jurubebas: uma espécie de arbustos.
Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas!
Quisera ser, numa última cobiça,
A fatia esponjosa de carniça
Que os corvos comem sobre as jurubebas!

Porque, longe do pão com que me nutres


Nesta hora, oh! Vida, em que a sofrer me exortas
Eu estaria como as bestas mortas
Pendurado no bico dos abutres!

Pau d’Arco, Maio – 1907

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Mistérios de um Fósforo E afogo mentalmente os olhos fundos
Na amorfia da cítula inicial,
De onde, por epigênese geral,
Todos os organismos são oriundos.

Pego de um fósforo. Olho-o. Olho-o ainda. Risco-o Presto, irrupto, através ovóide e hialino
Depois. E o que depois fica e depois Vidro, aparece, amorfo e lúrido, ante
Resta é um ou, por outra, é mais de um, são dois Minha massa encefálica minguante
Túmulos dentro de um carvão promíscuo. Todo o gênero humano intra-uterino!

Dois são, porque um, certo, é do sonho assíduo É o caos da ávita víscera avarenta
Que a individual psiquê humana tece e – Mucosa nojentíssima de pus,
O outro é o do sonho altruístico da espécie A nutrir diariamente os fetos nus
Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! Pelas vilosidades da placenta! –

E exclamo, ébrio, a esvaziar báquicos odres: Certo, o arquitetural e íntegro aspecto


– “Cinza, síntese má da podridão, Do mundo o mesmo inda é, que, ora, o que nele
“Miniatura alegórica do chão, Morre, sou eu, sois vós, é todo aquele
“Onde os ventres maternos ficam podres; Que vem de um ventre inchado, ínfimo e infecto!

“Na tua clandestina e erma alma vasta, É a flor dos genealógicos abismos
“Onde nenhuma lâmpada se acende, – Zooplasma pequeníssimo e plebeu,
“Meu raciocínio sôfrego surpreende De onde o desprotegido homem nasceu
“Todas as formas da matéria gasta!” Para a fatalidade dos tropismos. –

Raciocinar! Aziaga contingência! Depois, é o céu abscôndito do Nada,


Ser quadrúpede! Andar de quatro pés É este ato extraordinário de morrer
É mais do que ser Cristo e ser Moisés Que há de, na última hebdômada, atender
Porque é ser animal sem ter consciência! Ao pedido da célula cansada!

Bêbedo, os beiços na ânfora ínfima, harto, Um dia restará, na terra instável,


Mergulho, e na ínfima ânfora, harto, sinto De minha antropocêntrica matéria
O amargor específico do absinto Numa côncava xícara funérea
E o cheiro animalíssimo do parto! Uma colher de cinza miserável!
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Abro na treva os olhos quase cegos. O enterro de minha última neurona
Que mão sinistra e desgraçada encheu Desfila... E eis-me outro fósforo a riscar,
Os olhos tristes que meu Pai me deu E esse acidente químico vulgar
De alfinetes, de agulhas e de pregos?! Extraordinariamente me impressiona!

Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Mas minha crise artrítica não tarda.
Dentro um dínamo déspota, sozinho, Adeus! Que eu vejo enfim, com a alma vencida,
Sob a morfologia de um moinho, Na abjeção embriológica da vida
Move todos os meus nervos vibráteis. O futuro de cinza que me aguarda!

Então, do meu espírito, em segredo, Paraíba, 1910.


Se escapa, dentre as tênebras, muito alto,
Na síntese acrobática de um salto, 6. psiquê: a alma, a mente.
O espectro angulosíssimo do Medo! 7. altruístico: amor desinteressado pelo próximo; segundo o filósofo
positivista francês Auguste Comte (1798-1857), é uma tendência
Em cismas filosóficas me perco instintiva dos seres humanos.
8. substractum: o substrato, a essência.
E vejo, como nunca outro homem viu, 9. báquicos odres: sacos feitos de pele animal para transporte de líquidos;
Na anfigonia que me produziu no caso, de vinho (por alusão a Baco, o deus antigo dessa bebida).
Nonilhões de moléculas de esterco. 11. alegórica: que representa outra coisa, de maneira figurada.
17. aziaga: agourenta, que dá azar.
21. ânfora: vaso de barro com gargalo estreito usado pelos antigos
Vida, mônada vil, cósmico zero, gregos e romanos para guardar bebidas; harto: forte, robusto.
Migalha de albumina semifluida, 23. absinto: bebida alcoólica muito forte e tóxica.
Que fez a boca mística do druida 26. amorfia: ausência de forma determinada; cítula: óvulo fecundado, a
E a língua revoltada de Lutero; célula-mãe de um indivíduo.
27. epigênese: a formação gradual de estruturas cada vez mais complexas,
num embrião, a partir de uma única célula indiferenciada, ou ovo
Teus gineceus prolíficos envolvem fecundado.
Cinza fetal!... Basta um fósforo só 29. Presto: de repente; irrupto: irrompido; ovóide: oval; hialino:
Para mostrar a incógnita de pó, transparente.
30. amorfo: sem forma definida; lúrido: descorado, pálido.
Em que todos os seres se resolvem! 33. ávita, avita: ancestral, que provém dos avós; o acento foi deslocado
como licença poética.
Ah! Maldito o conúbio incestuoso 36. vilosidades: pequenas saliências vasculares na superfície das mucosas.
Dessas afinidades eletivas, 42. Zooplasma: o material orgânico das células de um animal.
44. tropismos: as reações instintivas dos seres vivos aos estímulos
De onde quimicamente tu derivas, externos.
Na aclamação simbiótica do gozo! 45. abscôndito: escondido, oculto.

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47. hebdômada: semana.
57. arráteis: o equivalente a 36,72 quilos; um arrátel ou libra é uma
antiga medida de peso igual a 459 gramas.
59. morfologia: forma externa.
62. tênebras: trevas.
64. espectro: vulto, fantasma.
67. anfigonia: fecundação cruzada, sexual, que requer dois indivíduos
diferentes, como a dos seres humanos.
69. mônada: organismo simples dotado de autopercepção individual; na
filosofia do racionalista alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-
1716), o termo representa o aspecto imaterial, indivisível e eterno
dos seres existentes no universo, através do qual eles manifestam
percepção e vontade própria, agregando-se entre si, como as
consciências dos indivíduos humanos.
70. albumina: espécie de proteína.
71. druida: antigo sacerdote dos povos celtas.
72. Lutero: o frade agostiniano Martinho Lutero (1483-1546), que deu
início à Reforma protestante em 1517.
73. gineceus: os órgãos reprodutores femininos das flores.
77. conúbio: casamento.
80. simbiótica: relativo a “simbiose”, que é a interação entre seres vivos
num mesmo ambiente.
81. neurona: neurônio, célula do tecido nervoso.
85. artrítica: relativa a artrite, que é uma inflamação das articulações.

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