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19/04/2019 Joshua Slocum, o mestre dos mares que adorava o Brasil - Mar Sem Fim

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o Brasil
Por João Lara Mesquita 17 de abril de 2019

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Joshua Slocum, o mestre dos mares que adorava


o Brasil
Muitos navegadores brasileiros conhecem as histórias do grande navegador, o norte-americano Joshua
Slocum (1844 – 1909). Ele foi o primeiro a fazer uma volta ao mundo em solitário, em seu pequeno sloop
(veleiro de um só mastro) de apenas 37 pés (11.2 metros), entre 1895 e 1898. Uma épica viagem de 46 mil
milhas, sem motor, patrocínio, rádio, ou, o mais importante, sem dinheiro. Ao iniciar a viagem ele tinha
no bolso  U$1,70, isto mesmo, um dólar e setenta centavos!  Mas nem todos conhecem sua relação com o
País. Joshua Slocum, o mestre dos mares que adorava o Brasil, é nosso comentário.

O Spray. Imagem wikipedia

O roteiro da primeira volta ao mundo em solitário:

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Mapa da viagem de Joshua Slocum

Joshua Slocum, o início


Slocum é do tempo romântico das navegações à vela. Em 1860, aos 16 anos, depois da morte da mãe,
saiu de casa para nunca mais voltar. Aprendeu a arte da marinharia navegando em veleiros que faziam
rotas comerciais.

Joshua Slocum no Spray. Imagem, wikipedia

Navegou por todos os mares, em diversos navios diferentes. Ele e um amigo entraram em Halifax como
marinheiros comuns em um navio mercante com destino a Dublin, na Irlanda. A partir daí, teve uma
rápida ascensão, até receber seu primeiro comando. Aos 18 anos de idade, recebeu seu certificado como
segundo imediato totalmente qualificado. Slocum rapidamente subiu nas fileiras para se tornar um
Chief Mate em navios britânicos que transportavam carvão e grãos entre as Ilhas Britânicas e São
Francisco. Navegou por 13 anos consecutivos, saindo do porto de São Francisco, transportando carga
mista para a China, Austrália, Ilhas das Especiarias e Japão.

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O navio Washington, comandado por Slocum, no Alasca. Imagem

Casou-se duas vezes, teve quatro filhos, sempre a bordo das embarcações em que estava.  Quando veio a
Revolução Industrial, e suas novidades como o motor a vapor, foi atropelado pela tecnologia. Jamais
conseguiu adaptar-se. Mas não se incomodou. Continuou a navegar à vela. Em 1900 publicou um
clássico da literatura náutica, Sailing Alone Around The World, uma delícia de relato. Por este livro,
passou a ser cultuado por escritores como Jack London, Mark Twain, e outros. Em 1886 ele começa nova
viagem, que acabou por trazê-lo ao Brasil.

Viagens do Aquidneck pelo mundo


Depois de muitos outros comandos, chegou a vez do Aquidneck, navio de 326 toneladas, tripulado por
dez marinheiros. Sua família embarcou junto.  Em 1884, a mulher de Slocum, Virgínia, adoeceu, e morreu
a bordo, enquanto o navio estava em Buenos Aires.

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O Aquidneck.

Com este navio Slocum mais uma vez se superou. Fizeram, ele a mulher e filhos, diversas viagens.
Navegaram as costas da Rússia, e do Alasca, estiveram no Pacífico Sul, ‘pelos arredores do Ártico,
moraram nas selvas das Filipinas, onde Slocum construiu seu primeiro barco’. ‘Passaram pela ilha de
Krakatoa poucos dias antes da explosão vulcânica que abalou o mundo.’

A bordo do  Aquidneck,  de New York para Montevidéu, um


furacão na rota
Em 1886, aos 42 anos, Slocum casou-se com uma prima de 24 anos, Henrietta. A família Slocum
  novamente subiu a bordo do Aquidneck, com destino a Montevidéu, Uruguai.   Alguns dias depois da
primeira viagem de Henrietta, o Aquidneck atravessou um furacão. No final deste primeiro ano, a
tripulação contraiu cólera e ficou em quarentena por seis meses. Mais tarde, Slocum foi forçado a
defender seu navio de piratas, um dos quais ele atirou e matou (já em Antonina). Foi julgado e absolvido
de assassinato. Em seguida, o Aquidneck foi infectado com varíola, levando à morte de três membros da
tripulação.  Slocum fazia navegação de cabotagem em portos do Brasil, Uruguai, e Argentina. Até
que,  perto do final de 1887, o  Aquidneck foi destruído no sul do Brasil. Um baixio, na baía de Antonina,
litoral do Paraná fez o navio encalhar. Slocum parece que sabia que isto ia acontecer. Ele escreveu no
primeira dia da viagem:

O dia da partida estava frio de amargar e tempestuoso, o que não augurava nada de bom para a
viagem que se iniciava, e que viria a ser a mais memorável de minha vida de mais de 35 anos no mar.

A impressão sobre Antonina

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“A paisagem montanhosa vista do ●porto


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verdadeiramente mais grandioso e aprazível. O clima também é perfeito e saudável”, foi assim que
Slocum descreveu a pequena cidade, cercada por mar, de um lado, e pela Serra do Mar coberta de Mata
Atlântica, que tanto impressionou nosso herói.

A Serra da Graciosa, que fica por trás e Paranaguá, e na visão de quem chega a Antonina.

O Naufrágio do Aquidneck nas palavras do Mestre dos Mares


“Passamos o Natal de 1887 em Guaraqueçaba. O brigue estava carregado, quando avançava através da
baía, as correntes e o vento pegaram-no em cheio perto de um perigoso baixio de areia, ele virou e
encalhou. A âncora foi lançada para prendê-lo. Ela não se agarrou nas areias traiçoeiras; desse modo o
brigue foi arrastado e encalhou de lado, exposto ao mar.

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A lindíssima baía de Guaraqueçaba, Paraná.

Por três dias, um mar muito grosso entrou e varreu o barco da proa à popa com ondas espatifando-se
sobre o casco vergado, até que, por fim, ele se partiu – e por que não acrescentar seu ‘coração’ também,
pois ele agora jazia destruído. Depois de 25 anos de bons serviços, aqui o Aquidneck terminou seus dias.”
Assim Slocum descreveu seu infortúnio. Em seguida ao naufrágio, ele recolheu peças que boiavam,
vendeu-as e, com o dinheiro apurado, pagou sua tripulação. Só depois voltou a pensar em sua
situação…

Avante!
Slocum manteve suas cartas náuticas, ainda que borradas; a bússola, e o cronômetro. “O plano em
resumo era o seguinte: não podíamos mendigar nossa viagem de volta, nem poderíamos ficar sentados
sem fazer nada.

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A mata atlântica que cerca Antonina.

Verificamos que permanecer em um país distante iria requerer mais coragem do que voltar para casa em
um barco. Decidimos então construir esse propósito. Meu filho Victor, com multo orgulho, aderiu ao
plano entusiasticamente.”

Do limão, a limonada
Como se diz, do limão ele fez a limonada. Com um machado, um enxó, dois serrotes, um arco de pua,
algumas brocas e parafusos. Era tudo que tinha, “um kit bastante bom para prosseguir”, como se referiu.
E a fartura da Mata Atlântica, que tão bons serviços já prestara à construção de navios de épocas
anteriores. Slocum entrou na mata, escolheu cada árvore, trabalhou-as, e construiu seu próprio barco.

Ele explica: “as árvores da floresta eram derrubadas sempre que as


toras da carga naufragada não eram adequadas.” E prossegue: “as
tábuas para o casco foram de pau-ferro, para o costado foi usado o
cedro vermelho, grampos de madeira recurvada eram de goiabeira
ou massaranduba.” Como ajudante ele tinha o filho Victor, alguns
nativos, e sua mulher, que costurou as velas…

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Joshua Slocum no Liberdade. Imagem, wikipedia.

13 de maio de 1888, o Liberdade é batizado


Curiosamente, o barco fica pronto no mesmo dia da Lei Áurea, 13 de maio de 1888. Por este motivo,
recebeu o nome de Liberdade, em português mesmo.

A tripulação do Liberdade, Slocum, a mulher, e dois filhos.

Uma homenagem de Slocum à libertação dos escravos. E que barco, era o Liberdade! Cheio de
novidades para a época. O Liberdade tinha 35 pés de comprimento, por 7,5 pés de boca (largura). Ele
explica o tipo, “o modelo foi baseado em minhas recordações dos barquinhos de Cabo Ann e na foto de
uma sampana japonesa muito elegante que eu tinha no local”, como era de esperar, o barco lembrava os
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dois tipos de embarcação.Opinião


Para evitar que capotasse, Slocum colocou varas de bambu grosso, nas
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laterais do barco. Como são ocos, com ar dentro, funcionam como espécies de boias. O velame era em
estilo à sampana chinesa, “que é para mim, o mais conveniente aparelho de barco do mundo”. Em 24 de
junho de 1888 o Liberdade, tendo a bordo Slocum a mulher e dois filhos, zarpa de Paranaguá para
Washington. Seis meses depois de muitas aventuras, o pequeno barquinho chega ao seu destino.

A admiração pelas embarcações típicas, e o respeito pelos


marinheiros da costa
“Essas canoas, às vezes esculpidas a partir de árvores gigantescas, habilmente modeladas e escavadas,
são ao mesmo tempo a carruagem carriola da família para o sítio, ou do arroz para o moinho.

Estradas são quase desconhecidas onde a canoa está disponível; consequentemente, homens, mulheres
e crianças são tão adestrados quase à perfeição na arte da canoagem.

A canoa familiar tem capacidade para muitas toneladas , é lindamente decorada com entalhes ao longo
das bordas…Da maior à menor elas são bem cuidadas, com cuidado quase afetuoso, e dão feitas para
durar muitos anos…encrespando a superfície com belas proas bem- torneadas enquanto disparam
sobre as águas suaves de baías e rios…

Até hoje idolatrei a honestidade dos nativos brasileiros bem como a


habilidade náutica nacional e a perícia com canoas…

Outras aventuras
“Joshua Slocum ainda voltou ao Brasil, contratado pelo Governo,
trazendo um navio torpedeiro, Destroyer, para ajudar legalistas a
enfrentar uma rebelião naval. Apesar de terem lhe oferecido um
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pagamento substancial, nada recebeu.


Opinião Assim, quando retornou ao Brasil, em sua viagem de volta ao
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mundo, desembarcou para cobrar o que lhe era devido.”

O Mestre dos Mares.

“Depois da publicação de seu primeiro livro em 1900, o  ícone da vela em solitário não descansou. De
1905 até 1909 fez cruzeiros pelas Índias Ocidentais e em 1909 saiu para novo cruzeiro. Planejou subir o
Orenoco até o Rio Negro e o Amazonas. Após a partida, em 14 de novembro, nada mais se soube dele.
Desapareceu no oceano, aos 65 anos de idade, sem deixar vestígio.”

Fontes: Sozinho ao redor do Mundo, Edições Marítimas; A Viagem do Liberdade, Ed. Planeta; wikipedia.

Despoluição do mar em Florianópolis, será que funciona?

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