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42º Encontro Anual da ANPOCS

GT 19 - O rural no Brasil contemporâneo: questões teóricas e novos temas de


pesquisa

A Política Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais: uma proposta de agenda


de pesquisa nas Ciências Sociais

Marcius Vinicius Coutinho

Caxambu, 2018

1
Introdução

Em 14 de agosto de 2018 foi redigido pela Confederação da Agricultura e


Pecuária do Brasil (CNA) o Ofício Nº 238/2018 destinado ao presidente Michel Temer.
O assunto do documento que fora protocolizado no dia seguinte no Gabinete da
Presidência da República se referia ao pedido de “imediata” revogação do Decreto Nº
6.040 de 07 de fevereiro de 2007 que instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento
Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais1 (PNPCT). A justificativa
apresentada no Ofício para tal pedido fundamentou-se em argumentos de ordem jurídica,
alegando a usurpação de competência do legislativo por não estabelecer um “parâmetro
objetivo” para o acolhimento do critério de “autoatribuição” e para o que seriam
“territórios tradicionais”, causando, segundo o documento perda de terras dos
proprietários rurais.
Esta falta de critérios objetivos, segundo a CNA, violava deste modo, a garantia
constitucional de proteção da propriedade privada e culminava em atos que afrontavam a
ordem e a segurança. Tais atos, denunciados no Ofício, diriam respeito à atuação da
Secretaria de Patrimônio da União (SPU) nas “demarcações de terrenos às margens do
Rio São Francisco em Minas Gerais” que teriam sido realizadas ao livre arbítrio dos
servidores da SPU, o que estaria estimulando conflitos e invasões em diversas regiões do
país. O ofício foi assinado conjuntamente pelo presidente da CNA e pela presidente da
Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), solicitando além da revogação imediata do
dispositivo, a suspensão de todos os processos de demarcação baseados no Decreto Nº
6.040.
Com base no documento descrito acima, mesmo transcorrido uma década de
vigência do referido Decreto, pode-se depreender que as ameaça às ações e programas
desenvolvidos no âmbito da PNPCT estão longe de cessar, especialmente às relativas à
regularização fundiária de terras ocupadas pelos povos e comunidades tradicionais em
diversas regiões do país. O episódio em tela revela por um lado os conflitos e tensões que

1
O Plano de Estado da CNA para o período 2018-2030 apresenta entre outras propostas a revogação do
Decreto Nº 6.040 como se pode conferir em
https://www.cnabrasil.org.br/assets/arquivos/plano_de_estado_completo_21x28cm_web.pdf acessado
em 17/07/2018.

2
envolvem as diversas identidades coletivas que compõem a categoria povos e
comunidades tradicionais e ao mesmo tempo, aponta para as permanências da luta pela
terra e para a emergência na cena pública de sujeitos históricos e políticos que se
agrupam em torno da categoria povos e comunidades tradicionais e a política pública e
eles destinada. A nosso ver cabe às ciências sociais brasileiras, um exame detido sobre a
Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável para Povos e Comunidades
Tradicionais, considerado não somente a disputa na realidade social e política em torno
dos desdobramentos da ação estatal, mas também a organização coletiva dos diversos
movimentos que compõem a categoria e que se conectam com estratégias por eles
adotadas na relação com o Estado e no manejo das identidades.
Em uma busca do termo “Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos
Povos e Comunidades Tradicionais” no Banco de Tese & Dissertações da CAPES foram
encontrados quatro resultados, sendo 03 dissertações e 01 tese de doutorado. Esses
trabalhos foram empreendidos em programas de pós-graduação multidisciplinares, com
viés nos temas de Desenvolvimento Territorial e Ecologia dos Recursos Naturais. Ao
prosseguir com a busca pelo termo “povos e comunidades tradicionais” foram
encontrados 116 resultados com 97 dissertações (03 em mestrados profissionais) e 19
teses elaboradas no período 2011-2016.
Grosso modo, as pesquisas se referem a estudos e caso e/ou etnografias sobre
diversos grupos que compõem a categoria PCT. Os trabalhos de temas mais abrangentes
encontrados foram os de Miranda (2012), que pesquisou a construção sociológica e
jurídica da categoria “Povos e Comunidades Tradicionais”, e de Lopes (2009), que
examinou as normas jurídicas de acesso ao território de PCT da Amazônia Legal. Nesta
busca no sítio eletrônico da CAPES, constatou-se uma impressão que já estava presente
durante minha pesquisa de mestrado e que revela um dado importante: não foram
encontradas, na ocasião da busca, teses de doutorado sobre a formulação da PNPCT no
Brasil e sua importância para a compreensão da relação entre cultura e política para o
processo de democratização do Estado. As menções ao Decreto Nº 6.040 de 2007,
quando feitas, buscaram contextualizar politicas públicas específicas examinadas em
relação à grupos sociais isoladamente como objetos das dissertações e teses defendidas.
Os demais resultados estavam distribuídos entres as “grandes áreas de
conhecimento”, tais como, Antropologia, Sociologia, Ciências Sociais, Geografia,
3
Direito e “Multidisciplinares” com 30 trabalhos. Somente 11 dissertações foram
classificadas pelo portal como pertencentes à área de conhecimento “Ciência Política”,
no entanto foram defendidas no Programa de Pós-Graduação em Cartografia Social e
Política da Amazônia, da Universidade Estadual do Maranhão. Cumpre ressaltar a
diferença entre a vasta literatura produzida pelas ciências sociais brasileiras ao longo do
tempo e que não é nosso objeto de pesquisa e investigação, dada a consolidada reflexão
empreendida por décadas. O que buscamos evidenciar é a ausência de pesquisas sobre a
política pública destinada ao grupo de modo sistêmico e os meandros de sua construção
com ênfase no manejo das identidades, organização coletiva e relação com o aparato
estatal.
Nesse sentido, o objetivo desta comunicação visa propor e justificar a inserção
da Política Nacional para Povos e Comunidades Tradicionais (PNPCT) na agenda de
pesquisa das Ciências Sociais, assinalando ao mesmo tempo que o meio rural brasileiro
se constitui em lócus preferencial para o exame do desenrolar desta política pública e a
atuação em perspectiva histórica dos movimentos sociais que se agrupam em torno da
categoria povos e comunidades tradicionais em sua relação com o Estado e demais
atores. A categoria composta de diversos grupos sociais, quais sejam, povos indígenas e
quilombolas, ribeirinhos, seringueiros, quebradeiras de coco babaçu, pescadores
artesanais e caiçaras, geraizeiros, vazanteiros, pantaneiros, ciganos, pomeranos,
comunidades de terreiro e de matriz africana, fundos de pasto, faxinalenses entre outros2,
denotando, portanto o meio rural brasileiro como espaço historicamente privilegiado para
a compreensão da formação de identidades coletivas e formas de ação coletiva.
A nossa proposta de pesquisa a ser desenvolvida no âmbito do doutorado, visa
examinar como se deu a interação entre os movimentos sociais que compõem a categoria
e o aparato estatal subsidiando a sanção do Decreto-Lei Nº 6.040 de 2007 que institui a
Política Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (PNPCT). Entende-se no que a
criação da PNPCT é resultante do processo de construção democrática, tendo como
2
Segundo a definição disponível no sitio eletrônico da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade
Racial (SEPPIR) os PCT “são definidos como ‘grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que
possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para
sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas
gerados e transmitidos por tradição’. Entre os povos e comunidades tradicionais do Brasil estão quilombolas, ciganos,
matriz africana, seringueiros, castanheiros, quebradeiras de coco-de-babaçu, comunidades de fundo de pasto,
faxinalenses, pescadores artesanais, marisqueiras, ribeirinhos, varjeiros, caiçaras, praieiros, sertanejos, jangadeiros,
ciganos, açorianos, campeiros, varzanteiros, pantaneiros, caatingueiros, entre outros”.

4
princípio a maior participação da sociedade e a criação de espaços de compartilhamento
de poder. Isto não significa pressupor que a afirmação das identidades coletivas e suas
concepções estejam confinadas a estes espaços públicos ou que foram mobilizadas
apenas em função destes. Por outro lado, o que importaria examinar seriam os
enquadramentos destas identidades, constituídas historicamente, e sua posterior relação
com o aparato estatal na organização dos pleitos por políticas públicas.
A minha dissertação de mestrado defendida em outubro de 2016 viabilizou o
contato mais abrangente com o tema sobre povos e comunidades tradicionais permitindo
a maior compreensão sobre a organização política de parte deles e sua relação com o
Estado para a formulação de políticas públicas. Assim, nossa proposta se constitui em
uma continuidade da pesquisa empreendida durante o mestrado, voltada para o exame de
políticas de regularização fundiária para comunidades ribeirinhas, com a ampliação da
escala de análise para a política mais geral onde o objeto de pesquisa do mestrado se
inseriu.
Nesse sentido, parte-se do I Encontro Nacional de Povos e Comunidades
Tradicionais realizado em 2004, com o intuito de analisar a interação entre os
movimentos sociais que compõem a categoria e o aparato estatal subsidiando a sanção do
Decreto-Lei Nº 6.040. Para tanto, se faz necessário um recuo no tempo de modo a refazer
o percurso de construção da PNPCT, considerando a interação entre Estado e sociedade
civil. Essa investigação será centrada no exame detido da interação entre, de um lado, os
movimentos sociais e suas organizações que mobilizam politicamente os diversos grupos
e, de outro, o aparato estatal, especialmente os ministérios que abrigam as políticas
destinadas aos PCT, quais sejam, os do Meio Ambiente (MMA) e Desenvolvimento
Social (MDS).
A crescente institucionalização de mecanismos formais de proteção do trabalho
e a adoção de uma gramática de direitos, acentuadas com a promulgação da CF/88,
permitiram a difusão de uma linguagem que tais grupos, outrora subsumidos em grandes
categorias, tais como, “operário”, “camponês”, “posseiro” e “trabalhador rural”, acionam
e mobilizam configurando a dinâmica dos conflitos distributivos de modos diversos
daquele de viés estritamente classista. Assim, justifica-se o esforço de pesquisa e seu
caráter exploratório em teoria e método dada a necessidade premente das Ciências
Sociais em compreender a capacidade de agência e organização política dos PCT em
5
contextos adversos de comunicação, violência da disputa pela terra e isolamento
geográfico. O exame das formas de ação coletiva acionadas por estes sujeitos históricos,
e sua capacidade de articulação com o aparato estatal ao ponto de influir na formulação
da PNPCT, se justifica pela importância do tema para o processo de construção
democrática no país.

Antecedentes da Política Nacional para Povos e Comunidades Tradicionais

As políticas destinadas aos Povos e Comunidades Tradicionais (PCT) e


previstas na Política Nacional têm como base jurídica artigos específicos da CF/88.
Enquanto os princípios de caráter universal e igualitários estão nos Art. 4º e 5º, o Art.
215 anota o pleno exercício dos direitos culturais dos grupos específicos participantes do
processo civilizatório nacional. Aos povos indígenas são dedicados, na seção destinada à
“Cultura”, os Art. 231 e 232 que tratam do reconhecimento da organização social e do
direito inalienável às terras tradicionalmente ocupadas. As comunidades remanescentes
de quilombo são mencionadas diretamente no Art. 68 do Ato das Disposições
Constitucionais Transitórias (ADCT), cujo teor carrega transitoriedade, se constituindo,
portanto, em conjunto de direitos que implicam uma finitude intrínseca à sua finalidade.
Dagnino (2004a) ajuda a localizar, a partir da promulgação da Constituição Federal de
1988, o conjunto de políticas públicas destinadas ao PCT como desdobramentos do
“processo de construção democrática” em curso desde então:
O marco formal desse processo é a Constituição de 1988, que consagrou o
princípio de participação da sociedade civil. As principais forças envolvidas
nesse processo compartilham um projeto democratizante e participativo,
construído desde os anos 80 ao redor da expansão da cidadania e do
aprofundamento da democracia. Esse projeto emerge da luta contra o regime
militar empreendida por setores da sociedade civil, entre os quais os
movimentos sociais desempenharam um papel fundamental (DAGNINO,
2004a:141).

Com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência amplia-se o


projeto participativo com a incorporação dos pleitos dos PCT no interior do aparato
estatal e, ao longo dos anos seguintes, os artigos constitucionais foram gradativa e
cumulativamente regulamentados por meio de dispositivos legais específicos que

6
buscavam incorporar à legislação nacional as convenções internacionais atinentes ao
tema (ALMEIDA, 2007). O principal dispositivo jurídico supranacional relativo à
categoria é a Convenção Nº 1693 de 1989 da Organização Internacional do Trabalho
(OIT) sobre povos indígenas e tribais e que foi ratificada pelo Brasil somente em 2004. A
inovação contida na Convenção diz respeito à distinção entre os termos “populações” e
“povos”. O primeiro termo denota “transitoriedade e contingencialidade, enquanto que
‘povos’ caracteriza segmentos nacionais com identidade e organização próprias,
cosmovisão específica e relação especial com a terra que habitam” (OIT, 2011: 09).
A aplicação efetiva da Convenção 169 é reivindicada pelos PCT, por exemplo,
no âmbito do licenciamento ambiental dos projetos de desenvolvimento e infraestrutura.
Nesse sentido, a Portaria Interministerial Nº 419 de 26 de outubro de 2011 e a Portaria
Interministerial Nº 60 de 25 de março de 2015 previam mecanismos, a nosso ver
rudimentares, de elaboração de estudos específicos e de consulta somente para indígenas
e quilombolas.

Criação e funcionamento da Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável


para Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT)

Em agosto de 2004 - ano inicial de nossa proposta de pesquisa -, foi realizado o


I Encontro Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, cujo tema foi “Pautas para as
Políticas Públicas”. O principal objetivo era o de subsidiar a formulação do que se
tornaria a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades
Tradicionais. Nesta ocasião foram apresentadas as demandas que, conforme o relato do
encontro4 priorizavam o acesso às terras tradicionalmente ocupadas. Também se
deliberou sobre a composição dos representantes e suplentes na Comissão instituída em
dezembro de 2004, onde tomaram assento as seguintes entidades e associações
representativas dos PCT:

 Sertanejos: Associação de Mulheres Agricultoras Sindicalizadas (titular e suplente);

3 A Convenção foi adotada na 76ª Conferência Internacional do Trabalho e tinha como objetivo observar as normas
enunciadas na “Recomendação sobre populações indígenas e tribais” de 1957.
4 Disponível em http://nupaub.fflch.usp.br/sites/nupaub.fflch.usp.br/files/PDF%20-
%20I%20Encontro%20Nacional%20de%20Comunidades%20Tradicionais.pdf acessado em 21/10/2016.
7
 Seringueiros: Conselho Nacional de Seringueiros (titular e suplente);
 Comunidades de Fundo de Pasto: Coordenação Estadual de Fundo de Pasto (titular e suplente);
 Quilombolas: Coordenação Nacional de Quilombolas - CONAQ (titular e suplente);
 Agroextrativistas da Amazônia: Grupo de Trabalho Amazônico (titular e suplente);
 Faxinais: Rede Faxinais (titular e suplente);
 Pescadores artesanais: Movimento Nacional dos Pescadores - MONAPE (titular e suplente);
 Povos de terreiro - Associação Cultural de Preservação do Patrimônio Bantu (titular) e
Comunidades Organizadas da Diáspora Africana pelo Direito à Alimentação Rede Kôdya
(suplente);
 Ciganos: Associação de Preservação da Cultura Cigana (titular), e suplente indicado pelo Centro
de Estudos e Discussão Romani (suplente);
 Pomeranos: Associação dos Moradores, Amigos e Proprietários dos Pontões de Pancas e Águas
Brancas (titular) e Associação Cultural Alemã do Espírito Santo (suplente);
 Indígena: Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (titular), e
Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo
(suplente);
 Pantaneiros: Fórum Mato-grossense de Desenvolvimento (titular) e Colônia de Pescadores Z-5
(suplente);
 Quebradeiras de Coco: Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu (titular) e
Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão (suplente);
 Caiçaras: Rede Caiçara de Cultura (titular) e União dos Moradores da Juréia (suplente);
 Geraizeiros5: Rede Cerrado (titular) e Articulação Pacari (suplente).

Os debates se seguiram com a problematização de vários temas e reflexão sobre


as concepções identitárias que os grupos acionavam para se autodefinirem e nesse
sentido:
Chegou-se à conclusão de que “comunidades” seria um termo que abrange a
maioria. Em seguida, deve-se definir o que significa ser tradicional, pois
diferentes perspectivas sociais geram conceitos distintos, não existindo uma
definição correta. A definição e delimitação do conceito é uma questão
política e técnica. Foram apresentados possíveis critérios para definição de
comunidades tradicionais: uso sustentável da terra, destino da produção,
vínculo territorial, situação fundiária, organização social, expressões culturais,
inter-relações com outros grupos da região e autoidentificação (Relato do I
Encontro Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, 2004: 5, grifos
nossos).

5 Segundo o Portal Ypadê: “Geraizeiros são as populações que habitam os campos gerais do Norte do estado de Minas
Gerais. Se autodefinem em contraposição a outros povos (caatingueiros, vazanteiros e veredeiros) que, apesar de se
situarem nas mesmas regiões geográficas, vivem em biomas e com modos de vida distintos. São conhecidos como
geraizeiros, geralistas ou chapadeiros. Seu modo de vida é completamente alinhado às características do Cerrado, de
onde tiram tudo o que é necessário para sobreviver.” Ver http://portalypade.mma.gov.br/geraizeiros acessado em
30/11/2017.

8
Alguns eventos6 que ilustram as lutas de décadas anteriores e a mobilização política de
grupos que compõem a categoria PCT podem ser encontrados, por exemplo com a
criação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em 1975 a partir do Encontro de Bispos e
Prelados da Amazônia em 1975, convocado pela Confederação Nacional de Bispos do
Brasil (CNBB) e realizado em Goiânia. Nessa ocasião, foi firmado o compromisso com a
defesa dos posseiros da Amazônia, com o trabalho de formação de agentes de pastoral e
organização política dos trabalhadores do campo. Um dos eixos de atuação da CPT
refere-se à diversidade camponesa e que, de acordo com o sítio eletrônico da entidade 7, é
caracterizada nos seguintes termos:

Cada grupo camponês tem características próprias, identidades diferentes.


Com isso começou [a CPT] a dar mais atenção a essa diversidade e a buscar
um tratamento diferenciado a cada uma delas – indígenas, quilombolas,
posseiros, extrativistas, seringueiros, faxinalenses, geraizeiros, camponeses de
fundo e fecho de pasto, retireiros do Araguaia, assentados, ribeirinhos,
acampados, sem terra, atingidos pela mineração, atingidos pelos grandes
projetos, camponeses tradicionais, atingidos por barragens, migrantes,
pequenos agricultores, juventude camponesa, coletivos de mulheres - e muitas
outras mais. Muitos destes grupos e comunidades são qualificados como
comunidades tradicionais. Uma das características que os distingue é o uso
comum da terra onde vivem e trabalham (CPT, 2017).

Outro evento importante da organização anterior dos grupos pode ser


encontrado na realização da Missa dos Quilombos em 1981, celebrada por Dom Helder
Câmara e Pedro Casaldáliga na Serra da Barriga onde se localizou o Quilombo de Zumbi.
E no ano seguinte, também no Estado de Alagoas, foi realizado o I Simpósio Nacional de
Palmares quando a “questão quilombola” foi abordada e contou com a participação de
militantes do movimento negro (FIABANI, 2008).
A fundação do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) em 1985 durante o I
Encontro Nacional do grupo realizado em Brasília se constitui em outro momento da
organização política de integrantes da categoria PCT. Teve Chico Mendes como
principal liderança até seu assassinato e desde então o Conselho atua na assessoria
6
Outros episódios relevantes para a construção destes sujeitos são mencionados por diversos autores. É o caso dos
trabalhos de Furtado (2009), Neves (2009), Cruz (2011) e Fraxe (2012) sobre as populações ribeirinhas, os trabalhos de
Acevedo Marin e Castro (1998), Gomes (2006; 2015) sobre processos de aquilombamento, e Nahum (2011) que
articula a plasticidade étnica que une ribeirinhos e quilombolas. Encontra-se nas pesquisas de Almeida (2004; 2007;
2010), Diegues e Arruda (2001), Little (2002) e Menezes (2010) a articulação da categoria povos e comunidades
tradicionais de modo mais abrangente, considerando a relação com o ambiente e constituição histórica destes sujeitos.

7
https://www.cptnacional.org.br/sobre-nos/historico, acessado em 20/09/2018

9
política das comunidades extrativistas dos nove estados da Amazônia. No congresso de
2009 foi aprovada a mudança do nome da entidade para Conselho Nacional das
Populações Extrativistas, mantendo, contudo a sigla CNS. E entre 25 e 31 de março de
19898 foi realizado em Rio Branco o I Encontro Nacional dos Povos da Floresta e o II
Encontro Nacional dos Seringueiros com a presença também de ribeirinhos, indígenas
quando se discutiram politicas governamentais destinadas aos grupos e demais povos da
Amazônia.
Decerto que diversos autores9 e eventos de mobilização dos grupos poderiam
ainda ser acionados, para evidenciar o acumulo de força dos diferentes grupos e o
histórico de construção da articulação entre organização política, cultura e identidades e
que são anteriores à CF/88. No entanto, considerando a cumulativa força e organização
dos diferentes grupos e a necessidade estratégica de se alcançar a eficácia política
possível do conceito Povos e Comunidades Tradicionais, nossa proposta de pesquisa se
concentraria no exame das contingências urdidas na articulação dos diversos grupos e
entidades que compõem a categoria PCT e como se reagiu a elas em relação à
formulação e execução da PNPCT. Entre 2004 e 2006 foram realizados cinco encontros
regionais que subsidiaram a criação do Decreto de 13 de julho de 200610 que alterava o
nome para Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e
Comunidades Tradicionais (CNPCT).
A Comissão estruturou-se em torno de um Plenário, instância superior de
deliberação, uma Secretária Executiva, e ainda com quatro Câmaras Técnicas
Permanentes que elaboram propostas submetidas ao Plenário, em articulação com os
princípios e diretrizes previstos pela Política Nacional de Povos e Comunidades

8
Disponível em https://documentacao.socioambiental.org/noticias/anexo_noticia/34237_20160303_105650.pdf
acessado em 15/08/2017

9
Sobre os autores que se detiveram em pesquisar a região amazônica e o estado do Pará especialmente, ver Velho
(1972), Esterci (1979; 1987), Ianni (1979), Hebetté (1983), Emmi (1988), Castro (1989) e Martins (1986; 2009). Entre
os que enfatizam as trajetórias de lutas frente à violência da modernização capitalista do meio rural para além dos
limites da Amazônia, ver os trabalhos de Palmeira (1985), Medeiros (1989; 1996), Tavares dos Santos (1995), Oliveira
(2001), Sigaud (2004), Torres (2008; 2012), Guerra (2013), que permitem não só a compreensão sobre como os
sucessivos regimes de terras contribuíram para a geração de exclusão no meio rural, como também dos conflitos que
encetaram o surgimento de diversos atores, identidades coletivas e o engajamento de associações, sindicatos e Igreja na
luta pela terra.
10
Em 27 de dezembro de 2004 foi instituída por meio de decreto a Comissão Nacional de Desenvolvimento
Sustentável das Comunidades Tradicionais, o qual seria revogado em 2006.
10
Tradicionais (PNPCT)11. Na 2ª. Reunião Ordinária da CNPCT, em setembro de 2006, foi
aprovado o texto base da Política Nacional que seria apreciado pelos representantes em
cinco oficinas regionais.

Funcionamento e execução da PNPCT

Em 7 de fevereiro de 2007 foi sancionado o Decreto Nº 6.040 que instituiu a


PNCT que definiu a categoria no seu Art. 3º nos seguintes termos:

I - Povos e Comunidades Tradicionais: grupos culturalmente diferenciados e


que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização
social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para
sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando
conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição
(BRASIL, 2007).

Ilustramos alguns temas discutidos pelos PCT, a partir de dois documentos 12 que
integram uma das fontes de dados da pesquisa e mobilizam problemáticas que serão
examinadas de forma detida durante o doutorado.
O primeiro tema que os dois documentos revelam trata da reivindicação da
aplicação efetiva da Convenção Nº 169 da OIT para todos PCT afetados por projetos de
desenvolvimento. Como este procedimento é somente adotado com povos indígenas e
comunidades quilombolas, os demais grupos protestam contra a exclusão dos processos
de licenciamento ambiental das obras que interferem em seus territórios.
O segundo tema de debate anotado nos dois documentos se refere a demandas
que se relacionam diretamente com identidade, como por exemplo, o direito do uso das
roupas, adereços e paramentos característicos de cada grupo, demanda explicitada por
representantes das comunidades de matriz africana. Ao mesmo tempo, parte dos pleitos
relacionava-se não só com a regularização fundiária de seus territórios, mas com maior
acesso e novas concepções de serviços públicos, em especial de educação, que deveria
ser diferenciada.

11 Conferir “A Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos PCT na Visão de seus Membros”, publicado
pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA) em 2012 e que apresenta os resultados das entrevistas com os
representantes das associações que integravam a CNPCT.

12
Os documentos “Prioridades Para Implementação da PNPCT” e “Cartas e Moções dos Encontros Regionais dos
PCT” estão disponíveis em http://mds.gov.br/acesso-a-informacao/povos-e-comunidades-tradicionais/ii-encontro-
nacional-de-povos-e-comunidades-tradicionais/ii-encontro-nacional-de-povos-e-comunidades-tradicionais. Acessado
em 27/10/2016
11
A terceira problemática trata do repúdio à histórica invisibilidade dos grupos e
de suas organizações sociais que segundo os participantes foram constituídas em espaços
de luta, exaltando, no entanto, os avanços obtidos nas últimas décadas no tocante à
mobilização politica da categoria e à maior capacidade para tensionar o Estado, pautar
demandas e afirmar direitos. Cumpre ressaltar que um dos últimos atos da presidenta
Dilma Rousseff, em 09 de maio de 2016 foi extinguir a Comissão Nacional e instituir,
por meio do Decreto Nº 8.750, o Conselho Nacional de Povos e Comunidades
Tradicionais (CNPCT)13, um órgão colegiado de caráter consultivo e vinculado ao
extinto Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), revelando o
novo lugar para os PCT no interior do aparato estatal, na busca por conjugar
reconhecimento e compartilhamento de poder. A representação da sociedade civil na
composição do conselho deve se dar por meio de convocação de edital público. Este
Conselho deve ser formado por 44 membros titulares com direito a voz e voto, divididos
entre 29 membros da sociedade civil e 15 da administração pública federal, e as vagas
destinadas à sociedade civil devem ser ocupadas por meio de eleição e assegurando a
presença de cada um dos 29 “segmentos” listados no Decreto.

Possíveis aportes teóricos


Intentamos localizar os dispositivos legais e as reivindicações por
reconhecimento identitário dos grupos como dimensões que podem ser compreendidas a
partir de uma concepção mais abrangente de justiça e direitos, cotejando demandas mais
gerais com aquelas associadas à invisibilidade de grupos e suas particularidades
históricas e culturais. Nesse sentido, os aportes teóricos à pesquisa poderiam ser aqueles
que a direcionem no sentido de compreensão das políticas para Povos e Comunidades
Tradicionais, onde o reconhecimento de identidades específicas é acionado como
justificativa para políticas públicas. Desta problemática emerge a seguinte pergunta:
como conjugar demanda por visibilidade com politicas públicas que articulem igualdade
e direito à diferença?

13
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/decreto/d8750.htm, acessado em 20/08/2017

12
Uma contribuição para o esforço de compreensão da PNPCT pode vir da noção
de “paridade de participação” proposta por Fraser (2007), que se revela importante para a
presente pesquisa pelo esforço para conciliar a moralidade kantiana universalmente
vinculante do que é correto e a ética hegeliana do bem ou da boa vida em sua concepção
de justiça. A distribuição de recursos materiais para assegurar independência e voz dos
atores e a eliminação de normas institucionalizadas que depreciam grupos de pessoas e
categorias identitárias visam a superação da subordinação dos grupos e não a valorização
da identidade unicamente. Essa ambivalência alude ao dilema, objeto de tensões e
embates, entre duas importantes correntes teóricas da justiça.
O modelo proposto por Fraser (2007) indica tanto a necessidade de observar o
problema da distribuição orientada pela neutralidade do Estado quanto as diversas
concepções de “boa vida” e, portanto, de reconhecimento, resultante da valoração de
práticas e identidades variadas. Para tanto, a autora defende uma “noção ampla de
justiça”, sem vincular diretamente o reconhecimento à uma questão de ética. Ao tratar o
reconhecimento como uma questão de justiça e não de ética, Fraser busca integrar
distribuição com reconhecimento, com a noção de “paridade de participação”. Tal noção
significa igualdade de condições entre os atores, tendo como imperativo moral a garantia
da “possibilidade” de paridade, quando se escolhe participar de uma dada atividade ou
interação, sendo apresentada por Fraser nos seguintes termos:
Como já foi dito, o centro normativo da minha concepção é a noção de
paridade de participação. De acordo com essa norma, a justiça requer arranjos
sociais que permitam a todos os membros (adultos) da sociedade interagir uns
com os outros como parceiros. Para que a paridade de participação seja
possível, eu afirmo que, pelo menos, duas condições. devem ser satisfeitas.
Primeiro, a distribuição dos recursos materiais deve dar-se de modo que
assegure a independência e voz dos participantes. Essa eu denomino a
condição objetiva da paridade participativa. Ela exclui formas e níveis de
desigualdade material e dependência econômica que impedem a paridade de
participação. Desse modo, são excluídos os arranjos sociais que
institucionalizam a privação, a exploração e as grandes disparidades de
riqueza, renda e tempo livre, negando, assim, a algumas pessoas os meios e as
oportunidades de interagir com outros como parceiros.
Ao contrário, a segunda condição requer que os padrões institucionalizados de
valoração cultural expressem igual respeito a todos os participantes e
assegurem igual oportunidade para alcançar estima social. Essa eu denomino
condição intersubjetiva de paridade participativa. Ela exclui normas
institucionalizadas que sistematicamente depreciam algumas categorias de
pessoas e as características associadas a elas. (FRASER, 2007: 118-119)

13
O que está em questão são as preocupações com a teoria da justiça distributiva e
de viés econômico, enquanto que as condições intersubjetivas dizem respeito à filosofia
do reconhecimento e às posições dos atores da vida social definidas culturalmente. O
atendimento de ambas as condições reside na construção, democraticamente e
discursivamente, da paridade participativa. A proposição que a teoria da justiça e
reconhecimento faz sobre a posição dos atores na vida social ser definida culturalmente
leva à formulação da seguinte pergunta: como se manifesta a articulação entre cultura e
política para a análise do nosso objeto?
Como nos informa Dagnino (2000) as ações do Estado relativas à cultura são
frequentemente reduzidas na América Latina, por meio da expressão “política cultural”
(DAGNINO, 2000: 85), à produção e consumo de bens culturais (arte, cinema, teatro,
etc) e se desenrolam em um terreno “separado da política” (idem).
No entanto, o uso e sentido que a autora dá para a expressão “política cultural”
destaca o laço constitutivo entre cultura e política e as implicações que este vínculo traz
para a própria redefinição de política. De modo semelhante ao da autora sustentamos que
a cultura “como concepções de mundo, como conjunto de significados que integram
práticas sociais, não pode ser entendida adequadamente sem a consideração das relações
de poder embutidas nessas práticas” (DAGNINO, 2000: 85). No sentido inverso, as
relações de poder não podem ser analisadas sem o exame detido da dimensão cultural,
uma vez que produzem significados que se expressam na ação política.
Na literatura da teoria dos movimentos sociais pode ser encontrado o aporte que
contribua para lançar luz sobre a pesquisa, sobretudo as que ressaltam a dimensão
cultural e os processos de atribuição de sentido para a ação. Ao mesmo tempo, a teoria
dos movimentos sociais contribuiria para responder a questão de como os diversos
grupos que compõem a categoria PCT se organizam politicamente em contextos
adversos. Considerando, as adversidades na comunicação, isolamento geográfico e
conflitos locais históricos, a compreensão do percurso de organização e mobilização dos
atores se constitui em questão relevante para a agenda de pesquisa da PNPCT. Ainda no
mesmo registro, Silva et al (2017) identificam duas grandes vertentes teóricas que
resignificam a “dimensão simbólico-cultural”: uma de viés marxista que incorpora
formulações e conceitos gramscianos e a segunda no âmbito da Teoria dos Novos

14
Movimentos Sociais (TNMS) que busca romper com o determinismo econômico a partir
do conceito de identidade coletiva.
A primeira vertente da teoria, tal como articulada por Dagnino (2000), explora
os conceitos de hegemonia, reforma intelectual e moral, e a compreensão incorporada de
Gramsci de que o poder é resultante da relação entre forças sociais que deve ser
transformada. Nesse sentido, a articulação entre cultura e política, como dito
anteriormente, passa a ser constitutiva da própria ação política e da emergência de
diferentes sujeitos. O conjunto de práticas, saberes e manifestações religiosas, de modo
muito próximo ao que Thompson (1998) definiu como cultura plebeia, se constitui em
abordagem possível para a formulação das identidades e das relações de poder urdidas no
âmbito da formulação e execução da PNPCT. Acredita-se que essa perspectiva contribua
para dar direção à pesquisa no sentido de valorizar a agência e subjetividades dos
diversos grupos tanto na relação com o aparato estatal para a produção de políticas
públicas quanto para a conformação das diversas identidades que compõem os PCT.
Ao mesmo tempo a noção de “projeto político” que orienta a ação política,
claramente vinculada ao pensamento gramsciano, pode ter um peso explicativo relevante
para a análise da PNPCT e contribuiria para orientar a pesquisa. Uma definição mais
elaborada desta noção foi formulada por Dagnino (2006) e se refere a “os conjuntos de
crenças, interesses, concepções de mundo e representações do que deve ser a vida em
sociedade e que orientam a ação política dos diferentes sujeitos” (DAGNINO, 2006: 40),
e traz na delimitação do que é projeto político algumas implicações. Na primeira delas a
autora destaca o papel do sujeito e da agência como dimensões fundamentais da política.
A segunda implicação da noção de projeto político, nos termos que a autora
elabora, é o vínculo indissolúvel entre cultura e política que a noção expressa, uma vez
que os projetos “não expressam somente estratégias de atuação política, mas também
significados que compõem matrizes culturais mais amplas”. Uma terceira implicação diz
respeito à flexibilidade que a noção, tal como definida por Dagnino, contém. Isto
significa que projeto político não se limita a formulações sistematizadas e permitindo
assim dar conta da multiplicidade e diversidade de sujeitos envolvidos no processo de
construção democrática, em suas diferentes formas de ação. E a quarta característica
desta definição e que se revela útil refere-se à diversidade no interior do próprio projeto
político e às várias dimensões que nela estão presentes.
15
Apontamos que a organização dos trabalhadores rurais e demais atores do meio
rural estimulou a assunção de identidades coletivas, lutas e exigiu do Estado respostas
aos movimentos reivindicatórios que se formaram. Assim, a atuação de sindicatos e
movimentos sociais, com o final da ditadura colocou em pauta a construção de uma
“nova cidadania”, como nos informa Dagnino:
A então chamada nova cidadania, ou cidadania ampliada começou a ser
formulada pelos movimentos sociais que, a partir do final dos anos setenta e
ao longo dos anos oitenta, se organizaram no Brasil em torno de demandas de
acesso aos equipamentos urbanos como moradia, água, luz, transporte,
educação, saúde, etc. e de questões como gênero, raça, etnia, etc. Inspirada na
sua origem pela luta pelos direitos humanos (e contribuindo para a progressiva
ampliação do seu significado) como parte da resistência contra a ditadura,
essa concepção buscava implementar um projeto de construção democrática,
de transformação social, que impõe um laço constitutivo entre cultura e
política. Incorporando características de sociedades contemporâneas, tais
como o papel das subjetividades, o surgimento de sujeitos sociais de um novo
tipo e de direitos também de novo tipo, bem como a ampliação do espaço da
política, esse projeto reconhece e enfatiza o caráter intrínseco da
transformação cultural com respeito à construção da democracia (DAGNINO,
2004b: 103).

O papel das subjetividades e o surgimento de novos sujeitos sociais,


mencionados pela autora, demandou a formação de espaços privilegiados para ação
coletiva e o reconhecimento das identidades que foram invisibilizadas pelas categorias
tradicionalmente acionadas para a análise das lutas no campo, tais como, “camponês”,
“trabalhador rural”, “agricultor familiar” e “posseiro”. Ao mesmo tempo, as
subjetividades importam na constituição de novas identidades e estas também podem
informar não só processos de democratização do aparato estatal, como a interação destas
mesmas identidades em movimento com o Estado.

Interação entre Estado e Sociedade Civil no Brasil e suas inovações

A maior interação entre atores estatais e não-estatais se deu num contexto de


maior democratização (DAGNINO, 2002), em grande medida como resultado da
mobilização e luta dos diversos grupos anterior à promulgação da CF/88. Das
características acionadas por Dagnino (2002) no tocante à construção de espaços públicos
na relação entre sociedade civil e Estado, destacamos os limites e possibilidades da
partilha do poder como possibilidade de compreensão das políticas públicas.

16
Soma-se a esta vertente da teoria aquela que valoriza a proximidade dos
movimentos sociais e atores estatais em sua capacidade de produzir inovações nos
padrões de interação entre Estado e sociedade (ABERS, SERAFIM, TATAGIBA: 2014).
As autoras apontam que a gestão Lula, iniciada em 2003 criou novos conselhos nacionais
de políticas públicas, fortalecendo aqueles que haviam sido criados anteriormente. Esses
avanços estariam relacionados menos a uma abordagem participativa do governo em seus
diversos órgãos e mais com a presença de militantes no interior dos ministérios. A partir
de uma pesquisa de Maria Celina D’Araujo que examinou o perfil social e político de
cargos de alto escalão e constatou a presença de lideranças sindicais ocupando essas
posições pela primeira vez na história, somando-se coma ligação próximas de ministros
com movimentos sociais. Segundo D’Araujo os dados de sua pesquisa sugerem que o
governo Lula representou uma gama de interesses mais diversos do que já visto
anteriormente.
O objetivo de Abers, Serafim e Tatagiba (2014) é argumentar que no contexto
de maior proximidade entre movimentos sociais e aparato estatal se experimentou
criativamente padrões históricos de interação Estado-sociedade. Para tanto, ativistas que
assumiram cargos na burocracia estatal transformaram agências governamentais em
espaços de militância utilizados para defender bandeiras desenvolvidas no âmbito da
sociedade civil. Para as autoras tais ativistas buscavam fortalecer e construir “espaços
participativos formalizados”, experimentando também outros canais de comunicação,
negociação e colaboração entre Estado e sociedade civil. O repertório acionado incluiu
novas formas de negociação baseadas em encontros mais personalizados entre estado e
movimentos, além de estar baseado em protestos.
Nesse sentido, as autoras buscam compreender a combinação de práticas e
rotinas de interação entre Estado e movimentos nas políticas públicas. O argumento
central das autoras é de que tais variações e combinações podem ser explicadas a partir
de dois fatores: os padrões históricos de relações estado/movimento em cada setor que
expressa a heterogeneidade do Estado Brasileiro e a abertura do governo Lula ao
experimentalismo inédito resultante da presença de aliados dos movimentos em postos
chave. Para tratar o argumento de que a interação estado-sociedade deriva tanto da
tradição histórica quanto de um grau de “experimentalismo” as autoras acionam,
adaptando o conceito de repertoire of contention, de Charles Tilly para analisar as
17
escolhas feitas pelos movimentos não no que se refere ao conteúdo e sim à sua forma. Os
argumentos de Tilly apontam que quando os ativistas decidem organizar a ação eles o
fazem a partir de um repertório finito de técnicas e práticas, experimentadas
anteriormente com legitimidade social e política, e os exemplos práticos acionados pelo
autor são as marchas, petições e barricadas.
As autoras adaptam o conceito de repertório, originalmente formulado por Tilly
para o estudo das dinâmicas contenciosas, para analisar as relações colaborativas entre
atores do Estado e da Sociedade. A análise centra-se em um estudo exploratório de três
setores de políticas públicas que se caracterizam por formas distintas de interação entre
estado e sociedade, mas que passaram por mudanças institucionais durante o governo
Lula. As autoras advertem que utilizam em grande medida “análise de literatura
secundária” sobre cada setor da política, além de breve pesquisa de campo, enfatizando o
ponto de vista dos atores estatais.
Como contribuição para a literatura que examina interação entre movimentos
sociais e aparato estatal está a introdução de um fator explicativo novo, em que as
dinâmicas internas e participação institucionalizada dependem também dos repertórios de
interação entre estado e sociedade constituídas historicamente e formam a base de
experimentação criativa em governos que permitem uma aproximação maior entre
sociedade e estado. As autoras passam brevemente em revista os avanços da literatura
brasileira sobre o tema, no tocante ao processo de construção de democrática e partem de
um insight comum de que novas instituições podem se assemelhar em estruturas legais,
mas podem variar fortemente em seus processos deliberativos. Ao mesmo tempo
articulam a noção de repertórios de interação Estado-sociedade, lançando mão da
definição de Tilly que trata repertório como um “conjunto limitado de rotinas que são
apreendidas, compartilhadas e executadas através de um processo relativamente
deliberado de escolha”.
Muito embora segundo a abordagem da literatura internacional enfatize que a
relação entre estado e movimento esteja baseada no conflito as autoras destacam que na
literatura brasileira essa concepção é desafiada, considerando a contínua atuação do
movimento social no interior do Estado. Nesse aspecto o identificam ao menos quatro
rotinas comuns de interação entre Estado-sociedade: (i) protestos e ação direta: envolve a
pressão aos atores estatais para negociação por meio da demonstração de sua capacidade
18
de mobilização e a forma mais exemplar é a marcha. E no caso do governo Lula, tais
protestos arrefecem e mudam seu significado, dado que o governo era visto como aliado;
(ii) participação institucionalizada: forma de interação marcada pelo uso de canais de
diálogo oficialmente sancionados, tais como as arenas participativas formais que se
caracterizam por reuniões públicas e documentadas. No caso brasileiro as autoras
acionam como principais exemplos o orçamento participativo, os conselhos de políticas
públicas e as conferências; (iii) políticas de proximidade que baseiam-se em contatos
pessoais entre atores do estado e sociedade civil. Atores específicos a partir de sua
posição privilegiada lhe confere um nível de prestígio e é característica de relações
clientelistas, mas não pode ser reduzida a tais padrões. Mesmo sendo tratado
frequentemente como lobby, as autoras chamam atenção que avanços importantes foram
obtidos a partir de contatos diretos, como leis que reformaram políticas sociais e a
criação de sistemas de participação cidadã e; (iv) ocupação de cargos na burocracia:
constitui-se em estratégias para alguns movimentos, como no caso do movimento
ambientalista desde a ditadura militar e quando os governos são percebidos como aliados
dos movimentos essa rotina torna-se mais comum. Ao fim, as autoras utilizam a noção de
repertório de interação de Tilly e as quatro dinâmicas exemplares de interação de estado
e movimento para empreender estudo de caso em três setores da política: Politica Urbana
e o Ministério das Cidades, Política de Desenvolvimento Agrário e de Segurança Pública.
Ainda na vertente da teoria que articula interação entre atores-estatais e não
estatais, destacamos aquela que sustenta a impossibilidade de separação rígida entre
Estado e sociedade civil (ABERS, BÜLOW; 2011), onde o objetivo é localizar dois
movimentos analíticos que ocorrem na literatura de movimentos sociais e ambos no
sentido de ampliar as fronteiras de análise: um com foco no papel de uma multiplicidade
das organizações da sociedade civil baseadas na solidariedade e o outro com o seu olhar
para processos pautados pelo conflito político.
As autoras argumentam que a definição do que pode estar contido na unidade de
análise “movimento social”, por mais que a tendência recente considere a inclusão de
novos atores, mantém ainda na invisibilidade atores e relações sociais que podem ser
importante para a compreensão da ação coletiva transformadora. Sobretudo, quando se
exclui os atores posicionados na arena estatal. Tomando por base os textos resenhados
pelas autoras o Estado aparece como inimigo ou nem é nem deve ser relevante. As
19
autoras sintetizam essas duas propostas: como as relações entre sociedade e estado são
compreendidas e como, a partir de diversos exemplos, pode se dar a interseção entre
estas duas esferas.

Considerações Finais
Entende-se nesta proposta de agenda de pesquisa que a criação da PNPCT é
resultante do processo de construção democrática Dagnino (2004a) tendo como princípio
a maior participação da sociedade e a criação de espaços de compartilhamento de poder.
Deste modo, um oportuno meio de investigar tais questões pode se dar pela análise dos
espaços públicos de compartilhamento de poder entre Estado e sociedade civil,
especificamente a Comissão Nacional para o Desenvolvimento Sustentável para Povos e
Comunidades Tradicionais (CNPCT) em suas reuniões ordinárias, os encontros regionais
e nacionais da categoria. Neles se efetiva, ao menos formalmente, o compartilhamento de
poder com a participação direta dos PCT e ao mesmo tempo se definem as prioridades da
categoria no tocante às políticas públicas.
Busca-se investigar, por meio da análise das atas produzidas nas reuniões
ordinárias da Comissão Nacional, de entrevistas com os atores estatais e não-estatais
envolvidos na formulação e deliberação das políticas e da participação em encontros
regionais e nacionais da categoria, como a interação entre Estado e sociedade civil
modula as políticas públicas e como concepções identitárias são acionadas no debate
entre os diversos grupos. O limite temporal do presente projeto localiza-se entre os anos
de 2004, quando foi realizado o I Encontro Nacional dos PCT, e 2015.
A institucionalização da participação da categoria se deu num contexto de maior
democratização (DAGNINO, 2002), em grande medida como resultado da mobilização e
luta dos diversos grupos anterior à promulgação da CF/88. Seguindo os passos da autora
sobre a participação da sociedade civil em espaços públicos com vistas a uma relação
mais direta com o Estado por parte das entidades e seus atores, intentamos examinar
como esta relação contribuiu tanto para a instituição da PNPCT quanto para os seus
desdobramentos posteriores, por meio de programas e demais ações estatais. Das
características acionadas por Dagnino (2002) no tocante à construção de espaços públicos

20
na relação entre sociedade civil e Estado, destacamos os limites e possibilidades da
partilha do poder como possibilidade de compreensão das políticas públicas para os PCT.
Dentre os mecanismos apontados pela autora, o predomínio de uma “razão
tecno-burocrática”, o excesso de “papelada”, a falta de recursos, operam, pelo lado do
Estado como bloqueio à democratização dos processos de tomada de decisão. Enquanto
que pelo lado da sociedade civil, “a exigência de qualificação – técnica e política”
dificulta a participação mais igualitária nos espaços públicos. As experiências sobre as
quais Dagnino se debruça escapam ao reducionismo que tende a enxergar a sociedade
civil como o “polo de virtude” e o Estado como “encarnação do mal”. Essas visões
surgem no bojo dos conflitos e tensões que permeiam a relação entre aparato estatal e
sociedade civil e desconsideram o caráter histórico de construção destas relações, que são
objetos da política e transformáveis por meio da ação.
Ao mesmo tempo, tal como articulamos em nossa dissertação de mestrado
(COUTINHO, 2016), a relação entre cultura e política se revela central para a análise da
PNPCT porque não seria possível localizar a capacidade de agência e de organização
política dos diversos grupos que compõem a categoria negligenciando o papel das
subjetividades, práticas e histórico de lutas destes mesmos grupos. Ainda que tais
práticas estejam sujeitas à mudança no tempo e no espaço, acabam por conformar, por
meio da organização política e das relações de poder que dela derivam, identidades
coletivas e estratégias de interação com o aparato estatal. Elementos culturais integram
essas identidades e são constitutivos da ação política desses grupos e reconhecer isto
pode permitir a melhor compreensão das políticas públicas destinadas aos PCT.

21
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