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aos autores/organizadores e à EDUFCG

P745 Poesia (cabe) na escola : por uma educação poética / Eliane Debus,
Jilvania Lima dos Santos Bazzo, Nelita Bortolotto, organizadoras. -
1. ed. - Campina Grande - PB : EDUFCG, 2018.
208 p.

ISBN: 978-85-8001-229-3
Inclui referências

I . Educação infantil. 2. Poesia - História e critica. 3. Literatura -


Estudo e ensino. 4. Livros e leitura. I. Debus, Eliane Santana Dias.
II. Bazzo, Jilvania Lima dos Santos. III. Bortolotto, Nelita.

CDU: 37
Catalogação na publicação por: Onélia Silva Guimarães CRB-14/071

EDITORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE - EDUFCG


UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE - UFCG
editora@ufcg.edu.br

Prof. Dr. Vicemário Simões


Reitor

Prof. Dr. Camilo Allyson Simões de Farias


Vice-Reitor

Prof. Dr. José Helder Pinheiro Alves


Diretor Administrativo da Editora da UFCG

Rita Motta, sob coordenação da Gráfica e Editora Copiart


Diagramação

Capa e ilustração com a autoria de Ary Falcão

CONSELHO EDITORIAL
Anubes Pereira de Castro (CFP)
Benedito Antônio Luciano (CEEI)
Erivaldo Moreira Barbosa (CCJS)
Janiro da Costa Rego (CTRN)
Marisa de Oliveira Apolinário (CES)
Marcelo Bezerra Grilo (CCT)
Naelza de Araújo Wanderley (CSTR)
Railene Hérica Carlos Rocha (CCTA)
Rogério Humberto Zeferino (CH)
Valéria Andrade (CDSA)
Sumário

*
Educação poética para a infância e juventude: o que temos (ainda)
a dizer?....................................................................................................... 7
E liane D ebus
J ilvania L ima dos Santos B azzo
N elita B ortolotto

O texto poético em diáLogo com o universo infantil...........................17


V ania M arta E speiorin
F lávia B rocchetto Ramos

Poesia e tecnologia: os desafios da escoLa dos dias atuais................ 33


R osilene de Fátima K oscianski da S ilveira
E liane D ebus
F ernando J osé F rag a de A z e v e d o

Cordel para crianças: aspectos tem áticos e m etodológicos ou um


sabiá na sala de a u la ............................................................................ 49
J osé H élder P in h eir o A lves

O discurso feminino na biblioteca escolar: análise da obra No lugar


do coração, de Sonia Junqueira.............................................................67
E liane A parecida G alvão R ibeiro F erreira
L ucas M a t e u s V iei ra de G o d o y S tringuett
Rafaela M achado Longo
Cordel para crianças:
aspectos temáticos e metodológicos
ou um sabiá na sala de aula

«
J o sé H élder P inh eiro A lves

O pavão era um galã


Trabalhava como ator
Namorava uma perua
Filha do peru doutor
Que receitava remédios
Pra tosse, coceira e dor.
(Hadoock Ezequiel)

Introdução

H á inúmeras formas de levar a literatura às crianças. As diferentes


realidades\e os objetivos é que determinam as opções. Ao longo de trinta
anos trabalhando com textos literários em sala de aula do nível fundamental
à universidade, acreditamos que o caminho mais agradável para as crianças
é aquele que explora a brincadeira com a linguagem, os jogos sonoros, o
humor, enfim, a dimensão lúdica da palavra. L\s crianças tendem a se alegrar
e a se divertir com a sonoridade, com os trocãdíIKos, com a expressão que
soa nova e encantadora e até mesmo com o nonsense.
A literatura de cordel apresenta uma riqueza imensa no que se refere
ao jogo com a linguagem, sobretudo quando a temática são os animais. E a
criança tende a se encantar com essa riqueza, especialmente quando a poesia
não vira pretexto para ensinar alguma coisa (por exemplo, a rimar, a contar
sílaba poética ou a aprender determinados conteúdos).
Quando era criança no sertão do Ceará, ouvia os emboladores de
coco Cachimbinho e Chico Sena, transmitidos pela rádio Tabajara, de João
Pessoa. Ficava extasiado com as brincadeiras, os desafios, a presença de es­
pírito nas respostas. Em família, ouvia inúmeros poemas que, anos depois,
descobri que eram versos de Leandro Gomes de Barros, José Pacheco e tan­
tos outros grandes cordelistas. Eu não sabia o que era uma rima, um verso
de sete sílabas ou mesmo uma sextilha. Mas o encantamento era real e, cer­
tamente, contagiou toda a minha vida. Daí a insistência em que o trabalho
de levar a literatura (a poesia, em particular) às crianças deva ser regido pela
experiência lúdica com a palavra, pela fantasia, pela inventividade.
O utra questão importante: não há, historicamente, uma literatura de
cordel para crianças (ou pelo menos não havia ainda). Os folhetos de cordel
são narrativas que, nem sempre, em sua integralidade, encantam as crianças.
Inúmeras vezes quando levamos poemas inteiros para a sala de aula, a certa
altura, percebemos a distração, o desinteresse. Ao mesmo tempo, observa­
mos também que algumas estrofes detonam boas gargalhas ou expressões
de riso contido. Esse dado é da maior importância, uma vez que a escolha
contribui para uma boa apreciação e envolvimento com o texto.
Pensando nas peculiaridades do leitor das primeiras séries do Ensino
Fundamental, foi que nos veio a ideia de, ao invés de levar cordéis inteiros,
selecionar episódios de poemas ou mesmo apenas estrofes (no caso, mais
sextilhas) para serem lidas independentemente de seu contexto. Muitas es­
trofes que circulam oralmente não fazem parte de narrativas mais longas e
mantêm uma unidade que favorece a apreciação independente1.

1 Esse fato pode ser observado na antologia Pássaros e bichos na voz de poetas populares. Para
saber mais, ver: Pinheiro (2004).

50 Poesia (cabe) na Escola


A temática dos animais, de grande interesse das crianças, apresentada
lit forma lúdica por nossos poetas populares, é uma das possibilidades de
li v.il íis nossas crianças parte da riqueza dessa literatura que sempre esteve
distante da escola. Destaque-se, nessa produção, a diversidade de detalhes
(|iir revela a familiaridade com a natureza e seus ciclos, a convivência com os
animais, conferindo a muitos poemas um caráter mais natural do que outros
mm o mesmo tema, produzidos por poetas considerados eruditos.
Outro aspecto a ser ressaltado é a diversidade de recursos expressivos
(onomatopéias, aliterações, animismo, imagens de grande densidade etc.)
que povoa essa poesia. O hum or comparece quase sempre, conferindo lu-
du idade à construção artística de muitos poetas, como se pode ver nesta
sextilha de Manuel Xudu:

Admiro 100 formigas


Um besouro carregando
60 escanchada em cima
40 embaixo empurrando
E aquelas que vão em cima
Pensam que vão ajudando.

Comparadas à nossa tradição de poemas para crianças, de autores


eruditos, as estrofes de nossos poetas populares em nada ficam a dever. Mui-
las vezes, o nível de realização estética alcançado supera algumas obras de
grande circulação. Veja-se, por exemplo, o registro fantasioso de uma brin­
cadeira entre animais nesta sextilha de J. Borges2:

O peru fazia roda


No terreiro da morada
E o gatinho seu amigo
Era muito camarada
Montava-se no peru
E o peru dava risadas.

2 Para saber mais, ver: Pinheiro (2004).

Cordel para crianças 51


Mas não se trata aqui de dizer que esta poesia é melhor do que aque­
la. Ambas têm o seu valor e devem ser lidas e apreciadas pelas crianças.
Trata-se, isso sim, de estar atento ao brotar da poesia em diferentes contextos
e situações e, sobretudo, não desperdiçar a beleza de uma tradição poética
das mais ricas.
Nos últimos 20 anos, tem surgido um número significativo de fo­
lhetos direcionados para o leitor mirim. E o viés mais escolhido por poetas
e poetisas é a retomada de narrativas tradicionais, como contos de fadas e
algumas fábulas. Outra vertente —não muito distante da primeira —refere-se
a criações em que predominam personagens animais vivendo situações as
mais diversas.
Apresentaremos, neste artigo, um conjunto de narrativas em versos
de cordel, de poetas e poetisas contemporâneos, voltado para o leitor infan­
til. A apresentação visa chamar a atenção para a riqueza e diversidade dessa
produção que cada vez mais ganha espaço, sobretudo por meio da publica­
ção de grandes editoras. A seguir, nos deteremos na indicação de algumas
sugestões de abordagem de um folheto em sala de aula.

Folhetos para crianças

Tradicionalmente, sabemos que os folhetos não eram divididos em


textos voltados para adultos e para crianças, como passou a acontecer com
a criação da literatura infantil. Como as leituras de folhetos aconteciam em
feiras, praças, residências e em horários acessíveis, as crianças tinham acesso
a muitas narrativas. Algumas eram de seu interesse, outras não. E circula­
vam, no meio popular, praticamente em todo o Nordeste, muitas estrofes
soltas que tematizavam aspectos da vida animal, lugares, pessoas e situações
as mais diversas.
É recente, portanto, a preocupação de escrever folhetos voltados para
o leitor infantil. As motivações são várias e, algumas delas, não têm nenhu­
ma justificativa literária. É o caso dos folhetos que tematizam conteúdos
escolares em geral, das mais diferentes disciplinas. Nossa abordagem, entre­
tanto, não contempla esse tipo de folheto, por melhor que seja a qualidade

52 Poesia (cabe) na Escola


tio trabalho. Apreciamos os folhetos enquanto narrativa artística, que, em­
bora possam ostentar uma moral, ao modo das fábulas, têm um enredo ou,
no mínimo, uma abordagem poédca do tema.
Um balanço das publicações de folhetos voltados para o público in-
lantil é sempre incompleto, uma vez que as publicações se espalham pelas
«liversas cidades, estados e até mesmo regiões do Brasil, dificultando o acesso
a um número mais abrangente de obras. No entanto, pelo levantamento que
icmos, é possível apontar algumas tendências dessas publicações.
A primeira questão a ser destacada é que elas vêm assumindo dois
modelos de suporte: 1) o modelo tradicional de folheto, tamanho 10,5 x
15,5 cm (folha A4, dividida em quatro partes), publicado atualmente em
casa com o auxílio de uma impressora simples; 2) no suporte de livro típico
da literatura infantil, publicado por médias e grandes editoras do País. Este
viés, por exemplo, teve já uma ampla divulgação e compra por meio do
Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE)3. Embora o projeto grá­
fico desse segundo modelo seja mais atraente, os custos são bem elevados,
fazendo com que o preço final do livro fique, pelo menos, dez vezes maior
do que o do folheto.
Um segundo aspecto a ser destacado refere-se a possível classificação
que se pode aportar aos folhetos voltados para a infância (e alguns para a
juventude). Um primeiro grupo - que não é propriamente temático, uma
vez que pode contemplar qualquer tema - refere-se às adaptações de diversas
obras literárias: romances (nacionais ou não), contos, contos de fadas, con­
tos populares e fábulas. Destacamos, dentre os que tivemos acesso: O tronco
do Ipê, recontado por Arievaldo Viana; Romance de Iracema: a virgem dos
lábios de mel, por Alfredo Pessoa de Lima; Pinóquio, de Manoel Monteiro;
Jorge e Carolina, em que Rouxinol de Rinaré reconta o romance A viuvinha,
de José de Alencar; As três verdades de Deus, de Janduhi Dantas (adapta­
ção de conto de Leon Tolstoi); Os miseráveis em cordel, por Klévison Viana;
A megera domada em cordel, por Marco Haurélio, dentre inúmeros outros.

3 Uma pesquisa PIBIC-UFCG realizada nos acervos do PNBE entre 2008 e 2011 constatou
que foram selecionados 17 narrativas de cordel, em suporte de livro, conforme Alves e Lima
(2016).

Cordel para crianças 53


A quantidade de contos populares adaptados já é bastante signi-
P ^ tiv a . Destacamos o trabalho de organização de uma seleta de contos
a(Japtados denominada 12 contos de Cascudo em folhetos de cordel (VIANA,
2007)- Os contos de fadas têm sido bastante revisitados por cordelistas
cC)0temporâneos. A lista é imensa, portanto, apontamos aqui o trabalho
Manoel Monteiro, que adaptou contos como O gato de botas, Cha-
pçUZinho vermelho, A gata borralheira, O coelho e o leão, Os três cabelos do
djab°, História de lindo pé e A dança das 12princesas, todos publicados pela
c0i'delaria Manoel Monteiro.
Trata-se de uma prática já bastante antiga, sem, no entanto, a for-
^ c|ue assume na contemporaneidade. Leandro Gomes de Barros escreveu
^ frela adormecida no bosque e Branca de neve e o soldado guerreiro, recontan-
cj0 dois contos de fadas; João Martins de Athayde adaptou a peça Romeu e
jjie ta , de Willian Shakespeare; o romance A escrava Isaura foi adaptado por
^ p ()lônio Alves dos Santos (e mais recentemente por Varneci Nascimento,
ficarmos apenas com três exemplos).
O segundo grupo é o dos folhetos que tratam das aventuras e vi-
vgncias de animais. Trata-se da retomada da tópica conhecida como “No
te0 po em que os bichos falavam”, também bastante frequente na literatura
cordel. Dentre os mais conhecidos, Casamento e divórcio da lagartixa, de
j^eandro Gomes de Barros; No tempo em que os bichosfalavam, de José Fran-
cjsCo Borges; A greve dos bichos, de Zé Vicente; A intriga do cachorro com o
0 , de José Pacheco; O forró da bicharada, de Apolônio Alves dos Santos,

jgfltre outros. Essas narrativas apresentam um caráter fabular, mas diferem


j 0gênero fábula propriamente dito uma vez que nem sempre trazem uma
^Qj-al muito clara.
Recentemente esse viés ganhou também fôlego novo, como se pode
okS£rvar neste breve levantamento de folhetos publicados nos últimos anos:
^ p t a no céu ou a história do sapo que enganou o urubu e O pulo do gato ou o
^Jjano esperto e a onça invejosa, de Klévisson Viana; O coelho que arrebatou
corda do rei Leão, de Bule Bule; Sete dias de forró no reino da bicharada
\Z(rde Gaio, de Marcelo Soares; O sucesso do cachorro e a inveja do gato,
paiva Neves; Proezas dos animais, de Daudeth Bandeira e José de Sousa
p aIitas, O galo e a raposa, de Chico Pedrosa; Eleição no reino da bicharada,

Poesio (cabe) na Escola


de Hadoock Ezequiel; Ideia de bicho, de Chico de Assis; O cordel dos passari­
nhos, de Sebastião Chicute; e A onça e o bode, de José Costa Leite.
Uma pequena amostra da riqueza desse material pode ser observada
nalgumas sextilhas que retomam um mesmo pássaro: o papagaio.

O papagaio faz fuxico


Mas também tem o seu trono
Almoça e janta num torno
Ali mesmo dorme um sono
Mas é o único que sabe
Dar bom-dia pra seu dono.
(Chico D ’Assis, 2017, p. 9)

O papagaio dizia,
Dum oco de catingueira
“Eu falo todas as línguas,
Mas digo cada besteira!
Mais antes cantasse igual
Ao sabiá da palmeira.”
(Antônio Lucena, 2017, p. 5)

Papagaio era estimado


E professor num a escola
Onde uma vez fez exame
A turm a do tatu-bola
Que foi toda reprovada
E levou pau na cachola.
(Zé Vicente, 2004, p. 8)

Como se pode observar nesse rápido apanhado, a produção contem­


porânea é por demais profícua, embora o nível estético de muitos folhetos
seja desigual. Observaremos agora, mais detidamente, um folheto que, por
um lado, pode oferecer algumas dificuldades ao leitor pela diversidade de
animais apresentada; mas, por outro, pode ser um estímulo à descoberta
da diversidade do reino animal. Trata-se do folheto O sabiá da palmeira, de

Cordel para crianças 55


Antônio Lucena (1931-2005), uma obra riquíssima em fantasia poética e
que não foi escrita pensando no leitor infantil, mas que pode ser trabalhada
como se verá a seguir.

Um sabiá na sala de aula

O folheto O sabiá da palmeira, de Antônio Lucena4 narra a expe­


riência de encantamento que a voz desse pássaro provoca nos mais diversos
animais. Duas ações formam o eixo do folheto: primeiro, o canto do sabiá
pode ser lido como uma metáfora de uma das funções da arte, a de suspen­
der os ouvintes de seu cotidiano e mobilizá-los para a contemplação daquele
canto. A segunda ação, ao final da narrativa, é a da cobra que mata o sabiá
da palmeira, privando todos daquela importante experiência estética.
As duas estrofes iniciais enunciam o que motiva o sabiá e, reciproca­
mente, o que a voz provoca na própria natureza que o mobiliza:

Um sabiá mavioso
Morava num a palmeira
De lá ouvia os sussurros
Das águas da cachoeira,
Pelo que se deleitava...
E cantava a tarde inteira.

Enquanto a brisa da tarde


Passava, terna e fagueira,
Ele cantava, cantava...

4 Antônio Lucena, dentre os poetas populares paraibanos, destacou-se por acumular a função
de escritor e de xilogravurista. Tratava-se do que se poderia chamar de um legítimo poeta popu­
lar pelos temas, pelo modo de abordagem, pela visão de mundo que veicula em seus folhetos.
Sobressai em sua obra o tom bem-humorado, o modo fantasioso e brincalhão de tratar seus
temas. Alguns de seus folhetos: As proezas de João Grilo Neto, O ião que dançou lambada no
maior São João do mundo, O Jeca que casou com umajega!, O pastor que virou bode, Revolta de
Lampião para governar o céu, Zefm ha & Sebastião e Vaqueiro velho & patrão, dentre outros.

56 Poesia (cabe) na Escola


Até mesmo a cachoeira
Parava para escutar
O sabiá da palmeira.

A segunda e a terceira estrofe apontam a exaltação da mata como um


Indo, das aves do campo e até da roseira ante o canto do sabiá:

A mata toda exultava


- da sequoia ao manacá —
Enquanto o vento parava
Na copa do jatobá,
Para ouvir a sinfonia
Do canto do sabiá.

Todas as aves do campo,


Da perdiz à lavadeira,
Ficavam maravilhadas,
Até a própria roseira
Se balançava, aos acordes,
Do sabiá da palmeira...

A partir da sexta estrofe, temos como que um desfile de animais, dos


Hiais diversos lugares e condições, que se posicionam ou se preparam para
ouvir o canto do sabiá, e alguns deles também para levar sua colaboração ao
|uiss;iro-cantor-artista, contribuindo assim para seu sustento:

Guriatã em seu bico,


Ia levar o maná
Que recebia das flores,
E quando chegava lá,
Botava, com todo jeito
No bico do sabiá...

O curió, mais dois dias,


Convidava a companheira
Para escolherem na mata,

i o n lí'1 para crianças 57


D a mais seleta fruteira
Um cacho bem madurinho
Pra o sabiá da palmeira.

Há uma espécie de narração dos mais diversos animais em direção à


palmeira, uma espécie de romaria alegre e envolvente:

Cotia espalhou convites


Entre mocó e preá,
Paca, tim bu e tacaca,
Raposa e tamanduá
Pra ir uma caravana
Conhecer o sabiá.

Não falta ao poema a explicitação do jogo intertextual, como se ob­


serva nas estrofes que seguem, em que aciona o poema de Gonçalves Dias e
a canção de Dorival Caymmi:

Nem o Dorival Cayme


Das terras do vatapá,
Chegou à fama que teve
M eu saudoso sabiá...
O utro sabiá daquele
O mundo não criará.

Gonçalves Dias cantou


N a sua lira fagueira,
As grandezas fabulosas
Desta pátria brasileira,
Mas não deixou de falar
No sabiá da palmeira!

Feita essa rápida apresentação do folheto, passemos, então, à pro­


posta de abordagem em sala de aula. Lembrando sempre que a preparação
da leitura oral, pelo professor-mediador, é da maior importância uma vez

58 Poesia (cabe) na Escola


(|ue funciona como um estímulo ao ouvinte. Os folhetos, tradicionalmente,
eram lidos ou cantados em feiras, casas, praças e nos mais diversos lugares.
Temos em mente que o trabalho com o referido folheto poderia ser
realizado a partir do 5o ano do Ensino Fundamental. No entanto, essa é
uma decisão do(a) professor(a) que é quem conhece a turma e sua experiên­
cia de leitura.
Pode-se iniciar o trabalho com uma conversa sobre o canto das aves
em geral. Saber da experiência dos alunos —se já ouviram um pássaro can-
lando (e em que espaço - árvores, gaiolas, sítios etc.). Crianças que vivem
em cidades não costumam ter uma convivência significativa nesse âmbito.
Talvez aqui fosse interessante trazer sons de pássaros cantando, sobretudo,
o do sabiá.
A seguir, apresentar algumas canções para serem ouvidas e cantadas no
espaço escolar. Por exemplo, “Sabiá”, interpretada por Luiz Gonzaga e Elba
Ramalho. Depois fazer algumas realizações orais de poemas que tenham como
temática o referido pássaro. Na tradição popular, várias sextilhas tematizam o
sabiá, pássaro conhecido por sua bela voz. Vejamos alguns exemplos5:

O sabiá do sertão
Faz coisas que me comove
Passa três meses cantando
E sem cantar passa nove
Como que se preparando
Pra só cantar quando chove...
(Biu Gomes)

O sabiá, todo dia,


Se alimenta de mosquito
De gafanhoto, pimenta,
Nunca diminui o grito.
Eu tomo tanto remédio,
Não posso cantar bonito.
(Manoel Xudu)

'' Para saber mais, ver: Pinheiro (2004).

Cordel para crianças 59


É bonito um Sabiá
N um a galha de aroeira
Entoando uma canção
Com a sua voz brejeira
N um a doce sinfonia
Bordada de poesia
Encantadora e fagueira.
(Daudeth Bandeira; José de Sousa Dantas)

Podemos encerrar as atividades com a leitura de “Canção do exílio”,


Je Got1Çalves Dias, sem entrar em detalhes analíticos, uma vez que o poema
chama a atenção, sobretudo, pela musicalidade.
Depois essa aproximação poética do sabiá, entraríamos propriamente
n a leitora do folheto O sabiá da palmeira, de Antônio Lucena. Começaría­
mos lendo algumas estrofes esparsas que retomem animais do conhecimento
dos leítores para, a seguir, ler todo o folheto. Por exemplo, as borboletas:

As borboletas azuis
Nas flores das trepadeiras,
Uma, batendo as asinhas,
Comentava à companheira:
“como é bonito o gorjeio
D o sabiá da palmeira!”

À medida que for lendo, já pode ir discutindo/conversando: por


se conhecem os animais que falam, sobre o que dizem, os gestos
e x e m p l ° >

que realizam etc. Se não conhecem, proc urar partilhar conhecimentos ou, a
posteriori, pesquisar e trazer informações para a turma.
A seguir dessa leitura inicial - que poderá ser repetida a partir da lei­
tura das estrofes que mais gostaram - sugerimos a realização de atividades de
vivência e recriação do folheto. Destacamos, de modo mais pontual, alguns
passos de um jogo dramático, que poderá ser realizado a partir do poema
como Lim todo ou de algumas estrofes. O jogo dramático, segundo SIade
(1978, P- 17, grifo do autor), “[...] é uma forma de arte por direito próprio;
não é uma atividade inventada por alguém, mas sim o comportamento real

60 Poesia (cabe) na Escola


dos seres humanos”. Ainda, segundo Slade (1978, p. 18, grifo do autor), no
jogo dramático:

Pode haver momentos intensos do que poderíamos nos dignar a cha­


mar de teatro, mas no geral trata-se de drama, e a aventura, onde o
fazer, o buscar e o lutar são tentados por todos. Todos são fazedores,
tanto como ator como público, indo para onde querem e encarando
qualquer direção que lhe apraz durante o jogo.

Slade (1978) lembra ainda que a “[...] tarefa do professor é a de aliado


amoroso”, diríamos, também, que de estimulador, de incentivador, jamais
a do que julga e compara, criando hierarquias entre os participantes. Nesse
sentido, na criação e recriação de um jogo, é da maior importância refazer as
ações, as cenas, mudando os participantes/personagens.
Vejamos, a seguir, uma sugestão de atividade com o folheto que po­
derá desencadear um jogo dramático. Os passos sugeridos não devem servir
de camisa de força, antes de roteiro que pode e deve ser alterado a depender
da situação e do envolvimento da turma6.
a) Imaginar e realizar uma espécie de sinfonia de vozes de diferentes
pássaros. Pode-se, primeiro, elencar os pássaros cujos cantos a turma
conhece; a seguir, os alunos começam a imitá-los. A seguir, pode ser
ampliada a participação a partir de levantamentos realizados pelos
alunos em casa, em pesquisas, bem como com o uso de apitos de
madeira que contribuem para a imitação.
b) Em um segundo momento, seria acoplada a sinfonia com o canto do
sabiá. O som da sinfonia poderia ir abaixando, ficar como fundo e,
então, surgir a voz do sabiá. A partir daí, teríamos a entrada das estro­
fes do folheto, adaptadas ou não, na voz dos participantes. A ordem
pode ser alterada, algumas estrofes podem ser deixadas e até acrescidas
outras, em verso ou não. Seria interessante que os alunos escolhessem
as estrofes a serem lidas. Pode-se fazer um intervalo entre uma leitura e
outra, com destaque para a voz do sabiá e as vozes da sinfonia.

*' Hm Poesia na sala de aula, Pinheiro (2007) sugere algumas atividades de jogos dramáticos
.i partir de poemas infantis de Cecília Meireles e outros autores.

Cordel para crianças 61


c) Como o folheto finaliza com a morte do sabiá, pode-se debater com
os leitores que outras possibilidades de conclusão a narrativa poderia
ter. Discutir as possibilidades e depois encená-las, por exemplo: al­
gum pássaro ou animal convencer a cobra de não matar o sabiá, ten­
do em vista o bem que traz para toda a comunidade. Que animal(ais)
poderia(m) participar desse diálogo? Como seria esse diálogo, quais
os argumentos usados? Podemos fazer várias tentativas de improvi­
sação, fundir algumas soluções encontradas etc. Outra possibilidade
seria uma ação dos animais para impedir a cobra, caso não houvesse
acordo. Por fim, terminaria o jogo numa festa em que o sabiá agrade­
cesse a todos e todos cantassem e dançassem.

Atividades como essa podem ser feitas e refeitas ao longo de várias au­
las e, ao final, podem ser apresentadas em outras salas de aula. O mais ade­
quado é a apresentação para turmas menores, que, inclusive, podem entrar
no jogo. Como se trata de um jogo dramático, não há propriamente perso­
nagens principais e secundários. Todos jogam, se divertem, criam, evitando,
assim, certo caráter de exibicionismo que pode acontecer no âmbito escolar.

Considerações finais

Essa aproximação da literatura de cordel na sala de aula tem como


objetivo apontar caminhos para a leitura de folhetos de modo mais livre,
como arte e não como mero transmissor de conteúdo.
O enfoque escolhido mostra que o folheto tem uma riqueza estét
que em nada se diferencia de obras literárias consideradas de valor estético.
A leitura de folhetos pode, portanto, ser levada à sala de aula com mais
frequência, o que depende também do repertório de leitura do mediador.
0 presente artigo dá continuidade a um projeto antigo de apontar cami­
nhos de vivência com o folheto nos mais diversos níveis de ensino.7

7 Vários artigos nossos apontam esta perspectiva. Afora o livro Cordel no cotidiano escolar,
escrito em parceria com Ana Cristina M arinho Lúcio (2012), veja também os seguintes artigos:

62 Poesia (cabe) na Escola


A despeito de todo o esforço de muitos professores no sentido de
i l abalhar a literatura de cordel de modo menos pragmático, a prática escolar
parece cada vez mais atrelada ao pragmatismo, como constatamos em uma
rápida observação dos livros indicados para as crianças.

Referências

ALVES, J. H. P. A festa das letrinhas. Revista Diadorim, Rio de Janeiro,


v. 18, n. l ,p . 135-146, 2016.

______ . O que ler? Por quê? A literatura e seu ensino. In\ DALVI, M. A.;
REZENDE, N. L. de; JOVER-FALEIROS, Rita (Org.). Leitura literária
na escola. São Paulo: Parábola, 2013.

______ . Tesouros da poesia popular para crianças e jovens. Revista


Boitatá, Londrina, n. 5, p. 34-45, 2008.

ALVES, J. H. P.; RODRIGUES, E. M. De São Saruê à Casa da madrinha:


literatura de cordel e literatura infantil no espaço escolar. Revista Cerrado,
Brasília, DE v. 25, n. 42 p. 164—180, 2016.

ALVES, J. H. P.; LIMA, E N. O. A presença do reconto em literatura


de cordel nos acervos do PNBE: 2009 a 2013. Relatório de pesquisa:
PIBIC-UFCG, 2015-2016. [201-]. Não publicado.

ALVES, J. H. P.; SOUZA, R. J.; GARCIA, Y. M. R. Lendo e brincando


com sextilhas e outros versos. In\ SOUZA, R. J.; FEBA, B. L. T. (Org.).
Leitura literária na escola: reflexões e propostas na perspectiva do
letramento. São Paulo: Mercado de Letras, 2011.

Alves (2008, 2013, 2016), em que tratamos de diferentes de modo de trabalhar a literatura
de cordel como literatura no espaço escolar, em diálogo ou não com outros gêneros literários.

Cordel paro crianças 63


LUCENA, Antônio. O sabiá da palmeira. Campina Grande: Bagagem, 2003.

LÜCIO, Ana Cristina M.; PINHEIRO, Hélder. Cordel no cotidiano


escolar. São Paulo: Cortez, 2012.

MEDEIROS, Irani (Org.). Leandro Gomes de Barros: no reino da poesia


sertaneja. João Pessoa: Ideia, 2002.

PINHEIRO, Hélder (Org.). Pássaros e bichos na voz de poetas


populares. Campina Grande: Bagagem, 2004.

______ . Poesia na sala de aula. Campina Grande: Bagagem, 2007.

SANTOS, Apolônio Alves dos. A escrava Isaura, a jovem sofredora. Rio


de Janeiro: Manoel Caboclo e Silva, 1981.

SLADE, Peter. O jogo dramático infantil. Tradução de Tatiana Belinky.


São Paulo: Summus Editorial, 1978.

VIANA, Arievaldo (Org.). 12 contos de Cascudo em folhetos de


Cordel. Ilustração: Jô Oliveira. Mossoró: Editora Queima Bucha, 2007.

Onde Encontrar Folhetos

CORDELARIA POETA M ANO EL M O N TEIRO


Rua Vigário Virgínio, 52 - Santo Antônio
Campina Grande-PB CEP: 58103-340

EDITORA QUIMA-BUCHA
Rua Jerônimo Rosado, 271 - Centro
Mossoró-RN CEP: 58610-020

EDITORA TU PYNANQ U IM
Rua Silva Jatahy, 15, sala 304 - Meireles
Fortaleza-CE CEP: 60165-070

64 Poesia (cabe) na Escola


/. BORGES
Av. Major Aprígio da Fonseca, 420
Uc/,erros-PE CEP: 55660-000

1'OLHETARIA CORDEL
Rua João Samuel da Costa, 13
I imbaúba-PE CEP: 55870-000
Site: www.marcelosoares.org

Poeta Sebastião Chicute


Rua Cel. Francisco Nunes, 13
( ’.apistrano-CE CEP: 62748-000

Voeta Antônio Américo de Medeiros


Box Santo Antônio, 267 —Mercado Central
Patos-PB CEP: 58700-120

Editora Coqueiro
Rua Guaianazes, 521 - Campo Grande
Recife-PE CEP: 52031-300

Academia dos Cordelistas do Crato/Josenir Lacerda


Rua José Carvalho, 168
Crato-CE CEP: 63100-020

Academia Brasileira de Literatura de Cordel


Rua Leopoldo Fróes, 37 —Santa Teresa
Rio de Janeiro-RJ CEP: 20241-330
Site: www.ablc.com.br

Poetisa Maria Godelivie


Rua Joana D ’arc, 746 - José Pinheiro
( lampina Grande-PB CEP: 58104-110

( o i dei para crianças


Folbetaria Campos de Versos
Rua Mario Campeio, 171/204 —Várzea
Recife-PE CEP: 50741-430

Folheteria Recanto do Poeta


Org. Hadoock Ezequiel
E-mail: hadooockezequiel@yahoo.com.br

Chico D ’Assis
Rua Sergipe, 925 - Liberdade
Campina Grande-PB CEP: 58414-040