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Colômbia
Víctor Manuel Moncayo Cruz (texto original da versão impressa)
Fernanda Gdynia Morotti (texto de atualização do verbete, 2006-2015)
Depois de quebrados os laços coloniais com a Espanha, a Colômbia iniciou, como a maioria das
sociedades latino-americanas, a corrida para a construção nacional, sem os antecedentes históricos
do mundo continental europeu, mas com uma ideologia associada à modernidade capitalista.
Nos primórdios não havia nada definido como povo nem como território. As delimitações políticas
remetiam às divisões coloniais espanholas existentes na época da independência. A partir disso,
surgiu a ideia do libertador Simón Bolívar de uma nação integrada pelos territórios que, com
algumas diferenças, correspondem hoje ao Equador, à Venezuela, ao Panamá e à costa ocidental da
Nicarágua, que se concretizou na chamada Grã-Colômbia. Tal integração fazia parte do projeto
bolivariano de maior unidade entre os povos e os espaços que foram colonizados pela Espanha.
A Grã-Colômbia dissolveu-se em 1830, e o território que depois viria a ser a Colômbia foi
organizado como Estado de Nova Granada. Essa denominação mudou em 1858 para Confederação
Granadina e, em 1863, para Estados Unidos da Colômbia. Em 1886, no período político conhecido
como A Regeneração, liderado por Rafael Núñez e Miguel Antonio Caro, adotou-se o nome que o
país tem até hoje, República da Colômbia, e outorgou-se ao Estado um caráter unitário e central.
Em 3 de novembro de 1903, a Colômbia foi amputada da porção territorial que passou a ser a
República do Panamá. Tal separação ocorreu em boa parte como consequência do conflito
conhecido como a Guerra dos Mil Dias (1899-1902), o último de uma sucessão de confrontos civis
que caracterizaram a Colômbia ao longo do século XIX, e que opuseram os partidos e movimentos
políticos, especialmente os tradicionais partidos Liberal e Conservador.
O interesse geopolítico dos Estados Unidos pelo istmo, no qual começava a construção do canal
interoceânico, determinou efetivamente que a política do grande garrote do presidente Theodore
Roosevelt provocasse e apoiasse a revolta separatista, um fato a mais acrescentado à infinita
corrente intervencionista dos EUA. A nova República do Panamá celebrou um tratado que permitiu
aos norte-americanos continuar a construção do canal interoceânico e assegurar sua exploração, e
reservou para si a respectiva zona geográfica, que permaneceu sob controle norte-americano até 31
de dezembro de 1999.
Em 1911, redefiniram-se os limites com o Peru, e o país recebeu em troca extensas zonas entre os
rios Putamayo e Napo e uma saída limitada para o rio Amazonas, com a qual fazem limite
Colômbia, Peru e Brasil. A solução de um conflito bélico com o Peru, em 1932, ratificou essa
fronteira.
Do ponto de vista da formação de um povo nacional, o longo e difícil trajeto pelo século XIX – com
numerosas guerras civis e múltiplos ensaios de formas de governo – conduziu, no final do século
XIX e princípios do XX, à conformação de uma comunidade política integrada por grande
diversidade étnica e cultural, emergente de um mesmo passado histórico e com identidade própria.
Atualmente a população colombiana representa 0,7% da população mundial (cerca de 46 milhões
em 2005). É um dos países menos povoados do planeta: sua densidade demográfica de 40
habitantes por quilômetro quadrado é inferior à média mundial, o que o coloca no segundo grupo
das nações menos povoadas. Mas é o terceiro país em população da América Latina, depois do
Brasil e do México, e o segundo da América do Sul.
Estima-se que 75% dos habitantes vivam em núcleos urbanos, concentrados majoritariamente nas
zonas andina (70%) e atlântica (22%). Em apenas quatro departamentos (Bogotá-Cundinamarca,
Antioquia, Vale do Cauca e Atlântico) localiza-se a metade da população, em um território que
representa menos da décima parte da sua superfície continental.
A população indígena é muito significativa: atinge cerca de 750 mil habitantes, distribuídos em 80
grupos étnicos e 11 famílias indígenas. A população negra perfaz aproximadamente 550 mil
habitantes, sem incluir os afro-colombianos (com influência racial e cultural da África negra),
estimados em 10 milhões de pessoas. O conjunto da população distribui-se mais ou menos em
partes iguais entre os sexos (49,45% homens e 50,55% mulheres). Nos últimos vinte anos aumentou
a proporção de adultos, que já ascende a mais de 50%, e reduziu-se a porcentagem de jovens (40%).
A taxa da expectativa de vida é de 69,2 anos para os homens e 75,3 para as mulheres.
Essa unidade de território e povo nacionais foi concebida, no início, sob organizações jurídico-
políticas de conotação federal, pois a realidade social e econômica do século XIX impunha essa
tendência. Entretanto, na segunda metade do século XIX e nos primórdios do XX, colocaram-se
circunstâncias que abriram espaço para uma modalidade central, ou unitária, de governo –
formalizada pelas Constituições de 1886 e 1910 e conservada até hoje com poucas modificações.

Industrialização e República Liberal


No começo do século XX, a sociedade colombiana possuía uma economia mercantil simples,
baseada na atividade de produtores independentes e de trabalhadores diretos sujeitos a relações pré-
capitalistas. Estava inserida em uma divisão internacional do trabalho, que lhe conferia as funções
de fornecedora de matérias-primas para os países metropolitanos e de mercado de bens de consumo
pessoal não produzidos localmente.
No entanto, pouco a pouco, surgiram as bases de um desenvolvimento industrial incipiente,
sobretudo devido a certas condições favoráveis como a mão de obra barata, os altos custos de
transporte que oneravam os produtos estrangeiros, e o abandono do mercado pela Inglaterra e a
Alemanha, em virtude da Primeira Guerra Mundial. Os primeiros setores da atividade manufatureira
centralizaram-se em torno da produção de têxteis, cerveja e cigarros. Com o tempo progrediram
outros setores indiretamente produtivos, como o transporte e o embarque de produtos, o que
beneficiou a infraestrutura de comunicações e de portos.
Na década de 1920, novas circunstâncias favoreceram o processo de industrialização. A expansão
da economia cafeeira, os empréstimos externos e a indenização reconhecida pelo Canal do Panamá
proporcionaram à economia uma expressiva capacidade de importação de bens de capital, para
alimentar a nascente indústria manufatureira.
Foi a crise mundial de 1929, porém, que abriu definitivamente o caminho para a decolagem
industrial mais significativa. Diante do menor fluxo de capitais do exterior, do repatriamento dos
capitais norte-americanos, da redução do valor e do volume das exportações de café, da contração
da capacidade de importação e da ausência de produtos importados, surgiram possibilidades de a
indústria nacional controlar o mercado interno e de retomar as condições adquiridas nos anos
anteriores.
Essas circunstâncias afloraram no cenário político com a chamada República Liberal, que se
estendeu de 1930 a 1946, e cuja expressão especial ocorreu durante a Revolução em Marcha,
liderada pelo presidente Alfonso López Pumarejo (1934-1938 e 1942-1945). A estrutura e o
funcionamento do Estado foram reorganizados, criando condições para uma série de medidas.
Em primeiro lugar, definiu-se uma política agrária voltada para a transformação da fazenda
tradicional em explorações de corte moderno. As reivindicações e as organizações camponesas (em
cena desde o início do século XX, sujeitas a políticas repressivas e fatos brutais como o Massacre
das Bananeiras, que deu um final sangrento à greve nas propriedades da United Fruit Company, em
Santa Marta, em 1928) foram capitalizadas pelo Partido Liberal no governo (1934-1938), para
baixar a Lei n° 200 de 1936. Tal medida procurava essencialmente atacar o latifúndio improdutivo e
favorecer a introdução de relações capitalistas no campo, mediante o mecanismo da extinção do
domínio. Com o tempo, porém, instituiu-se uma jurisdição especial para dirimir os conflitos por
terra e proteger até certo ponto a economia camponesa existente. Essa tendência foi contida poucos
anos depois pela Lei n° 100 de 1944, criada para amparar a modalidade de exploração tradicional
conhecida como aparcería.
Foi nesse período, precisamente em 1942, que surgiu a primeira organização de caráter nacional, a
Federação Camponesa e Indígena, ligada à Confederação dos Trabalhadores da Colômbia (CTC). A
violência bipartidária, que se agravou a partir de 1946, acabou com essa organização, e a maioria
dos seus dirigentes perdeu a vida. Com o apoio da Igreja Católica e de uma nova central sindical, a
União dos Trabalhadores da Colômbia (UTC), criou-se a Federação Agrária Nacional (FANAL),
com uma orientação mais próxima do Partido Conservador. Estima-se que na época cerca de 2
milhões de camponeses foram deslocados e 200 mil assassinados, promovendo uma expropriação
violenta de suas terras.
A resistência camponesa ocorreu em regiões muito específicas, como os Planos Orientais, Viotá,
Sumapaz, o sul do Departamento de Tolima e o norte do Departamento do Vale do Cauca. Dentre os
dirigentes desses anos destacaram-se Juan de la Cruz Varela, de Sumapaz, que logo se tornou
membro do Partido Comunista, e Pedro Antonio Marín, conhecido depois como Manuel Marulanda
Vélez ou Tirofijo (Tiro certeiro), do sul de Tolima, líder histórico da guerrilha das Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia (FARC), organizada em meados dos anos 1960.
Em segundo lugar, promoveu-se uma clara política de apoio e proteção à indústria nacional, com
medidas que garantiam a livre circulação da mão de obra, a redistribuição dos recursos – com
ênfase nos impostos diretos sobre a renda, o patrimônio e os bens hereditários – e a intervenção na
demanda agregada mediante a destinação dos gastos públicos.
Outra medida foi o estímulo à elevação salarial para ampliar a capacidade de consumo e acelerar o
processo de desestruturação camponesa. O governo de López Pumarejo aderiu à tese fundista de
que seria necessário manter alto poder de compra para assegurar bom nível de consumo. Para tanto
devia proceder à regularização da relação salarial e dos mecanismos de condução da conflitividade
(regime sindical e de contratação coletiva). Ao mesmo tempo, devia permitir a integração político-
ideológica da nascente classe operária ao regime político conduzido pelas medidas de fomento à
industrialização.
Os frutos da obra liberal dos anos 1930 são perceptíveis: entre 1933 e 1938, a taxa média de
crescimento foi de 10,8%, o número de estabelecimentos industriais duplicou, o produto bruto
industrial elevou-se de maneira significativa, e o investimento público mais que triplicou. Esse
processo de decolagem, contudo, encontrava limites, derivados da reduzida diversificação da
produção, das dificuldades para ampliar a produção de bens de capital (que restringiam o
aprimoramento da capacidade produtiva) e da limitada produção agrária (que forçava o gasto de
divisas na importação de matérias-primas). Essas dificuldades foram agravadas pelos efeitos da
Segunda Guerra Mundial, que encareceram as importações de bens de capital e provocaram o
fechamento dos mercados internacionais para as exportações nacionais, com as decorrentes
consequências da queda dos níveis salariais e o aumento do desemprego.
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EQUADOR por José Antonio Figueroa

No dia 15 de janeiro de 2007, o economista Rafael Correa tomou posse como presidente do
Equador, dando início ao período de maiores transformações sociais, políticas e econômicas da
história republicana do país e também de maior estabilidade política desde o retorno à democracia
em 1978. A estabilidade foi conquistada apesar das transformações profundas implantadas por
Correa e mesmo diante da forte oposição liderada por segmentos da extrema direita, da direita, bem
como por setores de esquerda.
A chegada de Correa ao poder foi resultado de uma mobilização social e política, que cresceu e se
consolidou a partir da década de 1980. Essa dinâmica incluiu o movimento indígena, setores de
classe média das grandes cidades, o campesinato, a classe operária, assim como donas de casa,
estudantes e desempregados. A resoluta oposição desses diversos grupos aos governos mais
reacionários do período, resultou na deposição de três presidentes neoliberais no intervalo de uma
década. A ascensão de Correa decantou a experiência de organização e de mobilização pós-ditadura,
e teve como característica geral a oposição ao neoliberalismo e a recuperação do papel regulador do
estado.
Alguns antecedentes históricos permitem compreender como a sociedade equatoriana
realizou transformações radicais dentro de padrões de governabilidade próprios dos regimes
capitalistas dependentes, sem passar por experiências traumáticas de violência e de luta armada.
Três desses antecedentes marcaram a construção de uma sociedade secular, característica que vai se
refletir no modo de negociar os antagonismos políticos: a revolução liberal do final do século XIX;
a presença ativa da esquerda no desenho sociopolítico do país ao longo dos séculos XX e XXI; e os
processos de reforma agrária que, apesar de tímidos, estabeleceram a negociação em vez da
confrontação armada como regra de resolução dos conflitos no campo. Tal particularidade foi
responsável pela manutenção de traços neocoloniais e pela imposição do modo neoliberal no campo
(Grandin, Figueroa, Molano).
Entre as heranças mais significativas da revolução liberal pontuam a secularização derivada da
confrontação radical dos liberais contra o controle ideológico e econômico da igreja, o surgimento
de setores mais ou menos progressistas dentro das forças armadas, e a transição do liberalismo ao
socialismo, que se expressou não apenas no âmbito partidário, mas, também, em influentes
correntes de pensamento, como o indigenismo, ou na precoce fundação de disciplinas das ciência
sociais, como a sociologia.
A secularização teve um grande impacto na vida cotidiana dos equatorianos. A lei do
divórcio, por exemplo, entrou em vigor em 1912, há mais de um século. A presença de setores
sociais progressistas nas forças armadas, por seu turno, manifestou-se em conjunturas diversas. A
Revolução Juliana, na década de 1930, foi um desses episódios. Os militares progressistas
ofereceram uma importante resistência aos setores plutocráticos, que haviam brecado avanços
impulsionados pelo liberalismo. Também foram fundamentais no desenho do programa de governo
nacionalista da junta militar que apeou do poder Velasco Ibarra, em 1971. O ministério formado
naquela ocasião chegou a incluir representantes da esquerda. A ala progressista dos quartéis também
explica porque as forças armadas equatorianas tiveram uma participação relativamente secundária
nas ondas de terror, que caracterizaram as ditaduras nas décadas de 1970 e 1980, nas Américas do
sul e central.
Os processos de reforma agrária de 1964 e de 1973 deram o golpe final nas estruturas
herdadas da colônia, como os huasipungos – pequenos pedaços de terra que os latifundiários
ofereciam aos índios em troca de seu trabalho gratuito –, e estabeleceram as bases para uma grande
migração da população rural em direção às cidades e para a politização do movimento indígena.
Outro legado das reformas foi ter tirado o poder latifundiário da igreja católica e facilitado o
surgimento de uma ala popular dentro dela, vinculada às pastorais sociais e à Teologia da
Libertação. Seus representantes cumpriram um papel fundamental na organização política de
camponeses, indígenas e de setores populares urbanos.
Em fins da década de 1980, o país experimentou as consequências da queda do Muro de Berlim e
do socialismo real na Europa do leste. A esquerda tradicional se enfraqueceu, e em seu lugar se
consolidaram os chamados Novos Movimentos Sociais. Eles estabeleceram formas renovadas de
atuação dos setores progressistas, abandonando, em alguns casos, a ideia de revolução por
reivindicações pontuais e particulares, mais ou menos radicais. A ação desses novos atores políticos
produziu efeitos contraditórios: por um lado, serviu para ampliar a participação da sociedade e para
a sua democratização, mas, em outros casos, a ênfase posta nos requerimentos particulares fez com
que surgissem lógicas corporativas de organizações não-governamentais nacionais e internacionais.
Estas se consolidaram em substituição ao estado, fortalecendo assim os princípios neoliberais.
Os Novos Movimentos Sociais se articularam em torno de demandas ambientais, de gênero,
e em favor da ampliação de serviços e demais reivindicações de regiões carentes. Entre eles, é
preciso fazer menção especial ao movimento indígena, por seu papel protagonista nas dinâmicas
políticas a partir dos anos 2000. E também porque a questão indígena expressou uma das
transformações mais importantes da história recente do Equador e constituiu uma das vias de
expressão mais fortes da esquerda radical. Os diferentes levantes que levaram à queda dos governos
de Abdalá Bucaram, em 1997, de Jamil Mahuad, em 2000, e do coronel Lucio Gutierrez, em 2005,
constituíram a melhor escola política do eleitorado que apoiou a chegada de Rafael Correa ao poder
e que permitiu a manutenção do seu governo.
Abdalá Bucaram teve uma escandalosa, breve e influente passagem pela presidência, depois
de cumprir uma trajetória política centrada em Guaiaquil, sua cidade natal, onde foi prefeito. Ali
usufruiu e desvirtuou a herança política de seu cunhado, o popular presidente Jaime Roldós, e em
cuja memória fundou o Partido Roldosista Equatoriano. Dono de um estilo excêntrico e
personalista, Bucaram ajudou a aprofundar a crise dos partidos, que se deu no auge neoliberal.
Chamado de “o louco”, ele fazia jus ao epíteto. Sua figura combinava elementos populares e uma
explosiva mistura de moralismo, machismo e autoritarismo.
A chegada de Bucaram à presidência significou um claro distanciamento das práticas políticas de
seu inspirador, o falecido presidente Roldós. Adepto do neoliberalismo, seu governo se mostrou a
favor da abertura econômica e do desmonte das conquistas sociais oriundas do boom petrolífero da
década de 1970. Foram eliminados os subsídios ao gás, à gasolina e aos serviços públicos. A energia
elétrica residencial, por exemplo, teve um aumento de 400%. Uma política de flexibilização dos
direitos trabalhistas feita sob medida para os patrões eliminou importantes conquistas. A
participação dos trabalhadores no lucro das empresas, que era de 15%, foi reduzida a 1%. As
indenizações por demissão foram eliminadas, o período de experiência do contrato de trabalho foi
ampliado, e o regime das férias sofreu mudanças.
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NICARÁGUA
Orlando Núñez Soto (texto original da versão impressa)
Mônica Rodrigues (texto de atualização do verbete, 2006-2015)
Pequeno país da América Central, a Nicarágua possui uma população de pouco mais de 5,8 milhões
de habitantes distribuídos em seus 130 mil km² de extensão. Partilha com os demais países centro-
americanos uma vida política agitada, marcada por invasões estrangeiras, guerras civis, ditaduras e
revoluções. O idioma oficial é o espanhol, mas falam-se também o inglês crioulo na costa do
Caribe, o misquito na parte norte, o sumo na região setentrional fronteiriça a Honduras, e outras
línguas em processo de extinção, como o garífuna e o rama, no centro do país. Os católicos
correspondem a cerca de 60% da população e 15% pertencem a diversas denominações evangélicas.
A Nicarágua tornou-se independente da Coroa espanhola em 1821 e começou sua vida republicana
como Estado soberano em 1838. Subordinada ao mercado mundial, desde a colonização espanhola
até os dias atuais, manteve-se sob uma economia dependente e exportadora de matérias-primas –
causa de seu empobrecimento secular. No início do século XXI, parte de suas divisas deveu-se às
remessas enviadas por emigrantes, dos quais cerca de 20% migraram para a vizinha Costa Rica e os
Estados Unidos.
Produto da Revolução Sandinista (1979-1990), de orientação nacionalista e popular, a economia
nicaraguense depende de pequenos produtores ou trabalhadores autônomos. Uma economia
popular, portanto, que concorre em condições desfavoráveis com os empresários nacionais e com as
grandes corporações transnacionais. A partir da derrota eleitoral da Frente Sandinista de Libertação
Nacional (FSLN), em 1990, e da restauração conservadora, a política econômica de sucessivos
governos impôs uma orientação neoliberal à economia e à sociedade nicaraguense, debilitando
progressivamente os alicerces do Estado-nação.
Em meio a essa contradição, por um lado a vida política nacional mostra diversos níveis de
resistência, tanto por parte dos setores populares como dos pequenos e médios produtores –
resistência que inclui posições convergentes das principais forças majoritárias do país (a FSLN e o
Partido Liberal Constitucionalista) contra o governo conservador, que representa na Nicarágua os
interesses do governo de Washington.
Por outro lado, com raízes na existência de uma nascente economia popular e na presença
beligerante dos movimentos sociais, iniciou-se um debate sobre o fortalecimento dos governos
municipais, em busca de uma democracia participativa que complemente e compense as limitações
da democracia representativa.

Independência: ditaduras e pactos


O monopólio colonial espanhol começou a debilitar-se no século XVIII, como resultado da
concorrência entre os países europeus e os do norte da América, particularmente os Estados Unidos.
A erosão da exclusividade comercial espanhola teve início com o contrabando e as incursões de
piratas, bucaneiros ou corsários, a serviço dos países europeus, e prosseguiu com a penetração de
forças mercenárias provenientes dos Estados Unidos.
O golpe mais importante na hegemonia espanhola ocorreu em meados do século XVIII, quando a
Grã-Bretanha decidiu ocupar uma parte do território nicaraguense do Caribe, por meio de forças
invasoras enviadas da Jamaica. A ocupação inglesa do território misquito durou até o final do século
XIX, sendo substituída por forças norte-americanas e, finalmente, pelo governo da Nicarágua.
A partir da ruptura colonial (1821), o país forjou sua vida política em meio a cruéis vicissitudes.
Primeiro, tornou-se independente da Espanha, vinculando-se ao império mexicano e à Federação
Centro-Americana liderada pela Guatemala. Depois, em 1838, alcançou sua independência política
total.
Internamente, a incapacidade dos grupos dominantes para impor sua hegemonia ao restante da
sociedade nicaraguense levou-os a provar diversas vezes o exercício ditatorial do governo. Eram
situações pouco duradouras, uma vez que os opositores as neutralizavam, recorrendo ao que
levianamente chamavam de “revolução”. Na verdade, não passavam de levantes nas casernas, que
acabavam em pacto na mesa de negociação da classe política dominante, na maior parte dos casos
com a presença de forças internacionais.
A primeira guerra civil ocorreu em 1824. A partir de então, começaram as intervenções, as ditaduras
e os pactos. Em 1838, foi promulgada a primeira Constituição do país e sobreveio o acordo entre os
monarquistas (sustentados ideologicamente pela tradição colonial e pela hierarquia católica) e os
republicanos (estimulados pelas ideias liberais recém-chegadas da Europa). Os monarquistas eram
identificados como granadinos, conservadores e católicos, defensores dos interesses da oligarquia
rural e comercial, enquanto os republicanos eram leoneses, liberais e intelectuais, defensores dos
interesses dos produtores ou empresários em geral.
O atraso da formação do Estado-nação ocorreu devido à incapacidade das classes dominantes
nicaraguenses de manter a população coesa – fruto tanto da inexistência de uma verdadeira classe
nacional como da presença, solicitada internamente, de forças estrangeiras interessadas na divisão
do país. Foi assim que, em meados do século XIX, estimulou-se a chegada de empresas norte-
americanas e de forças militares mercenárias, provenientes dos Estados Unidos, sob a alegação de
que o nascente Estado nicaraguense tinha necessidade de proteger-se dos governos europeus.
Na década de 1850, a empresa American Atlantic and Pacific Ship Canal Company, de propriedade
do norte-americano Cornelius Vanderbilt, obteve a concessão de construção e posse exclusiva de
um canal na Nicarágua. Enquanto o canal não era construído, outra empresa de Vanderbilt, a
Acessory Transit Company (Companhia de Trânsito), ganhou direitos exclusivos de uso de rotas
terrestres e fluviais pelo território nicaraguense, o que lhe permitiu oferecer aos americanos um
serviço relativamente barato de traslado de passageiros entre Nova York, na costa leste dos Estados
Unidos, e São Francisco, na Califórnia (costa oeste).
Na mesma época, um aventureiro chamado William Walker chegou à Nicarágua, proclamou-se
presidente da República, estabeleceu a escravidão e pretendeu converter o país em mais um Estado
da União Americana. As duas forças políticas tradicionais nicaraguenses, legitimistas e
democráticas, foram excluídas dessa vez dos benefícios da ocupação e decidiram firmar o chamado
Pacto Providencial. Com o apoio dos demais países centro-americanos, os nicaraguenses
conseguiram expulsar os mercenários norte-americanos, que fugiram do país, deixando Granada, a
cidade-sede da oligarquia, em chamas.
A partir de então, conservadores e liberais sucederam-se periodicamente no poder, sem que um
deles alcançasse uma verdadeira hegemonia sobre o outro. A síndrome da intervenção solicitada
pelos dois partidos seria a tônica da vida política nacional até os dias atuais.
Os conservadores, grupo oligárquico que gozava de hegemonia na cidade de Granada, governaram
entre 1858 e 1893. A democracia estabelecida por eles girava em torno de um setor muito limitado
de cidadãos, no estilo das cidades-Estado da Grécia antiga. Em 1874, de 250 mil habitantes, menos
de mil cidadãos puderam exercer o voto para eleger o presidente da República – cargo que nessa
ocasião recaiu em um dos representantes da oligarquia granadina chamado Pedro Joaquín Chamorro
Alfaro.
Os famosos “30 anos conservadores” iniciaram-se com a cafeicultura e com a modernização da
infraestrutura do país, sob uma ofensiva contra os camponeses das comunidades indígenas, para se
apossar de suas terras e obrigá-los a trabalhar nas incipientes fazendas de café. Em 1881, deu-se o
levante das comunidades indígenas de Matagalpa, no norte do país, sufocado brutalmente pelo
governo nacional.

A luta pela libertação nacional


No final do século XIX e começo do século XX, no auge da produção cafeeira, a Nicarágua tentou
empreender sua revolução liberal, representada e simbolizada como o afastamento da oligarquia
conservadora. Paradoxalmente, teve início no seio do próprio partido conservador, quando um de
seus presidentes, de orientação liberal, expulsou os jesuítas. Essa revolução começou em 1893,
encabeçada por José Santos Zelaya, aristocrata que havia estudado na Europa. No primeiro ano,
decretou-se a separação entre o Estado e a Igreja, eliminaram-se os dízimos e as primícias,
confiscaram-se as terras das igrejas, instituíram-se o matrimônio civil, o divórcio, a liberdade de
culto e a educação gratuita. Boa parte das terras foi privatizada em um processo acompanhado pela
decretação de leis que sujeitavam os camponeses ou a trabalhar nas fazendas ou a se alistar no
exército. Concederam-se facilidades fiscais e alfandegárias aos empresários privados, nacionais e
estrangeiros, beneficiando-os também com monopólios de produção – aguardente, tabaco e pólvora
– e serviços públicos – água, telefone, energia elétrica, ferrovias e bancos, entre outros. Também os
artesãos receberam alguns incentivos, como facilidades de acesso à educação técnica e apoio para a
organização de cooperativas.
Zelaya incorporou a região de La Mosquitia, que funcionava como um reino apadrinhado pela
Coroa britânica. Seu governo também tentou libertar-se da tutela norte-americana, buscando
empréstimos nos países europeus para construir o famoso canal interoceânico. Foi o suficiente para
que os conservadores, apoiados pelos Estados Unidos, iniciassem um levante armado forçando o
presidente Zelaya a renunciar em 1909. Assim terminou o primeiro esforço de uma burguesia
nascente para instaurar um Estado-nação independente na Nicarágua.
Três condições faltaram à burguesia nacional para constituir um Estado-nação: força suficiente para
subordinar economicamente o restante da sociedade; autonomia necessária para tornar-se
independente no mercado mundial; e capacidade para estabelecer um verdadeiro pacto social com a
população trabalhadora e consumidora, sempre sujeita à demagogia e ao empobrecimento.
A história contemporânea do país tem como protagonistas três grandes forças: em primeiro lugar, a
oligarquia conservadora, apenas subsistente; em segundo, uma latente burguesia liberal, que teve
sua melhor época durante a ditadura somozista e, por fim, um projeto nacionalista de orientação
popular, iniciado em meados do século XX, com a luta anti-imperialista do general Sandino, que
continuou nas décadas finais do mesmo século com uma revolução empreendida pela Frente
Sandinista de Libertação Nacional.
Desde a independência do domínio da Espanha, a subordinação aos interesses de Washington fez-se
presente entre as famílias conservadoras, provenientes do mundo criollo espanhol, e os grupos
liberais, surgidos da intelectualidade religiosa e dos notáveis mais influenciados pela modernidade
nos padrões do século XIX.
Durante o século XX, após a derrubada do regime liberal de Zelaya, um setor do liberalismo
radicalizou-se e apareceram as figuras de Benjamín Zeledón e Augusto César Sandino, surgidas no
seio dos grupos liberais – ambos declarados opositores tanto à intervenção ianque como aos grupos
liberais e conservadores, que desde essa época aceitaram, fomentaram e proclamaram o
apadrinhamento dos interesses norte-americanos.
Sandino abandonou o liberalismo, desencadeou uma guerra de guerrilhas e conseguiu a
desocupação do território nacional pelas tropas dos Estados Unidos. Os ianques abandonaram
militarmente a Nicarágua, mas ocuparam sua economia e instauraram a ditadura da família Somoza.
O primeiro Somoza, que permaneceu no poder durante grande parte do século XX, assassinou
Sandino, subordinou a oligarquia conservadora e assentou as bases do capitalismo nacional na
Nicarágua.
No final do século XX, o sandinismo ressurgiu com o triunfo de uma revolução novamente sob a
bandeira da libertação nacional e da justiça social, mas assediada por uma combinação de forças
liberais e conservadoras, apadrinhadas novamente pelo imperialismo ianque.
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Venezuela
Por Carlos Eduardo Martins

Uma das sociedades agrárias mais pobres da América Latina, a Venezuela começou a se transformar
com a mudança do padrão energético na economia mundial do carvão para o petróleo, na década de
1920, e com a descoberta e a exploração de suas reservas petrolíferas.
Mas as concessões para a exploração das reservas venezuelanas começaram, na verdade, em 1865,
bem antes que estivesse estabelecida a transição energética. Elas contemplaram, inicialmente,
empresas norte-americanas, como a New York and Bermudez Company, interessadas na produção
de asfalto, e a primeira companhia venezuelana, a Petrolia del Táchira, cuja produção estava voltada
à distribuição de querosene. Contudo, de olho no potencial do país, o capital estrangeiro pressionou
o governo venezuelano e conseguiu ampliar suas concessões. Em 1901, a New York and Bermudez
Company financiou a Revolução Libertadora contra o governo nacionalista de Cipriano Castro. E,
no ano seguinte, as armadas da Inglaterra, Alemanha e da Itália bloquearam a costa venezuelana sob
o pretexto de que Castro não havia cumprido com seus compromissos internacionais.
Em 1905, Castro promulgou a Lei de Minas, que estipulava concessões de cinquenta anos para a
exploração do petróleo, tendo como contrapartida o pagamento de dois bolívares ao Estado por
hectare de concessão. A lei desagradou às empresas estrangeiras, que apoiaram o golpe dado pelo
vice-presidente, Juan Vicente Gómez, em 1909, impedindo Castro de regressar ao país depois de um
tratamento de saúde na Europa. A partir de então, milhões de hectares foram distribuídos em regime
de concessão, consolidando a anglo-holandesa Royal Dutch Shell e a norte-americana Standart Oil
como as principais empresas de petróleo do país. Enquanto isso, a exploração se fazia com base em
leis sobre o uso do solo e não havia pagamento de renda.
A partir de 1913, novos campos de petróleo foram descobertos e, em 1917, iniciou-se a exportação
de hidrocarbonetos. Com isso, as concessões foram revistas e, em 1920, foi promulgada a primeira
Lei de Hidrocarbonetos. Ela introduziu o conceito de reserva nacional, fixou o pagamento mínimo
de 15% de regalia ao Estado venezuelano pela exploração e determinou que as reservas nacionais,
expiradas as concessões então vigentes, deveriam voltar ao Estado a fim de serem renegociadas.
Desse modo, contrariadas em seus interesses, as empresas estrangeiras derrubaram Gumersindo
Torres, ministro do Fomento, e participaram da redação da nova lei. Ela permaneceria inalterada até
1938, quando a crise do mercado mundial e o ambiente nacionalista que se estabelecia na América
Latina, estimulado pela nacionalização das empresas de petróleo no México, levou à sua revisão,
fazendo crescer a participação do Estado.
Depois, a rearticulação da Venezuela ao capitalismo mundial por meio da produção e
comercialização do petróleo alterou e condicionou significativamente as estruturas do país. Depois
da descoberta do campo Barroso 2, em Cabinas, estado de Zulia, em 1922, o país se converteu no
segundo produtor de petróleo do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e no maior exportador do
mundo, posição que manteria até 1970, quando seria ultrapassado pelos países árabes.
Entre 1920 e 1950, a população do país duplicou, boa parte migrou do campo para a cidade e se
transformou em mão de obra assalariada. Se em 1936 a população que vivia nas cidades chegava
apenas a 34%, em 1961 já alcançava 67%. Assim, a burguesia venezuelana transformou a sua
inserção eminentemente agrária em comercial e fortaleceu seus laços com o Estado e com as
empresas transnacionais. E os recursos auferidos pelo Estado com a renda petroleira eram dirigidos
basicamente à burguesia importadora, aos banqueiros – em parte estrangeiros –, à montagem de um
exército capaz de impor a unidade nacional aos caudilhos regionais e à construção de cidades com
equipamentos e materiais importados.
Então, o Estado venezuelano começou a intervir de modo mais sistemático na economia depois da
morte do ditador Juan Vicente Gómez, em 1935, fato comemorado pelo povo nas ruas das principais
cidades do país. O episódio revelou a urbanização em marcha, a conformação de novos sujeitos
sociais e sua relativa independência, e o apoio popular aos projetos nacionalistas que redefinissem a
articulação entre o Estado e as empresas transnacionais. Foi o início de um período de forte
instabilidade política. Durante o governo do general Eleazar Lopez Contreras (1935-1941), os
movimentos estudantil, sindical – em particular, o petroleiro – e camponês ganharam corpo, bem
como a atuação das esquerdas, todos exigindo reformas. Mas a resposta do governo veio na forma
de uma violenta repressão. Isaías Medina Angarita (1941-45), militar que sucedeu Contreras,
atendeu em parte às pressões, legalizando os partidos Ação Democrática e Comunista – então na
clandestinidade –, reformando a Lei de Hidrocarbonetos em 1943 e ampliando a arrecadação fiscal.
E a nova Lei de Hidrocarbonetos unificou as medidas relativas ao petróleo: elevou os impostos e
royalties até igualar os ingressos para o Estado ao lucro dos consorciados; eliminou a isenção
obrigatória de impostos de aduana; impôs às companhias a ampliação das instalações de refinação
no país; limitou as cotas de produção; e renovou os títulos outorgados e sua vigência por quarenta
anos.
Depois, Isaías Medina Angarita foi derrubado por um movimento cívico-militar, que estabeleceu
uma junta revolucionária de governo presidida por Rómulo Betancourt, fundador e líder da Ação
Democrática, entre 1945 e 1948. Nesse período, a intervenção estatal sobre o setor petroleiro
cresceu. Sua maior expressão foi a reforma fiscal com a finalidade de estabelecer uma divisão
equitativa dos lucros da exploração do petróleo. Também foi criada a Corporação Venezuela de
Fomento, destinada a transferir recursos do setor petroleiro para outros segmentos da economia e
estimular a sua modernização. O voto universal e secreto para maiores de 18 anos entrou em vigor e
foi decisivo para eleger presidente o escritor Rômulo Gallegos, militante de Ação Democrática.
Porém, contando com uma condição favorável no balanço de pagamentos, na maioria das vezes
superavitário em função dos preços do petróleo, o país acabou se atrasando na implantação dos
processos de substituição das importações. A alta capacidade de comprar de fora desestimulava o
estabelecimento de políticas protecionistas por parte do Estado e acabou por favorecer um
comportamento especulativo e rentista por parte das elites. E as primeiras tentativas de substituir o
modelo importador surgiram em função da crise do mercado mundial durante a Segunda Guerra.
Angarita ainda ensaiou medidas para reduzir as importações de bens de consumo durante o conflito
mundial, ao substituí-las pela compra de maquinário. Mas a desorganização do mercado, bem como
a oposição da burguesia comercial e financeira venezuelana – que funda a Federación de Cámaras y
Asociaciones de Comercio y Producción de Venezuela (Fedecámaras), em 1944 – e da Ação
Democrática, que representava os segmentos médios e reivindicava a redução dos preços dos bens
de consumo, levariam à queda de Angarita.
Já durante o governo Betancourt, a renda petroleira cresceu com o aumento dos preços no pós-
Guerra e com a ampliação das concessões para a exploração. O Estado destinaria a maior parte
desses recursos para o setor importador e financeiro e para a modernização da agroindústria: foram
criadas empresas moedoras de trigo, de fabricação de leite em pó, centrais açucareiras e de
industrialização de pescados. Mas não se estabeleceu, por exemplo, uma política de proteção e
desenvolvimento para o setor têxtil e de calçados, e tampouco foram feitos investimentos em
infraestrutura. Assim, o nível de industrialização permaneceu incipiente. E o golpe militar que
depôs Gallegos, sucessor de Betancourt, e que governou entre 1948 e 1958 por meio de Carlos
Delgado Chalbaub (1948-1950), Germán Suarez Flamerich (1950-1952) e Marcos Pérez Jimenez
(1952-1958), não mudou significativamente a situação.
A ditadura ainda pôs na ilegalidade o Partido Comunista, reprimiu os sindicatos e se beneficiou da
elevação dos preços do petróleo. O dinheiro foi usado para impulsionar a construção civil nos anos
1950. Serviu também para modernizar a agricultura, o que provocou uma forte migração de
camponeses para as cidades, expandindo o assalariamento e o mercado interno. Além disso, a
isenção tarifária combinada à disponibilidade de divisas permitiu a lenta expansão da indústria
manufatureira de menor valor agregado. O crescimento se fez com o aumento do coeficiente de
importações, que saltou de 17% do PIB na década de 1930 para 30% entre 1940 e 1960. Por fim,
em 1960, o setor de bens de consumo não duráveis respondia por 63,5% do PIB, revelando a
dimensão incipiente da indústria venezuelana (Cano, 1999).
Com a oscilação dos preços do petróleo e sua queda na década de 1960, a burocracia estatal se deu
conta da escassez relativa de divisas e de sua volatilidade. Assim, foram implantadas, em certa
medida, as políticas de substituição das importações e, sobretudo, na década de 1970, as iniciativas
de nacionalização da estrutura produtiva¹. O processo se desenvolveu com a queda da ditadura
militar e o estabelecimento da chamada democracia de punto fijo. Esta buscava criar estabilidade
institucional para o processo representativo, combinando reformas de cunho social e nacionalista
com o conservadorismo. O pacto firmado entre a Ação Democrática (AD), o Comitê de
Organização Política Eleitoral Independente (COPEI) e a União Republicana Democrática (URD)
manteve o Partido Comunista na ilegalidade e propôs um governo de unidade nacional, com
compartilhamento e alternância de poder. Na prática, o governo foi dividido entre a AD e o COPEI.
A lealdade das forças armadas foi garantida em troca de benefícios sociais e de maior autonomia
organizativa. Então, os opositores políticos foram perseguidos e o governo se lançou ao combate do
movimento guerrilheiro que, inspirado pela revolução cubana, havia se organizado em protesto ao
caráter oligárquico desse arranjo político.
O punto fijo significou a aliança entre os setores de centro-esquerda e sociais-democratas,
representados pela AD, bem como de centro-direita e democratas-cristãos, da COPEI. Tal acordo
estabeleceria por mais de duas décadas o grau interno de legitimidade² necessário para uma
intervenção crescente do Estado na economia, que redefiniu, até os anos 1980, a relação com o
capital estrangeiro, controlador do segmento petrolífero, o mais importante do setor produtivo,
responsável por 20% do PIB, em 1970.
A intervenção crescente do Estado na economia se expressou de diversas formas: na articulação
entre a Venezuela e os países exportadores de petróleo de uma política conjunta para o setor, que se
constituiria no embrião da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep); na
reorientação da Corporação Venezuelana de Fomento para o financiamento de atividades industriais
que, em 1962, viabilizaria a montagem da primeira siderúrgica integrada; na decisão, em 1963, de
não renovar as concessões de exploração de petróleo, que voltariam às mãos do Estado em 1983; no
anúncio, em 1971, de que a exploração de gás seria exclusividade do Estado; na promulgação, em
1973, da reserva do mercado interno de petróleo e de combustíveis líquidos para o Estado; e na
nacionalização, em 1975, das áreas de exploração de petróleo e de minério de ferro, com a criação
de Petróleos de Venezuela SA (PDVSA) – ainda que o governo de Carlos Andrés Pérez tenha
desvirtuado o seu sentido ao abrir a brecha, para em casos de interesse público, o Executivo
estabelecer convênios de associação por tempo determinado.
E os termos do processo de nacionalização das empresas de petróleo foram muito questionados. O
valor das indenizações, por exemplo, foi considerado exagerado. Assim como a conversão das
multinacionais em filiais da PDVSA, situação que perdurou até 1997, quando foram extintas com a
criação de quatro grandes empresas que formam a corporação: PDVSA Petróleo y Gas; PDVSA
Exploración y Producción; PDVSA Manufactura y Mercado; e PDVSA Servicios.
Ciente da volatilidade dos preços do petróleo, os governos de Rafael Caldera e Pérez
implementaram ambiciosos planos de investimento: o Plano de Desenvolvimento Nacional e
Grande Venezuela, respectivamente. Ambos priorizavam os segmentos de infraestrutura básica –
siderurgia, eletricidade e refino de petróleo –, bem como a expansão das empresas estatais. Diversas
variáveis, porém, contribuíram para que nenhum deles chegasse a bom termo. Os dois se baseavam
em aquisição de tecnologia estrangeira e endividamento externo, e o país sofreu com a queda do
preço do petróleo nos anos 1980, com a saída de capitais atraídos por taxas de juros atraentes e com
o mercado interno recessivo. Depois, o coeficiente médio de importações em relação ao PIB
praticado durante o governo de Carlos Andrés Pérez, por exemplo, chegou em 33% entre 1977 e
1978, diante dos 15% entre 1968 e 1973, restringindo a expansão da industrialização. Esta
correspondia, em fins dos anos 1970, a 16% do PIB, incluindo o setor de refino, responsável por
20% do produto industrial³ (Cano, 1999).
A queda dos preços do petróleo nos anos 1980 e 1990 castigou o país. O setor chegou a responder
por 80% da receita fiscal do governo no período (Cano, 1999). E o resultado foi o desmonte das
políticas desenvolvimentistas, a elevação das taxas de juros, as iniciativas protecionistas e o
favorecimento de setores especulativos, como as finanças e o comércio. No fim, a recessão resultou
numa queda de 28% do PIB per capita durante a década de 1980 e no desgaste da democracia de
punto fijo. A pobreza e as taxas de homicídio se elevaram significativamente entre 1986 e 1994.
http://latinoamericana.wiki.br/verbetes/g/guatemala

GUATEMALA

Edelberto Torres-Rivas (texto original da versão impressa)


Fernanda Gdynia Morotti (texto de atualização do verbete, 2006-2015)
A sociedade guatemalteca começou a se afastar da sua condição colonial somente nas últimas
décadas do século XIX, cinquenta anos após a proclamação da independência, em 1821. A partir da
chamada Revolução Liberal (1871), o café se tornou o maior produto de exportação, e criaram-se
vínculos permanentes com o mercado mundial. Duas décadas depois, apareceu a banana como um
produto exportável. A criação de uma economia exportadora e o início da formação do Estado
nacional foram possíveis graças à vitória dos setores liberais e ladino/mestiços e a derrota militar e
política dos grupos conservadores e criollos.
A denominação “ladino” se refere aos mestiços, resultado da miscigenação de espanhol com
indígena, que desde o momento da independência lutaram contra os criollos, descendentes dos
espanhóis e/ou de outros europeus. A divisão ladino/criollo não é de natureza étnica, mas política e
cultural, e só teve sentido no século XIX. Os ladinos eram leigos, seculares, defensores do
progresso, afrancesados; os criollos eram vinculados à Igreja Católica, à burocracia colonial e à
tradição espanhola. Produziu-se uma dolorosa separação do Estado e da Igreja Católica, que teve
suas terras expropriadas, na sua condição de grande latifundiária; introduziu-se a luz elétrica, a rede
ferroviária, os primeiros bancos e algumas instituições públicas como o Registro de Propriedade de
Imóveis. Mas o programa modernizador da elite liberal, baseado no capitalismo da cafeicultura, foi
implantado por meio de modalidades retrógradas e mecanismos ambíguos, apoiados em práticas
servis de trabalho e outras medidas de natureza colonial.
Os liberais governaram o país até 1945 e, apesar da Constituição de 1876, de caráter progressista,
fizeram-no de maneira muito autoritária. Foram autocracias que, na medida em que transcorria o
século XX, perderam todo o seu vigor liberal modernizador. O exemplo desse outono político é
representado pelo ditador civil Manuel Estrada Cabrera, que governou de forma ilegítima e
sangrenta durante 21 anos, subscrevendo contratos que entregaram terra, portos e serviços de
energia elétrica ao capital norte-americano, favorecendo os cafeicultores alemães. A rigor, os
interesses norte-americanos se articularam desde fins do século XIX, primeiro, iniciando o
transporte e, em seguida, a produção da banana, que cresceu vertiginosamente até a Companhia
Frutífera (UFCo – United Fruit Company) adquirir as maiores plantações da região.
Em 1904, o empresário norte-americano Minor Keith ganhou o contrato para finalizar a rede
ferroviária intraoceânica (iniciada em 1892) e, como recompensa, recebeu o controle da estrada de
ferro e do porto caribenho de Puerto Barrios. Em 1912, foram criados os Ferrocarriles
Internacionais de Centro América (Estrada de Ferro da América Central) que, ao fundir-se com a
UFCo, conseguiu concessões dos portos nacionais, nos oceanos Atlântico e Pacífico.
A crise mundial de 1929-30 coincidiu com a eleição do general Jorge Ubico (1930-44), o último
caudilho liberal e cuja condução política foi um trágico exemplo de estabilidade e ordem obtidas à
custa da paralisação da vida social, cultural e política da sociedade. Ele enfrentou a crise
paralisando a atividade do Estado e outorgando aos latifundiários uma moratória no pagamento de
suas dívidas. Ubico promulgou uma lei que, com o pretexto de combater a ociosidade, forçava ao
trabalho os indígenas que “não pudessem comprovar” terem trabalhado no campo no mínimo 150
dias. O general Ubico foi finalmente deposto por uma insurreição popular.

A reforma de Arbenz
Na história do século XX, foi importante a chamada Revolução de Outubro, ocorrida entre em
1944-54, que pôs fim ao Estado liberal e enfraqueceu os interesses da oligarquia cafeeira. Esse
breve período democrático impôs muitas inovações institucionais e reformas na arcaica sociedade
rural, na área trabalhista, da educação, da saúde e da economia. A mais importante dessas reformas
foi o Decreto 900, ou Lei de Reforma Agrária (maio de 1953), que se propunha a acabar com as
relações de servidão no campo, abrir as portas ao desenvolvimento capitalista independente por
meio da expropriação legal das terras não cultivadas, entregando-as aos camponeses solicitantes, e
iniciar a industrialização sob controle nacional.
A reforma agrária impulsionada por Jacobo Arbenz Guzmán entregou terra a 100 mil camponeses e
expropriou 1,5 milhão de acres do latifúndio privado. Esse fato, considerado um golpe na estrutura
de dominação tradicional, no contexto da Guerra Fria, foi interpretado como um projeto comunista,
assim como a expropriação de 550 mil acres de terra não cultivada realizada pela UFCo. Sob esta
ótica ideológica, o projeto nacional popular de Arbenz foi derrotado em julho de 1954 como
resultado da intervenção norte-americana direta. As forças revolucionárias foram duramente
perseguidas em nome do anticomunismo.
Foi difícil constituir um poder contrarrevolucionário no país depois de 1954, apesar do apoio norte-
americano às forças antiarbencistas, que formaram uma instável, mas poderosa, “tríplice aliança”
com os interesses tradicionais: a Igreja Católica, os empresários e os militares. A partir dessa data, e
durante as décadas de 1960 e 1970, ocorreram vários processos de modernização e de mudança
econômica que tiveram, como veremos, expressões contraditórias em seus efeitos sociais. A partir
de 1955, a política econômica da ditadura militar caminhou em direção à demanda de novos
produtos agrícolas, impulsionada pelas forças do mercado internacional, o que trouxe como
consequência a modernização da economia exportadora graças ao algodão, à carne bovina, ao
açúcar e à exploração florestal. Também se incentivou uma primeira etapa de crescimento industrial
sob a proteção do projeto de Mercado Comum Centro-Americano (de 1960 em diante), cujo auge se
estendeu até 1980.
A intensidade da modernização econômica acarretou uma ampla diferenciação social, especialmente
no campo. Assim, apareceu um camponês expropriado da sua terra que não se proletarizava,
somente se empobrecia, e outras modalidades sociais do campesinato que tiveram em comum a
perda da segurança no trabalho e na renda. Na cidade, a modernização foi contraditória, em virtude
desse jogo que distribuiu de forma desigual os lucros do progresso técnico, empobrecendo os
setores menos favorecidos como efeito das altas taxas do desenvolvimento. Houve um aumento da
população urbana e dos setores médios, mas a decomposição no artesanato, da mesma forma que no
campo, não produziu proletariado, e sim ocupação informal ou desemprego disfarçado.
Os processos de mudança socioeconômica produziram um tipo de Estado que, lentamente,
despojou-se dos piores traços do Estado liberal oligárquico e, paradoxalmente, ao criar novas
instituições e novas funções, adotou a versão de um poder promotor desenvolvimentista. Mas esse
tipo de desenvolvimentismo estatal era de curto voo, pois o programa modernizador na área
econômica se fez acompanhar, na política, de expressões severas de um Estado terrorista, uma
modalidade autoritária que, em contrapartida, estimulou, a partir de 1962, o início de respostas
violentas por parte de alguns grupos radicais.

Últimos conflitos do século


O fenômeno mais importante dos últimos 35 anos do século XX foi a constituição de uma dialética
contraditória a partir de 1966, quando se estabeleceu um Estado contrainsurgente, um poder
inspirado na doutrina de segurança nacional, mas com governos militares oriundos de periódicos
processos eleitorais, não necessariamente fraudulentos – uma espécie de “democracia de fachada”,
como foram qualificadas naquele momento. A Guatemala viveu nessa época duas experiências
guerrilheiras, oriundas em parte do profundo descontentamento que a derrota de Arbenz produzira,
dos efeitos empobrecedores da modernização agrícola e também da influência gerada pelo triunfo
de Fidel Castro, em Cuba.
A primeira explosão guerrilheira (1964-68) foi uma réplica da experiência cubana, estimulada pelo
terrorismo de Estado. Foi derrotada muito mais pela polícia e pelos esquadrões da morte do que por
um exército treinado com a colaboração dos Estados Unidos. O foco guerrilheiro deixou amargas
experiências recolhidas em um segundo esforço (1980-82), que por essa razão teve diferenças
substanciais com o primeiro. Foi encabeçado por três organizações (FAR – Forças Armadas
Rebeldes, ORPA – Organização do Povo em Armas e EGP – Exército Guerrilheiro dos Pobres), que,
após um longo período de implementação, conseguiram o apoio relativo de diversos grupos
indígenas. O Exército enfrentou o desafio e, em menos de um ano e meio, alcançou uma vitória
tática que significou para a guerrilha seu isolamento das bases sociais. Nessa campanha, o Exército
cometeu atos de barbárie sem paralelo na história latino-americana: mais de 75 mil indígenas foram
assassinados e 600 povoados, destruídos. A insurgência continuou, mas deixou de ser uma ameaça.
No âmbito econômico (1980-1990), produziu-se de forma aguda a crise da dívida externa e foram
implantados o modelo de abertura comercial total, a privatização das escassas empresas públicas e o
enfraquecimento do Estado e dos mecanismos de proteção do mercado interno. A crise provocou
um longo estancamento e, depois de algumas medidas de estabilização e ajuste, paralisou a vida
produtiva e empobreceu ainda mais a população. As políticas neoliberais de liberdade de mercado
foram modificando a raiz tradicional exportadora e a dinâmica do mercado comum centro-
americano. Os resultados mais importantes incluíram uma paralisação do setor manufatureiro, o
auge da maquiladora estrangeira e uma queda lenta da produção cafeeira e dos produtos
tradicionais de exportação, com o predomínio de atividades comerciais, de serviços e de capital
financeiro. Também cresceu o montante de remessas dos guatemaltecos que estavam no exterior.
Desde 1985, o sistema político “se abriu” a processos eleitorais livres e competitivos, em meio a
uma contraditória transição para a democracia no interior de um conflito armado. Desde esse perío-
do, foram eleitos quatro governos civis, constitucionais, pertencentes aos partidos conservadores. A
democracia eleitoral, com todas as suas limitações, funcionou, mas não se estabilizou plenamente.
Em 1966, finalmente, assinou-se o acordo de paz que terminou com o débil conflito armado. Esse
acordo resultou de vários anos de negociação entre o governo e a guerrilha, na qual foi importante a
mediação das Nações Unidas e de vários governos amigos. Alcançar a paz significou um respaldo
maior ao processo democrático, pois terminaram as terríveis violações aos direitos humanos.
Os governos democráticos se mostraram incapazes de enfrentar os problemas sociais mais graves,
como a extensão da pobreza e das desigualdades que golpeavam a maioria da população. Também
devemos ressaltar o desinteresse político para cumprir os acordos de paz, especialmente no que diz
respeito às recomendações em favor da população indígena. O reconhecimento das diferenças de
ordem cultural das etnias tem uma dimensão material que inclui a adoção de medidas que reduzam
a pobreza extrema em que vivem e políticas contra a discriminação e o racismo.
Considerou-se como um grave problema a insegurança dos cidadãos, especialmente no meio
urbano. A violência aumentou, e o Estado se mostrou incompetente para enfrentar a onda de
criminalidade que transformou a insegurança no maior problema da cidadania. A participação nos
movimentos sociais era fraca, apesar do clima tolerante dessa democracia sem democratas, com
certeza porque a liderança foi barbaramente dizimada nos longos anos de repressão. Espera-se que a
democracia contribua para o desenvolvimento com equidade.
A sociedade civil é deficiente e fragmentada e provavelmente o fato mais grave é a fraqueza
demonstrada pelos partidos políticos. O sistema político ressentiu-se pela ausência de forças
partidárias permanentes, nacionais e programáticas. A democracia eleitoral na Guatemala será
instável sem partidos políticos e sem um Estado forte, um pleno Estado de direito.

A crise da contrarrevolução
O ano de 1954 é mais do que uma data emblemática na história do país. Foi marcado por vários
fatos políticos de profunda significação histórica. Terminou, nesse ano de 1954, a breve década
democrática e com ela seu projeto nacionalista e popular. Em 26 de julho, devido à conspiração
norte-americana montada com ajuda da CIA, chegou ao fim o regime revolucionário com a
surpreendente renúncia do coronel Arbenz. Essa lamentável “solução” ocorreu quando os altos
chefes do Exército se juntaram ao golpe que o embaixador John Peurifoy vinha organizando à vista
de todos. Arbenz retirou-se depois de garantir que o seu sucessor, o coronel Carlos Enrique Diaz,
manteria as conquistas revolucionárias alcançadas nos dez anos de experiência democrática, solução
que não satisfez aos conspiradores. Uma cadeia de mudanças na cúpula militar, no lapso de uma
semana, teve fim com a chegada ao poder, designado pelos Estados Unidos, do coronel Carlos
Castillo Armas, chefe da principal facção anticomunista. Numa mensagem cifrada, Peurifoy
resumiu o ocorrido informando que a operação PB Sucess terminara com êxito para a CIA. Esse era
o nome da ação oculta organizada pela CIA (N. Cullather, 1999). John Foster Dulles falou de “uma
vitória gloriosa”.
O triunfo das forças conservadoras, a partir de julho de 1954, marcou o começo de um período de
ditaduras militares e de um ambiente caracterizado pelo comunismo e pela Guerra Fria. São várias
as características a ressaltar. Embora o governo de Castillo Armas chegasse como um vendaval
contrarrevolucionário, não houve restauração das políticas e dos personagens do antigo período
cafeeiro-liberal. O crescimento econômico prosseguiu, e o investimento estrangeiro aumentou
visivelmente, devido ao projeto de mercado comum do qual se falará mais adiante. País de
paradoxos, a bonança econômica que se experimentou foi acompanhada de uma notável
desestabilização política entre 1954 e 1966, como resultado direto de reiterados desencontros
internos entre as forças anticomunistas, brevemente unificadas, quando a conspiração antiarbencista
teve lugar.
O regime do coronel Castillo Armas recebeu o poder com total apoio da Igreja e do Exército, da
burguesia agroexportadora e, em particular, dos Estados Unidos. No dia 8 de outubro de 1954,
como candidato único, obteve 98% dos votos, iniciando um errático programa de desenvolvimento
econômico e uma estratégia de desmonte e de punição das heranças do arbencismo; resistiu a três
tentativas de golpe militar, até que, em 26 de julho de 1957, foi assassinado por um de seus aliados,
fato nunca elucidado. Para normalizar a crise provocada pelo desaparecimento do caudilho,
convocaram-se eleições em outubro de 1957. Devido à fraude nos comícios, as eleições foram
anuladas e ocorreu um novo golpe de Estado, que empossou primeiro um triunvirato militar e
depois o coronel Flores Avendaño, o mais reconhecido dos líderes anticomunistas. As novas
eleições, convocadas para janeiro de 1958, não tiveram vencedor e o Congresso Nacional decidiu,
por fim, que a maioria relativa fora obtida pelo velho general conservador Miguel Ydígoras
Fuentes.
As disputas no interior da família anticomunista desestabilizaram um poder que tinha o respaldo das
elites dominantes. Essas sucessivas oportunidades de desenvolvimento foram perdidas. O governo
de Ydígoras Fuentes tentou aplicar uma política de reconciliação nacional e uma abertura
democrática que se frustrou pela ausência de forças democráticas, tanto no governo quanto na
oposição. Nesse período presidencial (1958-1963), tiveram início o projeto de integração
econômica regional e a renovação do modelo exportador, que serão analisados mais adiante. A
economia caminhava bem por uma trilha distante da política, que andava mal. Com efeito, em
meados de novembro de 1960, produziu-se a mais grave sublevação militar da etapa pós-arbencista,
uma insurreição que comprometeu inicialmente até um terço dos oficiais. Em 13 de novembro,
explodiu o descontentamento do Exército, devido à existência de uma base secreta de mercenários
cubanos, como parte dos compromissos que aceitara o presidente Ydígoras Fuentes de colaborar
com a CIA nos preparativos da operação Praia Girón. Os rebeldes negociaram e a força anticastrista
se retirou do país. Foi um acordo entre pares, mas com imprevistos resultados posteriores.
De fato, houve um significativo grupo de oficiais que não se rendeu, um setor irredutível que
realizou um percurso ideológico da direita à extrema esquerda, constituindo assim o Movimento
Revolucionário 13 de Novembro, integrado por cerca de vinte jovens oficiais, rangers treinados nos
Estados Unidos, que tempos depois formariam o primeiro destacamento guerrilheiro. Devemos
lembrar que na Guatemala a luta armada, as primeiras ações contra objetivos políticos e o
enfrentamento com o Exército nacional se iniciaram com os militares, o chamado grupo MR-13 de
novembro, encabeçado pelo major Yon Sosa, Luis Turcios e outros civis que se incorporaram
posteriormente.
O mal-estar político cresceu nesses anos devido à evidente incapacidade de governar e de enfrentar
os problemas sociais, mas também devido à crise permanente que provocou a interminável disputa
entre as facções conservadoras. Na etapa final do regime ydigorista, ocorreram acontecimentos
importantes que se articularam, casualmente, com a emergente sublevação popular e que foram um
exemplo eloquente da crise política do poder anticomunista, da instabilidade que o caracterizou
desde sempre. O primeiro foi um protesto estudantil pouco importante que, pela desnecessária
repressão policial, transformou-se num amplo movimento de massas que terminou pedindo a
renúncia de Ydígoras Fuentes. Esse movimento ficou conhecido como As Jornadas de Março e
Abril (1962) e constituiu a máxima expressão de descontentamento popular urbano. Foi um
movimento espontâneo que paralisou boa parte da vida nacional durante muitas semanas. A crise
começou a resolver-se quando, em uma ação final, Ydígoras Fuentes nomeou um gabinete militar
que se encarregou de estabelecer a ordem.
Mais de cinquenta mortos e oitocentos feridos, além de um número maior de detidos, foram o preço
pago pelas massas descontentes. A natureza insurrecional das Jornadas e a resposta militar
alimentaram a irritação de setores médios e sua simpatia pela resposta violenta, o que levou os
vários dirigentes estudantis, encabeçados por Edgar Ibarra, a organizarem-se quase de imediato em
um grupo político que depois se somou às Forças Armadas Rebeldes (FAR) guerrilheiras.
O segundo fato tem a ver com a esperada convocação das eleições presidenciais para 1964, que o
governo prometeu que seria um evento livre e democrático para acalmar as forças opositoras. A
anunciada participação do ex-presidente José Arévalo nas eleições e a eminência da sua vitória
mobilizou o ciúme anticomunista e precipitou o golpe de Estado de 30 de março de 1963,
justamente no dia em que Arévalo voltou à Guatemala. O golpe foi uma decisão corporativa e
considerado institucional, provavelmente o primeiro que ocorreu na América Latina. Em assembleia
deliberativa, os chefes do Exército votaram pela destituição do general Ydígoras Fuentes, pelo
cancelamento das eleições e pela nomeação do coronel Enrique Peralta Azurdia como chefe de
Estado. A partir dessa experiência, as intervenções militares deixaram de ser iniciativa de caudilhos
personalistas.
http://latinoamericana.wiki.br/verbetes/p/panama

PANAMÁ
Marco A. Gandásegui Hijo

O século XX panamenho caracterizou-se pelo nascimento de um movimento popular que


periodicamente revolvia as bases da estrutura social e de suas instituições políticas. Os movimentos
populares respondiam qualitativamente aos diferentes momentos, próprios do desenvolvimento
capitalista da época.
Além disso, distinguiu-se pela luta que o projeto nacional enfrentou contra o neocolonialismo norte-
americano. Os Estados Unidos, aproveitando-se do Tratado do Canal, firmado em 1903,
apropriaram-se de uma área ao redor da via aquática (Zona do Canal do Panamá), convertendo-a em
um território com jurisdição subordinada a eles, até 1977, e ocupando-a militarmente, até 1999. Os
enfrentamentos diplomáticos e políticos da época culminaram, em 1964, com uma insurreição
popular que modificou a relação entre os dois países.
Esse período também foi caracterizado pela aparição de uma classe média ascendente, possuidora
de altos níveis educacionais, com serviços de saúde, desenvolvimento urbano e gosto pelo
consumismo. Nesse período, a classe média conseguiu criar partidos que irromperam com relativo
êxito nas lutas pelo poder.
Apesar dos avanços assinalados no campo das lutas sociais, nacionais e políticas, o Panamá não
conseguiu institucionalizar uma ordem que o estabilizasse. No início do século XXI, os
trabalhadores e suas organizações tenderam a retroceder, tanto qualitativa como quantitativamente.
A evacuação das bases militares norte-americanas e a entrega do Canal do Panamá ao governo
nacional, acordadas em 31 de dezembro de 1999, ainda não impulsionaram os resultados esperados.
Além disso, a classe média perdeu a capacidade política para dirigir os destinos do país.
O Panamá não conseguiu enfrentar com uma política alternativa a ofensiva dos países capitalistas
mais avançados, que descarregaram sobre a periferia do sistema capitalista os custos da reordenação
econômica. A chamada globalização, que pretende desarticular os mercados nacionais formados no
século XX, e o neoliberalismo, que serve de bandeira ideológica desse movimento, fizeram
incursões importantes no Panamá. Apesar de contar com algumas vantagens relativas – a posição
geográfica (Canal do Panamá, Zona Franca regional e outros serviços), a formação social da
população – os últimos governos em exercício cederam ante as instituições financeiras
internacionais aplicando políticas de desregulamentação, flexibilização e privatização.

A classe transitista
Para entender esse processo, que caracteriza o início do século XXI, é necessário situá-lo no
contexto próprio do desenvolvimento do capitalismo mundial e na inserção do Panamá em suas
contradições. No entanto, essa análise, por si só, seria inútil e incompleta para descrever e explicar a
realidade panamenha. Por essa razão, é necessário examinar as relações sociais que caracterizam o
Panamá e a forma em que se foram configurando ao longo da história.
Diferentemente de outros países da região latino-americana, o Panamá não contou com uma
oligarquia fundiária ansiosa por aproveitar a demanda de sua produção agrícola em troca de
produtos industriais que caracterizaram a região durante parte do século XIX e princípios do século
XX. No caso do Panamá, a posição geográfica e o movimento financeiro deram lugar a uma classe
social dedicada à prestação de serviços (comerciais, financeiros e de transporte) que foi estabelecida
durante a colônia espanhola (séculos XVI ao XIX) e que conseguiu sobreviver ao período de união
com a Colômbia já independente, que durou de 1821 até 1903, e ao século XX (republicano). Essa
classe, identificada como transitista, não tem vínculo com a produção material de riquezas nem com
a posse territorial. Sua vocação está ligada ao financiamento da circulação de mercadorias.
Do mesmo modo que a burguesia produtiva (industrial ou agrícola), a fração capitalista transitista,
dedicada à prestação de serviços, esmera-se em fazer crescer seu lucro. Também está submetida às
exigências da competição capitalista, que se manifesta com a transformação constante das forças
produtivas. No caso do Panamá, isso se traduz na história da rota de trânsito inicialmente servida
por burros de carga sobre o Caminho Real, depois substituída por uma ferrovia transoceânica e,
finalmente, pelo Canal de eclusas. Além disso, similarmente à burguesia, para sobreviver e
reproduzir-se, essa parcela transitista deve influenciar o governo em exercício (se possível) ou
controlar suas políticas.
A análise dos processos sociais que permanecem no nível das forças produtivas, entretanto, não
consegue captar a totalidade dos movimentos que caracterizam uma sociedade. As relações sociais
são produzidas e se reproduzem tanto nos centros de produção material como no cotidiano
ideológico. Em outros países latino-americanos, as oligarquias latifundiárias conseguiam exercer
hegemonia sobre os outros grupos sociais e no caso do Panamá, a hegemonia é exercida pela classe
que presta serviços na rota do transporte, nesse caso particular, a fração da classe transitista. Ou
seja, a classe que domina a rota de trânsito subordinando as políticas produtivas e comerciais, bem
como os grupos associados a essas atividades, exerce sua hegemonia, fazendo com que suas ideias
sejam aceitas como próprias pelo conjunto dos grupos sociais.
No entanto, diferentemente da classe proprietária de terras, que perdeu a hegemonia com as crises
do início e de meados do século XX na América Latina, a classe transitista foi questionada
severamente em meados do século XX. Mas tudo indica que no início do século XXI conseguiu
recuperar a hegemonia perdida.
Um exame da realidade panamenha, com ênfase nos desafios do século XXI, deve passar pela
relação social entre a fração da classe transitista e os movimentos populares. Para isso, analisa-se a
seguir a hegemonia dessa classe e seus enfrentamentos com os grupos sociais que reataram sua
ideologia, especialmente os que erigiram projetos de nação no último século.

Rota de trânsito e projeto de nação


Muitos historiadores panamenhos assinalam que para entender o Panamá é preciso ler a Declaração
de Independência, de 28 de novembro de 1821. O documento reúne o sentimento dos criollos
(filhos dos imigrantes), que, como no resto da América, decidiram romper os laços coloniais com a
metrópole espanhola. No caso do Panamá, talvez porque a decisão tenha sido tomada de forma
tardia, efetuou-se com maior maturidade.
A Declaração apresenta ambiguidades em dois sentidos. Por um lado, propõe a necessidade de
associar-se com o projeto colombiano lançado por Simón Bolívar que os chamava à unidade
regional. Por outro, resgata seu interesse de conservar a autonomia econômica, consciente de sua
posição estratégica como ponte entre os oceanos Pacífico e Atlântico.
Essa contradição constitui o fio condutor dos processos sociais do istmo desde a fundação da cidade
de Nuestra Señora de la Asunción de Panamá (1519) até os dias atuais, ou seja, quase meio milênio.
O historiador panamenho Castillero Calvo apresenta rica documentação sobre os enfrentamentos
entre os interesses pizarristas e os transitistas em meados do século XVI. Calvo refere-se à produção
agropecuária representada pelos espanhóis, que haviam participado do início da conquista da
América (1492-1550). Contavam com privilégios como capitulações e mayorazgos, associados a
formas de exploração de latifúndios e escravos. Em meados do século XVI, os especuladores que
prestavam serviços ao trânsito pela rota do Panamá começaram a deslocar os produtores dos
círculos do poder. Esse choque gerou fortes enfrentamentos.
Atualmente, as mesmas frações continuam lutando pelo poder. Naquela época, os transitistas
conseguiram impor-se, entre outras razões, graças ao poder da Coroa espanhola. No início do século
XXI, tudo indica que a balança do poder se inclina a seu favor, graças ao apoio dos Estados Unidos.
Por interesses transitistas entenda-se aqueles que se identificam com o mercado capitalista mundial
e o consideram apropriado. É uma fração de classe cuja base de poder não descansa sobre a
produção de riquezas (ou valores), não aspira converter-se em latifundiária, tampouco comanda
força de trabalho e não lhe interessa contar com uma burocracia (civil ou militar). Seu interesse é
servir de mediadora das mercadorias e valores financeiros que são obrigados a transitar pela rota do
istmo do Panamá. Seu monopólio sobre a rota permite-lhe negociar favoravelmente com produtores,
comerciantes e, até, representantes dos Estados que aspiram acelerar a realização de suas
mercadorias.

A colônia espanhola
Durante a colonização espanhola, a fração transitista panamenha sentia-se relativamente cômoda
sob a proteção da Coroa. Madri mobilizava sua capacidade militar financiada por um incipiente, e
ainda inseguro, capitalismo europeu.
A biografia moderna do capital começou no século XVI, com o comércio e o mercado mundiais. O
comércio dominante durante três séculos foi o que se iniciou com as exportações minerais da Bacia
do Pacífico da América até a Europa, complementada por mercadorias elaboradas na direção
contrária. O período sob a bandeira colombiana (1821-1903) pode ser considerado um interregno
entre o colapso da Espanha e a consolidação parcial dos Estados Unidos.
A Espanha necessitava da rota do istmo para sua política de extração mineral na América do Sul,
iniciada no século XVI e esgotada no século XVIII. Já os Estados Unidos precisavam desse curso
para completar sua conquista territorial do continente norte-americano e converter-se em potência
mundial, econômica e militar, capaz de dominar dois oceanos. Os norte-americanos conseguiram
seu objetivo no início do século XX, menos de meio século depois da inauguração do Canal do
Panamá. No fim desse mesmo século, o Canal do Panamá (consequentemente, a rota do istmo) já
não tinha mais importância estratégica para Washington.

O século colombiano
O colapso do projeto colombiano de Bolívar, em 1831, pôs fim ao sonho de converter a rota do
Panamá no estreito de Corinto do mundo moderno. Durante o século XIX, a classe transitista
sobreviveu graças à construção da ferrovia transístmica (a serviço do desenvolvimento da
Califórnia, recém-anexada à união norte-americana) e ao projeto fracassado do Canal francês,
empreendido pelo engenheiro Ferdinand De Lesseps (1880).
O século colombiano (1821-1903) chegou ao fim de maneira precipitada. A Guerra dos Mil Dias,
em que conservadores e liberais se enfrentaram entre 1899 e 1903, arruinou o país e deixou a fração
transitista ante um dilema que só pôde ser resolvido traindo seus protetores em Bogotá. Como
assinalaria o cientista social panamenho Hernán Porras, vendo-se perdida na voragem que
significava continuar no contexto de um desenvolvimento nacional, a fração transitista negociou a
independência do istmo diretamente com os Estados Unidos. O elevado preço que pagou pela
aventura ianque foi entendido quase imediatamente por seus autores.
Ainda que a fração transitista, que apareceu no Panamá em meados do século XVI, nunca tenha
realizado um projeto nacional (desenvolvimento territorial da área sobre a qual exercia alguma
forma de soberania parcial ou total) outros grupos sociais o fizeram. No século XVI, os pizarristas
enfrentaram os transitistas e foram derrotados quando estes receberam o apoio da Coroa. Durante o
período colonial espanhol, os intentos de dar alguma organicidade aos interesses terratenentes
foram anulados também pela metrópole.
Durante o século colombiano, Bogotá converteu o Departamento do Panamá em um enclave para
alimentar os cofres do governo central. As sublevações periódicas que exigiam mais autonomia
eram derrotadas por tropas colombianas interessadas em conservar as fontes de divisas para Bogotá.

O movimento separatista de 1903


De maneira conflitante, a correlação de forças mudou, a partir de 1903, com a intervenção militar
norte-americana, que reconheceu a nova República. Ao mesmo tempo, entretanto, a presença dos
EUA no istmo pôs obstáculos à função histórica da fração transitista e complicou o surgimento de
uma nova aliança classista que pretendia construir o mercado nacional. É preciso ter em conta que a
fração transitista não tinha vocação para administrar e menos ainda para governar. Durante a
colonização, deixou esse papel para a burocracia a serviço da Coroa. No século XIX, os
governadores eram enviados de Bogotá. A partir de 1903, os transitistas tiveram de recorrer aos
próprios recursos humanos, com o apoio de débeis frações dos partidos conservador e liberal. Para
resolver o problema administrativo, recorreu a caudilhos políticos com capacidade para agrupar os
distintos setores do país.
Enquanto os Estados Unidos se dedicaram a construir o Canal e a operá-lo em razão de seus
interesses nacionais, no Panamá desatou-se uma luta pela hegemonia e pelo poder político. A luta
pela hegemonia polarizou-se sobre dois eixos. Por um lado, o projeto transitista, sintetizado no
logotipo do escudo que apareceu depois da independência: pro mundo beneficio (para o benefício
do mundo). Por outro, o projeto nacional, sintetizado na luta pela soberania e definido pela criação
de um mercado nacional.

A questão social e o golpe militar


O projeto transitista levava o selo de vários séculos. Já o projeto para constituir o mercado nacional
só adquiriu vigor em meados do século XX e representou um desafio à hegemonia da fração
transitista. Encabeçado por uma burguesia que pretendia consolidar o mercado, o projeto nacional
encontrou aliados estratégicos na classe operária, nos produtores agrícolas e em uma classe média
ascendente. Além disso, setores vinculados aos serviços e ao comércio somaram-se a esses grupos
com uma tática para alcançar benefícios conjunturais.
O rápido crescimento do mercado nacional, traduzido em taxas médias de Produto Interno Bruto
(PIB) anuais de 8%, entre 1953 e 1967, submeteu a fração transitista a uma profunda redefinição. A
perda parcial de sua hegemonia gerou uma crise de Estado que se arrastou por quase duas décadas
sem solução, provocando o golpe militar de 1968.
O colapso do regime liberal-transitista, em meados do século XX, explica-se pela crescente
debilidade da fração transitista e sua insistência em manter o controle sobre as decisões políticas do
país. As contradições internas eram ventiladas pelas demandas internacionais, que exigiam políticas
de desenvolvimento econômico e, ao mesmo tempo, controle sobre os movimentos sociais
alternativos, simpatizantes ou não do bloco socialista.
O governo militar instaurado em 1968 tinha como objetivo resolver a crise e estabilizar a situação.
Depois de um período de incerteza, sob a liderança de Omar Torrijos, os militares optaram por
apoiar o projeto de desenvolvimento nacional. O discurso abandonou o projeto transitista e
inclinou-se a favor de uma opção desenvolvimentista, que implicava consolidar o mercado nacional.
Nessa estratégia, destacam-se dois elementos centrais: a nacionalização da questão do Canal serviu
de eixo para definir uma política de unidade (“por cima das classes sociais”); o reconhecimento da
questão operária serviu de eixo para resolver a crise de hegemonia provocada pela debilidade da
fração transitista.
O acentuado endividamento da década de 1970 permitiu aos militares o investimento em programas
sociais e econômicos, que incorporaram politicamente a maioria dos panamenhos ao projeto
nacional. Contudo, a descapitalização da década de 1980 e as mudanças internacionais provocaram
o colapso do regime militar e a aparição da agenda do programa neoliberal.
Nesse quadro, serão examinados quatro atores sociais:
• a fração transitista;
• a burguesia nacional, que é uma fusão da velha classe de produtores agrários e industriais,
surgidos no calor das políticas de substituição de importações;
• a classe operária, fruto das obras transitistas e da indústria nacional, que emergiu em meados do
século XX;
• a classe média ascendente, produto das atividades do Canal do Panamá e da posterior aparição do
mercado nacional.
Nesse exame, evidenciam-se como seus interesses se articulam, entram em contradição e se
projetam para o futuro. Para tanto, devem ser analisados seus projetos, suas alianças (internas e
externas) e suas organizações políticas.
O exame dos longos processos de acumulação capitalista mundial não deixa dúvidas sobre a estreita
integração do istmo ao sistema global. Mesmo quando a análise privilegiar os processos internos,
com todas as suas contradições, não se diminuirá a importância que tem para a formação social
panamenha o fato de fazer parte de um eixo central do processo de acumulação capitalista global: a
rota do istmo.
A fração transitista
A classe capitalista é aquela que move recursos, materializa créditos, mobiliza mercadorias, adquire
força de trabalho e financia a criação de infraestrutura. O capitalista só trabalha com dinheiro. Já o
empresário trabalha com o dinheiro do capitalista para fazer a força de trabalho produtiva quando
esta se combina com a tecnologia. A competência consiste em determinar quando o investimento é
mais produtivo.
O empresário, entretanto, precisa considerar múltiplos fatores quando decide como vai organizar
seus recursos. Tem de estudar a distância, os obstáculos existentes entre o produto de seu
investimento e os consumidores, e também conhecer o comportamento e os projetos da
concorrência para determinar as vantagens e definir suas estratégias.
O istmo do Panamá, desde data remota (primeira metade do século XVI), foi convertido pela Coroa
espanhola em uma entidade sob seu controle político direto para transportar as riquezas minerais do
Peru à metrópole. Sob a proteção da Coroa, capitalistas estabeleceram-se nas cidades terminais do
istmo com a única incumbência de financiar a aquisição de meios de transporte marítimo, fluvial ou
terrestre. Emprestavam recursos para armazenar e assegurar mercadorias nos portos e para oferecer
alojamento, alimentação e entretenimento. Os empresários, por sua vez, traziam de cada recanto do
império espanhol as mercadorias solicitadas: madeira para barcos, vestimenta para marinheiros,
alimentos para viajantes e escravos para realizar o trabalho manual e artesanal.
Entre 1550 e 1650, as feiras do istmo sustentavam essa estrutura social baseada no transitismo.
Espanhóis, criollos e escravos formavam as classes sociais, presentes no marco de uma sociedade
estritamente hierarquizada. Com o declínio das feiras, a partir de meados do século XVII, a Espanha
buscou fórmulas para sustentar sua privilegiada posição geográfica no istmo (levando em conta a
perda da Jamaica e do Haiti para seus inimigos europeus).
A partir de 1663, a Coroa estabeleceu o situado, que representava “um subsídio em dinheiro que,
por ordens da Coroa, a Caixa de Lima devia transferir ao Panamá a cada ano para cobrir os gastos
militares”. Com o situado, o Panamá beneficiou-se do comércio inter-regional, que tratou dos
escravos e do contrabando pelos cem anos seguintes.
O que foram as feiras até meados do século XVII foram o situado e outras atividades
complementares até o fim do século XVIII. Ou seja, durante quase três séculos, os capitalistas
transitistas não tiveram rivais significativos no istmo do Panamá e puderam contar com a generosa
proteção da Coroa espanhola.
No fim do século XVIII e começo do século XIX, o império espanhol já não se sustentava. As
colônias mais atrasadas se rebelaram (Venezuela, Chile e Buenos Aires), e, rapidamente, outras
seguiram pelo mesmo caminho. O Panamá esteve entre as últimas colônias do continente a se
desgarrar, devido à prosperidade momentânea advinda com as guerras napoleônicas na Europa e as
insurreições na América.
A classe transitista negociou as mudanças que tinha de realizar com as potências europeias e
também com as novas repúblicas americanas. A Grã-Bretanha propôs um complexo sistema de
alianças ao estilo hanseático para conservar sua autonomia relativa e, ao mesmo tempo, garantir sua
proteção militar. Foram enviados emissários ao Peru e ao México a fim de explorar possíveis
acordos políticos. Finalmente, os panamenhos, encabeçados pela classe transitista, expressaram sua
vontade unindo-se à Grã-Colômbia, criação recente das forças libertadoras de Bolívar.
Durante trezentos anos, o discurso transitista foi hegemônico no istmo. Apesar dos problemas, dos
momentos difíceis quando desapareceram as feiras, quando diminuiu o situado ou declinou o
comércio, a resposta dos capitalistas transitistas sempre foi a de manter as esperanças em um novo
investimento que fizesse a rota mais competitiva. Quando quase se perdia a última esperança,
durante a primeira metade do século XIX, o capitalismo mundial deu um novo giro introduzindo a
indústria moderna como eixo central de seu desenvolvimento. A demanda de novas matérias-primas
e de rotas rápidas para transportar mercadorias converteu o Panamá, novamente, em um elo-chave
no processo de acumulação capitalista.
A partir de meados do século XIX, a rota do Panamá foi se convertendo cada vez mais na união dos
oceanos para o ascendente império norte-americano. Nos últimos 150 anos (1856-2006), a
hegemonia da classe transitista no istmo dependeu, em grande parte, de seus interesses coincidentes
com a potência norte-americana. Tal qual a Coroa espanhola, os Estados Unidos viram na rota de
trânsito um ponto-chave em sua expansão comercial e, ao mesmo tempo, uma base para lançar suas
expedições militares.

A burguesia nacional
A aparição de um mercado interno, produto das políticas de substituição de importações em meados
do século XX, favoreceu o surgimento da burguesia nacional panamenha. Tratava-se de uma classe
relativamente débil, levando em conta a extensão do mercado interno do Panamá. Contudo, tinha a
seu favor dois fatores: a conquista paulatina do enorme potencial aquisitivo resultante da presença
neocolonial norte-americana (que incluía uma poderosa máquina militar) no istmo; um setor
agrícola ansioso por encontrar um mercado para seus produtos. Além disso, dispunha de uma classe
trabalhadora experimentada, à qual se juntava uma nova classe operária de origem camponesa, que
crescia rapidamente e buscava emprego.
No calor das políticas nacionalistas que promoviam investimentos produtivos, vias de comunicação
internas, gastos no setor social (saúde, educação, moradia etc.), a burguesia nacional desafiou a
hegemonia da classe transitista. Conseguiu apoderar-se do centenário Partido Liberal, formar
alianças táticas com os grupos do setor agrário e, até, com os partidos de bandeira proletária.
De 1956 (eleição de Ernesto de la Guardia à presidência da República) até 1981 (morte de Omar
Torrijos), o projeto nacional da burguesia avançou superando obstáculos e crises. Colocou na
agenda a consolidação do mercado nacional, mediante um conjunto de reformas (tributária,
educativa, urbana e agrária), assim como a incorporação da Zona do Canal (neocolônia norte-
americana, de 1.000 km², situada ao redor da via aquática). Nesse período de apenas 25 anos, o PIB
multiplicou-se vinte vezes, e a classe operária e a população estudantil cresceram dez vezes. O mais
sério desafio conservador transitista a esse processo produziu-se no fim da década de 1960. Foi um
período de instabilidade política, resolvido por meio do golpe militar de 1968, que permitiu a
aceleração da agenda nacional. As reformas iniciadas pelos liberais na década de 1950 foram
continuadas pelos militares na década de 1970.
Como resultado dessas transformações, o Panamá chegou ao último período do século XX com uma
estrutura social “modernizada”, a economia nacionalizada e a soberania política consolidada (os
tratados do Canal de 1977). Em termos ideológicos, no entanto, a classe transitista ainda conservava
recursos suficientes para não perder toda sua hegemonia.
Essa força foi essencial ao Panamá para enfrentar o projeto nacional no fim da década de 1980.
Mediante uma aliança com os Estados Unidos, em dezembro de 1989, realizou-se a invasão militar,
lançada por Washington, para derrotar os nacionalistas remanescentes no poder. O governo norte-
americano justificou sua invasão militar aduzindo que pretendia prender o chefe das Forças de
Defesa do Panamá, o general Manuel Antonio Noriega, que foi acusado de narcotraficante e
condenado a quarenta anos de prisão nos EUA. A partir da derrota, a agenda nacional, encetada na
década de 1950, foi abandonada, iniciando-se um período em que prevaleceram as políticas
neoliberais, que se estende até os dias de hoje.
Como consequência imediata, a burguesia nacional optou por abandonar suas alianças táticas com o
setor agrário e o proletariado. Os governos que se seguiram à invasão, dominados por dirigentes
comprometidos com o discurso transitista e neoliberal, desmontaram a estrutura econômica
mediante políticas de privatização, reestruturação e flexibilização.
O Partido Revolucionário Democrático (PRD), criado em 1978, para levantar a bandeira da
burguesia nacional, em busca da liderança, alterou radicalmente seu plano de trabalho depois da
invasão norte-americana e realinhou-se com a classe transitista, hegemônica e conservadora. Sobre
uma plataforma que respondia a uma agenda neoliberal, o PRD recuperou o poder político perdido
nas eleições de 1994. Entretanto, a burguesia nacional não voltou a levantar-se com o triunfo
eleitoral do PRD. Seu projeto nacional não se recuperou e sua luta pela hegemonia fraturou-se.
O exposto não implica que o projeto nacional tenha desaparecido do istmo. Novas circunstâncias
podem gerar, no futuro, condições diferentes. O fato de o projeto nacional do século XX ter sido
hegemonizado por uma burguesia associada às políticas de substituição de importações não
significa que o futuro tenha de ser considerado nesses termos.
Desde o século XVI, o Panamá tem sido testemunha de projetos que, por seus objetivos, podem ser
considerados “nacionais”. O historiador Castillero Calvo revelou os pizarristas que enfrentaram os
transitistas por ocupar espaços na estrutura do poder. De igual modo, segundo o autor, no século
XVII apareceram seguidores das teorias que pretendiam desenvolver a lavoura panamenha. A
Guerra dos Mil Dias (1899-1903), segundo Hernán Porras, marcou outro episódio, quando a classe
transitista perdeu momentaneamente sua hegemonia ante uma aliança de classes nacionais.

A classe operária
Diferentemente do que se observa em outras camadas sociais panamenhas, sobre a classe operária
do istmo escreveu-se muito. Para alguns, ela surgiu com a construção da ferrovia entre 1850 e 1855.
Para outros, os sinais precisos de seu aparecimento vieram com a construção do Canal do Panamá
(1904-1914). Há quem a aponte como produto do projeto de industrialização, sobre a base da
substituição de importações, de meados do século XX.
Para as primeiras duas teses, seus promotores alegam que o aspecto quantitativo transformou a
estrutura social panamenha. Os empresários da ferrovia, em meados do século XIX, importaram
milhares de trabalhadores da Europa, América e Ásia. As organizações de trabalhadores foram
efêmeras ainda que suas lutas reivindicativas tivessem êxitos pontuais. Por sua vez, o governo
norte-americano, que converteu a construção do Canal, no princípio do século XX, em uma
empresa militar, levou às praias do istmo mais de 100 mil trabalhadores, em sua maioria do Caribe
anglo e francófono. Esses trabalhadores antilhanos foram submetidos a um regime férreo, com
matizes racistas, diferente do sistema utilizado com operários norte-americanos e europeus. Suas
organizações de classe chegaram impregnadas de ideologias europeias. Os antilhanos formaram
logias, na tradição das trade unions inglesas. Os espanhóis levaram suas organizações anarquistas.
E os trabalhadores norte-americanos montaram suas organizações trabalhistas.
Os enfrentamentos com as autoridades norte-americanas foram violentos durante a construção do
Canal. Nos dez anos, produziram-se mais de cem greves e paralisações, e os Estados Unidos
reagiram com repressão e destruição maciças. Terminada a construção, as organizações
consolidaram-se, aparecendo grupos socialistas e comunistas. A Federação Sindical do Panamá foi a
primeira organização que respondeu a interesses mais amplos, incorporando ao seu programa a
necessidade de apoiar as lutas sociais. Destacou-se na grande greve do inquilinato, de 1925.
A partir desse ano, os trabalhadores incorporaram a questão social em sua agenda estreitamente
ligada à questão nacional. A greve do inquilinato teve um saldo de oito mortos, produto da
intervenção militar dos Estados Unidos, solicitada pelo governo panamenho. Os trabalhadores
tiveram plena consciência de que a solução para seus problemas não seria encontrada em uma
instância estranha.
Durante vinte anos (1925-1945), eles continuaram sendo reprimidos, com uma trégua parcial
durante a Segunda Guerra Mundial. A influência dos Partidos Comunista e Socialista cresceu de
forma significativa, introduzindo uma visão ideológica alternativa à crescente classe trabalhadora e
aos setores populares.
As organizações populares e sindicais começaram a promover uma linguagem socialista com
conteúdos desenvolvimentistas e de progresso, com ênfase na industrialização, na modernização da
lavoura e no aumento do bem-estar. Nesse último sentido, o discurso coincidia em parte com os
pronunciamentos da burguesia nacional da época.
A aliança populista entre a burguesia nacional e a classe operária organizada começou a se forjar
durante a Segunda Guerra Mundial. Contudo, a política exterior anticomunista dos EUA impôs
obstáculos à sua realização. Tardiamente, se comparado ao que ocorreu no resto da América Latina,
a aliança só conseguiu se afirmar no princípio da década de 1970, quando o regime militar liderado
por Omar Torrijos iniciou o cerco à classe operária.
Outra diferença da classe operária panamenha em relação às suas irmãs latino-americanas está em
não ter conseguido constituir um movimento centralizado. A Federação Americana do Trabalho e
Congresso das Organizações Industriais (AFL-CIO) manteve sua influência no movimento operário
panamenho, controlando uma de suas maiores centrais, criada no início da década de 1960. Outra
central, fundada em meados da década de 1950, era controlada por uma corrente pró-soviética.
Também o Movimento Social Cristão Internacional possuía uma central operária, criada em meados
da década de 1960, que exercia influência sobre os trabalhadores do país. No início da década de
1970, surgiu uma quarta central independente, de ideologia socialista.
Torrijos conseguiu juntar as diferentes centrais operárias em um Conselho Nacional de
Trabalhadores Organizados (Conato), depois de aprovar o Código do Trabalho, em 1972. A nova
legislação proporcionou poder participativo aos sindicatos, mediante o uso obrigatório de
documentação timbrada, de cotas trabalhistas, da proibição da demissão injustificada e da
organização de comissões no novo Ministério do Trabalho da época.
A partir da década de 1980, os programas de ajuste estrutural introduzidos pelos governos em
exercício tenderam a debilitar o movimento dos trabalhadores e a subtrair suas conquistas. O
número de trabalhadores organizados se estancou na década de 1980 e se reduziu em termos
absolutos na década seguinte. Nos primeiros anos do século atual, a massa empregada diminuiu pela
primeira vez na história do país.
Na década de 1990, a reforma do Código do Trabalho tirou da classe operária o direito à
organização sindical. A política de flexibilização e as privatizações geraram uma crise generalizada
nas organizações trabalhistas, de difícil recuperação. O sindicato dos operários da construção,
Suntracs, foi o único que conseguiu manter-se ativo, apesar das políticas neoliberais e da
perseguição a seus dirigentes. Além disso, devido ao crescimento prolongado do setor de construção
no Panamá, o número de trabalhadores organizados aumentou moderadamente no início do século
XXI.

A classe média
Como diria Marx, a classe média assume um papel importante na definição do desenvolvimento de
um país. Pode inclinar-se por uma solução revolucionária ou reacionária. No Panamá, a classe
média flutuou de um lado para o outro. Definiu os processos políticos, na medida em que as
soluções às suas aspirações foram resolvidas. Irrompeu no país durante a primeira metade do século
XX, com o surgimento de uma classe de pequenos industriais, artesãos e profissionais que exigiam
participar dos processos políticos. Em meados do século XX, porém, questionou a estrutura política
vigente e, aliada aos setores populares, debilitou a estabilidade institucional.
A classe média panamenha viu-se atraída pelas propostas populares enquanto estas lhe permitiam
questionar as práticas políticas dos setores dominantes. Ao mesmo tempo, no entanto, tinha
afinidades com a burguesia nacional e o projeto de constituir um mercado. As promessas da fração
transitista também seduziram essa camada social. Foram os pequenos produtores e profissionais que
se converteram na balança do poder nos momentos conjunturais-chave da história do século XX
panamenho.
A classe média moveu-se ideologicamente de um lado a outro: ora inclinou-se pelas promessas
socialistas da revolução, ora apresentou-se como força social conservadora para enfrentar uma
burguesia nacional corrupta. Começou a última metade do século XX comprometida com a questão
social e o projeto nacional. Ao encerrar o século, no entanto, somou-se à chamada Cruzada
Civilista, que liquidou o projeto nacional construído ao longo do século XX.
Apesar de se perfilar como grupo social com capacidade para dirigir os destinos do país, a classe
média careceu de um projeto próprio. Na década de 1920, representantes de pequenos empresários,
profissionais e jovens formaram o Movimento de Ação Comunal, que, segundo o historiador e
educador Ricaurte Soler, foi cooptado pelos partidos políticos tradicionais, vinculados ao
liberalismo na década de 1930.
Na década de 1940, reapareceu um movimento das camadas médias, revitalizado com a
participação de educadores e novos profissionais, produto das políticas de desenvolvimento.
Diferentemente da Ação Comunal da década de 1920, a nova Frente Patriótica da Juventude
inclinou-se mais para as posições esboçadas pelos setores populares e sindicais. Contudo, como seu
antecessor de duas décadas antes, a Frente foi cooptada pelo dirigismo tradicional e incorporada às
alianças eleitorais, assim como os governos em exercício da década de 1950. Setores da classe
média reagiram a essa claudicação, organizando movimentos armados, que se estenderam ao longo
dos anos 1950 até o começo dos anos 1970.
Na década de 1960, a classe média parecia encontrar-se em condições de dirigir o país para a
consolidação e o pleno desenvolvimento do projeto nacional. O crescimento industrial, a expansão
do mercado nacional e a radicalização da juventude criaram as condições necessárias para agregá-la
e produzir um novo tipo de liderança política. A insurgência de 9 de janeiro de 1964, em protesto
pela presença militar norte-americana no país, abriu o panorama para que as camadas médias
assumissem um papel na condução política do conjunto de forças sociais. Entretanto, motivadas
pelas eleições presidenciais desse mesmo ano (maio de 1964), as organizações da classe média
foram incapazes de mobilizar-se. Por consequência, os partidos políticos tradicionais continuaram
circundando o espaço eleitoral e disputando o triunfo nas urnas. A desorganização da classe média e
a divisão da classe operária, somadas às ações inconsistentes da classe política tradicional,
culminaram com a crise de condução de 1968 e o golpe militar de 11 de outubro.
Foram os militares na década de 1970 que assumiram as tarefas da burguesia nacional e da classe
média, ao executar as reformas liberais, questionar a hegemonia da fração transitista e subscrever
com os EUA o Tratado Torrijos-Carter, que pôs fim à presença desse país no istmo a partir de 1999.
Os militares – legitimando, em parte, seu governo de fato – mobilizaram as camadas médias para
ocupar os cargos de direção política nos ministérios, nas entidades públicas e na política exterior.
Além disso, reforçaram sua legitimidade convocando trabalhadores organizados a participar na
estruturação do “novo Panamá”.
A rápida mobilização dos setores populares excedeu a das classes médias, que não tiveram a
capacidade de institucionalizar os avanços alcançados. A Guarda Nacional, instituição militar criada
em 1953 e substituída em 1983 pelas Forças de Defesa do Panamá, sob a orientação dos EUA,
consolidou-se na década de 1970 com a liderança do general Torrijos. Os diferentes setores sociais
não só concederam à instituição militar a direção do governo nacional, como também colocaram a
liderança mediadora de Torrijos acima de seus interesses particulares. O desaparecimento físico de
Omar Torrijos, comandante da Guarda Nacional, em 1981, produziu um reagrupamento que
acelerou tanto a reincorporação dos partidos políticos tradicionais como a recuperação da ideologia
transitista e os ajustes estruturais da economia (neoliberalismo).
Universidade do Estado de Santa Catarina
Centro de Ciências Humanas e da Educação - FAED
Departamento de História
Disciplina: História da América II
Profa. Gabriela Miranda Marques Data: 02/04/2019
Alunas(os): __________________________________________________________

Atividade em Duplas ou trios

• Leitura do Verbete sobre um país latino americano contido na Enciclopédia Latino


Americana(versão online). A saber: Panamá, Guatemala, Equador, Venezuela, Colômbia,
Nicarágua.

• Localizar as características de formação do Estado Nacional dentro dos tipos exemplares


selecionados por Claudia Wasserman.

• Resumir aspectos principais acerca do país e sua história no século XIX e início do XX.

• Pensar através do verbete como e quando se deu a formação deste estado nacional.

• Buscar, no site do Museo Nacional do país designado, a narrativa de formação da república.


Ela aparece? Como? Quais obras se remetem a esse período? Na parte textual qual é o
caráter atribuído ao período? Como é feita essa narrativa histórica?
• Selecionar uma fonte iconográfica ou textual para a discussão em sala, esta fonte deve tratar
da formação de um discuso sobre a independência ou formação do estado nacional no país
designado.