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Psicanálise com crianças: considerações sobre o sintoma de encoprese

Psicanálise com crianças:


considerações sobre o sintoma de encoprese
Child psychoanalysis: considerations about the encopresis symptom
Ana Carolina Teixeira Pinto
Raymundo de Oliveira Reis Neto

Resumo
Este trabalho aborda, desde um enfoque psicanalítico, uma das formas de manifestação do
quadro designado em psiquiatria pelo termo “encoprese”: “evacuação nas roupas”. Partindo da
perspectiva de que, do ponto de vista inconsciente, o sujeito é sempre responsável, destacamos
como a aquisição da higiene, ainda que dependa de aspectos biológicos, é resultado de uma
escolha (inconsciente) do sujeito diante da demanda do Outro. A partir dessa leitura e de al-
guns fragmentos de discurso dos pais dessas crianças, tecemos algumas considerações sobre
esse sintoma e seu tratamento em psicanálise, mostrando como os meninos que atendemos
com esse quadro apresentavam uma postura narcísica, ao não cederem o objeto fezes em favor
do amor ao Outro.

Palavras-chave: Psicanálise, Encoprese, Sujeito, Objeto fezes, Demanda.

Introdução nhecida pelo termo “enurese”), os Transtor-


Este trabalho aborda, desde uma perspecti- nos de Excreção.
va psicanalítica, um sintoma que tem sido No Manual Diagnóstico e Estatístico de
fonte de queixa frequente em nosso traba- Transtornos Mentais (DSM-IV-TR, 2002),
lho com crianças: a “evacuação nas roupas”. os Transtornos da Excreção são incluídos
O interesse pelo tema surgiu do atendi- dentre os Transtornos Geralmente Diagnos-
mento de diversas crianças encaminhadas ticados pela Primeira Vez na Infância ou na
em função desse quadro ao ambulatório de Adolescência. Esta seção do manual, como
psicologia infantil da unidade de saúde em o próprio nome já diz, inclui os transtornos
que trabalhamos. Essas crianças, todas elas mentais que geralmente são diagnosticados
do sexo masculino e com idade entre seis pela primeira vez na infância ou adoles-
e nove anos, foram encaminhadas pelo se- cência, embora, ocasionalmente, não sejam
tor de pediatria com diagnóstico médico de diagnosticados até a idade adulta.
“encoprese”. Ao longo deste trabalho, enfocamos espe-
Já o nosso primeiro contato teórico com cificamente uma das formas de manifestação
o tema se deu através da leitura das classi- da encoprese. Diferentemente dos casos em
ficações de transtornos mentais mais utili- que a criança deposita as fezes em lugares es-
zadas atualmente, bem como de manuais pecíficos (num canto da sala, do quarto dos
de psiquiatria infantil. Assim como diversos pais, etc.), nos casos que tratamos, mesmo
outros sintomas em psiquiatria, a evacuação após a evacuação, o sujeito mantém as fezes
nas roupas adquire o estatuto de transtorno em contato direto com o corpo.
mental, sendo designada, nesse campo, pelo Ainda que estabelecendo alguns contra-
termo “encoprese” e compondo, juntamente pontos com a literatura psiquiátrica sobre a
com a micção nas roupas (por sua vez, co- encoprese, abordamos esse sintoma desde

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uma perspectiva psicanalítica, da qual des- fase da organização pré-genital é a fase oral
tacamos, desde já, a seguinte concepção: do ou canibalesca, na qual a zona erógena é a
ponto de vista inconsciente, o sujeito é sem- boca, o prazer está ligado à excitação da mu-
pre responsável. Partindo dessa concepção, cosa dos lábios e da cavidade bucal e o alvo
fazemos uma leitura do fenômeno de evacu- sexual consiste na incorporação do objeto.
ação nas roupas distinta da perspectiva que Lacan (1995) postula a frustração como
trata o sintoma (ou o transtorno) como algo o verdadeiro centro dessa primitiva relação
exterior à criança e que, portanto, deve ser mãe-criança. De um lado, o autor coloca em
extirpado. Tal como sinalizado por Freud cena a frustração da mãe enquanto mulher
desde os primórdios de seu trabalho, o sin- e, reconhecendo a importância que Freud
toma é sempre também um modo de satis- chegou a dar ao lugar ocupado pelo filho na
fação. Não se trata apenas de aceitar que a economia libidinal da mulher, já que simbo-
expulsão das fezes tal como é feita gere satis- licamente este consiste num substituto do
fação pela passagem do bolo fecal pelo reto, falo, afirma que o desejo da mulher pelo falo
mas também apostar que é em conexão com norteia sua relação com a criança. De outro
fantasmas inconscientes que tal fenômeno lado, põe em evidência a frustração da crian-
encontra sustentação enquanto modo de li- ça na sua relação com a mãe.
gar o sujeito a um objeto que insiste em es- Partindo dessa segunda perspectiva, in-
capar. troduz duas vertentes na frustração, o objeto
Na primeira seção, trabalhamos o proces- e o agente. A mãe, enquanto agente simbóli-
so de transição, pelo qual passa a criança na co, se faz presente e ausente segundo os ape-
fase anal, do uso das fraldas à aquisição da los da criança, dando a ela o seio, objeto real
higiene. Abordando o tema desde um refe- de satisfação. No entanto, conforme destaca
rencial psicanalítico, destacamos alguns as- o autor, nem sempre a mãe vai atender aos
pectos em jogo nesse processo, mostrando apelos da criança. E ao não responder a estes,
como ele não pode ser reduzido a fatores a mãe passa ao plano real. A mãe real sur-
biológicos ou educativos, sendo determina- ge como onipotente, visto poder atender ou
do, prioritariamente, pela relação do sujeito frustrar as demandas da criança segundo sua
com o objeto fezes e a demanda do Outro. própria vontade. Esse jogo de presença-au-
Em seguida, introduzimos alguns pon- sência da mãe regula a demanda do sujeito,
tos em comum no discurso dos pais dessas na medida em que é necessário que o objeto
crianças extraídos da nossa clínica. Articu- falte para que o sujeito possa demandar.
lando esses fragmentos de discurso com a Com isso, o seio, anteriormente objeto
leitura que realizamos anteriormente sobre real de satisfação, se transforma num sím-
a aquisição da higiene pela criança, tecemos bolo de amor, passando ao plano simbólico.
algumas considerações sobre a evacuação A partir de então, ter seus apelos atendidos
nas roupas e o tratamento deste quadro em pela mãe se traduz, para a criança, em “ma-
psicanálise. mãe me ama”, do mesmo modo que não ter
seus apelos atendidos ganha a conotação de
Sobre a aquisição da higiene “mamãe não me ama”.
No segundo dos “Três Ensaios sobre a Teo- A mãe se situa como o Outro capaz de
ria da Sexualidade”, Freud (1996) postulou atender para além das necessidades da crian-
as fases do desenvolvimento psicossexual, ça, conforme explicitado na passagem abai-
apontando que, na infância, as pulsões par- xo.
ciais são desvinculadas e independentes en-
tre si na busca do prazer e não se encontram A demanda em si refere-se a algo distinto das
subordinadas à primazia genital. A primeira satisfações por que clama. Ela é demanda de

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uma presença ou de uma ausência, o que a jeitado à demanda do Outro. Mais do que a
relação primordial com a mãe manifesta, por aquisição do controle esfincteriano em si, o
ser prenhe desse Outro a ser situado aquém que se introduz para a criança quando passa
das necessidades que possa suprir (LACAN, a ser solicitada pela mãe a evacuar nesse ou
1998, p.697, grifo do autor). naquele momento é a demanda do Outro. E
ao adquirir o estatuto de objeto demandado
Divergindo dos autores anglo-saxões, La- pelo Outro, as fezes perdem sua conotação
can afirma que, já no nível da primitiva re- exclusivamente biológica (enquanto resto),
lação mãe-criança, o objeto da frustração é, constituindo-se num objeto altamente valo-
portanto, um objeto simbólico, não um obje- rizado pela criança. Conforme apontado por
to real. Tal concepção justifica, por exemplo, Freud, as fezes se constituem como dádiva,
que a criança chore mesmo sem estar com como um objeto precioso da criança que ela
fome, na medida em que, para ela, mais im- pode dar para alguém (FREUD, 2010).
portante do que a satisfação de uma neces- Com a aquisição do controle esfincteria-
sidade fisiológica é o amor da mãe, presente no, a criança experimenta, pela primeira vez,
“mais além do objeto” (LACAN, 1999). o sentimento de propriedade em relação aos
Nesse momento em que a alimentação seus excrementos, enquanto objeto de troca
se coloca como temática central na relação (DOLTO, 1980, p.27-68), se vendo agora im-
mãe-criança, o alimento é tomado como a buída, ela própria, do poder de atender ou
principal moeda de troca amorosa, seja da não às demandas da mãe. Desse modo, em
perspectiva de uma ou de outra. Isso por psicanálise, as fezes são consideradas para
que, no nível da demanda, há uma relação de além da esfera biológica e a aquisição do há-
reciprocidade entre o sujeito e o Outro. Para bito da higiene é retirada de um plano mera-
que a criança possa se constituir como sujei- mente educativo, sendo concebida e contex-
to desejante é preciso que a mãe, enquanto tualizada dentro de uma etapa específica da
sujeito do desejo, signifique seu choro. No constituição subjetiva em que, pela primeira
entanto, é preciso também que a criança de- vez, a criança é chamada a renunciar a um
mande ao Outro, o que implica em aceitar a objeto que é uma parte dela mesma.
demanda que vem do Outro (você está com Se do ponto de vista biológico, a possi-
fome, por exemplo). bilidade de reter e expulsar as fezes consiste
Mais tarde, quando a aquisição da higie- num sinal de maior desenvolvimento neu-
ne passar a ocupar um lugar de destaque na romuscular que viabiliza a aquisição da hi-
relação entabulada entre a mãe e a criança, giene, desde uma perspectiva psicanalítica,
outra moeda de troca surgirá nessa relação. o controle esfincteriano permite ao sujeito
A partir do momento em que a mãe, movida ainda reter e expulsar ludicamente esse obje-
pelo desejo, começar a empreender tentati- to investido de valor na relação com o Outro
vas de retirar as fraldas da criança, as fezes em prol do seu prazer autoerótico (FREUD,
surgirão como principal moeda de troca. Es- 1996).
sas exigências de higiene introduzidas pela Por um lado, ao afirmar a erogeneidade
mãe, e apenas aparentemente de caráter ex- da zona anal, Freud relaciona a retenção das
clusivamente educativo, marcam a entrada fezes à obtenção de sensações de volúpia ao
da criança na fase anal, situada por Freud lado de sensações dolorosas, apontando que
(1996), aproximadamente, entre os dois e os a retenção da massa fecal pode ser utilizada
quatro anos de idade. pela criança para tirar proveito da estimu-
Diferentemente da fase oral, em que a pri- lação da zona anal, na linha da estimulação
mazia é do sujeito de ser nutrido pelo Outro, masturbatória. Aqui, segundo Freud, não
na fase anal é o sujeito que se encontra su- interessa à criança sujar a cama, apenas pro-

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videnciar “que não lhe escape o dividendo sente”: ao desfazer-se dele, a criaturinha pode
de prazer que vem junto com a defecação” exprimir sua docilidade perante o meio que a
(FREUD, 2010, p.175). cerca, e ao recusá-lo, sua obstinação (FREUD,
Por outro, aponta para o valor que as fezes 1996, p.175-76).
assumem para a criança. Mesmo no discur-
so de mães cujos filhos não apresentaram o Atender às solicitações da mãe quanto à
sintoma de evacuação nas roupas, podemos evacuação significa mais do que um sinal de
identificar aspectos que apontam para a difi- boa educação por parte da criança. Trata-se,
culdade do sujeito de renunciar ao objeto fe- antes, da criança presentear a mãe com amor.
zes, tais como: o fato de a criança ter passado Chegamos aqui a um ponto fundamental à
por uma etapa transitória ao longo da aquisi- elucidação do sintoma de evacuação nas rou-
ção da higiene, durante a qual já evacuava no pas. Conforme apontado por Freud e Lacan,
vaso sanitário e, no entanto, se recusava a dar a retenção-expulsão das fezes é empregada
descarga; a criança permanecer observan- pela criança na relação com as pessoas que
do as fezes evacuadas com ar de admiração cuidam dela.
pelo “lindo cocô” que fez; ou passar a evacu- Na seção seguinte, enfocamos mais dire-
ar mais espaçadamente do que na época em tamente o sintoma de evacuação nas roupas.
que usava fraldas (dia sim e dia não, em vez Para tanto, introduzimos alguns fragmentos
de todos os dias). de discurso dos pais dos sujeitos que apre-
Surge então a questão de saber o que leva sentam esse sintoma, destacando algumas
a criança a evacuar no momento que convém particularidades desse discurso que nos per-
à mãe, renunciando ao prazer proporcionado mitem tecer algumas considerações a respei-
por esse objeto altamente investido de libi- to desse quadro desde uma perspectiva psi-
do. E, ainda, por que algumas crianças lidam canalítica.
mais facilmente com as exigências de higie-
ne impostas pela mãe ao passo que outras, Considerações psicanalíticas
segundo relato das próprias mães, parecem sobre a encoprese
transformar a evacuação numa espécie de A evacuação nas roupas consiste num sinto-
disputa para ver quem decide quanto a essa ma comumente tratado pelos pais do sujeito
parte de seu corpo, como nos casos descritos como uma emergência, principalmente em
pela psiquiatria sob a rubrica de “encoprese”. função do prejuízo que, por vezes, acarreta
Quanto à primeira questão, recorramos a na vida escolar da criança ou na vida so-
Freud: “Na defecação o bebê tem que decidir, cial da família como um todo. Como con-
pela primeira vez, entre a atitude narcísica e a sequência, soluções imediatas e milagrosas
de amor ao objeto. Ou ele entrega docilmente são demandadas ao psicanalista.
o cocô, sacrifica-o ao amor, ou retém para a Na maioria das vezes, a procura pela psi-
satisfação autoerótica” (FREUD, 2010, p.258; canálise se dá quando a situação chega ao “li-
grifo do autor). Para o autor, o que leva a crian- mite”, para usar o termo empregado pela mãe
ça a renunciar a esse objeto e, consequente- de uma criança com esse sintoma ao descre-
mente, à satisfação proporcionada por ele, é o ver a “vergonha” que o filho a fez passar ao
“amor ao objeto”. Em parágrafo acrescentado “sujar a cueca” enquanto os dois voltavam
em 1915 aos “Três Ensaios sobre a Teoria da para a casa de ônibus: “O cheiro era tão ruim
Sexualidade” (1996), Freud já havia afirma- que apesar de o ônibus estar lotado, os lugares
do que, para a criança, o conteúdo intestinal perto de nós ficaram todos vazios. Era melhor
ir em pé do que aguentar aquele cheiro”.
É obviamente tratado como parte de seu pró- Em alguns casos, a evacuação nas roupas
prio corpo, representando o primeiro “pre- chega a ocorrer diariamente e o constrangi-

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mento gerado por esse sintoma faz com que A clínica indica que o sujeito vai atender
a própria criança se recuse a frequentar a às solicitações da mãe tanto mais quanto
escola, a casa de parentes e coleguinhas etc. estas forem determinadas pelo desejo dela.
(DSM-IV-TR, 2002). Em outros, a criança Em nossa experiência, a competição travada
não parece demonstrar qualquer constrangi- entre a criança e a mãe para ver quem deci-
mento, chegando ao ponto de negar a eva- de em relação às fezes é menos presente se
cuação mesmo nas situações em que as fezes a expectativa dessa mãe de que o filho deixe
são descobertas em sua roupa ou quando o de usar fraldas e passe a utilizar o banheiro
odor decorrente da mesma é óbvio (STUB- for marcada pelo desejo, diferentemente dos
BE, 2008). casos em que a mãe parece lidar com as fezes
Seja no primeiro ou no segundo caso, em sua concretude, sem fantasmatização.
identificamos um discurso comum dentre as Nos casos em que a criança apresenta o
mães desses sujeitos: “Não aguento mais ficar sintoma de evacuar nas roupas, a passagem
com ele no banheiro esperando que faça cocô. das fraldas ao uso do penico ou vaso sanitá-
Por mais que eu insista, ele não faz. Acho, rio parece se colocar para ela como uma im-
inclusive, que vou ser demitida do trabalho, posição do Outro, e não como uma demanda
porque vivo chegando atrasada. Hoje mesmo do Outro. Essa postura impositiva da mãe ao
fiquei a manhã inteira no banheiro com ele e apressar o processo de aquisição da higiene
nada dele fazer.”. é apontada pela psiquiatria como um dos
Algumas mães chegam a vigiar constan- fatores em causa no sintoma que estamos
temente o filho, numa postura sempre alerta estudando aqui. No campo psiquiátrico, a
e, ao observarem na criança o menor sinal de evacuação nas roupas estaria associada, den-
vontade de evacuar, pedem insistentemente tre outros fatores, à expectativa da mãe de
a ela que vá ao banheiro. Diante da respos- um controle prematuro dos esfíncteres por
ta negativa da criança, é comum que a obri- parte da criança (AJURIAGUERRA, 1983).
guem a sentar no vaso sanitário ou no penico Frequentemente, escutando os pais desses
até que, enfim, evacue. Mas, para alimentar sujeitos, constatamos esse dado, conforme
ainda mais a queixa dessas mães, conforme relatado com surpresa por uma mãe cujo fi-
relatado por uma delas, “parece até que quan- lho, após dois anos evacuando e urinando no
to mais insisto pior fica a situação. Ele pode vaso sanitário “sem nenhum acidente, nem
ficar o tempo que for no banheiro que não faz mesmo à noite”, voltou a evacuar na roupa:
ou faz só um pouquinho, mas é só ele sair do “Ele deixou de usar fraldas bem mais cedo do
banheiro que, pronto, faz cocô na calça”. que os irmãozinhos!”.
Dentre outros aspectos, esse discurso re- Em psicanálise, é compreensível que o su-
vela que brigar, exigir ou impor nem sempre jeito volte a evacuar nas roupas mesmo após
faz com que a criança atenda às solicitações ter largado precocemente as fraldas e ainda
da mãe para evacuar no vaso ou penico in- que isso tenha se dado sem grandes dificul-
troduzido por ela; ao contrário, são atitudes dades aparentes, visto que o hábito da higie-
que parecem somente “piorar a situação”. ne pode ter sido adquirido exclusivamente
Como vimos na seção anterior, a etapa de em função do condicionamento. O caso de
transição da evacuação nas fraldas à aquisi- Júlio serve para ilustrar a íntima relação en-
ção da higiene não é determinada exclusiva- tre o sintoma de evacuação nas roupas e a
mente e nem prioritariamente pela matura- aquisição precoce do hábito da higiene.
ção ou pelo condicionamento. Ainda con- Júlio foi encaminhado para tratamento
forme já destacamos, esse processo depende, psicológico pela pediatra aos oitos anos de
dentre outros aspectos, do posicionamento idade, poucos meses, de acordo com os pais,
do sujeito diante da demanda do Outro. após ter começado a “sujar a cueca”. Ainda

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segundo relato dos pais, Júlio “aprendeu cedo modo, permanece condicionada à presença
a usar o banheiro, antes mesmo de ter dois concreta de um Outro que a demande.
anos”. No entanto, após anos sem que nenhu- Cabe introduzir aqui o seguinte discurso
ma regressão quanto a esse aspecto tivesse de uma mãe às voltas com suas tentativas de
sido observada pelos pais, “de uma hora para tirar as fraldas do filho: “Na primeira semana
outra”, ele começou a evacuar na cueca prati- foi mais tranquilo, ele aceitou numa boa. Já
camente todos os dias, estivesse em casa, na essa semana está sendo mais difícil, ele voltou
escola, na casa de parentes ou coleginhas, na a se sujar todo, vamos ver como vai ser sema-
rua etc. na que vem. Olha, tem que ter muita paciên-
Apesar de residir com os pais, Júlio “foi cia, dar tempo ao tempo”.
mais criado pela madrinha”, que morava pró- O tempo parece ser justamente o que as
ximo a sua casa. Em função de seus empre- mães de crianças com sintoma de evacuação
gos, os pais passavam o dia fora. Era a madri- nas roupas não puderam ter-lhes dado. Não
nha, portanto, quem ficava no pé dele para se trata aqui de um tempo qualquer, mas de
fazer os deveres de casa e estudar para as pro- um tempo necessário para a criança se po-
vas, quem comparecia às reuniões de pais na sicionar, enquanto sujeito, diante da deman-
escola, quem ia buscá-lo na rua quando ele da do Outro. Destacamos, na seção anterior,
demorava a voltar para casa etc. A partir do que tão importante quanto a mãe demandar
momento em que essa madrinha se mudou à criança é esta se posicionar diante dessa
para um bairro distante, Júlio acabou ficando demanda. Do ponto de vista da criança, é
“mais solto”. Ninguém mais pegava no seu pé preciso que, em algum momento, a deman-
para fazer os deveres de casa e estudar para da do Outro se transforme numa demanda
as provas, ninguém mais ia à praça na qual ao Outro (nesse caso em específico, pedir à
ele costumava brincar com os coleginhas da mãe para ir ao banheiro). Podemos pensar,
vizinhança para chamá-lo de volta para casa, desde uma leitura psicanalítica, que a atitude
até mesmo ao Posto de Saúde ele ia sozinho. impositiva da mãe em forçar apressadamen-
Desde então, Júlio passou a ficar na rua até te a retirada das fraldas do filho, impede a
tarde, suas notas despencaram e ele começou emergência do desejo na criança de atender
a “sujar a cueca”. às suas demandas.
Observamos nesse fragmento clínico que Atender à demanda do Outro pressupõe
a aquisição precoce da higiene, enquanto um ainda que o sujeito possa se separar do ob-
dos fatores subjacentes ao sintoma de enco- jeto fezes, dificuldade particularmente exa-
prese, não pode ser reduzida ao seu aspec- cerbada para as crianças cujo sintoma que se
to biológico. Não se trata de precocidade do coloca em primeiro plano é a evacuação nas
ponto de vista biológico, visto que o fato de roupas. O tratamento psicanalítico desses
a criança ter adquirido a higiene em algum sujeitos aponta, principalmente ao escutar-
momento pressupõe que ela já tenha atingi- mos o discurso de seus pais, quanto eles se
do a capacidade de controle dos esfíncteres. encontram identificados a esse objeto.
Para além da maturação biológica que per- Há, ainda, que se destacar a incidência
mite o controle do esfíncter anal, a aquisição do significante no sintoma. O pai de uma
da higiene depende de o sujeito se encontrar dessas crianças, na época com nove anos de
num momento lógico de constituição psí- idade e encaminhada para análise pelo pe-
quica favorável a esse processo. Do contrá- diatra em função do diagnóstico médico de
rio, como evidenciado pelo caso de Júlio, a “encoprese primária”, insistia em qualificar o
demanda de higiene introduzida pelo Ou- relacionamento que teve com a ex-mulher e
tro acaba não sendo formulada pela criança a consequente gravidez dela como a maior
como uma demanda dela própria e, desse “merda que fez na sua vida”. Já a avó de ou-

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tra criança, com o mesmo diagnóstico, se re- cantinho da sala, longe do analista. Somente
feria a ela como “essa porcaria”. Também é após diversas sessões, durante as quais o ob-
comum ouvirmos as mães desses pacientes jeto não foi demandado ao sujeito, quando o
se queixarem de que o filho “não come nada analista levou um jogo para brincar especi-
que presta” ou que ele “só come besteira”. ficamente com ele, houve uma mudança de
Cabe ressaltar que para além de todo o posição do sujeito. Este, que até então pare-
benefício prático do ponto de vista da higie- cia “dar de ombros” ao analista, começou a
ne, as fraldas oferecem à criança uma conti- oferecer a analista seus brinquedos.
nência, mantendo seus excrementos em con- Com o decorrer do tratamento, mais es-
tato direto com o corpo dela. A evacuação pecificamente após essa mudança de posição
nas roupas íntimas consiste numa forma de do sujeito na relação transferencial (ser ama-
preservar o contato das fezes com o corpo, do – amar), o sintoma cessou, dando lugar
assim, o sujeito evita que essa parte de seu a um negativismo na relação com o outro.
corpo se destaque. Diante das mais simples perguntas ou pedi-
Vemos, novamente, quanto a passagem dos, principalmente vindos da mãe, a respos-
das fraldas à evacuação no vaso sanitário ta do sujeito era a mesma: “não”. Na escola,
não depende exclusivamente da aquisição sempre que solicitado a entregar a folha com
do controle dos esfíncteres ou do treinamen- o dever de casa, por exemplo, sua resposta
to. Outro dado que põe em evidência essa era “não recebi a folha”.
perspectiva é a “dificuldade escolar” apresen- A oposição até então manifestada no sin-
tada por esses sujeitos que, apesar da facili- toma passou a se apresentar na relação do
dade nas demais matérias, não conseguiam sujeito com as pessoas em seu entorno, en-
“aprender matemática”, mais especificamen- tretanto, com esse deslizamento – do corpo
te “continhas de dividir” (por outro lado, ain- para a palavra – o “não” pode se manifestar
da conforme dados extraídos da nossa clíni- de forma menos concreta. Esse negativismo
ca, as crianças que apresentam o sintoma de através do uso excessivo da palavra “não” se
micção nas roupas – enurese –, seja diurna mostrou uma etapa comum e transitória no
ou apenas noturna, possuem em sua maioria tratamento da maioria dos sujeitos que ana-
dificuldade acentuada de escrita). Esse dado lisamos com o sintoma em questão, etapa
reflete a dificuldade do sujeito de lidar com que, uma vez atravessada, deu ensejo ao en-
a divisão, com a troca na relação com o Ou- dereçamento de uma demanda ao analista e
tro. Não podemos desprezar também o fato a uma maior abertura para o laço social.
de as contas de divisão exigirem do sujeito a
lida com o resto, com algo que sobra de uma Considerações finais
operação. Embora a persistência ou a volta da evacu-
Somente ao manejar a transferência de ação nas roupas, assim como qualquer ou-
outro lugar que não aquele do qual já res- tro sintoma em psicanálise, não possua em
pondem os pais da criança, o analista pode si mesma uma significação única, acabamos
intervir de modo a promover uma separação de ver que, desde uma perspectiva mais ge-
entre o sujeito e o objeto fezes. Para tanto, ral, podemos considerar esse fenômeno não
entendemos ser fundamental que o analista apenas como relacionado à atividade autoe-
possa suportar a posição narcísica do sujeito. rótica do sujeito, mas também ao valor sim-
Num dos casos que atendemos, o sujeito bólico assumido pelas fezes na relação com
sempre levava para a sessão o brinquedo que o Outro. O sujeito pode renunciar ou não ao
ganhava no fim de semana ao comer num fast objeto fezes em prol do amor ao Outro ou
food da cidade e a primeira coisa que fazia de seu narcisismo, respectivamente. Vimos,
ao entrar no consultório era colocá-lo num também, que essa dificuldade pode estar re-

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lacionada à atitude impositiva da mãe que, giene still depends upon biological aspects, it is
tomando as fezes em sua concretude, ne- the (unconscious) choice of the subject in view
gligencia o valor simbólico que elas podem of the demand of the Other. Thus, based upon
assumir na relação com a criança, introdu- this understanding and some fragments of the
zindo a aquisição da higiene para ela numa discourse of the parents of these children, we
etapa de sua constituição psíquica ainda não have produced some considerations regar-
favorável a esse processo e, ainda, ao lugar ding this symptom and its treatment through
que o sujeito ocupa no discurso do Outro – psychoanalysis, showing how the boys whom
“porcaria”, “merda”, etc. we have assisted who presented this situation
Quanto ao tratamento, descartamos, en- displayed a narcissistic posture, by not ceding
quanto analistas, a possibilidade de conduzi- the feces object in favor of love of the Other.
lo de modo a conscientizar essas crianças ou
educá-las visando à aquisição ou reaquisição Keywords: Psychoanalysis, Encopresis, Sub-
do hábito da higiene. A condução do trata- ject, Feces object, Demand.
mento deve possibilitar que os impasses vi-
vidos pelo sujeito na relação fantasmática
com o Outro e com esse objeto sejam mani-
festados na relação transferencial, que nesses
casos, em sua maioria, é marcada por uma
postura narcísica, ou seja, pela dificuldade de
ceder o objeto em troca do amor ao Outro.
Para finalizar, embora tenhamos tecido
algumas considerações, a partir da literatu-
ra e da nossa clínica, sobre o fato de a eva-
cuação nas roupas ter incidência maior em
crianças que adquiriram precocemente o
controle dos esfíncteres, deixamos em aber-
to a questão de saber por que os sujeitos com
esse sintoma são em sua grande maioria do
sexo masculino. Reservamos para um traba-
lho futuro, também, um estudo sobre outra
forma de manifestação da encoprese com a
qual temos nos deparado na clínica. Trata-se
dos casos em que o sujeito consegue se sepa-
rar do objeto fezes mais facilmente, elegen-
do, entretanto, locais específicos para eva-
cuar não destinados a essa finalidade, e que
variam caso a caso.

Abstract
This paper deals with, from a psychoanalytical
focus, one of the forms of the manifestation of
situation designated in psychiatry as “encopre-
sis”: “evacuation in one’s clothing”. Based on
a perspective that, from the unconscious point
of view the subject is always responsible, we
emphasize that because the acquisition of hy-

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SOBRE OS AU TORES
Referências
Ana Carolina Teixeira Pinto
Psicóloga. Pós-Graduada em Teoria
e Clínica Psicanalítica pela Universidade
AJURIAGUERRA, J. Manual de psiquiatria infantil. 2.
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RECEBIDO EM: 14/03/2012


APROVADO EM: 21/03/2012

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 37 | p. 15–24 | Julho/2012 23