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5º SEMINÁRIO INTERDISCIPLINAR EM SOCIOLOGIA E DIREITO

Niterói: PPGSD-UFF, 14 a 16 de Outubro de 2015, ISSN 2236-9651, n.5, v. 15

O LIBERALISMO POLÍTICO E AS ORIGENS SOCIAIS DA


CRIMINALIDADE: CONTRAPONDO AS DESIGUALDADES
SÓCIO-ECONÔMICAS E O DISCURSO LIBERAL

40
CAZELLI, Felipe R.
Professor de Sociologia Jurídica e Filosofia do Direito da Faculdade Estácio de Sá de Vitória – ES
Mestrando em Educação pela Universidad del Salvador, Buenos Aires, Argentina
felipecazelli@hotmail.com

RESUMO

O discurso liberal (ou neoliberal, em sua roupagem mais contemporânea), enquanto pleiteia validade
política, atribui as causas da criminalidade apenas a desvios individuais de conduta. Assim, para que se
supere o problema, sob essa ótica, deve-se investir no controle social do indivíduo para que ele não se
desvie do “bom caminho”. Entretanto, pesquisas apontam que a criminalidade parece estar, em grande
parte, relacionada com desigualdades sócio-econômicas. De maneira que o discurso liberal oculta os
fatores que contribuem diretamente para a origem do problema, colaborando, assim, com a sua
reprodução e agravamento.

Palavras-chave: Desigualdade. Criminalidade. Liberalismo.

ABSTRACT

The liberal speech (or neoliberal, in its more contemporary take), while claims political validity, imputes
the causes of criminality only to an individual’s misconduct. Hence, in order to overcome the problem,
under that point of view, one must invest in social control of the individual for him not to miss the “good
way”. However, researches point that criminality seems to be, in great part, related to socioeconomic
inequalities. So that the liberal speech hides the factors that directly contribute to the origin of the
problem, helping, therefore, in its reproduction and escalation.

Key-words: Inequality. Criminality. Liberalism.

O LIBERALISMO POLÍTICO E AS ORIGENS SOCIAIS DA CRIMINALIDADE: CONTRAPONDO AS DESIGUALDADES


SÓCIO-ECONÔMICAS E O DISCURSO LIBERAL
CAZELLI, Felipe R.
5º SEMINÁRIO INTERDISCIPLINAR EM SOCIOLOGIA E DIREITO
Niterói: PPGSD-UFF, 14 a 16 de Outubro de 2015, ISSN 2236-9651, n.5, v. 15

INTRODUÇÃO

A presente pesquisa tem como tema relacionar indicadores sociais de produção


da criminalidade com os discursos políticos que de cunho liberal ou neoliberal, com a intenção
de entender a ótica pela qual tais discursos compreendem o crime e suas origens. A investigação
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se apresenta necessária a partir da constatação que, por um lado, é possível perceber um
discurso social que associa o aumento da criminalidade com a questão da impunidade, e, por
outro lado, a população carcerária brasileira cresce em ritmo acelerado; quando se considera
também o alto índice de reincidência do sistema carcerário, já se aventa a possibilidade de
apontar para uma contradição na tese da impunidade.
Através de uma metodologia de análise bibliográfica, busca-se, primeiramente,
considerar as bases do discurso liberal – ou neoliberal –, de forte expressão na política e nos
discursos sociais brasileiros, que aponta como causas para a criminalidade a omissão, a
negligência ou a incompetência do Estado em promover um bom trabalho em Segurança
Pública. Em um segundo momento, busca-se encontrar, também em bibliografia adequada, as
relações entre desigualdade sócio-econômica e taxas de criminalidade. O objetivo é demonstrar
como o discurso liberal oculta os indicadores que realmente contribuem para a produção da
criminalidade, podendo contribuir, assim, para sua reprodução.

1. DISCURSOS CONTEMPORÂNEOS SOBRE A CRIMINALIDADE

A criminalidade é, invariavelmente, identificada como um problema a ser superado pela


sociedade, dado seu caráter nocivo às relações sociais e à própria integridade do tecido social. É
possível, tanto na literatura acadêmica quanto na mídia de massa, identificar alguns discursos
sobre as possibilidades de superação do problema da criminalidade. E aqui não se trata
exatamente de sua utópica extinção, mas apenas de sua redução a níveis o mais baixo possíveis
– ou, por que não dizer, níveis “aceitáveis”. Tais discursos podem ser chamados de “políticos”,
uma vez que pleiteiam validade social, ou seja, buscam se estabelecer como pensamento

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vigente, demandam concordância, guardam em seu cerne a proposta de serem tomados como
base para práticas sociais ou até mesmo para ações por parte do Estado.

Analisando alguns desses discursos, é possível perceber que se estruturam sobre o


princípio de atribuir ao indivíduo as causas da criminalidade, como no exemplo que segue:

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Criminalidade se controla (e não se combate) em três fases: a fase primária,
cuja implementação se dá a médio e longo prazo, consiste no
desenvolvimento de um ambiente social desestimulante do caminho da
ilicitude, com fortalecimento de setores como a educação; a fase secundária é
fulcrada no investimento em mecanismos persecutórios impeditivos da
criminalidade, ou seja, investimento em segurança pública; a fase terciária
concentra-se no controle da reincidência, partindo da premissa de que o
cárcere é um dos mais significativos fatores criminógenos.
Em outras palavras: não se controle a criminalidade sem investir na
ressocialização. Do contrário, é do presídio que continuarão saindo os mais
perigosos delinquentes. (TONETTO, 2012)

No trecho acima, a Procuradora do Estado do Rio Grande do Sul elenca o que ela chama
de fases de combate à criminalidade. E, por mais que ainda se diga em “desenvolvimento de um
ambiente social desestimulante do caminho da ilicitude”, essa medida é associada
imediatamente à educação, o que nos leva a concluir que, em resumo, as fases são três: Educar
o indivíduo – para que todos vivam num ambiente social de indivíduos educados –, vigiar e
punir o indivíduo através do investimento em segurança pública e, por fim, ressocializar o
indivíduo, melhorando o sistema carcerário. Se a única possibilidade de combater o crime é
como exposto, a questão não passa por nenhum rearranjo social, mas a responsabilidade é
exclusivamente individual.
A identificação da existência desse tipo de discurso, por um lado, exige que se encontre
as raízes, ou seja, as ideias fundamentais que servem de base a essa ótica através da qual se
analisam o problema. A correlação imediata é com aquela corrente de pensamento denominada
“liberalismo”, que recebe uma nova roupagem principalmente a partir da década de 70, e passa
a ser chamado de “neoliberalismo”. Através de investigação bibliográfica, proceder-se-á uma
análise dos principais conceitos dessa teoria e suas articulações para a construção do discurso
político.

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Antes que se possa elencar como causa da criminalidade a famigerada “sensação de


impunidade”, há que se lidar com o fato da reincidência penitenciária. De acordo com pesquisa
coordenada pelo IPEA em parceria com o CNJ1, em se tratando de reincidência legal, ou seja, o
indivíduo que é condenado, cumpre a pena e volta a ser legalmente condenado mais uma vez, a
taxa gira em torno de 25%. Entretanto, quando se considera como referência a reincidência
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criminal ou penitenciária (considerando presos com passagem anterior no sistema ou
indivíduos condenados, mas não necessariamente para pena de prisão), a taxa vai de 50 a 70%.
Com esse nível de reincidência, deve-se admitir que a criminalidade vem sendo reproduzida
apesar da punição, e quiçá, através dela. Logo, a tese de que a punição é um desestímulo à
ilicitude pode ser relativizada e deverá ser colocada em perspectiva.
A partir daí, conduzir-se-á também uma análise de pesquisas que já se debruçaram sobre
a relação entre os indicadores sociais – especialmente os de desigualdade sócio-econômica – e
as taxas de criminalidade na sociedade brasileira. Ficando estabelecida tal relação, haverá que
ser questionada a validade do discurso que se desfaz dela no âmbito da discussão político-social
no Brasil. Não apenas isso, mas tendo o liberalismo como referência teórico-política de ações
públicas contra a criminalidade, é necessário que se pergunte que efeitos sociais são
produzidos, tanto no âmbito político quanto no relativo ao imaginário popular, que, em última
instância, é o que dá legitimidade ao poder estatal.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A pesquisa é eminentemente bibliográfica, e começa com a análise dos fundamentos do


discurso liberal em sua origem, a partir de seus postulados originais na filosofia inglesa de
cunho iluminista de John Locke, considerado um dos maiores expoentes do liberalismo e
mesmo o “pai” do Liberalismo Político. Sua proposta com relação ao surgimento e função do
Estado, sobre como funciona o desenvolvimento da subjetividade para a vivência em sociedade

1
IPEA, 2015.

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e de que maneira as relações dos indivíduos entre si, e dos indivíduos para com o Estado, se
estruturam de maneira a promover a igualdade pela proteção dos direitos naturais
fundamentais.
A partir daí, segue-se uma investigação sobre a interpretação contemporânea do
Liberalismo Político, em sua faceta “neoliberal”, demonstrando sua força especialmente na
44
década de 90, um período em que o Brasil está recém-saído de uma ditadura militar e também
há pouco tempo havia eleito seu primeiro presidente pela via democrática do sufrágio direto. O
impacto do pensamento neoliberal na política internacional e, em especial, na brasileira leva à
promoção de discursos sociais de caráter individualista, que podem ser relacionados
diretamente com uma visão sobre a natureza humana, sobre a moral e o comportamento social e
sobre as origens da criminalidade. Em se tratando especificamente do problema da
criminalidade, temos a perspectiva que se abre com relação às razões de sua propagação, e a
responsabilidade do Estado sobre ela.
A última etapa visa à utilização de pesquisas recentes que objetivam demonstrar, através
de estudos estatísticos, de que maneira os indicadores de desigualdade social e econômica estão
intimamente relacionados com as taxas de criminalidade, de maneira que, proporcionalmente,
quanto mais aumenta a desigualdade, maiores são as taxas de criminalidade, especialmente
considerando crimes contra o patrimônio. Além disso, com números relativos às taxas de
crescimento da população carcerária brasileira e também relativos à porcentagem de
reincidentes entre os encarcerados – dados obtidos com as autoridades competentes –
objetiva-se demonstrar a incongruência de qualquer tese que afirme ser a impunidade a “causa”
ou a “origem” da criminalidade.

3. RESULTADOS ALCANÇADOS

Os eixos de investigação dentro da pesquisa, conforme apontado anteriormente, são


divididos em três partes: a análise do discurso do liberalismo em sua origem, o liberalismo
clássico, conforme proposto pelo iluminista John Locke. Em seguida, a busca por apresentar a
nova roupagem do liberalismo, chamada de neoliberalismo, que se propagou no Brasil na

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década de 90 não apenas como modelo de Estado, mas também dominando os discursos
políticos no seio da sociedade.

3.1. O Liberalismo Político clássico


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As bases do liberalismo político clássico encontram algumas de suas sementes na teoria


do filósofo inglês John Locke2. Sua proposta política surge de uma busca por uma justificativa
racional para o surgimento e a legitimidade do Estado. A ideia central é a construção de uma
teoria política que proponha a emancipação do homem e que fundamente, também, um Estado
que garanta aos seres humanos a fruição de seus direitos naturais individuais.
É importante, para compreender o pensamento de Locke, que toda teoria política, além
de uma visão específica sobre as “leis” segundo as quais funciona – ou deve funcionar – a
sociedade e o Estado, apresenta também uma ideia a respeito do ser humano, de suas
características fundantes; o contratualismo iluminista, do qual Locke participa, possui ainda
forte ligação com as tendências essencialistas e jusnaturalistas pré-modernas. E o que prega o
essencialismo? Que o homem possui uma essência, uma natureza, de qual todos os indivíduos
humanos participam e que cada um realiza em maior ou menor grau.
Por causa da ideia de que o ser humano possui uma natureza é que os contratualistas
fazem o exercício de pensar como seria essa natureza humana em si mesma, ou seja, que tipo de
comportamento os indivíduos teriam quando entregues à sua própria natureza, sem uma
organização social. Encontramos, em Locke, um estado de natureza pautado na racionalidade,
uma faculdade natural do homem e que, por existir igualmente em todos, seria o fundamento da
igualdade e da liberdade dos sujeitos.

A partir da definição lockeana de “estado de natureza”, encontramos na razão


o fundamento da igualdade entre os homens, pois, considerando a essência
humana como possuindo sua expressão máxima na razão e, ainda, que todos
os homens são dotados de tal característica ou capacidade, conclui-se que
todos têm igual valor, um valor que se considera como absoluto e em si

2
As ideias de John Locke presentes neste artigo têm como referência CAZELLI (2015).

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mesmo, ou seja, que não necessita de referenciais externos para ser


considerado. Assim, o conhecimento que se desenvolve utilizando-se o crivo
da razão está, sob tal perspectiva, mais próximo da verdade e, além disso,
disponível a todos de igual maneira, por ser expressão da natureza humana
(CAZELLI, 2015, p. 23-24).

Cabe a cada indivíduo o bom desenvolvimento de sua capacidade da razão para que
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possa, adequadamente, desfrutar daqueles direitos que lhe são naturais: o direito à vida, à
liberdade e à propriedade.

No estado de natureza, segundo Locke, os homens têm direitos que lhes são
atribuídos por sua própria natureza, e não são outorgados por outrem e,
portanto, não podem ser revogados. O direito à vida, à liberdade, à
propriedade e, por consequência, o direito de preservar aquilo que lhes
pertence. A vida e sua conservação, bem como a liberdade de desfrutar dela,
são direitos a cuja percepção chegamos imediatamente pelo puro exercício
racional (ibidem, p. 24).

Tais direitos, portanto, são individuais. Cada sujeito, por pertencer ao gênero humano,
os possui como parte integrante de sua constituição. A faculdade da razão, entretanto, existe
naturalmente no homem como um potencial a ser desenvolvido; os sujeitos não nascem
racionais, mas apenas com a capacidade de desenvolver a racionalidade. Ou, como diria Locke,
o sujeito nasce uma tabula rasa. Para que se torne realmente livre e, assim, possa desfrutar de
sua própria individualidade, é necessário que o homem adquira, através da experiência, os
conhecimentos necessários para o bom desenvolvimento da razão.

O desenvolvimento da razão a partir da aquisição de conhecimentos é, assim,


pressuposto da liberdade. Além disso, se todo conhecimento é aprendido, a
importância da educação é fundamental para a formação do sujeito e, logo em
seguida, do cidadão livre, virtuoso e justo. A força e a virtude da mente
consistem na capacidade de o homem negar a si mesmo seus desejos e
inclinações, seguindo somente aquilo que a razão indica como sendo o
melhor. Isso somente acontece com disciplina, que no homem em pleno
domínio de suas faculdades racionais, é sempre autodisciplina (ibidem, p. 29)

Ninguém pode garantir, porém, que, vivendo no estado de natureza, todos os indivíduos
desenvolvam sua racionalidade a contento e, a partir daí, passem a viver numa harmonia que
derivaria do respeito que todos teriam um pelos direitos do outro. Significa dizer que, em sendo

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o homem um produto do meio e considerando que ele é bom ou mau segundo seu aprendizado,
que vem com a experiência, não há como se certificar que um indivíduo não tentará lesar o
direito do outro, nem que aquele que sofreu a tentativa de lesão não vá responder
desproporcionalmente. Há que surgir a sociedade civil, a partir de um contrato social – definido
como um acordo tácito, fruto da manifestação da vontade livre dos cidadãos – que vai se
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realizar no momento da instituição de um poder estatal, que tem o dever de se tornar um terceiro
imparcial a garantir a proteção dos direitos naturais individuais.
Essa organização estatal se encontraria submetida a essa função que lhe foi atribuída por
aqueles que contrataram ou pactuaram pela sua existência, a saber: proteger o direito a vida, à
liberdade e à propriedade. Assim, o Estado liberal é, primeiramente, considerado um
“funcionário do povo” e uma de suas principais obrigações se torna a de punir aqueles que
venham a tentar lesar os direitos naturais de seus concidadãos. A punição imposta pelo Estado
teria, dentro desse projeto, um papel educacional de desestimular o desvio de comportamento
nos demais indivíduos, ou seja, a doutrina liberal clássica aponta para o combate à
criminalidade através de ferramentas de controle social.
O Estado liberal é, assim, um modelo teórico que visa limitar o poder do governante: por
um lado, a noção de “Estado de Direito” limitaria sua atuação, ou seja, seria uma barreira com
relação à sua interferência na vida dos particulares; enquanto o “Estado mínimo” seria a ideia
por trás da limitação das funções estatais (MORAES, 1996).

3.2. O Neoliberalismo

Neoliberalismo, como o próprio nome sugere, se trata de um resgate dos ideais liberais
adaptados a uma nova realidade social e econômica: o capitalismo pós-industrial, de mercado.
Sua expressão mais significativa é aquela defendida principalmente por duas Escolas de
Economia: a Austríaca (com Von Mises e Hayek) e a de Chicago (com Stigler e Friedman).
Suas teorias influenciaram a política do governo ditatorial do general Pinochet, no Chile, na
década de 70 e os de Ronald Reagan e de Margaret Thatcher respectivamente nos EUA e
Inglaterra dos anos 80. No Brasil, o neoliberalismo encontra espaço na década de 90, com a

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candidatura de Fernando Collor de Mello à presidência da República e ganha força


principalmente no governo de Fernando Henrique Cardoso, a partir de 1994 (NEGRÃO, 1996).
O projeto neoliberal busca aprofundar as ideias do liberalismo clássico, especialmente
aquelas dedicadas à economia, mas com forte impacto social. Isso porque a força mundial do
neoliberalismo no mundo a partir da década de 70 representa uma reação ao avanço das
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democracias representativas que buscavam incluir todos os indivíduos nas decisões políticas,
dando voz às demandas populares, levando a um estado de “ingovernabilidade”, pois as
demandas cresceram em ritmo superior ao que os Estados tinham condições de suprir
(NEGRÃO, op. cit.). Dessa maneira, pelo resgate da governabilidade, os neoliberais apontam
para desregulamentação da economia, abertura comercial, privatizações, diminuição dos gastos
sociais e redução do papel interventor do Estado na economia (ANDRIOTTI, 2013).
A política econômica de livre mercado e a diminuição de gastos sociais, somadas à
privatização, entrega nas mãos da iniciativa privada todos os serviços de assistência básica. Não
há uma maneira de controlar a acumulação ampliada do capital, intensificando a concentração
de renda e a disparidade econômica entre os mais ricos e os mais pobres. Aliada a isso, temos
uma situação em que a responsabilidade sobre o bem-estar social deixa de estar depositada
sobre o Estado, que tem suas funções reduzidas, e passa a pesar sobre os ombros do indivíduo,
de maneira que

(...) a lógica da meritocracia emerge e dá explicações individuais para fatos


sociais.As desigualdades socioeconômicas passam a ser entendidas como
incompetências individuais. As políticas sociais perdem seu sentido, já que
não têm influência sobre estas capacidades individuais. O discurso neoliberal
dá primazia à responsabilização pessoal e as explicações estruturais perdem
sentido, o que resulta na punição dos pobres (ANDRIOTTI, op. cit., p. 16).

Assim, em se tratando do tema do presente trabalho, a saber, a forma de compreensão,


por parte do pensamento liberal/neoliberal, da criminalidade e suas origens, percebe-se que o
“sucesso” ou “fracasso” do indivíduo aqui é de sua exclusiva responsabilidade. O indivíduo
criminoso passa a ser aquele que, por sua escolha, decide lesar o direito do outro cidadão. Para
que isso não aconteça, é necessário que o Estado exerça sobre esse indivíduo o controle
adequado. A única interseção entre o crime e o Estado está nas política de segurança pública,

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que se resumem em mecanismos de vigilância e punição. Não existe, dentro da perspectiva


neoliberal, a possibilidade de se falar em inclusão ou ressocialização3.
Temos, por fim, uma política cuja consequência é a separação da sociedade em dois
tipos de pessoas, com tratamentos distintos: “para os ricos desregulamentação, liberdade de
mercado, individualismo; e para os pobres, controle, moralismo, disciplina, uma contradição na
49
ideologia liberal” (ANDREOTTI, ibidem). A exclusão que ocorre sob um governo neoliberal é
um processo que não é único nem direcionado especificamente a um indivíduo, mas traduz uma
série de condições dinâmicas que atuam no sentido de promover a separação de uma parcela
(cambiante) da população das relações de sociabilidade, degradando seu status social e levando
a uma situação de debilidade econômica.

3.3. Os indicadores sociais de criminalidade

Tendo explicitado o discurso – de pretensão política – a ser contraposto com uma


determinada realidade social, é mister que sejam fornecidos dados concretos, derivados de
pesquisas sérias, que forneçam material suficiente para que se consiga mostrar a relação entre
os efeitos que o discurso produz e a materialidade das relações sociais. Para tanto, tomam-se
pesquisas já realizadas, de cunho estatístico, e publicadas em periódicos científicos de
importantes universidades do país.
A primeira delas 4 relaciona os indicadores de desigualdade sócio-econômica e a
criminalidade violenta, em especial os crimes de homicídio. Segundo a pesquisa, o crime de
homicídio vitimou 600.000 pessoas no Brasil entre 1980 e 2000, representando um aumento de
130%. No período anterior a esse, o país experimentou um acelerado crescimento econômico,
mas com forte concentração de renda, que promoveu enorme baixa nos indicadores de
bem-estar econômico e social, ou seja, aumentaram “a pobreza, o desemprego, a desigualdade

3
Pensamento expresso com muita propriedade pelo Deputado Federal Jair Bolsonaro em entrevista coletiva em
fevereiro de 2014, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=N6EzPxhRfCU
4
KLEINSCHMITT, S.; LIMA, J.; WADI, Y. (2011).

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social” e pioraram “as condições de saúde, de alimentação, de educação e de moradia”


(KLEINSCHMITT, 2011, p. 68-69).
A pobreza, porém, segundo conclusão da pesquisa, não explica sozinha as altas taxas de
homicídio. Isso porque a pobreza muitas vezes está associada a um fator provisório, temporário,
como uma perda de emprego ou uma tragédia repentina. Os fatores que contribuem para o
50
aumento das taxas de homicídio constituem carências que perduram no tempo.

(...) as regiões em que ocorreram as mais elevadas taxas de homicídio são


também aquelas que mantêm, no mesmo espaço, alta concentração
populacional, crescimento demográfico, congestionamento domiciliar, região
de menor oferta de emprego, de leitos hospitalares e menor oferta de espaços e
agências de promoção de lazer (KLEINSCHMITT, op. cit., p. 79).

Nessa situação de vulnerabilidade social, a “sobreposição de carências”, a má


distribuição de renda, a falta de uma real política estatal de justiça distributiva, constroem um
ambiente social propício para a reprodução da criminalidade violenta. O trabalho conclui,
dizendo:

Diante da imensa disparidade de renda per capita existente no país, pode-se


perceber que as UF que tiveram crescimento desta e, acompanhadas de
crescentes concentrações de renda, (...) acumularam para si crescentes taxas
de homicídio. Essa compreensão dos fatos indica caminhos para a redução da
criminalidade violenta no país, com medidas governamentais voltadas para o
crescimento da renda per capita, mas acompanhadas de distribuição para
todas as classes sociais dessa riqueza e renda (KLEINSCHMITT, op. cit., p.
88).

A sugestão dos autores para a superação do problema da criminalidade violenta é a


promoção de uma mudança cultural que associe o crescimento econômico a um
desenvolvimento sustentável, solidário, que promova a diminuição das desigualdades sociais,
através de políticas que invistam em educação, infraestrutura e tecnologia e, assim, melhorar o
Indicador de Desenvolvimento Humano (IDH) e, consequentemente, diminuir as taxas de
criminalidade.

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O segundo trabalho 5 relaciona os indicadores de desigualdade de renda aos crimes


contra o patrimônio, especificamente furtos e roubos de carros e cargas, nos municípios
brasileiros com população acima de cem mil habitantes. Conclui que a relação é direta, ou seja,
um dos principais fatores geradores de crimes contra o patrimônio é a desigualdade de renda.
Considerando que: esse tipo de crime é proporcionalmente predominante na realidade social
51
brasileira; um efeito direto e imediato do crime contra a propriedade é a transferência da mesma
e, consequentemente, sua redistribuição; e que a desigualdade de renda está associada à perda
de bem-estar social, então o trabalho apresenta, em suas considerações finais, a visão de que a
criminalidade não é um problema de natureza moral (individual), mas coletivo (social).

CONCLUSÕES

Articulando os resultados da presente investigação, é possível identificar,


primeiramente, uma contradição na teoria liberal. Quando se diz “contradição”, refere-se ao
fato de que, por um lado, o discurso se mostra como aquele que diz promover a libertação da
humanidade; parte do princípio de que ao homem é facultado o direito à liberdade por conta do
status natural de igualdade entre os indivíduos, através de algo que, por sua própria natureza,
todos possuem igual e o mesmo: o atributo da Razão. Por outro lado, a doutrina liberal exige
que se aceite que a Razão não nasce pronta, mas precisa ser desenvolvida.
O desenvolvimento das qualidades ou habilidades humanas se dá dentro de um contexto
social. Os indivíduos produzem sua vida materialmente a partir das circunstâncias que se
apresentam à sua volta. Um Estado que busque promover as condições necessárias para que os
indivíduos possam conquistar a tal emancipação não pode buscar, no neoliberalismo, a
fundamentação para fazê-lo, porque essa linha de pensamento ignora os fatores sociais
relevantes para a produção da vida material dos indivíduos; aponta do sentido de que aqueles
que, por conta das vicissitudes circunstanciais relativas à produção material de suas vidas, não
puderam, não conseguiram ou, por qualquer que seja a razão, não desenvolveram suas

5
RESENDE, J.; ANDRADE, M. (2011).

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capacidades racionais, não fazem parte da mesma categoria de indivíduos que os demais e são,
portanto, excluídos das relações e dos processos sociais.
Ao direcionar sua perspectiva para a individualidade, o que a doutrina em questão faz é
ocultar a relação entre os indicadores sócio-econômicos e a produção da criminalidade; uma
relação que já foi demonstrada. Ocultando-a, o (neo)liberalismo impossibilita qualquer
52
perspectiva que a considere, o que contribui diretamente para a manutenção da criminalidade
como fruto da exclusão social e, consequentemente, funciona como um reprodutor, e quem
sabe, intensificador daquele fenômeno que se gostaria de ver extinto.
Eximir o Estado das responsabilidades sobre os indivíduos em situação social mais
vulnerável só favorece aqueles que estão bem inseridos socialmente, o que provoca, como se
pode ver, um tecido social cada vez mais roto e, portanto, insustentável. De que adianta educar
o indivíduo e não lhe oferecer condições dignas de sobrevivência material? Como falar em
ressocialização do indivíduo através da melhoria do sistema carcerário, se ao sair do sistema
esse indivíduo retorna para a mesma realidade material que o levou para a ilicitude
originalmente?
Há que se pensar numa outra forma de se ver o problema, há que se buscar uma outra
teoria que sirva de fundamento para discursos e políticas públicas que não escondam os fatores
sociais envolvidos na produção e reprodução da criminalidade, mas que proponham formas de
lidar com eles, de encará-los de frente. Caso contrário, corre-se o risco não apenas de
manutenção de uma situação insustentável, mas de sua piora gradual.

REFERÊNCIAS

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mobilizados pela mídia. 50f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação)-Instituto de
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O LIBERALISMO POLÍTICO E AS ORIGENS SOCIAIS DA CRIMINALIDADE: CONTRAPONDO AS DESIGUALDADES


SÓCIO-ECONÔMICAS E O DISCURSO LIBERAL
CAZELLI, Felipe R.
5º SEMINÁRIO INTERDISCIPLINAR EM SOCIOLOGIA E DIREITO
Niterói: PPGSD-UFF, 14 a 16 de Outubro de 2015, ISSN 2236-9651, n.5, v. 15

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TONETTO, Fernanda. Criminalidade: uma doença social? In: ASPERGS. Disponível em:
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CAZELLI, Felipe R.