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Universi Terrarum Orbis Architetonis Ad Gloriam Ingentis

“ORDO AB CHAO”

A Irmandade de Ormuz e a Maçonaria


Dividirei este trabalho em duas partes. Na primeira, farei um breve
comentário histórico sobre a parte de nosso ritual que narra as origens
mitológicas da maçonaria. Na segunda, um questionamento da parte
mais fundamental da fé de Zoroastro e de seu principal impacto nas
religiões atuais.

A Fraternidade Original
Comecemos este trabalho com uma análise das informações que
constam em nosso ritual sobre os movimentos que influenciariam a
maçonaria.

Analisando a narrativa presente no ritual do grau 15 sobre as origens


da maçonaria, um pesquisador do oculto verá que o mesmo não faz
sentido algum, sendo pobre em historicidade. Logo, o mesmo deve ser
interpretado como uma analogia e não como fato histórico.

Como analogia, ele aponta para diversas grupos e fatos , os quais


iremos destrinchar nesse pequeno trabalho.

O primeiro fato, é que este trecho usa da lenda de outra ordem,


“L'Ordre Maçonnique de la Rose-Croix d'Or d'Ancien Système “ (A
Ordem Maçônica da Rosa Cruz do Antigo Sistema, em tradução livre
minha), que foi uma ordem francesa de inspiração maçônica e rosacruz
do século XVIII. Sua lenda era quase idêntica ao que encontramos em
nosso ritual, onde o padre Ormus após ser batizado por um discípulo de
São Marcos em 96(a tradição conta que São Marcos morreu no ano 68
no Egito) construiria uma irmandade onde se misturaria os
ensinamentos cristãos e egípcios (copta é o nome do estágio final da
língua egípcia original). Essa ordem influenciaria o grau de “cavaleiro
rosa cruz”, que era considerado como o pináculo da maçonaria francesa.

Podemos ver que esse fato é uma clara referencia a ordem rosacruz
criada pelo manifesto Fama Fraternatis . Ela nada tem a ver com as
ordens americanas modernas, criadas no século XX(por ex, a AMORC e
a Fraternidade Rosacruz), sendo parte do inicio do “revival” rosacruz da
Europa dos séculos XVIII e XIX.
Continuando a analise, o texto traz como os personagens “barão de
westenrode”, “Chory” e “padre Ormus” como uma tentativa de
emprestar legitimidade. Novamente, precisamos enxergar o que há por
detrás dessas citações.

Sobre o padre Ormus, encontramos uma referência em um livro de


Albert Mackey, “Encyclopedia of Freemasonry”. Nele é citada a fundação
da” Irmandade de Ormus” e a mesma é tida como ancestral do Rito de
Memphis(um rito maçônico hoje irregular). Segue o trecho da narração
encontrada no livro:

“O rito de Memphis foi introduzido na Europa por Ormus, um mago e


sacerdote pagão que foi convertido por São Marcos (sic) no ano de 96.
Ele reformou as doutrinas egípcias de acordo com os ensinamentos
cristãos”.

Vemos no trecho acima , uma possível fonte de onde nosso ritual pode
ter extraído o objeto de nossa analise. Mackey também apontava para
um sincretismo cristão/egípcio como possível origem da maçonaria.

Quanto ao “barão” e a “chory” são possíveis erros de tradução ou de


ortografia, pois tais pessoas nunca existiram! Entretanto, existiram
tanto um Barão de Westerode quanto um Thory , e ambos trocavam
escritos de fato.

O Barão foi um historiador do sec. XVII que investigou a fundo a


verdade acerca da afamada “ordem rosacruz”. É quase certo que o
barão fora membro de uma ordem alquímica chamada “Philalethes”,
cujo sétimo e ultimo grau era de “cavaleiro rosacruz”. O nome
“philalethes” significa “amor pela verdade” e foi usado como
pseudônimo por muitos escritores, sendo que o mais importante para o
que viria a ser a maçonaria foi Thomas Vaughan.

Em tempo, Thomas Vaughan, largamente ignorado pelos maçons


brasileiros, deveria ser o segundo ocultista (o primeiro sendo Agrippa) a
ser estudado pelos maçons tupiniquins, que as vezes, gostam de
realizar discursos sobre ocultismo apenas copiando o que “ouviram
dizer” ou o que leram no livro do autor X, sendo que este apenas copia o
que lê nos rituais, acrescentando detalhes vindos de suas próprias
opiniões e interpretações, sem buscar a origem do texto usado no ritual.

Já Thory ( e não “chory”) foi um escritor maçônico contemporâneo do


barão e cujo maior sucesso foi um livro que descrevia com detalhes a
história do Grande Oriente da França. Encontrei a referência a Thory no
livro “The New Encyclopedia of Freemasonry, de Arthur E. Waite”.
Feitos esses esclarecimentos sobre as informações contidas no ritual,
passemos para o estudo da religião que ele nos aponta, que hoje
conhecemos mais popularmente como Zoroastrismo. Vejamos mais
sobre este sistema de crenças.

O Zoroastrismo
O Mazdeísmo ou Zoroastrismo é uma religião dualista fundada pelo
profeta Zoroastro entre os anos 628 A.C. e 551 A.C. Prega que o bem e o
mal vivem em eterna luta em nosso universo, sendo que o bem tem
como representante maior o deus Ahura e o mal é representado pelo
deus Ahriman (também conhecido como Angra Mainyu). Dependendo do
ponto de vista, tanto um deus como o outro são faces do mesmo ser, o
que causa alguns de seus fiéis a enxergarem esta religião como sendo
monoteísta. Esta mesma visão influenciou, nos templos maçônicos,
nosso pavimento mosaico e sua orla dentada.

Ela sobrevive com poucos adeptos no Irã , em alguns pontos da Ásia


Central e, em número maior, na Índia, onde seus seguidores são
chamados de Parsis. Muitos maçons indianos pertencem a esta fé. Um
dos fiéis parsi mais famosos da história recente foi o cantor Freddy
Mercury, da banda Queen. O Zoroastrismo também influenciou, em
menor ou maior graus, o cristianismo, o judaísmo , o islamismo e a fé
Bahai.

Esta religião prega que uma ativa participação do adepto na sociedade,


através de boas ações, é fundamental para a felicidade do mesmo e para
afastar o caos de todos. Vemos aqui novamente uma semelhança não
somente com as religiões modernas, mas com a própria maçonaria. A
prática serve não somente para a felicidade(salvação), mas para manter
o caos(mal, demônio, pecado, vício) longe do praticante e dos seus.

Na verdade, encontramos impressionante semelhança com o


cristianismo moderno, em particular o pentecostalismo, por fazer ao
invés de uma comparação ( entre o bem e o mal e entre a luz e as
trevas), um confronto . Ahura Mazda e Ahriman são os antecessores, ou
versões antigas, das faces de Deus e do demônio mostradas na Bíblia.
Assim, teríamos aqui a origem da divisão entre preto e branco, certo ou
errado, tão presente nas religiões e ideologias fundamentalistas da
atualidade. Chega a ser irônico o fato de que a mesma religião deu
inicio tanto a visão dualista quanto a monoteísta, e que muitos dos fiéis
das religiões que a “copiam” não se dão conta disso.

Novamente a maçonaria, ao buscar inspiração nessa religião tão


importante, nos lança o desafio: devemos encarar o mundo, e nós
mesmo, como palco de uma batalha entre o bem e o mal OU devemos
nos acostumar a ver os tons de cinza, onde bem e mal podem, muitas
vezes, serem difíceis de discernir ou de separar? Seria a natureza
humana tão simples? Fica aí o desafio!

Escrito por um Cavaleiro e Príncipe Rosacruz

Bibliografia:

Encyclopedia of Freemasonry – Albert Mackey – versão kindle –


facsimile da original

The New Encyclopedia of Freemasonry – Arthur Edward Waite – versão


kindle, facsimile da original

Ritual do Grau 18 – Supremo Conselho do REAA para a Republica


Federativa do Brasil

Diversos artigos do site da “The Masonic Philosophical Society”

https://blog.philosophicalsociety.org/tag/zoroastrianism/