Você está na página 1de 162

ISSN 1677-275X

SÉRIE MONOGRAFIAS, 5

Sociedade dos Amigos do Museu Nacional

Diretor do Museu Nacional: Prof. Sérgio Alex Kugland de Azevedo

© Direitos autorais 2002 – Antonio Brancaglion Junior. Direitos de Publicação - Sociedade


dos Amigos do Museu Nacional

Brancaglion, Antonio Jr.

Manual de Arte e Arqueologia Egípcia/ Antonio


Brancaglion Junior. – Rio de Janeiro: Sociedade dos
Amigos do Museu Nacional, 2003.
160 p. il. (Série Monografias, 5)

ISBN: 85-89128-05-9

1. Arte – história – Egito 2. Arqueologia - Egito I. Série.


II. Título.

CDD: 709.62 (20. ed.)


APRESENTAÇÃO

Cinco mil anos nos separam dos primeiros faraós, mas o Egito ainda
nos fascina. Esse nome, mais que um país, é uma evocação ao sonho: as
grandes pirâmides, a esfinge de Giza, a máscara de ouro de Tutankhamon e
o busto da rainha Nefertiti são, hoje, ícones da arte.
No passado a arte egípcia era considerada de menor qualidade,
inferior à arte clássica grega e romana, taxada como monótona e sem
criatividade. Contudo, atualmente o seu valor vem sendo reconhecido como
uma das mais ricas e complexas manifestações da arte universal, embora os
egípcios antigos não tivessem uma concepção de arte como a entendemos
hoje e nem tampouco as necessidades estéticas de hoje. Para eles as formas
plásticas estavam ligadas, antes de tudo, à conceitos religiosos.
Arte e fé estão unidas para garantir uma vida eterna e uma
manutenção da Ordem Divina deixando a beleza estética e o prazer visual
como uma conseqüência secundária. Para tanto desenvolveram princípios
imutáveis como forma de expor o mundo de uma maneira ordenada, criando
uma arte intelectual que exige um olhar racional e reflexivo das formas para
compreender os seus significados.
A proposta deste manual é fornecer os subsídios necessários para a
compreensão da função, dos objetivos e dos princípios que regeram a arte
figurativa egípcia (desenho, pintura e escultura), desde as suas origens Pré-
históricas e por todo o Período Faraônico, apresentando a arte de cada
período com seus estilos particulares, reflexo das mudanças políticas e
sociais de cada época, além do papel do faraó como promotor das artes e a
importância dos artistas na sociedade egípcia. Devido à especificidade da
arquitetura egípcia ela será tema de um próximo manual consagrado à
arquitetura sagrada e funerária e à religião egípcia.
Os temas aqui tratados foram elaborados a partir das questões e
dúvidas mais recorrentes a respeito da arte e da cultura dos egípcios antigos
ao longo dos cinco anos lecionando História da Arte Egípcia na Escola do
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand/MASP, bem como os
meus trabalhos na preparação das exposições do Depto. Egípcio do Louvre
no Brasil: "Arte Egípcia nos Tempos dos Faraós", na Fundação Armando
Álvares Penteado/FAAP como Consultor Científico e "Egito Faraônico Terra
dos Deuses", no MASP e Fundação Casa França Brasil como Curador
Associado.

Prof. Dr. Antonio Brancaglion Jr


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO 1
2 A ARTE EGÍPCIA 2
3 ASPECTOS GERAIS 3
4 UMA ARTE INTELECTUAL 4
5 A FUNÇÃO MÁGICA DA ARTE 5
6 A ARTE EGÍPCIA ENTRE O ACADEMISMO E A INVENTIVIDADE 8
7 O ESTILO EGÍPCIO 10
8 A ESCULTURA EGÍPCIA 18
8.1 Poses e formas 25
8.2 Contexto e Função 33
8.3 Inscrições e Decorações 40
9 O DESENHO EGÍPCIO 43
9.1 Princípios de Associação de Pontos de Vista 45
9.2 Princípio da Supressão das Máscaras 47
9.3 Princípio da Variação de Tamanho 51
9.4 Os Registros 52
9.5 A Proporção do Desenho Egípcio 53
10 O RELEVO 55
10.1 Relevo escultórico ou destacado 55
10.2 Baixo relevo ou relevo escavado 56
10.3 Alto relevo ou relevo entalhado ou relevo ressaltado 56
11 AS CORES E O SEU SIGNIFICADO 57
12 OS MATERIAIS 61
13 O FARAÓ E A NATUREZA DO PODER 64
13.1 Os Títulos e os Nomes do Rei 65
13.2 Cartucho 67
13.3 Post-Nomen 68
13.4 Outros Títulos 69
13.5 Outras Inscrições Ligadas aos Nomes Reais 71
13.6 A Imagem do Rei 72
14 OS ARTISTAS E OS ARTESÃOS 75
15 A ARTE E A ESCRITA HIEROGLÍFICA 78
16 PROBLEMAS NA HISTÓRIA DA ARTE EGÍPCIA 79
17 A VISÃO ESTÉTICA 80
18 O EGITO FARAÔNICO: TRÊS MIL ANOS DE ARTE 81
18.1 As Origens: A Civilização de Naqada 83
18.2 Os Primeiros Faraós: O Período Arcaico ou Thinita 85
18.3 A Era das Primeiras Pirâmides: O Antigo Império 86
18.4 O Retorno ao Classicismo: O Médio Império 91
18.5 O Apogeu dos Faraós: O Novo Império 94
18.6 O Crepúsculo do Egito: A Baixa Época 100
18.7 O Egito depois dos Faraós: O Período Ptolomaico 103
19 GLOSSÁRIO GERAL 106
20 GLOSSÁRIO TOPOGRÁFICO 126
21 CRONOLOGIA COMENTADA 132
22 CRONOLOGIA 145
23 SUGESTÕES: Livros, Vídeos, Internet 148
24 BIBLIOGRAFIA 156
25 MAPA 157
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

1. INTRODUÇÃO
O Egito pode ser definido como um grande oásis, onde a parte
setentrional do deserto do Saara é cortado pelo Nilo. Essas duas forças
naturais influenciaram profundamente a vida dos egípcios antigos.
Com 6671Km, o Nilo, um dos maiores rios do mundo, é o responsável
pela existência do Egito. Antes de ser regulado pelas barragens do Século
XIX e depois pela grande barragem de Assuã, a inundação, provocada pelas
chuvas de primavera e verão nas terras altas do leste africano e da Etiópia,
iniciava-se no começo de junho atingindo o ponto máximo na metade de
setembro.
A inundação trazia sedimentos ricos em substâncias minerais que se
depositavam nas margens fertilizando a terra e permitindo a agricultura,
que ocupava aproximadamente 3% do espaço disponível o restante ocupado
pelos desertos. A economia faraônica era basicamente agrícola e o atraso e
as cheias insuficientes traziam a fome a uma população dependente
diretamente do Nilo e que chegou a ter 5 milhões de indivíduos durante o
Novo Império, o Nilo era ainda a via natural de circulação e transporte desde
os tempos Pré-históricos.
O fenômeno das cheias anuais do Nilo promoveu não só a riqueza do
Egito mas o desenvolvimento de um calendário baseado na sua
periodicidade e o controle da irrigação das terras contribuiu para a
elaboração do poder político. Este ritmo natural teve conseqüências
decisivas sobre o pensamento religioso, cuja arte era uma de suas
manifestações onde os ciclos e a renovação da vida natural e o contraste
entre a vida do vale fértil e o deserto árido, que além de ser uma barreira
natural foi o local escolhido pelos egípcios antigos para erigir os seus
monumentos funerários e para o descanso de seus mortos preservando
assim a sua cultura material, combinaram-se na crença egípcia formando
uma das mais duradouras civilizações do mundo.

1
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

2. A ARTE EGÍPCIA
Para o observador contemporâneo, numa primeira abordagem, a arte
egípcia se apresenta como um pequeno catálogo bastante limitado de formas
ao mesmo tempo exóticas e familiares que se repetem desde os manuais
escolares até o mundo dos prospectos turísticos. Certos “clichês” são
exaustivamente utilizados na publicidade e no cinema: a pirâmide, a
múmia, os deuses com cabeça de animal, os corpos torcidos com os ombros
vistos de frente.
A pessoa dotada de espírito curioso que decide ir além e abre alguns
livros de arte, ou então cujos passos a levam às salas de um museu sente,
com freqüência, para além desses elementos facilmente reconhecíveis uma
impressão de profusão e de estranheza capaz de seduzir num primeiro
momento, mas que em longo prazo pode cansar. Mal conduzida e não bem
informada a pessoa corre o risco de se sentir confusa, sem estímulo para
superar um desagradável sentimento de impotência que surge da sensação
de se encontrar no meio de um universo incompreensível onde ela não seria
bem vinda.
É difícil, na verdade, apreciar aquilo que é completamente
desconhecido, a menos que alguma mão amiga nos guie nesse novo
universo. Um enorme obstáculo se ergue entre essa pessoa e as obras que
ela tenta “ver”: o desconhecimento da civilização que está por trás das obras
e que ditou os gestos dos artistas.
Falar de arte implica tomar tempo e concentrar a própria visão.
Implica em abandonar todo preconceito e abrir os olhos e a sensibilidade
para um mundo de formas diferentes daquelas às quais estamos
acostumados. Isso exige não permanecer enclausurado em clichês
grandiosos e brilhantes, mas ao contrário, deixar-se impressionar por
experiências não habituais, interrogar-se sobre a visão dos egípcios -
cultural, coletiva e até mesmo individual. É descobrir as tendências
contraditórias da sua arte: o seu gosto alternadamente pela policromia
matizada ou pela monocromia, pela elegância, mas também pela rudeza
2
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

poderosa, pelo sentido hierático, mas às vezes pelo realismo mais vivo. É
reconhecer que o seu amor pela convenção pode ser sacudido, que a emoção
pode transgredir a serenidade, que obras feitas às pressas ladeiam
realizações admiráveis, que no meio de mil vultos idealizados um retrato
pode surgir. É descobrir uma inventividade que não nos aparece num
primeiro momento por que ela se exprime por aspectos aos quais não
estamos acostumados.
Assim, se alguns se sentirão satisfeitos na contemplação do mistério,
outros extrairão impressões ainda mais saborosas ao verem se alçar os véus
do desconhecido. Nosso voto mais fervoroso é que uns e outros se tornem
admiradores sinceros da arte dos antigos egípcios e que, para além dos
milênios, possam se aproximar deles pelo coração e pelo espírito.

3. ASPECTOS GERAIS
O papel mágico substitutivo da arte
egípcia, que serve para representar os deuses
e os homens, fez dela uma arte obcecada pela
figura humana. Os próprios símbolos podem
ser animados pelo acréscimo de membros
humanos.
A figura humana é o tema primordial Os hieróglifos ankh, was e djed
tanto em duas quanto em três dimensões, no com membros humanos, XIX
dinastia, Ábidos
desenho, no relevo e na escultura
tridimensional.
O ambiente natural - a “paisagem” da arte ocidental - é pouco tratado;
ele serve às vezes de pano de fundo para a ação dos personagens, nas cenas
de caça ou no recinto de uma residência. Nesse contexto os egípcios
manifestam um real amor pela natureza, na figuração de plantas e,
sobretudo, de animais. As coisas são figuradas na medida em que elas
contribuem para o equipamento do deus ou do morto, tais como fileiras de
objetos e oferendas, bem arrumadas ou não; elas se aproximam então de
3
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

nossas “naturezas mortas”. Por fim, é preciso levar em conta um certo


número de cenas relacionadas a objetos do cotidiano, onde a procura do
prazer decorativo prepondera sobre a função mágica. Nelas, a reprodução da
natureza é particularmente buscada sob os seus aspectos mais agradáveis:
bosques às margens do Nilo, buquês de flores, animais selvagens.

4. UMA ARTE INTELECTUAL


No início da descoberta da arqueologia egípcia as considerações
estéticas não eram em sua maioria muito favoráveis. Depois, o
conhecimento progressivo modificou a visão dessa arte. A beleza, com efeito,
surge da relação entre a obra e o olhar. Esse olhar, longe de ser intuitivo e
virgem, é instantaneamente impregnado de cultura, a cultura do
observador, ela própria fruto do seu tempo e do seu ambiente. Uma
experiência desse tipo aconteceu na arte contemporânea: os artistas do
movimento “Novo Realismo” ressaltaram o fato de como aquilo que aparece
ao não iniciado como uma quase ausência de arte, encontra-se na verdade
carregado de estética para um público avisado. Lembremos também como
foram mal acolhidos os impressionistas que, aos olhos da maioria dos
amadores de seu tempo, faziam figura de borradores destituídos de qualquer
qualidade.
Um conhecimento pelo menos parcial do pensamento egípcio é
necessário para se compreender a sua arte, da mesma forma que não
saberíamos visitar um museu de arte ocidental sem possuir nenhuma noção
da religião e da história judaico cristã, ou da história de nossos países. As
obras estão carregadas de um sentido que era bem evidente para aqueles
que as contemplavam. Todo espírito curioso tem o direito de fazer a
pergunta: para quem e por que essa obra foi realizada? Qual foi o movente
dos construtores que encomendaram e dos artistas que executaram as
obras das quais hoje observamos os restos? Essa deve ser a questão que
devemos repetidamente colocar. Com efeito, tenhamos ou não algum prazer
ao contemplá-la, é sem dúvida que a obra produzida na antiguidade não foi
4
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

feita para agradar a nós, pessoas de hoje em dia. Compete aos arqueólogos
tentar reconstituir a perspectiva cultural na qual viviam os mais cultivados
contemporâneos daquela obra.
Temos, no entanto, de buscar constantemente as chaves de sua
restituição ao contexto de origem, sem o qual o sentido atribuído pelos
criadores nos escapará totalmente. A isso é preciso acrescentar um esforço
intelectual a fim de compreender as razões de ser do estado atual do objeto,
de modo a reconstituir os acidentes de sua existência e lhe restituir
mentalmente o seu brilho original. O simples prazer sentimental da visão de
uma ruína não basta a quem hoje se sente realmente interessado pelas
civilizações desaparecidas.

5. A FUNÇÃO MÁGICA DA ARTE


Para os antigos egípcios, dar
forma à matéria não era um ato de
puro deleite, o que não significa,
evidentemente, que eles deixassem
de extrair muitas satisfações
estéticas disso. Mas os fundamentos
do ato artístico encontram-se fora
das preocupações estéticas em si
mesmas: eles se situam na esfera
das crenças relativas aos mortos e
aos deuses – portanto, no mundo
sobrenatural. Desenhar, esculpir e
pintar permite dar corpo às
presenças invisíveis nas quais o
espírito humano acredita, criar
objetos reais para os ritos que lhes
concernem, fabricar suportes para Séthi I ofertando Maat, XIX dinastia, Ábidos
todos os gestos essenciais que
5
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

asseguram a ligação entre os humanos e o mundo dos deuses. Concebê-los


é, portanto, um ato importante e grave cuja eficácia, antes de tudo, é o que
se busca.
As obras mais oficiais, os templos com a sua arquitetura, a sua
decoração esculpida e pintada e as suas estátuas constituem objeto de
elaboradas especulações por parte dos sacerdotes. O desafio é considerável:
trata-se de conceber a morada terrestre do divino, de lhe assegurar abrigo e
proteção, de manter a ordem dos deuses na Terra, de alcançar aquele
equilíbrio divino que é garantia de permanência. Tudo isso é atribuição do
faraó. Os que oficiam o culto e os demais sacerdotes não são mais,
teoricamente, do que intermediários do rei, representantes da ação do
soberano. É ele o chefe da religião bem como da administração. Na verdade,
a direção das questões religiosas é apenas uma das ramificações da
administração geral. É esse aspecto completamente global da função real
que constitui o fundamento da sociedade egípcia. O soberano que domina o
mundo humano é também o interlocutor privilegiado – a maior parte do
tempo único – dos deuses. O culto é essencial para o bom andamento do
mundo, e um dos atos fundamentais de culto do qual é investido o rei é a
fundação, o embelezamento e a renovação dos templos - “monumentos” que
estabilizam a Ordem Divina (Maat). A isso se acrescenta, do ponto de vista
político, uma função historiográfica: nos templos são inscritos os grandes
feitos do soberano.
Os cidadãos que gozam de melhor situação social podem ter também
os seus monumentos comemorativos, como as capelas de suas tumbas,
lugares de encontro com os vivos e receptáculo das oferendas vitais das
quais os mortos necessitam. As imagens, certamente destinadas a
representar um indivíduo ou uma ação, podem ser ativas inclusive quando
seu beneficiário está vivo.
O aspecto mágico das representações é maior; o mesmo ritual de
“animação” é executado sobre as estátuas e sobre as múmias. Considera-se
que ele é capaz de “abrir a boca e os olhos”, a fim de fazê-los viver. Algumas
6
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

estátuas foram muradas para sempre nas capelas das tumbas, alguns
relevos foram selados no interior das paredes; portanto, a recriação é a
função primeira, e não a contemplação pelos vivos. Um grande número de
estelas aos mortos, no entanto, contem um “apelo aos vivos”. Trata-se de
uma prece na qual o morto representado na estela se dirige aos passantes
presentes e àqueles que virão no futuro para lhes suplicar que recitem uma
oração a seu favor, a qual fará surgir magicamente o alimento, bem como
pronunciar o nome do morto a fim de fazê-lo reviver. A arte não apenas
completa a realidade, ela é igualmente um meio de fazê-la perdurar e de
comunicar uma mensagem ao presente e para as gerações que virão. Trata-
se de uma arte que com certeza se dirige a um visitante, mas feita para
desempenhar uma função que é certamente bem diversa daquela de nossas
modernas exposições.
Embora ligada à religião, a arte egípcia não se baseia num único
dogma escrito num livro sagrado fundamental. Diferente da arte cristã, que
se refere exclusivamente aos textos da Bíblia, a arte egípcia goza de uma
certa autonomia artística; a expressão formal é um modo de expressão do
divino que basta a si mesmo. Nos templos, a função substitutiva da
figuração parece primar sobre todas as demais preocupações, sejam elas
comemorativas ou pedagógicas. Por exemplo, seria inútil buscar entre as
milhares de representações de Osíris e de Ísis, um quadro do drama desse
casal divino, do mesmo modo que não houve versão escrita desse mito tão
fundamental para as crenças escatológicas desse povo.
Se a arte egípcia parece mais autônoma que a arte cristã no que
concerne o verbo, é verdade que ela é quase sempre completada com o
acréscimo de inscrições, às vezes longas, cobrindo boa parte da superfície da
obra, participando da sua decoração e, ao mesmo tempo, reforçando e
completando o seu sentido. Os egípcios não eram comedidos em matéria de
escrita executadas sobre suas produções artísticas. Pelo fato de que sua
escrita é composta de pequenas representações – mesmo se elas devem ser
lidas de modo fonético como a maior parte de nossas letras - em geral não é
7
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

fácil para o não-iniciado distinguir nelas cenas propriamente ditas. Isso


acontece sobretudo pelo fato de que, com muita freqüência, um certo horror
ao vazio leva os artistas a preencher a composição em todos os lados. O
lugar da escrita deve, portanto ser bem distinto daquele da representação,
mesmo que elas sejam empregadas lado a lado na decoração e de modo
análogo no plano funcional. A escrita, do mesmo modo que a arte, é
detentora de um poder mágico de substituto da realidade.

6. A ARTE EGÍPCIA ENTRE O ACADEMISMO E A INVENTIVIDADE


“Fazer monumentos” (literalmente “coisas estáveis”): este é um dos
ritos fundamentais que o soberano deve cumprir para os deuses. Uma das
idéias egípcias comuns a respeito do tempo concebe as obras mais antigas
como as mais perfeitas, por que mais próximas dos tempos em que os
deuses reinavam sobre a terra, antes que as dinastias dos soberanos
humanos herdassem essa função. Isso é verdadeiro na literatura, na magia
e na arte. A importância do que está em jogo nas produções do Estado não
constitui, contudo, um freio total à criatividade. Para além de uma
constante referência a um classicismo cíclico que se alimenta de si mesmo e,
ao mesmo tempo, se aprimora em cada etapa, a arte de Estado nunca
deixou de inovar, curvando-se aos novos contextos da ordem do dia no
pensamento e na política. Desse modo, a arte egípcia que não hesita em se
apresentar como bastante convencional em sua aspiração fundamental, que
deveria de algum modo manter os modelos dos primeiros tempos, na
realidade os atualiza adaptando-se constantemente às necessidades em
perpétua transformação. Os egípcios certamente concebiam a si próprios
como atores de um drama invariável - é esta a sua ideologia - mas
estaríamos enganados em levá-los ao pé da letra. Embora permaneça bem
consciente, a tensão dirigida à tradição não bloqueou um processo evolutivo
que aconteceu naturalmente no decorrer dos séculos.
Existe, portanto, uma contradição flagrante entre aquilo que essa arte
pretende fazer - um mundo estável reflexo de um universo eterno e
8
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

permanente - e o panorama real de suas produções, ligeiramente mutantes


de um reinado para outro. O vocabulário formal estabelecido em certas
épocas, e que respondera perfeitamente às necessidades de seu tempo,
reaparecia aos olhos de uma nova geração como uma idade de ouro da qual
as ruínas deveriam servir às vezes de modelo e, freqüentemente, pelo menos
de fonte de inspiração, após séculos de incertezas políticas que tinham
lançado o Egito na desordem. Mas a reconstrução podia tomar tempo, o
conhecimento deveria se reconstituir, e desse modo forjava-se de fato novas
normas que pretendiam fundamentar-se no passado. Essa evolução não
procede apenas por deslocamentos progressivos de uma forma em direção à
sua variante, cada etapa se separando suavemente do protótipo, mas
também e inclusive pela introdução de novos modelos.
A virtude mágica de substituto da realidade que possuíam as obras
deve ter proporcionado muitas satisfações aos escultores. Se de um lado ela
os mantinha no caminho firme da tradição formal e das fórmulas
estabelecidas ao longo do tempo – uma noção à qual fazia-se
constantemente referência – ela não os impedia de responder a esse ou
aquele impulso inovador destinado a tornar ainda mais eficaz o objeto final
de seu trabalho. Ao longo de três mil anos de história da civilização egípcia
os criadores nunca deixaram de encontrar soluções novas, respeitando a
perene idéia essencial subjacente da perfeita adequação entre a obra e sua
função. No meu entender, essa imperiosa necessidade superior foi, nos
melhores casos, fonte de uma liberdade capaz de abrir o campo das
possibilidades de um modo do qual não fazem idéia os que têm da arte
egípcia apenas uma visão superficial. Em outros termos, uma visão
estritamente formal não conseguiria captar o sentido profundo que os
egípcios atribuíam ao ato de criar estátuas ou arquiteturas religiosas. Além
disso, uma tal concepção esclarece toda uma quantidade de produções
“artísticas” egípcias fora das normas, distantes dos cânones que a elite da
profissão praticava nas oficinas reais, mas cuja eficácia sem dúvida não se
via diminuída por causa de suas qualidades plásticas inferiores.
9
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

7. O ESTILO EGÍPCIO
O que nos faz identificar imediatamente um desenho egípcio?
Qualquer um pode responder sem hesitar: a silhueta dos personagens, a
sua gesticulação, a composição em registros (ou faixas horizontais), a
presença de textos hieroglíficos. Vamos superar essa primeira abordagem
intuitiva fazendo um balanço dos componentes desse “estilo egípcio”.
Nunca se deve analisar um desenho egípcio em nossos termos de
realismo visual. Os egípcios certamente não teriam apreciado e talvez sequer
compreendido as nossas figuras em três quartos. Elas são imagens
elaboradas por nossa cultura, das quais deciframos sem grandes esforços
todas as regras. Estamos habituados a essas imagens, tão habituados a
ponto de considerá-las como as melhores representações possíveis no plano
visual. Os egípcios antigos sem dúvida teriam considerado esses aspectos
como figuras bizarras. No desenho egípcio nada deve ser fugaz, tudo deve
ser “decomposto” sobre um espaço estritamente organizado a partir de duas
dimensões; convém, portanto, escolher para cada elemento o ponto de vista
mais interessante. Apoiados sobre uma linha horizontal, os personagens
apenas podem se mover segundo um eixo, nas duas direções: da direita
para a esquerda ou inversamente. A escolha dessa direção não é deixada ao
acaso, ela é ligada à arquitetura. Ela é retomada pela direção da legenda das
figuras: nome, título, parentesco e discurso ou comentário da sua ação.
Rupturas de escalas entre os personagens no interior de uma mesma cena
são comumente empregadas para traduzir a importância relativa desse ou
daquele indivíduo ou para proporcionar um distanciamento de perspectiva.
O relevo utiliza as mesmas escolhas do desenho. O volume serve
apenas para sugerir, de um modo ilusionista, a espessura dos corpos, mas
jamais a profundidade de campo de uma cena complexa. A acumulação de
personagens agrupados é restituída pela superposição deslocada: um corpo
passando à frente do outro (tropa de animais, personagens sentados lado a
lado). Para compensar, os outros elementos da composição são quase
sempre separados dos personagens: uma árvore ou móveis serão figurados
10
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

ao lado ou acima, evitando a superposição das imagens. Prefere-se o


princípio do deslocamento ao da superposição. A profundidade é repartida
na largura do registro, ou então na composição em registros. Além disso, o
deslocamento das cenas no plano lateral e na vertical também serve para
recortar seqüências cronológicas da ação. A mensagem é muitas vezes
complexa, pois é preciso interpretar as cenas justapostas como simultâneas
ou sucessivas. A inscrição nunca torna bem claros e precisos esses
parâmetros, que deveriam ser considerados secundários. A narrativa fica
submetida a uma sucessão de cenas ou de flagrantes, como os fotogramas
de um filme.
No desenho, bem como na estatuária, os egípcios parecem proceder
por um agrupamento de composições retangulares. Para um egiptólogo, essa
noção evoca os grupos harmoniosos da escrita hieroglífica, onde o espaço é
subdividido virtualmente em sucessões de quadrados nos quais são
inscritos os sinais, de modo que a verticalidade e a horizontalidade - que
constituem os fundamentos da sua harmonia - sejam respeitados. O espaço
das composições egípcias aparece dividido segundo as linhas verticais e
horizontais. Graças ao jogo de mudanças de escala, vínculos formais podem
associar muitas cenas pequenas a uma cena maior que as relacionam: este
é o caso clássico dos operários e camponeses que trabalham sob os olhos de
seu senhor em dimensão heróica. A função de uma cena - a oferenda ao

Nakht e sua esposa diante de oferendas, XVIII dinastia, Tebas Ocidental


11
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

morto, por exemplo - implica em duas escolhas de desproporções entre os


personagens: entre o agraciado que recebe a oferenda, e os oficiantes e
demais membros da família.
Na maior parte do tempo, na parede da qual ele é o encarregado, o
artista utiliza soluções já prontas, já empregadas em outras partes do
templo ou da tumba, em função do programa geral. O efeito final desejado é
o de um espaço bem preenchido tanto pelos personagens quanto pelos
textos e pelos acessórios necessários à ação. A unidade de base da
composição é o personagem acompanhado de sua legenda, mais ou menos
detalhada, a partir de seu nome, seus títulos e os de seus familiares, até as
longas orações e as autobiografias, as suas palavras ou o comentário de sua
ação. Essa unidade pode se conjugar em casais e em grupos, em famílias,
em seqüências de deuses. Num monumento bem elaborado a legenda é
devidamente prevista e com freqüência bem enquadrada. Ela ocupa uma
parte considerável da composição. Nas estelas e nas capelas funerárias a
cena principal representa o homem, a mulher ou o casal sentado diante de
suas oferendas; estas últimas são bem dispostas ou, ao contrário,
distribuídas em todos os espaços possíveis.
A silhueta humana, tema primordial da arte egípcia, é restituída
segundo os princípios gerais enunciados acima: nenhuma redução é
cogitada. O famoso “perfil egípcio” é a síntese de uma sucessão de vistas de
perfil e de frente: a cabeça de perfil, o olho de frente; ombros de frente e o
resto do tronco e as pernas de perfil, as mãos voltadas de frente. O umbigo
está no limite do ventre a fim de dar volume, mas um estudo aprofundado
demonstra que os ombros de frente não são nunca ligados à cintura de
perfil por um torso em três quartos: o torso também é visto de perfil. A
síntese desses pontos de vista adicionados é assegurada pela linha contínua
que nos dá a falsa impressão de um torso em três quartos. Tais escolhas, ao
mesmo tempo características e elegantes, criam uma silhueta “egípcia”
também chamada de aspectiva. Ela permaneceu imutável durante os três
mil anos da civilização faraônica.
12
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

A preocupação de criar representações de princípio, sem buscar


traduzir os caracteres dos indivíduos, incitou os egípcios a reproduzir essas
silhuetas ideais de modo estereotipado. A figura humana assim selecionada
é esbelta e idealizada. Ela alcança ocasionalmente os nossos cânones de
beleza da segunda metade do século vinte, como aqueles encarnados pelas
“top models”. Os indivíduos são caracterizados não pela silhueta e o rosto,
mas pelo vestuário e os acessórios, como em muitas histórias em
quadrinhos e desenhos animados de hoje em dia onde os personagens, de
traços jovens e sedutores, seguem todos o mesmo padrão. No entanto, cada
época da arte egípcia criou seu estilo bem caracterizado de rosto, muitas
vezes influenciado pelo do soberano. Esse rosto é aplicado a todas as
figuras, tanto as de seus súditos de todas as idades quanto aquelas dos
deuses. Ele é primordial na elaboração do estilo da época.
Seria errôneo conceber a linha egípcia como um cânone consagrado:
as mudanças de estilo são evidentes segundo as épocas. Um corpo feminino
da XII dinastia se distingue com facilidade de um outro da época de
Amenhotep III.

Figura feminina, XII dinastia, Figura feminina, XVIII dinastia


Bersh, British Museum Tumba de Neferhotep, Tebas

13
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Aquilo que costumamos chamar de “cânone egípcio” consiste num


recorte do corpo humano segundo um quadriculado que serve de grade de
reprodução, viabilizando o trabalho em equipe e o desenvolvimento de uma
composição geral em grande escala. Esse procedimento prejudica a
originalidade, porém serve à uniformidade do conjunto. Ele não é utilizado,
com toda evidência, num certo número de obras. Nas pequenas cenas, por
exemplo, o cânone não é aplicado, a não ser que o artista “quebre” essas
proporções e reproduza o cânone à mão.
Para assegurar à composição o caráter ortogonal tão procurado, para
regular o alinhamento na vertical dos bastões e dos cetros, a horizontal dos
ombros e a parte inferior dos saiotes, o uso do quadriculado se impõe; da
mesma forma, nós lançamos mão de um papel quadriculado quando
queremos obter uma escrita ou um desenho bem regular. A equipe,
portanto, traçava uma grade quadriculada na parede preparada para o
desenho. Esse quadriculado prévio, destinado a ser recoberto pelas camadas
finais de pintura, correspondia perfeitamente à procura por parte dos
egípcios da invenção de um mundo regrado e gráfico. Ele satisfazia a mesma
necessidade de ordem que a sua bem cuidada escrita hieroglífica. Esse
universo de perfeição é tão sedutor que somos tentados a tomá-lo por
realidade: isso significa deixar-se levar pela sedução da arte, do mesmo
modo que podemos nos deixar convencer pelas alegações dos discursos da
propaganda oficial.
A grade fixa alguns pontos de referência na verticalidade do ser
humano, nas seqüências de indivíduos de modo a alinhá-los ainda mais
perfeitamente, “à linha de traço”. Ela serve para assegurar proporções
harmoniosas e repetidas no interior de uma grande composição, mas não
determina a inteira silhueta. Durante a V dinastia empregava-se apenas um
jogo restrito de linhas horizontais para indicar os seguintes níveis: a parte
de cima dos joelhos, a base dos músculos das nádegas, a parte inferior das
costelas, as axilas, a base do pescoço (ombros), o alto da fronte onde começa
a peruca. Desde essa época, como nas grades aplicadas a partir da XII
14
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

dinastia, não se indica o nível da cintura, nem a altura do pescoço, nem a


espessura do corpo fora os ombros, elementos que são no entanto
fundamentais para o estilo de uma silhueta. Tudo isso faz com que,
finalmente, haja uma grande faixa de liberdade para a criação dos
personagens. Em compensação, as linhas permitem conciliar o conjunto das
cenas em um edifício. Cabe ao contramestre verificar que o desenho dos
personagens corresponde ao resultado esperado. Além disso, nota-se que os
artistas nem sempre se atêm às linhas com uma grande precisão.
Particularmente nas cenas secundárias, constata-se com freqüência a
ausência dela. Em certas épocas, as pinturas das tumbas são feitas
inclusive à mão livre.
No decorrer da XVIII dinastia, sob o reinado de Thutmés IV, a altura é
aumentada, o que alonga as pernas, aumentando a elegância. O corpo
humano, repartido em 18 quadrados desde o Médio Império, passa
finalmente a ser construído em 21 quadrados no final do Terceiro Período
Intermediário. Essa mudança não alterou o estilo, de modo que não
sabemos exatamente quando ocorreu a passagem. Na medida em que ela
influencia tão pouco o estilo, pode-se perguntar se a grade constitui um
tema realmente importante. Alguns egiptólogos acreditam que a grade
constituía um meio de perpetuar um verdadeiro “cânone” artístico
fundamentado no corpo humano entendido como medida de todas as coisas.
Ao multiplicar à vontade os modelos, o quadriculado prévio parece ser
um instrumento que certamente torna rígidos o desenho e o estilo de uma
época. Mas esse também era o objetivo procurado: criar composições de
personagens “calibrados” no interior de um mesmo monumento. Trata-se de
um instrumento a serviço do estilo; não se trata de um “cânone” dogmático
de valores sagrados que teria possibilitado conservar as criações dos
homens num contexto estrito de formas consagradas. O valor mágico das
criações da arte egípcia, bem real e bem atestado pelas práticas culturais,
não passaria por códigos formais tão estritos. Se a arte egípcia parece
uniforme, isso não se deve a um “cânone” e sim porque ela é regida por uma
15
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

série de escolhas que limita o seu campo de expressão e que cria o seu
estilo, o estilo egípcio, fundamentado sobre uma certa idéia de ordem e de
harmonia. É notável constatar como a dinâmica e o movimento são
refreados, contidos dentro dos limites julgados convenientes, salvo em
algumas grandes cenas de atos reais.
Na tridimensionalidade dois eixos são privilegiados. Eles
correspondem a dois pontos de vista maiores: de frente e de perfil. Nós
sabemos que o escultor diante do seu bloco de pedra procedia abaixando os
níveis e seguindo um desenho.

Bloco quadriculado Modelo de escultor com quadriculado


com figura de esfinge de uma cabeça real, vista posterior

Podia seguir também simples linhas de referência traçadas na


superfície do bloco, segundo um quadriculado agora estabelecido em três
dimensões. Ele tinha de retraçar as principais linhas de referência na
medida em que retirava material. Isso significa que privilegiava um ponto de
vista plano para as duas primeiras dimensões da visão de frente, enquanto
um outro desenho estabelecia a visão de perfil. Esse modo de trabalhar
predetermina uma visão que privilegia dois eixos. Tal método possibilita
criações bem construídas, serenas, hieráticas, fáceis de serem gravadas
visual e intelectualmente. No interior desse contexto estreito, alguns gestos
bem construídos são adotados: o braço erguido que vai golpear, o inimigo

16
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

vencido de joelhos na terra. Os grupos esculpidos obedecem às mesmas


regras de ordenação ortogonal.
Em tais condições como não considerar a estatuária egípcia
insuportavelmente repetitiva? Na verdade, até mesmo as fórmulas mais
empregadas não impedem soluções novas, inventivas; não existe uma lei
verdadeira, apenas hábitos. O escultor encontra sua liberdade de outro
modo: nas dimensões das estátuas, geralmente bem acima da natural; nas
diferenças de escala entre os membros de um mesmo grupo; no jogo de
construção de pedestais e de apoios dorsais; na aplicação de inscrições que
identificam os personagens; no emprego extremamente diversificado dos
materiais, do tratamento das superfícies e da sua coloração. A liberdade
reside também no fato de que toda a superfície da estátua pode tornar-se
suporte de relevos. As fronteiras entre “gêneros artísticos” não têm razão de
ser.
Como os desenhos, as estátuas parecem à primeira vista facilmente
identificáveis como “egípcias”. Nós lhes atribuímos com presteza os
adjetivos: hieráticas, majestosas, elegantes e idealizadas. Na verdade, na
tridimensionalidade os egípcios nunca procuraram captar o instantâneo e
aprisioná-lo na matéria. Essa posição é lógica, pois para eles uma estátua é
uma representação atemporal - um conceito, se pensarmos bem,
perfeitamente adaptado à natureza deles que é a de permanecer,
diferentemente dos corpos vivos que são todos transitórios. Fiéis a essa
lógica, eles suplantam os sinais do tempo e os estigmas da idade. Aquilo que
se busca é a transmissão do conceito e não da impressão visual. Na medida
em que o realismo não prejudica o conceito, ele pode ocasionalmente
aparecer. Assim, representar uma pessoa gorda pode significar um êxito
social. Traços extremamente individualizados podem eventualmente surgir
numa obra: nós nos alegramos, então, por reencontrar nossa tão valorizada
noção de “retrato”. Mas essa noção não parece nada importante para os
egípcios, embora certos escultores tenham demonstrado serem bem capazes

17
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

disso; encontramos notáveis testemunhos em todas as épocas sem que


nunca isso se imponha como uma necessidade.

8. A ESCULTURA EGÍPCIA
As estátuas não eram feitas buscando a beleza e o prazer visual ou
como objetos isolados, como hoje são admiradas em museus e livros, eram
destinadas a um local específico, um templo ou uma tumba, onde eram
vitais para os cultos, constituindo o ponto focal nas cerimônias dos templos
e nos rituais funerários nas tumbas.
Para os egípcios antigos as estátuas possuíam três funções: tornava
visível o invisível, fazendo com que as forças divinas se incorporassem nas
imagens dos deuses. Tornava os ausentes presente, possibilitando ao faraó
estar em todo o Egito ao mesmo tempo por meio de suas estátuas. Dava vida
aos mortos, incorporando o espírito do morto (ká) à sua imagem
possibilitando-lhe receber as oferendas e os rituais.
Desta forma possibilitando que entidades não físicas se
materializassem nesse mundo e como estas, não estavam limitadas pelo
tempo ou espaço, poderiam habitar simultaneamente em todas as suas
imagens onde quer que se localizassem.
Sendo representações atemporais, diferentemente dos corpos vivos
que são todos transitórios, as estátuas não apresentam os sinais do tempo e
nem os estigmas da idade.
Esculpir uma imagem era dar àquele que era representado um corpo
substituto e tal ato era considerado de tamanha importância que fazia com
que os escultores fossem chamados como “aqueles que davam a vida”
t
(sanx) ej B ! Essa mesma denominação era dada ao deus criador “o
escultor que esculpiu a si mesmo”.
A funcionalidade religiosa das representações é expressa pela crença
na animação das imagens por meio de rituais que eram executados sobre as
estátuas e sobre as múmias. Acreditava-se que ele é capaz de “abrir a boca e
os olhos”, a fim de fazê-los viver.
18
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

É por esse motivo que as


destruições deliberadas das imagens
voltavam-se, principalmente, aos olhos
para “cegá-las”, ao nariz para cortar o
“sopro da vida” e às orelhas para que
“deixassem de ouvir as preces e os
hinos”.
A crença na substituição de uma
imagem, como um meio de perpetuar um
indivíduo, atingiu o seu pleno
desenvolvimento no domínio funerário.
A “Abertura da Boca” representada na
Desde as épocas mais antigas, os câmara funerária de Tutankhamon,
XVIII dinastia, Tebas.
egípcios, deram-se conta das vantagens
que poderiam ter as almas dos mortos se lhes fosse fornecido um suporte
menos frágil que o corpo físico, fazendo dessa forma imagens do morto em
um material resistente ao tempo. Essas imagens eram colocadas em nichos,
nas paredes das tumbas, como refúgio para a alma caso a múmia fosse
inabitável, ou ainda consagradas nos pátios dos templos a fim de que o
morto compartilhasse das oferendas diárias feitas para os deuses.
Algumas estátuas foram emparedadas em câmaras ocultas (serdab)
para sempre nas capelas das tumbas, portanto, a recriação é a função
primeira e não a contemplação pelo homem. Intimamente associadas à
arquitetura, as esculturas, não são simplesmente utilizadas como
decoração, mas definem o próprio espaço que ocupam como as esfinges e
imagens colossais dos faraós que protegem a entrada dos templos, a estátua
de culto no tabernáculo no âmago do templo acessível somente ao faraó e
aos sacerdotes, as imagens do morto no interior das capelas funerárias que
recebem as oferendas e a visita de seus parentes vivos e na câmara
mortuária próxima às múmias.
Se a virtude mágica de substituto da realidade que possuíam as obras
era o seu objetivo principal por outro lado os artistas poderiam buscar a sua
19
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

satisfação estética e criativa, algumas vezes inovadora, dentro dos restritos


limites da tradição formal e das formas estabelecidas ao longo do tempo. Ao
longo dos três mil anos de história são inúmeras as variações de estilo que
são claramente perceptíveis ao olhar atento.
As estátuas, à primeira vista, são facilmente identificáveis como
“egípcias”, constituídas por volumes geométricos simples como cubos,
cilindros, esferas e pirâmides, dando às imagens um aparência hierática, de
solidez e monumentalidade. As formas verticais e uma distribuição
ortogonal são preferidas em esculturas de todos os períodos e davam uma
aparência de rigidez às figuras.
A impressão de monotonia das estátuas egípcias é causada por um
repertório restrito de temas criados, em grande parte, para facilitar a
compreensão do ser retratado, mantido em uso ao longo dos séculos. As
divindades são preferivelmente representadas eretas ou sentadas
hierarquicamente em tronos. O faraó é mostrado em pé, ou sentado, junto
às divindades, muitas vezes, unidos por um abraço formando as tão
apreciadas díades ou tríades. O marido é retratado em pé, ou sentado, junto
a sua esposa, às vezes acompanhados pelos seus filhos, formando grupos
familiares.
A rigidez na obediência às formas canônicas é diretamente
proporcional ao status da figura representada. Deuses, faraós e altos oficiais
não permitiam aos artistas grandes inovações como as que eram
experimentadas nas representações de indivíduos anônimos ou das classes
sociais inferiores, como o caso das figuras de trabalhadores em calcário do
final do Antigo Império e nos “modelos” em madeira que retratam vários
aspectos da vida cotidiana do I Período Intermediário e do Médio Império.
Deuses, faraós e oficiais são sempre representados carregando
cajados, instrumentos cerimoniais e usando coroas e toucados que ajudam
na sua identificação. Os trajes e adornos seguem sempre a moda da época
à qual a figura pertence excetuando-se as divindades cujos trajes, não
importando o período, são sempre as suas tradicionais vestes arcaicas.
20
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

É visível na estatuária egípcia a presença de dois elementos


antagônicos em sua composição. Se por um lado a imagem deve ser
idealizada, buscando dar à figura representada uma aparência vigorosa
como o corpo das divindades, ao mesmo tempo buscava retratar as
características particulares dos indivíduos. A saída, muitas vezes, é a de
criar um corpo perfeito captando a personalidade nos traços fisionômicos. A
escultura egípcia oscilou entre esses dois extremos durante toda a sua
história.
A representação das partes do corpo segue regras determinadas. A
cabeça sempre voltada para frente e colocada verticalmente sobre os ombros
formava um ângulo reto. As figuras sentadas têm, normalmente, os
antebraços e as mãos apoiados sobre as coxas ou um deles ou ambos
dobrados junto ao peito, as pernas paralelas dispostas verticalmente com os
pés apoiados sobre uma base plana. As imagens representadas em pé têm
os braços esticados ao lado do corpo, algumas vezes com o braço direito
erguido para apoiar-se em um cajado.
A tradicional pose masculina em pé tem sempre a perna esquerda à
frente com ambos os pés apoiados em uma base, comumente chamada
“posição de marcha”, que confere às figuras uma aparência de estabilidade
com uma melhor distribuição do volume. Essa forma, como muitas outras
da estatuária egípcia, decorre da adaptação das formas bidimensionais do
desenho e da escrita egípcia para as tridimensionais.

“Posição de marcha”:
Esq. figura masculina, IV
dinastia; Dir. escultura de
Tutankhamon, XVIII dinastia

21
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

A direção normalmente utilizada pela escrita hieroglífica era a da


direita para a esquerda, os sinais deveriam estar voltados para a direita.
Essa preferência aparece também nos relevos e pinturas que, quando estão
livres de uma composição simétrica, representam a figura mais importante
voltada para a direita. Dessa forma a perna mais longe do observador, a
esquerda, é mostrada à frente para que fosse melhor visualizada, mesmo
que a figura representada não estivesse se movimentando. Essa imagem,
quando transposta para a estatuária resultou na “posição de marcha”.
A ligação dos hieróglifos com a estatuária pode ser percebida também
quando as imagens e os textos complementam-se. Essa estreita relação é
evidente, principalmente durante o Antigo Império, onde a estátua de um
homem funcionava como determinativo para o seu nome inscrito em sua
base funcionando como um verdadeiro hieróglifo tridimensional.
Na estatuária em rocha a superfície era tratada de maneira diferente
buscando contrastar a pele e oposição às vestes e aos toucados por meio da
diferença no polimento ou no tratamento dos detalhes, como o rosto e os
membros lisos e brilhantes em oposição aos volumes rugosos e detalhados
das cabeleiras e das vestimentas dando um ritmo na composição das
imagens quebrando a monotonia.
A rocha deixada nos espaços entre as pernas e os braços, entre a
figura e um pilar dorsal ou entre duas figuras não representa uma falta de
habilidade em destacar a figura de seu bloco original, mas na verdade esse
espaço negativo tinha a intenção de dar uma aparência mais sólida e estável
às figuras e ao mesmo tempo criar espaços para imagens em relevo ou
textos.
Já as estátuas em madeira, pela sua pouca resistência do material,
permitiam aos escultores uma maior liberdade dando mais leveza e uma
aparência mais viva, embora as proporções e as poses sejam as mesmas da
estatuária em rocha elas não possuem os espaços negativos.
Essas são feitas sempre em partes separadas, como os braços, a ponta
dos pés, a base e mais raramente a cabeça, que depois eram encaixadas no
22
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

corpo e as emendas escondidas com a ajuda de resinas ou cera. Essa


técnica deve-se, em grande parte, ao alto custo das madeiras de boa
qualidade exigindo do escultor o máximo aproveitamento do material.
Muitas vezes as esculturas em madeira eram adornadas com
pequenos colares e vestidas. Por sua fragilidade eram, em sua maior parte,
de uso funerário ficando protegidas no interior das capelas e câmaras
funerárias.
Além dos aspectos externos ligados à forma e dimensões, a arte
egípcia também está relacionada com a natureza dos materiais utilizados na
confecção das obras. Por sua vez os materiais estão diretamente
relacionados com as cores. A aparência externa não era mais importante
que a substância interna. Essa conotação entre cor e substância é uma das
razões pelas quais as cores eram frequentemente um elemento de afirmação
e confirmação simbólica, identificando e definindo a natureza essencial
daquilo que é retratado.
A utilização das cores poderia ser empregada de duas maneiras,
esculpindo uma figura e depois colorindo-a, como por exemplo as rochas
calcárias e a madeira, ou confeccionando-a em um material que já tivesse a
cor desejada, como as rochas de coloração avermelhada, o arenito e o
granito vermelho, que eram utilizadas na confecção de estátuas relacionadas
ao culto solar, ou as rochas escuras, o basalto e o diorito, identificadas com
a força regeneradora do limo fertilizante deixado pelas cheias do Nilo. Para
os egípcios as qualidades físicas dos materiais eram portadoras de
qualidades mágicas. Além disso representar um ser em um material
virtualmente indestrutível era uma forma de assegurar uma duração eterna.
Naturalmente não podemos considerar que toda cor e variação de
tonalidade sejam possuidoras de alguma significação simbólica. Na verdade
as cores, antes de tudo, fazem uma referência à realidade aparente dos
seres e dos objetos ou são aplicadas com finalidade estética buscando uma
melhor visualização através da sua combinação.

23
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

A estatuária egípcia causa mais admiração ainda quando vemos o


ponto de maestria do artista egípcio que, trabalhando com ferramentas
muito primitivas limitadas a pequenos cinzéis em cobre e bronze e malhos
em madeira, obtiveram um resultado de grande qualidade em rochas duras,
como o granito e o basalto. A delicadeza dos detalhes e o polimento das
superfícies com areia mostram a paciência e a devoção desses artistas ao
seu ofício.
Na escultura e na extração das rochas eram utilizadas ferramentas em
cobre até o surgimento do bronze no II milênio a.C., mais resistente, passou
a ser utilizado em cinzéis, cerras e enxós.
A realização das esculturas em oficinas reais ou dos templos era obra
de diversos especialistas, desenhistas, escultores, polidores, pintores e
escribas, que participavam em fases diferentes do trabalho. essa divisão do
trabalho, em verdadeiras linhas de produção, garantia um aspecto
homogêneo e constante no resultado final. Havia, também, oficinas
especializadas na execução de esculturas em pedras, metais e madeiras.
O trabalho do escultor só era facilitado por não ter que buscar a
matéria prima para o seu trabalho. O faraó era o responsável pelo envio de
expedições com o objetivo de obter rochas e madeiras para as oficinas.
Após receber uma encomenda o escultor procurava nos depósitos
reais a matéria prima adequada ao tamanho e a função da obra.
No caso da pedra ela era inicialmente cortada nas dimensões
próximas das desejadas, em seguida, os contornos da figura eram
desenhados nos lados do bloco obedecendo um quadriculado que permitia
estabelecer as proporções adequadas para cada parte da figura.
Com a ajuda de serras e cinzéis eram destacadas as partes externas
do contorno da figura e pouco a pouco ela tomava forma.
No último estágio estava o polimento com pasta abrasiva e polidores
que modelavam definitivamente e davam o polimento.
Após o trabalho do escultor vinha o escriba que gravava o nome, os
títulos e os textos da imagem.
24
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Finalmente os pintores coloriam os detalhes dos trajes e maquiagens.


Geralmente todas as estátuas em madeira e calcário eram pintadas e parece
que muitas das estátuas feitas em rochas duras também eram coloridas, ou
possuíam apliques em folha de ouro embora suas cores e revestimentos
tenham freqüentemente desaparecido.
As esculturas colossais tornavam-se um problema de engenharia civil.
As primeiras fases do trabalho numa estátua de grandes dimensões eram
realizadas na própria pedreira, sendo transportadas ao local de destino
quando quase prontas, de modo a torná-las o mais leve possível onde então
eram concluídas.
Os mestres escultores eram, muitas vezes, enviados para
supervisionar os trabalhos nas pedreiras ou ao interior do país para
confeccionar as estátuas divinas ou reais nas províncias.

8.1. Poses e Formas


As posições básicas da estatuária egípcia podem ser limitadas a:
sentadas ou em pé.

Estátuas de Divindades
Os deuses em pé são representados com o pé esquerdo à frente, na
tradicional "posição de marcha". As deusas são representadas com o pé
esquerdo ligeiramente à frente, avançando até mais ou menos a altura do
dedão do pé direito, isto é avança aproximadamente a metade do
comprimento do pé esquerdo em relação ao direito. Esta limitação do
movimento de marcha é devido ao comprimento longo e justo dos vestidos.
Na posição mumiforme são representados com os pés juntos, o corpo
envolto pela mortalha, os deuses mais freqüentemente representados são -
Osíris, Ptah, Min e Khonsu. São raras as divindades femininas
representadas nessa forma. Uma Ísis mumiforme, datada do reinado de
Amenhotep III foi encontrada em Sheikh Abada.

25
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Quando sentadas em tronos podem ser


representadas sozinhas ou lado a lado formando
díades, tríades ou em grupo, junto com outras
divindades com funções ou poderes complementares,
formando famílias, ou junto com o faraó.
Há casos em que uma deusa pode ser
representada sentada em seu trono amamentando o
seu filho divino sentado em seu colo, como as
numerosas imagens de Ísis Lactante amamentando
Hórus. Algumas vezes o faraó é representado no lugar
do filho divino sendo nutrido por uma deusa mãe como
Háthor, Renunet, Mut ou Ísis.

Normalmente as divindades não são


Deusa Sekhmet, XVIII dinastia,
representadas de joelhos, uma postura Museu do Louvre

considerada de submissão ou de status inferior.


Durante a Baixa Época e o Período Ptolomaico estátuas em madeira
representando Ísis e sua irmã Néftis mostram estas deusas ajoelhadas
numa postura de lamentação, comum às carpideiras em sinal de dor pela
morte de Osíris.
As almas ou espíritos dos deuses ancestrais de Pe e Nekhen são
representadas com o joelho direito tocando o solo, o esquerdo flexionado,
sentado sobre o calcanhar do pé direito, compondo o gesto ritual henu ou
"recitação das glorificações".
São muito raras as estátuas que mostram divindades deitadas, uma
posição associada com a inércia da morte. São conhecidas representações
de Osíris, da Baixa Época, onde o deus está deitado de bruços, o corpo
mumiforme com a cabeça erguida, representando a ressurreição do deus
pela ação dos raios do sol nascente.

26
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Estátuas Reais
Representações de reis em pé são conhecidas desde a I e II dinastias,
na tradicional pose de marcha, com o pé esquerdo à
frente, ou com os pés juntos na pose “mumiforme”
ou “osiríaca”.
A posição de marcha representa o rei em
atividade, como o executante dos ritos e
representante ativo das forças da Ordem (Maat)
enfrentando o Caos.
Quando feitas em pedra, estas imagens
normalmente o mostram com os braços esticados ao
longo do corpo, com os punhos cerrados, segurando
um pequeno cilindro, um rolo de papiro, que
simboliza o “testamento dos deuses” ou mekes.
Uma variação desta posição, surgida a partir
da XII dinastia, mostra o faraó com os braços
estendidos com as mãos abertas sobre o saiote
triangular , um gesto de respeito diante de uma Amenhotep III sobre um trenó,
XVIII dinastia, Museu de Luxor
divindade.
Figuras “mumiformes” do faraó representam-no como um Osíris
(osiriforme) é considerada uma postura passiva por ele ser uma divindade
inativa.
A pose com os pés juntos, pode estar relacionada com representação
do rei durante a realização do festival-sed ou “jubileu”, neste caso ele usa
um traje justo que termina na altura dos joelhos.
Ambas as posições – a osiriforme e a “jubilar” – foram, a partir do
reinado de Amenemhat, usadas na arquitetura. Imagens em tamanho
colossal eram colocadas entre as colunas ou formavam os pilares que
sustentavam os tetos nos pátios dos templos.

27
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Representações do rei entronizado são conhecidos desde a II dinastia,


os exemplares mais antigo são as do rei Khasekhem, encontradas em
Nekhen.
O rei é mostrado com o tronco ereto, as pernas juntas, ou ligeiramente
afastadas, os braços junto ao corpo, com as mãos sobre as coxas.
A posição das mãos varia conforme a época, embora não seja uma
regra rígida. Durante o Antigo Império, uma das mãos esta aberta e a outra
fechada com o punho sobre a coxa e o polegar voltado para cima. No Médio
Império com uma das mãos aberta e a outra fechada com o punho deitado
sobre a coxa e polegar voltado para dentro. No Novo Império ambas as mãos
são espalmadas sobre as coxas.
Algumas variações são possíveis: os braços podem estar cruzados
junto ao peito segurando os símbolos da realeza, ou apenas um dos braços
pode estar dobrado com a mão segurando os símbolos reais junto ao peito.
O trono de formato quadrado, ou retangular, tem as faces planas onde
são gravadas cenas ou inscrições. A sua base é alongada o suficiente para
caber os pés da estátua.
A mais antiga representação de um soberano ajoelhado é a de Pépi I,
onde aparece ofertando dois vasos-nu. Torna-se uma pose mais comum na
XVIII dinastia, principalmente entre os thutmósidas, estando relacionada ao
ato ritual de súplicas e devoção diante das divindades principais.
Pequenas imagens do faraó de joelhos feitas em bronze decoram os
objetos rituais utilizados no culto nos templos, como incensórios e vasos.
Nesta pose o faraó está com as pernas juntas e dobradas, os joelhos tocando
o solo, sentado sobre os calcanhares e com as pontas dos pés dobradas. O
tronco ereto ou ligeiramente curvado para frente.
A partir da XIX dinastia surge uma pose mais submissa, onde o rei é
mostrado prostrado de joelhos, com as pernas estendidas, uma mais à
frente que a outra enquanto o corpo pende para a frente com os braços
estendidos para frente segurando uma mesa de oferendas.

28
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Desde o Antigo Império são conhecidas estátuas que representam o rei


junto a divindades. Em muitos casos todas as imagens possuem a mesma
escala, colocando o rei e a divindade na mesma pose, em pé ou sentada.
Em alguns casos a divindade aparece sentada em seu trono enquanto
o rei, em menor escala, está em pé, sob a proteção do deus ou da deusa,
colocado ao lado do trono ou na frente das pernas da divindade.
Grupos podem representar o soberano sentado em seu trono com uma
figura menor a seus pés, sentada ou em pé, representando a sua esposa.
Esta forma surge na IV dinastia no reinado de Djedefre (Radjedef).
No Médio e Novo Impérios, estas figuras menores femininas ou
masculinas, representam as esposas reais, a rainha mãe, os príncipes e as
princesas.
Díades com o faraó e uma figura feminina, na mesma estatura, são
mais comuns no Novo Império. São representações da esposa real ou da
mãe do faraó. São comuns também imagens destas mulheres da família
real, em pé ou sentadas, em estátuas individuais desde o Antigo Império.
Talvez fossem colocadas junto às estátuas individuais do faraó ou dos
príncipes.
A forma mais característica da manifestação divina dos faraós são as
esfinges. As mais comuns, surgidas na IV dinastia, mostram o rei com corpo
de leão e cabeça humana, ou algumas vezes somente o seu rosto. Simboliza
as forças da natureza sob o controle do faraó. A mais famosa esfinge é a de
Giza que representa o faraó Quefrem.
Muito raras são as esfinges femininas. Algumas rainhas foram
representadas desta forma como Hatshepsut e Nefertiti. No III Período
Intermediário as mais poderosas entre as Divinas Adoradoras, uma classe
de sacerdotisas de Amon, também foram representadas como esfinges

Estátuas da Elite
Tanto os homens como as mulheres da elite, em todos os períodos,
aparecem em pé ou sentados, em estátuas individuais, casais ou grupos.
29
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Os homens em pé estão na posição de marcha, com a perna esquerda


bem a frente, enquanto as das mulheres somente o pé esquerdo avança.
Nas esculturas em madeira o homem normalmente tem numa das
mãos o cetro-sekhem ou aba e na outra o cajado, símbolos de autoridade e
prestígio social.
Nas estátuas em pedra, os braços são representados geralmente ao
longo do corpo com os punhos cerrados. As mulheres ao contrário tem as
mãos abertas ao longo do corpo, principalmente durante o Antigo Império.
Durante o Novo Império as estátuas, tanto em madeira quanto em
pedra, mostram as mulheres segurando em uma das mãos uma flor ou
broto de lótus e na outra, entre os seios, o sistro ou o colar-menat,
indicando a sua devoção ao culto da deusa Háthor.
Desde o Antigo Império casais são mostrados lado a lado, em pé ou
sentados, no mesmo tamanho, e com os seus filhos, em menor escala, ao
lado de suas pernas. Casais similares mostram o homem sentado ao lado de
sua mãe.
No Antigo Império, principalmente na V dinastia, o homem é mostrado
sentado, um sinal de prestígio, enquanto a sua esposa é mostrada ao seu
lado em pé numa escala menor. Em outras a esposa é miniaturizada em pé
ou agachada ao lado da perna do marido.
Após o final do Antigo Império as representações das esposas da elite
raramente estão em menor escala que a figura do marido.
Na XII e XIII dinastias são característicos os grandes grupos familiares
com 3, 4 ou 5 figuras de homens e mulheres, em geral em pé.
Durante a XVIII dinastia são freqüentes as estátuas de casais
sentados, mas com o final do Novo Império tornam-se raras as estátuas de
casais, talvez porque o seu uso não fosse mais destinado às capelas das
tumbas, mas dedicadas nos templos. Na mesma época surgem estátuas em
homens são representados em pé ou ajoelhados segurando imagens de
divindades.

30
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Homens da elite são muitas vezes mostrados como escribas, não


importando a função que exerciam. O homem está sentado com as pernas
cruzadas com o saiote esticado sobre as coxas formando uma superfície
onde o rolo de papiro é desenrolado para ser lido ou escrito.
Ser um escriba era um pré-requisito para os cargos administrativos
ligados ao palácio ou aos templos. Estátuas de homens da elite como escriba
são características do Antigo Império, mas mantiveram-se comuns até o
Novo Império. Tornam-se raras durante o III Período Intermediário,
desaparecendo até a XXVI dinastia quando voltam à moda no Período Saíta,
quando são copiados os modelos da estatuária do Antigo Império. É uma
forma exclusivamente masculina, pois as mulheres não exerciam carreiras
administrativas.
No I Período Intermediário uma nova
forma é criada para as estátuas de homens da
elite. Estes são representados sentados com os
joelhos fletidos junto ao peito, envolvidos por
um manto que lhes dá a aparência e o volume
externo do corpo, das pernas, dos pés, onde
somente a cabeça se destaca. Esta forma lhe
valeu a denominação de "estátuas cubo" ou
"estátuas bloco".
Permaneceu em uso, com algumas
variações estilísticas, por aproximadamente 2
mil anos tornando-se, do III Período Intermediário
Estátua bloco, XXI dinastia
até o Ptolomaico, a forma mais comum de estátuas Museu do Cairo

masculinas da elite.
O modelagem e os detalhes do corpo, da cabeça e do toucado variam
conforme o período. Em alguns casos somente a cabeça se destaca do corpo
cúbico, em outras também as mãos os pés são representados. Em algumas
os braços são representados cruzados no topo do bloco - sobre os joelhos –
com as mãos fechadas segurando amuletos ou cetros.
31
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

A superfície cúbica fornece uma área ideal para inscrições e no III


Período Intermediário também para figuras incisas de divindades.
São muito raras estátuas cubo representando mulheres ou grupos e
nunca são usadas para representar os reis ou as divindades.
Embora algumas destas estátuas tenham sido encontradas em
capelas de tumbas, a maioria era destinada aos pátios dos templos e às
capelas votivas.
No final da XII e XIII dinastias, a forma de cubo foi adaptada para a
representação de estátuas de escribas. Como se uma longa túnica cobrisse o
corpo envolvendo as pernas, esta forma foi revivida durante o Período
Ptolomaico.
Estátuas masculinas ajoelhadas tornam-se comuns na XVIII dinastia
representando um homem segurando a sua frente uma estela, com hinos
dedicados ao deus-sol. Eram colocadas no alto das entradas das capelas
funerárias representando o morto, o proprietário da tumba. Estavam
voltadas em direção do sol nascente.
Um outro tipo de estátua tinha a intenção de ser depositada nos
pátios dos templos, como símbolo de devoção e buscando as graças da
divindade. São invariavelmente homens da elite
representados de joelhos segurando com as mãos
à frente do corpo um tabernáculo (naos) com a
imagem divina ou emblemas sagrados, como a
serpente símbolo da deusa Renenutet ou o sistro
da deusa Háthor. Este tipo de estátua foi
bastante popular durante o III Período
Intermediário e Ptolomaico.
A partir da XIX dinastia até o Período
Ptolomaico oficiais da corte podem ser

representados em pé ou sentados segurando, ao Estátua de oficial carregando


estandarte , XIX dinastia,
lado do corpo, estandartes com imagens e Metropolitan Museum

32
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

símbolos de seus deuses de devoção. Essa forma inspirou-se nas estátuas


reais da mesma época.
Durante um breve período durante a IV dinastia estátuas
representando somente a cabeça e o pescoço e sem o corpo, o que levou a
denominá-las "cabeça reserva", foram feitas na oficinas reais para os
membros da família real e altos funcionários da corte.
Geralmente feitas em calcário, a hipótese mais aceita para a sua
função é a de servirem como substitutas ou sobressalentes caso a cabeça do
morto fosse destruída. Foram encontradas cerca de 30 destas cabeças,
todas provenientes de Giza, encontradas nos poços de acesso às câmaras
funerárias em mastabas que não possuíam capelas ou serdab.

8.2. Contexto e Função


As estátuas ao mesmo tempo definem e são definidas pelos locais para
os quais foram destinadas. A sua função primordial está ligada ao culto
divino ou funerário, predominando sobre as representações bidimensionais
(pintura e relevo).

Estátuas Divinas
As estátuas de culto são o elemento mais importante dos templos,
pelas quais as divindades manifestam-se e são o ponto focal dos rituais.
Eram colocadas no tabernáculo que ficava no interior do santuário, a parte
mais sagrada e protegida dos templos.
Todos os dias as portas do tabernáculo eram abertas e diante da
imagem eram realizados os rituais que animavam a estátua fazendo com
que o espírito de uma divindade incorporasse nessa imagem.
Poucas dessas estátuas de culto sobreviveram até os nossos dias.
Eram feitas em ouro e prata com detalhes em pedras preciosas, como o
lápis-lazúli, a turquesa e a cornalina. Quase todas foram derretidas e as
pedras reutilizadas.

33
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Eram feitas em metal maciço ou em madeira revestidas com folhas de


outro ou prata. Segundo a simbologia dos materiais utilizados, o ouro era
considerado a carne dos deuses, a prata os seus ossos e o lápis-lazúli os
seus cabelos. Para os egípcios estes materiais teriam uma origem celeste,
como a própria origem das divindades: o ouro era identificado ao sol, a prata
à lua e o lápis-lazúli ao céu.
Embora os templos fossem dedicados a uma divindade principal,
outras poderiam ser acolhidas como divindades convidadas, manifestando-
se em suas próprias estátuas guardadas em santuários anexos. Além da
imagem de culto principal outras estátuas divinas eram dedicadas pelos
faraós no interior dos templos, geralmente, feitas em pedras e numa escala
maior.
As mais antigas das estátuas divinas feitas em pedra datam do
Período Dinástico Inicial. Elas representam o deus Min itifálico e foram
encontradas em seu templo em Coptos.
Os faraós costumavam dedicar imagens divinas em pedra nos templos
por todo o Egito, na época da realização do seu "jubileu". Tais estátuas eram
tão importantes que a sua confecção era, muitas vezes, registrada nos anais
reais.
Do final do III Período Intermediário até Período Ptolomaico tornou-se
freqüente a deposição pelos fiéis, nos grandes templos, de pequenas
imagens votivas de divindades feitas em bronze. A maior parte sem
inscrições feitas em grande quantidade. Poucas trazem os nomes e títulos de
seus devotos e são bastante comuns nas coleções e museus por todo o
mundo.
Sabemos pouco sobre a presença de estátuas divinas em tumbas reais
anteriores ao Novo Império, mas durante as XVIII e XIX dinastias parece ter
sido freqüente a presença deste tipo de estátua nas tumbas reais do Vale
dos Reis, como as encontradas nas tumbas de Amenhotep II, Thutmés IV,
Tutankhamon e Horemheb. A maioria das que sobreviveram aos saques é
em madeira revestida com a resina negra ou coberta com folha de ouro.
34
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Estátuas divinas são pouco comuns em contextos funerários da elite


do Antigo Império até a XVIII dinastia. Durante o Período Ramessida (XIX-
XX dinastias), como conseqüência das mudanças nas concepções
funerárias, imagens de divindades, principalmente em madeira, passaram a
ser colocadas nas tumbas.
As capelas dessas tumbas passaram a ser concebidas como templos
particulares onde o morto e seus familiares adoravam os deuses, após a
morte, e nessas capelas imagens divinas dividiam o ritual com as estátuas
que representavam o morto.
Ainda no Período Ramessida e, principalmente, durante o III Período
Intermediário tornou-se comum a confecção de imagens em madeira
cobertas por uma resina negra representando o deus Osíris utilizadas para
guardar o "Livro dos Mortos" e colocadas próximas ao caixão.
Nessa época, também, eram populares as estátuas em madeira
estucada e pintada representando divindades funerárias, como Ptah-Sokar-
Osíris, Ísis e Néftis como carpideiras, Anúbis e os Quatro Filhos de Hórus.

Estátuas Reais
Encontradas em sua maioria nos complexos funerários, nos templos
de culto, nas tumbas reais e, muito raramente, em tumbas não reais.
As primeiras tumbas reais encontradas em Ábidos datadas da I
dinastia possuem câmaras que poderiam, originariamente, conter uma
estátua do rei. Entretanto, a primeira prova da existência de uma estátua
real num complexo funerário é datada da III dinastia, em Saqqara, naquele
do faraó Djoser, onde um grande número de estátuas do faraó foi
encontrado, a melhor preservada estava no interior do serdab. Durante o
Antigo e Médio Impérios estátuas reais eram colocadas nos templos anexos
às pirâmides, onde realizavam-se os cultos em memória ao faraó, tanto
durante a sua vida como após a morte. Diante dessas imagens eram feitas
as oferendas e os rituais que eternizavam o caráter divino do rei.

35
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Nas tumbas reais do Vale dos Reis foram encontradas imagens que
representavam os faraós, em sua maioria, em madeira folheada a ouro. Na
tumba de Tutankhamon as imagens do rei estavam, em maior parte,
envoltas em linho e no interior de relicários selados. Duas estátuas em
tamanho natural representando o faraó, feitas em madeira cobertas com
resina negra e detalhes folheados a ouro, foram colocadas guardando a
entrada da câmara funerária. Outras, menos preservadas, foram
encontradas em outras tumbas no Vale dos Reis.
Estátuas de faraó feitas em pedra e de vários tamanhos e formas eram
colocadas em todos os templos do Egito, as mais antigas representam o rei
Khasekhemwy, da II dinastia, encontradas no Templo de Hórus, em Nekhen.
Segundo os anais reais do Antigo Império estátuas representando o faraó
feitas em cobre foram dedicadas nos templos.
Do final do Antigo Império até a XI dinastia imagens dos faraós eram
colocadas em capelas especiais no interior dos templos de divindades, como
Bastet, em Bubástis, e Khentiamentiu, em Ábidos, onde o espírito do rei (ká)
era cultuado.
A associação do faraó com os deuses dava-se por intermédio da forma,
por exemplo a mumiforme associando-o a Osíris, por meio da matéria prima
das estátuas, como o granito vermelho e o quartzito, associados ao deus sol
ou mostrando o faraó junto com as divindades formando díades, tríades e
grupos.
Durante o Período Amarniano pequenas estátuas de Akhenaton,
algumas acompanhadas pela rainha Nefertiti, eram colocadas nos altares
domésticos, em relicários no interior das casas ou nos jardins da nova
capital, Amarna (Akhetaton). O mesmo culto doméstico aconteceu, também,
com as imagens de seus pais, Amenhotep III e a rainha Tyi.
Durante a XIX dinastia imagens, em sua maioria feitas em madeira,
do faraó Amenhotep I e sua mãe, a rainha Ahmés Nefertari, eram cultuadas
em santuários e pequenas capelas em Tebas ocidental, principalmente,
pelos artistas e artesãos da vila dos trabalhadores em Deir el-Medina.
36
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Desde o Antigo Império o faraó é representado sob a forma de uma


esfinge e colocado aos pares como protetor dos espaços sagrados na entrada
dos templos e, durante o Novo Império, desenvolveram-se em avenidas de
esfinges que protegiam os eixos das procissões ligadas às entradas dos
templos.
Também no Novo Império eram colocadas estátuas colossais dos
faraós, em pé ou sentados em tronos, aos pares diante dos pilonos dos
templos como proteção do espaço sagrado isolando-os do espaço profano
externo. Essas imagens colossais, além de ser uma forma de propaganda do
poder real, eram objetos de culto por parte do povo que não tinha acesso ao
interior dos templos e utilizavam as imagens dos faraós como intermediários
até os deuses.
No III Período Intermediário pequenas imagens do faraó, feitas em
bronze, eram ofertadas como ex-voto nos templos pedindo a sua intervenção
junto às divindades.
Pequenas imagens do faraó feitas, principalmente, em metal (bronze,
prata ou ouro) eram, muitas vezes, partes de objetos e mobiliários rituais
utilizados no culto nos templos como incensórios, mesas de oferendas e
barcas sagradas. É uma forma de representar o faraó como realizador
perpétuo de todos os ritos em todos os templos do Egito.
O faraó, considerado um ser humano que incorporava um aspecto
divino da realeza (ká real), tinha em suas estátuas o princípio de que a
representação não era a do soberano como um ser humano, mas a
instituição da monarquia faraônica na imagem do rei como um Hórus
momentaneamente humano.
Este conceito explica o porquê de muitas das estátuas reais, de épocas
anteriores, serem reutilizadas por faraós posteriores, como as de Amenhotep
III e as dos faraós do Médio Império utilizadas por Ramessés II. Não se trata
de uma usurpação, mas uma reativação ou atualização do passado, uma
espécie de manutenção e reciclagem da função real. Em muitos casos as
inscrições originais são mantidas e novas são acrescentadas,
37
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

principalmente, os nomes reais. Em casos raros o rosto da estátua original é


modificado para corresponder aos traços do novo soberano.
Isto significa que muitas estátuas reais, principalmente, do Médio e
Novo Impérios, identificadas por suas inscrições, podem ter na verdade
feições de outros faraós.

Estátuas da Elite
No início do Período Dinástico e durante o Antigo Império as estátuas
dos membros da elite eram exclusivamente ligadas a contextos funerários e
nunca colocadas nos templos onde, somente, as estátuas das divindades e
dos faraós eram depositadas. Essas estátuas eram o receptáculo para o
espírito (ká) do morto e recebiam as preces, as oferendas e incenso dos
vivos.
As tumbas da elite do Antigo Império possuíam uma câmara funerária
subterrânea onde era colocado o corpo do morto. Esta era conectada a um
poço que, após os funerais, era selado. Logo acima deste poço, construída
acima do solo, estava a mastaba e em seu interior ficava a capela acessível
aos familiares e sacerdotes e onde eram realizados os rituais e as oferendas
ao morto.
O ritual estava focado em uma porta falsa colocada na parede oeste da
capela, por onde era feito o contato com o Mundo dos Mortos. Atrás desta
porta falsa, muitas vezes, havia uma sala selada que continha uma ou mais
estátuas do morto e de seus familiares (serdab). Em capelas de tumbas
escavadas na rocha do final do Antigo e Médio Impérios as estátuas eram,
muitas vezes, esculpidas na própria parede do fundo da capela e não ocultas
em um serdab.
A partir do Médio Império o ponto focal do ritual funerário deixou de
ser a porta falsa passando a ser a estátua do morto esculpida na parede ou
livre colocada em um tabernáculo ou nicho. Estátuas de outros membros da
família, principalmente, a esposa do morto poderiam ser incluídas nas
capelas.
38
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Essa tradição continuou durante o Novo Império com a estátua do


morto colocada no fundo da capela, em um nicho, ou esculpida diretamente
na parede.
A partir do III Período Intermediário o número de estátuas colocadas
nas capelas das tumbas diminuiu passando a ser dedicadas nos templos e
colocadas nos pátios, também com uma função funerária, buscando o favor
dos deuses e participando dos rituais cotidianos realizados pelos sacerdotes.

O costume de associar as estátuas da elite aos deuses surge no Médio


Império onde em Ábidos, centro de culto do deus Osíris no Alto Egito, eram
construídas capelas próximas à rota processional que conduzia ao templo e
nelas colocadas estelas e estátuas que permitiam ao seu proprietário uma
participação eterna no culto do deus e após a morte o ajudaria em uma
ressurreição e um destino póstumo.
Colocar uma estátua no templo formava um elo entre o fiel e a
divindade, permitindo que o doador tivesse uma presença eterna no culto.
Embora a estátua pudesse ser colocada enquanto o seu proprietário
estivesse vivo ela continuaria a funcionar após a sua morte, tornando-se
uma estátua funerária.
O mecanismo de dedicação de uma estátua em um templo não é claro,
mas parece ter sido privilégio de um número limitado de oficiais e
administradores da elite, algumas vezes inscrições nessas estátuas
registram que eram dadas como um favor do faraó.
Possuir uma estátua em um templo era um sinal de status e era
necessário manter uma provisão de oferendas constante. Como parte do
ritual os proprietários das estátuas estipulavam um contrato formal com os
sacerdotes do templo para que as oferendas e os rituais fossem,
regularmente, feitas diante das imagens.
A partir do Novo Império as estátuas de oficiais da elite traziam,
muitas vezes, textos apelando à divindade do templo que ela o beneficiasse
repassando as oferendas divinas.
39
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

São poucas as estátuas de mulheres dedicadas nos templos, a maior


parte são provenientes de tumbas. No III Período Intermediário, entretanto,
as estátuas das Divinas Adoradoras de Amon, sacerdotisas reais em Tebas,
tinham as suas imagens colocadas no grande Templo de Karnak, e durante
o Período Ptolomaico manteve-se o costume de colocar estátuas da elite nos
templos e algumas representando mulheres também foram encontradas.
Podemos estabelecer um sistema classificatório correlacionando
rochas com a sua utilização na estatuária conforme o grupo social e a
função a qual se destinava. Cada uma das categorias comporta exceções,
mas podemos organizá-las conforme o esquema abaixo:
Estátuas em Rochas Duras Estátuas em Grés Estátuas em Calcário
Magmáticas Plutônicas Sedimentar Sedimentar
Magmáticas Vulcânicas
Quartzofeldspáticas
Jazidas Distantes Jazidas pouco distantes Jazidas locais
Estátuas de Templos Estátuas de Tumbas e Estátuas de Tumbas
Culto Oficial Votivas - Culto Particular Culto Particular
Grandes Dimensões Dimensões médias Poucas Dimensões
cerca de 60cm cerca de 30cm
Principalmente Estátuas Reais, Principalmente Estátuas de Principalmente Estátuas
Masculinas e Divindades Casais da Elite de Casais ou de Mulheres
Elite de Dirigente do Estado Elite Local e Sacerdotal Administradores Locais e
Baixo Clero
Estilo Oficial Estilo Intermediário Estilo Não Oficial
Oferta Real Oferta Particular Oferta Particular
Muitas Inscrições Inscrições Moderadas Poucas Inscrições
Inscrições Simétricas Inscrições Simétricas Inscrições Assimétricas
Inscrições Temporais Inscrições Temporais e Inscrições Atemporais
(datadas e com nomes Reais) Atemporais
Epigrafia Cuidadosa Epigrafia Pouco Cuidadosa Epigrafia Descuidada

8.3. Inscrições e Decorações


A maioria das estátuas egípcias possuíam inscrições e, muitas vezes,
decorações em relevo. Colocar o nome em uma estátua dava-lhe uma
confirmação de sua identidade. Algumas estátuas, entretanto, não possuem
inscrições e a sua identidade é dada pelo contexto, funerário ou divino.
Algumas eram, originalmente, colocadas no interior de tabernáculos e
nichos, este com inscrições identificadoras. A identidade de uma estátua
40
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

era, muitas vezes, alterada apagando-se o nome original e substituindo por


outro.
As estátuas divinas possuíam não somente o nome específico do deus
ou da deusa mas também, em muitos casos, incluíam o nome daquele que
ordenara a sua confecção. No caso das grandes imagens colocadas nos
templos o nome do faraó era, muitas vezes, escrito com os títulos de "Filho
ou Amado" da divindade. A inscrição não somente identificava a divindade
mas também mostrava um elo entre o soberano e a divindade, colocando-o
como o promotor do culto e em troca era reconhecido pelos deuses como rei.
As laterais dos tronos, tanto dos faraós como das divindades, eram,
muitas vezes, decoradas com relevos do smatawi, que simbolizava a união
do Alto e do Baixo Egito. Consistia de um

hieróglifo central æ que significa "unir" em

volta do qual as plantas heráldicas do Alto e


do Baixo Egito, o lírio ou lótus e o papiro
respectivamente, estão amarradas. Nas

estátuas dos faraós simbolizavam-no como o rei Smatawi, XVIII dinastia, tumba de
das Duas Terras e o unificador do Egito. Tutankhamon

Em alguns casos, nos tronos reais, este motivo pode ser mais
elaborado estando, junto com o smatawi, dois deuses representando as
Duas Terras. Podem ser o deus Seth, para o Alto Egito, e Hórus, para o
Baixo Egito. Em alguns casos como Seth era uma divindade com aspectos
perigosos a sua imagem era substituída pela do deus Thoth, como
representação do Alto Egito. Mais freqüente é o aparecimento, junto com o
smatawi, dos deuses da fecundidade, ou como são chamados "Os Dois Nilo".
São personificações da riqueza do Egito. Um deles usa o lírio do Alto Egito
em sua cabeça e o outro o papiro do Baixo Egito. Tais decorações eram
orientadas de forma que a figura do Alto Egito estivesse voltada para o sul e
a do Baixo Egito para o norte.

41
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

No topo da superfície da base das estátuas reais, sob os pés dos


faraós, são frequentemente esculpidos nove arcos, que simbolizavam os
inimigos do Egito e as forças do caos subjugados pelo faraó, algumas vezes

>
acompanhada pela frase “todas as terras estrangeiras estão sob os seus pés
j
ou (sandálias)" (xAswt nbt nstTbwty-k) 5 ! i Ui?
!
Nas estátuas da elite era comum incluir imagens em relevo de
membros da família, especialmente, os filhos.
Durante o Antigo Império as estátuas dos oficiais da corte eram,
normalmente, inscritas com os títulos e os nomes da pessoa representada.
Do final da IV dinastia e durante as V e VI dinastias as estátuas funerárias
da elite possuíam, frequentemente, junto ao nome do morto a designação
imakhu "venerado" (imAx) 1 iB ou imakhu kher netjer aa "venerado diante

do grande deus" (imAx xr nTr aA)


B 3|
1 iB MM
A partir do Médio Império as estátuas de particulares também traziam
a fórmula de oferendas hetep di nesu "oferendas que o rei faz"
!
(Htp-di-nsw) 6 /( Esta fórmula originalmente desenvolvida em caixões
e estelas invocava as divindades funerárias Anúbis e Osíris para que eles
beneficiassem o morto. Esta inscrição com o tempo passou também a ser
inscrita em estátuas dedicadas nos templos, onde a fórmula invocava as
divindades do templo onde a estátua era dedicada, buscando compartilhar
as oferendas colocadas nos altares das divindades.
No Médio e Novo Impérios algumas estátuas de homens da elite são

M B ! tB !
designadas, nas inscrições, como "dada como um favor do rei"
(rdim Hsitwn xrt nsw)
]1 <X K 5 ! M6 t o que destaca
o status do representado.
Era freqüente, também, usar a superfície das estátuas como espaço
para textos autobiográficos listando a carreira administrativa, os cargos e
obrigações realizados pelo representado.

42
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

A partir do final do Novo Império estátuas de oficiais trazem, muitas


vezes, o cartucho com o nome do faraó a quem serviram gravado na
superfície de seu corpo.
Durante o III Período Intermediário imagens em relevo de divindades e
símbolos sagrados eram gravados na superfície das estátuas, um
procedimento que se manteve até o Período Romano.
Muitos dos textos inscritos nas estátuas eram feitos sem a
preocupação de serem lidos, eram colocados nas laterais ou nas costas de
imagens que eram guardadas em relicários. No caso das estátuas colossais
as inscrições são, muitas vezes, ocultas por estarem no alto das estátuas ou
por serem encobertas pelas paredes e colunas dos edifícios. Isso indicaria
que os textos eram mais para os deuses e para os mortos que para os vivos,
explicando o porquê de muitas esculturas com inscrições terem sido
colocadas em câmaras seladas (serdab) onde não poderiam ser lidas, pois
para os egípcios o mundo era habitado pelos deuses e pelos mortos. Além do
mais a presença de hieróglifos era, por si mesma, um sinal de status e
prestígio somados à estátua.

9. O DESENHO EGÍPCIO
Quer tratemos da expressão gráfica sobre um fundo plano (pintura),
relevo (desenho e escrita) ou da expressão plástica no espaço (escultura e
arquitetura) a arte egípcia é uma arte intelectual motivada por um sistema
de pensamento muito elaborado.
Para o artista egípcio a verdadeira realidade é aquela do conceito
intelectual. Para exprimir o que são os seres vivos e as coisas em sua
essência mais profunda a expressão artística deve resistir às “ilusões”
ópticas limitantes; a busca do artista é a de mostrar a totalidade da figura
retratada, tornando-a inteligível, ao invés de reproduzi-la ou recopiá-la em
um momento fixo.
O desenho egípcio desconhece improvisações, ao invés, usa uma
reflexão sobre a visão que lhe é transmitida. Esta convenção figurativa parte
43
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

do princípio que a representação do real deve dar-se pelo pensamento


(realismo intelectual) e não pela figuração tal como a vemos (realismo
visual).
Esta representação começa analisando lucidamente os seres e as
coisas a fim de descobrir as suas características diversas e as mais
reveladoras de sua personalidade individual com todos os seus
componentes. Para que isso possa acontecer sem dúvidas ou erros o uso de
sombra e luz, do claro e do escuro, não possui nenhum papel no desenho
egípcio.
Do mesmo modo a perspectiva, embora conhecida, possui um
interesse mínimo, pois, o que interessa não é o que se vê mas as qualidades
do que é representado.
Assim, o desenho egípcio bem como toda a produção dita artística do
Egito Antigo não é uma arte estética que busca a beleza como finalidade. As
formas e os temas foram escolhidos, desde os tempos Pré-dinásticos, em
relação ao seu uso e a sua função ligadas conceitualmente às esferas da
religião. Por isso a arte egípcia é frequentemente denominada de “utilitária”,
contudo, o mais correto seria classificá-la como “arte funcionalista”, por sua
associação do conceito da forma com a função, em oposição à “arte
naturalista” concebida como uma técnica de imitação da natureza.
Assim a noção de arte pela arte, cuja finalidade é não ter limites, não
pode ser aplicada à civilização egípcia, mesmo no caso das mais belas
produções, cuja expressão “obra-prima” não seria um exagero.
Uma conseqüência desta “arte intelectual” motivada por um sistema
de pensamento muito elaborado, foi o tratamento destacado dado ao
artista/artesão que era designado pelo termo seankh - “aquele que faz viver”.
O trabalho do artista egípcio é comparado àquele do demiurgo, de fato a
cada imagem esculpida ou pintada o artista refaz o ato inicial da criação, o
artista egípcio “era quase um fabricante de fetiches”.

44
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Partindo de uma visão mitológica do universo e procedendo a uma


manipulação mágica das energias que o animam o artista/artesão cria seres
tão reais quanto aqueles dados pela natureza”.
Para os egípcios um belo monumento ou uma bela obra de arte não
existia o que existia era “uma obra eficiente” (mnx) .B \
t
9.1. Princípios de Associação de Pontos de Vista
Para que a imagem representada seja integral o desenhista associa
elementos correspondentes a diferentes modos de observação; o objeto é
observado ao mesmo tempo de frente, de perfil e de três quartos, em seguida
transcrito, justapondo-se os traços mais característicos colocados em
destaque.
Este aparece inicialmente na representação do ser humano. O olho, os
ombros e o peito são figurados segundo uma visão frontal: o olho é visto
inteiramente sem nenhuma parte encoberta, o tronco de frente revela a
musculatura e a força dos movimentos. A visão lateral é usada para a
cabeça, as pernas, os pés e os braços. O perfil é o elemento mais revelador
de um retrato, aquele que melhor compreende a estrutura da face.
As pernas vistas lateralmente, com o
pé esquerdo à frente, simula o andar e
impede que uma das pernas fique
encoberta pela outra. O quadril é
representado em três quartos para que o
umbigo possa ser visto e para tornar mais
clara a ligação do tronco com as pernas. As
mesmas combinações aplicam-se às
representações femininas, contudo, o seio é
representado de perfil sobre o tórax sempre
visto de frente.
Este princípio aplica-se igualmente às
Sá-Inheret e sua esposa Hepu,
XII dinastia, Museum of Fine representações de animais como no caso
Arts, Boston
45
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

dos bovídeos: cabeça, corpo e patas vistos de perfil, e o olho, os chifres e o


tufo de pelos da cauda vistos de frente.
Por este princípio o objeto ou o ser representado é mostrado com
todos os elementos reveladores, necessários à visualização de sua essência,
de modo a ter assegurada a sua existência mágica.
A associação de pontos de vista é também empregada em paisagens e
cenas localizadas no tempo e no espaço. Em relação ao espaço este princípio
combina uma vista de plano superior (elevação) com uma visão segundo a
frontalidade: o Nilo ou um lago em um jardim são sempre representados em
um plano superior, com uma visão aérea, enquanto que as plantas, os
peixes e as aves no interior do lago são representados em perfil. A visão
aérea é aqui utilizada por fornecer uma melhor compreensão do espaço.

Navegação em um lago, tumba de Rekhmirê, XVIII dinastia, Tebas

A associação de pontos de vista é também válida para a noção de


tempo. O desenhista retrata diferentes momentos de uma ação ao longo do
tempo, encadeando os fatos, dando assim uma imagem racional de uma
ação. Deste modo uma cena é horizontalmente retratada, ação por ação,
como um filme cinematográfico com seus quadros congelados.

46
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Estes verdadeiros instantâneos constituem uma série contínua


permitindo compreender todos os detalhes da ação. Este recurso é
empregado principalmente em cenas agrícolas, em procissões funerárias e
em cenas do banquete.

9.2. Princípio da Supressão das Máscaras


Este princípio visa suprimir tudo que for nocivo à compreensão
intelectual de um ser, um objeto ou um conjunto; todo elemento que possa,
eventualmente, sobrepor-se a outro é afastado segundo um conjunto de
processos à escolha do desenhista.

Processo de Cortes e Transparências


Quando um continente mascara um conteúdo pratica-se no primeiro
objeto um corte ou uma transparência de forma que o objeto representado
torne-se totalmente visível; no caso de pássaros pousados sob as folhagens
de uma árvore o desenhista simplesmente retira as folhas e os galhos que os
encobre. A transparência é normalmente usada quando o objeto está imerso
em um líquido ou está dentro de um recipiente; este recipiente ou o líquido
são representados simplesmente pelos seus contornos.

Pássaros dentro de uma caixa, mastaba de Ti, V dinastia, Saqqara

47
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Deslocamento Lateral
Quando os vários personagens ou objetos encontram-se no mesmo
plano e na mesma linha de visão (os primeiros encobrindo o restante), o
desenhista desloca horizontalmente as silhuetas de cada um, de forma que
todos tornem-se discerníveis. Este deslocamento traduz na verdade a
profundidade da realidade óptica.
Este processo é empregado nas cenas do banquete funerário onde os
convidados, os serviçais e os músicos estão cuidadosamente alinhados
horizontalmente, lado a lado em um mesmo plano, embora, na realidade, a
distribuição dos participantes não fosse organizada desta maneira racional.

Procissão Funerária, tumba de Ramose, XVIII dinastia, Tebas

O deslocamento lateral encontra-se sempre presente na representação


de casais sentados juntos onde a esposa encontra-se sempre representada
atrás do marido, ombro a ombro, e com uma das mãos apoiada sobre o
ombro dele.

48
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Na verdade, como vemos nas representações deste tema em estátuas,


a esposa encontra-se ao lado do marido, preferencialmente à direita dele, ele
sendo o suporte protetor da mulher. Este deslocamento é feito para que a
figura da mulher não encubra a figura do marido e para que ela também
não seja encoberta. Desta forma a mulher sempre aparece atrás do marido,
estando à direita nos grupos voltados para a direita com o braço esquerdo
apoiado no ombro do marido, e à esquerda nos grupos voltados para a
esquerda com o braço direito apoiado no ombro do marido.

Casal, tumba de Djehuty, Estátua funerária de um casal,


XVIII dinastia, Tebas Novo Império, Tebas
British Museum

Este processo aplica-se também às cenas de cortejo funerário, de


colheita, preparo e contagem do trigo e rebanhos.

Deslocamento Vertical
Este terceiro processo de supressão de máscaras é de utilização mais
ampla e freqüentemente uma variante das outras modalidades já
mencionadas.
A forma mais simples de sua utilização é a representação de oferendas
alimentares. Para que uma não encubra as outras o desenhista eleva-as,
colocando umas sobre as outras, de tal forma que todas possam ser
visualizadas.

49
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Este deslocamento é utilizado em todas


as cenas onde os alimentos estão dispostos
sobre esteiras, cestos e mesas, atingindo uma
complexidade de detalhes precisos de cada
oferenda respondendo à uma necessidade de
assegurar a mais completa eficiência da
imagem.
Um segundo caso de utilização deste
deslocamento observa-se quando o continente
mascara o conteúdo, como no caso da
transparência, o objeto que estaria oculto na
Mesa de Oferendas, tumba de Nakht,
representação óptica passa a ser XVIII dinastia, Tebas

representado acima do objeto que o


mascararia. Este recurso também é utilizado para representar os objetos
guardados no interior de arcas, cestos e cofres colocando o conteúdo sobre o
seu recipiente.
Uma terceira aplicação deste processo é observada em personagens
participantes de um mesmo espaço, porém, dispostos em planos de
profundidade diferentes distribuídos em registros.

50
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

9.3. Princípio da Variação de Tamanho


Este princípio tem como objetivo
traduzir a importância respectiva dos seres,
dos objetos e das ações conferindo-lhes um
valor. É a variação do tamanho que permite
valorizar a figura ou um determinado
elemento de uma cena. Assim podemos
destacar a hierarquia social e familiar: marido
maior que a esposa, o senhor maior que os
serviçais, e o faraó e os deuses maiores que

todos. Estela do governador Inhuretnakht e sua


esposa Hui, XI dinastia, Naga ed-Deir,
Todavia, este princípio não é obrigatório British Museum
e, muitas vezes, encontramos uma igualdade
de tamanho tornando-se uma possibilidade para o desenhista destacar um
valor proeminente, um detalhe importante ou um elemento principal. O
casal proprietário do túmulo é normalmente representado maior que as
outras pessoas representadas.
Um recurso muito empregado na
pintura e no relevo, e menos
frequentemente na escultura, é o da
isocefalia, que consiste na equalização do
tamanho de duas ou mais figuras pelo
ajuste das cabeças das figuras no mesmo
nível variando-se a escala e muitas vezes
também colando a figura menor sobre uma
base. Os artistas egípcios elaboraram,
portanto, um sistema variado a fim de
Tumba de Nakht, tornar claras todas as realidades da vida,
XVIII dinastia, Tebas
seus aspectos materiais tanto quanto seus

51
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

valores morais. Um desenho deveria ser satisfatório e funcional não aos


olhos mas ao espírito.

9.4. Os Registros
São a base de toda a representação gráfica egípcia em todas as épocas
e são, em princípio, iguais em tamanho e comportam figuras de dimensões
iguais.
Os registros, as faixas horizontais onde as figuras estão inseridas, não
são uma simples comodidade, mas um elemento orgânico do sistema do
desenho egípcio; ele não é uma simples divisão é uma linha contínua que
situa as figuras no tempo e no espaço.
Traçando uma linha horizontal contínua sob os pés das figuras,
chamada de “linha de terra”, o desenhista lembra ao observador que todos
estão inseridos no mesmo espaço, sobre o mesmo solo.
A justaposição de registros indica muitas vezes uma ordem
cronológica dos eventos representados, os anteriores, isto é os primeiros,

Parede Norte-Leste, Tumba de Nakht, XVIII dinastia, Tebas

52
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

são normalmente contidos nos registros superiores.


Uma outra aplicação dos registros é observada em personagens
participantes de um mesmo espaço, porém, dispostos em planos de
profundidade diferentes. O desenhista pode deslocá-los, como já vimos,
horizontalmente destacando uns dos outros, contudo, pode igualmente fazer
figurar os planos de profundidade em alturas diferentes representando os
planos mais distantes sobre os mais próximos. Neste caso a “leitura” da
cena deve começar pelo registro inferior, pois, comporta as cenas que se
desenvolvem no primeiro plano ou descreve a primeira cena de uma
seqüência de tempo que se segue nos registros inferiores.
Esta técnica é bastante aplicada nas cenas em que as figuras são
representadas em pequenos grupos, uns sobre os outros, ou em cenas que
mostram grandes rebanhos em deslocamento.

9.5. A Proporção do Desenho Egípcio


Os quadrados de proporção (grades) eram utilizados pelos escribas
f
desenhistas, literalmente “escriba das formas” (sS qd) - ! ]+
para compor as cenas e as figuras sem erro.
Desde o Antigo Império o número de quadrados foi o de 18 e assim
permaneceu até a XXVI dinastia quando passou a ser de 21 quadrados.
A figura humana, não importando a classe social, foi se alongando a
partir do Médio Império.

53
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

O tronco humano que se estabelecera inicialmente no 9º quadrado vai


chegar a atingir o 11º quadrado no Novo Império.

Portanto, a figura humana se alonga a medida que a civilização


egípcia avança no tempo, isto é, as figuras mais recentes são mais finas e
longilíneas que as antigas.
Este fato pode ser percebido pela relação entre o número de cabeças
que cabem dentro de uma figura.
No Antigo e Médio Impérios a proporção total do corpo era de 5 a 5 ½
cabeças em relação ao corpo. A partir do Novo Império esta relação passa a
ser de 6 a 6 ½ cabeças em relação ao total da figura. E no final do Novo
Império passa a ser de 7 cabeças.
Uma vez a parede talhada e alisada pelos pedreiros os artistas
procediam ao quadriculado com a ajuda de uma linha embebida em tinta
vermelha que era então esticada sobre uma superfície em linhas verticais e
horizontais. Se as figuras eram em escalas diferentes, desenhavam-se
quadrículas menores ou maiores conforme o caso.

54
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Cada parte do corpo correspondia a um número preciso de quadrados,


não importando a escala.
Os contornos das figuras eram feitos em vermelho e as correções em
preto.

10. O RELEVO
O espaço no qual vivemos possui três dimensões
(altura, largura e profundidade). A escultura ocupa estas
três dimensões, enquanto a pintura, uma superfície
plana, em duas dimensões, ocupa somente a altura e a
largura; a profundidade é criada por meio de uma ilusão
visual graças a artifícios na composição.
O relevo, entretanto, é uma obra entre a escultura e
a pintura. Ele restitui uma espessura às imagens, sem
alcançar todo o seu volume. Obtém o seu efeito pela
modelagem da luz e da sombra, enquanto a pintura o
obtêm pelo traço e pela cor, mas as técnicas de

representação são basicamente as mesmas para


Estela de Dedia, Chefe dos
ambos, sendo ambos coloridos, muito embora grande Desenhistas de Amon, XIX
dinastia, Museu do Louvre
parte dos relevos tenham perdido as suas cores
originais. Os egípcios produziram estátuas e relevos e todas as etapas
intermediárias possíveis entre eles.
Como uma técnica da escultura egípcia, o relevo, divide-se em três
categorias:
1. Relevo escultórico ou destacado: as figuras destacam-se do fundo
formando quase uma escultura verdadeira, somente a parte posterior das
imagens não são trabalhadas, deixando as figuras fixadas em uma
superfície que, frequentemente, forma um pilar dorsal ou um painel que
compõe um fundo emoldurando-as.

55
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

2. Baixo relevo ou relevo escavado: para ser feito é necessário retirar a


pedra do interior dos contornos das figuras, fazendo com que a luz
perpendicular em contato com os sulcos
e desníveis dêem forma à silhueta com
nitidez. Os detalhes no interior das
figuras esculpidas podem ser tratados
em diferentes níveis de profundidade,
com incisões e ângulos variados que
ajudam a destacar os contornos e as
formas. Muitas vezes, principalmente
nos hieróglifos e nos detalhes internos
do baixo relevo é empregado
Bloco de uma porta com o
simplesmente incisões, gravando as nome de Hórus de Ramessés II
XIX dinastia, Ábidos
formas sulcando a superfície da pedra. Museu do Louvre
Esta técnica, muito empregada a
partir do Novo Império, era usada, principalmente, nas paredes externas dos
edifícios onde a luz intensa em contato com a superfície do relevo criava
sombras nos contornos e detalhes tornando as cenas visíveis mesmo a longa
distância. Quanto mais profundo são os sulcos mais as sombras são
destacadas. Após a Baixa Época e, principalmente, durante o Período
Ptolomaico o baixo relevo foi preferido por ser de uma execução mais rápida
e menos onerosa.
3. Alto relevo ou relevo entalhado ou relevo
ressaltado: esta técnica consiste em rebaixar o
fundo retirando a rocha que está fora dos
contornos das figuras. Desta forma a luz incide
sobre os volumes destacados. No interior dos
monumentos (templos e túmulos) onde a luz do sol
não penetra ou penetra de forma indireta, o alto
relevo permite uma melhor visualização das cenas.
Usado desde os tempos Pré-dinásticos era uma
Relevo com a rainha Tiy,
XVIII dinastia, Tebas, 56
Museu Real de Bruxelas
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

técnica muito mais demorada e complicada que o baixo relevo.


Em muitos casos estas categorias de relevo aparecem juntas em uma
mesma obra, como no caso estelas e esculturas.

A. 1-4: Alto relevo; 5: Alto relevo com duas camadas; 6: Alto relevo inciso
B. 1-2: Baixo relevo com incisão vertical; 2-4: Baixo relevo com incisões chanfradas

Os túmulos mais importantes eram decorados com relevos. A pintura


era utilizada principalmente quando a pedra era de má qualidade não
permitindo o relevo ou era aplicada sobre as paredes de alvenaria estucada
das casas e palácios.
Embora o relevo tivesse um valor social maior e conferisse um certo
prestígio, a pintura era, em muitos casos, escolhida por permitir uma maior
liberdade de expressão artística.

11. AS CORES E O SEU SIGNIFICADO


As cores primárias utilizadas na pintura tanto das esculturas quanto
dos relevos e afrescos eram obtidas através de minerais finamente triturados
que eram adicionados a um fixador-ligante que poderia ser uma goma
vegetal ou clara de ovo. Quando era utilizada adicionava-se um pouco de
água à mistura resultando numa têmpera. As cores secundárias e as
tonalidades eram obtidas pela mistura das cores primárias.
Os egípcios foram os primeiros a produzir uma cor sintética, o “azul
egípcio”, produzido a partir do aquecimento, acima de 700ºC, de uma

57
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

mistura de sais de cobre, calcita e um fundente de sal de sódio. Sobre esta


tinta era comum a aplicação de um verniz a base de resina vegetal que, com
o passar dos séculos amarelava alterando as cores, principalmente, os
verdes e azuis. Num país de luz intensa as cores vibrantes sempre foram um
elemento importante na arte assumindo um significado próprio e específico.
Na arte assim como no ritual religioso as cores tiveram uma utilidade
e um valor simbólico tornando-se um meio importante de adicionar vida e
individualidade a uma imagem. A cor era considerada pelos egípcios como
parte integral da natureza e da personalidade do ser.
Neste sentido ela era virtualmente sinônima de “substância”. De fato,
a palavra (iwn) era usada para designar o conceito de “cor”, mas também
pode ser traduzida por “raça”, “aparência externa”, “natureza”, “ser”,
“caráter” ou “disposição” o que mostra a conexão feita pelos egípcios entre
cor e aparência individual de um ser ou objeto.
Esta conotação entre cor e substância é uma das razões pelas quais
as cores eram frequentemente um elemento de afirmação e confirmação
simbólica, identificando e definindo a natureza essencial daquilo que é
retratado.
Naturalmente não podemos considerar que toda cor e variação de
tonalidade sejam possuidoras de alguma significação simbólica. Na verdade
as cores, antes de tudo, fazem uma referência à realidade aparente dos
seres e dos objetos ou são aplicadas com finalidade estética buscando uma
melhor visualização através da sua combinação. Em grupos de objetos ou
figuras sobrepostas, por exemplo, o artista egípcio invariavelmente alternava
as cores de assuntos idênticos para melhor diferenciá-los. Esta é a razão
pela qual filas de pessoas estão quase sempre alternadas com tons claros e
escuros da mesma cor, representados em cores contrastantes.
Todas as cores primárias possuem uma dimensão simbólica e esta era
a razão pela qual muitos materiais e substâncias eram escolhidos para a
confecção de estátuas em rocha e metal, na produção de jóias e em outros
trabalhos de incrustação.
58
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Vermelho desher (dSr) ligado ao fogo e ao sangue. Esta cor pode


simbolizar as forças perigosas e as forças não completamente controladas
como as regiões hostis do deserto onde domina o deus Seth que simboliza o
caos e a desordem. Chamado de “O Vermelho” , Seth era descrito como
tendo os cabelos e olhos vermelhos.
A cor vermelha pode ser usada para significar a cólera, a destruição e
a morte. Expressões como “furioso” literalmente “vermelho de coração” (dSr-
ib) e “ira” (dSrw) são formadas pela mesma palavra básica que significa
vermelho.
Os escribas usavam tinta vermelha para escrever os sinais
correspondentes às forças negativas como nomes de doenças, de monstros
mitológicos etc.
Mas o simbolismo da cor vermelha era variável conforme o contexto
em que era empregada. Era a cor usada para representar o tom da pele dos
homens egípcios, queimados pela luz do sol, o que não tinha nenhuma
conotação negativa. Poderia também representar a natureza violenta do
“olho de Rê” e como tal era usada em amuletos para retratar o ardente
brilho protetor e do sol.
Verde wadj (wAD) naturalmente uma cor associada à vida e ao
crescimento, representando a natureza produtora da vida. Fazer “coisas
verdes” era um termo que significava “positivo”, “produtivo”. Era também
uma cor ligada a ressurreição, o Mundo dos Mortos era chamado de
“Campos da Malaquita”, como é descrito em uma passagem dos “Textos das
Pirâmides”: “Ó vós que sais a passos largos...polvilhando malaquita e
turquesa das estrelas, se vós sois verde, então o rei será verde como o junco
vivo e verde”.
A pele do deus Osíris, o maior dos deuses funerários em todos os
tempos, era verde e é por isto que a face de alguns sarcófagos da Baixa
Época são verdes, como forma de ligar o destino do morto ao do deus.

59
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Amuletos representando o “Olho de Hórus” são frequentemente verdes


por causa das conotações positivas da cor como forma de aumentar os
aspectos curativos e de bem-estar associados ao olho.
Verde era a cor de muitas outras divindades ligadas à ressurreição,
principalmente no Mundo Inferior, sendo associada às deusas Háthor e
Wadjet. Era também a cor do deus Hapi que simbolizava o Nilo e a sua força
renovadora e fertilizante. Em alguns templos são representados uma
procissão de Nilos trazendo as riquezas dos campos como sinal de
prosperidade e oferenda, nestas cenas vemos um “Nilo Verde” seguido por
um “Nilo Vermelho”. O primeiro como uma referência à ressurreição dos
campos e à fertilidade e o segundo representa a inundação com suas águas
avermelhadas pelo óxido de ferro trazido pela inundação, este representa
também o sangue de Osíris responsável pelas cheias anuais.
Preto kem (km) a cor da noite e portanto do perigo da morte, mas
também a cor do limo fértil das margens do Nilo e como tal significava
ressurreição e fertilidade, Osíris era também representado com a pele negra.
O preto e o verde eram cores intercambiáveis em muitas situações como em
amuletos, como os escaravelhos coração e estátuas de divindades funerárias
o que mostra uma equivalência simbólica entre estas cores.
Rochas pretas eram consideradas portadoras de poderes curativos o
que as tornavam indicadas para a confecção de estátuas mágicas.
Branco hedje (HD) era a cor usada para denotar limpeza e assim a
pureza espiritual e ritual, usada nas vestes sacerdotais e pela maioria da
população. Objetos rituais como vasos, pratos, unguentários e mesas de
embalsamação eram feitos em rochas brancas, principalmente em alabastro,
uma variedade de calcita (Ss) como sinal de pureza.
Muitos animais sagrados eram escolhidos dentre os de sua espécie por
serem totalmente brancos. Era também a cor heráldica do Alto Egito.
Azul khesbidj (xsbD) representava tanto o céu quanto o “Oceano
Primordial” e consequentemente era ligado às forças da criação e às

60
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

divindades que as representavam. Era também ligado às colheitas,


oferendas e fertilidade do Nilo como o verde.
O pássaro Benu símbolo da inundação, era representado com a
plumagem azul assim como o babuíno sagrado, animais que não são desta
cor na natureza.
Amon é retratado como um homem de pele azul e por associação
muitos dos faraós eram retratados com a pele azul.
Ptah-Tatunem é mencionado nos textos como tendo a pele de
turquesa e os cabelos de lápis-lazúli. “A Turquesa” era um dos nomes dados
a deusa Háthor.
Amarelo khenet (xnt) e por decorrência o dourado era visto como
símbolo do que era eterno e imperecível. A carne dos deuses e assim o metal
amarelo era o material natural para a confecção de imagens divinas.
Como vimos existe uma constante ambivalência no uso de algumas
das cores mostrando que devemos ser cuidadosos nas tentativas de
entender o verdadeiro significado de sua utilização.

12. OS MATERIAIS
Além dos aspectos externos ligados à forma e dimensões, a arte
egípcia também está relacionada com a natureza dos materiais utilizados na
confecção das obras. Por sua vez os materiais estão diretamente
relacionados com as cores. Para os egípcios a aparência externa não era
mais importante que a substância interna.
Embora o conceito de uma substância simbólica, isto é, de um valor
inerente a um material possa nos parecer estranho ainda hoje fazemos uso
de expressões que revelam este valor em nossa cultura quando falamos em
“coração de ouro” ou “cara de pau”. Estes exemplos mostram como
comumente usamos metáforas ligadas às qualidades dos materiais.
Para os egípcios as qualidades físicas dos materiais eram portadoras
de qualidades mágicas. É relativamente fácil compreender os significados

61
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

básicos das cores, e dos materiais, embora existam ambivalências de


significado em algumas delas dependendo das circunstâncias.
O Egito era rico em recursos minerais, cuja variedade e qualidade
enriqueceram toda a produção artística faraônica. O ouro (nbw) conferia um
caráter sagrado, era a recompensa pelos serviços prestados ao faraó,
simbolizava a vida perpétua, a luz do sol e exprimia o caráter incorruptível
dos deuses divinizando e imortalizando o morto por meio da máscara
mortuária, dos amuletos e esquifes feitos ou revestidos com este material.
A prata (HD) mais rara, possuía as qualidades identificadas à lua, com
a ossatura dos deuses e à juventude eterna.
O ferro (meteórico) chamado “metal do céu” (biA n pt) ligado ao deus
Seth, era utilizado na produção de amuletos que permitiam a estabilidade
do morto e possibilitava que alcançasse os céus e instrumentos utilizados
na cerimônia de “Abertura da Boca”. O chumbo por sua maleabilidade e
peso era considerado um material mágico com múltiplos usos. Utilizado
para a confecção de figurinhas de inimigos lançados ao fogo, imagens de
casais com uma conotação de fertilidade, para as lâminas que protegiam a
incisão feita pelos embalsamadores e que afastava o ataque do mal à múmia
era também identificado à morte e o sono. O lápis-lazúli (xsbD) evocava as
águas primordiais, os cabelos dos deuses e permitia a regeneração do morto.
A turquesa, cuja cor lembrava a das plantas, era um símbolo de renovação
com poderes profiláticos associados ao renascimento. A faiança egípcia (THnt)
era ligada à idéia de luminosidade e à esperança de derrotar as trevas.
As rochas verdes, como a malaquita (Ssmt) o feldspato e a grauvaca
(bxn) eram sinônimos de renascimento e vigor.
As rochas vermelhas, como o jaspe (xnmt) e a cornalina (Hrst) tinham
um papel protetor ligado ao poder do sol em aniquilar os seus inimigos. As
rochas de construção também possuíam um valor simbólico, o calcário, pela
sua cor clara, representava a pureza e o frescor, assim como o alabastro
para a confecção dos objetos rituais. O quartzito para as estátuas

62
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

associadas ao deus sol; a grauvaca e o granito (mAT), devido a sua dureza


eterna, para os naos e obeliscos dos templos.
As madeiras raras, muitas delas importadas, como o cedro do Líbano
(aS), eram reservadas para as portas e mastros dos templos e aos esquifes.
Outras como o cipreste, o ébano (hnbj) e o carvalho eram utilizadas nas
estátuas e objetos de toalete. As madeiras nativas, em particular a palmeira
e a acácia, eram usadas na construção e nos mobiliário. A fabricação de
peças do mobiliário funerário, como os esquifes e as arcas, era em madeira
de sicômoro (nht) e da persea (SAwAb), associadas a divindades como Háthor,
Rê e Osíris.
A cera, assim como o chumbo, possuía múltiplos usos. Considerada
como uma substância mágica, produzida pelas abelhas que eram
relacionadas com o deus sol Rê era a matéria prima para a confecção de
amuletos amorosos e imagens divinas ligadas ao morto e à fundação dos
templos, mas também usada em imagens de inimigos e demônios que
seriam destruídos. O barro, mais do que um material de construção usado
desde os tempos Pré-histórico, era um material que possuía as qualidades
identificadas ao oceano primordial, à lama fértil do Nilo depositada durante
as cheias que trazia vida à aridez do deserto, e por essas qualidades era
utilizada na confecção de tijolos que formavam o muro circundante dos
templos e como enchimento nas cavidades abdominais das múmias.
Os incensos purificadores eram utilizados nos cultos e nas liturgias de
contato entre os homens e os deuses. Finalmente a água também era
possuidora de uma simbologia complexa. Representava as águas
primordiais de onde o mundo surgiu e desta forma estava presente nos
lagos e poços sagrados dos templos, que forneciam água para as libações e
purificações usadas nos rituais. Simbolizava também a fertilidade do Nilo
identificada com os humores saídos do corpo de Osíris que em contato com
a terra, simbolizada por Ísis, promovia a fertilidade e a vida.

63
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

13. O FARAÓ E A NATUREZA DO PODER

“Graças ao faraó, que orienta o ignorante em direção à sabedoria, os


pequenos podem ultrapassar os grandes e os últimos tornam-se os primeiros.”
(Papiro, Museu Britânico)

Os reis do Egito Antigo, ou como são mais conhecidos, os faraós eram


os governantes absolutos, a autoridade máxima e dono de todas as terras do
Egito. O faraó era o filho de Rê, o deus Hórus entre os homens e o deus
Osíris entre os mortos. Ele concentrava em si todos os poderes divinos: vivo
ele era adorado como Hórus, morto ele tornava-se Osíris no Duat e Rê no
céu. Era o representante dos deuses na terra, o único intermediário entre os
homens e os deuses e a ter o direito de conhecer e celebrar os ritos. Os
deveres do faraó para com as divindades são aqueles de um filho para com
os seus pais.
A palavra faraó é uma deformação grega de um termo usado no Novo
Império para designar o rei per-âa (pr-aA) a “Grande Casa” isto é o “Palácio
Real” e o seu morador principal, o rei.
Uma das principais funções do faraó era a de maior sacerdote do
Egito. A sua função principal era a de prolongar a obra do Criador,
mantendo a Ordem (Maat) e combatendo o caos. A manutenção da Ordem
era feita por meio da restauração, ampliação e construção de templos e a
garantia da realização dos cultos.
Como o único realizador dos cultos ele não poderia estar em todos os
templos do Egito ao mesmo tempo, portanto, delegava o seu poder de
sacerdote a outros para que pudessem representá-lo. As suas imagens, em
estátuas e relevos, eram colocadas nos templos representando-o fazendo
oferendas e homenagens aos deuses e em retribuição a sua devoção é
mostrado recebendo dos deuses a vida, a saúde e o poder. Um faraó era,
também, a autoridade máxima, o juiz supremo. As leis eram descritas como
sendo “aquilo que o rei ama ou aquilo que ele detesta”.
64
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Para ajudá-lo a administrar e governar o Egito era necessário um


grande número de funcionários que executavam as suas ordens e o
representavam. Muitos desses funcionários eram parentes próximos do
faraó e viviam próximo a ele formando a sua corte.
Outro papel importante do faraó era o de defensor do Egito e chefe
militar. Era ele quem liderava os exércitos no campo de batalha
comandando os seus oficiais e soldados. Os conflitos internacionais, muitas
vezes, obrigavam o faraó a participar pessoalmente de campanhas militares
em países vizinhos que ameaçavam as fronteiras do Egito.
Em seu nome todas as obras são realizadas, da abertura de simples
canais de irrigação à construção das grandes pirâmides e templos. É o faraó
que ordena a confecção das “obras de arte”: as esculturas, os relevos e as
jóias, com a finalidade de promover a sua imagem como um ser divino,
afirmando o seu poder como o centro da sociedade, como o único a honrar
os deuses e realizar os cultos e para recompensar os seus fiéis servidores.
Sob as suas ordens as pedreiras e as minas são exploradas e as
matérias primas necessárias são importadas para a realização de suas
obras.
O conjunto dos nomes, títulos e atributos reais definem a
personalidade do faraó como sucessor dos deuses, Senhor das Duas Terras
e o unificador do Egito.

13.1. Os Títulos e os Nomes do Rei


Assim que um novo faraó assumia o trono duas importantes
cerimônias eram realizadas.
Na primeira o faraó recebe de dois sacerdotes, representando os
deuses Hórus e Seth, as coroas do Egito. Na segunda são proclamados os
nomes reais, aqueles que designavam a natureza divina do rei e que a partir
do dia da coroação seriam usados nas estátuas, estelas, monumentos e
inscrições oficiais, como forma de revelar ao mundo o poder do faraó. A

65
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

escolha destes nomes forma uma combinação única, própria de cada


soberano.
A partir do reinado de Senusret II, XII dinastia, cada faraó passou a
ter cinco nomes, cada um era precedido por um título:

1º Nome de Hórus
Escrito no interior de um retângulo terminado na sua parte
inferior por uma decoração arquitetônica. Representa a fachada

do palácio real A, chamado serekh (srx). Este edifício real de


origem Pré-dinástica é muitas vezes representado com o deus
Hórus como um falcão em seu topo. Descreve não o rei como um
Hórus, mas Hórus como um rei, isto é o deus
momentaneamente humano em seu trono terreno.

2º Nome das Duas Senhoras (Nbty)


As deusas protetoras dos dois reinos, Nekhbet a “Senhora do
Alto Egito” representada por um abutre e Uadjet a “Senhora
do Baixo Egito” representada por uma cobra. O faraó
colocado sob a proteção das deusas tutelares do Egito é
confirmado como o unificador dos dois reinos.

3º Nome de “Hórus de Ouro” (H8r nbw)

Designa o soberano como vitorioso sobre seus inimigos,


identificando-o com Hórus que derrotou o seu inimigo Seth da
cidade de Ombos (Nb.t). Este título é formado pela figura de
Hórus como um falcão sobre o hieróglifo nb “ouro”.

66
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

4º Nome de Rei do Alto e do Baixo Egito (n-sw-bit)


Literalmente “Ele do Junco e da Abelha”, uma referência aos
símbolos do Alto e do Baixo Egito, o junco e a abelha,
introduzido no reinado de Den na I dinastia. Este título precede
sempre o primeiro cartucho que contém o nome de trono.

5º Nome de “Filho do Sol” (sA Ra)


Criado na IV dinastia no reinado de Djedefre (Redjedef). Lembra
que o faraó é “O Filho de Rê”, o deus-sol, é o nome que lhe foi
dado ao nascer e usado antes de tornar-se faraó. É o nome que
nós usamos hoje em dia para designar os diferentes faraós. Este
título precede sempre o segundo cartucho que contém o nome de
nascimento.

13.2. Cartucho
Os dois nomes mais importantes e fáceis de reconhecer, o de
Rei do Alto e do Baixo Egito e o de nascimento, são envolvidos
por um cordão chamado “cartucho” ou “cártula”, cuja origem é

o sinal ) shen (Sn) “envolver, circundar”. Simboliza o poder

real sobretudo o que é envolvido pelo sol em seu curso diário


pelo céu. Aparece entre as II e III dinastias. Os nomes reais dentro dos
cartuchos foram o ponto de partida para a decifração dos hieróglifos.
Como exemplo temos a seguir os nomes e títulos (protocolo) de
Ramessés II.

" * LM
%W`
1. Nome de Hórus (H8r): “Touro possante amado de Maat”

67
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

P
\ e hj
0?!Q 4 ` 5
P !
2. Nome das Duas Senhoras (Nbty): “Protetor do Egito que submete as terras

! t
estrangeiras”

#
( Oe $ 5|B! `
3. Nome de Hórus de Ouro (H8r nbw): “Rico em Anos, Grande em Vitória”

y >
7 b V O *[ V
! ! ff t
4. Nome de trono, Rei do Alto e do Baixo Egito (nsw-bity), Senhor das Duas
Terras (nb tAwy): Usi-maat-rê. Setep-en-rê “A Justiça de Rê é Forte”. “Eleito de
Rê”

FV .
t "ae7
1u
5. Nome de nascimento, Filho do Sol (sA Ra): Ramesses. Mery-amon “Gerado
pelo Sol”. “Amado de Amon”

13.3. Post-Nomen
Outros elementos incluídos nos cartuchos como parte dos nomes
reais, a partir do Novo Império:

“Governante de Tebas” heqa-waset (Hq(A)t-WAst). Epíteto de

n> Amenhotep III que acompanha o seu nome de nascimento dentro do


cartucho. Waset era o antigo nome egípcio de Tebas

“Governante de Heliópolis” heqa-iunu (Hq(A)t-Iwn). Epíteto de

n< Amenhotep II e Ramessés III que acompanha os seus nomes de


nascimento dentro do cartucho. Iunu, em grego Heliópolis, antigo
centro de culto do deus sol.

68
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

“Governante de Heliópolis do Alto” heqa-iunu-shema (Hq(A)t-Iwn-

n <: Sma). Epíteto de Tutankhamon que acompanha o seu nome de


nascimento dentro do cartucho. “Iunu do Alto” ou “Iunu do Sul”
era outro nome para Tebas.

Muitos dos nomes de nascimento são acompanhados pela designação

L ou u “amado de” mery (mri) junto ao nome da divindade de devoção

do soberano. Deve ser notada a utilização da transposição honorífica, pela


qual o nome da divindade é grafada primeiro, no interior do cartucho, mas é
lida por último:

.
t
1u
“Amado de Amon” mery-Amen (mri-Imn). Epíteto de Ramessés II,
entre outros, principalmente das XXI, XXII e XXIII dinastias.

# < L 11 “Amado de Ptah” mery-en-Ptah (mri-n-PtH). Epíteto de Séthi

! t I e II, entre outros, principalmente os Ptolomeus.

13.4. Outros Títulos


Outras expressões utilizadas para designar o rei egípcio:

4
jh “Sua Majestade” hemef (Hm.f)

= “A Grande Casa Dupla” âa-perwy (aA-prwy)


!!
= “A Grande Casa” per-âa (pr-aA). Esta última era usada para
! designar o palácio real. Foi utilizada a partir da XVIII dinastia
para designar o rei e na XXII dinastia passou a fazer parte da titulatura real.
É deste título que vem, pela bíblia, o título faraó.

69
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Alguns adjetivos eram utilizados como títulos reais.

3e “O Deus Perfeito” netjer-nefer (nTr-nfr). É representado pelos hieróglifos

que significam “deus” (um tecido amarrado em uma haste) e “perfeito, bom,
belo” (uma imagem estilizada do pulmão e da traquéia) que acompanham o
seu nome de trono.

>
a >
b “Senhor das Duas Terras” neb tawy (nb tAwy), título real

a ou
ff representado pelos hieróglifos que significam “senhor”
(o cesto) e “Duas Terras” (o Alto e o Baixo Egito - as duas linhas paralelas)
algumas vezes com grãos de areia ou dois bancos de areia. Acompanha o
nome de trono substituindo ou seguindo o título “Rei do Alto e do Baixo
Egito”, segue também o título de “Deus Perfeito”.

><
!!B “Senhor do Ritual” ou “Senhor das Ações” (nb ir(t) xt) título
surgido durante o Médio Império que designa o soberano
como o único responsável pelos rituais e obras em favor dos deuses. Segue o
título de “Rei do Alto e do Baixo Egito”.

>
m ou
>
m “Senhor das Aparições” ou “Senhor das Coroas” (nb xai(w)).
5 mm Escrito usando o sinal que representa uma colina por onde
surgem os raios do sol nascente. Associando o faraó ao deus-sol quando
este “Aparece em Glória” (xai). Precede o “Nome de Filho do Sol”.

t
b
!
h
“do seu corpo” (nXt.f) segue o título “Filho do Sol”. Uma referência
a essência divina do soberano, filho divino.

70
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

“(Aquele) que faz o que é benéfico para o seu pai” (ir Ax n-it.f).
Designa o faraó como benfeitor, em obras e ações, a seu pai
divino, isto é, a sua divindade escolhida em seguida vem o
nome do deus.

13.5. Outras Inscrições Ligadas aos Nomes Reais


Após os cartuchos com os nomes reais, os faraós são muitas vezes
descritos como “dando” ou “doando” certas qualidades ou capacidades. A

palavra ( “dar” (di) é escrita usando um sinal que representa um pão

triangular, podendo ser por diferentes inscrições:

jb e “Vida, Prosperidade e Saúde” (anx wdA snb).

“Vida, Estabilidade e Poder” (anx Dd wAs). O cetro-was pode


j 6p também ser traduzido como “dominação”.

1 ou 0 “Proteção” (sA). Aparece também junto às divindades.

t
eq “Saúde” (snb). As vezes abreviada para . e

!d
j “Alegria” (Awt-ib). Literalmente “aumentar o coração”.

V] “Como Rê” (mi Ra). É um epíteto que associa o faraó ao deus sol.
4
71
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

LM “Amado” (mry). O epíteto “amado” (de) um determinado deus faz


parte do nome de alguns deuses, mas aparece também após o
cartucho.

0h “Atrás Dele” (HA=f). Todas as qualidades listadas antes desta

inscrição são entendidas como se estivessem junto ao faraó.


Pode também acompanhar as qualidades atribuídas às divindades.

<V <
“Eternidade” (nHH). Refere-se a uma eterna regeneração cíclica,
como a do sol.

“Para Sempre” ou “Eternamente” (Dd). Refere-se a uma eternidade


linear associada a Osíris. Muitas vezes aparece como a inscrição
que fecha o texto.

13.6. A Imagem do Rei


Nas representações - pintura, escultura e relevo - os faraós, são
identificados por suas vestimentas cerimoniais de estado: coroas, trajes,
cetros e insígnias.

A Coroa Branca, hedjet (HDt), do Alto Egito representava as terras


altas do sul. Era usada pelas deusas Uadjet e Nekhbet.

A Coroa Vermelha, desheret (dSrt), do Baixo Egito representava as


terras baixas do Delta. Usada pelas deusas Buto e Neith.

72
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

A Coroa Dupla, peshent (sHmty), chamada de “As Duas Poderosas”


(pA-sHmty) do Alto e Baixo Egito representa a união das duas terras
sob o domínio do faraó. Usada pela deusa Mut.

A Coroa Azul, Khepresh (xprS), representava o triunfo e a força do


faraó, era usada principalmente a partir do Novo Império nas
cerimônias nos templos ou quando o rei conduzia as tropas nas
batalhas, motivo pelo qual é chamada erroneamente como elmo
de guerra.

Toucado Real, nemés (nms) um tecido, geralmente listrado, que o


faraó usa cobrindo a cabeça com abas que caem por sobre os
ombros. Usado, às vezes sob as coroas, diante dos deuses ou no
Mundo dos Mortos.

Saiote Real, shendjit (SnDyt) em tecido plissado com uma


lingüeta dianteira de formato trapezoidal, com uma cauda de
touro amarrada na cintura. Usado deste os tempos Pré-
dinásticos pelos reis e deuses e muito raramente por
particulares.

Traje do Jubileu usado na celebração do Festival-Sed (Hb sd)


quando as forças divinas do faraó eram revigoradas. Nessas
cerimônias ele usa uma túnica curta que termina acima dos
joelhos e envolve a parte superior do corpo. É usado desde os
tempos Pré-dinásticos.

73
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Saiote real com painel triangular frontal usado pelo faraó nas
cerimônias dos templos diante das divindades. Surge na XII
dinastia.

Diadema real é formado pelas duas deusas tutelares do


Egito. A deusa serpente Uadjit (WADyt) representando o Baixo
Egito (Buto) e a deusa abutre Nekhebet (Nxbt) representando
o Alto Egito (El-Kab).

Barba Quadrada, um atributo divino do deus Ptah, usada


desde os tempos Pré-dinásticos conferia um status de “deus
vivo”. Postiça era presa, na orelha, por uma faixa .

Barba Divina Khebesut (xbswt), usada pelos faraós no Mundo


dos Mortos, identificando-o ao deus Osíris. De formato
cilíndrico com a ponta levemente curvada para cima.

Cetro-Nekhakha (nxAxA) uma das duas insígnias reais egípcias.


Derivado de um instrumento agrícola, o flagelo, é o símbolo de
autoridade associado ao deus Osíris, igualmente carregado
pelo deus Min.

74
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Cetro-Heqa ou Heqat (HqAt) uma das duas insígnias reais egípcias.


Derivado do bastão do pastor, em forma de gancho, é o símbolo da
realeza e do deus Osíris.

Maça de guerra troncônica (mnw) de origem Pré-histórica usada


pelos reis do sul, foi substituída pela maça piriforme (HD) do norte
no período Gerzense. Representavam a força guerreira do faraó.

14. OS ARTISTAS E OS ARTESÃOS


Fundamentada sobre um poderoso sentimento coletivo de geral
obediência aos deuses e à função real, a sociedade egípcia quase nunca
colocou os criadores sobre um pedestal. Eles não buscavam a admiração.
Sua função era trazer respostas às necessidades que lhes eram impostas,
necessidades em geral coletivas. Quando o resultado dos seus esforços era
soberbo, seu mérito era reconhecido e apreciado. Sabe-se com certeza que
alguns deles tiveram brilhantes carreiras e desfrutaram de posição
vantajosa na sociedade. Nesses casos, agradecia-se a habilidade ou a
inventividade que manifestavam, sem que eles mesmos fossem
reverenciados como demiurgos. Se tivesse trabalhado no Egito dos faraós,
Michelangelo teria talvez permanecido no anonimato!
A consideração atribuída aos artistas nessa sociedade onde o
indivíduo tinha menos importância do que a coletividade não pode,
portanto, ser comparada ao entusiasmo em vigor no Ocidente desde a
Renascença. No entanto, permanece o fato de que o homem que cria e que
traz soluções, para além da responsabilidade de seu gesto, seja ele virtuoso
ou não, é responsável por algumas escolhas verdadeiras, por soluções que
não são apenas aquelas impostas pelas limitações de quem encomendou a
obra ou aquelas ditadas pela moda. Lá, ocorre o encontro entre o indivíduo e

75
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

a sociedade, até mesmo numa civilização onde é muito difícil se encontrar


assinaturas de artistas.
Sob o rei, todos os homens são teoricamente iguais. Entende-se por
isso que, no espírito dessa civilização, a promoção social deriva do favor real
fundamentado no mérito. É dessa forma que as biografias dos servidores do
Estado egípcio sempre se apresentaram, salvo nas fases que foram
chamadas de Períodos Intermediários, quando alguns indivíduos se
libertaram do jugo real para se atribuir, localmente, a soberania. Na
realidade, as famílias de administradores, ao constituir alianças familiares
vantajosas, fundaram ao longo do tempo verdadeiras pequenas dinastias,
fundamentadas numa experiência de poder acumulado graças ao exercício
de suas funções e a uma verdadeira superioridade intelectual devido a uma
educação avançada. Quanto ao soberano, que endossava um cargo divino
cujos fundamentos ninguém sequer sonharia contestar, ele devia no
cotidiano desempenhar de homem a homem as suas funções, por mais
sobre-humanas que elas fossem.
Durante a XVIII dinastia, as tumbas dos mestres escultores e
joalheiros se misturam às da alta sociedade tebana que constituía a sua
clientela: só esse fato já indica a posição social atingida pelos criadores. Mas
é preciso não confundi-los com os cortadores de pedra ou os inúmeros
operários presentes num canteiro de obras. Na realidade, os homens mais
admirados são os grandes arquitetos e engenheiros, os
quais levam o título de “arquiteto do rei” (imy-r-kAwt),
WT
! )6
literalmente “aquele que está na boca de seus subordinados”, também
traduzido como “inspetor”, ou “condutor de todos os trabalhos reais”

! >
! t !
(xrp-kAwt-nbwt-nt-sw).
r T )6 5 ! 7 tJ
Eles ocupam uma alta posição na corte e seu renome chegou até nós,
como Amenhotep, filho de Hapu, que trabalhou para o faraó Amenhotep III.
A arte é coletiva e, da mesma forma que a religião, ela é uma ramificação da
administração real. As grandes obras que constituirão os templos e as mais
76
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

belas tumbas são decididas no ápice da hierarquia. A partir desse instante


os “mestres de obras” estabelecem o programa, o projeto e o conteúdo
pictórico e literário. Operários são enviados para cortar pedras e cavar
hipogeus, sob a direção de contramestres e de especialistas em pedreiras.
Desde então, toda uma considerável infraestrutura é acionada para gerir a
distribuição de rações de comida e o fornecimento de material, de modo a
que o canteiro não sofra nenhum atraso. Escribas hábeis em hieróglifos
elegantes e os melhores desenhistas chegam para realizar as composições.
Após as últimas correções, entalhadores vêm cortar a pedra, e os pintores
completam tudo ao aplicar o revestimento e a decoração. Em cada etapa, o
trabalho deve ser dividido entre a ação do artista mestre – aquele que
desenha e dá acabamento à escultura dos personagens – e a dos auxiliares
especializados, como aquele que espalha o revestimento.
Nem toda a produção encontra-se sob o bastão de comando da
administração real. Nas regiões mais afastadas dos centros de poder, onde
estão as grandes oficinas, as classes mais altas da sociedade provincial
encomendam tumbas e mobiliário funerário a criadores dos quais
conhecemos poucas coisas.

Escultores trabalhando, Tumba de Rekhmirê , XVIII dinastia, Tebas Ocidental

77
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

15. A ARTE E A ESCRITA HIEROGLÍFICA


A relação essencial que o hieróglifo possui como valor pictográfico
explica a profunda ligação que a escrita egípcia tem com a arte. Cada
hieróglifo pode, ele mesmo, ser considerado uma obra de arte, o que ocorre
frequentemente na escrita monumental. Do mesmo modo as representação
artísticas do Egito Antigo devem ser lidas e “decifradas” como um conjunto
de hieróglifos onde, em muitos casos, o próprio objeto só se difere dos textos
por suas dimensões. Os sinais hieroglíficos estavam submetidos às mesmas
convenções pictográficas da arte, as pequenas figuras humanas, de animais
e os objetos constituem um conjunto de elementos representados segundo
os mesmos pontos de vista (de frente, de perfil e de três quartos) é difícil
dizer se os textos que acompanham as imagens seriam réplicas em escala
reduzida, das grandes cenas dos templos e dos túmulos, ou se estes não
seriam mais que gigantescos sinais hieroglíficos. As imagens
complementadas pelos textos destacam a relação estreita que existia entre
codificação do hieróglifo e a rigorosa representação artística, na verdade
texto e imagem se complementam: não é raro, principalmente no Antigo
Império, que a representação de um homem nas parede de sua tumba fosse
utilizada como determinativo para o seu nome escrito ao seu lado; o mesmo
acontecendo com as estátuas que apresentam determinativos
tridimensionais do nome do personagem inscrito em sua base, no pilar
dorsal e mesmo sobre o corpo da figura. Algumas esculturas são verdadeiros
hieróglifos em três dimensões. A própria disposição dos hieróglifos eram
elemento da decoração: o escriba guiado por considerações de ordem
estética, poderia variar o tamanho de cada sinal, seu local sobre o suporte e
a sua orientação.

78
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

16. PROBLEMAS NA HISTÓRIA DA ARTE EGÍPCIA


Na história da arte antiga, a necessidade de reconstruir um sentido,
uma história linear a partir de indícios esparsos, conduz à proposta de
concepções que facilmente tornam-se afirmações. Recompor um quadro a
partir de algumas poucas informações e dar-lhe todo o peso de uma
construção mental inteligente, esta é a base do trabalho do historiador da
Antiguidade. Ele só pode se lançar nessa aventura se dispor de um mínimo
de dados que possibilitem reduzir ao mínimo a possibilidade de hipótese.
Ora, a dimensão e a quantidade de vestígios arqueológicos que o Egito
deixou não nos deve iludir, fazendo-nos acreditar que estamos em condições
de estabelecer um quadro isento de erros. Na verdade, os arqueólogos se
surpreendem com freqüência por suas próprias descobertas, sinal de que
seu universo mental é sacudido pela descoberta de novos testemunhos. O
quadro deve ser constantemente apagado e desenhado novamente; este é o
nosso trabalho e o de nossos sucessores.
Para o amador que tem à sua disposição apenas os livros de arte, a
história da arte egípcia proposta como dado objetivo é, na realidade, o
resultado de uma seleção produzida por uma triagem a partir de um
consenso fortemente carregado da subjetividade de nossas sensibilidades
modernas. Nós elegemos nossos favoritos, forjamos um paraíso da arte,
reconstruímos nossa arte egípcia ideal. As belas edições, concentrando
naturalmente suas escolhas nas produções as mais extraordinárias,
reforçam essa visão de sonho e relegam à sombra a maior parte da
produção. Como resultado aparece uma concepção distorcida onde o ouro e
os colossos predominam. Será sempre necessário confundir “arte” com
“sedução”?
Se quiséssemos compor uma galeria luxuosa, teríamos de selecionar
tudo aquilo que corresponde aos critérios que adulam nosso gosto. Assim,
as obras egípcias deveriam ser “bem proporcionadas e elegantes”. Ora, a
maioria dos vestígios não corresponde a esse critério, seja por falta de
destreza do artista ou pelo gosto de um estilo diferente. Diz-se da arte
79
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

egípcia que ela é delicada e elegante, ou que é poderosa e colossal: essas são
as características que provocam impacto e que nos seduzem. Encontramos,
no entanto, muitas outras tendências que não devemos ignorar por falta de
curiosidade. Se a humildade incita a nos submetermos à realidade dos fatos
arqueológicos, trata-se para nós de compreender o que os criadores
buscavam; aquilo que parecia desejável a eles, e não a nós. Já comentamos
a função que eles atribuíam à arte. Será possível nos aproximarmos também
da sua sensibilidade estética?

17. A VISÃO ESTÉTICA


Como os egípcios apreciavam as suas produções artísticas, em que
termos falavam delas? Podemos procurar em vão testemunhos escritos da
sua apreciação individual. A maior parte das apreciações estéticas encontra-
se na dedicatória dos autores. Ela é repleta de auto-satisfação, eles se
vangloriam da realização que acabam de alcançar; seu julgamento, cheio de
orgulho, destinado a fazer valer diante dos deuses e dos homens a
magnificência de seus atos, não reflete em que eles estimam residir o valor
da sua empreitada. Estes são os termos nos quais o rei Amenhotep III
descreve uma das suas maiores fundações: “um templo augusto (...) um
monumento de eternidade e para todo o sempre, em bela pedra branca de
grés, inteiramente trabalhada com ouro. Seu piso é purificado pela prata,
todas as suas portas são em electrum. Ele é vasto, ele é grande, a sua beleza
é para toda a eternidade. Ele é ornado por esse grandíssimo monumento (a
estela que contem este texto), ele é enriquecido por numerosas estátuas do
senhor (o deus) em granito, em pedras maravilhosas e em todos os tipos de
pedras de valor, trabalhadas para a eternidade, que se elevam até o céu...”
É evidente que não se buscava a originalidade. Há, no entanto, uma
frase que retorna como um superlativo: “Jamais algo parecido foi feito desde
os tempos dos deuses!” Constatamos em seguida que o objeto de admiração
não consiste em algo de novo, como poderíamos imaginar. O que se admira

80
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

é sempre a destreza técnica, a qualidade dos materiais e a valorização deles,


a grandeza ou a dificuldade da operação. Essas eram as chaves do sucesso.
A arte egípcia era esotérica e reservada a uma elite ínfima?
Provavelmente não, na sua maior parte. Embora ela possua o gosto do
símbolo, sua linguagem deveria ser acessível e permeável aos que tinham
acesso às obras. A utilização repetida de símbolos não era destinada a
induzir os visitantes ao erro, bem ao contrário. Trata-se de um universo
facilmente acessível através da educação, como as figuras alegóricas ou as
cenas concisas dos capitéis romanos das igrejas do Ocidente. Bem mais
tarde, quando os templos tornaram-se as últimas fortalezas da velha cultura
egípcia diante das culturas emergentes do Egeu e do Mediterrâneo oriental,
a comunidade dos sacerdotes – cada vez mais encerrada em si mesma -
procurou a expressão esotérica destinada a um número restrito de iniciados.
À medida que sua importância numérica diminuiu, esse mundo sofreu uma
perda da vitalidade da antiga cultura faraônica.

18. O EGITO FARAÔNICO: TRÊS MIL ANOS DE ARTE


A arte egípcia é universalmente admirada pela sua perfeição, seu
caráter monumental e sua remota antiguidade. Basta imaginar que ela
nasceu há mais de cinco mil anos! O Egito era então um país
essencialmente agrícola, submetido aos caprichos do Nilo que a cada ano,
no momento da cheia, trazia um limo negro e fértil do qual dependia a
prosperidade. Nos desertos vizinhos haviam pedreiras em abundância,
necessárias para a criação de uma arquitetura e de uma estatuária
duráveis. Nessa terra de contrastes onde aldeias populosas ladeiam as
necrópoles, onde a vegetação luxuriante bruscamente cede lugar à areia e ao
rochedo, se desenvolveu uma arte original e fascinante, cujas obras primas
continuam a desafiar os séculos. As extensas terras minerais, abrasadas
sob um sol impiedoso, sem dúvida inspiraram aos primeiros arquitetos
certos traços que são próprios do estilo egípcio: a predileção pelas linhas
horizontais e as formas despojadas, e o gosto pelo colossal. Eles também
81
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

encontraram na flora do Nilo, palmeiras, papiros ou lótus, uma fonte sempre


renovada de inspiração.
Muito cedo, cerca de 3000 a.C., o país foi unificado sob a autoridade
de um soberano que nós chamamos faraó, retomando a forma helenizada da
palavra egípcia “per âa” (pr-aA) ! o palácio (“A Grande Casa”).
=
Monarca incontestado, filho dos deuses e intermediário deles junto
aos homens, o faraó dá à arte egípcia as suas dimensões monumentais.
Apenas ele é capaz de reunir milhares de operários num canteiro de obras,
enviar expedições a pedreiras distantes ou fretar embarcações que
carregarão por centenas de quilômetros os blocos de granito necessários à
edificação dos templos e das tumbas.
Destinada antes de tudo aos deuses e aos mortos, a arte egípcia é
uma arte eficaz e mágica. Ela não consiste numa criação desinteressada que
visa apenas satisfazer o desejo do belo. As moradas dos humanos, fossem
elas casas simples ou palácios reais, eram geralmente feitas de junco, de
madeira ou de tijolo cru. Mas para construir e ornar os templos divinos e as
“moradas eternas”, tumbas ou pirâmides, lançava-se mão da pedra e dos
metais preciosos, materiais imperecíveis. Os relevos e as pinturas que os
completam não são simples decorações; eles perpetuam as cenas de culto
destinadas a conciliar as divindades das quais depende o equilíbrio do
mundo, ou então colocam à disposição dos mortos tudo aquilo que lhes será
necessário no Pós Vida. As estátuas são corpos de substituição que captam
a força vital do deus ou do morto e passam por ritos de reanimação. É
preciso, portanto, lembrar sempre que a arte egípcia é regida por leis
religiosas. O projeto dos santuários, os materiais que os compõem, a
disposição e a escolha da decoração não são de livre inspiração dos artistas.
Do mesmo modo, a representação do corpo humano obedece a cânones; as
atitudes, os gestos e a escolha das cores são codificadas desde as primeiras
dinastias. Isso explica a permanência de um estilo egípcio facilmente
reconhecível.
82
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

No entanto, apesar do peso das convenções e o anonimato dos


artistas, a arte egípcia está submetida às influências de seu tempo e reflete
a personalidade dos homens.
Em relação às culturas neolíticas vizinhas, o Egito afirma uma forte
originalidade nas suas produções artísticas desde 4000 a. C.; mas a arte
egípcia só surgiu ao final do IV milênio. Seu nascimento coincide com o da
monarquia faraônica. Sua longevidade é excepcional: mais de 3000 anos
durante os quais, sob uma aparente uniformidade devida à sua forte
identidade, ela manifesta uma evolução constante. Se o termo “Baixa Época”
implica uma nuance de desprezo em relação aos três outros grandes
períodos históricos, o Antigo, o Médio e o Novo Império, para a arte egípcia
como para toda a história da arte é tarefa vã buscar uma noção de
progresso. Do Período Pré-dinástico à conquista romana, a sensibilidade e a
criatividade dos artistas, servidos por uma mesma habilidade técnica,
exprimiram a civilização de seu tempo.

18.1. As Origens: A Civilização de Naqada


Cerca de 4000 a.C. aparece a civilização que foi chamada de Naqada,
do nome de um sítio do Alto Egito. O conteúdo luxuoso das tumbas
testemunha uma crença viva no Além, bem como o alto grau já alcançado
pelo artesanato. Não se pratica ainda a mumificação e os mortos são
depositados em simples fossas, junto a objetos de uso comum cuja
perfeição técnica e as formas puras traduzem uma vontade estética. O
artista Pré-dinástico domina a metalurgia do cobre, conhece os segredos da
fabricação da faiança e produz uma bela cerâmica vermelha com bordas
pretas (black topped) característica do Período Badariense ou então, no
período final, uma cerâmica decorada com motivos pintados. Ele sabe
também esculpir vasos em pedra, paletas em xisto, bem como estatuetas,
pentes e cabos de punhal em marfim.
Ao final do período, os egípcios descobrem a arte do relevo que
ocupará um lugar muito grande nas épocas seguintes. Eles o praticam de
83
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

início sobre superfícies restritas, cabos de faca ou paletas em xisto. Os


primeiros exemplos, de admirável perfeição, revelam uma busca na
composição da decoração esculpida. Ela integra-se com o contorno do
objeto, se organiza ao redor de um eixo de simetria bem visível, ou se
desloca em registros superpostos. Ela revela igualmente as convenções
elaboradas a partir dessa época para resolver um problema difícil:
representar em duas dimensões a imagem da realidade.
No final do período, grandes paletas “históricas”, tal como a famosa
paleta de Narmer, atestam o nascimento da escrita e a unificação do país
sob o domínio de um soberano. Uma nova civilização começa, aquela do
Egito faraônico.

Paleta de Narmer, cerca de 3000 a.C., Hieracômpolis, Museu do Cairo

84
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

18.2. Os Primeiros Faraós: O Período Arcaico ou Thinita


O período Pré-dinástico se conclui com a
unificação do Egito sob o comando de um Rei-Deus.
Mantendo relação com o Oriente Próximo, as
culturas sedentárias dos pastores-agricultores no
norte são assimiladas pela civilização de Naqada que,
no sul, paralelamente à urbanização vive a
emergência de uma classe dominante portadora de
uma nova ideologia.
Pacífica ou violenta essa assimilação dá
origem, cerca de 3000 a.C., a um dos primeiros
grandes estados que a humanidade já conheceu. O
Estela funerária do
regime é uma monarquia cujas características já se Rei Djet, I din.,
Ábidos, Louvre
encontram estabelecidas para os próximos três
milênios. Na chefia do país, um rei de essência divina, o faraó, garantia o
equilíbrio do mundo e concentrava em suas mãos todos os poderes. Seu
túmulo se distinguia daqueles dos súditos pelas dimensões imponentes e
pelas numerosas oferendas guardadas junto ao morto. A presença de
grandes estelas em pedra colocando o rei morto sob a proteção das
divindades proclama a natureza excepcional do soberano. As duas primeiras
dinastias de faraós constituem aquilo que chamamos de Período Thinita,
considerando-se tradicionalmente a localidade de This, perto de Ábidos,
como a pátria dos seus soberanos. Recentes escavações em Ábidos
permitiram descobrir a existência de soberanos anteriores à I dinastia (a
dinastia “zero”), o que faz recuar no tempo a criação da instituição
faraônica.
Uma das mais importantes inovações do período é o surgimento de
uma arquitetura monumental em tijolo cru: cidades e palácios hoje
desaparecidos, lugares de culto, tumbas que imitam o aspecto de uma
fortaleza como aquelas dos dignitários enterrados em Saqqara. O sítio de
Ábidos ofereceu uma série de tumbas com estelas contendo os nomes dos
85
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

soberanos da I dinastia. Nas imediações estão as tumbas dos cortesãos.


Sepulturas reais e privadas possuíam então a forma de uma mastaba,
construções trapezoidais que encimam a sepultura onde o morto está
enterrado, circundado de alimentos e de abundante mobiliário. São essas
necrópoles que revelaram novas formas na estatuária, no relevo e nas artes
aplicadas. O período vê nascer a estatuária em pedra, embora numerosas
estatuetas sejam esculpidas em marfim. Relevos adornam as estelas que,
nas tumbas, perpetuam a memória do morto. Em contraste com a Estela do
Rei Djet (Rei Serpente), monumento único onde se aliam a sobriedade do
estilo e a perícia do cinzel, as outras estelas de Ábidos mostram hieróglifos e
figuras apenas esboçadas.
Encontramos maior refinamento no mobiliário funerário, o qual nos
dá uma idéia do ambiente dos reis e das suas cortes: vasilhame em
terracota cujas tampas trazem o nome dos faraós, preciosos recipientes em
alabastro (calcita), em cristal ou em diorito às vezes realçados com ouro,
depositados às centenas junto ao morto; suportes de móveis em forma de
patas de touro, estojos com objetos de toalete, jóias, cabeças de maças e
tabuleiros de jogos acompanhados de suas peças. Vasos, utensílios e armas
de cobre testemunham o domínio adquirido do trabalho em metal.

18.3. A Era das Primeiras Pirâmides: O Antigo Império


Cerca de 2700 a.C., foi edificada a primeira pirâmide do Egito. Começa
então o Antigo Império. Da III à VI dinastia, os faraós - dos quais os mais
célebres são Queops, Quefrem e Miquerinos - são enterrados, perto de
Mênfis, a capital construída por Narmer. Eles adotam uma forma específica
de sepulcro que distingue a tumba real das sepulturas privadas; é a
pirâmide, completada por um conjunto de monumentos destinados à
existência póstuma do soberano.
Conhecemos muito pouco desse período, um dos mais gloriosos do
Egito. Nossos conhecimentos se relacionam essencialmente às descobertas
feitas nas necrópoles, das quais as mais importantes estão concentradas na
86
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

região do Cairo em Giza, em Abu Roash, Saqqara e Abusir. É delas que


provêm igualmente os mais antigos escritos sobre papiros, tais como os de
Abusir.
A primeira pirâmide é aquela do faraó Djoser, em Saqqara, chamada
de “Pirâmide em Degraus”. Com ela entramos na era dos grandes
monumentos em pedra refletindo as concepções funerárias e convidando a
alma do rei morto a escalar o céu para tomar assento entre os deuses. A
história conservou o nome do arquiteto de Djoser, Imhotep, que no início da
III dinastia inventou ao mesmo tempo a pirâmide e a edificação em pedra em
grande escala; ele foi santificado na Baixa Época e possuímos numerosas
estatuetas desse personagem considerado como um protetor dos letrados e
dos médicos. Sob a pirâmide e suas dependências, verdadeiros complexos
subterrâneos são escavados; eles foram decorados com azulejos em faiança
azul imitando um revestimento de esteira em palha, bem como com finos
baixos-relevos que mostram Djoser praticando atos ritualísticos.

Reconstituição do Complexo Funerário de Djoser: 1. Entrada; 2. Recinto murado com


entradas falsas; 3. Túmulo Sul; 4. Pátio; 5. Pátio do Heb-Sed; 6. Palácio do Sul; 7. Palácio
do Norte; 8. Templo Norte; 9. Altar; 10. Pirâmide

Estátuas de calcário eternizam a sua imagem: segundo uma opção


que será sempre a mesma, o personagem é visto de frente, e a representação
obedece a uma estrita simetria.

87
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

A mais bem conservada dessas estátuas figura Djoser sentado (Museu


do Cairo). De tamanho maior que o natural, ela se distingue por suas
dimensões e pela postura soberana. Os detalhes do rosto são os mesmos
observados nos baixos-relevos, os quais podem ser considerados verdadeiros
retratos. Os numerosos vasos em pedra encontrados dentro da pirâmide de
Djoser datam em sua maioria das dinastias precedentes e ilustram a
virtuosidade alcançada nesse domínio. Muito próxima, a pirâmide de seu
sucessor Sekhemkhet proporcionou braceletes e colares em ouro e em
cornalina, jóias que aliam a preciosidade dos materiais à extrema
simplicidade das formas.
Outras estátuas representando altos dignitários foram encontradas
não muito longe desse sítio. Sejam elas de pequenas dimensões, esculpidas
em pedras as mais duras, ou em tamanho natural conservam uma rigidez
arcaica. Em pé, rigorosamente de frente para o espectador, o homem avança
o seu pé esquerdo enquanto sua companheira permanece imóvel. Desde o
seu nascimento a grande estatuária em pedra demonstra as convenções que
se perpetuarão durante todo o período faraônico; frontalidade estrita,
repertório codificado de atitudes e de cores. As efígies são depositadas nas
tumbas, grandes mastabas construídas principalmente na região de Mênfis.
A partir da IV dinastia, a pirâmide real adota uma forma regular e de
proporções colossais. A mais alta, a que Queops erigiu no platô de Giza, não
mede menos de 146m de altura por 235m de lado. No seu interior, cuja
forma evoca um feixe de raios solares, o faraó repousa num aposento
inacessível protegido por corredores de blocos em granito. Na face leste do
monumento foi anexado o Templo Alto ou Templo da Pirâmide ligado a uma
calçada coberta (dromos) que desce em direção ao Nilo até chegar ao Templo
Baixo ou Templo do Vale. Desses templos provêm as estátuas e os relevos
reais dos quais o Museu do Cairo possui os exemplares mais excepcionais: o
majestoso Quefrem protegido pelo deus falcão Hórus, as tríades figurando
Miquerinos em companhia de divindades, a cabeça colossal do rei Userkaf.

88
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Sem esquecer, é claro, da esfinge de Giza, entalhada no rochedo à entrada


do complexo funerário de Quefrem.
Ao redor das pirâmides são edificadas verdadeiras cidades dos mortos
onde a família real, os cortesãos e os funcionários agrupam suas tumbas
sob a proteção do rei que serviram. Reproduzindo o mundo dos vivos, essas
necrópoles recriam a imagem de uma sociedade muito hierarquizada, unida
por relações de solidariedade que se perpetuam no Pós Vida.
O morto mumificado é colocado no interior de um grande sarcófago
em pedra. Suas vísceras, retiradas do corpo, são guardadas em vasos
“canopos”. O conjunto é depositado num aposento subterrâneo, circundado
pelo material necessário à existência póstuma. Os objetos provenientes da
tumba de Hetepheres (Museu do Cairo), mãe de Queops, mostram bem a
riqueza e a diversidade. São jóias em metal precioso incrustadas com pedras
preciosas e faiança; estojo de toalete com espelho, jarro e bacia em metal;
elementos de mobiliário como apoio de cabeças ou mesas em pedra,
suportes em terracota utilizados para os repastos. A mãe do rei dispunha de
um suntuoso quarto: leito com baldaquim e cadeiras revestidas com placas
em ouro. Para saciar a fome do morto eram depositados alimentos e bebidas
conservadas em recipientes. Objetos rituais, vasos com ungüentos e os
instrumentos necessários para a cerimônia da “Abertura da Boca”, capaz de
restituir eternamente o uso dos sentidos.
A câmara inacessível, no fundo de um
poço murado, é encimada por uma construção
em alvenaria maciça com paredes ligeiramente
inclinadas denominada mastaba. A capela, na
qual a família e os sacerdotes vêm celebrar o
culto funerário, é originalmente um simples
nicho escavado em direção ao leste. Ela simula
uma porta pela qual o morto poderá sair do

Mastaba típica de um nobre da IV dinastia. A superestrutura


em rocha continha a capela onde os rituais funerários eram
realizados. A câmara funerária subterrânea, com o sarcófago, 89
tinha o seu acesso por meio de um poço vertical, bloqueado
após o funeral, que passava através da superestrutura.
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

mundo dos mortos e saborear as oferendas depositadas em sua intenção.


Pouco a pouco a capela se amplia até formar um edifício complexo, tais
como as de Ti e Mereruka em Saqqara. Ela possui uma decoração que evoca
a vida terrestre, com relevos e às vezes pintada como em certas tumbas de
Meidum, de onde provém um desfile de gansos com magnífica plumagem
(Museu do Cairo).
A cena principal, para a qual tudo converge, é a do repasto funerário.
Ela está representada na estela embutida na parede ou encimando a porta
falsa.
Nessa cena o morto aparece
sentado diante de uma mesa de
oferendas repleta de pães; ao redor
são representados os víveres e as
inscrições que lhe garantem pela
eternidade afora “um milhar de
peças de boi, aves, pães e cântaros
de cerveja”.
Tão necessárias quanto a imagem do repasto funerário são as
estátuas que eternizam a presença física do morto e lhe permitem se nutrir
das oferendas. O repertório essencial delas é fixado desde o início do Antigo
Império: o personagem em pé, imóvel ou caminhando; o escriba, o casal, do
qual um dos exemplos melhor conservados é o do príncipe Rahotep e sua
esposa Nofret (Museu do Cairo); grupos familiares ou “pseudo-grupos”
representando o mesmo indivíduo sob aspectos diferentes. Embora os
artistas utilizem materiais os mais diversos – madeira de acácia, marfim,
rochas cristalinas – é o calcário realçado com cores vivas era o preferido
dentre os vários materiais. Fixados numa juventude ideal, todos esses altos
personagens refletem o frescor e o otimismo de uma sociedade privilegiada
que desmorona cerca de 2260 a.C., aparentemente submergida por
movimentos sociais que talvez tiveram início com um período de seca e fome
que atingiu o norte da África.
90
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Desordens econômicas e incursões de beduínos se conjugam para


chegar ao Primeiro Período Intermediário. Durante quase 200 anos o Egito
se fragmenta em pequenos estados rivais e esse período conturbado deixa
apenas umas poucas obras de arte. As pinturas da tumba de Ankhtify, no
sul do Egito, são características da época, com suas cores fortes, grande
liberdade de realização e inventividade desordenada.

18.4. O Retorno ao Classicismo: O Médio Império


Após o tumulto do Primeiro Período Intermediário os reis da XI
dinastia restabelecem a unidade nacional. Durante a XII dinastia, sob os
reis Amenemhat e Senusret, se desenvolve uma civilização que será ao
mesmo tempo uma recuperação da estabilidade do passado e o
estabelecimento de novos conceitos e valores, considerada como um período
“neoclássico” do Egito: ao longo da história, a língua da época permanecerá
o modelo dos escribas para os textos oficiais. A XIII dinastia dá continuidade
a essa obra até a invasão dos Hicsos. Caracterizada por intensa atividade
literária e científica - é a época dos romances épicos, das máximas, dos
contos de aventura como Sinuhê, o Náufrago - o Médio Império vê
intensificar-se os contatos com os países vizinhos. Os faraós ampliam suas
fronteiras anexando a Baixa Núbia, enquanto que a Síria e a Palestina
entram para a sua zona de influência. Os primeiros soberanos da XII
dinastia reorganizam a economia e a administração.
Os poderes dos nomarcas amplificados durante o Primeiro Período
Intermediário são limitados por Senusret III. A arqueologia constata a
importância crescente da classe média. As estelas e os Textos dos
Sarcófagos, emprestados das concepções funerárias reais, asseguram a vida
póstuma no Outro Mundo a um número cada vez maior de indivíduos. A
religião evolui e deuses até então pouco conhecidos eclipsam Rê, o sol.
Eleva-se à categoria de divindades nacionais Montu e Amon, de Tebas,
cidade natal dos fundadores do Médio Império, e a seguir o crocodilo Sobek,
protetor dos pântanos do Fayum. O favor crescente devotado ao culto de
91
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Osíris, deus dos mortos, se manifesta pelo acúmulo de ex-votos em seu


templo de Ábidos.
As transformações na arte aparecem sob o reinado de Mentuhotep II
que unifica o Egito e retoma a grande arquitetura em pedra. O templo de
Deir el- Bahari, construído na
margem esquerda de Tebas, a
nova capital, se distingue
claramente dos monumentos do
Antigo Império com sua larga
alameda a céu aberto ladeada
de colossos “osiríacos”, o seu
pilono e seus vastos pórticos
que se abrem em cada lado do
Reconstituição do Templo Funerário de
edifício. As estátuas do rei rompem Mentuhotep II, XI dinastia Deir el-Bahari,
Tebas Ocidental
com as efígies reais do período
precedente pelas suas proporções maciças e suas formas geométricas.
Seus sucessores da XII dinastia abandonam Tebas para criar uma
nova capital ao norte, em Lisht. Amenemhat I constrói ali uma pirâmide que
retoma o modelo da VI dinastia. Durante dois séculos a mobilidade
geográfica das necrópoles reais (sucessivamente em Lisht, Dahshur, Illahun)
reflete um dinamismo perceptível na arte. As
pirâmides, construídas com pouco cuidado,
atravessaram mal os milênios. Os edifícios
religiosos foram desmantelados e
incorporados aos monumentos posteriores.
Os fragmentos conservados testemunham
uma qualidade excelente com estilos muito
diversos. Durante os três reinados dos quais
conhecemos melhor a escultura - Senusret I,

Senusret III e Amenemhat III - surge um vivo


Senusret III, XII dinastia,
Museum of Art, Kansas City
92
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

interesse pela fisionomia, com tendência a restituir a verdadeira fisionomia:


o modelado natural das sobrancelhas, a musculatura destacada, a
flexibilidade da pele e a procura de uma expressão que traduz a psicologia
do indivíduo ou a flacidez da idade avançada. As estátuas privadas
testemunham os diversos graus dessa busca de expressividade que chega,
às vezes, à feiúra e à agressividade. Esculpidas em sua maioria em pedras
duras e cristalinas, elas contrastam por suas cores sombrias e sua
expressão severa com as do Antigo Império. Surge a estatuária em bronze
realçada com incrustações de metais preciosos. O caráter austero e
despojado das obras revela um dos aspectos característicos desse período. É
também característica dele o tratamento estilizado do corpo, envolvido com
freqüência por um grande manto, e interpretado como um jogo de volumes
simples. Essa geometrização atinge o seu apogeu com a aparição das
“estátuas cubo”, também chamadas de “estátuas bloco”.
Nas tumbas privadas a decoração pintada prevalece sobre os relevos,
destacando-se as de Beni Hassan. Encontramos aí uma grande liberdade,
uma predileção por cores vivas que se exprime em novas cenas tais como o
assalto às fortalezas ou o combate de lutadores. Nas metrópoles dos nomos,
onde as elites são numerosas, há pouca
arquitetura e escultura em pedra,
porém muitas tumbas rupestres (saff)
com as paredes pintadas e numerosas
efígies em madeira, quase sempre de
pequenas dimensões e anônimas. Estas
estatuetas chamadas “modelos”
retratam as diversas atividades
efetuadas a serviço do morto e estão Modelo de portadores de oferendas,
relacionadas às cenas esculpidas nas XI dinastia

paredes das capelas das tumbas do Antigo Império. Portadoras de


oferendas, tecelões no trabalho, barcas com sua tripulação de numerosos

93
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

remadores ou desfiles de soldados armados são depositados nas câmaras


para reconstituir a vida do morto.
As tumbas forneceram igualmente numerosos testemunhos de artes
decorativas: hipopótamos e concubinas em faiança, vasos esculpidos em
alabastro (calcita) ou mármore azul de Ábidos. A ourivesaria está no seu
apogeu; as tumbas das princesas em Dahshur forneceram uma profusão de
jóias onde a composição se alia à perfeição técnica e à harmonia dos
materiais em cores vivas: ouro, turquesa, cornalina, lápis-lazúli. Peitorais,
braceletes, tiaras testemunham esse equilíbrio clássico que caracteriza a XII
dinastia.
O final do período vê o Médio Império desmoronar. Os hicsos, vindos
do Oriente Próximo, sobem ao trono do Egito e reinam também sobre a
Palestina. Alguns príncipes egípcios conservam sua autonomia. Um período
tumultuado começa, denominado Segundo Período Intermediário. Ele se
mostra pouco favorável à arte, apesar dos invasores terem conservado a vida
intelectual e trazido novidades, notadamente a arte da guerra.

18.5. O Apogeu dos Faraós: O Novo Império


O Novo Império começa cerca de 1570 a.C. com a expulsão dos hicsos
por uma família de príncipes tebanos. Instaura-se uma época brilhante
caracterizada por um florescimento artístico sem precedentes. Dispondo de
um exército profissional, o Egito, constrói um vasto império colonial que se
estende do Eufrates ao Sudão. No contato com as culturas vizinhas surge
um estilo mais oriental e um gosto cosmopolita. Riquezas afluem. Os anais
reais, tais como os de Thutmés III, descrevem os saques e os tributos de
materiais preciosos, os carros e cavalos conquistados pelo faraó.
O tesouro de Tutankhamon testemunha o luxo magnífico dos
soberanos do Novo Império e simboliza à perfeição esse Egito Imperial. A
prosperidade beneficia toda a sociedade, mas um dos principais
beneficiários é o clero de Amon. Gratos os reis recompensam com
generosidade o deus que lhes concedeu a vitória. Amon, patrono de Tebas,
94
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

capital do Império, concentra uma parte da fortuna do país nas mãos do seu
sumo sacerdote. A tentativa de Amenhotep IV-Akhenaton não terá futuro
nos domínios da religião: cerca de 1350 a.C., esse faraó herético instaura
uma religião rival, a do disco solar Aton. Sua memória é proscrita por seus
sucessores que retornam aos cultos tradicionais e continuam a embelezar e
ampliar o maior complexo religioso de todos os tempos, Karnak e Luxor.
Embora, sob o reinado dos Ramessés, Tebas sofra a concorrência de outras
capitais como Mênfis e Pi-Ramessés, sua região abrigará as sepulturas reais
até o final do período.
Muito mais numerosas que nas épocas precedentes as esculturas,
baixos-relevos, pinturas e artes aplicadas testemunham um gosto novo que,
por sua elegância, sua amabilidade e sua preocupação decorativa contrasta
com o aspecto maciço e a severidade do Médio Império. Observa-se uma
evolução que vai da sobriedade dos tempos de Hatshepsut ao “barroco” dos
Ramessés passando pela ruptura de Amarna. Essa abundância chega
acompanhada de uma maior rapidez na execução.
A rainha Hatshepsut e seu sucessor Thutmés III inauguram a era das
grandes construções que fazem da região tebana um dos pontos altos da
arquitetura egípcia. As mais famosas são o santuário de Amon em Karnak,
continuamente modificado e embelezado, bem como os templos da margem
esquerda, como o de Hatshepsut em Deir el-Bahari e o de Amenhotep III do
qual restam apenas os dois “Colossos de Memnon”.

Reconstituição do Templo Funerário de Hatshepsut, XVIII dinastia


Deir el-Bahari, Tebas Ocidental

95
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Os faraós abandonam o princípio da pirâmide e fazem escavar sua


tumba nas encostas rochosas na margem esquerda de Tebas, o Vale dos
Reis. Longos corredores ou hipogeus levam à sala do sarcófago. Nas paredes
se alternam os textos mágicos e as imagens dos soberanos empenhados
num longo périplo acompanhando o sol. A maior dentre as necrópoles
privadas se estabelece não muito longe, aos pés das montanhas tebanas,
nas localidades de Qurna, Khôkha e Dra Abu el-Naga. A câmara funerária
com freqüência é estabelecida sob a capela. Esta última, precedida por um
pátio, é quase sempre escavada no rochedo. As paredes são decoradas com
cenas pintadas ou esculpidas: são cenas da vida cotidiana, onde episódios
da carreira do morto e de cerimônias funerárias progressivamente cedem
lugar a temas religiosos que se multiplicarão na época dos Ramessés.
As estátuas são particularmente numerosas decorando santuários.
Estátuas de reis, atingindo muitas vezes dimensões colossais; estátuas
divinas, mais abundantes que no passado, tais como as efígies da deusa
leoa Sekhmet; estátuas que cidadãos privados depositam nos templos para
se beneficiar das oferendas e das preces dos visitantes. As estátuas reais e
de particulares exprimem as mesmas tendências: corpo alongado, rosto com
expressão amável. No início da XVIII dinastia a decoração das capelas
funerárias mostram atividades cotidianas, com seus trabalhos e seus
prazeres: repastos, danças e a frescura dos jardins. A pintura reina
soberana, embora certas tumbas da época de Amenhotep III contenham
baixos-relevos de grande perfeição. As artes decorativas demonstram uma
evolução constante, na direção do luxo e do refinamento. Os homens têm
jóias como as suas esposas: pesados colares em ouro realçados com
turquesas e cornalinas, anéis e braceletes, bem como brincos cuja moda
chega do Oriente Próximo. As roupas evoluem para uma complexidade da
qual as estátuas e os baixos-relevos restituem a extrema sofisticação: a
superposição de tecidos transparentes e finamente plissados, perucas
complicadas. O mesmo refinamento caracteriza a produção de objetos de

96
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

arte, delicadas colheres para aplicação de maquiagem, taças de ourivesaria


ou vasos para perfume feitos em cores vivas.

Akhenaton, Nefertiti e suas filhas adorando Aton, o disco solar, XVIII dinastia

O termo “amarniano” designa o reinado de Akhenaton que funda sua


nova capital no sítio de Tell el-Amarna. Revolucionando o pensamento
religioso e político, ele instaura o culto exclusivo do deus solar Aton,
figurado sob o aspecto de um disco cujos raios terminam como mãos. Ele
abandona Tebas para fundar Akhetaton (“Horizonte de Aton”) no sítio virgem
de Tell el-Amarna. Trata-se de uma cidade nova, com palácios e grandes
templos a céu aberto. As tumbas do rei e de seus cortesãos, escavadas na
falésia vizinha, forneceram numerosas cenas da vida na corte, bem como
hinos poéticos celebrando o deus Aton.
A expressividade é levada ao máximo pela arte de Amarna que exagera
voluntariamente os traços e acentua as deformações. Numerosas esculturas
num estilo mais suave retratam Nefertiti, a esposa de Akhenaton, e suas
filhas. Durante esse curto período, sem renunciar às convenções
tradicionais, os artistas inspirados por Akhenaton adotam um novo cânone

97
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

de beleza, criam formas que se distanciam da realidade visível com uma


liberdade até então desconhecida, privilegiando a expressão do sentimento,
o movimento, a vida. Tais particularidades, bem como um gosto vivo pela
natureza, são também encontrados na decoração esculpida dos templos e
das tumbas, bem como na decoração pintada dos palácios de Amarna. Os
relevos mostram a família real em cerimônias com a participação de seus
súditos que revelam uma nova variedade de disposições, uma tentativa, sem
futuro, de dar profundidade ao espaço.
O desaparecimento de Akhenaton encerra a ruptura amarniana. Seu
sucessor é uma criança cuja memória tornou-se famosa, Tutankhamon. Ele
restaura os cultos tradicionais e alguns templos antigos como Karnak e
Luxor. Pouco tempo após sua morte o general Horemheb toma o poder. Ele
retoma por sua própria conta a obra de seu predecessor destruindo os
traços do episódio amarniano desmantelando os templos de Aton e
apagando o nome de Akhenaton. A influência de Amarna, no entanto, se
prolonga na arte. Sob o reinado de Tutankhamon persiste a suavização das
formas e dos gestos bem como a expressão sonhadora dos personagens e as
formas arredondadas.
O período seguinte, que conta onze soberanos todos eles com o nome
de Ramessés, é chamado de “Período Ramessida”. Os reinados de Séthi I,
Ramessés II e Ramessés III são os mais notáveis, particularmente no
domínio da arquitetura. O crescimento do poder do império Hitita, e depois
dos “Povos do Mar”, obriga o Egito a adotar uma política defensiva que dá
aos militares uma influência preponderante. O centro das decisões se
transfere ao norte: Pi-Ramessés, a capital edificada por Ramessés II no Delta
do Nilo, surpreende os seus contemporâneos. Mas o clero de Amon, em
Tebas, vê seu poder aumentar; as estruturas administrativas e econômicas
do Grande Templo de Karnak, possuidor de bens e de riquezas
consideráveis, resistem bem à crise que sacode o país no decurso da XX
dinastia. A evolução religiosa e intelectual reflete a mistura de culturas e a
emergência de novos poderes. Numerosos estrangeiros vivem no Egito,
98
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

introduzindo no país o culto de seus deuses. O gosto pelo desenvolvimento


do intelecto impregna os intelectuais e os príncipes, como Khaemuaset, filho
de Ramessés II, transformando-os em eruditos, algumas vezes tomados pela
paixão do restauro de monumentos antigos.
Esse gosto pelo passado faz-se acompanhar de uma imensa atividade
artística. O Egito se cobre de novos templos. Na margem esquerda de Tebas,
o templo de Ramessés II, chamado Ramesseum, possui um colosso tão alto
quanto os “Colossos de Memnon”. Tebas não é a única beneficiária dessa
política. Em Ábidos, o templo edificado por Séthi I, se distingue pela
delicadeza de seus relevos. Os templos de seu sucessor, Ramessés II,
escavados na falésia núbia de Abu Simbel impressionam pelas dimensões
imponentes das estátuas que adornam sua fachada. A arte com grande
destaque é a do baixo-relevo. Se as cenas rituais são numerosas, as cenas
de batalha e de caça são mais originais e traduzem o expressionismo próprio
do período.

Ramessés II atacando a cidade Hitita de Dapur, XIX din., Ramesseum, Tebas Ocidental

Perpetuando a vitória real sobre o caos que garantiu tradicionalmente


o equilíbrio do mundo, elas testemunham um gosto pelo movimento herdado
da época amarniana e colocam em cena uma multidão de personagens em
imensas composições onde os detalhes da paisagem introduzem a noção de
99
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

espaço e de tempo. Os inúmeros monumentos privados, estátuas e estelas


mostram uma variedade ainda maior em termos de qualidade e de estilos
testemunhando o individualismo e a criatividade dos artistas que se
exprimem através de numerosos óstracos figurados.
O espírito da pintura tebana se altera. No Vale dos Reis a decoração
esculpida e pintada da tumba de Séthi I se distingue pela sua delicadeza,
seu equilíbrio e o brilho das cores, do mesmo modo que aquela de Nefertari,
esposa de Ramessés II. As tumbas privadas, tais como a de Sennedjem, se
concentram sobre temas religiosos. Os coloridos são geralmente audaciosos
com amarelos e vermelhos dominantes.
Essa sociedade brilhante e refinada, esses faraós que dispunham de
inumeráveis vassalos, se viam confrontados a novas dificuldades. Desde o
início do Período Ramessida o país já se encontra às voltas com movimentos
de populações que agitam o mundo mediterrâneo. As reviravoltas da
paisagem política, o enfraquecimentos dos últimos Ramessés face ao clero
de Amon, o incremento das desordens internas, conduzem o Egito a um
Terceiro Período Intermediário. Ele começa cerca de 1070 a.C.

18.6. O Crepúsculo do Egito: A Baixa Época


Instabilidade e invasões se sucedem no Egito durante o primeiro
milênio antes de Cristo. O país, no entanto, conhece períodos de
prosperidade e não cessa de desempenhar um papel maior no Oriente
Próximo. Durante esse período muito extenso, os artistas egípcios
continuam a trabalhar e conservam sua virtuosidade: a maior parte dos
templos que hoje admiramos foram erigidos durante esse período e os
museus estão repletos de esculturas e de objetos de arte da Baixa Época.
Diferente do Antigo, Médio e Novo Impérios, este não apresenta uma
homogeneidade política e cultural, mas se compõe de uma sucessão de
períodos, caracterizados pela origem dos soberanos, a localização das
capitais e a intensificação dos contatos com o exterior.

100
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Sob os últimos Ramessés, a crise econômica e a


fragilidade política conduziram a uma divisão do poder entre
os grandes sacerdotes de Amon, em Karnak, ao Sul, e os
faraós cuja nova capital é Tânis, no Delta. Esposas de Amon
de Tebas, as sacerdotisas conhecidas como “Divinas
Adoradoras” são escolhidas no seio da família real e dispõem
de riquezas e de um poder consideráveis. Nas XXI e XXII
dinastias as alianças e os laços familiares entre esses dois
poderes asseguram ao país uma prosperidade que se
manifesta com brilhantismo nas tumbas reais de Tânis.
Descobertas invioladas em 1939 essas tumbas forneceram
tesouros comparáveis ao de Tutankhamon: pesados
sarcófagos em pedra e prata, máscaras em ouro e jóias. A
arte mostra uma sobriedade clássica que contrasta com o
espírito ramessida. A técnica do bronze em cera perdida,
realçado com incrustações de metal precioso, está no seu
Karomama,
apogeu: assistimos a um florescimento de estátuas de XXII dinastia,
Louvre
grandes dimensões das quais a da “Divina Adoradora”
Karomama é um dos melhores exemplos.
Em seguida, Piankhy, soberano sudanês, anexa o Egito e funda a XXV
dinastia. Sob o reinado desses faraós africanos impregnados de cultura
egípcia o país retorna ao ideal do Antigo e Médio Impérios, cuja influência é
muito sensível na arte e na literatura. A atividade deles é notável no domínio
da arquitetura. Em seu país de origem, entre a terceira e a quarta catarata
do Nilo, eles constróem templos dedicados ao deus Amon nas localidades de
Napata e Kawa. Também o fazem na região tebana, onde são erigidas
capelas dedicadas às “Divinas Adoradoras”, e até mesmo em Karnak.
Encontrando inspiração na arte da XII dinastia e do início da XVIII, as
esculturas incorporam um certo volume arredondado e discretas
características africanas sem dúvida emprestadas dos conquistadores: as
generosas coxas das “Divinas Adoradoras”; nariz curto, lábios grossos.
101
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Originários de Sais, no Delta, os primeiros reis da XXVI dinastia (664-


525 a.C.) reconstituem a unidade do país depois que os assírios invadiram o
Egito durante a XXV dinastia e pilharam Tebas. Eles reforçam os laços com
o mundo grego e os países do Oriente Próximo. A criação artística é intensa
e inova em todas as áreas conservando os modelos antigos como referência.
Sais, a capital que continha as tumbas reais e os templos admirados por
Heródoto, desapareceu completamente. Na região tebana, as imensas
tumbas pertencentes aos funcionários das “Divinas Adoradoras” possuem
uma decoração e inscrições que se referem ao Médio e sobretudo ao Antigo
Império. A arte do bronze prospera, como testemunham as esplêndidas
estatuetas de gatos, animal sagrado da deusa Bastet. A estatuária se inspira
também na sobriedade do passado. Um novo tipo de rosto aparece, muitas
vezes emoldurado por um penteado “em bolsa”: a boca sorridente, as maçãs
do rosto redondas e os olhos alongados e projetados transmitem uma
impressão suave e impessoal.
Mas, a despeito da sua aliança com as cidades gregas, o Egito cai sob
os ataques dos exércitos de Cambises, rei da Pérsia. Tornado província do
Império Persa, o Egito conserva sua prosperidade; ele experimenta até
mesmo um último período de independência e de brilho durante a XXX, e
última, dinastia. Essa última página da arte propriamente egípcia vê a
coexistência de estilos que refletem as tendências contraditórias da
sociedade: ao ideal conservador, defendido pelos sacerdotes que se
empenham em fazer reviver as formas de um passado prestigioso, opõem-se
aqueles que privilegiam a atualidade. Durante mais de meio século, de 404 a
343 a.C., o Egito conhece uma grande atividade artística ilustrada pela
restauração ou a construção de numerosos templos como o de Philae.
Reflexo da prosperidade do país esse dinamismo traduz também, por parte
dos soberanos, a preocupação de se conciliar com o clero. Até a dominação
romana os templos conservam as grandes linhas da arquitetura faraônica.

102
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

18.7. O Egito depois dos Faraós: O Período Ptolomaico


Uma nova invasão persa põe fim a esse último período de
independência e de brilho. A tradição diz que os egípcios acolheram
Alexandre, o Grande como libertador. Ele partiu como líder dos gregos para
conquistar o Oriente, derrotou o rei da Pérsia em 334 a.C. e tornou-se
senhor do Egito. Na fronteira do Egito fundou uma cidade prometida a um
futuro brilhante: Alexandria, porto no Mediterrâneo. Um dos seus generais,
o macedônio Ptolomeu, filho de Lagos, lhe sucede. Durante 300 anos a
dinastia dos Ptolomeus (ou Lágidas) impõe uma administração baseada no
modelo grego que se justapõe à sociedade egípcia. A língua, a escrita e a
iconografia religiosa sobrevivem principalmente nos templos do Alto Egito,
mantidos e renovados como os de Edfu, Dendera e Philae.

Reconstituição do Templo de Hórus em Edfu, Período Ptolomaico-Romano

Ao mesmo tempo, a mistura da tradição egípcia e da cultura grega dá


origem a criações originais, como o culto a Serápis, deus meio-grego meio-
egípcio. A arte ptolomaica impressiona pela sua dualidade. Os novos
soberanos, ao mesmo tempo reis macedônios e faraós, respeitaram as duas
tradições. Estátuas em mármore de estilo helenístico os retratam como
dignos sucessores de Alexandre; ao mesmo tempo, são erigidos para eles
103
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

colossos de granito com os atributos tradicionais dos faraós. Enquanto eles


constróem templos egípcios pelo país, Alexandria e as cidades recém
fundadas se embelezam com todos os monumentos de uma cidade grega
tradicional. As primeiras gerações de colonos recriam o seu universo
familiar, imitando as estatuetas de tanagra ou as cerâmicas de estilo
ateniense. Mas, no decorrer do III século a.C., eclode uma arte propriamente
alexandrina que concede um grande espaço ao cenário egípcio nos templos e
nas tumbas. As estátuas dos soberanos e dos particulares conservam o seu
papel religioso e o respeito às convenções milenares: repertório limitado de
atitudes, frontalidade estrita, presença do pilar dorsal.
Como no passado, os artistas refletem sua época juntando elementos
variáveis tais como as vestimentas plissadas e os xales, os penteados em
cachos ou a cornucópia. Uma veia bem realista se exprime no tratamento
dos rostos, em particular naqueles de homens idosos. O modelado
particularmente voluptuoso dos corpos femininos, moldados na roupa
tradicional ou sublinhados por um drapeado amarrado sobre o peito, fica
muito distante do modelo grego. Os baixos-relevos dos templos mostram
uma maior uniformidade. O sorriso que ilumina os rostos é herança do
começo do IV século a.C., bem como a insistência em figurar rostos de
maçãs largas e corpos ligeiramente gordos, às vezes até mesmo pesados. O
gosto pela cor se exprime através dos objetos os mais modestos, faianças
azul-verde, vidros multicores que adornam os móveis, a escultura e a
arquitetura, indo até os mosaicos das ricas moradias de Alexandria.
Durante 300 anos o Egito ptolomaico desempenhou um papel
preponderante no Mediterrâneo. Cidade mítica, Alexandria, torna-se um
centro cultural e artístico, com monumentos prestigiosos como seus
palácios, sua biblioteca e o seu farol. Tudo que na antiguidade realmente
conta em matéria de intelectuais e de homens políticos a ela acorre. É lá que
Júlio César, e depois Marco Antônio, sucumbem aos encantos da última
soberana, Cleópatra VII. Mas as disputas familiares e a ambição de Roma
são mais fortes do que a tenaz herdeira dos faraós. Depois da derrota de
104
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Actium e a morte de Cleópatra VII no ano 30 a.C. seu vencedor é Otávio, o


futuro imperador Augusto. O governo do Egito é confiado a um prefeito
romano.
Essa nova etapa levará ao florescimento do cristianismo e à morte da
civilização faraônica.

Augusto como faraó fazendo oferendas à Háthor, Dendera

105
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

19. GLOSSÁRIO GERAL

Este glossário geral foi concebido como um instrumento de uso mais amplo
que a simples explicação das noções abordadas neste manual.

Ábaco - bloco quadrado no alto do capitel de uma coluna ou pilar sobre o


qual apoiava-se a arquitrave. No Novo Império traz gravado os
cartuchos reais.
Abertura da Boca - ritual originado no Antigo Império, com a finalidade de
dar ou restabelecer a vida, realizado sobre as estátuas, os sarcófagos
ou as múmias por sacerdotes com objetos e vestimentas especiais.
Adobe - em árabe “muna”. Mistura de barro e palha utilizada na fabricação
de tijolos crus e como material de revestimento.
Afnet - toucado com a forma de uma bolsa que, no Período Amarniano, era
um atributo real chamado khat.
Afresco/Destêmpera - processo técnico de pintura, típico das tumbas
egípcias, onde os pigmentos minerais moídos são adicionados a uma
goma (têmpera) e diluídos em água.
Akh - um dos componentes espirituais do homem, resultado da união do Bá
e do Ká. Seu significado: “Ser Luminoso”, “Eficaz”, “Glorioso”,
“Transfigurado”. É um elemento espiritual que habita os céus e é o
responsável pelas metamorfoses do morto.
Akh iker n Re (“O Perfeito Espírito de Rê”) - nome do culto aos ancestrais
muito popular entre os trabalhadores de Deir el-Medina.
Akhet - Estação da Inundação que inicia na segunda metade de julho e
termina na primeira metade de novembro.
Alabastro (calcita) - de coloração branca ou amarelada semi transparente
foi utilizada principalmente na produção de objetos rituais como vasos
canopos e vasos para ungüentos. Tinha uma conotação de purificação.
As suas jazidas estavam principalmente no Médio Egito e no Sinai.
Altar Khat - suporte de formato cilíndrico sobre o qual era praticado um
sacrifício ou oferenda. Era móvel ou fixo, utilizado em espaços abertos
ou nos túmulos. Muitas vezes servia como suporte para a mesa de
oferendas.
Alto relevo - cenas e inscrições esculpidas em rocha ou madeira, pintadas
ou não, onde a luz ressalta os contornos da figura.
Amarniano - nome que designa o período da “revolução” religiosa promovida
pelo faraó Amenhotep IV (Akhenaton). É uma referência ao sítio de Tell
el-Amarna.
Amazonita (feldspato) - silicato de potássio, cálcio e alumínio opaco de cor
esverdeada. De coloração verde assumia os mesmos valores simbólicos
da turquesa, sendo indicado para a confecção de amuletos com a forma
de papiros e era considerado, juntamente com o lápis-lazúli e a
turquesa, um dos materiais mais preciosos. As suas jazidas ocorrem no
Deserto Oriental.

106
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

AmDuat ou Duat - local percorrido pelo sol noturno onde descansam os


mortos.
Amenti - o “Ocidente”, onde os egípcios situavam a Terra dos Mortos. Era o
reino de Osíris visitado pelo deus sol em sua viagem noturna após o
entardecer, quando o sol desaparece nas montanhas do oeste.
Ametista - variedade de quartzo transparente de coloração violeta a rosa
claro. Utilizado no Médio Império para a produção de amuletos e
escaravelhos. As suas jazidas ocorrem em Assuã e no Deserto Arábico.
Amratense - nome do primeiro período da cultura Pré-histórica de Naqada,
que leva o nome do sítio arqueológico el-Amra, ao sul de Ábidos.
Amuleto - pequeno objeto com poderes mágicos que protegia os vivos e os
mortos das forças nefastas e dos inimigos. O objeto poderia representar
deuses ou sinais hieroglíficos favoráveis. O material em que estes
objetos eram confeccionados possuía um valor simbólico.
Ankh - sinal hieroglífico que significa vida, conhecido também como cruz
ansata ou alçada. É um atributo dos deuses que dá a vida aos homens.
Utilizado como amuleto ou motivo decorativo. Ignoramos o que
representa exatamente este sinal.
Anubeion - santuário consagrado ao culto de Anúbis, situado em Saqqara.
Apotropaico - que tem o papel de afastar os seres nocivos e o mal.
Arquitrave - viga mestra retangular, em pedra, assentada horizontalmente
sobre colunas ou pilares para vencer o vão entre elas. Parte do
entablamento que repousa nos ábacos dos capitéis das colunas
(epistílio). Quando em janelas ou portas é decorada.
Asclepeion - santuário consagrado ao culto de Imhotep, identificado a
Asclépio.
Asheru - lago sagrado com a forma de um crescente. Característico dos
templos das deusas identificadas com a “Deusa Distante”, como o
templo de Mut em Karnak.
Aspectiva - neologismo de origem alemã para designar a maneira egípcia de
representar, por oposição, a perspectiva. Na aspectiva não há pontos
oblíquos nem de fuga. Cada objeto é visto de maneira perfeitamente
ortogonal, sem deformação, segundo um plano mais favorável. O eixo
do olhar é perpendicular ao plano. Vários desses planos podem ser
justapostos a fim de dar uma idéia mais completa dos seres e dos
objetos. Conhecido também como Frontalidade.
Átrio - pátio interno ladeado por colunas.
Auriflama - mastro em madeira de grandes dimensões fixado no pilono dos
templos e no qual estava a bandeira do deus.
Bá - um dos componentes espirituais do homem, dos deuses e dos animais.
Responsável pela individualidade é um elemento ativo e dinâmico que
se separa do corpo após a morte. É representado sob a forma de um
pássaro com cabeça humana, algumas vezes munido de braços. É o
responsável pela passagem do morto ao Mundo dos Vivos.
Erroneamente traduzido por “alma”.

107
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Badariense - cultura neolítica do Médio Egito que leva o nome do sítio


arqueológico el-Badari.
Baixo relevo - cenas e inscrições esculpidas em rocha ou madeira, pintadas
ou não, onde a luz penetrava nos sulcos destacando a figura.
Bakhu ou Bakh - as montanhas ocidentais por onde o deus sol sai após a
sua viagem noturna pelas 12 horas do Mundo dos Mortos regenerado
sob a forma de um escaravelho.
Barba divina (Khebesut) - barba postiça, longa e trançada com a ponta
curvada para frente. Símbolo de força e virilidade. Usada pelo faraó
morto e por divindades funerárias como associação ao deus Osíris.
Barca Mandjet - a “Barca do Dia” utilizada pelo deus sol em sua viagem
diurna após sair do Mundo Inferior.
Barca Meseket - a “Barca da Noite” utilizada pelo deus sol em sua viagem
noturna pelo céu inferior.
Barca sagrada - barca sobre a qual a estátua de uma divindade ou do faraó
divinizado efetuava sua viagem sobre o Nilo. As imagens eram
frequentemente transportadas em modelos reduzidos de barcos durante
as procissões.
Basalto - rocha preta e opaca utilizada para a construção de sarcófagos,
pavimentos de templos, estátuas e pequenos objetos. Tinha uma
associação natural com o Mundo Inferior e com o conceito de
renovação. As suas jazidas concentravam-se principalmente no Fayum,
Abu Roash, Sinai e Assuã.
Bekhen - basalto ou grauvaca, utilizado na confecção de estátuas reais e
divinas, extraído das pedreiras de Wadi Hammamat cujo nome
significa “Pedra Maravilhosa”. No Antigo Testamento é chamado de
Eben Bochan e pelos romanos Lápis Niger ou Lápis Thebaicos.
Benben - pedra erguida em Heliópolis que recebia os raios do sol nascente.
É a manifestação do deus primordial Atum. Talvez a origem da forma
do obelisco e da pirâmide.
Brecha - uma matriz vermelha escura ou verde acinzentada de material
heterogêneo com inclusões de calcário bege utilizada na produção de
vasos e estatuária. As suas jazidas encontram-se ao longo de todo o
Vale do Nilo.
Bubasteion - templo consagrado à deusa Bastet, situado em Saqqara.
Cabeça Reserva - cabeça humana em calcário, com as orelhas quebradas
ou não representadas, esculpida em tamanho natural cortada na altura
do pescoço formando uma superfície plana. Os 34 exemplares
conhecidos são originários da IV dinastia no cemitério oeste da
pirâmide de Khufu (Quefrem), era colocada entre o fundo do poço
funerário e a câmara funerária, em uma época onde as estátuas
particulares estavam proibidas. Provavelmente substituíam a cabeça do
morto ou eram destinados a um ritual mágico contra a decapitação.
Cachette/Favissa - termo que designa uma série de esconderijos antigos
que guardavam as múmias ou as estátuas.

108
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Calçada ou Rampa - termo que designa, nos complexos funerários das


pirâmides, o corredor coberto que leva do Templo Baixo ao Templo da
Pirâmide. Era iluminado por pequenas janelas ou clarabóias e decorado
com relevos. Por ele era transportada a múmia real a caminho de sua
tumba.
Calcário - carbonato de cálcio opaco com impurezas que fazem com que a
sua qualidade varie. De coloração do branco ao amarelo ou do rosa ao
preto. Facilmente trabalhável foi utilizado em praticamente toda a
produção artística, como monumentos, estatuária, objetos rituais. As
suas jazidas ocorrem ao longo de todo o Vale do Nilo.
Calcedônia (ágata ou ônix) - variedade micro cristalina de quartzo branco
azulado. Utilizado para a produção de amuletos e escaravelhos a partir
do Médio Império. As suas jazidas ocorrem no Deserto Ocidental.
Campos de Iaru ou Campo dos Juncos - campos paradisíacos do “Mundo
Inferior” de origem solar situados, a leste, eram um local de passagem.
Enquanto os Campos de Oferendas, a oeste, eram os locais de descanso
dos mortos. Desde o Antigo Império eram confundidos formando os
Domínios de Osíris, onde o morto plantava e colhia o seu alimento.
Aparece no Capítulo 110 e 145 do “Livro dos Mortos”.
Caneluras - Sulcos verticais colocados como ornamentação de pilares e
fustes de coluna.
Capela períptera - edifício cercado por uma única linha de colunas ou
pilares.
Capitel - parte superior de uma coluna, geralmente esculpida.
Capitel Hathórico - capitel ornado com o rosto da deusa Háthor com
orelhas de vaca.
Cartucho - nome que designa o anel ovalado, originalmente representava
uma corda amarrada, que simboliza a eternidade (shen) e que envolve
protegendo magicamente os dois últimos dos cinco nomes do faraó, o
nome de trono e o nome de nascimento.
Casa da Alma - designa uma forma particular de mesa de oferendas em
terracota que reproduz um miniatura de uma habitação verdadeira.
Característica das VII a XII dinastias.
Cataratas - antes da construção das barragens o Nilo possuía seis cataratas
principais entre Cartum (Sudão) e Assuã. Desde os tempos mais
antigos a primeira catarata, em Assuã, formava a fronteira natural
entre o Egito e a Núbia.
Cavernas - tradução aproximada do termo egípcio qereret que designa a
região do Duat. No singular “A Caverna” designa uma região do Mundo
Inferior em Heliópolis. É usado também para designar a origem do Nilo.
Caveto - ou toro. Moldura circular colocada nos ângulos de um monumento
de forma a ocultar os cantos vivos (anta), tanto horizontais como
verticais. Usados também como moldura para painéis com cenas
decorativas tanto na arquitetura como no mobiliário. Normalmente
encimados pelas cornijas. Algumas vezes lisos, mas frequentemente
decorados com sulcos e linhas que reproduzem as tiras de amarração
109
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

usadas nos feixes de plantas, uma lembrança de quando esses


elementos vegetais eram utilizados na arquitetura dos tempos Pré-
dinásticos. A sua função era puramente decorativa.
Cenotáfio - termo que designa uma tumba vazia. Os reis possuíam duas
tumbas: uma na qual o seu corpo era sepultado e outra que servia
como local de culto funerário. Este termo aplica-se não somente às
tumbas fictícias como também para todo o monumento dedicado à
comemoração de um morto.
Cetro-Heqa ou Heqat - uma das duas insígnias reais egípcias. Derivado do
bastão do pastor, em forma de gancho, é o símbolo da realeza e do deus
Osíris.
Cetro-Nekhakha - uma das duas insígnias reais egípcias. Derivado de um
instrumento agrícola, o flagelo, é o símbolo de autoridade associado ao
deus Osíris, igualmente carregado pelo deus Min.
Cetro-Sekhem - simboliza a manifestação do poder divino. É um símbolo de
autoridade carregado pelos oficiais e administradores do faraó. É um
emblema conectado com os deuses Osíris e Anúbis.
Cetro-Uadj - cetro em forma de papiro característico das divindades
femininas.
Cetro-Was - consiste de uma vara terminada em forquilha tendo em seu
topo a cabeça de um animal (provavelmente um canídeo). Característico
das divindades masculinas. Simbolizava estabilidade, poder e domínio.
Cimo Tebano (El-Qurn) - cume sagrado em forma de uma pirâmide natural
que domina as necrópoles e templos de Tebas Ocidental. Identificado
com a deusa Merytseger.
Colossos de Memnon ou Amenophiun - duas estátuas colossais de
Amenhotep III que flanqueavam o acesso de seu templo funerário em
Tebas Ocidental.
Coluna - existe um grande número de tipos de colunas na arquitetura
egípcia classificadas de acordo com a forma do capitel: protodórica,
palmiforme (palmeira), lotiforme (lótus), papiriforme (papiro) e
Hathórica.
Complexo da Pirâmide - conjunto de edifícios ligados à sepultura do faraó e
necessários ao culto funerário. Composto pelo Templo Baixo, a calçada,
o Templo Alto e a pirâmide.
Cone funerário - cone em terracota fixado nas entradas das tumbas da XI à
XXVI dinastias e trazendo o nome e os títulos do morto. Típicos da
região de Tebas.
Cone de ungüento ou Cone de incenso - cone frequentemente
representado nas cenas de banquete funerário sobre a peruca ou
cabeça dos participantes. Este objeto enigmático poderia ser um cone
de ungüento perfumado que se derreteria com o tempo perfumando os
cabelos ou protegendo contra o sol, seria um símbolo hieroglífico para
exprimir o perfume e teria conotações eróticas ligadas ao renascimento
e à procriação.

110
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Cornalina - uma variedade de quartzo do grupo das calcedônias,


translúcida de coloração vermelha ou alaranjada. É considerado
preciosa como a prata, o lápis-lazúli e a turquesa. Simbolicamente
representava as forças ligadas à cor vermelha, como o sangue, a
energia vingadora, o dinamismo e o poder do sol, mas também o
temperamento maléfico de Seth, o deus da desordem, das tormentas e
da aridez. Muito utilizado na confecção de amuletos desde o Período
Pré-dinástico. Na baixa Época o seu nome (Hrst) significava “tristeza”. As
suas jazidas encontram-se no Deserto Oriental.
Cornija - moldura côncava e saliente sobreposta no alto das paredes, nos
enquadramento das portas, nas estelas retangulares e em algumas
formas mobiliares. Inspirada em folhas de palmeira são,
frequentemente, gravadas e pintadas na curvatura. O conjunto é
sobreposto por um filete.
Coroa-Atef - coroa do deus Osíris e do deus Herishef em forma de mitra
ladeada por plumas de avestruz e algumas vezes com o disco solar em
seu topo. Pode possuir também dois cornos de carneiro e o uraeus.
Coroa-Azul (Khepresh) - coroa real do Novo Império que simboliza o
renascimento e o triunfo do faraó. Geralmente azul com discos
amarelos. Erroneamente considerada como capacete ou coroa de
guerra.
Coroa-Branca (Hedjet) - mitra que simbolizava o poder do Alto Egito. É
protegida pela deusa Nekhbet.
Coroa-Dupla (Pschent) - formada pela união das Coroas Vermelha e
Branca. Simboliza a união e o poder do Alto e Baixo Egito.
Coroa-Hemhemet ou Hemhem - coroa composta por três coroas-Atef
juntas sobre cornos de carneiro, usada pelo rei morto e pelo deus
criança Harpócrates.
Coroa-Theni - formada por cornos de carneiro horizontais, duas plumas
com o topo arredondado e curvo que envolvem o disco solar.
Coroa-Vermelha (Desheret) - coroa anelada que simbolizava o poder do
Baixo Egito. É protegida pela deusa Uadjet.
Corregência - período onde dois faraós, normalmente o rei e um de seus
filhos, exercem conjuntamente o poder.
Cosmogonia - mitos referentes à Origem do Universo e à Criação do Mundo
que têm como princípio comum o “Oceano Primordial” ou “Nun”.
Côvado ou cúbito - unidade de medida dos antigos egípcios equivalente a
52,5cm subdividido em 7 palmos ou 28 dedos para o côvado real, na
XXI dinastia, o côvado pequeno era de 44,9cm subdividido em 6
palmos; durante o Período Persa o côvado real passou a 64,2cm.
Crioesfinge ou Esfinge criocéfala - esfinge com cabeça de carneiro que
guardava exclusivamente as vias de acesso aos santuários.
Cripta - salas ou corredores secretos reservados desde o Novo Império. Mas
principalmente na Baixa Época eram feitas nas paredes e fundações
dos templos seja para conter estátuas ou objetos sagrados, seja como
elemento cultual ligado ao funcionamento do templo.
111
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Culto Ancestral - realizado em um busto idealizado de um homem, ou


mulher ou muito raramente de um casal, ou para uma estela com a
imagem de um familiar morto sentado diante de uma mesa de
oferendas cheirando uma flor de lótus. Essas imagens incarnavam os
seus ancestrais mortos, admirados por suas virtudes e qualidades
chamados Akh-iqer-en-Rê “Espírito Excelente de Rê”, eram os
intermediários que levavam os apelos dos vivos aos deuses. Muito
popular durante o Novo Império, principalmente, entre os moradores da
vila de Deir el-Medina.
Deben - unidade de peso equivalente a 13,6g de ouro ou 27,2g de prata, no
Novo Império corresponde a 91g de prata. Subdividido em 10 kites de
9,1g.
Demótico - do grego “(Escrita) Popular”. É uma escrita cursiva, derivada do
hierático, em linhas horizontais e da direita para a esquerda. Somente
após o Período Ptolomaico passou a ser usado em obras literárias e
religiosas. O último testemunho é um grafito em Philae de 394 d.C.
Depósito de fundação - grupo de modelos reduzidos formado por placas, de
materiais variados, gravadas com o nome do faraó, miniaturas de
ferramentas, vasos e oferendas enterradas nas fundações dos edifícios,
principalmente os templos.
Díade - par de estátuas esculpida em um mesmo bloco.
Dinastia - divisão da realeza egípcia criada pelo sacerdote egípcio Maneto a
pedido de Ptolomeu II, na primeira metade do Século III a.C. Ela era
essencialmente definida pela capital da época e por laços que nem
sempre eram consangüíneos.
Dintel/Lintel - peça em pedra ou em madeira que se põe horizontalmente
sobre ombreiras de portas ou de janelas.
Diorito (gabro ou granito preto) - rochas heterogêneas escuras, pretas ou
pretas esverdeadas, utilizadas na produção da grande estatuária,
vasos, tigelas e objetos finos. As suas jazidas encontram-se ao sul de
Assuã.
Dikeras - termo grego que designa o “Duplo Corno da Abundância” seguro
nas mãos das estátuas das divindades e dos soberanos ptolomaicos.
Divina Adoradora ou Esposa do Deus - título da filha do primeiro
sacerdote de Amon, no reinado de Hatshepsut. No Novo Império foi um
título usado pelas rainhas e princesas. Durante o III Período
Intermediário designava a chefe espiritual dos domínios de Amon em
Tebas. Esta função era exercida por virgens da família real e
transmitida por adoção.
Djed ou Pilar-Djed - objeto enigmático identificado com a coluna vertebral
de Osíris, mas também associado a Ptah e Sokar. A sua existência
remonta ao Período Pré-dinástico. A cerimônia de “Ereção do Pilar-
Djed”, simbolizando a ressurreição do deus era um ponto importante
dos festivais de Ábidos. Simboliza a estabilidade e a permanência.
Usado como amuleto e motivo decorativo.

112
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Djet (Corpo Físico) - o corpo físico era o mais corruptível dos elementos que
compunham o homem e por isso era mumificado.
Dromos - via de acesso, em eixo, à entrada de um templo, ou entre dois
templos, ladeada por esfinges ou calçada.
Electro - designa um ouro branco ou uma liga de ouro e prata.
Encáustica - um método de pintura popular no Período Greco-Romano.
Consiste na aplicação de pigmentos fixados com cera de abelhas.
Aplicado sobre madeira e/ou tecido.
Enéade - grupo ideal de três vezes três divindades tendo sempre um deus
principal. O nove, para os egípcios, representava um plural indefinido
fazendo com que a enéade egípcia não tenha, necessariamente, nove
deuses. As mais conhecidas são a de Heliópolis, Mênfis, Ábidos e
Tebas, esta última com quinze deuses.
Epagômeno - cinco dias suplementares dedicados a Osíris, Hórus, Seth, Ísis
e Néftis. Acrescentados ao calendário solar para obter o ano de 365
dias.
Escaravelho - coleóptero sagrado que simboliza o sol levante e a idéia de
nascimento. Reproduzido em grande número como amuletos e jóias.
Escriba - função essencial da administração egípcia que possuía a tarefa de
ler e escrever.
Esfinge - do egípcio shespankh “Imagem Viva”. Designa um ser híbrido,
mais frequentemente, um corpo de leão com cabeça humana real
usando um nemés e representa a encarnação do poder real e divino.
Numerosas variantes existem: o nemés pode ser substituído pela juba
do leão; a cabeça pode ser a de um carneiro ou falcão; algumas vezes a
esfinge pode ter o corpo de carneiro ou de crocodilo. A partir do Médio
Império podem ter a cabeça da rainha.
Estátua cubo ou bloco - categoria de estátua que aparece no início do
Médio Império e que permaneceu em uso até o Período Romano. O
morto sentado com os joelhos junto ao peito, frequentemente envolto
em um manto dando o formato de cubo ao corpo, onde somente a
cabeça se ergue, talvez, como uma referência ao sol nascente e à
ressurreição. A sua origem provável estaria na representação do
guardião que se sentava na porta do templo.
Esteatita - aglomerado compacto de cristais de talco de coloração do branco
ao cinza. Sobre ela era aplicada uma camada vitrificada de coloração
verde azulada para a confecção de amuletos e ushabtis, principalmente
na Baixa Época. As suas jazidas ocorrem no Deserto Arábico.
Estela - placa em pedra, madeira ou faiança egípcia destinada a conter
inscrições, relevos ou pinturas com aplicações funerárias ou de
propaganda política. É atestada desde os tempos mais antigos como
uma pedra comemorativa ou demarcatória do túmulo. Traz o nome e os
títulos do proprietário da tumba e de seus familiares. Pode ser
independente da tumba ou integrar a sua arquitetura.
Estratigrafia - superposição de diferentes camadas arqueológicas fixando
sua sucessão cronológica e, portanto, suas datas relativas.
113
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Eternidade - para os egípcios havia dois tipos possíveis de eternidade. A


neheh identificada ao deus sol Rê como sendo uma eterna regeneração
cíclica; e a djet identificada a Osíris, linear e ligada à idéia de
perpetuidade.
Ex-voto - inscrição, objeto ou animal mumificado colocado em uma
santuário como agradecimento a uma graça atendida.
Faiança egípcia - material vitrificado obtido pela mistura de sílica com
gipsita ou argila e óxidos de cobre. Geralmente de cor verde ou azul.
Faraó (Per-âa) - do egípcio “A Grande Casa”. Usada para designar o palácio
real. Foi utilizado a partir da XVIII dinastia para designar o rei e na
XXII dinastia passou a fazer parte da titulatura real.
Festa do Vale ou Bela Festa do Vale - procissão anual dos deuses tebanos
Amon, Mut e Khonsu em suas barcas entre Karnak e Deir el-Bahari. No
Novo Império a barca de Amon visitava também os outros templos
funerários.
Festival de Opet - festa tebana durante 27 dias cujo ponto máximo era a
procissão das barcas sagradas e reais entre os templos de Karnak e
Luxor. Representando a união de Amon, de Karnak, e Opet, de Luxor.
Festival do Jubileu (Heb Sed) - festa jubilar celebrada pelo faraó destinada
a regenerar o seu vigor físico e seu poder mágico. Geralmente celebrada
após 30 anos de reinado e repetida a cada 3 anos. O rei refazia os ritos
de coroação usando um manto curto particular.
Flabelo - leque com cabo longo guarnecido com plumas de avestruz.
Galeria - em oposição aos poços são corredores inclinados que permitem o
acesso às câmaras das pirâmides ou das tumbas privadas.
Gerzense - nome do segundo período da cultura neolítica de Naqada, que
leva o nome do sítio arqueológico El-Gerze, próximo a Meidum.
Gesto Henu - também chamado Gesto de Júbilo ou “Recitação das
Glorificações”. Aparece frequentemente nas cenas de adoração a Osíris
e Rê e feito pelas almas (bás) de Pe e Nekhem, onde são representados
com um dos joelhos no chão, a mão esquerda fechada apoiada sobre o
peito, o braço direito erguido em ângulo reto com a mão fechada. Esta
aclamação rítmica poderia ser acompanhado por gritos.
Gesto Nini - gesto de saudação e veneração que consistia em derramar um
pouco de água com as mãos diante de uma pessoa que se queria
honrar. Frequentemente feito entre as divindades ou entre um faraó e
uma divindade.
Glorificado - do egípcio Imakhu. É um epíteto aplicado aos mortos após
terem sido absolvidos no Julgamento da Alma. Ele indica um estado de
beatificação em relação ao deus Osíris capacitando o morto a seguir o
sol em sua jornada.
Granito - rocha ígnea de composição cristalina de quartzo, feldspato e mica
de coloração rósea, cinza e preta. Foi amplamente utilizada em todos os
períodos na construção de edifícios, sarcófagos e estatuária. As suas
jazidas encontram-se em Assuã e Wadi Hammamat.

114
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Grauvaca (xisto) - rocha homogênea e dura de cor esverdeada. Utilizada


desde os tempos Proto-dinásticos para a confecção das paletas votivas e
amuletos. Foi utilizada também para a confecção de vasos e recipientes,
escaravelho coração e também na estatuária. As suas jazidas ocorrem
no Deserto Arábico.
Heka - uma energia transformadora e criadora ao mesmo tempo coletiva e
individual, traduzida muitas vezes como magia.
Hemispeo - templo rupestre onde a parte posterior é escavada na rocha e a
anterior é construída.
Hicsos - versão grega do egípcio heqa khasut (“Príncipes dos Países
Estrangeiros” também traduzido como “Reis Pastores”). Este termo não
designa raça nem origem, usado durante o Antigo e Médio Impérios
para as populações núbias e asiáticas, mas que caracteriza as
populações originárias da Palestina, em sua maioria amoritas e
cananeus, que ocuparam o Egito criando a XV dinastia com a capital
em Aváris, no Delta Oriental.
Hierático - do grego “Escrita Sacerdotal”. É o nome dado à escrita cursiva
não monumental, originada da simplificação dos sinais hieroglíficos,
utilizada para escrever sobre papiro ou óstraco com pincel e tinta.
Utilizada desde o Período Thinita paralelamente à escrita monumental
hieroglífica, foi substituída no Século VII a.C. pelo demótico.
Hieróglifo - do grego “As Letras Sagradas Esculpidas”. Conjunto de sinais
(fonogramas, ideogramas e determinativos) que compunham a escrita
egípcia e também a que persistiu por mais tempo. Aparece no final do
Período Pré-dinástico (cerca de 3100 a.C.) estendendo-se até 394 d.C.
Após o aparecimento das suas versões cursivas (hierático e demótico)
confinou-se a contextos religiosos e monumentais.
Hin - unidade de volume que corresponde aproximadamente a 0,48l.
Hipogeu - do grego “sob a terra”. Tumba rupestre subterrânea que com a
pirâmide e a mastaba representa a terceira forma essencial das tumbas
egípcias que eram escavadas nas encostas das montanhas e das
falésias ao longo do Nilo.
Hipostila - sala do templo onde o teto é sustentado por uma série de
colunas dispostas em filas paralelas.
Hu - o verbo criador. Som que se espalhou pelo Universo no momento da
Criação. Era também representado como uma divindade.
Ib (Coração) - sede da vida, do conhecimento e da inteligência.
Íbis - pássaro sagrado do deus Thoth.
Iseum - necrópole das “Mães dos Touros Ápis” consagrada à Ísis, mãe de
Ápis, em Mênfis.
Ished - arbusto do deserto (Balanites aegyptiaca) que fornece um fruto
açucarado, às vezes, identificado à Persea. Está relacionado ao
nascimento do deus sol, aparecendo junto com o gato de Heliópolis,
símbolo da vitória do sol sobre Apópis.

115
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Isocefálico - equalização do tamanho entre duas ou mais figuras, numa


composição, pelo ajuste da escala ou do posicionamento deixando as
cabeças das representações no mesmo nível.
Janela da Aparição - janela ou balcão do palácio real onde o faraó
recompensava os seus funcionários. Durante o Novo Império, no templo
funerário, era o local onde o rei assistia as cerimônias religiosas.
Jaspe - variedade de quartzo duro e brilhante de grãos finos e de coloração
homogênea amarela, vermelha e verde. A variedade vermelha possuía
as conotações positivas de dinamismo e poder do sol e era utilizada na
confecção de amuletos, principalmente o nó de Ísis. A verde foi utilizada
desde os tempos Pré-dinásticos na confecção de amuletos,
principalmente os escaravelhos coração no Período Faraônico. As suas
jazidas ocorrem no Deserto Arábico.
Justificado ou Justo de Voz - do egípcio “Maakheru”. Epíteto colocado
após o nome próprio que qualifica o morto como tendo passado com
sucesso pelo julgamento no Tribunal de Osíris, cumprindo as condições
de Maat.
Ká - um dos componentes espirituais do homem e dos deuses. Criado ao
mesmo tempo em que o ser físico é algumas vezes chamado de “duplo”.
É o símbolo da força vital conservadora e alimentadora do ser. Encarna
na estátua do morto depositada na tumba.
Kalathos - palavra grega que designa o módius. É um instrumento de
medida de cereais usado como coroa pelo deus Serápis.
Kemet - “A terra negra”. Nome que designava o Egito como referência ao
limo escuro depositado pelo Nilo fertilizando os campos.
Kemyt - coletânea de textos literários, surgido no Médio Império, utilizado
como manual na formação dos escribas.
Khekeru - “ornamentos” decorativos estilizados formando frisos no alto das
pinturas e relevos. Provavelmente inspirados em feixes de plantas no
alto das paredes de tijolos crus das casas primitivas.
Khepesh - cimitarra com a lâmina no formato do crescente, originária do
Oriente Próximo, trazida ao Egito pelos hicsos.
Khool - pintura para os olhos, à base de galena, que não somente ornava
mas também protegia os olhos contra algumas doenças.
Kom - palavra árabe que designa um monte de escombros aplicado às
colinas com restos antigos. Sinônimo de Tell.
Lágida - dinastia fundada pelo general macedônico Ptolomeu, Filho de
Lagos, após a morte de Alexandre o Grande. Reinaram entre 305 a 30
a.C., até a dominação romana.
Lago Sagrado - lago retangular que reproduzia simbolicamente, nos
templos, o oceano primordial (Nun).
Lápis-lazúli - mineral azul escuro e opaco muitas vezes com manchas
brancas e impurezas de ouro com uma aparência lustrosa quando
polido. Foi a pedra semipreciosa mais valorizada pelos egípcios.
Simbolizava o céu noturno e o oceano primordial, muito utilizado na
produção de amuletos e jóias da elite. O seu nome (xsbd), na Baixa
116
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Época, foi um sinônimo para “deleite” e “prazer”. Foi importado desde


os tempos Pré-dinásticos do Afeganistão.
Litania de Rê - uma série de textos que aclamam o deus sol Rê em 75
formas diferentes e a união deste com o faraó e outras divindades.
Aparece em pilares de câmaras funerárias e entradas de tumbas da
XVIII dinastia. Existiam duas versões, uma curta e outra longa, a partir
de Séthi I aparece nas entradas e nos corredores das tumbas
ramessidas.
Livro da Terra ou Livro de Akher - composições religiosas que descrevem
em quatro partes a jornada noturna do sol no Mundo dos Mortos.
Aparecem nas câmaras funerárias e em sarcófagos da XX dinastia.
Livro das Cavernas - textos que descrevem o “Mundo Inferior” em uma série
de cavernas ou poços por onde o deus sol passa, e onde as almas e os
inimigos do deus são punidos. Aparece na parte superior das paredes
das tumbas do final da XIX e XX dinastias, no cenotáfio de Séthi I em
Ábidos e uma versão completa na tumba de Ramessés VI.
Livro das Respirações - surgido na região tebana, no Período Ptolomaico, é
dividido em duas categorias: o Primeiro Livro das Respirações e o
Segundo Livro das Respirações. O primeiro é inspirado nos textos e
fórmulas religiosas das estelas e das tumbas; enquanto o segundo é
uma reutilização dos capítulos mais importante do “Livro dos Mortos”.
A sua função era dar ao morto a possibilidade de respirar associando-o
indiretamente ao deus Amon, considerado como o sopro da vida e o de
assegurar a conservação de seu nome.
Livro do AmDuat - do egípcio “Aquilo que há no Mundo Inferior” ou “O
Livro da Sala Oculta”. Nome de uma série de textos que descreve o
percurso subterrâneo do sol durante as doze horas da noite e que foi
representado nas paredes de algumas tumbas reais da XVIII dinastia. A
versão completa encontra-se nas tumbas de Thutmés III, Amenhotep III
e do vizir User.
Livro dos Céus - textos que descrevem a passagem do deus sol nos Céus.
Dividido em três partes: Livro do Dia, Livro da Noite e Livro da Vaca
Divina. Aparecem nas câmaras funerárias e nas passagens das tumbas
da XIX e XX dinastias. O Livro do Dia e o da Noite, compostos no final
do Novo Império, descreve o céu e a criação do sol, aparece em diversas
tumbas reais ramessidas; o Livro da Vaca Divina ou Celeste conta o
mito da deusa Háthor embriagada e a partida de Rê em direção ao céu
nas costas da deusa Nut, provavelmente foi composto no Período
Amarniano.
Livro dos Mortos - do egípcio “Livro para sair à luz do dia”. Coletânea de
aproximadamente 192 capítulos, na sua forma mais completa e mais
tardia, derivada dos Textos das Pirâmides e Textos dos Sarcófagos. É
uma espécie de manual do Outro Mundo para uso dos mortos. Extratos
deste decoram as tumbas e sarcófagos ramessidas.
Livro dos Portões - uma composição referente aos doze portões que dividem
as horas da noite percorridos pela barca de Rê. Inscrito na câmara
117
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

funerária e em pilares na entrada das tumbas do Vale dos Reis e em


alguns sarcófagos de faraós. Surgiu no final da XVIII dinastia. A versão
completa está na tumba de Ramessés VI, no sarcófago de Séthi I e no
corredor do Osireion em Ábidos.
Lótus - lírio aquático que simbolizava o surgimento da luz e do mundo. Era
a planta heráldica do Alto Egito.
Maat - palavra que designa vários conceitos como ordem, equilíbrio, verdade
e justiça. É também representada como uma divindade.
Mammisi - do copta “Local do Nascimento”, termo inventado por
Champollion. Termo utilizado para designar os pequenos templos
anexos da Baixa Época, mas essencialmente Ptolomaicos, onde se
celebravam o nascimento do deus criança
Manu - designa as montanhas líbias identificada pelos egípcios como local
onde o sol penetra no Mundo dos Mortos em sua viagem noturna, em
oposição ao Bakhu.
Mastaba - do árabe “Banco”. Designa uma tumba civil composta por dois
elementos: uma superestrutura retangular com faces inclinadas, feita
com tijolos ou pedra, reservada ao culto funerário onde se encontravam
as câmaras decoradas: a sala de oferendas, a porta-falsa, a mesa de
oferendas e o serdab. E uma parte subterrânea, escavada na rocha,
com a câmara funerária cujo acesso era geralmente por um poço.
Datada essencialmente do Novo Império.
Medjay ou Madjai - termo que designava, durante o Antigo Império, as
populações da Baixa Núbia e os nômades do Deserto Oriental e que
passou a designar as pessoas recrutadas para o policiamento das
necrópoles e das fronteiras do deserto.
Menat - palavra egípcia que designa um objeto simbólico em forma de colar
formado por várias fileiras de contas unidas a um contrapeso. Este
objeto era mais frequentemente carregado nas mãos que no pescoço. É
um dos atributos que designa o poder da deusa Háthor com valor de
fecundidade. Durante algumas cerimônias era usado como um
chocalho.
Meroítico - nome referente ao sítio de Meroi próximo à quinta catarata do
Nilo. Designa o período da história sudanesa (Kushita) durante o qual
esta cidade foi o centro de toda a atividade (após o III século a.C. até o
IV século d.C.).
Mesa de Oferendas - placa em pedra ou terracota onde vários tipos de
oferendas para o morto eram pintadas ou em relevo, sendo assim
disponíveis eternamente. Estas placas eram depositadas na capela
funerária, aos pés da porta-falsa, sobre a qual eram depositadas as
oferendas alimentares.
Métopa/Tríglifo - faixa ou tira com intervalos retangulares de dimensões
variáveis e pintadas com cores diferentes ou esculpidas em friso na
parede ou em qualquer superfície plana.
Modelo ou maquete - figuras em rocha ou mais frequentemente em
madeira pintada que individualmente ou em grupos representavam as
118
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

mais variadas cenas da vida cotidiana destinadas a substituir as


decorações das paredes da capela funerária. Características do Médio
Império.
Modius - palavra latina que designa um recipiente cilíndrico de medida de
capacidade usado pelos romanos. No vocabulário egiptológico designa,
por semelhança a sua forma, um elemento circular que serve de base
para certas coroas divinas.
Múmia - do árabe “Mumiyah” (betume). Corpo embalsamado, eviscerado e
desidratado; e envolto em bandagens.
Naoforme ou naofore - tipo de estátua, geralmente masculina, ajoelhada,
em pé ou sentada que traz ou apresenta um naos abrigando uma
estátua ou um emblema divino.
Naos - do grego “Templo”. Na egiptologia refere-se a um tabernáculo em
pedra contendo um relicário em madeira no qual era colocado uma
estátua de culto, por extensão era o nome dado à sala do tabernáculo.
Natrão - sal natural composto pela mistura de carbonato de sódio, cloreto
de sódio e sulfato de sódio, extraído principalmente de Wadi Natrun, no
Baixo Egito. Era principalmente utilizado para a desidratação dos
corpos no processo de mumificação e para a purificação, fumigação
das cerimônias religiosas e ao preparo de sabão para banho.
Necrópole - do grego “Cidade dos Mortos”. Designa os grandes cemitérios
que se estendem no limite do deserto ocidental.
Nefer - do egípcio “Bom” ou “Belo”. Usado como motivo decorativo, jóias,
amuletos e mobiliário.
Nemés - toucado faraônico feito em tecido estriado que envolvia a cabeça,
com duas abas que caíam sobre o peito e era amarrado à nuca em uma
espécie de trança.
Nilômetro - instalação provida de um poço e uma escala que permitia a
medida da cheia do Nilo.
Nomarca - nome dos governantes dos nomos. Nobres hereditários ou
simplesmente governadores, segundo a época.
Nomo - palavra de origem grega usada para indicar as províncias
administrativas do Egito Antigo, cujo número variava de 32 no Antigo
Império a 42 na Baixa Época (22 no Alto Egito e 20 no Baixo Egito).
Cada nomo era representado por uma insígnia da divindade local sobre
um estandarte.
“Nove Arcos” - na ideologia real faraônica os países estrangeiros submissos
ao faraó são representados por nove arcos sob os pés do soberano.
Obelisco - do grego “Espeto”. Bloco monolítico com sessão quadrada e o
topo em forma de pirâmide. Símbolo solar, raio do sol petrificado,
aparecendo geralmente aos pares na entrada dos templos, diante do
pilono, ou de certas tumbas.
Obsidiana - rocha magmática vitrificada preta brilhante e translúcida.
Utilizada na confecção de amuletos específicos na Baixa Época e
lâminas usadas nas cerimônias de mumificação. Era importada da
Etiópia.
119
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Ogdoade - grupo de quatro casais de deuses primordiais da cosmogonia de


Hermópolis: Nu, Naunet; Heh, Hauhet; Kek, Kauket; Amun, Amaunet,
criados pelo verbo representado pelo deus Thoth. Os deuses são
representados por sapos e as deusas por serpentes. Estas forças
primordiais depositaram o “ovo cósmico” sobre a terra que emergiu do
Nun, de onde surgiu o sol criador do mundo. Em uma outra versão os
deuses fecundaram um lótus de onde surgiu o sol.
Óstraco - fragmento de pedra ou de cerâmica utilizado como suporte para
escrever (cálculos, cartas, exercícios e contratos) e desenhar (modelos,
esboços e projetos).
Ouro - metal considerado como a carne dos deuses, usado para recobrir as
suas imagens e as máscaras funerárias conferindo ao morto um estado
divino. A deusa Háthor possuía o epíteto “A Dourada” ou “O Ouro
Feminino”.
Paleta - placa em pedra utilizada para misturar cosméticos. Usada como
suporte para decoração em relevo durante o Pré-dinástico.
Papiro - suas fibras unidas em folhas formavam longos rolos que eram
suporte para os textos e de onde deriva o nosso nome “papel”. Planta
aquática que simbolizava a fertilidade e a força criadora. Era a planta
heráldica do Baixo Egito.
Per-nu - nome do santuário Pré-dinástico de Buto que representava o Baixo
Egito.
Per-ur (A Grande Casa) - nome do santuário Pré-dinástico de Nekhen
(Hieracômpolis) que representava o Alto Egito.
Peret - Estação da Germinação (Inverno) que inicia na segunda metade de
novembro e termina na primeira metade de março.
Período Intermediário - nome dado aos períodos em que o Egito foi dividido
e governado por vários soberanos simultâneos.
Peristilo - pátio rodeado por colunas.
Peruca ou Toucado tripartite - peruca repartida em três mechas de cabelo,
duas caindo de cada lado do rosto, sobre o peito, e a terceira sobre o
ombro e costas.
Pilar ou Colosso Osiríaco - pilar ao qual está fixada uma estátua real
geralmente mumiforme ou com os pés juntos e os braços cruzados
sobre o peito, como o deus Osíris. É a representação funerária ou
jubilar do faraó, não tem funções arquitetônicas.
Pilone/Pilono - entrada monumental com a forma de dois maciços
trapezoidais ladeando a porta de entrada dos templos, simbolizando as
montanhas do horizonte entre as quais se ergue o sol. Diante ele
erguem-se as auriflamas, obeliscos e as estátuas colossais dos faraós.
Pirâmide - do grego “Bolo de Sésamo”. Monumento funerário que continha a
tumba do faraó. Representa, simbolicamente, a escadaria que o
conduziria ao céu e também os raios do sol que tocavam a terra.
Piramidion - pedra em forma de pirâmide que se encontrava nas pontas
dos obeliscos ou de pirâmides, simbolizando o sol, podendo ter um

120
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

revestimento em electrum ou ouro. Este termo designa no Novo Império


uma pequena pirâmide colocada sobre a entrada da tumba.
Porfírio - rocha violácea com a presença de cristais, principalmente brancos
e pretos. Utilizada na confecção de estatuária e elementos
arquitetônicos, desde o Antigo Império, mas principalmente na Baixa
Época, onde também foi utilizada na confecção de amuletos. Tornou-se
muito apreciada pelos imperadores romanos que a elegeram como uma
rocha imperial para as suas imagens e na decoração de seus palácios.
As suas jazidas ocorrem próximas ao Mar Vermelho.
Porta falsa, Porta de Aparição ou estela porta-falsa - nas tumbas era uma
imagem construída em relevo ou pintada, em pedra ou madeira, de
uma porta pela qual o morto ou o seu Ká poderia sair do Outro Mundo
para receber as oferendas depositadas pelos vivos sobre a Mesa de
Oferendas. No Antigo Império possuía, geralmente, representações do
morto diante de uma mesa.
Porticullis - bloco de calcário ou mais frequentemente de granito colocado
para bloquear a entrada ou um corredor de uma câmara funerária após
o sepultamento.
Posição de Marcha - na estatuária, no baixo relevo ou na pintura as
figuras, principalmente as masculinas, são representadas com o pé
esquerdo à frente. Uma postura dinâmica em oposição aos pés juntos
das mulheres e dos mortos.
Pré-dinástico - nome dado ao período que precede a primeira dinastia
histórica e que engloba todo o período chamado Eneolítico ou
Calcolítico durante o qual as tradições neolíticas do trabalho em pedra
e os metais (cobre) surgem. É o período que se inicia com o Badariense.
Pronaos - sala que precede o santuário, seja imediatamente seja a alguma
distância, segundo o plano do templo. Palavra algumas vezes
empregada para designar a sala hipostila (Edfu e Dendera).
Desenvolveu-se nas XVIII e XIX dinastias tornando-se no Período
Ptolomaico e Romano um elemento essencial dos templos.
Psicostasia - do grego “Pesagem da Alma”. Designa a pesagem do coração
do morto na “Sala da Dupla Verdade” ou “Sala das Duas Maat”, sob a
presidência de Osíris, o juiz, auxiliado por 42 divindades, por Thoth, o
escriba, Anúbis, o verificador e pelo monstro Amam, a grande
devoradora. A cena ilustra o capítulo 1265 do “Livro dos Mortos”.
Quartzito - uma forma dura e cristalina do arenito (grés) de coloração
homogênea avermelhada ou bege amarelada. Foi utilizada em edifícios,
sarcófagos reais e monumentos desde o Antigo Império. Inúmeros reis
foram retratados com este tipo de rocha devido a sua conotação solar,
principalmente nos reinados de Amenhotep III, Akhenaton e Ramessés
II. As suas jazidas encontram-se em Assuã.
Quiosque - pequeno edifício aberto em todos os lados servindo de
embarcadouro e/ou tribuna nas cerimônias festivas. O mesmo termo
designa também os edifícios semelhantes sobre os tetos dos templos ou
ainda os repositórios. Um pavilhão que abrigava o rei ou o morto.
121
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Re-stau ou Ro-setau “Porto das Passagens” - nome que originalmente


designava a Necrópole de Mênfis onde se localizava a entrada do Mundo
Inferior domínios do deus Sokar e por designação passou para todas as
necrópoles como os Domínios de Osíris.
Registro - subdivisão horizontal de uma parede decorada em tumbas, em
templos ou em objetos e estelas.
Rekh - habilidade e uma técnica utilizada pelo homem na arte e na escrita.
Ren (Nome) - era um sinal de individualidade que expressa a essência do
ser e uma qualidade. Era através do nome que se realizava alguns atos
mágicos e a sua permanência significava a sobrevivência do ser.
Ritual de embalsamamento - manual composto por parágrafos dispostos
sequencialmente as operações de embalsamamento. Cada parágrafo
indica ao manipulador as suas ações. Uma outra parte dá o conteúdo
religioso dos atos.
Saff - do árabe “fila”. Tumba do rei Antef em Tebas ocidental (El Tarif)
escavada na rocha com uma fachada com pórtico com pilares ligada a
um corredor que leva à câmara funerária. Esta forma deu origem a
tumbas privadas, principalmente em Gebelein e Dendera.
Saiote-Shendyt - saiote de origem Pré-histórica usado pelo faraó e algumas
divindades. Consiste de duas peças de tecido amarradas na frente de
onde pende uma peça horizontal estriada e sobre este era colocado um
cinturão de onde pendia um tecido em forma de uma cauda de touro.
Sarcófago - do grego “Pedra Devoradora de Carnes”. De formato retangular,
em pedra, continha o caixão em madeira ou pedra (antropomórfico),
múltiplos ou não, com o corpo mumificado e que ocupava o lugar mais
importante da sepultura egípcia. Considerado a morada do morto.
Sekhet - designa os campos férteis às margens do Nilo. É frequentemente
representado por figuras femininas que simbolizam os distritos do Egito
(nomos) que trazem nas mãos a abundância das colheitas.
Sem - sacerdote cuja característica é vestir uma pele de pantera e, muitas
vezes, usar a madeixa da infância. Ocupa um lugar de destaque nos
rituais egípcios, principalmente, aquele da “Abertura da Boca”.
Sematawy - do egípcio “União das Duas Terras”. Escrito em hieróglifos
monumentais nas laterais dos tronos reais. Algumas vezes associado
com os “Gênios do Nilo”. Simbolizando as plantas heráldicas do norte
(papiro) e do sul (lótus ou lírio), amarradas ao hieróglifo “unir”,
representando a união do Baixo e do Alto Egito.
Senet - jogo de tabuleiro, semelhante ao nosso jogo de damas, com três
fileiras de dez casas. No Capítulo 17 do “Livro dos Mortos” a partida de
Senet simboliza a jornada do morto no Outro Mundo.
Serapeun - cidade-santuário consagrado ao culto do touro Ápis.
Serdab - do persa “Depósito”. Câmara completamente fechada contendo,
nas mastabas ou templos funerários do Antigo Império, as estátuas Ká
do morto. Uma fenda na altura dos olhos, na parede que separa o
serdab do local de oferendas, estabelecia o contato entre estas estátuas
e os vivos que praticavam o culto.
122
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Serekh - do egípcio “Fachada de Palácio”. É uma representação da fachada


e do muro que cercava os primeiros palácios egípcios. Utilizado como
motivo decorativo e na composição do primeiro nome real ou “Nome de
Hórus”, colocado sob um falcão.
Serpentina (esteatita) - rocha composta por um silicato hidratado natural
de magnésio esverdeado. Utilizada principalmente no Período Pré-
dinástico para a produção de estelas e amuletos profiláticos contra
picadas de serpentes e escorpiões.
“Servidor no Local da Verdade” - tradução do termo Sedjem ash em Set
Maat cujo significado literal é “Aquele que escuta o apelo no Local da
Verdade” e que designa os artistas e artesãos que trabalhavam nas
tumbas e templos funerários tebanos e que moravam na vila de Deir el-
Medina durante o Novo Império. O “Local da Verdade” ou “Local de
Maat” é uma metáfora que para a necrópole tebana, especificamente a
tumba real. Durante a XVIII dinastia também era denominado de
“Grande Local”.
Shabti ou Ushabti - pequenas estatuetas que representavam os servidores
funerários, frequentemente mumiformes, feitas em diferentes materiais,
colocadas na tumba para substituir magicamente o morto na execução
de trabalhos que seria chamado a realizar no Outro Mundo.
Frequentemente tem nas mãos instrumentos agrícolas e possuem ao
longo do corpo inscrições contendo o capítulo VI do “Livro dos Mortos”
ou simplesmente o nome e títulos do morto. Outra forma para o seu
nome era Shauabti.
Shaduf - dispositivo elevatório pendular de água que aparece na XIX
dinastia e ainda utilizado no Egito.
Shebiu ou “Ouro da Recompensa” - colar composto por anéis em ouro
dado pelo rei para recompensar seus melhores oficiais e funcionários.
Shemu - Estação da Colheita (Verão) inicia na segunda metade de março e
termina na primeira metade de julho.
Shut (Sombra) - seu significado ainda não está bem claro. É associada com
a Bá e possui uma existência própria ligada à sexualidade do morto. A
sua presença é revelada pela luz do sol.
Sia - conjunto de conhecimentos utilizados na Criação do Universo. É
também representado como uma divindade.
Sicômoro - variedade da figueira egípcia. Árvore sagrada das deusas Háthor
e Nut. Madeira dura e escura usada na confecção de mobiliário,
sarcófagos, estátuas e outros acessórios funerários.
Sílex - aparece incluso em camadas de calcário, foi utilizada principalmente
nos Período Pré-histórico para a produção de lâminas e manteve-se em
uso, no período faraônico, na produção de objetos rituais.
Sistro - espécie de matraca utilizada nas cerimônias litúrgicas, em especial
ligado ao culto das deusas Háthor e Bastet.
Sistrophore - “estátua portadora de sistro”.
Speos - do grego “Gruta”. Designa os templos ou tumbas rupestres, isto é,
talhadas completamente na rocha.
123
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Stelophore - estatueta de uma pessoa ajoelhada em posição de oração, que


põe as suas mãos erguidas sobre uma estela diante de si. Normalmente
escrita com um hino ao deus sol. Surgidas após a XVIII dinastia
poderiam ser colocadas nos nichos das pequenas pirâmides privadas.
Talatat - do árabe que indica uma largura de três palmos. Designa os
blocos de pedra decorados, de pequenas dimensões, utilizados nas
construções dos templos do Período Amarniano em Luxor e Tell el-
Amarna, e reutilizados em Hermópolis.
Têmenos - palavra grega que designa o conjunto dos domínios sagrados de
um templo no interior de um recinto cercado por um muro que separa
o mundo profano daquele sagrado isto é o santuário, a propriedade do
deus.
Templo Alto ou Templo Funerário ou Templo da Pirâmide - termo que
designa, no complexo funerário das pirâmides, o templo funerário
construído junto à face leste das pirâmides. Local onde se praticava o
ritual funerário e o serviço de oferendas para o faraó morto. Composto
por uma parte pública e outra privada. Abrigada as estátuas do faraó.
Templo Baixo ou Templo do Vale - termo que designa, no complexo
funerário das pirâmides, o templo que possuía um embarcadouro
próximo ao Nilo e que era ligado ao Templo Alto por uma calçada
pavimentada. Era o local da Tenda da Purificação onde os sacerdotes
executavam o ritual de “Abertura da Boca” na múmia do faraó.
Templo de Milhões de Anos - termo egípcio que designa os templos
funerários consagrados ao rei morto, mas que possuía também a
função de “Templo Memorial”, servindo ao culto ancestral, como
repositório da Barca Sagrada e Templo Divino. Os principais
encontram-se em Tebas Ocidental.
Tenda da Purificação - tenda ritual onde os sacerdotes faziam a purificação
do cadáver e o secava com natrão. Após a mumificação a tenda servia
aos rituais funerários como o da “Abertura da Boca”. No Antigo Império
o Templo Baixo era utilizado para esta finalidade.
Teogamia - do grego “Casamento Divino”. Doutrina religiosa que
proclamava a origem divina do faraó, representada pela união carnal de
sua mãe com um deus.
Teophore - “portador da divindade”. Designa as estátua de particulares de
trazia a escultura de um deus. É também aplicado às pessoas que
possuíam o nome de uma divindade.
Textos das Pirâmides - conjunto de mais de 800 fórmulas gravadas nas
paredes das câmaras funerárias das pirâmides a partir de Unas, na V
dinastia. A pirâmide de Pépi II, na VI dinastia, tem a coleção mais
completa com 675 fórmulas compostas, provavelmente em Heliópolis,
os textos além do ritual funerário proclama a ressurreição do faraó
junto com o deus sol e permitindo ao faraó reinar no Outro Mundo.
Textos dos Sarcófagos - conjunto com mais de mil fórmulas escritas nos
caixões do I Período Intermediário e Médio Império. Derivado dos Textos

124
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

das Pirâmides. Estas fórmulas garantiriam a sobrevivência do morto no


Outro Mundo.
Tríade - grupo de três divindades formando uma família ou grupo de três
estátuas esculpidas em um mesmo bloco.
Turquesa - mineral azul esverdeado opaco. Era apreciado por sua coloração
esverdeada associada pelos egípcios com a renovação da vida e a
ressurreição. Usada na produção de amuletos e incrustações
ornamentais desde o Período Pré-dinástico. As suas jazidas ocorrem no
Sinai.
Tyt (Nó de Ísis) - amuleto normalmente de cor avermelhada utilizado
também em motivos funerários. Simbolizava o sangue de Ísis. Surgiu
no Antigo Império. Associado ao pilar-djed a partir do Novo Império.
Udjat - olho sagrado do deus falcão Hórus usado como sinal de proteção em
amuletos e motivos decorativos. Simboliza a integridade física e o vigor.
Uraeus - forma latina da palavra grega derivada do egípcio “Aquela que se
Ergue”. Designa a cobra protetora, símbolo da realeza e do poder
divino, que aparece na fronte dos faraós e das divindades. Filha de Rê
que atacava os inimigos do rei e dos deuses.
Usekh - colar largo formado por várias fileiras de contas que cobre o peito e
os ombros dos deuses e dos mortos.
Vasos canopos - quatro recipientes nos quais eram colocadas as vísceras
extraídas do corpo durante a mumificação. Cada um era colocado sob a
proteção de um dos Filhos de Hórus representados nas tampas dos
vasos: Imset, com cabeça humana; Hapy, com cabeça de babuíno;
Duamutef, com cabeça de chacal; e Qebehsenuef, com cabeça de
falcão, a partir do Novo Império.
Vinhetas - ilustrações características dos diferentes capítulos do “Livro dos
Mortos”.
Vizir - do árabe “O Chefe do Poder Executivo” (Primeiro Ministro). Possuía
as mais altas responsabilidades administrativas em nome do faraó.
Organizava a mão de obra, administrava o domínio real, incluindo o
palácio e os territórios ocupados, supervisionava e registrava os atos
jurídicos, recolhia os impostos e tributos, nomeava os altos
funcionários e dirigia os arquivos reais.

125
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

20. GLOSSÁRIO TOPOGRÁFICO

Ábidos ou Abidos - centro religioso do Alto Egito na margem oeste do Nilo a


168km ao norte de Luxor cujo deus principal era Osíris. Sua origem
remonta aos Períodos Pré-dinásticos e seu principal templo foi
construído por Séthi I e Ramessés II.
Abu Gurob - localidade situada ao norte de Saqqara onde se encontram os
templos solares da V dinastia, em particular aquele de Niuserrê.
Abu Roash - localidade a 9km de Giza e que fazia parte da antiga necrópole
onde se encontra a pirâmide de Djedefre da IV dinastia.
Abu Simbel - nome de uma antiga vila situada a 280km ao sul de Assuã, na
margem oeste, e onde se encontra o mais importante templo rupestre
construído por Ramessés II em honra do deus sol e o templo da rainha
Nefertari dedicado à deusa Háthor.
Abuquir (Canopo) - localidade do Período Ptolomaico localizada a 45km de
Alexandria às margens do Mediterrâneo e onde se encontrava um dos
célebres Serapeum.
Abusir (Taposíris Magna) - localizada entre Giza e a norte de Saqqara.
Designa a necrópole real e os templos solares da V dinastia.
Akhetaton - ver Tell el-Amarna.
Akhimim (Chemmis, Panópolis) - cidade situada na margem leste do Nilo
aproximadamente a 200 km ao norte de Luxor. Foi a capital do 9º
Nomo do Alto Egito cujo deus era Min.
Alexandria - cidade às margens do Mediterrâneo, fundada por Alexandre, o
Grande, em 332 a.C., capital e residência dos Ptolomeus. Célebre pelo
farol e por sua biblioteca.
Amada (Hamadah) - localizada na Núbia, na margem ocidental do Nilo,
cerca de 50km ao norte de Aniba, onde o faraó Thutmés III construiu
um templo em honra a Ámon-Rê e Rê-Horakhty, concluído por Séthi I.
Aniba - cidade da Baixa Núbia entre a 1ª e a 2ª Catarata. Local de
importância comercial e militar desde o Antigo Império, a cidade foi
fortificada durante o Médio Império.
Antinópolis (Antinoe, Sheikh Aibada) - cidade do Médio Egito fundada
pelo imperador romano Adriano em 30 de outubro de 130 e que
possuía um teatro, um hipódromo e ruas luxuosas.
Armant (Ermant, Hermonthes) - cidade que se encontra na margem oeste
do Nilo a 20km ao sul de Luxor. De origem Pré-histórica onde foi
cultuado o deus Montu.
Assassif - nome dado a uma das regiões da necrópole tebana. Próxima ao
templo de Deir el-Bahri com tumbas do Período Ramessida, da XXV e
XXVI dinastias.
Assiut (Licópolis) - cidade na margem oeste do Nilo a 407km ao sul do
Cairo. Capital do 13º Nomo do Alto Egito onde era cultuado o deus Up-
Uaut e de onde partiam as caravanas para os oásis. Onde se encontram
as tumbas da IX, X, XII e XIX dinastias.

126
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Assuã (Siena) - cidade na margem leste do Nilo próxima à 1ª catarata. Foi a


capital do 1º Nomo do Alto Egito onde eram cultuados os deuses
Khnum e Satis.
Athribis (Benha, Tell Atrib) - capital do 10º Nomo do Baixo Egito na
margem direita do braço Damieta do Delta do Nilo onde era cultuado
um deus falcão identificado a Hórus.
Avaris ou Aváris (Tell ed-Daba) - capital dos reis hicsos no Delta oriental
do Nilo.
Babilônia - nome de uma fortificação romana atualmente no Cairo Velho.
Baharia - oásis do deserto líbio a oeste do Nilo ocupado desde o Período
Paleolítico, tornando-se famoso ela produção de vinho, a partir do
Médio Império, principalmente durante o Período Romano.
Beni Hassan - cidade do Médio Egito na margem leste do Nilo onde se
encontra a necrópole dos príncipes do 16º Nomo do Alto Egito, da XI e
XII dinastias.
Bubástis (Tell Basta) - cidade do Delta do Nilo capital do 18º Nomo do
Baixo Egito onde era cultuada a deusa gata Bastet e foi a capital
dinástica da XXII e XXIII dinastias.
Buhen - antiga cidade fortificada que faz fronteira à 2ª catarata, próxima a
Wadi Halfa, onde se encontrava uma grande fortaleza da XII dinastia.
Hoje submersa.
Busíris - cidade ao sul do braço Damieta do Delta do Nilo capital do 9º
Nomo do Baixo Egito onde havia um santuário ao deus Osíris.
Buto (Tell el-Farain) - cidade a noroeste do Delta do Nilo onde era cultuada
a deusa serpente Uadjet símbolo do Baixo Egito.
Cairo - capital do Egito fundada pelos árabes em 641.
Cinópolis - capital do nomo de época Ptolomaica.
Coptos (Quft, Iseun) - cidade localizada na margem leste aproximadamente
a 40km ao norte de Luxor. Foi a capital do 5º Nomo do Alto Egito e
ocupou uma posição de destaque como ponto de partida para
caravanas e expedições em direção ao Mar Vermelho. Era a sede de
culto do deus Min.
Crocodilópolis - antiga capital do oásis fundada no Médio Império onde foi
cultuado o deus Sobek e durante o Período Ptolomaico a rainha
Arsinoe.
Dahshur - cidade situada aproximadamente a 26km ao sul de Giza e que dá
o nome a uma parte da necrópole ao sul de Saqqara. Possui túmulos da
IV e XII dinastias destacando a pirâmide romboidal e a pirâmide
vermelha do faraó Snefru e as pirâmides de Amenemhat III e Senusret
III.
Dakhla - oásis do deserto ocidental aproximadamente na altura de Luxor a
200km a oeste de Kharga. Possui vestígios de ocupação desde o
paleolítico e principalmente do Período Ptolomaico.
Deir el-Medina - região mais meridional da necrópole tebana que
compreende as tumbas, as capelas e uma vila de operários

127
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

responsáveis pela escavação e decoração das tumbas reais da XVIII a


XX dinastias.
Deir el-Bahari - nome de uma parte da necrópole tebana onde se encontram
os templos funerários de Mentuhotep Nebhepetre, Hatshepsut e
Thutmés III, além de um grande número de tumbas particulares da
XVIII dinastia.
Deir el-Ballas - localidade próximo a Coptos no 5º Nomo do Alto Egito,
vizinho a Naqada, que contém cemitérios Pré-históricos, monumentos
do Médio Império e vestígios importantes de palácios do Médio Império.
Dendera (Tentyris) - cidade do Alto Egito na margem oeste do Nilo capital
do 6º Nomo do Alto Egito. Famosa pelo templo bem conservado, de
época Greco-Romana, da deusa Háthor.
Dra Abu el-Naga - parte setentrional da necrópole tebana com importantes
tumbas decoradas de funcionários do Médio Império.
Edfu - capital do 2º Nomo do Alto Egito onde se encontra um templo, de
época Greco-Romana, bem conservado dedicado ao deus Hórus.
El-Amra - cidade situada a 9km ao sul de Ábidos onde foram encontradas
duas necrópoles Pré-históricas cujas sepulturas datam do Naqada I ao
Período Proto-dinástico.
El-Ashimunin - ver Hermópolis.
El-Badari - cidade do Alto Egito na margem leste do Nilo ao sul de Assiut
onde foram encontradas importantes sepulturas Pré-históricas de uma
cultura neolítica.
Elefantina - ilha localizada diante da cidade de Assuã. Ocupada desde a
época Pré-dinástica possuía um templo consagrado aos deuses Khnum
e Satis.
El-Kab (Nekheb) - capital do 3º Nomo do Alto Egito de grande importância
religiosa desde a Pré-história até a época Bizantina. Era o local de culto
da deusa abutre Nekhbet, símbolo do Alto Egito.
El-Khokha - necrópole em Tebas ocidental a sudoeste de Deir el-Bahari com
tumbas decoradas datadas da XVIII e XIX dinastias.
El-Lisht (Lisht) - na margem esquerda do Nilo onde está a necrópole da
capital da XII dinastia. Destacando-se as pirâmides de Amenemhat I,
Senusret I e de seus familiares.
El-Tarif - necrópole em Tebas ocidental na extremidade norte onde as
tumbas de particulares pertencem, em sua maioria, a XI dinastia.
Esna (Latópolis) - cidade situada na margem oeste do Nilo a 60km ao sul de
Luxor. Possui vestígios de um templo Greco-Romano dedicado a
Khnum.
Farafra (Farafre) - oásis do deserto líbio, ocupado desde Paleolítico
Superior, aparece citado no Período Histórico em documentos da V
dinastia. No Período Romano foi o local de uma necrópole rupestre.
Fayum - depressão no deserto a sudoeste do Cairo, habitualmente
considerado como um oásis, ligado ao Nilo por braço fluvial.
Gebel Barkal - montanha sagrada localizada na Alta Núbia, ao sul da 3ª
Catarata do Nilo, próximo à Napata. É uma grande formação rochosa
128
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

com o topo plano nos pés do qual foi construído um grande templo a
Ámon, na XVIII dinastia.
Gebel Silsilah - pedreiras de grés situadas ao norte de Kom Ombo.
Gebelein - ver Crocodilópolis.
Gerf Hussein - localizado na Núbia onde Ramessés II construiu um templo
em honra a Ptah.
Giza - parte da necrópole de Mênfis atualmente um bairro a oeste do Cairo.
Caracterizada pelas grandes pirâmides da IV dinastia e a grande
esfinge.
Gurna - designação geral dada à necrópole tebana, às tumbas e sepulturas
datadas do final do Antigo Império até a Época Romana.
Gurnet Murai - nome da colina que se encontra ao sul da necrópole tebana,
situada acima de Deir el-Medina, contendo um pequeno número de
tumbas decoradas do Novo Império.
Hawara - sítio a sudoeste do Fayum onde se encontra a pirâmide de
Amenemhat III e uma necrópole do Médio Império, da Baixa Época e do
Período Greco-Romano.
Heliópolis (On, Iunu) - a nordeste do Cairo era a capital do 13º Nomo do
Baixo Egito e um dos grandes centros espirituais do país.
Heracleópolis Magna (Ahnas el-Medina) - capital do 20º Nomo do Alto
Egito a 15km a oeste de Beni Husef.
Hermontis - a 20km ao sul de Luxor na margem esquerda do Nilo capital do
4º Nomo do Alto Egito até a XVIII dinastia. Era o local de culto do deus
Montu.
Hermópolis Magna (El-Ashmuneim) - capital do 15º Nomo do Alto Egito
cuja principal divindade era o deus Thoth.
Hermópolis Parva - capital do 15º Nomo do Baixo Egito no Delta do Nilo
com vestígios de um templo de Thoth da Baixa Época.
Hieracômpolis (Nekhen, Kom el-Hamar) - a 20km ao norte de Edfu na
margem oeste do Nilo de frente para El-Kab. Foi uma das mais antigas
capitais do Egito (Nekhem).
Illahun (El-Lahun, Khaun) - cidade da margem oeste do Nilo no mesmo
nível que o Fayum, onde se destacam as pirâmides de Senusret II e
Senusret III.
Kalabsh (Talmis) - um dos centros mais importantes da Baixa Núbia.
Possuía um templo dedicado ao deus Mandulis, construído pelo
imperador Augusto.
Karnak - sítio localizado a 2km ao norte de Luxor. Famoso pelo maior
complexo de templos de todo o Egito dedicado a Ámon, Amut, Khonsu e
Montu.
Kharga - oásis do deserto ocidental aproximadamente na mesma altura que
Luxor cujo principal monumento é o templo oracular de Ámon.
Kom-Ombo - sítio na margem direita do Nilo a 45km ao norte de Assuã.
Célebre pelo templo duplo do Período Ptolomaico e Romano consagrado
a Sobek e Hórus.

129
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Kush - região da Alta Núbia que se estende do sul da 2ª até a 4ª catarata.


Foi uma colônia egípcia durante o Médio Império e sede de um vice-
reino durante o Novo Império. De sua capital, Kherma, saíram os reis
que conquistaram o Egito fundando a XXV dinastia.
Luxor - cidade do Alto Egito a 729km ao sul do Cairo situada na região
tebana onde se destaca o templo construído por Amenhotep III.
Malqata (Malgatta) - na margem ocidental de Tebas onde se localizava o
palácio residencial de Amenhotep III e de sua esposa, a rainha Tiy.
Medinet Habu - nome moderno que designa o templo funerário de
Ramessés III na margem ocidental de Tebas.
Meidum - cidade a 75km ao sul do Cairo na margem oeste do Nilo onde se
encontra a necrópole do final da III e IV dinastias célebre pela pirâmide
inacabada de Huni concluída por Snefru.
Meir (Cusae, Khis, Qis) - capital do 14º Nomo do Alto Egito, na margem
ocidental do Nilo ao sul de Tuna el-Gebel e ao norte de Assiut.
Necrópoles da VI e da XII dinastias.
Mendes (Djedet, Tell er-Ruba) - cidade do Delta Oriental habitada desde o
Período Pré-histórico até o Período Ptolomaico. Era o local de culto de
um carneiro sagrado.
Mênfis - localizada a 20km ao sul do Cairo. Foi a capital do 1º Nomo do
Alto Egito e a capital do país durante o Antigo Império, mantendo em
seguida a posição de capital administrativa do Egito. Possui uma
grande necrópole que se estende de Abu Roash a Dahshur englobando
a necrópole de Saqqara.
Meroi - capital dos reis de Kush entre a 5ª e 6ª cataratas a nordeste de
Cartum.
Mirgissa - localizado na Alta Núbia, na 2ª catarata do Nilo, na margem
ocidental, foi o local de uma fortaleza construída na XII dinastia que
controlava as rotas comerciais que ligavam o Egito à Núbia.
Napata - localizada na Alta Núbia, antiga capital do reino de Kush, próxima
da 4ª catarata do Nilo. Conquistada por Thutmés III possuiu um papel
preponderante no comércio até o Período Romano. Os reis locais
assimilaram os costumes faraônicos e deuses egípcios, principalmente
Ámon.
Naqada - vila ao norte de Luxor que dá nome a uma necrópole e uma
cultura Pré-histórica.
Náucratis ou Naucrátis (Kom Gaif) - cidade do Delta do Nilo fundada por
gregos no VI século a.C. com santuários dedicados a Apolo, Hera,
Atenas e Afrodite.
Núbia - região que se encontra ao sul da 1ª catarata de Assuã se estendendo
ao sul até Dongola. Atualmente sua parte setentrional pertence ao Egito
e o restante do seu território ao Sudão.
Oxyrhynchos (Per-Medjeb, el-Bahnasa) - cidade do Médio Egito, na
margem ocidental do Bahryussuf, capital do 19º Nomo do Alto Egito.
Pelusi (Tell el-Farama) - a 20km a leste do Canal de Suez às margens do
Mediterrâneo. Importante cidade comercial.
130
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Pharus - ilha diante de Alexandria célebre pelo seu farol.


Philae - ilha que se encontra ao sul de Assuã e da 1ª catarata com um
santuário dedicado à Ísis do Período Ptolomaico e Romano.
Pi-Ramessés (Qantir, Kantir) - residência dos reis ramessidas a noroeste
do Delta do Nilo.
Punti - território provavelmente situado ao norte da Eritréia e a leste do
Sudão que mantinha o comércio de ouro, marfim, ébano além de outras
variedades de madeira, macacos, babuínos, girafas, cães, panteras e
pigmeus com o Egito.
Ramesseum - templo memorial ou funerário de Ramessés II situado na
Necrópole Tebana.
Sais (Sa el-Hagar) - a nordeste do Delta do Nilo, próximo a Roseta, capital
do Egito durante a XXVI dinastia. Local de culto da deusa Neith.
Saqqara - local da imensa necrópole de Mênfis na margem oeste do Nilo ao
sul do Cairo utilizada durante toda a antigüidade.
Sebennytos (Samanhud, Behbeit el-Hagar) - cidade do Delta, capital da
XXX dinastia onde eram cultuados os deuses Onúris e sua esposa
Tefnut e Ísis.
Sedeinga - cidade da Núbia, na margem ocidental do Nilo, entre a 2ª e a 3ª
catarata ao norte de Soleb. Local de uma necrópole meroítica e de um
templo construído por Amenhotep III, consagrado a sua esposa Tiy.
Sehel - ilha a 6km ao sul de Elefantina onde estão centenas de grafitos de
várias épocas da história egípcia.
Semna - localizada na Núbia, na margem ocidental do Nilo, próxima a 2ª
catarata onde o faraó Senusret III construiu uma importante fortaleza
que controlava a fronteira do Egito e as rotas comerciais.
Serabid el-Khadim - a 160km a sudoeste do Canal de Suez na península do
Sinai. Local de importantes minas de cobre, turquesa e malaquita além
de um templo dedicado a Háthor.
Serapeum - região da necrópole de Saqqara consagrado, originalmente,
para o sepultamento dos touros Ápis consagrados a Ptah e Osíris.
Sheikh Abd el Gurna - parte central da necrópole tebana que se estende da
falésia até a planície com tumbas da metade e do final da XVIII
dinastia.
Sinai - península ocupada pelos egípcios desde a III dinastia, explorada por
missões mineradoras para extração de cobre, malaquita e turquesa.
Onde foi construído o templo de Serabid el-Khadim.
Siuah (Siwa) - o mais ocidental dos oásis do Egito a 600km de Alexandria.
Ocupado desde o Paleolítico, destacou-se na XXVI dinastia com a
construção do templo com o oráculo de Zeus-Ámon.
Soleb - localizado na Núbia, na margem ocidental do Nilo, entre a 2ª e a 3ª
catarata, era o local de uma grande necrópole do Novo Império e de um
templo construído por Amenhotep III.
Tânis (Sam el-Hagar) - situado a 20km a sudoeste do Delta oriental do Nilo.
Foi a capital do Egito durante a XXI e XXII dinastias e onde foram
descobertos os túmulos de Psusennes I, Osorkon III e Sheshonq III.
131
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Tebas (Dióspolis Magna) - capital religiosa do Egito a partir do Novo


Império. O nome designa a região que se estende nas duas margens do
Nilo onde se encontram os templos de Luxor e Karnak (na margem
direita) e os templos funerários, o Vale dos Reis, o Vale das Rainhas e
as tumbas particulares (na margem esquerda).
Tell el-Amarna - cidade construída pelo faraó Akhenaton para sua capital
na margem oriental do Nilo, no Médio Egito, cujo nome antigo era
Akhet-Aton e o significado era “Horizonte de Aton”.
This (Thinis, Naga ed-Deir) - cidade do Alto Egito capital provável do 8º
Nomo, na margem oriental do Nilo, diante de Ábidos. Capital da I e II
dinastias.
Tôd (Djerty, Tuphiun) - cidade na margem oriental do Nilo a 20km ao sul
de Luxor. Ocupada desde a I dinastia ficou famosa pelo “tesouro”
encontrado nas fundações do Templo de Montu, datado do Médio
Império.
Tuna el-Gebel - cidade localizada na entrada do deserto a oeste de
Hermópolis tornando-se a sua necrópole na XVIII dinastia.
Tura - pedreiras de calcário na margem leste do Nilo ao sul do Cairo que
forneceu os materiais para a edificação das melhores construções
funerárias de Mênfis.
Vale das Rainhas (Biban el-Harim) - em Tebas ocidental ao sul de Deir el
Medina onde se encontram as sepulturas das rainhas e dos príncipes
da XIX e XX dinastias.
Vale dos Reis (Biban el-Moluk) - em Tebas ocidental onde se encontram 64
sepulturas da XVIII a XX dinastias.
Wadi es-Sebua - localizado na Baixa Núbia onde Ramessés II construiu um
templo em honra a Ámon-Rê e Rê-Harmakhis.
Wadi Hammamat - importante via de comunicação com o Mar Vermelho e
local de exploração de pedreiras desde o Antigo Império até o Período
Romano.
Wadi Maghara - localizado no Sinai onde era extraída a turquesa, desde o
Antigo Império, em minas subterrâneas e onde existia uma cidade.
Wadi Natrun - depressão desértica entre o Cairo e Alexandria de onde era
extraído o natrão para o embalsamamento das múmias.
Xois (Chois, Sakha) - cidade do Delta setentrional. Até o Médio Império foi
uma cidade de menor importância, tornando-se durante a XIV dinastia
capital de um reino independente no 6º Nomo do Baixo Egito.

132
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

21. CRONOLOGIA COMENTADA

A divisão da cultura egípcia em períodos e dinastias é uma convenção


adotada pela egiptologia. A divisão da realeza egípcia em “dinastias”, é
antiga, ela segue um sistema criado por um sacerdote egípcio chamado
Maneto, que escreveu em grego, uma história do Egito a pedido de Ptolomeu II,
na primeira metade do século III a.C. Essa lista que chegou até nós classifica
os reis em dinastias, essencialmente definidas pela capital da época e por
laços que nem sempre são hereditários. Para os egípcios o calendário
recomeçava a cada início de reinado: datava-se os acontecimentos do ano 1,
depois do ano 2 de cada faraó. Após a morte do faraó a contagem dos anos
recomeçava com seu sucessor. Existiam algumas listas de reis (no Antigo
Império os anais ditos de Palermo e de Saqqara) e outras listas mais
completas datando do Novo Império (Papiro Real de Turim e a Lista Real de
Ábidos). Por conveniência geral as dinastias de Maneto foram agrupadas pelo
egiptólogo alemão Karl Lepsius na metade do século XIX, que classificou as
dinastias mais prestigiosas em três impérios: Antigo Império (III-VI dinastias),
Médio Império (XI-XII dinastias) e Novo Império (XVIII- XX dinastias), também
chamadas de “Reinos”. Os intervalos de fragmentação política e invasão
estrangeira são arbitrariamente denominados Períodos Intermediários.
São citados somente os reis mais célebres.

PALEOLÍTICO - cerca de 500.000-10.000 a.C.


Baseado nos achados sabemos que a população habitava tanto o Vale do
Nilo como a região desértica. As primeiras populações a ocuparem o Egito
durante o Período Paleolítico Inferior (cerca de 500.000-100.000 a.C.) são
facilmente reconhecidas pelas ferramentas biface. Por volta de 90.000 a
30.000 a.C. grupos de pessoas do Paleolítico Médio que se estabeleceram no
deserto e ao longo do rio deixaram para trás conjunto de ferramentas
sofisticadas, cujas lâminas e bifaces retocados predominavam. Culturas do
Paleolítico Superior (cerca de 30.000-10.000 a.C.) produziram ferramentas
compostas principalmente por monólitos. Os sítios desse período
apresentam restos de fogueira, plantas e animais, e alguns sepultamentos
humanos.

NEOLÍTICO - cerca de 10.000-5500 a.C.


Os primeiros assentamentos permanentes pertencem a esse período. A sua
ocupação é identificada pelos restos de cabanas, fogueiras, celeiros e
moedores de grãos. O povo ainda não começara a explorar as plantas e
animais domesticados, embora ossos de animais indicam que a caça de
pássaros, animais de pequeno porte e pesca continuam a ser importante
para a economia. Restos de ferramentas em rocha são componentes
significativos da cultura material, porém ferramentas em osso e vasos em
cerâmica também são utilizados. No sítio de Merimda Beni Salama, no
Delta, uma representação de uma face humana é o primeiro exemplo
conhecido de escultura no Egito Antigo.
133
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

PRÉ-DINÁSTICO INICIAL - cerca de 5500-3050 a.C.


Badariense - cerca de 5500-4200 a.C.
Embora a maior parte dos sítios desse período serem cemitérios localizados
no deserto baixo do Vale do Nilo, o sítio do Delta de Merimda Beni Salama, é
o maior conhecido no Egito. Os sítios do vale do Nilo localizam-se no Médio
Egito, nas vizinhanças da cidade moderna de Badari, que nomeou esse sítio.
Os numerosos cemitérios badarienses revelam um programa de
sepultamento formal que inclui a construção de um túmulo, o
posicionamento do corpo e o suprimento do morto com o equipamento para
uma outra vida. Os objetos funerários mais comuns são os vasos belamente
confeccionados em argila do Nilo marrom ou vermelha com o topo preto
(“black-topped”). Os túmulos ocasionalmente continham jóias - incluindo as
primeiras contas em rocha vitrificada e às vezes pequenas figuras humanas
em marfim.

PRÉ-DINÁSTICO MÉDIO
Naqada I (Amratense) - cerca de 4200-3700 a.C.
Vilas crescem ao longo do Vale do Nilo e cemitérios e assentamentos
aparecem em inúmeros locais no Delta. Nenhum dos sítios conhecidos é
muito grande, entretanto, Hieracômpolis (Nekhen), ao sul, é o maior centro
populacional conhecido. O tamanho e a distribuição dos assentamentos são
estimados, a partir dos cemitérios bem conhecidos desse período, incluindo
aquele perto da moderna cidade de Naqada, no Alto Egito, que deu o nome
ao sítio. O programa de sepultamento formal começou no Período
Badariense e continuou, com o número crescente de vasos em cerâmica de
coloração vermelha - alguns dos quais exibem figuras geométricas e cenas
de caça pintadas em branco - colocados nos túmulos junto com alguns
vasos em rocha e paletas para cosmético de formas romboidal e de animais.
Como no Período Badariense, figuras e jóias são ocasionalmente colocadas
nos túmulos, especialmente no final do período e no início do Naqada II. A
economia das vilas são baseadas na agricultura e pecuária, embora
pássaros selvagens e peixe complementem a dieta.

PRÉ-DINÁSTICO TARDIO
Naqada II (Gerzense Primitivo) - cerca de 3700-3250 a.C.
Ocorrem importantes mudanças na organização social nesse período,
identificada pelo tamanho e distribuição dos assentamentos e cemitérios
assim como o conteúdo dos túmulos. Os bens funerários são semelhantes
àqueles de Naqada I, embora existam mudanças nos estilos dos vasos e
paletas. A “faiança”, um material cerâmico vitrificado, aparece pela primeira
vez em grande parte na forma de contas. Alguns membros da sociedade de
Naqada II parecem ter tido acesso à grande riqueza, permitindo-lhes
construir túmulos mais elaborados com conteúdo mais rico. Itens que
demonstram uma alta classe social começam a aparecer, novamente
indicando diferenças sociais entre a população. Um novo tipo de cerâmica é
feita em uma argila amarelada do deserto e decorada com tinta vermelha
134
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

com formas geométricas e barcos e cenas de deserto. Acredita-se que,


diferente de outros tipos cerâmicos, essa era produzida somente em
algumas oficinas especializadas.

PROTO-DINÁSTICO
Naqada III (Gerzense Tardio) - cerca de 3150-3100 a.C.
As mudanças culturais mais importantes associadas a esse período são
refletidas nas representações nos objetos. As cenas em grandes paletas
cerimoniais referem-se a um personagem de grande poder. Esse indivíduo é
representado com numerosos símbolos relacionados à realeza egípcia da
época faraônica. As cenas são esculpidas em alguns dos primeiros relevos
conhecidos, e paletas assim como pequenas etiquetas em marfim ou rótulos,
exibem os primeiros estágios da escrita hieroglífica. Símbolos de várias
divindades faraônicas ocorrem em paletas, rótulos e novos objetos
tridimensionais. Hieracômpolis é a maior vila Pré-dinástica e poderia ser o
centro político, mas os sítios de Naqada e Ábidos também são significativos.
Ábidos era o local de sepultamento dos últimos chefes Pré-dinásticos,
atestando a importância dessa região.

Dinastia “0” - cerca de 3150-3050 a.C.


Considerado como o início da civilização egípcia é a fase de transição entre o
final do Pré-dinástico e o início do Período Histórico quando foi estabelecida
a unificação do Alto com o Baixo Egito promovida por um grupo de reis, o
mais conhecido foi Narmer (cerca de 3100 a.C.?), que para alguns deve ser
identificado com Menés o primeiro faraó que unificou o Egito e concluiu a
tarefa começada pelos seus predecessores, entre os quais destacou-se o rei
Escorpião. Nessa época Narmer funda a cidade de Mênfis, para melhor
controlar o Baixo Egito. É criado um sistema de irrigação que dinamiza a
produção agrícola; são cobrados tributos das vilas; e é estabelecida uma
administração centralizada no palácio real utilizando a escrita como
instrumento de registro e controle.

PERÍODO THINITA
(DINÁSTICO INICIAL ou ARCAICO) - cerca de 2920-2575 a.C.
I-II dinastia - cerca de 2920-2649 a.C.
Nessa época foram estabelecidos a maior parte dos elementos característicos
da civilização egípcia. É o período da expansão de um estado organizado por
todo o Vale do Nilo até o Delta. This (Thinis) tornou-se a primeira capital do
Egito dinástico e próximo a ela, no cemitério de Ábidos, foram enterrados os
primeiros reis em tumbas gigantescas. Os nomes desses reis também
aparecem em objetos encontrados nas tumbas em Saqqara (necrópole de
Mênfis), possivelmente, onde foram sepultados os seus familiares e os altos
funcionários. Esses reis, os primeiros “Hórus”, governaram um Egito
unificado estabelecendo uma ideologia da realeza onde esses primeiros
faraós eram o centro do estado auxiliados por um corpo de funcionários
encarregados da cobrança dos impostos das vilas e da produção e da
135
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

estocagem das riquezas. Os bens não disponíveis no Egito eram importados


por meio de expedições comerciais. Os eventos mais importantes passam a
ser registrados em anais, como a construção de templos, a criação de
estátuas divinas e a realização dos rituais monárquicos. A passagem da I
para a II dinastia parece ter sido um período violento a julgar pelas tumbas
pilhadas e incendiadas de Saqqara.

ANTIGO IMPÉRIO (IMPÉRIO MENFITA)


III-VI dinastias - cerca de 2575-2150 a.C.
Esse período é caracterizado por uma organização social e política bem
aperfeiçoada cuja figura central era o faraó. De sua capital instalada em
Mênfis apoiava-se em uma classe de altos dignitários que comandava um
exército de escribas encarregados de registrar e arquivar a produção e
organizar a força de trabalho. Graças a esse estado organizado, que
mobilizava imensos recursos e poder, os faraós edificaram os imensos
monumentos característicos dessa época: as pirâmides e seus complexos
arquitetônicos. Reinando sobre um Egito unificado cujos domínios iam dos
oásis da Líbia até a Península do Sinai enviava expedições comerciais
regularmente para a Núbia e Biblos (Líbano). Uma tradição, surgida na
época Thinita, exigia que os que ocupavam os altos cargos do estado
pertencessem à família do faraó, na medida em que eram possuidores de
uma parcela do poder divino incarnado pelo faraó considerado o “Filho do
deus sol Rê”, essa exigência desaparece progressivamente a partir da V
dinastia quando os altos cargos começam a ser ocupados por particulares
sem ligação sangüínea com o faraó. Na VI dinastia já existiam poderes
regionais independentes da ligação sangüínea com o faraó. Os egípcios
consideravam esse período como a época clássica de sua história escolhendo
como modelo a ser seguido e mesmo copiado, no caso da arte. Durante esse
período os artistas aprenderam a expressar a visão de mundo de sua
cultura criando, pela primeira vez, imagens e formas que perduraram por
gerações. Arquitetos e pedreiros dominavam as técnicas necessárias para
construir estruturas monumentais em rocha. Escultores criaram os
primeiros retratos e as primeiras estátuas, em tamanho natural, em
madeira, cobre e rocha. Eles aperfeiçoaram a arte do entalhe para a
complexa decoração em relevo e, pela observação do mundo natural,
produziram imagens detalhadas de animais, plantas e até mesmo da
paisagem, registrando os elementos essenciais de seu mundo para a
eternidade nas cenas pintadas e esculpidas das paredes dos templos e
tumbas. Os artistas egípcios adotaram um repertório limitado de modelos e
estabeleceram um cânone artístico formal que definiria a Arte Egípcia por
mais de 3 mil anos, permanecendo flexível o suficiente para permitir
variações e inovações sutis. Apesar das lacunas na documentação é uma
época onde produziram-se um grande número de obras literárias, tratados
religiosos (Textos das Pirâmides), e textos científicos, principalmente sobre
medicina.

136
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

III dinastia cerca de 2649-2575 a.C.


Djoser cerca de 2630-2611 a.C.
IV dinastia cerca de 2575-2465 a.C.
Snefru cerca de 2575-2551 a.C.
Khufu (Queops) cerca de 2551-2528 a.C.
Djedefre cerca de 2528-2520 a.C.
Khafre (Quefrem) cerca de 2520-2494 a.C.
Menkaurê (Miquerinos) cerca de 2494-2472 a.C.
V dinastia cerca de 2465-2323 a.C.
Sahurê cerca de 2458-2446 a.C.
Unas cerca de 2356-2323 a.C.
VI dinastia cerca de 2323-2150 a.C.
Pépi I cerca de 2289-2255 a.C.
Pépi II cerca de 2246-2152 a.C.

I PERÍODO INTERMEDIÁRIO
VII dinastia - início da XI dinastia - cerca de 2150-2040 a.C.
No final da VI dinastia o poder centralizado enfraqueceu-se dando origem ao
separatismo com o surgimento de chefes locais (nomarcas) que se opunham
ao poder central do faraó, essa crise política foi agravada por mudanças
climáticas que provocaram um período de seca e fome no norte da África.
Durante o I Período Intermediário, o Egito foi governado por duas dinastias
competidoras havendo uma polarização entre uma monarquia baseada em
Heracleópolis inspirada no modelo menfita e que controlava o Delta e uma
parte do Médio Egito com o apoio dos nomarcas de Assiut, e a outra em
Tebas que com a ajuda de Coptos controlava o Alto Egito. É um período que
marcou ideológica e intelectualmente a civilização egípcia dando uma visão
pessimista do mundo e originando uma “democratização” das crenças
funerárias, fazendo com que o destino solar e o conjunto de textos
funerários não fossem mais um privilégio exclusivo do faraó.

MÉDIO IMPÉRIO (I IMPÉRIO TEBANO)


Final da XI, XII dinastias e início da XIII dinastia - cerca de 2040-1640 a.C.
O faraó tebano Nebhepetre Mentuhotep II reunificou o Alto e o Baixo Egito
estabelecendo a capital em Tebas criando o Médio Império. Um
florescimento renovado das artes é evidente, especialmente no templo
funerário inovador de Mentuhotep, em Tebas ocidental (Deir el-Bahari), e
nos relevos pintados que decoravam essa estrutura e as tumbas de oficiais
nos cemitérios vizinhos. No final da XI dinastia o trono passou para uma
nova família, com a ascensão Amenemhat I, fundador da XII dinastia, que
transferiu a capital de Tebas para Ity-tawy, no norte, próxima à moderna
Lisht. A arquitetura e escultura dessa dinastia deixa claro os elos que unem
as tradições antigas do Antigo Império, enquanto criava novas formas
artísticas poderosas e distintivas. A Baixa Núbia é anexada ao território
egípcio e uma série de fortalezas construídas na Segunda Catarata do Nilo.
Além das tradicionais relações com Biblos houve também uma intensa
137
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

presença egípcia no Mediterrâneo oriental resultando em um afluxo de


imigrantes asiáticos ao Egito. Durante esse período ocorreu uma
remodelagem da sociedade, com a reforma da administração do estado, um
aumento da elite e o surgimento de uma pequena “burguesia”. Com a
grande popularidade das crenças funerárias em torno do mito de Osíris,
Ábidos a capital de seu culto, tornou-se um grande centro religioso e de
peregrinação. Outro grande centro de influência, no Egito, foi Tebas, a
cidade de origem dos faraós desse período, cujo patrono, o deus Amon, após
a XII dinastia começou a assumir dimensões nacionais. As obras
características desse período são uma série de estátuas reais que refletem
uma mudança sutil no conceito egípcio de realeza, onde o faraó é
considerado um modelo de virtude. Na literatura, o Médio Império, produziu
obras clássicas apreciadas pelo resto da história egípcia, como poemas,
hinos, contos de aventuras, romances e textos sapienciais (máximas e
ensinamentos).

XI dinastia cerca de 2040-1991 a.C.


Nebhepetrê Mentuhotep cerca de 2061-2010 a.C.
XII dinastia cerca de 1991-1783 a.C.
Amenemhat I cerca de 1991-1962 a.C.
Senusret I cerca de 1971-1926 a.C.
Amenemhat II cerca de 1929-1892 a.C.
Senusret II cerca de 1897-1878 a.C.
Senusret III cerca de 1862-1843 a.C.
Amenemhat III cerca de 1844-1797 a.C.
XIII dinastia cerca de 1783-1640 a.C.
Sobekhotep IV cerca de 1730-1720 a.C.

II PERÍODO INTERMEDIÁRIO
XIV-XVII dinastias - cerca de 1640-1550 a.C.
Durante o II Período Intermediário o Egito passa por uma série de agitações
políticas e sociais sendo governado, mais uma vez, por dinastias
competidoras e paralelas. O norte é controlado pelos hicsos “príncipes
pastores”, uma população asiática em sua maioria semitas e hurritas, que
tomaram Mênfis, coroando os seus reis como faraós (egipcianização), e
estabeleceram-se em Avaris, no Delta oriental do Nilo. Os hicsos formaram
uma aliança com os governantes de Kerma, na Núbia, contra a dinastia
egípcia baseada em Tebas; e interceptavam os tributos palestinos. Há um
evidente declínio dos monumentos e dos textos. É um período onde se
desenvolveram novas técnicas trazidas pelos asiáticos, além da introdução
do cavalo e de outros animais, e uma militarização da sociedade com o
recrutamento de núbios como mercenários (Medjay). Algumas vilas tiveram
uma autonomia com guarnições militares particulares, como Edfu e el-Kab.

138
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

XIV dinastia cerca de 1720-1665 a.C.


XV-XVI dinastias “hicsos” cerca de 1585-1532 a.C.
XVII dinastia cerca de 1640-1550 a.C.
Antef ?
Tao II cerca de 1574 ? a.C.
Kamose cerca de 1555-1550 a.C.

NOVO IMPÉRIO (II IMPÉRIO TEBANO)


XVIII-XX dinastias - cerca de 1550-1070 a.C.
No final da XVII dinastia os “príncipes” tebanos expulsaram os hicsos e
Ahmose I reunificou o Egito fundando a XVIII dinastia que marca o início do
período mais célebre e glorioso de toda a história egípcia. Uma série de
grandes faraós guerreiros, em particular Thutmés III, estendeu a influência
egípcia por toda região do Levante até os limites do império Hitita. Os
egípcios também controlavam a Núbia, até a Quarta Catarata. O centro do
poder era Tebas, o coração político do Egito e o centro do poder religioso do
clero de Amon e onde os faraós eram sepultados em hipogeos no Vale dos
Reis. Por campanhas militares, comércio, presentes diplomáticos e tributos,
o Egito reteve um nível de riqueza sem precedentes. Essa riqueza promoveu
o florescimento da cultura egípcia marcado por obras monumentais. Esse
período produziu também uma abundância de arte não real, incluindo a
estatuária, o relevo, a pintura e todos os tipos de artes aplicadas.

XVIII dinastia - cerca de 1550-1307 a.C.


Embora Mênfis seja o centro administrativo Tebas, o centro de culto do deus
Amon-Rê e lar da dinastia, permaneceu importante como um centro
religioso e cultural. Particularmente rico e pacífico foi o reinado de
Hatshepsut quando as construções multiplicaram-se principalmente em
Tebas, como o seu magnífico templo funerário de Deir el-Bahari. Amenhotep
IV-Akhenaton, que impôs o culto ao disco solar Aton, construiu uma nova
capital no Médio Egito que chamou Akhetaton, atualmente Tell el-Amarna.
Após a sua morte, a corte foi novamente transferida para Tebas e o culto ao
deus Amon foi restabelecido sob o reinado de seu sucessor Tutankhamon.
Embora a nova religião termine com a sua morte, a influência das inovações
artísticas introduzidas durante o reinado de Akhenaton continuou até a
dinastia seguinte.

139
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

XVIII dinastia cerca de 1550-1307 a.C.


Ahmose cerca de 1550-1525 a.C.
Amenhotep I cerca de 1525-1504 a.C.
Thutmés I cerca de 1504-1492 a.C.
Thutmés II cerca de 1492-1479 a.C.
Hatshepsut cerca de 1473-1458 a.C.
Thutmés III cerca de 1479-1425 a.C.
Amenhotep II cerca de 1427-1401 a.C.
Thutmés IV cerca de 1401-1391 a.C.
Amenhotep III cerca de 1391-1353 a.C.
Amenhotep IV - Akhenaton cerca de 1353-1335 a.C.
Tutankhamon cerca de 1333-1323 a.C.
Ay cerca de 1323-1319 a.C.
Horemheb cerca de 1319-1307 a.C.

PERÍODO RAMESSIDA
XIX-XX dinastias - cerca de 1307-1070 a.C.
A XIX dinastia é fundada por Ramessés I, um alto oficial militar do Delta
oriental. Nesse período há um crescimento no número de dignitários e
soldados de origem estrangeira, caracterizada pelo desenvolvimento do
Delta, onde são criadas grandes cidades (Pi-Ramessés), a estruturação de
uma economia subordinada aos templos e o desenvolvimento do culto às
“tríades ramessidas” (Amon, Rê e Ptah). Ramessés II, o mais famoso dos
faraós ramessidas, reafirma a hegemonia egípcia no Levante, a leste, e na
Núbia, ao sul e o seu longo reinado estabelece um estilo que dá forma à arte
e à cultura desse período. O Período Ramessida é melhor conhecido pelo
gigantismo arquitetônico - o templo de Osíris construído por Séthi I em
Ábidos; a grande sala hipostila no templo de Amon-Rê em Karnak; o templo
esculpido na rocha de Ramessés II em Abu Simbel, na Baixa Núbia; e
Medinet Habu, o templo funerário de Ramessés III em Tebas ocidental; além
de um vasto programa epigráfico e uma grande produção literária que utiliza
uma variante da língua egípcia, o neo-egípcio. Após o reinado de Ramessés
III o poder egípcio declinou gradualmente levando ao III Período
Intermediário.

XIX dinastia cerca de 1307-1196 a.C.


Ramessés I cerca de 1307-1306 a.C.
Séthi I cerca de 1306-1290 a.C.
Ramessés II cerca de 1290-1224 a.C.
Merneptah cerca de 1224-1214 a.C.
Séthi II cerca de 1214-1204 a.C.
XX dinastia cerca de 1196-1070 a.C.
Ramessés III cerca de 1194-1163 a.C.
Ramessés VI até Ramessés IX cerca de 1151-1136 a.C.

140
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

III PERÍODO INTERMEDIÁRIO


XXI-XXV dinastias - cerca de 1070-657 a.C.
É um longo período de decadência onde a fragmentação em poderes
regionais originou a coexistência de vários faraós em dinastias competidoras
e o enfraquecimento da influência egípcia no exterior, traduzindo-se em uma
insegurança social e pilhagens de tumbas. A XXI dinastia começa com os
reis de Tânis, no Delta, que se opunham aos “reis sacerdotes” que detinham
o poder em Tebas e no Alto Egito. As XXII e XXIII dinastias tiveram a sua
origem em líbios que governavam a partir do Delta. Os reis núbios marcam o
início de um breve período de ocupação, chamado kushita (XXV dinastia),
que terminou com a invasão dos assírios. O III Período Intermediário
caracteriza-se por edifícios relativamente pequenos, e pela grande produção
de estátuas de deuses, faraós e grandes oficiais depositados nos templos,
estilisticamente e tecnicamente inovados em bronze e metais preciosos. Os
recintos dos templos são locais de sepultamento escolhidos para os faraós e
seus familiares. Equipamentos funerários reais em ouro e prata,
provenientes de Tânis, mostram a grande habilidade dos artesãos. Esquifes
não reais e papiros são suporte para elaboradas cenas e textos que
asseguram o renascimento do morto. Nova ênfase é dada na identificação do
faraó como filho de um casal divino e com o jovem deus sol.

XXI dinastia cerca de 1070-945 a.C.


Sumos Sacerdotes cerca de 1080-945 a.C.
XXII dinastia cerca de 945-712 a.C.
Sheshonq I cerca de 945-924 a.C.
Osorkon I cerca de 924-889 a.C.
Osorkon II cerca de 924-909 a.C.
XXIII-XXIV dinastia cerca de 828-712 a.C.
Duas dinastias líbias paralelas
XXV dinastia cerca de 712-657 a.C.
Reis “kushitas”
Piankhi cerca de 747-716 a.C.
Shabaka cerca de 712-698 a.C.
Taharqa cerca de 690-664 a.C.

PERÍODO SAÍTA E TARDIO (BAIXA ÉPOCA)


XXVI-XXX dinastias - 664-525 a.C.
Esse período é marcado pelas constantes ameaças de invasões estrangeiras
e um contato maior com outras potências estrangeiras. Com a XXVI dinastia
tem início a Época Saíta, nome que se originou do nome de sua capital,
Sais, no Delta. A rica herança artística de 2 milênios é explorada para criar
novas fórmulas de ideais reais e religiosos na estatuária e no relevo,
marcando uma espécie de “renascimento” egípcio. Os núbios e logo depois
os assírios invadiram e governaram o Egito entre 712 e 664 a.C., seguido
pelos persas aquemênidas de 525 a 404 a.C. e novamente de 343 a.C. a 332
a.C. Um tanto surpreendente, então, que a Baixa Época seja extremamente
141
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

frutífera tanto conceitual como artisticamente. Uma grande modificação no


pensamento religioso marcada pela “solarização” das práticas funerárias,
surgimento de teologias locais, popularização cotidiano do culto de Osíris,
“satanização” de Seth, o apreço pelas formas infantis das divindades e o
predomínio dos aspectos mágicos da religião. Um novo elemento
arquitetônico é desenvolvido, o mammisi, ou casa do nascimento, um templo
anexo onde é celebrado o nascimento de um deus sol criança identificado
com o faraó. Outro fenômeno característico é a grande quantidade de
estátuas em bronze de divindades e animais sagrados com novas práticas
votivas. Com o Segundo Domínio Persa tem fim os reinados independentes
do Egito e em 332 a.C. Alexandre substitui a dominação persa dando fim à
história faraônica, cujas características seriam mantidas no Período
Ptolomaico.

XXVI dinastia 664-525 a.C.


Psamético I 664-610 a.C.
Psamético II 595-589 a.C.
Apries 589-570 a.C.
Amasis 570-526 a.C.
Psamético III 526-525 a.C.
XXVII dinastia 525-404 a.C.
Primeiro Domínio Persa
Cambises 525-522 a.C.
Dario I 521-486 a.C.
XXVIII dinastia 404-399 a.C.
XXIX dinastia 399-380 a.C.
Neferites I 399-380 a.C.
Hakor 393-380 a.C.
XXX dinastia 380-343 a.C.
Nectanebo I 380-362 a.C.
Nectanebo II 360-343 a.C.
Segundo Domínio Persa 343-332 a.C.
Artaxerxes III 343-338 a.C.
Arses 338-336 a.C.
Dario III 335-332 a.C.

PERÍODOS MACEDÔNICO E PTOLOMAICO - 332-30 a.C.


O Egito, sob o governo persa desde 343 a.C., é conquistado por Alexandre o
grande em 332 a.C., iniciando o Período Macedônico. Alexandre constrói a
nova capital, Alexandria, voltada para o mundo mediterrânico e helenístico.
Alexandria permaneceu sempre uma cidade no Egito, mas nunca uma
cidade egípcia. Após a sua morte em 323 a.C., o governo egípcio passou
informalmente e depois formalmente para um de seus generais, Ptolomeu e
seus descendentes, formando a Dinastia Ptolomaica ou Lágida combinando
elementos alexandrinos com faraônicos. Todos os soberanos eram chamados
de Ptolomeu e Arsinoe, Berenice e Cleópatra os nomes mais freqüentes para
142
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

as rainhas e princesas. A língua oficial nessa época era o latim e o grego,


sendo o egípcio um dialeto vernacular. A corte ptolomaica é enfaticamente
grega na atmosfera e na prática e adota o deus Serápis, uma versão grega do
egípcio Osíris-Ápis, como deus nacional. A influência da arte helenística é
especialmente forte na corte, mas a arte egípcia tradicional não foi afetada.
Os ptolomeus representam-se como faraós realizando os ritos tradicionais,
como forma de dominar a população egípcia, e são grandes construtores de
templos seguindo o estilo faraônico tradicional. Por trás desse programa de
construção de templos estava a vontade política dos Ptolomeus em
homenagear os deuses nativos ganhando o favor do clero egípcio e por meio
deles manter o controle sobre a população. Os Ptolomeus mostravam-se,
para o mundo mediterrânico, como gregos descendentes de Alexandre e para
os egípcios como os descendentes do faraó.

Período Ptolomaico 304-30 a.C.


Ptolomeu I 304-284 a.C.
Ptolomeu II até XIV 285-44 a.C.
Cleópatra VII 51-30a.C.
Ptolomeu XV-Cesarion 44-30 a.C.

PERÍODO ROMANO - 30 a.C.-395 AD


Otaviano derrota Antonio e Cleópatra na batalha marítima de Actium no
noroeste da Grécia, e em 30 a.C. assume o controle do Egito após ao
suicídio deles e ao assassinato do último dos Ptolomeus, Cesarion, filho de
César e Cleópatra. O Egito é anexado ao Império Romano como uma
província diretamente administrada pelo imperador. Como os Ptolomeu os
imperadores romanos viam o Egito como um grande empreendimento,
principalmente, por suas riquezas agrícolas. Alexandria continua como o
centro da cultura grega no Mediterrâneo e a ligação das rotas comerciais
romanas aos desertos, na África e no Levante. Serápis e Ísis tornam-se
muito populares por todo o Império Romano. Dentro do Egito, os
imperadores romanos representam-se como sucessores dos faraós,
buscando os favores da população, e continuam a construir e ampliar
templos no estilo egípcio. A tradição funerária egípcia mantém-se e os
mortos continuam a ser mumificados, embora as artes funerárias são
marcadas pela incorporação da moda romana da época e por técnicas e
estilos artísticos greco-romanos.

O Cristianismo chega ao Egito florescendo, principalmente, em Alexandria


onde conviveu com as antigas formas de culto: egípcia, judaica, greco-
romana, além de outros cultos orientais. Suscitou atitudes variadas entre os
imperadores, alguns mantiveram-se indiferentes enquanto outros
promoveram perseguições aos cristãos.

143
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Século II
O hieróglifo e o demótico são utilizados em templos e por grupos de
sacerdotes; o grego é a língua da administração. Na última parte do século,
os problemas no grande império romano estão refletidos nas políticas
irregulares e persistentes problemas econômicos e sociais no Egito
continuam pelo século III.

Século III
Mudanças econômicas são estimuladas pelo crescimento da agricultura
locatária e pela crescente concentração de riqueza e cultura nas cidades,
não somente Alexandria, mas centros metropolitanos como Antinópolis. A
arte funerária continua a utilizar elementos da antiga tradição faraônica nos
envoltórios dos mortos.

Século IV
Teodósio proíbe o uso e ensino da escrita hieroglífica sendo a última
inscrição conhecida datada de 394, no templo de Philae. Como parte do
Império Bizantino o cristianismo torna-se a religião oficial. Alexandria, é um
dos centros intelectuais da igreja cristã.

543 - Justiniano ordena o fechamento dos templos pagãos transformando-


os em igrejas cristãs.

144
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

22. CRONOLOGIA
Todas as datas anteriores a XXVI dinastia são incertas

PALEOLÍTICO - 500.000-5500 a.C.


PALEOLÍTICO INFERIOR - 500.000 a.C.
PALEOLÍTICO MÉDIO - 100.000 a.C.
PALEOLÍTICO SUPERIOR - 30.000 a.C.
EPI-PALEOLÍTICO - 10.000-5500 a.C.

PRÉ-DINÁSTICO - 5500-3050 a.C.


Pré-dinástico Inicial
Alto Egito: Badariense - 5500-4200 a.C.
Baixo Egito: Fayum A/Merimda
Pré-dinástico Médio
Alto Egito: Amratense (Naqada I) - 4200-3700 a.C.
Baixo Egito: Omari A(?)
Pré-dinástico Tardio
Alto Egito: Gerzense Primitivo (Naqada II) - 3700-3250 a.C.
Baixo Egito: Omari B(?)
Protodinástico
Gerzense Tardio (Naqada III) - 3250-3100 a.C.
Dinastia “0” (Naqada IIIC)- 3150-3050 a.C.

DINÁSTICO INICIAL (THINITA ou ARCAICO)


I dinastia - 2920-2770 a.C.
II dinastia -2770-2649 a.C.

ANTIGO IMPÉRIO (IMPÉRIO MENFITA)


2575-2134 a.C.
III dinastia - 2649-2575 a.C.
IV dinastia - 2575-2465 a.C.
V dinastia - 2465-2323 a.C.
VI dinastia - 2323-2150 a.C.

PRIMEIRO PERÍODO INTERMEDIÁRIO


2134-2040 a.C.
VII e VIII dinastias - 2150-2134 a.C.
IX e X dinastias (Heracleopolitanas)- 2134-2040 a.C.
XI dinastia (início) - 2134-2040 a.C.

MÉDIO IMPÉRIO (I IMPÉRIO TEBANO)


2040-1640 a.C.
XI dinastia (final) - 2061-1991 a.C.
XII dinastia - 1991-1783 a.C.

145
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

SEGUNDO PERÍODO INTERMEDIÁRIO


1640-1532 a.C.
XIII dinastia - 1784-1650 a.C.
XIV dinastia - 1720-1665 a.C.
XV dinastia (Hicsos) - 1668-1560 a.C.
XVI dinastia (Hicsos) - 1665-1565 a.C.
XVII dinastia - 1640-1550 a.C.

NOVO IMPÉRIO (II IMPÉRIO TEBANO)


1550-1070 a.C.
XVIII dinastia - 1550-1307 a.C.
XIX dinastia - 1307-1196 a.C.
XX dinastia - 1196-1070 a.C.

TERCEIRO PERÍODO INTERMEDIÁRIO


1070-712 a.C.
Reis-Sacerdotes Tebanos - 1080-945 a.C.
XXI dinastia (Tanita) -1070-946 a.C.
XXII dinastia (Tanita/Bubástida/Líbia)-946-712 a.C.
XXIII dinastia (Líbios) - ca. 828-665 a.C.
XXIV dinastia (Saíta) - 718-685 a.C.
XXV dinastia (Núbios e Kushitas) - 767-656 a.C.

PERÍODO SAÍTA - 664-525 a.C.


XXVI dinastia - 664-525 a.C.

PERÍODO TARDIO (BAIXA ÉPOCA) - 525-332 a.C.


XXVII dinastia (I Período Persa) - 525-404 a.C.
XXVIII dinastia - 404-399 a.C.
XXIX dinastia - 399-380 a.C.
XXX dinastia - 380-343 a.C.

RECONQUISTA PERSA
(II Período Persa) - 343-332 a.C.

PERÍODO GRECO-ROMANO
332 a.C.- 395 A.D.
REIS MACEDÔNIOS - 332-305 a.C.
PERÍODO PTOLOMAICO - 305-31 a.C.
PERÍODO ROMANO - 30 a.C.-395

PERÍODO BIZANTINO - 395-640

146
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

PERÍODO ISLÂMICO - 640-1250


Conquista do Egito por aAmr ibn al-aAss - 640-642
Fundação do Cairo - 641
Califado Omíada (Umayya) - 661
Califado Abássida (al-Abbas) - 750
Dinastia Tulunida (Ibn Tulun) - 868-905
Retomada Abássida - 905
Dinastia Ikhshidida - 935-969
Dinastia Fatimida - 969-1171
Saladino - 1164
Dinastia Ayyubida - 1171-1250

PERÍODO MAMELUCO - 1250-1497


Dinastia Mameluca Bahrita - 1250-1390
Dinastia Mameluca Buída - 1382-1517

PERÍODO OTOMANO - 1517-1805


Expedição Napoleônica - 1798-1801

PERÍODO MODERNO - 1805-até o presente


Reinado de Muhammad Ali - 1805-1848
D. Pedro I compra coleção egípcia para Museu Real - 1826
Inauguração do Canal de Suez - 1869
D. Pedro II visita o Egito - 1876/77
Ocupação Britânica - 1882
Palácio da Quinta da Boa Vista torna-se Museu Nacional - 1892
Independência Egípcia - 1952

147
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

23. SUGESTÕES: LIVROS, VÍDEOS E INTERNET

ARTE E ARQUITETURA
DONADONI, S. Museu Egípcio do Cairo. São Paulo: Melhoramentos, 1969.
(Col. Enciclopédia dos Museus)
EDWARDS, I. E. S. As Pirâmides do Egito. Rio de Janeiro: Record, 1985.
LISE, G. Como Reconhecer a Arte Egípcia. São Paulo: Martins Fontes,
1985. (Col. Como Reconhecer a Arte)
MACAULAY, D. Construção de uma Pirâmide. São Paulo: Martins Fontes,
1988.
PEINADO, F. L. O melhor da Arte Egípcia, vol. 1 e 2. Lisboa: Edições LDA,
1997.
SMITH, W. S. Arte e Arquitetura do Egito Antigo. São Paulo: Cosac & Naif,
[s.d.].
TIRADRITTI, F. et alii. Tesouros do Egito do Museu Egípcio do Cairo. São
Paulo: ed. Manole, 2000.
WIESNER, J. Egipto. Lisboa: Verbo, 1971. (Col. Ars Mundi)
WILDUNG, D. O Egipto da Pré-história aos Romanos. Köln: Taschen,
1998.

RELIGIÃO
BUDGE, E. A. W. A Magia Egípcia. São Paulo: Cultrix, [s.d.].
BUDGE, E. A. W. A Religião Egípcia, idéias egípcias sobre a vida futura.
São Paulo: Cultrix, [s.d.].
DELANGE, E. & BRANCAGLION, A. Jr. O Egito Faraônico Terra dos
Deuses. São Paulo: Masp-Louvre-Casa França Brasil, 2001.
HART, G. Mitos Egípcios. São Paulo: Editora Moraes, 1992. (Col. O Passado
Lendário)
JACQ, Ch. Akhenaton e Nefertiti. O Casal Solar. São Paulo: Bertrand,
2002.
TRAUNECKER, C. Os Deuses do Egito. Brasília: Editora Universidade de
Brasília, 1995.
SHAFER, B. E. (ed.). As Religiões no Egito Antigo: deuses, mitos e rituais
domésticos. São Paulo: Nova Alexandria, 2002.
SHORTER, A. W. Os Deuses Egípcios. São Paulo: Cultrix, 1984.

OBRAS GERAIS
ALDRED, C. O Antigo Egito. Lisboa: Verbo, 1965.
ALDRED, C. Os Egípcios. Lisboa: Verbo, 1966. (Historia Mundi)
BAINES, J. & MÁLEK, J. O Mundo Egípcio Deuses. Templos e faraós I-II.
Madrid: Edições delPrado, 1996.
BRANCAGLION, A. Jr. Tempo, Matéria e Permanência O Egito na
Coleção Eva Klabin Rapaport. Rio de Janeiro: Casa da Palavra/FEKR,
2002.
BRIER, B. O Assassinato de Tutancâmon. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2001.
148
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

CARDOSO, C. F. S. O Egito Antigo. São Paulo: Brasiliense, 1982. (Col.


Tudo é História)
CASSON, L. O Antigo Egito. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969. (Col.
Biblioteca de História Universal Life)
DESROCHES-NOBLECOURT, Chr. A Mulher no Tempo dos Faraós. São
Paulo: Papirus, [s.d.].
HARRIS, J.R. O Legado do Egito. São Paulo: Imago, 1993.
JACQ, Ch. As Egípcias. Retratos de Mulheres do Egito Faraônico. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
JOHNSON, P. Historia Ilustrada do Egito Antigo. Rio de Janeiro: Ediouro,
2002.
MENU, B. Ramses II. Soberano dos soberanos. Rio de Janeiro: Objetiva,
2002. (Col. Descobertas)
MONTET, P. O Egito no tempo de Ramsés (1300 a 1100 a.C.). São Paulo,
Companhia das Letras, 1989. (col. A Vida Cotidiana)
O’CONNOR, D & FORBES, D. & LEHNER, M. Egito: Terra dos Faraós. Rio
de Janeiro: Abril Coleções Time Life, 1998. (Col. Civilizações Perdidas)
SCHULZ, R. O Egipto. Portugal: Konemann Port, [s.d.]
VALBELLE, D. A Vida no Antigo Egipto. Portugal: Ed. Europa-America,
1990.
VERCOUTER, J. O Egito Antigo. São Paulo: DIFEL, 1980.

ESCRITA e LITERATURA
ARAÚJO, E. Escrito para a Eternidade, a literatura no Egito Faraônico.
Brasília: Universidade de Brasília, 2000.
HOOKER, J. T. Lendo o Passado, do Cuneiforme ao Alfabeto. A História
da Escrita Antiga. São Paulo: Edusp/Melhoramentos, 1996.

EGIPTOLOGIA
HOWARD, C. & MACE, A. C. A Descoberta da Tumba de Tutankhamon.
São Paulo: Mercado Aberto, 1991.
ROMER, J. O Vale dos Reis. São Paulo: Melhoramentos, 1994.
SAUNERON, S. A Egiptologia. São Paulo: DIFEL, 1970. (Col. Saber Atual)
VERCOUTTER, J. Em Busca do Egito Esquecido. Rio de Janeiro: Objetiva,
2002. (Col. Descobertas)

INFANTO-JUVENIL
CLARE, J. D. & DAVID, R. Pirâmides do Antigo Egito. São Paulo: Manole,
1994. (Col. Eu estive lá)
DEARY, T. & HEPPLEWHITE, P. Espantosos Egípcios. São Paulo:
Melhoramentos, 1994.
DELAFOSSE, C. & BIARD, P. A Pirâmide. São Paulo: Melhoramentos, 1995.
ÉVANO, B. Contos e lendas do Egito Antigo. São Paulo: Cia das Letras,
1998.
FEIJÓ, M. C. Antigo Egito: O Novo Império. São Paulo: Ática, 1994. (Col.
O Cotidiano da História)
149
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

FERREIRA, O. L. Egito Terra dos Faraós. São Paulo: Editora Moderna,


1992. (Série Desafios)
GANERI, A. Os Antigos Egípcios. São Paulo: Abril, 1995. (Col. Oito Temas,
1)
GANERI, A. Faraós & Múmias. São Paulo: Editora Moderna, 1998. (Col.
Descobrindo Mais)
KOENIG, V. Às margens do Nilo - Os Egípcios. São Paulo: Augustus,
1992. (Col. Povos do Passado)
MACDONALD, F. Egípcios Antigos. São Paulo: Editora Moderna, 1996.
MILLARD, A. Os Egípcios. São Paulo: Melhoramentos, 1992. (Col. Povos do
Passado)
MORLEY, J. Antigo Egito. São Paulo: Scipione, 1996. (Col. Como seria a
sua vida?)
MORLEY, J. & BERGIN, M. & JAMES, J. Uma Pirâmide Egípcia. São Paulo:
Manole, 1993.
PUTNAM, J. A Vida no Antigo Egito. O cofre dos Tesouros. Portugal:
Centra Livros, 1996.
QUESNEL, A. O Egito. São Paulo: Editora Ática, 1997. (Col. Mitos e Lendas)
SETHUS, M. No Tempo dos Faraós. São Paulo: Scipione, 1992. (Col.
Crianças na História)
STEEDMAN, S. Jornal do Egito. O maior jornal do Mundo Civilizado.
Belo Horizonte: Editora Dimensão, 1997.
UNSTEAD R. J. Uma Cidade Egípcia. Portugal: Celbrasil, 1979. (Col. Veja
por Dentro)

VIDEOS

A Maldição de Tutancâmon, Col. À Procura de Mundos Perdidos, Discovery


Channel Video, Videos Abril, 1998.
Cairo o Fascínio das Pirâmides, Col. Video Travel 17, Abril Coleções, 1997.
Egito em Busca da Imortalidade, Col. Civilizações Perdidas, Time Life
Video, Abril Coleções, 1997.
Nilo o Rio dos Deuses, Discovery Channel, Mickinnon Films, Abril Video,
1994.
O Egito em Busca da Eternidade, National Geographic Society, WQED,
Abril Video, 1982.

150
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

INTERNET
Devido à extraordinária mobilidade da internet, é difícil afirmar com
segurança que as indicações abaixo já não estarão obsoletas no mesmo
instante que esta lista for concluída.
A classificação aqui presente é puramente subjetiva, já que muitos
dos endereços possuem “links” que os interligam.

Museus

Museu da Universidade de Leipzig - Leipzig


www.uni-leipzig.de/~egypt/museum.htm
Ägyptisches Museum und Papyrussamlung - Berlin
http://tarantula.smb.spk-berlin.de
Kunsthistorisches Museum Wien - Vienna
www.khm.at/khm
Louvre - Paris - www.louvre.fr
Museu Gregoriano Egiziano - Roma - www.christusrex.org/www1/vaticano/
Ashmolean Museum - Oxford - www.ashmol.ox.ac.uk
Metropolitan Museum - Nova York - www.metmuseum.org
Il Museo Archeologico di Bologna - Bologna - www.comune.bologna.it
Archaeological Museum of Milan - Millano - www.harwa.org
Egyptian Museum - Califórnia - www.rosicrucian.org
The Cleveland Museum of Art - Cleveland
www.clemusart.com/museum/collect/egypt/index.html
The Egyptian Museum of Antiquities - Cairo
www.idsc.gov.eg/culture/egy_mus.htm
The British Museum - London - www.thebritishmuseum.ac.uk
The Brooklyn Museum of Art - Nova York - www.brooklynart.org
Museu Nacional - Rio de Janeiro - http://acd.ufrj.br/museu/
Arheoloski Museum Zagreb - Zagreb - www.arheoloski.hr
Museo Egizio Online - Turin - www.multix.it/museoegizio_to/doc
MFA Boston - Boston - www.mfa.org/egypt/
The Oriental Institute Museum - Chicago
www.oi.chicago.edu/OI/MUS/OI_Museum.html
Canergie Museum of Natural History - Pittsburgh
www.clpgh.org/cmnh/exhibits/egypt/index.html
Allard Pierson Museum - Amsterdam - www.uba.uva.nl/apm
The National Museum of Antiquities - Leiden - www.rmo.nl
The Manchester Museum - Manchester
www.museum.man.ac.uk/collections/egyptology/egyptology.html
Musée d'Ethnografhie (Neuchâtel)
www.ne.ch/neuchatel/men/03collec/37EGYPTE/Egip.htm
Egyptian Museum of the Uruguayan Society of Egyptology - Montevideo
www.geocities.com/Paris/Musee/7650/
The Kelsy Museum of Archaeology - EUA
www.umich.edu/~kelseydb/ Michigan
151
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Egypt Centre - Swansea - www.swan.ac.uk/egypt


Kestner Museum - Hannover
www.hannover.de/deutsch/kultur/museen/mus_mus/kestner.htm
Museum of the University of New England - Armidale
www.une.edu.au/~arts/Museum/AntqMusMedit.html#5
National Museet - Copemhagen - www.natmus.dk/ixgb.htm
The Egyptian Museum of Antiquities - Cairo
www.tourism.egnet.net/attractions_detail.asp?code=6
Museo Egipci de Barcelona - Barcelona - www.fundclos.com
Museo Arqueológico Nacional - Madrid - www.man.es/egi/index.html
Phoebe A. Hearst - Museum of Anthropology - Berkeley
www.qal.berkeley.edu/~hearst/
The Detroit Institute of Arts - Detroit
www.dia.org/collections/ancient/egypt/egypt.html
McClung Museum - Tennessee
http://mcclungmuseum.utk.edu/permex/egypt/egypt.htm
Museum of the University of Durham - Durham
www.dur.ac.uk/~dom0zz1/egypt.htm
Hunterian Museum - Univ. of Glasgow - Glasgow
www.hunterian.gla.ac.uk/HuntMus/egypt/mus.html
Petrie Museum of Egyptian Archaeology - London
www.ucl.ac.uk/archaeology/resource/mcollect.htm
Univ. of Wales Swansea - the Wellcome Museum - Swansea
www.swan.ac.uk/classics/musimgeg.html
Eötvös Lorand Tudományegyeten - Budapeste - www.elte.hu
Museo Archeologico Nazionale Napoli - Napole
http://eurialo.cib.na.cnr.it/mann/egizi/indegiz.html
Medelhavsmuseet - Stockolm - http://www.medelhavsmuseet.se/
Virginia Museum of Fine Arts - Virginia - http://www.vmfa.state.va.us/
Seattle art Museum - Seattle - http://www.seattleartmuseum.org
The Royal Ontario Museum - Toronto - http://www.rom.on.ca
Le Musée d'Archeologie Méditerranéenne - Marseille
http://ehess.cnrs-mrs.fr/guide/archeo.html
Fitzwilliam Museum - Cambridge - http://www.fitzwilliam.cam.ac.uk
Museo Arqueologico Nacional - Madrid - http://www.man.es/index.html
The State Hermitage Museum - São Petersburgo
http://www.hermitagemuseum.org/
Museu Calouste Gulbenkian - Lisboa
http://www.gulbenkian.pt/museu/index.html
The Los Angeles County Museum of Art/LA
http://www.lacma.org/lacma.asp
Art Museum at the University of Memphis
http://www.people.memphis.edu/~artmuseum/AMHome.html
Musée de Picardie
www.cr-picardie.fr/culture/patrimoine/musees/picardie.htm

152
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Musée Georges Labit - Toulouse


http://www.mairie-toulouse.fr/loisirs/musees/muse006F.stm
Musée Joseph Déchelette - Roanne
http://ceramique.com/DOSMUS/00454.htm
Liverpool Museum - Liverpool
http://www.nmgm.org.uk/liverpool/index.html
Muzeum Narodowe - Kielce
http://www.kielce.uw.gov.pl/muzeum/info/gl2.html
Muzeum Narodowe - Poznaniu
http://www.info.poznan.pl/Culture/Museums/Musical.html
Muzeum Narodowe - Wroclawiu - http://muzeum-narodowe.wroclaw.art.pl/
The Pushkin Museum of Fine Arts - Moscow
http://www.museum.ru/gmii/
Martin von Wagner Museum der Universität Würzburg - Würzburg
http://www.ub.uni-
heidelberg.de/helios/fachinfo/fachref/aegypt/info/mwue.htm
Roemer und Pelizaeus Museum in Hildesheim - Hildesheim
http://niedersachsen.de/MWK7g2.htm
Musées Royaux d'Art et d'Histoire - Bruxelles - www.kmkg-mirah.be
Sammlung des Ägtptologischen Instituts der Universität - Heidelberg
http://www.uni-heidelberg.de/univ/museen/aegypto.html
Szépmûvészeti Múzeum - Budapeste - http://www.szepmuveszeti.hu/
The University of Pennsylvania Museum - Philadelphia
http://www.upenn.edu/museum/Collections/ourgalleries.html
Musée de Grenoble - Grenoble
http://www.musexpo.com/france/grenoble/index.html
Musée des Beaux-Arts Lyon - Lyon
http://tourisme.voila.fr/villes/lyon/fra/sit/ville/mbeauxar/acc.htm
Birmingham Museums & Art Gallery - Birmingham
http://www.birminghamarts.org.uk/museum.html
Musées d'Art et d'Histoire Genève - Genève
http://www.geneva-city.ch/musinfo/mahg/presse/

Universidades

Universität Marburg - Marburg - http://staff-www.uni-marburg.de/~aegypt


Universität Heidelberg - Heidelberg - www.ub.uni-heidelberg.de
Czech Institute of Egyptology - Charles University - Praga - www.ff.cuni.cz
Universität Hamburg - Hamburg - www.rrz.uni_hamburg.de/aegypten
Universität Trier - Trier - www.uni-trier.de/uni/fb3/aegyptologie/index.html
Universität Leipzig - Leipzig - www.uni-leipzig.de/~egypt/
Universität München - München - www.fak12.uni-muenchen.de/aegypt
Universität Münster - Münster
www.uni-munster.de/rektorat/studium/stud-agy.htm
Northeast Normal University - China - www.nenu.edu.cn Changchun
Johns Hopkins University - EUA - www.jhu.edu/~neareast Maryland
153
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Brown University - Providence - www.brown.edu


UCLA - Los Angeles - www.humnet.ucla.edu/humnet/egyptology/html
The University of Memphis - Memphis
www.memphis.edu/egypt/about.html
The University os Texas at Austin
http://menic.utexas.edu/menic/countries/egypt.html
Waseda University - Tokyo - www.waseda.ac.jp
University de Paris IV - Sorbonne - Paris - www.paris4.sorbonne.fr
École Pratique des Hautes Études- IVe Section - França
http://perso.club-internet.fr/thot_web/Centres/EPHEIV/
École du Louvre - Paris
http://perso.club-internet.fr/thot_web/Centres/Louvre.htm
Université de Lille III - Lille - www.univ-lille3.fr/www/shap/index.htm
Université Lumiere Lyon II - Lyon
http://perso.club-internet.fr/thot_web/Centres/lyon.htm
Université Paul Valéry (Montpellier III)
http://perso.club-Internet.fr/thot_web/Centres/MontpellierIII.htm
Université de Strasbourg - Strasbourg - www.u2.u-strasb.fr
Cambridge University - Cambridge
www.oriental.cam.ac.uk/oriental/egypt1/htm
Université de Genève - Genève - www.unige.ch/lettres/or/welcome.html
Humboldt - Universität zu Berlin - Berlin - www.hu-berlin.de
Bayerische Julius-Maximiliens/Univ. Würzburg
www.uni-wuerzburg.de/aegyptologie
CEEMO - Centro de Estudios del Egipto y del Med. Oriental - Buenos Aires
www.geocities.com/Athens/Crete/9253
Monash University - Melbourne - www.arts.monash.edu.au/archaeology
Universität Wien - Vienna - www.univie.ac.at/egyptology
Université de Liège - Liège - www.ulg.ac.be/facplh/uer/u-orient.html
Université Catholique Louvain/Louvain-la-Neuve
http://zeus.fltr.ucl.ac.be/default.htm
Kobenhavns Universitet - Denmark - www.kn.dk/cni/egypt/egypt-main.htm
University of Alexandria - Alexandria - www.alex.eun.eg/
Cairo University - Cairo
www.cairo.eun.eg/GENERAL/FACTS/campus/archeology.htm
The Sussex College of Egyptology/UK
www.egyptology.sussex.mcmail.com/ Worthing
Universitet i Bergen - Bergen-Noruega
http://www.hf.uib.no/i/Arkeologisk/

154
ARTE E ARQUEOLOGIA DO EGITO ANTIGO

Leiden University - Leiden - http://www.leidenuniv.nl/nino/nino.html


Jagiellonian University/Kraków-Polónia
http://www.uj.edu.pl/uj-guide/inst_arc.en.html
Uniwersytet Warzawski - Varsóvia-Polónia - http://www.uw.edu.pl/
Universidade Nova de Lisboa - Lisboa - http://www.fcsh.unl.pt/
Uppsala University - Uppsala - http://www.arkeologi.uu.se/egy/
Universität Basel - Basel - http://www.unibas.ch/
Universite de Fribourg/Fribourg
http://www.unifr.ch/scant/bienvenue/homepage.htm
Universität Zürich - Zürich
http://www.unizh.ch/ori/Egyptology/egyptology.html

Institutos e Centros de Pesquisa

ARCE - Cairo - http://www.arce.org/


Deutsches Archäeologisches Institut - Berlin - http://www.dainst.de/
Cambridge - Cambridge - www.newton.cam.ac.uk/egypt
Institute Français d'Archéologie Orientale du Caire - Cairo
http://www.ifao.egnet.net/
Griffith Institute - Oxford - http://www.ashmol.ox.ac.uk/
The Egypt Exploration Society - London - http://www.ees.ac.uk/
Centre for Computer-aided Egyptological Research - http://www.ccer.nl/
International Association of Egyptologists - München
www.fak12.uni-muenchen.de
The Oriental Institute - University of Chicago - Chicago
www-oi.uchicago.edu
Centre Franco-Égyptien d'Étude des Temples de Karnak
http://www.cfeetk.cnrs.fr/
Theban Mapping Project - http://www.thebanmappingproject.com/

Miscelânia

http://www.ancientegypt.co.uk/
http://www.fnspo.cz/mmm/egypt/hiero/
http://www.egiptologia.com/
http://www.newton.cam.ac.uk/egypt/
http://www.guardians.net/egypt/
http://www.egyptology.com/reeder/
http://www.bubastis.be/
http://www.egypt.edu/
http://www.egyptologica.be/
http://perso.wanadoo.fr/thotweb/
http://www.uk.sis.gov.eg/
http://hieroglyphs.net/

155
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

24. BIBLIOGRAFIA

ALDRED, Cyril. Egyptian Art in the Days of the Pharaohs 3100-320 BC..London:
Thames and Hudson, 1985.
ALDRED, Cyril. The Development of Ancient Egyptian Art, from 3200 to 1315 B.C.
London: Alec Tiranti, 1952.
ANDREU, Guillemette (et alii). Les Artistes de Pharaon. Deir el-Médineh et la Vallée
des Rois. Paris: RMN, 2002.
BOVOT, Jean-Luc & ZIEGLER, Christiane. Art et Archéologie: L’Égypte Ancienne.
Paris: Ecole du Louvre/RMN, 2001. (Manuels de l’Ecole du Louvre).
DAMIANO-APPIA, Maurizio. L'Égypte Antique. Paris: Gallimard, 2002.
DONADONI, Sergio. L’Art Égyptien. Paris: Le Livre de Poche, 1993.
DRIOTON, Etienne; VANDIER, Jacques. L'Égypte: des origines à la conquête
d'Alexandre. Paris: Presses Universitaires de France, 1989.
GOVI, Morigi Cristiana; CURTO, Silvio; PERNIGOTTI, Sergio Civico. Il Senso dell'Arte
nell'Antico Egitto. Milano: Electra, 1990.
LECLANT, Jean et alii. L’Égypt du Crépuscule. De Tanis à Méroé (1070 a.C.-IV
d.C.). Paris: Gallimard, 1980.
LECLANT, Jean et alii. L’Empire des Conquérants. L’Égypte au Nouvel Empire
(1560-1070). Paris: Gallimard, 1979.
LECLANT, Jean et alii. Le Temps des Pyramides. De la Préhistoire aux Hyksos
(1560 avant J.-C). Paris: Gallimard, 1978.
MALEK, Jaromir. Egyptian Art. London: Phaidon Press (Arts&Ideas), 1999.
MANNICHE, Lise. L’Art Égyptien. Paris: Flammarion (col. Tout L’Art-Histoire), 1994.
MEKITARIAN, Arpag. La Peiture Égyptienne. Genève: Skira, 1978.
MICHALOWSKI, Kazimierz. Great Sculpte of Ancient Egypt. New York: Reynal
William Morrow, 1978.
ROBINS, Gay. Proportion and Style in Ancient Egyptian Art. Austin: University of
Texas Press, 1994. [Eg. 510]
ROBINS, Gay. The Art of Ancient Egypt. Cambridge, Massachussetts: Harvard
University Press, 1997.
ROBINS, Gay. Egyptian Statues. United Kingdom: Shire, 2001. (Egyptology 26)
RUSSMANN, Edna R. Egyptian Sculpture: Caire and Luxor. London: British Museum
Publications, 1990.
SCHÄFER, Heinrich. Principles of Egyptian Art. Oxford: Griffith Institute, 1986.
SMITH, William Stevenson. The Art and Architecture of Ancient Egypt. USA:
Penguin Books, 1981.
VANDIER, Jacques. Manuel d'Archéologie Égyptienne IV: Bas-Reliefs et Peintures
Scènes de la Vie Quotidienne, 1 e 2. Paris: J. Picard, 1964.
WILKINSON, Richard H. Reading Egyptian Art: a Hyeroglyphic Guide to Ancient
Egyptian Painting and Sculpture. London: Thames and Hudson, 1992.
WILKINSON, Richard H. Symbol & Magic in Egyptian Art. London: Thames and
Hudson, 1994.
ZIEGLER, Christiane, et alii. L'Art Égyptien au Temps des Pyramides. Paris: RMN,
1999.

156