Você está na página 1de 7

Embora pertencentes ao mesmo Grupo, os editoriais de ambos os jornais apresentam mais

diferenças do que semelhanças – sobre este último aspecto percebendo-se apenas a repetição de
algumas matéria publicada no O Globo, às vezes na íntegra, outras um pouco mais sucinta ou ainda
em linguagem mais direta. No mais, variam desde o público-alvo à exposição e disposição das
manchetes; passando pelos temas abordados no mesmo dia que não raro são diferentes; até a
variabilidade de e sobre os temas.

Nesse sentido, o Extra em comparação com O Globo, apresenta não apenas linguajar mais
imediato, como também fornece informações mais variadas e mais conteudista, referentes à
temática sobre drogas. Em tópicos como saúde, arte, educação, esportes, dentre outros, aborda
diferentes perspectivas e cenários onde se apresentam usos e abusos de drogas ilícitas, oferecendo
maior gama de exploração do assunto para além da perspectiva da violência e do tráfico de drogas,
desatrelando o foco constante das questões de segurança pública.

Contudo, apesar da maior variabilidade e aprofundamento em alguns temas, podemos seguir


o pensamento do fundador da Agência de Notícias das Favelas, André Fernandes, e pensar a
potência e importância da representação veiculada pela mídia sobre seus receptores, dado a
insistência em enfatizar um cenário de guerra, em editoriais como o intitulado “Guerra no Rio”
(Extra) ou “__” (Globo). De acordo com André, “Criar uma editoria que afirme que estamos em
guerra só ajuda a justificar o que a polícia sempre fez, porém com o aval da imprensa: atira
primeiro, pergunta depois (…) porque numa guerra atrocidades se tornam justificáveis por um
‘bem maior’. Não consigo ver um bom final para essa situação se a própria imprensa corroborar
com esse termo.” (sic) (EXTRA: 17/08/2017, pág.3, Guerra no Rio)

Tal situação, conforme diz Hall...

Observa-se que os jornais geralmente não descrevem a pessoa aprisionada, frequentemente


utilizando os termos homem e jovem como similares (tenha a pessoa 18 ou mais de 30 anos), sem
jamais mencionar raça/cor/etnia nem sua classe de origem – a primeira informação tendo de ser
identificada quando há imagem e a outra inferida quando há algum bairro indicado como residência,
e/ou a ocupação da pessoa.
Dentre o total de manchetes analisadas no período pesquisado [xxxx] , somente [xxxx]
traziam mulheres como autoras ou participantes de algum crime [referências], e destas apenas
[xxxx] relacionava-se com questões envolvendo drogas ilícitas [referências]. Assim, encontra-se
dados que evidenciam a predominância da figura masculina nos crimes envolvendo tráfico de
drogas ilícitas.

Referente à idade, não foi encontrado padrão definitivo, pois algumas vezes nas manchetes
constava a idade, em outras apenas referia-se como jovem [referências] ou homem [referências],
quando não apenas constava o nome e/ou foto do aprisionado. Além disso, alguns dos casos
relatados nas manchetes diziam respeito aos chefões do tráfico de drogas – os quais podem ser
considerados homens maduros – o que os tiraria do período estipulado para pesquisa, ou seja,
jovem-adulto.

Desse modo, a variável idade não apresentou predominância descritiva ou visual para a
representação do jovem-adulto nas manchetes dos jornais O Globo e Extra no período analisado –
contudo, isso não é conclusivo.

Com relação à representação de raça/cor/etnia, talvez por ser um tema tabu em nossa
sociedade, em momento algum é mencionado descritivamente nenhum dado referente a isso. Tal
análise deu-se por observação das fotos, quando havia, tendo o autor da dissertação que determinar
se alguns dos personagens apresentados contariam ou não como negros.

Esse aspecto da análise por si só demonstra do próprio modo como o racismo se apresenta
em nossa sociedade brasileira, expondo o que Fanon nomeou discurso colonial. Diferente de outros
países nos quais negro é qualquer um de descendência africana, independente da tonalidade de sua
pele, no Brasil estipula-se uma “escala” colorimétrica, o Colorismo, determinando como negro
quem tem a pele o mais preta possível e que tenha os traços fenotípicos considerados negróides (ver
cap. xxxx e Chor xxxx) [falar sobre colorismo?????? - se sim, somente uma nota de rodapé].

Vale ressaltar que esse é justamente o ponto em que se centram os debates sobre
miscigenação e brasilidade, com argumentos que buscam negar o racismo e afirmar uma falsa
democracia racial. Tal argumento, de que essa mistura tornaria “todos os brasileiros negros”,
portanto, não havendo mais racismo, ignora que a própria miscigenação é fruto desse racismo, pois
se deu com base no estupro de mulheres africanas e indígenas. Por isso, sem aprofundar mais esse
debate nesse trabalho, os personagens que foram destacados pelo autor do texto como
representações de pessoas negras, foram escolhidos com base nos dispositivos simbólicos que
embasam as escolhas que de fato são feitas por parte daqueles que os aprisionam, ou seja, cor da
pele e traços fenotípicos.

Como tópico propositivo, fica a possibilidade de que os meios de comunicação jornalísticos


adotassem a prática de inserir em suas manchetes, além da informação sobre gênero e idade,
também classe social e a raça/cor/etnia das pessoas apresentadas. À despeito da necessidade de
transmitir a mensagem o mais rapidamente possível, isso adicionaria informação de maior
qualidade ao invés de grande quantitativo de informação vaga.

A análise foi subdividida em tópicos referentes à terminologia fanoniana, entremeando o


discurso jornalístico à explanações conceituais. Isso permite um diálogo mais fluido do que a
menção cronológica dos temas abordados nas manchetes.

Ainda assim, é possível notar como, cronologicamente, o discurso dos jornais constrói um
cenário onde nota-se a constante apresentação da precarização das forças policiais cariocas, seu
cenário de corrupção e violência ante os cidadãos (das zonas menos nobres) e, em paralelo, a
participação das Forças Federais nas incursões de inteligência e estratégia, tendo boa recepção de
parte da população (majoritariamente das áreas nobres) e maior efetividade em suas ações.

Discurso violência colonial

inversão da violência colonial, apresentada por exemplo pela ação

demonstra que há negociação das identidades, pois o colonizado precisa negociar parte de
seu modo de ser e adotar práticas do colonizador

essa inversão se dá por meio de protestos e movimentos sociais-coletivos, e também com a


própria experiência do tráfico – que faria um paralelo com o terrorismo: a violência adotada como
forma de resistência e enfrentamento às opressões sofridas.
O Extra colhe depoimentos de diversas categorias de pessoas no que chama “desabafo em
meio à guerra”. O ex-comandante das UPPs e pesquisador da UERJ Robson Rodrigues diz que o
que tem-se vivenciado no Rio, ainda que na conceituação de análises políticas não caiba a
terminologia, são práticas de guerra com os resultados de uma. Complementa que, não sendo isso o
esperado de uma democracia moderna, isso deve ser estranhado ao invés de naturalizado. (EXTRA:
17/08/2017, pág.3, Guerra no Rio)

Paulo César Lopes, Coronel reformado da PMRJ, é de opinião que na guerra no Rio os
bandidos têm de tudo “armamentos, roupas e táticas de guerra. Só falta, para os criminosos,
elemento ideológico.” (sic). Ainda assim, insiste que isso não deve possibilitar que os policiais
façam como bem entenderem, pra isso existem as leis brasileiras e o Estado Democrático de
Direito. (EXTRA: 17/08/2017, pág.3, Guerra no Rio)

Para o fundador da Agência de Notícias das Favelas, André Fernandes, “Criar uma editoria
que afirme que estamos em guerra só ajuda a justificar o que a polícia sempre fez, porém com o
aval da imprensa: atira primeiro, pergunta depois (…) porque numa guerra atrocidades se tornam
justificáveis por um ‘bem maior’. Não consigo ver um bom final para essa situação se a própria
imprensa corroborar com esse termo.” (sic) (EXTRA: 17/08/2017, pág.3, Guerra no Rio)

Estreitando o caminho, a fala de Renê Silva, fundador do Jornal Voz das Comunidades,
expõe que o cenário onde toda essa guerra ao tráfico de drogas acontece é a favela, não o asfalto.
Porém, como agora estão sendo vitimadas outras áreas e populações da cidade, o governo está
efetuando intervenções ainda mais pungentes sobre as favelas, tendo como resultado, ainda mais
mortes de inocentes e nenhum efeito significativo à longo prazo. (EXTRA: 17/08/2017, pág.3,
Guerra no Rio)

Já o advogado Ives Gandra Martins, especialista em Direito Constitucional diz que a


Constituição prevê o Estado de Defesa em questões regionais e o Estado de Sítio em questões
nacionais, e que nesses casos alguns direitos do cidadão podem ser suspensos. (EXTRA:
17/08/2017, pág.3, Guerra no Rio) Contudo, algo que ele diz, e parece passar como simples adorno
na fala, é que essas medidas são aplicadas em cenários de guerra. O Brasil precisaria estar em
guerra ou guerra civil para tais medidas terem razão de ser, e como foi apontado por André
Fernandes na mesma página de jornal, alardear guerra somente alimentaria o apelo e naturalização
das atrocidades já em ocorrência, devido à política de enfrentamento e combate ao tráfico de drogas
e armas.

O outro lado dos relatos são de mensagens de áudio, enviadas por uma menina de 10 anos
que estava sozinha em casa com a avó, para a mãe e irmão que ainda estavam fora de casa quando
começou outro tiroteio: “(…) Não aguento mais viver aqui, é muito perigoso viver aqui para mim,
quanto mais para vocês. Eu não aguento mesmo”. (sic) O trecho selecionado resume, porém não
exprime o desespero evidenciado na transcrição completa, pois a menina, sentada no chão e pondo
o rosto entre as pernas para abafar o som dos disparos enquanto envia mensagem para a mãe, fica
repetidamente dizendo não aguentar mais viver em Manguinhos. E, contradizendo o senso comum
da classe média e alta, de que as pessoas permanecem por apoio ao tráfico ou por uma escolha de
estilo de vida, a mãe continua: “Ela [a filha] diz que quer sair daqui. Se eu pudesse, claro que eu já
tinha saído.” (sic). Fica assim evidente que ninguém convive com a violência por livre vontade.
Além disso, mais que o “habitual”, as intervenções e confrontos se acirraram pois nesse período
ocorreu a morte de um policial civil no dia anterior, no Jacarezinho, favela que fica próxima de
Manguinhos. Somado a esse terror psicológico, há o confinamento e isolamento, pois a mãe procura
proteger a filha não a deixando ir para a escola enquanto o cenário permanecer assim, e indaga algo
que condensa o teor revanchista de muitas dessas operações “Quantos mais vão ter que morrer
para pagar pela vida desse policial?” (sic) . (EXTRA: 17/08/2017, pág.3, Guerra no Rio) Pois é
nessas horas que, para vingar colegas de farda, agentes do Estado ignoram ainda mais as leis e
literalmente atiram em quem estiver pelo caminho, invadem casas sem mandatos, batem em
mulheres e crianças, e há além disso um elevado número dos chamados “autos de resistência” e
aprisionamentos massivo de “suspeitos” nem sempre envolvidos com tráfico ou qualquer situação
ilícita – basta ver as manchetes de um mês atrás sobre policiais fardados e em momento de trabalho,
vendendo drogas no lugar dos traficantes, e assim claramente diferenciando usuário e traficante (o
que habitualmente alegam não saber fazer), chegando ao cúmulo de prender usuários (e cabe
indagar se eram todos realmente usuários?) para cumprir suas metas de aprisionamento de
traficantes que deixaram livres; também as várias reportagens onde, após a morte de um agente,
segue-se uma ou diversas operações pelas comunidades e favelas do Rio onde há, não muitos
aprisionamentos e muitas mortes de civis. Assim, a pergunta dessa mãe resume, de outra maneira, o
motivo desse trabalho ao discutir a representação dos jovens negros usuários de drogas ilícitas –
assunto que traz junto a si as questões de descriminalização da maconha e seu uso medicinal,
projetos de lei visando a redução da menoridade penal e, mais recente e atuante em 2018, a
intervenção federal nas comunidades do Rio de Janeiro.
Manchete apresentando dados que as comunidades representam 22% da população carioca, e
ainda assim a taxa de homicídios à cada 100 mil habitantes nas comunidades era de 14,2 nos seis
primeiros meses de 2017, enquanto nas demais áreas da cidade (88% o Rio de Janeiro) totalizava
4,3. Complementa apontando que “do total de vítimas mortas em comunidades, 45% têm entre 18 e
29 anos e quase 75% são negros ou pardos.” (sic). Diz ainda que “A rotina de terror no
Jacarezinho é um retrato do que vivenciam moradores de comunidades cariocas, obrigados a
conviver com a morte (…) risco de alguém morrer assassinado a tiros em favelas é três vezes maior
do que nas demais áreas do Rio.” (sic) (EXTRA: 21/08/2017, pág.3, Guerra do Rio) Também fala
sobre os quatro procurados, que foram feitas oito prisões em dez dias, além de drogas, e três
inocentes mortos.

A mesma página apresenta ainda manchete sobre um vídeo circulando nas redes sociais, em
que se vê um policial do 15 BPM em Caxias discutindo e agredindo uma moradora na favela do
Cangulo. Além de xingamentos dirigidos à mulher, o mesmo faz dois disparos para o alto com o
fuzil, para dispersar os moradores. Informa-se que a PM prendeu administrativamente este e outros
três que o acompanhavam, para investigar o ocorrido. (EXTRA: 19/08/2017, pág.4, Guerra do Rio)
Foto de um policial armado com um fuzil de frente para duas mulheres negras.

Enterro de uma das vítimas do primeiro dia de confronto na favela do Jacarezinho, o


mototaxista André Luís Medeiros. “A verdade é que não sabemos se vamos sair para o trabalho e
voltar para casa – lamentou a viúva.” (sic). De acordo com testemunhas, não houve troca de tiros,
e o rapaz foi atingido por disparo que partiu do Caveirão – que o deixou sem socorro. André deixou
esposa de 25 anos e filha de 13 anos. (EXTRA: 19/08/2017, pág.4, Guerra do Rio)

Dois policiais mortos em operações no Jacarezinho (EXTRA: 12/08/2017, pág.12, Geral)


Fotos de vários policiais numa esquina. Foto do rosto de um dos policiais morto em serviço.

Prisão de 15 suspeitos no Jacarezinho e Manguinhos, entre eles o maior receptador de cargas


da região, tendo encontrado 38 veículos roubados, e diversos quilos de maconha, crack e cocaína.
(EXTRA: 12/08/2017, pág.12, Geral) Fotos de policiais, caveirões, revista aos pedestres.
A manchete destaca fotos de agentes do BOPE e das forças federais revistando moradores da
Cidade de Deus e retirando uma barricada; entre elas, uma foto em preto e branco de uma senhora
de 82 anos, uma das vítimas de bala perdida no confronto entre policiais e traficantes. Parentes dos
mortos reclamam que são impedidos de efetuar remoção do corpo. [no Globo = pegar lá] (EXTRA:
11/07/2017, pág.9, Geral – Onde está a pacificação?)

saúde dos policiais e da população

Pesquisa da FioCruz, realizada por Patrícia Constantino demonstra uma taxa sete vezes
maior para o índice de suicídio entre PMs em comparação com a população em geral. Também foi
realizado um levantamento pelo Laboratório de Análise da Violência da Uerj, feito por Dayse
Miranda, apontando que 10% dentre 224 PMs já haviam tentado suicídio. Por conta disto, foi
protocolado pelo deputado Marcelo Freixo, na Alerj, um projeto de lei visando a criação de um
Programa de Segurança e Saúde no Trabalho dos Agentes de Segurança Pública, abrangendo tanto
policiais militares e civis quanto agentes penitenciários. (EXTRA: 21/08/2017, pág.8, Geral)

A matéria apresenta um relato de como as crianças estão sendo afetadas em seu dia-a-dia
pelos confrontos. Os educadores dizem que as que já têm dificuldade de aprendizagem acabam se
prejudicando, o que me faz perguntar: não seria essa dificuldade toda adquirida, por conta desse
cenário de violência, carência alimentar, falta de lazer, desestruturação familiar e diversos outros
processos? A foto destaca o desenho de uma criança representando um miliciano e a seguinte
descrição “O melisiano[miliciano] não é paz”. Há ainda alguns relatos, também demonstrando
quanto as crianças compreendem e sofrem nesse cenário: “(…) Ontem mesmo deu muito tiro. E eu
abracei minha mãe muito forte e comecei a chorar com ela. E não consegui dormir e comecei a
contar carneirinhos e mesmo assim não consegui dormir por causa o tiro. Só consegui dormir
quando o tiro acabou.” (sic) (EXTRA: 02/07/2017, pág.8, Geral)