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Origem e Impacto do Movimento Milet -ita

• George R. Knight

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Tradução

• Marcelo Costa Dias

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Casa Publicadora Brasileira


Tatuí, SP
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Sumário
Uma Palavra ao Leitor 9

PARTE I: O Ano do Fim se Aproxima

Capítulo 1: Paixão pelo Milênio 15


• Reavivamento no Estudo das Profecias 15
• Conflito em Relação ao Milênio 17
• O Segundo Grande Avivamento 20

Capítulo 2: A Formação de um Milenarista:


Os Primeiros Anos de Miller 24
• Nem Sempre Rebelde 25
• Os Anos Deístas e a Guerra de 1812 27
• De Volta ao Cristianismo 31
• Um Entusiasmado Estudante da Bíblia 33
• Pregar ou Não Pregar 39

Capítulo 3: A Missão de Miller ao Mundo 42


• O Perfil de Miller 43
• O Perfil da Mensagem de Miller 50
• Os Resultados de Miller 54

Capitulo 4: Josué V. Himes:


O Organizador da Missão 62
• Conhecendo Josué V. Himes 62
• Himes se Encontra com Miller 65
• "O Napoleão da Imprensa" 71
• O Estrategista Organizacional 78
• Himes sob Crítica 83
Capítulo 5: Mais Missionários do Milênio 86
• Josias Litch se Une à Missão Adventista 86
• As Campais IVIileritas 91
• O Zeloso Carlos Fitch 98
• Mais Líderes Mileritas 105
• Palestrantes Negros e Mulheres 108

PARTE II: O Ano do Fim

Capítulo 6: Entrando no Ano do Fim 115


• Foco Progressivo no Tempo 116
• Um Ano de Expectativas e Evangelismo 120
• Respostas Não Mileritas à Chegada do Ano 127

Capítulo 7: Saindo de Babilônia 130


•• "Crise de Limite" 131
• Resistência Crescente ao Milerismo 136
• O Separatismo Milerita 139
• "Caiu a Babilônia" 141

Capitulo 8: O Desapontamento da Primavera 146


•• O Impulso Evangelístico Final 146
• Mas Cristo Não Veio 148

Capítulo 9: O Tempo de Tardança 154


• Perseverando na Obra 155
• Fanatismo 158

Capítulo 10: O Verdadeiro Clamor da Meia-Noite 173


• Uma Nova Mensagem 173
• Novos Líderes 178
• Antigos Líderes se Juntam ao Movimento• 184
• Fanatismo sobre o Sétimo Mês • 190
• A Iminência de 22 de Outubro 196

Capítulo 11: O Desapontamento de Outubro 201


• Reações Imediatas 202
• Uma Liderança em Desordem 208
• O Tempo da Dispersão 214
• A Porta Fechada e a Linha de Batalha 219

PARTE III: Superando o Desapontamento

Capítulo 12: A Ala Radical do Adventisrno 229


• Surgimento dostspiritualizadores 230
• Um Adventismo Desconcertante 231
• A Tentação Shaker 240
• "Quem é Esse 'Nós'?" 246

Capítulo 13: A Reação de Albany 250


• Antes de Albany 251
• Alb any 252
• Imediatamente após Albany 255
• De Albany à Morte de Miller 259
• As Denominações de Albany 265

Capítulo 14: O Desenlace Sabatista 275


• Nascido na Confusão 275
• Novas Personalidades 278
• Novas Doutrinas: a Resposta à Confusão 283
• O Terceiro Anjo 292
• O Tempo do Ajuntamento , 296

Capítulo 15: O Adventismo Depois de 170 Anos 304


• A Forma Mutante do Adventismo 304
• O Motivo do Sucesso 306
• E a Paixão? 315

REFERÊNCIAS 319

1NDICE GERAL 357


Urna Palavra
ao _Leitor
uilherme Miner tem sido considerado "o mais famoso propagador

G do milênio na história americana") Entre 1840 e 1844, sua mensa-


gem de que Cristo viria "por volta do ano 1843" varreu os Estados
Unidos e estendeu sua influência para outros países. Apesar de ser vista
corno uma aberração inofensiva a princípio, em 1843 o ensinamento de
Miller polarizava pessoas e igrejas ao se aproximar o "ano" do fim do mundo.
Após o término do período indicado, várias denominações adventistas
surgiram dentre os grupos de mileritas desapontados. As mais destacadas
dentre elas foram os Cristãos Adventistas e os Adventistas do Sétimo Dia.
Adventismo: Origem e Impacto do Movimento Milerita provê uma vi-
são histórica geral do milerismo. A parte I trata das pessoas e ideias que
moldaram o adventismo milerita ao se aproximar o tempo da esperada
segunda vinda de Cristo. Por sua vez, a parte II examina os eventos e as
tensões daquele ano culminante. Por último, a parte III trata do desen-
volvimento do adventismo após o desapontamento de outubro de 1844.
Portanto, o primeiro propósito deste livro é apresentar uma ampla
visão do milerismo. Embora vários livros sobre o assunto• tenham sido
publicados, nenhum deles ainda foi realmente abrangente. Adventismo:
Origem e Impacto do Movimento Milerita pretende preencher esse espaço.
O segundo propósito deste volume é explorar possíveis razões para o
surpreendente sucesso do milerismo. Além das explicações sociológicas
usuais que destacam fatores externos para o sucesso, a presente obra
defende que a dinâmica interna vital que impulsionou os mileritas no
curso da história foi uma profunda certeza, baseada no estudo concen-
trado das profecias apocalípticas de Daniel e Apocalipse, de que Cristo
estaria voltando em breve. Além disso, eles tinham uma convicção
10 1 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

que estimulava a responsabilidade pessoal de advertir o mundo sobre


aquelas boas, mas temíveis notícias. Em resumo, os mileritas eram im-
pulsionados à missão porque viam a si mesmos como um movimento
profético com uma mensagem que o mundo precisava ouvir desespe-
radamente. Essa atitude parece ser a principal força motivadora interna
que levou os mileritas a se dedicarem completamente a sua tarefa.
Essa profunda convicção parece ser uma precondição para o sucesso
em todos os tipos de movimentos milenaristas. Sem aquela certeza pro-
fética e o senso de responsabilidade urgente que os caracterizam, esses
movimentos começam a atrofiar. Com a principal força motivadora
ausente, eles perdem a dinâmica da vitalidade e do crescimento.
Os eruditos se recusaram a estudar seriamente o milerismo até a
década de 1980. Esse estudo permaneceu, por anos, congelado entre os
polos do Days of Delusion ["Dias de ilusão"] (1924) 2, de Cia a dicot
Sears, e do The Midnight Cry ["0 clamor da meia-noitel (1944) 3, *e
cjcisDNichEnquantô o primeiro desses livros é anedótico e
crítico, o segundo é acadêmico, mas reconhecidamente apologético.
Apesar de seu sabor defensivo, a obra de Nichol contribuiu muito para
corrigir concepções equivocadas sobre o milerismo em obras acadêmi-
cas que tratavam do assunto.
• Os anos de 1980 testemunharam uma enxurrada de estudos nessa
área negligenciada da história religiosa norte-americana. Nessa década,
ocorreu a publicação de cinco obras significativas sobre a história do mi-
lerismo: Midnight and Morning ["Meia-noite e manhã"] (1983) 4, da_
E3 e."715 Thunder and Trumpets: Millerites and Dissenting Religion in
..- Nr

Upstate New York ["Trovões e trombetas: mileritas e religiões discordantes


do norte do estado de Nova York"] 1800 1850 (1985)5 , d- David L. owe
-

Crucible of the Millenium: lhe Burned over District of New York in 1840s
-

['A severa prova do milênio: o já reavivado distrito de Nova York nos anos
1840" (1986)]€, d Mich. e arkun The Miller Heresy, Millenialism, and
-

American Culture "A heresia s e Miller, milenarismo e a cultura a eri-


a •" (1987 7 de suth • sen oan e o volume editado po Ronaldk.
Numbers e Jonathan M. B t - intitulado 'The Disappointment: Millerism
ali. fi lanananism t e Nineteenth Century ["0 desapontamento: mi-
lerismo e milenarismo do século dezenove") (1987). 8
Minha obra sobre o assunto foi publicada pela primeira vez em
1993, com o título IVIillenial Fever and the End of the World: A Study
of Millerite Adventism ['A febre do milênio e o fim do mundo: um
estudo do adventisnao milerita"] 9 . Fico agradecido não somente aos
Uma Palavra ao Leitor 1 11

acadêmicos aqui alistados, mas também à obra não publicada de muitos


outros estudiosos. De valor especial foram as pesquisas não publicadas
de David Arthurl ' - Everett Dicri." Dois outros estudos informativos
foram oun. ations o t e Sevent -day Adventist Message and Mission
"Fundamentos da mensagem e missão adventista do sétimo dial, de
P. Gera d D. msteegt e o quarto volume de The Prophetic Faith of Our
a ers ("A fé profética de nossos pais)" de Le oy rroom. 13 Embora
esses dois últimos se concentrem mais no sistema e e interpretação
profética de Miller do que na história do milerismo, eles proveem
uma abundância de informações aos estudiosos da história milerita
não disponível em outras obras.
É desnecessário dizer que os volumes e as pesquisas alistadas au- •
mentaram grandemente nosso conhecimento sobre o milerismo e o
mundo no qual se desenvolveu. Este livro não somente considera os
estudos publicados e não publicados anteriormente sobre o milerismo,
como se empenha em ampliá-los e enriquecê-los. Reconheço os demais
créditos acadêmicos nas notas bibliográficas.
Como foi mencionado, o título original deste livro era Millenial
Fever and the End of the World. Além disso, houve a atualização de
estatísticas e de algumas referências bibliográficas. Também corrigi os
erros factuais que chegaram ao meu conhecimento. Contudo, de forma
geral, o conteúdo permanece o mesmo.
Desde a publicação inicial, em 1993, várias obras a respeito de Miller
e do surgimento do adventismo foram publicadas. Dentre as dedicadas
especialmente ao milerismo estão: God's Strange Work: William Miller and
the Em] of the World ["0 ato estranho de Deus: Guilherme Miller e o fim
do mundo"1 14 , da II avie Rowa, e a dissertação doutoral d(rohijit:FaTi
m s,
que apresenta Guil erme iller como um homem de "senso comum
Outra contribuição valiosa é o ensaio historiográfico dá a.I' Y Lan obre
o milerismo.'6 Novas obras especialmente úteis sobre o surgimento pós-
desapontamento do adventismo sabatista incluem: James White: Innovator
and Overcomer ["Tiago White: inovador e vitorioso"1 17 , d~"Whêèler;
Joseph Bates: The Real Fottnder of Seventh-day Adventism ['`José Batei-To
verdadeiro fundador do adventismo do sétimo dialls escrita por mim; e
as dissertações doutorais dey 1ilrn
er to CiTifir419 eQVIettrir,
H
5-117. 29
A chamada Adventist cLiraiy Bibliotecaoteca clássica adven-
tistal, publicada pela Andrews University Press, é outra contribuição
ao estudo do milerismo e do surgimento do adventismo. Nessa série,
estão inclusas republicações de: History of the Second Advent Message
12 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

["História da mensagem do segundo adventol, d. saac 4 - co -, com


uma introdução por Gary Land; 2' Memoirs of Wi iam Miller ["Memó-
rias de Guilherme Miller"], d-eline com um ensaio escrito
por 4~2b 22 Autobiography Auto .iografia"], de José Bates, com
um ensaio escritol por Gary Land; 23 e Life Incidents ["Circunstâncias
da vida"], de Tiago White, com um ensaio escrito p o t(-a e
Além desses, em meu livro 1844 and the Riso of Sabbatarian Adventism
["1844 e o surgimento do adventismo sabatista"] estão republicados
vários dos mais importantes documentos mileritas e do início do ad-
ventismo sabatista, incluindo ensaios introdutórios. 25
Agradeço de modo especial aos diversos arquivos e bibliotecas que
me proveram documentos durante os 15 anos dedicados ao estudo
inicial sobre o milerismo. Gostaria de destacar o auxílio da Andrews
University, Aurora University, Cornell University, American Antiqua-
rian Society, do Oberlin College e Massachusetts Historical Society.
Expresso mais uma vez minha gratidão a Sandra White, do departa-
mento de empréstimos entre bibliotecas da Andrews University; a
Louise Dederen e Jim Ford, do Adventist Heritage Center, na Andrews
University; a Susan L. Craig, da Aurora University, e a sua equipe no
Jenks Memorial Collection of Adventual Materials. Pelas cópias das
fotografias usadas nesta obra e em sua antecessora, menciono minha
gratidão ao falecido David Arthur, da Aurora University; a Jim Nix,
do Ellen G. White Estate; e Janice Little, da Loma Linda University.
Um apreço adicional pela publicação inicial deste livro é devido a
Bonnie Beres, que digitou o manuscrito; a Heidi Bergan, que gastou
inúmeras horas identificando e copiando documentos; a Joseph Karanja,
que também ajudou a organizar a coleção de materiais; a Donald Dayton,
Ronald Knott, Gary Land, Alberto Timm e Richard Schwarz por lerem
o manuscrito; a Bonnie Tyson-Flyn, que conduziu o processo editorial;
e à administração da Andrews University, que proveu apoio financeiro e
tempo para 'a pesquisa e preparação do texto.
Gratidão especial a minha esposa Bonnie pelas infinitas horas que
, ela gastou aprimorando a cópia eletrônica do manuscrito e fazendo
correções e mudanças para a edição revisada. Sem sua dedicação e
paciência, a publicação de Adventismo: Origem e Impacto do Movimento
Milerita teria sido impossível.

George R. Knight
Rogue River, Oregon
O Ano do Fim
se Aproxima
Paixão Pelo
Milênio

E 1818 um recém-converso ao cristianismo chegou à impressio-


i

nante conclusão de que Jesus Cristo retornaria à Terra de forma


pessoal e visível para estabelecer seu reino eterno em cerca de
25 anos, ou seja, em 1843. Essa ideia encheu Guilherme Miller, ao
mesmo tempo, de alegria e de ansiedade. A alegria era resultado de sua
crença de que as tristezas da Terra logo acabariam; a ansiedade decorria
tanto da compreensão que tinha de sua responsabilidade de advertir o
mundo se suas conclusões estivessem certas, quanto do receio de que
seus cálculos pudessem estar errados.'

Reavivamento no Estudo das Profecias


Miller não estava sozinho na esperança de um reino mi - ial prestes a
iniciar. "A América do Norte no início do século 19", alega rnest Sandee
"estava tomada pela febre do milênio"? Cristãos de todas as e enomina-
ções acreditavam que estavam exatamente no limiar do reino de Deus.
O destrutivo terremoto de Lisboa, em 1755, havia despertado a
mente de muitos para o assunto do fim do mundo, mas o estímulo mais
16 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

importante se enraizava nos eventos da Revolução Francesa, na década


de 1790. As revoltas sociais e políticas que aconteciam relembravam
as pessoas das descrições bíblicas do tempo do fim. Os olhares se vol-
tavam para as profecias de Daniel e Apocalipse, devido à violência e
magnitude da agitação francesa.'
Em particular, muitos estudantes da Bíblia logo desenvolveram
interesse nas profecias de tempo, especialmente em relação ao ano
de 1798. Em fevereiro daquele ano, o general Berthier, do exército de
Napoleão, havia marchado sobre Roma e destronado o papa Pio VI.
Assim, para muitos estudiosos das Escrituras, o ano de 1798 se tornou
o ponto-chave para relacionar a história secular com a profecia bíblica.
Usando o princípio de que em profecia um dia equivale a um ano, eles
viram o aprisionamento do papa como a "ferida mortal" de Apocalipse
13:3, e o cumprimento da profecia dos 1260 dias/anos de Daniel 7:25,
Apocalipse 12:6, 114 e 13:5. 4
Sandeen observa que os estudiosos da Bíblia acreditavam ter, a partir
desse evento, "um ponto fixo na cronologia de Daniel e Apocalipse.
Alguns deles estavam seguros de que agora podiam se localizar na
cronologia profética que se desdobrava."'
Enfim, muitos sugeriram que a profecia de Daniel 12:4 estava se
cumprindo. Seiscentos anos antes do nascimento de Cristo, a Daniel
fora dito: "Tu, porém, Daniel, encerra as palavras e sela o livro, até ao
tempo do fim; muitos o esquadrinharão, e o saber se multiplicará"
(v. 9). Devido aos eventos mundiais, muitos se convenceram de que
havia chegado o "tempo do fim". Como nunca antes, os olhos dos estu-
diosos da Bíblia literalmente "esquadrinharam" as profecias de Daniel
enquanto buscavam uma compreensão mais clara dos eventos finais.
O fim do século 18 e o inicio do 19 testemunharam um número sem
precedentes de livros sendo publicados sobre as profecias apocalípticas.
A crença no cumprimento de Daniel 12:4 e a descoberta da profecia
dos 1.260 dias/anos de Daniel 7:25 encorajaram estudantes das profecias
a continuar suas empolgantes explorações. Eles logo se depararam com a
profecia dos 2.300 dias de Daniel 8:14: "Até duas mil e trezentas tardes e
manhãs; e o santuário será purificado. LeRo Froom • ocumentou o fato
de que, entre 1800 e 1844, mais d-65 pessoas em quatro continentes
predisseram que a profecia dos 2.310 ias/anos se cumpriria em algum
momento entre 1843 e 1847. Embora houvesse consenso sobre o tem-
po do cumprimento da profecia, havia também opiniões amplamente
diferentes quanto ao evento que ocorreria em sua conclusão.G
Paixão Pelo Milênio 1 17

Portanto, em certo sentido, Milier estava em boa companhia. Afinal,


ele também havia chegado a sua conclusão por meio do estudo dos
2.300 dias de Daniel 8:14. 7 Miller, no entanto, divergia radicalmente
de quase todos os seus contemporâneos quanto ao evento a ter lugar
ao final desse período.
Além dos 2.300 dias, os símbolos-chave de Daniel 8:14 eram o
santuário e sua purificação. Por meio de estudo sistemático, Miller
concluiu que as únicas coisas que poderiam ser representadas pelo
santuário na década de 1840 eram a Terra e a igreja. Ele também passou
a acreditar que a purificação seria com fogo. Afinal, Pedro havia escrito:
"Ora, os céus que agora existem e a terra, pela mesma palavra, têm
sido entesourados para fogo, estando reservados para o dia do juízo e
destruição dos homens ímpios" (2Pe 3:7).
Milier entendeu afinal que a purificação da Terra com fogo no fim
dos 2.300 dias representava a vinda de Cristo em julgamento.' Portanto,
o segundo advento ocorreria por volta de 1843, antelos miangs, ou
milênio, de Apocalipse 20. Naquele tempo,

os santos mortos ressurgirão, e aqueles filhos de Deus que


estiverem vivos serão transformados e se encontrarão com o
Senhor nos ares, onde estarão unidos a ele. O mundo e todos
os ímpios serão queimados (não aniquilados [sici), e, então,
Cristo descerá e reinará pessoalmente com os seus santos; e,
no fim dos mil anos, os ímpios ressurgirão, serão julgados e
enviados para a punição eterna.'

Conflito em Relação ao Milênio


A conclusão de que Cristo viria por volta de 1843, antes do milênio,
era o:ponto no qual Miller divergia de quase todos os seus contempo-
râneos. A ideia quase generalizada na época era de que Cristo viria no
fim dos mil anos.
Como resultado, George Bush, professor de hebraico e literatura
oriental na Universidade de Nova York, escreveu a Miller:

Embora eu não tenha dúvida de que estudiosos das profecias


bem informados admitirão que o seu cálculo dos tempos [.1
não esteja substancialmente errado, eles irão, acredito, insis-
tir que você está inteiramente equivocado sobre a natureza
18 1 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

dos eventos que ocorrerão quando esses períodos terminarem


[...]. O fim desses períodos serve para introduzir, em passos
gradativos, uma nova ordem de coisas, intelectuais, políticas
e morais [...].
O grande evento perante o mundo não é a sua revolução
Mica, mas a sua regeneração mora1.1°

~ira o maior evangelista americano do final do século 19,


também anunciou a visão prevalecente quando escreveu em 11835: "Se
a igreja fizer o seu dever, o milênio poderá começar neste país em três
anos." Algum tempo mais tarde, Finney escreveu: "Examinei a teoria
do Sr. Miller e fui persuadido de que aquilo que ele espera vir após o
julgamento virá antes i.e., o milênio].""
O • berlín•van:elist combatendo o milerismo, afirmava em 1843,
que "o mune o não está se tornando pior, mas melhor", por causa dos
esforços de reforma executados pelas igrejas e por outros reformadores
do período. Henr Cowle escreveu que "a era de ouro de nossa raça
ainda está por vir; [...] inúmeras indicações da Providência parecem
mostrar que ela não está muito distante". Mas ele se apressou em
acrescentar que "o evento não pode ocorrer [...] sem a apropriada
cooperação humana [...]. A igreja, portanto, poderia entrar no milênio
rapidamente, se quisesse". 12
Em resumo, Bush, Finney, Cowles•e outros não estavam em de-
sarmonia com Miller a respeito da proximidade do milênio, mas em
relação a seu significado e aos eventos necessários para inaugurá-lo. Para
eles, o milênio que logo chegaria, deveria ser um período de mt-anos
de paz na Terra, repleto de realizações por meio de reformas sociais,
progresso nacional e busca da perfeição pessoal. Essa era a visão que
alimentava a multiplicidade de reformas sociais e pessoais característi-
cas do século 19. J'nna das ideias mais poderosas desse século era que
o reino milenar poderia ser inaugurado por meio do esforço humana -,
Esse conceito não somente ocupava o centro das reformas religiosas,
mas também transmitia dinamismo para os norte-americanos na esfera
política. Desde a década de 1630, os fundadores da comunidade puri-
'tana consideravam a Nova Inglaterra como um experimento religioso/
político que seria como uma "cidade sobre o monte" para iluminar o
Velho Mundo.
Essa perspectiva era grandemente exaltada pela Revolução Ame-
ricana e por seu resultante "experimento" democrático. Até mesmo
Paixão Pelo Milênio Y 19

americanos sem nenhum interesse religioso passaram a ter um sentido


de destino "milenar" no século 19 ao se verem como parte do "Novo
Israel de Deus" e de urna "Nação Redentora". Portanto, é nesse sentido
qus ErnestTuveson pode falar de um "milenarismo secular". 13 Apoian-
do essas concepções estavam as avaliações extremamente positivas da
natureza humana e um conceito de perfeição infinita da humanidade,
que o século 19 herdou do Iluminismo.
Em outras palavras, líderes sociais e religiosos acreditavam que,
apesar de um passado sombrio, os recentes desenvolvimentos políticos
e tecnológicos começavam a prover o mecanismo para a criação do Céu
na Terra, tendo os Estados Unidos na liderança. Baseado nessa visão, o
mundo anglo-saxão do início do século 19 foi envolvido por centenas
de movimentos de reforma social e pessoal para o melhoramento da
humanidade.
Sociedades de reforma surgiram no começo do século 19 em quase
todas as áreas de interesse humano. Nessas décadas, campanhas abo-
licionistas, contrárias à guerra e ao uso de álcool se tornaram forças
importantes na cultura americana. Além disso, havia sociedades esta-
belecidas para a promoção da educação pública; do melhor tratamento
dos surdos, cegos, deficientes mentais e prisioneiros; e da igualdade de
sexos e etnias; entre outras. Além de mobilizações na esfera social, era
possível encontrar organizações promovendo o aperfeiçoamento pes-
soal em áreas como reforma moral e de saúde -- incluindo a Sociedade
ylege~ ~caga .
Religiosos e pessoas sem interesse em religião uniam suas ener-
gias e recursos na esperança de aperfeiçoar a sociedade por in-
termédio de reformas sociais e pessoais. Contudo, os religiosos
foram mais ativos por meio do estabelecimento de entidades como
sociedades bíblicas, sociedades missionárias locais e estrangeiras,
uniões de escolas dominicais e associações para a promoção da
santidade do domingo.
Assim, a primeira metade do século 19 foi inundada por sociedades
formais concentradas no aperfeiçoamento humano pleno. Essas asso-
ciações não estavam à margem da sociedade americana, mas em seu
núcleo. Enquanto as raízes dos esforços de reforma se encontram no
fim do século 18, tais esforços alcançaram o clímax entre as décadas
de 1820 e 1840.
Portanto, o rnilerisrno nasceu em um contexto tomado pela expec-
tativa milenar: uma sociedade influenciada pela paixão pelo milênio,
20 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

a ponto de ser quase impossível para os cidadãos do século 21, que


viram a repercussão de duas guerras mundiais e de holocaustos nas
esferas social, econômica e política, entenderem esse poder. Hoje as
pessoas sabem que novas invenções não necessariamente significam
progresso social e moral. Sabem que os avanços tecnológicos e em co-
municação conquistados nos últimos dois sétulos têm sido utilizados
muito frequentemente de forma não construtiva.
Como resultado, o otimismo do início do século 19 evaporou. En-
tretanto, essa euforia era muito real para as pessoas naquele tempo. Na
verdade, era a principal motivação para que se empenhassem a fim de
inaugurar o milênio. Eles criam que, se todos se esforçassem mais pelas
reformas, poderiam participar do início dos mil anos de crescente paz e
abundância que alcançariam o clímax com a segunda vinda de Cristo ao
final do período.
Essa visão e essa esperança positivas• do milênio eram contestadas
pelo milerismo. A mensagem de que a "era de ouro" poderia ser inau-
gurada por meio do esforço humano erd um desafio à crença central
da América do Norte. Portanto, o que Ruth Alden 1 oan chama de
"heresia de Miller" não estava nas doutrinas adventista , mas no seu
"supernaturalismo radical". 15
(No fundamento do milerismo estavao(c~~niista jde que
a humanidade não alcançaria seus grandiosos planos) Em vez disso, a
solução para o problema humano viria por meio da intervenção de
Deus na história, com o segundo advento de Cristo. Essa alternativa
estabelecida nas Escrituras teria pelo menos dois efeitos: (1) tornaria
a solução adventista imensamente apreciada entre os setores da popu-
lação que também estavam se tornando desiludidos com as iniciativas
humanas do fim da década de 1830 e início da década de 1840; e
(2) eventualmente levaria a um confronto nas igrejas entre os membros
otimistas a respeito do esforço humano e os adventistas pessimistas, à
medida que "o ano do fim" se aproximava.

O Segundo Grande Avivamento


O surgimento do adventismo ocorreu durante o maior reaviva-
mento religioso da América do Norte. Esse período, conhecido como o
Segundo Grande Avivamento, fez mais do que qualquer outro evento
da história da jovem nação para transformar os Estados Unidos em
um país cristão.
Paixão Pelo Milênio 1 21

As primeiras décadas do século 19 evidenciaram: (1) um afasta-


mento do deísmo (postura cética que rejeita o cristianismo, os mila-
gres e também a revelação sobrenatural), que muitos associaram com
as atrocidades da Revolução Francesa; e (2) uma aproximação do
cristianismo evangélico. Uma grande parte daquela geração de ameri-
canos (incluindo Guilherme Miller, como veremos no capítulo 2) foi
influenciada por essa mudança. Entre 1800 e 1850, a porcentagem
de membros de igreja na nação cresceu de 5 ou 10% para cerca de
25%. 16 Além do número de membros, o cristianismo presenciou um
renascimento na vida da nação. Assim, uma das consequências foi a
atração pelo tema do milênio, inerente em muitos dos movimentos de
reforma já mencionados.
O milerismo, portanto, nasceu em um mundo empolgado com
a religião e seus temas. A religião erarn algo dinâmico e crescente nos
Estados Unidos nas décadas de 1830 e 1840 e o milerismo conseguiu
aproveitar essa onda de expansão.
Estudos recentes têm apontado repetidas vezes • ara a natureza
essencialmen e o todsxa do mil- 'smo. Corno itney Cross indica,
além de defender a vinda pessoal de Cristo na década se 1840,

Miller não alcançou nenhuma surpreendente novidade. Sua


doutrina e todos os outros aspectos virtualmente seguiam a or-
todoxia. Sua cronologia meramente elaborava e refinava o tipo
de cálculos que seus contemporâneos vinham fazendo havia
algum tempo, mas se tornou mais dramática porque era mais
exata e porque o evento predito era mais surpreendente»

Novamente, destaca que "os mileritas não são fasci-


nantes porque são muito diferentes de todos os outros, mas porque
são muito semelhantes aos vizinhos". Diferentemente dos mórmons,
shakers e outros grupos radicais da época, os mileritas eram tanto
tradicionais quanto ortodoxos em sua teologia e no estilo de vida.
"Nesse fato", Rowe identifica, "está o segredo de seu sucesso".'s Era
fácil para a maioria dos arnericanos aceitar o milerismo uma vez que,
por aceitar a ideia do retorno pré-milenarista de Cristo, não precisavam
ajustar outros aspectos de sua estrutura de crenças.
No fim da década de 1830, o entusiasmo reavivalista do período
entre 1825 e 1835 começou a se dissipar. Mesmo o "Billy Graham" da
época — Charles Finney — havia se tornado professor do Oberlin College,
22 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

em Ohio. Ele ainda fazia incursões evangelísticas anuais. Entretanto,


o evangelismo não era mais seu ministério de tempo integral."
Além do enfraquecimento do entusiasmo evangelístico, o severo
pânico de 1837 (ou depressão econômica) e seus efeitos contínuos
até o inicio da década de 1840 haviam refreado o otimismo de muitos
americanos em relação à eficácia do esforço humano para inaugurar
o milênio. Deve ser notado que "os preços caíram mais entre 1839 e
1843 do que entre 1929 e 1933 —42% contra 31%". Essas estatísticas
dramáticas, aliadas a severos desastres naturais no período, fizeram com
que muitos olhassem •com desconfiança para o progresso humano. 2°
Portanto, a mensagem de Miller falava àqueles tempos. Provavel-
mente, não foi por acidente que o entusiasmo por sua mensagem desse
um passo gigante entre 1838 e 1839. Além disso, devemos ter em mente
o fato de que os preços da agricultura, após caírem muito entre 1841
o 1843, finalmente alcançaram o menor ponto em março de 1843, ao
mesmo tempo que o milerisrno alcançava sua fase culminante!'
No mundo conturbado do fim da década de 1830, o milerismo
começou a fazer sentido para mais pessoas. Elas estavam buscando
respostas tanto para o drama pessoal quanto social, e Miller tinha uma
mensagem que parecia satisfazer esse anseio de muitos. Como resul-
tado, durante a década de 1830 e início dos anos 1840, ele, e, depois,
os demais pregadores receberam inúmeros convites para realizar reu-
niões de reavivamento em igrejas de várias denominações evangélicas.
Os pastores encontravam em Miller um homem que podia reacender
o ânimo evangelístico enfraquecido do Segundo Grande Avivamento.
•O milerismo, portanto, tem sido visto por vários estudiosos como
o desdobramento final do avivamentoaa emonstrou que o
ti
ponto máximo em ganhos [de membros em várias denominações foi
no tempo exato em que Miller esperava .o advento de Cristo"TC ar
Cui• nota que "em termos estritamente estatísticos, o Pico do
Avivamento veio nessa fase adventista de 1843-44"»
Assim, a campanha rnilerita não deveria ser vista como um movimen-
to separado do Segundo Grande Avivamento, mas como uma extensão
dele. Dessa forma, Dick está provavelmente correto em sua avaliação ao
afirmar. que "Guilherme Miller possa ser justificavelrnente considerado a
maior influência do nordeste dos Estados Unidos entre 1840 e 1844". 23
Infelizmente para Miller e sua causa, a maioria das pessoas conver-
tidas por meio dos pregadores adventistas entre a década de 1830 e
meados de 1842 fora provavelmente convertida ao cristianismo em geral,
Paixão Pelo Milênio 1 23

e não à doutrina pré-milenarista peculiar do adventismo. Mas isso muda-


ria à medida que o milerismo se aproximasse do ano do fim do mundo.
Estudiosos da história americana têm alistado várias razões para o
que Cross chama de "o impressionante crescimento" do milerismo. 24
Parte desse aumento pode ser explicado por forças sociológicas como
a depressão econômica e a desilusão com a Reforma. Mas o fenômeno
vai além desses fatores.
Este livro argumenta que a convicção vital que colocou os mileritas
no curso da história foi a profunda certeza, baseada no estudo concen-
trado das profecias de Daniel e Apocalipse, de que Cristo voltaria em
breve e de que eles tinham a responsabilidade pessoal de advertir o
mundo das boas, mas temíveis notícias. Resumindo, eles se viam como
um povo profético com a missão de apresentar uma mensagem que
todos desesperadamente necessitavam ouvir.
Assim como as igrejas que criam no pós-milenarisrno foram im-
pulsionadas para as reformas sociais pela crença de que precisavam
fazer sua parte para inaugurar o reino milenial, os adventistas mileritas
foram lançados a uma "pregação frenética" por suas convicções acerca
da iminência da segunda vinda de Cristo. As demonstrações matemá-
ticas da profecia intensificaram grandemente aquela responsabilidade à
medida que buscavam advertir o mundo a respeito do maior de todos
os eventos, que rapidamente se aproximava.
CAPITULO

A Formação de
uni Milenarista:
Os Primeiros Anos
de Miller

U
m improvável candidato a se tornar pregador. Essa seria uma
avaliação que fariam aqueles que conheciam Miller desde sua
juventude.
Naquela época, Miller estava por certo mais interessado em zombar
dos pregadores do que em imitá-los. De modo particular; ele elegia os
pregadores de sua família como seus alvos preferidos para aquele tipo
de diversão. Seus "favoritos" eram o avô Phelps (um pastor batista) e
o tio Elihu Miller, da Igreja Batista de Low Hampton.
As peculiaridades devocionais de seu avô e do tio que Miller imitava
proporcionavam grande entretenimento para seus colegas céticos. Ele
arremedava, com "gravidade jocosa", as "palavras, tons de voz, gestos,
entusiasmo e, até mesmo, o tipo de aborrecimento que pudessem de-
monstrar por pessoas como ele")
Além de diversão para os amigos, essas exibições também serviam
para demonstrar quem era o jovem Miner. Corno outros jovens em
tempos de rápida transição cultural, ele havia passado por uma crise
de identidade. Parte da rebelião contra sua família foi, sem dúvida, um
A Formação de um Milenarista: Os Primeiros Anos de Miller 1 25

aspecto da constante batalha dos adolescentes para descobrir quem são


para se contrapor a seus pais. 2
Essa luta, infelizmente, é difícil tanto para os pais quanto para os ado-
lescentes. Esse foi o caso da profundamente religiosa mãe de Guilherme,
que sabia de seus deboches, e os achava tudo, menos engraçados. Para ela,
as ações de seu filho mais velho eram •uma "amargura de morte". 3 Curio-
samente, Guilherme nem sempre fora rebelde, em termos de religião.

Nem Sempre Rebelde


Longe de ser um rebelde religioso congênito, o pequeno Guilherme
havia sido intensamente devoto. Na verdade, a primeira página de seu
diário [que ele começou na adolescência) contém a afirmação: "Fui
educado e ensinado desde cedo a temer ao Senhor." Sendo a única
declaração autodescritiva na introdução do diário, deve ter sido im-
portante para ele, como uma característica distinta. 4
Mais cedo, entre os sete e dez anos, Guilherme relatou que frequen-
temente se preocupava com seu bem-estar espiritual, especialmente
em relação ao destino eterno. Posteriormente, ele escreveu:

Passei muito tempo tentando inventar um plano, pelo qual


pudesse agradar a Deus, quando fosse levado a sua presença.
Duas atitudes me vieram à mente, e eu tentei adotá-las. Uma
era que eu deveria me tornar muito bom, não fazer nada
errado, não mentir e obedecer aos meus pais. Mas as minhas
fracas resoluções logo eram quebradas. A outra era me sacri-
ficar, desistindo das coisas mais queridas que eu possuía. Mas
isso também falhou; assim, nunca fiquei satisfeito e feliz, até
que encontrei Jesus. 5

Contudo, essa entrega a Jesus somente aconteceria uma década e


meia adiante. Esse autorretrato de um pré-adolescente temeroso diante
do juízo divino ajuda a explicar sua rejeição à religião na adolescência.
Também ajuda a esclarecer por que ele desenvolveu antipatia para com
seu tio Elihu que, corno pastor da igreja a que frequentava, sem dúvida,
exacerbou sua aflição causada pela pregação de sermões sobre o fogo
do inferno, algo normal nos púlpitos batistas da época. Essa pressão
sobre uma consciência jovem provavelmente pudesse explicar também
sua atitude debochada em relação ao avô Phelps.
26 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

0 avô, no entanto, mesmo que talvez não fosse tão sensível quanto
pudesse ter sido, mostrou mais tarde certa perspicácia em relação à
luta que ocupava o coração rebelde do neto após a adolescência. Phelps
procurou consolar a mãe do rapaz a respeito das imitações dizendo:
"Não se aflija demais a respeito de Guilherme. Ainda há algo para ele
realizar na causa de Deus."' Infelizmente para ela, seria preciso algum
tempo para aquela profecia se cumprir.
Enquanto isso, o jovem Guilherme se desenvolveu em outras áreas.
Especialmente importante era o seu amor pelos livros e pelo aprendi-
zado, um aspecto de seu caráter que teria muito a ver tanto com seu
distanciamento quanto com sua reconciliação com o cristianismo. 7
•O fato de ter nascido em um lar de fazendeiros, numa família com
1. 6 filhos, significou que, devido à escassez de dinheiro, a educação de
Guilherme não foi enriquecida com uma grande biblioteca em casa.
A Bíblia, um hinário e um livro de orações eram os únicos livros de
seus pais. Ainda assim, sua mãe o ensinou a ler. Além disso, dos nove
aos 14 anos ele frequentava a escola local durante os três meses do
inverno, após o trabalho anual da fazenda ser concluído. Infelizmen-
te, a formação dos professores empregados então pelas escolas rurais
deixava muito a desejar, e Guilherme logo ultrapassou seus mestres.
Como resultado, por meio da leitura, ele se tornou um autodidata.'
A leitura demonstra que ele tinha acesso a livros, bem como tinha
tempo para gastar com eles. A criatividade do jovem Guilherme para
obter essas comodidades revela muito a seu respeito como pessoa.
A economia escassa da família exigia que Guilherme tivesse de
emprestar livros se quisesse ter algo para ler. Todavia, mesmo o emprés-
timo de livros não resolvia o problema, pois ele precisava trabalhar até
tarde na fazenda para que os pais conseguissem suprir as necessidades
da família. Como o pai temia que a leitura noturna interferisse na
eficiência do trabalho diário do filho, ele insistia em que o rapaz fosse•
para a cama junto com o restante da família.
Guilherme, no entanto, tinha outros planos. Quando percebia
que os outros já estavam dormindo, ele ia ler ao lado do fogo ace-
so pelo amontoado de madeira que providenciava todos os dias ao
cumprir sua tarefa de rachar lenha. O plano funcionou bem até a
noite em que seu - pai acordou com a luz de um fo:o inesperado e
pensou que a casa estivesse se incendiando. lvester Bliss ; elata que
o pai "desceu da cama e, quando viu a travessura o fil o, tornou o
chicote e o perseguiu em disparada, gritando de um modo que foi
A Formação de um Milenarista: Os Primeiros Anos de Miller I 27

eficaz por algum tempo: se você não for para a cama, vou usar
este chicote em vocel.'" 9
Quando Guilherme fez 14 anos, seu pai havia cedido a ponto de
concordar com um plano de que o filho comprasse um livro de vez
em quando, desde que juntasse o dinheiro necessário rachando lenha
durante as horas de lazer. As duas primeiras obras adquiridas nesse es-
quema foram History of Crusoe [Robinson Crusoé — A Aventura de um
Náufrago Numa Ilha Deserta] e o romance intitulado The Adventures
of Robert Boyle ["As aventuras de Robert Boyle"]. 1°
Enquanto isso, um morador da região, vendo o potencial de Miller,
passou a lhe emprestar livros. Portanto, no fim de sua adolescência,
ele pode ser considerado um estudante assíduo de história antiga e
moderna, juntando informações que mais tarde o ajudariam no estudo
da Bíblia. "Devido à bondade desses senhores", Josué Himes escreveu
em 1842, "ele foi capaz de armazenar na mente um vasto conjunto de
fatos históricos, que tiveram muita utilidade para ele na explicação das
profecias." Durante aquele tempo, o jovem Miller estava começando a
desenvolver a habilidade de escrever, tornando-se o redator local para
os jovens que precisavam "fazer versos". 11

Os Anos Deístas e a Guerra de 1812


Um marco importante na vida de Miller foi seu casamento, em
1803, com Lucy Smith, de Poultney, Vermont. Além de se casar com
uma mulher de Poultney, ele também se mudou para lá. Essa mudança
teve consequências positivas porque o colocou em contato com a am-
pla coleção da biblioteca pública da cidade, e também com os intelec-
tuais deístas da região. "Eles puseram na minha mão", escreveu Miller,
"as obras de Voltaire, Hume, Paine, Ethan Allen e• outros escritores
deístas." Miller também continuou a ler intensamente livros de his-
tória. Felizmente, para ele, sua esposa era muito mais favorável a
sua tendência acadêmica do que seu pai, sendo "para ela um prazer
e dever aliviá-lo de todos os cuidados com a família que poderiam
distanciá-lo dos livros".' 2
Matthew Lyon, um ativista político antifederalista, teve especial
importância no desenvolvimento intelectual de Miller. No entanto,
as ações desse homem, enquanto membro do Congresso, o levaram
à prisão sob o Ato de Sedição, em 1798. Lyon adotara o deísmo de
Ethan Allen, sob cuja liderança havia servido na Guerra Revolucionária.
28 1 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

Esse ex-deputado acumulou uma grande biblioteca pessoal que servia


como "centro de referência" para os vizinhos, incluindo Miner. Tanto
os livros de Lyon quanto sua amizade ajudaram Miller a se aproximar
do deísmo. 13
As dúvidas de Miller a respeito da Bíblia, no entanto, não começa-
ram com a mudança para Poultney. Ele admitiu mais tarde que havia al-
gum tempo estava confuso com aquilo que considerava "inconsistências
e contradições da Bíblia", as quais não conseguia harmonizar, porque,
se as Escrituras eram o que diziam ser, teria de haver a possibilidade
de harmonizar suas aparentes discrepâncias.
Antes que as dúvidas sobre a Bíblia se tornassem sérias, Miller
se mostrou "excessivamente ansioso para reconciliar todas as partes
dela e, sem sucesso, buscou todos os recursos" ao seu alcance. "Eu
estava particularmente ansioso para vê-las harmonizadas pelos pre-
gadores da Palavra", ele escreveu; "e da mesma forma abraçava todas
as oportunidades de apresentar as dificuldades com as quais estava
trabalhando, para que fossem removidas. Mas não obtinha deles ne-
nhuma contribuição." Normalmente, eles davam como referência as
opiniões de comentaristas bíblicos, que, segundo Miller, eram tão
contraditórios quanto os próprios pregadores»
Foi com esse estado de espírito que Miller se mudou para Poultney,
onde os novos amigos deístas discutiam as dificuldades que o tinham
deixado perplexo "de maneira tão plausível". Assim, ele concluiu que
"a Bíblia era somente a obra da vontade humana" e a descartou da
mesma maneira. Desde então, ele passou a ver a Bíblia como "um sis-
tema construído, em vez de ser a verdade". Sua função principal parecia
ser "escravizar a mente humana". Por outro lado, seguindo a linha do
deísmo, ele ainda acreditava em um Ser Supremo, que podia ser visto
refletido no mundo da natureza e numa vida futura, na qual a felicidade
estaria relacionada com a virtude moral da pessoa no estado terreno 15
iMiller foi deísta por 12 anopurante esse período, ornou-se mem-
bro■-- da maçonariayalcançando o grau mais alto disponível), um ativo
democrata na comunidade local. Ocupou os cargos de chefe de polícia,
xerife e juiz de paz. Além dessas realizações, ele também possuía uma fa-
zenda relativamente próspera. Resumindo, em 1812, Guilherme Miller
havia se tornado um dos cidadãos mais destacados de sua comunidade.i 6
Considerando a liderança de Miller nos assuntos civis da comu-
nidade, não seria surpreendente encontrá-lo em posição similar no
conflito militar comj a Grã-Bretanha durante a Guerra de 1812. Com
A Formação de um Milenarista: Os Primeiros Anos de Miller 1 29

a declaração de conflito no horizonte, ele havia sido eleito tenente


da milícia de Vermont, em 1810. No início da guerra, foi promovido
a capitão da milícia e, ao fim do conflito, em 1815, ele já era capitão
do exército regular. Contudo, durante a maior parte do tempo, ele foi
realmente um "evangelista" (recrutador) para o exército, outro talento
desse líder e inspirador das pessoas que, mais tarde, seria empregado
em uma função bem diferente."
A guerra com a Inglaterra provocou outra guinada na vida de Miller.
Antes do conflito, ele havia começado a acumular dúvidas sobre a coe-
rência do deísmo em pelo menos dois aspectos~uspeitou que
o deísmo "tendia para agettilaçlão, que", ele escreveu, "sem-
pre foi muito repugnante aos meus sentimentos". Portanto, ele começou
a detectar uma incongruência na estrutura de crenças deístas. Enquanto
os deístas reivindicavam• crer em vida após a morte, na realidade suas
pressuposições logicamente conduziam para o nada, depois da morte.
Miller se convenceu dessa inquietante realidade ao questionar um
de seus• amigos instruídos, de Poultney, que comparava a vida a uma
vela que queima até desaparecer. "Fiquei satisfeito", Miller observou,
"em ver que o deísmo estava inseparavelmente conectado com a ne-
gação de uma existência futura." Miller considerava até mesmo o Céu
e o inferno da Bíblia preferíveis àquela ideia, mas ainda não tinha base
para considerar a Bíblia como um livro inspirado?'
A segunda falha que Miller começou a perceber nas ideias deístas
provinha de sua extensa leitura histórica. O deísmo, em contradição
com o cristianismo tradicional, reivindicava que a natureza humana, na
melhor das hipóteses, era basicamente boa .e correta. No entanto, Miller
não podia encontrar essa comprovação na história. "Quanto mais eu
lia", escreveu ele, "mais terrivelmente corrupto o caráter humano me
parecia. Eu não podia discernir qualquer ponto brilhante na história
passada. Aqueles conquistadores do mundo e heróis da história não
eram nada mais do que demônios em forma humana [...]. Eu comecei
a ficar desconfiado de todas as pessoas.""
Os anos de Miller na guerra conduziram seu deísmo a uma crise
em duas áreas de descontentamento. No mínimo, o conflito o colo-
cou diante da realidade da morte. Na frente civil de batalha, o mês
de dezembro de 1812 marcou a morte de uma de suas irmãs, bem
como de seu pai, com três dias de diferença. 20
Além das mortes na família, os anos de guerra fizeram com que
Miller encarasse o fim da vida de uma forma como jamais fizera
30 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

antes. Essa condição o forçou a contemplar sua própria mortalidade


e o significado dela. Ele escreveu para sua esposa .a. esse respeito em
28 de outubro de 1814:

Em pouco tempo, assim como Spencer [um amigo do exér-


cito], eu não existirei mais. É uma constatação séria. Se eu ti-
vesse certeza acerca de outra vida, não seria nada terrível; mas
ir embora como uma vela extinta é um pensamento insupor-
tável — é doloroso. Não! Ao menos deixe-me agarrar àquela
esperança que garante uma existência sem fim; urna existên-
cia futura, na qual os problemas cessarão e lágrimas não en-
contrarão mais lugar; em que a primavera sem fim florescerá;
e o amor, puro como a neve, habitará em cada coração?'

Os fatos difíceis da vida estavam conduzindo o capitão Miller em


direção à fé que ele havia rejeitado tão vigorosamente.
A guerra não somente levou o deísmo de Miller a uma crise, em
relação à morte e ao aniquilamento, mas também suas dúvidas sobre a
natureza humana chegaram a um clímax. Entretanto, se o conhecimento
histórico .o havia levado à conclusão de que a natureza humana não era
tão boa quanto o deísmo alegava, ele "nutria ternamente a ideia" de que
" poderia encontrar pelo menos um ponto favorável no caráter humano,
como uma estrela de esperança: o amor ao pais o patriotismo".22

"Mas", ele escreveu, "dois anos de serviço foram suficientes para me


convencer de que eu estava errado nesse aspecto também. Quando
deixei o serviço militar, estava completamente desgostoso com o caráter
público do ser humanè." 23
Portanto, no lado negativo, a guerra de 1812 colocou dois dos princí-
pios fundamentais do deísmo em questão: a esperança de uma vida após
a morte e a bondade humana. Enquanto isso, a batalha de Plattsburg, em
setembro de 1814, levou Miller a questionar um terceiro pilar doutriná-
rio — a não intervenção de Deus nos assuntos humanos. Nessa batalha,
um pelotão de 1.500 soldados e 4 mil voluntários enfrentou e derrotou
15 mil soldados britânicos muito bem preparados, incluindo alguns
dos que haviam então recentemente sido vitoriosos sobre Napoleão. 24
"No começo da batalha", escreveu Miller, "considerávamos a nossa
derrota quase como certa e, mesmo assim, fomos vitoriosos. Esse resul-
tado tão surpreendente, contra todas as chances, realmente pareceu para
mim obra de uma força mais poderosa do que a humana." Comparando
A Formação de um Milenarista: Os Primeiros Anos de Miller I 31

os Estados Unidos com os filhos de Israel e a vitória divina sobre seus


inimigos, mais tarde Miller notou que parecia que "o Ser Supremo teria
zelado pelos interesses deste país de maneira especial, e nos livrado das
mãos do nosso inimigo"."
Foi logo após Plattsburg que Minei- começou a escrever cartas para
casa a respeito da morte (como a apresentada há pouco), que conti-
nham indicações de uma fé pessoal maior e mais viva. A guerra foi mais
do que um incidente; ela redirecionou o pensamento religioso de Miller.

De Volta ao Cristianismo
No fim da guerra, Miller se afastou dos amigos deístas e se reapro-
ximou de sua herança cristã. Essas transformações foram caracterizadas
pela mudança de sua família, saindo de Poultney de volta para o lar de
seus pais, em Low Hampton, Nova York; bem como por seu retorno às
reuniões da igreja Batista, que havia sido o púlpito de seu tio Elihu."
A volta de Miller para casa e sua frequência à igreja não indicava que
ele houvesse se tornado cristão. Ao contrário, por vários meses ele se
manteve confuso entre o deísmo e o cristianismo. Por um lado, ele ia à
igreja e começava a duvidar seriamente do deísmo; mas, por outro, ainda
se apegava aos aspectos positivos do deísmo e lutava para entender as
porções problemáticas da crença bíblica.
A guinada seguinte na vida de Miller ocorreu em maio de 1816, quando
ele se viu "no ato de tomar o nome de Deus em vão". Ele havia adquirido
o hábito no exército, mas se convenceu — provavelmente por influência
dos batistas de Low Hampton — de que tal prática era pecaminosa. 27
A decisão de maio de 1816 pode parecer pequena para a maioria
das pessoas, mas a mente de Miller estava agitada em relação a assun-
tos religiosos havia algum tempo Como resultado, aquela "pequena
decisão" desencadeou uma crise importante em sua vida. "No mês de
maio de 1816", ele escreveu posteriormente, "fui convencido; e que
horror invadiu minha alma? Até me esqueci de comer. Os céus pare-
ciam como bronze e a Terra como ferro. Assim continuei até outubro,
quando Deus abriu os meus olhos." 28
Dois eventos ocorreram em setembro de 1816 que prepararam
Miller para a solução de sua crise em outubro. O primeiro foi a come-
moração da batalha de Plattsburg, em 11 de setembro. Miller e seus
amigos estavam fazendo os preparativos para a festa com grande em-
polgação, quando pararam o trabalho para ouvir um sermão na noite
32 j ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

anterior à grande festa. Eles voltaram da reunião muito pensativos.


A empolgação havia desaparecido. A alegria e os preparativos para as
danças foram substituídos pela oração e pelo louvor, enquanto os vete-
ranos relembravam as circunstâncias e o significado da amarga batalha
e da vitória "surpreendente" que haviam conquistado?'
O segundo evento que influenciou na solução da crise espiritual de
Miller ocorreu no domingo seguinte, 15 de setembro. Meses antes, sua
mãe havia descoberto que ele se ausentava da igreja todas as vezes que o
pastor viajava. Nessas ocasiões, a leitura da mensagem do livro Proudfoot's
Practical Sermons ["Sermões práticos de Proudfootl era entregue a um
dos diáconos. Após questioná-lo, ela descobriu que Miller não achava
adequada a habilidade de leitura do diácono. Ele prometeu então que, se
pudesse fazer a leitura, estaria sempre presente. Dali em diante, o Miller
ainda deísta era regularmente convidado a ler o sermão Pré-selecionado?°
Essa situação permaneceu até 15 de setembro de 1816, quando os
diáconos escolheram um sermão sobre a "importância dos deveres dos
pais". Miller se engasgou logo após o começo da leitura. Em seguida,
a congregação percebeu que o orador, emocionalmente abalado, foi
obrigado a se assentar no meio da mensagem. Miller havia alcançado
o ponto máximo de sua crise espiritual?'
Poucas semanas depois, ele assim descreveu essa ocasião: "Deus
abriu os meus olhos; e, ohl minha alma, que Salvador eu descobri em
Jesusl" Mas essa descoberta não foi imediata?'
Miller lutou consigo mesmo por algum tempo, após esse 15 de
setembro. "Como", pensava ele, "pode-se provar que tal Ser realmente
exista?" Afinal, "acreditar, sem evidências, em um Salvador seria o ex-
tremo do idealismo". Miller, porém, foi forçado a admitir o fato de a
Bíblia apresentar exatamente o tipo de Salvador que ele precisava para
resgatá-lo da agonia. Por sua vez, estava "perplexo ao perceber como
um livro escrito por seres htimanos podia desenvolver princípios
tão perfeitamente adaptados às necessidades de um mundo caído".
Finalmente foi forçado a admitir para si mesmo que as "Escrituras
devem ser uma revelação de Deus". O ponto de ruptura havia sido
alcançado. Logo depois, ele podia se regozijar de que as Escrituras "se
me tornaram um deleite, e em Jesus encontrei um amigo"?'
Novamente, Miller escreveu:

' Jesus Cristo se tornou para mim o melhor entre dez mil,
e as Escrituras, que antes eram obscuras e contraditórias,
A Formação de um Milenarista: Os Primeiros Anos de Miller 1 33

agora se tornaram a lâmpada para meus pés e a luz para meu


caminho. A minha mente se resolveu e se satisfez. Descobri
que o Senhor Deus é uma rocha no meio do oceano da vida.
A Bíblia se tornou meu livro de estudo principal, e posso
verdadeiramente dizer que passei a investigá-la com grande
deleite [...]. Fiquei imaginando por que não vi sua beleza e
, glória antes, e me impressionou o fato de eu tê-la rejeitado.
Encontrei nela revelado tudo o que o meu coração poderia
desejar, e um remédio para cada doença da alma. Perdi todo
o gosto por outras leituras, e apliquei meu coração a buscar
a sabedoria de Deus. 34

Portanto em 1816, ■ iller passou por uma experiência de conversão


bem pareci.. e a de muitos dos antigos deístas de sua geração, à
-

medida que o Segundo Grande Avivamento rapidamente fazia desmo-


ronar as fileiras dos céticos." No entanto, alguns dos amigos de Miller
não se esqueceram da força de suas convicções anteriores e do vigor
de seus argumentos contra a Bíblia e o cristianismo.
Logo após sua conversão, um desses amigos perguntou a Miller, di-
retamente, como ele podia saber que havia um Salvador e que a Bíblia
era verdadeira. Então, desafiou Miller com os próprios argumentos do
ex-deísta sobre as "incoerências, contradições e misticismos" da Bíblia.
Miller respondeu que se a Bíblia é a Palavra de Deus, tudo o que
contém poderia não somente ser entendido, mas harmonizado. Poste-
riormente, recordou: "Eu disse a ele que se me desse tempo, eu harmo-
nizaria todas essas aparentes contradições para minha própria satisfação,
ou eu continuaria sendo um deísta." 36
A resposta de Miller a seu amigo deísta o levou a um estudo intenso
da Bíblia que não somente o influenciaria, mas também mudaria o
airso da história cristã.

Um Entusiasmado Estudante da Bíblia


Guilherme Miller não era alguém que fazia as coisas pela metade.
[Sua abordagem quanto à Bíblia pode.ser caracterizada como vigorosa,
completa e metódica)Ele começou com Gênesis e leu cada verso, "nun-
ca seguindo mais rápido do que o necessário para que o significado das
várias passagens fosse revelado a ponto de deixá-lo livre de embaraço
em relação a qualquer misticismo ou contradição" 37
34 1 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerrta

Ele explicou:

Todas as vezes que encontrava qualquer coisa obscura, mi-


nha prática era compará-la com todas as passagens parale-
las; e com a ajuda [da concordância] de Cruden, examinava
todos os textos das Escrituras nos quais eram encontradas
quaisquer palavras importantes contidas na porção obscura.
• Então, deixando que cada palavra exercesse sua função na
compreensão do texto, se a minha opinião sobre aquilo se
• harmonizasse com todas as passagens paralelas da Bíblia, ela
deixava de ser uma dificuldade. 38

• Miller continuou seu estudo bíblico utilizando esse método duran-


te dois anos, sendo completamente persuadido de que a Bíblia é sua
própria intérprete. Durante esse período, ele se convenceu de que as
porções• cronológicas da Bíblia mereciam séria consideração. Portanto,
ele não pulou as profecias que envolviam tempo, apresentadas em
Daniel e Apocalipse. 39
• Foi por meio do estudo das passagens referentes às profecias dos
2.300 e 1.335 dias/anos que, em 1818, Mifier chegou à conclusão de
que Cristo viria por volta do ano 1843. Ele não procurou por aquela
informação; e a princípio "não conseguia acreditar nela". Mas, após lutar
com sua chocante conclusão, finalmente se convenceu de que aceitaria
"qualquer coisa" que a Bíblia ensinasse. 40 Aquela decisão, de alguma
forma, acabou por colocá-lo no centro de uma controvérsia nacional. -
Contudo, antes de revelar suas opiniões a outra pessoa, Miller deci-
diu te : lusões com mais estudo da Bíblia. Como resultado,
entr- 1818 e 1823, de analisou cada objeção que veio a sua mente em
relação a oreve vo ta do Senhor. 'Durante aquele tempo", escreveu ele
em 1845, "mais objeções vieram a minha mente do que sugeriram meus
oponentes; e eu não conheço nenhuma objeção que tenha sido indicada
desde então que também não tenha surgido diante de mim naquela épo-
ca." No entanto, cada objeção desapareceu sob cuidadosa investigação;
"o carro da verdade passava por cima delas, desimpedido em seu pro-
gresso"» Miller se sentia confortável o suficiente com suas conclusões, o
que o levou a estabelecer formalmente uma declaração de crenças com
20 pontos. Todos eles se encaixavam na ortodoxia da época, exceto o
artigo 15, que dizia: "Acredito que a segunda vinda de Jesus Cristo está
próxima; é algo imediato, que deve ocorrer dentro de 21 anos, em, ou
A Formação de um Milenarista: Os Primeiros Anos de Miller 1 35

antes, de 1843•
Embora, em 1822, Miller estivesse seguro o suficiente
"42

de suas crenças para escrever essas conclusões, ele ainda demorou muito
para que se sentisse livre para pregá-las publicamente.
Antes de passar para a pregação de Miller, no entanto, devemos
perguntar como um leigo como ele pode ser tão audacioso a ponto
de desenvolver ideias teológicas que passavam por cima das doutrinas
dos clérigos altamente instruídos de sua época. Além disso, deveríamos
examinar brevemente o pensamento do mundo no início do século 19
a fim de entender melhor tanto Minei- quanto a real popularidade do
seu movimento.
O primeiro aspecto a ser observado é que(' individualism. sempre
foi acentuado na América do Norte)Esse indivie ualismo e a autocon-
fiança que o acompanha estavam no limiar de um avanço significativo
entre as décadas de 1810 e 1820. O período subsequente na história
americana se tornaria onhecido pelos estudiosos como a era do homem
comum ou a72-csoniana.
Na mentalicla. e s a época, uma pessoa não precisava ser especialista
para concorrer a um posto público, praticar medicina ou fazer teologia.
Todos podiam exercer os talentos dados por Deus. Portanto, em suas
regras de interpretação bíblica, Miller afirmava que as pessoas poderiam
chegar à verdade por meio do estudo individual da Bíblia, em oração,
mesmo que "não entendessem nada de hebraico ou grego".
Em 1841, ele foi desafiado em relação à capacidade de ensinar
suas ideias, por não conhecer as línguas bíblicas. Prontamente, Miller
respondeu a seu detrator: "Se não estou familiarizado com o hebraico
e o grego, sei o suficiente para recitar corretamente os textos das Es-
crituras em inglês." Em outra ocasião, ele mencionou que a Bíblia tem
um sistema de verdades reveladas "dadas de forma tão clara e simples
que o 'viajante, apesar de ignorante, não precisa errar nisso '". 43
Muito relacionada com . mentalidade 'acksoniana sobre o potencial
das pessoas era ~fia-d"O'"senso comum" que se tornou central para
o cristianismo americana Essa filosofia evitavarn explicações racionais
complicadas e destacava os fatos (incluindo os bíblicos) da forma como
pareciam às pessoas nas ruas."
Portanto, Josias Litch podia se alegrar de que o milerismo tivesse
dado ao mundo "um sistema de interpretação do cânon sagrado simples,
claro e baseado no senso comum, de forma que todas as pessoas que se
dedicassem a ler a Bíblia, verificando as diferentes porções dela, pode-
riam entender a Palavra de Deus sem a ajuda de comentários eruditos".45
36 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita


A abordagem milerita tornava a Bíblia um "livro autointerpretativo"
que todos• poderiam entender. Esse enfoque — que continha algumas
maneiras relativamente novas de ver as Escrituras, conjugando seu
caráter histórico e os números como desvendadores dos segredos do
universo — proveu a Miller e seus seguidores um caminho poderoso
para alcançar a população americana por meio da comparação da Bíblia
com a história e, ainda, com a precisão matemática da profecia.
Essa metodologia mista apelou grandemente a uma po bula ão que se
tornava, nas décadas de 1820 e 1830 "aprecias ora de cálculos". Com os
recentes desenvolvimentos do conhecimento matemático para a época,
quase todos poderiam realizar os cálculos necessários, desde que tivessem
as datas históricas iniciais para chegar às mesmas conclusões de Miner."
Outro elemento importante no cristianismo americano do início
do século 19, ue influenciou grandemente e ajudou o milerismo, foi
^6.-Esraiiracionismo cristão. Em essência, esse conceito poderia ser de-
voltar e restaurar os ideais da Bíblia.
Apoiando o restauracionismo estava a crença de que a igreja do
Novo 'Testamento deveria ser o modelo ideal para o povo de Deus em
todas as épocas. Esse padrão havia se perdido no período medieval.
A reforma protestante deu início à recuperação do cristianismo; con-
tudo, as igrejas do período pós-reforma não completaram a missão de
voltar por completo às formas e doutrinas do cristianismo apostólica
Muitos cristãos evangélicos da nova nação acreditavam que essa
tarefa fazia parte de sua missão relacionada ao milênio. Esse pensa-
mento conduziu as pessoas de volta às Escrituras Sagradas em uma
tentativa de recuperar .o que havia se perdido. Portanto, a Bíblia no
início do século 1. 9 se tornou uma força influente no desenvolvimento
de novas formas de cristianismo de uma maneira não vista na maior
parte da história. 0 restauracionismo proveu uma perspectiva religiosa
tendente a ignorar modelos de autoridade tais como a igreja, tradição,
especulação filosófica e demais teorias humanísticas. 4. 7
O milerismo fazia parte da mentalidade de ímpeto restauracionista,
tanto pelo fato de direcionar as pessoas de volta à Bíblia quanto na busca
por restaurar a "verdadeira" (ou neotestamentária) doutrina da segunda
vinda de Jesus. Assim, o restauracionismo proporcionou ao milerismo um
método teológico .e urna força dinâmica que o espalhou através da nação.
Nessa perspectiva, a historiador1S))observou que "nenhum
outro grupo de entusiastas da metade do século [...] permaneceu tão
próximo da Bíblia e exclusivamente ligado a ela como os mileritas"."
A Formação de um Milenarista: Os Primeiros Anos de Miller 1 37

Dois pontos finais que devemos observar sobre o mundo intelectual


da época de Miller é que ele valorizava c racionalKeralisnid.
O elemento racionalista era uma herança do iiuminismo cuEt
e sua expressão religiosa era o deísmo. Miller e sua geração viveram
em um mundo que valorizava grandemente as abordagens racionais
de todas as coisas, incluindo a religião. Portanto, ele podia se referir
a sua experiência com as Escrituras como uma "festa da razão". 49 (Se-
guindo esse conceito, o método evangelístico de Miller, como veremos,
definitivamente tinha como alvo a mente dos ouvintes em vez de seu
coração ou suas emoções4
O literalismo também foi influente no espírito dos tempos de Miller.
A maioria das pessoas acreditava que interpretações literalistas da Bíblia
implicavam fidelidade, enquanto interpretações alegóricas e metafóricas
sugeriam que a Bíblia não estava sendo levada a sério. 50
Miller estava em sintonia com essa mentalidade quando escreveu,
em suas regras de interpretação da Bíblia, que se uma passagem "faz
sentido como está, [...] então ela tem que ser compreendida literal-
mente". Além disso, uma vez descobertas as passagens bíblicas que
desvendavam o seu simbolismo, Miller atribuía significados históricos
literais até mesmo para porções figurativas das Escrituras, como as pa-
rábolas e imagens proféticas. Essa abordagem direta tornou a exegese
de Miller atraente e, talvez, como observ~ ee tenha dado
aos mileritas "o seu argumento mais eficaz para o recrutamento". 5'
Até agora vimos que tanto as ideias teológicas de Guilherme Miller
quanto seus métodos estavam em harmonia com sua época. Isso inevita-
velmente conduz a perguntas sobre o fato de ele ter realmente chegado
às interpretações proféticas por meio de estudo bíblico independente
ou da assimilação de conceitos defendidos por outros.
A resposta a essa questão é provavelmente mais complexa do que
normalmente se admite. Por um lado, Miller foi um leitor ávido na
maior parte de sua vida. Num contexto em que muito da literatura
publicada era teológica e bíblica, parece ser razoável assumir que ele
havia examinado várias obras antes de começar seu estudo intenso das
Escrituras, em 1816. Foi somente então que ele declarou: "Deixei todos
os comentários, antigas ideias e pressuposições, e me determinei a ler
e tentar entender por mim mesmo." 52
Também é razoável acreditar que um homem com o interesse de
Miller pela leitura de assuntos históricos e religiosos não fosse completa-
mente ignorante a respeito das interpretações daquele tempo. Afinal, ele
A Formação de um Milenarista: Os Primeiros Anos de Miller 1 37

Dois pontos finais que devemos observar sobre o mundo intelectual


da época de Miller é que ele valorizava o=a
nri or
O elemento racionalista era uma herança do I1uminismocuL61B,
e sua expressão religiosa era o deísmo. Miller e sua geração viveram
em um mundo que valorizava grandemente as abordagens racionais
de todas as coisas, incluindo a religião. Portanto, ele podia se referir
a sua experiência com as Escrituras como uma "festa da razão". 49 (8e-
guindo esse conceito, o método evangelístico de Miller, como veremos,
definitivamente tinha como alvo a mente dos ouvintes em vez de seu
coração ou suas emoções.5
O literalismo também foi influente no espírito dos tempos de Miller.
A maioria das pessoas acreditava que interpretações literalistas da Bíblia
implicavam fidelidade, enquanto interpretações alegóricas e metafóricas
sugeriam que a Bíblia não estava sendo levada .a sérias°
Miller estava em sintonia com essa mentalidade quando escreveu,
em suas regras de interpretação da Bíblia, que se uma passagem "faz
sentido como está, [...] então ela tem que ser compreendida literal-
mente". Além disso, uma vez descobertas as passagens bíblicas que
desvendavam o seu simbolismo, Miller atribuía significados históricos
literais até mesmo para porções figurativas das Escrituras, como as pa-
rábolas e imagens proféticas. Essa abordagem direta tornou a exegese
de Miller atraente e, talvez, como observa~anc lesii tenha dado
aos mileritas "o seu argumento mais eficaz -farVo recrutamento"»
Até agora vimos que tanto as ideias teológicas de Guilherme Miller
quanto seus métodos estavam em harmonia com sua época. Isso inevita-
velmente conduz a perguntas sobre o fato de ele ter realmente chegado
às interpretações proféticas por meio de estudo bíblico independente
ou da assimilação de conceitos defendidos por outros.
A resposta a essa questão é provavelmente mais complexa do que
normalmente se admite. Por um lado, Miller foi um leitor ávido na
maior parte de sua vida. Num contexto em que muito da literatura
publicada era teológica e bíblica, parece ser razoável assumir que ele
havia examinado várias obras antes de começar seu estudo intenso das
Escrituras, em 1816. Foi somente então que ele declarou: "Deixei todos
os comentários, antigas ideias e pressuposições, e me determinei a ler
e tentar entender por mim mesmo.""
Também é razoável acreditar que um homem com o interesse de
Miller pela leitura de assuntos históricos e religiosos não fosse completa-
mente ignorante a respeito das interpretações daquele tempo. Afinal, ele
38 I ADVENTISMO -- Origem e Impacto do Movimento Milerita

tinha, como admitiu, algumas ideias para deixar de lado. Além disso, mes-
mo em seu período deísta, ele estava a par do fato de que as perspectivas
dos comentários bíblicos eram tão diversas quanto as dos pregadores. Essa
declaração mostra pelo menos um conhecimento mínimo dessas obras.
Concordando com esse raciocínio, uma de suas filhas comentou, em
1843, que dois autores versados em profecias, cujos livros ele distin-
tamente se lembrava de ter lido, antes de 1816, eram Newton e Faber.
Ademais, parece haver alguma validade na observação de (1\712ra i el
BarSde que "a congruência entre suas interpretações bíblrcaiNárgas
leituras dos símbolos milenares anteriores sugiram o acesso a urna
tradição exegética oral, ou talvez até escrita". 53
Do outro lado da questão, existem todas as indicações de que na
formulação de sua posição profética, ele permaneceu com sua intenção
de estudar a Bíblia sozinho, apenas com a ajuda da Concordância de
Cruden. Mesmo antes de seus anos de deísmo, ele havia desenvolvido
certa aversão por comentários bíblicos. Novamente, uma das suas cren-
ças mais fundamentais em relação à interpretação da Bíblia erarn que

as Escrituras têm de ser seu próprio expositor, pois essa é


uma das próprias regras. Se eu depender de um professor
para explicá-la para mim, e ele precisar adivinhar seu signifi-
cado, ou desejar tê-lo assim por conta de sua crença sectária,
ou pensar ser sábio, então sua adivinhação, desejo, crença ou
sabedoria será a minha regra, não a Bíblia."

Essa convicção não somente descartava comentários bíblicos, como


também se encaixava perfeitamente com o imperativo restauracionista
de retornar ao Novo Testamento, ignorando interpretações humanas.
Ela igualmente se conectava com a fé jacksoniana na habilidade do
homem comum para entender a Bíblia sem a ajuda de especialistas.
Diante de todas as evidências que ternos, Miller parece ter vivido de
acordo com suas regras e profundas convicções. Um relato que nos ajuda
a entender sua prática foi publicado por um de seus associados, em 1843.
Um pastor, segundo a narrativa, parou na casa de Miller em sua ausên-
cia. Desapontado por não ter se encontrado com ele, o clérigo solicitou o
privilégio de examinar sua biblioteca. "Sua filha conduziu .o visitante para
o cômodo onde ele passava muitas horas diante de sua [...] mesa." Somen-
te dois livros — a Bíblia e a Concordância de Cruden — "estavam sobre a
mesa. 'Esta 'é : sua biblioteca', ela disse. O clérigo ficou impressionado."55
A Formação de um Milenarista: Os Primeiros Anos de Miller 1 39

Apesar desses fatos, Miller entendia, no início de 1840, que suas


descobertas se harmonizavam com as de outros intérpretes de profecias.
Portanto, ele podia escrever que acreditava que "todos os comentários
concordavam que estes dias devem ser compreendidos como anos". Há
várias declarações de Miller e de seus colegas semelhantes a essa. No
início dos anos 1840, ou ele ou seus associados fizeram algum estudo
comparativo entre seu sistema profético e o de outros expositores. 56
Sandeen observa que "poucos estudiosos não adventistas contesta-
riam a posição geral dos historiadores adventistas de que Miller for-
mulou suas posições sobre o retorno de Cristo em 1843 com total
independência". Barkun atribui as similaridades entre Miller e os outros
à "invenção independente . em vez de difusão". 57 fror outro lado, nada
essencial seria perdido se a não dependência de Miller não fosse tão
completa como alguns gostariam. Para os mileritas, o elemento essencial
era a fidelidade bíblica de suas conclusões, não sua origem)
O fundamento daquelas conclusões era a certeza que Miller tinha de
que Cristo viria por volta do ano 1843 para resgatar seu povo e purificar
a Terra (o santuário de Dn 8:14) com fogo. Essa convicção encheu seu
coração de "alegria", mas também colocou em sua consciência o dever de
advertir o mundo a respeito do julgamento vindouro, segundo ele relatou."

Pregar ou Não Pregar


Foi "imediatamente" após descobrir a proximidade do advento que
Miller começou a sentir o peso de uma responsabilidade urgente pelas al-
mas. Inicialmente, acreditava que multidões de cristãos se regozijariam em
virtude das boas-novas que ele havia encontrado. De fato, Miller não teve
de enfrentar grandes ondas de rejeição, nem por parte das igrejas nem dos
pastores, apesar de acreditar "que fosse atrair a oposição dos incrédulos"?'
Mesmo assim, hesitou em apresentar a mensagem. Afinal, ele poderia
estar errado. Esse pensamento, como observamos anteriormente, o condu-
ziu a mais cinco anos (1818-1823) de estudos, buscando levantar todas as
objeções bíblicas possíveis a sua teoria e respondê-las adequadamente. 6°
Assim, por cinco anos ele conseguiu proteger sua sensível consciência
dos pensamentos acerca de sua grande responsabilidade. Mas, em 1823,
após estar convencido quanto à precisão de suas conclusões originais,
sua aparente tranquilidade desapareceu. Ele escreveu: "O dever de apre-
sentar a evidência da iminência do advento aos outros [...] novamente
me assolou com grande força."61
40 I ADVENTISMO -- Origem e Impacto do Movimento Milerita

Em 1823, na tentativa de apaziguar a consciência, Miller começou


a explanar de forma particular suas ideias com mais clareza para alguns
de seus vizinhos e até mesmo pastores. A resposta deles certamente não
o encorajou de forma alguma. A maioria achava que era tudo "conversa
fiada", e poucos o ouviam com algum interesse. O maior desaponta-
mento de Miller aconteceu quando ele não conseguiu encontrar um
pregador que assumisse aquele fardo."
Dali em diante, ele continuou se refugiando daquela responsabi-
lidade no estudo da Bíblia. Essa manobra, no entanto, não lhe trouxe
alivio, pois aquela era a própria Bíblia que alimentava sua ansiedade.
Portanto, ele se tornou "mais e mais convicto" de que tinha um "dever
pessoal a realizar a respeito dessa questão". "Quando estava envolvido
com as minhas coisas", escreveu ele,

algo soava continuamente nos meus ouvidos: "Vá e conte ao


mundo sobre o perigo que o ameaça." Este texto constan-
temente me ocorria: "Se eu disser ao perverso. Ó perverso,
certamente, morrerás; e tu não falares, para avisar o perverso
do seu caminho, morrerá esse perverso na sua iniquidade,
mas o seu sangue eu o demandarei de ti. Mas, se falares ao
perverso, para o avisar do seu caminho, para que dele se con-
verta, e ele não se converter do seu caminho, morrerá ele
na sua iniquidade, mas tu livraste a tua alma" (Ez 33:8, 93."

Mesmo essa impressão que se repetia com frequência falhou em le-


var Miller à ação. Aparentemente, o medo de ser rejeitado pelas pessoas
superava seu temor para não atender ao chamado de Deus. Por mais oito
anos (1823-1831), um profeta relutante continuou resistindo ao que
acreditava ser a unção do Espirito Santo, apesar de afirmar que tivera
um sonho em 4 de novembro de 1826, no qual Deus lhe havia mos-
trado que o abençoaria se fosse fiel em dar a advertência ao mundo."
Em 14 de janeiro de 1829, Miller deu indicações da direção a ser
tornada em seu futuro, apesar de estar se movendo muito lentamen-
te, considerando que ele acreditava na volta de Cristo em 14 anos.
Naquele dia, ele fez seu primeiro registro do tema num pequeno livro,
no qual anotava comentários importantes sobre os sermões de domin-
go..As vezes, ele registrava longos esboços desses sermões. Consciente
ou inconscientemente, ele havia começado um curso prático sobre
preparação de sermões."
A Formação de um Milenarista: Os Primeiros Anos de Miller 1 41

Enquanto isso, Miller escolheu três abordagens para evitar o au-


mento do peso sobre sua consciência. Primeiro, ele continuou sua
busca por um pregador que levasse aquele fardo. Talvez tenha sido
com essa expectativa que ele escreveu, em 15 de fevereiro de 1831,
A Few Evidences of the Time of the 2nd Coming of Christ to Elder Andrus
['Algumas evidências sobre o tempo da segunda vinda de Cristo para
o pastor Andrus"]. Sem dúvida, suas entrevistas com o pastor Truman
Hendryx e outros no verão de 1831 tinham esse mesmo objetivo. 66
Em seguida, não tendo encontrado um substituto, ele utilizou-se
da "manobra de Moisés". "Contei ao Senhor", escreveu ele, "que não
estava acostumado a falar em público, que não tinha as qualificações
necessárias para ganhar a atenção de um público, [...] que as pessoas
'não acreditariam em mim nem ouviriam a minha voz', que eu era
'pesado de língua.'" Mas isso não lhe trouxe alivio. 67
Finalmente, um Miller de 50 anos de idade alimentou a esperan-
ça de que escaparia da responsabilidade de pregar suas crenças se as
publicasse. Com essa estratégia em mente, ele preparou uma série de
artigos com a assinatura W.M. Os textos foram enviados ao Vermorit
Telegraph, um jornal batista, mas o editor se recusou a publicá-los sem
conhecer a identidade do autor. Miller, imaginando que o responsá-
vel queria a informação para seu uso particular, revelou seu nome
completoçOs artigos apareceram em 16 edições do jornal, a partir de
15 de maio de 1832. 68
Para o desapontam to de Miller, logo se tornou claro que ele era
o autor dos textos. A partir de então, como ele disse, "[fui] inundado
com cartas questionando minhas ideias; e visitantes em grande número
vinham conversar comigo sobre o assunto". 69 A página impressa lhe
deu mais publicidade do que a pregação poderia fazer.
Infelizmente, Miller não conseguia encontrar alivio da responsabi-
lidade pessoal de advertir o mundo. A urgência de sua visão milena-
rista o estava conduzindo à missão. "Eu não conseguia", escreveu ele,
"escapar do pensamento: 'Vá e conte ao mundo, o seu sangue eu o
demandarei de você'."70
Miller ao Mttndo
uilherme Miller foi "induzido" a apresentar o seu primeiro ser-

G mão público antes mesmo que os artigos do Vermont Telegraph


saíssem da gráfica. Isso aconteceu em um sábado de manhã, no
verão de 1831. Ele sentiu aquela forte impressão que o constrangia

a "ir e contar ao mundo" suas conclusões; mas, dessa vez, foi algo tão
impressionante que ele teve de se sentar. Após contar ao Senhor que
não poderia ir, as palavras "Por que não?" lhe vieram à mente Ele deu
todas as desculpas já desgastadas, mas estava aflito, como descreveu:
"Entrei em uma aliança solene com Deus, de que se ele abrisse o ca,
minho, iria e cumpriria com o meu dever ao mundo."'
"O que você quer dizer com abrir o caminho", sua mente o ques-
tionou. "Bem, disse eu, se receber um convite para falar em público em
algum lugar, irei e falarei a eles sobre o que tenho encontrado na Bíblia
sobre a vinda do Senhor." Com o compromisso feito, o fardo que ele
havia carregado por 13 anos finalmente se foi. Afinal, ele não esperava,
ser chamado para pregar sobre o advento, uma vez que não havia re-,
cebido sequer um convite até aquele momento. Ele pôde finalmente..
descansar, mas não por muito tempo.2
A Missão de Miller ao Mundo 1 43

Cerca de meia hora depois, recebeu o primeiro convite para apre-


sentar suas crenças sobre a segunda vinda. "Eu fiquei", escreveu ele,

indignado comigo mesmo imediatamente por ter feito aquela


aliança [...]; rebelei-me de uma vez contra o Senhor, e decidi
não ir. Deixei o menino [que tinha vindo com o pedido] sem
uma resposta, e me isolei, sentindo grande aflição, num bosque
próximo. Ali eu lutei com o Senhor por cerca de uma hora,
me empenhando para me livrar da aliança que havia feito com
ele; mas não conseguia alívio. Continuava sendo impressio-
nado: "Você vai fazer uma aliança com Deus e quebrá-la tão
cedo?" E a pecaminosidade excessiva de tal ato me oprimia.
Finalmente, me submeti e prometi ao Senhor que se ele me
sustentasse, eu iria, confiando em que ele me daria graça e ha-
bilidade para realizar tudo o que ele requeria de mim.'

No dia seguinte, Miller pregou seu primeiro sermão sobre o se-


gundo advento, em Dresden, a 25 quilômetros de sua casa. Apesar do
desconforto inicial, ele observou: 'Assim que eu comecei a falar, toda
a minha insegurança e embaraço desapareceram, e me senti envolvido
apenas com a grandeza do assunto, que, pela providência de Deus, fui
capaz de apresentar."
Seu primeiro sermão foi um sucesso, tanto que a congregação de
Dresden pediu que ele permanecesse lá para falar na semana seguinte.
Miller assim o fez, e como resultado de suas exposições, várias pessoas
foram convertidas. Ao retornar para casa, ele encontrou um pedido
da congregação de Poultney, solicitando uma série de palestras. Esses
convites foram o começo de uma sucessão contínua de pedidos que
continuariam pelo restante de sua vida ativa.'

O Perfil de Miller
V inguem ficava impressionado ao olhar para Miller)Esse fato pode
ser ilustrado pela experiência vivida por Timothy Cole, pastor da Cone-
xão Cristã em Lowell, Massachusetts. Ao ouvir sobre o incrível sucesso
de Miller como avivalista, no fim da década de 1830, Cole o convidou
a fazer uma série de reuniões em sua igreja.
O ministro foi encontrar-se com o evangelista bem-sucedido na esta-
ção de trem, esperando um cavalheiro vestido elegantemente, cujo com-
44 1 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

portamento combinasse com sua reputação. Cole observou atentamente


os passageiros desembarcarem na plataforma, mas não viu ninguém que
correspondesse a suas expectativas. Por fim, um senhor inexpressivo,
vacilante, desceu do vagão. Para o desânimo de Cole, esse "senhor" era
Miner. Àquela altura, ele havia se arrependido profundamente de tê-lo
convidado para falar em sua igreja. Ele concluiu que alguém com a
aparência de Miller não poderia saber muito sobre a Bíblia.
Constrangido, Cole o conduziu pelas portas dos fundos da igreja e,
após lhe indicar o púlpito, sentou-se no meio da congregação. Miller
se sentiu um pouco desprezado por ter, sido deixado sozinho na pla-
taforma, mas prosseguiu com o culto.
Se Cole ficara mal impressionado com a aparência de Miller, exata-
mente o oposto ocorreu com sua pregação. Após ouvi-lo por 1 5 minutos,
ele se levantou no meio da congregação, subiu à plataforma e se sentou
atrás do pregador. Miller falou todos os dias durante uma semana e
voltou no mês seguinte para uma segunda série de reuniões. Um reavi-
varnento bem-sucedido se seguiu, no qual Cole batizou 40 pessoas. No
total, 60 pessoas se uniram a sua igreja. O próprio ministro se converteu
às ideias de Miller sobre a proxirnidade do segundo advento. 6
Neste ponto, precisamos analisar Miller como um ser humano. O que
outras pessoas achavam dele e como ele próprio se considerava? Primei-
ratente, vamos observar que a impressão inicial de Cole era bem típica.
Todos os relatos sobre Miller confirmam que não havia nada de ex-
traordinário em sua aparência) Por exemplo, o Maine Wesleyan Journal
se referiu a ele como um "fazendeiro comum". O Herald, de Nova York,
descreveu Miller assim: "cerca de cinco pés e Sete polegadas [1,71 m] de
altura, bem corpulento, [com] ombros largos, cabelos castanhos claros,
um pouco calvo, semblante benevolente, cheio de rugas, e a sua cabeça
balança como se estivesse um pouco fora de controle". Certamente não
havia nada na aparência física de Miller que chamasse atenção para
ele positivamente.
Por outro lado, o Herald observou: "sua conduta está a seu favor."
Apesar de "ele não ser uma pessoa muito instruída; [...] tem lido e
estudado história e profecia com certa intensidade; tem um senso
comum muito apurado, e é evidentemente sincero em sua crença"?
A sinceridade extrema e transparente de Miller era frequentemente
alvo de comentários, até mesmo de seus opositores. Por exemplo, o
editor do Record, de Lynn, deu o seguinte testemunho sobre sua ida a
uma das reuniões de Miller:
A Missão de Miller ao Mundo 1 45

Fomos preconceituosos em relação a esse homem bom,


quando ele chegou, baseados naquilo que supúnhamos ser
um erro crasso na interpretação das profecias das Escrituras,
de que o mundo acabaria em 1843. Ainda estamos inclina-
dos a acreditar que é um erro ou um cálculo equivocado.
Ao mesmo tempo, superamos o preconceito contra ele com-
parecendo às palestras. Aprendemos mais acerca do caráter
excelente desse homem, e sobre o grande benefício que ele
nos tem proporcionada O senhor Miller é um fazendeiro
comum e se dedicou a um estudo intenso das profecias das
Escrituras por muitos anos [...]. Ninguém consegue ouvi-lo por
cinco minutos sem ser convencido de sua sinceridade e instruí-
do pelo seu raciocínio e informação. Todos reconhecem que
suas palestras são repletas de conteúdo útil e interessante.
Seu conhecimento das Escrituras é muito extenso e preciso;
de forma especial, é supreendentemente familiarizado com
as profecias [...]. Temos razão para acreditar que a pregação
e apresentação do senhor Miller tem produzido um grande
bem. Reavivamentos o têm seguido. 8

Muitos outros jornais comentaram sobre a sinceridade de Miller.


Por exemplo, o Herald, de Sandy Hill (publicado em seu condado de
origem) declarou: "Não estou preparado para dizer quão distante do
que é correto o idoso homem está, mas não há dúvida sobre uma coi-
sa, que ele não seja sincero." Novamente, o Commercial, de Cincinnati,
declarou que "independentemente do que as pessoas possam pensar
das crenças dele, que são peculiares, algo é reconhecido por todos: ele
é um cristão de coração"?
L A sinceridade de Miller deve ter sido um fator essencial de seu su-
cesso como pregador Afinal, em todos os relatos, seu estilo de pregação
não é mais espetacular do que sua aparência física» Commercia4 de
Cincinnati, observou que "ele é bem antiquado na sua forma de falar".
O pastor L. D. Fleming, da Casco Street Christian Church, de Portland,
Maine, escreveu sobre Miller: "O interesse despertado por suas apre-
sentações é do tipo mais vagaroso e desapaixonado. Se há empolgação,
tem sido do lado de fora, entre os que não assistiram às palestras do
irmão Miller." Por outro lado, Fleming relatou que Miller pregou de
maneira a promover "uma solenidade quase universal na mente de todas
as pessoas".''
46 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Essas avaliações das atitudes de Miller durante sua pregação são


também evidentes em seus comentários. "Eu tenho", observou ele,
"obtido com frequência mais evidência de piedade por intermédio de
um olho brilhante, um rosto molhado e uma declaração embargada, do
que de todo o barulho da cristandade." Novamente, em 1832, quando a
igreja de Low Hampton estava à procura de um pasto4Miller escreveu:
Alguns dos nossos querem alguém que fale bem. Mas eu preferiria
T
um que entenda bem." 11)
No entanto, esse fazendeiro comum, com um estilo sem muito co-
lorido, de acordo com o Maine Wesleyan Journal, "foi bem sucedido ao
prender a atenção do auditório por uma hora e meia a duas". O editor
do The Fountain, um jornal sobre temperança, foi a várias apresentações
de Miller na Igreja Metodista de New Haven, Connecticut. Apesar de
completamente desapontado" por não testemunhar o fanatismo espe-
rado, ele notou que Miller era "um dos palestrantes mais interessantes
dos quais se lembrava de ter ouvido". "Silêncio quase sem respiração
[...] reinava na imensa multidão durante duas ou três horas", enquanto
Miller apresentava suas mensagens. 12
Devemos perguntar: qual era o segredo do apelo de Miller, de seu
poder de pregação? Temos algumas indicações de resposta na sinceri-
dade de sua crença e na solenidade que acompanhava suas mensagens
a respeito da hora do juiza Contudo, pelo menos dois outros fatores
devem ser adicionados para completar o quadra
O primeiro é que seu manejo da Bíblia não somente ligava profecia e
história, mas também falava às necessidades do auditório. L. D. Fleming,
após pensar sobre a habilidade de Miller em alcançar especialmente a
comunidade masculina com tal força transformadora, encontrou uma res-
posta. "O irmão Miller", escreveu Fleming, "simplesmente toma a espada
do Espirito, desembainhada e nua, e atravessa sua lâmina afiada no coração
despido, e isso cortai É isso. Perante a lâmina dessa arma poderosa[,] a
infidelidade cai, e o universalismo se definha. Fundamentos falsos são
colocados abaixo, e os mercadores de Babel se espantam." 13
Outro aspecto do estilo de pregação de Miller que tinha poder
e apelo universal era sua abordagem lógica e racional. Esse ponto é
destacado no The Fountain. Os editores observaram:

Não temos a menor dúvida de que ele [Miller] está com-


pletamente convencido da verdade da doutrina que apre-
senta tão diligentemente, e ele certamente demonstra
A Missão de Miller ao Mundo 1 47

grande persistência e justiça em [...] provar seus pontos.


E ele os prova, também, a ponto de satisfazer cada ouvinte;
isto é, ao consentir que suas premissas sejam corretas, não
há como escapar das conclusões»

As avaliações do próprio Miller em geral se equiparavam com as de


seus contemporâneos, fossem amigáveis ou não tão amigáveis. Ele era
particularmente sincero em suas observações a Truman Hendryx, seu
amigo mais próximo na década de 1830.
No início de 1833, quando a Igreja Batista de Low Hampton decidiu
conceder a Miller uma licença para pregar, ele escreveu para Hendryx
pedindo conselhos. Afinal, Miller, com 50 anos, se questionava se não
estava "velho e orgulhoso demais" para essa honra. Dois meses depois,
ele ainda estava ocupando o púlpito de Low Hampton. Novamente,
escreveu para Hendryx: "Não temos um pregador ainda — exceto aquele
idoso com sua concordância. E ele é tão marginalizado pela sua desenvol-
tura fria, enfadonha e sem vida, que tenho sérias dúvidas se ele tentará
novamente — mas vamos deixar isso de lado, é melhor não falar nenhuma
palavra sobre o que estou lhe dizendo. Envie-nos um ministro, se puder." 5
Um ano depois, ele escreveu: "Você ri, irmão Hendryx, ao pensar
que o velho irmão Miller está pregando. Continue rindo, você não é
o único que ri e, apesar de tudo, eu mereço." Então, Miller continuou
demonstrando que estava começando a considerar seu chamado tardio
ao ministério como algo cada vez mais sério. "Se eu puder pregar a ver-
dade", continuou ele [escrevendo para Hendryx], "é tudo que poderia
pedir. Você poderia me dizer a idade de Noé quando começou a pregar?
E Lá, Moisés, etc.?" Antes ele havia escrito, no contexto de sua fraqueza,
que "Deus [ ] é capaz de utilizar minhocas para sacudir montanhas". 16
O pensamento de que Deus podia usá-lo se equilibrava com sua
autopercepção. "Eu conheço minha fraqueza", ele escreveu para o filho,
"e sei que não tenho força na mente ou no corpo para realizar o que
o Senhor está fazendo comigo, como um instrumento." Para Hendryx,
ele escreveu em resposta a seu sucesso no meio da década de 30:

Fico abismado, e só posso entender, supondo que Deus está


sustentando o velho homem, fraco, pecador, imperfeito e ig-
norante como ele é, para confundir os sábios e poderosos, e
para reduzi-los a nada [...]. Infiéis, deístas, universalistas, sec-
tários: todos, todos ficam acorrentados aos seus assentos, em
6
48 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Mile rita

perfeito silêncio, por horas, por dias, para ouvir o velho gago
[...]. Ó, meu irmão, isso me faz sentir como um verme, uma
criatura pobre e débil. Pois somente Deus poderia causar tal
efeito em tais auditórios. Mas isso me dá confiança. 17

Aliado a sua crescente e inabalável convicção de que Deus estava


com de, havia um senso de urgência cada vez maior da parte de Miller
para advertir, o mundo. Seu dever por aqueles que "dormem em cima
do vulcão da ira de Deus" o empurrava ao limite de sua resistência.
No mesmo sentido, ele escreveu para Josué Himes que as pessoas
para quem estava falando permaneciam em sua mente, "dormindo ou
acordado;" e ele podia "vê-las perecendo, aos milhares". 18
Sem dúvida, esses pensamentos deram a Miller a solenidade que os
ouvintes percebiam em sua pregação. Além da seriedade, a sinceridade
dele era alimentada pela certeza de sua interpretação das profecias e
pela confiança de que Deus estava por trás de sua missão.
Mas a seriedade não era o único elemento na abordagem de Miller.
Há muitos exemplos de seu bom humor, mesmo diante de criticas
pessoais. Ele deu uma amostra desse comportamento em um diálogo
no qual compara sua proclamação da breve vinda de Cristo com a ad-
vertência de Noé a seus vizinhos a respeito do dilúvio. A conversa não
somente apresenta uma mensagem sobre o advento como responde
a algumas criticas feita a Miller por meio de um paralelo bíblico. Ele
imaginou um diálogo entre um dos vizinhos de Noé e um visitante
que acabara de chegar a sua casa.

Visitante: O que é aquela construção enorme naquele


campo, naquela elevação? -

Anfitrião: Aquilo é chamado de "arca de Noé".


Visitante: Mas vai servir para quê? Parece ser construido
para navegar. Com certeza aquele senhor não espera navegar
em terra seca.
Anfitrião: Sim, você está certo. O velho diz que o mundo vai
acabar (Gn 6:13), e que ele preparou uma arca para salvar a si
mesmo e a sua família; porque todos serão destruidos pela água.
Visitante: Mas como ele sabe disso?
Anfitrião: Ele diz que Deus lhe contou.
Visitante: Que tipo de homem é ele? Acho que deve ser
um grande fanático!
A Missão de Miller ao Mundo 1 49

• Anfitrião: Sim; achamos que ele está meio louco; mas não
dá para perceber isso, a não ser pela construção da grande
arca, pela negligência de sua fazenda e outras questões corri-
' queiras. Mas o que ele tem perdido, eu tenho ganhado.
Visitante: Você disse um fazendeiro? Um fazendeiro! Por
que Deus não falou com algum dos "valentes, varões de re-
nome"? (Gil 6:4). Um fazendeiro! Não há verdade nisso?
Mas, alguém acredita nele?
Anfitrião: Acreditar nele? Não. Temos outras coisas para
fazer e não podemos gastar tempo para ouvir o velho fazen-
deiro. Ontem, porém, ficamos muito assustados, pois o velho
tem contado a alguns que ele preparou quartos para as feras
do campo, para as aves do céu e cada réptil que rasteja; e
ontem eles vieram, de dois em dois de cada espécie, e entra-
ram na arca, aparentemente segundo sua espécie (Gn 7:8, 9).
Isso, você pode ter certeza, assustou-nos um pouco; mas os
banquetes e festas da noite passada dissiparam os temores de
todos e hoje as coisas já estão como devem ser.
Visitante: Isso é muito estranho; mas não pode ser ver-
dade. Deus não destruiria o mundo no meio desta alegria e
diversão, e no auge de todos os avanços do presente. Muito,
muito da Terra ainda resta ser cultivado e habitado. Nossa
selva ocidental ainda precisa ser explorada e conquistada.
O mundo ainda está na sua infância — nem dois mil anos de
idade; e você sabe que temos uma tradição de que a Terra
deve envelhecer como se fosse uma vestimenta. Não pode
ser verdade o que o velho esteja lhe falando. Eu garanto a
você que a Terra ainda vai durar milhares de anos.
Anfitrião: Veja! Veja! Lá vai o velho e sua família para
dentro da arca. Lembro-me agora, o homem nos falou há
quatro dias que em sete dias (Gn 7:4-10), Deus provocaria
chuva suficiente para destruir todos os seres vivos da face
da Terra. Então vou ter a chance de rir do velho por quatro
dias! Eu lhe disse que, após os sete dias, ele teria vergonha de
continuar pregando e então, finalmente, teríamos silêncio. 19

Em outra ocasião, quando Miller estavaçsob criticas por causa de


suas crenças, ele falou para o• auditório: "Dis eram que eu sou insano
e que estive em um hospício por sete anos; se tivessem dito que isso
50 1 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

havia ocorrido por 57 anos em um mundo louco, eu te:ia me declarado


culpado da acusação." 20
Naturalmente, Miller, como os demais seres humanos, tinha outras
emoções além do humor. De tempos em tempos, ele se sentia pressio-
nado demais pelos críticos e reagia. Portanto, ele se referia aos clérigos
como "cães tolos",•"lobos devoradores", "espertalhões" e "sabichões"
que gostavam de explorar a palavra "reverendo" ligada a seus nomes.
Deus, afirmava ele, lidaria em última instância com esses "sacerdotes
almofadinhas", que têm a "consciência presa em cintas de aço. "21
Novamente, Miller em um momento de irritação declarou:

Nossos críticos letrados são piores nas águas da verdade do


que um cardume de tubarões na barragem de pescaria do nor-
te, e eles têm produzido mais incrédulos no mundo do que
toda a mitologia ímpia existente. Qual palavra da revelação
não foi torcida, mudada, manchada, demolida ou aniquilada
por esses sanguessugas vorazes em forma humana?"

Miller sentia que à medida que ficava mais velho, seu temperamento
ficava menos paciente. No fim de 1842, ele admitiu para Himes: "Perce-
bo que, à medida que" envelheço, fico mais irritadiço, e não posso suportar
tanta contradição. Portanto, estou cada vez mais descaridoso e severo."
Miller não era o único a notar o problema. Dez dias depois, um corres-
pondente anônimo lhe disse que chamar os clérigos de mentirosos "não
era a melhor coisa" e que isso só servia para afastar algumas pessoas."
Felizmente, o lado negativo de Miller não era o mais destacado.
Ele apresentava uma mensagem altamente positiva que causava um
significativo impacto nos cristãos da sua época.

O Perfil da Mensagem de Miller


A mensagem, como observamos anteriormente, era de que Jesus
retornaria por volta do ano de 1843. Contrário à opinião da maioria
em seu tempo, Miller pregava que Jesus viria antes do início do milênio.
Essa era sua distinção doutrinária. Ele acreditava que essa crença era tão
importante çuee,seus seguidores não deveriam obscurecer a mensagem
enfatizando outros pontos doutrinários. Fazer isso seria arriscar-se a criar
divisões ent e os adventistas. Cristo viria em breve e o tempo era muito
curto para di rgências teológicas. Todos os aspectos controversos eram
A Missão de Miller ao Mundo 1 51

secundários diante do grande evento; afinal, todo debate doutrinário


teria fim com o segundo advento. Essa era a única e suprema verdade
que deveria ser anunciada.
Miller desenvolveu um argumento bíblico extenso para sua crença
na breve volta de Jesus. Esse raciocínio era especialmente forte em sua
interpretação das profecias bíblicas. Talvez o melhor registro de seu
discurso tenha sido preservado em seu livro Evidence from Scripture and
History of the Second Coming of Christ About the Year 1843 ["Evidên-
cia das Escrituras e da história acerca da segunda vinda de Cristo por
volta do ano de 18431. Essa obra é urna transcrição do que, no início
da década de 1840, foram as 19 apresentações proféticas tradicionais.
O propósito desta seção não é explorar essas interpretações/ 4 mas tratar
brevemente sobre alguns poucos aspectos do enfoque que Miller usava
para transmitir sua mensagem.
A característica mais evidente da pregação e dos escritos de Miller era
seu foco na Bíblia. Desde o tempo de sua conversão até o fim da vida,
Miller foi um estudioso das Escrituras. Sua ênfase aparece neste conselho
a Hendryx: "Você precisa", escreveu ele, "pregar a Bíblia; tem que provar
tudo pela Bíblia; tem que falar sobre a Bíblia; exortar conduzindo à
Bíblia; orar de acordo com a Bíblia e amar a Bíblia; e ainda fazer tudo
o que estiver ao seu alcance para que outros amem a Bíblia também.""
Em outra ocasião, Miller desejou que Hendryx estivesse com ele para
que pudessem "sentar e se alimentar juntos da Bíblia". O modo com que
Miller encarava a vida e o ministério se centralizava no mundo trans-
cendente no qual Deus era verdadeiramente o Rei. E era a Bíblia que
continha toda revelação do Rei transcendente para a humanidade. "Se
a Bíblia não for verdadeira", Miller questionou Hendryx, "então, quem
pode nos dizer o que é a verdade?" 26
Miller não somente cria que a Bíblia era a autoridade máxima,
como também defendia seu uso na pregação. Em vez de depender de
estratégias como o "assento dos ansiosos" 1 ou outros acessórios evan-
gelísticos, Miller utilizava a "palavra pura" no combate espiritual. Ele
aconselhou Hendryx:

Na batalha por Deus, dependa totalmenter do Espíri-


to. Mantenha sua espada com o lado certo para cima e o corte
direcionado para o coração, e com braço forte desfira o golpe

N.T.: Assento reservado em .um encontro de avivamento para aqueles incomodados pela
consciência e ansiosos por assistência espiritual.
52 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

com a intenção de• matar, não tenha medo de machucar os


ouvintes, não envolva sua lâmina com um lenço de seda, nem
poupe a força quando atacar. Alguns têm o hábito de esconder
uma parte da espada com medo de o inimigo esquivar-se do
golpe; mas isso nunca dá certo. No momento que o inimigo
descobrir sua covardia ou medo, irá desprezá-lo. Isso o desper-
tará para a ação com vigor redobrado»

Além do constante uso da Bíblia na pregação, Miller esperava condu-


zir outras pessoas ao estudo da Palavra. Ele não queria que confiassem
em sua influência, mas na autoridade das Escrituras. Por isso, escreveu,
perto do fim da carreira: "Não peço que adotem uma opinião sobre
mim; mas peço que pesem bem a evidência contida na Bíblia." O méto-
do de Miller era projetado para guiar as pessoas à Palavra de Deus. "Se
esta doutrina", escreveu ele, "não fizer com que as pessoas pesquisem
a Bíblia [...], eu não posso imaginar o que mais poderia fazer." Um dos
critérios para compreender seu êxito foi que "milhares haviam sido
levados a ler a Bíblia com maior deleite"."
De mãos dadas com o uso que Miller fazia da Bíblia na pregação
estava seu uso da história. Parecia óbvio para ele, observa David Dean,
que a história secular se desenvolvesse de acordo com as profecias
bíblicas, e que "paralelos exatos entre predição e cumprimento tinham
que ser descobertos". 29
Josias Litch estabeleceu a abordagem dele e de Miller quando as-
sim escreveu: "Tudo o que fazemos é apontar para alguns textos das
Escrituras como verdades infalíveis e relacioná-los com certos fatos
históricos; e contar ao mundo a impressão que esse panorama causa em -
nossa mente." Naturalmente, Minei- esperava que, após compreender
as evidências, as pessoas chegassem à conclusão correta. Aqueles que
não fizessem isso, logo teriam de enfrentar seu Mestre."
O terceiro elemento central da pregação de Miller era a nfase em
Jesus como aquele que viria em breve para reunir seu povo. Cristo
não era somente a solução para os problemas do mundo, mas tam-
bém a resposta para as pessoas. Assim, Miller apelava a seus leitores:
"Acheguem-se a Cristo [ ]; apeguem-se à promessa de Deus, confiem
em sua graça e ele os purificará com seu sangue." 31
Esse ensinamento evangélico, no entanto, era compartilhado pela
maioria dos cristãos da época. Como resultado, a mensagem de Miller
sobre salvação não era motivo de controvérsia. Dessa forma, esse tema
A Missão de Miller ao Mundo 1 53

não recebeu muita ênfase tanto na imprensa milerita quanto na não mi-
lenta como sendo uma "doutrina peculiar" do breve retorno de Cristo.
A quarta característica sempre presente na pregação de Miller era
sua preocupação com o povo. As pessoas para quem pregava, observou
ele, "estão sempre em minha mente; dormindo ou acordado, posso
vê-las perecendo aos milhares". Essa visão constante o levou a ser
enfático tanto na pregação quanto no apelo às pessoas para aceitarem
Jesus como seu vindouro Salvador. 32
A preocupação de Miller com a salvação das pessoas poderia ser
vista claramente em um dos apelos feitos por ele logo após pregar um
sermão em que descrevia a segunda vinda de Cristo. Sua exortação foi:

Então, meu querido ouvinte, se o seu coração foi esmiuçado


pelo pecado; se você foi unido ao Cordeiro de Deus em es-
pírito por sua fé; [...] então você viverá e reinará com ele na
Terra [...]. Você se levantará na grande assembleia e, batendo
palmas com alegria, clamará: "Santo, santo, santo é o Senhor
todo-poderoso, que era, é, e agora vem [...]".
Mas você, homem ou mulher impenitente? Onde estará
naquele momento? [...]. No inferno! Pense? No inferno! — que
palavra horrível? Pense mais uma vez? No inferno! Erguendo
os olhos, na tortura. Pare, pecador; pense] No inferno! Onde
haverá choro, pranto e ranger de dentes. Pare, pecador, pare;
considere o seu fim. 33

Entretanto, ao pregar e escrever, era a vitória em lugar da derrota que


normalmente ocupava a mente de Miller. Portanto, vamos considerar
o triunfo como o elemento final que prevalecia em sua mensagem ao
mundo. Essa característica vitoriosa pode ser claramente observada na
conclusão de uma das cartas na qual descreve a destruição apocalíptica,
antes do retorno de Cristo. "Naquele momento terrível", escreveu ele,
"Olhe! Olhe? — Oh! Olhe e veja] O que significam aqueles raios de
luz? As nuvens se separam, os céus aparecem, o grande trono branco
é visto. O universo está maravilhado e tomado de reverência. Ele vem,
ele vem? Veja, o Salvador vem. Ergam a cabeça, santos, ele venal — ele
vem?? — ele vem 1. 1.1""
Apesar dos temores e esperanças de Miller, de sua sinceridade e
convicções, sua pregação era recebida com uma ampla variedade de
respostas. Vejamos agora essas reações.
54 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Os Resultados de Miller
Alguém com uma mensagem semelhante à de Guilherme Miller
tinha pelo menos dois grupos principais a alcançar: pastores e mem-
bros leigos. Com ambos, ele obtinha resultados mistos. É importante
observar que a maioria daqueles que respondiam positivamente a sua
pregação o fazia por razões diferentes na década de 1830 do que grande
parte dos que a aceitaram nos anos 1840.
Corno observamos anteriormente, a obra pública de Miller começou
vagarosamente, com seu primeiro sermão sobre o segundo advento pre-
gado em 1831; sua primeira declaração publicada sobre o assunto ocorreu
em 1832. Ambos os meios de comunicação despertaram atenção ime-
diata para Miller e colocaram sua mensagem sob investigação cuidadosa.
Além do número crescente de compromissos e de pessoas que lhe
escreviam e o visitavam para saber mais sobre suas ideias, o primeiro
reconhecimento público da obra de Miller veio em 14 de• setembro
de 1833. Nessa ocasião, ele recebeu uma licença para pregar, conce-
dida por sua própria congregação e por outra de um lugar próximo.
O certificado dizia que ele estava não somente "aprimorando seus dons
[...] para expor as palavras da Verdade Divina [...] em público", mas
que sua obra edificava a igreja."
Dois dias depois, ele escreveu para sua irmã: "Meus irmãos me deram
uma licença — mesmo eu sendo desobediente, velho e indigno. 'Oh, à
graça, quão grande devedor eu sou." Ele parecia estar genuinamente
impressionado e se demonstrava humilde pelo reconhecimento. Dife-
rentemente dos anos iniciais, quando ele ridicularizava as coisas de Deus, •
agora tinha reverência por tudo que estava interligado com o Senhor.
Por essa razão, Miller recusou o uso do titulo de "reverendo" para si
mesmo, apesar de usar para outros, se desejassem. Ele tocou no assunto
após Hendryx se referir a ele como "reverendo Guilherme Miller", em
uma carta no inicio de 1834. "Gostaria", Miller respondeu ao amigo,
"que você olhasse na Bíblia e visse se pode encontrar a palavra 'reve-
rendo' aplicada a um mortal pecador como eu [...1. Vamos permanecer
determinados a viver e morrer de acordo com a Bíblia."
Os orgulhosos "precisam ser humilhados" em face do julgamento
iminente. "Quanto me importo com o que o mundo chama de grande
e honoravel [?] Dê-me Jesus e um conhecimento da sua Palavra, e fé,
graça, amor e sua justiça. Sim, deixe-me ter J[esus] C[risto], e então
que desapareçam todos os prazeres do mundo." Esses comentários
A Missão de Miller ao Mundo 1 55

encontrados em urna carta particular indicam que a conversão de


Miller não foi uma encenação; ela o levou à completa dedicação. Ele
entregou sua vida a Deus e aceitou o fardo que acreditava Deus havia
colocado sobre ele."
No final de 1834, Miller havia decidido dedicar todo seu tempo
à pregação. Ele não podia aceitar todos os convites que chegavam,
trabalhando apenas em parte do período.
Dedicar tempo integral a essa nova vocação era um sacrifício genuí-
no, pois não recebia salário pelo trabalho. Na verdade, antes de 1836, ele
não dispunha de nenhuma verba para as despesas de viagem. Naquele
ano, ele recebeu um dólar em uma jornada ao Canadá. O próximo
recurso que ele afirma ter recebido foi em 1837, a fim de pagar seus
deslocamentos para um de seus muitos compromissos. Além de alguns
fundos para viajar de tempos em tempos, Miller não recebia nenhum
reembolso. Em relação a isso, ele escreveu em 1845: "Nunca recebi o
suficiente para pagar as despesas de viagem." Deve-se observar também
que nunca obteve lucros com a venda de livros."
Se essa era a situação, podemos nos perguntar: como ele sustentava
a si mesmo e sua casa? Miller tinha duas fontes de renda. A primeira
era sua fazenda, que ele havia colocado nas mãos dos filhos. Esse ar-
ranjo proporcionava o sustento de sua grande família e garantia-lhe
uma quantia de 100 dólares por ano para se vestir, suprir seus gastos
ocasionais e pagar as viagens. Somente quando suas jornadas se torna-
ram muito longas e numerosas para serem cobertas com a anuidade
de 100 dólares, ele permitiu que as igrejas, para as quais trabalhava,
participassem de seus gastos."
A segunda fonte de sustento para Miller vinha de sua modesta
poupança, que também provia recursos para cobrir as despesas. Até o
início de 1843, ele teria gasto dois mil dólares de seu próprio dinhei-
ro na missão de proclamar a mensagem do advento ao mundo. Essa
quantia não era pequena num tempo em que se pagava 50 centavos
ou um dólar por urna jornada diária de dez a 14 horas de trabalho. Seu
ministério envolvendo sacrifícios não deixa dúvida de que ele havia
desistido dos "prazeres do mundo" pela amizade com Jesus. 4°
O ano de 1836 representou um passo importante no ministério
de Miller, com a publicação de uma edição ampliada de Evidence from
Scripture and History of the Second Coming of Christ. Em junho, 38 pas-
tores, todos aparentemente batistas, assinaram um certificado de que
ouviram aquelas palestras. Dentre eles, 21 afirmavam que não podiam
56 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Mileritg

"evitar a conclusão de que a vinda de Cristo seria tão logo quanto


1843". Outros 17, embora não convencidos daqueles ensinamentos,
ainda assim recomendavam Guilherme a suas igrejas»
Durante o mesmo período, Miller afirmou em uma carta para
Hendryx que oito pastores batistas estavam "agora pregando" suas
ideias, enquanto "muitos outros acreditavam, mas não ousavam
pregá-las". Ele deu o nome dos ministros e concluiu que seu melhor
amigo, "Hendryx, pertencia a esse [último] grupo". 42
Uma das maiores frustrações• da vida de Miller foi o fato de que seu
prezado amigo não tinha coragem de assumir e pregar aquilo que ele
afirmava crer sobre a segunda vinda. Após mencionar em uma carta para
Hendryx sobre a razão de pastores e leigos não estarem de acordo em
preparar sua lâmpada para os eventos finais, Miller repreendeu o colega:

Sim, meu irmão, faz quase dois anos desde que você ouviu as
novas, "Aí vem o Noivo]." E você ainda clama, "deixe-me dor-
mir um pouco mais, um pouco mais de repouso [...]". Não
culpe seu povo se ele dormir durante sua pregação. Você está
fazendo o mesmo [...]. Você está esperando todo o mundo
acordar antes de você se levantar? Onde foi parar sua cora-
gem? Acordei acorde], preguiçoso [...]. Você não deve e não
pode ficar neutro. Acordei. Acorde 1. 43

Miller descobriu que "os pastores geralmente" eram "os mais difíceis
de convencer" a respeito de sua interpretação da segunda vinda. Por.
um lado, ele notou que os ministros se sentiam incapazes de apresentar
algum "argumento que o velho homem" não removesse. Miller tinha
muitos contatos entre os pastores. No início de 1835, ele escreveu:
'Agora tenho quatro ou cinco pastores para me ouvir em cada lugar
em que falo!"44
Aqueles pastores que confrontavam Miller encontravam um
oponente fatinidável. Por exemplo, D. I. Robinson, pastor da igreja
Metodista de Portsmouth, New Hampshire, foi a uma série de encontros
de Miller pensando que "podia acabar com seu ímpeto e confundi-lo".
Mas, sem querer embaraçar Miller publicamente, Robinson o visitou
com uma lista de objeções. "Para a minha surpresa ",:. pastor metodis-
ta recordou, "raramente elas eram novas para ele, e as respondia tão
rapidamente quanto eu as podia apresentar. Ele então alistou objeções
e questões que me confundiram, e também os comentários nos quais
A Missão de Miller ao Mundo 1 57

me baseava." Robinson retornou para casa "esgotado, convicto, sentindo-se


pequeno e disposto a examinar a questão" do segundo advento. Ele pos-
teriormente se tornou um pregador milerita. 45
Talvez, o primeiro ministro solidamente convertido ao milerismo
tenha sido Henry Jones, um formando congregacionalista de Harvard que
trabalhava como agente para vários jornais relacionados com temperança
e outras reformas. Jones foi estimulado durante uma conversa sobre o
milênio com outro pastor, em Nova York, em junho de 1832.
O pastor indicou a Jones os artigos de Miller. no Vermont Telegraph,
que começaram a ser publicados naquele mês de maio. Jones poste-
riormente conseguiu os primeiros oito artigos e escreveu para Miller,
apresentando sua intenção de entrevistá-lo, mesmo que "a maioria
de nossos especialistas em Bíblia o considerem muito visionário ou
fanático". O jovem assumiu que, por tudo o que conhecia, Miller se-
ria fanático e "desvairado". Todavia, mesmo assim, de qualquer forma
desejava urna entrevista."
Por meio de correspondência contínua, Jones se alinhou em grande
parte com as ideias de Miller a respeito das profecias e da segunda vinda,
mas não aceitava a possibilidade de prever a data aproximada do adven-
to. Depois, o jovem trabalhou como secretário da primeira associação
geral de mileritas, em outubro de 1840. Ele também escreveu vários
livros sobre temas proféticos e o segundo advento. 47
O primeiro pastor a aceitar completamente as ideias de Miller, in-
cluindo a data de 1843, e também o primeiro a convidar Miller para
pregar em sua igreja foi o pastor Fuller. Além disso, Fuller foi o único
pastor convertido a todo o sistema profético milerita antes de 1838 a
permanecer fiel a suas convicções. Todos os outros, observa Miller, "caí-
ram e abandonaram sua defesa". 'A corrente de opinião pública", Litch
apontou em 1844, "era forte demais para eles se alicerçarem de forma
bem-sucedida."" Os pastores convertidos após 1838 se mantiveram mais
firmemente no sistema de crenças mileritas. Sem dúvida, a crise cres-
cente arraigada na depressão econômica que começou em 1837 proveu
credibilidade externa aos crentes e, portanto, os levou à estabilidade.
Nem todos os pastores reagiram favoravelmente a Miller e suas
teorias. Alguns, na verdade, se tornaram totalmente contrários a ele.
Um deles foi o reverendo T. E Norris, que escreveu no Uive Branch:
"Esperamos que os pastores ou as igrejas não encorajem esse louco
e enganador que é Miller. Ele está provavelmente desequilibrado e
deve ser colocado sob os cuidados do Dr. Woodward, no State Lunatic
58 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Hospital. Se não for um lunático, ele é um homem perigoso, e seus


ataques ao cristianismo são de caráter insidioso." 49
O Trumpet, dos universalistas de Boston, era igualmente hostil em
relação a Miller, afirmando que ele era "um idoso de mente fraca, vai-
doso e autoconfiante, que memorizou algumas passagens das Escrituras;
mas, em nosso julgamento", dizia o jornal, "ou ele perverte desones-
tamente os escritos sagrados ou é quase totalmente ignorante de seu
verdadeiro sentido"?'
Alexander Campbell, líder de um dos grupos cristãos que mais
cresceu no século 19, nos Estados Unidos, pensava que "o ano de 1843
passaria com sonhos de felicidade". Contudo, apesar de discordar dos
ensinamentos de Miller, Campbell discordava ainda mais do jeito como
Miller era tratado. Ele sugeriu que mesmo se Noé, Daniel ou Jó tivessem
surgido como Miller e pregado a Palavra de Deus "teriam sido ridicula-
rizados, difamados, caluniados e denunciados como perturbadores da
paz", assim como Miller foi pelos "agitadores do Israel moderno em
suas 101 facções" da ortodoxia moderna. Afinal, o retorno imediato
do Senhor, de acordo com Campbell, deveria ser o deleite mais espe-
rançoso do cristianismo?'
Pastores não eram os únicos a difamar Miller. Muitos leigos também
se mostravam profundamente perturbados em relação ao ministério
dele. Em 1834, por exemplo, Miller relatou que após a primeira apre- .
sentação em uma cidade, ele recebera uma carta de alguns arruaceiros
ameaçando-o de que "se não deixasse o estado", -eles o colocariam
num lugar onde nem os cães jamais o encontrariam. A carta continha
dez assinaturas. O pregador desconsiderou a advertência e, como ele
descreve, começou a trabalhar sob o Espirito de Deus "a quem os
contraditores não podiam resistir"?'
Outros, prescindindo das ameaças físicas, simplesmente ridiculari-
zavam Miller. O Courier, de Lowell, por exemplo, publicou a seguinte
declaração:

O senhor Miller tem propagado seu engano tacanho em


grandes auditórios de Trenton [...]. Esse Miller não parece
ser um impostor, mas simplesmente um tolo, ou mais pro-
priamente, um monomaniaco. Se o Todo Poderoso tivesse a
-

intenção de anunciar a destruição do mundo, não o faria en-


viando um velho, gordo e iletrado para pregar com gramática
ruim, e bom senso pior ainda, aqui em Jersey1.53
A Missão de Miller ao Mundo 1 59

Qual foi a resposta de Miller a tal tratamento? "Ouvi leões rugirem


e burros zurrarem, mas ainda estou vivo."
Apesar da oposição, o sucesso de Guilherme Miller como pregador
era tão impressionante que surpreendia tanto a ele mesmo quanto
aos demais. Desde o primeiro sermão, seus ouvintes experimentaram
conversões. Além disso, tinha cada vez mais oportunidades de falar
em igrejas de todas as denominações evangélicas. Em 1835, escreveu
que o Senhor abriu portas mais rápido do que ele era capaz de passar
por elas." O ritmo teria um aumento significativo em 1838, quando
o pânico de 1837 começou a destruir a confiança de muitas pessoas
nas soluções humanistas para os problemas do mundo. Miller relatou
que os auditórios estavam lotados.
No fim de 1838, Miller escreveu a seu filho sobre uma reunião em
que houve "uma grande comoção [...] e muito choro". 56 Essas reações
a sua pregação pareciam ser a regra Mais do que a exceção. No fim da
década de 1830, Miller havia se tornado um verdadeiro reavivalista.
Tão importante quanto o fato de que Miller provocava um reaviva-
mento nas comunidades era que os reavivamentos continuavam após
sua partida. Assim ocorreu em Portland, Maine. O pastor da igreja onde
ele havia pregado escreveu:

Em alguns dos nossos cultos, após a partida do irmão Miller,


estima-se que até 250 pessoas tenham expressado o desejo
pela religião, vindo à frente para orações; e, provavelmente,
entre 100 e 200 têm professado conversão em nosso culto.
Agora, o fogo está se alastrando por toda a cidade e todo o
pais. Vários vendedores de rum transformaram suas lojas em
locais de pregação, e aqueles lugares que foram usados para
a intemperança e festejos são agora dedicados à oração e ao
louvor. Outros abandonaram o tráfico por completo e estão
se convertendo a Deus. Fui informado de que um ou dois
locais de apostas estão completamente falidos. Infiéis, deístas,
universalistas e os mais declarados devassos têm se converti-
do; alguns que não haviam estado numa casa de adoração por
anos. Reuniões de oração foram iniciadas em todas as partes
da cidade por diferentes denominações ou pessoas, quase a
cada hora. Ao visitar a parte comercial de nossa cidade, fui
conduzido a um cômodo em cima de um banco onde encon-
trei cerca de 30 ou 40 homens de diferentes denominações
60 j ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

• unidos em oração, às 11 horas da manhã! Em resumo, seria


• quase impossível dar a ideia exata do interesse agora sentido
• nesta cidade. Não há nada de excitação extravagante, mas
• uma solenidade quase universal na mente de todas as pes-
soas. Um dos principais livreiros me informou que vendeu
• mais Bíblias em um mês, desde que o irmão Miller viera aqui,
• do que nos quatro meses anteriores.

De acordo com J. V. Himes, relatos similares aos do reavivamento de


Portland"podiam ser obtidos na maioria dos lugares onde ele apresentou
a série completa de palestras", e onde os pastores e as igrejas o apoiaram»
A pergunta que naturalmente surge é: para o que as pessoas estavam
se convertendo? Se alguém examinar os comentários aqui relatados
descobrirá que, para muitos, era "para Deus" ou para um "desejo por
religião" arece razoável concluir, concordando com grande parte dos
estudiosos do milerismo, que a maioria das conversões de Miller, antes
de 1840, foi ao cristianismo e não a sua doutrina particular)
Muitos pastores, que o convidavam a ir as suas congregações, esta-
vam seguramente mais preocupados com seu apelo e sucesso evange-
lístico do que com suas ideias sobre o milênio. Convidavam-no porque
era eficaz como reavivador, podia atrair multidões e aumentar o número
de membros nas igrejas. 58
Obviamente, a ênfase de Miller no milênio tinha sua utilidade.
Afinal, o pensamento de que Cristo estava voltando em um futu:
ro próximo, sem dúvida forçava muitos pecadores a se arrepender.
O milenarismo tinha, em si, um grande poder de atração naquele pe-
ríodo da história americana.
Parece que Ruth Doan está correta ao sugerir que, na década de
1830, a maioria dos cristãos estava provavelmente mais interessada
na questão do milênio do que em alguma forma particular de pré-
milenarismo ou pós-milenarismo. 59 Essa atitude indiferente em relação
ao tema mudaria no começo da década de 1840, com a aproximação da
crise do "ano do fim" e o endurecimento das posições em ambos os lados.
Porém, ao mesmo tempo, os anos de 1830 continuaram teste-
munhando Miller sendo convidado porque podia atrair multidões.
Portanto, o Trumpet universalista, que era agressivo tanto com os
evangélicos tradicionais quanto com o milerismo, estava correto em
dizer: "Certas sociedades e pastores em diferentes partes da Nova
Inglaterra não têm visto problema em usar um homem idoso como
A Missão de Miller ao Mundo 1 61

uma ferramenta com o propósito de empolgar e ganhar conversos


para suas igrejas." 6°
Miller estava bem a par do fato de que alguns pastores o estavam
usando, e ele não apreciava isso. "Eles gostam que eu pregue", contou
a J. V. Himes, em dezembro de 1839, "e edifique suas igrejas; e, por
enquanto, tudo acaba ai, para a maioria dos pastores." 61
Enquanto isso, Miller, talvez o mais bem-sucedido reavivalista da últi-
ma fase do Segundo Grande Avivamento, continuou firme nas pequenas
cidades e vilas do nordeste da Nova Inglaterra. Isso al I aria radicalm- te
com a entrada de Josué Himes em seu caminho, em dezembro de 1839.
o

CAPITULO


Josué v
d
0O rgan iza d or
Mi ss ã o
CC s políticos atuais gastaram milhões em prata e ouro para
eleger um homem como presidente dos Estados Uni :.
dos Não deveríamos esvaziar nossos tesouros para dar
à igreja e ao mundo as notícias da aproximação do reino de nosso
eterno Rei?" 1
Estas foram as palavras do homem que transformaria o mileris-
mo, de uma cruzada de um só homem, num movimento religioso
de grande importância. Seu nome era Josué V. Himes, um líder que,
inspirado pela urgência da mensagem profética de Miller, surgiu
como um dos gênios de relações públicas da primeira metade do
século 19.

Conhecendo Josué V. Filmes


Josué Vaughan Himes2 nasceu em Wickford, Rhode Island, em 14
de maio de 1805, na família de um próspero comerciante das índias
Ocidentais. O propósito de seu pai para o primogênito era que ele
estudasse na Brown University, com o objetivo de prepará-lo para o
Josué V. Himes: O Organizador da Missão 1 63

ministério da Igreja Episcopal. Esses planos, no entanto, foram abrup-


tamente frustrados quando parceiros desonestos causaram a mina dos
negócios da família.
Como resultado, a educação formal de Josué terminou quando
ele tinha apenas oito anos de idade. Mais tarde, o garoto tomou-se
aprendiz de marceneiro, pois seu pai havia decidido que ele teria de
ser comerciante. Josué permaneceu no seu estágio em New Bedford,
Massachusetts, até a idade de 21 anos.
•Durante sua permanência em New Bedford, ele começou a frequen-
tar a First Christian Church, uma igreja que pertencia ao movimento
restauracionista, conhecido como Conexão Cristã. O alvo dos cone-
xionistas era evitar os credos humanos e voltar à Bíblia. Eles afirmavam
que as Escrituras Sagradas eram seu único credo.tQuando a Bíblia fala i,
respondemos; quando a Bíblia fica em silêncio, silenciamos.")
Os conexionistas, assim como outros grupos restauracionistas, eram
fervorosos em seu desejo de voltar aos moldes da igreja do Novo Testa-
menta Além da ênfase na Bíblia, o movimentoS enfatizava a liberdade
cristã, evitando todo tipo de organização eclesiástica acima do nível
congregacional. E mais, eles exaltavam o caráter cristão como o único
teste de comunhão. Seu desejo era abandonar todas as controvérsias
doutrinárias da história da igreja, movendo-se em direção ao ideal do
cristianismo prático. 3 Foi entre os conexionistas que o jovem Himes
afirmou ter "encontrado a Bíblia aberta e a liberdade de pensamento,
podendo fazer bom uso de ambos". 4
Himes se tornou membro' da First Christian Church, de New
Bedford, em 1823. Logo sentiu que era seu dever pregar o evangelho.
Como resultado, começou a organizar reuniões religiosas. Reavivamen-
tos seguiram seus esforços. Então, em 1827, ele deixou seu trabalho
secular, assumindo o ministério em tempo integral. Entre 1827 e
1830, ele fundou igrejas e serviu como reavivalista em várias áreas de
Massachusetts. Em 1830, tornou-se pastor da First Christian Church,
em Boston, onde permaneceu até 1837. 5
Enquanto esteve na First Church, Himes ganhou preeminência
no movimento conexionista. Em 1833, ele serviu como secretário da
conferência geral, não em nível organizacional, tratando-se apenas de
um encontro anual de lideres conexionistas. 6
Durante esse período, ele também passou a ter interesse pela refor-
ma social. Em 1835, por exemplo, ele deu inicio a uma escola técnica,
na qual os moços poderiam receber educação formal e aprender um
64 1 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

,
ofício ao mesmo tempo. Enquanto estudavam, os alunos pagariam os
custos de seu estudo trabalhando na própria instituição.'
Na década de 1830, Boston estava se tornando o centro de reforma
para quase todos os movimentos radicais dos Estados Unidos, na medida
em que homens e mulheres buscavam acabar com as injustiças até o
início do milênio. Himes foi cada vez mais atraído para o âmbito dos
reformadores radicais na década de 1830. Não somente envolveu-se
nos movimentos de reforma educacional, de temperança, dos direitos
femininos, da paz mundial e da saúde, mas também foi um dos fun-
dadores da New England Non-Resistance Society e membro de sua
comissão executiva.'
Todavia, o aspecto que mais contribuiu para o radicalismo de Himes,
na década de 1830, foi sua participação no movimento abolicionista
durante ci período em que o assunto era temido e desdenhado até
mesmo nos estados do norte. Para os abolicionistas radicais que se
uniram a William Lloyd Garrison, o fim da escravatura era o elemento
central para o início do milênio. "A lógica deles", sugere Lewis Perry,
"se desdobrava categoricamente em: abolir a escravidão era suprimir
toda a coerção; eliminar, toda a coerção era liberar o poder de Deus
para iniciar um novo milênio; abolir a coerção era a fórmula para
assegurar a paz e a ordem na Terra; garantir a paz era naturalmente
concretizar o milênio." 9
Himes não somente participou na fundação da Sociedade Anties-
cravista de Massachusetts, como também teve importância para a
Sociedade Antiescravista da Nova Inglaterra, segundo Garrison. Além.
disso, sua esposa era membro da Sociedade Feminina Antiescravista
de Boston, sendo uma de suas diretoras»)
Como ativista incessante, Himes não ficou à margem das lutas de
seu tempo. Como um escritor comentou a respeito da oposição ao
movimento antiescravista, Himes "fez discursos em todas as ocasiões,
enfrentando turbas, desaLndo-as
a a fazerem o pior e a 'colocarem logo
fogo no acampamento', o seu estilo peculiar e enfático de denunciar
a desgraça e vergonha d nação"."
0 próprio Garrison z as seguintes observações sobre Himes:

Bem cedo, ele se posicionou como abolicionista e tem


sido um defensor fiel do movimento antiescravista, ja-
mais se envergonhando de mostrar suas posições, nunca
se omitindo na hora mais escura da história. Ele é um
Josué V. Himes: O Organizador da Missão 1 65

• homem notavelmente ativo e zeloso em tudo com que se


compromete, fazendo com todas as forças o que estiver
ao seu alcance»

O envolvimento profundo de Himes com as reformas radicais con-


sequentemente produziu reações negativas entre os membros da First
Christian Church de Boston. Os mais conservadores chegaram a desejar
sua renúncia. Nas palavras de Garrison, "nosso amigo Himes deve deixar
seu povo e ir para outro lugar devido a seus sentimentos abolicionistas".
No entanto, "ele está determinado a se agarrar à verdade e pregá-la [...].
É um homem amável, tem uma mente única e uma alma que pode
sentir e agir. Sentiremos sua perda nesta cidade". 13
Entretanto, Himes não saiu de Boston. A agitação levou os membros
progressistas a sair da First Christian Church para formar a Second Chris-
tian Church, em 1837. Eles pediram que Himes fosse o astor deles."
No ano seguinte, a nova igreja de 1-limes construiu . hardon Street
Chape . Sob sua liderança, a capela se tornaria o local de a gumas 'as
mais radicais convenções de reforma da nação. Como Whitney Cross
descreve, Hirnes "tornou sua igreja o centro virtual da Nova Inglaterra
para todas as variedades de reformas intensas"."
A participação de Himes nos movimentos de reforma foi parte im-
portante de sua educação. Ele tanto havia visto quanto participado de
métodos de disseminação do conhecimento e de promoção de ações.
Além disso, suas habilidades naturais o prepararam para uma função
de liderança que ele passou a ver como sua missão maior.

1-limes se Encontra com Miller


A publicação da versão expandida das palestras de Miller, em 1836,
inaugurou o que Josias Litch chamou de "nova era" na história da causa
do advento. Daquele momento em diante, as palestras escritas passaram
a pregar sua mensagem silenciosa onde o autor nunca estivera. Antes de
1838, o milerismo não havia atraído muita atenção em Massachusetts.
No entanto, cópias do livro Evidence from Scripture and History, de
Miller, pouco a pouco se espalharam, finalmente chamando a atenção
do editor do Times de Boston, no início de 1838.' 6
Em 13 de março, um editorial anunciou que o Times tinha a inten-
ção de publicar trechos do livro de Miller. "O livro", escreveu o editor,
.7

66 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

está destinado [...] a criar uma tremenda mobilização no mun-


do cristão. Na verdade, essa empolgação está começando a ser
notada. Acabamos de ler a principal parte da obra; e, apesar
de não estarmos preparados para sancioná-la como contendo
verdade indisputável nos fatos ou nas inferências, temos de
dizer que ela mostra profundidade de pesquisa na porção pro-
fética das Escrituras e urna ousadia de concepção que ainda
não encontramos em nenhuma outra obra sobre profecias.

O editorial continuou apresentando uma breve sinopse das ideias


de Miller, incluindo a tese de que Cristo viria "em apenas cinco anos!"
"Não sabemos de nada até o presente que alcance interesse mais pro-
fundo e universal." 17 Nas duas semanas seguintes, nove trechos foram
publicados no jornal, com o titulo "FIM DO MuNDol."
Durante o ano seguinte, Miller começou a receber os primeiros
convites para pregar em Massachusetts. Entre 21 de abril e 10 de ju-
nho de 1839, ele apresentou palestras em Stoughton, East Randolph,
Lowell, Groton e Lynn. 18
Um dos pastores que convidaram Miller fo~ole, que
ficou envergonhado (como vimos no capitulo 3) pe a aparência inex-
pressiva do pregador, a ponto de inicialmente se recusar a sentar-se na •
plataforma com o evangelista. No fim dos dez dias de reavivamento,
no entanto, Cole concluiu: "Se eu já vi alguém que acredito ser uni
verdadeiro servo de Deus enviado pelo Espirito Santo para proclamar
o evangelho de Cristo, esse homem é Guilherme Miller." 19
As reuniões de Lowell, na igreja de Cole, foram decisivas na história
do movimento do advento • elo menos • or duas razões. Primeiro, foi
lá que Miller conheceu o • astor
, metodista Josias Litch que aceitou
suas ideias. Posteriormente, Litch se)tornaria_urn dos principais lideres
mileritas. Segundo, e ainda mais importante, Cole apresentou Miller
para muitos spastores e igrejas da Conexão Cristã. 2 9
Essas apresentações levaram Miller de volta a Exeter, em Massa- •
chusetts, em novembro de 1839, para outra série de reuniões — dessa
vez com quase 20 pastores conexionistas presen tes—Ui
. deles, Josué
V. Himes, mudaria a natureza da carreira de Miller. 21
• Himes, que havia convidado Miller em outubro, aproveitou a opor-
tunidade em Exeter para renovar o chamado. Como resultado, Miller
concordou em falar pela primeira vez em Boston. Isso foi um grande
desafio para o reavivalista, já idoso, que havia passado seu ministério
Josué V. Himes: O Organizador da Missão 1 67

até então nas pequenas vilas e cidades do nordeste da Nova Inglaterra.


Miller começou sua primeira série de apresentações na Chardon Street
Chapel, em Boston, no dia 8 de dezembro?'
Durante as reuniões, Himes e Miller mantiveram longas conversas.
"Quando o senhor Miller terminava as apresentações", observou Himes,
"eu aceitava uma nova opinião." Himes não podia mais pregar como
anteriormente.

Então, Himes perguntou a Miller:


— Você realmente acredita nessa doutrina?
• Ele respondeu:
—Certamente que sim. Ou não a pregaria.
-- O que você está fazendo para espalhá-la e difundi-ia
pelo mundo?
—Tenho feito, e ainda estou fazendo, tudo o que posso.
— Bem, tudo isso ainda está restrito a uma pequenina re-
gião. Até o momento, há pouquíssimo conhecimento sobre
o assunto, mesmo após tudo o que você tem feito. Se Cristo
virá em poucos anos, como você crê, todo o tempo possível
deveria ser utilizado em advertir a igreja e o mundo, com voz
de trovões, para despertá-los a fim de se prepararem.
• — Eu sei, eu sei, irmão Himes, mas o que um velho fazen-
deiro pode fazer? Nunca me acostumei a falar em público:
estou sozinho; e, apesar de ter trabalhado muito, e de ter visto
• muitos sendo convertidos a Deus e à verdade, ninguém ainda
parece ter entrado no propósito e sentido da minha missão a
ponto de oferecer ajuda. Eles apreciam que eu pregue e encha
as igrejas deles; e a reação termina aí, com a maioria dos pas-
tores, por enquanto. Estou procurando ajuda. Eu quero ajuda.
Foi nessa ocasião que coloquei a mim mesmo, minha
família, sociedade, reputação, tudo no altar de Deus, para
ajudá-lo, dentro das minhas possibilidades, até o fim. Então,
perguntei-lhe quais partes do país ele havia visitado e, se ha-
via estado em alguma das nossas principais cidades.
Ele me informou sobre seus trabalhos [...].
-- Mas por que você não esteve nas cidades grandes?
Ele respondeu que sua regra era visitar os lugares para
onde era convidado e que não havia sido convidado para estar
nas cidades grandes.
68 I ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

—Bem — eu disse — você irá comigo aonde as portas esti-


verem abertas?
—Sim, estou pronto para ir a qualquer lugar, e trabalhar
de acordo com minha habilidade até o fim.
Então falei para ele que deveria se preparar para a campa-
nha; porque portas estariam abertas em todas as cidades dos
Estados Unidos, e a advertência deveria chegar aos confins
da Terral Nesse momento, comecei a "ajudar" o pai Miner."

Após essa conversa, o milerismo nunca mais seria o mesmo.


Apesar dessa admiração de Himes sobre Miller, ele não passou a
apoiá-lo imediatamente Em parte, isso aconteceu porque ele "não es-
tava completamente satisfeito a respeito do tempo" do advento, apesar
de estar convicto de sua proximidade. Miller voltou à Chardon Street
Chapel para uma segunda série de conferências, entre 28 de dezembro
e 5 de janeiro»
Em meados de janeiro de 1840, Himes ainda estava indeciso sobre
apoiar com toda sua influência o velho pregador. No dia 17, ele escreveu
para Miller: "Vou falar novamente em breve, mas quero saber o que
digo e o que afirmo. Estou chegando e quando chegar atenção toda
— — —

a minha alma estará nisso."25 Himes apoiou bastante Miller, apesar de


aparentemente não ter aceitado a data de 1843, até o verão de 1842. 26
O principal meio através do qual Himes começou a "ajudar' o pai
Miller" foi a obra de publicações. Os primeiros, de uma avalanche de
impressos sobre o advento produzidos por Himes, se originaram após
conversas entre ele e Miller, durante a terceira série de palestras rea :
lizadas em Boston, na Marlboro Chapel — outro centro de reformas
radicais — entre 8 e 19 de fevereiro de 1840. 27
Por um longo tempo, Miller desejou ter a seu dispor um periódico
para divulgar suas ideias, pois os já existentes estavam cheios de "histó-
rias abusivas" sobre sua mensagem, e se recusavam a publicar sua defesa
em cada caso. O problema com esse projeto, observou Miller, era que
ele não havia sido capaz de encontrar alguém que quisesse "arriscar
sua reputação e assumir as despesas financeiras de tal publicação". 28
Himes percebeu a necessidade e resolveu agir; e, nas palavras de Miller,
"sem um assinante ou uma promessa de ajuda", começou a publicar a
Signs of the Times ["Sinais dos Tempos"], em março de 1840. Apesar de
a primeira edição ser datada de 20 de março, indicadores ' ternos su-
gerem que ela esteve em circulação no fim de fevereiro ou no inicio da
Josué V. Himes: O Organizador da Missão 69

primeira semana de março. Portanto, quando Miller mencionou que


1-limes havia publicado a primeira edição uma semana depois de con-
cordar com a ideia, ele provavelmente estivesse correto. Quando Himes
desejava apoiar um projeto, ele se dedicava «isso de corpo e alma?
O biógrafo de Himes indica que seu lema se tornou: "O que deve ser
feito tem de ser feito rapidamente." Essa frase é encontrada repetidas
vezes em seus escritos e direcionava as ações de• um homem muito
convicto de que o fim do mundo chegaria para seus desinformados
habitantes em poucos anos. 3°
No milerismo, Himes encontrou a missão maior, a motivação que
fez com que todas as outras reformas parecessem insignificantes. Afinal,
quando Cristo retornasse a fim de estabelecer seu reino, todo o mal
do mundo teria fim. Nesse sentido, o adventismo era a reforma das
reformas. A segunda vinda de Cristo seria a solução completa e final
para todos os problemas da Terra.
Por outro lado, após aceitar o milerismo, Himes não deixou ime-
diatamente de se envolver em outras causas menores. Entre 1840 e
1842, a Chardon Street Chapel continuou a ser o centro principal
das reformas, e Himes prosseguiu participando em muitas atividades,
ainda que, cada vez mais, suas energias estivessem sendo direcionadas
à proclamação da crença na proximidade do segundo advento Ele
havia perdido a esperança de que as reformas solucionariam todos os
males da sociedade. Entretanto, a impossibilidade da vitória completa,
acreditava Himes, não devia ser usada como desculpa para a inatividade.
As palavras de Cristo a seus seguidores, "negociai até que eu venha"?'
motivavam o líder a continuar empenhado nas causas sociais.
No entanto, após meados de 1842, quando Himes aceitou 1843
como o ano do fim do mundo, sua militância nos movimentos de re-
forma se reduziu drasticamente. Afinal, havia somente poucos meses
para proclamar a mensagem da vinda de Cristo. Essa diminuição de
atividades por parte de Hirnes não significava, porém, que ele• havia
perdido a simpatia pelas causas sociais. Até janeiro de 1844, ele ainda
abriu o "Tabernáculo Miller" para as reuniões antiescravistas promo-
vidas por Garrison. 32
Garrison, por outro lado, se mostrou um tanto desencorajado com
o que considerava a apostasia de seu amigo, agora entusiasmado com o
milerismo. "Sinto muito que ele tenha sido vitima de uma teoria absur-
da", escreveu o militante antiescravista, "mas eu ainda o considero um
homem sincero e de valor."33
70 J ADVENTISMO — Origem .e Impacto do Movimento Milerita

• Himes certamente provaria seu valor nos anos seguintes. Ele e


Miller formavam o que poderia ser descrito como uma equipe sim-
biótica, na qual um complementava as fraquezas do outro com seus
talentos. Miller era um pregador convincente, mas um promotor
fraco. Himes, por outro lado, era um promotor excelente; mas, até
onde sabemos, um pregador mediano. Himes era um homem de ação,
enquanto Miller poderia ser melhor descrito como pensador e teólogo.
Portanto, Mimes geralmente buscava Miller em questões relacionadas à
mensagem a ser pregada, e Miller ia a Himes para decidir a estratégia
evangelistica e promocional.
Himes era exatamente a pessoa de que Miller precisava para orga-
nizar e promover suas ideias. Assim, ele se tornou o comandante do
milerismo, a ponto de manipular o pai Miller, de tempos em tempos
— pelo "bem da causa", naturalmente. Era resumo, Himes proveu a orga-
nização e estrutura necessárias para transformar o rnilerismo de um mo-
vimento de uma só pessoa em um movimento amplo; ele transformou
uma doutrina do advento em uma causa. Sem Himes, Miller poderia
ter permanecido simplesmente como mais um pregador obscuro que
predizia o fim do mundo, nos confins do norte da Nova Inglaterra»
É importante destacar que, em 1840, quando Miller começou a pre-
gar nas maiores cidades do pais,(ele tinha 58 anos, sofria de paralisia e
ainda seria acometido por várias doenças prolongadas até o fim da vida)
Ele precisava da energia. empreendimento, do conhecimento e da
perseverança ilimitada de Filmes, que ainda não tinha 35 anos quando
começou a 'ajudar' o pai Miller". 0 ajudante se tornou a figura principal
nas operações cotidianas do milerismo, no inicio de 1840.
Com Hirnes, o movimento não mais esperava passivamente que as
portas se abrissem. Em vez disso, o líder as abria agressivamente para
o bem da mensagem. Séries de palestras bem planejadas e técnicas
atualizadas de relações públicas espalharam a influência de Miller
para além de suas fronteiras, até mesmo de seus sonhos mais otimistas.
O trabalho de Miller também mudou de tom sob a influência de
Himes. David Arthur afirma que o pregador "não era mais simplesmente
um reavivalista agradável e moderadamente eficiente, salvando peca-
dores e fortalecendo igrejas. Ele e seu movimento se tornaram forças
independentes", que eram cada vez mais "capazesy de rachar e dividir
igrejas. Com Himes assumindo a liderança, o mileris o se tornou mais
autoconsciente — um movimento religioso important ao qual as igrejas
tinham de dedicar atenção".35
Josué V. Himes: O Organizador da Missão 1 71

No verão de 1840, a liderança de Himes já podia ser percebida. Ele


havia contribuído para que Miller fizesse uma série de apresentações na
cidade de Nova York, em maio. Além disso, as habilidades de relações
públicas de Himes colaboravam no processo de destacar e aperfeiçoar
os conceitos de Miller sobre o milênio Isso não apenas resultou em
visibilidade como também ajudou a acelerar a propagação da doutrina
até o tempo do esperado fim do mundo.
A clareza progressiva da visão sobre o milênio levaria a mensagem
milerita aos lugares mais distantes dos Estados Unidos e ao redor do
mundo. Himes, Miller e seus colegas estavam cada vez mais motivados
a advertir a população, à medida que seu sentido de missão profética
urgente se tornava mais claro para eles. Sem a combinação desses ele-
mentos, o milerisrno teria definhado gradualmente.

"O Napoleão da Imprensa"


Himes se tornou um dos gênios das relações públicas na década de
1840, recebendo de um de seus críticos o título de "Napoleão da impren-
sa". Nathan Hatch, um destacado historiador norte-americano especiali-
zado em religião, descreveu os esforços de Himes na obra de publicações
como "um impacto midiático sem precedentes" e "uma cruzada das co-
municações como nunca se viu antes". 36
0 jovem pastor estava alinhado às inovações da tecnologia de co-
municação. As publicações em massa e a distribuição de materiais
para leitura eram novidades recentes nas décadas de 1830 e 1840. Foi
somente a partir de.1.822 que a primeira impressora rotativa movida a
vapor entrou em operação nos Estados Unidos, e os grandes jornais de
Nova York não surgiram até a década de 1830. Em 1833,0 Courier and
Enquirer, de Nova York, tinha a maior tiragem de um jornal impresso
no país, com 4.500 exemplares. Avanços na tecnologia de impressão,
no entanto, logo tornaram os tabloides diários um sucesso. 37
Na virada da década de 1830, houve um aumento repentino no
número de jornais, tanto na abrangência de sua circulação quanto tam-
bém na dimensão do público leitor. Os reformadores e líderes religiosos
da época imediatamente adotaram as novas tecnologias. Um religioso
entusiasmado observou, em 1839, que "um periódico religioso bem
conduzido era como mil pregadores voando em quase todas as direções,
a cavalo, pelos correios, em barcos, vagões, navios, etc., oferecendo vida
e salvação aos filhos dos homens em quase todas as regiões".38
72 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

• Himes estava em posição vantajosa para aproveitar ao máximo a


explosão de publicações. Ele havia• aprendido as técnicas básicas do
jornalismo por meio de seu trabalho nas grandes reformas da época e
do uso da imprensa religiosa no Segundo Grande Avivamento.
A primeira tarefa significativa de Himes no estabelecimento de um
jornalismo adventista, como já mencionado, foi a criação da Signs of
the Times, em fevereiro e março de 11840. Nos primeiros dois anos, a
Signs era publicada duas vezes por mês; mas, em abril de 1842, ela se
tornou semanal»
Durante o primeiro ano, a Signs publicou artigos tanto a favor quan-
to contra a posição milerita. Portanto, proporcionou um tipo de fórum
aberto sobre o assunto. Mas, com o passar do tempo, o periódico apre-
sentou cada vez menos teologia antirnilerismo, exceto para refutá-la.
No inicio de 1842, Hirnes via a Signs como um instrumento para
desenvolver a autoconsciência, bem como as comunidades adventistas.
O desejo dele era tornar o periódico "um jornal da família do segundo
advento, no mesmo nível que os melhores periódicos religiosos da épo-
ca". O senso de comunidade e cooperação que ele esperava alcançar por
intermédio da Signs era essencial para o sucesso da missão milerita. 4°
Hirnes não era antiquado na divulgação da Signs. Seguindo a orientação
das associações de reforma e de outros grupos religiosos, ele usava agentes
de venda para expandir sua lista de assinantes. Essas pessoas geralmente
representavam simultaneamente várias organizações e publicações. Elas
viajavam de lugar em lugar vendendo assinaturas. Durante o primeiro ano,
os representantes que trabalhavam com a Signs recebiam uma comissão de
17 a 40 centavos por assinatura. Em 1841, os leitores foram convidados
a se tornar agentes, e uma comissão de 20% lhes foi oferecida. 4'
A política agressiva de assinaturas de Himes deu resultado. A lista
de assinantes cresceu de nenhum, em março de 1840, para 800 em
15 de julho; depois, para mil em 1L) de outubro, e chegou a 1,5 mil no
fim do ano. Em 15 de janeiro de 1842, ele anunciou que havia cinco
mil assinantes e 50 mil leitores. 42
A publicidade crescente estava começando a criar uma agitação. Assim,
a Princeton Review de janeiro de 1841 relatou que o segundo advento
estava chamando cada vez mais atenção nas igrejas americanas, com
((provavelmente dez vezes mais estudiosos das profecias sobre esse evento
do que havia dez anos antes". Ao mesmo tempo, ~cidade estava
proporcionando a Miller um número gradativamente maio) , de convites
para pregações. Ele escreveu a Himes no final do verão de 1840, indicando
Josué V. Himes: O Organizador da Missão 1 73

que tinha "em mãos mais coisas para fazer do que dois homens como ele
poderiam realizar". 43
Logo se descobriu que a mensagem de Miller se firmou mais nas
áreas rurais do que nas cidades. O problema não era falta de atenção
nas regiões urbanas, mas a falta de uma rede de instituições de apoio
que ajudasse a manter o interesse vivo após o fim das apresentações.
Os moradores das cidades tinham urna variedade de opções e progra-
mações pouco disponíveis nas áreas rurais.
Uma vez que os conversos ao milerismo de 1840 a 1842 geralmente
permaneciam em suas igrejas originais, sentiam, com frequência, falta
de um grupo de apoio composto por adventistas que pensavam de for-
ma similar. Como resultado, era difícil manter viva sua fé no advento.
Outro problema nas cidades era a questão da publicidade acerca das
reuniões em uma comunidade tão descentralizada.
Para superar ambos os problemas, Himes iniciou a prática de fundar
periódicos sazonais em conexão com reavivamentos mileritas selecio-
nados. Muitos desses periódicos eram publicados por poucas semanas
ou meses e, então, eram suspensos. Essa estratégia permitiu que as
publicações adventistas apresentassem características locais. Após inter-
romper a impressão, havia o esforço de transferir a lista de assinaturas
temporárias para outros periódicos estabelecidos, ligando assim os
• novos crentes ao grande movimento.
O primeiro e mais bem-sucedido desses periódicos temporários foi
fundado em Nova York. Seu propósito era apoiar as iniciativas do movi-
mento naquela cidade e apresentar os principais argumentos mileritas
ao público de "uma forma barata e popular". A publicação chamava-se
The Midnight Cry ["0 clamor da meia-noite"] e era editada por Himes
e um associado, Nathaniel Southard. A primeira tiragem ocorreu em
17 de novembro de 1842.
A intenção original era publicar somente 24 edições diárias. Dez
mil cópias de cada número foram distribuídas, a maioria gratuitamente.
Portanto, em pouco mais de quatro semanas, cerca de 240 mil cópias
do periódico foram entregues. Parte da campanha publicitária consistia
em enviar exemplares para cada pastor do estado."
Os custos desse projeto inovador eram altos, mas Himes acreditava
que o sacrifício valia a pena. Afinal, ele escreveu no primeiro número:

NOSSA OBRA é de uma magnitude indescritível. Em alguns


aspectos, trata-se de uma missão e um empreendimento
74 1 ADVENTISMO -- Origem e Impacto do Movimento Milerita

diferentes de tudo o que possa ter despertado as energias do


ser humano [...]. É um alerta e um clamor emitido por aque-
les que, dentre todas as denominações protestantes, como
arautos em pé sobre os muros do mundo moral, acreditam
que a crise mundial chegou. 45

O sucesso do Midnight Cry foi tão grande que decidiram publicá-lo


semanalmente, após as primeiras 24 edições. Nos primeiros cinco meses
de impressão, teve mais de meio milhão de cópias circulando. Com a
Signs, ele viria a ser um dos dois periódicos mileritas mais importantes
do movimento.
Após o sucesso do Midnight Cry, Himes e seus colegas adotaram a
prática de distribuir um periódico local por algumas semanas em pontos
estratégicos, onde isso fosse considerado adequado para ampliar os be-
nefícios do reavivamento na região. Muitos desses impressos deixaram
de ser publicados após pouco tempo, porém, alguns se tornaram vozes
importantes para o adventismo em sua localidade.
Dentro dessa última categoria estavam o Trumpet of Alarm ["Trom-
beta de alertai, de Litch, na Filadélfia; o Second Advent of Christ
["0 segundo advento de Cristo"], de Carlos Fitch, em Cleveland; o
Voice of Elijah ["A voz de Elias"), de R. Hutchinson, em Montreal;
e o Western Midnight Cry ["0 clamor da Meia-noite ocidental"],
,

de George Storrs e Enoch Jacobs, em Cincinnati. A influência de


Himes e, com muita frequência, seu dinheiro, estavam por trás
desses periódicos. Por intermédio dessas e de outras publicações,
milhares aceitaram a mensagem rnilerita sem jamais terem ouvido
pessoalmente um pregador.
Além dos periódicos regulares da América do Norte, o movimento
milerita também gerou uma publicação específica para mulheres, The
Advent Message to the Daughters of Zion ["A mensagem do advento às
filhas de Siãol, e outra trimestral, mais acadêmica, o Advent Shield ["0
escudo do advento"].. A primeira era editada por Clorinda S. Minor e
Emily C. Clernons; e, a segunda, por Himes, Sylvester Bliss e Apollos Hale.
A Grã-Bretanha também teve seu Midnight Cry e um jornal intitulado
Second Advent Harbinger ["0 prenúncio do segundo adventoi . No
total, o movimento milerita produziu mais de 40 periódicos antes de
outubro de 1844.
No entanto, esses periódicos eram apenas uma parte do impacto de
publicações inspirado por Himes. Outro elemento dessa "cruzada" foi

Josué V. Himes: O Organizador da Missão 1 75

a Biblioteca do Segundo Advento, que chegou a ter quase 50 volumes,


compostos de panfletos e livros que podiam superar 200 páginas. Essa
série, publicada por Himes, cobria todo o espectro do ensinamento
•milerita sobre o segundo advento e a interpretação profética.
Outra criação do incansável Himes foi a série de folhetos i 17Órds of
ccming ["Palavras de advertência"]) Cada um deles consistia numa folha
•"W
d 12 x 20 cm impressa dos dois lados)0 objetivo da série, composta de
36 temas, era explanar a compreensão profética adventista e levar peca-
dores ao arrependimento. Alguns dos títulos voltados para esse segundo
objetivo eram: "Quão terrível será encontrar nosso Deus irado" e 'Aquele
dia será um dia de separação". Esses pequenos folhetos, a literatura mile-
Ma mais barata, tiveram centenas de milhares de cópias em circulação."
Naturalmente, as principais publicações mileritas eram suplementa-
das pelos livros e folhetos impressos de forma independente. E o inglês
não era o único idioma utilizado. Algumas obras foram traduzidas para
o francês e o alemão. 47
Himes também compilou e publicou um hinário adventista, em
1842, intitulado: Millennial H arp ["Harpa do milênio") ou Second Advent
•Hymns: Designed for Meetings on the Second Coming of Christ ["Hinos
do segundo advento: para encontros sobre a segunda vinda de Cristol .
Então, os mileritas passaram a ter seu próprio hinário, com versos como:

Quanto mais, ó Senhor, nosso Salvador,


Vais permanecer longe?
Nosso coração está se cansando
Da tua longa demora."

Desejando usar todos os recursos possíveis para o evangelismo, sob


a liderança criativa de Himes, os mileritas chegaram a criar selos para
lacrar as cartas. Eles eram vendidos em folhas como selos de correio e
continham uma passagem das Escrituras relacionada com a proximi-
dade do retorno de Cristo."
Além de produções próprias, os adventistas usavam os jornais
diários para apresentar sua mensagem, publicando anúncios, sermões
e notícias. Parte do espaço nos jornais era gratuito, mas parte tinha de
ser comprada.
É importante observar que as táticas de relações públicas de Himes
não se originaram com ele. De fato, eram técnicas já utilizadas por vá-
rios movimentos de reforma daqueles dias. Hirnes era um homem de
76 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

seu tempo. A principal diferença entre ele e seus contemporâneos era a


intensidade de seu empenho. Tudo o que esse líder fazia era com mais en-
tusiasmo e perseverança do que os demais. Afinal, na visão de Himes, o fim
do mundo se aproximava rapidamente e ele precisava dar a mensagem.
A intensidade de Himes em relação às publicações era compatível
com seu empenho na distribuição delas. Além dos métodos de circula-
ção provados pelo tempo, ele e seus colegas usaram vários outros que
foram desenvolvidos pelos movimentos de reforma contemporâneos.
Um deles foi o estabelecimento de Bibliotecas do Segundo Ad-
vento em cada cidade ou vila. Essas bibliotecas de empréstimos eram
((

gratuitas para todos que levassem, lessem e devolvessem os livros".


Elas podiam ser estabelecidas com um custo unitário de apenas cinco
a dez dólares na época. O plano era tornar a literatura adventista
disponível para que ninguém "precisasse ficar na escuridão a respei-
to da doutrina" do iminente advento de Cristo. Por volta do ano de
1844, essas bibliotecas de empréstimos haviam se espalhado pelos
estados do Norte."
Outro método de distribuição era o envio de coleções de literatura
adventista para agentes de correio de todos os Estados Unidos. Cada
coleção continha instruções para que o carteiro distribuísse a literatura
para todos aqueles que recebiam sua correspondência»
Um carteiro de Canton, Ohio, se surpreendeu com essa abor-
dagem. Ele descreveu, em 12 de maio de 1843, o impacto que a
literatura causava:

Os periódicos que você encaminhou, The Midnight Cry


e The Trumpet of Alarm, chegaram na noite passada. Meia
hora após chegarem neste escritório, eles foram distribuídos
em todas as partes da cidade. Foi uma correria geral em di-
reção à agência para apanhá-los. Muitas pessoas do interior
que estavam na cidade, assim que souberam que podiam ob-
ter os periódicos, vieram e os receberam. Fui forçado a in-
terromper a distribuição dos periódicos para as pessoas da
cidade, tendo reservado meia dúzia de cópias para enviá-las
ao interior. Alguns vieram ao escritório e imploraram por
uma cópia só para ler, mesmo que eu não pudesse lhes dar
a preço de postagem. Obviamente não pude recusar e, dessa
forma, distribuí tudo o que tinha, exceto poucas cópias, como
mencionei. Poderia enviar mais desses impressos? Você não
Josué V. Himes: O Organizador da Missão 1 77

tem ideia do bem que tem sido realizado por intermédio


desses periódicos. Muitas pessoas que não receberiam as
boas-novas da breve volta do nosso Salvador por outros meios
são, dessa forma, colocadas a par dos fatos»

De maneira semelhante, os mileritas enviaram literatura por meio


de embarcações que partiam para vários destinos ao redor do mundo.
Os oficiais dos navios colaboravam, entregando esses pacotes nos portos
de parada. Os postos avançados de missionários protestantes foram
especialmente visados?' ›s
Josias Litch, ao explanar sobre as implicações de Mateus 24:14
("E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para tes-
temunho a todas as nações. Então, virá o fim"), afirmou que:

nos últimos anos, tem havido um esforço continuo por parte


dos crentes na pregação da breve volta do Senhor ao enviar
luz sobre esses assuntos para o mundo todo. E de acordo com
o que a oportunidade tem oferecido, publicações foram en-
viadas para todas as missões americanas e inglesas do mundo.
Essas publicações foram entregues em várias partes nos qua-
tro cantos da Terra e em várias ilhas do mar?'

Em outra ocasião, Litch afirmou que "publicações adventistas foram


enviadas às centenas de milhares para todo o mundo". Como resultado,
os marinheiros que frequentam os portos testificam que a vinda de
Cristo é tema de conversas em todo o mundo"?'
Como o "Napoleão da imprensa", Himes fez tudo o que podia
para espalhar a mensagem profética de que Cristo em breve viria nas
nuvens do céu. Em novembro de 1843, Litch pôde afirmar que mais de
4 milhões de unidades de literatura adventista haviam sido publicadas.
Em maio de 1844, essa estimativa pulou para 5 milhões — quase uma
para cada quatro habitantes dos Estados Unidos. Essa produção não
terminou com o desapontamento de outubro de 1844.~,5
estima que, em 1854, Himes foi responsável por distrnats—de
10 milhões de impressos, somente a partir do escritório de Boston?'
Verdadeiramente, Himes honrou sua imagem napoleônica. Minei-,
ao avaliá-lo em 1845, afirmou que ele "era mais importante na divul-
gação dessas ideias do que quaisquer outros dez homens que tivessem
se unido à causa"?'
78 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

O Estrategista Organizacional
• Além das publicações, a segunda contribuição importante de
Himes para a divulgação do adventismo milerita, bem como para sua
estabilidade, foi a organização de assembleias gerais regulares. Em 15
de agosto de 1840, ele anunciou na Signs que vários amigos haviam
sugerido a possibilidade de organizar uma assembleia geral de crentes
no segundo advento para a edificação dos irmãos e para uma "discus-
são livre e completa" de temas relacionados com o assunto. No mês
seguinte, foi emitido um convite para uma reunião geral na Chardon
Street Chapei, de Himes, em meados de outubro."
kSem
i dúvida, oCCOnTeifir ar asserr
t- itteias gerais foi inspirado na
influência de Himes e----de—Orrtros mem 'Bicos *a - onexão Cristã que já
pertenciam ao movimento milerita.(A. Conexão tinha esses encontros
desde 1816, com o propósito de prover estrutura e unidade a seu
movimento essencialmente congregacionalista."a
As assembleias gerais conexionistas não devem ser confundidas
com uma organização denominacional permanente. Ao contrário, eram
encontros periódicos de crentes com objetivos comuns e não tinham
autoridade denorninacional alguma além de apresentar resoluções para
a análise dos crentes.
Portanto, os periódicos e os encontros gerais eram o que mantinha os
conexionistas unidos. Sob a liderança de Himes, esses dois elementos forma-
riam a única estrutura do adventismo milerita. Entretanto, diferentemente
da Conexão Cristã, os crentes mileritas permaneceram nas denominações
às quais pertenciam antes de passar a crer na proximidade do advento. Iss'o
significa que eles não tinham intenção de formar uma nova denominação.
E difícil superestimar a importância das assembleias gerais para a
expansão do milerismo. Essas reuniões colocavam os líderes em conta-
to uns com os outros, proviam fóruns para desenvolver estratégias e
coordenar os esforços do número de adventistas que crescia rapidamen-
te, além de criar oportunidades para o encorajamento e a inspiração
mútuos. Entre outubro de 1840 e junho de 1842, as assembleias gerais
foram :o centro da obra milerita.
A primeira "Assembleia Geral dos Cristãos qu(_Aguardam o
Advento do Senhor Jesus Cristo" ocorreu em Boston, em 14 e 15 de
outubro de 1840 Os organizadores fizeram o possível para assegurar,
tanto aos participantes quanto aos observadores, que não estavam
tentando organizar uma nova denominação religiosa.
• Josué V. Himes: O Organizador da Missão 1 79

• Às dez horas da primeira manhã de encontros, Himes leu as obser-


• vações iniciais. Ele destacou:

O objetivo desta reunião não será formar uma nova orga-


nização de fé em Cristo; nem criticar outros irmãos que di-
ferem de nós quanto ao período e à maneira do advento;
mas discutir todo o tema fiel e cuidadosamente, no exercício
daquele espírito de Cristo, no qual certamente o encontrare-
mos em breve no trono do juízo.

Ao fazê-lo, eles poderiam realizar muito para a rápida "propagação


do 'evangelho eterno do reino", preparando com eficácia o caminho do
Senhor "seja qual for o período preciso de sua vinda". 60
É importante notar que as próprias palavras de abertura da assem-
bleia indicam que a crença comum que os mantinha unidos naquele
estágio de seu desenvolvimento era que o advento estava próximo, em
lugar de um consenso sobre 1843, 1844 ou outra data.
Na verdade, nem o Dr. Henry Dana Ward (um clérigo episcopal
preeminente), nem Henry Jones (um pastor congregacional), res-
pectivamente, presidente e secretário da primeira assembleia geral,
aprovaram a conclusão de Miller sobre o tempo do advento.(Em ou-
tras palavras, eles não aceitavam 1843 ou qualquer outra data. Como
muitos outros, eles foram atraídos ao adventismo por causa da crença
na proximidade do retorno de Cristo antes do milênio.)
Entretanto, ao mesmo tempo que os organizadores da conferência
não esperavam unanimidade de opinião, eles observavam que seria
necessário encontrar um alto grau de harmonia, se quisessem alcançar
algo de valor. Os líderes, portanto, estabeleceram regras para os partici-
pantes "ativos". Ninguém poderia participar das discussões, "exceto se
confessasse sua fé na breve aproximação do nosso Senhor em seu reino".
' Além disso, ninguém podia participar na discussão "até que houvesse
sido apresentado à comissão organizadora e tivesse comunicado a parte
ou o ponto que estava preparado para discutir".
Uma longa experiência com tais conferências em outros movi-
mentos havia ensinado aos organizadores que o controle social era um
elemento crucial para o sucesso dos encontros. Sem essa supervisão,
os inimigos da causa poderiam facilmente tomar conta da agen-
da. Como Himes observou, "não queremos que uma turba fanática
e um grupo ignorante de pessoas consumam o tempo do debate.
80 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Portanto, algo tem que ser feito para prevenir isso — pois todos esses
elementos estarão lá". 6'
O presidente Ward pronunciou o primeiro discurso do encontro. Ele
lembrou que a ideia deles sobre "a breve vinda do nosso Senhor em seu
reino" não era urna doutrina nova. Em vez disso, "cristãos idôneos em
todas as eras a têm apreciado; foi a fé universal da igreja apostólica; e
é a doutrina evidente do Novo Testamento". Ela só parecia nova para
a maioria das pessoas por causa do distanciamento quase universal da
fé bíblica durante a grande apostasia. O foco da conferência, segundo
Ward, alinhado com a ênfase restauracionista da época, era "reavivar e
restaurar essa fé antiga, para renovar os marcos antigos".€ 2
Outros palestrantes principais da primeira assembleia geral foram
Henry Jones e Josias Litch)Miller foi agendado para falar, mas não
realizou esse desejo em virtude de ter sofrido um "ataque severo de
febre tifoide". Sua ausência foi um desapontamento para os quase 200
participantes e para o próprio Miller. Pela primeira vez, em quase uma
década de pregação, ele teria a oportunidade de encontrar reunidos os
lideres daquele movimento crescente."
Em 15 de outubro, Miller ditou algumas frases para os participantes
nas quais ele, em determinado momento, questionou a providência de
Deus. "Nunca receberei aquilo que eu quero?", perguntou ele. "Não,
nunca, até que minha vontade esteja em harmonia com a sua, Oh, Pai!"
Ele então continuou a contar as bênçãos e a confirmar sua fé. "Tenho
urna esperança", declarou ele, "sim, sim, 'uma esperança bendita', fun-
damentada na Palavra que nunca falha. A minha esperança está naquele
que virá em breve, e não tardará. Amo esse pensamento; está presente
no meu leito de doença; espero que permaneça até a morte. Espero
por ele." As apresentações de Miller sobre a "Cronologia da Profecia"
e o "Juízo" foram lidas para a assembleia por Himes. 64
Além de exercícios devocionais, palestras e discussões, a primeira
assembleia geral incluiu sessões administrativas. Algumas das ações mais
importantes foram o endosso da Signs of the Times, a recomendação
do periódico a todos os crentes, a escolha de uma junta de correspon-
dência encarregada de se comunicar com os crentes tanto da América
do Norte quanto do estrangeiro, e a designação de uma comissão para
supervisionar as publicações do movimento. Himes foi escolhido como
presidente dessa última comissão. 65
Um voto para convocar "outra assembleia geral tão rapidamente e
no momento" que se julgasse apropriado foi especialmente importante.
Josué V. Mimes: O Organizador da Missão 1 81

Ficou decidido também que Himes publicaria um relatório de quase


200 páginas sobre o evento, que posteriormente circulou de forma
ampla entre pastores, seminários teológicos, leigos preeminentes e até
mesmo missionários estrangeiros. Três mil cópias haviam sido publica-
das em 1 g- de novembro, e 10 mil exemplares do documento completo
foram distribuídos "em um curto período", além de inúmeras partes
do relatório que foram impressas e compartilhadas separadamente. 66
A primeira assembleia geral, ainda que tendo descartado qualquer
desejo de criar uma denominação independente, foi um passo gigan-
tesco rumo ao desenvolvimento do grupo identificável dos adventistas
na linha de frente da religião americana. Essa identidade distinta se
tornaria mais evidente nos quatro anos seguintes.
A segunda assembleia geral levaria os adventistas mileritas a mais
um passo em direção a uma identidade distinta. Ocorreu em Lowell,
Massachusetts, dr 15 a 17 de junho de 1 . 841 e teve um caráter missio-
lógico. "O mesmo amor incansáve "que ativou o ministério de Cristo,
dizia o anúncio da conferência, "irá inflamar nosso peito e nos impelir a
empregar todas as energias para resgatar homens, como lições do fogo,
no qual estão perecendo". Afinal, "que verdade é mais poderosa para
acordar o pecador sonolento que morre do que esta de que em breve
todos deveremos comparecer perante o trono do juízo de Cristo?" 67
A segunda assembleia estabeleceu um programa de nove itens para
um evangelismo agressivo, à medida que o adventismo milerita se
aproximava do ano do fim do mundo.
Foram os seguintes: (1) "consagração pessoal a Deus", (2) "diálogo
pessoal com outros sobre religião e, especialmente sobre a breve volta
do nosso Senhor", (3) "a formação de classes bíblicas para o estudo
dessa grande questão", (4) o estabelecimento de "encontros sociais para
oração e exortação" com crentes que demonstrem alguma afinidade,
(5) "a prática do questionamento dos pastores sobre o assunto" do ad-
vento, (6) a circulação de livros sobre o tema, (7) a permanência com
sua congregação anterior sempre que possível, (8) a paciência perante
o escárnio e a oposição, e (9) "o estabelecimento de Bibliotecas do
Segundo Advento" em quantas comunidades fosse possível."
Ao observar esses nove pontos, vemos que três ideias sobre o milerismo
começam a se formar. A primeira é que os mileritas estavam consciente-
mente se tornando mais agressivos na missão, tanto em suas comunida-
des quanto em suas congregações. Em segundo lugar, essa atitude estava
encontrando resistência a ponto de muitos serem tentados a deixar sua
82 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

denominação. Por último, a assembleia estava, de maneira sutil, encorajan-


do alguma forma de separatismo por meio da convocação de encontros
sociais de crentes do advento "para oração e exortação". Apesar de tudo, o
adventisrno milerita estava, de forma vagarosa, mas progressiva, tomando
a forma de um movimento religioso distinto.
O presidente da segunda assembleia geral foi D. I. Robinson.
_de seus assistentes era um_ ex-capitão de navio_p_or nome José Bates. 69
Mais uma vez, Miller estava muito adoentado para estar presente. Para
seu desespero, ele ficaria confinado a sua casa durante todo o verão.
Logo após a segunda reunião, Josias Litch foi contratado como
agente geral em tempo integral para coordenar a circulação de literatura
milerita e fazer palestras sobre o assunto. Esse foi outro passo que deu
solidez e estabilidade ao movimento2 0
A terceira assembleia geral ocorreu em outubro de 1841, em -
Portland, Maine. A partir daquele momento, os encontros passaram
a ser organizados com mais frequência. Miller não teve condições de
estar presente senão na quinta reunião. Para assegurar sua presença,
os líderes realizaram a quinta assembleia em sua comunidade, Low
Hampton, em novembro de 1841.
No total, mais de uma dúzia de assembleias :erais foram orga-
nizadas. O encontro realizado em Boston, em maio -de 184 , foi
especialmente importante. Essa conferência, so a presig ência de
José Bates, tomou três decisões que mudariam a própria natureza do
adventismo milerita. A primeira foi assumir solidamente 11843 corno o
ano do fim do mundo. Os lideres da conferência acreditavam que era
imperativo admitir uma posição firme a respeito da data "por causa
da ignorância da igreja sobre o assunto e da brevidade do tempo" que
tinham para trabalhar.
Em seguida, a assembleia decidiu realizar reuniões campais em
várias localidades, pois outros grupos religiosos as usavam de forma
bem-sucedida. Os delegados acreditavam que seriam "criminalmente
negligentes" se nãoNutilizassern reuniões campais para divulgar "o clamor
da meia-noite", a vinda do noivo em 1843.
Por último, foi muito importante a apresentação, feita por Carlos
Fitch e Apollos Hale, de um gráfico profético sobre 1843, que retratava
as profecias de Daniel e Apocalipse e demonstrava várias maneiras de
calcular o ano do fim corno 1843 (ver imagem na p. 169). Essas três
importantes decisões tomadas na assembleia de maio de 1842 serão
abordadas de forma mais completa nos capítulos 5 e 6.71
82 j ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

denominação. Por último, a assembleia estava, de maneira sutil, encorajan-


do alguma forma de separatismo por meio da convocação de encontros
sociais de crentes do advento "para oração e exortação". Apesar de tudo, o
adventismo milerita estava, de forma vagarosa, mas progressiva, tomando
a forma de um movimento religioso distinto.
O presidente da segunda assembleia geral foi D. I. Robinson.(Urn
_de seus assistentes era um e)___.capitão de navio _por
me no José Bates. 69)
Mais uma vez, Miller estava muito adoentado para estarpresente. Para
seu desespero, ele ficaria confinado a sua casa durante todo o verão.
Logo após a segunda reunião, Josias Litch foi contratado corno
agente geral em tempo integral para coordenar a circulação de literatura
milerita e fazer palestras sobre o assunto. Esse foi outro passo que deu
solidez e estabilidade ao movimento:c'
A terceira assembleia geral ocorreu em outubro de 1841, em
Portland, Maine. A partir daquele momento, os encontros passaram
a ser organizados com mais frequência. Miller não teve condições de
estar presente senão na quinta reunião. Para assegurar sua presença,
os líderes realizaram a quinta assembleia em sua comunidade, Low
Hampton, em novembro de 1841.
No total, mais de uma dúzia de assembleias :erais foram orga-
nizadas. O encontro realizado em Boston, em maio de 184 , foi
especialmente importante. Essa conferência, soe a presi ência de
José Bates, tomou três decisões que mudariam a própria natureza do
adventismo rnilerita. A primeira foi assumir solidamente 1843 como o
ano do fim do mundo. Os líderes da conferência acreditavam que era
imperativo admitir uma posição firme a respeito da data "por causa
da ignorância da igreja sobre o assunto e da brevidade do tempo" que
tinham para trabalhar.
• Em seguida, a assembleia decidiu realizar reuniões campais em
várias localidades, pois outros grupos religiosos as usavam de forma
bem-sucedida. Os delegados acreditavam que seriam "criminalmente
negligentes" se não,utilizassem reuniões campais para divulgar "o clamor
da meia-noite", a vinda do noivo em 1843.
Por último, foi muito importante a apresentação, feita por Carlos
Fitch e Apollos Hale, de um gráfico profético sobre 1843, que retratava
as profecias de Daniel e Apocalipse e demonstrava várias maneiras de
calcular o ano do fim como 1843 (ver imagem na p. 169). Essas três
importantes decisões tomadas na assembleia de maio de 1842 serão
abordadas de forma mais completa nos capítulos 5 e 6.71
Josué V. Hirnes: O Organizador da Missão 1 83

i.., Além das assembleias gerais, os adventistas mileritas realizaram


cerca de 120 conferências locais. Essas reuniões parecem ter sido me-
aos orientadas à tomada de decisões administrativas e mais voltadas
sara questões evangelisticas, embora a maioria dos estudiosos desse
~to tenha observado uma mistura entre assembleia e conferência.
0 biógrafo de Himes concluiu que "a designação final" entre as duas
.aandalidades de reuniões "usualmente recaía sobre Himes e a Signs of the
limes, e não é totalmente irreverente sugerir que ele frequentemente
jedgava essa designação por sua própria presença ou a falta dela1" 72
,5 Essa última observação insinua que Himes tendia a se ver como
o centro do universo milerita. Enquanto essa característica •é quase
universal entre os seres humanos, em( essoas
). de grande talento, como
filmes, frequentemente é ampliada. evido a sua personalidade co-
%Ética, o líder achava muito fácil tentar controlar tudo ao seu redor,
incluindo Miller.)
Além disso, ele era severo com seus oponentes e, como seu biógrafo
, observa, desfrutava de amplo poder e influência os quais ele não dese-
java que fossem diminuídos. Apesar de as partes ruins do seu caráter
parecerem ser grandemente superadas pelas boas, Himes ainda recebeu
sua porção de crítica — muitas delas, injustas2 3

Hirnes sob Critica


Parte das críticas sobre Josué Himes se centralizavam no fato de
ele ter feito "do idoso Miller uma ferramenta" para seu próprio bem.
'Josué", acusou o Trumpet, dos universalistas, "tem muita necessidade
de conseguir novos conversos; e ele tem esperanças de obter uma boa
fornada do forno de Miner. Tememos que alguns deles não estarão mais
do que semicozidos." 74
Naturalmente, era de se esperar que aqueles que não haviam visto
luz na interpretação de Miller quanto às profecias bíblicas não fossem
capazes de creditar ao seu principal representante muito senso comum
muito menos integridade. Por isso, o Olive Brunch, metodista, chegou
a afirmar que "o pastor Himes é um homem com uma mente em uma
cAsca de noz, extremamente fraco em todos os pontos de vista [...].
Para um homem são, ele precisa ser alvo de pena. Ele é gordo como
um vereador e vive como um príncipe"?'
A última frase nos conduz à mais frequente das alegações feitas
contra Himes e seus colegas de liderança — a de que exploravam finan-
84 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

ceiramente os seguidores mileritas. Ou, como o Ohm Branch escreveu,


de fazer o papel de "vampiros" que sugavam o "sangue daqueles que
eram ludibriados"."
A liderança de Himes no comando das publicações mileritas o
deixou especialmente vulnerável à acusação de se enriquecer à custa
do povo. Esse assunto é bem ilustrado por um pôster, de cerca de
70 centímetros por um metro, intitulado: "A GRANDE ASCENSÃO DO
TABERNÁCULO MILLER" (ver imagem na p. 170).
A parte superior da charge representava o Boston Tabernacle, de
Himes, ascendendo ao Céu. Miller era retratado no telhado, sentado em
um gráfico profético. Muitos mileritas estavam se segurando, enquanto
outros estavam caindo.
A parte inferior ilustrava as multidões de Boston olhando para cima,
surpresas .e iradas. Enquanto isso, Himes ficava para trás, em pé sobre a
fundação do tabernáculo, sobre o qual estavam escritos os nomes dos
principais periódicos mileritas. Ele estava cercado de sacos de dinheiro e
a parte de trás de seu paletó era puxada por um demônio ,com rabo em
formato de tridente, que dizia: "Josué V., você tem1 que ficar comigo." 77
Himes, como era de se esperar, também recebeu sua porção de
ameaças de morte. Uma, em 1842, dizia: "Sr. Himes, sua vida pode ser
tomada de maneira repentina e inesperada; portanto, eu o aconselharia,
se valoriza seus interesses e os membros de sua família, a sair imedia-
tamente desta cidade."'"
Como Himes respondeu a essas acusações? Geralmente ele per-
manecia envolvido com o trabalho e não gastava muita energia para
se defender. Outras vezes publicava as acusações contra ele, Miller ou
outros adventistas. Por isso, em setembro de 1842, ele iniciou a "Coluna
do Mentiroso", na Signs. Ao introduzir a nova seção, ele escreveu:

• O espirito da mentira é tão prevalecente, especialmente entre


• muitos dos líderes da imprensa, que a partir de agora dedicare-
mos uma porção da nossa folha para registrar os atos dos opo-
nentes que não têm argumentos contra a verdade, a não ser
mentir e ridicularizar Publicaremos a vergonha deles em suas
próprias palavras, em geral, sem anotações ou comentários?

Houve ocasiões em que Himes preparou uma defesa contra as


acusações injustas. Antes da inauguração da "Coluna do Mentiroso",
a Signs algumas vezes publicava uma seção intitulada "Refúgio dos
Josué V. Himes: O Organizador da Missão 1 85

Escarnecedores". Esses escarnecedores eram vistos como um sinal dos


últimos dias. 8°
Parece não haver evidência de que Himes tenha se beneficiado
financeiramente de sua atuação na obra de publicações ou no desem-
penho de sua liderança.LA acusação séria mais válida contra ele, antes
de 1845, é que, às vezes, ele tendia a ser dominador.)
Essa dominação, no entanto, provavelmente foi um ingrediente
essencial na promoção bem-sucedida que fez do adventismo milerita.
Era necessário que houvesse uma personalidade enérgica para intro-
duzir uma doutrina impopular na percepção de um mundo que não
a desejava.
Himes era o homem para essa tarefa. Ele assumiu a visão do fim do
mundo, tinha uma convicção firme de seu lugar na história profética e
essa compreensão o motivava a colocar seus consideráveis talentos em
prol de Miller e sua causa. Sob sua liderança, o milerismo foi transfor-
mado a partir da atividade de um único homem em um movimento
religioso nacional, e até mesmo internacional.
Himes não trabalhou sozinho. A seguir vamos abordar alguns de
seus associados.
Mais Missionários
do Milênio
palavra impressa tem vida em si mesma. Assim foi após a pu-

A blicação, em 1836, das palestras de Miller. No inicio de 1838,


uma cópia desse material foi parar nas mãos do editor do Times
de Boston, e outra foi entregue a um ministro metodista de 28 anos.
O dono do livro pediu que o pastor Josias Litch o lesse e fizesse uma
avaliação daquelas ideias.

Josias Litch . e Une à Missão Adventista


Litch recebeu o pedido com uma grande dose de ceticismo. Afinal,
a ideia de tentar delimitar o tempo da segunda vinda de Cristo "era
tão estranha para ele, que era difícil aceitar até a sugestão de dar uma
olhada no livro". Ele não tinha dúvida de que "poderia destruir toda
essa teoria em cinco minutos":
Por isso, para satisfazer sua curiosidade a respeito de quais argu-
mentos podiam possivelmente ser usados para apoiar uma doutrina tão
nova, Litch leu o livro. Mas, para sua surpresa, o preconceito começou
a se desfazer enquanto lia. "O grande argumento contra a vinda do
Mais Missionários do Milênio 1 87

Senhor, que tinha parecido tão forte e invulnerável, logo se dissipou."


Antes de concluir a leitura do volume, Litch escreveu: "Fiquei total-
mente convencido de que os argumentos são muito claros, simples e
bíblicos; e, para mim, foi impossível desaprovar a posição que o Sr.
Miller se propôs a estabelecer."
Naquele momento, Litch enfrentou a mesma crise que Miller havia
enfrentado diante do que considerava ser evidência indiscutível de
que Cristo viria em poucos anos. "Se essa doutrina for verdadeira",
sua consciência questionava, "você, como ministro do evangelho, não
teria que proclamá-la?"
"Se é verdade que o Senhor está voltando em tão pouco tempo",
concluiu Litch, "o mundo deveria saber disso [•••]. É meu dever tornar
o assunto conhecido dentro do que está ao meu alcance." Ele então
resolveu que, sem se importar sobre qual seria o custo para sua repu-
tação, apresentaria a verdade quanto à segunda vinda.
Assim que se comprometeu com o milerismo, Litch começou a
praticar sua decisão por meio da pregação e da imprensa. Sua primei-
ra contribuição publicada foi uma sinopse de 48 páginas acerca das
ideias de Miller, intitulada The Midnight Cry, or Review of Mr: Miller's
Lectures on the Second Coming of Christ, about A.D. 1843 ["0 clamor da
meia-noite, ou uma revisão das palestras do Sr. Miller sobre a segunda
vinda de Cristo, por volta do ano de 18431
O panfleto teve ampla circulação e "despertou um grande interesse
em muitas mentes". Naquele momento (início de 1838), Litch obser-
vou: "Até onde se saiba, não há outro pastor na Nova Inglaterra que
defenda essas ideias, exceto o irmão Carlos itc ." 2 É possível deduzir
que a conversão de Litch ao milerismo provavelmente tenha ocorrido
antes da publicação do Evidence from Scripture and History, de autoria
de Miller, no Times de Boston, e até mesmo antes da conversão de
Cole e Himes.
Em abril de 1838, Litch começou a escrever um livro sobre o mile-
rismo. No entanto, diferentemente de seu primeiro panfleto, esse livro
apresentava suas «ideias em vez de resumir as de Miller. A publicação
de The Probability of the Second Coming of Christ about A.D. 1843 ["A
probabilidade da segunda vinda de Cristo por volta do ano de 18431,
um livro de 204 páginas, foi feita em junho. Assim, quando Miller e
Litch se encontraram pela primeira vez em Lowell, na igreja de Timothy
Cole, em 1839, Litch já havia aceitado as ideias mileritas mais do que
qualquer outro converso de Miller até aquele momento.3
88 I ADVENTISMO --- Origem e Impacto do Movimento Milerita

Diferentemente de muitos outros conversos iniciais de Miller, Litch


concordou com ele sobre a data de 1843 desde o começo. Portanto, ele
pôde escrever, no inicio de 1838, que "apesar de as ideias do Sr. M. não
serem corretas em todos os detalhes, em relação aos cálculos de tempo,
o escritor só pode considerar seu argumento irrefutável."
Antes mesmo de ler o livro de Miller pela primeira vez, Litch havia
demonstrado interesse nas profecias de tempo de Daniel e de João. Na
verdade, foi baseado em outra interpretação da profecia dos 1.260 dias/
anos que ele acreditava ser possível provar que Miller estava errado. 5
Esse interesse por profecias envolvendo tempo se mostra evidente
em seu livro Probability of me Second Coming of Christ. Nesse volume
Litch descreve, pela primeira vez, sua interpretação da sexta trombe-
ta do Apocalipse como o colapso da supremacia otomana em agosto
de 1840, uma data que foi definida posteriormente como sendo 11 de
agosto. O cumprimento exato dessa profecia interpretada por Litch
e outros líderes mileritas os encorajou muito na pregação do breve
advento de Cristo. 6
Contudo, apesar da análise precisa do cumprimento da profecia em
11 de agosto, Litch apresentou certa flexibilidade em sua interpretação,
caso ela não se cumprisse exatamente como ele e outros esperavam.
Ao responder a uma pergunta sobre a hipótese de sua fé na Bíblia ser
destruída "caso o evento não acontecesse", Litch disse que o conceito
básico da estrutura profética das Escrituras havia se cumprido. Ele
acrescentou que não poderia duvidar de que as profecias tivessem um
significado, "e de que foram escritas pelo infalível Espírito do Santíssimo
e, no tempo certo, se cumprirão"?
Essa incerteza, acompanhada de modéstia, nas afirmações relaciona-
das com o cumprimento exato das datas foi compartilhada por muitos
dos primeiros líderes mileritas até depois do verão de 1844, atitude
que ajudou a diminuir os efeitos do desapontamento, ocorrido entre
março de 1843 e abril de 1844.
Litch não somente sentia uma profunda responsabilidade pela
salvação das almas ao ver se aproximar o fim do mundo, como tam-
bém continuava escrevendo, sendo "uma das penas mais ativas do
movimento". Ele contribuiu muito para definir e ampliar a estrutura
interpretativa de Miller. Um estudioso chamou Litch de "o principal
teólogo" do movimento milerita. Certamente, Josias Litch deve ser
visto como a terceira personalidade mais importante do milerisrno,
após Miller e Hirnes.8
Mais Missionários do Milênio 1 89

Em maio de 1840, Litch escreveu "An Address to the Clergy"


["Uma mensagem para o clero"], na qual apelou aos colegas pastores
que examinassem as evidências da vinda de Cristo antes do milênio,
entre "a queda do império otomano, que provavelmente acontecerá
neste ano, e o término de 1843". 9
Entretanto, sua pregação e seus escritos feitos em tons agressivos
causaram conflitos com a hierarquia metodista. O momento crucial
ocorreu entre a primavera e o verão de 1841. Durante a primavera,
Litch começou a questionar a si mesmo se ele poderia sustentar sua
crença no segundo advento e manter a relação eclesiástica com a Igreja
Metodista. Do lado da continuação de seu ministério metodista esta-
vam o bem-estar de sua "amada família" e os fortes laços que cultivava
com os parceiros ministeriais. Esses argumentos "eram debatidos em
sua mente como sendo uma barreira insuperável no caminho de sua
dedicação exclusiva à obra de proclamação da vinda do Senhor".
Do outro lado estavam sua "firme convicção de que a doutrina
era verdadeira e era um momento importante para o qual a igreja e
•o mundo precisavam ser despertados". Essas considerações, afirmou
Litch, "o pressionaram até o vencerem", e ele concluiu que deveria "se
ap(iar na providência de Deus e seguir adiante".
• Um grande problema, contudo, era que nenhum pastor milerita
obtinha seu sustento da pregação do breve advento)Como Litch
explicou, "era um caminho difícil; nenhum ministro do evangelho
havia se dedicado exclusivamente à causa, exceto o Sr. Miner.". Além
disso, Miller, como vimos anteriormente, não dependia da pregação
para seu sustento. 1 °
A questão veio à tona em 9 de junho de 1841, no encontro da
Associação da Igreja Metodista Episcopal de Providence, em Rhode
Island, a sede regional que empregava Litch. Tendo decidido pregar
suas crenças, ele tomou a dianteira durante as reuniões pregando vários
sermões sobre o advento, em uma capela próxima, da Conexão Cristã.
Vários pastores da associação estiveram presentes em cada palestra e
Litch notou um interesse crescente entre eles.
Essa atitude determinada o levou a ser publicamente questionado,
por um período de 35 a 40 minutos, pelo bispo, a respeito da doutrina
de Miller. O superior perguntou francamente a Litch se ele estava
convicto de que suas crenças combinavam com o "metodismo". "Sim",
respondeu ele. 'Ao menos não são contrárias aos artigos de fé da Igreja
Metodista Episcopal."
90 f ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

A associação concluiu que as crenças de Litch em nada contrariavam


o metodismo, apesar de o ministro ir além da crença denominacional
"em alguns pontos". Naquele momento, Litch pediu que fosse liberado
de suas responsabilidades para que pudesse dedicar "todo seu tempo à
disseminação desse assunto importante.' '
Menos de uma semana após desistir de seu ministério metodista,
Litch frequentou a segunda assembleia geral dos que aguardavam o
advento, entre 15 e 17 de junho. Aquele encontro, conforme observa-
mos no capitulo 4, adotou a estratégia de nove itens para promover
a mensagem do advento. Grande parte daquele plano se relacionava
com a distribuição de literatura. 0
Então, em 15 de julho, a comissão de publicações recém-escolhida
indicou Litch formalmente como "agente geral" do movimento. Na
tentativa de dar segurança ao líder em relação a suas preocupações com
o bem-estar de sua família, ficou decidido que a comissão dependeria
"dos amigos da causa para suprir as necessidades de seu agente" onde
quer que ele trabalhasse. Assim,tLitch se tornou o primeiro pastor re-
munerado de tempo integral do movimento mileritaiSeu trabalho seria
apresentar palestras e aprimorar a circulação da literatura adventista."
Logo após a segunda assembleia geral milerita, Litch assumiu inteira-
mente sua nova função. Na semana do dia 23 de junho, ele trabalhou com
os ministros da Associação da Igreja Metodista de New Hampshire durante
oencontro anual deles, em Dover. Por intermédio da "bondade dos amigos",
Litch teve permissão para usar o auditório da igreja Dover Freewill Baptist
por três noites, e conseguiu o salão dos batistas calvinistas por mais duas.
Nessa ocasião, ele atraiu vários metodistas que estavam no en-
contro anual da denominação. Pouco tempo depois, ele ampliou seu
ministério com os pastores metodistas, organizando encontros em
Worcester, Massachusetts, durante as reuniões anuais da Associação
da Nova Inglaterra. Litch distribuiu literatura aos ministros, criando
um interesse sincero no segundo advento, tanto nos encontros de New
Hampshire quanto da Nova Inglaterra. 14
No entanto, foi na Associação do Maine, em julho, que Litch causou
o maior impacto e criou grande agitação entre os ministros metodistas.
No Maine, seus amigos foram audaciosos o suficiente para solicitar,
junto à comissão organizadora do encontro anual, um tempo para que
Litch ocupasse o púlpito oficial da reunião. A comissão não aceitou o
pedido, mas isso não os impediu de tentar conseguir uma audiência
oficial para o milerita.
Mais Missionários do Milênio 1 91

Os amigos de Litch levaram a solicitação à sessão plenária, em que


uma longa e acalorada discussão se seguiu. "O efeito", escreveu Litch,
"foi como um tição de fogo em um depósito de pólvora." Tanto amigos
quanto inimigos da causa foram publicamente para a frente da batalha,
e a dissensão "provavelmente despertou mais interesse do que pudesse
ter sido gerado por meia dúzia de palestras". A petição foi finalmente
rejeitada por 31 votos contra 30.
Àquela altura, o pastor batista local prontamente permitiu que Litch
usasse seu púlpito. Nesse ponto, a discussão acalorada "despertou inte-
resse nos pregadores para ouvir sobre a grande questão". Litch estimou
que dois terços dos ministros da reunião metodista frequentaram suas
reuniões e que muitos ficaram impressionados quanto a sua doutrina.
Na verdade, ele cria que havia mais interesse entre os pastores meto-
distas do Maine do que em qualquer outra parte dos estados da Nova
Inglaterra. 16 Nessa estimativa ele estava correto. Em capítulos futuros,
veremos novamente os problemas que a atração ao milerismo causou
para a Associação Metodista do Maine.
À luz da obra dinâmica de Litch com os pastores metodistas, a
afirmação anterior de Himes de que era "um homem forte em Israel"
parece ser justificada. Litch continuaria assumindo uma responsabili-
dade especial pelos membros e pastores metodistas. 16
No final de 1842 e início 1843, ele centralizou seu trabalho na
Filadélfia, no "primeiro esforço para apresentar a mensagem ao sul
de Nova York". Sob sua liderança, um grupo de crentes foi formado
e uma loja de livros foi aberta para facilitar a circulação de literatura
rnilerita. Um pequeno jornal — o Philadelphia Alarm ["O Alarme da
Filadélfia"] — foi iniciado, tendo Litch como editor. Ele permaneceu
na Filadélfia como líder regional do movimento»

As Campais Mileritas
Litch desempenhou importante papel nas reuniões campais mi-
lentas. Durante as quatro décadas anteriores, esses encontros foram
usados pelos metodistas, entre outros grupos, com enorme sucesso. 18
As iniciativas para as primeiras reuniões campais mileritas ocorreram
na assembleia geral de Boston, em maio de 1842.
Àquela altura, o ano de 1843 estava se aproximando perigosamente,
e a maior parte do mundo ainda não havia sido advertida. L. C. Collins
expressou a fé encontrada em muitos ao escrever:
92 j ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

A minha fé .é forte na volta de Cristo em 43. Não faço planos


para nada além, vejo apenas a glória [...]. Mas, com tão pou-
co tempo para despertar as virgens sonolentas e salvar almas,
temos que trabalhar; trabalhar noite e dia. Deus nos enviou a
sair apressadamente para apresentar o último convite; deve-
mos trabalhar com determinação e compeli-los a entrar, para
•• que a casa fique cheia. [...]. Homens fortes em Israel estão se
• organizando para nos ajudar. O clamor da meia-noite ainda
precisa ser• dado e deve soar através• de cada vale e sobre
• cada montanha e planície. Um estremecer terrível ainda há
de envolver os pecadores de Sião. Urna crise virá, antes que
a porta da misericórdia seja fechada para sempre. Eles preci-
sam sentir que é agora ou nunca."

Esse senso de crise e responsabilidade repousava pesadamente so-


bre os mileritas em meados de 1842. Um dia depois de Collins haver
escrito essa carta, teve início a assembleia geral de Boston, dirigida por
José Bates. Essa reunião não somente deliberou organizar as campais,
como também indicou uma comissão para supervisioná-las. O "assunto
principal" desses encontros era "despertar pecadores e purificar cristãos
por meio do clamor da meia-noite, isto é, apresentando-lhes a vinda
imediata de Cristo". 2°
Alguns mileritas achavam que a própria ação de organizar essas reu-
niões já seria um pouco presunçosa. Afinal, uma campal é um grande
empreendimento. "Como", sugeriram alguns, "um grupinho de adventistas
poderá realizar uma campal? Se eles mal conseguem promover um encon-
tro em uma casa, quanto mais uma campal!" Litch observou, porém, que
"havia fé e zelo suficientes na reunião [de Boston] para dizer 'TENTEM' ." 21
A primeira campal planejada pela comissão oficial foi realizada em
East Kingston, New Hampshire, de 28 de junho a 5 de julho. 22 Enquan-
to isso, Litch havia começado uma série de reuniões em Stanstead, no
leste do Canadá, no início de junho. Essas reuniões de reavivamento
tiveram resultados inesperados e o conduziram em direções nunca
antes imaginadas.
Litch relatou que "a região, em um raio de 50 a 70 quilômetros,
despertou para o assunto da vinda do Senhor", e "imensas multidões se
formaram". Como resultado, ele determinou lá mesmo a realização de
uma campal no Canadá para dar prosseguimento a essas reuniões e àque-
las que estavam ocorrendo do outro lado da fronteira, em Vermont.
Mais Missionários do Milênio 1 93

Portanto, de 21 a 28 de junho, a primeira campal do advento foi


realizada, não em East Kingston, como planejado, mas no Canadá. Era
, notável a empolgação de Litch ao descrever as reuniões: "Uma multi-
dão de pessoas vinha até nós, dia após dia, em nossa arena, no círculo
central das barracas, a qual ficava repleta de pessoas que perguntavam
ansiosamente: 'Atalaia, e a noite?' Ao que respondíamos: 'A manhã
vem e também a noite'." As últimas três horas foram dedicadas a uma
reunião de testemunhos. No último momento do encontro cantamos
o hino "Quando Virás, Meu Integro Juiz." 24
Ouvindo a respeito do êxito da campal, os moradores de Bolton
(no Canadá) também solicitaram um encontro. Portanto, na semana
seguinte a essa primeira experiência, Litch realizou uma segunda cam-
pal, que terminou em 3 de julho. "Durante aquele mês de trabalho'',
ele recordou, "na pior das estimativas, de 500 a 600 almas foram con-
vertidas a Deus."25 As campais canadenses foram um sucesso.
Enquanto isso, a campal de East Kingston havia começado em 29
de junho. O Post de Boston noticiou que entre sete e dez mil pessoas
compareceram e que as reuniões foram bem organizadas. De 12 a 15
pregadores fizeram suas exposições, e Miller apresentou uma sequên-
da de palestras. Algumas pessoas, o Post sugeriu, compareceram por
curiosidade, mas a maior parte delas, como ficou evidente por "sua
aparência solene e atenção irrestrita ao assunto, estava evidentemente
enlevada por motivos mais nobres e mais importantes". 26
A única crítica às reuniões, apontada pelo Post, foi que alguns se
sentiram desmotivados pelo fato de não haver tempo para que os opo-
nentes ao milerismo pudessem apresentar suas ideias. Essa restrição, no
entanto, foi um elemento fundamental no planejamento do evento. Ao
anunciar a convocação, a comissão da campal deixou claro que não era
seu propósito alimentar qualquer tipo de controvérsia. Portanto, eles
adiantaram que "ninguém participaria falando em público, exceto aqueles
que criam na breve segunda vinda de Cristo".(Os mileritas não tinham
dúvidas sobre o propósito das campais. Eram cruzadas evangelísticas, e
não clubes de debate.")
A edição da Signs a respeito das reuniões de East Kingston era
essencialmente igual à do Post, exceto pelo fato de a Signs estimar a
presença de 10 a 15 mil pessoas. Além disso, a publicação indicou que
os participantes representavam quase todas as denominações e credos, e
que eram de todos os estados da Nova Inglaterra, bem como do Canadá
e da "Velha Inglaterra".
94 1 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

A Signs também fez um relato sobre as várias decisões tomadas na


campal. Destacou a proximidade do fim e a responsabilidade dos cris-
tãos em advertir o mundo com toda urgência possível. Uma resolução
sugeriu que fossem realizadas mais campais, pois a experiência de
East Kingston os havia convencido de que essas convocações haviam
se tornado "o meio mais eficiente para espalhar a verdade sobre esse
assunto" e ajudavam a "preparar para a vinda do Senhor aqueles que
aceitam a mensagem". 28
Dois outros resultados da campal de East Kingston devem ser no-
tados. Primeiro, ao menos dois participantes dessa reunião assumi-
riam funções centrais no desenvolvimento subsequente do movimento.
S. S. Snow que mais tarde lideraria a aceitação da data de 22 de outubro
de 44 para a segunda vinda, se consagrou à dedicação inte ral da
proclamação da mensagem milerita naquela campal. Além deleÇpbtt
Winter que posteriormente se empenharia em proclamar o rnilerismo
naEM-Bretanha, foi convertido nesse encontro!'
• - tundo resultado importante foi a proposta para a construção
da "grande tenda" e a bem-sucedida campanha de arrecadação de
funil os para paga-la. Com capacidade para 4 mil pessoas, segundo os
relatos, era a maior tenda dos Estados Unidos até aquele momento.
Originalmente, o mastro central tinha cerca de 18 metros de altura; e o
pavilhão, um diâmetro de 40 metros. Uma faixa com os dizeres "Venha
o teu Reino" ficava presa ao mastro central. Foi necessário contratar
uma empresa especializada em fabricar tendas, a qual disponibilizou
quatro homens para mover e armar o grande pavilhão, e também para
cuidar dele?'
A tenda apresentava diversas vantagens. Em primeiro lugar, ela era
um auditório pronto para ser usado nas localidades em que não havia
disponibilidade de salões adequados para as reuniões. Além disso, pro-
via lugares apropriados onde os mileritas haviam sido impedidos de
usar os prédios existentes por causa das tensões crescentes, à medida
que o ano do fim se aproximava.
Em segundo lugar, a tenda aumentava a temporada para a realização
de grandes encontros, pois podia ser armada mesmo nas ocasiões em
que o clima não favorecia as reuniões ao ar livre.
Terceiro, era um chamariz; muitas pessoas que iam aos encon-
tros meramente para ver a tenda permaneciam para ouvir a pregação.
Himes, que dirigiu a construção dela, não deixou de explorar o valor
desse recurso para as relações públicas. Como grandes multidões eram
Mais Missionários do Milênio 1 95

t rdas para o enorme pavilhão, logo ele foi ampliado para acomodar
tximadamente 6 mil pessoas sentadas»
Ao se aproximar o ano do fim, a urgência crescente da proclamação
mensagem milerita tornou-se evidente pela frequência com que a
- rá de tenda era levada de lugar em lugar. Apesar das condições ru-
ilentares de transporte, ela foi transportada oito vezes, entre 27 de
lio e 3 de novembro de 1842.
k A despeito de as campais iniciais dos mileritas terem seus "ruídos",
;oremo gritos de "glória" e outras exclamações espirituais, elas eram
tern coordenadas, de acordo com os padrões da época. Na verdade,
a relativa organização foi um dos aspectos mais notados no encontro
a East Kingston. Naturalmente, não é surpresa que a Signs tenha
rafamado: "Em termos de ordem, este encontro não tem comparação."
tmais significativo, no entanto, que o Post, de Boston, tenha declarado
que "o encontro foi conduzido com grande regularidade e boa ordem,
do começo ao fim". Impressões similares foram expressas pelo Daily
Mai! e o Christian Herald.32
Em um sentido semelhante, o Herald, de Nova York, afirmou sobre
as reuniões de Newark, New Jersey, em novembro de 1842: 'Aqueles
qae pensam que uma dessas reuniões mileritas se parecem com uma
campal metodista estão completamente equivocados; há muito mais
ordem, decoro e debates nesses encontros de Miller.""
A chave para a compreensão da ordem e do decoro mantidos nas
~iões mileritas é mencionada na observação do Herald, de que os
encontros eram caracterizados por "debates". Como já observado anterior-
mente, a abordagem de Miller à religião visava ao intelecto, em vez de as
emoções. Vindo de uma experiência deísta, ele posicionava o racionalismo
no centro de sua abordagem pessoal da religião, e isso era igualmente
importante para aqueles convencidos por sua argumentação bíblica.
O fato de o racionalismo ser uma das características preferidas de
Miller não significava que o emocionalismo e o fa atismo 'amais te-
nham sido notados em campais mileritas. O caso de John Starkweather
e o predomínio de outros adeptos do emocionalismo certamente afetou
as campais mileritas entre 1843 e o verão de 1844. Esse assunto será
tratado mais detalhadamente no capítulo 9.
Enquanto isso, os adventistas mileritas davam passos vigorosos para
manter a ordem em suas campais. Um deles foi a publicação de uma
ista de regulamentos estipulando a rotina diária tanto para o acampa-
mento quanto para os participantes»
96 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

• Outra maneira de manter a ordem nas campais era a contratação


de guardas de segurança. A figura mais curiosa dentre aqueles guar-
das era iram unger, m homem forte que tinha 1,98m de altura.
Munger, u metodista, estava trabalhando no circuito de campais de
sua denominação quando Himes lhe ofereceu 25 dólares para que
seus serviços e equipamentos fossem usados em uma reunião milerita.
Não tendo se impressionado anteriormente ao ouvir Miller, Munger
"sentiu repulsa e vontade de rejeitar" a oferta de Himes. Contudo, ele
decidiu aceitar, pois não podia agir como "o cachorro na manjedoura'
e repelir os mileritas"."
Ele se arrependeu posteriormente de ter oferecido até mesmo uma
cooperação mínima. Entretanto, quando a grande tenda chegou, ele
ficou tão impressionado com o tamanho dela que sua relutância desa-
pareceu por algum tempo.
"A reunião", escreveu ele, "foi tão diferente das outras que sequer
me chamava a menor atenção, exceto pelos 25 dólares; e não esperava
que eles fossem muito longe." Quando Himes fez um apelo, Munger
pensou que ele teria poucos resultados, uma vez que os metodistas
haviam realizado um encontro muito bem-sucedido no mesmo local.
Mas, para o assombro de Munger, "houve uma avalanche se deslocando
em direção ao púlpito, em busca de orações", como ele nunca havia
visto antes. "Isso me deixou de boca aberta por um tempo. Fiquei tão
surpreso em ver aquelas pessoas indo à frente que não consegui falar
nada, por algum tempo. Verdadeiramente, pensei, Deus estava neste
lugar e eu não sabia.""
Apesar de Munger não se converter na campal de Chickopee, ele
logo trabalhou em um segundo encontro aclventista. Nesse encontro,
ele escreveu:

Tive mais tempo [...] para examinar sua doutrina, e fiquei


surpreso, quando li a Bíblia por mim mesmo, sem a ajuda de
um comentário externo. Fui convencido de que eles tinham
a verdadeS sobre a natureza dos eventos, sem mencionar o
tempo e muitas outras coisas que aprendi que nunca soubera
que estavam na Bíblia. Era um novo livro, e tinha algumas
promessas que eu nunca imaginara que eram para nós."

Após sua conversão ao milerismo, Munger trabalhou regularmente no


circuito de campais do movimento. Muitas foram suas experiências como
Mais Missionários do Milênio 1 97

diretor de segurança. Quando, por exemplo, dois "cainitas" (como eram


chamados os arruaceiros) tentaram atrapalhar uma reunião, Munger
os informou, brincando com a ênfase milerita, de que aquela "era uma
'reunião sobre o tempo', e de que estava na hora de eles irem andando";
assim, ele "lhes daria um minuto para sair"?
Em outra ocasião, três arruaceiros apareceram numa campal "com
o propósito de lutar" com ele. Munger desafiou um deles para uma
luta livre. Entraram na mata, ele lembra, "já que havia me proposto a
dar uma lição naquele rapaz". Após ele gritar 'já chega' várias vezes",
continuou Munger, "mantive ele se mexendo até que chegasse à con-
clusão de que tinha sido melhor do que se tivéssemos lutado, como ele
propôs inicialmente". Com dó do homem, Munger o levou para sua
barraca a fim de que ele se recuperasse. Na manhã seguinte, o homem
lhe relatou "que não tinha um osso no lugar". 38
Em uma terceira ocasião, uns 17 "cainitas" chegaram e começaram a
• rasgar as barracas e a cantar músicas obscenas. Munger havia preparado
uma armadilha. Quando a carroça deles fez uma breve pausa, durante a
• fuga, Munger subiu nela e "começou a arremessá-los ao chão, por cima das
laterais" enquanto os outros guardas adventistas os prendiam com cordas.
Um dos bagunceiros apontou uma faca para Munger, que, ao ser advertido,
o agarrou "pelo colarinho e pelos fundilhos das calças" e o "jogou para fora
tão rápido que ele só teve tempo de dizer Ai, não', antes que, com faca e
tudo, após uma jornada aérea de uns seis metros, se estatelasse no chão".
Após manter seus prisioneiros por algumas horas, Munger falou
que os deixaria ir embora se lhe dessem os nomes e confessassem a
própria insensatez deles. Soltando-os, ele conduziu um momento de
oração. A maioria confessou, e o homem que o ameaçou com a faca
implorou-lhe "que não acionasse a justiça". Após alguma discussão,
Munger relata, "eles foram embora, dóceis como carneiros [...]. Não
tivemos mais confusão com aquelas pessoas"»
A combinação de pregação racional (em vez de emocional), regras
rigorosas e "valentões dedica os", como Munger, ajudou os mileritas a
manter a ordem nas campais4No total, os adventistas realizaram pelo
, menos 125 campais entre junho de 1842 e outubro de 1844, com
frequência estimada de, aproximadamente, meio milhão de pessoas 40)
Portanto, à medida que o milerismo se aproximava do ano de
4 1843, descobriu-se que as campais eram uma das máquinas mais
poderosas para o evangelismo, enquanto o tempo colocava cada vez
mais pressão para advertir o mundo.
98 I ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

O Zeloso Carlos Fitch


Carlos Fitch foi o quarto pregador milerita mais influente e mais
conhecido. Em 1838, por volta da mesma época em que Litch e o
Post, de Boston, obtiveram as primeiras cópias das palestras de Miller
publicadas, uma cópia chegou às mãos de Fitch.
"Eu as estudei", escreveu ele para Miller, em 5 de março, "com um
imenso interesse, tal como nunca tive• em nenhum outro livro, exceto
a Bíblia. Eu as comparei com as Escrituras e a história, e não encontrei
nada que pudesse me causar a menor dúvida a respeito da precisão
de suas ideias.""
Fitch, fiel ao seu caráter zeloso e sincero, não ficou satisfeito
com apenas uma leitura. Ele ficou tão empolgado que leu o livro de
Miller seis vezes, observando que sua "mente ficou muito impressionada
com o assunto". Estimulado pela mensagem milerita, o novo converso
imediatamente "escreveu e pregou para o povo de Boston" a respeito
de sua nova fé."
Em 4 de março, ele pregou seus primeiros dois sermões sobre as
ideias mileritas. No dia seguinte, escreveu para Miller uma carta muito
fervorosa, observando que desejava ser "um atalaia nos muros" e queria
"dar à trombeta o sonido certo". Como passo principal no fiel cumpri-
mento da função de atalaia, Fitch anunciou a Miller que haveria um
encontro com seus associados ministeriais no dia seguinte (6 de março);
e, em suas palavras, "como fui indicado para fazer uma apresentação,
pretendo trazer à tona esse assunto para discussão, e creio que possa
fazer algo para proclamar a verdade"."
Essa atitude ousada provou ser prematura para o impetuoso jo-
vem ministro. Afinal, ele próprio tivera pouco tempo para examinar
a doutrina. Fitch ficou tão chocado quanto intimidado pela resposta
que recebeu. Para os colegas de ministério, era tudo bobagem. "Houve
muita risada sobre o assunto", ele recordou, "e não tive como não ver
que eles me viam como um ingênuo." Ele saiu da reunião "muito ma-
goado, e [...] um pouco atormentado". Depois disso, Fitch desistiu de
pregar sobre o breve advento. Como ele mencionou posteriormente,
C4
o medo das pessoas me colocou em uma cilada"»
Por outro lado, a experiência e sua conversão posterior lhe ensinaram
uma lição sobre como defender suas convicções. Pelo resto da vida,
como veremos, Fitch apoiou causas impopulares, sem se intimidar
diante da oposição por parte daqueles que ele respeitava.
Mais Missionários do Milênio 1 99

Foi Josias Litch que levou Fitch de volta ao milerismo. O jovem


ministro, sentindo que faltava algo em sua experiência espiritual, havia
"jejuado", "orado", "sofrido" e "chorado perante o Senhor". Enquanto
se encontrava nessa condição, Litch (um desconhecido) o visitou em
meados de I 841, insistindo em que ele estudasse novamente a Bíblia
sobre o tema do segundo advento. Mais tarde, Fitch, escreveu para
Litch dizendo que não podia sentir "nenhuma ponta de cordialidade
ao vê-lo", mas após a leitura dos textos que Litch deixara com ele, suas
crenças no segundo advento haviam sido reavivadas."
A edição da Signs de 15 de dezembro de 1841 relatou que Fitch
tinha "voltado• completamente para a fé no segundo advento"."
O jovem zeloso pregaria sua nova fé até o fim da vida, em outubro de
1844. Na verdade, sua fidelidade em proclamar a mensagem do advento
causou-lhe a morte (ver capitulo 11).
Entretanto, o ministério adventista de Fitch mostrou-se muito frutí-
fero desde o princípio. Até mesmo a carta enviada para Litch anuncian-
do sua conversão produziu frutos para o movimento. Por exemplo, um
farmacêutico do oeste de Nova York, após ser conduzido ao rnilerismo
por intermédio da carta que fora publicada por Fitch, encomendou 160
cópias para distribuição. "Dificilmente um dia se passa", escreveu ele,
'sem que alguns [dos panfletos] não sejam distribuídos na farmácia da
qual sou proprietário: remédio e verdade caminhando juntos." 47
Antes de 1838 e de seu primeiro contato com o milerisrno, Fitch
havia sido um reformador, no âmbito geral, e um abolicionista pree-
minente. Sua publicação Slaveholding Weighed in the Balance of Truth
["A escravidão pesada na balança da verdade"], de 1837, promoveu
um ataque poderoso no debate. 'Avante, meus amigos", convocou Fitch
na conclusão do panfleto, "para cumprir o nosso dever, para libertar os
oprimidos das mãos do opressor, para que o fogo da fúria de Deus não
nos atinja e nos queime por muito tempo!" 48
Infelizmente para Garrison, em agosto de 1837, Fitch se tornaria um
oponente formidável de sua organização antiescravista. Naquele mês,
Fitch se tornou um dos dois autores principais do "Apelo dos Clérigos
Abolicionistas em Relação às Medidas Antiescravistas". 5°
A diferença de pensamento entre Fitch e Garrison não era tanto
em relação aos princípios antiescravistas, mas sim quanto às questões
religiosas. Garrison tinha uma postura contrária aos clérigos e despre-
zava o domingo-sábado como um dia santo (ele ensinava que todos
os dias são santos), a igreja visível e as ordenanças cristãs. Fitch e seus
100 1 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

colegas decidiram se separar dos garrisonianos e criar uma sociedade


de 'Abolicionistas Evangélicos". Henry Stanton e outros acreditavam
que a maioria dos clérigos abolicionistas estava do lado de Fitch, e este
reivindicava uma adesão de 90%. Garrison, de sua parte, via Fitch como
um "desertor" e traidor»
Garrison se empenhou em atacar seu "oponente" na ocasião em que
a Marlboro Chapei, de Fitch, foi dedicada. "O abolicionista veemente",
afirmou Garrison, "se importa tão pouco com a causa que ele já tão
intensamente defendeu quanto é ignorante sobre a verdadeira retidão."
Em vez de falar sobre a grande causa para a qual a capela fora fundada,
"ele fez um discurso monótono sobre o sábado, batismo de crianças
e o sacramento?" A avaliação de Garrison atingiu diretamente a linha
divisória que o separava de Fitch. Apesar de o jovem pregador ser um
abolicionista zeloso, era ainda mais resolutamente um cristão ortodoxo,
na sua definição do termo. 52
O distanciamento entre os dois permaneceu até janeiro de 1840.
Em 9 de janeiro, no entanto, Fitch escreveu para Garrison, expressando
arrependimento por ter participado do 'Apelo" e ter condenado o líder
antiescravista. Ele pediu desculpas ao imaginar "Jesus Cristo nas nuvens
do céu, vindo para julgar o mundo e estabelecer seu reino de santidade,
justiça e bem-aventurança para os puros de coração"»
A confissão de Fitch dá a impressão de que, mesmo naquela época,
ele estava preocupado com o breve advento, uma posição que ele não
aceitaria completamente por mais 18 meses. Entretanto, esse reco-
nhecimento também expressa uma nova doutrina à qual Fitch havia
aderido após rejeitar o milerismo, em 1838. Sua ênfase em querer ser
alguém "puro de coração" para encontrar seu Senhor reflete sua nova
crença na perfeição cristã ou "santificação completa". Essa também é
uma ênfase que nos ajuda a ter uma ideia sobre a personalidade desse
pastor completamente sincero»
Em 1839, Fitch se converteu à "perfeição de Oberlin", conceito em
que "a santidade consiste primariamente na perfeição da vontade e está
disponível a todo cristão após a conversão". Apesar de não se relacionar
oficialmente, com o Oberlin College (em Ohio), Fitch abraçou sua
teologia e, assina, se tornou um companheiro na causa de professores
como Asa Mahan, Henry Cowles e Charles Finney. 55
Todos eles publicaram livros sobre o tema da perfeição. O livro Views
of Sanctification ['Aspectos da santificação"], de Fitch, saiu em 1839,
no mesmo ano em que foi publicado o Scripture Doctrine of Christian
Mais Missionários do Milênio 1 101

Peifection ["Doutrina bíblica da perfeição cristal, de Mahan; e um ano


antes da publicação de Views of Sanctification, de Finney. A intensa de-
fesa por parte desses pastores reformados daquilo que tradicionalmente
era uma doutrina metodista causou furor na comunidade calvinista.
Leonard Woods, professor de teologia no Andover Seminary e um
dos principais defensores do calvinismo ortodoxo durante a primeira
metade do século, publicou um livro que analisava as obras de Mahan
e Fitch. Além disso, um pastor de Newark, New Jersey, publicou um
livreto desafiando a ideia de santificação completa defendida por seu
vizinho, Carlos Fitch."
O maior desafio para Fitch, no entanto, saiu da própria organização
para a qual trabalhava. O presbitério de Newark, da Igreja Presbiteriana,
o acusou de heresia e o colocou em julgamento. Ele, respondendo às
acusações do conselho, escreveu:

• Com o meu nome vocês devem fazer o que acharem certo


perante Deus, tendo em vista que um julgamento se apro-
xima. Não tenho mais defesa a fazer [do que esta carta de
•explicações]. Se vocês não puderem me manter como um de
vocês enquanto conto à igreja de Cristo [...] que ele se ma-
nifestou para assumir os pecados deles, e que eles podem e
precisam permanecer nele para que não pequem [...], então,
simplesmente apaguem o meu nome do seu livro e deixem
o procedimento ser registrado, como será no livro de Deus,
para ser revisto perante o universo, no dia final»

Dali em diante, Fitch se considerou um "proscrito eclesiástico".


Em 1842, enquanto buscava convencer sua boa amiga Phoebe Palmer
sobre a proximidade do advento, ele notou que, (ao aceitar a ideia de
santificação completa, havia "sacrificado todos os amigos na Terra em
•prol da verdade")Em relação a Palmer, é importante observar que ela
foi a líder que reavivou o ensino sobre a perfeição entre os metodistas,
•no fim da década de 1830 e início dos anos 1840. Quanto a Carlos
Fitch, após renunciar ao ministério presbiteriano por causa de sua
nova crença, ele se tornou um evangelista em tempo integral "para a
promoção da santidade", em abril de 1841."
Desde sua experiência negativa com o milerismo, em 1838, Fitch
havia se tornado um defensor ferrenho daquilo em que ele acreditava,
apesar da posição dos que se opunham a ele. O desenvolvimento dessa
102 I ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

característica o preparou para as batalhas que teria que travar como um


líder milerita. Uma dessas batalhas seria contra seus antigos colegas do
movimento perfeccionista (Mahan, Cowles e Finney). Fitch invadiu
duas vezes o campus do Oberlin College, em função do único diálogo
prolongado entre um milerita e uma importante faculdade teológica.
Naturalmente, Fitch não• era estranho para Finney e seus colegas
do Oberlin. Ele não somente foi urn aliado teológico e escritor assíduo
para o periódico da instituição, como também foi o orador da dedicação
da igreja Broadway Tabernacle, na cidade de Nova York, em 1835."
A comunidade de Oberlin fora agitada poderosamente pela mensa-
gem de Guilherme Miller. Esse tumulto, entretanto, expressava oposição
em vez de concordância. Afinal, Oberlin — sendo a primeira instituição
•superior dos Estados Unidos a admitir negros e mulheres em igualdade
com os brancos no seu programa acadêmico —, se considerava a vanguar-
da do movimento de instauração do reino milenar de Deus na Terra. 6°
A consternação de Oberlin com a doutrina de Miller é indicada pelo
fato de que entre 17 de fevereiro e 22 de dezembro de 1841, o Oberlin
Evangelist publicou uma série de 23 artigos sobre "O Milênio". Essa
série foi sucedida por uma segunda, composta de 17 artigos intitulados
"Sem Milênio", que se estendeu de 19 de janeiro a 31 de agosto de
1842. Ambas foram uma reação a Miller, mas a segunda especificou
mais abertamente o problema com a doutrina rnilerita de "que o mun-
do nunca será convertido a Deus". O Evangelist lamentou o fato de
que muitos dos "melhores pastores" estavam "renunciando à doutrina
do milênio temporal". A edição de 16 de fevereiro de 1842 observou
" com pesar" que seu querido Fitch havia aceitado a teoria de Miller.€ 1

A conversão de Fitch à brevidade do advento o colocou num diálogo


com os teólogos de Oberlin, primeiramente através de uma série de
cartas publicadas no Evangelist e, depois, por meio de reuniões públicas
na instituição. Suas primeiras apresentações no Oberlin ocorreram em
setembro de 1842.
O Evangelist observou que, enquanto os editores tinham "grande
respeito pelo irmão Fitch", não havia mais o gire fazer "a não ser dizer
que achamos que ele está equivocado sobre o assunto". Fitch, por ou-
tro lado, havia ficado "completamente abismado" com o fato de que
homens como Cowles e Mahan "pudessem fazer tal uso da Bíblia" a
fim de rejeitar o breve advento. Mas nem todos em Oberlin respon-
deram negativamente. Até mesmo um dos professores se converteu à
pregação milerita.€2
Mais MissiOnários do Milênio 1 103

Fitch retornou à instituição para uma segunda série de encontros,


em setembro de 1843. Desta vez, no entanto, os teólogos do Oberlin
o forçaram a participar de um debate público sobre o tema, apesar de
"O Sr. Fitch ter continuado a pregar, simplesmente apresentando suas
ideias sem aceitar um debate". Entretanto, no meio da discussão, Fitch
se recusou a "disputar" com eles. Após isso, seus sermões e as respostas
do Oberlin ocuparam noites alternadas. 63
Na conclusão dessa segunda série, o Evangelist mais uma vez afirmou
que as apresentações de Fitch "não haviam obtido resultado [...] na
mente do público" em favor de suas crenças. No entanto, há indica-
ções nos registros de Oberlin de que essas palestras exerceram mais
influência, tanto na instituição quanto no Evangelist, do que os ober-
linistas quiseram admitir. Um pregador influenciado ela interação
de Fitch com a comunidade de Oberlin foifoirriStarkweat er um
homem do qual falaremos mais no capitulo 9• 64
De modo geral, o Oberlin continuou em seu caminho pós-
milenarista já aceito, apesar do milerismo e, especialmente, de Fitch.
Um formando resumiu essa posição de forma interessante ao escrever:

Quando os mileritas souberam quão ansiosos estávamos para


renovar o mundo, pensaram que prontamente nos uniríamos
a eles para queimar tudo em 1843. Mas Henry Cowles —
benditos sejam sua lembrança e seus comentários]. — fez um
estudo profético minucioso para detectar a mentira rasa de
tal exposição das profecias e para confundir, não somente o
milerismo, mas todas as outras interpretações judaicas dos
profetas antigos que esperavam um reino de Deus literal, em
vez de um reino espiritual. 65

Em 1843, Fitch se estabeleceu em Cleveland, Chio. A partir de


lá, ele não somente continuou a fazer incursões ao vizinho Oberlin,
mas também editou um periódico intitulado Second Advent of Christ
["0 segundo advento de Cristo"]. Assim, tornou-se o principal líder
adventista na região transapalachiana.
Uma contribuição importante de Fitch para o movimento mile-
rita foi o "Gráfico de 1843". Em maio de 1842, Fitch e Apollos Hale
apresentaram o diagrama na sessão da assembleia geral em Boston.
O esquema representava graficamente os principais símbolos profé-
ticos de Daniel e Apocalipse, e indicava várias maneiras nas quais os
104 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

cálculos resultavam no ano 1843 como o tempo do segundo advento


(ver, "Gráfico de 1843" na p. 169).
O gráfico, duplicado posteriormente, media aproximadamente
1,0 x 1,5 m e podia ser pendurado como auxílio visual para uma
apresentação em um auditório ou em qualquer outro lugar em que
houvesse um grupo reunido. De fato, o "Gráfico de 1843", pendura-
do na plataforma de uma igreja ou em qualquer lugar público, era
frequentemente o meio usado para atrair a curiosidade da multidão
para uma pregação.
A assembleia acreditava que o diagrama de Fitch e Hale cumpria
"uma profecia dada em Habacuque 2 [:2], revelada 468 anos antes [de
Cristo], onde se lê: 'O Senhor me respondeu e disse: Escreve a visão,
grava-a sobre tábuas, para que a possa ler até quem passa correndo'.
Portanto, foi "votado ter 300 desses gráficos litografados [...] para que
aqueles que fossem tocados pela mensagem pudessem lê-la e levá-la
consigo". Os pregadores mileritas passaram a ter um importante aces-
sório complementando seu equipamento padrão — o último desenvol-
vimento em tecnologia visua1. 66
Outra contribuição importante de Fitch para o movimento milerita
foi seu chamado aos crentes no advento, em julho de 1843, para saírem
de "Babilônia" (essa advertência será melhor explicada no capítulo 7).
(Em 1844, Fitch também aceitou as doutrinas do batismo por imersão
e, da morte como um sono até a ressurreição.)
As avaliações a respeito de Fitch iam em duas direções. Por exemplo,
o Christian Reflector escreveu que ele tinha um "coração sensível" e
"uma mente muito indisciplinada". Como resultado, "ele era facilmente
atraído pelas ideias sedutoras e poderosas que [...] o influenciavam"."
Em 1843, Garrison afirmou que "ninguém que o conheça [Fitch]
pode duvidar de sua honestidade ou habilidade; mas sua mente parece
ser impulsiva". O líder antiescravista continuou declarando que talvez
fosse positivo para Fitch que, "com o término do ano presente", toda a
necessidade de ele "manter sua concentração no assunto da 'brevidade
do segundo advento" terminasse. 68
De um ponto de vista mais positivo, pode-se afirmar que Fitch era
tão sincero quanto zeloso e impulsivo. Era um homem que tinha chega-
do ao ponto em que faria qualquer coisa que acreditasse ser a vontade
de Deus para ele, não importando as consequências. Como resultado,
após sua conversão ao breve advento, ele dedicou-se integralmente à
missão milerita.
Mais Missionários do Milênio 1 105

Sob outra perspectiva, devido à impulsividade e sensibilidade de


Fitch, ele poderia ser visto como uma ponte entre os líderes mileritas
nais estáveis e racionais( (como Miller, Himes e Litch) e aqueles que
lemonstravam uma tendência mais carismática (como S. S. Snow e
Seorge Storrs)) os quais passaram a dominar o movimento no fim
la verão e começo do outono de 1844. Fitch exibiu um equilíbrio
ielicado entre o racionalisrno e uma abertura impulsiva para ideias
novadoras. Como resultado, ele ocupou uma função única na história
nilerita. Em Fitch, vislumbramos uma antecipação do conflito que di-
vidiria o milerismo após o desapontamento de 22 de outubro de 1844.

Mais Lideres Mileritas


Ninguem sabe ao certo o número de pastores que pregaram a men-
sagem milerita, mas Himes, em janeiro de 1842, estimou esse núme-
Loa entre 300 e 400, enquanto o Christian Herald, seis meses depois,
'sugeriu que havia pelo menos 700 pastores. No auge do movimento,
na primavera de 1844, o Midnight Cry relatou: "algo como 1.500 ou
2.mil palestrantes estão no campo proclamando que 'O reino de Deus
se aproxima". De qualquer forma, a evidência é clara de que um grande
número de pastores e leigos dedicados levaram a mensagem do breve
advento. Alguns pregavam em tempo integral, outros, em parte do
tempo, enquanto ganhavam seu sustento. 69
Os palestrantes eram de todas as denominações. Everett Dick fez o
único estudo sobre as origens denominacionais dos pregadores mileri-
tas. Dos 174 que ele conseguiu identificar, 44% eram metodistas, 27%
listas, 9% congregacionalistas, 8% da Conexão Cristã e 7% presbite-
rianos. Várias outras denominações estavam representadas por um ou
dois ministros cada. De acordo com Litch, os pastores tinham certas
tnilaridades, incluindo o zelo por Deus e pela salvação da humani-
dade. Além disso, eram estudantes fervorosos da Bíblia que buscavam
torná-la um livro autointerpretativo. 7°
Além da crença na breve vinda de Cristo, não havia uniformidade
doutrinária entre os palestrantes. O milerismo era essencialmente o
movimento de uma mensagem. Miller, Himes e outros acreditavam
que para ampliar a plataforma doutrinária, seria preciso haver longa
discussão, algo que consumiria muito tempo. Após Cristo voltar, em um
futuro próximo, os salvos poderiam aparar as diferenças teológicas. En-
quanto isso, o mundo precisava ser advertido da condenação imediata.
106 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Assim como os participantes do circuito metodista, os palestrantes


mileritas frequentemente arriscavam a vida e viviam sem conforto
para proclamar a mensagem. Seguindo essa linha, o relatório de Joel
Spaulding é interessante. Ele escreveu:

Viajei 440 km durante 40 dias, nos brejos; meu animal caiu


comigo no lombo duas vezes; e uma vez tombou no meio do
rio Kinnebec, enquanto atravessava um lugar com correnteza
consideravelmente rápida Quando cai no rio, o cavalo
desabou em cima de mim; mas escapek ileso, com a exceção
de um tornozelo machucado, sobre o qual fui incapaz de colo-
car meu peso por alguns dias. Mas nada disso mexeu comigo.
Mancando, com a ajuda de um assistente, eu achegava à plata-
forma, feliz pelo privilégio de despertar uma igreja adormeci-
da para o senso da imediata "aparição do grande Deus e nosso
Salvador Jesus Cristo". de advertir o pecador da tempestade
iminente que o espera; e de mostrar-lhes o esconderijo 71

Entre 1842 e 1844, outros lideres do milerismo também foram im-


portantes comoNseph Marsh, Elon Galusha e Nathaniel Southard))
Marsh aceitou o milerismo em 1842. Por 12 anos, ele fora o editor de The
Christian Palladium, um jornal da Conexão Cristã, no estado de Nova
York. Em abril de 1842, ele começou a apresentar "um estudo sincero e
cuidadoso" da doutrina adventista no Palladium. Além disso, publicou
textos em favor da doutrina. Isso "suscitou muita oposição". Em 23 no-
vembro, ele escreveu: "Estou totalmente convencido quanto ao tempo
e pretendo proclamá-lo ousadamente no púlpito e por intermédio da
imprensa. O meu caminho está determinado — que venham as conse-
quências Não temo os resultados Deus defenderá sua causa "72
A confiança de Marsh não salvou seu emprego. Durante o final de
1842 e começo de 1843, ele enfrentou cada vez mais oposição. Em
12 de novembro de 1843, ele foi forçado a deixar seu cargo editorial
no Palladium." A partir de então, ficou livre para se empenhar com-
pletamente no milerismo. Como resultado, em P de janeiro de 1844,
ele começou a publicação do Voice of Truth ["Voz da verdade].
Elon Galusha foi outro líder do milerismo, atuando no oeste de
Nova York. Filho do governador de Vermont que assinou o alistamento
militar de Miller, Galusha se tornou, na sua época, um dos batistas mais
poderosos de Nova York. Além disso, era um dos maiores agitadores
Mais Missionários do Milênio I 107

em prol do fim da escravidão, acreditando inteiramente que isso "tinha


que cessar antes da chegada do milênio". Em 1840, ele foi à Escócia
como delegado para a convenção mundial antiescravista. Tendo um
ministério respeitado, de acordo com Whitney Cross, Galusha foi "uma
das pessoas mais influentes a se juntar ao movimento adventista"."
Ele começou a se inclinar para o milerismo em 1843. No inicio de
1844, Galusha entregou sua renúncia à igreja a fim de que pudesse es-
tar totalmente livre para pregar suas convicções. Miller escreveu sobre
ele: "O irmão Galusha aceitou completamente a fé, em 1843. Ele é um
homem feliz e forte na fé [...]. Estou bem satisfeito com ele." E tinha o•
direito de estar satisfeito. Segundo consta, Galusha levou 800 pessoas
a Cristo em uma reunião, em março de 1844. Ele se tornou o principal
líder no oeste do estado de Nova York. 75
Southard foi outro que contribuiu com habilidades editoriais para
o milerismo. Ativista contra a escravidão, em determinado momento
Southard foi o editor interino do Emancipator No fim de 1842, ele
assumiu a editoria do Midnight Cry milerita. 76
Duas similaridades devem ser notadas entre os líderes mileritas
que se uniram ao movimento próximo ao ano do fim. A primeira é que
esses, assim como os pregadores de menos status, tendiam a perder sua
posição denominacional por causa do milerismo. Isso não havia sido
uma experiência comum para os primeiros lideres e indicava quern a
divisão recorrente entre mileritas e suas igrejas estava se acelerando,
entre 1843 e 1844.
Segundo, assim como os lideres iniciais, os posteriores tinham grande
; envolvimento nos movimentos de reforma da época, especialmente na
, libertação dos escravos. Garrison se mostrava frustrado quando líderes
talentosos se convertiam ao milerismo. "Multidões", escreveu ele, "que
' anteriormente estavam envolvidas em várias iniciativas morais da época,
perderam todo o interesse em atos práticos de justiça e pensam e falam
de nada mais do que a destruição do mundo." Novamente ele escreveu
Í que, "um número considerável de abolicionistas importantes foi levado
Í,Í' pelo milerismo e, agora, são considerados completamente inúteis para
nossa causa. Mas a ilusão não tem futuro; iremos nos alegrar"»
Em certo sentido, a avaliação de Garrison estava errada. Os mile-
fitas não perderam "todo .o interesse em atos práticos de justiça". Em
vez disso, eles perderam a fé na habilidade humana de encontrar uma
IÇ solução adequada para os problemas sociais. Na concepção do líder
antiescravista, o melhor caminho para se preparar para o milênio era
108 I ADVENTISMO -- Origem e Impacto do Movimento Milerita

trabalhar em prol dele no presente; por sua vez, Henry Cowles, do


Oberlin, acreditava que era um "erro terrível" pensar que "Deus inaugu-
raria o milênio com algum tipo de milagre [...] sem agentes humanos".
Mas, para os mileritas, a solução imediata para a escravidão e todos os
outros problemas era a segunda vinda. 78
Portanto, em 1843, o rnilerismo se encontrava em discordância com
os movimentos de reforma, bem como com as igrejas, em termos de
estratégia para inaugurar o reino. Mas nem sempre havia sido assim.
Em 1840, o Liberator, de Garrison, havia até mesmo divulgado as
palestras de Miller, sugerindo que as apresentações de um "homem
de temperança, abolicionista, não resistente, etc.", "seriam de caráter
salutar — exceto pelo seu cômputo sobre o fim do mundo"?'
É evidente que Miller manteve inalterada sua posição contrária à
escravidão. Duas semanas após o desapontamento de outubro de 1844,
ele foi identificado como um colaborador confiável da "estrada de ferro
secreta" que transportava ilegalmente escravos do sul dos Estados Unidos
para o Canadá, onde estariam fora do alcance legal de seus senhores. 8°
Miller e seus seguidores não eram contra as reformas. Em vez
disso, eles acreditavam em agentes mais radicais e numa solução mais
extensa do que os demais reformadores. A segunda vinda seria a re-
forma de todas as reformas. Era a maior de todas as causas. Assim, o
milerismo tinha o poder de atrair os Militantes inconformados com
a falha da ação humana.

Palestrantes Negros e Mulheres


Há indícios de trabalho milerita entre a população negra, 81 mas isso
não é destacado nas publicações adventistas. Essa situação resultou
parcialmente do fato de que era um movimento branco dominado por
homens, como eram praticamente todas as causas da época. Além disso,
o rnilerismo foi um movimento do norte numa época em que a grande
maioria dos negros ainda vivia no sul dos Estados Unidos. -
No entanto, há evidências coerentes de que os negros frequentavam
as reuniões mileritas e de que os líderes adventistas tinham preocupa-
ção em lhes dar a mensagem de advertência. No princípio, a relação
entre o movimento do advento, de maioria branca, e a minoria negra,
era provavelmente informal pelo fato de que os negros começaram a
frequentar as reuniões mileritas na maneira usual da época, ocupando
os últimos bancos, as galerias das igrejas ou ficando em pé nas laterais.
Mais Missionários do Milênio 1 109

forma similar, eles frequentavam as campais, porém tinham


as próprias tendasyor isso, em 1842, Hiram Munger ficou furioso
quando os "cainitas' destruíram a tenda das pessoas de cor". Sojourner
Truth, uma negra que se tornou uma oradora formidável na luta contra
a escravidão, frequentou uma das palestras de Miller e pelo menos
duas campais adventistas, mas concluiu que estavam "trabalhando
sob uma ilusão". 82
Em meados de 1843, a necessidade de trabalhar agressivamente
entre a população negra estava se tornando mais óbvia para os líderes
mileritas. Consequentemente, em maio, Fitch tomou uma iniciativa
bem-sucedida em um dos encontros principais, "ao recolher uma oferta
•para um obreiro entre os irmãos de cor".
No dia seguinte, uma doação de mais de 20 dólares foi recebida
•para permitir que John W Lewis, "um pregador negro muito querido",
trabalhasse em tempo integral "entre essa classe muito negligenciada
de nossos irmãos, com a qual ele era mais estreitamente conectado"."
• Em fevereiro de 1844, Himes relatou que "muitas pessoas de cor
receberam a doutrina" na Filadélfia. "Um dos pastores mais eficien-
tes, dentre os que aceitaram completamente a doutrina, se devotará
integralmente a sua proclamação. As pessoas de cor, portanto, terão
uma congregação na qual a doutrina do advento será proclamada por
completo." 84
Ao mesmo tempo em que é impossível determinar, a extensão do
milerismo entre a população negra (uma situação que é igualmente
complexa para o milerismo branco), temos relato de pelo menos dois
negros 85 que apresentavam palestras sobre o breve advento. O primeiro
foi Lewis.
" O segundo palestrante negro que anunciou a mensagem milerita foi
&filiam E. Foy, ue afirmava ter recebido várias visões, começando em
18 de janeiro e 1842. Essas visões, como ele descreveu, levaram-no
a crer na iminente volta de Cristo, apesar de que ele "fosse contrário à
doutrina da breve vinda de Jesus" até aquele momento. 86
I Além da crença no advento de Cristo, Foy escreveu: "O dever de anun-
t, dar ao meu próximo as coisas que me foram mostradas e adverti-lo para
fugir da ira vindoura repousa com grande peso em minha mente." Apesar
de suas convicções, Foy resistiu por algum tempo. Em parte, observou ele,
1 porque a mensagem era "muito diferente" do que as pessoas esperavam,
e também por causa do "preconceito [...] com os da minha cor". Essa
última afirmação sugere que Foy e, provavelmente, outros palestrantes
110 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

negros pregavam para auditórios compostos tanto de negros quanto de


brancos. Essa situação não está em desacordo com o que sabemos sobre
a pregação negra na primeira metade do século 19.
No meio de uma oração de grande angústia, Foy recebeu uma impressão
de que Deus estaria com ele se sua mensagem fosse compartilhada. Como
resultado, ele começou a pregar sua nova fé em várias localidades."
Mulheres palestrantes parecem ter desempenhado uma função mais
preeminente do que os negros no milerismo. Não apenas o movimento
dos direitos da mulher estava ganhando um impulso importante com
a participação feminina no abolicionismo, mas igualmente o restaura-
cionismo e o Segundo Grande Avivamento também estavam dando a
elas novas oportunidades.
A Conexão Cristã, em particular, tinha uma forte tradição de mulhe-
res pregadoras. Além disso, durante a década de 1830, a participação femi-
nina na religião pública recebeu o incentivo do reavivamento de Charles
Finney, enquanto o ministério de Phoebe Palmer estava promovendo a
aceitação de mulheres na liderança de cultos de tradição metodista."
No entanto, o envolvimento das mulheres no ministério nem sempre
significava s e as palestrantes mileritas eram bem aceitas. O caso de
enerve como exemplo. Convertida na juventude, com
18 anos, e a sentiu que o Senhor a havia chamado para a proclamação
pública do evangelho.
Em 1842, ela aceitou a doutrina de Miller. Logo após, acompanhou o
pai em uma viagem a Schenectady, Nova York. Naquele lugar, um cren-
te pediu a seu pai, um leigo, que falasse para um grupo não adventista
sobre as evidências de sua fé. As pessoas eram "tão resistentes a aceitar
que mulheres falassem" que o anfitrião pensou que era melhor que o
pai fizesse a apresentação. Mas ele ficou mudo. Como resultado, após
um longo silêncio, o anfitrião comentou: "O irmão Hersey tem uma
filha aqui que fala em algumas conferências quando estão em casa, na
Nova Inglaterra, e se não houver objeção, gostaríamos de ouvi-la falar."
Como nenhuma observação foi feita, Lucy apresentou a mensagem,
a qual produziu um grande efeito. As reuniões logo passaram para um
salão maior, no qual ela falou a um auditório repleto. Esse foi o começo
de um trabalho frutífero que incluiu a conversão de vários homens, os
quais assumiram a pregação da mensagem do advento."
Olive Maria Ric- parece ter encontrado mais oposição e mais su-
cesso o que ucy. onvertida ao milerismo em 1842, Rice queria ser
missionária desde a infância. Após se tornar "convicta de que o Senhor
Mais Missionários do Milênio 1 111

tinha algo mais para ela fazer do que auxiliar em reuniões de oração",
Rice entrou para o evangelismo público, conduzindo centenas de pes-
soas à conversão antes de março de 1843. Ela escreveu para Himes: "Há
constantemente quatro ou cinco lugares solicitando os meus trabalhos
ao mesmo tempo." 9°
Naturalmente, o ministério de Rice enfrentou preconceito, geral-
mente por parte dos homens. Um jovem de Nova York reclamou com
seu irmão que tivera "de tomar outra dose de milerismo [...] e que,
além disso, fora de uma mulher que, além das aparências, seria melhor
deixar suas incumbências e assumir a dignidade de seu gênero nas
esferas da vida doméstica".
'Alguns", prosseguiu ele, "disseram que a mulher era um anjo[;] outros
disseram que, se um dia ela foi um anjo, tinha caído de sua primeira posi-
ção." Ele continuou observando que havia "um bom número de indivíduos
interessados nela" e afirmou que dois deles tinham "jogado uma moeda
de um centavo para ver quem a levaria para casa na última noite." 91
Rice reconheceu a oposição a sua pregação, mas declarou que ela
'não ousava parar simplesmente pela razão de ser uma mulher". "Mes-
mo que homens possam censurar e condenar, sinto-me justificada
perante Deus, e espero dar o meu testemunho com alegria para, dessa
foi/maadvertir meu próximo!'"
Elvira Fassetgoi outra que precisou quebrar preconceitos, tanto de
seu esposo quanto os seus próprios, contra mulheres pregadoras. "Ela",
como a maioria das mulheres de sua época, "foi ensinada a acreditar
que era arrogante e impróprio para uma mulher falar em público; e
consideravam isso proibido por Paulo." Mas, sendo pressionada por
outros, finalmente aceitou, somente para descobrir que o Senhor aben-
çoava seu trabalho.
Finalmente, o preconceito do esposo foi superado pelos frutos de sua
pregação e pela profecia de Joel 2 e Atos 2: "Sobre os servos e sobre as
• servas derramarei o meu Espírito; e eles profetizarão." "Isso", escreveu
ele, "me guardou de impedir ou de colocar qualquer dificuldade no
caminho do seu dever, temendo que eu pudesse ofender o Espírito
•Santo, que a estava auxiliando divinamente a alcançar o coração dos
ouvintes com palavras de vida que saíam de seus lábios consagrados.
Logo senti que tinha uma 'auxiliadora' de verdade." Posteriormente,
a família Fassett pregou a mensagem do advento como uma equipe."
Outras mulheres que pregaram a iminente vinda de Cristo foram
Sara J. Paine, Emily C. Clemons e Clorinda Minor)As últimas duas
112 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

editaram um periódico direcionado especialmente para as mulheres.


A primeira edição de The Advent Message to the Daughters of Zion ["A
mensagem do advento às filhas de Sião1 foi impressa em maio de 1844.
A convicção que impulsionava o grupo de pregadores do advento
— negros, brancos, mulheres e homens — foi muito bem descrita por
Olive Maria Rica Após sua conversão, ela escreveu:

Eu não podia conscientemente retornar a meus estudos em


North Wilbraham a fim de me preparar para a inutilidade fu-
tura, quando em poucos meses, no mais tardar, se encerrarão
não somente meus trabalhos neste mundo, mas os de toda
a humanidade. Fui compelida pelo solene sentido do dever;
pelas influências do Espirito Santo e pelo poder da verdade, a
ir e advertir meu próximo de acordo com minha habilidade,
a fim de preparar a todos para a segunda vinda de Cristo e as
solenes cenas do julgamento."

Era esse profundo e sólido sentido de urgência e destino profé-


tico que impulsionava dia e noite os mensageiros mileritas a pregar
onde quer que conseguissem ouvintes. Essa urgência aumentou à
medida que eles se aproximavam do ano do fim do mundo.
O ANO DO
FIM
CAPITULO

Entrando no
Ano do Fim
E
(‘ste ano [...] é o último ano que Satanás reinará na Terra.
Jesus Cristo virá [...]. Os reinos da Terra ficarão em pedaços
[...]. O grito de vitória será ouvido no Céu [...]. O tempo
não existirá mais." Foi o que Guilherme Miller escreveu em seu "Dis-
curso de Ano-Novo para os Crentes no Segundo Advento", em P2 de
janeiro de 1843. Finalmente, o ano do fim do mundo havia chegado.
Apesar de sua esperança na promessa do "ano glorioso", Miller
era um homem equilibrado e racional. Ele reconhecia que Satanás
ainda estaria vivo e bem ativo durante o ano do fim do mundo. Miller
também entendia que os escarnecedores continuariam zombando
e os mentirosos ainda estariam espalhando mentiras a respeito da
mensagem adventista e de seus mensageiros. Mas os crentes não po-
diam permitir que isso os impedisse de contribuir com "todas as suas
energias para a causa".
Além disso, o mundo estaria esperando "que muitos vacilassem e
desistissem", se as esperanças adventistas não se cumprissem de acordo
com suas especificações. Miller falou com mais precisão profética do que
: imaginava quando escreveu: "Este ano provará nossa fé, teremos que ser
116 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

provados, purificados e tornados brancos, e se houver alguém entre nós


que não acredita de coração, esse nos deixará."
Miller temia outro elemento à medida que o tempo marcava a
proximidade da hora final — o fanatismo. "Eu imploro a vocês, queridos
irmãos", escreveu ele em seu discurso de ano-novo, "que cuidem para
que Satanás não alcance vantagem, espalhando um incêndio entre vo-
cês; porque se não puder levá-los à descrença e dúvida, tentará então
usar o fogo do fanatismo e da especulação para distanciá-los da Palavra
de Deus. Sejam vigilantes e sóbrios, e esperem até o fim."'
O discurso inspirado de Miller indica que ele estava tão atento à
natureza humana quanto a sua pesquisa nas Escrituras. O ano de 1843
realmente seria de bênçãos e reações confusas.

Foco Progressivo no Tempo


No dia 1Q de janeiro de 1843, Miller definiu, pela primeira vez, o
ano do fim. Pressionado pelos seguidores para ser mais especifico, ele
escreveu: 'Acredito que o tempo possa ser conhecido por todos que
desejam entender e estar prontos para sua volta [de Jesus]. E estou
completamente convicto de que em algum momento entre 21 de
março de 1843 e 21 de março de 1844, de acordo com o modo judeu
de computar o tempo, Cristo virá." Então apresentou 15 provas da

cronologia profética para sua conclusão sobre a data. 2


(É importante observar que Miller não estabeleceu um dia especifico.
Ele somente indicou que Cristo viria entre 21 de março de 1843 e 21
de março de 1844)Isso também é verdade em relação aos principais
lideres mileritas. Quando George Storrs foi falsamente acusado de ter
determinado o dia exato como 3 de abril de 1843, a Signs observou que
os irmãos Miller, Himes, Litch, Hale e Fitch tinham "decididamente"
protestado "contra [...] estabelecer o dia ou a hora do evento". Assim,
afirmou o periódico, apesar de terem identificado 1843 como o ano do
fim, eles "não fixaram uma data do ano para o evento".
1/4Nem Miller nem seus associados jamais estabeleceram um dia exato
para a segunda vinda. Essa teoria, corno veremos no capitulo 10, se
desenvolveu com o surgimento de um novo grupo de lideres, no fim
do verão de 18441
Miller não desejava sequer estabelecer um ano para o retorno de
Cristo. Ele estava satisfeito com a frase "por volta do ano 1843". Como
ele declarou, "o dia e a hora não estão revelados, os tempos estão".
Entrando no Ano do Fim I 117

Mesmo a respeito do ano, Miller costumava qualificar sua interpretação


adicionando a frase "se não houver equívocos no meu cálculo".
Em 1845, ele escreveu: 'Alguns dos meus irmãos pregaram com
grande ênfase a definição do ano exato e me censuraram por incluir
um SE." Além disso, a imprensa em geral vinha afirmando que ele
havia estabelecido um dia exato. Em resposta às pressões, e porque
não encontrou nenhum erro em seus cálculos, em dezembro de 1842,
Miller decidiu divulgar sua estimativa de tempo para a segunda vinda
entre 21 de março [de 1843] e 21 de março [de 1844]. 4
A questão da data, no entanto, aparentemente não era nova para
ele. Em 1831, ele se firmou no ano de 1843. E Josias Litch relatou que
Miller havia contado a ele pessoalmente, em 1839, que Cristo viria
entre a primavera de 1843 e 21 de março de 1844. Miller, segundo
afirmaram, acreditava em um cumprimento no final desse período, pois
pensava que a nossa fé seria testada". 5
A medida que o ano do fim se aproximava, Miller não somente
se tornou mais disposto a tratar do elemento tempo como também
todo o movimento gradativamente mudou sua ênfase. Na essência,
o elemento tempo no movimento adventista não era central, entre
1840 e 1841k0 ponto central até então era o fato de a segunda vinda
de Cristo ocorrer antes do milênio, não a data desse eventopor isso,
a circular anunciando os procedimentos da primeira assembleia geral
adventista, em outubro de 1840 afirmava:

Apesar de não concordarmos entre nós em alguns dos deta-


lhes menos importantes desse assunto, particularmente em
relação ao estabelecimento do ano do segundo advento de
Cristo, concordamos com este ponto e o estabelecemos una-
nimemente: que a vinda do Senhor para julgar o mundo é
algo especialmente "próximo". 6

Novamente, a segunda assembleia geral resolveu solicitar a coope-


ração de todos os que aceitaram a proximidade do advento, indepen-
dentemente da opinião particular "sobre os números proféticos" nos
quais alguns haviam baseado seu argumento de que a vinda de Cristo
ocorreria "por volta do ano de 1843 d.C.". 7
‘,É interessante notar que muitos dos principais líderes iniciais do
movimento rejeitaram completamente o elemento tempopor isso,
Henry Dana Ward e Henry Jones (respectivamente, diretor e secretário
118 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

da primeira assembleia geral) desprezaram o• período de 1843 ou qual-


quer outro. Para Jones, que havia escrito primeiramente a Miller em
1833, e começado a pregar o breve advento em 1834, a data de 1843
era "fundamentada na presunção humana e na história profana". Para
ele, "os tempos e estações proféticos foram preditos indefinidamente". 8
Ward, Jones e alguns outros jamais aceitaram a data de 1843. Outros,
como Hirnes, não aceitaram a data a princípio, mas mudaram sua posi-
ção posteriormente. Este livremente admitiu, em 1840: "É possível que
estejamos errados na cronologia. Pode haver variação em alguns anos,
mas estamos persuadidos de que o fim não deve estar muito distante."'
No entanto, o elemento tempo progressivamente ganhou mais
destaque durante a década de 1840. Isso se deu parcialmente porque
as pessoas que aceitaram a data de 1843 eram mais entusiasmadas.
Portanto, em junho de 1841, Himes pôde escrever a Miller que aqueles
que aceitaram a data de 1843 estavam "mais convictos, ao se aproxi-
mar o tempo". '°
O momento decisivo na questão do tempo ocorreu em maio de
1842, durante a assembleia geral. Essa reunião, escreveram José Bates
e J. V. Himes (diretor e secretário, respectivamente), levou "o assunto
do tempo da vinda de Cristo a uma posição de destaque, mais do que
nunca antes [...] por causa da ignorância da igreja sobre o assunto e da
brevidade do tempo de que dispomos para trabalhar"."
Parte dessa "posição de destaque" resultava "não somente da manei-
ra, mas também do tempo do segundo advento de Cristo". A decisão
mais demorada da assembleia favoreceu grandemente a data de 1843.
A resolução oficial argumentava que "nenhum outro tempo final pode
ser vislumbrado para elas [as profecias de Daniel] além de 1843", e
que os oponentes dessa data "não pretendiam dar outra solução para
essas porções da profecia".
Foi "resolvido que, na opinião desta assembleia, há razões mais im-
portantes e sérias para acreditar que Deus revelou o tempo do fim do
mundo, e que esse tempo é 1843". Então, dada a brevidade do tempo que
restava antes do advento, a assembleia incentivou a distribuição massiva
de literatura e a realização de campais. Como David Arthur expressou,
"o tempo para discussão terminou e o tempo para uma propagação
inquestionável começou".' 2
Desde a reunião de maio de 1842 até abril de 1844, e novamente
no outono daquele ano, o elemento tempo se tornou o foco da preo-
cupação milerita. Alguns, como Ward e Jones, gradativamente deixaram
Entrando no Ano do Fim 1 119

o movimento. Jones, que sempre acreditou na proximidade do advento,


desde a terceira assembleia geral, em outubro de 1841, começou a se
sentir desconfortável com a questão do tempo. Mas, como o "tempo
estabelecido [ ...] se tornou um padrão para a união", escreveu ele mais
tarde, "eu, aparentemente, não estava mais envolvido naquela união". 13
Após a assembleia de maio de 1842, outros líderes rnileritas se posi-
cionaram firmemente em favor de 1843. Josué Hirnes foi um deles. Em
25 de julho de 1842, ele declarou abertamente sua defesa da data pela
primeira vez. Respondendo provavelmente aos questionamentos sobre
sua lealdade para com o movimento, ele escreveu: "Direi aqui, de uma
vez por todas, que estou convicto da doutrina da vinda pessoal de Cristo
à Terra, para destruir o ímpio e glorificar o justo, em algum momento
do ano de 1843." 14
Essa declaração, no entanto, não significava que Himes havia aban-
donado toda a cautela. Assim como Miller, ele sempre permitia a possi-
bilidade de algum erro humano, como nesta declaração: "Se estivermos
equivocados quanto ao tempo e o mundo ainda continuar após 1843,
teremos a satisfação de ter feito o nosso dever.""
A tolerância quanto à data de 1843 era defendida pelos principais
líderes. Como resultado, a assembleia geral de Boston, em maio de 1843,
declarou que "a questão do tempo" não era "parte essencial de nossa
crença". A essência da doutrina deles, a "Declaração de Princípios" da
assembleia era o cumprimento da profecia e o breve retorno do Salvador.
A flexibilidade em relação ao tempo servia como proteção contra o de-
sapontamento, à medida que os mileritas se aproximavam e, finalmente,
ultrapassaram o dia 21 de março de 1844."
(nquanto isso, em 1.843, os mais inconstantes dentre os mileritas
começaram a estabelecer dataysparentemente, alguns estavam aguar-
dando o dia 3 de abril, com base na pressuposição de que Cristo fora
crucificado nessa data. Outros colocaram sua esperança no dia 10 de
fevereiro, o 452 aniversário da vitória francesa sobre Roma, em 1798.
Ainda havia aqueles que esperavam o dia 15 de fevereiro, o aniversário
da abolição do governo papal; 14 de abril (a Páscoa); o dia do Pentecos-
tes, em maioi; o equinócio outonal, em setembro; e assim por diante»
Litch relata que, à medida que cada data se aproximava, a "expectativa
de muitos" ficava "aguçada ao extremo". Contudo, ele observou: 'Aquelas
datas vinham e iam sem nenhuma ocorrência inusitada. Logo que pas-
savam, uma inundação de zombaria, insulto e perseguição surgia, não
tanto por parte do mundo pagão, mas dos professos amigos do Salvador."
120 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Esse escárnio será abordado no próximo capítulo. O relato de um fato,


neste momento, já seria o suficiente para ilustrar. A Signs relatou que o
New York Sunday Mercury "tentou provar a verdade da doutrina do Pastor
Miller sobre o fim do mundo em 1843, multiplicando as rugas dos chifres
de um carneiro de cinco anos pelos 12 signos do zodíaco. Depois, esse nú-
mero seria multiplicado pela quantidade de sementes em uma abóbora"."
Antes, em novembro de 1842, os editores da Signs buscavam prote-
ger seus seguidores desse abuso, renunciando a qualquer dia específico
dentro do ano do fim. "Os editores desta revista", eles escreveram,

solenemente protestam contra o estabelecimento [de]


hora, dia ou mês do fim do mundo. Dentro do ano, há vá-
rios eventos e suas celebrações que podem determinar o
fim de todas as coisas, mas nunca estabelecemos um dia em
particular [...]. Nem o Sr. Miller nem os principais pales-
trantes olham para algum tempo em particular, em 1843.
Estamos dispostos a deixar o tempo nas mãos de Deus, e
vamos trabalhar para estar prontos, não importa quando
ele venha."

desastroso constatar que esse conselho tenha sido desatendido


por tantas pessoas dentro do movimento.)

Um Ano de Expectativas e Evangelismo


O ano de 1843 teve início com um sentimento de grande expec-
tativa entre os rnileritas. O Midnight Oy adotou uma política de as-
sinaturas de três meses, e os compromissos frequentemente incluíam
frases como "se o tempo durar".
A empolgação aumentou em fevereiro, quando um cometa surgiu
num momento psicológico apropriado. O fato de o corpo celeste ter
um brilho especial e de ter surgido num tempo não previsto pelos as-
trônomos levou muitos a vê-lo como um sinal sobrenatural da aparição
do Senhor. Himes escreveu: "Não tive o que pensar a não ser sobre 'o
sinal do Filho do Homem no céu'." 2°
Embora esses "sinais" tenham impressionado a muitos, tanto de
dentro quanto de fora das fileiras mileritas, é importante notar que a
liderança do movimento nunca deu ênfase à aparição do cometa nem
a qualquer outro sinal astronômico da época. Todos se sentiam muito
Entrando no Ano do Fim 1 121

mais confortáveis com as grandes profecias panorâmicas de Daniel e


Apocalipse e a correlação delas com a história. O racionalismo conti-
nuou a guiar o movimento.
Enquanto isso, a intensidade do movimento continuou a crescer
à. medida que mais e mais pessoas aceitavam a mensagem de Miller.
Em fevereiro, ele pregou uma série que confirmou o adventismo na
Filadélfia. De acordo com Litch, "a cidade ficou completamente agi-
tada pela influência das apresentações. Os santos se regozijaram, os
impios tremeram, os apóstatas estremeceram e a Palavra do Senhor
foi disseminada e glorificada". Ao se despedir dos crentes da Filadélfia,
Miller afirmou que eles "não deveriam mais ver seu rosto nesta vida,
mas que em poucos meses ele esperava ver todos os filhos de Deus no
reino eterno do Salvador"."
No inicio de 1843, o próprio nome de Miller era capaz de atrair
uma multidão. No fim de janeiro, alguns panfletos foram espalhados em
Washington, D.C., afirmando que ele falaria dos degraus do escritório
de patentes, no domingo seguinte. Mais de 5 mil pessoas "de todos os
sexos, idades e cores" se aglomeraram para a apresentação, com uma
"ata especial separada com cordas para os congressistas, esposas e
outros dignitários. Infelizmente, Miller não estava na cidade. Quando
o fato foi descoberto, houve grande indignação seguida por alguma
desordem. Provavelmente, o evento foi planejado por alguns "demônios
que faziam girar as máquinas de imprimir", os quais haviam produzido
e distribuído os panfletos. 22
Infelizmente para Miller, durante grande parte de 11843 as doen as
o impediram de aproveitar o pico de sua popularidade. Ele tin a 61
anos de idade sofria tremores em consequência da paralisia e enfren-
tava uma porção de doenças sérias e prolongadas. Não há dúvida de
que sua saúde havia sido comprometida pelos anos em que atuara
como pregador, no limite de sua resistência física, a fim de proclamar
a advertência do julgamento vindoura No fim de julho de 1842, ele
escreveu para Himes sobre seu trabalho, árduo e sem fim, dizendo que
não havia "desfrutado um dia de repouso, desde o dia P de março". 23
, Em 27 de março de 1843, Miller ficou doente, permanecendo nos
decisivos cinco meses seguintes, muito próximo da morte. "A minha
saúde", escreveu ele, em 3 de maio,

está bem, como meus colegas diriam. Porém, tenho agora 22


edemas, que são do tamanho de uma uva ou até de uma noz,
122 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

no meu ombro, lados, costas e braços. Estou verdadeiramente


atingido como Já. E [tenho] quase o mesmo número de con-
fortadores - a única diferença é que eles não vêm me ver como
os [amigos] de Já, e seus argumentos não são tão racionais.

• Duas semanas depois, Miller estava novamente debilitado. Ele não


voltaria a pregar até o outono. 24
Por outro lado, o início de 1843 deu a Miller muitos outros motivos
para se regozijar. Um deles era que sua esposa e seus oito filhos eram
"todos filhos de Deus e crentes na mesma doutrina" que ele. Essa afirma-
ção era bem diferente de outra, em 1838, quando ele orou pelos filhos
e o povo de Low Hampton que "estava dormindo sobre o vulcão da
ira de Deus". "Por favor, meu Pai", havia escrito em uma carta dirigida
a seu filho, "converta os meus filhosl." 25
Apesar da inabilidade pessoal de Miller para pregar, 1843 foi um
ano importante na propagação da mensagem. Os adventistas que de-
fendiam a data de 1843 se empenharam com grande vigor, enquanto
aqueles que não a reconheciam caíram na obscuridade, à medida que
o milerismo se tornava mais popular.
Até o fim de 1842, o milerismo era um movimento já bem esta-
belecido no nordeste americano. Por isso, em setembro de 1842, os
editores do Oberlin Evangelist se sentiram obrigados a se desculpar
com os leitores do oeste por seu tratamento extenso do milenarismo.
Eles chegaram a mencionar que muitos artigos foram incluídos para os
leitores do leste, "onde o assunto ainda está sob discussão"."
A negligência quanto ao oeste mudaria radicalmente em 1843. Em
maio daquele ano, foi decidido impulsionar o trabalho, tanto para o
oeste quanto para o sul. 27 Nos poucos meses seguintes, cidades como
Rochester, Nova York, Cincinnati e Chio se tornariam centros para
a propagação da mensagem, e o milerismo também seria fortalecido
em Cleveland.
Além das novas áreas, novos obreiros alcançariam preeminência
a fim de dividir a crescente responsabilidade do trabalho. Nathaniel
Whiting, J. B. Cook, E G. BrownCG-S,g-eSt-OrRs,), Me Elon
Galusha se juntaram aos influentes lideres mileritas. Alguns deles,
com os demai, fariam muito para impulsionar a obra adventista da
área central de Nova York e alcançar Iowa e Wisconsin. O Western
Midnight Cry, de Cincinnati (liderado por Storrs) e o Voice of Truth,
de Rochester (liderado por Marsh) logo se juntaram ao Second Advent
Entrando no Ano do Fim 1 123

of Christ, de Cleveland (liderado por Fitch), como periódicos mileritas


regionais no oeste.
Não somente novos líderes foram enviados para o oeste e novos
periódicos foram ali iniciados, mas havia também planos de cobrir a
área com Bibliotecas do Segundo Advento para que eles não tivessem
-desculpas". "Esperamos e aguardamos", escreveram os editores• da

Signs, "ver uma poderosa reunião no oeste." 29 A partir do verão de 1843,


também encontramos Miller e Himes investindo mais tempo pessoal
no oeste, uma vez que a urgência da mensagem os pressionava com
força ainda maior.
Em dezembro de 1843, a mensagem foi levada para Saint Louis.
Dali, os pregadores adventistas foram até o sertão americano. 29
O ano do fim também suscitou tentativas de implantar a mensa-
gem com mais firmeza no sul. Como Litch observou, enquanto "todo
o oeste parecia maduro e pronto para a colheita", o sul era um campo
de trabalho muito mais difícil»
Talvez a principal razão pela qual o milerisrno tenha alcançado
poucos adeptos no sul seja sua liderança fortemente abolicionista. Não
somente a região era a favor da escravidão, mas as outras principais
reformas da época não causaram o mesmo impacto no sul como no
restante da nação. No geral, os sulistas procuravam preservar o status
quo. Essa atitude provia um solo relativamente hostil para as sementes
do milenarismo.
Entretanto, dizer que o milerisrno teve dificuldades no sul não é o
mesmo que dizer que não houve alguma forma de influência. Em 1841,
o pastor J. M. Thomas esteve pregando o "clamor da meia-noite" de
forma bem-sucedida na Carolina do Sul. Thomas apelou aos pastores
do norte que fossem ajudá-lo. No entanto, ele parece ter continuado
como uma única voz clamando na escuridão, e aparentemente não
houve resposta ao seu apelo."
O ponto decisivo da atenção milerita no sul ocorreu em 1843. Em
fevereiro daquele ano, dois pregadores do advento começaram uma "turnê
pelo sul", mas só chegaram até Richmond, Virgínia, antes de decidirem
voltar para casa. Após uma segunda incursão por esse Estado, Litch con-
cluiu que "parecia que algum feitiço fatal havia sido colocado sobre o
sul, que não podia ser tratado". O início de 1843, no entanto, presenciou
algum sucesso na área de Washington, D.C. "
Na assembleia geral de Nova York, em maio de 1843, foi relata-
do que havia pedidos "urgentes e repetidos" do sul para que fossem
124 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

enviados palestrantes; mas, de acordo com a Signs, "os preconceitos


e desconfianças existentes no sul a respeito da escravidão" tornavam
"difícil ou quase impossível atender a esses pedidos". "
A ex eriência passada parecia apoiar essa declaração. Afinal,
eorge Storrs (um abolicionista ardoroso) fora atacado, naquele mês,
em alik experiência dz osé : ates também ilustra os problemas
da pregação até mesmo nos esta. os víZtiihos, onde a influência da escra-
vidão era mais fraca. Bates foi advertido quanto à experiência de Storrs
e escreveu: "Se eu fosse para o sul os senhores de escravos me matariam
por ser um abolicionista." Ele viu o perigo, mas estava convicto de sua
responsabilidade em• dar a advertência de qualquer forma."
Após experimentar um sucesso modesto em Maryland, ele foi desa-
fiado e denunciado por um líder metodista leigo. O homem "começou
a falar", observa Bates,

em nos punir [H. S. Gurney estava com• Bates], fazendo-nos


sentar em um pedaço de pau que seria carregado por outros ho-
mens para fora da cidade. Eu disse: "Estamos prontos para isso,
senhor. Se você colocar uma cela nele, preferiríamos montar a
caminhar" Isso causou tal impacto na reunião que o homem
parecia estar perdido sem saber onde procurar seus amigos.
Então falei para ele: "Você deve saber que viajamos 900
km pelo gelo e pela neve, por conta própria, para dar o 'clamor
da meia-noite', sem antes sentar e calcular o custo. E agora, se
o Senhor não tiver mais nada para fazermos, será um prazer
repousar no fundo da Baía Chesapeake, ou em qualquer outro
lugar, até que o Senhor venha. Mas se ele tiver qualquer coisa
mais para que façamos, você não poderá tocar em nós!" 35

Em outra ocasião, na mesma viagem para Maryland, Bates foi abor-


dado por um juiz sulista que entendeu que o pregador era um aboli-
cionista e "tinha vindo para levar nossos escravos". Bates respondeu:

Sim, Juiz, eu sou um abolicionista, e vim libertar seus escravos,


e você também"! Quanto a levar seus escravos, nós não temos tal
intenção; pois, se você nos der todos os que tem (e fui informado
de que possui um grande número), não saberemos o que fazer
com eles. Nós ensinamos que Cristo está voltando, e queremos
que todos vocês sejam salvos.36
Entrando no Ano do Fim 1 125

As experiências de Bates não somente ilustram alguns dos problemas


que os mileritas enfrentaram mesmo em estados vizinhos, mas também
demonstram a fé e a coragem que os impulsionava, à medida que o
- tempo do fim" se aproximava.

O restante de 1843 presenciou várias tentativas adicionais de evan-


gelizar o sul; mas, com exceção de Maryland e Kentucky, os mileritas
tiveram pouco sucesso. No fim do ano, no entanto, alguns pregadores
mileritas começaram a ver uns poucos resultados na Virgínia e nas
Carolinas do Norte e do Sul. No início de 1844, Miller, Himes e Litch
receberam pedidos para trabalhar em cidades como Charleston, Carolina
do Sul; Savanah, Georgia; e Mobile, Alabama."
Apesar das circunstâncias desafiadoras, a mensagem havia alcançado
a parte mais distante do sul, não tanto • ela presença de um pregador
mas pela palavra impressa. 'o • ert W. O son, o único acadêmico que
estudou profundamente o mi erismo no su , afirma que a mensagem
dot movimento era "muito bem conhecida" na região, e que jornais
religiosos periodicamente publicavam artigos sobre o assunto. 38
Em meados de 1843, enquanto a literatura milerita havia con-
vertido pessoas em lugares distantes como nas Sandwich Islands e
na Noruega, foi na Grã-Bretanha que o milerismo causou seu maior
impacto internacional. Por décadas, a segunda vinda antes do mi ênio
havia sido • regada lã • or intermédio de homens com Edward Irving
Henry Drummond e John Nelson iarby Como resultado, uaO
for
'--'-------UéT.i
tem e1 nilenat'istas havia se esenvolvido. 39
cr------------
Em 1840, os mileritas nos Estados Unidos tentaram estabelecer
uma ligação com os adventistas "literalistas" na Grã-Bretanha, mas as
expectativas se dissiparam. Isso ocorreu por causa de diferenças teológi-
cas irreconciliáveis centralizadas no retorno dos judeus à Palestina e na
, crença de que os não crentes seriam mantidos vivos durante o milênio,
podendo ser convertidos após a segunda vinda de Cristo.
. Como resultado, o milerismo e o pré-milenarismo britânico tradi-
cional falharam em chegar a um consenso que lhes permitisse trabalhar
juntos. Isso também pode ser dito com respeito aos pré-milenaristas
_ cliteralistas" deaioria
c. presbiteriana, congregacional e episcopal nos
, Estados Unidos. Mais tarde, os "literalistas" britânicos e americanos de-
senvolveriam o pré-milenarismo dispensacionalista, que se tornou po-
r: pular entre os fundamentalistas e pentecostais no século 20. 40)
Devido às incompatibilidades com o literalismo pré-milenial, o
milerismo teve de encontrar seu próprio caminho na Grã-Bretanha.
126 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Essa tarefa, no entanto, não levou muito tempo para se realizar, pois
a literatura milerita logo chegou ao outro lado do Atlântico. Na ver-
dade, escreveu Louis Billington, "há evidências de que a exegese de
Guilherme Miller estava sendo estudada na Grã-Bretanha mesmo
antes que tivesse alcançado mais do que alguma popularidade local
nos Estados Unidos"»
Os pregadores mileritas começaram a aparecer na• Grã-Bretanha
em 1841, mas o evento que deu o maior ímpeto ao milerismo bri-
tânico foi a conversão de Robert Winter na primeira campal mile-
rita "oficial", em junho de 1842. Após sua conversão, ele retornou à
Inglaterra, onde encabeçou a obra de publicações, que não somente
reimprimia muito da literatura americana como também desenvolvia
seus próprios periódicos. 42
Na primavera de 1843, Winter relatou que havia publicado 15 mil
cópias de livros mileritas selecionados. "Muitos pregadores", escreveu
ele, "têm recebido a verdade por meio da leitura desses livros." Eles
também estavam começando a apresentar a mensagem. Winter mesmo
pregou nas ruas com seu "gráfico hasteado em uma estaca".
Os crentes britânicos planejavam realizar uma campal naquele
verão, se o tempo permitisse; "mas se o Senhor vier, nós a realizaremos
na nova terra". Winter pediu ajuda dos Estados Unidos. Ele garantiu aos
editores do Midnight Cry que se os mileritas pudessem enviar pregado-
res, encontrariam o povo inglês mais responsivo do que os americanos»
Naquele mês de maio, a assembleia geral de Boston respondeu ao
pedido de Winter propondo enviar missionários à Inglaterra. Litch se
apresentou para a tarefa, e uma comissão foi formada para arrecadar
dinheiro para o projeto." No entanto, apesar das melhores intenções,
nenhum líder milerita foi convocado para a missão britânica até o
fim do verão de 1844. Por outro lado, há evidência de que fundos
significativos foram enviados dos Estados Unidos para ajudar na obra
na Inglaterra.
No fim de 1843, Winter escreveu: "a doutrina do advento é o
principal assunto neste pais [...] . Milhares estão agora aguardando a
vinda do Senhor, e acreditam que ocorra em breve -- pregadores de
todas as denominações estão agora dando o clamor da meia-noite."
Em algumas partes do pais, "vilas quase inteiras têm se convertido ao
Senhor". 45 Ao mesmo tempo em que é impossível avaliar precisamente
o impacto do milerismo na Grã-Bretanha, não há dúvida de que ele
havia se tornado um movimento significativo nessa nação.
Entrando no Ano do Fim 1 127

Durante os anos anteriores a 1843, houve uma variedade de ativida-


des mileritas; mas o ano do fim do mundo presenciou a multiplicação
das ações do movimento, pois o senso de urgência e responsabilidade
impressionava os crentes como nunca antes. Em novembro, Litch es-
aeveu que as publicações mileritas foram levadas "a várias partes dos
quatro cantos da Terra e a várias ilhas do mar"."

Respostas Não Mileritas à Chegada do Ano


No final de 1842 e início de 1843, estava ficando difícil, se não im-
possível, para não mileritas ignorarem o fenômeno do advento. Como
resultado, a cobertura da imprensa sobre o movimento aumentou
radicalmente com a aproximação da crise. Isso foi particularmente
verdadeiro com a chegada do mês da predição do fim. Portanto, a edição
de março de 1843 da Graham's Magazine apresentou uma matéria de
capa intitulada "O Fim do Mundo". É importante também observar
o fato de que esse longo artigo terminava com o autor mencionando
meninos na rua "gritando 'Dia da mentira]. Dia da mentira? '" 47
Durante esse mês, o New York Tribune, de Horace Greeley, dedicou
uma edição inteira ao milerismo, em :2 de março de 1843, apenas 19
dias antes do começo do ano do fim. A maior parte da primeira página
foi dedicada ao gráfico milerita. A edição apresentava uma "refutação
clara e completa da interpretação profética do Sr. Miller" escrita pelo
•‘rev. Sr. Dowling", um clérigo batista. A imprensa foi igualmente hostil
em Boston e muitas outras cidades."
Até mesmo escritores americanos, como Edgar Allan Poe, Nathaniel
Flawthorne e John Greenleaf Whittier fizeram referências ao mileristno.
Os temas apocalípticos de Miller também influenciaram várias de suas
produções literárias."
• Em fevereiro de 1843, o Liberator, de Garrison, começou a publicar
uma série sobre o milerismo no costumeiro estilo mordaz de seu editor.
De acordo com ele, o melhor argumento a favor do milerismo era que
•ele tinha sido "assaltado por um sacerdócio ignorante e corrupto" e sua
"turba" de seguidores. Mesmo que o abolicionista ríspido acreditasse
que "o ódio" amontoado sobre os adventistas fosse injustificado, ele
ainda se regozijava de que "a teoria do Sn Miller fosse logo explodida
vergonhosamente".
Garrison se mostrava perplexo com o fato de que "um homem
iletrado, mas resoluto, como o Sr. Miller, pudesse, nesta era e neste
or várias razões, 1843 se tornou um ano crítico para o nnilerismo.

p Os adventistas não apenas acreditavam que Cristo viria naquele


ano, mas, à medida que se tornavam mais apegados à data e o tem-
po se aproximava, redobraram seu esforço missionária Tal posicionamen-
to, em face de ideologias dominantes e igrejas estabelecidas, provocaria
uma crescente rejeição em relação aos rnileritas, durante o ano de 1843.
Esses resultados não estavam nos planos de Miller. Primeiro, em seu
entusiasmo sincero, mas ingênuo, ele acreditava que tanto ministros quan-
to membros das igrejas aceitariam com alegria suas descobertas quando
percebessem as evidências bíblicas. Esse sentimento, apesar de inibido
consideravelmente pelo seu contato inicial com os pastores, parecia até
certo ponto ter validade na década de 1830, pois um número crescente
de igrejas, principalmente de denominações protestantes, abriu as portas
para sua pregação.
No entanto, aos poucos, Miller percebeu que a grande maioria delas
não estava tão interessada em seus ensinos "especiais" sobre a segun-
da vinda. Na verdade, os ministros queriam se beneficiar da habilida-
de do pregador em trazer novos conversos para encher suas igrejas.
Saindo de Babilônia 1 131

Gradativamente, Miller compreendeu que estava sendo usado. A própria


natureza de sua mensagem, no entanto, tomou essa percepção inevitável.'
Pregar a vinda de Cristo para 1843 quando ainda faltavam vários
anos era bem diferente de apresentar a mesma mensagem quando o
tempo estava se aproximando. Uma doutrina que parecia inofensiva, no
final da década de 1830, tornou-se uma ameaça que podia desorganizar
tanto as igrejas quanto a sociedade, em 1843. Com a chegada do ano
do fim, o sucesso do milerismo havia criado o que Ruth Alden Doan
tem chamado de uma "crise de limite". 2

"Crise de Limite"
Ao rejeitar totalmente o progresso americano e a esperança à parte
do supematuralismo radical do segundo advento, o milerismo, de forma
gradativa, se colocou em oposição tanto em relação às igrejas quanto à
sociedade. Portanto, à medida que o tempo predito se aproximava, era
impossível manter-se neutro: a mensagem milerita era aceita ou rejeitada.
Não foi a determinação da data que causou o desenlace da crise.
Afinalklohn Wesley também havia estabelecido uma data para o fim:
18364 Vários batistas propuseram datas entre 1830 e 1847. De fato,
foi a intencionalidade, o sucesso popular e a proximidade do tempo,
da forma como foi pregado pelos mileritas, que tornou impossível para
muitas pessoas ignorar o movimento, especialmente à luz da responsa-
bilidade crescente dos adventistas em advertir o mundo. O milerismo
e a cultura estavam numa rota de colisão que tendia a se intensificar
com o passar do tempo.'
Ao se aproximar o predito tempo do fim, cada lado se tornou mais
severo em relação ao outro. Por exemplo, os editores da Signs achavam
que era seu dever "expor a doutrina que parec [ia] uma fábula destrui-
dora das almas, o chamad a mi ênio tempoi-`02- 1...]. Classificamos essa
doutrina como fábula — um engano".
Estas palavras duras não valorizavam necessariamente os mileritas
perante aqueles que ensinavam ideias alternativas ao milênio. Também
não ajudavam a resolver as questões quanto a um número cada vez
maior de congregações que passavam a ver seu pastor como um disse-
minador desse "engano". Quanto mais seguros os mileritas se tornavam
de sua interpretação bíblica, mais agressivos agiam para com os demais.'
A oposição aos mileritas também não era gentil muito menos in-
sigmificante. De todos os lados, os adventistas enfrentavam o ridículo e
132 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

os abusos. Por exemplo, em um período de seis meses, o Universalist,


de Hartford, se referiu aos rnileritas como "simplórios", "iludidos",
"ignorantes", "ridículos", "desacreditados", "iletrados", "empolgados",
"grossos", "malcriados", "cegos", "fanáticos", "maldosos", "imbecis", "im-
postores" e "fraudulentos". 5
Os lideres mileritas eram os alvos especiais. Grande parte da cri-
tica contra eles se agrupava em torno de dois pontos. Primeiro, eram
acusados de promover incitamento religioso para encher os bolsos
e "devorar e engordar com aquilo que extorquiam por meio dos te-
mores, ou de contribuições piedosas daqueles que eram enganados".
Novamente, o Olive Branch afirmava que "a quantidade de pobreza
e miséria produzida por pessoas como Himes e seus instrumentos só
será conhecida no último grande dia". 6
Os lideres mileritas também eram acusados de hipocrisia pois, de
acordo com alguns observadores, seu estilo de vida não se harmonizava
com suas predições. Criticas dessa natureza incluíam itens como o fato
de Miller ter construído um "muro de pedra" em sua fazenda. Outros
diziam que ele não poderia ser sincero, uma vez que se recusava a
vender sua propriedade. Para Litch, essa era a mais "fantasiosa" de todas
as acusações. "Como! Oh! Como Cristo Poderá voltar", parodiava ele,
"se o Sr. Miller não vender sua fazenda???" 7
Outras caricaturas do milerismo destacavam o boato de que Miller
estava morto e que os mileritas estavam preparando roupões longos e
flutuantes para se encontrar com o Senhor. Ainda diziam que os líderes
verificaram cuidadosamente os cálculos e perceberam que estavam
errados em mil anos (algumas versões dessa história falam em 100
anos). 8 Assim, o Tournal of Commerce relatou em janeiro de 11.843:

Entende-se que Miller e seus associados revisaram recente-


mente os cálculos sobre os quais a profecia da aproximação
iminente do fim do mundo está fundamentada, e encontra-
ram um erro na base de uma coluna de mil anos. Essa é uma
descoberta muito importante no momento. As "vestes da as-
censão", com as quais muitos dos mileritas de Long Island se
muniram, provavelmente ficarão sem uso. 9

Naturalmente, havia piadas e caricaturas para adicionar mais va-


riedade ao "humor refinado", envolvendo o milerismo. Uma anedota
apresentava Miller tão ocupado, pregando o julgamento iminente,
Saindo de Babilônia 1 133

que ele havia se esquecido de se preparar. "Misericórdia?", dizia Miller


surpreso, "não tinha ideia de que seria tão quente".
Outra caricatura mostrava Miller ascendendo ao céu com seus segui-
dores pendurados nele. Um quadrinho apresentava os santos subindo
para se encontrar com o Senhor em várias posturas. Os "gordos" estão
sendo levados com ganchos pelos anjos. Para os mileritas, esses gráficos
eram sacrílegos e demonstravam a "obra suja do diabo". Eles respondiam
a essas provocações publicando-as na coluna dos "escarnecedores",
como mais um sinal dos últimos diasi°
Com a aproximação do ano do fim, aumentaram as acusações a
respeito da suposta insanidade induzida pelos mileritas. De acordo
com o American Journal of Insanity, muitos teriam ficado dementes por
causa do milerismo. O periódico complementou: "Milhares que ainda
não estão dementes, estão com sua saúde debilitada em tão alto grau
que podem ficar incapacitados para os deveres da vida para sempre;
e isso pode ocorrer especialmente com as mulheres." O nome técnico
dado para a doença milerita era "epidemia ou monomania contagiosa".
De acordo com essa publicação especializada, "a prevalência da febre
amarela ou da cólera não [poderia] ser considerada uma calamidade
tão grande para este pais" como a doutrina de Miller. 11
Certamente, a maneira como alguns adventistas agiam, ou os relatos
sobre sua forma de agir, contribuía com material para a "ciência" emer-
gente da psiquiatria. Por exemplo, era comum considerar anormais as
pessoas que doassem suas posses como um sinal da crença de que Cristo
estava voltando e de que não teriam mais necessidade dessas coisas. Da
mesma forma, alguém era tido como demente quando gastava a pou-
pança de toda sua vida no afã de divulgar a doutrina do breve advento.
Em outro nível, aqueles que estavam no limite do equilíbrio emo-
cional podiam ser desestabilizados pela pregação intensiva a respeito
do juízo iminente. Nessa categoria estava um homem de Nova York
que tentou cometer suicídio engolindo chumbo derretido. Outro, um
alfaiate de Clevelancl, foi encontrado a cinco quilômetros da cidade
sentado num tronco de árvore, com a Bíblia na mão, esperando a se-
gunda vinda.' 2
Havia também as histórias de mileritas envolvidos em atividades
excêntricas, como fabricar os roupões chamados de vestes da ascensão.
Por isso, o Niles National Register relatou que, em 23 de abril de 1843,
os mileritas de Providence, Rhode Island, enfrentaram uma enchente
em vez de um incêndio. "Naquele dia, vários mileritas caminharam
134 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

pelas ruas e campos, durante todo o tempo, vestidos com as vestes da


ascensão, completamente ensopados, procurando Ia vinda do Salvador
nas nuvens torrenciais para recebê-los e atear fogo ao mundo." Mais
uma vez, a tradição local em Macedon, Nova York, conta sobre um
milerita que "se vestiu de branco, e passou o dia inteiro, ou sobre a pilha
de lenha, ou no chiqueiro" esperando pelo Senhor. 13
(As acusações sobre as vestes da ascensão e a insanidade induzi-
da pelo milerismo eram negadas pelos próprios mileritas na época.
Pesquisadores como Francis D. Nichol e Ronald e Janet Numbers,
comprovaram serem falsas as acusações)Mesmo assim, esses rumores
ajudaram muito a incentivar as atitudes em relação aos crentes no
advento, em certos setores da população.
De fato, o rnilerismo realmente atraiu uma quantidade de pessoas
afligidas por instabilidade emocional. Mas essa característica tem sido
observada em todos os reavivamentos religiosos através da história. Na
verdade, em épocas anterioreslaqueles que viveram o que a sociedade
geralmente considerava ser uma vida fora dos padrões, tanto por causa
da dedicação total a Deus quanto por desequilíbrio emocional, haviam
sido classificados como santos, num extremo; e como bruxos, no outro.
No caso dos mileritas, tudo isso era considerado insanidade.")
Alguns mileritas podem ter sido realmente loucos. De fato, os opo-
nentes aos reavivamentos vinham alertando por décadas queCorir- ,,,----
tamento em. ciona e as pressões das campais causavam transtornos
nas pessoas. Nesse sentido, Alexis de Tocqueville, durante sua viagem
aos Estados Unidos, no início dos anos 1800, relatou que o intenso
entusiasmo religioso era responsável por um tipo de "loucura religiosa".
Mais tarde, acusações similares, de que a religião causava insanida-
de, seriam feitas por psiquiatras que analisaram o trabalho de Dwight
L. Moody, na década de 1870. De acordo com alguns, sua "ênfase na
'convicção do pecado' e na 'ira divina' pareciam perturbar 'o equilíbrio
mental de muitos jovens, pelo menos temporariamente'". 15
Além do abuso verbal e dos apelidos, os adventistas também so-
freram perseguição por meio de vandalismo, intimidação e tentativas
de interromper suas reuniões. Táticas similares foram usadas contra a
maioria dos movimentos impopulares através da história — especial-
mente quando ameaçavam .o status quo. Essa intolerância, no entanto,
geralmente funciona aos olhos dos participantes como uma validação
de sua missão orientada pelo Céu. Afinal, não sofreram tratamento
similar os apóstolos e profetas antigos?
Saindo de Babilônia 1 135

Apesar de Miller e seus colegas terem sido grandemente ridiculariza-


dos pela imprensa, eles também tiveram seus defensores. Por exemplo,
o Oberlin Evangelist censurou publicamente as "histórias absurdas [...]
colocadas em circulação [...] por uma grande porção da imprensa reli-
giosa [...]. Os irmãos Miller e Fitch podem estar errados, mas não são
patifes, nem bobos. Eles podem errar, mas têm o direito de não serem
difamados". 16
Novamente, o editor do Gazette and Advertiser se dedicou a investigar
pessoalmente a vida de Miller, "que provavelmente foi alvo de maiores
criticas e ridicularizações do que qualquer outro homem vivo". Para sua
surpresa, o editor encontrou o líder adventista conversando sobre assuntos
religiosos "com a segurança e firmeza de julgamento que nos fez sussurrar
para nós mesmos: `se isso for loucura, então há fundamentos nela'"?
Com frequência, os pregadores mileritas desenvolviam suas próprias
reações bem-sucedidas às criticas que lhes eram dirigidas. Quando
o reverendo William Brownlee foi a Newark, durante ufli -a campal
adventista, a fim de pregar contra Miller; Himes reconheceu o valor
positivo da publicidade que esse inimigo da causa provocara. Num re-
to posterior, ele escreveu: "A vinda do irmão Brownlee aqui tem feito
tanto bem para nós que eu pagaria com prazer todos as suas despesas
se ele viesse novamente. Queremos o povo animado.""
Em outra ocasião, Himes recebeu um• convite, que ele acreditava ser
falso, para falar no Princeton College. Ao decidir se aproveitar daquela
trapaça, ele viajou até lá e passou o dia conversando com os funcionários
e alunos dessa faculdade. O líder considerou a viagem muito proveito-
sa, uma vez que "o assunto ainda não havia causado alvoroço" por ali.
Além de sua própria divulgação do assunto, ele deixou estabelecida
uma Biblioteca do Segundo Advento e doou um gráfico profético para
cada biblioteca de Princeton."
Um jovem pregador adventista chamado Tiago White, também
demonstrou que podia tirar vantagem da hostilidade. Retornando a
uma cidade onde ele havia realizado reuniões anteriormente, Whi-
te foi recebido com criticas pelo pregador congregacional. "Por quê,
St White,'" disse o oponente, "o senhor ainda está na terra dos vivos?'
-Não, senhor', foi a resposta, 'estou na terra dos mortos, mas na breve

volta do Senhor, espero ir para a terra dos vivos' ." 2°


Mesmo que Miller e seus partidários fossem frequentemente capa-
zes de responder aos ataques dos oponentes, as constantes acusações
tiveram suas consequências. Em fevereiro de 1843, Miller escreveu
136 1 ADVENTISMO -- Origem e Impacto do Movimento Milerita

a seu filho, expressando sua tristeza por causa das "muitas falsidades,
que um sacerdócio orgulhoso e arrogante inventou, e que a imprensa
mercenária tem colocado em circulação".
Poucos meses antes, Miller havia comentado que precisava afastar
"a raiva, a maldade e o revanchismo" de sua mente?' Talvez, o mais
surpreendente fato sobre esse homem não é que ele tenha caído no
poço da raiva e da retaliação uma e outra vez, mas que isso tenha
acontecido tão poucas vezes.

Resistência Crescente ao Milerisino


A "crise de limites" entre o movimento milerita e a cultura cristã
não aconteceu somente no ambiente secular. Também ocorria quase
diariamente nas congregações locais, à medida que adeptos do nide-
rismo e os contrários a essa doutrina se defrontavam face a face com
ideias incompatíveis a respeito da realidade.
A "crise de limites" foi intensificada pela firme crença milerita de
que as exigências de Deus tinham precedência sobre as determinações
da comunidade eclesiástica. Por isso, os adventistas acreditaram que
deveriam dar a advertência do "clamor da meia-noite" mesmo para
as igrejas que não queriam ouvir. Se eles tivessem permanecido em
silêncio, teriam evitado problemas. No entanto, manter o silêncio ia
contra a mais profunda convicção da necessidade de advertir as pessoas
sobre .o julgamento vindouro. Esse enfrentamento constante só poderia
conduzir a unia situação: a resistência crescente ao rnilerisrno, tanto
em relação às congregações quanto às denominações.
Essa oposição ocorreu de pelo menos três formas. A primeira foi que
um número cada vez maior de congregações passou a proibir os mileritas
de realizar cultos em seus prédios, à medida que o tempo do fim se aproxi-
mava. No início, esse problema era esporádico. Miller relata que a primeira
vez que foi excluído de uma congregação foi em dezembro de 1839.
No fim do verão de 1842, a situação estava se tornando uma ocorrência
comum. Em agosto de 1842, Himes escreveu: "Estamos sendo cada vez
mais acusados, censurados, julgados, condenados e barrados em relação
à maioria dos púlpitos." Em março de 1844, disse: 'As portas da maioria
das igrejas em nossa terra têm se fechado para essa doutrina. E os pastores
têm se orgulhado de que suas igrejas estejam livres dela." 22
Além disso, o artigo continua relatando que "sarcasmo e escárnio
são os argurnentos usados para contestá-la. Membros das igrejas, que
Saindo de Babilônia 1 137

ainda estão em condição regular, têm o privilégio de exortar seus com-


panheiros a fim prepará-los para o julgamento vindouro. E eles são
excomungados sem causa"."
Esta última frase nos leva à segunda forma de resistência ao mile-
rismo. À medida que o tempo do fim se aproximava, os adventistas
tinham sua condição de membros• de igreja cancelada, uma vez que
não se calavam a respeito de suas crenças. Essa decisão seria certamente
compreensível do ponto de vista de várias denominações; afinal, elas
tinham um corpo doutrinário.
Além disso, os mileritas não somente pregavam sua doutrina
peculiar; mas, ao pregá-la, frequentemente ensinavam, ou pelo menos
sugeriam, que as igrejas estavam erradas. Alguns até mesmo viam suas
denominações como apostatadas, especialmente em face de sua recusa
em aceitar os ensinos mileritas sobre o advento e o milênio. Dificil-
mente se poderia esperar que as igrejas aceitassem essas manifestações
com alegria.
Os resultados eram previsíveis. Muitos adventistas não tinham per-
missão para falar sobre o advento em suas próprias congregações. Isso
redundava em duas possibilidades: ou eles eram forçados a agir contra
essa ordem — uma decisão que frequentemente os levava à excomu-
nhão —ou tinham de abandonar as igrejas por causa da oposição. Essas
alternativas deixavam os mileritas sem uma congregação para pertencer.
Nem todos enfrentaram essas difíceis escolhas, mas é claro que dezenas
de milhares de crentes souberam lidar com isso.
A terceira forma de resistência ao milerismo se manifestou por
meio da expulsão de pregadores e pastores que aceitaram a doutrina
do advento. Em 1843, ministros congregacionais de Vermont decidiram
proibir qualquer ensino da vinda imediata de Cristo. Além desse exem-
plo, o presbitério de Nova York rejeitou um candidato "inteiramente
adequado" à ordenação, unicamente com base-na crença dele na breve
vinda de Cristo. 24
De maneira similar, em 1843, Joseph ars foi destituído de seu
cargo editorial entre os conexionistas por causa de sua defesa do mi-
lerismo. Do mesmo modo, no início de 1.844,I GalifsEã devido à
pressão crescente, "ofereceu sua renúncia [...]."i ghnhan o a liberdade
a
para pregar a verdade completa", sem que fosse necessário ajustar
"sua pregação ao gosto de uma igreja laodiceana". Muitos pastores
passaram por tais experiências, ao tentar se equilibrar entrej a lealdade
a sua denominação e às crenças adventistas.25
138 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

A experiência da Associação do Maine, da Igreja Metodista Episcopal,


ilustra bem a crise, tanto da perspectiva dos pregadores individuais quanto
de uma denominação altamente organizada. No verão de 1843, como
pode ser lido em Listo?)? of Methodism in Maine, "a empolgação com
o segundo advento se tornou bastante extensa [no Estado] [...]; pales-
trantes viajavam pelo país, com gráficos e diagramas horríveis" ,26 ,•

O sucesso dos palestrantes levou o metodismo do Maine à crise, pois


cerca de 30 dos seus pastores estavam interessados no rnilerismo ou
tinham começado a pregá-lo. Como resultado, em julho, a Associação
do Maine, reunida em Bath, aprovou uma série de resoluções contra o
milerismo. A segunda resolução afirmava que as crenças mileritas eram
contrárias ao metodismo e deviam ser incluídas "entre as doutrinas
errôneas e estranhas que estamos comprometidos a banir e eliminar".
A terceira resolução afirmava que a pregação do milerismo era "irre-
conciliavelmente inconsistente" com os deveres do ministério metodista
e tinha, em última instância, uma "tendência desastrosa". A resolução
final determinava que aqueles que pregavam doutrinas mileritas "se abs-
tivessem completamente de disseminá-las, daquela data em diante". 27
Depois dessa reunião, muitos pastores deixaram a defesa pública do
milerismo. Contudo, nem todos eles seguiram esse caminho. Um caso
que serve como um bom exemplo é o d.: Levi Stockman, sue continuou
pregando as crenças adventistas "como questão s e s ever para com Deus
e o mundo". Como resultado, ele foi levado a julgamento por um concí-
lio de pregadores, em Portland, Maine. Com base nas decisões de Bath,
Stockman foi acusado de heresia, apesar de as resoluções não terem
valor legal na lei eclesiástica metodista e serem contrárias à teologia de
ohn Pletcher um dos teólogos formadores do metodismo.
Stoc an demonstrou que aquele procedimento fez com que a
Associação Metodista do Maine se parecesse "bastante com a velha
'MÃE DAS MERETRIZES' ) caracterizando-se como uma de suas FILHAS".
Ele ainda escreveu, no início de 1844: "Estamos muito perto de uma
crise -- uma terrível crise -- entre nós e as igrejas, a respeito dessa ques-
tão; não é meramente uma diferença de opinião, mas uma diferença de
ação e espírito. [...] A linha divisória está sendo rapidamente traçada." 28
Todavia, a relação do metodismo com Stockrnan ainda não havia
terminado. Após o término do julgamento, solicitaram que ele, mesmo
morrendo de tuberculose, se retratasse, mas ele se recusou. Stockman
foi então procurado por seu superior, indicando que, se não voltasse
atrás, seria expulso da igreja, e após sua morte, sua esposa e seus três
Saindo de Babilônia 1 139

filhos não receberiam os benefícios reservados para sustentá-los. "Essa


ímpia ameaça covarde", relata um dos ministros metodistas do Maine,
companheiro que também aceitou o milerismo, "não o convenceu; mas
lhe deu a oportunidade de dar aos pastores presentes uma lição das
Escrituras sobre a caridade cristã, que ele cultivava: 29
Stockrnan foi expulso e morreu poucos meses depois, em 25 de
junho de 1844, com 32 anos. Em seu obituário, um de seus associados
metodistas o descreveu como alguém que teve "uma nobre carreira
ministerial e cristã, 'com exceção deste único ponto escuro no seu
caráter', referindo-se a sua fé na vinda imediata de Cristo". 3°
Para os metodistas, o caso de Stockman teve o efeito desejado.
O livro History of Methodism in Maine diz:

Os irmãos que foram desencaminhados por essa ilusão [o


milerismo], com poucas exceções, viram o erro, e, como pes-
soas honestas, humildemente se submeteram à censura da
Associação. Eles foram restaurados à confiança dos irmãos
e a maioria ofereceu serviço valioso à igreja, na vida subse-
quente. Os poucos transgressores recalcitrantes se retiraram
da igreja, continuaram de mal a pior, até que, como estrelas
errantes, desapareceram na escuridão. 3 '

O Separatismo Milerita
Assim como Martinho Lutero, John Wesley e muitos outros refor-
madores, Guilherme Miller e seus seguidores não pretendiam formar
uma nova igreja -- algo como a denominação adventista. Ao contrário,
seu desejo era advertir o mundo a respeito da vinda de Cristo, dentro
da própria estrutura das igrejas existentes."
A primeira assembleia geral milerita, em outubro de 1840, tornou
essa posição bem explícita. "Não somos", diz o relatório da reunião,
- daqueles que semeiam discórdia entre os irmãos, que deixam de ser

membros das igrejas." Ainda, "não temos o propósito de distrair as


igrejas com quaisquer invenções novas, ou de estabelecer um nome
iniciando outra denominação entre os seguidores do Cordeiro". Em vez
disso, eles desejavam meramente "reavivar e restaurar [...] os antigos
marcos", dentro das congregações."
Entretanto, a cada assembleia organizada ou a cada novo periódi-
co estabelecido, os crentes do advento já estavam a caminho de uma
140 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

existência independente, mesmo permanecendo em suas igrejas. A se-


gunda sessão da assembleia geral — com suas recomendações agressivas,
induzindo os crentes a divulgar a questão do advento nas congregações,
pressionando os pastores acerca do assunto e formando classes bíblicas
especiais para o estudo do tema — foi um passo gigantesco em direção
à crise que levaria à separação adventista das denominações existentes.
A agitação em face do cumprimento de uma profecia de tempo que
se aproximava rapidamente, era a garantia de separação para muitos
mileritas.34
Se os crentes no advento tivessem permanecido quietos dentro de
suas denominações, poderiam ter se mantido nelas, mas tal silêncio
era diametralmente oposto à própria essência do conceito milerita de
responsabilidade. Eles entendiam que sua tarefa primordial era fazer
soar o clamor da meia-noite, avisando o mundo de que a hora do juízo
estava próxima.
O passo seguinte para o separatismo milerita aconteceu em maio de
1842. Nesse mês, foi organizada a Associação do Segundo Advento
de Nova York e arredores, por Henry Jones, entre outros. O estatuto da
Associação dizia: "Os subscritos, crentes na breve segunda vinda pessoal
de Cristo, estão, por meio desta, associados com o propósito de fortalecer
e confortar uns aos outros com essas verdades, disseminar conhecimento
sobre o assunto de todas as maneiras práticas e empenhar-se de todos os
modos para promover a glória de Deus.""
Mesmo não sendo uma igreja, a Associação coletou fundos e elegeu
oficiais. Também foi alugado um auditório para as reuniões de domingo
à tarde e formada uma classe bíblica para o estudo da verdade do ad-
vento. Ela não era vista como um substituto para a frequência à igreja,
mas um suplemento; por isso, o encontro era feito no domingo à tarde.
Os crentes podiam frequentar regularmente tanto a igreja quanto a
reunião da Associação."
Logo após á formação da Associação de Nova York, grupos similares
foram estabelecidos na Filadélfia e em outros lugares. Mesmo que não
fossem consideradas congregações, muitas associações locais se torna-
ram igrejas depois do desapontamento de outubro de 1844.
Outra decisão em direção ao separatismo adventista foi a constru-
ção de tabernáculos mileritas. O primeiro e mais significativo deles foi
concluído em maio de 1843, na cidade de Boston. Construído devido
à superlotação na Chardon Street Chapei, ele tinha capacidade para
3 mil pessoas e foi erguido de forma econômica, mas durável?
Saindo de Babilônia 1 141

O Boston Tabernacle se tornou o precursor de muitos prédios


onde congregações adventistas se reuniriam. Muitos desses edifíci-
os foram construídos com grande pressa, à medida que o ano do fim
do mundo se aproximava do ponto crítico.
Em Toronto, por exemplo, o grupo de crentes que crescia rapida-
mente decidiu erguer seu próprio templo, pois "todos os auditórios da
cidade, e todas as igrejas" estavam contra eles. Dentro de duas horas,
após a ideia ser apresentada, a "quantia total" para a construção da casa
de adoração foi arrecadada. Eles esperavam completar a construção em
seis a oito dias. "Nossa casa", escreveu um dos líderes, "será• para uso
temporário, na expectativa de em breve, trocá-la por aquela que tem
fundamentos, cujo construtor é Deus." 38
Entre o verão de 1842 e o de 1844, os crentes no advento lentamen-
te assumiram todas as características de uma denominação, incluindo a
ordenação de pastores. 39 Ainda assim, não demonstravam o desejo de
formar um novo corpo religioso. Por que deveriam? Jesus voltaria em
breve. Depois disso, não haveria mais necessidade de denominações.
Por essa razão, em maio de 1844, Litch escreveu: "Se há algo que
possa ser chamado de organização, isso será feito da forma mais sim-
ples, voluntária e bíblica [...]. Não esperamos nem desejamos formar
qualquer outra organização até alcançarmos a Nova Jerusalém e sermos
organizados pelo Rei dos reis. Aqui, somos peregrinos e estrangeiros,
sem lugar permanente" A única razão pela qual haviam estabelecido
encontros separados, segundo Litch, foi por terem sido forçados à di-
fícil decisão entre a separação das igrejas ou não ter reuniões de forma
alguma. Esse pensamento redundou no chamado ativo para se sepa-
rarem das igrejas, anunciado por alguns líderes mileritas, começando
em julho de 1843. 4°

"Caiu a Babilônia"
Miller jamais encorajou seus seguidores a deixar as igrejas. Em no-
vembro de 1842, ele escreveu: "Tenho aconselhado todas as pessoas
de cada denominação a não se separar de suas igrejas." No entanto, a
frase continuava, "se puderem viver entre eles e desfrutar os privilégios
cristãos"» No verão de 1843, como vimos, essa coexistência pacífica
se tornou impossível para muitos.
Em 26 de julho de 1843, Carlos Fitch pregou aquele que se tor-
nou um dos sermões mileritas mais famosos da história. Baseado em
142 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Apocalipse 18:1-5 e 14:8, tinha por título: "Sai dela, povo meul" Essen-
cialmente, as passagens apocalípticas lidam com a queda de Babilônia e
a consequente necessidade de o povo de Deus fugir do sistema corrupto
por ela representado.
(Até o fim do verão de 1843, os mileritas haviam identificado Babi-
lônia com a Igreja Católica RomanaPitch mudaria essa perspectiva.
Após relacionar Babilônia com o anticristo, ele continuou sugerindo
que "quem quer que se oponha ao reinado pessoal de Jesus Cristo
neste mundo, no trono de Davi, é um anticristo". Isso, segundo ele,
incluía tanto católicos romanos quanto aqueles protestantes que rejei-
tavam os ensinos da breve vinda pré-milenarista de Cristo. As igrejas
protestantes haviam caído no sentido de que, como a sua precursora
[a Igreja Católica], se tornaram opressoras e sucumbiram às tentações
da autoexaltação e cobiça pelo poder. 42
Fitch justificou que "sair de Babilônia é ser convertido• à verdadeira
doutrina das Escrituras, da vinda pessoal e do reino de Cristo". Nesse
ponto, ele estava• chegando perigosamente perto de sugerir que, para
ser um cristão, a pessoa tinha de ser urn adventista, um ponto que logo
ficou explícito. Ele não via como alguém podia negar a verdade do ad-
vento e ser um cristão Por isso, fez o apelo: "Se você é um cristão, saia
de Babilônia! Se você pretende ser um cristão quando Cristo aparecer,
saia de Babilônia, e saia agora] [...]. Ouse acreditar na Bíblia". 43
Quase na conclusão, Fitch advertiu que o livro do Apocalipse ensi-
nava que aqueles que permanecessem em Babilônia seriam destruídos.
Assim, no apelo final, ele implorou a seus ouvintes: "Saiam de Babilô-
nia para que não pereçam [...]. Nenhum salvo pode permanecer em
B abilônia."4
O sermão de Fitch causou um grande impacto no milerismo. Ele
foi primeiramente publicado em julho, no próprio Second Advent of
Christ. Então, em setembro, foi reimpresso no Midnight Cry, apesar de
os editores sentirem a necessidade de prefaciar a publicação com uma
nota declarando que faziam "uma aplicação diferente das Escrituras, em
relação à queda de Babilônia". Ele foi publicado também por Himes
como um panfleto, apesar de o editor não estar de acordo com algumas
das ideias do sermão."'
Em essência, Fitch forneceu aos seus colegas adventistas um argu-
mento teológico para a separação das igrejas. Em certo sentido, esse
raciocínio foi uma resposta condizente com a época. Afinal, muitos
mileritas estavam sendo removidos de suas igrejas, enquanto outros
Saindo de Babilônia 1 M3

eram impedidos de anunciar a mensagem que estava no centro de sua


experiência cristã. Era natural para ele concluir que aqueles que se
opunham ao movimento também se opunham a Cristo. A ação hostil
das igrejas simplesmente confirmava a interpretação dos adventistas
sobre elas, identificando-as com o anticristo.
Por outro lado, a ideia de separação estava inserida na própria estru-
tura das Escrituras. Nove anos antes do sermão de Fitch, rn Fle y Jones
escrevera para Miller sugerindo que Babilônia e o chamado para sair
dela pudesse significar "nossas igrejas", devido à corrupção das deno-
minações protestantes~Wtambém antecipou o chamado
para fora de Babilônia, ein— 83 . 46

Além do fundamento bíblico, a ideia de "sair de Babilônia", nas


palavras de Doan, "fazia parte do contexto social e cultural no qual o
milerismo despontou". O "sair de Babilônia" se constituía no estágio
inicial do estabelecimento de um grande número de grupos religiosos
e seculares da época, ao buscarem mais pureza e mais espaço para a
consciência. As palavras do Apocalipse, "Sai dela, povo meu", geral-
mente moldavam a retórica desses grupos. Um compromisso com o
erro era inaceitável»
Por isso, o sermão de Fitch não somente veio na hora certa, mas
também foi embalado numa terminologia significativa. Como resultado,
o povo respondeu, especialmente no interior do estado de Nova York
e no meio-oeste.
No entanto, no leste, a liderança mais conservadora recusou o sermão
inflamado de Fitch.( Miller, em particular, jamais aceitou essa mensa-
gem.)Em janeiro dei 844, ele reiterou sua posição básica de que não
havia aconselhado ninguém a se separar de suas igrejas, "a não ser que
os irmãos os expulsassem, ou lhes negassem privilégios religiosos"."
Uns dois meses depois, Miller expressou seu temor "de que o ini-
migo tivesse colocado a mão" no chamado para sair, "a fim de desviar a
atenção da verdadeira questão do clamor da meia-noite: 'Eis o Noivo".
Ele também tinha dúvidas sobre identificar as igrejas protestantes como
Babilônia. Em 1845, Miller se referiu ao chamado para sair de Babilônia
como "uma perversão das Escrituras" que acabou prejudicando a obra
adventista. Novamente, em 1846, ele lamentou a confusão causada
pela "cruzada profana" contra as igrejas protestantes. Esse empenho
havia "trazido homens de sangue em vez de homens de paz". Ou seja,
ele considerava que os problemas do adventismo começaram com o
chamado para sair de Babilônia."
144 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

• Miller havia se esquecido de que aquele clamor ocorrera princi-


palmente em virtude da perseguição aos adventistas, por parte das
denominações protestantes. Contudo, de tempos em tempos, quando
ele era intimidado no calor da batalha, a situação parecia-lhe diferente.
Por exemplo, enquanto se encontrava sob pressão, no início de 1844,
ele observou: "Se a igreja romana era a mãe das meretrizes, então suas
filhas devem ser meretrizes: e, portanto, as igrejas protestantes que a
imitam e participam do espírito da velha mãe devem ser assim reco-
nhecidas." Ele continuou oscilando sobre a influência da mensagem
para sair naquele momento ou em alguma outra ocasião no início de
1844. Posteriormente, ele escreveu que "seria errado" comungar com
aqueles "que não têm fé na vinda pessoal de Cristo"?'
Entretanto, essas declarações não eram típicas de Miller. Com raras
exceções, ele permaneceu contra a ideia de sair voluntariamente das
igrejas e de identificar as denominações protestantes com Babilônia.
A posição dele era compartilhada pela maioria dos outros líderes re-
conhecidos do movimento.

ç (.1--liTmoor exemplo, não aceitou publicamente a mensagem de saída


as igrejas até setembro de 1844). essa altura, ele concluiu relutante-
mente: "Permanecer conectado com esses organismos que falam de modo
inconsequente, ou se opõem à vinda do Senhor é como morrer." Litch
também hesitou em endossar o conceito de "sair de Babilônia". É bem
significativo o fato de que, ao publicar a primeira história do milerismo,
em maio de 1844, ele não tenha mencionado o chamado de Fitch para
sair das igrejas. 51
Enquanto a antiga liderança milerita rejeitava em grande parte o
chamado para sair, um novo grupo de líderes dava as boas-vindas, de
braços abertos [àqueles que se haviam saído]. Entre eles estava Gapr -ge
Em fevereiro de 1844, Storrs conseguiu condenar toda a cris-
tandade, com exceção dos adventistas, ao incluir "a velha mãe e todas
as suas filhas" na definição de Babilônia. Ele desafiou diretamente a
posição de Miller, que orientou as pessoas a permanecerem nas igrejas
até que fossem "mandadas embora". "Saiam dela, povo meu", afirmou
Storrs, é uma ordem de Deus para seu povo.
Após saírem de suas igrejas, continuou Storrs, os adventistas não
deveriam formar uma nova igreja, porque "nenhuma igreja pode ser
constituída pela invenção humana que não seI torne Babilônia, no mo-
mento em que é organizadogFitch escreveu para o Midnight Cty alguns
dias depois, endossando a posição de Storrs e anunciando ao mundo
Saindo da Babilônia 1 145

que ele havia renunciado a todas as conexões eclesiásticas. Desse mo-


mento em diante, ele não seria "membro de nenhuma denominação, e
promotor de nenhum credo." 52
^Mara outro integrante da nova geração de líderes mi-
lentas. Em dezembro de 1843, ele escreveu:

O nosso dever de sair agora de Babilônia é tão evidente como


o foi para Ló fugir de Sodoma na manhã da destruição. Es-
tou ciente de que alguns chamaram isso de sectarismo, ex-
tremismo ou algum outro "ismo"; mas, e daí? Não devemos
procurar agradar aos homens, mas a Deus. Se ele falou para
sairmos de Babilônia, não sei como podemos ser salvos da
perdição que a espera, a não ser que obedeçamos a sua or-
dem imperativa. 53

No movimento adventista, seria difícil superestimar o impacto do


chamado de Fitch para sair de Babilônia. No fim de 1843 e início de
1844, isso se tornou uma das características centrais do milerismo.
Em outubro de 1844, estima-se que mais de 50 mil pessoas saíram de
suas igrejas. 54
Esse êxodo, no entanto, serviu simplesmente para rotular os adven-
tistas como sectários, destruindo ainda mais a simpatia por eles. Essa
condição acelerou a saída das igrejas. Assim, os mileritas e a cultura
cristã geral se viraitno centro de um furacão, ao prosseguirem pelo ano
do fim do mundo. Aquele "ano", como veremos no próximo capítulo,
foi marcado por mais do que apenas um desapontamento)
Enquanto isso, no fim de 1843, é importante reconhecer que uma
notória mudança de poder ocorreu no milerismo.@abendo ou não, a
liderança começou a passar de Miller, Himes e Litch para um grupo
mais novo e mais radical, formado por Storrs, Marsh e outros que ainda
estavam por adquirir preeminêncial Car os rtc oi o mediador dessa
transição. De alguma forma, ele possuía as características de ambos os
grupos, apesar de inclinar-se mais para o lado impetuoso e experimental
da nova liderança do que para o lado conservador. Após julho de 1843,
o milerismo nunca mais seria o mesmo.
. HO.H.POSOONMe nto.

CC E m todas as partes do país, as virgens estão verdadeiramente


acordando. Os santos estão 'levantando sua cabeça, e olhan-
do para o alto'. Os escarnecedores estão ardendo em ira e
'espumando de vergonha'. Mas o Senhor está às portas. 'Vem, Senhor
Jesus, vem depressa." Essas eram as palavras entusiasmadas de [Josué
Himeslem novembro de 1843. A data final do ano do fim do mundo
estava 'gomente quatro meses à frente, e os mileritas se encontravam
repletos de esperança. De acordo com a percepção do movimento, eles
tinham tempo para um último ímpeto evangelístico, a fim de advertir
o mundo perdido sobre o julgamento vindouro)

O Impulso Evangelistico Final


Em janeiro de 1844, Miller estimou que, nos 12 anos anteriores, ha-
via feito 4.500 apresentações para cerca de 500 mil pessoas diferentes.
Durante esse período, ele observou, havia se desgastado e perdido a
saúde a fim de que "pudesse ser um meio para salvar alguns". Ele deseja-
va, de "todo o coração e alma", ver Cristo voltando nas nuvens do céu.2
• O Desapontamento' da Primavera 1 147

Entretanto, a obra de Miller e seus seguidores ainda não havia che-


gado ao fim. O ano de 1844 testemunharia seu rnaior esforço até
então. Em dezembro de 1843, Himes planejava publicar um milhão
de pequenos folhetos, nos poucos meses que faltavam. Eles seriam
enviados além das milhares de publicações impressas semanalmente.
Ele apelava para que os crentes apoiassem a obra de publicações, pois
"o advento do Senhor" estava às portas. "Indiferença agora", escreveu
Himes, "é pecado."3
Além das publicações, a pregação continuava com todo o vigor. En-
quanto outros estavam ampliando a obra no Oeste, no Sul e na Nova
Inglaterra, Himes, Miller e Litch decidiram concentrar as energias nas
áreas metropolitanas de Boston, Nova York, Filadélfia e Washington, D.C.
Em 28 de janeiro, Miller começou sua sétima série de conferências
em Boston. As multidões, percebendo a magnitude do tema, eram
maiores do que as que haviam se reunido antes na cidade. Não somente
os assentos estavam ocupados, mas inúmeros permaneceram em pé,
durante horas, para ouvir a mensagem. "Se o tabernáculo tivesse o dobro
do tamanho", afirmou o Midnight Cry, "provavelmente ainda estaria
lotado, pois multidões tiveram que ir embora, sem conseguir entrar." 4
Miller começou as reuniões em Nova York em 6 de fevereiro, e, na
Filadélfia, em 11 de fevereiro. Ambas as séries foram bem frequentadas,
com o público estimado na Filadélfia entre 4 e 5 mil pessoas.'
O clímax dessa sequência teve início em 20 de fevereiro, em
Washington, D.C.Apesar de Miller ter ido à capital um ano antes, o movi-
mento não havia causado a impressão desejada. A esperança dele e de seus
colegas era levar a mensagem à "casa de César", apesar de os dignitários
estarem "envolvidos em disputas políticas pela próxima presidência, como
se sua 'breve autoridade' fosse durar para sempre". "Eu lhes mostrarei",
escreveu Miller, "que uma revolução importante acontecerá em breve,
a qual suplantará a necessidade de escolher um presidente nas cédulas;
porque o Rei dos reis logo será empossado no trono do Estado."€
Dirigindo-se às grandes multidões, incluindo "um bom número de
pessoas que pertenciam a ambas as casas do Congresso", Miller decla-
rou que aquele lugar estava "sendo chacoalhado". Durante os encon
tros de Washington, um desastre terrível ajudou a causa milerita. De
acordo com a visão de Himes, "Deus estava satisfeito" em trazer "um
terrível julgamento".
Em 28 de fevereiro, uma grande bomba explodiu no navio The
Princeton durante festividades promovidas pelo governo. O secretário de
148 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Estado americano morreu no acidente e vários membros do Congresso


ficaram feridos. 'A terrível catástrofe", afirmou Himes, "motivou todos
a ter uma consideração mais séria sobre a necessidade de preparo para
se encontrar com Deus. O evento tem influenciado grandemente o
pensamento das pessoas e nos tem ajudado muito em nosso trabalho."'
,As reuniões em Washington terminaram no dia 3 de março. Miller
pregou 19 vezes; Litch e Himes fizeram 15 palestras, no total. Além
disso, Himes havia inaugurado um periódico temporário chamado
Southerrt Midnight Cry ["Clamor da meia-noite do sull. Dez mil có-
pias da primeira edição foram distribuidas em Washington, Baltimore
e cidades vizinhas.'
Após pregar em vários locais, em 14 de março, Miller se recolheu
em sua casa, em Low Hampton, a fim de esperar pelo Senhor, que era
aguardado para o dia 21 de março.

Mas Cristo Não Veio


Com a aproximação do dia 21 de março de 1844, as reações fo-
ram as mais diversas. Enquanto milhares de adventistas aguardavam
com grande expectativa, outros milhares esperavam o dia em agonia,
temendo que Miller estivesse correto. Uma numerosa multidão sim-
plesmente ignorava, tanto o dia quanto as advertências; e havia também
aqueles que aproveitaram a ocasião para se divertir e provocar seus
vizinhos rnileritas.
Dentro dessa última categoria estava alguém que se apresentava
como Guilherme Miller. Em uma carta apócrifa, datada de 17 de
março de 1844, esse tal Miller escreveu para A. P. Weaver, o único
adventista em Sackets Harbor, Nova York. A carta anunciava que o
‘`mundo" havia começado a queimar no Maine, na região nordeste.
Ele continuou: "Não está queimando muito rápido, então tive tempo
para escrever-lhe algumas linhas antes de me aprontar." O escritor
então pediu que Weaver espalhasse a noticia "o mais rápido possível".
"Logo nos encontraremos em outro mundo e eu espero que não nos
separemos mais."'
O "verdadeiro" Guilherme Miller esperou durante o dia 21 de março
com muito mais seriedade do que o "Miller" da carta de Weaver. Mas o
último dia do ano do fim do mundo terminou sem a vinda de Cristo.
Quatro dias depois, um Miller ainda esperançoso escreveu para Himes:
148 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Estado americano morreu no acidente e vários membros do Congresso


ficaram feridos. "A terrível catástrofe", afirmou Himes, "motivou todos
a ter uma consideração mais séria sobre a necessidade de preparo para
se encontrar com Deus. O evento tem influenciado grandemente o
pensamento das pessoas e nos tem ajudado muito em nosso traballio." 7
,As reuniões em Washington terminaram no dia 3 de março. Miller
pregou 19 vezes; Litch e Himes fizeram 15 palestras, no total. Além
disso, Himes havia inaugurado um periódico temporário chamado
Southerrt Midnight Cry ["Clamor da meia-noite do sul"}. Dez mil có-
pias da primeira edição foram distribuídas em Washington, Baltimore
e cidades vizinhas.'
Após pregar em vários locais, em 14 de março, Miller se recolheu
em sua casa, em Low Hampton, a fim de esperar pelo Senhor, que era
aguardado para o dia 21 de março.

Mas Cristo Não Veio


Com a aproximação do dia 21 de março de 1844, as reações fo-
ram as mais diversas. Enquanto milhares de adventistas aguardavam
com grande expectativa, outros milhares esperavam o dia em agonia,
temendo que Miller estivesse correto. Uma numerosa multidão sim-
plesmente ignorava, tanto o dia quanto as advertências; e havia também
aqueles que aproveitaram a ocasião para se divertir e provocar seus
vizinhos mileritas.
Dentro dessa última categoria estava alguém que se apresentava
como Guilherme Miller. Em uma carta apócrifa, datada de 17 de
março de 1844, esse tal Miller escreveu para A. P. Weaver, o único
adventista em Sackets Harbor, Nova York. A carta anunciava que o
" mundo" havia começado a queimar no Maine, na região nordeste.

Ele continuou: "Não está queimando muito rápido, então tive tempo
para escrever-lhe algumas linhas antes de me aprontar." O escritor
então pediu que Weaver espalhasse a notícia "o mais rápido possível".
"Logo nos encontraremos em outro mundo e eu espero que não nos
separemos mais.""
O "verdadeiro" Guilherme Miller esperou durante o dia 21 de março
com muito mais seriedade do que o "Miller" da carta de Weaver. Mas o
último dia do ano do fim do mundo terminou sem a vinda de Cristo.
Quatro dias depois, um Miller ainda esperançoso escreveu para Himes:
O Desapontamento da Primavera I 149

Estou agora sentado à frente de minha antiga escrivaninha


no cômodo leste. Tendo recebido a ajuda de Deus até o
presente, ainda estou procurando o querido Salvador [...]
O tempo, como havia calculado, agora já passou; e espero a
qualquer momento ver o Salvador descer do Céu. Não tenho
mais nada a aguardar, a não ser essa esperança gloriosa.
[...] espero ter purificado minhas vestes do sangue das
almas. Sinto que fiz tudo o que estava em meu poder, e me
libertei de toda culpa de sua condenação.
[...] se Deus tiver algo mais para eu fazer em sua vinha, ele
me dará força, abrirá a porta e me capacitará a fazer tudo o que
seja de sua vontade, para sua glória e o bem da humanidadei°

Poucos dias depois, Himes respondeu, observando que os amigos


de Miller tinham um profundo interesse por ele. Na ocasião, Himes
também disse que, com seus colegas, estava planejando trabalho futuro,
"se o tempo continuasse"»
Em 5 de abril, Miller escreveu a Elon Galusha dizendo que estava
[(
esperando a cada dia e a cada hora pela vinda de Cristo". Ele desejava ser
como Cristo, "a quem por 28 anos" tinha amado. "Pensei que antes deste
momento já pudesse estar com ele, mas sou um peregrino e um estrangeiro
aqui, esperando pela mudança de mortal para imortal."
Miller ressaltou que os escarnecedores deviam escarnecer, mas ele
reafirmou que Deus cuidaria dele. "Por que, então", perguntou ele, "devo
eu reclamar, se Deus der alguns dias ou mesmo meses a mais como
tempo de graça, a fim de que alguns encontrem a salvação, e outros
encham a medida do seu cálice, antes de beberem as escórias e serem
espremidos em angústia amarga [7] Essa é a vontade do meu Salvador
e estou seguro de que ele fará as coisas certas."' 2
Em 10 e 11 de abril, Himes emitiu uma declaração pública no
Advent Herald ["Arauto do advento"; o novo nome da Signs of the Times]
e no Midnight Oy. Ele escreveu:
Nos três últimos anos, tem sido nossa sincera e solene con-
vicção que o glorioso e bendito segundo advento do Salvador
do mundo ocorreria antes do tempo atual. Eu ainda aguardo
esse evento como se estivesse próximo; e não posso evitar toda
essa certeza [...I de que será o próximo grande evento, e de-
verá acontecer dentro de pouquíssimo tempo. Não é seguro,
150 j ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

portanto, adiar o evento em nossa mente por uma hora, mas


viver em constante expectativa e prontidão para encontrar-se
com o Juiz. Com esses pensamentos, não podemos fazer planos
exatos para o futuro; exceto em conformidade com as ideias de
brevidade e incerteza quanto ao tempo.

Himes prosseguiu convocando um "esforço contínuo" para divulgar


a mensagem, enquanto houvesse oportunidade. ' 3
As reações à não aparição de Cristo em 21 de março de 1844 foram
muitas. Enquanto a liderança e a maioria dos membros continuavam na
expectativa, Miller observou que muitos daqueles que haviam esperado
o advento "não caminhavam mais" com eles. Ainda outros, com alívio,
tornaram o desapontamento uma ocasião de zombaria. Os mileritas,
quando caminhavam, ouviam comentários do tipo: "O quê? Você ainda
não subiu? Pensávamos que você já tivesse subido! [...]. Ou sua esposa
foi e deixou você para trás para ser queimado?"' 4
Muitos achavam que o movimento milerita desmoronaria se Cristo
não viesse em 21 de março. Entretanto, o milerismo prosseguiu. Em
grande parte, essa continuidade se deve ao fato de que os líderes mi-
lentas não haviam enfatizado em demasia a questão do tempo. Isto
é, eles não excluíram a possibilidade de pequenos erros nos cálculos
ou até mesmo em algumas datas históricas. (Por isso‘r.rEoles con-
siderou o problema de 21 de março como "incidental" em vez e um
"erro fundamental". 15 )
A abordagem ponderada de Miller sobre o tempo exato fica evidente
em uma carta que ele escreveu em 28 de fevereiro, três semanas antes
do predito fim do mundo. "Se Cristo vier, como esperamos", escreveu
ele, "cantaremos o hino da vitória em breve; se não, aguardaremos, e
oraremos, e pregaremos até que ele venha, porque logo o nosso tempo
e todos os dias proféticos serão cumpridos." Outro milerita escreveu,
também em fevereiro: "Se estivermos errados quanto ao tempo, temos
toda a confiança de que o evento que antecipamos será o próximo
grande evento da história do mundo." 16
Essa hesitação em relação ao tempo exato, conforme observamos
acima, salvou o movimento milerita da desintegração total em março de
1844. De fato, em 21 de junho de 1843, foi sugerido que os cálculos para
a data da primavera no hemisfério norte) deveriam ter sido baseados na
contagem dos eus caraítas 3o invés de se fundamentar no calendário
dosla-binicos. Como resultado, a Signs sugeriu que 18/19 de abril
O Desapontamento da• Primavera 1 151

de 1844 realmente representavam o fim do ano judaico de 1844. Himes


adotou essa interpretação no início de abril de 1844.' 7
No entanto, a data de abril também passou. Na edição seguinte
do Advent Herald, Himes "francamente" admitiu: "Todo o nosso tem-
po esperado e divulgado passou: o ano judaico, tanto o civil quanto o
eclesiástico, no qual esperávamos o Senhor, terminou, e o Salvador não
foi revelado; e não disfarçaríamos de maneira alguma o fato de que
estávamos equivocados quanto ao tempo exato do término dos perío-
dos proféticos." Contudo, apesar de Cristo não ter vindo durante o ano
predito do fim do mundo, ninguém havia sido capaz de apontar erros
nos cálculos4itch supôs que estavam provavelmente errados apenas
"em relação ao evento que marcava a conclusão.""
Uma semana após Himes admitir que todas as datas haviam passado,
Miller escreveu para os demais crentes. Em 2 de maio, afirmou que se
ele vivesse tudo novamente, com a mesma evidência que havia tido,
teria seguido o mesmo caminho. Afinal, seus opositores "não haviam
produzido argumentos convincentes".
Um perplexo Miller continuou: "Confesso meu erro, e reconheço
meu desapontamento; mas, ainda acredito que o dia do Senhor está
próximo, às portas." Ele advertiu especialmente os amigos e crentes
a não se afastarem da Bíblia e de seus ensinos sobre "a maneira e o
objetivo da vinda de Cristo; porque o próximo ataque do adversário"
seria para "induzir descrença quanto a essas coisas." 19
Durante a última semana de maio, Miller mais uma vez confes--
sou publicamente seu erro quanto ao tempo definido, dessa vez na
importante assembleia anual dos adventistas, no Boston Tabernacle.
Um repórter do Post, de Boston, relatou que, apesar de desapontado,
Miller não havia perdido a fé e a coragem. "Nunca o ouvi", escreveu o
repórter, "mais eloquente• e animado, ou mais feliz em comunicar seus
sentimentos aos outros." O auditório, aparentemente incluindo um
grande número de não adventistas, de forma geral ficou satisfeito por
; suas considerações sobre "a 'conclusão de todo o tema'". 2°
Conforme o Advent Herald relatou, Miller afirmou que, em vir-
; tude de seu erro, ele estava feliz por ver que seus seguidores não
1!ç confiaram nele. "O pai Miller'", ele disse sobre si mesmo, "provou
a todos vocês que é somente uma pobre e falível criatura, e se
tivessem confiado nele, teriam desistido de sua fé, e não sei o que
1 seria de vocês; mas, agora, estão firmes na Palavra de Deus e ela
não os desapontará." 21 Coerente com o seu conselho inicial, Miller
152 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

sempre direcionou as pessoas para a Bíblia, e não para qualquer


autoridade humana.
No relatório oficial, a assembleia anual de Boston reafirmou a crença
"no tempo" do segundo advento corno indicado na história profética.
E apesar de os líderes reconhecerem que os convites para suas apre-
sentações pudessem ser menos frequentes do que antes de março e
abril de 1844, ainda se comprometiam "a trabalhar de acordo com a
oportunidade a firn de despertar os companheiros para a obra de pre-
paração". 22 Em outras palavras, ainda eram dirigidos pela missão em
razão de sua crença no seu lugar na história profética.
Assim, no início de junho de 1844, os mileritas permaneceram
firmes em suas convicções, apesar de se mostrarem um pouco desi-
ludidos e desorientados. No entanto, na última semana de abril, eles
encontraram a chave bíblica que os ajudaria a entender o sentido da-
quela experiência.
Em 24 de abril, o editorial do Advent Herald apresentou a explicação
ao unir o fato de que todas as virgens na parábola do clamor da meia-noite
esperaram, cochilaram e dormiram (Mt 25:5), com Habacuque 2:2 e 3,
que diz: "Escreve a visão, grava-a sobre tábuas, para que a possa ler até
quem passa correndo. Porque a visão ainda está para cumprir-se no tempo
determinado, mas se apressa para o fim e não falhará; se tardar, espera-o,
porque, certamente, virá, não tardará." 23
Dois anos antes, os mileritas haviam aplicado o texto de Habacuque
ao movimento, quando fizeram a ligação do gráfico profético de Fitch e
Hale com Habacuque 2:2, para colocar uma mensagem clara nas tábuas
com o fim de que pudesse ler até quem passasse correndo. 24 Posterior-
mente, ao olharem para o v. 3, viram o milerismo, dessa vez em relação
à grande parábola escatológica do clamor da meia-noite -- um texto que
ocupava o centro do simbolismo bíblico que usavam para descrever o
movimento. Uma conexão essencial foi que tanto a parábola de Mateus
quanto a profecia de Habacuque falam de um tempo de tardança antes
do cumprimento do tempo da visão.
Os mileritas encontraram confirmação para essa interpretação em
Hebreus 10:36 a 39:

Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, ha-


vendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Porque,
ainda dentro de pouco tempo, aquele que vem, virá e não tarda-
rá; todavia, o meu justo viverá pela fé; e, se retroceder, nele
O Desapontamento da Primavera 1 153

não se compraz a minha alma. Nós, porém, não somos dos


que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé, para
a conservação da alma [grifos acrescentados] 25

Com essa justificativa bíblica, os mileritas avançaram para a próxima


fase de sua história, o tempo de tardança. Todas as profecias haviam
se cumprido. Cristo logo viria, ao se completar o tempo de tardança.
Enquanto isso, o trabalho deles era continuar proclamando o clamor
da meia-noite, a respeito do noivo que em breve viria.
O Tempo de
Tardança
desapontamento da primavera levou os mileritas de volta

O à Bíblia, a fim de encontrar uma explicação para sua cri-


se. Eles não só descobriram o "tempo de tardança" de
Habacuque, Mateus e Hebreus, mas também encontraram ilustrações
dessa experiência.
Um exemplo poderia ser o caso de Sodoma, onde o fogo foi retar-
dado antes do incêndio final. De acordo com o Western Midnight Cry,
a destruição anunciada não caiu sobre a cidade tão rápido quanto
(t

alguns esperavam, se não a esposa dele [Lá] não teria olhado para trás".
Assim, eles começaram a entender que a demora seria um tempo para
testar os crentes e um período para desenvolver a fé na expectativa
do eschaton.'
Outro exemplo similar era o de Noé. "Veja como Noé e sua família
devem ter se sentido", lembravam alguns líderes mileritas. Afinal, eles
ficaram trancados na arca por sete dias, com clima bom. Entretanto, "a
visão tardou, e os ímpios tiveram sua porção de riso e aparente triunfo,
ao mesmo tempo em que a fé do homem de Deus, e daqueles ao seu
redor, foi colocada sob o mais severo teste".
O Tempo de Tardança 1 155

Enquanto Noé e os demais crentes haviam visto sinais no fim dos


sete dias, mais 40 dias se passaram até que ele "ficasse fora do alcance
dos insultos dos incrédulos [...] e de [seus] brados de 'o seu tempo
já passou." Então, para confirmar o argumento, alguns citavam Lucas
17:30: 'Assim será no dia em que o Filho do Homem se manifestar." 2
Essas ilustrações bíblicas parecem não somente ter despertado
um pouco de esperança para os mileritas desapontados, mas também
determinaram o tom de sua experiência• evangelística. Eles se com-
prometeram, como observamos anteriormente, a continuar pregando
sua mensagem de advertência ao mundo. No entanto, os resultados
eram diferentes de antes de março e abril de 1844. Himes fez rela-
tos de respostas sinceras da parte dos crentes, mas adicionou que "a
impressão produzida sobre os incrédulos era pequena. A palavra os
envolvia, mas parecia não derreter ou quebrantar o coração, como em
tempos anteriores" . 3

Assim, o período entre junho e agosto se caracterizou por uma


‘`estagnação" no evangelisrno milerita. As pessoas ouviam, mas com
convicção reservada. Alguém pode inferir que os pregadores adventistas
também estavam com sua certeza abalada. Dessa forma, tal dúvida
poderia transparecer na pregação.

Perseverando na Obra
A obra da pregação continuou porque Jesus havia ordenado a seus
discípulos "negociai [permaneçam ativos, em inglês] até que eu volte"
(Lc 19:13). "Como resultado", afirmou Himes, "temos que continuar nos-
sos esforços com as palestras, conferências, tendas, campais e a distribuição
de publicações. Temos que trabalhar com mais zelo, resolução e perseve-
rança do que antes, até o 'Rei retornar' .e receber os fiéis no reino eterno". 4
A renovada missão de pregação dos mileritas parece ter começado
de maneira lenta em junho de 1844, ganhado velocidade em julho e,
em agosto, estava dinamicamente alcançando novos territórios.' No
início de julho, a maioria da liderança estabelecida fortaleceu os crentes
no Leste. No entanto, no fim de julho, uma importante mudança de
foco ocorreu em direção ao Oeste.
Em 21 de julho, Miller, Himes e George, o filho de Miller, co-
meçaram um roteiro extenso de pregações no Oeste. Eles encontra-
ram auditórios receptivos em todos os lugares por onde passaram.
A expedição terminou em Cincinnati, Ohio, onde Miller pregou
156 1 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

para "4 mil pessoas, que o ouviram com tal atenção que quase não
podiam respirar". Eles trabalharam por uma semana e esperavam
ir mais longe, mas tempestades os impediram. Enquanto isso, eles
se encontraram com a liderança milerita de Michigan, Wisconsin e
outros pontos no Oeste. Os pedidos por pregadores eram muitos.€
No retorno da viagem, Miller e Himes descobriram que, no Leste,
o movimento havia tomado um novo rumo, uma iniciativa que pra-
ticamente tiraria o comando das mãos deles. Eles encontraram uma
crença que estava se alastrando por t dos os grupos de adventistas:
a ideia de que Jesus viria em outubro. Voltarernos ao movi ento de
outubro e à nova forma de milerismo no próximo capítulo.
No inicio de agosto, Himes e Litch planejaram realizar uma cam-
panha na Inglaterra, em outubro, se o tempo fosse "prolongado". Essa
não era a primeira vez que Himes havia planejado ir à Inglaterra. Por
três anos, ele se debateu com a convicção de que deveria ir, e por duas
vezes fez planos para isso. Contudo, em ambas as ocasiões, seus amigos
o convenceram de que seus talentosl não podiam ser dispensados fora
dos Estados Unidos. Ele não seria dissuadido nessa terceira vez, apesar
da pressão dos colegas ser mais forte do que nunca/
Ao falar sobre seus planos no Herald de 25 de setembro de 1844,
Himes reconheceu que não podia contar com a simpatia e o apoio
daqueles que esperavam Cristo vir em outubro — uma posição que ele
ainda não aceitara. Mas, acrescentou, tinha de cumprir seu dever ao
entender que o "grande Juiz" estava "às portas".
Himes afirmou que mesmo se Cristo viesse enquanto ele estivesse
no "meio do oceano", ainda assim ele tinha de ir. "Tenho", escreveu ele,
"cumprido o meu dever até agora para com este pais. Limpei das minhas
vestimentas o sangue de todos. Sinto que tenho um dever para com
o Velho Mundo, e, se houver tempo para realizá-lo e se a Providência
permitir, espero ter a graça de cumpri-10.u'
Em seu trabalho de levar "para a sofrida população da Europa [...]
a esperança de libertação", Himes desejava estabelecer uma gráfica em
Londres. A partir daquele centro, ele almejava enviar literatura e pales-
trantes para todas as direções. Assim, em essência, sua missão europeia
seria uma reprise de seu trabalho nos Estados Unidos.
Himes esperava "enviar as boas-novas em várias línguas" além do
inglês, "se o tempo continuasse por alguns meses". A missão incluiria
• países tanto protestantes quanto católicos. E ele certamente não pre-
tendia esquecer "a Babilônia, na Itália".9
O Tempo de Tardança 1 157

No entanto, os planos para ir à Inglaterra mais uma vez foram adia-


dos, uma vez que Himes aceitou a ideia de que Cristo viria em 22 de
outubro. Seu plano não se cumpriu senão em 18462°
Enquanto isso, durante o verão de 1844, as tensões continuaram
aumentando entre os mileritas e as igrejas. Ao mesmo tempo, ocorria
a expulsão acelerada de adventistas das denominações. Muitos pales-
trantes do milerismo, no entanto, se opuseram à criação de uma nova
denominação, no curto tempo que restava. Alguns até reclamaram sobre
o uso do nome "adventista" como elemento de identificação. No entan-
to, a posição sobre a separação se tornou mais aceita entre os mileritas
quando Himes se rendeu à ideia, em agosto de 1844. Ele declarou que
seria "mortal permanecer conectados com aqueles organismos religiosos
que não levam a sério ou se opõem à vinda do Senhor".
M EM. ssimilou bem a ideia do que estava ocorrendo, quan-
do escreveu que permanecer nas igrejas, supondo que algum bem daí
resultasse, era algo como tentar "aquecer uma casa de gelo com uma
lamparina"; impossível. 'Além disso, essa tentativa esfriaria seu óleo e
apagaria sua luz.""
Durante o tempo de tardança, a obra de publicações avançou de
maneira saudável, apesar de alguns jornais, incluindo o Second Advent
of Christ, de Fitch, terem sido descontinuados, Por outro lado, pelo
menos dois novos periódicos começaram no verão de 1844. Um foi o
Advent Shield, e, o outro, o Advent Message to dia Daughters of Zion.
O primeiro alcançou notoriedade por haver sido o único periódico
milerita voltado para o ambiente acadêmico; o segundo, porque foi
editado por mulheres e destinado a esse público especifico.
Da perspectiva de um historiador, uma das contribuições impor-
tantes do tempo de tardança foi a publicação da primeira história do
adventismo milerita, em maio de 1844, no Advent Shiekl, de Litch.
O início do tempo de tardança foi caracterizado por muita reflexão,
enquanto os mileritas avaliavam a significância de sua experiência, antes
de novamente se reagruparem para uma ação renovada no outono.
No decorrer do tempo de tardança, Miller e muitos de seus colegas
hesitaram quanto a incluir em sua pregação o fator "tempo". L. B. Coles
concluiu que "um certo ano limitado jamais deveria ter sido estabele-
cido". Coles ainda escreveu: "Continuar marcando o tempo em algum
ponto definido no futuro é a consumação da tolice." 12
Durante o verão, Miller parecia, de alguma forma, confuso quanto à
questão da data. Um repórter do Christian Watchman apresentou um
158 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

relatório em primeira pessoa sobre Miller em relação ao fator tempo,


no final da primavera [do hemisfério norte]. "Ele tentou", relatou o
Watchman, "definir sua posição atual, mas pareceu nem mesmo saber
qual é. Ao mesmo tempo, ele confessava que estava errado e, na próxima
frase, dizia que não conseguia descobrir algum erro possível e revisar
seus cálculos antigos."
Miller chegou a confessar: "Cristo não veio em 1843 — mas não vejo
onde eu possa estar errado." Em 31 de julho de 1844, Miller finalmente
chegou a uma resolução. "O tempo", escreveu ele, "mostrou meu erro
qu nto à ocasião exata do evento", mas não sua proximidade 13
(É' importante ressaltar que Miller nunca teve muito interesse em de-
finir quaisquer datas para oadvento Como veremos no próximo capítu-
lo, o mesmo não era verdade em relação a seus seguidores. Somente no
início de outubro de 1844, Miller voltou a ter algum interesse na data
da segunda vinda, e chegou a essa decisão depois de muita relutância.
Enquanto ele e seus principais associados conseguiram manter o
equilíbrio durante os meses confusos da primavera e do verão de 1844,
o mesmo não pode ser dito dos demais crentes no advento. Para aqueles
com uma orientação menos racional sobre a religião, a empolgação com
o ano do fim do mundo os levou a tomar atitudes fanáticas e a praticar
coisas comuns em vários movimentos escatológicos, desde os tempos
bíblicos até os dias de hoje. O milerismo não foi exceção. Durante o
tempo de tardança, no verão de 1844, alguns mileritas se tornaram
problemáticos.

Fanatismo
Talvez, um dos fatos mais surpreendentes sobre o milerismo não
seja o ter abrigado em seu meio crentes fanáticos ou extremistas, mas
que tivesse tão poucos deles. De certa forma, William Lloyd Garri-
son acertou ao dizer que "seria de fato estranho se, entre seu extenso
grupo, não se encontrassem alguns que se comportassem de maneira
incoerente com sua crença". Os editores da Signs também apontaram
que "uma estufa que não produz algumas ervas daninhas não produzirá
bons frutos". Os editores observaram que religião é sempre uma "estufa
na qual [ ...] o fanatismo germina". 14
Ronald e Janet Numbers indicam que, devido a sua natureza, o
milerisrno "atraiu para suas alas algumas pessoas pobres e que viviam
à margem da sociedade, americanos que poderiam ter gravitado em
O Tempo de Tardança 1 159

torno de qualquer onda religiosa". Os líderes perfeccionistas de Oneida


(um anômalo grupo religioso) reconheceram essa verdade ao afirmar
que aqueles que foram "mais desenfreados em suas especulações" em
relação a outro movimento religioso alguns anos antes, haviam, no fim
de 1842, se tornado "mileritas inflamados". 15
Guilherme Miller e seus principais associados estavam atentos ao
potencial fanático do movimento. Essa percepção levou Miller, em sua
mensagem de ano-novo, em 1843, a advertir seus seguidores: "Cuidem
para que Satanás não tire vantagem, espalhando um incêndio entre
vocês; porque se não puder levá-los à descrença e dúvida, tentará então
usar o fogo do fanatismo e da especulação para distanciá-los da Palavra
de Deus." Poucos meses depois, um dos principais conselhos de Himes,
na dedicação do Boston Tabernacle, foi para que se "evitasse todo com-
portamento extravagante e tudo que pudesse se inclinar ao fanatismo". 1€
Em maio de 1843, a importante assembleia anual de Boston decla-
rou: "Não temos nenhuma confiança em visões, sonhos ou revelações
particulares. 'Que tem a palha com o trigo? — diz o Senhor.' Repudiamos
todo fanatismo e tudo o que possa levar à extravagância, imoralidade e ao
excesso, que possa fazer com que o bem seja confundido com o mal." 17
Uma advertência similar, foi emitida na assembleia anual de Boston,
em 1844. Dessa vez, o comunicado foi além e mencionou aqueles,
da ala fanática, que pensavam ser guiados pelo Espírito Santo. Fre-
quentemente eles acreditavam estar possuídos pelo "dom do discer-
nimento intuitivo de espíritos, pelo poder para operar milagres, além
de crerem na possibilidade de obter o que eles chamam de 'corpo da
ressurreição' aqui neste estado mortal". Ainda em janeiro de 1844,
Miller declarou explicitamente que não havia "aprovado qualquer
forma de fanatismo". Nem tinha ele usado "sonhos ou visões, exceto
aquelas da Palavra de Deus". 18
As muitas repreensões dos líderes mileritas não eram feitas sem
razão. A realidade do problema foi apontada no Christian Reflector,
de maio de 1844, por L. B. Coles. Ele escreveu que alguns mileritas
haviam "assimilado noções destrutivas e errôneas sobre a santificação
e as influências do Espírito", e complementou dizendo: "Em algumas
instâncias, todo tipo de excesso extravagante tem sido atribuído ao
Espírito Santo." 9
Um exemplo foi Calvin French, um palestrante milerita que "ab-
sorveu algumas das outrinas a. omináveis e licenciosas dac6c1Ola
Cochran' 0].. tie ensinava a "união conjugal espiritual') French passou
160 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

a acreditar num conceito enganoso sobre a perfeição cristã,(segundo


o qual pessoas perfeitas estavam livres do pecado, e que qualquer ato
que fizessem refletiria as ações do Espirito de DeusiAssim, não era
errado ter relações sexuais com outras pessoas, além de seu cônjuge.
Para pessoas "perfeitas", essa era uma experiência espiritual. A resposta
milerita consistiu em advertir os crentes de que French era "uma pes-
soa absolutamente inapta para apresentar palestras sobre o segundo
advento [...] ou qualquer outra doutrina das Escrituras" ,20
Outro foi ichael Barton, que escreveu para Miller, no fim de
abril de 1844, a fim e con rmar as interpretações do líder adventista.
O tranquilo Miller deve ter lido a carta de Barton em desespero, ao
perceber o tipo de perfil religioso que estava se unindo ao movimenta
"Deixei meu corpo", escreveu Barton, "e me encontrei voando pelo ar.
Por um bom tempo me encontrei no Céu, e ouvi uma voz dizendo: 'Eu
sou Cristo. E o Ser que disse 'eu sou Cristo' saiu do Céu comigo e me
levou com ele para a Terra, semelhante a uma moeda sendo arrastada
por um poderoso imã."
Na sequência da visão, Barton testemunhou que Deus estava aben-
çoando os mileritas. Isso, de acordo com o "visionário", foi uma prova
de que Deus estava preparando o mundo para o advento. Com esse
tipo de crentes ao redor, é fácil entender por que a assembleia anual de
Boston, em maio de 1844, mais uma vez advertiu contra o fanatismo,
as "impressões" e as "revelações particulares". 21
A fonte mais incômoda e .ersistente de fanatismo carismático milerita,
antes de 1845, foi Joh Starkweather. Um dos mais instruidos palestrantes
mileritas, Starkweather graduou-se no Andover Theological Seminary.
Convertido ao milerismo no inicio do outono de 1842, ele se tomou
pastor associado de Himes, na Chardon Street Chapel, em outubro
Antes desse tempo, havia sido pastor da Marlboro Chapel, em Bos-
ton, e em vários outros lugares. O objetivo de Himes em contratar
Starkweather era ficar livre para viajar mais, a serviço da causa adven-
tista. Mas o habitual bom julgamento de Himes falhou em relação a
esse associado, como o tempo logo mostraria. 22
Embora Miller e Himes tivessem adotado um estatuto que ordenava
não enfatizar as doutrinas distintivas além do advento pré-milenarista,
Starkweather logo começou a pregar suas "ideias peculiares" a respei-
to da santificação pessoal, transformando-as, de fato, em prova de co-
munhão. "Ele ensinava que a conversão, não importando quão com-
pleta fosse, não alcançaria o favor de Deus sem uma segunda obra
O Tempo de Tardança 1 161

[do Espírito Santo]; e que essa segunda obra seria normalmente indica-
da por alguma sensação corporal." Assim, a perda de força ou algumas
outras manifestações corporais eram vistas como resultado do grande
poder de Deus na santificação, ou o "poder selador". 23
• Ao mesmo tempo em que alguns membros da igreja de Himes
ficavam impressionados com essas ideias, outros discordavam, mas
temiam desafiar Starkweather com receio de "pecar contra o Espírito
Santo". O problema se tornou tão perturbador em abril de 1843, que
Himes teve que enfrentar a questão publicamente.
Sua atitude provocou uma forte reação em Starkweather e seus
seguidores. "Você expulsará o Espírito Santo!', protestou um. 'Você
está jogando água frial', disse outro. 'Jogando água frial", respondeu o
Sr. Himes. 'Eu jogarei todo o oceano Atlântico, antes de ser identificado
com essas abominações ou de sofrer suas consequências nesse lugar
desobediente.' Starkweather não trabalhou mais como pastor associa-
do de Himes, mas conseguiu levar consigo um grupo de membros da
Chardon Street Chapel com ele. 24
A demissão de Starkweather não colocou ponto final na questão.
Ele era um homem de grande apelo pessoal, e seu ensino de que os
"dons' seriam restaurados à igreja" impressionava a muitos. Logo seus
seguidores estavam procurando caminhar sobre as águas e segurar lo-
comotivas com o poder da vontade. Starkweather afirmava que aqueles
que tinham o dom do Espírito - podiam discernir quem era e quem não
era cristão, e que pessoas assim (incluindo ele próprio) "não tinham
necessidade de que outros cristãos lhes declarassem qual era e qual
não era o seu• dever." 25
Embora Himes, Miller e outros reconhecessem a seriedade do pro-
blema de Starkweather, sem uma organização eclesiástica era impossível
desligá-lo. Além disso, ele era popular entre um grupo expressivo de
crentes. Por isso, até falar contra Starkweather, citando-o por nome,
não era aconselhável, especialmente após ele se apresentar perante os
seguidores como um "homem santo", mas "perseguido".
A liderança decidiu que os partidários dele teriam que descobrir
por si mesmos o fruto do trabalho de Starkweather, apesar de saber
que o processo seria doloroso. Como resultado, no verão de 1843,
a influência dele teve um impacto significativo em pelo menos três
campais em Connecticut. 26
• O Public Ledger, da Filadélfia, relatou que, enquanto Starkweather
pregava no encontro de Bridgeport, um homem passou pelo auditório
162 I ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

acenando com uma folha verde e gritando 'Aleluia" e "Glória" o mais


alto que conseguia. As vezes, ele apontava para vários espectadores,
murmurando algo que seus colegas interpretavam como um sinal de
que as pessoas indicadas estavam eternamente perdidas. Esse exercício
de discernimento de espíritos foi acompanhado por outros atos de
fanatismo público, todos relatados pela grande imprensa."
Litch, que presenciou o evento, confirmou que os periódicos não
haviam exagerado. "Jamais testemunhei uma cena mais vergonhosa,
sob roupagem de piedade", escreveu ele. "Tal espírito

é do mal, somente do mal, e isso de forma absoluta [...].


A origem disso é a ilusão de que as pessoas que agem assim
estão inteiramente sob a influência do Espirito de Deus, são
seus filhos, e ele não as enganará nem as desviará; portan-
to, todo impulso que recebem é considerado como vindo de
Deus e, ao atendê-lo, serão capazes de tudo [...].
Se reuniões do segundo advento devem ter tais proce-
dimentos vergonhosos como testemunhei lá, serei contra
realizarmos outras campais. Seria melhor pararn a causa jamais
celebrar outra reunião. 28

Infelizmente, os fanáticos preeminentes no encontro de Bridgeport


também se destacaram em duas outras campais de Connecticut, antes
da influência de Starkweather começar a diminuir."
Em novembro, Miller fez uma declaração pública, na primeira pá-
gina da Signs, contra o fanatismo que havia desviado a tantos. Naquele
verão, em suas viagens, Miller testemunhou o mesmo espírito atuan-
do. Ele escreveu: "Meu coração ficou profundamente aflito durante
minha viagem ao Leste, por ver em alguns poucos dos meus antigos
amigos uma tendência a extremos descontrolados e tolos, como reali-
zar milagres, discernir espíritos, aceitar ideias vagas e incorretas sobre
santificação, etc."3°
Para enfrentar o fanatismo, a liderança estabelecida aconselhou os
mileritas a depender racionalmente da Bíblia. "Apegue-se, apegue-se
à Palavra de Deus", admoestavam os editores da Signs. "Agarre-se às
suas promessas e caminhe de acordo com seus ensinos sagrados, e tudo
ficará bem." 31
Por último, Starkweather ainda pretendeu ganhar o controle de uma
porção significativa dos adventistas, pouco após o desapontamento da
O Tempo de Tardança L 163

primavera de 1844. Em abril, ele tentou unir vários seguidores prete-


ridos do milerismo. Os amigos de Himes escreveram: "Tal combinação
de elementos discordantes não se juntava com frequência. Não havia
dois entre eles que concordassem entre si", e "cada um desejava liderar
em uma direção".
Starkweather logo perdeu o controle da reunião, e as várias fac-
ções acusaram umas às outras (incluindo Starkweather) de estarem
possuídas pelo diabo e apresentarem "êxtases rnesméricos". Alguns
participantes concluíram "que em verde escaparem de Babilônia, eles
haviam se perdido no deserto". 32
Após esse encontro malsucedido, Starkweather ficou com poucos
seguidores entre os mileritas. Depois, ele abandonou sua família e se-
guiu o caminho de a vin French (deixando o perfeccionismo levá-lo
à "união conjugal espiiitua in uência de Starkweather, no entanto,
não desapareceu inteiram nte. Ela seria observada em movimentos
fanáticos que surgiram após 22 de outubro de 1844."
Apesar de o fanatismo estar presente no adventismo antes de outu-
bro de 1844, ele não envolveu a parte principal do movimento. Miller,
Himes e Litch sempre estimularam uma religião racional. Os elementos
discordantes estavam mais próximos das margens do adventismo do que
do centro. Mas, como seria de se esperar, eles sempre estavam presentes.
Durante o período de tardança, os fanáticos ficaram latentes; irias, infe-
lizmente, alcançariam maior preeminência no fim de 1844 e em 1845.
Antes de deixar o período de tardança, é importante examinar mais
um exemplo de fanatismo. Esse caso ocorreu na campal de Exeter,
New Hampshire, em agosto de 1844. O problema começou na tenda
de Watertown, Massachusetts, onde as reuniões duravam "quase a noite
toda e eram celebradas com grande empolgação, barulho de gritaria e
aplausos, bem como gestos e exercícios singulares". Alguns gritavam tão
alto e por tanto tempo, que a voz era reduzida a um sussurro. Outros
tinham "literalmente feito bolhas nas mãos" de tanto baterem palmas."
Infelizmente, os crentes de Portland, Maine, haviam armado sua
tenda muito perto deles, antes que percebessem o problema. Tiago
White, um jovem pregador milerita, de Portland, afirmou que seu grupo
teve que se mudar desse local para o outro extremo do terreno, a fim
de obter paz. No entanto, segundo ele observou, a mudança acabou
criando ainda mais simpatia "pelos fanáticos", que clamavam "perse-
guição e gritavam glória a Deus, como se uma vitória nova e brilhante
houvesse sido ganha".
164 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

O problema começou a se espalhar pelo acampamento, e os pre-


gadores ficaram angustiados. Finalmente, um pastor enfrentou publi-
camente a questão. Ele afirmou que "não tinha objeções aos gritos de
louvor a Deus a respeito de vitórias ganhas em seu nome. Mas, quando
pessoas gritavam 'glória a Deus' 999 vezes, sem evidência de uma vitória
conquistada, e quando haviam feito bolhas nas mãos de tanto batê-las
com violência, ele achava que era hora de parar". No entanto, se não
parassem, ele sugeriu que os demais acampantes se apartassem deles. 35
De modo geral, esse discurso ajustou o tom da campal, mesmo
que tenha falhado em alcançar "aqueles que estavam agitados pelo
fanatismo". Seria preciso que houvesse um pronunciamento ainda mais
surpreendente para atingir as mentes endurecidas. Esse pronunciamen-
to logo seria feito em Exeter e, quando veio, provou ser um momento
decisivo na história do adventismo.
Guilherme Miller Lucy Miller

O lar da família Miller, por volta de 1853


L-
à

Josué V. Himes, gênio das Carlos Fitch, zeloso defensor


relações públicas e principal do separatismo milerita
colaborador de Miller

Josias Litch, líder milerita Elon Galusha, líder milerita


com profunda inclinação no oeste do Estado de
acadêmica Nova York

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Hiram Munger, superinten- Josué V. Himes em seus
dente de campais que • últimos anos
atemorizava os "cainitas"

Ilustração da grande tenda milerita


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O Gráfico de 1843, elaborado por Carlos Fitch e Apollos Hale


t_iaricatura anumnenta irustranao a ascensao
do Boston Tabernacle. Miller é representado
sentado no gráfico profético. Himes está em pé,
embaixo, circundado por sacos de dinheiro e
preso por um demônio

S. S. Snow, o homem por George Storrs, pregador


trás do movimento • poderoso que fez muito para
do sétimo mês impulsionar o movimento do
• sétimo mês
Sylvester Bliss, editor milerita, Miles Grant, contundente
líder em Albany e biógrafo editor do Advent Christian,
de Miller opositor de J. V. Himes
Tiago White, um dos fundadores do
adventismo sabatista

Mien G. White, voz profética José Bates, ativista milerita e


entre os adventistas sabatistas autor dos primeiros
folhetos sabatistas
CAPÍTULO

O Verdadeiro
Clamor da
Meia-Noite
(Cs V ocê vai receber uma nova luz aqui! Algo que vai dar novo
ímpeto ao trabalho." Este era o anúncio repetido por José
Bates enquanto viajava de trem para aeampal de Exeter,
New Hampshire, em agosto de 184n De fato, os adventistas realmente
receberam nova luz nessa reunião, uma mensagem que provocou um
dos momentos mais significativos na história milerita.

Uma Nova Mensagem


Conforme observamos no capitulo 9, as reuniões de Exeter fo-
ram uma bênção, mas os mileritas enfrentaram alguns contratempos.
O fanatismo causou confusão entre os adventistas que, de certa for-
ma, estavam desmoralizados. O definido tempo de expectativa havia
passado, o tempo de tardança prosseguia e nem os crentes nem os
pregadores tinham qualquer segurança de onde• se encontravam na
história profética. A pregação pode ter sido boa, mas "falhou em mo-
tivar o povo". Um sentimento de indiferença se estabeleceu entre os
mileritas, apesar do esforço dos lideres para anitná-los.2
174 1 ADVENTISMO --- Origem e Impacto do Movimento Milerita

Sob essas circunstâncias, Bates estava fazendo seu melhor no púlpito


ao pregar a desgastada mensagem do advento às pessoas. Repentina-
mente, ele foi interrompido no meio do sermão pela esposa de John
Couch, que ficou em pé e falou tanto para o pregador quanto para o
auditório: "Tarde demais, irmão [Batel", anunciou ela. "É tarde demais
para gastar nosso tempo com essas verdades, com as quais estamos
familiarizados, e que nos abençoaram no passado, e serviram a seu
propósito e tempo." Então, ela disse que um palestrante entre eles
tinha uma nova mensagem .3 Era ,S,amuel S. Snow, 'te aquela ocasião,
um participante de menor importância no movimento milerita.
Em Exeter, Snow apresentou uma mensagem que o colocaria no
centro do milerismo. Sua contribuição foi uma nova interpretação
de Daniel 8:14 a respeito da purificação do santuário. Essa explica-
ção levou a uma nova compreensão sobre a parábola do noivo em
Mateus 25. Ambas as passagens faziam parte do fundamento da
pregação adventista.
Com base na tipologia bíblica, Snow defendia que os mileritas es-
tavam equivocados ao esperar a volta de Cristo na primavera de 1844.
Examinando os sábados cerimoniais do Antigo Testamento como tipos
e o ministério de Cristo como antítipo, Snow demonstrou, a partir do
Novo Testamento, que as festas da Páscoa, Primícias e Pentecostes fo-

ram cumpridas por Jesus no tempo exato do ano, assim como ocorria
nas celebrações anuais. Isso porque "Deus é pontual". Snow chamou a
atenção para um fato: 'Aqueles tipos que deveriam ser observados no
sétimo mês, ainda não tiveram seu cumprimento."
Ele relacionou o Dia anual da Expiação com a segunda vinda de
Jesus. "O ponto importante nesse tipo", escreveu Snow,

é a conclusão da reconciliação na vinda do sumo sacerdote


para foraS do lugar santo. O sumo sacerdote era um tipo de
Jesus, nosso sumo sacerdote; o santíssimo era um tipo do
Céu; e a saída do sumo sacerdote, um tipo da vinda de Jesus
uma segunda vez para abençoar seu povo, que o esperava.
Como isso acontecia no décimo dia do sétimo mês, assim,
naquele dia, Jesus certamente viria, porque nenhum ponto da
lei há de falhar. Todos devem se cumprir.

Combinando essa descoberta com sua conclusão de que a profecia


dos 2.300 dias de Daniel 8:14 terminaria em 1844 (em vez de 1843),
O Verdadeiro Clamor da Meia-Noite 1 175

Snow proclamava que Cristo viria no "décimo dia do sétimo mês" do


((
presente ano, I 844." 4
Ficou estabelecido que, de acordo com os cálculos doe S
- s
o décimo dia do sétimo mês cairia em 22 de outubro de 1844. Essa data
logo se tornou o ponto central do interesse milerita.
A explicação armou o palco para uma nova interpretação da pa-
rábola do noivo, em Mateus 25. Ela encontrou expressão no próprio
título que Snow escolheu para o periódico que estabeleceu a fim de
divulgar suas conclusões — The True Midnight Cry ["0 verdadeiro cla-
mor da meia-noite"].
Essa nova compreensão foi exposta amplamente po eorge torrs.
De acordo com ele, a mensagem anterior havia sido um alarme," GORA
A VERDADEIRA ESTAVA SOANDO". Ele destacou que, de acordo com a pa-
rábola, "todas" as virgens Cochilaram e adormeceram durante o tempo
de tardança. Storrs indicou que a demora não poderia ser maior, do que
seis meses, uma vez que a noite de tardança representava metade de
um dia profético. Assim, esse período terminaria no outono.
Entretanto, de acordo com a parábola, o clamor do noivo vindouro
deveria ser dado à meia-noite, ou seja, próximo da metade do tempo de
tardança. De acordo com esse raciocínio, Storrs afirmou: "O forte clamor
presente a respeito do tempo começou por volta da metade de julho,
espalhou-se com grande rapidez e poder e foi acompanhado de uma
demonstração do Espirito, tal como nunca testemunhei em relação ao
clamor em '1843'. É literalmente agora, 'saí ao seu encontro'!" O tempo
chegou para "o VERDADEIRO Clamor da Mela-Noite" . 5
As conclusões de Snow abalaram a campal. De acordo com Bates,
a mensagem do sétimo mês

agiu como fermento por todo o acampamento. E, quando


o encontro terminou, os montes de granito de New Hamp-
shire vibravam com o poderoso clamor: "Eis o Noivo] Saí ao
seu encontro." À medida que as carroças, carruagens e vagões
de trens carregados passavam por diferentes estados, cidades
e vilas da Nova Inglaterra, o clamor ainda ressoava: "Eis o
Noivo]." Cristo, nosso bendito Senhor, virá no décimo dia do
sétimo mês? Prepare-se] Prepare-se! 6

A partir de Exeter, essa pregação passou a fazer parte do adventis-


mo, atribuindo aos crentes uma nova "responsabilidade na obra", a de
176 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

espalhar a mensagem, e uma solenidade que praticamente acabou com


o fanatismo anterior. De acordo com Tiago White, um "poder quase ir-
resistível" acompanhava a proclamação de que Cristo viria em outubro.'
Curiosamente, antes da campal de Exeter, Snow já havia exposto
sua teoria do sétimo mês ao milerismo. Por volta de janeiro de 1844,
ele sentiu "o dever imperativo de comunicar ao mundo, e especialmen-
te ao grupo adventista", a luz que Deus havia lhe concedido "sobre o
término dos períodos proféticos". 8
O Midnight Cry publicou a explicação de Snow sobre o sétimo
mês, pela primeira vez, em 22 de fevereiro de Ti844, algumas semanas
antes do tempo predito por Miller quanto ao fim. Os editores, no en-
tanto, adicionaram uma observação preventiva ao artigo, indicando que,
embora fosse "possível" que o autor estivesse correto, eles não pensa-
vam dessa forma, pois continuavam acreditando na data da primavera.
O artigo de Snow foi posteriormente publicado no Advent Herald, com
observações preventivas similares. 9
Na verdade, Snow não foi o primeiro a indicar que Cristo pudesse
vir no outono em vez da primavera, mas o próprio Miller o havia
feito. Em 3 de maio de 1843, ele apresentou o seguinte argumento
em uma carta a Himes: "As cerimônias da lei que eram observadas
no primeiro mês, no equinócio da primavera, tiveram seu cumpri-
mento no primeiro advento e nos sofrimentos de Cristo; mas todas
as festas e cerimônias do sétimo mês ou equinócio outonal, só podem
ter seu cumprimento no segundo advento." .
Ele destacou que, no calendário judaico, a expiação era feita no déci-
mo dia do sétimo mês, e que isso certamente era "um tipo da expiação"
que Cristo estaria realizando naquele momento. Ele ainda ressaltou
que o sumo sacerdote abençoava o povo após sair do lugar santíssimo.
'Assim será com nosso grande Sumo Sacerdote [...]. Isso ocorria no
décimo dia do sétimo mês." "Se isso for verdade", concluiu ele, "não
veremos sua gloriosa aparição até o equinócio outonal."
Ao publicarem a carta de Miller, na Signs de 17 de maio de 1843,
os editores comentaram que haviam notado a força desse argumento,
e que ele deveria estar correto. Contudo, essa carta parece ter sido
quase completamente ignorada até setembro de 1844. Como veremos,
o raciocínio de Snow teve pouca aceitação entre a liderança milerita
até o inicio de outubro.'°
Apesar da pouca atenção que recebeu, Snow-, que se considerava
"o menor de todos os santos", sentia ser seu "dever especial" proclamar
O Verdadeiro Clamor da Meia-Noite 1 177

a mensagem do sétimo mês. Durante a primavera e o verão de 1844,


ele pregou sua teoria em Nova York, Filadélfia e outros lugares. Mas,
segundo relatou o Advent Herald, no fim de outubro, "apesar de muitos
terem abraçado as ideias, nenhuma manifestação particular de seus
efeitos foi vista até por volta de julho"."
O ensinamento de Snow começou a se firmar em 21 de julho,
quando ele pregou no Boston Tabernacle. 12 Entretanto, após o encon-
tro de Exeter, em agosto, o movimento do sétimo mês se tornou um
verdadeiro furacão. A rápida disseminação da nova mensagem poderia
ser atribuída a várias causas. De grande importância foi a lógica con-
vincente do raciocínio de Snow, e o fato de que era baseada em várias
linhas de evidências.
Ligado à força do elemento cognitivo, achava-se o fato de que
o tempo psicológico estava correto. Os adventistas desapontados
encontravam-se cansados da "tardança" e desejavam de todo o coração
a vinda de Jesus. Esse anseio estava invariavelmente conectado com
o profundo sentimento do imperativo de advertir os vizinhos sobre o
juízo iminente. O desfecho desses e de outros fatores foi que a men-
sagem do sétimo mês se espalhou com rapidez sem precedentes na
experiência milerita.
Além de Snow, que espalhou a mensagem por meio do True
Midnight Cry "às dezenas e centenas de milhares de cópias", um dos
pregadores mileritas mais entusiasmados a aceitar a teoria do sétimo
mês foi o irreprimível George Storrs. "Tomo a minha caneta", ele
escreveu no Bible Examiner, de 24 de setembro,

com sentimentos que nunca experimentei antes. Sem dúvi-


da, na minha mente, o décimo dia do sétimo mês testemunha-
rá a revelação do nosso Senhor Jesus Cristo nas nuvens do
céu. Estamos, portanto, a poucos dias desse evento. Será um
momento terrível para aqueles que estão despreparados, mas
glorioso para aqueles que estão prontos. Sinto que estou fa-
zendo meu último apelo por intermédio da imprensa. Sinto
meu coração pleno. 13

O Oberlin Evangelist, em resposta ao Bible Examiner, observou:


"O tempo logo mostrará se o editor ou o Sr. Storrs estão corretos." Em
outro artigo na mesma edição, o Evangelist, após declarar que os ad-
ventistas estavam "completamente equivocados", acrescentou: "Quando
178 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

esse intervalo de tempo lhes mostrar que todos os cálculos estão errados,
não serão tentados a rejeitar a revelação divina, nem serão desencoraja-
dos a trabalhar pacientemente por Cristo e pela salvação de pessoas?" 4
A mensagem do sétimo mês deu aos mileritas tanto um significado
reavivado quanto foi um teste a respeito de sua interpretação de Daniel
8:14, entre outras passagens. Além disso, a nova teoria proporcionou
uma mudança importante na liderança dos adventistas, passando de Mil-
ler, Himes, Litch e seus colegas para novos líderes como Snow e Storrs.

Novos Líderes
Como Snow e Storrs influenciaram muito o adventismo, tanto antes
quanto depois de 22 de outubro de 1844, devemos nos familiarizar com
eles neste momento. Snow, apesar de crescer ligado à Igreja Congrega-
cional, havia se tornado um "infiel insensível" no início da fase adulta.
Como descrente militante, tornou-se agente do Investigator, de Boston,
um periódico não religioso. Além disso, teve a oportunidade de escrever
artigos para essa publicação. 15
Para Snow, a Bíblia estava repleta de "absurdos". A fim de agradar
os amigos, ele passou a ler vários livros que defendiam •o cristianismo,
mas nenhum influenciou seu pensamento. Todavia, em 1839, o irmão
de Snow comprou de um mascate um exemplar do livro de Miller. "Eu
ouvia com frequência sobre o Sr. Miller e suas ideias", relatou Snow,
(t
e supunha que era tudo fantasia." No entanto, ele decidiu ler a obra
de Miller mesmo assim.
(Após várias leituras completas do livro)ele começou, "ao mesmo
tempo, a examinar as Escrituras diligentemente, para verificar se coisas
eram assim mesmo". Após um estudo de três meses, ele se tornou não
somente um cristão decidido, mas um verdadeiro crente "aguardando
a bendita esperança" do Salvador vindouro»
Na campal de East Kingston, em junho de 1842, Snow consagrou
sua vida à pregação da mensagem rnilerita. Em dezembro de 1843,
foi ordenado ao ministério evangélico em uma reunião adventista. Ele
havia "saído" de sua congregação porque estava "praticamente proibido
de pregar aos irmãos da igreja sobre o glorioso tema que lhe era tão
estimado". Logo após sua ordenação, Snow se sentiu impulsionado a
assumir o dever de comunicar ao mundo a teoria do sétimo mês. Como
descrevemos há pouco, isso mudou a própria natureza do adventismo.
Voltaremos à história de Snow no capítulo 12.'7
O Verdadeiro Clamor da Meia-Noite 1 179

De muitas maneiras, as contribuições de George Storrs ao adven-


tismo foram tão significativas quanto as de Snow. e não se tornou
apenas um promotor ardoroso do movimento do sétimo mês, mas
também um defensor importante da ideia de que os seres humanos não
tinham imortalidade inata — uma doutrina que se tornou fundamental
para vários grupos adventistas nas décadas de 11840 e 1850. Além disso,
no período próximo a outubro de 1844, Storrs se juntou a Snow na
condução de alguns mileritas a conclusões e práticas extremistas.
Storrs, que fora educado como congregacionalista, foi para a Igreja
Metodista quando tinha quase 30 anos e se tornou um pastor dessa
denominação em 1825. No entanto, em meados da década de 1830,
ele ficou contrariado com a liderança metodista por causa de seu en-
volvimento na crescente defesa da causa abolicionista: 8
Enquanto o ativismo de Storrs não foi contestado pelos bispos
metodistas, ele foi visto como um herói das forças antiescravidão.
O pregador, porém, alcançou fama em 1835, quando foi preso e ar-
rastado ajoelhado durante um período de oração, em uma igreja em
Northfield, New Hampshire. A ação foi executada para evitar que ele
pregasse um sermão contra a escravidão, em uma congregação cujos
membros o haviam convidado para abordar esse assunto. Em nome da
lei, ele foi acusado de ser "um preguiçoso, um vadio, um briguento". 18
De acordo com William Lloyd Garrison, Storrs era um orador "po-
deroso". Elizur Wright escreveu para Theodore Dwight Weld, em abril
de 1836, o seguinte: "Storrs foi para Cincinnati trovejar na Associação
Geral Metodista Episcopal."2°
Storrs, com Orange Scott e LeRoy Sunderland, liderou a batalha
para ganhar todo o metodismo para a causa antiescravidão. Para fazer
com que esse ideal fosse propagado, ele e Sunderland fundaram o Zion's
Watchman, em 1836. Também nesse ano, Storrs renunciou ao ministério
itinerante da Igreja Metodista, principalmente devido ao seu posicio-
namento em relação à escravidão.
Homem de caráter individualista e de fortes convicções, ele aban-
donou completamente a Igreja Metodista, em 1840. Aquela altura, ele
estava absolutamente convicto de que "não podia se submeter a deixar
a responsabilidade [por suas ações e crenças] nas mãos dos bispos, nem
de qualquer igreja", não importasse quão bons pudessem ser?'
A luta de Storrs contra a hierarquia do metodismo em relação
à escravidão, entre outros assuntos, o convenceu definitivamente
de que a organização da igreja era um mal desnecessário. Em sua
180 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

opinião, o elemento fundamental para manter os crentes unidos


era o amor.
Assim, Storrs, após aceitar o milerismo, achou que o convite de Fitch
para sair de Babilônia estava bem alinhado com seu pensamento. Ele se
opôs à organização da igreja e dos credos doutrinários até o fim da vida.
Em 1844, ele escreveu: "Nenhuma igreja pode ser constituída pela in-
venção humana que não se tome Babilônia a partir do momento em que é
organizada." O legado de Storrs sobre a organização eclesiástica perduraria
por décadas, frustrando vários grupos adventistas, no período pós- 184422
Storrs foi convertido ao milerismo através do ministério de Car-
los Fitch, em 1842. Logo, ele se tornou um pregador adventista
itinerante. Nessa função, ele se desenvolveu até se tornar um dos
notáveis porta-vozes do adventismo. Por exemplo, no outono de
1843, ele se juntou a Himes, em Cincinnati, para organizar um dos
mais bem-sucedidos encontros mileritas. Mais de 500 pessoas foram
ganhas para a fé no segundo advento. Storrs permaneceu na cidade
para liderar o trabalho na região e editar o We.stern Midnight Cry,
um periódico estabelecido para apoiar as reuniões locais." -
Nesse tempo, ele começou a defender outra doutrina que era tão
impopular entre a liderança adventista quanto havia sido anteriormente
entre os mete distas. Antes, em 1837, Storrs havia encontrado um livro
escrito por ta ue tratava sobre o destino final dos ímpios.
O autor defen ia a aniquilação total do ser e a não preservação infinita
do pecado e sofrimento"»
Até aquele momento, Storrs jamais duvidara de que as pessoas
nasciam com uma alma imortal. Mas o trabalho de Grew o levou a um
estudo bíblico completo sobre o assunto. Como resultado, ele "ficou
convencido de que o homem não tem a imortalidade pela criação, ou ao
nascer; e de que 'Deus destruirá todos os ímpios' — aniquilação absoluta".
• Ele passou a crer naquilo que os teólogos chamam de~ia-
lisr
- o (as pessoas recebem a imortalidade por meio da condição de
fé em Cristo), e otani (a destruição final ou eterna dos
ímpios, em vez de sua preservação consciente no fogo do inferno por
toda a eternidade). O ensinamento dessas doutrinas colocou Storrs
em conflito com a Igreja Metodista e contribuiu para sua saída da
denominação, em 1840. 25
Para apresentar suas ideias sobre a imortalidade e o destino dos
ímpios, em 1841, Storrs publicou An Enquiry: Are the Souls of the
Wicked Immortal? In Three Letters ['Uma questão: são as almas dos
O Verdadeiro Clamor da Meia-Noite 1 181

ímpios imortais? Em três cartas"]. No ano seguinte, ele imprimiu uma


versão expandida de sua argumentação com o título: An Enquiry: Are
the Souls of the Wicked Immortal? In Six Sermons ["Uma questão: são
as almas dos ímpios imortais? Em seis sermões"].
Poucas semanas após esta última publicação, Storrs se deparou com
o primeiro palestrante milerita. Ao permitir que ele pregasse em sua
igreja não denominacional, Storrs foi parcialmente convencido sobre
a verdade do segundo advento pré-rnilenarista. Isso o levou a convidar
Fitch para apresentar a série que finalmente o motivou a tornar-se um
pregador milerita, em 1842. 26
A princípio, Storrs não apresentou suas ideias sobre a imortalidade
através do ministério público milerita. Porém, ele foi estimulado a agir
por intermédio de um artigo na Signs, que "era demasiado forte", contra
um pastor que acreditava que seu dever era pregar tanto o segundo
advento quanto a não imortalidade dos ímpios. Após a censura ser
repetida várias vezes, Storrs se convenceu de que "ele não podia ficar
em silêncio e deixar aquele pastor sofrer sozinho". 27
Como resultado, em janeiro de 1843, Storrs lançou o primeiro exem-
plar do Bible Examiner ["Consultor bíblico"]. Nesse periódico, ele ensi-
nou tanto o segundo advento quanto suas ideias sobre a imortalidade.
Assim como muitos outros mileritas, Storrs era um redator in-
cansável. O primeiro número do Examiner tinha seis sermões de sua
autoria. Dentro de poucas semanas, o pregador enviou cerca de 15 mil
cópias de seu material e, como descreveu, "a semente foi semeada, e
germinou em várias direções". Em 1880, pelo menos 200 mil cópias
do Six Sermons entraram em circulação. 28
A defesa de Storrs em relação ao condicionalismo finalmente o
colocou em conflito com a liderança milerita. Entretanto, ele achava
que tinha de pregar, porque a teoria da consciência na morte era uma
corrupção papal, e a posição do Novo Testamento precisava ser restau-
rada a seu lugar de direito como parte da crença cristã. 29
Deve-se assinalar que, na mesma época de Storrs, outro líder ad-
ventista preeminente publicou textos sobre os assuntos do aniqui-
lacionismo e condicionalismo. Henry Jones abordou os temas em
1843.3 ° Entretanto, ele não se mostrou uma grande ameaça aos líderes
mileritas, pois sua voz foi gradualmente sendo colocada de lado no
movimento, à medida que o ano do fim do mundo passava. É preciso
lembrar que Jones nunca aceitou qualquer esquema de datação do
advento. Storrs, por sua vez, aceitou as datas, e sua personalidade cada
182 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

vez mais carismática o colocou bem no centro do milerismo, ao se


aproximar o outono de 1844.
Carlos Fitch foi o primeiro líder adventista a aceitar o condiciona-
lismo. Em 25 de janeiro de 1844, ele escreveu a Storrs, informando-o
de suas convicções.
Já que você tem lutado sozinho com o Senhor, em relação
ao estado dos mortos e à condenação final dos ímpios, escre-
vo para dizer-lhe que estou finalmente, após muita reflexão,
oração, e convicção total do dever a Deus, preparado para
assumir minha posição ao seu lado.
Estou completamente convertido• à verdade bíblica de
que "os mortos não sabem coisa alguma"."

• Sem querer "esconder sua luz", Fitch pregou para sua congregação
dois sermões sobre o tema, no fim de janeiro. "Eles causaram um grande
rebuliço", ele escreveu para Storrs. 'Antes, muitos pensavam que eu
tinha um demônio, mas agora eles têm certeza disso. Contudo, não te-
nho direito maior, meu irmão, de me envergonhar da verdade de Deus
sobre esse assunto do que a respeito de qualquer outro.""
Apesar da sinceridade, Fitch não pôde conduzir sua congregação a
aceitar essa questão. Em 13 de fevereiro, o Herald, de Cleveland, rela-
tou que os membros da igreja dele haviam resolvido que suas ideias a
respeito da destruição final dos ímpios não eram bíblicas."
A reação contra o novo ensinamento, em Cleveland, foi imitada
pelos mileritastitch foi o único dos principais líderes do movimento
Ít a aceitar o condicionalismo e o aniquilacionismo na década de
de 1843
1840 Miller, Himes e Litch acharam o assunto repugnante e errôneci
Mi ler expressou seus sentimentos contra o aniquilacionismo em
1814, por ocasião da morte de um amigo do exército. Essa experiência
foi uma das várias que o conduziram de volta ao cristianismo, e desen-
volveram nele a esperança de "uma existência sem fim".
Ele escreveu: "Comecei a suspeitar [na década de 1810] que o
deísmo tendia a uma crença na aniquilação, que sempre foi muito
repugnante aos meus sentimentos." É possível que Miller nunca tenha
conseguido se desvencilhar de sua identificação inicial do aniquilacio-
nismo com a infidelidade e a ausência de vida após a morte. Como
resultado, é provável que sua visão a respeito dos argumentos de Storrs
jamais tenha sido imparcial e positiva?'
O Verdadeiro Clamor da Meia-Noite 1 183

Sem dúvida, a atitude de Miller em relação ao ensinamento não se


alterou mesmo com a ampla influência que a pregação e os escritos
de Storrs estavam tendo no movimento, no início de 1844. O pastor
I. E. Jones escreveu a Miller, em abril: 'Algo deve ser feito para separar
nossa influência da ideia do irmão Storrs sobre o fim dos ímpios; pois,
como está agora, ele praticamente controla, por causa do nosso silêncio,
toda ou quase toda a influência adventista." 35
Essa carta estimulou Miller a dar uma declaração pública sobre o
aniquilacionismo, um mês depois. Em 7 de maio, ele disse que renun-
ciava "a qualquer conexão, solidariedade ou simpatia com as ideias do
irmão Storrs a respeito do estado intermediário e o fim dos impios". 36
Himes, da mesma forma, era contrário às doutrinas do "sono da
alma" e da "destruição dos ímpios". Em 1834, ele teve de enfrentar
essas questões na igreja de Boston. Para ele, esses ensinamentos "eram o
câncer que tinha corroído o espírito, zelo e as boas obras, não somente
da 'Igreja Cristã' de Boston, mas de todos os lugares onde se tornaram
conhecidos"? Himes não mudou de opinião sobre esse assunto na
década de 1840. Ele havia adotado uma posição decidida contra o
aniquilacionismo, apesar de ele mesmo e seus colegas editores terem
dado espaço para Storrs nos periódicos mileritas a fim de apresentar
suas ideias.
(Dentre os líderes mileritas, Litch era o antagonista mais ativo con-
tra Storni Em abril de 1844, ele começou a publicar um periódi-
co de 32 páginas sobre o assunto, intitulado The Anti Annihilationist
["0 antianiquilacionismoTuma vez que os principais periódicos mi-
lerdas evitavam a controvérsia. 38
No entanto, o silêncio público estava se tornando impossível. Em
maio, um artigo no periódico não adventista Christian Reflector tra-
tou o assunto da seguinte forma: 'A doutrina da aniquilação tem se
expandido muito [no milerismo] para passar despercebida. É urna
temível distorção dos motivos que o evangelho tem empregado para
advertir o mundo incrédulo." 39
No mesmo mês, durante a assembleia geral anual de Boston, os prin-
cipais mileritas finalmente fizeram um pronunciamento oficial sobre
o assunto. Surpreendentemente, eles foram tão suaves na abordagem
que esta por certo não era equivalente a suas convicções particulares.
Eles aparentemente não queriam criar uma divisão ainda maior em
torno do assunto enquanto terminavam a obra de advertir o mundo
sobre o julgamento iminente.
184 j ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

A declaração oficial simplesmente indicava que o estado interme-


diário dos mortos e a condição final dos ímpios não eram "parte da
fé adventista" e esses temas não envolviam pontos "essenciais para a
salvação". Por se tratar de assuntos de menor importância, todas essas
questões teóricas logo seriam resolvidas com o retorno do Senhor.
Antes desse momento, o pronunciamento era: "Não temos a expec-
tativa de que todos os que fazem parte do povo de Deus pensem da
mesma maneira."40
Esses pronunciamentos oficiais, no entanto, não significaram muito
para aqueles que estavam convictos. Eles continuariam agindo. Assim,
Fitch escreveu para Storrs, em maio de 1844:

Recebi uma longa carta do irmão Litch sobre o estado dos


mortos e o fim dos ímpios. Seria muito bom para mim ser
capaz de agradar-lhe, bem como aos queridos irmãos que
concordam com ele, porque amo a todos, e poderia me re-
gozijar em conceder tudo, menos a verdade, para poder har-
monizar as minhas ideias com as deles. Mas há um amigo
que me comprou com seu sangue, e tenho mais prazer em
agradar-lhe do que, em vez disso, ao mundo todo.'"

Assim, querendo ou não, a principal liderança do milerismo viu o


inicio de uma batalha, Storrs e seus homens seguiriam adiante, apesar
do conceito de Miller de que o advento pré-milenarista deveria ser o
"único" ponto doutrinário central no movimento.
Como resultado, quando Storrs aceitou os ensinamentos do sétimo
mês de Snow, no fim do verão de 1844, houve muita tensão entre os
lideres mileritas tradicionais e aqueles que eram relativamente novos,
os quais cada vez mais se tornavam influentes. Essa tensão não dimi-
nuiria nas primeiras semanas do "verdadeiro clamor da meia-noite".

Antigos Lideres se Juntam ao Movimento


O movimento do sétimo mês tomou de surpresa os lideres mileritas
tradicionais. Quando ele começou, Himes e Miller estavam trabalhando
no Oeste e não perceberam até que sua divulgação estivesse bem en-
caminhada. Não há evidências de que algum dos principais pregadores
mileritas tenha aceitado essa teoria até o fim de setembro. A maioria
não concordou com o tema até outubro.
O Verdadeiro Clamor da Meia-Noite 1 185

Enquanto parte da dificuldade poderia estar relacionada com carac-


terísticas de personalidades e prerrogativas de liderança, havia também
razões teológicas para a hesitação. Miller, por exemplo, jamais havia
recomendado qualquer data específica para a segunda vinda, uma
vez que ele acreditava que ninguém poderia saber o dia ou a hora do
advento. Da mesma forma, os editores da Signs sempre protestaram
quando, individualmente, alguns adventistas estabeleceram datas em
1843. Agora, diante desse ponto de vista estabelecido, a nova teoria
apresentava o próprio dia da vinda de Cristo.
O primeiro reconhecimento público do movimento do sétimo mês
em um importante periódico milerita pode ser encontrado no Advent
Herald, em 21 de agosto. Os editores relataram que "o irmão Snow
enfatizou com grande vigor a questão do tempo e demonstrou muita
pesquisa" ao apresentar suas ideias.
Considerando que essas conclusões pudessem ser uma possibilidade,
o Herald advertiu: "Deveríamos hesitar antes de nos sentir liberados
para tentar 'revelar o dia". O texto continuou sugerindo que todos
deveriam examinar as evidências." Por outro lado, o periódico não
publicou a argumentação de Snow naquela época. Esse trabalho seria
deixado para o True Midnight Cry, em 22 de agosto, que seria espalhado
aos milhares em pouco tempo.
O Advent Herald, de 21 de agosto, também divulgou a primeira
declaração pública de Litch sobre a empolgação acerca do sétimo
mês. Admitindo que o rnovimento estava ganhando velocidade, ele
escreveu: "Não posso compreender absolutamente como nossos
queridos irmãos se satisfazem tanto com o fato de os 2.300 dias
terminarem naquele mês." Ele apresentou nove argumentos contra
as conclusões de Snow. Em setembro, Litch taxativamente negou
qualquer validade ao movimento do sétimo mês e expressou seu
temor: "Muitos se machucarão por sua confiança na vinda do Senhor
somente naquele tempo.""
Em meados de setembro, Apollos Hale, um dos editores do Herald,
foi muito mais conciliatório do que Litch. Naquela altura, ele sugeriu
que a evidência era "altamente merecedora de consideração". Ele pon-
derou: "A. partir de uma apreciação justa de todos os fatos, precisamos
dizer que se tivermos que escolher um dia qualquer como o tempo do
advento, preferencialmente aos demais, deveríamos estar dispostos a
considerar" o décimo dia do sétimo mês, ou 22 de outubro. Ele então
fez uma longa análise crítica das evidências em duas partes, avaliando,
186 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

inclusive, algumas questões que não pareciam ter sido "consideradas


apropriadamente" pelos defensores do sétimo mês. 44
Parece claro que a liderança milerita não sabia bem o que fazer
com o movimento do sétimo mês. Por um lado, eles reconheceram a
influência do tema na comunidade adventista e a impossibilidade de
ignorá-la. Por outro, não se sentiam confortáveis para endossá-la.
Enquanto isso, à medida que "o verdadeiro clamor da meia-noite"
se espalhava pelo grupo, a liderança tradicional parecia ter a intenção
de insistir na habitual esperança de que Cristo se apressaria e viria para
resgatá-los da crise complexa em que se encontravam.
Em 20 de setembro, Himes e Litch ainda estavam planejando ir
à Grã-Bretanha. Himes escreveu que ele "não ousava" alterar seus
planos, apesar de não poder "racionalmente esperar pela assistência
dos queridos irmãos que tinham uma forte confiança no sétimo mês".
Em 30 de setembro, Miller ainda via aquela tarefa diante dele, como
sempre estivera, apesar de ter escrito que sua campanha no Oeste, em
agosto, havia enfraquecido de tal modo seu corpo frágil que ele pensou
que, "dali em diante, jamais seria novamente capaz de trabalhar na
vinha". Miller também relatou que ele e seus seguidores haviam per-
dido o controle da igreja em Low Hampton. Já no final de setembro
e inicio de outubro, em 1844, Miller parecia rodeado de dificuldades
por todos os lados. Logo ele consideraria suas adversidades corno a
escuridão antes da manhã. 45
Na última semana de setembro, os pontos de vista começaram a
mudar rapidamente entre os lideres adventistas, à medida que todos
aceitaram a teoria do sétimo mês. Em 25 de setembro, o Voice of Truth,
de Joseph Marsh, saiu em favor da data, apesar de menos de dois meses
antes a mesma revista se regozijar de que a marcação de datas entre os
mileritas parecia ter acabado. Nathaniel Southard, editor do Midnight
Cry, se rendeu em 26 de setembro e alinhou seu periódico com 22 de
outubro.46
Quatro dias depois, Himes escreveu uma carta para Miller que indi-
cava uma grande mudança em seu pensamento. Ele, sempre pragmático,
foi impressionado com os resultados do movimento do sétimo mês.
"Essa coisa", escreveu Himes em 30 de setembro, "tem se espalhado
pelo pais como um relâmpago. Quase todo palestrante aderiu a ela e
a está pregando com zelo e grande sucesso." Além disso, como algo
importante aos olhos de Himes e Miller, a teoria havia
O Verdadeiro Clamor da Meia-Noite 1 187

acabado com todo fanatismo e trazido aqueles que estavam


envolvidos com extravagâncias de volta a um estado mental
sóbrio e discreto. O ano de 1843 jamais causou uma impres-
são tão boa como esse movimento tem causado sobre todos
os que receberam sua influência. As pessoas de mente mun-
dana foram reavivadas e estimuladas — e todas as classes têm
sido abençoadas, além de tudo o que vimos no passado. Com
essa ideia sobre a questão [a data], eu não ouso me opor a ela,
apesar de ainda não compreender a luz sobre o mês e o dia.

Contudo, Himes esteve até disposto a admitir que Cristo poderia


vir no décimo dia do sétimo mês.'"
Com essas convicções no coração, ele escreveu que decidiu abdicar
da missão na Inglaterra, algo de que apenas dez dias antes ele "não ou-
sava" desistir. Agora sua "esperança era ir para o Novo Mundo, em vez
do Velho". Ele concluiu sua carta perguntando a Miller uma série de
detalhes sobre seu artigo a respeito do sétimo mês, o qual foi publicado
em maio de 1843. As perguntas parecem ter servido para impulsionar
um Miller incomodado com a aceitação da data de outubro. Afinal, o
velho pregador ainda era, na mente de Himes, o líder do movimento
do advento. Seu apoio era importante."
O que estava implícito na carta de Himes em 30 de setembro, tornou-se
mais explícito na carta de Sylvester Bliss, de 3 de outubro. Bliss escreveu
para Miller que ele aceitara o sétimo mês e estava "sob as mais solenes
impressões de que o Senhor" voltaria em poucos dias. "O Senhor nosso
Deus tem de estar dirigindo esta questão."
"Queremos", apelou Bliss ao líder que ainda questionava, "que
você examine esse assunto [...] e dê toda a compreensão possível [...].
E que nos ofereça suas orações para que sejamos guiados corretamente
nesta crise importante." Assim, no início de outubro, a pressão estava
aumentando para que Miller tomasse uma decisão a respeito de 22 de
outubro. Seus principais líderes estavam indo na direção da aceitação,
e queriam que Miller fosse com eles."
O dia 6 de outubro foi especial para os defensores da data de 22 de ou-
tubro. Nesse dia, um participante do culto do Boston Tabernacle escreveu:

O irmão Himes veio [...] e expressou sua crença de que


o Senhor viria no décimo dia do sétimo mês. Uma gran-
de sensação foi produzida. Muitos estavam esperando que
188 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

ele não abraçasse essa difícil verdade e, por consequência,


eles teriam uma desculpa para se abrigar no dia do Senhor.
Dessas pessoas o irmão Himes muito enfaticamente se des-
vencilhou. Ele então deu um resumo da obra de despertar o
mundo para o juizo [...].
Glória a Deusl querido irmão, logo nos encontraremos no
reino — até então, uma breve despedida1 5°

No mesmo dia, sem que Himes soubesse, Miller também aceitou a


data de 22 de outubro. "Querido irmão Himes", escreveu ele,

vejo uma glória no sétimo mês que nunca havia visto antes.
Apesar de o Senhor ter me mostrado a posição do sétimo mês
um ano e meio atrás, eu não havia percebido a força dos tipos.
Agora, bendito seja o nome do Senhor, vejo uma beleza, uma
harmonia e uma concordância nas Escrituras, pela qual tenho
orado por muito tempo, mas não a tinha visto até hoje»

Aparentemente, a carta de Himes de 30 de setembro teve o efeito


desejado. Miller percebeu que o argumento de Snow sobre o sétimo
mês era, na verdade, uma extensão de usa própria posição.
"Obrigado, Senhor, oh, minha alma", Miller continuou em sua carta,
em 6 de outubro.

Que o irmão Snow, o irmão Storrs e outros sejam abenço-


ados por abrirem meus olhos. Estou quase no lar Glória!
Glória! Glória!!!Vejo que o tempo está correto [...]
A minha alma está tão satisfeita que não consigo escrever.
Convoco a você e a todos que amam a sua vinda a agradecer-lhes
por essa verdade gloriosa. Minhas dúvidas e temores se dissipa-
ram. Vejo que ainda estamos certos. A Palavra de Deus é ver-
dadeira; e a minha alma está repleta de alegria; o meu coração
está cheio de gratidão a Deus. Oh, como eu gostaria de gritar.
Mas gritarei quando o "Rei dos reis vier".
Acho que ouço você dizer: "o irmão Miller agora é um
fanático". Muito bem, me chame como quiser; não me im-
porto; Cristo virá no sétimo mês e abençoará a todos nós.
Oh, gloriosa esperança? Então o veremos e seremos como
ele, e estaremos com ele para sempre?
O Verdadeiro Clamor da Meia-Noite 1 189

Ambos, Himes e Bliss, responderam com alegria ao compromisso


de Midler. "Sua carta do dia 6 acabou de ser recebida", escreveu Bliss,
em 9 de outubro. "Louve a Deus, louve a Deus'. Que estejamos todos
prontos para nos encontrar nos céus." Naquela mesma noite, Himes leu
a carta de Miller no Boston Tabernacle, que estava lotado."
Pouco tempo depois de Miller e Himes terem aceitado a data de
22 de outubro, o restante dos líderes mileritas tradicionais aderiram
a esse ponto de vista. Litch deve ter sido o último a aceitar a teoria;
mas, em 112 de outubro, ele se regozijava de que seu Sumo Sacerdote
estaria saindo do lugar santíssimo do santuário celestial a fim de levar
seu povo para casa. "Eu agora", escreveu ele, "ergo a minha cabeça em
alegre expectativa para ver o Rei dos reis dentro de dez dias." 4
A empolgação era contagiante. Em 11 de outubro, Miller escreveu
que nunca tinha visto entre os adventistas tamanha fé, como aquela
manifestada no sétimo mês. "Ele virá', é a expressão comum. 'Ele
não tardará uma segunda vez', é a resposta geral. Há uma renúncia ao
mundo, uma indiferença para com os desejos da vida, um exame geral
do coração, confissão de pecados e um desejo profundo, em oração,
para que Cristo venha." Miller apreciou o momento de tranquilidade, à
medida que os crentes se preparavam para se encontrar com seu Deus."
No dia seguinte, ele escreveu a Himes: "O sétimo mês começa
amanhã. [..] Não espero vê-lo novamente nesta vida, mas espero vê-lo
em breve coroado, em glória, e coberto com as vestes impecáveis da
justiça de Cristo.""
A liderança milerita foi atraída à posição do sétimo mês em virtude
do que via como "um poder irresistível acompanhando sua proclama-
ção, que prostrou todos perante ele" e "varreu a Terra com a velocidade
de um tornado". O efeito benéfico na vida cristã, concluíram os líderes,
podia "ser contabilizado somente na suposição de que Deus estava ali
com eles"»
A continuação desse poder foi definitivamente testemunha-
da nas últimas semanas de proclamação da mensagem. A senhora
E. C. Clemons, de Boston, relatou que o tabernáculo estivera lotado
todas as noites, e dois prelos estavam funcionando continuamente
para produzir a última edição do Advent Herald, antes de cessar a
publicação, com a segunda vinda."
Ao mesmo tempo, os editores do Midnight Cry relataram que ti-
nham quatro prelos constantemente em atividade. O propósito era
espalhar a mensagem por meio da distribuição gratuita de centenas
190 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

de milhares de cópias das edições finais dos periódicos. Isso também


pode ser dito da maioria dos outros editores adventistas, enquanto se
aproximavam "dos últimos dias da história da Terra". Suprimentos de li-
teratura eram disponibilizados para todos os que pudessem distribui-los.
Tudo havia se tornado possível graças àqueles que livremente doaram
seus bens terrenos, uma vez que não teriam mais necessidade deles."
Em outubro de 1844, além da página impressa, outros esforços
importantes alcançaram um mundo maduro para o juízo, tanto por
meio de conversas particulares quanto em reuniões públicas. Nunca o
interesse pelo milerismo havia sido maior.

Fanatismo sobre o Sétimo Mês


Apesar das observações de Miller e Hirnes, enquanto o movimento
do sétimo mês entrava nas semanas finais, havia um aumento do extre-
mismo tanto por parte de alguns mileritas como por parte de muitos
observadores entre a população. Sem dúvida, Himes e Miller estavam
corretos em um sentido comparativo, ao dizerem que havia ocorrido
um decréscimo considerável na atividade fanática em relação ao que
experimentaram com Starkweather e alguns adventistas durante o
tempo de tardança naquele ano. Entretanto, um declínio acentuado
não significava total ausência de atividade extremista.
luz de sua fé e aos olhos do mundo observador, os crentes do
advento enfrentaram um dilema genuíno com a aproximação do dia 22
de outubro. Por um lado, se eles continuassem a manter suas atividades
diárias como usualmente, seriam acusados de não acreditar verdadei-
ramente no que pregavam. Por outro, se interrompessem as obrigações
normais, seriam tidos como fanáticos. Nessa circunstância, era impossí-
vel manter equilíbrio aos olhos daqueles que tendiam à crítica.
Infelizmente, por sua natureza, movimentos milenaristas sempre
tendem a atrair tipos fanáticos e extremistas que são levados pela
empolgação geral e pelo sensacionalismo que os acompanha. O mi-
lerismo não foi uma exceção a essa regra, mas o racionalismo frio de
Miller, Himes, Litch e da maioria dos líderes do movimento parece ter
reduzido a um número mínimo os extremistas. Isso foi especialmente
verdadeiro até o início de 1842.V mensagem milerita estava mais
voltada para alcançar a mente do que as emoções)
Entretanto, Miller e seus colegas reconheceram que o desequilíbrio
poderia distorcer o movimenta Como resultado, eles periodicamente
O Verdadeiro Clamor da Meia-Noite 1 191

advertiram contra as ações extremistas em face do retorno iminente do


Senhor. Assim, ao se aproximarem do início do ano do fim do mundo,
os editores da Signs aconselharam seus leitores a seguir o conselho de
Jesus, que disse a seus seguidores: "Negociai até que eu volte." Eles acres-
centaram ser preciso "que todos ajam conscientemente e continuem
suas atividades como gostariam que fossem encontrados, ocupados,
quando quer que o Senhor apareça". Os crentes eram estimulados a
não negligenciar "nenhum dos deveres desta vida". Miller jamais se
desviou desse conselho. 6°
No entanto, ele não representava o movimento todo. O conselho de
alguns dos novos líderes era bem diferente daquele dado pelo fundador
do milerismo. Por exemplo, no fim de julho de 1844~h,
enquanto escrevia aos leitores que eles não precisavam dO" Wseuà
propriedade, aconselhava-os a se desfazer de tudo o que tivessem e de
que não necessitassem no presente. Os crentes deveriam se sacrificar
para ajudar a causa da divulgação da mensagem. Afinal, "a cobiça é
idolatria, e nenhum idólatra herdará o reino de Deus". Aqueles que
estivessem praticando a cobiça, sem dúvida seriam "achados em falta no
dia do Senhor". Dessa forma, Marsh, com toda a sinceridade, aumentou
a pressão sobre os crentes. 61
Essa tensão não diminuiu com a aproximação do dia exato do ad-
vento. O entusiasmado Storrs, em um artigo publicado repetidamente
em periódicos mileritas, foi muito mais ousado que Marsh. Enquanto
este aconselhava os crentes a se desfazer do excedente, Storrs os acon-
selhava a "arriscar tudo" em vez de atrair "imediata destruição" sobre
si mesmos. Quando o verdadeiro clamor da meia-noite alcançasse as
pessoas, haveria "um tempo para deixar tudo". "Quando esse clamor
se apossar do coração, fazendeiros deixarão suas fazendas com suas
plantações, a fim de sair e fazer soar o alarme, da mesma forma que os
mecânicos sairão de suas oficinas." 62
Esse tipo de pressão era quase impossível de ser resistida por aqueles
que estavam certos de que o fim de todas as coisas estava a poucos dias.
Em meados de outubro, até mesmo o editor mais austero do Midnight
Cry sugeriu que a ordem "negociai até que eu volte" estava sendo usada
por muitos como uma justificativa para ser "completamente absorvido
pelas obrigações do mundo". "Desprenda-se do mundo o quanto for
possível, e vá como um homem que precisa correr para fazer algum
trabalho na chuva. Corra e se apresse, e comunique que você está saindo
com rapidez por causa de algo melhor. Permita que suas ações preguem
192 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

com os sons mais claros: 'O Senhor está vindo' — 'O tempo é curto' —
'Este mundo passou' — 'Prepare-se para se encontrar com seu Deus'1" 63
Muitos adventistas seguiram esses e outros conselhos similares, à
medida que o entusiasmo, convicção e expectativa da segunda vinda
aumentavam, durante o ano de 1844. Devido às circunstâncias, uma parte
da empolgação era bem razoável; mas, outra, era simplesmente fanatismo.
Uma das expressões mais lógicas e até bem compreensíveis daquilo
que alguns interpretaram ser extremismo, concentrava-se na interrup-
ção das atividades econômicas ao se aproximar o tempo do fim. Alguns
crentes em New Hampshire, por exemplo, foram tão impressionados
na primavera de 1844 de que Jesus viria antes do próximo inverno
que não plantaram em suas terras. Outros escolheram não realizar a
colheita no outono, a fim de "demonstrar sua fé por meio das obras, e
assim condenar o mundo". 64
Ainda outros mileritas fecharam seus negócios ou suspenderam
suas atividades comerciais com a aproximação do fim. Para a maioria
deles, essa paralização das atividades ocorreu somente próximo à data
do advento. Por isso, o Herald, de Cleveland, relatou em 19 de outubro:
"Muitos suspenderam suas ocupações regulares e agora dedicam todo
o tempo e os recursos para a obra de fazer prosélitos [...]. Reuniões
acontecem dia e noite." 5
Por volta do mesmo tempo, o Ledger, da Filadélfia publicou a ima-
gem do seguinte texto fixado na frente de um comércio cujo dono era
milerita: "Esta loja está feChada em honra ao Rei dos reis, que aparecerá
no dia 20 de outubro. Preparem-se, amigos, para coroá-lo como Senhor
de tudo." Outro adventista divulgou sua crença de maneira similar,
anunciando: "O Noivo está chegando."€€
Relatos diversos indicam que as pessoas estavam respondendo ao
apelo de Storrs para se desfazer de tudo. "Muitos", relatou o Midnight
Cty, de 3 de outubro, "estão deixando tudo, para sair e advertir os irmãos
e o mundo." Após um sermão de Storrs, 13 adventistas se ofereceram
"
para sair e fazer soar o alarme".
Um relatório a respeito da obra na Filadélfia e em Norfolk, Virgínia,
dizia: "As lojas estão sendo fechadas, e elas [as lojas fechadas] pregam
em sons que o mundo entende, apesar de não prestar atenção." Os fi-
lhos de mileritas fiéis, como era de se esperar, foram tirados das escolas.
Afinal, educação implicava futuro. 67
Ainda mais radicais do que aqueles que fecharam suas lojas ou se
recusaram a plantar e colher foram aqueles que, levando Storrs ao
O Verdadeiro Clamor da Meia-Noite 1 193

pé da letra, arriscaram "tudo" doando suas propriedades. O New York


Evangelist relatou que, na Filadélfia, Onde Storrs estava pregando, alguns
crentes "se desfizeram de seus móveis; alguns, de sua casa; e outros, de
seus investimentos em instituições corporativas, e levaram o• dinheiro
para oferecer, como diziam, sobre o altar". 68
Essa mentalidade estava sendo bem difundida à medida que o dia se
aproximava. Jane Marsh Parker, filha de Joseph Marsh, recordou que o
principal chapeleiro de Rochester, Nova York, escancarou as portas de
sua loja em 21 de outubro e convidou a multidão a "se servir de cha-
péus, sombrinhas, etc., o que eles naturalmente• fizeram". Um padeiro
próximo se desfez de seus bens da mesma forma. 69
Henry Bear também se tornou generoso, doando seus bens como
resultado de sua crença no fim do mundo. Ao visitar as pessoas que
deviam para ele, levava a quitação da dívida. Se eles tivessem dinheiro,
ele o recebia; mas, se não tivessem com o que pagar, ele os perdoava.
Ele "acreditava que o Senhor viria e então acertaria todas as contas entre
credores e devedores". Bear também relatou que tinha algumas coisas
para vender, mas preferia doá-las para os que as quisessem. "Quando eles
queriam pagar", relembrou ele, "eu não aceitava, falando que o mundo
estaria acabando em pouco tempo, e eu não precisaria de dinheiro,
pois não me traria vantagem alguma. Naturalmente, eles, às vezes, me
olhavam assustados." Ele usou os recursos que recebeu das dívidas para
financiar a distribuição de publicações mileritas e ajudar "os pobres na fé
do advento, que a essa altura haviam parado de trabalhar". Em meados
de setembro de 1844, Bear havia se desfeito de todo o dinheiro, ficando
com menos de 80 dólares, e havia doado a chave de sua casa. 70
Ele acreditava verdadeiramente que Cristo estava voltando. Certa-
mente, observadores pensavam que ele e seus irmãos mileritas haviam
ficado loucoskssa é uma característica do zelo religioso intenso, o que
parece ser fé para os de dentro, aparenta ser insanidade para os de fora.
Naturalmente, muitos logo se arrependeriam de suas atitudes pre-
cipitadas. Em 29 de outubro, após o desapontamento,. Storrs confessou
que ele fora "induzido ao erro e, portanto [...] desviara outros, ao acon-
selhar os adventistas a deixar completamente suas atividades e somente
frequentar as reuniões". Ele orientou todos a retornar aos empregos
para que pudessem cuidar de suas famílias!'
Outros posteriormente se tornaram decididamente contrários ao
milerismo, considerando-oU uma crença destrutiva. Um desses casos
foi do "discípulo louco", de Verrnont, que havia deixado as plantações
194 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

apodrecerem no solo porque "o fim de todas as coisas estava próximo"?'


Mas é necessário lembrar que, naquela época, essa atitude parecia
bem racional para os crentes. De fato, ILaos olhos dos adventistas com
tendências fanáticas4arecia ser uma prova de sua fé.
Mesmo o acadêmico John Dowling, um dos mais acirrados oponen-
tes de Miller, via a lógica na linha de raciocínio extremista. Em 1840,
Dowling escreveu:

Se a doutrina do senhor Miller fosse fundamentada sobre


alguma evidência satisfatória em minha mente, eu não des-
cansaria até que a tivesse publicado nas ruas e proclamado
aos ouvidos de meus vizinhos: [...] "O DIA DO SENHOR ESTA
PERTO]." Não construam mais casas]. Não plantem mais nadai.
LARGUEM SUAS LOJAS, FAZENDAS E TODAS AS INICIATIVAS SECULA-
RES, e dediquem todos os momentos à preparação para esse
grande evento? Em três curtos anos, esta Terra será queimada
e Cristo virá nas nuvens, despertará os mortos que dormem
e convocará os vivos perante seu temível tribunal. 73

Os editores do Advent Herald reclamaram que muitos condenaram


os mileritas por fazer exatamente aquilo que fariam se tivessem as mes-
mas convicções. Afinal, os secularizados gastavam milhares de dólares em
férias e diversão, e muitos eram os apelos para que deixassem os negócios
e a religião em prol do clamor, da política. No entanto, "quando um
homem faz um sacrifício por sua fé, o mundo 1.1 o considera louco"?'
Talvez seja importante observar a essa altura que o calmo e racional
Guilherme Miller nunca vendeu sua fazenda. Isso, no entanto, não foi
visto como sanidade ou integridade religiosa da parte dele, mas como
hipocrisia. 75 Parece que para os mileritas era difícil, se não impossível,
agradar seus contemporâneos. O erro do movimento parece ter sido
manter uma cosmovisão que se diferenciava radicalmente da maioria
da cultura. Isso era ruim o suficiente; mas, quando essa cosmovisão
pregava o fim imediato do mundo, ela colocava os adventistas em uma
posição de antagonismo contra o restante do mundo, tanto religioso
quanto secular.
Como resultado dessa confrontação, os mileritas tiveram de suportar
constantes ataques no seu dia a dia. Como observamos em capítulos
anteriores, muitas foram as acusações públicas de insanidade e fana-
tismo. Embora a maioria delas não se baseasse em fatos, algumas eram
O Verdadeiro Clamor da Meia-Noite 1 195

inteiramente verdadeiras. Como em fases anteriores do milerismo, o


estágio final, antes de 22 de outubro, realmente levou alguns dos crentes
mais empolgados para além dos limites da decência.
Um caso, por exemplo, é o da senhora Baker, de Oswego, Nova York,
que desistiu de se alimentar porque o tempo do advento estava muito
próximo. Em 10 de outubro, ela havia passado 29 dias sem comer nada.
A senhora Baker afirmava ter boa saúde, e seus "vizinhos diziam que
suas forças tinham aumentado ultimamente"." Provavelmente, tanto
ela quanto seus vizinhos interpretavam toda essa questão como uma
bênção espiritual.
Em outubro de 1844, outros grupos do adventismo também expe-
rimentaram excessos carismáticos. Nathaniel Whiting escreveu para
Miller, em 24 de outubro, que sua comunidade havia experimentado
uma tempestade de fanatismo". "Nossos irmãos pobres foram iludidos
a acreditar em 'sinais e maravilhas mentirosas' — o dom de línguas e
profecias modernas!" 77
O caso mais sério de fanatismo entre os mileritas ocorreu na Filadélfia.
Ali, um milerita até então desconhecido, chamado Dr. C. R. Gorgas, afir-
mou ter recebido uma visão na qual Cristo viria às três horas da manhã de
22 de outubro, à nona hora do dia judaico. Gorgas escreveu: "Fui levado à
cruz quando o relógio batia três horas, e fui prostrado ao chão pelo Espírito
Santo." Após seis dias sendo orientado pelo "Espírito Santo", ele afirmou
que a veracidade da visão ficou clara para ele. Então (por volta de 16 de
outubro), ele preparou um painel com um gráfico de suas predições e
saiu para ganhar conversos."
Felizmente para Gorgas, mas infelizmente para a reputação do
adventismo na Filadélfia, ele conquistou o exagerado George Storrs
para seu esquema profético. Em 18 de outubro, Storrs publicou o
painel com a profecia de Gorgas em uma edição extra do Midnight
Cry, a fim de que pudesse ser distribuído pelos adventistas em geral.
Considerando que Storrs, na época, era um dos principais porta-vozes
da data de 22 de outubro, o editor Southard simplesmente assumiu
que o documento era ortodoxo. Como resultado, ele não o leu• até
que o material estivesse impresso e várias centenas de cópias tivessem
sido distribuídas."
No entanto, na manhã seguinte, os editores do periódico descobri-
ram o equívoco, pararam as impressoras e queimaram as cópias que
foram produzidas. Mas era tarde demais. Alguns exemplares envia-
dos caíram nas mãos de outros editores de jornal. Como resultado,
196 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

o adventismo na Filadélfia e, por extensão, o movimento como um


todo desenvolveu a reputação de grupo fanático. Contudo, dessa vez,
diferentemente de muitas outras ocasiões, as acusações estavam ba-
seadas em fatos. 80
O painel já teria sido péssimo o suficiente, mas Gorgas conseguiu
piorar a situação. Com a ajuda de George Grigg e Clorinda S. Mi-
nor (uma escritora e palestrante milerita preeminente), ele conseguiu
convencer cerca de 150 crentes da Filadélfia a deixar a cidade, como
Ló saiu de Sodoma, e habitar em tendas para aguardar a chegada de
Cristo às três horas da manhã de 22 de outubro. Litch tentou impedir
o fiasco, mas sem sucesso."
• Ainda que o fanatismo tenha envolvido somente uns poucos dentre
os vários milhares de adventistas da Filadélfia, ele forneceu bom con-
teúdo para os jornais. Como resultado, reportagens sobre o episódio de
Gorgas — com todo tipo de interpretação quanto a extensão e formas
de extremismo — se espalharam pelos Estados Unidos.(0 episódio da
Filadélfia se tornou a fonte de muitas das lendas sobre o fanatismo mi-
lenta que envolveu desde as costumeiras vestes da ascensão até bebês
congelados pelo clima de outubro, enquanto os crentes esperavam o
Senhor em tendas.")

A Iminência de 22 de Outubro
Com a aproximação do dia designado, as reações variavam. A im-
prensa não adventista, naturalmente, manteve seu tratamento des-
favorável. Mas, além disso, a violência antimilerita alcançou o nível
mais alto de todos os tempos, em muitos lugares. Turbas forçavam o
encerramento de reuniões mileritas em diversas cidades. Em Nova
York, o prefeito se envolveu pessoalmente para tomar ações rígidas
contra os arruaceiros, se os adventistas necessitassem. Em Boston,
a policia teve de agir. Na Filadélfia, o xerife ordenou que todas as
demais reuniões mileritas fossem canceladas, devido à confusão em
14 de outubro.
Os editores do Advent Herald compararam "a conduta da turba
[de Boston] àquela ao redor da porta de Lá, na noite da destruição de
Sodoma". Parece que as ações extremistas não estiveram limitadas aos
crentes do advento com a aproximação do dia esperado."
Outra resposta não adventista à predição do movimento foi o medo
aterrorizante de que Miller pudesse estar correto em sua interpretação.
O Verdadeiro Clamor da Meia-Noite 1 197

Como Luther Boutelle escreveu, "alguns estavam excessivamente atemo-


rizados por péssimos pressentimentos". 84 Essa foi a sensação de muitas
pessoas ao viverem o dia 22 de outubro. Depois da data, muitos desses
também se sentiram livres para desabafar sobre suas verdadeiras emo-
ções. Como resultado, a ação da turba antimilerita não cessou com o
desapontamento.
Como era de se esperai; os mileritas aguardavam o dia 22 de outubro
com imensa alegria. E por que não deveriam? Aquele era o dia no qual
o Senhor viria. Suas tentações e frustrações acabariam; a morte e a dor
teriam sua final destruição.
O número de pessoas que aguardavam essa vitória é impossível de
calcular de forma precisa. O informe de The Proceedings of the American
Antiquarian Society citou entre 150 a 200 mil. Miller estimou somente
50 mil, situados em "quase mil [...] congregações adventistas". Natural-
mente, embora seja quase impossível determinar quantas pessoas deixa-
ram suas igrejas e se juntaram a congregações adventistas, é totalmente
impossível quantificar o número dos que permaneceram em suas denomi-
nações ou que não tinham nenhuma conexão formal com alguma igreja.
Whitney Cross estimou que, além dos crentes regulares, "um milhão de
pessoas, ou mais, estavam ceticamente aguardando o evento". É suficiente
dizer que havia um número considerável esperando o grande dia."
Os mesmos problemas estatísticos que frustram uma avaliação
exata do tamanho do movimento também impedem o caminho da
descoberta do número de pregadores adventistas. Miller, que é co-
nhecido por seu conservadorismo em tais estimativas, calculou em
cerca de 200 pastores e 500 palestrantes. Everett Dick sugere que a
hipótese apresentada pelo milerita Lorenzo D. Fleming de 1.5 mil a 2
mil palestrantes seja "mais realista"."
Qualquer que seja o número, os crentes aguardavam a data como
o clímax da história do mundo. Nos registros deixados pelos parti-
cipantes, há ampla concordância de que "o tempo imediatamente
precedente ao dia 22 de outubro foi de grande tranquilidade mental"
por parte da maioria dos adventistas. A mesma impressão pode ser
obtida ao se folhear os periódicos mileritas de outubro de 1844.
"Durante os últimos dez dias", lembrou Bliss, "os negócios seculares
foram, em sua maioria, suspensos; e aqueles que aguardavam o advento
se entregaram à obra de preparação para o evento como se preparariam
para a morte, se estivessem acamados com uma doença, esperando logo
fechar para sempre os olhos para as cenas terrestres."87
198 ADVENTISMO -- Origem e Impacto do Movimento Milerita

"Com alegria", Boutelle falou do passado, "todos os que estavam


preparados aguardavam o dia." Confissões foram feitas, erros, reparados
e muitos pecadores perguntavam o que deveriam fazer para ser salvos.
No entanto, como ele relata, as últimas reuniões de família eram sole-
nes para os crentes ao se despedirem dos queridos que não esperavam
encontrar novamente."
Todos os líderes mileritas, com exceção de Nathaniel Whiting,
aceitaram a data de 22 de outubro. Entretanto, um dos principais diri-
gentes não estava mais entre eles. O entusiasmado e impulsivo Carlos
Fitch faleceu em Buffalo, Nova York, em 14 de outubro, com 39 anos.
Viajando de Rochester para sua casa, em Cleveland, Fitch parou em
Buffalo para um compromisso nos últimos dias de setembro. Enquanto
estava lá, de acordo com sua filha, ele batizou um grupo de crentes por
imersão no Lago Erie, num dia frio e ventoso. Por duas vezes, enquanto
se dirigia ao seu aposento com as roupas molhadas, ele teve que voltar
para batizar mais candidatos. A exposição demorada ao frio intenso o
levou a ter uma febre que resultou em sua morte."
Durante o período em que Fitch estava acamado devido à séria do-
ença, um dos crentes leu para ele o artigo de Storrs do dia 24 de setem-
bro sobre o movimento do sétimo mês. Ao ouvir, a leitura, "ele gritou
'glória"' várias vezes; disse que era verdade, e que ainda se levantaria
para proclamá4a". 9°
Mas isso não ocorreu. Na semana seguinte, alguém que o visitou
relatou que Fitch "mal estava vivo. Sua alma, no entanto, estava cheia
de esperança e glória. Ele disse que estava indelevelmente escrito em
sua alma que o Senhor viria no décimo dia do sétimo mês e que, se
ele fosse para a sepultura, teria de tirar um breve cochilo, antes de ser
acordado na manhã da ressurreição." Ele faleceu poucos dias depois. 91
É um detalhe interessante da história do adventismo o fato de que
Storrs, um converso de Fitch, foi o responsável por tê-lo conduzido à
doutrina da imortalidade condicional e do batismo por imersão. Fitch
aceitou ambas as ideias no inicio de 1844. Ele foi batizado em um dia
frio de inverno. Em março, o intrépido Fitch batizou 12 crentes no
Canal Ohio durante uma tempestade de neve. 92 Assim, os batismos
de setembro no gélido Lago Erie que o levaram à morte não eram
uma exceção a sua prática usual. Fitch era um dos homens mais fiéis
ao milerismo. Após sua hesitação inicial quanto ao movimento, em
1838, ele parece ter assumido solidamente suas crenças, uma vez que
foi convencido de sua validade bíblica.
O Verdadeiro Clamor da Meia-Noite 1 199

A essa altura, é importante destacar que a congregação de Fitch, em


Cleveland, que havia rejeitado as ideias sobre aniquilacionisrno, aceitou
sua posição sobre o batismo por imersão. O Herald, de Cleveland, relata
que os adventistas locais, seguindo o exemplo de seu falecido pastor,
batizaram vários conversos por imersão, em meados de outubro. 93
Josias Litch, que levara Fitch para o milerismo, reagiu de forma simi-
lar à congregação de Clevelana Enquanto resistia fortemente contra o
conceito da imortalidade condicional, Litch deixou Fitch convencê-lo
do batismo por imersão. No início de setembro de 1844, ele foi bati-
zado por Fitch. O recém-batizado, surgindo da água com louvores a
Deus, "caminhou até a orla, tomou sua esposa pela mão e a batizou". 94
É necessário mencionar que tanto Litch (um metodista) quanto
Fitch (um presbiteriano/congregacionalista) foram de denominações
que defendiam o batismo infantil. Enquanto batistas como Miller acei-
tavam a cerimônia por imersão, a prática foi uma mudança importante
para esses outros líderes. Aparentemente, sob o impulso restauracionista
da época, eles desejavam superar a história religiosa das tradições e
adotar o que acreditavam ser os ensinamentos do Novo Testamento.
Assim, no outono de 1844, vários dentre os principais pregadores
adventistas estavam assimilando novos ensinamentos em seu sistema
de crenças pré-milenarista. O batismo por imersão e a imortalidade
condicional da alma representam essa realidade. Em seu restauracio-
nismo, alguns dos crentes também discutiam o retorno da observância
do sábado.
Em setembro, essa agitação se tornou forte o suficiente para o
Midnight Cry responder aos crentes do sétimo dia com um longo
artigo em duas partes." Essas disputas sobre formulações doutrinárias
entre os adventistas haviam começado a preparar o palco para os
eventos dos meses e anos posteriores a outubro de 1844.
Antes de chegarmos a essa parte, temos de nos juntar aos mileritas
na véspera de 22 de outubro, enquanto esperavam pela saída de Cristo
do lugar santíssimo do santuário celestial para vir resgatá-los de seu
mundo de escuridão. A maioria dos adventistas passou o dia nas igrejas
ou em suas casas.
O Post, de Boston, apresentou uma breve descrição dos crentes
naquela cidade. "O Tabernáculo", dizia a reportagem, "está lotado dia
e noite com mileritas que expressam uma confiança perfeita de que o
juizo chegará no dia 22. Centenas de pessoas das cidades vizinhas dor-
mem no Tabernáculo todas as noites. A empolgação é muito grande."96
200 1 ADVENTISMO --- Origem e Impacto do Movimento Milerita

No entanto, o pastor do Tabernáculo não estava com seu rebanho


nesse dia significativo. Hirnes viajou para Low Hampton a fim de estar
com o honrado Miller, quando Cristo descesse com miríades de anjos.
Infelizmente para os mileritas, Cristo não veio.
. CAPITULO 11
O Desapontamento
de Outubro
(CO s mileritas [...] ficaram acordados durante toda a penúltima
noite", noticiou o Sim, de Baltimore, "e ontem foram para a
cama — suas salas de reuniões estão silentes como túmulos."
"O mundo ainda existe", relatou o Plain Dectler, de Cleveland.
"O velho planeta continua nos trilhos, apesar dos esforços para `pará-lo'. Os
crentes' desta cidade, após ficarem algumas noites acordados observando
e fazendo barulhos como gatos numa serenata, agora foram para a cama
e decidiram tirar um cochilo. Esperamos que acordem e se comportem
como seres radonais!"2
A crise maior do milerismo havia chegado. Jesus não voltou. Os
crentes ainda estavam na Terra. O desapontamento de outubro foi
muito mais devastador para o movimento do que o da primavera, não
somente porque foi o segundo, mas também porque os adventistas
depositaram todas as esperanças em uma data especifica. Dessa vez,
não havia a flexibilidade de datas como havia acontecido na primavera.
Como resultado, não houve amortecimento na queda.
202 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Reações Imediatas
Como era de se esperar, as reações entre os crentes foram de todos
os tipos, menos animadas. "Esperei toda a terça-feira [22 de outubro]",
escreveu Henry Emmons,

e o querido Jesus não veio. Esperei toda a manhã de quarta-feira,


e estava com o mesmo corpo, corno sempre; mas, após as
doze horas, comecei a me sentir fraco, e antes do escurecer,
precisei que alguém me ajudasse a subir para o quarto, pois
minhas forças naturais estavam se exaurindo rapidamente.
Permaneci prostrado por dois dias, sem qualquer dor — doen-
.

te de desapontamento.'

Em 24 de outubro, Litch escreveu uma carta para Miller que come-


çava com as seguintes palavras: "É um dia nublado e escuro aqui -- as
ovelhas estão dispersas — e o Senhor ainda não veio."'
Hiram Edson escreveu:

Nossas maiores esperanças e expectativas foram destruí-


das, e um espírito de pranto tomou conta de nós como jamais
havia experimentado. Parecia que mesmo a perda de todos
os amigos terrestres não podia ter comparação. Choramos e
choramos, até o dia amanhecer.
Refletindo em meu coração, disse a mim mesmo: minha
experiência com o advento tem sido a mais rica e feliz de
toda a minha vida cristã. Se isso se provasse enganoso, qual
seria o valor da minha experiência cristã? A Bíblia falhou?
Não há Deus, nem Céu, nem cidade dourada nem Paraíso?
Tudo isso não passa de uma fábula habilidosamente arran-
jada? Nossas mais ternas esperanças e expectativas não são
reais? Por isso tínhamos muito a lamentar e chorar, como se
todas as nossas mais ternas esperanças estivessem perdidas.
E como disse, pranteamos até o amanhecer do dia.'

Para o jovem Tiago White, a expectativa de voltar "novamente para


os cuidados, perplexidades e perigos da vida, em vista das zombarias e
insultos dos descrentes que [...] ridicularizavam como nunca, haveria de
ser uma terrível provação de fé e paciência". Ele se lembrou de quando
O Desapontamento de Outubro 1 203

1-limes visitou Portland, Maine, logo após 22 de outubro, "e declarou que
os irmãos deveriam se preparar para outro inverno frio". Ele continuou
dizendo: "Os meus sentimentos se tornaram quase incontroláveis. Saí
do lugar da reunião e chorei como uma criança." 6
O desapontamento foi algo terrível para os crentes; mas, no fim de
outubro, a carga adicional por ter de enfrentar um mundo escarnecedor
complicou a vida dos mileritas. Como Miller descreveu, "parecia que
todos os demônios do abismo haviam sido soltos sobre nós. Aqueles e
muitos outros que estavam clamando por misericórdia dois dias antes,
agora estavam misturados com os rebeldes e zombadores, caçoando e
ameaçando da maneira mais blasfema possível"!
Poucos dias depois, alguns dos pregadores do advento começaram a
se mover e foram se encontrar com alguns grupos de crentes reclusos.
Um deles foi Luther Boutelle, que, após confortar vários grupos de
mileritas, finalmente se deparou com um grupo "que havia se reunido
para permanecer junto até que o Senhor viesse". Ele encontrou cerca de
70 crentes agrupados em uma grande casa, na qual realizavam reuniões
diárias. Eles juntaram todo o dinheiro que tinham em uma panela de
leite e assim supriam suas necessidades a partir daquele fundo comum.
"Tivemos uma reunião com eles", contou Boutelle, "e os aconselha-
mos da melhor maneira que poderíamos a manter a fé e se separar, e
cada um cuidar de seus interesses individuais e de suas famílias. Eles
gentilmente aceitaram a orientação e logo se separaram, cada um se-
guindo sua vocação."'
De muitas formas, Himes agiu como um organizador no período pós-
desapontamento. Ele não somente retornou aos seus esforços editoriais
corno também foi ao encontro de vários grupos a fim de encorajar os
crentes. Além disso, em 26 de outubro, ele lançou a ideia de formar co-
missões de adventistas "em todas as cidades e vilas", a fim de auxiliar os
necessitados entre eles.
Afinal, muitos haviam sido "sinceros" no desejo de "glorificar a Deus"
quando se desfizeram de suas posses ou decidiram não colher suas
plantações. 'Agora, porém", afirmou Himes, "eles não precisavam sofrer."
Seu objetivo era fazer com que os adventistas se reerguessem, mesmo
em face das dificuldades internas e dos críticos externos. "Não pode-
mos permitir" que os crentes necessitados "se tornem dependentes do
mundo ou daquela porção da igreja que ridiculariza nossa esperança
[...J. Alguns dentre nós ainda possuem bens terrestres, e podem ofe-
recer ajuda aos carentes. Duvido que todos não cumpram seu dever."
204 j ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Unia semana após 22 de outubro, o Advent Herald e o Midnight


estavam de volta, apesar de nos meses restantes do ano conseguirem
cada vez menos recursos para impressão. No início de 1845, o Mfrinight
Cry foi renomeado como Morning Watch ["Vigia da manhã"], simbo-
lizando o novo foco do movimento do advento. Em julho de 1845, o
Watch foi absorvido pelo Advent Herald.
Uma diferença significativa na obra milerita, depois de 22 de ou-
tubro, foi a mudança de ênfase, do evangelismo à simples manuten-
ção do movimento. A partir de então, a atividade adventista teve o
objetivo de alcançar os crentes desorientados que buscavam entender
o sentido de sua experiência e estabelecer um senso de conjunto e
continuidade em suas fileiras.
A reação dos crentes ao desapontamento de outubro foi uma coisa;
a reação do mundo não adventista foi outra, bem diferente. Os embates
foram tanto verbais quanto físicos.
Quanto às reações verbais, o Liberator, de Garrison declarou, em 8 de
novembro de 1844, que Miller e seus seguidores foram conduzidos "por
uma fantasia mental deplorável". O New York Evangelist havia afirmado
um dia antes: "O último dia deste mundo não havia chegado, apesar das
predições confiantes de Miller [...] e seus seguidores iludidos [...] . A ma-
quinaria da natureza continuava funcionando normalmente [...]. O sol
não havia se esquecido de nascer" Ele "ainda manterá seu ciclo por muito
tempo; até que as profecias e os profetas do presente sejam esquecidos".
Naturalmente, o periódico equivocadamente chamado de Olive Branch
["Ramo da oliveiral deu sua contribuição ao evocar "raios vermelhos de
ira especial" sobre Himes e os "autores companheiros da millermania".i°
O "maldoso" senhor Himes foi alvo de boa parte das injúrias pú-
blicas. Ele foi acusado de enganar pessoas bem intencionadas a fim de
usar o dinheiro delas para proveito pessoal. O experiente John Dowling
havia escrito sobre a liderança adventista que "não podia conceber"
conduta mais desonrosa, por parte dos "farsantes" mileritas, do que
tirar vantagem de mentes fracas e ignorantes, e, em muitas instâncias,
"incentivar pessoas piedosas e de boa vontade para se desfazer de
suas poucas economias" em razão de "uma falsa intenção". Dowling
mencionou as "vastas somas" colocadas nas mãos "desses homens" pela
"multidão de pessoas ingênuas".
A questão alcançou o ponto máximo quando o Post, de Boston,
publicou um artigo logo após o desapontamento de outubro, acusando
Himes e seus colegas de serem "homens sem princípios, perfeitamente
0 Desapontamento• de Outubro 1 205

conscientes do absurdo das opiniões que defendiam e inteiramente


inconsequentes quanto ao dano que infligiam, pois só se preocupavam
com seu benefício financeiro".
1-limes chegou ao limite. Em 1 (2 de novembro, ele fez uma declaração
ao público de que fora atacado grosseira e injustamente pela imprensa.
"Tenho sido representado", escreveu ele,

como desonesto, especulador dos temores da comunidade,


perturbador da paz, ludibriador de inocentes e apropriador
de dinheiro sob falsa intenção, -- angariando para propósitos
• públicos e se apropriando dele para uso particular. Dizem
• que fugi, não somente para a Inglaterra, corno também para
o Canadá e para o Texas. Falam que sou passível de ser preso
sob mandado já emitido, de ter sido preso e confinado na pri-
são da Rua Leverett, ou de ter cometido suicídio. Também
afirmam que eu acumulei grande riqueza, vendi vastas quan-
tidades de joias, possuo fazendas e tenho dinheiro a juros.

A essas acusações, Himes respondeu: "Quero dizer que se fui injusto


ou se defraudei a qualquer pessoa, eu a restituirei quatro vezes mais."
Ele então desafiou que qualquer um que houvesse sido defraudado
"tornasse público seu caso". Himes também disse aos leitores que, se
ele possuísse qualquer bem "que não tivesse sido consagrado à causa
do advento", eles poderiam vir e tomá-lo. Ele continuou apresentando
uma longa defesa pública sobre acusações específicas. 12
Embora essa defesa tenha sido escrita para o Advent Herald, Himes
ficou satisfeito quando os editores do Post concordaram em publicá-la
na primeira página. Esse texto ajudou a silenciar a crítica injusta, não
somente em Boston, mas também em outros lugares onde ela havia
recebido publicidade. Vários periódicos se referiram a esse artigo do
Post, e alguns, incluindo o Liberator, o republicaram por completo. 13
As agressões verbais contra os mileritas encontraram expressão tanto
em termos pessoais quanto na imprensa em geral. Por isso, Bates contou
para J. 0. Corliss que, em 23 de outubro, os meninos da vizinhança
o seguiram• enquanto ele ia fazer compras, gritando: "Pensei que você
fosse subir ontem." Bates continua falando sobre o estresse quase in-
suportável que experimentou na comunidade. "Se a terra pudesse ter
aberto sua boca e me engolido, seria uma delicadeza em comparação
à angústia que senti."" •
206 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Na mesma linha, em 18 de novembro, Miller escreveu para Himes


sobre o problema. 'Alguns", relatou ele,

estão perguntando atrevidamente, "Você não subiu?" Até


mesmo as pequenas crianças nas ruas estão continuamente
gritando para quem passa: "Você tem um bilhete para subir?"
A imprensa, do tipo mais elegante ou mais popular, na gran-
de Sodoma de nosso país, está fazendo caricaturas da maneira
mais vergonhosa das "vestes dos santos", da Apocalipse 6:11,
da "subida" e do grande dia "abrasador". Até os púlpitos estão
sendo profanados pela repetição dos relatos infames e falsos
sobre as "vestes da ascensão", e os religiosos estão usando seus
poderes e suas canetas para encher páginas e mais páginas de
zombaria nos periódicos mais difamadores do momento.

Miller continuou observando que, mesmo Londres e Paris, "antros


de corrupção [...], não podem, não irão e não ousam competir com
Boston, Nova York ou Filadélfia em termos de zombaria".'s
Alguns mileritas, contudo, tinham perspicácia para reagir a essas
situações. Um deles, ao ser questionado sobre por que ele não havia
subido, respondeu: "E se eu tivesse, para onde você teria ido?" 16
Além da agressão verbal, a violência física que havia começado antes
de 22 de outubro seguiu ainda com mais vigor e hostilidade após a
passagem do dia. Em muitos lugares, medos e ansiedades reprimidas
foram liberados através da ação de turba.
Por exemplo, durante esse período, no Estado de Nova York, incen-
diaram o lugar de adoração milerita em Ithaca, destruíram o tabernáculo
temporário em Dansville, e removeram e queimaram os bancos no au-
ditório de Scottsville, depois de expulsarem os adoradores. Em Troy, "os
ímpios [•..] desfilaram nas ruas vestidos de branco, tocaram a trombeta
e gritaram: 'Vem, Senhor Jesus, vem depressarn
Mesmo após os adventistas transferirem suas reuniões para casas
particulares, algumas vezes os cultos ainda eram interrompidos por
turbas. No início de 1845, um palestrante no Canadá relatou que após
ser expulso do auditório por uma força armada, seu grupo se reuniu em
uma casa particular e se deparou com "trinta armas pesadas... dispostas
perto da j anela".
Em outra ocasião, uma horda invadiu urna casa onde mileritas esta-
vam se reunindo. Enquanto alguns ostentavam "armas mortais, outros
O Desapontamento de Outubro 1 207

jogavam pedras e pedaços de pau pelas janelas. A maioria das janelas nos
cômodos principais foi totalmente destruída. Alguns dos irmãos foram
feridos na cabeça e outros receberam golpes". O palestrante, assustado,
ainda mencionou que o líder do bando era um membro da igreja: 8
Ao voltar para casa, Henry Bear descobriu que sua residência havia
sido alvo de ovos e pedras por estímulo de alguns parentes. Enquanto
moraram lá, sua esposa jamais limpou as paredes, a fim de que fossem
testemunhas silenciosas da perseguição sofrida. Histórias similares de
intolerância foram relatadas em outras partes• da América do Norte,
no fim de 1844 e início de 1845. 19
Apesar de a maioria acreditar que os mileritas estavam errados,
nem todos reagiram com violência. Alguns procuraram raciocinar cal-
mamente ao falar com seus conhecidos adventistas. Por exemplo, em
24 de outubro, Phoebe Palmer, a líder do movimento de santidade do
metodismo, escreveu para Miller que, apesar de ter sido sincero, ele
estava equivocado e sua trombeta não havia "dado o toque certo". Era,
portanto, o dever dele "dar o toque de recolher". Ela continuou com-
parando a sinceridade de Miller com a de Paulo em sua perseguição
aos cristãos primitivos. "Você diz que foi sincero, mas Paulo, quando
pensou sinceramente que estava fazendo a obra de Deus, descobriu
que havia sido enganado. Você acha que ele seria perdoado se não
tivesse reconhecido seu erro? Deixo essa questão com você." Palmer
foi afetada pessoalmente pelo milerismo ao perder amigos próximos
para o movimento, como Carlos Fitch. 2°
Em 113 de novembro de 1844,0 Advent Herald reconheceu que uma
grande porção da imprensa em geral havia começado a tratar os adven
tistas de forma civilizada, especialmente após a publicação da defesa de
Himes, no Post, de Boston, no inicio do mês. Nesse sentido, o Liberator
imaginou que era uma pena que os mileritas tivessem "atraído a aten-
ção de uma porção da população", que tinha "prazer em molestá-los".
A posição do Liberator foi de que "todas as convicções sinceras deveriam
ser tratadas respeitosamente"?'
De modo semelhante, o• Oberlin Evangelist, após lamentar o erro
milerita e esperar que os crentes tivessem aprendido a lição de "não se
meter nas coisas secretas que pertencem somente a Deus", convidou
os adventistas "de forma afetiva e fraternal a voltar para retomar a obra
de converter o mundo para Jesus Cristo" e, assim, ajudar a iniciar o
milênio temporal»
208 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Uma Liderança em Desordem


Confusão e desorientação caracterizaram tanto os líderes mileritas
quanto os seguidores entre 22 de outubro de 1844 e o fim do ano. Por
um período, muitos continuaram a buscar diariamente o cumprimento
imediato da profecia dos 2.300 dias e a volta de Cristo. Alguns estabele-
ceram a vinda para 23 de outubro, enquanto outros estabeleceram datas
subsequentes. Entretanto, todas as previsões acabaram em frustração.
Alguém poderia supor que o desejo dos dirigentes era de que os
problemas associados com as previsões não cumpridas a respeito de 22
de outubro desaparecessem, mas esse não era o caso. Com o passar dos
dias, eles perceberam que teriam que fazer declarações públicas sobre
o movimento do sétimo mês para benefício tanto do público que os
observava quanto dos crentes desapontados.
Desde o primeiro momento, no entanto, a liderança não chegava a
um acordo quanto ao que havia acontecido de errado e o que poderia
ser dito ou feito. Assim, em 24 de outubro, Nathaniel Whiting acon-
selhou Miller com respeito ao "dever" de "todos que participaram" no
movimento de outubro em reconhecer publicamente o erro. "Qualquer
evasiva nesse sentido autorizará a comunidade a dizer que não éramos
somente [...] crédulos, mas absolutamente desonestos." 23
No outro extremo, Himes e os outros editores do Advent Herald pu-
blicaram um texto, no dia 30 de outubro, que sustentava 22 de outubro
como um cumprimento profético. "Em vista de todas as circunstâncias
desse movimento", escreveram eles,

o abençoado efeito que ele tem produzido na mente dos fi-


lhos de Deus, e o ódio e a maldade que seus inimigos têm
demonstrado, devemos ainda considerá-lo como o verdadeiro
clamor da meia-noite. E se tivermos alguns dias para testar
nossa fé, ainda estará de acordo com a parábola das dez vir-
gens; porque quando todas elas tinham levantado e apron-
tado suas lâmpadas, ainda houve tempo para as lâmpadas
das insensatas se apagarem. Isso não poderia acontecer sem
passar o décimo dia; porque até então as lâmpadas continua-
riam queimando [...]. Um pouco de demora, portanto, não é
causa para desencorajamento, mas mostra quão exato é Deus
no cumprimento de sua Palavra.24
O Desapontamento de Outubro 1 209

Entretanto, quando mais do que "alguns dias" passaram, a situação


se tornou muito séria. Até mesmo dois dos principais promotores da
data de 22 de outubro divergiram sobre a questão. Em 7 de novembro,
Storrs concluíra que certamente ele estivera errado quanto à prega-
ção da mensagem do sétimo mês. O tempo provou o erro. Sendo isso
verdade, ele foi forçado a perguntar: O que o inspirou a pregar a data
com tamanho vigor e certeza? A resposta, sugeriu Storrs, era que ele
estivera sob a influência hipnótica do "mesrnerismo" 2 . Apesar de estar
arrependido por pregar uma data exata, ele garantiu a seus leitores que
"diariamente esperava a vinda de nosso Salvador, e buscando pela graça
estar sempre preparade"."
No início de 1845, Storrs chegou à conclusão de que de modo algum
a Bíblia ensinava um tempo definido e que o movimento do sétimo
dia era uma "ilusão" baseada em uma "perversão monstruosa" de certos
textos das Escrituras. Por causa dessas ideias, S. S. Snow, o originador do
movimento de outubro, destinou Storrs à perdição, como um dos três
pastores iinfiéis de Zacarias 11:8, que Deus havia destruído. 26
Em meados de novembro, as duas principais publicações mileritas
finalmente admitiram que todo o período do sétimo mês realmente
havia passado: "Agora nos encontramos vivendo em um tempo além
do qual não podemos estender nenhum período profético, de acordo
com nossa data de início e nossa cronologia." Diferentemente de seu
pronunciamento de 30 de outubro, os editores não mais podiam plei-
tear um pouco mais de tempo de tardança enquanto esperavam pelas
lâmpadas dos insensatos se apagarem. Eles francamente admitiram que
foram "desapontados duas vezes" •27
Todavia, os editores do Advent Herald e do Midnight Cry ainda defen-
diam que Deus estava com o movimento. Eles passaram a ver Jonas como
um tipo de sua experiência. Deus ordenou que o profeta pregasse um
tempo definido para a destruição de Nínive, mas fatores desconhecidos
ao mensageiro influenciaram no resultado. 'Assim temos um exemplo
registrado no qual Deus justificou a pregação de um tempo, apesar de
o evento não ocorrer como predito." Portanto, os editores concluíram:
"Teríamos pecado contra Deus, se tivéssemos deixado de dar essa men-
sagem, tanto quanto fonas quando" fugiu de Deus indo para Társis."

2'N. T.: Mesmerisrno, termo derivado do nome do autor à teoria, Franz Anton Mesmer,
pode ser definido como uma espécie de energia que emana dos indivíduos, chamada por
ele de "magnetismo animal", supostamente contendo poder para curar doenças. Pode ser
relacionado com hipnotismo e encantamento. Tem paralelo com o kardecismo.
210 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Enquanto os lideres editoriais do movimento enfrentavam seus


problemas, o mesmo ocorria com a liderança estabelecida havia tanto
tempo. Guilherme Miller também lidava com suas lutas nos últimos
dias de 1844. Imediatamente após 22 de outubro, ele acreditou que
somente poucas semanas pudessem se passar entre "este tempo e o
da aparição de Cristo". Em 10 novembro, ele escreveu uma carta para
Himes, explicando seus sentimentos:

Apesar de desapontado duas vezes, ainda não estou abatido


ou desmotivado. Deus tem estado comigo em Espirito e tem
me confortado. Tenho agora muito mais evidências de que
realmente creio na Palavra de Deus; e a despeito de estar cer-
cado de inimigos e zombadores, minha mente ainda se man-
tém perfeitamente tranquila, e minha esperança na volta de
Cristo está tão forte como sempre esteve. Só fiz o que, após
anos de séria consideração, senti que era meu dever solene
fazer. Se errei foi pelo lado da caridade, por amor ao meu se-
melhante e por minha convicção de dever para com Deus. 29

Longe de perder a esperança, Miller escreveu: "Tenho fixado a minha


mente em outro tempo, e aqui preterido permanecer até que Deus me
dê mais luz. E esse tempo é hoje, hoje e hoje, até que ele venha, e eu
veja aquele por quem a minha alma anseia." 3°
Oito dias mais tarde, Miller disse que estava confiante de que Deus
os "justificaria pela marcação do ano. E", acrescentou ele, "acredito firme-
mente, que este ano judaico não terminará antes que essa história ímpia e
corrupta da Terra seja toda revista". O evento não goderia estar distante.
A carta de 18 de novembro também afirmava (peta porta da graça para
a humanidade havia se fechado e que a obra dos rnileritas em advertir o
mundo pecaminoso estava completa. Sua única função evangelistica era
o trabalho em prol dos adventistas confusos em suas fileiras. 3)
Em 3 de dezembro, pouco mais de um mês após o histórico desa-
pontamento, Miller ainda estava tão certo da proximidade do evento
que ele sugeriu que a carta que estava escrevendo poderia não ter
tempo suficiente para chegar ao destino antes do fim. Ele afirmou que
a posição assumida por eles quanto à profecia e à cronologia conti-
nuava sendo a melhor; mas, se o problema estivesse nos dados históricos,
o conhecimento da época era insuficiente para corrigi-lo. Assim, não
tinham condições de continuar marcando datas.32
O Desapontamento de Outubro 1 211

Suas cartas no mês seguinte continuaram expressando mais ou me-


nos o mesmo teor. Contudo, no fim de dezembro, ele estava disposto a
assumir um possível erro de quatro ou cinco anos nos cálculos, devido às
discussões entre os melhores cronologistas da época. Assim, a data para
a conclusão dos 2.300 dias não podia ser determinada sem dúvidas. "Por-
tanto," afirmou ele em um discurso para os líderes adventistas, "devemos
esperar pacientemente pelo momento em questão, antes que possamos
honestamente confessar que estamos errados quanto ao tempo." 33
Essa fala, de 28 de dezembro, confirma uma erosão definitiva da
convicção de Miller quanto à precisão do movimento do sétimo mês.
No fim do verão de 1845, ele ainda defendia a teoria de um possível
erro de poucos anos e estava satisfeito com o fato de que seus ensina-
mentos não haviam sido totalmente invalidados pelo desapontamento,
uma vez que o tempo exato não fora baseado em dados bíblicos, mas
fundamentado sobre cronologia humana?'
De forma gradual, no entanto, a força do tempo foi desgastando sua
crença de que algo havia acontecido em 22 de outubro de 1844. Em
meados de setembro de 1845, ele concluiu que "o movimento do séti-
mo mês não havia sido, de forma alguma, um cumprimento profético"."
Outra questão que perturbava Miller, nos meses após outubro de
1844, estava relacionada com o apelo que havia sido feito por Fitch,
Storrs, Marsh e outros para deixar as igrejas. Em 3 de dezembro, ele
reclamou: "Temos clamado Babilônia? Babilôniall Babilônia??l contra
todos, menos para os adventistas {.;.J. Que Deus nos perdoei" Ele
também lamentou o fato de que os adventistas se tornaram "culpados
de estabelecer sua seita" própria."
No verão seguinte, o líder escreveu que jamais teve a intenção de
formar urna seita, mas havia esperado beneficiar todas as denominações.
Ele ainda acreditava que a convocação para sair de Babilônia havia
sido "uma deturpação das Escrituras" e "uma perversão da Palavra de
Deus" que alimentou o preconceito de muitos contra o movimento. 37
A questão sobre Babilônia deve ter provocado em Miller uma grande
tensão interior e confusão pessoal. Afinal, não somente alguns mileritas
foram expulsos das suas congregações, mas outros tiveram o direito
anulado para falar sobre suas crenças na igreja. Em 29 de janeiro de
1845, ele e seus companheiros adventistas de Low Hampton foram
excluídos da Igreja Batista»
As acusações da igreja foram feitas primeiramente contra Miller e os
crentes do advento em Low Hampton, em 10 de novembro de 1844.
212 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Provavelmente não seja coincidência que naquele dia Miller tenha escrito
uma carta para Himes na qual reclamava de que o nome Babilônia fora
aplicado a todas as denominações. Entretanto, ele adicionou de forma
significativa que "em algumas instâncias, o termo havia sido aplicado
de forma injusta". 39
Apesar de Miller detestar admitir o fato, os mileritas tiveram pou-
ca escolha quanto à separação. Afinal, retornar a suas denominações
não era apenas humilhante, mas também não resolveria nada, pois,
mais do que nunca, elas ridicularizavam a crença dos adventistas na
segunda vinda.
O raciocínio inicial de Litch ainda se mantinha. Quando lhe per-
guntaram por que eles não desistiram e voltaram às igrejas, ele replicou:
"A resposta é simples, porque não podemos e, com a ajuda de Deus,
nunca nos sentaremos para ouvir a canção de ninar da conversão deste
mundo e do retorno dos judeus à Palestina. Essas duas ideias são, em
nossa opinião, ciladas do diabo." 4°
Quer Miller gostasse ou não, a doutrina da segunda vinda pré-
milenarista, vista como não sectária no sentido de que ele acreditava
pertencer a todas as denominações, na verdade, impulsionou o mo-
vimento diretamente para a formação de uma denominação própria.
Entretanto, ele jamais quis chegar a essa conclusão. Diante daquela
realidade, ele acreditava que o fim ocorreria em 1844, e que a tendência
para a separação poderia ser evitada se somente esperassem calmamente
pelo segundo advento. Por isso, ele sugeriu "entrar em nosso quarto e
nos esconder um pouco até que o perigo passe". 41 Essa solução era, na
melhor das hipóteses, temporária, mas nem Miller nem seus assistentes
sabiam disso na época.
Como esperado, o conselho de Himes aos crentes foi muito mais
realista do que o de Miller, no fim de 1844 e início de 1845. Após pedir
que fossem organizadas comissões de assistência aos mileritas carentes
e que colocassem novamente as gráficas em operação, Himes se viu
diante da tarefa de pensar sobre tudo que havia acontecido. Admitin-
do ou não, ele se tornou o líder dos adventistas desapontados. Após
22 de outubro, o idoso Miller considerou que sua "obra estava com-
pleta", mesmo que o tempo continuasse. O que "tem de ser feito [...]
deve ser feito por irmãos mais jovens"»
Uma das primeiras tarefas de Himes foi explicar o que ele acre-
ditava ter acontecido em 22 de outubro. Até o fim daquele mês, ele
parece ter considerado que a teoria de S. S. Snow era "o verdadeiro
, O Desapontamento de Outubro 1 213

clamor da meia-noite" e, portanto, um cumprimento profético. Em 30


de outubro, ele escreveu para José Bates que o movimento havia sido
uma grande bênção.
No entanto, em 5 de novembro, Himes, concordando com Storrs,
parece ter começado a mudar sua posição sobre a veracidade da data
de outubro. "Agora estamos convencidos", escreveu ele, "de que as
autoridades nas quais baseamos nossos cálculos não podem ser usadas
para determinar um tempo definido." A única coisa que se podia di-
zer com certeza era que o advento estava próximo e que precisavam
esperar e observar: 13
A mudança radical de Himes parece ter sido baseada no fato de
que sua crença na data não havia sido fundamentada tanto no cálculo
cronológico, mas no sucesso prático do movimento do sétimo mês, o
qual se espalhou poderosamente pelas fileiras adventistas entre os meses
de setembro e outubro. Himes acreditou que o "sobrenaturalismo" do
movimento de outubro foi comprovado pelo fato de que "era desco-
nhecido por nós mesmos e igualmente incontrolável". 44
No entanto, a comprovação pragmática resultante dos frutos da
teoria tinha se revertido após a desilusão de 22 de outubro. Corno con-
sequência, o pensamento de Himes seguiu o mesmo caminho. Afinal,
suas convicções não haviam sido fundamentadas nas Escrituras, e sim
nos aspectos práticos do movimento.
Após ter perdido a crença no cumprimento da profecia em 22 de
outubro, Himes decidiu conduzir Miller e o restante do movimento
na mesma direção. Depois de Miller rejeitar a teoria do sétimo mês,
ele passou a enfrentar não somente as tensões internas, mas também
as pressões do contundente Himes.
•A principal tarefa de Himes, no inicio de 1845, foi manter unidas
as partes remanescentes do adventismo. Essa não era uma atribuição
pequena, uma vez que o movimento estava literalmente se desinte-
grando. Além dessa missão, ele estava ansioso por ver os adventistas
trabalhando novamente e evitando todas as especulações e marcações
de datas.
"Já consideramos os custos", escreveu em 10 de janeiro de 1845, "e,
de acordo com os meios que Deus já nos tem dado ou possa nos dar,
provoquem, provoquem, provoquem, até que os vigias adormecidos
e suas igrejas vejam a falsidade de sua posição, ou sintam a força total
da verdade de que o reino de Deus está muito peno [...].Nossa posição
quanto à tarefa é: trabalhar até que o Senhor venha."45
214 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

A trajetória de Litch quanto à validade do movimento do sétimo


mês seguiu basicamente o mesmo caminho da jornada de Miller. Em
27 de outubro, ele expressou completa fé no movimento. Mas, em maio
de 1845, ele rejeitou os argumentos do sétimo mês e reconheceu: "Nós
erramos e saímos dos trilhos cerca de um ano atrás?'"
É importante notar que todos os principais líderes antigos do mi-
lerismo destacaram que o provável erro na interpretação do evento
de 22 de outubro estava relacionado com o tempo. MaÇOSN4211,
( editor do Voice of Truth, começou a pensar de forma difer'éritrXreire-
mente admitimos", escreveu ele no início de novembro de 1844, "que
estivemos errados quanto à natureza do evento que esperávamos para
o décimo dia do sétimo mês. No entanto, não podemos ainda admitir
que nosso grande Sumo Sacerdote não tenha realizado naquele dia
tudo o que o tipo nos justificaria esperar." 47 )
Assim, Marsh mudou a base da discussão do tempo para a natureza
daquilo que havia acontecido em 22 de outubro. Apesar de não ser
explícito sobre o que poderia ter ocorrido, ele reforçou a confiança
no cumprimento da profecia e admitiu que a tipologia do sumo
sacerdote pudesse conter a resposta para o dilema da natureza do
evento. As ideias do curto editorial de Marsh seriam levadas adiante
e desenvolvidas por duas das três divisões do adventismo, nos dois
anos seguintes. Voltaremos a essas linhas de interpretação nos ca-
pítulos 12 e 14.
O problema sobre o que havia acontecido, e se algo realmente acon-
teceu, em 22 de outubro de 1844, se tornou cada vez mais importante
para os mileritas, à medida que o tempo posterior ao desapontamento
se estendia em direção ao início de 1845. Diferentes grupos de ad-
ventistas começaram a se formar em função do tema. O adventismo
acabava de entrar no que alguns dos participantes se refeririam como
o tempo da dispersão.

O Tempo da Dispersão
4,llayitArth
('r uei; observa que, no início de 1845, "a causa adventis-
ta estava se movendo em várias direções"." Deve-se lembrar que o
milerismo pré-1845 não era uma denominação. Ao contrário, erarn um
movimento ecumênico composto de ministros e leigos de todas as
igrejas evangélicas. Portanto, dentro do milerismo coexistiam numerosas
tradições religiosas divergentes.
O Desapontamento de Outubro 1 215

• Apesar de Storrs e outros, em 1843 e 1844, terem discutido so-


bre o que Miller e seus associados acreditavam ser ideias dissonantes,
no todo, o movimento estava voltado para uma só doutrina.— o segundo
advento pré-milenarista. Esse ensinamento manteve o milerismo uni-
do e promoveu um certo consenso em relação aos pontos doutrinários
que dividiram as denominações em grupos opostos. 49 Afinal1 Cristo em
breve retornaria e poria fim a todas as disputas doutrinárias. O impor-
tante era proclamar a mensagem do breve advento que se aproximava.
Essa tarefa manteve os mileritas na mesma direção.
O foco no tempo funcionou especialmente para conservar o objetivo
do movimento orientado e unificado. Entretanto, após 22 de outubro,
o próprio elemento tempo se tornou um divisor, e as diferenças lon-
gamente submersas começaram a vir à tona, enquanto vários mileritas
começaram a buscar sua identidade e significado.
Assim, em 1845, tudo o que havia mantido o adventisrno unido não
era mais tão forte quanto as crenças que separavam as partes constituin-
tes. O resultado foi a divisão. O efeito fragmentário foi intensificado
pela grande influência que tanto o restauracionismo quanto o caráter
jacksoniano das pessoas comuns tiveram sobre o milerismo. Como
consequência, todos, até mesmo os leigos, a exemplo de Miller, podiam
formar sua teologia. A guerra doutrinária resultante se tornou rica e
diversificada e criou divisões. Enquanto um pouco dela foi saudável
e bíblica, grande parte foi problemática.
Em meados de 1845, as várias divisões entre os adventistas estavam
se convertendo em seitas, apesar de muitos crentes terem se negado
a participar desse tipo de atividade. Contudo, a ênfase e rigidez das
linhas doutrinárias não poderiam levar a outro resultado. J. R Cowles
escreveu, em 1855: "Agora existem umas 25 divisões daquilo que foi
um corpo adventista, e tudo isso ocorre porque aqueles que diferem
de nós em opinião se retiram da comunhão." 5°
No fim de 1844 e início de 1845, um grande número de mileritas
simplesmente desapareceu do movimento. Como Tiago White notou: "Pa-
recia haver uma forte inclinação de muitos para recuar, o que os conduziu
a uma fuga em direção ao Egito." Em novembro de 1844, o filho de Miller,
George, temeu que houvesse apenas "um remanescente daqueles que
professaram estar esperando Cristo", o qual deveria perdurar até o fim. 5'
Arthur sugere que era mais fácil para os mileritas que haviam per-
manecido em suas denominações deixar o adventisrno. Ele supõe que
aqueles que haviam formado congregações separadas tinham mais
216 I ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

tendência de permanecer nas crenças adventistas. Afinal, para esse


grupo, seria desencorajador e humilhante retornar a suas igrejas. Além
disso, eles haviam estabelecido comunhão com crentes de pensamento
semelhante. Por isso, foi o núcleo daqueles que atenderam ao apelo para
"sair de Babilônia" que provavelmente constituiu os 54 mil adventistas
de todas as diversas ramificações, que Daniel Taylor enumerou, em
1860, no primeiro censo adventista. 52
Enquanto alguns deixavam o milerismo, outros o rejeitavarn defini-
tivamente. Um desses, que se identificava como "Um convalescente",
compartilhou sua experiência no Christian Reflector, periódico não
adventista. "Obrigado, Deus, por permitir que o sol da razão brilhasse
outra vez sobre minha mente obscurecida", escreveu ele. "Faze com
que aqueles que tentarem desvendar o segredo do seu fim, que tem
sido guardado tão sabiamente, acatem a advertência, para que não
sejam castigados, como eu fui, com a pior de todas as loucuras — a
loucura da almal." 53
Em 1845, houve uma variedade enorme de interesses doutrinários
entre aqueles que mantiveram a fé no adventismo. Alguns, na tradi-
ção estabelecida do milerismo, continuaram marcando datas, apesar
de Miller ter evitado todas as novas marcações e desencorajado seus
seguidores de tal procedimento. Mas o hábito estava profundamente
arraigado, e a impressão da certeza que ele produzia deve ter moti-
vado muitos a fixar novas datas, apesar de cada falha provar ser mais
desanirnadora para aqueles crentes do que as primeiras haviam sido.
Entretanto, a esperança em meio à aparente desesperança os impul-
sionava na busca por uma certeza.
Outros se voltaram para novas ênfases, que acentuavam ensinamen-
tos como lava-pés, dons carismáticos, ósculo santo, o sábado do sétimo
dia, sono da alma, o milênio como um evento passado e um número
razoável de outros temas. Para dizer o mínimo, o adventismo estava se
tornando uma selva doutrinária no verão de 1845.
No entanto, em 1845, as divisões mais inflamadas no adventismo se
concentraram no significado de 22 de outubro como um cumprimento
da tipologia do sétimo mês. Em 15 de fevereiro, Qon.escreveu
para Miller que, em meio a toda aquela confusão, ele estava' . tentando
ficar com a "cabeça fria" e o "coração aquecido". Mas esse propósito
era difícil de ser alcançado naquele "tumultuado compasso de tempo".
"Eu não me admiro", continuou Jones, "do fato de o Salvador ter en-
cerrado todos seus discursos sobre o fim do tempo com a orientação
O Desapontamento de Outubro 1 217

especial para vigiar e orar. Ele previu que as circunstâncias deste tempo
abundantemente exigiriam isso."
Jones passou a descrever o que ocorria na ocasião:

Nossos irmãos, dessa forma, estão se apegando a todas as


hipóteses concebíveis para reconciliar o movimento do déci-
mo [dia] — alguns, acreditando que ele tenha sido uma peça
do "antigo ser que odeia o advento"; — outros, que ele foi uma
pane do clamor da meia-noite, o décimo sendo um erro que
Deus não somente permitiu, mas graciosamente indeferiu
— alguns, que ele foi um antítipo da trombeta do décimo
dia do sétimo mês no 49D- ano, e que Cristo virá na próxima
primavera -- alguns, que o Salvador havia saído do santo dos
santos, e estava, desde então, em uma nuvem branca — ou-
tros, que ele jamais havia entrado no santo dos santos até
então — alguns, que o Salvador veio, ou melhor, foi perante
o Ancião de Dias para receber a Nova Jerusalém, e que ele
veio somente como Noivo e não como o Rei de glória na
segunda vinda, e que a porta da graça foi então para sempre
fechada [...]. Alguns acreditavam em todas essas hipóteses111
E cada uma dessas opiniões tem sido cogitada pela maioria
de seus promotores como um teste por meio do qual o caso
das virgens sábias e néscias deve ficar evidentell Temos, por-
tanto, condenado e sido condenados várias vezes.

Em resumo, concluiu Jones, estamos em um "estado de coisas ex-


tremamente ridículo, doloroso e perigoso"»
Não é difícil entender porque Miller sugeriu que "em certos mo-
mentos", o adventisrno assimilou os atributos de Babilônia. Poucas
semanas depois, ele expressou sua frustação: "Nós temos, como elas
[as igrejas] clamado Babilônia? Babilôniall Babilônia!ll contra todos,
menos para os adventistas. Temos proclamado e discutido os prós e
contras de muitos dogmas sectários, que não têm relação com nossa
mensagem. Que Deus nos perdoei""
Após o desapontamento de outubro, Miller teria preferido se afastar
de todos os problemas, desafios e controvérsias doutrinárias enfren-
tados pelo adventisrno, mas isso não era possível. Seu nome e sua
influência ainda eram cruciais para que Himes conseguisse manter o
movirnento unido.
218 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

Assim, Himes escreveu para Miller em tom simpático, mas firme,


em novembro de 1844. "Não questiono", escreveu ele, "seu estado de
espirito pessimista em relação à continuação do trabalho. Você cumpriu
seu dever para com a igreja e o mundo. Agora você depôs a armadura
da esperança, e é muito duro pensar em vesti-la novamente. Mas pre-
cisamos fazê-lo. Deus requer isso — o mundo requer isso." 5€
Dessa forma, em virtude da insistência de Himes, Miller foi forçado a
reconhecer parte da responsabilidade. No entanto, sua função, em 11845,
parece ter sido a de conselheiro principal do jovem líder, à medida que
ele procurava guiar a embarcação do advento pelos mares revoltos.
Himes não podia contar com qualquer outro conselheiro naqueles
tempos difíceis. Por isso, nós o encontramos pressionando Miller ainda
mais para se alinhar com "a compreensão apropriada" da experiência
deles, no inicio de 1845. Em resumo, Himes precisava da autoridade e
do apoio da pessoa que emprestou seu nome ao movimento.
Enquanto isso, de tempos em tempos, Miller continuou oferecendo a
Himes conselhos inteligentes. No inicio de 1845, o velho pregador estava
se sentindo incomodado. "Preciso confessar", escreveu ele, "que tenho dor
no coração por ver a batalha que estamos enfrentando agora [...]. Após
termos silenciado nosso inimigo comum [...] voltamos nossas armas uns
contra os outros? Todo periódico [adventista] que me chegou às mãos
recentemente está cheio de ataques até mesmo contra nossos amigos."
Ele continuou exortando os editores mileritas a entender que "uma
troca de pensamento e opinião" seria necessária, mas que eles deve-
riam pensar duas vezes antes de publicar qualquer tipo de acusações
contra outros adventistas em seus periódicos. 'A não ser que sejamos
cuidadosos e sábios, haverá dissensões pela frente que trarão muito
dano e perda."
Miller ainda destacou: "Seria importante não haver ideias discor-
dantes entre nós." Por outro lado, a fim de que os crentes do advento
não agissem como bispos e papas, eles deveriam permitir que os ir-
mãos tivessem liberdade de pensamento, opinião e expressão. Ele não
via outra alternativa. "Não acusamos as seitas e igrejas de fechar seus
olhos, ouvidos, portas, púlpitos e gráficas para a luz [do advento]?
E nos tornaremos como eles? Não! Que Deus proíba [...]. É melhor
sofrermos o abuso da liberdade do que fortalecer os grupos de tirania!" 57
Essa linha de pensamento não foi apresentada somente por
Miller, mas estava profundamente enraizada nas tradições batistas
e restauracionistas das quais tantos adventistas eram provenientes.
O Desapontamento de Outubro 1 219

Como resultado, no início de 1845, houve uma discussão franca por


intermédio da imprensa sobre muitos dos temas que dividiam os
mileritas. Um dos principais pontos de discórdia era a questão da
"porta fechada".

A Porta Fechada e a Linha de Batalha


• A teoria da porta fechada estava firmada em uma das principais
passagens bíblicas usadas pelos adventistas a fim de identificar seu
movimento - a parábola do noivo, em Mateus 25. Após o tempo de
tardança (v. 5), e o clamor da meia-noite (v. 6), lemos no v. 10 que en-
quanto as virgens néscias haviam saído para tentar comprar mais óleo,
"chegou o noivo, e as que estavam atentas entraram com ele para as
bodas; e fechou-se a porta". Entretanto, "mais tarde, chegaram as virgens
néscias, clamando: Senhor, senhor, abre-nos a porta? Mas ele respondeu:
Em verdade vos digo que não vos conheço" (v. 11, 12).
Na década de 1840, muitos adventistas interpretaram a porta fe-
chada como o fim do tempo da graça para a humanidade. Em outras
palavras, após a porta ter sido fechada, não haveria mais salvação. As
virgens sábias (os crentes verdadeiros) estariam no reino, enquanto
as virgens néscias e os demais permaneceriam do lado de fora.
Esse ponto se tornou uma questão controversa no adventismo mile-
rita em janeiro de 1845, quandolip'claástrgre—e-roaseiolfurri-Jaigaram
o conceito da porta fechada com "o'ciiiriprimento -cta-profecia em 22
de outubro de 1844. Assim, eles ensinaram que a obra da salvação
geral havia terminado naquela data: Cristo veio espiritualmente como
o Noivo, as virgens sábias entraram para as bodas com ele, e a porta
havia sido fechada para todos os outros. 58
Como resultado do artigo de Hale e Turner, toda uma escola de
historiografia adventista surgiu, no início de 1851, em torno da ideia
defendida por esses dois líderes: a doutrina da porta fechada. Mas essa
interpretação não resistiria à luz dos dados históricos?
(Na verdade, Miller desenvolveu o ensinamento da porta fechada en-
tre os mileritasiErn sua publicação, Evidence from Scripture and History
of the Second Coming of Christ, ele escreveu que a frase "e fechou-se
a porta' implicaria .o fechamento do reino mediador e a conclusão do
período do evangelho". Ele também ligou diretamente a passagem rela-
tiva ao pré-advento, de Apocalipse 22:11 ("Continue o injusto fazendo
injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo; o justo continue na
220 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

prática da justiça, e o santo continue a santificar-se"), com a vinda do


noivo e o fechamento da porta.€°
Seguindo a ideia de Miller, em 1842, a assembleia geral de Boston
decidiu que, "a noção de um tempo de graça após a vinda de Cristo é um
engano para a destruição, inteiramente contraditório com a Palavra de
Deus, que ensina positivamente que, quando Cristo vier, a porta estará
fechada e aqueles que não estiverem prontos não poderão entrar"»
Uma vez que os lideres mileritas estiveram esperando Cristo retor-
nar no fim dos 2.300 dias mencionados em Daniel 8:14, eles tinham, na
verdade, ensinado o encerramento do tempo da graça no fim daquele
período. Como resultado, por um curto período após o desapontamento
de outubro de 1844, Miller e muitos outros acreditaram que sua obra
pelo mundo tinha terminado, e que haveria somente um curto tempo
de tardança até que Cristo aparecesse.
Por isso, não é surpreendente encontrar Miller (que naquela época
ainda acreditava que a profecia havia se cumprido em 22 de outubro)
escrevendo, em 18 de novembro de 1844, o seguinte relato:

Fizemos [concluímos] nossa obra de exortar os pecadores e


tentar despertar uma igreja formal. Deus, em sua providência,
fechou a porta; só nos resta incentivarmos uns aos outros a
ser pacientes. [...] Agora estamos vivendo no tempo mencio-
nado em Malaquias 3:18, e também em Daniel 12:10 e Apo-
calipse 22:10-12. Nesta passagem não há como não entender
que, um pouco antes de Cristo voltar, haveria uma separação
entre o justo e o injusto, o integro e o ímpio, entre aqueles
que amam sua vinda e aqueles que a odeiam. E jamais, desde
os dias dos apóstolos, houve tal linha divisória como foi traça-
da por volta do 102 ou 232 dia do 72 mês judaico.€2

Certamente as reações odiosas e até violentas entre os descrentes e


ex-rnileritas pareciam prover evidência para os crentes de que a porta
da graça havia sido fechada. A maioria dos mileritas aceitou que a
porta havia sido fechada imediatamente após 22 de outubro, porque
tal interpretação fazia parte do sistema de crença.
Mas essa aceitação logo mudaria, uma vez que a porta fechada es-
tava ligada ao cumprimento da profecia em outubro. A lógica era clara.
Se a profecia não se cumpriu; logo, não poderia haver porta fechada,
e vice-versa.
O Desapontamento de Outubro 1 221

Tendo esse fato em vista, é de fundamental importância lembrar


que, em 5 de novembro de 1844, Himes, o mais poderoso porta-voz
do adventismo pós-desapontamento, havia chegado à conclusão de que
nada tinha acontecido em 22 de outubro. Daquele momento em diante,
ele começou a conduzir a maioria dos adventistas (incluindo Miller)
para a rejeição da data de outubro e da crença na porta fechada. 63
Foi nesse contexto que o artigo de Hale e Tumer sobre o noivo e a
porta fechada, em janeiro de 1845, produziu um efeito explosivo. Eles
argumentaram que a profecia havia realmente se cumprido em 22 de
outubro. Mas, para eles, a vinda do noivo não tinha sido completamen-
te compreendida. Apesar de Cristo não ter voltado nas nuvens como
esperado, ele tinha vindo espiritualmente, como o noivo para as bodas.
Unindo esse conceito com a ida do Filho do Homem ao Ancião de Dias,
em Daniel 7, Turner e Hale argumentaram que "o juizo é aqui", e que
Cristo não viria nas nuvens até que o julgamento estivesse completo
— ou seja, até que ele retornasse do casamento. Enquanto isso, a porta
da graça para a humanidade estaria fechada. 64
Essa interpretação foi de encontro a tudo que Himes acreditava. Afi-
nal, ele estava tentando fazer com que os mileritas voltassem à missão
de advertir o mundo sobre a proximidade do advento. Nesse contexto,
a compreensão de Turner era equivocada, de acordo com Himes e seus
colegas. Entretanto, para piorar, a ala radical do adventismo, que estava
profundamente mergulhada em uma crescente empolgação fanática,
utilizou a teoria da porta fechada e suas implicações proféticas para
justificar o fanatismo. Retornaremos à ruptura causada pelo elemento
fanático no capitulo 12.
No inicio de fevereiro, Turner pregou a doutrina da porta fechada
e do noivo, na igreja de S. S. Snow, em Nova York. Este e muitos dos
seguidores "beberam a verdade como o viajante sedento no deserto
tórrido beberia água de uma fonte refrescante". Logo, Snow começou
a pregar que Himes e outros lideres que estavam "clamando por uma
porta aberta" eram virgens néscias. Pior, "eram cadventistas' apostatados,
caídos" em seus "ataques e protestos contra a porta fechada". "Deus
os rejeitou." 65
Snow, identificando-se com Elias, o profeta que devia preparar o
caminho do Senhor, começou a publicar o Jubilee Standard, no inicio
de 1845, a fim de propagar suas ideias sobre a porta fechada. Além
disso, na mente dele e de outros que nutriam os mesmos pensamentos,
os mileritas que não aceitaram a ideia da porta fechada se tornaram,
222 J ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

na realidade, Babilônia. A convocação então era para se separar dos


adventistas da ideia da porta aberta. Enquanto isso, Snow indicou que
Himes, Litch e Storrs (que rejeitaram sua mensagem do sétimo mês)
seriam os três pastores de Zacarias 11:8: "dei cabo dos três pastores
num mês" e foram "rejeitados" .e "abominados" por Deus. 66
Não é de• admirar que encontremos I. E. Jones escrevendo, em fe-
vereiro de 1845, que "as opiniões do irmão Turner [...] têm feito mais
para nos tirar do foco do que todo o restante junto". 67
Miller foi visto como o personagem principal no cabo de guerra
entre os adventistas da porta aberta e os da porta fechada; entre aqueles
que rejeitaram o movimento do sétimo mês como cumprimento da
profecia e aqueles que o aceitaram; entre aqueles que acreditavam que
ainda havia uma obra missionária a ser feita para o mundo e aqueles
que acreditavam que a graça estava encerrada e a obra do evangelho,
completada. Duas correntes de milerismo separadas se desenvolveram,
e não havia meio-termo entre elas. Sob tais circunstâncias, dado o poder
de seu nome no movimento, a posição de Miller sobre a porta fechada
foi de suma importância para ambos os lados.
No fim de 1844, Miller estava convicto de que a porta tinha se fe-
chado e de que a profecia se cumprira em 22 de outubro; no entanto,
ambas as posições começaram a mudar nos primeiros meses de 1845.
No inicio de fevereiro, Miller declarou, em uma carta publicada no
Advent Herald, que havia recebido muitas correspondências de todas
as partes do pais, pedindo sua opinião sobre a porta fechada e o fim
da graça. Ao mesmo tempo em que entendia tratar-se de um ponto
encerrado e que manteria suas opiniões sobre o assunto para si mesmo,
ele continuou endossando tanto a porta fechada quanto o movimento
do sétimo mês. 68
Os editores tornaram um passo sem precedentes ao adicionar uma
refutação de quatro colunas ao artigo de Miller, declarando francamen-
te: "Não conseguimos ver precisão na aplicação de alguns dos textos
acima; isto é, de como eles provam que a porta da graça será fechada
antes do fim." Poucos dias após o texto ser publicado, Himes escreveu
para Miller uma carta dura, na qual lhe falou que o ensinamento da
porta fechada estava "produzindo os efeitos mais destrutivos, tanto
nos crentes quanto no movimento". Himes ainda disse que as coisas
estavam tão sérias naquele sentido, que ele estava prestes a ter de parar
com a obra de publicações por causa do avanço desse problema e das
acusações feitas contra o Herald.69
O Desapontamento de Outubro 1 223

Himes também informou a Miller que Bliss havia escrito uma carta
para o velho pregador, desculpando-se pela nota que fora anexada em
seu último artigo. No entanto, como forma de justificação pela quebra
de protocolo, Himes declarou: "Nunca houve um tempo tão perigoso e
crítico entre nós como agora." Havia, segundo observou ele, uma dispo-
sição crescente para reprimi-lo, mas ele não se "deitaria e morreria". 70
Se Himes já se sentia aflito com a crise da porta fechada em 13 de
fevereiro, ele deve ter quase entrado em colapso quando recebeu a
edição de 19 de fevereiro do Voice of Truth. O exemplar continha uma
carta de Miller, na qual ele expressava a opinião de que o artigo de Hale
e Turner no Advent Mirror a respeito do noivo e da porta fechada, "no
geral", estava correto?'
A resposta de Himes à crise intensificada foi um ataque massivo
e frontal contra a teoria da porta fechada e do• noivo, nas edições do
Advent Herald, de 26 fevereiro e 5 de março. Quase a totalidade das
duas edições tratou do assunto, e Himes e seus colegas desafiaram os
antagonistas. O momento para trivialidades havia acabado. O Morning
Watch também foi colocado no meio da discussão»
Além do ataque frontal à porta fechada em duas publicações,
Himes também trabalhou intensamente com Miller nos bastidores por
meio de uma série volumosa de cartas. Em 12 de março, ele destacou
o fanatismo ao movimento da porta fechada em Portland, Maine. "Eles
vão arruinar tudo", escreveu ele, "se tiverem tempo suficiente para isso."
Himes aumentou a pressão sobre seu mentor quando escreveu: "Eles
estão usando sua influência [apoiando a teoria da porta fechada] [...]
seu nome e suas cartas para sustentá-los em seus novos e visionários
movimentos.""
Três dias depois, Himes escreveu uma carta similar relatando o
trabalho de Snow e como os extremistas estavam se apoiando na
defesa de Miller em relação à teoria da porta fechada. Foi então
que ele tomou sua principal iniciativa em busca do apoio de Miller.
"Acho", escreveu o jovem líder, "que é hora de você dar uma carta ou
declaração que de alguma maneira nos permita eximi-lo de qualquer
simpatia por eles e seus movimentos extravagantes." Para que não
ficasse nada ao acaso, por dois dias, Himes também conversou com
Miller sobre o assunto, em Low Hampton. Além dos seus outros ar-
gumentos, ele demonstrou, para a satisfação de Miller, que o período
de graça não poderia estar encenado, pois pessoas ainda estavam
sendo convertidas.74
224 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

As várias linhas de ataque de Hirnes finalmente levaram Miller


para seu lado. O Advent Herald, de 26 de março, estampou na pri-
meira página uma carta em três colunas escrita um dia após essa
importante conversa. No texto, IVIiller se manifestou definitivamente
contra a posição da porta fechada. Enfim, os esforços de seu princi-
pal discípulo o fizeram mudar. Enquanto isso, Himes, o político de
sempre, estava organizando uma grande assembleia do advento para
abril. Ele estava determinado a ganhar o controle do fragmentado
movimento adventista. 75
Nessa época, Miller desistiu da teoria da porta fechada. Ele nunca
mais hesitou quanto ao assunto. No verão de 1845, ele escreveu:

Não tenho confiança em quaisquer das novas teorias que têm


se desenvolvido a partir do movimento [do sétimo mês], a
saber, que Cristo veio como o Noivo, que a porta da graça foi
fechada, [...] ou que ela foi um cumprimento da profecia em
qualquer sentido. O espírito de fanatismo que resultou dela,
em alguns lugares, levando a extravagâncias e excessos, con-
• sidero como da mesma natureza daqueles que retardaram a
reforma na Alemanha. 76

Assim, no fim de março, Himes pôde dar um suspiro de alívio.


O principal líder do movimento estava do seu lado, e ele podia agora
se preparar para a assembleia de Albany, na qual esperava consolidar
seus ganhos e manter o adventismo tão saudável e unido quanto
possível. Mas, para Miller, houve um preço a pagar. Muitos dos mi-
lerdas que tinham-no visto como um "anjo", agora viam-no como
um "pecadorl." 77
Dois anos depois, a acusação de que Himes havia controlado exces-
sivamente a opinião de Miller veio à tona. O velho pregador respondeu
em uma carta publicada: "Quero dizer a todos que jamais fui controlado
pelo irmão Himes; nem ele, pelo que sei, jamais tentou me direcionar."
Os fatos, porém, não correspondem a essa declaração. Ou a afirmação
é um reflexo da ingenuidade de Miller em sua condição enfraquecida
ou uma indicação da habilidade de Himes para manipulá-lo; ou ainda,
como é mais provável neste caso, ambas as coisas. 78
Em resumo, no fim de março de 1845, uma linha de batalha foi
traçada entre os adventistas. Essa definição se deu em relação à doutrina
da porta fechada e à aceitação ou rejeição da validade do movimento
O Desapontamento de Outubro 1 225

do sétimo mês. Em abril e maio de 1845, os adventistas da porta aberta


se organizaram na assembleia de Albany.
Entretanto, as coisas não estavam tão claras para os adventistas da
porta fechada. Eles mesmos se dividiriam em dois grupos principais,
cada um seguindo uma das posições apresentadas por Hale e Turner
no artigo do Advent Mirror, de 1845.(11m grupo enfatizou o aspecto
da vinda espiritual de Cristojenquanto o outro, usando uma variação
do argumento do noivo, degtacou a sugestão do juizo pré-advento.
A Parte III examinará essas e as subsequentes divisões no adventismo,
à medida que os mileritas se distanciavam do ano do fim do mundo.
Superando o
Desapontamento
CAPITULO 12
A Ala Radical
do Adventismo

D esorientação e desordem são duas palavras que nos ajudam


a entender o clima e a estrutura do adventismo milerita
após 22 de outubro de 1844. Até a data, o movimento sabia
exatamente para onde ia e tinha ideia de como alcançar seus obje-
tivos; após a data, os adventistas não tinham mais nenhuma dessas
convicções. Após outubro de 1844, os meses e os anos lançaram
os adventistas na busca por identidade, uma tarefa que eles nunca
pensaram em ter de assumir e, para a qual, de muitas maneiras, não
estavam preparados.
Este e os dois próximos capítulos vão traçar o desenvolvimento
das várias correntes do adventismo no período após o desapontamen-
to. O primeiro grupo que consideraremos tem sido frequentemente
chamado de "espiritualizador", uma vez que manteve seu enfoque na
espiritualização da esperança milerita da vinda de Cristo. A força e o
sucesso inicial desse grupo realmente forçaram os demais a se definir
em relação aos espiritualizadores. Isso os transforma em um elemento
importante para entender a história adventista.
230 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Surgimento dos Espiritualizadores


Como observamos no capitulo 11, a ideia teológica central que
fundamentava a doutrina dos espiritualizadores era a "desliteralização"
da segunda vinda de Cristo. Na tentativa de sustentar a validade escato-
lógica de 22 de outubrtollos Hale e Joseph Turneryfoncluiram que
o movimento do sétimo mês tinha realmente sido um cumprimento
profético. Eles mantiveram a posição de que tanto a data quanto o evento
haviam se cumprido. Assim, Cristo teria vindo em 22 de outubro de
1844. Mas ele não veio nas nuvens do céu. Em vez disso, ele foi até o
Ancião de Dias, no Céu, para receber o reino. 1
No pensamento de Hale e Turner, a vinda do Noivo precederia a
segunda vinda em poder e glória à Terra. Haveria um intervalo entre as
duas vindas. Infelizmente, essa pequena distinção se perdeu para muitos
que seguiam tal orientação. Para esses, o fato de Cristo ter "vindo" já
era suficiente. Outros indicaram que ele veio aos corações humanos.
Um ponto importante a ser entendido, nessa conjuntura, não são as
várias possibilidades de compreensão não literal da vinda de Cristo, mas o
fato de que uma mudança fundamental ocorreu no pensamento de alguns
adventistas a respeito de como deveriam ler e interpretar as Escrituras.
Enquanto Miller defendia a interpretação literal da Bíblia, exceto
nos casos em que o texto era obviamente simbólico, 2 os espiritua-
lizadores procuravam significados espirituais em todo lugar. Dessa
maneira, eles deixaram a plataforma hermenêutica de Miller. Ao apli-
car interpretações simbólicas da Bíblia, eles logo chegaram a algumas
explicações fantasiosas que deformaram tanto sua teologia quanto sua
própria vida prática.
As teorias de Turner se espalharam rapidamente pelo adventismo
desorientado no inicio de 1845. Certamente, ele não era um evangelista
qualquer. Durante os meses de janeiro e fevereiro, Turner pregou com
vigor sua mensagem por lugares como a Nova Inglaterra e Nova York.
Essa pregação obteve algum sucesso. Em 23 de janeiro de 1845,
ele escreveu do Maine sobre seu itinerário: "Em todos os lugares que
visitei, encontrei um bom número, penso que uma maioria, que estava
ou está agora crendo que nossa obra está completa neste mundo, e que
a expiação foi feita no décimo dia do sétimo mês. Quase todos que me
ouviram receberam com alegria a mensagem."
Turner estava pregando para outros adventistas. Afinal, defenden-
do a teoria da porta fechada, ele acreditava que tentar despertar os
A Ala Radical• do Adventismo 1 231

não adventistas seria• como "pregar aos túmulos", uma vez que o período
da graça estava encerrado. O efeito da mensagem de Turner foi que
aqueles que se consideravam como "virgens prudentes" se separaram
dos outros adventistas e começaram a realizar reuniões independentes.'
A magnitude do sucesso de Turner não foi somente atestada por
ele próprio, mas também pelo pânico que gerou em Josué Himes,
Sylvester Bliss e outros. No início de 1845, eles viram a interpretação
espiritualizadora do segundo advento como uma grande ameaça.
A conversão de S. S. Snow para a posição de Turner acelerou a pro-
pagação da ideia espiritualizada do advento. Após o desapontamento
de outubro, Snow concluiu que "a mensagem de Deus, que ele apre-
sentou ao povo, se relacionava somente com o tempo: ele reconheceu
que não havia compreendido o modo de ação dos grandes eventos do
dia de Deus". Ele havia pregado da forma como fizera porque "lhe
fora erroneamente ensinado que a vinda do noivo para as bodas era o
descer do Senhor do céu". 4
No mês seguinte à aceitação da interpretação espiritualizadora
de Turner, Snow começou a fazer circular essa visão das "boas-novas"
por meio do Tubilee Standard. Assim, o Standard se juntou ao Advent
Mirror, de Turner; ao Hope of Israel, de Hale; ao Day-Star, de Enoch
Jacobs; ao Voice of the Shepherd, de Orlando Squires; e ao Voice of the
Truth, de Joseph Marsh; entre outros.
Esses periódicos adventistas serviam para divulgar aspectos da nova
interpretação e também como fórum para a discussão de novas ideias
na procura por respostas ao desapontamento de 1844. Todos buscavam
uma voz para sua opinião; e, em termos de números, os periódicos
adventistas "oficiais" de Himes eram definitivamente a minoria. Infeliz-
mente, nas mãos de muitos defensores das novas ideias, o ad -ventismo
havia perdido sua racionalidade tradicional.

Um Adventismo Desconcertante
O caos das novas interpretações levou a algumas conclusões estra-
nhas, tanto na teoria quanto na prática, fazendo com que o• fanatismo
adventista pré-outubro de 1844 parecesse, em comparação, muito mo-
derado. Observamos• acima que pelo menos parte do novo pensamento
dos espiritualizadores surgiu quando certos defensores se afastaram dos
princípios hermenêuticos predominantemente literais de Miller. O signi-
ficado espiritualizado do segundo advento foi um produto desse processo.
232 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Em outras ocasiões, os próprios princípios de Miller foram empre-


gados de forma estranha a fim de se chegar a novas conclusões. Um
exemplo disso ocorreu com Orlando Squires. Ele seguiu o conselho
de Miller de comparar um texto com outro a fim de conhecer a ver-
dade bíblica; contudo, chegou a extremos bizarros. Assim podemos
comprovar:

Uma verdade é claramente provada na minha mente por


meio da comparação de um texto com outro, isto é, que
carruagens, cavalos, nuvens, céus, chamas de fogo, vento, rodas,
aves do céu, aves com penas, mansões, herança, moradas, ove-
lhas, rebanho, casa espiritual, casa de Deus, cidade de Deus,
habitação de Deus, templo cie Deus, povo de Deus, povo santo,
Israel, Jacó, Judá, Davi, santos, anjose muitos outros nomes
são usados como termos sinônimos, representando a mesma
coisa, isto é, o verdadeiro corpo de Cristo — a igreja.'

Ao construir uma base interpretativa, Squires prosseguiu com o uso


de seu método para chegar a algumas conclusões. Uma era que Cristo
havia "entrado no santíssimo, no PRÓPRIO CÉU", que, ele afirmava, está "EM
NÓS". "Glória a Deusr Squires exultou: "Finalmente sabemos onde fica
o Céu." Ele está "EM NÓS. 'Cristo EM Você, a esperança da glória.' Jesus
Cristo VEIO EM CARNE.' 'Todo espírito que não confessa' essa mais pre-
ciosa verdade, 'não é de Deus". Como tantos outros mileritas, Squires
fundou um periódico — o Voice of Shepherd ["A voz do pastorl — para
anunciar sua versão do evangelho adventista. 6
"As ideias apresentadas nesta folha são luz, não trevas", declarou
Olive Patten num artigo de apoio a Squires. "O Espírito constante-
mente testemunha da verdade. A voz interior clama: Luz, Luz; e as
Escrituras se abrem para mim como um feixe de luz, e fogo também."
Para Patten, a mensagem do tempo não estava relacionada com a
preparação para a obra presente, "a parte espiritual". O teste para o
povo de Deus seria a mensagem de Squires.
"Tenho sido determinada e sincera a respeito da aparição pessoal de
Cristo", escreveu Patten, "e agora estou perfeitamente convencida de que
não há um corpo literal de Jesus, no universo de Deus. [...] Cristo em
nós [é] nossa vida agora, e a esperança da glória futura." Ela continuou
alegando que Cristo se manifestaria neles à medida que progressiva-
mente "se moldassem como o corpo mais glorioso de Cristo"?
A Ala Radical do Adventismo 1 233

As ideias propostas por Squires e seus seguidores estavam a um


passo do perfeccionismo anômalo defendido por uma porção signi-
ficativa dos adventistas durante o início de 1845 .(Assemelhando-se a
Calvin French e John Starkweather, no início do movimento milerita,
e a inúmeros entusiastas ao longo da história da igreja, alguns dos ad-
ventistas, em 1845 e 1846, chegaram a ponto de acreditar que viviam
acima do pecado.)
Como um deifses crentes descreveu, "eles declararam que eram
perfeitos, que seu corpo, alma e espírito eram santos [...]. Declararam
que à medida que sua carne fosse purificada, estariam prontos para
ser trasladados". 8 ssim, achavam que cada ação deles era induzida
pelo Espírito Santafsse ponto de vista se encaixava perfeitamente no
esquema estabelecido por Squires, Patten e seus demais colegas crentes
com seus estranhos conceitos de encarnação.
• Os espiritualizadores criaram numerosas crenças durante o período
de crise do adventismo, co - an o no início de 1845. Um exemplo
foi a tese estabelecida po J. D. Pckan s e . 1. oo de Cleveland,
Ohio. Com base em Apocalipse 14, Pickands e Cook defendiam que os
três anjos haviam progressivamente feito soar sua voz no movimento
milerita e que o mundo estava pronto para o clamor do quarto anjo,
dos versos 14 a 16. 9
Em essência, Pickands e Cook ensinavam que Cristo estava assen-
tado em uma nuvem branca esperando pela ceifa na Terra, com uma
coroa de ouro na cabeça e uma afiada foice na mão. O fim não viria
até que o quarto anjo, na pessoa dos crentes, rogasse com sinceridade
àquele "que se achava sentado sobre a nuvem: 'Toma a tua foice e cei-
fa' ." A colheita ocorreria quando essa oração se tornasse "geral, sincera,
agonizante e insistente".
Naturalmente, Pickands e Cook estabeleceram um periódico para
divulgar sua compreensão da verdade. Por isso, surgiu o Voice of the
Fourth Angel ["A voz do quarto anjo"]. Como as demais doutrinas novas
desse período, a verdade do quarto anjo se tornou um "teste", e aqueles
que a rejeitavam eram destinados à perdição. 19
Por fim, Pickands levou seus seguidores a outras opiniões radicais.
Ao rejeitar "a teoria absurda e não bíblica do Pai Miller" de que Cristo
viria pessoal e visivelmente em um só momento, Pickands concluiu que
a segunda vinda era uma série de eventos. Os santos haviam alcançado o
estágio no qual eram imortais, incorruptíveis e não morreriam. Pickands
percebeu que sua nova luz seria ridicularizada por muitos; mas, e daí?
234 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

"Não me importa o latir dos 'cães' que estão fora da cidade", escreveu
ele para Enoch Jacobs. "Estamos dentro e temos direito à árvore da
vida, da qual, se comermos, viveremos para sempre!
A doutrina da imortalidade da alma e incorruptibilidade no tempo
presente era uma crença muito difundida entre aqueles que acredi-
tavam que Cristo viera espiritualmente em 22 de outubro de 1844.
Assim, Joseph Turner também havia se tornado imortal no início de
1845. "Deus está conosco", escreveu ele para Snow, em 24 de junho.
"Ele ouve nossos clamores, nossos doentes são curados pelo poder da fé
e nenhum israelita morreu entre nós desde o sétimo mês. Acreditamos
que eles possam ser preservados sãos e irrepreensíveis até a vinda do
Senhor Jesus. Essas coisas serão ridicularizadas por aqueles que estão
caídos; mas, de fato, são verdadeiras.""
Outra linha de extremismo entre os espiritualizadores estava cen-
tralizada nos aspectos de comportamento diretamente afetados pela
crença de que o advento de Cristo havia ocorrido. Um número signifi-
cativo de pessoas acreditava que era errado trabalhai; pois estavam no
sétimo milênio e o sábado eterno de Deus havia começado. Trabalhar
((

resultaria na destruição final". Em Boston havia incentivadores da


doutrina de que era "pecado trabalhar". "Sua mensagem principal era:
'Venda tudo o que tem, e doe.' Eles disseram que estavam no Jubileu,
a Terra deveria descansar e os pobres deveriam ser apoiados sem que
tivessem de trabalhar.""
Em 12 de março de 1845, Himes escreveu sobre uma situação simi-
lar na qual o movimento da porta fechada e da chegada do noivo levou
muitos fazendeiros a negligenciar a plantação, enquanto outros estavam
((

vendendo todo seu gado e dizendo que queriam somente o suficiente


para se manter até o dia 23 de abril". "A. porta está fechada e o noivo já
veio, o casamento já aconteceu e eles dizem que sua nuvem deve vir." 14
Os extremistas da porta fechada também eram ativos no campo
da humildade. Para demonstrar que estavam espiritualmente no Céu,
eles buscaram seguir a ordem de Cristo para se mostrar humildes e se
tornar como crianças. Assim, contou Sylvester Bliss, alguns se senta-
vam no chão como um ato de simplicidade, enquanto outros rapavam
a cabeça ou agiam como crianças quanto à compreensão. Ainda mais
impressionante deve ter sido observar, aqueles que engatinhavam pela
casa. Essa humildade não era praticada somente no lar ou na igreja;
mas alguns, inclusive, achavam necessário testemunhar ao mundo,
engatinhando pelas ruas agitadas da cidade."
A Ala Radical do Adventismo 1 235

A comunidade não adventista zombava dos vizinhos engatinhando


até a loja, mas não achava graça alguma nas verdadeiras e supostas aber-
rações sexuais dos espiritualizadores.(No topo da lista de reclamações
nessa área estavam as crenças sobre o ósculo santo e a união conjugal
espiritual)Misturada com essas duas ofensas públicas, estava o lava-pés
entre pessoas de sexo oposto.
Não deveríamos ficar surpresos em descobrir que alguns extremis-
tas, com seu desejo restauracionista de voltar aos ensinos do Novo
Testamento, iniciaram cerimônias de lava-pés. George Peavey, de
Nova York, foi um dos promotores mais entusiastas desse costume.
Como justificativa para a prática, Peavey e outros citavam o exemplo
de Cristo: "Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés,
também vós deveis lavar os pés uns dos outros" (Jo 13:14).
Apesar de muitos adventistas aceitarem a lógica do ato do lava-pés,
os crentes do grupo principal (e alguns de grupos extremistas) abriram
uma exceção para homens e mulheres lavarem os pés uns dos outros.
Dessa forma, L. Delos Mansfield condenou Peavey por haver "seleciona-
do uma jovem como sua vítima?" propositadamente para essa cerimônia
"ridícula, revoltante e indecente". "Por que", indagou Mansfield, "ele
não escolheu um homem ou uma senhora na presença de seu esposo,
se seu coração é puro e seus desejos são santos?" 16
Em outra ocasião, um correspondente do Day-Star apresentou sua
opinião favorável: "O Senhor estava conosco e tivemos uma boa festa
ágape. Todos os irmãos e as irmãs ficaram muito felizes e foram lavar
os pés uns dos outros, assim como Jesus disse que seus filhos deveriam
fazer, e saudaram uns aos outros com o ósculo santo:''
Os extremistas também basearam seu ensinamento sobre o ósculo
santo nas Escrituras, apesar de muitas acusações de que esse exercício
religioso, assim como o "duvidoso" lava-pés, frequentemente resultava
em situações nada espirituais. Nessa mesma direção, Mansfield declarou
que Peavey se aproximou de uma mulher a qual recusou seus esforços
para lavar-lhe os pés e "sem lhe dar qualquer explicação sobre suas
intenções, na verdade lhe deu um beijo (santo? ah? que piada'!)". De
acordo com Joseph Turner, "o irmão Peavey defendeu o lava-pés entre
homens e mulheres e o ósculo santo de acordo com o princípio de
que somos 'todos um' e que 'em Cristo não há homem nem mulher'"."
A união conjugal espiritual, como era de se esperar, elevou o tom
da ira tanto da comunidade não adventista quanto do adventismo
principal. O Advent Herald não somente protestou "contra todas essas
236 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

abominações", como publicamente repudiou os participantes e afirmou


que seria "gratificante se eles não praticassem esses abusos até que
tivessem renunciado ao `milerismo'". 19
Por outro lado, os adeptos da união conjugal espiritual afirmavam
que estavam desenvolvendo sua crença sobre fundamentos bíblicos.
Afinal, no reino dos céus, não haveria o ato de casar-se ou dar-se em
casamento. Além disso, uma vez que Cristo tinha vindo e• eles eram
imortais, já estavam no estado espiritual. E Cristo disse que, se as pessoas
realmente o amassem, renunciariam sua família.)
Seguindo esse raciocínio, Pickands defend.eu um homem e uma
mulher que deixaram seus cônjuges e sua família e foram morar
juntos por vários meses como um "par espiritual", enquanto viajavam
de lugar em lugar. Ele garantiu que essa conduta "era coerente com
sua doutrina, que permitia um 'matrimônio espiritual sem conexão
sexual'. O juiz, tendo uma opinião menos "elevada" do caso, orde-
nou que o casal pagasse fiança de "200 dólares cada, sob acusação
de adulterio". 20
Outro crente fanático, Israel Dammon (também envolvido, entre
outras atividades, em múltiplos e repetidos "ósculos santos" em esposas
de outros homens), obteve uma esposa espiritual no início de fevereiro de
1845, e "estava feliz com ela". No caso de Dammon, a evidência parecia
ser clara de que a união era bem mais do que espiritual. 21
Enoch Jacobs foi outro líder envolvido nas excentricidades do
casamento e da família dos crentes extremistas. Jacobs defendeu que
Cristo havia ordenado às pessoas que deixassem tudo em seu favor.
Como resultado, ele deixou a esposa e cinco crianças, escolhendo uma
vida de celibato. Na partida, Jacobs e sua mulher choraram e lavaram
os pés um do outro, ao tornarem-se "submissos à vontade de Deus".
Assim, ele teria passado no teste de fé e obediência ao entregar sua
família ao Senhor.
Jacobs teve que pagar o preço de sua decisão. Por conta de sua per-
sonalidade, ele já esperava ser perseguido por causa da justiça. "Quase
todos", escreveu Jacobs em seu jornal (o Day Star), "concluíram que
-

eu estava louco ou possesso pelo diabo — meus irmãos não eram ex-
ceção. Apesar de ser chamado de espiritualizador, sei que não estava
fazendo nada mais do que aquilo que Cristo ordenou e que agi assim
unicamente por ele."
A despeito da evidente sinceridade de Jacobs, sua "fidelidade" o
colocou em uma "fornalha aquecida sete vezes mais do que desejava".
A Ala Radical do Adventismo 1 237

Além disso, os que o confortavam não o ajudavam mais do que os


amigos de Já, uma vez que faziam "acusações insultantes" contra ele.
A. lição de tudo isso, disse Jacobs, é que a obediência literal produz hoje
J

o mesmo que nos tempos do evangelho.)


A fornalha de Jacobs ficou "sete graus" mais quente quando a irmã
Curtis apareceu, vindo de Oberlin, e "promoveu a ideia de que, no
estado glorificado, [...] os filhos de Deus, apesar de não serem mais
'homem e mulher', seriam unidos em pares, e que Deus lhe havia
mostrado que" ele "deveria ser seu companheiro no mundo eterno".
Uma vez que a irmã Curtis não tinha "testemunho bíblico" sobre
essa atitude, Jacobs fez seu melhor para negar simpatia pela ideia. Mas
o conceito "foi suficiente para colocar tudo em forma de zombaria, e
realmente uma perfeita tempestade foi criada em pouco tempo [...].
Essa situação foi perturbadora o bastante para fazer a festa dos filhos
do diabo por um bom tempo". Contudo, na mente de Jacobs, "era uma
circunstância absolutamente necessária porque, sem ela, como poderia
'todo mal' ser dito falsamente contra ele?"
Jacobs continuou explicando toda essa sequência de eventos como
os mais preciosos de "toda sua vida", pois havia lhe ensinado a não mais
"menosprezar a disciplina do Senhor, nem desanimar quando repreendi-
do por ele". Com o tempo, esse passo na experiência de Jacobs provou ser
um dos muitos desenvolvimentos inusitados de uma jornada espiritual
tortuosa que o levaria para vários lugares estranhos. Retornaremos a
falar de Jacobs posteriormentezz
Houve também adventistas que apoiaram doutrinas novas. Cook,
por exemplo, aceitou o sábado do sétimo dia no início de 1845; uru)
apontava para um juízo pré-advento;(1Q 6- 9estava aberto à nova luz
sobre o ministério de Cristo no lugar santíssimo do santuário celestial,
iniciado em 22 de outubro de 18444ïlém disso, ele também publyou
uma das primeiras visões de uma jovem chamada Ellen Harmon."
Manifestações por meio de visões eram outra característica domi-
nante dos adventistas extremistas. Um dos grupos que defendiam as
profecias se originou em Springwater Valley, Nova York. Certo homem
solteiro chamado Houston adotou uma moradia familiar com "sua
mulher" e várias outras pessoas que viviam juntas, fora do contexto
do casamento. A família permaneceu na casa, mas Houston assumiu
o controle. Ele não somente mandou que transformassem os móveis
em lenha e que o carpete fosse retirado de pelo menos um cômodo,
mas ainda fez "as ofertas mais licenciosas para a mulher da casa, como
238 I ADVENTISMO -- Origem e Impacto do Movimento Milerita

o último teste de consagração dela a Deus!" Tendo convencido a famí-


lia de que ele estava cheio do Espírito Santo, ficaram com medo de
expulsá-lo, uma vez que "levaria o Espírito Santo com ele, e a família
iria consequentemente para o infernol."24
No início de 1846, a comunidade de Springwater era chamada por
nomes como Casa da Fé e Casa do Juízo. Em maio, eles enviaram um
comunicado a Guilherme Miller, anunciando o que Deus, "que se assen-
ta [...] sobre seu trono", revelara a Houston. "Por meses, muitas vezes
a cada dia", dizia a carta, "recebemos mensagens de Deus, por meio
daqueles que são tomados em visões do espírito entre nós." Naquela
comunidade, a carta observava, "a carruagem de Deus" estava "avançan-
do com suas rodas de fogo ardente [...] consumindo definitivamente
todos os vestígios" da "velha natureza" deles.
O profeta condenou Miller por sua descrença. Após perceber que
Deus viria em poucos dias e que estava até então aperfeiçoando os
144 mil na "perfeição da beleza", Houston proclamou que cabia a Deus
"fazer de sua palavra um fogo e de Guilherme Miller lenha, para que o
fogo [consumisse] a madeira e a palha, e, tendo o Filho de Deus [em
1V1iller, fosse] salvo no dia da glória". 25
Em 1845, S. S. Snow também se uniu aos profetas. Nesse ano, ele
passou a se ver como o Mias que apareceria exatamente antes do ad
vento do Salvador. Seus partidários começaram a publicar o periódico
The True Day Star ['A verdadeira estrela do dial a fim de propagar suas
ideias. No primeiro exemplar, 50 seguidores assinaram uma declaração
afirmando que "Jesus é Rei, e Elias, seu mensageiro, está aqui", na pessoa
de Snow. "Corn toda a nossa alma", o testemunho diz,

acreditamos que nosso irmão tem sido levantado e consagra-


do pelo Espirito Santo como ministro da lei e dos profetas.
Que o bendito Espírito de Deus o guie na elevada e especial
obra que foi conferida a ele, de expor as Sagradas Escrituras
para a orientação infalível da comunidade de fé. 26

Um dos seguidores de Snow observou que devemos ser cuidado-


sos na forma como nos relacionamos com o mensageiro de Deus. "Se
o rejeitarmos, rejeitaremos aquele [Cristo] que o enviou." Curio-
samente, Snow relata que, em 1848, 25 pessoas que defendiam o
chamado dele três anos antes, rejeitaram "a verdade" e se tornaram
"inimigos dela" 27 Elas foram, sem dúvida, designadas para outro
A Ala Radical do Adventismo I 239

lugar que não o Céu no Book of Judgment Delivered to Israel by Elijah


the Messenger of the Everlasting Covenant ["0 livro do julgamento
entregue a Israel por Elias, o mensageiro do concerto eterno"], ao
lado de Miller, Himes, Litch, Storrs e todos aqueles que rejeitaram
a data de 22 de outubro.
Ainda em 1848, Snow exaltou sua função ao publicar A Procla-
mation to Ali People, Nations, Tongues, and Kings [Uma proclamação a
todos os povos, nações, línguas e reis"]. Uma parte do texto diz:

Por meio de um favor especial de Deus, em Jesus Cristo, meu


Pai, fui chamado e comissionado para ir ante a face do Senhor,
no espírito e poder de Elias, a fim de preparar o caminho
para sua descida do Céu. Assim, como seu primeiro-ministro,
ordeno que todos os reis, presidentes, magistrados e gover-
nadores, civis ou eclesiásticos, procedam à completa entrega
de todo poder e autoridade em minhas mãos, em nome do
vindouro rei Jesus.

Ele afirmava que se as nações falhassem em obedecei; seu decreto seria


cumprido por intermédio de "GUERRA, FOME, PESTILÊNCIA E DESTRUIÇÃO".
Ele assinou o documento COMO "SAMUEL SHEFFIELD SNOW, primeiro-mi-
nistro do REI JESUS."28
(DavUltu- diz ue Snow terminou sua vida como um loucojen-
quanto Clyde E. Hewitt declara que o "bispo" Snow serviu como pastor
de seus seguidores na "Igreja do Monte Sião", na cidade de Nova York, até
sua morte, em 188931'anto Arthur quanto Hewitt são estudiosos adven-
tistas. Nenhum dos escritores indica as fontes das informações; contudo,
é possível que esses dois desfechos possam ter sido complementares. 29
No início de 1845, as visões também eram comuns entre outros gru-
pos de adventistas da porta fechada. Um dos centros mais destacados era
o Maine, que teve pelo menos cinco profetas — quatro deles, mulheres. 3°
Josué V. Himes estava especialmente preocupado com o adventis-
mo extremista encontrado no grupo de Israel Dammon, em Portland,
Maine. Ele foi claro com Miller, em 27 de março de 1845: "As coisas
estão complicadas em Portland." Himes então passou a falar sobre
Dammon,•sua "esposa espiritual" e as visões dela. Poucos dias antes da
importante convenção dos adventistas moderados, em Albany, ele fez
questão de informar Miller de que "as coisas no Maine estavam indo
de mal a pior?" "A teologia inovadora" de Turner, "se é que pode ser
240 1 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

chamada de teologia", causou estragos no Maine e em outros lugares.


O dirigente aguardava a assembleia de Albany para ajudar a estabilizar
a causa adventista."
Retornaremos à assembleia de Albany no capítulo 13; mas, antes
disso, precisamos examinar mais uma aberração da porta fechada —
a tentação shaker.
A Tentação Shaker
À primeira vista, parece estranho que os adventistas mileritas, com
sua interpretação literal da Bíblia e da segunda vinda, pudessem ser
atraídos pelo shakerismo. Afinal, esse movimento acreditava que a
segunda vinda do espírito de Cristo havia ocorrido em sua profetisa
Ann Lee, em 1770. No entanto, era exatamente esse entendimento
que apelava a alguns da ala espiritualizadora do adventismo após o
desapontamento de outubro. Não era um passo muito grande para
esses rnileritas desorientados concluir que, talvez, os shakers estivessem
certos o tempo todo — Cristo tinha vindo em espírito."
Além disso, os shakers, com sua doutrina agradável, abriram os
braços para os adventistas que sentiram necessidade de fugir dos
enganos de um mundo hostil. Suas comunidades independentes ofe-
reciam aos mileritas desanimados uma aceitação que eles não mais
conseguiam encontrar na sociedade. Como Henry Bear descreveu,
esse acolhimento apelava a alguns de seus colegas crentes do adven-
to. "Venha e se una [...]. Sei que não pode haver felicidade estando
espalhados." Nas vilas dos shakers, eles encontravam tanto aceitação
quanto estabilidade num contexto que levava a sério as preocupações
com o segundo advento."
Outros aspectos do shakerismo que apelavam aos adventistas da
porta fechada eram o impulso restauracionista e a aceitação dos dons
carismáticos na igreja. O primeiro desses elementos era ilustrado pela
prática shaker da propriedade em comum, como no livro de Atos; o
segundo, ficou evidente no reavivamento carismático que ocorreu entre
eles na década de 1840.
O momento também era apropriado para as conversões adventistas
ao shakerismo. Começando em 1837, os shakers "experimentaram um
avivamento religioso convulsivo" que durou mais de uma década. Assim,
o desapontamento de 1844 ocorreu no auge desse reavivamento.
Possivelmente, foram os mileritas que proveram o maior fluxo de
novos adeptos desde o início do shakerismo, no fim dos anos 1700.
A Ala Radical do Adventismo 1 241

Michael Barkun lembra que "os shakers não precisavam se esforçar para
convencer os mileritas de que eles tinham necessidades espirituais; eles
simplesmente tinham de se abrir para os anseios de pessoas repentina-
mente privadas de seu sentido de valor pessoal"."
Talvez a maior prova de fé do shakerismo fosse sua doutrina do
celibato. De acordo com Ann Lee, a relação sexual por prazer foi o
pecado original no Éden. Assim como a transgressão estava relacionada
com o ato sexual, havia uma correlação entre justiça e celibato." Esse
ensino era o grande teste do movimento; ele separava os verdadeiros
crentes dos não sinceros — aqueles que estavam dispostos a desistir de
tudo por Cristo daqueles que não estavam. Os testes rigorosos, no en-
tanto, apelavam a muitos dos adventistas da porta fechada que haviam
se concentrado em inúmeras provas que supostamente distinguiam as
"virgens sábias" das "néscias".
O ideal do celibato não era desconhecido entre aqueles que aguar-
davam o Senhor retornar, apesar de esse conceito não estar geralmente
inserido no mesmo fundamento teológico, conforme ocorria no shake-
rismo. Por exemplo, Ellen Harmon e Tiago White "não haviam pensado
em casamento em nenhum momento futuro" porque criam que "a vinda
de Cristo estava próxima, às portas [...V)
'A maioria dos irmãos", escreveu White, "que acreditava como nós,
que o movimento do segundo advento era a obra de Deus, se posi-
cionava contra o casamento porque admitia que o tempo seria muito
breve" e que o matrimônio era uma negação da fé no advento. Por causa
dessa convicção muito difundida, alguns crentes ficaram surpresos com
o anúncio de que White e Harmon se casariam no fim do verão de
84 e , temendo que isso representasse falta de fé."
Aquela altura, outros crentes adventistas concluíram, à luz do con-
selho de Paulo aos coríntios, e em face da brevidade do tempo, que
mesmo os casados deveriam praticar o celibato até que a crise passas-
se. Para eles, a doutrina shaker não era nenhuma novidade nem algo
supreendente."
Antes de outubro de 1844, houve contatos entre mileritas e shakers.
Um palestrante milerita havia pregado à comunidade shaker de New
Lebanon, em 1842, afirmando que "Cristo faria sua segunda aparição"
em 1843, "e que este mundo seria consumido pelo fogo". O relato
shaker da reunião observa que eles ficariam felizes "ao saber que este
mundo seria queimado", pois criam que o mundo representava "a
luxúria da carne". Outro contato pré-desapontamento entre os dois
242 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

grupos religiosos foi o shaker/milerita que escreveu a Miller dizendo


que havia deixado seu corpo e voado pelo ar até que chegara ao Céu
a fim de se encontrar com Cristo. 38
Apesar do contato ocasional entre os dois movimentos antes de
outubro de 1844, a interação mais longa e significativa entre eles ocor-
reu em 1846 e 1847. Nesse período, os adventistas espiritualizadores
haviam esgotado sua persistente expectativa bem como suas novas teo-
rias, e o shakerismo parecia ser a resposta para os crentes desesperados.
O líder milerita mais importante a se tornar shaker foi(gch
Jacobs (apresentado anteriormente no tópico do celibato), quetávia
i erado a obra adventista no extremo oeste, a partir de Cincinnati, e
editado o Western Midnight Cry (mais tarde renomeado de Day Star).-

No inicio de janeiro de 1846, ele foi a Cleveland para convencer J. D.


Pickands de que o líder estava errado em sua crença de• que Cristo
tinha vindo espiritualmente e de que os santos já eram imortais. En-
tretanto, Jacobs falhou. Ele voltou para casa convertido às ideias de
Pickands. Em fevereiro, como vimos, ele também aderiu ao celibato. 39
Desse ponto em diante, Jacobs estava a um passo do shakerismo.
Em junho de 1846, o líder afirmou explicitamente ser a doutrina
shaker a essência de sua conversão. "Você encontrou salvação?",
perguntou ele.

Era o que todos procurávamos em 1843 e no outono de


1844. No décimo dia do sétimo mês, do último ano mencio-
nado, estávamos todos prontos para recebê-lo, se ele tivesse
vindo em nossa direção. George Storrs me falou que se sen-
tiu completamente morto para o mundo, como se houvesse
sido colocado num caixão — enterrado no solo, esperando a
ressurreição. Esse foi o sentimento de milhares, e também o
meu. Os laços terrenos foram tão completamente rompidos,
na época, como se nunca houvessem existido. Assim, espera-
mos, mas a salvação não veio. Pensamos que o problema era
todo externo: Triste equívoco! Era todo interno.40

Jacobs havia espiritualizado completamente sua escatologia.


Entretanto, ele não permaneceu com os shakers. O líder os con-
siderava apenas uma estação temporária em sua jornada espiritual.
Cerca de um ano depois, ele deixou o movimento, apesar de ainda
parecer estar em harmonia com sua teologia. Isaac Wirellcome conta
A Ala Radical do Adventisrno 1 243

que o problema de Jacobs era que "ele violava as regras e por isso foi
excluído" pelos shakers. O próprio Jacobs descreveu o fato de forma
bem mais pitoresca, afirmando que "preferia ir para o inferno com
Electra, sua esposa, do que viver entre os shakers sem ela"»
Após sair da vila dos shakers em Whitewater, Ohio, Jacobs se
tornou espiritualista. Isso não é estranho em face da trajetória de
sua mudança espiritual e do fato de que durante a década de 1840,
o shakerismo estava passando por um reavivamento espiritualista. 42
Vamos nos deparar novamente com Enoch Jacobs em 1891. Nessa
época, ele concluiu que nenhum sistema religioso existente "na Terra
[...] cumpre as exigências do universo". Além disso, ele sugeriu que
havia se tornado essencialmente um budista e panteísta. Ele orava
para o "Deus interior" e seus "espíritos amigos", que o procuravam "em
resposta à oração; algumas vezes em corpos materializados"."
Apesar de ter deixado os shakers em 1847, é provável que, en-
quanto esteve •com eles, Jacobs tenha sido um dos evangelistas mais
bem-sucedidos daquele movimento. Inicialmente, ele converteu 30 ou
40 pessoas de seu rebanho em Cincinnati para o shakerismo, e 24 deles
se mudaram para Whitewater em 27 de março de 1846. Eles estavam
seguindo o próprio Jacobs, que havia se transferido para a comunidade
por segurança, pois muitos em Cincinnati estavam revoltados contra ele
devido às famílias destruídas em virtude de seu novo ensinamento. Em
agosto de 1846, dos 144 residentes de Whitewater 80 eram ex-mileritas.
No total, ele ajudou a atrair cerca de 200 desafetos do adventismo para
o shakerismo, no oeste e centro-oeste americanos."
Além do evangelismo público, Jacobs também levou o Day Star -

para Whitewater. Dali, ele divulgou o shakerismo entre os adventistas


por todos os Estados Unidos. Em 1846 e 1847, as páginas do Day Star
-

mencionavam vários encontros entre shakers e mileritas em diversos


lugares dos estados do norte do país. Além disso, o periódico continha
muitos artigos shakeristas, apelando aos adventistas que deixassem
Babilônia e aceitassem a verdade."
tre outr onversos adventistas ao shakerismo estavamC
G
Peavey e Henry B. Bear. Este último teve um destaque especial porque
pub ico as memorias de sua experiência no milerismo enquanto estava
em Whitewater. Bear se mudou para o condado de Union, Indiana,
em junho de 1845, e logo foi influenciado por Jacobs, que, "na época,
parecia liderar a divulgação das ideias mais avançadas do movimento
do advento", por meio do Day Star
-
244 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

• A mudança de Bear para o shakerismo foi um processo lento. Pri-


meiro, ele se tornou convicto, pela segunda vez, de vender tudo o que
tinha e dar aos pobres, incluindo itens como camas, fogões, louças e, até
mesmo, a casa. Essa convicção, refletiu ele, "era bem incômoda". Após
cinco ou seis dias de agonia, ele seguiu sua consciência. Aliviado da
ansiedade e percebendo que estaria no reino, Bear passou "urna semana
rindo". Foi a "semana mais feliz" de sua vida, apesar de algumas pessoas
acharem que ele estava louco, como haviam dito em 1844.
O segundo passo de Bear em direção aos shakers foi assistir a uma
reunião em NVhitewater, da qual ele saiu um tanto desconfiado, pois eles
mantinham as casas e terras para uso comunitário. Esse pensamento
se alinhava à crença adotada por ele de que as posses não eram mais
necessárias.
No terceiro passo, Bear afirmou que Deus providencialmente fez
com que seu "dente doesse" como um sinal de que não deveria fazer
determinada viagem. Isso o levou a comparecer a uma reunião na qual
os adventistas foram encorajados a "prosseguir". Bear ficou impressio-
nado, pois muitos estavam dizendo: 'Volte [para os antigos caminhos
e crenças adventistas], você está se desviando, ficando louco, etc."
A palavra "prosseguir", escreveu ele, "me impressionou: aqui está uma
pessoa que fala como se entendesse nossa localização e também nosso
caminho à frente."
Após aquela experiência, Bear se ligou àqueles "adventistas que
[...] estavam se unindo aos shakers para se apossar do reino". Então,
ele obteve paz e pôde compreender sua jornada espiritual. "Tudo foi
lindo e harmonioso", escreveu ele.

Eu pude literalmente ver a estrada tortuosa; percorri a mon-


tanha sinuosa, subindo da planície para o topo, entrando
pelo portão arqueado na eterna planície superior - o reino
de Deus. Então, senti que a parte mais perigosa de minha
jornada havia acabado.

Sua esposa prontamente concordou com os sacrifícios do shakeris-


mo. Para ela, "eram boas-novas". Assim, eles se tornaram como "virgens
sábias [...] e entraram, enquanto outras virgens néscias foram comprar
mais óleo".
Entretanto, eles ainda tinham um pouco de orgulho. Na noite em
que se juntaram à comunidade shaker, Jacobs afirmou em uma reunião
A Ala Radical do Adventismo I 245

que se "ele tivesse a menor faísca de orgulho, ele se deitaria no chão e


sairia rolando". Isso despertou o sempre sensível Bear a um autoexame.
Ele escreveu:

Meus sentimentos logo me convenceram do orgulho inte-


rior, e tive a certeza de que precisava me deitar no chão e
rolar; tomei essa decisão e fiz isso. Os shakers presentes me
seguiram imediatamente, e também muitos dos adventis-
tas. Consequentemente, isso chegou até Enoch Jacobs, e ele
finalmente se deitou, mas seus movimentos, ainda desajei-
tados e artificiais, me convenceram de que ele, até aquele
momento, tinha um pouco de orgulho, mesmo que não esti-
vesse convencido disso.

Assim, escrevendo 27 anos mais tarde, ele teve a oportunidade de


esclarecer a apostasia de Jacobs do shakerismo em 1847. Quanto a
Bear, ele havia encontrado a segurança da qual precisava. Vivendo em
uma comunidade de crentes, ele não teria mais que sofrer perseguição
por causa de sua fé. 'Aqui nenhum espírito mau pode vir [...] para
enganar." Quanto ao adventismo, Bear afirma que frequentemente
observava: "Por nada no mundo eu desistiria de passar pela minha
experiência do advento; nem por nada no mundo gostaria de passar
por ela novamente." 46
Apesar de o shakerismo ter sido a experiência comunitária mais
popular adotada pelos mileritas que buscavam segurança, ela não foi a
única. Barkun descobriu pelo menos três comunidades adventistas que
começaram nas décadas de 1850 e 1860kym a delas guardava o sétimo
dia e praticava o vegetarianismo; outra "buscou estabelecer um retiro
em uma montanha, onde os 14 mil santos do livro de Apocalipse se
reuniriam para o juízo". Essas experiências não foram únicas na história
cristã; os monastérios na igreja medieval revelam algo semelhante. Além
disso, na primeira metade do século 19, americanos de todas as camadas
sociais vivenciaram muitas experiências com comunidades utópicas»
Além de comunidades independentes e do shakerismo, os ex-mileritas
foram atraídos para outras sociedades comunitárias. No lado oposto da
questão sexual do shakerismo, estava a comunidade Oneida, de John
Humphrey Noyes, com sua prática de casamento plural. Essencialmente,
em Oneida, as relações sexuais com o sexo oposto podiam ocorrer entre
todos os adultos, sob o planejamento de Noyes."
246 J ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

Em 1846, Noyes afirmou que os adventistas ouviam "a mesma voz


que ouvimos, que Deus está vindo ao mundo e o dia do juizo está perto;
mas, para eles, a voz não é clara o suficiente para salvá-los das ilusões
de sua imaginação". Para ser mais especifico, "a insensata doutrina de
Miller sobre a breve vinda de Cristo 'nas nuvens do céu' está baseada
naquela antiga ilusão da cristandade — a negação de que Ele já veio" no
tempo da igreja primitiva. No fim da década de 1840, alguns ex-mileritas
estavam começando a se unir à comunidade Oneida. 49

"Quem é Esse Nós'?"


Miller estava, no mínimo, chateado com a situação fanática que
começou a se desenvolver a partir de 1845. Em abril, ele escreveu
para Himes:

•Este é um tempo peculiar. A maior variedade de interpre-


tações extravagantes das Escrituras é agora apresentada por
• novas luminárias, que refletem seus raios de luz e calor em
todas as direções. Algumas delas são estrelas viajantes e ou-
tras projetam somente uma sombra. Estou muito aborrecido
• com tudo isso; mas, meu irmão querido, ternos de aprender
a ser pacientes. Se• Cristo vier nesta primavera, não precisa-
remos mais disso; e, se não vier, precisaremos muito mais.
• Estou preparado para o pior e espero pelo melhor?)

Infelizmente, para Miller, o tempo perdurou e ele testemunhou


algo bem diferente do "melhor" que esperava. Dezoito meses depois,
um Miller aflito escreveu:

A dor não acabou. Desde que você se foi, estou aflito, com
dor de cabeça, dor de dente, dor nos ossos e tristeza. Contudo,
minha tristeza aumenta quando penso a respeito daqueles
que um dia foram meus queridos irmãos e que, desde o de-
sapontamento, seguiram na direção de todos os tipos de fa-
natismo, e deixaram •a doutrina da aparição gloriosa de nosso
• grande Deus e Salvador Jesus Cristo» •

Miller não foi o único a ficar confuso e perturbado com a agitação


dos adventistas da chamada "porta fechada", no inicio de 1845. Himes
A Ala Radical do Adventismo 1 247

observou em maio que "o movimento do sétimo mês havia produzido


um espantoso mesmerismo". 52
Um relato ajuda a ilustrar essa questão. Certa vizinha de Miller, uma
de suas primeiras convertidas, recebia semanalmente dele as publica-
ções adventistas que ele havia acabado de ler. Numa semana, após dar
uma olhada em 16 periódicos, todos se apresentando como publicações
adventistas, mas a maioria defendendo posições contraditórias, ele
compartilhou os jornais com sua vizinha.
Logo ele recebeu uma mensagem urgente dela, pedindo-lhe que
a visitasse o mais• breve possível. Na sua chegada, ela começou a
questioná-lo:

-- Você leu todos esses jornais?


—Dei uma olhada neles.
—Mas todos são• periódicos adventistas?
• — Eles professam ser.
—Então, — ela disse — não sou mais adventista; vou pegar a
• antiga Bíblia, e ficar com ela.
-- Mas, — disse ele — nós não temos confiança em metade
do que está sendo defendido nestes jornais.
—Compreendo, — disse a senhora — e quem faz parte desse
nos,,-(

— Bem, — respondeu Miller — nós somos aqueles que não
participamos dessas coisas.
— Certo, mas eu quero saber quem está incluído nesse "nós".
— Veja, todos nós que permanecemos no terreno antigo.
—Mas isso não está dizendo quem é esse "nós". Quero
saber quem é esse "nós".
Bem [disse Miller, relatando a história], eu fiquei confuso
e não fui capaz de lhe dar qualquer informação sobre quem
somos nos . 53
)1

•Foi o dilema da identidade que forçou Himes, Miller e seus com-


panheiros a convocar uma assembleia a fim de definir uma posição
e apurar quem eram os que simpatizavam com as ideias deles. Essa
reunião tornou-se mais um momento decis o na história milerita. Ela
começou em Albany, Nova York, e 29 de abril de 1845, e se tornou
i o • o adventismo
um dos encontros mais importantes do s esenvo Vifire
pós-1844. A assembleia de Albany será o assunto do próximo capítulo.
248 1 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

Enquanto isso, precisamos dar uma última olhada na ala extremista


do milerismo. Os vários movimentos que surgiram a partir do adven-
tismo radical pós-1844 não resultaram em coisa alguma até o fim do
século 19. A maioria deles provavelmente desapareceu no final da
década de 1860. Devido à propensão de aderir a toda doutrina nova e
estranha, as várias correntes tendiam a tornar suas crenças "peculiares"
como provas que excluíam todos os demais adventistas que não acei-
tassem sua perspectiva. Assim, as outras ideias se tornavam Babilônias
que precisavam ser evitadas.
Essa tendência separatista finalmente os levou ao esquecimento, à
medida que vários periódicos que mantinham a unidade dos movimen-
tos dissidentes ficaram sem apoio. A maioria dos líderes e seguidores dos
grupos fanáticos acabou se unindo a outros "ismos" que praticavam novas
doutrinas interessantes. Assim, eles deixavam o adventismo ou se encontra-
vam mais alinhados com grupos mais estáveis. Como resultado, no século
21, não existe nenhuma seita extremista que tenha sobrevivido dentre
as que surgiram diretamente dos movimentos radicais de 1845 e 1846.
Se isso é verdade, alguns leitores podem estar se perguntando, por
que gastar tanto tempo examinando a ala extremista do milerismo?
E só por uma questão de curiosidade histórica? Definitivamente não.
Apesar de a curiosidade histórica ser, em si mesma, uma justificativa,
temos pelo menos duas razões adicionais para compreender o aspecto
radical do desenvolvimento do milerismo.
A primeira é que o espírito dos fanáticos continua vivo entre alguns
dos descendentes mais estáveis do milerismo. Como resultado, várias
formas do adventismo atual não somente abrigam aqueles que tendem
ao racionalismo frio e bíblico de Miller, mas também abriga elementos
que exemplificam as características da ala radical.
‘i Uma das lições da história da igreja é que os movimentos milena-
ristas tendem a atrair uma porção de extremistas que se empolgam
e que rapidamente identificam "novas verdades" secretas, declarando
aqueles que não concordam com eles como apóstatas e Babilônia.
Assim, uma compreensão do passado do adventismo pode ajudar as
pessoas a entender melhor o significado das tensões e de certos movi-
mentos no presente. n
A segunda razão, e uma das mais importantes, é que todos os outros
adventistas foram forçados a se identificar com algum lado. A questão
não estava ligada apenas à identificação, mas também ao afastamento
dos "fanáticos". Os extremistas tinham sua agenda.
A Ala Radical do Adventismo 1 249

O próximo passo na abordagem do desenvolvimento do adventismo


seria tratar dos elementos menos radicais no movimento. Havia duas
formas básicas de distanciamento e definição entre o fim de 1844 e
1850. Uma era o caminho dos adventistas de Albany; e, a outra, a
direção tomada pelos adventistas sabatistas. A seguir, falaremos sobre
o grupo de Albany.
CAPÍTULO 13
A Reação de
Albany

N a primavera de 1845, conforme os dias se passavam, o milerismo


se dividia mais e mais. Opiniões diferentes sobre a teoria do
sétimo mês, a porta fechada e o número de novas doutrinas que
proliferavam estavam devastando o movimento. Miada à crise doutrinária
veio a crise de comportamento que, em muitos casos, levou ao fanatismo.
Em março de 1845, a maior parte das iniciativas se encontrava de-
finitivamente nas mãos dos extremistas. O adventismo moderado, sob
a liderança de Himes, lutava desesperadamente para manter o controle
do movimento, mas os resultados demonstravam que esse grupo estava
perdendo. O fórum para o debate era o grande número de periódicos
adventistas: o Advent Herald e o MomingWatch, de Himes, enfrentavam
o crescente número de publicações que defendiam a ideia da porta
fechada. O Voice of Truth, de Joseph Marsh, parecia estar no centro
de tudo, aberto ao ensinamento da porta fechada, mas denunciando
regularmente os excessos de muitos dos periódicos radicais.
Os antagonistas haviam entrado em choque e as posições estavam
rapidamente se fixando. Foi nesse momento crucial que Himes avançou
para além das estratégias relacionadas com os periódicos para chegar ao
A Reação de ,klbany 1 251

segundo estágio no arsenal milerita/restauracionista — uma convenção


ou assembleia. Nesse contexto, Himes emitiu uma convocação pública
para uma assembleia em Albany, Nova York, em 29 de abril de 1845.

Antes de Albany
A convocação para a assembleia de Albany foi publicada primeira-
mente no Morning Watch de 20 de março. Ela destacava Miller como
um daqueles que faziam o convite. Explicitamente, esse chamado não
era destinado a todos os mileritas, mas somente àqueles "que ainda
mantinham a fé adventista original". Em outras palavras, os adventistas
da porta fechada e aqueles que haviam desenvolvido novas doutrinas
não foram convidados.
O propósito do encontro não era debater doutrinas controversas ou
responder a "perguntas de discussão questionável", mas: (1) "fortalecer
um ao outro na fé do advento iminente"; (2) "fazer urna consulta sobre
a melhor forma de realizar, unidos, a obra de confortar e preparar as
congregações do advento para a breve vinda do Senhor"; e (3) "unir
os esforços pela conversão e salvação de pecadores". O pedido foi por
unidade de ação. Cada congregação adventista foi convidada a enviar
um ou dois representantes.
A frase final do anúncio de Albany era bem significativa. Anunciava
que Miller faria apresentações na assembleia. Himes acreditava ser ab-
solutamente essencial para o sucesso das reuniões que Miller estivesse
presente e desse à trombeta do advento um som claro e inconfundível.'
Em 27 de março, Himes escreveu para Miller: "Tudo depende de
você estar lá [em Albany]". A fim de que o velho pregador chegasse a
tempo, Himes pediu que ele fizesse uma palestra em Albany na semana
anterior à assembleia. Miller teve a garantia de um "auditório lotado", e
isso "faria muito bem" a ele. Himes também prometeu "manter o 'He-
rald' e o Watch' em circulação até o encontro de Albany". É importante
destacar que ele ainda sugeriu que, se algo significativo não ocorresse
na assembleia, então seria necessário parar de publicar os periódicos.'
É impossível saber se essa sugestão foi baseada na realidade fi-
nanceira ou se foi uma tática para pressionar Miller, a fim de que ele
comparecesse. Diante do caos que havia tomado conta do adventismo
da época e das características pessoais de Himes, provavelmente ambos
os fatores fizeram parte desse contexto. O que sabemos é que, mesmo
com o sucesso da assembleia de Albany, os dois periódicos de Himes
252 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

foram combinados em um só, logo após as reuniões. Também sabemos


que Miller esteve presente.
Devemos observar que a data do encontro não foi acidental. Ela
era significativa por duas razões. Primeira, a reunião foi iniciada em 29
de abril, logo depois de 23 de março e 23 de abril de 1845, datas nas
quais muitos ainda esperavam o retorno do Senhor. Segunda, Himes
não convocou a conferência até convencer Miller de ir a público contra
a ideia da porta fechada e as doutrinas a ela relacionadas. Entretanto,
em abril, o jovem líder não podia esperar mais. Se o movimento do
advento deveria ser salvo de alguma forma, algo teria de ser feito.
Ao mesmo tempo em que o convite à assembleia excluía definitiva-
mente aqueles que criam na porta fechada e nas doutrinas relacionadas,
Himes e os organizadores esperavam atrair Marsh e seu Voice of Truth,
de Rochester, para a esfera de influência deles. Marsh e vários outros
líderes do oeste haviam sido convidados, mas ele tinha algumas reservas
acerca do encontro em Albany. Por um lado, ele ainda acreditava que
o Senhor retornaria antes de 23 de abril. Por outro, devido ao estado
de agitação do movimento, ele não considerava prudente reunir um
grande número de adventistas. Além disso, Marsh previa que algo sério
ocorreria nas reuniões de Albany: "O resultado inevitável será uma
assombrosa divisão."
Por trás dessas palavras estava a apreensão de que a assembleia seria
um passo, apesar de pequeno, em direção à criação de uma denomi-
nação. Marsh tinha medo de estabelecer qualquer autoridade, além da
Palavra de Deus.'
Esse temor parece ter se confirmado por meio de um entendimento
correto da mentalidade de Hirnes. Afinal, periódicos e assembleias não
haviam formado a estrutura organizacional da Conexão Cristã, denomi-
nação à qual ele e Marsh haviam pertencido? Himes estava trabalhando
da melhor maneira que sabia para pôr ordem no caos. A alternativa à
organização era perder o controle do movimento para os grupos extre-
mistas. Um Himes ainda agressivo estava longe daquela solução. Ainda
com 40 anos, ele tinha mais 50 à frente para lutar nas batalhas do Senhor.

Albany
A importante assembleia de Albany começou em 29 de abril com
hinos e uma oração feita por Guilherme Miller. No auditório estavam
líderes adventistas importantes como J. V. Himes, Elon Galusha, Josias
A Reação de Albany 1 253

Litch e Sylvester Bliss. Contudo, aqueles que não compareceram cha-


maram a atenção exatamente por causa de sua ausência. Pertenciam
a esse último grupo líderes como George Storrs, José Bates, Joseph
Turner, S. S. Snow e Joseph Marsh. A ausência de Marsh provaria ser
notadamente problemática para os adventistas de Albany. Sua voz era
influente e tinha o potencial de atrair muitos crentes comuns para
aquele encontro.
Em Address to the Brethren Scattered Abroad ['Aos irmãos disper-
sos"], Miller estabeleceu o tom das reuniões de Albany. Após pedir
paciência, amor e demência, à luz do "estado presente de nossa fé e
esperança", ele sugeriu: "Dentre as muitas exposições das Escrituras
que estão diariamente sendo apresentadas a nós, algumas, pelo menos,
devem estar erradas." Além disso, "muitas delas são tão fracas e tolas
que lançam opróbrio sobre o Livro Bendito, confundem a mente do
pesquisador da verdade e dividem os filhos de Deus".
Após identificar os problemas de forma geral, Miller deu alguns
conselhos específicos aos crentes. Ele os exortou a evitar contato com
"

qualquer pessoa cujo objetivo" fosse obter seguidores; permanecer


sempre ao lado da lâmpada da Palavra de Deus, visto que alguns dos
irmãos estavam caminhando "de acordo com as faíscas produzidas por
eles mesmos"; não aceitar argumentos• externos, mas adotar apenas a
Bíblia como fundamento da fé; e fugir daqueles que criticam os pio-
neiros da mensagem.
Miller conduziu sua mensagem ao clímax oferecendo duas suges-
tões. Em primeiro lugar, ele sugeriu que o amor entre os irmãos fosse o
verdadeiro "teste" do amor de alguém por Cristo; e, em segundo lugar,
que os irmãos fariam bem se gastassem menos tempo escrevendo e
dedicassem mais tempo estudando a Bíblia. Assim, seria melhor se as
teorias fossem submetidas à análise "de algum amigo sensato", antes de
ser apresentadas ao público. "Chegamos", afirmou ele, "a um momento
tanto de profundo interesse quanto de perigo."
A assembleia de Albany seguiu a linha do discurso principal de Mil-
ler Os delegados realizaram três tarefas principais. Primeiramente, "em
vista de muitas opiniões conflitantes, ideias não bíblicas que levaram a
práticas impróprias e tristes divisões causadas por alguns que professam
ser adventistas", foi estabelecida uma plataforma doutrinária de dez
pontos que destacavam itens relacionados ao advento e à salvação.
Esse conjunto de crenças não foi diferente dos anteriores a 1844,
com a exceção de que a declaração de Albany não fazia menção ao
254 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

elemento de tempo. Como era de se esperar, ela não tratava das dou-
trinas controversas que dividiam o adventismo, nem incluía qualquer
afirmação sobre o movimento do sétimo mês.
A segunda grande realização da assembleia de Albany foi a apresentação
de um plano de ação para proclamar a mensagem ao mundo, à medida
que o adventisrno continuava buscando novos conversos para suas crenças.
A fim de alcançar esse propósito, a conferência recomendou aos adventistas
que dirigissem reuniões evangelisticas, distribuíssem literatura e conduzissem
escolas dominicais e classes bíblicas. O estímulo para o maior empenho na
evangelização foi uma rejeição definitiva à doutrina da porta fechada.
A terceira importante tarefa das reuniões de Albany compunha-se de
uma série de resoluções. Uma delas rejeitava a doutrina pós-milenarista
"antibiblica" de que o mundo seria convertido a Deus. Outra negava
a restauração dos judeus como nação escolhida "tanto antes quanto
depois do segundo advento de Cristo".
A resolução seguinte foi dirigida àqueles adventistas fanáticos pelos
quais "não temos simpatia nem desenvolvemos comunhão com eles",
por causa de suas "práticas impróprias". Foi resolvido que os fiéis não
deveriam se relacionar com qualquer pessoa que tivesse criado novos
testes como condição de salvação, além da aceitação de Cristo e "uma
busca e um preparo para sua vinda".
A decisão incluía separar-se, em termos de comunhão, daqueles
crentes envolvidos em "lava-pés promíscuos", no uso do beijo como
"rito religioso", na prática de "assentar-se no chão como um ato de
humildade voluntária, rapar a cabeça para se humilhar e agir com a
compreensão de uma criança". Esses ensinamentos foram declarados
não bíblicos e também subversivos em relação à pureza e à moralidade.
A última resolução sugeria que alguns crentes fossem encorajados
a se envolver no ministério evangélico. Embora essa sugestão pareça
ser de pouca relevância, quando combinada com os outros elementos
no relatório do encontro, pode-se ver que Albany preparou, de fato, o
terreno para a formação de uma organização eclesiástica- O primeiro
passo foi o exame e a ordenação de cinco pastores, na assembleia.
O segundo foi unia declaração sobre a ordem na igreja, seguindo as
orientações do "Novo Testamento". "Consideramos", diz o relatório,

qualquer congregação de crentes que se reúna habitual-


mente para a adoração a Deus e que siga a devida observân-
cia das ordenanças evangélicas como uma igreja de Crista
A Reação de Albany 1 255

Dessa forma, é um organismo independente, somente responsá-


vel perante o grande Cabeça da Igreja. Recomendamos a todos
um exame cuidadoso das Escrituras e a adoção dos princípios
bíblicos de reunião e ordem, a fim de que possam desfrutar as
vantagens dessa relação eclesiástica que Cristo instituiu.'

O efeito dessa declaração foi autorizar uma forma congregacional


de governo eclesiástico semelhante à dos batistas e conexionistas, aos
quais Miller e Himes respectivamente pertenciam. Assim, Albany
representa a formação, ou pelo menos a autorização para a formação,
da primeira igreja "adventista". O que Miller antes havia procurado
evitar estava agora acontecendo com sua aparente aprovação. A auto-
preservação do adventismo moderado forçou isso.
De acordo com David Arthur, a assembleia de Albany produziu
quatro resultados principais. Primeiro, ela identificou, unificou e for-
taleceu os adventistas moderados na defesa da fé original do advento.
Segundo, ela levou vários pregadores a rejeitar as novas ideias e retornar
à liderança do movimento. Entre os "conversos" estavam Apollos Hale,
W. S. Campbell e E G. Brown. Terceiro, ela proporcionou o desen-
volvimento de uma liderança elitista, que tendia a incluir os pastores
mais instruídos. Quarto, ela tornou mais evidente a divisão entre os
adventistas. A partir desse momento, um adventista pertencia à facção
de Albany ou aos seus opositores.€
Miller retornou do encontro feliz por poder falar quem eram eles
àquela "senhora" que lhe havia perguntado "quem somos nós". Após ler
os relatórios da assembleia, ela lhe informou: "Descobri quem somos
nós; e continuarei sendo uma adventista, apoiando o velho barco."'
Ao narrar essa história em Boston, em maio, Miller agradeceu à
liderança do adventisrno moderado por contar ao mundo "quem são
vocês". Ele prometeu apoio àqueles que aprovassem as "decisões da-
quela assembleia". 8

Imediatamente após Albany


Para manter e expandir o momento iniciado em Albany, em maio,
Himes e seus colegas realizaram assembleias nas cidades de Nova York,
Filadélfia, Boston e Baltimore. 9 Cada encontro tinha o propósito de
fortalecer aqueles que pregavam "a fé original do advento", conforme
havia sido definido naquela importante reunião.
256 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

As conferências também reafirmavam as posições tomadas em


Albany. Havia, no entanto, dois pontos de esclarecimento que devem
ser observados. Primeiro, na assembleia de Nova York, os adventistas
defenderam uma atitude contrária aos dons carismáticos.
Eles declararam essa posição por meio do seguinte voto: "Resolvido
que não acreditamos em novas mensagens, visões, sonhos, línguas,
milagres, dons extraordinários, revelações, impressões, discernimento
de espíritos ou ensinamentos, etc., que não estejam de acordo com a
pura Palavra de Deus." À luz do fanatismo que ocorria na época entre
os adventistas da porta fechada, não é difícil entender o que provocou
essa resolução. Outra decisão similar foi aprovada no meio da crise de
Starkweather, em maio de 1843. 10
O segundo esclarecimento importante foi apresentado na última
das assembleias ratificadoras, em Boston, no fim de maio. Naquele
período, Marsh e outros haviam se posicionado contra as implicações
da formação de uma igreja, conforme as decisões de Albany. Como
resultado, os irmãos em Boston acharam necessário retirar a ênfase
nesse aspecto. Eles declararam:

Resolvido que não consideramos a expressão de sentimen-


to ou princípios de Ação Associada, adotados pela assem-
bleia de Albany, como um teste de caráter cristão ou algo
que tenha a ver com a organização eclesiástica, mas me-
ramente como uma desaprovação de práticas e sentimen-
tos errôneos que nos são atribuídos e uma declaração das
ideias que apreciamos em relação à promoção da causa
com a qual cooperamos."

Essa recusa quanto a Albany ter "algo a ver com a organização ecle-
siástica", no entanto, não mudou o fato de os delegados da assembleia
terem optado por uma estrutura congregacionalista, examinado e or-
denado homens ao ministério e excluído aqueles que não concordavam
com eles a respeito da ideia da porta fechada e de questões doutrinárias
a ela relacionadas.
A resolução de Boston não tinha a intenção de atenuar a linha dura
contra os extremistas, mas certamente esperava diminuir os temo-
res de Marsh e outros como ele. Assim, os adventistas moderados de
Albany esperavam trazê-los para seu lado na luta pelo poder, no fim
da primavera de 1845.
A Reação de Albany 1 257

David Rowe parece estar correto quando afirma que "a assembleia de
Albany não criou uma organização adventista, porém deu foi iria e direção
a um corpo já existente". Além disso, ele afirma que o movimento "assegu-
rava que o segundo advento sobreviveria". Desse modo, ao caminhar em
direção à organização, Albany demonstrou evidências de que o adventismo
havia se rendido, em relação a seu ensino do segundo advento imediato, e
estava aceitando uma "permanência prolongada" neste mundo. 0
Foram essas implicações que Marsh previu. Corno resultado, o líder
reagiu à assembleia de Albany com vigor. No principio, Marsh, como
já observamos, pensava que Cristo viria antes da reunião e, por isso,
ela não ocorreria. Entretanto, mesmo com sua expectativa frustrada,
ele não fez planos de ir a Albany. Ao contrário, no Voice of Truth, em
7 de maio, ele sugeriu que estivera muito ocupado para comparecer à
conferência, deixando claras as suas prioridades.
Ainda• mais interessante é o trecho de um editorial publicado na
mesma página, intitulado "Give Us a King" ["Dá nos um rei"]. Nesse
-

texto, Marsh apresentou não somente a apostasia do antigo Israel,


mas também sugeriu que cristãos separatistas que formaram seitas no
passado saíram da "mãe das meretrizes" e se tornaram como sua geni-
tora. Ele enalteceu os adventistas por atender ao chamado "SAI DELA".
Então, os exortou a não "voltar aos seus templos contaminados, nem a
construir um próprio, de acordo com os padrões dela". 13
Assim, mesmo antes de Marsh ter recebido os relatórios de
Albany, ele já estava dando sua opinião. Sua ausência no encontro não
foi acidental. Tratava-se de uma escolha consciente, dentro da lógica
de George Storrs, que havia pregado que "nenhuma igreja pode ser
estabelecida pela invenção humana que não se torne Babilônia, no
momento em que é organizada"»
Embora os adventistas de Albany esperassem enfrentar o argumento
da "filha da meretriz" de S. S. Snow, Enoch Jacobs, Joseph Turner, Emily
Clemons e outros, eles não esperavam isso de Marsh, que em maio
havia se distanciado de alguns de seus conceitos iniciais em direção a
novas doutrinas relacionadas com a porta fechada. Por isso, alguns dos
lideres do movimento ficaram surpresos quando leram a critica que
ele publicou na edição de •21 de maio do Voice of Truth.
Marsh começou sua avaliação do relatório de Albany de uma manei-
ra bem afirmativa. Ele elogiou a assembleia por encorajar "certo grau"
de ordem na "família da fé" e sugeriu que tanto o encontro quanto seu
relatório tinham potencial muito positivo.
258 j ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Após essas considerações afirmativas, Marsh se voltou para relatar


seus "temores". Em resumo, ele encontrou muitas coisas em Albany em
desarmonia com a Bíblia. Suas extensas objeções eram quatro. Em pri-
meiro lugar, ele se opôs ao fato de tornarem o nome "adventista" para se
identificar. Todos os nomes além de "IGREJA DE DEUS" eram "não bíblicos
e anticristãos, e deveriam ser rejeitados por todos os filhos de Deus".
Na sequência, Marsh viu a declaração de crenças da assembleia
como a formação de um credo — uma das raizes do mal na história
cristã. Esse ponto tocou o centro das preocupações de um grande nú-
mero de pessoas que temiam isso. Em terceiro lugar, Marsh declarou
que era errado para um corpo religioso decidir que certas ideias eram
verdadeiras e outras falsas. A verdadeira fé, e não as resoluções, seria a
melhor resposta ao fanatismo e à heresia.
Por último, Marsh se opôs às decisões da assembleia de Albany por-
que, de forma geral, elas indicaram "a tendência de formar uma nova
denominação, sob um nome sectarista, em vez de seguir a ordem do
Novo Testamento sobre a designação ali dada à igreja verdadeira". Além
disso, a conferência parecia estabelecer planos para o futuro, "quando
professamos estar aguardando sua vinda a cada hora"."
Himes ficou furioso quando descobriu a direção em que Marsh es-
tava indo. "Marsh [...] não ficou em casa sem razão", o organizador de
Albany desabafou em uma carta a Miller, no início de maio. "Ele está
determinado a levar as coisas sem limites — ou para que o apoiem, e não
à causa mútua ou geral". A guerra de Marsh contra os credos, sugeriu
Himes, "teve a intenção de atacar o que ele achava que deveríamos
fazer em Albany [...]. Ele teve uma boa colheita [de simpatizantes]
devido ao Herald e ao Watch, e agora ele busca um outra, 'lamentando'
contra os credos, dependência, etc.""
O texto de Marsh sobre Albany evocou uma onda de defesas, mas a
resposta mais extensa e significativa à crítica veio de Guilherme Miller.
Em 27 de maio, ele respondeu a Marsh ponto por ponto. Miller não tinha
problema com o nome "adventista", desde que se referisse a um grupo
de crentes no advento; entretanto, ele não desejava associar esse nome
ou nenhum outro a uma igreja. Quanto à acusação de estabelecimento
de um credo, Miller respondeu que um credo é simplesmente o que
uma pessoa crê. Dessa forma, não havia problema algum em descrevê-lo.
Em relação à queixa de Marsh de que a assembleia recomendou
a organização, Miller observou que eles simplesmente sugeriram
que o assunto fosse estudado a partir da Bíblia. Nesse ponto, parece que
A Reação de Albany 1 259

o velho pregador ainda não havia reconhecido todas as implicações de


tudo o que ocorrera em Albany.
Quando Miller atentou para a acusação de Marsh de que eles to-
maram "decisões" em Albany, ele ficou claramente impaciente. "Este
é verdadeiramente um grande pecado", ironizou ele. Sobre o ponto
final de Marsh — Albany parecia "preparar algo para o futuro" — Miller
se recusou a comentar.
Concluindo, Miller afirmou que estava satisfeito por perceber que
tantos crentes acharam que as decisões de Albany proviam uma âncora
para sua fé. Os adventistas estavam confusos e precisavam de direção.
'Deve ser evidente", escreveu ele,

que a não ser que saiamos de BABILÔNIA para aquilo que temos
sido impelidos, Deus não nos abençoará. A pergunta então
chega ao coração de cada um: continuaremos na anarquia na
qual estamos ou tomaremos medidas evangélicas para restau-
rar a ordem evangélica, a fim de que na vinda do Mestre pos-
samos ser aprovados por ele? Deve ser evidente a todos que
sem união não podemos fazer nada; e se não há "verdades im-
portantes" nas quais estejamos unidos, todos verão que não há
unidade entre nós — "andarão dois juntos, se não houver entre
eles acordo?" [...]. Toda união consiste no sacrifício de predis-
posições individuais pelo bem comum. Portanto, aqueles que
amam a paz de Sião, mais do que sua opinião particular, serão
incentivados a se unir. Aqueles que amam a si mesmos, mais
do que o bem geral, lutarão pelos seus objetivos egoístas [...].
A união que prevaleceu na assembleia de Albany foi o que
deveria caracterizar sempre os filhos de Deus. 17

Não havia dúvida sobre isso. Miller acreditava que Albany havia
sido algo bom. Em seu desejo de escapar da confusão e da desordem,
ele gradualmente havia se alinhado com o que Marsh e seus amigos
viam como uma seita ordenada e opressiva à maneira de Babilónia.' 8

De Albany à Morte de Miller


Os anos após Albany não foram fáceis, enquanto os adventistas mo-
derados tateavam, lutando com o problema do que significava existir
em um mundo que teimosamente se recusava a chegar ao fim.
260 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

A assembleia de Albany resolveu pelo menos uma questão na co-


munidade adventista. Ela separou de forma permanente o grupo dos
fanáticos e da porta fechada do grupo moderado de Albany. Isso não
significa que os adventistas da porta fechada desapareceram do meio
dos moderados de um dia para o outro. Entretanto, implicou uma se-
paração gradativa, durante os anos seguintes. No fim de 1846, muito
do elemento fanático havia se consumido, enquanto outros extremistas
estavam optando pelos shakers, entre outros movimentos.
A segmentação parecia estar bem avançada em novembro de
1846. Miller escreveu naquele mês sobre uma viagem de sete semanas
que fizera por Vermont e pelo Canadá. "O fanatismo", relatou ele, "que
envolve discernimento de espíritos, revelações particulares, acusações,
etc., está quase extinto entre as congregações adventistas que visitei."
É importante observar que ele não sugeriu que o fanatismo estivesse
Completamente eliminado, mas que ele havia visivelmente diminuído
nas congregações relacionadas com Albany -, as quais ele havia visitado.
O fermento de assembleia estava cumprindo sua função.' 9
Mas, enquanto Albany havia causado um grau progressivo de se-
paração entre os adventistas mais radicais e os moderados, não havia
criado uma ruptura significativa entre estes últimos, como Marsh e
outros contrários a qualquer forma de organização. Um dos resultados
da influência de Marsh foi a incapacidade dos adventistas de Albany
em se organizarem de forma eficaz no fim da década de 1840.
Outro fator que precisa ser levado em consideração, entre 1845 e
o fim de 1849, é a presença de Miller. Apesar de ele continuar se po-
sicionando contra decisões que se parecessem em demasia com uma
organização, ele apoiava a boa ordem na obra de Deus. Miller descon-
fiava da necessidade de sistematizar demais o movimento porque, até
sua morte, ele continuou acreditando na iminente vinda de Cristo. Ele
nunca se afastou completamente da ideia de que a definição da data,
sendo fundamentada em dados humanos, pudesse estar errada apenas
por uns poucos anos.
Contudo, com o passar do tempo, no fim da década de 1840, os
líderes mais jovens do adventismo de Albany foram mais ou menos
forçados a lidar com a realidade de certas questões importantes. Dois
desses desafios eram os projetos missionários e a necessidade de alguma
forma de estrutura organizacional para facilitar essas atividades.
Entre 1845 e 1847, algo destacado pelos adventistas de Albany era
o fato de que estavam ganhando conversos que não haviam ouvido a
A Reação de Albany 1 261

mensagem do segundo advento antes de outubro de 1844. Eles viam


essas conversões como a confirmação empírica de que o ensinamento da
porta fechada ou fim do tempo da graça não era válido. Assim, uma das
ênfases dos moderados era a necessidade "de continuar, em obediência
à grande comissão, pregando o evangelho".
Logo, alguns ligaram esse imperativo a Apocalipse 10, que viam
como a experiência do povo do advento. Eles "comeram" o livrinho
de Daniel e o acharam "doce" na boca ao aguardarem o advento, mas
amargo" no estômago quando Cristo não retornou. Entretanto, Luther
Boutelle observou, de acordo com essa profecia, que as pessoas da ex-
periência doce/amarga deviam "profetizar novamente perante muitos
povos, nações e línguas e reis". 2°
Em resposta as suas convicções, os pastores de Albany continuaram
seus empreendimentos editoriais, bem como reativaram a "grande ten-
da", à medida que seus palestrantes retornaram à trilha evangelística."
Eles não apenas trabalharam nos Estados Unidos, como também, pela
primeira vez, começaram a enviar missionários a outros países. Uma
dessas nações foi a Grã-Bretanha. Mencionamos anteriormente que
Himes e Litch quiseram visitar os mileritas britânicos em 1844, mas
essa missão fora cancelada quando eles aceitaram a mensagem do sétimo
mês. Esse sonho postergado se tornou uma realidade no verão de 1846.
Em 1.9 de junho, Himes embarcou para a Grã-Bretanha com F. G.
Brown e Robert Hutchinson. Ele tinha a intenção de realizar conferên-
cias, "distribuir literatura", estabelecer uma sede para as publicações e
iniciar um periódico. Os norte-americanos pregaram em várias partes
da Inglaterra, Escócia e Irlanda. Himes também iniciou o European
Advent Herald ['Arauto europeu do adventol .
Apesar de ter alcançado um grau considerável de sucesso, "essa
missão especial foi encerrada em 1847, pois não havia mais homens
e recursos para efetivar uma organização a fim de continuar a obra
de maneira eficiente". Contudo, a obra adventista na Grã-Bretanha
prosseguiu, novamente, sob liderança local."
Os adventistas de Albany não enviaram outro missionário ao Velho
Mundo até 1865, quando subsidiaram M. B. Czechowski. Entretanto,
seu envio tornou-se um grande desapontamento quando descobriram
que ele havia se tornado um adventista sabatista e, portanto, havia
"deixado de ser útil", de acordo com o• entendimento deles."
Os interesses iniciais de Himes quanto às reformas ressurgiram na
Inglaterra. Ele compareceu à Convenção Mundial sobre Temperança
262 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

assim como à Aliança Evangélica, que esperava formar uma união


entre os organismos protestantes. Foi especialmente na reunião da
Aliança que o líder deixou sua marca como um reformador agressiva
Ele tomou a iniciativa de discutir a exclusão dos senhores de escravos
do rol de membros com base no argumento de que eles corromperiam
a organização, uma vez que nada podia tocar a escravidão "sem ser
corrompido".
A defesa do antiescravismo de Himes provou ser impopular num
encontro organizado para promover a unidade. Seguindo o discurso
dele, o presidente sugeriu que eles deviam "reconhecer a bondade de
Deus, em oferecer sua graça" para ajudar os delegados a permanecer
em silêncio diante de tal ataque?'
Por outro lado, o relatório da reunião fez com que William Lloyd
Garrison se alegrasse de que pelo menos "uma voz do outro lado do
Atlântico fosse ouvida" sobre a questão. 25 Naturalmente, a reputação de
Himes como milerita certamente não colaborou para sua aceitação entre
os delegados da Aliança.
A missão britânica não foi a única realizada pelos adventistas de
Albany em 1846. O pastor L. D. Mansfield e sua esposa foram enviados
às índias Ocidentais no fim do ano. Mas, em 1849, o casal estava de
volta aos Estados Unidos, devido à falta de suporte financeiro. 26
O sentido da necessidade de se pregar o segundo advento, tanto em
casa quanto em países estrangeiros, logo forçou os líderes de Albany
a dar novos passos em direção à organização. Afinal, para a missão ser
bem-sucedida, deveria haver uma de forma de lhe dar uma direção,
reunir fundos e enviar obreiros. 27
Esse contexto levou à proposta, em 1847, de formar um 'Advent
Horne Mission" ["Missão adventistal Esse plano, como era de se espe-
rar, despertou oposição, pois exigia uma organização. O Advent Herdei
defendeu a ideia, porque, de outro modo, eles estariam consentindo
It
em viver em anarquia". Assim, "como igrejas do Senhor Jesus Cristo,
é nosso dever 'colocar as coisas em ordem', escolher os oficiais bíbli-
cos, praticar as ordenanças e a disciplina da casa de Deus e apoiar um
ministério puro e fiel entre nós".
O editorial continuou falando insistentemente daqueles que "prefe-
ririam nos ver vivendo em confusão e discórdia, até que `destruíssemos
uns aos outros'." Poucos meses mais tarde, o Herald relatou que as mis
sões nacionais e estrangeiras ligadas a ele "só poderiam ser sustentadas
• -E Por [... ] esforço unido". 28
A Reação de Albany 1 263

Pela força dos eventos, os adventistas de Albany começaram a fun-


cionar como uma denominação, apesar de muitos continuarem negando
essa realidade. Mas nem todos faziam isso. Em 1849, Litch, em uma
obra de referência geral sobre as religiões americanas, apresentou os
adventistas de Albany como um organismo religioso com 15 a 20 mil
membros nos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Escócia e índias
Ocidentais. Além desses números, informou ele, havia também muitos
simpatizantes que permaneceram em suas igrejas. Por outro lado, Litch
se recusou a incluir aqueles "fanáticos e impostores" que atraíram "dis-
cípulos após eles" para suas "doutrinas e práticas fanáticas". 29
O que ele não sabia na época é que, após a morte de Miller, o ad-
ventismo de Albany experimentaria mais mudanças radicais. Na década
seguinte, os adventistas moderados contenderiam uns com os outros e
finalmente se dividiriam em várias denominações.
Em seus últimos anos, Miller se manteve fiel, porém frágil. Entre
1846 e 1849, ele passou por um período de rápido declínio físico. Con-
tudo sua mente ainda estava alerta. Ele continuava pregando, quando
estava bem, apesar de perceber que seu corpo logo estaria "sob os
torrões frios do vale". 30
Até sua morte, Miller lamentou o dia em que o chamado para "sair
de Babilônia" fora emitido. Aquilo havia não somente iniciado uma
"cruzada profana", como também tinha "atraído [...] homens de sangue,
em vez de homens de paz" para o meio adventista. Ele sempre entendeu
que a sequência de eventos teve a ver, em grande parte, com aquele
desenvolvimento. À sua maneira, o velho pregador estava buscando
algo em que colocar a culpa pela crise adventista. Em sua perspectiva,
aqueles que passaram tanto tempo criticando os outros eram "como
aves de rapina repugnantes, que vivem somente de carcaças e carne
podre". Miller abominava o sectarismo e se considerava um batista até
o dia de sua morte?'
Ele também continuou odiando as batalhas doutrinárias. Sua fé
sempre foi simples. Sua teologia estava centrada em dois elementos es-
senciais: a salvação em Cristo e o segundo advento. Em 15 de setembro
de 1847, Miller escreveu para Himes, reclamando daqueles adventistas
que discutiam incisivamente sobre aspectos não essenciais, como se a
"vida e a morte dependessem disso". Ele estava aflito com aqueles que
discutiam se teremos duas, quatro, seis ou mais asas na vida ressurreta.
Na mesma categoria, Miller classificava os debates sobre a aniquila-
ção dos ímpios. "Não tenho dúvidas sobre a razão por que o mundo nos
264 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

chama de insanos; pois tenho de confessar que parece insanidade para


mim ver homens religiosos, sinceros, gastarem seu tempo e talentos em
questões de tão pouca consequência para nós, aqui e futuramente.""
Ao se aproximar do fim de sua vida, Miller não tinha arrependi-
mentos sobre a doutrina do advento. "Se tenho algum arrependimen-
to", escreveu ele, em maio de 1847, "é porque tenho feito tão pouco
e porque tenho sido tão ineficiente." Um ano depois, ele desejava ser
jovem o suficiente para "sacudir o mundo de forma impressionante".
Entretanto, um de seus filhos acrescentou: "Essa sacudida está indo
muito bem, mesmo sem a força do idoso cavalheiro." 33
Em 1848, Miller encontrava-se praticamente cego. Isso foi desanima-
dor para ele, mas não devastador. "Seria realmente uma época triste e
melancólica para mim", escreveu para Himes, "se não fosse pela 'bendita
esperança' de ver Jesus em breve [...]. E apesar da minha visão natural
estar escura, a visão da minha mente está iluminada com a perspectiva
de um futuro brilhante e glorioso."34
A saúde de Miller se deteriorou rapidamente após abril de 1848.
Seu fim veio em dezembro do ano seguinte. Himes acompanhou os
últimos dias de seu amado mentor. O velho pregador estava frágil, mas
feliz com a presença do jovem. "O pastor Himes veio", sussurrou ele.
"Eu amo o pastor Himesi"
A manhã do dia 20 de dezembro de 1849 foi a sua última. Tes-
temunhas relatam que, em sua condição debilitada, Miller não mais
conversava. Mas, de tempos em tempos, ele emitia expressões como
"Poderoso para salvar?", "Oh, quero estar lá?", "Vitória! Vitória?", entre
outras. Ele faleceu pouco depois das três da tarde. 35
Guilherme Miller foi enterrado no cemitério de Low Hampton. Na
lápide de sua sepultura, encontra-se uma citação do profeta Daniel:
"No tempo determinado, virá o fim."
A vida de Miller foi mais frutífera do que a da maioria das pessoas.
Ele não somente influenciou o mundo durante sua vida, como também
deixou um legado aos crentes após sua morte.
Os crentes mais próximos de Miller, no momento de sua morte,
eram os adventistas de Albany, de modo geral, ainda não organizados.
Até o fim, sua influência havia sido maior do que muitos percebiam,
tanto em manter o movimento unido como em evitar que uma de-
nominação própria se formasse. No entanto, como o historiador do
advento Clyde Hewitt observa, "sua morte" removeu "uma barreira
genuína ao fracionamento, às disputas e à defesa de novas doutrinas e
A Reação de Albany 1 265

organizações estruturadas". As duas décadas seguintes testemunhariam


disputas internas e rachas desastrosos entre os crentes de Albany. 36

As Denominações de Albany
Na época da morte de Miller, a frente de batalha para os adventis-
tas de Albany não era mais a porta fechada, mas se a profecia havia se
cumprido, de fato, em 22 de outubro de 1844. As decisões da assembleia
e os anos que se seguiram progressivamente segregaram os adventistas
da porta fechada. Entre a conferência de Albany e a morte de Miller,
a principal disputa interna tinha sido sobre a questão da organização.
Isso continuaria durante a década de 1850, mas seria ofuscada por
outra ainda mais causadora de divisão — a questão da imortalidade»
Esse assunto desenvolvido por Storrs, em 1843, tornou-se proble-
mático em 1844. Naquele ano, Miller e Himes se pronunciaram contra
o condicionalismo e o aniquilacionismo. Além disso, Litch havia come-
çado a publicar The Anti Annihilationist para combater essa doutrina,
pois os principais periódicos mileritas não queriam se comprometer
ao lidar com o que eles consideravam uma questão menor.
Himes provavelmente expressou os sentimentos da maioria da li-
derança milerita principal quando escreveu:

• Ocupado como eu estava com a iminência do segundo ad-


vento, essas outras ideias pareciam ser uma questão secun-
dária, e de nenhuma importância especial. A vinda de Jesus
• estava próxima e era, na minha opinião, mais importante
preparar um povo para isso do que iluminá-lo quanto a es-
sas outras questões. Se as pessoas dormissem ou estivessem
conscientes na morte, fossem destruídas ou sofressem eter-
namente pelo pecado, eram perguntas de menor importância
• para mim. Deus faria a coisa certa; e logo iríamos saber tudo
sobre isso. A minha incumbência era proclamar a gloriosa
vinda e o glorioso reino de Cristo e preparar a mim mesmo e
aos outros para o encontro com o Juiz. 38

Essa continuou sendo a ordem de prioridades de Himes e do


Advent Herald durante o fim da década de 1840 e a década de 1850.
A orientação editorial era não fazer desse assunto um ponto de discór-
dia. Assim, ele era virtualmente ignoradó. O Herald escolheu enfatizar
266 1 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

o advento em prol da divulgação da "fé adventista original", conforme


fora definida em Albany. 39 Como resultado, o Herald encorajou as pes-
soas a buscar outros meios para publicar artigos a respeito da natureza
humana na morte.
O problema com essa orientação era que um número crescente
de adventistas de Albany acreditava que pregar a volta do Senhor não
era todo o conjunto da doutrina adventista. "A doutrina adventista",
afirmavam eles, "engloba todas as crenças que devem ser incluídas em
conexão com o segundo advento do Filho do Homem."
O surgimento do espiritualismo moderno, com as irmãs Fox, no
Estado de Nova York, no fim da década de 1840, ajudou a causa con-
dicionalista, pois permitiu a muitas pessoas ver melhor a importância
do assunto. Além disso, havia em circulação dezenas de milhares de
exemplares do Six Sermons, de Storrs. (Esse volume não estava afetando
somente os ex-adventistas mileritas; mas, por fim, converteria o fun-
dador das Testemunhas de Jeová para essa doutrina.")
A falta de sensibilidade dos editores do Advent Herald em relação
ao crescente sentimento condicionalista progressivamente armou o
palco para a divisão do grupo de Albany, no fim da década de 1840 e
começo de 1850. Essa insensibilidade já era desastrosa por si mesma,
mas a liderança do Herald complicou as coisas, afirma David Dean, ao
assumir ares superiores e condescendentes quanto aos condicionalistas.
Pior ainda para a unidade do adventismo de Albany, os editores do
Herald, geralmente cavalheiros, se tornaram vingativos e sarcásticos
em relação ao grupo.'"
Por estar afastados do Advent Herald, os condicionalistas (ou adven-
tistas "vida e morte") encontraram outros meios de divulgação para suas
posições no Bible Advocate ["Defensor da Bíblia"] e no Second Advent
Watchman ["0 sentinela do segundo advento"]. Assim, o número
progressivo de crentes no condicionalismo começou a buscar nesses
periódicos conselhos e direção.
As publicações condicionalistas logo foram auxiliadas por campais
anuais em Wilbraham, Massachusetts. Assim, os adventistas de Albany,
no início da década de 1850, estavam sendo divididos em dois grupos
em relação ao assunto do estado dos mortos, com Himes, Litch e o
Herald em um grupo, e os condicionalistas, no outro."
As coisas ficaram ainda mais complicadas quando outro grupo surgiu
entre os adventistas de Albany, no início da década de 1850, procla-
mando que Cristo retornaria em 1854. Esses "marcadores de data", sob
A Reação de Albany 1 267

a liderança de Miles Grant, logo estabeleceram seu próprio periódico,


o World's Crisis ["A crise mundial"], para divulgar suas ideias. O Crisis
não somente anunciou a data de 1854, como também defendeu o
condicionalismo. Após 1854, a publicação se tornou o principal órgão
de informação para os condicionalistas. Esse desenvolvimento foi par-
ticularmente importante, pois na época, o Second Advent Watchman,
de Joseph 'Turner, se aproximava de novas ideias estranhas»
O impasse que se desenrolava entre os dois grupos de Albany chegou
ao auge em maio de 1858, quando os adventistas do Herald formaram
a American Evangelical Adventist Conference ["Associação adventista
evangélica americana"] para dis(se-m e ar "o . • v -n • o original", como
definido em 1845, em Mbany. m novembro de 1858, os adventistas
evangélicos aprovaram uma constituição e elegeram um grupo de ofi-
ciais. Assim, eles acabaram formando uma denominação."
Esse passo deixou muitos dentre os adventistas seguidores das ideias
do Crisis horrorizados. Na linha de Storrs e Marsh, muitos deles eram
completamente contrários em relação a qualquer forma de organiza-
ção acima do nível local, enquanto outros se dispunham a aceitar uma
organização mínima, embora se opusessem à escolha ou "criação" de
um nome para a igreja. Outros ainda não estavam preocupados com
os males referentes à organização ou à escolha de um nome. 45
A organização dos adventistas evangélicos, no entanto, forçou os
adventistas do Crisis a reexaminar a questão da organização. De 2 de
junho a 8 de setembro, enquanto lidava com os prós e contras do as-
sunto, o World's Crisis publicou uma série de oito artigos sob o titulo:
"Somos um povo?"
Então, em 6 de outubro de 1858, o Crisis publicou uma declaração
emitida pela congregação de Nova York, de Storrs, como um modelo.
Para dizer o mínimo, esse documento era não denominacional. Difi-
cilmente também seria considerado congregacional, pois sua ênfase
principal era a que "todas as pessoas têm direitb inalienável a um
julgamento particular, nas questões de religião". Essa declaração não
deixava espaço nem para plataformas doutrinárias nem para disciplina
eclesiástica, exceto em casos de violação óbvia da lei de Deus e dos
direitos dos seres humanos»
Enquanto isso, os dois grupos de Albany continuaram a se distanciar
um do outro. Lideres agressivos, como Miles Grant, se empenharam
para aumentar a separação. Seu antagonismo em relação aos adven-
tistas evangélicos foi destacado num debate de quatro dias entre ele e
268 J ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Josias Litch, em novembro de 1858, sobre o tema "As Escrituras ensi-


nam a doutrina do eterno sofrimento consciente do ímpio?" Litch deu
sua contribuição ao confrontar os condicionalistas. Ao longo dos anos,
ele havia iniciado dois periódicos (The Anti Annihilationist e The Pneu-
matologist) para divulgar a doutrina do estado consciente dos mortos.'"
O debate logo foi publicado em forma de panfleto, enquanto acusa-
ções e contra-acusações iam e voltavam entre o Herald e o Crisis. Toda
a esperança de união entre os dois grupos foi extinta. 48
Gradativamente, os adventistas do Crisis se aproximaram da for-
malização de uma organização eclesiástica. Algumas semanas depois
da fundação dos adventistas evangélicos, W S. Campbell (um homem
pró-organização) contou aos leitores do Crisis:

É quase loucura — se esperamos a continuação de nossa exis-


tência — deixar tudo para que o Senhor faça: erguer e regu-
lamentar igrejas, enviar-lhes ministros, e o seu povo não ter
responsabilidades sobre isso? O Senhor tem todo o poder para
fazer tudo isso! Mais apropriadamente, ele nos tem colocado
para trabalhar em sua vinha; e isso parece adequado para nós. 49

Então, em julho de 1860, os principais ministros dos adventistas


do Crisis emitiram um chamado para uma assembleia em Providence,
Rhode Island, a fim de discutir "um sistema mais eficiente de ação,
pelo qual a causa da verdade" pudesse avançar, e, "especialmente, seguir
aqueles grandes princípios com os quais nós, como povo, somos mais
particularmente identificados". 'Apesar de não haver uniformidade
quanto a um plano de operações", diz a convocação, "temos sido per-
feitamente unânimes." Parte do problema que estavam enfrentando era
manter pastores no campo e apoiá-los em seu trabalho?'
O encontro de 25 de julho, em Providence, resultou na eleição
de um grupo de oficiais e na formação de The Christian Association
["Associação cristã".]. O propósito da entidade era melhorar a propaga-
ção da verdade bíblica e da piedade vital por meio (1) da formação de
uma "Sociedade de Publicações Cristãs", (2) da "organização de igrejas" e
(3) "do reconhecimento e apoio de um ministério evangélico eficiente')."
A primeira reunião anual da Associação foi realizada em 16 de outu-
bro do mesmo ano: Esse encontro levou ao estabelecimento da Sociedade
de Publicações Cristãs e à mudança do nome da associação-mãe para
Associação Cristã do Advento. Assim nasceu a denominação, apesar dos
A Reação de Albany 1 269

fortes sentimentos antidenominacionais a terem forçado a ser chamada


de "associação", em vez de "igreja". É desnecessário mencionar que,
apesar de os cristãos do advento estarem então organizados, a estrutura
administrativa era muito fraca. O mais recente historiador dessa deno-
minação afirma que a fraqueza nunca foi sm-rada e que ela foi um fator
importante para sua falta de crescimentkV
Infelizmente, os cristãos do advento não experimentaram paz em
seu grupo por muito tempo. Em 1861, o editor do World's Crisis co-
meçou a defender a doutrina de que os ímpios mortos não seriam res-
suscitados. Essa ideia era uma extensão do ensinamento condicionalista
de que os pecadores têm "vida somente em Cristo". Storrs também
apoiou essa posição, apesar de anteriormente ter sido contrário a ela.
Então, em 30 de agosto de 1863, os partidários desse conceito
estabeleceram sua própria "quase denominação", a União da Vida
e do Advento, tendo George Storrs como seu presidente. Logo eles
tinham seu próprio periódico, o Herald of Life and of the Coming
Kingdom ["Arauto da vida e da vinda do remoi, sob a editoria de
Storrs, a fim de divulgar suas opiniões. A existência separada da
União da Vida e do Advento se tornou permanente em razão de uma
medida tomada pelos cristãos do advento que, em 1864, declarava
que os membros da União não podiam participar da Associação
Cristã do Advento»
Uma quarta seita relacionada ao adventismo de Albany foi consti-
tuída pelos Adventistas da Era Porvir. Esse grupo, sob a liderança inicial
de Joseph Marsh e seu periódico Advent Harbinger and Bible Advocate
["Arauto do advento e defensor da sucessor do Voice of Truth,
ensinava que os judeus retornariam a Israel e que as pessoas teriam uma
segunda chance para ser salvas durante o milênio, ou na "Era por vir".
Essas posições eram mais próximas das ideias dos literalistas britânicos
pré-milenaristas do que do milerismo. Na verdade, esses conceitos
foram explicitamente rejeitados na primeira assembleia geral milerita
em 1840, e repetidamente depois dela»
Storrs, Henry Grew, J. B. Cook, O. R. L. Crosier e outros se juntaram
a Marsh nessas crenças, apesar de Storrs achar impossível trabalhar
com este último. Durante a década de 1850, houve grande interação
entre os crentes da Era Porvir e aqueles que estavam se alinhando com
os cristãos do advento. Entretanto, após a organização dos cristãos do
advento, os dois grupos se distanciaram, apesar de ambos aceitarem o
condicionalismo e a aniquilacionismo.
270 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

• Sob a influência de homens como Marsh, os Adventistas da Era


Porvir achavam quase impossível se organizar Houve, no entanto, várias
tentativas frustradas de organização na década de 1850. Um líder favo-
rável à sistematização concluiu: "Você pode considerar a organização
como uma manada de bisões tanto quanto uma corda feita de areia."
O individualismo extremo estava no centro desse grupo. Eles não
queriam organização nem em termos congregacionais. Cada pessoa
deveria ser sua suprema autoridade."
• Conquanto os Adventistas da Era Porvir experimentassem vários
esquemas organizacionais precários na década de 1850, eles não tiveram
uma organização nacional até 1888, quando eteelanelrYériS téricrCristo
esus" foi instituída na Filadélfia. Essa entidade, -fió enta- paro de
ncionar no ano seguinte. Uma organização de fato• não ocorreu até
1921, quando a "Igreja de Deus da Fé Abraâmica" foi estabelecida, com
sede em Oregon,
Retomaremos brevemente ao exame das denominações de Albany
no último capítulo. Mas, primeiramente, precisamos examinar o fim das
carreiras de Hinnes e Litch, e o surgimento dos adventistas sabatistas.
Josias Litch, talvez o maior expositor profético do milerismo, se uniu
aos adventistas evangélicos na época da organização deles, em 1858.
Durante os anos seguintes, ele nunca perdeu o interesse por profecias,
apesar de ter mudado sua forma de interpretá-las.
Em 1873, Litch publicou A Complete Harmony of Daniel and the
Apocalypse ["Uma harmonia completa entre Daniel e Apocalipse].
Nessa obra ele rejeitou uma das pedras fundamentais do sistema inter-
pretativo de Miller: o princípio de que em profecia, um dia equivale
a um ano. Litch também aderiu firmemente à posição futurista de
interpretação, deixando a visão historicista do milerismo. Para o histo-
ricismo, a profecia apocaliptica se desenvolve continuamente, desde a
época do profeta até a segunda vinda.
Por sua vez, o futurismo compreende que a maior parte da profecia
apocalíptica se cumprirá imediatamente antes do segundo advento.
Como resultado, Wellcome advertiu seus leitores, em 1874, de que seu
antigo colega havia chegado ao ponto extremo de interpretar "quase
todo o Apocalipse, após o quinto capítulo," como tendo "cumprimento
futuro"»
O revisionismo profético de Litch começou em 1848, quando ele
mudou sua compreensão anterior sobre os judeus. Ele passou a crer que
um remanescente dos judeus retornaria à Palestina. Essas mudanças o
A Reação de Albany 1 271

colocaram em harmonia com o movimento dispensacionalista que se


desenvolveu entre a Guerra Civil e o fim do século. Os dispensacio-
nalistas não eram apenas futuristas na interpretação profética, como
também tornaram o retorno dos judeus à Palestina um dos principais
pilares em seu esquema de eventos do tempo do fim.
Assim, não é surpresa encontrar Litch participando de uma das
conferências mais importantes para o surgimento do movimento dis-
pensacionalista americano. Ele, no entanto, não foi o único dos antigos
líderes do advento presentes. Henry Dana Ward, presidente da primeira
assembleia geral milerita, também compareceu ao evento."
Além disso, Litch frequentemente se tornou forte opositor de algu-
mas das novas doutrinas defendidas por outros ramos adventistas. Ele
não somente discordava dos condicionalistas, como, em 1880, debateu
com D. T. Bordeau, um adventista sabatista, sobre o dia apropriado para
adoração. Pelo registro, parece que ele aparentemente via, como parte
de sua missão, opor-se aos sabatistas de tempos em tempos»
Litch fez da Filadélfia sua base durante 'o maior tempo de sua carreira.
Em 1884, ele foi nomeado presidente da associação da Messiah's Church
of Pennsylvania. Ele morreu em Providence, Rhode Island, em 1886. 6°
Himes viveu mais do que todos os outros principais líderes mileritas
do início da década de 1840. Após sua viagem às Ilhas Britânicas, em
1846, ele continuou editando o Advent Herald. No entanto, no início
de 1850, ele entrou numa disputa de poder com dois lideres adventistas
que procuravam desacreditá-lo. O caso finalmente chegou à Suprema
Corte de Rhode Island, em 1852, antes de seus acusadores retirarem
as denúncias. Em 1855, pronto para uma mudança, Himes partiu para
a Califórnia a fim de descansar, pregar a mensagem e garimpar (como
recreação) um pouco de ouro»
Em 1858, Himes apoiou os adventistas evangélicos e a Associação
Milenial Americana. Ele logo vendeu o Advent Herald para o grupo.
Então, em 1860, várias mudanças importantes ocorreram em sua teo-
logia. Por um lado, ele renovou seu interesse na questão do tempo em
relação ao segundo advento, concluindo que Cristo viria entre 1866
e 1868. Por três anos, ele publicou o Voice of the Prophets ["A voz dos
profetas"] a fim de divulgar essa teoria, que foi mantida até que o
período passasse. Após essa falha, ele desistiu para sempre da ideia de
que a data poderia ser conhecida. 62
Mais importante do que a nova ideia de Himes sobre a data do ad-
vento foi sua aceitação gradativa, por volta de 1860, do condicionalismo
272 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

e do aniquilacionismo, conceitos contra os quais havia lutado por toda a


vida. Isso o levou a passar dos adventistas evangélicos para um relacio-
namento mais próximo com os cristãos adventistas.€ 3
Essa mudança causou em Himes o começo daquilo que provou ser
uma segunda trajetória no adventismo, em 1863. Naquele ano, os cristãos
adventistas formalmente lhe pediram para que se mudasse para o oeste a
fim de publicar um periódico e motivar o desenvolvimento da obra na-
quela região. Em fevereiro de 1864, foi lançada a primeira edição do The
Voice of the West and Second Advent Pioneer ["A voz dó e o pioneiro
do segundo advento"], de Himes, em Buchanan, Michigan. Em 1870, o
Voice se tornou o Advent Christian Times ["Tempos de advento cristão"].€ 4
Novamente, ele foi afligido pelas animosidades pessoais de alguns dos
seus colegas, dessa vez na pessoa do agressivo e direto Miles Grant, que
havia se unido aos oponentes de Himes no julgamento de Rhode Island,
em 1852. Entre 1869 e 1872, Grant obteve cartas de três mulheres
que acusavam Himes de imoralidade. Embora o idoso líder realmente
tenha admitido certas impropriedades, as acusações mais sérias pare-
cem ser falsas. Entretanto, Grant, por meio de esforços contínuos, foi
capaz de forçar a saída de Mimes da obra de publicação de Buchanan
e suspendê-lo do ministério. Nesse tempo, o filho de Himes, William
Lloyd Garrison Mimes, levou o periódico para Chicago, onde assumiu
a função de editor até que uma disputa de poder também o levasse a
renunciar, um ano depois. 65
Josué V. Himes, num esforço para se defender, começou a publi-
car o Himes Journal [Jornal de Himes], em 1874. Essa defesa levou
Grant a publicar A Statement of Facts Relating to Elder Joshua V Himes
["Uma declaração dos fatos em relação ao irmão Josué V. Mimes"], em
janeiro de 1875. O ataque brutal e vulgar de Grant não somente con-
seguiu destruir muito da influência restante de Himes no movimento
cristão do advento como também levou o acusador à disciplina. Por
último, em 1876, Grant foi removido da editoria do World's Crisis, após
20 anos de serviço. 66
Em 1876, Himes, com 70 anos, estava pronto para deixar o adventis-
mo. 'Apresentei a minha defesa", escreveu em uma declaração pública,

e os meus acusadores não corrigiram suas declarações falsas,


nem foi feita justiça para comigo. Portanto, os deixo nas mãos
de Deus, perante o trono de quem logo irei encontrá-los,
onde a justiça será feita.
A Reação de Albany 1 273

Se for da vontade de Deus que eu continue sofrendo


injustiças, que meu nome seja expelido como o mal ou que
a minha influência seja limitada em qualquer grau, então,
esta também é minha vontade. Será para o bem, Deus será
glorificado e acredito que serei salvo.
Sou um adventista. Sempre fui verdadeiro e fiel à cau-
sa. Em todas as dificuldades e opróbrios relacionados com
a defesa da causa do advento, desde o princípio, tenho
permanecido firme durante a parte mais difícil da luta, e
ainda continuo verdadeiro e fiel. Posso dizer que "desejo o
bem ao Monte Sião, não importa o que venha a acontecer
comigo".

Ele continuou afirmando que não tinha vontade de "dividir ou


envergonhar a causa". 67
Três anos mais tarde, Himes retornou à igreja de sua infância, sendo
ordenado na Igreja Episcopal, em 1879, aos 74 anos. Pelos próximos
16 anos, ele trabalhou como pároco da St. Andrews Church, em Elk
Point, Dakota do Sul."
Entretanto, ele ainda não havia desistido completamente do ad-
ventismo. O cinquentenário do desapontamento de outubro de 1844
encontrou Himes sob os cuidados do Dr. J. H. Kellogg, no Sanatório
de Battle Creek, dos adventistas do gétimo dia. Ele sofria de câncer no
lado esquerdo do rosto.
Himes apreciou o trabalho dos adventistas do sétimo dia e
contribuiu liberalmente para expandir seus esforços missionários.
Contudo, ele ficou profundamente preocupado com o interesse
dos adventistas do sétimo dia em construir instituições. "O modo
como vocês 'constroem e plantam", escreveu ele, "sugere que [vo-
cês esperam] uma longa demora [na vinda de Cristo], se os pla-
nos presentes forem executados." Ele repetidamente afirmava ser
incoerente uma pessoa dizer que esperava o advento e continuar
acumulando riquezas"."
Ellen White, líder adventista do sétimo dia que conheceu Himes
no Sanatório de Battle Creek, na década de 1870, e com quem havia
trocado correspondências na década de 1890, agradeceu-lhe por seu
interesse e generosidade para com a causa sabatista. "A resoluta par-
ticipação evidenciada por sua doação para este campo [Austrália]",
escreveu ela no início de 1895,
274 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

alegrou meu coração, pois testifica que você não perdeu seu
espirito missionário que o levou, em primeiro lugar, a tra-
balhar e então doar seus recursos para o Senhor a fim de
proclamar ao mundo a primeira e a segunda mensagens an-
gélicas no seu tempo e ordem. Esta é uma grande satisfa-
ção para mim, porque traz um testemunho honroso• de que
seu coração ainda está na obra; vejo a prova de seu amor ao
• Senhor Jesus Cristo em sua oferta de boa vontade para esta
"região distante" 70

Apesar do ânimo de Himes, Kellogg considerou seu câncer como


incurável. "Se é assim", Himes opinou, "devo desistir afinal dos meus
esforços por auxilio, preparando-me para o inevitável] — Posso viver
um ano ou mais, mas será um grande sofrimento. E assim, meus Últi-
mos anos serão muito ruins — mas a manhã logo chegará e a doença, a
enfermidade e a morte passarão para sempre." 7]
Himes morreu em 27 de julho de 1895, aos 91 anos. Ele está en-
terrado no Mount Pleasant Cemetery, em Sioux Falls, Dakota do Sul.
Esse cemitério foi escolhido porque está sobre um monte, e Hirnes
contou a seu pastor que "ele queria estar no alto de uma colina quando
Gabriel tocasse sua trombeta".72
CAPÍTULO 14
O Desenlace
Sabatista
ilfO
■ s adventistas do sétimo dia saíram, de um segmento do adventis-
mo dominado pelo extremismoPaturalmente, eles rejeitaram o
fanatismo e preservaram a esperança de ver Jesus voltar em breve.

Nascido na Confusão
Infelizmente, os lideres iniciais do movimento que daria origem ao
adventisrno sabatista tinham pouca escolha em relação às características
de seus companheiros, pois, como observamos, o milerismo pós-outubro
de 1844 estava dividido quanto ao assunto da porta fechada.
No inicio de 1845, havia somente dois grupos básicos de adventistas:
aqueles que defendiam o conceito da porta fechada e os que advogavam
a teoria da porta aberta. O primeiro aceitou 22 de outubro como um
cumprimento profético; o segundo rejeitou essa posição e passou a ver
o movimento do sétimo mês como um equivoco.
Os adventistas, que mais tarde se tornaram os fundadores do adven-
tismo sabatista, acreditavam que seria difícil manter a ligação com os
adventistas de Albany (da porta aberta) pois, ao rejeitar o movimento
276 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

do sétimo mês, estes negavam os próprios princípios que fundamen-


tavam a interpretação profética de Miner. Adotar a posição da porta
aberta seria reconhecer, na verdade, que a experiência de 1844 havia
sido um erro ou uma ilusão. Essa conclusão era totalmente inaceitável
para os pioneiros sabatistas. Assim, eles ficaram no outro grupo em que
havia os espiritualizadores e os ramos fanáticos.
(Como resultado, vamos encontrar os primeiros escritos de Ellen
Harmon sendo publicados no Day-Sta4Ao mesmo tempo, Jacobs usava
o jornal para incentivar muitos a seguir na direção do shakerismo. Na
mesma época, Tiago White também se comunicava através das páginas
do Day-Star. Nesse período, José Bates escrevia para o Jubilee Standard,
de S. S. Snow, e para o Voice of Truth, de Joseph Marsh.
(Além disso, até mesmo uma leitura casual dos primeiros escritos de
Ellen (Harmon) White indica que o trabalho, tanto dela quanto de seu
marido, teve início ao lado de pessoas fanáticasp casal lutava para co-
locar alguma ordem na situação caótica do adventismo da porta fechada,
entre 1845 e 1849. Assim, não seria surpreendente encontrar a imprensa
secular noticiando que uma das primeiras visões de Ellen teve lugar em
meio ao fanatismo de Israel Dammon. 1
A família White e a família Bates não eram os únicos futuros ad-
ventistas sabatistas próximos do fanatismo da porta fechada. Contudo,
enquanto eles combatiam o extremismo, outros futuros sabatistas es-
tavam, na verdade, participando dele. Por exemplo, tant ICrtasSiinith
quanto J. N. Andrews faziam parte de uma família de Paris, Mame,
profundamente ma cada por comportamentos excêntricos.
A família paterna de Andrews também estava envolvida com o
problema. Ron Graybill mencionou o fato de modo resumido quando
observou que "o pai [de Andrews] era um fanático que não trabalhava"
e "seu futuro sogro [...] um engatinhadorr Tiago e Ellen White tiveram
de enfrentar o fanatismo dessas famílias mais de uma vez no intuito de
colocar algum tipo de ordem naquele ramo do adventismo. Pela expe-
riência de J. N. Andrews, não estranharíamos a declaração feita por ele,
mais tarde, de que "trocaria mil erros por uma verdade". Ele havia visto
muitos erros, e bem perto1 2
Embora aqueles que, posteriormente, se tornariam líderes do adven-
tismo sabatista (como José Bates, Tiago e Ellen White) se encontrassem
próximo dos espiritualizadores e de suas excentricidades, eles estavam
numa posição quase tão oposta a algumas das crenças básicas desses
grupos quanto das ideias dos adventistas de Albany.
O Desenlace Sabatista 1 277

• Por exemplo, Bates afirmava que a interpretação bíblica dos espiri-


tualizadores era tão enganosa quanto navegar na baía de Boston à noite,
durante uma tempestade severa, que podia arremessar, sem aviso, tanto
o barco quanto os passageiros contra as rochas. "Bom Deus!", exclamou
ele, "ajude-nos a desviar de vez dessas interpretações espirituais da tua
Palavra, na qual está evidente que a segunda vinda e o reino de Cristo
serão tão literais e reais como os eventos que ocorreram no primeiro
advento, agora registrados na história".
[Aquele que foi provavelmente seu primeiro livro, The Opening
Heavens ["Os céus abertos"], foi publicado para combater a maneira
como os espiritualizadores interpretavam as Escrituras, ensinos que os
havia conduzido a ideias excêntricas.)
Assim, havia entre os adventistas dã porta fechada quem defendes-
se uma interpretação racional e literal da Bíblia. Todavia, esse grupo
minoritário, por causa de suas ideias sobre 22 de outubro, foi rejeitado
pelos adventistas de Albany. Ao mesmo tempo, ele estava essencial-
mente em desarmonia com os espiritualizadores. Levou tempo para
que essa discrepância fosse percebida, em meio à perplexidade do fim
de 1844 e início de 1845.
Os futuros adventistas sabatistas enfrentaram uma situação diferente
dos adventistas de Albany na busca pela autodefinição em relação aos
espiritualizadores. O grupo de Albany tinha apenas que reagir contra
os partidários que nutriam alguma discordância teológica básica. Em
contrapartida, os futuros sabatistas se harmonizavam com os espiritua-
lizadores a respeito do movimento do sétimo mês e da porta fechada.
Os sabatistas e os adventistas da porta aberta lutavam com aspec-
tos de autodefinição bem diferentes. Os adventistas da porta aberta
tinham de se posicionar contra os espiritualizadores, enquanto os futuros
sabatistas tinham de se separar do fanatismo. Os adventistas da porta
aberta, em essência, efetivaram seu trabalho de separação em Albany,
mas os sabatistas lutariam com a autodefinição pelo restante da década.
Sua tarefa não era tão simples.
A tarefa do grupo de Albany também foi simplificada pelo fato de
ter líderes bem determinados, periódicos estabelecidos para divulgar
a mensagem e um sistema de assembleias periódicas que moldava e
direcionava o movimento.
Os futuros sabatistas não tinham nenhuma dessas vantagens. Além
das ideias bastante indefinidas de que algo havia ocorrido em 22 de
outubro de 1844 e de que a vinda de Cristo seria literal e visível,
278 1 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

eles não possuíam sequer uma plataforma doutrinária. Não tinham


líderes, nem sistema de assembleias nem mesmo periódicos. Apenas
poderia se dizer que havia uns poucos crentes que pensavam de for-
ma semelhante, os quais ainda tateavam na penumbra do adventismo
pós-desapontamento.
Antes que os sabatistas alcançassem alguma visibilidade discreta,
seria preciso que: (1) surgissem lideres, (2) houvesse uma evolução
das doutrinas que explicassem a experiência milerita e esclarecessem
noções equivocadas e (3) desenvolvessem periódicos e estratégias or-
ganizacionais que pudessem disseminar esses conceitos elucidados.
É para esses tópicos que seguiremos agora.

Novas Personalidades
Cpreeminência
O único dos fundadores do adventisrno sabatista que teve alguma
no movimento milerita foi José Bates)0 membro mais
velho dos fundadores nasceu em 1792. Tendo se tornado marinheiro
muito cedo, ele passou os anos da Guerra de 1812 como prisioneiro,
nas mãos do exército britânico. Nos anos 1820, tornou-se capitão
de seu próprio navio. Durante esse tempo, Bates se interessou por
muitas reformas pessoais e sociais, e se uniu à Conexão Cristã. Ao se
aposentar com uma renda confortável, no fim da década de 1820, ele
se dedicou, nos anos seguintes, a colaborar com vários movimentos
de reforma.'
Bates aceitou os ensinamentos de Miller em 1839. Esse novo inte-
resse envolveu suas energias, apesar de continuar sendo um reformador.
Tal como outros adventistas, ele viu o segundo advento como a reforma
maior, que resolveria todos os males do mundo. Conhecendo Himes
desde a juventude, Bates trabalhou com ele em várias causas. Agora
eles haviam se unido aos adventistas.s
Bates foi uma das 16 pessoas que fizeram a convocação para a pri-
meira assembleia geral milerita, e, assim como Himes, Litch e outros
dois, ele trabalhou na "comissão de preparo" do evento. Ele também
atuou como um dos diretores auxiliares da segunda assembleia gera1. 6
Talvez sua função "oficial" mais difícil, no movimento milerita, te-
nha sido presidir a importante assembleia geral de maio de 1842, em
Boston. Essa conferência foi a primeira que se posicionou solidamente
a favor do ano de 1843 como o ano do fim do mundo. Além disso,
naquela reunião foi decidido realizar campais e adotar o influente
O Desenlace Sabatista 1 279

gráfico profético de 1843. Bates, como já mencionado anteriormente,


também foi um daqueles que tentaram pregar a mensagem no sul dos
Estados Unidos.'
Isaac Wellcome, seu colega por algum tempo, observou que ele
era "um orador e escritor capaz, muito útil na obra de Cristo, até que
se tornou um defensor do sábado do sétimo dia". 8 Esses talentos, no
entanto, não foram perdidos em sua nova empreitada missionária. Por
meio de uma série de panfletos, preparados a partir d(1846, Bates se
tornou o a rimeiro escritor e teólogo sabatista. .... N------`—' -
Ele também foi o responsáve por levar os outros dois fundadores do
adventismo sabatista à coirpreensão básica das doutrinas centrais que
estabeleceram esse grupo. Na verdade, foi Bates quem uniu as várias
crenças do novo movimento umas com as outras e com o esquema
profético de Miner. Além disso, ele ampliou essa estrutura escatológica
integrando nelas as novas doutrinas.) i
Um jovem pregador milerita chamado. Tiago White também se
uniria a Bates na organização dos crentes sabatistas. Nascido em 1821,
ele se tornou membro da Conexão Cristã aos 15 anos de idade. Até
1842, White considerava o milerismo um "fanatismo excêntrico" e não
queria relação alguma com o movimento. No entanto, tudo mudou
em uma campal no leste do Maine, na qual ele ouviu a pregação de
Miller, Himes e T. M. Preble. No encerramento das reuniões, White
escreveu: "Fiquei feliz em aceitar a crença de que Cristo viria por
volta do ano 1843."
As convicções de Tiago, no entanto, causaram conflitos em sua vida.
Até o momento de sua conversão ao milerismo, segundo ele relata,
havia "adorado" a educação. Contudo, estava fortemente convicto de
que deveria renunciar a seus planos neste mundo e se doar "ao trabalho
de advertir as pessoas a se preparar para o dia de Deus". Ele orou por
libertação, mas não a encontrou. Como resultado, rendeu-se, relutan-
temente, aquilo que acreditava ser a vontade de Deusi°
A formação teológica de White teve inicio, partindo do exame
do gráfico de 1843 de Fitch, da Bíblia, e de alguns livros sobre o
segundo advento. Ele estudou diligentemente por algumas semanas,
alcançando uma "ideia mais clara do assunto'. Após usar seus ganhos
do verão anterior para comprar roupas, o gráfico e os livros mencio-
nados, ele tomou emprestado um cavalo de seu pai e ganhou "uma
sela desgastada e várias peças de um arreamento antigo". Assim, ele
estava pronto para seguir a trilha evangelísticail
280 I ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

As reuniões de White foram um sucesso desde o começo, à medida


que as pessoas entregavam a vida a Deus e assumiam a convicção de que
Cristo estaria voltando em breve. Durante o inverno de 1842/1843, ele
relata que mais de mil pessoas se converteram por intermédio de seu
ministério. Naquele mês de abril, Tiago foi ordenado ao ministério da
Conexão Cristã.' 2
O jovem White era dedicado, perspicaz, um pregador convicto e um
evangelista cheio de energia. Enquanto esses talentos se tornavam cada
vez mais evidentes nos meses animadores de 1843 e 1844, outros dons
surgiriam de outubro de 1844 ao ano de 1850. Entre eles estavam a
inclinação para escrever, editar e a habilidade de formular um raciocínio
muito claro para explicar a experiência do advento.
Assim, White desenvolveria, ampliaria e explanaria o sistema teo-
lógico que Bates havia apresentado. Além dessas virtudes ele possuía
habilidades para organizar e publicar. No fim da década, ele havia
sucedido Bates como o grande editor dos adventistas sabatistas.1Na
década de 1850, ele se tornaria o líder no desenvolvimento orga iza-
cional do movimento)
O terceiro membro do trio que desenvolveu e organizou o adven-
tismo sabatista foi Ellen G. Harmon (White, após 30 de agosto de
1846). Nascida em 1827, ela era jovem demais para realizar muito
pelo movimento de 1844, exceto testemunhar aos amigos e membros
de sua igreja.n
Ela e sua família foram convertidas ao milerismo no início de 1840,
quando ouviram Miller pregar em Portland, Maine. Dois anos depois,
Ellen foi aceita naQgrej a Metodista Episcopagpor meio do batismo por
imersão, apesar de muitos dos seus amigos metodistas terem tentado
convencê-la de que a aspersão era o batismo bíblico. Entretanto, ela
seguiu suas convicções. Assim, desde cedo, Ellen Harmon já se mos-
trava disposta a acatar posições públicas impopulares, por aquilo que
acreditava ser a verdade bíblica.' 4
Essa mesma característica pode ser observada em sua rejeição à
imortalidade da alma, em 1843. Antes disso, ela se mostrava profun-
damente incomodada com a ideia de um inferno e da punição eterna
da parte de Deus, que, segundo essa doutrina, parecia "ter prazer na
tortura de suas criaturas formadas a sua imagem". Até aquele momento,
ela também tivera dificuldade em conciliar a recompensa imediata das
pessoas por ocasião da morte com a necessidade de uma ressurreição
corpórea. Afinal, "se por ocasião da morte a alma entrasse na felicidade
O Desenlace Sabatista 1 281

ou miséria eterna, onde estaria a necessidade da ressurreição do pobre


corpo decomposto?" 15
A disposição em assumir posições impopulares, de acordo com o que
ela acreditava ser a verdade bíblica, também ficou evidente em relação
a sua convicção no segundo advento. A família Harmon foi atingida
pela exclusão dos mileritas da Igreja Metodista, no Maine, conforme
discutimos no capítulo 7.
Assim como outros adventistas, os membros da família estavam muito
ocupados testemunhando sobre sua crença. Seu pastor os visitou na espe-
rança de convencê-los a deixar suas ideias de lado ou renunciar à igreja de
forma sutil e assim evitar um julgamento público. Entretanto, o pai de Ellen
respondeu que eles preferiam uma ação pública, a fim de que a questão
pudesse ser tratada abertamente. No outono de 1843, a família Harmon
foi removida da Igreja Metodista, por defender o milerisma ' 6
Com grande expectativa, Ellen Harmon esperou com os demais
crentes que Cristo viesse em 1844. Mais tarde, ela declararia que aquele
"foi o ano mais feliz" de sua vida. O segundo advento havia se tornado
o centro de sua existência»
No entanto, assim como outros mileritas, ela passou por um período
de desorientação após outubro de 1844. Na verdade, em dezembro, ela
concluiu que o movimento do sétimo mês e o clamor da meia-noite
do outono de 1844 foram equivocados. Ellen desistiu da ideia do cum-
primento profético em 22 de outubro e da crença na porta fechada.
Seu futuro esposo aparentemente havia chegado à mesma conclusão. 18
À luz dessa convicção, o que ela afirmou ser sua primeira visão
adquiriu significado especial. Ela relatou que o Senhor lhe mostrou,
em dezembro de 1844, que os "queridos santos" de Deus ainda teriam
"que passar por muitas provações". No relato que fez das visões, Ellen
disse que teve a sensação de ser "elevada mais e mais alto, bem acima
do mundo escuro". Ela logo viu o povo adventista em um

caminho reto e estreito, levantado em lugar elevado do mun-


do. O povo do advento estava nesse caminho, a viajar para a
Cidade [...]. Tinham uma luz brilhante colocada por trás deles
no começo do caminho, a qual um anjo me disse ser o "clamor da
meia-noite". Essa luz brilhava em toda extensão do caminho,
e proporcionc.va claridade para seus pés, para que assim não
tropeçassem. Se conservavam o o har fixo em Jesus, que Se
achava precisamente diante deles guiando-os para a cidade,
282 j ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

estavam seguros. Porém, logo alguns ficaram cansados, e dis-


seram que a cidade estava muito longe e esperavam nela ter
entrado antes. [...] Outros temerariamente negavam a exis-
tência da luz atrás deles e diziam que não fora Deus quem os
guiara tão longe. A luz atrás deles desaparecia, deixando-lhes
os pés em densas trevas, de modo que tropeçavam e, perden-
do de vista o sinal e a Jesus, caíam do caminho para baixo, no
mundo tenebroso e ímpio.

• Ela continuou descrevendo as experiências daqueles que perma-


neciam fiéis a Deus. 19
A experiência com essa visão mudou a vida de Ellen Harmon. Ela
não somente reconheceu que havia recebido o dom de profecia nessa
ocasião, como também voltou a aceitar que o movimento do sétimo
mês havia sido um cumprimento profético. Até sua morte, em 1915,
ela viu esse movimento como uma "luz brilhante" para guiar o povo
de Deus do tempo do fim. Longe de ser um erro ou uma ilusão, o
cumprimento profético em 22 de outubro se tornou uma âncora na
experiência adventista.
• Aqueles que rejeitavam esse ponto, segundo Ellen, ficavam em
"densas trevas" e "tropeçavam" e "caíam". Com essa declaração, ela•
parecia se referir ao que viu ser o futuro infrutífero dos adventistas da
porta aberta (certamente de Albany). A partir de sua perspectiva, em
dezembro de 1844, Ellen acreditava que as formas de adventismo que
não mantivessem suas raízes proféticas não teriam futuro.
Ainda mais importante, aos olhos do adventismo sabatista, a visão de
dezembro colocou Ellen e outros (incluindo possivelmente seu futuro
esposo) de volta a uma posição de segurança quanto à data de 22 de
outubro como um cumprimento profético. Essa convicção foi o ponto
de partida para o desenvolvimento da teologia sabatista.
No entanto, antes de passarmos ao desenvolvimento dessa teologia,
é importante notar quão impopular seria alguém afirmar que possuía o
dom de profecia entre os adventistas, no início de 1845. A leitura dos
registros da época torna evidente que, entre os crentes no advento, ha-
via muitos que afirmavam possuir o dom profético. E a maioria deles fazia
afii mações absurdas, como resultado de suas ideias e previsões fanáticas.
•No contexto do surgimento de Starkweather, de Gorgas, da comuni-
dade de Springwater, dos vários profetas de Portland e de muitos outros,
aquele era um momento arriscado para reivindicar o dom profético,
O Desenlace Sabatista 1 283

a menos que a pessoa desejasse ser acusada de fanatismo. A maioria dos


crentes incluía a jovem Ellen Harmon nessa categoria. Para Wellcome,
que conhecia ela e Tiago White, a jovem era uma "fanática e médium".
Naturalmente, em nada ajudava a causa dos profetas e pretensos pro-
fetas o fato de Joseph Smith, profeta mormon, ter sido morto por uma
turba no presídio de Carthage, Illinois, em junho de 1844. 20
Não somente os mileritas assumiram uma forte posição contra "vi-
sões, sonhos ou revelações particulares", na assembleia geral de maio
de 1843, como também reafirmaram essa postura na reunião de Nova
York, em maio de 1845. 2' Assim, Ellen Harmon e o rnovimento saba-
tista do qual ela fazia parte teriam que lutar para se distanciar tanto
dos excessos reais quanto daqueles que lhes eram atribuídos pelos
adventistas da porta fechada. Além disso, tanto ela quanto seus colegas
sabatistas teriam de enfrentar as dúvidas, acusações e animosidades dos
adventistas de Albany.
Somente uma firme convicção de que estavam corretos na com-
preensão da profecia e das Escrituras poderia conduzir os sabatistas
durante esse período difícil.

Novas Doutrinas: a Resposta à Confusão


A crença profética central entre os sabatistas em desenvolvimento
era a de que Daniel 8:14 ('Até duas mil e trezentas tarde e manhãs;
e o santuário será purificado") havia se cumprido em 22 de outubro.
Assim, sua tarefa principal consistia em estabelecer interpretações
alternativas para o significado do santuário naquele texto e o sentido
de sua purificação. Em outras palavras, diante da certeza que tinham
quanto à compreensão dos 2.300 dias, sua próxima tarefa seria des-
vendar os outros dois símbolos do versículo.
É importante relembrar que Miller interpretou o santuário como sen-
do a Terra, e sua purificação como a ação do fogo por ocasião do segundo
advento — algo que obviamente não havia ocorrido em 22 de outubro de
1844. Litch expressou dúvidas quanto à interpretação de Miller, após o
desapontamento da primavera. "Nunca foi provado", ele escreveu em abril
de 1844, "se a purificação do santuário, que deveria ocorrer no fim dos
2.300 dias, era a vinda de Cristo ou a purificação da Terra." Novamente
ele ressaltou, ao procurar o significado daquele desapontamento, que
os adventistas possivelmente estivessem "errados quanto ao evento
que marcava sua conclusão."22
284 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Essa linha de pensamento surgiu outra vez logo após o desapon-


tamento de outubro. Por isso, Joseph Marsh escreveu, no início de
novembro:

Admitimos alegremente que estivemos errados quanto à na-


tureza do evento que esperávamos para o décimo dia do sé-
timo mês; mas ainda não podemos admitir que nosso grande
Sumo Sacerdote não tenha cumprido, naquele exato dia, tudo
aquilo que o tipo justificaria que esperássemos. 23

Apollos Hale e Joseph Turner seguiram o raciocínio de Marsh em


seu controverso artigo de janeiro de 1845 sobre a porta fechada. Eles
relacionaram a vinda de 22 de outubro com a ida de Cristo ao Ancião
de Dias (Deus) na cena do juízo de Daniel 7. Hale e Turner concluí-
ram que "a vinda do noivo" indicava "alguma mudança na atividade do
nosso Senhor no mundo invisível". Jesus retornaria à Terra para reunir
seus eleitos quando sua obra "dentro do véu [...], aonde ele se dirigiu
para preparar um lugar para nós", estivesse completa. Como resulta-
do, "algum tempo deve passar" entre a ida do Noivo até o Ancião de
Dias e a sua vinda em glória. Hale e Turner continuaram afirmando:
"O julgamento é aqui."24
A exposição mais completa da linha de pensamento sugerida por
Litch, Marsh, Hale e Turner seria desenvolvida por alguns atores meno-
res no drama do advento. E '23 de outu aro de 84 Á , Hiram Edson, um
fazendeiro metodista de Port is son, Nova York, durante um momento
de oração com seus colegas crentes, se tornou convicto de "que a luz
deveria ser dada" e "nosso desapontamento, explicado".
rLLQg o depois, ele e um companheiro (provavelmenteçO7CL.

Crosier) foram encorajar outros mileritas. Ao cruzarem um campo,


d-----
E son relatou que "foi parado no meio do caminho", e

o Céu parecia abrir-se ante meus olhos [... Vi clara e distin-


„_-ite
tan que em vez de nosso Sumo Sacer. e ote aver saído
do lugar santíssimo [a expectativa comum de muitos mile-
ritas] do santuário celestial para vir à Terra no décimo dia
do sétimo mês, ao final dos 2.300 dias, ele, pela primeira
vez, entrava nesse dia no segundo compartimento daquele
santuário, e que ele tinha um trabalho a realizar, no lugar
santíssimo antes de voltar à Terra.
O Desenlace Sabatista 1 285

Logo, o chamado de seu companheiro, que havia seguido adiante


dele, trouxe Edson de volta à realidade da vida no campo. Quando
perguntado sobre o que havia acontecido, Edson replicou: "O Senhor
respondeu a nossa oração da manhã, dando-nos luz sobre nosso
desapontamento."
A "visão" de Edson logo o levou a um extenso estudo bíblico com
Crosier e o Dr. E B. Hahn. Seguindo a abordagem de Miller, usando
uma concordância para desvendar o significado das Escrituras, eles con-
cluíram, de acordo com a experiência de Edson em 23 de outubro, que
o santuário a ser purificado em Daniel 8:14 não era a Terra ou a igreja,
mas o santuário no Céu, do qual o terrestre havia sido um tipo ou cópia.
Hahn e Edson estavam certos de que suas descobertas eram "exa-
tamente o que o remanescente espalhado precisava" para explicar o
desapontamento e "colocar, os irmãos no caminho certo". Assim, eles
concordaram em dividir os gastos da publicação entre eles, se Cro-
sier "escrevesse sobre o tema do santuário". De acordo com Edson,
Crosier começou a publicar os resultados do estudo no Day Dawn,
no início de 1845. 25
Então, em 7 de fevereiro de 1846, suas conclusões foram publicadas
por Enoch Jacobs, no Day Star Extra, sob o título 'A Lei de Moisés". Por
-

meio do estudo da Bíblia, Crosier e seus colegas tinham provido respostas


para as perguntas sobre o que acontecera em 22 de outubro de 1844 e
qual santuário precisava ser purificado.
As descobertas mais importantes, de acordo com o que foi publi-
cado em "A Lei de Moisés", podem ser assim resumidas: (1) Existe um
santuário literal no Céu. (2) O sistema do santuário hebraico é uma
representação visual completa do plano de salvação, que seguia os
padrões do santuário celestial. (3) Assim como os sacerdotes da Terra
tinham um ministério que compreendia duas fases no santuário do
deserto, Cristo tem um ministério de duas fases no santuário celestial.
A primeira fase começou no lugar santo com sua ascensão; a segunda,
em 22 de outubro de 1844, quando Jesus passou do primeiro para o
segundo compartimento. Assim, o Dia da Expiação celestial ou antití-
pico começou nessa data. (4) A primeira fase do ministério de Cristo
lidou com o perdão; a segunda tem a ver com a eliminação dos pecados
e a purificação, tanto do santuário quanto dos crentes, individualmente.
(5) A purificação de Daniel 8:14 é a purificação do pecado e, portanto,
é realizada com sangue em vez de fogo. (6) Cristo não retornará à Terra
até que seu ministério no segundo compartimento esteja com.pletado.26
286 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Dessa forma, o estudo combinado de Edson, Crosier e Hahn con-


firmou a "visão" no campo, em 23 de outubro. Por meio de um estudo
intensivo dos livros de Hebreus e Levítico, em ligação com Daniel 7 a
9 e o livro do Apocalipse, eles chegaram a uma explicação tanto para
a purificação quanto para .a identificação do santuário a ser purificado.
A nova compreensão do tema se tornou um dos conceitos fundamentais
no desenvolvimento da teologia adventista sabatista.
Antes de deixar o tema da purificação do santuário, deve-se ressaltar
que esse ensinamento foi efetivamente relacionado à doutrina do juízo
investigativo ou pré-advento.
•Miller tinha ligado a cena do juizo• de Daniel 7, a purificação de
Daniel 8:14 e a expressão "é chegada a hora do seu juízo" de Apocalipse
14:7 ao juízo que ocorreria no segundo advento.
No entanto, em 1841, Litch havia ensinado a necessidade de um
juizo pré-advento. Em fevereiro daquele ano, ele indicou que o julga-
mento deveria ocorrer antes da ressurreição. Em 1842, Litch refinou
sua ideia e observou que o ato divino de trazer algumas pessoas à vida e
relegar outras à morte na segunda vinda constitui um "juízo executivo"
que tem necessariamente de ser precedido por um veredito."
Esse tema mais tarde seria desenvolvido pelos sabatistas. Crosier,
apesar de não tornar o juízo pré-advento explícito em seu artigo de
fevereiro de 1846, indicou que o sumo sacerdote vestia o peitoral do
juízo no Dia da Expiação e que a purificação do santuário era uma
purificação do pecado.
Em 1847, Bates, indo um pouco além dessa compreensão, relacio-
nou o Dia da Expiação no Céu com o juízo pré-advento que deve ser
concluído antes que Cristo venha para executar o juízo do advento,
no qual todos receberão sua justa recompensa. Apesar da resistência
inicial de alguns, incluindo Tiago White, esse ensinamento se tornou
bem disseminado em meados da década de 1850."
•Assim, na teologia adventista sabatista em desenvolvimento, a pu-
rificação do santuário de Daniel 8:14 passou a ser vista como o juízo
investigativo, ou pré-advento, no lugar santíssimo do santuário celestial.
Como resultado, quando os sabatistas pregaram a mensagem do pri-
meiro anjo de Apocalipse 14 ("é chegada a hora do seu juízo" [v. 7]),
passaram, afinal, a ver esse aspecto como o anúncio do início do juízo
pré-advento em 22 de outubro de 1844."
Dessa forma, enquanto a maioria dos adventistas mileritas, sob a
liderança de Himes, considerava a interpretação do elemento de tempo
O Desenlace Sabatista 1 287

de Daniel 8:14 como um erro, os sabatistas acreditavam que os mile-


ritas estavam certos quanto ao tempo, mas errados quanto ao evento
ocorrido em 22 de outubro. Afinal, analisavam eles, ninguém havia sido
capaz de refutar os cálculos de Miller. Um estudo aprofundado tornou
óbvio para os sabatistas que os mileritas interpretaram erroneamente
o simbolismo tanto da "purificação" como do "santuário".
Eles decidiram construir sobre as evidências de Miller e Snow, em
sua experiência de 1844, em vez de abandoná-las. Sua nova doutrina
do santuário não somente explicava o desapontamento como também
provia uma estrutura teológica que permitia aos sabatistas avançarem
para o futuro com segurança. Da maneira como viam, estavam convictos
de que Deus os tinha conduzido no passado e que havia lhes dado a
certeza de que estava com eles no presente. À medida que passaram
a crer que tinham uma missão mundial, essa confiança finalmente se
tornou a fonte de seu impulso evangelistico e missionário. 30
A doutrina do santuário celestial não se tornou um item descartável
na teologia sabatista. Ao contrário, ela estava em seu centro. Assim,
Tiago White declarou que uma compreensão correta "da purificação
do santuário [...] é a chave para o grande movimento do advento,
tornando tudo claro. Sem ela o movimento é inexplicável". Para ele,
esse foi "o grande centro" que definiu sua posição presente e orientou
sua teologia. 3'
Os primeiros sabatistas não viam as doutrinas do santuário e do se-
gundo advento como dois elementos separados. Ao contrário, eles viam
ambas em um plano, com os acontecimentos que circundavam o san-
tuário podendo explicar a sequência de eventos até o segundo advento.
Um terceiro bloco fundamental na compreensão teológica deles se
desenvolveu simultaneamente com a compreensão do santuário. Esse
componente foi a doutrina da santidade do sétimo dia, o sábado, no
qual eles fundamentaram, afinal, sua identidade sabatista.
O interesse pelo sétimo dia entre os adventistas se originou antes
do desapontamento de outubro. A atenção deles para o assunto foi
dirigida, no inicio de 1841, po J. A. Begg um estudante das profecias,
na Escócia. Porém, o verdadei e pu so em direção ao sábado veio
dos batistas do sétimo dia. A primeira tentativa conhecida desse grupo
para influenciar os mileritas ocorreu no inicio de 1842; contudo, a Signs
of the Times se recusou a publicar o materia1. 32
Nesse tempo, a necessidade de divulgar a mensagem do sábado se
tornou urgente entre os batistas do sétimo dia. Em 1843, sua assembleia
288 I ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

geral determinou adotar uma abordagem mais dinâmica em relação à


propagação das ideias sobre esse mandamento. Assim, ficou resolvido
que era um "dever solene" esclarecer seus colegas sobre o tema.
A assembleia também tomou decisões para colocar a resolução em
prática. Os esforços tiveram alguns resultados positivos. No encontro
de 1844, os batistas do sétimo dia agradeceram a Deus porque havia
surgido "um interesse mais profundo e amplo sobre o assunto", como
jamais tinha sido visto no país. 33
Parte desse interesse se desenvolveu entre os mileritas. Embora seja
impossível determinar a extensão dessa ii ência o que sabemos é
que uma batista do sétimo dia cham. 3a Rachel Oakes cou interessada
no segundo advento. Em 1844, ela não somente aceitou o milerismo,
como também compartilhou sua perspectiva sobre o sábado com a
congregação adventista em Washington, New Hampshire. Vários pre-
gadores mileritas aprenderam sobre o tema e o aceitaram no contexto
daquela congregação. Um delesfoOL —Ir
sL_
irij
"eb e. 4
Em setembro de 1844, o movimento pela guarda do sétimo dia au-
mentou o suficiente para que o Midnight Cry publicasse um longo edi-
torial em duas partes sobre o assunto. "Muitas pessoas", observou o Cry,
"estão refletindo profundamente a respeito da suposta obrigação de se
observar o sétimo dia.""
Esses editoriais concluíram que o primeiro dia da semana não era o
sábado bíblico. Eles também afirmaram que os cristãos não estavam sob
a obrigação de observar qualquer dia especial como santo. No entanto,
havendo tal obrigação "então achamos que o sétimo dia é o único dia
de observância para o qual existe alguma lei"."
As "semerites pré-desapontamento" do sábado do sétimo dia pro-
duziriam mais frutos no início de 1845. Em 28 de fevereiro, Preble
expressou sua crença sobre o mandamento no Hope of Israel. Mais
tarde, ele republicou suas ideias em um panfleto de 12 páginas inti-
tulado, de forma bastante clara, Trota, Showing that the Seventh Day
Should Be Observed as the Sabbath, Instead of the First Day; According
to the Commandment" ["Folheto mostrando que o sétimo dia deve ser
observado como o sábado, em vez de o primeiro dia, de acordo com
o mandamentol . 37
Em março de 1845, os escritos de Preble caíram nas mãos de José
Bates. Ele aceitou o sábado e logo compartilhou seu novo entendimento
com Crosier, Hahn e Edson, que também concordaram com o assunto. Ao
mesmo tempo, eles apresentaram suas ideias sobre o santuário celestial a
O Desenlace Sabatista 1 289

Bates, que acatou prontamente como algo fundamentado sobre sólida


base bíblica. Assim, no fim de 1846, um pequeno grupo de crentes
começou a se formar em torno das doutrinas unidas do ministério de
Cristo no santuário celestial e da natureza obrigatória da observância
do sétimo dia, o sábado. 38
Bates publicou um folheto intitulado The Seventh Day Sabbath,
a Perpetuai Sign ["0 sábado do sétimo dia, um sinal perpétuo"], em
agosto de 1846. Ele também foi o responsável por apresentar o as-
sunto a Tiago White e Ellen Harmon. Ambos começaram .a observar
o sétimo dia naquele outono. Dessa forma, no fim de 1846, os três
fundadores do adventismo sabatista estavam unidos na doutrina
do sábado. 39
Além disso, Bates atribuiu a essa doutrina uma riqueza .e significado
proféticos que jamais tivera entre os batistas do sétimo dia. Para estes,
o sétimo dia era simplesmente o dia correto. Mas, com Bates envolvido
profundamente em uma fé profética moldada por um amplo estudo dos
livros de Daniel e Apocalipse, o sábado do sétimo dia ganhou um sig-
nificado escatológico que ia além da perspectiva teológica dos batistas.
Por meio de uma série de pequenos livros, ele interpretou o sábado
dentro da estrutura de Apocalipse 11 a 14. Entre 1846 e 1849, Bates
apresentou pelo menos três contribuições para uma compreensão
profética do sétimo dia.
Primeiramente, ele começou a ver conexões entre o sábado e o san-
tuário. Ao estudar o toque da sétima trombeta em Apocalipse 11:15 a
19 (uma passagem obviamente relacionada com os últimos dias), Bates
foi particularmente atraído pelo verso19: "Abriu-se, então, o santuário de
Deus, que se acha no Céu, e foi vista a arca da aliança no seu santuário."
Ele observou que, em seus dias, houve um grande aumento
no número de artigos sobre o sétimo dia. Por quê? Quando o sétimo
anjo começou a soar sua trombeta, propôs ele, o segundo cornparti-
mento do templo de Deus havia sido aberto no Céu, a arca da aliança
fora revelada espiritualmente e muitas pessoas começaram a pesquisar
as Escrituras. A arca no santuário terrestre continha os dez manda-
mentos. Assim, por meio de comparação tipológica, ele concluiu que
o santíssimo, no santuário celestial, tinha uma arca com o decálogo,
assim como o santuário terrestre.
Desse modo, a lei de Deus passou a ser vista como a base para o
juízo pré-advento que estava ocorrendo desde 22 de outubro de 1844.
Naquela data, o segundo compartimento fora aberto no Céu, expondo
290 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

a arca da aliança e indicando uma ênfase renovada sobre a lei de Deus


e o negligenciado mandamento do sábado: 4"
A segunda contribuição de Bates para o desenvolvimento da compre-
ensão do sábado na história profética veio por intermédio de seu estudo
sobre as três mensagens angélicas de Apocalipse 14. Ele as apresentou
corno sequenciais. As duas primeiras 4 (a hora do juízo de Deus e a que-
da de Babilônia), disse ele, foram pregadas pelos mileritas. Entretanto,
ele acreditava que o verso 12: 'Aqui está a perseverança dos santos, os
que guardam os mandamentos de Deus", começou a se cumprir após
22 de outubro de 1844. Assim, escreveu ele em 1847, um povo "tem
se unido, nos dois últimos anos, ao redor dos mandamentos de Deus".
Naturalmente, Bates não deixou de notar a força profética de
Apocalipse 12:17: "Irou-se o dragão contra a mulher e foi pelejar com
os restantes da sua descendência, os que guardam os mandamentos
de Deus:Lu
Essa "guerra", acreditava ele, era descrita em Apocalipse 13, por meio
dos poderes das bestas buscando dominar o povo de Deus que guarda
seus mandamentos. Por fim, emitirão o decreto de morte, do verso 15.
Assim, a terceira contribuição de Bates para a teologia do sábado (na
estrutura da profecia) foi o desenvolvimento dos conceitos do selo de
Deus e da marca da besta no contexto da lealdade a Deus ou à besta.
Ç.
P.k fidelidade ao sábado bíblico seria o ponto central da batalha.1
O sábado do sétimo dia se tornou uma doutrina integrante da
teologia sabatista. Por causa da convicção sobre a centralidade do
sábado nos eventos do tempo do fim, Bates e o casal White se agar-
raram firmemente a esse ensinamento. Por sua vez, pregadores ad-
ventistas (como J. B. Cook e T. M. Preble) que viam o sétimo dia
simplesmente como o dia correto de guarda desistiram do assunto
em poucos anos.
Preble mais tarde se voltou contra a doutrina e escreveu um livro
intitulado 'The First-Day Sabbath: Clearly Proved by Showing that the Old
Covenant, or Ten Commandments, Have Been Changed, or Made Comple-
te, in the Christian Dispensation ["0 sábado no primeiro dia: claramente
provado, mostrando que a antiga aliança ou os dez mandamentos foram
mudados ou cumpridos na dispensação cristal . O cunhado de Preble
duvidou de sua sinceridade nessa mudança drástica. De acordo com ele,
Preble se tornou o administrador de uma grande propriedade e, quando
o sábado interferiu em seus negócios, ele desistiu da guarda desse dia.
"Ateoria que excluía a lei foi sua desculpa para resolver seu problema.""
O Desenlace Sabatista 1 291

Essas desavenças, no entanto, não prejudicaram aqueles que ha-


viam unido a doutrina do sétimo dia ao santuário e ao segundo adven-
to. Eles pregavam sua teologia com crescente ânimo e coesão, durante
o fim da década de 1840. Bates chegou a pregar para a viúva de Miller,
em janeiro de 1853. "A irmã M.," escreveu ele, "nos recebeu e ouviu
atentamente nossa explicação sobre a última mensagem do gráfico
[adventista sabatista]: ela disse que não sabia nada a respeito, mas
que o sábado que ensinávamos estava correto." Embora os sabatistas
aparentemente enham falhado em sua tentativa proselitista com a
senhora Miller, eles tiveram mais êxito com um dos filhos do casal,
30 anos mais tard 49
No inicio de 1847, os líderes sabatistas haviam desenvolvido um
sistema teológico coerente, que seria aperfeiçoado durante os meses
seguintes. Era uma teologia escatológica que destacava a crença no minis-
tério pré-milenarista de Jesus no lugar santíssimo do santuário celestial,
entre 22 de outubro de 1844 e a segunda vinda; e o sábado do sétimo
dia como ponto de conflito na última grande batalha entre as forças do
bem e do mal, descrita em Apocalipse 11 a 14.
Aliadas a essas doutrinas estavam as crenças no condicionalismo,
no aniquilacionismo e no batismo de adultos por imersão, que os
fundadores sabatistas também aceitaram. Além dessas doutrinas, eles
admitiram a validade contínua do dom de profecia, com o reconheci-
mento cada vez mais claro da manifestação então atual desse dom no
ministério de Ellen White.
Um ponto que deve ser analisado em relação à teologia sabatista é a
integração da crença da porta fechada dentro de seu conjunto teológico
geral. Conforme vimos no capítulo 12, a porta fechada, como fim do
tempo da graça, havia sido ligada por Miller e outros com a ideia de
que a purificação do santuário era o segundo advento de Crista Em
virtude dessa comparação, o tempo da graça obviamente teria findado
no fim dos 2.300 dias.
Os sabatistas aceitaram essa interpretação, e todos os líderes ensina-
vam a posição da porta fechada no fim da década de 1840. No entanto,
o estudo da Bíblia, como observamos anteriormente, logo os levou a
concluir que a purificação do santuário não era o segundo advento, mas
se relacionava com o ministério de Cristo no templo celestial.
Nesse momento, eles acreditavam em uma teologia que não mais
se encaixava. Os adventistas sabatistas modificaram sua compreensão
da purificação do santuário, mas não haviam reinterpretado a teoria
292 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

da porta fechada. A mudança em relação a uma crença, no entanto,


exigiu mudanças em relação à outra. Isso não se tornou imediatamente
claro para os sabatistas.
Foi no começo da década de 1850 que eles harmonizaram sua posi-
ção sobre o assunto. Gradativamente, os sabatistas passaram a ver a ideia
da porta fechada dentro da estrutura do fechamento da porta do lugar
santo, quando a primeira fase do ministério de Cristo se completou
em 1844. De igual modo, eles começaram a compreender as verdades
sobre a abertura da porta na segunda fase de seu ministério celestial,
que se iniciou naquele mesmo ano. 46
A nova compreensão da porta fechada/aberta incluía também o
início de um novo imperativo divino para pregar o sábado e a mensa-
gem do terceiro anjo de Apocalipse 14 "a cada nação, e tribo, e língua, e
povo". A ordem estimularia os adventistas sabatistas a pregar nos mais
distantes pontos da Terra, enquanto procuravam completar a missão
de Miller na preparação de pessoas para a vinda de Cristo. 47

í
Ao mesmo tempo, o equívoco da porta fechada tinha servido a um
propósito útil. Havia proporcionado aos sabatistas tempo para solidifi-
car seu fundamento teológico. Assim, somente um pouco dos escassos
recursos foi gasto com evangelismo, antes que tivessem uma mensagem.
Após compreender a própria identidade teológica, o próximo passo
foi tentar convencer outros mileritas de seu conjunto doutrinário e
de sua interpretação profética. Essa tarefa ocorreu de 1848 a 1850.
Conceitos mais amplos sobre missão foram desenvolvidos a partir da
década de 1850. 48

O Terceiro Anjo
A essência de Apocalipse 14 é a tríplice mensagem angélica que
deve ser dada imediatamente antes da colheita na Terra. O primei-
ro anjo proclama que a hora do juízo de Deus chegou (v. 6, 7); o
segundo prega a queda de Babilônia (v. 8); e o terceiro estabelece
um contraste entre aqueles que têm a marca da besta e os que têm
"a perseverança dos santos", "guardam os mandamentos de Deus"
e têm "a fé em Jesus" (v. 9-12). Então ocorre a colheita na segunda
vinda (v. 14-20).
As três mensagens se tornariam o tema cronológico unificador para
os líderes adventistas sabatistas, indicando-lhes seu lugar na história pro-
fética. Os primeiros sabatistas ligaram as doutrinas-chave do santuário
O Desenlace Sabatista 1 293

e do sábado às três mensagens angélicas. Em particular, eles passaram


a ver sua missão especial representada pelo terceiro anjo.
A ideia de identificar os anjos de Apocalipse 14 com o adventismo não
era nova, mas esse reconhecimento não ocupou uma função importante em
outros ramos do movimento. Os sabatistas, no entanto, integrariam cuida-
dosamente ideias anteriores com a história adventista, eles as ampliariam e,
finalmente, as incluiriam em uma das matrizes unificadoras de sua teologia.
Apesar de Litch ter identificado a pregação milerita com a mensa-
gem do primeiro anjo sobre a hora do juízo, e de Miller e outros terem
mostrado a natureza sequencial das três mensagens no tempo do fim,
eles não ligaram essa profecia ao desenvolvimento do adventismo em
uma correlação exata. Talvez, em parte isso tenha ocorrido por causa da
rejeição de Miller ao conceito da queda de Babilônia, como ensinado por
Fitch, e da dúvida de outros líderes mileritas quanto a esse ensinamento. 49
Fitch pregou a queda de Babilônia primariamente a partir de
Apocalipse 18. No geral, os mileritas nunca enfatizaram a queda
em Apocalipse 14, nem uma ligação sequencial entre a pregação
da mensagem do primeiro anjo e do segundo. Essas conexões foram
deixadas para que os adventistas sabatistas fizessem.
Bates escreveu que, embora acreditassern que os mileritas haviam
pregado a mensagem do primeiro anjo antes do desapontamento, não
foi senão "depois de passar o tempo, [que] nossos olhos foram abertos
para o fato de que duas outras mensagens se seguiam antes da vinda
de Cristo". De igual modo, no início de 1847, Tiago White explicou
as três mensagens como uma "cadeia de eventos" que combinava com
a progressão da história adventista. 50
No inicio de 1850, White publicou um importante estudo sobre
os três anjos, no qual fazia uma correlação exata entre as três mensa-
gens e o desenvolvimento do adventismo. Ele começou com Miller e
conduziu a argumentação até sua compreensão de como via a função
do adventismo sabatista no tempo do fim. Seu propósito era ganhar
outros adventistas, demonstrando que o sabatismo seria a única con-
tinuação genuína do adventismo original.
Tiago White relacionou a mensagem do primeiro anjo com a
pregação milerita do segundo advento. Para ele, o elemento de tempo
em "é chegada a hora do seu juízo" foi crucial. "Todo o grupo do
advento", escreveu ele, "outrora acreditou" que algo especial ocor-
reria por volta de 1843. "A incredulidade daqueles que duvidam
agora", continuou ele, "não prova que estávamos todos equivocados
294 j ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

na época. O passar do tempo, a apostasia e a descrença continuada


dos ad.ventistas não transformaram a verdade de Deus em uma
mentira; ela permanece verdadeira." 51)
O segundo anjo, enfatizou White, "seguiu" o primeiro anjo. Quando,
em reação à pregação do breve retorno de Cristo, as igrejas começaram
a fechar as portas para os mileritas e passaram a exclui-los; então — sob a
liderança de Carlos Fitch —, o segundo anjo fez soar a mensagem "Caiu,
Babilônia... Sai dela povo meu". 52
"Essa profecia", escreveu Tiago White,

se cumpriu exatamente, no momento e lugar certos [...]. Nós


a ouvimos com nossos ouvidos, nossas vozes a proclamaram,
sentimos inteiramente seu poder e com nossos olhos vimos
seu efeito, à medida que o povo de Deus quebrou as amarras
que o prendia a várias seitas e fugiu de Babilônia [...].
A mensagem do segundo anjo nos conclamou a sair das
igrejas caídas e agora estamos livres para pensar e agir por
nós mesmos, no temor de Deus. É um fato muito interessan-
te que a questão do sábado começou a ser propagada entre
os crentes do segundo advento imediatamente após serem
chamados a sair das igrejas, pela mensagem do segundo anjo.
A obra de Deus se move em ordem. A verdade do sábado sur-
giu no tempo exato para se cumprir a profecia.53

White via a mensagem do terceiro anjo como o clímax dessa


sequência profética. Seria a última advertência de Deus ao mundo,
imediatamente antes da grande colheita de pessoas no segundo ad-
vento (ver Ap 14:14-20).
Ele demonstrou que, em Apocalipse 13 e 14 e na mensagem do
terceiro anjo, existem somente duas classes de pessoas. Uma persegue
os santos e recebe a marca da besta. A outra persevera esperando a
vinda de Cristo (apesar do desapontamento de 22 de outubro de 1844)
e "GUARDANDO OS MANDAMENTOS DE DEUS". ISSO destaca a importância
da pregação do sábado do Senhor.
Chegando ao clímax da apresentação, Tiago White escreveu:

Nunca tive tais sentimentos enquanto segurava minha pena


• como agora. — E nunca vi nem senti a importância do sába-
do como neste momento. Certamente a verdade do sábado
O Desenlace Sabatista 1 295

• como o sol que surge do oriente, tem crescente luz, poder e


importância até ser o grande selamento da verdade [...].
Muitos pararam na primeira mensagem angélica, outros,
na segunda, e muitos recusarão a terceira; mas poucos segui-
rão "o Cordeiro por onde quer que vá", e subirão e possuirão
a Terra. Apesar de ter de passar pelo fogo e pelo sangue, ou
testemunhar o "tempo de angústia qual nunca houve", não
se entregarão nem "receberão a marca da besta", mas irão
prosseguir e se manter na batalha até que, com as harpas de
Deus, toquem a nota da vitória sobre o monte Sião. 54

•()Assim, os adventistas sabatistas se viam como um movimento


profético, o único herdeiro genuíno do milerismo. Por causa de suas
convicções, eles frequentemente se referiam ao movimento como "a
terceira mensagem angélica")
Tiago White via todas as outras formas de adventismo como trai-
ções da essência que deu significado e poder ao milerismo no início
de 1840. Por isso, ele escreveu: 'Aqueles que covardemente se entre-
garam aos clamores dos oponentes, confessando que estiveram errados
quanto ao tempo, ocuparam a infeliz posição de ainda conservar o
nome do advento, como se fosse errado o próprio conceito que os
fizera adventistas". 55
Novamente, ele escreveu:

A posição daqueles que descartam o grande movimento que


os fez adventistas e ainda mantêm algumas das ideias princi-
pais de Guilherme Miller, desfrutando o nome do advento,
é incoerente, e seu procedimento muito mais pecaminoso»
vista de Deus do que o comportamento daqueles que renun-
ciaram tanto a posição quanto o nome. Que posição incoe-
rente à vista de Deus, dos anjos e dos homens? Eles abençoam
a fé, a esperança e o nome do advento e amaldiçoam o pró-
prio meio que os tornou o que professam ser1 56

Foi o apegar-se à experiência do advento, à luz das três mensagens


angélicas, argumentou ele, que apresentou "um sistema integrado",
que "explica o passado, definitivamente aponta para o dever presente
e ilumina o futuro glorioso". Para White, os outros grupos adventistas
perderam o rumo."
296 1 AD'VENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Como já seria esperado, nem todos concordaram com sua avaliação.


Wellcome, por exemplo, comparou White ao "bêbado que cambaleava
pela rua, extremamente embriagado, e então resolveu reclamar de que
todos na rua cambaleavam; que os postes e árvores corriam atrás dele".
Os adventistas de Albany rejeitaram o sábado do sétimo dia, o ensino
acerca do santuário, o cumprimento profético em 22 de outubro, bem
como as visões de Ellen White. Como resultado, o adventismo sabatista
seguiu uma linha de desenvolvimento diferente da que foi seguida pelos
demais irmãos do advento. 58
No entanto, na disputa pós-1844 sobre qual grupo tinha a "fé origi-
nal do advento", parece que os sabatistas estavam corretos ao afirmar
que eram a única continuação genuína do milerismo. Os dois outros
setores principais do movimento desistiram dos princípios bíblicos de
interpretação que• geraram as profundas convicções de Miller e que
mais tarde deram poder de convencimento à pregação milerita.
Os espiritualizadores abandonaram o conceito básico da volta literal
de Cristo nas nuvens do céu, enquanto os grupos de Albany renuncia-
ram a base profética que fundamentou a• interpretação historicista de
Miller. Ambas as alternativas fizeram ruir a dinâmica dos movimentos
que as implementaram. De um jeito ou de outro, as novas soluções
abandonaram o elemento essencial que proveu força ao milerismo.
Por outro lado, o mérito da solução sabatista foi que ela captou
a dinâmica do milerismo e encontrou uma forma de expandi-la e
prolongá-la por meio da utilização do modelo bíblico das três mensa-
gens angélicas no tempo do fim, que tinham o imperativo para pregar
"a cada nação, e tribo, e língua e povo" (Apocalipse 14:6). Essa ordem
haveria de levar os sabatistas a todo o mundo. Entretanto, antes de
cumprir essa missão, eles precisavam superar a mentalidade de porta
fechada/fim do tempo da graça e entender todas as implicações da
tríplice mensagem, além de desenvolver um grupo base e uma or-
ganização para cumprir sua tarefa. É para esse último aspecto que
olharemos agora.

O Tempo do Ajuntamento
Por volta de 1848, os líderes sabatistas chegaram a um acordo
em relação a um grupo de doutrinas básicas. Eles também acredi-
tavam que tinham a responsabilidade de compartilhar suas crenças
com os adventistas que ainda continuavam sofrendo pela confusão
0 Desenlace Sabatista 1 297

a respeito do que havia ocorrido em outubro de 1844. Os sabatistas


escolheram abordagens tipicamente mileritas para compartilhar seus
ensinamentos.
A primeira tática para espalhar a mensagem foi organizar uma série
de conferências. A primeira conferência sabatista foi realizada na pri-
mavera de 1848, em Rocky Hill, Connecticut. Pelo menos cinco outras
ocorreram naquele ano, seis em 1849, e dez em 1850. José Bates e o
casal White estavam atuantes na maioria delas»
O propósito das conferências, de acordo com Tiago White, era "unir
os irmãos em torno das grandes verdades integradas com a mensagem
do terceiro anjo".°° Em 1848, muitos na Nova Inglaterra e na região
oeste de Nova York se convenceram a respeito de urna ou mais das
doutrinas adventistas sabatistas, mas ainda faltava um consenso.
O relatório de Tiago White sobre a primeira conferência saba-
tista ilustra tanto o propósito desses encontros quanto •algumas das
dinâmicas neles aplicadas. "Tivemos uma reunião naquela noite
[quinta-feira, 20 de abril de 18481 com cerca de quinze pessoas",
escreveu White.

Na sexta de manhã, havia cerca de 50 irmãos. Eles não esta-


vam completamente na verdade. Nossa reunião naquele dia
foi muito interessante. O irmão Bates apresentou os man-
damentos de forma clara e a importância deles foi reforça-
da por testemunhos poderosos. A palavra tinha o efeito de
firmar os que estavam na verdade e despertar os que não
estavam completamente decididos»

O propósito e a dinâmica das conferências ficaram ainda mais claros


no relatório de Ellen White sobre a segunda reunião, que ocorreu no
"celeiro do irmão Arnold", em Volney, Nova York, em agosto de 1848.
"Havia cerca de 35 pessoas presentes", escreveu ela,

pois tantos eram os amigos que se poderiam reunir naquela


parte do Estado. Entretanto, desse número, dificilmente have-
ria dois que estivessem de acordo entre si. Alguns se apegavam
a erros sérios, e cada qual defendia tenazmente suas opiniões,
declarando que estavam de acordo com a Bíblia. Dissemos
a eles que não tínhamos viajado tamanha distância a fim de
ouvi-los, mas tínhamos ido para ensinar-lhes a verdade.
298 j ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

Após um encontro tenso no qual diversas ideias confusas do adven-


tisrno da porta fechada foram apresentadas, ela observou que muitos
deixaram os erros e se uniram "à mensagem do terceiro anjo. Nossa
reunião terminou vitorios+ verdade venceu". 62jyvh
De acordo com as fontes já citadas, Bates e os ite tiveram uma
importante função de liderança no inicio dessas conferências. Liderança
forte e direcionada ao objetivo eram duas condições fundamentais
para formar um grupo de crentes, dentro das condições fanáticas do
adventisrno pós-desapontamento.
De acordo com Tiago White, em novembro de 1849, as conferências
estavam cumprindo seu objetivo básico. "Por meio da proclamação da
verdade do sábado em [...] conexão com o movimento do advento",
escreveu ele ao irmão Bowles,

Deus está se tornando conhecido àqueles que são seus.


No oeste de Nova York, o número de guardadores do
sábado está aumentando rapidamente. Há mais do que
duas vezes o número de pessoas agora do que seis meses
atrás. Assim [também] é mais ou menos no Maine, em
Massachusetts, New Han-ipshire, Vermont e Connecticut

O tempo da dispersão [como resultado do desaponta-


mento de outubro] pelo qual passamos está no passado e
agora é o tempo para os santos se reunirem na unidade da
fé e serem selados pela única verdade santa e unificadora.
Sim, irmão, chegou o tempo.
É verdade que a obra caminha vagarosamente, mas fir-
me, e acumula força a cada passo [...].
Nossa experiência passada do advento, a posição pre-
sente e a obra futura estão delineadas em Apocalipse 14,
claras como o lápis profético poderia descrevê-las. Graças
a Deus que vemos isso [...].
Acredito que a verdade do sábado ainda será apresen-
tada em toda a Terra, como o advento nunca foi [...].
Estou cansado de todos os periódicos do a vento; e
todos os editores do advento, pobres criaturas. As lâm-
padas se apagaram, ainda tentando iluminar seus irmãos
cegos para o reino de Deus.)
O Desenlace Sabatista 1 299

Tiago mencionou ainda que não tinha o desejo de ser como eles.
"Só peço o privilégio de apascentar, se possível, meus pobres irmãos
— 'os rejeitados'."63
Assim, desde o começo, os sabatistas se destacavam como um povo
impulsionado pela missão e pelo imperativo dos três anjos de Apo-
calipse 14. O primeiro passo em sua missão era alcançar os mileritas
confusos, no fim da década de 1840. As conferências se tornaram o
veículo inicial para alcançar esse objetivo.
O segundo passo no ajuntamento sabatista está relacionado com a
área de publicações. Como• as conferências, elas tiveram o propósito
de convocar, informar e unir os crentes adventistas dispersos em torno
das três mensagens angélicas. Da mesma forma que as conferências, as
publicações estavam no centro dos conceitos mileritas de organização.
As primeiras publicações dos sabatistas foram folhetos ocasionais
que destacavam as verdades recém-descobertas no contexto do mi-
lerismo como movimento profético. Esses folhetos, ou pequenos li-
vros, incluíram Ti-te Opening Heavens ["Os céus abertos"] (1846), Ti-te
Seventh-day Sabbath, a Perpetuai Sign ["0 sábado do sétimo dia, um
sinal perpétuo"] (1846, e• amplamente revisado em 1847), Second
Advent Way Marks and High Heaps ["Marcos e sinais indicativos do
segundo advento"] (1847), Vindication of the Seventh-day Sabbath, and
ti-te Commandments of God ["Vindicação do sábado do sétimo dia e os
mandamentos de Deus"] (1848) e A Seal of the Living God ["Um selo
do Deus vivo"] (1849), todos de autoria de José Bates.
Além dos folhetos de Bates foi realizada a primeira publicação
conjunta da liderança sabatista — A Word to ti-te "Litde Flock" ["Uma
mensagem ao pequeno rebanhol (1847). A principal ênfase do do-
cumento de 24 páginas era encorajar os crentes do advento a reter a
experiência de 1844 enquanto buscavam mais luz sobre o futuro.
Uma transição importante nas publicações sabatistas foi estimula-
da • or uma vi e e Ellen White em Dorchester, Massachusetts, em
novembro de 1848. B epois da visão, ela falou a Tiago que tinha "uma
mensagem para ele. "Você deve começar a publicar um pequeno jornal e
mandá-lo ao povo. Que seja pequeno a princípio; rnas, quando as pessoas
o lerem, enviarão recursos para que você possa imprimi-lo, e alcançará
bom êxito desde o principio. Desde este pequeno começo foi-me mos-
trado assemelhar-se a torrentes de luz que circundavam o mundo.""
Sua previsão de uma obra de publicações ao redor do mundo não
poderia ter surgido a partir de algo que fosse particularmente motivador
300 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

entre os crentes sabatistas, dispersos na época. Humanamente falando,


parecia um absurdo. O que poderia ser feito por alguns poucos prega-
dores sem um centavo, apoiados por cerca de 100 crentes? Um começo
mais simples do que esse para um empreendimento de publicações é
difícil de ser imaginado.
Apesar das circunstâncias desafiadoras, um Tiago White financeira-
mente arruinado e sem-teto deu um passo de fé para escrever e publicar
o "pequeno jornal". Olhando para trás, para aquela experiência, mais
tarde, ele escreveueNós nos assentamos para preparar a matéria para
aquele folheto e escrevemos cada palavra; toda nossa biblioteca consis-
ZI tia numa Bíblia de bolso de três centavos, na Concordância Condensada
de ,Cruden e no dicionário antigo de Walker, que estava sem uma das
capas [...]. Nossa esperança de sucesso estava em Deus".91
Destituído de recursos, White procurou uma gráfica não adventista
que estivesse disposta a imprimir aquele jornal de oito páginas para al-
guém completamente desconhecido e que ainda se dispusesse a esperar
pelo pagamento, até que as contribuições viessem de possíveis leitores.
A primeira edição de mil exemplares de The Pres qnt Truth ["A ver-
dade presente"] saiu da impressão t m julho de 1849) "Quando Tiago
trouxe o primeiro número da gráfica", lembra Ellen White,

todos nós nos ajoelhamos ao seu redor, pedindo ao Senhor,


com corações contritos e muitas lágrimas, para que sua
bênção estivesse sobre os• débeis esforços de seu servo. Ele
[Tiago] endereçou os jornais para todos que ele pensou
que fossem lê-lo e os levou ao correio [a 12 quilômetros]
em uma bolsa de tecido [...]. Logo chegaram cartas trazen-
do as boas-novas de que muitas pessoas estavam abraçando
a verdade. 66

O assunto de The Present Truth foi a mensagem para aquele tempo,


como os sabatistas a viam — o sábado, as três mensagens angélicas e os
temas doutrinários relacionados. O "pequeno jornal" teve sua partici-
pação no "tempo de ajuntamento", no fim da década de 1840.
A publicação de The Present Truth, no entanto, foi somente o pri-
meiro passo para o desenvolvimento dos periódicos sabatistas. No verão
de 1850, Tiago publicou o primeiro exemplar de The Ativem Review
["Revista do advento"] — uma revista que reimprimiu muitos dentre
os mais importantes artigos mileritas do início da década de 1840.
O Desenlace Sabatista 1 301

O propósito era impressionar os adventistas dispersos com a força e a


clareza dos argumentos que fundamentavam o movimento de 1844.
Em novembro de 1850 ocorreu a unificação de The Present Truth
com The Advent Review, passando então a se chamar The Second Advent
Review and the Sabbath Hei ,-cjü l"Revista do segundo advento e arauto
li-O—sábado"]. Por muitos anos, a Review and Herald foi essencialmente "a
igreja" para a maioria dos sabatistas. Afinal, eles geralmente não tinham
uma congregação nem um pregador regular. A chegada frequente da
Revietv levava notícias sobre sua igreja e seus irmãos, sermões e um
senso de pertencimento aos sabatistas dispersos.
O terceiro estágio no tempo de ajuntamento sabatista teve relação
com a organização denominacional formal. Assim como nos demais
grupos adventistas, essa etapa foi difícil. O fato de eles terem sido ex-
pulsos e silenciados em suas denominações, aliado aos ensinamentos
anti-igreja de Storrs, Marsh e outros, os levava a suspeitar de qualquer
instituição eclesiástica. Entretanto, os sabatistas, à semelhança de ou-
tros crentes do advento, descobriram que era preciso ter algum tipo
de organização. 67
Os mesmos problemas que incomodaram o grupo de Albany, na
década de 1850, também afligiram os sabatistas. Eles tiveram que se
preocupar com pregadores itinerantes que se apresentavam como parte
de seu movimento, com a manutenção de seus fiéis ministros e com
a regularização de sua editora. Quase no mesmo passo que os outros
adventistas, os sabatistas desenvolveram salvaguardas para a certificação
ministerial, um modo sistemático de arrecadar fundos e meios mais
seguros de manter suas propriedades.
Assim como os demais adventistas, os sabatistas também se orga-
nizaram formalmente entre 1860 e 1863)0s White estavam na linha
de frente da luta pela organização. Argumentou Tiago:

Deus não planejou tirar seu povo da confusão de Babilô-


nia para levá-lo a uma confusão maior, sem ordem nem
disciplina. Isso só faria uma questão ruim se tornar ainda
pior. Seu objetivo em tirá-los das igrejas foi discipliná-los e
uni-los para a última grande batalha da verdade, sob a ter-
ceira mensagem. Não foi a ambição de formar uma deno-
minação que provocou a organização, mas as necessidades
da circunstância.68
302 j ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

Nesse contexto, os ministros dirigentes convocaram uma "assembleia


geral" dos sabatistas, que foi realizada d428 de setembro a P de outubro
de 1860. ito encontro, apesar dos argumentos veementes a respeito de
"Babilônia", foi decidido constituir legalmente a editora. Além disso, o
nome "adventista do sétimo dia" foi adotado como aquele que melhor
representava as crenças da denominação emergente. O passo seguinte
foi a constituição jurídica da Editora Adventista do Sétimo Dia, em
3 de maio de 1861, de acordo com as leis do Estado de Michigan. 69
Assim, uma grande batalha foi vencida em favor da organização.
Naquele ponto, a vitória completa não estava distante, apesar de, em
agosto de 1861, Tiago White reclamar de "uma tola incerteza sobre o
assunto da organização". 7°
Em outubro, a Associação dos Adventistas do Sétimo Dia de
Michigan foi estabelecida. 71 Com os empecilhos finalmente removidos,
em 1862 foram organizadas mais sete associações locais. Outras logo
se seguiram.
O passo final no desenvolvimento dorganização
i eclesiástica entre
os sabatistas ocorreu em aio de 1863 numa reunião com represen-
tantes das associações locais, em Battle reek, Michigan.(No encontro,
a Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia foi estabelecida,
tendo John Byington como seu primeiro presidente.) Tiago White foi
escolhido de forma unânime para o cargo, mas sabiamente recusou a
indicação, em virtude de seu forte papel em defesa da organização. 72
A estrutura organizacional dos adventistas do sétimo dia foi a única
dentre várias denominações adventistas a ser centralizada. Todas as
outras eram essencialmente congregacionalistas.
Entretanto, nem todos na nova denominação apreciaram o sistema
org izac • nal centralizado. Como resultado, os descontentes saíram
e 1866 - estabeleceram sua sede em Marion, Iowa. Entre outras
coi . s, o partido de Marion" era contra a liderança de Tiago e Ellen
White. Eles finalmente formaram a çsIgreja de Deus (do Sétimo Dia))
A história dessa denominação pode er definida como uma sucessão
de lutas e divisões. O excesso de personalidades independentes e a
falta de autoridade eclesiástica faz em com que sua história fragmen-
tada relembre a de outras denominações adventistas que reagiram
contra qualquer forma de organização."
• Apesar da deserção do grupo de Marion, o tempo de ajuntamento
adventista do sétimo dia continuou sob a orientação de Bates e dos White.
O número de sabatistas havia aumentado de cerca de 100, em 11850,
O Desenlace Sabatista 1 303

para mais ou menos 3.500, em 1863, quando a Associação Geral foi


estabelecida. EsseS crescimento continuaria (e continua) impulsiona-
do por aquilo que o povo adventista do sétimo dia considerava ser a
comissão divina dos três anjos de Apocalipse 14, a fim de pregar sua
mensagem singular "a cada nação, e tribo, e língua e povo".
CAPITULO 15
O Adventismo
Depois de 170
Anos

D esde o desapontamento de 22 de outubro, mais de 170 anos se


passaram. Aquele evento, como observamos nos capítulos 12
a 14, mudou radicalmente o milerismo. Entre 1844 e 1866,
surgiram seis movimentos que se tornaram denominações.
Entre os adventistas de Albany surgiram: a Associação Adventis-
ta Evangélica Americana, os Cristãos do Advento, a Igreja de Deus
(Oregon, Illinois) e a União da Vida e do Advento. Por sua vez, o
movimento sabatista deu origem aos Adventistas do Sétimo Dia e à
Igreja de Deus (do Sétimo Dia).
Por causa da grande diversidade, individualidade e falta de organização,
a ala espiritualizadora do adventismo não permaneceu. Seus seguidores
tornaram-se adeptos de outros "ismos", uniram-se a grupos adventistas
mais estáveis ou foram absorvidos novamente pela cultura geral.

A Forma Mutante do Adventismo


Apesar de não haver estatísticas disponíveis, é possível sugerir que
os Adventistas Evangélicos e os Cristãos do Advento foram os grupos
O Adventismo Depois de 170 Anos 1 305

mais numerosos no início da década de 1860, com os Cristãos do


Advento constantemente superando os Evangélicos no número de
membros. Uma razão para o maior sucesso dos Cristãos do Advento
parece ser a singularidade de suas crenças, condição que lhes proveu
algo a que se apegar. Estes ensinamentos — o condicionalismo e o
aniquilacionismo — proporcionaram um estímulo necessário e, de
modo gradativo, até mesmo acrescentaram ênfase ao advento. Elas
se tornaram as doutrinas distintivas e propiciaram aos Cristãos do
Advento um ponto de união.
Os Adventistas Evangélicos, por outro lado, tinham apenas o adven-
to pré-milenarista para separá-los da população cristã no geral. Quando
uma grande parcela do protestantismo conservador também adotou
formas de pré-milenarismo, nas décadas após a Guerra Civil, restaram
poucas razões ao adventismo evangélico para continuar sua existência
separada. No início do século 20, ele havia deixado de existir como
um organismo religioso independente.'
Quase não havia estatísticas a respeito dos grupos adventistas nos
primeiros anos. Alguns tinham medo de que "contar Israel" pudesse
trazer "maldição". Outros comprovaram que isso era muito proveito-
so, apesar de certa relutância. As divisões e suspeitas mútuas entre os
grupos sempre dificultavam essa tarefa. 2
O primeiro censo adventista foi publicado por D. T Taylor, em 1860.
Ele contou 584 pastores dos quais 365 criam no condicionalismo e
aniquilacionismo; 67 acreditavam na consciência após a morte; nove se
declararam indecisos; e 143 preferiram não dizer nada. Quanto ao dia
de adoração, 365 aceitavam o domingo; 57 defendiam a validade do
sábado; e 162 não responderam. Taylor estimou a quantidade de leigos
em 54 mil, mas não tentou dividi-los de acordo com as peculiaridades
das crenças. No entanto, outras fontes indicam que mais de 3 mil eram
sabatistas. Assim, em 1860, os guardadores do sétimo dia representa-
vam pouco mais do que 5% dos adventistas. Os demais, possivelmente,
adoravam no primeiro dia. 3
O censo de Taylor também reuniu estimativas sobre a quantidade
de assinantes dos vários periódicos adventistas. O World's Crisis, dos
Cristãos do Advento, liderava a lista com 2.900 assinantes. 0 Crisis era
seguido pela publicação sabatista Review and Herald (2.300) e pelo
Advent Herald (2.100), dos Evangélicos. Taylor fez questão de observar
que os promotores da Review and Herald "apesar de serem uma minoria
decidida, são muito dedicados, zelosos e ativos na disseminação de suas
306 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

ideias peculiares acerca do domingo e do sábado." Os resultados desse


zelo se tornariam mais evidentes nas décadas seguintes.'
O censo do governo dos Estados Unidos, em 1890, não somente
apresentou um quadro mais realista dos membros adventistas como
também apontou mudanças expressivas no tamanho das várias denomi-
nações provenientes do milerismo. Naquele momento, os Adventistas
do Sétimo Dia haviam alcançado predominância, com 28.991 mem-
bros no pais. Os Cristãos do Advento vinham a seguir, com 25.816.
Na sequência estavam a Igreja de Deus (Oregon, Illinois), com 2.872;
os Adventistas Evangélicos, com 1.147; a União da Vida e do Advento,
com 1.018 e a Igreja de Deus (do Sétimo Dia) com 647. 5
Pouco mais de um século depois, somente quatro das seis deno-
minações adventistas existiam. Em 2006, os Adventistas do Sétimo
Dia relataram aproximadamente 1 milhão de membros nos Estados
Unidos; os Cristãos do Advento afirmaram ter 25.277; a Igreja de Deus
(Oregon, Illinois), 3.860; e a Igreja de Deus (do Sétimo Dia), 9 mil. 6
Como podemos notar, os Adventistas Evangélicos, que haviam sido
um grupo forte, foram os primeiros a sucumbir. A denominação desa-
pareceu no inicio do século 20. A União da Vida e do Advento seria a
próxima a perder sua identidade. Em 1958, a igreja relatou ter somente
340 membros. Seis anos depois, ela se uniu com os Cristãos do Advento.'
Assim, em 2006, os Adventistas do Sétimo Dia, com 1 milhão de
membros nos Estados Unidos e mais de 15 milhões ao redor do mundo,
dominavam a lista de organizações religiosas consideradas herdeiras do
milerismo. Como Clyde Hewitt, um historiador cristão do advento,
afirmou: "O menor dos grupos originais derivados do milerismo foi
aquele que se tornaria, de longe, o maior". 8

O Motivo do Sucesso
Neste ponto, alguém poderia perguntar: por quê? Por que o pequeno
Movimento sabatista, com suas doutrinas impopulares, não somente
sobreviveu, mas prosperou? Talvez alguém se arrisque a pensar numa
resposta para essa questão; contudo, existem várias hipóteses impor-
tantes que podem ser defendidas, a partir dos dados históricos.
Antes de explorá-las, é preciso observar que, intimamente ligado à
razão de o Adventismo do Sétimo Dia ter obtido sucesso, está a questão
sobre o porquê do milerismo ter alcançado êxito. Gostaria de sugerir
que os dois movimentos progrediram pelas mesmas razões.
O Adventismo Depois de 170 Anos 1 307

Antes de expor minha análise, devemos olhar as respostas que


outros têm apresentado sobre a razão do sucesso adventista. Os argu-
mentos de David L. Rowe, Michael Barkun e Ruth Alden Doan são
muito proveitosos.
Rowe aponta que muitos "profetas" que predisseram o fim do mun-
do surgiram na história americana, mas nenhum deles alcançou um
grupo tão grande de seguidores como Miller. Ele então passa a explicar
o sucesso do movimento em termos de reavivamento, rnilenarismo
e pietisrno. Essas três forças se conjugaram na época do movimento
milerita.
Para Rowe, enquanto a pregação do segundo avivamento proveu o
método para espalhar o adventismo, o milenarismo supriu a ideia ou
o sonho de um reino futuro que direcionou o movimento. E o pietis-
mo complementou a atitude de fé que levou• as pessoas a responder
ao reavivamento e aceitar a visão do novo mundo vindouro. Atuando
em conjunto, esses três elementos desenvolveram uma dinâmica que
impulsionou o adventismo.q
Barkun chama a atenção para os fatores ambientais que atuaram
como colaboradores para o sucesso, não somente do adventismo, mas
também de outros movimentos milenaristas e utópicos da mesma épo-
ca. Assim, os desastres naturais (como padrões climáticos em mudança)
e crises econômicas/sociais (como o Pânico de 1837) proporcionaram
um ambiente para que as pessoas buscassem soluções para o estresse
individual e coletivo.
Nesse contexto, a mensagem de Miller proveu esperança para um
mundo em que o esforço humano havia falhado em alcançar os re-
sultados esperados. Parece ser uma regra que, quanto piores as coisas
ficam, em termos humanos, mais aceitáveis parecem ser as opções
milenaristas. 1 °
Em apoio ao raciocínio de Barkun, é fato comprovado que grupos
milenaristas prosperam em tempos de crise. Assim, o evangelismo
adventista do sétimo dia e o movimento dispensacionalista tiveram
alguns de seus melhores anos durante a Primeira Guerra Mundial. Da
mesma forma, Barkun observa que reavivamentos rnilenaristas ocorre-
ram não somente durante a depressão econômica da década de 1840,
mas também durante as crises de 1890 e 1930. 11
Doan vê a característica ortodoxa como fator de sucesso do mileris-
mo — sua harmonia essencial com outras forças religiosas em questões
doutrinárias, sua liderança leiga na compreensão da Bíblia e assim
308 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

por diante. A principal heresia do milerismo foi sua visão do adven-


to pré-milenarista. Contudo, a própria ortodoxia do movimento na
maioria das questões deixava a população aberta para aceitar sua única
mensagem não ortodoxa. O argumento de Doan — que é atualmente
compartilhado pela maioria dos estudiosos não adventistas — é contrário
às abordagens iniciais que tratavam o adventismo como algo estranho
e até excêntrico, além de estar em desarmonia com sua cultura. 12
É importante notar que as várias sugestões apresentadas até aqui
para o sucesso do adventismo não são mutuamente excludentes. Cada
uma parece suprir uma parte da explicação por trás do sucesso adven-
tista e, por extensão, do sucesso do adventisrno sabatista. Porém, mesmo
coletivamente, elas compõem somente uma parcela da resposta para a
pergunta acerca do sucesso do adventismo.
As sugestões dadas nas páginas seguintes não devem ser vistas como
estando em desacordo com as que foram apresentadas por Rowe,
Barkun, Doan e outros, mas corno propostas complementares a elas.
Enquanto as sugestões desses analistas tendem a se concentrar em
fatores externos ao movimento milerita, as ideias desenvolvidas nas
páginas seguintes procuram analisar cuidadosamente os fatores inter-
nos que levaram ao sucesso do milerismo pré-I. 845 e do adventismo
sabatista pós-1844.
Forças sociais e fatores contextuais são importantes (provavelmente
até essenciais) para o êxito de qualquer grupo religioso, mas apenas
esses fatores não são suficientes por si mesmos. Os fatores externos não
são o movimento, mas podem ser o solo para o plantio bem-sucedido
e a expansão de um movimento. Tanto os fatores externos quanto in-
ternos foram necessários para que um movimento como o milerismo
ou adventismo sabatista alcançasse sucesso.
Examinaremos agora quatro fatores internos que parecem ter con-
tribuído para o êxito do milerismo e do adventismo do sétimo dia.
Primeiro, é importante observar que os movimentos apocalípticos (
frequentemente atraem dois tipos de personalidades. De um lado está
o racionalista que desata o nó das profecias bíblicas e sistematiza o
relacionamento entre os eventos apocalípticos. Do outro, estão os tipos
emotivos que se inclinam em direção à empolgação da expectativa
apocalíptica e, às vezes, caem no extremismo fanático e irracional.
O milerismo apresentava os dois tipos. Assim, apesar de funda-
do sobre o racionalismo frio de Miller, entre os mileritas surgiram os
Starkweather, os Gorgas e os espiritualizadores. Um movimento se
O Adventismo Depois de 170 Anos I 309

desintegra sempre que as forças racionais não são fortes o bastante


para deter as forças centrifugas do irracionalisrno ou emocionalismo.
Foi nessa área que a ala espiritualizadora do adventismo fracassou.
Seu irracionalismo superou o racionalismo até finalmente não haver
controle sobre suas estruturas doutrinárias.
Uma das forças do milerismo foi a apresentação racional de sua
doutrina central. Esse elemento atraiu crentes a sua causa por meio
da própria lógica. Contudo, em seu auge, o movimento também abriu
espaço para o emocionalismo religioso, embora tal característica tenha
ocorrido dentro dos limites do racionalismo. Essa combinação deu
tanto vida e estabilidade ao movimento quanto aumentou seu apelo.
O adventismo do sétimo dia tem compartilhado muito desse equi-
líbrio, apesar de parecer, às vezes, se curvar em direção ao extremo
racional. Tanto o milerisrno quanto sua descendência sabatista natural-
mente tiveram seus elementos exagerados e fanáticoskrias a estabili-
dade de seu sucesso pode grandemente ser atribuída a sua habilidade
de apelar ao aspecto racional das pessoas. Na verdade, para ambos os
movimentos, o objetivo era/é converter as pessoas "à verdade")
O segundo elemento que parece ter contribuído para o sucesso
evangelístico do milerismo e do adventismo do sétimo dia é o fator
doutrinário, ou o conteúdo de seu conceito de verdade. Os mileritas
tinham aquilo que consideravam ser uma verdade bíblica importante
para oferecer às pessoas que estavam em busca de um sentido para
suas crenças. Para o movimento, esse fator doutrinário era o retorno
pré-milenarista de Cristo. O milerismo não era simplesmente uma
parte do cenário eclesiástico; apresentava algo distinto dos demais
grupos religiosos. Por isso tinha uma mensagem para pregar e muitos
responderam a ela.
Conforme já comentamos, uma das razões pelas quais o Adventismo
Evangélico sucumbiu foi porque acabou abandonando sua distinção doutri-
nária, uma vez que uma porção significativa do protestantismo americano
terminou por aceitar o pré-milenarismo. Após esse fato, o grupo perdeu
sua razão de existir Como resultado, seus integrantes se misturaram no-
vamente ao evangelicalismo geral. Por outro lado, os Cristãos do Advento
adotaram o condicionalismo como sua nova distinção doutrinária. Assim,
eles passaram a ter pelo menos uma razão a mais do que seu congênere
evangélico para se manter de forma independente.
Em contraste, os adventistas do sétimo dia desenvolveram um con-
junto de crenças não convencionais, as quais, de acordo com sua missão
310 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

especial, deveriam ser compartilhadas com o mundo. Assim como uma


pipa voa contra o vento, existe uma dinâmica nos movimentos religio-
sos que é estimulada pelas diferenças e até mesmo pela oposição. Ser
diferente proporciona um significado às pessoas e grupos sociais. Além
disso, o fato de ser diferente desenvolve compromisso com uma causa,
especialmente quando ela inclui "a destruição de pontes" no momento
em que alguém se une a essa subcultura religiosa. 13
No milerismo, o momento de destruir as pontes ocorreu quando
as pessoas foram "lançadas para fora de Babilônia" por apoiar crenças
pré-milenaristas. Um exemplo dessa dinâmica no adventismo do sétimo
dia pode ocorrer no ambiente de trabalho ou nas relações familiares
que envolvam a guarda do sábado em uma cultura que vê no sábado
um dia de trabalho e/ou lazer.
Os Adventistas do Sétimo Dia têm estabelecido vários contornos
doutrinários e de estilo de vida que possuem esse efeito. Hewitt, bus-
cando explicar o crescimento do Adventismo do Sétimo Dia em con-
traste com a falta de crescimento dos Cristãos do Advento, ressalta que
"enquanto são vistas com suspeita por muitos cristãos tradicionais, as
crenças e práticas distintivas da denominação [Adventista do Sétimo
Dia] aparentemente proporcionam a seus membros fiéis uma atitude
resoluta de caráter individual e coletivo que ultrapassa a explicação
do seu sucesso".
Dean Kelley amplia o entendimento do fato em consideração ao
ponderar que, se pessoas vão se unir à igreja, elas querem se ligar a
uma comunidade que apresente uma alternativa genuína para a cultura
geral. Por sua vez, o Adventismo do Sétimo Dia (como o milerismo)
se aproxima bastante da ortodoxia na maioria das doutrinas centrais
para obter a consideração de outros cristãos."
O terceiro elemento que levou ao sucesso evangelístico do Adven-
tismo do Sétimo Dia foi uma estrutura organizacional capaz de dar
suporte à missão e superar os desafios de sua mensagem. A princípio,
pode parecer que o êxito do milerismo e o do Adventismo do Sétimo
Dia possam apresentar aqui uma variante. Em certo sentido, isso é
verdade. Mas a variável parece ser o tempo em vez de a organização.
O ponto essencial é que o milerismo, por meio de suas assembleias e
periódicos, tinha a organização necessária para dar direção à missão em
seus poucos e intensos anos. No entanto, esse padrão organizacional
impreciso não teria sido suficiente para dirigir a missão do movimento
durante um período prolongado de tempo.
O Adventismo Depois de 170 Anos 1 311

Foi a ausência de urna organização adequada que levou ao fim os


espiritualizadores, assim como resultou na falta de crescimento das
duas denominações adventistas chamadas Igreja de Deus. Sem uma
estrutura organizacional consistente, eles não conseguiram concentrar
seus recursos na missão ou manter a unidade. O resultado foi uma
fragmentação desastrosa.
Foi por causa da organização que os Cristãos do Advento e os Adventis-
tas do Sétimo Dia também se separaram. Observamos que a Igreja Adven-
tista do Sétimo Dia foi a única das denominações adventistas a concordar
com a autoridade de outros níveis eclesiásticos acima da congregação local.
Hewitt, lamentando o estado dos Cristãos do Advento, indica que a
falta de uma "forte organização centralizada" é uma razão por que "a di-
minuição ameaça superar a expansão" no trabalho deles. Em sua forma
de ver, a organização centralizada que eles tiveram veio tarde demais e,
pior ainda, representou mera estrutura, sem poder significativo. Hewitt
destaca que, como resultado, os Cristãos do Advento foram incapazes
de se mobilizar em direção a um movimento unido. Ele sugeriu em
1990 que, com uma organização adequada, os Cristãos do Advento
poderiam ser "urna denominação crescente e não agonizante"»
Em contraste, dois estudos recentes sobre o sistema organizacional
Adventista do Sétimo Dia indicam que sua estrutura foi consciente-
mente desenvolvida tendo como foco a missão. 16 Isso não significa que
a denominação não tenha problemas significativos com relação a esse
aspecto. Ao contrário, o Adventismo do Sétimo Dia, como veremos a
seguir, tem enfrentado sérias dificuldades organizacionais a partir do
início do século 2L
O quarto fator — e de longe o mais importante — na rápida expansão
do milerismo foi seu sentido de missão e o senso de urgência gerado
pela compreensão profética. O milerismo foi um movimento impul-
sionado pela urgência da missão. Uma das teses dos capítulos iniciais
deste livro é que o senso de responsabilidade pessoal para advertir o
mundo do fim iminente foi o que literalmente levou Miller, Himes e
vários outros a dedicar tudo o que tinham para pregar a vinda do juízo.
Himes descreveu essa missão com palavras elegantes no editorial do
primeiro número do Midnight Cry:

Nossa obra é de magnitude inexprimível. É uma missão e uma


iniciativa diferentes, em alguns aspectos, de tudo o que jamais
despertou as energias humanas [.••]. É um alarme, um clamor,
312 ADVENTISMO -- Origem e Impacto do Movimento IVIiierita

dado por aqueles que, dentre todas as denominações protestan-


tes, como vigias sobre os muros do mundo moral, creem que
a crise mundial chegou — e que, sob a influência desta fé, estão
unidos na proclamação: "Eis o Noivo! Saí ao seu encontro!" 17

É preciso destacar que esse sentido de urgência surgiu a partir da


interpretação das profecias de Daniel e Apocalipse. Eles acreditavam de
todo o coração que eram portadores de urna mensagem que as pessoas
precisavam ouvir. Foi essa crença e a total dedicação dos mileritas que
os impulsionaram em sua incansável missão.
Gostaria de sugerir que essa mesma visão, com base nas mesmas
profecias, tornou-se a principal fonte para o cumprimento da missão
adventista do sétimo dia.pesde o começo, os sabatistas nunca se viram
meramente como mais uma denominação. Ao contrário, entenderam
que seu movimento e sua mensagem eram parte de um cumprimento
profético. Eles viam a si mesmos como povo profético.)
Essa compreensão veio da certeza de que eram a única continuação
genuína do milerismo, particularmente no que diz respeito à preserva-
ção da interpretação profética de Miller. Da perspectiva inicial sabatista,
os outros grupos adventistas perderam o rumo e finalmente sua missão
por negarem esse ponta
Essa negativa ocorreu em duas direções. Uma delas foi a rejeição da
interpretação literal de textos das Escrituras que parecem totalmente
literais. Assim, a crença de que Cristo tinha vindo enfraqueceu a força
missiológica dos espiritualizadores. Afinal, se Jesus havia voltado, que
razão haveria para a missão?
Nesse mesmo período, os adventistas de Albany rejeitaram o estí-
mulo que havia convencido e capacitado o milerismo para a missão,
quando abandonaram os princípios de interpretação profética de Miller
em relação às grandes profecias de tempo de Daniel e Apocalipse. Sem
a certeza da sequência da história profética, eles perderam o sentido
de convicção e urgência. Por isso, tiveram de encontrar em outras dou-
trinas a razão para sua existência, como o condicionalismo ou a não
ressurreição dos ímpios. Isso pode ter sido o bastante para justificar sua
existência denominacional, mas os grupos de Albany abandonaram a
base que havia impulsionado o milerismo.
Em contraste, os sabatistas fundamentaram seu movimento nos
mesmos pilares. Eles não somente mantiveram o esquema profético
de Miller, mas também o ampliaram de tal maneira que um significado
O Adventismo Depois de 170 Anos 1 313

especial foi atribuído tanto para o desapontamento quanto para o tempo


restante até o advento de Cristo. Diante desse contexto, a obra de pu-
rificação efetuada por Cristo no segundo compartimento do santuário
celestial bem como a natureza progressiva das três mensagens angélicas
de Apocalipse 14 foram fundamentais.
Essas duas extensões proféticas proveram aos sabatistas o mesmo
senso de urgência que inspirou os mileritas na década de 1840. Ao
mesmo tempo em que os sabatistas viam Miller e Fitch como os inicia-
dores da primeira .e da segunda mensagem angélica, eles entendiam que
seu movimento, com ênfase nos mandamentos de Deus, dava início à
terceira mensagem. Assim, acreditavam que o conflito sobre a doutrina
singular do sábado seria o ponto central na grande controvérsia entre
o bem e o mal, antes da segunda vinda.
Essa interpretação foi reforçada pela ideia do conflito em relação aos
mandamentos de Deus no tempo do fim, descrita em Apocalipse 12:17,
e ampliada em Apocalipse 13 e 14. Como resultado, os sabatistas foram
convencidos de que não somente eram os únicos herdeiros do mileris-
mo, mas também que seu movimento havia sido predito por Deus para
proclamar as três mensagens angélicas a todo o mundo, imediatamente
antes da grande colheita descrita em Apocalipse 14.
Essa compreensão profética provocou, no adventismo sabatista, a
mesma reação que havia causado no milerismo. Ela os impulsionou à
missão. Em 2008, a convicção de que sua denominação era um movi-
mento profético resultou num dos programas missionários mais amplos
da história do cristianismo. Naquele ano, os adventistas do sétimo dia já
haviam se estabelecido em 203 dos 232 países até então reconhecidos
pela Organização das Nações Unidas.'s
Esse tipo de dedicação não veio por acidente; foi o resultado direto
da convicção profética de sua responsabilidade. Foi fundamental para
tal certeza o imperativo do primeiro anjo de Apocalipse 14:6 de pregar
a cada nação, e tribo, e língua e povo" e a ordem de Apocalipse 10:11
dirigida aos desapontados: "É necessário que ainda profetizes a respeito
de muitos povos, nações, línguas e reis."
Clyde Hewitt, buscando explicar o êxito dos Adventistas do Sétimo
Dia em oposição aos problemas enfrentados pelos Cristãos do Advento,
tocou em um elemento essencial quando afirmou que "os Adventistas
do Sétimo Dia estão convictos de que têm sido divinamente ordenados
a cumprir a obra profética começada por Guilherme Miller. Eles se
entregam totalmente à tarefa".19
314 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

Em contraste com essa convicção, o pai de Hewitt escreveu para


E D. Nichol, em 1944, que os Cristãos do Advento desistiram da inter-
pretação de Miller de Daniel 8:14 e dos 2.300 dias e não apresentavam
unanimidade sobre o significado do texto. Outro importante estudioso
cristão do advento, entrevistado em 1 984, observou que sua denomi-
nação não tinha mais qualquer interpretação oficial sobre o milênio — a
própria essência da contribuição milerita."
Em resumo, quando os adventistas de Albany saíram da plata-
forma profética de Miller, começaram um processo de degeneração
em sua compreensão anterior acerca do fim do mundo. A partir
dessa perspectiva, as reversões posteriores na interpretação profética
adotadas por Josias Litch e outros se tornaram bem compreensíveis.
O ramo sabatista da família adventista foi rápido ao reconhecer
aquilo que Ellen White havia predito em dezembro de 1844: que
aqueles que rejeitassem a data de 22 de outubro de 1844 como
cumprimento profético finalmente ficariam em "densas trevas" e
tropeçariam em sua experiência do advento."
É importante observar que simplesmente sustentar a convicção de
ter a "doutrina correta" não é explicação suficiente para a expansão
do adventismo sabatista. Afinal, os batistas do sétimo dia pregavam o
sábado com convicção, mas seus 4.800 membros nos Estados Unidos,
em 2003, são um número menor do que na década de 1840. Como um
pregador batista do sétimo dia falou a Bates, os batistas foram capazes
de "convencer as pessoas acerca da legalidade do sétimo dia, mas não
conseguiram mobilizá-las como os adventistas do sétimo dia". 22
Da mesma forma, muitos dos grupos adventistas não sabatistas
pregavam a mensagem que acreditavam ser a verdade sobre o retorno
pré-milenarista de Cristo, mas sem os mesmos resultados dos Adven-
tistas do Sétimo Dia. Hewitt afirma que seu "povo Cristão do Advento
não tem sido uma igreja evangelística" e não tem feito muito para
influenciar o mundo. O resultado, ele ressalta, tem sido a pequenez.
Não só os números acanhados, mas também "em sonhos, em visões.
Pequenez gera pequenez".
Hewitt também indica que esse nanismo dos Cristãos do Advento não
pode ser atribuído a doutrinas impopulares. Afinal, argumenta ele, a lista
de doutrinas impopulares dos Adventistas do Sétimo Dia "inclui todas
aquelas da fé cristã do advento e várias outras". Hewitt ainda fundamenta
o êxito dos Adventistas do Sétimo Dia na convicção de que eles têm
uma missão profética no movimento herdado de Guilherme Miller."
O Adventisrno Depois de 170 Anos 1 315

• As conclusões de Hewitt dão uma grande contribuição para nos


ajudar a entender a expansão do adventismo sabatista. Sua base parece
ter sido muito mais sólida do que meramente indicar o fato de que eles
acreditavam ter a "verdade" sobre o sábado e a "verdade" sobre o segun-
do advento. A força impulsionadora por trás do Adventismo do Sétimo
Dia foi a decidida convicção de que eram um povo profético com uma
mensagem singular sobre a breve vinda de Cristo a um mundo aflito.
Essa compreensão de• missão, integrada com suas doutrinas dentro da
moldura das três mensagens angélicas, proveu aos sabatistas o poder moti-
vacional para se sacrificarem pela ampla divulgação de sua mensagem. Essa
mesma dinâmica ocorreu no milerismo. Infelizmente para o Adventismo
do Sétimo Dia, essa visão parece estar em risco no século 21. 24

E a Paixão?
As denominações adventistas que surgiram a partir do milerismo
estão se deparando com um possível desaparecimento. Essa é a visão
de Richard C. Nickels, que concluiu sua história da Igreja de Deus
(do Sétimo Dia) em 1973, com o capítulo intitulado "Uma igreja que
está para morrer?" As últimas palavras do volume são da mensagem
de Cristo à igreja de Sardes: "Tens nome de que vives e estás mortol." 25
Igualmente, a seção final dos três volumes de Hewitt sobre a his-
tória dos Cristãos do Advento é intitulada: "Deveria se falar que uma
denominação está morrendo?" Essa parte, publicada em 1990, contém
uma análise sincera da situação da igreja. As tocantes palavras finais
na trilogia de Hewitt são: "Eu sinceramente espero que alguns estejam
ouvindo. Amém!"
Onde está a paixão milenarista que fez surgir essas denominações?
E as outras denominações pós-mileritas? Elas também estão em perigo
de perder sua visão? E em particular, o que ocorre com o mais forte
dos irmãos rnileritas, os Adventistas do Sétimo Dia?
Aparentemente, o rápido crescimento da Igreja Adventista do Sétimo
Dia não apresenta nada com o que se preocupar. De acordo com as
estatísticas de agosto de 2014, a denominação ultrapassou 18 milhões
de membros.
Entretanto, nem tudo está bem. É difícil para os setores mais antigos
da igreja preservar a identidade adventista. Afinal, não é fácil manter
á pessoas empolgadas com o segundo advento após 170 anos. Ao
envelhecer, a denominação enfrenta todos os problemas que afligiram
316 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

movimentos religiosos anteriores na história do cristianismo. Ao lon-


go do tempo, o mundo presenciou vibrantes movimentos religiosos
reformadores que se tornaram engessados e perderam sua vitalidade
com o passar dos anos."
Além da questão da idade, no início do século 21, alguns setores
do Adventismo do Sétimo Dia (particularmente em lugares como
América do Norte, Europa e Austrália) parecem enfrentar todos os
tipos de ameaças que já corroeram as outras denominações adventistas.
Assim, na busca por significado em face da aparente demora do fim
do mundo, alguns crentes são tentados a espiritualizar a natureza do
advento de Cristo. Entretanto4perder a fé histórica em um advento
real é perder o próprio conceito do adventismo. )
A riqueza também tem influenciado a crença de alguns membros
quanto à esperança no advento. A ética protestante de empreendedo-
rismo e poupança tem levado muitos adventistas do sétimo dia em
direção a uma crescente mobilidade social intergeracional. Os efeitos
dessa mobilidade em várias gerações podem desenvolver membros que
implantam seu reino na Terra e sentem pouca necessidade do reino
do Céu. É simples para eles se sentir mais confortáveis com a cultura
geral do que com suas raizes sectárias." Nessas circunstâncias, muitos
acham fácil diminuir a importância das doutrinas distintivas. Todavia,
essa foi a dinâmica que determinou o fim dos Adventistas Evangélicos.
Do lado oposto estão aqueles que, em reação a seus irmãos "menos
adventistas", são tentados a seguir o precedente dos extremistas do
período pós-1844, às margens da comunidade cristã.
O desafio que se apresenta à Igreja Adventista do Sétimo Dia é o
de manter um equilíbrio saudável que busque enaltecer tanto as dou-
trinas que a tornaram distinta quanto aquelas que são compartilhadas
com outros cristãos. Tanto a aculturação com a sociedade quanto a
segregação em um gueto sectário soam como o toque da morte para
o vibrante Adventisnao do Sétimo Dia.
A terceira tensão enfrentada pelo Adventismo do Sétimo Dia está na
esfera da organização. Curiosamente, a saúde denominacional poderá ser)
ameaçada pelo excesso de algo bom. Por mais de um século, o movimen-
to adotou uma estrutura administrativa de múltiplos níveis que, em sua
forma ideal, foi adequada à expansão na época. Entretanto, décadas de
crescimento e transformação criaram uma burocracia extremamente cara
para ser mantida e que, em muitos lugares, parece estar ficando cada vez
mais disfuncional para promover a missão da igreja de forma mais eficiente.
O Adventismo Depois de 170 Anos 1 317

• Apesar dos esforços na busca por reformas, os resultados têm sido


mínimos até agora. Poucos na estrutura de poder da denominação pare-
cem ser capazes de pensar profundamente sobre as grandes mudanças
organizacionais requeridas por um século de transformações internas e
externas. Poucos se mostram capazes de absorver a visão de no .. s mo-
delos estruturais possíveis para a missão mundial no século 21V
No outro extremo, muitos segmentos dos Adventistas do Sétimo
Dia estão cansados de pagar o preço da estrutura administrativa. Esses
membros veem o futuro da denominação em termos congregaciona-
listas. Essa rota foi seguida por todos os ramos do adventismo milerita,
exceto os sabatistas. Todavia, o congregacionalismo resultou em deno-
minações que se tornaram fracas na habilidade de manter a própria
identidade e incapazes de concentrar eficientemente seus recursos para
a expansão da missão."
Assim, parece que o Adventismo do Sétimo Dia enfrenta, de um
lado, o peso crescente de uma superestrutura que pode realmente
atrapalhar o próprio movimento, e, por outro, a ameaça muito real do
congregacionalismo. Se a denominação quiser seguir como um mo-
vimento internacional viável, capaz de cumprir sua missão de modo
eficaz, a solução parece estar em compreender as concessões e as mu-
danças estruturais que precisam ser feitas.
r Claramente relacionado com o dilema do adventismo sabatista
( está sua inclinação para o cre-st n inátt
r no. Existe a tendência
1 de as suas enormes instituições e ucacionais, editoriais e médicas, bem
1 como as associações, acabarem se tornando um fim em si mesmas, em

vez de serem meios para o propósito de levar a mensagem peculiar


da igreja "a cada nação, e tribo, e língua e povo". Por isso, há o perigo
de a denominação ser reconhecida por suas instituições em vez de ser
caracterizada por sua declarada missão."
Foi exatamente nesse ponto que Josué V. Himes desafiou os adven-
tistas do sétimo dia, em 1895. Ele escreveu a Ellen White,

Vocês têm muitas coisas boas e grandes ligadas à reforma


de saúde e às igrejas, o aumento de recursos e de colégios
também, e para mim parece que o trabalho em todos esses
departamentos pode continuar por muito tempo ainda [...].
Há uma obra grande e sincera sendo feita para enviar a
mensagem do terceiro anjo a todos os lugares, mas todas
as classes de adventistas estão prosperando e acumulado
318 1 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

riquezas neste mundo, ao mesmo tempo em que anunciam


a vinda de• Cristo como um evento muito próximo. É algo
importante ser coerente e verdadeiro para com a real men-
sagem do advento. 32

Com essas palavras, Himes identificou a tendência para a secula-


rização institucional e individual no Adventisrno do Sétimo Dia, cuja
presença foi notada ainda nos dias dele. Essa inclinação não diminuiu
nos últimos 100 anos.
A tentação final enfrentada pelo adventismo do sétimo dia seria de-
sistir de sua•autocompreensão como o povo da profecia, esquecendo-se
de sua herança profética. É fácil ver como isso poderia acontecer, mas
fazer isso seria a morte da dinâmica que transformou o movimento
naquilo que é hoje. Negar sua herança profética é o caminho certo para
matar sua "paixão milenarista".33
Referências
Uma Palavra ao Leitor
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Millenarianism , 1800-1930 (Chicago: University of Chicago Press, 1970),
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Houghton Mifflin, 1924).
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1983).
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Upstate New York, 1800-1850 (Chico, CA: Scholars Press, 1985).
6. Michael Barkun, Crucible of the Millennium: The Burned-over District of New
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and Millenarianisrn in the Nineteenth Century (Bloomington, IN: Indiana
University Press, 1987).
9. George R. Knight, Millennial Fever and the End of the World:
A Study of Millerite Adventism (Boise, ID: Pacific Press, 1993).
10. David Tallmadge Arthur, "'Come Out of Babylon': A Study of Millerite
Separatism and Denominationalism, 1840-1865" (tese de Ph.D., University
of Rochester, 1970); David Tallmadge Arthur, "Joshua V. Himes and the
Cause of Adventism, 1839 — 1845" (dissertação de mestrado, University
of Chicago, 1961).
320 j ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

11. Everett N. Dick, "William Miller and the Advent Crisis, 1831-1844"
(manuscrito não publicado, 1932). Esse manuscrito é a extensão de
uma tese de Ph.D. defendida na University of Wisconsin, em 1930.
O manuscrito de 1932 foi publicado sob o mesmo titulo pela Andrews
University Press, em 1994, com uma pesquisa sobre a historiografia
milerita escrita por Gary Land.
12.P. Gerard Damsteegt, Foundations of the Seventh-clay Adventist Message and
Mission (Grand Rapids, MI: Eenimans, 1977).
13. LeRoy E. Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers, 4 vols. (Washington,
D. C. : Review and Herald, 1946-1954) .
14.David L. Rowe, God's Strange Work: William Miller and the End of the World
(Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2008).
15.Tommy L. Faris, "William Miller: A Common Serise I,ife" (tese de Ph.D.,
Colurnbia University, 2007).
16. Gary Land, "The Historians and the Millerites: An Historiographical Essay",
em Everett N. Dick, William Miller and the Advent Crisis, 1831-1844
(Berrien Springs, MI: Andrews University. Press, 1994), p. xiii-xxviii.
17.Gerald Wheeler, James White: Innovator and Overcomer (Hagerstown, MD:
Review and Herald, 2003).
18.George R. Knight, Joseph Bates: The Real Founder of Seventh-day Adventism
(Hagerstown, MD: Review and Herald, 2004).
19. Alberto Ronald Timm, "The Sanctuary and the Three Angels' Messages,
1844-1863: Integrating Factors in the Development of Seventh-day Adventist
Doctrines" (tese de Ph.D., Andrews University, 1995).
20. Merlin D. Burt, "The Historical •Background, Interconnected Development,
and Integration of the Doctrines of the Sanctuary, the Sabbath, and Ellen
G. White's Role in Sabbatarian Adventism From 1844 to 1849" (tese de
Ph.D., Andrews University, 2002).
21. Isaac Wellcome, Second Advent History, com uma introdução escrita por
Gary Land, George R. Knight, ed. (Berrien Springs, MI: Andrews University
Press, 2008).
22. Sylvester Bliss, Memoirs of William Miller (inclui apêndices contendo três
outros esboços biográficos), com uma introdução escrita por Merlin D.
Burt, George R. Knight, ed. (Berrien Springs, MI: Andrews University
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23. Joseph Bates, Autobiography of Joseph Bates (inclui material adicional de
duas edições posteriores da mesma obra), com uma introdução escrita por
Gary Land, George R. Knight, ed. (Berrien Springs, MI: Andrews University
Press, 2004).
Referências 1 321

24. James White, Life Inciclents, inclui uma introdução escrita por Jerry Moon,
George R. Knight, ed. (Berrien Springs, MI: Andrews University Press,
2003).
25. George R. Knight, ed., 1844 and the Rise of Sabbatarian Adventism
(Hagerstown, MD: Review and Herald, 1994).

Capitulo 1: Paixão Pelo Milênio


1. William Miller, Wm. Miller's Apology and Defence (Boston: 1 V. Hinnes,
1845), p. 11-15.
2. Sandeen, Roots of Fundamentalism, p. 42.
3. 1 E C. Harrison, The Second Coming: Popular Millenarianism, 1780-1850
(New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 1979), p. 5, 57; Sandeen,
Roots of Fundamentalism, p. 5.
4. Froom, Prophetic Faith of Our Fathers, vol. 2, p. 753-759; Sandeen, Roots of
Fundamentalism, p. 6, 7.
5. Emest R. Sandeen, "Millennialism", em The Rise of Adventism: Religion and .
Society in Mid-Nineteenth-Centwy America, Edwin R. Gaustad, ed. (Nova
York: Harper and Row, 1974), p. 108.
6, Froom, Prophetic Faith of Our Fathers,vol. 4, p. 403-406.
7. Deve se observar que Miller calculou a data de 1843 a partir das várias
profecias de tempo de Daniel. Ver Doan, The Miller Heresy, p. 32, 33;
William Miller, Evidence From Scripture and His'tory of the Second Coming
of Christ, About the Year 1843 (Boston: Joshua V. Himes, 1842), passim.
Os vários cálculos que apontavam para 1843 estão graficamente retratados
no Gráfico de 1843, desenvolvido por Fitch e Hale (ver uma cópia desse
gráfico na página 169).
8. William Miller, Letter to Joshua V Hirtes, on the Cleansing of the Sanctuaty
(Boston: Joshua V. Himes, 1842); W Miller para T. Hendryx, 26 de março
de 1832.
9. W Miller para J. Atwood e família, 31 de maio de 1831.
10. George Bush e William Miller, Reasons for Rejecting Mr Miller's Vievvs on
the Advent, by Rev. George Bush; With Mr. Miller's Reply (Boston: Joshua
V. Himes, 1844), p. 11. Bush também escreveu para Miller: "Ao tomar
um dia como o termo profético para um ano, acredito que você está
apoiado pela mais sólida exegese" (ibid., p. 6, 7). Cf. Moses Stuart, Hints
•on the Interpretation of Prophecy (Andover, MA: Allen, Morrill, e Wardwell,
1842), p. 74; Sylvester Bliss, Memoirs of William Miller (Boston: Joshua
V. Himes, 1853), p. 189-192.
322 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

11. Charles Finney, Lectures on Revivais of Religion (Nova York: 1835), p. 282,
mencionado em William G. McLoughlin, Jr., Modern Revivalism: Charles
Grandison Finney to Billy Graham (Nova York: Ronald Press, 1959), p. 105;
• Oberlin Evangelist, 12 de abril de 1843, p. 58.
12. Oberlin Evangelist, 25 de outubro de 1843, p. 173, 174; 22 de dezembro
de 1841, p. 204.
13.Ver Conrad Cherry, God is New Israel Religious Interpretations of American
Destiny (Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1971); Ernest Lee Tuveson,
Redeemer Nation: The Idea of America's MillennialRole (Chicago: University
of Chicago Press, 1968), p. 62.
(j)ver Charles I. Foster, An Errand of Mercy: The Evangelical United Front,
• , 1790-1837 (Chapei Hill, NC: University of North Carolina Press, 19603;
Ronald G. Walters, American Reformers, 1815-1860 (Nova York: Hill and
Wang, 1978).
15. Timothy L. Smith, "Social Reform: Some Reflections on Causation and
Consequence", em Rise of Adventism, p. 19; Doan, The Miller Heresy, p. 54.
Cf. Whitney R. Cross, The Burned-over District: The Social and Intellectual
History of Enthusiastic Religion in Western New York, 1800-1850 (lthica, NY:
Cornai University Press, 1950), p. 291; Ruth Alden Doan, "Millerism and
Evangelical Culture," em The Disappointed, p. 132.
16. Edwin S. Gaustad, "Introduction", em Rise of Adventism, p. xiii.
17. Cross, I3urned-over District, p. 291.
18. David L. Rowe, "Millerites: A Sbadow Portrait", em The Disappointed,
• p. 15, 12, 13; Doan, "Millerism and Evangelical Culture," em The
Disappointed, p. 132; Rowe, Thunder and Trwmpets, p. 51. Para o
tratamento clássico do milerismo como um movimento diferente, ver
Sears, Days of Delusion.
19. Keith J. Hardman, Charles Grandison Finney, 1792-1875: Revivalist and
Reformer (Syracuse, NY: Syracuse University Press, 1987), p. 293-323.
20. Barkun, Crucible of the Millennium, p. 115. Ver p. 103-112 para outros
desastres da época.
21.Ibid., p. 116.
22. Dick, "William Miller", p. 262-265; Richard Carwardine, Trans-Atlantic
Revivalism: Popular Evangelicalism in Britain and America, 1790-1865
(Westport, CT: Greenwood Press, 1978), p. 52.
23. Everett N. Dick, "The Millerite Movemcnt, 1830-1845", em Adventism
in America, ed. Gary Land (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1986), p. 34.
24. Cross, Burned-over District, p. 320.
Referências 1 323

Capítulo 2: A Formação de um Milenaritsta:


Os Primeiros Anos de Miller
1» Bliss, Memoirs of William Miller, p. 28, 29.
2. Ibid., p. 28. Ver também Erik H. Erikson, Identity: Youth and Crisis
(Nova York: W. W. Norton, 1968); Erik H. Erikson, Young Man Luther:
A Study in Psychoanalysis and History (Nova York: W. W. Norton,
1962).
3. Bliss, Memoirs of William Miller, p. 29.
4. William Miller, diário, 10 de julho de 1797.
5. Joshua V Himes, Views of the Prophecies and Prophetic Chronology, Selected
From Manuscripts of William Miller, With a Memoir of His Life (Boston:
Joshua V. Himes, 1842), p. 9.
6. Bliss, Memoirs of William Miller, p. 29.
7. Os parágrafos seguintes que tratam sobre a educação de Miller são baseados
em Himes, Views of the Prophedes, p. 7, 8; Bliss, Memoirs of William Miller,
p. 10 16; Midnight Cry, 17 de novembro de 1842, p. 1, 2.
-

8. Bliss, Memoirs of William Miller, p. 10.


9. Ibid., p. 12.
10. Ibid., p. 12, 13.
11. Midnight Cry, 17 de novembro de 1842, p. 1; Bliss, Memoirs of William
Miller, p. 16.
12. Miller, Apology and Defence, p. 3; Advent Shield, maio de 1844, p. 50;
Bliss, Memoirs of William Miller, p. 19; Himes, Views of the Prophecies,
p. 8.
13. Aleine Austin, Matthew Lyon: "New Man" of the Democratic Revolution,
1749 1822 (University Park, PA: Pennsylvania State University Press, 1981),
-

p. 81; "Alien and Sedition Acts", em Encyclopedia of American History, ed.


Richard B. Morris (Nova York: Harper & Brothers, 1953), p. 129.
14. Miller, Apology and Defenc e, p. 2,3:
15. Ibid., p. 3; Himes, Views of the Prophecies, p. 9.
16. Bliss, Memoirs of William Miller, p. 21 23.
-

17. Ibid.
18. Miller, Apology and Defence, p. 3, 4.
19. Midnight Cry, 17 de novembro de 1842, p. 1.
20. Bliss, Memoirs of William Miller, p. 4.
21. Ibid., p. 55; cf. W. Miller para L. Miller, 11 de novembro de 1814.
22. Hirnes, Views of the Propheci es, p. 10; cf. Bliss, Memoirs of William Miller,
p. 23.
23. Himes, Views of the Prophecies, p. 10.
324 I ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

24. Miller, Apology and Defence, p. 4; Bliss, Memoirs of William Miller,


p. 45; "Plattsburg, Battle of", em Concise Dictioncoy of American Histoiy,
ed. Wayne Andrews (Nova York: Charles Scribner's Sons, 1962), p. 739;
Thomas A. Bailey, The American Pageant: A History of the Republic (Boston:
DC Heath, 1961), p. 210, 215.
25. Miller, Apology and Defence, p. 4 (itálicos adicionados). Para uma descrição
da batalha de Plattsburg, da perspectiva de Miller, ver Bliss, Memoirs of
William Miller, p. 44-53.
26. Miller, Apology and Defence, p. 4; Bliss, Memoirs of William Mi/ler,
p. 63, 64.
27, Miller, Apology and Defence, p. 4, 5.
28. Advent Shield, maio de 1844, p. 49.
29. Bliss, Memoirs of William Miller, p. 66, 53.
30. Ibid.', p. 65.
31. Ibid., p. 66.
32, Advent Shielcl, maio de 1844, p. 49.
33. Miller, Apology and Defence, p. 5 (itálicos adicionados).
34. Midnight Ciy, , 17 de novembro de 1842, p. 1.
35. Sobre a conversão de Miller, seguindo o modelo de conversões, ver
Doan, "Millerisrn and Evangelical Culture", em The Disappointed,
p. 119, 120.
36. Miller, Apology and Defence, p. 4, 5; cf. Ativem Shield, maio de 1844, p. 50.
37. Miller, Apology and Defence, p. 6.
38. Ibid.; cf. Ativem Shield, maio de 1844, p. 50; Midnight Cry, 17 de maio
de 1842, p. 1, 2,
39. Miller, Apology and Defence, p. 6, 10.
40. Ibid., p. 11, 12; Advent Shielcl, maio de 1844, p. 50.
41. Miller, Apology and Defence, p. 13-15.
42. Para a completa declaração de 1822 sobre as crenças de Miller, ver Bliss,
Memoirs of William Miller, p. 77-80.
43. Midnight Ory, 17 de maio de 1842, p. 4; Bliss, Memoirs of William Mi/ler,
p. 155; Himes, Views the Prophecies, p. 11, 12.
44. Ver George M. Marsden, Fundamentalism and American Culture: The
Shaping of Twentieth-Century Evangelicalism, 1870-1925 (Nova York:
Oxford University Press, 1980), passim; Theodore Dwight Bozeman,
Protestants in cm Age of Science: The Baconian Ideal and Antebellum
American Religious Thought (Chapel Hill, NC: University of North Carolina
Press, 1977).
45. Advent Shield, maio de 1844, p. 90.
Referências 1 325

46. Ibid.,•p. 88; Doan, Miller Heresy, p. 99, 100; Patricia Cline Cohen,
A Calculating People: The Spread of Numeracy in Early America (Chicago:
University of Chicago Press, 1982), p. 175.
47. Richard T. Hughes e C. Leonard Allen, Illusions of Innocence: Protestant
Primitivism in America, 1630-1875 [Chicago: University of Chicago• Press,
1988); Richard T. Hughes, ed., The American Quest for the Primitive Church
(Urbana, IL: University of Illinois Press, 1988); David Edwin Harrell, Jr.,
"Restorationism and the Stone-Campbell Tradition", em Encyclopedia of the
American Religious Experience, eds. Charles H. Lippy e Peter W. Williams
(Nova York: Charles Scribner's Sons, 1988), vol. 2, p. 845-858.
48. Cross, Burned-over District, p. 297.
49. Miller, Apology and Defence, p. 12; Nathan O. Hatch, "Millennialism and
Popular Religion in the Early Republic", em The Evangelical Tradition
in America, ed. Leonard I. Sweet (Macon, GA: Mercer University Press,
1984), p. 119, 120.
50. Sandeen, "Millennialism", em Rise of Adventism, p. 114.
51. Ibid.; Midnight Ciy, 17 de novembro de 1842, p. 4.
52. Midnight Cry, , 17 de novembro de 1842, p. 1.
53. Miller, Apology and Defence, p. 3; Midnight Cry, 26 de outubro de 1843,
p. 88; Barkun, Crucible of the Millennium, p. 36.
54. Miller, Apology and Defence, p. 6, 3; Advent Shielcl, maio de 1844, p. 50;
Midnight Coi, 17 de novembro de 1842, p. 4.
55. Midnight Cry, 26 de outubro de 1843, p. 88.
56. Miller, Evidence From Scripture and History, p. 215. Cf. Miller, Apology and
Defence, p. 11; Advent Shield, maio de 1844, p. 49; Ativent Herald, 27 de
novembro de 1844, p. 127.
57. Sandeen, "Millennialism", em Rise of Adventism, p. 110; Barkun, Crucible
of the Millennium, p. 36.
58. W. Miller para T. Hendryx, 26 de março de 1832; Miller, Apology and
Defence, p. 12.
59.Himes, Views of the Prophecies, p. 12; Miller, Apology and Defence, p. 13.
60. Miller, Apology and Defence, p. 14.
61. Ibid., p. 15.
62. Ibid.
63. Ibid., p. 15, 16.
64. Bliss, Memoirs of William Miller, p. 85-90. Bliss (p. 85) observa que esse
sonho foi descrito por completo em 17 de janeiro de 1828.
65. Ver Nichol, Midnight Cry, p. 40; Froom, Prophetic Faith of Our Fathers,
vol. 4, p. 478, 479.
326 I ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

66. Miller, Apology and Defence, p. 16; W. Miller, "A Few Evidences of the
Time of the 2nd Coming of Christ to Elder Andrus" (manuscrito não
publicado, 15 de fevereiro de 1831); Bliss, Memoirs of William Miller,
• p. 93, 94.
67. Miller, Apology and Defence, p. 16.
68. Ibid., p. 16,17; Adverti Sitie/ti, maio de 1844, p. 52.
69. Miller, Apology and Defence, p. 17.
70. Ibid.

Capitulo 3: A Missão de Miller ao Mundo


1. Miller, Apology and Defence, p. 17; Miller datou incorretamente essa
experiência como sendo de 1833. Para uma argumentação sobre a data de
•1831, ver Bliss, Memoirs of William Mi/ler, p. 98.
2. Miller, Apology and Defence, p. 17 1 18.
3. Ibid., p. 18.
4. Ibid.
5. Ibid., p. 18, 19; Himes, Views of the Prophecies, p. 12.
6. Bliss, Memoirs of William Miller, p. 135, 136; T. Cole para W. Miller, 25 de
julho de 1839. Ver também Christian Herald, 28 de novembro de 1839,
p. 3; T. Cole para W. Miller, 5 de novembro de 1839.
7. Maine Wesleyan Journal, citado em Himes, Views of the Prophecies, p. 15;
Herald Extra, de Nova York, citado em Nichol, Midnight Cry, p. 130. Cf.
Adverti Shield, maio de 1844, p. 51; Dick, "William Miller", p. 16.
8. Lynn Record, citado em Isaac C. Wellcome, Histoty of fite Second Advent
Message and Mission, Doctrine and People (Yarmouth, ME: Isaac C.
Wellcome, 1874), p. 75 (itálicos adicionados).
9. Sandy Hill Herald, citado em Bliss, Memoirs of William Mi/ler, p. 181, 182;
•Cincinnati Commercicd, 23 de agosto de 1844, citado em Froom, Prophetic
Faith of Our Fathers, vol. 4, p. 688.
10. Cincinnati Commercial, 23 de agosto de 1844, citado em Froom, Prophetic
Faith of Our Fathers, vol. 4, p. 688; Signs of the Times, 15 de abril de 1840, •
p. 14.
11. Advent Herald, 18 de dezembro de 1844, p. 147; W. Miller para T. Hendryx,
17 de novembro de 1832.
12. Maine Wesleyan Journal, citado em Nichol, Midnight Cry, p. 83; The
Fountain, citado em Wellcome, Histoiy of the Second Advent Message,
• p. 248 .
13. Signs of the Times, 15 de abril de 1840, p. 14.
Referências 1 327

14. The Fountain, citado em Wellcome, History of the Second Advent Message,
p. 248.
15. W Miller para 11 Hendryx, 8 de fevereiro de 1833; 10 de abril de 1833; cf.
W. Miller para o irmão e a irmã Atwood, 16 de setembro de 11833.
16. W Miller para T. Hendryx, 25 de fevereiro de 1834; 10 de abril de 1833.
117.W. Miller para seu filho, 17 de novembro de 1838; W Miller para
T. Henclryx, 21 de julho de 1836.
18. W. Miller para seu filho, 17 de novembro de 1838; Signs of the Times, 15
de abril de 1840, p. 14.
19. Bliss, Memoirs of William Mi/ler, p. 210-212.
20. Himes, Views of the Prophecies, p. 57. Para mais ilustrações sobre o humor
de Miller, ver Bliss, Menwirs of William Mi/ler, p. 95-97; Signs of the Times,
1" de março de 1843, p. 186.
21. Wayne R. Judd, "William Miller", em The Disappointed, p. 29.
22. Bliss, Memoirs of William Mi/ler, p. 207.
23. Ibid., p. 170; "Amigo" para W Miller, 17 de dezembro de 1842.
24.As melhores obras que exploram as interpretações proféticas de Miller são
Damsteegt, Foundations of the Seventh-day Adventist Message and Mission,
e Froom, Prophetic Faith of Our Fathers, vol. 4.
25. W. Miller para T. Hendryx, 26 de março de 1832; cf. W. Miller para
T. Hendryx, 10 de abril de 1833.
26. W. Mil. ler para T. Hendryx, 1" de outubro de 1832.
27. W. Miller para T. Hendryx, 19 de maio de 1841.
28. Miller, Apology and Defence, p. 36; Hirnes, Views of me Prophecies,
p. 13, 14.
29. David Arnold Dean, "Echoes of the Midnight Cry: The Millerite
Heritage in the Apologeties of the Advent Christian Denomination,
1860-1960" (tese de Th.D., Westminster Theological Serninary, 1976),
p. 178-181.
30. Signs of the Times, 15 de maio de 1840, p. 29.
31. Millcr, Apology and De fence, p. 36. Ver também artigos 6 a 12 na
declaração de crenças de Miller, de 1822; Bliss, Memoirs of William Miller,
p. 78, 79.
32. Signs of the Times, 15 de abril de 1840,p. 14.
33. Bliss, Memoirs of William Miller, p. 215 1 216.
34. W Miller para T. Hendryx, 26 de março de 1832.
35. Bliss, Memoirs of William Miller, p. 108, 109.
36. W Miller para o irmão e a irmã Atwood, 16 de setembro de 1833;
W. Miller para T. Hendryx, 22 de março de 1834.
328 J ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

37. W Miller para T. Hendryx, 22 de março de 1834.


38. Miller, Apology and Defence, p. 20; Bliss, Memoirs of William Miller,
p. 122, 123; Advent Shield, maio de 1844, p. 84. Miller diz que recebeu seu
primeiro dólar para cobrir despesas de viagem em 1835, enquanto Bliss
menciona 1836. Provavelmente Bliss esteja correto, pois estava pesquisando
a partir dos registros de Miller, enquanto Miller evidentemente estava
citando a informação de memória.
39. Advent Shield, maio de 1844, p. 84.
40. Signs of the Times, 15 de fevereiro de 1843, p. 173;W. Miller para 1 Hendryx,
22 de março de 1834.
41. Este documento está reproduzido em Bliss, Memoirs of William Miller,
p. 121, 122.
42. W Miller para T. Hendryx, 2 de abril de 1836.
43. W Miller para T. Hendryx, 23 de outubro de 1834. Fica evidente que
Hendryx havia se convencido da precisão do ensinamento de Miller em
1831, a partir de urna mensagem que ele enviou para Bliss quando doou
sua coleção de cartas para a redação de Memoirs. Ver páginas 93, 94. Os
"quase dois anos" desde a primeira vez que Hendryx ouvira o ensinamento
de Miller (ver a carta de Miller de 23 de outubro de 1834) é, sem dúvida,
um erro, pois a coleção de Miller contém correspondência com Hendryx
em meados de 1831.
44.W Miller para T. Hendryx, 28 de novembro de 1834; 6 de março de 1835.
45. Bliss, Memoirs of William Miller, p. 143.
46. H. Jones para W. Miller, 27 de dezembro de 1832.
47. Para um exame biográfico mais completo de Jones, ver Froom,
Prophetic Faith of Our Fathers, vol. 4, p. 576-579; Nichol, Midnight
Cry, p. 190-193.
48. Miller, Apology and Deferia, p. 19; Advent Shieid, maio de 1844, p. 53.
49. Olive Branch, citado em Signs of the Times, 6 de abril de 1842, p. 8.
50. The Trumpet, citado em Wellcome, History of the Second Advent Message,
p. 206.
51. •Millennial Harbinger, julho de 1843, p. 290, 291.
52.W. Miller para T. Hendryx, 23 de outubro de 1834.
53. Lowell Courier, 23 de fevereiro de 1843, citado em Nichol, Midnight Cry,
p. 140.
54. W Miller para 1 Hendryx, 8 de fevereiro de 1833.
55. Miller, Apolog:y and Defence, p. 19; W Miller para 1 Hendryx, 11 de fe-
vereiro de 1835.
56.W. Miller para seu filho, 17 de novembro de 1838.
Referências 1 329

57. Himes, Views of the Prophecies, p. 17, 18; W H. Mitchell, History of the Second
Advent Church in Portland, ME (Kennebunkport, ME: W H. Mitchell, 1886),
p. 6. Cf. L. D. Fleming para W Miller, 11 de abril de 1840.
58. Ver Doan, Miller Heresy, p. 36; Barkun, Crucible of the Millennium,
p. 94; Rowe, Thunder and Trumpets, p. 29; Dick, "William Miller", p. 76.
59. Doan, Miller Heresy, p. 14, 18.
60.The Trumpet, citado em Signs of the Times, 19 de maio de 1840, p. 23.
61. Bliss, Memoirs of William Miller, R 140.

Capitulo 4: Josué V. Himes: O Organizador


da Missão
1. Signs of the Times, P de novembro de 1840, p. 113.
2. Não há biografia publicada de J. V. Himes. A melhor abordagem •é de
Arthur, "Joshua V. Himes" (dissertação de mestrado). Os poucos parágrafos
seguintes no capítulo são um fruto dessa fonte e de Wellcome, History of the
Second Advent Message, p. 89-91. As correções que fiz no relato de Arthur
são extraídas da declaração autobiográfica de Himes encontrada em Advent
Christian Times, 6 de fevereiro de 1872.
3. Para uma história sobre os conexionistas, ver Milo True Morrill, A History of the
Christian Denomination in America, 1794-1911 A.D. (Dayton, OH: Christian
Pub. Assn., 1912). Ver também Nathan O. Flatch, The Democratization
of American Christianity (New Haven, CT: Yale University Press, 1989),
passim; e as referências acima no capítulo 2 sobre restauracionismo.
4. Union County Courier, 24 de maio de 1895, p. 3, citado em Arthur, "Joshua
V. Himes and the Cause of Adventism'', em The Disappointed, p. 37.
5.Wellcome, History of the Second Advent Message, p. 89, 90.
6. Morrill, History of the Christian Denomination, p. 379.
7. Ibid., p. 162.
8.Ver, por exemplo, W L. Garrison para G. W Benson, 10 de março de 1838;
W L. Garrison para S. T. Benson, 5 de março de 1838; Lewis Perry, Radical
Abolitionism: Anarchy and the Government of God in Anti-slavery Thought
(Ithaca, NY: Cornell University Press, 1973), p. 58, 74; Arthur, "Joshua
V. Himes" (dissertação de mestrado), p. 16, 17.
9. Perry, Radical Abolitionism, p. 58, 59.
10.Ver Doan, Miller Heresy, p. 181, 182; Arthur, "Joshua V. Himes" (dissertação
de mestrado), p. 10-13, 17.
11. Union County Courier, 24 de maio de 1895, p. 3, citado em Arthur, "Joshua
V. Himes", em TE/te Disappointed, p. 38.
330 ADVENTISMO - Origem e Impacto do Movimento Milerita

12. The Liberator, 10 de fevereiro de 1843, p. 23.


13. W L. Garrison para H. E. Benson, 4 de novembro de 1836.
14. Ver Arthur, "Joshua V Himes" (dissertação de mestrado), p. 14-16.
15. Wendell Phillips Garrison e Francis Jackson Garrison, William Lloyd
Garrison, 1805-1879 (Nova York: Century, 1885), vol. 2, p. 327, 421-438;
Cross, Burned-over District, p. 292, 293.
16. Advém Shielcl, maio de 1844, p. 53.
17. Times de Boston, 13 de março de 1838, p. 2.
18. Miller, Apology and Defence, p. 20; Bliss, Memoirs of William Miller,
p. 134-139.
19. Bliss, Mernoirs of William Miller, p. 135-137; Christian Herald, 28 de
novembro de 1839, p. 3.
20. Miller, Apology and Defence, p. 20, 21.
21. Ibid., p. 21 Sobre as reuniões de Exeter, ver os vários artigos sobre o assunto
em Christian Herald, 28 de novembro de 1839, p. 2, 3.
22. Miller, Apology and Defence, p. 21; Bliss, Memoirs of William Miller, p. 139.
23. Bliss, •Memoirs of William Miller, p. 140, 141.
24. Ibid., p. 139, 141.
25. J. V. Himes para W. Miller, 17 de janeiro de 1840 (itálicos adicionados).
26. Signs of the Times, 3 de agosto de 1842, p. 140.
27. Bliss, Memoirs of William Miller, p. 144.
28. Miller, Apolog:y and Defence, p. 21.
29. Ibid., p. 21, 22.
30. Arthur, "Joshua V. Himes" (dissertação de mestrado), p. 57 (itálicos
adicionados).
31. Ibid., p. 35-41.
32. W. L. Garrison para G. W Benson, 15 de janeiro de 1844.
33. Liberator, 10 de fevereiro de 1843, p. 23.
34. Ver Rowe, Thunder and Trumpets, p. 32, 34; Advent Christian Times, 6 de
fevereiro de 1872.
35. Arthur, "Come Out of Babylon", p. 15.
36. Advent Christian Times, 6 de fevereiro de 1872; Hatch, Democratization
of American Christianity, p. 142, 145.
37. Froom, Prophetic Faith of Our Fathers, vol. 4, p. 430, 436, 437; C. Furnas,
The American: A Social History of the United States, 1587-1914 (Nova York:
G. P. Putnam's Sons, 1969), p. 557-559.
38. Religious Telescope, 27 de novembro de 1839, citado em Wesley Norton,
Religious Newspapers in the Old Northwest to 1861: A History, Bibliography,
and Record of Opinion (Athens, OH: Ohio University Press, 1977), p. 1-8.
Referências 1 331

39. Signs of the Times, 6 de abril de 1842, p. 4.


40. Ibid.
41. Ibid., 16 de agosto de 1841, p. 78; 15 de janeiro de 1841, p. 57.
42. Dick, "William Miller", p. 96, 97; Arthur, "Joshua V. Himes", em
The Disappointed, p. 46.
43. Princeton Revim, janeiro de 1841, p. 150; Signs of the Times, 12 de setembro
de 1840, p. 81.
44. Midnight Cry, 17 de novembro de 1842, p. 2; Signs of the Times, 15 de
novembro de 1843, p. 110; Advent Shield, maio de 1844, p. 70.
45. Midnight Cry, 17 de novembro de 1842, p. 2.
46. Sobre os 36 títulos da série Words of Warrting, ver Froom, Prophetic Faith
of Our Fathers, vol. 4, p. 709, 710.
47. Ver Dick, "William Miller", p. 114.
48. Joshua V. Himes, comp., Millennial Harp, or Second Advent Hymns: Designed
for Meetings on the Second Coming of Christ (Boston: [J. V. Hirnes], 1842),
P. 7 .
49. Signs of the Times, 15 de setembro de 1841, p. 96.
50. Ibid., 2 de agosto de 1841, p. 70; Second Report of the General Conference
of Christians Expecting the Advent of the Lord Jesus Christ (Boston: Joshua
V. Himes, 1841),p. 7, 12, 4.
51. Advent Shield, maio de 1844, p. 87.
52. Midnight Cry, 25 de maio de 1843, p. 74.
53. Wellcome, History of the Second Advent Message, p. 304.
54. Signs of dia Times, 15 de novembro de 1843, p. 109; cf. 3 de agosto de
1842, p. 140; 8 de março de 1843, p. 4.
55. Ibid., 19 de julho de 1843, p. 156. Cf. Josiah Litch, Prophetic Expositions
(Boston: Joshua V. Himes, 1842), vol. 1, p. 166, 167; Signs of the Times,
24 de maio de 1843, p. 96; 4 de janeiro de 1843, p. 128.
56. Signs of the Times, 15 de novembro de 1843, p. 111; Voice of Truth, 8 de
junho de 1844, p. 71; Wellcome, Histoty of the Second Advent Message, p. 90.
57. Miller, Apology and Defence, p. 22.
58. Signs of the Tintes, 15 de agosto de 1840, p. 76; P de setembro de 1840,
P. 8 4
59. Morrill, History of the Christian Denomination in America, p. 140. Deve se -

notar que as várias associações de reforma também realizaram reuniões


anuais.
60. Signs of dia Times, P de setembro de 1840, p. 84; The First Report of the
General Conference of Christians Expecting the Advent of the Lord Jesus Christ
(Boston: Joshua V. Himes, 1841), p. 7 (itálicos adicionados).
332 1 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

61. Signs of the Times, P de setembro de 1840, p. 84; IV. Hirnes para W. Miller
[17 de agosto de 1840]. Essa carta , está escrita na parte de baixo de uma
mensagem circular datada de 10 de agosto de 1840. Contudo, o envelope
tem a data de 17 de agosto.
62. First Report of the General Conference, p. 7, 8, 20.
63. Ibid., p. 14; Bliss, Memoirs of William Miller, p. 153.
64. Bliss, Memoirs of William Miller, p.153; First Report of the General Conference ,
p. 17 .
65. First Report of the General Conference, p. 16-18.
66. Ibid., p. 18; Signs of the Times, 12 de novembro de 1840, p. 117; Albert C.
Johnson, Advent Christian History (Boston: Advent Christian Publication
Society, 1918), p. 99.
67. Second Report of the General Conference, p. 8, 9.
68. Signs of the Times, 2 de agosto de 1841, p. 70.
69. Second Report of the General Conference, p. 2, 3.
70. Signs of the Times, 2 de agosto de 1841, p. 68, 72.
71. Ibid., 12 de junho de 1842, p. 68, 69; Joseph Bates, Second Advent Way
Marks and High Heaps, or a Connected View of the Fulfillment of Prophecy
by God's Peculiar People, From the Year 1840 to 1847 (New Bedford, MA:
Benjamin Lindsey, 1847), p. 10, 11.
72. Arthur, "Joshua V. Himes" (dissertação de mestrado), p. 62, n. 28, Hewitt,
Midnight and Morning, p. 133; Froorn, Prophetic Faith of Our Fathers, vol.
4, p. 557-559.
73. David Arthur, citado em Hewitt, Midnight and Morning, p. 130; Arthur,
"Joshua V. Himes", em The Disappointed, p. 42.
74. Trumpet, citado em Signs of the Times, 1 2 de maio de 1840, p. 23.
75. Olive Branch, citado em Midnight Ciy, 5 de dezembro de 1842, p. 1.
76. Olive Branch, citado em Signs of the Times, 17 de maio de 1843, p. 88.
77. Cópia do painel, em Nurnbers and Butler, eds., The Disappointed,
p. 93. Cf. Signs of the Times, 21 de setembro de 1842, p. 8.
78. Signs of the Times, 17 de agosto de 1842, p. 164.
79. Ibid., 21 de setembro de 1842, p. 8.
80. Ver, e.g., ibid., 12 de maio de 1840, p. 23.

Capítulo 5: Mais Missionários do Milênio


1. Advent Shield, maio de 1844, p. 54.
2. Ibid., p. 54-56. Fitch será abordado numa seção posterior deste capitulo.
3. Ibid., p. 56; Bliss, Mernoirs of William Miller, p. 136.
Referências 1 333

4. Josiah Litch, The Probability of the Second Coming of Christ About A.D. 1843
(Boston: David H. Ela, »1838), p.
5. Advent Shield, maio de 1844, p. 54.
6. Litch, Probability of the Second Coming, p. 157; Signs of the Times,
12 de agosto de 1840, p. 70. Para uma discussão aprofundada da história
da interpretação de Litch da sexta trombeta, ver Eric Anderson, "The
Millerite Use of Prophecy: A Case Study of a Striking Fulfilment", em
The Disappointed, p. 78-91.
7. Litch, Probability of the Second Coming, p. v. Cf Signs of tfte. Times, P de agosto
de 1840, p. 70; Wellcome, History of the Second Advent Message, p. 128.
8. Cross, Burned-over District, p. 293; Jerry Moon, "Josiah Litch: Herald of
The Advent Near" (monografia não publicada, Andrews University,
1973), p.
9. Litch, "Address to the Clergy", 10 de maio de 1840, em Litch, An Address to
the Public, and Especially the Clerg:y (Boston: Joshua V. Himes, 1841), p. 13.
10. Advent Shield, maio de 1844, p. 62.
11. Signs of the Times, P de setembro de 1841, p. 85.
12. Second Report of the General Conference, p. 9-12.
13. Signs of the Times, 2 de agosto de 1841, p. 72, 68.
14. Ibid., 1 2 de setembro de 1841, p. 86.
15. Ibid.
16. Ibid., 2 de agosto de 1841, p. 68; Wellcome, History of the Second Advent
Message, p. 232.
17. Wellcome, History of the Second Advent Message, p. 273, 274.
18. Para observações gerais sobre as campais do século 19, ver Charles A.
Johnson, The Frontier Camp Meeting: Religion's Harvest Time (Dallas:
Southern Methodist University Press, 1955); Dickson D. Bruce, Jr.,
And They Ali Sang Hallelujah: Plain-Folk Camp-Meeting Religion, 1800-1845
(Knoxville, TN: University of Tennessee Press, 1974).
19. Signs of the Times, 12 de junho de 1842, p. 69.
20. Ibid., 25 de junho de 1842, p. 88.
21. Advent Shield, maio de 1844, p. 68.
22. Signs of the Times, 15 de junho de 1842, p. 88.
23. Advent Shield, maio de 1844, p. 68.
24. Signs of the Times, 13 de julho de 1842, p. 117.
25. Ibid.; Advent Shield, maio de 1844, p. 68.
26. Post de Boston, citado em Wellcome, Histoly of the Second Advent Message,
p. 237.
27. Signs of the Times, 15 de junho de 1842, p. 88.
334 1 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

28. Ibid., 13 de julho de 1842, p. 116.


29. Midnight 037, 7 de março de 1844, p. 260; Dick, "William Nliller and the
Advent Crisis", p. 113.
30. Signs of the Times, 13 de julho de 1842, p. 114; Wellcome, History of the
Second Advent Message, p. 243.
31. Para mais informações sobre a grande tenda, ver Froom, Prophetic Faith
of Our Fathers, vol. 4, p. 655-657, 740-743; Arthur, ".Joshua V. Himes"
(dissertação de mestrado), p. 77-82, 107, 108.
32. Dick, "William Miller and the Advent Crisis", p. 67, 68; Signs of the Times,
13 de julho de 1842, p. 116; Post de Boston, citado em Wellcome, History
• of the Second Advent IVIessage, p. 237. Ver também Signs of the Times,
13 de julho de 1842,p. 114.
33, Herald de Nova York, citado em Nichol, Midnight Cry, p. 125.
34. Ver Dick, "William Miller and the Advent Crisis", p. 62, 63.
35. 1-Tiram Munger, The Life and Religious Experience of Hiram IVIunger
(Chickopee Falis, MA: Hiram Munger, 1885), p. 36, 37. Esta obra foi
publicada pela primeira vez em 1861.
36. Ibid., p. 38, 39.
37. Ibid., p. 41, 42.
38. Ibid., p. 40,41; cf. p. 43-45.
39. Ibid., p. 43-46.
40. Ver Dick, "The Millerite Movement", em Adventism in America, p. 16, 17;
Everett N. Dick, "Advent Camp Meetings of the 1840s", Adventist Heritage
4 (inverno de 1977), p. 3-10.
41. C. Fitch para W. Miller, 5 de março de 1838.
42. Charles Fitch, Letter to Rev. 1 Litch on the Second Comingof Christ (Boston:
Joshua V Himes, 1841), p. 6, 7.
43. C. Fitch para W Miller, 5 de março de 1838. Quase todo o conteúdo desses
sermões foi reproduzido em Signs of the Times, 13 de abril de 1842, p. 13,
14; 27 de abril de 1842, p. 31, 32; 4 de maio de 1842, p. 34; 11 de maio
de 1842, p. 42, 43; 18 de maio de 1842, p. 49, 50; 25 de maio de 1842,
p. 58, 59; 12 de junho de 1842, p. 66, 67; 8 de junho de 1842, p. 74, 75.
Enquanto os artigos de 1842 informavam a data de 7 de fevereiro como
o dia em que os sermões de 1838 foram pregados, a carta contemporânea
menciona 4 de março.
44. Fitch, Letter to Rev. J. Litch, p. 7-9; Adverti Shield, maio de 1844, p. 56.
45. Fitch, Letter to Rev. J. Litch, p. 12; C. Fitch para o irmão e a irmã Palmer,
26 de julho de 1842.
46. Signs of the Times, 15 de dezembro de 1841, p. 144.
Referências 1 335

47. Ibid., 12 de outubro de 1842, p. 32.


48. Charles Fitch, Slaveholding Weighed in the Balance of Truth (Boston: Isaac
Knapp, 1837), p. 32.
49. W L. Garrison para I. Knapp, 5 de julho de 1836; Garrison e Garrison,
William Lloyd Garrison, vol. 2, p. 136.
50. O "Apelo" foi publicado no New England Spectator, 2 de agosto de 1837.
• O Spectator era publicado por um membro .da congregação de Fitch. Ver
• Garrison e Garrison, William Lloyd Garrison, vol. 2, p. 136.
51. Louis Ruchames, ed., A House Dividing Against Itself, 1836 1840: lhe Letters
-

of William Llcold Garrison (Cannbridge, MA: Harvard University Press, 1971),


vol. 2, p. 275, n. 2; Garrison e Garrison, William Lloyd Garrison, vol. 2,
p. 142; J. T. Woodbury para C. Fitch e J. H. Towne, 17 de agosto de 1837, em
A House Dividing, vol. 2, p. 297, 298;W L. Garrison para o editor do Spectator,
20 de outubro de 1837; W. L. Garrison para E Jackson, 28 de junho de 1838;
H. B. Stanton para G. Bimey, 12 de setembro de 1837; 7 de agosto de 1837;
W. L. Garrison para G. W. Benson, 23 de setembro de 1837.
52. W. L. Garrison para G. W. Benson, 20 de outubro de 1837; 25 de maio de
1838; W. L. Garrison para L. Tappan, 13 de setembro de 1837.
53. C. Fitch para W L. Garrison, 9 de janeiro de 1840, em Garrison e Garrison,
William Lloyd Garrison, vol. 2, p. 335 337.
-

54. Fitch, Letter to Rev. Litch, p. 9.


55. R. J. Green, "Oberlin Theology'', em Dictionary of Christianity in America,
ed. Daniel G. Reid (Downers Grove, IL: lnterVarsity Press, 1990), p. 834;
Benjamin Breckinridge Warfield, Studies in Perfectionism (Phillipsburg, NJ:
Presbyterian and Reformed Pub. Co., 1958), p. 64, 65.
56. Warfield, Studies in Perfectionism, p. 64, 65; o livro de Fitch foi
reproduzido no Oberlin Evangelist entre 15 de janeiro de 1840 e 25 de
março de 1840, e no Guide to Christian Perfection, fevereiro de 1840,
p. 169-191; A. C. Guelzo, "Woods, Leonard", em Dictionary of Christianity in
America, p. 1270; Leonard Woods, Examination of the Doctrine of Perfection
as Held by Rev. Asa Mahan, Rev. Charles Fitch, and Others Agreeing With
Them (Rochester, NY: William Alling, 1841); William R. Weeks, Letter to
the Rev. Charles Fitch, on His Views of Sanctification (Newark, NJ: Aaron
Guest, 1840).
57. Charles Fitch, Letter to the Newark Presbytery (Newark, NJ: Aaron Guest,
1840), p. 20; cf. Oberlin Evangelist, 25 de março de 1840, p. 54; 12 de abril
de 1840, p. 9-13.
58. C. Fitch para o irmão e a irmã Palmer, 26 de julho de 1842; Oberlin
Evangelist, 28 de abril de 1841, p. 60. Ver também Charles Edward White,
336 I ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

The Beauty of Holiness: Phoebe Palmer as Theologian, Revivalist, Ferninist,


and Humanitarian (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1986), p. 155.
59. Neto York Evangelist, 19 de março de 1836; Susan Hayes Ward, The Histoty
of the Broadway Tabernacle Church (Nova York: n. p., 1901), p. 28; Hardman,
Charles Grandison Finney, p. 311 313.
-

60. Ver George R. Knight, "Oberlin College and Adventist Educational


Reforrns", Adventist Heritage 8 (primavera de 1983), p. 3-9; Robert S.
Fletcher, A History of Oberlin College From Its Foundation Through the Civil
War, 2 vols. (Oberlin, OH: Oberlin College, 1943).
61. Oberlin Evangelist, 19 de janeiro de 1842, p. 14; 16 de fevereiro de 1842,
p. 28.
62. Ibid., 8 de junho de 1842, p. 91, 92; 28 de setembro de 1842, p. 158, 163,
164; E. Wade para H. Cowles, 16 de dezembro de 1842; C. Fitch para
H. Cowles, 14 de janeiro de 1843.
63. Charles Fitch, Henry Cowles, e Asa Mahan, Discussion on the Second Advent
Near (Cleveland, OH: [s.n.], 1843), p. 3.
64. Oberlin Evangelist, 11 de outubro de 1843, p. 167; Starkweather para
C. Finney, 25 de outubro de 1842.
65. W. G. Ballentine, ed., The Oberlin Jubilee , 1833-1883 (Oberlin, OH:
E. Goodrich, 1883), p. 198, 199; cf. James H. Fairchild, Oberlin: The
Colony and the College, 1833 1883 (Oberlin, OH: E. Goodrich, 1883),
-

p. 86, 87.
66. Bates, Second Advent Way Marks, p. 10, 11.
67. Christian Reflector, 28 de novembro de 1844, p. 28.
68. Liberator, 10 de fevereiro de 1843, p. 23,
69. Arthur, "Joshua V. Himes," em The Disappointed, p. 46; Christian Herald,
em Signs of the Times, 13 de julho de 1842, p. 114; Midnight Cay, 21 de
março de 1844, p. 282.
70. Dick, "William Miller and the Advent Crisis," p. 267-269; Advent Shield,
maio de 1844, p. 88.
71. Signs of the Times, 14 de dezembro de 1842, p. 103.
72. S. M. Marsh para W Miller, 24 de fevereiro de 1842; Signs of the Times,
21 de dezembro de 1842, p. 105.
73.Ver Froom, Prophetic Faith of Our Fathers, vol. 4, p. 702-704.
74. Wellcome, History of the Second Advent Message, p. 288; T. D. Weld para
L. Tappan, 5 de abril de 1836; E. Wright para T. D. Weld, 5 de novembro de
1835; 1 G. Birney para L. Tappan, 5 de fevereiro de 1841; W. L. Garrison
para H. E. Garrison, 23 de julho de 1840; Garrison e Garrison, William
Lloyd Garrison, vol. 2, p. 356; Cross, Burned-over District, p. 301,
Referências 1 337

75. W. Miller, citado em Rowe, Thunder and Trumpets, p. 43; Cross, Burned-
over District, p. 301.
76. Wellcome, Histoty of the Second Advent Message, p. 272.
77. W L. Garrison para E. Pease, 4 de abril de 1843; W. L. Garrison para
H. C. Wright,1 2 de março de 1843; cf. Garrison e Garrison, William Lloyd
Garrison, vol. 3, p. 94.
78. Liberator, 22 de julho de 1842, p. 116; Oberlin Evangelist, 7 de julho de
1841, p. 110, 111.
79. Liberator, 14 de fevereiro de 1840, p. 27; cf. 10 de fevereiro de 1843, p. 23.
80. P. Barbour para W Miller, 8 de novembro de 1844.
81. Para abordagens secundárias sobre esse assunto, ver Delbert W. Baker, The
Unknown Prophet (Washington, D. C.: Review and Herald, 1987), p. 69-77;
Louis B. Reynolds, We Have Tomorrow: The Story of American Seventh-day
Adventists With an African Heritage (Washington, D.C.: Review and Herald,
1984), p. 17-28.
82. Munger, Life and Religious Experience, p. 42; [Sojoumer Truth], Narrative
of Sojourner Truth (Battle Creek, MI: [s.n.], 1878), p. 109, 110; Page
Smith, Lhe Nation Comes of Age (Nova York: McGraw-Hill, 1981),
p. 659-662.
83. Signs of the Times, 7 de junho de 1843, p. 108.
84. Midnight Cry, 29 de fevereiro de 1844, p. 249.
85. Baker, Unknown Prophet, p. 75; Reynolds, We Have Tomorrow, p. 19; e
Froom, Prophetic Faith of Our Fathers, vol. 4, p. 705, listam Charles Bowles
como um terceiro pregador negro milerita. Mas a única referência dada
é John W Lewis, The Life, Labor% and Traveis of Elder Charles Bowles
Matertown, MA: Ingalls & Stowell, 1852). Ao examinar essa obra, não
encontrei qualquer referência a uma conexão com o adventismo.
86. William E. Foy, The Christian Experience of William E. Foy Together With
the Two Visions (Portland, ME: J. e C. H. Pearson, 1845), p. 9, 23. Ver
também Baker, Unknown Prophet e "Foy, William Ellis", em Seventh-day
Adventist Encyclopedia (Washington, D.C.: Review and Herald, 1976 ed.),
p. 474, 475.
87. Foy, Christian Experience, p. 15, 21-23.
88. Hatch, Democratization of American Christianity, p. 78, 79; Donald
W. Dayton, Discovering an Evangelical Heritage (Nova York: Harper & Row,
1976), p. 85-98; White, Beauty of Holiness.
89.Wellcome, Histoly of the Second Advent Message, p. 305, 306.
90. Midnight Cly, 6 de julho de 1843, p. 149.
91. G. A. Troop para o "irmão Dan", 23 de abril de 1843.
338 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

92. Signs of tlw Times, 17 de maio de 1843, p. 87; Midnight Cry, 6 de julho
de 1843, p. 149.
93. O. R. Fassett, The Biography of Mrs. L. E. Fassett (Boston: Advent Christian
Pub. Soc., 1885), p. 26, 27.
94. Midnight Cry, 6 de julho de 1843, p. 149 (itálicos adicionados).

Capitulo 6: Entrando no Ano do Fim


1. Signs of the Times, 25 de janeiro de 1843, p. 150.
2. Ibid., p. 147-149.
3. Ibid., 4 de janeiro de 1843, p. 121; 18 de janeiro de 1843, p. 141.
4. Miller, Apology and Defence, p. 24; W. Miller para o irmão e a irmã Atwood,
31 de maio de 1831. Até mesmo o titulo do principal livro de Miller
continha as palavras About the•Year 1843.
5. Miller, Apology and Defence, p. 24; Advent Shield, maio de 1844, p. 73.
6. First Report of the General Conference, p. 21.
7. Second Report of the General Conference, p. 7.
8. Advent Watchman, 30 de abril de 1851, p. 59; Zion's Watchman, 25 de julho
de 1840, p. 117, citado em Doan, Miller Heresy, p. 37; cf. Signs of the Times,
19 de dezembro de 1841, p. 135, 136. Algumas vezes se tem acreditado que
N. Whiting também rejeitou todas as datas (ver Froom, Frophetic Faith of
Our Fathers, vol. 4, p. 641) baseado em uma carta dele para Miller em 24
de outubro de 1844. Mas o Midnight Cry de P de junho de 1843, p. 84,
descarta essa tese. O máximo que pode ser provado a partir da carta de
Whiting é que ele não aceitou a data de outubro de 1844.
9. Bliss, Memoirs of Miller, p. 139; Wellcome, History of the Second
Advent Message, p. 452.
10. J. V. Himes para W. Miller, 26 de junho de 1841.
11. Signs of the Times, P de junho de 1842, p. 68.
12. Ibid., p. 69; David T. Arthur, "Millerism", em Rise of Adventism, p. 161
(itálicos adicionados).
13. Henry Jones, American Views of Christ's Second Advent (Nova York: Saxton
8t Miles, 1842), p. 6, 7, 22; Report of the Proceedings of the Third Session of
the General Conference Expecting the Advent of the Lord (Boston: J. V. Himes,
1841), p. 42; Advent Watchman, 30 de abril de 1851, p. 59.
14. Signs of the Times, 3 de agosto de 1842, p. 140.
15. Ibid., p. 141.
16. Ibid., 7 de junho de 1843, p. 107; Wellcome, History of the Second Advent
Message, p. 253.
Referências 1 339

17. Signs of the Times, 4 de janeiro de 1843, p. 121; Advent Shield, maio de
1844, p. 73-77.
18. Advent Shield, maio de 1844, p. 73, 74; Signs of the Times, 22 de fevereiro
de 1843, p. 179.
19. • Signs of the Times, 9 de novembro de 1842, p. 61.
20. Ibid., 22 de março de 1843, p. 19. Para urna descrição do cometa, ver Dick,
"William Miller", p. 170, 171; para uma opinião científica sobre o cometa,
ver Nichol, Midnight Cry p. 145.
21. Advent Shield, maio de 1844, p. 71; Second Advent of Christ, 22 de fevereiro
de 1843, p. 3.
22. Signs of the Times, 12 de fevereiro de 1843, p. 157; T. D. Weld para A. G. Weld,
22 de janeiro de 1843.
23. Signs of the Times, 3 de agosto de 1842, p. 137.
24. Ibid., 17 de maio de 1843, p. 85; Bliss, Memoirs of William Mi/ler;
p. 228, 229.
25. Signs of the Times, 15 de fevereiro de 1843, p. 173; W. Miller para seu filho,
17 de novembro de 1838.
26. Oberlin Evangelist, 14 de setembro de 1842, p. 150.
27. Signs of the Times, 17 de maio de 1243,p. 85; 7 de junho de 1843, p. 108.
28. Ibid., 9 de agosto de 1843, p 181.
29. Ver Dick, "William Miller", p. 138, 139.
30. Advent Shield, maio de 1844, p. 72.
31. Wellcorne, History of the Second Advent Message, p. 219.
32. Advent Shield, rnaio de 1844, p. 71,72..
33. Signs of the Times, 17 de maio de 1843, p. 85.
34. Joseph Bates, The Autobiography of Joseph Bates (Battle Creek, MI: Seventh-
day Adventist Pub. Assn., 1868), p. 277.
35. Ibid., p. 278. Esse relato também foi incluído no Daily. Advertizer; de
Newark, 2 de março de 1844, citado em Nichol, Midnight Cry, p. 197.
36. Bates, Autobiography, p. 281.
37. Advent Shield, maio de 1844, p. 77, 78; Signs of the Times, 19 de julho
de 1843, p. 157; 21 de janeiro de 1844, p. 24; Bliss, Memoirs of William
Miller, p. 254.
38. Signs of the Times, 21 de fevereiro de 1844, p. 24; Midnight Cry, 2 de
novembro de 1843, p. 94; Robert W. Olson, "Southem Baptists Reactions
to Millerism" (tese de Th D, Southwestern Baptist Theological Seminary,
1972), p. 75, 76.
39. Ver Nichol, Midnight Cry, p. 166-168; Hugh I. B. Dunton, "The Millerite
Aclventists and Other Millenariari \ Groups in Great Britain, 1830-1860"
340 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

(tese de Ph.D., University of London, 1984); Louis Billington, "The


Millerite Adventists in Great Britain, 1840-1850", em The Disappointed,
p. 59-77; uma versão anterior desse artigo apareceu no Journal of American
Studies, 1967, p. 191-212; Arnold Dallimore, Forerunner of the Charismatic
Movement: The Life of Edward Irving (Chicago: Moody Press, 1983);
C. Gordon Strachan, The Pentecostal Theology of Edward Irving (Peabody,
MA: Hendrickson, 1988).
40. Advent Shield, maio de 1844 1 p. 92, 47, 48; Robert Kieran Whalen,
"Millenarianism and Millennialism in America, 1790-1880" (tese de
Ph.D., State University of New York at Stony Brook, 1972); Sandeen,
Roots of Fundamentalism; Timothy P. Weber, Living in the Shadow of the
Second Coming, cal. ed. (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1983); Paul Boyer,
When Time Shall Be No More: Prophecy Belief in Medem American Culture
(Cambridge, MA: Harvard University Press, 1992).
41. Billington, "The Millerite Adventists", em The Disappointed, p. 59.
42. Midnight Cry, 18 de maio de 1843, p. 65.
43. Ibid.
44. Signs of the Times, 7 de junho de 1843, p. 108.
45. Midnight Cly, 4 de janeiro de 1844, p. 189.
46. Signs of the Times, 15 de novembro de 1843, p. 109.
47. Graham's Magazine, março de 1843, p. 145-149.
48. Tribune Extra de Nova York, 2 de março de 1843, p. 1; Ira V. Brown,
"The Millerites and the Boston Press", lhe New England Quarterly
16 (1943), p. 592-614; Vern Carner, "Horace Greeley and the Millerites",
Adventist Heritage 2 (verão de 1975), p. 33, 34; Madeline Warner, "The
Changing Image of the Millerites in the Western Massachusetts Press",
ibid., p. 5-7.
49. Ver Gary Scharnhorst, "Images of the Milierites in American Literature",
American Quarterly 32 (primavera de 1980), p. 19-36; John Greenleaf
Whittier, "The World's End", Adventist Heritage 1 (julho de 1974), p. 14-
17. O texto de Whittier foi publicado primeiramente em The Stranger in
Lowell, em 1845.
50. Liberator, 10 de fevereiro de 1843, p. 23; W L. Garrison para H. C. Wright,
12 de março de 1843.
51. Millenniat Harbinger, julho de 1843, p. 291, 292; T L. Miethe, "Campbell,
Alexander (1788-1866)", em Dictionary of Christianity in America, p. 214,
215. Hirnes havia escrito um prefácio anteriormente para o seguinte livro de
Campbell, Delusions: An Analysis of the Book of Mormon (Boston: Benjamin
H. Greene, 1832).
Referências 1 341

52. Garth M. Rosell and Richard A. G. Dupuis, eds., The Memoirs of Charles G.
Finney: The Complete Restored Text (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1989),
p. 453, 454. A cópia autografada do Works de Miller está guardada em uma
sala de livros raros da biblioteca do Oberlin College
53. Ver Rowe, Thunder and Trumpets, p. 63.
54. The Witness, 10 de dezembro de 1842, p. 184.
55. Dick, "William Miller", p. 183, 184; Signs of the Times, P. de fevereiro de
1843, p. 156.
56. M. Stuart, Hints on the Interpretation of Prophecy, 2a ed. (Nova York: Van
Nostrand & Terrett, 1851), p. 173.

Capitulo 7: Saindo de Babilônia


1. Miller, Apology and Defence, p. 19, 20; Bliss, Memoirs of William Miller,
p. 140, 170.
2. Doan, The Miller Heresy, p. 26, 188.
3. Ver ibid., p. 40.
4. Signs of the Times, 3 de agosto de 1842, p. 140.
5. Universalist, citado em Froom, Prophetic Faith of Our Fathers, vol. 4, p. 760.
6. Olive Branch, citado em Signs of the Times, 17 de maio de 1843, p. 88; cf.
Advent Shield, maio de 1844, p. 83.
7. Aülvent Shield, maio de 1844, p. 83.
8. Bliss, Memoirs of William Miller, p. 138. Sears, em Days of Delusion, tentou
espalhar rumores infundados sobre o milerisrno no século 20. Vinte anos
depois, Nichol rebateu a obra de Sears no livro Midnight Cty.
9. Journal of Commerce, citado em Signs of the Times, P de fevereiro de 1843,
p. 157.
10. Graham's Magazine, março de 1843, p. 148; Signs of the Times, 29 de março
de 1843, p. 29; 22 de março de 1843, p. 20.
11. American Journal of Insanity, janeiro de 1845, p. 250, 251.

ç
12. Ver Dick, "William Miller", p. 194, 195.
u. Journal de Providence, citado em Niles National Registei; 6 de maio de
1843, p. 160; Alice L. Hoag, "Millerism", uma monografia lida perante a
Macedon Center Historical Society, 14 de fevereiro de 1898.
14. Nichol, Midnight Cry, passim; Ronald L. Numbers e Janet S. Numbers,
"Millerism and Madness: A Study of 'Religious Insanity' in Nineteenth-
Century America", em The Disappointed, p. 92-117; uma versão ligeiramente
diferente da apresentação de Numbers apareceu no Bulletin of the Menninger
Clinic, vol. 49 ri.2 4 (1985), p. 289-320; Doan, The Nliller Heresy, p. 170.
342 ADVENTISMO — Origem e Impacto do Movimento Milerita

15. Rowe, Thunder and Trumpets, p. 104; Alexis de Tocqueville, Democracy


in America, ed. J. P. Mayer, trans. George Lawrence (Garden City, NY:
Doubleday, 1969), vol. 2, p. 534; Numbers e Nunnbers, "Millerism and
Madness", em The Disappointed, p. 110.
16. Oberlin Evangelist, 18 de janeiro de 1843, p. 15.
17. Gazette and Advertiser, citado em Bliss, Memoirs of William Miller, p. 227.
18. Midnight Cry, 17 de novembro de 1842 ; p. 3.
19. Ibid., 12 de dezembro de 1842, p. 3.
20. James White, Life Incidents in Connection With the Great Advent Movement
(Battle Creek, MI: Seventh-day Adventist Pub. Assn., 1868), p. 108.
21. W Miller para seu filho, 2 de fevereiro de 1843; Signs of the Times, 3 de
agosto de 1842, p. 137.
22. Miller, Apology and Defence, p. 21; Signs of the Times, 3 de agosto de 1842,
p. 140; Advent Herald, 6 de março de 1844, p. 36.
23. Advent Herald, 6 de março de 1844, p. 37.
24. Wellcorne, History of the Second Advent Message, p. 306.
25. Midnight Cry, 8 de fevereiro de 1844, p. 2