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ESTUDO INDUTIVO

1 Pedro 1.17-21

Tempo total de estudo: 17h00

SUMÁRIO

OBSERVAÇÃO .................................................................................................. 0

1 Informações sobre a epístola ................................................................... 0

2 Análise geográfica .................................................................................... 4

3 Análise gramatical da carta ...................................................................... 4

4 Análise gramatical da passagem .............................................................. 5

5 Análise histórica ....................................................................................... 8

INTERPRETAÇÃO E CORRELAÇÃO ............................................................... 8

APLICAÇÃO ..................................................................................................... 14

REFERÊNCIAS ................................................................................................ 17

OBSERVAÇÃO

1 Informações sobre a epístola


 Autor: apóstolo Pedro (v. 1.1)
o Conforme o costume da época, iniciava-se a carta com o autor e o
destinatário. Em cartas longas, enviadas em forma de rolo, o nome
do autor e destinatário iam do lado de fora (mas poderia ser
repetido no interior da carta). Em 5.12 dá a entender que Pedro
estivesse ditando as ideias e Silvano (Silas) estivesse compondo
em seu próprio estilo1.

1
MUELLER, Ê. R. 1 Pedro: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1991.
1

o 1 Pedro foi o livro mais antigo e mais unanimamente aceito como


autêntico. Sua veracidade e autenticidade nunca foram
contestadas2.
o As evidências externas mostram que a igreja considerava essa
epístola autêntica e apostólica (explicitamente Irineu, Clemente de
Alexandria, Tertuliano)3.
o Uma antiga evidência de autoria de 1 Pedro se encontra em 2 Pe
3.14.
o Pedro (de nome Simão, que em aramaico é Cefas) foi um pescador
galileu, da cidade de Betsaida, irmão de André, chamado por Cristo
para ser discípulo. O significado de seu nome é "rocha" ou
"fragmento de rocha". Líder natural entre o colégio apostólico, foi
um dos mais íntimos do Senhor ao lado de Tiago e João. Nessa
epístola vemos como Pedro cumpriu sua missão (Lc 22.32)5.
 Estilo literário: carta
o A carta original foi escrita em grego como era falado e escrito na
época. Não temos acesso ao próprio manuscrito, mas um grande
número de cópias e cópias de cópias. As variações nas várias
cópias não são tão grandes, e não afetam o conteúdo essencial6.
o Pertence à categoria das epístolas gerais ou católicas7 (Hebreus,
Tiago, 1 Pedro, 2 Pedro, as epístolas de João e Judas)8.
 Destinatários: cristãos (1.3, 23) no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e
Bitínia (v. 1.1 – Ásia Menor, atual Turquia – entre a Europa e a Ásia9).
Crentes de origem predominantemente gentia10
o Essas comunidades cristãs surgiram a partir dos judeus da
diáspora que se converteram no discurso de Pedro (At 2 – cf. 1 Pe

2
NICHOLSON, R. S.; TAYLOR, R. S.; HARPER, A. F.; FUHRMAN, E. R.; BLANEY, H. J. S.; ROSE, D. R.; EARLE, R.
Comentário Bíblico Beacon: Hebreus a Apocalipse. vol. 10. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.
3
KISTEMAKER, S. J. Comentário do Novo Testamento: 1 Pedro, 2 Pedro e Judas. São Paulo: Cultura Cristã,
2006.
4
GRUDEM, W. A. Comentário bíblico de 1 Pedro. São Paulo: Vida Nova, 2016.
5
LOPES, H. D. 1 Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos, 2012.
6
MUELLER, op. cit.
7
LOPES, op. cit.
8
KISTEMAKER, op. cit.
9
MUELLER, op. cit.
10
BIBLIA, Português. Bíblia Sagrada Almeida Século 21: Antigo e Novo Testamento. Tradução de João
Ferreira de Almeida. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2008.
2

1.12). É de se esperar que os convertidos, na volta, falaram do


evangelho11.
 Habitantes dessas regiões estavam em Jerusalém no dia de
Pentecoste (At 2.9-11)12.
 Como Pedro não cita Pisídia, Frígia, Panfília e Cilícia, onde
Paulo passou, conclui-se que Pedro dirige sua carta para "o
resto da Ásia Menor que não havia sido evangelizada por
Paulo"13.
o Provavelmente, era uma comunidade mista, com certa
predominância de gentios. As sinagogas abrigavam gentios
convertidos à fé judaica ou prosélitos14.
o Quanto a condição social, parece que eram de classes mais
baixas: menciona-se "súditos", mas não autoridades (2.13-17);
"servos", mas não "patrões" (2.18-21)15.
o As comunidades cristãs ao qual a carta foi endereçada eram de
formação cultural heterogênea, refletindo o caráter misto da
população das províncias como um todo. Esse fator, por si só,
reserva potenciais problemas16.
 Contexto: Diáspora (v. 1.1) – período de perseguição subsequente à
morte de Estêvão17
o A carta foi escrita em uma situação de conflito: passavam por
provações (1.6; 3.17; 4.12-19); estavam em conflito interno (2.11);
eram difamados (2.12; 3.16; 4.4); os servos eram afligidos (2.20);
eram ameaçados (3.14)18.
o A perseguição aos cristãos em 1 Pedro é local e circunstancial
(pressão social, discriminação religiosa e hostilidade local – as
quais costumeiramente eram dirigidas pelos nativos contra o
cristianismo no império romano da época). Seus algozes eram

11
MUELLER, op. cit.
12
KISTEMAKER, op. cit.
13
KISTEMAKER, op. cit.
14
MUELLER, op. cit.
15
MUELLER, op. cit.
16
MUELLER, op. cit.
17
BIBLIA, op. cit.
18
MUELLER, op. cit.
3

concidadãos, vizinhos, colegas de trabalho, etc.19


 Razão: estimular cristãos em perseguição a exultar e alegrar-se (5.12)20.
Exorta-os a permanecerem firmes em meio às adversidades que
enfrentavam21.
o Mostra as belezas da fé, as bênçãos e o novo status glorioso que
recebemos aos olhos de Deus. Afirma que as tribulações são
testes para a fé e se tornam fugazes diante do que receberemos
em Cristo22.
 Tema: a carta enfatiza o fato de que a santidade de vida é mais importante
do que o livramento do sofrimento23.
 Palavra-chave: “esperança” é uma palavra-chave que aparece 5 vezes
em 1 Pedro (1.3, 13, 21; 3.5, 15)24.
 Local: Babilônia (v. 5.13 – Roma).
o Pedro usa o termo "Babilônia" de forma simbólica ou figurada. No
último quarto do primeiro século, os cristãos comumente se
referiam à Roma como "Babilônia". Há uma tradição confiável de
que Pedro passou seus últimos anos em Roma. A presença de
Marcos lá também tem apoio histórico25.
o Tal interpretação possui o testemunho geral da antiguidade
(Eusébio, Jerônimo)26.
o O caráter secreto pelo qual Pedro transmite saudações reflete os
tempos perigosos em que viviam e o desejo de proteger a igreja de
algum possível mal27.
 Data: entre 62-69 d.C.28, ou 60-65 d.C. período em que, segundo a
tradição, Pedro estava atuando em Roma29.

19
MUELLER, op. cit.
20
BIBLIA, op. cit.
21
MUELLER, op. cit.
22
MUELLER, op. cit.
23
NICHOLSON et. all, op. cit.
24
KISTEMAKER, op. cit.
25
MUELLER, op. cit.
26
NICHOLSON et. all, op. cit.
27
KISTEMAKER, op. cit.
28
BIBLIA, op. cit.
29
MUELLER, op. cit.
4

2 Análise geográfica
 Os destinatários estão localizados em 5 áreas da Anatólia, região que,
como um todo, é conhecida como Ásia Menor30 (Ao norte e oeste da
cordilheira do Taurus31 e ao sul do mar Negro32).
o As 5 áreas estão nas regiões oriental, central e ocidental e à beira
do Mar Negro33.

3 Análise gramatical da carta


 1 Pedro tem, proporcionalmente, mais citações e alusões ao AT do que
qualquer outra epístola do NT. Parece também que o apóstolo usa de
citações de trechos de hinos e credos que eram usados na igreja
cristã primitiva (1.18-21; 2.21-25; 3.18-19)34.
 A carta tem o melhor grego do NT. É um grego bastante culto35.
 Fluxo – 1 Pedro pode ser vista como uma construção alternada de 3
partes doutrinais e 3 partes exortativas36:
o Primeira seção doutrinal (1.3-12)
o Primeira seção hortativa (1.13-2.3)
o Segunda seção doutrinal (2.4-10)

30
MUELLER, op. cit.
31
NICHOLSON et. all, op. cit.
32
GRUDEM, op. cit.
33
KISTEMAKER, op. cit.
34
KISTEMAKER, op. cit.
35
LOPES, op. cit.
36
MUELLER, op. cit.
5

o Segunda seção hortativa (2.11-3.12)


o Terceira seção doutrinal (3.13-4.19)
o Terceira seção hortativa (5.1-11)
 Pedro combina teologia com prática do viver cristão37.
 Há certa influência paulina em 1 Pedro. São vários pontos de contato
entre o pensamento e formas de expressão nas cartas de Paulo
(principalmente com Tessalonicenses) e em 1 Pedro38.

4 Análise gramatical da passagem

17 “E, se vocês invocam como Pai aquele que, sem parcialidade, julga
segundo as obras de cada um, vivam em temor durante o tempo da
peregrinação de vocês,” (NAA)

a) “E”: (και – kai) partícula aditiva e, por vezes, acumulativa39.


b) “Peregrinação”: (παροικιας – paroikia) metáf. a vida do ser humano
aqui na terra; “estadia temporária”40.
a. Indica que o céu é o verdadeiro lar do crente41.
c) “Vivam”: (αναστραφητε – anastrepho) metáf. conduzir a si mesmo;
comportar-se42.
a. Indica um estilo de vida e caráter43.

18 “sabendo que não foi mediante coisas perecíveis, como prata ou ouro, que
vocês foram resgatados da vida inútil que seus pais lhes legaram,” (NAA)

a) “sabendo”: (ειδοτες – eido) perceber; saber; prestar atenção44.


b) “resgatados”: (ελυτρωθητε – lutroo) liberto por pagamento de

37
KISTEMAKER, op. cit.
38
MUELLER, op. cit.
39
STRONG, J. Dicionário bíblico Strong: Léxico Hebraico, Aramaico e Grego. Barueri, SP: Sociedade Bíblica
do Brasil, 2010.
40
STRONG, op. cit.
41
PFEIFFER, C. F.; VOS, H. F.; REA, J. Dicionário bíblico Wycliffe. 4. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
42
STRONG, op. cit.
43
VINE, W. E.; UNGER, M. F.; WHITE JR., W. Dicionário Vine: o significado exegético e expositivo das
palavras do Antigo e do Novo Testamento. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2016.
44
STRONG, op. cit.
6

resgate45.
a. É usado para o sacrifício de Cristo como para “resgate de
muitos” (Mt 20.28; Mc 10.45)46.
b. Cristo é o nosso resgate, quem nos redime da escravidão do
pecado e condenação da lei47.
c) “inútil”: (ματαιας – mataios) sem propósito; vã48.
a. Algo destituído de resultado49.
d) “seus pais lhes legaram”: (πατροπαραδοτου – patroparadotos)
transmitidos pelos pais ou antepassados50.

19 “mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e


sem mácula.” (NAA)

a) “mas”: (αλλα – alla) introduz uma transição (para um oposto)51.


b) “precioso”: (τιμιω – timios) algo de grande valor; estimado;
especialmente querido52.
c) “sangue”: (αιματι – haima) sangue de vítimas sacrificiais (ex.: Hb
9.7)53.
a. No sistema de sacrifícios do AT exigia-se a morte de uma
vítima em nome do pecador (Hb 9.22), consistindo em
aspersão de sangue como prova de expiação (Lv 17.11)54.
d) “sem defeito”: (αμωμου – amomos) moralmente sem defeito,
perfeito55.
e) “sem mácula”: (ασπιλου – aspilos) metáf. livre de vício, impecável,
livre de contaminação56.

45
STRONG, op. cit.
46
VINE et all., op. cit.
47
PFEIFFER et all, op. cit.
48
STRONG, op. cit.
49
VINE et all, op. cit.
50
STRONG, op. cit.
51
STRONG, op. cit.
52
STRONG, op. cit.
53
VINE et all, op. cit.
54
PFEIFFER et all, op. cit.
55
STRONG, op. cit.
56
STRONG, op. cit.
7

20 “Ele foi conhecido antes da fundação do mundo, mas foi manifestado


nestes últimos tempos, em favor de vocês.” (NAA)

a) “conhecido antes”: (προεγνωσμενου – proginosko) conhecido de


antemão57.
a. Aqui representa o conhecimento divino concernente a
Jesus58.

21 “Por meio dele, vocês creem em Deus, o qual o ressuscitou dentre os


mortos e lhe deu glória, para que a fé e a esperança de vocês estejam em
Deus.” (NAA)

a) “glória”: (δοξαν – doxa) honra resultante de uma boa opinião59.


a. Aqui, resultante da exaltação de Cristo. Ela é usada em
atribuições de louvor a Deus60.
b. O termo origina-se do conceito hebraico de “peso”, “dignidade”,
“excelência”61.
b) “fé”: (πιστιν – pistis) “persuasão firme”. É usado no NT para fé em
Deus/Jesus. Tal fé resulta em uma entrega à Cristo (Jo 1.12) e uma
conduta condizente com tal entrega (2 Co 5.7)62.
a. Em Hb 11.1 vemos que a fé fornece os fundamentos sobre os
quais a nossa segurança pode seguramente repousar. A fé
salvadora envolve confiança pessoal ativa, o compromisso
com o Cristo.
c) “esperança”: (ελπιδα – elpis) no NT é uma expectativa confiante e
favorável. Aqui descreve a antecipação feliz do que é bom63.
a. Essa esperança é bem mais que uma antecipação de dias
melhores, mas da revelação final de Cristo (1 Pe 1.13)64.

57
STRONG, op. cit.
58
VINE et all, op. cit.
59
STRONG, op. cit.
60
VINE et all, op. cit.
61
PFEIFFER et all, op. cit.
62
VINE et all, op. cit.
63
VINE et all, op. cit.
64
PFEIFFER et all, op. cit.
8

5 Análise histórica
a) O cristianismo estava com 30 anos de existência65.
b) A civilização romana da época era dividida em classes, onde os mais
marginalizados buscavam direitos. É bem possível que a maior parte
dos crentes viesse dessas classes inferiores (operários, lavradores,
artesãos). Portanto, os cristãos sofriam pela marginalização, mas o
fato de abraçarem a nova fé também trouxe seus problemas
específicos. Aderir ao cristianismo exigia um abandono de práticas e
costumes comuns e venerados na sociedade romana. Essa negação
atraía todo tipo de reações da parte dos não-cristãos (maus tratos,
violência, recusa de emprego e negócios, etc.)66.
c) As comunidades cristãs eram mais comunidades domésticas
espelhadas pelo mundo, vivendo a fé na informalidade do dia-a-dia67.
d) Rapidamente, cópias de 1 Pedro foram enviadas a outras igrejas e,
em pouco tempo esta epístola foi tornada um documento comum nas
igrejas cristãs, revestido de autoridade apostólica e colocada ao nível
das outras escrituras sagradas68.

INTERPRETAÇÃO E CORRELAÇÃO

17 Além do motivo citado em 1.13-16 (a santidade de Deus), Pedro adiciona


mais um motivo para a santificação, a saber: o juízo divino.
a) Deus é santo (Jo 17.11) e justo (Jo 17.25)69. A santidade divina garante
que a misericórdia de Deus não se torne uma indulgência nem sua
justiça uma opressão70.
b) Temos o privilégio de sermos feitos filhos de Deus (Jo 1.12). O NT nos

65
MUELLER, op. cit.
66
MUELLER, op. cit.
67
MUELLER, op. cit.
68
MUELLER, op. cit.
69
WIERSBE, W. W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. vol. 2. Santo André, SP: Geográfica
editora, 2006.
70
NICHOLSON et. all, op. cit.
9

ensina a buscar Deus de forma íntima (Mt 6.9; Lc 11.2; Rm 8.15; Gl


4.6)71. Mas intimidade não anula responsabilidade. Anos de obediência
não compram uma hora de desobediência72. Não podemos esquecer é
que o Pai também é o Juiz, aquele de quem teremos que prestar contas
do rumo de nossas vidas (At 17.31; Rm 2.6; Ap 22.12). Tal conhecimento
já é um motivo de temor73.
c) Este juízo deve ser melhor interpretado como o juízo e disciplina na vida
presente. "Cada um" é um lembrete de que o juízo é individual e para
todas as pessoas74.
d) Deus exige de nós uma conduta que retrate Sua obra de justificação
em nosso interior.
e) Uma pessoa santa não é esquisita, mas sim diferente. Sua vida possui
uma qualidade distinta75.
f) Um verdadeiro filho reflete as virtudes do Pai76.
g) Deus nos salvo do pecado e das paixões fúteis da vida para vivermos
uma nova vida77.
h) Uma vida em temor é uma vida que reconhece quem Deus é. Refere-se
a nossa consciência de que o Pai é Juiz Justo. Portanto devemos ter
temor de desagradá-lo78.
i) Temor aqui é uma reverência e respeito devidos. Para os cristãos, temor
não é uma sensação de medo79.
j) O temor é o medo de desapontá-lo e de pecar contra seu amor80.
k) Somos peregrinos. Precisamos ter cuidado para não plantarmos raízes
neste mundo81.
l) Pedro nos exorta a não nos considerarmos perfeitos e, por isso, seguros

71
KISTEMAKER, op. cit.
72
LOPES, op. cit.
73
MUELLER, op. cit.
74
GRUDEM, op. cit.
75
WIERSBE, op. cit.
76
KISTEMAKER, op. cit.
77
LOPES, op. cit.
78
MACDONALD, W. Comentário bíblico popular: Novo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2011.
79
MUELLER, op. cit.
80
WIERSBE, op. cit.
81
LOPES, op. cit.
10

diante do juízo de Deus82.


18 Fomos libertos de nossa vida sem propósito, de pecado, herdada de
nossa natureza, por um preço imperecível.
a) Pedro os lembra de sua redenção e o preço que ela custou – os bens
aqui da terra não servem de pagamento para a redenção do crente 83 (Is
52.3). O homem chegou a se tornar escravizado pelo pecado, não tendo
capacidade de resistir a essa dominação. Em Sua morte, Cristo nos
promove tal superação84.
b) Não devemos esquecer quem éramos. Moisés lembrou os israelitas o
que haviam sido no Egito (Dt 5.15; 16.12; 24.18, 22). A geração que
morreu no deserto se esqueceu da servidão do Egito e quis voltar! 85
c) A vida antes da conversão é vazia e trivial (sem propósito, improdutiva e
inútil86). Uma vida escrava do pecado que só pode ser resgatada por um
valor infinito87.
d) A pessoa sem Cristo é vazia. Não tem uma razão pela qual viver e
morrer88.
e) Cristo nos redimiu da maldição da lei (Gl 3.13). A vida de um judeu
poderia ser considerada feliz se comparada à dos gentios, porém era a
perfeita escravidão quando a comparamos com a sua vida e a minha.
Ele estava sempre em perigo de se tornar impuro. Ele deveria viver
perpetuamente temendo, se não quisesse ser cortado do povo de
Deus89.
f) Nós vencemos o pecado e a morte por causa do sangue (Ap 12.11)90.
g) Devemos ser salvos para sermos mudados e não o posto. Embora a
mudança de vida não seja a base da salvação, ela é a evidência da
salvação91.

82
KICH, R. Proclamar libertação. Vol. 13. Editora Sinodal, 1987. Disponível em: <http://www.luteranos.co
m.br/conteudo/1-pedro-1-1-17-18-21>. Acesso em: 04 abr. 2019.
83
KISTEMAKER, op. cit.
84
MUELLER, op. cit.
85
WIERSBE, op. cit.
86
KISTEMAKER, op. cit.
87
MACDONALD, op. cit.
88
LOPES, op. cit.
89
SPURGEON, C. H. O precioso Sangue de Cristo. São Paulo: PES, 2017.
90
SPURGEON, 2017. op. cit.
91
PFEIFFER et all, op. cit.
11

h) Essa herança expressa sociologicamente a tipologia Adão-Cristo (Rm


5.12-21)92.
i) A salvação não pode ser concebida por rotina de rituais ou boas obras.
Muito menos em outra divindade que não seja Cristo. Ela não só nos
livra da miséria eterna, mas do amor ao pecado e do seu poder (dica de
ilustração: síndrome de Estocolmo - La Casa de Papel)93.
j) Assim com o um escravo só podia ser liberto por um pagamento de uma
quantia em dinheiro, nós só podemos ser resgatados do pecado
mediante o sangue de Cristo94.
19 Pedro apresenta o imensurável valor de nossa remissão (Sl 49.6-8).
a) A expressão descreve a morte de Cristo na cruz (Mc 10.45; Gl 3.13; Tt
2.14; Ap 5.9). A imagem de fundo é a da lei dos sacrifícios do AT, onde
o pecado era expiado pela morte sacrificial de um cordeiro (Lv 16; 22.17-
25). Também faz referência ao cordeiro pascoal (Êx 12.1-11)95. Jesus é
o Cordeiro de Deus (Jo 1.29). Só Jesus podia se situar nessa categoria
e ser aceito para sacrifício vicário (1 Pe 2.24)96.
b) Pelo sangue de Cristo nossa consciência é purificada (Hb 9.14),
ganhamos acesso intrépido a Deus em adoração e oração (Hb 10.19),
somos paulatinamente purificados de nossos pecados (1 Jo 1.7) e
resgatados de um estilo de vida pecaminoso (1 Pe 1.19)97.
c) O sangue de Jesus é o tema central da Bíblia. De Gn a Ap esse é o tema
principal. No AT ele é prefigurado no derramamento do sangue dos
animais sacrificados nos holocaustos98.
d) Desde o princípio o sangue é considerado precioso por Deus (Gn 9.4-5;
Nm 35.33-34). Deus considera precioso o sangue de animais. Quanto
mais o do homem? Quanto o mais o de seus mártires? Eu os tenho
trazido do animal para o homem, e do homem para os homens
escolhidos de Deus, os mártires. Tenho ainda outro lance para lhes

92
MUELLER, op. cit.
93
NICHOLSON et. all, op. cit.
94
LOPES, op. cit.
95
KISTEMAKER, op. cit.
96
MUELLER, op. cit.
97
GRUDEM, op. cit.
98
LOPES, op. cit.
12

apresentar: quanto mais precioso é o do sangue de Jesus Cristo99.


e) Hb 12.24 - o sangue de Abel apelou por vingança e prevaleceu. Caim foi
punido! O sangue de Jesus apela e prevalece. Seu grito é "perdoa-lhes!"
E os pecadores são perdoados por causa dele. As feridas de Jesus são
as muitas bocas para apelar a Deus a favor dos pecadores. Quando eu
não posso orar como deveria, quão doce é lembrar-me de que o sangue
ora! Não há voz em minha língua, mas há sempre uma voz no sangue100.
f) “Cordeiro sem defeito e sem mácula”: aponta para um sacrifício perfeito,
adequado (Hb 4.15).
g) Ao comparar Cristo a um "cordeiro", Pedro lembra-nos do preceito do
AT, que é a doutrina da substituição: uma vítima inocente que dá a vida
pelo culpado. Essa doutrina começa quando Deus sacrifica um animal
para confeccionar vestimentas para Adão e Eva (Gn 3); um carneiro
morreu no lugar de Isaque (Gn 22.13), e um cordeiro foi morto para cada
família liberta do Egito (Êx 12). Em Is 53 o Messias é como um Cordeiro
inocente101.
h) Esse sangue caiu sobre toda a humanidade (Mt 27.24-25); para uns
como graça (At 20.28; Ap 1.5; 5.9), para outros como condenação.
i) Rejeitar preciosa remissão é desprezar tamanho Salvador102.
j) O sangue de Cristo é precioso pois é o sangue do próprio Deus (At
20.28)103. Esse é o motivo dele ter poder para salvar. Porque o próprio
Cristo era Deus! Se Cristo fosse um mero homem, vocês não poderiam
ser exortados a confiar nEle. Ele não seria sempre tão impecável e
santo. O sangue que Jesus derramou foi sangue como de Deus. Era o
sangue do Homem, pois Ele era homem como nós, mas a Divindade
estava aliada à humanidade para que a eficácia do sangue se derivasse
dele! Ele é um Salvador completo, cheio de Graça para um pecador
vazio!104
20 Cristo morreu “em favor” de nós, para nos libertar da vida fútil de pecado105.

99
SPURGEON, 2017. op. cit.
100
SPURGEON, 2017. op. cit.
101
WIERSBE, op. cit.
102
MACDONALD, op. cit.
103
NICHOLSON et. all, op. cit.
104
SPURGEON, C. H. O Sangue. Sermão nº 228. O Estandarte de Cristo, 1858.
105
MACDONALD, op. cit.
13

a) Cristo é "pré-existente", sendo conhecido antes da fundação do mundo


(maneira poética de referir-se à criação). Sua manifestação refere-se à
encarnação (Jo 1.14; 1 Tm 3.16). Para Pedro, estamos vivendo no "fim
dos tempos", nos alertando para o senso de iminência escatológica106.
b) O fim de nosso tempo será consumado em sua segunda vinda107.
c) A escolha de Cristo na eternidade e sua revelação no tempo tem um
único propósito: redimir os crentes108 (Ap 13.8).
d) O sangue é que faz expiação pela alma (Lv 17.11; Hb 9.22). Não há
esperança de perdão para o pecado de qualquer homem, a não ser que
sua punição seja sofrida totalmente. Deus precisa punir o pecado. A
punição do pecado não é um arranjo arbitrário, mas faz parte da
constituição de um governo moral. Deus nunca se desviou disso e nunca
o fará. "Ele, de modo algum, inocentará o culpado" (Ex. 34:7)109.
e) Pedro esclarece que a morte de Cristo foi um plano, não um acidente (At
2.23)110.
f) O sacrifício de Cristo não é trazido a você sem mandado. Não é algo que
Cristo fez clandestinamente e em segredo. Ele foi escrito no Grande
decreto desde toda a eternidade, que Ele era o Cordeiro imolado desde
antes da fundação do mundo111.
21 Nossa esperança reside em Deus (Rm 15.13).
a) Cristo não só nos redime, mas também é por meio dEle que cremos em
Deus. Jesus é quem nos revela o coração do Pai. Seu ministério foi
testificado pela sua ressurreição e glória112.
b) Pedro destaca que quando os cristãos confiam em Cristo, também estão
confiando em Deus por intermédio de Cristo113.
c) Somente por meio de Cristo o homem pode ser salvo (At 4.12). Para que
essa salvação se torne uma realidade pessoal deve haver uma fé

106
MUELLER, op. cit.
107
LOPES, op. cit.
108
KISTEMAKER, op. cit.
109
SPURGEON, 2017. op. cit.
110
WIERSBE, op. cit.
111
SPURGEON, 1858. op. cit.
112
MACDONALD, op. cit.
113
GRUDEM, op. cit.
14

apropriada (Hb 11.6)114.


d) Tudo isto é motivo para depositar, hoje, confiança irrestrita nesse
Deus115.
e) Na ressurreição de Jesus, o crente tem a garantia de que ele também
será erguido dentre os mortos116.
f) Deus não é uma entidade, um ser abstrato e indefinido, mas aquele que
atua com poder na história117.
g) Está escrito que o sumo sacerdote nunca entrou além do véu sem sangue;
e certamente nós nunca poderemos entrar no coração de Deus, exceto
pelo aspergir do precioso sangue de Jesus. Não há proximidade de Deus,
a não ser quando estamos próximos da cruz. Louvem o sangue, então, pelo
poder que tem de aproximá-los de Deus118.

APLICAÇÃO

Pela revelação de Deus, o ato salvífico em Jesus Cristo, o cristão é chamado a


construir sua vida a partir da realidade de Deus. A partir dessa atitude e
postura tudo que escraviza vai ficando para trás. Poderíamos falar aqui em
conversão, no entanto, não no sentido de um rompimento único, mas diário e
ininterrupto119.

 Todas as exortações de 1 Pe chamam os cristãos a romperem com o


passado de vícios e a se engajarem responsavelmente na sociedade em
que vivem.

Muitas pessoas rejeitam o temor a Deus nos dias de hoje, levando sua vida
espiritual ao empobrecimento. O temor da disciplina de Deus é uma postura boa

114
NICHOLSON et. all, op. cit.
115
MUELLER, op. cit.
116
KISTEMAKER, op. cit.
117
LOPES, op. cit.
118
SPURGEON, 2017. op. cit.
119
KICH, op. cit.
15

e adequada, sinal de crescimento em maturidade e experimentação das bênçãos


de Deus120.

Criaturas, não desejam se identificar com o seu Criador? Homens insignificantes,


não teriam um Deus Todo-poderoso para ser seu amigo? Não poderiam estar de
bem com Ele exceto através da expiação. Deus apresentou Cristo para ser a
propiciação pelos nossos pecados. Oh, recebam a propiciação pela fé no Seu
sangue e estejam em paz com Deus121.

Diante do evangelho exposto por Pedro, esses fatos fundamentam um apelo ao


arrependimento e oferecimento de perdão, do Espírito Santo e da promessa da
vida eterna (1.13-25; 2.1-3; 4.1-5)122.

Na hora da necessidade e do perigo, o uso que podemos fazer de alguma coisa


constitui sua verdadeira preciosidade. Isto pode não estar de acordo com a
política econômica, mas está de acordo com o bom senso [parábola do peregrino
faminto que encontrou um saco com apenas pérolas]123. Do que lhe adiantará as
riquezas e obras no grande dia do Senhor?

Enquanto continuarmos impuros nunca poderemos sentir em nossos corações


algo como alegria, descanso e paz. O pecado é uma praga para o homem que
o comete e uma coisa para Deus que o aborrece, Eu preciso ser purificado,
preciso ser lavado das minhas iniquidades, ou nunca poderei ser feliz. E o
sangue de Cristo nos purifica de todo o pecado (1Jo 1.17; Is 1.18)124.

À luz da morte redentora de Cristo e da aceitação de Deus do seu sacrifício em


nosso lugar, somos desafiados a vir a Deus em fé e esperança125.

Deus não pode – e aqui falamos com reverência – o Eterno Deus não pode
rejeitar um pecador que implora pelo sangue de Cristo – pois se Ele o fizesse,
viria a negar a Si mesmo e contradizer todos os seus antigos atos!126

120
GRUDEM, op. cit.
121
SPURGEON, 2017. op. cit.
122
LOPES, op. cit.
123
SPURGEON, 2017. op. cit.
124
SPURGEON, 2017. op. cit.
125
NICHOLSON et. all, op. cit.
126
SPURGEON, 1858. op. cit.
16

Lembremo-nos de que, quando vimos o sangue, não fomos salvos porque o


vimos; a visão do sangue nos trouxe paz, mas foi o fato de Deus tê-lo visto
primeiro que nos salvou. "Quando eu vir o sangue passarei sobre vós". E hoje,
se meus olhos da fé forem obscurecidos, e me for difícil ver o precioso sangue
ou mesmo regozijar-me por ter sido lavado nele, ainda assim Deus pode ver o
sangue127.

Ilustração: Quando moça, Frances Ridley Havergal viu uma pintura do Cristo
crucificado com a seguinte inscrição: ‘Fiz isto por ti. Que fizeste por mim?’ Mais
que depressa, escreveu alguns versos, mas, insatisfeita, jogou-a na lareira
acesa. O papel permaneceu intacto! Posteriormente, seu pai sugeriu que
publicasse o poema, que hoje cantamos como hino:

Morri na cruz por ti,


Morri p'ra te livrar;
Meu sangue, sim, verti,
E posso te salvar.
Morri, morri na cruz por ti;
Que fazes tu por mim? (H. C. nº 569; H. E. M. nº 226)

Aquele que, com poder, ressuscitou Cristo dos mortos, pode, da mesma forma,
lhe dar uma nova vida.

Permita-me, amigo, pedir-lhe que venha para debaixo do abrigo da cruz. Sente-
se agora à sombra da cruz e sinta "eu estou seguro, estou seguro". Ou Deus o
ajuda agora ou nem mesmo o sangue poderá ajudá-lo naquele dia128.

Venham para o arrependimento se vocês não puderem vir arrependidos.


Venham para receber um coração compungido se não puderem vir com
corações compungidos. Venham paia ser comovidos se ainda não o estão.
Venham para ser feridos se vocês não o estiverem129.

127
SPURGEON, 2017. op. cit.
128
SPURGEON, 2017. op. cit.
129
SPURGEON, 2017. op. cit.
17

REFERÊNCIAS

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Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. 2ª ed. São Paulo: Vida
Nova, 2008.

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KICH, R. Proclamar libertação. Vol. 13. Editora Sinodal, 1987. Disponível em:
<http://www.luteranos.com.br/conteudo/1-pedro-1-1-17-18-21>. Acesso em: 04
abr. 2019.

KISTEMAKER, S. J. Comentário do Novo Testamento: 1 Pedro, 2 Pedro e


Judas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.

LOPES, H. D. 1 Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo:


Hagnos, 2012.

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Mundo Cristão, 2011.

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