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( lulrl(),§ (l novelas reuftidos

"considero samuel Rawet uma das maiores vozes da


*l:
literatura contemporânea. Pela autenticidade, peÊ
seriedade, pela p-esquisa formal, peros valores metafísicos
ou simplesmente humano§, que §e cruzam nos §eus contos,
c0m0 correntes subterrâneas, invisíveis, mas poderosas.
cornelio Penna disse, com excêsso: 'No princípio, era o
nada; depois, apareceu Machado de Assis; depois, foi o
nada, outra vez...' Samuel Rawet vgm contestar em seus
contos, de grande e bela densidade, a quase brincadeira
de Cornelio Pênna."
ANToNt0 CARLoS VILLAçA
Correio da Manhã,18 de maio de 1969.

rsBN 85-200-0643-4

m[[ilffiil[ilüil
§OMOS TOOOS JUDEUS ERRANTES

Multaü v0z0o oncontrei Ahasvorus, o judeu


orranto, pelas ruas do Catete. E Ahasverus
Rawet parava para conversar com o escritor
maie novo qus era su.

Alguns s0 surpreendiam como aquele


ongenheiro escrevia ficÇão; ao contrário,
eu me surpreendia como aquele ficcionista
poderia ssr engenheiro. Só se fosse
engenheiro de almas, pensava, a burilar
aqueles personagBns pobres-diabos, de uma
remota herança dostoievskiana e que viviam
no Catete entre os anos 1950 e 1970. Há dois
tipos, simplificando, de escritores de origem
_iudaica: os que respeitam a tradição cultural
.-(.
seu povo, e fazem disso o caldo principal
f
/\ /e sua criação, como Singer e o nosso Scliar;
f ) b aqueles que lutam com e às vezes contra

u/ lela, como Roth e o nosso Rawet. Rawet, aliás,


drbateu-se tanto que, mais errante do que
judeu, se perdeu ao final do caminho. Sua
mofte solitária em Brasília, " perseguido" por
tudo 0 por todos, é o próprio retrato trágico
do isolamento humano. Leiam em Diálogo e
sm quase toda I sua obra:
o isolamento já estava lâ, não há diálogo
antre og 80r0s humanos, só mímica, teatro
o lndividualismo. E quem se despojar de todo
do rua cultura, dospoja-se de si mesmo.
Nlo tom üntor vivonciar a angústia, o
drtorporo, â náucea sartriana (Rawet se
lrrlt;rh oom a lcmbrança; mas não é

00mprr;çã0, á aproximação).0 problema da


rubmlrtlo "à 101", orn KaÍka, á substituído
rqul prh lnruborulinação aobretudo
00mportlmtntrl "ü orto mosma lei".
0r qurlqurr lorrne ü0ín0B todos Íilhos de
l(rlhU rlgunr Íllhot bartardos, á vordade.

0 ludru rrruntr á unre ôtlma metáfora para


lrhrmor d; Hrw;t (o de lrôr outros, Bsrss
humrnor?l, m;lr rlnrh quando lombramos de
umt fr;r; dr F;rurl 0ulgnard, o ds cortos
lffirnl;n§t, dr qut "alÍ:ravsr á €rrar";
r ;fÍlngh trmhlm, ãüÍsrr:ontarlamog, ó uma
Contos e novelas
reunidos
Sdmucl lldwat

Contos e novelas
reunidos
Organização
André Sffiin

SBD.FFLCH-USP

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273091

I t\ lt t/ \(.,\o lill,\sll,l,lltt^

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COPYRIGHTO Hcrdciros clc Samucl llawet,2004

CAPA
I:ualyn Grumach Sumário
ILUSTRAÇÃO DE CAPA
Samucl Rawet; cedida gentilmente pela família Rawet

PROJETO GRÁFICO
Euelyn Grumach c loão de Souza Leite
t,tit rAclo
(r.u
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nut't l{ltwet: fiel a si mesm a. André Seffrin
o
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crp-BRASTL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE lJ. -
Ir- CONTOS
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. I
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I-I

I-
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R212c
Rawet, Samuel, 1,929-1984
o
I-
I-
o (lxrtos do imigrante (1956)
Contos e novelas reunidos / Samuel Rawer; organizador,
André Seffrin.
o : O
O
- Rio de Janeiro: Civilização Érasileira, I-
O ()
Tmtfeta 25
2004. I
---
I-
o t\ ltrcce 31
Apêndice
U)
f - O)
o
J N I u,lit h 36
Inclui bibliografia
ISBN 85-200-A6$-4 o -
-I-
-I

I-
I-
( )ringuinho 42
-t-

IIJ
1. conro brasileiro. 2. Novela brasileira. I. Seffrin, o li:,1rticm pdra um solitário 46
André. II. Título. (',,trrlo fúnebre de Estêuão Inpes Albuquerque 53
Nt tÍ urno 61
04-1892
cDD - 869.93 ( )ottsciência da mundo 65
cDU - 821.1,34.3(81)-3
,\,tlttxr 1 5 1 68
(,ortto de arnor suburbfrno 74

'['crdos os direitos
reservados. Proibid a a Íeprodução, armazenamento ou
transmissão de partes deste livro, através de quaisquer meios, sem prévia I )i.ilogt> (1963)
a utorização por escrito. l )t,iltryo 91,

tl f tr1i,t 97
A lxtrta 103
( ) ,t 108
ltrt,ndizado
I )irt'itos ck:sta edição adquiridos pela () dc damas 1,1,4
1t1qo
t,,t )t' t'( )r( A crvl.Ll,Z|ÇÃo BRASILEIRA
u rt t s.,'1,, rllt I ltrt,t t,t'lltd história de maçãs 119
I )ls l l( lltt lllx )l{A l{llcloltD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A. N,//, tl :;,'ttt Cristo r23
l( u,r r\ r 1',t'rrt in:r 17 l , 20921-380 Rio de Janeiro, RJ
- Tel.: 2585-2000 rl I tt l,t 130
l'l'l )ll )( )S l'lrl ,( ) It lllrM It()l.SO POSTAL l',tr,tIxlt tlo filho e da fábula 1,34
( ,rrr.r l',sr.rl .l- 1.052., l(i«r tlc.frrnciro, I{.} 20922-970
- rl , ltrtt,d dc há pouco t37
lrrr;tl('\\1 tt() llr.rsrl
.t ilU,l
SAMUIL RAWET 5uMÂltto

Os sete sonhos (1967) (.)rr(' ()s nr()rtos cntcrrcm seus mortcls (1981)
Os sete sonhos 143 ( ) r.l.çr t do ralo 345
() fio 149 ( ) r, tstttnL'ttlo dc Il[uma SclttuAríT, 3s0
O petroleiro norueguês 1,52 ,'l ,, t tlçtlo 354
O encontro f\lr t t t'tl 3s7
155
Duas frases ,'l I r,tjr'ltit'ict 360
r59
A galinba de Colomho (,)n,'(,s tttttrlos L'ttlarrenn seus ynortas 362
164
Raiz quadrada de ynenos um li to 361
167
A batalha de Kuruksltetre Nr'//I tttt'Sttto lltn aniO é erutreuisto no terror 366
171
Uma uelha lçnda chinesa Nl,t rr rtlr,t 369
174
('t't I 1'..',rI 371
Fé de ofício 180
,'l ltttl,,t 373
Sôbolos rios que uão 183
tl't t''(Is 376
O logro 19r "l " /r'
I | ,tl,lttttttistA 378
A morte de Ernpédocles 194
I lrrt lttttnt'»t ttrcftO, Hffi cãu*lo morto, tt?n rato morto 380
O crime perfeito 198
,I lr't trl,t ,lo lltctcãt€ 382
O prirneiro café 202 I I t,tltt 1' o lt<rtttbO 386
Keleuim 205
l' t t',lt t 1 1,' t t t t tld llUug'fi't 389
O sew minuto de glória 208
,f li/iÀ lN ( i : !trunúnçia bah! 392
Crônica de um uagabundo 211, -
NOVELAS
O terreno de unna polegada quadrada {,Lg6g),
Prefácio Uma {tenínsttla a leste do país dos Rwjuks 247
- Alr.rnrir ( 196'1) 407
O terreno de umn polegada quadrada 25r
Ainda uma uez, morto 296 Vr.rll('ns tlt'Ahasverus à terra alheia em busca de um passado
Sob um belo çéu de rnaia 299 rlu('n.r() cxistc porque é futuro e de um futuro que
Uma tarde de abril 302 l.r l).rs\()lr lx)t'(luc sonhado (1970) 449
Ilcinuenção de l-dzaro 305
Marlrugada seca 313 { )III{A', I)I \AMUI-L RAWET 479
( J nru carreira bem-sucedida 31,7
Itlrrrt iIicaçao IIIIII I{ I( rI(I\I IA UA5ICA SOBRE SAMUEL RAWET EM LIVRO 483
322
l,islxttt ti noite: 32s
Nil l^ l lN/\l 487
Ittlrtty (iolt.rrr 333
( ) 1t,l(, tl(, tI()s.\rJ »ttS(rid
339 l\r rlr/\l rl ( lMl N I( )\ 489
Samuel Rawet: fiel a si mesmo

*o que há de belo no homem é a capacidade


de sonhar um ideal.
De trágico, a de confrontá-lo com o real'
Quando realmente sonha e confronta!"
Samuel Rawet

"Eu mesmo sou a matéria do meu [ivro"'

Montaigne

S.b o impacto da leitura do poeta Vicente Huidobro, Samuel Rawet


(.scr.cvcp que "a visáo" daS ObraS cOmpletas de um autOr náO O atraía, ele
(lp(. llrlo gostava de livrOS vOlumoSOs: "GOstO de Catar entre oS vOlumeS
ir,,1,,.1,,s,, qr. me oferece em cheiro, tato e visáo a garra do monstro"'A
un.rl,,(.n) ú boa e ecoa curiosamente nesta reunião de sua ficçáo. Nas
últi-
rrr;rs lrôs clí.cadas, ele foi lido muito a seu gosto, em volumes
isolados,
pequenas antologias, táo raras e
1',t'r.rlrrrc.tc garimpados em sebos, ou em
tlrlíccis de cncontrar como a maioria dos seus livros'
(ltrais scriam as características básicas de sua obra? Em linhas gerais,
l)(.r \()nrUlclrs imersos na angústia
da inadaptação e da incomunicabilidade,
,r .,,rr.liçÍo arnbígua do imigrante (cindido entre dois mundos, duas
lin-
1,,rr.r1,,cns), a experiência dramática
do exílio (a condição judaica), a desa-
PRttÁclo

a colaborar
l)rrrrtas, entre outros. Por essa mesma épocarpassou também
grcgxção social, a marginalidade, a alienação. Nesse sentido, poucos es- pela
r()rn a Reuista Brdnca, de saldanha coelho. Engenheiro formado
critores brasileiros terão enfrentado táo frontalmente essa condiçáo na
ria (1.9 49 -1,9 5 3), a partir de 1.9 57 tra-
vicla, na literatura naquele plano que Kazantzakis definiu como
-
iden-
, rI rr iga Escola Nacional de Engenha
Niemeyer,
-,
ticlade profunda (da raça), náo como idéia abstrata, mas como uma reali-
lrrrllrou como calculista de concreto armado na equipe de Oscar
l.ricio costa e Joaquim cardozo. Ajudou a construir Brasília, calculou
dade de sangue e carne. Náo por acaso Samuel Rawet se fixou, em mais
soz.irrho o prédio do Congresso Nacional e, no Rio, o Monumento
aos
de um momento, na obra e na figura de Cruz e Sousa, seu igual. A certa
Morros da segunda Guerra. Em Israel, durante um ano acompanhou
altura de O terreno de uma polegada quadrada, diz o narcador: 'Judeu é de
Nit:rrreyer no projeto da Universidade de Haifa. Ainda emDeuaneios
isso, é aquilo, qualquer coisa parecida com o que enfrentara pessoalmen- meu deses-
ttm sol'itório aprend.iz da ironiaz "No fundo, bem no fundo de
te em sua condiçáo de mulato, e mulato é negro, e negro é isso, é aquilo.
(...) Eu náo precisava de drogas para delirar' Eu
Nenhuma violência, nenhum obstáculo, concreto, um estado de espírito, Pr:ro, tinha meus sonhos.
gêneros
,l.lirava." Fascinado pelo teatro e pelo ensaísmo, em ambos os
apenas, a criar barreiras, um incômodo feito de miudezas que moem, tri- sobre-
tlcixou vasta produçío, ,,,, grande parte inédita em livro. Residiu
turam, dilaceram e exacerbam pequenos impulsos, sonhos. (...) Pensara a L969 e de
Irrrl<r no Rio de Janeiro. Em Brasília, permaneceu de 1.962
acaso algumavez na dor de Farias Brito, na dor de Cruz e Sousa, na dor
de Lima Barreto?"
l\74 a 1,984rano em que, na última Semana de agosto, foi encontrado
1r()r.to em casa, na cidade satélite de Sobradinho. Paru Antonio
Carlos
Quase nunca lembrado pela maioria dos historiadores literários, visto a1981''
Villrrça, Rawet isolara-se, talvezcansado, ou desiludido. De 1956
como um antípoda ou um excêntrico, incompreendido, estigmatizado, sete livros
grrrlrlicou doze livros. Entre 1,967 e 1.972, a fase mais intensa:
Rawet foi gradualmente se afastando da luta literária, passando a viver e
,,,,u,,, e duas reedições (vendeu um apartamento em Brasília para
isso),
publicar seus livros à margem do circuito literário. Edições precariamen-
.,,.rrr Íalar nas suas edições artesanais, entre elas, Deuaneios de um solitá-
te distribuídas, pagas pelo próprio bolso e esquecidas em salas de peque-
tio ttprend.iZ da ironia. Ele não podia esperar: "Percebo que náo preciso
nos editores ignorados e inescrupulosos, como observou Fausto Cunha.
rlt' rcspostas para prosseguir. Preciso de perguntas'"
Assim, começou a ser lido anonimamente, cultuado em silêncio, distante das
Com a morte, chegou o momento do oblívio e, posteriormente,
do burburinho das festas e badalações do chamado mundo da literatura. se
rrrt.vitáveis exumaçóes literárias. História arrastada que eventualmente
Samuel Urys Rawet nasceu em Klimontow, pequena aldeia próxima explosiva,
.u,,rcg,a a aspectos dolorosos da sua vida, da sua personalidade
de Varsóvia, Polônia, a23 dejulho de 7929. Naturalizado brasileiro em ponto
tl;r sr.lrl inadequaçáo. Essas exumações quase sempre tomam como
1936 ('âqui cheguei quando tinha sete anos, aqui começou minha vida judaica ou a tonga
rk. prrrtida ou chegada o ensaio "Kafka e a mineralidade
de imigrante", escreve emDeuaneios de um solitári.o aprendiz da ironia), rompe
,l,r rrrironga do kabuletê " (Esctita, n.24, set' 7977), no qual Rawet
criado no subúrbio carioca, de acordo com a entrevista concedida aFlâ-
( (,nr os judeus, numa atitude resultante, segundo Moacyr Scliar, de auto-
vio Moreira da Costa em 1969 "Até os vinte e poucos anos morei nos
-
subúrbios da Leopoldina. Sou fundamentalmente suburbano, o subúrbio
ritlio judaico. Assis Brasil, todavia, toca aferida mais de perto: 'A família
cstír muito ligado a mim. Aprendi o português na rua, apanhando e falan-
í,ri «r principal motivo da sua libertaçáo." Sob este ponto de vista, o en-
,.,rro Angústia e conhecimento é desmistificador, bem como a observaçáo
rkr crr;"rdo acho até que este é o melhor método pedagógico em todos
- raízes ju-
os scrrÍ irlos. Aprcndi tudo na rua." Entre 1949 e 1,951, sob a liderança de rl,. ( iiltla Salem Szklo, que considerou esse rompimento com as
rl.rrcrrs um "ato de transfiguraçáo" dentro do seu "itinerário
espiritual"'
l)irrrrlr Silve irl dc Queiroz, integrou o grupo Café da Manhã, ao lado de
l)r. rrt.ordo com uma bela imagem de Isaac Deutscher, ele parecia estar, ao
li.rrrstrr Orrrrlrrr, Itcnlrd Perez, Jones Rocha, Luiz CanabÍava e Nataniel
PRt Í
^clo

mcsmo tempo, dentro e fora do judaísmo. O que equivale a dizer que Itrrwct tcnlin«ru o scu póriplo tal conlo cm si mesmo transformado. Pou-
Samuel Rawet foi fiel a si mesmo até o fim. co a pouco, e sobretu<Jo clcpois dc os setes sonho,s, a matéria que o anima
Sob o impacto da morte, Alberto Dines assinalou a esse respeito: l):rssâ a alimentar uma via de
máo dupla que o leva da ficção ao ensaio e
vicc-versa. Na intenção de libertar-se "de algumas idéias obsessivas"
(Cons-
'Mudaram tanto assim os judeus para que seu inventor na moderna lite-
ratura brasileira fosse designado como antijudeu? Aquele que optou pelo ciêrtcia e ualor), começa a dedicar-se ao ensaio propriamente dito e, ao
despojamento, pela humildade, pela singeleza de viver, aquele que era todo í'rcqüentar os dois gêneros simultaneamente, num entrecruzar de indaga'
Alienaçã.o e realidade; "Hoie a pala'
pensamento, um despossuído tal e qual os profetas dedicado apenas çõcs éticas e estéticas, ele observa em
a compreender o mundo, aquela
- ternura pelo bicho
-
solitário e marginal vrr mudou para mim. É pura ambigüidade em relação ao real, e os dois
poderia ser anti-semita? Duvido. Viveu em silêncio, morreu em silêncio, cxtremos experimentados me convencem ainda mais: delírio e ironia'"
I .<rgo mais, emEu-tu-ele, chegaa admitir que "a literatura
paru mim ago-
deixou-se destroçar pela vida como se tivesse muitas para desperdiçar. Eis
um heroísmo e uma generosidade que não se tem notícia nas páginas lite- rrr ú uma forma de autoconhecimento. Apenas'"
rárias de hoje em dia, iluminadas pelas lantejoulas da amizade e da É sintomático que Almeida Fischer tenha preferido ver hermetismo e
. I i l'iculdades de leitura em O terreno de uma polegad"a
quadrada. Náo aten-
empulhaçáo. Rawet náo encontrou proteçáo na prancheta de engenhei-
ro, nem nas pensóes baratas da rua do Catete onde morou no Rio." t()u pâra o nonsense, a ironia e a violenta crítica social e moral, o radica-
Ultrapassando o aspecto polêmico, Rosana Kohl Bines, no excelente lrsrrro de seu imaginário. Hélio Pólvora, contudo, náo se enganou: é o livro
estudo "A prosa desbocada do ilustre escritor estrangeiro", tocou num rrr:ris cspontâneo de Rawet. O recorte ensaístico, como em grande parte
ponto que me parece crucial: "lJma identidade hifenizada de judeu-brasi- ,lr rs contos de Os sete sonhos, está presente, e os Pequenos detalhes auto-

leiro, que se traduz como linguagem partida. Entre a palavra chula e a l,r,,rtráficos deixam de atuar como fundo de palco apenas (como emCon-
palavra filosófica, náo hâ mediaçáo, só atrito. Náo se vislumbra a via do Ios tlo imigranteou em Diálogo)ruma vez que ensaio e conto, circulando
diálogo. O hífen marca antes um abismo entre duas figuras, duas condu- (.nr cspaços limítrofes, liberam a passagem pataa evasáo memorialística'

tas, duas gramáticas que se tomam por irreconciliáveis. De um lado, Rawet, l.rlvcz. destoem deste conjunto "Madrugada seca" e "O páo de nossa mi-
.,r:r i:r", um flerte de Rawet com o que seria a moda da época. Nesses con-
o judeu imigrante, educado no cheder, afeito aos livros e à indagaçáo inte-
lectual, ávido leitor e escritor sofisticado. De outro, Rawet, o carioca su- tos, clc não parece estar em seu elemento. Mas sem dúvida está em seu
burbano, educado na pedagogia das ruas, boêmio, malandro e desbocado, r.lt.rur:rrto em alguns contgs extraordinários "O terreno de uma pole-
- à noite", "Johny
para quem o palavráo se torna sinônimo de'prosa saborosa, brasileira'. O 1i.r,l,r t;rraclrada", "Reinvençáo de Lâzaro", "Lisboa
embate entre estas duas polaridades se trava em linguagem e é feroz. (...) (,olt,nt", trssim COmO estaya plenamente em SeU elementO em "OS Sete
,,, rnlros", "Fé de ofício", "Sôbolos rios que váo", "Kelevim" e "Crônica de
Avoz narrativa sustenta uma veemência que beira o insuportável. A pala-
vra soa como grito e como grito nos compele a uma espécie de escuta rrrrr v,11,,,rbtrnclo", de Os sete sOnhos, principalmente ao evocar um univer-
forçacla a ferro e fogo, da qual saímos sempre'chamuscados'." .,o (.nr (()nstrtnte desagregação, emblemático de sua literatura. Nesse con-

É ccrto que a temática judaica, adensada ou rarefeita, nunca o aban- I r.\ to. "( .r.ôrrica de um vagabundo" é passo inaugural
para o encantatório,
em O terreno de uma
tlorrrrrr. ll, clos Contos do imigrante aos últimos contos, no volume Que os l,,rf ,r , ) ír rrlrcto de celebraçáo do cotidiano alcançado
trrorlos t,ttlcrretn seus morto.s, ou do "poema sinfônico" Abama às pági- 1,,,1,',it,l,t ,ltr,ttlradít e, mais adiante, paÍa a áspera
iluminação deViagens
rr,rs rlt' Vii,\t'ns tla Ahasuerus à terra alheia em busca de um passado que ,1,, .,11,,t.,t,,,trrs... Nesse passo, não será difícil vislumbrar em "crônica de

,ttt() t'.\'isl( l,()rLluc ó futuro e de um futuro que id passou porque sonhado, rrrrr r.,r1,,,rl,rrntlo" sinais que prenunciam as Yiagens de Ahasueru.s...: "Galo-
WET pnrrÁcro

pa teus sonhos e revive-os exatamente nessa estrada de asfalto e poeira.


rl,r l'rustração, da procura baldada de integração e ajustamento". Dos
ou entáo retém a visão de um segundo que te custou anos de trabalho e ( irrlos do imigranÍe, nos quais se travam lutas ferozes de adaptaçáo ao
de esforço. o instante em que pela primeiravezte deslumbraste com um
,l..se orrlre cido, até chegar à mitologia do cotidiano insólito dos contos de
entardecer metálico de uma franja vermelha na crista dos montes e uma ( )s.sr,/r, sonhos, de O terreno de uma polegada quadrada, de Que os rnor-
chapa rósea se esbatendo em roxo, azulrcinzae noite. Quem sabe desgra-
ttts (ttl(,rrcm seus morto.S, em tudo que escreveu, Rawet deSCe à raiz de
çaste tua vida apenas para conquistar esse instante, que nunca mais se
rrru "sofrirncnto triturado" que se traduz em desejo de aproximação com
repetiu, nem te interessa mais."
(, ()lrtro, com o diferente, detalhe que não escapou ao olhar emotivo de
Novamente em Deuaneios de um solitário aprendiz da ironia: ,,So:u
( jrltlrr Selcm Szklo: "Seus contos tratam as personagens de forma fragmen-
eterno imigrante; parto de mim para mim mesmo, de meu corpo para meu
r,ilirr, irrsatisfatória, incompleta, que não deixa de ser o modo com que
corpo, mutável." Na famosa entrevista à Farida Issa, em O Globo, seu
r.l,rlrrrrrlrros o conhecimento de nossos semelhantes." Já emDiálogo, o
depoimento também é veemente e provocador: "Acho que sempre falta
rr,rrr',r,krr adverte: "Um homem é sempre um estranhO diante dO OutrO.'
tudo ao homem, daí a sua grandeza. Ele tem que conquistar a cada mo-
li. lirrda Gilda Szklo quem sugere o melhor diálogo do leitor com a
mento a sua realidade. o problema é que ignora isso. Falta-lhe a consci-
ol,r.r tlc l(ewet: "Na realidade, a melhor maneira de ler Rawet não é racio-
ência de que sua consciência é permanente criadora de realidade, entre os
rr.rlrrrt.rrtt,; não é intele cttrilizar. Devemos entrar na obra quase telepatica-
limites de nascimento e morte. Falta-lhe a consciência de sua insignificân-
I I r(.r rt(., l)e lletrar na Sua essência atravéS da sua linguagem, dOS mOVimentos,
cia no mundo, para ter realmente o direito de conquistar um significado.
r1,1,. g,.s1s*;1", dos gestos que sáo sinais e evidências das motivaçóes das per-
Falta-lhe a consciência da própria morte, para diante dela afirmar seus
ri,r,rl,,('ns. Itequer de nós uma empatia natural, aquilo que Goethe cha-
valores fundamentais, e afastar, repugnado, os valores eternos que lhe
nrlrr rk' 'afinidades eletivas'." Em Outras palavras, só a empatia profunda
oferecem. o homem ainda náo existe, ele está sempre no futuro. Daí a
p,,tk' rros aproximar de um autor, nessa confluência de acasos que é o
grandeza de seu presente. E a miséria." Tirdo isso converge paraum livro
densamente construído, que em certa medida concentra todas as suas preo-
llr ontt'o clo lcitor com O autor e vice-versa. Isso pOrque Samuel Rawet,
( orn() [Vl:rclraclo de Assis, Clarice Lispector ou Dalton Thevisan, na esfera
cupações formais e existenciais, como percebeu logo de início Assis Brasil
r1,,., r.serit«rrcs (lue valem realmente, exige O leitOr razOavelmente prepa-
de Ahasueru.s... É como se Rawet procurasse canais de respira-
-viagens r.r,1,,, í.rr nilirrriz.rrclo com a selva escura da condição humana. Assim: pronto
çáo em meio à angústia ("um sentimento que de tão familiar lhe era agra-
dável"), como se pudesse enfim libertar-se dos grilhões de sua intermitente I.u.r r;rt:u' () r;uc lhe oferece em cheiro, tato e visãO a garra dO monstro.
máquina de pensar, agora deliberadamente onírico, criador "permanente AxpnÉ SprpRIN
de realidades singulares". No metamorfismo simbólico de Ahasverus, ele Rio, julho de 20A4.
se acerca da "exigência interna do ser", e estabelece "um sentido pessoal
de ética". O que talvez lhe permita, por alguns momentos, respirar mais
solto, como em consciência e ualor: "Gostaria de Íinalizar com um so-
nho. Eu vivo sob os signos dos sonhos. Provavelmente um dia sonharei
(prc cstou nrorrendo e ao acordar... acordar?"
l'.nr srrrrrrr, rr obra de Rawet, como escreveu em1,967 Anatol Rosenfeld
;r r.r'spt'ir«r tlrr «rlrrrr dc Kafka, pode ser considerada toda ela "uma epopéia
CONTOS
Contos do imigÍante
(res6)
A

[ ) i rr ah S ilve ira de Que ftoz


t.

I'ruclente de Morais, Neto.

l\

Ilclena e Renard Ferez,


ir segunda ediçáo'
r

para euitar equíuocos ou mdl-entenclidos declaro Til€, tal como o pro-


a
tagonista deste romance nãa é autobiogrtifico, da mesma forma
Sicília que o enquadrd e acompanha só é Sicília por mero
acdso;
que o nome Pérsia ou
apenas porque o nome sicília me soct melhor
De resto creio tpe todos os manuscritos se encontrdm
venezuelA.
numa garrafa.
Et to VlrroRINI
Gente da Sicília
O profeta

'li[las as ilusóes perdidas, só lhe restara mesmo aquele


gesto. suspenso

;.r o Prrssr.tdiço, e tendo soado o último apito, o vapor levantaria a âncora'


( )llr.rr rlc novo os guindastes meneando fardos, os montes de minérios'
gritos para
I ,i .rrrlxrix<l correrias e línguas estranhas. Pescoços estirados em
,,, (lu(' o r«rclcavam no parapeito do convés' Lenços' De longe o buzinar
que estava
rl(.,r1r()pl(')vcis a denunciar avida que continuava na cidade
,r1,,,,r.,r rrbrrnclonando. Pouco lhe importavam os olhares
zombeteiros de
que abar
.rl1lrrrrs. l'.tn outra ocasiáo sentir-se-ia magoado' Compreendera
lr,r lrr:rncrt c o câpotão além do joelho compunham uma figura
estranha
mesmo ririam da magta figura toda ne-
lr.tr,r r.lt,s. Ac0stumara-se. Agora
() rosto, a barba e as máos mais brancas ainda' Ninguém ousa-
l,,r,r, ('\(('l()
e confiavam
\'.r, ('nlr'('liullo, «r clcsafio com os olhos que impunham respeito
nas
il||t r ('r l() :rr tttrlicstoso âo conjunto. Relutou com os punhos trançados
Ao
rr',r1rrrr.rs i Írt1',rt tlc sctt ilterior da serenidade que até alí o trouxera'
,rlltt(' \utrl0 lr.vt: consciência plena da solidáo em que mergulhava. o
re-

t, r ilr r, rirrrt:t srtítllt (ll,lc cnconfrara, afigurava-se-lhe vazio


f
e inconseqüen-

I' tl'rr.,r)tl!rl()ttl()tllclttoclehesitaçáo,teragidocomocriança'Aidéiaque
pre-
il lilr,r .r1it1',.tttl:tlttlo tttls últimos tempos e que culminara com a sua
qr il\.r ilr ) ( ('nv(:s, tirrlra rcccio de vê-la esboroada no instante de dúvida.
o
Irr,,l,,,l,r.,,,lr.l.ro ilt(.t.rrlvrl-o mais pela experiência adquirida no contato
,li,itt,, r,lrr .t ttl()l'lc. llttt tcnlpo airrda'
llr'',1.lnl ,, p:tssrtcliç«), por favor' desçam!"'
5AM U tL RAV

lrr,)t (luc rle tlirr. Ali gostava dc scntar-sc (voltando da sinagoga após a
A figura gorda da mulher a seu lado girou ao ouvir, ou ao julgar ouvir,
as palavras do velho. Irrr ( (' ll()trlrnl) com o sobrinho-neto no colo a balbuciarem ambos CoisaS
rr r, , ,,,rlritlrrs. Os cledos da criança embaraçavam-se na barba e às vezes ten-
O senhor falou comigo?
-Inútil. A barreira da língua, sabia-o, náo lhe permitiria mais nada. o
rr.r\'.uf r corrr força unra ou outra mecha. Esfregavaentáo seu nariz duro
r,, .u t (.(lon(lrrclo e cartilaginoso e riam amboS um riso solto e sem inten-
rosto da mulher desfigurou-se com a negativa e os olhos de súplica do
,.,r',.. l')r(r-ctinham-se até a hora em que o irmáo voltava e iam jantar.
velho. Com exceçóes, o recurso mesmo seria a mímica e isso lhe acentua-
N:rs prrimeiras semanâs houve alvoroço e muitas casas a percorrer,
ria a infantilidade que o dominava. Só entáo percebeu que murmuÍara a
nlnt.ls rncsas em que Comer, e em todas reVOltava-O O aSpeCtO de COiSa
frase, e envergonhado fechou os olhos.
t ut t()si cluc assumia. Com O tempg, arrefecidos Os entusiasmos e a curiO-
Minha mulher, meus filhos, meu genro.
-Aturdido mirava o grupo que ia abraçando e beijando, grupo estranho ,,r,l.rrlt', Í'icara só com o irmáo. Falar mesmo só com este ou a mulher. Os
unrr ( )s (luase náo o entendiam, nem os sobrinhos, muito menos o genro,
(mesmo o irmáo e os primos, náo fossem as fotografias remetidas antes ser-
lhe-iam estranhos, também), e as lágrimas que entáo rolaram náo eram de 1,,r tllrr:nl principiava a nutrir antipatia,
Aí vem o "Profeta"!
ternura, mas gratidáo. Os mais velhos conhecera-os quando crianças. O
i\,lll abrira a porta, a frase e o riso debochado do genro surpreende-
próprio irmáo havia trinta anos era pouco mais que um adolescente. Aqui
r.nn n(). F-ez comO se náO tivesse notado o constrangimento dos outros.
se casara, tivera filhos e filhas, e casara a filha também. Nem recolhido às
no caminho da sinagoga e eles já o esperavam à mesa. De re-
molas macias do carro que o genro guiava cessaram de correr as lágrimas.
^tr.r\iu'a-se
l.rrrtr., pcrc€beu o olhar de censura do irmáo e o riso cortado de um dos
Àr p..grntas em assalto respondia com gestos, meias-palavras, ou entáo com
r,.(lu(.nos. Só Paulo (assim batizaramo neto, que em realidade se chama-
o silêncio. O corpo magro, mas rijo, que apesar da idade produzira traba- f

r.r l'irrl<os) agitou as máos num blá-blá como a reclamar a brincadeira


lho, e garantira sua vida, oscilava com aS hesitações do tráfego, e a vista
1,,,r,lrrlrr. Mudo, depositou o chapéu no cabide, ficando só com a
boina
nenhuma vez procurou a paisagem. Mais parecia concentrar-se como que
respondendo à avalanche de ternura. O que lhe ia por dentro seria impos- I'r.l,r (lc se da. Da língua nada havia ainda aprendido. Mas, obserYador, se
l,,.rrr tlrrc náo arrisCasse, Conseguiu pOr associaçáO gravar alguma cOisa. E
sível transmitir no contato superficial que iniciava agoÍa. Deduziu que seus
,, "1r11rl-g[n" que o riso moleque lhe pespegaÍaàentrada, ia-se tornando
silêncios eram constrangedores. Os silêncios que se sucediam ao questioná-
l,rrrrili;rr. Seu significado náo o atingia. Pouco importava, no entanto. A
rio sobre si mesmo, sobre o que de mais terrível experimentara. Esquecer o
|.rl.rvrrr nunca andava sem um olhar irônico, uma ruga de riso. No
banheiro
acontecido, nunca. Mas como amesquinhá-lo, tirarJhe a essência do hor-
(l,rv.rv:r as máos) recordou as inúmeras vezes em que os mesmos SOns fO-
ror ante uma mesa bem posta, ou um chá tomado entre finas almofadas e.
r,un lrr'onunciados à sua frente. E ligou cenas. Do fundo boiou a lembran-
macias poltronas? Os olhos ávidos e inquiridores que o rodeavam náo teriam
(l('coisa anâlogano templo.
ouvido e visto o bastante para também se horrorizarem e com ele participar '..r
( ) crrgano esboçado no primeiro dia acentuava-se. A sensação de que o
dos silêncios? iUm mundo só. Supunha encontrar aquém-mar o conforto
rrrrrnrlo cleles era bem outro, de que não participaram em nada do que
dos que como ele haviam sofrido, mas que o acaso pusera, marginalmente,
í,,r.r (prtra ele) a noite horrível, ia se transformando lentamente em obieto
a salvo do pior. E consciente disso partilhariam com ele em humildade o
r ,rr,,t icnt€. Eram-lhe enfadonhos os iantares reunidos nos quais ficava à
cncontro. Vislumbrou, porém, um ligeiro engano.
nr.u l,,(.lll. QuandO as Crianças dormiam e outros casais vinham conversar,
O aplrtamento ocupado pelo irmáo ficavano último andar do prédio.
,rl,,,l,.rrrrllva-Se com O tom da palestra, aS piadas concupiscentes, as CifraS
A ver:rnrLt atrcrta para o mar recebia à noite o choque das ondas com mais
sempre jogadas, a propósito de tudo, e, às vezes, sem nenhum. A guerra o ( rnais quc isso, emudeceu. Poucas vezes lhe ouviram apalavra,
,rtt rrr. l'.
despojara de todas as ilusóes anteriores e afirmara-lhe a precariedade do
r n.rn r('l)rlrrlrrrrn que se ia colocando numa situação marginal. Só Pinkos
que antes era sólido. Só ficara intacta sua fé em Deus e na religião, táo
(r lr continuava a trançar sua barba, esfregar o natiz, e
.r.,.,irrr o chamava)
arraigada, que mesmo nos transes mais amargos não conseguira expulsar.
, ,,nr.u lrist«'rrias intermináveis com seus olhos redondos. Inutilidade.
(}á o tentara, reconhecia, em vão.) Nem bem se passara um ano e tinha à ( ) rulr trâzia lembranças tristes e lançava incógnitas. Solidão sobre
sua frente numa monótona repetição o que julgava terminado. A situaçáo
,,,,lr,l.rr. lrrtcrrogava-se,àsvezesrsobresuacapacidadederesistiraummeio
parasitária do genro despertou-lhe ódio, e a muito custo, dominou-o. Vira
,lu,' rr.r() t'rrr mais o seu. Chiados de ondas. Um dedo pequeno mergulha-
outras mãos em outros acenos. E as unhas tratadas e os anéis, e o corpo
,1,, r'nr srr,r troca e um riso ao choque. Riso sacudido. Poderia condenar?
roliço e o riso estúpido e a inutilidade concentravam a revolta que era
§.1., st' íirsse gozo após a tormenta. Não, náo poderia nem condenar a si
geral. Quantas vezes (meia-noite ia longe) deixava-se esquecer na varan-
nrr'\nr() sc por qualquer motivo aderisse, apesar da idade. Mas os outros?
da com o cigarro aceso a ouvir numa fala bilíngüe risadas canalhas (para ( r'1,1v5 c surdos na insensibilidade e auto-suficência! Erguia-se entáo. Ca-
ele) entre um cartear e outro.
lrrrrlr.rvrl pclos cômodos, perscrutando no conforto um contraste que sabia
-Os Entáo é isso?
outros julgariam caduquice. Ele bem sabia que não. O monólogo
rl{ .nrt(.nraro não existir. Aliciava argumentos contra si mesmo, inutilmente.
I ,1,, lrrrrtlo um gosto amargo, decepcionante. Os dias se acumulavam na
fora-lhe útil quando pensava endoidar. Hoje era hábito. Quando só, des-
r,,rrr.r c llrc era penosa a estada aos sábados na sinagoga. O livro de ora-
carre3aya a tensão com uma que outra frase sem nexo senáo para ele.
q,r',. ;rlrcrto (desnecessário, de cor murmurava todas as preces), fechava
Recordava-se que um dia (no início, logo) esboçâra em meio a alguma
r,,,,,llr.s às intrigas e se punha de lado, semPre de lado. No caminho ad-
conversa um tênue protesto, dera um sinal fraco de revolta, e talvez seu
n u r ,rv:l ils cores vistosas das vitrinas, os arranha-céus se perdendo na volta
indicador cortasse o ar em acenos carregados de intenções. O mesmo na
rl,,1,t'sc«rço, e o incessante arrastar de automóveis. E nisso tudo pesava-
sinagoga quando a displicência da maioria tumultrura uma prece.
llr, ,r soliclão, o estado de espírito que náo encontrara afinidade.
Esses gordos senhores da vida e da fartura nada têm afazer aqai
-murmurara dia para si mesmo.
Sorrbc ser recente a fortuna do irmão. Numa pausa contara-lhe os anos
- Talvez daí oalgum
profeta. (Descobrira, depois, o significado.)
rll lrrt;r c subúrbio, e triunfante, em gestos largos, concluía pela segurança
irrrr,rt. Mais que as outras sensações essa ecoou fundo. Concluiu ser im-
Pensou em alterar um pouco aquela ordem e principiou anarrar o que
1r,,,.,rvt'l a afinidade, pois as experiências eram opostas. A sua, amarga. A
havia negado antes. Mas agora não parecia interessar-lhes. Por condescen-
,urr.rr vitoriosa. E no mesmo intervalo de tempo!? Deus, meu Deus! As
dência (náo compreendiam o que de sacrifício isso representava para ele)
r,rr('.; rlc insônia sucederam-se. Tentou concluir que um sentimento de
ouviram-no das primeiras vezes e não faltaram lágrimas nos olhos das mu-
Ilur';.r cerregava-lhe o ódio. lmpossível. Honesto consigo mesmo entre'
lheres. Depois, notou-lhes aborrecimento, enfaro, pensou descobrir censuras
vnr ,,('nr forças essa conclusáo. E suportou o oposto, mais difícil. As for-
em alguns olhares e adivinhou frases como estas: "Que quer com tudo isso?
rr,r.. n.r pcnumbra do quarto (dormia com o neto) compunham cenas que
Por que nos atormenta com coisas que não nos dizem respeito?" Havia rugas
n,i,, ('\l)crava rever. Madrugadas horríveis e ossadas. Rostos de angústia e
de remorso quando recordavam alguém que lhes dizia respeito, sim. Mas eram
l,rr r .s cvolando das cinzas humanas. fu feiçóes da mulher apertando o
rápidas. Sumiam como um vinco em boneco de borracha. Não tardou que as
r,rl,' rro riltimo instante. Onde os olhos, onde os olhos que mudos traíram
nranifcstações se tornassem abertas, se bem que mascaradas.
, l,,r rr() :rnimal? Risada canalha. Carteado. Cifras. Olha o "profeta" aí! E
O senhor sofre com isso. Por que insiste tanto? r ,u,r., (lc gozo Bargalhando do capote suspenso na cadeira. Impossível.
-
Gritos amontoados deram-lhe a notícia da saída. Olhou o cais. Lenta-
mente a faixa dâgua aumentava aos acenos finais. Retesou todas as fibras
do corpo. Quando voltassem da estaçáo de águas encontrariam a cafia
sobre a mesa. E seriam inúteis os protestos, porque tardios. Aproveitara
as duas semanas de ausência. O passaporte de turista (depois pensavam A prece
em torná-lo permanente) facilitara-lhe o plano. O dinheiro que possuía
esgotou-se à compra da passagem. Regresso. A empregada estranhou um
pouco ao vê-lo sair com a mala. Mas juntou o fato à figura excêntrica que
no início lhe infundira um pouco de medo. Planos? Náo os tinha. Ia ape-
nas em busca da companhia de semelhantes, semelhantes, sim. Talvez do
fim. As energias que o gesto exigiu esgotaram-no, e a fraqueza trouxerâ
hesitações. E ante o irremediável os olhos frustrados dilataram-se na ân-
sia de travar o pranto. Miúdas, já, as figuras acenando. O fundo monta- ;\ r'rrtrrrrlr do pátio, muro que um caminháo arriou, ninguém mais le-
nhoso, azulando num céu de meio-dia. Blocos verdes de ilhotas e espumas t,ilrrr )lt, /,ico juntou a molecada.
nos sulcos dos lanchóes. (Há sempre gaivotas. Mas não conseguiu vê-las.) Aí a vclha aí!
Novamente os punhos cerrando e trançando, as têmporas apoiadas nos I ).lrr':rrrclo a esquina, o xale preto envolvia o pescoço enquanto as máos
braços, e a figura negra, em forma de gancho, trepidando em lágrimas. rlrrr.r,, rclt'srrvam-se ao longo do corpo, estendidas por dois pacotes imen-
qr,.. () l)irsso apressado, pisadas firmes de sapatos sem saltos, furou os
,,llr.rr,'s ,l«rs moleques, que a susto, só lhe viam o perfil marcado e os cabe-
1,,,., 1,,r rr,rllros, repuxados em coque. Nunca tiveram coragem de olhá-la
rlr lr.rrrc, c quando lhe atiraram a primeira pedra, raspando nos pés, na
r r1,r't l;rtiva de ouvir a língua engrolada, só encontraram um olhar pálido
l unr.r lxrca crispada. O gozo antevisto e frustrado deixou-os sempre à
I)or isso a encaravam de perfil, ou entáo iam espionâ-lapelaiane-
',lf('r;r.
l,r N.rr r lravia uma igual no casaráo. Zico, o mais velho, garantia. Conhe-
, t,r ()\ trillta e tantos moradores do sobrado, e nunca ouvira falar de caso
q, rrrcllrrrrrtc. A velha chegou de repente, coisa de dias, silenciosa. Ajeitou

,,, rt.lslcs, que um preto trouxera na cabeça, no quarto dos fundos, e §em
tr r l,rl.rtkr com ninguém, ia e vinha, muda, os saPatos ferindo o madeirame
1,,,,lr. rlo corredor. Só lhe ouviram a voz uma vez. No segundo dia da
,lr,'11.rrlrr foi pedir fósforos à velha Genoveva, que sentada num banco,
r lr ,,r.rnsi.lvâ do tanque, acendendo o pito. Genoveva abriu um olho meio

l, , lr.r.kr, livrou a boca e sorriu com a meia dúzia de dentes espalhados na


,t,,rvil. Custou a compreender o desejo da estranha. "Favor... Empres-
SAMUII. RAV\

um medo l),\, cir(Lrrços, fitas... um mundo! Seu mundo. Na parede os olhos de Isaías,
td...",os dedos riscavam a palma da mão, e nos olhos de súplica r ilr l)rccc, âssustaram-se com o tlic da fotografia. Ida lembrou o esforço
esquisita, espre-
dos risos que a garot adapreparava. "Iô fazer...n, mímica p.u.r e()lrvcncê-lo a deixar o retrato, conseguido de surpresa. Agora pen-
que a velha
mida aos saltos, a palavra que falta. Genoveva estirou o braço ,lr,r ,rnrrrrclrrdo, a mancha da barba, as sobrancelhas arqueadas e uns olhos
agarrou com força e tirando acaixaapertou o passo. Azoadamatraquea- rl. srrst«r. Dos outros nada mais ficara. Os olhos de Ida tremeram na lem-
as costas. Brito, o mais afoito, macaqueava os
gestos e embrulhava
ur-lh. l,r.rrrçrr. Quc pesadelo! Isaías às sextas-feiras entrava mais alegre, o rosto
a língua, enquanto os outros, atrás, riam, bobamente' "TU"'
malandro"'
l,rrllr:rrrdo, e um ou outro pingo dâgua, da barba, denunciava o banho.
,chaigatz,..,,'. o coque virou e aos trancos uma saraivada de respostas. Pior'
I ).rv;r rrrrurs palmadas em Suas costas (tda tinha o rosto vermelho da lenha
gatgalha-
o riso aumentou. A chacota também. Brito coçando a barriga, ,L, íorrro), e ia orar. Agora, o retrato.
ao meio. Ao
va, continuando a dialogação, num estridar e ganir, latidos I lrrrrr algazarra no pátio. Correrias pela casa. Gritos, cantoria saindo
subir o degrau, uma pedra roçou-lhe o tornozelo' O giro do
coque despe-
rLr l;urtlue. Um rádio no andar de cima despejava sambas. Em meio à vi-
crispada. Silêncio rePentino' Brito coça- lrr.r5;ro Ida parada junto à janela, perdida, sem língua, sem voz. Enfiada
iou-lhe um olhar pálido e a boca
va a barriga em câmara lenta atê patat' rrrrrrr:r vicla que nunca fora sua. O corpo todo inda doíadaandança. Subir
U- pÃo imobilizou-os instantaneamente, até que se ouviram de novo r' ,lrsecr ruas, escadas, bairros. Andar. E estar só. Ida sentia um cansaço
o, p"rro, firmes nas tábuas do corredor, e o grito de Genoveva' temido: rrrrrrrrlrrr-lhe a alma. Filhos, já os tivera, marido também. De tudo, só o
rua, safadeza!!! r .. rr.rr() í-icou na parede. E ela. No rosto marcado de rugas, um sofrimento
lápra
-furiou-se junto com os pacotes na cama. um alívio vinha das pontas dos r r r r r':rtl«r. Esquecia. Morreram-lhe todos com a guerra. A tampa da pane-
r r

dedos, percorria as espáduas, e desaparecia pela boca num


suspiro. Esfregou l,r Í rr nr;rva o samba do rádio, agitada pelo vapor. Sem saber como saltou
assim, nem aum rrnr ,li;r no porto daqui. Deixava uma existência inteira atrás. Ave-Maria
o rosto; as faces ardentes. Não estava acostumada aum sol
trabalho daquele. O suor incomodava-a por dentro, e das axilas
um triângulo rr,, .rrrtllr de cima, e o quarto quase às escuras. A princípio receberam-na
cintura. Gosto de areia na boca. os cotovelos nos ('rr (;rsrr clc alguém, mas como novidade, bicho raro de outras terras que
empapado faziavérticena
dura, triste. O xale preto r,'rrr lrisÍtirias para mais de um mês. As histórias cansaram. Abondade tam-
;o.inár, face napalma das máos, arÍavarressecada,
horas! Meu Deus! l,, rrr. Vt'i«r o casarão com uma língua que náo entendia, moleques e arre-
caído nas coxas inundavaJhe os olhos. Sexta-feira! Quatro
na cama, na rr,'.1.u', os pacotes arriando os braços, e as pernas marcando calçadas e se
Girou o rosto. Pela janela fechada vinha uma quentura boiando,
nas pare- ,,,lrr^1,,.rnrkr cm cem capachos diários. A luz de um lampiáo, na calçada,
mesa, no pedaço de cômoda-guarda-roupa, batendo e rebatendo
r r,r r,,u () rosto de Ida em dois, em diagonal. Um olho truncado pelo cla-
d.r, ,. .or..rrà"rdo em sólido no corpo de Ida. Uma vontade de ficar ali
Meu Deus! r.i, r lrr rllrrrvrr em seco. Tâteando, arrastou os pés até o interruptor. De uma
pregada, fundir o cansaço e a solidão. sexta-feira. Quatro horas.
chinelas e l,.,rr'('r,r, rlt:scnrolando a flanela, tirou dois castiçais prateados, e acariciou-
Furou a inércia arrancando os sapatos. Enfiou nos pés doídos as
,,. (()nr rrrrrrr tremedeira nos dedos. Na mesa, aiustava as velas, sem ver
quebrando o mormaço foi à pia. Sexta-feira'
rlrr,. ,,llr,s, rniúdos, espremidos, respiraçáo presa, agarrados à janela. Amar-
Levantou r"*p" da panela e um vapor de carne cozidaaqueceu-lhe
" um aba- |,u unr l.'rrço branco, enorme, na cabeça, e, acesas as velas, seus olhos se
o rosto. Remexeu o fog"..iro, avivou o fogo com mais carvão e
peixe' l, , lr.rr.rnl, com o corpo em balanço.
1(), c luma caçarola de âgtafervendo despejou as duas postas de 'lir viu?
t ).r r ôrrr6rla saiu uma toalha branca paÍaamesa. Um cheiro diferente inun-
Vi!... A gringa tinha um jeito esquisito!...
,l,rv.r ,r (lu:lrl(), agora limpo, varrido. Na cama desmanchava os Pacotes' 'lir Íiri trouxa!... Devia dar pedra na janela.
11 r 11r,ll r( l( ) r'ttt c:tixas, as meias, lenços, pedaços de sabão, pacotes de gram-

33
5AMUTI. RAW

( ( )nr as mcsmas palavras, gritava, c,fcndia. Não sentiu o ruído nem as pan-
Náo chateia! Eu estou é invocado com um troço"'
- Que é? ..rtlns. A porta estava encostada e náo foi preciso arriâ-la. A voz quente,
- Esse negócio de vela... tava com a luz acesa e tinha umas velas .,,rnpassada, náo a deixou ver a multidáo que lhe ia enchendo o quarto,
-
também.
,'rrr etropelo. Tinha entre os olhos e a palma das máos, plasmados no es-
( rrro, o rosto de lsaías e dos filhos, de lsaías quase um santo. Quando baixou
que tem defunto escondido?
-umaSerá agitou o grupo esparramado no muro. só Brito não na.
gargalhada
a

,,s braços, a multidáo encontrou as lágrimas fartas. Um silêncio deixou-os


urrriveis, e uma sensação de mal-estar, incômoda, esfriara os ânimos. Ida
Nada!... É que... náO Sei náO, eStOU COm medO de falàÍ"'
- Falar o quê ?
('rrr um monte de nervos em relaxamento, sem força para mover os lábios.
- Um troço... mas, no duro, que estou com medo' Ncm um susto sofreu. Uma ligeira perturbaçáo interna denunciada por
- Tir é maricas mesmo! unl tremor da cabeça. O rosto marcado, lássido, percorreu o quarto. As
- !Eamae! nriros começaram a preparar a mímica, e uma ruga de súplica se esboçava
- Fica aí fazendo doce!... Solta logo! rr:r lloca.
-A revelaçáo de Brito estarreceu a meninada. uns olhos desconfiados, - Vamos sair, minha gente. Náo é nada!
de aventu- Uma voz de homem ressoou dando a rctirada, e o chiar de sapatos
meio a medo, fitavam aianelano canto do sobrado. um gosto
estatelados. portâ fundiu-se,lâf.ora, num murmúrio crescente.
ra e um pingo de lembrança de história contada, deixou-os 1rt'la
é rezalâ daterra deles
Negrinhà João, oito anos feitos, coçando a cabeça, deu o jeito'
-Na Isso - a mesma voz.
escada para o andar de cima o mulherio fez ponto, e amáe de Brito
melhor é a gente dizer pro pessoal lá dentro!
-UmOfrêmito o casarão de ponta a ponta' Aos olhos de es- .rlrriu-lhe o choro.
"r.*rroo
panto seguia-se um bater de porta, de passos atropelando os corredores.
Aprende a espiar janela dos outros, aprende!
-
b, qr. .f,.g"r". do trabalho iam engrossando a onda, e do andar de cima
numa qua-
matraqueavam passos na escada. A molecada, em três tempos,
se ubiqüidade, levantara o sobrado. As mulheres
excitadas tomavam a fren-
Os homens, Itla, parada diante das velas, os olhos nas chamas, náo procurava pôr
te, e-L.io ao choro de algum berço deixado repentinamente.
outro céptico ,'nr ordem o pensâmento. A multidáo no quarto, assim de repente, era
curiosos, iam atrás, assombrados com a novidade. um ou
rrrrr;r coisa yaga, e nem saberia explicá-la. Sexta-feira. A primeira sexta-
deitava em ar de troça:
llrr':r no casaráo. De dentro vinha uma sensaçáo de rutura, de algo que se
Isso não existe!
-um jato em dialeto estranho, lamento gritado, escaPava da porta de trnlr:r pcrdido com a prece gritada. As quatro paredes caiadas de branco
e deu um nó r.r.un-lhe estranhas, e ao tentar dar término à oraçáo as palavras sussurra-
Ida. A voz eÍaquente e forte, ninguém a havia ouvido assim,
Rosa, ,l,rs virrlram-lhe mecânicas. Um estreitamento dagarganta fêJa soltar com
no povaréu que se comprimia no corredor. As suspeitas aumentaram.
rrrrr s«rluço tudo que lhe boiava no interior. Sentiu-se oca. Os dedos ma-
de máo pesada e carnes fortes, abateu o punho na madeira'
l,,r )s sc entrelaçaram e com os dois punhos fundidos
( esfregou a testa. Oca.
Arreia a porta!
-As máos erpálmadas nos olhos, e o lenço na cabeça, Ida jorrava a pre- \r,P11v11 as velas uma a uma, serena, calma. Sentada diante dos castiçais,
,,., ,,llros de lda miravam os tocos apagados, e seguindo a linha das gotas
cc co, o .orpá em balanço sobre as velas. Quase semPre oraYa baixinho,
grito darezaera uma imprecação rlr t t'r'rr, glóbulos amontoados em miniaturas estranhas, a cabeça tombou
os lribios acelerados. Hoje, do fundo, o
,.rlr'n( iose na toalha branca.
c nulrcir os ombros balançaram tanto' Hoje, Ida náo pedia a Deus'
mas
\MUt'L RAII

( (,nr as mcsmas palavras, gritava, <;fe ndia. Não sentiu o ruído nem as Pan-
Não chateia! Eu estou é invocado com um troço...
(.r(lirs. A porta estava encostada e náo foi preciso arriâ-la. Avoz quente,
Que é?
com aluz acesa e tinha umas velas ,,,rrrpassada, não a deixou ver a multidáo que lhe ia enchendo o quarto,
Esse negócio de vela... tava
,'rrr rrtropelo. Tinha entre os olhos e a palma das máos, plasmados no es-
também.
( ur'o, o rosto de Isaías e dos filhos, de lsaías quase um santo. Quando baixou
Será que tem defunto escondido?
-Uma gargalhada agitou o grupo esparramado no muro. Só Brito náo ria. os braços, a multidáo encontrou as lágrimas fartas. Um silêncio deixou-os
rrrrr'rveis, e uma sensaçáo de mal-estar, incômoda, esfriara os ânimos. Ida
Nada!... É qge... Í1áO Sei nãO, eStOU COm medo de fal àÍ...
- o quê?
('rrr um monte de nervos em relaxamento, sem força para mover os lábios.
- Falar troço... mas, no duro, que estou com medo'
Ncm um susto sofreu. Uma ligeira perturbaçáo interna denunciada por
- UmTu é maricas mesmo!
unl tremor da cabeça. O rosto marcado, lássido, percorreu o quarto. As
- É amáe'|, rrr:ros começaram a preparar a mímica, e uma ruga de súplica se esboçava
- Fica aí fazendo doce!... Solta logo! rr:r boca.
-A revelaçáo de Brito estarreceu a meninada. uns olhos desconfiados, -UmaVamos sair, minha gente. Náo é nada!
de aventu- voz de homem ressoou dando a rctirada, e o chiar de sapatos
meio a medã, fitavam a janela no canto do sobrado. Um gosto
estatelados' portâ fundiu-se, lâ f.ota, num murmúrio crescente.
ra e um pingo de lembiança de história contada, deixou-os 1rt'la
é rezalâ daterra deles
Negrinhà 1ãao,oito anos feitos, coçando a cabeça, deu o jeito'
-Na Isso - a mesma voz.
escada para o andar de cima o mulherio fez ponto, e a máe de Brito
O melhor é a gente dizer pro pessoal lá dentro!
-Um frêmito atravãssou o casaráo de ponta a ponta. Aos olhos de es- .rlrriu-lhe o choro.
I

Aprende a espiar janela dos outros, aprende!


panto seguia-se um bater de porta, de passos atropelando os corredores. -
L

b, qo..f,.grur- do trabalho iam engrossando a onda, e do andar de cima


numa quâ-
matraqueavam passos na escada. A molecada, em três tempos'
se ubiqüidade, levantara o sobrado. As mulheres excitadas
tomavam a fren-
os homens, kla, parada diante das velas, os olhos nas chamas, náo procurava pôr
te, .m'rrreio ao choro de algum berço deixado repentinamente.
,'rrr ordem o pensamento. A multidáo no quarto, assim de repente, era
curiosos, iam atrás, assombrados com a novidade. um ou outro céptico
ulfir coisa vaga, e nem saberia explicá-la. Sexta-feira. A primeira sexta-
deitava em ar de troça:
Ilir':r rro casaráo. De dentro vinha uma sensaçáo de rutura, de algo que se
Isso náo existe!
-Um gritado, escaPava da porta de rrnlre pcrdido com a prece gritada. As quatro paredes caiadas de branco
iato em dialeto estranho, lamento ,.r.urr-lhe estranhas, e ao tentar dar término à oraçáo as palavras sussurra-
e deu um nó
Ida. A voz eraquente e forte, ninguém ahaviaouvido assim,
Rosa, ,l,rs virrlram-lhe mecânicas. Um estreitamento dagatganta fê-la soltar com
no povaréu que se comprimia no corredor. As suspeitas aumentaram.
rrrn s«rluço tudo que lhe boiava no interior. Sentiu-se oca. Os dedos ma-
de mão pesada e carnes fortes, abateu o punho na madeira'
l,,r )s sc entrelaçaram e com os dois punhos fundidos
( esfregou a testa. Oca.
Arreia a Porta!
-As máos .spalmadas nos olhos, e o lenço na cabeça, Ida
jorrava a pre- \r,p11;g as velas uma a uma, serena, calma. Sentada diante dos castiçais,
baixinho, ,,., ,,llros de Ida miravam os tocos apagados, e seguindo a linha das gotas
cc com o .orpà em balanço sobre as velas. Quase sempre orava
imprecação rh't crrr, glóbulos amontoados em miniaturas estranhas, a cabeça tombou
os lírtrios acelerados. Hoje, do fundo, o grito darezaera uma
,.r1,'rrt iosa na toalha branca.
c nuncr.l os ombros balançaram tanto. Hoje, Ida náo pedia a Deus'
mas
CONÍOS DO IMIGRANIT

'rrl)rlr(). E tê-los-ia se enl troca ofcrecesse tudo. Hoje nada mais tinha
a
I'r'.lir. s.ube que o luto acompanhou sua saída, e que no dia da cerimônia
(( r'il, somcnte, como ambos tinham acertado)
houve choros e lamúrias
( ( )rr() ([rc acompanhando a
saída de um morto. Depois o silêncio que aterra
.' .lt'Prir,e. A solidão. A incomunicabilidade.
Judith euando à noite ele a condu-
/, :r [)ilrr1 0 subúrbio sabia que uma rutura se tinha processado, e por mais
.rrilro que se tivesse imbuído náo pôde conter o choro amargo, de quem,
.rl)r'srrr de convicçõesrttaziaem si e faziaromper
todo um lastro de afei-
1,,,'s. A irmá. Tinha a certeza. sempre participara de suas idéias apenas
. ,,rrr nrâior reserva e com certa hesitação quando
acaso alguém nelas to-
(.rvir. Mas participava. os gatos, às vezes, perturbavamJhe
o sono com
',rr,rs correrias e amores, e hoje mais do que nunca, após
arrastóes, um deles
Mansamente. Do mar a brisa enfunava o cortinado branco agitando ,'rrçrrra-lhe a pele com um lamento mais parecido a choro
de criança. o
as franjas das poltronas. Sentou-se. A criada pediu-lhe
que esperasse al- ( ( )r
l)o girou rapidamente apoiando-se a cabeça na mão. o berço imóvel
guns instantes. Em outra ocasiáovarretiacom os olhos as paredes
e os t ( )rr o cortinado. Alívio. Abraçou com
as máos os joelhos e deixou-se fi-
toueis pesados. Acharia engraçadas as figurinhas barrocas emolduradas r., ('stáfica com os olhos presos em nada. Depois de amanhã faz um mês
em mau gosto. sentiria os fios macios das molas que cederam ao
seu Peso, ,lr(' o trouxeram, já morto, da Íâbrica. (A bala atingira-lhe o crânio.)
Ti-
recolhendo-se em convexa superfície para acomo dâ-la. Hoje, impossível. rrlr.r rro seio a criança quando a porta se abriu e alguns
homens o carrega-
Tinha medo que lhe ouvissem as palpitaçóes ou que o arfat dos seios
des- r.rrrr até a cama, em vão. Depois de amanhá faz ummês.
Afastou com as
que
pertasse atenção. Hoje era toda hesitação, criara para si um invólucro ,r.ros os cabelos que lhe caíamsobre os olhos, num esfregar
automático
a obrigava a tolher os movimentos, e que, vez POr outra, tentava,
revolta- tl.r rt'sta. ouvia nitidamente os zurnbidos, os pequenos sons que
se aglo-
a
da, rÃp.r. O dedo pressionando o botão do elevador transmitira-lhe .r('r'rvam, compondo-se em estranhas díssonância§ a seus ouvidos pedin-
cruzando os ,1,, silêncio. o pouco que os amigos puderam cotizar
energia necessária para suportar a abertura da porta' Agora, estava quase em
. r,rrrsrão. o dia que não tarda agigantava-se com a promessa
,uprtr, parecia tê-la perdido por completo. Biqueiras rotas. Salpicos de dos tempos
pousou-a ,lrlrreis. sobre a mesinha-de-cabeceira um recibo selado, deixando
lama na dobra da sola. Themor. Recolhendo a perna do tapete em
no trecho encerado. A cena fora toda imaginada. À noite, os olhos Presos 't '| 'rlirlrça,
à espera do aluguel. os outros, amortecido o sentimento pelo
ao teto (ele dormira após um choro manhoso. O cortinado
envolvia-lhe o rr'rrr)o' davam mostras de impaciência. E em seu interior um fio
entupin-
a quem
berço), sufocava alâgrima em antecipação. A irmá. seria a única rl,, ;r 111;ir*., enrolando-se na língua, e prendendo-se nos interstícios
dos
poderia recorrer. os outros distanciaram-se na teimosia, na incom- rL rrcs que cismavam em se pressionar mutuamente,
como a medo, para
pr..nráo. só, no leito, esboçava carícias no corpo ausente sufocando o ,rr(' ,aro escapem coisas náo sabidas. Ti-abarharia. Não há dúvida.
Nunca
travesseiro. A irmã. Poucos ano§ as separavam. Por certo náo
esquecera ',( .r.rcdrontara com tal idéia. se resolvera unir com outro que
euando
os sonhos mútuos à vidraça em dia de chuva, ou ao dormir,
no quarto r r.r, , tlc sua raça tinha a perfeita
consciência do ato, que não representava
colllum, as confidências trocadas. Rodeado por dois pratos o retrato
dos rrrrr.r l«rtâl renúncia à sua orígem (havia arraigado
em si um peso que um
pais, de braço, sorrindo, surpreendeu-a com a expressáo de conforto e '.r r r r1,f ç5 gesto ou atitude não desloca),
nem ele a obrigava ou exigia a fazer

36 37
coNtos Do tMtGR^NIt,

l, r\rr.s tlc fartura, o jcito de sonho pcrdido cm lralofa expressão vazia.


tal coisa. Havia naquilo um descjo dc supcraçáo, dc coisa que transcende
a um simples costume. Sabia difícil a compreensáo. Mas, ato praticado,
lJ,'rrr . vc.trc inflado mas uma adiposidade geral sem prenúncio de nada.
,'\ rrr,r. t'rrgorclurada escorregara como um salsichão
julgava-se pura em consciência, que sabia amadurecida. A hesitaçáo vi- entre seus dedos. De-
lr,,ri*ru,-§c sentadas. Nos olhos, sim, nos olhos vislumbravaacidental-
nha-lhe do berço. E ele? Dois meses e dois dias. Seus olhos por certo náo
,r('rr(' rrnr brilho que era a rememoração dos sonhos. Mas, fugidio. ou
gravaram as feiçóes do pai, nem o timbre davoz the ficara nos ouvidos.
rrt'r rstcr)te, quem sabe. Tâlvez pura criaçáo de sua mente que procurava
Estava completamente isolado, sem raízes ainda que lhe pudessem mar-
r
à
I' rr 1.r itlcntificar na outra a imagem que viera recompondo
car os passos. O rosto avermelhado encolhiâ-se sonolento o dia inteiro, a noite inteira.
llrrr frirrto. Talvez procurassem ambas um fio que as reatasse, mas
ou âs máos tateavam ávidas o seio. A irmá. Sim. A irmã. Casara. Soube-o era
r. x istcrrte este.
Ligeira ondulaçáo sob o queixo que lhe arredondava mais
por outras fontes, já que estava à margem. lmaginou contrastes entre o
rr

, r .r;ircr inexpressivo. onde os signos particulares


quarto solitário e um hipotético apartamento. Olhos intrusos veriam a que a distinguiam, onde
,r l.içi, delicada, transpirando a coisa ftâgil,sensibilidade?
película brilhante prenunciando a lágrima. Compôs para si um ambiente curtas as fra-
jeito '.r", r..cadas, de informação. protocolo. silêncio quanto ao resto. silêncio
de emoçóes de uma imaginária acolhida. O rosto magro dairmá, o
,'rrr r.lrrção ao ocorrido. como duas estranhas, quase, em
de sonho, colaria os lábios na face antevendo a integraçáo. Superpunham- sala de espera,
rh' rrrt:rlico ou dentista.
se as emoçóes criando quase uma presença concreta. O rosto magro da 'lirtla a cargaaÍetiva
em potencial de exprosáo recolhera-se, recalcada,
irmã seria um peito aberto aos soluços. É possível que um filho a preocu-
p,r lr»rça de um desânimo"
passe também, náo sabia. se verdade, quáo fácil seria. À afinidade exis-
Arriscou uma pergunta.
tente juntar-se-ia uma outra que náo a palavra mas só o sentimento
Monossilábica a resposta.
reproduz. Emaranhara-se. A custo dominou a hesitação, não de orgulho,
l(ccordou vizinhanças.
mas de medo. A imagem do fícus na vidraça oscilava projetando em seu
lrrnr bem, obrigado.
interior formas que alternavam com a respiraçáo. A ausência do compa-
l,cmbrou o menino da casa ao lado.
nheiro abrira-lhe vãos em sua segurança e firmeza, onde encontravam
Arrrbas empurravam-lhe o carrinho. Sete meses na época.
acolhida fácil elementos fugidios de dúvida, como que em tentativa de
(lrcsceu. Mudou-se. Não sabia para onde.
miná-la. Agora ali na sala, os sapatos cruzados, os olhos fixos na expres-
As amigas da infância onde andavam.
são dos pais, vacilava e quase se arrependia da caminhada, do berço dei-
l)or aí, casadas.
xado em máos vizinhas. Náo Sentira no ar o cheiro de criança, um cheiro
lr a Julieta?
de fralda lavadae talco a que tanto se acostumara. Estaria grávida a irmá'
Nunca mais a vira.
Imaginou-a assim. Olhos grandes. Rosto magro. Máos finas pendendo. O
l.cmbrava-se do Maia, velho professor de francês?
ventre enorme em prenúncio. Por onde entraria? Um estouro de azeite
.Sim.
em frigideira fê-la imaginar chegando da cozinha, com o avental. Como
Irncontrara-o noutro dia.
rcagiria? À.mptegada dissera ser apenas conhecida, amiga'
Sirn?
Judith?!
-Visão aterradora da inutilidade da visita. A intuição dera-lhe a cefieza
Ató quando agüentaria aquela estaticidade. procurou nos olhos da irmã
rrrrr tluê que significasse recusa, desprezo, desgosto. um
c()ncrctil clc urn gesto feito em vão, duma gratuidade de ato. Náo o abra- signo que lhe in-
e arredondara em ,lrrrrsse a rctirada, a inconveniência de sua estada ali. Houve
ço, llcll o rosto colado, o rosto magro que Se perdera comoque
SAMUI L RAI/

,;rrcrirr odiar, nlas a carga afctiva transitara dc pólo. O passado, ela náo o
um amorteciurento nos scnticlos da irrní. Aparaclas as âresti.ls clo tnovi-
,lt'st r-rrírâ. Tinha à sua frente alguém que perdera, tinha a certeza, a vida.
mcnto restara uma figura parada, sem volição.
l'uilr':r. E,ntrara em local onde o tempo estava morto e onde náo a com-
Onde morava?
Nos subúrbios. l,r,'.'rrrlcriam mais. Estagnaçáo. A porta fechou-se após uma fria despedi-
,1.r. Novamente, como salsicháo, os dedos engordurados escorregaram
Longe?
( rrI r'(: os seus. Ao chamar o elevador pressentiu um soluço surdo de quem
Sim.
',(' .lrrcnrcssa. Como um letreiro luminoso os números se sucediam num
Viera de trem?
.r( ('n(lc-epaga até se fixar. A mão na tranca, esperou, estertor final, a pre-
Sim.
( rl)itrlção que seria reconhecimento de erro. A cigarra soava no carro.
Horrível, náo, apertado?
r\l1irrórn, impaciente, esperava o elevador. Contou alguns segundos.
Sim.
r\lrrsrrrou-se com o silêncio quase simultâneo da campainha e do choro.
Sentiu eriçarem-se-lhe os pêlos, e um empolamento nos poros. Perce-
\J.rzio completo. Na descida havia um rumo traçado. Impossível negar o
beu nas entrelinhas um despertar vitalizante da irmã. Por certo uma inibi-
l,,r'srrtlo. Sabia, porém, que impossível, também, é o retrocesso. Amanhá
çáo impedi a-a de feri-la em cheio. E nesse momento responderia tudo.
Tüdo. A morte do marido. O filho. Queria tanto falar no filho. Descrever-
l.r'.rril o filho à circuncisão. De resto saberá conduzi-lo de modo a lem-
l,r .r r' r pai morto e a compreendê-la. Ao ser golpeada pela brisa sentiu uma
lhe os gestos, o jeito. Por que isso? Rodeios. Fugas. Subterfúgios. Pelos
«

.rl,'r',ria infantil de quem descobre mundos novos numa velha caixa de sa-
olhos lançou um apelo para que aprofundasse as perguntas. Inútil. Pode-
ria continuar sustentando o diálogo. Para quê? Perguntar-lhe coisas já l,.rlrs, de quem, após luto, redescobre pequenos detalhes alegres no am-
lrrt'rrtc: cinza que o cercava. Agora, o trem. O seio pronto em oferecimento
sabidas, ou de fácil intuiçáo. O marido estaria trabalhando. O apartamen-
r rr rrlt' cle mergulhari a paÍa mamar.
to (onde o bom gosto de outros anos?) confiava-lhe uma segurança. Que
mais? Pouco importam os detalhes. A essas horas a vizinha estaria distrain-
do o menino. Ou mudando-lhe uma fralda. Ou agitando o chocalho para
desfazer o choro arrastado. Remexeu-se na poltrona. Viu a irmã levantar-
se para atender o telefone. Nem ouvira os chamados.LâÍoracarro buzinan-
do, rádio em novela e alguma empregada trauteando samba. Novamente
a irmá sentada. Queria tomar alguma coisa? Náo, obrigada. (Saíra apres-
sada pela manhã. Dera o seio ao filho e esquecera de comer. Ou náo se
importara.) A pontada de fome iâ a estava sentindo subir-lhe do estôma-
go. Lâ embaixo compraria qualquer coisa, uma fruta.
Papai?
-Tivesse ido embora mais cedo e náo teria a decepção da pergunta sem
cco, rlo jeito contrafeito de quem tocaÍa em tabu. Nenhum movimento
1'r«rr prrrtc cla irmá. Nem de distraçáo aparentando não
ouvir. Mas de fren-
It'. ()s «rlh«rs nos seus. Via nitidamente sua imagem na pupila, apesar da
tlistirrei;r. A ruge do queixo ondulara como quem engole em seco. Náo
coNTo5 t)o tMt(;R^NIt

rrrr', r' ,111';sf isrn«rs (rr cstcs conrprccrrrlir), prclcurando intuir as frases da
rrr ,lr'',:,r,, .,. À, vcz.cs pcrclia-se ern fitá-la. Dentes incisivos salientes, os ca-
1,, 1,,'. l.rrrlrr-rrnclo chapréus de velhas múmias, os lábios grossos. outras,
rrrrL',r\,',r .,s olhos pclas paredes carregadas de mapas e figuróes. A janela
Gringuinho l,rrlrr.rv:r Ilrc a rua onde se sentia melhor. Podia falar pouco. ouvir. Nem
l,r, )\'.rs rrt'rn argüições. o apelido. Amolava-o a insistência dos moleques.
I '.lr ,'yi, ), ilntc o espelho os olhos empapuçados. ontem rolara na vala com
( ,r, r.rrr;rp(rs cliscussão. Atrapalhou o
iogo. o negrinho cresceu em sua
Ir r rrtc rro írrrpcto de derrubá-lo.
t irrlirrinho burro!
'r
Arit,u sobre a cama o uniforme. A lição nã,o afaria. voltar à mesma
r ',r ,l.rr srrbia impossível também. Por vontade, a nenhuma. Antigamente,

Chorava. Náo propriamente o medo da surra em perspectiva, apesar ,rrt( \ (l() rrltvio, tinha seu grupo. veráo, encontravam-se na praça e atÍa-
de roto o uniforme. Nem para isso teria tempo amáe. Quando muito uns r, '.','rrrtl«r o campo alcançavam o riacho, onde nus podiam mergulhar sem
berros em meio à rotina. Tiraria a roupa; a outra' suja, encontraria no , r, ( 1, . A châtura das liçóes do velho barbudo (de mão fata e pesada nos
f

fundo do armário , paraa vadiagem. Ao dobrar a esquina tinha a ceÍteza r.r;,.1" 1' lrcliscóes) havia o bosque como recompensa. castanheiros de fru-

de que nada faúa hoje. Os pés, como facas alternadas, cortavam o barro t,,', r'slrirrlrcntos e larga sombra, colinas onde o corpo podia rolar atéa
de pós-chuva. A mangueira do terreno baldio onde caçavam gafanhotos, l', rr.r.l. crrminho. Framboesas que se colhiam àfarta. cenoura roubada
ou jogavam bola, tinha pendente a corda do balanço improvisado. Reco- ,l.r I1,p11111ç[o vizinha. A voz da máe repetia o pedido de cebolas. Coçar de
nheceu-a. Fora sua e restara da forte embalagem que os seus trouxeram. 1,1lrt'q:l scrn vontade. No inverno havia o trenó que carregava para mon-

Ninguém na rua. Os outros decerto náo voltaram da escola ou já almoça- r,rrr(', () rio gelado onde a botina ferrada deslizava qual patim. Em casa a
vam. Ninguém percebeu-lhe o choro. A vizinha sorriu ao espantar o gato ([rcltte de beterrabas, ou o fumegar de repolhos. sentava-se no colo
"',r,r
enlameado da poltrona da varanda. Conteve o soluço ao empurrar o Por- r l, , ,rvô rccém-chegado das orações e repetia com entusiasmo
o que apren-
táo. Com a manga esfregava o rosto marcando faixas de lama na face. r l. r .r. ( )rrde o avô? Gostava do roçar da barba na nuca que lhe fazia cóce-
Brilhavam ainda da chuva as folhas do fícus. Olhou a trepadeira. Novi- 1i.r.,, ,'rlos contos que lhe contava ao dormir. Sempre milagres de homens
nha, mas já quase passando a janela. Na sala hesitou entre a cozinha e o ',.u rr( )s. sonhava satisfeito com a eternidade. A voz do avô era rouca, mas

quarto. A mãe de lenço à cabeça estaria descascando batatas ou moendo I rr r. r r lt' sc ouvir. Mais quando cantava. os olhos no teto de tábuas, ou acom-

carne. Despertara-lhe a atençáo ao lançar os livros sobre a cômoda. Que r'.rrrlr,rrrtlo a chaminé do fogão, a melodia atravessava-lhe o sono. Hoje
trocasse a roupa e fosse buscar cebolas no armazém. Nada mais. Nem o |iltr,rril rarde na sala. Náo gostava de chamar a atençáo sobre si, mas teve
rosto enfiar aparaver-lhe o ar de pranto e a roupa em desalinho. À.tttt"- ,lr('n'à nresa explicar o atraso. Cinqüenta pares de olhos fixos em seus
da do quarto surpreendeu o blá-blá do caçula que, olhos no teto, tocavâ I'r", (lrrc trcmiam. o pedido de cebolas veio mais forte. Gargalhada maci-
runra harpa invisível. Era-lhe estranha a sala, quase estranhos, apesar dos \.r ('nr c()ntraponto aos titubeios da boca, olhos e mãos. A custo conteve
nlcscs, os companheiros. Os olhos no quadro-negro espremiam-se como .r'. l.r1',r'ilrras quando tomou o lugar. Chorava assim quando no primeiro
,..r1'.r.1, seiu de boné com o pai em direçáo à sinagoga.
sc rruxiliasscm a audição perturbada pela língua. Autômato, copiava no- Caetano, Raul,Zé
coNTos l)o tMt(,t(^Ntt

Paulo, Betinho, fízeram coro ao fim da rua repetindo em estribilho o ltccolhcndo os níclucis procurou a porta. Ti"aria as cebolas. E
rr r,l.r rlrss«r.

gringuinho. Suspenso o chocalho deparou com os olhos do irmáo nos seus. ,.r,, (»rt;rrirl
( quc ao ser repreendido na escola, na impotência de dar ra-
Illá-blá. Sorriso mole. Sentara-se. Abrira o livro na página indicada, ten- , rr ',, rlurill(kr a vclha
principiou a amassar-lhe a palma da máo com a ré-
teando, como cego, para entrar no compasso da leitura. Nem às figuras se ,lil r n( l"r'ir c clástica, não se conteve e esmurrou-lhe o peito rasgando o
acostumara, nem às histórias estranhas Para ele, que lia aos saltos. Falct rr',rrrh,. (lrrando atravessou o portão acelerou a marcha impelido pelo
gringuinho. Viera de trás avoz, grossa, de alguém mais velho. Fala grin- rlr',r'r, tlt'scr homem já.Julgavaque correndo apressaria o tempo.
seus
guinbo.Insistia. Ao girar o pescoço na descoberta da fonte fora surpreen- l',', ,.,rlritrrvam no cimento molhado, como outrora deslizavam,
com as
dido pela ordem de leitura. Olhou os dentes aguçados insinuando-se no lr,trrr.rs Ícrradas, pelo rio gelado no inverno.
lábio inferior como para escapar. Explicar-lhe? Como? Mudo curvou a
cabeçâ como gato envergonhado por diabrura. Era-lhe fâcil a lágrima.
Lembrou um domingo. Enfiou-se pelo pátio com Raul que o chamara à
sua casa. No fundo do quintal cimentado, sob coberta, dispusera os dois
times de botóes. Da copa o barulho, ainda, de talheres, fim do ilantarado.
Chamaram. A mãe cortou o meláo e separou duas fatias. Raul agradeceu
.,Ah! É o gringuinho!" Expelida pelo nariz a fumaça do cigar-
pelos dois.
ro, o pai soltara a exclamaçáo. Quase o sufoca a Íruta na boca. Os tios
concentraram nele a atençáo. Parecia um bicho encolhido, jururu, parali-
sado, as duas máos prendendo nos lábios af.atia. "Fala gringuinho!" Coro.
Fala gringuinho.Novamente as vozes atrás da carteira. Da outra vez cor-
rera como acuado em meio a risos. Recolhido no quarto desabafou no
regaço da máe. Blá-blá. Agitar do chocalho. Um cheiro de urina desperta-
ra-o damodorra. Um fio escorria da fralda no lençol de borracha. Fala
gringuinho. Sentiu-se crescer e tombar para trás a cadeira. Em meio à gri-
taria a garra da velha suspendeu-o amarrotando a camisa. Cercado, al-
guns de pé sobre as mesas, recolheu-se à mudez expressiva. Da vingança
intentada restara a frustraçáo que se náo explica por sabê-la impossível'
Blá-blá! A poça de urina principiava a irritá-lo e após esperneios o irmão
arrematou em choro arrastado. Agitou o chocalho novamente, com indi-
ferença, olho na rua. O matraqueado aumentara o choro. Náo percebeu a
entrada da máe. Sem olhá-lo recolheu o irmáo no embalo. Tirou da gave-
ta a fralda seca, e entre o ninar e o gesto de troca passou-lhe a descompos-
trrra. Insistiu no pedido do armazém. Ele tentou surpreender-lhe o olhar,
c()r'r(luistar a inocência a que tinha direito. Depois gostaria de cair-lhe ao
c<rlo, lrcijír-la e contar tudo, na certezade que lhe seria dadaarazâo.Mas
l'! n,lrrl.r Ir,i Porrcrrs horas, cm quc fora brutalmcnte sacudido (tinheo
r',.,r,r rl,, lrllp r'r í'rcrrtc), não o deixavam prostrado, mas, curioso, arrasta-
*, ,,, rl.,t'rrÍr'r'lltlrtrtrcrtte num carâcol. Tivera a impressão de formar, em
rrr il', rlr' \'ilrl('rilros, Lrnr bloco monolítico, indestrutível. Encerrado em seu

Réquiem pata um solitârio rrrrrrrrlr,, .l,,tttle l)cus andara um tempg afaStado, mas que hOje Se reinte-
.rr.r, IrL',rrva cncontrar-se numa estabilidade inabalável. Surdo aos ruí-
,,. ,l,' l, )r'il, vicram dizer-lhe que estava encerrado numa teia egoísta. Mas
( )r tl.rrri A «rrtlem das coisas que lhe vinha insuflada dalém-mar, que lhe
lr.rr r.rrrr rrrcrrtitlo nos anos de privaçáo, e pela qual atravessara um oceano
|'|lilr.r vrst«r. América. Ele fiZera aAmérica. ./
( ) porlrro largo deu passagem ao carro que acelerou até a garagem. O

l,rr, ,l trrrriiu largas faixas nas paredes da sala e cortou-lhe um ombro. Ba-
A mão trêmula acariciou a porta da geladeira. Abriu-a automaticamen- trrl.r violcrrta. Pelos fundos os passos apressados chiavam nos degraus.
te. Costume. Um halo gelado penetrou-lhe o peito aberto da camisa e os () scnhor?!
olhos se fecharam, como se as pálpebras tivessem sido empurradas pela () lillro paraÍa em sua frente. Pouca coisa o assemelhava ao outro.
testa relaxada. Carne na gaveta de matéria plástica. Cerveja e leite nos I'r'rf rt'n.s treços, o canto da boca, ou dos olhos, talvez, não sabia ao certo.

Suportes de entrada. tavessas. Pratos de frutas. Os dedos tentaram des- Si rn!... V â1... Y â dormir!...

tacar uma uva do ramo, mas o cacho se insinuou na palma da máo. Ne- I'st r:rrrlrara a sua própria durezaquando o viu afastar-se. Seus dezesseis

nhuma vontade de comer. Sorriso frio. Hoje podia abandonáJo com a ,s rnirrguavam em feições de vinte. Pela porta ouviu tirar os sapatos, e

certezade que amanhã, se quisesse, obtê-lo-ia de novo. Os tempos. O ruído uilt r',r'rncr de estrado cedendo ao peso do corpo.

da fechadura nem se fez ouvir. O costume do trato carinhoso ao que lhe A crrtrada do quarto viu o filho debruçado na mesa. Um quebra-luz
era caro, e a ceÍteza das crianças dormindo nos quartos ao lado, aguça- lrrrritrrva a. área iluminada. Não o vira jantar. Mal chegado enfiou-se ali,
ram-lhe a cautela. A mulher permanecia na varanda. Ele a deixara estira-
.,r'rn Í.rrlar com ninguém. Era uma oportunidade agoÍa,podia falar-lhe.
Os
da na espreguiçadeira, o rosto balofo satisfeito, as pernas e braços pesados, ,,urr()s dormiam. Só um deles saíra no automóvel. As coisas que lhe boia-
frouxos, apontando do vestido barato. (Ela pouco se acostumara à mu- \'.un no ouvido, sussurradas aos sábados, quando terminavam as oraçóes,
dança. Quase náo se transformara. O corpo relaxado transpirava cansaço n,,s tlies comuns, quando rondava azonacomercial, precipitaram-se ago-

e satisfaçáo do trabalho . Taref.a cumprida.) Agora ali, parado em meio à r .r. ( ) Í'ilho olhou-o, de frente. Nunca o havia feito de tal jeito. De relance,

sala fartamente iluminada. Os reflexos nos pingentes de cristal iâ o fize' 1,r'r'ccbeu que o desconhecia, por completo. A imagem que dele tinha era
ram passar muito tempo num misto de absorçáo e divertimento. Hoje .r tlc: rlnos, e em sua inércia pouco ou nada viu transformar-se. A face
fcriram-lhe a retina dolorida, como que chamuscando-a. Feriam mais que r,,,lcacla por uma barba de dois dias, os traços firmes delineando as fei-
:rs palavras do filho do canto do escritório, após o jantar. Nunca pudera \( )('s, clâvam-lhe uma aparência até entáo náo revelada. A bem dizer o rosto
corrccbcr que tal acontecesse. A fartura recente embotara-lhe mesmo a cr.r cstranho, não tinha lembrança de tê-lo visto. E o fitava de frente, se-
lliilirletlc clc pensamento anterior. Era-lhe um custo pensar muito' As idéias ,i,,r,,. Às perguntas do pai náo deu evasivas. Tâmbém a ele o rosto do velho
tirrlrrrrrr (ptc sc lhe afigurar fixas, passando em câmara lenta. E a energia rr.ro lembrava o mesmo modo. Era como se pela primeira vez descobrissem
um no outro traços desconhecidos, ou a supcrposição das vczcs cur (luc A rrrcsrrra clc há alguns anos. Na mesa uma carta estendida, relato im-
normalmente se viam desse uma impressão errônea da realidade. O tortt l,r,'.krso dc um mundo que foi. Duas horas. Madrugada. Zunidos de pneus
amadurecido da voz perdera o frescor da risada infantil que ainda lhc sorrvrt rrr, .rsfrllto. Em algum lugar um rádio em surdina. (Céus! Como não en-
no ouvido. E à argumentaçáo ponderada, concluiu, perplexo, que narl;t, ,l,,rrlt:ccr!...) Das casas, nada mais que ruínas. E nos bosques dos arredo-
ou quase, poderia opor. Havia a ordem das coisas. Havia a tradição quc o r,',, lrri valados e valados de coraçóes roídos pelas balas, ehâ galhos de
soterrava. A solidariedade humana podia, no máximo, tomar para elc ( .rr;liurhciros que resistem ao balanço de olhos esbugalhados. Buzina. Res-

modos de caridade. E era justo. Ninguém tem coração de ferro. Tirdo isso r,r tlc lroêmia numavoz embebedada. Badalo curto e fundo do quarto de
estava na Ordem. E o resto? As palavras do filho impediram-no de seguir lr,,r'rr. Procissáo de rostos, esfumaçados uns, dolorosamente nítidos ou-
o primeiro impulso, que era esbofeteá-lo, coisa que sempre fazia quando rr,s, :-lvô, tio, primo, barbas ralas e majestosas num titubear de preces em
os pegava em falta (mas há tempos). Jamais se imaginara enredado de tal f rrízo Final. (Céus! Como náo endoidecer?) Por que náo se abalaram to-

jeito, a máo tolhida pela expressáo firme que o mirava. Os olhos desvia- tlrs, corlo ele, num poráo de navio? Por que, no cais, ao invés de abanar
ram e desenharam na parede memórias antigas. Na terceira classe amon- l.rrços, náo correram pranchão acima? O canto do tio, afaca cortando o
toado com mais vinte sobre sonhos de uma terra que o esperava, remoía r,ur'o no desenho de uma sola, fundia-se às pancadas, em compasso, do
desejos e planos na ceÍteza do homem de máos vazias e cabeça tonta. A ;,rirrro e do auxiliar, nas fôrmas de botinas.Lâ fora o vidro embaçado, o
mulher atrás, grávida, acenando chorosa, amparada nos pais e tios, à saí- lr r. sclx1z os váos do calçamento. Idéia de neve recente. Na mesa a cha-
da do trem. Solitário no porto apinhado de guindastes, girafas meneando l, rr':r despejando um halo quente de conforto. A tia na mesa cortando ra-
o pescoço no vaivém dos fardos. Pensamento ritmado, contraponteado à lr,rrrt'tcs. Uma quentura estagnada. Páscoa. Petencostes. Ano-Novo.
marcaçáo das máquinas. Várias geraçóes se lhe antecediam naquele im- lrremediável.
pulso. Depois, a sensação gigantesca de conquista, de grilhão rebitado. E Na parede o grupo sorria. Retrato antigo. Os menores náo haviam nas-
a inércia que náo é do cansaço, mas da fartura, da vitória, da segurança r rrkr. O que se lhe revelara hoje sorria molemente. Fragmento. O cabelo
em bloco. O silêncio do filho trouxe-o de volta ao quarto e sentiu os pés .,r rrrrnado pela primeiÍayez depois de cortados os cachos. Vida de entáo.
agarrados aos tacos lustrosos. A luz dirigidapareciaimobilizá-los num con- I r,is quartos entulhados de berços e um odor de urina escapando das fral-
traste branco-preto de desenho de nanquim. Cama à esquerda, armário ,l.rs cnsaboadas. O fim da tarde surpreendia-o com o corpo empapado.
ao fundo, cortinas abertas trazendo um vento da praia náo muito distante. \u()r e poeira. Lama, nos sâpatos, das vielas beira-de-morro. Andar. An-
No espelho do consolo, enviesado, o corpo baixo, as mãos jogadas ,l.rr. Andar. O passo chapinhando, a língua estranha. Latidos de cães em
rente, as mangas arregaçadas da camisa. l,.rrrcadas de porta. Às ,ez"s, à mesa de algum café, sanduíche na máo,
Ainda acordado? ,,crrli:.r desejos de arremessar dos ombros o fardo e embalar oceano aÍora,
-A mulher esfregava o rosto sonolento, passando paÍa a cozinha. Pra- ( ( )rn o pingo amargo da América revelada. Besteira. Que diriam se o vis-

tos, torneira da pia, tampa de panela soando no cháo, a porta da geladei- ',,'rrr, cabisbaixo, vencido, descer dacarretaque o transpaÍtarapara o trem?
ra batendo. l',,r' r;ue saíra? Outras vezes os arremedos dos moleques despertavam-lhe
Quer um copo de leite? .r'. nrcsmas idéias. Depois se acostumara. Nem o apelido coletivo o feria
- Níro! , ir. À noite, relaxando o corpo ao lado da mulher, amparava-se do medo
-Srurriu no quarto atrás da pergunta solta: ',.,
rL'rluc a América o estava arrasando. Outros que vieram com ele náo re-
Não vai dormir? ',r',tir.rrrr.r. Foram para o interior. Que será deles? Têriam prosperado, na
-
v[Í

certa, comprado fazendas. Mas como? Qucria trabalhar em sua profis- Não!
são. Desenganaram-no. Você morre de fome, náo serve para isso! Em vcz
- Uma pílula, quer?
de um banco, um balcáo, deram-lhe o bairro, as ruas, as casas, a cidadc. íi
- Não!... Por favor, náo quero!
sua. Sirva-se! A princípio impressionara-se com a pobreza, náo dele, quc
-Nunca lhe vira
os olhos como dessa vez. Girara em torno da mesa, e
sabia transitória, mas dos que servia. Os barracos pungentes, imundos, o n()vilnrcnte o fitava em cheio. No rosto, nenhuma expressáo de sonolên-
aglomerado em farrapos, favelas, pareciamJhe soltos, prontos a ruir a um r i:r, {)u cansaço; uns traços de vivacidade despontaram, e os olhos, os olhos,
sopro maior do vento. .rrk;uiriram um vigor nunca imaginado. O que lhe ia pela mente? Menea-
Que tem você, está doente? v.r r cabeça como que sondando algo.
-A mulher em camisola. Acordara de repente, mais de quatro horas, e Eu?...
não o vira.
- O quê?...
Está doente?
- Eu... nunca o vi assim... nem me tratou assim... quase estranha...
-Cotovelos fincados na ponta da mesa, o rosto encaixado na palma das
-Pôde perceber de relance onde queria chegar. Sorriso triste.
máos, mirava-a sem perplexidade. Silêncio maciço entre os dois. Nem o
-
Não!... Náo é isso...
-
ruído do relógio furava a massa de espaço que separava um do outro. Que
-Contar-lhe a história, simplesmente? Impossível. Tomou-lhe as mãos.
responder? Do fundo não lhe vinha nada. Não estava embaraçado. Sen- Arnbas frias, inseguras. Faltavam-lhe palavras, coisas que gostaria de di-
tia-se como no dia em que lhe apresentaram a hipotética noiva. Nenhum z('r, que nunca disse, porque náo sabia como, ou não lhe haviam ensinado.
embaraço, também. Apenas um vazio de palavras, um não saber a razáo Váo mal os negócios?
da fala no momento.
-Avoz da mulher tornara-se grave.
Sente-se mal? Náo!... Ao contrário...
-Pouco a pouco sentiu o sangue afluir-lhe à cabeça. Agora, sim, uma
-Olhos cruzados. Que turbilhão de idéias náo a confundiam? E era
vergonha perturbava-o diante da companheira. Nunca lhe teve segredos. simples desfazer-lhe a dúvida. Simples? Que lhe diria? Que não se preo-
Nunca a deixara longe de suas preocupaçóes. Mas, agora? Que dizer? Seria e upâsse, que não estava doente, que os negócios iam ótimos, que mais?

possível compor, pedaço a pedaço, os fluxos de idéias, desordenados, dar- l'lo resto? Como comunicar-lhe a sensação de esboroamento? Como dar-
lhes um fio, torná-los história que se conte em palavras? Depois, dizer o llrc a idéia de insegurança que o dominara, substituindo a solidez aüo-
quê? O espaço diminuiu, e vê o corpo da mulher agigantar-se em sua dire- 1"e rtte ?

ção, invadindo a sala. Sente-lhe as máos caírem nos ombros; na frente, só favor, vá dormir!... Eu irei jâ...
a porta aberta; postara-se atrás dele. Seus dedos pesam-lhe em torno do
-UmPor nâo tenho nada.
sorriso no rosto da mulher. (Tinham ainda entrelaçadas as máos.)
pescoço. Dizer-lhe o quê? Ela f.azia parte do bloco monolítico sonhado Almosfera de conforto. Tepidez de madrugada penetrando o íntimo.
por ele, era parte do todo. Compreenderia? E ele? Havia compreendido?
Sente-se mal?
- Eu devia imaginar... Deve ser alguma nova empresa que está pla-
rrcjando, náo é isso?
- Não... Náo tenho nada!... Estou sem sono! A imobilidade da cabeça e um ligeiro chiado dos lábios afiguraram-se-
- Como?... Sáo quatro horas, mais que quatro, e você nem se deitou. lhc como afirmativa.
-
Já, disse, náo tenho sono. Devia imaginar. Náo se preocupe!... (Oh, o peso do braço que aca-
- -
Quer que lhe faça um chá? r icia...) Deus há de nos ajudar!
-
Dcus há clc nos ajuclar! Novanrente a porta do quarto fechada. Nade
nrrris! Ela não o podia concebcr de outra maneira. Era a presença sólicla
clo clue se esfacelavâ para ele. Deus há de nos ajudar. Doíam-lhe as pcr-
nrrs. A língua parecia estar coberta de uma massa esponjosa de sujeira.
Alguma outra empresa. Sim. Por que náo? Havia outro motivo, com ex- Canto fínebre de
ccçáo de doença, que levasse um homem a dobrar madrugada solitário E stêv ã,o Lopes Albuquerque
numa sala? Uma vez ticara, há anos. A carta chegara e com ela uma onda
de remorsos e imagens. Depois, o amortecimento. Nunca se lhe esboçara
a pergunta do por que teriam morrido. Sabia que coisas aconteciam pelo
mundo, mas nunca as julgara tão importantes, a ponto de perturbar a sua
Ordem, a ordem dos seus acontecimentos e problemas. Do parapeito via
o pequeno jardim bem tratado, e em sua frente, o bloco de edifícios cin-
zentos encolhidos em sono. Uma ou outra luz borrando de amarelo o con-
junto. Talvez alguém madrugasse para o trabalho, ou chegasse de farra, a vida?
quem sabe. À esquerda um arcabouço em descanso. Os andaimes vazios -NiroEsoprasse o vento e a galharia, só o silêncio, e os outros lhe ouvi-
de operários. Doze andares ocos à espera de paredes. Carros ladeando o r r,un ogrito num sussurro. E Flávia náo choraria com a cabeça em suas
meio-fio. Repouso. Certeza. As imagens que vieram com a carta também nr:r()s, o corpo dobrado em grotesca figura de parto próximo. Compreen-
tinham a certeza. Aprendera com eles. Esfacelava-se. O vento que lhe .lcrrr scu grito e horrorizaram-na suas feiçóes quando atravessou a porta.
penetrava a camisa secando o suor trouxe uma pausa ao atordoamento. A j;rrrcla ficara aberta. Pedido seu. Mangueiras dobravam galhos oscilan-
Poucas vezes vira o amanhecer. E mesmo assim, nunca dera importân-
rL, nu visão do relógio da torre lá embaixo. Noite. E o bonde cantava na
cia. Agora ateÍrava e aliviava, alternadamente, como um êmbolo de pis- ( urvrl ao atrito dos trilhos. Embalada morro abaixo. Os mesmos livros.
tão. Horizonte irisado. Gradação imperceptível até o vermelho infernal.
lrlt'sa. Armário. O retrato de Estêváo, a óleo, feito pelo irmáo, projetava
Nada mais tinha a pensar. No íntimo a convicçáo de que continuaria pro-
rrrrr pcrfil sombrio interiorizado. E agora os olhos, não os mesmos, luta-
cedendo como sempre, implacavelmente. Mas nos passos que o levaram
v.un com a serenidade intentada, mas que o grito expulsara. Os dedos da
âo quarto, titubeantes, náo pelo cansaço, conduzia outra certeza, uma
rr rrrrr lrrotaram lágrimas nas cavas cor de cera. Sem forças para escorrer
ccrteza de desequilíbrio e hesitaçáo, de medo e fragilidade. Certeza do
rl.rs tirbitas. Apenas o mar em película difusando o rosto que se agarrara
irrcmediável. A mulher dormia. Mudou de roupa. Aspirou o cheiro do li-
.ts srres máos. Cantassem os grilos a noite inteira, viessem vaga-lumes aos
nlro na gaveta da cômoda de onde tirara o pijama. Olhou em redor, fixou
l,,rrrrlos e náo imitariam azoada e o piscar que lhe estourava a cabeça.
os nróveis trabalhados. E mergulhando a cabeça no travesseiro levava
Srnrs. Sinos. Náo os ouviria. Nem coros de crianças em opas brancas. Nem
consigo a imagem do que viera construindo e que sentia escapar dos de-
,rvri Arrgélica de preto no genuflexório ou rodando o terço na varanda.
tl«rs. Tcrrtav t agaÍraÍ, como os olhos cegados pela pressão, os pedaços de
lrlcxcrrdo com os lábios num tremelicar maquinal. Nas últimas semanas,
srrrr orrlcm quc desmoronava, mas compreendeu o inevitável. Inerte, cor-
',('nr il cnergia de costume, arrastava a sombra pelo quarto sem as hesita-
l)() nr()rt(), prostraçáo. Dormia.
1.t's :rntcriores da caduquice. Olhava-o demoradamente e era preciso que
5^M('l l RA!

a filha a vicsse retirar para dormir. Quanclo da tcttcla dc oxigônio, imóvel r ('s l)c(plcnos, lror.rs para casâs corlro rrciuclas. Evitaria o cansaço da velha.

na Sofreguidáo da cura, encontrara muitas vezcs scus olhos, agoÍa morti- ( rtro clirr trataria do caso. Dobrou o 'Jornal do Comércio" e abriu o "Cor-
)r

r cio tlr Manhã". (Só à noite encontrara tempo para os matutinos. De res-
ços, fixos nele, como que para se redimir. Náo seria imaginaçáo. Acres-
centara o mesmo efeito ao pai, à máe, ao irmão, sempre indiferente, que t( ), ( )s vcspertinos desagradavam-no, ferindo-lhe o gosto pela sensatez com

se revezavam em acompanhar-lhe o sono. Gritaria se não temesse o esfor- ,s (ílrrl<rs em espalhafato.) Sensatos os tópicos da quarta pâgína, e o arti-
ço definitivo. O chiado do baláo, a capa que o recolhia em berço, como 1',., rlc fundo do redator-chefe. Sensato o noticiário internacional, a nota
em criança, infundiramJhe a sensaçáo de gravidade. E a única a ler seus .lt' O.M.C., e o informe sobre a carestia. Na seção econômica sorriu ao
olhos foi Flávia. Não lhe notara um apelo de redençáo. Havia em sua ma- v('r x cotação oficial do dólar. Da sala de música ouvia os dedos deLâzaro
neira (diariamente subia de Botafogo) mais que um aPelo. Uma ruga de .'rrsrriando o teclado. Fora-lhe benéfica a viagem à Europa. Alguns qua-
súplica que às vezes confundia com terror. Medo. Onde as horas de pales- . I r r rs bem vendidos corroborar am a certeza de que valera o gasto. Lâzaro

tra, de conforto? Os olhos do irmáo semPre lhe supreenderam os Pensa- nir() o preocupava. Flávia (passara a crise provocada por todos ao sabê-la
mentos, e neles havia amparo e compreensáo. nunl namoro inconveniente para os Albuquerques), vencida pelo massa-
Gélidas as relaçóes de família. Morno o carinho damâepasseando uma r rc clc seus sentimentos flutuantes, caíra em uma modorra que julgavam

ternura dócil pela casâ na obediência ao marido. Duro como um beijo na rr;rtural. Regozijava-se mesmo com o interesse que lhe despertara o ho-
testa o amor de pai.Lâzaro de boina e cachimbo enchia o tempo ocioso nrcnr que eles lhe queriam oferecer. Acinza era compacta e esboroou-se
entre tintas e o piano. Sonatas frias entorpecendo os silêncios de após- rr;r poltrona. Náo se mexeu. Seria a segurança para a filha e um nome.
jantar, enquanto avó Angélica sustentava na varanda os brasões arranca- Itt'stava o menor, Estêvão, uma incógnita, com certas liberdades justificadas
dos no Império, imprecando contra a dissoluçáo, e evocando Floriano. ('nr um estudante de Direito. Bocejo. Um carro freando. Flávia de capote
Só chicote, mesmo! .'rlguido e feições neutras voltara do cinema. Alegando frio retirou-se para
-Os olhinhos brilhavam enquanto o lábio inferior proietava a gengiva. , tluarto. Dr. Bastos aceitou o conhaque sugerido e, com o silêncio do
Rugas ondeando um nariz achatado. Preto o longo vestido que parecia 1r.ri, gozava a certeza de posse que um pâcto lhe garantia. Repuxando os
eternamente o mesmo, em contraste com o cabelo. Avó Angélicatraziano l.rbios na quentura da bebida, confortava-se com o benefício que a união
menear constante da cabeça um ódio que nem às orações se diluía. Acom- llrc traria. (Náo podia negar a presença de uma certa ternura por Flávia.)
panhava o genro na leitura dos jornais (os olhos quase fechados na mio- Seu pai
sempre se candidata?
- Não sabe ainda... Está um pouco desiludido... Abalou-se muito com
pia náo ousavam aventurar-se sós), acentuando com tiques os momentos
-
,,s riltimos ataques da imprensa... sáo deselegantes... afinal avida privada
de desacordo; náo aceitava as conquistas dos que ela englobava em "libe-
rais", estribilhando cada ataque à situaçáo com um sibilante "Só chico- ,lt' trrn homem... não concorda?
- As frases curtas, os cigarros fumados, a vista da cidade lá embaixo,
te mesmo!". À noite (dizia) oravapor um novo dilúvio. Serenidade na ruga
afetuosa com que a filha a conduzia para o sono, enquanto o genro inti- rrrrrrrclava-os com a sensaçáo de conforto.
mamente de acordo em quase tudo chupava um charuto bonançoso, na Agora os dedos cerrados ansiavam por insuflar vida. Aos outros o choro
fartura de quem curvara a vida. .1.' lrlivia seria o choro da irmã pelo irmão. O que ia além do afeto jamais

Boa noite, meu filho! ,r.,sirrrilariam. De novo a rigidez, a sucessão de maquinal rotina que em
-Acompanhava-a com os olhos apoiando-se no corrimão que a levaria rr,r.l:r alterara com sua mudançapara Botafogo. A casa dos sogros, e o
eo rrrrrlrrr superior. Fatigante, talvez.Já lhe haviam falado de uns elevado- .rrrrlricrrte era uma monótona repetiçáo da atmosfera que a aterrava. A
princípio irritara-se quando o irmáo um pouco mais novo lhe fizcra utttrt ('nrl);rl)ilndo os cílios. Aos outros nada pcrguntaria. Apenas à irmá. E a
que outra advertência. Depois descobriu pouco a pouco a lucidez das obscr- pcr'1lrurtrl cra grito, e grito scm eco. As mangueiras continuariam oscilan-
vaçóes, fora de molde, e a coragem das afirmativas. Estêváo era um etltc ,1,r collro, todos os galhos, e todos os cabelos. Como os cabelos de Carla
de fora, de além-muros. E os sonhos que tinha e as frustrações, as idóias ,1,'s.t'rrrlo a escadaria do teatro para encontrá-lo, como as palmeiras do
loucas (para os outros) e os vôos não feitos eram compartilhados aos do- l.u tliru llotânico que náo se cansavâm de fitar (conseguira com Flávia que
mingos (quando pai, mãe e avó iam à missa. Lázaro dormia da noitada), ( ..rr I:r niro o visitasse. A irmá transmitia-lhe sempre notícias, de que estava
na varanda entre o cafê, o cigarró e os jornais. Projetos. Amores. Futuro. rrrcllrornndo, mais uma semana, mais duas). Consciência de asas cortadas.
Soube de Carla, italianinha miúda e morena, de cabelos em leque e pretos l)(' coisa que se esgota. De vasilhame prenhe que um Íuro faz escoar. Se-
sobre a suéter que usava após os ensaios. Falava de Aníbal rodeando os r r.r bclo erguer novamente e ir ver Carla nos fundos da loja em que o imi-

subúrbios para encontrâ-lanaSaenz Pefra, e do banco em que sentavam, e ,',r':urtc martelava solas. Conversar com Giuseppe sobre as eleiçóes na Itália
das crianças que lhes sorriam nas gângorras, e dos cinemas, e das despedi- ou rl g,uerra da Coréia. Afundar os olhos com senso de culpa no monte
das na esquina da Uruguaiana paÍa que ninguém os surpreendesse espe- crrrlrocirado de sapatos, enquanto o velho renarrava Sacco e Vanzetti. Um
rando iuntos o bondinho Silvestre. Quando o massacre iniciado pelo pai ,lrt'ir'«r de gordura atravessava as prateleiras e longas tiras de espaguete se
se desencadeou náo encontrara forças para ouvir o irmáo. Seria deixá- r'.,prrrirrriam em algum prato. Carla viria sorridente, macia, a suéter dese-
los. Teve medo da solidáo. rrlr.rntlo um busto precoce. O bonde para o teatro. Sáo ágeis as pernas de
Medo do mundo. Talvez medo de ferir a trama dafamília. E de olhos ( ,.rrla, rijas as coxas. Vê-la-ia em noite de gala voando e vergando como
baixos, a medo ainda, cruzou a sala de jantar em direçáo ao quarto. Sentia rrrrr brunbuzal açoitado.
(e se virasse o rosto, a cefteza) que da boca fechada de Estêváo vinha um Não tenho pecados, padre!
sopro de revolta e de culpa lançada. Depois suportou o namoro e o noi-
-(lortaram-se bruscas as lágrimas dos que lhe cercavam a cama. Avó An-
vado imposto. Os passeios insossos de automóvel e as banalidades de 11t:licl contraiu os lábios e cessou de menear a cabeça caduca. Frei Jonas
Alberto. No início reprimia a raiva. Depois acomodou-se. Os chás em .rt:rlrrrra de entrar paÍaa extrema-unção. A frase, um minuto antes de se
Botafogo com os pais dele tolerava-os apesar do horror ante a repetiçáo r «'t ir:rrcm, acentuou rugas e não encontrou eco.
Queda surda. Estêváo aba-
que o ambiente anunciava. Depois, na certa mudaria. Ainda Estêváo ten- l.rr',r os fundamentos e princípios dos Albuquerques. Se fosse Ieve o ferimento
tou dissuadi-la. E só há uma semana viera a conhecê-lo por completo, ti' l«r-ia sedimentado melhor. Por certo viria uma repreensáo. E a rotina
quando a ambulância juntou multidáo à porta da casa (viera ver a máe e a v,,lt:rria como conseqüência. E avó Angélica retomaria o estribilho: "Só
avó), e a maca entrando no quarto desvendou o corpo ferido do irmão. t f rir'otc mesmo!" Náo o era. Tinham a cetteza. Nem milagres esperavam.
Depois os jornais. Os colegas. Impossível evitar a romaria, até que por (
Jrr;rrrclo frei Jonas chegou entreolharam-se na muda compreensão do irre-
ordem médica foram vedadas as visitas. Grávida, sentia o emparedamento rnt'tli;ivcl. (Flávia náo chegara ainda.) Um sentimento de cumplicidade prin-
total, e a perspectiva de aniquilamento. t rlri:rrr a fazê-los tremer, fustigando-os como a um bêbado a quem se quer
E a vida? .lcv<rlvcr arazáo, A morna contemplaçáo dos dias precipitara uma atitude
-Inaudíveis os chiados e cochichos na sala contígua. Os vultos cerrados .rl'r t't'rrsiva, hesitante. Entreolharam-se apenas. Frei Jonas tirubeara com o
dos seus ondulavam pela casa em estranhas curvaturas. Flávia parecia boiar rrrcsPclxds, sem saber como terminaria. Acenou para que se retirassem.
ern algum rio com as formas oscilantes, e o rio erâ seu mesmo. Pressionou As palavras mansas do frade despertaram outras, semi-roucas em pros-
os dcclos tentando impedir as lágrimas, dar-lhes curso. Teimavam em boiar t r.rçir«r. Uma ternura que falava de coisas divinas e atraía coros angelicais.
A mão que afagava a testa buscava inocular calma onclc náo havia torturrr. .lt'(}rrlrr cluarrclo (o autonróvel ficava um pouco adiante)a procurava cm
A obstinação do moço, apesar da crença afirmada, em negar-se à con[is- ',uir crsrl; Giuscppe parava o trabalho c sorvia as palavras ouvidas. E as
são, ia diminuindo o ímpeto das frases. Dois vincos paralelos, das asas ckr r rPpc5ri(;gs de revolta encontravam eco nas máos torcidas da velha que
nariz ao lábio inferior, marcavam o rosto de freiJonas, quando, em quilsc ,lrt'1,,rrrrr cla cozinha. Eram tristes as voltas dos ensaios paraCarla. Só no
grito, Estêváo lançara o seu argumento: ll rrrrlc procurava repetir infinitamente a cena que os jornais narravam. E
sou MoÇo, PADRE! .r lorçrrr uma ilusáo, temerária, de que tudo era falso. Havia porém a au-
-A pausa marcou a cabeça inclinando após a exaltação. As veias dilata- ,.i'rreia que náo permitiria dúvidas. tistes as tardes em que cansada bus-
das recolheram-se. Um engolir em seco, e de novo avozrjá mais rouca. (:rvrr i.r casa. Curto) agota, o caminho que antes se alongava em vOltaS e
Falava do que lhe iam roubando, da alegria que há no viver, de esperan- r()r'r)cios até que se extinguissem as palavras. E depois das palavras havia

ças, sonhos, de amor, de amor mesmo à prostituta, porque é ainda viver. .,s silôncios, pois a ninguém perturbava o linguajar dos dedos enlaçados.
De Estêváo jorrava a ânsia do inocente condenado. E a firmeza do ser puro, N;rrlrr clissera a ninguém, nem a Flávia.
ainda frente a Deus. Máos cruzadas, frei Jonas desviou os olhos do cruci- Iraltara à aula e tomara o bonde para Santa Teresa. Quantas vezes ron-
fixo pendente e fixou-os no parque se desdobrando da janela. Quatro rlorr â casa, náo o saberia. Procurava, através das varandas, ou janelas
horas, talvez. Além do portáo um bonde com os pingentes cheios. Cantei- . r t rcrrbertas, a figura convalescente de Estêvão, apoiado em alguém. Nada.
r

ros com sinal de abandono, e a fonte seca. Pedaço de céu molhado. Estrias Vrm uma velha de preto que devia ser avó Angélica, pelo que ele lhe havia
brancas e avermelhadas esbatendo em azul. Dedos ensaiavam dó-ré-mi em t,rrtrrtlo. Oscilando na cadeira de balanço afastava as contas do terço.
algum piano da vizinhança, enquanto um prefixo forte encerrava a nove- li'rrtou divisar no parque a mangueira pois sabia que a copa fronteava o
la. Dois pardais cortaram em diagonal a janela e sumiram na mangueira. (lu:rrto de Estêvão. Impossível distinguir qual delas. Passeou os olhos pe-
Fechou os olhos ao ouvir os soluços vindos da cama. E com os soluços a l( )s cilnteiros, fixou a roseira, o pé de jasmim (um reflexo brilhou nas se-

afirmaçáo de pureza. Seus lábios ensaiaram uma oração que se perdeu no nr('ntcs dos girassóis), viu a fonte seca. Junto à varanda (onde arranjara
início, quando acentos duros substituíram o lamento. Acusava. O rosto l()r'çrrs para transpor o portáo?), ciciou qualquer coisa que a velha com-
de frei Jonas tremeu na dúvida. Cansaço e tensáo sumiam as palavras. Só l,r't'crt«leu.
os silêncios as tornavam audíveis. Olhos nos olhos. Mas por segundos. Estêvão!...
-Olhou-a balbucio do nome, e nos olhos a expres-
Frei Jonas náo suportaria por muito tempo a caÍga brusca no olhar de agitando a cabeça no
Estêvão. Quando nada mais feriu o silêncio, seu corpo arrasado procurou ,,.ro rrcutra a transformar-se em ódio. Rugas flutuavam em torno da boca
a porta em busca de alívio. , ,,lr«rçando as sílabas. ArrependidarCarlasaíra em correria, com o sangue

Flávia ergueu a cabeça na redescoberta. À pergunta só respondeu lá- .r trrbcça, só parando alguns quarteiróes abaixo ante os olhos assombra-
grimas. Quando Lâzaro lhe narrou a cena com frei Jonas, calara. Só a .1,,s clos transeuntes que a miravam.
mudez daria sinal de participaçáo no gesto, e na coragem. Ninguém ousa-
- Estêváo?...
Bem melhor, Carla... (a mentira obrigava Flávia a usar pausas pro-
ra insistir com Estêváo. Cabisbaixos conheceram o desespero náo imagi-
-
l,,rrgedas) o médico deu esperanças... uma semana... duas... talvez...
nado. Lázaro era o único afalar e a receber os parentes que enfileiravam
carros e se amontoavam pelas varandas e salas em cochichos e tristezas de No automóvel chorava de manso para evitar a intervençáo do chofer.
conveniência. Impacientes marcavam os minutos para a precipitaçáo, en- ( lroravâ por Carla, pelas mentiras, e por si mesma, pelos amores frustra-
quânto frases de alento cortavam suspiros. Participava dos sobressaltos .l.s- Carla, a quem os Albuquerques jamais receberiam como familiar. Os
SAMIJt I RAWI I

Albuquerques. Como desiludi-la? O carro dcixara os subúrbir)s Cc t()nr;u'it


avialargapara o centro. Seco o pranto conservava em repetição (o trt:t lro
do noticiário radiofônico, mais contundente que as dezenas dc colrrrr;rr
dos jornais. Acadêmicos da Escola de Direito. Passeata de protesto. (lrs
têváo sem esperanças.) Encontra-se grduernente ferido o acadêmico listi. Noturno
uão Lopes Albuquerque. Estêuão é filho de tradicional família carictctt t,
cursdua... Dentro em pouco Botafogo, a casa, os sogros, os objetos crrr
que tocava sem afeto, o marido com o olhar terno e o beijo respeitoso. Os
Albuquerques!
Crispaçóes mais firmes despertaram dores nas máos de Flávia, que sc
reclinou sobre a cabeceira. A pergunta feita duas vezes esboçava-se nova-
mente, inaudível. O esforço retesara as veias da garganta afundanclo
concavidades sob a mandíbula. Olhos de terror violentando as pálpebras. tIrn choro de flauta. Além o esboço de varanda, sem parapeito, ainda,
temores no corpo. Em desespero lançou-se sobre o irmáo ao ver-lhe <l .r rrrclinrrçáo de um monte, prismas deformados de concreto e um cinza
meneio de quem pretende se erguer. Sabia o fim, jâ. Debateu as mãos ao 1,..s;rtlo de céu chuvoso em quase noite. Náo pensar. Pleno o
pulmáo, rit-
sentiJas quase furadas pelas falanges duras. Evitar a loucura. E antes da nr.r.l«r, alternar os dedos num pranto.
imobilidade ouviu pela última yez a peÍgunta que repetiu num grito. E depois?
Avalanche de passos e carpideiras, gritos e murmúrios. Nossa Senhora e
-O lábio superior afrouxando do bocal, e um canto de olho no corpo
r.stir:rclo na rede. Máos agredindo o vazio enquanto a cachaça girava em
Jesus, e choros pelavez primeira autênticos.
No parque deserto, as mesmas mangueiras continuaram dobrando .,r'rrricírculo (acocorados, olhavam o lume requentando café). Tijolos em
galhos na mesma visão do relógio da torre, lá embaixo, e no ar, sem ouvi- rrrorrlículos, algumas fileiras dispostas. Tábuas soltas. À pergurta do ve-
dos, a mesma pergunta, repetida: llro urn murmúrio no silêncio. Tosse violenta, sacudida. Em pouco as bra-
E a vida? .,.rs,los cigarros oscilariam na penumbra. Foguetes estourariam os tímpanos
- r. ptls se arrastariam dançando em quintais suburbanos. O olho fechado
nr:u'cou o ritmo, sem pensar na resposta. Fosse tempo de lágrimas e algu-
nr.rs saltariam. Rastro vertical de balôes gotejando. O corpo doído aquie-
t,rrrr-se, máos cruzadas sobre o cinto. Uma inundaçáo vinha de dentro
t.strurcada pelas gengivas. O barro do rosto enrugado oscilava entre a pa-
lrtlt'2. opaca e os reflexos de suor caminhando em rugas. O tempo. O tem-
1,o. lincaixado entre pisos, acima da rua. E o preto na
flauta nunca daria
rrrrre solução ao desespero.

**rf
5AMUtI RAWI I

É só uma ida! Coisa de mcscs!


-o rosto - l: clcpois?
da velha se ergueu no desânimo) em rcsposta. cotove los crr- (.ontírruo e triste volteio do choro abafando a exclamação. A face do
tre as coxas, dedos alisando abarrado vestido, náo tinha mais qr-rc os ollr«rs, u('l',t'() oncltrlava enr penumbra, dedos crescendo e baixando, tenteando,
enormes, na cabeça miúda. De palavras, mesmo, nunca precisara. S«rl rrrr ,,,rrrp:rssnclos, finos, contrastando. Gemeu impelindo a rede. Pensou em
gramL e o gato lambendo a pata magra, retesando o dorso anelado. Mc-
1,, tlir 11rrc acendessem a luz. Desistiu. Um foguete estourou sua carga de
ninos morreram os filhos. Nem mais o ciscar de pintos nervosos ocultrs r r'lx't iç[6. Amanhá passaria o dia todo inerte, mas depois! A idéia do hos-

no capinzal. A luz esbatida nos cabelos sem cor atenuava contrastes. vi-
l,rt:rl etorrnentava-o, nunca precisou disto, depois, diziam, não era fácil.
nha com sangue a resoluçáo. os olhos suspensos surpreenderam os clclc r\rt' r;rrerrdo trituraria sua dor com os dentes enquanto recebia os baldes
fixos na imagem de cristo, e as palavras chegavam de viés, em rompanrcs tlc eoncreto do guincho e passava-os adiante? As pálpebras caídas, esfor-
roucos. Ausência de coragem debilitando a Íkmeza. Rouquidáo sugerin-
\.rvir'sc em redescobrir as feiçóes da imagem pregadatáo longe. Gostaria
do cansaço. Modorra a ser vencida por qualquer gesto. Não lhe conhecessc ,1,' rrrorrer com o conforto de sua imobilidade. Rabugice, quase manda
os silêncios e talvez esperasse dela um som, um sussurro. Teria oportuni-
l).u'irr il flauta; uma indolência o contém, e a sensação de bem-estar que
dade de, na busca de cúmplice, expor o porquê da decisão, apesar dos llrt'tli. E de evocaçáo. Náo lhe fora difícil conseguir trabalho. Apenas a
anos âcumulados. Aliciaria uma vontade que temia ferir. Cedo percebeu a rltrsrr<r se dobrou nacerteza de uma realidade menos amena. E agora o
inutilidade de argumentos. Aos dedos intranqüilos que alisavam a barra
1r.srr rrrriando a rede faziaranger os ganchos. Náo mais as visões de retor-
do vestido seriam desnecessários, já que, juntos, sofriam as conseqüên- rr,, t'rrfórico, mas a ceffeza do fim idêntico em paisagem estranha. Outros
cias. Tivesse filhos homens e poder-se-ia deixar ficando a seu lado, que ,,., lrornens, outras as mulheres, outros os galhos pejados alinhando meios-
nâo Íaltaria o sustento até que seus braços fossem outra vez chamados ao lr, rs. IInr pandeiro desperta na sombra e agitao trinado da flauta. A corda
trabalho. Mas náo. E agora (fora adiando, adiando), só o fim o reteria. o ,lt' unr violáo rasga os murmúrios, despertando vozes. Em outros pisos
perfil endurecido comunicava à velha o esforço do homem. poderia, fa- nr.rrcrrra compassos com os pés bem ligeiros e os olhos das moças pisca-
lando, incutir-lhe a esperança no crucificado, e tentar retêJo, pois que a r.rnr cle espanto. Antigamente. Irritava-o a luz da lâmpada, sem anteparo.
viagem em nada se distinguia da morre. Idéias vagas e resignação impu- llrrr coro ensaiava animado palavras ouvidas. Os chiados das solas davam
nham-lhe o sentido pecaminoso da revolta. E a fuga, temporária, era des- rrr,'tlida da altura da cana na garrafa. Até quando? Até quando?
crença. Quando náo, haveria a idade. começar outra vez em terra estranha? só uma ida! Coisa de meses! dissera à mulher.
E se lá também um sol duro reduzira os homens a bandos silenciosos em -Na Émaleta -
de papelão enfiou a roupa, uma imagem de N. S., folhinha
busca de outras terras, e outras e outras, até... A limitaçáo do espaço em sua .lc rrrrnazém, e abraçando a velha náo fez meia-volta. O gato disparara e
mente fê-la reter o pensamento, na impossibilidade de conceber essa con- nunrr-r nloita espreitava. Na estrada um caminháo impaciente. Um grito
tínua andança num mundo infinito, para ela, Havia um sentimento infor- ,,lrsccrro. O estômago embrulhando nos solavancos. E quanta tercavazia,
me na visáo dos pés da cor do barro. O ventre de tantos partos contraiu-se rrrt'rr Deus! E aluz que não apagam? Um papel de cor, pelo menos. Pedir
com a ida do homem. Pela primeiÍavez só. No mutismo bastava-lhe o .' incomodar. Outro foguete. S. Joáo com flauta, pandeiro e violáo. Um
grunhido da boca barbuda fumando à noitinha, afirmando a presença 1i,,lc bcm que afastava as idéias e, talvez, trouxesse uma lágrima. Nem
humana. um menear de cabeça impregnou-a novamente com a visão do l,t lrcra nem chorara após o bilhete. O negro lera com as máos tremendo
gato retesândo o dorso anelado, em arreganhos para o ar. E as ancas pon- .r rr,tícia da morte da velha. Um grunhido, apenas, ninguém ouviu. "Um
tuclas indicaram-lhe o silêncio e a complacência.
li,,lc." Morta a velha o gato rondaria a casa arranhando as tábuas, exibin-
WÉT

do as ancas duras e os anéis do corpo. Ou, quem sabe, também morto.


Pisca, e diante dos olhos um gargalo escuro. Garras leves fazem cócegas
na laringe, e o estômago se contrai. Com a boca cheia vai impelindo um
filete lento que o reanima parcialmente. Náo o incomoda mais a luz. A
garrafa está só entre os dedos já que outras máos reforçam o ritmo. O Consciência do mundo
jeito é emborcá-la e repetir o vaivém aré o porre.
Estranha mobilidade dos prismas no vão aberto. Uma noite densa vem
do monte. E pequenos flocos pontilham as placas cinzentas. Àvontade de
urinar, um pé desaba paruforada rede, e a ponta inicia um balanço. Mas Oh! meLt Deus! Não estaria ele na posse
o corpo se ampara na força dos ganchos. contraste na letra cantada e no de forças que era necessário utilizar?
jeito risonho da boca dos homens. Diabo de tijolo! Segura-se no pilar, e
Ntr,rs LyHNr
esfrega a testa nas rugosidades, sacudindo a perna dolorida. o piso cresce
J. P. Jacobsen
na direção dos olhos, mas as palmas abertas amortecem a queda. Grãos
de areia penetram na pele endurecida, e estrias vermelhas despontam jun-
to ao polegar. Torpor ao se erguer. Entorta-se o cano de chumbo penden-
te, e o pescoço recua, dolorido. Mais quente e animado o choro bem triste
ressoa na laje reflexo dos pés em golpes ligeiros. Nem meia-volta. Um Morreria. Aterradora ceÍtezahá tanto alimentada. tansparente como
abraço na mulher, a estrada, e uns olhos de esperança na terra vazia.Pare- o frrrsco suspenso graduando-lhe o soro. Pasmava-se com o espanto ante
ciam molhadas as paredes, erguidas a meio. Mas em instantes. As gotas ,, irrcmediável, e ele que nunca se poderia espantar já que há anos aidéia
que ultrapassavam a boca, e se infiltravam na língua, cedo dissuadiram- tlu nrorte bitolava-lhe os pensamentos em horas de crise. A questão é náo
no da ilusão. Um pranto acompanhou a máo que ia à braguilha. Estacou t'onrunicar. O instante de solidão acelera-lhe o pânico da lucidez. No quarto
na abertura que, como poso, escondia o fundo. Tempos depois guias e vizinho o cessar da cadeira de balanço indicava o cochilo da mulher, que
contrapesos conduziriam elevadores na monotonia das ascensóes. Agora, :r rroite toda não largara sua cabeceira. (Só agoÍa avalia o cansaço que re-
um ponto negro vinha do fundo e, se agigantando, entrava em choque prcsentava para os outros.) O amigo descera, por certo, na busca de algum
com a luz da lâmpada distante. A vonrade apertou. Livre o último botáo, rcmédio. Quantos dias em modorra cansando e cansando-se? Morreria.
arriou a testa no hábito de infância, e, hábito ainda, dobrou o corpo. Morreria. Um hiato na desagregaçáo. Consciência de último instante, re-
Grito. Silêncio. Correria escadas abaixo. nranso entre vagas. Peso de incompreensão arrematando o gesto inútil.
Só o negro, sentado, enxugou o bocal, virou o gargalo, inspirou forte, Toda uma existência. A cabeça inclinada, os membros frouxos, a mulher
como quem sonda o ar, o branco dos olhos bem branco, e retomando a cochilaria exalando cansaço. Cansaço acumulado. Longe a face larga, fu-
posição dos dedos, fez soar a flauta. reda por olhos grandes, da filha. Máos firmes, engrenadas numa ordem
clue náo o compreendia, tratariam de conduzi-lano esquecimento do pai.
As últimas semanas jâtraziam os olhinhos de medo à beira da cama. Au-
sôncia de coragem para debruçar-se. E frieza (por que esconder apalavra,
por quê?) naface tremida ao beijo. Saiote curto de tafetâ sobre duas per-
nas socadas e morenas, corria ao outro aposcnto, golpcando-llrc rr rrlrrr;r l,«rngc a voz da niãe e a nrútua solicliro dos marginais. Filho talvez náo
com as passadas. Quentura de verão pela janela fcchada. Duas ranrp:rs c()nl , lr.rrrrrrtlo, arrastarâ o estigma da cxccçáo. O aguçamento dos sentidos
vegetação rasteira, a emoldurarem o eucalipto, encaixavam-sc no virlr.. .rt crrtrrrrva-llrc o ser marcado, e, sem o saber, veio ao leito com o despoja-
acima daveneziana. cheiro de mato em amálgama com os remó«li,s. N;r nr('nt() rlc um santo. Ah, a tortura de sentir na carne os pecados dos outros.
convalescença ilusória enveredara com a filha no monte e maravilhrrtkrs -- .feno!
descobriram a queda. o fio dágua da grossura de um braço escorria nr.lt. lrrg,ucu a face na indolência. Horas a roçar no banco em gesto vazío.
entre dois pedregulhos, sem ruído quase, perdendo-se num declive nrrrrr- ( .lrilrclr na ramagem em contraponto.com a fumaça expelida. O capote
so. As máos em concha interceptaram-no com um chiado e o riso rlrrs .lr' ;rlxrs erguidas trazia com o chamado o rosto claro exalando uma ale-
pupilas refletia intensamente na face líquida à borda dos dedos. Mcrgu- 1ir i;r tristonha. Buzinas. Matraqueado de bonde em ladeira, e a imponência

lhou sua boca na concavidade e beijou as palmas úmidas que estalaranr rh r c«rncreto armado agasalhando fartura. Timidamente confessou-lhe nada
em respingos. com os joelhos à altura do nariz e as pernas suspensas so- t('r'conseguido. Das cartas que trouxera nenhuma restava, e dos homens
bre os ombros trouxe-a de volta, sentindo na nuca o arfar de seu peito, c .r (lucnl se dirigiam, só promessas e apertos moles de máos apressadas.
nos cabelos como queimados os dedos se enrolando em cachos. Mãos fir- llrrr;r semana de casados e a insegurança abençoando-lhes os passos. A
mes a imbuiriam de sua inutilidade. E em váo a soluçáo, porque a hora ú ,.,,lrrçiro é caminhar abraçados no conforto recíproco que vem dos silên-
dos outros e náo dele. Desnecessário um gesto a alterar-lhe o equilíbrio, , rr»s. E aspirar os dezessete anos que seus braços amparavam.
acelerando o fim. Imóvel recebia já sem dor o fluir lento do soro. Estáti-
cas as mãos impotentes, mas na ruga da boca a eterna busca do fulcro para
-l)o Jano!
nome apenas ficariam os papéis acumulados nas gavetas, e que
mover o mundo. .rl11rrn dia amigos reuniriam.
Oscilaçóes na memória. Fugas constantes aos sorrisos moles a ofere-
-AlémJano!
o bambual farfalhando ( ('r'cnr vantagens em troca do esquecimento. De queda em queda. Ruína
os galhos miúdos, à esquerda o descam-
pado pantanoso lanhado por drenos, e entre o quintal e o córrego as qua- lísicr em passos hesitantes. Silêncio na cadeira de balanço do quarto vizi-
tro paralelas de topo reluzente aguardando a passagem dos trens. os olhos rrlro, e na escada, a denu'nciar a ausência, ainda, do amigo. Sem alteraçáo
inquiriam as nuvens esgarçadas sobre o turbilháo que manchavam os pa- . Í'rrrsco de soro. Os sonhos. Máos imóveis que outras vezes expulsaram
péis amontoados a seu lado. o calor punha-o em estado de sonolência 11r itos de labuta inatingível. Náo morrer agora, quando hâ tanta coisa a
no
fim da tarde. A tepidez envolvia-o, incubando a irritação de blenorragia .lizcr. Tüdo. Esquemas amontoando-se em gavetas. Outros gênesis intrans-
recém-despontada. chamado da máe. A roupa no coradouro, acabara Icr'ívcis. [rremediavelmente. No teto caiado de branco os olhos fizeram
de
varrer o interior, e sobre a mesa ia dispondo os pratos. ( ('ntro imóvel.
Jantar cedo, à luz
do dia ainda, que de noite o bruxulear do lampiáo a querosene carrega- h, nas duas faces as rugas da boca na eterna busca do fulcro para mo-

va-os para a cama e para o sonho de outros tempos. um coaxar ininterrupto v.'r o mundo.
clc sapos e o impacto intermitente de roda no trilho. A lucidez
do raciocí-
rrío e a pureza das intenções projetavam-no diante de si mesmo como
pr.fcta e ver o dilúvio e a amaldiçoar os que pactuavam na corrupçáo.
lii lt r. rlo nrundo sentia ecoar em si as torrentes no choque absurdo. E uma
irrsirr tlc grito parido em revolta.
,1,, Nt'rr scnlprc falava logo. Na pausa ouvia-lhe a respiração perturbada
1',,r .r11,,rrrrr cacarcjar ou latido, ou ainda um grito longo que descia do
r, ,r r( ), lirilo clc molcque soltando pipa. Nesses intervalos, quando um calor
,1, ,,,,1 rt' porrclo aquecia-lhe o corpo, gostava de ouvir o canto da serra
Salmo 151 i r r ul.rr', tlc um madeireiro próximo. Gemido sem dor. Queixume. Lamento
.,r rr r ('v()lti.l. E quando o vento eraÍavorâvel, vinha-lhe devez em quando

, , , lrt'iro clos troncos verdes, ou da resina esvaindo-se dos lenhos, fazen'

,1, , . r t'stprccer os anos da respiraçáo sufocante, dos acessos de tosse, pro-

,lrrr, tlrrs chaminés e das valas do curtume. O fedor dos poços, dos tanques,
rrrrr :r1',ilrrr de asas agourentas.
--- [Im filho de Davi, porém...
"Vclho sem religião", dizia-lhe a filha em certas horas, com leve nota
A face negra de Gamaliel ergue-se da Bíblia para ajanela. Entardecer .ru.u.rlll alterando o tom jocoso. Sorria antes de mergulhar num silêncio
de outono, uma brisa a ÍarÍalhar o verde das bananeiras, a asa cinzenta ,lt't isrrrrls prolongadas. Havia um cansaço em seus membros e a modorra
que risca o espaço na direção do pombal. os olhos ressentem-se da leitu- rr.r t ;rlrc:Çâ. Nenhuma vibraçáo. Nem desejo s de zanga lhe vinham. Acredi-
ra na penumbra, e as pálpebras recuam no contato com restos de luz. Es- r.r\';r rr:-r sucessáo dos dias, pela alternância de sonos e vigílias, e imagina-
frega as palmas calosas no rosto, acompanhando com os dedos o suspiro. r'.r ()s ora belos ora tristes. Um calor nas pálpebras dava-lhe sensações de
um dedo fere o violáo. velho caetano no banco de palha sob o puxado .,'rr :lzlll, reminiscências de nuvens esgarçadas, que um pio de ave amon-
vizinho ensaia umas notas. Num dia comum Gamaliel sairia da cadeira r();rvrl em flocos brancos. Amava entáo os ruídos, e distraía-se em indivi-
junto à janela, e iria ter com caetano, na tentativa de conversáo mansa. ,lrr.rliz.á-los. Localizava-os numa topografia particular, partindo dos sons
Lúcifer domina o mundo! I'l.rrrr;s, ascendentes ou descendentes. E tinha o morro, aladeitaras esqui-
-o rosto do velho náo se alterava. comprimia os lábios com mais for- n,rs c os quintais. Náo chegava a odiar os dias de chuva, entristecia-se,
ça, oscilando o cigarro preso. Nenhum movimento. Agradava-lhe a voz ,f l)('nas. Era obrigado aÍicar no quarto, quase sempre na cama. A umida-

grave do negro (sabia que era negro porque a filha assim o dissera) man- tlt' tirava-lhe o ânimo, nem mesmo tocava. Saía um pouco da sonolência
sa, numa fala suave, com finais de frase um nada cantantes, lembrando o ,;rr:urdo cessavam as pancadas de chuva nas telhas, e distinguia avazáo
bordão que seu dedo alisava. sentia-se um pouco triste, às vezes, ao per- .rcclcrada das valas, e o chiado de cascatas repentinas em alguma riban-
ceber que os esforços do companheiro náo conseguiam arrancâ-lo de sua t t'ira. Um odor intenso de tabatinga a devolver-lhe uma infância distante,
obstinação. Inteligente, aquele negro. As frases vinham com facilidade, rk'cobras, barcos e monstros, de um amarelo sujo secando ao sol. Agitava
enquanto ele moía umas idéias parcas. ouvia com gosto a saudaçáo de crrtáo as pernas, expelindo alguns restos de dormência, lembrava-se do
longe, e afrouxava as feiçóes quando percebia que os passos estavam mais 1i«rsto do cigarro que a inanição lhe tirava, e estendendo o braço comprazia-
próximos. sc com os sons despertados, pelos dedos tamborilando, no oco da viola.

-PcloAbanque-se!
arrastar da cadeira sabia para
l'rincipiava uma cantoria monótona, sem articular palavras, grunhido de
onde dirigir sua atenção. Girava .rlgum resto de toada. Raramente tocava mesmo. Bastava-lhe a presença
scrr lrrtiprio banco, e, força do hábito, tinha a ceÍteza de o estar encaran- tlo instrumento, e a possibilidade de acariciâ-lo,retesar as cordas, golpear
de leve uma ou outra, e mais do que isso, sua cxistêucia ali, com clc. APc.
1rr'rrtkr elguma narrativa que náo podcria compreender, e o que lhe conta-
go nos dias de solidáo, que eram todos os seus «Iias.
v.rrn nrrcla tinha a ver com o casebre de dois cômodos, os varais além da
... descerâ daCruz.,,
-"Velho ;.rrrclrl, ou o batuque do terreiro, no morro, durante as madrugadas. O pai
sem religião." Nada Íizerapara perdê-la, tinha a certcza. Al)c- ( ( )\t llnlava erguê-lo nos braços, seu corpo quase roçava o teto, bradando
nas se aquietara na apatia serena que náo exige maiores explicaçircs, .,('u rronle com um orgulho que os pés aflitos teimavam em ignorar.
fruindo dos sentidos ainda vivos as alegrias que antecedem o corpo nror- ... enquanto os anjos pairando num céu de diamantes e marfim
to, a carcaça focinhando a terra. E o negro lhe falava de alguém quc jí r'r r Ir
-l;rrão aleluias...
vira em procissão, quando menino.
Um soluço de Lígia atravessa o quarto e chega à sala. A dor náo se
Persistem as notas no ouvido de Gamaliel, mas ele náo se erguerá para ('\t(:rna em sua face, deslocando-se no interior. Esboçava constantemente
a conversa do costume. Tenta fixar os olhos em algum ponto, enquanto
unn interro gaçáo que náo tomava corpo. E a ânsia era de gritos. Um, pelo
os dedos alisam acapade percalina do livro. Nem mesmo os hinos de quc
nlcnos, gigantesco, que fizesse tremer os arredores, na mesma escala de
tanto gostava lhe vinham à memória. Cantava-os em voz alta, entusias- srrrrs emoçóes. Durante a guerra, enquanto os amigos da fundição acom-
mando a sala com o acento sentido. (No quarto ao lado, Lígia dobraclrr
p:rrrlravam com mapas os avanços das tropas, só lhe vinha à mente a Bes-
sobre o berço de Isaías, chorava, às escondidas. Por quanto tempo, ain-
t:r. ()uando um deles o procurou com uma lista de adesóes para uma greve,
da?) Gamaliel pensa em caetano. "velho sem religião." Mas era difícil
sri e ncontrou como resposta um versículo de salmo.
associar o Demônio com o velho que o ouvia em silêncio, fumando, ti-
... e os Arcanjos, os Principados, os Querubins, os tonos...
rando uma nota. De repente, em alguma pausa, via-lhe a cabeça girar son- -Caetano gostava de ouvir aqueles nomes naYozgrave do negro. Instin-
dando o espaço, as narinas um pouco dilatadas. Depois, sem ligaçáo com
livumente os dedos embalados corriam as cordas numa antecipação de har-
o assunto começava uma história que raramente ia até ao fim. pus fuflrras. Quase sempre provocavam uma pausa. Gamaliel, fitando-o,
Não sei se em 1.927, ou 28, eu trabalhava na colocaçáo dos trilhos
- l)rocurava uma justificativa para a serenidade do velho. "Velho sem religiáo."
de bonde, que naquela épocaterminavam bem antes do bairro. Isso aqui
Mcsmo quando blasfemava, náo podia vislumbrar a danaçáo que lhe apla-
era mato fechado, nem picada. A estação, uma pracinha suja, porca. Mi-
crria o Sentimento contraditório. Via-lhe a cabeça erguida, às vezes encos-
nha filha deve se lembrar. Morava perto do lugar onde botaram agora o (rva a nuca na parede, aface parada, um rosto de bronze fundido pelo sol,
curtume. Uma fedentina. Depois... com malhas estriadas.
Gamaliel se acostumara. Participava dos silêncios que sucediam a es- Falava com a fumaça sain-
Meu pai gostava de contar esse caso.
sas interrupções. via o menear insistente da cabeça do velho, como se - -
tlo-lhe pelas narinas e pela boca. Um intervalo. Coçava o queixo mergu-
estivesse terminando a história para si mesmo.
lhando os dedos na gola, e parava um pouco em cima do ombro. O cigarro
- Náo, Gamaliel! Não pare! Continue falando... Caduquice...
descerá da Cruz, iluminado por mil sóis, tendo à sua direita
cspetado nos lábios oscilava com a salivação automática.
Saíra do sítio onde trabalhava, perto de Rezende, meu pai nasceu
salomão e o anjo Rafael, e à esquerda todos os santos gloriosos, e com a -
lá, com dois cavalos para um carregamento. Isso de noitinha, que era coi-
face dourad a chamarâ os justos...
su de muita pressa. Com uma hora estava lá, num passo aPertado. Voltou
lsaías náo completara um ano, ainda. E seus olhos imensos no rosto
rroite fechad a, já, ocavalo escumando no galope, com as ventas inchadas...
negro despertavam sorrisos largos em Gamaliel, e cantigas em Lígia, sua
Da janela Gamaliel via o anoitecer lento. Mais um pouco e Caetano
mulher. Seus dedos hesitantes mergulhavam nos lábios grossos, interrom-
cleixaria o puxado, e entraria. Teria a noite dentro de sua noite, como
CONÍO5 DO IMIC

quem sonha que está sonhando. E o filho, no qurrrto, íindaria a r«rtttl;t nrtcn\.t() rlc tcrnura. Sobrava apenas um Sarcasmo estúpido, doentio, a
dos últimos meses pelos corredores de hospitais e clínicas, dcixluttlo rt | \ rl',rr rrrrr csforço para a frase.
figura do pai projetada num muro imenso, alto, opaco, os braços crgrri Oorrtc, Gamaliel, conte novamente)para você mesmo, a história
dos, mas sem seu corpo, bradando seu nome, mas já em outra clintcrt ,1,
'.. r\rrlos, dos Arcanjos,
dos Principados, dos Querubins...
são. Isaías morrendo. Voltam-lhe as frases que costumavadízer ao vcllt«r Norrrs soltas enchiam o espaço entre os dois. Graves. Bruscas. A pri-
no entusiasmo para conquistá-lo. Acreditara que a insistência curvarirr rt lr,r r rr.lcnlcnte golpeada interrompeu sua vibraçáo aguda com um estali-
serenidade de Caetano, numa repetição de fábula antigâ. E agora, pcr- ,1,, rr,r rrrrrcleira. O negro chorava.
plexo, sente que nada mais tem a lhe dizer. Um desespero mal definicl<r
projeta-se dos pulsos em atrito na testa. Às sras palavras, que antes tra-
ziam uma carga densa, e agoÍa teimavam em permanecer sem senticlo
físico, o velho contrapunha fragmentos de histórias aparentemente ba-
nais. Quase com terror, verifica a ocorrência do inverso. As dificuldadcs
com a doença do filho revelaram-lhe uma outra realidade, bem presentc
na voz rouca de Caetano. E no íntimo um atropelo, dúvidas tomanclo
corpo, angústia lançada pelos olhos arregalados na quase noite. Lenta-
mente se infiltravam nele as atitudes do velho, e sua apatia ganhara ele-
mentos dinâmicos. E ali estava ele, Gamaliel, perplexo diante de um
mundo ignorado. Os soluços de Lígia se tornam mais intensos. Ergue-
se, deixando a Bíblia caída no cháo. Contorna a grade de sua casa, enca-
minhando-se para a cadeíra do vizinho.
Demorou hoje, Gamaliel...
-Ainda a Íace serena. Como sempre reconhecera seus passos. Recusou
a cadeira, sentando-se num tijolo junto à porta. Viu o gato apoiado nas
patas dianteiras, o corpo em corcova, e a linha do salto para o muro. Um
latido nervoso, de longe, e o despertar dos sapos na vala, cortando a rua.
Enquanto aguardava a resposta, Caetano principiou a tocar. Era alegre a
música, satisfação pela vinda do negro, que interrompia suas cismas tristes.
Por quê, velho Caetano?
-A,voz mais grave, quase um lamento, fê-lo paÍaL Os dedos truncados
nas costas. Girou o rosto na direção da frase aprofundando as estrias. Um
jorro surdo subindo-lhe do estômago comunica uma vibraçâohâ muito
não sentida pelo corpo velho. Há quanto tempo esperava por essa per-
gunta do negro! Gostaria de lhe narrar uma história bem simples, agora,
mas o choro de Lígia, varando a ârea entre as duas casas, cortara qualquer
, ,rr.,r'1,,uiu)cspcrllve a re pe tiçáo dc outras ccnas, bobas. E se sentiria feliz.
;\ p,r t:r rlrr casa (nove e meia, tarde já), conhecia-lhe os sonhos e alenta-
\.r ,r ('()ln promessas que eram palavras. Mas belas. O quarto da tia que o
r,,,,llrcrrl e onde dormia com mais dois primos (enquanto amava era
Conto de amor suburbano rrrcristcnte o cheiro de suor) fermentava à noite as esperanças. Quando
r r.r( ),
l)crcorria a rua escura chutando pedras nas valas ou riscando a cani-
\'( t(' unr que outro tronco. Mais corajoso (se o bolso o permitia) descia à
llr,rçir c esfregando um níquel no mármore chamava otapaz do bar e pe-
(tr:r ccrveia. A roda boêmia estranhava o intruso que de vez em quando
lr.'birr absorto, alheio a eles. Depois perdia-se na conversa boba. Mulhe-
r cs. [Im violão. Caixa de fósforos em surdina e avoz rouca em improviso.

St' lo menos tocassem alegria quando ele exultava. Hoje voltaria, como
O cabelo caiu-lhe sobre a testa quando estendeu o fósforo aceso. Dc- \('rnpre, à casa da tia. Deixaria o paletó sobre a cama, e silencioso procu-
pois, o gesto automático de arremesso em sintonia com a fumaça expeliclrr. r:rriu â rua. Sentia no fundo que hoje bateria também com a caixa de fós-
Sobre a mesa o cinzeiro cheio de pontas. Dez para as oito. Havia tempo lor'«rs, e, quem sabe, repetiria em estribilho coisas tristes a noite inteira.
ainda. O espetáculo era às nove. Meia hora é mais do que suficiente para l.irra falava. O banco da praça aos domingos recebia-os em morna con-
a pintura. Chocante, um pouco, a expressáo de seus lábios ovalando na tt'rrrplaçáo e quando nada havia adízer sobravam os carrinhos de pipoca,
passagem da fumaça. Chocante o rosto infantil de olhos grandes, arrega- (' crâ gostoso afundar duas máos à cata do mesmo milho estalado enquan-
lados (onde a ternura?), em contrafaçâo adulta. Pediu outra tônica e a vista t«r duas outras seguravam o mesmo saco. Havia o homem dos balóes em
surpreendeu uns dedos nervosos triturando o cigarro. Não mais a voz lx)Írta de linha, o algodáo de açúcar, o sorvete batido à mão, as raspas de
esperada, náo mais o ombro recendendo a sabonete onde afundava em 1,,clo com groselha, abaiana assando o milho, cocada preta e rosa, o mo-
silêncio. Onde a coragem de fitá-la como antes? Espelhos no café multi- Ir:r1ue querendo engraxar ou vender amendoim, o tabuleiro de chocolate
plicavam-lhe a imagem. Estranho o ambiente. O riso oco e alto da mesa c drops, e ainda de suspiros que entravam na língua de táo frágeis. Lim-
ao lado aterrava-o. As mulheres eram diferentes. Lina f.alava. Um grupo l)ils as máos restavam aos olhos o vôo dos balanços com as cordas tesas, â
ruidoso saudou da porta e integrou-se na massa que sorvia café. Lina Ía- t',angorra em equilíbrio. Se não bastasse haveria o silêncio e mais que o
lava. Brancas as toalhas, náo como as dos bares que conhecia. A pasta silêncio a torrente que migrava dos dedos enlaçados. Lina falava. Que
branca de táo raladadeixou-a sobre o colo. Onde esconder afaltade jeito inrporta o filme, a algazarua da molecada, o baleiro, os tiros da fita em
que lhe tolhia a vontade e o fazia senrir-se bugre diante dos outros? Lina sórie se, lado a lado, as bocas cochichavam. Esgotada a âgua, pediu café.
Íalava. Nunca táo amarga a bebida. O cigarro rolava em seus dedos, mas Lina também. O maço de há muito saíra do bolso para a mesa e ameaçava
a cabeça andava longe. Onde a coragem de se erguer e exigir num grito ecabar-se. Lina fumava desesperadamente, e falava. Teria esquecido a rua
que silenciasse? Por que não sair sem prestar contas, sumir pelas ruas, cÍ:uzar preferida por sombria e arborizada, o mesmo lugar, parada de centenas
um bonde e perder-se na solidáo? Falava. De quê? Impossível. Coisas sé- rle vezes? As palavras buscadas a custo, o mesmo incidente cem Yezes nar-
rias, parece. Mas nada com ele. E o resto? Quando se armou de forças rado, as meias-frase s.Traziapreso o cabelo e pintura leve. Não como agoÍa,
pilrâ penetrar nos corredores a horas e aguardâ-la (por dois dias náo o I.. sonhava. Quantas tardes levou esperando na esquina asaída do ginásio
l1'r

l
i

(a desculpa ao patrão era scmprc forjada parl sair nteis ccdo) c os (luilr ,,,. rrr:lc. A situação que agora se esboçava no café pressentiu-a ao tocar-
teiróes sucediam-se lentamente até a chegada cm câsa. Da jancla a nrirc llrt. o lrrlço. Na varanda (tremia-lhe a máo com a xícara de café havia
pelo
-
pigarro
debruçada aguardava numa apreensáo sem motivos. Fingia reprovrrr () .r, .rh:rrlo o almoço) a voz rouca entrecortada com constância
Fez apresentações. Seus
namoro, mas sentia-se-lhe uma simpatia complacente. Quanclo o crrrr«r (
lu;rsc llão se fez ouvir. Lina falou pouco também.
funerário dobrou a rua esburacada seguido por dois outros, Lina ficara ,,llros mcdiam o parque através da vidraça, trepavam nas amendoeiras ou
desmaiada em mãos de parentes nunca vistos. A moléstia rompera brutal- 1,r:s rlc amora. No íntimo uma vontade de sacudi-la e sacudir-se também.
mente e os meses de cama foram prenúncio. Depois, o aceno triste do carro t )s olhos de Lina, grandes e fundos (como no dia em que fora no âutomó-
que a transportava, os olhos imensos transbordando para ele. vt.l), às vezes o procuravam, mas sem revelação. onde o embalo, o sonho,
Por favor, o fósforo! .rs rrriros trançadas no silêncio? A velha parecia ausente com a voz decrépita,
-Os olhos fixaram-se e náo conseguiu rever o ar de abandono. A mcs- rrse ilante, recordando a prima que se mantivera afastada. Lembrou avó,

ma adrude mecânica da chama crestando as pontas de fumo, e dois jatos lrislvós. Ágeis as máos recolhendo tocos de chocolate na bandeja. À .tt-
divergentes expelidos pelas narinas. Lina Íalava. Náo teria percebido quc t r':rda rJo quarentão grisalho (seu filho) e da nora desviou
dele a atençáo.
das frases só a de fogo, ou coisa parecida, tinha compreensáo. I irre foi inquirida sobre a situaçáo, e, Por um acidente, apresentou-o. Pro-
A princípio náo a deixaram atender o telefone. Prometiam dar reca- tocolo.
dos, mas nunca havia respostas. A voz passou a irritar-se com a insistên- tal um passeio, Lina?
- Que
Meu filho a velha assustou-se com a idéia que é isso? A me-
cia. Explicou o abalo, como se houvesse necessidade de explicaçáo para -,
- -
rrirra está fraca, tem tempo ainda para isso. O melhor é deixâ-la mesmo
ele. Ralhos da tia que se irritava pela sua falta de apetite, zombarias dos
primos. A tortura do quarto fedendo nos dias de calor. Só a rua era gran- .,lcscansar.
de e acolhedora. tiste a pruça aos domingos, tristes os bancos, os carri- Mamãe (persuasivo o tom). mês que não sai' Depois
- -
t' um giro só com o carro!
-Hâum
nhos, os balões, os balanços, a gangorra, os suspiros.
Recolhida em um parque, a casa de Laranjeiras parecia inabitável. Você vem, Lina? nora ajeitou o cabelo ao f.azeÍ a pergunta' A
- -A
linha do pescoço esbatiâ-se no colo queimado.
Fechada alargavaranda da esquerda onde um cortinado branco recolhia
também, mamáe!
as poltronas à intimidade dos aposentos. Desertas as alamedas bem tÍata-
- EEu?a senhora
das. Solitárias trepadeiras oscilavam em finos bambus, ao longo do paredáo.
- Sim. Por que não?
Só as janelas escancaradas em duas fileiras de quatro cortadas na branca
- Ora, você bem sabe que gosto de um sono depois do almoço'
fachada, permitiam, sob certo ângulo, divisar um canto de quarto. Cansa-
- Deixe-o paÍa a noite, mamáe, está bem? O rapaz virá conosco'
Ía-o a ladeira. Antes de tocar a campainha recostou-se ao muro e fumou.
-O rapaz virá conosco!
Talvez a visse hoje. Mais de um mês já. Possível. O entusiasmo que trou-
xera arrefeceu na sala de espera. Encolheu nas poltronas, amedrontou-se O rapaz virá conosco!
com a idéia de sujar o tapete, queimar alguma coisa. Nem a coragem de Bolas!
pôr cinza num cinzeiro teve, recolhendo-a, enquânto esperava, ao envol- Botafogo. Túnel. Av. Atlântica. O paredão de concreto furado por ia-
tório de celofane do maço, e triturando-o no bolso. Lina magra surgiu em rrclas contra o mar. Ipanema. Leblon. Niemeyer, Ponte das Canoas,Linaa
cornpanhia de uma velha miúda, de preto, exalando um perfume forte. O seu lado na frente com o chofer. Os outros atrás. Que sairia disso tudo?
irrcôrnoclo náo sucedeu ao espanto. Mudo e sentado esperou que chegas- No restaurante em que pararam, Lina pôs os olhos no mar e na Gávea
coNloS Do lMl(;

Pequena que se estirava em baixo. Nenhuma oportuniclaclc (ou volrlrrtlc/) 1.r,,.lt. cittctna. O trem clo subírrbio vaz;io na subida àquela hora dava-lhe a
Nem sequer o casaráo
em tocar no assunto.Às veres solicitavam-lhc uma palavra cnr nrci«r il l.rl,r ll.u\irl,,cnl difcrcnte, sua e náo a que vira pela tarde'
despreocupada. Dele ninguém parecia tomar conhecimento. Mãos crrrr,r () ilrrl)rcssionara, apenas infundira-lhe o sentimento de pequenez, e seu
das entre o copo, e o cigarro nos lábios, maldizia a vinda. Scntia-sc irrr r.rr rrr,,rkr ruclc, contrastando com a desenvoltura dos outros. Imaginou a prin-
so. Ajeitava desculpas. O choque de Lina. Sinal positivo de nrtrrrrr rrilo ( rl)i() o eterno obstáculo. A velha. Os parentes. Nada disso, porém. No
houvera nenhum. Mas o meio. A falta de desenvoltura. A vontadc rlc nr.. Irrrrtl«r, apesar da indiferenç4, trataram-no bem. Sem hostilidade. Apenas
rancá-la para o banco da praça e para o cinema do bairro. n,,s ollros de Lina náo encontrou o fio aÍeataÍ. E quando a seu lado, ro-
Quando ao anoitecer o carro fez o caminho inverso, um vento inrrrr. (r.1r(l() ombro com Ombro, nenhum esboçO de entrega, de recoSto, de mãO
dava o interior. t.nl:rçacla. Tâmbém náo a vira sorrir. Passearia solitária pelo parque sem
Levante o vidro, rapaz, o vento pode fazer mal à Lina autoritd- .r() nlcuos lembrar-se dele? Quando à sombra da amendoeira náo recor-
-
ria a velha.
- .l,rrirr as caminhadas lado a lado, em silêncio? Lembrou-se da nora' Mu-
llrt.r nenhuma em seu subúrbio era táo bela. E sentiu-se miúdo. Lina
- Lina! - um velho chegou-se à mesa com exuberância. Amigo dc
profissáo, talvez, Por instantes pôde vê-la de lado, perceber-lhe as pllir- r.rrrrbóm seria assim. Com o tempo ganharia o mesmo jeito e não se podia
vras que não eram para ele. O perfil era o mesmo ainda. A curva da tcstrl. ,,,nccber a seu lado, caminhando em rua esburacada à procura da casa
O nariz. Só a boca mudara. Pediu licença para sentar-se. Nenhuma objc- (luc havia imaginado. Teria quarto e sa[a, cozinha e banheiro. Pequena
ção. O velho arrasava a crítica que ultimamente o vinha desancando. r..rr,r1da, ao lado, com vasos de samambaia num degrau (haveria o degrau,
Lrro importante), e outros pendentes em arame. Arranjaria um lugar para
- Que querem? Preciso ganhar a vida... no fundo são uns cretinos,
bobalhões. .r r rcpadeira e parao fícus. Nos fundos, uma casa para o cachorro, o gali-
Você janta conosco? ainda a velha. , ,l,.iro, uma cobert a paÍaabrir a espreguiçadeira
nos dias quentes e vadios'
-Hesitou. -
Seria um atordoamento completo. Faria besteira, na certa. Àri saltar do trem nenhuma vontade de ir para o quarto. O alto-falante do
Não! rrr:rÍuá chamou-o. Soldados caçando moças querendo ser caçadas mas não
-O carro chegava ao Largo do Machado, e ia pegar Laranjeiras. Ne- .1,'ixando.
tiros dois mil-réis.
nhuma insistência por parte de Lina.
-SeuCinco Por
cartáo voltou branco, sem furo.
Por favor, deixem-me perto do bonde.
-Despediu-se e todos lhe sorriram. A máo inerte de Lina acompanhou Ruinzinho, hein, velho?
o sussurro inexpressivo. Barracas de jogo, comida, refrescos, café. Roda-gigante. Do alto via
Telefone. os tclhados cinzentos se espalhando em largura, e era bom ver o subúrbio
-Simplesmente. ,rssim de cima. O cheiro que inspirava bem diferente do de hoje à tarde
O café-expresso projetou-o num estado de consciência que parecia ter rr9 automóvel lembrava-lhe a cerveja, a mãe de Lina à janela, as pedras
que a essa horuiâ devia ter bebido
perdido. Renovado o maço, plantou-se a esperar um bonde observando a lrrrr ele chutadas, o grupo de boêmios
praça. O vestígio de Lina sumira com o carro acelerando na curva. A sen, rrruito, o quarto com os primos, o cinema, as meninas que têm tranças e
sação de desgosto que outro meio que náo o seu lhe provocara, desvane- ,rs (lue náo têm, as que já namoram, e as que o querem, as que rondam
cia-se a9ora na cefteza da perda. Vontade de beber, andar. Agarrado ao ,.,rlçadas à espera de assovios e se aborrecem quando os ouvem, as que
estribo sacudia a tristeza que insistia em crescer. Letreiros. Multidão. Fi- ('s[)cram gracejos e se arrependem, as que se casaram e as que inda náo,

79
SAMUTL NAWTI

que já têm filhos e as que esperam, as que sonham e as que não sonlr;rrrr, rr,r«» tinha dinheiro. Ao menos um café tomaria. Nem para isso. Catou
as que ouvem novelas de rádio e as que as vivem, as que cantarn silnrlrlrr rrr,lrcis. Nada. Um só, vinte centavos confundido com as chaves' Nem um
em programas de calouros, e as que ouvem. .rnri1,,o. Rondou o bar. O jeito era chegar perto, dedos na caixa de fósfo-
r,s, llccrtar o compasso, conversar e pedir o copo como quem náo quer
Quando acabou o dinheiro foi para casa. A tia, acordada, remcrrtlrrrr.
do meias. rr,rrlrr. Desistiu. Não dava para isso. O dinheiro ficata na roda-gigante e

Viu Lina? vilrtc centavos nem para o café. O jeito é chutar pedra.
- Sim. algum p'ra cachaça, pattáo.
- Como vai ela? -lisseArruma
era franco. Gostaria de dar. Mas o seu era pouco. Negou. Vinte
- Bem. ( ('ntavos por cachaça é até deboche. Negou. O velho sentou-se no meio-
-Tomando o copo de leite que lhe havia deixado (não jantara), percc- I rr r c desatou a chorar. Gostaria de fazet o mesmo se tivesse coragem. Mas

beu o olhar da tia. Havia intuído pelas frases monossilábicas, e coisa rara, l,rltou-lhe. As mulheres do bordel esperavam o bonde apoiadas ao muro.
silenciou. Ficou-lhe grato por isso. Deitado já, os primos chegaram. Não l,;rssou em sua frente com a moeda girando nos dedos. Lançava-a, às ve-

lhe viram os olhos abertos, afundado no travesseiro. Falavam. Futebol. /,(.s, para o alto, e recebia-a na palma com um estalo. Não faltou o grace-

1o. Ofereceu o níquel a uma delas, que de resposta só


deu a gargalhada
Mulheres. Apagada a luz em bocejo, invejou-lhes a despreocupação, e gos-
taria (pensava) de ser também assim. s.reuclida batendo com as máos nas coxas. O final foi mesmo deixá-lo so-
lrrc o trilho, esperar o bonde e recolher a miniatura deformada e quente
- Mulher comigo náo tem muita conversa! Gostou, vam'embora, náo,
vai à vida! Dou lá cafiazl ,rirrrla do impacto. Depois dormir.
Até a vista, Lina o velho ergueu-se da cadeira após o desabafo.
Era isso. Ele estava dando cartaz. Desistiu. Impossível náo ser elc
(
- -
lrrvou de leve a cabeça para ele e afastou-se.
mesmo. Bobalháo, diriam. Bem. Bobalháo. Mas gosrar é sério. Impossível
Coitado! Está no fim. Uma bela carreiral a voz de Lina baixara
conquistar Lina com um vam'embora. O suor da face jâ havia empastado - -
os dois lados do travesseiro, e virando e revirando não achou modos dc rlt' tom, como temendo ferir, apesar da distância. Susto. Que horas sáo?
parar. Por fim estirou a cabeça no colcháo duro e pôs os olhos na rua. Era Cinco minutos, ainda, para as oito e meia. Esgotado o assunto mirou-
triste a luz do poste em meio ao silêncio. uma pipa agarradaao fio resis- . pcla primeira vez em silêncio.
tira às pedradas dos moleques. Nem os sapos coaxavam, os sapos que À casa de Laranjeiras voltaria ainda algumas vezes, mas sem nenhum
l)rogrcsso. Continuava a sentir-se o mesmo apesar da repetiçáo.
Angústia
enchiam avala noturna e hofe não vieram. vida besta. Que queria? o curso
noturno era horrível e vontade de ser doutor mesmo, nenhuma. No escri- n;r srrla de espera. Tlemedeira no café e a Pequenez diante da velha e da

tório batia à máquina de oito às cinco e por conto e quinhentos. Agora, rrr»rrr. Esta perturbava-o com o andar silencioso, afalae a expressáo bela

esfregando a cabeça no lençol, viu que era ninguém. Qre podia esperar? .krs olhos quando fumava. Nunca vira alguém fumar daquele jeito. Afasta-
vinte anos lisos e amargos que principiavam a aterrá-lo. Diabo pensar na vir il ctn pensamento. O fim era Lina. Mudo, ainda, seguira-a pelos corre-
,k rrcs a ver a casa. A sala de jantar imensa, a biblioteca, os quadros, o relógio
vida. E ele nunca tinha pensado. ou quando o Íizera esquecera-se das ci-
fras. Agora as máos se curvavam na impotência. continuaria martelando ,1r tinha seis anjinhos esculpidos emiacarandát
rt' fora da Baronesa de Ramos, e

teclas, dormindo de cansaço no curso? Venderia bananas, seria camelô, (.nr torno do pêndulo. Faltou-lhe ânimo de encostá-la a um canto e lançar à

conclutor de bonde? Impossível dormir. voltou à rua sem despertar nin- ,lrrt'irrra-roupa a pergunta. Por isso ia e vinha, numa andança sem conclu-
,,.rr». lr ficava mudo, quando sentados, pois nada percebia da conversa.
g',rrclrrr. f]unranclo principiou a chutar pedras até o bar. só lá percebeu que
coNlo5 l)o lMl(,

Que achou de "Dieu a Bcsoin dcs Horrrrrrcs", nlcu filh«r? lltxr noite!
- Um filme horrível. Não seicomo não proibiram a exibição. A t1,,rr.;,r
-li rrunca a ladeira lhe foi tão cansativa.
-
devia fazê-lo. acha que podemos continuar assim?
viu "La Ronde"?
- Lina, você
- Você Como?
-liurrava outra vez com o olho no relógio.
- Sim. Bem francês, náo é? Picante, é verdade
- a nora tirou tlrr lrot.;r
a pireira. Depois o elenco fabuloso! Barrault! l,clo telefone as perguntas de costume, uma ou outra vez o interesse
-
Signoret! julgado como um retorno que a próxima conver-
1,or. ,articularidades era
- Com que entusiasmo você fala em ,,.r :rrrulava. Dos dois lados parecia haver um medo em tocar no âssunto
Signoret, querido!... Mc tlí
-
ciúmes. ( r(,, pressentiam, se achava bem abalado. certo dia ligara-lhe
pâra o escri-
lr
Ciúmes!... Imagine, mamãe, quando estivemos em paris sua norrl tolio, e de há muito os dedos náo corriam táo velozes no teclado' Oscila-
-
teve a idéia de comprar uma armadura a cadeado e ficar com a chavc. q,,,.s ambíguas. Quando a notícia de sua entradapara o teatro, casualmente,
Os três combinaram-se no riso só interceptado pela velha, que apic- l,rr lhe comunicada pelo retrato nos jornais, tonteou ao imaginar a dis-
dando-se dele estendeu a bandeja. r.irrcia que se ampliava. Telefonou e não tocou no assunto. Ela também
Tire um chocolate, rapazl. rr.ro. Dois meses vividos na rotina, sem ânimo, mas sem desespero. Qua-
-Deixou de lá ir quando, ao se retirar com Lina que o acompanhavir lr() (lue de sua presença tinha apenas a voz e os retratos' Os primos o
até o portáo, ouviu nitidamente a voz da nora. It.r.r-cteâvâr1 à noite com zombarias, só atianáo comentava. Quando
muito
.,oI'ria complacentemente dos ditos dos filhos, e balançava a cabeça para
- Puxa! Esse rapaz incomoda até mesmo não falando! Que há conr
os dois? ,'lc. Náo ligasse. Fosse dormir.
Lina percebeu-o também. Olharam-se e seguiram juntos pelas alamc- IHáL quatro meses náo a vejo...
das. Que há com os dois. Ela se quisesse poderia responder. Mas teimava
- Por que náo me
Procurou?
em criar uma situaçáo ambígua, mostrando-se afetuosa e negando a ex-
- Para quê?
pressão mais íntima.
-l\esponder seria tomar uma atitude. Dar uma definiçáo. E disso que-
quer que eu continue vindo? r r,r fugir, pois no íntimo também náo havia a certeza'
Esperava que natu-
- Você sem
Por que náo? r.rlrncnte o tempo solucionasse o problema como se dela independesse
- Náo Parece... Náo quer caminhar um pouco comigo? ,l.rr contas da transformação por que vinha passando' Uma palavra agoÍa
- Estousei.cansada... e a ladeira náo ajuda... Por que náo ficamos aqui ,,t.r.ia o pé em falso, a queda, e náo queria essa responsabilidade. Sentia
-
mesmo? (lilc o afastamento náo foraprovocado mas involuntário. Gradualmente
Não há incômodo? .r .,roção que suâ presença 1À. c*rr"ru foi se esbatendo. À.
,.r.t tentava
- Não!... ,..,,gi, e* autocondenaçáo. Impossível. Da ianela do quarto em Laranjei
-Novamente o silêncio. O rosto de Lina riscado por r:rs tentava se divisar em sua companhia na praça aos domingos,
mas
sombras de ga-
lhos. Dentro dele o paneláo fervendo mas nenhuma palavra. euando se .rrlcclrontava-a o grotesco. Tentou imaginar se a mesma coisa aconteceria
decidia por alguma, na hora de emitir parecia-lhe boba. Esperava outra. E .rPris a morte da máe caso continuasse morando lá mesmo.
Insistia consi-
diferente, ama-
esperaria a noite inteira se o chamado da velha náo o despertasse. ,,,, 1rrr" a afirmativa. o abalo dera-lhe uma compreensáo
,lrrrccera-a. Sentiu vontade de amar mas diferentemente e sua figura
Boa noite! não
-
lhe transmitia a carga suficierttc pâra rarlto. Quarrclo pcrccbcu cluc potlr,r
ficar serenamente a seu lado, numa amizade pura, tevc medo cnr prccipr l,, r,lt'm l.ina fê-lo dcsistir. Ninguém a rccorrer. Dobrou o paletó sobre o
,,rrrlrro c, ir pasta na mão, foi caminhando. Cenas que se repetiam. Frases
tar o final.
,,, .r.-. Vrrltos noturnos não lhe incomodaram a caminhada solitária. Pedir
conversarmos.
-NáoPara
compreenderia então que buscava, desesperadamente hojc, rrrrr
l.rvr rr rrrro pcdiria. E procurou o subúrbio a pé marcando calçadas e ruas
, ()nr ir clccepção. Sabida mas não desejada. A que horas chegaria? Pouco
ponto de apoio para conjeturas? Ou estaria brincando com ele? A tortrrrir
transparecia-lhe das feições. Doía-lhe a mandíbula pela forte pressã«r tlc rnl)()rt.l. Talvez os boêmios se tivessem ido e o botequim tenha fechado.
quem busca palavras. Os olhos angustiados como que emitiam apclos c l(.st os nroídos de sono bateriam em direção ao trem na repetiçáo diária,
rrr.rrrrrita sob o braço. O açougue estaria abrindo. Um galo madrugador
era impossível que ela não os recebesse.
.rrr orrtraria eco. Daria com o leiteiro de porta em porta, e é possível que
Íihoraiât
-Amassou o último cigarro, sorveu o resto do caÍé. Ele chamou o garçÍio
lcv;rssc para dentro o páo deixado na soleira. O importante náo eram os
g,tts censados, a fome, talvez, ou Lina, que durante muito tempo não se
e tirando as notas enroladas do bolso da calça deixou-as sobre a mcsil.
,rl,rsteria dele, apesar da intenção. O importante era dormir. E ao acordar,
Não se preocupou em apanhar troco, apressando-se em seguir Lina.
1.r st'ria tempo de pensar na vida, pois é duro agüentar vinte anos dum
Quer assistir ao espetáculo?
- Não, rrr,,tl«r besta. Agora é vencer a estrada, invejando o bonde que embala e
-Cortante.obrigado!acentuar a impossibilidadede subterfúgios. Na rurr
.,()nrc na curva, ou o banco, onde, pagaa passagem, cochilaria.
Queria
sentiu-se melhor, mais encorajado. Aproximaram-se do teatro. Lina to-
maria a entrada especial, pelo fundo do corredor. Hesitantes os dois à
espera cada qual que o outro encerrasse a dúvida. Os retratos de Lina nas
vitrinas pareciam tentar a resposta.
Devo continuar a vê-la?
-Firmes os dois. Lina amarrotou a bolsa e estendeu-lhe a mão num sus-
surro.
Náo!
-Rondara pelo cais com a negativa. Sentara-se em um banco refletindo
nos olhos úmidos o pisca-pisca dos letreiros. Buzinas. Risos. As eternas
filas dos cinemas. Um desejo doido de sobreviver. Tinha a consciência de
sua inutilidade até o momento. O casaráo de Laranjeiras nunca mais o
veria. Nem Lina e a velha miúda, nem a nora. Amara e precisara amar.
Tivesse compreendido antes que Lina náo poderia mais andar a seu lado,
e evitaria a ruptura e o grito mudo que os olhos lançavam. Sobreviver. Na
fila do ônibus para o trem mais uma vez verificou estar sem dinheiro. O
que possuía Íicara na mesa como gorjeta. Onze horas. Poderia voltar, di-
zer que esquecera o troco. Mas a idéia de rever a mesa em que por fim
Diâl ogo
(le63)
I E?l

Diâlogo
(re63)
estd danificada' Ai,
Torturad.o uou morrendo, a raiz d,e núnha uida
isto uem de um pontapé que me deram no
coração'

HETXE
Di âIogo

lircnte a frente. O apito longínquo da locomotiva e o chiado quase


rn.rrrtlível da caldeira em funcionamento; o palavráo vindo da esquina
I ('\s()1r pela rua e desperta ecos na garotadajunto ao po§te; noite que mais

l).lr ccc dia, clara, um preto quase azul sobre a linha do morro e as arestas
rlt' tclhados. A separá-los, apenas a largura de um cômodo, e o nevoeiro
(':,1)csso de incontáveis cigarros. O pai, sentado junto a um armário baixo,

.rpriirr o braço em seu tampo, e acomoda a cabeça na mão espalmada.


(lrrrrrrdo o filho entrara, jâ ele ali estava, na mesma postura, forjando ar-
lirrrrrcrrtos para uma expectativa, recompondo e reelaborando cismas a
rrrtlicarem um movimento inadiável. Com o cigarro nos lábios furtou-se
,r,r cumprimento que teria efeito de ruptura, suspensão momentânea da
t ristalizaçáo de idéias, o que seria, para ele, pouco afeito a conclusóes,
trrrr desastre. Ouviria a descarga no banheiro e depois, na cozinha, o baru-
llro de talheres. Gotejar de bica na pia, tampa com estrondo no fogáo, o
l',osto vegetal da sopa espraiando-se com os vapores ao cair no prato. Irri-
t()u-se com a frase da empregada, na copa. Os ruídos nunca o perturba-
vilrr, as palavras, sim. Habituado a um mutismo do qual às vezes tentava
livrar-se, sem resultado, compensava-se com a percepçáo dos pequenos
rlcsequilíbrios de seu silêncio. Náo lhe alteravam as cismas, pois que nes-
tirs nunca ia ao fim, bastando-lhe o simples encadeamento, num ciclo bem
lirrritado de constante ruminar. Com a palavra areaçáo era outra. Desar-
ticulava-se. Perdia o controle. Infundia-lhe a noção vaga de um entendi-
í\wtT otÁtoco

mento, de uma compreensão, mas quc cnl natla o afctaria. lrrintcliliívt.rr, rr() l)r'csscntiu a oscitação de scntimcntos que se revezatiam até a noite'
quase sempre, sentia-as como elementos perdidos para elc, frlrgrrrr.rrlrl Irrrtol-sc conl oS solavancos e c6m Os pOntapéS dO meninO nO COlo da
impossíveis de uma conversa futura. Espicaçavam-no mais as q,c rr.rzr.lur nr.r(., it scu lado. Pareceram-lhe feias as fachadas do casario, o comércio
vestígios de ternura, por nunca lhes ter provado o gosto. E ni*r í.r.rnr rrrr'.,t1rrittho e sujo de portinholas, ou ostensivo, imbecil, na exuberância
poucas as vezes em que afugentara com seus berros casais {c rr;rrrr11r.;rrI rr ,lr. ltirptica e letreiros. Canibalismo do açougueiro que, bem na patada,
que preferiam as grades da casa, e o quebra-luz imenso da anrcrrtlet.ilrr, ,.,,rrri1,,rrlhava costelas no cepo, brandindo o machado de cabo curto, com
com o tronco enviesado a expelir galhos que cobriam o meio-fio. (]rre ( ) .,:urgue a salpicar-lhe o rosto, e o avental estriado de coágulos. Manobra

tinha a dizer-lhe a empregada? servisse o jantar, e pronto! De sosleio pcr. ,1,. e:rrtrinháo, dois carros atravessados em frente ao bonde, e de longe,
correra a distância à copa e estacionara, fraçáo de segundo, no dorso rc. l,.rrrtlcirinha vermelha e a trepidaçáo de um britador. E no mesmo local'
curvo sobre a mesa. o ventre contraiu-se, e apoiara a colher no fulrtftr ttrl l,r:urllos pelados e empalados, quartos rasgados de bois sangrando nos
Prato, ao sentir-se vigiado. Sabia-se observado e a interferência tolhir-llrc 1l.rrrclros, e apalidez lunar de leitões na vitrina da
geladeira. Uma nesga
os movimentos. Esfarelou o páo moldando pequenas esferas com os tlc. .rzrrl clc manhá insinuou calma e reconciliação, predispondo quietude e
dos nervosos. Desgostoso, achatava-as com brusquidáo voluntariosa. 11r llanso fruir de paisagem. Bastava uma palavra, porém, um gesto sol-
AlÍ.
vio. uma noção imponderável mas segura, de que era dono de seu esp.ç(). rr r, lrcrclido , pàÍaturvar o entusiasmo. Assistiu à aula, entre torrentes
de
o movimento da colher gerara corrente na superfície verde e ouro, rorl- .rtt.rrçáo e alheamentos demorados, em que se sentia inteiramente estra-
pendo a transparência gorda de salpicos irisados. por que alterar um cstir- rrlro ao local, representando-se nos hábitos em que o desejavam. Pela
ja-
do de coisas com uma repentina decisáo? rr,.lrr uma curva de praia, aconchego, representação hipotética de conforto,
Já o braço que estende a travcssrr
rasa. Arroz, ovos, rodelas de tomate, fatias de assado viscosas do azcitc .rrrsôncia de drama na sucessáo de ondas. Tâmbém no trabalho, a inter-
em brasa que estalava ainda na frigideira. A pergunta sobre o apetite dcs- rrritôncia de entusiasmo e cismares. Desgosto no punho da camisa que se
via-lhe a atenção sem desejos do contorno da anca em suave aclive para â rrrolha no lavatório, no paletó que tem as rugosidades do ferro, e náo a
larga cintura. Ímpetos comuns que um pudor arraigado obrigava a sore
r- rr;rcieza do linho, desgosto na pele que cobre um corpo com a mesma
rar. Rompesse de vez com as impossibilidades, uma asneira qualquer, es- .rsl)creza de um algodáo cru.
tardalhaço e a satisfação, ao menos, de um precedente a se agarrar em Frente a frente.
tentativas futuras! Presença enjoativa de alho na carne esfiapada pelo gar-
A cabeça do pai oscila, descola-se da máo e tomba de leve paruaften-
fo. Quando tempo levaria para comê-la? Ao levantar-se náo lhe restaria rc. Olhos nos olhos. Afinal, imbecil, o que queres? Esses teus livros o que
outra alternativa senão a poltrona em frente ao pai, e o resto. rt, c:rrsinaram? Gostaria de usar contigo outra linguagem, se náo te desses
Frente a frente. Precipitara-se enfim a espera de um dia, e o instante (,ssc ar de presunção e firmeza. Cretino, olha-me bem! Acaso te indico a
se cârregava com o adensamento do f'umo. A atenção no polegar,
e o indi- 1,r'rcliçáo ou a desgraça? Olha em redor e vê a burrice de tua obstinação,
cador que tritura um excesso de pele sobre a unha. Aquele preciso falar-
r':rciocina, mas sem o empacamento do asno.
lhe, dito pela manhã, com um acento inusitado, Úaziaem potencial uma
Os dedos tremem, aproximam da boca o cigarro sem alterar-lhe a
sucessão de hipóteses. E o que mais temia era a decisáo de que
se sentia posição.
capaz em caso extremo, e o ímpeto de fazer jorrar de si uma possibilidade
Num gesto automático, o filho imita-o, e as pálpebras se comprimem
de ruptura. Queria evitá-la. Acumulava argumentos diante de pequenos
iurte o insulto. Mesmo que eu pudesse lhe falar com franqueza, de que
atritos e conseguia adiâ-la. onde chegariam hojel No ônibus para o cen- .,t.rviria? Presunçáo minha saber que náo me pode compreender, apesar
l)l^lo(,o

de sua intençáo? Ou que me conrpreenclcrirr, sc outro cu Íirssc, (onl(, nrr!


( ,r »tttpritttctll-sc âs pálpcbras, ulll potlco, para logo se distenderem' Na
náo
quer? Se às vezes exibo nas irritaçóes! e âpcnlls nr-l cllhar, tt: rnros e( )nlu r rà 1,rr1,rl.r tliletacla o rcflexo de quem aguarda sempre' Palavras ocas'
outros,
,rrr.l.rs. li são csses oS argumentos para a tua loucura! Imbecis'
oS
que poderia estar ouvindo agora, não vê que me arrcpcrrckl lo1',«r/ lr pur
il r.r., trr rrão? Alguém te impede de pensar, te nega
o direito a tudo isso que
quê? Porque me dói saber que náo poderia proceder conrigo tlt',,rrn,r
r rv,.s lrlrrs1;uando ser a essência das coisas? Pensa,
como quiseres, mas age,
maneira, porque é de sua naüJÍeza, de tudo aquilo que lhc inculcrrr'.rrrr, e
os pés na terra. Fosse outra a ocasiáo e eu te contaria
uma
que não conseguiu inculcar em mim. , I rilr :l cabeça e
l,rlrrrlrr, nras tens o dom de até inverter o sentido de
qualquer uma'
Expele a fumaça. Resiste ao pigarro. Imbecil! Imbecil! Te julgls nrirtr
com a fixidez
sábio porque soltei as rédeas. Mas repara! Em que é que eu não posso te l)crrurba-se com a imagem nos olhos paternos afitâ-lo
ocasiáo e eu
compreender? No fato de náo concordar com o modo de encararcs o lrr rIr(. nalo se destina a ele, bala que ricocheteia. Fosse outra a
a}oÍa' eu lhe
turo? Com avida que pretendes levar? Responde-me entáo, sábi«r, () (lud ll,,' ..,,rtaria, também, uma fábula' Mas se tivesse que falar'
,lrrirr quc tudo isso talvez seja revolta, e a seu favor'
mesmo que náo o
é avida senão isso, um buscar de solidez, de segurança, um garrrntir se
que náo sendo estigma' assim se tornou' e
não apenas o dia de amanhã, mas a semana, o mês, o ano? E a isso rrre 1,,',..lra. Revolta contra aquilo
,l,,rst. círculo vicioso ninguém intenta sair. segurança.
Estabilidade. De que
opões vagas palavras!
\,,r1('rrllr,-r quando r. sobre nós (e esse nós ainda é um pouco da-
O palavráo ecoa ainda lâ fora, como o estardalhaço dos molequcs t.rrr "r.o1".".
,1,ri1,, clue me deu) e nada houve senáo morte' Para
que serviram as im-
meio ao chiado da locomotiva. A cabeça baixa um instante naquilo tlue
poderia ser pausa, mas de novo se apruma, e o olhar se fixa. Náo vê clrrc gr ccrtções... ou as oraçóes? E a sua vitória, qual foi?
pé' ágil' como de há
é impossível? Vagas palavras. Vagas palavras. Mas não vagas para rrrirrr, Itccuou na poltrona ao ver o corpo do velho, de
rrrrrito náo o vira, meio inclinado pata afrente, o
braço em menção de
entende? Há entre nós a distância brutal que náo se mede em anos ()rl
em esboço' mas
parentescos, distância pela qual talvezse julgue culpado, soltou as rédcus, l*rl'ctada. Sabia que o pavor náo lhe provinha do golpe
uma das pernas e
sim, mas implacável, agora. .l.r rcaçáo ao que nem fora dito. Gesto animal, erguera
se espalmou, protegendo a face' Teve ódio
de si mesmo' por não
As sobrancelhas se afunilam na ruga frontal. Concordo. Mas o quc .,
',,iro
. , rrscguir se manter ."há, e ali, pelo menos,
ordenar as idéias' Mas to-
tem isso a ver com a vida? O que tem?
rl;rs. Todas. E pensá-lass, aPesar da violência,
apesar da possibilidade de as
Os dentes marcam o lábio inferior na contensáo. Náo vê que a sinr-
das palavras' Pensá-las
ples perguntanáo me deixa à vontade? Que ela em si é um reconhecimen- vcr transrnitidas numa outra linguagem que náo a
intrincadas'
to desse desligamento? Poderia compreender, acaso, que nem todos sc \('nl âparas, rudes, com os contornos angulosos e as brenhas
estúpido,
comprazem nessa rotina de procriar e engordar, com o torpe estigma da (.irs arestas mais finas do que o corte dafaca. E náo ficar ali,
ar sustenta o
imbecilidade a marcar feiçoes imobilizadas numa ilusão estável? Ser-lhe- l,ieho amedrontado a encolher as patas e o focinho. Que
cai? Que energia acumula este golpe que
náo vem?
ia possível conceber (e creio que não, já que séculos lhe estratificaram a Pt'so desta máo que náo
[\,1:rl-estar antecipando o jantar que se alteia
no peito sob forma de vômi-
afetividade, reduzindo-a a um formulário, ao qual só resistiram os impul-
r(). Só a tensáo consegue mantê-lo oscilante,
sem desfecho, também' Caia
sos do instinto), ser-lhe-ia possível conceber o grotesco, o sublime, o sór-
r r lrraço e ele tetâoportunidade de
reagir' A fuga para algum canto com o
dido que podem perpassar, em fraçáo de segundo, a alma? E que nessa
.,,rbor infantil do medo. A loucura selvagem de travar o gesto com outro'
ir.rtcnsidade de percepçáo vai todo um estado preparatório, implicando
e irracional. A pasta ácida assoma à boca
e
renúncia, às vezes. Náo vê que é exatamente o modo de reagir a esse ins- t)irrricipando da fúria demente
\(. ntolda ao contorno dos dentes. Revolve-a com a
língua e, repugnado, a
Lantc que determina a opçáo de uma existência?
l)l^lo(,o

de sua intenção? Ou que me compreenclcrirr, sc outro cu Íirssc, c()nrn nlr


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os outros'
que poderia estar ouvindo agora, náo vê que me errcpclrclo l«r1io/ lr pur ,,,,r.1.rs. li são csses os argumentos para a tua loucura! Imbecis'
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maneira, porque é de sua natuÍeza, de tudo aquilo que lhc inculcrrr'.rrrr. r,
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que náo conseguiu inculcar em mim.
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qualquer uma'
Expele a fumaça. Resiste ao pigarro. Imbecil! Imbecil! Te julgas rrrirrr
com a fixidez
sábio porque soltei as rédeas. Mas repara! Em que é que eu náo p()ss(, tr l,crturba-se com a imagem nos olhos paternos a fitâ-lo
a ocasiáo e eu
compreender? No fato de náo concordar com o modo de encararcs «r lrr. rIr(, niro se destina a ele, bala que ricocheteia. Fosse outra
que falar' agoÍa' eu lhe
turo? Com avida que pretendes levar? Responde-me entáo, sábio, () (llte llrc crrrrtaria, também, uma fábula. Mas se tivesse
,lrrirr cluc tudo isso talvez seja revolta, e a seu favor'
mesmo que náo o
é avida senáo isso, um buscar de solidez, de segurança, um garrurtir se
náo sendo estigma' assim se tornou' e
náo apenas o dia de amanhã, mas a semana, o mês, o ano? E a iss«r rrre 1',',..lra. Revolta contra aquilo que
.l,.ssc círculo vicioso ninguém intenta sair. Segurança.
Estabilidade' De que
opões vagas palavras!
v,rl('r'ân-I quando r. sobre nós (e esse nós ainda é um pouco da-
O palavrão ecoa ainda lâfora, como o estardalhaço dos molequcs t.rrr "r.o1"r"*
,g,ril., clue me deu) e nada houve senáo morte' Para
que serviram as im-
meio ao chiado da locomotiva. A cabeça baixa um instante naquilo rluc
grr ccrtções... ou as oraçóes? E a sua
vitória, qual foi?
poderia ser pausa, mas de novo se apruma, e o olhar se fixa. Náo vê rlrrc
pé, ágil, como dehâ
é impossível? Vagas palavras. Vagas palavras. Mas não vagas para rrrirrr, lfccuou na poltrona ao ver o corpo do velho, de
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braço em mençáo de
entende? Há entre nós a distância brutal que náo se mede em anos ()u
em esboço' mas
parentescos, distância pela qual talvez se julgue culpado, soltou as rédcns, lr,l'ctada. Sabia que o pavor náo lhe provinha do golpe
uma das pernas e
sim, mas implacável, agoÍa. ,l.r rcaçáo ao que nem fora dito. Gesto animal, erguera
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As sobrancelhas se afunilam na ruga frontal. Concordo. Mas o quc ',,iro
. , rrrscguir se manter c"l-o, e ali, pelo menos,
ordenar as idéias' Mas to-
tem isso a ver com a vida? O que tem?
rl,rs. Todas. E pensá-lass, apesar da violência,
apesar da possibilidade de as
Os dentes marcam o lábio inferior na contensáo. Não vê que a sinr-
das palavras' Pensá-las
ples pergunta náo me deixa à vontade? Que ela em si é um reconhecimen- vcr transrnitidas numa outra linguagem que náo a
intrincadas'
to desse desligamento? Poderia compreender, acaso, que nem todos sc \('nl aparas, rudes, com os contornos angulosos e as brenhas
(. irs arestas mais finas do que o corte da faca. E náo ficar
ali, estúpido,
comprâzem nessa rotina de procriar e engordar, com o torpe estigma da
ar sustenta o
imbecilidade a marcar feiçóes imobilizadas numa ilusão estável? Ser-lhe- l,icho amedrontado a encolher as patas e o focinho. Que
não vem?
ia possível conceber (e creio que não, já que séculos lhe estratificaram a Pcso desta mão que
náo cai? Que energia acumula este golpe que
l\,lrrl-estar antecipando o jantar que se alteia no
peito sob forma de vômi-
afetividade, reduzindo-a a um forrnulário, ao qual só resistiram os impul-
desfecho, também' Caia
sos do instinto), ser-lhe-ia possível conceber o grotesco, o sublime, o sór- r(,. Só a tensáo consegue mantê-lo oscilante, sem
,, lrraço e ele tetâoportunidade de reagir' A fuga para
algum canto com o
dido que podem perpassar, em fraçáo de segundo, a alma? E que nessa
o gesto com outro'
intcnsidade de percepçáo vai todo um estado preparatório, implicando r,,rbor infantil do medo. A loucura selvagem de travar
e irracional. A pasta ácida assoma à boca
e
rcnúncia, às vezes. Não vê que é exaramente o modo de reagir a esse ins- 1,:rrticipando da fúria demente
língua e, repugnado, a
tântc cple determina a opçáo de uma existência? \(. nlolda ao contorno dos dentes. Revolve-a com a
ingere de novo. Talvez nccessite da palavra. E, não qucr cnrpccillros. ( i,rr
traçóes no estômago. Tonteira. A lágrima rola, nras não do pranl(), t.xlrrrl
sa pela pressáo dos olhos. E dera naquilo o entendimcnto dcscjrrtkr. ( )r
membros no espaço e um ajuste de aço frio suportando o rcsto, rr c()nllu r
mir sem movimento, a distender e a relaxar músculos em antrlrrçrro r[l A fuga
equilíbrio. Estridente agora o apito da locomotiva, e mais nítido o jirto
expelido pelo êmbolo. Silêncio repentino após o coro obsceno d:l crrlçrr"
da. um odor acre de amêndoa verde no retângulo da janela, e a trcpitllçrkr
ciciante dos galhos de folhas largas. A mesma brisa traz o cheiro barrcrrro
da âgua na vala, o grito de revolta do papagaio espicaçado, o chor. tlc
flautano rádio aceso, e um gosto de páo quente, última fornada cla prrrlir.
ria. A máo do pai desce calma e oscila lassamente junto à coxa. o corl)(,
do filho acompanha-a na volta à posiçáo normal. o sapato firme dc novo liindara-se entáo a seqüência de desesperos e de ódios surdos? Com
sobre o taco, o braço em atrito com o estofo da poltrona. o velho scnlir- r.rrrte facilidade se elimina a crosta acumulada e necessária que bem ou
se mas tem no rosto um travo de pesar, acende um cigarro, apôia o c()lo. rrr,rl cumpriu sua missáo? Como seria o câgado sem seu casco, e a ostra
velo sobre a cômoda, e a cabeça no punho cerrado. Mas náo há reflcx«rs .,(.nr rl sua concha? Ouvira falar certa vez de planta ou animal que náo
em suas pupilas. Baixara as pálpebras. 1,,
,tlc viver sem o seu parasita. Estaria nesse duelo, nesse constante despo-
Frente a frente. 1,rr- sc de elementos vitais a condiçáo
de sua sobrevivência, encontrando
rrr.lc alento para renovar-se, para fazer fluir de um centro ignorado a caÍ-
1i,r suficiente com que continuar, e ainda? E tudo isso visando a quê? Sal-
v.rr-se! Mas de quê? Que possibilidade de salvaçáo ainda lhe restava? A
rolirlão! Que solidáo? Alguma outra maior do que a sua, mais ampla, mais
.lt'nsa, mais sólida, mais rarefeita? E logo nele, massa homogênea de si-
llrrcios e expectativas, náo massa porém pasta, pó, triturado entre duas
rrrtis, dois olhos, dois blocos que mais assustavam quando inertes, porque
.lt. um instante a Outro, acionados por energias tempestuosas, náo se con-
rt,rrtariam com moer a vontade que se lhes impusesse, mas fariam ranger
{ )s seus eixos com ímpetos de devastaçáo, cientes, sem dúvida, de
que cer-
r()s âços temperados no ódio ganhavam com o uso maior tenacidade e
t t.r'tcs espadas quanto mais feriam mais vibráteis tinham as lâminas e menos
('sl)cssos os gumes. No entanto, precisou opor à engrenagem um gesto de
I ('volta. um cansaço momentâneo, mas só dele' fê-lo
romper com um
lr.ibito: jamais conceber uma atitude drástica, nunca anular um passado,
,rincla que recente. Tâmbém náo lhe passou pela mente a idéia de saber se
otÁtoco

essa acomodação viera determinacla por unl cluaclro rígicl«r n crrrolrlrl,l círculo sempre renovado e idênti-
l,r.r t;uc rrada havia de fantástico nesse
seu comportamento, ou, reação instintiva e constante, prcfigtrrrrv.r r[,ll
, ,,. Virrha o cansaço com a madrugada e a promessa de uma possibilidade
ciência de energias. E por mais decisivo que fosse o seu gcsto rr«r irrst.rrrto
rlirr,rl 1'xrra o dia seguinte. Era o signo concreto, real, de que ainda estavam
de lucidez, já se afrouxava aos vinte minutos da partida «lo ôrribrrs. Sr.rrtrt E
vrv()s c participavam de certas convençóes, o amanhecer, por exemplo'
do no banco da estação rodoviária, amalaaseus pés, princiPirr rr st,rrrlr, ,.('ilr uma palavra sequer, deitavam-se lado a lado, com o mesmo apelo'
asco de si mesmo, da ausência de uma fírmezaque gostaria sc nrrurlivcrro a fronteira
t.rlvr:2., no pensamento: vem sono, e limita sobre as pálpebras
mesmo no erro. E ali vinha sub-reptícia, a consciência da inutilitllrlc r[l
,lt' rlois pesadelos. Havia um despertar, às vezes, mas em que regióes da
gesto a corroer um passo meio dado. Ali mesmo, entre o balcão cftr c;rld
urt'1rória, em que estágios da consciência, em que fronteiras do espírito?
em-pé e o restaurante, entre a pista dos ônibus e o toldo de lona quc fecha-
l)ro- A«r sc virar girava o corpo da mulher, e defrontavam-se de olhos
tegiaa entrada, entre os grupos que partiam e chegavam, entre os crrsrris e
tl0s, petrificados, talvez,ou com alguma forma do que seria pedra: nem
seus embrulhos, os fumantes e seus cigarros, os soldados e suas botrrs, or .lc rcflexos nem de hábitos se notariam vestígios. Dois troncos náo se
jornais, as caixas de frutas, as revistas coloridas, os frascos na pratclcirrr,
rlt,Í'rontariam de maneira distinta, dois matacóes. As mãos se escoravam
os carregadores e seu andar de macaco, quatro malas em cada corpo, rluitr .,r.r1 esforço muscular, rijas. E quando se dava o açoite dos galhos, o cho-
junto às costelas, comprimidas pelos braços, duas ao longo dos clctkn,
(l.c das rochaS, as bocas se uniam com rancor e O ódio Se COmpletava, Se
quarta falange a se arrastar pelo cháo, ali mesmo, ao sentir o prinrciro
.,,rlplementava, num todo eriçado, estático, absoluto. E da repulsão de
contato com um mundo estranho vacilou. E compreendeu entáo quc lril
tIris corpos após o segundo de totalidade, surgia ou um Caim ou umAbel,
duas solidóes, a solidáo do monólogo e a do diálogo. A primeira clc rr mortos
.rrrrbos infelizes, ambos marcados, ambos sós e sempre sós, ambos
começava a sentir na proximidade com os de fora, e eram sempre de forlt vítimas da virtude ou do
lxrr aceitar.ou não aceitar uma ordem, ambos
os que não pertenciam ao seu núcleo. Esse estado lhe foi sempre penosor
vício, ambos inocentes. As botas, ou melhor, os canos das botas, semPre o
trazia uma hostilidade na reserva que mantinha e provocara. Um honrcnr
irrrpressionaram, amedrontaram, mesmo. Signo de autoridade. Voz defi-
é sempre um estranho diante de outro, sabia-o bem, mesmo ligado pclrr
rricla e imperiosa, sem reticências de hesitaçáo. Dois pontos de exclama-
carne, pelo sangue, pelo instante de gozo entre duas frações de ódio. A e assumem o ar
çlo enfáticos no bater dos saltos. As botas se deslocam
segunda era a sua solidáo de sempre. A que comprime, modela e torna
.lisplicente de pernas cruzadas no banco ao lado. Um casal e dois filhos
estanques dois seres que se conhecem nos mínimos anseios, poro por poro,
Iocalizam-se perto dele. O marido, terno cinza, SraYata azalada, trinta e
hausto por hausto, até que se cristaliza entre os dois esse fluxo de recrimi-
trito anos, talvez, tÍaz no r9st9 nervgsg e na vOZ meiO rouça um reStO de
nações recíproco, e produto final, a pedra do silêncio. Mas cada um sabe
s6no. A mulher, da mesma idade, cabelos castanho claro, rosto regular, a
da presença do outro. Esse conhecimento os destrói e sustenta, aniquila e
boca um tanto larga, senta-se com um dos filhos, aconchegando a seus
traz certeza de uma continuidade. Nenhuma variante. Nenhum ímpeto um
pés as duas malas, uma bolsa de lona, uma pasta de couro negro e
de adicionar um novo elemento. o mesmo nó no mesmo ponto, aseÍazer
c'nrbrulho irregular amarrado firme com ziguezaguede cordão. Mas tudo
e desfazer, o mesmo intervalo de aparênciapaÍagarantir uma normalida-
placidamente. O pai de pé com o filho mais velho, no máximo doze anos,
de e após o intervalo o espaço pastoso em que se caminha, o prisma de
c'xplica a este o sentido de um termo impresso nos jornais da tarde, e diante
um cômodo com sua realidade raref.eitarum mastro invisível fincado no com
cla incompreensão, alonga um pouco mais o significado, e remata-o
centro, e dois seres agrilhoados ao mastro giram e se perseguem sobre a ()utro exemplo. Um sorriso acolhe satisfeito a liçáo. O menino enfia as
mesma circunferência, sem nunca se alcançarem. Após algumas horas sa- que o
rrrãos nos bolsos, e jocoso rePete apalavraem voz altaparao irmáo
orÁr.oco

encara com espanto no início e logo depois apcrtâ os olhos, rctcsr.l os l.ilrrut, ol jr.t «rs falam, conversam, esbravejam, julgam, recriminam, sOlucionam,
r IL

irônico, e balança a cabeça, condescendente com a interrção rl,,rrrnr, 11.rr 1,,:rlhrrm. Nova irritaçáo involuntária.
Ele vê satisfeito a chegada de seu
Apenas viram o velho que se ergueu, brusco, a mala nos dcdos, c sc tlrr,i ,,rulrus c após entregar a passagem ao agente da companhia procura a
giu à outra ponta da estaçáo. A mulher referiu qualquer coisrl rro rrrrrr rtLr g,,,lllorrâ. A mocidade é tola em seus arrebatamentos de inexperiência,
já sentado, completa, a velhi-
sobre a presença desagradável daquele homem estranho, silenciosr, ó ver, r
lu.rsc pronuncia ao localizar o seu número; l
dade, mas estranho de qualquer modo, a seu lado. Acompanhararrr-llrr.,r ,,. ri irnbecil com sua experiência inútil. Esfrega o rosto com as máos e
passos. Estaria aí pelos sessenta anos. A roupa bem cortada, a nr:rlrr (prilxrt . ,,rrrprirne os olhos, gesto habitual, a ponto de senti-los doloridos. Ainda ill

novâ, os sapatos engraxados, não seria um homem pobre. O mariclo ob. ( (.r'r'rr(las as pálpebras e os dedos varrem o natiz e convergem à altura da

servou-lhe melhor o rosto no instante em que se levantou, um rosto scnt lrot'rl corno se tivessem algo mais a oferecer à língua do que o suor carreado
cor definida, nem queimado nem branco, os cabelos grisalhos, de unr gri. r. rlc nristura alguma lágrima seca, náo chorada, mas presente. Sete para aS

salho doentio, esverdeado, a testa contraída de rugas e os olhos de es1:lrr. orrzc. Outros passageiros embarcam e se comprimem na estreita passagem
to, mas naquele espanto poder-se-ia incluir tudo. Encaixou na palnu tlc r r.rrt1ll. Um a um, foram primeiro os filhos, quatro, para o Norte, Para o
ü-I il
cnl sua mão direita os dedos da mulher e comprimiu-os. Esta não pô«lc rlci- \rrl, para o Leste, para o Oeste, levando com eles a semente apodrecida
ãl xar de repetir que a presença era estranha, perturbadora, inquietante, (luc .lt. t.stufa, machucada pelas tentativas de afago desastrosas' corrompida
I
mesmo sem saber de sua existência a seu lado, sentia no ar em torno clc si lrt.lrr ccgueira obstinada até o último instante.
Havia duas horas apenas
EI aaçâo dele. Imagine em fluxo qualquer de silêncios e ódios, uma imanêncirr ('ntrc a compreensáo e os minutos que faltavam para a saída do ônibus.
Lll ( irr«ru no mesm6 círCulO, em torno dO mesmO eixO, giraram, ele e a mu-
*-J apenas percebida pela respiração. O filho mais novo apoiou a cabeça crrr
tr- I
I
seu ombro, o mais velho aproximou-se, dobrando o joelho sobre o barr- llrt.r. Houve uma pausa, porém. Pararam. E de relance, viu-a envelhecida,
LLI
\l co, o marido agitou cordial a mão da mulher e com o braço esquerdo pou- virr-rr velha, como nunca chegara a supor. E compreendeu, compreendeu
al sado na cabeça do rupaz conseguiu trazeÍ um sorriso ao rosto de todos. (luc sc havia esquecido de muita coisa nesse intervalo de... quanto tempo?
A nrctade útil de uma existência. Inspirou. Expirou. Sentou-se numa pol-
üÍ3
{.. r'i
I
De longe, antes de ganhar a plataforma de saída dos ônibus, ele ainda os
1

viü, já compactos, encerrados na trama de afetos, envolvidos na teia tecida lr ( )ne e sorveu com alívio o primeiro silêncio total, silêncio definição
per-
por um fio longo e antigo, fiado no ventre de tantos tentáculos. Pequenos lr.itrr, ausência absoluta. Foi nesse estado que fez tapidamente a mala e
grupos se amontoam junto às diversas placas. Cada qual com seu cami- ,,.rirr. A observaçáo provocada pelo grupo de rapazes sugereJhe outra. Tirdo

nho. Malas, sacolas, embrulhos, capas, cestas, tudo amontoado à espera r,.s«rlvido, pois chegara finalmente à compreensáo? Bastava então trans-
da saída. Na pista, manchas de óleo e sulcos de pneu no asfalto. O relógio lorrnar o suCedido em esquemas conScientes, e com eles resOlver tudo? E 1

marca dez para as onze. Dez para as onze horas de uma noite de outono ,,s ipsultos, as palavras ditas, ou náo ditas, os gestos, os golpes, os anos'
mais quente que as de veráo. A brisa sopra em direçáo ao mar, e de lá, um .,nn, os anos, o poço envenenado em que se dessedentara e cuja água ser-
apito surdo de rebocador. Ele se encosta a uma parede e deixa atenuar-se vrrrt aos outros, com imperativoS, o miasma que deixou gerar no seu cubo
a emoçáo que o arrancou de seu lugar. Uma breve palpitação, acompa- .lt. rtr e que impôs aos outros, o fruto dessorado que servia aos bagaços na
nhada de necessidade de movimento e pequenos tremores pelo corpo. rrr,.sa unida pelo rancor e pela contrafaçáo de mesa? Podia com essa com-
a cabeça, oS pés e
Nada de grave. conhecia-se bem. Apesar de tudo o organismo resistiu, l,rccusáo estender-se sobre os eixos do mundo, e com
ou por isso mesmo. Quatro jovens, entre os vinte e os trinta anos postam- t,rtla máo, arrastar para o Seu centro oS quatro pontos cardiais? Repete o
se à sua frente, junto ao meio-fio, e enquanto se desembaraçam de seus rrrovimento da máo, e o polegar e o anelar se encaixam sobre as órbitas'

100 101
Inútil compreensáo se além dador ainda lhe dá a consciência da tl«rr, c
náo anula um esboço de gesto sequer do que foi dito ou feito. Quasc clrrio
\

o ônibus. A mulher que ocupou o lugar ao lado do seu náo deixa clc rcct'i
I

minar o marido, na ponta de outra poltrona, paralâdo corredor, por rtlo


ter conseguido dois números num mesmo banco. Era gorda, a cabcçu
A porta
I
trapezoidal ligada ao busto pela papada, e do busto aos pés, uma lirthu
sinuosa de panos e rugas, os seios acomodados sobre o ventre. Falava coltt
os braços, com o atrito dos tecidos, com o ranger das molas ainda ltÍkl
acomodadas, com a respiraçáo alterada, com todo o seu peso de cartrc c
obstinação. O motorista testou o painel de luzes. Na penumbra prossc'
guia o grasnar, o crocitar, o balir, o resmungar. Para onde? Para onclc?
Logo ali, após a curva, os armazéns do cais e a estrada. Bâ-a,bâ-a,b'i-a;
() essencial é não transpor a porta. Náo abri-la. Permanecer ali, diante ll
beée, beée, beée; brrke ke ke kex koax koax, brrke ke ke kex koax koax,
r[.]:r, crlcâfândo-a de rijo com todas as suas possibilidades de
porta. Fecha-
brrke ke ke kex koax koax. Ergue-se. Passa a custo esfregando os joelhos na
I1

,1,r. A lingüeta no furo exato, encaixada. A horizontalidade da maçaneta


da mulher, ainda a tempo de ouvir o agradecimento pela troca de lugarcs pleno
,lt.virla posiçao do equilíbrio justo. Nada que possa alterar o estado
implícita no seu gesto, um minuto antes de partir. Desculpa-se com o o rangido das
\I

rk. l'uncionamento. Nenhuma rotaçáo desarticuladora. Nem ll'i

motorista e consegue reaver amalado depósito já fechado. O ônibus par- arredondados


te. Atravessa de novo a estaçáo, recusa carregador, e no carro de praça dá .k,lrradiças, ou o oscilar dos pinos verticais com os extremos
à tentaçáo das fres-
.r lciçáoàe gota dágua. Porta simplesmente. Náo ceder t
o seu endereço. O automóvel contorna a ilha do estacionamento, passa
r,,r; .1ue a madeira ressequida fizera surgir iunto
às aduelas e ao piso, da gros-
ao lado do bar onde um grupo de marinheiros se embebeda. À esquerda
vê o píer novo em funcionamento, e a proa de um navio iluminada. Abre ,trrr de um dedo quase. Frestas, reduçáo de sua potencialidade de porta'
lrscapar-lhes ao jeito insinuante de seres contraditórios, resistir-lhes ao con-
a poÍta, deixa a mala no cháo ao lado da cadeira, e senta-se de novo na movimento
poltrona, diante dos mesmos olhos na mesma posição. O ar se rarefaz um virc de uma penetração aguçada por curiosidade repontadaao
superfície
r,voluntário da memóriu. Errrn.u, todos os ímpetos diante da
I

pouco. As órbitas se dilatam. As pupilas se fixam. O mastro. O nó. Os fios


1r<rlicla, opaca)manchada
de dedos. Placa de cedro, talvez, ou de imbuia,
retesados. A circunferência. O impulso inicial. Brrke ke ke kex koax koax.
vezes, em que
Brrke ke ke kex koax koax. Brrke ke ke kex koax koax. r()t1 SeuS veiOS em cunha, ou desorientadOs, nervosos, àS
nós definiam olhos demoníacos, em meio a algum
rosto rajado'
Toma, devora-me o fígado, pois cometi um crime, não roubei a vcstígios de
-
luz, aceitei-a quando me ofereceram. t, rcinho. A idade do tronco na recriaçáo de hipotéticas
jubas. Manter assim

;rs máos espalmadas sobre a almofada. Quando


muito um ligeiro movimen-
t(), mas sem ruído, permitindo aos dedos um rápido
contato com as moldu-
dilatadas,
r.as, ou a pressão mais enérgica nas espessas conçoeiras. Máos
de unhas moles,
;rrrrplitude máxima dos dedos curtos e grosseiros, broncos,
i.rJgulares. Tentativa de integração naquilo que é porta.
Mas o desejo de
nunca ultrapassar o limite de alguns milímetros'

103
102
orÁror,o

Mais um prato.Alice, temos visita! rrrr'nrlrros rctcsados lhe dariam a feiçáo de crucificado em madeiro oblon-
-A mesma frase, as mesmas palavras, mas com outra inflcxão, l)rlst:ln.lnr 1i,,. I r tkrrnrir um sono compacto, inerte, sono de múmia temporária, sono
para arrancá-lo do torpor que o dominara ao encarar o grupo r\ cspcr;r thr '., rrr vísccrâs nem alma, sono metálico. Mas havia a mesa a contornar, a
jantar. E nuncase destrói o ódio? Nuncase extirpa o sarcasnro nu lr;rrt' lrrir rr rr jurrto à gaveta, e o feixe de olhos a queimarJhe o corpo com a intensi-

feita com intenções mal acobertadas? Sempre acaÍga demolidore n(),',('h ,l.r.lt'rlc ondas invisíveis. Uma palavra, apenas, dita por ele, e provocaria
to visual, o desprezo no ato comum? A empregada, nova na casa, ollrorr o ,, rrrruulto propício a um reatamento, ainda que entremeado de insultos.
também com tique aborrecido nas pálpebrâs e no canto dos olhos, lirrr Nl.rs scmpre haveria lugar para uma expressáo mais rude, um gesto mais
dindo às suas as emoçóes do ambiente. De que valeria uma identificrrçrio ,|,'s..'rrvolto, a coragem de readquirir um domínio seu, mesmo contra a
para restabelecer um princípio de autoridade, de hierarquia? Puro «lcs v,rrtrrde de todos, e a sua própria. Náo um estranho introduzindo a pre-
gaste de energias quando na sala imensa um olhar rígido, maciço, um ollrirr ,,t'rrçr intrusa, importuna, e sim o dano de certa parcela tomando posse
monstruoso concentrando várias faces, conjunto de muitas lentes a con- ,rl)r'si.lr da hostilidade afirmada sem disfarces. E essa palavra? De onde a
vergirem raios para um só ponto. A mãe, ligeiramente dobrada para a frcrr- .rr mncaria? Da saraivada que lhe assomava à boca qual delas serviria?

te, equilibrando a cadeira de balanço com os braços estendidos, o irnrio " - Dormir." Inútil, ridícula. Perceberiam, acaso, o dormir como ele o
mais moço esparramado no banco de palha, cigarro na boca e bochechirr .,t'rrtia? "- Imbecis." Para isso voltara,paÍanum arremedo infantil lançar

luzidias com os cabelos empastados, a tia solteirona, dura, ressequida, obtu- ., lrcdrada moleque, e mostrar a língua em contrafação simiesca daface?
" Voltei." Desnecessária,pela evidência. Reconhece que qualquer uma
sa como todas as solteironas, expelindo complexos nos dedos magros -
ocupados com uma agulha em trabalho infinito, o irmão mais velho, pc- 1,r'oduziria o efeito previsto, e conclui que o que desejava evitar era esse
quena calva, no sofá ao lado da mulher, reproduzindo nos movimentos c nresmo efeito. Por que viera, então? Sonhara com rompantes de ternura?
na roupa os ideais paternos, a cunhada, grâvida, de rosto inexpressivo, Nunca! Ponto por ponto recompusera a acolhida, e náo houvera a intro-
arredondado, os cabelos curtos, raspados acima da nuca, mas contagiadil rrrissáo do elemento surpresa. Por que viera, entáo? Por que vai um ho-
pelo espírito do clá. E à sua frente, do outro lado da mesa, surpreendido rncm a caminho de sua danaçáo com a lucidez do suicida? Passo sobre
no instante em que abria uma gavetaro pai. A calva reluzente no alto emen- l)esso com a intençáo firme de desistência, náo pôde evitar sua presença
dando com a testa, o cabelo meio ralo lateralmente, aparado com a pre- rrli. Como é sólido esse espaço, como é denso o ar triturado pelo corpo
caução de não alterar o volume que sempre lhe foi grato, de modo a lcnto no caminho paru avaranda aberta. É necessário recorrer ao acúmulo
recompor o efeito duplamente triangular do rosto, que afilava para o rle energias extremas disponíveis em um músculo para deslocar a perna, e
queixo e para a fronte. Nada nas roupas poderia indicar um tempo duplicá-las para mover a outra. Romper com os braços uma consistência
irreversível. Sempre a camisa justa, sem rugas, sempre a calça com vincos de pedra e impulsionar o peito em uma ansiedade de golpes e colisões
nitidamente marcados, arestas de algum sólido, que nem as oscilações do constantes. Quase ultrapassada a figura do pai. Restam os outros. Estranha
joelho alteravam. Não teria outra coisa a lhe dizer? Os dedos se apóiam matériaprecipitada pela condensaçáo de fluxos visuais. A varanda! A va-
num espaldar e impedem o movimento de avanço já esboçado. Atingir o randa! Sob a sola chia o tapete resistindo à pressão sobre as fibras, que se
quarto, além do corredor, na alaesquerda, era a única idéia. Bastaria con- vergam em atropelo para retornar à vertical com estalidos inaudíveis de
tornar a mesa, já que o alimento não o affaía, e ganhar o corredor em minúsculos chicotes. Mais um pouco e a rigidez ambiente se modifica,
cotovelo, sucessão de portas para os cômodos rodeando o pátio interno. atuando apenas nas costas, e imprimindo-lhe a celeridade suficiente com
Estender-se na cama com a face encravada no travesseiro enquanto os que, mais desenvolto, possa atingir a abertura. Jâ nã'o os vê. Pressente-os

104 105
DrÁroGo

apenas, pelo atrito dos assentos ao girar dos corpos conr quc llrc :rr', rrrrp,r ,l('nr()níacas se coniugaram no ato em que foigerado? Longe delesr longe
nham atrajetória. A varanda! Tâlvez fosse esse cháo ali, três tlcgr:rrrs .rlr.rt ,l,r c:rtlcia de sobrenomes iustapostos que lá dentro velava pela integrida-
xo, o motivo de sua vinda. O quintal profundo separado clo pírtio irrtt'r nu, ,1,. tk'sscs elos, não lhe fora melhor a sorte. Olha o céu. Claro. Pontilhado.
para onde dáo as janelas do quarto, por uma cerca de bambu crrrvrr.l.r n,l ( ,rlrrro. Calmo, agoÍa. E ele já conheceu outras noites de desespero e sor-
terra, e cortada à altura de um homem. Seixos acumulados crirrnr rr irlclo ,lr.lt'2, impelido pela fome. A sordidez de um remanso que se olha com
de embasamento, e pequenos reflexos faíscam em pontos brilharrtcs. l)e r' .lt':,prczo de si mesmo. Mas afugentar as idéias. As mãos. Essas máos pou-
ce os degraus. Mamões miúdos se apertam protegidos por folhas llrl',irr, , , r lrribeis em permanecer além-muros, fiéis à mente em ebulição. Contor-
Bananeira. Tâmarineiro. Pé de carambola. Mangueiravelha, gigantc, il c(,lrn n.r rr ccrca de bambu e pensa em atingir o parapeito da ianela de um salto.
longínqua, no alto, bem lá em cima, acima da janela do sótáo, enfiacla crrtrc lrlt,tlc a distância, e desanima ao tomar consciência da solução furtiva. No
as duas águas do telhado. E no fundo, além do muro divisório, já crrr ou- ( (.ntro, com a moldura dafaixacimentada a se apertar rente àS paredes, o
tro lote, a linha erecta de uma palmeira e seu capitel imóvel na ausêrrciu 1.rr.tlim cuidado. Algum tempo, oco, a estraçalhar folhas, a untar os dedos
de vento. Talvez esse cháo o atraísse. Sem reminiscências, sem incidurter t on) â resina expelida, e a trincar algum talo que lhe inunda a língua de
de infância (ali nascera), sem perturbações afetivas. Cháo, apenas. lhrr , icrr. Bruscamente toma distância e sôfrego, durante o salto, arqueia os
pouco seu. E no cansaço, melhor do que outro qualquer para acolhê-lo. A l»'rrçoS e engancha-os no parapeito do quarto. Um esforço a mais e estaria
terra cede ao seu peso. A grama se inclina. Sob a quaresma recolhe pótllnr l.r dcntro, mas imobiliza-se. Os pés iânáo tocam o chão. Pendente o cor-
soltas. Debruça-se no pequeno tanque e perturba o reflexo lunar cla frrce po e o antebraço dolorido pela quina de mármore. A posição ideal do
com a agitaçâo dos dedos na âgua. À profundidade de um palmo a canrrl- irrstante insolúvel. Vaga sombra colada a um muro, fantasma de si mes-
da tênue de um musgo quase translúcido cobrindo a laje de pedra. l.) os rrr«r, semivivo, ainda, por açáo da gravidade. Entre os olhos e o muro, a
outros, lá dentro, na mesma atitude; não ouvira um só movimento otr rlistância de uma vida. E agora? E agora? E agora?
palavra. Ficaria ali a noite toda, o dia seguinte, os meses, os anos? À b.ir,r E depois? E depois? Sabe que o essencial é náo transpor a porta' Não
do tanque, encarando o casal de crianças de pedra, bochechudas e feliz,cs .rbri-la. Permanecer ali diante dela, encarando-a de rijo com todas as suas
sob um guarda-sol de cimento e placas de esmalte coloridas? Não, não 1',ossibilidades de porta. Fechada. Mas os dedos escorregam na madeira,
e
vale a pena rememorar incidentes e explosões que cavaram ou aprofurr- unl ranger de pinos ressoa em sua indecisáo.
daram a distância entre ele e os outros. Nem elaborar hipóteses que pos- Mais um prato, Alice, temos visita!
sam justificá-los a seus olhos, e inverter a sua condiçáo de vítima na dc -
confessor todo-poderoso para absolver culpas não ouvidas. Violara as Icis
deles, de tranqüilidade e ordem duas vezes seculares, ao não aceitar o quc
fora assentado sobre a rapina, e continuava sendo, num mecanismo berrr
mais complexo, agora, com a vantagem de estar fixado já em algo quc
implicava uma determinaçáo vinda não se sabe de onde. E foram tão du-
ras as palavras ditas, e descobriram-se nele ímpetos táo selvagens (de onde
vinham, de onde?) que a resposta foi essa de há pouco, numa incrívelsub-
versáo afetiva. Pouco importam os detalhes, e ao seu feitio rebelde basta-
va o instante ali, irresoluto. De que sangue fora feito? Que esferas

106 107
orÁtoco

,|,'lrcrrdc apcnas dc um arroubo momentâneo. O homem se engrena e é


t'rrlircnado. Em um dia, ao tentar num momento de desespero o gesto que
llrc parece novo e liberto, pasma ao identificar nele a mesma celeridade
.lt' rrrn impulso anterior. E neste instante já se definiu vâriasYezes.Instan-
O aprend \zado tc tlc loucura, porque fora de controle da razâo, alheio a qualquer inten-
\:r() preconcebida. Mas autêntico, dele mesmo, intransferível. Encara com
, r primo, à sua direita, e ocorre-lhe então pensar se ele teria também esses

rnstantes. Conclui pela negativa. Observa-lhe o movimento preciso das


rrrÍos que produzem fogo para o cigarro. Os dedos náo tremem. As unhas
lrolidas e cortadas rente à pele sáo uma lição de asseio. O nó da gÍavata
lcrn qualquer coisa de uma displicência estudada, do mesmo modo que as
nrgas na manga do paletó. As faces escanhoadas têm uma consistência cre-
Renúncia! Renúncia! Renúncia! Como que um brado em uníssotto, nrosa e os olhos uma fixidez ideal para nunca transmitir sentimentos em
apesar do silêncio. Brado de contraçóes musculares, de oscilar de narizcs, .lcsacordo com a situação, qualquer que seja. Este homem aprendeu a viver.
de ombros caídos, de faíscas visuais. Em torno da mesa havia esse elo rt lrrrsinaram-lheafazer mesuras, apegaÍ nafacae no garfo, aapoiar as máos
apeÍtaÍ, a constranger o quer que fosse de compreensáo daquele mcsnto llil rnesa, ensinaram-lhe a escovar os dentes, a dormir na hora certa, ensi-
brado. Encaram-no, apenas, na pausa, e náo está âusente um leve sinal clc rrrrram-lhe a andar na rua e a sentar-se numa poltrona, ensinaram-lhe a
asco. Clemente ergue a cabeça e apreende este sinal que consegue lhc tliz.cr coisas e anâo dizer outras, ensinaram-lhe a gostar disto e a desgos-
despertar um esboço de sorriso, e um pensamento irônico. Asco provoca- t:rr daquilo, ensinaram-lhe tudo, enfim, e ei-lo aspirando fumo e orien-
do pelas mesmas causas que há vinte anos despertavam satisfaçóes; pelas trrrrdo a chama do fósforo, eiJo íntegro e sensato, eiJo seguro, ei-lo padráo.
mesmas atitudes que então lhe traziam o conforto das simpatias, e mesmo l')cle, Clemente? O oposto, o reverso, o avesso. Mas menos homem por
a complacência por certos exageros. Simplesmente esquecera de parar no rsso? Fosse cego, surdo, mudo, sem tato e sem gosto, menos homem, ain-

tempo adequado, deixara o impulso ir além de um determinado limite e ,le assim? Craza os braços sobre a mesa, enrugando atoalha com o vai-
náo procurara aquele meio-termo exato, justo, em que tudo se equilibra c vúrn dos cotovelos. Como resposta ao brado pressentido olha atento para
se nivela, em que tudo sáo convençóes, em que tudo se resume na con- ,rs faces dos outros. Ao lado do primo, o tio. Na cabeceira oposta, o ir-

quisra do estável, sereno, imóvel. Aos quarenta anos exigiam dele uma rrriro. À direita, a cunhada e a tia. Todos em torno da mesa, dentro do único

reviravolta completa, um abandono desse estado que, segundo eles, feria irl)osento que lhe servia de casa, e onde ele mesmo preparava as refeições.
a integridade da família com prolongamentos e conseqüências inima- I';rrcdes de um cinza desbotado. Uma pia iunto à porta de entrada. Um
gináveis. Sentado em uma das cabeceiras da mesa, ele abandona por instan- :rnnário espelhado, uma cama, uma pequena cômoda com livros, cigar-
tes o jeito vago dos lábios e a expressão serena da fronte. Sim. Imaginemos ros, cinzeiros, escova de dentes, creme de barba, lápis. A janela abtiapata
a possibilidade do fato. Mas é assim táo simples? Poderia, se o quisesse, .r rrra e, como o sobrado estivesse localizado no topo da ladeira, viam-se
rcsponder num quase grito que náo. Algo de que já tinha um conheci- ,rs cluas descidas e os telhados das casas baixas alinhadas nas transversais.

rncr)to impreciso só há pouco tempo se formulou com nitidez: o homem l)c um lado avultavam as construções maciças de fábricas com os longos
sc clctcrmina a todo instante, o passo livre não é táo livre, nem a decisáo plinéis de alvenaria, algumas chaminés, trilhos elevados de pontes-rolan-

108 109
Dl^to(,()

Observa o tio,
tes, aberturas com grades Iogo abaixo das corlrijes, clc outro o crrtrccort;rrh r lror nlrrito tcmpo a atençáo dos que insistiam na exigência.
de pequenas residências com jardins apertados cntrc o calçanrcrrto t. rlr rrrrr lrolrrcm de sessenta anos vigorosos, transpirandg energia e decisáO,
versos tipos de varandas, umas em arco, outras de trave e colulrlrs rctlorr ..r nr t'scotlder, no entanto, a pupila sagaz e ágil. Os cabelos brancos e far-

das, algumas elevadas com peitoris de ferro e linha de vasos pcnrlcrrlt.s, r,., lrcnt dispostos e repuxados para a nuca recendiam a brilhantina ou
ou ainda destacadas, mais alpendres, e cercadas de parapeitos dc rrrrrtlt.ir'.r lo\.:r9 pcÍfumada, e contrastavam com o rosto queimado de sol, enruga-
e toldo de lona. Estava um ano já naquele quarto, e quando saiu e pr()crr- rlrr, ntâs saudável. O dorso das máos era recoberto de pêlos abundantes
rar moradia só se decidira por esta depois de muitas andanças. Rccluz.itkr .r,,.;ir1 como de pequenos tufos o centro da falange. Os dedos, curtos e
ao mínimo, limitado a uma existência adstrita ao essencial, só se pcrrrriti- r,,liços, nada tinham de indolência ou de nédias apatias. Tâmbém este lhe
ra este último requinte: um pouco de espaço comum para as suas cisrrrrrs, ( t irvi.lva os olhos com possíveis acenos de fartura e de repreensáo' E como

uma visáo fora e acima dos horizontes de um corredor ou de um pritio nr;urciava bem os cordéis de seus títeres, ou ele mesmo, títere voluntâtío e
interno, uma nesga de céu e uns fiapos de verdes. E pediam-lhe renírncirrl ( ( )ilsciente, como entregava o braço, as pernas, a cabeça, o tronco, como

Como se no gesto de alguém que se nega a alguma coisa, anulaçáo dc gcs- ..,. dcsfazia de suas articulações e de seus reflexos quando achava nisso

to, houvesse menos violência do que naquele que com arroubo esbravcjir ( )lveniência. Tâmbém ele soubera apoderar-se dessa arte, mais artifício,
(

e se satisfaz, como se o olho seco valesse menos que o lacrimoso, como sc r r rtle feita de sutilezas e grosserias, de expect atiYa
e oportunidade, de in-

o que se nega ao pÍazer fizesse menos esforço do que o que a ele se lança. v rlôncia e submissão, de silêncios e rompantes, de anulaçáo e prepotência'
À ira de outros tempos Clemente soube opor uma feiçáo apâtica,espócic ( l«rrrhecia a palavra exata para o momento preciso, a frase picante ou

de desinteresse que lhe carregava o rosto de traços abobalhados. E talvcz. obscena no ambiente adequado, o tom humilde diante do superior útil, o
essa inércia, a ausência de vestígios de oposiçáo violenta, servisse de in- lirosseiro diante do inferior, o arrogante quando
o poderoso em nada o
centivo às investidas dos ali presentes. Sobre a mesa havia uma bandeja dc 1.,o«lia prejudicar. Sabia desfazer
situaçóes equívocas e armar intrigas das
lata, redonda, com o fundo polido, já sem as xícaras de caf.é, que ainda .1uais se saía sempre bem, e sabia, por experiência própria, que a fortuna
tivera tempo de oferecer antes do silêncio de agora. Puxou-a para si, c sc'ganha com uma frase, num dado momento, que este momento único'
inclinando-a um pouco reviu seu rosto deformado, composto de fatias irrccuperável, irreversível exige um estado de alerta para a sua apropria-
opostas. um estado
sinuosas de testa, olhos e sobrancelhas, faixa de nariz, boca, queixo liga- çiro. um estado idêntico a outro, de conseqüências
do aos lóbulos das orelhas. Apesar de tudo, identificava-se. O mesmo ros- que é a realizaçáo do ato náo mais esquecido, do ato definição de uma
to em que às vezes se descobria estúpido, outras, sem marca particular. cxistência, à maneira de um crime e seu complexo de culpa permanente'
Na verdade os cabelos esbranquiçados junto às têmporas reduziam a testa li entáo este adere ao corpo, introduz-se nos poros, domina os centros
a um pequeno intervalo, perturbado ainda pelas sobrancelhas. Estas da- lcrvosos e dita a feiçáo do rosto, e insufla as Palavras já com outra ento-
vam a impressão de estarem recobertas por tênues jatos de cinzas. Os olhos rraçáo. E tudo o que se lhe segue, água a tombar de uma calha impura,
náo tinham forma definida, envoltos em cavidades bem acentuadas e co- vcmcom eSSe gosto de azinhavre nunca mais perdido. Clemente tem diante
bertos de pálpebras pregueadas. Alongavam-se quando trincava os den- clcle a janela e acompanha o passeio de um Pai e seu filho numa
das trans-

tes, prendendo alguma palavra;arredondavam-se com a feiçáo de abúlico; vcrsais à sua rua. O bairro guardava certa quietude comum aos domingos
tornavam-se lâminas quando, cigarro nos lábios e só, procutayanapaisa- cntre as quatro e seis horas da tarde. O homem de calça escura e blusáo
gem um derivativo para a febre interior. Via-os bem arredondados agoÍa, branco aberto no peito arrastava meio sorrindo um corpinho minúsculo
apesar de se desdobrarem sobre uma imagem curva. Mas náo pôde desviar vestido de uma só peça de lá, desengonçado sobre passos mal definidos.

110 111
Dl^toGo

As figuras desaparecem sob uma galhada nrais cspcsslr quc sc prott.j;r, ;rldru r(.nr, lt(:sitant e o trt:fitor de pálpcbras, a contraçáo das sobrancelhas, indi-
r .ln illscgurança. Impossível encararem-Se os dois assim cOm inteira fran-
l
da cerca, sobre a calçada. De uma esquina surge o automóvcl csl)( )r't (. rnt
viva policromia. Azul, pára-choques e acessórios niquelados, trrrziir tlulr ,lu(.zil. Difícil duelo, conhecidas as armas, quando por detrás de cada
casais exultantes. Ao freio brusco seguiu-se uma risada a qurltr() v()7(rtl p.rl;rvrrl não pode haver a surpresa do argumento desconhecido. Clemen-
harmônica, contagiante. Saias vermelha e verde, blusas branca c rrrrr;rlehr t(. tcnr diante de si um bloco de serenidade conquistada a golpes de impla-
r ,rvcl determinaçáo. Coluna serena de arranha-céu, vertical, tranqüila,
que
gema-de-ovo, calções curtos de xadrez preto e branco e camisirs rrz,rrl ê
estampas ao acaso. É necessário apoiar-se nessa vibração de foru pru.d rnrisculo lhe sentirá a dor do esforço envolvido por fina placa de mármo-
compreender a importância dos pequenos gestos. Coisas em aparônciir se rn rr.? Onde a pergunta de outros dias? No mesmo bar, diante do mesmo
interesse, nadas, suficientes para concentrar energias. E com esscs rrlrtl[r ( ( )l)o, com O mesmo entusiasmo e revolta prgvocados pelo que lhes pare-

tecer todo um intervalo de alienação. Ultrapassada a fase das pcqucrrnr ( rir injusto. Clemente ouviu: "Abolidos princípios fundamentais no Perío-

alegrias, dos momentos automáticos, Clemente aprendeu a distinguir o tlo cle uma existência, todo o resto náo será sordidez?" Uma noite,
gesto e a reflexão do gesto. Um homem baixa a colher sobre o prato. lrnt (,lcmente o encontrou estirado na cama, os olhos fixos no teto, a boca
outro reacomoda os nervos, reajusta a cabeça e com as pupilas na rrrilo rrrcio entreaberta, as máos âgarradas à cabeceiraaltarqual homem Suspenso
que envolve o cabo, acompanha a curvâ da concha na translaçáo e tcrrr I rr:r horizontal, e nada disse. Descalçou os sapatos, tirou a roupa e esten-
plena consciência de que está conduzindo a colher da boca para a sopilr rlt.u-se na Outra cama do quarto. PareCeu-lhe Ouvir um sussurro: "Sobre-
sem a ceÍtezq porém, de que da sopa volte para a boca. De novo conl il vivcr... sobreviver". No dia seguinte viu o início dessa sólida construçáo
atenção sobre a mesa, sente o apelo da tia e da cunhada. Mas delas naclu ora à sua frente. Os outros incidentes pouco interessavam agora. O inÊ
tem a extrair. Neutras na ternura, neutras na sensibilidade, incapazes dc eiO, a origem, as suas razóes de nada valiam, Ele, apenas ele, nesta hora,
compreender uma oscilação de afeto acima ou abaixo de uma certa nré- rlirnte do apelo. Refreou o primeiro ímpeto que foi o de expulsá-los. Na
dia, reputavam-no louco, e exigiam não sabiam bem o quê, mas exigiant. sla serenidade às avessas, obtida por um esforço sempre em sentido oposto,
sr'r tinha de realmente seguro uma coisa. Quando um homem como
ele,
Tinham uma noção vaga de que só um impulso era válido: o otimista. Mas
sem exageros. Desconfiariam da exaltação sem limites, e nunca chegari- Olcmente, aprende a viver, está à morte. Por isso baixou a cabeça, fincou
am a formular o pensamento que neste instante se completa em Clemen- os cotovelos na mesa, e desabou com a testa nos punhos cerrados' E O
te: o que me distingue do animal é essa capacidade de me anular como lrrado em uníssono dissolveu-se no silêncio.
homem e ter consciência disto. Se o dissesse em voz alta? Provocaçáo. E
dizer que há idéias perigosas. Palayras que ofendem. Nenhuma paulada,
nenhum golpe de lâmina. Apenas o flutuante e mágico fluxo em ranhu-
ras, o jato de ar e uma certa conformaçáo de língua, dente e lábio. O ir-
máo. Clemente sabia que dos cinco era o que pedia com menos ênfase.
Quase da mesma idade, tinham os mesmos impulsos, até que um deles
optou pela segurança. O rosto ablongo, a testa larga, a linha nítida do
cabelo em arco, as orelhas um pouco repuxadas para dentro e para trás,
em diagonal, os lábios finos e quâse sempre cerrados, o pescoço longo
ligando com um corpo à vontade na roupa bem talhada. Os olhos, po-

113
112
CONTOS DO IMIC

rlu(. estraphamente Se compactava uma dezena de trOnCos com as c6pas


lrrntlidas. O mesmo caminho percorrido todos os dias, sem grandes entu-
.,r.rsnros e sem grandes irritações. Pela manhá a espera de um trem denso
t.r, :r prccipitaçáo ao se abrirem as portas dos
vagões como que preten-

O jogo de damas ,1.'rrrlrr expelir a caÍgajustaposta no espaço vital, e tendo que receber ou-
r r os contingentes em cada parada. Flutuar, às vezes,
no espaço, o ventre e
.r, rridcgas comprimidas, os pés não tocam mais o chão, os dedos ardem
r ont o atrito nas argolas e os bíceps resistem ao movimento
pendular Pro-
v,,crrclo pela variaçâo damarcha. Um ou outro relance na paisagem, su-
( ('ssão de quintais, portóes, grades, Pastos, mulheres nas
janelas, comércio
rrriúdo. Agitaçáo maior em Madureira, Méier. Sempre mais gente a afluir'
llrrr peito que força caminho, um tronco mais robusto que se opóe ao fe-
t lrrrrnento da porta. Choro de criança. Jornaleiro. Tiouxa de roupa
impe-
A máo hesita. Os dedos convergem no gesto de apreensáo, acenturln-
do-se as veias no dorso retesado. Indicador, médio e polegar retênt rto lrrlrr por entre aS pernas à procura de algum váo. Vestidos. Casacos'

espaço a pedra negra, pequenos ímpetos se esboçam e denotam a inclcci- Ir4lcacóes. Camisa. Capotóes. Blusas fechadas e abertas, de fecho ou de
sáo de rumo no tremor da sombra que varre o tabuleiro. Rispidamentc, rr lroróes. Muitos verdes de praças, e a mancha vermelha do fuzileiro na
torçáo precipitada e o estalido seco no quadrado definitivo. Crispim rc- .rrrogância de seu metro e noventa, sorvendo solitário o ar das galerias
colhe as pernas sob o banco, vibra os joelhos e aplaude com as coxas () .rcima das cabeças. Na parada final a explosáo da tropa, a descida acelera-
rlrr da plataforma paÍa a galeria subterrânea num caudal atordoante
de
gesto preciso que o livrara da insegurança.
Eta, jogáo. lcra que por escamas tinha nucas, a ascensáo no compasso de solas que
-Ergue a cabeça, quase sempre apâtica, um brilho de vitória faísca-lhc ICrem vigorosamente a rampa, e a conquista da praça com a trepidação
dos olhos, os beiços se entreabrem com o sorriso, e a pele opaca do pret«l ,lc seus bondes, ônibus, carros e britadores no trecho do asfalto em con-
ganha reflexos no contorno repuxado das maçás salientes. Enquanto Ga- scrto.
lego, o queixo preso nas mãos espalmadas, inclina a cabeça sobre a mesa, besta!
-DuasJogada
pancadas firmes indicam o avanço de pedra branca para um canto
e alteia os ombros pontiagudos, indiferente ao júbilo de Crispim, este desvia
c Galego recolhe as pretas comidas e as deixa enfileiradas
junto às outras'
a atençáo paru a encosta do morro que após alguns metros de declives
Scu corpo recua para dar lugar à perna que elevara, e enquanto
o calcanhar
violentos se espraia em rampa morna, alcançando o arruamento do bair-
sc apruma na ponta do banco os dedos se entrosam nos artelhos
querendo
ro quase no plano. Alguns sulcos, logo barrados pelos trilhos infinitos à
,rçrlacar alguma coceira. crispim sente o mal-estar de quem se frustra,
sem
esquerda e à direita que o viaduto e a estaçáo interrompiam. Do outro
lado, novos sulcos concentrados em torno de uma praça, mais espaçados lrcrceber no emaranhado de diagonais a razâo do insucesso. Há três dias
jng"- damas todas as tardes, um pouco antes do escurecer. Há três dias
per-
à medida que dela se distanciavam, novos descampados quase sem mata,
a pedra repontando do barro, no início, e depois violenta, irregular, an- .le todas as partidas apesar da facilidade das regras, e de achar que nada
gulosa até um paredáo a prumo onde a grama reaparecia e um caminho rrrais simples do que deslocar as rodelas da esquerdapaÍa a direita ou da
ondulado conduzia a moitas mais espessas, ântes de atingir o trecho em tlireita para aesquerda, sempre para afrente, e no caso de comer, pode-se

114 115
otÁtoco

andar paÍatrás. Era o trato com Galcgo. Insistc agora. Cotttéttt rr irt'il:t5,lu, nrt('r'ccpti.tr alguma pedra. Crispim revê o dorso do monte que maravilha-
Concentra-se sobre as pedras negras, bem dispcrsas, sete no total, lll('(lc d r r ..rrrr inÍância, a linha do cume que revelara aos seus olhos espantados o
distância de uma a outra, contorna os vazios com um movimcnto clc citlrr'10 Lr,l,» tlc lá, e além da vegetação cerrada na encosta e no início do vale,
e a simpatia se fixa numa bem no meio, longe de qualquer brancrt, c íot;t tL t ,rrtr'«r nlUildO de CaSas, rUaS, minúSCulOS bOndeS, e de nOVO, mUitO aO lOn-
ataque do adversário. Feito. O gesto traz um sabor de alento, c Lltllil l)t'cllc 1i,. o l'lrrrrco de um morro com barracos diminutos,
mas bem semelhantes
alegre se acentua sob os olhos meio irônicos. )\ (luc conhecia. É nesSa encosta, algunS metros antes do abismO, e Com
.r,
Eta, jogão! unril vcreda de terra escorada pela pedra, que descobriram a gruta. O chão
-A mansidáo um pouco transtornada volta-lhe de novo. Tira clo boho .,('rfr[)rc empoçado. De uma fratura na parede dos fundos um fio dâgua
o canivete sempre afiado no esmeril dafâbúca, a lâmina reluz na prtrto ,..,,.«l'ria e desaparecia pela lateral. Um fedor constante a umidade atraía-o
mais gorda, tornando-se opaca e estriada iunto ao fio. Lasca uma potllo rrr.ris ainda. Falava-se de cobras e índios. Uma idéia de onça nos
já madu-
de unha e começa a escarafunchar apele com o intuito de retirar um rcsl(, I os. E, náo era estranha para os que ali moravam ainda na monarquia
(quan-
de verniz já grudado. Gostava mesmo de uma coisa assim. Terminatlo tl .lr » rro local do viaduto havia a porteira da fazenda, e onde a9ora estâ a
trabalho, sentar num banco, num canto, num tronco, ver o tempo passilrl l,x.:rç:l, a casa-grande), a hipótese de
que um fantasma ali fizesse pouso uma
com alguma coisa entre os dedos e os olhos. Beber, náo bebia. No bltrt- \'('2. por ano, na Quinta-Feira da Paixão, chorando um corpo que rolara
que deixava-se de lado, com a admiração pelos que se lançavam na rotlit .l.r barranco.
bamboleando o corpo, ou riscando de leve aterra com passos ligeiros, besta!
como pataveloz que escarvasse a areia. Quando havia futebol os dcrttcs
-TiêsJogada
golpes secos, duros, precisos, acompanharam a máo de Galego.
de Crispim brilhavam de satisfaçáo ao ver a defesa valente, uma pernatlit l)ois ao avanço e um no retrocesso. Tiês saltos de polegar, indicador e
rija, ou a cabeçada inteligente a devolver ao espaço a linha do vôo, nlrts rrródio grudados à pedra branca, três corcovos felinos de algo a lembrar
nunca jogava. Sentado, as máos espalmadas sobre a grama, as pernas cs' rrrn focinho. Estacionada a pedra, os dedos afrouxam-lhe a pressáo, reco-
tendidas e abertas, contentava-se com a visáo apenas. E isso enchia-llre llrcm as três pretas para depositá-las ao lado das outras. Crispim sente os
boa parte dos domingos e feriados, se fossem de sol. Com a chuva, pcr' «rlhos de sangue, a testa fria e dolorida, e morde o lábio inferior cortando
manecia ali dentro do barracão, e enquanto raspava um ou outro banco rro meio o que poderia Ser um palavráo. Enfezou, e a ponta cravada na
para envernizá-lo com pequenas sobras daÍâbrica, ouvia as histórias da Incsa sofreu as vibraçóes do gesto de raiva. Encarou Galego e aparou com
avó, meio cega e empoleirada numa cama de atmaÍ, sempre com frio c rts feiçóes desfeitas o esboço de ironia. Fosse ser inteligente assim no dia-
com fome, e as queixas da mãe ao agitar o abano para reavivar o fogarei- bo que o carregue. Que tinha ele de melhor? E uma coisa dessas, ganhar
ro. O carváo úmido estalava e a fumaça despertava tosse e lágrimas sobrc scmpre! Simples! Simples! O desgosto fê-lo olhar em volta e refletir sobre
as lágrimas de sempre. Galego avança com os ombros e meneia a cabeça o seu feitio sempre apático e inerte. Nunca pensar muito alto nem muito
tendo na boca o vinco desolado de esforço que não comPensa. Crispim, longe, nunca a vivacidade dos outros, de Galego, em apanhar a idéia a
por cima da sua cabeça, vê as ladeiras tortuosas morro acima, Portas e rneio caminho ainda. Lá dentro a avó estaria encarapitada na cama com
janelas oblíquas de casebres em plano superior. Varais. Gatos. Cachorros. frio e com fome, e a máe dobrada com dor nas juntas abanaria o fogo. O
Moleques nus engatinhando num cercado de tela de arame, e à beira de pequeno pátio em que se achavam, nos fundos, aterrado e escorado com
barranco mais íngreme a mulher que despeja o conteúdo de um urinol. uma cerca de tábuas para que fosse horizontal, era varado por valas, lei-
Galego completa o arco com a máo direita e os dedos se afunilam para tos naturais e constantes das águas despejadas. Crispim olhou os caibros

116 'l 17
que alteavam um pouco â casa, c o rato (lue risclrvtl c()nl ils l)ltlils (lt.utl(.t
ras e os dentes nervosos a madeira dura. lbclos «-rs clias.'lorkrs os rlr.r.,
Com o pé disparou-lhe uns gráos de terrâ e viu-o surnir-sc rct'ltc :r r-t.r t .r. A
desolaçáo instantânea permitiu-lhe uns segundos dc- reílcxiro, urirs .ltot
doaram-no. Preferiu araiva. Que faltava a ele e sobrava no outr«r? ( )s rlr,rr [Jma velha história de maçãs
de rotina nafâbrica, a lustrar sempre as mesmas peças, as ichs c virrrl,rr
diárias, as horas em casa cheias de cismares que na verdade nã«r crrrrrr t rr
mares, mas um simples plantar de olhos em uma ou outra coisrr. 'lirrhr
manso,liso, bom. E agora vinha Galego ganhando há três dias, urrrrr :rpírr
outra, todas as partidas. Crispim reajusta o corpo e os braços, ilrclirrrr rr
cabeça para a frente. Sofregamente concentra a atençáo no tabulciro c
procura extrair da alternância de quadrados brancos e pretos o nris(úr'irr
de suas derrotas. Os caminhos em diagonal, as casas vazias e as ocul'rrrrlrrs, Como de hábito a mulher serviu-lhe o almoço na mesa da sala e foi comer
a formaçáo desordenada das pedras. Se avançasse com esta sua prlr':r il r,i na cozinha. Pela porta entreaberta podia acompanharJhe os gestos e âten-
direita, por exemplo. Impossível. Estaria perdida bem ali encostada a unril ,lcr a qualquer pedido com um mínimo de palavras. como de hábito, ele
branca. Com a outra nenhum proveito. À srra frente nada de especial irr- .rlrriu o gr"rdunrpo, estendeu-o sobre as coxas, e olhou em torno antes de
teresse. Uma vaga suposiçáo de que nunca fizera isso antes, nunca exrrrrri- rrriciar a refeiçáo. A janela da sala abtiapatauma nesga de âtea interna, e a
nara todas as possibilidades, provoca-lhe uma queda de tensão e impclr:-o rirrica paisagem era o retângulo visível da parede do edifício vizinho' Pare-
em direção à terceira. Tâmbém para adireita o lance sem resultado, e punr tlc cinzenta marcadade veios enegrecidos, sulcos de chuvas sucessivas' No
a esquerda, já que a intenção era comer pedra do adversário, impossívcl. nrcsnlo lugar a poltrona, bem em frente à parede, deslocada no centro da
,irca livre além da mesa e da cômoda. Ali sentava:se um Pouco de manhã'
à
Duas brancas náo lhe deixam o intervalo necessário para o salto. A quart:r,
sim, a quarta e última. A satisfaçáo súbita na quarta e última com o canri- l:rrde, depois do almoço, e à noite, gravando as sucessivas tonalidades de
nho aberto e a branca ali se oferecendo. Sorri e desloca sua pedra, reti- e inza e n.gro. Por ali recebia, refletidos, os
ruídos de seu edifício, o do vizi-
rando a outra com um gesto vitorioso. nho, e or!u. vinham da rua se alçando e se esgueirando por telhados e
Eta, jogáo! bcirais. Diante de intensidade do cinza lembrou-se de que antes de entrar
-Galego olha-o bem antes de se inclinar sobre o jogo. A boca entreu- crn casa ainda erguera os olhos para o céu, através da folhagem, e vira
refle-
berta deixa escapar com mais violência a resposta irônica. xos de azul e luz e verde: dia belo. Depois principiou o mergulho de
r:âtacumbas, até chegar à sala com a janela como respiradouro. Num
movi-
Jogada besta!
- ltento involuntário, já automático, apóia os cotovelos na mesa, e encaixa a
Quatro pancadas vibradas com decisão e energia deixam o tabuleiro
limpo de pedras pretas. O eme descrito com saltos vigorosos de dedos Írlce nas palmas justapostas. Depois esfrega os dedos no guardanapo,
apro-
apertados, Galego recolhe o produto do saque do campo devastado. E ao rima um pouco mais a cadeira, ergue a colher e antes de mergulhâ-la no
enfileirá-los vagarosamente sobre a mesa, vê o brilho de uma lâmina à altura presos no movimento de sua máo. Gira a
,.rri. o, olhos da mulher
l)rato,
de seu peito, antes de fechar os olhos no grito de dor. Crispim dobrado c-abeça, e de fato, o tronco um pouco enviesado, acabeçameio
de lado, ela
Brus-
sobre a mesa sustenta-lhe o corpo com a ponta de aço. rcm os olhos na colher. Ergue-os, e não há neles nenhuma intençáo.

118 119
orÁt-oco

camente cerra as pálpebras, põe-se de pó, c dcsaplrcce do vão da portrr. lrlc (' ir curvâ do tecitlo inflado sobre o ventre. A realidade é essa coisa sórdida
afunda a colher no prato, e revolve a sopa, trazenclo à tona a pâpa rlc vt.r. t. lrruta. E seu presente é toclo feito de passados. Portanto, que manchas
foram
duras depositada no fundo. o jato de água na pia é forte e conrínuo. Ajrrsr.r (.ssrls que um dia se plantaram em sua cabeça, contrafaçáo de imperativos?
o cabo entre o polegar e o indicador e conduz na concha um pcclrrço tlc verme, anda de quatro, que és bem grotesco equilibrado apenas
cenoura, uma tira de couve, e o caldo gorduroso, as manchas amarclarlrrs sc r.rrr duas patas. Sabes quando surge o real? Quando acordas pela manhá,
^rresta-te,
alargam na superfície e estendem tentáculos para a borda. Lembra-sc tkr cspichas a cabeça pela janela à procura de um cheiro de paisagem, de uma
sal, e mesmo sem provar, deposita de novo a colher no fundo, com os rlc- ;irvore que sabes existe além do edifício, enches os pulmóes com a fumaça
dos em pinça recolhe um punhado do saleiro redondo e pequeno, e pulvc- rlo incinerador de lixo defeituoso, e ousas dizer: capaz de fazer um dia bo-
rizando-o descreve um círculo sobre o prato. Revolve de novo com a colhcr nito hoje. As colheradas se sucedem, o nível do prato baixa e vai deixando
o fundo, e desta vez trazpaÍaoslábios um pedaço de batata, pasta de chuchu, um rastro na ramagem da [ouça. Náo mais cenouras, náo mais batatas, ape-
e a mesma gordura, agoru aderindo ao perímetro da concha. Cessa o jaro r-râs couve, repolho e caldo. O movimento da colher é agota
mais simples,
na pia. Abre-se a porta da geladeira. A batata ainda quente obriga-o a mantê- rnais fácil. Mergulha-a no lado oposto do prato, com a concavidade
volta-
la em movimento acima da língua e com isso não ingere o líquido, conscr- cla para o peito, torce o cabo deixar
e eleva-o já mais pesado, náo sem antes
julgar-se
vando-o agitado entre uma bochecha e outra. Finalmente, a língua suporrir goteiar o excesso, às vezes sobre a tolha. É preciso ser louco para
o calor já reduzido dabatata. Achata-a de encontro ao palato e com unrc .ei e conservat arealeza na loucura. Mas enquanto náo se é louco, nem rei?
sucção impele-a para trás. Fecha-se a porta da geladeira. Pelos passos e pelo A serra de páo encontra resistência na crosta, e a mulher manifesta a impa-
arrastar da cadeira sabe que a mulher está de novo sentada. ouve o choquc ciência com um estalido da língua. EIe tem vontade de se voltar para
vêJa
de copo e garrafae em seguida o baque de água em jorros sucessivos. Tâm- com a máo esquerda amparando o pão no ar e a direita empunhando
afaca'
bém à sua frente está uma garraÍa. serve-se e, ao tentar acertar no copo, a Mas náo cede. Aqueles olhinhos apertados que um dia o fitaram com admi-
raçáo e promessas, e insistiram apesar da advertência: foge de mim,
âguacai de lado e deixa um rasrro na toalha, por cima do páo, da faca, e do foge de
outro prato de carne, que deveria comer depois da sopa. Insiste, porém, mim! "Por que toma esse ar desgraçado, quando as coisas sáo táo boas?"
enche quase meio copo, bebe-o, apesâr do gosto desagradável da água gela- De fato, a noite estava estrelada, a lua se desdobrava numa fita de alumínio
da na boca ainda quente e recoberta de placas sedimentadas à passagem da sobre o mar, e os canteiros da ilha do asfalto não guardavam sombras
foge,
primeira colherada. volta à sopa. consegue reprimir o leve desgosto que se ameaçadoras. Mas o que tinhâ ele a ver com tudo isso? Foge pestinha,
ia esboçando pelo incidente de há pouco. Em outros tempos, talvez, seria porqu. de tudo o que me falta, me faltam ainda esses teus peitos. "você é

suficiente para arruinar-lhe o resto do almoço, do dia, da noite. Tempos em iao,ragi.o.,, Falava aos gritinhos. Foge pestinha, foge, que sozinho, sempre
para
que um pequeno deslize nafala ou no gesto poderiatrair um desequilíbrio terei a ilusáo de um ainda possível, de um hipotético provável, foge
ou uma inadequaçáo. Tempos em que tudo era futuro. Tempos em que lhe diminuir o rol dos que sáo por mim incriminados como meus malfeitores'
diziamzVocê precisa aceitar a realidade. Como se a realidade fosse somente ..você é engraçado", sucediam-se os gritinhos. Foge, por que você náo sabe
lhe
essa coisa sórdida e bruta. Com os dedos da mão esquerda arrancaum fio o que é querer respirar e descobrir um dia que náo pode, porque náo
comprido de repolho que se grudou no fundo da colher, por fora. sente o .nrin"rr., foge, porque você náo sabe que até aqui, eu sou clandestino'
pouco a
gosto adocicado da rodela de cenoura. E só. Porque o gosto da sopa, nunca nunca me deram passaporte para ver o mar. os gritinhos foram
chegou a senti-lo. A colher transborda e salpica o guardanapo de manchas pouco diminuindo ,avozimprecisa tornou-se segura, os acentos suaves cria-
ram arestas , eÍn vez da melodia, a dissonância. A fatia de pão cai sobre
esverdeadas. Salpica também as calças, na parte desprotegida entre o cinto a

120 121
\

mesa da cozinha, e depois disso o silôncio. Fllc egurrrcla a scc;iiôrrcirr tlo l nl


do, a boca a mastigar, mas nada percebe. No fundo do prato urrr porrt n rh,
papa esverdeada. Deposita a colher e inclina a cabcça para o laclo, r;trcr'(,rpt,rt
de viés o motivo do silêncio. A mulher continua com o páo na rrriro t.srprr.l
da, e na direita afaca. Seus olhos, porém, o procuram, e há nclcs ccrrrr ;lvt
Natal sem Cristo
dezdeespera. É quando um tremor lhe perpassa o corpo. A cabcça prirrr ipi,r
a pesar. Sente-se tonto. Os dedos tremem ante a idéia que o assalt:.r. Acirrrit
da nuca vai-se formando uma consistência de pedra, os hemisférios sc s«rli
dificam. As pálpebras se contraem doloridas. O alimento quer voltar plrrr I
boca. Náo erâm raras essas perturbaçóes, antigamente. A custo conscgrrirr
reprimiJas. Agora, diante da mulher, voltaram, mas já náo com o curiltcr
transitório. Viu a sua morte nos olhos da mulher. Sabia que naquela soprl
de seu gesto habi-
terminavam seus dias, e por maior que fosse acertezarnáo ousava levarrtrrr" Arranque-se um homem de sua paz, de seu silêncio,
vinho comum
se, gritar. Se era apenas ilusáo? Confessar-lhe que alguma vez abrigou cssc tual de quem corta a fatia de carne ou sorve um pouco de
estigma definido
receio? Se verdade, estaria ali, agora, neste instante, nos seus últimos ntinu- rrum dia incomum, erga-seJhe o rosto criminoso como
o corpo exposto pelo avesso'
tos, nestes últimos minutos tantas vezes ensaiados, neste fim, real, concrc- Por não se sabe que hábitos, deixe-se-lhe
azonague de afagos
to, absurdo? Ti"emem-lhe as máos espalmadas sobre a mesa. Tlemem-lhc «rs numa nudez de vísceras, novo jogral acariciado pelo
no cóccix' decepem-se-
pés mais fixos nos tacos. Eriçam-se os pêlos nos braços. Enrijecem-se os po- contundentes, perspegue-se-lhe uma cauda de símio
l6e os artelhos . go1p. de risos fenda-se-lhe o casco
caprino, vedem-se-
ros. O coraçáo golpeia com violência o peito. Intumesce-se a veia sobrc as " massa geradora de idéias,
têmporas. Num rasgo de lucidez apóia os olhos nos olhos da mulher, e aguar- lhe os olhos cintilantes e ubíquos, extirpe-se-lhe a
e ofereça-se a
da a decisáo numa palavra que espera ouvir. Contém a torrente de lem- conflitos, e de sentimentos, às vezes, ampute-se-lhe o sexo
rrretade a cadauma das duas bocas que o fitam com
trejeitos obscenos, e
branças que assomam à superfície da memória, rude roteiro de remotas
à iniqüidade não se
esperanças, áspera trilha de indecisóes e certezas prorrogadas para não per- clas cinzas de seus ossos consumidos em holocausto
«Jeixem vestígios nem no ar, nem naterÍarnem
na água' nem no fogo que
der um murmúrio sequer. Uma palavra apenas e passaria ao prato de carne.
ossos fez estas cinzas'
Com o silêncio, passaria apenas. As pupilas se encontram e nada sucede além es precipitou nem na lembrança de quem daqueles
há outro infinito, e
da troca de imagens. Uma palavra e poderia sorrir diante da violência da tutu, o.,à. então derramá-las, onde se além do infinito
do semi-ébrio
sugestáo. Uma palavra, e adiaria esse minuto para um outro, definitivo. Mas bem maior? Pensamentos? Discurso proferido no entusiasmo
clue bruscamente recupera a lucidez? Náo saberia
dizê-lo. Apenas a torrente
náo este, precisamente este, agoÍa, no instante. As duas cabeças imóveis não il
como reaçáo ao que àrruira, e a figura de Nani à sua
frente, na cabeceira
conhecem o diálogo. Outrora, quando trocaram frases, eram sempre res-
e enrugadas, a cabeça
postas ou perguntâs, ao mesmo tempo. Agora, enquanto ele aguarda um oposta d"L.ra, o cálice amparado por mãos trêmulas
cle velha entroncada nos ombros negros de
seda, as rugas em movimento
som, uma articulaçáo, um grunhido, recorda-se iá meio confuso de uma
na penumbra de velas e de focos
\I

velha história de maçás. Mas a palavra náo veio. Poucos insrantes depois o cle sôfrega decrepitude ,atezamarfanhada
permitido' É em
corpo tombou sobre a mesa, e a cabeça espatifou o prato. amortecidos de arande las, aavidez.o.r..nrr"àa no vinho
NaniqueNehemias,NehemiasGoldenberg,fixaosseusolhosenquanto

123
12?
Dl^[oGo

os outros continuam a palcstrar como sc nadr eli fora altcrado, ó crrr N:rrri encaixaclo c1n cluas cavas no pequeno decote; sílvio, irmáo de Lenita
,..,1"rri1;

que tenta surpreender a centelha de amparo, algum apoio, sc hÍr rrlroio, ,. l,rrís, seu amigo, e professor do mesmo ginásio, rosto neutro, cabeloS
resposta, se a houver. É.* Nani, alheia, caduca, estranha a qualqucr ki1iir,r, r.rstrlnhos sempre bem assentados, tímido, ensimesmado' A direita: Sra'
absorta no vinho, buscando inconsciente reavivar emoçóes, aqucccr ncrv(,s Nlirenda Campos Fontoura, filha de Nani, cinqüenta e cinco anos de cal-
l.lâ apatia de um rosto náo muito envelhecido, de partos felizes,
de
de sonhos sepultos, mas ainda assim com o domínio inteiriço da rrrcsrr, d' .r;r
em Nani que deseja surpreender o ódio total, sem subterfúgios, na intcgri- .rlt.içóes serenas, com um vago brilho de quem sempre deseiou estar do
dade de sua demência. Do que se diz agora, e do que será dito em lrrcvc l.r,lo <le fora, mas nunca pensou em dar um passo paÍaa porta; Enéas, seu
não guardarâpalawa. Seu intento é oposto. Retroceder. Recolocar as fnr- lrllro também, e Albino, filho mais velho, trinta e cinco anos vivos e vi-
ses ouvidas no instante em que foram pronunciadas, e repesá-las dcntro roriosos de bacharel afortunado, de banca rendosa de demandas opulentas,
do contexto estacionário, sem os elementos de encadeamento, sem o inrptrl- c rr mulher, Malu, Marta Cavalcante Fontoura, pacataexpressáo domés-
so de comunicaçáo. É em Nani que busca estancâr o tempo, estancá-lo eté ticâ no reclinar a cabeça, como quem pede apenas uma almofada e um
a imobilidade, para vencida ainércia, inverter o movimento. Nunca bracc- [cijo para dormir um sono indiferente; Labieno de Miranda campos, outro
iar contra a correnteza, mas conter-lhe o ímpeto, domá-la, e derivar parrr lillro de Nani, quarentáo equívoco, de voz pausada, grave) mas algo
montante. Falava-se de judeus naquela ceia de Natalquando Nehemias, ir :rccrinada, inçada de modulaçóes enfáticas, critico de artes plásticas e se-
princípio contrafeito, foi dominado pela repentina consciência do intru- e rcrário de revista especializada, quase calvo, manifestaçáo de adiposidades
rro queixo arredondado, e gestos de quem passa o dia sobre tapetes
espes-
so para ali conduzido pelo amigo, e mais brusca ainda a outra conclusão:
s«rs; Vânia Fontoura, irmá de Albino, quarenta anos, cabelos
de um casta-
estava ali o universo, os outros e ele, com os mesmos lugares-comuns, c :l
mesma contradição insolúvel. Só Nani pedira mais vinho. Nani, Ana Cas- rrho meio alourado, pele de indolência ao sol naptaia,desquitada, bonita,
tanheira de Miranda Campos, com seus setenta e cinco anos de energia rrrovimentos des.nvàltos. À sua frente, Nani, com o copo entre os dedos
c os lábios repuxados na antevisáo do gozo. E ele, Nehemias
Goldenberg,
física regendo os seus dez súditos nesse extremo de sala de jantar de resi-
dência moderna, com seus cinzas e azuis pelas paredes, suas poltronas rrinta anos cámplexos, atribulados, professor de História, inconformado,
variegadas, seus bancos anatômicos, seus vasos amebiformes, seu janelão ipquieto, ,rrrarrdo nos atos o desespero das causas ignoradas, e a sereni-
imenso de parapeito baixo a dominar a enseada da Urca, as arestas mon- .laàe das já perdidas; cabelos nem claros, nem escuros, dois olhos, uma
tanhosas e o reflexo nas águas calmas dabaía, e o contraste do pinheiro rcsra, um naiiz lilusao a linha reta e clássica do encontro das sobrancelhas
de metro e meio já despojado dos presentes e de um Cristo barroco cruci- tlcscendo para o lábio?), uma boca, um rosto, duas máos, duas pernas'
,rm tronco e um abdômen, e um membro entre as virilhas. Nehemias
à
ficado à meia altura do painel da parede que se estendia à frente de
Nehemias, atrás de Nani. Falava-se de judeus naquela ceia de Natal, ao íorça de abstraçóes constantes já os tinha imobilizados apesar de nada

lado do pinheiro multicor e diante do Cristo eternizado no espasmo da refletir sobre a mesa o processo de captaçáo do estágio anterior. Entre as
rnáos que se estendem, que cruzam facas e garfos, que erguem os
copos
última dor terrena. E ali estavam, à esquerda de Nehemias: Albino
ou perpâssam de leve o guardanapo, nos lábios, o grupo es-
Fontoura, genro de Nani, importador e representante de várias indústrias
"suerdàados, do
dos Estados; Lenita, dezessete anos morenos, esportivos, olhos verdes e rático de suas intençóes. o próprio organismo se ressente um pouco
inconseqüentes, filha de Albino; outro filho, casado já, Luís (político de csforço dispendido, já que nâo ficarualheio à bebida, mas a determinaçáo
mús-
primeira eleição ganha, colete ajustando um corpo roliço, entradas e testa injeta-lhe sucos vitais e excitantes internos reanimando as artérias e os
culos, equilibrando duas tensóes. A máo esquerda conserva o gatfo,a
máo
reluzentes de eterna calma mental), e sua esposa, Vera, filha de senador
vitalício, rosto magro, anguloso, melancólico, cabelos de palha, pescoço clireita estacionou o corte dafaca,e deixou-lhe a lâmina encravada naÍatia

124 12s
DtÁttlr,cr

de leitão assado. E com o impulso rcccbirkl cstri prcstcs a prosscgrril'rr.r


rr.ro srrllc §cnr o quô. Qualquer coisa nos olhos, na boCa, nos movimentOS
inversâo dos fatos, na captação de fluxos pcrcliclos, na rcconquistrr rlc rrrrr
.l.rs rnir{rs, na pouca habilidade em se servir, nafalta de desenvoltura com
instante, apenas, que lhe possibilite sopesar argumentos estratificaclos. víra algumas vezes discutin-
(
lu(. socrgue a travessa ou enche o copo. Jâ o
sáo muito simpáticos os muito simpáticos. E ul, sr.lrs,
judeus,
tkr c«)r-n Sílvio, e repugnava-lhe a subserviência do irmão, concordando
-
político extraordinário. Marx e Rotschild, Disraeli e Bernard Baruclr... .,(.nrpre, incapazde opor argumentos que não fossem desmantelados por
Senso político extraordinário. Têm o mundo nas máos. Na boca rlrrc (luiltro ou cinco frases ríspidas, cortantes; revOlve os pensamentOs à prO-
-
agoÍa mastiga, nos lábios apenas justapostos e oscilando com o pcrí«rtkr ( urrr de algum que lhe pareça decisivo. E veio à tona a suma de milênios,
de contato dos molares, Nehemias revê a primitiva articulação e renovil o
,r cristalização grosseira mas eÍicaz de tantas escolásticas. O constrangi-
gesto bem falante de Luís. o cerimonioso do tom, a frase claramentc ur-
nrcnto provoca ligeiro hiato. Todos como que se dobram à espera de um
ticulada, a vacuidade dos recursos habituais (governam-se assim os p()-
rll)xrte, de um movimento que sirva de pretextO para escamotear a res-
vos?), o empolamento dos nomes arrevezados, eis a compreensáo. o por qualquer um, mesmo por ele,
lx)sta. E o sim ou o náo poderia ser dito
afag«r
com o sabor de irônica palmada, mas que em hora de definições, ou rlc
Nchemias. Valeria a pena? Sobrevêm-lhe reminiscências atâvicas de tre-
posiçáo em perigo, tombará como rija paulada.
nrores ante a procissáo da Semana Santa de além-mar. O dia condensado
- Grandes financistas, empreendedores! - Em que lucros te forrrrrr
úteis, ou em que trapaças conseguiste ludibriá-los. se porventura, Albino,
crrr ódio, aidéía feita verbo, sim, e açâo. Alquimia brutal a objetivar o
rcsgate de carne, a despertar as garras qtle todos nós iátivemos algum dia.
se porventura sofreres algum dia o golpe nesse jogo que é o mesmo panl
Ir ali findam as querelas teológicas, ali se resume o corolário de montes de
ti e para eles, e se porventura um deles se beneficiar de tua perda, alguérrr proposiçóes deontológicas, ali se fecha o sorites gigantesco: sangue.
sempre se beneficia, dirás tu a mesma coisa? ou buscarás lá no fundo, ou
nem tanto, a expressão mais rude, a invectiva sem aparas, decisiva, conr o
Ironia ou evasiva? O tom macio da frase caÍrcgao ambiente com laivos
implícito do julgamento definitivo, sem apelação. de
cle sordidez oculta. Labieno fixa os olhos em Nehemias como à espera

- E que argúciat Admiráveis! - A que argúcia te referes, Enéas, à


que te é usual, à que empregas diariamente, numa eterna subversão dc
um gesto de gratidáo pela finura com que contornara o silêncio repentino'
ltisos e talheres atestam o desafogo da mesa ante a saída meio imprópria
fatos, idéias, conceitos, provas, a que consegue sob o impacto de uma ora-
mas espirituosa. Nehemias encara Labieno e enfrenta-lhe a intençáo não
tória bem planejada ofuscar a verdade de um deslize, sem que seja neces-
revelada. O vinco dos lábios mantém ainda o sorriso meio velado, cheio de
sária qualquer especulação metafísicaparaestabelecer esta verdade, à quc
subentendidos que náo escaparâm ao outro. Daí a repulsa maior. Nomes
com ardilosos recursos subtrai a evidência, à que te tÍazlágrimas aos olhos,
assim lançados, com que pretexto? Não queria genetalizag mas há tempos
em abundância proporcional à renda ou ao renome, à que estabelece a já irritavam-no aqueles nomes, ou semelhantes, pronunciados com arrou-
dúvida, e dessa dúvida extrai o sim ou o não, segundo o interesse, à quc o
bos nervosos. Mais do que enfusiasmo via a carapaça de erudiçáo sobre
retira desses tratados maçudos que te ornâmentam as e§tantes sutilezas
fim sempre idêntico: sórdido e animal. sacudidelas estabanadas diante de
suficientes, à que em nome de uma ética e de uma lógica, representa a
um fenômeno que náo ultrapassava a epiderme; agitação febril sem o sen-
negaçáo destas mesmas; é a essa argú,cia, Enéas, que te referes?
timento verdadeiro do peso na emoção, sem o golpe do drama na tentativa
Mas não foram os judeus que mataram Cristo, papai?
mais arrojada; apenas vibraçáo externa a mascarar um plano marginal,
es-
-Lenita não pôde conter a pergunta que lhe exterioriza o desagrado
téril, cínico, nada equívoco. Inútil debater a tese quando a face se torna
daquela presença, põe de manifesto a reaçáo de antipatia provocada por
neutra, e a mão de Labieno comprime o guardanapo junto à boca.

126 127
I
lt
Dl^l (-)('o I

palavras
O sr. Nehemias nem parece judcu. Gosrou ranto clo lcitão. I\4,rlrr .|lrt(.() vcrrciclo llil trcna. Nehemias sabe que de nada valeráo
-
sorri-lhe com a indulgência de quem - {pr.rn(líJ o polcgar se abater. E Nani sorYe o seu vinho'
socorre o necessitaclo, cntlrr:rrrlrr
serena sob as
Enéas, o marido, aprovâ o bom senso da mulher naquilo quc chrrrnrrri,r rh, Ne p"r.d" á crucifixo. Os olhos entreabertos, uma sombra
Os braços e as pernas distendidos e
açáo com tato, captando a simpatia do estranho. Mas o sorriso sc rlt.sí.y l,.,ll,cbras, os lábios quase cerrados'
r n( t.rlvedos na cruz. o ventre, contraído, rugas na linha
dos quadris, e a
ao não perceber na feição de Nehemias acolhida para o elogio. I.'ossc rrrn
longos, dispersos
pouco mais polido e teria feito um gesto de agradecimento. Mas a hiPtitr rrrr rsculafura tesa das coxas. Nehemias observa-lhe os cabelos
',,,lrrc â fronte, a barba anelada, bipartida em volutas, no meio do
queixo'
se sobre a condiçáo dessa gente vinda lánáo se sabe de onde subtrai-llre o
pela
prazeÍ de tal delicadeza. Outra coisa não seria de esperâr. De ti viria a resposta? Humanà ou divino, morres constantemente
r r, »ssr.r vida, e nós morremos semp
re a tua morte' Teu apóstolo maior vis-
- Oh... O sr. Nehemias é evoluído, náo é verdade? O essencial é rr
fidelidade no espírito, na fé... na tradição. Irrrilbrou a simbiose eterna, quando, querendo
justificar-nos e salvar-nos,
presençâ como
r.rlvcz, plantou a semente de nossa abieçáo na nossa simples
Em outra ocasião responder-lhe-ia com outros acenos, e veria c«rnr a perpétua
rcstcmunhas e penhores da remissáo global. Tu e eu vivemos
outras emoções o belo perfil, a pele queimada, os olhos de ternura, a li- mais dedi-
n)orte e ressurreição pelos séculos afota. Quando teus servos
nha vertical do pescoço, e o arqueado regular das espáduas. os cabcbs se aprimoram no zelo:
t:rcloS, e dedicados aindu mais a outras inspiraçóes,
recendendo essências tonificantes, a boca um pouco larga,mas franca, rrrn da
,rr,rrr.-or. Quando outros mais brandos, cuja ternura náo se desvia
nada agressiva, na modulaçáo de secretas harmonias. E poderia, à nrcirr vivemos marginais,
Iricna ou do celerado, acolhem-nos com benevolência:
voz sussurrar-lhe um meigo: "tolice". Sobravam-lhe ímpetos e palavras. reste outra arma senáo a
,,cliados e temidos, ainda que na máo não nos
Agora, porém? Vânia surgia na vulgaridade das frases-feitas, do afcro que o deu em
riltima moeda de um ,uqr. com o beneplácito de alguém
mecânico de bar em penumbra, de três pensamentos moídos e remoíckrs visáo do mundo, e
rcu nome. Profeta, extraíram-te a quintessência de tua
diariamente antes de se espojar em algum recanto. sentiaJhe o intercssc a Idade Mé-
com ela forjaram a maior era do pensamento em ebuliçáo:
momentâneo. Havia algo de exótico nele, uma variante na monotonia clc de agonia'
tlia. Mas de tua vida guardaram o instante em que agoÍaestás:
tipos idênticos. Viu seu gesto gracioso ao assentar o cabelo na nuca, e a e em nome
sobre tua agonia balisaram o universo e tecerâm estandartes,
lá estávamos nós'
máo pousar de leye perto da sua. Conteve-se. .lcla, quand-o a ira de tantos coroados pedia um lenitivo,
primitiva' no
pouco mais de vinho, minha filha!
-NaniUmpedia vinho. lr que culpa temos, se quando te procuram na feiçáo mais
de Jeremias
É em Nani que Nehemias fixa os seus olhos enquanto 6,iúito mais original, nos encontram sempre? Se o lamento
os outros continuam a palestrar como se nada aliÍoraalterado, é em Nani antecedeu o sermão da Montanha, se o libelo de
Amós precedeu a res-
e mesmo aqueles
que tenta surpreender a centelha de amparo, algum apoio, se há apoio, posta sobre os direitos de césar? E veio o hábito depois,
resposta, se a houver. É e- Nani, alheia, caduca, estranha a qualquer ló- quejánãoselembramdessaagonia,enosvendo,lembram-sequeporela
gerado em mil
gica, absorta no vinho, é em Nani que deseja surpreender o ódio total sem rtruitas vezes morremos: e nos matam. E desse equívOcO
subterfúgios, na integridade de sua demência. vê nela essa continuidade anos quando sairemos, tu e eu?
histórica que não admite frases de acomodação, essa consciência forma- sílvio serve-lhe umpouco mais de vinho. Nehemias agradece, volven-
a Íatiae trinca-a, acom-
da, inteiriça, que não possibilita revisáo ou dúvidas, insensível ao sinal mais clo a atençáo para o prato. Impulsiona afacarcorta
concreto de sua falência, porque tem a verdade absoluta. Há em seus de- panhada á. ; e sra frente, Nani emborca o cálice e estende o braço
gol..
dos reminiscências de intolerância medieval e a determinaçáo da mais rÊ autoritário.
gida política contemporànea, há em seu polegar o impulso de tetrarcas Mais um pouco de vinho! Hoje é Natal!
-
128 129
DrÁ[oGo

l,or'Ç{)u a vista pera distinguir melhor o vulto no extremo oposto da sala,


nr.rs scrn efeito. Percebia um pouco mais que uma silhuetâ, mas não o su-
lrticnte para localizar feiçóes, membros ou hábitos. Havia uma conden-
.,.rçhg clc sombras, porém, e concluiu que as pregas escuras forçosamente
A luta ,.rrcgbriam um ser semelhante ao seu, um homem, portanto. Chegou a
v islumbrar uma nota alegre na terceira pergunta, mas ainda assim
náo ouviu
r'(.sposta. Poderia calar-se, e permanecer na beatitude um tempo infinito,
gr1lis nada aguardava, e nem o assaltavam temores por essa espera, talvez
rr,rrn houvesse. Sabia que esperava, apenas. Um resíduo provável entre
()rrtros que lhe ficaram de um já sucedido, o corpo, as palavras, o raciocí-
nio. Ainda sob o impulso alegre da última pergunta' ergueu-se de um sal-
to e maior foi a satisfaçáo ao verificar que os membros respondiam sem
A princípio ainda tentou contemporizar com o outro. primeiro utili- crrnsaço ao apelo dos músculos. O corpo se aprumava flexível sobre as
zou argumentos, e embora não obtivesse resposta, insistiu. Argumcrrtos pcrnas distanciadas, e vibrava ainda do recente encontro com o cháo. Ja-
neutros, pois não sabia bem a quem se dirigia. Quando abriu os ollr«rs, rrrais sentira, tinha agora a ceÍtezasem saber por quê, o pÍazer do múscu-
perdida a memória de tudo que se referisse à sua vida anterior, perccbcrr lo distendido e relaxado, do movimento desordenado dos braços e pernas'
o cubo em que se encontrava, e junto à quina oposta algo parecido vaga- Apesar da obscuridade via com nitidez a cor de sua pele, as suas formas,
mente a um homem, ou o que lhe parecia dever ser um homem. Pelo mcrros sabia que o sangue circulava ardentemente, e que náo podia acumular essas
a palavra ainda existia para ele. Articulou algumas, e completou a frasc cnergias sem participar o acontecimento a alguém. Aproximou-se do ou-
com sentido parâ o entendimento. Esperou algum tempo, na esperançil tro e mesmo estando a poucos passos do vulto, não conseguiu uma visáo
de se habituar à ausênci a deluz,mas em vão. A mesma penumbra do início. mais perfeita. A quantidade de sombras e Penumbta era constante e
sentia-se bem-disposto, cheio de boa vontade e um desejo de comunicaçã.. independia dele estar próximo ou náo. Deu alguns passos. Devia estar
Embora nada lhe ocorresse na mente, nenhuma lembrança, nenhum ros- s.parado do outro Por centímetros apenas. Falou-lhe da necessidade de
to, nenhuma imagem, náo sofreu com o desligamento a que se via força- um diálogo, e sem perceber um movimento sequer das sombras recebeu
do. Sabia que deixara alguma coisa, ou alguém, estava lúcido, mas .t um golpe violento na altura do peito. Recuou e sentou-se no chão espan-
ignorância náo chegava a perturbá-lo. Antes sentia-se dominado por unl tado, esquecido da dor. Antes de mais nada precisava justificar para si
bem-estar, e a satisfaçáo que isso lhe ffazia provocou uma vaga reflexã«r mesmo a atitude do outro. Pesou uma a uma as possibilidades que se lhe
de que esse estado não lhe era habitual. Mas fez questáo de não prossc- apresentavam em defesa do outro. E em todas chegou à conclusão de que
guir com o raciocínio. sentia-se bem. o piso devia ser atapetado, pois como houvera mal-entendido, talvez as palavras náo fossem justas, ou correta-
estavâ, estirado, âpenas com a cabeça um pouco soerguida, apoiada nos mente pronunciadasrtalvezuma ordem irregular na frase, e daíaimpossi
dois braços enlaçados que faziam de cabeceira, sentiu como que uma lí bilidade de ser compreendido. Ergueu-se, já com um pouco mais de cautela,
e de novo a poucos centímetros do volume de sombras, principiou clara
macia sob o corpo. Estava nu. Ergueu o peito e arrastou-se de costas até e
dcscansar os ombros numa parede. Foi então que dirigiu ao outro a pri- calmamente a emitir os seus sons bem modulados, e paÍa seus ouvidos,
meira pergunta. Náo obteve resposra. A segunda. A mesma imobilidade. pelo menos, articulou as sentenças mais simples, mais diretas, nas quais

130 131
orÁr-oco

náo se pudesse subentender outros caminhos, c nunr csí«rrço cluc niro llrc l,t'r'trrrtrava, e a cabcça ia-se-lhe empedrando e pesava como pesam as
parecia comum, sabia-o agoÍa também sem nrotivaçóes, resumiu rro Í'irrr 1rt'tlrrrs. Antes de abandonar o que tanto mal lhe trazia ainda conseguiu
com a maior clarezaa linha mestra de sua exposição, que pura c sinrplcs' (.rl)t:rr uma frase, mas de onde? Ser o Pedro de si mesmo, negar-se três
mente era de que gostaria de ouvir-lhe avoz. Thmbém desta vez. l.rrio pt'r' va'z(:s lrntes que o galo cante. E ele nem sabia agora o que era galo. Foi
cebeu movimentos na penumbra, mas não pôde abafar o grito dc clor rro r.nr cspanto que viu a coluna de sombras erecta diante dele. Nenhum
receber, no lado esquerdo, abaixo da última costela, uma espécic clc lrr- r un)or. Nenhum movimento. Havia no entanto umavibraçáo entre os dois,

nho sem sangue, como se uma espada o tivesse atingido náo com o gunlct urf r cspaço mais denso, condensaçáo de fúrias,talvez. Sentiu um golpe no
mas sim com a lâmina ao largo. Encostou-se à parede e friccionou o locnl 1rú csquerdo, como se uma pata o tivesse atingido, e recuou com a perna.
atingido até que a dor se tornou suportável. Ainda desta vez náo dcixou ( ) rnesmo fez com a direita ao sofrer outro ataque. O vulto parecia agre-
de haver espanto. Rememorou ponto por ponto as suas duas investiclas, r\ tli-lo, querer forçá-lo a uma defesa. Mas se esquivou. As investidas pros-
procura de uma falha, de uma irregularidade, de uma impolidez, mas narlit scguiram. Sua decisão era firme, porém, em náo revidar. Tâmbém isto lhe
encontrou. Estava disposto a optar pelo silêncio, quando lhe veio a vi4lil ()correu, repentinamente: guardar um mínimo de dignidade, não se de-
intuiçáo de que talvez fosse a distância, sim, a distância. Quando fizcra us gradar. Cada golpe respondido o rebaixaria. Fixar-se nisso. Após várias
perguntas estava longe demais, e agoraao tentar convencê-lo por denrrris voltas no cubo, agorajá mais rápidas, pois o ataque se transformara em
perto. Calculou então uma distância ideal e postou-se novamente à frcrrtc pcrseguiçáo e a recusa em fuga, viu-se acuado em uma quina. O vulto,
do outro, a uns dois passos, ou dois passos e uns dedos. Olhou à sua voltir (lue era bem mais alto do que ele, foi perdendo altura e ganhando largura,
para determinar o grau de penumbra. Inalterável. Com exceçáo de sut numa estrita compensaçáo, até, colocado nas duas paredes impedir qual-
pele, a semi-obscuridade náo variava de espaço a espaço. Apenas no vulto quer retirada. Fez-se um silêncio, entáo. Aterrador. Exasperante. Foi quan-
se tornara mais compacta, e permitia identificar gradaçóes e relevos, fo- do ele ergueu o braço e desferiu o primeiro murro. Um choque de aços.
cos negros e suas sombras esbatidas. Articulou, entáo, com mais cuidad«r Olhou sua máo, seu braço. Tinha a mesma consistência do outro, e a mesma
que da vez anterior, com maior clareza, com mais exatidáo, as mesmíls aparência. Sombras condensadas. Compreende precisamente agora que
palavras, em oraçóes simples, e períodos curtos. Um jato subiu-lhe pelas cstá perdido. Impossível retrocesso. Lança-se à luta com todo o corpo, e
pernas, e urrou ao sentir o impacto de aço no ventre, rodopiou acima d() para evitar que alguma parte de si mesmo conservasse um vestígio do que
solo, estatelou-se contra a parede fronteira, e caiu com os braços envol- fora, ou paranáo sofrer o desespero do que se sabe duplo, sem totalida-
vendo as pernas, e a cabeça comprimida pelos joelhos. Ficou assim posti- de, prepara a cabeça para o último golpe. Desfere-o.
do sem dores nem pensamentos. Acumulava expectativas. Quando, desfcito
o espanto, conseguiu ordenar o corpo numa posiçáo conveniente, con-
venceu-se de que melhor seria optar pelo silêncio, e identificar nele mcs-
mo as suas frases ditas e ouvidas. Mas náo dominou a inquietaçáo. Pôs-sc
a atribuir tudo aquilo a uma dependência entre ele e o outro, num tempo
anterior, ou fora dali, uma culpa esquecida dele apenas, e irreparável. Via
na própria inquietação um motivo paÍagarantir que ele estava errado, ou
já esteve. Mas à medida que tentava fazer aflorar nessa outra penumbra
um vestígio de confirmação, a inquietaçáo aumentava, o bem-estar sc

132 133
Dr^to(,o

.' l,.rlrrur rlrr nrão. Clrorara. Mas passa<ja a dor, insistiu. Castigaram-no, en-
l.rr r. Sc niro rcpctiu o gesto não foi pela dor da chama, mas pela degradação
,1, t:rsl ir;«'r quc de modo vago intuiu. Mas nunca lhe haviam dito que na cor
,l.r r lrrrrrrrr cstava a dor. Ainda no tempo das lendas desrespeitara fronteiras.
Paúbola do filho e da fábula ( .( )ln urna vara tentou desencantar o gato da casa, e como este insistisse em
( ( )nscrvar a feiçáo de sempre, afastando com a pata a ponta que lhe pousa-

r,,r rro focinho, ronronando e arregalando os beiços, pronto para a brinca-


rlcire, ele enfureceu-se e passou a fustigá-lo com violência. O bichano
cs.lrrccido de outros afagos, e não se lembrando também de fugir, investiu
(()ntrâ o amigo de sempre e deixou-o ensanguentado. Castigaram-no en-
t.io. Se náo insistiu na façanha, não foi pelo sangue ou pelas lágrimas, mas
lrclo mesmo motivo anterior, iâ agora mais nítido. Mas nunca lhe haviam
E ali na cama, os olhos abertos após o delírio. Ladeando
a cabeceira, «l tlito que os gatos desconheciam as lendas. E agora ali estava, na cama, com
corpo magro e o rosto nervoso da máe, e o perfil contraído
do pai, ambos os olhos abertos após o delírio.
sentados em pequenos bancos de estofo verde, e uma
das mãos sobre o lcn- Filho, vou contar-te uma fábula era avoz da mãe, quase sumi-
çol. uma luz serena vinha do quintar, pera janela aberta, luz mansa de três - -
tla. Quando o inverno chegou, e tudo era neve e gelo, a cigarra que
horas da tarde de um dia de sol e céu lavado por outros
dias de chuva, cra-
-
prrssara o verão inteiro a cantar sentiu fome. Procurou então a formiga
ridade sem ruído, impregnada de um cansaço peras vizinhanças,
densa crc (lue outra coisa não fez nos bons tempos a não ser guardar e guardar co-
modorra e isenta de quaisquer ondulações de galhos ou brisas.
É essa a luz nrida para os meses de frio, e pediu-lhe um pouco dessa comida para a sua
que os olhos do filho, bem abertos, aspiram no teto
branco, sem intençâ«r Íome. Pergunta-lhe a formiga, porém: "E no veráo o que fizeste?!" "Can-
de movimento, e adivinham, lâfora,a cor de um horizonte
sem manchas, tava, cantava sempre, sempre!", respondeu acigarra. "Pois dança agota!",
azul, ainda que náo visto. o calor sob o lençol náo o incomoda,
ao contrá- diz a formiga e trânca-lhe a porta.
rio, dá-lhe uma noção de conforto e de bem-estar temporários que
gostaria Mas a cigarra proceder como a formiga, quem cantará no verão?
se prolongassem com o silêncio, sem a intromissão
de
palavras, embor:r
- Filho,sevou contar-te uma fábula era a voz do pai, jâ um pouco
soubesse que não tardariam, pois os outros dois ali
estavam para isso, simplcs- - -
agressiva. Quando a peste grâssava entre os animais, o leáo, certo de
mente, e daí a instantes principiariam um suposto diálogo.
o amontoaclo -
que provinha dos pecados ali cometidos, convocou uma assembléia, para
de equívocos trouxera-o àquele estado, misto de Ioucura
e lucidez, e se ali que cada um confessasse os seus, e o mais culpado morreria então. Reco-
estava, na cama' com os olhos abertos após o delírio, e
não em outro lugar, nheceu ele próprio as mortes injustas praticadas, mâs a assembléia per-
morto, talvez, devia-o a uma persistência ilusória em permanecer
ainda, c doou-lhe. O mesmo fez com o urso, com o tigre, com o leopardo e com o
sobretudo. Mas não lhe viessem com palavras que Jelas nada
esperava, lobo. A todos esses a assembléia perdoou. Que não era pecado mataÍ,
porque em sua teimosia ouvia-as e lia-as sempre de trás para
diante, ele, unl roubar, estraçalhar, ferir covardemente. E veio o burro, e disse que ao pas-
espelho, e pata espanto dos outros maravirhava-se com
o sentido que dc sar com fome no prado de um convento, náo resistiu, e provou do capim.
modo algum percebiam. Ainda no tempo dos mitos dera
sinal de desconhc- E a assembléia em peso, horrorizada com tamanha calamidade, rugia, ui-
cirrrcnro de fronteiras. olhou o fogo certaveze tentou dobrar
a chama conr vava, regougava, exigindo a puniçáo. E o burro foi imolado.

134 135
Pai, admiro esse burro!
- Filho, vou contar-te uma fábula a voz cle mãe, já quase clr,
-
- um pastor dormia, sem cuidados, e ao lorrge os cães lhe guarclavrrrrr
rosa.
o rebanho. Nisso uma serpente se aproxima, e está pronta para atacá-lo,
quando um mosquito, que por ali estava também, só encontra um nrci, A chuva de hâ pouco
de salvar o pastor, o de picá-lo. Acordando, o pastor ainda pôde se apos-
sar do cajado e esmigalhar a cabeça da serpente. Mas doía-lhe a picada rrir
testa, e irritado com o mosquito deixa cair sobre ele a sua mão com vio-
lência.

fui esse mosquito!
-E a Mãe, eu
cabeça da mãe se dobra em soluços. E na modorra da tarde, rra
serenidade de um silêncio desejado, só a voz grave e rouca do pai se faz
ouvir: Ergueu-se sobressaltado como habitualmente, nos últimos tempos.
Filho, se queres viver esquece as fábulas! Scntado na poltrona não levava mais de dez minutos para cair num cochi-
-
lo, e no máximo meia hora depois, presa de um terror, despertava. Du-
rente o dia isso lhe acontecia umas quinze vezes, antes de dormir o sono
habitual, que era curto, mas contínuo e repousado. De raro em raro lhe
vinham sonhos, e nunca nesses poucos instantes em que abria os olhos,
assustado, e procurava em torno de si a disposição habitual dos objetos, a
mesma cor das paredes, o mesmo globo no centro do teto. Agora de pé ia
recuperando o senso da ordem e das imagens, enquanto se regularizavam
as batidas do coraçáo, e evaPoravam as gotas de suor na testa' no peito e
nas costas. O velho Cláudio tinha setenta e cinco anos, um metro e ses-
senta e cinco de altura, pesava cinqüenta e três quilos, os cabelos brancos
e ralos, o rosto claro e pouco enrugado, e sua vida fora uma enfiada de
surdos desesperos em que semPre se afirmara pela omissáo diante de qual-
quer gesto, ou passo necessário para atenuar um impacto doloroso. Em
resumo, inconsciência dos atos, e ignorância da conseqüência dessa in-
consciência. Cruzou os braços comprimindo ainda mais o casaco de lá,
devido ao frio repentino. Quinze para as quatro. A porta da sala para a
varanda estava fechada, e o aposento ern penumbra salientava o silêncio
em torno. Tiiturou um pouco de saliva entre os dentes e estalou a língua
à sensação de desgosto na boca. Comeria uma laranja a1ota, se houvesse
alguém que pudesse se lembrar de seu desejo e o servisse. Mas náo havia

136 137
wtt Dl^lo(;o

ninguém em casa. o neto, talvez, na veranrle, pois, sc não csfava cng,lrnrl- ,,llr,rr tlc c(:r)surll. Sc ao ntcnos soubcsse de ondc lhc vinha tudo acluilo, ott
do, vira-o dirigir-se paralá com um maço dc jor,ais, logo dcpois clo al- l,r )r (luc rrrotivo. Não via trenhum a náo ser a Sua
parte na disposição gcral
moço, e um pouco antes da saída dos outros. Encaminha-se em direção i ,l.r,,.oisrls, c quc accitava, porque náo havia outra alternativa. Náo, nr't«l
cozinha e não esconde o desagrado ao perceber farelos de pão sobrc rr 1,,',lrrri x soprl, âpesar do gosto e do cheiro. Se eles se lembrassem,
porénr,
mesa, uma panela sem tampa no fogão, e o pó acumulado na quina drr bonr. É itto, em vez de pedir, dirá apenas na primeira oportunidade,
.,, r r.r
junção da almofada com a moldura da porta do armário, sob a pia. E.- , grrc bclrr sopa a de couve e ovo, e o que mais, ein? Náo, talvez o olhassem

contra alaranja na cesta, e senta-se com a intençáo de comê-la. A casca é r.r,p:rrrtrtclos e tudo prosseguiria como se ele nada tivesse dito. A sala. Evi-
rugosa e esverdeada junto ao botão da haste. Mantém-na entre os dedos, r.rr rr lroltrona. Na cozinha já esteve. Só resta avaranda. Está de chinelos
indeciso, e com uma rotaçáo lenta vai observando suas faces. por fim dc- ,' nrcias de algodáo. As meias de lã seriam mais convenientes para sair.
siste, e deixa-a novamente no lugar de onde a retftara. No entanto não Âssirrr não se importará tanto com o frio. Mas ir ao quarto, procurá-las
seria de todo mau se chegasse a descascá-la, ou a parti-la em quatro. ob- n.r llrlvcta da cômoda, ou na prateleira do armário, descalçar estas, calçar
serva o dorso da máo, as veias, a pele. Então é isto? Gira os olhos em tor- .ls outrâs, tudo isso para não demorar mais de um minuto, sim, porque se
no, e da pergunta lhe assoma uma cantilena. Espanta-se. vem de um longc r.stivcr frio lá fora não fícarâmais de um minuto na varanda, mesmo com
que até recentemente rememorara, relemb rara, recriara a ponto de torná- .rs rncias de lá. Sai. A varanda é pequena e seu peitoril dá para a calçada
lo sempre presente, próximo, atual. Houve um dia, no entanto (quando?), tlirctamente. A rua não era pavimentada, e diante dos terrenos baldios a
em que tudo se esfumou. Apenas fragmentos surgiam assim sem propósi- vrrle continuava os bueiros existentes já nas partes cimentadas. À frente
to. A cantilena se ligava a uma mesa bem posta, a toalha branca, os talha- rlc quase todas as casas, árvores, 1Íam2, um pequeno jardim. Acima, um
res de prat% os cálices de vinho, e um cheiro forte de peixe, sim, de peixe, cúLr de nuvens brancas e distantes. Náo, não está frio. Fez bem em náo
um cheiro adocicado. o melhor é sair da cozinha, o vento que vem do trocar as meias, pois as outras, as de lá, o incomodatiam,iâque náo eram
quintal é incômodo. olha a poltrona de onde se levantara pouco antes. rrccessárias. Desabotoa até o casaco e, aO contrário do que esperava, uma
Deve evitá-la se não quiser cochilar e despertar com aquele terror. vai ao onda de calor lhe vem de dentro paru Íora. Virá da padaria este cheiro?
banheiro, lava as máos, e senta-se no vaso, embora náo sinta vontade. Mas Náo é distante. Um pouco além da esquina. Provavelmente a fornada da
talvez venha. se não estivesse chovendo, pensaria em sair um pouco, an- rrrde. Jâ náo ia mais, como antes, comprar o páo às cinco horas da tarde.
dar até a esquina, andar por andar, já que nunca lhe ocorreu que poderia Agora era entregue em casa. Gostava daquilo. Separava bem os páes na
andar e ver alguma coisa. ver, por exemplo, os outros que também an- ccsta à prgcura do bem tOrradO, nem muito nem pouco, e entregava-o
dam pela calçada, uma ou outra varanda, as árvores, náo todas, nem uma dcpois ao caixeiro, um homem gordo, maduro e sempre risonho. com-
árvore inteira, nem mesmo o tronco, mas um galho talvez, ou um grupo prava sempre o mesmo tipo, embora admirasse os outros, açucarados, de
de folhas, ou uma folha apenas, ou nem isso, uma face dafolha. Deixa o rnel, de leite. Numa outra varanda, um velho tÍatava de três gaiolas e de
banheiro e hesita no corredor entre a sala e o seu quarto. Está quase na um poleiro de papagaio. olhava-o sempre, embora nunca pudesse com-
porta, mas ao ver a cama recua. sente então uma lembrança de um cheiro preender que um homem se preocupasse com canários. Não tinha outra
e de um gosto de uma sopa que há tempos, tempos, não lhe servem. coisa a Íazer? E no entanto, ali estava ele todos os dias com água, comida,
Esverdeada. À buse de couve e ovo. Pedirá mais tarde que a preparem. ou ou entáo parado diante das gaiolas. Com o papagaio mantinha longos
não? Tâlvez se irritem com essa exigência. euantas vezes verificou isto? diálogos. No fundo o desprezava: um homem não sabe o que fazer da
Ou, quando, querendo ser agradável, só encontrou um resmungo e um vida? Obse rva atefiada rua, o barro seco, os carreiros desenhados pelos

138 139
;

veículos, e vira-se então pcla prinrcira vcz pi.rrll o ncto, un1 rapaz dc sr.rrs i

quinze anos, com a cabeça escondida pclo jornal, c lhc diz:


Vês, choveu há pouco, a rua já está conrplctamente scca.
-O neto ergue os olhos dos ejornais
e encara-o com uma exprcssr-r«r rle
forçada naturalidade, sem mesmo lançar uma vista à rua.

-Ér
Baixa os olhos e retoma a leitura.
Havia chovido na véspera.
Os sete sonhos
(Le67)

l1

lr

140
fl

rl,

Os sete sonhos

Precisamente naquele instante o seu mundo era o do sétimo sonho


daquela quinta-feira de outubro. Sentado numa poltrona de vime no
can-

to da varanda olhava para o campo atrás da casa e fixava-se particular-


mente no telheiro do moinho dágua. Tinha plena consciência do que se
passava com ele, e mesmo na circunstância especial náo perdeu o encadea-
em
mento de sonhos que o levara à cadeira de vime no canto da varanda
que olhava o campo atrás da casa e se fixava particularmente no telheiro
áo moinho dágua. Fazia sol e tudo indicava que acabara de almoçar.
Um
copo à ro, f..nt. sobre as tábuas do piso deveria ter sido utilizado
por ele

mámentos antes de se recompor dentro da realidade maior que intuía


ser

a última, como se lhe faltassem forças, ou náo houvesse mais necessidade


de prolong ar a cadeiade sonhos. Atingira uma plenitude nunca
imagina-
da à fi*avu-se particulârmente no telheiro do moinho dâgua
com a deci-
são implícita de retroceder o ciclo, carreando para as etapas
anteriores
que
alguma sugestáo que lhe permitisse, pelo menos, formular o problema
,. p.op,,rr.ra no início. uma temeridade, quando náo se percebe repenti-
de qual-
namente a realidade concreta de cada etapa,e se aceita a sugestáo
quer fantasia ou símbolo. Precisamente naquele instante o seu mundo era
pol-
á do sétimo sonho daquela quinta-feira de outubro. Sentado numa
trona de vime no canto da varanda olhava para o campo atrás da casa
e
dei-
fixava-se particularmente no telheiro do moinho dárgta. Ergueu-se,
xou a varanda, contornou as árvores da estrada e se dirigiu ao moinho.

143
os sEÍt soN

Ao junto à engrenagem que impclia a mó acordou no scxt()


se ajoelhar rra poltrona e lançou-se a seus pés. Sentiu os dedos que lhe procuravam
sonho. Na mesma posição em que adormecera para sonhar o moinho. A rls coxas e as mãos mergulharam avidamente na abertura da braguilha e
cadeira oscilou um pouco e a torre metálica impôs-se com o seu entrançarkr cnvolveram-lhe o membro com sofreguidáo. O espanto e a excitação to-
de hastes e madrugada sutil, entre cinza e azulada. O casario baixo airrtlrr llreram qualquer reação. E instantes após a cabeça fazía-lhe pressão entre
não fora agitado por cantos de galo e os tubos que formavam o parapcito es virilhas, e via apenas o movimento ondeado dos cabelos enquanto uma
da varanda cortavam-lhe fatias de telhado. Entregou-se ao balanço rla sucçáo inutilizava-lhe alguma coisa, ainda náo sabia exatamente o que era.
cadeira com uma volúpia que só o sonho lhe permitia. A fina armação, clc Agora, via o rosto risonho à sua frente, um rosto redondo, entre infantil
cantos ligeiramente arredondados, vergava elasticamente, e a palha en- c imbecil, e procurâva conter um ímpeto mais violento distraindo-se com
trançada do assento e do encosto f.azia o corpo participar de uma leveza a engrenagem de um moinho dáguae uma cadeira de balanço de madeira
tanto maior quanto maior a caÍga, ou a tensáo. E enquanto a claridacle vergada e assento e encosto de palha trançada. Um impulso irresistível de
invadia a sala e os galos se reconciliavam com o seu desafio, intentava movimento fê-lo deixar de lado alguns Pensamentos contraditórios coe-
naquele regresso perceber a parcela do sonho anterior à sua procura. A xistentes e assentou-lhe um golpe violento com o joelho na boca. O mo-
questáo intrigava-o ainda mais porque no sexto sonho, já de volta, tinha vimento da articulaçáo agitou-lhe o sono e o sonho, que era o quarto, e
um argumento do último e a reminiscência dos cinco anteriores. Era prc- recostou a cabeça no peitoril de mármore do basculante que iluminava a
ciso regressar ao sonho no qual sonhava com algum resultado positivo. E sala à maneira de vitral simplificado. Terminara o oficio, um Srupo indis-
de positivo apenas a impossibilidade de verificar a engrenagem da mó e o tinto dialogava junto à cabeceira de uma longa mesa mas nenhum ruído
impulso, agora, que movia a cadeira de balanço. Subitamente ergueu-sc chegava a ele. Como se um vácuo o separasse de qualquer palavra ou ruí-
como se algo de muito importante fora esquecido, e o esforço despendido do. O calor devia ter sido intenso. A camisa molhada, o nó da gravata
agitou-lhe o sono. Regressara ao quinto sonho. E o regresso era ainda mais incomodando, o colarinho era alto, alto demais, o suor escorrendo pelas
doloroso do que a partida que o levara ao sexto. Exatamente porque re- coxas e descendo pelas pernas. A garganta seca, a língua áspera, olhou
gressava. A sala em penumbra, a poltrona estofada no centro e ao longo paraacimalha adornada do armário no centro da parede dos fundos. Dois
do lado maior o tapete e o mesmo tipo à sua frente. A repugnância atingi- arcos de círculo coroavam três linhas verticais, em perfeita concordância,
ra um gra:u táo intenso que só o sonho, o sexto, aliviou-o das cargas de e sugeriam o esboço de uma atcada.Num fundo azul,letras douradas im-
sono denso que encontrou como escape às conseqüências de uma imposi- primiam a seqüência de negações. Uma opressáo fê-lo olhar em torno à
ção coprofílica. O tipo insistia com as mesmas manobras anteriores à sua procura dos outros que sabia estarem ali por perto. Mas náo viu ninguém,
volta. A princípio, e isto ainda antes de chegar à cadeira de balanço e ao a não ser o mesmo grupo indistinto. Alinhavou entáo, meio a contragos-
moinho dâgua, parecia ouvi-lo discretamente. Não sabia com exatidáo o to, a cena coprofílica, a cadeira de balanço e a engrenagem do moinho.
que lhe tinha a dizer. Sabia apenas que o outro parecia ouvi-lo discreta- Entre o sonho atual e a cena coprofílica encontrou um nexo meio esfu-
mente, embora às vezes deixasse escapar um risinho, produto mais da maçado, embora nada pudesse definir. Participava de um amontoado de
ausência de controle do que propriamente motivado por qualquer coisa idéias caóticas que ultimamente lhe perturbavam o ritmo normal dos dias.
que dissesse. Apesar disso náo se lembrava se havia dito alguma coisa. O Sabia apenas que entre a prece mais ou menos espontânea, mais ou me-
tipo, baixo, gordo, o rosto arredondado, os cabelos ondulados para cima, nos mecânica, e o gesto do tipo que se lançara sobre suas virilhas havia
escondendo por trás de umas lentes escuras os olhos ávidos e mal dissi- uma relaçáo um pouco mais importante do que as coisas vagas que até
mulando uma ânsia maior do que a sua, o tipo deixou bruscamente a ou- entáo lhe haviam transmitido. Pressionou a nuca na quina de mármore

144 145
enr busca de uma dor mais violenta quc lhc sugcrissc algo tttre acluilo c a
e
q são dos lábios na glande, a sugestáo de arcada saturada de negativas, o
cadeira de balanço, entre a cadeira de balanço e o moinho dágua. Mas rt lombo da espreguiçadeira, uma realidade mais plana que náo chegava a
dor apenas fê-lo estrernecer e lançou-o no sonho anterior conl a violêlrcia cxigir definiçoes, mas apenas a presença. A única diferença era uma gra-
de quem rejeita uma intromissáo excessiva. Ao se agitar sobre a esprcgtri- claçáo na intensidade com que olhava. E seu olhar era mais feroz, agora.
çadeira, acordando já em pleno terceiro sonho, guardava funda a mágoa Scm definir ou procurar palavras vibrava com uma carga de afetividade
de quem é rejeitado por algo de fundamental, de concreto, de elementar, até entáo ignorada. Por isso mesmo foi-lhe perfeitamente compreensível,
mas necessário, profundamente necessário. Era áspera a lona e feriam os já no primeiro sonho, o gesto violento da máo crispada que não chegou a
cantos vivos da armação e rangiam os pinos das articulaçóes originando estilhaçar o vidro, mas que permaneceu no centro do painel como um sol
movimentos desengonçados à mínima acomodaçáo. Quanto mais incô- de carne e seus raios de fraturas. Ainda esfregava o pulso e os nós dos
moda a situaçáo maior a necessidade de alterá-la, numa proporcionalidade dedos da máo que no sonho do qual despertava golpeara o ianelão. Re-
de dor. No regresso a este sonho notou uma ligeira modificaçáo. Havia à mexeu-se na cadeira e só então observou com espanto que ao adormecer
sua direita uma janela fechada com os postigos cerrados. Agora sabia da e participar do primeiro sonho nem mesmo chegou a perceber-lhe o as-
existência dessa janela, mas náo a via. Náo que inexistisse, que tivesse sid«r pecto. Alta, de braços trabalhados terminando em volutas sobre o assen-
substituída por outro elemento, uma parede por exemplo, mas simples- to, de espaldar alto e esculpido no topo, de pés arqueados e afilando para
mente não a via. Aconchegou-se da melhor maneira possível na lona rete- patas de três unhas. À sua frente uma criança de dois anos andava cheia
sada da espreguiçadeira, e conseguiu ordenar uma afinidade entre o de hesitaçóes pela sala enquanto uma onça estirada no canto ronronava e
momento coprofílico, a oraçáo e a engrenagem do moinho dágua. Ape- esfregava o focinho com a pata. Uma onda de humor invadiu-o e recos-
nas ficou sobrando a cadeira de balanço. E esta sobra fê-lo agitar-se tanto tou-se no espaldar, assumindo uma atitude condigna com o seu delírio,
que derrubou a espreguiçadeira. Ergueu-se dolorido em frente a uma ja- segundo uma lembrança da outra realidade, e de um vocabulário que agora
nela, mas já no segundo sonho. Um janeláo, para definir melhor. Um lar- lhe era bem claro. Só o humor alterava os gestos hieráticos que ensaiava
go e alro painel de vidro verde e opaco encaixado em finas estrias de ferro para uma representaçáo oportuna. Sentiu a aproximaçáo de um homem
negro. No centro, onde se encontrava, à semelhança de uma janela den- por detrás e principiou a ouvir algumas palavras, no momento exato em
tro da janela, uma arrumação assimétrica de pequenos vidros brancos, mas que a criança pisou no rabo da onça, e esta deu-lhe uma patada, derru-
também opacos, leitosos. Da cintura para cima dois retângulos justapos- bando-a. O homem atrás insistia em qualquer coisa urgente. Procurou com
tos por uma linha negra. Na altura dos pés, à esquerda três retângulos esforço um laço entre a patada, o golpe no janeláo, a queda da espregui-
verticais, e à direita dois quadrados. Cortando os tornozelos uma faixa çadeira, a oruçâo, a pressáo nos lábios, a cadeira de balanço e o moinho
leitosa corria de ponta a ponta. Regressava exatamente à mesma posição dágta. O homem insistia. Irritou-se. Náo queria ouvi-lo. Acordou. Estira-
e às mesmas preocupações do segundo sonho. De todos os sonhos era o do num cubículo de hotel, um pouco mais largo do que a cama, o teto
que mais lhe agradava. Nesse momento entáo, foi com certo alívio que se pareceu-lhe mais longínquo do que na realidade. Náo havia cansaço nem
viu de novo à frente do janeláo. Se na ida apenas uma realidade de linhas, torpor mas lucidez. Encontrou na cadeira apertada entre a cama e apate-
uma paisagem sem sombras nem oscilações, uma paisagem apenas de cor, de oposta o cigarro e o fósforo. A pêra daluz ficava por cima da porta de
na volta, sem mesmo formular qualquer coisa com coerência, apenas jus- entrada e náo queria mover-se. Fumou no que lhe parecia noite ainda.
rapondo reminiscências dos outros sonhos, vivia uma realidade mais densa, Mas ao chegar ao meio do cigarro uma claridade ligeira definiu melhor o
carrcgada de engrenagem de moinho dágua, cadeira de balanço, a pres- cubículo. Ergueu-se. Vestiu-se e saiu. A cidade dormia entre ruínas e case-

146 147
WTI

bres. um vento desordenado conduziu a pocira, e os sapatos avançirvrnr


com dificuldade pelas ruas sem calçamento, ora de terra esburacaclrr, orrl
recoberta de um cascalho brilhante, ou de cacos de vidro, como lhe plrc-
cia. O pequeno comércio abriria suas portas dentro em pouco, e os lro-
mens que tanto sonhavam com esplendores de outrora retomarianl sult O fio
tarefa de arrancar do subsolo um outro minério qualquer, maldito conro
o de antigamente. Lembrou-se das feições do velho que lhe fizeraconlprr-
nhia na véspera, ao jantar. Irritou o proprietário do hotel, que ainda dor-
mia, ao exigir sua conta. Caminhou até a estrada e pôs-se a fumar até a Douleur, tüt n'es qu'un Mot.
chegada do ônibus que o levaria de volta. No caminho perdeu inteiramentc Peur CHIUcHARD
a vontade de formular algum problema, e não deu maior importância aos Des Animaux à l'Homme
sonhos. um passageiro insultava o motorista. Devia correr um pouco mais,
sair daquele passo de tartaruga. Fumou e de súbito um tremor lhe deu a
sensaçáo de uma realidade invertida. Principiava talvezo primeiro sonho
de outros sete, mas sonhos descendentes, negativos, impregnados de sua
ação cotidiana. Devo seguir meu caminho como se nada pudesse perturbar o ritmo
dos passos ou a pulsaçáo no peito. Devo me habituar a náo permitir que
a marca de infinitas sugestóes à minha direita ou esquerda me sirva de
empecilho, ou me fira com a aliciante tentaçáo de uma solidariedade. Sou
um homem alienado, preciso me convencer disso, e náo ceder às injunções
de uma simpatia que nem sequer foi solicitada. Carrego comigo suficien-
tes cargas de entusiasmo malbaratado e de incoerências letais. Ser aliena-
do é uma questáo de coerência, a única talvez. Por isso o destino daquele
homem em nada me afeta. Está cercado agora. O outro, caído iunto ao
meio-fio, se ainda náo morreu, tem pouco tempo de vida. Pelo menos é o
que me parece. O choque foi violento. O grito também. E o sangue que
pude vislumbrar antes que os curiosos me tolhessem a visáo é prova sufi-
ciente de um fim próximo. Deste lado da rua durante poucos minutos
acompanhei os dois e poderia afirmar quase que o resultado seria exata-
mente o que me foi dado presenciar. O episódio trazia em si a marca de
um entardecer que me conduzia à toa, e apenas acrescentava um dese-
quilíbrio ao movimento em torno. Quando o caminho é lento e a espe-
rança nenhuma pode-se até encontrar um certo encanto nas vitrinas
abarrotadas. Eletrolas. Faqueiros. Televisores. Liquidificadores. O corpo

'l 48 149
modelado pelo cetim de uma estrela loura no cartez do cinema, a bocrr gcntcs se csfunram e tem-se a impressáo de que comprime os maxilares.
entreaberta, o rosto em diagonal como que sustentado por uma sólirlrr Scus passos sáo lentos e agora mais duros. Caminha com o equilíbrio de
coluna de cabelos descendo em ondas, os olhos semicerrados na sugcstiro (luem ignora os próprios movimentos, as palmas das máos roçando inter-
de gozo que milhões arrastaráo pelas retinas até o lençol de um quarro nritentemente os bolsos do paletó. Deye estar chegando a um ponto em
solitário. Pela outra calçada os dois homens seguem no mesmo passo. o que a estupidez davoz humana se revela em sua plenitude, momento em
da frente gordo, baixo, redondo, agitando os braços e numa voz esganiçacll que se identifica com um grunhido, um latir, um choque estrondoso de
lançando insultos ao motorista de um automóvel que seguia lentamentc minerais de uma existência remota. A linha de um vinco se desenha ner-
ao lado do meio-fio. O de trás, magro, alto, o rosto sereno dos que sc vosamente entre a asa do nariz e a comissura dos lábios. Deve estar che-
reservam uma grande dose de humor para uso próprio. Um aparelho dc gando a um ponto em que as palavras ferem, golpeiam, sáo concretas,
televisáo agrupa curiosos e carreia olhares publicitários do grupo de ven- sólidas. Deve estar chegando a um ponto em que lhes percebe a realidade
dedores no interior da loja. A tela exibe um documentário sobre fogueres maior de uma vida autêntica, autônoma. Náo sei se houve intervalo entre
e satélites artificiais, ao mesmo tempo em que imbrica nos olhos que se a constataçáo e o gesto que impeliu o gordo pata a frente do automóvel.
movem para além, sempre para além, a inconsciência de uma irredutível Do outro lado da calçada vi apenas o homem magro esticar o braço e ouvi
miséria humana em dimensóes cósmicas. Há rostos que se cruzam numa o grito do gordo. Há uma ave-maria numa vitrola e vejo com a melanco-
eterna expectatiya, sombras desconhecidas se entrechocam em contatos lia de um hábito que náo é meu, que a tarde é um cromo e há um casal de
inimagináveis e às vezes indesejáveis. É um universo de identificações e campônios ajoelhado numa planície ao lado de um monte, de feno talvez.
repulsóes alheio à vontade e a qualquer inrromissáo de um hipotético diá- Apenas náo há campônios, nem planícies, e quanto ao feno, poderia co-
logo. Todo um mundo de comunicaçáo que se alonga sob os pés, varre as mê-lo, por que náo? Hâ uma tentativa de explicaçáo esboçada por um
calçadas e adere aos muros, lâmina líquida e elástica com o rigor de fan- resíduo de solidariedade ainda náo eliminado. Ou pelo menos uma tenta-
tásticas perspectivas. Mas há também os espelhos nas vitrinas e nos bal- tiva de compreensão, ou um sentimento vago e semelhante ao que me do-
cóes dos cafés. E neles outro tipo de sombra, um pouco mais nítida, um minou quando cheguei à conclusáo de que era um pobre-diabo. Náo, o
pouco mais à nossa imagem e semelhança, gera uma superposiçáo de es- destino daquele homem em nada me af.eta, absolutamente. Nada tenho a
pantalhos fugazes, repetiçáo instantânea de uma outra passagem, de um ver com tudo aquilo. Nada. Absolutamente nada. Acresce o detalhe de
antes para depois, com o tempo reduzido ao estritamente necessário, uma que no início, quando eu comecei a observar os dois no outro lado da
centelha de luz apenas, mas o suficiente, e sem os inconvenientes de mo- calçada, no início, digo, no momento em que o homem magro salvou a
nótonas rotinas a se multiplicarem com a carga de tédio. passagem sim- vida do gordo ao arrancâ-lo violentamente da rua e da frente do automó-
plesmente, fraçáo de segundo, o tempo da eternidade. O gordo gesticula vel, no mesmo instante pressenti a seqüência e náo posso alegar surpresa,
ainda. os braços barbatanas rechonchudas complemento davoz a não ser essa outra espécie de surpresa que é conhecer o já conhecido.
-
do ventre e das nádegas embutidas em um tecido - sãolustroso à maneira de Não, positivamente o destino daquele homem náo me afeta. Profunda-
salsichas. A cabeça arredondada em qualquer posiçáo que ofereça a um mente. É noite quase. Apenas acima do horizonte uns restos de azul se
hipotético espectador tem um quê de pornográfico mesmo silenciosa. Mas fundem ao cinzae negro de um céu enevoado sobre a serra alémdabaía.
irgora esbraveja, esperneia, se agita, rompe o acúmulo de frustraçóes numâ Abaixo as luzes espalham uma poeira entre os vultos que caminham pelo
Íriria a principio ridícula, mas que atrâvessa rapidamente a Íaixagrotesca, parque, e acentuam as sombras das amendoeiras. Caminho por um mun-
t' st' prc:cipita numa zona instável de difícil arrogância. O riso irônico vai do calmo, realizado, além dos desesperos e das angústias. Uma dúvida
,r()s l)()ucos desaparecendo da face do homem magro. As feições indul- apenas encrespa as águas desse mar tranqüilo por onde derivo: a morte.

1s0 151
extremidade à outra, ali parou, e como não houvesse mais ninguém além
dele parecia disposto a náo desistir enquanto permanecesse sua interro-
gaçáo. O esforço exigido para encarar o ruivo e desviar a atenção das nu-
vens seria suficiente paranáo acrescentar mais nada ao que dele exigiam.
O petroleiro noruegues Doloroso demais. De relance, entreviu além dos balcóes de jornais e re-
vistas e da tabacaria o do café. ft melhor solução seria levantar-se e atra-
vessar o ruivo em direçáo a uma xícara quente. Como quem percorre um
espaço desimpedido. Mas a solicitaçáo do pescoço foi mais intensa e vol-
tou às nuvens. Com a calma de mola que regressa à sua forma após os
incômodos de uma deformação. Oscilava entre duas nuvens. Uma com
os contornos bem definidos, outra com uma faixa tênue de rarefaçôes entre
o compacto branco do centro e o azul desbotado da periferia. Baixou a
Era um homem estranho, dado a idéias estranhâs, e naquele momen- cabeça e apoiou o queixo e a testa nas máos justapostas, como em oraçáo.
to, sentado no banco do aeroporto, não conseguia saber exatamente o que Apenas as pontas dos dedos se tocavam; mas entre os dois arcos de pole-
desejava o tipo ruivo, baixo, de rosto retangular e farto, de rugas espaça- gar e indicador um sorriso malicioso se esboçou, e decidiu manter uma
das por convexidades de fartura e sol. Primeiro porque olhava para as posiçáo ambígua. O que lhe interessava náo era propriamente auxiliar o
nuvens, não propriamente para ver nuvens, mas obedecendo a um impul- ruivo mas sim entender o que procurava dizer numa língua que náo co-
so do pescoço que se recusava a tomar outra posiçáo, segundo porque nhecia e de que nunca ouvira uma palavra. Um artifíciortalvez, em não se
não eram bem as nuvens que o interessavam, terceiro porque estava em oferecer totalmente, em preservar a sua inacessibilidade, ou um modo meio
fase de treino, já bem adiantado, em não permitir que lhe turvassem o rnatreiro de náo se recusar totalmente aos avanços do outro. O ruivo se
próprio egoísmo com outros egoísmos um pouco mais úteis. Custou a desloca um pouco para a direita e baixa o corpo de modo a se enquadrar
perceber que a língua do ruivo náo era bem a sua, ou mais exatamente, em seu campo visual, a impor a sua presença. A camisa limpa e a graYata
a que usava diariamente, e que era mais ou menos a usada na regiáo em oscilavam diante dele e o colarinho meio machucado sugeria uma displi-
que vivia. Uma reminiscência em que se fundiam o grotesco-trágico de cência agradâvel. Os ruídos prosseguiam e às vezes eram sons, mas nunca
uma situação limite e uma gargalhada retardou-lhe ainda mais a vontade além disso. A boca se ovalava e um jato expirado dava idéia de que a lín-
de abrir uma brecha ao entendimento. Só esse fato seria suficiente para gua feria o palato, ou se alargava e a ponta comprimia os incisivos superio-
mantê-lo alheado, não existisse um outro menos importante,talvez.Nada res, ou se fechava e os lábios Íaziam movimentos acompanhados de
especial nas nuvens, nenhuma forma a sugerir fantasias ou a nutrir diva- entonação nasal. A regularidade das emissóes afastou uma primeira hipó-
gaçóes. Meia hora ainda paÍa a saída de seu aviáo. A véspera chuvosa tese de que fosse um mudo tentando se comunicar. A própria mímica que
deixara na tarde um rastro de umidade, uns salpicos de brisa a acentuar a o ruivo começou a utilizar desfez qualquer dúvida. Era exatamente a mí-
diferença entre as faixas de sombra e as ensolaradas, ao longo do corre- mica de quem sabe falar, e por isso mesmo incapaz de utilizar apenas os
dor de espera. Seu banco, junto ao desembarque das bagagens, após a gestos. Afastou as máos do rosto e ainda obedecendo a um impulso do
chegada do último aviáo, náo atraía ninguém que pudesse interferir enr pescoço encostou a nuca no encosto do banco, ultrapassando as nuvens, e
sua estranheza. Só o ruivo como que lançado de banco em banco, de uma fixando os olhos no teto. Os movimentos do ruivo náo eram desespera-

152 153
/VT I

dos ainda, havia neles uma inquietação, ncrvosismo contido, hayia nrcs-
mo uma sugestáo de amabilidade, um esboço cordial na gesticulaçáo aindr
náo rígida. Para fugir ainda uma vez à imposiçáo do ruivo que se apro-
ximara e quase dobrara o peito sobre sua cabeça ele tateou o banco à procu-
ra da mala e apertou-a contra o corpo. com esforço abandonou a atração O encontro
do teto e ingressou no cotidiano. Abriu a mala, revirou roupas e papéis,
abriu a sacola que continha o sabáo, o pincel de barba, a escova de dentes
(esquecera os chinelos), e encarou com o ruivo, que passou a adotar outra
tâtica. os ruídos eram mais estridentes, e os gestos de mão e cabeça mais
nervosos e precisos. E naquele instante, associando ruídos a reminiscên-
cias fragmentárias da intuição compreendeu tudo, compreendeu perfei-
tamente o que o outro queria dizer. Levantou-se, f.ezumgesto de quem se
desculpa e um sorriso pedindo indulgência, arrastou a mala pelo banco Inútil adiar o instante. Olhou mais uma vezpelaianela, viu no mesmo
até sentir-lhe o peso nos dedos em gancho, e caminhou para ocafé. como lugar o tipo baixo e magro, encolhido na própria espera e aparente distra-
pensar em Deus se há um homem no aeroporto preocupado com um pe-
çáo, mediu-lhe o grau de ódio pelo aspecto surrado da camisa e pelas cal-
troleiro da Noruega?
ças rotas, e apagando as luzes do banheiro e da sala, saiu. Passou rente ao
tipo numa nítida sugestáo de caçada. Resolvera auxiliá-lo, precipitar o
intervalo necessário enrre a decisáo e o instante propício. Poderia até
mesmo ajudá-lo a reduzir as possíveis conseqüências do ato. Pensara nis-
to. E o trajeto que agora percorriam era apenas uma repetição um pouco
mais física do que jâ Íora traçado e determinado em suposiçóes e hipóte-
ses do acaso.
Sentiu-se seguido, o que não pôde deixar de lhe provocar um sorriso
não definido pelo rosto duro e inexpressivo. O primeiro passo certo numa
engrenagem existente apenas em esquema, e que não teria agora outra
alternativa a náo ser a consecuçáo do ato. Deixariam a rua iluminada as-
sim que ultrapassassem os blocos dos bancos, e tomariam por um cami-
nho à esquerda, além da praça, e dos quarteirões regulares de residências
assobradadas. Ia em mangas de camisa, e não era bem uma brisa, mas
ausência do calor da tarde, que lhe enxugâva o corpo suado de um dia de
expectativa. As barras luminosas recortavam-se nitidamente no azul ene-
grecido e transparente. Uma calma interna finalmente de acordo com o
silêncio geral, nem mesmo perturbado pelos automóveis ou pela conver-
sa dos outros que por ali passassem. Gastara o dia sentado na mesma ca-

154 155
wtI o5 sEIt S0N

Foi com alivio até, que


«lcira e conhecera toda a gama de sentimcntos que começam no mcclo c mente como conseqüência um ronco de motor.
de trás e despedir-se
tcrminam na tranqüilidade de agora. Todas as dúvidas se esvaíram, totlos pela janela viu o tipo magro e baixo saltar do banco
vez aface' E naquele ins-
os receios se mostraram infundados, porque o resultado concreto, objcti- dos outros. Foi entáo qr. tt. viu pela primeira
para concluir que o vago,
vo, seria apenas uma antecipação. Ou talvez nem isso. Talveznem antcci- tante principiou a amá-lo. Quanto tempo levara
paçáo. Talvez a hipótese de poder adiar alguma coisa fosse ainda um resro o possível, o apenas idéia, se resume nisso' Um
tipo que um dia salta à
com suposiçóes'
de ilusáo a amanâ-lo na teia de que estava certo sair agoÍa. porr" de casa e póe-se à espera' Gastara tempo demais
idéia se transforma no
Como teria sido o primeiro instante? Teriam se aproximado do ho- palavreado, ou supusera que o encanto de uma
Todas as coisas
mem, e após alguns minutos de conversa tudo estaria claro, exato. Rece- ln.rnro de um fato. Descàbrira precisamente ali o fato.
na cadeira olhando pela
beria um tanto pelo serviço, a metade ali mesmo, e o resto depois de feito. eram ainda possíveis enquanto ficasse sentado
para um canto de
Ao receber a metade já o odiava suficientemente. Enrolando as notas no janela. No vértice ,rrp.riá, da sala as linhas convergiam
antigamente
bolso da calça, seus dedos miúdos e endurecidos pelos calos alisavam a ,o*br" e pó. E mistãrio, talvez, acrescentaria antigamente'
que era praxe fumar muitos ci-
própria coxa e afagavam o membro intumescido. Não o conhecia ainda, não agora. Fumou muitos cigarros, sabia
náo sabia se era magro, ou gordo, alto ou baixo, preto ou branco, sabia g"rroremsituaçóesidênticas'Andoumuitopelasala'cruzando-aemto-
a sala em todas as direçóes
apenas que era um homem, e que o serviço devia ser feito. Mais do que das as direçóes, que era lugar-comum cruzar
os sapatos' examinou os calos
suficiente para odiá-lo. Deitado no quarto miúdo do hotel de madeira, em momentos como ert.. Cálço" e descalçou
de cueca, de cal-
uma luz forte de um pátio interno ferindo-lhe os olhos, coçou a barriga, e dos dedos deformados, trocou algumas vezes de camisa,
o peito, relembrou as yezes anteriores em que fizera o mesmo serviço, e çasrfoiaobanheirooutrastantas'Tomoumuitocafé'bebeualgumacoisa
sem rótulo. Foi precisamente
ao lhe surgir o motivo que o levara a aceitar a primeira proposta, sobre- ioá rrao sabia definir bem. Agarrafaestava
veio uma excitação que só sentiu a partir da segunda vez. o membro erecto, assimquepassouodia.Osdadosconcretosqueolevaramàquelasitua-
a menor importância' O que importava
era
o corpo em tensão, a cabeça pesada e os olhos dilatados. Talvezhouvesse çao náá tinham no momento
mulheres pelas redondezas, talvez até mesmo aqueles cubículos do pátio asituaçao.Efoisobreasituaçãoquearmouoesquemadeseudia,aban.
-ia
interno do hotel, de onde às vezes sussurros e risos abafados, abrigassem donando inteiramente o que nidaexplicava, nada acrescentava, nada
alguns momentos numa
algumas. Mas a tensáo era forte, e a excitaçáo não pedia propriamente sugeria, nada perdoava, nada justificava' Fixou-se
afagos e beijos. Pedia apenas uma ejaculação intensa. Masturbou-se. De- estatuetaquetantasvezesoempolgara.Deixou-ofrio.Hábilgeometria
e transformar a surpresa no
pois veio o sono e o sonho. Um mamoeiro, dois porcos, três galinhas, um da dor. Nada mais a fazer.Énoite. É d.t..t,
casinholo de taipa, o descampado, imenso descampado, um vulto aninha- gesto cotidiano, desejado.
do na soleira, os cascos apenas de um burro e duas sacolas de pele de ca- Jáatravessa.r-"rduasviasparalelasàprincipal'edeixaramparatrás
por uma pequena abertura
bra cheias de rapadura. No sonho sentiu o gosto da rapadura. Quando as luzes e as casas. No início ainda tomaram
que a luz da lua ainda f.aziaver avermelhada e
poeirenta' Fo-
acordou já o esperavam na mesa do café. Deram-lhe dois retratos, e me- no cerrado,
esbranquiçadas' Galhos
tcram-no num automóvel. Deixaram-no diante de uma casa. Sabia onde lhas mais duras e brilhantes refletiam manchas
encontrá-los, hoje, ainda, amanhá, daqui a uma semana, náo importa secosdealgumtroncomaisenfezadorecortavam-Senabrumadearbus.
um pouco' Daria tempo a
quando. tos, .ig"rra, e grilos. Avançariam ainda mais
imprevisto
Até mesmo o ruído do motor do automóvel era já esperado. A noite qr. o ádio do outro, hesitante com certeza, se recuperasse do
Era preciso que a máo náo fraquejasse, que o fio do
passada em intervalos de insônia e sonolência de torpor trariaobrigatoria- diante da facilidade.

156 157
SAMUEt RAWTÍ

sentimento não se enroscasse sutilmente travanclo


o gesto promcti(l(,.
%
1

Açulou-o mais um pouco. principiou a tirar o dinheiro


q,r. p.rr.." no rr«rrs,
da camisa, e a soltar as notas uma a uma. percebia
peras p"ur", dos pass.s
que o seguiam que o tipo se abaixavapara recolhêJas.
Tâmbém ele pri.-
cipiou a fazer pausas. soltava as notas de cinco
em duas. Prolongava-se o instante, e cada vez
em cinco, depois de duls Duas fuases
mais lo.rgá iam ficando as
luzes, até que delas se apercebia apenas o halo
leitoso Iranjando o hori-
zonte- Então voltou-se. o tipo encarou-o duro,
maciçr-.nr. duro, na
certeza de que além do trabarho, e arém do que
havia recorhido, haveria
ainda mais pelos bolsos. E mais duro ainda porqo.
era suficientemente
sagaz para perceber a humilhação.
Foi então que ele deixou cair o úrtimo maço de notas
no centro da
pequena clareira em que se encontravam, a
dois passos um do outro. E se Duas frases se revezaYam com insistência desde a véspera. A segunda
aproximou do tipo que o esperava tendo jânamáoo
brilho de uma faca, ouvira-a de um estrondo, enquanto aguardava a torrada no café da esqui-
lâmina larga,dois gumes, e ainda conseguiu abraçá-lo
e beijá-lo antes que na. chovera um pouco depois do almoço, e mesmo cessada a chuva o dia
um reflexo de prata e sangue lhe tingisse os olhos.
continuou penumbrento e o céu compacto de nuvens que nem nuvens se
viam. A estada no centro irritava-o sempre. A sucessáo de bancos e gui-
chês, de repartições e espera, de tabeliáes e formulários a preencher, a
rotina necessária uma vez por mês paÍa Sarantir o andamento regular da
oficina. Saíra sem capa e guarda-chuva, e a roupa já seca mas deformada
guardava ainda junto às axilas e nas costas uma soma de umidade e suor'
você come queijo sem páo? Brusco derramou o leite no pires ao apoiar a
xícarae virou-se paÍa a outra mesa. o tipo era baixo, meio gordo, um
cabelo cor de palha, desordem de pequenas ondulaçóes até o meio do
crânio. O jeito nervoso das máos sobre a toalha e os tiques do rosto caÜe-
garam a frase com acentos de espanto e insegurança'
A primeira frase ouvira-a há uns cinco anos, em casa do futuro so-
gro, numa tarde de domingo. Sentado na varanda junto à mesa baixa
,...rro, bebida e os bolos e pôs-se a cortar em tiras a porção de queijo
a
do seu prato; depois partiu com golpes de Íacaas tiras em quadrados, e
com um palito começou a mastigá-los. o pai da noiva, miúdo mas fir-
me, de rosto nervoso e decidido, depois de observá-lo por alguns ins-
tantes pronunciou de um modo seguro a frase: você come queijo sem
páo? continuou em silêncio, transformou em sorriso uma caÍeta, e con-

158 159
o5 Stlt soN

siderou a frase uma afirmação qualquer, suficicrrtc para rcatar A co.vcr bancas com um papel
nha o olhar firme no marido que forrara uma das
sa. Mas não era. em sua mesa, e
oleado e comia em silêncio. Farelos de páo se espalharam
Respondeu com irritaçáo ao faxineiro que reclamara as vassourls jri o resto na bandeja,
um movimento brusco derrubou a gartafa. Encostou
gastas, e um novo estoque de sapólio. pelo vidro corrido que e passar um pano no
ligava o cs- chamou um outro empregado para recolher os cacos
critório ao resto do galpão ainda ouviu os resmungos e os golpes dos tamar- comPrar umas ferra-
cháo, e foi à loia de ferragem, no outro quarteiráo'
cos no cimento. Jâpelamanhã, ao chegar, fora recebido pelos
carpinteir«rs mentasquehátemposlhereclamavam.Comproutambémvassouraseuma
que de cócoras na calçadajogavam porrinha. um defeito na instalaçã<r
caixa de saPólio.
elétrica paralisara as máquinas. Meia hora depois pagava ao eletricista o encontrou algu-
Enquanto remexia numa gavetarjá depois do almoço'
conserto e podia abrir, sem interrupçóes, as pastas de papel da escrivani- de quase dois anos
mas notas de compra em nome da mulher. Datavam
nha. vestígios ainda de uma operação malfeita de hemorróidas incomo-
passados. Provavelmente as últimas compras antes
do início da gravidez'
opi-
davam-no desde a madrugada, quando acordou com um ligeiro desarranjo
Lri* que teve confirmada a hipótese náo táo animadora, e contra aredu-
intestinal. Aplicou um supositório, tomou meio comprimido de um hip- deitou-se e
niáo de todos, e às vezes rrn pooto mais do que opinião'
nótico não barbitúrico que lhe fora receitado junto com estimulante, p"r, abortos espontâneos' os
ziu seus movimentos ao mínimo. Depois de vários
após as refeições, e conseguiu dormir até as sete horas da manhã. De novo Teria que enfrentar a im-
médicos praticamente lhe proibiram a gestaçáo.
o faxineiro à sua frente, já sem tamancos, e de roupa trocada. de um modo in-
eueria as possibiliJade física, e aceitâ-la.Opôs-se. Acreditava, dizia,
contas. Ia-se embora, que isso não é jeito de se trabalhar. olhou-o rapida-
forme e nem sempre traduzível em palavras, numa conformaçáo espontânea
mente, uns cabelos grisalhos em meio à gaforinha, um rosto longo e cur- e nem sempre afável que
de certos fatos naturais. Foi pois num clima denso
tido, nariz comprido, mancha junto ao olho esquerdo, e uma cicatriz em Este fato perturbou-lhe
viu escorrerem os dias na cama de casal do quarto.
diagonal do canto direito do lábio inferior ao queixo.
um pouco os hábitos, mas náo tanto. Ao chegar da
oficina costumava jantar
euanto lhe devo?
ouvíu a resposta, contou o dinheiro sobre a mesa e entregou-lhe a cartei- Lia o ior-
q.r"r. sem palavras. Agora havia apenas uma presença a menos'
ra. um ronco subiu-lhe do estômago. Ao telefone respondeu que a enco- em dia com os assun-
nal, ouvia o noticiário do rádio quase que para estar
menda seguiria à tarde, não se preocupasse. Desligou e percebeu vagamente jogo de cartas em casa de algum
tos que aos sábados à noite entremeavam o
que o tom de sua voz deveria provocar preocupação. como de hábito náo causava
parente ou conhecido. seu mutismo já por demais conhecido
afastou essas sutilezas da sensibilidade, e pôs-se a ordenar os papéis que que elogiado em virtude da
mais estranheza.Eraum fato aceito, e mais do
conseguira na véspera. Mas náo terminou. um empregado do botequim
energiaquedesenvolvianotrabalho.Sóàmesacomamulherimóvelno
vizinho entrava com uma bandeja e deixa sobre o tampo do armário do forçada por um
aposlnto contíguo, irritou-se primeiro com uma abstenção
canto a garuafa de soda e o sanduíche. De queijo. E a mulher do homem atos como com-
período prolongado. Há muito tempo considerava certos
que trabalhava na tupia entrou com dois pratos envolvidos em um guar- pl.-.nrá da higiene díâria.A falta de algum deles era suficiente parualte-
danapo. Era a hora do almoço. um início do
rar-lhe o equilíbrio. o próprio casamento fotaatécerto Ponto
Ainda mastigando, e com um olho fixo na mulher do homem que tra- quelhepareciaessencial.Repugnavam.noasidasabordéis,eseuespírito
balhava na tupia (sentara-se a um canto, num ressalto do baldrame da Por isso aceitou
não era afeito â âventuras. Detestava ficar só fisicamente.
parede), encostada numa parte do muro em que o reboco havia saltado, seu casamento' in-
de bom grado a série de circunstâncias que envolviam
rlcixando à mostra os tijolos irregulares. os cotovelos afastados, as máos clusive um sentimento de maior segurança econômica.
com exceçáo dos
crrlrrçaclas no regaço, os joelhos à mostra, os pés descalços unidos,
manti- momentos em que se descontrolava, e exigia aos
gritos o que lhe parecia

160 161
wt I o5 stlt soN

garantiu que
correto, a presença da mulher não o incomodava. Scu jeito reservack> pt.r- guntou pelo que já devia estar pronto, e de novo no telefone
e foi ao banheiro. Na
mitiu-lhe também evitar atritos com os outros, principalmente com o sogr(). ão dia r.g,rinr. pela manhá seria entregue. Desligou
que um dos homens
Havia entre os dois uma hostilidade habilmente controlada e transmuta(lir volta tomou dois comprimidos e recusou um vale
querer saber se iria ian-
em pequenos favores recíprocos, sem comentários. Apenas no último rnôs veio lhe pedir. Novamente o telefone. o sogro a
seus hábitos. Ape-
de gravidez começou a perceber uma modifi caçáo no rosto da mulher. os tar com .1. hoj.. Disse que náo. Em pouco mudaram
trâços eram os mesmos, as expressões inalteradas, os olhos porém parecianr nas estava só fisicamente em casa. o resto
continuou inalterado' os jogos
dilatados, e mais se dilatavam à medida que ia reduzindo as palavras. No de cartas, o dia na oficina.
último mês limitava-se a pedir simplesmente pelos nomes os objetos de que a segunda frase
Ao sri, depois dos outros, escurecera iâ,aindaremoía
Reviu o tipo baixo, meio
necessitava. Náo chegava a emitir frases. Nos primeiros dias ârrastou con- ouvida na véspera enquanto aguardava a torrada.
máos sobre a toalha e os
sigo apenas a impressão; só depois é que principiaram a se desenvolver dentro gordo, o cabelo co, d. palha, o jeito nervoso das
o
dele pensamentos inusitados. Tirdo isso somado dava-lhe uma sensação de ãqu., do rosto. Qualquer coisa o impelia a perceber na segunda frase
em choque com
energia que jamais identificara nela, e uma vaga sugestão de que a decisão que nao havia na primeira, qualquer coisa que entrava
procurar o médico e pedir
antes tomada continha algo mais do que um simples capricho. Assim o clas- uma idéia que lhe parecia bemrazoâvel: devia
sificara no início. Sabiam ambos do perigo, mas sempre lhe pareceu que a que lhe trocasse os remédios' Já não Íaziam efeito'
mulher náo acreditava muito nas conseqüências desastrosas. De repente
julgou vislumbrar o contrário. E passou a sentar-se todos os dias meia hora
antes do jantar numa banqueta ao lado da cama. Como ela nada tinha a lhe
pedir permanecia silenciosa. como ele nada tinha a lhe dizer, cÍuzava e
descruzava as pernas. À medida que os silêncios iam ficando mais pesados,
e que o dia previsto se aproximava, punha a banqueta cadavezmais perto
da cabeceira, até que nos últimos dias viu seus olhos adquirirem uma di-
mensão e um brilho nunca vistos. Fixavam-no com energia, hostilidade e
uns traços ligeiros de ironia. Ao contrário do que lhe haviam dito, e que
julgava natural, nos últimos dias o rosto parecia ter afinado. As faces pare-
ciam mais fundas. A boca era um risco horizontal de tranqüilidade inédita.
No último dia, depois náo o deixariam mais entrar, dobrou-se quase sobre
a cabeceira. Levemente perturbado beijouJhe a testa numa violaçáo de seus
hábitos, Nos olhos não havia mais hostilidade. Apenas energia e sarcasmo.
Na manhã seguinte saiu como de costume paru a oficina. Às onze horas
telefonaram-lhe que o médico e a parteira já lá estavam. Às duas horas quan-
do entrou em casa a mulher e a criança estavam morta§.
custou a atender o telefone, e estranhou a presença de um emprega-
rlo que o fitava com espanto. Era a reclamaçáo. Pediu que esperassem um
tnonlcnto, foi à procura do mestre, ocupado em lixar umas tábuas, per-

162 163
lto5

provir pelo espanto dos outros. Achava-se iusto,


mossa que lhe poderia
magnânimo. Ou esforçava-se em aparentá-lo, o que para ele, jâ era um
índice de alta compreensão. Profundamente ensimesmado em sua mesa
de trabalho, preocupado com as variaçôes de densidade dos ventos, apa-
A galinha de Colombo recera-lhe o auxiliar pedindo autorização para uma licença de tratamento
de saúde. Estavatuberculoso. Que lituano filho-da-puta!, vem de táo longe
para dar trabalho! Sua voz fora clara, e houve um ligeiro silêncio na sala.
Cessara o murmúrio da conversa normal. Refeito da surpresa, despachou
o auxiliar quando descobriu que a licença náo dependia de sua assinatura,
e retirou-se com o garbo modesto dos que passeiam sua imaterialidade
pela ganga de um aglomerado impert'eito.
Ergueu-se, folheou algumas revistas, foi ao dicionário ver o significa-
Era um homem raro, evidentemente. E no íntimo, embora a modéstia
do exato da palavra galinha, mas perdeu-se no devaneio de outras pala-
o levasse a confessar, gostava do epíteto de pensador. Às vezes, em certas
vras que as folhas lhe sugeriam. O telefone interrompeu-o. O despachante
tardes primaveris, quando uma brisa do mar salpicava de umidade
o céu desejava saber se poderia passar hoje à tarde pelo escritório para assinar a
limpo e belamente azulado, punha-se à janera a admirar a renda de uma
escritura de compra do apartamento. Irritou-se. Nada daquilo o interes-
paisagem se multiplicando em cor e sons. Do terraço de seu apartamento
sava, estava muito ocupado. Náo poderiam levar-lhe o livro para ser assi-
em que com freqüência meditava sobre a inutilidade de todos os gesros,
e nado em casa? Voltou aos dicionários procurando atenuar o arrepio que
num lance que lhe parecia de infinita compreensão de seus gestos inclusi-
essas pequenas irritações sempre provocam. Uma das comparaçóes que mais
ve, passou à sala em que alguns móveis pareciam apenas empecilho para
lhe agradaram foi a de um amigo, Íazendeko riquíssimo e dono de vasta
os livros. Embora detestasse visitas, e mais aindaa famade que detestava indústria numa zona densa de pobreza. Chamara-o de chinês. E de fato
visitas, raramente escondia o orgulho pelo desleixo e variedade de
tomos durante muitos anos admirou a figura de um pensador chinês, que saiu
e revistas. seu corpo longo e magro, ideal também atingido de pureza
e pelos caminhos, abandonando tudo. Abandonou tudo também, mas logo
sensibilidade, encovava-se numa poltrona, e de pernas cruzadas Iançava
se arrependeu. Hoje não via contradição entre seu comportamento e sua
os pensamentos para o além de um cotidiano aborrecido e estéril.
velha admiração. Inclusive essa atitude f.azia parte de uma compreensão
Naquela manhá, aborrecido ainda com pequenos incidentes da véspe-
mais vasta, ele bem o sabia, uma compreensáo que engloba os dois aspec-
ra, ocorreu-lhe a idéia de uma meditaçáo sutil e que pela raridade
deveria tos da mesma questáo. Para alguns dos que o cercavam, e que o observa-
confirmar sua existência singular. pensava no ovo de colombo, e lembrou-
vam com mais argúcia parecia que a falta de oportunidade ainda náo
sc da galinha. Que espécie de galinha seria essa? A simples
formulação da permitira que suas outras características se revelassem, náo táo sonhado-
pcrgunta e a cefteza de que teria um longo trabalho de pesquisa para
ob- ras. Mas esses eram espíritos maldosos, para os quais até certas ligeirezas
tcr algum resultado, fê-lo pensar com asco na mediocridade de tantos
his- da mocidade, sentimentos velados e atos equívocos, serviriam para empa-
t«rrirrclores, e levando mais longe suas idéias, a estreiteza pequenez
e da nar o brilho de uma alma pura.
vi,-lríctca. Mas a serenidade era turvada pelo pequeno inciàente de
on- lánaruanão se encaminhou diretamente para a repartiçáo. Procurou
t.rrr. Nir. sabia ao certo se a turvação provinha do que tinha dito,
ou da em algumas livrarias material para dar curso à sua meditaçáo. Mas à exce-

164 16s
HO5

provir pelo espanto dos outros. Achava-se justo,


mossa que lhe poderia
magnânimo. Ou esforçava-se em aparentâ-lo, o que para ele, jâ era um
índice de alta compreensáo. Profundamente ensimesmado em sua mesa
de trabalho, preocupado com as variaçóes de densidade dos ventos, apa-
A galinha de Colornbo recera-lhe o auxiliar pedindo avtoÍizaçáo para uma licença de tratamento
de saúde. Estava tuberculoso. Que lituano filho-da-puta!, vem de táo longe
para dar trabalho! Sua voz fora clara, e houve um ligeiro silêncio na sala.
Cessara o murmúrio da conversa normal. Refeito da surpresa, despachou
o auxiliar quando descobriu que a licença não dependia de sua assinatura,
e retirou-se com o garbo modesto dos que passeiam sua imaterialidade
pela ganga de um aglomerado impert'eito.
Ergueu-se, folheou algumas revistas, foi ao dicionário ver o significa-
Era um homem raro, evidentemente. E no íntimo, embora a modéstia
do exato da palavra galinha, mas perdeu-se no devaneio de outras pala-
o levasse a confessar, gostava do epíteto de pensador. Às vezes, em certas
vras que as folhas lhe sugeriam. O telefone interrompeu-o. O despachante
tardes primaveris, quando uma brisa do mar salpicava de umidade
o céu desejava saber se poderia passar hoje à tarde pelo escritório para assinar a
limpo e belamente azulado, punha-se à janera a admirar a renda de uma
escritura de compra do apartamento. Irritou-se. Nada daquilo o interes-
paisagem se multiplicando em cor e sons. Do terraço de seu apartamento
sava, estava muito ocupado. Náo poderiam levar-lhe o livro para ser assi-
em que com freqüência meditava sobre a inutilidade de todos os gesros,
e nado em casa? Voltou aos dicionários procurando atenuar o arrepio que
num lance que lhe parecia de infinita compreensáo de seus gestos inclusi-
essas pequenas irritaçóes sempre provocam. Uma das comparações que mais
ve, passou à sala em que alguns móveis pareciam apenas empecilho para
lhe agradaram foi a de um amigo, fazendeiro riquíssimo e dono de vasta
os livros. Embora detestasse visitas, e mais ainda a famade que
detestava indústria numa zona densa de pobreza. Chamara-o de chinês. E de fato
visitas, raramente escondia o orgulho pelo desleixo e variedade de
tomos durante muitos anos admirou a figura de um pensador chinês, que saiu
e revistas. seu corpo longo e magro, ideal também atingido de pureza
e pelos caminhos, abandonando tudo. Abandonou tudo também, mas logo
sensibilidade, encovava-se numa poltrona, e de pernas cruzadas lançava
se arrependeu. Hoje não via contradiçáo entre seu comportamento e sua
os pensamentos para o além de um cotidiano aborrecido e estéril.
velha admiração. Inclusive essa atitude Íazia pate de uma compreensão
Naquela manhá, aborrecido ainda com pequenos incidentes da véspe-
mais vasta, ele bem o sabia, uma compreensáo que engloba os dois aspec-
ra, ocorreu-lhe a idéia de uma meditação sutil e que pela raridade
deveria tos da mesma questão. Para alguns dos que o cercavam, e que o observa-
confirmar sua existência singular. pensaya no ovo de colombo, e lembrou-
vam com mais argúcia parecia que a falta de oportunidade ainda não
sc da galinha. Que espécie de galinha seria essa? A simples
formulação da permitira que suas outras características se revelassem, náo táo sonhado-
pcrgunta e a certeza de que teria um longo trabalho de pesquisa para
ob- ras. Mas esses eram espíritos maldosos, para os quais até certas ligeirezas
lcr algum resultado, fê-lo pensar com asco na mediocridade de tantos his-
da mocidade, sentimentos velados e atos equívocos, serviriam para empa-
t«rrierlores, e levando mais longe suas idéias, a estreiteza e pequenez
da nar o brilho de uma alma pura.
virr-lríctea. Mas a serenidade era turvada pelo pequeno inciàente
de on- Já na rua não se encaminhou diretamente para a repartição. Procurou
tt'rrr. Não sabia ao certo se a turvação provinha do que tinha
dito, ou da em algumas livrarias material pandar curso à sua meditação. Mas à exce-

'l 64 165
ção de alguns magros volumes sobre criação vulgar dc galinhas cm gran-
ias náo encontrou nada. Um volume sequer sobre a história da criação rlc
galinhas, sobre a galinha no mundo antigo, na idade média, nos primórdi«rs
«Ja idade contemporânea. Poderia passar pela Biblioteca Nacional, mas era
tão cansativo, que preferiu acreditar que nada encontraria mesmo, e quc Raiz qu adrada de menos um
todo esforço era inútil, já que não tinha material para suas pesquisas. Com
um ar de desdém atravessou a praça e foi postar-se na fila do elevador.
Um documento o aguardava. Era preciso dar uma decisão. O auxiliar
sugere qualquer coisa, e ele aceita imediatamente. "Faça isso mesmo, se
náo servir digo que foi uma idéia sua, e depois vê-se." A galinha de Co-
lombo ainda o intrigava. Manteve-se à margem do movimento da sala,
profundamente aborrecido por ter que perder algumas horas de um modo
quase urgên-
tão estúpido. Nota a ausência de alguns, e ao perguntar por eles infor- Dois assuntos me perseguem ultimamente exigindo com
mam-no de que estavam de férias. Náo pôde reprimir o desgosto por tan- cia sua fusáo em r-.onro ou novela. À maneira de
dois temâs musicais
Acontece que
ta vagabundagem. que estivessem aguardando uma fórmula de entrelaçamento.
de que só poderia utilizâ-
De onde teria vindo a galinha? O episódio do ovo foi na ltâlia,Espanha, ior rr*u questãode capricho cheguei à conclusáo
ou iá no navio? O fato em si era secundaríssimo e náo tinha maiores pro- los bem como argumentos de humor. E estou longe,
muito longe deste
a uma certa graça de
porçóes do que o da anedota, aliás todo o feito de Colombo lhe parecia alto tablado em que a ironia e o riso sadio se fundem
Enquanto aguardo
bastante mesquinho, de vez que para ele a América náo precisava ser des- expressáo, fruto àe muito esforço e muitas desilusões.
coberta. Sempre existiu. Colombo foi apenas um dos primeiros gringos a , f.r.r*.nta aqui fica apenas o registro talvez de uma história inútil de
aparecerem por aqui. Folheou um jornal, remexeu a gaveta, e ao ver que tempos inúteis.
os outros trabalhavam silenciosamente, saiu sorrateiro antes que o amo- o primeiro assunto é a morte de Sócrates. Ainda estou na fase do en-
a biografia me
lassem. cantamenro biográfico. Desconheço suas idéias. Apenas
irreal. E da biogra-
Olhou para o céuazul, divertiu-se com os finos bordados de nuvens e interessa, uma biografia duvidosa de um homem meio
fia guardo com especial carinho o último instante, ou
melhor a última frase'
com certo orgulho rememorou um longo artigo escrito por outro amigo
os termos de uma situa-
sobre um pequeno trabalho seu: Os matizes primaueris da fauela. Dizia O segundo assunto, ficçáo pura, pretende inverter
de um epiléptico. A história poderia se
esse amigo que ele era profundamente humano. Isso lhe agradava. Pro- çáo ieal, os clclírios pur"nOi.ot
fundamente humano. desenvolver mais ou menos do seguinte modo:
HámuitosallosnumacidadequalquerdoEgito,enumadinastiaqual-
ou um tolo, preo-
quer, se houver conveniência em locali zâ-la,umidiota,
cupadocomoscxcessosdesonhoseasconseqüênciasdolorosasdeseu
como sábio e altamente
transbordamerrto onírico, procura um homem tido
nem sempre notur-
versado na difícil arte de interpretaçáo desse mundo
no.Masatorrcnteeratãointensa,queumdianãofoisuficienteeotolo

166 167
o5 stI[ 50N

voltou unra scgunda, terceira e quarta vez, e o dito sábio passou a integrar Os assuntos aparentemente descosidos têm sua relação com umas idóias
tarrrbém o seu mundo onírico. Fez-se intimidade entre os dois, e a título meio vagas sobre o humor, e sobre o real. Há possibilidade de vida num
dc auxílio o tolo narrou todos os episódios de sua vida, deixando assim clima de transição entre o real e o irreal? Optará o tolo pela irrealidade de
rrrrs rnáos do outro seus hábitos noturnos e diurnos. Náo desconfiou se- sonhos tornados realidade? Entre as anotações que tenho surpreendo um
qucr que uma pitada de tolice existisse também no dito sábio, e tolice título para um trabalho sobre um conto de Scott Fitzgerald: O curioso
suprema, confessou tolices a um tolo. As relaçóes começaram a piorar caso de Benjamin Button Deixo de lado casos como o narrado por Cocciolli
quando nas suas fantasias oníricas a figura do sábio apareceu em caracteres emAcidade e o sangue, em que um efeminado arranja umas vestes de padre
não muito lisonjeiros e em atitudes poucos dignas de tal excelência. Furioso e consegue num simulacro de confessionário armar a farsa com a jovem
com a Íranquezainevitável bufou de raiva e deixou de lado o seu aparato esquizofrênica do livro. O final é trágico, e esses casos não me interessam.
oniromântico. Em bom português diríamos que saiu paÍaaignorância. O A figura do velho tecelão ainda me perturba um Pouco, e permanece
tolo deixou de procuráJo. O sábio, mais raivoso ainda e inseguro, com numa zona de penumbra, sem contornos definidos para uma ficçáo, mes-
medo de sua reputaçáo, arquiteta um plano para conduzir o tolo à extre- mo dc atnrosfcra imprecisa. Devasso antigo, foi levado ou pelo temor, ou
ma loucura, e inutilizar-lhe qualquer argumento. Pretendo me estender pelas c«rrrtingôncias aapaÍentar um modelo de pureza e renúncia, pureza
bastante sobre este ponto que me parece fértilpataaficçáo. Resolve tor- e rcnúrrciu irtcompreensível, pois continuava administrando muito bem
nar real seu mundo onírico e seus temores, e açodadamente procura to- sua tcrrtlrr, c cln alguns momentos sabia fazer valet fortemente seus inte-
dos os indivíduos que povoavam seus sonhos de tolo. O tolo era tecelão e rcsscs. l)cscorrfio que a melhor explicaçáo sobre o caso é a crença generali-
tinha seu cargo numa tenda junto ao mercado, habitava em um pequeno zada tlc (lrrc (:orn a idade os velhos devem afetar uma serenidade e dignidade
cômodo junto com um escriba fracassado, abandonado pela mulher que às vcz.cs irrcxistcntes. Creio que na figura do velho teceláo se encontra a
preferiu o ofício de meretriz pudica, isto é, exercia o oficio resguardando justií'icltivl prtra uma reflexáo sobre a morte de Sócrates. Há um episó-
as aparências de uma separação austera. Os dois irmãos dessa honesta fi- clio crrr srur virlrt que é bem sinal de renúncia e vitória: um incidente com
gura pertenciam à tropa de mercenários do f.aru6, mercenários arre- Alcibí,rrl,'s. N:rturalmente incompreensível para os que §e preocuPam ex-
banhados em toda a Anatólia, até os últimos recantos do Ponto Euxino, e ccssivrrrrrcrrt(' c()n.l dignidade, pudor, e outras grandezas morais.
mais além ainda. Com esses elementos o ilustre oniromante cria um clima llrrvi;r lrrrrrb('rrr na oficina um tipo muito preocupado com a persona-
infernal para seu ex-cliente, deixando-o num estado de pura irrealidade. liinh..f rrl1',;rv:r-sc cngraçado. Tinha o hábito de imitar os jumentos e sua
Acusado de ladrão na tenda do tecelão, fica mudo de espanto, e engole t.spr.t í.rlitl.rtlt. crrrrrr os coices. Esses imitava-os à perfeiçáo. Certos requin-
em silêncio os insultos da turba. It.s tlt. voz trrnrlrcinr devem Ser observadoS. Sacudia-se, agitava aS máOS e
Naturalmente poderia e pretendo encaixar mais episódios, rechear os ('()ln unr:r lirrrrrrt pcrfeita soltava admiráveis palavrões. O velho dono da
acontecimentos com uma série de detalhes do cotidiano. Principalmente I t'r rtl;r I ir rlr;r lror clc r.tma especial inclinaçáo. Entendiam-se. Esta figura me

no que diz respeito a vozes. Como o país estava calmo, e os mercenários int(:l'('ss;r lrrntlrrrucrrtalmente como elemento de humor e anti-humor, que
rccebiam seu soldo e viviam desocupados, outros resolvem se juntar à pr«rcurrrrci tlcÍirrir col.n o tempo. Pretendo ainda, na história, abordar um
brincadeira. Minha última cena é a do tolo transformado numa espécie laclo clc acils(). () tolo desconhecia o parentesco existente entre o mestre
clc cspantalho, enquanto o sábio esfrega as máos de contente com sua obra. de onirornurrcil c cssa esplêndida e saudável figura.
()uc aprendessem os tolos a não sonhar tolices. Mas confesso que o final Procuro cpígreÍcs:
rrrro rrrc agrada. A de Hcinc? "Os charlatáes da modéstia são os piores de todos."

168 169
A de Talleyrand? "J'ai vu le fond de ce qu'on appelle les honnêtes gens:
c'est hideux!"
O lado legal me preocupa também, e náo sei se no velho Egito havia
livros como Moral e medicina, de Frei Rafael da Uniáo dos Palmares, ex-
cclente guia para certos casos. Por exemplo, o artigo 24 (Cap. V pág. A brrralha de Kurukshetra
20e):
-
"O médico está obrigado, pela ética e pela lei, a guardar segredo sobre
os fatos de que tenha conhecimento por os ter visto, ouvido, ou deduzi-
do, no exercício de sua atividade profissional." E fala depois no artigo
154 do Código Penal. Mas isto é muito atual, e muito chato. A náo ser
que resvale para a imaginaçáo novamente. Mas esse campo jâ é de ltalo
Svevo da Consciência de Zeno.
O primeiro movi-
parcela de obieto'
O que me preocupa mesmo é o real. E talvez o real apareça na hora F'oi sti ctttito que percebeu sua
o joelho' e imobilizou-se
em que Sócrates, um minuto antes de morrer, recomenda que se pague mc.l() rlc,,is .1. .rri'to tempo foi o de coçar Chegara à
no canteiro defronte'
uma dívida: o Galo de Asclépio. n()vrulrcrltc fixando uma est;ca fincada
sem frase necessária para definir
O que é Galo? c«rrrrliçi, clc calma, Je fixaçao de olhos
de idéia. Sua condição de objeto
lhe vinha ao mesmo tempo
Quem foi Asclépio? ,,',,
".lrt,ç,,
cnr (luc o objeto se lhe fixava na
retina' e do movimento náo necessitava
um animal' e com o mesmo im-
ton)ílr consciência. Movia-se ao observar
pr.rlso.Umasensaçáoqueanteriormentequalificariadepeso,equeagora
crainútil,faziacomquenáotivessenecessidadedeabarcartudooqueo
que tinha diante dele' nem muito
ccrcâva. O espaço se resumia no espaço linha
de calçada' um meio-fio' uma
:rcirttâ, nem muito abaixo' Uma nesga
,1.'rrrittadecáo,faixadeóleoreumautomóvelapenasatéaaltutadopâta- Frag-
diversos e a distinguir ruídos'
l.rrrr:r. l)rincipiou a p.r..u.. .h"iro,
lll(.llt()Setrtobiográficosinsistiamemsemanifestarmascomâsolidezea de ter-
um certo halo
('\l)('ssunt cle um corpo no espaço' Longe o encanto'
vivido. Longe também a
,rrrr :r t,rrv.lver necessariamente um episódio
equívoco externo. ou interno' Os
s('ns;l(il() tlc clureza, produto de algum-
ãe idéias' com a O*:l*^1t de
uma pá-
Ir';r1',tttt'ttr,s .r"* ";J;;resíduos
uma emoçáo superada' de algum
acontecimento remo-
1,i,,,, .1. lt'ittrrrl, cle Se houve
t(), (ltr(' st'litttttlo ,oàu' lógica" não d"ut'i" afetâ'lo em nada'
"' ironia costumeira, com que usualmente
Irll,,rrnr (.sl)rlnt(), foi a ausência da
uma situaçáo nunca bem defini«la:
rr|lrrrtirrllir () tlcsccluilíbrio desejado de

174 171
qr
o5 sEIt 50Nl
SAMUEt RA\í!

r('st() cl':l trttlo, crlt () pcrmanente


cuidado com uma biografia' uma foto-
scm-
ironia irresponsável a lhe garantir uma ambigüidade equívoca, nem produzia cfcito
de obieto' ntóvcl lltlnra t',,.'ldura fixa, e que a alguns passos
pre jogada à reu fauor. Era exatamente isso agoÍa,uma parcela 1,,r:rl'irr
pelo avesso. E tudo comcçâ
de ilusóes impingidas por valores em desuso. Reconquis-
i.'t,,,i.,, sc c.l.t.,r,l,r cte cabeça para baixo, ou
*.*o cidade' Repensar objetos e cenas
".ú.ulo sem e()nl unl 1xti, ttttt:t tttãc, umâ casa, uma
tar a animalidade fora uma de suas teses, desenvolvidas como sempre, nunca foi o seu forte' Levou
ultrapas- c()nl unrrr rrititlt'2. d" tántotnos e detalhes
o lastro da experiência. vago professor de vaga matéria, nunca orgânica' visual
num tt'rrrp, l);rr.ir lx'r'ccbcr que ao lado de uma impossibilidade
sou a convençáo de bom gosto e bom-tom, e ainda a}oranaufragava de elementos
l);lr':t ( ('r l.ts coisrts,
auditiva Para outrast uma intromissáo
cenário de lugares-comuns. Até mesmo arâpidapercepção de sua condi das coisas' Regressou a casa bem mais
implacável choque de uma praça em nr.rq,,ur.us c<xtlhava a identificaçáo
ção de objeto evane§ceu-se com o o proprietário que passeava o
tt'.1.r .kr .1trc de costume. Cumprimentou
movimento, e o inevitável encadeamento de palavras que náo chegata
a
t .r.,zirrlto pcla calçadr, . com agilidade os degraus para o segundo
uma '*tt"
pronunciar. Ao se erguer do banco, firme e seguro, trazia na mente que se
um modo Nor"-".rte em seu cenário habitual' entre os obietos
quase-idéia, ,r* .on..ito informe que se poderia resumir de P.rvirrrctrto.
espaço e uso' E novamente diante
ideal talvez llir1rr',,,l',r- de acordo com a sua noção de
aproximad o em queda. Mas queda de uma aspiração, de um ao apelo da vitrola e sob o
de queda tlc sua maior evidência: a solidáo' Atendeu
insuportável de sustentar por mais de um segundo. uma espécie entre a lentidáo encan-
Todas as ilrfluxo de um oboé, entre simetrias e oposiçóes,
na ilusáo. No sonho. Mas um sonho de convençáo e fantoche.
regres- tatóriaeassíncope,d.,-"corridaeufórica,entregou.secomavidezao
particularidades de sua conformaçáo, todos os vícios mentais, tudo
resumodeumacarreiraafetiva.Masdesligadadosseresqueoferiram.
,"ra, todo em suma que usualmente designavam como personalidade e choque'IUo precisou
Guardando deles apenas as relaçóes de posiçáo
neurótica, num vocabulário que num determinado instante lhe
pareceu
pairar na esfera da abstraçáo' Deu
A ironia, a do equilíbrio do humor para conseguir
desprovido de sentido, e que se via forçado de novo a aceitat. abriu a janela. Um bonde ultrapassava
a
parcelas de de- as costas à estante .
autàcomplacência, a hiperemotividade, vago narcisismo, ",.,,livros, e chiados freava diante do edifício
curva com estardalhaço e aos trancos
lírio, corúusáo de causa e efeito. Vasta pretensáo e vasta confusáo de real e dissonância, ruído e som, o di-
da palavra pela pa- cinzento. o oboé . otond., harmonia
e irreal. A única armadilha talvezde quem tenta fugir
de reitoaummundoconquistadoapenaspelaemoção,e_aindaapercepçáo
lavra. Poucos momentos antes violentara o cotidiano, numa subversão Àabilmente elaborada' Viu-se agora crian-
àe relaçóes acima de uma técnica
normas atê entáo aceitas, mas algo o levara a crer que, âo contrário'
en-
apenas
trara naverdadeira dimensão do cotidiano, aquela em que existe çâeâgora,comossentidosabertosparaatotalidade,eviu.seagoÍacriança
estúpida que os outros lhe deram de
e agorâ, macerado pela imposiçáo
uma Sucessão de acontecimentos, rigidamente amarrados por um
deter-
numa fragmentos dessa tJtalidade. e-aesordem.
o grito. um outro a inclinar
minismo do acaso. E vistos os acontecimentos por esse ângulo,
de fatos umarcodeviolinorserenorenquantoseusnervo§seabriamParaadisso-
apreensão de essências, em que os atos se equilibram num iogo
nânciadeinsultos.Viu-seagoracriançaeagoÍanasucessáodedanosque
indiferentes, certos conflitos entre dor e ideal se tornavam mais compreen-
humilde que culminaramcomog.,todehápouco.Tiroudobolsodopaletóorevól-
síveis. E certas violações delirantes ganhavam uma contextura difícil recuPerar a esponta-
devolvia-as à sua magnitude de fatos vcr e guardou-o na gavetâ novamente. Fora
não as amesquinh em que descobriu que a estupidez
^u^, ^ocontrário, rrciclade de um gesto de ódio até o dia
naturais. Como se um impulso criador se manifestasse no momento
da
pairava jâ nâo the interessava sa-
da pa- Irtrnrana era humana. Na esfera em que
clcstruiçáo, uma afirmativa dentro da negativa, uma extrapolaçáo
bcr rto ccrto se matara ou náo um homem'
rrrríria, um salto de um homem comum, sem os privilégios ou as conces-
O
sõcs rlivir.ras, um golpe devido exclusivamente à imanência da espécie'
173
'l 72
t,It,l, ttltItt.tt,'ttt;tlgttttsmofilentosunsraiosdemedonaconstaptctris-
rr./,r rIr, llr,' llrrí:r clos olhos. Até mesmo osgrandes sofrimentos lhc lil-
I rlrr lr, f i.rr lr ,', I ):l $tlcrra tomou COnheCimento apenas daS cOnSeqüêncils
, rr r rrrr l'.r1,,r'r; r'ctn()tas. Os horrores mesmo não chegou a conheccr.
Urna vetrha lenda chinesa l,rlr, r 1',rr.rr,l,r,,.,t.:rlgum sentimento de culpa por isso. Vivia só, náo man-
Irrrlr,rr,'1.r,.,,,'',.,,rrrurulheresrmasnáohavianotíciasdequetivesseten-
rlí'rr, r,r'. .rrr,,rnr.ris. A única nota exótica em seu quarto eram objetos
,Ii',g',1I,lr.rrl,',.rrrrrrrrados em quatro prateleiras. Uma ratoeira, pedras,
I rllrr ,,, rrrrr I't'rl;rç. cle tijolo, um ralador, um velho barômetro, e alguns

ln r,
",
r,lrl..' Pt'lrrs traças, mas que deviam ser bem velhos pela encader-
rrrrq,t., lrvr, r.' r'ilr língua que náo entendia. Na tarde desse dia, 25 de agos-
tr r. r'rrt r,r1 1'11' lrnla pequena livraria numa das ladeiras que iam ao porto,

QuandoYehoshuaCohensaiudecasanatardedodia25deagosto |' r illlrr r,ilil .l nrcxcr nas estantes. Atrás de uma mesa pequena a proprie-
o sol de
prrr-o seu passeio habitual, um grupo denso de nuvens cobriu t,lr r'r, rrrrr.r r','llrrr hringara endurecida e enrugada, mirava-o por cima dos
nublado, e tomou o
iirn d. veráo. Sabia que náo ia chover apesar do céu rir rrlr,'., r .,Ir.nrro folheava uma revista. Ele náo chegou a perceber o tre-
caminhodesemprersemoutrasprecauçóes'Atravessavaapraça'toma- m,,r ,l.r r,'llr,r rro vê-lo tirar do fundo de uma prateleira uma pequena
a Herzl, e depois por
va um café expresso na esquina de Neviim, subia lrr,', lr,r.r
da estrada de ferro' "('rr câpa, contendo alguns desenhos chineses que pareciam
uma das ladeiras descia até o porto ou a estaçáo l,, lrr v,'llr,,r,. l)crguntou três vezes o preço da brochura e só na quarta
de casas gostava de virar-se e mirar a
Quando o caminho era mais ralo ,lrr.r'r' ,rr.r rcsposta tremida. Se fosse mais observador teria percebido
pequenos ciprestes' Não
tinf,u do Carmel, principalmente os renques de rlrr. ,r r'( llr.r r.ntavâ lhe dizer alguma coisa. Mas como se limitava a fo-
antes, e dois dias
conhecia outras cidades. chegara a Haifa cinco meses llr,,rr ,, lr'r, cÍlquânto aguardava a resposta, nada lhe ocorreu. Pagou,
mercearia' Era um
clcpois de saltar do navio iá estava empregado numa Ir.r r.lrr rr o lt()cor e continuou o seu caminho em direção aO portO. Ali,
lromem baixo, calvo, com tendência a engordar
facilmente e extrema-
Pobre, conservava a
,r, r,,r,rr .r) suco de laranja num bar iunto à saída do funicular encon-
mente meticuloso em relação a seus objetos de uso. I r, r, ,rr
de engraxar ele ajudante de trapiche, que sempre cÍuzavao seu caminho,
pouca roupa com enorme cuidado, e nunca deixava 't'llro
r ,1il,' (.nr () tcllpo passou a cumprimentá-lo. Nesse dia sentou-se em
ainda fora levado
mcsmo os sapatos. Nascera em Istambul, mas criança
mas o cli- !il,r ilr('".r c tclttou conversar. As resposta§ eram lacônicas. olhou a bro-
pcla família ao Egito. De lá transferiram-se paÍa aAlemanha,
a guerra começou , lrrrr,r (' rrrcrcssou-se por ela. Yehoshua quase lhe agradeceu o interesse.
nra local fez com que adotassem a França' Quando
pais' era filho úni- l',',, .rl.rsrrrva comentários inevitáveis sobre vida pessoal. o velho exultou
corrscguiram fugir paÍa aEspanha' Após a morte dos '
exaltaçáo' resolveu rlr.rr(l(, viu o romeno saltar das páginas mimeografadas e ofereceu-se
c«r, c lcvado por um sentimento vago, sem nenhuma
especial entusias- l,.r r .r r r ,r,lrrzir-lhe o folheto. Enquanto bebia o seu suco de laranja Yeho-
crrrilirrrr. Sempre quieto, pacato, gostava de ler, mas sem
olhos, e não se sabia .,lrrr,r (,«rlrcn ouviu a seguinte história navoz rouca e segura do velho
ilr«r rrrrrrbém. uma constante tristeza fluía-lhe dos
ir() ((.r.t() sc nacla mesmo tinha a dizer, ou §e nunca
encontrou a oportu- .r1r rtl,rrrtc clc trapiche:

modo era possí-


rritl.r,lt. (1. rcvclâr alguma faee mais oculta. De qualquer

174 175
SAMUEL RAW

Uma uelha lenda chinesa I t I ' 'll t (l(' I r()Plls, nem desordern Ílíls províncias. O conselheiro contirruou
r,, rrr,l,) () l)c(Frcno estilete de pedra que o príncipe mantinha entrc rs
Naquela manhã o príncipe saiu irritado dos aposentos do impera- rrrrlr r'. l).'l'.is de um curto silêncio ergueu os olhos e disse ao príncipc
dor. Em primeiro lugar ficara chocado com a decadência física do velho, rIr' I.r rrrrlr;r CSSe plano há tempos, e que estava pronto a servi-lo.
em segundo lugar a apatia e o excessivo interesse por coisas sem im- tli;r scguinte foi dado início à execução do plano sugerido pelo
l''J,,
portância, e que se relacionavam com a poesia e a música, fizeram com ,rlrr rrrrr,r'r'l conselheiro. Muito dinheiro foi gasto pelo príncipe, muito
mais
que o monarca se afastasse um pouco das coisas do império. E isso lhe 1|,r rilrr'() l)rcço de alguns batalhões de mercenários, suas armas, e suas
desagradava. Educado em outros moldes, e resistindo sempre à péssima rrr,ur.rr r.rs. Praticamente dois terços de sua fortuna foram empatados na
influência de instrutores que teimavam em cultivar-lhe a emoçáo e a ,'il1'r ('".r. Mas o êxito justificou inteiramente o empate de capital. Durou
imaginaçáo, guardando delas o suficiente Para manter uma conversação rl, ,', )rr() nrcses a açáo de setenta e sete mil agentes espalhados em todo o
agradâvel e conveniente dentro do ritual de cerimônias, preocupava-se l'.rr'., r' tlivididos em grupos que ignoravam inteiramente o trabalho uns
com o estado das províncias: a péssima situação das colheitas, a queda r í, ,', .rr r.s. Apenas o conselheiro e seu secretário mantinham
o controle
na manufatura de tecidos e porcelanas, e ameaças externas, na presença rlr' r,tlrs. seis homens foram escolhidos nos extremos das províncias,
de vizinhos remotos, é verdade, mas que se armavam fortemente, em ''
\.rt,uucnte sobre os vértices de um hexágono inscrito em um círculo fei-
silêncio. Encerrou-se em seu gabinete e pôs-se a escarafunchar as unhas r') .r (.rl)richo pelo conselheiro em sua banca de leitura. seis homens dé-
com um pequeno estilete de pedra. Algumas dores que o importunavam l'( , r('r)reis, suficientemente humilhados, suficientemente vaidosos, e com
r',
com freqüência reapareceram naquela manhá: hemorróidas, umas pon- r r r',r's I'rcqüentes de ódio violento. o conselheiro em seu plano utilizou
tadas acompanhando a respiração, e um fluxo desagradável na cabeça. rrrrr v,'llro sistema de sugestáo apreciado pelos sábios de antigamente, e
Abriu a gaveta enorme de uma cômoda, e entre várias caixas escolheu Ir.sr«r cm desuso pela técnica mais apurada dos homens de ciência seus
uma pequena, com a tampa iá gasta pelo manuseio. Aspirou o pó e per- ( ( )nr('rnporâneos.
Localizados os seis homens, um trabalho lento teve iní-
maneceu em transe durante uns dois minutos. Depois chamou um dos , r,,. Âlguns agentes postavam-se nas proximidades do escolhido e comen-
conselheiros que mais detestava, e que já dera inúmeras provas de que o l.rviiln com aparente descaso episódios considerados secretos de sua vida.
sentimento era recíproco. No momento era a única Pessoa que lhe po- l)t' torlos os seis homens foi feito um levantamento minucioso, com todos
deria ser útil. Acrescia o fato de que o conselheiro era tido como ho- ,s tlctalhes de sua existência, desde o nascimento até o dia em que os
mem abominável, embora nada se pudesse apresentar de concreto que ('ilc()ntraram. Apenas o conselheiro e o secrerário estavam de posse
de todas
lhe turvasse a dignidade do posto ocupado. .rs irríirrmações, e estas eram fornecidas aos agentes de um modo fragmen-

Quando o viu à sua frente percebeu que devia ser mais abominável cio t.irr«r. Seis meses depois alreraram os comentários e passaram a ridiculari-
que supunha.Eraum homem alto, forte, de expressáo franca e saudável, r.rr l«rclas as palavras e todos os gestos dos seis homens. Nessa fase o terror
sem nenhum dos tiques palacianos a beirar sabujice. Sentou-se com de- ( ( lilr('çou a se definir em cada um dos seis rostos,
mas sempre mesclado à
senvoltura respeitando nos mínimos detalhes o cerimonial, mas com uma .lrivirla. com um deles puderam ainda experimentar uma outra técnica.
ligeirezae um à-vontade de quem não se preocupa muito com esses deta- l;rrr ccrtos momentos de crise compunha poemas, e envaidecia-se bastan-
lhes. Náo demonstrou a mínima surpresa quando o príncipe lhe disse cla- t(' c()rn os elogios que alguns lhe davam. passaram a entrar em seus apo-
ramente, abrindo a conversação, que pretendia matar o imperador. s('nlos enquanto dormia, copiaram-lhe os poemas e divulgaram-nos como
lrrccisava apenas de uma idéia. Náo queria levantes armados, náo queria scrrclo de outros. Principiaram a martirizâ-lo com a pecha de plagiário.

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SAMUEL RAW

Uma uelha lenda chinesa I


' \ ' 'll'l (l(' tropas' nem desordetn ltíls províncias. O conselheiro contilrueu
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Naquela manhá o príncipe saiu irritado dos aposentos do impera- .rrlr r'. l)t'Pois de um curto silêncio ergueu os olhos e disse ao príncipc
dor. Em primeiro l:ugar Íicarachocado com a decadência física do velho, rlr, I.r rrrrlrrr csse plano há tempos, e que estava pronto a servi-lo.
em segundo lugar a apatia e o excessivo interesse por coisas sem im- N,, rliu scguinte foi dado início à execução do plano sugerido pelo
portância, e que se relacionavam com a poesia e a música, fizeram com ,rlr,rr rrr r.ivcl conselheiro. Muito dinheiro foi gasto pelo príncipe, muito mais
que o monarca se afastasse um pouco das coisas do império. E isso lhe ,1,',Ir.'() preço de alguns batalhões de mercenários, suas armas, e suas
desagradava. Educado em outros moldes, e resistindo sempre à péssima rn,nr.u irrs. Praticamente dois terços de sua fortuna foram empatados na
influência de instrutores que teimavam em cultivar-lhe a emoção e a ilill,r ('\rr. Mas o êxito justificou inteiramente o empate de capital. Durou
imaginação, guardando delas o suficiente para manter uma conversaçáo f lí /r )rr() nreses a açáo de setenta e sete mil agentes
espalhados em todo o
agradâvel e conveniente dentro do ritual de cerimônias, preocupava-se l,.rrs, t' tlivididos em grupos que ignoravam inteiramente o trabalho uns
com o estado das províncias: a péssima situação das colheitas, a queda r l, r" .rrr ros. Apenas o conselheiro e seu secretário
mantinham o controle
na manufatura de tecidos e porcelanas, e ameaças externas, na Presença rl. r.tlrs. Seis homens foram escolhidos nos extremos das províncias,
de vizinhos remotos, é verdade, mas que se armavam fortemente, em r'\.rrir.rcnte sobre os vértices de um hexágono inscrito em um círculo fei-
silêncio. Encerrou-se em seu gabinete e pôs-se a escarafunchar as unhas t, .r r'rr1)richo pelo conselheiro em sua banca de leitura. Seis homens dé-
com um pequeno estilete de pedra. Algumas dores que o importunavam lr.rs rrre ntâis, suficientemente humilhados, suficientemente vaidosos, e com
com freqüência reapareceram naquela manhá: hemorróidas, umas pon- t rr',t's Íreqüentes de ódio violento. O conselheiro em seu plano utilizou
tadas acompanhando a respiração, e um fluxo desagradâvel na cabeça. rrrrr vclho sistema de sugestáo apreciado pelos sábios de antigamente,
e
Abriu a gaveta enorme de uma cômoda, e entre várias caixas escolheu Prsro cffl desuso pela técnica mais apurada dos homens de ciência seus
uma pequena, com atampaiágastapelo manuseio. Aspirou o pó e per- ( ()nlcnlporâneos. Localizados os seis homens, um
trabalho lento teve iní-
maneceu em transe durante uns dois minutos. Depois chamou um dos . ir. Âlguns agentes postavam-se nas proximidades do escolhido e comen-
conselheiros que mais detestava, e que já dera inúmeras Provas de que o t.rvilnr com aparente descaso episódios considerados secretos de sua vida.
sentimento era recíproco. No momento era a única pessoa que lhe po- l)c toclos os seis homens foi feito um levantamento minucioso, com todos
deria ser útil. Acrescia o fato de que o conselheiro era tido como ho- .s rlctalhes de sua existência, desde o nascimento até o dia em que os
mem abominável, embora nada se pudesse apresentar de concreto que ('lrcolltraram. Apenas o conselheiro e o secretário estavam de posse de
todas
lhe turvasse a dignidade do posto ocupado. ,rs irrformações, e estas eram fornecidas aos agentes de um modo fragmen-

Quando o viu à sua frente percebeu que devia ser mais abominável cio t;irio. Seis meses depois alteraram os comentários e passaramaridiculari-
que supunha.Eraum homem alto, forte, de expressão franca e saudável, zirr todas as palavras e todos os gestos dos seis homens. Nessa fase o terror
sem nenhum dos tiques palacianos a beirar sabujice. Sentou-se com de- ( ( )nlcçou a se definir em cada um dos seis rostos,
mas sempre mesclado à
senvoltura respeitando nos mínimos detalhes o cerimonial, mas com uma rlrivida. Com um deles puderam ainda experimentar uma outra técnica.
ligeirezae um à-vontade de quem não se preocupa muito com esses deta- lrrrr ccrtos momentos de crise compunha poemas, e envaidecia-se bastan-
lhes. Náo demonstrou a mínima surpresa quando o príncipe lhe disse cla- t(' c()rn os elogios que alguns lhe davam. passaram a entrar em seus apo-
ramente, abrindo a conversação, que pretendia matar o imperador. s('iltos enquanto dormia, copiaram-lhe os poemas e divulgaram-nos como
Precisava apenas de uma idéia. Náo queria levantes armados, náo queria scrrclo de outros. Principiaram a martirizá-lo com a pecha de plagiário.

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os SEIt soNlt o5

U '|r 'l.
t lrt'Ír' pclo descaso no serviço. Durante o almoço
r l, ,
Dige-se ainda que os agentes com o tempo foram se aprimorando na téc- sua perturlraçi,
nica, e alguns chegaram a requintes de improvisaçáo. Decorridos outros
.r, r('. r (,r r,
c pccliu a alguém de casa para avisar a loja de que
não sc scrrt irr
seis meses começaram a explorar-lhes o ódio. Por intermédio de palavras
l" rrr l;',r.rvrr rlocnte, e ia para a cama. Deitado e atordoado sem sabcr
r'\'rr.rr(',rc Por quê, náo conseguiu dormir. Folheou umas duzentas vezcs
bem dosadas principiaram a sugerir a cada um deles a necessidade de um
crime. Finalmente decorridos dezoito meses e no dia em que o imperador
.r 1,r,,. l,,rr',r. À noite, quando lhe trouxeram o prato de sopa, enquanto
resolveu comparecer a uma competição de poetas que se extremavam em
, rrr.r, l,i
atraído pela ratoeira. Não sabia relacionar as coisur,
nem esta-
superar sutilezas, um homem saiu de seu lugar e matou-o. Um segundo
lr.l.r.r' lriP<iteses. Apenas ficou encarando a ratoeira
até que o sono o
r1"111111.,,,. E sua últimacertezarno
homem matou o primeiro. Um terceiro, o segundo; um quarto, o tercei- sonho de febre e terror, é
iue desta vez
n.r, lr;rvir lacunas. Sonhou sua morte.
ro; um quinto, o quarto. O sexto matou o secretário do conselheiro. No
mesmo dia, à tarde, enquanto passeava pelo jardim do palácio enlutado o
conselheiro principiou a ouvir comentários em tom de deboche, feitos por
grupos que nem o encaravam, e que revelavam o conhecimento de todos
os seus atos abomináveis. Nesse mesmo dia, fechado em seu gabinete e
depois de destruir todos os documentos em seu poder, suicidou-se. Pou-
cos dias depois o príncipe foi sagrado Imperador.

O romeno despediu-se após a expressáo de desgosto do velho. A his-


tória era banal, e sem nenhum interesse, sem nenhuma daquelas cenas de
aventura de que tanto gostava. Sua opinião sincera era a de que achava a
história ridícula. Sentia-se logrado. Yehoshua retornou ao seu quarto, jan-
tou cordialmente com a dona da casa e os outros hóspedes, deu mais al-
gumas voltas mas não longe de casa, e tentou dormir. Enquanto aguardava
o sono, passeava os olhos pelas prateleiras, vendo os objetos na penum-
bra: a ratoeira, pedras, raízes, o tijolo quebrado, e os livros roídos pelas
traças. Nessa noite, Íato rato, sonhou bastante, e sempre se via como per-
sonagem da história que o velho lhe traduzira. Mas sempre personagem
diferente. Foram quatro os sonhos. Mas sempre havia uma lacuna entre
um episódio e outro. E sempre uma lacuna em cada sonho. Fato raro tam-
bém, ao acordar sentiu uma necessidade violenta de procurar o velho para
que lhe traduzisse de novo a história. Nunca em sua vida manifestou um
ímpeto táo urgente,Para surpresa sua, ao chegar ao trapiche, disseram-
lhe que o velho fora encontrado morto de madrugada, no saguão do par-
dieiro em que habitava, logo no início da ladeira próxima. Yehoshua
rcgrcssou perturbado ao trabalho, e ouviu, fato raro, algumas recrimina-

178 179
os stÍt S()Nltos

('st;rt rrcti.ls dispostas em algumas divisócs dos prismas, e que têm conro [i-
n;rlitledc a distraçáo de supostas crianças. Náo há crianças. De início dois
r.rrrrinhos se me apresentam: ou desenvolyo a história dentro de certos
('\(luclnas muito caros aos mestres da psicologia, e evidentemente da pa-
Fé de ofício l,l,11irr, caminho fértil e rico em suposições, esquemas, imaginações, de-
.lrr,r,,,'s c associaçóes oníricas, e mais rico ainda em motivaçóes histriônicas,
ilrr Crrtirr) opto pelo segundo, que é procurar compreender a personagem
í'ilr r,rr:l própria gênese, envolvendo o autor, caminho pobre, às vezes esté-
r rl, t' tlc reduzida potencialidade imaginativa. opto pelo segundo, até o

l,()nl() cm que é possível optar, até o ponto em que eu mesmo náo me


r r.rrsíirrmo em matéria fértil para os âmantes do primeiro caminho. Como

lr.r tcr,pos escolhi o caminho da indiferença, suponho, na verdade, que


rr.rr r lri propriamente opçáo, e que ao escolher o segundo talvez obedeça
Tenho presentes dois esboços de personagens e um semi-esboço de ce-
.r rrnr terceiro. A título de consolo me resta a esperança de algum dia en-
nário, e não sei por que me deva agaÍÍar a alguma convenção de conto, náo ( ( )ntrrlr um bom ensaio sobre um tratado da superfluidade.
formulada aliás, e só apresentar a história depois de solver em detalhe os
A primeira coisa a resolver num caso desses é o da profissáo. persona-
enigmas que personagens e cenários representam.Talvez haja nisso o dese-
,',('nl nrora, come, veste, e mesmo insano precisa de dinheiro para cultivar
jo de fazer atuar a minha vontade sobre as figuras de ficçáo, e por aí, reti-
st'rrs clelírios. Um deles, o que não sabe se é o cavalo branco de um general
rar-lhes a autonomia que naturalmente deveriam ter. O que suponho, é outra l:rr)oso ou uma poça dágua poderia ser traficante de entorpecentes, de
convençáo. Receio apenas, no meu desejo de náo respeitar convençóes, estar ('scrrrvas brancas, contrabandista de pérolas ou diamantes, industrial, co-
caindo em uma armadilha, isto é, escrever dentro de uma outra convençáo, lrr':rrlor de agência funerária, ou mesmo um general famoso que pudesse
anterior às primeiras. Se isso é verdade, reverências, já que o papel náo deve t('r ,rn cavalo branco; é um pouco difícil relacionar a profissáo com o
ficar em branco. E isso talvez não seia propriamente convençáo. tlclírio da poça dâgua, embora me pareça possível, se houver coragem
As duas figuras têm como constante a insanidade mental. A primeira sr r l'icicnte para vencer a barreira do ridículo. O segundo, por ter concentra-

não sabe se é exatamente o cavalo branco de um general famoso ou uma rl«r sua insanidade na oscilaçáo de gêneros, me sugere prostituta ou pede-
poça dágua; a segunda oscila permanentemente entre os dois sexos, o que r:rsta profissional, profissões mais ou menos ajustadas a certas intemperanças
talvez provoque a gula de algum psicanalista. O cenário é composto de ('rr certâ aboliçáo de dignidades fundamentais.
algumas paralelas paralelas, outras convergentes, outras ainda divergen- Depois vem o problema daaçáo, e me parece difícil, já que preferi o
tes, uns prismas mais ou menos regulares arrumados em alguns pontos de crrrrrinho mais árido, encaminhar a movimentaçáo (para muitos ação é
um modo caótico espontâneo, e em outros de um modo caótico organiza- rrrovimento) num sentido agradátvel. A face agradâvel é mais difícil ainda.
do, e uns cilindros que se ramificam a uma certa altura. Gostaria de povoá- sc cncaminhar pelo cavalo branco do general famoso meu impulso é iden-
lo com sombras, mas receio que sua presença perturbe as duas figuras, e tiÍ'icír-lo realmente com o cavalo branco, e desenvolvê-lo em toda asua ple-
que cada sombra queira atuar sobre cada uma delas de modo a fazê-la fi- rrirrrdc eqüina, escouceando e nitrindo à vontade. Só uma ilusão de ótica
gurar à sua imagem e semelhança. Náo há vestígio de animais, eliminados irrrprcdiria de ver a bela crina, os cascos reluzentes, os relinchos impáviclos.
()
por urnâ série de motivos e preceitos. A única lembrança são pequenas lrrirneiro caminho se insinua e me leva atratá-lo melhor como o gcncrrl

180 181
[anroso do cavalo branco. Visto por esse ângulo seria facílimo armar alguns
episódios realmente digestivos, e contribuir assim para o tédio de algumas
boas almas à procura de harmonias. Quanto à poça dâgua, cadê coragem.
Imaginar-lhe a condição de âgta e poça, ávida de reflexos e reentrâncias,
de movimentos complicadíssimos e sutis ramificaçóes, capaz de uma lin-
Sôbolos rios que vão
guagem hiperorganizada e ultra-estruturada, imaginar-lhe essa condiçáo é
abusar da aridez admissível na ficção. A segunda personagem oferece a
mesma dificuldade. O primeiro caminho, rico, o segundo pobre. O primei-
ro a sugerir hibridez de formas oníricas, e a erudiçáo de velhas mitologias,
All creation is the sport of my mad mother Kali.
o segundo limitado a uma apreensáo elementar de coisas. O primeiro aoÍe'
recer material para boas risadas com todas as associaçóes de formas, um Hwnu HyÀaNr

misto de sereia e touro, uma ninfa do umbigo para baixo e um fauno do


umbigo para cima. O segundo mal dá para divagar sobre o umbigo.
Suposto resolvido o problema daaçáo, gostaria de introduzir uma
idéia apenas para cada personagem; me parece suficiente, embora des-
necessário. Nesse ponto faria uma concessão à minha vaidade, pois nada A cidade se desdobrava embaixo num misro de nojo ebeleza.Afastou-
me agrada mais do que a descoberta de alguma idéia no que escrevo. sc do paredão de pedra e terra, atravessou o caminho socado que ladeava
Embora à primeira vista pareçaÍâcilrconfesso que nada me é mais dolo- o morro e apoiou-se em um tronco à beira do barranco. Fechou os olhos
roso do que descobrir uma idéia. Assim, de saída, deixaria cada perso- por instantes atordoado pela visáo da totalidade, e pelo cansaço. As per-
nagem com apenas meia idéia, ou me§mo um terço, o que me Parece nâs tremeram ante a súbita idéia de se arremessar no abismo, e um riso
ocorrer com muita freqüência. Talvez o problema da personagem que histérico sacudiu-lhe o corpo na constatação da própria fraqueza. Era esse
delira com o cavalo e a poça dâgua seja o da imortalidade; nesse caso, cntão o homem que andava com a morte nos olhos, na boca, no olfato,
entre a aspiraçáo a um modelo eterno do cavalo e o da poça dágua, eu rros tímpanos, em todos os poros, esse o homem que tinha a morte como
lhe dou o da poça dâgua, a eternidade dos dois, poça e âgua... Dou com lcma e meta. Inspirou com violência à procura de calma, e entreabriu as
todo o impulso de minha paranóia, e a lembrança de dois momentos: pálpebras já com boa dose de orgulho necessário a seu controle. uma in-
um, num hotel suspeito da Lapa vislumbrei uma centelha nos olhos de tensa vibração de ódio e medo levara-o a abandonar as ruas agoraao lon-
um assim dito degenerado, outro, sob o pórtico de entrada de uma mes- gc, e procurar o topo da montanha pela estreita faixa que coleava a encosta.
quita em Nazaré, a caminho do Mar da Galiléia, um velho esfarrapado Como um cáo, um cáo que vaga à toa. Pior do que um cáo, porque trazia
dobrava-se no tapete em oraçáo. Ambos acreditavam na imortalidade. as pupilas tensas, e a mais leve brisa bombardeava-o com idéias que gosta-
O desenlace poderia se dar com o casco do cavalo montado por um ria de eliminar, se fosse possível, ou pelo menos atenuar como contraponto
hermafrodita dentro da poça dágua. do humor. E em certos dias buscava mesmo identificar nos cães qualquer
Um gosto recente pelas coisas ambíguas, por causalidades inúteis, pela coisa semelhante ao humor. E mesmo nos gatos. Ou nos cavalos. Por isso,
desnecessária síntese de certas contradiçóes me leva a aceitar o título ape- porque nem o humor lhe vinha, identificou-se com o cão, mas em vez dc
sar de ferir a sensibilidade olfativa de alguns, por estranha sinestesia. rrm forte latido, um choro, uma inundação de alegriae vitalidade. O or-

182
183
NHOS

grrsnro, a ejaculação, e a tranqüilidade do corpo imerso na simples condi- 1,,lr, ticllrir, c cscondendo seus movimentos com o corl)() c()slln.(,u () ll()
ção de existir. lrrli,rr t;rrc achou mais apropriado. Quando se ergueu e cr)trcg()rr . st.l viç.
Prostitua-se! l', r lirrrrl()tt se podia receber alguma coisa. O alfaiate passou «rs ollr«ls pcl.rs
-Foi o conselho que lhe deram quando os primeiros sintomas de idio- r,rlr,.r', t'clcu um murro na mesa ao ver o fecho-éclair aplicado lro lrrrto
tice apareceram, mas isso há muito tempo, antes que os cabelos começas- ,,r'!,,',r(, à braguilhr. À pergunta sobre o motivo daquilo o homem respon-
sem a embranquecer e antes que a barba pouco espessa lhe contornasse a r l., t (,rr) o máximo de candura que podia
aÍetar. Não fora frase sua?
face. Não sabia explicar exatamente como se dera o primeiro incidente, (iortem os colhôes desse puto!
lembrava-se apenas de que alguém o mandara lamber sabáo, e ele tirou da ( ) lrcrro acompanhou a corrida
do homem até o fim da ruera, e o eco
despensa um pedaço de sabáo de cozinha, e começou a lambêJo, com todo ,rrrr.l:r . llcrseguia, quando já numa transversal, deu entrada em uma pra-
o esforço necessário paru afastar a repugnância. No início perturbava-se \,r urÍ('nl:-r, onde algumas barracas se amontoavam numa feira improvisa-
com comentários a seu respeito, a respeito do que chamavam sua loucu- .1.r. lrsrcrrclcu a máo diante de uma delas e recebeu duas bananas. Enquanto

ra. Não podia perceber por quê, já que dava às palavras o significado exa- ,r' tlt'scrrscava remoía a soma de impressóes que o incidente com o alÍaiate
to, e suas ações eram coerentes com as palavras. Depois, quando eliminou llrt'rrrrrsura. A gratuidade da linguagem, o choque com tudo aquilo que
a crosta que oS outros representavam para ele, deu um urro e transfor- (",r.r unr l)ouco fora de uma pequena faixa de hábitos, a possibilidade
de
mou-se numa experiência total. E respondia com todo o corpo às pergun- '.ul)()r'rirr uma açáo grotesca, a impossibilidade de suportar o que parece
tas que exigiam apenas palavras. rrrrrrr :rlitude ridícula, o lado elementar de paixóes a ditar normas impos-

A rápida rememoraçáo desses episódios Íez comque desistisse de pro- ',r'r'is tlc serem seguidas sem uma conseqüente perturbação. Náo teve tem-
curar o alto da montanha, substituto para sua antiga necessidade de de- 1',,,1c c.,hecer as possíveis aspiraçóes do alfaiate: ferreiro, pescador de
serto e solidão. Seu deserto era a multidáo. Por isso retomou o caminho l','r ,,1;ls, «ru príncipe de uma corte no Ceiláo.
da descida, etraziaem seus passos todos os ímpetos necessários para afron- Nr,rr canto uma barraca mal ajeitada exibia vm caÍtaz enorme: coN-
tar a cidade: o choro, o furto, a prece, o Sesto pornográfico, o golpe mortal, I I; I\II| SEUS SONHOS E EU LHE DAREI A CHAVE DO SUCESSO DO FU.
e o ódio suficiente para amâ-la em suas transições de ínfimo e sonho. E I t ll(( ) ll DA FELISIDADE. sorriu complacente com o erro de ortografia,

principalmente a grande dignidade de se humilhar em qualquer momento. (lu.rl(lucr um entenderia. À porta, um quarentão baixo, de faixa vermelha
Parou junto a uma portinhola de altaiate pobre e pediu trabalho. En- n.r l)rulçrl, batia palmas e conclamava os infelizes. O homem cofiou abar-
quanto atrás do balcáo, com os óculos a meia altura do naú2, o dono o lr.r, r cvolveu as algibeiras vazias, e sentou-se a uns vinte metros dabartaca.

encarava, um tipo temperamental entrou com um embrulho, e deixou uma { i,rrrlrôs uma expressão de tristeza, rasgou amangada camisa, arregaçou

calça para o conserto. .r.' r;rlças, e esfregou um pouco de bosta de cavalo na perna. pouco depois
o alfaiate
- comentou
Esse tipo devia ter um fecho-éclair na bunda ,rlyirrrrras moedas começaram a chover, e em questáo de hora e meia tinha
-
ao ver o homenzinho já longe e você, se sabe mesmo fazer alguma coi- rilrr.r rluantia bem maior do que a necessáriaparacomprar a chave mila-
-
sa, toma lá e conserta essa calça. ,'r ( )sir. o quarentão baixo que à distância o viu contar as moedas, quan-
O homem se ajeitoujunto a uma estante baixa, tirou de uma caixa ,1,,1'111rou na tenda propôs-lhe logo que lhe desse todo o dinheiro, e
agulha e linha e principiou a alinhavar umas Partes soltas. O alfaiate ain- .rl.rrr tla chave almejada lhe daria uma frase que era um abre-te-sésamo
da o observou durante alguns minutos e continuou em silêncio a traba- P,rr';r «r que bem entendesse. Não hesitou, deu-lhe o dinheiro, e deitou-se
ll-rar. Foi numa ausência úpida do outro que tirou de uma gaveta um rrrrnrrr cstcira com a cabeça voltada para uma almofada, assento do qua-

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/VET

rcntão. E narrou-lhe o único sonho que possuía: sentado a uma mesa, ,r(', unl rosto redondo com um quê de infantil, uma linha de suor
comia páo. O quarentão explodiu numa gargalhada e o homem se ergueu ,r I ll ,,r llrr: clo chapéu pela face escanhoada. Com um murmúrio quase

irritado. ExplicouJhe novamente que no sonho se via sentado a uma mesa " l'lt' ,rr tluc a sua posição náo the dava oportunidade de efetivar seus
e comia pão. A faixa vermelha se inflou e todo o corpo do quarentão se llrllrrll' ., ,.ir (' clue isso o perturbava bastante. Tinha medo. LJm lampejo de
dobrava num riso incontrolável. O homem náo se conteve e ia lhe asses- ,lr, \., rt'u os olhos do homem pela implícita humilhaçáo no ato de se
tar um soco quando o outro se afastou e lhe deu uma rasteira. A criançada ,rrlr'',',.rr..fá náo sentia os dedos em seu braço, tinha os movimentos li-
na porta se dividiu em dois grupos, um apostava no gordo barrigudo, outro r, ... (' \('u primeiro gesto foi o de apoiar sua mão no ombro do outro.
no barbado. Até que a polícia apareceu e instaurou a ordem. O gordo exibiu À1,r,,1111111pxm-se de um parque, e ao se encaminharem para uma entrada
todos os documentos que o qualificavam como doador dachaue do suces- l,rr, r.rl rrrn bando de moleques arrastando um velho emergiu de um re-
so do futuro e da felisidade, e o barbado teve que sair pelo braço da auto- r,urr() s()rnbrio e principiou a berrar com escândalo. Um deles, moreno
ridade. Durante dois quarteirões caminharam seguidos pela garotada. Os ,rtr,, t'rrrlgro de gestos exaltados, mantinha o velho preso pela gola do
mais velhos às vezes se adiantavam e caminhando de costas abriam o cor- l'.rl.tri. Aproximaram-se do polícia, aÍatdaera uma garantia, e o moreno
tejo com caretas. O polícia mesmo sem encontrar resistência parecia ar- r'rlrlirt)u que o velho lhe fizera propostas indecentes. O resto do bando
rastar o barbado pelo braço. Quando atravessaram uma rua larga de trâÍego .,.rltit:rva em volta confirmando o fato com guinchos de exaltaçáo. O ve-
mais pesado os meninos desistiram e os dois acertaram um passo sereno, llr, r sc debatia, e chegou mesmo a se atirar no cháo arrastando consigo o
já sem a violência imposta pela autoridade. O homem sentiu mesmo uma r.rl)irz.. Negava num grito que era quase um choro. Alguns solitários e al-
certa simpatia pelo outro, e deixou-se conduzir calmamente. Antevia em 1,,rrrrs casais se aproximaram. O barbado olhou para um caramancháo onde
detalhes os episódios da delegacia. Depois de um longo trecho comercial, unr grrto se espreguiçava e onde um sol de quatro horas da tarde se insinuava
alguns terrenos baldios, um agrupamento de edifícios de quatro pavimentos pcles abertas de trepadeiras. Afastou-se do grupo, ninguém o perturbou.
bem ajardinados, um longo paredáo de fábrica ou coisa parecida, nova- St'rrtou-se no segundo degrau de pedra e ao encontrar um galho fino e
mente alarga rua movimentada, e de novo um trecho comercial. Perce- tlrrro a seu lado principiou a desenhar círculos no chão. Depois quebrou o
beu que rodavam em círculo. Olhou o perfil do outro, e o viu sempre com 1',rrlho em pedaços iguais, do comprimento de um dedo, e lançou-os den-
a atenção voltada paÍa a frente, sem se perturbar. Apenas a máo que o rro dos círculos. E pôs-se a contemplá-los em sua desordem. Viu conver-
segurava parecia acariciar-lhe o antebraço com suavidade. Sorriu ao per' gôncias e divergências, alguns mesmo superpostos. Quando ergueu os olhos
ceber o embaraço do outro, e embora as coisas lhe fossem mais ou menos o çrolícia conduzia o velho pelo braço e o bando de moleques seguia-o.
indiferentes, embora não o assustasse tanto a perspectiva de passar um ou l'rovavelmente para dar testemunho.
mais dias em uma cela com todas as implicações de um registro, embora De uma vida anterior um resíduo de palavras ainda o Íazia sentir o
náo fizesse empenho especial no momento naquilo que os outros chama- pcso de certas situaçóes, e ainda lhe provocava a dor que um ódio náo
vam de liberdade, resolveu facilitar as coisas para o outro. Em poucas tlcsejado não aplacava. E as aspirações eram ainda palavras. E o sonho de
palavras, e arriscando-se a sofrer uma reaçáo mais violenta se fosse ape- elguma dignidade a última ilusão trazida pelo delírio de uma frase mais
nas ilusáo sua, deu a entender que percebia os sentimentos mudos, e que polida. Eternidade, sonho, glória, instantes de cintilação, saltos de crista
não tinha objeção alguma a que fossem a alguma parte. O corpo do polí- cm crista de ondas de medo e euforia, a imortalidade das estrelas, os abis-
cia tremeu, caminhavam agoralado a lado, e o homem de barba pôde ver- mos da alma, a última convenção de uma harmonia de palavras. Ergue-se
lhe melhor o aspecto. Cheio de corpo, o ventre e as nádegas apertadas no à procura do movimento restaurador, do passo que rompe o cerco dafra'

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SAMUEL RAV rHos

se encantatória. Um sussurro vem de um banco no outro lado do cara- unr casinholo de madeira. Era a casa. Por dentro a sensaçáo era de bem-
mancháo. Aproxima-se e dobra o corpo sobre um vulto magro enrolado cstar. A cama com uma coberta de veludo, algumas prateleiras sobre uma
em um capote. Os braços cruzados, os olhos fundos e a barba de dias trans- l,ie forrada de papel pintado e recortado nas bordas em figuras de bone-
mitem uma vibraçáo de fim. Aproxima o ouvido dos lábios mas nada per- c.s simétricos. Oferece-lhe uma bebida, enquanto prepara a penumbra
cebe além do esforço da respiraçáo. olha em redor à procura de uma suilve e se despe. O homem observaJhe o corpo magro e anguloso, os
sugestáo de auxílio, mas vê apenas na memória um círculo com alguns tt'i«rs murchos e pendentes, as coxas marcadas por fibras endurecidas, e
pedaços de galho lançados, e vê bem um deles, junto à periferia, isolado r('nlurcia a todos os seus modelos de perfeiçáo e ideal ao deitar-se e apelar

dos outros. É entáo que resolve se afastar, tenso ainda pela persistência de ,rl)('ilas para o funcionamento de um organismo desligado de suas ilusóes.
um sentimento mal sufocado. A., rrpertar o cinto de novo, pronto para sair, entrega a carteira com todas
Ao cruzar uma alameda a caminho do chafaiz central vê um paletó .r, notas à mulher. Repugnalhe a euforia que sente no corpo da velha
lançado sobre a grama; um casal de costas, ao lado do tanque dágua brin- .rl,r.çado ao seu num beijo de gratidáo. Repele-a com um gesto brusco
ca de dar palmadas na superfície para provocar respingos. O homem está
(Ir('causa espanto, e ao ver uma nota de ofensa no rosto retira-se. Regres-
em mangas de camisa. Observa-os por alguns instantes, e arrisca-se a re- ',.r 1,clo capinzal,sentindo a dor de algumas folhas serrilhadas no rosto e o
volver os bolsos do paletó. De posse da carteira acelera o Passo na dire- ..rlr»r de uma aragem noturna a lhe banhar a pele. caminha por entre
prédio meio em lr.rrrancos, aglomerados de casas pobres e flancos de morro a se perder
çáo contrária e procura abrigo atrás do paredáo de um
ruínas, abandonado, já junto ao muro externo do parque. Abre a carteira rrrilr rluarteiráo iluminado embaixo. Praticamente parou em cima do ho-
e conta o dinheiro, sete notas de mil e três de quinhentos. Tira duas notas nr('nr, sem perceber que estava agoÍa longe de qualquer barraco, e que o
t r r ro saíra de uma moita em sua direçáo. Ao ouvir a palavra calma ainda
de mil e guarda a carteira dentro da camisa por cima do cinto mais aper- r r

tado. E pensa na loucura da loucura. Acende um fósforo e como quem rr.r,, lrrrvia percebido o sorriso de malícia que se desenhara na boca do outro.

cumpre um ritual incendeia lentamente as duas notas superPostas. O pa- l'.r' unr claráo de lua viulhe o rosto cheio e o bigode farto. Era mais alto
pel se recusa no início, mas depois aceita a chama e se retorce meio valor , l, , 1; 111' ele, corpulento e de pele mais branca. Só quando o outro o obri-

meio cinzas. Ele permanece um longo tempo na contemplação do monte t'.()u c()r.n os olhos a encarar a mão na altura do ventre é que vijuafaca
carbonizado, e por ele toma conhecimento do crepúsculo que lentamente ,'rr..rixecla entre os dedos. Pensou em dizer-lhe que nada mais tinha, pen-
envolve â massa e afaz integrar-se nas sombras dos objetos do parque. \( )il ('nr gritar, pensou em que náo deveria ter dado tudo à mulher e que
.rli( )r'ir rllguma coisa sobraria para este, pensou também em recuâr e tentar
!âf.ora, e ao longo de uma rua estreita e suja, os postes iluminados
eram manchas de cor no início da noite, uma mulher o aborda. À p"tsa- .r lu11;r. Mas enfrentou-o. Apelou paÍa a sua demência, e com um grito
gem sob uma lâmpada vê-lhe o rosto envelhecido e o pescoço enrugado, l.rrrç,,rr-sc sobre o homem. Lutou com todo o corpo e com todas as reser-
r,.r., .lt' <irlio. Inutilizou-lhe o braço armado, agüentou a dentada que rece-
e ainda mais os olhos espantados ao mostrar-lhe a carteira aberta com as
notas. Por uma arcadade velhos tijolos váo ter a um quarteirão de vielas l,('u nr tc:sta e com o joelho golpeou-lhe as virilhas. Caíram os dois numa
e becos, e a mulher o conduz ofegante por uma escadaria estreita a cami- .r1irt.rq:ro dc terra, mato e roupas. Caído ainda sentiu o corte em seu om-

nho de uma aberta luminosa no que parecia ser um patamar de colina. À l,r r ) ( lr r(' rrnr dcscuido permitiu. Um jorro de violência dominou-o e de posse

medida que se afastam o ruído desaparece, o grito de crianças, rádios, cáes, rl.r l.rrrr 1',«rlpcou sem saber onde. Ergueu-se de um salto ao sentir a lassi-
gatos, homens em camisas de meia a esperar o iantar. No alto, à direita, ,1.r,, .l.r ';ll)crto clo outro. E continuou o seu caminho, à procura de uma

cnveredam por um caminho aberto em meio a um capinzal, e chegam a l.r,l.'rr.r rlrrrrlr[rcr quc o levasse de novo para baixo, para o seu deserto.

188 189
N EÍ

A meio caminho, quando um barranco lhe deu de súbito a fusáo de


um mar enegrecido e de um céu estrelado a lua se impôs com o seu clarão
de lenda e superstição. De um rádio longínquo veio esbatido o som de um
regional. E todo o seu corpo tremeu numa fome de harmonia. Das pulsa-
çóes de seu cérebro, do ritmo de sua respiraçáo, das contraçóes do estô- O logro
mago e do ânus, da consciência de todas as suas vísceras banhadas por um
sangue antigo, da lua imóvel na sua órbita celerada, dos olhos fechados
finalmente para um reencontro inadiável, iorrou uma prece improvisada
e a visáo de um homem peludo, de longos cabelos, pupilas imensas de
medo, e dois dentes apenas cilíndricos implantados nas gengivas duras. E
a prece começava com a expressão de noite, que era a expressáo que uma
criança há muito tempo usara para lhe contar certas coisas. Segundos
depois punha-se em marcha de novo, ladeira abaixo. E no canto de uma Estranhos como as estranhas oscilações de um sentimento medido e

calçada, junto a um edifício em construção, deitou-se. Precisava dormir. rrrna explosáo afetiva, estranhos como os estranhos meandros de uma
Tinha sono. E só antes de adormecer, já com as pálpebras quase iuntas cxpressáo entre informe e cristalizada, o impulso e a frase lhe percorriam
percebeu que ele era o sonho de um outro, de um outro homem talvez. () corpo. Deitado, com a cabeça voltada para o enorme painel de vidro
(lue separava o quarto da varanda, tinha diante dele apenas um céu notur-
no ralo de estrelas por uma névoa de outono, a totalidade de suas experiên-
cias nem sempre traduzida em palavras mas presente no mínimo gesto ou
c«rntraçáo de músculo, a soma de aspirações e ideais, um impulso para
l'rrz.er o poema, e a frase; amor, arnor se a tantos temo. Assim que a frase
llrc veio de jorro teve a impressáo de que o resto viria com a mesma ins-
trrrrraneidade. Mas junto com a impressáo a ceÍteza da impossibilidade
prcsente na agitação dos membros e no tremor dos lábios. Contou as síla-
brrs, verificou os âcentos, à espera de um impulso do impulso, e enquanto
silrrbava sentiu o desgosto pelo clima antigo e estranho que envolviaafua-
sc. llra isto exatamente o que pretendia exprimir? Era isto o que respon-
tli:r às suas indagaçôes? Era isto o que poderia apresentar como seu,
.'spccífico, reaçáo autêntica de uma vocação diante do espanto de uma
rrtopia? Fundia as sensaçóes de uma feição doentia, o enigma de um com-
l,r r»rrrisso imposto por valores que se negavam uma vez realizados, a pos-
srlrilirlade do gesto inútil do poema, os tropeços de um aprendizado para
t.rrtluistar uma sensibilidade que talvez fosse uma traição a seu contorno
.rlcl ivo, e a possível mediocridade do produto depois de acabado. Um som

190 191
( ( )t i(li.rno sobrava-lhe um outro, feito de um imenso vazio e de um gesto
longo e grave perturbou a neblina vindo do porto. Foi à varanda e ale-
,lc lrunrildade, num espaço mais frio e rarefeito, num crepúsculo de visáo
grou-se com as luzes em torno dabaía e o navio iluminado no cais. Mas
('rf r (f r,rc a própria razáo náo permanece estática, se potencia. Experiências
constatou que náo era bem alegria, mas um sentimento de plenitude que
vitrris clue oscilam entre um sim e um não, e se amesquinham na tentativa
coexistia com o seu mal-estar, e náo reduzia a percepção dolorosa de uma
,lt' corrrunicaçáo. Em cordas tensas de arco ou uoz. Onde, onde encontrar
segunda frase exigida pela primeira e ainda desconhecida.
rrrr eçroio para tudo aquilo que está além da possível harmonia de um som
Regressou ao quarto e sentou-se à mesa com a dupla noçáo de deca-
()u urna idéia? Onde acarapaça para salvar algumas ficçóes? O medo a
dência real e decadência conquistada por uma atitude e por influências de
tutitc, ü-me a don Um outro sinal de partida de navio surpreendeu-o na
leitura. Mas como negá-la se o esforço para a conquista rendeu como
irrÍornre redescoberta de um lugar-comum. Percebeu uma sutil diferença.
prêmio uma visáo táo vátlida como qualquer outra, talvez mais. Amor, a.lnor
Nrro era bem sua descoberta, nem sua aceitação. Era a conquista.
se a tantos temo, e triste e só canto meu treno. Anotou numa folha de
papel os dois versos, com certa hesitação. Desconfiou no instante do pró-
prio impulso para fazer o poema, faltava-lhe a certeza de que não havia
possibilidade de não fazer o poema. Fechou os olhos e afundou polegar e
indicador da máo direita sobre as lacrimais internas à lembrança de uma
busca interior. Mas o que via? Cintilações, êxtases, euforias? Tâlvez um
processo puramente orgânico denominado memória e avaga noção de
um caos externo que sempre lhe tentaram impingir como modelo de re-
gularidade; e as perguntas realmente elementares. Náo estava desligado
das chamadas lutas cotidianas, apenas agora, nesse momento, elas eram
parte, talvezínfima, do gesto que procurava. Os objetos em volta eram obie-
tos, com a mesma densidade de uma aspiração ou de um sonho sem fan-
tasias, um outro caos ligando memória e nervo ótico. Ensinaram-lhe a fugir
das grandes palavras. Elas voltavam em rompânte. Será táo difícil aceitar
a vida como uma forma de violência, em que todos os valores que náo sáo
imanentes ao indivíduo sáo arbitrários? E triste e só canto meu treno, nã.o
quero pois o som funesto. Por que náo soltar as palavras, as letras, ordená-
las de modo aparentemente improvisado, com uma espontaneidade mais
ou menos arbitrária? Fixou-se na própria respiraçáo enquanto esperava
resposta coerente para a necessidade de emoldurar-se em esquemas que
ninguém mais lhe impunha. E triste e só canto meu treno, não quero pois
o sorn funesto, de rude flauta ou trino alegre, em cordas tensas. A possibi-
lidade de algo além do poema, a cetteza de algo definitivo e seguro que
justificasse a fuga diante do pânico da morte. Deitou-se ainda com a qua-
sc rigidez das zonas de medo e aniquilamento. Afastadas as razóesdo medo

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l,,r l)r(.(is(), tlrrcbrarcmos nOsSaS miseráveiS liraS e tranSfOrmaremos em
.rto., o\ sorrlros dos artistas. Domina-lhe a memória um rápido incidente
rrrrrrr lrospitrrl há muitos anos, quando ainda estudante. Era estagiário, e
, .rl,r.r llrc rrconrpanhar um grupo de doentes num dos pavilhóes. Um de-
A morte de E*p édocles l,,,, unf trrrrocciro de provínciaralto, forte, alourado, trinta e dois anos
r.r lp()(il, passava o dia todo num mutismo completo, e somente ao
I rrt.rrrl(.(('r'se punha a grunhir coisas ininteligíveis, até que na hora do
, r r pu.,( rrlo um canto sem palavras se fazia Ouvir por uns dois ou três mi-
rlrr,,', Nrrrrca mais ouviu trecho táo belo. Remexe os papéis à idéia de
l,r rll rrotícias do homem. Provavelmente estava morto. Ou um
pouco
Irr, llr,,r voltara pataA Sua aldeia. Náo, náo era propriamente o doente
,1rr,. llr,. nttcressava, mas apenas a memória do instante. Ao tentar prosse-

Como uma pérola que ndsce da lesão de uma ostra. t,;nn ,) tr;rbrrlho foi dominado pela irritaçáo que uma idéia muito antiga
suavemente a lín- l,r,,\',,( ,,rr. A idéia vinha do tempo escolar ainda, e repeliu-a depois. Pare-
Jaspers depóe por instantes a caneta na mesa e passa
r r,r llrr.(luc a doença propriamente tinha outro sentido, e não o que era
gua pela borda inferior do bigode. Apóia o cotovelo sobre o livro à sua
,l r,l', ll(.1()s tretados. Repeliu tanto a idéia que até ele compôs o seu trata-
esquerda e mergulha o rosto na máo espalmada. Os dedos percorrem os
Olhos, a testa, o nariz, descem pata a boca como um garfO e se enrolam
rl,r r\ rlrlicrrlclade momentânea de expressáo, um desejo antigo de criar
rlr,r',(' lrl('r'run desabar sua segurança ante a râpida intuiçáo de que por
sob o queixo cerrando o punho. À sensaçáo de prazer inicial sucede uma
r h tr ,r,, rlt. loda essa desordem havia quase que uma deposiçáo voluntária
dúvida sobre a possível vulgaridade da frase, mas a imagem é bela e lhe
,l,r r,r,,,r,r. l'lrgue-se, andapelasala, folheiadoisdicionários, alisaacabeça
convém no momento. Repele a dúvida com a consideraçáo da existência
,1,,;,,',;1;1'1v1r busto do compositor demorando com os dedos na imensa
de uma certabelezaem alguns momentos vulgares, mas náo pode evitar
r .rlrllr.rr,r ,lc bronze em desordem, endireita um canto do tapete desloCa-
um leve tremor de todo o corpo, tremor que fazquestão de náo formular
r , , 1r,,1 \u:rs pxssadas, pensa em chamar alguém paÍa rctirar o pó que se
em palavras, entregando-se à pura fruição de uma angústia de há muito
f

,rr unrrrl.rvrl llum canto da cômoda, mas volta à mesa. Inspira fundO, sente
represada em alguns esquemas conceituais e uma norma de existência ri-
.r l rntr,rç:ro do estômago e dos pés, movimenta por instantes os artelhos
gidamente emoldurada em uma carreira que náo podia deixar de reco-
nhecer como gloriosa. Enquanto ergue os olhos para um quadro na parede
Il,.u, (.scnte com prazer o apoio no cháo e na mesa. Hôlderlin decide
pr.r nr,rrt(.cct' clcitado, com a coberta até o queixo, certo de que estava com
a râpida percepçáo de uma percepçáo interior impede-lhe a visáo com-
f n,,, r.rrrlxrr-x nada lhe pudesse indicar que realmente tazia frio. Move a
pleta das figuras: não deve continuar o trabalho sobre Hólderlin. Por uma
1 ,1lrr.q,r t. rr:io corttpreende como oS Zimmer ainda náo mandaram retirar
questáo de saúde. Por uma determinaçâo dehâmuito imposta. Por uma ati-
,',. l,t.tr()s e()n't os rcstos do almoço, numa mesa baixa, ao lado da cama.
tude global que um dia reconheceu como sua, e que náo cabia agora des-
[ ,1 1, potli,r pt.rrrritir ccrtos descuidos, e assim que lhe trouxessem o jantar
truir. A própria fruiçáo momentânea da angústia trouxe consigo todo um
período de aspiraçóes. E a palavra fracasso lhe vinha agora com toda a
,1, llrt",.lr.rrrr,rri:.t rl atençáo. Pediria também que trocassem a fronha,
,,,1i.rrq.r.l.r ;.i ntrnr tlos cantos, e com o bordado da inicial inteiramente
sua cârga de dor, sem a aura de uma definiçáo de compêndio. Nesse ins-
rh.,lr.rto. l'rt.tis;lvrrlcnrbrar-setambémdepedirquelheconsertassemum
trurtc sua atençáo se fixa em uma das folhas de anotaçóes à sua direita: se

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HOS

dos bolsos do sobretudo, e os punhos de duas camisas. O sobretudo há tu r'('7.n. Um só esforço se multiplica das têmporas à articulaçáo das pernas
semanas que vem pensando em pedir que lhe ajeitem o bolso, mas tem
l'.rr';r rrtirrgir a casa. O caminho duro e sem pó da estrada feria-lhe a planta
sempre medo de que lhe respondam com um grito. Há quanto tempo ouviu ,Lrs pós bcm calejada. Bufava sob os bigodes provocando bruscas oscila-
a Sra. Zimmer irritar-se porque alguém lhe pediu que pregasse um botáo?
\(,('s nir barba grisalha sob o lábio mas ainda viva junto às faces. Encontra
A porta de seu quarto estava fechada, mas ouviu distintamente avoz da .rlx'r'trr a porta e um só cômodo deserto com um pouco de palha junto a
Sra. Zimmer. Seu estômago devia estar revoltado. Holderlin presta aten- unr;r pârede; improvisaçáo de um vagabundo na certa. Atira-se sobre a
ção aos ruídos sob a coberta, e julga conveniente fazer um pequeno esfor- ;r.rllr:r c no ato de se estirar tem a nítida sensaçáo de se libertar de um es-
ço para aÍÍotar. Melhoraria na certa. Mas em vez disso uma necessidade l,,r 1o :.rlém dos limites suportáveis. Seu braço direito está apoiado na pa-
urgente de urinar se manifesta, e ele joga para o lado a coberta e arrastâ o r rtlt' c os dedos inertes prenunciam o cansaço de estátua. Apenas os olhos

urinol. Ao empurrar de novo o urinol para debaixo da cama, sente uma crrtrcebcrtos percebem o sulco no pulso e as veias como fibras retesadas
crispaçáo em todo o corpo, uma centelha de ódio enrijecendo os múscu- ('nlrc â máo e o cotovelo. Percebe os fluxos internos, irregulares, do cora-
los, e pela milésima vez Íogauma praga a Schiller, essa grande besta. Ca- \.r( ) l)ilra as vísceras inferiores, e do coração para o crânio, percebe a lenta
minha até a mesa em um canto, e tira os livros que impedem algumas folhas g,.rlpitrção dos poros, antes do equilíbrio final. E sabe que seus olhos nes-
de esvoaçar. Precisa acabar o poema e mostrar a esses idiotas o que é poesia, ,.r' irrstlnte brilham de ódio, e que seu rosto tem a feição de máscara de
e não essas baboseiras agradáveis que servem para distrair donzelas. Em rrr,rrlcira entalhada afaca. Náo tem forças nem materialparaanotar coisa
vez disso, abre a gayeta e vê o que deveria ser a sua grande tragédia, A .rllirrrrn, nem a quem ditar. Gostaria de definir o homem como um bone-
rnorte de Empédocles. Sente frio e põe o sobretudo. Senta-se em uma r o rlc cstopa com a maldiçáo de poder sonhar o infinito, e de dizer final-
poltrona e folheia o original inacabado. Aprova aqui e ali, reprova outras, nr('ntc tlue o último conhecimento era impossível por uma simples questáo
mas vibra ao reler o trecho em que o sacerdote Hermócrates explica a rlr itlcntidade. Duas pedras que são uma pedra só. Um vislumbre de iro-
necessidade de condenar à morte Empédocles. Gostaria de sair agora, mas rrr.r pcLr lembrança dos que o chamaram de charlatão, como os cavalos da
a certeza de que seria seguido e achincalhado pelos meninos (e ele os rs,.,l:r de Cós, e dos que riram quando se afirmou deus. Sabia agora que
amava), retém-no em casa. No entanto uma vibraçáo tâo alta o envolve, rr.r lt'rrcla. E como lenda sofreria a glória de uma ascensáo ou de um mer-
que gostaria de sentir de novo em um parque essa apreensáo da totalida- lirrllro cntre as lavas. Náo tinha ele mesmo sugerido isto um dia em tom
de em um instante sem o artifício de uma palavra para traduzi-la. Para .h' pirrtla? Algumas moscas principiam a esvoaçar sobre a palha. Hôlderlin
bem longe com quem sua alma desnuda. Sente mais frio, e levanta a gola ..(' .u'rirsta até à cama e se enfia sob as cobertas.
Jaspers resolve modificar
do capote. Uma eclosão de fragmentos dispersos de um cotidiano remoto .r lr.rst': como uma pérola qile nasce da lesão de uma concha.
lhe transmuta o frio em medo. E encolhe na poltrona com as folhas entre
as mãos. Encolhe com os olhos dilatados numa antecipaçáo de afeto rare-
feito que antecede o terror. Empédocles vê a uns duzentos passos o case-
bre onde poderia pedir abrigo. O sol à meia altura entre o horizonte e o
zênite provoca uma sucessáo de sombras e zonas luminosas entre o aclive
pedregoso de uma colina e o compacto de vegetação no vale e início da
encosta. Vem cansado e com a lucidez de uma exacerbação sabe que está
no fim. Não havia nele a correspondência de uma suposta euforia da na-

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artifício que significasse um retorno à primeira frase, ou com qual-
rrnr
(lucr expressáo que abrisse a possibilidade de uma seqüência infinita cle
Prcposições. Era o caminho de sempre. Receberia os cumprimentos de uns,
Pcla elegância da exposiçáo, e as reservas de outros, pela facilidade com
O crime perfeito rFrc tirava conclusóes de pensamentos alheios, e por uma certa falta de
,lcnsidade, de profundidade, e àsvezes mesmo uma certa leviandade diante
rlc fatos dignos de outro tratamento. com o dedo na boca, sugando um
riltimo vestígio de gordura encravada na unha, lembrou-se da morte do
ernigo seis meses antes. De repente, num acesso de raiva, começou a agre--
''
clir gente na rua, foi integgrado, operado e morreu. 14. mulher se movimen-
tou no quarto e passou pela sala ainda sonolenta, cumprimentando-o em
nreio a um bocejo. Espantou-se com sua resposta grunhida e seu movi-
Desceu do ônibus e hesitou entre a mercearia e a farmácia. A.garraÍa rnento em direção à porta da rua. Voltaria em quinze minutos. Enquanto
de conhaque e o sedativo fariam o mesmo efeito. Resolveu abandonar os scguia pela calçada remoía os detalhes finais da morte, sem nenhum acrés-
dois e seguir o caminho de casa. Atravessou apÍaça, recuou algumas ve- cimo, mas com a certezade que alguma coisa naquele conjunto de fatos ia
zes evitando automóveis, seguiu pela rua principal o trecho até atetceha sc alterar. Parou alguns minutos junto à grade de uma casa baixa entre
transversal, e antes de dobrar à direita, permaneceu alguns minutos para- rlois blocos de quatro pavimentos. um carro tinha meio corpo fora da
do observando um grupo em torno de um cáo que fora atropelado. Ou- garage, sobre agrama,e num fundo de mau gosto de cerâmica e barras de
viu os últimos ganidos e as expressóes de piedade, resistiu ao impulso de ferro inclinadas, um velho lia um jornal na varanda. Tentou eliminar to-
se incorporar ao grupo, e enquanto seguia pela calçada até seu edifício clas as idéias possíveis no instante e olhar seu rosto de perfil: cabelos ralos

tentava recompor algumas idéias sobre o ensaio que a revista lhe exigia c brancos, testa ampliada pela calvície e enrugada, nariz sem forma defi-
com urgência. Maldita a hora em que adotou como tema o trágico. En- ,ida, queixo um pouco saliente, orelha grande e achatada, e do crânio à
trou em casa às quatro horas e doze minutos segundo o relógio da estan- gola uma linha curva seguida de uma vertical. Tentou esvaziar-se de qual-
te, e às quatro horas e sete minutos segundo o seu de pulso. O filho ainda cluer conteúdo afetivo, e encará-lo apenas como uma forma cheia de pos-
estava na escola, e a mulher cochilava como de hábito entre as três e as sibilidades. Não conseguiu. um leve tremor inesperado agitou-lhe o corpo,
cinco. Cortou um pedaço de salame enganchado junto à geladeira, uma c seguiu em direção à casa do amigo morto. A viúva recebeu-o com es-
fatia de queijo, e ainda com o pano de pratos na máo patatitat a gordura panto, há tempos não aparecia. Também ele náo escondeu o espanto ao
dos dedos aproximou-se da mesa irritado com a arrumação que a mulher vê-la recuperada do choque e no rosto uma alegria suficiente para avivar
fizera. Abriu gavetas, alterou os objetos sobre o tampo e em poucos ins- traços jovens. o casal de velhos num canto junto ao rádio ergueu-se de
tantes conseguiu chegar à mesma situação em que adeixarade madrugada. rnáos estendidas e comoveu-se com o calor de um afeto espontâneo. Le-
Notas, livros, dicionários, o suficiente para alinhavar algumas consi- varam-no para o quarto onde o amigo costumava trabalhar. Abriram as
deraçóes de outros, colher epígrafes e definiçóes, náo citar certas fontes gavetas fechadas a chave, trouxeram de um armário alguns embrulhos com
porque desnecessárias, jâ pertenciam quase que ao uso diário e comum, rccortes e maços de papéis, serviram-lhe um café e deixaram-no só. Nos
procurar uma certa coerência na ordenaçáo das frases, e terminar ou com cmbrulhos de recortes encontrou com todas as minúcias a história do

198 199
SAMUEL RAWET

processo que agitou a cidade havia dois anos e meio. Fotos, crônicas, re- rcsiclia um advogado. A partir daquele dia sua sensibilidade principiou a
produçóes de documentos, cópias de declaraçóes de testemunhas, acusa- s«rfrcr sobressaltos contínuos. Em certos momentos parecia duvidar de uma

ção e defesa. Tentou lembrar-se de algum momento em que ô amigo lhe cspócie de delírio, a râpida superposiçáo de um episódio pessoal com
tivesse falado qualquer coisa a respeito. Nada. Quanto ao processo em si, a ditaao acaso.i§êguiu-se um período em que todos os episó-
trrna palavr
nunca se interessara tanto por ele, e participava da opinião geral de que a dios de sua vida se fragmentaram em comentários irônicos. As vezes até
condenação estavâ implícita na própria defesa do acusado. O amigo, cntre aqueles com quem convivia lhe parecia vislumbrar qualquer acento
músico, encarregado da crônica especializada da revista, aparentemente sarcástico. O mais freqüente eram longos comentários a seu lado no ôni-
nenhuma ligaçáo tinha com o agsunto\Nas gavetas encontrou cópias de bus, no restaurante, e telefonemas que procuravam advogados, hospitais.
artigos publicados, algumas revistas estrangeiras, e algumas pastas com Um arrepio percorreu-lhe o corpo quando lhe perguntaram pelo telefone
projetos de trabalhos futuros. Numa delas encontrou papéis em desordem sc ali não residia um indivíduo que constatou após desligar ter o mesmo
com anotações referentes ao processo. os trechos soltos de início não lhe rrome de um santo estraçalhado pela multidáo. Entre irritação, delírio pro-
;

deram a mínima idéia do que poderia pretender. Tentou encontrar algu- vocado pela sensibilidade exacerbada, e alguns momentos de humor (ele
ma coisa ainda, mas o resto se ligava apenaô-à sua especialidade. pediu não podia resistir ao riso de uma situaçáo absurda), principiou a sentir o
e..
vt permissão para levar o pacote de recortes e a pasta com anotaçóes, e vol- tcrror de ver sua família ameaçadaêggs qp5ódios miúdos de sua vida
ã tou para casa. Encontrou o filho já, ficou à toa até o jantar. A sogra veio principiaram a aparecer nos comentários de sua mulher, mas como se se
cuidar do menino enquanto ia ao cinema com a mulher. Um filme japo- rcferisse a um estranho. E ele tinha a ceÍteza de que nunca lhe contara
& nês de guerra, com algumas cenas meio cruas, algumas de antropofagia. rrada. Sabia de há muito, sem ter experimentado, a dimensáo que uma
(^)
., ,E banalidade podia adquirir. O horror com que a mulher se referiu a uma
Voltou deprimido, e enquanto a mulher se deitava pôs-se a remexer os
üÂ-
lJt_ papéis na mesa. Algumas horas depois, havia repassado as folhas esparsas, cxperiência sexual de alguém que dizia ser conhecido na cidade lhe deu
ao encher um copo dágaa no filtro, relacionou com rapidez as.lnotaçóes como reflexo o horror de uma possibilidade. A mulher ouvira o comentá-
a descosidas do amigo: não tentava inocentar o culpado, via apenas uma rio no supermercado. Ele olhou para o filho que nesse instante chegava
m açáo contraproducente na condenação, e procurava atrás da questáo in- r'la escola. Os dias que se sucederam foram de insônias, impossibilidade
(.f)

dividual qualquer coisa que lhe parecia um pouco mais sórdida. Numa tlc concentração na leitura, e tensão cadavez mais difícil de suportar no
das anotaçóes parecia mesmo sentir um certo horror na possibilidade de trabalho. As figuras humanas começaram a perder cargas afetivas e a as-
descobrir alguns fatos que no momento náo eram arrolados. Um pouco sumir jeito de caricatura de animais. Quando um dia, num bar, viu apenas
antes de seu ponto habitual de descida ouviu um comentário: de repente, . rrrandíbulas, narizes, olhos de pássaros fixos, e dentes a se movimenta-
fium acesso de raiua, cofireçou a agredir gente na rua, foi. internado, ope-..., rcm, deu um salto e começou a agredir os outros, Íerindo alguns a denta-
rado e lnorreu. Voltou-se e viu um velho de rosto longo, encovado e inex- tlas. Foi internado e operado.
pressivo ao lado de uma velha gorda. Ambos o encararam e pareceu-lhe
ver nos olhos dos dois um rápido gesto de zombaria. No escritório, duas
vezes pela manhã, e quatro à tarde, a mesma voz desejavafalar com al-
guém que dizia trabalhar no local. Engano. À noite, ao rever os papéis
novamente, constatou que o nome procurado durante o dia, era o do mor-
to. Relia alguns trechos quando o telefone tocou. Desejavam saber se ali

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rn('ntos. O mês de junho aqui diziam que era fim de outono princípio de
urvcrno, no entanto o calor lembrava o junho de antes, fim de primavera,
prirrcípio de veráo. Os grandes travesseiros de penas poderão ainda ser-
vir, estavam habituados, mas as imensas cobertas terão que ser guardadas,
O primeiro café ,,rr tlcsfeitas e transformadas em pequenas almofadas, ou travesseiros de
r ('scrva. O abano de palha trançada estava ao lado e com pouco esforço o
( irrvão começou a estalar, obrigando-a mesmo a recuar ante um jorro de
l.rgulhas. Depois o braseiro se uniformizou e pôde entáo cobri-lo com a
.lrele ira. Ouviu-se um chiado, um fumo transbordou do fogareiro, e al-
11rrém tossiu num dos quartos. Nessa mesma hora costumava abrir aloja
.l«r cunhado, enquanto estirado contrnha a tosse que lhe acabava com o

l,rrlmáo. Raramente olhava em torno da praça, a colina à esquerda ao


Não se via o sol ainda, mas a luz era forte quando abriu a porta
do ,lt'ixar a casa, o caminho que levava ao bosque além da loja, os altos mu-
quarto para a sala. Abotoou o vestido e desceu os degraus
em direçáo ao r,rs do cemitério não longe da sinagoga. Um pedaço de jornal retém a
banheiro, no quíntal, depois do telheiro que protegia o tanque.
Arém do r.rlrcça e Braya com insistência em sua memória vocábulos que terá de
muro à esquerda, da varanda lateral que protegia em toda a extensão
a .r1,rcnder. Uma folha ilustrada no pacote de ovos sobre a mesa de pinho,
casa vizinha, um canto de gaiolas se fez ouvir. Em frente
o terreno cerca- un) retrato de mulher, revolve-lhe o corpo com a densa aspiraçáo de um
do continha algumas árvores que desconhecia, e alguns montes
de terra, tlirr rrem formulada, mas ligada à visáo de umavaranda no solar encravado
lixo, cacos de vidro, latas vazias. (Lembrou-se do gosto estranho de
uma nrr rnata de castanheiros, a caminho do riacho. A mulher de preto e gola e
fruta que lhe deram em Dacar, verde-amar eradarcom um caroço
enorme l,rrnhos de renda branca, numa cadeira de balanço, com o livro entre as
cheio de fibras a enrrar pelos dentes.) Mal pudera ver a casa
ao chegar na rrrrios, e o olhar espantado pela intromissáo dos que vinham pela estrada.
véspera já de noite. o tempo suficiente para abrir os caixotes,
engrada- I Irrr cão rosnou num canto da varanda. A lata de café era aquela; mediu as
dos, malas, ajudar a armar as camas, do casar e das crianças,
estender os ..rllrcradas para o coador como lhe haviam ensinado de modo que pudes-
lençóis marcados por uma longa viagem, e improvisar uma .,t'cncher o bule quase até a borda. Enquanto limpava da mesa o pó de
sopa com o
que lhe foi possível encontrar na cozinha. E dormir, reencontrar
o ho- t;rÍ'ci derramado pela mão trêmula, avivou-se a lembrança de um vago
mem que anos antes partira à procura de melhor §orte. Ao
subir de novo ,rrrscio de uma possibilidade afetiva náo imposta. Qualquer coisa com a
os degraus para a cozinha, o sol avivou a caiaçáo da parede
lateral e a t.rrsistência de um devaneio. Um impulso contido entre terror e obediên-
abertura da porta projetou o retângulo deformado ,u-" promessa
d,e paz. . irr. Apenas um resmungo que se rumina numa noite de neve e inverno,
Pôs água na chaleira, ajeitou, encheu o fogareiro de
carvão, amassou uns .lt' rrrn inverno e uma neve perdidos de vez, um inverno e uma neve nunca
pedaços de jornal velho e introduziu-os na abertura da
base. Enquanto a .rrnrrclos, que nunca amou paisagens, mas assim mesmo um hábito. Ao olhar
chama varria o ferro novo acinzentado por fora, olhou com
mais vigor o l):u'r a chaleira à espera de um ruído de ebuliçáo é que teve o gosto dessa
piso e a parede recobertos de ladrilhos, a pia com a placa granulada,
pre- 1,,'r'tle clefinitiva. Deviam estar todos acordados já. Alguém abriramesmo
to e branco, as prateleiras onde na véspera havia disporro ,r- pouco
sem .r l)orta da varanda. Um resmungo numa noite de inverno. A irmá que um
ordem as panelas, frigideiras, pratos, talheres, e algumas latas
de manti- tlr.r jtrnta as coisas e parte numa carroça ao amanhecer. O irmáo que nem

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mesmo as coisas leva. Um súbito tremor pelo pressentimento de uma be-
leza numa certa parte desconhecida. Houve momentos no navio, à noite,
enquanto os filhos dormiam, em que o embalo do casco e o chiado das
águas traziam a ceÍteza de uma intranqüilidade necessária. Um misto de
divagação e remoer de noçóes elementares vindas de um aprendizado oral. Kelevim
Uma certa ordem de coisas. O mar. O céu. Os peixes. Vida. Um halo de
lenda e aspiração num momento de abandono. O vapor agita com violên-
cia a tampa da chaleira e sai espesso pelo bico. Agradável o aroma do café
que principia a encher o bule. Ordena os copos, adoça-os, e vai deixá-los
sobre a mesa da sala. Alguns se ajeitam nas cadeiras, os outros levam os
copos paÍa a porta davaranda. Todas as gaiolas da casa vizinha estavam
em movimento. De repente uma irritaçáo se manifestou em todos, e de-
positaram os copos na mesa. Só entáo levou o seu aos lábios e uma per- Kelevim náo existe. É produto da pura imaginação, chamem-na as-
turbaçáo sacudiuJhe o corpo. Nem conseguiu sorrir indulgente consigo sim, e da necessidade real de fuga e evasão. Uma espécie de processo de
mesma. auto-alienaçáo. O artifício delocalizâ-la geograficamente é táo barato que
Náo conhecia esse sal tão branco e fino! me repugna. Na verdade náo sei se Kelevim é reino, república, se é demo-
- crática ou totalitária. Produto de preguiça real, porque muito mais difícil
ó descrever as verdadeiras razóes da batalha dc Salamina, da Guerra de
Secessão, ou da cafetinagem histórica que se faz com Auschwitz. Se me
Í'osse necessário localizâ-la, eu o faria ali pela Armênia, por puro jogo
vcrbal, por necessidade infantil de repetir com prazer uma palavra nova.
Trebizonda foi sempre para mim uma palavra misteriosa. E depois dizem
tlue é tão velha, que pelo que parece foi lá que o velho Noé foi dar com os
costados, após a prirneira circunavegação do globo, náo notada aliás,
l)orque na época a terra era chata. É em Kelevim que pretendo situar uma
história à nova feiçáo:
De repente o homem apareceu com sua carga de tragédia. Qualquer
coisa inadequada para um dia de sol e paisagem luminosa. Seus olhos
nr«rviam-se entre espantados e medrosos como à procura de apoio, e nas
c«rntrações do rosto uma transiçáo de medo e insegurança, como se ainda
nrro tivesse conquistado a rigidez do medo autêntico, ou do ódio autênti-
e«r. Apenas pressentida uma nostalgia de serenidades inexistentes e de
;rntigas tranqüilidades. Julgou naquele instante iniciar uma luta para con-
tlrristrrr o direito a um sonho. Vinha de uma das transversais e sua irrupçáo

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nrr avcnida arborizadacoincidiu com o estardalhaço dos pardais à manei- Deu alguns passos e evitou o banco, preferiu o movimento. Sabia quc
ra de certos instantes do crepúsculo, quando em meio a um silêncio de cstava condenado, que lentamente o despojariam de sua condiçáo míni-
horror irrompe o grito alegre das copas em início de penumbra. Nesse nra. Uma luz intensa vaÍaya a folhagem, um azul se justapunha ao verde
clima era um homem mergulhado num passado irreal, um passado resu- cnegrecido de sombras. Mas resistia certo de que tudo era apenas fruiçáo
mo de aspiraçáo de apenas alguns homens, que tiveram a grandeza de se lnomentânea de uma energia sempre renovada, em tensão. toncos regu-
sonhar e se afirmar, um passado que é visto apenas em seu halo de lenda lares e deformados, galhos a se fundirem em túneis de folhas e cavernas
e euforia, despido de sua capa cotidiana. Um homem que se despe de sua de luz. A nítida sensação de uma idéia a ser contida, controlada, de duas
biografia e conserva o espanto de relaçóes incompreensíveis. A educaçáo talvez simultâneas a se dilacerarem, ou uma outra a ser reintegrada em
de uma sensibilidadertalvezcom todas as irrupçóes incontroláveis de ges- seu campo de convenções. Os objetos oscilam entre sólida presença epuro
tos, palavras, delírios. As figuras que se colhem ao acaso, um sonho des- conceito. O contorno dos canteiros adquire a consistência de uma defini-
feito em sonho, um pesadelo transformado em terror, que ainda assim se çáo. A grama. O calçamento de alamedas. O verdadeiro preço de uma
tenta romper com um grito, potenciado apenas e colhido por dentro pela afirmaçáo individual, a fruiçáo de dor, como acanalhamento, como covar-
necessidade de dar equilíbrio à tensão. topeça, descamba, alteia em ges- dia, a opção por valores negativos quando os outros bailam no fumo de
tos grotescos à simples aspiração a um mínimo de harmonia, ousa aflorar convenções. E é entáo que a idéia, apenas aidéia de um grito, de um cor-
essa capa de indignação com um gesto de recusa, talvez, ou de silêncio. po em fuga, em doida corrida, um corpo maior que sua pele, com a di-
Kelevim sob o ponto de vista de urbanismo participa das duas naturezas: mensáo da energia que banhava músculos e articulações, a idéia de um
desordem racional e espontânea; sob o ponto de vista arquitetônico já tinha urro se manifesta, um urro de recusa.
conquistado aglôria de ruínas passadas e fururas; sob o ponto econômico No plano ainda da pura imaginaçáo Kelevim precisava destruir um
dividia-se entre agricultura e indústria, embora dissessem alguns que era es- homem. No mesmo plano este homem teimava em viver para escândalo
sencialmente agrícola, e outros essencialmente industrial; sob o ponto de vis- de todos. E em Kelevim levo uma grande vantagem: não sou amigo de
ta jurídico era considerada modelo mesmo pelos vizinhos que a detestavam, ninguém.
e como todos os filhos de todos os cantos, os homens de Kelevim eram pro-
fundamente orgulhosos de sua condiçáo de, não sei como chamá-los, se
Kelevistas, Kelevenses ou Hauches. Prefiro este último nome porque nada
tem de semelhante com Kelevim, e dá margem a uma sugestáo de raridade
lingüística. Hauches, aspirado. Quanto àquilo que se costuma chamar de
complexo cultural havia em Kelevim desde o mais aperfeiçoado cérebro ele-
trônico que tazia funcionar um grupo de cérebros eletrônicos que por sua
vez se sucediam, até alguns costumes ditos bárbaros (náo sei em que sistema
de valores me apóio para assim classificá-los). Um deles, por exemplo, é o
que obrigava, sob pena de morte, a que as relações sexuais nos momentos de
raios e trovoadas fossem incompletas, isto é, que nesses momentos a ejaculaçáo
se processassefora do órgão genital feminino, o esperma fosse recolhido em
unr pequeno frasco e guardado durante três dias sob o travesseiro.

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no próprio gesto e a cadeia de deterioraçóes suspensa apenas por um in-
tervalo de ilusão. Ganha impulso de malabarista para equilibrar-se nesse
fio tenso.
Cumpria o gesto ditado por uma natureza equívoca e se vingava das
O seu minuto de glór:a humilhações por um conjunto de atitudes mais do que por atos. Irrompia
do fundo uma antecipaçáo de simbiose náo definida, e enquadrada em
rígidos preceitos. Como se o jato de dor não fosse implacável, mais im-
placável do que o gesto de repulsa. Ou de outra repulsa que era aceitação
por alguém daquilo que na verdade não oferecia, na verdade nada ofere-
cia, nada provava numa contrafação de afeto além do ódio expelido num
beijo tenaz. Afastada a hipótese do suicídio, que outra saída lhe restava?
Varrera ainda mais uma onda de impossibilidades inexistentes. Dava-se
Viveria apenas aquele minuto. Nada antes nem depois. Apenas aquele aos outros em espetáculo e humilhava-os com a simples presença. Não há
minuto. Por ele pagavao preço exigido, por ele se aviltava diante dos outros caminho, quando todos os caminhos são possíveis e a prisão é o infinito e
e de si mesmo. Por mais canalha que fosse o acento, por mais que afetasse o futuro. Para onde fugir?
um ar sobranceiro, mas nem por isso destituído de um leve reconheci- Seu rosto se transfigura lentamente. Os traços esmaecidos da feiçáo
mento equívoco, enfrentava com dor e enfado o ritual que antecedia e cotidiana, um ou outro acento que traía dúvidas, à força de cremes e pin-
sucedia à plenitude de um instante apenas, mas suficiente para entorpecê- turas se revelam com aquele halo de beleza que náo é bem das mulheres,
lo de ilusão. E era do que mais necessitava, ilusáo. Sentado diante do es- mas que sob as luzes de holofotes ou a penumbra de um palco deixam
pelho roído nas bordas e encimado por duas lâmpadas sem proteção, os entrever a mâscara feminina por excelência, numa evocação de remotas
cotovelos sobre uma tábua que fazia de mesa e sobre a qual se dispunham harmonias definidas por um lápis de desenho nervoso. Há esgares, care-
em desordem os potes de creme, as bisnagas de tinta, os frascos de vaseli- tas, e feições transitórias de assustadora feiúra. E é no rosto que evolui a
na, os lápis e o restante do material necessário para o seu número, deixa- sutil trama interna, feita de caprichos, inibiçóes, ódio, enigma, deboche,
va sumir o sorriso próprio, reflexo de um sem-fim de sorrisos, e em rancor e, última etapa, o nada que leva a um gesto inútil, por isso mesmo
transição de prece iniciava a metamorfose. Atrás dele sobre alguns gan- não indesejável. Era preciso ainda aclarar para alguém o longo roteiro de
chos cravados na parede as roupas, ao lado a cabeleira postiça, e numa clor para chegar àquele ponto? Era preciso repetir uma vez mais que há
caixaa seus pés, encostada à maleta, os sapatos. Jânáo perturbavam os scmpre um gesto irreparável, um ato completamente realizado, um ato
acordes do quarteto junto à pista de danças, além do corredor, nem o total em ação e potência? Era preciso repetir o grito. Eia, desanda, tresan-
nevoeiro de ruídos que se insinuava pelas frestas amalgamando todos os tla, salpica de matizes imbecis e de sussurros a imensa bondade do tipo
diálogos da d:úzia e meia de mesas do salão. Dois números antes do seu. gordo e bem instalado, devora os obséquios das pequenas maldades dos
Tinha tempo suficiente para perscrutar o vazio entre os objetos e suas lxris de família exemplares, Íura a trama e tece a teia tortuosa do delírio à
sombras, as manchas da madeira e os filetes de infiltraçáo na parede mal l)rocura de um passo mais ou menos firme, ainda que a custo de arrogân-
cuiada. Entre causa e efeito o estilhaço de dor e o muro de compreensáo cie e humilhação. Afirma a presença, pouco importa que alguém compreen-
c incompreensáo inúteis, estéreis, nocivos. O valor de um gesto implícito tl:r. L, um diatalvez ele mesmo possa compreender que há uma infinidadc dc

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gcstos implícitos no seu, ainda ignorados, e que pesam com o chumbo da
rcvolta.
Eaverdo corpo e das evocações de evocações, reminiscências de re-
miniscências. Ajusta a roupa de baixo com trejeitos obscenos despertan-
do o acanalhamento implícito na fase ambígua, e estranho monstro observa CrônLCa de um vagabundo
os esgares pelo espelho. Toda a torrente de evocaçóes sensoriais aflora na
repetição grotesca de um cumprimento afetado, e com a torrente os te-
mores e os ódios, a estupidez e o sarcasmo, o corpo tenso delirando em
híbridas metamorfoses. E a bruta, imensa gargalhada diante do corpo es- On dit que sa souffrance et sa mort représentent le plus grand
magado pela dor, chicote tenso a chicotear-se a si mesmo, aquém, bem éuénement que le monde ait connLt, le 'plus significatif. Oui,
longe do equilíbrio agora atingido, além da fronteira equívoca. peut-être, c'est possible. Mais combien ont souffert sans que
A gota dâgua que náo cessa de vibrar a louça da pia no canto caÍÍega leur souffrance ait la moindre ualeur?

nos intervalos regulares a composiçáo de lembranças, e ordena, harmo- LAGERKVIST


nicamente, golpes, promiscuidade, violência, imprecações, cantos sórdi La Mort d'Ahasvérus
dos, noites, sonhos, vastos delírios seminais.
Está pronto e de costas para o espelho. Já lhe deram o sinal de entra-
da. Seus olhos brilham. Póe a máo direita sobre a clavícula esquerda, e
ampara o cotovelo com a palma da outra mão. Era um homem, sabia-o
naquele instante. Gira o corpo à procura da porta do camarim e de relan- Era uma vez um vagabundo, pronunciou quando ergueu a maleta e ca-
ce, imagem passageira, vê o reflexo belo de um sonho náo desejado. Po- minhou em direção à rua. Gostaria um dia de ouvir uma história que assim
dia humilhar-se agora. começasse. Sobre o asfalto ainda a umidade da lavagem noturna, e na at-
mosfera um azul tênue filtrava-se pelas nuvens cinzentas, como se o negrume
da madrugada se transformasse em sombras azuis ao chegar o dia. À es-
querda da rodoviária o píer só tinha guindastes em movimento, nenhum
navio ainda. Mais ao longe pequenos barcos ainda iluminados contorna-
vam a ponta de terra em direção à barra, ou ao outro lado da baía. Cami-
nhou com firmeza mas sem saber para onde ia. A necessidade de movimento
projetava-o como se estivesse bem determinado em seus propósitos. O cor-
po doíalhe da viagem noturna, e embora trouxesse uma carga de amargura
suficiente parugarantir um deslumbramento momentâneo diante da paisa-
gem, ele que normalmente náo era tão amigo assim de paisagens, caminha-
va em passadas firmes sem desvios de atenção nem rompantes de ódio. Seu
ódio deve ter adquirido a consistência das coisas permanentes. Náo neces-
sitava mais de objetos pessoais ou circunstâncias que precipitassem sua apa-

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SAMUET BAIA HOS

rição. Incorporara-se-lhe, fazia parte de seus gestos e sorrisos, e não podia licladc. Elc ousara ir mais longe, no dia em que compreendeu que o que
dcixar de reconhecer que era um estimulante forte para a açáo. Tomou o havia de mais profundo naquilo que tentavam lhe explicar era chão e in-
café no bar que abriga prostitutas, marinheiros, comprou um jornal pela consistente, era uma contrafação de densidade, e no plano do autêntico,
rrranchete, e continuou a caminhada. Tinha dinheiro suficiente para almo- unra água de cheiro para banho de inocentes. O que lhe era ministrado como
o supra-sumo dos remédios humanos lhe surgiu de repente com a sua capa
çar, comprar mais um maço de cigarros e engraxar o saPato. À visão de um
letreiro com quartos e vagas para cavalheiros, subiu de dois em dois os de- dc fragilidade e inconsistência. E de repente percebeu que havia uma inver-
graus e defrontou-se com um tipo magro, mulato, de tiques efeminados que são. O que era tido como aparente, secundário, era o mais importante. Mas

esfregava um balcáo com uma flanela úmida. Abriu a maleta, depois de di- levado a um plano inteiramente alheio à intençáo dos doutos. E só encon-
zer que náo tinha dinheiro, tirou o relógio de pulso que há tempos vivia $
§ri. i
trou um vislumbre daquilo que procurava entre os que ignoravam quase
íra"i:ir {
l*ill I

enrolado em um lenço, e pediu-lhe que arranjasse um comprador, se possí- tudo e os que viviam à margem de uma estupidez estratificada em regra de
vel no mesmo instante. O mulato observou-o bem mas sem encará-lo. Afas- comportamento. Pagou caÍo asua coragem (só muito depois verificou que
tou-se, abriu a primeira porta do corredor, e depois de alguns minutos voltou o que lhe parecia covardia e abjeção era o extremo de coragem e pureza). E

com setecentos cruzeiros, em duas notas. Guardou a de duzentos como í.rtuava por ressentimento, e nunca por rebeldia pura. Mas deixara de acre-

pagamento dadiâriae conduziu-o a um quarto no andar de cima. Quando #{ ditar em anjos humanos, principiaru a se interessar pelos celestes. E como
ffi. I

se viu só empurrou a mala para debaixo de uma mesinha ao canto e abriu a humano verificou que a abjeçáo, a covardia, o ressentimento, o despeito,
janela. Num jato apreendeu a paisagem toda em volta, náo se detendo em ffit também são armas, válidas, porque humanas. Pagou caro, porque o que era
detalhes. Na realidade nada viu. Absorveu a paisagem. Com um gesto brus- conhecimento era morte também, e porque para se conhecer precisou de
co descalçou os sapatos sem cordáo e estirou-se na cama, por cima da col- um outro, e precisou de confissáo e a confissáo e o outro deixaram-no pior
cha branca esgarçada nas bordas, esfiapada no centro, mas limpa. O ainda. Porque ao outro haviam ensinado tudo, menos uma coisa, um pe-
travesseiro de algodáo, de uma dureza irregular, incomodava. Com um gesto ffi queno detalhe, o fundamental. Algum tempo já sobre todos esses episódi-
de cabeça empurrou-o para o cháo, e de olhos no teto permaneceu estira- os. Uma enxurrada que o levou longe, mas ao mesmo tempo lhe ensinou a

do, os braços abertos como um crucificado. Findara a sucessáo de atordoa- suportar o que era insuportável. Até mesmo aquele instante ali, tremenda-
mentos começada com a viagem de ônibus, as sucessivas paradas, os cafés, nlente insuportável, seria apenas um incidente de mínima importância, logo
os cigarros, as conversas esboçadas aqui e ali, os cochilos deprimentes nos trltrapassado por outro, até o dia de sua morte. Em meio à extrema dor
bancos aos solavancos, o próprio desconforto e o amargor servindo de con- rrinda esboçava um rápido sorriso, uma intromissão da loucura no seu uni-
dicionamento a uma atençáo orientada, sempre em movimento. Algum dia vcrso desordenado. A loucura que fez aceitar a torrente de impulsos como
teria que deitar-se em uma cama, teria que dormir, mas antes de dormir íato válido, e que lhe deu a consciência da nítida indiferença quando o ca-
havia o terror de um reencontro. Náo podia evitá-lo. Ali estava. Cumpria o rninho é o abandono das formas e se chega ao âmago, ou aquilo que a ele se
destino que quase todos cumprem, e que a só uns poucos é evitado, esses :rssemelha, do fato. Ou talvez tudo fosse um delírio, um sonho; nesse caso
que nunca duvidam de um único gesto ou palavra, que têm a rara felicidade l)or que não sonhá-lo? fu pernas esfregam a colcha obedecendo a uma ne-
clc um desconhecimento absoluto. Os outros, os que ousam se conhecer re- ccssidade de movimento, as máos se encontram espalmadas e quase em um
:rlrncnte, adquirem o hábito do terror proporcional à intensidade da desci- licsto de prece. Recolhe-as cruzadas sobre o peito. Os olhos se fixam num
rlrr crrr si mesmo. Alguns ainda se iludem. Recebem como explicação um r'llnto de nuvem e o movimento da respiraçáo é quase ritmado numa remi-
l:rrrepo cle idéia e uma distorçáo que permite uma volta à tona da tranqüi- niscência intuitiva de controle. É a extrema angústia, canalhas, angústia tão

212 213
os stlt loNl

pois
a gosto de um efeito de rima e de uma frase musical. Nega-te ainda uma rlt. lurtct. Nos últirnos tcmpos tanrbónr cssa ucccssidade desaparecera,
os tptrrrt()s dc ftotcl passarâm a integrar essâ zona definida de uma
vida irrc-
vez. Mergulha, anda, recolhe tudo aquilo que se foi empoçando em teu
caminho, e nega-o como não válido, como inútil, como sombra, como ab- .rl, vrrrrrchtão brutalmente pelo concreto, pelo fato, pelo objeto, que atingi-
jeçáo voluntária. Os sonhos que náo te permitiste, as ambiçôes que recusas- .rr :r cgpsistência do sonho. E pesadelo dentro do sonho. Quando entregou
Ir clrrrvc do quarto ao porteiro vinha mais eufórico.
Tomara banho, fizera a
te, as euforias que tantas gatgalhadas provocaram nos outros. Anda, nega,
algu-
nega tudo, nega até a intuição que negaste, e que um dia, no início, te fez [;rrbrr, .r.ouor" os dentes, e com os quinhentos cruzeiros ainda faria
nr:r coisa antes de procurar outro pouso. No lugar do mulato
encontrou
ver que tudo estava errado. E não compreendeste. Anda, recolhe, recolhe
sonâmbulo.
tudo, recolhe esse esboço de cançáo que vem de um mundo que náo conhe- rrnr velho baixo, gordo, calvo, os olhos parados de feiçóes de
ceste, trauteia a cantiga que nuncâ ouviste, e que um outro dentro de ti cantou I)cixou uma gorjeta sobre o balcáo e desceu os degraus de dois em dois.
de mãos
algumas existências antes de ti. Espanta-te com o teu comportamento de l)esava por.o u maleta e dava-lhe uma segurança de propriedade,
homem das cavernas, espanta-te com o reconhecimento das coisas primiti- ,r.rpndrr, de quem deve chegar a alguma parte, não importa aonde' nem
Pediu dois
vas que em ti estão ainda em ebuliçáo, à flor da pele. Devora um animal e rlrrando. comprou cigarros, tomou caf.éresó entáo sentiu fome.
Per-
alimenta-te dele, cultua os mortos que ainda estáo vivos dentro de ti e man- ,,ror, ,rror, uma salada. Numa esquina de bilhar engraxou os sapatos'
parando
da às favas os que vêem nisso sutilezas evidentes, porque náo sáo tão evi- correu o trecho de avenida já deserto e com iluminaçáo deficiente,
r\s vezes em um canto, diante de uma porta ou lampiáo,
sem o ingênuo en-
dentes. Vamos, nega isso também, nega-te esse direito de afirmar aquilo que
em um desfile
na verdade ninguém te pode contestar, a náo ser com a suficiência e o sor- cantamento de quem descobre coisas. Tudo lhe surgia como
era a
riso de uma polidez fictrcia. Suporta esse ar rarefeito, as imagens inexistentes, permanente, ele mesmo participando, onde o máximo a atingir
era se-
a repetiçáo mecânica de um gesto táo antigo que é simplesmente isto, um .onstataçáo do desfile. E seguir, num sentido ou noutro, o essencial
em
gesto antigo. E foge às sensações físicas que daí resultam, foge porque sáo guir. Sem se deter na fachada ou no càttaz entrou no cinema. Estava
meio o filme. Enquanto a história se arrastava na tela, a nuca
no espaldar
as que menos interessam. Embarca no delírio, alça vôo, e vai ao fundo, para
em seu sonho
cima e para baixo, e voga ao sabor das confidências que já perderam o da poltrona, corria o teto e as paredes laterais, e prosseguia
entendia
entretom de penumbra e confessionário, egrita,se for necessário. Mas alto, ouvindo tiroteios, pancadaria, um diálogo exaltado de que náo
cançáo que o fez
bem alto. E que o grito ganhe talvezmodulações antimelódicas, conservan- uma palavra, uma cançáo brejeira cantada por uma negra,
e sorrir conta-
do porém a densidade, a espessura e a harmonia de uma explosáo de dor. mudar de posiçáo, apoiar-se de braços cruzados na poltrona
giado com a farturaàe vitalidade da negra. Estava satisfeito'
Nada mais ti-
Com um tremor de corpo findou a vibraçáo e uma quietude invadiu-lhe os
a encetar
membros e a cabeça. Tentou ainda ordenar a respiração, mas náo era mais nh" u... Saiu do cinema. À vista de um cáo um impulso induziu-o
" náo porque
necessário; tornara-se regular e tranqüilizante sem que tivesse necessidade uma caminhada que se realizava em si mesma, sem destino,
os incidentes Passaram
de torná-la consciente. E dormiu. Um sono como o que devem ter as crian- vagasse à toa, mas porque náo havia destino. Todos
e como evocadores de
ças segundo o pensamento dos adultos. Na aparência. Pesadelos já sem efeito a funcionar como evocadores de seu mundo animal,
nem com as suti-
imediato sucederam-se prolongando-lhe o delírio, agora mais integrado, mais um mundo próprio que náo se coaduna com as palavras'
lezas, mas com a açáo b.rrta, encerrada em ganga e
escória de hábitos e afe-
conseqüente. Náo delirava propriamente. Sonhava o delírio. E vivia o so-
A sola cobria calçadas e ruas e em cada passada havia uma
aproximaçáo
nho. Acordou com o quarto em penumbra e algumas fitas de luz no canto tos.
supcrior da parede contígua à janela. Nenhum espanto, nenhum regresso, de território e ao mesmo tempo um abandono do anterior,
território seu,
mas tambón-l
ncrrlruma transição de um campo vago para os limites definidos de um quarto absolutamente seu no instante em que o cobria com o sapato,

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o5 5tÍt soN

tlc toclos os que antes ou depois dele passassem pelo mesmo rastro. O que .;uc o aborda é magra, de seios pcquenos e o cabelo de um preto artificial.
crieva uma noçáo de propriedade comum sem interferências nem choques, llstá em condições de segui-la. Continuam andando pela mesma calçada em
pois o território era ao mesmo tempo espaço absoluto de todos sem a míni- silôncio, sem a mínima necessidade de acrescentar alguma palavra ao que
nrâ concessáo. E eram uma infinidade de territórios todos dentro do mes- csrâva implícito na simples caminhada lado a lado. Um pouco de hesitaçáo
nro território, e cada um deles com a dimensáo total. Meio-Íio, âgua à cntrada do edifício de apartamentos, constrangimento pela presença de
cmpoçada, papel amassado, pontas de cigarro,lixo, estria de veículo, árvo- rrm terceiro no elevador, e alívio na saleta onde uma loura de olheiras imensas
re, folha, sombra, um braço em movimento, uma gargalhada, uma nuca, e voz gÍaye cochila sobre um sofá enrolada em cobertores. Queixa-se de
um cotovelo, sombra, meio rosto assustado. Meu universo é outro. Aceito frio. Diz que já lhe aplicaram a injeçáo. Que sente dores. Mas que está tudo
o caminho da danaçáo. A terrível insinuaçáo em seu mundo pa.rticular e bem. Vá, vâlâparadentro. Ele intercepta-lhe o olhar ao seguir para o cor-
animal do encantamento das palavras. O único, o grande argumento, por redor, e aceita um sorriso de simpatia vindo da penumbta. Eta preciso
ele me humilham e me humilharam. Nunca! Pára junto a uma entrada de redescobrir tudo, redescobrir o valor de um gesto cujo significado se per-
edifício maldizendo a brecha aberta no seu campo de ação pura, movimen- deu há muito tempo e que sempre esteve envolvido em intençóes ambíguas'
to. Se for preciso nega-te uma vez mais ainda, talvez a tua afirmaçáo seja Senta-se na cadeira em que deveria deixar a roupa enquanto a mulher vai
esse destino de constante negaçáo. Aceita os paradoxos. Em um bar, após ao banheiro. Acende um cigarro e observa aâteainterna de pequenos tan-
meia cerveja consegue conversar com o garçâo. Explicalhe que está de vi- ques, roupa estendida, vasos miúdos apertados sobre um peitoril de meio
agem, que tem pouco dinheiro e que tem alguns objetos para vender. Abre metro. Houve um momento em que tudo aquilo perdeu o significado, em
a maleta, separa a pouca roupa e os objetos estritamente necessários ao uso que o ambíguo parecia se definir numa negaçáo e outra afirmaçáo posterior,
e oferece o resto, um amontoado de objetos mais ou menos inúteis, alguns além bem além das barreiras impostas mais por ele mesmo do que pelos
de valor, saldo de uma existência anterior, objetos que deixam inteiramente outros. Por isso sua presença agora era mais ou menos indiferente, fora ao
indefinida a sua condiçáo, uma pequenâ máquina de calcular, um anel de fim da negaçáo, podia regre§sar se houvesse no regresso algum acréscimo à
grau, um revólver, um pequeno estojo de cálices de prata,um jogo de com- sua capacidade de afirmação. Irritada a mulher porque ao regressar do ba-
pâssos de alta precisáo, a máquina de escrever ultraportátil, da espessura de nheiro ainda o encontra sentado, vestido e fumando. Sua resposta é gros-
uma camisa passada e dobrada, e algumas ninharias. O homem examina-as seira, pretende acabar o cigarro, e talvez desista, se achar que isso é
com muita desconfiança, observa-o bem do balcão enquanto cochicha com conveniente. Náo se preocupasse, ela receberia o combinado' Ainda com
o que está na caixa, e deixa entrever uma possibilidade. Os cascos alinha- tiques de contrariedade a mulher senta-se na caÍna e observa-o com des-
dos nas prateleiras evocam-lhe a noçáo de variedade, e dos cascos passa aos dém. Acende um cigarro também e se entrega à espera recostada na cabe-
poucos rostos que se dividem entre mesas e o trecho do balcáo iunto à por- ceira aha dacâma. A tintura dos cabelos é agora visível com dupla iluminaçáo
ta, rostos de uma fealdade incaracterística a sugerir uma luta inconsciente (acendera a lâmpada da mesinha-de-cabeceira), o rosto magro e o queixo
de pequenos imensos apetites. O garção se aproxima e lhe sugere que leve em ponta refletem um abatimento que náo é de privaçóes. Todo o seu cor-
a maleta para junto do lavatório. Ali enquanto ensaboa as mãos recebe a po é anguloso, os braços finos de cotovelos pontiagudos, os seios pequenos
proposta. Quatro mil cruzeiros por tudo. Pouco, muito pouco, mas aceita. e bem equilibrados sobre uma pele que de longe sugeriaum acetinado,
uma
l)cixa os objetos sobre uma mesinha escondida por um anteparo, recebe o perna caída pela borda da camae apoiada no pequeno tapete, e outra do-
rlirrlrciro, pergunta pelo preço da cerveja, mas uma palmada nas costas e t."da com a planta do pé sobre o lençol e o calcanhar quase roçando a
rrrrr liclue cordial dáo a entender que estava tudo certo. Partisse. A mulher nádega. Só a regiáo das coxas e o triângulo de pêlos a ligáJas tinha um as-

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À,t Í

pecto de estofo em contraste com o resto do corpo. Ambos pareciam estar (,uv(' il convcrsa clas duas mulheres. Ainda a febre, ainda a tonteira, não,
ali forçados. Deitado já e entregue ao trabalho de excitação que a mulher n.r( ) (lll('r' colllcr. Daqui a meia hora seu homem deve aparecer, náo, não se
desenvolvia com uma avidez e rapidez espântosas percebe que a seguira ainda
Ir('( )( ul)c. ()lhe cnr volta à procura de uma toalha e enxuga as mãos num
pela necessidade de movimento, e pelo hábito adquirido de levar ao fim r,)u[).r() 1'rcnrluraclo sobre um prego junto ao armário de potes e escovas.
seus impulsos. A pele é de fato acetinada, e a angulosidade de ossos náo é l'rrr;r rl tlescerga, rcsolve molhar o cabelo, passar o pente. Enxuga de novo
hostil ao contato. Irrita de novo a mulher ao reprimir uma farsa de expan- .rr rrri-ros. Ao deixar o corredor já encontra a mulher pronta para sair. Acena
sáo e afeto, mas contém a explosão ao segurá-la com firmeza, imobilizan- .lt' lt'vc pera a que está deitada e segue para o elevador. Vem de viagem? A
do-a quase. Os olhos fundos e o nariz pontiagudo adquirem uma feiçáo de rn:rlt:lrr linda em sua máo, e a primeira pergunta informal, já na despedida.
humildade antes inexistente. À irritaçáo sucede uma quase humilhaçáo e Atc'à vista. Atravessa a rua, contorna o bar, aagênciade automóveis, quase
um amolecimento. No fundo o ato repugnava aos dois. Com as máos ela ('sc()rrcga nos paralelepípedos da ladeira que contorna o edifício da esqui-
lhe envolve o membro e afeiçoando o corpo ao dele em posição não muito nl, scgue pela calçada em direçáo ao mar. O cais antigo que recebia âs res-
cômoda tenta introduzi-lo no vértice inferior do triângulo de sombra. Nes- srrc:rs ainda se alinha fechando a calçada, mas além afaixado aterro àquela
se instante ele gira o corpo e lançando o seu peso sobre o corpo magro es-
Irorrr é uma sucessáo de dunas de mato e lixo, com alguns tubos de esgoto
premido no colcháo cria um corpo duplo e complementar um ao outro. Já ,rlxrrrclonados. Caminha com a serenidade de quem cristalizou todas as an-
não era dono de si mesmo, estava entregue ao seu mundo de evocações e de
liristias. A baía está calma, as luzes do lado de lá bem nítidas, e o letreiro
hábitos nem sempre justificáveis. A miséria de um aro presente mesmo no Irrrninoso à sua frente no topo do edifício que costeia o morro em frente se
instante de prazer, de um ato que lhe fora algumas vezes negado, e outras rlcscnha como uma sucessáo de espadas flamejantes, mas já sem anjos, num
carregado de um acúmulo de contradiçóes, uma carga que se desejaria eli- cúu de noite quente de outono. O inevitável fluxo da reminiscência de quem
minar não com o intuito de santidade, mas de um equilíbrio humano ele- caminha, inevitável como o caminho, que pode ser qualquer um, mas que
mentar. Qualquer palavra que trocassem agora seria supérflua. Nele uma scmpre indica uma direção, um sentido, um transitar de algum lugar para
ponta de inquietação present e iâ no próprio sorriso instantâneo, mecânico, ()utro, ou de um tempo para outro. Na verdade náo sáo bem reminiscên-
nela uma irritação maior por uma entrega além dos limites impostos pela cias, mas um estado permanente de lembrança que desaparece sob o im-
sua condição. Tem-se a impressão de que às vezes esboça um movimento, pacto da ação, e que reflui ao mínimo descuido, ao mínimo repouso, à menor
um gesto que poderia trair uma intimidade ou um desejo de maior aproxi- pausa. Náo sáo bem reminiscências, mas acontecimentos ainda presentes e
mação, talvez agradecimento, mas morde o lábio inferior e acende um ci- que náo esgotaram sua energia em potencial, ainda atllantes, e incrivelmen-
garro. A mão esquerda sobre o friso da cabeceira e sobre a máo, os cabelos te futuros. Apenas o desgosto de conceder-lhes exatamente essa condiçáo
em desordem. A direita apruma o cigarro nos lábios e o movimento de chu- de reminiscência, de tentar revesti-los de uma aura sentimental que se julga
par a fumaça acentua-lhe o rosto de madeira lascada com nervosismo e implícita em tudo que diga respeito a passado, se é que é passado. Até mes-
marcada por algumas pinceladas de tinta negra e vermelha. À pergunta dele mo o ódio ganha em certos momentos essa pátina de um saudosismo lírico.
sobre a outra mulher da sala seus olhos se fecham um pouco, o nariz expele Talvez nem seja o ódio, mas algum pequeno incidente marginal, destituído
fumaça e os lábios se comprimem sobre a ponta do cigarro. Aborto desas- de significado, mas destituído, mesmo, não um pequeno incidente que pos-
trado. Hemorragia. Parece que está fora de perigo. Salta da cama, enfia com sa iluminar num relance todo um comportamento, mas pequeno mesmo, e
prcsteza a roupa de baixo e pede auxílio para abotoar os colchetes das cos- que com a neutralidade de sua Pequenez isola um som, um cheiro, um bri-
tas clo vestido. Desculpe, velho, está na hora. No banheiro, enquanto urina, lho, qualquer coisa que representa uma ligação ao mundo dos objetos, e

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homem mergulhado nos fatos, ou que procurava mergulhar nos fatos, tão
que nem sempre requer um movimento afetivo. Belos prédios alguns, ou-
mergulhado que estava quase identificado com eles, anulado por eles, tão
tros rnais feios, poucas casas espremidas entre as empenas corridas e cerra-
imbricado que eles se desvaneciam e o que permanecia era quase uma abs-
das à espera de outras que se lhes encostem. As janelas iluminadas num
traçáo. De que é feito um homem? De atos? De intençóes? De um passado?
instante simultâneo de acontecimentos familiares conseguem dispor no fun-
Ou de uma ficção criada pelos outros, volúvel como uma sombra de animal
do neutro alguns retângulos de cor sem outra intenção que a de serem sur-
a se deslocar em imprevistos. Ousou um dia pensar numa indiferença total,
preendidos por quem se disponha â procurar naquele amontoado de
que seria uma espécie de comportamento sem limites, aceitas todas as con-
desordem um pouco de regularidade. Era dentro dessa regularidade que
seqüências, uma indiferença a princípio como arma contra a estupidez e
caminhava, no mundo dos objetos propriamente, no mundo de linhas ape-
depois como um modo mais Iargo e calmo de aceitar as coisas, uma indife-
nas, no mundo em que um dia aguardava um nome para comunicar certo
rença como a do objeto que se afirma com a única qualidade fundamental
prazer, mas que agora lhe basta na sua condiçáo concreta de quem nada
de objeto, uma indiferença como o único recurso para sobreviver sem te-
exige, e se oferece com todas as possibilidades da fantasia que lhe queiram
mores infantis. Mas eram esses temores que traspassavam sua couraça e o
emprestar. Porque no fundo deve estar alheio a tudo isso, sereno em sua
I envolviam no redemoinho de fantasias e horrores, e eram esses temores,
posição, de quem é o que é, sem uma consciência para indagar questóes I
quase o afirmava, o sal de uma atividade, de uma coerência apenas vislum-
sobre a própria natureza que oferece a alguém, homem ou animal. Será
I brada, de um recuo diante da muralha cinzenta e espessa do nada. Apenas
rocha, luz, madeira, fio, mata, noite, estrelas, sonho. Deposita a maleta num 1
i

esses temores vinham de outra infância, mais remota, desligada de lembran-


banco e se esparrâma ao lado, de pernas abertas, cigarro na boca e um jeito
moleque que nunca lhe vinha sem uma sombra de dúvida sobre o próprio ças mais ou menos desagradáveis que possam premoldar um futuro. Eram
temores de uma infinidade de infâncias adultas coexistindo na própria for-
jeito, o que equivalia quase sempre a uma anulaçáo. Um velho se senta a seu
mulação de seus temores, em aparência sem justificativa, porque náo tinha
lado e puxa conversa. Irrita-se. Bruscamente pega de novo a maleta e segue
sono, não tinha fome, não tinha problemas, e caminhava por um dos re-
caminho. No momento não tinha intenção de consolar ninguém, nem de
cantos mais belos do mundo. Da infância mesmo, infância infância, o que
ser consolado, e muito menos de ouvir lamúrias sobre solidóes inexistentes.
recuperar? Que valor tem a coragem de uma afirmativa na qual transborda
A prova é que desejava permanecer só, por uma questão elementar de coe-
um ódio irrecuperável e só muito depois tornado consciente? Que dizer de
rência, táo elementar que levou muito tempo para descobri-la, tão elemen-
um homem murado em sua cela quando lhe perguntam por que insiste em
tar como concluir que dois homens que conversam sobre solidáo nâo a
permanecer ali e a sua resposta é a pergunta: haverâ outra coisa além disso
conhecem, eles a destroem ao tentar explicá-la, e nem sequer chegam a
que vocês chamam cela? Se quiser detalhar, encontrará quintais, bananei-
compreender uma outra solidão que geram no mesmo instante em que ini-
ras, mamoeiros, mangueirasrcajazeiras que sempre estiveram presentes, mas
ciam o diálogo. Não tem sono, não tem fome, náo tem apetites sexuais, a
fora daquilo que conduz a uma ligaçáo mais íntima; frases de leitura, Joáo
roupa poderá ser considerada limpa até a tarde do dia seguinte. Náo tem
tem uma bola, a bola é azul, de março a dezembro, as férias no sítio de tio
propriamente problemas, a náo ser todos aqueles que se apresentam a um
homem quando acorda de manhá, sem trabalho, sem futuro, sem afeto, sem Juca. Nunca teve bola azul, não conheceu sítios nem tios com o nome de

rcsponsabilidades e sem ambiçóes, porque as que existiam eram tão gran- Juca. E a palavra paul é uma excrescência em sua imaginaçáoraté hoje. Como
detalhar diante de uns olhos bem-pensantes o avesso de uma infância e suas
rlcs que se esfarinharam ao impacto de uma engrenagem sem mistérios mas
infinitas conseqüências? E o desejo de recuperá-la não como foi, mas como
tt'rrívcl. Não tem sono, náo tem fome, não tem sonhos, e o mistério das
deveria ter sido, e esse desejo em choque com uma gargalhada de conse-
eoisrrs j/r não o interessava mais, naquele momento nem as coisas. Era um

221
220
o5 SEtt soN

lhciro de almas. Por que escarafunchar os resíduos de uma sutil combina- apertam a malcta, e a nuca se lança sobre a travessa do encosto. O quc pro-
curas, meu rapaz? Um homem poderia estar a seu lado, se erguesse a cabcça
ção química à procura de uma centelha de luz que dê uma tintura de azul
no que é dor e recordaçáo de dor? Melhorar o peso de que balança? Eia, e procurasse com os olhos divinatórios de uma prece o perfil esfumado de
cavalga a onda do tempo, firma o corpo na crista, e percorre as reminiscên- um velho. Teria um chapéu ao lado, também sobre o banco e os cabelos
cias de sonhos, como aquele em que uma deusa de uma primitiva infância, ralos e brancos pareceriam esvoaçar ao sabor de uma brisa inexistente' Seu
mas simultânea ao seu agora, se desmandou numa frenética dança e con- único olho visível poderia ser irônico, e a boca ficaiaentreaberta sob uma
torceu o corpo como se uma pedra lançasse um grito ao se ver metamorfo- ruga alegre descendo da aba do nariz até quase o queixo. Perde-se muito
seada em ídolo. Saboreia os terrores de uma presença apenas de ilusáo. tempo à procura de um passado que desejaríamos existisse, mas que nunca
Degusta os rostos mascarados que num subsolo se embebedaYam, retém existiu. Perde-se muito tempo com uma biografia que náo nos agrada. Por
ainda a umidade de pedra de uma escada de serpente nunca vista, ou vista que náo pensar numa biografia de um futuro que no máximo pode ser ilu-
depois numa sineira de igreja inconclusa, liberta-te das tartarugas que fasci- sória e no mínimo uma esperança? Urrra biografia de possibilidades e que
navam num pátio retendo a custo a cabeça sob o casco, e contorna o lago na pior das hipóteses pode nos devolver a nítida visão do nada apenas en-
interminável, o mesmo lago de outros sonhos, e que no primeiro reverbe- ,r.uirto. Nós, os velhos, temos o péssimo hábito de falar em experiência'
rava sob auroras sucessivas, como se nunca se permitisse uma, definitiva, Náo cometerei este erro, meu rapaz. Mas talvez lhe sugira uma experiência
epílogo de todas as madrugadas. E os gatos e os cães, este cão imenso a que existe em você mesmo, que pertence ao futuro, e que basta apenas ser
despertada. Não se espante, meu rapaz, velhos como eu ou prostitutas
que
arreganhar presas de fera e a proteger um corPo desnudo e ctônico; a có-
pula sucessiva de cáes, a casa sombria, o velho escritor que sai do armário discutem filosofia só costumam aparecer nos romances dos velhos russos'
como um personagem de um conto seu não lido, a sarabanda dos moleques E eu náo existo. Já ouviste falar de uma história de um inglês degenerado,
e o espocar da pólvora, e o velho que se debruça sobre uma pedra para exa- que no último instante, ao ser condenado por uma moral que ridiculaúzava
não teve a coragem suficiente de darJhe o verdadeiro nome: moral de
bordel'
minar um monte de cinzas e que nitidamente pronuncia: pareciabrincadei-
ra, mas sáo cinzas humanas! E este outro em que um grupo de avental e Era brilhante, mas quase vazio. Uma história apenas me interessou, e nem
mesmo sei se é dele. Um pescador ao voltar do mar alto foi cercado
por
bisturis afiados se prepara para abrir-te a cabeça, e num tom de súplica pe-
des mais duas horas, duas horas apenas (mais tarde compreenderia o senti- curiosos que lhe pediam histórias. O que viste, meu velho? Vi uma sereia
do bem profundo dessa referência, por estar ligado a um ato grosseiro e linda. Da vez seguinte, o mesmo. O que viste, meu velho? Vi uma sereia lin-
cotidiano, e por isso mesmo muito mais transcendental), enquanto toda a da. Da última vez, de fato, viu uma sereia linda lhe aparecer nas ondas'
Regressou. o que viste, meu velho? Nada, absolutamente nada. Hoje
náo
corte de seres que tinha sido num antes, bem antes, o envolvia numa roda
eufórica e delirante de uma embriaguez de êxtase. Galopa teus sonhos e vi nada. E sumiu. um dia, mgu rapaz, a sereia nos aparece, e é preciso a
revive-os exatamente nessa estrada de asfalto e poeira. Ou entáo retém a todo custo dizermos que nada vi*os. É uma pena. Sem isto muita coisa seria
conhecida, e talvezacreditássemos mais em fantasmas. O velho se ergue
e
visáo de um segundo que te custou anos de trabalho e de esforço. O instan-
ele o acompanha, mas náo como quem acompanha alguém, mas
como quem
tc cm que pela primeiÍavez te deslumbraste com um entardecer metálico
grisa-
tlc unta franja vermelha na crista dos montes e uma chapa rósea se esbatendo acompanha, apenas. Ainda o vê de perfil, um leve esvoaçar de mecha
lha, reminiscência adolescente de impulsos, os olhos se injetam, porém'
Os
cnr r()xo, azul, cinza e noite. Quem sabe desgraçaste tua vida apenas para
c«rrrrpristar csse instante, que nunca mais se repetiu, nem te interessa maiS. olhos como que se lançam a uma torrente impedida pelo corpo. caminha,
Mrrs ó noitc e sua máo está firme sobre um banco de madeira, os joelhos caminha, como um animal que rodopia e se projeta num espaço de nin-

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guóm. Refaz o mesmo ciclo no mesmo ponto, à espera de alguma coisa.
l)c(lucno monte. Entrclaçadas as mãos, os pés em saltos descontrolados,
as
Que nunca virá. Seja este o caminho. No quarto de um sobrado de um tre- cabeças ora jogadas para trás num esgar de êxtase, ora tocando de leve um
cho de rua encravada entre arranha-céus ele lê no centro de uma parede joclho alçado, eis a adoração de um monte de fezes. Chega, meu rapaz. Por
nua o lema do velho: o mundo é um bordel e eu sou uma puta. Eis o meu lrofe basta. Para uma iniciaçáo, para um primeiro dia,iâtiveste bastante. E
lemartapaz. Nada de estantes, nada de livros. Como vê, a cama, o armário, niro precisas mais de mim, nem da parede. Em qualquer canto você verá o
a mesa, duas cadeiras, e a minha frase, meu tema de meditação. É entre ele lcma. Utilize-o. Voltemos. O perfil, um leve esvoaçar de mecha grisalha e o
e a janela que divido meu tempo. Náo sei se agora dá para ver bem, está úrrico olho visível e irônico. Um homem poderia estar a seu lado, se ergues-
meio escuro. Mas durante o dia, e mesmo ao entardecer, o que se vê bem é sc a cabeça e procurasse com os olhos divinatórios de uma prece o perfil
o pátio interno deste sobrado, ou melhor os fundos de um botequim, de csfumado de um velho. É noite e seus joelhos apertam a maleta. É noite, e
um açougue, e os mictórios dos moradores do térreo. Natural.mente chego não por acaso, é preciso que haja noite, é urgente. À noite nos reencontra-
a momentos sublimes, se puderes reprimir a ironia, e me conceder o direito
mos COm OS temgres autênticos, nosSOS, bem noSSos, e à nOite, Só à nOite
a um caminho que vai por baixo, bem por baixo; se me concederes um outro
um grito tem como eco outro grito. Que rumo tomar quando todos os ru-
direito, também, o do lugar-comum, que essa coisa de ir por baixo, bem mos sáo inúteis, todos idênticos, todos excelentes. Deixa a maleta no cháo,
por baixo, jâ estâ meio batida; mas por isso mesmo. Não, náo procure be- ao lado do banco, e ileitaos cotovelos no balcáo do bar. A luz é suficiente
bida, a única que posso oferecer-lhe é água. A janela e o lema, faz de conta para caracterizar um pianista cego e lírico, três homens a discutir negócios
que isto é um templo budista. Desiste de uma história que não ouvirás, his- na mesa do canto, duas mulheres procurando disfarçar com algUns tiques
tória de fatos, objetos, utensflios de que nos despojamos com maior ou menor femininos apetites náo tâo inconfessáveis, um solitário com ar de mistérios
relutância. Fixa-te no lema com a idéia inicial de uma absoluta graruidade. profundos. E duas mulheres que cercam um cinqüentáo iá bêbedo e se es-
E tira as conclusões que mais te convierem. A quietude envolve o quarto forçam em manter-lhe o interesse. Thês doses para o professor! Vem aqui
limpo e arrumado com o rigor de uma perspectiva exata sem sombras. O todas as noites, embebeda-se sempre e uma mulher náo lhe basta. O rupaz
pátio interno é uma mancha escura ferida por algumas linhas de luz. O que lhe renova o copo não consegue prender um tique malicioso, e um vago
mundo é um bordel e eu sou uma puta. A soma de miudezas que nos fazem lampejo de inveja. Ele dá uns pontapés suaves na maleta com o bico do sa-
esquecer o essencial, a série de transigências que nos obrigam a uma conci- pato enquanto desenha no copo gelado rabiscos ao acaso. Tão ao acaso que
liaçáo diária com o deletério, o sórdido, o mesquinho, o interess e até apró- surgem formas nítidas de um aprendizado inútil. Náo, não é a conversa que
pria identificaçáo. Qualquer grito arrasta o deboche, a exigência elementar importa, é o que está acima. O conjunto. O resultado. A fusão de todas as
desperta o último cinismo de um dar de ombros. É o único rumo, a trilha vozes numa só, indistinta, e que dê a sensação de algo distante e próximo,
que resta é a da absoluta indiferença. Ou da dor total, que é simplesmenre de um rumorejar que nada signifique para que acalme. O dedilhar suave no
a impossibilidade de dar dois passos em qualquer direção, porque o primei-
teclado não consegue disfarçar o golpe metálico na corda, e a própria me-
ro ofende e o segundo humilha. A última instância da meditaçáo é uma lodia se desfazde sua carga alambicada e surge como uma tentativa de frase
torrente de palavras desconexas, uma descarga com arigidezde uma lógica não articulada. As duas mulheres estão mais próximas agora. A mais alta
implacável que náo permite entendimento algum, ligaçáo alguma entre a golpeia com freqüência a coxa da outra. O solitário passeia uns olhos dis-
primeira e a segunda palavra. Apenas a torrente, o fluxo de uma compreen- tantes pelos quadros emoldurados e iluminados. E as duas mulheres e o
são além da compreensáo. E uma visáo se ilumina num outro espaço den- professor descarregam uma imensa gargalhada, complemento de uma pia-
tro clo espaço do pátio interno. E uma dança frenética em torno de um da refinadamente pornográfica. Sai do bar e deixa-se ficar de pé na ponta

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HO5

tla calçada, que era indiferente ficar ou seguir. Instantes depois as duas rn('nt(). C)s apartamentos pequenos, era enorme o número de portas, suge-
rnulheres abraçadas ao professor passam diante dele e dobram a esquina ll;lnr r.llll pardieiro um pouco menos regular e um pouco mais sufocante do
scguindo a transversal. Segue-as. O velho embriagado balbucia uma ofensa (luc ils antigas casas de cômodos. Ajudou a abrir a porta com um empurráo
que as duas procuram atenuar. Deve ter havido um mal-entendido. Cada .lt' ornbro, a madeira empenada forçava os marcos e dificultava o giro da
uma explica o caso a seu modo. Mas a teimosia do velho persiste na voz Icclreclura. Suspenso por cordas um varal gotejava os excessos de lençóis
pastosa e no jeito cambaio. A rua agoÍaé mais escura, os postes espaçados, ..'rrclrarcados, uma bacia de alumínio Íazia de ralo junto ao tanque repleto
das janelas dos edifícios pouca luz, que a cidade dorme. Aproxima-se e .lt lranelas e pratos. Atravessou a cozinha de azulejos embaçados e tinta
emparelha seus passos com os do grupo. Depois ultrapassa-o. Quer me t'slirmaçada, apia de mármore escalavrada e o fogão empapado de óleo e
roubar a mulher! Quer me roubar a mulher! Corre! Corre! É moço! Tem Í('r'rugem, dobrou por um pequeno vestíbulo entulhado de bugigangas e
dinheiro! Quer me roubar a mulher! O desgosto fez com que se virasse brus- rlrcgou a uma peça maior dividida no teto por um trilho onde corria uma
camente e encarasse o grupo. As duas mulheres sáo asas disformes de um eortina de pano espesso, esverdeado, com provas de remendos num ou
vaso grotesco. Então é isto? A boca aberta do professor estacou a meio de n()utro ponto. Junto à janela, sobre uma cama de armar antiga, tipo fole,
um palavráo e os olhos rolaram de embriaguez. Ele agora pode acelerar os urrr rnonte vagamente humano respirava. Só então sentiu o cheiro que aba-
passos, com a calma de uma etapa cumprida. Moço, me dê uma ajuda. Havia lrrve o cômodo, e que lhe diminuíaaindamaisas dimensóes. Fedia. Atéagora
estacionado por momentos junto a uma vitrina apagada. Naquele instante ,rirrrla náo lhe expliquei o que eu quero. Náo sei se já percebeu. Mas essa
os objetos imersos em penumbra e mal definidos pela luz difusa do postea- vcllra aí está fedendo como o quê, éirmáde meu sogro, já lhe disse. Minha
mento espaçado lhe despertavam o interesse, como tudo o que era vago. nrtrlhcr e meu sogro viajaram de manhá, coisa de família, e me deixaram o
Moço, me dê uma ajuda. Virou a cabeça. Um tipo baixo, forte, de olhos tlirrbo da velha, que é cega, surda, muda, e que passa o dia trepada nessa
agitados, e um sotaque nordestino melodiando os acentos, agitava os bra- srrrrfona, tem mais de oitenta anos, e que nem incomoda, é só levar comida,
() (prc a gente esquece de vez em quando é levar essa peste pro banheiro,
ços diante dele. Tenho até vergonha, moço, mas até agoÍa náo tive coragem
de pedir ajuda. O senhor de mala náo deve ser daqui, por isso me animo, rlt'sculpa, náo é bem levar, é meter o penico aí embaixo mesmo, que a velha
tenho vergonha não. Náo, não é esmola, isto até me faz rir, me alegra. É \('scrve. Mas não vê que hoje, logo hoje, com os outros viajando, deu-lhe
uma velha, moço, irmá de meu sogro, náo se assuste, é só ajudar acafiegaL rrrrn degringolada, e danou-se a espalhar fedor pra todo lado, que até pen-
Não, não está morta, está viva. Me acompanhe. Embrenharam ainda mais sci clue a velha morria. Depois vi que era nada. E agora preciso só de sua
pelas transversais à rua principal, menos iluminadas ainda, e após alguns ,rjrrcla. É dar banho na velha, e náo tinha quem me ajudasse. Sozinho aqui já

edifícios novos, tomaram a entrada de serviço de um já bem mais velho, ru-ro rne agüentava. Se incomoda? Afastou um prato de abacaxi de cera em

com a fachada meio arruinada no térreo, e mais baixo do que os outros. e irrrir de uma cômoda e depositou a maleta. Olhou o corpo da velha de viés

Havia resquícios de medo nele, mas um medo existente e ultrapassado, um t'nr cima da cama-fole e pediu uma bacia e toalhas. Náo é melhor levar pro
medo que não faz recuag e sim avançar. Retardava, por momentos, seus lxrrrheiro? Náo respondeu. Acendeu um cigarro, ajeitou um cinzeiro no cháo,
passos, para medir melhor o tipo baixo e forte, de pescoço rijo sobre um ;r«r laclo da cama, e ficou com a máo estendida, como se aguardasse o que

tronco magro e musculoso. Quando a meta é a morte, qualquer meta é meta. lr:rvia pedido. Com a primeira toalha espalhou um pouco mais a sujeira e
'lc'rrrer o quê? O elevador rangeu, a cabina balançou um pouco, a porta l;rrrçou-a na bacia quase da cor de mel. Tirou o vestido e deixou-o sobre a
rrrrrornática recuou algumas vezes, borrada de óleo, graxa e incisões de ca- toullra. Tirou a combinaçáo (um fio de renda ainda riscava o debrum sobre
rrivctc, e instantes depois atravessava um pátio de serviço no quinto pavi- ,,s scios e as mangas), e esfregou um pano úmido no corpo disforme. Pediu

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SAMUÊL RAW os sErE soN

álcool e deu massagens. Nova toalha e âguaquente. A pele esponjosa acen- intcriormente mas não assoma à face. Seu olhar fica entre dois, bissetriz dc
tlrava num ou noutro ponto os ossos, e em algumas regióes se adensava em rrnr ângulo formado pelos três. Járnadavê, nada percebe a náo ser uma re-
carne mais rija e esbranquiçada. Um bom defumador, agorare isto até muda côrrdita frustraçáo de uma frustraçáo. E resolve aceitar o jogo, ou melhor
de cara. Ainda viu o tipo baixo riscar o fósforo sobre a espira, quando foi lecilitá-lo. Sim, ele sabe onde fica o orfanato. Se quisessem até poderiam
obrigado a se voltar, estava já de novo na cozinha, pronto para sair sem cvitar esse incômodo, que ele poderia levar o pacote de dinheiro, porque o
despedidas e agradecimentos. O tipo estendeu-lhe uma nota de mil. Pensou doador, numa carta que estava dentro do embrulho pedia aos dirigentes do
em recusar mas um balanço rápido em suas economias, e um desejo de evi- orfanato que devolvessem certa quantia aos portadores, como reembolso
tar maiores explicaçôes impeliram-no a aceitar imediatamente. Na rua ain- pclas despesas. Sabia disso, perfeitamente. Acontece que ele só tinha dois
da pensava no tipo baixo e forte que certamente esperaYa uma recusa, uma contos no bolso. Era suficiente? Com amaletana máo esquerda e um em-
conversa, um gole, outra recusa, e que agoÍa devia estar safado com esse brulho de papel de jornal na direita viu as duas figuras assombradas se des-
tipo esquisito que nem capaz de uma caridade é. Pensou no corpo da velha, pedirem, e de costas ainda percebeu os passos hesitantes dos dois, que náo
e pela primeira vez um esboço de ironia lhe sublinhou os gestos. Altos pen- sabiam se disparavam numa corrida ou continuavam calmamente o cami-
samentos. As neves de outrora. Toma aqui, rapaz, e um grande porre! O nho, unidos pela estupefação e desencanto. Um leve remorso lhes tornava
bêbedo não entendeu bem, aprumou-se junto à banca de iornais e ficou as passadas inseguras. Mas duraria apenas alguns segundos. Seu intuito era
olhando à luz da lâmpada sob o toldo do jornaleiro a nota de mil. Ao com- queimar o embrulho na primeira esquina. Procurou um recanto menos ilu-
passo da mala, e do cigarro, constatou surpreso sua condiçáo de profissio- minado, mas uma patrulha do exército estranharia seu gesto. Segue. No
nal de outra profissáo, de qualquer uma, de nenhuma. Uma gargalhada balcáo de um caÍé náo pôde deixá-lo. Já ia saindo quando ouviu o chama-
irrompeu do estômago e dobrou-se sobre a calçada sem parar. Andava ago- do. Esquecera um embrulho sobre o tampo. E antes que se repetisse a velha
ra como uma geringonça de circo, o corPo miúdo e apertado entre as duas história lança-o numa cesta de papéis próximo à banca de jornais. Seguir à
pernas achatadas de encontro ao cháo, e dois braços enormes se esgalhan- sombra de sentimentos indefinidos com arígida antecipaçáo do vago, im-
do no ar, e regendo os risos. Gritos de janela. Silêncio! Poucos transeuntes preciso, e adensar-se na penumbra de sonhos, sem refletir nunca, nunca refle-
espantados, um gari assustado, dois moleques faíscam palavrões diante do tir. A seu lado um sussurro, e um esvoaçar de cabelos. Apenas. O resto
inesperado. iiaindaem gargalhada que vai aprumando de novo o corpo, e completou-o a imaginação, mas sem resultado. A idéia apenas do velho o
em gargalhada retoma o passo normal de quem caminha, caminha. Dois acompanhava com o seu lema avivado pelo nítido sentimento de uma recu-
tipos cortam-lhe o caminho. O primeiro tem um ieito humilde, o segundo sa inútil. Ele se impunha com a necessidade das coisas primárias, à margem
um aspecto sonso. Aquele fala mansamente, e nada se percebe do que diz, de qualquer especulação. Uma esquina, duas ruas que se cruzam. Qual o
este espia em torno com os olhos mais postos no céu, e uma expressão de caminho? Este, que o passo escolhe e anula hesitaçóes. Algumas casas não
quase bem-aventurança. Vieram de longe. Náo conhecem a cidade. Ele se velhas envelhecidas pelos edifícios incompletos, com as casinholas de força
fixa nos dentes cariados e tintos de fumo do que fala. Magro, baixo, de ainda erguidas junto ao meio-fio, e a rede de fios provisórios maculando as
ombros descaindo sob um paletó um pouco mais largo, a camisa um pouco proporçóes de mármores e vidros. O encontro do asfalto com os paralele-
dobrada sobre as calças, a cabeça pequena e um ralo bigode junto aos can- pípedos das transversais. Uma quietação maior de ruas mais desertas com
tos dos lábios. Procuravam um orfanato, e tinham um embrulho de dinhei- seus cães inevitáveis. O latido e a modulação sólida de brancos em fundo
ro, oferta de uma alma caridosa do interior, mas não sabiam chegar lá. Nesse negro, o grito puro de ódio ou desejo. Acompanhando calçadas e copas o
nlomento deixa de perceber o que dizem. Uma onda irônica percorre-o ronco de um motor gera seu fuso de ruído e se desfaz no rastro de uma ruir

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aincla longa para ele. Mas não está só. Uma vibraçáo se faz presente, vinda rlt'nl;lnrrCri. Você gosta de pão? O prirnciro sorriso no rosto tenso, um hal«l
cla outra calçada. Mais alguém perfazia a mesma trilha, e há tempos fá que ,lt'irrí:irrcirr a qucbrar a dureza de maxilares comprimidos e de têmporas
, rrrrlrrlrrrrtcs. Eu trabalho numa padaria, mas náo ali.
dcvia acompanháJo. Mas só agora o admitiu nas suas possibilidades. Só Você trabalha no birl-
agora lhe concedeu o direito de invadir os domínios de sua clausura. Ao (.r()/ Ni.io, cu faço o páo. o forno às vezes me queima as máos, você está
girar acabeça já encontrou o outro à sua espera, como se nada mais fizesse r,'rrtb? Ainda usam um velho forno de lenha. Essa aí não, essa aí eu acho
a não ser aguardar o momento em que responderia ao seu apelo tenso e r;rrt' j:i tlcve ter uns bem modernos, elétricos. Visitei uma, uma ver.iiu u
náo formulado. A mirada parecia trazeÍ em si um assentimento, pois foi o lrrrrPcza que dá gosto. Mas na outra estou bem, não vou sair só por causa
. k r lorrro elétrico. Um correr de casas deixa entrever num ou noutro ponto
suficiente para que o outro atravessasse a rua e se encaminhasse diretamen-
te para ele, sem que nenhum dos dois parasse por momentos. Continuaram rrrrrrr luz vinda bem do interior, uma sugestáo apenas emitida de um possí-

ainda caminhando lado a lado numa tâcitaafirmaçáo de solidariedade que vt'l uconchego. Tâmbém ele sente necessidade de uma pausa, e no silêncio
poderia ser até a do crime. A palavra luta adquiriraparaele, com o tempo, (ilr(: os distancia, novamente um feixe retesado se encordoa a seu lado e
um significado dilatado, que incluía até mesmo o mais primitivo. Mas em rrrcrgr.rlha as difíceis palavras a serem pronunciadas num molde de aço e
poucos instantes verificou que o rumo era inteiramente diverso do que lhe ,lrrrrrrbo a descer cadavez mais até um centro diminuto, prenúncio de uma
ia traçando o seu temor, existente, mas nem por isso evitado. O rosto ma- t'r1rlr>são. Até onde iria? Aceita a sugestáo de procurarem um pequeno ho-

gro e tenso, os olhos dilatados, a cabeça levemente inclinada para a frente Icl, rruma travessa. Conhecia o porteiro, morou algum tempo junto à pada-
cedendo um mínimo ao esforço interno tremendo, o corpo de estatura média crn que trabalhava. Conheciam-se bem. E náo devia ser caro, ele podia
'i:r
arrastado com uma energia só possível pela cadência enérgica de pernas t)lrUar o hotel? Podia. Depois da história do pacote ainda lhe
ficou algum
apenas músculos, e as palavras enredadas numa trama anterior à articula- s;rlrlo no bolso. Náo sabia exatamente quanto, mas sobrou. Dobram à es-
,;rrcrcla, casaróes antigos váo aparecendo com o aspecto de cabeça-de-por-
çáo, imobilizadas por uma determinaçáo desconhecida dele próprio, encer-
radas em um núcleo alheio a qualquer exigência moral. A dor na própria .'«r, c alguns até abandonados. Muros em ruínas, e alguns tapumes já
intenção do gesto. Podia acompanhá-lo agora aliviado na sua malha larga Prcrrunciando demolição futura. Atravessam a rua, encontram o portão de
da indiferença. Em seu caminho conhecera todas as variantes de uma de- lcrro apenas encostado, uma vegetaçáo desordenada domina o que iáfora
formação, daface cínica ao ascetismo, cinismo e reclusáo que nada tinham j,rclim, e sobem os cinco degraus de ferro até uma varanda lateral. A única
a ver com a deformaçáo, exigências de outros propósitos de uma natttÍeza Itr. é a do pé da escada onde um porteiro cochila numa cama de armar. Os
um pouco mais complexa que um julgamento primário, em si complexo l)irssos despertam-no, e ao avistar o amigo estende-lhe uma chave. Você pode
também. Reviu o turbilhão de faces em penumbra, em risos, em esgares, l)ilgar agora, eles cobram adiantado. Continuam pela varanda, descem cin-
em prantos, em ásperos sarcasmos e deteriorações obscenas. Natureza equí- co degraus, e de novo enrre grama e arbustos, por uma alameda de placas
voca? Onde o equívoco? Afasta a ironia e o sarcasmo implícitos em sua ,lc pedra vão dar num correr de portas de uma meia-água encostada ao muro
própria compreensão e na tentativa de prolongar um diálogo suspenso. Já rlos fundos. Tâmbém ali não hâluz. O quarto náo tem dois metros de largu-
deve ser tarde! É, é b.* tarde. Um trecho de calçada em reforma obriga-os rrr. Uma cama junto à parede longirudinal, com a cabeceira baixa a um metro

rl procurarem o meio da rua. Engraçado, isto hoje até parece domingo! É, tlc uma janela de folha única e maciça, que o outro trata logo de fechar com
rnas não é domingo. Deve ser o silêncio! É, é o silêncio. Regressam à calça- () trinco. Ele senta-se numa cadeira, a única, logo além da porta. O amarelo

«le. Aquilo ali embaixo, o que é, ali naquele letreiro? É uma padaria. Ah, rle pintura tem manchas de umidade em toda volta, e o fio da lâmpada,
rrrrre çradaria! É, uma padaria, e está fechada. Uma cerca de fícus, um galho vindo de fora por um buraco acima da porta, está preso por um grâmpo ao

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teto. A lâmpada oscila ainda, pois o movimento da porta fez vibrar a insta- ,lr.rpirrlrrram pela encosta até se perder junto à linha de água. À dircite
lação. Já vira outros piores. Alheio ainda à própria presença ali dentro prell- rrrrr.r colina se destacava num fundo mais denso de uma cadeia maior. Pa-
dia-o uma quietude e ulna certa umidade de capim e folhas. Definir r ('( i:r nrcrgulhado num pequeno vale, cercado de montes, com um riacho

exatamente os sentimentos ao ver o outro já sem roupa, apenas de cuecas, It'titlo a lhe correr aos pés. Evitando as moitas e as poças dágua acompa-
ser-lhe-ia uma tarefatáo longa que significaria uma nova ausência ali; e queria rrlrorr com cuidado a picada até divisar a praia. Viu-se só, parado junto à
estar presente. Precisava estar presente para vislumbrar uma pequena aber- crrcosta da colina que o levaria quase ao paredáo de pedra que descia para
tura no que era mistério, náusea, repugnância e estigma. O dorso flácido, o () nrrrr. Na outra direção aágua obrigara a vegetação a encurvar-se, e as
jeito risonho e ao mesmo tempo amedrontado, nos olhos um náo levar-a- tt'llrrrs novas de solares reverberavam ao luar. Um cáo ladrou furiosamen-
sério o próprio riso de uma satisfaçáo em perspectiva. Encara-o e seu modo tc. O que é que está vendo, meu velho? Enfiada num capote fino, escuro,
apático ainda o desequilibra mais. Aproxima-se, tenta envolvê-lo com os rrrrr riso irônico, firmemente desenhado no rosto magro e alongado, a
braços numa excitaçáo que lhe parecia necessária. Ele se ergue e fica a olhar rrrulher o desafiava com decisão. Ainda olhava bem em frente, náo chega-
pela janela fechada. Fuma. Ao se virar iâ o outro está deitado com uma rr a descer os olhos para os olhos da mulher, como o Íaria depois, e veria
expressáo de funda agonia no rosto. Náo chegou a pedir explicações, e sem (prc eram grandes e castanhos, e que mesmo na penumbra, a pele era quei-
que fosse solicitado principiou uma história náo muito diferente da de uma rueda e seca. Náo, náo se assuste, eu não sou puta nem estou interessada
puta. Ele se senta novamente e acompanha a conversa com uma palavra ('nr trepar, pode ficar à vontade, ou se isso alteraseus planos, se o decep-
solta, mas suficiente parugaÍantir uma ligaçáo. Entendiam-se. A voz do outro ciona, vá embora. Mas se quiser ficar eu poderei lhe falar de um Código
era funda, podia-se ouvir quase o ar fazendo esforço nagaÍganta, e o acen- tla Solidão. Algum dia jâlhe falaram nisso? Tenho a impressão que náo, é
to melancólico inevitável. O silêncio depois foi prolongado e quando se rrrna coisa ainda náo estabelecida, existe de um modo imanente em todos
ergueu da cadeira e apertou-lhe a mão em despedida, viu nos olhos súplica rrós, alguns o desenvolvem bem, mas não creio que alguém lhe tenha dado
táo intensa que não se conteve. Abaixou o corpo e beijou-o. O outro nem e forma concreta, que alguém tenha estabelecido, aliás não é bem estabe-
sequer se moveu, e quando ergueu a cabeça e no instante de abrir a Porta lccer, mas captaÍ as normas existentes e implícitas, se se quer continuar;
ainda se virou, viu dois olhos úmidos, apenas úmidos se deslocarem para a clevo lhe dizer que náo tenho o mínimo interesse em ser compreendida. A
parede (a cama de armar estayavazia, e náo havia sinal de porteiro), desceu primeira norma é: por favor, náo me ajude! A segunda, todas as coisas
os degraus e pouco depois viu-se na rua novamente. Foi longo o percurso podem me acontecer, e o meu medo é apenas o medo da morte: se puser
até reencontrar as ágUas da baía. Sem rumo certo orientava-se apenas pelo a morte como meta final, nada mais me amedronta. Posso resumi-lo: não
vento e pelo que lhe parecia ser o rumo daâgaa. Eram longas as ruas, quase aceite a opressão moral do que lhe é impingido de dentro ou de fora.
todas mal iluminadas, e à exceção de alguns bares ainda abertos, tudo dor- Quanto ao seu dia, é uma sucessão de rituais necessários ao fluir do tem-
mia. Por onde andava? A insistência que punha nos Passos transmutava as po. Claro, eu SOU uma anormal. É evidente. Mas o que quer que eu faça?
casas e os aspectos em torno. Com dificuldade contornou o monte junto ao Eu já lhe disse, eu sou anormal. E ainda por cima tive a felicidade, ou in-
rio, e localizou uma picada em meio à vegetação. As casas escasseavam, e felicidade, de conseguir alguma instrução, o que me permite viver razoa-
ainda assim, aninhavam-se nos fundos de pomares. Somente a luz da lua velmente com pouco trabalho. Tenho muito ócio à minha disposição, e
lhe clareava o caminho, e permitia divisar à esquerda a linha de morros, ócio suficiente para saber que sou necessária, uma espécie de contrapeso
irregular, até um ponto em que bruscamente se erguia, pontão de pedra re- à existência normal. O diabo é que é impossível falar nisso aos outros; se
cortado num céu claro de estrelas. Os ratos de uma cerca assustaram-Se e eles ao menos se considerassem um contrapeso de nossa existência. Ainda

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náo formulei o Código inteiramente, há uma quarta norma que ainda não
.r rrrrr. Azeda a maçã. Jogou fora as rcstantcs e embrenhou pela transvcr-
s.rl, na direçáo oposta à do bonde que vinha descendo. Parou à esqucrda
cheguei a precisar, refere-se à palavra e ao silêncio. Se fosse possívcl cli-
rl:r csteção de passageiros das lanchas que atravessavam abaía. Prendeu a
minar a palavra, a mentada e a falada. Seríamos objetos, viveríamos nurrr
rrr.rlcta entre os pés, e apoiou os cotovelos sobre a amurada. A bruma ao
mundo apenas de acontecimentos, e todos estritamente necessários. Re-
l, rrrgc náo deixava ver o outro lado, e algumas nuvens iam-se compactando
duziríamos a nossa inteligência ao Íazer, e ao raciocínio destituído de vo-
rr«r fundo dabaía, mancha cinza esbranquiçada na cor indefinida do céu.
cábulos, que estaria implicitamente ligado à açáo. Até logo, meu velho, já
paguei o meu tributo hoje ao deus da palavra, vá andando, eu fico por
tlrreiii!!!A negra saltou do bar desenhando o grito. As máos na cabeça,
rrllu, as pernas afastadas, manchadas de estampado do colo aos joelhos,
aqui. Esses homens que soldam trilhos à noite me atraem, e eu gosto de
surrs ancas enormes escondiam dois vultos agarrados na soleira. Outro
ver a chama dos maçaricos. Um idiota de um psicanalista já tentou me
explicar que isso é simbólico, e náo sei mais o quê. Tenho a impressáo de 1',rito, o suficiente para darJhe impulso e as coxas fortes se alternaram
:rccleradas em direçáo ao centro da praça. A luta era clara. Um negro e
que ele nunca viu um maçarico funcionando de madrugada,Yâ embora,
rrrrr louro, ambos magros, nervosos, se olhavam agota a pequena distân-
vá andando. Ainda perturbado seguiu, atravessou a rua, e de longe, en-
cie, agachados, as máos estendidas e as pernas distanciadas em elástico
costado a um muro, ficou observando o grupo no trabalho, e a mulher. As
c.1uilíbrio. O louro desferiu a perna esquerda e lançou-se ao cháo, rodo-
máos enfiadas nos bolsos do casaco aberto, a cabeça meio baixa atenta ao
piando, apoiando sobre as duas palmas abertas. O bico do sapato não
trabalho, era o que conseguia ver. Quando a chama se voltava para o seu
clregou a roçar a Íace do outro, que apenas movia o corpo, sem deslocar
lado, e as faíscas se tornavam mais intensas, conseguiu ver-lhe o rosto
rrs pernas. Evitou alguns assaltos até irritar-se e assestar a sola do sapato
endurecido e as covas da face. Talveztivesse razâo. Peso e contrapeso num
rro peito do louro derrubando-o. Quando parecia que ia revidar, já meio
halo de madrugada, entre dormentes, torqueses, e uma pura especulaçáo.
crguido, jogou o corpo paÍa a esquerda e abalou corrida pela calçada ao
Produtos ambos de que decadências, quedas? Chegou à praia, completan-
longo da amurada. Ele náo teve tempo de se esquivar, e rodopiou ao ras-
do o ciclo. Já passara por esse ponto. No bar da esquina os motoristas de
pão violento do louro. Antes de cair ainda viu o negro correr, mas náo
táxi tomavam cerveja, e um grupo de cáqui entrava no galpão de bondes.
atrás do louro; ia ao encontro da mulher que o esperava debaixo do via-
Ia atravessar a pista que separa a linha de edifícios do parque fronteiro,
duto, junto a um pilar. Está ferido? Um rosto redondo encimado por uma
quando um caminhão de feira o fez recuar. A freada brusca despejou dois
cabeleira grisalha e umas feiçóes de maturidade serena se dobrou sobre
tabuleiros e um cavalete. Já. do outro lado, procurando a segunda pista,
sua cabeça. Sem responder moveu o corpo e ergueu-se lentamente. Sua
recebeu pelas costas os palavrões do ajudante que recolhia a madeira
sensaçáo era de qualquer coisa desengonçada. A queda fora brusca e to-
estilhaçada. Na última pista conseguiuf.azer parar um ônibus. Poucos pas-
clos os músculos pareciam doer. Erguido é que percebe a mânga do paletó
sageiros. Um mulato magro bocejava ao lado de um violão encapado. Uma
ralada e manchada, mas de leve. Vamos até lâ em casa, é melhor lavar isso.
velha se agaÍÍayaa um embrulho sobre os joelhos. Dois soldados riam no
Ergueu a maleta e acompanhou o homem na mesma direçáo em que o
último banco. O trocador abriu o nó da gravata antes de lhe entregar a
louro havia corrido. Contornaram a prâça e enviesaram pela rua larga de-
ficha. Equilibrou-se no corredor; ao chegar à curva o carro acelerou ain-
pois do viaduto. Dali entraram em uma transversal estreita e comprida.
da mais. Saltou no que devia ser o centro, quando viu um tabuleiro de
Essas cenas de madrugada sáo freqüentes. Às ,ezes mais violentas. Isto
maçás. A gorda se ergueu, ajeitou num caixote forrado por cima da solei-
até parece um porto em miniatura, com todo o movimento e a desordem
ra da tabacaria fechada a criança, e despejou quatro num saco de papel.
que dá um gosto de aventura, e que encontramos táo bem em certos li-
E,rrquanto mastigava recebeu os respingos do carro-tanque que salpicava

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23s
vros. O homem falava mansamente, e de um jeito pausado, como sc sor- rr'', ('.r(('n(lc um cigarro. Parece tcr prcfcrência em soltar fumaça pclo
vesse com delícia suas próprias observaçóes. Àquela hora os sobraclos , rr/, \('nr tirrrr o cigarro dos lábios rctcsados. Náo lhe ouviu uma pala-
pareciam todos iguais, e o correr de portas de aço, entremeadas por algu- \ r,r
( .orrr urn rrccÍlo de cabeça retirou-se para o quarto novamente. Se
mas de madeira, fazia pensar no movimento diurno, que devia ser inten- 'lrr.,('r ,lorrrrir um pouco, tenho aí este sofá. O homem tirou de uma cô-
so. Adianta-se, abre com uma chave uma dessas portas de madeira, e rrr,,,l.r lur'r lcnçol e uma colcha e estendeu-os por cima do estampado do
convida-o a acompanhá-lo pela escada já iluminada. Depois do primeiro r ,,r.to. l)cpois pediu licença, foi ao banheiro, voltou com chinelos e um

lance um patamar, outro lance e um corredor escuro apesar daluzacesa. r ,uP.r( ) rlobrado sobre o braço, e entrou no quarto. Estirado no sofá mi-

Viu-se no interior de pequeno apartamento, no centro de uma sala que r,n,.r .rs cstrias de luz projetadas pelos postes externos. Havia improvisado
devia ser de jantar, escritório, biblioteca, e de onde se viam a cozinha e o rrrrr.r rrrcs:l-de-cabeceira com um banco de cozinha e para ali levara o cin-
banheiro. Uma porta fechada devia conduzir aum outro cômodo. Minha rrrro. Niro retenhas o movimento que se esboça com uma vibração nas
mulher deve estar dormindo, já se habituou a meus horários. Aceitou a lr{'r nils, c que sacode o corpo antes de se instalar num gesto ofegante de
toalha, e lavou o braço. Apenas a pele fora arranhada e o sangue, pouco, lr( )( ir (lue implora sem saber o quê. Não espantes os fiapos de sombra que
já coagulado, principiava a despontar de novo. Encontrou no armário um r(' .urcrlçam o olhar num prenúncio de terror, mas tão antigo, que nem o
vidro de álcool e um menor de iodo. Mudou de camisa, dobrando na maleta r,'.,,rrlrcces. Deixa fluir o ódio como fluem as águas ou os ventos, que a
a que usara até agoÍa. o senhor escreve? Sua atençáo estava voltada para .,u.r nrrtureza é idêntica. Aceita os objetos que te envolvem semi-ilumina-

umas folhas datilografadas espalhadas pela poltrona e por uma máquina ,l, rs c rrão lhes recuses a hostilidade inevitável. Retém, retém a todo custo
encapada sobre uma mesinha de canto. Preparo um livro, mas falta ainda ,'.,st'grito quase formulado, e deixa-o expandir-se nos dedos crispados que
muita coisa. As questóes sociais me preocupam e isso que você está vendo .rnr:rrfanham o lençol. E segue, segue após um estertor que poderia ser de
aí sáo subsídios para a história daReuoluçilo dos Canjicas. Já ouviu falar ilr()rlc, segue as ruas com todas as superposições do que foi e que seguem
nela? Gostaria de fazer um romance com esse material, mas é táo difícil. r,rrtigo à tua revelia. Aceita o ectoplasma de uma estupidez concentrada
Porque o românce deveria ser um retrâto fiel dos acontecimentos além de r;rrc te cinge o corpo mais tenso do que um espartilho. Acordou às sete e
conduzir o leitor paÍa a lição da História, além de reproduzir fielmente a rrrt'ia com o barulho da louça na mesa. O homem que saía do banheiro
realidade. Jâviajei por toda aregiâo, fiz um levantamento sócio-econô- ;r,'tliu-lhe desculpas pelo ruído, enquanto a mulher com um cigarro espe-
mico da época, alinhei os costumes, mas alguns detalhes ainda me faltam. r;rtlo nos lábios, e o mesmo roupáo punha o café e o leite sobre os descan-
A figura do Canjica está meio yaga, e você não acha que como persona- de madeira. Deram-lhe uma toalha. Após o banho acompanhou-os no
',,s
gem de romance deve ser bem delineado, integrado no contexto históri- t'rrl-ó, e náo pôde fugir a algumas perguntas. Estava sem trabalho, e náo
co? Há por aíuma ficçáo de fantasmas, de gente sem nome, de personagens ,'re dali. Náo, náo tinha aptidóes especiais. Desceu junto com o homem, e
sem passado, fantasmas mesmo, náo entendo como se possa dar valor a rlcixou a maleta ao lado do sofá. Depois a apanharia. Entraram na loja de
coisas desta natureza. Me parecem vastos produtos de uma decadência, lxrixo, com uma porta entreaberta, e o homem aproximou-se de um tipo
tão irreais. Ele apenas ouvia, sentado numa poltrona com um copo de água lxrixo, gordo, calvo, de barriga bem avantajada. Enquanto os dois conver-
na máo. A porta do quarto se abre e o rosto estremunhado da mulher savam ficou a espiar pelas prateleiras as peças de tecido bem ordenadas. A
aparece. Os cabelos amarrados em papelotes, o roupão ajustado demais Ioja era estreita. Compunha-se de quatro seçóes bem alongadas. As prate-
na pressa. o homem explica â presença do outro. A mulher atravessa a lciras, o espaço entre as prateleiras e o balcáo, o balcão, e o espaço entre
srrlrr c vai à cozinha. Volta com uma garrafa térmica, serve café para os o lralcáo e a parede oposta, espaço ainda diminuído junto à entrada pela

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cscada que ia aos dois pavimentos de cima. Você pode ficar trabalhando dc que náo dava para aquilo, que além do mais tinha uma visita urgcntc a
aqui por uns dias até que se veja coisa melhor. Há um hotel barato na fazcr à sua avozinha que estava à morte, e que, portanto, gostaria que Ihe
outra rua, paralela a esta, deve servir também como coisa provisória. À pâgasse o que julgasse suficiente pelo seu inútil trabalho de meio dia. Certo
rroite conversamos, náo deixe de me procurar. Viu-o sair pela porta a9ora não estava na ordem das coisas da face gorda uma resposta como a sua a
jâ abertade todo, no mesmo instante em que um outro empregado fazia tudo aquilo que acabara de ouvir. No mínimo violara alguma coisa de muito
correr com um impulso a porta de aço. Para surpresa dos demais, e con- irrraigado, algo de táo sólido que todos os movimentos labiais e guturais
siderando a nenhuma experiência no ramo, trabalhou bem até a hora do rcpresentavam apenas uma síntese esmerada. Houve um certo rubor em
almoço. Na verdade não compreendia o espanto. As peças enroladas tra- que não quis ver indignaçáo, mas sim espanto, ingenuidade. Mas o con-
ziam etiquetas com todas as informaçóes necessárias, desde as variadas trole veio logo. Recolheu numa gavetàas notas de venda assinadas por ele
larguras, a qualidade , até o preço. A reação dos outros chegou-lhe apenas clurante a manhá, fez uns rabiscos num bloco de rascunho ao lado da re-
pelos comentários ouvidos, já que se limitou a responder com monossílabos gistradora, e estendeu-lhe três notas de um conto. O que até certo ponto
vagos a uma ou outra pergunta. lâ iam fechar para o almoço, apenas o o espantou. Não esperayatanto. Ou devia ver nisso um gesto magnânimo
tipo gordo e calvo se mantinha junto à caixa, quando ele entrou vindo e lhe provar que as perspectivas eram ótimas, e que estava em tempo ain-
dos fundos, do banheiro. Aproximou-se, pediu licença, e viu que o que cla de voltar atrás, e reconhecer a justeza do que ouvira? Ou a necessidade
tinha náo dava bem para uma refeiçáo. O rosto espantado e gordo não se absoluta do calvo de mostrar a si mesmo que estava certo? Em qualquer
movia, apenas estava atento. Repetiu o pedido, com explicações sobre o rlas hipóteses agradeceu com um gesto cortês, e iâ de posse da maleta, e
quarto de hotel que deveria tomar, a refeiçáo, e algumas miudezas urgen- tle novo na rua, pôde ver que um sol forte banhara os sobrados, e que
tes a comprar. Náo compreendeu bem a resposta, ou não quis compreen- rpesar da estreiteza da pista, não havia sombras. Parou junto ao quartei-
der. O rosto principiou a denotar movimento, as órbitas se fechavam e ráo de um mercado de flores pela umidade que existia em torno. E en-
abriam em harmonia com os lábios, e as faces se dilatavam ou retraíam quanto olhava à toa, as flores nunca o interessaram, sentiu uma presença
enrugando e alisando a testa que adentrava pela calva até se perder no l seu lado. Vamos em bom caminho. O velho sorria-lhe com malícia. Ao
que para ele era o horizonte do crânio. Sentimento. Família. Estabilidade. st;l seu rosto enrugado tinha um aspecto mais saudável, e os tufos de ca-
Honra. Dignidade. Correçáo. PareciaJhe que daquilo que o outro articu- bclo esbranquecido um brilho vivo. Parece-me boa agoraa oportunidade
lava algumas palavras se destacavam, e junto com as palavras, ou dentro rlc contar-lhe mais uma história. Gosto de contar histórias. Essa náo sei
das palavras, uma gradação de tons do cavo ao agudo. Naturalmente ha- (lucm me contou, náo sei se li em algum lugar, ou eu mesmo inventei em
via pausas, pequenos silêncios, em que af.ace se punha imóvel e os lábios rninhas horas de ócio. Um tipo foi à procura de emprego, e por indicaçáo
se colavam desvincando as bochechas. Mas logo se entreabriam e da gar rcnlota chegou a uma bela residência situada no centro de um parque. Foi
ganta um sopro atingia os lábios a1ora ovalados que deixavam entrever bcm recebido, uma velha de aspecto mais que distinto acertou com ele os
apenas apaÍte inferior dos incisivos superiores, perfeitos, artificiais. Mas rlctalhes. O serviço era um misto de contabilidade e secretaria, e exigia o
logo se abrandavam e explodiam em pequenos contatos que provocavam c«rnhecimento de duas ou três línguas, náo muito profundo, mas o sufici-
gotas de saliva minúsculas. Houve outra pausa, e quando lhe pareceu que (.rrlc para uma correspondência estritamente comercial. Deveria ficar sem-
o rosto serenava novamente, e que havia até um ar de prazet pelos movi l)rc cm um pequeno gabinete no térreo, e sair sempre à uma da tarde.
mentos escrupulosamente desenvolvidos, pronunciou com a maior clare- (lrretro horas de trabalho, apenas. Queria referências e fez observaçóes
za possível que não queria continuar no trabalho, que chegou à conclusão precisas sobre os valores a respeitar, principalmente morais. Uma semana

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depois o nosso amigo estava novamente desempregado. Esquecera un-ra (f rrerrtltl a cltama se voltava para o seu lado, e as faíscas se tornâviurr rrreis
pasta de documentos pessoais no gabinete e resolveu procurá-la às novc irrtcrrsr.rs, conseguiu ver-lhe o rosto endurecido e as covas da face. No lrer
horas da noite. Nesse dia descobriu que trabalhava num hotel. A garga- (l:l csquina os motoristas do ponto de táxi tomavam cerveja, e um gnlp()
lhada presa do velho irritou-o um pouco e pôs-se a caminho. Mas o velho tlc crirlrri cntrava no galpão de bondes. É empurrado violentam ente c Ícz
o acompanhava agora em silêncio. Desceram a rlta) agora com as portâs rrrrr crrnrinhão de fcira frear bruscamente, causando a queda de dois tabu-
cerradas novâmente e as latas de lixo à porta das escadas começaram a lciros c urn crrvalcte. Voltou-se e não compreendeu as risadas de satisfa-
aparecer. Meninos cruzavam o caminho distraídos. um cheiro forte de çi. tl, lr.rrrcrrz.inho gordo e alourado. Batia com as máos, dava pulinhos,
comida, de alho principalmente, enchia o espaço. sentou-se à mesa de um ('e()nr trrrr I'ioz.irrlro devoz repetia queijo, queijo, queijo. Aproximou-se e
restaurante pequeno, estaya só de novo, e partiu a rodela de pão num prato rr Íigrrrirrlrrr . rlcteve à distância de um braço estendido. E o fiozinho de
à sua frente. comeu as abóboras, e a carne moída, a berinjela e um doce v.z. rrrtlcrr«ru. Diga: afaca e o garfo. Ele olhou sem compreender, mas
enjoativo de tanto mel. um peso nos olhos lembrou-lhe a noite maldor- r('nr()rr rrrricular. Pronunciou: o faco e a gaúa. A figurinha rechonchuda
mida, e esta lembrança despertou algumas dores do tombo. Lembrou-se t'xPl.rlir,urna gargalhada cascateante, os bracinhos se agarraram à bar-
da recomendação do homem que o acolhera, e foi em direção ao hotel na r r,',ir (' r'.tl«rpiou sobre um pezinho delicado, apoio miraculoso que mais

rua vizinha. Alguns cômodos ajeitados em cima de uma casa de ferragem. f


).ilt'tr:r l)ontadepião. ofaco eagarfa. ofaco eagarfa. ofaco eagarÍa.
Perguntaram-lhe se queria quarto com ou sem janela. Respondeu que de l'rr,;rrrrrto o piáo rodopiava ele ia repetindo, repetindo, até que os lábios
preferência com janela, se a diferença náo era grande. Não era. Deram- ',t' rrrr«rbilizaram num grunhido. Deu as costas à figurinha rechonchuda e
lhe um quarto pequeno com uma janela aberta para o pátio interno, co- Irer rrr de frente paÍaarua. Um caminháo de feira se aproximava. o bracinho
bertura do térreo, e uma cama jâdeformada. o estrado de molas cedera llrurhou energia e empurrou-o violentamente. Ouviu aÍreadae o estilha-
tanto que o corpo teria que se acomodar numa espécie de bacia. Encon- çar de madeira no asfalto. Acordou com estardalhaço no corredor. O pá-
trou junto à pia uma toalha de rosto e mergulhou a cabeça debaixo da tio antes ensolarado coava uma penumbra crepuscular. Entreabriu a porta
torneira. Deitou-se embriagado pelo calor que sucedeu ao despertar da c viu um aglomerado diante de outro quarto com a porta arrombada, dois
âgua fria. E sonhou. se fosse possível eliminar a palavra, a mentada e a policiais, empregados do hotel, e alguns homens engravatados, de cha-
falada. seríamos objetos, viveríamos num mundo apenas de acontecimen- péu. Ainda viu o reflexo de uma lâmpada de fotógrafo no corredor. Fla-
tos, e todos estritamente necessários. Reduziríamos a nossa inteligência grante de adultério, sussurrou-lhe o empregado que o atendera, e que vinha
ao fazer, e ao raciocínio destituído de vocábulos, que estaria implicita- se juntar ao grupo. Fechou a porta, e deitou-se novamente. Náo tinha o
mente ligado à ação. Até logo, meu velho, já paguei o meu tributo hoje ao mínimo interesse em ver a dignidade tão bravamente defendida e docu-
deus da palavra, vá andando, eu fico por aqui. Esses homens que soldam mentada. Não conseguiu reatar o sono, mas teve suficiente equilíbrio para
trilhos à noite me atraem, e eu gosto de ver a chama dos maçaricos. um ocupar-se com uma série de coisas inúteis, e manter-se inteiramente alheado
idiota de um psicanalista já tentou me explicar que isso é simbólico, e não aos incidentes do corredor, até que pressentiu calma novamente. Então
sei mais o quê. Tenho a impressáo de que ele nunca viu um maçarico fun- resolveu sonhar ainda uma vez. Junto a uma banca de jornais um agrupa-
cionando de madrugada.Yáembora, vá andando. Ainda perturbado se- mento. Do interior das lojas vinha gente alinhar-se na calçada. um policial
guiu, atravessou a rua, e de longe encostado a um muro ficou observando segurava um bicheiro, enquanto outro examinava blocos e cadernos reti-
o grupo no trabalho, e a mulher. As mãos enfiadas nos bolsos do casaco rados de seus bolsos. Camisa de seda, calça de boca estreita, chinelos, uma
abcrto, a cabeça meio baixa atenta ao trabalho, erâ o que conseguia ver. imagem de Sáo Jorge no peito à mostra, e um olhar de absoluta superio-

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SAMUEI- RAI/! os 5tTÉ soN

ridade, o bicheiro sorriu para o círculo em torno. Uma brecha aparcccu :'1 que a chuva cessasse. Quase não havia movimento nos arredorcs, e assittt
sua frente. O policial que o segurava pelo cinto aumentou a pressáo. O que se afastou do hotel viu-se só caminhando no meio da rua estreita. Partir,
bicheiro abriu a fivela estreita, empurrou os chinelos livrando os pés c partir, era um propósito definido, urgente, inadiável. E nessa caminhacla
lançou-se para afrente. Os dois policiais ficaram com os blocos e o cinto, apenas varria com os olhos as paisagens idênticas em todas as cidades, ern
enquanto o círculo se fechava mais, com excitação. Uma chuva torrencial todos os cântos, idênticas porque à exceçáo dos detalhes em que pode-
findou o sonho. Chovia mesmo quando abriu os olhos e um vento sacu- riam diferir? Ou os detalhes... Sem rumo certo' e entretanto, bem defini-
dia a janela. O peito nu, sentiu frio. Levantou-se e fechou-a. No pátio do, bem orientado, com os passos seguros, devia estar caminhando para
apenas uma luz amarelada do quarto fronteiro, e um silêncio que indica- algum lugar. De sua estada algum saldo lhe ficara, algumas frases. Respei-
va uma hora tardia. Deitou-se novamente impelido por uma torrente de te o seu nofo! O que fazer com os outros cotidianos? E ainda uma dúvida,
idéias, número excessivo para náo provocar uma violenta dor de cabeça. uma sombra. Como identificar o imbecil, o tolo, o idiota, sem desconfiar
que fazer comas coi- da própria imbecilidade, tolice, idiotice. Viu-se junto à rodoviária em que
Qual delas aceitarrqual desenvolver, qual afastar? O
sas irreais duramente materializadas em dor? O que faz$ com sentimen- havia saltado na véspera. Aproxirnou-se do primeiro guichê, e verificou
tos não tâo agradâveis e que alguma conveniência algum dia condenou? que o preço da passagem deixaria a reserva para um dia quase de existên-
Dobrar-se, dobrar-se sempre? Mas em caso contrário, Íazet o quê? Acei- cia. Era o suficiente. Encaminhou-se para o ônibus com a consciênôia ní-
tar hipóteses? Bitolar-se em uma direçáo que levaria à própria condena- tida de quem náo vive a própriâ vida, de personagem defeituosa de um
corpo negavarem vibraçáo, autor sem talento ou preguiçoso. Personagem de Deus, talvez, Muito bem,
çáo, e ao absurdo de um preceito que todo o seu
em asco, em repulsa, em atraçáo? Onde começa a abjeção? No ato, na meu velho, náo se espante. Eu não podia faltar ao seu embarque. A mecha
negativa do ato? No sentimento em potência que leva a um ato de- grisalha agitou-se com a vivacidade do rosto, e o velho parecia radiante.
teriorado? Tinha o travesseiro entre os Pés e deu um chute que o levou de Exultava. Viu-lhe melhor o pescoço magro se erguendo do colarinho. Até
encontro à parede, e ao chão. Ouvir sentenças ditas por outras, mais em mesmo as feiçóes lhe pareciam mais nítidas. De uma coisa tenho a certe-
próprio interesse, mais para tornar firme o que era hesitação, do que pro- za, meu velho, você nunca há de esquecer a visita que me fez, nem o lema
priamente para comunicar alguma coisa. E estes fabulosos reinos da sen- que involuntariamente the transmiti. Dito isto arrancou-lhe a maleta da
sibilidade, onde estão, em que base assentá-los? E com que finalidade? máo, e com uma agilidade inacreditável, sem um encontráo, esgueirou-se
Removidos os dejetos do passado, o que sobra, e não é por acaso sobre entre os passageiros que se acumulavam junto à Porta e ao depósito de
eles que se tecem esses panos mais ou menos dourados, onde por vezes bagagens. Quando alguém ao lado fez mençáo de gritar, de correr, ele
alguns fios da trama se revelam soltos e náo integrados? Ao homem que segurou-o pelo braço, e pediu-lhe um favor. Deixe-o, é um velho conhe-
está escrevendo sobre a Reuoluçã.o dos Caniicas gostaria de dizer o que cido meu, e a maleta só tinha coisas sem importância. Não fez caso da
lhe ocorre agora. O escritor é um cafetáo de sua própria experiência, de expressão do outro, entrou no ônibus, ocupou o seu lugar, pensando no
seu próprio passado, de seus próprios sentimentos. Simplesmente náo su- que poderia ser um fim provisório. Não de quem chega, ou de quem par-
portou mais o cômodo, detestou a cama, e espalhou pelo chão as pontas te. Mas de alguém que apenas passa.
de cigarro acumuladas num pires. Havia, talvez, algo mais importante a
resolver. Mas náo sabia o quê. Arrumou a maleta, mais uma vez, olhou
er.n torno, com um hábito adquirido nos últimos tempos, e gravou um cô-
nroclo idêntico a muitos outros. Pagou a conta, e aguardou sob a marquise

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