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ARMAHDOQf ARRUDA PEfa!IRA


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ARMANDO DE ARRUDA PEREIRA

;· HERÓES
ABANDONADOS!

PEREGRINAÇÃO AOS LU-


GARES HISTORICOS DO
.SUL DE MATTO GROSSO

SECÇÃO DE OB~AS 0'"0 ESTADO DE S. PAULO"


S. PAULO 1 9 2 s
! C DocEx .. B~hI~~c:et f
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Vaas palavras

O imprevisto dos acontecimentos, tão fre-


quentes na carreira do engenheiro, lev.O!u ao Sul
do Matto Grosso joven e já conceituado proíissional,
o sr. dr. Armando de Arruda Pereira, autor deste vo-
lu,mesmho singelo e en<:antador que tenho a h onra
de apresentar ao publico.
Escrevia ahi "Deus direito por linhas direitas"
determinando que· assim succedesse pois desde a
adolesceneia sentia o dr. Arruda P.ereira verdadeira
attracção pelo theatro da campanha de 1867 como
ad!'lirador apaixonado dos heroicos feitos de ann~s
alli parücados pela nossa gente, pelos nossos soldados
da Constancia e do Valor. Com real jubilo encarou
pois a proxima possibilidade de. palmilhar aquelle
scenario glorificado pelo heroísmo dos retirantes da
Laguna e dos defensores de Dourados.
Assim apenas pôde realisar D acarinhado in-
tento encetou a peregrinação piedosa e oonuu.-ovidis-
-4 -
"
s1ma de que nos dá a relação tão despretenciosa
quanto suggestiva.
Foi a Dourados ver o lugar em · que o sangue do
espa·r tano · Antonio João Ribeiro empapou o nosso
1

auriverde faz.endo a bandeira "enrubescer de orgu-


lho" visitou os campos de batalha da Retirada da •
Laguna, na Machorra, em Nhandipá, em Bella Vista
e no passo do Apa. Percorreu-os detidamente e ·e xa-
minou os vestigios gloriosos da lucta encarniçada
que presenciaram. Enorme commoção lhe trouxe a
visita ao tosco cemiterio de Bella Vista onde encon -
trou ainda as cruzes dos nossos soldados repellidores
das terriveis cargas da cavallaria paraguaya.
Alli, dil-o expr·e ssivamente, daquelle ossario de-
vem sahir os restos do nosso "soldado desconhe-
cido". Todos os que aHi repousam tiveram. sem exce-
pção, a morte dos bravos, pela integridade e a segu-
rança do Brasil.
Tal o cuidado da peregrinação do dr. Arruda Pe-
r.eira que se não descuidou de percorrer até os simples
capões de matto refugio da columna retirante nos
dias mais terríveis do incendio na macega e do cho-
1era morbus.
Descreve-nos assim os tetricos pousos de Ym=
búguassú e Acârâbebó onde encontrou vestígios de
trincheiras. Passou depois ao sinistro Cambaracê
local em que os cholericos tiv·e ram de ser abando- 1.
nados, sacrificados á conservação dos symbolos nacio-
naes que a columna, em hypothese alguma, entre-
garia ao· inimigo victoirioso.
- 5-
Que local sinistro! scenario como que a ded9
,e scolhido para a recepção do lugubre deposito! est~
Cambaracê assim appellidado, por escarneo, pelos
paraguayos :· os negros choram! ou tambem Negro~
doentes, no pensar do dr. A . Pereira.
De Cambaracê partiu o ljoven engenheiro a vi-
sitar os t umulos dos coroneis Camisão e Juvencio C.
de Menezes e o çl.o guia Lopes, 1e a estada ao lado
destas sepultl:uas lhe causou violenta impressão tra -
duzida em phras·es repassadas de patriotismo ar-
dente.
T erminou a nobre peregrinação com a visita a
estancia do Jardim, a fazenda do guia Lopes onde
ainda vio o autor as ruinas da casa do grande serta-
nista, a. Miranda, onde tanta cousa lhe recordou o
zelo apostolico -de fr. Marianno de Bag naia, tam-
bem victima da crueldade dos invasores, a Nioac e
Aquidauana, onde trabalhou no assentamento de
dois monumentos, alli ultimamente mandados erigir'
por ordem do actual governo em honra dos heroes
da Retirada e do Visconde de Taunay.
M anda-nos a verdade dos factos referir que o
sr. dr. Arruda Pereira collaborou nos projectos des-
tes dois singelos mas estheticos ,e expressivos pa-
drões ; seja-nos permittido recor,dal-o.
" Termina o sr. dr. A . Pereira a descripção do
.s
seu beHo itinerario com um appello alevantado a,os
! no ssos compatriotas para que se não deixe ao aban-
dono os despojos dos bravo's que em 1867 nos campos
- 6-

de Matto Grosso foram o antemural do Brasil contra ·


a investida ,lopezca.
E assim de norte a sul todos os brasileiros o
ouçam ass~m se concretise tão nobre aspiração!
Mas já o livrinho inspirado que vem a ser estes
Heroes Abandonados vale por muito. Tra·r á muita
emotividade e trará muita meditação; reforçará
muito o s·entimento da brasilidade vacillant·e em
alguns descrentes da integridade de nossa terra . . .
Não é com mero prazer e sim com verdadeiro
desvanecimento que assigno a apresentação dos
Heroes Abandonados.
A pie!dade filial sobremodo me pPende ás
cousas da campanha de Matto Grosso. A homenagem
que o sr. dr. Arruda Pereira presta aos heroes de
1867, as palavras generosas por eUe consagradas a
meu Pae enquadram-se n'u1ma oblação nobilíssima
que muito me commove. Seja-me pois permithdo, em
nome dos que se ligam pelos laços do sangue aos
soldados da Retirada, exprimir-lhe os muitos agra-
decimentos que lhe devemos pela manifestação tão
a1evantada de sua penna degante á memoria dos
nüssos heroes.

S. Paulo, 29 de setembro de 1925.

!7/ffonso de a. CCaunay
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Aproveitando a estadia de cêrca de tres annos


no Estado de Matto Grosso, (onde graças á con-
fianc.a do meu amigo Roberto Simonsen, Presidente
da Companhia Constructora de Santos, exerci o car-
go de l .º engenheiro inspector dessa mesma empreza,
tendo a meu cargo a administração da construcção
de todas a s obras militares no sector Matto Grosso) ,
desde os primeiros dias nutri grande esperança de
visitar os lugares historicos do sul desse Estado.
Tive essa ventura, e desde então, v·erificando
quanto são pouco conhecidos esses lugares e o aban-
dono em que jazem os restos daquelles que nos pro-
proporcionaram com a sua bravura e caracter al-
gumas das mais bellas paginas da nossa historia
guerreira, imaginei a ousadia de relatar, em língua-
. ,, : ·. .- 8 - .

gem, chã e despida de qualquer pretensão litteraiia,


o que vi, o que senti, e o que acho que, a nós Brasi-
leiros, falta fazer em r-elação a esses heroes aban-
donados.

!2J,rmando de .9/rruda Pereira

"Nossa Casa", São Caetano, Julho, 1925" .


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Peregrinação aos lugares Mstoricos do Sul de


Matto Grosso
Cabeceira dos Dourados - Antonio João

Desejosos de conhec·er o sitio em que fôra enter-


rado o heróe cujo nome epigrapha ·e sta narrativa,
depois de obter varias informações com referencia
á viagem, partimos em companhia de Luiz dos San-
tos, que guiava o auto, ·e um rapaz syrio, como aju-
dante.
Sahimos da estrada que vae de Ponta Poran a
Campo Grande e por sobre o camp-o, tirando rumos,
nos puzémos a caminho do passo no rio Dourados,
onde na morada da viuva Gomes devíamos obtier in-
formações.
Chegados ao passo, tivemos a surpreza de ver
que apenas era passagem para cavallos e bois, 'de
modo ·que não quizemo·s aventurar o autornovel.
- 10 -

Passá.mos por dentro d'agua e com pequena cami-


nhada chegamos á casin.h a procurada.
o
Casinha poetica, com seu jardinzinho á frente
e ur:p vasto pomar á margem direita do rio Dourados,
onde, dizem, fora exactamente a paliçada em que
aquelles "doze bravos" succumbiram enaltecendo o
Brasil.
ç
Aquella·s flores naquelle ermo, aquella so1idão,
interrompida apenas pelo bairulho das aguas e o can-
to dos viras, fazia com. qu·e o dia, a despontar, se
tornasse mais beUo e nos encJhia de esperança de
cons.eguirmos o fim que até alli nos levara.
1

Raramente por aqueHas paragens se vira um


auto, e muito menos, genk como nós. Houve pois,
certa desconfiança da parte -da dona da casa e suas
filhas.
Chama-se Carlota Gon11es a moradora da casinha
poetica. E' i1 viuva do fallecido capitão do exercito
brasileiro João Luiz Gomes, antigo director da colo-
nia d'e Dourados. A respeitavel matrona, paraguaya
de na·s-cimento, conta cêr.ca de 80 annos de edade,
mas está muito bem conservada e alli mora, ha mais
de 30 annos, em companhia de um filho e varias
filhas. Tem "Outro filho, segundo nos informaram, e
parece que official do exercito. Suas filhas são todas
solteiras, tendo a mais nova 45 annos de edade.
Apres'e ntou-nos Luiz dos Santos a essa senhora
e disse-Jihe que vinhàmos curiosos de ·saber onde
-~~---- ,

;,

D
A Viuva Gomes e suas filhas
- 11 -

estava o tumulo de Antonio João; desejavamos in- .


formações sobre se havia alguma cruz, algum signal,
etc.
-" Dona Carlota i1ão "ia assim tão facilmente no
embrulho" e á voz de que eramos engenheiro, e des-
confiada naturalmente, respondeu: - Mas .. .. dou-
q .tor, o meu campo já está todo medido, é meu mesmo
e eu já moro aqui ha tanto tempo ...
'
Taes palavras foram pronunciadas naquelle so-
taque suave do paraguayo quando s,e exprime em
portuguez, sendo que, por voz de mulher, mesmo
edosa como dona Cairlota, tem doce e agradavel som.
Tranquillizámos a respeitavel senhora, mas vi
mos que continuou desconfiada, porque não nos deu
informação alguma a respeito do que queriamas.
Disse..,nos apenas, que havia duas cruzes em frente
de sua casa - uma do marido e outra de um filho .
'
Lá no alto da cabeceira havia porém outra que diziam
ser de dois officiaes paraguayos que, feridos, haviam
pereódo sem recursos.
Subimos até á cabeceira indic.a da e, de facto,
perto de uma limeira de tronco grossissimo, estava
uma cruz de aroeira, cujo braço jázia por ter.ra.
Erguemol-o e .com grande ~nciedade notámos
qualquer inscripçã-o aberta na madeira.
Durante mais de uma hora, limlp ámos, religio-
samente, letra por letra da cruz de arüetra e, final-
12 -

mente, conseguimos ler, sendo para isso necessano


virar a madeira para o lado ~o sol, meio de banda.

AQUI 5e fN Tf RO JUAN@}3fl] TO )/lN JAV1f1?

Na parte do pé, bem em baixo lia-se ainda a


palavra "MUERTO ... " Recollocámos o braço da
cruz e, v:erificado que não s,e tratava de Antonio João
1-esolvemos voltar, tristes com o insuccesso.
Havíamos acabado de atravessar o rio Doura-
dos, no mesmo passo, quando surgiram tres cav·a l-
leiros. Na nossa imaginação "torcemos" para que
fosse gente da redondeza e cheios de esperança os
interrogámos:
"Bom dia. São os Srs. por acaso moradores des-
tas bandas?" - Sim senhor, respondeu-nos o que
estava na frente. - Que sorte! pensámos e imme-
dia tamente arriscámos · a pergunta decisiva: -
"Sabem dizer-nos onde está ·e nterrado Antonio
João?" - Ar de estupefacção. Um dos tres, um ne-
gro boiadero, curvando-se sobre a sella, disse com
A Cruz ~ Juan Bento
- 13 -

a voz cheia de magua: - Morreu? Coitado! Quando,


hein?
" Até outro dia, senhores!" E, cabisbaixos,
e fom os torrnar o Ford.
Chegados á cabeceira do Apa, tencionavamos
parar alli, para almoçar, mas, relatando o que nos
havia succedido ao nosso amigo Arthur Campos,
disse-nos este que tinhamas estado "pertinho" do
lugar. Como nos decidíramos.a não perder a occasião,
deix ámos que o almoço ficasse a se fazer, puzémos
o Arthur dentro do automovel e voltámos ao passo
do rio Dourados.
Apeámos, e através do campo sujo. cheio de
macega alta caminhámos em direcção á mar-
gem do rio, onde se nos deparou um cemiterio com
sepulturas, alguma dellas recentes, pois que aprovei-
taram o local os moradores ou algum carreteiro de
passagem. Está o cemiterio na beirada de um capão
de matto, junto á margem do Dourados.
Cr uzes velhíssimas, tle aroeira, e entre ellas uma
grande, simples, tosca, sem inscripção alguma.
U ma trepadeira silvestre, como que se enla-
çando na cruz, quiz, quando florescesse, homenagear
os rest os do "GRANDE" que alli repousa.
Esquecido pelos homens a quem deu o exemplo
mais sublin1e da bravura e do patriotismo, aquella
trepadeira repres·e ntava o agradecimento mudo da
terra· brasil·ei:ra áquelle que tão nobf'emente a defen-
dera juntamente com outros onze heróes no dia 28 de
Dezembro de 1864.
14 -

Meus caros patricios ! Temos sidO' muito ingra-


tos para com aqueJlles que, com suas vidas immo-
ladas no altar da patáa, enchem a nossa historia de
1

paginas belliss·fanas. E' neces·s ario que façamos com


que o nosso Governo renda uma homenag·em á al-
tura do homem que foi Antonio João e de outros de
que em breve nos occ:upariemos.
Lêde o livro "Historias Brasileiras" escripto
pelo immortal Taunay, no conto "CAMIRAN A
KINIKINA'O" paginas 120, 121 e 122 e vereis como
os factos ahi narrados vos farão vibrar de enthusias-
mo pelo que foi a resistencia opposta por Antonio
João e seus onze ·Commandados.
A' intimação de Resquin chef.e do exercito pa-
raguayo do Norte, respondeu com as poucas palavras
que abaixo transcrevo, palavras que cada solidado
brasileiro deveria aprender como uma formula de
acendrado amor á Pa tria:

"SEI QUE MORRO MAS O MEU SANGUE E


O DE MEUS COMPANHEIROS SERVIRA' DE
PROTESTO SOLEMNE CONTRA A INV ASAO
DO SOLO DE MINHA PATRIA".

Assignou com a mão firme como firme e recto


era o seu caract.er e o conhecimento do cumprimento
do dever de cidadão e soldado. Morreu na primeira
.. ,;.:.:r··-

Sepultura de Antonio João


- 15 -

descarga do inimigo gritando nos arrancos de ago-


nia: "FOGO, MINHA GENTE, FOGO!" Diz o Vis-
conde de Taunay nessas paginas sublimes: "Raros
obedeceram á ordem. Dahi a pouco era arreada a
bandeira da paliçada, mas ella desceu com ufania
como bandeira da victoria e, quando tocou o chão,
umas das suas dobras foi se ensopar no sangue
d'aquelles que tanto a haviam ·ennobrecido. Parecia
enrubescer de orgulho ! "
Conseguimos, por intermedio do prezado amigo
Osoriiio Escobar, obter uma copia da fé de officio de
Antonio João, retirada do archivo do 10.º Regimento ·
de CavaHaria Independente, com séde em Bella Vista.
Se quereis ter mais uma prova do que foi esse
heroe, lêde com attenção a ultima parte do documen-
to e comprehendereis que o homem que tinha ges-
tos com.o esse era o mesmo que commanda va em
Dourados .
"Antonio João Ribeiro. - Fifüo legitimo de Ma-
noel Ribeiro de Brito. Nasoeu em 24 de Novembro
de 1825; natural da Villa de Poconé, Província de
Matto Grosso. Assentou praça voluntariamente em
6 de Março de 1841. Cabo de esquadra em 1 de
Abril de 1841 - Forriiél em. 3 de Agosto de 1841 -
2.º Sargento em 1 de J anóro de 1842 - l.º Sargen-
to em 1 de Maio de 1845 - Sargento ajudante gra-
duado em 22 de Março de 1849 - Alferes em 29 de
Julho de 1852 - Tenen te em 2 de Dezembro de
1860 - Em 1842 destacado para a fronteira do Bai-
xo Paraguay a 18 de Junho - 1844 recolheu-se a
- 16 -

3 de Outubro - 1846 marchou a commandar o des-


tacamento de Dourados no Bai:X'o Paraguay em 8
de Junho - 1848 seguiu para a Fortaleza de Coim-
bra a 2 de Março e recolheu-se a 18 de Maio - 1849
seguiu a commandar o destacamento de Dourados
a 6 de Maio - 1850 recolheu-se do dito destacamen-
to a 31 do dito mez - - 1851 marchou em diligencia
a Côrte do Ri 0 de Janeiro onde foi addido ao l.º Re-
1

gimento de Cava~l:aria Ligeira em 29 de Abril, sen-


do-lhe permittido po'f aviso da :R!epartição da Guer-
ra de 28 do mesmo mez, s·e r ouvinte da Escola Mi-
. litar, onde obteve o grau tres em Arithmetica, dois
em Francez ·e um em Geographia - 1852 por aviso
da Repartição da Guerra de 15 e officio do Quartel
General de 17 de Julho foi mandado chamar para o
serviço por ter sido inhabifüado no exame de suffi-
ciencia do l.º anno da Escola Militar - 1853 Reco-
lheu-s1e do Corpo no Districto Militar de Villa Maria
a 26 de Janeiro - Pr·e so a 27 de Novembro por ferir
a um Capitão elo Corpo; pelo que foi recolhido a
Capital em. 14 ele Dezembro afim de responder a
Conselho ele Guerra - 1854 respondeu a Consdho
de Guerra e foi absolvido a 23 de Fevereiro sendo
reformada a sentença pelo Conselho Supremo Mi -
litar de Justiça, para condemnal-o a um anno de
prisão, em 21 de Junho - 1855 foi solto a 21 de
Junho - Destacou para a fronteira do Baixo Pa-
raguay a 28 de Novembro - 1857 foi elogiado em
ordem do dia do Commando das Armas sob n.º 83
de 28 de Novembro pelo bom resultado da Commis-
- 17 -

são de que foi incumbido de afugentar do sertão


desta provincia os indios bravios que infestavam a
sua estrada sabendo conduzir uma escolta composta
de 40 praças de linha sob seu commando - 1858
recolheu-se ao Corpo em 26 de J aneir.o - Marchou
para o Districto de Miranda em 1 de Maio onde
chegou em 13 de Junho - 1859 foi nomeado pela
presidencia da . Província para ir commandar o novo
destacamento de São Lourenço pelo que seguiu a
Cuyabá a 2 de Jw1ho onde ficou addido ao 2.º Ba-
talhão d'Artilharia a pé em 1 de Julho, em que par-
tiu a seu destino - 1860 foi desligado do mesmo
batalhão em 1 de Outubro para reoolher-se ao Cor-
po - 1861 apresentou-se em 4 de Janeiro. Passou
a exeroer as funcções de . Agentre em 7 .do mesmo
mez por elreição do Conselho Bconomico. Pio r offi-
cio do Commando d'as Armas desta Província n.º
19 de 28 de Fevereiro foi ordenado que se averbasse
em seus assentam·e ntos a seguinte nota : Tem em
seu favor as vantagens do art. 8.º da Lei .de 18 de
Agosto de 1852 desde 26 de Janeiro de 1853 até 27
de Novembro do mesmo anno em· que foi preso e
de 21 de Junho .de 1855 em que foi s'Olto até 30 de
Julho de 1856 em que foi extincta a mesma Lei.
Deix ou o exercicio de Ag•ente em 1 de Julho. - 1862
Desta·cou para Colonia Militar de Dourados na qua-
lidade de seu commarrdante em 27 de Fevereiro -
1863 por aviso do Ministro da Guerra de 2 de Julho
foi louvado e agradecido pelo Governo Imperial pela
-18-

offerta que fez ,d e uma partre de seus vencimentos


para as urgencias do Estado.
Confere com ·o original. Vasco Neves Varella,
2.º Ten.". ·
Exemplos como este ultimo raro s são nos dias
de hoje!

Quando vinhamos de volta dessa visita, já com


as varias photograpihiaB que iUustram es.te-livr·o , en-
contrámo-nos, na cabeceira do Turvo, como o s:r.
general João Nepomuceno da Costa, que, em com-
panhia do nosso distincto amigo major de artilharia
dr. Antonino Menna Gonçalves, ia ·e m inspecção ás
unidades da fronteira. Relatámos ao general onde
havíamos estado e lhe démos todas as informações
sobre como poderia chegar at,é lá.
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Lagoa de "Pedro Juan Caballero't

Já que estamos descrevendo os lugares histori-


cos do Sul de Matto Grosso, bem entendido, os que
se referem á Campanha do Paraguay, vamos tam-
bem falar sobre sítios que ·em territorio paraguayo,
se acham ligados aos factos militares da guerra de
1862.
Referimo·- nos á bellissima lagôa existente em
Pedro Juan CabaUero 1 cida•de que fica em frente
á brasileira de Ponta Poran, divididas, por uma rua
muito comprida e muito larga chamada Int ernacio- 0

nal.
Fica esta lagôa á entrada da cidade paraguaya
que tem o nome do libertador desse paiz. Nunca
sécca e nos dias de so'I, com as casas reflectidas nas
aguas man.s a1s, com as côres variádas <las roupas das
lavadeiras e aque:Ue silencio doce, agradavel, aquel-
la aragem subtil que só faz mexer, a1penas de leve,
as ramagens das arvor·es dos pomares, tudo aquillo
nos · causa sensação de socego, de paz, de tranquilli-
- 20. -

dade, para logo em seguida ... vir a saudade ! Sau·


dade dos que estimamos, lá bem fundo no· nosso
coraçao.
Contaram-no1s que nas margens des·sa la.igôa es-
teve acampado com a s'ecção de artilharia e do 9.º Inf.,
que cdmmandava, aquelle que foi marechal do exer-
cito, e nessa occasião, o bravo Major Fl oriano Vieira
1

Peixoto.

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Machorra

Foi no passo da Ma1chorra, proximo á estancia


desse mesmo nome, hoje pertencente ao sr. Horten-
cio Escobar, que, em 20 de Abril de 1867, se feriu o
combate relatClJdo com penna .de ouro, e as côres vi-
vas da verdade e do talento, pela testemunha ocular
que foi o griarnde guerreiro, o provecto engenheiro,
o parlamentar ardente, musicista delicado, historÍ'a-
dor emerito, e&criptor insigne, que pam sempre gra-
vou em varias livros e muito especialmente na "RE-
TIRADA DA LAGUNA", ess:a eipopéa de glorias e
sacrificios bras.ü eiros : Alfredo d'Escragnolle Tau-
nay, vis.conde de Taunay.
Nas margens e nos campos da Machorra, até
bem pouco tempo, têm sido encontrados varias ob-
jectos pertencentes ás força·s brasil·eiras que ahi
operaram.
Existe em Bella Vista, em posse do sr. Arthur
Rodrigues, industrial nes1sa cidade, um grande cai-
deirão com a capacidade de 10 gaillões, marca "Clar-
-22-

kson" , enc•o ntrado no passo, no local que parece


ha vie r sido o de um bivaque de tropas.
Foi tambem achada, segundo nos informou o
sympathico amigo capi'tão Jans·en, official do 10.º
R. C. I., uma s·a lva de metal branco com as armas
de D. Pedro II, e, não raro, quando se queimam os
.c ampos, até hoje se .encontram ferragens de rodas
de carretas, f.erf'O's de cangalhas ek.
..

Cruz dos Paraguayos, na entrada de Bclla Vista


11111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111 nmm

Nhandípá

A' esquerda da estrada, na entrada de BeHa


Vista, existe uma cruz tosGa, de aroeira, no meio do
campo, no local onde estão enterrados os soldados
pa raguayos mortos nesse grande e memoravel com-
bate.
Nos braços dessa cruz_, vê-se uma legenda em
ca stelhano, volt•adia para o lado que defronta o Pa-
raguay. Reza o seguinte:

"LA GARNICION DE BELLA VISTA A LOS


... 97 HEROES MUERTOS EM ESTE SITIO EL
11 MAYO 1867 EN DEFENZA DE LA PATRIA ".

Está o numero da centena apagado, mas, de ac-


côrdo com os documentos e as narrações da época
sobre o combate, nã'O ha duvida de que é o numero
um que alli existiu.
Foi o enoontro mais empolgante e importante
da RETIRADA., segundo narra Taiuna y pos "Dias
de Guerra e de Sertão", á pagina 150. Perto de uma
1agôa, mais abaixo, se deu a batalha em que perdê-
- 24 -

mos todo o nüsso gado, e· na qual nosisa-s forçias, for-


mando qua·drado, s·e defenderam brilhantemente dos
ataiqueis ·da ciavaillaria; mas, apez:ar d·e termos menos
mortos do que o inimigo, dahi por deiante começa-
ram as desgraças atwzes perseguidoras dess·es bra-
vos martyres, autores de tanto,s actus de sacrificio
e abnegaÇão no cumprimento sacro1s.ant'O do dever .
e do amor á P ATRIA.
Eis a narrativa do combate como a fez o Vis-
conde de Taunay :
"No dia 11 de Maio, depois de transposto o Apa,
os paraguayos fiz·erão um esforço decis.ivo. Reuni-
ram toda a cavaHaria de que dispunhão e a Jogaram
francament·e sobre os nossos quadrados. O choque foi
violento; a lucta durou menos de um quarto de hora,
mas tanto bastou para que alastrassem o campo, em
que nos conservámos unidos e firmes, perto de du-
zentos corpos, cincoentas brasileiros, o resto para-
guay.os. Ah! esses dias de combates, de carnificina
erão tambem os de anirnação e esperanças !
Poder luctar corpo a corpo, braço a braço com o
inimigo, repellil-o, trocar balas, ouvir a voz sonóra
dos bronz·e s da artilharia, enviar a morte e sentil-a
esvoaçar por perto, tudo isso, toda essa tonnenta,
todo esse fragor abala, incita, atordoa e avigora.
O espirita agita-se; tudo é novidade; os episo-
dios multiplicam-se; subdivide-se a attenção; todas
as fibr,a s d'.alma ref.esadas pda commoção vibrão
energicas; mil sentimentos encontrados a empuxam,
a torturam, a exaltam, a sublimão, e uma venda de
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- 25 -

sangue escurece-nos os olhos. Os momentos são so-


lemnes. O hymno nacional que retumba como voz in-
gente da pa tria; as bandeiras desfraldadas, os tambo-
res e cornetas que ferem os ares com agudo estru-
gido; a po1vora que embriaga; o exemplo dos com-
panheiros; o orgulho em sentir no peito coragem,
quando a vida. depende de um pedacinho de chumbo
e milhãres d'elles voam por todos os l'ados, tudo
forma um conjuncto que de modo indelevel impres-
siona a q nem entra pela primeira vez em fogo e
recebe o baptismo de sangue. Parece até que o céo
se illumina de subitos fulgores e que de lá vem bai-
xando a gloria.

Illusões ! Tristes illusões !

Quem de relance as perde, •é o ferido. Pobre


del1e ! Clama, ninguem o attende; geme, ninguem o
consola. Atirado no meio do campo, de rosto, quan -
tas vezes! voltado para o sol, curte os horrores de
uma sêde intoleravel e repentina. Semi-morto, re-
ceia morrer de todo; conta as balas que lhe passam
perto; ouve-lhes o sinistro sybil:lo e de cada vez seu
corpo mutilado ·e stremece de dôr e de medo. Pro-
cura escapar da morte que o abraça .e, se lhe restam
forças, tenta arrastar-se em busca de soccorro, sobre
as mãos, se já não tem pés, sobre o ventre, se já
não tem mãos nem pés.
Com igual pavor vai seu olhar desvairado do
amigo para o inimigo. Com effeito ambos o pisarão
na occasião; calcal-o-hão ás patas de seus cavallos,
- 26

quebrar-lhe-hão os ossos coin as rodas de suas arti-


lharias.
Então aquelle céo que para o combatente ru-
til'a e deslumbra, para elle, infeliz, que se esvai em
sangue, é o tenebroso fundo em que se destacam os
vultos queridos de uma esposa, uma mãi ou choro-
sos filhinhos.
Debalde atroam os ares hymnos ferozes e guer-
reiros : elle não ouve S'enão a canção ou a ipr·ece que
aprendêra em cdança e que repete dentro d' alma:
ultimo écho do lar a que não voltará mais!"

NHANDIPA'! Em guarany é o nome de uma


arvore, mas ·.creio, estudando a desarticulação da
palavra, uma vez tambem que e.sse nome foi dado
pel'O's paragu a yos,. estaremos mia.ris certos imaginan-
1

do que preteooiam significar alfü. haverem terminado


de combater a columna invasor'a do Paraguay.

NHANDE' em guarany significa "nós outros";


e PA' "concluir, terminar", donde deduzimos não
s.ej·a a arvore a causa de origem <lo nome e, sim, que
os soldados de Lopez, queriam dizer que aHi termi-
naram, alli conduiram a faina de repulsa á nossa
.c olumna. Estar·e mos certos?
Nas ma1rgens dessa mesma lagôa, em época de
sêcca, foram achadas pelo sr. Octavio Berned duas
balas .d e canhão. São dais de artilharia La Hitte que
tomou parte na acção, repellindo os a,t aques da ca-
vallaria.
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CrltZ'(!s Brasileiras no cemiterio de Bella Vista


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Cruzes Brasileiras no ccmiterio de B-ella Vista


-27-

Têm ori-ficios lateraes cheios de chumbo, natu-


ralmente para diminuir o attrito, porque naquelle
tempo, certamente, nem todos os canhões eram raia-
dos, 1?-em tã·o pouico ti'n ham as baila·~ anneis de bron-
z·e.

Essia s dua.s hala.'s nos pert encern.m, sendo que de


1

uma fizemos presente ao Mus~u Paulista.


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Belia ·Vista

Acha-se esta cidade á marg1em do no Apa,


noss·a divi·sa natural com o Par~guay, sendo-lhe
fronteina a cidada paraguaya do mesmo nome. Hoje
é a séde do 10.º Regimento de Cavafüaria Indepen-
dente, instalJado em maderno e confortavel quartel,
munido de todos os appia relhos necessarios ao per-
feito furnccionamento de agua, luz e ·e sgotos.
Quem visibar o rr~odest-o mas glorioso cemiterio
de Bella Vi·s ta, logo á entrada, tem a vi.sta attrahida
para uma serie de cruzes griandes, sobre cujos bra-
ços estão gravados uma infinidade de nomes illegi- ·
vers.
São os nomes dos heróes obs·c1,1·ro·s que deram a
vida em sarcrificio de uma P.atria honrada.
Quantos! Quantos serão os que alli dormem o
somno tranquri.Uo á sombra de enorme palmeira?
Pai1meira de no:s•sa terra, onde cant·a o sabiá!

C Doe Ex
~BUOTECA
- 30-

Fiz·é mos essa visita em companhia do capitão


de ·engenharia dr. Pedro Loureiro Villaboim, fiscal
do govei;-no e r·e p·r esentante da Directoria da Enge-
nharioa do Exercito nas obras de construcção dos
quarteis de Campo Grande e Bella Vista.

Fafa_,se, hoje em dia, em se erigir um monumen-


to ao solda-do desconhecido, imitando assim o que se
tem f,e íto no•s pai1ze,s europeus. Si quizerdes conse-
guir os restos de um s'Oldado desoonhecido com a
certeza de que serã-o os de um bravo, ide busca·r os
que estão assigna.Ja.dos pelas cr uzes do cemiterio de
Bella Viista.
Alli, foram t odos bravos! Obedeciam todos a
1

um .mesmo ideal e succumbiriam com um só fim.


Não houve alli frouxos, nem tão pouco houve
indignos entre os que vestiam o uniforme do exer-
cito brasileiro!
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~ ~

Passo do Apa

Logo abaixo da cidade de Bella Vista e conhe-


cido tambem pelo nome de "Passo do•s Macacos",
fica o passo sobre o rio Apa, por onde as forças
expedicionarias atravessaram ê entraram em terri-
torio paraguayo.
Quan toa esperança inflava na·quelles no'b res pei-
tos ! Que sensações deliciosas provaram os corações
daquelles bravos ao sahirem de dentro da agua do
Apa e pisarem o terreno dos que então, eram ini-
migos do Brasil!
E' o passo formado por um chão pedregoso.
Grossos seixos rolados, pedr·egulho ·e areia. Mais
para jusante, uma corredeira. Extasiados, contem-
p1ámo'S longamente aque11as margens, evocando não
, só as scenas que se terão passado quando a tropa
effectuou a travessia de ida mas ainda a de volta da
Laguna!
Heróes ! Mil vezies heróes !
o
C2
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Y mbú-guassú e acârâbebó

Queríamos attingir esses dois lugares, situados


em t•e nitorio J>iTagu•a yo, pontos extremos a que
chegaram os .nossos solda.idos que se dirigiam á La-
g una.
Organisámos uma comi tiva e, num1 domingo,
fizémos atravessar, para o outro lado do Apa, o
Ford de nosso sympathico amigo don Alfredo Per-
rupato, negociante paraguayo estabeleddo em Bel-
la Vi•s t·a bras1•l·e.ira, e para lá no·s dirigimos.
Faziam parte da comitiva comnosco, o cel. Pe-
ricles de Albuquerque, commandante do 10.º Regi-
mento de Cavalfaria Independente, o dr. Marcello
F . de Lima. engenheiro da Companhia Constructo-
ra de Santos, residente da obra dos quarteis de
Bella Vista, o sr. Osorio Escobar, nosso amigo e que
foi serv·i ndo de gu~a , o "x:hauiffeur" e um para-
guayo. Estavam as estradas p_e·ssitn0.>s e quasi m-
transitiaveis para automovel, dando-nos muito que
fazer logo no inicio.
- 34 -

Foi necess·a no que entras•s em em acção , va n as


vezes, o enxa·dão e a pá. Furámos, püuoo depois da
sabida, tr<es ou quatro camarns de ar. Tudo· par ecia
conspirar contra a nossa boa vontade e pl'ano de at-
tiingir Ymbú-Guassú.
Pareda que até em tempo de paz, agüra que
somos amigos, .o Par:aguay não queriia que ex tran-
geiros pisassem o seu só lo. Já ia ficando tarde para
voltar, ·e, como o nosso amigo coronel Peric1es tinha
que est·a r em BeHa Vista na·que11le ni.esmo dia, de-
sistim01s de continuar a noss'a t·e ntativa, adiando-a
para ooca·sião maiis opportuna.
Foi em 15 de Março de 1924 que fizemos a pas-
sagem do noss·o auto, tomando pa:rte na comitiva os
mesmos da primeira vez, com •excepção do coronel.
Sahimos pela manhã bem oedo, atravessámos o
Apa e, logo depois de alguns minutos de caminho,
já melhorado pela primeira investida, passámos o
Apa-mi sobr·e uma p.ont.e de madeira. A terminação
"mi" em guara·n y quer dizer pe.q ueno, pouco; ern-
fim, expressa o diminutivo.
Sentíamos já uma satisfacção enorme, porque
intimamente íamos relembrando a marcha da co-
lumna, e, quando reflectiamos que trilha vamos
aqurefüas mesmas estradas, era um consolo para _to-
dos os trabalhos da excursão, por mais penosos que
fossem.
De um lado, á -direita, íamos sen1p1re avistando
aquella majestosa e historica silhueta que é o cerro
Margarida, e á esquer.da já divisavamos o cerro
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- 35-

Acanguê (em guarany "bico de peito"), que cada


vez se tornava mais visível e parecido com a sua si-
gnificação na lingua do paiz, ao passo que o cerro
Marga'f1ida perdia, por completo, a sua fórma co-
nhecida para qu1em o avista de frente, quando em
Bella Vista. Agora, tomava a fórma de um pedaço
o de serróte quebrado com vanios dentes ponteagudos,
quando, vist~ da cidade bràsileira, a cêrca de 10 le-
guas ·distante, tem a. fárma de enorme pyramide,
is'Olada no meio daquelles campos infinitos.
Com cinco e .meias leguas ca·s telhanas (leguas
de cinco kilometros) , parssámos pela séde da estan-
cia conheóda pelo nome de "Arroyo Primero" e,
logo depois, atraves sámos esse carrego e um galho
1

do mesmo. Nes·se ponto a estrada se bifurca, isto é,


a estrada velha, aquella pela qual foram as tropas,
dirige-se para o banhado "Estero Panh€te", e a
estria.da nova atraves sa o carrego San Lorenzo, in-
1

do pa<ra a ·estancra do mesmo non1e, prop1:ieda<le da


Compagnie Crédit Fo~aier du Paraguay.
Por indicação do amigo Perrupato, alli devía-
mos pernolitar, pois se dava muito com o administra-
dor da Companhia e, como já estives·s e cahindo a
tarde, sómente no dia seguiiinté poderíamos attingir
os lugar.es desejados.
Haviamas caminhado apenas sete leguas cas-
telhanas. Foi junto á confluencia do San L orenzo
com o Arroyo Primero, que as nossas tropas fize-
ram o acampamento, tendo s·e guido até Ymbú-Guas-
36

sú e Acârâbebó apena·s as columnas de combate e


reconheoimento.
Lá não est·a va o admiiüistrador e s.im o capataz
chefe, allemão de origem, porém falando correcta-
mente o gua·r nny. Foi muito gentil comnosco. Oso-
rio, que fala gua·rany como qualquer paraguayo,
entrou ·e m palestra com don Guilherme e logo tive- o
mos o que jantar e te:cto para dormir.
Da frente da casa da fazenda a vistam-s.e os ca-
pões de matto Ymbú-gml.tssú e Acârâbebó. O pri-
meiro é fornrado por dois capões, um grande· e ou-
t1ro pequeno; o segundo é um grande capão que tem
forma to de um co'r ação.
Estão sie parados um do outr.o cêf.ca de um ki-
lometro e meio, sendo que Aicârâbebó fica para a
esquerda de quem dá as costas á fr.ente da casa da
fazenda.
No Par:aguay ·c hamam "Is1a" ao·s · capões de
matto isolados no campo .
Na manhã seguinte puzemo-nos a caminho
cheios de satisfacçã.o, e, depois de percorrer cêrca de
2 kilometros de estrada, desviá.mo -nos para a es -
querda, através do campo, em direcção á Isla de
Ymbú-gua·s sú, tendo deixado á dfir·eita uma estrada
que vae a Con:cep.ción e tambem á LAGUNA, sendo
que dalli até Laguna ha cêrca de trinta legu.as.
Fica Ymbú-guassú a oito leguas, mais ou me-
nos, da óidade de Bella Vista paraguaya.
F01i nesses capões de matto que os nossos so1l-
dados desarlojaram o inimigo das trincheiras que
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- 37-

haviam construi-do e existem muito bem vi:siveis até


hoje.
Começa uma dellas dentro do capão grande e vae
em direcção Oeste-E:ste até o meio do capão peque-
no, dominando a planície de qualquer dos lados. A
outra sáe do capão grande em rumo Sul-Norte,
maris ou menos uns oitenta a noventa passos.
Pisámos cam verdadeiro praz•e11_ aquelles fóssos
e os percorremos em toda a extensão. A vegetação
está quasi que igual por cima, de modo que só nos
apenoebemos dél;s trincheira·s vi'sitando todo o capão
de matto, ávidos de encontrar . algum objecto.
As nos·sas tropas, segundo narra Taunay, mal
tinham desalojaido os paraguayos e estavam empe-
nha.idas em recolher i os idestróços abandonadas,
quando foram acoçadas por enorme horda de ca-
vallerianos que se havíam esoondido numa baixa.da
e volviam céleres, cahindo de chofre sobre os nos-
sos. Entrou a nossa art11har~a em acção, contendo-os
lrogo, e p-ouco a pouco a·s nossas tropa•s\•·cahiram para
a retaguarda, apoiando-se no outro capão de matto,
que é a Isla de Acârâbebó.
Quer isto dizeir em guarany "cabeça ôca ouva·-
sia" e, se levarmos em conta que o general Camisã6
era calvo, cremos seja essa explic<;tção correcta, isto
é, queriam os paraguayos dizer que era uma cabeça
ôca a .do chefe que s·e anrevia. a avançar pelo Para-
guay a dentro.
F oi nes·se capão que a·s nossa.s . forças des-can-
çaram, po.is· ha um filete <l'agua limpa que corre pa-
-38 -

ra o Estero Panhete. No pequeno matto de Ymbú-


guassú a bus.ca que fizémos só' deu como resultado
a.cha.r mos uns arcos de barril. Notámos que o chão
havia sido revolvido em varios lugar.es. Affirmaram-
nos, entretanto, que, se cavass,emos a trincheira,
aichariamos: ides troços daquelle t·e mpo. "·
Em Bella Vista, contaram-nos, tambem, que
dentro do Este'ro Panhete exi stie um canhão aban-
1

donado. Caso seja verdade, só poderá ser canhão


paraguayo, parque os: nossos eram quatro, e qua-
tro foram entregues, em AquidaU'ana, pelos sobre-
viventes da Epopéa Gloriosa.
O "croquis" que fizémo.s melhor elucida a nos-
sa descripção, e juntando-o aqui é esse o nosso in-
tuito.
Voltámos satisfeitos de termos passado umas
horas nesses lugares regados com o sangue de sol-
dados dignos e bravos. Pela nossa ·imaginação pas-
savam os nomes de Camisão, J mnencio, Guia Lo-
pes, Taunay, Enéais Gahão, Lago, José Thorn_az
Gonçalves, commandante do 21.º, Pedro José Rufino,
Catão Roxo, Antonio Cunha, Ferreira de Paiva, Cos-
ta Pereira, os officiaes de artilharia Thomaz Can~
tuaria, Ma.r ques da Oruz, Napoleão Freir·e, Nobre de
Gusmão e tantos outros de que nos fala Taunay.
Gloria a elles e aos humildes soldados filhos de
São Paulo, Minas Geraes, Rio de Janeiro, Ma t to
Grosso, Goyaz e Amazona·s !

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Cambarecê

E ' ·este o nome ida matta em que foram abando-


nados os doentes cholericos da expedição á Laguna.
Cambé!Jra cê - no1o trarduziiram como signifi-
1

cando em guatany "Negro Chorando", mas quere-


mos cr·er que a melhor traducção seja "Negro doen-
te " . Não ha duvida que se refere aos nossos soldados
em sua maioria pretos, razã;o por que os inimigos
assim chamavam os brasiilerros.
"tCambá" quer dizer negro e "acê" doent·e, o
que verificámos, ligando o sentido destas pa1'avras ao
facto do que aUi se pas·sou. Para visitar os tumulios
de Camii.são, J u'vencio, Guia Lopes, passo do Miranda
e a fazenda J ar·dim, organizamos uma comitiva que
partiu em autonwvel guiado por· Luiz dos Santos
e para a qual convidámos os drs. Jesus Netto, Mar-
cello de Lima, Aurdio Ib'ia pina e o sr. Theobaldo
Menna Gonçalves.
O nos·so guia~ irmão do major de engenharia dr.
Antonino Menna Gonçalves, e filho do coronel Zo-
- 40-

zimo M,e nna Gonçalves; veterano de Lamas Valen-


.
tinas e Avahv, tenente sob as ordens de Andrade
~

Neves o glorioso barão do Triumpho.


Tivemos ainda a felicidade de conhecer o velho
Zozimo com vida, e era immenso o nos·so prazer, cada
vez que iamos a Bella Vista ouvil-o nairrar os fados
com a s·ua memoria fres·ca, citando datas precisas.
Foi em setembro de 1924, por uma bella manhã,
que sahimos ·de Hella V:üsta, pa-ra, com duas leguas
de caminho, pa·s sarmos o ,c orrego do Baneiro e, com
cinco, o Pirapucu'.
O caminho continuava serpenteando ora por
campos lindos, ora por cerrados densos, ·e feitas mais
tres legua-s estav.amos em Santa Victoria. Logo de-
po:üs, com uma legua mais, chegavamos ao Ba cayuva.
1

Dahi ao Toro cirámos uma legua; em seguida,


mais meia para attingir ao Cor é; maiis uma para o
Capão Alto, fazenda de Emílio M.edeiros e, final-
mente, um quairto de legua para chegarmos ao capão
Cambara1cê.
Caminho todo e1le pessimo e não faltaram pe-
ripecias autiomobilisücas para enche!I'·e m o tempo e
exe·r.citar·em a paciencia dos companheiros. Fomos
muitas vezes obrigados a pensar no que teriam sof-
frido os Retirantes da Laguna, para não desistirmos
da tar.e fa que nos havíamos proposto.
Cambaracê é um cerrado sujo, seoco e lugubre.
Fica numa baixada e parece que no tempo das aguas,
sómente, é que recebe uma parcella da inundação
da baixada. Foi neste lugar que a contigencia ob1-i-
a

-
-2"'
E
<
-41-

gou ao abandono 130 doentes de cholera, agonizan-


tes, entregues, como diz Taunay, "á cdmpaixão do
inimigo".
A esse respeito escrev·e elle: "Era curvar a ca-
beça e ir andando s·empre, que alli estavam quatro
bandeiras e quatro canhões que para essa columna de
mis·e ros representavam· a unica cousa que convinha
salvar : a honra " .
Olhando aquellas arvor·es, quietas, ramagens
paradas, sem o menor movimento, tudo secco, tudo
solidão, tínhamos a impressão de um lugar tetrico.
Si a Morte personificada existisse, alli com certeza,
elegiria morada.
Naqurelle chão, por baixo daquellais arvores, re-
cordavamos nós, quantas scenas horríveis se te·r ão
passado! O primoroso cantor que as descreveu,
assim se exprimiu :
"Homens quasi nús, esqualidos, devorados de
fome , no ultimo estado de desailento e miseria, ve·r -
dadeira tropa de bandidos maltraipilihos. E' quasi
inacreditavel como podéra aquella gente furar por
alagados irnmensos pantanaes interminaveis, cuja
vasa annualmente depositáda pelas inundações, ja-
mais havia sido revolvida. Tambem quantos por lá
ficaram? Sem exaggeração, entre soldados e mulhe-
.o re~, bagagens e boiadeiros, isto é, tudo quanto con-
siste o "irnpedimenturn" dos romanos talvez houves-
sem morrido mais de 2.000 pessoas " .
o. Isto aconteceu no dia 24 de Maio de 1867.
-42-

Continuando o nosso ca.m inho, fomos com mais


quatro leguas de percurso attingir a Cachoeirinha.
Des1cemos para a varzea e nos aproximámos da
margem do rio Miranda. A' dir-eita passa a linha te-
legraphirc a que vae a Nioac e para a esquerda, na orla
de uma matta, numa capoeira suja, existe um cercado
de arame, invadido pelo matagal, onde estão os tu-
mulos daqueHes que e:m vida foram as tres figuras
principaes daquella pagina historica inegualavel que
se chama, para orgulho das gerações vindouras: A
Retirada da Laguna.
111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111nm11111

Os tumulos de
Camisão, Juvencio e Guia Lopes

A um lado, ha uma s·e pultura baixa, uma simples


caixa r·ectá.ngular, de ardosia cinzenta, esburacada
nos cantos, com uma placa de marmore medindo 98
por 129 centímetros. Vê-s·e uma cruz gravada na
pedra e lê-se o seguinte:

A' MEMORIA
elos B.enemeritos Cel. Car'los de Moraes Carmisão
e Tt.e. Cel. Juverncio M. Cabrnl de Menezes
Comte. e Imto dais forças em ~peração a:o sul desta
Província
FaHeoidos na memoravel retira>cla d<J..s mesma·s forças
em 29 d'e Maio de 1867
O Governo Imperia:l mandou erigir este Monumento
em 1874
-44 -

Pelo que se deprehrend·e, aquella pedra marmore


deveria ser a pla-ca de um mqnumento, mas ninguem
poderá crer, um só segundo, seja aquella rél.es sepul-
tura a:bandona<la o monumento que um goveirno te-
nha mandado erigir pa·r a abrigar OIS restos sagrados
que alli jazem.
Compare-se, na photographia, o t11mulo que é ,,
o do Guia, a esquerda, com o do Conmundante e Im-
mediato, e ver-se-á, imrnediatamente, a flagrante
differença pair a melhor daquelle para este, não obs-
tante ser ainda uma cousa longe daquillo que se de -
sejaria para guardar os restos de José F·rancisco
Lopes.
Nada do que vimos alli, se parece com o que deve-
ria existir segundo narra Taunay em seu livro "Dias
de Guerra ·e de Sertão" edição M-onteiiro Lobato, pa -
gina 168 quando transcrev.e o documento 440 da Com -
missão de Limites ·entre o Brasil e o Paraguay, as-
signado pelo coronrel Rufino Enéas Gustavo Galvão.
Esperavamos ver algo que se parecesse com um mo-
numento. A cruz já não existe; ha no tumulo do
Guia, uma inscripção mal feita, não podendo ter re-
ferencia alguma com elle, poTque seu nome era José
e não João. Não po.dia tambem ter nascido em 1856,
pois tendo fallecido em 1874, teria vivido apenas 18
annos. Deve ser algum filho que tenha sido alli enter-
rado mais tarde.
Aos brasileiros que nos ler·em, pedimos traba-
lhem da melhor fórma que poderem, junto ao Go-
verno, junto d()ls amigos políticos que tiveirem, para
<1)

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Inscripção no tumulo de José Francisco Lopes
-45 -

que se faça uma homenagem condigna, afim de que


se alde essa divida de gratidão, ha muito contrahi.da
para com a memoria dess·es tres vultos, dess·e s tres
homens de facto, caracteres ma,sculos, de rigeza fer -
rea, de abnegação completa ao cump·rimento do
dever consóente.
Essa homenagem pr.ecisa ser feita, para que as
gerações vindouras não nos - acoimem de ingratos
para com aquelles que . sacrif.icando-se sem medir
consequencias, trabalharam afim de que foss·e mos
portadores de um passado glorioso, fornecendo-nos
exemplos para serem imitados pelos futuros defen-
sores deste Brasil amado !
Camisão . quando já se sentia mal, como bom
commandan•t'e · que era, lembrava-se ainda dos seus
soldados. O dr. Gesteira querendo experimentar um
outro medicamento no coronel, ouviu deste, cuja
calma nunca o abandonou: "DOUTOR, V A' TER
COM NOSSOS SOLD~OS , NÃO SE CANCE INU-
TILMENTE CO'MMIGO SOU UM HOMEM
MORTO ." Na hora da morte, encostando-se ao ca-
pi1tão Lago, sciente de haver cumprido s·e u dever,
di se-lhe que havia salvo a columna, e volvendo seus
olhos vidrados para sua ordenança : "DA-ME A ES-
PADA E O REVOLVER".
Procurou afivellar o talim, mas morreu com-
mandando: "MANDEM SEGUIR A FORÇA; EU
VOU DECANÇAR."
Lembrae-vos da phrase de Juvencio, ao retirár-
se do conselho que acabava de decidir marcharem so-
-46-

bre o Apa. "DEIXAREI VIUVA E SEIS OR-


PHÃOS; '
MAS ELLES HERDARÃO -
UM NOME
HONRADO." Tinha consciencia de que ia sacrificar-
se pelo dever para com a Patria. Suas utlimas pala-
vras, quando agonizava, foram: "TAUNAY, :>egre-
dou ·elle baixinho, VOCE ENTREGARA' ISTO A
MINHA MULHER, E' O RESULTADO DAS MI-
NHAS ECONOMIAS DE TODOS OS DIAS. SÃO
600$000".
- Hoje em dia, parlamentar-se com revoltosos,
sob garantia de bandeira branca, é o sufficiente para
que o Congresso mande distribuir uma fortuna! -
E José Frarncis,co Lopes? Esse typo de velho
patriar-cha, leal e a·r guto, perspicaz e destemido, que
tudo sa;crificou pa'r a levar a expedição ao seu termo,
guiando-a até a hora de morirer, quando já deitado
sobre um armão e á vista das suas terras, el1e dis-
séra, como narra Taunay:
"OLHE PARA AQUELLE CAMPO VERDE
ESCURO. E' O MEU RETIRO; NÃO CHEGAREI
LA'. OS SENHORES DENTRO EM POUCO ES-
TARÃO EM NIOAC".

E já nos ultimos instantes, tendo ainda ouvUio ~


seu genro Gabriel querendo atalhar por meio de um
cerrado com as tropas :
"RODEIEM-N'O, disse com voz sumida, TEM '11!
MUITO ESPINHO".
....
CI
E
o
P.

o
e?
o
o
'.:I
e
CI

V
"'"'
~
:<
- 47-

Caros patricios ! Não desanimeis, pois uma Terra


que produziu homens como estes não póde deixar
de ter filhos que zelem e enalteçam esse legado his-
•• tmi1co, que constitue o mais beUo patrimonio de uma
raça viril!

Anoii.teceu; dormimos no campo, justamente em


baixo .d a linha tele.g.raphica. · Durante a noite uma
tempestade, ao longe, ameaçara desenca.dear um
mundo dagua, mas) felizmente, apenas fomos con-
templados com alguns grossos pingos . Pela manhan
atravessámos o rio Miranda, no mesmo local em que
tantos compatriotas, já sem forças, perderam a vida,
na ancia de saciar a fome no laranjal do outro lado,
no pomar da fazenda do Jardim.
111111111111111111111llllll111111!1111111111111! 11111 Ul l l l l l l li l l l IJll 1111111li11111111111111

~~ ~r

Fazenda Jardim

Caminhámos beirando o rio, aguas acima, por


dentro de uma matta de arvores grandes e quasi
limpa por baixo, havendo, porém, em seus troncos,
vestígios da·s grandes enchentes a que têm resi-stido
e sido te·s temunhas.
Fomos ter a um campo limpo, e por e.Ue á uma
casa de um neto de José Lopes.
Ainda existe em Aquidauana um filho do velho
Lopes, e, nas visinhanças de Nioac e em Campo
Grande, vivem varios netos e bisnetos do venerando
ancião.
Do lairanjal pouca cousa r-esta. Hoje é mais uma
capoeira fechada, onde ha mais goiabas do que la-
ran3as.
Ainda assim, podemos encontrar alguns pés
enormes, mas quasi todos elles <le laranjas bravas,
azedas, laranjas só para fazer .doce. Trouxemos al-
-50-

gumas, g.ue plantámos e pegaram muito bem, estan-


do viçosas e ·c om mais de palmo.
Fomos felizes em encontrar, ainda em pé, va·r ios
esteios de arneira do que fôra, outr'ora, a casa do
Guia.
AHi viveu feliz ao lado da idolatra.ida esposa, d.
Senhorinha Maria da Conceição Lopes e da nume-
rosa prole. Encontrámos seis dos oito esteios em pé,
e os tocas dos dois que faziam o puxado da casinha.
Parece, pela divisão assignalarda com as madóras
deitadas, onde naturalmente s·e encaixavam os bar-
rotes, que ha:via tres grandes compartimentos.
Trouxemos um p·edaço de est.eio que conserva-
mos cuirdadosamente, tendo feito p1resente da meta-
de ao nosso amigo dr. Roberto Simonsen; Do lado
da cozinha, existe, ainda, formidavel e frondoso pé
de jambo. Do outro laido, lardo esquerdo ·de quem dá
as costas para a casa, fica o rego dagua cuidadosa-
mente estivado lateralmente com pranchas de aroei-
ra. Estão ainda -conservados rego e pranchas, por
onde corre um filete d' agua; margeia o rego, num
dos lados, por entre as outra·s arvores da matta, uma
fila de coqueiros enormes, plantados em linha.
As la•r anjeiras que existem estão do lado es-
querdo da casa, entre ·esta e o rego dagua.
Quanta poesia! Com que ca·r inho falava o Guia
da sua fazenda do Ja:r.dim !
Junto aos esteios da casa do GUIA LOPES
- 51 -

Conseguimos, do ar·chivo do 10.º R. C. I. de Bella


Vista, uma copia da ordem do .dia de 15 de Novem-·
bro de 1912, quando o regimento, formado , recebeu
o seu estandart·e das mãos da esposa do Guia Lopes,
madrinha dessa unida:de.

Eil-a:

"BOLETIJVI REGIMENTAL N. 324 de 15 de


Novembro de 1912. Para conhecimentd do Regi-
mento e devida execução publico o seguinte: "15 de:
Novembro". E' hoje um dia de duplo jubrlo, para a.
Patria, po·r ser commemorada a data da proclamação
da Republica no Brasil, e para nós em particular,
porque vamos receber um novo estandarte, vindo das
mãos d~ d. Senhorinha Maria da Conceição Lopes,.
que ora o está empunhando. A razão de ser esta se--
nhora eleita para tão nobre incumbencia, provém de
um facto de nossa historia militar.
Ha 47 annos brasileiros e paraguayos luctaram•
nesta zona. De Laguna, ao alarma da fome com seu ·
cortejo de horropes, retrocedeu a columna brasileira .
que invadiTa o Paraguay; então, gu~ada e protegida
de ardis e surprezas do inimigo, pelo sublime Juão ·
Francisco Lopes, esposo desta senhora (indicando-a)
se salvou o pavilhão patrio á guarda do nosso regi-
mento, parte dessa columna. Após essa t itanica fa-
çanha, com o coração ferido pela saudade de sua fa-
milia aprisionada, su.ccumbiu o heroico João Fran-
- 52 -

cisco Lopes; ass·i m pois, das mãos da sua virtuosa


consorte, digna de s·e us mais acendrados aff ectos,
V·e m o nosso estandarte traz·e ndo-nos a·s bençãos do
passado, aureolado das lagrimas patrioticas de .sua
portadora, que nesk momento bem symbolisa a
imagem de nossa mãe Patria" .

Nota - Duas vezes s·e disse João Francisco Lo-


pes em vez de José Francisco Lopes.
111111ii1111111111111111111111i111111111111il1111111111111111111111111111111111111111111111111

Miranda

De passagem por essa lendaria cidade, situada


á marg,ern direita do rio que lhe deu o nome e atra-
v.essada, hoje, pela estrada de ferro Noroeste do
Brasil, tivemos a ventura de ver e pisar as lages da
porta do que _fôra um qilartel de cavallaria. Nesse
ni.esmo quartel se abrigaram as forças da expedição
e naturalmente por essa porta sahiu pela ultima vez,
para o cumprimento do dever, aquelle que foi o com-
mandante de Dourados: Antonio João.
Com veneração nos recordámos de Frei Mari-
anno de Bagnaia, o celebre vigario de Miranda,
exemplo da fé, do sacrifício e da corag;em em defeza
da Religião e dos pobres indio·s.
Recordamo-nos, tambem, de que aqui as tropas
soffreram atrozmente graças ao . beri-beri, porque
·a antiga cidade de Miranda ficava em terreno baixo,
mais para perto do rio.
11 llllU llllllllllllllllllll l l l l l l l l Ili llllll li li l l li llll li li l l l l li l l Ili Ili l l li l l li llll lllllll'

~F T

Nioac e Aquidauana

F ica a pTimeira á margem direita do no do


mesmo nome ,e foi, de•p ois de Miranda, a s:éde do
commando.
I ncendiada afinal pelo inimigo, foi ahi, talve~,
que as nossas tnopas mais soiffreram a perseguição,
pois já estavam dizimadas por tantos desastres phy-
s1cos e mor;les.
A segunda cidade acha-se situada em ambas as
margens do rio Aquirdauana. A pairte construida á
margem esquerda é a povoação antiga e a da mar-
gem direita a no'Va, sendo que esta tem augmentado
consideravelmente, devido á proximidade da estrada
de ferro.
Tanto Nioac corno Aquidauana ficam situadas
na vertenfe oc ci<lental da sei-ira de Amambahy, tam- .
1

bem chamada de MaTa:cajú, - a -serra de grés ver-


melho, que ao p-or do sol fica roxa, azul e solf'erina,
proporóonando um dos mais bellos espectaculos que
.'
se possa imaginar.
- 56 -

Corre a serra de Amambahy em sentido norte-


sul. Elia é Maracajú quando toma o rumo sud-oeste
até que 'atrave,s sa o Iguassú. Tem no Paraguay o
nome de cordilheira das "Quince Pontas".

No governo do dr. Arthur Bernardes e por ini-


ciativa do mare'c hal mi·n istro da guerra F . Set em-
brino de Carvalho, foi levada a effeito a primeira
homenagem á memoria dos Retirantes da Laguna,
- dizemos a primeira, porque consta de um monu-
mento de fado, e porque achamos que não deve
ficar só nessa. Os restos morta·es dos que jazem
abandonados á margem do Miranda deverão ser
transportados para a Capital da Republica, para um
mausu1éo á altura da gratidão que merecem de seus
compatriotas.
Deverão repousar em um monumento grandioso,
pan theon em que ,d urmam o sommo eterno todos
aquelles que pelos aictos heroicos, militares ou c1v1s,
hajam concorr.i:do pa ra enriquecer a nossa historia,
1 1

glorificando o Brasil.
Coube á Companhia Constructora de Santos
construir, dentro da verba destinada ás edificações
militares em Matto Grosso, o monumento aos reti-
rantes da Laguna. O presidente da companhia, dr.
Roberto Simonsen, que largamente advogou a idéa
de uma homenagem a esses bravos, propoz ao mi-

nistro o alvitre do chefe da commissão fiscalisadora
- 57 -

das obras. capitão engenheiro dr. Mario Pinto Pei-


xoto da Cunha, isto é, que o monumento se erigisse
em Nioac, na sua praça P'rincipal, onde ficaria en-
tregue á guarda da população. Foi Nioa·c, como já
tivemos occasião de dizer, o ultimo ponto de acções
militares com o inimigo, como tambem a séde do
commando, sendo, portanto, local apropriado para
nelle ser levada a effeito a homenagern suggerida.
O monumento, trabalho do architecto Jules
Mosbeux, antigo e provecto auxiliar da Companhia
Constructora de Santos, foi executado em arenito
rosa, da serra de Maracajú e consta de um embasa-
mento plano, de arestas vivas , tendo nos cantos
quatro grana·das superpostas.
Uma columna quadrada tambern com arestas
vivas, linhas rectas como que symbolizando o ca-
racter daqueUes a quem se homenageava. E' enci-
mada por um capitél sobre o qual está urna granada.
Na base, deitéj}do sobre o plano, a·cha-se um canhão
de bronze que o dr. Y eddo Fiuza. nosso dedicado au-
xiliar e companheiro de serviço na construcção dos
quarteis de Campo Grande, como engenheiro resi-
dente da empreza constructora nesse canteiro, conse-
guiu arranjar no velho quartel de Nioac.
Foram as pedras _trabalhadas em Campo Gran-
de. sendo então encaix<otadas e remettidas para
Aquidauana, donde s·eguiram em caHetas até Nioac.
Em duas das quatro fa;ces da columna, vêm-se
placas de bronze, fundidas com os canhões antigos,
onde se lêm as inscripções aqui transcriptas.
-58-

Ins·cri.pções repassa.idas de patriotismo, que im-


primem aos corações brasileiros algo de inexplica-
ve1, e e'l ectrizam a alma, fazendo-nos sentir felizes
de pertencermos á mesma Terra e á mesma grande
familia desses grandes homens : A Nação brasileira!

EM NOME DA NAÇÃO
O GOVERNO DA REPUBLICA
PELO SEU PRESIDENTE
DR. ARTHUR DA SILVA BERNARDES
E o Ministro e Seoretario de Estado
dos Negocios da Guerra
General F. SETEMBRINO DE CARVALHO
conisagmm este preito
<lie admiraçã:o e re-conhecimen.t o
A' GLORIA IMMORTAL DOS HEROES DA
R.ETIR.ADA DA LAGUNA
S-oldadtos da Cornstancia e do Vafor
· que, acahrurnhados
por privações i1I1Je~cooiveis,
perneguidos por :inimigo crud,
e incomparaveliJ.ne·n te mais forte,
oe'fcados pelo ~noendio
dizimados pelo cho1l1era e os• oombates,
ex.iinélll1idos de forças,
mais nu•ncar de animo,
li
s•a livaram as bande:iir as e os canhões
que o Brasil lhes confiára.
JULHO DE 1923.
[--- -- •

Monumento aos Retirantes da Laguna na praça de Nioac


- 59-

Tem a outra placa os seguintes diz·eres:

EPHEMER.IDES DA R.ETIR.ADA DA LAGUNA

1867

23 de Março - Decide-se a invasão do Piaraguay


14 de Abril - Enceta-se a maircha sobre o Apa
20 de AbrÜ - Primeirn encontro com o má.migo
21 de Abril - Passagem do rio Apar
1 de Múo - Tomada da Laguna
6 de Maio - Combates do Apa
7 de Maio - Enceta-se a retirada
8 de Mairo - Combart:e de Bayendê
11 de Maio - Passagem do Apa
- Combate de Nha ndipá 1

- Primeiro incendio d'a marcega


16 de Mano - Incerteza do caminho
18 de Maio - Primeiros caso·s d~ cholera morbas
1

25 de Maio - Abamdono dos cholericos


27 de Maio - Morte do Guia Lopes
29 de Maio - Mo·r te do Coronel Camisão
30 de Maio - Pass0.gem do Miranda
4 de Junho - Chegada a Niõac
11 de Junho - Chegada a Aquidauana. Fim da Retira.da.
- 60 -

E' jt1sto que aqui recordemos tambem, na parte


que diz respeito á construcção do monumento, os ser-
viços do nosso companheiro e auxiliar engenheiro dr.
Urbano Souza Aranha, e a solicitude do intendente de
Nioac para ser levada, ao fim no menor prazo pos-
.c:;iv·el, a montagem do monumento.
Não estaria, porém, completa essa homenagem,
se outra s·e não rendess·e áquelle que nos deu a co-
nhec·e r o que foi a epopéa sublime, narrada pela sua
penna primorosa, esse soldado-esniptor, esse ho-
mem na extensão da palavra:

AHredo D'Escragnolle Taunay.

Em Aquidauana, em frente ao quartel, que 11'0-


Je abriga soldados da mesma arma a que pertenceu
Taunay, graças á clarividencia e a'Ctividade assom-
brosa do dr. João P andiá Calogeras, e por escolha
do sr. general Candido Marianno Rondon, então di-
rnctor do serviço de Engenharia do Exercito, man-
dou o arctual governo, pela Companhia Constructora
de Santos, eri1gir m.11 obelis·co em homenagem ao
Visconde de Taunay.
Alli ao lado da serra e do rio que elle explorou
e descr·e veu com tanta belleza, se ergue o monumen-
to em sua homenagem. Feito em arenito branco,
sobre a base de fórma redonda, assenta uma co-
lumna triangular, ·e, em duas das suas faces, duas
placas de bronze.
Monumento aQ Visco.n de de Taunay em Aquidauana
- 61-

Uma representa a effigie, em re1evo, do home-


na.gea;do; na outra lê-se a insuipção seguinte:

.-----·--·- -..-~-~--~---
- -~-----------.....,

O pr.e•siden·t e da Republica
dos Esta•d!os Unidos do Brasil
' Dr. Arthur da Si•l va He1rnardes
'J
E o 'Ministro e Secretaúo ele Estado
dos Negoóo·s da Guerra
General F. Setembrino de Ca•rvalho
E sta homenagem consagram

EM NOME DA NAÇAO
A ' memoria do escripto·r ilh1stre
que, ao na-rrar,
com as si:mp1es vozes da V'erdade,
os feitos glio riosos
e os sacrifícios imd'isiveis
das fo-rçél!s empenhadas na
RETIRADA DA LAGUNA,
tão ia:lto odeibrou
a coinstainci:a e -o va1o.r
dos sotldadlos do B-rasil.

Em baixo da placa com a . -effigie de Taunay


lê-se:
ALFREDO D'ESGRAGNOLE TAUNAY, Visconde
de Taunay, Rio de Janeiro - 1843-1899
Para terminar a des1cripçã10 das visitas aos lu-
gares historicos do sul de Matto Grosso, faltou-nos
descrever o Forte de Coimbra, o que deixamos de
- 62-

fazer porque nã.o tivemos opportunida.Je feliz de


conhecer esse velho baluarte da defeza nacional.

Foi para a juventude actuat, em cujo meio in-


cluimos nossos filhos e seus amiguinhos, e para as
vindouras juventudes, a quem o Brasil um dia con-
fiará a guarda da sua integridade e a defeza da sua
honra, que escrevêmos as descripções que acabaes de
ler.
Alhures não precisarão procurar os mais dignos
exemplos de wmor ás instituições e ao Brasil, do que
dentre os actos de abnegação e bravura praticados
nos campos v,erdes do sul de Matto Grosso!!
E, agora, idirigimo-nos a vós, leitores que ha-
veis passado os vossos 21 janeiros: Lêde a historia
desses factos, e de vós mesmos indagae:
TEMOS, OU NÃO, GRANDE DIVIDA
DE GRATIDÃO A SALDAR PARA COM
A MEMORIA DESSES BRAVOS E OS
VETERANOS DESSA CAMPANHA,
VERDADEIRAS RELIQUIAS VIVAS,
QUE POR AHI ANDAM ESQUECIDOS
DE TODOS NO'S?
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