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Análise do Filme “Educação de Pequena Árvore”

Flavio Roberto Mota


Curso de Pedagogia
UNESP Bauru
02 de Março de 2019

O filme “Educação de Pequena Árvore” mostra a história de um


garoto Cherokee chamado “Pequena Árvore” que perde os pais e é
criado pelos avós, sendo sua avó Cherokee e seu avó branco mas
completamente absorto na cultura Cherokee.

A princípio haveria a possibilidade de o garoto ser cuidado por


outros parentes( uma tia), mas os avós insistem em levá-lo para sua
propriedade rural no Tenesee e criá-lo de acordo com a cultura
Cherokee.

Fica evidente o teor da educação que é voltada para as


necessidades e realidades indígenas e também dos avós que
possuem e vivem seguindo toda filosofia Cherokee e promovem em
Pequena Árvore um tipo de educação muito diversa do modelo de
educação dos ambientes escolares, mais voltados para as
necessidades do dia a dia como a pesca, o conhecimento da
natureza, leitura de trilhas e um comprometimento em transformar
Pequena Árvore em um legítimo Cherokee.

Embora haja essa tendência a absorver mais a cultura indígena, o


aprendizado do garoto não é completamente isolado da civilização.
Ele aprende a auxiliar o seu avô na fabricação de uísque, é
incentivado a ler todas as noites com os avós e também frequenta
os cultos na igreja da localidade, que é inclusive o local onde
acontece alguns episódios que evidenciam um certo choque
cultural com o homem branco.

No seu primeiro contato com os branco através da igreja, Pequena


Árvore faz amizade com uma garotinha de origem bastante humilde
que logo nota a diferença entre os dois pelo fato de pequena Árvore
estar vestindo sapatos mocassins que são de origem indígena
enquanto ela está descalças, o que também demonstra que a garota
é de origem humilde. A primeira conversa entre os dois mostra na
garota um certo preconceito não muito arraigado mas evidente,
principalmente quando ela procura mostrar ao garoto a diferençada
coloração de pele entre os dois e pergunta qual das duas cores de
pele ele acha mais bonita.

Sua segunda experiência na igreja também foi bastante marcante


porque seu avô havia lhe dado 50 cents em pagamento por ter o
ajudado na produção carregamento dos uísques e ele acabou
usando esse dinheiro para comprar um bezerro de um homem
branco. No entanto este este bezerro morreu logo em seguida.
Provavelmente deveria já estar doente e o homem se aproveitou da
ingenuidade do garoto.

Essas duas cenas mostram um certo lado perverso da cultura


branca em contraste com uma perspectiva de vida mais livre e sem
malícia do modo de vida que Pequena Árvore tem com seus avós.

É importante também acrescentar que de uma forma geral o modo


como os avós de Pequena Árvore o cria está mais voltado para uma
visão mais inatista, aonde o garoto tem a possibilidade de primeiro
vivenciar, experimentar ou ter sua curiosidade aguçada. No caso da
realidade de Pequena Árvore, esse modo de ensino soa bastante
interessante pelo fato de ele estando em contato com a natureza e
do dia a dia dos avós, isso naturalmente serve de matéria prima
para o processo de aprendizagem do menino, pois praticamente
tudo a sua volta deve ser de seu conhecimento e domínio.

Essa situação também revela uma característica importante desse


tipo de educação que não é aquela proveniente da criação das
escolas que sistematizam o conhecimento, é uma educação mais
livre, mais utilitária, voltada para quem irá fazer, menos focada num
desenvolvimento com características mais profundas do
procedimento científico, do desenvolvimento e acumulo do
conhecimento, do pensamento e também sem nenhuma intenção de
formar o menino como um grande líder ou algo do gênero. Também é
preciso salientar a importância do processo e aprendizagem com o
acompanhamento do menino assistindo seu avó e aos poucos
repetindo os fazeres dos avós.

Outro ponto que deve ser levado muito em conta é o ambiente


aconchegante da família que transmite ao garoto uma sensação de
amor e segurança que facilita o processo de aprendizado, porque o
menino se coloca de maneira mais relaxada e as experiências se
tornam mais fluidas, naturais.
No entanto, a tia que não havia ficado com o menino denuncia os
avós junto ao juizado (ou ao órgão governamental existente
correspondente) e o garoto é obrigado a deixar o convívio com os
avós para ser educado num colégio supostamente especial para
indígenas mas que funciona como uma espécie de internato, com
um padrão bastante rígido que se assemelha a um quartel ou a uma
prisão.

Essa realidade é muito diferente da até então vivida por Pequena


Árvore, que passa a ser chamado de “Joshua”, como sinal de uma
alienação de sua cultura original para ser inserido aos padrões da
civilização branca.

O modelo dessa escola é completamente autoritária, demonstrando


que as crianças que lá estão vivem como se tivessem alguma culpa
ou necessitassem de algum castigo para aprender. Um sistema
muito mais próximo do ambientalismo com uma educação
completamente tradicional, rígida e muito pouco humanizada, cheia
de preconceitos, proibições e regras.

Evidentemente esse modelo de escola não oferece para Pequena


Árvore qualquer chance de adaptação, pois ele não havia sido
criado e preparado para os preconceitos de idéias moralistas da
civilização branca e justamente por isso acaba fazendo referência a
um ato de sexual entre animais conforme estava sendo exposto em
uma foto durante uma aula. Como as outras crianças não possuíam
qualquer referência sobre o assunto, não houve na verdade nenhum
escândalo entre os alunos, mas o professor viu naquele
comportamento algo inaceitável, demonstrando uma visão
completamente demonizada do sexo enquanto que o garoto
enxergava o sexo como algo natural.

Por conta disso ele foi castigado sendo trancafiado em uma sala
escura sem poder sair, sem nenhum conforto e quase sem poder se
alimentar, exatamente como se estivesse em uma solitária. Como
Pequena Árvore não possuía qualquer referência sobre o que
haveria de errado naquilo que ele fez ele simplesmente não
conseguia perceber qual era o seu erro, mesmo porque ele foi
castigado mas ninguém sequer havia dito para ele o que ele haveria
feito de tão grave.

O menino somente foi liberado do castigo por conta das


festividades de Ação de Graças, festividade essa que contou com a
encenação da história que deu origem ao feriado, o que evidenciou
ainda mais a incoerência entre o clima de fraternidade entre
brancos e índios contidas na história e a triste realidade da escola.

Como Pequena Árvore não se encaixava e não via utilidade na forma


como essa escola funcionava ele fugiu assim que as festividades de
Ação de Graças terminou e não foi surpresa constatar que seu avô
estava do lado de fora da escola (vale ressaltar que muitos
familiares haviam visitado a escola nesse dia, mas seu avô não).

Retornando à natureza, Pequena Árvore ainda viveu um bom tempo


com seus avós até que eles faleceram e o menino então ficou sob
os cuidados de um índio Cherokee amigo da família que terminou de
criá-lo.