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A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO

DE 9 A 12 DE OUTUBRO

O VISÍVEL E O INVISÍVEL: O PRIMADO DA PERCEPÇÃO NO


ESTUDO DO ESPAÇO

ANA CRISTINA DA SILVA1

Resumo
O presente artigo pretende dar conta e sentido às questões que estão na sua origem e, sobretudo,
indicar as proposições que lhe são subjacentes. Uma dessas questões consiste em saber se as
epistemologias que estão na origem da ciência geográfica dão conta de nossa experiência do espaço
e de um saber dessa experiência. Esta questão nos conduziu a outra referente à capacidade da
Fenomenologia em oferecer uma perspectiva epistemológica capaz de abarcar as indagações postas
à constituição do saber geográfico, particularmente àquelas relacionadas à nossa experiência de
espaço, sem desconsiderar a dimensão ontológica. Procuramos encontrar aquilo que, no
desenvolvimento espontâneo da Geografia, converge realmente com as exigências de uma
abordagem fenomenológica e avaliar a necessidade de uma eidética da Geografia.

Palavras-chave: Geografia – Fenomenologia – Espaço – Experiência

THE VISIBLE AND THE INVISIBLE: THE PRIMACY OF PERCEPTION IN THE STUDY OF THE
SPACE

Abstract

This article aims to give account and sense to the questions in its origin and, specially, indicating its
underlying propositions. One of these questions consists to know if the epistemologies, which are in
the origin of the geographic science, give account of our experience of the space and of a knowledge
of this experience. This question took us to another one referent to the capacity of the Phenomenology
in offering an epistemological perspective capable to cover the shown inquiries for the constitution of
the geographic knowledge, particularly those related to our experience of space, disregarding the
ontological dimension. We aim to find something, in the spontaneous development of Geography, that
really converges with the demands of phenomenological approach and evaluating the need of an
eidetic of Geography.

Keywords: Geography – Phenomenology – Space - Experience

1- Introdução
Se defendermos a proposição de que a Geografia é uma ciência que investiga
as relações dos homens com o espaço e que essas relações são constituídas de
experiências dos sujeitos coletivos e individuais, é porque aí vislumbramos sua
identidade e seus propósitos. É nesse sentido que se pode buscar o fundamento
dessa proposição numa filosofia que, por princípio e tarefa, se dispôs a dar a si
mesma um fundamento e a dialogar com as ciências, considerando-se a
necessidade delas terem seus próprios fundamentos: a Fenomenologia. Esse dar-se
a si mesma um fundamento compreendeu esforços de uma vida toda, como se pode

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Docente do programa de pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Goiás. E-mail de
contato: ana.iesa.ufg@gmail.com

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conferir, por exemplo, pelas trajetórias de Husserl ou de Merleau-Ponty, porque tal


fundamento não estava pronto à espera de ser descoberto2.
O que procuramos saber sobre a relação entre Geografia e Fenomenologia
pode não apresentar novidades, haja vista a produção sobre tal relação em Dardel 3
(2011), Relph (1979), Tuan (1980, 1983) e Buttimer (1985). No Brasil, destacam-se
os trabalhos de vários geógrafos conforme sistematizou Marandola JÚNIOR (2013).
Ao tratar dessa relação, não pretendíamos abordá-la como um problema de uma
das “escolas” da história do pensamento geográfico, mas tornar possível à Geografia
repensar seus fundamentos. Buscamos encontrar aquilo que, no desenvolvimento
espontâneo desta ciência, converge realmente com as exigências da
Fenomenologia.

2. O Tempo da Esfinge: o enigma do sujeito e a crise das ciências do homem

O século XIX pode ser considerado o século da emergência do homem como


objeto do conhecimento científico e das ciências humanas como campo de estudo
desse “objeto”. Todavia, o século XX pode ser considerado o século da crise da
concepção moderna de sujeito e da crise dessas ciências. A crise consistia na
dificuldade em estudar o homem e tudo aquilo que se referia ao humano com o
mesmo rigor e os mesmos critérios de objetividade das Ciências Naturais, já
constituídas. Outro aspecto da crise referia-se à relação entre as Ciências Humanas
e a Filosofia. Até então, tudo quanto se referia ao homem era estudado pela
Filosofia. A crise passava também pela distinção e explicitação da partilha do
conhecimento.
O desenvolvimento das Ciências Humanas foi pautado em grande parte pelo
dilema entre subjetividade e objetividade. Embora se distanciando da Filosofia, rumo
a uma identidade própria, as Ciências Humanas nunca abandonaram o legado que

2
“[...] a fenomenologia se deixa praticar e reconhecer como maneira ou como estilo; ela existe como
movimento antes de ter chegado a uma inteira consciência filosófica. [...]. É em nós mesmos que
encontramos a unidade da fenomenologia e seu verdadeiro sentido. [...]. Tentemos portanto ligar
deliberadamente os famosos temas fenomenológicos assim como eles se ligaram espontaneamente
na vida. Talvez compreendamos então por que a fenomenologia permaneceu por tanto tempo em
estado de começo, de problema e de promessa.” (MERLEUA-PONTY, 1999, p.2-3).
3
A obra de Dardel parece merecer ainda um estudo acurado acerca de sua filiação à Fenomenologia,
porque alguns traços de sua abordagem nos remete à fenomenologia bachalardiana.

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herdaram: os pressupostos filosóficos nos quais se apoiam. No início do século XX,


a crise era de grandes proporções:
[...] crise interna das Ciências Humanas, crise interna da Filosofia e crise das
Ciências Humanas em relação à Filosofia. Um dos elementos dessa crise pode ser
encontrado na velha oposição das categorias objetividade e subjetividade,
exterioridade e interioridade como distinção entre os domínios das ciências e da
filosofia: às primeiras, caberia o estudo do que pode ser considerado objetivo; e, à
segunda, o estudo da subjetividade. A situação de crise era comum tanto à Filosofia
quanto às Ciências Humanas. (SILVA, 2013, p. 65).

A emergência da fenomenologia pode ser mais bem compreendida quando se


considera essa crise e o papel que nela desempenhará Edmund Husserl (1859-
1938). Sua insatisfação com as ciências a época e eu projeto de uma “ciência”
rigorosa estão no cerne da investigação filosófica que desenvolveu. Tributário de
várias influências, o filósofo não cessou de perseguir seu objetivo e a tarefa a que se
propôs.
À medida que se desenvolviam as pesquisas psicológicas, sociológicas, históricas,
tendiam a nos apresentar todo pensamento, toda opinião e, em particular, toda
filosofia, como o resultado da ação combinada das condições psicológicas, sociais,
históricas exteriores. A Psicologia tendia para o que Husserl denomina psicologismo,
a Sociologia para o sociologismo, a História para o historicismo. Ora, com isto, elas
acabavam por erradicar seus próprios fundamentos. Com efeito, se os pensamentos
e os princípios orientadores do espírito nada mais são que o resultado
momentâneo da atuação de causas exteriores, as razões pelas quais afirmo
qualquer coisa constituem, na realidade, as verdadeiras razões de minha
afirmação. Esta possui menos razões do que causas determináveis do exterior.
Segue-se que os postulados do psicólogo, do sociólogo ou do historiador, são
cunhados de dúvida, em virtude do resultado mesmo de suas pesquisas. (MERLEAU-
PONTY,1973, p.15-16, grifo nosso)

A tentativa de encontrar tal caminho era imperiosa, sobretudo, pelo


desenvolvimento da Psicologia e das possibilidades que apresentava em nortear
disciplinas filosóficas como a lógica e a teoria do conhecimento. Esse
desenvolvimento da Psicologia a colocava numa posição de destaque entre as
outras ciências, como interlocutora no diálogo e no projeto da Fenomenologia. Foi
nessa situação de crise das ciências que Husserl delineou seu projeto de uma
ciência rigorosa das essências4.
Do começo ao final de sua carreira, a tentativa de Husserl consistiu em encontrar um
caminho entre o logicismo e o psicologismo. Através de uma reflexão
verdadeiramente radical, isto é, que nos revele os preconceitos em nós estabelecidos
pelo ambiente e pelas condições exteriores, ele tende a transformar este

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Para uma compreensão do desenvolvimento da fenomenologia ver também Husserl (1986) e Sartre
(1997).

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condicionamento sofrido em condicionamento consciente, sem jamais negar sua


existência e sua constância. (MERLEAU-PONTY, 1973, p.22).
Desde Husserl a Heidegger, de Merleau-Ponty a Sartre, a Psicologia não
mais deixou de ser visada pelos fenomenólogos. Mesmo quando esses três
filósofos, seguindo as pegadas de Husserl, deram continuidade ou romperam com
os pontos de chegada do mestre, quer seja repondo velhas questões, quer seja
suscitando novas e trilhando outros caminhos. Desafio ou privilégio à Psicologia,
certo é que a Geografia não foi convidada a comparecer nesse banquete filosófico e
aguardou a segunda metade do século XX para se dar a conhecer a
Fenomenologia, mais pelo movimento dos geógrafos humanistas5. A Geografia
científica inicia o processo de sua institucionalização em meados do século XIX, mas
sua legitimidade será conquistada no século XX. Sendo assim, no que se refere à
situação da Geografia clássica no campo e na crise das ciências humanas, constata-
se que os geógrafos passaram ao largo dessa crise e da reflexão dos filósofos6.

3. Transparência e Obstáculo - o primado da percepção e o empirismo

A geografia clássica pressupunha um nível de percepção das coisas no


interior de suas observações, porém pensava que descrever era reproduzir o objeto
como um dado bruto, empírico e em sua imediaticidade. A consciência, o sujeito, a
experiência e a reflexão não eram as categorias mais importantes do método

5
Segundo Gomes (1996), a obra de Dardel : L’homme et la Terre, redescoberta na década de 1980,
foi uma das referências das formulações sobre o humanismo que inspirava o movimento humanista
na Geografia. Obra que recebeu interpretações variadas, constitui uma indicação da possível
influência de Heidegger (1988, 1990) no pensamento daquele autor, até porque ele teria traduzido O
Ser e o Tempo, obra desse filósofo, para o francês.
6
Segundo Silva (2013), constata-se a ausência de referências à Geografia em obras de filósofos que
se ocuparam das Ciências Humanas ou do espaço. Assim, Husserl (2002) em A crise da humanidade
europeia, título de uma conferência proferida, fez uma crítica pública contundente à humanidade
europeia e ressaltou a responsabilidade dos filósofos e dos cientistas diante do irracionalismo e da
crise que indicava o advento da Segunda Guerra mundial. Apesar de o conhecimento geográfico ser
considerado um poderoso instrumento do imperialismo europeu, não há referências à Geografia,
como ciência, nas formulações do criador da Fenomenologia. O mesmo ocorre em Merleau-Ponty
(1973) em As ciências do homem e a fenomenologia, obra constituída de suas lições e do programa
de seu curso no período de 1949 a 1952. Em Foucault (1995) As palavras e as coisas, bem como em
outras reflexões desse filósofo, como A arqueologia do saber, edição francesa de 1969, não há
referências à Geografia. O filósofo se pronunciou a respeito da Geografia quando foi inquirido na
entrevista que concedeu a Hérodote, intitulada: Sobre a geografia, publicada em Microfísica do poder,
a edição brasileira é de 1979. Apesar da relevância do espaço em sua teoria do poder, do tema da
“arte de governar” e sua associação ao território, o diálogo de Foucault com a disciplina histórica foi
mais intenso do que com a Geografia.

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geográfico. A observação, a descrição e a comparação como categorias do método


geográfico, na Geografia clássica, pressupunham mais a imparcialidade do sujeito
do que a intencionalidade de sua consciência. No desenvolvimento da Geografia
contemporânea, particularmente com o surgimento da Geografia Humanística, na
década de 1960, é que se pode encontrar um diálogo e aproximações com a
fenomenologia. Contudo, a inserção da abordagem fenomenológica na Geografia
apresentou-se sob várias perspectivas, dentre elas, a saber, como: instrumento de
crítica ao método racionalista vigente, possibilidade de fundamentar a explicação
geográfica das “experiências vividas”, meio de promover a aceitação da dimensão
subjetiva nos estudos geográficos, instrumento para se rever os conceitos de
espaço, lugar, paisagem, meio, dentre outros. A síntese dos desdobramentos dessa
inserção encontra-se particularmente nas formulações de Relph (1979) e Tuan
(1980, 1983), apresenta-se permeada de ambiguidades e ecletismo quanto ao
método fenomenológico. A interpretação sucinta que Gomes (1996) apresenta
desses autores, permite aventar a ideia de que a Fenomenologia não foi levada às
suas últimas consequências, isto é, a radicalidade com que enfrentou a experiência
do pensamento e a atitude natural. Ao que parece, num primeiro momento de
inserção, a fenomenologia serviu de âncora para uma ruptura epistemológica no
interior da Geografia, mas desconsiderou a dimensão ontológica e a radicalidade
exigidas pela fenomenologia. Aliados a esses aspectos, há que se considerar certa
“tradição empirista” na Geografia. Tradição esta que parece estar mais próxima da
consciência natural do que da consciência fenomenológica. A superação dessa
consciência natural é necessária, pois é preciso por em suspensão a experiência do
pensamento que anima a ciência moderna e contemporânea.
É preciso que o pensamento de ciência – pensamento de sobrevoo, pensamento do
objeto em geral – torne a se colocar num “há” prévio, na paisagem, no solo do mundo
sensível e do mundo trabalhado tais como são em nossa vida, por nosso corpo, não
esse corpo possível que é lícito afirmar ser uma máquina de informação, mas esse
corpo atual que chamo meu, a sentinela que se posta silenciosamente sob minhas
palavras e sob meus atos. É preciso que com meu corpo despertem os corpos
associados, os “outros”, que não são meus congêneres, como diz a zoologia, mas
que me frequentam, que frequento, com os quais frequento um único Ser atual,
presente, como animal nenhum frequentou os de sua espécie, seu território ou seu
meio. Nessa historicidade primordial, o pensamento alegre e improvisador da ciência
aprenderá a ponderar sobre as coisas e sobre si mesmo, voltará a ser filosofia... .
(MERLEAU-PONTY, 2004, p. 14-15, grifo do autor)

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Tarefa árdua essa a que nos convoca Merleau-Ponty. E, no entanto, não


conseguimos recusá-la, silenciar diante dessa provocação, evitar a interrogação da
experiência do pensamento. Em nosso cotidiano, constantemente, pedimos
conselhos, opiniões, explicações aos cientistas, isto é, que assumam uma posição
diante de um fenômeno, acontecimento, um fato; que nos digam que atitude tomar, o
que fazer. Como se referiu Merleau-Ponty (2004, p. 15) acerca do escritor e do
filósofo: “[...] Em grande parte, pensamos o „homem de ciência‟ como uma
personalidade estranha e acima do cidadão e o intelectual como sendo dotado de
uma superioridade de quem „vê‟ mais longe ou aquele que „vê‟ o que os outros não
„vêem‟.
Num estudo sobre Merleau-Ponty, Chauí (2002, p. 23) afirma que ele
considerava que “[...] pensar não é possuir uma ideia, mas circunscrever um campo
de pensamento”. O abandono da ideia de posse de um autor, de seu pensamento,
da primeira e última palavra sobre ele, não é um procedimento metodológico, é uma
convicção e o reconhecimento do impensado como uma dimensão do pensamento.
Nesse sentido, ao contrário da acepção negativa atribuída ao que se considera ser o
impensado, encontramos as formulações positivas de Merleau-Ponty sobre esse
termo.
[...] o impensado não é o que não foi pensado, nem o que tendo sido pensado e não
soube ser dito, nem muito menos o que teria sido pensado e não pôde ser proferido.
Não é o “menos”; é o excesso do que se quer dizer e pensar sobre o que se diz e se
pensa. É o que, no pensamento, faz pensar e dá o que pensar [...]. (CHAUÍ, 2002, p.
39, grifo nosso)

Estamos habituados a separar pensamento e experiência. A tomar o


pensamento por uma atividade mental, apenas cerebral, às vezes identificado e
empregado como sinônimo de raciocínio, modo operante da razão. Não raro
concebemos a experiência como algo limitado ao sentir e perceber, apartada do
pensamento. Merleau-Ponty nos instiga a sair desse “lugar-comum”, no qual
pensamento e experiência não se encontram. Para ele a experiência não é um
conceito, uma representação, um experimento científico; pelo contrário, é o modo do
ser, ser no mundo; dito de outra forma, é a maneira de sermos no mundo, de nos
relacionarmos com o mundo. Nesse sentido é que se pode entender a experiência
do pensamento como uma forma de experiência.

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3.1 - Opacidade e sombra – o problema da percepção

O problema da percepção é o próprio problema da relação entre consciência


e o mundo, por isso Merleau-Ponty examina, partindo desse ponto, todos os
problemas clássicos da filosofia: a sensação, o conhecimento das coisas, o corpo, a
comunicação com os outros, o espaço, o tempo, a liberdade. Em um dos cursos que
ministrou no Collège de France, no período de 1957 a 1960, Merleau-Ponty toma
como objeto de reflexão a natureza. Trata-se de apontamentos e resumos das aulas
que ministrou e nas quais se identifica uma filosofia da natureza. Num desses
resumos, o filósofo examina a concepção cartesiana da natureza.
[...] a Natureza é, à imagem de Deus, se não infinita pelo menos indefinida; ela perde
seu interior; é a realização exterior de uma racionalidade que está em Deus.
Finalidade e causalidade já não se distinguem e essa distinção exprime-se na
imagem da “máquina”, a qual mistura um mecanismo e um artificialismo. [...]. A
Natureza torna-se, pois, sinônimo de existência em si, sem orientação, sem interior.
Não tem mais orientação. O que se pensava ser orientação é mecanismo. A divisão
aparente da natureza torna-se imaginativa e só resulta das leis. Como a Natureza é
partes extra partes, só o todo existe verdadeiramente. A idéia de Natureza como
exterioridade acarreta de imediato a idéia de Natureza como sistema de leis.
(MERLEAU-PONTY, 2000, p. 12).

Na concepção cartesiana descortina-se uma concepção racionalista da


natureza. Todavia, as construções empiristas não deixam nada a dever a essa
concepção, pois tornam incompreensíveis os fenômenos originais que mascaram,
conforme destaca o filósofo.
Elas nos escondem, primeiramente, o “mundo cultural” ou o “mundo humano”, no qual
todavia quase toda a nossa vida se passa. Para a maior parte de nós, a natureza é
apenas um ser vago e distante, sufocada pelas cidades, pelas ruas, pelas casas, e,
sobretudo pela presença dos outros homens. Ora, para o empirismo, os objetos
“culturais” e os rostos devem sua fisionomia, sua potência mágica, a transparência e
a projeções de recordações; o mundo humano só tem sentido por acidente. Não há
nada no aspecto visível de uma paisagem, de um objeto ou de um campo que o
predestine a ter um ar “alegre” ou “triste”, “vivo” ou “morto”, “elegante” ou “grosseiro”.
Definindo mais uma vez aquilo que percebemos pelas propriedades físicas e
químicas dos estímulos que podem agir em nossos aparelhos sensoriais, o empirismo
exclui da percepção a cólera ou a dor que todavia eu leio em um rosto, a religião cuja
essência todavia eu apreendo em uma hesitação ou em uma reticência, a cidade cuja
estrutura todavia eu conheço em uma atitude do funcionário ou no estilo de um
monumento. (MERLEAU-PONTY, 2004, p. 49-50)

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Ainda sobre o empirismo e a atitude do cientista, poderíamos acrescentar


algumas das concepções e do modo de fazer geografia (clássica e contemporânea)
e submetê-los ao crivo da avaliação de Merleau-Ponty (2004, p. 50):
A alegria e a tristeza, a vivacidade e a idiotia são dados da introspecção, e, se
revestimos com eles as paisagens ou os outros homens, é porque constatamos em
nós mesmos a coincidência destas percepções interiores com signos exteriores que
lhes são associados pelos acasos de nossa organização. A percepção assim
empobrecida torna-se uma pura operação de conhecimento, um registro progressivo
das qualidades e de seu desenrolar mais costumeiro, e o sujeito que percebe está
diante do mundo como o cientista diante de suas experiências.
Uma vez demonstrado os limites do empirismo e do intelectualismo, Merleau-
Ponty (2004, p. 334) nos adverte: “Precisamos investigar a experiência originária do
espaço para aquém da distinção entre forma e conteúdo”. É bem verdade que essa
advertência não foi endereçada aos geógrafos, mas se considerarmos a tradição
geográfica, a influência kantiana, empirista ou racionalista, lá encontraremos noções
híbridas e parciais de espaço: do espaço espacializante e dos objetos
espacializados que não traduz a experiência efetiva do sujeito. Assim pensado, o
espaço exclui o que é essencial:
A constituição de um nível espacial é apenas um dos meios da constituição
de um mundo pleno: meu corpo tem poder sobre o mundo quando minha
percepção me oferece um espetáculo tão variado e tão claramente articulado
quanto possível, e quando minhas intenções motoras, desdobrando-se,
recebem do mundo as respostas que esperam. (MERLEAU-PONTY, 2004, p.
337).

Será necessário, portanto, retomar o conhecimento dessa constituição do


mundo e do espaço porque “Tudo nos reenvia às relações orgânicas entre o sujeito
e o espaço, a esse poder do sujeito sobre seu mundo que é a origem do espaço”.
(MERLEAU-PONTY, 2004, p. 338). Contudo, se quisermos desenvolver uma atitude
fenomenológica, no âmbito da Geografia, é preciso considerar também o que
compreendemos por orientação, inversão e sentido, repensar o que denominamos
escala geográfica: “[...] a orientação no espaço não é um caráter contingente do
objeto, é o meio pelo qual eu o reconheço e tenho consciência dele como de um
objeto” (MERLEAU-PONTY, 2004, p. 341). O sentido da orientação não poder ser
outro, quando consideramos que o mundo, o espaço, o corpo e a consciência não
estão separados na percepção, como esta não se separa da experiência. O que é,
então, meu corpo? O que é o espaço? Dirá o filósofo, sobre o corpo:

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É ele que dá seu sentido a toda percepção ulterior do espaço, ele é


recomeçado a cada momento. O espaço e, em geral, a percepção indicam no
interior do sujeito o fato de seu nascimento, a contribuição perpétua de sua
corporeidade, uma comunicação com o mundo mais velha que o
pensamento. (MERLEAU-PONTY, 2004, p.342).

Eis porque eles obstruem a consciência e são opacos à reflexão. Ora, o que
se pode então compreender de essencial do espaço, senão que:
Ele não é nem um objeto, nem um ato de ligação do sujeito, não se pode nem
observá-lo, já que ele está suposto em toda observação, nem vê-lo sair de
uma operação constituinte, já que ele é essencial ser já constituído, e é assim
que magicamente ele pode dar à paisagem as suas determinações espaciais,
sem nunca aparecer ele mesmo. (MERLEAU-PONTY, 2004, p. 343).
Em que sentido ainda pode-se buscar na Fenomenologia perspectivas que
possam convergir para elucidar um saber geográfico que seja a expressão das
relações humanas e da significação da experiência humana do espaço? Iniciamos
nossa investigação quanto à convergência do pro-jeto da Fenomenologia com a
Geografia por aquilo que dela nos apresentaram os fenomenólogos. Para Merleau-
Ponty (2004, p, 1):
Fenomenologia é o estudo das essências, e todos os problemas, segundo ela,
resumem-se em definir essências: a essência da percepção, a essência da
consciência, por exemplo. Mas a fenomenologia é também uma filosofia que repõe as
essências na existência, e não pensa que se possa compreender o homem e o
mundo de outra maneira senão a partir de sua “facticidade”.

A questão que se põe, portanto, é a de saber: quais meios a Fenomenologia


dispõe para estudar as essências e como procede7. Segundo Husserl, há duas
perspectivas de concepção quanto àquilo que designamos por objetivo: a “atitude
natural” e a “atitude fenomenológica”. No mundo da atitude natural o que é
considerado “objetivo” refere-se às coisas em si, enquanto existentes fora do campo
da percepção, assume, portanto, uma postura ingênua frente aos fenômenos e a
percepção que deles temos, assim também com a consciência e o mundo. A atitude
fenomenológica, tal como a concebe Husserl, não considera a coisa, o objetivo,
como sendo em si, pois não está além da sua manifestação, ela é relativa à
percepção e não independe da consciência, pois a consciência não é uma parte,
campo ou região de um campo mais amplo, ela mesma é um todo que é absoluto,

7
Para uma visão mais ampla do método fenomenológico ver também os seguintes autores: FRANCK
(1986), LEÃO (1977) e STEIN (1983).

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no sentido de que não depende e que não tem nada fora de si8. .Trilhando o
percurso husserliano, Merleau-Ponty (2004, p. 13) explica o método fenomenológico:
“A redução eidética, ao contrário, é a resolução de fazer o mundo aparecer tal como
ele é antes de qualquer retorno sobre nós mesmos, é a ambição de igualar a
reflexão à vida irrefletida da consciência”. Todavia, diferente de Husserl, Merleau-
Ponty (2004, p. 418-419) considera que o transcendental não é a subjetividade, mas
a ambiguidade originária da transcendência:
A partir do mundo natural e do mundo social descobrimos o verdadeiro
transcendental, que não é o conjunto das operações constitutivas pelas quais um
mundo transparente, sem sombra e sem opacidade, a um espectador imparcial, mas
sim o caminho ambíguo em que ocorre Ursprung das transcendências que, por uma
contradição fundamental, me põe em comunicação com ele e, nesta base, torna
possível o conhecimento.

O que significa buscar a essência e ainda mais a essência do mundo? As


respostas podem ser encontradas em Merleau-Ponty (2004, p. 13), para o qual
“Buscar a essência do mundo não é buscar aquilo que ele é em idéia, uma vez que
o tenhamos reduzido a tema de discurso, é buscar aquilo que de fato ele é para nós
antes de qualquer tematização”. No entanto, para acolher essa resposta é preciso
considerar que “O mundo é não aquilo que eu penso, mas aquilo que eu vivo; eu
estou aberto ao mundo, comunico-me indubitavelmente com ele, mas não o possuo,
ele é inesgotável”, assegura Merleau-Ponty (2004, p.14).

Considerações finais

Outras reflexões, animadas por outros pressupostos, poderão negar a


validade de nossa proposição quanto à pertinência da abordagem fenomenológica
na Geografia9. Todavia, quando consideramos o pensamento de Merleau-Ponty é
difícil ignorar as passagens, lampejos e emoções que tal pensamento nos provoca.
A experiência de seguir as pegadas e os rastros do pensamento de um grande
filósofo, como Merleau-Ponty, de nele buscar a inspiração para promover um
encontro entre a Filosofia e a Geografia, requer a disposição em mudar a forma

8
Ver também Husserl (1995).
9
O presente ensaio foi consideravelmente reduzido, tendo em vista o formato de apresentação do
texto, conforme as normas do evento. Seu aspecto incluso, no entanto, se deve à formulação de
algumas ideias e proposições que ainda busca, na obra de Merleau-Ponty, elementos para uma
eidética da Geografia.

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pensarmos as ciências e a ciência geográfica. Percurso inconcluso, retorno


incessante da experiência do pensamento, é assim a incursão no campo da
Fenomenologia. Ela nos põe em contato com uma das muitas alternativas possíveis
para a validade da ciência geográfica e oferece recursos para pensar de forma
diferente o instituído e criar novas formas de interpretação.

Referências:

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