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Orquestrando São Paulo

Aula 1 – Breve história da Regência

Pode-se dizer que, de certa forma, a regência é tão antiga quanto o homem. Por
exemplo, se você observar duas crianças brincando, notará que uma delas assumirá o
papel de liderança, organizando a brincadeira com as ferramentas que dispõe.

E qual é o trabalho do regente senão organizar "a brincadeira" musical? Auxiliar no


respeito às regras estabelecidas (históricas e estéticas), bem como criar regras que
organizem e permitam a criatividade individual de seus músicos.

É claro que, ao longo da história, as "regras" da regência vêm sendo desenvolvidas,


assim como a função do regente, que vem acompanhando o desenvolvimento da
música. Em outras palavras, a organização cada vez mais elaborada da estrutura musical
faz com que o papel desse líder seja cada vez mais estruturado.

Idade Média até o Séc. XVIII


Uma das formas mais antigas de regência que se tem conhecimento é o chamado
Quironomia, que consistia no uso de gestos de mão para indicar a forma melódica,
praticado pelo menos desde a Idade Média de forma relativamente bem elaborada.

Na igreja cristã, a pessoa que cumpria essa função utilizava também uma espécie de
bastão para exercer a liderança.
Quando a música se tornou mais ritmicamente desenvolvida, o bastão começou a ser movido
para cima e para baixo para indicar o tempo, agindo como uma forma inicial de "batuta".

Outros dispositivos para indicar o tempo entraram em uso nesse período. Folhas de
papel enroladas, varas menores e mãos sem adornos podem ser vistas em imagens da
época.

Durante o séc. XVIII, na música instrumental, era comum um membro do grupo


cumprir o papel do regente. Podia ser o violinista, que se utilizava do arco de seu
instrumento para dirigir a performance, ou o alaudista, que "regia" movimentando o
braço do instrumento.

Era comum também o cravista (tecladista) reger a partir de seu instrumento. Essa prática
era especialmente eficiente, pois, em geral, o cravista era o compositor e executava em
seu instrumento uma "reprodução" das partes dos outros instrumentos, além do
chamado baixo contínuo.

Execuções de óperas podiam contar com dois regentes: o cravista, que era responsável
pelos cantores, e o principal violinista, que se encarregava da orquestra.
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O filme Le Roi Danse, do diretor belga Gérard Corbieau, foi baseado na biografia de
Jean-Baptiste Lully, compositor do séc. XVII. Em um dos trechos, ele mostra por que
acredita-se que o bastão foi responsável pela morte de Lully.

Documentos da época registram que, no dia 8 de janeiro de 1687, Lully estava


conduzindo um Te Deum, em honra de Luís XIV, e feriu seu próprio pé com o bastão, o
que provocou uma infecção.

Essa infecção evoluiu para uma gangrena, mas Lully recusou a amputação. A gangrena
se espalhou para sua perna e ele morreu cerca de dois meses mais tarde, em 22 de março
de 1687.

Século XIX
No início desse período, a estrutura musical já estava bastante complexa e o tamanho
dos grupos musicais se tornava maior.

Com isso, cada vez mais, fazia-se necessário um regente que cumprisse apenas a função
de reger os músicos.

Para isso, esse profissional necessitava de maior preparo quanto às obras que se
dispunha a reger.
O regente assume, então, o papel de líder da interpretação musical. Passa a ser o
"tradutor” das ideias dos compositores. Estabelece-se também, de forma mais clara, o
seu papel na estrutura dos rituais de ensaios e concertos.

Entre os primeiros regentes notáveis, estavam Louis Spohr (1784-1859), Carl Maria
von Weber (1786-1826), Louis-Antoine Jullien (1812-1860) e Felix Mendelssohn
Bartholdy (1809-1847), todos compositores.

Com o aumento do tamanho dos grupos, popularizou-se também o uso da batuta, pois
esse instrumento era mais visível para a orquestra do que as mãos ou um pedaço de
papel enrolado. Acredita-se que Mendelssohn foi o primeiro a utilizar a batuta tal qual a
conhecemos hoje.

Os compositores Hector Berlioz e Richard Wagner alcançaram grande sucesso como


regentes, e escreveram dois dos primeiros tratados dedicados ao assunto. Berlioz é
considerado o primeiro maestro virtuoso e um dos primeiros a estabelecer os padrões de
funcionamento do "ensaio". Wagner foi, em grande parte, responsável por moldar o
papel do maestro como alguém que impõe a sua visão de uma peça, em vez de alguém
que é apenas responsável por garantir que as entradas sejam no momento certo, no
tempo unificado.

Foi no século XIX que se tornou muito comum os regentes viajarem para dirigir
orquestras e grupos de outros países e diferentes culturas. Essa foi uma das principais
razões que motivaram a padronização de alguns aspectos da regência.
Essas padronizações ocorreram no aspecto "gestual“, convencionando a forma de
regência dos vários compassos, e nos rituais de ensaio com a afinação da orquestra.

Com variações eventuais, essas padronizações foram aceitas pela comunidade musical
por facilitarem o entendimento entre regentes e músicos, o que tornou o trabalho de
preparação musical mais ágil.
Hans von Bülow (1830-1894) foi particularmente aclamado como maestro. Ele elevou
os padrões técnicos de regência a um nível sem precedentes, por meio de inovações,
como ensaios separados e detalhados de diferentes seções da orquestra (ensaio
seccional). Em seu posto, como chefe da Ópera Estadual da Baviera, Orquestra de
Meiningen e Filarmônica de Berlim, ele trouxe um nível de nuance e sutileza para a
performance orquestral anteriormente ouvida apenas na música instrumental solo.

Com isso, inspirou jovens artistas, como Richard Strauss, que, aos 20 anos, trabalhou
como seu assistente, e Felix Weingartner, que veio a desaprovar suas interpretações,
mas ficou profundamente impressionado com seus padrões orquestrais.

Outro regente notável desse período foi o compositor Gustav Mahler.

Finalmente, foi nesse período que surgiram, na Europa, os primeiros cursos regulares de
regência.

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No final do século XIX, a estrutura musical atinge um nível de complexidade nunca


antes visto na história da música. Compositores como Ravel, Debussy, Schoenberg e os
compositores do chamado Romantismo Alemão começaram a utilizar orquestras
imensas em suas obras, e a ampliar a forma musical transformando-a em algo que fugia
aos padrões temporais de seus antecessores. É a esse período que devemos obras de
longa duração, óperas de 3 horas, obras para orquestras com 120 músicos ou mais.

Século XX
A partir do início do séc. XX, a música ampliou sua participação nos movimentos
estéticos da arte em geral, herdando deles o aspecto filosófico.

O regente não era mais apenas um músico, era alguém que fazia de sua interpretação um
manifesto filosófico, e suas decisões, musicais e técnicas, eram guiadas por convicções
filosóficas ou políticas.

O século XX proporcionou aos artistas de todas as vertentes o ambiente e as


oportunidades para que se unissem em torno de um pensamento unificado (ou de
vários).

Um dos mais notáveis da nova geração de regentes foi o húngaro Arthur Nikisch (1855-
1922), que sucedeu a Hans von Bülow (1830-1894) como diretor musical da
Filarmônica de Berlim, em 1895. Ele já havia sido chefe da Ópera de Leipzig, Orquestra
Sinfônica de Boston e Leipzig Gewandhaus Orchestra, e foi diretor de música da
London Symphony Orchestra.

Nikisch estreou obras importantes de Anton Bruckner e Pyotr Ilyich Tchaikovsky, que
admirava muito seu trabalho. Johannes Brahms, depois de ouvi-lo dirigir sua Quarta
Sinfonia, disse: “[...] bastante exemplar, é impossível ouvir melhor".
Nikisch levou a London Symphony Orchestra, em turnê pelos Estados Unidos, em abril
de 1912, a primeira turnê americana de uma orquestra europeia. Ele também fez uma
das primeiras gravações de uma sinfonia completa: a Sinfonia nº5 de Beethoven com a
Filarmônica de Berlim, em novembro de 1913. Nikisch foi o primeiro maestro a ter sua
arte capturada em filme (infelizmente, sem som). O filme confirma os relatos de que ele
fez uso de contato visual e expressão para se comunicar com uma orquestra. Fritz
Reiner afirmou que fora influenciado por esse aspecto de sua técnica.

Regentes das gerações após Nikisch deixaram registros na ampla discografia do séc.
XX. Duas figuras particularmente influentes e amplamente gravadas foram o maestro
italiano Arturo Toscanini (1867-1957) e o maestro alemão Wilhelm Furtwängler (1886-
1954). Toscanini é considerado por muitos como o maior intérprete da obra de Verdi,
mas o seu repertório era extenso, visto que tinha interpretações dos sinfonistas alemães
Beethoven e Brahms, que era particularmente renomado e gerador de influência,
favorecendo tempos mais severos e mais rápidos do que um regente, como Bülow, ou,
antes dele, Wagner. Ainda assim, seu estilo mostra mais flexibilidade do que sua
reputação pode sugerir, e ele era, em especial, dotado em revelar detalhes e fazer
orquestras tocarem como se estivessem cantando.

Furtwängler, que muitos consideram o maior intérprete de Wagner e Bruckner,


conduziu Beethoven e Brahms com muita flexibilidade de tempo, mas, de uma maneira
que revela a estrutura e a direção musical de forma particularmente clara.

Ele foi um compositor e intérprete bem-sucedido, e um discípulo do teórico Heinrich


Schenker, que enfatizou a preocupação por tensões harmônicas de longo alcance
subjacentes e resoluções em uma peça, algo marcante nas interpretações de
Furtwängler. Junto com seu interesse em grande escala, moldou os detalhes da peça de
uma maneira particularmente atraente e expressiva.
Os dois homens tinham técnicas muito diferentes: Toscanini era italiano, com
movimentos largos, marcação clara (muitas vezes não usando a mão esquerda).
Furtwängler marcava o tempo com menos precisão aparente, porque queria um som
mais arredondado (embora seja um mito que sua técnica era vaga, muitos músicos
atestaram que ele era fácil de seguir à sua maneira).

Grandes e influentes regentes como Leopold Stokowski (1882-1977), Otto Klemperer


(1885-1973), Herbert von Karajan (1908-1989) e Leonard Bernstein (1918-1990)
tinham técnicas muito variadas.

Karajan e Bernstein formaram outro antípoda aparente nos anos 1960-80, Karajan como
diretor musical da Filarmônica de Berlim (1955-89) e Bernstein como diretor musical
da Filarmônica de Nova York (1957-69), e, em seguida, regente frequentemente
convidado na Europa. A técnica de Karajan era altamente controlada, e, eventualmente,
ele conduzia com os olhos fechados.

A técnica de Bernstein foi demonstrativa, com gestos faciais altamente expressivos e


movimentos de mão e corpo. Karajan podia conduzir por horas sem mover seus pés,
enquanto Bernstein, às vezes, saltava no ar em um clímax grande. Como diretor musical
da Filarmônica de Berlim, Karajan cultivou a beleza morna e mista do som, que, de vez
em quando, tem sido criticada por ser aplicada de forma muito uniforme.

Em contraste, em uma aparição de Bernstein com a Filarmônica de Berlim, em 1979,


interpretando a Sinfonia nº 9 de Mahler, tentou fazer com que a orquestra produzisse
um som "feio" em uma determinada passagem, pois acreditava que isso era adequado ao
significado expressivo da música.

Karajan e Bernstein fizeram extenso uso de avanços na tecnologia para transmitir sua
arte, mas de maneiras diferentes. Bernstein organizou grandes séries televisivas
nacionais de horário nobre para educar e alcançar as crianças e o público em geral sobre
a música clássica. Karajan fez uma série de filmes no final de sua vida, mas, neles, ele
não falou.
Ambos fizeram inúmeras gravações, mas suas atitudes diferiram: Karajan,
frequentemente, fez gravações de estúdio para aproveitar os avanços na técnica de
gravação, o que o fascinava. Ele desempenhou um importante papel na definição das
especificações da criação e do desenvolvimento da tecnologia do CD, mas Bernstein,
em seus dias pós Nova York, insistiu (na maior parte) em gravações de concertos ao
vivo, acreditando que a música não ganhava vida em um estúdio sem audiência.

No final do século XX, a técnica de regência, particularmente com a mão direita e a


batuta, tornou-se cada vez mais padronizada. Maestros, como Willem Mengelberg, em
Amsterdã até o fim da Segunda Guerra Mundial, tinham um tempo de ensaio extenso
para moldar as orquestras com muita precisão e, portanto, poderiam ter técnicas
idiossincráticas. Os condutores modernos, que passam menos tempo com uma
determinada orquestra, devem obter resultados com menos tempo de ensaio. Uma
técnica mais padronizada permite que a comunicação seja mais rápida. No entanto, as
técnicas dos condutores ainda mostram uma grande variedade, em especial, com o uso
da mão esquerda, expressão facial, ocular e linguagem corporal.

Século XXI
Nesse início de século, a regência não apresenta grandes mudanças no sentido técnico.
Dificilmente se verá um regente moderno que não tenha as bases de sua formação
técnica fincada nas bases que formaram Bülow, Toscanini ou Karajan.

O que se vê são imensas transformações no papel do regente como administrador de


arte.

Hoje, o regente se torna um agente midiático, responsável por utilizar as ferramentas


disponíveis em prol de seu grupo, seus músicos, do público em geral e da arte.

Ele deve se manter atualizado com o que ocorre no mundo em todos os sentidos. Deve
motivar a criação artística.

O regente do século XXI deve ser o responsável pela subsistência da arte, em um tempo
em que a luta é constante.

Quando se diz que o tempo dos grandes “maestros" acabou, trata-se de uma versão
romântica (e saudosista) de um ser considerado um semideus que a poucos era dado o
privilégio de conviver.

Hoje, podemos assistir a um concerto da Filarmônica de Berlim, ao vivo, do conforto de


nossos sofás (em HD), sem precisar viajar para a Alemanha. Da tela de nossos celulares,
podemos assistir aos vídeos de Sir Simon Rattle, ou Daniel Barenboim, sem ter que
esperar que eles incluam nosso país em sua agenda de concertos.

A tecnologia tem democratizado o acesso à arte.


Se o regente do século XXI souber utilizar essas ferramentas tecnológicas de forma
responsável, a arte só terá a ganhar com as mudanças que consequentemente
acontecerão.

Nesta aula, você viu que:

• A regência se desenvolveu na mesma medida que a estrutura musical. Quanto mais


complexa a estrutura da escrita musical, da formação dos grupos, com a adição de novos
instrumentos, maior a necessidade de um líder dedicado exclusivamente à função de
organizar as execuções, nos âmbitos técnico e filosófico.

• Com o passar dos séculos, o regente foi estabelecendo sua função de forma mais
ampla. De "marcador de tempo” a tradutor de ideias, com suas próprias convicções e
personalidade.

• A padronização de vários aspectos da regência não impediu que se desenvolvessem


estilos e personalidades tão diferentes. O que importa é a eficiência dos movimentos e a
convicção filosófica. Busca-se uma coerência maior dos movimentos do regente com a
estrutura técnica e emocional da obra musical. Junta-se a isso a personalidade do
regente e sua concepção das obras, com movimentos próprios, porém mantendo a
coerência, a técnica, e a eficiência.

• Os recursos tecnológicos que facilitam o acesso à arte devem ser utilizados pelo
regente de forma responsável, em prol de seu trabalho e da própria arte.

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