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MACHADO, Maria Helena Pereira Toledo. Escravizadas, libertandas e libertas: qual liberdade?.

In:
GRINBERG, Keila; REIS, Daniel Aarão. Instituições nefandas: o fim da escravidão e da servidão no
Brasil, nos Estados Unidos e na Rússia. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2018, p. 327-337.
- “Negociada no interior da casa, nos empregos domésticos ou em suas extensões, a liberdade para as
mulheres ficou marcada pela tutela e pelo cerceamento exercido por meio da linguagem das relações
pessoais próprias ao espaço privado das residências” p. 327.
- “De fato, como vem demonstrando uma miríade de estudos, os serviços urbanos, de quituteiras, vendeiras,
amas, pajens e criadas, ofereciam mais oportunidades de aquisição ou promessa de liberdade” p. 328.
- “Ao enfocar a questão da maternidade da libertanda faz-se necessário voltarmos atrás para relembrarmos
alguns pontos básicos a respeito da maternidade da mulher escrava. Em primeiro lugar, em um contexto de
escravidão, que se baseia na apropriação legal dos corpos, o corpo da mulher escrava é duplamente violado.
Como escrava, seu corpo é entendido enquanto instrumento de trabalho para geração de riquezas. Porém,
por ser mulher, seu corpo é apropriado uma segunda vez pois ele é o espaço da reprodução da escravidão.
No entanto, a reprodução da escravidão, isto é, a maternidade, acontece na espécie humana como fruto do
sexo e do desejo. Portanto, em segundo lugar, ao falarmos da maternidade da mulher escrava, temos que
pensar em termos relações íntimas que foram, de alguma maneira, atravessadas pela violência da escravidão.
Em terceiro, por ser escrava, isto ć, por ter tido seu corpo apropriado por outrem como instrumento de
trabalho para geração de riqueza alheia, seu papeł como mãe aparece como contraditório. Parece bem claro
que, embora em determinadas épocas e locais, a reprodução da escravidão tenha dependido do sucesso da
maternidade escrava, a mulher escrava não foi considerada, em nenhum contexto, como mãe” p. 329.
- “A maternidade da escrava aparece quase como um acidente que é preciso contornar com políticas de
criação das crianças em ambientes coletivos, sob a guarda de terceiros, de forma a não diminuir a
capacidade de trabalho da mãe escrava” p. 330.
- “Já em relação às escravas de portas adentro, a questão se dava em um ambiente mais restrito, no qual a
possibilidade de alforria tinha que ser negociada por meio das relações pessoais de fidelidade e
subserviência. Tais relações acabavam se constituindo em novas pedagogias de tutela, cujo objetivo não
declarado era manter os laços pessoais de fidelização e controle sobre as mulheres trabalhadoras domésticas
e, por conseguinte, o controle da família toda” p. 330.
- “[...] o espaço da casa se torna, no processo de abolição, o refúgio da sobrevivência de relações tutelares,
de restrição de locomoção, de separação da família da trabalhadora e de permanência de relações trabalhistas
pessoalizadas, típicas da escravidão” p. 331.
- Restrições ao caminho da autonomia por conta do crive do gênero: “Às mulheres, o caminho da autonomia
continuava a ser negociado no âmbito privado do trabalho doméstico e da explícita dependência pessoal” p.
331.
- “Casa essa entendida como espaço – na maior parte das vezes bastante exíguo – no qual mulheres
trabalhadoras tinham que palmilhar o caminho que pretensamente as levaria à ‘liberdade’, tivesse ela o
significado que tivesse no interior de restrições tão graves ao gozo da autonomia como era o do mundo
doméstico para mulheres pobres em geral, sobretudo para as libertandas ou libertas” p. 332.
- “Os estudos que se dedicaram ao período pós-abolição, como o livro de Sandra Graham, ‘Proteção e
Obediência’, registraram os mesmos conflitos: o da mobilidade constante das trabalhadoras vis-a-vis ao
esquema de extremo controle de deslocamento estabelecido pelos patrões; continuidade ideológica a respeito
do trabalho feminino doméstico, entendido como relação de fidelidade, respeito e dedicação por parte da
criada aos seus patronos, e não como relação contratual de trabalho. Isto ao lado do desenvolvimento de
políticas públicas sanitaristas e raciais de desclassificação das mulheres afrodescendentes. Se nos anos que
precederam e seguiram a abolição, desenvołveu-se todo um discurso a respeito da ‘maternidade científica’ e
da necessidade de manutenção da mulher/mãe no lar, esse discurso encontrava sua contraface nos perigos
representados pela ama-de-leite e pela criada doméstica, escrava ou liberta. Sobre as mulheres
afrodescendentes passou a recair a mão pesada dos discursos higienistas que as considerava o exemplo de
perigo de um feminino descontrolado, doente, excessivamente sensualizado e sexualizado, que deveria ser
controlado a qualquer custo” p. 334.
- “Nos anos finais da escravidão, a amamentação mercenária, realizada por escravas e libertas surge como
um das práticas mais visadas pelos discursos modernizadores, quanto uma das mais carregadas de conflitos.
Por um lado, os estudos interessados na análise da amamentação e da ‘maternidade científica’ já
sublinharam a ferrenha condenação da amamentação mercenária, quanto a hiper valorizacão da
amamentação materna e da 'maternidade científica’ de forma geral levada a cabo pelo emergente discurso
médico da segunda metade do XIX em diante. Por outro, a ama-de-leite continuou a ser profusamente
utilizada. Dessa aparente contradição, se vale o historiador para penetrar na realidade social com ideias e
práticas se confrontavam. Para analisar a realidade das práticas sociais torna-se necessário ir além do corpo
discursivo veiculado por tais saberes, buscando tanto os seus efeitos de realidade quanto a própria lógica
social em que tais discursos eram apreendidos e lidos” p. 335.
- “Entre nós, um dos temas centrais na elaboração do discurso da ‘maternidade científica’ foi a reprovação à
presença do escravo, sobretudo da escrava, no ambiente do lar, crítica essa sintetizada, de maneira muito
depreciativa, na figura da ama-de-leite e da amamentação mercenária. No entanto, apesar da crescente
condenação da presença de escravos domésticos no âmbito familiar, a realidade brasileira da segunda
metade o XIX, ainda que nas cidades, permanecia o da vigência da escravidão ou de formas derivadas dela.
Como consequência milhares de mulheres escravas, libertas, libertandas e recém-libertas trafegavam no
ambiente doméstico da casa como amas-de-leite, amas-secas e criadas, ocupando-se de todas as funções
tidas como próprias da mulher/mãe idealizada nos nascentes discursos médicos” p. 335.
- “Essa terrível contradição não passou despercebida, pois libertandas e libertas o contra-apresentaram,
procurando incluir-se na categoria de mães e, portanto, de mulheres vocacionadas ao lar e à maternidade,
que mereciam manter ou retomar a guarda de seus filhos, negando, assim, a se manterem excluídas das
benesses advindas da maternidade modernizada. Pois se para as mulheres das camadas médias e elite a
maternidade ‘científica’ surge como estratégia de exclusão da mulher do espaço público e, portanto, aparece
como um discursos altamente conservador, para as mulheres negras, destinadas ao mundo da rua e do
trabalho, o mesmo tipo de discurso é ressignificado e surge como direito a ser adquirido por meio de
perseverança e luta jurídica” p. 335-336.
- “Na verdade, o próprio discurso que torna a mulher branca das camadas médias e das elites como alvo da
campanha contra a amamentação mercenária, divulgando seu sublime papel como mãe extremosa, constrói-
se pela exclusão da mulher negra, pobre e trabalhadora. Assim, os discursos do sanitarismo reatualizavam as
crenças tradicionais a respeito da incapacidade materna da escrava, agora em um vocabulário que toma a
mulher branca como a ‘rainha do lar’, mãe dedicada, contrastando esse papel àquele desempenhado por
amas e criadas – escravas, livres e libertas – enquanto mulheres da rua, contaminadas por maus sentimentos,
Doenças e marcadamente incapazes de alimentar sentimentos maternais. No entanto, ao que parece, essas
mesmas mulheres se reapropriam dessa representação, de mães extremosas, a reapresentando em um
contradiscurso que dava suporte a demandas de liberdade, autonomia e direito de guarda de seus próprios
filhos. Nesse sentido as petições de libertandas e libertas em que elas se afirmam enquanto mães dedicadas,
reproduzindo os discursos dominantes do sanitarismo, ganham, nesse contexto, um tom fortemente
reivindicativo e rebelde, pois se apropriam do vocabulário que, desde os inícios, as excluía” p. 336.
- “Apesar disso, é preciso lembrar que a questão da incapacidade da mulher negra – escrava, libertanda ou
liberta – de preencher o papel de mãe extremosa, vocacionada ao lar, estava em sua base desafiado pelos
próprios papéis sociais destinados às mulheres pobres, que haviam de alcançar o ganho do dia a dia,
circulando pelas ruas e trabalhando em casa alheia. Os ideais de privacidade burguesa, que decantavam a
fragilidade extrema da mulher e da mãe, cujo mero contato com o mundo público masculino podia conduzi-
las a uma série de doenças e desequilíbrios – histeria, infertilidade, prostracão, melancolia e loucura – não
podiam ser aplicados a mulheres negras trabalhadoras, que ficavam fora dos estereótipos de gênero. Uma
série de imagens deletérias a respeito da maternidade negra, a qual contaminava a própria capacidade de
amamentação da ama-de-leite, circulou constantemente em formas diversas, por meio de vocabulários mais
ou menos científicos” p. 336.
- “Para tal, precisamos ir além da constatação da emergência e da consolidação de diferentes tipos de
discursos a respeito do potencial contaminador existente nos corpos e na moral da mulher negra trabalhadora
ou parceira sexual informal. Teremos que avaliar seu impacto tanto nas práticas sociais, nas quais tais
discursos circularam com aceitação diversa, como também teremos que discutir se e como tais discursos
geraram práticas de resistência por parte das mesmas mulheres contra as quais tais dispositivos discursivos
foram endereçados” p. 337.

MACHADO, Maria Helena Pereira Toledo. Between two Beneditos: enslaved wet-nurses amid slavery’s
decline in southeast Brazil. Slavery & Abolition, Nova York: Routledge, v. 38, n. 2, abr. 2017, p. 320-336.
- XXX
MACHADO, Maria Helena Pereira Toledo. Sendo cativo nas ruas: a escravidão urbana na cidade de São
Paulo. In: ______. Crime e escravidão. São Paulo: EDUSP, 2014, p. 165-218.
- “Consolidavam-se, portanto, nos anos finais do período colonial, algumas das principais características da
presença escrava na cidade. Primeiro, na equação do tráfico, a capital se constituiu, quando muito, como
ponto de passagem dos escravos que eram distribuídos para outros pontos da província, caracterizando-se
muito mais como ponto final dos escravos desprezados no mercado das fazendas e que, por tal, estavam
avaliados a baixos preços. Segundo, a articulação direta entre a incipiente economia agroexportadora e o
tráfico negreiro significava uma preponderância de escravos africanos no conjunto dos cativos, situação que
se modificou apenas na década de 1850, por causa do tráfico interprovincial. Terceiro, como o reduto
efetivamente urbanizado da cidade continuava pequeno, os sítios e chácaras situados nos bairros passaram a
integrar números modestos de escravos ocupados na produção de alimentos. Quarto, embora surgissem
alguns proprietários mais expressivos dentro dos limites da cidade e eles detivessem, em seu conjunto o
maior número de escravos da cidade, a maioria das posses permanecia de pequeno porte, o que significava
um perfil de muitos proprietários de poucos escravos, aliás, típico das zonas rurais da capitania como um
todo nesse período de transição para a grande lavoura. A escravidão na cidade de São Paulo, que havia
ganhado importância tardia, isto é, apenas nas primeiras décadas do século XIX, também desapareceu
precocemente. A partir da década de 1870, a alta dos preços dos cativos e a ‘fome de braços’ da lavoura
cafeeira drenaram a mão de obra escrava da cidade, tornando a escravidão urbana uma instituição inviável
economicamente. Além disso, ao centralizar a organização do movimento abolicionista, a São Paulo da
década de 1880 se tornou o inferno dos senhores e a Meca dos escravos fugidos que, com cada vez mais
frequência, procuravam refúgio na cidade” 169-170.
- "Uma das características principais da escravidão urbana paulistana foi a escravidão de pequena posse, que
colocava no universo dos proprietários de escravos uma série de figuras sociais de cabedais econômicos
pouco apreciáveis, como viúvas, mulheres solteiras e famílias de poucas posses. No entanto, ao longo do
XIX, uma série de fatores levou ao encarecimento do valor de mercado do escravo e ao estabelecimento de
uma acirrada disputa no mercado de compra e venda de escravos, no qual a cidade, como o prima pobre das
zonas florescentes do Vale do Paraíba e Oeste Paulista, não podia fazer frente" p. 170-171.
- "Se pouco conhecemos do que se passava nos distritos mais ricos da província, aonde, como se dizia, a
lavoura tinha “fome de braços”, o que dizer da cidade de São Paulo, que devia movimentar um mercado de
compra e venda de escravos muito limitado, provavelmente composto de cativos recusados nas áreas
florescentes da província" p. 173.
- "Mercado pobre e pouco atrativo do ponto de vista dos traficantes de escravos, a cidade [...] recebia os
refugos de outras transações, tornando-se o ponto final de uma peregrinação muitas vezes longa e penosa.
Escravos, principalmente escravas, crianças, velhos, portadores de defeitos ou aleijões, deveriam ter como
destino final as ruas da cidade ou a cozinha de casas nem sempre portentosas, nas quais os cativos-refugos
tornavam-se, muitas vezes, o arrimo único da viúva empobrecida ou da órfã desamparada, como mostrou
sobejamente Maria Odila L. da S. Dias, ou ainda o encarregado de complementar as rendas do funcionário
público mal remunerado. Além disso, devemos considerar a presença nas casas assobradadas e nas chácaras
residenciais da cidade, naquelas que eram ocupadas por seus proprietários apenas parte do ano, uma vez que
sendo estes fazendeiros, dividiam o ano entre a cidade e a fazenda, de cativos originários das propriedades
rurais, que acompanhavam as mudanças das famílias senhoriais, mas que mantinham laços com seus
familiares ou companheiros nas propriedades rurais de onde eram deslocados parte do ano" p. 175.
- "Não obstante se observa à medida que o XIX se desenrolava, uma paulatina concentração da propriedade
escrava, Zélia Cardoso lembra que, mesmo assim, durante todo esse período, a propriedade escrava esteve
bastante disseminada na cidade. Como resultado desses dois aspectos, concentração por um lado e o uso
bastante difundido do escravo por outro, a autora conclui que na cidade de São Paulo durante o século XIX,
“o proprietário típico é o de um escravo”. [...] À tendência à pequena propriedade de escravos deve ser
acrescentado mais um dado: a presença majoritária de mulheres ( e, por vezes, crianças) nesses pequenos
plantéis. Isso também está relacionado ao poder aquisitivo da população, uma vez que as escravas eram de
preço inferior ao dos homens, diferença que se acentua com o fim do tráfico e a consequente carência de
mão de obra para a lavoura" p. 176-177.
- "[...] o setor de abastecimento assumiu feições particulares, decorrentes de seu caráter subsidiário e
desorganizado, que o fazia oscilar ao sabor da acirrada concorrência entre mercadores, especuladores e
setores mais pobres da população das áreas rurais e das cidades que englobavam tanto os escravos quanto os
brancos pobres. Brancos pobres, caipiras, negras de ganho e tabuleiro, neste sentido, conformavam extratos
menos rendosos do sistema escravista, dedicados à produção e distribuição dos gêneros" p. 177.
- "Ora, embora observações como estas testemunhem a presença marcante de escravos domésticos nos
sobrados senhoriais da cidade, sua acurácia histórica vem sendo amplamente criticada. Como demonstrou
Miriam Moreira Leite os viajantes apresentaram muitas observações acríticas ou errôneas a respeito da vida
cotidiana das famílias brasileiras, apresentando em seus escritos repetidas afirmações sobre a reclusão,
indolência e preguiça da mulher branca de alta classe. A realidade da escravidão, da degradação social do
trabalho manual e o caráter desclassificado do mundo da rua, no qual apenas se admitia a livre circulação da
mulher pobre, sobretudo da escrava, foram fatos sociais que embora conhecidos por todos os viajantes,
parecem ter sido pouco considerados no julgamento da vida da mulher da alta classe, contribuindo para a
fixação de preconceitos sobre as mulheres brancas das camadas proprietárias. Assim, são constantes as
afirmações relativas à total ociosidade da mulher branca, carecendo os viajantes, em quase sua totalidade, da
acuidade de observação, familiaridade com a língua e tempo para penetrar na vida das famílias brancas, nas
quais a dona da casa, senhora de escravos e escravas, desempenhava papel fundamental, embora não muito
visível, na organização dos complexos e penosos trabalhos domésticos, voltados para reprodução do grupo
familiar e complementação da renda no século XIX, como sabemos hoje" p. 177-178.
- “As atividades do pequeno comércio eram realizadas, majoritariamente, por mulheres e o caráter feminino
perfazia as duas pontas da pequena hierarquia que conformava esse ramo. Se, na maioria dos casos, as donas
desses estabelecimentos eram mulheres, ser vendedor era também quase exclusividade desse sexo” p. 181.
- "Muito disseminado na cidade estava o uso do escravo de ganho e de aluguel. Sendo o escravo ao ganho
aquele que se lançava às ruas por própria conta, em busca do ganho de cada dia, prestando contas ao senhor
ou senhora ao final do dia ou em dias estipulados, sua inserção se contrapunha àquela do escravo meramente
alugado pelo seu senhor e que trabalhava sob a supervisão de outrem que substituía a autoridade senhorial.
No entanto, sob a denominação de escravo ao ganho ou alugado difícil é estabelecer em que atividade
específica eram estes cativos ocupados, mas sabe-se que estes exerciam todos os misteres disponíveis na
cidade, até pelo menos a entrada maciça dos imigrantes no setor de serviços, na década de 1890, quando o
trabalho do imigrante passou claramente a ser preferido em detrimento do emprego do serviço dos libertos
do Treze de Maio. [...] O ganho como modalidade tipicamente urbana de emprego da mão-de-obra escrava,
produziu uma categoria de cativo que gozava de notável autonomia, uma vez que esperava-se que este
passasse os dias nas ruas buscando empregar-se a curto prazo em diferentes serviços" p. 182.
- "Principalmente entre esses escravos de atividade urbana, a rua era o espaço de sociabilidade por
excelência. Com efeito, até a primeira metade do XIX, os largos e ruas eram ocupados por aqueles que
exerciam as profissões mais humildes, como quitandeiras, tropeiros e, noturnamente, prostitutas. [...]
Considerando que entre os escravos urbanos, muitos se dedicavam a essas ocupações, dá para se ter uma
idéia do papel da rua como espaço para a expressão da sociabilidade escrava, não só dos cativos entre si,
como com os mais diversos elementos que compõe o quadro social da época, principalmente os setores mais
humildes, uma vez que, até quase o último quartel do XIX, não era costume das classes mais abastadas, em
especial as mulheres, frequentarem as ruas" p. 185-186.
- "Os chafarizes eram locais onde costumava se concentrar um número considerável de escravos. [...] De
fato, até o início da década de 1880, quando a canalização das águas da Cantareira viera a desafogar o
abastecimento da cidade, São Paulo viveu uma crônica falta de água, tendo os moradores que dessedentar-se
em fontes, bicas, chafarizes e torneiras, que com raríssimas exceções, produziam uma água muito pouco
confiável, isto quando a tinham disponível, pois consta que a maioria dos popularmente conhecidos como
chafarizes, que muitas vezes não passavam de torneiras vulgares, eram de caráter intermitente, atravessando
parte do ano totalmente secos, dando razão a brigas e pancadarias" p. 186-187.
- "A questão do controle social foi desde sempre fundamental no ambiente das cidades, no qual os senhores
e senhoras careciam, no mais das vezes, de instrumentos particulares de controle, dependendo sempre da
polícia e de outros órgãos do estado para manter a disciplina dos escravos. [...] A dificuldade de vigiar de
perto o trabalho, emprego do tempo, circulação por diferentes espaços urbanos, o estabelecimento de
relações sociais e amorosas dos escravos e outros aspectos da vida e do trabalho dos cativos urbanos, fazia
com que os senhores e senhoras citadinos se apoiassem nos órgãos e agentes do estado para preencher a
lacuna deixada pela ausência do feitor. Não contando com senzalas, feitores, troncos e nem se utilizando do
trabalho em grupo, vigiado e feitorizado, sob o qual se baseava a exploração do trabalho escravo na
propriedade açucareira e cafeicultora da Província de São Paulo, os senhores citadinos tinham que se valer,
sobretudo da municipalidade para conter a escravaria" p. 203.
- "Ao escravo urbano, mais ainda, cabia o deslocamento geográfico – da casa do senhor para rua e vice-
versa – isto quando o escravo não residia por conta própria, situação na qual ao senhor podia apenas
controlar a prestação da féria devida pelo cativo. Não raro nestas situações, os senhores tinham que se apoiar
na disponibilidade da municipalidade para implementar posturas e códigos urbanos capazes de restringir a
independência de seus ganhadores, coibindo o trânsito da escravaria, como da polícia para aplicar os
castigos que os senhores se achavam impossibilitados" p. 203-204.
- "De fato, era muito comum aos senhores contratarem agentes da polícia e da carceragem para executarem
as funções do feitor ausente, mantendo, a troco de um soldo, os escravos indisciplinados de castigo no
calabouço ou contratando com os carrascos da municipalidade a aplicação de punições físicas. Embora
muitas vezes reclamassem de uma “excessiva” fiscalização da polícia sobre seus cativos, o que atrapalhava o
desempenho dos mesmos nas ruas e restringia os ganhos, os senhores de São Paulo valiam-se dos serviços
desta mesma polícia para corrigir as faltas dos escravos. Assim agindo os senhores urbanos transferiam, para
a alçada do estado e da municipalidade, suas funções privadas de correção e disciplinarização da escravaria.
Porém, note-se que eram os senhores que demandavam e, até certo ponto, controlavam e retribuíam
monetariamente o serviço executado pela esfera pública, que, desta maneira, agia segundo as exigências do
mundo da casa, isto é da esfera privada, espaço no qual se enraizava a base das prerrogativas senhoriais. O
que é importante reter é que, apesar dos senhores urbanos dependerem da intromissão do estado para
cumprir as prerrogativas senhoriais, este agia segundo os interesses dos senhores e não ao contrário. E
embora a questão do controle da escravaria na cidade tenha repousado, ao menos em parte, nos instrumentos
de controle social que pertenciam ao estado e a municipalidade, o poder senhorial ficava preservado mesmo
quando, aparentemente, a polícia e os órgãos de controle social pareciam estar interferindo nas mais caras
prerrogativas senhorias. Pois, de fato, a pedra de toque da escravidão repousa nas prerrogativas senhoriais,
cujas premissas conduzem as relações sociais entre senhores e seus escravos e entre os primeiros e os outros
grupos sociais também envolvidos pela escravidão, o que no caso do Brasil, eram, literalmente, todos. Com
suas exigências de controle social dos escravos, forros, dependentes, agregados e outros grupos sociais
subalternos, os senhores de escravos lançavam mão do paternalismo como estratégia para manter, sob sua
esfera de controle, as demandas dos escravos, ao mesmo tempo em que estes mesmos senhores, na prática,
tinham que se curvar a determinadas exigências dos seus cativos" p. 204-205.
- "[...] embora o número de cativos tenha sido sempre limitado, nem por isso a presença de escravos nas ruas
deixou de justificar a implementação de sérias medidas de controle e vigilância, mormente no decorrer do
XIX quando a cidade tornou-se ponto de atração de levas de escravos fugidos" p. 209.
- "De fato, na década de 1870, São Paulo assistiu à emergência do primeiro movimento organizado de
libertação dos escravos, movimento este que teve seu epicentro nas barras dos tribunais paulistanos, aonde
advogados e rábulas começaram a interpor ações de liberdade, em favor de escravos, provenientes dos mais
diferentes pontos da província" p. 210.
- "Questões como a atuação jurídica, o ambiente de solidariedade e participação popular que se estabeleceu
na cidade desde meados da década de 70, associadas ao tráfico intraprovincial que, no avançar destes anos,
deslocou os contingentes de escravos urbanos para as fazendas condicionaram a extinção “precoce” da
escravidão na cidade. Ao mesmo tempo, a presença de comunidades de africanos livres e de escravos forros,
que circulavam mais ou menos livremente pelas ruas, associada a militância dos abolicionistas que
mobilizava redes de solidariedade e proteção junto à população, foram fatores que levaram a atração de
levas crescentes de escravos fugidos, produzindo uma dinâmica social peculiar à transição na cidade" p. 213.
- "Nos anos seguintes ao fim da escravidão, a imigração, o discurso do progresso e do branqueamento
buscaram colocar uma pedra em cima do passado escravista da cidade, bem como de sua tradição
afroamericana. Descartados pela história oficial da cidade, os negros de São Paulo tiveram que aprender,
mais uma vez, as técnicas da resistência cultural e social para sobreviver no ambiente hostil de uma cidade
pretensamente branca, de ideais bandeirante e de origem indígenas" p. 215.

MACHADO, Maria Helena Pereira Toledo. Corpo, gênero e identidade no limiar da Abolição: a história de
Benedicta Maria Albina da Ilha ou Ovídia, escrava (Sudeste, 1880). Afro-Ásia, Salvador, n. 42, 2010, p.
157-193.
- Processo de deslocamento de escravos no ocaso da escravidão.
- "Além disso, os processos de deslocamento geográfico de recém libertos e fugidos nos anos finais de
vigência da escravidão foram atravessados por questões de gênero. Parece claro que os homens e as
mulheres que se liberavam da escravidão enfrentavam desafios sociais diferenciados. Às mulheres, o
caminho da autonomia continuava a ser negociado no âmbito privado do trabalho doméstico e da explícita
dependência pessoal. [...] Embora submetidas a tipos de trabalho e tratamento social semelhantes, as
mulheres livres gozavam do privilégio do deslocamento geográfico desimpedido, o que lhes permitia a
defesa ciosa de espaços afetivos e familiares mais autônomos. Às escravas, no entanto, ainda pesava o
controle senhorial do ir-e-vir diário. Note-se ainda que o próprio processo de alforria, o qual colocava
usualmente mil condições para o gozo da liberdade, buscava postergar ao máximo o gozo do ir-e-vir livre.
Esperava-se que os libertos em geral, mas especialmente as mulheres libertas, permanecessem no controle
dos seus senhores, servindo-os como criadas, e como tal sendo submetidas a diversos controles, tornando-se
elos na cadeia de dominação de toda a família" p. 159-161.
- "[...] a década da abolição, ao mesmo tempo em que abria espaço para as demandas de liberdade, fazia
emergir uma instância decisória técnica e cientificizante, alojada no Estado, que viria a ocupar o espaço de
autoridade anteriormente apropriado pelos senhores e sempre evocado a partir do mundo privado da gestão
escravista. Diferentemente da posição senhorial, o poder público se referendava por ser capaz de impor, em
uma instância aparentemente neutra e por meio de uma linguagem técnica, renovadas formas de controle" p.
161.
- "De fato, na década de 1880, as estações ferroviárias haviam ampliado enormemente as possibilidades de
deslocamento de escravos e escravas que procuravam os trens e suas estações como canais de fuga, meio de
deslocamento rápido ou mesmo espaço de obtenção de informações e estabelecimento de valiosos contatos.
Não por acaso, as principais revoltas e fugas em massa de escravos na década de 1880 conectavam-se, de
alguma maneira, aos trens e suas estações" p. 166.
"Se é verdade que, assim como para os cativos, a década da abolição oferecia para as escravas, jovens ou
nem tanto, novas perspectivas, é também verdade que, como parte de grupos de escravos fugidos, retirantes
ou quilombolas, as mulheres com seus filhos parecem ter sido minoria. Além do mais, em suas fugas
individuais, o espaço de manobra das cativas necessariamente se reportava às relações no âmbito privado do
serviço doméstico, sempre entendido como uma troca de favores e de cuidados amorosamente realizados, e
nunca como trabalho. Assim, para livres, libertas ou cativas, os caminhos da autonomia estavam marcados
por restrições de gênero, que determinavam o ambiente doméstico como quase o único espaço de
sobrevivência para as mulheres pobres, fossem elas livres ou não" p. 168.
- "A contraface do controle sanitário do serviço doméstico na corte, provido por escravas e livres, com suas
crescentes exigências de inspeção dos corpos, vigilância dos deslocamentos geográficos e de emprego e
classificação médico-racializada, se materializava em uma vivência do mundo das ruas, com seus abrigos,
cortiços, suas casas de zungu e de fortuna e outros esconderijos. Fazer quitandas, alugar quartos, partilhar
segredos e funções religiosas, ganhar dinheiro, viver amores e fugas, criar os filhos ou entregá-los para que
outrem o fizesse eram atividades que as mulheres escravas – e também as livres e libertas – realizavam na
contraluz dos ideais de uma cidade sanitarizada, higiênica, civilizada e branqueada, sonhada pelas
autoridades e sistematizada nos nascentes discursos médicos" p. 170.
- "Ora, a crescente preocupação com a situação higiênica das amas-de-leite nas cidades brasileiras, que
passaram, ao longo do XIX, a serem vistas pelo nascente discurso médico como perigosas portadoras de
inúmeras moléstias contagiosas, além de possuidoras de péssimos predicados morais e praticantes de hábitos
bárbaros e ignorantes, teria justificado a proibição da escrava amamentar tanto o filho do senhor como
manter-se como alugada para exercer tal função" p. 176.
- "À medida que os mecanismos de controle pessoal informal estabelecidos pelos senhores e seu grupo
social de referência declinavam é que o poder público, instância que se fortalecia, surgia neste horizonte
social como agência capaz de discriminar e reordenar os papéis sociais, reestabelecendo o jogo das
dependências e controle das libertandas, agora sob novas regras. Libertas, ou quase, do controle direto de
seus senhores, as Benedictas e Ovídias transformavam-se, no declínio da escravidão, em sujeitos
especialmente visados pelo poder público e sobre as quais recaíam, de maneira mais pesada, as nascentes
práticas sanitárias e de controle social. Se homens e mulheres egressos da escravidão apareciam
estigmatizados nos discursos médicos-raciais da eugenia e do controle sanitário, às mulheres, a ciência da
raça, o sanitarismo e o controle social dos finais do XIX incidiam de maneira especialmente dura. Neste
mesmo período, ser mulher, solteira, libertanda ou liberta, significava ser objeto de uma série de nascentes
práticas de controle moral e científico modernizados, os quais pretendiam normatizar sua inserção social,
contendo aspectos do que passava a ser percebido como os perigos de um feminino incontrolado, causador
de doenças, maus hábitos e pouca honradez. Práticas de identificação científica, discursos sobre raça e
controle sanitário dos corpos aparecem, assim, como sucedâneos modernos das antigas formas de controle
privado" p. 184-185.
- "Por ser além de escrava, uma mulher, Benedicta/Ovídia encontrava ainda maiores impedimentos para a
livre fruição de sua pessoa. Uma série de restrições sociais e jurídicas a impediam de desfrutar livremente de
seu próprio corpo. Enquanto mulher ela compartilhava com suas irmãs livres e libertas inúmeras restrições
sociais e perigos; como os da violência sexual, da gravidez indesejada, dos partos perigosos, além de ter de
se submeter a uma circulação social restrita e vigiada. No entanto, diferentemente do que ocorria com as
mulheres livres e de família, às escravas não se impunham, seriamente pelo menos, códigos de moralidade.
A própria reprodução, mais ou menos desejável do ponto de vista senhorial, a depender de conjunturas
econômicas, tipos de proprietário e/ou atividades desempenhadas pela cativa, não transgredia tabus de
virgindade, não implicava no estabelecimento de uma paternidade socialmente reconhecida, nem redundava
na transmissão de herança. Alem do mais, obviamente do ponto de vista senhorial, a prole da escrava
significava a reprodução da mão-de-obra e podia redundar em ganhos econômicos importantes, mesmo após
a lei do Ventre Livre. Especialmente para a exploração do lucrativo aluguel das amas-de-leite nas cidades do
XIX – atividade desempenhada pela própria Benedicta/Ovídia – levar a gravidez a termo era a condição sine
que non" p. 187.
- " Se, de certa forma, as escravas gozavam de maiores liberdades do que as mulheres livres, é verdade que
esta realidade estava investida de constantes ameaças de violência, sobretudo sexual, das quais as mulheres
livres estavam mais protegidas. Os próprios discursos médicos a respeito da prostituição, propagação das
doenças sexuais, sobretudo da sífilis no Rio de Janeiro da segunda metade do XIX, retomam este mesmo
axioma. Colocando o peso da devastação das famílias – sobretudo dos corpos de jovens recém-casadas
brancas e de sua prole – nas costas de escravas e mulheres negras ou mestiças, o saber médico, seguindo a
tendência de outros discursos letrados, conectou a depravação sexual à escravidão e, na falta desta, à raça. A
mulher negra ou mestiça, ora entendida como refém de uma bestialidade atávica, ora vista como vítima de
uma passividade extrema, era causadora, voluntária ou involuntariamente, da contaminação das famílias
pelas doenças venéreas, sobretudo pela sífilis. As ideias raciais que então começavam a se esgueirar nas
discussões sobre o afrouxamento da escravidão, e que passam a ser evocadas de maneira fluida nos
discursos letrados por meio de ideias cambiantes e contraditórias na prática social, eram, no entanto,
unânimes na crença de que as mulheres negras e mestiças precisavam ser controladas" p. 187-188.
- "Ainda assim, entre as populações alvo de controle, as mulheres parecem ter tido seus deslocamentos ainda
mais escrutinados. Vistas como possuidoras de uma complexão mais fluida e fria, segundo os conceitos da
medicina galênica ainda em voga no saber popular ao longo do século XIX, as mulheres teriam maior
tendência à dissimulação" p. 189.
- "Assim como em outras partes do mundo, no Brasil, a construção do Estado liberal dependeu da
capilarização de procedimentos burocráticos de identificação e controle da população, os quais, certamente,
não se harmonizavam com a escravidão. Na medida em que o controle massificado da população
pressupunha igualdade perante a lei com a submissão de todos a procedimentos padronizados, a
modernização do Estado trabalhava no sentido contrário ao poder particular dos senhores. No entanto, é bem
sabido que, no Brasil, práticas mistas de controle particular e estatal sobreviveram até o fim da escravidão.
Assim, quando Benedicta/Ovídia foi apresentada ao juiz para ser corretamente identificada, as autoridades
tiveram que recorrer a diferentes repertórios de práticas identificatórias, que misturavam procedimentos
tradicionais – a identificação da pessoa por meio de marcas corporais, sinais distintivos e aparência – e
recursos modernizados, como o exame médico-legal" p. 189-190.