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ARISTÓTELES

METAFÍSICA
(LIVRO I e LIVRO II)
Tradução direta do grego por Vincenzo Coeso
e notas de Joaquim de Carvalho

ÉTICA A NICÔMACO
Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim
da versão inglesa de W . D. Ross

POÉTICA
Tradução, comentários e índices analítico e onomástico de
Eudoro de Souza

Seleção de textos de José Américo Motta Pessanha

1984
EDITOR: VICTOR CIVITA
Títulos originais:
T à (iíTà Tà $ixnKà (Metafísica)
Ilept IIotT]TiKT)s (Poética)
H diK à NiKop-axeía (Ética a Nicômaco)

© Copyright desta edição, Abril S.A. Cultural,


São Paulo, 1984.

Traduções publicadas sob licença da Editora Atlântica, Coimbra


(Metafísica — Livros I e II), e da Editora Globo S.A.,
Porto Alegre (Êtica a Nicômaco, Poética).
METAFÍSICA

T ra d u çã o d ireta d o grego p o r V inzenzo C occo


e n o tas de Jo aq u im de C arv alh o
Nota do Tradutor

A presente tradução seguiu o texto da Aristotelis Opera omnia graece et latine,


Volumen secundum, Parisiis Editoribus Firmin-Didot et Sociis (s. a.) [1938].
Nas notas à tradução são citadas abreviadamente as seguintes traduções:

Pedro da Fonseca — In Libros Metaphysicorum Aristotelis, t. i, ed. de Lyon,


1591.
Aristote — La Métaphysique. Livre i. Lovaina, 1912; e Livro n, ibid. 1912-1922.
Trad. et commentaire de G. Colle.
W. D. R oss — The Works of Aristóteles, vol. vn. Oxford, ed. de 1948.
Aristotele — La Metafísica. Volgarizzata e commentata da Ruggiero Bonghi,
completata e ristampata con la parte inédita. Introduzione e Appendice da
Michele Federico Sciacca, vol. i, Milão, 1942.
Aristote — La Métaphysique. Trad. et notes par J. Tricot, t. i, 2 ° ed., Paris,
1948.
LIVRO I
(A )
C a p ítu lo I 1

Todos os homens têm, por natureza, de experiência pouco possuem3. Mas a


desejo de conhecer: uma prova disso é espécie humana [vive] também de arte
o prazer das sensações, pois, fora até e de raciocínios. (4) É da memória que
da sua utilidade, elas nos agradam por deriva aos homens a experiência: pois
si mesmas e, mais que todas as outras, as recordações repetidas da mesma
as visuais. Com efeito, não só para coisa produzem o efeito duma única
agir, mas até quando não nos propo­ experiência, e a experiência quase se
mos operar coisa alguma, preferimos, parece com a ciência e a arte. Na reali­
por assim dizer, a vista ao demais. A dade, porém, a ciência e a arte vêm aos
razão é que ela é, de todos os sentidos, homens por intermédio da experiência,
0 que melhor nos faz conhecer as coi­ porque a experiência, como afirma
sas e mais diferenças nos descobre. (2 ) Polos4, e bem, criou a arte, e a inexpe­
Por natureza, seguramente, os animais riência, o acaso. (5) E a arte aparece
são dotados de sensação, mas, nuns, quando, de um complexo de noções
da sensação não se gera a memória, e experimentadas, se exprime um único
noutros, gera-se2. Por isso, estes são juízo universal dos [casos] semelhan­
mais inteligentes e mais aptos para tes. Com efeito, ter a noção de que a
aprender do que os que são incapazes Cálias, atingido de tal doença, tal
de recordar. Inteligentes, pois, mas remédio deu alívio, e a Sócrates tam­
sem possibilidade de aprender, são bém, e, da mesma maneira, a outros
todos os que não podem captar os tomados singularmente, é da experiên­
sons, como as abelhas, e qualquer cia; mas julgar que tenha aliviado a
outra espécie parecida de animais. todos os semelhantes, determinados
Pelo contrário, têm faculdade de segundo uma única espécie, atingidos
aprender todos os seres que, além da de tal doença, como os fleumáticos, os
memória, são providos também deste biliosos ou os incomodados por febre
sentido. (3) Os outros [animais] vivem ardente, isso é da arte. (6 ) Ora, no que
portanto de imagens e recordações, e respeita à vida prática, a experiência
em nada parece diferir da arte; vemos,
1 Este capítulo tem por fim mostrar que o desejo de
saber é natural; que há graus diversos de conheci­ 3 Aristóteles discrimina três graus no conheci­
mento — sensação, memória, experiência, arte, mento sensível dos irracionais, que com Fonseca se
ciência — e que a verdadeira ciência é a que resulta podem designar de: ínfimo, médio e superior. O ínfi­
do conhecimento teorético, especulativo, não-prá- mo é próprio dos animais que somente vivem a
tico, cujo objeto é o saber das causas ou razão de experiência presente; o médio, dos que podem con­
ser. A ciência deste saber constitui a sabedoria ou servar a experiência passada mas não ouvem, e o
filosofia. superior, dos que ouvem, possuem memória e
2 A razão é que nem todos os animais possuem a podem ser adestrados.
faculdade de conservar a experiência transata por 4 Foi um aluno do sofista Górgias. Vid. Platão,
imagens. Górgias.
12 ARISTÓTELES

até, os empíricos acertarem melhor do obras, em todas as coisas, são mais


que os que possuem a noção, mas não apreciáveis e sabem mais que os operá­
a experiência. E isto porque a expe­ rios, pois conhecem as causas do que
riência é conhecimento dos singulares, se faz, enquanto estes, à semelhança de
e a arte, dos universais; e, por outro certos seres inanimados, agem, mas
lado, porque as operações e as gera­ sem saberem o que fazem, tal como o
ções todas dizem respeito ao singular. fogo [quando] queima. Os seres inani­
Não é o Homem, com efeito, a quem o mados executam, portanto, cada uma
médico cura, se não por acidente, mas das suas funções em virtude de uma
Cálias ou Sócrates, ou a qualquer um certa natureza que lhes é própria, e os
outro assim designado, ao qual aconte­ mestres pelo hábito. Não são, portan­
ceu também ser hom em 5. (7) Portanto, to, mais sábios os [mestres] por terem
quem possua a noção sem a experiên­ aptidão prática, mas pelo fato de pos­
cia, e conheça o universal ignorando o suírem a teoria e conhecerem, as cau­
particular nele contido, enganar-se- á sas. (9) Em geral, a possibilidade de
muitas vezes no tratamento, porque o ensinar é indício de saber; por isso nós
objeto da cura é, de preferência, o sin­ consideramos mais ciência a arte do
gular. No entanto, nós julgamos que que a experiência, porque [os homens
há mais saber e conhecimento na arte de arte] podem ensinar e os outros não.
do que na experiência, e consideramos Além disto, não julgamos que qualquer
os homens de arte mais sábios que os das sensações constitua a ciência, em­
empíricos, visto a sabedoria acompa­ bora elas constituam, sem dúvida, os
nhar em todos, de preferência, o conhecimentos mais seguros dos singu­
saber6. Isto porque uns conhecem a lares. Mas não dizem o “porquê” de
causa, e os outros não. Com efeito, os coisa alguma, por exemplo, por que o
empíricos sabem o “quê”, mas não o fogo é quente, mas só que é quente.
“porquê” ; ao passo que os outros ( 10 ) É portanto verossímil que quem
sabem o “porquê” e a cau sa7. (8 ) Por primeiro encontrou uma arte qualquer,
isso nós pensamos que os mestres-de- fora das sensações comuns, excitasse a
admiração dos homens, não somente
6 Passo de explicação difícil, pois consiste em ave­ em razão da utilidade da sua desco­
riguar a razão plausível por que Aristóteles diz que berta, mas por ser sábio e superior aos
é um acidente de Cálias, de Sócrates, ou de qual­
quer outro indivíduo, ser homem. Fundado em Ale­ outros. E com o multiplicar-se das
xandre (A p o r ia s ..., I, IX), G. Colle interpreta artes, umas em vista das necessidades,
assim: “A universalidade é um acidente da essência. outras da satisfação, sempre conti­
'Donde se segue que a essência, considerada formal­
mente sob o ponto de vista da extensão, isto é, como nuamos a considerar os inventores des­
universal, é atributo acidental da essência conside­ tas últimas como mais sábios que os
rada exclusivamente sob o ponto de vista da
compreensão. Para empregar o exemplo de Alexan­ das outras, porque as suas ciências não
dre: “um animal em geral” ou, o que eqüivale ao se subordinam ao útil. (11) De modo
mesmo, “um animal” (essência universal) será atri­ que, constituídas todas as [ciências]
buto acidental de “este animal” (essência conside­
rada à parte do seu caráter universal). Do mesmo deste genero, outras se descobriram
modo, “um homem” será atributo acidental de “este que não visam nem ao prazer nem à
homem”.” (La Met., I, p. 17.) necessidade, e primeiramente naquelas
6 Expostas as noções de empeiría e de téchne, Aris­
tóteles inicia a exposição das provas demonstrativas regiões onde [os homens] viviam no
do objeto do capítulo: a filosofia é o saber por exce­ ócio8. É assim que, em várias partes
lência, ou seja, o do conhecimento das causas.
7 Conhecer pela causa é conhecer pelo geral, isto é, 8 Viver no ócio significa estar aliviado de trabalho
pelo conceito e pela essência; assim, o médico, manual e de cuidados materiais e, portanto, usufruir
conhecendo a essência da doença e do medica­ condições que permitam o exercício da atividade
mento, conhece a relação causai deste para aquela, intelectual, ou teorética, sem a preocupação de
e portanto a causa do restabelecimento da saúde. obter o que é essencial à vida de cada dia.
M ETAFÍSICA — I 13

do Egito, se organizaram pela primeira bida como tendo por objeto as causas
vez as artes matemáticas, porque aí se primeiras e os princípios; de maneira
consentiu que a casta sacerdotal vives­ que, como acima se notou, o empírico
se no ócio. (12) Já assinalamos na parece ser mais sabio que o ente que
Ética 9 a diferença que existe entre a unicamente possui uma sensação qual­
arte, a ciência e as outras disciplinas quer, o homem de arte 1 0 mais do que
do mesmo gênero. O motivo que nos os empíricos, o mestre-de-obras mais
leva agora a discorrer é este: que a do que o operário, e as ciências teoré-
chamada filosofia é por todos conce- ticas mais que as práticas. Que a filo­
sofia seja a ciência de certas causas e
9 N a Ética a Nicômaco, VI, 3-7, onde distingue e
caracteriza cinco “hábitos” pelos quais se pode de certos princípios é evidente.
aprender a verdade: entendimento, ciência, sabedo­
ria (filosofia), prudência e arte. ' 0 Fonseca traduz: artjfex, isto é, perito.

C a p í t u l o I I 11

Ora, visto andarmos à procura desta lhemos por ela própria, e tendo em
ciência, devemos examinar de que cau­ vista o saber, é mais filosofia do que a
sas e de que princípios a filosofia é a que escolhemos em virtude dos resulta­
ciência. Se considerarmos as opiniões dos; e uma [ciência] mais elevada é
que existem acerca do filósofo, talvez o mais filosofia do que uma subordi­
problema se nos manifeste com maior nada, pois não convém que o filósofo
receba leis, mas que as dê, e que não
clareza. (2) Nós admitimos, antes de
obedeça ele a outro, mas a ele quem é
mais, que o filósofo conhece, na medi­
menos sábio. (4) Tais e tantas são,
da do possível, todas as coisas, embora
pois, as opiniões que temos sobre a
não possua a ciência de cada uma filosofia e os filósofos. E quanto a
delas por si. Em seguida, quem consiga estes, o conhecimento de todas as coi­
conhecer as coisas difíceis e que o sas encontra-se necessariarfiente na­
homem não pode facilmente atingir, quele que, em maior grau, possui a
esse também consideramos filósofo ciência universal, porque ele conhece,
(porque o conhecimento sensível é de certa maneira, todos os [indivi­
comum a todos, e por isso fácil e não- duais] sujeitos12. No entanto, é sobre-
científico). Além disto, quem conhece
as causas com mais exatidão, e é mais 12 Tradução literal, que o comum dos tradutores
explana, considerando por “ sujeitos” os indivíduos
capaz de as ensinar, é considerado em ou casos particulares abrangidos no conhecimento
qualquer espécie de ciência como mais do universal. Por outras palavras: dada a concep­
filósofo. (3) E, das ciências, a que esco­ ção hierárquica do saber (3), a ciência mais geral
tem maior extensão, isto é, abrange maior número
de indivíduos, objetos ou casos singulares; pelo que,
11 Estabelecida no capítulo anterior a existência da quem o possui, conhece, de certa maneira, os indiví­
filosofia (ou sabedoria), Aristóteles propõe-se neste duos, objetos ou casos abrangidos no conhecimento
capítulo indagar o que caracteriza. Em resumo é: do respectivo conceito.
ciência das causas primeiras; teórica, por excelên­ Fonseca adverte que por sujeitos (in nomine
cia; eminentemente livre; divina; a mais digna de rerum subiectarum) se deve entender não só sujeitos
apreço, gerando a sua aquisição um estado de espí­ de predicados universais, mas também efeitos de
rito contrário ao do pasmo da ignorância. causas universais.
14 ARISTÓTELES

maneira difícil ao homem chegar a a qualquer subordinada, é, portanto,


estes conhecimentos universais, porque aquela que conhece aquilo em vista do
estão muito para além das sensações. qual cada coisa se deve fazer. E isto é
Além disto, entre as ciências são mais 0 bem em cada coisa e, de maneira
exatas as que se ocupam predominan­ geral, o ótimo no conjunto da nature­
temente dos “primeiros” 13; e as que de za. (7) Resulta portanto de todas estas
menos [elementos precisam] são mais considerações que é a esta mesma ciên­
exatas do que as que são chamadas cia que se aplica o nome que procura­
“por adição”, como a aritmética relati­ mos. Ela deve ser, com efeito, a [ciên­
vamente à geometria 1 4. (5) Porém, a
cia] teorética dos primeiros princípios
que ensina é a ciência que investiga as e das causas, porque o bem e o “por­
causas, porque só os que dizem as cau­ quê” são uma das causas. Que não é
sas de cada coisa é que ensinam. Ora,
conhecer e saber por amor deles mes­ uma [ciência] prática resulta [da pró­
pria história] dos que primeiro filoso­
mos é próprio da ciência do suma­
faram. (8 ) Foi, com efeito, pela admi­
mente conhecível. Com efeito, quem
procura o conhecer pelo conhecer ração 1 5 que os homens, assim hoje
escolherá, de preferência, a ciência que como no começo, foram levados a filo­
é mais ciência, e esta é a do suma­ sofar, sendo primeiramente abalados
mente conhecível; e sumamente conhe- pelas dificuldades mais óbvias, e pro­
cíveis são os princípios e as causas: é gredindo em seguida pouco a pouco
pois por eles e a partir deles que conhe­ até resolverem problemas maiores: por
cemos as outras coisas, e não eles por exemplo, as mudanças da Lua, as do
meio destas, que são subordinadas. (6 ) Sol e dos astros e a gênese do Univer­
A mais elevada das ciências, e superior so. Ora, quem duvida e se admira julga
ignorar: por isso, também quem ama
13 Tradução literal, que colocamos entre aspas os mitos é, de certa maneira, filósofo,
para acentuar a literalidade. O comum dos traduto­
res interpreta pelo contexto, fazendo eqüivaler “pri­ porque o mito resulta do maravilhoso.
meiros” a conhecimento dos principios. Pelo que, se foi para fugir à ignorância
Fonseca traduz por prima: Scientiarum quoque
eae sunl accuratissimae, quae in iis quae prima sunt,
que filosofaram, claro está que procu­
maxime versantur. E na explanatio respectiva, raram a ciência pelo desejo de conhe­
assim explica: Cum igitur ea, quae sunt maxime cer, e não em vista de qualquer utilida­
universalia, sinl prima, et simplicissima efficitur ut
seientia, quae in eorum consideratione versatur, sil de. (9) Testemunha-o o que de fato se
suapte natura certíssima, ut quae paucissimis. et passou. Quando já existia quase tudo
simplicissimis principiis rem demonstret. Sic multo que é indispensável ao bem-estar e à
facilius probamus aliquid existere, quam per se exis-
tere aut in alio existere, quod existere, sit prius et comodidade, então é que se começou a
simplicius quam existere per se, aut existere in alio. çrocurar uma disciplina deste gênero.
1 4 Tradução literal. O sentido toma-se mais claro,
explanando com o comum dos tradutores: por adi­
É pois evidente que não a procuramos
ção de princípios. Aristóteles distingue as ciências por qualquer outro interesse mas, da
que assentam em poucos princípios, simples e abs­ mesma maneira que chamamos
tratos, das que assentam em princípios complexos,
isto é, menos abstratos. As primeiras são mais exa­ homem livre a quem existe por si e não
tas que as segundas. por outros, assim também esta ciência
É digno de reparo o fato de Aristóteles exempli­ é, de todas, a única que é livre, pois só
ficar a distinção com a aritmética e a geometria. A
razão é que a geometria, em relação à aritmética,
contém uma adição de princípios, isto é, aos princí­ 1 5 Fonseca aproxima deste passo o de Platão, no
pios do número acrescenta as propriedades do Teeteto, em que Sócrates diz a Teodoro que a admi­
espaço. ração é o princípio da filosofia.
M ETAFÍSICA — I 15

ela existe [ por si ] 1 6. E por tal razão, sobreleva em excelência. E o estado em


poderia justamente considerar-se mais que nos deve deixar a sua aquisição é
que humana a sua aquisição. Por tan­ inteiramente contrário ao do das pri­
tas formas é, na verdade, a natureza mitivas indagações, pois, dissemos
serva dos homens que, segundo Simô- nós, todas começam pela adm iração 1 8
nides, “Só Deus poderia gozar deste de como as coisas são: tais os autôma­
privilégio”, e não convém ao homem tos, aos olhos daqueles que não exami­
procurar uma ciência que lhe não está naram ainda a causa, ou os solstícios,
proporcionada. (10) Se, como dizem os ou a incomensurabilidade do diâme­
poetas, a divindade é por natureza tro 19: parece, de fato, maravilhoso
invejosa, nisto sobretudo deveria ver-se para todos que haja uma quantidade
0 efeito, e todos os mais categorizados não comensurável pela mais pequena
serem infelizes1 7. Ora, nem é admis­ unidade [que se quiser]. (12) Ora, nós
sível que a divindade seja invejosa, e, devemos acabar, segundo o provér­
segundo o provérbio, “os poetas dizem bio20, pelo contrário e pelo melhor
muitas mentiras” , nem se pode admitir como acontece nestes [exemplos],
que haja outra ciência mais apreciável desde que se conheçam [as causas];
que esta. Com efeito, a mais divina é nada, efetivamente, espantaria tanto
também a mais apreciável, e só em um geômetra como o diâmetro tornar-
duas maneiras o pode ser: ou por ser se comensurável. Fica assim estabele­
possuída principalmente por Deus, ou cida a natureza da ciência que procu­
por ter como objeto as coisas divinas. ramos e também o fim que a nossa
Ora, só a nossa ciência tem estas duas investigação e todo o tratado devem
prerrogativas. Deus, com efeito, parece alcançar.
ser, para todos, a causa e princípio, e
uma tal ciência só Deus, ou Deus 18 Fonseca observa penetrantemente na explanatio
respectiva: Aduerte autem ignorationem, a qua inci-
principalmente, poderia possuí-la. ( 1 1 ) pit, discursus PhUosophicus, non esse ignorationem
Todas as outras são, pois, mais neces­ purae privationis, sed quadammodo inchoatae for-
sárias do que ela, mas nenhuma se lhe mae.
19 Segundo Fonseca e outros comentadores (v. g.
Colle, I, 32), diâmetro tem neste passo o sentido de
1 6 Fonseca traduz assim a parte final do período: diagonal do quadrado, como no De anima, III, 430a
libera est, quod sola sit sui gratia. Na explanatio 31. Além desta razão, parece ainda que Aristóteles
respectiva discrimina ciência livre de ciência liberal: desconheceu a incomensurabilidade do diâmetro e
Liberalis enim est, quae est digna homine libero, et do círculo, dado o fato de Arquimedes ulterior-
opponitur Mechanicae, seu sordidae, nonnullasque mente se haver proposto investigar a respectiva rela­
practicas complectitur, ut Rhetoricam, et Dialecti- ção exata.
cam: libera autem est, quae est sui gratia, hoc est, 20 Segundo Fonseca, parece aludir ao provérbio
quae non refertur ad opus, aut si mauis, nec aliam Secundis melioribus (segundo Alexandre) ou ao
superiorem. Posterioribus melioribus. Deste último dá o exem­
' 7 Alguns comentadorès reportam a este passo plo de Cícero, nas Filípicas: Posteriores cogitatio-
Píndaro, Pít., X, 31. nes, ut aiunt, sapientiores esse solent.
16 ARISTÓTELES

C a p i t u l o III21

É pois manifesto que a ciência a causas; tal exame será portanto útil ao
adquirir é a das causas primeiras (pois nosso estudo, porque ou descobri­
dizemos que conhecemos cada coisa remos uma outra espécie de causas, ou
somente quando julgamos conhecer a daremos mais crédito as que acabamos
sua primeira causa )2 2; ora, causa diz- de enumerar. A maior parte dos pri­
se em quatro sentidos: no primeiro, meiros filósofos considerou como prin­
entendemos por causa a substância e a cípios de todas as coisas unicamente
qüididade 23 (o “porquê” reconduz-se os que são da natureza da matéria. E
pois à noção última, e o primeiro “por­ aquilo de que todos os seres são consti­
quê” é causa e princípio); a segunda tuídos, e de que primeiro se geram, e
[causa] é a matéria e o sujeito; a ter­ em que por fim se dissolvem, enquanto
ceira é a de onde [vem] o início do a substância subsiste, mudando-se uni­
movimento; a quarta [causa], que se camente as suas determinações, tal é,
opõe à precedente, é o “fim para que” e para eles, o elemento e o princípit) dos
o bem (porque este é, com efeito, o fim seres. (3) Por isso, opinam que nada se
de toda a geração e movimento). Já gera e nada se destrói, como se tal
estudamos suficientemente estes prin­ natureza subsistisse indefinidamente,
cípios na Física2 4; todavia queremos da mesma maneira que não afirmamos
aqui associar-nos aos que, antes de que Sócrates é gerado, em sentido
nós, se aplicaram ao estudo dos seres e absoluto, quando ele se tom a belo ou
filosofaram sobre a verdade. (2 ) É, músico, nem que ele morre quando
com efeito, evidente que eles também perde estas qualidades, porque o sujei­
falam em certos princípios e em certas to, o próprio Sócrates, permanece; e
assim quanto às outras coisas, porque
21 Este capítulo tem por objeto a indicação dos deve haver uma natureza qualquer, ou
quatro sentidos em que Aristóteles toma a palavra
causa — material, eficiente, formal e final — e a mais do que uma 2 5, donde as outras
referência histórica das opiniões dos pré-socráticos derivem, mas conservando-se ela inal­
acerca da causa material. terada. (4) Quanto ao número e à natu­
22 São várias as dificuldades destes parênteses e é
copiosa a bibliografia que lhes respeitai Primeira reza destes princípios 2 6, nem todos
causa deve entender-se em sentido relativo, isto é, pensam da mesma maneira. Tales 2 7, o
da causa que importa ao conhecimento próprio da fundador de tal filosofia28, diz ser a
coisa, e não no sentido absoluto, porque se assim
não fosse o conhecimento de cada coisa exigiria o água (é por isto que ele declarou tam­
conhecimento do objeto formal da metafísica. Vid. bém que a terra assenta sobre a água),
Colle I, pp. 34-41.
2 3 Literalmente: qual era o ser. Eqüivale ao sentido levado sem dúvida a esta concepção
próprio de cada coisa enquanto pensada em si por observar que o alimento de todas
mesma, e que é designado pela definição essencial.
Fonseca traduz por: Quidditatem rei. 2 5 Isto é, uma natureza, que seja una, ou múltipla.
2 4 Especialmente, no liv. II, caps. 3 e 7. Hamelin 2 6 Isto é, princípios materiais fundamentais.
considera este parágrafo como resumo do que Aris­ 27 É o fundador da Escola Jônica; natural de Mile-
tóteles desenvolvera na Fís., II, 3. (Vid. Aristote, to, viveu entre 650-550 a.C.
Physique II. Trad. et commentaire ( —Paris, 2.a ed. 28 Isto é, da filosofia que confere significação
1931) p. 101. ontológica substantiva a elementos naturais.
M ETAFÍSICA — I 17

as coisas é úmido e que o próprio Metapontino 3 6 e Heráclito de Éfeso 3 7


quente dele2 9 procede e dele vive (ora, é o fogo, e para Empédocles 3 8 são os
aquilo donde as coisas vêm é, para quatro elementos, visto ele acrescentar
todas, o seu princípio). Foi desta um quarto aos que acabamos de refe­
observação, portanto, que ele derivou rir: a terra. Estes elementos subsistem
tal concepção, como ainda do fato de sempre e não são gerados, salvo no que
todas as sementes terem uma natureza toca ao aumento ou diminuição, quer
úmida e ser a água, para as coisas úmi­ se unam numa unidade, quer se divi­
das, o princípio da sua natureza. (5) A dam a partir dela. (8 ) Anaxágoras de
parecer de alguns, também os mais Clazômenes39, anterior a Empédocles
antigos, aqueles que muito antes da pela idade, mas posterior pelas obras,
nossa geração e primeiramente teolo- afirma que os princípios são infinitos.
gizaram30 teriam concebido a natu­ Quase tudo o que é constituído de par­
reza da mesma maneira. De fato, tes semelhantes40, como a água ou o
consideraram o Oceano e Tétis como fogo, diz ele, está sujeito à geração e à
os pais da geração, e fazem jurar os destruição de uma só maneira, a saber,
deuses pela água, à qual os poetas cha­ pela união e pela desunião; as coisas
mam Estiges31: ora, se o mais antigo é não nascem de outra maneira, nem
o mais venerável, o juramento é, sem morrem, mas subsistem eternamente.
dúvida, o que há de mais venerando. (9) Resulta daqui que deveria conside­
(6) Se esta opinião sobre a natureza é rar-se como causa única somente aque­
antiga e vetusta, não está bem claro; la que está na espécie da matéria.
em todo o caso, assim parece ter-se Assim prosseguindo, a própria reali­
exprimido Tales acerca da causa pri­ dade mostrou-lhes o caminho e obri­
meira. Quanto a Hipon32, ninguém, de gou-os a um estudo ulterior. Com efei­
certeza, pensaria em o colocar na série to, ainda que toda a geração e toda a
destes [pensadores], em razão da pou- corrupção procedam de um único prin­
quidade do seu pensamento. (7) Ana- cípio ou de vários, por que é que isso
xímenes33 e Diógenes3 4 consideram o acontece e qual a causa? Não é segura­
ar como anterior à água, e, entre os mente o sujeito o autor das suas pró­
corpos simples, como o princípio por prias mudanças: por exemplo, nem a
excelência3 5, enquanto para Hípaso madeira, nem o bronze são a causa das
próprias modificações, pois não é a
29 Segundo alguns comentadores, Tales pensava madeira que faz a cama, ou o bronze a
que o calor e o fogo se originavam pela evaporação estátua, mas alguma outra coisa é a
do úmido.
30 Refere-se a Homero e a Hesíodo como os pri­
meiros teólogos, isto é, como escritores que primei­
ramente se ocuparam dos deuses. 3 6 Filósofo do séc. VI a.C. que alguns historia­
31 Na Ilíada, XIV, 201-246, e XV, 37. dores filiam na Escola Pitagórica.
32 Bonitz esclareceu que Aristóteles aproximou 3 7 Ignoram-se as datas do seu nascimento e morte,
Hipon de Tales não pela idade, pois viveu na época admitindo-se, de harmonia com informes antigos,
de Péricles, mas pelos princípios que professava. notadamente de Diógenes Laércio, que florescia
Simplício diz que Hipon era ateu; talvez por este circa da sexagésima nona olimpíada (504-500 a.C.).
motivo Aristóteles se referiu a ele com desconside­ Aristóteles apresenta-o como fisiólogo ou físico;
ração. Zeller, porém, julgou que deve ser considerado
33 Anaxímenes, de Mileto, filósofo da Escola Jôni- como promotor de uma orientação filosófica pró­
ca, morreu circa 528-524 a.C. pria, embora se ligue à Escola Jônica.
34 Natural de Apolônia, foi contemporâneo de 38 De Agrigento; floresceu pelo segundo terço do
Anaxímenes. século V a. C.
3 5 Isto é, em vez da água, como Tales, estes dois 39 Nasceu em Clazômenes circa 500 a.C. e morreu
filósofos consideravam que o ar é o princípio pri­ em Lâmpsaco circa 428 a. C.
mordial de todas as coisas. 40 Literalmente: homeomerias.
18 ARISTÓTELES

causa da mudança. Ora, procurar esta tros elementos análogos, como [se
outra coisa é procurar o outro princí­ possuíssem] uma [natureza] contrária.
pio donde, como dissemos, [provém] a (12) Depois destes, e de tais princípios,
origem do movimento. (10) Aqueles visto serem insuficientes para gerar a
que, primeiramente, se empenharam natureza das coisas, os filósofos, de
neste gênero de investigação e afirma­ novo constrangidos, como dissemos,
ram que o sujeito é único 41 não se pela própria verdade, foram à procura
deram conta desta dificuldade, mas do princípio que se lhe seguia 4 7. Com
alguns, pelo menos entre os que pro­ efeito, o existir ou o produzir-se da
clamavam esta unidade, quase que ordem e do belo nas coisas não é
vencidos pela própria questão, afir­ provavelmente originado nem pelo
mam que o uno é imóvel e que toda a fogo, nem pela terra, nem por outro
natureza o é 42, não só quanto à gera­ elemento deste gênero, e não é mesmo
ção e à corrupção (crença esta primi­ verossímil que eles o tivessem pensado.
tiva e que todos adotaram), mas tam­ Por outro lado, não era razoável atri­
bém no que respeita a toda e qualquer buir ao acaso e à fortuna uma tão
outra mudança. Esta doutrina é-lhes grande obra. (13) Quem, portanto, afir­
privativa43. (11) Entre os que afirma­ mou que existia na natureza, como
ram que o Universo é uno, a nenhum entre os animais, uma Inteligência,
ocorreu entrever tal causa, a não ser causa do mundo e da ordem universal,
talvez Parmênides 4 4, e este somente apareceu jejuno, em comparação dos
enquanto reconhece não uma única que anteriormente afirmaram coisas
causa, mas, em certo sentido, d u as 4 5. v ãs48. Quem alcançou abertamente
Quanto aos que admitem vários 4 6 [ele­ estas noções, sabemo-lo, foi Anaxágo-
mentos], acontece que dizem mais, ras, mas foi precedido, diz-se, por Her-
como, por exemplo, os que [admitem] mótimo de Clazômenes. (14) Os que,
o calor e o frio, ou o fogo e a terra. pois, assiiç pensaram fizeram uma
Eles, com efeito, servem-se do fogo mesma coisa da causa que é princípio
como se este possuísse uma natureza do bem nos seres e da causa donde
cinética, e da água, da terra e dos ou- vem aos seres o movimento49.

4' Aristóteles refere-se a Tales e a Anaxímenes. 4 7 Fonseca interpretou este passo no sentido de
42 Tem em vista os eleatas: Xenófanes, Melisso e que Aristóteles designa pela expressão — princípio
Parmênides. que se lhe seguia — a causa eficiente, non tamert
43 Refere-se aos eleatas, segundo os quais o Uni­ eam quaesiverunt sub rationefinalis, sed sub ratione
verso é uno, isto é, .somente conferiam realidade ao bene, recteque efficientis, id est, alicujus boni gratia.
ser no qual nada de novo advém à existência, e ja­ Bonitz sustentou que Aristóteles se referira à causa
mais cessa de existir ou sofre qualquer mudança final, e G. Colle é de opinião que se trata da causa
substancial e até acidental. eficiente, embora tais filósofos inquirissem a razão
A juízo de Aristóteles, os eleatas continuavam a da ordem no Universo.
orientação de Tales e de Anaxímenes, por admiti­ 48 Tradução literal. O sentido é: Quem primeira­
rem somente a causa material. mente sustentou que no Universo existe uma inteli­
4 4 Filósofo da Escola de Eléia, que floresceu pela gência que é causa da disposição de tudo o que nele
sexagésima nona olimpíada (504-501 a.C._). existe apareceu como em jejum perante os discursos
4 5 Passo obscuro, mas no qual se não vê contradi­ vãos dos filósofos que o precederam.
ção, de harmonia com o comentário de Alexandre: 49 Pode discutir-se (vid. nota 47) se “ a causa que é
sob o ponto de vista da verdade (razão), Parmênides princípio do bem” é a causa final ou a eficiente, pois
afirmava que o Universo é uno, sem começo e esfé­ como diz Colle (I, 57) " l’intelligence qui ordom een
rico, e portanto carecente unicamente da causa vue du bien, ou 1’a mour qui tend au bien ne sont
material; porém, sob o ponto de vista sensível (da point causesfinales, mais causes efficientes: c ’est le
natureza), não negava que houvesse outra causa, a bien lui-même que est cause finale ”, mas é indubi-
saber, a eficiente. E esta a explicação de Fonseca. tável que “ a causa donde vem aos seres o movimen­
46 Talvez tenha em vista Empédocles. to” é a causa eficiente ou motora.
M ETAFÍSICA — I 19

C a p í t u l o IV50

Poder-se-ia supor que Hesíodo foi o ciante 5 6 de se exprimir, encontrará que


primeiro que procurou alguma coisa a amizade é a causa das coisas boas, e
de parecido, e com ele os que supuse­ a discórdia das más. Afirmando, por­
ram nos seres o amor ou o desejo tanto, que Empédocles, em certo
como princípio, Parmênides por exem­ modo, e pela primeira vez, admitiu o
plo. Este, com efeito, expondo a gênese bem e o mal como princípios, talvez se
do Universo, diz: “ antes de todos os acerte, visto ser o próprio bem a causa
deuses, criou o am or51” , e Hesíodo: de todos os bens, e o mal, dos males.
“ antes de tudo foi o Caos, depois a (4) Estes, como vimos dizendo, apreen­
terra dos grandes seios, e o amor que a deram evidentemente, até agora, duas
todos os imortais supera” 52, tão con­ das causas que nós determinamos na
veniente era que se encontrasse nos Física 5 7, a saber, a matéria e o princí­
seres uma causa capaz de dar movi­ pio do movimento58, porém, de uma
mento e ordem às coisas53. Quanto a maneira vaga e obscura, tal como
distribuí-los relativamente à priorida­ fazem, nas lutas, os mal exercitados, os
d e 54, seja-nos permitido remeter para quais, atirando-se de um lado para o
mais tarde a nossa opinião55. ( 2 ) outro, conseguem às vezes dar lindos
Como os contrários do bem aparecem golpes; mas nem estes [os dão] por
também na natureza, e não só a ordem ciência, nem aqueles parecem saber o
e o belo senão ainda a desordem e o que dizem. Com efeito, quase nunca os
feio, e o mal em maior quantidade que vemos servir-se de tais princípios, a
o bem, e o feio do que o belo, ocorreu não ser esporadicamente. (5) Anaxá-
então a outro filósofo introduzir a ami­ goras serve-se da inteligência para a
zade e a discórdia, cada uma delas geração do Universo como de um ex
causa contrária de efeitos contrários. m achina59; e quando se vê embara­
(3) Se alguém, pois, seguir o raciocínio çado pela causa de algum fenômeno
de Empédocles, atendendo mais ao necessário, então é que ela o atrai. Nos
espírito do que à sua maneira balbu- outros casos, é a tudo o mais, salvo à
inteligência, que ele atribui o que acon­
50 Neste capítulo: continua a exposição das con­ tece60. Empédocles também se serve
cepções físicas dos filósofos pré-socráticos, espe­ das causas, mais queJeste último, mas
cialmente de Empédocles e dos atomistas, sempre
sob o ponto de vista da teoria das causas.
51 É o fragmento 13 da coletânea de Diels. 6 6 Esta maneira de dizer indica que Aristóteles não
52 Na Teogonia, v. 116-120. A citação não é tex­ considerava Empédocles como filósofo que tivesse
tual, indicando que Aristóteles a fez de memória exposto o seu pensamento com clareza e rigor. Vid.
mas conforme ao sentido. adiante o capítulo 10, deste livro.
53 Trata-se da indagação de uma causa diversa das 57 No já citado livro, 3 e 7.
duas referidas anteriormente e que Hesíodo e 58 Isto é, a causa material e a causa eficiente.
Parmênides anteviram confusamente, identifi­ 59 Alusão ao recurso teatral de uma cena que,
cando-a com a causa motora. como a intervenção de um deus, não estava no
6 4 Isto é, sob o ponto de vista cronológico. seguimento lógico da ação e que dava desfecho à
5 5 Aristóteles não chegou a ocupar-se deste assun­ situação criada.
to, ou, se se ocupou, perdeu-se o que escreveu. 60 Vid. o juízo análogo dc Platão, no Fédon.
20 ARISTÓTELES

de maneira não suficiente nem coeren­ ser não existe mais do que o não-ser,
te. Em muitos casos, com efeito, a ami­ porque nem o vazio [existe mais] que o
zade para ele separa e a discórdia une. corpo), e estas são as causas dos seres
Quando, pois, o Universo se dissolve enquanto matéria 6 5. (8 ) E como aque­
nos seus elementos sob a ação da les que afirmam ser una a substância
discórdia, então o fogo e cada um dos como sujeito formam todos os outros
outros elementos reúnem-se num todo; seres das modificações dela, pondo o
inversamente, quando sob a ação da raro e o denso como princípios das
amizade, os elementos são reduzidos à modificações66, da mesma maneira
unidade, as partes são de novo força­ também estes filósofos pretendem que
das a separar-se de cada [elemento] 61. as diferenças são as causas das outras
(6) Empédocles foi, portanto, o pri­ coisas. São, segundo eles, estas três: a
meiro que, em oposição aos seus ante­ figura, a ordem e a posição. O ser,
cessores, introduziu esta divisão na dizem eles, só difere pelo “rismó” ,
causa em questão, admitindo não um “diatigé” e “tropé”, isto é, pela “figu­
único princípio do movimento, mas ra” , “ordem” e “posição” . Assim A di­
dois diferentes e contrários. Além fere de N pela figura, AN de NA pela
disto, foi o primeiro a afirmar que são ordem e Z de N pela posição 6 7. Quan­
quatro os elementos atribuídos à natu­ to ao movimento, donde ou como se
reza material. Todavia não se serve
6 5 Na ontologia de Parmênides, o ser corpóreo era
deles como se fossem quatro, mas a única determinação da existência e, portanto, o
somente de dois: por um lado, o fogo ser absoluto. Donde a ilação de que o que não é cor­
tomado em si, e por outro os seus póreo não existe, ou, por outras palavras, o não-ser
não existe, o Universo é o ser pleno, e o vazio em
contrários, considerados como uma parte alguma se dá porque é idêntico ao não-ser. O
natureza única, a terra, o ar e a água. emprego deste vocabulário por Leucipo e Demó­
Poderá dar conta disto quem quer que crito não significa que lhe tivessem atribuído o
mesmo sentido e alcance. Para estes, a afirmação da
examine os seus poem as62. (7) Tais existência do ser e do não-ser, à primeira vista para­
são, pois, como vimos dizendo, a natu­ doxal, quer dizer que os elementos necessários à
constituição dos corpos que compõem o Universo
reza e o número dos princípios admiti­ são o ser e o não-ser, entendendo por ser os átomos
dos por este filósofo. Leucipo63, pelo e as combinações que deles se formam, ou o pleno,
contrário, e o seu amigo Demócrito 6 4 e por não-ser, o vazio, isto é, o espaço onde eles se
movem. Portanto somente existem átomos e vazio.
reconhecem como elementos o pleno e 6 6 Neste passo, Aristóteles compara a concepção
o vazio, a que eles chamam o ser e o atomista com a dos filósofos que somente admitiam
uma única espécie de matéria, ou antes, de causa
não-ser; e ainda, destes princípios, o material, comum a todos os seres; donde o estabele­
pleno e o sólido são o ser, o vazio e o cerem que entre os corpos somente havia diferenças
raro o não-ser (por isso afirmam que o acidentais e que o raro e o denso, isto é, o grau
maior ou menor de densidade, constituía o princípio
da diferenciação.
61 Isto é: o Universo é constituído pela mistura de 6 7 Colle, I, 64-5, desenvolve da seguinte maneira
elementos; quando estes se separam pela ação da este passo: A e N diferem entre si pela ordem diver­
discórdia, os elementos homogêneos reúnem-se num sa das suas partes (supondo A e N de extensão
todo. É por isso que Aristóteles diz que a discórdia, igual, pois parece que na teoria atomista se faz abs­
sob certo ponto de vista, separa, e, sob outro, reúne. tração da quantidade).
62 Em especial, o fragmento 62 da coletânea de A N e N A diferem entre si do mesmo modo que A
Diels. e N, se se considerarem A N e AM cada um como
63 Fundador da Escola Atomista, cuja naturali­ um todo, porque A N e N A assim considerados dife­
dade se diz ter sido Abdera, Mileto e Eléia, e de cuja rem pela diversidade da disposição, isto é, a ordem
cronologia se desconhecem datas seguras. No diferente das suas partes.
entanto, pode dizer-se que foi contemporâneo de Não é, porém, assim que cumpre considerar, por­
Empédocles e de Anaxágoras. que o que importa indagar é aquilo em que o A de
6 4 Foi discípulo de Leucipo. Natural de Abdera, A N difere do A de N A ou aquilo em que o N de A N
segundo a noticia mais aceita pelos antigos, parece difere do N de N A , porque há nisto uma diferença
ter nascido circa 460 a.C. de outra espécie. Com efeito, o A de A N não difere
M ETAFÍSICA — I 21

encontre nos seres, também estes, duas cau sas68, o ponto ao qual pare­
como os outros, negligentemente des- cem ter chegado, a nosso ver, os que
curaram. (9) Tal é, pois, a respeito das investigaram anteriormente [a nós].

do A de N A pela ordem diferente das suas partes, partes de N. Na diferença precedente, bastava des­
porque esta ordem é idêntica nos dois A ; mas o pri­ locar N para que A mudasse segundo a diferença
meiro A difere do segundo em que todas as partes considerada, mas as relações de A com os pontos
do primeiro A estão para todas as partes de N em do espaço, quaisquer que estes fossem, não sofriam
relação diferente das partes do segundo A . modificação alguma. Pelo contrário, para mudar Z
Z também não difere de N péla ordem diferente em N reverte-se Z até ao momento em que ele é N,
das partes porque, uma vez mais, as partes estão na o que se não faz sem mudar a relação de qualquer
mesma ordem em Z e em N, mas Z e N diferem em uma das partes de Z para qualquer uma das partes
que todas as partes de Z estão relativamente a todos da extensão real ou ideal.
os pontos do espaço numa relação diferente da das 68 Isto é, a causa material e a causa eficiente.

C a p í t u l o V 69

Entre estes, e ántes deles70, os cha­ a alma e a inteligência73, tal outra o


mados pitagóricos consagraram-se tem po74, e assim da mesma maneira
pela primeira vez às matemáticas, para cada uma das outras); além disto,
fazendo-as progredir, e, penetrados por como vissem nos números as modifica­
estas disciplinas, julgaram que os prin­ ções e as proporções da harmonia e,
cípios delas fossem os princípios de enfim, como todas as outras coisas
todos os seres. (2) Como, porém, entre lhes parecessem, na natureza inteira,
estes, os números são, por natureza, os formadas à semelhança dos números, e
prim eiros71, e como nos números jul­ os números as realidades primordiais
garam [os pitagóricos] aperceber mui­ do Universo, pensaram eles que os ele­
tíssimas semelhanças com o que existe mentos dos números fossem também
e o que se gera, de preferência ao fogo, os elementos de todos os seres, e que o
à terra e à água (sendo tal determina­ céu inteiro fosse harmonia e núm ero 7 5.
ção dos números a ju stiça72, tal outra E todas as concordâncias que podiam
notar, nos números e na harmonia,
69 Este capítulo expõe concepções de pitagóricos e
com as modificações do céu e suas
de eleatas, em ordem a mostrar que aqueles pressen­ partes, e com a ordem do Universo,
tiram vagamente a causa formal.
70 Isto é: dos atomistas. 73 Era o número 1, porque, segundo Teão de
71 Este período tem sido diversamente interpre­ Esmima, a unidade é princípio, é indivisível, domi­
tado, de harmonia com o que se considera como na todos os números, cuja série contém potencial­
antecedente de “primeiros” . Assim: Como nas mente, e a alma tem propriedades semelhantes.
matemáticas os números são por natureza primei­ 7 4 Era o número 7, por lhes parecer que este núme­
ros; e: Como de sua natureza, os números são os ro corresponde ao momento favorável.
primeiros dos seres. Fonseca, na tradução: Quo 7 5 Consideravam a harmonia propriedade dos nú­
niám vero numeri his priores sunt natura; e na meros, dado exprimirem-se harmonicamente as
explanatio:. . . quia numeri eorum sententia sunt proporções, as progressões, etc. Assim entendida, a
priores natura rebus omnibus corporeis, cum abs- harmonia é expressão da própria inteligibilidade,
tracti ab omni corpore intelligi possint. Vid. o quer esta se entenda como redução da multipli­
comentário de Colle, 1,68-9. cidade à unidade, quer como expressão numérica de
72 Era o número 4, por lhes parecer que, sendo o relações concretas. Aristóteles no De Coelo, II, 9,
quadrado o produto de dois fatores iguais, a justiça refere a concepção pitagórica da harmonia das esfe­
tinha analogia com esta relação. ras celestes.
22 ARISTÓTELES

reuniam-nas, reduzindo-as a sistema. de Pitágoras, e professou uma doutrina


(3) Se nalguma parte algo faltasse, quase idêntica. Ele afirma, pois, que a
supriam logo com as adições necessá­ maioria das coisas humanas vão aos
rias, para que toda a sua teoria se tor­ pares, e cita oposições não definidas
nasse coerente. Assim, como a década como as dos pitagóricos, mas tomadas
parece um número perfeito e parece ao acaso: por exemplo, branco e preto,
abarcar toda a natureza dos núme­ doce e amargo, bem e mal, grande e
ros 7 6, eles afirmam que os corpos em pequeno. (7) Também sobre o restan­
movimento no Universo são dez. E t e 79 emitiu ele idéias confusas, en­
como os [corpos celestes] visíveis são quanto os pitagóricos mostravam com
somente nove, por isso conceberam um clareza de quais e quantos eram os
décimo, a Anti-Terra. (4) Tratamos contrários. (8 ) Destas duas [escolas]
com maior precisão destas questões podemos, portanto, unicamente saber
noutra p arte 71. E se a isto voltamos, é que os contrários são os princípios dos
porque queremos evidenciar os princí­ seres; quais e quantos eles sejam, só de
pios que eles admitem, e como caem uma [o podemos]. Como possam re­
sob as causas já enumeradas. (5) Tam­ portar-se às causas de que temos fala­
bém eles parecem admitir que o núme­ do, não foi pelos pitagóricos clara­
ro é princípio, quer como matéria dos mente indicado; parece, todavia, que
seres, quer como [constituinte das] ordenam os elementos sob a espécie da
suas modificações e hábitos; e que do matéria. Com efeito, é destes [elemen­
número [sejam elementos] o par e o tos], enquanto intrínsecos80, que afir­
im par, sendo destes o ímpar, finito, o mam ser constituída e modelada a
par, infinito, e procedendo a unidade substância. (9) Podemos assim avaliar
destes dois elementos (é pois ao mesmo suficientemente, pelo que precede, o
tempo par e ímpar), mas o número da pensamento dos antigos que admitiram
unidade, e sendo números, como se que os elementos da natureza são múl­
disse, o céu inteiro. ( 6 ) O utros78, tiplos. Filósofos há, contudo, que se
porém, dentre estes [filósofos], admi­ exprimiram acerca do Universo como
tem dez princípios, coordenados aos se existisse uma única natureza, embo­
pares: finito e infinito, ímpar e par, uno ra nem todos da mesma maneira, quer
e pluralidade, direito e esquerdo, quanto à perfeição [da exposição],
macho e fêmea, quieto e movimentado, quer quanto à objetividade. Por conse­
retilíneo e curvo, luz e escuridão, bem guinte, nesta nossa investigação das
e mal, quadrado e retângulo. D a causas, não haverá necessidade algu­
mesma maneira parece ter pensado ma de falar neles. Com efeito, não pro­
também Alcmêon crotoniense, quer cedem à maneira de certos fisiólogos 81
tenha recebido as suas idéias dos pita- que, pondo o ser como uno, fazem ori­
góricos, ou estes de Alcmêon. Ele flo­ ginar, no entanto, as coisas a partir do
rescia, com efeito, ao tempo da velhice uno como se fosse matéria, mas expri­
mem-se de outra maneira. Enquanto os
7 6 A razão dada é que a contagem além de dez primeiros, quando criam o Universo,
faz-se a partir da unidade; e ainda porque, segundo lhe acrescentam o movimento, estes,
Teão de Esmima, 10= 1+ 2 + 3 + 4 ; ora, 1 é princí­
pio dos números; 2, a reta, 3, o triângulo (isto é, a
superfície), e 4, o tetraedro (isto é, o sólido); donde 79 Colle (I, 77) pensa que a expressão — restante
a década (= 1+ 2+ 3+ 4) exprimir tudo o que existe. — se refere ao número e espécie dos contrários.
7 7 No De Coelo, II, 13. 80 Isto é, enquanto inerentes à matéria.
7 8 Entre eles parece contar-se Filolau. 81 Os filósofos anteriores a Sócrates. (N. do E.)
M ETAFÍSICA — I 23

pelo contrário, pretendem que é imó­ esta causa, quer a causa de que provém
vel. (10) Ora, isto interessa de maneira o movimento, esta também única para
particular à presente investigação. Par- alguns 8 5, dupla para outros. (13) Até
mênides, com efeito, parece ter alcan­ os itálicos, exclusive, os outros [filó­
çado o uno segundo a razão, Melisso, sofos] pronunciaram-se, portanto, com
segundo a matéria. Por isso, o primeiro certa insuficiência sobre tais [princí­
declara-o finito, o segundo, infinito. pios] , se excetuarmos, como dissemos,
Xenófanes, no entanto, que foi o pri­ que recorreram a duas causas, sendo
meiro a admitir a unidade (pois Parmê- uma delas, a do movimento, conside­
nides, ao que parece, foi seu discípulo), rada única por uns, dupla por outros,
nada esclareceu, nem parece ter atin­ Os pitagóricos igualmente falaram em
gido a natureza de alguma destas duas dois princípios 8 6, mas com este acres­
[causas], mas, olhando para o con­ cento que lhes é peculiar: o finito, o
junto do Universo, afirma que o uno é infinito e o uno não seriam naturezas
Deus. (11) Estes, porém, como disse­ diferentes, tais como o fogo, a terra ou
mos, devem excluir-se da presente outra coisa parecida, mas o próprio
investigação: dois, Xenófanes 82 e Me­ infinito e o próprio uno são a subs­
lisso83, por serem as suas concepções tância das coisas de que se predicam,
demasiado grosseiras. Quanto a Par- sendo portanto o número a substância
mênides, parece, de fato, ter visto me­ de todas as coisas. (14) Tal é a maneira
lhor o que diz. Convencido de que, como eles se pronunciaram, e a propó­
além do ser, o não-ser não é coisa algu­ sito do “que é” começaram eles a falar
ma, ele pensa que, necessariamente, e a definir, mas procedendo com dema­
existe uma única coisa, o ser, e nada siada simplicidade. Definiram, pois,
mais: questão esta acerca da qual já superficialmente, e aquilo em que a
falamos mais claramente nos livros da definição dada primeiro se encon­
Física84. Constrangido, porém, a se­ trasse, consideravam-no eles como a
guir os fenômenos e a dizer que a uni­ substância da coisa: como se fosse
dade existe segundo a razão e a pluri- possível identificar a dualidade com o
dade segundo os sentidos, chegou a duplo pelo fato de o duplo se encontrar
estabelecer duas novas causas e dois primeiro na dualidade 8 7. Mas talvez
princípios: o quente e o frio, como se não seja a mesma coisa ser duplo e
dissesse o fogo e a terra. Destes, repor­ dualidade; doutra forma, o uno seria
ta o primeiro, o quente, ao ser, e o uma multiplicidade, conclusão esta à
outro, ao não-ser. (12) Do que se disse, qual eles também chegaram. É isto o
e dos filósofos que já se associaram ao que dos primeiros [filósofos] e seus
nosso estudo, é isto, portanto, o que sucessores podemos colher.
colhemos: os primitivos admitem um
princípio corpóreo (a água, o fogo e 8 5 Entre eles, Anaxágoras, que considerava a Inte­
ligência causa eficiente.
coisas análogas são, pois, corpos), 86 Ou sejam: o finito e o infinito.
sendo este princípio corpóreo para uns, 8 7 Neste período, Aristóteles dirige aos pitagóricos
uno, para outros, múltiplo, mas consi­ duas críticas: darem definições demasiado simples,
fundadas em analogias superficiais, e, uma vez esta­
derando-o uns e outros da natureza da belecida a definição, aplicaíem-na indiscrimina­
matéria; outros, porém, admitem quer damente. É exemplo desta segunda crítica a identifi­
cação da dualidade com o duplo, ou, por outras
palavras, definida a coisa dupla, qualquer que fosse
82 De Cólofon; parece ter florescido na segunda a definição, concluíam logo que a sua essência é a
metade do século V a.C. díada (2), o que conduz ao absurdo de todos os du­
83 De Samos. Florescia por 444-440 a.C. plos (4-6-8-16. . .) serem o mesmo que 2, isto é, a
84 N oLiv. 1,3. díada. V. Colle, 1,93-94.
24 ARISTÓTELES

C a p i t u l o VI88

Às filosofias de que acabamos de ção”, não mudou senão o nome: os


falar sucedeu a doutrina de Platão, a pitagóricos, com efeito, dizem que os
maior parte das vezes conforme com seres existem à imitação dos números,
elas, mas também com elementos pró­ Platão, por “participação” mudando o
prios alheios à filosofia dos itálicos. nome; mas o que esta participação ou
Tendo-se familiarizado, desde a sua imitação das idéias afinal será, esque­
juventude, còm Crátilo 89 e com as opi­ ceram todos de o dizer. (3) Demais,
niões de Heráclito, segundo as quais além dos sensíveis e das idéias diz que
todos os sensíveis estão em perpétuo existem, entre aqueles e estas, entida­
fluir, e não pode deles haver ciência, des matemáticas intermédias, as quais
também mais tarde não deixou de pen­ diferem dos sensíveis por serem eternas
sar assim. Por outro lado, havendo Só­ e imóveis, e das idéias por serem múlti­
crates tratado as coisas morais, e de plas e semelhantes, enquanto cada
nenhum modo do conjunto da nature­ idéia é, por si, singular92. Sendo as
za, nelas procurando o universal e, idéias as causas dos outros seres, jul­
pela primeira vez, aplicando o pensa­ gou por isso que os seus elementos fos­
mento às definições, Platão, na esteira sem os elementos de todos os seres; (4)
de Sócrates, foi também levado a supor e, como matéria, são princípios 93 o
que [o universal] existisse noutras rea­ grande e o pequeno, como forma é o
lidades e não nalguns sensíveis. Não uno, visto ser a partir deles, e pela sua
seria, pois, possível, julgava, uma defi­ participação no uno, que as idéias são
nição comum de algum dos sensíveis, números. Ora, que o uno seja substân­
que sempre mudam. (2) A tais realida­ cia, e não outra coisa, da qual se diz
des deu então o nome de “idéias”, exis­ que é una, Platão afirma-o de acordo
tindo os sensíveis fora delas, e todos com os pitagóricos e, do mesmo modo,
denominados segundo elas90. É, com que os números sejam as causas da
efeito, por participação que existe a substância dos outros seres. Mas admi­
pluralidade dos sinônimos, em relação tir, em lugar do infinito concebido
às idéias91. Quanto a esta “participa­ como uno, uma díada, e constituir o
infinito com o grande e o pequeno, eis
88 Este capítulo ocupa-se da teoria platônica das uma concepção que lhe é própria,
idéias, em ordem a mostrar que Platão somente
recorreu à causa material e à formal. como ainda pôr os números fora dos
89 D a escola de Heráclito e contemporâneo de Só­ sensíveis: [os pitagóricos] pelo contrá-
crates. Nada indica que não seja a personagem que
deu nome ao Crátilo, de Platão.
90 Isto é: seria pela participação que a multidão de 92 Quer dizer: Segundo Platão existiam: seres
objetos sinônimos se tornaria homônima com as sensíveis, aos quais é inerente a geração, a alteração
idéias. Participar das idéias significa que é das e a corrupção; idéias, cada uma das quais é única e
idéias que os seres recebem a forma. imutável no respectivo conceito, e entidades ou
9' Tradução literal. Tem o sentido: é por participa­ seres matemáticos, cujo ser é intermediário entre os
ção que existe a pluralidade das coisas sensíveis, sensíveis e as idéias, porquanto tem das idéias, a
unívoca em relação às idéias. Vid. Colle, I, 98. imutabilidade, e dos sensíveis, a multiplicidade.
Dizem-se unívocas as coisas contidas no mesmo gê­ TudQ Ho4'ca 9ue PJatão foi levado a estabelecer a
nero, isto é, têm essência comum, e se designam existência dos seres ideais matemáticos, com onto­
com o mesmo nome; e equívocas ou homônimas, as logia própria, para fundamentar o objeto da
coisas que somente têm de comum o nome, sem um Matemática.
caráter essencial a ligá-las. Vid. Categ. I. 93 Entenda-se: das Idéias.
M ETAFÍSICA — I 25

rio, pretendem que os números são as uma só matéria, só se aparelha uma


próprias coisas, se bem que não po­ mesa; mas quem aplica uma idéia, se
nham, entre estas, as entidades mate­ bem que esta una, produz várias
máticas. (5) Se Platão separou assim o [mesas]. O mesmo sucede com o
uno e os números do mundo sensível, macho em relação à fêmea: esta é
contrariamente aos pitagóricos, e in­ fecundada por uma única cópula, mas
troduziu as idéias, foi por considera­ o macho fecunda várias fêmeas. Ora,
ção das noções lógicas (os seus prede- isto é imitação daqueles princípios. (7)
cessores nada sabiam de dialética94); Tal é, pois, a conclusão de Platão
por outro lado, se ele fez da díada uma sobre as questões que indagamos. É
segunda natureza, é porque os núme­ evidente, pelo que precede, que ele
ros, à exceção dos ímpares, dela facil­ somente se serviu de duas causas: da
mente derivam, como de uma matéria do “que é” e da que é segundo a maté­
plástica95. ( 6 ) De fato, é o contrário ria 9 6, sendo as idéias a causa do que é
que se dá, pois se assim fosse não seria para os sensíveis, e o uno para as
consentâneo com a razão. D a matéria, idéias. E qual a matéria subjacente,
com efeito, [os números] fazem sair segundo a qual as idéias são predica­
uma multiplicidade de coisas, ao passo das nos sensíveis e o uno nas idéias? É
que a idéia só gera uma vez. Assim, de a díada, o grande e o pequeno. ( 8 )
Demais, ele pôs num destes dois ele­
94 A dialética significa o método conducente ao mentos a causa do bem e no outro, a
descobrimento do conceito da coisa em questão e, do mal, o que, como dissemos, já havia
conseqüentemente, à obtenção da respectiva defini­
ção. Foi por ter reconhecido, após Sócrates, que os sido objeto de discussão de alguns dos
conceitos são imutáveis e necessários que Platão foi filósofos anteriores, como Empédocles
levado a estabelecer a existência das idéias com
onticidade própria.
e Anaxágoras.
9 5 Em grego, ekmagêion: toda matéria mole e mol-
dável. (N. do E.) 9 6 Isto é: a causa formal e a causa material.

C a p i t u l o VII97

Acabamos de passar em revista, alguns falam do princípio como maté­


breve e sumariamente, os [filósofos] ria, quer o façam uno ou múltiplo, cor-
que trataram dos princípios e da verda­ póreo ou incorpóreo: por exemplo,
de e como [o fizeram], podendo assim para Platão, é o grande e o pequeno,
concluir-se, relativamente aos que tra­ para os itálicos, o indeterminado, para
taram do princípio e da causa, que ne­ Empédocles, o fogo, a terra, a água e o
nhum discorreu fora das [causas] que ar, para Anaxágoras, a infinidade das
nós determinamos na Física, e todos, homoemerias. Todos eles entreviram
embora confusamente, parecem tê-las esta espécie de causa, como também
como que pressentido. (2) Com efeito, aqueles para os quais é o ar, ou o fogo,
ou a água, ou um elemento mais denso
9 7 Este capítulo tem por objeto o exame da relação
que o fogo e mais sutil que o ar98. Tal
das concepções expostas nos capítulos anteriores
com a concepção aristotélica das quatro causas. 98 Parece ter em vista Anaximandro.
26 ARISTÓTELES

é, pois, no dizer de a lg u n s", o ele­ estas causas como um bem, e não


mento primitivo. (3) Estes últimos, como o fim pelo qual algum ser existe
portanto, não atingiram senão esta ou se modifica, antes, pelo contrário,
causa [material]; outros, porém, aque­ como se os seus movimentos delas
la donde é o princípio do movimento: derivassem. (5) D a mesma maneira,
por exemplo, os que põem a amizade também os que afirmam que o uno ou
ou a discórdia, a inteligência ou o o ser é desta natureza dizem que é a
amor como princípio. Mas a qüididade causa da substância, mas não que é em
e a substância ninguém a atingiu com vista desta [causa] que as coisas são
clareza, embora de mais perto dela se ou devêm. Sucede-lhes assim, de algu­
aproximem os que admitem as idéias. ma sorte, dizer e não dizer que o bem é
Com efeito, eles não consideram as causa; dizem-no, com efeito, não abso­
idéias como matéria dos sensíveis, nem lutamente, mas por acidente101. (6 )
o uno [como matéria] das idéias, nem Que nós tenhamos retamente definido
estas são para eles o princípio do as causas, tanto no que interessa ao
movimento (seriam antes, dizem eles, seu número como à sua natureza, pare­
causas de imobilidade e de repouso): cem confirmá-lo também todos aqueles
pelo contrário, as idéias dão a cada que não conseguiram descobrir outra
uma das outras coisas a qüididade, causa diversa. É, além disto, evidente
como o uno [dá a essência] às idéias. que os princípios devem ser estudados,
(4) E quanto àquilo em vista de que 1 00 ou todos assim, ou em qualquer uma
as ações, as mudanças e os movimen­ destas maneiras. Resta-nos agora
tos [se efetuam], num certo sentido, expor as dúvidas relativas à maneira
admitem-no como causa, mas não como cada um daqueles [filósofos] se
explicitamente, nem dizem como se exprimiu, e à sua atitude para com os
originou. Com efeito, os que falam da princípios.
inteligência ou da amizade apresentam
' 0' Isto é: nenhum destes filósofos atingiu com
99 Ross. Mel., admite como provável que Aristó­ clareza a noção de causa final, visto a terem pensa­
teles se refira a alguns discípulos de Anaxímenes. do, como diz Fonseca na explanatio deste passo, per
100 Isto é: a causa final. accidens, sine ratione alterius causae.

C a p í t u l o V I II102

Todos aqueles para quem o Uni­ esta corporal e provida de extensão,


verso é uno e que admitem uma certa caem evidentemente em muitos erros.
natureza única como m atéria103, e Com efeito, somente estabelecem os
elementos dos corpos, e não os dos
102 Este capítulo tem por objeto a crítica de algu­ incorpóreos, embora existam também
mas concepções de filósofos pré-socráticos anterior­ os incorporais. (2) E depois, esforçan­
mente referidas. do-se por explicar as causas da gera­
103 Tem em vista os primeiros filósofos da Escola
Jônica, que admitiram a existência de um só princí­ ção (e da corrupção) e para dar uma
pio material como substância única de todas as explicação da natureza do Universo,
coisas.
Os eleatas também sustentavam que o Universo é omitem o princípio do movimento. (3)
uno, mas Aristóteles não os inclui neste passo. Além disto, não reconhecem por causa
M ETAFÍSICA — I 27

nem a substância nem o “que é ” 1 0 4 e os [filósofos] que estabeleceram a


adotam, de mais, levianamente, como causa única que dizíamos10 5. O
princípio dos seres qualquer corpo mesmo diga-se daqueles que as admi­
simples, com exceção da terra, sem tem em número maior, como Empédo­
tomarem em consideração como os cles, que reconheceu quatro corpos
elementos mutuamente se geram, tais como matéria. Resultam-lhe, porém,
como o fogo, a água, a terra e o ar, os em parte as mesmas dificuldades, em
quais nascem uns dos outros, quer por parte outras. Vemos, com efeito, estes
união, quer por separação. (4) Ora, corpos nascerem uns dos outros, preci­
isto é fundamental para se estabelecer samente como se o mesmo corpo não
a anterioridade ou a posterioridade. subsistisse sempre fogo ou terra (e
Com efeito, poderia parecer mais ele­ disto já se falou nos livros da Nature­
mentar de todos aquele corpo a partir za) ' 0 6. Quanto à causa das coisas em
do qual primeiramente os outros se movimento, a questão de saber se se
geram por união, e esse [corpo] deve­ deve reconhecer uma [causa] ou duas
ria ser o mais tênue e o mais sutil dos não parece ter sido convenientemente
corpos. Portanto, os que põem o fogo resolvida, nem por forma inteiramente
como princípio falariam de maneira racional. (8) Finalmente, os que assim
mais conforme com este conceito. (5) falam devem necessariamente rejeitar
No fundo, todos os outros também toda a alteração, não podendo o úmido
reconhecem que o elemento dos corpos provir do quente, nem o quente do
deve ser de tal maneira. Pelo menos, úmido. Qual seria, pois, o sujeito des­
nenhum dos que mais tarde admitiram tes contrários, e qual a natureza única
um único elemento pensou que a terra que se tornaria fogo e água? Empédo­
fosse esse elemento, sem dúvida por cles não o diz10 1. (9) Quanto a Anaxá­
causa da grandeza das suas partes, ao goras, poderia alguém supor que ele
passo que cada um dos três outros ele­
mentos encontrou o seu defensor: para 10 5 Para a interpretação desta crítica à posição
filosófica dos jônicos, vid. Colle, I, p. 113-116.
uns, com efeito, este [elemento] é o Esquematicamente, pode dizer-se que Aristóteles
fogo, para outros, a água, para outros, censura estes filósofos por terem adotado um dos
o ar. Mas por que razão não admitem elementos como primordial sem previamente terem
examinado a anterioridade de cada um em relação à
eles também a terra, como a maior dos outros, pelo que o estabelecimento de qualquer
parte dos homens? Diz-se, com efeito, deles como primordial é arbitrário.
Além disso, se a anterioridade se considerar sob
que tudo é terra, e Hesíodo até cantou o ponto de vista da geração, o componente é ante­
que a terra foi a primeira gerada dentre rior à geração, e neste caso deve ser elemento pri­
os corpos: tão antiga e popular esta mordial o mais sutil; por isso, houve quem susten­
tasse que ele era o fogo, e ninguém sustentou que
crença devia ser! ( 6 ) Segundo tal fosse a terra. Se se considerar, porém, a anteriori­
maneira de ver, portanto, nem os que dade sob o ponto de vista da essência, isto é, da
admitem outro princípio além do fogo, prioridade do perfeito sobre o imperfeito, na qual o
composto é anterior ao componente, é a terra que
nem os que o fazem mais denso que o deve ser o elemento primordial, por ser o mais
ar e mais sutil que a água dizem bem. espesso e complexo dos elementos.
10 6 Refere-se ao De Coelo, III, 7. O fundo do argu­
Mas se o que é posterior segundo a mento reside nisto: desde que os elementos se trans­
geráção é anterior pela natureza, e o formem uns nos outros, perdem a sua propriedade
que é misturado e composto é posterior específica e, portanto, deixam de ser princípios.
10 7 Em resumo, além do argumento anterior, Aris­
segundo a geração, será então verdade tóteles critica Empédocles por não haver determi­
o contrário: a água será anterior ao ar, nado a ação do amor e da discórdia como causas e
e a terra à água. (7) Tanto baste sobre por não ter notado que a especificidade dos quatro
elementos, que os torna contrários, implicava a
existência de algo que permanecesse, como sujeito
’ 04 Isto é: a forma. onde se dessem os contrários.
28 ARISTÓTELES

reconheceu dois elementos108, o que tura) e o “outro” 110, como nós


estaria de acordo com uma razão que admitimos o indeterminado antes de
ele não formulou, mas que deveria vir a ser determinado e de participar de
forçosamente admitir, se lhe tivesse uma espécie qualquer. Por conse­
sido apresentada. É, na verdade, absur­ guinte, ele não se exprime com exati­
do sustentar que, na origem, tudo esta­ dão, nem com clareza; aproxima-se,
ria misturado, quer porque tudo deve­ contudo, das doutrinas posteriores, e
ria ter preexistido distinto, quer porque das opiniões que atualmente se im­
nem tudo é feito para se misturar com põem. (12) Todos eles, porém, ocu­
outra coisa qualquer 109 e, enfim, por­ pam-se somente do que diz respeito à
que a modificação e os acidentes exis­ geração, à corrupção e ao movimento,
tiriam separados das substâncias (com pois limitam-se quase exclusivamente
efeito, mistura e separação dizem res­ a investigar as causas e os princípios
peito às mesmas coisas). No entanto, desta substância; mas os que estendem
se alguém o acompanhasse, desenvol­ a sua especulação a todos os seres e
vendo as suas idéias, o seu pensamento distinguem seres sensíveis dos não-sen-
talvez tomasse um caráter mais origi­ síveis alargam, evidentemente, as suas
nal. (10) Com efeito, quando nada observações às duas espécies [de
havia de distinto, nada, evidentemente, seres]. É portanto com eles que alguém
se podia afirmar de verdadeiro acerca poderia de preferência deter-se, para
daquela substância; quero dizer que apreciar o que dizem de bom ou de
ela não era branca, nem preta, nem mau, relativamente aos pontos que
cinzenta, nem de qualquer outra cor, ainda nos restam para tratar. (13) Os
mas, necessariamente, incolor, de que são chamados pitagóricos recor­
outra forma teria tido alguma destas rem a princípios e a elementos ainda
cores. Igualmente, e pela mesma razão, mais afastados 1 11 que os dos fisiólo-
ela não teria nenhum sabor, nem qual­ gos. A razão é que eles buscam os
quer outra propriedade deste gênero, princípios fora dos sensíveis: as entida­
pois não podia ser nem “qual” , nem des matemáticas, com efeito, entram
“quanta”, nem “que” ; de outra forma na classe dos seres sem movimento, à
ser-lhe-ia inerente alguma das espécies exceção daqueles de que trata a astro­
que se predicam separadamente, o que nomia. (14) No entanto, de nada mais
é impossível, se todas as coisas se discutem e de nada mais tratam senão
encontram misturadas: assim, seriam, da natureza. Dão geração ao céu112,
pois, já distintas. Mas, para ele, nada observam o que se passa nas suas dife­
existe sem mistura, à exceção da inteli­ rentes partes e respectivas modifica­
gência, que, só, é pura e sem mescla. ções e revoluções, e em tais fenômenos
(11) Acontece-lhe, desta maneira, ad­ eles esgotam os princípios e as causas,
mitir [simultaneamente] como princí­ como se partilhassem a opinião dos
pios o “uno” (que é simples e sem mis­ outros fisiólogos, para quem o ser é
tudo o que é sensível, e contido no que
chamamos céu. Estas causas e estes
108 A saber: a forma e a matéria.
109 Esta objeção procede da concepção aristoté-
lica da especificidade das propriedades naturais; 110 Isto é, a forma, pois os platônicos designavam
por isso Aristóteles tem por absurda a explicação de por esta palavra a forma das idéias, e a matéria pri­
Anaxágoras, pois essências de propriedades especi­ meira, à qual ligavam a noção de alteridade.
ficas diferentes nem podiam ter estado primordial­ 111 Isto é, a princípios mais abstratos, e portanto
mente misturadas, nem podiam misturar-se por mais afastados dos dados imediatos dos sentidos.
acaso. 112 Entenda-se: o Cosmos.
M ETAFÍSICA — I 29

princípios julgam-nos, no entanto, com efeito, admitem em tal parte [do


como acabamos de dizer, capazes de Universo] a opinião e a oportunidade
os elevarem até aos seres superiores e e, um pouco mais abaixo ou acima, a
aos quais melhor se adaptam, do que à injustiça e a separação ou a mistura, e
teoria sobre a natureza. (15) Contudo, trazem como prova disto que cada
também não explicam de que maneira uma destas coisas é um número, embo­
se produza o movimento, havendo ra aconteça que, num dado lugar, já se
como sujeito unicamente o finito e o encontra uma multiplicidade de gran­
infinito, o ímpar e o par; nem tam­ dezas compostas, pelo fato de tais
pouco como seria possível, sem movi­ modificações estarem em relação com
mento e sem mudança, a geração e a os lugares particulares, então, este nú­
corrupção, ou as revoluções dos cor­ mero que está no Universo deve consi­
pos que andam no céu. (16) Conceda- derar-se [o mesmo que o de] cada uma
mos-lhes ainda, ou admitamos como destas coisas ou haverá, além dele,
demonstrado, que a grandeza resulta outro? (18) Platão diz que é outro, em­
destes princípios; como explicar, bora acredite que estas coisas e suas
então, que haja corpos leves e pesa­ causas também são números, sendo
dos? Com efeito, com os princípios porém as causas números inteligíveis, e
que supõem e admitem, eles não dis­ as coisas [números] sensíveis113.
correm mais sobre as entidades mate­
máticas que sobre os sensíveis. Se, por ' ' 3 Em resumo: os pitagóricos consideram os nú­
conseguinte, nunca falam no fogo, na meros causa e explicação do existente, o que signi­
fica que os princípios que estabeleceram não radi­
terra e noutros corpos parecidos, a cam nos seres físicos, visíveis e tangíveis, mas no
razão é, suponho, que nada têm que mundo ideal ou supra-sensível. Não obstante,
dizer dos sensíveis. (17) Além disto, empregaram-nos para explicar a natureza, e daí o
salto do ideal para o real, em condições que tornava
como conceber que as modificações do inexplicável o passo das noções matemáticas de fi­
número e o próprio número são as cau­ nito e de infinito, de par e de ímpar, para o movi­
mento dos objetos concretos, para o processus físico
sas dos corpos que existem no céu, ou da geração e da corrupção, de ascensão e de gravi­
venham porventura a existir, desde o dade. Além disso não esclareciam se o número que
princípio e hoje ainda, e que não há ne­ é causa das coisas é_o mesmo de que as coisas são
feitas; por isso Plat ao, para evitar esta dificuldade,
nhum outro número fora deste, do qual distinguiu o número sensível, que é o das coisas
o próprio Universo resulta? Quando, concretas, do número inteligível, que é causa delas.

C a p itu lo IX 114

Deixemos agora de falar dos pitagó­ princípio, as causas dos seres deste
ricos: baste o que deles dissemos. Os mundo, introduziram outros seres em
que põem as idéias como causas, número igual: como quem, procurando
enquanto pretendiam individuar, a fazer uma conta, julgasse que a não
poderia fazer com poucas cifras e as
’ 1 4 Este capítulo tem por objeto a crítica da teoria aumentasse para a poder fazer. As
platônica das idéias; pretende mostrar que é inad­
missível e que não explica o mundo real. Alguns dos idéias, com efeito, são em número
seus períodos são idênticos aos do liv. X III (M). quase igual, ou pouco inferior, ao dos
30 ARISTÓTELES

sensíveis11 5, dos quais, procurando as [haverá idéias] das negações; enfim,


respectivas causas, eles partiram para pelo argumento de que pensamos qual­
chegar às idéias. Cada coisa tem, pois, quer coisa mesmo depois de corrup­
a sua equívoca11 6, tão fora das subs­ ta 120, [haverá] igualmente [idéias] dos
tâncias, como das outras entidades, corruptíveis. Também destes, com efei­
cuja unidade é contida na multiplici­ to, temos representação. (3) Quanto
dade, sejam elas sensíveis ou eternas. aos raciocínios mais rigorosos, uns
(2) Além disto, por nenhum dos argu­ levam-nos a introduzir as idéias dos
mentos, mediante os quais nós de­ relativos, dos quais afirmamos não
monstramos11 7 que as idéias existem, haver gênero por si, outros ao terceiro
elas se nos manifestam. De alguns, homem121. Em geral, estes argumen­
com efeito, esta conclusão não deriva tos das espécies arruinam aquilo que,
necessariamente; de outros, derivam aos partidários das idéias, importa
até idéias de coisas que, a nosso ver, ainda mais do que a existência das pró­
não as têm. Assim, pelos argumentos prias idéias. Resulta daí, com efeito,
tirados das ciências, deverá haver que não é anterior a díada, mas sim o
idéias de todas as coisas de que há número, que o relativo precede o abso­
ciência118, e, pelo [argumento] da uni­ luto, e que todos os argumentos, pelos
dade na multiplicidade119, também quais alguns desenvolvem as doutrinas
das idéias, contradizem os próprios
' 1 5 Isto é: as idéias são tão numerosas como os
seres sensíveis, mas discute-se se Aristóteles se refe­ princípios122. (4) Demais, segundo a
re a seres sensíveis individuais ou a gêneros de seres
sensíveis. Defende a primeira interpretação Robin, e
a segunda, Bonitz. 120 É o terceiro argumento: a persistência no pen­
1' 6 Termo a notar, pois, como disse acima (cap. 6, samento do que desapareceu, e portanto o objeto da
§ 2, e nota), as idéias são sinônimas em relação às representação deve existir fora do espírito que o
coisas sensíveis, e neste passo diz que são equívo­ representa. Aristóteles objeta, no período imediato,
cas. As interpretações e explicações divergem. que a coerência conduz a admitir a existência de
Assim, Fonseca traduz: Est enim in singulis aliquid idéias de cada coisa concreta perecível.
eiusdem nominis; e Bonitz explica: ideas autem 121 Neste período, Aristóteles diz que os platôni­
quod dixit homonymus rebus Aristóteles, vel non cos, além dos argumentos expostos acima, recor­
dijudicare videtur hoc loco num quid aliud praeter riam a outros “raciocínios mais rigorosos”, sem
nomen commune habeant ideae et res, vel ja m pro indicar em que consistiam, o que aliás foi indagado
concesso sumere non esse inter utrasque substantiae por alguns intérpretes, designadamente Robin, La
communionem. thêorie platonicienne des idées et des nombres
' 17 Neste passo, Aristóteles fala na primeira pes­ d ’après Aristote (Paris, 1908), pp. 15 ss. e H. Cher-
soa, corno se fora platônico, e no passo correspon­ niss, A ristotle’s criticism o f Plato, and the Aca-
dente do liv. XIII (M) emprega a terceira. O fato demy, I (Baltimore, 1944) pp. 275 ss. Refere,
tem suscitado hipóteses várias, notadamente a de porém, as conseqüências que eles implicavam, pp.
assim confessar a sua filiação doutrinai em relação as quais são as seguintes:
à teoria platônica. a) Existência das idéias dos relativos. O exemplo
118 Com este argumento, Aristóteles inicia a platônico é colhido no Fédon, porquanto o conceito
enumeração dos argumentos dos platônicos justifi­ de igualdade sobre que Platão argumenta é um con­
cativos da existência das idéias. Este, primeiro, ceito de relativo. A objeção de Aristóteles, da
baseia-se na necessidade lógica de existir o objeto inexistência de tal gênero, parece mostrar que nem
de cada ciência. todos os platônicos admitiam as idéias de relativos.
Assim, por exemplo, a existência da geometria, b) Idéia do terceiro homem. O nervo deste céle­
que se ocupa do igual e do comensurável, implica bre argumento consiste no seguinte: se o homem
que estes seres existam em si, e estes seres são as vivente implica a existência da idéia de Homem-
idéias. em-si, a semelhança existente entre o homem viven­
' 19 É o segundo argumento: se se afirma o mesmo te e o Homem-em-si implicará a existência da idéia
atributo de indivíduos diversos (a unidade da multi­ de um terceiro homem, e assim sucessiva e indefini­
plicidade) é porque o atributo é unoe idêntico e não damente, dado verificar-se em todos os casos o ele­
designa os seres particulares aos quais é atribuído, mento comum, o uno no múltiplo, a que a teoria
mas o ser unoe imutável, que é a idéia. O argumento confere ser próprio e existente.
é extensivo às negações, pois se a idéia de Homem 122 A contradição dá-se porque, dizendo Platão
em si é atributável a vários indivíduos, a idéia de que a díada indefinida é o princípio do número, o
Não-Homem em si (idéia de negação) também o é. número, que é um relativo, é anterior à díada.
M ETAFÍSICA — I 31

concepção pela qual nós admitimos as movimento ou modificação123. (7)


idéias, não só haverá idéias das subs­ Também não são de nenhum auxílio
tâncias, mas também de muitas outras para a ciênciâ dos outros seres (com
coisas (com efeito, a intelecção una efeito, não são a substância deles, de
não se dá somente em relação às subs­ outra forma estariam neles), nem para
tâncias, mas em relação a outras coi­ a sua existência, porque não existem
sas ainda, nem as ciências tratam uni­ nos seres em que participam124. Tal­
camente da substância, mas também vez possam parecer causas, como o
de outras coisas, e assim para mil ou­ branco o é da composição da coisa
tros casos parecidos). Por outro lado, a branca. Mas este argumento, que Ana­
rigor da lógica e da própria doutrina xágoras indicou primeiramente e, em
das idéias, se estas são participáveis, seguida, Eudoxo 12 5 e outros, é muito
haverá, forçosamente, idéias apenas frágil, pois é fácil opor-lhe objeções
das substâncias. Com efeito, elas não inúmeras e “por absurdo”. ( 8 ) Das
participam por acidente, mas em tanto idéias, portanto, e em nenhuma das
tal participação deve dar-se para cada formas que se costumam afirmar, não
uma, em quanto ela não é predicada do podem provir as outras coisas126.
sujeito. Quero com isto dizer que se Quanto a dizer-se que elas são exem­
um ser participa do duplo em si, ele plares 1 2 7 e que as outras coisas parti­
participa também do eterno, mas por cipam delas, é pronunciar palavras
acidéílte, por ter [simplesmente] acon­ ocas e fazer metáforas poéticas: qual é,
tecido ao duplo ser eterno. (5) Não pois, o agente que olha para as idéias?
haverá, portanto, idéias senão da subs­ É, com efeito, possível que uma coisa
tância. Assim, uma mesma coisa desig­ qualquer exista, ou venha a existir, à
nará a substância tanto aqui [entre os semelhança de outra, sem ser contudo
sensíveis] como acolá [entre os inteli­ modelada sobre esta. Assim, exista ou
gíveis] ; de outra forma, que significado não Sócrates, poderia sempre nascer
teria a afirmação de que existe qual- “ um homem parecido com Sócrates,
quer coisa além dos sensíveis, o uno na nem haveria diferença, evidentemente,
multiplicidade? E se é idêntica a espé­ se Sócrates fosse eterno. (9) Haveria,
cie das idéias e das coisas que delas além disto, para um mesmo ser, vários
participam, haverá também [entre exemplares, e, por conseguinte, várias
umas e outras] qualquer coisa de
12 3 Partindo do pressuposto de que em virtude da
comum. Com efeito, por que sobre as participação são essencialmente idênticas as idéias
díadas corruptíveis, também múltiplas e as coisas sensíveis, Aristóteles coloca nestes dois
períodos a teoria das idéias perante o seguinte dile­
mas eternas, haverá uma unidade e ma: ou existe identidade de natureza entre as idéias
identidade, a díada, e não sobre a e as coisas sensíveis, ou não existe. Se existe, cabe o
díada em si e qualquer díada particu­ raciocínio do argumento do terceiro-homem, por­
quanto a lógica da teoria obriga a estabelecer a exis­
lar? Se, pelo contrário, a espécie não é tência da idéia que exprima o que há de comum
a mesma, serão então equívocas, como entre a idéia e a coisa sensível que dela participa; se
se se chamasse “homem”, ao mesmo não existe, o ser sensível e o ser da idéia a que este
participa não serão unívocos, mas equívocos, e por­
tempo, a Cálias e à madeira, sem nada tanto idéia e coisa sensível só têm de comum entre
ter observado entre eles de comum. (6 ) si o nome, o que é a negação da teoria.
12 4 Isto é: as idéias não dão às coisas sensíveis o
Mas, em particular, não poderíamos ser concreto, existentivo, que elas têm.
dizer o que conferem as idéias aos 125 No liv. II do Peri ideón, que não chegou até
sensíveis, sejam eternos ou sujeitos à nós, Aristóteles expusera argumentos contra Eudo­
xo, que aplicara o sistema de Anaxágoras às idéias.
geração e à corrupção, pois elas não 12 6 Isto é: as idéias não têm ação causai.
são, para estes, causa de qualquer 12 7 Isto é, paradigmas.
32 ARISTÓTELES

idéias [do mesmo ser]: por exemplo, coisa, é evidente que também os pró­
do homem seria o Animal, o Bípede e, prios números serão relações de uma
ao mesmo tempo, o Homem-em-si. coisa para outra. Quero dizer, se C á­
(10) Demais, não é apenas dos sensí­ lias é uma razão numérica de fogo,
veis que as idéias seriam exemplares, terra, água e ar, também a idéia será
mas também das próprias idéias: o gê­ [razão] numérica de outros sujeitos
nero, por exemplo, [será,] enquanto gê­ diferentes, e o homem-em-si, quer seja
nero, [o exemplar] das espécies [conti­ um número ou não, será sempre uma
das no gênero], e a mesma coisa será, relação em números, e não número.
assim, exemplar e imagem. (11) Pare­ Não haverá, portanto, número
ce, além disto, impossível que existam algum 130. (15) Demais, de muitos nú­
separadamente a substância e aquilo meros forma-se um número, mas de
de que ela é substância: neste caso, as [muitas] idéias, como [gerar] uma
idéias, que são as substâncias das coi­ idéia única? E se não é dos números,
sas, como existiram separadas delas? mas dos numeráveis131, por exemplo,
No Fédon, porém, afirma-se que as da miríada, [que o número se compõe,]
idéias são causas e do ser e do devir. qual será então a razão das mônadas?
(12) Todavia, ainda que as idéias exis­ Se elas são, com efeito, da mesma
tam, os seres que delas participam não espécie, seguir-se-ão muitos absurdos,
são gerados 128 se não houver um e se o não são, [igualmente se segui­
[primeiro] m otor129, por outro lado, rão] quer sejam diferentes uma da
muitas outras coisas aparecem, uma outra, quer a respeito de todas. Com
casa, por exemplo, ou um anel, sem efeito, sendo impassíveis132, em que
que delas se afirme que há espécie. Por diferirão? Estes conceitos não são,
conseguinte, é evidente que também pois, conseqüentes, nem conformes à
outras coisas podem existir e devir, razão. (16) Será, além disto, necessário
mediante causas análogas às dos obje­ constituir outra espécie de números,
tos de que temos agora falado. (13) que será o objeto da aritmética e de
Além disto, se as idéias são números, todas aquelas [entidades] a que alguns
como seriam causas? Será porventura chamam intermédias. E estas, como
porque os seres são números diferen­ existem? E de que princípios provirão?
tes, e um tal número, por exemplo, é E por que haverá intermediários entre
homem, tal outro é Sócrates, tal outro os sensíveis e as idéias? (17) Demais,
Cálias? E porque, então, aqueles se­ as mônadas contidas na díada provi­
riam causas destes? Que uns sejam rão, cada uma, de uma díada anterior,
eternos e os outros não, de certeza,
pouco importa. Se, pelo contrário, por
serem os sensíveis como as harmonias, 130 Este período dá ensejo a várias dificuldades.
uma razão de números, então é evi­ Esquematicamente, o raciocínio de Aristóteles é o
seguinte: se o número como idéia exprime uma rela­
dente que deve haver alguma coisa da ção, não tem ser próprio, dado não haver, como já
qual são razões. (14) Se, portanto, esta disse acima, idéias de relativos; e como o número
sensível existe por participação ao número ideal,
alguma coisa, a matéria, é “qualquer” segue-se que um e outro número estão desprovidos
de onticidade.
' 31 Talvez mais explicitamente: se o número, por
exemplo a miríada, não é composto de números,
128 Fonseca traduz: nequaquamfiunt. mas de numeráveis, isto é, dos elementos ou unida­
12 9 Isto é, algo que dê o movimento. Há quem tra­ des de número, qual será então a razão das môna­
duza por causa motora, mas o sentido exato parece das, isto é, das unidades?
ser o de Fonseca, a que nos ativemos: nisi sit quod 132 Isto é, não afetadas por qualquer determina­
moueat. ção.
M ETAFÍSICA — I 33

o que é impossível. E também, por que uma superfície. (20) E os pontos,


0 número composto [de unidades] donde provirão? Contra esta noção [de
seria uno? Acrescente-se ao que acaba­ ponto] se insurgiu Platão, como sendo
mos de dizer que, se as mônadas são um dogma geométrico, e chamando-
diferentes, conviria então falar como lhes “princípios da linha” e, muitas
os que admitem quatro ou dois elemen­ vezes, “ linhas insecáveis” . No entanto,
tos. Com efeito, cada um deles não é necessário que estas tenham um limi­
chama elemento ao que é comum, por te: de modo que, pelas mesmas razões
exemplo, o corpo, mas ao fogo e à que há linhas, há também pontos. (2 1 )
terra, quer esse corpo seja algo de Duma maneira geral, como a filosofia
comum, quer não [o seja]. Na realida­ investiga a causa dos sensíveis, é preci­
de, porém, fala-se como se o uno fosse, samente isto que nós deixamos de lado
tal como o fogo ou a água, um com­ (nada, pois, afirmamos da causa, que é
posto de partes similares133. A ser o princípio da mutação), e, julgando
assim, os números não serão substân­ explicar a substância dos mesmos
cias; ora, é claro que, se o uno em si [sensíveis], admitimos, na realidade, a
existe e é princípio, entende-se de vá­ existência de outras substâncias. Mas,
rias maneiras, nem haveria outra pos: como estas [substâncias] sejam as
sibilidade 1 3 4. (18) Quando, em segui­ substâncias daquelas, explicamo-lo
da, queremos reduzir as substâncias com palavras vãs, porque “participar” ,
aos princípios, nós imaginamos os como mais acima dissemos, nada sig­
comprimentos a partir do curto e do nifica. Tampouco as idéias têm qual­
comprido, isto é, uma forma do peque­ quer relação com aquilo que dissemos
no e do grande, a superfície a partir do ser o princípio das ciências, é em vista
largo e do estreito, e o corpo, a partir do qual toda a inteligência e a natureza
do alto e do baixo. (19) Todavia, como operam, nem com aquela causa que
poderá a superfície conter uma linha, afirmamos ser um dos princípios136:
ou o sólido uma linha e uma superfí­ as matemáticas tomaram-se, para os
cie? O largo e o estreito, pois, são de [filósofos] do nosso tempo, a [única]
um gênero, e de outro o alto e o baixo. filosofia, embora eles protestem que é
D a mesma maneira, portanto, que o em função das outras ciências que se
número não está nestes 13 5, porque o devem cultivar. (22) Além disto, pode­
muito e o pouco são qualquer coisa de ria alguém considerar a substância
diferente deles, também nenhum dos subjacente como uma matéria mais
gêneros superiores existirá, evidente­ matemática, [podendo] ser predicada
mente, nos inferiores. Nem podemos e, até, ser, uma diferença da substância
dizer que o largo seja um gênero do e da matéria, mais do que uma maté­
profundo, porque, então, o corpo seria ria: por exemplo, o grande e o peque­
no, como o raro e o denso, de que
falam os fisiólogos, e que eles dizem
' 33 Isto é, como se o uno fosse constituído de constituir as primeiras diferenças do
homeomerias, à semelhança da concepção do ser
segundo Anaxágoras.
sujeito. Com efeito, são uma espécie de
134 A crítica de Aristóteles assenta no dilema: Se o excesso e de defeito. (23) Quanto ao
uno é somente formal, não torna possível a exis­ movimento, se estas [determinações]
tência de unidades derivadas, que todas teriam de
ser especificamente idênticas; se o uno existe e é são movimento, é evidente que as
princípio real, não pode haver diversidade entre as
diferentes unidades.
1 3 5 Isto é, nestas grandezas numéricas anterior­
mente referidas: a linha, a superfície e o sólido. 13 6 Isto é, a causa final.
34 ARISTÓTELES

idéias também se deverão mover; e se ter achado, é uma ilusão 1 42. (27) Mas
não, donde é que ele veio 13 7? Cairia como poderia alguém chegar a conhe­
assim o estudo inteiro da natureza138. cer os elementos de todas as coisas?
(24) Outra coisa que também parece Sem dúvida, não os pode conhecer
fácil de demonstrar, a saber, tudo o com anterioridade: assim, quem está a
que existe se reduz à unidade 1 3 9, efeti­ aprender geometria, pode já conhecer
vamente não o é. Com efeito, por ecte- outras coisas, mas não do objeto da
se 1 40, nem tudo se tom a uno, mas disciplina em questão, e que ele se pro­
somente o próprio, se contudo nada lhe põe aprender. E da mesma forma para
tirarmos 1 41. Mas isto também não é tudo o m ais 1 43. (28) E se, por outro
admissível, a não ser que se conceda lado, existe, como alguns pretendem,
que o universal é um gênero, o que, em uma ciência de todas as coisas, então
certos casos, é impossível. (25) E tam­ [quem a aprende] nada poderá conhe­
bém não têm explicação as noções cer antes de começar. No entanto, toda
posteriores aos números, a saber, os a disciplina se adquire por conheci­
comprimentos, as superfícies e os sóli­ mentos prévios, total ou parcialmente,
dos, nem como elas existem ou pode­ quer ela proceda por demonstra­
rão existir, nem qual é a sua função. ção 1 4 4, quer por definição, pois é pre­
Com efeito, não podem ser idéias ciso que os elementos de que a defini­
(visto que não são números), nem ção procede sejam pré-conhecidos e
intermédios (o que são somente as enti­ familiares. Igualmente para a ciência
dades matemáticas), nem corruptíveis; que existe por indução. Mas se, por
dar-se-ia, assim, novamente, um quar­ acaso, ela nos fosse inata 1 4 5, seria
to gênero diferente. (26) Em geral, pro­ maravilhoso que, sem o sabermos,
curar os elementos dos seres sem os possuíssemos a mais excelente das
distinguir, apesar de serem múltiplas ciências. (29) E demais, como seria
as suas acepções, é impossibilitar-se de
os encontrar, sobretudo se, desta 1 42 Neste parágrafo opõem-se duas concepções
forma, investigarmos de que [elemen­ diversas da ontologia. Os platônicos procuravam
tos] são constituídos. Assim, de quais determinar os elementos comuns a todos os seres,
que eram os elementos constitutivos dos números;
[resulta] o fazer, o padecer ou o direito Aristóteles afirma que isto não só não é fácil em
não é, por certo, fácil determinar; e, se relação ao que não tem substância concreta, como o
o fosse, somente o seria para as subs­ que é direito, senão que é necessário distinguir pre­
viamente os seres, por não ser unívoco o termo ser.
tâncias. Portanto, procurar os elemen­ Por isso, isto é, se o Ser não é um gênero, é ilógico
tos de todos os seres, ou pensar em os procurar os princípios gerais dos seres sem previa­
mente se haverem discriminado as diversas ontolo­
gias próprias de cada espécie de ser.
1 43 No parágrafo anterior, Aristóteles mostrara
13 7 Isto é, as idéias nao dão a razão do movimento que era ilógica a investigação dos elementos, ou
e sem a explicação do movimento não é possível a princípios gerais do ser, tal como a conduziam os
física. platônicos; neste período e no seguinte, procura
’ 3* Isto é: a natureza não é concebível sem movi­ mostrar que é impossível aprender a conhecer tais
mento, e sem a explicação do movimento não há elementos ou princípios, porque quem empreendesse
ciência física. isso devia estar necessariamente desprovido de todo
' 3' Isto é, tudo é uno. e qualquer conhecimento.
1 40 Por ectese entendiam os platônicos a operação 144 Nos Segundos Analíticos, I, c. 2, Aristóteles
que atribui ser próprio aos atributos comuns; em 'desenvolveu esta idéia, mostrando que os axiomas
Aristóteles designa o ato de abstração lógica. devem necessariamente ser conhecidos pela pessoa
’ 41 Isto é: se se seguirem todos os graus que a ecte­ a quem é dirigida a demonstração.
se comporta. Ross traduz: " jf we grani ali the 1 4 5 Alusão à teoria platônica da reminiscência
assumptions como fundamentação do saber.
M ETAFÍSICA — I 35

possível conhecer de que resultam [as ção 1 4 6? Ora, isto deveria [ser possí­
coisas], e como nos certificaríamos vel], se os elementos de todas as coi­
disso? Também aqui há, pois, uma sas, dos quais [tudo deriva], são os
dificuldade. Poder-se-ia, com efeito, mesmos, como os sons compostos
discutir a propósito de certas sílabas. resultam dos [elementos] que lhes são
Uns dizem, por exemplo, que o ZA próprios.
vem do S, mais D e A; outros preten­
dem que é um som diferente, e que não 1 4 * Eqüivale a dizer que não podem conhecer-se as
é nenhum dos conhecidos. (30) Enfim, coisas sensíveis somente pela. inteligência; se assim
fosse, a percepção sensível seria inútil. Com este
os sensíveis, como os poderíamos argumento conclui Aristóteles a refutação da teoria
conhecer, sem termos deles a sensa­ platônica das idéias.

C a p ít u l o X

Que as causas enumeradas na Físi­ mesmo modo é necessário que haja


ca' 4 7 são as próprias que todos pare­ também uma proporção da carne e de
cem procurar, e que fora delas nenhu­ cada um dos outros elementos, ou
ma mais poderíamos indicar, resulta então de nenhum 1 49, pois é em razão
também das considerações [dos filó­ disso que a carne, o osso e cada um
sofos] que nos precederam. Fizeram- destes outros elementos existem, e não
no, contudo, confusamente, e, sob em razão da matéria a que eles cha­
mam fogo, terra, água, ar. Ele, porém,
certo sentido, já foram todas tratadas
se alguém lho tivesse explicado, tê-lo-
[antes de nós], sob outro, não. A um
ia forçosamente admitido, mas não se
balbuciante parece-se, portanto, a pri­ pronunciou claramente. (3) Sobre estes
mitiva filosofia em tudo, por ser ainda pontos nos temos já manifestado ante­
nova e no seu início 1 48. (2) Empédo­ riormente. Agora, voltemos às difi­
cles afirma até que o osso existe pela culdades 1 50 que sobre os mesmos
proporção, o que [para nós] é a qüidi­ poderia alguém levantar, o que talvez
dade e a substância da coisa. Do nos possa servir para outras questões
que sobrevenham.
' 4 7 As já referidas quatro causas: material, formal,
eficiente e final. 1 4* Isto é: ou então que nenhum dos elementos o
' 4* O sentido é: A primitiva filosofia a respeito de esteja.
todas as coisas (peri pánton), por ser ainda nova e 150 Este passo estabelece conexão com o livro III
estar no seu início, se parece, portanto, a um balbu­ (B), que é consagrado à exposição das aporias ou
ciante. (N. do E.) dificuldades.
LIVROU
(O)
39

C a p í t u l o I 151

A especulação acerca da verda­ superficialmente se exprimiram: tam­


de 1 52 é, num sentido, difícil, noutro, bém estes, com efeito, deram a sua
fácil: a prova é que ninguém a pode contribuição, pois exercitaram o nosso
atingir completamente, nem totalmente hábito 1 53. Se Timóteo 1 54 não tivesse
afastar-se dela, e que cada [filósofo] existido, não possuiríamos muitas me­
tem algo que dizer sobre a natureza, lodias, e sem Frínico 1 s B, Timóteo não
nada ou pouco acrescentando cada um teria existido. O mesmo se dá também
à verdade, embora se faça do conjunto com os que se expressaram acerca da
de todos uma boa colheita. De sorte verdade, pois de alguns [deles] temos
que parece dalgum modo acontecer recebido certas opiniões, mas os outros
como no caso do provérbio: “quem foram causa de os primeiros 1 5 6 terem
não acertaria [com a flecha] na surgido. (4) É pois com direito que a
porta?” (2) Assim considerado, [este filosofia é também chamada a ciência
estudo] seria, portanto, fácil. Mas o da verdade: o fim d a [ciência] especu­
fato de podermos atingir o conjunto, e lativa é, com efeito, a verdade, e o da
não as partes, mostra a sua dificul­ [ciência] prática, a ação; porque, se os
dade. Porém, como há duas espécies de práticos consideram o com o 1 s 1, não
dificuldades, a origem delas talvez não consideram o eterno, mas o relativo e o
esteja nas coisas, mas em nós próprios. presente. E nós não conhecemos o ver-
Da mesma maneira, com efeito, que os
olhos dos morcegos se comportam 1 53 Tradução literal. Hábito, habitus no vocabu­
lário escolástico, significa disposição ou capaci­
para a luz do dia, igualmente o lume dade, pelo que esta palavra se deve entender com
da nossa alma [se comporta] para as Fonseca pro facullatè animae, ou com Ross por lhe
coisas por natureza mais claras. (3) É, powers o f thought. Quer dizer: prepararam pelo
exercício a capacidade do nosso espírito.
pois, de justiça mostrarmo-nos reco­ ’ 6 4Refere-se ao músico e poeta Timóteo de Mileto,
nhecidos não só para com aqueles que viveu de 447 a 357.
cujas doutrinas partilhamos, mas ' ‘ 6 Parece ter florescido circaA 12. Plutarcodizqué
tocava uma citara de nove cordas.
ainda para com aqueles que mais ’ 5 * Tradução literal, cujo sentido é: mas os outros
foram causa do aparecimento destes últimos. Fon­
seca traduz: A quibusdam enim nonnullas senienlas
1 51 Este capítulo tem por objeto a consideração accepimus, alii vero, ut h i essent, aucloresfuerunt.
geral acerca da filosofia. ' 5 7 Isto é: como a coisa seja, ou, por outras pala­
' *2 Esta expressão designa a filosofia teórica, no vras, a manifestação da qüididade da coisa e não a
entanto é de notar que a explicitação deste período própria qüididade, como explicitam as palavras fi­
recai principalmente sobre a física. nais deste período.
.40 ARISTÓTELES

dadeiro sem [conhecer] a causa 1 58. (5) nos seus posteriores 1 60 é a causa de
Demais, aquilo que, em grau maior, eles serem verdadeiros. Por isso é
participa [da natureza] dos outros necessário que os princípios dos seres
eternos sejam sempre veríssimos: não
[seres é aquilo] segundo o qual se dá
são pois verdadeiros somente em tal
neles o unívoco 1 " , como o fogo é o momento, nem há para eles alguma
quentíssimo por ser nos outros [seres] causa do seu ser; são, pelo contrário,
a causa do calor; e é o veríssimo o que eles próprios [a causa] para os ou­
tro s 1 61. Por conseguinte, quanto cada
1 5® Quer dizer: a filosofia é a ciência da verdade e coisa tem de ser, tanto [tem] de
0 conhecimento da verdade implica o conhecimento verdade 1 62.
da causa. É próprio das ciências especulativas
investigarem a verdade por si mesma, como é pró­
prio da atividade prática dirigir-se diretamente ao 1 60 Aristóteles tem em vista a seqüência de efeitos
que importa à ação; por isso, os homens práticôs que procedem da coisa que os produz como causa.
não têm em vista a verdade eterna mas a verdade 161 Nas linhas anteriores, Aristóteles estabeleceu
transitória, isto é, o momentâneo e o passageiro, o que a filosofia é a ciência da verdade e que as ciên­
hic et nurtc das coisas que os preocupam. Este juízo cias práticas não são ciência da verdade eterna e
é de relacionar com o cap. I do Liv. I. Sobre a diver­ necessária; agora estabelece que a filosofia é por
sidade dos textos deste passo e correlativas interpre­ excelência a ciência teórica, por ter por objeto a
tações, vid. Bonghi, Met., I, 151-3. investigação da verdade mediante a investigação da
1 s* Isto é, sinônimo, ou, por outras palavras, as respectiva causa. Conseqüentemente, a filosofia tem
coisas que têm entre si a mesma denominação por objeto a mais verdadeira de todas as coisas.
comum e idêntico conceito de essência. Quer dizer, 1 62 Fonseca sintetiza este princípio fundamental
segundo a interpretação mais plausível: quando o da teoria do conhecimento e da ontologia de Aristó­
mesmo nome é aplicável com o mesmo sentido a teles na seguinte frase: Quantum quidque habet ip-
coisas diversas, esse nome pertence com plena sius esse, tantum et veritatis habet.
propriedade à coisa que lhe deu origem e da qual Por outras palavras: ser e verdade são convertí-
outras coisas participam por comum designação e veis, porque o que é causa do ser de uma coisa é
essência. causa da verdade dessa mesma coisa.

C a p i t u l o I I 163

É, por outro lado, evidente que há isto proceda daquilo até ao infinito,
um princípio e que as causas dos seres por exemplo, a carne da terra, a terra
não são infinitas, nem em sentido reto, do ar, o ar do fogo e isto sem parar;
nem segundo a espécie 1 6 4. Com efeito, nem quanto àquilo donde é o movi­
não é possível que, como da matéria, mento 1 6 5, sendo por exemplo o
homem movido pelo ar, o ar pelo sol, o
' 63 Este capítulo tem por objeto o assunto do seu sol pela discórdia, sem que disto haja
primeiro período: a existência necessária de um pri­ um limite 1 6 6. (2) Igualmente, também
meiro princípio e a impossibilidade de as causas
serem em número infinito ou de infinita variedade, e para a causa “para que” não podemos
portanto limitadas em número e na espécie. ir até o infinito [e afirmar que] o pas-
16 4 Aristóteles estabelece que é necessário admitir
a existência de um princípio e causa primeira, dado
que não é infinita a série de causas, quer na conti­ 1 6 5 Isto é, a origem do movimento.
nuidade ascendente, quer na diversidade de espé­ 1 6 6 A exemplificação deste parágrafo reporta-se à
cies. cosmologia de Empédocles. Aristóteles tem em
Sentido reto é tradução literal. Fonseca traduz: vista estabelecer a impossibilidade da existência de
progressione recta; Ross, m ittfintíe series; Tricot, uma série infinita de causas da mesma espécie,
série verticale infinie; Bonghi, le cause degli enti tanto na ordem da causalidade material como na da
non s Tqfilzano nè si spectficano ali Infinito. causalidade eficiente.
M E T A FÍSIC A — II 41

seio é em vista da saúde, esta, da felici­ se não entenda dizer “ isto” depois “da­
dade, a felicidade doutra coisa, e que quilo”, como [se se dissesse] depois
tudo é assim sempre em vista de outra dos ístmicos os Jogos Olímpicos, ou
coisa. E analogamente para a qüidida- como, da criança, que se transforma, o
de 1 6 7 (3) Com efeito, postos os inter­ homem, ou da água, o a r 1 70. ( 6 ) Ora,
médios, fora dos quais existe um últi­ nós dizemos que o homem vem da
mo e um primeiro, o anterior é criança como o já gerado do que está a
necessariamente a causa dos que são ser gerado, ou o já completo do que se
depois dele. E se nós tivéssemos de está completando, pois sempre há um
dizer qual dos três é a causa, responde­ intermédio, como entre o ser e o não-
ríamos que o primeiro: não será segu­ ser, o devir, e o que se está gerando,
ramente o último, porque o último não entre o que é e o que não é. (7) É pois
é [causa] de nada, nem tampouco o quem aprende um [indivíduo] que
devém sábio, e isto significamos ao
intermédio, que o é de um só. (4)
dizer que do discípulo vem o sábio.
Pouco importa, aliás, que haja um ou
Pelo contrário, [a procedência] como a
mais [intermédios], e que sejam infini­ água do ar [dá-se] pela destruição de
tos ou finitos. Orá, dos infinitos assim um dos dois. Por isso, os [dois] primei­
concebidos, e do infinito em geral, ros não se sobrepõem reciprocamente,
todos os termos são igualmente inter­ nem do homem se refaz a criança, por­
médios até ao atual; de forma que, se que o gerado não vem da própria gera­
nenhum é primeiro, não há absoluta­ ção, mas depois da geração171. É
mente causa alguma 1 68. (5) Mas tam­ assim, pois, que também o dia [é
bém a descer 1 69 não é possível chegar gerado] da aurora, porque vem depois
ao infinito (dado que existe um princí­ dela, e, por isso, a aurora não [vemj do
pio ascendente) por forma que a água dia. Os outros, pelo contrário, sobre-
proceda do fogo, a terra da água e, põem-se. ( 8 ) Mas, em ambos os casos,
assim de seguida, se gere sempre mais é impossível proceder até ao infinito:
algum gênero. Em duas maneiras, com no primeiro, havendo intermédios, há
efeito, “ isto” vem “daquilo” , quando
1 70 Pela expressão “isto vem daquilo”, Aristóteles
entende a causalidade material e não a relação tem­
1 6 7 O raciocínio do período anterior é aqui apli­ poral, ou seja, “isto vem depois daquilo” ; e as duas
cado à causalidade final (causa “para que” ) e à espécies do “ isto vem daquilo” que ele tem em vista
causalidade formal (qüididade). são as seguintes; o desenvolvimento de uma coisa
1 68 Nestes dois parágrafos Aristóteles prova a cuja forma se conserva até o final do seu desenvol­
impossibilidade ad infinitum da série das causas, vimento, e o nascimento de uma coisa de outra com
mediante um raciocínio que assim esquematizamos, a forma que lhe é própria. D a primeira destas espé­
de harmonia com o comentário de Colle: cies dá como exemplo o homem que “vem da crian­
A causa de uma série que contenha interme­ ça” ; da segunda, o ar que “vem” da água.
diários é necessariamente um termo anterior aos ’ 71 Este período e o que o precede explicitam a
mesmos intermediários; distinção das duas espécies do “isto vem daquilo” ,
Ora, uma série de causas infinitas em sucessão indicadas na nota anterior. Quer dizer: na criança
ascendente não pode ter princípio, mas somente que devém homem, a forma do homem feito já exis­
intermediários; tia na criança que ia devindo homem; na água que
devém ar, a forma do ar não é o desenvolvimento da
Pelo que uma série de causas infinitas se não ter­ forma da água, pois é uma forma nova. Isto signi­
mina numa causa. fica que quando há continuidade entre os dois extre­
169 Isto é, a impossibilidade ad infinitum da série mos, o primeiro e o último, o termo final não retor­
de causas tanto se dá na ordem ascendente da série na ao ponto de partida; e quando não há
causai, isto é, do efeito para a causa, como na continuidade, isto é, se dá o nascimento de uma
ordem descendente, isto é, da causa para o efeito. A forma nova, quando cessa a forma nova refaz-se a
demonstração desta última impossibilidade não é antiga, e vice-versa. Por isso, da água “vem” o ar, e
tão completa como a anterior, pois apenas incide o ar vem da água; e, pelo contrário, se do discípulo
sobre a causa material. “vem” o sábio, o discípulo não “vem” do sábio.
42 ARISTÓTELES

necessariamente um fim, e, no segun­ são, pois a mais próxima é sempre a


do, revertem um ao outro: com efeito, mais própria, e a que se segue não o é;
a corrupção de um é a gênese do outro. ora, aquilo cujo primeiro [termo] não
Ao mesmo tempo, é também impos­ existe também não tem o sucessi­
sível que o primeiro, sendo eterno, se v o 1 7 4. (11) Ainda mais, os que tal
corrompa, pois não sendo a geração afirmam destroem o próprio saber,
para cima infinita, é necessário que porque não é possível saber antes de
aquilo, pela prévia corrupção do qual chegarmos aos indivisos 1 7 5. Até o
alguma coisa se gera, não seja eter­ próprio conhecer se torna impossível:
no 1 72. (9) Demais, a causa “para que” com efeito, os que são infinitos desta
é um fim, e tal que ela não existe em forma, como é possível pensá-los 1 7 6?
vista de outra coisa, mas as outras em Não é o mesmo que na linha, a qual
vista dela; de sorte que, se existe um tal nunca pára nas suas divisões, mas que
[termo] final, não haverá infinito, e, se se não pode pensar se não se fizer uma
não [há] nada disto, não haverá a paragem. Por isso, não conseguirá
causa.“para que”. Porém, os que admi­ numerar as suas seções quem a per­
tem o infinito destroem, sem se aperce­ corra indefinidamente177. (12) Mas
berem, a própria natureza do bem. E
todavia ninguém empreenderia alguma
coisa se não devesse chegar a um 174 O período tem por objeto mostrar a inexis­
tência de uma série infinita de causas na ordem da
termo, nem haveria inteligência em tais causalidade formal.
ações. É sempre, com efeito, em vista 1 7 5 Neste período, Aristóteles afirma que a admis­
de alguma coisa que opera o homem são da série infinita das causas na ordem da causali­
dade formal é contrária à condição lógica do saber,
racional, e isto é o termo, visto o fim dado que o conhecimento de uma coisa implica o
ser um term o 1 73. (10) Mas também a conhecimento da respectiva qüididade, isto é, das
qüididade se não pode reverter a outra notas próprias da coisa.
A série infinita das causas na ordem formal des-
definição mais ampla na sua expres- trói a própria ciência, tornando-a impossível.
17 6 Além de impossibilitar o saber científico, a
sucessão ad ir\fmitum das causas formais implica
' 72 Passo obscuro que tem dado ensejo a interpre­ também a impossibilidade do simples ato de conhe­
tações diferentes. Colle interpreta no sentido de cer seja o que for. Como explica Colle, “não há
“une nouvelle raison pourquoi les rapports de conhecimento seja do que for senão quando se
causalité, entre les êtres qui se succèdent sans rela- aprende pelo pensamento a respectiva causa formal,
tion de devenant à devenu, sont réciproques isto é, a sua qüididade. Nada se sabe de Sócrates, se
' 73 Colle deu clareza a esta argumentação com a não se souber que é homem, porque esta é a sua qüi-'
seguinte interpretação: “Les arguments tirés de la didade, ou causa formal. Pois bem: se a qüididade
causalité finale sont les suivants: 1.° La cause “en de toda e qualquer coisa não é, como Aristóteles
vue de quoi” est la fb i. Or la ju i c ’e st ce qui n ‘est sustenta, algo de único e de simples — múltiplo
point en vue de quelque autre chose, mais en vue de somente sob o ponto de vista lógico —, mas algo de
quoi sont toutes les autres choses, et qui est donc le realmente múltiplo, e mesmo de multidão infinita, e
demier en remontant la série. Par conséquent, ou por conseqüência algo de infinito em ato, o conheci­
bien il y a, dans cet ordre d ’idées, quelque chose de mento de uma coisa qualquer não será possível,
demier, et alors il n y a point de série in/mie; ou visto não ser possível aprender pelo pensamento a
bien il n ’y a pas quelque chose de demier, mais respectiva qüididade. Como, diz Aristóteles, pode­
alors il n ’y a pas de cause “en vue de quoi", Ü n ’y a riam apreender-se pelo pensamento coisas que se­
pas de cause finale. 2.° Admettre la série irtfinie riam infinitas deste modo, isto é, em ato” ?
dont il vient d ’être question, c'est supprimer le bien, 17 7 Estes períodos relacionam-se com o argumento
puisque cela revient à supprimer la cause “en vue de exposto na nota anterior, e respondem a uma obje­
quoi", c.-à-d. la fln , et que la fin c ’e st le bien (cf. ção que não está claramente explicitada. Como
Eth. Nic. 1,1 e III, 6). 3.° Admettre cette série ir\fi- vimos, o argumento consistiu em estabelecer a
nie c ’e st supprimer 1’action, car personne ne veut impensabilidade de uma coisa cuja qüididade fosse
agir s 11 ne doit pas y avoir un terme à son action. ad iitfinitum; e a objeção não explicitada contra ele
Agir sans qu ’il doive y avoir un terme à 1’a ction ce é que o infinito é pensável, visto poder pensar-se a
ne serait pas le fa it d u n être intelligent. Tout être linha, que é um infinito.
intelligent n 'agit-ilpas en vue de quelque chose? Or Aristóteles refuta esta objeção, dizendo que a
cela c ’e st un terme. Car ce en vue de quoi on agit linha é infinitamente divisível em potência, mas
c 'est lafin, et la fm est un terme ”. somente é pensável finita em ato.
M ETAFÍSICA — II 43

também a matéria é necessário pensá- não pode ser percorrido num tempo
la em qualquer coisa que se m ova 1 78. finito.
Porém, nenhum infinito pode existir,
doutra forma a infinidade Não pode ' 79 Na argumentação anterior, Aristóteles procu­
ser infinita. (13) E, ainda que as espé­ rou provar a inexistência da causalidade ad infini­
tum pelas conseqüências que ela implica; agora,
cies das causas fossem em número infi­ argumenta diretamente contra a existência de espé­
nito, mesmo assim não seria possível o cies de causas ad iirfinitum por tom ar impossível o
conhecer, porquanto nós pensamos conhecimento seja do que for. Se conhecer uma
coisa é conhecê-la pelas suas causas, segue-se que,
saber quando conhecemos as cau­ se se der a existência de espécies de causas ad irrfini-
sas 1 79: ora o infinito por adição 180 tum, não é possível conhecer seja o que for.
Em conclusão: as causas são quatro (material,
formal, eficiente e final), e na causalidade de cada
' 78 Passo de interpretação difícil e para alguns uma delas não se dá a sucessão ad infinitum.
ininteligível. Parece que nele subjaz o argumento da 1 «o Infinito por adição opõe-se a infinito por divi­
nota anterior: sob certo ponto de vista, a matéria é são: se este exprime a divisibilidade ao infinito de
infinita, porém somente é pensável em coisas que se uma linha dada, o infinito por ação exprime o
movam, e portanto limitadas. prolongamento ao infinito de uma linha dada.

C a p í t u l o III181

As audições dependem dos hábitos. vreado. O rigor tem, com efeito, um


Com efeito, naquela maneira em que pouco disto, por forma que se afigura a
estamos habituados, assim julgamos alguns como menos próprio, quer nos
que se nos deve falar, e tudo o que for contratos, quer nas discussões. (4 ) É
fora disto já não nos parece o mesmo por isso que importa saber como cada
e, por desusado, toma-se-nos mais obs­ coisa se deve aceitar, pois é absurdo
curo e estranho; o habitual é, pois, o procurar ao mesmo tempo a ciência e
mais conhecido. (2) E qual força tenha o método da ciência: nenhum deles,
o hábito, mostram-no as leis, nas quais pois, é fácil de apreender. Nem o rigor
o fabuloso e o pueril têm, pela virtude matemático se deve exigir em todas as
do hábito, maior poder do que o coisas, mas somente naquelas que não
conhecimento das mesmas. (3) Assim, têm matéria. Por isso este método não
uns, se alguém não emprega uma lin­ é “físico”, porque toda a natureza con­
guagem matemática, não aceitam as tém, porventura, matéria. Vem daí que
suas afirmações; outros, se não se devemos primeiro considerar o que é a
serve de exemplos; outros querem que, natureza; tomar-se-á, desta forma, ma­
como testemunho, se cite um poeta; nifesto [o objeto] de que trata a Física
outros querem tudo rigorosamente < e se compete a uma única ciência, ou
[demonstrado] e outros não querem a várias, estudar as causas e os
saber de rigor, ou por não o poderem princípios 1 82 > .
compreender, ou pelo receio do pala­
182 Admite-se geralmente com Bonitz que as pala­
vras entre < > foram interpoladas para estabelecer
181 Este capítulo tem por fim mostrar que o méto­ a ligação deste livro com o começo do livro seguinte
do expositivo varia consoante o auditor e o assunto. (III, B).
ÉTICA A NICÔMACO

T rad u ção de Leonel V allandro e G erd B ornheim


d a versão inglesa de W . D. R oss
LIVRO I
49

1094 a Admite-se geralmente que toda arte economia é a riqueza. Mas quando tais
e toda investigação, assim como toda artes se subordinam a uma única facul­
ação e toda escolha, têm em mira um dade — assim como a selaria e as ou- i»
bem qualquer; e por isso foi dito, com tras artes que se ocupam com os apres-
muito acerto, que o bem é aquilo a que tos dos cavalos se incluem na arte da
, todas as coisas tendem. Mas observa- equitação, e esta, juntamente com
se entre os fins uma certa diferença: al­ todas as ações militares, na estratégia,
guns são atividades, outros são produ­ há outras artes que também se incluem
tos distintos das atividades que os em terceiras — , em todas elas os fins
j produzem. Onde existem fins distintos das artes fundamentais devem ser pre­
das ações, são eles por natureza mais feridos a todos os fins subordinados,
excelentes do que estas. porque estes últimos são procurados a
Ora, como são muitas as ações, bem dos primeiros. Não faz diferença
artes e ciências, muitos são também os que os fins das ações sejam as próprias
seus fins: o fim da arte médica é a atividades ou algo distinto destas,
saúde, o da construção naval é um como ocorre com as ciências que aca­
navio, o da estratégia é a vitória e o da bamos de mencionar.

Se, pois, para as coisas que fazemos apenas, o que seja ele e de qual das
existe um fim que desejamos por ele ciências ou faculdades constitui o obje­
mesmo e tudo o mais é desejado no to. Ninguém duvidará de que o seu es­
interesse desse fim; e se é verdade que tudo pertença à arte mais prestigiosa e
nem toda coisa desejamos com vistas que mais verdadeiramente se pode cha­
20 em outra (porque, então, o processo se
mar a arte mestra. Ora, a política mos­
repetiria ao infinito, e inútil e vão seria tra ser dessa natureza, pois é ela que
o nosso desejar), evidentemente tal fim determina quais as ciências que devem
será o bem, ou antes, o sumo bem.
Mas não terá o seu conhecimento, ser estudadas num Estado, quais são iowb
porventura, grande influência sobre a as que cada cidadão deve aprender, e
nossa vida? Semelhantes a arqueiros até que ponto; e vemos que até as
que têm um alvo certo para a sua pon- faculdades tidas em maior apreço,
2 s taria, não alcançaremos mais facil­ como a estratégia, a economia e a retó­
mente aquilo que nos cumpre alcan­ rica, estão sujeitas a ela. Ora, como a
çar? Se assim é, esforcemo-nos por política utiliza as demais ciências e,
determinar, ainda que em linhas gerais por outro lado, legisla sobre o que s
50 ARISTÓTELES

devemos e o que não devemos fazer, a preservar. Embora valha bem a pena
finalidade dessa ciência deve abranger atingir esse fim para um indivíduo só, é
as das outras, de modo que essa finali­ mais belo e mais divino alcançá-lo
dade será o bem humano. Com efeito, para uma nação ou para as cidades-Es- 10

ainda que tal fim seja o mesmo tanto tados. Tais são, por conseguinte, os
para o indivíduo como para o Estado, fins visados pela nossa investigação,
o deste último parece ser algo maior e pois que isso pertence à ciência polí­
mais completo, quer a atingir, quer a tica numa das acepções do termo.

Nossa discussão será adequada se raciocínio provável da parte de um


tiver tanta clareza quanto comporta o matemático do que exigir provas cien­
assunto, pois não se deve exigir a pre­ tíficas de um retórico.
cisão em todos os raciocínios por Ora, cada qual julga bem as coisas
igual, assim como não se deve buscá-la que conhece, e dessas coisas é ele bom
nos produtos de todas as artes mecâni­ juiz. Assim, o homem que foi instruído
cas. Ora, as ações belas e justas, que a a respeito de um assunto é bom juiz 1095 a
is ciência política investiga, admitem
nesse assunto, e o homem que recebeu
instrução sobre todas as coisas é bom
grande variedade e flutuações de opi­
juiz em geral. Por isso, um jovem não é
nião, de forma que se pode considerá-
bom ouvinte de preleções sobre a ciên­
las como existindo por convenção ape­ cia política. Com efeito, ele não tem
nas, e não por natureza. E em tom o experiência dos fatos da vida, e é em
dos bens há uma flutuação semelhante, torno destes que giram as nossas
pelo fato de serem prejudiciais a mui­ discussões; além disso, como tende a
tos: houve, por exemplo, quem pere­ seguir as suas paixões, tal estudo lhe 5
cesse devido à sua riqueza, e outros será vão e improfícuo, pois o fim que
por causa da sua coragem. se tem em vista não é o conhecimento,
Ao tratar, pois, de tais assuntos, e mas a ação. E não faz diferença que
partindo de tais premissas, devemos seja jovem em anos ou no caráter; o
contentar-nos em indicar a verdade defeito não depende da idade, mas do
20 aproximadamente e em linhas gerais; e modo de viver e de seguir um após
ao falar de coisas que são verdadeiras outro cada objetivo que lhe depara a
apenas em sua maior parte e com base paixão. A tais pessoas, como aos 10
em premissas da mesma espécie, só incontinentes, a ciência não traz pro­
poderemos tirar conclusões da mesma veito algum; mas aos que desejam e
natureza. E é dentro do mesmo espírito agem de acordo com um princípio
que cada proposição deverá ser recebi­ racional o conhecimento desses assun­
da, pois é próprio do homem culto bus- tos fará grande vantagem.
23 car a precisão, em cada gênero de coi­ Sirvam, pois, de prefácio estas ob­
sas, apenas na medida £tn que a admite servações sobre o estudante, a espécie
a natureza do assunto. Evidentemente, de tratamento a ser esperado e o pro­
não seria menos insensato aceitar um pósito da investigação.
ÉTICA A NICÔM ACO — I 51

Retomemos a nossa investigação e Platão havia levantado esta questão,


is procuremos determinar, à luz deste perguntando, como costumava fazer:
fato de que todo conhecimento e todo “ Nosso caminho parte dos primeiros
trabalho visa a algum bem, quais afir­ princípios ou se dirige para eles?” Há
mamos ser os objetivos da ciência polí­ aí uma diferença, como há, num está­
tica e qual é o mais alto de todos os dio, entre a reta que vai dos juizes ao
bens que se podem alcançar pela ação. ponto de retomo e o caminho de volta.
Verbalmente, quase todos estão de Com efeito, embora devamos começar 1095 b
acordo, pois tanto o vulgo como os ho­ pelo que é conhecido, os objetos de
mens de cultura superior dizem ser conhecimento o são em dois sentidos
esse fim a felicidade e identificam o diferentes: alguns para nós, outros na
bem viver e o bem agir como o ser acepção absoluta da palavra. É de pre­
20 feliz. Diferem, porém, quanto ao que sumir, pois, que devamos começar
seja a felicidade, e o vulgo não o con­ pelas coisas que nos são conhecidas, a
cebe do mesmo modo que os sábios. nós. Eis aí por que, a fim de ouvir
Os primeiros pensam que seja alguma inteligentemente as preleções sobre o
coisa simples e óbvia, como o prazer, a que é nobre e justo, e em geral sobre j
riqueza ou as honras, muito embora temas de ciência política, é preciso ter
discordem entre si; e não raro o sido educado nos bons hábitos. Por­
mesmo homem a identifica com dife­ quanto o fato é o ponto de partida, e se
rentes coisas, com a saúde quando está for suficientemente claro para o ouvin­
doente, e com a riqueza quando é te, não haverá necessidade de explicar
25 pobre. Cônscios da sua própria igno­ por que é assim; e o homem que foi
rância, não obstante, admiram aqueles bem educado já possui esses pontos de
que proclamam algum grande ideal partida ou pode adquiri-los com facili­
inacessível à sua compreensão. Ora, dade. Quanto àquele que nem os pos­
alguns têm pensado que, à parte esses sui, nem é capaz de adquiri-los, que
numerosos bens, existe um outro que é ouça as palavras de Hesíodo:
auto-subsistente e também é causa da
bondade de todos os demais. Seria tal­ ó tim o é aquele que de si mesmo io
vez infrutífero examinar todas as opi­ [conhece todas as coisas;
niões que têm sido sustentadas a esse Bom, o que escuta os conselhos
respeito; basta considerar as mais [dos homens judiciosos.
difundidas ou aquelas que parecem ser M as o que por si não pensa, nem
defensáveis. [acolhe a sabedoria alheia,
3o Não percamos de vista, porém, que Esse é, em verdade, uma criatura
há uma diferença entre os argumentos [inútil'.
que procedem dos primeiros princípios
e os que se voltam para eles. O próprio 1 Trabalhos e Dias, 293 ss. (N. do E.)

Voltemos, porém, ao ponto em que A julgar pela vida que os homens


havia começado esta digressão. levam em geral, a maioria deles, e os
52 ARISTÓTELES

homens de tipo mais vulgar, parecem sua virtude. Está claro, pois, que para so
is (não sem um çerto fundamento) identi­ eles, ao menos, a virtude é mais exce­
ficar o bem ou a felicidade com o pra­ lente. Poder-se-ia mesmo supor que a
zer, e por isso amam a vida dos gozos. virtude, e não a honra, é a finalidade
Pode-se dizer, com efeito, que existem da vida política. Mas também ela pare­
três tipos principais de vida: a que aca­ ce ser de certo modo incompleta, por­
que pode acontecer que seja virtuoso
bamos de mencionar, a vida política e
quem está dormindo, quem leva uma
a contemplativa. A grande maioria dos
vida inteira de inatividade, e, mais
homens se mostram em tudo iguais a ainda, é ela compatível com os maiores i<m
20 escravos, preferindo uma vida bestial, sofrimentos e infortúnios. Ora, salvo
mas encontram certa justificação para quem queira sustentar a tese a todo
pensar assim no fato de muitas pessoas custo, ninguém jamais considerará
altamente colocadas partilharem os feliz um homem que vive de tal
gostos de Sardanapalo2. maneira.
A consideração dos tipos principais Quanto a isto, basta, pois o assunto
de vida mostra que as pessoas de gran­ tem sido suficientemente tratado 3
de refinamento e índole ativa identi­ mesmo nas discussões correntes. A ter­
ficam a felicidade com a honra; pois a ceira vida é a contemplativa, que
honra é, em suma, a finalidade da vida examinaremos mais tarde3.
política. No entanto, afigura-se dema­ Quanto à vida consagrada ao
siado superficial para ser aquela que ganho, é uma vida forçada, e a riqueza
buscamos, visto que depende mais de não é evidentemente o bem que procu
quem a confere que de quem a recebe, ramos: é algo de útil, nada mais, e
25 enquanto o bem nos parece ser algo ambicionado no interesse de outra
próprio de um homem e que dificil­ coisa. E assim, antes deveriam ser
mente lhe poderia ser arrebatado. incluídos entre os fins os que mencio­
Dir-se-ia, além disso, que os homens namos acima, porquanto são amados
buscam a honra para convencerem-se por si mesmos. Mas é evidente que
a si mesmos de que são bons. Como nem mesmo esses são fins; e contudo,
quer que seja, é pelos indivíduos de muitos argumentos têm sido desperdi- 10
grande sabedoria prática que procu­ çados em favor deles. Deixamos, pois,
ram ser honrados, e entre os que os este assunto.
conhecem e, ainda mais, em razão da
^ 1177 a 12 - 1178 a 8; 1178 a 22 - 1179 a 32. (N.
2 Era um rei mítico da Assíria. (N. do E.) doT .)

6
Seria melhor, talvez, considerar o mais ajuizados dirão que é preferível e
bem universal e discutir a fundo o que que é mesmo nosso dever destruir o
se entende por isso, embora tal investi­ que mais de perto nos toca a fim de
gação nos seja dificultada pela amiza­ salvaguardar a verdade, especialmente 15

de que nos une àqueles que introdu­ por sermos filósofos ou amantes da
ziram as Form as4. No entanto, os sabedoria; porque, embora ambos nos
sejam caros, a piedade exige que hon­
4 Outros traduzem por: Teoria das Idéias. (N. do
remos a verdade acima de nossos
E.) amigos.
ÉTICA A NICÔM ACO — I 53

Os defensores dessa doutrina não ticular a definição do homem é a


postularam Formas 5 de classes dentro mesma? Porque, na medida em que 1096 b
das quais reconhecessem prioridade e forem “homem” , não diferirão em
posterioridade (e por essa razão não coisa alguma. E, assim sendo, tam­
sustentaram a existência de uma pouco diferirão o “bem em si” e os
F o rm a6 a abranger todos os números). bens particulares na medida em que
Ora, o termo “bem” é usado tanto na forem “bem” . E, por outro lado, o
categoria de substância como na de “bem em si” não será mais “bem” pelo
qualidade e na de relação, e o que exis- fato de ser eterno, assim como aquilo
20 te por si mesmo, isto é, a substância, é que dura muito tempo não é mais'
anterior por natureza ao relativo (este, branco do que aquilo que perece no es- 5
de fato, é como uma derivação e um paço de um dia.
acidente do ser); de modo que não Os pitagóricos parecem fazer uma
pode haver uma Idéia comum por cima concepção mais plausível do bem
de todos esses bens. quando colocam o “um” na coluna dos
Além disso, como a palavra “bem” bens; e esta opinião, se não nos enga­
tem tantos sentidos quantos “ ser” namos, foi adotada por Espeusipo.
(visto que é predicada tanto na catego­ Mas deixemos esses assuntos para
ria de substância, como de Deus e da serem discutidos noutra ocasião7. Po-
25 razão, quanto na de qualidade, isto é, der-se-á objetar ao que acabamos de
das virtudes; na de quantidade, isto é, dizer apontando que (os platônicos)
daquilo que é moderado; na de rela­ não falam de todos os bens, e que os
ção, isto é, do útil; na de tempo, isto é, bens buscados e amados por si mes- w
da oportunidade apropriada; na de mos são chamados bons em referência
espaço, isto é, do lugar apropriado, a uma Forma única, enquanto os que
etc.), está claro que o bem não pode ser de certo modo tendem a produzir ou a
algo único e universalmente presente, preservar estes, ou a afastar os seus
pois se assim fosse não poderia ser pre­ opostos, são chamados bons em refe­
dicado em todas as categorias, mas rência a estes e num sentido subsidiá­
somente numa. rio. É evidente, pois, que falamos dos
Ainda mais: como das coisas que bens em dois sentidos: uns devem ser
correspondem a uma Idéia a ciência é bens em si mesmos^ e os outros, em
jo uma só, haveria uma única ciência de relação aos primeiros.
todos os bens. Mas o fato é que as Separemos, pois, as coisas boas em
ciências são muitas, mesmo das coisas si mesmas das coisas úteis, e vejamos is
que se incluem numa só categoria: da se as primeiras são chamadas boas em
oportunidade, por exemplo, pois que a referência a uma Idéia única. Que
oportunidade na guerra é estudada espécie de bens chamaríamos bens em
pela estratégia e na saúde pela medici­ si mesmos? Serão aqueles que busca­
na, enquanto a moderação- nos alimen­ mos mesmo quando isolados dos ou­
tos é estudada por esta última, e nos tros, como a inteligência, a vLs,ão e cer­
exercícios pela ciência da ginástica. E tos prazeres e honras? Estes, embora
alguém poderia fazer esta pergunta: também possamos procurá-los tendo
que entendem eles, afinal, por esse “em em vista outra coisa, seriam colocados
35 si” de cada coisa, já que para o entre os bens em si mesmos.
“homem em si” e para um homem par-

7 Cf. Metafísica, 986 a 22-26; 1028 b 21-24; 1072


5 Ou Idéias. (N. do E.) b 30 — 1073 a 3; 1091 a 29 — 1091 b 3; 1091 b 13
6 Ou Idéia. (N. do E.) 1092 a 17. (N .doT .)
54 ARISTÓTELES

Ou não haverá nada de bom em si claro que ele não poderia ser realizado
mesmo senão a Idéia do bem? Nesse nem alcançado pelo homem; mas o
caso, a Formâ se esvaziará de todo que nós buscamos aqui é algo de
sentido. Mas, se as coisas que indica­ atingível.
mos também são boas em si mesmas, o Alguém, no entanto, poderá pensar
conceito do bem terá de ser idêntico que seja vantajoso reconhecê-lo com a
em todas elas, assim como o da bran­ mira nos bens que são atingíveis e
cura é idêntico na neve e no alvaiade. realizáveis; porquanto, dispondo dele
Mas quanto à honra, à sabedoria e ao como de uma espécie de padrão,
prazer, no que se refere à sua bondade, conheceremos melhor os bens que real­
os conceitos são diversos e distintos. O mente nos aproveitam; e, conhecendo-
bem, por conseguinte, não é uma espé­ os, estaremos em condições de alcan­
cie de elemento comum que corres­ çá-los. Este argumento tem um certo ar
ponda a uma só Idéia. de plausibilidade, mas parece entrar
Mas que entendemos, então, pelo em choque com o procedimento adota­
bem? Não será, por certo, como uma do nas ciências; porque todas elas, em­
dessas coisas que só por casualidade bora visem a algum bem e procurem
têm o mesmo nome. Serão os bens uma suprir a sua falta, deixam de lado o
só coisa por derivarem de um só bem, conhecimento do bem. Entretanto, não
ou para ele contribuírem, ou antes é provável que todos os expoentes das
serão um só por analogia? Inegavel­ artes ignorem e nem sequer desejem
mente, o que a visão é para o corpo a conhecer auxílio tão valioso. Não se
razão é para a alma, e da mesma compreende, por outro lado, a vanta­
forma em outros casos. Mas talvez seja gem que possa trazer a um tecelão ou a
preferível, por ora, deixarmos de lado um carpinteiro esse conhecimento do
esses assuntos, visto que a precisão “bem em si” no que toca à sua arte, ou
perfeita no tocante a eles compete mais que o homem que tenha considerado a
propriamente a um outro ramo da Idéia em si venha a ser, por isso
filosofia8. mesmo, melhor médico ou general.
O mesmo se poderia dizer no que se Porque o médico nem sequer parece
refere à Idéia: mesmo ainda que exista estudar a saúde desse ponto de vista,
algum bem único que seja universal­ mas sim a saúde do homem, ou talvez
mente predicável dos bens ou capaz de seja mais exato dizer a saúde de um
existência separada e independente, é indivíduo particular, pois é aos indiví­
duos que ele cura. Mas quanto a isso,
8 Cf. Metafísica, IV, 2. (N. do T.) basta.

7
Voltemos novamente ao bem que resse se fazem todas as outras coisas.
estamos procurando e indaguemos o Na medicina é a saúde, na estratégia a
que é ele, pois não se afigura igual nas vitória, na arquitetura uma casa, em
distintas ações e artes; é diferente na qualquer outra esfera uma coisa dife
medicina, na estratégia, e em todas as rente, e em todas as ações e propósitos
demais artes do mesmo modo. Que é, é ele a finalidade; pois é tendo-o em
pois, o bem de cada uma delas? vista que os homens realizam o resto.
Evidentemente, aquilo em cujo inte- Por conseguinte, se existe uma finali­
ÉTICA A NICÔM ACO — I 55

dade para tudo que fazemos, essa será Considerado sob o ângulo da auto-
o bem realizável mediante a ação; e, se suficiência, o raciocínio parece chegar
há mais de uma, serão os bens realizá­ ao mesmo resultado, porque o bem
veis através dela. absoluto é considerado como auto-su­
Vemos agora que o argumento, ficiente. Ora, por auto-suficiente não
tomando por um atalho diferente, che­ entendemos aquilo que é suficiente
gou ao mesmo ponto. Mas procuremos para um homem só, para aquele que
expressar isto com mais clareza ainda. leva uma vida solitária, mas também
Já que, evidentemente, os fins são vá­ para os pais, os filhos, a esposa, e em
rios e nós escolhemos alguns dentre geral para os amigos e concidadãos,
eles (como a riqueza, as flautas9 e os visto que o homem nasceu para a cida­
instrumentos em geral), segue-se que dania. Mas é necessário traçar aqui um
nem todos os fins são absolutos; mas o limite, porque, ge estendermos os nos­
sumo bem é claramente algo de abso­ sos requisitos aos antepassados, aos
luto. Portanto, se só existe um fim descendentes e aos amigos dos amigos,
absoluto, será o que estamos procu­ teremos uma série infinita.
rando; e, se existe mais de um, o mais Examinaremos esta questão, porém,
absoluto de todos será o que busca­ em outro lugar1°; por ora definimos a
mos. auto-suficiência como sendo aquilo
Ora, nós chamamos aquilo que me­ que, em si mesmo, tom a a vida desejá­
rece ser buscado por si mesmo mais vel e carente de nada. E como tal
absoluto do que aquilo que merece ser entendemos a felicidade, consideran­
buscado com vistas em outra coisa, e do-a, além disso, a mais desejável de
aquilo que nunca é desejável no inte­ todas as coisas, sem contá-la como um
resse de outra coisa mais absoluto do bem entre outros. Se assim fizéssemos,
que as coisas desejáveis tanto em si é evidente que ela se tom aria mais
mesmas como no interesse de uma ter­ desejável pela adição do menor bem
ceira; por isso chamamos de absoluto que fosse, pois o que é acrescentado se
e incondicional aquilo que é sempre tom a um excesso de bens, e dos bens é
desejável em si mesmo e nunca no inte­ sempre o maior o mais desejável. A
resse de outra coisa. felicidade é, portanto, algo absoluto e
Ora, esse é o conceito que preemi- auto-suficiente, sendo também a finali­
nentemente fazemos da felicidade. É dade da ação.
ela procurada sempre por si mesma e Mas dizer que a felicidade é o sumo
nunca com vistas em outra coisa, ao bem talvez pareça uma banalidade, e
passo que à honra, ao prazer, à razão e falta ainda explicar mais claramente o
a todas as virtudes nós de fato escolhe­ que ela seja- Tal explicação não ofere­
mos por si mesmos (pois, ainda que ceria grande dificuldade seipudéssemos
nada resultasse daí, continuaríamos a determinar primeiro a função do
escolher cada um deles); mas também homem. Pois, assim como para um
os escolhemos no interesse da felici­ flautista, um escultor ou um pintor, e
dade, pensando que a posse deles nos em geral para todas as coisas que têm
tom ará felizes. A felicidade, todavia, uma função ou atividade, considera-se
ninguém a escolhe tendo em vista que o bem e o “ bem feito” residem na
algum destes, nem, em geral, qualquer função, o mesmo ocorreria com o
coisa que não seja ela própria. homem se ele tivesse uma função.

9 Cf. Platão, Eutidemo, 289. (N. do T.) '» I, 10-11; IX, 10. (N. do T.)
56 ARISTÓTELES

Dar-se-á o caso, então, de que o bom homem é uma boa e nobre reali­
carpinteiro e o curtidor tenham certas zação das mesmas; e se qualquer ação u
funções e atividades, e o homem não é bem realizada quando está de acordo
30 tenha nenhuma? Terá ele nascido sem com a excelência que lhe é própria; se
função? Ou, assim como 0 olho, a realmente assim é], o bem do homem
mão, o pé e em geral cada parte do nos aparece como uma atividade da
corpo têm evidentemente uma função alma em consonância com a virtude, e,
própria, poderemos assentar que o se há mais de uma virtude, com a me­
homem, do mesmo modo, tem uma lhor e mais completa.
função à parte de todas essas? Qual Mas é preciso ajuntar “numa vida
poderá ser ela? completa” . Porquanto uma andorinha
A vida parece ser comum até às pró­ não faz verão, nem um dia tampouco;
prias plantas, mas agora estamos pro­ e da mesma forma um dia, ou um
curando o que é peculiar ao homem. breve espaço de tempo, não faz um
Excluamos, portanto, a vida de nutri- homem feliz e venturoso.
1098a ção e crescimento. A seguir há uma Que isto sirva còmo um delinea- 20
vida de percepção, mas essa também mento geral do bem, pois presumivel­
parece ser comum ao cavalo, ao boi e a mente é necessário esboçá-lo primeiro
todos os animais. Resta, pois, a vida de maneira tosca, para mais tarde pre­
ativa do elemento que tem um princí­ cisar os detalhes. Mas, a bem dizer,
pio racional; desta, uma parte tem tal qualquer um é capaz de preencher e
princípio no sentido de ser-lhe obedien­ articular o que em princípio foi bem
te, e a outra no sentido de possuí-lo e delineado; e também o tempo parece
s de exercer o pensamento. E, como a ser um bom descobridor e colaborador
'‘vida do elemento racional” também nessa espécie de trabalho. A tal fato se
tem dois significados, devemos esclare­ devem os progressos das artes, pois 25
cer aqui que nos referimos a vida no qualquer um pode acrescentar o que
sentido de atividade; pois esta parece falta.
ser a acepção mais própria do termo.
Ora, se a função do homem é uma Devemos igualmente recordar o que
atividade da alma que segue ou que se disse antes11 e não buscar a preci­
implica um princípio racional, e se são em todas as coisas por igual, mas,
dizemos que “um tal-e-tal” e “um bom em cada classe de coisas, apenas a pre­
tal-e-tal” têm uma função que é a cisão que o assunto comportar e que
mesma em espécie (por exemplo, um for apropriada à investigação. Porque
tocador de lira e um bom tocador de um carpinteiro e um geômetra investi­
io lira, e assim em todos os casos, sem gam de diferentes modos o ângulo reto.
maiores discriminações, sendo acres­ O primeiro o faz na medida em que o
centada ao nome da função a eminên­ ângulo reto é útil ao seu trabalho, 30
cia com respeito à bondade — pois a enquanto o segundo indaga o que ou
função de um tocador de lira é tocar que espécie de coisa ele é; pois o geô­
lira, e a de um bom tocador de lira é metra é como que um espectador da
fazê-lo bem); se realmente assim é [e verdade. Nós outros devemos proceder
afirmamos ser a função do homem do mesmo modo em todos os outros
uma certa espécie de vida, e esta vida assuntos, para que a nossa tarefa prin­
uma atividade ou ações da alma que cipal não fique subordinada a questões
implicam um princípio racional; e
acrescentamos que a função de um ” 1094 b 11-27. (N. do T.)
ÉTICA A NICÔM ACO — I 57

1098b de menor monta. E tampouco devemos hábito, e outros ainda de diferentes


reclamar a causa em todos os assuntos maneiras. Mas a cada conjunto de
por igual. Em alguns casos basta que o princípios devemos investigar da ma- ?
fa to esteja bem estabelecido, como su­ neira natural e esforçar-nos para ex­
cede com os primeiros princípios: o pressá-los com precisão, pois que eles
fato é a coisa primária ou primeiro têm grande influência sobre o que se
princípio. segue. Diz-se, com efeito, que o come­
Ora, dos primeiros princípios desco­ ço é mais que metade do todo, e muitas
brimos alguns pela indução, outros das questões que formulamos são acla­
pela percepção, outros como que por radas por ele.

8
10 Devemos considerá-lo, no entanto, car na felicidade também parecem per­
não só à luz da nossa conclusão e das tencer todas à definição que demõs
nossas premissas, mas também do que dela. Com efeito, alguns identificam a
a seu respeito se costuma dizer; pois felicidade com a virtude, outros com a
com uma opinião verdadeira todos os sabedoria prática, outros com uma
dados se harmonizam, mas com uma espécie de sabedoria filosófica, outros
opinião falsa os fatos não tardam a en­ com estas, ou uma destas, acompa- 25
trar em conflito. nhadas ou não de prazer; e outros
Ora, os bens têm sido divididos em ainda também incluem a prosperidade
três classes12, e alguns foram descritos exterior. Ora, algumas destas opiniões
como exteriores, outros como relativos têm tido muitos e antigos defensores,
à alma ou ao corpo. Nós outros consi- enquanto outras foram sustentadas por
d erapioscom o mais propriamente e poucas, mas eminentes pessoas. E não
is verdadeiramente bens os que se rela­ é provável que qualquer delas esteja
cionam com a alma, e como tais classi­ inteiramente equivocada, mas sim que
ficamos as ações e atividades psíqui­ tenham razão pelo menos a algum res­
cas. Logo, o nosso ponto de vista deve peito, ou mesmo a quase todos os
ser correto, pelo menos de acordo com respeitos.
esta antiga opinião, com a qual con­ Também se ajusta à nossa concep- 30
cordam muitos filósofos. É também ção a dos que identificam a felicidade
correto pelo fato de identificarmos o com a virtude em geral ou com alguma
fim com certas ações e atividades, pois virtude particular, pois que à virtude
desse modo ele vem incluir-se entre os pertence a atividade virtuosa. Mas há,
bens da alma, e não entre os bens talvez, uma diferença não pequena em
exteriores. colocarmos o sumo bem na posse ou
20 Outra crença que se harmoniza com no uso, no estado de ânimo ou no ato.
a nossa concepção é a de que o homem Porque pode existir o estado de ânimo
feliz vive bem e age bem; pois defini­ sem produzir nenhum bom resultado, 1099a
mos praticamente a felicidade como como no homem que dorme ou que
uma espécie de boa vida e boa ação. permanece inativo; mas a atividade
As características que se costuma bus- virtuosa, não: essa deve necessaria­
mente agir, e agir bem. E, assim como
' 2 Platão, Eutidemo, 279; Filebo, 48; Leis, 743.
nos Jogos Olímpicos não são os mais
(N. do T.) belos e os mais fortes que conquistam
1

58 ARISTÓTELES

a coroa, mas os que competem (pois é cidade de julgar é tal como a descreve­
dentre estes que hão de surgir os vence- mos. A felicidade é, pois, a melhor, a
•s dores), também as coisas nobres e boas mais nobre e a mais aprazível coisa do
da vida só são alcançadas pelos que mundo, e esses atributos não se acham
agem retamente. separados como na inscrição de Delos:
i
Sua própria vida é aprazível por si
Das coisas a mais nobre é a mais justa,
mesma. Com efeito, o prazer é um es­
e a melhor é a saúde;
tado da àlma, e para cada homem é
M as a mais doce é alcançar o que
agradável aquilo que ele ama: não só
amamos.
um cavalo ao amigo de cavalos e um
espetáculo ao amador de espetáculos, Com efeito, todos eles pertencem às
/o mas também os atos justos ao amante mais excelentes atividades# e estas, ou
da justiça e, em geral, os atos virtuosos então, uma delas — a melhor — , nós a 30

aos amantes da virtude. Ora, na maio­ identificamos com a felicidade.


ria dos homens os prazeres estão em E no entanto, como dissemos13, ela
conflito uns com os outros porque não necessita igualmente dos bens exterio­
são aprazíveis por natureza, mas os res; pois é impossível, ou pelo menos
amantes do que é nobre se comprazem não é facil, realizar atos nobres sem os
em coisas que têm aquela qualidade; devidos meios. Em muitas ações utili­ 1099 b
tal é o caso dos atos virtuosos, que não zamos como instrumentos os amigos, a
apenas são aprazíveis a esses homens, riqueza e o poder político; e há coisas
mas em si mesmos e por sua própria cuja ausência empana a felicidade,
is natureza. Em conseqüência, a vida como a nobreza de nascimento, uma
deles não necessita do prazer como boa descendência, a beleza. Com efei­
uma espécie de encanto adventício, to, o homem de muito feia aparência,
mas possui o prazer em si mesma. Pois ou mal-nascido, ou solitário e sem
que, além do que já dissemos, o filhos, não tem muitas probabilidades
homem que não se regozija com as de ser feliz, e talvez tivesse menos
ações nobres não é sequer bom; e nin­ ainda se seus filhos ou amigos fossem
guém chamaria de justo o que não se visceralmente maus e se a morte lhe
compraz em agir com justiça, nem houvesse roubado bons filhos ou bons
liberal o que não experimenta prazer amigos.
20 nas ações liberais; e do mesmo modo Como dissemos, pois, o homem feliz
em todos os outros casos. parece necessitar também dessa espé­
Sendo assim, as ações virtuosas cie de prosperidade; e por essa razão
devem ser aprazíveis em si mesmas. alguns identificam a felicidade com a
Mas são, além disso, boas e nobres, e boa fortuna, embora outros a identifi­
possuem no mais alto grau cada um quem com a virtude.
destes atributos, porquanto o homem
bom sabe aquilatá-los bem; sua capa­ 13 1098 b 26-29. (N. do T.)

9
Por este motivo, também se per- alguma outra espécie de adestramento, io
gunta se a felicidade deve ser adquirida ou se ela nos é conferida por alguma
pela aprendizagem, pelo hábito ou por providência divina, ou ainda pelo
ÉTICA A N1CÔMACO — I 59

acaso. Ora, se alguma dádiva os ho­ m os 1 4 que ela é uma atividade vir­
mens recebem dos deuses, é razoável tuosa da alma, de certa espécie. Dos
supor que a felicidade seja uma delas, demais bens, alguns devem necessaria­
e, dentre todas as coisas humanas, a mente estar presentes como condições
que mais seguramente é umà dádiva prévias da felicidade, e oútros são
divina, por ser a melhor. Esta questão naturalmente cooperantes e úteis como
talvez caiba melhor em outro estudo; instrumentos. E isto, como é de ver,
no entanto, mesmo que a felicidade concorda com o que dissemos no prin­
15 não seja dada pelos deuses, mas, ao cípio 1 5, isto é, que o objetivo da vida
contrário, venha como um resultado política é o melhor dos fins, e essa 30
da virtude e de alguma espécie de ciência dedica o melhor de seus esfor­
aprendizagem ou adestramento, ela pa­ ços a fazer com que os cidadãos sejam
rece contar-se entre as coisas mais bons e -capazes de nobres ações.
divinas; pois aquilo que constitui o É natural, portanto, que não chame­
prêmio e a finalidade da virtude se nos mos feliz nem ao boi, nem ao cavalo,
afigura o que dtí melhor existe no nem a qualquer outro animal, visto que
mundo, algo de divino e abençoado. nenhum deles pode participar de tal
Dentro desta concepção, também atividade. Pelo mesmo motivo, um me- nooa
deve ela ser partilhada por grande nú­ nino tampouco é feliz, pois que, devido
mero de pessoas, pois quem quer que à sua idade, ainda não é capaz de tais
não esteja mutilado em sua capacidade atos; e os meninos a quem chamamos
para a virtude pode conquistá-la me­ felizes estão simplesmente sendo con­
diante uma certa espécie de estudo e gratulados por causa das esperanças
20 diligência. Mas, se é preferível ser feliz que neles depositamos. Porque, como
dessa maneira a sê-lo por acaso, é dissemos 1 6, há mister não só de uma
razoável que os fatos sejam assim, virtude completa mas também de uma
uma vez que tudo aquilo que depende vida completa, já que muitas mudan- 5
da ação natural é, por natureza, tão ças ocorrem na vida, e eventualidades
bom quanto poderia ser, e do mesmo de toda sorte: o mais próspero pode ser
modo o que depende da arte ou de. vítima de grandes infortúnios na velhi­
qualquer causa racional, especialmente ce, como se conta de Príamo no Ciclo
se depende da melhor de todas as cau­ Troiano; e a quem experimentou tais
sas. Confiar ao acaso o que há de me­ vicissitudes e terminou miseravelmente
lhor e de mais nobre seria um arranjo ninguém chama feliz.
muito imperfeito.
25 A resposta à pergunta que estamos 14 1098 a 16. (N. do T.)
fazendo é também evidente pela defini­ ' 5 1094 a 27. (N. do T.)
ção da felicidade, porquando disse- 1 « ' 1098 a 16-18. (N. do T.)

10

io Então ninguém deverá ser conside­ Mesmo que esposemos essa doutrina,
rado feliz enquanto viver, e será preci­ dar-se-á o caso de que um homem seja
so ver o fim, como diz Sólon 1 7? feliz depois de morto? Ou não será
perfeitamente absurda tal idéia, sobre­
' 7 Heródoto, I, 32. (N. do T.) tudo para nós, que dizemos ser a felici-
60 ARISTÓTELES

is dade uma espécie de atividade? Mas, o passo de suas vicissitudes, deve­


se não consideramos felizes os mortos ríamos chamar o mesmo homem ora
e se Sólon não se refere a isso, mas de feliz, ora de desgraçado, o que faria
quer apenas dizer que só então se pode do homem feliz um “camaleão, sem
com segurança chamar um homem de base segura”. Ou será um erro esse
venturoso porque finalmente não mais acompanhar as vicissitudes da fortuna
o podem atingir males nem infortúnios, de um homem? O sucesso ou o fra­
isso também fornece matéria para casso na vida não depende delas, mas,
discussão. Efetivamente, acredita-se como dissemos 1 8, a existência humana w
que para um morto existem males e delas necessita como meros acrésci­
bens, tanto quanto para os vivos que mos, enquanto o que constitui a felici­
20 não têm consciência deles: por exem­ dade ou o seu contrário são as ativida­
plo, as honras e desonras, as boas e des virtuosas ou viciosas.
más fortunas dos filhos e dos descen­ A questão que acabamos de discutir
dentes em geral. confirma a nossa definição, pois ne­
E isto também levanta um proble­ nhuma função humana desfruta de
ma. Com efeito, embora um homem tanta permanência como as atividades
tenha vivido feliz até avançada idade e virtuosas, que são consideradas mais
tido uma morte digna de sua vida, mui­ duráveis do que o próprio conheci­
tos reveses podem suceder aos seus mento das ciências. E as mais valiosas is
descendentes. Alguns serão bons e dentre elas são mais duráveis, porque
25 terão a vida que merecem, ao passo os homens felizes de bom grado e com
que com outros sucederá o contrário; e muita constância lhes dedicam os dias
também é evidente que os graus de de sua vida; e esta parece ser a razão
parentesco entre eles e os seus antepas­ pela qual sempre nos lembramos deles.
sados podem variar indefinidamente. O atributo em apreço pertencerá, pois,
Seria estranho, pois, se os mortos ao homem feliz, que o será durante a
devessem participar dessas vicissitudes vida inteira; porque sempre, ou de
e ora ser felizes, ora desgraçados; mas, preferência a qualquer outra coisa,
30 por outro lado, também seria estranho estará empenhado na ação ou na 20
se a sorte dos descendentes jam ais pro­ contemplação virtuosa, e suportará as
duzisse o menor efeito sobre a felici­ vicissitudes da vida com a maior
dade de seus ancestrais. nobreza e decoro, se é “verdadei­
Voltemos, porém, à nossa primeira ramente bom” e “honesto acima de
dificuldade, cujo exame mais atento toda censura” .
talvez nos dê a solução do presente Ora, muitas coisas acontecem por
problema. Ora, se é preciso ver o fim acaso, e coisas diferentes quanto à
para só então declarar um homem importância. É claro que os pequenos
feliz, temos aí um paradoxo flagrante: incidentes felizes ou infelizes não 25
i5 quando ele é feliz, os atributos que lhe pesam muito na balança, mas uma
noo b pertencem não podem ser verdadeira­ multidão de grandes acontecimentos,
mente predicados dele devido às mu­ se nos forem favoráveis, tornará nossa
danças a que estão sujeitos, porque vida mais venturosa (pois não apenas
admitimos que a felicidade é algo de são, em si mesmos, de feitio a aumen­
permanente e que não muda com faci­ tar a beleza da vida, mas a própria
lidade, ao passo que cada indivíduo maneira como um homem os recebe
pode sofrer muitas voltas da roda da
s fortuna. É claro que, para acompanhar 18 1099 a 31 — 1099 b 7. (N. do T.)
ÉTICA A NICÔM ACO — I 61

pode ser nobre e boa); e, se se voltarem E tampouco será ele versátil e mutá- >°
contra nós, poderão esmagar e mutilar vel, pois nem se deixará desviar facil­
a felicidade, pois que, além de serem mente do seu venturoso estado por
30 acompanhados de dor, impedem mui­ quaisquer desventuras comuns, mas
tas atividades. Todavia, mesmo nesses somente por muitas e grandes; nem, se
a nobreza de um homem se deixa ver, sofreu muitas e grandes desventuras,
quando aceita com resignação muitos recuperará em breve tempo a sua felici­
grandes infortúnios, não por insensibi­ dade. Se a recuperar, será num tempo
lidade à dor, mas por nobreza e gran­ longo e completo, em que houver
deza de alma. alcançado muitos e esplêndidos suces­
Se as atividades são, como disse­ sos.
mos, o que dá caráter à vida, nenhum Quando diremos, então, que não é »
homem feliz pode tornar-se desgra­ feliz aquele que age conforme à virtude
çado, porquanto jamais praticará atos perfeita e está suficientemente provido
35 odiosos e vis. Com efeito, o homem de bens exteriores, não durante um
verdadeiramente bom e sábio suporta período qualquer, mas através de uma
iioi a com dignidade, pensamos nós, todas as vida completa? Ou devemos acrescen­
contingências da vidá, e sempre tira o tar: “E que está destinado a viver
maior proveito das circunstâncias, assim e a morrer de modo consentâneo
como um general quefaz o melhor uso com a sua vida” ? Em verdade, o futuro
possível do exército sob o seu coman­ nos é impenetrável, enquanto a felici­
do ou um bom sapateiro faz os melho­ dade, afirmamos nós, é um fim e algo 20
res calçados com o couro que lhe dão; de final a todos os respeitos. Sendo
5 e do mesmo modo com todos os outros assim, chamaremos felizes àqueles
artífices. E, se assim é, o homem feliz dentre os seres humanos vivos em que
nunca pode tomar-se desgraçado, essas condições se realizem ou estejam
muito embora não alcance a beatitude destinadas a realizar-se — mas ho­
se tiver uma fortuna semelhante à de mens felizes. Sobre estas questões dis­
Príamo. semos o suficiente.

I I

Que a sorte dos descendentes e de influência na vida, enquanto outros


todos os amigos de um homem não lhe são, por assim dizer, mais leves, tam- 30

afete de nenhum modo a felicidade pa­ bém existem diferenças entre os infor­
rece ser uma doutrina cínica e contrá­ túnios de nossos amigos tomados em
ria à opinião comum. Mas, visto serem conjunto, e não dá no mesmo que os
25 numerosos os acontecimentos que diversos sofrimentos sobrevenham aos
ocorrem, e admitirem toda espécie de vivos ou aos mortos (com efeito, a dife­
diferenças, e já que alguns nos tocam rença aqui é muito maior, até, do que
mais de perto e outros menos, anto- entre atos terríveis e iníquos pressu­
lha-se uma tarefa longa — mais do postos numa tragédia ou efetivamente
que longa, infinita — discutir cada um representados na cena), essa diferença
em detalhe. Talvez possamos conten­ também deve ser levada em conta —
tar-nos com um esboço geral. ou antes, talvez, o fato de haver dúvida 35
Se, pois, alguns infortúnios pessoais sobre se os mortos participam de qual­
dé um homem têm certo peso e quer bem ou mal. Pois parece, de acor- 1101 b
62 ARISTÓTELES

do com tudo que acabamos de ponde­ nem roubar a beatitude aos venturosos.
rar, que ainda que algo de bom ou mau Por conseguinte, a boa ou má fortu- j
chegue até eles, devem ser influências na dos amigos parece ter certos efeitos
muito fracas e insignificantes, quer em sobre os mortos, mas efeitos de tal
si mesmas, quer para eles; ou, então, espécie e grau que não tom am desgra­
serão tais em grau e em espécie que çados os felizes nem produzem qual­
não possam tornar feliz quem não o é, quer outra alteração semelhante.

10 Tendo dado uma resposta definida a felizes e bem-aventurados. E o mesmo 25


essas questões, vejamos agora se a feli­ vale para as coisas: ninguém louva a
cidade pertence ao número das coisas felicidade como louva a justiça, mas
que são louvadas, ou, antes, das que antes a chama de bem-aventurada,
são estimadas; pois é evidente que não como algo mais divino e melhor.
podemos colocá-la entre as potenciali­ Também parece que Eudoxo estava
dades. acertado em seu método de sustentar a
Tudo que é louvado parece merecer supremacia do prazer. Pensava ele .que
louvores por ser de certa espécie e rela­ o fato de não ser louvado o prazer, em­
cionado de um modo qualquer com al­ bora seja um bem, está a indicar que
guma outra coisa; porque louvamos o ele é melhor do que as coisas a que
justo ou o valoroso, e, em geral, tanto prodigalizamos louvores — e tais são
o homem bom como a própria virtude, Deus e o bem; pois é em relação a eles 30
is devido às ações e funções em jogo, e que todas as outras coisas são julga­
louvamos o hqmem forte, o bom corre­ das.
dor, etc., porque são de uma determi­ O louvor é apropriado à virtude,
nada 'espécie e se relacionam de certo pois graças a ela os homens tendem a
modo com algo de bom ou importante. praticar ações nobres, mas os encô-
Isso também é evidente quando consi­ mios se dirigem aos atos, quer do
deramos os louvores dirigidos aos deu­ corpo, quer da alma. No entanto, tal­
ses, pois parece absurdo que os deuses vez a sutileza nestes assuntos seja mais
sejam aferidos pelos nossos padrões; própria dos que fizeram um estudo dos
20 no entanto assim se faz, porque o lou­ encómios; para nós, o que se disse ■«
vor envolve uma referência, como dis­ acima deixa bastante claro que a felici- 1102»
semos, a alguma outra coisa. dade pertence ao número das coisas
Entretanto, se o louvor se aplica a estimadas e perfeitas. E também pare­
coisas do gênero das que descrevemos, ce ser assim pelo fato de ser ela um pri­
evidentemente o que se aplica às meiro princípio; pois é tendo-a em
melhores coisas não é louvor, mas algo vista que fazemos tudo que fazemos, e
de melhor e de maior; porquanto aos o primeiro princípio e causa dos bens
deuses e aos mais divinos dentre os é, afirmamos nós, algo de estimado e
homens, o que fazemos é chamá-los de divino.
ÉTICA A NICÔM ACO — I 63

13
s Já que a felicidade é uma atividade A seu respeito são feitas algumas
da alma conforme à virtude perfeita, afirmações bastante exatas, mesmo nas
devemos considerar a natureza da vir­ discussões estranhas à nossa escola; e
tude: pois talvez possamos com­ delas devemos utilizar-nos agora. Por
preender melhor, por esse meio, a natu­ exemplo: que a alma tem uma parte
reza da felicidade. racional e outra parte privada de
O homem verdadeiramente político razão. Que elas sejam distintas como
também goza a reputação de haver as partes do corpo ou de qualquer 30
estudado a virtude acima de todas as coisa divisível, ou distintas por defini­
10 coisas, pois que ele deseja fazer com ção mas inseparáveis por natureza,
que os seus concidadãos sejam bons e como o côncavo e o convexo na
obedientes às leis. Temos um exemplo circunferência de um círculo, não inte­
disso nos legisladores dos cretenses e ressa à questão com que nos ocupamos
dos espartanos, e em quaisquer outros de momento.
dessa espécie que possa ter havido Do elemento irracional, uma subdi­
alhures. E, se esta investigação per­ visão parece estar largamente difun­
tence à ciência política, é evidente que dida e ser de natureza vegetativa. Refi-
ela estará de acordo com o nosso ro-me à que é causa da nutrição e do
plano inicial.’ crescimento; pois é essa espécie de
Mas a virtude que devemos estudar faculdade da alma que devemos atri- 1102 b
é, fora de qualquer dúvida, a virtude buir a todos os lactantes e aos próprios
is humana; porque humano era o bem e embriões, e que também está presente
humana a felicidade que buscávamos. nos seres adultos: com efeito, é mais
Por virtude humana entendemos não a razoável pensar assim do que atribuir-
do corpo, mas a da alma; e também à lhes uma faculdade diferente. Ora, a
felicidade chamamos uma atividade de excelência desta faculdade parece ser
alma. Mas, assim sendo, é óbvio que o comum a todas as espécies, e não 5
político deve saber de algum modo o especificamente humana1 Além disso,
que diz respeito à alma, exatamente tudo está a indicar que; ela funciona
como deve conhecer os olhos ou a principalmente durante o sono, ao
totalidade do corpo aquele que se pro- passo que é nesse estado que menos se
20 põe a curá-los; e com maior razão manifestam a bondade e a maldade.
ainda por ser a política mais estimada Daí vem o aforismo de que os felizes
e melhor do que a medicina. Mesmo não diferem dos infortunados durante
entre os médicos, os mais competentes metade de sua vida; o que é muito
dão-se grande trabalho para adquirir o natural, em vista de ser o sono uma
conhecimento do corpo. inatividade da alma em relação àquilo w
O político, pois, deve estudar a alma que nos leva a chamá-la de boa ou má;
tendo em vista os objetivos que men­ a menos, talvez, que uma pequena
cionamos e quanto baste para o enten­ parte do movimento dos sentidos pene­
dimento das questões que estamos tre de algum modo na alma. tomando
25 discutindo, já que os nossos propósitos os sonhos do homem bom melhores
não parecem exigir uma investigação que os da gente comum. Mas basta
mais precisa, que seria, aliás, muito quanto a esse assunto. Deixemos de
trabalhosa. lado a faculdade nutritiva, uma vez
64 ARISTÓTELES

que, por natureza, ela não participa da Por conseguinte, o elemento irracio­
excelência humana. nal também parece ser duplo. Com 30
Parece haver na alma ainda outro efeito, o elemento vegetativo não tem
elemento irracional, mas que, em certo nenhuma participação num princípio
sentido, participa da razão. Com efei­ racional, mas o apetitivo e, em geral, o
to, louvamos o princípio racional do elemento desiderativo participa dele
is homem continente e do incontinente, em certo sentido, na medida em que o
assim como a parte de sua alma que escuta e lhe obedece. É nesse sentido
possui tal princípio, porquanto ela os que falamos em “ atender às razões” do
impele na direção certa e para os pai e dos amigos, o que é bem diverso
melhores objetivos; mas, ao mesmo de pondèrar a razão de uma proprie­
tempo, encontra-se neles um outro ele­ dade matemática.
mento naturalmente oposto ao princí­ Que, de certo modo, o elemento irra­
pio racional, lutando contra este a cional é persuadido pela razão, tam­
20 resistindo-lhe. Porque, exatamente bém estão a indicá-lo os conselhos que
como os membros paralisados se vol­ se costuma dar, assim como todas as no3a
tam para a esquerda quando procura­ censuras e exortações. E, se convém
mos movê-los para a direita, a mesma afirmar que também esse elemento
coisa sucede na alma: os impulsos dos possui um princípio racional, o que
incontinentes movem-se em direções possui tal princípio (como também o
contrárias. Com uma diferença, que carece dele) será de dupla nature­
porém: enquanto, no corpo, vemos za: uma parte possuindo-o em si
aquilo que se desvia da direção certa, mesma e no sentido rigoroso do termo,
na alma não podemos vê-lo. e a outra com a tendência de obede-
Apesar disso, devemos admitir que cer-lhe como um filho obedece ao pai.
também na alma existe qualquer coisa A virtude também se divide em espé
contrária ao princípio racional, qual­ cies de acordo com esta diferença, por­
quer coisa que lhe resiste e se opõe a quanto dizemos que algumas virtudes
25 ele. Em que sentido esse elemento se são intelectuais e outras morais; entre $
distingue dos outros, é uma questão as primeiras temos a sabedoria filosó­
que não nos interessa. Nem sequer pa­ fica, a compreensão, a sabedoria práti­
rece ele participar de um princípio ca; e entre as segundas, por exemplo, a
racional, como dissemos. Seja como liberalidade e a temperança. Com efei­
for, no homem continente ele obedece to, ao falar do caráter de um homem
ao referido princípio; e é de presumir não dizemos que ele é sábio ou que pos­
que no temperante e no bravo seja sui entendimento, mas que é calmo ou
mais obediente ainda, pois em tais ho­ temperante. No entanto, louvamos 10
mens ele fala, a respeito de todas as também o sábio, referindo-nos ao hábi­
coisas, com a mesma voz que o princí­ to; e aos hábitos dignos de louvor cha­
pio racional. mamos virtudes.
LIVRO II
67

Sendo, pois, de duas espécies a vir- usá-las, e não entramos na posse delas
is tude, intelectual e moral, a primeira, pèlo uso. Com as virtudes dá-se exata­
por via de regra, gera-se. è cresce gra­ mente o oposto: adquirimo-las pelo
ças ao ensino — por isso requer expe­ exercício, como também sucede com
riência e tempo; enquanto a virtude as artes. Com efeito, as coisas que
moral é adquirida em resultado do há­ temos de aprender antes de poder
bito, donde ter-se formado o seu nome fazê-las, aprendemo-las fazendo; por
( ijfliKTj ) por uma pequena modifica­ exemplo, os homens tornam-se arquite­
ção da palavra eôoç (hábito). Por tudo tos construindo e tocadores de lira tan­
isso, evidencia-se também que nenhu­ gendo esse instrumento. D a mesma 1103b
ma das virtudes morais surge em nós forma, tornamo-nos justos praticando
por natureza; com efeito, nada do que atos justos, e assim com a temperança,
a bravura, etc.
20 existe naturalmente pode formar um
Isto é confirmado pelo que acontece
hábito contrário à sua natureza. Por
nos Estados: os legisladores tomam
exemplo, à pedra que por natureza se
bons os cidadãos por meio de hábitos
move para baixo não se pode imprimir
que lhes incutem. Esse é o propósito de s
o hábito de ir para cima, ainda que ten­ todo legislador, e quem não logra tal
temos adestrá-la jogando-a dez mil desiderato falha no desempenho da sua
vezes no ar; nem se pode habituar o missão. Nisso, precisamente, reside a
fogo a dirigir-se para baixo, nem qual­ diferença entre as boas e as más
quer coisa que por natureza se com­ constituições.
porte de certa maneira a comportar-se Ainda mais: é das mesmas causas e
de outra. pelos mesmos meios que se gera e se
Não é, pois, por natureza, nem destrói toda virtude, assim como tdda
contrariando a natureza que as virtu- arte: de tocar a lira surgem os bons e
25 des se geram em nós. Diga-se, antes, os maus músicos. Isso também vale
que somos adaptados por natureza a para os arquitetos e todos os demais;
recebê-las e nos tornamos perfeitos construindo bem, tomam-se bons ar- io
pelo hábito. quitetos; construindo mal, maus. Se
Por outro lado, de todas as cóisas não fosse assim não haveria necessi­
que nos vêm por natureza, primeiro dade de mestres, e todos os homens te­
adquirimos a potência e mais tarde riam nascido bons ou maus em seu
exteriorizamos os atos. Isso é evidente ofício.
no caso dos sentidos, pois não foi por Isso, pois, é o que também ocorre
30 ver ou ouvir freqüentemente que adqui­ com as virtudes: pelos atos que prati­
rimos a visão e a audição, mas, pelo camos em nossas relações com os ho­
contrário, nós as possuíamos antes de mens nos tomamos justos ou injustos;
68 ARISTÓTELES

a pelo que fazemos em presença do peri­ caráter nascem de atividades seme­


go e pelo hábito do medo ou da ousa­ lhantes. É preciso, pois, atentar para a
dia, nos tomamos valentes ou covar­ qualidade dos atos que praticamos,
des. O mesmo se pode dizer dos porquanto da sua diferença se pode
apetites e da emoção da ira: uns se tor­ aquilatar a diferença de caracteres. E
nam temperantes e calmos, outros não é coisa de somenos que desde a
20 intemperantes e irascíveis, portando-se nossa juventude nos habituemos desta
de um modo ou de outro em igualdade ou daquela maneira. Tem, pelo contrá- 25

de circunstâncias. rio, imensa importância, ou melhor:


Numa palavra: as diferenças de tudo depende disso.

2
Uma vez que a presente investiga­ atuantes devem considerar, em cada
ção não visa ao conhecimento teórico caso, o que é mais apropriado à oca­
como as outras — porque não investi­ sião, como também sucede na arte da
gamos para saber o que é a virtude, navegação e na medicina.
mas a fim de nos tom arm os bons, do Mas, embora o nosso tratado seja
contrário o nosso estudo seria inútil desta natureza, devemos prestar tanto 10
3o — , devemos examinar agora a natu­ serviço quanto for possível. Comece­
reza dos atos, isto é, como devemos mos, pois, por frisar que está na natu­
praticá-los; pois que, como dissemos, reza dessas coisas o serem destruídas
eles determinam a natureza dos esta­ pela falta e pelo excesso, como se
dos de caráter que daí surgem. observa no referente à força e à saúde
Ora, que devemos agir de acordo (pois, a fim de obter alguma luz sobre
com a regra justa é um princípio coisas imperceptíveis, devemos recor­
comumente aceito, que nós encampa­ rer à evidência das coisas sensíveis).
remos. Mais tarde19 havemos, de nos Tanto a deficiência como o excesso de u
ocupar dele, examinando o que seja a exercício destroem a força; e, da
regra justa e como se relaciona com as mesma forma, o alimento ou a bebida
no4a outras virtudes. Uma coisa, porém, que ultrapassem determinados limites,
deve ser assentada de antemão, e é tanto para mais como para menos, des-
. que todo esse tratamento de assuntos troem a saúde ao passo que, sendo
de conduta se fará em linhas gerais e tomados nas devidas proporções, a
não de maneira precisa. Desde o produzem, aumentam e preservam.
princípio2 0 fizemos ver que as explica­ O mesmo acontece com a tempe­
ções que buscamos devem estar de rança, a coragem e as outras virtudes, 20
acordo com os respectivos assuntos. pois o homem que a tudo teme e de
Tal como se passa no que se refere à tudo foge, não fazendo frente a nada,
saúde, as questões de conduta e do que torna-se um covarde, e o homem que
é bom para nós não têm nenhuma fixi- não teme absolutamente nada, mas vai
^ dez. Sendo essa a natureza da explica­ ao encontro de todos os perigos, tor­
ção geral, a dos casos particulares será na-se temerário; e, analogamente, o
ainda mais carente de exatidão, pois que se entrega a todos os prazeres e
não há arte ou preceito que os ábranja não se abstém de nenhum toma-se
a todos, mas as próprias pessoas intemperante, enquanto o que evita
I todos os prazeres, òomo fazem os rús­
19 Livro VI, cap. 13. (N. do T.)
20 1 094 b 11-27. (N. do T.) ticos, se tom a de certo modo insensível.l
ÉTICA A NICÔMACO — II 69

A temperança e a coragem, pois, são quem mais está em condições de fazer


destruídas pelo excesso e pela falta, e isso é o homem forte. O mesmo ocorre
preservadas pela mediania. M as não só com as virtudes: tomamo-nos tempe-
as causas e fontes de sua geração e rantes abstendo-nos de prazeres, e é
crescirpento são as mesmas que as de depois de nos tomarmos tais que
seu perecimento, como também é a somos mais capazes dessa abstenção.
mesma esfera de sua atualização. Isto E igualmente no que toca à coragem,
também é verdadeiro das coisas mais poi$ é habituando-nos a desprezar e
evidentes aos sentidos, como a força, arrostar coisas terríveis que nos torna­
por exemplo: ela é produzida pela mos bravos, e depois de nos tomarmos
ingestão de grande quantidade de ali­ tais, somos mais capazes de lhes fazer
mento e por um exercício intenso, e frente.

3
Devemos tomar como sinais indica; efetuarem-se peíos contrários.
tivos do caráter o prazer ou a dor que Ainda mais: como dissemos não faz
acompanham os atos; porque o muito22, todo estado da alma tem uma
homem que se abstém dê prazeres cor­ natureza relativa e concernente à espé­
porais e se deleita nessa própria abs­ cie de coisas que tendem a tom á-la me­
tenção é temperante, enquanto o que se lhor ou pior; mas é em razão dos pra­
aborrece com ela é intemperante; e zeres e dores que os homens se tomam
quem arrosta coisas terríveis e sente maus, isto é, buscando-os ou evitan-
prazer em fazê-lo, ou, pelo menos, não do-os — quer prazeres e dores que não
sofre com isso", é brayo, enquanto o . devem, na ocasião em que não devem
homem que sofre é covarde. Com efei­ ou da maneira pela qual não devem
to, a excelência m o ra l. relaciona-se buscar ou evitar, quer por errarem
com prazeres e dores; é por causa do numa das outras alternativas seme­
prazer que praticamos más ações, e lhantes que se podem distinguir. Por
por causa da dor que nos abstemos de isso, muitos chegam a definir as virtu­
ações nobres. Por isso deveríamos ser des como certos estados de impassivi-
educados de uma determinada maneira dade e repouso; não acertadamente,
desde a nossa juventude, como diz Pla­ porém, porque se exprimem de modo
tão21, a fim de nos deleitarmos e de absoluto, sem dizer “como se deve”,
sòfrermos com as coisas que nos “como não se deve”, “quando se deve
devem causar deleite ou sofrimento, ou não se deve” , e as outras condições
pois essa é a educação certa. que se podem acrescentar. Admitimos,
Por outro lado, se as virtudes dizem pois, que essa espécie de excelência
respeito a ações e paixões, é cada ação tende a fazer o que é melhor com res­
e cada paixão é acompanhada de pra­ peito aos prazeres e às dores, e que o
zer ou de dor, também por este motivo vício faz o contrário.
a virtude se relacionará com prazeres e Os fatos seguintes também nos
dores. Outra coisa que está a indicá-lo podem mostrar que a virtude e o vício
é o fato de ser infligido o castigo por se relacionam com essas mesmas coi­
esses meios; ora, o castigo é uma espé­ sas. Como existem três objetos de
cie de cura, e é da natureza das curas o eçcolha e três de rejeição — o nobre, o

21 Leis, 653 ss.; República, 401-402. (N. do T.) 22 1104 a 27 — 1104 b 3. (N. do T.)
f

70 ARISTÓTELES

vantajoso, o agradável e seus contrá­ pequeno sobre as nossas ações.


rios, o vil, o prejudicial e o doloroso Por outro lado, para usarmos a frase
— , a respeito de todos eles o homem de Heráclito, é mais difícil lutar contra
bom tende a agir certo e o homem mau o prazer do que contra a dor, mas
a agir errado, e especialmente no que tanto a virtude como a arte se orientam
toca ao prazer. Com efeito, além de ser para o mais difícil, que até tom a
comum aos animais, este também melhores as coisas boas. Essa é tam- io
acompanha todos os objetos de esco­ bém a razão por que tanto a virtude
lha, pois até o nobre e o vantajoso se como a ciência política giram sempre
apresentam como agradáveis, em tomo de prazeres e dores, de vez
íiosa Acresce que o agradável e o dolo­ que o homem que lhes der bom uso
roso cresceram conosco desde a nossa será bom e o que lhes der mau uso será
infância, e por isso é difícil conter mau.
essas paixões, enraizadas como estão Demos por assentado, pois, que a
na nossa vida. E, alguns mais e outros virtude tem que ver com prazeres e
5 menos, medimos nossas próprias ações dores; que, pelos mesmos atos de que
pelo estalão do prazer e da dor. Por ela se origina, tanto é acrescida como, is
esse motivo, toda a nossa inquirição se tais atos são praticados de modo
girará em tomo deles, já que, pelo fato diferente, destruída; e que os atos de
de serem legítimos ou ilegítimos, o pra­ onde surgiu a virtude são os mesmos
zer e a dor que sentimos têm efeito não em que ela se atualiza.

Alguém poderia perguntar que en­ entre as artes e as virtudes, porque os


tendemos nós ao declarar que devemos produtos das primeiras têm a sua bon­
tomar-nos justos praticando atos jus­ dade própria, bastando que possuam
tos e temperantes praticando atos determinado caráter; mas porque os
temperantes; porque, se um homem atos que estão de acordo com as virtu­
pratica tais atos, é que já possui essas des tenham determinado caráter, não m
20 virtudes, exatamente como, se faz coi­ se segue que sejam praticados de
sas concordes com as leis da gramática maneira justa ou temperante. Também
e da música, é que já é gramático e é mister que o agente se encontre em
músico. determinada condição ao praticá-los:
Ou não será isto verdadeiro nem se­ em primeiro lugar deve ter conheci­
quer das artes? Pode-se fazer uma mento do que faz; em segundo, deve
coisa que esteja concorde com as leis escolher os atos, e escolhê-los por eles
da gramática, quer por acaso, quer por mesmos; e em terceiro, sua ação deve
sugestão de outrem. Um homem, por- proceder de um caráter firme e imutá­
« tanto, só é gramático quando faz algo vel. Estas não são consideradas como
pertencente à gramática e o faz grama­ condições para a posse das artes, salvo nos b
ticalmente; e isto significa fazê-lo de o simples conhecimento; mas como
acordo com os conhecimentos grama­ condição para a posse das virtudes o
ticais que ele próprio possui. conhecimento pouco ou nenhum peso
Sucede, por outro lado, que neste tem, ao passo que as outras condições
ponto não há similaridade de caso — isto é, aquelas mesmas que resul-
ÉTICA A NICÔMACO — II 71

tam da prática amiudada de atos justos teria sequer a possibilidade de tomar-


e temperantes — são, numa palavra, se bom.
tudo. Mas a maioria das pessoas não pro­
5 Por conseguinte, as ações são cha­ cede assim. Refugiam-se na teoria e
madas justas e temperantes quando pensam que estão sendo filósofos e se
são tais como as que praticaria o tornarão bons dessa maneira. Nisto se «
homem justo ou temperante; mas não é portam, de certo modo, como enfermos
temperante o homem que as pratica, e que escutassem atentamente os seus
sim o que as pratica tal como o fazem médicos, mas não fizessem nada do
os justos e temperantes. É acertado, que estes lhes prescrevessem. Assim
pois, dizer que pela prática de atos jus­ como a saúde destes últimos não pode
tos se gera o homem justo, e pela prá- restabelecer-se com tal tratamento, a
10 tica de atos temperantes", o homem alma dos segundos não se tom ará me­
temperante; sem essa prática, ninguém lhor com semelhante curso de filosofia.

Devemos considerar agora o que é a vados nem censurados por causa de


virtude. Visto que na alma se encon- nossas paixões (o homem que sente
20 tram três espécies de coisas — pai­ medo ou cólera não é louvado, nem é
xões, faculdades e disposições de cará­ censurado o que simplesmente se enco-
ter — , a virtude deve pertencer a uma leriza, mas sim o que se encoleriza de
destas. certo modo); mas pelas nossas virtudes nos»
Por paixões entendo os apetites, a e vícios somos efetivamente louvados e
cólera, o medo, a audácia, á inveja, a censurados.
alegria, a amizade, o ódio, o desejo, a Por outro lado, sentimos cólera e
emulação, a compaixão, e em geral os medo sem nenhuma escolha de nossa
sentimentos que são acompanhados de parte, mas as virtudes são modalidades
prazer ou dor; por faculdades, as coi­ de escolha, ou envolvem escolha. Além s
sas em virtude das quais se diz que disso, com respeito às paixões se diz
somos capazes de sentir tudo isso, ou que somos movidos, mas com respeito
25 seja, de nos irarmos, de magoar-nos ou às virtudeá e aos vícios não se diz que
compadecer-nos; por disposições de somos movidos, e sim que temos tal ou
caráter, as coisas em virtude das quais tal disposição.
nossa posição com referência às pai­ Por estas mesmas razões, também
xões é boa ou má. Por exemplo, com não são faculdades, porquanto nin­
referência à cólera, nossa posição é má guém nos chama bons ou maus, nem
se a sentimos de modo violento ou nos louva ou censura pela simples
demasiado fraco, e boa se a sentimos capacidade de sentir as paixões. Acres­
moderadamente; e da mesma forma no ce que possuímos as faculdades por
que se relaciona com as outras pai­ natureza, mas não nos tomamos bons
xões. ou maus por natureza. Já falamos disto
Ora, nem as virtudes nem os vícios acima23.
são paixões, porque ninguém nos Por conseguinte, se as virtudes não io
chama bons ou maus devido às nossas são paixões nem faculdades, só resta
30 paixões, e sim devido às nossas virtu­
des ou vícios, e porque não somos lou- 23 1 103 a 1 8 — 1103 b 2. (N. do T.)
72 ARISTÓTELES

uma alternativa: a de que sejam dispo­ Mostramos, assim, o que é a virtude


sições de caráter. com respeito ao seu gênero.

6
Não basta, contudo, definir a virtu­ meio-termo, considerado em função do
de como uma disposição de caráter; objeto, porque excede e é excedido por
cumpre dizer que espécie de disposição uma quantidade igual; esse número é
éela. intermediário de acordo com uma pro­
Observemos, pois, que toda virtude porção aritmética. Mas o meio-termo
ou excelência não só coloca em boa relativamente a nós não deve s»er consi­
condição a coisa de que é a excelência derado assim: se dez librás é demais
como também faz com que a função para uma determinada pessoa comer e
dessa coisa seja bem desempenhada. duas libras é demasiadamente pouco,
Por exemplo, a excelência do olho não se segue daí que o treinador pres­
tom a bons tanto o olho como a sua creverá seis libras; porque isso tam­
função, pois é graças à excelência do bém é, talvez, demasiado para a pessoa
olho que vemos bem. Analogamente, a que deve comê-lo, ou demasiadamente
excelência de um cavalo tanto o tom a pouco — demasiadamente pouco para
bom em si mesmo como bom na corri­ Milo e demasiado para o atleta princi­
da, em carregar o seu cavaleiro e em piante. O mesmo se aplica à corrida e
aguardar de pé firme o ataque do ini­ à luta. Assim, um mestre em qualquer
migo. Portanto, se isto vale para todos arte evita o excesso e a falta, buscando
os casos, a virtude do homem também o meio-termo e escolhendo-o — o
será a disposição de caráter que o meio-termo não no objeto, mas relati­
torna bom e que o faz desempenhar vamente a nós.
bem a sua função. Se é assim, pois, que cada arte reali­
Como isso vem a suceder, já o expli­ za bem o seu trabalho — tendo diante
camos atrás2 4, mas a seguinte conside­ dos olhos o meio-termo e julgando
ração da natureza específica da virtude suas obras por esse padrão; e por isso
lançará nova luz sobre o assunto. Em dizemos muitas vezes que às boas
tudo que é contínuo e divisível pode-se obras de arte não é possível tirar nem
tomar mais, menos ou uma quantidade acrescentar nada, subentendendo que o
igual, e isso quer em termos da própria excesso e a falta destroem a excelência
coisa, quer relativamente a nós; e o dessas obras, enquanto o meio-termo a
iguàl é um meio-termo entre o excesso preserva; e para este, como dissemos,
e a falta. Por meio-termo no objeto se voltam os artistas no seu trabalho
entendo aquilo que é eqüidistante de — , e se, ademais disso, a virtude é
ambos os extremos, e que é um só e o mais exata e melhor que qualquer arte,
mesmo para todos os homens; e por como também o é a natureza, segue-se
meio-termo relativamente a nós, o que que a virtude deve ter o atributo de
não é nem demasiado nem demasiada­ visar ao meio-termo. Refiro-me à virtu­
mente pouco — e este não é um só e o de moral, pois é ela que diz respeito às
mesmo para todos. Por exemplo, se paixões e ações, nas quais existe exces­
dez é demais e dois é pouco, seis é o so, carência e um meio-termo.
Por exemplo, tanto o medo como a
24 1104 a 11-27. (N. do T.) confiança, o apetite, a ira, a compai-
ÉTICA A NICÔM ACO — II 73

xão, e em geral o prazer e a dor, podem vícios, um por excesso e outro por
ser sentidos em excesso ou em grau falta; pois que, enquanto os vícios ou
insuficiente; e, num caso como no vão muito longe ou ficam aquém do
20 outro, isso é um mal. Mas senti-los na que é conveniente no tocante às ações 5
ocasião apropriada, com referência e paixões, a virtude encontra e escolhe
aos objetos apropriados, para com as o meio-termo. E assim, no que toca à
pessoas apropriadas, pelo motivo e da sua substância e à definição que lhe
maneira conveniente, nisso consistem estabelece a essência, a virtude é uma
o meio-termo e a excelência caracterís­ mediania; com referência ao sumo bem
ticos da virtude. e ao mais justo, é, porém, um extremo.
Analogamente, no que tange às Mas nem toda ação e paixão admite
ações também existe excesso, carência um meio-termo, pois algumas têm io
25 e um meio-termo. Ora, a virtude diz nomes que já de si mesmos implicam
respeito às paixões e açõés em que o maldade, como o despeito, o despudor,
excesso é uma forma de erro, assim a inveja, e, no campo das ações,, o
como a carência, ao passo que o adultério, o furto, o assassínio. Todas
meio-termo é uma forma de acerto essas coisas e outras semelhantes im­
digna de louvor; e acertar e ser louva­ plicam, nos próprios nomes, que são
da são características da virtude. Em más em si mesmas, e não o seu excesso
conclusão, a virtude é uma espécie de ou deficiência. Nelas jamais pode
mediania, já que, como vimos, ela põe haver retidão, mas unicamente o erro.
a sua mira no meio-termo. E, no que se refere a essas coisas, tam- is
Por outro lado, é possível errar de pouco a bondade ou maldade depen­
muitos modos (pois o mal pertence à dem de cometer adultério com a mu­
3o classe do ilimitado e o bem à do limita­ lher apropriada, na ocasião e da
do, como supuseram os pitagóricos), maneira convenientes, mas fazer sim­
mas só há um modo de acertar. Por plesmente qualquer delas é um mal.
isso, o primeiro é fácil e o segundo difí­ Igualmente absurdo seria buscar um
cil — fácil errar a mira, difícil atingir meio-termo, um excesso e uma falta
o alvo. Pelas mesmas razões, o excesso em atos injustos, covardes ou libidino- 20
e a falta são característicos do vício, e sos; porque assim haveria um meio-
a mediania da virtude: termo do excesso e da carência, um
35 Pois os homens são bons de um modo excesso de excesso e uma carência de
só, e maus de muitos m odos2 5. carência. Mas, do mesmo modo que
A virtude é, pois, uma disposição de não existe excesso nem carência de
caráter relacionada com a escolha e temperança e de coragem, pois o que é
uo7a consistente numa mediania, isto é, a intermediário também é, noutro senti­
mediania relativa a nós, a qual é deter­ do, um extremo, também das ações que
minada por um princípio racional pró­ mencionamos não há meio-termo, nem
prio do homem dotado de sabedoria excesso, nem falta, porque, de qualquer
prática. E é um meio-termo entre dois forma que sejam praticadas, são más.
Em suma, do excesso ou da falta não 25
2 5 Ver Diehl, Elégeia adéspota (Elegias Anôni­ há meio-termo, como também não há
mas), 16. excesso ou falta de meio-termo.
r

74 ARISTÓTELES

7
Não devemos, porém, contentar-nos ro, existem outras disposições: um
com esta exposição geral; é mister meio-termo, a magnificência (pois o
aplicá-la também aos fatos individuais. homem magnificente difere do liberal;
Com efeito, das proposições relativas à o primeiro lida com grandes quantias,
conduta, as universais são mais vazias, o segundo com quantias pequenas);
30 mas as particulares são mais verdadei­ um excesso, a vulgaridade e o mau
ras, porquanto a conduta versa sobre gosto; e uma deficiência, a mesqui­
casos individuais e nossas proposições nhez; estas diferem das disposições 20
devem harmonizar-se com os fatos contrárias à liberalidade, e mais tarde
nesses casos. diremos em quê2 7.
Podemos tomá-los no nosso quadro Com respeito à honra e à desonra, o
geral. Em relação aos sentimentos de meio-termo é o justo orgulho, o exces­
H07b medo e de confiança, a coragem é o so é conhecido como uma espécie de
meio-termo; dos que excedem, o que o “vaidade oca” e a deficiência como
faz no destemor não tem nome (muitas uma humildade indébita; e a mesma
disposições não o têm), enquanto o que relação que apontamos entre a liberali­
excede na audácia é temerário, e o qjie dade e a magnificência, da qual a pri- 25
excede no medo e mostra falta de meira difere por lidar com pequenas
audácia é covarde. Com relação aos quantias, também se verifica aqui, pois
prazeres e dores — não todos, e menos há uma disposição que tem alguns
s no que tange às dores — o meio-termo pontos em comum com o justo orgu­
é a temperança e o excesso é a intem- lho, mas ocupa-se com pequenas hon­
perança. Pessoas deficientes no tocante ras, enquanto a este só interessam as
aos prazeres não são muito encontra- grandes. Porque é possível desejar a
diças, e por este motivo não receberam honra como se deve, mais do que se
nome; chamemo-las, porém, “ insensí­ deve e menos do que se deve, e o
veis”. homem que excede em tais desejos é
No que se refere a dar e receber chamado ambicioso, o que fica aquém
dinheiro o meio-termo é a liberalidade; é desambicioso, enquanto a pessoa
o excesso e a deficiência, respectiva­ intermediária não tem nome.
mente, prodigalidade e avareza. Nesta As disposições também não recebe- 30
io espécie de ações as pessoas excedem e ram nome, salvo a do ambicioso, que
são deficientes de maneiras opostas: o se chama ambição. Por isso, as pes­
pródigo excede no gastar e é deficiente soas que se encontram nos extremos
no receber, enquanto o avaro excede arrogam-se a posição intermediária; e
no receber e é deficiente no gastar. (De nós mesmos às vezes chamamos as
momento, tudo que fazemos é dar um pessoas intermediárias de ambiciosas e
esboço ou sumário, e com isso nos outras vezes de desambiciosas, e ora
is contentamos; mais adiante essas dis­ louvamos a primeira disposição, ora a
posições serão descritas com mais segunda. A razão disso será dada mais nos a
exatidão2 6). adiante28; agora, porém, falemos
Ainda no que diz respeito ao dinhei-
27 1122 a 20-29; 1122 b 10-18. (N. do T.)
2 6 Ver Livro IV, cap. 1. (N. do T.) 2» 1108 b 11-26; 1125 b 14-18. (N. do T.)
ÉTICA A NICÔM ACO — II 75

sobre as demais disposições, de acordo pessoa que mostra deficiência é uma


com o método indicado. espécie de rústico e a sua disposição é
No tocante à cólera também há um a rusticidade.
excesso, uma falta e um meio-termo. Vejamos, finalmente, a terceira espé­
Embora praticamente não tenham cie de aprazibilidade, isto é, a que se
nomes, uma vez que chamamos calmo manifesta na vida em geral. O homem
ao homem intermediário, seja o meio- que sabe agradar a todos da maneira
termo também a calma; e dos que se devida é amável, e o meio-termo é a
encontram nos extremos, chamemos amabilidade, enquanto o que excede os
irascível ao que excede e irascibilidade limites é uma pessoa obsequiosa se não
ao seu vício; e ao que fica aquém da tem nenhum propósito determinado,
justa medida chamemos pacato, e um lisonjeiro se visa áo seu interesse
pacatez à sua deficiência. próprio, e o homem que peca por defi­
Há outros três meios-termos que ciência e se mostra sempre desagra­
diferem entre si, apesar de revelarem dável é uma pessoa mal-humorada e
uma certa semelhança comum. Todos rixenta.
eles dizem respeito ao intercâmbio em Também há meios-termos nas pai­
atos e palavras, mas diferem no seguin­ xões e relativamente a elas, pois que a
te: um se relaciona com a verdade nes­ vergonha não é uma virtude, e não obs­
sas esferas e os outros dois com o que tante louvamos os modestos. Mesmo
é aprazível; e destes, um se manifesta nesses assuntos, diz-se que um homem
em proporcionar divertimento e o é intermediário e um outro excede,
outro em todas as circunstâncias da como, por exemplo, o acanhado que se
vida. É preciso, portanto, falar destes envergonha de tudo; enquanto o que
dois, a fim de melhor compreendermos mostra deficiência e não se envergonha
que em todas as coisas o meio-termo é de coisa alguma é um despudorado, e a
louvável e os extremos nem louváveis pessoa intermediária é modesta.
nem corretos, mas dignos de censura. A justa indignação é um meio-termo
Ora, a maioria dessas disposições tam ­ entre a inveja e o despeito, e estas
bém não receberam nomes, mas deve­ disposições se referem à dor e ao pra­
mos esforçar-nos por inventá-los, para zer que nos inspiram a boa ou má for­
que a nossa exposição seja clara e fácil tuna de nossos semelhantes. O homem
de acompanhar. que se caracteriza pela justa indigna­
No que toca à verdade, o interme­ ção confrange-se com a má fortuna
diário é a pessoa verídica e ao meio- imerecida; o invejoso, que o ultra­
termo podemos chamar veracidade, passa, aflige-se com toda boa fortuna
enquanto a simulação que exagera é a alheia; e o despeitado, longe de se afli­
jactância e a pessoa que se caracteriza gir, chega ao ponto de rejubilar-se.
por esse hábito é jactanciosa; e a que Teremos oportunidade de descrever
subestima é a fafisa modéstia, a que alhures estas disposições29. Quanto à
corresponde a pessoa falsamente mo­ justiça, como o significado deste termo
desta. não é simples, após descrever as outras
Quanto à aprazibilidade no propor­ disposições distinguiremos nele duas
cionar divertimento, a pessoa interme­
diária é espirituosa e ao meio-termo
chamamos espírito; o excesso é a 29 O lugar é incerto; talvez Livro III, cap. 6 —
Livro IV, cap. 9, onde se trata das virtudes morais
chocarrice, e a pessoa caracterizada em conjunto, ou talvez Livro IV, cap. 9, onde se dis­
por ele, um chocarreiro, enquanto a cute a vergonha. (N. do T.)
76 ARISTÓTELES

espécies e mostraremos em que sentido trataremos do mesmo modo as virtu- 10


cada uma delas é um meio-termo; e des racionais.

Existem, pois, três espécies de dispo­ mostram certa semelhança com o


sições, sendo duas delas vícios que meio-termo, como a temeridade com a
envolvem excesso e carência respecti­ coragem e a prodigalidade com a libe­
vamente, e a terceira uma virtude, isto ralidade. Os extremos, porém, mos­
é, o meio-termo. E em certo sentido tram a maior disparidade entre si; ora,
cada uma delas se opõe às outras duas, os contrários são definidos como as
pois que cada disposição extrema é coisas que mais se afastam uma da
contrária tanto ao meio-termo como outra, de modo que as coisas mais
ao outro extremo, e o meio-termo é afastadas entre si são mais contrárias. 35
is contrário a ambos os extremos: assim Ao meio-termo, o mais contrário às 1109 a
como o igual é maior relativamente ao vezes é a deficiência, outras vezes o
menor e menor relativamente ao excesso. Por exemplo, não é a temeri­
maior, também os estados medianos dade, que representa um excesso, mas
são excessivos em confronto com as a covardia, uma deficiência, que mais
deficiências e deficientes quando com­ se opõe à coragem; mas no caso da
parados com os excessos, tanto nas temperança, o que mais se lhe opõe é a
paixões como nas ações. Com efeito, o intemperança, um excesso. 5

bravo parece temerário em relação ao Isso se deve a dois motivos, um dos


20 covarde, e covarde em relação ao quais reside na própria coisa: pelo fato
temerário; e, da mesma forma, o tem­ de um dos extremos estar mais pró­
perante parece um voluptuoso em rela­ ximo do meio-termo e assemelhar-se
ção ao insensível e insensível em rela­ mais a ele, não opomos ao meio-termo
ção ao voluptuoso, e o liberal parece esse extremo, e sim o seu contrário.
pródigo em confronto com o avaro e Por exemplo, como a temeridade é
avaro em confronto com o pródigo. considerada mais semelhante à cora­
Por isso as pessoas que se encontram gem e mais próxima desta, e a covar­
nos extremos empurram uma para a dia mais dessemelhante, é este último
outra a intermediária: o homem bravo extremo que costumamos opor ao
é chamado de temerário pelo covarde e meio-termo; porquanto as coisas que 10
25 covarde pelo temerário, e analoga­ mais se afastam do meio-termo são
mente nos outros casos. consideradas como mais contrárias a
Opostas como são umas às outras ele.
essas disposições, a maior contrarie­ Esta é, pois, a causa inerente à pró­
dade é a que se observa entre os extre­ pria coisa. A outra reside em nós mes­
mos, e não destes para com o meio- mos, pois aquilo para que mais tende­
termo; porquanto os extremos estão mos por natureza nos parece mais
mais longe um do outro que do meio- contrário ao meio-termo. Por exemplo,
termo, assim como o grande está mais nós próprios tendemos mais natural­
30 longe do pequeno e o pequeno do gran­ mente para os prazeres, e por isso
de, do que ambos estão do igual. somos mais facilmente levados à in­
Por outro lado, alguns extremos temperança do que à contenção. Daí
ÉTICA A NICÔM ACO — II 77

dizermos mais contrários ao meio- por isso a intemperança, que é um


termo aqueles extremos a que nos dei- excesso, é mais contrária à tempe-
xamos arrastar com mais freqüência; e rança.

9
20 Está, pois, suficientemente esclare­ pende numa direção e outro em outra;
cido que a virtude moral é um meio- e isso se pode reconhecer pelo prazer e
termo, e em que sentido devemos pela dor que sentimos.
entender esta expressão; e que é um É preciso forçar-nos a ir na direção 5
meio-termo entre dois vícios, um dos do extremo contrário, porque chegare­
quais envolve excesso e o outro defi­ mos ao estado intermediário afastan­
ciência, e isso porque a sua natureza é do-nos o mais que pudermos do erro,
visar à mediania nas paixões e nos como procedem aqueles que procuram
atos. endireitar varas tortas.
Do que acabamos de dizer segue-se Ora, em todas as coisas o agradável
que não é fácil ser bom, pois em todas e o prazer é aquilo de que mais deve­
as coisas é difícil encontrar o meio- mos defender-nos, pois não podemos
25 termo. Por exemplo, encontrar o meio julgá-lo com imparcialidade. A atitude
de um círculo não é para qualquer um, a tom ar em face do prazer é, portanto,
mas só para aquele que sabe fazê-lo; e, a dos anciãos do povo para com Hele- 10
do mesmo modo, qualquer um pode na, e em todas as circunstâncias cum­
encolerizar-se, dar ou gastar dinheiro pre-nos dizer o mesmo que eles; por­
— isso é fácil; mas fazê-lo à pessoa que, se não dermos ouvidos ao prazer,
que convém, na medida, na ocasião, correremos menos perigo de errar. Em
pelo motivo e da maneira que convém, resumo, é procedendo dessa forma que
eis o que não é para qualquer um e teremos mais probabilidades de acertar
tampouco fácil. Por isso a bondade com o meio-termo.
tanto é rara como nobre e louvável. Não há negar, porém, que isso seja
30 Por conseguinte, quem visa ao difícil, especialmente nos casos parti­
meio-termo deve primeiro afastarrse do culares: pois quem poderá determinar 15
que lhe é mais contrário, como aconse­ com precisão de que modo, com quem,
lha Calipso: em resposta a que provocação e duran­
Passa ao largo de tal ressaca e de tal te quanto tempo devemos encolerizar-
surriada30. Com efeito, dos extremos, nos? E às vezes louvamos os que ficam
um é mais errôneo e o outro menos; aquém da medida, qualificando-os de
portanto, como acertar no meio-termo calmos, e outras vezes louvamos os
é extraordinariamente difícil, devemos que se encolerizam, chamando-os de
contentar-nos com o menor dos males, varonis. Não se censura, contudo, o
35 como se costuma dizer; e a melhor homem que se desvia um pouco da
maneira de fazê-lo é a que descreve- bondade, quer no sentido do menos,
no9b mos. Mas devemos considerar as coi­ quer do mais; só merece reproche o
sas para as quais nós próprios somos homem cujo desvio é maior, pois esse 20
facilmente arrastados, porque um nunca passa despercebido.
Mas até que ponto um homem pode
30 Odisséia, X II, 2 19 ss. (N. do T.) desviar-se sem merecer censura? Isso
78 ARISTÓTELES

não é fácil de determinar pelo raciocí­ as coisas o meio-termo é digno de ser


nio, como tudo que seja percebido louvado, mas que às vezès devemos
pelos sentidos; tais coisas dependem de inclinar-nos para o excesso e outras
circunstâncias particulares, e quem de­ vezes para a deficiência. Efetivamente,
cide é a percepção. essa é a maneira mais fácil de atingir o
Fica bem claro, pois, que em todas meio-termo e o que é certo.
LIVRO III
81

3o Visto que a virtude se relaciona com Tais atos, pois, são mistos, mas
paixões e ações, e é às paixões e ações assemelham-se mais a atos voluntários
voluntárias que se dispensa louvor e pela razão de serem escolhidos no
censura, enquanto as involuntárias me­ momento em que se fazem e pelo fato
recem perdão e às vezes piedade, é tal­ de ser a finalidade de uma ação rela­
vez necessário a quem estuda a natu­ tiva às circunstâncias. Ambos esses
reza da virtude distinguir o voluntário termos, “voluntário” e “ involuntário”,
do involuntário. Tal distinção terá devem portanto ser usados com refe- /j
também utilidade para o legislador no rência ao momento da ação. Ora, o
que tange à distribuição de honras e homem age voluntariamente, pois nele
castigos. se encontra o princípio que move as
35 São, pois, consideradas involun­ partes apropriadas do corpo em tais
tárias aquelas coisas que ocorrem sob ações; e aquelas coisas cujo princípio
u ioa compulsão ou por ignorância; e é motor está em nós, em nós está igual­
compulsório ou forçado aquilo cujo mente o fazê-las ou não as fazer.
princípio motor se encontra fora de Ações de tal espécie são, por conse­
nós e para o qual em nada contribui a guinte, voluntárias, mas em abstrato
pessoa que age e que sente a paixão — talvez sejam involuntárias, pois que
por exemplo, se tal pessoa fosse levada ninguém as escolheria por si mesmas.
a alguma parte pelo vento ou por ho­ Por ações dessa espécie os homens
mens que dela se houvessem apodera­ são até louvados algumas vezes, quan­
do. do suportam alguma coisa vil ou dolo­
Mas, quanto às coisas que se prati- rosa em troca de grandes e nobres
5 cam para evitar maiores males ou com objetivos alcançados; no caso contrá­
algum nobre propósito (por exemplo, rio são censurados, porque expor-se às
se um tirano ordenasse a alguém um maiores indignidades sem qualquer
ato vil e esse alguém, tendo os pais e os finalidade nobre ou por um objetivo
filhos em poder daquele, praticasse o insignificante é próprio de um homem
ato para salvá-los de serem mortos), é inferior.
discutível se tais atos são voluntários Algumas ações, em verdade, não
ou involuntários. Algo de semelhante merecem louvor, mas perdão, quando «
acontece quando se lançam cargas ao alguém faz o que não deve sem sofrer
io mar durante uma tempestade; porque, uma pressão superior às forças huma­
em teoria, ninguém voluntariamente nas e que homem algum poderia supor­
joga fora bens valiosos, mas quando tar. Mas há talvez atos que ninguém
assim o exige a segurança própria e da nos pode forçar a praticar e a que
tripulação de um navio, qualquer devemos preferir a morte entre os mais
homem sensato o fará. horríveis sofrimentos; e os motivos que
82 ARISTÓTELES

“forçaram” o Alcmêon de Eurípides a mesmo, julgando-se facilmente arras­


matar a própria mãe nos parecem tado por tais atrativos, e declarar-se
absurdos. É por vezes difícil determi­ responsável pelos atos nobres en­
nar o que se deveria escolher e a que quanto se lança a culpa dos atos vis
custo, e o que deveria ser suportado em sobre os objetos agradáveis.
30 troca de que vantagem; e ainda mais O compulsório parece, pois, ser is
difícil é permanecer firme nas resolu­ aquilo cujo princípio motor se encon­
ções tomadas, pois por via de regra o tra do lado de fora, para nada contri­
que se espera é doloroso e o que somos buindo quem é forçado.
forçados a fazer é vil; donde serem ob­ Tudo o que se faz por ignorância é
jeto de louvor e censura aqueles que «ão-voluntário, e só o que produz dor e
foram ou que não foram compelidos a arrependimento é /«voluntário. Com
agir. efeito, o homem que fez alguma coisa
1 1 10 b Q u e espécie de ações se devem, pois,
devido à ignorância e não se aflige em
chamar forçadas? Respondemos que, absoluto com o seu ato não agiu volun- 20
sem ressalvas de qualquer espécie, as tariamente, visto que não sabia o que
ações são forçadas quando á causa se fazia; mas tampouco agiu involunta­
encontra nas circunstâncias exteriores riamente, já que isso não lhe causa dor
e o agente em nada contribui. Quanto alguma. E assim, das pessoas que
às coisas que em si mesmas são agem por ignorância, as que se arre­
involuntárias, mas, no momento atual pendem são consideradas agentes invo­
e devido às vantagens que trazem con­ luntários, e as que não se arrependem
sigo, merecem preferência, e cujo prin­ podem ser chamadas agentes não-vo-
cípio motor se encontra no agente, luntários, visto diferirem das primei­
essas são, como dissemos, involun- ras; em razão dessa própria diferença,
s tárias em si mesmas, porém, no mo­
devem ter uma denominação distinta.
mento atual e em troca dessas vanta­ Agir por ignorância parece diferir 25
gens, voluntárias. E têm mais
semelhança com as voluntárias, pois também de agir na ignorância, pois do
que as ações sucedem nos casos parti­ homem embriagado ou enfurecido
culares e, nestes, são praticadas volun­ diz-se que age não em resultado da
tariamente. Que espécies de coisas ignorância, mas de uma das causas
devem ser preferidas, e em troca de mencionadas, e contudo sem conheci­
quê? Não é fácil determiná-lo, pois mento do que faz, mas na ignorância.
existem muitas diferenças entre um Ora, todo homem perverso ignora o
caso particular e outro. que deve fazer e de que deve abster-se,
Se alguém afirmasse que as coisas e é em razão de um erro desta espécie
nobres e agradáveis têm um poder ■que os homens se tornam injustos e,
w compulsório porque nos constrangem em geral, maus. Mas o termo “involun­
de fora, para ele todos os atos seriam tário” não é geralmente usado quando 30
compulsórios e forçados, pois tudo que o homem ignora o que lhe traz vanta­
fazemos tem essa motivação. E os que gem — pois não é o propósito equivo­
agem forçados e contra a sua vontade, cado que causa a ação involuntária
agem com dor, mas os que praticam (esse conduziria antes à maldade), nem
atos por sua satisfação própria ou pelo a ignorância do universal (pela qual os
que aqueles têm de nobre fazem-no homens são passíveis de censura), mas
com prazer. É absurdo responsabilizar à ignorância dos particulares, isto é,
as circunstâncias exteriores e não a si das circunstâncias do ato e dos objetos
ÉTICA A NICÔM ACO — III 83

com que ele se relaciona. São justa­ tos mais importantes, que, na opinião
mente esses que merecem piedade e geral, são as circunstâncias e a finali­
' m a perdão, porquanto a pessoa que ignora dade do ato. Além disso, a prática de
qualquer dessas coisas age involunta­ um ato considerado involuntário em
riamente. virtude de uma ignorância desta espé- 20
Talvez convenha determinar aqui a cie deve causar dor e trazer arrependi­
natureza e o número de tais atos. Um mento.
homem pode ignorar quem ele próprio Como tudo o que se faz constrangido
é, o que está fazendo, sobre que coisas ou por ignorância é involuntário, o
ou pessoas está agindo, e às vezes tam- voluntário parece Ser aquilo cujo prin­
s bém qual é o instrumento que usa, com cípio motor se encontra no próprio
que fim (pode pensar, por exemplo, que agente que tenha conhecimento das
está protegendo a segurança de al­ circunstâncias particulares do ato. É
guém) e de que maneira age (se com de presumir que os atos praticados sob
brandura ou com violência, por exem- o impulso da cólera ou do apetite não
plo). mereçam a qualificação de involuntá­
Ora, nenhuma destas coisas um rios. Porque, em primeiro lugar, se fos- 25
homem pode ignorar, a não ser que es­ sem tais, nenhum dos outros animais
teja louco, e também é claro que não agiria voluntariamente, e as crianças
pode ignorar o agente, pois como é tam pouco; e, em segundo lugar, seria o
possível desconhecer a si mesmo? Mas caso de perguntar se o que se entende
é possível ignorar o que se está fazen­ por isso é que não praticamos volunta­
do: costumamos dizer, com efeito, “ele riamente nenhum dos atos devidos ao
deixou escapar estas palavras sem que­ apetite ou à cólera, ou se praticamos
rer” , ou “não sabia que se tratava de voluntariamente os atos nobres e invo­
um segredo”, como se expressou És- luntariamente os vis. Não é absurdo
10 quilo a respeito dos mistérios, ou como isso, quando a causa é uma só e a
aquele homem que disparou a cata­ mesma? Inegavelmente, seria estranho 30
pulta e desculpou-se alegando que só qualificar de involuntárias as coisas
queria mostrar o seu funcionamento e que devemos desejar; e é certo que
ela disparara por si. devemos encolerizar-nos diante de cer­
Também é possível confundir nosso tas coisas e apetecer outras: por exem­
filho com um inimigo, como ocorreu plo, a saúde e a instrução.
com Mérope, ou pensar que uma lança Por outro lado, o involuntário é
pontiaguda tem a ponta embotada, ou considerado doloroso, mas o que está
que uma pedra é pedra-pomes; e pode- de acordo com o apetite é agradável.
se dar a um homem uma poção para Ainda mais: qual a diferença, no que
curá-lo, e ao invés disso matá-lo; e tange à involuntariedade, entre os
também ferir um adversário quando se erros cometidos a frio e aqueles em que
» pretende apenas tocá-lo, como acon­ caímos sob a ação da cólera? Ambos
tece no pugilato. devem ser evitados, mas as paixões
A ignorância pode relacionar-se, irracionais não são consideradas
portanto, com qualquer dessas coisas menos humanas do que a razão; por
— isto é, qualquer das circunstâncias conseguinte, também as ações que pro­
do ato; e do homem que ignorava uma cedem da cólera ou do apetite são
delas diz-se que agiu involuntaria­ ações do homem. Seria estranho, pois,
mente, sobretudo se ignorava os pon­ tratá-las como involuntárias.
84 ARISTÓTELES

2
Tendo sido delimitados desta forma nenhum efeito teriam os nossos esfor­
5 o voluntário e o involuntário, devemos ços pessoais, como, por exemplo, que
passar agora ao exame da escolha, determinado ator ou atleta vença uma 25
que, para os espíritos discriminadores, competição; mas ninguém escolhe tais
parece estar mais estreitamente ligada coisas, e sim aquelas que julga pode­
à virtude do que as ações. rem realizar-se graças aos seus esfor­
A escolha, pois, parece ser voluntá­ ços.
ria, mas não se identifica com o volun­ Além disso, o desejo relaciona-se
tário. O segundo conceito tem muito com o fim e a escolha com os meios.
mais extensão. Com efeito, tanto as Por exemplo: desejamos gozar saúde,
crianças como os animais inferiores mas escolhemos os atos que nos tom a­
participam da ação voluntária, porém rão sadios; e desejamos ser felizes, e
não da escolha; e, embora chamemos confessamos tal desejo, mas não pode­
voluntários os atos praticados sob o mos dizer com acerto que “escolhe­
impulso do momento, não dizemos que mos” ser felizes, pois, de um modo
foram escolhidos. geral, a escolha parece relacionar-se
io Os que a definem como sendo um com as coisas que estão em nosso
apetite, a cólera, um desejo ou uma poder.
espécie de opinião, não parecem ter Também por este motivo, não se 30
razão. Efetivamente, a escolha não é pode identificá-la com a opinião, uma
também comum às criaturas irracio­ vez que esta se relaciona com toda a
nais, mas a cólera e o apetite, sim. Por sorte de coisas, não menos as eternas e
outro lado, o incontinente age com as impossíveis do que as que estão em
apetite, porém não com escolha; o nosso poder; e, por outro lado, ela se
is continente, pelo contrário, age com distingue pela verdade ou falsidade, e
escolha, porém não com apetite. Ainda não pela bondade ou maldade, en­
mais: há contrariedade entre apetite e quanto a escolha se caracteriza acima
escolha, mas entre apetite e apetite, de tudo por estas últimas.
não. E ainda: o apetite relaciona-se Ora, com a opinião em geral não há
com o agradável e o doloroso; a esco­ ninguém que a identifique. Nós, 1112a
lha, nem com um, nem com o outro. porém, acrescentamos que ela não é
Se assim acontece com o apetite, idêntica a nenhuma espécie de opinião.
tanto mais com a cólera; porquanto Com efeito, por escolher o que é bom
os atos inspirados por esta são consi­ ou mau somos homens de um determi­
derados ainda menos objetos de esco­ nado caráter, mas não o somos por
lha do que os outros. sustentar esta ou aquela opinião. E
20 Nem tampouco o é o desejo, embora escolhemos obter ou evitar algo bom
pareça estar mais próximo dela. Com ou mau, mas temos opiniões sobre o
efeito, a escolha não pode visar a coi­ que seja uma coisa, para quem ela é
sas impossíveis, e quem declarasse boa e de que maneira é boa para ele; e
escolhê-las passaria por tolo e ridículo; não seria muito acertado dizer que
mas pode-se desejar o impossível — a “opinamos” obter ou evitar uma coisa 5
imortalidade, por exemplo. E o desejo qualquer.
pode relacionar-se com coisas em que Acresce que a escolha é louvada
ÉTICA A NICÔM ACO — III 85

pelo fato de relacionar-se com o objeto Não faz diferença que a opinião pre­
conveniente, e não de relacionar-se ceda a escolha ou a acompanhe, pois
convenientemente com ele, ao passo não é isso que estamos examinando,
que a opinião é louvada quando tem mas sim se a escolha é idêntica a algu­
uma relação verdadeira com o seu ma espécie de opinião.
objeto. E também escolhemos o que Que é ela, pois, e que espécie de
sabemos ser melhor, tanto quanto nos coisa é, se não se identifica com nenhu- ;5
é dado sabê-lo, mas opinamos sobre o ma daquelas que examinamos? Parece
que não sabemos exatamente; e não ser voluntária, mas nem tudo que é
são as mesmas pessoas que passam voluntário parece ser objeto de esco­
por fazer as melhores escolhas e sus- lha. Será, pois, aquilo que decidimos
10 tentar as melhores opiniões, mas de numa análise anterior? De qualquer
algumas se diz que têm excelentes opi­ forma, a escolha envolve um princípio
niões, e no entanto padecem de um racional e o pensamento. Seu próprio
vício qualquer que as impede de esco­ nome parece sugerir que ela é aquilo
lher bem. que colocamos diante de outras coisas.

Mas delibera-se acerca de toda citas. Com efeito, nenhuma dessas coi­
coisa, e toda coisa é um possível sas pode realizar-se pelos nossos esfor­
assunto de deliberação, ou esta é ços.
impossível a respeito de algumas? Deliberamos sobre as coisas que 30
20 É de presumir que devamós chamar estão ao nosso alcance e podem ser
objeto de deliberação não àquilo que realizadas; e essas são, efetivamente,
um néscio ou um louco deliberaria, as que restam. Porque como causas
mas àquilo sobre que pode deliberar admitimos a natureza, a necessidade, o
um homem sensato. Ora, sobre coisas acaso, e também a razão e tudo que
eternas ninguém delibera: por exem­ depende do homem. Ora, cada classe
plo, sobre o universo material ou sobre de homem delibera sobre as coisas que
a incomensurabilidade da diagonal podem ser realizadas pelos seus esfor­
com o lado do quadrado. E tampouco ços. E no caso das ciências exatas e
deliberamos sobre as coisas que envol­ auto-suficientes não há deliberação,
vi vem movimento, mas sempre aconte­ como, por exemplo, a respeito das le- 1112b
cem do mesmo modo, quer necessaria­ tras do alfabeto (pois não temos dúvi­
mente, quer por natureza ou por das quanto à maneira de escrevê-las);
alguma outra causa, como os solstícios ao contrário as coisas que são realiza­
e ò nascimento das estrelas; nem a res­ das pelos nossos esforços, mas nem
peito de coisas que acontecem ora de sempre do mesmo modo, essas sãQ
um modo, ora de outro, como as secas objetos de deliberação: os problemas
e as chuvas; nem sobre acontecimentos de tratamento médico e de comércio,
fortuitos, como a descoberta de um por exemplo. E deliberamos mais no 5
tesouro. E nem sequer deliberamos caso da navegação do que no da ginás­
sobre todos os assuntos humanos: por tica, porque aquela está mais longe de
exemplo, nenhum espartano delibera ser exata. E nas outras coisas igual­
sobre a melhor constituição para os mente; mais, porém, quanto às artes do
86 ARISTÓTELES

que quanto às ciências, pois que as pri­ O objeto da investigação são por
meiras comportam maiores dúvidas. vezes os instrumentos e por vezes o
Delibera-se a respeito das coisas que uso a dar-lhes; e analogamente nos ou- m
comumente acontecem de certo modo, tros casos: por vezes o meio, outras
mas cujo resultado é obscuro, e daque- vezes a maneira de usá-lo ou de
10 las em que este é indeterminado. E nas produzi-lo.
coisas de grande monta tomamos Parece, pois, como já ficou dito, que
conselheiros, por não termos confiança o homem é um princípio motor de
em nossa capacidade de decidir. ações; ora, a deliberação gira em tomo
Não deliberamos acerca de fins, mas de coisas a serem feitas pelo próprio
a respeito de meios. Um médico, por agente, e as ações têm em vista outra
exemplo, não delibera se há de curar coisa que não elas mesmas. Com efei­
ou não, nem um orador se há de per­ to, o fim não pode ser objeto de delibe­
suadir, nem um estadista se há de ração, mas apenas o meio. E tampouco
implantar a ordem pública, nem qual­ podem sê-lo os fatos particulares: por una
quer outro delibera a respeito de sua exemplo, se isto é pão e se foi assado
15 finalidade. Dão a finalidade por esta­ como devia, pois tais coisas são obje­
belecida e consideram a maneira e os tos de percepção. Se quiséssemos deli­
meios de alcançá-la; e, se parece poder berar sempre, teríamos de continuar
ser alcançada por vários meios, procu­ até o infinito.
ram o mais fácil e o mais eficaz; e se É a mesma coisa aquela sobre que
por um só, examinam como será alcan­ deliberamos e a que escolhemos, salvo
çada por ele, e por que outro meio estar o objeto de escolha já determi­
alcançar esse primeiro, até chegar ao nado, já que aquilo por que nos decidi­
primeiro princípio, que na ordem de mos em resultado da deliberação é o
descobrimento é o último.
objeto da escolha. Efetivamente, todos j
2o Com efeito, a pessoa que delibera
cessam de indagar como devem agir
parece investigar e analisar da maneira
depois que fizeram voltar o princípio
que descrevemos, como se analisasse
motor a si mesmos e à parte dirigente
uma construção geométrica (nem toda
investigação é deliberação: vejam-se, de si mesmos, pois é essa que escolhe.
por exemplo, as investigações matemá­ Isto se pode ver também nas antigas
ticas; mas toda deliberação é investiga­ constituições tais como no-las mostra
ção); e o que vem em último lugar na Homero, onde os reis anunciavam ao
ordem da análise parece ser primeiro povo o que haviam escolhido.
25 na òrdem da geração. E se chegamos a Sendo, pois, o objeto de escolha w
uma impossibilidade, renunciamos à uma coisa que está ao nosso alcance e
busca: por exemplo, se precisamos de que é desejada após deliberação, a
dinheiro e não há maneira de conse- escolha é um desejo deliberado de coi­
gui-lo; mas se uma coisa parece possí- • sas que estão ao nosso alcance; por­
vel, tratamos de fazê-la. Por coisas que, após decidir em resultado de uma
“possíveis” entendo aquelas que se deliberação, desejamos de acordo com
podem realizar pelos nossos esforços; o que deliberamos.
e, em certo sentido, isto inclui as que Consideremos, pois, como descrita
podem ser postas em prática pelos em linhas gerais a escolha, estabele­
esforços de nossos amigos, pois que o cida a natureza dos seus objetos e o
■princípio motor está em nós mesmos. fato de que ela diz respeito aos meios.
ÉTICA A NICÔM ACO — III 87

Já mostramos que o desejo tem por desejo para o homem bom, e que qual­
objeto o fim; alguns pensam que esse quer coisa pode sê-lo para o homem
fim é o bem, e outros que é o bem apa­ mau, assim como, no caso dos corpos,
rente. Ora, os primeiros terão de admi­ as coisas que em verdade são saudá­
tir, como conseqüência de sua premis­ veis o são para os corpos em boas
sa, que a coisa desejada pelo homem condições, enquanto para os corpos
que não escolhe bem não é realmente enfermos outras coisas é que são
um objeto de desejo (porque, se o saudáveis, ou amargas, doces, quentes,
fosse, deveria ser boa também; mas no pesadas, e assim por diante? Com efei­
caso que consideramos é má). Por to, o homem bom aquilata toda classe
outro lado, os que afirmam ser objeto de coisas com acerto, e em cada uma
de desejo o bem aparente devem admi­ delas a verdade lhe aparece com clare­
tir que não existe objeto natural de za; mas cada disposição de caráter tem
desejo, mas apenas o que parece bom a suas idéias próprias sobre o nobre e o
cada homem é desejado por ele. Ora, agradável, e a maior diferença entre o
coisas diferentes e até contrárias pare­ homem bom e os outros consiste, tal­
cem boas a diferentes pessoas. vez, em perceber a verdade em, cada
Se estas conseqüências desagradam, classe de coisas, como quem é delas a
deveremos dizer que em absoluto e em norma e a medida. Na maioria dos
verdade o bem é o objeto de desejo, casos o engano deve-se ao prazer, que
mas para cada pessoa em particular o parece bom sem realmente sê-lo; e por
é o bem aparente; que aquilo que em isso escolhemos o agradável como um
verdade é objeto de desejo é objeto de bem e evitamos a dor como um mal.

Sendo, pois, o fim aquilo que deseja­ do isso é vil. Logo, depende de nós pra­
mos, e o meio aquilo acerca do qual ticar atos nobres ou vis, e se é isso que
deliberamos e que escolhemos, as se entende por ser bom ou mau, então
ações relativas ao meio devem concor­ depende de nós sermos virtuosos ou
dar com a escolha e ser voluntárias. viciosos.
Ora, o exercício da virtude diz respeito O aforismo “ninguém é voluntaria­
aos meios. Por conseguinte, a virtude mente mau, nem involuntariamente
também está em nosso poder, do feliz” parece ser em parte falso e em
mesmo modo que o vício, pois quando parte verdadeiro, porque ninguém é
depende de nós o agir, também depen­ involuntariamente feliz, mas a malda­
de o não agir, e vice-versa; de de é voluntária. Do contrário, teremos
modo que quando temos o poder de de contestar o que se acabou de dizer,
agir quando isso é nobre, também e negar que o homem seja um princípio
temos o de não agir quando é vil; e se motor e pai de suas ações como o é de
está em nosso poder o não agir quando seus filhos. Mas, se esses fatos são evi­
isso é nobre, também está o agir quan- dentes e não podemos referir nossas
88 ARISTÓTELES

ações a outros princípios motores que responsáveis por serem injustos ou


não estejam em nós mesmos, os atos intemperantes, no primeiro caso bur­
cujos princípios motores se encontram lando o próximo e no segundo pas­
em nós devem também estar em nosso sando o seu tempo em orgias e coisas
poder e ser voluntários. que tais; pois são as atividades exerci­
Isto parece ser confirmado tanto por das sobre objetos particulares que
indivíduos na sua vida particular como fazem o caráter correspondente. Bem o
pelos próprios legisladores, os quais mostram as pessoas que se treinam
punem e castigam os que cometeram para uma competição ou para uma
atos perversos, a não ser que tenham ação qualquer, praticando-a constante­
sido forçados a isso ou agido em resul­ mente.
tado de uma ignorância pela qual eles Ora, ignorar que é pelo exercício de
próprios não fossem responsáveis; e, atividades sobre objetos particulares
por outro lado, honram os que pratica­ que se formam as disposições de cará­
ram atos nobres, como se tencio- ter é de homem verdadeiramente insen­
nassem estimular os segundos e refrear sato. Não menos irracional é supor que
os primeiros. Mas ninguém é estimu­ um homem que age injustamente não
lado a fazer coisas que não estejam em deseja ser injusto, ou aquele que corre
seu poder nem sejam voluntárias; atrás de todos os prazeres não deseja
admite-se que não há vantagem nenhu­ ser intemperante. Mas quando, sem ser
ma em sermos persuadidos a não sentir ignorante, um homem faz coisas que o
calor, fome, dor e outras sensações do tom arão injusto, ele será injusto volun­
mesmo gênero, já que não as senti­ tariamente. Daí não se segue, porém,
ríamos menos por isso. E sucede até que, se assim o desejar, deixará de ser
que um homem seja punido pela sua injusto e se tom ará justo. Porque tam­
própria ignorância quando o julgam pouco o que está enfermo se cura nes­
responsável por ela, como no caso das sas condições.
penas dobradas para os ébrios; pois o Podemos supor o caso de um
princípio motor está no próprio indiví­ homem que seja enfermo voluntaria­
duo, visto que ele tinha o poder de não mente, por viver na incontinência e
se embriagar, e o fato de se haver desobedecer aos seus médicos. Nesse
embriagado foi causa da sua ignorân­ caso, a princípio dependia dele o não
cia. E punimos igualmente aqueles que ser doente, mas agora não sucede
ignoram quaisquer prescrições das leis, assim, porquanto virou as costas à sua
quando a todos cumpre conhecê-las e oportunidade — tal como para quem
isso não é difícil; e da mesma forma arremessou uma pedra já não é possí­
em todos os casos em que a ignorância vel recuperá-la; e contudo estava em
seja atribuída à negligência: presumi­ seu poder não arremessar, visto que o
mos que dependa dos culpados o não princípio motor se encontrava nele. O
ignorar, visto que têm o poder de infor­ mesmo sucede com o injusto e o intem­
mar-se diligentemente. perante: a princípio dependia deles não
Mas talvez um homem seja feito de se tomarem homens dessa espécie, de
tal modo que não possa ser diligente. modo que é por sua própria vontade
Sem embargo, tais homens são respon­ ■que são injustos e intemperantes; e
sáveis em razão da vida indolente que agora que se tom aram tais, não lhes é
levam, por se haverem tomado pessoas possível ser diferentes.
dessa espécie. Os homens tomam-se Mas hão só os vícios da alma são
ÉTICA A NICÔM ACO — III 89

voluntários, senão que também os do Se isto é verdade, como será a virtu­


corpo o são para alguns homens, aos de mais voluntária do que o vício?
quais censuramos por isso mesmo: ao Tanto para o homem bom como para o
passo que ninguém censura os que são mau, o fim se apresenta tal e é fixado is
25 feios por natureza, censuramos os que pela natureza ou pelo que quer que
o são por falta de exercício e de cuida­ seja, e todos os homens agem referindo
do. O mesmo vale para a fraqueza e a cada coisa a ele.
invalidez: ninguém condenaria um Portanto, quer não seja por natureza
cego de nascença, por doença ou por que o fim se apresente a cada homem
efeito de algum golpe, mas todos tal como se apresenta, algo todavia
censurariam um homem que tivesse ce­ também depende dele; quer o fim seja
gado em conseqüência da embriaguez natural, uma vez que o homem bom
ou de alguma outra forma de intempe- adota voluntariamente o meio, a virtu­
rança. de é voluntária — o vício não será 20
Dos vícios do corpo, pois, os que menos voluntário, pois no homem mau
dependem de nós são censurados e os está igualmente presente aquilo que
30 que não dependem não o são. E, assim depende dele próprio em seus atos, em­
sendo, também nos outros casos os ví­ bora não na sua escolha de um fim. Se,
cios que são objetos de censura devem pois, como se afirma, as virtudes são
depender de nós. voluntárias (pois nós próprios somos
Alguém poderia objetar que todos em parte responsáveis por nossas dis­
os homens desejam o bem aparente, posições de caráter, e é por sermos pes­
mas não têm nenhum controle sobre a soas de certa espécie que concebemos
aparência, e que o fim se apresenta a 0 fim como sendo tal ou tal), os vícios 25
cada um sob uma forma correspon- também serão voluntários, porque o
iiHb dente ao seu caráter. A isso respon­
1
mesmo se aplica a eles.
demos que, se cada homem é de certo
modo responsável pela sua disposição Quanto às virtudes em geral, esbo­
de ânimo, será também de certo modo çamos uma definição do seu gênero,
responsável pela aparência; do contrá­ mostrando que são meios e também
rio, ninguém seria responsável pelos que são disposições de caráter; e, além
seus maus atos, mas todos os pratica- disso, que tendem por sua própria
5 riam pela ignorância do fim, julgando natureza para a prática dos atos que as
que com eles lograriam o melhor. Ora, produzem; que dependem de nós, são
visar ao fim não depende da nossa voluntárias e agem de acordo com as
escolha, mas é preciso ter nascido com prescrições da regra justa. Mas as jo

um sexto sentido, por assim dizer, que ações e as disposições de caráter não
nos permita julgar com acerto e esco­ são voluntárias do mesmo modo, por­
lher o que é verdadeiramente bom; e que de princípio a fim somos senhores
realmente bem dotado pela natureza é de nossos atos se conhecemos as
quem o possui. Com efeito, isso é o tcircunstâncias;

mas, embora contro-
que há de mais nobre, e não podemos lemos o despontar de nossas disposi- ms.
adquiri-lo nem aprendê-lo de outrem, ções de caráter, o desenvolvimento
mas o possuímos sempre tal como nos gradual não é óbvio, como não o é tam­
foi dado ao nascer; e ser bem e nobre- bém na doença; no entanto, como esta­
io mente dotado dessa qualidade é a per­ va em nosso poder agir ou não agir de
feição e a cúpula de ouro dos dotes tal maneira, as disposições são volun­
naturais. tárias.
90 ARISTÓTELES

Tomemos, porém, as várias virtudes relacionam com elas; e ao mesmo


e digamos quais são, com que espécies tempo se verá quantas são. Em pri-
de coisas se relacionam, e como se meiro lugar falemos da coragem.

6
Que a coragem é um meio-termo em gem quando está para ser açoitado.
relação aos sentimentos de medo e Com que espécie de coisas terríveis, 25
confiança já foi suficientemente escla­ então, se relaciona a bravura?
recido3 1; e, evidentemente, as coisas Seguramente, com as maiores, pois
que tememos são coisas terríveis, que ninguém como o homem bravo é capaz
qualificamos sem reservas de males; e de fazer frente ao que aterroriza o
por este motivo alguns chegam a defi- comum das pessoas. Ora, a morte é a
io nir o medo como uma expectação do mais terrível de todas as coisas, pois
mal. ela é o fim, e acredita-se que para os
Ora, nós tememos todos os males, mortos já não há nada de bom ou mau.
como o desprezo, a pobreza, a doença, Mas a bravura não parece relacionar-
a falta de amigos, a morte; mas não se se sequer com a morte em todas as
pensa que a bravura se relacione com circunstâncias — como no mar ou nas
todos eles, pois que temer certas coisas doenças, por exemplo. Em que circuns­
é até justo e nobre, e vil o não se arre- tâncias, então?
cear delas. O desprezo, por exemplo: Sem a menor dúvida, nas mais 30
quem o teme é pessoa boa e recatada, e nobres. Ora, essas mortes são as que
desavergonhada quem não o teme. No ocorrem em batalha, pois é em face
entanto, alguns chamam bravo a um dos maiores e mais nobres perigos que
is tal homem, por uma transferência do se verificam. E por isso mesmo são
sentido da palavra, visto ter ele algo honradas nas cidades-Estados e nas
em comum com o homem bravo, que cortes dos monarcas. Propriamente
também é destemido. falando, pois, é chamado bravo quem
Quanto à pobreza e à doença, talvez se mostra destemido em face de uma
não devêssemos temê-las, nem, em morte honrosa e de todas as emergên­
geral, às coisas que não procedem do cias que envolvem o perigo de morte; e
vício e não dependem de nós próprios. as emergências da guerra são, em
Mas tampouco o homem que não as sumo grau, desta espécie. is
receia é bravo. No entanto, aplica­ Mas também no mar e na doença o
mos-lhe o termo, também em virtude homem bravo é destemido, se bem que msb
20 de uma semelhança, pois alguns que não do mesmo modo que o mari­
são covardes diante dos perigos da nheiro; porque ele renunciou à espe­
guerra mostram-se liberais e corajosos rança de salvar-se e detesta a idéia
em face da perda de dinheiro. dessa espécie de morte, enquanto aque­
Tampouco é covarde o homem que les se mantêm esperançosos devido à
teme os insultos à sua esposa e a seus sua experiência. Por outro lado, somos 5
filhos, a inveja ou qualquer coisa dessa corajosos em situações que nos permi­
espécie; nem é bravo se mostra cora- tem mostrar o nosso valor ou em que a
morte seja nobre; mas nas formas de
morte que acabamos de apontar ne­
31 1107 a 33 — 1107 b 4. (N. do T.) nhuma dessas condições se realiza.
ÉTICA A NICÔM ACO — III 91

As coisas terríveis não são as mes­ cede no destemor não tem nome (já «
mas para todos os homens. Dizemos, dissemos anteriormente que muitas
contudo, que algumas o são além das disposições de caráter não o têm32),
forças humanas. Essas, pois, são terrí­ mas seria uma espécie de louco ou de
veis para todos — ao menos para todo homem insensível se nada temesse,
homem no seu juízo normal; mas as nem os terremotos nem as ondas,
que não ultrapassam as forças huma- como dizem que são os celtas; en­
10 nas diferem em magnitude e grau, quanto o homem que excede na con­
assim como as coisas que inspiram fiança com respeito ao que é realmente
confiança. terrível é temerário. Considera-se, por
Ora, os bravos são tão indômitos isso, o homem temerário como um 30
quanto pode sê-lo um homem. Por jactanciòso e um mero simulador de
isso, embora temam também as coisas coragem. Seja como for, o que o bravo
que não estão acima das forças huma­ é com relação às coisas terríveis, o
nas, enfrentam-nas como devem e temerário deseja parecer; portanto,
como prescreve a regra, a bem da imita-o nas situações em que lhe é pos­
sível fazê-lo. Daí também o serem, a
honra; pois essa é a finalidade da virtu­ maioria deles, uma mistura de temeri­
de. Mas é possível temê-las mais ou dade e covardia; porque, embora mos­
menos, e também temer coisas que não trem arrojo em tais situações, não se
15 são terríveis como se o fossem. Dos
mantêm firmes contra o que é real­
erros que se podem cometer, um .con­ mente terrível.
siste em temer o que não se-deve, outro O homem que excede no medo é um
em temer como não se deve, outro
covarde, porque teme tanto o que deve js
quando não se deve, e assim por dian­ como o que não deve, e todas as carac­
te; e da mesma forma quanto às coisas terísticas do mesmo gênero lhe são
que inspiram confiança. Por conse­ aplicáveis. Falta-lhe igualmente con- mis
guinte, o homem que enfrenta e que fiança, mas faz-se notar principal­
teme as coisas que deve e pelo devido mente pelo excesso de medo em situa­
motivo, da maneira e na ocasião devi­ ções difíceis. O covarde é, por isso, um
das, e que mostra confiança nas condi­ homem dado ao desespero, pois teme
ções correspondentes, é bravo; porque todas as coisas. O bravo, por outro
o homem bravo sente e age conforme lado, tem a disposição contrária, pois a
20 os méritos do caso e do modo que a confiança é a marca característica de
regra prescreve. um natural esperançoso.
Õra, o fim de toda atividade é a Em suma, a covardia, a temeridade
conformidade com a correspondente e a bravura relacionam-se com os mes­
disposição de caráter. Ora, a coragem mos objetos, mas revelam disposições 5
é nobre; portanto, seu fim também é diferentes para com eles, pois as duas
nobre, pois cada coisa é definida pelo primeiras vão ao excesso ou ficam
seu fim. Donde se conclui que é com aquém da medida, ao passo que a ter­
uma finalidade nobre que o homem ceira mantém-se na posição mediana,
bravo age e suporta conforme lhe que é a posição correta. Os temerários
aponta a coragem.
Dos que vão aos excessos, o que ex­ 32 1107 b 2; cf. 1107 b 29, 1108 a 5. (N. do T.)
92 ARISTÓTELES

são precipitados e desejam os perigos homem corajoso escolhe e suporta coi­


com antecipação, mas recuam quando sas porque é nobre fazê-lo, ou porque é
os têm pela frente, enquanto os bravos vil deixar de fazê-lo. Contudo, morrer
são ardentes no momento de agir, mas para escapar à pobreza, ao amor ou ao
fora disso são tranqüilos. que quer que seja de doloroso não é
Como dissemos, pois, a coragem é próprio de um homem bravo, mas
um meio-termo no tocante às coisas antes de um covarde. Porquanto é mo­
que inspiram confiança ou medo, nas leza fugir do que nos atormenta, e um
circunstâncias que descrevemos33; e o homem dessa espécie suporta a morte
não por ela ser nobre, mas para exi-
33 Cap. 6. (N. do T.) mir-se ao mal.

A coragem é, pois, algo como o que gem estão a vergonha, o desejo de um


descrevemos, mas o nome também se nobre objeto (a honra) e o medo à
aplica a cinco outras espécies. desonra, que é ignóbil. Poder-se-iam
( 1) Em primeiro lugar vem a cora­ incluir nesta classe mesmo aqueles que
gem do cidadão-soldado, que é a que são forçados pelos seus governantes;
mais se assemelha à verdadeira cora­ mas esses são inferiores, pois o que
gem. Os cidadãos-soldados parecem fazem não é por sentimentos de honra,
enfrentar os perigos em virtude das mas por medo, e não para evitar o que
penas cominadas pelas leis e das cen­ é vergonhoso, e sim o que é doloroso.
suras em que incorreriam se assim não Com efeito, os seus chefes os compe­
procedessem, e também por causa das lem como Heitor3 7:
honras que lhes valerá a sua ação. Por Mas, se eu deparar com algum poltrão
isso afiguram-se mais bravos aqueles [a tremer longe da refrega,
povos entre os quais os covardes são Em vão esperará ele escapar aos cães.
expostos à desonra, e os bravos são E o mesmo fazem os que os colocam
honrados. Essa é a espécie de coragem nos seus postos e os espancam quando
retratada por Homero, por exemplo, recuam38, ou os que os dispõem em
em Diômedes e em Heitor: fileiras com fossos ou coisas seme­
Primeiro Polidamas amontoará censu­ lhantes à retaguarda: todos esses usam
r a s sobre m im 3 4; e a compulsão. Mas deve-se ser bravo
Pois um dia, entre os troianos, Heitor não sob coação, e sim porque isso é
[dirá com soberba: nobre.
Medroso f o i Tídides, e fugiu da minha (2) A experiência com relação a
[frente3 5. fatos particulares é também conside­
Esta espécie de coragem é a que rada como coragem; aí temos, em ver­
mais se assemelha à acima descrita3 6, dade, a razão pela qual Sócrates identi-
porque se deve à virtude; em sua ori-
3 7 A citação de Aristóteles assemelha-se mais à
3 4 Ilíada, XXII, 100. (N. do T.) Ilíada, II, 391-3, onde fala Agamênon, do que à XV,
3 5 Ibid., VIII, 148-149. (N. do T.) 348-51, onde fala Heitor. (N. do T.)
3 6 Caps. 6 e 7. (N. do T.) 3 • Cf. Heródoto, VII, 223. (N. do T.)
ÉTICA A NICÔM ACO — III 93

ficava a coragem com o conhecimento. xão3 9 ” , “'despertou-lhes ■o ' ânimo e a


Outras pessoas revelam essa qualidade paixão4 0 ”, “respirava forte, ofegan-
diante de outros perigos, e os soldados d o 41”, e “seu sangue fervia” . Todas
profissionais nos perigo da guerra; estas expressões parecem indicar o ím­
pois na guerra parece haver muitos peto e o tumulto da paixão.
alarmas infundados, dos quais esses Ora, os bravos agem com a mira na 30
homens têm a mais ampla experiência; honra, mas são auxiliados pela paixão,
e por isso parecem bravos, uma vez enquanto as feras agem sob a in­
que os outros ignoram a natureza dos fluência da dor: atacam porque foram
10 fatos. Por outro lado, sua experiência feridas ou porque têm medo, pois que
os tom a capacíssimos no ataque e na nunca se aproximam de quem se extra­
defesa, porquanto sabem fazer bom via numa floresta. E assim não são
uso das armas e dispõem das melhores bravas porque, impelidas pela dor e
tanto para atacar como pára defender- pela paixão, atiram-se aos perigos sem
se. Batem-se, por conseguinte, como prevê-los. Do contrário, até os asnos 35
homens armados contra homens desar­ seriam bravos quando têm fome, pois
mados, ou como atletas bem treinados não há força de golpes que os faça
contra amadores, pois também nesses afastar do seu pasto; e também a luxú- un
encontros não é o mais bravo que me­ ria leva os adúlteros a cometer muitos
lhor luta, mas o mais forte e o que tem atos audaciosos. (Não são bravas,
is o corpo em melhores condições. pois, aquelas criaturas que a dor ou a
Os soldados profissionais mostram- paixão impele para diante do perigo.)
se covardes, no entanto, quando a ten­ A “coragem” devida à paixão parece
são do perigo é muito grande e quando ser a mais natural, tomando-se verda­
são inferiores em número e em equipa­ deira coragem quando se lhe ajuntam a
mento. E são os primeiros .a fugir, ao escolha e o motivo.
passo que as milícias de cidadãos pere­ Os homens, pois, assim como os 5
cem nos seus postos, como realmente animais, experimentam dor quando
sucedeu no templo de Hermes. Com estão irados e prazer quando se vin­
efeito, para estes últimos a fuga é gam. Os que lutam por esses motivos,
desonrosa, e morrer é preferível a sal- no entanto, são pugnazes, mas não são
20 var-se em tais condições; enquanto os bravos, porquanto não agem tendo em
primeiros desde o princípio enfren­ vista a honra nem como prescreve a
taram o perigo na convicção de que regra, mas levados pela força da emo­
eram os mais fortes, e ao terem conhe­ ção. Sem embargo, existe neles algo
cimento da realidade fogem temendo que tem afinidade com a coragem.
mais a morte do que a desonra. O (4) Tampouco as pessoãs otimistas 10
bravo, porém, não procede assim. são bravas, pois essas mostram con­
(3) A paixão também é confundida
fiança diante do perigo só porque ven­
às vezes com a coragem. Os que agem ceram muitas vezes e contra muitos
sob o impulso da páixão, como feras inimigos. E contudo assemelham-se de
que se arremessam sobre os que as feri- perto aos bravos, porque ambos são
25 ram, são considerados bravos, porque confiantes; mas os bravos são confian­
os homens bravos também são apaixo­ tes pelas razões que expusemos
nados. Com efeito, a paixão, mais do
que qualquer outra coisa, anseia por 39 Isto é uma fusão de Ilíada, XI, 11 ou XIV, 151,
e XVI, 529. (N. do T.)
atirar-se ao perigo; daí as frases de 4 0 Cf. Ilíada, V, 470; XV, 232,594. (N. do T.)
Homero: “ instilou força na sua pai­ 41 Cf. Odisséia, XXIV, 318 ss. (N. do T.)
94 ARISTÓTELES

atrás42, enquanto estes o são porque regra, mas os atos imprevistos devem
supõem serem os mais fortes e incapa­ estar de acordo com a disposição de
zes de sofrer o que quer que seja. (Os caráter do agente.
bêbedos também se portam dessa ma- (5) As pessoas que ignoram o peri­
15 neira: tornam-se otimistas.) Quando, go também parecem bravas, e não dis­
todavia, as suas aventuras terminam tam muito das de temperamento san­
mal, rodam sobre os calcanhares; mas guíneo e otimista, mas são inferiores
a marca distintiva do homem bravo por não terem confiança em si mes­
era enfrentar as coisas que são e pare­ mas, como as segundas. Também por
cem terríveis, porque é nobre fazê-lo e isso, os otimistas se mantêm firmes
vergonhoso não o fazer. Também por durante algum tempo, mas os que 25
isso, considera-se como marca distin­ foram enganados sobre a realidade dos
tiva de um homem mais bravo o mos- fatos fogem tão logo sabem ou suspei­
trar-se destemido e imperturbável nos tam que estes são diferentes do que
alarmas repentinos do que nos perigos supunham, como sucedeu com os argi-
20 previstos; pois isso deve proceder mais vos quando travaram combate com os
de uma disposição de caráter e menos espartanos, tomando-os por siciônios.
da preparação: os atos previstos E com isto fica completada a descri­
podem ser escolhidos por cálculo e ção do caráter tanto dos homens bra­
vos como dos que são considerados
42 1115 b 11-24. (N. do T.) bravos.

9
Se bem que a coragem se relacione tâncias do caso, como também sucede
com sentimentos de medo e de confian­ nas competições atléticas; porquanto é
ça, não se relaciona igualmente com agradável o fim visado pelos pugilis­
ambos, mas em grau maior com as coi- tas, isto é, a coroa e as honras; mas os
30 sas que inspiram medo. Com efeito, golpes que recebem são dolorosos e
aquele que permanece imperturbável e excruciantes para o corpo, como tam­
se porta como deve em face dessas coi­
bém o são os seus esforços; e, como os 5
sas é mais genuinamente bravo do que
golpes e os esforços são muitos, o fim,
o homem que faz o mesmo diante das
que é um só e pequeno, parece nada ter
coisas que inspiram confiança.
de agradável. E assim, se o mesmo se
Como dissemos43, pois, é por fazer
frente ao que é doloroso que os ho­ dá com a coragem, a morte e os feri­
mens são chamados bravos. Portanto, mentos serão dolorosos para o homem
também a coragem envolve dor e é jus­ bravo e contrários à sua vontade, mas
tamente louvada por isso, pois mais ele os enfrentará porque é nobre fazê-
difícil é enfrentar o que é doloroso do lo e vil deixar de fazê-lo. E quanto 10
que abster-se do que é agradável. mais virtuoso e feliz for, mais lhe
35 Sem embargo, a finalidade que a doerá o pensamento da morte; pois é
coragem se propõe dir-se-ia que é agra- para tal homem que mais valor tem a
i7b dável, mas é encoberta pelas circuns- vida,7 e ele conscientemente *renuncia
ao maior dos bens, o que é doloroso.
1115b 7-13. (N. do T.) Mas nem por isso deixa de ser bravo, e
ÉTICA A NICÔMACO — III 95

talvez o seja ainda mais por escolher, a os que são menos bravos mas não pos­
esse custo, a prática de atos nobres na suem outros bens; pois esses estão
guerra. prontos para enfrentar o perigo e ven­
is Nem de todas as virtudes, portanto, dem suas vidas por uma ninharia.
o exercício é agradável, salvo na medi­ Quanto à coragem dissemos o sufi- 20

da em que alcançam o seu fim. Mas é ciente. Não é difícil compreender-lhe a


bem possível que os melhores soldados natureza em linhas gerais, pelo menos
não sejam homens dessa espécie e sim em face do que ficou exposto.

10
Depois da coragem, falemos da rantes; e contudo, parece que é possí- 5
temperança; pois estas parecem ser as vel deleitar-se com essas coisas tanto
virtudes das partes irracionais. Disse- como se deve quanto em excesso ou
25 m os44 que a temperança é um meio- em grau insuficiente.
termo em relação aos prazeres (porque O mesmo se pode dizer dos objetos
diz menos respeito às dores, è não do da audição: ninguém chama de intem­
mesmo modo); e a intemperança tam ­ perantes os que se deleitam em dema­
bém se manifesta na mesma esfera. sia com a música ou as representações
Determinemos, pois, com que espécie teatrais, nem de temperantes os que o
de prazeres se relacionam ambas. fazem na medida justa.
Podemos admitir a distinção entre Também não aplicamos esses nomes
prazeres corporais e prazeres da alma aos que se deleitam com odores, a não 10
tais como o amor à honra e.o amor ao ser incidentalmente: não chamamos de
estudo; pois quem ama uma dessas intemperantes os que se deliciam com
30 coisas deleita-se naquilo que ama, não o cheiro de maçãs, de rosas ou de
sendo o corpo de nenhum modo afeta­ incenso, mas sim os que sentem prazer
do, e sim a mente; mas com relação a em cheirar molhos e acepipes: com
tais prazeres os homens não são cha­ efeito, os intemperantes deleitam-se
mados temperantes nem intempe- com essas coisas porque lhes lembram
rantes. E tampouco em relação aos ou­ os objetos de seu apetite. E até a outras
tros prazeres que não sejam do corpo: pessoas, quando têm fome, causa pra­
os que gostam de ouvir e de contar his­ zer o cheiro de comida; mas compra- 15
tórias e passam o dia ocupados com zer-se nessa espécie de coisas é carac­
35 tudo que acontece são chamados me- terístico do homem intemperante, pois
xeriqueiros e não intemperantes; e da elas são objetos de apetite para ele.
mesma forma os que sofrem com a Fora do homem, não há nos outros
perda de dinheiro ou de amigos. animais nenhum prazer relacionado
8a A temperança deve relacionar-se com esses sentidos, a não ser inciden­
com os prazeres corporais; não, talmente. Porquanto os cães não se
porém, com todos, pois os que se delei­ deleitam com o cheiro das lebres, mas
tam com objetos da visão tais como as sim em comê-las; acontece, apenas, 20
cores, as formas e a pintura não são que o faro os avisou da presença de
chamados temperantes nem intempe- uma lebre. Nem o leão se deleita em
ouvir o mugido do boi, mas tão-so-
44 1107 b 4-6. (N. do T.) mente em comê-lo; percebeu, pelo
96 ARISTÓTELES

mugido, que o animal estava próximo, soas intemperantes. A essas só inte­


e por essa razão parece deleitar-se com ressa o gozo do objeto em si, que sem­
0 mugido; do mesmo modo, não se pre é uma questão de tato, tanto no que
deleita em ver “um veado ou uma toca ao comer como ao beber e à união
cabra montês” 45, mas porque vai dos sexos. Por isso certo glutão rogou
devorá-los. aos deuses que sua garganta se tor­
Apesar disso, a temperança e a nasse mais longa que a de um grou, msb
intemperança relacionam-se com a donde se infere que todo o seu prazer
25 espécie de prazeres que é comparti­ vinha do contato.
lhada pelos outros animais, e que por E assim, o sentido com que se delei­
esse motivo parecem inferiores e bru­ ta a intemperança é o mais largamente
tais; são eles os prazeres do tato e do difundido de todos; e ela parece ser
paladar. Mesmo destes últimos, no justamente motivo de censura porque
entanto, parecem fazer pouco ou ne­ nos domina não como homens, mas
como animais. Deleitar-se com tais
nhum uso; porquanto a função do coisas, portanto, e amá-las sobre todas
paladar é a discriminação dos sabores, as outras, é próprio dos brutos. Porque
como fazem os provadores de vinho e mesmo dos prazeres do tato os mais
1
as pessoas que temperam iguarias. No liberais foram eliminados, como os que
entanto, mal se pode dizer que se com- a fricção e o resultante calor produzem s
30 prazem em fazer tais discriminações; no ginásio; com efeito, o contato prefe­
pelo menos, tal não é o caso das pes- rido pelo homem intemperante não
afeta o corpo inteiro, mas apenas cer­
4 5 Ilíada, III, 24. (N. do T.) tas partes.

11
Dos apetites, alguns parecem co­ jeto tomado ao acaso. Ora, nos apeti- «
muns e outros, peculiares aos indiví­ tes naturais poucos se enganam, e
duos e adquiridos. Por exemplo: o ape- numa só direção, a do excesso; e
10 tite do alimento é natural, já que todos comer ou beber tudo que se tenha à
os que o sentem anseiam comer e mão, até a saciedade, é exceder a medi­
beber, e às vezes ambas as coisas; e da natural, pois que o apetite natural
também pelo amor (como diz Home­ se limita a preencher o que nos falta.
r o 4 6), quando são jovens e vigorosos; Por isso tais pessoas são chamadas
mas nem todos anseiam por esta ou “deuses do estômago” , dando a enten­
aquela espécie de alimento ou de amor, der que enchem o estômago além da 20
nem pelas mesmas coisas. medida. E só pessoas de caráter intei­
Por isso, tal anseio parece ser uma ramente abjeto se tornam assim.
questão inteiramente pessoal. No en­ Mas no que se refere aos prazeres
tanto, é muito natural que assim seja, peculiares a indivíduos, muitas pessoas
pois diferentes coisas agradam a dife­ erram, e de muitas maneiras. Pois,
rentes indivíduos, e algumas são mais enquanto as pessoas que “gostam disto
agradáveis a todos do que qualquer ob- ou daquilo” são assim chamadas ou
porque se deleitam nas coisas que não
16 Ilíada, XXIV, 130. (N. do T.) devem, ou mais do que o comum dos
ÉTICA A NICÔMACO — III 97

homens, ou de maneira indébita os; são raras e quase inexistentes, pois


intemperantes excedem de todos os uma tal insensibilidade não é humana.
três modos; tanto se comprazem em Até os outros animais distinguem dife­
coisas com as quais não deveriam rentes espécies de alimentos e apre­
comprazer-se (porquanto são odiosas), ciam uns mais do que outros. E, se há
como, se é lícito comprazer-se em, alguém que não se agrade de nada e
algumas coisas de sua predileção, eles; não ache nenhuma coisa mais atraente
o fazem mais do que se deve e do que o do que outra qualquer, esse alguém
faz a maioria dos homens. deve ser algo muito diferente de um
homem; tal espécie de pessoa não rece-
Está claro, pois, que o excesso em
| beu nome porque dificilmente é encon­
relação aos prazeres é intemperança, e
trada.
é culpável. Com respeito às dores nin­
O temperante ocupa uma posição
guém é, como no caso da coragem, mediana em relação a esses objetos.
chamado temperante por arrostá-las Com efeito, nem aprecia as coisas que
nem intemperante por deixar de fazê- são preferidas pelo intemperante — as
lo, mas o homem intemperante é assim1 quais chegam até a desagradar-lhe —
chamado porque sofre mais do que nem, em geral, as coisas que não deve,
deve quando não obtém as coisas que nem nada disso em excesso; por outro
lhe apetecem (sendo, pois, a sua pró­ lado, não sofre nem anseia por elas
pria dor um efeito do prazer), e o quando estão ausentes ou só o faz em
homem temperante leva esse nome grau moderado e não mais do que
porque não sofre com a ausência do deve, e nunca quando não deve, e
que é agradável nem com o fato de assim por diante. Mas as coisas que,
abster-se. sendo agradáveis, contribuem para a
O intemperante, pois, almeja todas saúde ou a boa condição do corpo, ele
as coisas agradáveis ou as que mais o as deseja moderadamente e como deve,
são, e é levado pelo seu apetite a esco- assim como também as outras coisas
lhê-las a qualquer custo; por isso sofre agradáveis que não constituam empe­
não apenas quando não as consegue, cilho a esses fins, nem sejam contrárias
mas também quando simplesmente an­ ao que é nobre, nem estejam acima dos
seia por elas (pois o apetite é doloro­ seus meios. Pois aquele que não atende
so). No entanto, parece absurdo sofrer a essas condições ama tais prazeres
por causa do prazer. mais do que eles merecem, mas o
As pessoas que ficam aquém da me­ homem temperante não é uma pessoa
dida em relação aos prazeres e se delei­ dessa espécie, e sim da espécie pres­
tam com eles menos do que deviam crita pela regra justa.

12
A intemperança assemelha-se mais: destrói a natureza da pessoa que a
a uma disposição voluntária do que ai sente, ao passo que oprazer não tem
covardia, pois a primeira é atuada peloi tais efeitos. Logo, a intemperança é
prazer e a segunda pela dor; ora, a umi mais voluntária.
nós procuramos e à outra evitamos;; E por isso mesmo é ela mais passí­
acresce ainda que a dor transtorna e vel de censura, pois é mais fácil acos-
98 ARISTÓTELES

tumar-se aos seus objetos, já que a de tudo ao apetite e à criança, já que


vida tem muitas coisas dessa espécie na realidade as crianças vivem à mercê
para oferecer, e a elas nos acostu­ dos apetites, e nelas- tem mais força o
mamos sem perigo para nós, ao passo desejo das coisas agradáveis. Se não
que com os objetos terríveis dá-se exa­ forem obedientes e submissas ao prin­
tamente o contrário. Mas a cov.ardia cípio racional, irão a grandes extre­
parece ser voluntária em grau diferente mos, pois num ser irracional o desejo
de suas manifestações particulares. do prazer é insaciável, embora experi­
Com efeito, ela própria é indolor, mas mente todas as fontes de satisfação.
nestas últimas somos avassalados pela Acresce que o exercício do apetite
dor, que nos leva a abandonar nossas aumenta-lhe a força inata, e quando os
armas e a desonrar-nos de outras apetites são fortes e violentps, chegam
maneiras; e por isso, alguns chegam a ao ponto de excluir a faculdade de
pensar que os nossos atos em tais oca­ raciocinar.
siões são forçados. Para o intempe- Portanto, os apetites devem ser pou­
rante, ao contrário, os atos particu­ cos e moderados, e não se oporem de
lares são voluntários (já que ele os modo algum ao princípio racional — e
pratica sob o impulso do apetite e do isso é o que chamamos obediência e
desejo), mas a disposição em sua tota­ disciplina. E, assim como a criança
lidade o é menos, uma vez que nin­ deve submeter-se à direção do seu pre-
guém deseja ser intemperante. ceptor, também o elemento apetitivo
O termo “intemperante” também se deve subordinar-se ao princípio racio­
aplica a faltas infantis, por mostrarem nal.
certa semelhança com o que estivemos Em conclusão: no homem tempe­
considerando. Ao nosso propósito rante o elemento apetitivo deve harmo-
atual não interessa indagar qual das nizar-se com o princípio racional, pois
duas acepções deriva da outra, mas é o que ambos têm em mira é o nobre, e
evidente que esta segunda é derivada. o homem temperante apetece as coisas
A transferência de sentido parece bas­ que deve, da maneira e na ocasião
tante plausível, pois quem deseja aqui­ devidas; e isso é o que prescreve o
lo que é vil e que se desenvolve rapida­ princípio racional.
mente deve ser refreado a tempo; ora, Aqui termina a nossa análise da
essas características pertencem acima temperança.
LIVRO IV
101

Falemos agora da liberalidade, que ra pelo homem que possui a virtude


parece ser o meio-termo em relação à relacionada com ela. Quem melhor
riqueza. O homem liberal, com efeito, usará a riqueza, por conseguinte, é o
é louvado não pelos seus feitos milita­ homem que possui a virtude relacio­
res, nem pelas coisas que se costuma nada com a riqueza; e esse é o homem
louvar no temperante, nem por decidir liberal.
com justiça num tribunal, mas no Ora, dar e gastar parece ser o uso da
. u tocante ao dar e receber riquezas — e riqueza, ao passo que adquirir e con­
especialmente ao dar. servar é antes a sua posse. Por isso é
Ora, por “riquezas” entendemos mais próprio do homem liberal dar às /0
todas as coisas cujo valor se mede pelo pèssoas que convêm do que adquirir
dinheiro. A prodigalidade e a avareza, das fontes que convêm e não das indé­
por sua vez, são um excesso e uma bitas. Com efeito, é mais característico
deficiência no tocante à riqueza. Sem­ da virtude fazer o bem do que recebê-
pre imputamos a avareza aos que lo de outrem, e praticar ações nobres
amam a riqueza mais do que devem, do que abster-se de ações vis; e facil­
30 mas também usamos o termo “prodi­ mente se compreende que dar implica
galidade” num sentido complexo, cha­ fazer o bem e praticar uma ação nobre,
mando pródigos aos homens inconti- enquanto receber implica, ser o benefi- 15
nentes que malbaratam dinheiro com ciário de uma boa ação ou não agir de
os seus prazeres. Daí o serem eles maneira vil. E somos gratos a quem
considerados os caracteres mais fra­ dá, porém não ao que não recebe, e o
cos, pois combinam em si mais de um primeiro é mais louvado do -que o
vício. Contudo, a aplicação do termo a segundo. Também é mais fácil não
tais pessoas não é apropriada, por­ receber do que dar, pois os homens
quanto um “pródigo” é um homem que preferem desfazer-se do pouco que têm
possui uma só má qualidade, a de mal- a tomar o alheio.
-’l>a baratar os seus bens. Pródigo é aquele Os que dão também são chamados
que se arruina por sua própria culpa, e liberais, mas os que se abstêm de
o malbaratar seus bens é considerado tomar não são louvados pela liberali- 20
uma forma de arruinar a si mesmo, dade e sim pela justiça, enquanto os
pois é opinião de muitos que a vida que tomam dificilmente são louvados.
depende da posse de riquezas. E os liberais são quase que os mais
Esse é, por conseguinte, o sentido louvados de todos os caracteres virtuo­
em que tomamos a palavra “prodigali­ sos, porquanto são úteis; e isso por
dade” . Ora, as coisas úteis podem ser causa de suas dádivas.
bem ou mal usadas, e a riqueza é útil; Ora, as ações virtuosas são pratica­
e cada coisa é usada da melhor manei­ das tendo em vista o que é nobre. Por
102 ARISTÓTELES

isso o homem liberal, cçmo as outras São considerados mais liberais os


pessoas virtuosas, dá tendo em vista o que não fizeram a sua fortuna, mas
que é nobre, e como deve; pois dá, às herdaram-na. Porque, em primeiro
pessoas que convêm, as quantias que lugar, esses não têm experiência da
convêm e na ocasião que convém, com necessidade; e, em segundo, todos os
todas as demais condições que acom­ homens têm mais amor ao que eles
panham a reta ação de dar. E isso com próprios produziram, como os pais e
prazer e sem dor, pois o ato virtuoso é os poetas. Não é fácil a um homem
agradável e isento de dor. O que menos liberal ser rico, pois não é inclinado
pode ser é doloroso. nem a tomar nem a conservar, mas a
O que dá às pessoas a quem não dar, e não estima a riqueza por si
deve dar, porém, ou tendo em vista não mesma, e sim como instrumento de sua
o que é nobre e sim alguma outra liberalidade. Daí a acusação que se faz
coisa, não é chamado de liberal, mas à fortuna: que os que mais a merecem
recebe algum outro nome. Tampouco é são os que menos a alcançam. Mas é
liberal quem dá com dor, pois esse pre­ natural que seja assim, pois com a
feriria a riqueza à ação nobre, o que riqueza sucede o mesmo que com
não é próprio de um homem liberal. todas as outras coisas: ninguém pode
Mas tampouco o homem liberal alcançá-la se não se esforça por isso.
receberá de fontes que não deve, pois Todavia, o homem liberal não dará
isso não é próprio de quem não dá às pessoas nem na ocasião que não
valor à riqueza. Nem será ele muito convém, porque nesse caso já não esta­
afeito a pedir, porquanto o homem que ria agindo de acordo com a liberali­
confere benefícios não os aceita facil­ dade, e se gastasse com esses objetos já
mente. Mas tom ará das fontes que con­ não teria o que gastar com os que con­
vêm — das suas próprias posses, por vêm. Porque, como dissemos, é liberal
exemplo — , não como um ato nobre, aquele que gasta de acordo com as
mas como uma necessidade, a fim de suas posses, e com os objetos que con­
ter algo que dar. vêm; e quem excede a medida é pródi­
Por outro lado, não descurará ele os go. Por isso não chamamos os déspo­
seus bens, com os quais deseja auxiliar tas de pródigos: no caso deles não nos
a outrem. E se absterá de dar a todos e parece fácil dar e gastar além de suas
a qualquer um, a fim de ter o que dar posses.
às pessoas que convêm, nas ocasiões Sendo, pois, a liberalidade um
que convêm e em que é nobre fazê-lo. meio-termo no tocante ao dar e ao
É também muito característico de tomar riquezas, o homem liberal dará e
um homem liberal exceder-se nas suas gastará as quantias que convêm com
dádivas, de maneira a ficar com muito os objetos que convêm, tanto nas coi­
pouco para si; pois está na sua natu­ sas. pequenas como nas grandes, e isso
reza o não olhar a si mesmo. com prazer; e também tom ará as quan­
O termo “liberalidade” se usa relati­ tias que convêm das fontes que con­
vamente às posses de um.homem, pois vêm. Porque, sendo a virtude um
essa virtude não consiste na multidão meio-termo em relação a ambos, ele
das dádivas, e sim na disposição de fará ambas as coisas como deve; por­
caráter de quem dá, e esta é relativa às quanto essa espécie de receber acom­
suas posses. Nada impede, pois, que o panha a reta ação de dar, e o que não é
homem que dá menos seja mais liberal, dessa espécie opõe-se á ela; daí o dar e
se tem menos para dar. o receber que acompanham um ao
ÉTICA A NICÔMACO — IV 103

outro estarem simultaneamente presen­ digo possui as características do


tes no mesmo homem, o que evidente­ homem liberal, visto que dá e se abs-
mente não acontece com as espécies tém de tomar, conquanto não faça
contrárias. Mas se, por acaso, ele gas­ nenhuma dessas coisas bem ou da
tar de maneira contrária ao que é reto maneira apropriada. E, se fosse levado
e nobre, sofrerá com isso, mas modera­ a proceder assim pelo hábito ou por
damente e conforme deve; pois é pró­ algum outro meio, seria liberal; porque
prio da virtude sentir tanto prazer então daria às pessoas que convêm e
como dor em face dos objetos apro­ não receberia de fontes indébitas. Por
priados e da maneira apropriada. isso não é julgado um mau caráter:
Além disso, é fácil tratar com o não é próprio de um homem malvado
homem liberal em assuntos de dinhei­ ou ignóbil exceder-se no dar e no não
ro; não dá trabalho persuadi-lo, pois receber, mas apenas de um tolo. O
não tem grande estima ao dinheiro, e homem que é pródigo neste sentido é
fica mais aborrecido se deixou de gas­ considerado muito melhor do que o
tar alguma coisa que devia do que se avaro, tanto pelas razões acima apon­
gastou algo que não devia, discor­ tadas como porque beneficia a muitos,
dando nisso do aforismo de Simônides. enquanto o outro não beneficia sequer
O pródigo erra também a esses res­ a si mesmo.
peitos, pois não sente prazer e dor Mas a maioria dos pródigos, como
diante das coisas que convêm e da já se disse48, também tomam de fontes
maneira que convém; isto se tornará indébitas, e a esse respeito são avaros.
mais evidente à proporção que avan­ Adquirem o hábito de tomar porque
çarmos em nossa investigação. Disse­ desejam gastar, e isso não lhes é fácil
m os4 7 que a prodigalidade e a avareza em razão de não tardarem a minguar
são excessos e deficiências, e em duas as suas posses. São, por isso, forçados
coisas: no dar e no receber;.pois incluí­ a buscar meios em outras fontes. Ao
mos o gastar no gênero dar. Ora, a mesmo tempo, como não dão nenhum
prodigalidade excede no dar e no não valor à honra, tomam indiferentemente
receber, mostrando-se deficiente no de qualquer fonte: pois têm o apetite de
receber, enquanto a avareza se mostra dar e não lhes importa a maneira nem
deficiente no dar e excede no receber, a fonte de onde procede o que dão. Por
salvo em pequenas coisas. isso não dão com liberalidade: não o
As características da prodigalidade fazem com nobreza, nem tendo esta em
não se encontram sempre combinadas, vista, nem da maneira que devem. Às
pois não é fácil dar a todos se não se vezes enriquecem os que deveriam ser
recebe de ninguém. As pessoas pródi­ pobres, não dão nada às pessoas dig­
gas, que dão em excesso, não tardam a nas de estima, e muito aos aduladores
exaurir as suas posses. E é justamente ou aos que lhes proporcionam algum
a esses que se aplica o nome de pródi­ outro prazer. Por isso a maioria deles
gos, se bem que tal homem pareça ser são também intemperantes; com efeito,
bastante superior a um avaro, por­ gastam sem refletir e desperdiçam
quanto é curado de seu vício tanto dinheiro com os seus prazeres, inclina­
pelos anos como pela pobreza, e des­ dos que são para estes porque sua exis­
tarte poderá aproximar-se da disposi­ tência não tem em mira o que é nobre.
ção intermediária. Com efeito, o pró­ O homem pródigo, portanto, con­

47 1119 b 27. (N. do T.) 48 Linhas 16-19. (N. do T.)


104 ARISTÓTELES

verte-se no que acabamos de descrever Outros, por sua vez, excedem-se no


quando não lhe é imposta nenhuma tocante ao receber, tomando tudo que
disciplina, mas se for tratado com cui­ lhes aparece e de qualquer fonte que
dado chegará à disposição interme­ venha, como os que se dedicam a
diária e justa. A avareza, porém, é ao profissões sórdidas, alcaiotes e demais
mesmo tempo incurável (pois a velhice gente dessa laia, e os que emprestam
e toda incapacidade passam por tornar pequenas quantias a juros elevados.
os homens avaros), e mais inata aos Com efeito, todos esses tomam mais
homens do que a prodigalidade. Com do que devem, e de fontes indébitas.
efeito, a maioria gosta mais de ganhar Evidentemente, o que há de comum
dinheiro que de dá-lo. Este vício é tam­ entre eles é o sórdido amor ao lucro;
bém muito difundido e multiforme, todos se conformam com uma má
pois parece haver muitas espécies de fama em troca do ganho, e minguado
avareza. ganho ainda por cima. Com efeito, aos
que auferem ganhos vultosos c injustos
Consiste ela em duas coisas, a defi­
ciência no dar e o excesso no tomar, e de fontes indébitas, como os déspotas
não se encontra completa em todos os que saqueiam cidades e despojam tem­
homens, mas às vezes aparece dividi­ plos, não chamamos avaros e sim mal­
da: alguns vão ao excesso no tomar, vados, ímpios e injustos.
Mas quanto ao jogador e ao saltea­
enquanto outros ficam aquém no dar.
dor, esses pertencem à classe do avaro,
Todos aqueles a quem se aplicam
por terem um amor sórdido ao ganho.
nomes como “forreta”, “ sovina”, É, efetivamente, pelo ganho que ambos
“pão-duro” dão com relutância, mas se dedicam às suas práticas e suportam
não cobiçam as posses alheias nem a vergonha de que ela se cerca; e um
desejam tomá-las para si. Em alguns, enfrenta os maiores perigos por amor à
isso se deve a uma espécie de honesti­ presa, enquanto o outro subtrai di­
dade e aversão ao que é vergonhoso nheiro aos seus amigos, a quem devia
(pois alguns parecem, ou pelo menos antes dá-lo. Ambos, pois, como de
dizem, amontoar dinheiro por esta bom grado auferem ganhos de fontes
razão: para que um dia não sejam for­ indébitas, são sórdidos amantes do
çados a cometer algum ato vergo­ ganho. Por conseguinte, todas essas
nhoso; a esta classe pertencem o miga- formas de tomar incluem-se no vício
lheiro e todos os outros da mesma da avareza.
espécie, que são assim chamados pela E é natural que a avareza seja defi­
relutância com que abrem mão das mí­ nida como o contrário da liberalidade,
nimas coisas); enquanto outros se abs- pois não só é ela um maior mal do que
têm de tocar no alheio por medo, jul­ a prodigalidade, mas os homens erram
gando que não é fácil, quando nos mais amiúde nesse sentido do que no
apropriamos dos bens dos outros, evi­ da prodigalidade tal como a descreve­
tar que eles se apropriem dos nossos. mos.
Contentam-se, por isso, em não dar Basta, pois, o que dissemos sobre a
nem tomar. liberalidade e os vícios contrários.
ÉTICA A NICÔMACO — IV 105

2
Talvez convenha discutir agora a caráter é determinada pelas suas ativi­
magnificência, que também parece ser dades e pelos seus objetos. Ora, os gas­
uma virtude relacionada com a rique- tos do homem magnificente são vulto­
20 za. Não se estende, porém, como a sos e apropriados. Por conseguinte,
liberalidade, a todas as ações que têm tais serão também os seus resultados; e
que ver com a riqueza, mas apenas às assim, haverá um grande dispêndio em
que envolvem gasto; e nestas, ultra­ perfeita consonância com o seu resul­
passa a liberalidade em escala. Porque, tado. Donde se segue que o resultado 5
como o próprio nome sugere, é um deve corresponder ao dispêndio e este
gasto apropriado que envolve grandes deve ser digno do resultado, ou mesmo
quantias. Mas a escala é relativa, pois excedê-lo.
a despesa de quem guarnece uma trir- O homem magnificente, além disso,
w reme não se compara à de quem chefia gastará dinheiro tendo em mira a
uma embaixada sagrada. A magnifi­ honra, pois essa finalidade é comum a
cência, portanto, deve ser adequada todas as virtudes. Mais ainda: ele o
tanto ao agente como ao objeto e às fará com prazer e com largueza, visto
circunstâncias. O homem que em coi­ que os cálculos precisos são próprios
sas pequenas e medianas gasta de dos avarentos. E considerará os meios
acordo com os méritos do caso não é de tom ar o resultado o mais belo pos­
chamado de magnificente (por exem­ sível e o mais apropriado ao seu obje­
plo, aquele que pode dizer “muitas to, ao invés de pensar nos custos e nos
foram minhas dádivas ao peregri­ meios mais baratos de obtê-lo. É io
n o ” 49), mas unicamente aquele que o necessário, pois, que o homem magni­
faz em grandes coisas. Porquanto o ficente seja também liberal. Com efei­
magnificente é liberal, mas o liberal to, este também gasta o que deve e
30 nem sempre é magnificente. como deve, e é em tais assuntos que se
A deficiência desta disposição de manifesta a grandeza implicada pelo
caráter é chamada mesquinhez e o nome “magnificente”, já que a liberali­
excesso vulgaridade, mau gosto, etc., o dade diz respeito a essas coisas; e, com
qual não se excede nas quantias des­ despesa igual, ele produzirá uma obra
pendidas com os objetos que convêm, de arte mais magnificente. Porquanto
mas pelos gastos ostentosos em cir­ uma posse e uma obra de arte não têm
cunstâncias indébitas e de maneira a mesma excelência. A posse mais /j
indébita. Mais adiante falaremos des­ valiosa é aquela que vale mais, como
ses vícios 50. por exemplo o ouro, mas a mais valio­
O homem magnificente assemelha- sa obra de arte é a que é grande e bela
35 se a um artista, pois percebe o que é (pois a contemplação de uma tal obra
apropriado e sabe gastar grandes inspira admiração, e o mesmo faz a
1122b quantias com bom gosto. No princí­ magnificência); e uma obra possui
p io 51 dissemos que uma disposição de uma espécie de excelência — isto é,
uma magnificência — que envolve
* 9 Odisséia, XVII, 420. (N. do T.) grandeza.
1123 a 19-33. (N. do T.) A magnificência é um atributo dos
5' Cf. 1103 b 21-23, 1104 a 27-29. (N. do T.) gastos que chamamos honrosos, como
106 ARISTÓTELES

os que se relacionam com os deuses — despedida de hóspedes estrangeiros,


20 ofertas votivas, construções, sacrifícios assim como à troca de presentes; pois
— , e do mesmo modo no que tange a o homem magnificente não gasta con- j
todas as formas de culto religioso e sigo mesmo e sim com objetos públi­
todas aquelas coisas que são objetos cos, e os presentes têm certa seme­
apropriados de ambição cívica, como lhança com as ofertas votivas.
a dos que se consideram no dever de O homem magnificente também
organizar um coro, guarnecer uma trir- apresta sua casa de maneira condigna
reme ou oferecer espetáculos públicos com a sua riqueza (pois até uma casa é
com grande brilhantismo. Em todos os uma espécie de ornamento público), e
casos, porém, como já foi dito 52, não gastará de preferência em obras dura­
deixamos de levar em conta o agente e douras (pois são essas as mais belas), e
25 de indagar quem é ele e que recursos em toda classe de coisas gastará o que
possui; pois os gastos devem ser dig­ for decoroso; pois as mesmas coisas
nos dos seus recursos e adequar-se não não são adequadas aos deuses e aos
só aos resultados, mas também a quem homens, nem a um templo e a um tú- io
os produz. Por isso um homem pobre mulo. E, visto que todo gasto pode ser
não pode ser magnificente, visto não grande em sua espécie e o que, em
ter os meios de gastar apropriada­ absoluto, há de mais magnificente é
mente grandes quantias; e quem tenta um generoso gasto com um objeto
fazê-lo é um tolo, porquanto gasta grandioso, mas o magnificente em
além do que se pode esperar dele e do cada caso é o que é grande nas circuns­
que é apropriado; ora, a despesa justa tâncias deste, e a grandeza na obra di­
só é que é virtuosa. Mas em geral os gran­ fere da grandeza no dispêndio (por­
des gastos ficam bem aos que, para quanto a mais bela de todas as bolas
começar, possuem os recursos adequa­ ou de todos os brinquedos é um magní­
dos, adquiridos por seus próprios és- fico presente para uma criança, embo­
forços ou provenientes de seus ante­ ra custe pouco dinheiro) —, segue-se is
passados ou de seus amigos; e também que a característica do homem magni­
às pessoas de nascimento nobre ou de ficente, seja qual for o resultado do que
grande reputação, e assim por diante; faz, é fazê-lo com magnificência (de
pois todas essas coisas trazem consigo modo que não seja fácil superar tal
a grandeza e o prestígio. resultado) e torná-lo digno do dispên­
Basicamente, pois, o homem magni­ dio.
ficente é uma pessoa dessa espécie, e a Tal é, pois, o homem magnificente.
magnificência se revela nos gastos que O vulgar e extravagante excede, como
35 descrevemos acim a53; pois esses são já dissemos 5 4, gastando além do que é 20
os maiores e os mais honrosos. Das justo. Com efeito, em pequenos objetos
ocasiões privadas de mostrar magnifi­ de dispêndio elé gasta muito e revela
cência as mais adequadas são as que uma ostentação de mau gosto. Dá, por
acontecem uma vez na vida, como as exemplo, um jantar de amigos na esca­
Va bodas e outras coisas do mesmo gêne­ la de um banquete de núpcias, e quan­
ro, ou tudo aquilo que interessa à cida­ do fornece o coro para uma comédia
de inteira ou às pessoas de posição que coloca-o em cena vestido de púrpura,
nela vivem, e também à recepção e à como se costuma fazer em Mégara. E
todas essas coisas, ele não as faz tendo 25
52 1122 a 24-26. (N. do T.)
53 Linhas 19-23. (N. do T.) 54 1122 a 31-33. (N. do T.)

\
ÉTICA A NICÔMACO — IV 107

em vista a honra, mas para ostentai1a tuda a maneira de gastar menos, 30


sua riqueza e porque pensa ser admi- lamenta até o pouco que despende e
rado por isso; e gasta pouco quando julga estar fazendo tudo em maior es-
deveria gastar muito, e vice-versa. cala do que devia.
O homem mesquinho, por outro Estas disposições de caráter são, por
lado, fica aquém da medida em tudo, e conseguinte, vícios; entretanto, não
depois de gastar as maiores quantias desonram ninguém, porque não são
estraga a beleza do resultado por uma nocivas aos demais, nem muito indeco-
bagatela; e em tudo que faz hesita, es- rosas.

3
Pelo seu nome, a magnanimidade tos são grandes parece ser o mais inde-
parece relacionar-se com grandes coi­ bitamente humilde; pois que faria ele
sas. Que espécie de grandes coisas? Eis se merecesse menos?
3s a primeira pergunta que cumpre res­ O magnânimo, portanto, é um extre­
ponder. mo com respeito à grandeza de suas
Não faz diferença que consideremos pretensões, mas um meio-termo no que
a disposição de caráter ou o homem tange à justeza das mesmas; porque se
1123b que a exibe. Ora, diz-se que é magnâ­ arroga o que corresponde aos seus mé­
nimo o homem que com razão se ritos, enquanto os outros excedem ou
considera digno de grandes coisas; ficam aquém da medida.
pois aquele que se arroga uma digni­ Se, pois, ele merece e pretende gran- is
dade a que não faz jus é um tolo, e ne­ des coisas, e essas acima de todas as
nhum homem virtuoso é tolo ou ridícu­ outras, há de ambicionar uma coisa em
lo. O magnânimo, pois, é o homem que particular. O mérito é relativo aos bens
5 acabamos de definir. Com efeito, aque­ exteriores; e o maior destes, acredi­
le que de pouco é merecedor e assim se tamos nós, é aquele que prestamos aos
considera é temperante e não magnâ­ deuses e que as pessoas de posição
nimo; a magnanimidade implica gran­ mais ambicionam, e que é o prêmio
deza do mesmo modo que a beleza conferido às mais nobres ações. Refi- 20
implica uma boa estatura, e as pessoas ro-me à honra, que é, por certo, o
pequenas podem ser bonitas e bem maior de todos os bens exteriores.
proporcionadas, porém não belas. Por Honras e desonras, por conseguinte,
outro lado, o que se julga digno de são os objetos com respeito aos quais o
grandes coisas sem possuir tais quali­ homem magnânimo é tal como deve
dades é vaidoso, se bem que nem todos ser. E, mesmo deixando de lado o
os que se consideram mais merece­ nosso argumento, é a honra que os
dores do que realmente são possam ser magnânimos parecem ter em mente;
chamados de vaidosos. pois é ela que se arrogam acima de
O homem que se considera menos tudo, mas de acordo com os seus méri­
10 merecedor do que realmente é, é inde­ tos. O homem indevidamente humilde
vidamente humilde, quer os seus méri­ revela-se deficiente não só em con- 25
tos sejam grandes ou moderados, quer fronto com os seus méritos próprios,
sejam pequenos, mas suas pretensões mas também com as pretensões do
ainda menores. E o homem cujos méri- magnânimo. O vaidoso excede em
108 ARISTÓTELES

relação aos seus méritos próprios, mas Em primeiro lugar, pois, como dis­
não excede as pretensões do magnâ­ semos 5 5, o homem magnânimo se inte­
nimo. ressa pelas honras. Apesar disso, con-
Ora, o magnânimo, visto merecer duzir-se-á com moderação no que
mais do que os outros, deve ser bom no respeita ao poder, à riqueza e a toda
mais alto grau; pois o homem melhor boa ou má fortuna que lhe advenha, e
sempre merece mais, e o melhor de não exultará excessivamente com a
todos é o que mais merece. Logo, o boa fortuna nem se abaterá com a má.
homem verdadeiramente magnânimo Com efeito, nem para com a própria
deve ser bom. Além disso, a grandeza honra ele se conduz como se fosse uma
em todas as virtudes deve ser caracte­ coisa extraordinária. O poder e a
rística do homem magnânimo. E nada riqueza são desejáveis a bem da honra
haveria mais indecoroso para o (pelo menos, os que os possuem dese­
homem altivo do que fugir ao perigo, jam servir-se deles para obtê-la); e,
abanando as mãos, ou fazer injustiça a para os que têm a própria honra em
um outro; pois com que fim praticaria pouca conta, eles também devem ser
atos vergonhosos aquele para quem coisa de somenos. Por isso os homens
nada é grande? Se o considerarmos magnânimos são considerados desde­
ponto por ponto, veremos o perfeito nhosos.
absurdo de um homem magnânimo É opinião comum que os bens de
que não seja bom. E tampouco merece­ fortuna também contribuem para a
ria ele ser honrado se fosse mau; pois a magnanimidade. Com efeito, os ho­
honra é o prêmio da virtude, e só é ren­ mens bem-nascidos são considerados
dida aos bons. merecedores de honra, e da mesma
A magnanimidade parece, pois, ser forma os que desfrutam de poder e
uma espécie de coroa das virtudes, riqueza; pois eles se encontram numa
porquanto as torna maiores e não é posição superior, e tudo que se mostra
encontrada sem elas. Por isso é difícil superior em algo de bom é tido em
ser verdadeiramente magnânimo, pois grande honra. Daí que até essas coisas
sem possuir um caráter bom e nobre tornem os homens mais magnânimos,
não se pode sê-lo. pois alguns os honram pelo fato de
De modo que é sobretudo por hon­ possuí-las. Mas, em verdade, só merece
ras e desonras que o magnânimo se ser honrado o homem bom; aquele,
interessa; e as honras que forem gran­ porém, que goza de ambas as vanta­
des e conferidas por homens bons, ele gens é considerado mais merecedor de
as receberá com moderado prazer, honra.
pensando receber o que merece ou até No entanto, os homens que, sem
menos do que- merece, pois não pode serem virtuosos, possuem tais bens
haver honra que esteja à altura da vir­ nem têm por que alimentar grandes
tude perfeita; no entanto, ele a aceita­ pretensões, nem fazem jus ao nome de
rá, já que os outros nada têm de maior “magnânimos” ; porquanto essas coi­
para lhe oferecer. Mas as honras que sas implicam virtude perfeita. Isso não
procedem de pessoas quaisquer e por impede, porém, que se tornem desde­
motivos insignificantes, ele as despre­ nhosos e insolentes, pois sem virtude
zará, visto não ser isso o que merece; e não é fácil carregar com elegância os
do mesmo modo no tocante à desonra, I
que, aplicada a ele, não pode ser justa. 1123 b 15-22. (N. do T.)
ÉTICA A NICÔMACO — IV 109

bens da fortuna. Incapazes que sãò coisa difícil e grande marca de altivez
disso, e julgando-se superiores aos mostrar-se superior aos primeiros, em­
1124b demais, desprezam-nos e fazem o que bora seja fácil com os segundos, e uma
bem lhes apraz. Imitam o homem mag­ conduta altiva no primeiro caso não é
nânimo sem serem semelhantes a ele, e sinal de má educação, mas entre pes­
o fazem naquilo que podem; proceder soas humildes é tão vulgar quanto uma
como homens virtuosos está fora do exibição de força contra os fracos.
s seu alcance, mas desprezar os outros, Igualmente próprio do homem mag­
não. Com efeito, o homem magnânimo nânimo é não ambicionar as coisas que
despreza com justiça (visto que pensa são vulgarmente acatadas, nem aque­
acertadamente), mas o vulgo o faz sem las em que os outros se distinguem;
causa nem motivo sério. mostrar-se desinteressado e abster-se 25
O magnânimo não se expõe a peri­ de agir, salvo quando se trate de uma
gos insignificantes, nem tem amor ao grande honra ou de uma grande obra, e
perigo, pois estima poucas coisas; mas ser homem de poucas ações, mas gran­
enfrentará os grandes perigos, e nesses des e notáveis.
casos não poupará a sua vida, sabendo Deve também ser franco nos seus
que há condições em que não vale a ódios e amores (porquanto ocultar os
pena viver. É também muito capaz de seus sentimentos, isto é, olhar menos à
io conferir benefícios, mas envergonha-se verdade do que à opinião dos outros, é
de recebê-los, pois aquilo é caracte­ próprio de um covarde); e deve falar e
rístico do homem superior e isto do agir abertamente. Com efeito, o mag­
inferior. E costuma retribuir com gran­ nânimo expressa-se com franqueza por
des benefícios, pois assim o primeiro desdém e é afeito a dizer a verdade, 30
benfeitor, além de ser pago, incorrerá salvo quando fala com ironia às pes­
em dívida para com ele e sairá lu­ soas vulgares.
crando na transação. Parece também Deve ser incapaz de fazer com que
lembrar-se de todos os serviços que sua vida gire em torno de um outro, a 1125*
prestou, mas não dos que recebeu (pois não ser de um amigo; pois isso é pró­
quem recebe um serviço é inferior a prio de um escravo, e daí o serem ser­
quem o presta, mas o magnânimo de- vis todos os aduladores, e aduladores
is seja ser superior). E ouve mencionar os todos aqueles que não respeitam a si
primeiros com prazer, e os segundos mesmos. Tampouco é dado à admira­
com desagrado; foi talvez por isso que ção, pois, para ele, nada é grande. Nem
Tétis não falou a Zeus dos serviços que guarda rancor por ofensas que lhe
lhe havia prestado, nem os espartanos façam, já que não é próprio de um
enumeraram os seus serviços aos ate­ homem magnânimo ter a memória
nienses, mas apenas os que haviam longa, particularmente no que toca a
recebido. ofensas, mas antes relevá-las. Tam- s
É também característico do homem pouco é dado a conversas fúteis, pois
magnânimo não pedir nada ou quase não fala nem sobre si mesmo nem
nada, mas prestar auxílio de bom sobre os outros, porquanto não lhe
grado e adotar uma atitude digna em interessam os elogios que lhe façam
face das pessoas que desfrutam de alta nem as censuras dirigidas aos outros.
posição e são favorecidas pela fortuna, Por outro lado, não é amigo de elogiar
20 enquanto se mostram despretensiosos nem maledicente, mesmo no que se re­
para com os de classe mediana; pois é fere aos seus inimigos, salvo por alti-
110 ARISTÓTELES

vez. Quanto às coisas que ocorrem que elas são boas. E contudo, tais pes­
necessariamente ou que são de pouca soas não são consideradas tolas, mas
monta, é de todos os homens o menos antes excessivamente modestas. Dir-
dado a lamentar-se ou a solicitar favo­ se-ia, contudo, que semelhante reputa­
res; pois só os que levam tais coisas a ção até as tom a piores, porque cada
sério se portam dessa maneira com res­ classe de pessoa ambiciona o que
peito a elas. É ele o homem que prefere corresponde aos seus méritos, en­
possuir coisas belas e improfícuas às quanto esses se abstêm mesmo de no­
úteis e proveitosas, pois isso é mais bres ações e empreendimentos, consi-
próprio de um caráter que basta a si derando-se indignos, e dos bens
mesmo. exteriores por igual forma.
Além disso, um andar lento é consi­ Os vaidosos, por outro lado, são
derado próprio do homem magnânimo, tolos que ignoram a si mesmos, e isso
uma voz profunda e uma entonação de modo manifesto. Porquanto, sem
uniforme; pois aquele que leva poucas serem dignos de tais coisas, aventu­
coisas a sério não costuma apressar-se, ram-se a honrosos empreendimentos
nem o homem para quem nada é gran­
que nao tardam a denunciá-los pelo
de se excita facilmente, ao passo que a
que são. E adomam-se com belas rou­
voz estridente e o andar célere são fru­
pas, ares afetados e coisas que tais, e
tos da pressa e da excitação.
desejam que suas boas fortunas se tor­
Tal é, pois, o homem magnânimo; o
nem públicas, tomando-as para assun­
que lhe fica aquém é indevidamente
to de conversa, como se desejassem ser
humilde e o que o ultrapassa é vaidoso.
Ora, nem mesmo esses são conside­ honrados por causa delas. Mas a
rados maus (pois não são maldosos), humildade indébita se opõe mais à
mas apenas equivocados. Com efeito, magnanimidade do que a vaidade,
o homem indevidamente humilde, que tanto por ser mais comum como por
é digno de boas coisas, rouba a si ser ainda pior do que esta.
mesmo daquilo que merece, e parece O magnânimo relaciona-se, pois,
ter algo de censurável porque não se com a honra em grande escala, como
julga digno de boas coisas e também já se disse 5 6.
parece não se conhecer; do contrário
desejaria as coisas que merece, visto 5 6 1107 b 26, 1123 a 3 4 — 1123 b 22. (N. do T.)

4
Também parece haver na esfera da grande escala, mas ambas nos dispõem
honra, como dissemos em nossas pri­ corretamente em relação a objetos de
meiras observações sobre o assunto 5 7, pouca ou mediana importância. Assim
uma virtude que guarda para com a como no receber e dar riquezas existe
magnanimidade a mesma relação que um meio-termo, um excesso e uma
a libéValidade para com a magnifi­ deficiência, também a honra pode ser
cência. Com efeito, nenhuma das duas desejada mais ou menos do que con­
tem nada que ver com as coisas em vém, ou da maneira e das fontes que
convêm. Censuramos tanto o homem
5 7 Ibid., 24-27. (N. do T.) ambicioso por desejar a honra mais do
ÉTICA A NICÔMACO — IV 111

que convém e de fontes indébitas, Como não existe palavra para designar
como o desambicioso por não querer o meio-termo, os extremos parecem
ser honrado mesmo por motivos no­ disputar o seu lugar como se estivesse
bres. Mas às vezes louvamos o ambi­ vago por abandono. Mas onde há
cioso por ser varonil e amigo do que é excesso e falta, há também um meio-
nobre, e o desambicioso por ser mode­ termo. Ora, os homens desejam a
rado e auto-suficiente, como dissemos honra não só mais como também
menos do que devem; logo, é possível 20
na primeira vez que tocamos neste
assunto58. desejá-la também como se deve. Em
todo caso, é essa a disposição de cará­
Evidentemente, como “gostar de tal ter que se louva e que é um meio-termo
ou tal objeto” tem mais de um signifi­ sem nome no tocante à honra. Em con­
cado, não aplicamos sempre à mesma fronto com a ambição parece ser
is coisa o termo “ambição” ou “ amor à desambição, e vice-versa; e, em con­
honra”, mas ao louvar a qualidade fronto com as duas conjuntamente,
pensamos no homem que tem mais parece, em certo sentido, ser ambas.
amor à honra do que a maioria das Isto sé afigura verdadeiro também das
pessoas, e ao censurá-la temos em outras virtudes, mas no caso que aca­
mente aquele que a ama em demasia. bamos de examinar os extremos se
apresentam como contraditórios por- 25
58 1107 b 33. (N. do T.) que o meio-termo não recebeu nome.

A calma é um meio-termo com res­ calmo não é vingativo, mas inclina-se


peito à có lera.. Não havendo nomes antes a relevar faltas.
nem para a posição intermediária nem A deficiência, seja ela uma espécie
para os extremos, colocamos a calma de “pacatez” ou do que quer que for, é
nessa posição, se bem que ela se incli­ censurada. Com efeito, os que não se
ne para a deficiência, que tampouco encolerizam com as coisas que deve- s

tem nome. O excesso poderia ser cha- riam excitar sua ira são considerados
30 mado uma espécie de “ irascibilidade” , tolos, e da mesma forma os que não o
pois que a paixão é a cólera, ao passo fazem da maneira apropriada, na oca­
que suas causas são muitas e diversas. sião apropriada e com as pessoas que
Louva-se o homem que se encoleriza deveriam encolerizá-los. Porquanto
justificadamente com coisas ou pes­ tais homens passam por ser insensí­
soas e, além disso, como deve, na devi­ veis, e, como não se encolerizam, jul­
da ocasião e durante o tempo devido. gam-nos incapazes de se defender; e
Esse será, pois, o homem calmo, já que suportar insultos tanto pessoais como
a calma é louvada. Um tal homem dirigidos aos nossos amigos é próprio
35 tende a não se deixar perturbar nem de escravos.
guiar pela paixão, mas a irar-se da O excesso pode manifestar-se em
n26a maneira, com as coisas e durante o todos os pontos que indicamos (pois é 10

tempo que a regra prescreve. Pensa-se, possível irar-se com pessoas ou coisas
todavia, que ele erra de certo modo no indébitas, mais do que convém, com
sentido da deficiência, pois o homem demasiada presteza ou por um tempo
112 ARISTÓTELES

excessivamente longo). Sem embargo, humano), mas as pessoas de mau gênio


todos esses excessos não são encon­ são as piores com as quais se pode
trados na mesma pessoa. Nem tal conviver.
coisa seria possível, visto que o mal O que dissemos atrás sobre este
destrói até a si próprio, e quando com­ assunto59 toma-se claro pela presente
pleto toma-se insuportável. exposição, isto é, que não é fácil definir
Ora, os irascíveis encolerizam-se como, com quem, com que coisa e por
depressa, com pessoas e coisas indébi­ quanto tempo devemos irar-nos, e em
tas e mais do que convém, mas sua có- que ponto termina a ação justa e come- ss
15 lera não tarda a passar, e isso é o que ça a injusta. Porquanto o homem que
há de melhor em tais pessoas. São se desvia um pouco do caminho certo,
assim porque não refreiam a sua ira, quer para mais, quer para menos, não
mas a natureza ardente as leva a revi­ é censurado; e às vezes louvamos os
dar logo, feito o quê, dissipa-se a que revelam deficiência, chamando-os
cólera. bem-humorados, ao passo que outras 1126b
Em razão de um excesso, as pessoas vezes louvamos as pessoas coléricas
coléricas são assomadiças e prontas a como sendo varonis e capazes de diri­
encolerizar-se com tudo e por qualquer gir as outras. Até que ponto, pois, e de
motivo; daí o seu nome. que. modo um homem pode desviar-se
20 As pessoas birrentas são difíceis de do caminho sem se tornar merecedor
apaziguar e conservam por mais tempo
de censura é coisa difícil de determi­
a sua cólera, porque a refreiam. Cessa, nar, porque a decisão depende das
porém, quando revidam, pois a vin­
gança as alivia da cólera, substituin­ circunstâncias particulares do caso e
da percepção. Mas uma coisa pelo
do-lhes a dor pelo prazer. Se isso não
acontecer, guardarão a sua carga, pois, menos é certa: o meio-termo (isto é, s
como esta não é visível, ninguém pensa aquilo em virtude de que nos encoleri-
sequer em apaziguá-las, e digerir sozi­ zamos com as pessoas e coisas devi­
nho a sua cólera é coisa demorada. das, da maneira devida, e assim por
25 Tais pessoas causam grandes incômo­ diante) merece ser louvado, enquanto
dos a si mesmas e aos seus amigos os excessos, e deficiências são dignos
mais chegados. de censura — censura leve se estão
Chamamos mal-humorados os que presente em modesto grau, e franca e
se encolerizam com o que não devem, enérgica censura se em grau elevado.
mais do que devem e por mais tempo, e Torna-se assim evidente que devemos
não podem ser apaziguados enquanto ater-nos ao meio-termo.
não se vingam ou castigam. Isto basta quanto às disposições w
À calma opomos antes o excesso do relativas à cólera.
3o que a deficiência, pois não só ele é
mais comum (já que vingar-se é mais 59 1109 b 14-26. (N. do T.)

Nas reuniões de homens, na vida so- quiosos, isto é, aqueles que para serem
ciai e no intercâmbio de palavras e agradáveis louvam todas as coisas eja-
atos, alguns são considerados obse- mais se opõem a quem quer que seja, is
ÉTICA A NICÔMACO — IV 113

julgando que é seu dever “não magoar Com efeito, ele parece interessar-se
as pessoas que encontram” ; enquanto pelos prazeres e dores da vida social; e
os que, pelo contrário, se opõem a tudo sempre que não for honroso ou que for
e não têm o menor escrúpulo de ma­ nocivo proporcionar tal prazer, ele se
goar são chamados grosseiros e alter- recusará a fazê-lo, preferindo antes
cadores. causar dor. Do mesmo modo, se sua
Que as disposições que acabamos de aquiescência ao ato de um outro trou­
nomear são censuráveis, é evidente, xesse grande desonra ou dano a esse
assim como é digna de louvor a dispo­ outro, enquanto sua oposição lhe
sição intermediária — isto é, aquela causa um pouco de dor, ele se oporá ao ss
em virtude da qual um homem se con­ invés de aquiescer.
forma e se rebela ante as coisas que Tal homem se relacionará diferente­
deve e da maneira devida. Nenhum mente com pessoas de alta posição e
20 nome, porém, lhe foi dado, embora se com pessoas comuns, com conhecidos 1127a
assemelhe acima de tudo à amizade. íntimos e outros mais distantes, e do
Com efeito, o homem que corresponde mesmo modo no que diz respeito a
a essa disposição intermediária aproxi­ todas as demais diferenças, tratando
ma-se muito daquele que, com o acrés­ cada classe como for apropriado; e
cimo da afeição, chamamos um bom embora, de um modo geral, prefira
amigo. Mas a disposição em apreço di­ proporcionar prazer e evite causar dor,
fere da amizade pelo fato de não impli­ guiar-se-á pelas conseqüências se estas 5
car paixão nem afeição para com as forem mais importantes — em outras
pessoas com quem tratamos, visto que palavras, pela honra e pela conve­
não é por amor nem por ódio que um niência. E também infligirá pequenas
homem acolhe todas as coisas como dores tendo em vista um grande prazer
deve, e sim por ser um indivíduo de futuro.
25 determinada espécie. Com efeito, ele se O homem que alcança o meio-termo
conduzirá do mesmo modo com co­ é, pois, tal como descrevemos, embora
nhecidos e desconhecidos, com íntimos não tenha recebido um nome. Dos que
e com os que não o são, muito embora proporcionam prazer, o que procura
se conduza em cada um desses casos ser agradável sem nenhum objetivo
Como convém; pois não é certo interes- ulterior é obsequioso, mas aquele que o
sar-se igualmente por pessoas íntimas faz com o fim de obter alguma vanta­
e por estranhos, nem tampouco são as gem em dinheiro ou nas coisas que o 10
mesmas condições que tornam justo dinheiro pode comprar é um adulador;,
magoá-los. enquanto o que se opõe a tudo é, como
Ora, nós dissemos de um modo dissemos60, grosseiro e altercador. E
geral que esse homem se relaciona com os extremos parecem ser contraditórios
as outras pessoas do modo que con­ um ao outro porque o meio-termo não
vém; mas é com referência ao que é tem nome.
honroso e conveniente que procura não
3o causar dor ou proporcionar prazer.' 60 1 125 b 14-16. (N. do T.)
114 ARISTÓTELES

O meio-termo oposto à jactância é Examinemos a ambos, mas antes de


encontrado quase na mesma esfera; e tudo ao homem veraz. Não estamos
tampouco ele tem nome. Não será fora falando daquele que cumpre a sua
de propósito descrever também estas palavra nas coisas que dizem respeito
is disposições, porque examinando-as em à justiça ou à injustiça (pois isso per­
detalhe teremos uma idéia mais exata tence a outra virtude), mas do homem 1127b
dos caracteres e, por outro lado, nos que, em assuntos onde nada disso está
convenceremos de que as virtudes são em jogo, é veraz tanto em palavras
meios-termos se verificarmos que isso como na vida que leva, porque tal é o
ocorre em todos os casos. seu caráter. Sem embargo, uma pessoa
No campo da vida social, já des­ dessa espécie será naturalmente eqüita-
crevemos 61 aqueles que se propõem tiva, porquanto o homem que é veraz e
como finalidade proporcionar prazer ama a verdade quando não há nada em
em suas relações com os outros. Fale­ jogo deve sê-lo ainda mais quando vai
mos agora dos que buscam a verdade nisso uma questão de justiça. Evitará a 5
ou a falsidade tanto em atos como em falsidade em tais casos como algo de
20 palavras, e das suas pretensões. O ignóbil, visto que a evitava por si
homem jactancioso, pois, é conside­ mesma; e tal homem é digno de louvor.
rado como afeito a arrogar-se coisas E inclina-se mais a atenuar a verdade:
que trazem glória, quando não as pos­ isso lhe parece de mais bom gosto, por­
sui, ou arrogar-se mais do que possui; quanto os exageros são tediosos.
e o homem falsamente modesto, pelo Aquele que se arroga mais do que
contrário, a negar ou a amesquinhar o possui sem qualquer objetivo ulterior é
que possui, enquanto o que observa o um indivíduo desprezível (pois do con- /o
meio-termo não exagera nem subes­ trário não se comprazeria na falsida­
tima e é veraz tanto em seu modo de de), mas parece ser antes fútil do que
viver como em suas palavras, decla- mau. Se, porém, o faz com um fim
25 rando o que possui, porém não mais qualquer, aquele que o faz visando à
nem menos. boa reputação ou à honra não é (para
Ora, cada uma dessas linhas de con­ um jactancioso) digno de grande cen­
duta pode ser adotada com ou sem um sura; mas o que o faz por dinheiro, ou
objetivo, mas cada homem fala, age e pelas coisas que levam à aquisição de
vive de acordo com o seu caráter, se dinheiro, é um caráter mais detestável.
não está agindo com um fim ulterior. E Com efeito, não é a capacidade que faz
a falsidade é em si mesma vil e culpá- o jactancioso, mas o propósito, pois é
vel; e a verdade, nobre e digna de lou- em virtude dessa disposição de caráter
3o vor. Portanto, o homem veraz é mais e por ser um homem de determinada
um exemplo daqueles que, conservan­ espécie que ele é jactancioso; assim is
do-se no meio-termo, merecem louvor; como um homem é mentiroso porque
e ambas as formas de homem inverí- se deleita com a mentira em si mesma,
dico são censuráveis, mas particular­ e não porque deseje a reputação ou o
mente o jactancioso. lucro. Ora, os que se vangloriam para
ser bem conceituados arrogam-se qua­
61 Cap. 6. (N .doT .) lidades que lhes possam valer louvores
ÉTICA A NICÔMACO — IV 115

ou congratulações, enquanto os que aqui as qualidades que negam possuir,


visam ao proveito se atribuem qualida­ como fazia Sócrates, são aquelas que
des valiosas para os outros, mas cuja trazem boa reputação. Os que se dizem
inexistência não é fácil descobrir, destituídos de qualidades evidentes e
como as de um vidente, de um sábio ou de pouca monta são considerados
20 de um médico. Eis aí por que é essa impostores e são mais desprezíveis; e
espécie de coisas que a maioria dos às vezes isso parece ser jactância,
jactanciosos se arrogam ou de que se como o modo de trajar dos espartanos,
vangloriam; pois nelas se encontram pois tanto o excesso como uma grande
as qualidades que mencionamos deficiência são jactanciosos. Mas os 30
acima. que são modestos com moderação e
As pessoas falsamente modestas, subestimam qualidades não muito ma­
que subestimam os seus méritos, pare­ nifestas parecem simpáticos. E é o
cem mais simpáticas porque se pensa jactancioso que se afigura contrário ao
que não falam com a mira no proveito, homem veraz, porque das duas dispo­
2s mas para fugir à ostentação; e também sições extremas a sua é a pior.

Como a vida é feita não só de ativi­ com efeito, tais agudezas são conside­
dade, mas também de repouso, e este radas movimentos do caráter, e aos
inclui os lazeres e a recreação, parece caracteres, assim como aos corpos,
haver aqui também uma espécie de costumamos distinguir pelos seus mo­
intercâmbio que se relaciona com o vimentos.
bom gosto. Pode-se dizer — e também Não é, porém, difícil descobrir o
1128a escutar — o que se deve e o que não se lado ridículo das coisas, e a maioria
deve. A espécie de pessoa a quem fala­ das pessoas deleitam-se mais do que
mos ou escutamos influi igualmente no devem com gracejos e caçoadas; daí
caso. serem os próprios chocarreiros chama­
Evidentemente, também neste dos espirituosos, pelo agrado que cau­
campo existe uma demasia e uma.defi- sam; mas o que dissemos acima torna is
ciência em confronto com o meio- evidente que eles diferem em não
termo. Os que levam a jocosidade ao pequeno grau dos espirituosos.
5 excesso são considerados farsantes À disposição intermediária também
vulgares que procuram ser espirituosos pertence o tato. É característico de um
a qualquer custo e, na sua ânsia de homem de tato dizer e escutar aquilo
fazer rir, não se preocupam com a que fica bem a uma pessoa digna e
propriedade do que dizem nem em bem-educada; pois há coisas que fica
poupar as suscetibilidades daqueles bem a um tal homem dizer e escutar a
que tomam para objeto de seus chistes; título de gracejo; e os chistes de um 20
enquanto os que não sabem gracejar, homem bem-educado diferem dos de
nem suportam os que o fazem, são rús­ um homem vulgar, assim como os de
ticos e impolidos. Mas os que grace­ uma pessoa instruída diferem dos de
jam com bom gosto chamam-se espiri­ um ignorante. Isto se pode ver até nas
tuosos, o que implica um espírito vivo comédias antigas e modernas: para os
io em se voltar para um lado e outro; autores das primeiras a linguagem
116 ARISTÓTELES

indecente era divertida, enquanto os Esse é o homem que observa o


das segundas preferem insinuar; e meio-termo, quer o chamemos homem
25 ambos diferem bastante no que tange à de tato, quer espirituoso. O chocar-
propriedade do que dizem. reiro, por outro lado, é o escravo da
Mas devemos definir o homem que sua dicacidade, e para provocar o riso 35
sabe gracejar bem pelo fato de ele dizer não poupa nem a si nem aos outros,
apenas aquilo que não fica mal a um dizendo coisas que um homem fino ja ­
homem bem-educado, ou por não ma­ mais diria, e algumas das quais nem
goar o ouvinte e até por deleitá-lo? Ou ele próprio desejaria escutar. O rústi- 1128b
não será esta segunda definição, pelo co, por seu lado, é inútil para essa
menos, ela própria indefinida, uma vez espécie de intercâmbio social, pois em
que diferentes coisas são aprazíveis ou
nada contribui e em tudo acha o que
odiosas a diferentes pessoas? A espécie
censurar. Mas os lazeres e a recreação
de gracejos que ele se disporá a escutar
são considerados um elemento neces­
será a mesma, pois aqueles que pode
sário à vida.
tolerar são também os que gosta de
fazer. Há, por conseguinte, gracejos Os meios-termos que descrevemos
30 que esse homem nunca fará, pois o
acima com respeito à vida são, pois,
gracejo é uma espécie de insulto, e há em número de três, e relacionam-se s
coisas que os legisladores nos proíbem todos com alguma espécie de inter­
insultar, e talvez devessem também câmbio de palavras e atos. Diferem,
proibir-nos de gracejar em tom o delas. porém, pelo fato de um se relacionar
O homem fino e bem-educado será, com a verdade e os outros dois com
1 •
o>
pois, tal como o descrevemos, e ele prazer. Dos que dizem respeito ao pra­
mesmo ditará, por assim dizer, a sua zer, um se manifesta nos gracejos e o
lei. outro no trato social comum.

10 A vergonha não deveria ser incluída sujeitos a envergonhar-se porque


entre as virtudes, porquanto se asseme­ vivem pelos sentimentos e por isso
lha mais a um sentimento do que a cometem muitos erros, servindo a ver­
uma disposição de caráter. É definida, gonha para refreá-los; e louvamos os
em todo caso, como uma espécie de jovens que mostram essa propensão,
medo da desonra, e produz um efeito mas a uma pessoa mais velha ninguém
semelhante ao do medo causado pelo louvaria pelo mesmo motivo, visto
perigo. Com efeito, as pessoas enver­ pensarmos que ela não deve fazer nada 20

gonhadas coram e as que temem a de que tenha de envergonhar-se. Com


morte empalidecem; ambos, portanto, efeito, o sentimento de vergonha não é
parecem ser em certo sentido estados sequer característico de um homem
corporais, o que seria mais caracte­ bom, uma vez que acompanha as más
rístico de um sentimento que de uma ações. Ora, tais ações não devem ser
disposição de caráter. praticadas; e não faz diferença que
15 O sentimento de vergonha não fica algumas sejam vergonhosas em si mes­
bem a todas as idades, mas apenas à mas e outras o sejam apenas de acordo
juventude. Pensamos que os moços são com a opinião comum, pois nem as
ÉTICA A NICÔMACO — IV 117

primeiras, nem as segundas devemos ação dessas, sentirá vergonha. As vir­


praticar, a fim de não sentirmos vergo­ tudes, porém, não estão sujeitas a tais
nha. E é característico de um homem condições. E se o despudor — o não se
mau o ser capaz de cometer qualquer envergonhar de praticar ações vis — é
ação vergonhosa. mau, não se segue que seja bom enver­
É absurdo julgar-se alguém um gonhar-se de praticá-las.
homem bom porque sente vergonha A continência também não é uma
quando comete uma tal ação, visto que virtude, mas uma espécie de disposição
nos envergonhamos de nossas ações mista. É o que mostraremos mais
voluntárias, e o homem bom jamais adiante62. Agora, porém, tratemos da
cometerá más ações voluntariamente. justiça.
Mas a vergonha pode ser considerada
uma boa coisa dentro de certas condi­
ções: se um homem bom cometer uma 62 Livro VII, caps. 1-10. (N. do T.)
LIVRO V
1

1129a No que toca à justiça e à injustiça também se nos tom a conhecida; e (b) a
devemos considerar: (1) com que espé­ boa condição é conhecida pelas coisas
cie de ações se relacionam elas; (2) que que se acham em boa condição, e as
espécie de meio-termo é a justiça; e (3) segundas pela primeira. Se a boa con­
entre que extremos o ato justo é inter-. dição for a rijeza de carnes, é neces­
5 mediário. Nossa investigação se pro­ sário não só que a má condição seja â
cessará dentro das mesmas linhas que carne flácida, como que o saudável
as anteriores. seja aquilo que torna rijas as cames. E
Vemos que todos os homens enten­ segue-se, de modo geral, que, se um
dem por justiça aquela disposição de dos contrários for ambíguo, o outro
caráter que torna*as pessoas propensas também o será; por exemplo, se o
a fazer o que é justo, que as faz agir “justo” o é, também o será o “ injusto”. 25
justamente e desejar o que é justo; e do Ora, “justiça” e “injustiça” parecem
mesmo modo, por injustiça se entende ser termos ambíguos, mas, como os
a disposição que as leva a agir injusta- seus diferentes significados se aproxi­
io mente e a desejar o que é injusto. Tam­ mam uns dos outros, a ambigüidade
bém nós, portanto, assentaremos isso escapa à atenção e não é evidente
como base geral. Porque as mesmas como, por comparação, nos casos em
coisas não são verdadeiras tanto das que os significados se afastam muito
ciências e faculdades como das dispo­ um do outro — por exemplo (pois aqui
sições de caráter. Considera-se que é grande a diferença de forma exterior),
uma faculdade ou ciência, que é uma como a ambigüidade no emprego de
só e a mesma coisa, se relaciona com i c \ e k para designar a clavícula de um 30
objetos contrários, mas uma disposi­ animal e o ferrolho com que trancamos
ção de caráter, que é um de dois uma porta. Tomemos, pois, como
contrários, não produz resultados ponto de partida os vários significados
is opostos. Por exemplo: em razão da de “um homem injusto”. Mas o
saúde não fazemos o que é contrário à homem sem lei, assim como o ganan­
saúde, mas só o que é saudável, pois cioso e ímprobo, são considerados
dizemos que um homem caminha de injustos, de forma que tanto o respei­
modo saudável quando caminha como tador da lei como o honesto serão
o faria um homem que gozasse saúde. evidentemente justos. O justo é, por­
Ora, muitas vezes um estado é reco­ tanto, o respeitador da lei e o probo, e o
nhecido pelo seu contrário, e não injusto é o homem sem lei e ímprobo.
menos freqüentemente os estados são Visto que o homem injusto é ganan- 1129b
reconhecidos pelos sujeitos que os cioso, deve ter algo que ver com bens
manifestam; porque, (a) quando conhe- — não todos os bens, mas aqueles a
20 cemos a boa condição, a má condição que dizem respeito a prosperidade e a
122 ARISTÓTELES

adversidade, e que tomados em abso­ tras virtudes e formas de maldade,


luto são sempre bons, mas nem sempre prescrevendo certos atos e condenando
o são para uma pessoa determinada. outros; e a lei bem elaborada faz essas
5 Ora, os homens almejam tais coisas e coisas retamente, enquanto as leis con­
as buscam diligentemente; e isso é o cebidas às pressas as fazem menos
contrário do que deveria ser. Deviam bem.
antes pedir aos deuses que as coisas Essa forma de justiça é, portanto, 25
que são boas em absoluto o fossem uma virtude completa, porém não em
também para eles, e escolher essas. absoluto e sim em relação ao nosso
O homem injusto nem sempre esco­ próximo. Por isso a justiça é muitas
lhe o maior, mas também o menor — vezes considerada a maior das virtu­
no caso das coisas que são más em des, e “nem Vésper, nem a estrela-d’al­
absoluto. Mas, como o mal menor é, v a 64” são tão admiráveis; e prover­
em certo sentido, considerado bom, e a bialmente, “na justiça estão
10 ganância se dirige para o bom, pensa- compreendidas todas as virtudes 6 5” . E
se que esse homem é ganancioso. E é ela é a virtude completa no pleno senti- 30
igualmente iníquo, pois essa caracte­ do do termo, por ser o exercício atual
rística contém ambas as outras e é da virtude completa. É completa por­
comum a elas. que aquele que a possui pode exercer
Como vim os63 que o homem sem sua virtude.não só sobre si mesmo,
lei é injusto e o respeitador da lei é mas também sobre o seu próximo, já
justo, evidentemente todos os atos legí­ que muitos homens são capazes de
timos são, em certo sentido, atos jus­ exercer virtude em seus assuntos priva­
tos; porque os atos prescritos pela arte dos, porém não em suas relações com
do legislador são legítimos, e cada um os outros. Por isso é considerado ver- mo»
is deles, dizemos nós, é justo. Ora, nas dadeiro o dito de Bias, “que o mando
disposições que tomam sobre todos os revela o homem”, pois necessaria­
assuntos, as leis têm em mira a vanta­ mente quem governa está em relação
gem comum, quer de todos, quer dos com outros homens e é um membro da
melhores ou daqueles que detêm o sociedade.
poder ou algo nesse gênero; de modo Por essa mesma razão se diz que
que, em certo sentido, chamamos jus­ somente a justiça, entre todas as virtu­
tos aqueles atos que tendem a produzir des, é o “bem de um outro 6 6”,visto que
e a preservar, para a sociedade políti­ se relaciona com o nosso próximo,
ca, a felicidade e os elementos que a fazendo o que é vantajoso a um outro, 5
compõem. E a lei nos ordena praticar seja um governante, seja um associado.
20 tanto os atos de um homem bravo Ora, o pior dos homens é aquele que
(por exemplo, .não desertar de nosso exerce a sua maldade tanto para consi­
posto, nem fugir, nem abandonar nos­ go mesmo como. para com os seus ami­
sas armas) quanto os de um homem gos, e o melhor não é o que exerce a
temperante (por exemplo, não cometer sua virtude para consigo mesmo, mas
adultério nem entregar-se à luxúria) e para com um outro; pois que difícil ta­
os de um homem calmo (por exemplo refa é essa.
não bater em ninguém, nem caluniar);
e do mesmo modo com respeito às ou-
6 4 Eurípides, fragmenta 486 de Melanipa (ed..
Nauck). (N. do T.)
6 5 Teógnis, 147. (N. do T.)
“ 1129 a 32 — 1129 b 1. (N. do T.) 6 6 Platão, República, 343. (N. do T.)
ÉTICA A NICÔMACO — V 123

Portanto, a justiça neste sentido não justiça neste sentido: são elas a mesma
é uma parte da virtude, mas a virtude coisa, mas não o é a sua essência.
10 inteira; nem é seu contrário, a injusti­ Aquilo que, em relação ao nosso próxi­
ça, uma parte do vício, mas o vício mo, é justiça, como uma determinada
inteiro. O que dissemos põe a desco­ disposição de caráter e em si mesmo, é
berto a diferença entre a virtude e a virtude.

Seja, porém, como for, jo objeto de pela razão de lucrar com o seu ato.
nossa investigação é aquela justiça que Ainda mais: todos os outros atos injus­
constitui uma parte da virtude; por­ tos são invariavelmente atribuídos a
quanto sustentamos que tal espécie de alguma espécie particular de-maldade;
justiça existe. E analogamente, é com a por exemplo, o adultério à intempe- 30
ts injustiça no sentido particular que nos rança, o abandono de um companheiro
ocupamos. em combate à covardia, a violência fí­
Que tal coisa existe, é indicado pelo sica à cólera; mas, quando um homem
fato de que o homem que mostra em tira proveito de sua ação, esta não é
seus atos as outras formas de maldade atribuída a nenhuma outra forma de
age realmente mal, porém não ganan­ maldade que não a injustiça. É eviden­
ciosamente (por exemplo, o homem te, pois, que além da injustiça no senti­
que atira ao chão o seu escudo por do lato existe uma injustiça “particu­
covardia, que fala duramente por mau
lar” que participa do nome e da
humor ou deixa de assistir com di-
natureza da primeira, porque sua defi­
20 nheiro ao seu amigo, por avareza); e,
nição se inclui no mesmo gênero. Com 1130b
•por outro lado, o ganancioso muitas
efeito, o significado de ambas consiste
vezes não exibe nenhum desses vícios,
nem todos juntos, mas indubitavel­ numa relação para com o próximo,
mente revela uma certa espécie de mal­ mas uma delas diz respeito à honra, ao
dade (pois nós o censuramos) e de dinheiro ou à segurança — ou àquilo
injustiça. Existe, pois, uma outra espé­ que inclui todas essas coisas, se hou­
cie de injustiça que é parte da injustiça vesse um nome para designá-lo — e
no sentido lato, e um dos empregos da seu motivo é o prazer proporcionado
palavra “ injusto” que corresponde a pelo lucro; enquanto a outra diz res­
uma parte do que é injusto no sentido peito a todos os objetos com que se 5
amplo de “contrário à lei” . relaciona o homem bom.
Por outro lado, se um homem come­ Está bem claro, pois, que existe mais
te adultério tendo em vista o lucro e de uma espécie de justiça, e uma delas
25 ganha dinheiro com isso, enquanto um se distingue da virtude no pleno senti­
outro o faz levado pelo apetite, embora do da palavra. Cumpre-nos determinar
perca dinheiro e sofra com o seu ato, o o seu gênero e a sua diferença especí­
segundo será considerado intempe­ fica.
rante e não ganancioso, enquanto o O injusto foi dividido em ilegítimo e
primeiro é injusto, mas não intempe­ ímprobo e o justo em legítimo e probo.
rante. Está claro, pois, que ele é injusto Ao ilegítimo corresponde o sentido de
124 ARISTÓTELES

10 injustiça que examinamos acima. Mas, essa que tom a um homem bom em si,
como ilegítimo e ímprobo não são a fica para ser determinado posterior­
mesma coisa, mas diferem entre si m ente67, se isso compete à arte polí­
como uma parte do seu todo (pois tudo tica ou a alguma outra; pois talvez não
que é ímprobo é ilegítimo, mas nem haja identidade entre ser um homem
tudo que é ilegítimo é ímprobo), o bom e ser um bom cidadão de qual­
injusto e a injutiça no sentido de quer Estado escolhido ao caso.
improbidade não se identificam com a D a justiça particular e do que é ■x
primeira espécie citada, mas diferem justo no sentido correspondente, (A)
dela como a parte do todo. Com efeito, uma espécie é a que se manifesta nas
a injustiça neste sentido é uma parte da distribuições de honras, de dinheiro ou
injustiça no sentido amplo, e, do das outras coisas que são divididas
mesmo modo, a justiça num sentido o entre aqueles que têm parte na consti­
a é da justiça do outro. Portanto, deve­ tuição (pois aí é possível receber um
mos também falar da justiça e da injus­ quinhão igual ou desigual ao de um
tiça particulares, e da mesma forma a outro); e (B) outra espécie é aquela que
respeito do justo e do injusto. desempenha um papel corretivo nas
Quanto à justiça, pois, que corres­ transações entre indivíduos. Desta últi- im a
ponde à virtude total, e à correspon­ ma há duas divisões: dentre as transa­
dente injustiça, sendo uma delas o ções, ( 1) algumas são voluntárias, e (2)
exercício da virtude em sua inteireza e outras são involuntárias — voluntá­
a outra, o do vício completo, ambos - rias, por exemplo, as compras e ven­
em relação ao nosso próximo, pode­ das, os empréstimos para consumo, as
mos deixá-las de parte. E é evidente o arras, o empréstimo para uso, os depó­
modo como devem ser distinguidos os sitos, as locações (todos estes são cha­
20 significados de “justo” e de “ injusto” mados voluntários porque a origem
que lhes correspondem, pois, a bem das transações é voluntária); ao passo 5
dizer, a maioria dos atos ordenados que das involuntárias, (a) algumas são
pela lei são aqueles que são prescritos clandestinas, como o furto, o adultério,
do ponto de vista da virtude conside­ o envenenamento, o lenocínio, o engo­
rada como um todo. Efetivamente, a do a fim de escravizar, o falso testemu­
lei nos manda praticar todas as virtu­ nho, e (b) outras são violentas, como a .
des e nos proíbe de praticar qualquer agressão, o seqüestro, o homicídio, o
25 vício. E as coisas que tendem a produ­ roubo a mão armada, a mutilação, as
zir a virtude considerada como um invectivas e os insultos.
todo são aqueles atos prescritos pela
lei tendo em vista a educação para o
6 7 1179 b 20 — 1181 b 12. Política, 1267 b 16 —
bem comum. Mas no que tange à edu­ 1277 b 32; 1278 a 40 — 1278 b 5; 1288 a 32 —
cação do indivíduo como tal, educação 1288 b 2; 1333 a 11,16; 1337 a 11-14. (N. do T.)

3
w (A) Mostramos que tanto o homem entre as duas iniqüidades cómpreen-
como o ato injustos são ímprobos ou didas em cada caso. E esse ponto é a
iníquos. Agora se torna claro que exis- eqüidade, pois em toda espécie de ação
te também um ponto intermediário em que há o mais e o menos também
ÉTICA A NICÔMACO — V 125

há o igual. Se, pois, o injusto é iníquo, abstratas, mas do número em geral).


o justo é eqüitativo, como, aliás, pen­ Com efeito, a proporção é uma igual­
sam todos mesmo sem discussão. E, dade de razões, e envolve quatro ter­
como o igual é um ponto interme- mos pelo menos (que a proporção
i5 diário, o justo será um meio-termo. descontínua envolve quatro termos é
Ora, igualdade implica pelo menos evidente, mas o mesmo sucede com a
duas coisas. O justo, por conseguinte, contínua, pois ela usa üm termo em
deve ser ao mesmo tempo interme­ duas posições e o menciona duas
diário, igual e relativo (isto é, para cer­ vezes; por exemplo “ a linha A está imb
tas pessoas). E, como intermediário, para a linha B assim como a linha B
deve encontrar-se entre certas coisas está para a linha C ” : a linha B, pois,
foi mencionada duas vezes e, sendo ela
(as quais são, respectivamente, maio­
usada em duas posições, os termos
res e menores); como igual, envolve
proporcionais são quatro). O justo
duas coisas; e, como justo, o é para
também envolve pelo menos quatro
certas pessoas. O justo, pois, envolve
termos, e a razão entre dois deles é a
pelo menos quatro termos, porquanto mesma que entre os outros dois, por- 5
duas são as pessoas para quem ele é de quanto há uma distinção semelhante
fato justo, e duas são as coisas em que entre as pessoas e entre as coisas.
se manifesta — os objetos distri­ Assim como o termo A está para B, o
buídos. termo C está para D; ou, alternando,
20 E a mesma igualdade se observará assim como A está para C, B está para
entre as pessoas e entre as coisas D. Logo, também o todo guarda a
envolvidas; pois a mesma relação que mesma relação para com o todo; e esse
existe entre as segundas (as coisas acoplamento é efetuado pela distribui­
envolvidas) também existe entre as pri­ ção e, sendo combinados os termos da
meiras. Se não são iguais, não recebe­ forma que indicamos, efetuado justa­
rão coisas iguais; mas isso é origem de mente. Donde se segue que a conjun­
disputas e queixas: ou quando iguais ção do termo A com C e de B com D é
têm e recebem partes desiguais, ou o que é justo na distribuição; e esta to
quando desiguais recebem partes espécie do justo é intermediária, e o
25 iguais. Isso, aliás, é evidente pelo fato injusto é o que viola a proporção; por­
de que as distribuições devem ser feitas que o proporcional é intermediário, e o
“de acordo com o mérito” ; pois todos justo é proporcional. (Os matemáticos
admitem que a distribuição justa deve chamam “geométrica” a esta espécie
concordar com o mérito num sentido de proporção, pois só na proporção
qualquer, se bem que nem todos espe­ geométrica o todo está para o todo
cifiquem a mesma espécie de mérito, assim como cada parte está para a
mas os democratas o identificam com parte correspondente.) Esta proporção is
a condição de homem livre, os partidá­ não é contínua, pois não podemos
rios da oligarquia com a riqueza (ou obter um termo único que represente
com a nobreza de nascimento), e os uma pessoa e uma coisa.
partidários da aristocracia com a exce­ Eis aí, pois, o que é o justo: o
lência. proporcional; e o injusto é o que viola
30 O justo é, pois, uma espécie de a proporção. Desse modo, um dos ter­
termo proporcional (sendo a propor­ mos torna-se grande demais e o outro
ção uma propriedade não só da espécie demasiado pequeno, como realmente
de número que consiste em unidades acontece na prática; porque o homem
126 ARISTÓTELES

que age injustamente tem excesso e o primeiro é escolhido de preferência ao


que é injustamente tratado tem dema­ segundo, e o que é digno de escolha é
siado pouco do que é bom. No caso do bom, e de duas coisas a mais digna de
mal verifica-se o inverso, pois o menor escolha é um bem maior.
mal é considerado um bem em compa­ Essa é, por conseguinte, uma das
ração com o mal maior, visto que o espécies do justo.

(B) A outra é a corretiva que surge em procura igualá-los por meio da pena,
relação com transações tanto voluntá­ tomando uma parte do ganho do acu­
rias como involuntárias. Esta forma do sado. Porque o termo “ganho” aplica-
justo tem um caráter específico dife­ se geralmente a tais casos, embora não
rente da primeira. Com efeito, a justiça seja apropriado a alguns deles, como,
que distribui posses comuns está sem­ por exemplo, à pessoa que inflige um
pre de acordo com a proporção men­ ferimento — e “perda” à vítima. Seja
cionada acima (e mesmo quando se como for, uma vez estimado o dano,
trata de distribuir os fundos comuns de um é chamado perda e o outro, ganho.
uma sociedade, ela se fará segundo a Logo, o igual é intermediário entre o
mesma razão que guardam entre si os maior e o menor, mas o ganho e a
fundos empregados no negócio pelos perda são respectivamente menores e
diferentes sócios); e a injustiça contrá­ maiores em sentidos contrários; maior
ria a esta espécie de injustiça é a que quantidade do bem e menor quanti­
viola a proporção. Mas a justiça nas dade do mal representam ganho, e o
transações entre um homem e outro é contrário é perda; e intermediário entre
efetivamente uma espécie de igualdade, os dois é, como vimos, o igual, que
e a injustiça uma espécie de desigual­ dizemos ser justo. Por conseguinte, a
dade; não de acordo com essa espécie justiça corretiva será o intermediário
de proporção, todavia, mas de acordo entre a perda e o ganho.
com uma proporção aritmética. Por­ Eis aí por que as pessoas em disputa
quanto não faz diferença que um recorrem ao juiz; e recorrer ao juiz é
homem bom tenha defraudado um recorrer à justiça, pois a natureza do
homem mau ou vice-versa, nem se foi juiz é ser uma espécie de justiça anima­
um homem bom ou mau que cometeu da; e procuram o juiz como um inter­
adultério; a lei considera apenas o mediário, e em alguns Estados os jui­
caráter distintivo do delito e trata as zes são chamados mediadores, na
partes como iguais, se uma comete e a convicção de que, se os litigantes
outra sofre injustiça, se uma é autora e conseguirem o meio-termo, consegui­
a outra é vítima do delito. rão o que é justo. O justo, pois, é um
Portanto, sendo esta espécie de meio-termo já que o juiz o é.
injustiça uma desigualdade, o juiz pro­ Ora, o juiz restabelece a igualdade.
cura igualá-la; porque também no caso É como se houvesse uma linha divi­
em que um recebeu e o outro infligiu dida em partes desiguais e ele retirasse
um ferimento, ou um matou e o outro a diferença pela qual o segmento maior
foi morto, o sofrimento e a ação foram excede a metade para acrescentá-la ao
desigualmente destribuídos; mas o juiz menor. E quando o todo foi igualmente
ÉTICA A NICÔMACO — V 127

dividido, os litigantes dizem que rece­ linha A A ' o segmento AE, e acrescen-
beram “o que lhes pertence” — isto é, te-se à linha C C ' o segmento CD, de
receberam o que é igual. modo que toda a linha D C C ' exceda a
O igual é intermediário entre a linha linha EA' pelo segmento CD e pelo
maior e a menor de acordo com uma segmento C F; por conseguinte, ela ex­
30 proporção aritmética. Por esta mesma cede a linha BB' pelo segmento CD.
razão é ele chamado justo (Súcatov), A E A'
devido a ser uma divisão em duas par­ i------------ 1---------------------------- 1
tes iguais ( 6í \ a ), como quem dissesse B B'
Síxaiw ; e o juiz ( 6u<aari?ç ) é aquele i----------------------------------------- 1
que divide em dois ( ôixaorrjç ). Com D C F c
i------------1---------- 1---------------------------- 1
efeito, quando alguma coisa é sub­
traída de um de dois iguais e acres­ Estes nomes, perda e ganho, procedem
centada ao outro, este supera o pri­ das trocas voluntárias, pois ter mais do
meiro pelo dobro dela, visto que, se o que aquilo que é nosso chama-se
que foi tomado a um não fosse acres­ ganhar, e ter menos do que a nossa
centado ao outro, a diferença seria de parte inicial chama-se perder, como,
1132b um só. Portanto, o maior excede o por exemplo, nas compras e vendas e
intermediário de um, e o intermediário em todas as outras transações em que is
excede de um aquele de que foi sub­ a lei dá liberdade aos indivíduos para
traída alguma coisa. Por aí se vê que estabelecerem suas próprias condições;
devemos tanto subtrair do que tem quando, todavia, não recebem mais
mais como acrescentar ao que tem nem menos, mas exatamente o que lhes
menos; e a este acrescentaremos a pertence, dizem que têm o que é seu e
j quantidade pela qual o excede o inter­ que nem ganharam nem perderam.
mediário, e do maior subtrairemos o Logo, o justo é intermediário entre
seu excesso em relação ao interme­ uma espécie de ganho e uma espécie de
diário. perda, ã saber, os que são involuntá­
Sejam as linhas A A ', BB' e C C ' rios. Consiste em ter uma quantidade 20
iguais umas às outras. Subtraia-se da igual antes e depois da transação.

5
Alguns pensam que a reciprocidade não se coaduna com a justiça correti­
é justa sem qualquer reserva, como di­ va: por exemplo ( 1), se uma autoridade
ziam os pitagóricos; pois assim defi­ infligiu um ferimento, não deve ser fe­
niam eles a justiça. Ora, “reciproci­ rida em represália, e se alguém feriu
dade” não se enquadra nem na justiça uma autoridade, não apenas deve ser 30

25 distributiva, nem na corretiva, e no também ferido, mas castigado além


entanto querem que- a justiça do pró­ disso. Acresce que (2) há grande dife­
prio Radamaríto signifique isso: rença entre um ato voluntário e um ato
Se um homem -sofrer o que fe z, a devi- involuntário. Mas nas transações de
f da justiça, será feita 68. troca essa espécie de justiça não pro­
Ora, em muitos casos a reciprocidade duz a união dos homens: a reciproci­
dade deve fazer-se de acordo com uma
68 Hesíodo, fragmento 174 Rzach. (N. do T.) proporção e não na base de uma retri-
128 ARISTÓTELES

buição exatamente igual. Porquanto é pares de sapatos são iguais a uma casa
pela retribuição proporcional que a ci­ ou a uma determinada quantidade de
dade se mantém unida. Os homens alimento.
procuram pagar o mal com o mal e, se O número de sapatos trocados por
não podem fazê-lo, julgam-se reduzi­ uma casa (ou por uma determinada
dos ã condição de simples escravos — quantidade de alimento) deve, portan­
e o bem com o bem, e se não podem to, corresponder à razão entre o arqui­
fazê-lo não há troca, e é pela troca que teto e o sapateiro. Porque, se assim
eles se mantêm unidos. Por esse não for, não haverá troca nem inter­
mesmo motivo dão uma posição proe­ câmbio. E essa proporção não se veri- 25
minente ao templo das Graças: promo­ ficará, a menos que os bens sejam
ver a retribuição dos serviços é carac­ iguais de um modo. Todos os bens
terístico da graça, e deveríamos servir devem, portanto, ser medidos por uma
em troca aquele què nos dispensou só e a mesma coisa, como dissemos
uma graça, tomando noutra ocasião a acima. Ora, essa unidade é na reali­
iniciativa de lhe fazer o mesmo. dade a procura, que mantém unidas
5 Ora, a retribuição proporcional é todas as coisas (porque, se os homens
garantida pela conjunção cruzada. não necessitassem em absoluto dos
Seja A um arquiteto, B um sapateiro, bens uns dos outros, ou não necessi­
C uma casa e D um par de sapatos. O tassem deles igualmente, ou não have­
arquiteto, pois, deve receber do sapa­ ria troca, ou não a mesma troca); mas
teiro o produto do trabalho deste últi- o dinheiro tomou-se, por convenção, 30
io■ mo, e dar-lhe o seu em troca. Se, pois, uma espécie de representante da procu­
há uma igualdade proporcional de ra; e por isso se chama dinheiro (vónia
bens e ocorre a ação recíproca, o resul­ lua ), já que existe não por natureza,
tado que mencionamos será efetuado. mas por lei ( vófioç ), e está em nosso
Senão, a permuta não é igual, nem vá­ poder mudá-lo e torná-lo sem valor.
lida, pois nada impede que o trabalho Haverá, pois, reciprocidade quando
de um seja superior ao do outro. os termos forem igualados de modo
Devem, portanto, ser igualados. que, assim como o agricultor está para
E isto é verdadeiro também das ou­ o sapateiro, a quantidade de produtos
tras artes, porquanto elas não subsisti- do sapateiro esteja para a de produtos
is riam se o que o paciente sofre não de agricultor pela qual é trocada. Mas
fosse exatamente o mesmo que o agen­ não devemos, colocá-los em proporção 1133b
te faz, e da mesma quantidade e espé­ depois de haverem realizado a troca
cie. Com efeito, não são dois médicos (do contrário ambos os excessos se
que se associam para troca, mas um juntarão num dos extremos), e sim
médico e um agricultor, e, de modo quando cada um possui ainda os seus
geral, pessoas diferentes e desiguais; bens. Desse modo são iguais e associa­
mas essas pessoas devem ser iguala­ dos justamente porque essa igualdade
das. Eis aí por que todas as coisas que se pode efetivar no seu caso.
são objetos de troca devem ser compa­ Seja A um agricultor, C uma deter­
ráveis de um modo ou de outro. Foi minada quantidade de alimento, B um
para esse fim que se introduziu o sapateiro e D o seu produto, que equi- 5
20 dinheiro, o qual se tom a, em certo sen­ paramos a C. Se não fosse possível efe­
tido, um meio-termo, visto que mede tuar dessa forma a reciprocidade, não
todas as coisas e, por conseguinte, haveria associação das partes. Que a
também o excesso e a falta — quantos procura engloba as coisas numa unida-
ÉTICA A NICÔMACO — V 129

de só é evidenciado pelo fato de que, uma casa, a saber: cinco. Não há dúvi­
quando os homens não necessitam um da que a troca se realizava desse modo
do outro — isto é, quando não há antes de existir dinheiro, pois nenhuma
necessidade recíproca ou quando um diferença faz que cinco camas sejam
deles não necessita do segundo — , não trocadas por uma casa ou pelo valor
realizam a troca, como acontece quan­ monetário de cinco camas.
do alguém deseja o que temos: por Temos, pois, definido o justo e o m
10 exemplo, quando se permite a exporta­ injusto. Após distingui-los assim um
ção de trigo em troca de vinho. È pre­ do outro, é evidente que a ação justa é
ciso, pois, estabelecer essa equação. intermediária entre o agir injustamente
E quanto às trocas futuras — a fim e o ser vítima de injustiça; pois um
de que, se não necessitamos de uma deles é ter demais e o outro é ter dema­
coisa agora, possamos tê-la quando ela siado pouco. A justiça é uma espécie
venha a fazer-se necessária — , o de meio-termo, porém não no mesmo
dinheiro é, de certo modo, a nossa sentido que as outras virtudes, e sim
garantia, pois devemos ter a possibili­ porque se relaciona com uma quantia
dade de obter o que queremos em troca ou quantidade intermediária, enquanto
do dinheiro. Ora, com o dinheiro suce­ a injustiça se relaciona com os extre­
de a mesma coisa que com os bens: mos. E justiça é aquilo em virtude do "
nem sempre tem ele o mesmo valor; qual se diz que o homem justo pratica,
apesar disso, tende a ser mais estável. por escolha própria, o que é justo, e
Daí a necessidade de que todos os bens que distribui, seja entre si mesmo e um
tenham um preço marcado; pois assim outro, seja entre dois outros, não de
/j haverá sempre troca e, por conse­ maneira a dar mais do que convém a si
guinte, associação de homem com mesmo e menos ao seu próximo (e s
homem. inversamente no relativo ao que não
Deste modo, agindo o dinheiro convém), mas de maneira a dar o que é
como uma medida, torna ele os bens igual de acordo com a proporção; e da
comensuráveis e os equipara entre si; mesma forma quando se trata de distri­
pois nem haveria associação se não buir entre duas outras pessoas. A
houvesse troca, nem troca se não hou­ injustiça, por outro lado, guarda uma
vesse igualdade, nem igualdade se não relação semelhante para com o injusto,
houvesse comensurabilidade. Ora, ha que é excesso e deficiência, contrários
realidade é impossível que coisas tão à proporção, do útil ou do nocivo. Por
diferentes entre si se tornem comensu- esta razão a injustiça é excesso e defi­
20 ráveis, mas com referência à procura ciência, isto é, porque produz tais coi­
podem tomar-se tais em grau sufi­ sas — no nosso caso pessoal, excesso
ciente. Deve haver, pois, uma unidade, do que é útil por natureza e deficiência w
e unidade estabelecida por comum do que é nocivo, enquanto o caso de
acordo (por isso se chama ela dinhei­ outras pessoas é equiparável de modo
ro); pois é ela que torna todas as coisas geral ao nosso, com a diferença de que
comensuráveis, já que todas são medi­ a proporção pode ser violada num e
das pelo dinheiro. noutro sentido. Na ação injusta, ter
Seja A uma casa, B dez minas, C demasiado pouco é ser vítima de injus­
uma cama. A é a metade de B, se a tiça, e ter demais é agir injustamente.
casa vale cinco minas ou é igual a elas; Seja esta a nossa exposição da natu­
25 a cama, C, é um décimo de B; torna-se reza da justiça e da injustiça e, igual­
assim evidente quantas camas igualam mente, do justo e do injusto em geral. /.<
130 ARISTÓTELES

Visto que agir injustamente não nem sempre se pode inferir que haja
implica necessariamente ser injusto, injustiça), e estas consistem em atri- 35
devemos indagar que espécies de atos buir demasiado a si próprio das coisas
injustos implicam que o autor é injusto boas em si, e demasiado pouco das coi­
com respeito a cada tipo de injustiça: sas más em si.
por exemplo, um ladrão, um adúltero Aí está por que não permitimos que
ou um bandido. Evidentemente, a res­ um homem governe, mas o princípio
posta não gira em torno da diferença racional, pois que um homem o faz no
entre esses tipos, pois um homem seu próprio interesse e converte-se num 1134b
poderia até deitar-se com uma mulher, tirano. O magistrado, por outro lado, é
20 sabendo quem ela é, sem que no entan­ um protetor da justiça e, por conse­
to o motivo de seu ato fosse uma esco­ guinte, também da igualdade. E, visto
lha deliberada, mas a paixão. Esse supor-se que ele não possua mais do
homem age injustamente, por conse­ que a sua partè, se é justo (porque não
guinte, mas não é injusto; e um homem atribui a si mesmo mais daquilo que é
pode não ser ladrão apesar de ter rou­ bom em si, a menos que tal quinhão
bado, nem adúltero apesar de ter seja proporcional aos seus méritos — 5
cometido adultério; e analogamente de modo que é para outros que traba­
em todos os outros casos. lha, e por essa razão os homens, como
Ora, já mostramos anteriormente mencionamos anteriormente70, dizem
como o recíproco se relaciona com o ser a justiça “o bem de um outro”), ele
2s ju s to 69; mas não devemos esquecer deve, portanto, ser recompensado, e
que o que estamos procurando não é sua recompensa é a honra e o privilé­
apenas aquilo que é justo incondicio­ gio; mas aqueles que não se contentam
nalmente, mas também a justiça políti­ com essas coisas tornam-se tiranos.
ca. Esta é encontrada entre homens A justiça de um amo e a de um pai
que vivem em comum tendo em vista a não são a mesma que a justiça dos
auto-suficiência, homens que são livres cidadãos, embora se assemelhem a ela,
e iguais, quer proporcionalmente, quer pois não pode haver justiça no sentido
aritmeticamente, de modo que entre os incondicional em relação a coisas que
que não preenchem esta condição não nos pertencem, mas o servo de um 10
existe justiça política, mas justiça num homem e o seu filho, até atingir certa
sentido especial e por analogia. idade e tornar-se independente, são,
3o Com efeito, a justiça existe apenas por assim dizer, uma parte dele. Ora,
entre homens cujas relações mútuas ninguém fere voluntariaménte a si
são governadas pela lei; e a lei existe mesmo, razão pela qual também não
para os homens entre os quais há injus­ pode haver injustiça contra si próprio.
tiça, pois a justiça legal é a discrimi­ Portanto, não é em relações dessa
nação do justo e do injusto. E, havendo espécie que se manifesta a justiça ou
injustiça entre homens, também há injustiça dos cidadãos; pois, como
ações injustas (se bem que do fato de vimos 71, ela se relaciona com a lei e
ocorrerem ações injustas entre eles
70 1 130 a 3. (N. do T.)
” 1132 b 21 — 1133 b 28. (N. do T.) 71 1134 a 30. (N. do T.)
ÉTICA A NICÔMACO — V 131

se verifica entre pessoas naturalmente Por isso é mais fácil manifestar verda-
sujeitas à lei; e estas, como também deira justiça para com nossa esposa do >s
vim os72, são pessoas que têm partes que para com nossos filhos e servos,
iguais em governar e ser governadas. Trata-se, nesse caso, de justiça domés­
tica, a qual, sem embargo, também di-
12 1134 a 26-28. (N. do t . ) fere da justiça política.

7
D a justiça política, uma parte é ambas sejam igualmente mutáveis. E
natural e outra parte legal: natural, em todas as outras coisas a mesma dis­
aquela que tem a mesma força onde tinção será aplicável: por natureza, a
20 quer que seja e não existe em razão de mão direita é mais forte; e no entanto é
pensarem os homens deste ou daquele possível que todos os homens venham
modo; legal, a que de início é indife­ a tomar-se ambidestros.
rente, mas deixa de sê-lo depois que foi As coisas que são justas em virtude
estabelecida: por exemplo, que o resga­ da convenção e da conveniência asse­
te de um prisioneiro seja de uma mina, melham-se a medidas, pois que as 1135 a
ou que deve ser sacrificado um bode e medidas para o vinho e para o trigo
não duas ovelhas, e também todas as não são iguais ém toda parte, porém
leis promulgadas paja casos particula­ maiores nos mercados por atacado e
res, como a que m andava oferecer menores nos retalhistas. Da mesma
sacrifícios em honra de B rásidas73, e forma, as coisas que são justas não por
as prescrições dos decretos. natureza, mas por decisão humana,
Ora, alguns pensam que toda justiça não são as mesmas em toda parte. E as
é desta espécie, porque as coisas que próprias constituições não são as mes­
2s- são por natureza, são imutáveis e em mas, conquanto só haja uma que é, por
toda parte têm a mesma força (como o natureza, a melhor em toda parte.
fogo, que arde tanto aqui como na Pér­ Das coisas justas e legítimas, cada 5
sia), ao passo que eles observam alte­ uma se relaciona como o universal
rações nas coisas reconhecidas como para com o seus casos particulares;
justas. Isso, porém, não é verdadeiro pois as coisas praticadas são muitas,
de modo absoluto mas verdadeiro em mas dessas cada uma é uma só, visto-
certo sentido; ou melhor, para os deu­ que é universal.
ses talvez não seja verdadeiro de modo Há uma diferença entre o ato de
algum, enquanto para nós existe algo injustiça e o que é injusto, assim como
que é justo mesmo por natureza, embo­ entre o ato de justiça e o que é justo.
ra seja mutável. Isso não obstante, Como efeito, uma coisa é injusta por
algumas coisas o são por natureza e natureza ou por lei; e essa mesma
outras, não. coisa, depois que alguém a faz-, é um 10
Com toda a evidência percebe-se ato de injustiça; antes disso, porém, é
3o que espécie de coisas, entre as que são apenas injusta. E do mesmo modo
capazes de ser de outro modo, é por quanto ao ato de justiça (se bem que a
natureza e que espécie não o é, mas expressão geralmente usada seja “ ação
por lei e convenção, admitindo-se que justa”, e “ ato de justiça” se aplique à
correção do ato de injustiça).
73 Tucídides, V, 1 1. (N. do T.) Cada uma destas coisas deve ser
132 ARISTÓTELES

examinada separadamente mais tarde, suas espécies, bem como à natureza


no tocante à natureza e ao número de das coisas com que se relaciona.

Sendo os atos justos e injustos tais dade. Por conseguinte, aquilo que se
como os descrevemos, um homem age faz na ignorância, ou embora feito com
de maneira justa ou injusta sempre que conhecimento de causa, não depende
pratica tais atos voluntariamente. do agente, ou que é feito sob coação, é
Quando os pratica involuntariamente, involuntário (pois há, até, muitos pro­
seus atos não são justos nem injustos, cessos naturais que nós cientemente
salvo por acidente, isto é, porque ele realizamos e experimentamos, e ne­
fez coisas que redundam em justiças nhum dos quais, no entanto, se pode 1135b
ou injustiças. É o caráter voluntário ou qualificar de voluntário ou involun­
involuntário do ato que determina se tário, como, por exemplo, envelhecer
ele é justo ou injusto, pois, quando é ou morrer).
voluntário, é censurado, e pela mesma Mas tanto no caso dos atos justos
razão se torna um ato de injustiça; de como dos injustos, a injustiça ou justi­
forma que existem coisas que são ça pode ser apenas acidental; pois
injustas, sem que no entanto sejam pode acontecer que um homem restitua
atos de injustiça, se não estiver pre­ involuntariamente ou por medo um 5
sente também a voluntariedade. valor depositado em suas mãos, e
nesse caso não se deve dizer que ele
Por voluntário entendo, como já praticou um ato de justiça ou que agiu
disse antes74, tudo aquilo que um justamente, a não ser de modo aciden­
homem tem o poder de fazer e que faz tal. Da mesma forma, aquele que sob
com conhecimento de causa, isto é, coação e contra a sua vontade deixa de
sem ignorar nem a pessoa atingida restituir o valor depositado, agiu injus­
pelo ato, nem o instrumento usado, tamente e cometeu um ato de injustiça,
nem o fim que há de alcançar (por mas apenas por acidente.
exemplo, em quem bate, com que e Dos atos voluntários, praticamos al- w
com que fim); além disso, cada um guns por escolha e outros não; por
desses atos não deve ser acidental nem escolha, os que praticamos após deli­
forçado (se, por exemplo, A toma a berar, e por não escolha os que prati­
m ãa de B e com ela bate em C, B não camos sem deliberação prévia.
agiu voluntariamente, pois o ato não Há, por conseguinte, três espécies de
dependia dele). dano nas transações entre um homem e
A pessoa atingida pode ser o pai do outro. Os que são infligidos por igno­
agressor, e este pode saber que bateu rância são enganos quando a pessoa
num homem ou numa das pessoas pre­ atingida pelo ato, o próprio ato, o
sentes, ignorando, no entanto, que se instrumento ou o fim a ser alcançado
trata de seu pai. Uma distinção do são diferentes do que o agente supõe:
mesmo gênero se deve fazer quanto ao ou o agente pensou que não ia atingir
fim da ação e à ação em sua totali- ninguém, ou que não ia atingir com
determinado objeto, ou a determinada
74 1 109 b 3 5 — 1111 a 24. ( N . d o T . ) pessoa, ou com o resultado que lhe
ÉTICA A NICÔMACO — V 133

15 parecia provável (por exemplo, se ati­ não; pois foi a sua aparente injustiça
rou algo não com o propósito de ferir, que provocou a ira. Com efeito, eles
mas de incitar, ou se a pessoa atingida não disputam sobre a ocorrência do >»
ou o objeto atirado não eram os que ato (como nas transações comerciais
ele supunha). Ora, ( 1) quando o dano em que uma das duas partes forçosa­
ocorre contrariando o que era razoa­ mente agiu de má fé), a menos que o
velmente de esperar, é um infortúnio. façam por esquecimento; mas, estando
(2) Quando não é contrário a uma concordes a respeito do fato, disputam
expectativa razoável, mas tampouco sobre qual deles está com a justiça (ao
implica vício, é um engano (pois o passo que um homem que deliberada­
agente comete um engano quando a mente prejudicou a outro não pode
falta procede dele, mas é vítima de um ignorar tal coisa); de forma que um
acidente quando a causa lhe é exte­ pensa estar sendo injustamente tratado
rior). (3) Quando age com o conheci­ e o outro discorda dessa opinião.
mento do que faz, mas sem deliberação Mas, se um homem prejudica a u36a
2o prévia, é um ato de injustiça: por outro por escolha, age injustamente; e
exemplo, os que se originam da cólera são estes os atos de injustiça que
ou de outras paixões necessárias ou caracterizam os seus perpetradores
naturais ao homem. Com efeito,quan­ como homens injustos, contanto que o
do os homens praticam atos nocivos e. ato viole a proporção ou a igualdade.
errôneos desta espécie, agem injusta­ Do mesmo modo, um homem é justo
mente, e seus atos são atos de injustiça, quando age justamente por escolha;
mas isso não quer dizer que os agentes mas age justamente se sua ação é ape­
sejam injustos ou malvados, pois que o nas voluntária.
25 dano não se deve ao vício. Mas (4) Dos atos voluntários, alguns são ?
quando um homem age por escolha, é desculpáveis e outros não. Com efeito,
ele um homem injusto e vicioso. os erros que os homens cometem não
Por isso, é com razão que se consi­ apenas na ignorância mas também por
deram os atos originados da cólera ignorância são desculpáveis, enquanto
como impremeditados, pois a causa do os que não se devem à ignorância (em­
mal não foi o homem que agiu sob o bora sejam cometidos na ignorância),
impulso da cólera, mas aquele que o mas a uma paixão que nem é natural,
provocou. Além disso, o objeto da nem se conta entre aquelas a que o gê­
disputa não é se a coisa aconteceu ou nero humano está sujeito — esses são
deixou de acontecer, mas se é justa ou indesculpáveis.

9
io Dando como suficientemente defini­ Fizeste-lo por vosso querer, ou
dos o que sejam cometer injustiça e ser [compesar de am bos? 7 5
vítima dela, pode-se perguntar ( 1) se a
verdade está expressa nas palavras Será mesmo possível sermos tratados is
paradoxais de Eurípedes: injustamente por nosso querer, ou, pelo
contrário, será involuntária toda injus-
M atei minha mãe; eis o meu caso,
[em suma. 7 5 Fragmento 68 de Alcmêon, Nauck. (N. do T.)
134 ARISTÓTELES

tiça sofrida, como toda ação injusta é voluntariamente, devido à inconti-


voluntária? E será toda injustiça sofri­ nência, sofrer algum mal da parte de
da da segunda espécie ou da primeira, outro que age voluntariamente, de
ou às vezes voluntária e outras vezes modo que seria possível ser injusta­
involuntária? E do mesmo modo no mente tratado por seu próprio querer.
que se refere ao ser tratado com justi­ Ou porventura é incorreta a nossa defi­
ça: como toda ação justa é voluntária, nição, e a “fazer mal a um outro, com
20 seria razoável que houvesse uma opo­ conhecimento da pessoa atingida pela
sição semelhante em cada um dos dois ação, do instrumento e da maneira”
casos: que tanto o ser tratado com jus­ faz-se mister acrescentar “contra a
tiça como com injustiça fossem igual­ vontade da pessoa atingida pela s
mente voluntários ou involuntários. razão” ? Assim, um homem poderia ser
Mas pareceria paradoxal, mesmo no voluntariamente prejudicado e volun­
caso de ser tratado com justiça, que tariamente sofrer injustiça, mas nin­
isso fosse sempre voluntário, pois é guém seria injustamente tratado por
contra a sua vontade que alguns são seu querer; pois ninguém deseja ser
justamente tratados. injustamente tratado, nem mesmo o
(2) homem incontinente.
Poder-se-ia levantar esta outra
questão: todos os que sofrem injustiça Esse homem age contrariamente ao
estão sendo injustamente tratados, ou seu desejo, pois ninguém deseja o que
ocorrerá com a passividade a. mesma julga não ser bom, mas o homem
« coisa que com a ação? Tanto numa incontinente de fato fa z coisas que
como na outra é possível participar pensa não dever fazer. E, por outro
acidentalmente da justiça, e, do mesmo lado, quem dá -o que lhe pertence,
modo (como é evidente), da injustiça. como Homero diz que Glauco deu a
Com efeito, praticar um ato injusto Diômedes armadura de ouro por io
não é o mesmo que agir injustamente, armadura de bronze e o preço de cem
nem sofrer injustiça é o mesmo que ser bois por no ve1 6, não é injustamente
injustamente tratado; e o mesmo ocor­ tratado; porque, se o dar depende dele,
re quanto ao agir injustamente e ao ser o ser injustamente tratado não depen­
30 justamente tratado, pois é impossível de: para isso é preciso haver alguém
ser injustamente tratado se o outro não que o trate injustamente. Toma-se
age injustamente, ou ser justamente claro, pois, que o ser injustamente tra­
tratado a não ser que ele aja com justi­ tado não é voluntário.
ça. Ora, se agir injustamente não é Das questões que tencionávamos is
mais que prejudicar voluntariamente a discutir restam ainda duas: (3) se quem
alguém, e “voluntariamente” significa age injustamente é o homem que confe­
“com conhecimento da pessoa atingida re a um outro um quinhão superior ao
pela ação, do instrumento e da manei­ que lhe cabe ou o que ficou com o qui­
ra pela-qual se age” , e o homem incon- nhão excessivo, e (4) se é possível tra­
tinente prejudica voluntariamente a si tar injustamente a si mesmo. Estas
mesmo, não só ele será injustamente questões são mutuamente conexas,
tratado por seu querer como também porquanto se a primeira alternativa é
será possível tratar a si mesmo injusta­ possível e quem age injustamente é o
mente. (Esta possibilidade de tratar aquinhoador e não o homem que ficou
1136b injustamente a si mesmo é uma das com a parte excessiva, então, se um
questões a serem debatidas.)
Por outro lado, um homem pode 7 6 Ilíada, VI. 236. (N. do T.)
ÉTICA A NICÔMACO — V I 35

homem voluntariamente e com conhe­ recebeu, por conseguinte, um quinhão


cimento de causa atribui a um outro excessivo, tal qual como se houvesse
20 mais do que a si mesmo, esse homem participado na pilhagem; o fato de
trata a si mesmo injustamente; e é o receber algo diferente daquilo que dis­
que parecem fazer as pessoas modes­ tribui não vem ao caso, pois também
tas, já que o homem virtuoso tende a quando concede terras com vistas em
tomar menos que a sua parte justa. Ou participar da pilhagem, o que recebe
será também preciso pôr restrições ao não é terra, mas dinheiro.
que acabamos de dizer? Com efeito Os homens pensam que, como o agir 5
(a), ele talvez obtenha um quinhão injustamente depende deles, é fácil ser
maior de algum outro bem, como, por justo. Enganam-se, contudo: ir para a
exemplo, de honra ou de nobreza cama com a mulher do vizinho, ferir
intrínseca. (b) A questão é resolvida ou subornar alguém é fácil e depende
aplicando-se a distinção que fizemos de nós, mas fazer essas coisas em
no tocante à ação injusta, pois que ele resultado de uma disposição de caráter
não sofre nada contrário ao seu desejo, nem é fácil nem está em nosso poder.
e assim não é a rigor injustamente tra­ Do mesmo modo, conhecer o que é
tado, mas, no máximo, sofre um dano. justo e o que é injusto não exige grande w
25 É evidente, por outro lado, que o sabedoria, segundo pensam os homens,
aquinhoador age injustamente, mas porque não é difícil compreender os
isso nem sempre é verdadeiro do assuntos sobre que versa a lei (embora
homem que recebeu a parte excessiva; não sejam essas as coisas justas, salvo
porque não é aquele a quem cabe o acidentalmente). Mas saber como se
injusto que age injustamente, mas deve agir e como efetuar distribuições
aquele a quem coube praticar volunta­ a fim de ser justo é mais difícil do que
riamente o ato injusto, isto é, a pessoa saber o que faz bem à saúde; se bem
na qual reside a origem da ação; e esta que mesmo neste terreno, embora não
reside no aquinhoador, e não no aqui­ dê grande trabalho aprender que o mel,
nhoado. Por outro lado, como a pala- o vinho, o heléboro, o cautério e o uso n
3o vra “fazer” é ambígua, e de coisas da faca têm tal efeito, o saber como, a
inanimadas, de uma mão ou de um quem e em que ocasião essas coisas
escravo que executa uma ordem se devem ser aplicadas com vistas em
pode dizer em certo sentido que mata­ produzir a saúde não é menos difícil do
ram, aquele que recebeu um quinhão que ser médico.
excessivo não age injustamente, embo­ Ainda mais: por esta mesma razão
ra “faça” o que é injusto. julgam os homens que agir injusta­
Ainda mais: se o aquinhoador deci­ mente é tão próprio do homem justo
diu na ignorância, não age injusta­ como do injusto, pois aquele não seria
mente com respeito à justiça legal e menos, senão até mais capaz de come­
sua decisão não é injusta neste sentido, ter cada um desses atos injustos; com
mas em outro sentido é realmente efeito, o homem justo poderia deitar-se 20
injusta (pois a justiça legal e a justiça com uma mulher ou ferir o seu vizinho,
1137a primordial diferem entre si); mas se, e o valente poderia jogar fora o seu es­
com conhecimento de causa, julgou cudo e pôr-se em fuga. Mas fazer papel
injustamente, ele próprio tem em vista de covarde ou agir injustamente não
um quinhão excessivo, quer de grati­ consiste em praticar essas coisas, salvo
dão, quer de vingança. O homem que por acidente, e sim em praticá-las
julgou injustamente por estas razões como resultado de uma certa disposi-
136 ARISTÓTELES

ção de caráter, do mesmo modo que a alguns seres (como aos deuses, presu­
exercer a medicina e curar não consiste mivelmente) não é possível ter uma
em aplicar ou deixar de aplicar a faca, parte excessiva de tais coisas, e a
nem em usar ou deixar de usar medica­ outros, isto é, os incuravelmente maus,
mentos, mas em fazer essas coisas de nem a mais mínima parte seria benéfi­
certa maneira. ca, mas todos os bens dessa espécie
Os atos justos ocorrem entre pes­ são nocivos, enquanto para outros são
soas que participam de coisas boas em benéficos dentro de certos limites.
si e podem ter uma parte excessiva ou Donde se conclui que a justiça é algo
excessivamente pequena delas; porque essencialmente humano.

10
O assunto que se segue é a eqüidade justiça legal. A razão disto é que toda
e o eqüitativo (TÒénieiKéç) e respec­ lei é universal, mas a respeito de certas
tivas relações com a justiça e o justo. coisas não é possível fazer uma afirma­
Porquanto essas coisas não parecem ção universal que seja correta. Nos
ser absolutamente idênticas nem diferir casos, pois, em que é necessário falar
genericamente entre si; e, embora lou­ de modo universal, mas não é possível
vemos por vezes o eqüitativo e o fazê-lo corretamente, a lei considera o
homem eqüitativo (e até aplicamos caso mais usual, se bem que não ignore
esse termo como expressão laudatória a possibilidade de erro. E nem por isso
a exemplo de outras virtudes, signifi­ tal modo de proceder deixa de ser cor­
cando por ènieuiéoT epov que uma coisa reto, pois o erro não está na lei, nem no
é melhor), em outras ocasiões, pen­ legislador, mas na natureza da própria
sando bem, nos parece estranho que o coisa, já que os assuntos práticos são
eqüitativo, embora não se identifique dessa espécie por natureza..
com o justo, seja digno de louvor; por­ Portanto, quando a lei se expressa
que, se o justo e o eqüitativo são dife­ universalmente e surge um caso que
rentes, um deles não é bom; e, se são não é abrangido pela declaração uni­
ambos bons, têm de ser a mesma coisa. versal, é justo, uma vez que o legisla­
São estas, pois, aproximadamente, dor falhou e errou por excesso de
as considerações que dão origem ao simplicidade, corrigir a omissão — em
problema em torno do eqüitativo. Em outras palavras, dizer o que o próprio
certo sentido, todas elas são corretas e legislador teria dito se estivesse presen­
não se opõem umas às outras; porque te, e que teria incluído na lei se tivesse
o eqüitativo, embora superior a uma conhecimento do caso.
espécie de justiça, é justo, e não é Por isso o eqüitativo é justo, supe­
como coisa de classe diferente que é rior a uma espécie de justiça — não à
melhor do que o justo. A mesma coisa, justiça absoluta, mas ao erro prove­
pois, é justa e eqüitativa, e, embora niente do caráter absoluto da disposi­
ambos sejam bons, o eqüitativo é ção legal. E essa é a natureza do eqüi­
superior. tativo: uma correção da lei quando ela
O que faz surgir o problema é que o é deficiente em razão da sua universali­
eqüitativo é justo, porém não o legal­ dade. E, mesmo, é esse o motivo por
mente justo, e sim uma correção da que nem todas as coisas são determi-
ÉTICA NICÔMACO — V 137

nadas pela lei: em torno de algumas é do que uma espécie de justiça. Eviden­
impossível legislar, de modo que se faz cia-se também, pelo que dissemos, 35
necessário um decreto. Com efeito, quem seja o homem eqüitativo: o
quando a coisa é indefinida, a regra homem que escolhe e pratica tais atos,
30 também é indefinida, como a régua de que não se aferra aos seus direitos em
chumbo usada para ajustar as moldu­ mau sentido, mas tende a tomar menos iu8>
ras lésbicas: a régua adapta-se à forma do que seu quinhão embora tenha a lei
da pedra e não é rígida, exatamente por si, é eqüitativo; e essa disposição
como o decreto se adapta aos fatos. de caráter é a eqüidade, que é uma
Toma-se assim bem claro o que seja espéòie de justiça e não uma diferente
o eqüitativo, que ele é justo e é melhor disposição de caráter.

11

Se um homem pode ou não tratar que ele trata o Estado injustamente.


injustamente a si mesmo, fica suficien- Além disso (b), naquele sentido de
s temente claro pelo que ficou dito “agir injustamente” em que o homem
atrá s7 7. Com efeito (a), uma classe de que assim procede é apenas injusto e
atos justos são os atos que estão em não completamente mau, não é possí- v
consonância com alguma virtude e que vel tratar injustamente a si mesmo.
são prescritos pela lei: por exemplo, a Com efeito, este sentido difere do ante­
lei não permite expressamente o suicí­ rior; o homem injusto, numa das acep­
dio, e o que a lei não permite expressa­ ções do termo, é mau de uma maneira
mente, ela o proíbe. Por outro lado, particularizada, tal qual como o covar­
quando um homem, violando a lei, de, e não no sentido de ser completa­
causa dano a um outro voluntaria­ mente mau, de forma que o seu “ ato
mente (excetuados os casos de retalia­ injusto” não manifesta maldade em
ção), esse homem age injustamente; e geral. Porque ( 1) isso implicaria a
um agente voluntário é aquele que possibilidade de ter sido a mesma
conhece tanto a pessoa a quem atinge coisa simultaneamente subtraída de
com o seu ato como o instrumento que outra e acrescentada a ela; mas isso é
usa; e quem, levado pela cólera, volun­ impossível, pois que o justo e o injusto
tariamente se apunhala, pratica esse sempre envolvem mais de uma pessoa.
10 ato contrariando a reta razão da vida, Por outro lado (2), a ação injusta é 20
e isso a lei não permite; portanto, ele voluntária e praticada por escolha,
age injustamente. Mas para com além de a ela pertencer a iniciativa
quem? Certamente que para com o (porque não se diz que agiu injusta­
Estado, e não para consigo mesmo. mente o homem que, tendo sofrido um
Por que ele sofre voluntariamente, e mal, retribui com o mesmo mal); mas
ninguém é voluntariamente tratado aquele que faz dano a si mesmo sofre e
com injustiça. Por essa mesma razão, pratica as mesmas coisas ao mesmo
o Estado pune o suicida, infligindo-lhe tempo. Além disso (3), se um homem
uma certa perda de direitos civis, pois pudesse tratar injustamente a si
mesmo, poderia ser tratado injusta­
77 Cf. 1129 a 32 — 1129 b 1; 1136 a 10 — 1137 mente por seu querer. E, por fim (4),
a 4. (N. do T.) ninguém age injustamente sem cometer 25
138 ARISTÓTELES

atos específicos de injustiça; mas nin­ conseguinte, ser injustamente tratado é n38b
guém pode cometer adultério com sua menos mau, porém nada impede que
própria esposa, nem assaltar a sua pró­ seja acidentalmente um mal maior.
pria casa ou furtar os seus próprios Isso, contudo, não interessa à teoria,
bens. que considera a pleuris um mal maior
De um modo geral, a questão: “pode do que um tropeção, muito embora
um homem tratar injustamente a si este último possa tomar-se acidental­
mesmo?” é também respondida pela mente mais grave, se a conseqüente
distinção que aplicamos a outra per­ queda é caüsa de ser o homem captu­
gunta: “pode um homem ser injusta­ rado ou morto pelo inimigo.
mente tratado por seu querer? 78” Metaforicamente e em virtude de 5
É também evidente que são más uma certa analogia, há uma justiça
ambas as coisas: ser injustamente tra­ não entre um homem e ele mesmo, mas
tado e agir injustamente; porque uma entre certas partes suas. Não se trata,
significa ter menos e a outra ter mais no entanto, de uma justiça de qualquer
}o do que a quantidade mediana, que espécie, mas daquela que prevalece
desempenha aqui o mesmo papel que o entre amo e escravo ou entre marido e
saudável na arte médica e a boa condi­ mulher. Pois tais são as relações que a
ção na arte do treinamento físico. Não parte racional da alma guarda para
obstante, agir injustamente é pior, pois com a parte irracional; e é levando em
envolve vício e merece censura. E tal conta essas partes que muitos pensam io
vício ou é da espécie completa e irres­ que um homem pode ser injusto para
trita, ou pouco menos (devemos admi­ consigo mesmo, a saber: porque as
tir esta segunda alternativa, porque partes em apreço podem sofrer alguma
nem toda ação injusta voluntária im­ coisa contrária aos seus desejos. Pen­
plica a injustiça como disposição de sa-se, por isso, que existe uma justiça
caráter), enquanto ser injustamente mútua entre elas, como entre gover­
tratado não envolve vício e injustiça na nante e governado.
35 própria pessoa. Em si mesmo, por E aqui termina a nossa exposição da is
justiça e das outras virtudes — isto é,
78 Cf. 1136 a 31 — 1 1 3 6 b 5 .(N .d o T .) das outras virtudes morais.
LIVRO VI
141

Como dissemos anteriormente que que se defina o que sejam aju sta regra
se deve preferir o meio-termo e não o e o padrão que a determina.
excesso ou a falta, e que o meio-termo Dividimos as virtudes da alma, js
é determinado pelos ditames da reta dizendo que algumas são virtudes do
20 razão, vamos discutir agora a natureza caráter e outras do intelecto. Agora
desses ditames. que acabamos de discutir em detalhe 1139a
Em todas as disposições de caráter as virtudes morais, exponhamos nosso
que mencionamos, assim como em ponto de vista relativo às outras da
todos os demais assuntos, há uma maneira que segue, começando por
meta a que visa o homem orientado fazer algumas observações a respeito
pela razão, ora intensificando, ora da alma.
relaxando a sua atividade; e há um Dissemos anteriormente que esta
padrão que determina os estados me­ tem duas partes: a que concebe uma
dianos que dizemos serem os meios- regra ou princípio racional, e a privada 5
termos entre o excesso e a falta, e que de razão. Façamos uma distinção sim­
estão em consonância com a reta ples no interior da primeira, admitindo
25 razão. Mas, assim dita a coisa, embora que sejam duas as partes que concebe­
verdadeira, não é de modo algum evi­ ram um princípio racional: uma pela
qual contemplamos as coisas cujas
dente; pois não só aqui como em todas
causas determinantes são invariáveis, e
as outras ocupações que são objetos de
outra pela qual contemplamos as coi­
conhecimento é correto afirmar que
sas variáveis; porque, quando dois
não devemos esforçar-nos nem relaxar
objetos diferem em espécie, as partes io
nossos esforços em demasia nem de­ da alma que correspondem a cada um
masiadamente pouco, mas em grau deles também diferem em espécie, visto
mediano e conforme dita a reta razão. ser por uma certa semelhança e afini­
Entretanto, se um homem possuísse dade com os seus objetos que elas os
apenas esse conhecimento, não saberia conhecem. Chamemos científica a uma
mais nada: por exemplo, não sabe- dessas partes e calculativa à outra,
3o ríamos que espécies de medicamento pois o mesmo são deliberar e calcular,
aplicar ao seu corpo se alguém disses­ mas ninguém delibera sobre o invariá­
se: “todos aqueles que a arte médica vel. Por conseguinte, a calculativa é
prescreve e que estão de acordo com a uma parte da faculdade que concebe
prática de quem possui a arte” . É um princípio racional. Devemos, is
necessário, pois, com respeito às dispo­ assim, investigar qual seja o melhor es­
sições da alma, não só que se faça essa tado de cada uma dessas duas partes,
declaração verdadeira, mas também pois nele reside a virtude de cada uma.
142 ARISTÓTELES

2
A virtude de uma coisa é relativa ao nação de intelecto e de caráter. O inte- 35
seu funcionamento apropriado. Ora, lecto em si mesmo, porém, não move
na alma existem três coisas que contro­ coisa alguma; só pode fazê-lo o inte­
lam a ação e a verdade: sensação, lecto prático que visa a um fim qual­
razão e desejo. quer. E isto vale também para o inte- ll39b
Destas três, a sensação não é princí- lecto produtivo, já que todo aquele que
20 pio de nenhuma ação: bem o mostra o produz alguma coisa o faz com um fim
fato de os animais inferiores possuírem em vista; e a coisa produzida não é um
sensação, mas não participarem da fim no sentido absoluto, mas apenas
ação. um fim dentro de uma relação particu­
A afirmação e a negação no racio­ lar, e o fim de uma operação particu­
cínio correspondem, no desejo, ao bus­ lar. Só o que se pratica é um fim irres­
car e ao fugir; de modo que, sendo a trito; pois a boa ação é um fim ao qual
virtude moral uma disposição de cará­ visa o desejo.
ter relacionada com a escolha, e sendo Portanto, a escolha ou é raciocínio
a escolha um desejo deliberado, tanto desiderativo ou desejo raciocinativo, e s
2s deve ser verdadeiro o raciocínio como a origem de uma ação dessa espécie é
reto o desejo para que a escolha seja um homem. (Deve-se observar que
acertada, e o segundo deve buscar exa­ nenhuma coisa passada é objeto de
tamente o que afirma o primeiro. escolha; por exemplo, ninguém escolhe
Ora, esta espécie de intelecto e de ter saqueado Tróia, porque ninguém
verdade é prática. Quanto ao intelecto delibera a respeito do passado, mas só
contemplativo, e não prático nem pro­ a respeito do que está para acontecer e
dutivo, o bom e o mau estado são, pode ser de outra forma, enquanto o
respectivamente, a verdade e a falsi­ que é passado não pode deixar de
dade (pois essa é a obra de toda a parte haver ocorrido; por isso Agatão tinha
30 racional); mas da parte prática e inte­ razão em dizer:
lectual o bom estado é a concordância Pois somente isto é ao próprio Deus 10
da verdade com o reto desejo. [vedado:
A origem da ação — sua causa efi­ O fa zer não sucedido o que uma vez
ciente, não final — é a escolha, e a da [aconteceu.
escolha é o desejo e o raciocínio com Como acabamos de ver, a obra de
um fim em vista. Eis aí por que a esco­ ambas as partes intelectuais é a verda­
lha não pode existir nem sem razão e de. Logo, as virtudes de ambas serão
intelecto, nem sem uma disposição aquelas disposições segundo as quais
moral; pois a boa ação e o seu contrá­ cada uma delas alcançará a verdade
rio não podem existir sem uma combi­ em sumo grau.

3
Comecemos, pois, pelo princípio, ções. Dê-se por estabelecido que as
discutindo mais uma vez essas disposi- disposições em virtude das quais a
ÉTICA A NIC ÔM AC O — VI 143

alma possui a verdade, quer afirman­ bém nos Analíticos19. Com efeito, o
do, quer negando, são em número de ensino procede às vezes por indução e
cinco: a arte, o conhecimento cientí­ outras vezes por silogismo. Ora, a
fico, a sabedoria prática, a sabedoria indução é o ponto de partida que o
filosófica e a razão intuitiva (não próprio conhecimento do universal
incluímos o juízo e a opinião porque pressupõe, enquanto o silogismo pro­
estes podem enganar-se). cede dos universais. Existem, assim,
Ora, o que seja o conhecimento pontos de partida de onde procede o
científico, se quisermos exprimir-nos silogismo e que não são alcançados so
com exatidão e não nos guiar por por este. Logo, é por indução que são
meras analogias, evidencia-se pelo que adquiridos.
segue. Todos nós supomos que aquilo Em suma, o conhecimento científico
20 que sabemos não é capaz de ser de é um estado que nos tom a capazes de
outra forma. Quanto às coisas que demonstrar, e possui as outras caracte­
podem ser de outra forma, não sabe­ rísticas limitativas que especificamos
mos, quando estão fora do nosso nos Analíticos*0, pois é quando um
campo de observação, se existem ou homem tem certa espécie de convic­
não existem. Por conseguinte, o objeto ção, além de conhecer os pontos de
de conhecimento científico existe ne­ partida, que possui conhecimento cien­
cessariamente; donde se segue que é tífico. E, se estes não lhe forem mais
eterno, pois todas as coisas que exis­ bem conhecidos do que a conclusão,
tem por necessidade no sentido abso­ sua ciência será puramente acidental.
luto do termo são eternas, e as coisas Com isto damos por terminada 35
eternas são ingênitas e imperecíveis. nossa exposição do conhecimento
25 Por outro lado, julga-se que toda científico.
ciência pode ser ensinada e seu objeto,
aprendido. E todo ensino parte do que 79 Segundos Analíticos, 71 a 1. (N. do T.)
já se conhece, como sustentamos tam- »° Ibid., 71 b 9-23. (N. do T.)

1140a Na classe do variável incluem-se raciocinada de produzir, e nem existe


tanto coisas produzidas como coisas arte alguma que não seja uma capaci­
praticadas. Há uma diferença entre dade desta espécie, nem capacidade
produzir e agir (quanto à natureza de desta espécie que não seja uma arte,
ambos, consideramos como assente o segue-se que a arte é idêntica a uma
que temos dito mesmo fora de nossa capacidade de produzir que envolve o w
escola); de sorte que a capacidade reto raciocínio.
Toda arte visa à geração e se ocupa
5 raciocinada de agir difere da capaci­ em inventar e em considerar as manei­
dade raciocinada de produzir. Daí, ras de produzir alguma coisa que tanto
também, o não se incluírem uma na pode ser como não ser, e cuja origem
outra, porque nem agir é produzir, nem está no que produz, e não no que é pro­
produzir é agir. duzido. Com efeito, a arte não se
Ora, como a arquitetura é uma arte, ocupa nem com as coisas que são ou
sendo essencialmente uma capacidade que se geram por necessidade, nem is
144 ARISTÓTELES

com as que o fazem de acordo com a o acaso, e o acaso ama a arte” . Logo, 20

natureza (pois essas têm sua origem como já dissemos, a arte é uma dispo­
em si mesmas). sição que se ocupa de produzir, envol­
Diferindo, pois, o produzir e o agir, vendo o reto raciocínio; e a carência de
a arte deve ser uma questão de produ­ arte, pelo contrário, é tal disposição
zir e não de agir; e em certo sentido, o acompanhada de falso raciocínio. E
acaso e a arte versam sobre as mesmas ambas dizem respeito às coisas que
coisas. Como diz Agatão: “A arte ama podem ser diferentemente.

5
No que tange à sabedoria prática, que se pode fazer é capaz de ser
podemos dar-nos conta do que seja diferentemente, nem arte, porque o agir
considerando as pessoas a quem a e o produzir são duas espécies diferen­
atribuímos. tes de coisa. Resta, pois, a alternativa
Ora, julga-se que é cunho caracte­ de ser ela uma capacidade verdadeira e
rístico de um homem dotado de sabe­ raciocinada de agir com respeito às 5
doria prática o poder deliberar bem coisas que são boas ou más para o
sobre o que é bom e conveniente para homem.
ele, não sob um aspecto particular, Com efeito, ao passo que o produzir
como por exemplo sobre as espécies de tem uma finalidade diferente de si
coisas que contribuem para a saúde e o mesmo, isso não acontece com o agir,
pois que a boa ação é o seu próprio
vigor, mas sobre aquelas que contri­
fim. Daí o atribuirmos sabedoria prá­
buem para a vida boa em geral. Bem o
tica a Péricles e homens como ele, por­
mostra o fato de atribuirmos sabedoria
que percebem o que é bom para si mes­
prática a um homem, sob um aspecto
mos e para os homens em geral: 10
particular, quando ele calculou bem
pensamos que os homens dotados de
com vistas em alguma finalidade boa
tal capacidade são bons administra­
30 que não se inclui entre aquelas que são
dores de casas e de Estados. (E por
objeto de alguma arte.
isso mesmo damos à temperança o
Segue-se daí que, num sentido geral, nome de am^poaivri, subentendendo que
também o homem que é capaz de deli­ ela preserva a nossa sabedoria oúÇovoa
berar possui sabedoria prática. Ora, rt}v tppóvrjoiv.
ninguém delibera sobre coisas que não Ora, o que a temperança preserva é
podem ser de outro modo, nem sobre um juízo da espécie que descrevemos.
as que lhe é impossível fazer. Por Porquanto nem todo e qualquer juízo é
conseguinte, como o conhecimento destruído e pervertido pelos objetos
científico envolve demonstração, mas agradáveis ou dolorosos: não o é, por
não há demonstração de coisas cujos exemplo, o juízo a respeito de ter ou
primeiros princípios são variáveis não ter o triângulo seus ângulos iguais
(pois todas elas poderiam ser diferente- a dois ângulos retos, mas apenas os 15
35 mente), e como é impossível deliberar juízos em torno do que se há de fazer.
sobre coisas que são por necessidade, a Com efeito, as causas de onde se origi­
iMOb sabedoria prática não pode ser ciência, na o que se faz consistem nos fins visa­
nem arte: nem ciência, porque aquilo dos; mas o homem que foi pervertido
ÉTICA A NICÔMACO — VI 145

pelo prazer ou pela dor perde imediata­ assim como nas outras virtudes, é exa­
mente de vista essas causas: não perce­ tamente o contrário que acontece.
be mais que é a bem de tal coisa ou de­ Toma-se evidente, pois, que a sabe­
vido a tal coisa que deve escolher e doria prática é uma virtude e não uma
fazer aquilo que escolhe, porque o arte. E, como são duas as partes da 25
vício anula a causa originadora da alma que se guiam pelo raciocínio, ela
ação.) deve ser a virtude de uma dessas duas,
20 A sabedoria prática deve, pois, ser isto é, daquela parte que forma opi­
uma capacidade verdadeira e racioci­ niões; porque a opinião versa sobre o
nada de agir com respeito aos bens variável, e da mesma forma a sabedo­
humanos. Mas, por outro lado, embora ria prática. Sem embargo, ela é mais
na arte possa haver uma excelência, na do que uma simples disposição racio­
sabedoria prática ela não existe; e em nal: mostra-o o fato de que tais dispo- so
arte é preferível quem erra voluntaria­ sições podem ser esquecidas, mas a
mente, enquanto na sabedoria prática, sabedoria prática, não.

6
O conhecimento científico é um princípios objetos de sabedoria filosó­
juízo sobre coisas universais e necessá­ fica, pois é característico do filósofo
rias, e tanto as conclusões da demons­ buscar a demonstração de certas coi­
tração como o conhecimento científico sas. Se, por conseguinte, as disposições
decorrem de primeiros princípios (pois da mente pelas quais possuímos a ver­
ciência subentende apreensão de uma dade e jamais nos enganamos a res­
base racional). Assim sendo, o pri­ peito de coisas invariáveis ou mesmo
variáveis — se tais disposições, digo,
meiro princípio de que decorre o que é são o conhecimento científico, a sabe­
cientificamente conhecido não pode doria prática, a sabedoria filosófica e a >
ser objeto de ciência, nem de arte, nem razão intuitiva, e não pode tratar-se de
35 de sabedoria prática; pois o que pode nenhuma das três (isto é, da sabedoria
ser cientificamente conhecido é passí­ prática, do conhecimento científico ou
vel de demonstração, enquanto a arte e da sabedoria filosófica), só resta uma
ii4ia a sabedoria prática versam sobre coi­ alternativa: que seja a razão intuitiva
sas variáveis. Nem são esses primeiros que apreende os primeiros princípios.

7
A sabedoria, nas artes, é atribuída campo particular ou sob qualquer
io aos seus mais perfeitos expoentes, por outro aspecto limitado, como diz Ho­
exemplo, a Fídias como escultor e a mero no Margites:
Policleto como retratista em pedra; e Nem lavrador, nem mesmo cavador is
por sabedoria, aqui, não entendemos
fizeram os deuses este homem,
outra coisa senão a excelência na arte.
Nem sábio em outra coisa qualquer.
Mas a certas pessoas consideramos sá­
bias de modo geral e não em algum É pois evidente que a sabedoria deve
146 ARISTÓTELES

ser de todas as formas de conheci­ não faz diferença, porque há outras


mento a mais perfeita. Donde se segue coisas muito mais divinas por sua
que o homem sábio não apenas conhe­ natureza do que o homem: o exemplo n4ib
cerá o que decorre dos primeiros prin­ mais conspícuo são os corpos de que
cípios, senão que também possuirá a foram povoados os céus. .De quanto se
verdade a respeito desses princípios. disse resulta claramente que a sabedo­
Logo, a sabedoria deve ser a razão ria filosófica é um conhecimento cien­
intuitiva combinada com o conheci­ tífico combinado com a razão intuitiva
mento científico — uma ciência dos daquelas coisas que são as mais eleva­
mais elevados objetos que recebeu, por das por natureza. Por isso dizemos que
assim dizer, a perfeição que lhe é Anaxágoras, Tales e os homens seme­
própria. lhantes a eles possuem sabedoria filo­
20 Dos mais elevados objetos, dizemos sófica, mas não prática, quando os 5
nós, porque seria estranho se a arte vemos ignorar o que lhes é vantajoso; e
política ou a sabedoria prática fosse o
melhor dos conhecimentos, uma vez também dizemos que eles conhecem
que o homem não é a melhor coisa do coisas notáveis, admiráveis, difíceis e
mundo. Ora, se o que é saudável ou divinas, mas improfícuas. Isso, porque
bom difere para os homens e os peixes, não são os bens humanos que eles
mas o que é branco ou reto é sempre o procuram.
mesmo, qualquer um diria que o que é A sabedoria prática, pelo contrário,
sábio é o mesmo, mas o que é pratica- versa sobre coisas humanas, e coisas
25 mente sábio varia; pois é àquele que que podem ser objeto de deliberação;
observa bem as diversas coisa que lhe pois dizemos que essa é acima de tudo
dizem respeito que atribuímos sabedo­ a obra do homem dotado de sabedoria
ria prática, e é a ele que confiaremos prática: deliberar bem. Mas ninguém w
tais assuntos. Por isso dizemos que até delibera a respeito de coisas invariá­
alguns animais inferiores possuem sa­ veis, nem sobre coisas que não tenham
bedoria prática, isto é, aqueles que uma finalidade, e essa finalidade; um
mostram possuir um certo poder de bem que se possa alcançar pela ação.
previsão no que toca à sua própria De modo que delibera bem no sentido
vida. irrestrito da palavra aquele que, ba­
É evidente, por outro lado, que a seando-se no cálculo, é capaz de visar
sabedoria prática e a arte política não à melhor, para o homem, das coisas
podem ser a mesma coisa; porque, se alcançáveis pela ação.
devemos chamar sabedoria filosófica à Tampouco a sabedoria prática se
disposição mental que se ocupa com os ocupa apenas com universais. Deve is
só interesses pessoais de um homem, também reconhecer os particulares,
haverá muitas sabedorias filosóficas. pois ela é prática, e a ação versa sobre
Não existirá uma relativa ao bem de os particulares. É por isso que alguns
todos os animais (assim como não que não sabem, e especialmente os que
existe uma arte médica para todas as possuem experiência, são mais práti­
coisas existentes), mas uma sabedoria cos do que outros que sabem; porque,
filosófica diferente sobre o bem de se um homem soubesse que as carnes
cada espécie. leves são digestíveis e saudáveis, mas
E se argumentarem dizendo que o ignorasse que espécies de carnes são
homem é o melhor dos animais, isso léves, esse homem não seria capaz de
ÉTICA A NICÔMACO — VI 147

ío produzir a saúde; poderia, pelo contrá­ ambas as espécies de sabedoria, ou a


rio, produzi-la o que sabe ser saudável segunda de preferência à primeira.
a carne de galinha. Mas tanto da sabedoria prática como
Ora, a sabedoria prática diz respeito da filosófica deve haver uma espécie
à ação. Portanto, deveríamos possuir controladora.

8
A sabedoria política e a prática são Se como parte do numeroso exército
a mesma disposição mental, mas sua [obteria sem esforço
essência não é a mesma. D a sabedoria Um quinhão igual? . . . j
que diz respeito à cidade, a sabedoria Pois os que visam alto demais e
prática que desempenha um papel [fazem muitas coisas. . . 81
25 controlador é a sabedoria legislativa,
enquanto a que se relaciona com os Os que assim pensam buscam o seu
assuntos da cidade como particulares próprio bem e acham que todos deve­
dentro do seu universal é conhecida riam fazer o mesmo. Daí vem a opi­
pela denominação geral de “ sabedoria nião de que tais homens possuem sabe­
política” e se ocupa com a ação e a doria prática; e no entanto, o bem
deliberação, pois um decreto é algo a pessoal de cada um talvez não possa
ser executado sob a forma de um ato existir sem administração doméstica e
individual. Eis aí por que só dos sem alguma forma de governo. Além w
expoentes dessa arte se diz que disso, a maneira de pôr em ordem os
“tomam parte na política” ; porque só seus negócios não é clara e precisa ser
eles “produzem coisas”, como as pro­ estudada.
duzem os trabalhadores manuais. O que se disse acima é confirmado
A sabedoria prática também é iden­ pelo fato de que, embora os moços
tificada especialmente com aquela de
possam tomar-se geômetras, matemá­
suas formas que diz respeito ao pró- ticos e sábios em matérias que tais,
3o prio homem, ao indivíduo; e essa é não se acredita que exista um jovem
conhecida pela denominação geral de dotado de sabedoria prática. O motivo
“ sabedoria prática” . D as outras espé­ é que essa espécie de sabedoria diz res­
cies, uma é cham ada administração peito não só aos universais mas tam­
doméstica, outra, legislação, e a tercei­ bém aos particulares, que se tomam
ra, política, e desta última uma parte se conhecidos pela experiência. Ora, um
chama deliberativa e a outra, judicial. jovem carece de experiência, que só o h
Ora, saber o que é bom para si é tempo pode dar.
ii42a uma espécie de conhecimento, mas di­ Caberia aqui também esta outra per­
fere muito das outras espécies; e ao gunta: por que um menino pode tor-
homem que conhece os seus interesses
nar-se matemático, porém não filósofo,
e com eles se ocupa atribui-se sabedo­ nem físico? É porque os objetos da
ria prática, ao passo que os políticos
matemática existem por abstração,
são considerados metediços. Daí as
enquanto os primeiros princípios das
palavras de Eurípides:
M as para que dar-me ao trabalho de 81 Prólogo de Filoctetes, fragmentos 787 e 782.2
[ser sábio, Nauck. (N. do T.)
148 ARISTÓTELES
9
outras matérias mencionadas provêm diato, visto que a coisa a fazer é dessa
da experiência; e também porque os jo ­ natureza.
vens não têm convicção sobre estes úl­ Ela opõe-se, por outro lado, à razão 25
timos, mas contentam-se em usar a lin­ intuitiva, que versa sobre as premissas
guagem apropriada, ao passo que a limitadoras das quais não se pode dar
essência dos objetos da matemática a razão, enquanto a sabedoria prática
lhes é bastante clara. se ocupa com o particular imediato,
20 Além disso, o erro na deliberação que é objeto não de conhecimento cien­
pode versar tanto sobre o universal tífico mas de percepção — e não da
como sobre o particular, isto é: tanto é percepção de qualidades peculiares a
possível ignorar que toda água pesada um determinado sentido, mas de uma
percepção semelhante àquela pela qual
é má como que esta água aqui presente
sabemos que a figura particular que
é pesada.
temos diante dos olhos é um triângulo;
Que a sabedoria prática não se iden­ porque tanto nessa direção como na da
tifica com o conhecimento científico, é premissa maior existe um limite. Mas 30
evidente; porque ela se ocupa, como já isso é antes percepção do que sabedo­
se disse82, com o fato particular ime- ria prática, embora seja uma percep­
ção de outra espécie que não a das
82 1141 b 14-22. (N. do T.) qualidades peculiares a cada sentido.

9
Há uma diferença entre investigação lenta. Do mesmo modo, a vivacidade
e deliberação, pois esta última é a intelectual também difere da exce­
investigação de uma espécie particular lência na deliberação; é ela uma espé­
de coisa. Devemos apreender igual­ cie de habilidade em conjeturar.
mente a natureza da excelência na deli­ Não se pode, por outro lado, identi­
beração: se ela é uma forma de conhe­ ficar a excelência na deliberação com
cimento científico, uma opinião, a uma opinião de qualquer espécie que
habilidade de fazer conjeturas ou algu­ seja. Mas, como o homem que delibera
ma outra espécie de coisa. mal comete um erro, enquanto o que
1142b Não se trata de conhecimento cienti­ delibera bem o faz corretamente, claro
fico, porque os homens não investigam está que a excelência no deliberar é
as coisas que conhecem, ao passo que uma espécie de correção — não, w
a boa deliberação é uma espécie de porém, de conhecimento ou de opinião.
investigação, e quem delibera investiga Com efeito, conhecimento correto é
e calcula. coisa que não existe, assim como não
Tampouco é habilidade em fa zer existe conhecimento errado; e a opi­
conjeturas, pois, além de implicar nião correta é a verdade. Ao mesmo
ausência de raciocínio, esta é uma qua­ tempo, tudo que é objeto de opinião já
lidade que opera com rapidez, ao se acha determinado.
passo que os homens deliberam longa­ Mas, por outro lado, a excelência da
mente, e diz-se que a conclusão do que deliberação envolve raciocínio. Resta,
se deliberou deve ser posta logo em pois,‘ a alternativa de que ela seja a
3 prática, mas a deliberação deve ser correção do raciocínio. Com efeito,
ÉTICA A NICÔMACO — VI 149

esta ainda não é asserção, mas a opi­ tampouco isso é a excelência no delibe­
nião o é, tendo já ultrapassado a fase rar — essa disposição em virtude da
da investigação; e o homem que delibe- qual atingimos o que devemos, se bem
15 ra, quer o faça bem, quer mal, busca que não pelo meio correto.
alguma coisa e calcula. Por outro lado (3), é possível alcan- 25
Mas a excelência da deliberação é çá-lo por uma longa deliberação en­
certamente a deliberação correta. Por quanto um outro homem chega a ele
isso devemos indagar primeiro o que rapidamente. Por conseguinte, no pri­
seja a deliberação e qual o seu objeto. meiro caso não possuímos ainda a
E, uma vez que existe mais de uma excelência no deliberar, que é a corre­
espécie de correção, evidentemente a ção no que diz respeito ao conveniente
excelência no deliberar não é uma — a correção tanto no que toca ao fim
espécie qualquer; porque ( 1) o homem como ao meio e ao tempo.
incontinente e o homem mau, se forem (4) Além disso, é possível ter delibe­
hábeis, alcançarão como resultado do rado bem, quer no sentido absoluto,
seu cálculo o que propuseram a si mes­ quer com referência a um fim particu­
mos, de forma que terão deliberado lar. A excelência da deliberação no
corretamente, mas o que terão alcan- sentido absoluto é, pois, aquilo que
20 çado é um grande mal para eles. Ora, logra êxito com referência ao que é o
ter deliberado bem é considerado uma fim no sentido absoluto, e a excelência
boa coisa, pois é essa espécie de delibe­ da deliberação num sentido particular 30
ração correta que constitui a exce­ é o que logra um fim particular.
lência da deliberação — isto é, aquela Se, pois, é característico dos homens
que tende a alcançar um bem. dotados de sabedoria prática o ter deli­
Entretanto (2), é até possível alcan­ berado bem, a excelência da delibera­
çar o bem e chegar ao que se deve ção será a'correção no que diz respeito
fazer mediante um silogismo falso — àquilo que conduz ao fim de que a
não, todavia, pelo meio correto, sendo sabedoria prática é a apreensão verda­
falsa a premissa menor; de forma que deira.

10
A inteligência, da mesma torma, e a nas sobre aquelas que podem tomar-se
perspicácia, em virtude das quais se assunto de dúvidas e deliberação. Por­
diz que os homens são inteligentes ou tanto, os seus objetos são os mesmos
iu3a perspicazes, nem se identificam de que os da sabedoria prática; mas inteli­
todo com a opinião ou o conhecimento gência e sabedoria prática não são a
científico (pois nesse caso todos seriam mesma coisa. Esta última emite or­
homens inteligentes), nem são elas uma dens, visto que o seu fim é o que se
das ciências particulares, como a me­ deve ou não se deve fazer; a inteli- 10

dicina, que é a ciência da saúde, ou a gência, pelo contrário, limita-se a jul­


geometria, que é a ciência das grande- gar. (Inteligência é o mesmo que pers­
5 zas espaciais. Com efeito, a inteli- picácia, e homens inteligentes, o
. gência nem versa sobre as coisas eter­ mesmo que homens perspicazes.)
nas e imutáveis, nem sobre toda e Ora, ela não é nem a posse, nem a
qualquer coisa que vem a ser, mas ape­ aquisição da sabedoria prática; mas,
150 ARISTÓTELES

assim como o aprender é chamado aquilatar corretamente, pois “bem” e


entendimento quando significa o exer­ “corretamente” são a mesma coisa.
cício da faculdade de conhecer, tam ­ E daí provém o uso do nome “inteli­
bém o termo “entendimento” é aplicá­ gência” , em virtude do qual se diz que
vel ao exercício da faculdade de opinar os homens são “perspicazes”, a saber:
com o fim de aquilatar o que outra pes­ da aplicação do termo à apreensão da
soa diz sobre assuntos que constituem verdade científica, pois muitas vezes
is o objeto da sabedoria prática — e de chamamos a isso entendimento.

11

O que se chama discernimento, e em ou imediatos; pois não só deve o


virtude do qual se diz que os homens homem dotado de sabedoria prática ter
2o são “juizes humanos” e que “possuem conhecimento dos fatos particulares,
discernimento”, é a reta discriminação mas também a inteligência e o discer­
do eqüitativo. Mostra-o o fato de dizer­ nimento versam sobre coisas a serem
mos que o homem eqüitativo é acima feitas, e estas são coisas imediatas. A ss
de tudo um homem de discernimento razão intuitiva, por sua vez, ocupa-se
humano, e de identificarmos a eqüi­ com coisas imediatas em ambos os
dade com o discernimento humano a sentidos, pois tanto os primeiros ter­
respeito de certos fatos. E esse discer­ mos como os últimos são objetos da ii43b
nimento é aquele que discrimina corre­ razão intuitiva e não do raciocínio, e a
tamente o que é eqüitativo, sendo o razão intuitiva pressuposta pelas de­
discernimento correto aquele que julga monstrações apreende os termos pri­
com verdade. meiros e imutáveis, enquanto a razão
25 Ora, todas as disposições que temos intuitiva requerida pelo raciocínio prá­
considerado convergem, como era de tico apreende o fato último e variável,
esperar, para o mesmo ponto, pois, isto é, a premissa menor. E esses fatos
quando falamos de discernimento, de variáveis servem como pontos de parti­
inteligência, de sabedoria prática e de
razão intuitiva, atribuímos às mesmas da para a apreensão do fim, visto que
pessoas a posse do discernimento, o chegamos aos universais pelos particu­
terem alcançado a idade da razão, e o lares; é mister, por conseguinte, que s
serem dotadas de inteligência e de tenhamos percepção destes últimos, e
sabedoria prática. Com efeito, todas tal percepção é a razão intuitiva.
essas faculdades giram em tom o de Eis aí por que tais disposições são
coisas imediatas, isto é, de particula­ consideradas como dotes naturais, e
res; e ser um homem inteligente ou de enquanto de ninguém se diz que é filó­
so bom ou humano discernimento con­ sofo por natureza, a muitos se atribui
siste em ser capaz de julgar as coisas um discernimento, inteligência e uma
com que se ocupa a sabedoria prática, razão intuitiva inatos. Mostra-o a
porquanto as eqüidades são comuns a correspondência que estabelecemos
todos os homens bons em relação aos entre os nossos poderes e a nossa
outros homens. idade, dizendo que uma determinada
Ora, todas as coisas que cumpre idade traz consigo a razão intuitiva e o
fazer incluem-se entre os particulares discernimento; isto implica que a w
ÉTICA A NICÔMACO — VI 151

causa é natural. [Donde se segue que a tica. Com efeito, essas pessoas enxer­
razão intuitiva é tanto um começo gam bem por que a experiência lhes
como um fim, pois as demonstrações deu um terceiro olho.
partem destes e sobre estes versam.] Acabamos de mostrar, portanto, que u
Por isso devemos acatar, não menos coisas são a sabedoria prática e a sabe­
que as demonstrações, os aforismos e doria filosófica, em que consistem uma
opiniões não demonstradas de pessoas e outra, e acrescentamos que cada uma
experientes e mais velhas, assim como é a virtude de uma parte diferente da
das pessoas dotadas de sabedoria prá­ alma.

12
Mas alguém poderia perguntar de outros que a têm, e seria suficiente
que servem essas faculdades da mente, fazer o que costumamos fazer com res­
já que ( 1) a sabedoria filosófica não peito à saúde: embora desejemos gozar
considera nenhuma das coisas que tor­ saúde, não nos dispomos por isso a
nam um homem feliz (pois não diz res- aprender a arte da medicina.
2o peito às coisas que se geram); e quanto (3) Por outro lado, pareceria estra­
à sabedoria prática, embora trate des­ nho que a sabedoria prática, sendo
sas coisas, para que necessitamos inferior à filosófica, tivesse autoridade
dela? A sabedoria prática é a disposi­ sobre ela, como parece implicar o fato
ção da mente que se ocupa com as coi­ de que a arte que produz uma coisa
sas justas, nobres e boas para o qualquer exerce o mando e o govemo
homem, mas essas são as coisas cuja relativamente a essa coisa.
prática é característica de um homem São estas, pois, as questões que js
bom, e não nos tom amos mais capazes cumpre discutir, pois até agora nos
2s de agir pelo fato de conhecê-las se as limitamos a expor as dificuldades.
virtudes são disposições de caráter, do ( 1) Antes de tudo, diremos que n44a
mesmo modo que não somos mais essas disposições de caráter, devem ser
capazes de agir pelo fato de conhecer dignas de escolha porque são as virtu­
as coisas sãs e saudáveis não no senti­ des das duas partes da alma respecti­
do de produzirem a saúde, mas no de vamente, e o seriam ainda que nenhu­
serem conseqüência dela. Efetiva­ ma delas produzisse o que quer que
mente, a simples posse da arte médica fosse.
ou da ginástica não n o s'to m a mais (2) Em segundo lugar, elas de fato
capazes de agir. produzem alguma coisa — não,
Mas (2) se dissermos que um porém, como a arte médica produz
homem deve possuir sabedoria prática, saúde, mas como a saúde produz
não para conhecer as verdades morais, saúde. É assim que a sabedoria filosó­
mas para tornar-se bom, a sabedoria fica produz felicidade; porque, sendo J
prática nenhuma utilidade terá para os ela uma parte da virtude inteira, tom a
jo que já são bons; e, por outro lado, de um homem feliz pelo fato de estar na
nada serve ela para os que não pos­ sua posse e de atualizar-se.
suem virtude. Com efeito, nenhuma (3) Por outro lado, a obra de um
diferença faz que eles próprios tenham homem só é perfeita quando está de
sabedoria prática ou que obedeçam a acordo com a sabedoria prática e com
152 ARISTÓTELES

a virtude moral; esta faz com que seja não as aprendemos da virtude e sim de
reto o nosso propósito; aquela, com outra faculdade. Devemos deter-nos
10 que escolhamos os devidos meios. (Da um pouco nestes assuntos e falar deles •
quarta parte da alma, a nutritiva, não mais claramente.
existe nenhuma virtude dessa espécie, Existe uma faculdade que se chama
pois não depende dela fazer ou deixar habilidade, e tal é a sua natureza que 25
de fazer o que quer que seja.) tem o poder de fazer as coisas que con­
(4) Quanto a não sermos mais ca­ duzem ao fim proposto e a alcançá-lo.
pazes de operar coisas nobres e justas Ora, se o fim é nobre, a habilidade é
devido à sabedoria prática, devemos digna de louvor, mas se o fim for mau,
voltar um pouco atrás e partir do a habilidade será simples astúcia; por
seguinte princípio: isso chamamos de hábeis ou astutos os
Assim como dizemos que algumas próprios homens dotados de sabedoria
pessoas que praticam atos justos não prática. Esta não é a faculdade, porém
são necessariamente justas por isso — não existe sem ela, e esse olho da alma
referimo-nos às que praticam os atos não atinge o seu perfeito desenvolvi­
prescritos pela lei, quer involuntaria- mento sem o auxílio da virtude, como 30
15 mente, quer devido à ignorância ou por já dissemos83 e como, aliás, é evidente.
alguma outra razão, mas não no inte­ E a razão disto é que os silogismos em
resse dos próprios atos, embora seja torno do que se deve fazer começam
certo que tais pessoas fazem o que assim: “visto que o fim, isto é, o que é
devem e todas as coisas que o homem melhor, é de tal e tal natureza. . . ”
bem deve fazer — , parece que, do Admitamos, no interesse do argumen­
mesmo modo, para alguém ser bom é to, que ela seja qual for, mas só o
preciso encontrar-se em determinada homem bom a conhece verdadeira­
disposição quando pratica cada um mente, porquanto a maldade nos per- 3S
2o desses atos: numa palavra, é preciso verte e nos leva a enganar-nos a res­
praticá-los em resultado de uma esco­ peito dos princípios da ação. Donde
lha e no interesse dos próprios atos. está claro que não é possível possuir
Ora, a virtude torna reta a escolha, sabedoria prática quem não seja bom.
mas que coisas sejam aptas por natu­
reza a pôr em prática a nossa escolha 83 Linhas 6-26. (N. do T.)

13
1144b Devemos, por isso, voltar mais uma desde o momento de nascer somos jus­
vez a considerar a virtude, pois nela se tos, ou capazes de nos dominar, ou
observa uma relação do mesmo gêne­ bravos, ou possuímos qualquer outra
ro: assim como a sabedoria prática qualidade moral. Não obstante, anda­
está para a habilidade (não sendo a mos em busca de outro bem que
mesma coisa, mas semelhante), a virtu­ propriamente seja tal — queremos que
de natural está para a virtude na acep­ essas qualidades existam em nós de
ção estrita do termo. Com efeito, todos outro modo. Pois que tanto as crianças
os homens pensam que, em certo senti­ como os brutos têm as disposições
do, cada tipo de caráter pertence por naturais para essas qualidades, mas,
5 natureza aos que o manifestam, e que . quando desacompanhadas da razão,
ÉTICA A NICÔMACO — VI 153

10 elas são evidentemente nocivas. Só nós Sócrates, por conseguinte, pensava


parecemos perceber que elas podem que as virtudes fossem regras ou prin­
conduzir-nos para o mau caminho, cípios racionais (pois a todas elas
como um corpo robusto mas privado considerava como formas de conheci­
de visão pode cair desastrosamente de­ mento científico), enquanto nós pensa­
vido à sua cegueira; mas, depois de mos que elas envolvem um princípio
haver adquirido a razão, haverá uma racional.
diferença no seu modo de agir e sua Do que se disse fica bem claro que 30
disposição: embora continuando seme­ não é possível ser bom na acepção
lhante ao que era, passará a ser virtude estrita do termo sem sabedoria prática,
no sentido estrito da palavra. nem possuir tal sabedoria sem virtude
Por conseguinte, assim como naque­ moral. E desta forma podemos tam­
la parte de nós que forma opiniões bém refutar o argumento dialético de
is existem dois tipos, a habilidade e a que as virtudes existem jeparadas
sabedoria prática, também na parte umas das outras, e o mesmo homem
moral existem dois tipos, a virtude não é perfeitamente dotado pela natu­
natural e a virtude no sentido estrito. E reza para todas as virtudes, de modo
destas, a segunda envolve sabedoria que poderá adquirir uma delas sem ter
prática. Daí o afirmarem alguns que ainda adquirido uma outra. Isso é pos- «
todas as virtudes são formas de sabe­ sível no tocante às virtudes naturais,
doria prática. E Sócrates tinha razão a porém não àquelas que nos levam a
certo respeito, mas a outro respeito an­ qualificar um homem incondicio­
dava errado; errado em pensar que nalmente de bom ; pois, com a presença 1 a
todas as virtudes fossem formas de de uma só qualidade, a sabedoria prá­
20 sabedoria prática, mas certo em dizer tica, lhe serão dadas todas as virtudes.
que elas implicam tal modalidade de E, evidentemente, ainda que ela não
sabedoria. Temos uma confirmação tivesse valor prático, nos seria neces­
disto no fato de que ainda hoje todos sária por ser a virtude daquela parte da
os homens, quando definem a virtude, alma de que falamos; e não é menos
após indicar a disposição de caráter e evidente que a escolha não será certa
os seus objetos, acrescentam: “ aquilo sem sabedoria prática, como não o
(isto é, aquela disposição) que está de seria sem virtude. Com efeito, uma
acordo com a reta razão” . Ora, a reta determina o fim e a outra nos leva a
razão é o que está de acordo com a fazer as coisas que conduzem ao fim. 5
sabedoria prática. Mas nem por isso domina ela a
De certo modo, pois, todos os ho­ sabedoria filosófica, isto é, a parte
mens parecem adivinhar que essa espé­ superior de nossa alma. assim como a
cie de disposição, a saber, a que está de arte médica não domina a saúde, pois
acordo com a sabedoria prática, é vir- não se serve dela, mas fornece os
25 tude. Nós, porém, devemos ir um meios de produzi-la; e faz prescrições 10
pouco mais longe, pois não é apenas a no seu interesse, porém não a ela.
disposição que concorda com a reta Além disso, sustentar a sua suprema­
razão, mas a que implica a presença da cia eqüivaleria a dizer que os deuses
reta razão, que é virtude: e a sabedoria são governados pela arte política por­
prática é a reta razão no tocante a tais que esta faz prescrições a respeito de
assuntos. todos os assuntos do Estado.
LIVRO VII
157

is Recomeçaremos agora a nossa in­ doença ou pela deformidade; e também


vestigação tomando outro ponto de damos esse mau nome àqueles cujo
partida e salientando que as disposi­ vício vai além da medida comum.
ções morais a ser evitadas são de três Desta espécie de disposição tratare­
espécies: o vício, a incontinência e a mos rapidamente mais tarde8 s. Quan­
bruteza. Os contrários de duas delas to ao vício, já o discutimos antes8 6. ss
são evidentes: a um chamamos virtude Agora devemos falar da incontinência
20 e ao outro continência. À bruteza, o e da moleza (ou efeminação), e de seus
mais apropriado seria opor uma virtu­ contrários, a continência e a fortaleza;
de sobre-humana, uma espécie heróica pois cumpre tratar de ambas como não 1145b
e divina de virtude como a que Príamo idênticas à virtude ou à maldade, nem
atribui a Heitor em Homero, dizendo: como um gênero diferente. A exemplo
do que fizemos em todos os outros
Pois ele não parecia o filh o de um casos, passaremos em revista os fatos
[homem mortal, observados e, após discutir as dificul­
M as alguém que viesse da semente dades, trataremos de provar, se possí­
[dos deuses8*- vel, a verdade de todas as opiniões co­
muns a respeito desses afetos da mente
Portanto, se, como se costuma dizer, — ou, se não de todas, pelo menos do 5
os homens se tornaram deuses( pelo maior número e das mais autorizadas;
excesso de virtude, dessa espécie deve porque, se refutarmos as objeções e
ser evidentemente a disposição contrá- deixarmos intatas as opiniões comuns,
2s ria à bruteza. Com efeito, assim como teremos provado suficientemente a
um bruto não tem vício nem virtude, tese.
tampouco os tem um deus; seu estado Ora ( 1), tanto a continência como a
é superior à virtude, e o de um bruto fortaleza são incluídas entre as coisas
difere em espécie do vício. boas e dignas de louvor, e tanto a
Ora, como é raro encontrar um incontinência como a moleza entre as
homem divino — para usarmos o epí- coisas más e censuráveis; e o mesmo
teto dos espartanos, que chamam um homem é julgado continente e disposto w
homem de “divino” quando lhe têm a sustentar o resultado de seus cálcu­
grande admiração — , também o tipo los, ou incontinente e pronto a abando­
brutal é raramente encontrado entre os ná-los. E (2) o homem incontinente,
30 homens. Existe principalmente entre os sabendo que o que faz é mau, o faz le­
bárbaros, mas algumas qualidades vado pela paixão, enquanto o homem
brutais são também produzidas pela
85 Capítulo 5. (N. do T.)
8 ♦ llíada, XXIV, 258 ss. (N. do T.). 8 6 Livros II-IV. (N. do T.)
158 ARISTÓTELES

continente, conhecendo como maus os outros distinguem entre eles. (4) Às


seus apetites, recusa-se a segui-los em vezes se diz que o homem dotado de
virtude do princípio racional. sabedoria prática não pode ser inconti­
(3) Ao temperahte todos chamam nente e, outras vezes, que alguns ho­
is continente e disposto à fortaleza, mas mens desse tipo, e hábeis ademais, são
no que se refere ao continente alguns incontinentes. E por fim (5), diz-se que 20
sustentam que ele é sempre tempe- os homens são incontinentes mesmo
rante, enquanto outros o negam; e al­ com respeito à cólera, à honra e ao
guns chamam incontinente ao intempe- lucro.
rante e intemperante ao incontinente Estas são, pois, as coisas que se cos­
sem qualquer discriminação, enquanto tuma dizer.

Podemos perguntar agora ( 1) como alguém aja contrariando o que lhe


é possível que um homem que julga pareceu ser o melhor alvitre; e dizem,
com retidão se mostre incontinente na por isso, que o incontinente não possui
sua conduta. Alguns afirmam que tal conhecimento quando é dominado
conduta é incompatível com o conheci­ pelos seus prazeres, mas só opinião.
mento; pois seria estranho — assim Se, todavia, se trata de opinião e não 35
pensava Sócrates8 7, — que, existindo de conhecimento, se não é uma convic­
o conhecimento num homem, alguma ção forte, mas fraca, que resiste, como
coisa pudesse avassalá-lo e arrastá-lo nos hesitantes, nós simpatizamos com 1146»
após si como a um escravo. Com efei­ a sua incapacidade de manter-se firme
to, Sócrates era inteiramente contrário em tais convicções contra apetites
25 à opinião em apreço, e segundo ele não poderosos; não simpatizamos, porém,
existia isso que se chama inconti- com a maldade nem com qualquer
nência. Ninguém, depois de julgar — outra disposição que mereça censura.
afirmava — , age contrariando o que Será, então, a resistência da sabedo­
julgou melhor; os homens só assim ria prática que cede? Ésta é a mais 5
procedem por efeito da ignorância. forte de todas as disposições. Mas a
Ora, esta opinião contradiz nitida­ suposição é absurda: o mesmo homem
mente os fatos observados, e é preciso seria ao mesmo tempo dotado de sabe­
indagar o que acontece a um tal doria prática e incontinente, mas nin­
homem: se ele age em razão da igno­ guém diria que seja próprio de tal
rância, de que espécie de ignorância se homem praticar voluntariamente os
30 trata? Porque é evidente que o homem atos mais vis. Além disso, já se mos­
que age com incontinência não pensa, trou anteriormente que os que possuem
antes de chegar a esse estado, que deva esta espécie de sabedoria são homens
agir assim. de ação (pois se ocupam com fatos
Mas alguns concedem certos pontos particulares) e possuem as demais
defendidos por Sócrates, e outros não. virtudes.
Admitem que nada seja mais forte do (2) Por outro lado, se a continência
que o conhecimento, porém não que implica ter fortes e maus apetites, o 10
homem temperante não será conti­
8 7 Cf. Platão, Protágoras, 352. (N. do T.) nente, nem este será temperante; pois
ÉTICA A NICÔMACO — VII 159

um homem temperante não tem apeti­ rado quando não quer imobilizar-se,
tes excessivos nem maus. O homem porque a conclusão não o satisfaz; e
continente, porém, não pode deixar de não pode avançar porque é incapaz de
tê-los; porque, se os apetites são bons, refutar o argumento). Há um silogismo
a disposição de caráter que nos inibe do qual se conclui que a loucura conju­
de segui-los é má, de forma que nem gada com a incontinência é virtude,
15 toda continência será boa; e, se eles pois um homem faz o contrário do que
são fracos sem serem maus, não há julga devido à incontinência, mas por
nada de admirável em refreá-los; e, se outro lado, o que é bom lhe parece
são fracos e maus, tampouco é grande mau e algo a ser evitado; e, por conse- so
proeza resistir-lhes. guinte, fará o bem e não o mal.
(3) Além disso, se a continência (5) E ainda: aquele que, por convic­
torna um homem propenso a sustentar ção, faz, busca e escolhe o que é agra­
tenazmente qualquer opinião, a conti­ dável seria considerado melhor do que
nência é má — isto é, se o leva a sus­ quem o faz não em resultado do cálcu­
tentar mesmo as opiniões falsas; e se a
lo, mas da incontinência; porque o pri­
incontinência faz com que um homem
meiro é mais fácil de curar, dada a
abandone facilmente qualquer opinião,
possiblidade de persuadi-lo a mudar de
haverá uma boa espécie de inconti­
idéia. Mas ao incontinente pode-se
nência, de que temos exemplo em
Neoptólemo tal como nos é apresen­ aplicar o provérbio: “Quando a água 35
to tado no Filoctetes de Sófocles. Com sufoca, com que a faremos descer?” Se
efeito, ele é digno de louvor por não ele tivesse sido persuadido da retidão
haver cumprido o que Ulisses o per­ do que faz, desistiria quando o persua­
suadira a fazer, e isso porque lhe dissem a mudar de idéia; mas acontece 1146b
repugnava mentir. que tal homem age, embora esteja per­
(4) Por outro lado, o argumento suadido de algo muito diferente.
sofistico apresenta uma dificuldade. O (6) E finalmente: se a continência e
silogismo inspirado no desejo de expor a incontinência dizem respeito a qual­
os resultados paradoxais decorrentes quer espécie de objeto, que vem a ser o
da opinião de um adversário, a fim de incontinente no sentido absoluto? Nin­
conquistar a admiração dos ouvintes guém possui todas as formas de incon­
para o refutador quando este logra o tinência, mas de algumas pessoas dize­
seu desiderato, nos coloca em grande mos que são incontinentes em s
25 embaraço (pois o raciocínio fica amar­ absoluto.

De uma das espécies enumeradas meiro se as pessoas incontinentes agem


são as dificuldades que surgem. Al­ cientemente ou não — e cientemente
guns destes pontos podem ser refuta­ eiji que sentido; e (2) com que espécie
dos, enquanto outros ficarão senhores de objetos se pode dizer que têm rela­
do cam po; porque a dificuldade encon­ ção o homem incontinente e o conti­
tra sua solução quando se descobre a nente (se com todo e qualquer prazer 10
verdade. ou dor, ou se só com determinadas
( 1) Devemos, pois, considerar pri­ espécies), e se o homem continente e o
160 ARISTÓTELES
homem dotado de fortaleza são o que possui o conhecimento mas não o
mesmo ou diferentes; e de modo aná­ usa como daquele que o possui e usa
logo no tocante aos outros assuntos dizemos que sabem), fará grande dife­
abrangidos pela nossa investigação. rença se o homem que pratica o que
Constituem o nosso ponto de parti- não deve possui o conhecimento mas
15 da (a) a questão de se o homem conti­ não o exerce, ou se o exerce; porque a
nente e o incontinente são diferen­ segunda hipótese parece estranha, mas
ciados pelos seus objetos ou pela sua não a primeira.
atitude, isto é, se o incontinente é tal (b) Além disso, como há duas espé- 35
apenas porque se relaciona com tais e cies de pre'missas, nada impede que um
tais objetos, ou, então, pela sua atitude, homem aja contrariando o seu próprio 1147»
ou ainda por ambas as coisas; (b) a conhecimento embora possua ambas
segunda questão é se a continência e a as premissas, desde que use apenas a
incontinência se relacionam com todo universal, porém não a particular; por­
e qualquer objeto, ou não. que os atos a ser realizados são parti­
O homem que é incontinente no sen­ culares. E há também duas espécies de
tido absoluto nem se relaciona com termo universal; um é predicável do s
20 todo e qualquer objeto, mas sim preci­ agente e o outro do objeto: por exem­
samente com aqueles que são os obje­ plo, “ a comida seca faz bem a todos os
tos do intemperante, nem se caracte­ homens” e “eu sou um homem”, ou
riza por essa simples relação (pois, a “tal comida é seca” ; mas o homem
ser assim, a sua disposição se identifi­ incontinente não possui ou não usa o
caria com a intemperança), mas por se conhecimento de que “esta comida é
relacionar com eles de certo modo. tal e tal” . Haverá, pois, em primeiro
Com efeito, um é levado pela sua pró­ lugar uma enorme diferença entre esses
pria escolha, pensando que deve bus­ modos de saber, de forma que não
car sempre o prazer imediato, en­ pareceria nada estranho saber de um
quanto o outro busca tais prazeres dos modos ao mesmo tempo que se age
embora não pense assim. com incontinência, enquanto fazê-lo,
( 1) Sugere-se que é contra a reta sabendo do oütro modo, seria extraor­
opinião e não contra o conhecimento dinário.
que agimos de modo incontinente, mas Além disso (c), acontece aos homens 10
25 isso não vem ao caso; porque certas possuírem conhecimento em outro sen­
pessoas não hesitam quando nutrem tido que não os acima mencionados;
uma opinião, mas pensam ter conheci­ pois naqueles que possuem conheci­
mento exato. Se, pois, o que se pre­ mento sem usá-lo percebemos uma »
tende sustentar é que, devido a uma diferença de estado que comporta a i
convicção fraca, os que têm opinião possibilidade de possuir conhecimento |
são mais sujeitos a agir contrariando o em certo sentido e ao mesmo tempo S
seu próprio julgamento do que aqueles não o possuir, como sucede com os j
que sabem, responderemos que a este que dormem, com os loucos e os '
respeito não há diferença entre conhe­ embriagados. Ora, é justamente essa a
cimento e opinião, pois alguns homens condição dos que agem sob a in­
não estão menos convencidos do que fluência das paixões; pois é evidente /s
pensam que do que sabem, como bem que as explosões de cólera, de apetite
30 o mostra o caso de Heráclito. Mas (a), sexual e outras paixões que tais alte­
visto que usamos a palavra “ saber” em ram materialmente a condição do
dois séntidos (pois tanto do homem corpo, e em alguns homens chegam a
ÉTICA A NICÔMACO — VII 161

produzir acessos de loucura. Claro cada uma d|as partes de nosso corpo); e
está, pois, que dos incontinentes se sucede, assim, que um homem age de
pode dizer que se encontram num esta­ maneira incontinente sob a influência
do semelhante ao dos homens adorme­ (em certo sentido) de uma razão e de
ço cidos, loucos ou embriagados. O fato uma opinião que não é contrária em si
de usarem uma linguagem própria do mesma, porém apenas acidentalmente, ii47b
conhecimento não prova nada, pois os à reta razão (pois que o apetite lhe é
homens que se acham sob a influência contrário, mas não o é a opinião).
dessas paixões podem até articular Donde se segue que é esse também o
provas científicas e declamar versos de motivo de não serem incontinentes os
Empédocles, e os que apenas começa­ animais inferiores: com efeito, eles não j
ram a aprender uma ciência podem ali­ possuem juízo universal, mas apenas
nhavar as suas proposições sem, toda­ imaginação e-memória de particulares.
via, conhecê-la. Para ser realmente A explicação de como se dissolve a
conhecida, é preciso que se torne uma ignorância e o homem incontinente
parte deles, e isso requer tempo. Logo, recupera o conhecimento é a mesma
é de supor que o uso da linguagem por que no caso dos embriagados e ador­
parte de homens em estado de inconti­ mecidos e não tem nada de peculiar a
nência não signifique mais que as esta condição. Devemos pedi-la aos
declamações de atores em cena. estudiosos de ciência natural. Ora,
25 (d) Também podemos encarar o sendo a segunda premissa, ao mesmo
caso da maneira que segue, com refe­
tempo, uma opinião a respeito de um
rência às peculiaridades da natureza
objeto perceptível e aquilo que deter- io
humana. Uma das opiniões é universal,
mina as nossas ações, ou um homem
a outra diz respeito a fatos particula­
não a possui quando se encontra no es­
res, e aqui nos deparamos com algo
que pertence à esfera da percepção. tado de paixão, ou a possui no sentido
Quando das duas opiniões resulta uma em que ter conhecimento não significa
só, numa espécie de caso a alma afir­ conhecer, mas apenas falar, como um
m ará a conclusão, enquanto no caso bêbedo que declama versos de Empé­
de opiniões relativas à produção ela docles. E, como o. último termo não é
agirá imediatamente (por exemplo, se universal, nem tampouco um objeto de
“tudo o que é doce deve ser provado” e conhecimento científico a mesmo títu­
30 “ isto é doce” , no sentido de ser uma lo que o termo universal, parece is
das coisas doces particulares, o mesmo resultar daí a posição que Só­
homem que pode agir e não é impedido crates procurou estabelecer; pois não é
procederá imediatamente de acordo em presença daquilo que consideramos
com a conclusão). Quando, pois, está conhecimento propriamente dito que
presente em nós a opinião universal surge a afecção da incontinência (nem
que nos proíbe provar, mas também é verdade que ele seja “arrastado” pela
existe a opinião de que “tudo que é paixão), mas o que se acha presente é
doce é agradável” e de que “isto é apenas o conhecimento perceptual.
doce” (e é esta a opinião ativa), e quan­ Que isto baste como resposta à
do sucede estar presente em nós o ape­ questão ao ato acompanhado ou não
tite, uma das opiniões nos manda evi- de conhecimento e de como é possível
35 tar o objeto, mas o apetite nos conduz agir de maneira incontinente com
para ele (pois tem o poder de mover conhecimento de causa.
162 ARISTÓTELES

20 (2) Examinaremos agora se existe pria, mas no entanto diferia.) Prova-o


alguém que seja incontinente no senti­ o fato de tanto a incontinência no sen­
do absoluto ou se todos os homens tido absoluto como a relativa a algum
incontinentes o são num sentido parti­ prazer físico particular ser censurada
cular; e, se tal homem existe, com que não apenas como uma falta mas tam­
espécie de objeto ele se relaciona. bém como uma espécie de vício, ao
Que tanto as pessoas continentes e passo que nenhuma das' pessoas incon­
dotadas de fortaleza como as inconti­ tinentes a estes outros respeitos é cen­
nentes e efeminadas se relacionam com surada a tal título.
prazeres e dores, é evidente. Ora, das Mas (b) das pessoas que são inconti­
coisas que causam prazer algumas são nentes com respeito aos gozos físicos s
necessárias, enquanto outras merecem com que dizemos relacionar-se o
ser escolhidas por si mesmas e contudo homem temperante e o intemperante,
25 admitem excesso, havendo mister das aquele que busca o excesso de coisas
causas corporais de prazer (pelas quais agradáveis — e evita o das coisas
entendo não só as que se referem à dolorosas: fome, sede, calor, frio e
alimentação como também à conjun­ todos os objetos do tato e do paladar
ção sexual, isto é, os estados corporais — não por escolha, mas contrariando
com os quais dissemos88 que se rela­ a sua escolha e o seu julgamento, é w
cionam a temperança e a intempe­ chamado incontinente, não com a
rança), enquanto as outras não são especificação “com respeito a isto ou
necessárias, mas merecem ser escolhi­ àquilo”, como, por exemplo, à cólera,
das por si mesmas (como a vitória, a mas num sentido absoluto. Confirma-o
honra, a riqueza e outras coisas boas e o fato de serem os homens chamados
so agradáveis desta espécie). “moles” ou “efeminados” com respeito
Assim sendo (a), aos que vão ao a esses prazeres, porém não a qualquer
excesso com referência às segundas, dos outros.
contrariando a reta razão que levam E por essa razão juntamos num só
em si, não chamamos simplesmente de grupo o incontinente e o intemperante,
incontinentes, mas de incontinentes o continente e o temperante — ex­
com a especificação “no tocante ao cluindo, porém, qualquer destes outros
dinheiro, à honra, ao lucro ou à cóle­ tipos — , porque se relacionam de «
ra” — não simplesmente inconti­ algum modo com os mesmos prazeres
nentes, porque diferem das pessoas e dores. Mas, embora digam respeito
incontinentes e são assim chamados aos mesmos objetos, sua relação para
devido a uma semelhança. (Confron- com eles não é semelhante, pois alguns
<•> te-se a história de Anthropos — fazem uma escolha deliberada e outros
Homem — , que venceu uma competi- não.
ii48a ção nos Jogos Olímpicos; no seu caso, Por esta razão, merece mais o quali­
a definição geral de homem pouco ficativo de intemperante o homem que,
diferia da definição que lhe era pró- sem apetite ou com escasso apetite,
busca os excessos de prazer e evita
88 Livro III, cap. 10. (N. do T.) dores moderadas, do que o homem que
ÉTICA A NICÔMACO — VII 163

faz o mesmo levado por apetites pode- cognominado “o filial”, que foi consi­
20 rosos: pois que faria o primeiro se os derado um grande tolo por esse moti­
seus apetites fossem dessa sorte e se a vo.)
falta dos objetos “necessários” o fizes­ Com respeito a esses objetos não há,
se sofrer violentamente? pois, maldade pela razão indicada, isto
Ora, dos apetites e prazeres, alguns é: cada um deles é por natureza algo
pertencem à classe das coisas generica­ digno de escolha em si mesmo. Sem
mente nobres e boas — pois algumas embargo, o excesso em relação a eles é
coisas agradáveis são por natureza mau e deve ser evitado. Analogamente, j
dignas de escolha, enquanto outras não há incontinência no que toca a
lhes são contrárias e outras ainda ocu­ esses objetos, pois a incontinência não
pam uma posição intermédia, para só deve ser evitada como merece cen­
adotar a distinção que estabelecemos sura; mas, em razão de uma seme­
25 anteriormente. Exemplos da primeira
lhança quanto ao sentimento, aplica-
classe são a riqueza, o lucro, a vitória,
a honra. E com referência a todos os se-lhes o nome de incontinência
objetos desta espécie ou da interme­ precisando em cada caso o respectivo
objeto, assim como chamamos de mau
diária não são censurados os homens
por desejá-los e amá-los, mas por faze­ médico ou mau ator a um homem que
não qualificaríamos de mau em si.
rem-no de certo modo — isto é, indo
ao excesso. Visto, pois, que neste caso não apli­
(Em face disto, não são maus todos camos o termo em sentido absoluto
os que, contrariando a reta razão, se porque cada uma dessas condições não
deixam avassalar por um dos objetos é maldade, mas apenas se assemelha à
náturalmente nobres e bons e o bus­ maldade, é claro que também no outro io
cam em detrimento de tudo mais, caso só se deve considerar como conti­
como, por exemplo, os que se ocupam nência e incontinência o que se rela­
3o mais do que devem com a honra, ou ciona com os mesmos,objetos que a
com os filhos e os pais. Com efeito, temperança e a intemperança. Aplica­
essas coisas são bens e os que delas se mos, porém, o termo à cólera em virtu­
ocupam são louvados. Mesmo aí, con­ de de uma semelhança, precisando
tudo, pode haver um excesso: se, como desta forma: “incontinente no que se
Níobe, por exemplo, alguém lutasse refere à cólera”, como também dize­
M48b contra os próprios deuses, ou se fosse mos: “incontinente no que se refere à
tão devotado ao pai quanto Sátiro, honra ou ao lucro”.

is (1) Certas coisas são agradáveis devido a hábitos adquiridos e outras


por natureza, e destas (a) algumas ò ainda (c) em razão de uma natureza
são em sentido absoluto e (b) outras congenitamente má.
em relação a determinadas classes de Assim sendo, é possível descobrir
animais ou de homens; e (2) daquelas em cada uma das espécies do segundo
que não são agradáveis por natureza, grupo disposições de caráter seme­
(a) algumas se tornam tais por efeito lhantes às que reconhecemos em rela­
de distúrbios no organismo, outras (6) ção ao primeiro. Refiro-me (A) aos 20
164 ARISTÓTELES

estados brutais, como no caso da relação a esse sentimento, e não incon­


fêmea que, segundo se diz, rasga o ven­ tinente no sentido absoluto.
tre das mulheres grávidas e devora os Com efeito, todo estado excessivo, 5
fetos, e das coisas com que passam por seja de loucura, de covardia, de intem­
deleitar-se algumas tribos que habitam perança ou de irascibilidade, ou é bru­
as margens do mar Negro e que caíram tal ou mórbido. O homem que por
no estado de selvageria — carne crua, natureza receia todas as coisas, inclu­
carne humana, ou levarem seus filhos sive o guincho de um camundongo, pa­
uns aos outros para que se banque- dece uma covardia de bruto, enquanto
teiem com eles — e ainda a história aquele que temia uma fuinha estava
que se conta de Fálaris. simplesmente enfermo. E dos tolos, os
Estas disposições são brutais. Há, que por natureza são estouvados e
porém, outras (B) que resultam da vivem apenas pelos sentidos são como
25 doença (em certos casos também da brutos, a exemplo de certas raças de io
loucura, como o homem que sacrificou bárbaros distantes, enquanto os que
e devorou sua própria mãe, ou o escra­ são tais por efeito de uma doença (da
vo que comeu o fígado de um compa­ epilepsia, por exemplo) ou da loucura
nheiro), e outras ainda (C) são estados são mórbidos.
mórbidos, como o hábito de arrancar Destas características, é possível
os pelos, de roer as unhas, e mesmo de possuir algumas apenas em certas oca­
comer carvão ou terra; a estes deve siões e não ser dominado por elas. Por
acrescentar-se a pederastia, e todos exemplo, Fálaris pode ter refreado o
eles surgem em alguns por natureza e desejo de comer carne de criança ou
30 em outros, como nos que desde a um apetite sexual contra a natureza; 15
infância foram vítimas da libidinagem mas também é possível ser dominado e
alheia, por hábito. não apenas ter tais sentimentos. Logo,
Ora, àqueles em quem a natureza é a assim como a maldade que se mantém
causa de tal disposição ninguém cha­ no nível humano é chamada simples­
maria incontinentes, como ninguém mente maldade, enquanto a outra não
aplicaria o epíteto às mulheres por é simples maldade, porém maldade
causa do papel passivo que desempe­ com a qualificação de “brutal” ou
nham na cópula. E tampouco seria eje “mórbida” , também é evidente que há
aplicado aos que se encontram numa uma incontinência brutal e outra mór­
disposição mórbida por efeito do hábi­ bida, mas só a que corresponde à 20
to. Possuir esses vários tipos de hábito intemperança humana é simples incon­
está para além das fronteiras do vício, tinência.
ii49« como também o está a brutalidade. Torna-se claro, pois, que a inconti­
Para o homem que os possui, dominá- nência e a continência se relacionam
los ou ser dominado por eles não é com os mesmos objetos que a intempe­
simples continência ou incontinência, rança e a temperança, e o que se rela­
mas algo que é tal por analogia, assim ciona com outros objetos é um tipo
como o homem que tem tal disposição distinto da incontinência, que recebe
com respeito aos acessos de cólera este nome por metáfora e não é chama­
deve ser chamado incontinente em do simples incontinência.
ÉTICA A NICÔMACO — VII 165

6
Veremos agora que a incontinência dizendo “ sim, mas ele batia no seu, e
relativa à cólera é menos vergonhosa seu pai, por sua vez, batia no seu; e
do que aquela que diz respeito aos este menino (apontando para o seu ,0
apetites. filho) baterá em mim quando for
25 ( 1) A cólera parece ouvir o racio­ homem; isso é de família” ; ou o
cínio até certo ponto, mas ouvi-lo mal, homem que estava sendo levado de
como os servos apressados que partem rastos pelo filho e lhe pediu que paras­
correndo antes de havermos acabado se à porta, pois ele próprio só havia
de dizer o que queremos e cumprem a arrastado seu pai até ali.
ordem às avessas, ou os cães que la­ (3) Por outro lado, os mais afeitos a
dram apenas ouvem bater à porta, sem conspirar contra outros são mais cri­
procurar ver primeiro se se trata de minosos. Ora, um homem colérico não
uma pessoa amiga; e da mesma forma se inclina a conspirar, nem o faz a pró- is
3o a cólera, devido à sua natureza ardente pria cólera, que é aberta e franca; mas
e impetuosa, embora ouvindo, não es­ a natureza do apetite é elucidada pelo
cuta as ordens e precipita-se para a que os poetas chamam Afrodite, “ insi-
vingança. Porque o raciocínio ou a diosa filha de Chipre”, e pelos versos
imaginação nos informa de que fomos de Homero sobre o seu “cinto borda­
desprezados ou desconsiderados, e a do” :
cólera, como que chegando à conclu­ E ali estão os sussurros de amor,
são de que é preciso reagir contra qual­ Tão sutis que roubam a razão aos
quer coisa dessa espécie, ferve imedia­ [sábios, por prudentes que sejam89.
tamente; enquanto o apetite, mal o
raciocínio ou a percepção lhe dizem Logo, se esta forma de incontinência é
3s que determinado objeto é agradável, mais criminosa e vergonhosa que a da
1149b corre a desfrutá-lo. Por conseguinte, a cólera, ela é ao mesmo tempo inconti­
cólera obedece em certo sentido ao nência no sentido absoluto e também
raciocínio, mas o apetite não. Por isso vício.
é ele mais censurável, pois o homem (4) Ainda mais: ninguém comete 20
incontinente com respeito à cólera é desregramentos com um sentimento de
vencido em certo sentido pelo raciocí­ dor, mas a cólera é sempre acompa­
nio, ao passo que o outro o é pelo ape­ nhada de dor, enquanto o que comete
tite e não pelo raciocínio. desregramentos age com prazer. Se,
(2) Além disso, perdoamos mais pois, os atos que mais justamente inci­
facilmente às pessoas que seguem dese- tam à cólera são mais criminosos do
s jos naturais, ou seja, os apetites co­ que os outros, mais criminosa é a
muns a todos os homens, na medida incontinência que se deve ao apetite;
em que são comuns. Ora, a cólera e a porquanto na cólera não há desregra-
irritabilidade são mais naturais do que mento.
o apetite pelos excessos, isto é, por Fica bem claro, pois, que a inconti­
objetos desnecessários. Sirva de exem­ nência causada pelo apetite é mais ver-
plo o homem que se defendeu da acu­
sação de haver batido no próprio pai 89 Ilíada, XIV, 214, 217. (N. do T.)
166 ARISTÓTELES

gonhosa do que aquela que se rela- Esses não têm a faculdade de escolher
25 ciona com a cólera; e tanto nem de calcular, mas são realmente jj
continência como incontinência dizem desvios da norma natural, como os
respeito aos apetites e prazeres do loucos entre nós.
corpo. Mas é preciso distinguir entre Ora, a bruteza é um mal menor do uso»
estes últimos, porque, como dissemos que o vício, se bem que mais assusta­
no começo90, alguns são humanos e dor, pois que a parte pervertida não foi
naturais tanto em espécie como em a melhor, como no homem: os brutos
grandeza, outros são brutais, e outros simplesmente não têm uma parte me­
ainda se devem a lesões e doenças lhor. É, pois, como se comparássemos
30 orgânicas. Só com os primeiros têm uma coisa inanimada com um ser vivo
que ver a temperança e a intempe­ quanto à maldade; porque a maldade
rança, e esse é o motivo por que não daquilo que não possui uma fonte
chamamos temperantes nem intempe­ originadora de movimento é sempre
rantes aos animais inferiores, a não ser menos daninha, e a razão é uma fonte s
em linguagem figurada e só quando al­ originadora dessa espécie. E é também
guma raça de animais supera uma o mesmo que comparar a injustiça em
outra na libidinosidade, nos instintos abstrato com um homem injusto. Cada
de destruição e na avidez onívora. um dos dois é em certo sentido pior,
pois um homem mau causará dez
90 1148 b 15-31. (N. do T.) vezes mais dano do que um bruto.

Com respeito aos prazeres, dores, o são os seus excessos e deficiências


apetites e aversões que nos vêm do tato — e como isto é tão verdadeiro das
io e do paladar, e aos quais havíamos dores como dos apetites — , o homem
reduzido anteriormente91 a tempe­ que busca o excesso das coisas agradá­
rança e a intemperança, é possível ter veis ou busca em demasia as coisas
tal disposição que se seja vencido necessárias, fazendo-o deliberada­
mesmo por aqueles que a maioria das mente, por elas próprias e nunca tendo 20
pessoas dominam, ou dominar mesmo em vista algum outro fim, é intempe­
aqueles a que a maioria é incapaz de rante. Tal homem será necessaria­
resistir. Entre essas possibilidades, as mente inacessível ao arrependimento e,
que se relacionam com os prazeres são por conseguinte, incurável, pois quem
a incontinência e a continência, e as não pode arrepender-se não pode ser
que se relacionam com as dores são a curado.
is moleza e a fortaleza. A disposição da O homem que se mostra deficiente
maioria das pessoas é intermediária, na busca dessas coisas é o contrário do
embora se incline mais para as disposi­ intemperante; e o que ocupa a posição
ções piores. mediana é temperante.
Ora, como alguns prazeres são Existe, igualmente, o homem que
necessários e outros não, e os primei­ evita as dores corporais, não porque
ros o são até um certo ponto, mas não estas o levem de vencida, mas por
escolha deliberada. (Dos que não esco- 2s
91 Livro III, cap. 10. (N. do T.) lhem tais atos, uma espécie é condu-
ÉTICA A NICÔMACO — VII 167

zida a eles pela promessa de prazer e a quando picado pela serpente, ou o Cer-
outra por fugir à dor nascida do apeti­ cíon de Cárcino na Álope, e como as
te, de modo que esses tipos diferem pessoas que procuram conter o riso e
entre si. Ora, todos fariam pior opinião irrompem numa gargalhada, como
de um homem que, sem apetite ou com ocorreu a Xenofanto. Mas causa sur­
um apetite fraco, cometesse algum ato presa que um homem não possa resis­
vergonhoso, do que se o fizesse sob a tir e seja derrotado por prazeres e
influência de um forte apetite, e pior do dores que a maioria arrosta sem gran­
homem que ferisse um outro sem cóle­ de dificuldade, quando isso não se deve
ra do que se o fizesse levado pela cóle­ à hereditariedade on à doença, como a is
ra; pois que faria ele então se a sua ira moleza que é hereditária entre os reis
30 fosse grande? Eis aí por que o homem
dos citas ou aquela que distingue o
intemperante é pior do que o inconti­ sexo feminino do masculino.
nente.)
O amigo de diversões é também
Das disposições indicadas, pois, a
considerado intemperante, mas na rea­
segunda é antes uma espécie de mole­
lidade é mole. Porque a diversão é um
za, enquanto a primeira é intempe-
rança. Ao passo que ao homem incon­ relaxamento da alma, um descanso do
tinente se opõe o continente, ao mole trabalho; e o amigo de diversões é uma
opõe-se o homem dotado de fortaleza; pessoa que vai ao excesso em tais
pois a fortaleza consiste em resistir, coisas.
enquanto a continência consiste em D a incontinência, uma espécie é
35 vencer, e resistir e vencer diferem um impetuosidade e outra é fraqueza. Com
do outro assim como não perder difere efeito, alguns homens, após terem deli- 20
de ganhar; e por isso mesmo a conti­ berado, não sabem manter, devido à
nência é também mais digna de esco­ emoção, as conclusões a que chega­
lha do que a fortaleza, ram, enquanto outros, por não terem
íuob Ora, o homem deficiente no tocante deliberado, são levados pela sua emo­
às coisas a que a maioria resiste, e o ção. E outros (assim como os que
faz com êxito, é mole e efeminado; tomam a iniciativa de fazer cócegas
pois a efeminação também é uma espé­ eles próprios), quando percebem com
cie de moleza. Um tal homem deixa antecedência e vêem o que vai aconte­
arrastar o seu manto para evitar o cer, despertam a tempo e fazem funcio­
esforço de erguê-lo e simula doença nar a sua faculdade calculadora, não
sem se considerar infeliz, ao passo que sendo vencidos pela emoção, quer esta
o homem a quem ele imita é realmente seja agradável, quer dolorosa. São as 25
infeliz. pessoas de humor vivaz e de tempera­
5 O caso é análogo no que tange à mento excitável as mais sujeitas à
continência e à incontinência. Com forma impetuosa de incontinência;
efeito, não é coisa de causar admiração porque as primeiras, devido à vivaci­
que um homem seja derrotado por pra­ dade, e as segundas, por motivo da vio­
zeres ou dores violentos e excessivos, e lência das paixões, não esperam pelo
até nos dispomos a perdoar se ele resis- raciocínio e tendem a seguir a sua
i o tiu como faz o Filoctetes de Teodectes imaginação.
168 ARISTÓTELES

8
O homem intemperante, como disse­ sos, mas praticam atos criminosos.
mos, não costuma arrepender-se por­ Ora, como o homem incontinente
que se atém ao que escolheu; mas qual­ tende a buscar, não por convicção,
quer homem incontinente pode prazeres corporais que são excessivos
30 arrepender-se. Por isso, a posição não e contrários à reta razão, enquanto o
é tal como a expressamos ao formular intemperante está convencido por ser a
o problema, mas o intemperante é espécie de homem feita para buscá-los,
incurável e o incontinente, curável. é o primeiro que facilmente se deixa
Porquanto a maldade se assemelha a dissuadir, ao passo que com o segundo
uma doença como a hidropisia ou a tí­ nãó acontece assim. Com efeito, a vir- is
sica, enquanto a incontinência é como tude e o vício preservam e destroem,
a epilepsia: a primeira é permanente e respectivamente, o primeiro princípio,
a segunda, intermitente. E, de um e na ação a causa final é o primeiro
3s modo geral, a incontinência e o vício princípio, como as hipóteses o são na
diferem em espécie: o vício não tem matemática. Nem naquele caso, nem
consciência de si mesmo, a inconti- neste é o raciocínio que ensina os pri­
1151a nência tem (dos homens incontinentes, meiros princípios — o que ensina a
os que temporariamente perdem o reta opinião a seu respeito é a virtude,
domínio próprio são melhores do que quer natural, quer produzida pelo hábi­
os que possuem o princípio racional to. Um homem assim é, pois, tempe­
mas não se atêm a ele, visto que os rante, e o seu contrário é o intempe­
segundos são derrotados por uma pai­ rante.
xão mais fraca e não agem sem prévia Mas há uma espécie de homem que 20
deliberação, como os outros); porque o é arrastado pela paixão contrariando a
homem incontinente é como os que se regra justa — um homem a quem a
embriagam depressa e com pouco paixão domina por tal forma que é
vinho — isto é, com menos do que a incapaz de agir de acordo com a reta
maioria das pessoas. razão, mas não ao ponto de fazê-lo
s Vê-se claramente, pois, que a incon­ acreditar que deva buscar tais prazeres
tinência não é vício (se bem que talvez sem reservas. Esse é o incontinente,
o seja num sentido particularizado). que é superior ao intemperante e não é
Com efeito, a incontinência é contrária mau no sentido absoluto, pois nele se 25
à escolha, enquanto ó vício segue o que conserva o que te,m de melhor, o pri­
escolheu. Isso, porém, não impede que meiro princípio. E contrária a ele é
se assemelhem nas ações a que condu­ outra espécie de homem, que se man­
zem. Como disse Demódoco dos milé- tém firme nas suas convicções e não se
sios, “que não eram privados de razão, deixa arrastar, ao menos pela paixão.
mas faziam as mesmas coisas que Toma-se claro, pelo que acabamos
fazem os insensatos” , também os de dizer, que a segunda é uma boa
io incontinentes não são crimino- disposição e a primeira é má.
ÉTICA A NICÔMACO — VII 169

É continente o homem que se atém a ciadas pelo prazer e pela dor, pois
toda e qualquer regra, a toda e qual­ deleitam-se com a sua vitória quando
quer escolha, ou aquele que se atém à não se deixam persuadir a mudar e so- is
reta escolha? E é incontinente o que frem quando as suas decisões se tor­
abandona toda e qualquer escolha, nam nulas, como sucede às vezes com
assim como toda e qualquer regra, ou os decretos: de modo que se asseme­
o que abandona a regra e a escolha jus­ lham mais ao homem incontinente do
tas? Foi assim que colocamos ante­ que ao seu contrário.
riormente92 o problema. Ou será aci­ Mas há alguns que abandonam as
dentalmente a toda e qualquer escolha, suas resoluções não por efeito da
mas, em si, à regra e à escolha justas incontinência, como o Neoptólemo de
que um se atém e o outro não? Quando Sófocles. Sem embargo, foi sob a
alguém escolhe ou busca isto no inte­ influência do prazer que ele tergiversou
resse daquilo, em si busca e escolhe o — mas de um prazer nobre; pois, para 20
segundo, mas acidentalmente o primei­ ele, dizer a verdade era nobre, e contu­
ro. Mas quando falamos em absoluto, do Ulisses o persuadira a mentir. Com
entendemos o que é buscado em si. efeito, nem todos os que fazem alguma
Logo, em certo sentido um sustenta e o coisa tendo em vista o prazer são
outro abandona toda e qualquer opi­ intemperantes, maus ou incontinentes,
nião; mas, em sentido absoluto, só a mas só os que a fazem por um prazer
reta opinião. vergonhoso.
H á alguns que tendem a sustentar a Como também existe uma espécie
sua opinião e que são chamados teimo­ de homem que se deleita menos do que
sos, a saber: os que de um modo geral deve com as coisas do corpo e não
são difíceis de persuadir e, em particu­ olha à reta razão, o intermediário entre 25
lar, que não se deixam persuadir facil­ ele e o incontinente é o homem conti­
mente a mudar de idéia. Esses têm algo nente. Com efeito, o incontinente não
de semelhante ao homem continente, se atém à reta razão porque se deleita
assim como o pródigo se assemelha de em excesso com tais coisas, e este
certo modo ao liberal e o temerário ao homem porque se deleita demasiada­
confiante; mas diferem a muitos res­ mente pouco com elas; ao passo que o
peitos. Com efeito, é à paixão e ao ape­ homem continente se atém à razão e
tite que um não quer ceder, já que ou­ não muda por nada deste mundo. Ora,
tras vezes o homem continente se se a continência é boa, ambas as dispo­
mostra fácil de persuadir; mas é ao sições contrárias devem ser más, como
raciocínio que os outros resistem, por­ realmente parecem ser; mas, como o 30
que cultivam seus apetites e muitos outro extremo é observado em muito
deles são conduzidos pelos prazeres. poucos e raramente, pensa-se que a
Ora, as pessoas teimosas são as continência só tem um contrário, a
opiniáticas, as ignorantes e as rústicas incontinência, do mesmo modo que a
— as opiniáticas, porque são influen- temperança só tem um contrário, que é
a intemperança.
92 1146 a 16-31. (N. do T.) Como muitos nomes são aplicados
170 ARISTÓTELES

por analogia, é também por analogia trário à reta razão, enquanto o pri­
que viemos a falar da “continência” do meiro é tal que sente prazer mas não se
homem temperante; pois tanto o conti­ deixa conduzir por ele. E o inconti­
nente como o temperante são de tal ín­ nente e o intemperante também se
dole que jamais contrariam a regra assemelham num ponto: ambos bus­
1152a justa levados pelos prazeres corporais; cam os prazeres corporais; diferem,
mas o primeiro possui e o segundo não contudo, pelo fato de o segundo pensar
possui apetites maus. Além disso, o que deve proceder assim, enquanto o
segundo é tal que não sente prazer con­ primeiro pensa de modo contrário.

10

5 Tampouco é possível que o mesmo noso, pois não age premeditadamente.


homem possua sabedoria prática e seja Dos dois tipos de homem inconti­
incontinente. Com efeito, já mostra­ nente, um não se atém às conclusões
mos93 que o homem dotado de sabe­ do que deliberou, enquanto o outro
doria prática é também um homem de não delibera em absoluto. E assim o
bom caráter. Além disso, a sabedoria incontinente se assemelha a uma cida­
prática não nos vem apenas do conhe­ de que aprova todos os decretos apro­
cimento, mas também da capacidade priados e tem boas leis, mas não as põe 20
de agir. Ora, o incontinente é incapaz em prática, como na observação gra­
de agir. ciosa de Anaxândrides9 5:
to Nada impede, porém, que um Assim o quis a cidade que não fa z caso
homem hábil seja incontinente. Por algum das leis.
este motivo, alguns chegam a pensar
que certas pessoas dotadas de sabedo­ O homem mau, pelo contrário, é como
ria prática são incontinentes; com efei­ uma cidade que faz uso de suas leis,
to, a habilidade e a sabedoria prática mas em que estas são más.
diferem da maneira que descrevemos Ora, a incontinência e a continência 25

em nossas primeiras discussões94, e relacionam-se com o que excede a


estão próximas uma da outra no tocan­ disposição característica da maioria
te ao modo de raciocinar, mas distin- dos homens; porque o homem conti­
guem-se quanto ao seu propósito. nente se atém mais às suas resoluções e
E tampouco o incontinente se parece o incontinente menos do que a maioria
com o homem que sabe e contempla pode fazer.
is uma verdade, mas com o adormecido Das formas de incontinência, a pró­
ou o embriagado. E age voluntaria­ pria das pessoas excitáveis é mais
mente (pois age, em certo sentido, com curável que a das que deliberam mas
conhecimento não só do que faz como não se atêm às suas conclusões, e os
do fim visado); não é, porém, mau, que são incontinentes por hábito são
visto que o seu propósito é bom; de mais curáveis do que aqueles em que a
modo que o incontinente é apenas incontinência é inata; pois é mais fácil
meio mau. Por outro lado, não é crimi- mudar um hábito do que alterar a
nossa natureza; e o próprio hábito 30

” 1144 a 11 — 1 144 b 32. (N .d o T .)


1144a 23 — 1144 b 4. (N .d o T .) 9 6 Fragmento 67, Kock. (N. do T.)
ÉTICA A NICÔMACO — VII 171

muda dificilmente porque se assemelha Que acaba por fazer-se natureza.


à natureza, como diz Eveno9 6: Terminamos de mostrar o que são a
O hábito, meu caro, não é senão continência e a incontinência, a for­
[uma longa prática taleza e a moleza, e como essas
disposições se relacionam umas is
9 6 Fragmento 9, Diehl. (N. do T.) com as outras.

11

O estudo do prazer e da dor per­ tível a uma disposição natural, e ne­


tence ao campo do filósofo político, nhum processo é da mesma espécie
pois ele é o arquiteto do fim com vistas que o seu fim, por exemplo: o processo
no qual dizemos que uma coisa é má e da construção não é da mesma espécie
outra é boa em absoluto. Além disso, que a casa. (b) O homem temperante u
considerá-los é uma de nossas tarefas evita os prazeres. (c) O homem dotado
necessárias, pois não apenas assenta­ de sabedoria prática busca o que é
mos que a virtude e o vício morais isento de dor e não o que é agradável.
dizem respeito a dores e prazeres, mas (d) Os prazeres são um obstáculo ao
pensamento, e quanto mais o são, mais
a maioria pensa que a felicidade envol­
nos deleitamos neles, como, por exem­
ve prazer; e por isso se deu ao homem
plo, o prazer sexual, pois ninguém é
feliz um nome derivado de uma pala­
capaz de pensar no que quer que seja
vra que significa prazer.
quando está absorvido nele. ( e ) Não
Ora ( 1), para algumas pessoas ne­ existe arte do prazer, ao passo que
nhum prazer é um bem, quer em si todo bem é produto de alguma arte. (/)
mesmo, quer acidentalmente, visto que As crianças e os brutos buscam os
o bem e o prazer não são a mesma prazeres.
coisa; (2) outros pensam que alguns (2) A opinião de que nem todos os 20
prazeres são bons, mas a maioria deles prazeres são bons baseia-se em dois
são maus. (3) H á ainda uma terceira argumentos: (a) existem prazeres que
opinião, segundo a qual, mesmo que são realmente vis e objetos de censura,
todos os prazeres sejam bons, a melhor e (b) existem prazeres nocivos, pois
coisa do mundo não pode ser o prazer. algumas coisas agradáveis são malsãs.
( 1) Estes são os argumentos em (3) O argumento em favor da opi­
favor da opinião dos que negam abso­ nião segundo a qual a melhor coisa do
lutamente que o prazer seja um bem: mundo não é o prazer é que este não é
(a) Todo prazer é um processo percep­ um fim, mas um processo.

12
Estas são mais ou menos as coisas como mostram as seguintes considera­
que se costuma dizer. De tais premis­ ções:
sas não se segue que o prazer não seja (A) (a) Primeiro, visto que aquilo
um bem, ou mesmo o maior dos bens, que é bom pode sê-lo num de dois sen-
172 ARISTÓTELES

tidos (uma coisa é simplesmente boa, rem entre si, também diferem os praze­
enquanto outra é boa para determi­ res que elas proporcionam.
nada pessoa), as constituições e dispo­ (c) Por outro lado, não é necessário
sições naturais do ser, com os corres­ que exista algo melhor do que o prazer
pondentes movimentos e processos, simplesmente por dizerem alguns que o
serão divisíveis da mesma forma. fim é melhor do que o processo. Com
Dos que são considerados maus, al- efeito, os prazeres não são processos,
30 guns o serão em absoluto, porém não nem todos eles envolvem processos: io
para uma pessoa determinada, mas são atividades e fins. E tampouco os
merecedores da sua escolha; e alguns experimentamos quando nos estamos
não merecerão sequer a escolha de tornando alguma coisa, mas quando
uma pessoa determinada, a não ser exercemos alguma faculdade; e nem
numa ocasião particular e por breve todos os prazeres têm um fim diferente
período, e assim mesmo com restri­ deles mesmos, mas só os prazeres das
ções; outros, enfim, não chegam a ser pessoas que estão sendo conduzidas ao
prazeres, mas apenas parecem tais. aperfeiçoamento de sua natureza. Eis
Refiro-me aos que envolvem dor e cujo por que não é certo dizer que o prazer
fim é curativo, como os processos que seja um processo perceptível, mas
ocorrem nas pessoas doentes. antes deveríamos chamá-lo atividade
(b) Além disso, sendo uma espécie
do estado natural e, em vez de “percep­
de bem atividade e outra espécie, esta­ tível”, “desimpedida”. Alguns o consi- u
do, os processos que nos restituem ao deram um processo simplesmente por­
nosso estado natural só são agradáveis que pensam que ele é bom no sentido
35 acidentalmente. Aliás, a atividade ca- estrito do termo; pois julgam, equivo-
nalizáda para os apetites que têm esses cadamente, que a atividade seja um
bens por objeto é a atividade daquela processo.
parte de nosso estado e natureza que (B) A opinião de que os prazeres são
permaneceu incólume; pois em verda­ maus porque algumas coisas agradá­
de há prazeres que não envolvem dor veis são malsãs eqüivale a dizer que as
1153a nem apetite (como os da contempla­ coisas saudáveis são más porque algu­
ção, por exemplo), estando a natureza mas coisas saudáveis nos impedem de
intata nesses casos. Que os outros são ganhar dinheiro. Ambas são más nos
acidentais, indica-o o fato de algumas casos particulares mencionados, mas
pessoas não se deleitarem, quando sua não são más em si mesmas por essa
natureza se encontra no estado normal, razão; e até pode suceder, às vezes, que 20
com os mesmos objetos agradáveis que pensar faça mal à saúde.
lhes causam prazer quando ela está Nem a sabedoria prática, nem qual­
sendo refeita; mas no primeiro caso quer estado do ser é impedido pelo pra­
deleitam-se com coisas que são agra­ zer que ele proporciona. São os praze­
dáveis no sentido absoluto, e no segun­ res estranhos que têm um efeito
do, também com os contrários destas, impeditivo, visto que os prazeres ad­
5 inclusive com coisas acres e amargas, vindos do pensar e do aprender nos
nenhuma das quais é agradável quer fazem pensar e aprender ainda mais.
por natureza, quer em sentido absolu­ (C) N ada mais natural do que o fato
to. Os estados que elas produzem, por de nenhum prazer ser o produto de
conseguinte, não são prazeres natural­ uma arte qualquer. Não existe arte de
mente nem no sentido absoluto; pois, nenhuma outra atividade tampouco,
assim como as coisas agradáveis dife­ mas apenas da faculdade correspon- 25
ÉTICA A NICÔMACO — VII 173

dente, embora seja certo que as artes que sentido outros não são bons. Ora,
do perfumista e do cozinheiro são tanto os brutos como as crianças bus­
consideradas artes de prazer. cam prazeres da segunda espécie (e o
(D) Os argumentos baseados nas homem de sabedoria prática busca
premissas de que o homem temperante uma tranqüila isenção dos prazeres
evita os prazeres, e de que o homem dessa espécie): referimo-nos aos que
dotado de sabedoria prática busca a implicam apetite e dor; isto é, os praze­
vida sem dor e de que as crianças e os res corporais (pois estes é que são de
brutos buscam o prazer são todos refu­ tal natureza), e aos excessos dos mes­
tados pela mesma consideração. Já mos, em virtude dos quais se diz que
mostramos9 7 em que sentido alguns um homem é intemperante. Eis aí por
prazeres são bons em absoluto e em que o homem* temperante evita esses
prazeres; porquanto ele também tem
97 1 1 5 2 b 2 6 — 1153 a 7 . ( N . d o T . ) os seus prazeres próprios.

13

Mas, além disso (E), todos concor­ mais digna de nossa escolha; e essa ati­
dam em que a dor é má e deve ser evi­ vidade é prazer. E assim, o sumo bem
tada; porquanto algumas dores são seria alguma espécie de prazer, embora
más em sentido absoluto, e outras são a maioria dos prazeres fossem talvez
más porque de algum modo nos ser­ maus em sentido absoluto.
vem de impedimento. Ora, o contrário Por essa mesma razão todos os ho­
do que deve ser evitado, enquanto mens pensam que a vida feliz é agradá­
coisa vitanda e má, é bom. O prazer, vel e entremeiam o prazer no seu ideal
por conseguinte, é necessariamente um da felicidade — o que, aliás, é bastante
bem. E a resposta de Espeusipo, dizen­ sensato, jà que nenhuma atividade é
do que o prazer é contrário tanto à dor perfeita quando impedida, e a felici­
como ao bem, assim como o maior é dade é uma coisa perfeita. Eis aí por
contrário tanto ao menor como ao que o homem feliz necessita dos bens
igual, não consegue convencer, pois corporais e exteriores, isto é, os da for­
que o próprio Espeusipo não diria que tuna, a fim de não ser impedido nesses
o prazer é, essencialmente, uma sim­ campos. Os que dizem que o homem
ples espécie de mal. torturado no cavalete ou aquele que
E (F), se certos prazeres são maus, sofre grandes infortúnios é feliz se for
isso não impede que o sumo bem seja bom estão disparatando, quer falem a
algum prazer, assim como o sumo bem sério, quer não.
pode ser alguma espécie de conheci­ E pelo fato de necessitarmos da for­
mento, não obstante certas espécies de tuna como de outras coisas, alguns
conhecimento serem más. Talvez seja identificam a boa fortuna com a felici­
até necessário, se a cada disposição dade; mas sucede que a própria boa
pode corresponder uma atividade de­ fortuna, quando em excesso, é um
simpedida, que, não sendo a felicidade obstáculo, e talvez já não mereça o
outra coisa senão a atividade desimpe­ nome de boa fortuna, pois que o seu li­
dida de todas as nossas disposições ou mite é fixado com referênçia à felici­
de algumas delas, seja essa a coisa dade..
174 ARISTÓTELES

25 E em verdade o fato de todos os rais apropriaram-se do nome tanto


seres, tanto os brutos como os homens, porque os buscamos com mais fre­
buscarem o prazer é um indício de que qüência do que aos outros, como por­
ele seja, de certo modo, o sumo bem: que todos os homens participam deles; 35
e assim, por não conhecerem outros, os
Nunca se perde de todo a voz que mui-
homens pensam que eles não existem.
[tospovos. . . 98 É evidente, por outro lado, que se o 1154a
Mas, assim como nenhuma natureza e prazer, isto é, a atividade de nossas
nenhum estado são considerados os faculdades, não é um bem, ninguém
melhores para todos, também nem poderá dizer que o homem feliz tenha
todos buscam o mesmo prazer; não uma vida agradável; pois com que fim
so obstante, todos buscam o prazer. E tal­ necessitaria ele do prazer se este não ;
vez na realidade busquem, não o pra­ um bem e o homem feliz pode até levar
zer que julgam ou que dizem buscar, uma vida de sofrimentos? E a dor não
mas o mesmo prazer; pois todas as é nem um mal, nem um bem, se o pra­
coisas contêm em si, por natureza, zer não o é: por que, então, evitá-la?
algo de divino. Mas os prazeres corpo- Por conseguinte, também a vida do s
homem bom não será mais agradável
que a de qualquer outro, se as suas ati­
98 Hesíodo, Trabalhos e Dias, 763. (N. do T.) vidades não forem mais agradáveis.

14
(G) Com respeito aos prazeres cor­ rosos, com vinhos e com a união
porais, os que dizem que alguns praze­ sexual, mas nem todos o fazem como
res são muito dignos de escolha, a devem). Com a dor dá-se o contrário,
saber, os nobre, porém não os corpo­ pois ele não evita o seu excesso: evita-a 20
rais, isto é, aqueles a que se dedica o de todo; e isso lhe é peculiar, já que o
homem intemperante, devem examinar excesso de prazer não tem como alter­
10 por que, nesse caso, as dores contrá­ nativa a dor, salvo para o homem que
rias são más. Porquanto o contrário do busca esse excesso.
mau é bom. Serão bons os prazeres Como devemos expor não somente a
necessários no sentido em que mesmo verdade, mas também a causa do erro
aquilo que não é mau é bom? Ou serão — pois isso contribui para convencer,
bons até certo ponto? Dar-se-á o caso uma vez que quando se dá uma expli­
que, se de alguns estados e processos cação razoável de por que o falso pare­
não pode haver demasia, tampouco a ce verdadeiro, isso tende a fortalecer a
pode haver do prazer correspondente, e crença na opinião verdadeira — , cum- 25
quando aqueles comportam excesso, pre-nos mostrar agora a razão de os
is também o comportam estes? prazeres corporais parecerem mais
Ora, é certo que pode haver excesso dignos de escolha.
de bens corporais, e o homem mau é (a) Em primeiro lugar, pois, é por­
mau por buscar o excesso e não por que eles expulsam a dor: devido aos
buscar os prazeres necessários (pois excessos de dor que experimentam, os
todos os homens deleitam-se de um homens buscam prazeres excessivos e,
modo ou de outro com acepipes sabo­ em geral, de natureza corporal como
ÉTICA A NICÔMACO — VII 175

30 remédio para a dor. Ora, os meios a dor é expulsada não só pelo prazer
curativos provocam intenso senti­ contrário como por qualquer prazer,
mento (e é este o motivo de serem bus­ contanto que seja forte; e por esta is
cados), pelo contraste entre eles e a dor razão elas se tornam intemperantes e
contrária. (E, em verdade, considera-se más.
que o prazer não é bom por estas duas Os prazeres que não envolvem dor,
razões, como já d issem o s", a saber: pelo contrário, não admitem excesso; e
(a) que alguns deles são atividades esses se contam entre as coisas agradá­
pertinentes a uma natureza má — quer veis por natureza e não por acidente.
congênita no caso de um bruto, quer Por coisas acidentalmente agradáveis
devida ao hábito, isto é, a dos homens entendo as que agem como meios cura­
maus: ao passo que (0) outros se desti­ tivos (pelo motivo de serem as pessoas
nam a curar uma natureza deficiente; curadas por elas, mediante alguma
ora, é melhor gozar saúde do que ação da parte que permanece sadia, o
1154b estar-se curando, mas esses prazeres processo é considerado agradável); e
surgem durante o processo de cura e, por coisas naturalmente agradáveis
por conseguinte, são bons apenas aci­ entendo as que estimulam a ação da
dentalmente.) natureza sã.
(b) Além disso, eles são buscados Não existe coisa alguma que seja 20
devido à sua violência pelos que não sempre agradável, já que nossa natu­
podem desfrutar outros prazeres. (Em reza não é simples, mas existe em nós
todo caso, dão-se ao trabalho de fabri­ também um outro elemento por sermos
car sedes, por assim dizer, para si mes­ criaturas mortais; de modo que, se um
mos; quando estas são inofensivas, a elemento produz determinado efeito,
prática é inocente, e quando são preju- este é antagônico à outra natureza; e
s diciais, é má.) Tais pessoas não têm quando os dois elementos estão equili­
nada mais que gozar e, além disso, brados o efeito não parece agradável
para a natureza de muitas pessoas um nem desagradável; porquanto, se a
estado neutro é doloroso. Com efeito, a natureza de um ser fosse simples, a
natureza animal está em constante mesma coisa lhe seria sempre agradá- 25
labuta, e isto é também confirmado vel no mais alto grau. É por isso que
pelos estudiosos de ciência natural Deus sempre goza um prazer único e
quando dizem serem dolorosas a visão simples: com efeito, não existe apenas
e a audição, sucedendo apenas que nos uma atividade do movimento, mas
acostumamos a elas. também uma atividade do repouso, e
Do mesmo modo, as pessoas jovens, experimenta-se mais prazer no repouso
devido ao processo de crescimento, do que no movimento. Mas “ a mudan­
encontram-se numa condição seme­ ça é aprazível em todas as coisas” ,
lhante à dos embriagados, e a moci- como diz o poeta100, em razão de
io dade é um estado agradável. As pes­ algum vício; pois, assim como o
soas de natureza excitável, por outro homem vicioso se caracteriza pela
lado, necessitam constantemente de mutabilidade, a natureza que necessita 30
alívio; o seu próprio corpo vive ator­ de mudar é viciosa, por não ser simples
mentado por efeito de seu tempera­ nem boa.
mento, e elas estão sempre sob a Aqui termina a nossa discussão da
influência de um desejo violento; mas continência e da incontinência, do pra-

99 1152 b 26 33. (N. do T.) 100 Eurípides, Orestes, 234. (N. do T.)
176 ARISTÓTELES

zer e da dor. Mostramos tanto o que alguns são bons e outros maus. Resta
cada um é em si como em que sentido agora falar da amizade.
LIVRO VIII
179

1155a Depois do que dissemos segue-se os homens; por isso louvamos os ami­
naturalmente uma discussão da amiza­ gos de seu semelhante. Até em nossas
de, visto que ela é uma virtude ou viagens podemos ver quanto cada
implica virtude, sendo, além disso, homem é chegado e caro a todos os
5 sumamente necessária à vida. Porque outros. A amizade também parece
sem amigos ninguém escolheria viver, mantçr unidos os Estados, e dir-se-ia
ainda que possuísse todos os outros que os legisladores têm mais amor à
bens. E acredita-se, mesmo, que os amizade do que à justiça, pois aquilo a
ricos e aqueles que exercem autoridade que visam acima de tudo é à unanimi­
e poder são os que mais precisam de dade, que tem pontos de semelhança 25
amigos; pois de que serve tanta prospe­ com a amizade; e repelem o faccio-
ridade sem um ensejo de fazer bem, se sismo como se fosse o seu maior inimi­
este se faz principalmente e sob a go. E quando os homens são amigos
forma mais louvável aos amigos? Ou não necessitam de justiça, ao passo
como se pode manter e salvaguardar a que os justos necessitam também da
prosperidade sem amigos? Quanto amizade; e considera-se que a mais
io maior é ela, mais perigos corre. genuína forma de justiça é uma espécie
Por outro lado, na pobreza e nos de­ de amizade.
mais infortúnios os homens pensam Não é ela, contudo, apenas necessá­
que os amigos são o seu único refúgio. ria, mas também nobre, porquanto lou­
A amizade também ajuda os jovens a vamos os que amam os seus amigos e
afastar-se do erro, e aos mais velhos, considera-se uma bela coisa ter muitos
atendendo-lhes às necessidades e su­ deles. E pensamos, por outro lado, que 30
prindo as atividades que declinam por as mesmas pessoas são homens bons e
efeito dos anos. Aos que estão no vigor amigos.
da idade ela estimula à prática de no- Ora, certos pontos atinentes à ami­
is bres ações, pois na companhia de ami­ zade são matéria de debate. Alguns a
gos — “dois que andam juntos101 ” — definem como uma espécie de afini­
os homens são mais capazes tanto de dade e dizem que as pessoas seme­
agir como de pensar. lhantes são amigas, donde os aforis­
E também os pais parecem senti-la mos “igual com igual”, “cada ovelha 35
naturalmente pelos filhos e os filhos com sua parelha”, etc.; outros, pelo
pelos pais, não só entre os homens, contrário, dizem que “dois do mesmo 1155 b
mas entre as aves e a maioria dos ani- ofício nunca estão de acordo”. E inves­
20 mais. Membros da mesma raça a sen­ tigam esta questão buscando causas
tem uns pelos outros, e especialmente mais profundas e mais físicas, dizendo
Eurípedes que “ a terra resseca ama a
101 Odisséia, XVII, 218. (N. do T.) chuva, e o majestoso céu, quando pre-
180 ARISTÓTELES

nhe de chuva, adora cair sobre a mos deixá-los de parte, pois não per­
5 terra102”, e Heráclito: “o que se opõe tencem à presente investigação. Exa­
é que ajuda”, e “de notas diferentes minemos os que são humanos e
nasce a melodia mais bela” , e ainda: envolvem caráter e sentimento, por 10
“todas as coisas são geradas pela exemplo: se a amizade pode nascer
luta” 103; ao passo que Empédòcles, entre duas pessoas quaisquer, se
juntamente com outros, exprime a opi­ podem ser amigos os maus, e se existe
nião contrária de que o semelhante uma só espécie de amizade, ou mais.
busca o semelhante. Os que pensam que só existe uma por­
Quanto aos problemas físicos, pode- que a amizade admite graus baseiam-
se num indício inadequado, visto que
mesmo as coisas que diferem em espé­
102 Fragmento 898, 7-10, Nauck. (N. do T.) cie admitem graus. Este assunto já foi i5
103 Fragmento 8, Diels. (N. do T.) discutido por nós anteriormente.

Talvez possamos deslindar as espé­ mados não usamos a palavra “ amiza­


cies de amizade se começarmos por de” , pois não se trata de amor mútuo,
tomar conhecimento do objeto do nem um deseja bem ao outro (seria,
amor. Ora, nem tudo parece ser com efeito, ridículo se desejássemos
amado, mas apenas o estimável, e este bem ao vinho; se algo lhe desejamos é so
é bom, agradável ou útil. Mas o útil, que se conserve, para que continuemos
em suma, é aquilo que produz algo de dispondo dele); no tocante aos amigos,
20 bom ou agradável, de modo que são o porém, diz-se que devemos desejar-lhes
bom e o útil que são estimáveis como o bem no interesse deles próprios. Mas
fins. aos que desejam bem dessa forma só
Os homens amam, então, o que é atribuímos benevolência, se o desejo
bom em si ou o que é bom para eles? não é recíproco; a benevolência, quan­
Os dois entram por vezes em conflito. do recíproca, torna-se amizade. Ou
E o mesmo pode-se dizei* no tocante ao será preciso acrescentar “quando co­
agradável. Ora, pensa-se que cada um nhecida” ? Pois muita gente deseja bem
ama o que é bom para ele, e o que é a pessoas que nunca viu, e as julga
bom é estimável em si mesmo, en­ boas e úteis; e uma delas poderia retri- ss
quanto o que é bom para cada um é buir-lhe esse sentimento. Tais-pessoas
estimável para ele; mas cada homem parecem desejar bem umas às outras; hsó»
ama não o que é bom para ele, e sim o mas como chamá-las de amigos se
25 que parece bom. Isso, contudo, não ignoram os seus mútuos sentimentos?
vem ao caso; limitar-nos-emos a dizer A fim de serem amigas, pois, devem
que ele é “o que parece estimável”. conhecer uma à outra como desejan-
Ora, as pessoas amam por três dõ-se bem reciprocamente por uma das 5
razões. Para o amor dos objetos inani­ razões mencionadas acima.
ÉTICA A NICÔMACO — VIII 181

3
Ora, essas razões diferem umas das pessoas buscam não o agradável, mas
outras em espécie; portanto, é em espé­ o útil) e, dos jovens e dos que estão no
cie que diferem também as correspon­ vigor dos anos, entre os que buscam a
dentes formas de amor e de amizade. utilidade. E tampouco tais pessoas
Há, assim, três espécies de amizade, convivem muito umas com as outras,
iguais em número às coisas que são pois às vezes nem sequer se vêem com
estimáveis; pois com respeito a cada agrado, e por isso não sentem necessi­
uma delas existe um amor mútuo e dade de tal companhia, a menos que
conhecido, e os que se amam desejam- sejam mutuamente úteis: o convívio só
se bem a respeito daquilo por que se lhes é agradável na medida em que
amam. despertam uma na outra a esperança 30
10 Ora, os que se amam por causa de de algum bem futuro.
sua utilidade não se amam por si mes­ Entre essas amizades alguns classi­
mos, mas em virtude de algum bem ficam também a que se observa entre
que recebem um do outro. Idêntica hospedeiro e hóspede. A amizade dos
coisa se pode dizer dos que se amam jovens, por outro lado, parece visar ao
por causa do prazer; não é devido ao prazer, pois eles são guiados pela emo­
caráter que os homens amam as pessoas ção e buscam acima de tudo o que lhes
espirituosas, mas porque as acham é agradável e o que têm imediatamente
agradáveis. Logo, os que amam por diante dos olhos; mas com o correr dos
causa da utilidade, amam pelo que é anos os seus prazeres tomam-se dife­
bom para eles mesmos, e os que amam rentes. É por isso que fazem e desfa­
por causa do prazer, amam em virtude zem amizades rapidamente: sua ami- 35
« do que é agradável a eles, e não na me­ zade muda com o objeto que lhes
dida em que o outro é a pessoa amada, parece agradável, e tal prazer se altera
mas na medida em que é util ou bem depressa.
agradável. Os jovens são também amorosos, 1156b
De forma que essas amizades são pois, em sua maior parte, a amizade
apenas acidentais, pois a pessoa amada que existe no amor depende da emoção
não é amada por ser o homem que é, e visa ao prazer; é por isso que tão
mas porque proporciona algum bem depressa se apaixonam como esque­
ou prazer. Eis por que tais amizades se cem a sua paixão, muitas vezes mu­
20 dissolvem facilmente, se as partes não dando no espaço de um dia. Mas é
permanecem iguais a si mesmas: com certo que tais pessoas desejam passar
efeito, se uma das partes cessa de ser juntas os seus dias e a sua vida inteira,
agradável ou útil, a outra deixa de pois só assim alcançam o propósito da s
amá-la. sua amizade.
Ora, o útil não é permanente, mas A amizade perfeita é a dos homens
muda constantemente. E assim, quan­ que são bons e afins na virtude, pois
do desaparece o motivo da amizade, esses desejam igualmente bem um ao
esta se dissolve, pois que existia apenas outro enquanto bons, e são bons em si
para os fins de que falamos. Essa espé- mesmos. Ora, os que desejam bem aos
25 cie de amizade parece existir principal­ seus amigos por eles mesmos são os
mente entre velhos (pois na velhice as mais verdadeiramente amigos, porque
182 ARISTÓTELES

o fazem em razão da sua própria natu- zade desta espécie as outras qualidades
10 reza e não acidentalmente. Por isso sua também são semelhantes em ambos; e
amizade dura enquanto são bons — e o que é irrestritamente bom também é
a bondade é uma coisa muito durável. agradável no sentido absoluto. do
E cada um é bom em si mesmo e para termo, e essas são as qualidades mais
o seu amigo, pois os bons são bons em estimáveis que existem. O amor e a
absoluto e úteis um ao outro. E da amizade são, portanto, encontrados
15 mesma forma são agradáveis, por­ principalmente e em sua melhor forma
quanto os bons o são tanto em si mes­ entre homens desta espécie.
mos como um para o outro, visto que a Mas é natural que tais amizades não 25
cada um agradam as suas próprias ati­ sejam muito freqüentes, pois que tais
vidades e outras que lhes sejam seme­ homens são raros. Acresce que uma
lhantes, e as ações dos bons são as amizade dessa espécie exige tempo e
mesmas ou semelhantes. familiaridade. Como diz o provérbio,
Uma tal amizade é, como seria de os homens não podem conhecer-se
esperar, permanente, já que éles encon­ mutuamente enquanto não houverem
tram um no outro todas as qualidades “provado sal juntos” ; e tampouco
que os amigos devem possuir. Com podem aceitar um ao outro como ami­
efeito, toda a amizade tem em vista o gos enquanto cada um não parecer
20 bem ou o prazer — bem ou prazer, estimável ao outro e este não deposita^
quer em abstrato, quer tais que possam confiança nele. Os que não tardam a 30
ser desfrutados por aquele que sente a mostrar mutuamente sinais de amizade
amizade — , e baseia-se numa certa desejam ser amigos, mas não o são a
semelhança. E à amizade entre homens menos que ambos sejam estimáveis e o
bons pertencem todas as qualidades saibam; porque o desejo da amizade
que mencionamos, devido à natureza pode surgir depressa, mas a amizade
dos próprios amigos, pois numa ami­ não.

4
Essa espécie de amizade, pois, é per­ gos recebem a mesma coisa um do
feita tanto no que se refere à duração outro (o prazer, por exemplo) — e não s
como a outros respeitos, e nela cada só a mesma coisa, mas também da
um recebe de cada um a todos os res­ mesma fonte, como ocorre entre pes­
peitos o mesmo que dá, ou algo de soas espirituosas, e não como sucede
semelhante; e é exatamente isso a que entre amante e amado. Porquanto estes
35 deve acontecer entre amigos. não recebem prazer das mesmas fon­
A amizade que visa ao prazer tem tes, mas o amante compraz-se em ver o
certa parecença com esta espécie, por- amado e este em receber atenções do
1157 a quanto as pessoas boas são de fato seu amante; e quando começa a passar
agradáveis umas às outras. O mesmo o viço da mocidade a amizade também
se pode dizer da amizade que busca a se desvanece (porque um não experi­
utilidade, pois os bons também são menta prazer em ver o outro, e o
úteis uns aos outros. Entre os homens segundo não mais recebe atenções do
destas espécies inferiores as amizades primeiro). Muitos amantes, porém, são >0
são mais permanentes quando os ami- constantes, quando a familiaridade os
ÉTICA A NICÔMACO — VIII 183

leva a amar o caráter um do outro pela Com efeito, os homens aplicam o


afinidade que existe entre eles. Mas nome de amigos mesmo àqueles cujo
aqueles cujo amor consiste numa troca motivo é a utilidade, e nesse sentido se
de utilidades e não de prazeres são, ao diz que as disposições são amigáveis
mesmo tempo, menos verdadeiramente (pois as alianças de disposições pare­
amigos e menos constantes. Os que são cem visar à vantagem), e também aos
amigos por causa da utilidade sepa­ que se amam com vistas no prazer — e
ram-se quando cessa a vantagem, por­ é neste sentido que se diz serem amigas
que não amavam um ao outro, mas as crianças. Portanto,, nós também
apenas o proveito. deveríamos talvez chamar amigas a
Por conseguinte, quando o que se< tais pessoas e dizer que existem diver­
leva em mira é o prazer ou a utilidade, sas espécies de amizade — primeiro, e
até os maus podem ser amigos uns dos no sentido próprio, a dos homens bons
outros, ou os bons podem ser amigos enquanto bons, e por analogia as ou­
dos maus, ou aquele que não é bom nem tras espécies; pois é em virtude de algo
mau pode ser amigo de qualquer espé­ bom e algo semelhante ao que é encon­
cie de pessoa; mas por si mesmos, só trado na verdadeira amizade que eles
os homens bons podem ser amigos. são amigos, já que até o agradável é
Com efeito, os maus não se deleitam bom para os que amam o prazer. Mas
com o convívio uns dos outros, a não essas duas espécies de amizade não se
ser que essa relação lhes traga alguma juntam com freqüência, nem as mes­
vantagem. mas pessoas se tomam amigas tendo
A amizade entre os bons, e só ela, em vista a utilidade e o prazer; por­
também é invulnerável à calúnia, pois quanto as coisas que só acidentalmente
não damos ouvidos facilmente às pala­ se relacionam umas com as outras não
vras de qualquer um a respeito de um andam muitas vezes juntas.
homem que durante muito tempo sub­ Dividindo-se, pois, a amizade nestas
metemos à prova; e é entre os bons que espécies, os maus serão amigos com
são encontradas a confiança, o senti­ vistas na utilidade ou no prazer, e a
mento expresso pelas palavras “ele esse respeito se assemelharão um ao
nunca me faria uma deslealdade” , e outro; mas os bons serão amigos por
todas as outras coisas que se requerem eles mesmos, isto é, em razão da sua
numa verdadeira amizade. Nas outras bondade. Esses, pois, são amigos no
espécies de amizade, porém, nada im­ sentido absoluto do termo, e os outros
pede que tais males venham a manifes- o são acidentalmente e por uma seme­
tar-se. lhança com os primeiros.

5
Assim como, no tocante às virtudes, um com o outro e conferem-se mútuos
alguns homens são chamados bons benefícios, mas os que dormem ou que
com referência a uma disposição de se acham separados no espaço não rea­
caráter e outros com referência a uma lizam, mas estão dispostos a realizar
atividade, também o mesmo sucede no os atos da amizade. A distância não
que diz respeito à amizade. Efetiva­ rompe a amizade em absoluto, mas
mente, os que vivem juntos deleitam-se apenas a sua atividade. Todavia, se a
184 ARISTÓTELES

ausência dura muito tempo, parece A verdadeira amizade é, pois, a dos 25


realmente fazer com que os homens bons, como tantas vezes dissemos.
esqueçam a sua amizade; daí o provér­ Efetivamente, o que é bom ou agradá­
bio “longe dos olhos, longe do cora- vel no sentido absoluto do termo pare­
çao . ce estimável e desejável, e a cada um se
Nem os velhos, nem as pessoas acri­ afigura ser o que é bom e agradável
moniosas parecem fazer amigos com para ele; e por ambas essas razões o
15 facilidade. Com efeito, tais pessoas homem bom é estimável e desejável
pouco têm de agradável, e ninguém de­ para o homem bom. Ora, dir-se-ia que
seja passar seus dias com alguém cuja o amor é um sentimento e a amizade é
companhia é dolorosa ou não é agra­ uma disposição de caráter, porque se 30
dável, visto que a natureza parece pode sentir amor mesmo pelas coisas
acima de tudo evitar o doloroso e bus­ inanimadas, mas o amor mútuo envol­
car o agradável. Aqueles, porém, que ve escolha, e a escolha procede de uma
aprovam um ao outro mas não convi­ disposição de caráter. E os homens
vem, parecem antes olhar-se com sim­ desejam bem àqueles a quem amam
patia do que ser verdadeiros amigos. por eles mesmos, não por efeito de um
Porquanto nada é mais característico sentimento, mas de uma disposição de
dos amigos do que o convívio; e, em- caráter. E finalmente, os que amam um
20 bora sejam os que sofrem necessidade amigo amam o que é bom para eles
que desejam benefícios, mesmo os que mesmos; porque o homem bom, ao tor-
são sumamente felizes desejam passar nar-se amigo, passa a ser um bem para
os dias juntos; e é justamente a esses o seu amigo. Cada qual, portanto, ao 35
que menos agrada a solidão. Mas as mesmo tempo que ama o que é bom
pessoas não podem conviver se não para ele, retribui com benevolência e
são agradáveis umas às outras e não se aprazibilidade em igualdade de ter­
deleitam com as mesmas coisas, como mos; porque se diz que amizade é
parecem fazer os amigos que são tam­ igualdade, e ambas são encontradas
bém companheiros. mais comumente na amizade dos bons.

i U8a Entre pessoas idosas e acrimoniosas se tom am amigas facilmente. Mas tais
é menos fácil formar-se amizade, por­ homens podem sentir benevolência uns
quanto tais pessoas são menos bem- pelos outros, desejando-se bem e aju­
humoradas e se comprazem menos na dando-se quando um precisa do outro.
companhia umas das outras; e estas Mal se pode dizer, no entanto, que
são consideradas as maiores marcas de sejam amigos, porque não passam os
amizade e as que mais contribuem dias juntos nem se deleitam na compa­
para produzi-la. É por isso que, en­ nhia um do outro; e estas são conside­
quanto os jovens são rápidos em fazer radas as maiores marcas da amizade.
J amizades, o mesmo não se dá com os Não se pode ser amigo de muitas 10

velhos: os homens não se tom am ami­ pessoas no sentido de ter com elas uma
gos daqueles em cuja companhia não amizade perfeita, assim como não se
se comprazem. E, da mesma forma, pode amar muitas pessoas ao mesmo
também as pessoas acrimoniosas não tempo (pois o amor é, de certo modo,
ÉTICA A NICÔMACO — VIII 185

um excesso de sentimento e está na sua de agradáveis, sejam virtuosos, nem


natureza dirigir-se a uma pessoa só); e aqueles cuja utilidade vise a objetos
não sucede facilmente que muitas pes­ nobres, mas, levados pelo desejo de
soas, ao mesmo tempo, agradem muito prazer, buscam a companhia de pes­
a um indivíduo só, ou mesmo, talvez, soas espirituosas e, quanto aos seus
que pareçam boas aos seus olhos. É outros amigos, escolhem-nos entre os
« preciso, por outro lado, adquirir algu­ que são hábeis em fazer o que lhes
ma experiência da outra pessoa e mandam; ora, tais características rara
familiarizar-se com ela, e isso custa mente se encontram combinadas numa
muito trabalho. Mas com vistas na uti­ só pessoa. Já dissemos que o homem
lidade ou no prazer, é possível que bom é ao mesmo tempo útil e agradá­
muitas pessoas agradem a uma só, pois vel10 4; mas um tal homem não se
muitas pessoas são úteis ou agradá­ torna amigo de quem lhe é superior em
veis, e tais serviços não exigem muito posição, a menos que lhe seja superior
tempo. também pela virtude; e, mesmo assim, 35
Dessas duas espécies, a que tem em não poderia estabelecer-se uma igual­
mira o prazer pareceTse mais com a dade por ser ele ultrapassado em
àmizade, quando ambas as partes rece­ ambos os respeitos. Entretanto, pes­
bem as mesmas coisas uma da outra e soas que o ultrapassem em ambos os
deleitam-se uma com a outra ou com respeitos não são fáceis de encontrar.
20 as mesmas coisas, como acontece nas Seja como for, as amizades supra- "58 b
amizades dos jovens; pois é em tais mencionadas envolvem igualdade, pois
amizades que se observa com mais os amigos recebem as mesmas coisas
freqüência a generosidade. A amizade um do outro e desejam-se mutuamente
que se baseia na utilidade é própria das as mesmas coisas, ou trocam coisas
pessoas de espírito mercantil. entre si, como por exemplo, o prazer
Também as pessoas sumamente feli­ pela utilidade. Dissemos10 5, contudo,
zes não necessitam de amigos úteis, que essas amizades não apenas são
mas sim de amigos agradáveis; porque menos verdadeiras como menos per­
desejam viver com alguém e, embora manentes. Mas é por sua semelhança e s
possam suportar durante um curto es­ sua dessemelhança em relação à
paço de tempo o que é doloroso, nin­ mesma coisa que as consideramos ou
guém o toleraria constantemente, não amizades. É por sua semelhança
25 mesmo que se tratasse do próprio Bem, com a amizade da virtude que parecem
se este lhe fosse doloroso. É por isso ser amizades (pois uma delas envolve
que buscam amigos agradáveis; mas prazer e a outra utilidade, e estas
talvez devessem buscar aqueles que, características pertencem também à
sendo agradáveis, fossem também amizade dos virtuosos); e é por ser per­
bons, inclusive para eles; pois assim manente e invulnerável à calúnia a
possuiriam todas as características que amizade dos virtuosos, enquanto estas
devem possuir os amigos. mudam rapidamente (além de diferi­
Os homens que ocupam posição de rem em muitos respeitos da primeira),
autoridade parecem ter amigos de dife­ que parecem não ser amizades — isto 10
rentes classes. Alguns lhes são úteis e é, em razão de sua dessemelhança com
outros são agradáveis, mas raramente a amizade dos virtuosos.
os mesmos indivíduos reúnem em si as
3o duas qualidade; pois que tais pessoas 10 « 1156 b 13-15, 1157 a 1-3. (N .d o T .)
não procuram nem aqueles que, além '» * 1156 a 16-24, 1157 a 20-33. (N .d o T .)
186 ARISTÓTELES

Mas existe outra espécie de amiza­ está em proporção com o mérito, ao


de, a saber, a que envolve uma desi­ passo que a igualdade quantitativa é
gualdade entre as partes, como a de pai secundária; mas na amizade a igual­
para filho e, em geral, de mais velho dade quantitativa é primária, e a pro­
para mais jovem, a de marido para porção ao mérito, secundária. Isso se
mulher e, em geral, de governante para torna claro quando há uma grande dis­
súdito. E essas amizades diferem tam- tância entre as partes no que se refere à
15 bém umas das outras, pois a que existe virtude, ao vício, à riqueza ou outra
entre pais e filhos não é a mesma que coisa qualquer; pois nesse caso já não 35
entre governantes e súditos, nem a são amigos e nem sequer esperam sê-
amizade de pai para filho é a mesma lo. E a situação é manifesta acima de
que a de filho para pai, como a de ma­ tudo quando se trata dos deuses, que
rido para mulher não é a mesma que a nos ultrapassam imensamente em tudo
de mulher para marido. Com efeito, a o que é bom. Mas é também clara no 1159a
virtude e a função de cada uma dessas tocante aos reis, pois os homens que
pessoas são diferentes, e por isso tam­ lhes são muito inferiores tampouco
bém diferem as suas razões para amar; esperam tomar-se seus amigos, nem
e outra conseqüência do mesmo fato é indivíduos de pouca valia esperam ser
que amor e amizade diferem igual­ amigos dos melhores ou mais sábios
mente um do outro. dentre os homens.
20 Cada parte, pois, nem recebe a Em tais casos não é possível definir
mesma coisa da outra nem deveria com exatidão até que ponto os amigos
buscá-la; mas quando os filhos pres­ podem permanecer amigos. Com efei­
tam aos pais aquilo que devem prestar to, a amizade pode sobreviver ao
aos que os puseram no mundo, e os desaparecimento de muitos elementos
pais aquilo que devem prestar aos que a compunham, mas quando uma
filhos, a amizade entre tais pessoas é das partes é afastada para muito longe,
duradoura e excelente. como sucede com Deus, cessa a possi­
Em todas as amizades que envolvem bilidade de amizade. Essa é, aliás, a 5
desigualdade, o amor também deve ser origem da questão sobre se os amigos
25 proporcional, isto é, o melhor deve realmente desejam aos seus amigos os
receber mais amor do que dá, assim maiores bens, como o de serem deuses,
como deve ser mais útil, e analoga­ visto que em tal caso seus amigos dei­
mente em cada um dos outros casos; xarão de sê-lo e, por conseguinte, já
pois quando o amor é proporcional ao não representarão bens para eles (por­
mérito das partes estabelece-se, em que os amigos são realmente um gfan-
certo sentido, a igualdade, que é de bem). A resposta é que, se tínhamos
indubitavelmente considerada uma ca­ razão em afirmar que o amigo deseja
racterística da amizade. bem ao seu amigo por ele mesmo, este
Mas a igualdade não parece assumir deve continuar sendo a espécie de ser 10
a mesma forma nos atos de justiça e na qqe é; portanto, é a ele, na medida em
3o amizade. Com efeito, nos primeiros o que continua sendo um homem, que o
que é igual no sentido primário é o que outro deseja os maiores bens. Mas tal-
ÉTICA A NICÔMACO — VIII 187

vez não lhe deseje todos os maiores quer outro, que cada homem deseja o
bens, pois é a si mesmo, antes de qual- bem.

A maioria das pessoas parecem, de­ perar; e amam os seus filhos mesmo
vido à ambição, preferir ser amada a quando estes, por ignorância, não lhes
amar. E é por isso que os homens, em dão nada do que se deve a uma mãe.
geral, amam a lisonja. Com efeito, o E assim, como a amizade depende
lisonjeiro é um amigo em posição infe- mais do amar que do ser amado, e são
15 rior, ou finge ser tal ao mesmo tempo os que amam os seus amigos que são
que simula amar mais do que é amado; louvados, o amar parece ser a virtude 35
e ser amado parece ter bastante seme­ característica dos amigos, de modo
lhança com ser honrado, e isso é o que que só aqueles que amam na medida
a maioria das pessoas ambicionam. justa são amigos duradouros, e só a
Entretanto, dir-se-ia que elas não amizade desses resiste ao tempo.
preferem a honra em si, mas apenas É deste modo, mais que de qualquer 1159b
acidentalmente; porquanto a maioria outro, que até os desiguais podem ser
gosta de ser honrada pelos que ocupam amigos, pois é possível estabelecer-se
2o posição de autoridade, em razão de uma igualdade entre eles. Ora, igual­
suas esperanças (pois pensam que, se dade e semelhança são amizade, e
necessitarem de alguma coisa, conse­ especialmente a semelhança dos que
gui-las-ão com eles, e por isso se com­ são afins pela virtude. Com efeito, s
prazem na honra como prenuncio de sendo constantes por natureza, eles
favores futuros). Os que desejam ser mantêm-se fiéis um ao outro e não soli­
honrados por homens bons e sábios, citam nem prestam serviços baixos,
por seu lado, querem confirmar a boa mas pode-se dizer que até previnem
opinião que fazem de si mesmos; e, por tais ocorrências, pois é característico
conseguinte, deleitam-se em ser honra­ dos homens bons não fazer o mal eles
dos porque acreditam na sua própria próprios, nem permitir que seus ami­
bondade estribados no julgamento dos gos o façam. Os maus, porém, não têm
que falam a seu respeito. constância, visto que nem sequer a si
O ser amado, por outra parte, mesmos
é se mantêm semelhantes, mas
25 deleitável em si mesmo, e por isso afi- são amigos durante breve tempo, por
gura-se preferível ao ser honrado; e a se deleitarem na maldade um do outro. 10
amizade parece digna de ser desejada As amizades úteis ou agradáveis
por si mesma. Mas dir-se-ia que ela re­ duram mais, isto é, subsistem enquanto
side antes em amar do que em ser qs amigos proporcionam prazeres ou
amado, como mostra o deleite que as vantagens um ao outro.
mães sentem em amar; pois algumas A amizade com vistas na utilidade
mães entregam os filhos a outros para parece ser a que mais facilmente se
serem educados, e, enquanto conhecem forma entre contrários, como, por
só o destino deles, amam-nos sem procu­ exemplo, entre pobre e rico, entre igno­
rar ser amadas em troca (se não lhes rante e letrado; porque um homem
são possíveis ambas as coisas), mas ambiciona- aquilo que lhe falta e dá
parecem contentar-se em vê-los pros­ algo em troca. Mas nesta classe tam- 15
188 ARISTÓTELES

bém se poderia incluir amante e própria natureza, mas apenas aciden­


amado, belo e feio. E por isso que os talmente, sendo o intermediário o obje- 20
amantes parecem às vezes ridículos, to real do desejo; pois este é que é real­
quando pretendem ser amados em mente bom, por exemplo: para o seco,
troca; quando ambos são igualmente o bom não é ficar úmido, mas passar
dignos de amor a pretensão talvez se ao estado intermediário, e da mesma
justifique, mas é ridícula quando não forma no que se refere ao quente e em
têm nenhuma qualidade própria para todos os outros casos. Podemos deixar
despertar o amor. de parte estes assuntos, que em verda­
A verdade, talvez, é que o contrário de são um pouco estranhos à nossa
nem sequer busca o contrário por sua investigação.

9
25 Como dissemos no começo de nossa e os dos irmãos entre si, nem os dos
discussão106, a amizade e a justiça camaradas ou dos concidadãos; e o
parecem dizer respeito aos mesmos mesmo no que toca às outras espécies
objetos e manifestar-se entre as mes­ de amizade.
mas pessoas. Com efeito, em toda Há também uma diferença, por
comunidade pensa-se que existe algu­ conseguinte, entre os atos que são
ma forma de justiça, e igualmente de injustos para com cada uma dessas
amizade; pelo menos, os homens diri­ classes de associados, e a injustiça
gem-se como amigos aos seus compa­ cresce de ponto quando se manifesta
nheiros de viagem ou camaradas de para com os que são amigos num sen­
armas, e da mesma forma aos que se tido mais pleno; por exemplo, é mais
lhes associam em qualquer outra espé­ detestável defraudar um cam arada do
cie de comunidade. E até onde vai a que um concidadão, mais odioso dei- 5
xar de ajudar um irmão do que um
30 sua associação vai a sua amizade, estranho, e mais abominável ferir o
como também a justiça que entre eles próprio pai do que a qualquer outro. E
existe. E o provérbio segundo o qual as imposições da justiça também pare­
“os amigos têm tudo em comum” é a cem aumentar com a intensidade da
expressão da verdade, pois a amizade amizade, o que implica que a amizade
depende da comunhão de bens. e a justiça existem entre as mesmas
Ora, os irmãos e os camaradas pos­ pessoas e são coextensivas.
suem todas as coisas em comum, mas Ora, todas as formas de comunidade
esses outros a quem nos referimos pos­ são como partes da comunidade políti­
suem em comum certas coisas — al­ ca. Por exemplo: é tendo em vista algu­
guns mais e outros menos: porque das ma vantagem particular que os homens
35 amizades, também algumas são verda­ viajam juntos, e a fim de proverem al- 10
deiras amizades em maior e outras em guma coisa necessária à vida; e é por
menor grau. E as imposições da justiça causa da vantagem que a comunidade
também diferem: não são os mesmos política parece ter-se formado e perdu­
i i60a os deveres dos pais para com os filhos rar, pois esse é o objetivo que os legis­
ladores se propõem, e chamam justo o
10 6 1 155 a 22-28. (N .do T .) que concorre para a vantagem comum.
ÉTICA A NICÔMACO — VIII 189

Mas as outras comunidades têm em incluir-se na comunidade política, que


mira aspectos particulares dessa vanta- não visa à vantagem imediata, mas ao
is gem comum: os marinheiros, por que é vantajoso para a vida no seu
exemplo, visam ao que é vantajoso todo], oferecendo sacrifícios e progra­
numa travessia para o propósito de ga­ mando reuniões para esse fim, hon­
nhar dinheiro ou alguma finalidade rando os deuses e provendo aprazíveis
dessa espécie; e os soldados, ao que é recreações pàra si mesma. Com efeito, 25
vantajoso na guerra, quer busquem tudo indica que os antigos sacrifícios e
riqueza, quer a vitória ou a posse de reuniões ocorriam após as colheitas
uma cidade; e os membros de tribos ou como uma espécie de festa das primí-
demos procedem do mesmo modo. cias, pois era nessa época que os ho­
[Algumas comunidades parecem mens tinham mais lazeres.
originar-se da necessidade de prazer, Todas as comunidades, por conse­
20 como as corporações religiosas e os guinte, parecem fazer parte da comuni­
grêmios sociais; pois esses existem a dade política; e as espécies particulares 30
fim de oferecer sacrifícios e propor­ de amizade devem corresponder às
cionar o convívio. Mas todos parecem espécies particulares de comunidade.

10
Existem três espécies de constitui­ pois o contrário do melhor é que é o
ção e igual número de desvios — pior.
perversões daquelas, por assim dizer. A monarquia degenera em tirania, w
As constituições são a monarquia, a que é a forma pervertida do governo de
aristocracia, e em terceiro lugar a que um só homem, e o mau rei converte-se
se baseia na posse de bens e que seria em tirano. A aristocracia, por seu lado,
talvez apropriado chamar timocracia, degenera em oligarquia pela ruindade
embora a maioria lhe chame governo dos governantes, que distribuem sem
s s do povo. A melhor delas é a monar­ eqüidade o que pertence ao Estado —
quia, e a pior é a timocracia. todas ou a maior parte das coisas boas
O desvio da monarquia é a tirania, para si mesmos, e os cargos públicos
pois que ambas são formadas de sempre para as mesmas pessoas,
n60b governo de um só homem, mas há olhando acima de tudo a riqueza; e 15
entre elas a maior diferença possível. O destarte os governantes são poucos e
tirano visa à sua própria vantagem, o maus, em lugar de serem os mais
rei à vantagem de seus súditos. Com dignos.
efeito, um homem não é rei a menos A timocracia, por seu lado, dege­
que baste a si mesmo e supere os seus nera em democracia. Ambas são coex-
súditos em todas as boas coisas. Ora, tensivas, já que a própria timocracia
um homem em tais condições de mais tem como ideal o governo da maioria,
nada precisa, e por isso não olhará aos e os que não têm posses são contados
s seus interesses, mas aos de seus súdi­ como iguais aos outros. A democracia 20
tos; pois o rei que assim não for terá é a menos má das três espécies de
da realeza apenas o título. Ora, a tira­ perversão, pois no seu caso a forma de
nia é o contrário exato de tudo isso: o constituição não apresenta mais que
tirano visa ao seu próprio bem. E é evi­ um ligeiro desvio.
dente ser esta a pior forma de desvio, São estas pois as mudanças a que
190 ARISTÓTELES

estão mais sujeitas as constituições, e parece ser aristocrática, já que o


estas as transições menores e mais homem governa como convém ao seu
fáceis. valor, mas deixa a cargo da esposa os
Podem ser encontradas analogias assuntos que pertencem a uma mulher. 35
das constituições e, por assim dizer, Se o homem governa em tudo, a rela­
modelos delas nas próprias famílias. ção degenera em oligarquia, pois ao
Com efeito, a associação de um pai proceder assim ele não age de acordo
com seus filhos tem a forma da monar­ com o valor respectivo de cada sexo,
quia, visto que o pai zela pelos filhos. nem governa em virtude da sua supe­
25 Aí está por que Homero chama a Zeus rioridade. Às vezes, no entanto, são as 1161a
de “pai” 107; e o ideal da monarquia é mulheres que governam, por serem
ser uma forma paternal de governo. herdeiras; e assim o seu governo não se
Entre os persas, no entanto, o governo baseia na excelência, mas na riqueza e
dos pais é tirânico, pois ali os pais no poder, como acontece nas oligar­
usam os filhos como escravos. Tirâni­ quias.
co co, igualmente, é o governo dos amos A associação de irmãos asseme-
sobre os escravos, em que a única lha-se à timocracia, porquanto eles são
coisa que se tem em vista é a vantagem iguais, salvo na medida em que haja 5
dos primeiros. Ora, esta parece ser diferença de idades; e por isso, quando
uma forma correta de governo, mas o diferem muito em idade, a amizade já
tipo persa é pervertido, uma vez que não é do tipo fraternal. A democracia é
diferentes são as modalidades de go­ encontrada sobretudo nas famílias acé­
verno apropriadas a relações diferen­ falas (onde, por conseguinte, todos se
tes. encontram num nível de igualdade), e
A associação entre marido e mulher naquelas em que o chefe é fraco e
todos têm licença de agir como enten­
*0 7 Por exemplo, Ilíada I, 503. (N. do T.) derem.

11
10 Mostra a observação que cada uma filhos, a qual todos consideram o
das constituições comporta amizade maior dos bens, assim como provê à
na exata medida em que comporta a sua alimentação e educação. Tudo isso
justiça. A amizade entre um rei e seus se costuma atribuir também aos avós.
súditos depende de um excesso de E acresce que, por natureza, um pai
benefícios conferidos, porquanto o rei tende a governar seus filhos, os avós
os confere aos seus súditos quando, aos descendentes e os reis aos seus sú­
sendo ele um homem bom, zela pelo ditos. Estas amizades implicam supe- 20

bem-estar destes, como faz o pastor rioridade de uma parte sobre a outra,
com as suas ovelhas (e por isso Home­ sendo essa a razão das honras que se
ro chamou a Agamenon “pastor dos prestam aos antepassados.
15 povos108”). E tal é também a amizade Portanto, a justiça que existe entre
de um pai, embora este exceda o outro pessoas assim relacionadas não é a
na grandeza dos benefícios dispensa­ mesma de parte a parte, mas sempre
dos, pois é a causa da existência dos proporcional ao mérito; porquanto
isso é verdadeiro também da própria
10 8 Por exemplo, Ilíada II, 243. (N. do T.) amizade.
ÉTICA A NICÔMACO — VIII 191

A amizade entre marido e mulher, uma vez que não há justiça. Por exem- 3s
por outro lado, é a mesma que se pio, entre artífice e ferramenta, alma e
observa na aristocracia, já que está de corpo, amo e escravo, os segundos ter­
acordo com a virtude: o melhor recebe mos de cada uma dessas dualidades
maior quinhão de bens e cada um rece­ são beneficiados por aqueles que os n6ib
be o que lhe compete; e o mesmo se utilizam, mas não existe amizade nem
pode dizer da justiça nessas relações. justiça para com coisas inanimadas.
25 A amizade de irmãos é como a de Mas tampouco existe amizade para
camaradas, porquanto são iguais e com um cavalo, um boi ou um escravo
próximos uns dos outros pela idade; e enquanto escravo, pois não há nada de
comum entre as duas partes: o escravo s
tais pessoas, em geral, assemelham-se
é uma ferramenta viva e a ferramenta é
nos sentimentos e no caráter. E tam­
um escravo inanimado. Enquanto es­
bém é semelhante a esta a amizade
cravo, pois, não se pode ser seu amigo,
apropriada ao governo timocrático; mas enquanto homem isso é possível,
pois numa tal constituição o ideal é pois parece haver uma certa justiça
serem os cidadãos iguais e eqüitativos, entre um homem qualquer e outro
e por isso o governo é assumido por homem qualquer que tenham condi­
turnos numa base de igualdade. E a ções para participar de um sistema
amizade apropriada a esta constituição jurídico ou ser partes num ajuste: logo,
corresponde à que descrevemos. pode haver amizade com ele na medida
30 Nas formas de desvio, porém, como em que é um homem.
mal existe justiça, também é rara a Por conseguinte, embora nas tira­
amizade. E onde menos existe é na pior nias mal existam a amizade e a justiça, w
das formas: na tirania há pouca ou nas democracias elas têm uma exis­
nenhuma amizade. Com efeito, onde tência mais plena, pois onde há igual­
nada aproxima o governante dos go­ dade entre os cidadãos estes possuem
vernados não pode haver amizade, muito em comum.

12

Como dissemos 109, pois, toda a for­ depender em todos os casos da amiza­
ma de amizade envolve associação. Po- de patemo-filial; porquanto os pais
der-se-ia, no entanto, distinguir das ou­ amam os filhos como partes de si mes­
tras a amizade dos familiares e a dos mos, e os filhos amam os pais por
camaradas. As dos concidadãos, contri- serem algo que se originou deles. Õra
/j bais, companheiros de viagem, etc., se (1), os pais conhecem os filhos melhor
assemelham mais às amizades de asso­ do que estes se conhecem como seus
ciação, pois parecem repousar sobre filhos, e (2) o procriador sente os filhos 20

uma espécie de pacto. Nesta classe po­ como seus mais do que os filhos sen­
deríamos incluir a amizade entre hóspe­ tem os pais como seus, pois o produto
de e hospedeiro. pertence a quem o produziu (como, por
A própria amizade dos familiares, exemplo, um dente, um fio de cabelo
embora seja de várias espécies, parece ou qualquer outra coisa pertence ao
seu dono), mas o produtor não per­
1159b 29-32. (N .doT .) tence ao seu produto, ou pertence em
192 ARISTÓTELES

25 menor grau. E finalmente (3), o tempo A amizade de irmãos tem as carac- w


decorrido contribui para o mesmo terísticas observadas na amizade entre
resultado: os pais amam os filhos camaradas (especialmente quando
desde que estes nascem, mas os filhos estes são bons) e, de modo geral, entre
começam a amar os pais só depois de pessoas semelhantes umas às outras,
algum tempo, quando adquiram enten­ porquanto eles vivem em comum e se
dimento ou o poder de discriminação amam desde que nasceram, e já que os
pelos sentidos. Por isso tudo se eviden­ filhos dos mesmos pais, tendo crescido
cia também a razão de ser o amor das juntos e recebido a mesma educação,
mães maior que o dos pais. têm maior semelhança de caráter; e, no
Pai e mãe amam, portanto, os seus seu caso, a prova do tempo foi apli­
filhos como a si mesmos (pois estes, cada de maneira mais completa e
em virtude de sua existência separada, concludente.
são como que outros “eus”), enquanto Entre outros graus de parentesco as is
os filhos amam os pais por terem nas- relações amigáveis são encontradas
30 cido deles, e os irmãos amam uns aos nas proporções correspondentes. Entre
outros por se originarem dos mesmos marido e mulher a amizade parece
pais, já que a sua identidade com estes existir por natureza, pois a espécie hu­
os tom a idênticos entre si (e por isso se mana se inclina naturalmente a formar
fala em ser “do mesmo sangue”, “do casais — mais do que a formar cida­
mesmo tronco” e assim por diante). des, já que a família é anterior à cidade
Em certo sentido, pois, são a mesma e mais necessária do que esta, e a
coisa, embora existam como indiví­ reprodução é comum ao homem e aos
duos separados. animais. Entre os outros animais a
Duas coisas que muito contribuem união vai apenas até esse ponto, mas
para a amizade são a educação em os seres humanos vivem juntos não só 20
comum e a semelhança de idade; pois para reproduzir-se, senão também para
“pessoas da mesma idade se dão bem” , os vários propósitos da vida. E desde o
e os que se criaram juntos tendem a começo são divididas as funções, dife­
35 viver em camaradagem; e é por isso rindo entre si as do homem e as da
que a amizade dos irmãos se asseme- mulher, e ajudam eles um ao outro
ii62a lha à dos camaradas. E entre primos e fazendo capital comum de seus dotes
outros parentes existe um laço deri­ individuais. Por tais motivos, tanto a
vado do fraterno, isto é, de provirem utilidade como o prazer parecem ser
dos mesmos pais. Aproximam-se e encontrados nessa espécie de amizade.
distanciam-se uns dos outros propor­ Pode ela, no entanto, basear-se tam- 25
cionalmente à proximidade ou distân­ bém na virtude, se as partes são boas;
cia do progenitor comum. pois cada uma possui a sua virtude
5 A amizade dos filhos pelos pais e própria, e ambas se deleitam nisso. E
dos homens pelos deuses é a que se tem os filhos constituem um laço de união
para com algo de bom-e superior, pois (motivo pelo qual os casais sem filhos
eles lhes dispensaram os maiores bene­ separam-se mais facilmente); por­
fícios, dando-lhes o ser, a alimentação quanto os filhos são um bem comum a
e a educação desde que nasceram. E ambos, e o que ambos possuem em
essa espécie de amizade também é comum os conserva unidos.
aprazível e útil, mais do que a amizade Como devem portar-se um para com
entre estranhos, uma vez que tais pes­ o òutro marido e mulher, e, de um
soas convivem mais entre si. modo geral, amigo com amigo, parece 30
ÉTICA K NICÔMACO — VIII 193

ser a mesma questão que a de determi­ mos deveres para com um amigo, um
nar qual seja a sua conduta justa, por­ estranho, um cam arada e um condiscí­
que um homem não parece ter os mes­ pulo.

13
Existem três espécies de amizade, baseadas no prazer surgem muitas
como dissemos no começo de nossa queixas, porque ambos recebem simul­
investigação11°, e com respeito a cada taneamente o que desejam, se se com­
uma delas alguns são amigos em ter­ prazem em passar o tempo juntos; e
mos de igualdade e outros em virtude mesmo o homem que se queixasse de is
de uma superioridade (pois não só ho­ outro por não lhe proporcionar prazer
mens igualmente bons podem tomar-se seria ridículo, uma vez que depende
amigos, mas um homem melhor pode dele não passar seus dias em compa­
fazer amizade com outro pior, e tam­ nhia desse outro.
bém nas amizades que se baseiam no Mas a amizade que se baseia na uti­
prazer ou na utilidade os amigos lidade é repleta de queixas; porquanto,
podem ser iguais ou desiguais quanto como cada um se utiliza do outro em
aos benefícios que conferem). Assim seu próprio benefício, sempre querem
sendo, os iguais devem ser amigos lucrar na transação, e pensam que saí­
numa base de igualdade quanto ao ram prejudicados e censuram seus
amor e a todos os outros respeitos, ao amigos porque não recebem tudo o que
passo que os desiguais devem benefi­ “necessitam e merecem” ; e os que
ciar-se proporcionalmente à sua supe­ fazem bem a outros não podem ajudá-
rioridade ou inferioridade. los tanto quanto eles querem. 20
As queixas e censuras surgem unica­
mente ou principalmente nas amizades Ora, é de supor que, sendo a justiça
que se baseiam na utilidade, e isso está de duas espécies, uma não escrita e a
conforme ao que seria de esperar. Com outra legal, haja também uma espécie
efeito, os que são amigos com base na moral e outra legal de amizade basea­
virtude anseiam por fazer bem um ao da na utilidade. E assim, as queixas
outro (pois que isso é uma marca de surgem principalmente quando os ho­
virtude e de amizade), e entre homens mens não dissolvem a relação dentro
que emulam entre si nessas coisas não do espírito do mesmo tipo de amizade
pode haver queixas nem disputas. Nin­ em que a contraíram.
guém é ofendido por um homem que o O tipo legal é aquele que assenta 25
ama e lhe faz bem — e, se é uma pes­ sobre termos definidos. Sua variedade
soa de nobres sentimentos, vinga-se puramente comercial baseia-se no pa­
fazendo bem ao outro. E o homem que gamento imediato, enquanto a varie­
supera o outro nos serviços prestados dade mais liberal dá uma certa mar­
não se queixará do seu amigo, visto gem de tempo, mas estipula uma troca
que obtém aquilo que tinha em vista: definida. Nesta variedade a dívida é
com efeito, cada um deles deseja o que clara e não ambígua, mas a sua prote­
é bom. E tampouco nas amizades lação contém um elemento de amiza­
de; e por isso alguns Estados não 30
110 1156 a 7. (N. do T.) admitem ações judiciais em tomo de
194 ARISTÓTELES

tais acordos, mas pensam que os ho­ nos é possível. Mas de início devemos
mens que transacionaram numa base considerar o homem por quem estamos
de crédito devem aceitar as conseqüên­ sendo beneficiados e em que termos ele
cias. procede, a fim de aceitar o benefício
O tipo moral não assenta em termos nesses termos, ou então recusá-lo.
fixos. Faz uma dádiva, ou o que quer É discutível se devemos medir um w
que seja, como se fosse a um amigo; serviço pela sua utilidade para o bene­
mas espera receber outro tanto ou ficiado e retribuí-lo nessa base, ou pela
mais, como se não tivesse dado e sim benevolência do benfeitor. Com efeito,
emprestado; e, se a situação de um os que recebem dizem ter recebido de
deles é pior após dissolver-se a relação seus benfeitores o que custou pouco a
do que antes de havê-la contraído, esse estes e que eles poderiam ter obtido de
3s homem se queixará. Isso acontece por­ outros — subestimando dessa forma o
que todos os homens ou a maioria serviço; ao passo que os benfeitores,
deles desejam o que é nobre mas esco­ pelo contrário, afirmam ter feito o má­
lhem o que é vantajoso; ora, é nobre ximo que podiam e o que não poderia 15
fazer bem a um outro sem visar a qual­ ter sido obtido de outros, e que o servi­
quer compensação, mas receber benefí­ ço foi prestado em ocasião de perigo
cios é que é vantajoso. ou de necessidade.
u63. Portanto, cabe-nos retribuir, se pos­ Ora, se a amizade é do tipo que visa
sível, com o equivalente do que recebe­ à utilidade, certamente a vantagem
mos (porque não devemos fazer de um para o beneficiado é a medida, por­
homem nosso amigo contra a sua von­ quanto é ele quem solicita o serviço e o
tade; é preciso reconhecer que nos outro o ajuda na suposição de que
enganamos de começo, aceitando um receberá o equivalente. Destarte, a
benefício de uma pessoa de quem não ajuda foi exatamente igual à vantagem
devíamos aceitá-lo, já que não era do beneficiado, o qual, por conse- 20
nosso amigo, nem de alguém que o fez guinte, deve retribuir com o equiva­
simplesmente por fazer; e cumpre-nos lente do que recebeu, ou mais (pois
saldar as contas exatamente como se isso seria mais nobre).
tivéssemos sido beneficiados com base Nas amizades que se baseiam na
5 em termos fixos). Em verdade, tería­ virtude, por outro lado, não surgem
mos concordado em retribuir se pudés­ queixas, mas o propósito do benfeitor é
semos (do contrário, o próprio benfei­ uma espécie de medida; pois no propó­
tor não contaria com isso); e, por sito reside o elemento essencial da vir­
>conseguinte, devemos retribuir, se isso tude e do caráter.

Também nas amizades que se ba- espera a mesma coisa. E dizem que um
25 seiam na superioridade surgem dissen- homem inútil não deve receber tanto
sões, pois cada qual espera obter mais quanto eles, visto que nesse caso a
proveito delas, mas, quando isso acon­ amizade deixa de ser amizade para
tece, a amizade se dissolve. Não só o converter-se num serviço público 30
homem melhor pensa que lhe cabe quando os seus proveitos não corres­
receber mais, de vez que um homem pondem ao valor dos benefícios confe­
bom faz jus a mais, como o mais útil ridos. Porque tais pessoas pensam que,
É T IC A A N I C Ô M A C O — VIII 195

assim como numa sociedade comercial É também essa, portanto, a maneira


os que entram com mais devem ganhar pela qual nos deveríamos associar com
mais, o mesmo deve suceder na amiza­ desiguais: o homem que é beneficiado
de. Mas o homem que se encontra em com respeito à riqueza ou à virtude
estado dé necessidade e inferioridade deve retribuir com honra, compen­
faz a reivindicação contrária: pensa sando o outro na medida de süas capa­
que é próprio de um bom amigo ajudar cidades. Porquanto a amizade pede a
os necessitados. De que serviria, diz um homem que faça o que pode e não
ele, ser amigo de um homem bom ou o que é proporcional aos méritos do
poderoso se não se tirasse nenhum pro­ caso, já que isso nem sempre é possí­
veito disso? vel, como, por exemplo, nas honras
Seja como for, parece que cada
prestadas aos deuses ou aos pais. Com
parte é justificada na sua asserção e
efeito, ninguém jamais lhes poderia
que cada um deveria tirar mais vanta­
pagar o equivalente do que recebe, mas
gem da amizade do que o outro — não
o homem que os serve na medida de
maior quantidade da mesma coisa,
suas capacidades é considerado um
porém, mas o superior em honra e o
homem bom.
inferior em ganho; porquanto a honra
é o prêmio da virtude e da benefi­ Eis aí por que não parece lícito a um
cência, enquanto o ganho é a ajuda de homem repudiar seu pai (embora o pai
que necessita a inferioridade. possa repudiar o filho). Como devedor
O mesmo parece suceder nas dispo­ que é, deve pagar, mas nada do que um
sições constitucionais: o homem que filho possa fazer eqüivalerá ao que
não contribui com nada para o bem recebeu, de modo que ele continua
comum não é honrado, pois o que per­ sempre em dívida. Mas, assim como os
tence ao público é dado a quem o bene­ credores podem perdoar uma dívida,
ficia, e a honra pertence ao público. também um pai pode fazê-lo. E, por
Não é possível receber ao mesmo outro lado, pensa-se que ninguém repu­
tempo riqueza e honra do patrimônio diaria um filho que não fosse profun­
comum. Com efeito, ninguém se con­ damente perverso; porque, além da
forma em receber a parte menor em amizade natural entre pai e filho, é
todas as coisas; destarte, ao homem próprio da natureza humana não enjei-
que perde a riqueza confere-se honra, e tar a ajuda de um filho. Mas este, se de
riqueza ao que consente em ser pago, fato é perverso, evitará ajudar o pai ou
já que a proporção ao mérito iguala as não fará muita questão disso; por­
partes e preserva a amizade, como quanto a maioria deseja receber benefí­
dissemos111. cios mas evita fazê-los, como coisa que
não compensa.
' ” 1 162 a 34 — 1162 b 4; cf. 1158 b 27, 1159 a Sobre estas questões dissemos o
35 — 1159 b 3. (N. do T.) suficiente.
LIVRO IX
199

Em todas as amizades entre desse­ res, como dissemos113, perdura por­


melhantes é, como dissemos112, a pro­ que só depende de si mesmo.
porção que iguala as partes e preserva Surgem desentendimentos quando o
a amizade. Por exemplo, na forma que as pessoas obtêm é algo diferente
35 política de amizade, o sapateiro recebe daquilo que desejam, pois é, então,
n64a uma compensação pelos seus produtos como se nada tivessem obtido. Veja-se is
na proporção do que eles valem, e o a história do homem que fez trato com
mesmo sucede com o tecelão e outros um citarista, prometendo dar-lhe tanto
artífices. Ora, aqui foi estabelecida mais quanto melhor cantasse; mas pela
uma medida comum sob a forma de manhã, quando o outro reclamou o
dinheiro, à qual tudo é referido e pela cumprimento da promessa, ele respon­
qual tudo se mede. Mas na amizade deu que havia retribuído prazer com
entre amantes, por vezes o amante se prazer. Ora, se fosse prazer o que
queixa de que o seu excesso de amor ambos queriam, tudo estaria bem; mas
não é recompensado com amor (embo­ se um queria prazer enquanto o outro
ra não tenha nada, talvez, que o faça queria ganho, e um recebeu o que que­
s digno de ser amado), enquanto o ria, mas o outro não, os termos da
amado se queixa com freqüência de transação não foram devidamente
que o amante, que outrora lhe prome­ cumpridos; pois o que cada um neces- 20
tia tudo, agora não cumpre nada. Tais sita é aquilo a que se aplica, e é em
incidentes acontecem quando o amante troca disso que dá o que tem.
ama o amado com vistas no prazer, Mas quem fixará o valor do serviço:
enquanto o amado ama o amante com o que se sacrifica ou o que alcança a
vistas na utilidade, e nenhum dos dois vantagem? Seja como for, o outro pa­
possui as qualidades que deles se espe­ rece deixar a decisão com ele. Era
ram. Se tais são os objetivos da amiza­ assim, segundo se conta, que Protá-
de, esta se dissolve quando os dois não goras costumava proceder: toda vez 25
w obtêm as coisas que constituíam os que ensinava uma coisa qualquer,
motivos de seu amor; porquanto ne­ mandava o aluno estimar o valor do
nhum deles amava o outro por si conhecimento e aceitava a quantia que
mesmo, mas apenas as suas qualida­ ele tivesse fixado. Mas em tais assun­
des, e estas não eram duradouras. Eis tos alguns aprovam o aforismo: “Que
aí por que essas amizades também são cada um tenha a sua recompensa
passageiras. Mas o amor dos caracte- fixa11 4”.

112 Cf. 1132 b 31-33, 1158 b 27 1159 a 35 — 113 1156b 9-12. (N do T.)
1159 b 3, 1162 a 34 — 1162 b 4, 1 163 b 11. (N. do 11 4 Hesíodo, Trabalhos e Dias, 370, Rzach. (N. do
T.) T.)
200 ARISTÓTELES

Os que, tendo recebido o dinheiro mas foi feita com a mira na retribui­
com antecipação, não fazem nada do ção, é certamente preferível que se
que haviam prometido por causa da retribua de maneira que pareça justa a
extravagância de suas promessas são ambas as partes; mas, se isso não for
30 naturalmente objetos de queixa porque possível, não apenas será necessário
não cumprem o que pactuaram fazer. mas também justo que o primeiro
Os sofistas são talvez forçados a agir beneficiado fixe a recompensa. Com w
assim porque ninguém lhes daria efeito, se o outro receber em troca o
dinheiro em troca das coisas que eles equivalente da vantagem auferida por
realmente sabem. Essas pessoas, por ele, ou o preço que teria pago pelo pra­
conseguinte, se não fazem aquilo para zer, terá recebido o que é justo da parte
que foram pagas, são naturalmente do primeiro beneficiado.
objetos de queixa. Vemos acontecer o mesmo com as
Mas quando não há contrato de ser­ coisas que são postas à venda, e em al­
viço, aqueles que renunciam a alguma guns lugares a lei proscreve as deman­
coisa no interesse da outra parte não das originadas de contratos voluntá­
podem, como dissemos11 s, ser acusa- rios, partindo do princípio de que cada
35 dos, porquanto essa é a natureza da um deve ajustar suas contas com aque- is
1164b amizade baseada na virtude; e a retri­ les a quem deu crédito, dentro do
buição lhes deve ser feita de acordo mesmo espírito em que transacionou
com o seu propósito (pois o propósito com eles. A lei considera mais justo
é o que caracteriza tanto um amigo ctip as condições sejam fixadas pelo
como a virtude). E da mesma forma, jmem a quem se concedeu crédito do
segundo parece, deveriam ser retri­ que pelo outro, pois que a maioria das
buídos aqueles com quem estudamos coisas não são estimadas no mesmo
filosofia, pois o seu valor não pode ser valor pelos que as possuem e pelos que
medido pelo dinheiro, nem há honra necessitam delas. Cada classe dá gran­
que esteja à altura de seus serviços; de valor ao que é seu e que ela oferece;
s entretanto, é talvez suficiente, como no não obstante, a retribuição é feita nos
caso dos deuses c de nossos pais, dar- termos fixados pelo que recebe. Mas, 20
lhes aquilo que podemos. sem dúvida, este deve avaliar uma
Se a dádiva não era dessa espécie coisa não pelo que lhe parece valer
quando a possui e sim pelo valor que
" 5 1162 b 6-13. (N .do T .) lhe atribuía antes de possuí-la.

Outro problema é levantado por per­ preferência a um amigo ou a um


guntas do gênero das seguintes: Deve­ homem bom, e mostrar-nos gratos a
mos dar preferência em todas as coisas um benfeitor ou obsequiar um amigo,
a nosso pai e obedecer-lhe, ou deposi­ se não for possível fazer ambas as
tar nossa confiança num médico quan­ coisas?
do estamos doentes e escolher um Não é verdade que todas essas ques­
homem de tirocínio militar quando nos tões «ão difíceis de resolver com preci­
25 compete eleger um general? E, analo­ são? Porquanto elas admitem varia­
gamente, devemos prestar serviço de ções de toda sorte, tanto com respeito
ÉTICA A NICÔMACO — IX 201

à magnitude do serviço como à sua retribuição a cada um, nem dar a um


nobreza e à sua necessidade. Mas que pai a preferência em todas as coisas,
não devemos dar preferência em todas assim como não oferecemos todos os
as coisas à mesma pessoa é bastante sacrifícios a Zeus, é suficientemente
claro; e, em geral, é mais certo retri­ claro. Mas, como devemos prestar coi­
buir benefícios do que obsequiar ami­ sas diferentes aos pais, aos irmãos, aos
gos, e antes de fazer um empréstimo a camaradas e aos benfeitores, a cada
um amigo devemos pagar o nosso classe devemos prestar o que for apro­
credor. priado e decoroso. E isso é o que as
Mas talvez nem isto seja sempre pessoas parecem realmente fazer. Para
verdadeiro: por exemplo, deve um as bodas convidam os parentes, pois
homem que foi resgatado das mãos de estes fazem parte da família e, por
bandidos resgatar em troca o que o conseguinte, participam também dos
libertou, seja ele quem for (ou pagar- acontecimentos que a afetam; e por
lhe, se ele não foi capturado, mas exige ocasião dos enterros também conside­
pagamento), ou, em vez disso, deve ram apropriado que se reúnam os
resgatar o seu pai? Dir-se-ia que o parentes antes de mais ninguém, pela
certo é resgatar o pai mesmo de prefe­ mesma razão.
rência a si próprio. No que toca aos alimentos, pensa-se
Como dissemos11 6, pois, em geral a que devemos ajudar nossos pais antes
dívida deve ser paga, mas se a dádiva é de qualquer outro, pois que deles rece­
extremamente nobre ou necessária bemos outrora o nosso sustento e é
cumpre atender também a estas consi­ mais honroso ajudar a esse respeito os
derações. Porque às vezes nem sequer autores de nosso ser, mesmo de prefe­
é justo retribuir com o equivalente do rência a nós próprios. E também deve­
que recebemos, quando uma das partes mos honrar nossos pais como honra­
prestou serviço a um homem que sabe mos os deuses, porém não lhes prestar
ser bom, enquanto a outra retribui a toda e qualquer honra; acresce que as
alguém que acredita ser mau. E, à s ' mesmas honras não convêm ao pai e à
vezes, não devemos emprestar a quem mãe, nem se lhes deve dar as que se
nos fez úm empréstimo, pois o pri­ costuma conferir a um filósofo ou um
meiro emprestou a um homem bom, general, e sim as que são devidas a um
esperando reaver o seu empréstimo, pai ou a uma mãe.
enquanto o outro não tem esperança de A todas as pessoas mais velhas,
ser pago por alguém que passa por ser igualmente, devem ser prestadas as
mau. Portanto, se isto é a verdade, a honras que convêm à sua idade, er­
exigência não é justa; e se não é, mas guendo-nos para recebê-las, procu­
acredita-se que seja, ninguém conside­ rando lugares para elas, etc.; ao passo
raria estranha a recusa. Como acen­ que aos camaradas e amigos devemos
tuamos muitas vezes11 7, as discussões dar a liberdade de expressar-se e o uso
a respeito de sentimentos e ações são de todas as coisas em comum.
tão definidas ou indefinidas quanto os E também aos parentes, aos contri-
seus objetos. bais, aos concidadãos e a cada uma
Que não devemos fazer a mesma das outras classes deve-se sempre pro­
curar prestar o que for apropriado e
” • 1164 b 31 — 1165 a 2. (N. do T.)
comparar os direitos de cada classe
1’ 7 1094 b 11-27, 1098 a 26-29, 1103 b 34 - com respeito à proximidade de relação,
1104 a 5..(N. do T.) e à virtude ou necessidade. A compara­
202 ARISTÓTELES

ção é mais fácil quando as pessoas per­ isso devemos furtar-nos à tarefa, mas
tencem à mesma classe, e mais traba- cumpre-nos decidir a questão como
35 lhosa quando são diferentes. Nem por melhor pudermos.

3 -

Outra .questão que se apresenta é nem pode nem deve ser amado, pois
sobre se convém ou não romper a ami­ ninguém tem o dever de amar o mau,
zade quando a outra parte não perma- nem de tomar-se semelhante a ele; e já
n65b nece a mesma. Talvez se possa dizer temos dito119 que o semelhante é caro
que não há nada de estranho em rom­ ao semelhante.
per uma amizade baseada na utilidade Deve, então, ser a amizade imedia­
ou no prazer quando nossos amigos já tamente rompida? Ou não será assim
não possuem tais atributos. Pois foi em todos os casos, mas apenas quando
por causa destes que nos tomamos nossos amigos são incuráveis em sua
amigos; e quando eles deixam de exis­ maldade? Se são passíveis de reforma,
tir, é razoável que não se sinta mais deveríamos antes procurar ajudá-los
5 amor. Mas poderíamos queixar-nos de no que toca ao seu caráter ou aos seus
um outro se, tendo-nos ele amado pela bens materiais, tanto mais que isso é
nossa utilidade ou aprazibilidade, si­ melhor e mais característico da amiza- 20
mulou amar-nos pelo nosso caráter. de. Mas ninguém acharia estranho que
Porque, como dissemos no começo118, alguém rompesse semelhante amizade,
as mais das vezes surgem os desenten­ pois não era amigo de um homem
dimentos entre amigos quando não são dessa espécie; uma vez que seu amigo
amigos .dentro do espírito em que pen­ mudou e ele não pode salvá-lo, é justo
sam sê-lo. E assim, quando um homem que o abandone.
iludiu a si mesmo julgando que era Mas se um dos amigos permane­
amado pelo seu caráter e isso não cesse o mesmo e o outro se tomasse
correspondia em absoluto à verdade, melhor e o ultrapassasse grandemente
não pode ele censurar a ninguém senão em virtude, deveria o segundo tratar o
a si próprio; mas quando foi iludido primeiro como amigo? Seguramente,
io pelas simulações da outra pessoa, é isso não é possível. A verdade do que 25
justo que se queixe de quem o enganou dizemos se evidencia sobretudo quan­
— mais justo, até, do que quando nos
do o intervalo é grande, como no caso
queixamos de falsificadores de moe­
das, porquanto o mal diz respeito a das amizades de infância: se um dos
amigos permaneceu uma criança quan­
uma coisa mais valiosa.
Mas quando aceitamos um homem to ao intelecto, ao passo que o outro se
como bom e ele se revela e patenteia tomou um homem na inteira acepção
mau, devemos continuar a amá-lo? da palavra, como podem continuar
Isso é certamente impossível, visto que amigos se não aprovam as mesmas
não se podem amar todas as coisas, coisas, nem se deleitam ou contristam
is mas apenas o que é bom. O que é mau com as mesmas coisas? Porquanto

1162 b 23-25. (N. do T.) 119 1156 b 19-21, 1159 b 1. (N .d o T .)


ÉTICA A NICÔMACO — IX 203

nem mesmo com respeito um ao outro com ele como se nunca tivéssemos sido
haverá concordância entre os seus gos­ seu amigo? Certamente nos recorda­
tos, e sem isso (como já vimos120), não remos de nossa antiga intimidade, e
pode haver amizade, pois impossível é como somos de opinião que convém
viverem os'dois juntos. Já discutimos, obsequiar nossos amigos de prefe­
porém, estes assuntos121. rência a estranhos, também no caso 3S
Devemos, então, conduzir-nos para dos que foram nossos amigos devemos
levar em consideração a amizade de
’ 2° 1157 b 22-24. (N. do T.) outrora, se o rompimento não se deveu
’ 2 1 Ibid. 17-24, 1158 b 33-35. (N. do T.) a um excesso de maldade.

1166 a As relações amigáveis com seu toda a sua alma as mesmas coisas; por
semelhante e as marcas pelas quais são conseguinte, deseja para si o que é bom
definidas as amizades parecem proce­ e o que parece sê-lo, e o faz (pois é is
der das relações de um homem para característico do homem bom pôr em
consigo mesmo. Com efeito ( 1), defini­ prática o bem), e assim procede no seu
mos um amigo como aquele que deseja próprio interesse (isto é, no interesse
e faz, ou parece desejar e fazer o bem do elemento intelectual que possui em
no interesse de seu amigo, ou (2) como si e que é considerado como sendo o
aquele que deseja que seu amigo exista próprio homem); e a si mesmo deseja a
5 e viva, por ele mesmo; e isso é o que as vida e a preservação, em especial do
mães fazem aos seus filhos e o que elemento em virtude do qual ele pensa.
fazem os amigos que entraram em Porquanto a existência é boa para o
conflito122. E (3) outros o definem homem virtuoso, e cada um deseja
como aquele que vive na companhia de para si o que é bom, ao passo que nin- 20
um outro e (4) tem os mesmos gostos guém desejaria possuir o mundo intei­
que ele, ou (5) o que compartilha os ro se para tanto lhe fosse preciso tor-
pesares e alegrias de seu amigo; e isso tiar-se uma outra pessoa (quanto a
também é encontrado principalmente isso, Deus é quem tem a posse atual do
nas mães. É por alguma destas carac­ bem). Tal homem só deseja essas coi­
terísticas que a amizade é definida. sas com a condição de continuar sendo
Ora, cada uma delas é verdadeira do o que é; e o elemento pensante parece
homem bom em relação a si mesmo (e ser o próprio indivíduo, ou sê-lo mais
de todos os outros homens na medida do que qualquer outro dos elementos
em que se consideram bons; a virtude e que o formam. E ele deseja viver consi­
o homem bom parecem, como disse­ go mesmo, e o faz com prazer, já que
m os123, ser a medida de todas as clas­ se compraz na recordação de seus atos
ses de. coisas). Com efeito, as suas opi­ passados e suas esperanças para o fu- 25
niões são harmônicas e ele deseja de turo são boas, e portanto agradáveis.
Tem, do mesmo modo, a mente bem
’ 22 Alguns editores eliminam esta parte final. Mas provida de objetos de contemplação. E
o sentido deve ser: Houve uma controvérsia que sofre e se alegra, mais do qualquer
lhes prejudica a união, mas ainda os deixa com boa
disposição de um para com o outro. (N. do E.) outro, consigo mesmo; porquanto a
123 1113 a 22-33, cf. 1099 a 13.(N .doT .) mesma coisa é sempre dolorosa, e a
204 ARISTÓTELES

mesma coisa, sempre agradável, e não esquivam de fazer o que consideram


uma coisa agora e outra depois. Ele melhor para elas próprias. E os que
não tem, por assim dizer, nada de que cometeram muitos atos abomináveis e
possa arrepender-se. são odiados pela sua maldade esqui­
Logo, como cada uma destas carac­ vam-se à própria vida e destroem a si
terísticas pertence ao homem bom em mesmos. E os maus buscam outras
relação a si mesmo, e ele se relaciona pessoas com quem passar os seus dias
para com o seu amigo como para con­ e fugir de si mesmos; pois lembram-se 15
sigo mesmo (pois.o amigo é um outro de muitos crimes e prevêem outros
“eu”), pensa-se que a amizade é tam­ semelhantes quando estão sozinhos,
bém um destes atributos, e que aqueles mas esquecem-nos quando têm compa­
que possuem estes atributos são ami­ nhia. E, não possuindo em si nada de
gos. Se há ou não amizade entre um louvável, não sentem nenhum amor
homem e ele mesmo, é uma questão por si mesmos. Por isso, tais homens
que podemos deixar de lado por ora. tampouco se alegram ou sofrem consi­
Parece haver amizade na medida em go próprios; porquanto a sua alma é
que ele é dois ou mais, a julgar pelos dilacerada por forças contrárias, e um 20
atributos da amizade que mencio­ dos elementos que a constituem, em
namos acima e pelo fato de que. o razão da sua maldade, sofre quando se
extremo da amizade é comparado ao abstém de certos atos, enquanto a
amor que sentimos por nós mesmos. outra parte se rejubila, e uma delas o
Entretanto, os atributos mencio­ arrasta numa direção e a outra na dire­
nados parecem pertencer à maioria dos ção contrária, como se o quisessem
homens, por deploráveis criaturas que esquartejar. Se um homem não pode
eles sejam. Devemos então dizer que, sentir dor e prazer ao mesmo tempo,
na medida em que estão satisfeitos pelo menos ao cabo de alguns instantes
consigo e se consideram bons, eles par­ sofre porque sentiu prazer e desejaria
ticipam desses atributos? O certo é que que tais coisas não lhe fossem agradá­
nenhum homem radicalmente mau e veis; porque os maus têm a alma peja­
ímpio os possui ou sequer parece da de arrependimento.
possuí-los. Não se pode dizer, tampou­ Por esses motivos o homem mau 25
co, que as pessoas inferiores os pos­ não parece amigavelmente disposto se­
suam, pois tais pessoas não se harmo­ quer para consigo mesmo, uma vez
nizam consigo mesmas, e apetecem que nele não existe nada digno de
certas coisas, mas racionalmente dese­ amor. De modo que, se ter semelhante
jam outras. índole é ser a mais desgraçada das
Isto é verdadeiro, por exemplo, dos criaturas, devemos envidar todos os
incontinentes, que escolhem, em lugar esforços para evitar a maldade e pro­
das coisas que eles mesmos julgam curar ser bons, porque só assim pode­
boas, outras que são agradáveis mas remos ser amigos de nós mesmos e dos
perniciosas; enquanto outras pessoas outros.
ainda, por covardia e indolência, se

5
A benevolência é uma espécie de com a amizade, pois que tanto pode-
relação amigável, rpas não se identifica mos senti-la para com pessoas a quem
ÉTICA A NICOMACO — IX 205

não conhecemos como sem que elas antes não sentiram benevolência uma
próprias o saibam, ao passo que com a para com a outra, mas pelo simples
amizade não sucede assim. Isto, aliás, fato de sentirem benevolência não se
já ficou dito atrás12 4. Mas a benevo­ pode dizer que sejam amigas, por­
lência não é sequer um sentimento quanto apenas desejam bem ao outro,
amistoso, já que não envolve intensi­ mas não cooperariam em nada com ele
dade ou desejo, enquanto o sentimento nem se dariam ao trabalho de ajudá-lo.
de amizade é acompanhado desses ele- E assim, por uma extensão do termo w
35 mentos. Além disso, amizade implica amizade, poder-se-ia dizer que a bene­
intimidade, enquanto á benevolência volência é uma amizade inativa, se
pode surgir repentinamente, como bem que passe a ser amizade verda­
acontece para com os adversários deira quando se prolonga e chega ao
ii67a numa competição: sentimos benevo­ ponto da intimidade. Não se trata aqui,
lência para com eles e compartilhamos porém, da amizade baseada na utili­
os seus desejos, mas não coopera­ dade nem da que tem por objeto o pra­
ríamos em nada com eles; porque, zer, pois tampouco a benevolência
como dizíamos, esse sentimento nos surge em tais condições.
vem de súbito e nós só os amamos O homem que recebeu um benefício
superficialmente. retribui com benevolência, e nisso não is
faz senão o que é justo, enquanto o que
A benevolência parece, pois, ser um deseja a prosperidade de alguém por­
começo de amizade, como o prazer que espera enriquecer através dele não
dos olhos é o começo do amor. Porque parece sentir benevolência para com
5 ninguém am a se não se deleitou de iní­ tal pessoa, mas antes para consigo
cio com a forma do ser amado; mas mesmo, assim como um homem não é
nem por isso o que se deleita com a amigo de outro se o estima apenas por
forma de um outro o ama: é também causa de algum proveito que possa
preciso que sinta a sua falta quando tirar dele. Em geral, a benevolência
está ausente e que anseie pela sua pre­ surge em virtude de alguma excelência
sença. Do mesmo modo, não é possível ou mérito, quando um homem parece a
que duas pessoas sejam amigas se outro belo, bravo ou algo de seme­
lhante, como fizemos ver no caso dos 20
'2 * 1155 b 3 2 — 1156 a 5. (N .d o T .) adversários numa competição.

A unanimidade também parece ser mas dizemos que uma cidade é unâ­
uma relação amigável. Por este motivo nime quando os homens têm a mesma
não é ela identidade de opinião, a qual opinião sobre o que é de seu interesse,
poderia ocorrer mesmo entre pessoas escolhem as mesmas ações e fazem em
que não se conhecem. E tampouco comum o que resolveram.
dizemos que os qüe têm a mesma opi­ É, portanto, a respeito das coisas a
nião sobre todo e qualquer assunto fazer que se diz que as pessoas são
sejam unânimes, como por exemplo os unânimes; e, entre elas, dos assuntos
que concordam no tocante aos corpos importantes em que é possível a ambas
25 celestes (pois a unanimidade à esse res­ ou a todas as partes obterem o que pre- 30
peito não é uma relação amigável); tendem; por exemplo, uma cidade é
206 ARISTÓTELES

unânime quando todos os cidadãos Ora, uma tal unanimidade é encon- s


pensam que os seus cargos públicos trada entre os homens bons, pois estes
devem ser eletivos, ou que convém são unânimes tanto consigo mesmos
fazer aliança com Esparta, ou que Pí- como uns com os outros e têm, por
taco deve governá-la — numa ocasião assim dizer, um só pensamento (já que
. em que o próprio Pítaco também dese­ os desejos de tais homens são constan­
je governar. Mas quando cada uma de tes e não estão à mercê de correntes
duas pessoas deseja para si a posse da contrárias como um estreito de mar); e
coisa em questão, como os capitães desejam o que é justo e vantajoso, e
nas Fenícias' 9 5,*elas entram em cho- esses são os objetos de seus esforços
1 .que; porquanto não há unanimidadecomuns. Mas os homens maus não
quando cada uma das partes pensa na podem ser unânimes a não ser dentro
3s mesma coisa, seja ela qual for, mas de limites muito reduzidos, como tam- 10
apenas quando pensam na mesma pouco podem ser amigos, visto que
coisa nas mesmas mãos, por exemplo, ambicionam mais do que o seu qui­
quando tanto o povo como os da clas­ nhão justo de vantagens, enquanto, no
se superior desejam que os melhores trabalho e no serviço público, ficam
ii67b homens governem; porque assim, e só muito aquém da parte que lhes compe­
assim, todos alcançarão o que preten­ te. E cada homem, desejando vanta­
dem. gens para si mesmo, critica o seu vizi­
A unanimidade parece, pois, ser a nho e lhe faz obstáculo; porque, se as
amizade política, como, de fato, é pessoas não forem vigilantes, o patri­
geralmente considerada; pois ela versa mônio comum não tardará a ser
sobre coisas que são de nosso interesse completamente demolido. Daí resulta
e que têm influência em nossa vida. encontrarem-se em estado de luta, pro- u
curando coagir uns aos outros sem que
12 5 Eurípides, A s Virgens Fenicias, 588 ss. (N. do ninguém se disponha a fazer o que é
T.) justo.

Os benfeitores, segundo se pensa, modo poderão contar com a gratidão


amam aqueles a quem fizeram bem deles, enquanto os beneficiários não se
mais do que estes os amam, e discute- interessam em lhes retribuir dessa
se este ponto como se fosse paradoxal. forma.
A maioria julga que isso acontece por­ Epicamo acharia talvez que eles 25
que os segundos se encontram na posi­ falam assim porque “olham as coisas
ção de devedores e os primeiros, de pelo lado m au12 6”, mas isso é muito
20 credores; e por conseguinte, assim próprio da natureza humana; porque a
como os que tomaram dinheiro em­ maioria das pessoas têm a memória
prestado desejam que os seus credores curta e antes desejam ser bem tratadas
não existissem, ao passo que estes che­ do que tratar bem ao próximo. Mas a
gam a zelar pela segurança de seus causa parece ter raízes mais profundas
devedores, também se pçnsa que os na natureza das coisas, e o caso dos
benfeitores desejam longa vida aos <— ■ , - -
objetos de suas boas ações, pois desse 12 6 Fragm ento 146, Kaibel. (N. do T.)
ÉTICA A NICÔMACO — IX 207

que emprestaram dinheiro nem sequer ação, enquanto o paciente não vê nada
30 apresenta analogia com este. Com efei­ de nobre no agente, mas no máximo
to, os credores não têm nenhum senti­ algo de vantajoso; e isso é menos agra­
mento amistoso para com os seus dável e estimável. O que é agradável é
devedores, mas apenas desejam vê-los a atividade do presente, a esperança do
em segurança por causa do que têm a futuro e a memória do passado; mais
receber deles; enquanto os que presta­ agradável que tudo, porém, e também
ram um serviço a outrem sentem ami­ mais estimável, é o que depende da ati­
zade e amor por aqueles a quem servi­ vidade. Ora, para o homem que fez al- is
ram, mesmo que estes não lhes sejam guma coisa a sua obra permanece (pois
de nenhuma utilidade nem jam ais pos­ o nobre é duradouro), mas para aquele
sam vir a sê-lo. É o que acontece tam­ que foi objeto da ação a utilidade não
bém com os artífices, por exemplo: tarda a passar. E a lembrança das coi­
35 cada um ama o trabalho saído de suas sas nobres é agradável, enquanto a das
mãos muito mais do que o am aria este coisas úteis não costuma sê-lo, ou o é
se pudesse adquirir vida. E mais que menos. No caso da expectação, contu­
ii68a ninguém, talvez, os poetas, que devo­ do, o contrário disso é que parece ser
tam excessivo amor aos seus poemas, verdiadeiro.
idolatrando-os como se fossem seus Acresce que o amor é como a ativi­
filhos. dade, e ser amado assemelha-se à
A posição dos benfeitores é seme­ passividade; e o amor e os seus conco- 20
lhante: a pessoa a quem fizeram bem é mitantes são os atributos dos mais ati­
como se fosse sua obra, que eles amam vos dentre os homens.
■s mais do que a obra ama o seu artífice. E finalmente, todos os homens têm
Isso, porque a existência é para todos maior amor ao que ganharam como
os homens uma coisa digna de ser fruto do seu trabalho. Por exemplo, os
escolhida e amada; ora, nós existimos que fizeram a sua fortuna amam-na
em virtude da atividade (isto é, vivendo mais do que aqueles a quem ela veio
e agindo), e a obra é, em certo sentido, por herança; e ser bem tratado não pa­
uma produtora de atividade; portanto, rece envolver trabalho, enquanto fazer
o artífice ama a sua obra porque ama a bem a outrem é tarefa laboriosa. São
existência. E isso tem raízes profundas estas também as razões por que as
na natureza das coisas, pois o que ele é mães têm mais amor a seus filhos do
em potência, sua obra o manifesta em que os pais; pô-los no mundo lhes 25
ato. custou mais dores e elas sentem mais
io Ao mesmo tempo, para o benfeitor é profundamente que os filhos lhes per­
nobre aquilo que depende da sua ação. tencem. Este último ponto parece apli­
E assim se deleita com o objeto da sua car-se igualmente aos benfeitores.

Também se discute a questão de se quer outra coisa e dá-se-lhes o nome de


um homem deveria amar acima de ególatras, que é considerado um epí-
tudo a si mesmo ou a alguma outra teto pejorativo; e um homem mau pa- 30
pessoa. São criticados aqueles que rece fazer tudo no seu próprio interes-
amam a si mesmos mais do que a qual- se, e isso tanto mais quanto pior ele
208 ARISTÓTELES

for. É acusado, por exemplo, de não nhão maior de riquezas, honras e pra­
fazer nada espontaneamente, enquanto zeres corporais, pois essas são as coi­
o homem bom age tendo em vista a sas que a maioria deseja e pelas quais
honra, sacrificando os seus interesses se esforça como se fossem as melhores
pessoais, e isso tanto mais quanto me­ de todas; e também por esse motivo se
lhor ele for. tom am objetos de competição. E os 20
3s Mas os fatos estão em conflito com que são cúpidos com respeito a elas
estes argumentos, o que aliás não é de satisfazem os seus apetites e, de modo
surpreender. Com efeito, dizem os ho­ geral, os seus sentimentos e o elemento
mens que deveríamos amar acima de irracional de sua alma.
u68b tudo o nosso melhor amigo, e o melhor Ora, a maioria dos homens são
amigo de um homem é aquele que lhe dessa natureza, e esse é o motivo de ser
deseja bem por ele mesmo, ainda que usado o epíteto em tal acepção: ele re­
ninguém venha a ter conhecimento cebe o seu significado do tipo predomi­
disso; e esses atributos são encon­ nante de autofilia, que é mau. Ê justo,
trados principalmente na atitude de um por conseguinte, que os homens que
homem para consigo mesmo, como amam a si mesmos desse modo sejam
todos os outros atributos pelos quais é objetos de censura.
s definido um amigo; porque, Como E é evidente que a maioria das pes­
dissemos12 7, foi a partir desta relação soas costumam chamar amigos de si
que todas as características da amiza­ mesmos aqueles que se dão preferência
de se estenderam aos nossos semelhan­ com respeito a objetos dessa espécie; 25
tes. E isto é confirmado pelos provér­ porque, se um homem fizesse sempre
bios, como “uma só alm a128”, “os questão de que ele mesmo, acima de
amigos possuem todas as coisas em todas as coisas, agisse com justiça e
comum”, “ amizade é igualdade” e “ a temperança ou de acordo com qual­
caridade começa por casa”, pois todas quer outra virtude, e em geral procu­
essas características são encontradas rasse sempre assumir para si a conduta
principalmente na relação de um mais nobre, ninguém cham aria amigo
homem para consigo mesmo. Ele pró­ de si mesmo a um tal homem e nin­
prio é o seu melhor amigo, e por isso guém o censuraria.
deveria amar a si mesmo acima de No entanto, ele parece ser mais
w tudo. É, pois, razoável indagar quál amigo de si mesmo do que o outro.
das duas opiniões seguiremos, porque Pelo menos, atribui a si as coisas mais
ambas são plausíveis. nobres e melhores, satisfaz o elemento 30
Talvez convenha distinguir esses mais valioso de sua natureza e obede­
argumentos uns dos outros e determi­ ce-lhe em todas as coisas. E, assim
nar em que medida e a que respeito como uma cidade ou qualquer outro
cada uma das opiniões é verdadeira. todo sistemático é, com toda a justiça,
Ora, a verdade poderá tomar-se evi­ identificada com o seu elemento mais
dente se apreendermos o sentido em valioso, o mesmo sucede com o indiví­
que cada escola usa a expressão duo humano; e, por conseguinte, o
15 “amigo de si mesmo” . Os que a usam homem que am a esse elemento e o
como termo de censura atribuem a satisfaz é mais amigo de si mesmo que
autofilia aos que abocanham um qui- qualquer outro.
Ainda mais: diz-se que um homem
117 Cap. 4. (N. do T.) tem ou não tem domínio próprio con­
12 * Eurípides, Orestes, 1046. (N. do T.) forme a razão domine ou deixe de
ÉTICA A NICÔMACO — IX 209

dominar nele, o que implica que ela é o Do homem bom também é verda­
js próprio homem; e as coisas que os ho- deiro dizer que pratica muitos atos no
n69a mens fazem de acordo com um princí­ interesse de seus amigos e de sua pá­
pio racional são consideradas mais tria, e, se necessário, dá a vida por eles.
legitimamente atos seus, e atos volun­ Com efeito, um tal homem de bom 20
tários. grado renuncia à riqueza, às honras e
É evidente, pois, que esse é o próprio em geral aos bens que são objetos de
homem, ou que o é mais do que qual­ competição, ganhando para si a nobre­
quer outra coisa, e também que o za, visto que prefere um breve período
homem bom am a acima de tudo essa de intenso prazer a uma longa tempo­
sua parte. Donde se segue que ele é no
rada de plácido contentamento, doze
mais legítimo sentido da palavra um meses de vida nobre a longos anos de
amigo de si mesmo, e de um tipo dife­
existência prosaica, e uma só ação
rente daquele que é alvo de censura, grande e nobre a muitas ações triviais. 25
tanto quanto o viver de acordo com Ora, os que morrem por outrem certa­
um princípio racional difere do viver
mente alcançam esse resultado; é ele,
5 segundo os ditames da paixão, e dese­
pois, um grande prêmio que escolhem
jar o que é nobre de desejar o que pare­
para si mesmos.
ce vantajoso.
Os homens bons também se desfa­
Por isso, todos os homens aprovam
zem de suas riquezas para que os seus
e louvam os que se ocupam em grau
amigos possam ganhar mais, pois,
excepcional com ações nobres; e se
enquanto o amigo de um homem
todos ambicionassem o que é nobre e
adquire riqueza, ele próprio alcança
dedicassem o melhor de seus esforços
à prática das mais nobres ações, todas nobreza: é a ele, portanto, que cabe o
as coisas concorreriam para o bem maior bem. O mesmo se pode dizer das
comum e cada um obteria para si os honras e cargos públicos: tudo isso ele jo
io maiores bens, já que a virtude é o bem sacrificará ao seu amigo, porque tais
maior que existe. atos são nobres e louváveis nele.
Portanto, o homem bom deve ser Com razão, pois, é um homem
amigo de si mesmo (pois ele próprio assim considerado bom, visto que
escolhe a nobreza acima de tudo. E
lucrará com a prática de atos nobres,
ao mesmo tempo que beneficiará os pode ele, inclusive, deixar a ação ao
seu amigo: em certas ocasiões é mais
seus semelhantes); mas o homem mau
não o é, porque, com o abandono às nobre sermos a causa da ação de um
suas más paixões, ofende tanto a si amigo do que agirmos nós mesmos.
15 mesmo como aos outros. Para o Ve-se, pois, que em todos os atos «
homem mau, o que ele faz está em con­ que atraem louvores aos homens, o
flito com o que deve fazer, enquanto o homem bom reserva para si o maior
homem bom faz o que deve; porque a quinhão do que é nobre. E neste senti­
razão, em cada um dos que a possuem, do, como já dissemos, um homem deve
escolhe o que é melhor para si mesma, ser amigo de si mesmo, porém não no n«9b
e o homem bom obedece à razão. sentido em que a maiora o é.
210 ARISTÓTELES

9
Também se discute sobre se o primeira pessoa que apareça. Logo, o
homem feliz necessita ou não de ami- homem feliz necessita de amigos.
s gos. Diz-se que os que são sumamente Que significa, então, a asserção da
felizes e auto-suficientes não precisam primeira escola, e em que sentido
deles, pois tais pessoas possuem tudo corresponde ela à verdade? Dar-se-á o
que é bom e, auto-suficientes como caso de que a maioria dos homens
são, dispensam o resto; enquanto um identifiquem os amigos com as pessoas
amigo, que é um outro “eu” , provê o úteis? De tais amigos, é certo que o
que um homem não pode conseguir homem sumamente feliz não tem ne­
pelos seus próprios esforços. Daí as cessidade, visto já possuir todas as coi- 25
palavras: “quando a fortuna nos sorri, sas boas; e tampouco necessitará da­
para que precisamos de amigos? 129” queles com quem fazemos amizade por
Mas parece estranho, quando se causa do prazer que nos proporcio­
atribui tudo o que é bom ao homem nam, ou só precisará deles em grau
io feliz, recusar-lhe amigos, que são con­ muito restrito (pois, sendo aprazível a
siderados os maiores bem; exteriores. sua vida, ele dispensa prazeres adventí-
E, se é mais próprio de um amigo fazer cios); e, como não necessita de tais
bem a outrem do que ser beneficiado, e amigos, julga-se que não necessita de
se dispensar benefícios é característico amigos em absoluto.
do homem bom e da virtude, e é mais Mas isto, seguramente, não é verda­
nobre fazer bem a amigos do que a deiro, porquanto no começo130 disse­
estranhos, o homem bom necessitará mos que a felicidade é uma atividade; e
de pessoas a quem possa fazer bem. E a atividade, evidentemente, é algo que
por esta razão se pergunta se necessi­ se faz e que não está presente desde o
tamos mais de amigos na prosperidade princípio, como uma coisa que nos
is ou na adversidade, subentendendo que pertencesse. Se ( 1) a felicidade consiste
não só um homem na adversidade pre­ em viver e em ser ativo, e a atividade so
cisa de quem lhe confira benefícios, do homem bom é virtuosa e