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ORGANIZADORES:
CELSO JOÃO FERRETTI
DAGMAR M.L. ZmAS
FELICIA R. MADEIRA
MARIA LAURA P.B. FRANCO

NOVAS TECNOLOGIAS,
TRABALHO E EDUCAÇAO: -
UM DEBATE MULTIDISCIPLINAR
3~ Edição

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Novas tecnologias, trabalho e educação: um debate multidisciplinar I organizadores
Celso João Ferrem ,.. 1et aI. I. -Petrópolis, RI: Vozes, 1994.

Y ários autores.
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Bibliografia. 'il I I,

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ISBN 85-326-1175-3
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I. Educação profissional 2. Mudança organizacional 3. Relações industriais
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4. Trabalho e classes trabalhadoras - Efeitos de inovações tecnológicas
Celso João, 1935-
r. Ferretti,
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Índices para catálogo sistemático:
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I. Educação e trabalho 370.193 11
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2. Trabalho e educação 370.193 1996 \',

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© Editora Vozes Ltda.
Rua Frei Luís, 100
25689-900 Petrópolis, RJ
Brasil
FICHA TÉCNICA:

COORDENAÇÃO EDlTOlUAl.·

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A1;dilloGrassi

COORDENAÇÃO INDUSTlIlAl.
José Luiz CMtto-

EDITOR DE ARTE:
03227/98
OmarSanl0S

EDlTORAP!O:
EdilOrJção e organização li!erd,.itJ: L\ki.a MathiJde E. Orth
Re..,üiio gr4tka:Revirec SIC SUMÁRIO
DlagramaçiILJ: Sheila Roque
Supervisão gráfi<:a.· VaMeres Rodrigues

ISBN 85.326.1175-3

APRESENTAÇÃO: Um debate multidisciplinar, 7


CAPíTULO 1
r- Processo e gestão do trabalho, 19

A Cultura da qualidade ou a qualidade da muqança, 21


Maria Tereza Leme Fleury i
I'
Modernização tecnológica e relações de trabalho, 36 I I
i
Márcia de Paula Leite
Trabalho e organização na empresa industrial integrada e flexível, 54
Mário Sérgio Salemo
DEBATE: Henrique Rattner, 77
CAPÍTULO 2
Demandas por recursos humanos e mudanças organizacionais, 85
O empresariado e a educação, 87
Horácio Penteado de Faria e Silva Filho
Capacitação tecnológica, revalorização do trabalho e educação, 93
Ruy de Quadros Carvalho
Este livro foi composto e impresso nas oficinas gráficas da EdLlora Vozes Ltda.

I
i
Da polarização das qualificações ao modelo da competência, 124
Helena Hirata
DEBATE: Nassim Mehedff, 139
CAPÍTULO 3
Mudanças organizacionais, novas tecnologias e educação, 145
-)0 trabalho como princípio educativo frente às novas tecnologias, 147
\< Dermeval Saviani
r)\\."~/ A educação e os desafios das novas tecnologias, 165
'"" Lucília Regina de Souw Machaao
A educação e a formação profissional na encruzilhada das velhas e
novas tecnologias, 185 APRESENTAÇÃO
Marisa de Assis
DEBATE: Aparecida"Jóly' Gouveia, 200
CAPÍTULO 4
Considerações Finais, 207
DEBATE: Cláudio Salm, 209
DEBATE: Marco Antonio de Oliveira, 214

UM DEBATE MULTIDISCIPLINAR

o trabalho humano tem sido focalizado de vários pontos de vista. Tal


como ocorre com outros objetos de estudo e pesquisa, essa abordagem
variada traz inúmeras contribuições, mas suscita, por outro lado, diversos i\,
problemas. O mais sério destes é o da produção de conhecimentos especí- I
ficos, segundo as diferentes áreas de eS,tudo, conduzindo à '}Weensão I
segmentada do objeto sob investigação. E claro que um problema dessa
natureza pode ser minimizado, e mesmo superado, se forem adotados
(
princípios teóricos e procedimentos metodol6gicos que se proponham
obter uma visão de totalidade sobre o objeto. No interior das diversas
ciências que têm se debruçado sobre a temática do trabalho, nem sempre
isso ocorre, o que não significa dizer que os estudos produzidos pelas
mesmas sejam, como um todo, despidos de sentido ou irrelevantes.
No entanto, os resultados dessas investigações tendem a circular entre
públicos restritos a cada área, não s6 pelos interesses específicos dos
pesquisadores. mas, também, porque o aproveitamento melhor desses
resultados depende do domínio de enfoques teóricos, conceitos e catego-
rias particulares dos diferentes campos científicos.

7
Aqui se situam nossas preocupações enquanto profissionais da Edu- cando os consensos, mas também as divergências e ambigüidades, identi-
cação que estudam as relações entre esta e o trabalho. Apesar do conheci- ficando as perguntas não respondidas e as que deixaram de ser feitas.
mento que já se detém sobre essas relações, em função das investigações Dado O espírito que nos motivou a organizar o seminário e, posterior-
que vêm sendo realizadas e das tentativas de articulação com cientistas de mente, a coletânea, optamos pela segunda alternativa. De fato, como
outras disciplinas, é inegável que são precárias as informações dominadas anunciamos na apresentação, nosso objetivo maior foi proporcionar um
pelos educadores a respeito do trabalho e, mais recentemente, a respeito diálogo crítico entre cientistas de diversas áreas, mas que têm em comum
das transformações pelas quais este vem passando devido à utilização de o fato de lidarem com questões que giram em tomo do impacto das
tecnologias avançadas e das propostas de novas formas de organização da inovações tecnológicas na estrutura produtiva e/ou as ~mplicações ~du~a­
produção. cionais desses novos paradigmas científicos, tecnológIcos e orgamzacIO-
De outrO lado, embora valorizando genericamente as contribuições da nais. Pensávamos que, a partir do esforço conjunto, poderiam ~urgir nov~s
Educação para o processo produtivo, os profissionais de outras áreas como vertentes explicativas ou diferentes linhas de reflexão que abnssem c~­
Economia, Administração, Ciências Políticas e Sociologia do Trabalho nho;Para algumas conclusões, mesmo que provisórias, ou para a realiza-
nem sempre conhecem detalhadamente as concepções dos educadores a ção de novas investigações.
respeito dessas contribuições e das relações que, no entender deles, seria O resultado foi amplamente compensador. Houve a divulgação de
legítimo defender entre Educação e trabalho. importantes dados empíricos e nítidos avanços conceituais, mas também
Essas preocupações "mbasaram a organização do seminário "Trabalho ficou muito claro que eXiste ainda um árduo caminho a percorrer. Nesse
e Educação", realizado na Fundação Carlos Chagas - com o financiamento sentido, diversas questões colocadas não puderam ser plenamente respon-
do INEP (do Ministério da Educação) e do CNPq - em agosto de 1992. O didas. Por outro lado, perguntas decisivas, que não faziam parte do con-
objetivo foi aprofundar o debate da questão de uma perspectiva multidis- junto dos textos, acabaram emergindo no ~alo~ do deb.a~e. A!iás, não foi
ciplinar, tendo em vista a amplitude que vem ganhando ultimamente no por outro motivo que incluímos nesta pubbcaçao a partlcIpaçao dos deba-
País a discussão sobre o papel que cabe à Educação desempenhar frente à tedores.
I "
modernização produtiva e os desafios econômicos e políticos interpostos Uma idéia reiterada em diferentes textos diz respeito à inevitabilidade
pela nova ordem internacional. da adesão do Paísao atual modelo de competição internacional através da
Os resultados muito produtivos da iniciativa inspiraram a publicação incorporação e difusão das novas tecnologias. Tal resultado pode surpreen-
deste livro, que contém os textos apresentados naquela ocasião, incluindo der pelo fato de se tratar de tema extremamente polêmico que tem suscitado
também as intervenções dos debatedores. Nesta organização, optou-se por posições divergentes por parte de um expressivo grupo de'pensador~s, em
conservar a mesma estrutura do seminário. Assim, cada capítulo é cOllsti- que pese o posicionamento finne e decisivo de poderosos orgamsmos
tuído pelo conjunto de textos elaborados pelos participantes de uma das internacionais sobre a questão.
mesas de debate, bem como do comentário preparado pelo respectivo Tomando de empréstimo a expressão utilizada por um dos nossos
debatedor ou debatedora. Cláudio Salm e Marco Antonio de Oliveira debatedores, julgamos que há uma identificação equivocad~.e.recorrente
ficaram com a tarefa de fazer uma apreciação geral do seminário e seus entre tendência e destino; ou seja, a imposição da competItlvldade e de
textos compõem o capítulo final. condições para ampliar o mercado exportador pode ser considerada u~a
tendência internacional. Entretanto, tendência não é destino. TendênCIas
sempre houve, mas sabemos que coexistem, lado a lado, i~port~ntes e
AS QUESTÕES diferentes opções. Cabe aos estudiosos explicitá-Ias e cabe a SOCIedade
escolher e lutar por uma delas.
Existem várias formas de se introduzir uma coletânea de textos. A mais
comum consiste em arrolar as colocações mais importantes dos diferentes Entre os consensos, registrou-se um amplamente an~rado em resu~­
trabalhos, tendo por-iJaSe aquelas que efetivamente contribuem para o lados empíricos: a constatação da existência de uma enorme ~ete~ogenel­
avanço do conhecimento sobre o tema em discussão. Outra, é dar alguns dade de situações na implementação de processos de modernlzaçao.
passos além, refletindo e evidenciando o que está ainda por fazer, desta-

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8
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, Os textos de Mário Sérgio Salemo e Maria Tereza Leme FIeury pelas próprias empresas. Para O~iveira, "uma reforma ampla ,do ~istema
I' ,apontam, sob diferentes ângulos, esta .questão. ~alientam que as fonna~ de educacional só seria um imperallvo se houvesse urna modemlzaçao pro-
flexibilização e integração desenvolVIdas por dIferentes empresas vanam funda, que fosse capaz de unir competitividade e eq~ade".
em função do produto, do processo de produção, do mercado, da estratégia
I competitiva adotada, bem como da organização e das relações de trabalho
privilegiadas. Esses estudos sugerem, inevitavelmente, a seguinte pergun-
Essa afirmação traz à tona as questõ~s que julgamos de maior relevân-
cia no contexto das atuais discussões: E possível. no presente quadro da
ta: as inovações adotadas significam a instalação de uma tendência estável divisão internacional do trabalho, aliar competitividade e eqüidade? A
na direção da difusão maciça da produção flexível ou refletem situações política educacional teria algum papel importante a desempenhar na con-
específicas que pennane2erão apenas corno modelo? figuração do modelo final? Qual?
Sob nossa ótica, embora notícias de jornais de meados de 1993 Sobre esse tema, estamos mais inclinados a afirmar, co~ Cláudio
informassem que cerca de 120 empresas, representando aproximadamente Salm, que, infelizmente, sempre será possível a inserção do BrasJ1 na n~va
30% do PIB nacional, estavam seriamente empenhadas em modernizar-se, ordem, de forma perversa, mantendo-se ou até incrementando-se.relaçoes
adotando tecnologias e diretrizes organizacionais compatíveis com o mo- de trabalho extremamente autoritárias, garantindo-se, por essa VIa, a per-
delo empresarial flexível e integrado, parece arriscado tentar uma resposta sistência de baixos salários e a extrema desigualdade na distribuição da
de caráter mais definitivo à pergunta acima. Isto porque, além de não se renda e dos benefícios sociais. A história brasileira recente está repleta de
dispor, ainda, de pesquisas empíricas em número suficiente, sabe-se tam- exemplos nessa direção. Como bem coloca Salm, "o Bra~il ~oi um sucesso
bém que as empresas de grande peso no PIB nacional empregam, em no fordismo dito cC!J!!nga, isto é, sem ~ealizar as tr~~sf~renclas dos ganh.os
verdade, menos de 20% da mão-de-obra disponível. de produtividade corno nos países mats avançados . Ha elemento~ consl~­
tentes para se afirmar que o processo da 3! Revolução IndustrIal sena
A julgar pelos dados di vulgados, fica fortalecida a hipótese de que está diferente?
se consolidando uma modernização limitada a alguns setores, muito diver-
sificada no interior de cada um, com uma incorporação apenas pontual das Os textos de Maria Tereza Leme Fleury, Ruy de Quadros Carvalho e
inovações tecnológicas e organizacionais. Helena Hirata corrobora essa de Márcia de Paula Leite contribuem, de forma muito relevante, para este
afirmação, demonstrando, através de dados de pesquisas internacionais, debate.
que mesmo na França a coexistência de novas figuras produtivas como o Aeury divulga resultados de importante investigação que permitem
fordismo é uma constante. Essa autora acrescenta que a heterogeneidade traçar um panorama menos pessimista. Como já comentam~s,e~sa aut~ra
demadelos produtivos é aprofundada pela divisão sexual do trabalho. registra grande heterogeneidade no processo de modemlzaçao. Alem
Exemplifica essa tese com o caso de indústrias francesas, que flexibilizam disso, constata que, mesmo nos casos de modernidade produtiva m~lhor
o trabalho executado por homens, mas mantêm a taylorização em setores estabelecida, o poder continua ainda bastante concentrado n~ c~ula
femininos como o de embalagem. diretiva das empresas. Apesar disso, seus dados permitem que se VIslumbre
No Brasil, na opinião de diversos autores, o que estaria acontecendo uma tendência de adoção do modelo de produção integrado, flexível e
mesmo seria a ampliação do leque de heterogeneidade dajá diversificada participativo, onde as relações de poder se inclinariam lentamente para a
estrutura produtiva brasileira, herdada da superposição de modelos dife- democratização. Sobre esse aspec!o da pesquisa, perrn~eceu ~m abe~o,
rentes, superposição essa intensificada a partir da d'écada de 50. Seria, em durante os debates, uma questão. E de cunho metodológiCO e dIZ rcsp~lto
outros termos, uma "nova" heterogeneidade que estaria se sobrepondo à à restrição das entrevistas ao âmbito de diiêtori.as até o nív:l?e superv~so­
já existente. Portanto. parece-nos que Marco Antonio de Oliveira está com res. Questionou-se, então, o seguinte: a entrevista de oper~os mudana ~
razão quando comenta, como debatedor, que faria muito mais sentido configuração dos dados, principalmente no tocante às relaçoes de poder.
falar-se, ao menos a médio prazo, de um processo de "desestruturação" do Carvalho, também baseado em dados empíricos, insiste em ~ue as
que propriamente de reestruturação do processo produtivo. Além disso, a condições de baixa remuneração e alta rotatividade da mão-de-obra I~d~s­
perspectiva de incorporação apenas marginal da modernização produtiva trial são amplamente majori!~as no Brasil, caracteri~ando a predomman-
justifica a afinnação do autor de que as demandas do campo educacional cia e a estabilidade de umpadrão altamente predat6no do uso da força de
poderiam ser facilmente atendidas através de reciclagem desenvolvida trabalho.

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!~ Leite discute o conceito de "modernização conservadora", e, histori- emprçsariado como instrumento para sensibilizar a categoria para as
.1 cizando brevemente os esforços de atualização da indústria brasileira, vantagens do investimento em modernização industrial, o que implicaria
I: ressalta que, ao lado da adoção de novas técnicas e novos métodos, têm no apoio a iniciativas para a melhoria da qualidade do ensino formal, o .
;, predominado relações de trabalho retrógradas, baseadas em baixos salários autor deixa entrever que há pouca adesão tanto ao novo modelo produtivo
jI, e na recusa de procedimentos de estabilização da mão-de-obra. quanto às sugestões de valorização educacional que constam do programa.
j Com referência a essa conceituação, Henrique Rattner levanta um Por outro lado, poderíamos aqui indagar se a grande ênfase na debili-
arguto questionamento, pois, citando exemplos da Alemanha e do Japão, dade educacional como empecilho à modernização não se transformaria
letllEíra que todos os processos de modernização empresarial já realizados em argumento escamoteador de outros fatores, bem mais detenninantes do
são "conservadores", Assim, pergunta se seria possível uma "moderniza- processo, mas demais difícil aceitação por parte do empresariado. Ruy de
ção revolucionária", Aqui parece-nos pergnente a seguinte observação: ao Quadros Carvalho, por exemplo, ao descrever as relações predatórias que
contrário do que acontece na maioria dos países do Primeiro Mundo, onde vigoram no âmbito da produção, classifica esse fato como sendo o maior
diríamos que prevalece hoje um "conservadorismo esclarecido", o caráter obstáculo para o avanço do novo modelo. Ainda, Helena Hirata arrola a
predatório de nosso conservadorismo coloca-nos um problema de natureza divisão internacional do trabalho entre os detenninantes do atraso da
diversa e mais grave. modernização.
Rattner, em verdade, aprofunda o debate ao explicitar a necessidade Nassim Mehedff traz importantes subsídios para esse debate. Lem-
de se examinar a questão dos novos paradigmas organizacionais não só a brando, corretamente, que as grandes agências internacionais de financia-
partir do contexto fabril, mas levando-se em conta a pluralidade de racio- mento são atores políticos da maior importância, que certamente
nalidades que permeia o tecido social e cultural mais amplo. Em nossa participam e vão continuar participando da definição das regras do jogo
opinião, a importância de se tornar como referência, nessa discussão, a em quase tudo o que diz respeito à nossa sociedade, expõe algumas de suas
cultura social abrangente está principalmente na possibilidade de, assim, preocupações com relação a esse fato.
mapear-se as características autoritárias e predatórias da sociedade tomada
Uma delas consiste na seguinte indagação: a prioridade corretamente
como um todo, características essas que, historicamente geradas em rela-
dada ao ensino fundamental, mas minimizando-se demasiadamente a
ções de produção muitas vezes descritas como "selvagens", acabam atin-
atenção que deveria ser dada ao ensino médio e ao 3º grau, não estaria
gindo diversamente cada uma das instituições sociais. Nesse sentido,
contribuindo para o jogo de interesses internacionais? Ao discutir esse
sabe-se que uma das causas dos elevados índices de fracasso escolar
tema, Mehedff baseia-se em argumentos derivados de sua experiência
registrados no País é a permeabilidade da escola a um tipo de relação social
como técnico do BID e nos relatórios e diagnósticos do Banco Mundial
autoritária e extremamente preconceítuosa no que concerne às camadas
populares. relativos ao nosso sistema de ensino. Coloca, ainda, duas questões: Até que
ponto os empresários vêm adotando ingenuamente o discurso dos educa-
Neste ponto, como subsídio para o debate da questão estritamente dores? Até que ponto foram ou estão sendo manipulados pelos interesses
escolar, parece pertinente introduzir tópicos importantes dos textos de internacionais? Em seguida, lembra que os Tigres Asiáticos, ao investirem
M~risa de Assis e ~orácio Penteado de Faria e Silva referentes às expec- fortemente na escola fundamental, absolutamente não abandonaram os
tativas de empresános quanto à fonnação da mão-de-obra. Assis, lembran- outros níveis de ensino. Segundo Mehedff, nenhum país, que conseguiu
do que a Educação não deve ser tratada a reboque da produção, traz relação atingir um determinado patamar de desenvolvimento, desprezou a sua
de atitudes e habilidades mencionadas por e'lnpregadores corno necessárias Universidade, as suas pesquisas e o seu ensino médio. Esta é também uma
p~ra.o moderno trabalho produtivo. O exame desse .(Q! pode despertar conclusão importante que deriva do trabalho de Ruy de Quadros Carvalho.
otmllsmo entre os educadores, porque parece haver, finalmente, compati-
Resta perguntar qual a ótica dos educadores sobre essas questões.
bilidade entre necessidades da indústria e os objetivos humanísticos há
muito tempo colocados à Educação. Dermeval Saviani e Lucília Regina de Souza Machado incorporam a
concepção de que o trabalho na empresa integrada e flexível demandará
No entanto, o depoimento de Faria e Silva suscita algumas dúvidas uma formação mais sofisticada e complexa e percebem, neste fato, uma
sobre a generalização de tais conclusões. Explicando que o programa de dimensão contraditória do capitalismo que, afinal, beneficia os trabalha-
Competitividade Industrial foi estabelecido por uma parcela diminuta do dores. De um lado, como assinala Machado, se a introdução das novas

12 13
I1Útantemente, um contingente de desempregados e de trabalhadores me-
tecnologias e de novas formas de organização do trabalho não conduz
nos qualificados inseridos em trabalhos por conta própria ou em pequenas
linearmente, como alguns pensam, à maior autonomia e dignidade do
empresas? A segunda: Teria a educação algum papel a desem~enhar para
trabalho, por outro, abre possibilidades para a generalização de um conhe-
alterar os desdobramentos indesejáveis das novas tecnolOgIas? Como
cimento mais exato sobre as leis que regem a vida natural e social em
exemplo de tais desdobramentos, cita dados que parece~ ind!car estar ~e
contextos determinados. Nesta mesma direção, Saviani defende a tese de
desenvolvendo um novo tipo de controle de trabalho, maIs sutil, mas maIS
que as transformações na produção instauram as condições objetivas para
a superação da dicotomia entre trabalho manual e trabalho intelectual, preciso.
inutilmente tentada pela escola porque não é nela, mas na própria produção, Se for possível aos educadores encontrar respostas convincen!es para
que tal dicotomia se origina. Enrrm, na entender destes autores, a possibi- tais questões, restam ainda outros desafios explicitados por Apa~eclda Joly
lidade concreta da generalização das novas formas de produção oferece as Gouveia em seu texto. No entanto, parece-nos que as tentatIvas de se
condições objetivas para uma sólida educação geral única, integrada, responder às suas oportunas "provocações" devem levar em conta as
flexível e crítica. condições reais do nosso sistema escolar. E aqui perguntamos: Afinal, qual
Tais considerações têm um peso argumentativo inquestionável quando é a realidade de nossa escola?
afirmam uma certa "positividade" nas novas relações entre educação e Para melhor enfrentarmos essa questão é conveniente notar que, nos
trabalho, a partir das transformações na produção. Todavia, é impossível anos 70, demandas sociais e econômicas, exercendo forte pressão sobre os
deixar de expressar alguma perplexidade diante do fato de que, apesar de setores educacionais, exigiam ampliação das oportunidades de acesso ao
toda urna reflexão crítica e consistente ao econol1Úcismo ocorrida ao longo ensino formal. Nesse panorama, efetuaram-se esforços - que, em última
dos anos setenta e oitenta, a década de 90 inaugura-se com um forte instância, representaram apenas acomodações às condições existent~s ~
revigoramento das antigas esperanças no poder transformador da educação para aumentar a oferta de matrículas nas instituições da rede públIca,
via impacto no processo de trabalho. principalmente naquelas de ensino fundamental e médio.
Adicionalmente, convém lembrar, nesta discussão, Tomaz Tadeu da Relatórios oficiais mostravam,já no ilÚcio da década de 80, resultados
Silva (Novas Tecnologias e Relações Estruturais entre Educação e Produ- que, à primeira vista, pareciam ausEi~iosos qu~nt? a númerO de matrículas
ção. Cadernos de Pesquisa. São Paulo, n~ 87, novo 93), quando argumenta iniciais. De fato, sob uma persptfcbva quantitatIva. os dados atestavam
que existe uma tendência de se restringir o debate a urna definição exclu- porcentagens promissoras de acesso à escola, em todos os níveis. Mes~o
sivamente fisiológica, conteudística e técnica das modificações nas habi- assim, jánaquele momento, muitos analistas empenhara~-seemde~un:la;:
lidades exigidas pelas novas tecnologias, I1Únil1Úzando-se os elementos as perversas estratégias que tomaram possível essa. de~oc~atlzaçao
sociais e políticos aí envolvidos. Segundo esse autor, o fato de que tenha superficial e inconsistente. Tais estratégias compreendiam pnnClpalmente
havido um alargamento da base das aptidões compreendidas no processo o seguinte: classes superlotadas, escolas funcionando em até 5 tu.n:'0s,
de execução, exigindo-se agora do trabalhador, por exemplo, certos tipos sensível rebaixamento salarial de professores etc. Esses dados penruUam
de tomada de decisão, não significaria, de modo algum, que se tenha pr9tnosticar conseqüências desastrosas para a qualidad~ de ensino. .
ultrapassado a barreira da separação social e política entre concepção e Atualmente, novos e bem mais sofisticados procedImentos penmtem
execução, entre trabalho mental e manual. O desaparecimento das tarefas constatar que 95% das crianças de cada geração têm acesso à esco!a, ~
mais fisiologicamente manuais não implicaria no desaparecimento do p6lo falta de vagas deveria, assim, deixar de figurar no rol de fatores exphc~tJ­
social e politicamente manual do trabalho. vos da ineficiência da educação brasileira. Tal ineficiência estaria relacIO-
Para aqueles que percebem as relações entre Educação e produção nada principalmente às altas taxas de repetência escolar, já que outr~s
como marcadas, no âmbito do novo modelo produtivo, por ganhos que se dados também atestam não existir elevada evasão precoce. A evasao
dirigiriam tanto a um como a outro pólo, Aparecida Joly Gouveia coloca aparece inflacionada nos registros oficiais porqu~, qua~do a repr?v~ção se I
duas inquietantes indagações. A primeira: Qual seria a função de uma toma iwtnente, os estudantes desistem, ou são mduzIdos a deSIstIr, ~as 11
;1
educação democrática diante da segmentação da mão-de-obra, constituída rematriculam-se no ano seguinte. Esse artifício da rotina escolar tem Sido II
pelas contradições estruturais do novo modelo que exigiria, sim, maior denominado de "repetência branca" e, durante muito tempo, confundiu os !
qualificação dos trabalhadores, mas não de todos, criando, então, conco- analistas. Além disso, é preciso considerar que quando a evasão se toma

15
14

1i
,definitiva é porque urna longa série de reprovações consta do histórico do Ainda, serão "escolas" aquelas cujos problemas, ecos de nossas pro-
aluno.
fundas mazelas sociais, ex.trapolam, de muito, as questões pedagógicas?
Esses argumentos, com forte base estatística, trazem o benefício de Nesse sentido, é pertinente transcrever aqui o depoimento da diretora de
pennitir que se enfrente, com mais firineza e determinação, a questão da um estabelecimento situado entre duas violentas e populosas favelas no
; repetência e da pesada ~esponsabil~dade que cabe à escola no pretenso
fracasso dos alunos. VentIlam, tambem, com muita propriedade o conceito
Rio de Janeiro: "Aqui temos 2.300 alunos que já estão acostumados com
os tiroteios entre as quadrilhas de traficantes e os policiais. Mandamos
'J de "cultura da repetência", que consiste no desdobramento 'no âmbito
-i,
i:f construir um muro alto para protegê-los, mas ele vivia sempre cravejado
escolar, da cultura predatória que, como J·á discutimos anterio t de balas até que um dia caiu. Eles (os alunos) já estão acostumados.
. d " rmen e,
gUiam o U!O a !orça de trabalho em nosso meio. De fato, os preconceitos Aprenderam a se defender quando percebem algo de anormal. Mas conti-
com relaçao a c~adas populares, gerados a partir de relações de produção nuam vindo à escola. Não querem que as aulas sejam suspensas" (Revista
perversas, permeIam toda a sociedade, refletindo·se na escola na fonua de VEJA, 25 ago., 1993). Em outra escola carioca, os traficantes ordenaram
produção de elevados índices de retenção. a suspensão das aulas porque usariam o espaço para venda de drogas.
A~ se d~ relevo ao fato de que a análise acima tem aspectos muito Professores apavorados foram focalizados em telejomal e admitiram ser
prod~tIVOS, Julgamos necessário registrar, concomitantemente, o seguinte obrigados a mandar os alunos para casa.
questI.onamento: Pode ser temerário concluir, a partir de dados estatísticos, Ainda, podemos minimizar a incidência de fatores materiais na inefi-
que a mfra-es~tura e os in~umos destinados à educação sejam suficientes ciência do sistema escolar quando, em um Estado rico como São Paulo,
para que s~ atnbua agora o problema da qualidade quase que exclusiva- instalou-se, em 1993, uma greve de professores (que lutavam contra
mente à dImensão peà1gógica. Isto porque devemos considerar de que salários realmente iníquos e por melhores condições de ensino) que se
escolas es~mos falando quando afirmamos que há vagas para praticamente arrastou por mais de 70 dias, deixando 6 milhões e 500 mil crianças sem
todas as cnanças. aulas? .
. Sabemos que um expre~sivo número de escolas rurais isoladas, prin- A qualidade do ensino, tradicionalmente, apresenta-se como uma
~Ipalmente" no Nordeste, sao ~s?aços que funcionam sob o rótulo de grande dificuldade na América Latina quando se supõe resolvido o proble-
ES~?LA ,mas.que, para adrrutí-los como tal, é preciso deixar de lado o ma da oferta.
tra~IcIonal conceito que se tem da instituição de educação formal. Estabe- Entre nós, acreditamos que é preciso enfrentar esta problemática no
l~cIdas nas pobres residências das professoras, tais "escolas" estão orga- bojo de um caótico e perveF50 panorama de acesso à educação formal, que
mzad~s em ~lasses mu~~seriadas, g~r~do para os alunos uma dupla está longe de ser resolvido. Diminuir a importância das dificuldades
tarefa. os maIS velhos nao apenas auxIham os mais novos nos trabalhos materiais e sociais da escola e do processo escolar, insistindo-se unicamen-
escolares co~o, também, em muitos casos, ajudam na preparação da te na dimensão pedagógica, pode redundar em uma visão simplista e linear,
merenda e .at~ nos cuidados com os filhos das professoras. Estas, na sua colocando-se novamente a educação como panacéia para o desenvolvi-
grande maI~na, recebem salários apenas "simbólicos" e, sem formação mento e para a superação da crise econômica.
~dequa,d~, ~~sputam u~a ;aga p~ ser "~r~fessora" principalmente pelos
benefIcIOS que, por hipotese, terao o dIreIto de usufruir junto ao INSS. Para concluir, julgamos oportuno recuperar algumas questões coloca-
das por José Luis Coraggio (Economía y Educaci6n en América Latina -
E na~ regiões m~is desenvolvidas do Brasil, serão "escolas" aquelas mimeo., s/d, FLACSOIEQUADOR) que podem servir de fio condutor para
que fUnCI?na~ em c~nco turnos por dia, onde os baixos salários afastam a leitura crítica dos textos aqui apresentados.
o~ pr~fiSSlOnaI~ quah~cados, abrindo constantes vazios nos quadros fun-
CIOnaIs? PesqUIsa realIzada pela Fundação Carlos Chagas junto a curso - Por que, sendo este um momento em que se destroem os direitos
n?turno, estadual, de 1~_e 2~ graus, na grande São Paulo, registrou que a humanos em nome de uma razão sistêmica, sendo também um momen-
dificuldade de contrataçao de professores habilitados era tamanha qu to de demanda de infonnação empírica precisa e, em todo caso, de
·lh' . euma conhecimento instrumental - tanto técnico como interpretativo dos
pI~r.Iarecorrent~entre? pessoal administrativo dizia o seguinte: "Só falta
agora chamar o pipoqueIro da esquina para dar aulas". processos cujos efeitos se experimentam - coloca-se agora a defesa
da educação como um direito, sobre bases morais, e como fonnação
universalista que transcende muito a necessidade imediata?
J\.__.

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_ Em que medida isto responde a';e:quisitos sis§.micos'da economia""


(do mundo da produção) ou às necessidades de lêgitimação política de
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um projeto econômico excludente?


~i, ·
'11
- Que convergências táticas ou estratégicas podem se dar entre esta
Ir'l'l' proposta e os interesses populares na conjuntura atual?
É na cO!1.t.luênd~ dessas indagações que situamos as penetrantes aná-
lises e os instigantes de.bates colocados pelos textos aqui publicados. A teia
de reflexões, que o livro - em seu conjunto - com certeza suscitará em cada
leitor, poderá ser penneada por esse e por outros questionamentos críticos,
Se assim for, terão sido atingidas, de maneira muito gratificante, as metas
deste trabalho coletivo.
Celso João Ferretti'
Dagmar M.L. Zibas··
Felícia R. Madeira···
Maria Laura P.B. Franco····

Fundação Carlos Chagas

São Paulo, fevereiro 1994,

PROCESSO fOJ

EGESTAODO
TRABALHO

~
• Pesquisador da Fundação Carlos Chagas e Professor Assistente, Douto, do Programa de
P6s-G,aduação em Hist6ria e FIlosofia da Educação da PUc/SP,
•• Pesquisado•• da Fundação Cados Chagas,
••• Pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e da Fundação Sistema Estadual de Análise de
Dados (SEADE),
•••• Pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e Pmfessora Titular e Vice-Presidente da
Pós-Graduação da PUCISP,

I
18
l-
i.
~! A CULTURA DA QUALIDADE OU A
il QUALIDADE DA MUDANÇA

Maria Tereza Leme Fleury"

Nos debates recentes a respeito das questões de qualidade, produtividade


e competitividade empresarial, um tema tem aparecido com cada vez maior
freqüência associado a estas questões: o da cultura organizacional. Todos
concordam que o sucesso'na introdução destes programas depende de, ou
impacta a, cultura da empresa, mas por que, como e quando isto ocorre,
poucos se detêm a questionar.
a objetivo deste texto é procurar encaminhar algumas reflexões a esse
respeito. O seu ponto de partida conjugou preocupações de ordem teórico-
conceitual, de discussão com autores que se têm debruçado sobre a
temática da cultura e relações de poder no interior das organizações, com
o material empírico levantado em uma pesquisa sobre a adoção de progra-
I'
mas de produtividade e qualidade por empresas brasileiras.
O conceito de cultura organizacional que, no iIÚcio da década de 80,
muitos receavam se tratar de mais um modismo na área da Administração,
mostrou-se um constructo cujo valor heurístico tem se revelado importante
para a apreensão, análise e intervenção dos fenômenos organizacionais.
a foco para a análise da cultura pode ter um zoam de amplitude variada,
desde os estudos sobre a cultura de um país e sua influência sobre as
práticas de gestão das empresas (exemplo: os trabalhos de Hofstede, 1990),
até aos estudos sobre a cultura de uma determinada organização' e às
discussões mais recentes sobre as culturas dos subgrupos em uma organi-

• Professora Titular da Faculdade de EconollÚa, Administração e Contabilidade da Universidade


de São Paulo..
I. Grande parte das pesquisas realizadas sobre cultura organizacional são baseadas em estudos
de caso. Não .penas a literatura internacional, como os trabalhos realizados recentemente no Brasil
procuram focar a realidade de uma organização. A esse respeito. vide por exemplo a coletânea Cultura
e poáer nas organizações (Fleury, M,T., 1989), que reúne estudos de organizações bastante diversas
como empresas de setor bancário, de selViços. infonnática estatal e uma organização penitenciária.

21

I.
2
zaçã0 • Segundo Sainsaulieu (1987), um dos autores que defende este • a mudança aparente, quando a organização realiza alguma mudança
último enfoque, a empresa é constituída por um tecido de grupos, que a fim de preservar sua cultura;
possuem suas formas próprias de representação, uma relação particular
. à revolução cultural, quando os novos valores incorporados são
com a empresa e o trabalho, um patrimônio comum de experiências, não
sendo possível portanto falar de cultura de empresa, mas de cultura de antagônicos aos anteriores e isto representa um grande esforço dos
gmpos. membros fundadores, que construíram a identidade organizacional em
tomo dos valores antigos, de substituí-los; é acompanhada quase
Para trabalhar a problemática de adoção de programas de qualidade e sempre de fluxos de saída e entrada de pessoal e destruição de símbolos
produtividade, é necessário ajustar o foco sobre a organização e seus importantes;
múltiplos recortes: hierárquicos, funcionais, regionais; é evidente que a .. o incrementalismo cultural, quando os valores propostos são com·
questão da cultura nacional se faz presente, não apenas na identificação
plementares aos existentes, ampliando leques de alternativas de solu-
dos traços culturais de um país que dificultam, ou facilitam a adoção de ção dos problemas.
um determinado modelo de organização, mas principalmente no valor que
se atribui à educação e ao próprio fator trabalho. A nosso ver, a conjugação de forças externas e internas à organização
pode impulsionar mudanças nos padrões culturais. Ou seja, enqu~nto ~ão
O conceito de cultura por nós adotado remete à proposta de Schein se esgotam todos os mecanismos tradicionais para se resolver as sltuaçoes
(1985) que define a cultura como o conjunto de pressupostos básicos que emergentes, a organização continua procurando equacionar seus proble-
um gmpo descobriu, desenvolveu ao aprender Como lidar com os proble- mas segundo os padrões culturais mais tradicionais.
mas de adaptação externa e integração interna e que funcionaram bem o
suficiente para serem considerados válidos e ensinados a novos membros Entre as forças externas, destacamos: a ação do mercado nacional.o.u
corno a forma correta de perceber, pensar e sentir com relação a esses internacional, que coloca para as empresas novos patamares de competltl-
problemas. Esta proposta foi por nós retrabalhada em outros textos (Fleury, vidade em termos de especificações e qualidade de seus produtos, ou
M.T., 1989) apontando a necessidade de politizar o conceito de cultura, ou serviços e de preço; a ação do Estado e suas políticas econômicas e s?ciais;
seja, observar como este conjunto de pressupostos básicos, expressos em a ação dos movimentos sociais pressionando por novas formas de llltera-
elementos simbólicos, em sua capacidade de ordenar, atribuir significa- ção.
ções, constmir- a identidade organizacional tanto agem como elemento de Entre as forças internas, as mudanças na cúpula diretiva da organização
comunicação e COnsenso como ocultam e instrumentalizam relações de (nas políticas mercadológicas, financeiras, de recursos humanos) ou nas
dominação. Em outras palavras, em nossa proposição, os fenômenos da formas de organização e gestão do trabalho podem provocar mudanças nos
cultura e das relações de poder no interior das organizações se encontram padrões culturais.
intimamente imbricados.
A adoção das novas técnicas de produção e dos chamados progr~m~s
Na medida em que uma organização se desenvolve no tempo, certos de qualidade implica em mudanças significativas nas empresas. Da ~r~pna
padrões de relações externas e internas, certas formas de resolver os noção de qualidade, como conformação a urna norma, ou a uma sene de
problemas vão se consolidando e tomando difíceis de serem questionadas. especificações a ser adotada pelo coletivo de trabalho, isto é, por tod?s os
As organizações mudam, mas as mudanças são quase sempre limitadas, funcionários, independentemente do nível hierárquico, da empresa (Huata,
rotineiras e há uma tendência à estabilização, notadamente de suas dimen- 1991) decorre o seu caráter potencializador de mudanças. Como o coloca
sões mais básicas. Hirata, o critério de qualidade é colocar o produtor diretamente diant~ ?o
Gagliardi, citado por Ferro (1991), identifica três tipos de mudanças problema da valorização, ou seja, a visualização da expressão do u.suan?,
culturais nas organizações: satisfeito ou não com o produto. Isto requer que o trabalhador esteja mais
integrado e partícipativo na definição e realização do que é pro~uzir co~
qualidade. As técnicas, os programas para se alcançar esta qualIdade sao
. 2. Um Se.minário Internacional sobre "Cultura organizacional e estratégias de mlldarJça~T relJniu
bastante variados, porém têm um ponto em comum: para alcançarem
dIversos pesqUIsadores que apresentaram lrabalhos sobre a questão da cultura dos gropos nas organi~ sucesso exigem mudanças profundas nas empresas, mudanças estas que
zações. A Revista de AdministraçãolUSP, abril/junho de 1991, reúne os papers apresentados neste impactam a cultura e as relações de poder vigentes.
seminário.

22 23
No Brasil, como em outros países, principalmente do Terceiro Mundo, estratégias da empresa. Em um primeiro momento essas intervenções
as tendências às mudanças no cenário político, econômico, social têm se tiveram algum sucesso, melhorando o clima organizacional, principalmen-
manifestado com cada vez maior intensidade. As transformações nas te no caSO dos CCQs. Entretanto, no que esse efeito se gastou e não se
regras do jogo do mercado internacional e nacional, com o fIm das reservas sucederam outras mudanças, reações conservadoras se manifestaram e a
de mercado, rompendo com situações oligopolísticas, as intervenções tendência foi para o fechamento e manutenção dos padrões vigentes.
"neoliberais" do Estado, a ação dos movimentos sindicais, questionando
O objetivo deste texto é procurar refletir sobre estes processos, bus-
condições e relações de trabalho, dos movimentos ecológicos, pressionan-
cando apreender o porquê, o como, o quando ocorrem mudanças, em que
do por novas ~ormas de. int:raçào com o ambiente, as novas tecnologias,
medida alteram os padrões culturais e as relações de poder no interior das
os novos arranjOS orgarnzaClOnatS caracterizam um cenário extremamente
mutável. organizações. Uma pesquisa realizada entre empresas industriais paulistas
propiciou o pano-de-fundo empírico necessário à discussão dessas ques-
A reação das empresas neste contexto tem se mostrado das mais tões.
variadas: algumas se antecipando. outras reagindo e outras se fechando.
As empresas que se antecipam são aquelas, segundo Schein (1990),
que desenvolveram uma cultura mais favorável à mudança e que, entre I. O PROCESSO DE INOVAÇÕES NO SISTEMA PRODUTIVO E
outros traços, apresentam os seguintes: consideram a atividade humana DE GESTÃO DE EMPRESAS BRASILEIRAS
provocat~va, orientada em direção à resolução de problemas, sendo a I'
,r
"

cooperaçao possível, orientação em direção ao futuro próximo, o ambiente 1. Considerações Metodológicas


é considerado como administrável e controlável, o pensamento integrativo
prevalece em.o~osição ao segmentalismo e a presença de agentes inova-
dores .em ,!J0slçoes de comando reforçando a capacidade de inovação da
orgamzaçao.
Entre as empresas brasileiras, algumas têm assumido de forma mais
Em um projeto de estudos sobre a difusão de novos métodos para
qualidade no Brasil e seus impactos sobre recursos humanos, foi feita uma
pesquisa entre 20 empresas industriais, paulistas e gaúchas, a maioria do
setor metal-mecânico, que vinham adotando, ou já haviam adotado pro-
gramas e métodos para qualidade e produtividade',
Ili '
i
con.sisten:e .a necessida~e de redefinir o conjunto de suas estratégias
melcadologrcas, financeIras, de produção ede gestão de recursos humanos, Em cada empresa entrevistou-se o diretor industrial, ou o responsável
para fazer frente às mudanças no cenário nacional e internacional. E como pela concepção ou implantação do projeto de inovação, o gerente de
isto envolv~ mudar padrões culturais, redefinindo relações de poder, os qualidade, gerente de produção, gerente de recursos humanos e superviso-
processos sao complexos, apontando múltiplas direções. . res.
Outras empresas, entretanto, respondem de forma pontual a essas Para fins deste texto, analisamos apenas as informações de empresas
f
I
dem~~das ~or mudanças, introduzindo inovações no sistema produtivo ou paulistas. Estas foram agrupadas tomando como referência a fase em que
admmrstratr:o, que não alteram substancialmente o seu modo de interagir estão com relação às mudanças pesquisadas:
com o ambIente e o seu padrão de relações de poder internas. Dois e empresas que pouco ou nada introduziram de mudanças no sistema
exe~plos nos parecem significativos a eSSe respeito: a criação dos CCQs produtivo e no sistema de gestão;
- CIrculas de Controle de Qualidade, no início dos anos 80, e a implantação
dos CEPs - Controle Estatístico de Processo no final da década. Em muitas .. empresas que introduziram mudanças e estão vivenciando um mo-
mento de retrocesso, em função de problemas diversos;
das empre~~s, estas inovações foram introduzidas como um pacote, com
fins especlfrcos e delimitados para resolver um problema: melhorar a • empresas que introduziram mudanças no sistema produtivo e no
comun.ic_ação interna (fazendo frente à penetração do movimento sindical) sistema de gestão.
e condrçoes de trabalho,. no caso do CCQ, melhorar o controle de qualidade, I~ I

no ~aso do CEPo Ou seja, representavam para essas empresas uma sinali- 3. o estudo em questão foi realizado para o IPEA. em 1991192. por uma equipe de pesquisadores
z~çao de mudanças, de modernidade nas relações de trabalho, ou no formada por Afonso Fleury (Poli/USP), John Humphcey (IDS-Univmidade de Sussex), M. Tereza I
sIstema de produção, porém de escopo limitado e descolada das demais Fleury (FEAlUSP), Roberto Marx (PolilUSP) e Robel1o Ruas (UFRS). O título do projeto t: "Recursos
humanos e a difusão e adaptação de novos métodos para a qualidade no Brasil"'.

24 25

I:
Saindo deste grupo, pesquisamos uma pequena empresa produtora de
1.1. As empresas à margem das mudanças componentes eletrônicos, que está passando por uma fase de redefinição
de todas as suas estratégias organizacionais e produtivas.
Das empresas pesquisadas, três se situam à margem das mudanças Há dois anos, a empresa estava em um estágio de pré-falência, quando
vivenciadas pelas demais. foi assumida por uma empresa multinacional, da qual era fornecedora.
São empr~sas peq~en~~ (entre 150 e 250 empregados), familiares, cujo Procederam a uma reorganização administrativa, com o enxugamento do
fundador, antlgo funclOnano de uma grande empresa, ainda se encontra à quadro de empregados.
fre?te do negócio (em um dos casos o fundador cedeu lugar ao filho, mas A empresa já tinha algumas iniciativas na área de programas de
o sistema de gestão continua familiar). qualidade; com a crise e posterior mudança no controle acionário redefiniu
. Fabricantes de autopeças, estas empresas entretanto fogem das indúS- suas prioridades em termos de diminuir custo para competir no mercado
tnas montadoras, procurando se situar em nichos de mercado em que são interno e externo e alcançar padrões de qualidade, com a certificação por
menos pressionadas pelos clientes, pela qualidade dos produtos. empresas clientes. Procurou reduzir o material em processo, introduzir o
CEP e está implantando a ISO 9000. Está também trabalhando com
Os métodos de produção e a tecnologia adotados são bastante conven-
indicadores como o índice de refugo e índice de rejeições pelos clientes.
cionais. Em. termos d~ introdução de métodos de controle de qualidade,
li.ma delas unha um SIstema de CEP "para inglês ver", ou seja, usava o Mudanças significativas podem ser percebidas nesta empresa com
s~stema somente nos dias de visita do avaliador do cliente. Em outra, o relação à gestão da mão-de-obra direta. No passado convivia com índices
SIstema começou a ser desenvolvido em um setor, antes do Plano Collor. de rotatividade de 5% ao mês - hoje está trabalhando para ficar na faixa
Três encarregados foram treinados em um curso promovido por uma dos 10% anuais. Mudou os requisitos para recrutamento e hoje procura
montadora e começaram a implantar o CEP, com dificuldades e adapta- selecionar apenas pessoas (na maioria do sexo feminino) com primeiro
ções, em um determinado setor. O programa entretanto ficou bastante grau completo, ou seja, pessoas com a formação básica necessária para
comprometi~o,,q~ando, por ocasião de uma greve, convocada pelo Sindi- acompanhar as mudanças no sistema produtivo. Está investindo no treina-
cato, este fOI o umco setOr que parou completamente, indicando o descon- mento desta mão-de-obra com cursos de CEP, matemática, interpretação
tentamento dos operários com o novo sistema. Após o Plano Collor o de desenhos.
sistema foi desativado. ' De urna situação próxima às empresas do primeiro grupo, esta empre-
São empresas que trabalham com altas taxas de rotatividade (em tomo sa, impulsionada por uma crise que ameaçava sua própria sobrevivência,
de :?% ao ano) sendo a maioria por demissão voluntária por causa de está procedendo a mudanyas significativas, chegando mesmo a redefinir
saIano ou desavenças. Não há investimentos em treinamento e as iniciati- seus padrões culturais. É interessante observar como, no bojo destas
vas de envolvimento dos operários com programas da empresa (higiene e mudanças, o papel desempenhado pela mão-de-obra direta começou a ser
segurança no trabalho) são encaradas com ceticismo. questionado e novas relações de poder desenhadas.
A ~ível do d!scurso, os dirigentes destas empresas concordam com a
necessldad_e de vlre~ a modernizar seus métodos de produção e a equacio- 1.2. Os avanços e os retrocessos
nar a ques.ta~ d~ q~aIId~de. Mas a sua prática cotidiana é pautada pela busca
d: sobrevlvencla ImedIata, naqueles nichos de mercado onde as exigências Duas das empresas pesquisadas, de setores bastante diferentes - auto-
sao menores.
EI.l termos de padrões de relações de trabalho adotam o modelo da
peças e calçados - estão vivenciando momentos de transição difíceis,
marcados por retrocessos em relação a desenvolvimentos e conquistas
anteriores.
l
década de 70, em que a rotatividade e a não-qualificação de mão-de-obra
A empresa do setor de autopeças pode ser caracterizada como uma I
direta mantêm b.aix.os os custos de pessoal. A única diferença é a pressão I
empresa de grande porte (1500 empregados), que durante a década de 80
e~erCIda pelos slndlc~tos para o cumprimento mínimo dos acordos nego-
Ciados com a categona, o que não ocorria há anos atrás. procurou se posicionar estrategicamente para enfrentar as mudanças no (
mercado. !

26 27 I
'I

11.
·I.'~"-,,*""'---"'!"'"

Implantou-se assim um Centro de Pesquisa e Desenvolvimento, foi penetrar no mercado internacional, com padrões de qualidade e custos
fundada uma empresa subsidiária para produção de equipamentos mÍcro- compatíveis.
eletrônicos (CLP; Controladores L6gicos Programáveis) e houve esforços
no sentido de introduzir vários programas como CCQ. m, CEPo É interessante observar que estas mudanças tenderam mais para o lado
organizacional do que técnico, enfatizando a criação de estratégias parti-
Entretanto, a crise que se abateu sobre o setor, com a abertura às cipativas e políticas de gestão que viabilizassem o comprometimento dos
importações e fim de um posicionamento oligopolístico no mercado, não empregados com suas metas de qualidade e produtividade.
encontro~ a empresa realmente preparada para enfrentar os novos tempos.
As p~ssoes das montadoras por qualidade e preço têm sido duramente Os diretores implantaram o CCQ, formas de controle de qualidade pelo
negocl a~as pela empresa, que solicita prazos para enfrentar a concorrência grupo de operadores, realizaram altos investimentos em treinamento de
estrangeIra. todos os lÚveis de empregados, introduziram o pagamento do abono
coletivo, em vez de pagamentos individuais. Em termos de mudanças no
Das mudanças int:0duzidas, houve vários retrocessos; os dirigentes sistema produtivo, implantaram o CAD (Computer Aided Design), o
f~ch~am a planta fabncante de CLP, desativaram os CCQs. reduziram e sistema de células de produção para determinadas atividades e planejamen-
slmpltficaram ~s CEPs, TPMs (Total Productivity Maintenance) e traba- to e controle da produção computadorizados.
lham com um SIstema TIT parcial.
Com a crise no mercado externo e no mercado interno, caiu o fatura-
. D~as ~p,óteses explicativas podem ser levantadas justificando esta mento da empresa, surgindo controvérsia, a nível da cúpula administrativa,
sltuaçao, hipoteses estas que têm a ver com a estratégia organizacional se estas estratégias de modernização técnica e administrativas seriam as
adotada pela empresa.
mais adequadas para os novos tempos. Em meio à crise a empresa realiza
A primeira diz respeito às políticas de gestão de recursos humanos denússões, contrariando seus princípios de procurar estabilizar a mão-de-
q~e não foram equacionadas para acompanhar o mesmo ritmo das moder~ obra, desativa alguns programas e o diretor, idealizador de toda a estratégia
n~z.ações nas áreas téc~cas. A visão do empresário e dos principais participativa, se demitiu.
dIngent~s sobre o operanado é bastante negativa: são indolentes, pregui. A ala mais conservadora da diretoria familiar propõe que a empresa
çosos, nao querem se fixar no emprego, ganham pouco mas custam muito. saia do mercado internacional, voltando-se para a produção de calçados de
,?onvi~e as.sim com altos índices de rotatividade (superiores a 20% baixo custo, para o mercado interno. O outro grupo defende a continuidade
anuaIS), baIXOS Investimentos na mão-de-obra direta' o setor de treinamen- da estratégia de modernização adotada.
to foi in.c1~sive desativado após o Plano Collor e nã~ se tem previsão para O caso destas duas empresas ilustram como os processos de mudança
reorg~mza-lo. !:ffi enfrentado problemas com os sindicatos da região, por não ocorrem em uma única direção e podem sofrer avanços e retrocessos
questoes salanalS e pelas demissões em massa. Utiliza muito -mais o em função das crises externas e internas.
recrutamento externo do que o interno para preencher os postos mais
qualificados na empresa. O ponto diferenciador entre elas diz respeito ao tipo de estratégia de
mudança adotada, ou seja, em que medida privilegia-se mais o lado técnico
n:
U a outra hipótese. complementando a primeira, se refere à estrutura do que o lado organizacional, ou se define uma estratégia mais equilibrada.
de g~stao ad~tad~ pela empresa. Os cargos diretivos são ocupados pela No primeiro caso a ênfase nas mudanças técnicas no sistema produtivo,
f~mt1~a pr~pfletári~da f'tnpresa e a média gerência é formada por profis- COm um sistema bastante conservador de gestão e de relações de trabalho,
SlOnats. ~ lll~~duçao das mudanças na década de 80 complexificou mais não produziu os resultados esperados e na crise a empresa está experimen-
d~ que slmphfrcou o processo produtivo: o corpo gerencial e diretivo não tando um retrocesso sério. Na segunda empresa, em que as estratégias
fOI preparado e capacitado para enfrentar um ambiente turbulento de foram formuladas de forma mais equilibrada, definindo-se uma cultura
mudanças internas e externas. mais voltada para inovações, as possibilidades de retrocesso total são mais
A outra empresa, do setor de calçados, pode ser caracterizada como remotas.
uma. empres~ de grande porte (1200 empregados) que, durante a década de
80, rntroduZIu uma série de mudanças técnicas e organizacionais, para

28 29
1
e investiram significativamente em treinamento, inclusive da mão-de-obra
direta.
1.3. As mudanças mais consolidadas
São empresas que estão enfrentando os desafios da concorrência
O denominador comum às empresas situadas neste último grupo é o nacional e internacional, as exigências sempre crescentes das empresas
,. grau de maturidade das mudanças introduzidas nos sistemas de produção clientes, incorporando a idéia de inovação no seu cotidiano. Ou seja, são
~i

l:i e gestão. São empresas que iniciaram seus processos de mudanças há uma empresas que incorporaram a flexibilidade para tentar, para mudar, como
fi década, percorrendo caminhos e encontrando soluções para seus impasses um padrão cultural, sem alterar entretanto, significativamente, as relações
;! bastante diferentes, mas que, de um modo geral, se encontram numa de poder vigentes.
posição mais consolidada em relação às demais. Houve uma mudança na postura com relação à mão-de-obra direta,
O elemento comum detonador das mudanças foram as exigências do considerada importante para o êxito dos programas; as políticas de recursos
mercado: internacional para o caso de certas empresas e nacional, repre- humanos refletem esta postura: os investimentos com treinamento são
sentado pelas indústrias montadoras, ou por outras indústrias, no caso das elevados e o sistema de recompensas procura fixar os trabalhadores à
demais. empresa.
A escolha das estratégias de mudanças foi bastante variada, assim Não se procurou, entretanto, definir estratégias participativas que
como os caminhos percorridos e o timing de cada processo. visassem o comprometimento dos trabalhadores com os programas. Os
gerentes de recursos humanos entrevistados mencionaram que este seria
Três das empresas pesquisadas são do setor de autopeças, de médio
para grande porte. Duas das empresas são subsidiárias de empresas multi-
um passo interessante a ser dado, mas p.or enquanto fica para. os plan~s I

II
futuros. Ou seja, a estrutura de poder fOI pouco mudada pela lOtroduçao
nacionais e receberam forte influência das matrizes no processo de intro-
dução de inovações. das inovações no sistema produtivo.
Uma outra empresa pesquisada, nacional, de médio porte, do setor
A empresa nacional é a que se encontra em estágio mais avançado nos II
programas de qualidade e produtividade, tendo iniciado suas primeiras metalúrgico destacou-se deste grupo pela estratégia adotada.
tentativas ainda nos anos 70, por pressão da indústria automobilística, que Seu processo produtivo é relativamente simples e a introdu~ão .de
visava colocar seus produtos no mercado internacional. programas de qualidade e do sistema JlT-K.anbam acontec.eu na pnme~ra
metade da década de 80, por pressão dos chentes e necessidade de racIO-
É interessante observar que nos três casos as inovações tiveram um
caráter eminentemente técnico, centrado no setor produtivo, com ênfase nalizar o uso do espaço físico disponível.
no binômio qualidade/custo. Implantaram o CEP, células de prod.ução, o Em um processo bastante gradual de mudanças, a empresa foi retirando
sistem lTT-Kanbam, conseguiram reduzir o tempo de set-ap e estão intro- os inspetores de qualidade de algumas áreas da fábrica e introduzindo testes
duzindo a norma da ISO 9000, principalmente por exigência das monta- de qualidade pelos trabalhadores com dispositivos bastante simples. Co~
doras. a implantação de um sistema também simplificado de Kanbam, conseg~l­
ram diminuir os estoques e o {ead-time (tempo entre uma ordem ser aceita
A introdução de cada uma destas técnicas foi feita por tentativa e erro.
e o produto estar pronto para ser enviado).
Duas delas relataram que estão acertando a implantação do CEP na terceira
tentativa, com um enfoque mais seletivo, ou seja, implantado a técnica Estas mudanças foram precedidas por intensas campanhas de cons-
naqueles setores em que isto se mostra interessante, com programas cientização e mobilização de todo o quadro de empregados. Foram feitos
pilotos, deixando de lado as propostas de mudanças radicais da planta programas de treinamento desde os trabalhad?res diretos ~té os ge:entes,
inteira. A criação de sistemas de indicadores que pernúta avaliar o êxito com uso de recursos internos e ex:temos; f 01 dada atcnçao espec13l aos
ou fracasso de cada tentativa é peça essencial do processo. supervisores, cujas funções e poderes fora~ bastante reduzidos ~om ~~tas
novas práticas. Foram introduzidos tambem grupos de melhoria, vlsltas
Em teanos de mudanças organizacionais, reduziram níveis hierárqui-
dos operários às fábricas clientes, principalmente quando ocorrem recla-
cos, eliminando cargos de supervisão, procuraram estabilizar o quadro de
mações, para que todos se envolvam com a discussão e solução dos
pessoal, trabalhando com índices de rotatividade inferiores a 10% ao ano
problemas.

30 31
Criou-se um sistema de "abono eficiência", isto é, um bônus mensal política de recursos humanos vem, desde os anos 80, procurando valorizar
o seu pessoal, investindo na educação básica, no treinamento e na manu-
pago aos empregados, baseado na eficiência global da planta.
tenção de todo o quadro de empregados; o índice de rotatividade é abaixo
Vem-se investindo também na estabilização do corpo de empregados dos IÚ% anuais. Os investimentos em treinamento são elevados, tantoem
(seu índice de rotatividade é inferior a 10% ao ano) desincentivando até as programas de cunho comportamental, como técnico. As áreas de treina-
demissões voluntárias. mento e programação e controle da produção têm trabalhado em conjunto
Nesta empresa, diferentemente das anteriores deste grupo, as mudan- em termos de desenvolvimento de programas e de sistemas de avaliação
ças introduzidas no sistema produtivo e no sistema de gestão provocaram de resultados, que levem em consideração indicadores de produtividade e
não apenas mudanças em certos padrões culturai s, de uma empresa fechada qualidade. I (

para uma empresa mais aberta, monitorando de perto o mercado, mas Na empresa multinacional, as mudanças no sistema produtivo e de
também mudanças nas relações de poder, no espaço que a mão-de-obra gestão foram iniciadas na década de 80, fortemente impulsionadas por um
direta começa a ocupar nas estratégias da empresa. diretor industrial entusiasmado com o modelo japonês. A empresa foi
Duas outras empresas de grande porte - uma nacional, no setor introduzindo, ao longo dos anos, o CEP, o sistema JIT-Kanbam e células
metalúrgico, de relaminação de aços, e outra multinacional, no setor de de manufatura; está criando também uma categoria de operários poliva-
telecomunicações - apresentaram os casos de estratégias de mudanças lentes, treinados para se movimentarem por uma gama de postos de
mais consistentes, equilibradas e consolidadas. trabalho. Está implementando também os procedimentos da ISO 9000.
Nos dois casos, as mudanças se originaram por pressões do mercado Procedeu à redução de níveis hierárquicos, eliminando níveis de
intemacional e do mercado nacional, representado pela indústria automo· supervisão e de gerência. Vem procurando ter um quadro est~v~l de
bilística. pessoal, embora ainda trabalhe com índices elevados de rota~lvldade
(superiores a 20% anuais); tem feito investimentos elevados em tremamen-
Na empresa nacional, as mudanças se iniciaram ainda na década de 70,
to de pessoal, tanto para o pessoal operacional, como técnico e gerencial.
com a passagem do comando da empresa do fundador para seus filhos,
quando foi encetado um processo de mudança organizacional, buscando A empresa vem procurando modernizar seu sistema de comunicação
sair de um estilo de gestão paternalista e centralizador para um estilo mais intemo, introduzindo práticas como o "café com o chefe", política de
participativo. Foram então sendo introduzidos os projetos: CCQ, Planeja- "portas abertas" e outros programas, visando maior envolvimento de todos,
mento Estratégico Participativo (envolvendo até o nível de supervisores) em um estilo de gestão mais participativo.
e programas de qualidade. Observamos assim que nestas empresas as mudanças foram sendo
O Projeto de Produção com Qualidade foi sendo implantado de forma introduzidas de forma gradual, porém transformando de forma significa-
gradual, com acertos e erros. O CEP, por exemplo, foi planejado para ser tiva os padrões culturais e relações de poder existentes.
introduzido em toda a fábrica. Os dirigentes treinaram todos os operadores,
procuraram implantá-lo, mas verificaram que para certos setores não era
interessante a sua aplicação e em outros sim. Estão atualmente infonnati· lI. AS MUDANÇAS NOS PADRÕES CULTURAIS E NAS
zando todo o processo de controle da produção e de qualidade e introdu- RELAÇÕES DE PODER
zindo os procedimentos da ISO 9000. A análise, de uma amostra ainda que bastante limitada de empresas,
Além disto, conseguiram reduzir o tempo de set-up, implementaram possibilitou mapear as diferentes estratégias adotadas para enfrentamento
esquemas de manutenção preventiva, procurando racionalizar todo o sis- de um cenário de mudanças e crises, característico do Brasil atualmente.
tema produtivo. Têm tido dificuldades para implantar o sistema JlT com
As estratégias variaram desde o fechamento e busca de nichos de
seus fornecederos (na maioria empresas estatais) mas trabalham neste
mercado pouco competitivos, às mudanças pontuais, de implantação de
sistema com empresas montadoras clientes.
uma ou outra técnica de produção ou gestão, às propostas de mudanças
A empresa vem investindo há muitos anos na modernização de seu mais profundas e consistentes com as estratégias gerais da empresa.
sistema de gestão, reduzindo níveis hierárquicos, redefinindo atribuições
de departamentos e cargos, adotando a estratégia de focalização. A sua

33
32

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Se estas mudanças provocaram verdadeiras revoluções culturais nas
empresas pesquisadas, os dados levantados não possibilitam tal análise;
observamos, porém, que, em todos os casos em que os projetos de mudança
foram encaminhados de forma continuada, com êxitos e fracassos, mudan-
ças culturais incrementais ocorreram.
Entre as mudanças culturais, envolvendo as relações de poder existen-
tes nas empresas, a nosso ver, merecem especial atenção as que se referem REFERÊNCIAS
à participação e envolvimento dos trabalhadores nos processos de mudan-
ça. Uma tipologia proposta por Coriat (1991), sobre as formas de envolvi-
BIBLIOGRÁFICAS
mento dos trabalhadores, é a esse respeito interessante. Segundo este autor
é possível identificar três tipos de envolvimento:
e O envolvimento imposto e controlado, como uma fonnade controle
social baseada na organização do trabalho e que consiste em um
endurecimento dos métodos antigos e seu reforço pela tecnologia. A
flexibilidade é imposta por meio de controle externo e o trabalho é
rotinizado e parcelizado. O CCQ pode ser utilizado, mas o autor duvida
que produza resultados para obtenção de qualidade;
.. envolvimento estimulado: o trabalho é reorganizado segundo os
CORIAT Benjamim. Du fordisme au post-for~isme, ~ne décennie de
princípios da flexibilidade e multifuncionalidade. Para se obter o
comprometimento dos empregados com a produtividade e qualidade mod;misation. quels modeles socio-productifs? ParIs: CNRS, 1991.
são oferecidas trocas ("trade-offs"). Mas o itens trocados como: esta- FERRO, José Roberto. Decrifrando culturas organizacionais. São Paulo,
bilidade de emprego, salários, bônus dependem sempre do desempe- 1991. Tese (dout.) EAESPIFGV.
nho do trabalhador e nunca são claramente negociados. Encoraja-se FLEURY, Maria Tereza. O desvendar a cultura de uma organ~zaç~o: u~a
fortemente o envolvimento dos empregados, porém os gestores retêm discussão metodológica. In: CULTURA e poder nas organlzaçoes. Sao
um poder quase discricionário;
Paulo: Atlas, 1989.
co envolvimento negociado: o padrão de organização do trabalho é o
HüFSTEDE et ai. Measuring organizational cul,tu.res: ~ qual~tative and
mesmo que no tipo anterior, porém o "trade-off' é explicitamente quantitative study across twenty cases. AdmlmstratLVe selence Qua-
negociado e faz parte de acordos coletivos.
terly, v. 35, n. 2, 1990.
A maioria das empresas brasileiras, até a última década, trabalhavam
HIRATA Helena. Organização do trabalho e qualidade industrial: notas a
segundo o esquema do envolvimento imposto e controlado. Hoje, com
partir' do caso japonês. São Paulo: Revista do Instituto de Estudos
todas as pressões por mudanças, estão caminhando, umas mais rapidamen-
te e outras com muito mais vagar, para a estratégia de envolvimento AvançadosIUSP,1991.
estimulado. _. Organizational culture. American Psychology, v. 45 n. 2,1990. .
É preciso ressaltar, entretanto, que mesmo este envolvimento estimu- SCHEIN, Edgar. Organizational cullure and leadership. São FranCISco:
lado implica numa mudança significativa na postura em relação ao traba- Jossey Bass, 1985.
lhador. O poder continua ainda bastante concentrado na cúpula diretiva da SAINSAULTEU, R. Sociologie de l' o,.ganizatio~et de l' en~~eprise. Paris:
empresa, porém mudanças nos padrões de relações de trabalho se fazem
sentir fortemente.
Presses de la Foundation Nationale des SClences polltlques-Dalloz,
1987.
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Quanto ao envolvimento negociado, apenas as duas últimas empresas \
analisadas, sendo que uma com tradição de negociações sindicais mais I
consolidadas que a outra, parecem caminhar nesta direção.
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34 35
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1. AS NOVAS TENDÊNCIAS ORGANIZACIONAIS

MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGICA E RELA- 1.1. As técnicas japonesas de organização do trabalho


ÇÕES DE TRABALHO Grande parte dos estudos que têm se dedicado à análise das caracte-
rísticas das novas fonnas de organização do processo de trabalho têm
chamado a atenção para o esforço que o patronato brasileiro vem fazendo
Mdrcia de Paula Leite' no sentido de introduzir as técnicas e métodos japoneses de organização
da produção, como o just-in-time, Kanbam, kaizen, organização celular,
controle estatístico de processo, sistemas participativos, CCQ, TQC etc.
Os estudos .recentes ~obre o processo de modernização tecnológica têm Embora o processo de modernização tecnológica do parque industrial
destacado a ImportâncIa que vêm adquirindo as inovações organizacionais brasileiro venha sendo lento e indicando um envolvimento muitas vezes
na estratégia de modernização das empresas. dúbio das empresas, seja devido às condições macroeconômicas do país,
seja em virtude das dificuldades inerentes aos próprios programas de
Co~ efeito, tud? indica que após uma fase inicial em que os esforços
modernização (Fleury e Humphrey, 1992), a difusão das técnicas japonesas
modernlzadores es~veram concentrados na aquisição de novos equipa-
vem sendo significativa e é um dado inquestionável.
mentos.. . o empresanado começou a se dar conta de que a reorganização da
produçao se ~presentava como uma questão fundamental, seja porque os Antes de passannos, entretanto, à discussão de como essas técnicas
nov~s concelt~s de produção apoiados nos princípios da flexibilidade, vêm sendo introduzidas no país, seria necessário elucidar seu significado,
qualtdade e rap~dez d? processo produtivo exigiam fonnas de organização o que nos remete para a discussão das características da indústria japonesa
do ~rabal~o maIS ágeIS e menos rígidas do que as que predominavam até atual.
entao, Seja porque as n.o~as fo~as de organização do trabalho logo se A proposta, entretanto, não é simples, tendo em vista que a primeira
mostraram corno centraJS meIusIve para a garantia de uma utilização mais dificuldade para se trabalhar nesse sentido diz respeito às controvérsias
eficaz dos novos equipamentos (Fleury, 1988' Abramo 1990- Liedke sobre a compreensão de quais seriam as características determinantes do
1991). ' " , "modelo japonês"'. Para alguns, como Piore e Sabel (1984), o Japão se
apresentaria como um exemplo do novo paradigma industrial, baseado na
Essa realidade tem alçado a primeiro plano as preocupações com as
especialização flexível que, ao contrário do paradigma tayloristaJfordista,
transfonnações qu~ vê~ ocorre.ndo nas f-orrnas de organização do processo
se assentaria na produção diversificada e em pequenos lotes e na utilização
de trabalho, as quais vem ensejando uma grande quantidade de. trabalhos
de uma mão-de-obra qualificada e multifuncional, mais adaptada a desen-
sobre o te_ma.. A rela.ç~o entre.as. novas formas de organização do trabalho
volver diferentes tarefas e a responder aos constantes problemas que a
~ as relaçoes mdustnals constltUlu-se também rapidamente num dos temas
produção variada coloca para as empresas. Para outros, contudo, a organi-
Importa~te~ da d~scussão, ainda que a produção a esse respeito seja muito
menos slgmficatlva. zação japonesa do trabalho se apresentaria mais corno um "fordismo
híbrido" (Boyer, 1989) na medida em que pode-se identificar uma série de
. Este. tex~o pretende ser uma contribuição a essa reflexão a partir da aspectos em que características da organização fordista do trabalho se
slstematlzaçao de estudos anteriores que de urna forma ou de outra têm mantêm. Ferreira et alo (1991) sublinham, por exemplo, nesse sentido a
trabalhado a questão. busca do aumento da produtividade através da supressão dos poros da

l. Tal como Ferreira et alo (1991) utilizamos aqui o tenno "modelo j:aponês" como a expreSS;lO
de um conjunto de earacteristieas que tendem a predominar naS fonuas de organização do lrabalho
* Professora da Faculdade de Educação da UNICAMP e colaboradora do LABORJInslitulo Ed utilizadas nas indústrias japonesas. Não significa. nesse sentido~ a existência de um "modelo" único e
S~~. ~ acabado e nem muito menos de algo passlvel de ser transposto tal e qual a outros países.

36 37
jornada de trabalho e da intensificação do trabalho que caracterizam o
taylorismo/fordismo. 1.2. A difusão dos métodos japoneses no Brasil
É necessário considerar também que há autores que têm chamado a
atenção para o fato de que não há uma única estratégia definidora da Iniciando a discussão pelas técnicas que têm sido mais difundidas no
indústria japonesa e de que as empresas diferem significativamente na Brasil, valeria destacar o just-in-time, associado às células de manufatura
maneira de responder aos desafios colocados pelo mercado. Esta é, por e os programas participativos, ou de envolvimento dos trabalhadores.
exemplo, a posição de Humphrey (1990, para quem há, no entanto, alguns O just-in-time consiste num instrumento de controle da produção
princípios gerais que parecem guiar as empresas japonesas, especialmente baseado no propósito de atender a demanda com a maior rapidez possível
aquelas que produzem grandes volumes de produtos discretos. Nesse e de minimizar os estoques de matéria-prima, bem como os intermediários
sentido, mais do que um modelo, teríamos alguns princípios de elevação e finais. Para tanto, assenta-se num sistema de informações preciso que
da eficiência e produtividade que estariam levando a indústria japonesa a estabelece o momento exato, o material exato e a quantidade exata de
disseminar um conjunto de métodos e técnicas de produção, os quais o produção.
autor resume nos seguintes itens: O sistema pode envolver a relação da empresa com fornecedores e
a) Centralização no produto. As firmas japonesas tendem a enfatizar o consumidores (just-in-time externo) ou apenas as várias etapas da produ-
produto final, mais do que o processo de produção, o que as leva a ção que têm lugar no interior das empresas (just-in-time interno).
priorizar o atendimento do cliente em termos de qualidade e de prazos O just-in-time externo tem tido pouca difusão na indústria brasileira I
de produção e buscar uma maior integração das várias atividades da em virtude de uma série de dificuldades que vão desde problemas de I
empresa, desde o projeto e a produção até às vendas. qualificação e desenvolvimento dos fornecedores, a instabilidade da eco-
b) Eliminação do desperdício. Baseado na eliminação dos obstáculos, este
princípio se baseia no tempo que as peças e materiais passam dentro da
nomia brasileira e a dificuldade que as empresas enfrentam para trabalhar
com planos de prazos mais longos até a falta de condições do comprador I
l
fábrica; no tempo que os materiais levam para serem trabalhados em para a viabilização do processo, e a estrutura oligopolizada da economia
relação com o tempo que eles gastam dentro da fábrica; e na distância brasileira que toma freqüente a produção de insumos intermediários por
percorrida pelos materiais dentro da fábrica. Esse princípio leva natu- um único fornecedor, gerando grande vulnerabilidade da produção em caso
2
ralmente ao just-in-time que pode ser definido como "a produção da de interrupção do fomeciment0 • I
quantidade certa, com a qualidade correta, no momento preciso em que Já o just-in-time interno baseia-se na integração das várias etapas da
foi requerida" (Humphrey, 1991: 4).
produção no interior de uma mesma empresa, a partir das necessidades
c) Tentativa e erro. O processo produtivo é compreendido como um
processo que admite a melhoria contínua e o uso de práticas experimen-
tais no chão da fábrica, os quais requerem a cooperação dos trabalha-
colocadas pelas vendas. O fluxo de produção passa, nesse sentido, a ser
puxado de trás para frente, com a operação subseqüente pressi~nando a I
precedente e, em geral, utilizando-se do Kanban (indicador VIsual em
dores e uma atitude adequada da gerência. forma de cartão ou de placa) que transmite a infonnação sobre a produção
Ainda de acordo com Humphrey esses são princípios que definem os necessária de uma etapa a outra. A tendência é de se produzir os menores
objetivos da produção japonesa, mas não os métodos que devem ser lotes possíveis de forma a propiciar que ernerjam os problemas anterior-
empregados para alcançá-los. Nesse sentido, não há uma única estratégia, mente mascarados pelos estoques. O sistema vem se difundindo rapida-

I
ou método, mas um conjunto deles que podem ou não ser empregados de mente no país entre as indústrias de produção seriada, especialmente na
acordo com as características e necessidades de cada empresa (Humphrey, metal-mecânica e indústrias de montagem, onde tem vindo associado ao
1991: 5). sistema de células de fabricação e à tecnologia de grupo.

I
2. Já não são poucos os casos encontrados de empresas que tíveram SU~ produção paralisada em I,
função da inteoupção de fornecimento de insumoS, por exempJo, por mOtIvo de greve na empresa
fornecedora.

I
I

~ I
39
38

..
As células ou ilhas de fabricação constituem-se, por sua vez, numa cita Salemo (1985: 195), "ao reduzir lotes em processo, a qualidade de
forma de organização da produção em que as máquinas são dispostas em conformação da fábrica fica mais exposta, toma-se mais difícil esconder
grupos de forma a acompanhar o fluxo das peças. Substituindo o arranjo peças inadequadas e chega-se mais facilmente à origem dos problemas.
funcional (no qual as máquinas são agrupadas segundo os tipos), essa nova Quem produz é responsável por aquilo que faz, sendo que quanto menos
forma de disposição dos equipamentos prescinde inclusive da tecnologia pessoal não ligado diretamente à produção, à atividade de transformação,
mÍcroeletrônica, podendo ser utilizada com qualquer tipo de máquina. Sua melhor. Assim, agregam-se às tarefas de operação certos tipos de inspe·
evolução lógica, entretanto, pressupõe a introdução dos equipamentos ção".
computadorizados e a constituição dos sistemas flexíveis de manufatura Da mesma maneira, vale destacar a integração da manutenção preven-
(FMS) que consistem na formação não só de células baseadas em máqui- tiva na produção, na medida em que as tarefas de rotina relacionadas à
nas-ferramenta a comando numérico computadorizadas, como na integra- manutenção de equipamentos como limpeza, lubrificação e troca regular
ção com o departamento de métodos e processos, o que permite que sejam de peças e materiais vem sendo transferida dos manutentores para os
monitoradas à distância através de terminais de computação (CAM).
próprios operadores (Leite, 1990).
Embora o sistema de células venha se difundindo rapidamente entre Convém salientar ainda a difusão dos programas participativos, ou de
as empresas, são ainda muito raros os FMS. Segundo Fleury e Salemo envolvimento dos trabalhadores, entre os quais se destacam os CCQ i
(1989: 29), o maior e mais famoso é encontrado numa empresa que produz (Círculos de Controle de Qualidade). Estes, embora já tenham sido anali- ! I

um único produto com altos tempos de ciclo de produção, não se conhe- sados (Freyssenet e Hirata, 1985) como não se constituindo num aspecto
cendo até o momento nenhum tipo de instalação "que aceite chegada organizacional (na medida em que se configura como uma estrutura
aleatória de ordens de produção e que seja monitorada à distância por paralela que não interfere na organização do trabalho das empresas),
terminais de computador.
também têm sido apontados (Schõnberger, 1984: Escrivão Filho, 1987)
Todavia, apesar de não terem avançado muito no sentido da integração como parte integrante dojust-in-time. Conforme esclarece este último, no
com os escritórios, esse tipo de organização da produção vem permitindo Japão, os CCQ nascem no contexto do surgimento do just-in-time e de uma
diminuir bastante o lead time das peças, na medida em que, dada a ampla campanha ideológica pela qualidade que tomou conta do país nos
integração entre as máquinas de cada célula, elimina-se o tempo que as anos 50 e 60. Nesse sentido, eles estariam integrados a uma filosofia central
peças têm que normalmente aguardar nas prateleiras para poderem ser das novas fonnas de organização do trabalho, que consiste na preocupação
usinadas em cada máquina, viabilizando também uma sensível redução dos com a qualidade.
estoques intennediários. Convém destacar que o grupamento celular im- Qualquer que seja, entretanto, a compreensão a respeito de sua relação
plíca também, em geral, urna intensificação do trabalho, já que normal- com a estrutura organizacional, existe um certo consenso no sentido de I
mente vem associado à prática de destinar mais de uma máquina (podendo que, além dos objetivos técnicos relacionados à melhoria da qualidade e à
,~\

chegar até ao conjunto de máquinas de cada célula) a um mesmo operário. economia de custos, os CCQ têm também um objetivo ideológico expresso
É importante lembrar que o grupamento celular vem sempre acompa- na busca gerencial de envolver os trabalhadores com as metas das empresas
nhado da tecnologia de grupo, que se baseia no agrupamento das peças a e criar uma identidade entre a direção e os operários (Freyssenet e Hirata,
partir de sua similaridade geométrica e seqüência de processamento e na 1985: 6). Nesse sentido, os círculos podem ser entendidos como comple-
destinação do mesmo grupo de peças às mesmas máquinas, diminuindo mentos importantes do sistemajust-in-time, na medida em que ele aumenta
significativamente o tempo de preparação dos equipamentos. a vulnerabilidade a que as empresas ficam expostas face à organização e
Seria importante ressaltar que a organização do trabalho baseada nos mobilização dos trabalhadores com a diminuição dos estoques, tornando-
princípios do just-in-time e na organização celular vem sendo quase as, nessa medida, mais dependentes da colaboração do coletivo de traba-
sempre acompanhado pela utilização do CEP, que consiste na integração lhadores.
do controle de qualidade à produção. Baseando-se "na utilização de Ainda que os esforços empresariais no sentido da implementação de
conceitos básicos de estatística (média e desvio padrão), no controle de programas participativos no Brasil tenham sido bastante significativos, a
qualidade de cada operação e em cada posto de trabalho" (Neto, 1989: 3.3), difusão dos círculos de controle de qualidade se mostrou bastante proble-
de forma a facilitar que ele possa ser feito pelos próprios operadores de mática na década passada, tendo em vista o caráter conflitivo õas relações
máquina, o CEP está intimamente ligado ao just-in-time. Conforme expli- de trabalho no país e a resistência das empresas em ampliar a participação

40 41
dos trabalhadores nas decisões relativas ao processo produtivo. O fracasso e supervisores e apontava o risco de que os objetivos iniciais do CCQ
da primeira onda de introdução dos círculos nos anos 80 não significa, estivessem sendo defonnados em nosso país.
entretanto, que o patronato não continue investindo em programas partici-
pativos. As dificuldades por que passavam os CCQ no Brasil foram também
consideradas por Salemo (1985) que sublinhou a pequena abrangência dos
assuntos tratados nos grupos (sendo a maior parte deles relacionados a
2. NOV~S FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO E problemas de custo), assim como a resistência dos sindicalistas aos pro-
RELAÇOES INDUSTRIAIS gramas e as denominações pejorativas que eles comumente davam aos
círculos como forma de desvalorizá-los frente ao conjunto dos trabalhado-
Se a difu~ã? das técnicas e métodos japoneses de produção nas res. Em estudo mais recente o autor chamava também a atenção para a
empres~s brasl1elras ?ode s~r considerada como um dado inquestionável, tentativa empresarial de utilização dos CCQ como forma de disciplinari-
na med~da em que e atraves deles que O empresariado vem buscando zação da iniciativa operária, apontando a ocorrência de "casos de altera-
modernJzar suas empresas, a discussão sobre a forma como essas técnicas ções no método de trabalho por iniciativa operária que, apesar de terem
vêm sendo introduzidas em nossas empresas, entretanto é bastante com- tomado a produção mais eficiente, foram revogados pela engenharia de
p!e~a e é ~reci.samente neste ponto que a questão da modernização tecno- métodos dado que o processo se deu fora de seu controle" (Salemo, 1991:
loglca se 1mbnca com a das relações de trabalho. 10).
O balanço da bibliografia especializada sugere claramente desde o Na mesma linha de considerações encontra-se o trabalho de Carvalho
início uma opção do e~pr~s~ado brasileiro por uma modernização con- (1987), que ressaltava a vinculação dos CCQ em uma grande montadora
servadora, na qual as 11llclatlVasde reorganização do trabalho tendiam a de automóveis à hierarquia da empresa e seu controle pelos técnicos e
manter características importantes da organização. taylorista/fordista do supervisores, bem como a contradição presente na indústria automobilís-
tr:ab~lho como a co?centração do planejamento e concepção nas mãos dos tica brasileira, na medida em que o objetivo dos CCQ "em conquistar a
tecmcos e engenheiros e a centralidade do trabalho individualizado e em confiança e o interesse dos trabalhadores entra em conf1i(ó com a manu-
t:.mpos impostos. Do mesmo modo, a literatura apontava para a manuten- tenção da linha fordista como sistema de controle técnico do trabalho"
çao das forma.s de gestão da mão-de-obra autoritárias e pouco compatíveis (Carvalho, 1987: 204 e 205).
com o env~lvlmento dos traba~hadores que vêm predominando há longos Essas questões foram sublinhadas ainda por Humphrey (1989) ao
anos no paiS, baseadas nos baIXOS salários, na divisão dos trabalhadores discutir a implicação da adoção de técnicas japonesas na organização do
através de políticas salariais que buscam individualizá-los, na resistência trabalho das empresas brasileiras e chamar a atenção para a necessidaqe
em estabilizar lninimamente a mão-de-obra. de adaptação das técnicas japonesas em nosso país, tendo em vista a
Com efeito, já nos primeiros estudos sobre o tema, dedicados em sua resistência do empresariado em adotar métodos baseados na participação ,'
maio: parte à aná!ise. da difusão dos programas participativos, o caráter dos operários.
confll11Vo e autontáno das relações de trabalho no Brasil foi detectado Também no que se refere às demais técnicas e métodos japoneses,
como um elemento importante a modificar as características dos círculos muitos estudos enfatizaram a diferença entre a maneira como eles tendem
d~ controle de qualidade em relação à experiência japonesa ou até a a ser empregados no Japão e o modo como estavam sendo difundidos no
dificultar a sua disseminação no país. Brasil, sublinhando o caráter autoritário das relações de trabalho no Brasil
Os t~abalhos pioneiros de Hirata (Hirata, 1983; Freyssenet e Hirata e a resistência do patronato brasileiro em conviver com uma participação
I ?85; Hlrata, 1.990) foram enfáticos nesse sentido, apontando sempre ~ mais efetiva dos trabalhadores nas decisões relativas ao processo de
dlficul~ade_de Incorporação de "técnicas gerenciais que dependem, para produção, bem como a aceitar o trabalho em equipe.
sua aphcaçao e seu sucesso, de condições sócio-culturais e históricas bem Já em 1985 Salerno alertava para o fato de que a maneira como o
partü:ulares': ÇHirata,.1983: 65) e sublinhando os limites impostos pelas just-in-time vinha sendo introduzido no Brasil tinha muito pouco a ver com
relaçoes SOCiaiS em VIgor na sociedade brasileira. Entre outras formas de o trabalho multiqualificado exercido por equipes de trabalhadores. Basean-
a~aptação da experiênciajaponesa no Brasil, a autora destacava a resistên- do-se num estudo de caso de uma empresa produtora de motores, o autor ·1
i
CIa das .e'Jolpre~as em d~l~gar decisões aos trabalhadores da produção, bem frisava que o conteúdo do trabalho só havia sido alterado no sentido da
com a hrmtaçao da partICIpação a trabalhadores mais qualificados, técnicos padronização: "qualquer noção de trabalho menos monótono, participati- i
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42 43
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vo, em grupo, não encontra sustentação; o operário faz durante sua jornada Brasil uma extensão da linha de montagem a postos que anteriormente não
uma seqüência limitada de operações padronizadas e repetitivas; a poliva- estavam sujeitos a tempos impostos de maneira tão rígida como os da linha.
lência significa a capacidade de alimentar mais de um tipo de máquina, Da mesma forma, a resistência da gerência em permitir que os traba-
antes de ser o operário especializado em cada uma delas; o grupismo se lhadores participassem dos trabalhos de programação das máquinas a
refere a um grupo de máquinas e não a um grupo de trabalhadores" comando numérico como forma de garantir o controle sobre a força de
(Salerno, 1985: 199). Em 1991 o autor voltaria a insistir nessas questões trabalho evidenciou-se em estudo desenvolvido em urna grande empresa
ao afirmar que "boa parte da implantação dos sistemas de manufatura produtora de máquinas que possuía uma importante tradição inovadora e
celular elou just-in-time verificada até agora segue uma rígida divisão do vinha envidando esforços importantes no sentido da modernização (Leite,
trabalho. A maior (qualificação) para operadores de célula seria a discipli- 1990).
na fabril, não o conhecimento técnico" (Salerno, 1991: 5). Sublinhando o
caráter con,servador da mo~ernização brasileira, Salerno ressaltava que "o Em 1990 Humphrey sugeria que a opção que estaria sendo desenvol-
trabalho, Via de regra, contInua tendo uma prescrição individual, via carta vida no Brasil seria a do just-in-time taylorizado, na qual "os gerentes
de processos, roteiros de fabricação ou ordens orais. A polivalência parece podem usar o just-in-time como um meio de definir as tarefas de trabalho
ser antes uma multitarefa do mesmo teor (...) do que um desenvolvimento e revelar se elas estão ou não sendo executadas", com um aumento
de múltiplas habilidades por uma força de trabalho altamente qualificada" significativo da pressão sobre os trabalhadores e a gerência tentando dirigir
(Salerno, 1991: 9). Apontando ainda a ausência de autonomia dos operários a fábrica como se fosse uma máquina. Embora considerando essa alterna-
na definição dos métodos de trabalho e na alocação das atividades no tiva corno um meio de controle menos eficiente do que o uso de uma força
decorrer da jornada de trabalho nas empresas com células de produção, o de trabalho bem motivada dividida em pequenos grupos que se ajudariam
autor insistia nas formas específicas que a difusão de métodos organiza- entre si, Humphrey considerava que esta poderia ser a maior aproximação
cionais baseados no "modelo japonês" estavam assUlnindo no Brasil, aos métodos japoneses que muitas empresas brasileiras poderiam alcançar
concluindo com a feliz expressão de que aqui "o modelo deixa de ser (Humphrey, 1990: 19).
japonês para tornar-se nissei" (Salerno, 1991; 8). O caráter conservador da moderni zação brasileira veio também à tona
Também Ferreira et aI. (1991) frisaram as diferenças no uso das com os estudos sobre as políticas de gestão da mão-de-obra, as quais foram
técnicas japonesas no Brasil e no Japão. Partindo do princípio de que o sendo sucessivamente analisadas como desestimulantes para o envolvi-
"modelo japonês" não consiste apenas numa sorna de métodos e técnicas, mento dos trabalhadores com os objetivos das empresas e muitas vezes
mas antes numa forma de organização da produção que se assenta "num contraditórias em relação aos objetivos de flexibilização do trabalho,
conjunto de relações sociais de trabalho onde há participação coletiva na colocados pelo processo de modernização.
inovação, na resolução de problemas, na gestão da produção e onde o Embora os estudos sobre a flexibilidade do trabalho no Brasil tenham
processo produtivo é baseado no trabalho em grupo" (Ferreira et a1.,·1991 : elucidado que o exemplo brasileiro é muito mais flexível do que o da
18), os autores chamavam a atenção para a impropriedade de se caracterizar maioria dos demais países, tendo em vista que os principais aspectos do
as tendências atuais de organização do trabalho no Brasil como se elas processo de trabalho são isentos de regulamentação, evidenciou-se que há
pudessem estar significando a introdução do "modelo japonês" no país, características da política de gestão das empresas que tendem a enrijecer
tendo em vista as características diferentes que tendiam a predominar nas a estrutura organizacional ao invés de flexibilizá-la. É o caso, por exemplo,
relações de trabalho, marcadas pela dificuldade do patronato em adotar
seja o trabalho em grupo, seja urna participação mais efetiva dos trabalha- 3. Comefeilo. a inexistência da contratação coletiva de trabalho no país faz com que os principais
dores na gestão da produção. aspectos do processo de trabalho relacionados. por exemplo, aOS tempos. ritmos e volumes de trabalho
sejam isentos de regulamentação. o que dá uma ampla margem de mano!". il gerência das fábricas
A relação do caráter conservador das relações de trabalho no Brasil para modificá-los de acordo com as necessidades da produção. D. mesma fonoa, nio há muitos
empecilhos a acomodações de horário, tendo em vista o recurso às horas extras, largamente utilizado
com as opções técnicas relacionadas à organização da produção foram pelo parronato. bem como l transferência de trabalhadores entre ünhas. setores ou mesmo plantas de
apontadas por vários outros estudos dedicados à questão. uma mesma empresa.
Em interessante estudo romparalivo entre uma planta inglesa e uma pl.nta brasileira da Ford,
Analisando especificamente o caso da indústria automobilística, Car- por exemplo, EUs.belh Silva (1991) aponta a maior flexibilidade do trabalho no país como um
valho e Schmitz (1990) sublinharam que ao invés de urna superação dos importante rator expUe.tivo do bom desempenho da fábrica brasileira quando comparada com sua
princípios fordistas, a modernização tecnológica estaria significando no congênere inglesa. apesar de ela se encontrar num estágiQ muito menos avançado em lennos de
introdução da automação industrial.

44 45 i
r
,I


I.
das políticas de cargos e salários que, por se apoiarem na preocupação de índices observados nos anos 70 quando as empresas se utilizaram larga-
dividir o coletivo de trabalhadores e incentivar a disputa entre eles para
mente da rotatividade não só como fauna de garantir que os salários se
poder melhor controlá-los, baseiam-se num grande número de faixa~ e
steps, tomando difícil a movimentação dos trabalhadores entre os vários mantivessem em baixos patamares, mas também como forma de discipli-
, namento da mão-de-obra (Humphrey, 1982; Stutman, 1981), o recurso às
_'1
postos.
demissões como forma de enfrentamento das crises de produção já foi
Há já um número razoável de estudos de caso que trouxeram à tona bastante apontado como um impedimento à adesão dos trabalhadores aos
conflitos gerados por problemas desse tipo. A fim de elucidar a questão, programas participativos tipo eCQ, TQC ou outros.
citaremos dois exemplos encontrados no ABe paulista, que se apresentam
como importantes testemunhos de como a cultura do "dividir para reinar" Muitos estudos de caso chamaram a atenção para a dificuldade de os
tem se mantido forte entre o empresariado brasileiro. programas de envolvimento dos trabalhadores terem êxito no Brasil devido
às constantes demissões de trabalhadores feitas pelas empresas (Tauile,
Em uma empresa metal-mecânica, a necessidade de deslocar por 1990; Humphrey, 1990). Talvez o exemplo mais ilustrativo a esse respeito
curtos períodos de tempo alguns trabalhos de ferramentaria para um grupo seja o de uma empresa metal-mecânica no Rio Grande do Sul, estudada
de retificadores gerou uma greve de 12 dias em toda a fábrica devido às por Rodrigues (1991), a qual dedicou vários anos à reorganização produ-
diferenças salariais entre os dois postos de trabalho e a exigência dos tiva baseada no just-in-time e outras técnicas japonesas. O processo, ainda i
trabalhadores - não aceita pela empresa - de que o trabalho de ferramen- I
que permeado por conflitos, contou com a colaboração dos trabalhadores
taria feito pelos retificadores fosse pago a partir dos mesmos valores pagos
aos ferramenteiros. Para contornar o problema, a empresa, ao invés de
que deram várias sugestões à empresa (s6 em 1989 foram sugeridos pelos il
.1
trabalhadores 680 projetos de melhorias na produção, dos quais 105 foram
eliminar ou diminuir a diferenciação entre as duas categorias, optou por considerados factíveis). Após, entretanto, uma onda de demissão massiva
criar uma outra faixa entre os retificadores relativa à categoria de retifica- por parte da empresa, em que a mão-de-obra foi reduzida a menos da
dor especializado com uma remuneração diferenciada para um grupo de metade (de 3.600 para 1.700 funcionários) no período de um ano, os
retificadores que ficou também encarregado de fazer o trabalho de ferra- trabalhadores retomaram uma posição de desconfiança que se constituiu,
mentaria quando necessário (Leite, 1990)4. Em Uma montadora, onde as
máquinas de usinagem eram classificadas em A, B, e, D... e destinadas a
segundo a autora, no motivo fundamental da falência do projeto de implan-
tação do just-in-time.
j
operadores também classificados em A, B, e, D ... que correspondiam a ~I
diferentes faixas salariais, de acordo com a máquina que operassem, a É assim que esse conjunto de características presentes nas formas de
organização do trabalho e de gestão da mão-de-obra, associadas à tradicio- li
11'
necessidade de deslocamento dos trabalhadores entre as máquinas por
parte da empresa gerou uma operação tartaruga (redução do ritmo de
trabalho) entre os trabalhadores e a reivindicação de unificação das faixas
nal resistência do patronato brasileiro em negociar as questões relaciona-
das à organização e condições de trabalho6, foi consolidando um certo
.I,
salariais. A empresa respondeu ao movimento com uma rigidez ainda consenso entre os analistas de que o país estava se encaminhando em i

maior, etiquetando as máquinas para evitar o que foi considerado como um direção a um modelo bastante conservador de modernização que, conforme J"
"uso 'desregulado' da força de trabalho" (Salerno, 1991t apontávamos em 1991, tendia a combinar a "inovação tecnológica com >

práticas extremamente conservadoras de gestão da mão-de-obra que, por


Por outro lado, o excesso de flexibilidade presente na inexistência de sua vez, dificultam a adoção de formas de organização do trabalho basea-
impedimentos legais à demissão de trabalhadores desde 1967 gerou entre das numa participação mais efetiva dos trabalhadores nas decisões relati-
as empresas a prática de trabalhar com altas taxas de rotatividade da vas ao processo produtivo" (Leite e Silva, 1991: 15).
mão-de-obra. Apesar de que elas vêm tendendo a diminuir em relação aos
Alguns estudos recentes, entretanto, parecem estar indicando alguma
4. É interessante notar que esse tipo de gestão salarial se diferencia muüo daquela praticada pela mudança na postura dos empresários brasileiros. Gitahye Rabelo (1991),
matriz da empresa na Suécia. onde a esínJtura de cargos é muito mais "enxuta" e se apóia centralmente por exemplo, apontam para uma mudança significativa nas estratégias de
na qualificação dos trabalhadores e na avaliação das equipes de trabalho.
S. Esses casos contrastam fonemente com muitos outros exemplos. como o da Foro de Henno·
recursos humanos das empresas de autopeças da região de Campinas,
siJ1o, no México. onde a estrutura de cargos e salários foi estabelecida a partir de 8 categorias de sublinhando a preocupação do patronato com a escolarização e estabiliza-
trabalhadores da produção e na qual o critério de ascensão é determinado de acordo com os
conhecimentos dos trabalhadores e não com postos de trabalho rigidamente determinados (Menens.
1990). 6. Sobre a negociação das novas fonuas de organização de trabalho, ver Bresciaoi (1991).

46 47
çâo da mão-de-obra, bem como com propostas de modificações nas que as empresas estão efetivamente mais dispostas hoje à adoção de uma
estruturas de cargos e salários que vêm levando a ''um notável enxugamen- modernização mais sistêmica, na qual, como apontam Gitahy e Rabelo
to do número de cargos na empresa, diminuindo as fortes diferenças (1991 :-18), "os temas da cultura gerencial e da importância da qualificação
hierárquicas que caracterizam a maior parte das empresas brasileiras" e gestão de recursos humanos passa a ser abordada de forma mais sistemá-
(Gitahy e RabeIo, 1991: 26). tica", seria necessário perguntar ainda até que ponto essas transformações
Baseando-se numa investigação realizada no final de 1990 e na pri- estariam apontando para modificações mais substanciais nas relações de
ri meira metade de 1991 em uma amostra de 18 empresas do setor, os autores trabalho no sentido da adoção de um modelo de relações industriais
,I ressaltam que "uma conseqüência importante do processo de adaptação efetivamente mais democrático e participativo.
das empresas da amostra ao novo ambiente competitivo (...) foi a moder- Ainda que essas questões não possam ser elucidadas sem um avanço
,
;;.
nização da gestão de recursos humanos" e que as empresas perceberam nos significativo da pesquisa no país, seria importante considerar que posturas
últimos anos "que uma área de recursos humanos bem estruturada era uma semelhantes às encontradas por Humphrey, Gitahy e Rabelo vêm sendo
condição fundamental para uma efetiva introdução dos novos instrumentos também registradas em alguns importantes documentos empresariais.
de garantia de qualidade" (1991: 20). Gitahy e Rabelo insistem que quase Em um documento interno de uma organização que congrega os 20
todas as empresas estavam se reestruturando no sentido de introduzir uma mais importantes grupos empresariais do país, por exemplo, encontram-se
visão mais estratégica na área de recursos humanos, na qual a preocupação inúmeras alusões à necessidade de formação e treinamento da mão-de-obra
com o elemento "humano" assume uma importante centralidade, ainda que e de melhoria do sistema educacional do país no sentido de garantir a
não possa ser ignorado o alerta dos autores no sentido de que as empresas formação básica dos trabalhadores brasileiros, assim como uma análise das
de capital estrangeiro estavam bem à frente das de capital nacional. atuais relações gerenciais/trabalhistas como um elemento que contribui
Também Humphrey (1991) encontrou tendências semelhantes em para o atraso tecnológico das empresas brasileiras, tendo em vista seu
empresas do Rio Grande do Sul, onde o patronato vem se mostrando caráter anacrônico, que encara o trabalho como um custo e não como um
disposto a desenvolver políticas de treinamento e estabilização da mãó-de- recurso primordial da produção, dando pouca atenção à participação, ao
obra. Embora destacando que as firmas não dão em geral garantia da treinamento e à formação de operários polivalentes. Criticando ainda a
estabilidade, "em parte por causa da incerteza das condições macro-eco- persistência de padrões atrasados de relações trabalhistas por multiplica-
nômicas no Brasil e em parte porque elas querem manter o direito de rem desnecessariamente os conflitos ao invés de buscarem um consenso
demitir os trabalhadores que não cooperam" (1991: 12 e 13), o autor em prol da produtividade, o documento aponta para um projeto de moder-
ressalta a estabilização da mão-de-obra como a principal transformação nização competitiva para o Brasil baseado num mínimo de solidariedade
nas condições de emprego que a adoção dos métodos japoneses estaria social que se assenta num modelo de modernização sistêmica não só a nível I,
gerando, a qual poderia ainda ser vista como "uma conseqüência do maior individual das empresas, como da economia como um todo? I

treinamento e responsabilidade dos operadores" (1991: 12). Nesse sentido, o documento parece vir confirmar as descobertas das
Esses novos "achados" colocam, sem dúvida, novas questões aos últimas pesquisas com relação a uma nova postura no que se refere às
estudiosos do assunto, as quais não parecem muito fáceis de serem respon- relações de trabalho, ainda que seja difícil dimensionar em que medida
didas: Estaria o empresariado brasileiro efetivamente optando por uma estas idéias estariam difundidas no meio empresarial como um todo.
modernização mais sistêmica, baseada no enriquecimento do trabalho e Seria necessário considerar, contudo, que a ausência de propostas
em relações de trabalho mais democráticas? Até que ponto a postura voltadas para a negociação das transformações em qualquer documento
assumida pelas gerências das empresas encontradas nas pesquisas de empresarial de que se tem notícia, bem como a prática patronal de continuar
Humphrey, Gitahy e Rabelo pode ser estendida, senão para o conjunto. se opondo à negociação dessas questões com os sindicatos e trabalhadores
pelo menos para uma parte significativa do empresariado brasileiro ou se não pode deixar de ser considerada como uma séria limitação a transfor-
restringe a apenas algumas grandes empresas tecnologicamente mais de- mações mais significativas no modelo brasileiro de relações industriais que ~
senvolvidas? O estágio das pesquisas no país seria suficiente para nos (
pennitir realmente falar de uma nova tendência das empresas no que se 7. Cf. Mudar para Competir: Modernização Competitiva, Der1WCracilJ e Justiça Social, IEDI I

l
refere às formas de gestão da mão-de-obra? E, finalmente, se assumimos (Instituto de ESludos para o Desenvolvimento Industrial), São Paulo, junho/no

I
48 49
[
J
apontem em direção a um novo sistema efetivamente mais democrático e
participativo, ainda que as novas tendências de gestão possam ser suficien-
tes para lograr um clima de maior harmonia e menor conflitividade no
interior das empresas, mais favorável às novas formas de organização do
trabalho e ao envolvimento dos trabalhadores com os objetivos do processo
produtivo.
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LaborlInstituto Eder Sader e Faculdade de Setor Metalúrgico (Texto

52 53
1. FLEXffiILIDADE E INTEGRAÇÃO:
CRITÉRIOS PARA REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA

TRABALHO E ORGANIZAÇÃO NA EMPRESA A reestruturação produtiva tem sua 16gica derivada de um contexto
social, político e econômico marcado pelas crises financeiras, de mercado
INDUSTRIAL INTEGRADA E FLEXÍVEL (ou de concorrência intercapitalista) e social (conflitos capital-trabalho,
relativos à organização e controle da produção e do trabalho, e distributivo)
l
que emergem nos anos 60/70, e colocam para as empresas novas necessi-
Mário Sérgio Salemo dades de integração (para dar saltos de produtividade, necessários devido
tanto ao acirramento da concorrência quanto aos entraves sociais colocados
às formas tradicionais de organização da produção e do trabalho) e de
Dentre os inúmeros aspectos, análises e formas de abordagem que o flexibilidade (como forma de fazer frente a um ambiente - especialmente
processo de reestruturação produtiva comporta, as questões organizacio- a um mercado - pouco previsível e com alta instabilidade). Daí surgir o
nais e de caracterização da atividade de trabalho merecerão nossa atenção paradigma da empresa integrada e flexível, contrapondo-se àquele da
neste texto. As questões organizacionais ganharam notoriedade tanto pelo empresa "taylorista-fordistá".
fracasso de inúmeras tentativas de automação, quanto pelos sistemas tipo Esta é caracterizada ou pela produção de produtos padronizados em
just-in-time ou grupos semi-autônomos, ainda que seja muito mais ampla; alto volume, ou pela produção mais diversificada mas com um grau de
as questões relativas à atividade de trabalho' na empresa "reestruturada" integração relativamente mais baiJw. É preciso muito cuidado com a
não mereceram tanto destaque nas discussões teóricas, metodológicas ou extrapolação linear do "tipo idear' paradigmático para a economia como
práticas, sendo restritas a grupos pequenos de analistas, pesquisadores e um todo; da mesma forma que a linha de montagem não diz respeito a todas
agentes diretos (gerência, trabalhadores e sindicatos), mas são fundamen- as empresas, a produção integrada e flexível também não o dirá. Não
tais tanto para um aprofundamento da discussão de qualificação e formação devemos nunca esquecer a grande heterogeneidade e coexistência de
profissional, quanto para instrumentalizar o incremento do desempenho formas diferentes de padrões tecnológicos e sua difusão.
dos sistemas de produção.
É preciso lembrar que flexibilidade e integração não são propriedades
Teremos então duas unidades de análise: a empresa, e a atividade de únicas e homogêneas dos sistemas de produção, e que as necessidades de lIi
trabalho em si. Abordaremos inicialmente os parâmetros que conformam flexibilidade e integração, além de historicamente delimitadas, não se
as trajetórias organizacionais das empresas, passando para a discussão das apresentam de forma homogênea, nem no tecido econômico, nem no
alternativas organizacionais e tecnológicas que as viabilizam, desembo- interior de uma dada fábrica. Elas vão depender, entre outros, do tipo de
cando na discussão do trabalho. produto, do tipo de processo, do tipo de mercado (relação produto-proces-
sa-mercado), do tipo de estratégia competitiva praticada, da organização
e das relações de trabalho.
De uma forma simplificada, podemos considerar a integração, para
efeitos deste texto, como relacionada tanto aos fluxos materiais de produ-
ção quanto aos fluxos informadonais. Já flexibilidade será conceituada
l. Professor do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da USP. como "a habilidade de um sistema produtivo para assumir ou transitar entre
Agradeço os comentários de Helena Rirat•. diversos estados sem deterioração significativa, presente ou futura, de
2. A abordagem que proporemos não se confunde com a discussão "qualificação-desqualifica- custos, qualidade e tempos, sendo uma variável de segunda ordem, não
ção". mas pauta-se pela análise do trabalho, envolvendo o que efetivamente é feito n. produção. e não
apen.s no que está fonnalizado na descrição de cargos ou na de métodos e procedimentos. Tampouco homogênea, definível a partir de aspectos inlra e extrafábrica" (Salemo,
poder-se-ia. confonne esse procedimento. tecer considerações sobre o trabalho direto a partir de 1991: 76).
entrevistas com gerentes-, engenheiros ou pessoal da área de recursos humanos.

54 55
o caso típico das atividades de vigilância, jardinagem, restaurante,
serviço médico, limpeza, manutenção etc.;
2. A DISCUSSÃO DOS NOVOS PARADIGMAS - a'sublocação de mão-de-obra para ser empregada na atividade
ORGANIZACIONAIS produtiva - a empresa contrata uma "agenciadora" de mão-de-obra
que aloca trabalhadores para trabalharem na atividade direta da con-
Uma vez que a reestruturação produtiva visa atingir objetivos de
tratante, mas com vínculo com a contratada. Fazelldo um paralelo,
flexibilidade e integração, o padrão tecnológico tradicional vai perdendo seria o esquema de "gatos", usado para agenciamento de bóias-frias
espaço para um outro mais afinado com esses objetivos. Informática e
no campo, agora estendido à atividade fabril "moderna" - como se vê,
automação flexível (de base microeletrônica) são os componentes mais
o "moderno" não tem pudores de se utilizar de recursos arcaicos.
conhecidos do padrão tecnológico emergente, ao lado das mudanças
organizacionais. As análises sobre a reestruturação produtiva em curso
mostram que não é possível tratar informática e automação isoladas da 2.2. Mudanças na organização geral da empresa
questão organizacional. Zarifian (1993), por exemplo, considera que o
diferencial de performance (desempenho) de uma empresa industrial fren- Via abrandamento das estruturas divisionais e funcionais clássicas,
te à outra está ligada à qualidade de sua organização. constituindo-se uma organização mais voltada a resultados, e menos
calcada em especialidades; a terceirização pode relacionar-se a esse "en-
Somando-se ao fato de illúmeras pesquisas no Brasil mostrarem uma xugamento" organizacional. Abrange, portanto, a definição de "unidades
difusão relativamente baixa de equipamentos e sistemas de base microele- de negócios", a redução de níveis hierárquicos, a redivisão das áreas de
trônica, ao lado de uma difusão muito mais significativa de mudanças competência ("diretorias", "departamentos" etc.) com a quebra das divi-
organizacionais, privilegiaremos a discussão da caracterização dos novos sões funcionais - por exemplo, agrupando diretorias de produção, quali-
paradigmas organizacionais, e não abordaremos a caracterização de outros dade, manutenção, suprimentos numa área só, de "operações". Integração
componentes do novo padrão tecnológico como a automação e a informá- de áreas, particularmente projeto do produto, vendas e produção: projeto
tica. conjullto de produto e processo, engenharia simultânea, designfor manu-
Propomos quatro neveis para a discussão das mudanças organizacio- facturing, designfor assembly colocam novos critérios de projeto e de seu
nais em curso na indústriaJ, antes de discutirmos o trabalho em si: relacionamento com a prodUÇão.
As mudanças relativas à forma de encarar a atividade de projeto do
2.1. Mudanças na relação entre empresas produto são extremamente relevantes ~ não são poucos os autores que
creditam uma grande parte do sucesso de parcelas da indústria japonesa à
Através de acordos cooperativos, compartilhamellto de projeto e ca- forma, métodos e organização referentes à atividade de projeto e sua
pacidades produtivas (como no caso da Autolatina), desenvolvimento integração com a produção (Zarifian, 1993; Berggren, 1993).
conjunto de produto e processo entre clientes e fornecedores produtivos,
aumento da subcontratação via terceirização etc. Esta última vem sendo
objeto de muitas análises: consideramos que o processo de terceirização 2.3, Mudanças na organização da produção
comporta três possibilidades não excludentes: Busca-se a redução do tempo de atravessamento, aumento do giro do
- a terceirização da atividade produtiva propriamente dita, quando a capital e redução de estoques, numa situação de produtos variáveis ao
empresa que terceiriza deixa de produzir certos itens e passa a com- longo do tempo. O tempo de atravessamento, em sua formulação genérica,
prá-los de fornecedores; envolve todo o intervalo entre o fechamento de um negócio e a entrega do
- a terceirização de atividades de apoio, de serviços de apoio à produto nas condições previstas; o tempo de atravessamento na produção
produção, via contratação de empresas que fornecem esse serviço - é é caracterizado pelo intervalo entre a ordem de produção e o término da .~
confecção do produto. I
3. Dada a exigüidade de espaço. faremos apenas um enunciado: para uma discussão mais Em indústrias de produção discreta em lotes (autopeças, mecânica
cuidadosa e dernlhada segundo a estrutura exposta, vide Salemo (1991). Vide também Zarifian (1993). etc.), são fundamentais os conceitos de tecnologia de grupo, célula de
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56 57
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6
produção e rninifábricas. A organização ~adicional ~ funci~nal, onde os manutenção • Em sistemas muito automatizados, a operação pode ter a
equipamentos são agrupados segundo seu tipo ou funçao (seçoes de tomos, função não só de atuar rapidamente sobre as disfunções, imprevistos ou
seções de fresa, de retífica etc.), o que tende a levar a um giro muito lento incidentes, mas também a de preveni-los, antecipando ações corretivas, de
do capital circulante e a um grande volume de estoque intermediário. A forma a não paralisar ou comprometer o fluxo produtivo.
tecnologia de grupo visa fonuar famHias de peças com roteiro produtivo e A operação, assim, assume responsabilidades de gestão do fluxo em
geometria semelhantes, para que possam ser produzidas inteiramente num termos de velocidade e qualidade (confonnidade às especificações); para
conjunto de máquinas organizadas seqüencialmente de acordo com o fluxo tanto, pode abarcar uma série de atribuições tradicionalmente designadas
produtivo da peça dominante na farm1ia (célula). Muitos resultados são às chefias, ao pessoal de planejamento - e esta é uma das razões da redução
surpreendentes: a Massey Perkins (hoje Maxion) de Canoas, RS. informa- de níveis hierárquicos, da redução das chefias intermediárias e do staffque
va que obteve com a celularização reduções médias de 80% do material se verificam em algumas fábricas. Cresce a importância da comunicação
em processo, 40% da mão-de-obra, 40% do espaço ocupado, 70% do tempo horizontal entre os trabalhadores, levando alguns autores a associarem
de preparação de máquinas (set up) e 90% do percurso na fábrica (Salvany produtividade e simbolização, introduzindo um paradima comunicacional
e Boscarioli, 1988). (Zarifian, 1993).
O sistemajust-in-time, que incorpora as células e propõe urna forma Sobre polivalência, termo ambíguo, é preciso distinguir entre traba-
de ordenar o fluxo de materiais e de informações na produção corno um lhador multifuncional e trabalhador multiqualificado: enquanto o primeiro
todo, é outro na ordem do dia, basicamente devido ao sucesso da Toyota se caracteriza por operar mais de uma máquina com características seme-
japonesa. Mas não é uma panacéia universal, e recentemente vem sofrendo lhantes - o que pouco lhe acrescenta em tennos de desenvolvimento e
uma série de críticas importantes a nível da própria Toyota e do Japão4 , há qualificação profissional' - o segundo desenvolve e incorpora diferentes
outros métodos para buscar aumento de giro, redução de tempos de habilidades e repertórios profissionais. Trata-se, portanto, de duas visões
atravessamento e de estoques, flexibilizando a produção'. Porém, há sobre o trabalho: uma, aditiva (adicionar mais tarefas às anteriores, visando
muitos indícios que nos levam a considerar a hipótese de tal sistema passar geralmente à intensificação do trabalho); e outra, integrativa (definir o
a ser (se já não passou) o paradigma para indústrias de produção em massa, papel dos trabalhadores diretos, ao invés de especificar-lhes as tarefas).
tal como o fordismo o foL Sem nunca esquecer que paradigma não se
Há inúmeras propostas alternativas que podem ser utilizadas para
confunde com a realidade e com as trajetórias concretas de cada empresa.
abranger os tópicos acima. Michel Freyssenet (1992), analisando sistemas
com elevado grau de automação na França, aponta duas possibilidades para
2.4, Mudanças na organização do trabalho tratar a organização do trabalho numa empresa com elevadas necessidades
de flexibilidade e de integração, onde os sistemas tradicionais não apre-
Em sua concepção mais avançada, leva à tendência ao abandono sentam bom desempenho. A primeira abordagem, que seria a mais comum,
relativo das noções de tarefa e de posto de trabalho, tão arraigadas na busca urna automação de forma a evitar a ação humana, buscando limitá-Ia
organização clássica. Suas decorrências são as várias formas de polivalên- à substituiçãO de módulos defeituosos, visando à rápida recolocação da
cia, a junção de atividades de operação, inspeção de qualidade e primeira produção em marcha; é privilegiada a ação "curativa", mesmo que as
causas do problema não possam ser conhecidas. A segunda abordagem
4. Os pontos críticos seriam: a exigência de poucas flulUações de volume e pouca diversidade na privilegia o desenvolvimento da competência técnica da equipe operária
produção (o que fica projudicado Com a retração da indústria automobilfstica mundial em 1992/1993,
inclusive a jap"nesa - " mercado japonês enc"lheu 20% em relação a 1990, a produção da Europa para diagnosticar e atuar sobre as causas dos problemas. Ainda que isto, a
deve ser 17% menor em 1993 com relação a 1992 - e a diversificação de modelos perseguida Como
arma competitiva); a pressão para diminuição das h"ras trabalhadas e das horas-extra n" Japão, o que
leva a um incremento dos estoques; o crescímento da resistência operária - 25% dos trabalhadores 6. PoreÃemplo, na solda automatizada de uma montadora francesa por nós pesquisada~ a operação
efetivos jovens empregados em abril de 1991 tinham saído da empresa em dezembro do mesmo ano, acabou assumindo a manutenção mais simples< OçoITe que tais ocorrências eram cesponsá.veis por 70%
e uma pesquisa feila entre operários das montadoras no Japão mostrou que apenas 45% deles da il1terv~nção da equipe de manutenção_
recomendariam o trabalho aos filhos, porque é muito duro. Vide Nomura. 1993. 7. Um operador de máquina que opere n equipamentos semelhantes numa empresa é visto no
5. O sistema Toyota. de enonne sucesso, não é aplicado em muitas. outras empresas de sucesso, mercado de trabalho como operador de máquina, função considerada "semiqualificada", não mudando
como outras montadoras japonesas. fabricantes de máquinas da região de Bologna, Itália, ou do sul da sua situação;. seu próximo emprego tende a ser de operador. até mesmo de uma única máquina.
Alemanha. Configura-se, neste caso de polivalência multi funcionaI. um processo de tlltensificação do trabalho.

58 59
T
i
i

curto prazo, signifique maiores tempos de inatividade da produção, a longo o papel dos operários diretos passa a ser o de gerir a variabilidade e
prazo o conhecimento efetivo do funcionamento real do processo tende a
possibilitar saltos de eficiência e capacidade de inovação de produto e
processo.
, reduzír a vulnerabilidade, com vistas a manter o fluxo de produção dentro
das especificações de tempo e qualidade de confonnação. Mesmo que a
produção tenha um forte conteúdo de trabalho manual díreto, tal caracte-
rística do trabalho se mantém.
Em termos concretos, temos a diferença entre a polivalência multifun-
cional e a multiqualificada, entre esquemas onde o planejamento do Em sistemas industriais intensivos em trabalho (processos discretos),
trabalho é externo aos seus executantes! e entre esquemas onde a definição isso significa, ao lado da operação de transformação propriamente dita, o
de como produzir (em termos de método de execução do trabalho) é zelo pelo estado do processo, pelas condições de conformidade das espe-
prerrogativa do operariado, como na proposta sócio-técnica e desdobra- cificações e até pela prevenção de incidentes - por exemplo, solicitando
mentos que a aprofundam. troca de ferramental ou corrigindo seu curso antes que o produto em
Pesquisas que efetuamos em empresas radicadas no Brasil em 1993 t elaboração saia fora da tolerância dimensional

mostram que algumas delas estão associando redução de níveis hierárqui- ! Se o processo é discreto e automatizado, operar significa acompanhar
cos - há casos de existirem apenas três níveis numa fábrica - com trabalho
em equipe semi-autônoma de inspíração sócio-técnica; isto não era encon-
trado anos atrás.
Portanto, há inúmeras possibilidades de organização e gestão da em-
I o desenrolar da produção, prevendo e antecipando-se aos problemas,
gerenciando os imprevistos decorrentes da matéria-prima, do equipamen-
to, da organização, da ação operária (e não operária) de estágios anteriores
da produção. Tudo isso visa minimizar os tempos não produtivos e a
presa, da produção e do trabalho; as particularidades em termos de cultura produção fora de especificação.
empresarial, legislação, política e poder sindical nos locais de trabalho, é Esse"s objetivos têm sua lógica derivada:
que vão contribuír na definição de corno o trabalho se estrutura, ao lado, é a) do amortecimento dos custos fixos, relativamente mais altos com
claro, das variáveis tradicionalmente abordadas como estratégia de negó- automação;
cios, mercado, andamento da economia etc. A observação díreta do traba-
b) do aumento da taxa de ocupação dos equipamentos ("saturação").
lho que se desenvolve nos processos industriais "integrados e flexíveis"
vai mostrar uma riqueza de que as abordagens correntes de teoria organí- Lembremo-nos que um dos diagnósticos dos processos discretos orga-
nizados tradicionalmente é o baixo tempo empenhado em atividades
zacional não se dão conta.
que efetivamente agregam valor. E um aumento da taxa de ocupação
significa ter urna maior disponibilidade de capacidade efetiva, com o
3. O TRABALHO NA PRODUÇÃO INTEGRADA E FLEXíVEL mesmo investimento físico - a mesma instalação apresenta maior
produção, elevando assim a capacidade ,eal;
Conforme vimos, a empresa integrada e flexível tende a trabalhar com c) da redução da propagação de problemas localizados. Se a produção
estoque baixo de produto em processo, tende a ter um giro elevado da ocorre com estoque baixo, qualquer parada ou produção fora do padrão
produção (ou seja, se marcarmos urna chapa de aço, esta mesma chapa é é problemática, podendo ganhar muita amplitude (vulnerabilidade).
vendida como produto final em curto espaço de tempo), tende a trabalhar Nos processos de propriedade, e particularmente nos contínuos (petro-
com produtos que apresentam baix.o ciclo de vida (ou seja, há mudanças química, refino de petróleo, cimento, celulose etc.), o papel dos operadores
constantes de modelos e linhas de produtos). Tudo isto aumenta a variabi- é manter o processo sob controle, ajustando os parâmetros reais de opera-
lidade da produção, ao mesmo tempo em que diminui o tempo entre a ção (pressão, temperatura, vazão, ângulo de abertura de válvulas etc.)
encomenda e a entrega dos produtos. E não se pode contar tanto com os àqueles definidos teoricamente.
estoques como amortecedores dos problemas da produção. Por exemplo,
se uma peça é produzida fora de dimensão e não há outra em estoque, as Os processos baseados em automação flexível são delicados e caros.
operações posteriores podem ser paralisadas pela falta de suprimento. Muitas vezes ocorre uma dificuldade de modelagem matemática e/ou
computacional, devido às imprevisibilidades (variâncias), a determinados
8. Nonna básica introduzida por Taylor no come~O do século. cOmo n. defini~ão da !arefa a ser processos de base empírica, não facilmente reduzíveis a formulações
cx.ccutada por um poli valente multifuncional numa célula de produção. matemáticas, ou à impossibilidade de se conseguir certos dados do estado

60 61
A análise do trabalho, conforme desenvolvida basicamente pela escola
do processo. Isto dá à atividade opera.tória uma dimensão de redobrada
francesa de ergonomia, bem como por sindicatos metalúrgicos italianos
importância, conforme veremos a seguIT.
(Marchisio & FIOM, 1990), e por grupos de pesquisadores escandinavos
(Ehn, 1992) baseia-se na distinção entre tarefa e atividade, apesar das
3.1. Trabalho prescrito, trabalho real e elementos para análise do distinções de análise e de foco de cada uma dessas abordagens. A tarefa
trabalho indica o que se tem para fazer; a atividade, o que se faz.
"Leo acionava seu tomo mais devagar que o manual dizia, dava um Segundo Montmollin (I986), tarefa designa um conjunto constituído:
incremento mais rápido que o dito manual, colocava seu ombro e parte a) pelo equipamento e suas manifestações e reações;
do seu peso no carrinho porta-ferramenta para conseguir um pouco
b) pelas peiformances exigidas na situação de trabalho estudada;
mais de estabilidade, apagava seu cigarro, e usava um pincel de 59
centavos para aplicar uma mistura de óleo e querosene feita em casa. c) pelos procedimentos escritos e pelos conhecimentos que eles supõem
O resultado era uma peça perfeita". para sua execução.
H. Shaiken (1985a: 19) A atividade seria a mobilização da pessoa para realizar as tarefas. Pode
ser considerada corno uma organização de diferentes cursos de ação e
acontecimentos, e não uma justaposição indiferenciada de atividades ele-
mentares. O curso da ação é definido como "um comportamento consciente
"Diferentes serviços da empresa definem, previamente, uma produção, (ao menos em parte), intencional, planificado, socialmente controlado (ou
um trabalho, os meios para realizá-lo: estes são detenninados a partir de dirigido) e significante para o operador em situação de trabalho" (Pinsky
regras, de normas e de avaliações empíricas. São elementos previstos e, e Theureau, 1987: 7).
portanto, teóricos. A um posto de trabalho, a um trabalhador, a um grupo
de trabalhadores, serão designadas tarefas, isto é, o tipo, quantidade e Tarefa/atividade constituem uma associação indissolúvel. A atividáde
qualidade da produção por unidade de tempo, e meios para realizá-los ocorre nos marcos definidos pela tarefa a ser executada; a tarefa delimita
(ferramentas, máquinas, espaços...). Deste conceito teórico do trabalho e as condições de contorno da atividade. A atividade de trabalho desenvol-
dos meios de trabalho provêm o que chamamos de trabalho prescrito, isto ve-se através de uma série não prevista de fluxos de infonnação entre os
é, a maneira como o trabalho deve ser executado: o modo de utilizar as trabalhadores, que rompem as barreiras da prescrição.
ferramentas e as máquinas, o tempo concedido para cada operação, os Daniellou (1989), sintetizando resultados de análise do trabalho em
modos operatórios e as regras a respeitar. Porém, este trabalho prescrito processos discretos automatizados, aponta os seguintes problemas geral-
nunca corresponde ex..atamente ao trabalho real, isto é, ao que é executado mente incorridos na concepção de um sistema de produção:
pelo trabalhador" (Daniel1ou, Laville e Teiger, 1989: 7). a) Subestimação do número de intervenções humanas. Os projetistas
O componente prescrito é relativo aos objetivos assinalados ao traba~ consideram o equipamento "nominalmente", ou seja, antes de seu
lhador por instâncias externas a ele; a prescrição clássica do método de funcionamento efetivo, sem levar em conta os incidentes. Na realidade,
trabalho seria um extremo dessa assinalação. Exemplos: inserir a resistên~ há muitos incidentes devido à variabilidade das matérias-primas (com-
cia X na placa Y, usando o gabarito Z, num posto de trabalho previamente posição, dimensões etc.), das ferramentas (folgas, desgaste, regula-
configurado e encadeado com outros; tirar uma fração de x% de óleo diesel gem), dos sistemas de tratamento das informações (sensores,
numa etapa do refino de petróleo. computadores), dos sistemas de potência (vazamentos hidráulicos, falta
A questão é que o trabalho não é passível de ser totalmente formaliza- de energia etc.). Daí a necessidade de freqüentes intervenções humanas
do, não podendo, portanto, ser totalmente prescrito e descrito. A descrição perfeitas.
resulta em algo diferente: como descrever o soar de um clarinete? Como
descrever os movimentos para um motorista encostar um automóvel junto
ao meio-fio?

63
62
Já nas indústrias de propriedade de processos contúlUos, as análises do
trabalho mostram:
Figura 3.1. ,
OS TÓPICOS DE UMA ANALISE DO TRABALHO a) Dificuldade de construção de uma informação confiável sobre o estado
real do processo. As abordagens de organização do trabalho consideram
c que os trabalhadores consultam a informação apresentada; mas a infor-
r
---i
Procedimentos
prescritos Perforrnance~
exigiebs. ~s.
O
N
mação útil para desencadear uma ação não é simplesmente aquela
Objetivos apresentada, mas a "construída", a que contribui para a representação
D
,- ~re.reqljeriC'JOS
r-:onhedmenlOS
_ I
da situação. O problema operatório nas salas de controle é fazer uma
L_~

ç representação da situação, do estado do processo. Essa representação é


Õ
dificultada pela confiabilidade dos sensores e pela subestimação, nos
E projetos técnico-organizacionais, do papel dos índices informais (indi-
Meio ambiente
S
cadores construídos pela equipe de operação - cor da fumaça que sai
físiCO
de uma chaminé, temperatura sentida pelo tato, ruídos, cor da chama,
s associações de várias indicações de instrumentos etc.9).
O b) Contradição entre uma visão da informação centrada sobre a otimização
C do funcionamento em períodos estáveis e a atividade constante dos
I operadores na prevenção e recuperação de disfunções.
TAREFA
A
c) Períodos de partida ou repartida difíceis; problemas de segurança
I
S Nos nossos levantamentos, observamos que durante a partida das
ATIVIDADE
instalações, após paradas, set up etc., há um período de alta instabilidade
no processo, e muitas vezes a operação não tem informação suficiente do

~
---

D
Pe~orrnance' que está ocorrendo. Por exemplo, numa refinaria de petróleo pesquisada, i

__
___ . 'e<JiZadas E
p=edlrTlenta> ]-~- - - - -- Resunodos
segundo palavras de operadores e de engenheiros, a operação segue "no
"~= L . T escuro" durante algumas horas, até que o laboratório consiga determinar a
[ Intel!genle~ R composição da matéria-prima, que é uma místura natural não tratada
A industrialmente. Os operadores definem os set points'° antes da partida e,
_, C~~énc~ 1. . ---D'~nlfestoçoe5
SIntéticos
-]
B
A
L
seguindo atentamente a evolução das variáveis, construindo representa-
ções do estado do processo, procuram evitar descontroles e instabilidades.
É um período de grande tensão para todos aqueles ligados direta ou
IndIretos
ooatMdOde H indiretamente à produção. O problema é tão mais intenso quanto menor a
----- O estabilidade do processo e a éxperiência dos operadores tanto no processo
quanto na instrumentação.
FONTE: Extraído de Monlmol1ín (\986: 17).
d) Eventualmente, nos processos muito estabilizados, risco de perda de
b) Intervenções humanas di ficul tadas pelo dispositivo técnico. Dificuldade experiência em havendo longos períodos sem intervenção.
de ser informado (distância, concepção da apresentação da informação
e dos dispositivos de comunicação). Dificuldade para diagnosticar.
9. Numa indústria química locali~ada no Estado de São Paulo. um. parada foi evitada porque o
Dificuldade para intervir (acesso, manutenibilidade). Dificuldades li- operador de campo percebeu, pelo tato, um superaquecimento de uma bomba. Feita a comunicação
gadas à programação e reprogramação de computadores. com a sala de controle, houve tempo hábil de deslocar O fluxo para outro duto antes que a bomba
deixasse de funcionar e interrompesse a seqüência produtiva.
c) Dificuldades de coordenação entre trabalhadores (tamanho das instala- 10. Os ser points podem ser entendidos como os valmes que parâmetros básicos de monitoração
ções, conhecimento insuficiente do trabalho dos outros operadores, do processo deveriam atingir. como a temperatura numa determinada altura de uma coluna de
concepção dos sistemas de comunicação). destilação. a pressão num determinado vaso. Boa parte da ação operat6na visível para um observador
externo é compreendida pe lo ajuste dos set poinrs às condições concretas: do desenrolar do processo.

64 f 65

I!
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A atividade de trabalho é coletiva. Por exemplo, todos os operadores zacionais. Numa empresa de montagem eletrônica, havia uma bancada
de processo contínuo ficam ouvindo o walkie-talkie; assim, um operador com três operárias em cada lado, e o prescrito era que cada operária
de campo fica sabendo o que está acontecendo em outras áreas; o operador realizasse uma parte da inserção de componentes e passasse a placa para a
que está na sala de controle solicita informações ao operador d~ c.~po e colega ao lado. Um analista notou que havia muita conversa com as
discute procedimentos. Mesmo em processos com elevada diVisa0 do operárias que estavam do outro lado da mesa, além de mistura das placas
trabalho, baseados numa concepção que supõe que a fabricação de um entre os postos. Ao invés de verificar o porquê, colocou um anteparo na
produto pode ser dividida em operações elementares, independentes, cujo mesa para impossibilitar a conversa, para que o método prescrito fosse
resultado final é o produto tenlÚnado, "pode-se constatar que as operações seguido. A produtividade caiu, pois a "conversa" que se queria eliminar
não são independentes e que a realização do produto acabado supõe uma era a coordenação de uma redivisão do trabalho com vistas a diminuir os
troca de informações entre os operadores de diferentes máquinas e de tempos de transporte e de preparação das placas para inserção.
diferentes serviços (manutenção, controle, fabricação). Estas trocas acon-
Pode-se argumentar que um bom analista de métodos não procederia
tecem muito freqüentemente, de modo não oficial, na empresa, mas são
como nos casos acima, o que é correto. Nossa intenção, contudo, não é
elas que permitem uma produção de qualidade conveniente" (DanielJou,
estabelecer o que seja um bom ou um mau analista. Desejamos apenas
Laville e Teiger, 1989: 9).
recuperar exemplos os mais simples possíveis para ilustrar que, mesmo
Essas observações levam Daniellou a considerar que "a informatiza- num sistema muito estável como a montagem eletroeletrônica de alto
ção e a automação baseiam-se na visão que os projetistas têm do que será volume, as regras prescritas não são suficientes para garantir a produtivi-
o trabalho. Visão muitas vezes teórica, que subestima a complexidade das dade e a qualidade da operação.
estratégias colocadas em prática por homens e mulheres que asseguram a
Os exemplos são muitos. Daniellou, Laville e Teiger (1989) mostram
produção e a manutenção nas situações tradicionais. Subestimação, em que o trabalho de inserção de componentes na montagem eletrônica tem
particular, da variabilidade industrial, dos incidentes e das fases de per- outros tipos de interferência humana. Uma parcela razoável da atividade é
turbação decorrentes" (1989: 1.6). Por outra abordagem, Daniellou conclui composta de suboperações não previstas fonnalmente: conserto de "per-
o mesmo que Ehn (1990), quando este discute a postura tradicional-carte- ninhas" entortadas, ajuste de sua abertura, separação de componentes
siana de projeto e alerta para o problema da concepção extemalizada de misturados. Para compensar o tempo gasto nessas atividades não previstas,
projeto, que admite a universalização de uma racionalidade única, qual é preciso ganhar tempo sobre as regulares, muitas vezes via alteração da
seja, a do projetista. ordem prevista de montagem, da disposição das canaletas de alimentação
Shaiken, por sua vez, analisando usinagens automatizadas via coman- de componentes, da redivisão de trabalho com os(as) colegas. Se fosse
do numérico (CNC), considera que "há, de fato, dois caminhos diferentes seguido o prescrito, o nível de refugo de componentes e o tempo necessário
para caminhar em direção a uma produção mais automatizada. Um conti- à produção seriam mais altos.
nua sendo enfatizar o valor do julgamento humano. Conforme essa visão, E, quanto maior a variabilidade da produção, quanto menor o estoque
os níveis correntes de tecnologia não eliminam completamente a imprevi- e quanto mais difícil sua reposição, maior a importância da gestão dos
sibilidade e, portanto, a habilidade e o gênio dos humanos é o corretivo imprevistos pelos trabalhadores. O que significa uma necessidade de
mais efetivo para essa incerteza. Então, enquanto partes especfficas do tempo para a gestão dessa variabilidade.
processo ficam mais automáticas, os homens (operários] retêm o controle
"As dificuldades encontradas pelos trabalhadores para diminuir a
do sistema. O segundo caminho procura saltar para uma operação comple- I
diferença entre o trabalho teórico e a realidade [...] resultam para a empresa
tamente automática. Desde que o objetivo é eliminar a atuação humana
e para a coletividade em custo econômico elevado. Para a empresa, a
direta, não se obtém a junção mais eficiente de recursos humanos e físicos.
produção insuficiente, o baixo rendimento das máquinas, atrasos na pro-
Na prática, a realidade leva o sistema de volta a uma operação menos
dução, o grande volume de refugos são, freqüentemente, a sanção das
automática: as coisas não funcionam a menos que haja urna ação humana
dificuldades encontradas pelos operadores. Mas estes custos são em geral
'não oficial'" (l985b: 69). É uma conclusão semelhante à de Freyssenet
encobertos, na medida em que os recursos contábeis raramente os deixam
(1992), discutida anteriormente. aparecer. Para a coletividade, as doenças ocupacionais, o desemprego
Também em sistemas manuais se verifica a subestimação das variabi- ligado a um afastamento precoce dotrabalho, as dificuldades da reconver-
lidades e a tentativa de imposição da racionalidade dos projetistas organi- são profissional são fonte de custos sociais elevados, extemados pelas
empresas" (Daniellou, Laville e Teiger, 1989: 11).

66 67
r II

Os autores acima afirmam que, para reverter esse quadro, se deve • uma previsão da evolução esperada do ruído da máquina;
"colocar um flm à ficção e encarar a realidade das caracteósticas dos • a antevisão dos brilhos (faíscas) que vão OCorrer e uma avaliação dos
operadores, bem como dos siste~as téc,?Íco-organizacion.ais, o qu~ não tempos necessários a tanto;
ocorre sem dificuldades; esta cons1deraçao faz com que seJam questIona- • a preparação para a ação seguinte (retirar a peça, por exemplo).
dos os princípios e as práticas que servem para definir os meios de trabalho
e o próprio trabalho, bem como as qualificações do emprego operário e os Nos processos de propriedade, procurar responder por que uma deter-
procedimentos de fonnação" Cp. 9). minada temperatura continua a subir e inverter essa tendência "supõe, às
vezes durante horas, uma intensa atividade de pesquisa e tratamento da
informação, dentro e fora da sala de controle" (Wisner, 1987: 181).
3.2. Da percepção à ação nos processos automatizados
Na mesma refinaria referida anteriormente, a injeção de vapor em
A operação de processos automatizados é, muitas vezes, associada fundo de torre exige controle preciso de nível, pois sua elevação pode
com supervi são e controle. Operá-los significa estar constantemente fazen- arrebentá"la - a operação acompanha atentamente a manobra, inclusive
do representações do que pode estar acontecendo com o processo. A com operador de campo comunicando-se via rádio com a sala de controle.
Não se espera um alarme de nível; se atua para que o nível não se eleveI!.
,
representação da situação atual do processo significa uma "focalização"
seletiva, que toma o operador atento mais a certas classes de eventos que
a outras, preparando-se para determinadas ações (Daniellou, 19&9: 8.6.):
O exemplo mostra que não basta ter a infonnação via painel, é preciso ,I,
confIrmá"la (no caso, via operador de campo) e acompanhar sua evolução
dada a quantidade de pontos de controle, a representação vai no sentido de ~ pois os operadores têm na memória os inúmeros incidentes e acidentes
priorizar, numa dada situação, determinadas estratégias de supervisão e ocorridos devido à tomada de decisão baseada em informação falsa, por
ação. problemas no sistema de informações (sensores, transmissão, instrumen-
A representação do estado do processo está ligada a um conjunto de tos)12 ~ e criar um representação do que pode estar acontecendo com o
conhecimentos virtuais do operador, conhecimentos que pennitam uma processo para que uma ação seja tomada.
manipulação mental da realidade, abrangendo as ligações preferenciais Mesmo que não haja falha no sistema de informações, ele é sempre
entre certas configurações da realidade e das ações a executar. Esses parcial, exibindo o estado das variáveis de alguns pontos que foram
"modelos mentais" variam conforme a função do trabalhador e sua expe- definidos para controle, e que, em determinadas situações de emergência,
riência, sendo alimentados pelas informações que recebe sobre o andamen- de imprevistos, podem não ser sufIcientes ou adequados. Pessoa (s.d.)
to da produção. ilustra o ponto a partir do projeto de controle em siderurgia. A laminação
"O tratamento humano das informações não é do tipo 'sinal-resposta'. exige o controle de aceleração, velocidade e deformação do material
São sublinhados a pesquisa ativa da informação, guiada pela experiência, trabalhado, mas "é impossível medir temperaturas internas em um esboço
a antecipação do resultado que seria obtido por uma ação antes de efetuá-la, que está sendo laminado. Em um fomo de coqueria, é impossível medir os
o controle do resultado real em comparação ao pretendido. Essas caracte- gradientes de temperatura do material em aquecimento. Dessa forma, a
rísticas do tratamento humano da informação estão ligadas à estrutura do instrumentação fecha as malhas de controle através de medidas indiretas
que através de tabelas operacionais possibilitam inferir os valores dessas

I
sistema nervoso, sendo incontornáveis" (Daniellou, 1989: 2.6).
variáveis internas e inacessíveis" (p. 83).
A exploração perceptiva não começa, em geral, com a chegada de um
sinal (sonoro, luminoso). A exploração perceptiva é um fenômeno perma- Daí a incerteza, a necessidade de "construção" da informação e da
I representação do estado do processo na operação. A modelagem é a partir
nente da atividade cognitiva humana, e "está ligada ao curso da ação ao I
qual a pessoa se encontra engajada num dado instante, e, em particular, aos i do teórico; a operação, se baseada no teórico, desenrola-se a partir do real.
objetivos que busca. (...) A descrição dos mecanismos de exploração I
perceptiva permite sublinhar que a supervisão-monitoração de uma má-
quina ou aparelho não é um fenômeno passivo" (Daniellou, 1989: 8.4). .1 t I~ "A operação tem que assumir riscos, senão a usina não funciona" (engenheiro chefe de setor
produtivo).
Por exemplo, a representação do estado de um ciclo de usinagem por
um operador num dado instante comporta, segundo Daniellou (1989):
• um conhecimento dos objetivos dessa fase da usinagem;
!! 12. Um coordenador de lumo de uma petroqulmica nos contou um acidente com vflimas, que
deíxou a produção parada vários dias, devido a manobra executada com ba.se numa infonnação
incorreta mostrada na sala de operação. Acidente semelhante ocorreu numa outra
vazamento de um tanque.
fábrica~ quando do

,í,
j
68 69
J
I'
. !l
, I ~
r,
Os projetistas trabalham com modelos de equilfbrio (em processos de o programa "oficial", O tempo de ciclo da usinagem é alto l3 , e, quando o
propriedade - cálculo de reatores, colunas de destilação etc.) e com erro dimensional foi percebido, parou-se a produção e o chefe acionou o
modelos-padrão de matérias-primas, condições de operação etc. Isto faz setor decprograrnação. '
com que a imagem operatória, a representação das condições de operação
pelos projetistas, tenda a ser a de estabilidade, ao passo que a dos Tabela 3.1.
operadores tenda a ser a de incerteza. OPÇÕES ~O CICLO PROGRAMAÇÃO
Sem essa compreensão corre-se o risco de considerar corno "ociosida- OPERAÇAO EM CNC
de" o tempo durante o qual os operários estão supervisionando, monito- SITUAÇAO A SITUAÇÃOB
rando o estado do processo. E é justamente a capacidade de representação
progrJedição extemalizada programJedição pelo operador
dos estados do processo que leva a uma operação eficiente, mormente se
opção AI opção A2 opção BI opçãoB2
o processo for instável ou apresentar muita variabilidade (matéria-prima,
mix, comportamento do equipamento). Quando o operador aparentemente Oper<Uior/CQ
Operador
Operador/CQ Operruior/CQ Edita o programa
não está fazendo nada, ele está, via de regra, construindo essa representa- Detecta problema e Detecla problema e Detecta problema. antecipando-se ao
ção, que é fundamental para a pronta intervenção nos incidentes. chama chama programador Edita programa, problema I

lotado junto à produção tentando solução. Op.normal I


Mas nem sempre a operação tem os instrumentos para uma rápida Chefes.tor Pode pedir auxflio à li
intervenção no processo visando prevenir ou atenuar variabilidades. A É comunicado e Programador programação se
usinagem via comando numérico (CNC) é um caso típico. contada a programação Vai verifiCaI" o
problema e tentar
necessário (AI. A2)
Op.normal
'I'~
.'

Chefe programo solucioná-lo


Recebe pedido paTa
3.3. A divisão do trabalho e o ciclo programação-operação em
comando numérico (CNC)
resolução do problema. Programador
Aloco programador
conforme
+
Operador
,I'
disponibilidade Teste da modificação ' ...

Numa metalúrgica radicada no Estado de São Paulo, que usina peças i'
complexas, dois operadores de uma fresadora-plainadora CNC de cinco Programador Operador
eixos e vinte e cinco metros de mesa, custando mais de um milhão de Vai ao setor verificar Op. normal
problema e tentar
dólares, discutiam com o chefe. A máquina estava parada. O chefe dizia solucioná-lo, Pode
que não interessaria o que eles fizessem, mas queria que uma detenninada voltar ao escritório
peça saísse dentro das especificações, porque a linha final de montagem já para pegaT dados
estava parada pela sua falta, e ele estava sendo pressionado. Os trabalha- Programador
dores disseram que poderiam efetuar a produção correta, desde que pudes- +
sem, dali para a frente, confeccionar e editar programas CNC. Feito o Operador
Teste da modificação
acordo verbal, a máquina começou a funcionar.
Operador
A origem do caso é que a empresa tinha como diretriz, nesse setor, que Op.mormal
os operários não interferissem nos programas. E, quando um programa veio
com uma cota errada, os operadores perceberam, alteraram-na, editando o
programa na máquina, e produziram as peças corretamente. Ocorre que, Situação A: Operadores não agem sobre programas, que são feitos fora da produção.
devido à diretriz, eles não tinham meios técnicos (perfuradora) para Situação B; OperadoTes confeccionam e editam programas; programação externa como apoío.
fazerem uma nova fita. E, a seguir as regras, nem mesmo poderiam
comunicar o ocorrido, pois significaria uma infração ao esquema organi-
zacional que formalmente os impedia de manipular programas. A fita
original voltou à programoteca sem alteração. Da vez subseqüente que veio
um pedido dessa mesma peça, os operadores confeccionaram o lote, que 13. Cerca de duas horas. pois. além da complexidade geométrica, o material é titânio (duro e
caco); o prazo para forneCImento externo de ferramenta! era de oito meses l época do nosso
sofre 100% de inspeção com medidora de coordenadas de mesa, utilizando levantamento.

70 71
Porém, o programador que confeccionou o programa estava resolven- Na tabela 3.1 verifica-se que o ciclo decisório na situação A é mais
do outros problemas, e não apareceu no dia e nem no seguinte. Foi aí que longo, envolvendo um maior número de pessoas e até de setores/departa-
os operários entraram em entendimento com o chefe. mentos. O problema não é resolvido na fonte, havendo um aumento do
Essa concepção centralizada de resolução dos problemas cotidianos pessoal indireto.
da produção'" se por um lado aumenta a prerrogativa de áreas não operá- Na situação A, duas "unidades" relacionam-se diretamente para que a
rias, por outro gera um ciclo de resolução de problemas muito moroso. O produção possa acontecer. Em termos de níveis decisórios. a programação
operador detecta o problema e chama seu chefe, que comunica ao chefe da f estabelece a lógica da usinagem, estando o operador subordinado a ela. O
programação, que conversa com o programador, e só aí a pessoa que ~ bom andamento da operação depende do produto do trabalho da progra-
teoricamente vai resolver o problema toma conhecimento dele. Porém, o mação, numa interdependência seqüencial, coordenada por rotinas e re-
programador tem inúmeras tarefas no seu trabalho, havendo a necessidade f gras, própria para situações estáveis, rotineiras e com poucas ocorrências
de uma definição de prioridades. Isto leva a atrasos ainda maiores na
resolução dos problemas considerados não prioritários sob a ótica da
programação. i
I
í
"extraordinárias". Não se pode esperar da operação a redução de índices
de refugo ou de tempos, pois uma parte do necessário para tanto (progra-
mação) não é de sua responsabilidade.
Todavia, se o programa é feito e editado pelos trabalhadores diretos, Caso o operador tenha prerrogativa para confeccionar e editar os
diminui potencialmente o controle externo, e tende a aumentar a fluidez programas (situação B),. a gestão da variabilidade torna-se muito mais
da produção. Poderia ser argumentado que o operador pode não saber f
simples; o sistema tende a ganhar em flexibilidade, eficiência e qualidade.
f
confeccionar bem os programas, o que pode ser um fato, mas o inverso
também pode ocorrer: muitas vezes os programadores fazem programas i A literatura mostra vários casos onde, para muitas operações, é impor-
tante em termos de eficiência e qualidade que o operador saiba e possa
que não funcionam. Pode-se falar, também, que enquanto o operador está
fazendo programas, a máquina não está operando. Isto pode ser verdade,
dependendo do arranjo organizacional. Mas, para casos mais complexos,
I,
t
programar: "Numa fábrica que visitamos, um programa consistia em fazer
um pesado corte num bloco de alumínio - uma operação que gera calor
considerável - e então fazer dois furos com distância precisa entre eles.
o operador poderia contar com a assistência do programador e, de qualquer
modo, o tempo de digitação (se for feita entrada via teclado) e de teste e I Quando os passos do programa são carregados nessa ordem, a distância
entre os furos diminui à medida em que o alumínio esfria. O operário foi
aceito do programa seria relativamente menor. E, se a operação conhece a r capaz de corrigir o problema. alterando o programa para fazer primeiro a
lógica com que foi montado o programa, tem maior possibilidade de
intervir rapidamente na ocorrência de incidentes. furação" (Shaiken, 1985b: 19). Nossas observações empíricas vão nessa
mesma direção.
O caso da metalúrgica citada bem como outros relativos a comando
numérico evidenciam o problema da decisão referente à programação-ope- ***
ração. Ao abordarmos o processo decisório, tomamos três pontos: os A rigor, o texto possui duas partes com certa autonomia relativa em
níveis, o ciclo (ou topologia) e a interdependência das decisões. termos de objeto e de quadro analítico. A primeira, de caracterização de
Do ponto de vista da flexibilidade (e da integração e eficiência) aspectos importantes das mudanças organizacionais de uma forma geral,
produtiva, um dos aspectos básicos é o tempo de atravessamento. O e a segunda, relativa ao trabalho na empresa integrada e flexível.
aumento da taxa de ocupação das máquinas, além de um efeito direto sobre As considerações são fortemente baseadas na indústria de transforma-
o custo, pode também auxiliar na redução desse tempo. Outro aspecto ção. Contudo, é esta que é produtora de inovações organizacionais, e que
ligado a tempo e custo é o controle das variabilidades o mais próximo exporta paradigmas para outras áreas da economia - da mesma forma como
possível da fonte (Chems, s.d.), o que leva a uma tendência de a operação
ser responsável pela inspeção de qualidade e pela manutenção mais sim-
se falava nos anos 60 em "taylorismo" nos escritórios e nos bancos, fala-se
hoje em '~ust~in-time" bancário. l
ples. ~ I
Nunca é demais repetir: os paradigmas funcionam como balizadores
I
das opções empresariais, mas não são uma camisa de força; as empresas
14. Numa nova linha de u.inagem de blocos de motor numa fábrica de molares diesel o teclado
e o vfdeo dos CNCs ficam numa caixa de vidro trancada a chave. apresentam diferentes trajetórias, ainda que possam ter um fundo coinum.

I
72 73
I.
f.
r
í
A questão do trabalho é mais complexa. A forma de abordagem
proposta ajuda a superar certas dificuldades das análises relativas aos
"impactos" das inovações tecnológicas, mas apresenta em si outras difi-
culdades. É de difícil realização, exige conhecimentos não muito bem
sedimentados da área de ergonomia/psicologia cognitiva. Mas acreditamos
que talvez seja das mais apropriadas para aprofundar a discussão sobre o
trabalho.
REFERÊNCIAS
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,
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d'ergonomie et de neurophysio!ogie du travai! CNAM n. 88). aprofundamento demandaria mais ciais é um referencial mais amplo.
i i
SALERNO, Mário S. Flexibilidade, organização e trabalho operatório: espaço que o disponível. Serei Esses estudos, processos ou fatos
elementos para análise da produção na indústria. São Paulo, 1991. sintético porque realmente o tema relatados se inserem em que qua-
232 p. Tese (Dout.) - Departamento de Engenharia de Produção, é provocativo. dro mais abrangente? Claro que
PolilUSP. há aqui e ali referências às mudan-
I I
A primeira reflexão que sur-
SALVANY, M.A., BOSCARIOLI, N. Just in time: na prática, uma giu foi: quais são as indagações ças tecnológicas, ao contexto so-
experiência bem sucedida. Canoas: Massey Perkins, 1988, 45 p. básicas desses três textos distintos cial e político mais amplo, mas
(Apresentado no simp6sio "Como Adotar Estratégias de Produtivida- que, sem dúvida, são trabalhos de não de forma sistemática. Daí
de", Porto Alegre, 1988). pesquisa respeitáveis? A segunda uma primeira questão quanto ao
preocupação foi a de tentar ver a título que a Maria Tereza Fleury
SHAlKEN, H. The automated factory: lhe view from the shop floar.
que conclusões chegam e o que é usou: cultura da qualidade. Eu
Technology Review, v. 88, n. I, p. 16-24, jan. 1985b.
possível inferir dessas conclusões completaria "qualidade da cultu-
- . Worktransformated: automation and labor in the computerage. Nova ra". E, corno segunda pergunta:
em termos de propostas concretas.
Iorque: Holt, Rinehart and Winston, 1985a. que tipo de cultura, no sentido an-
Isto porque me parece que todo o
WISNER, A. Por dentro do trabalho. São Paulo: OborélFTD, 1987. debate aqui proposto visa encon- tropológico da palavra, nós esta-
trar algumas diretrizes para a mos vivendo e de cuja gestação
ZARIFIAN, Philippe. Quels modeles d'organisation pour l'industrie eu-
ropéenne?: l'émergencede lafirme coopératrice. Paris: L'Harmattan, I atuação do sistema educacional e estamos, de alguma forma, parti-
cipando? Isto levaria a uma rede-
1993. I de formação de mão-de-obra para
finição do objeto das pesquisas
r fazer face aos desafios emergen-
que é muito centrado, a meu ver,
tes, a partir das mudanças nas es-
truturas econômica, social e tec- na cultura das organizações, como
se as organizações, sobretudo de

I
nológica. Essas perguntas, de al-
guma forma, permanecem em trabalho e, no caso específico, em-
aberto. Tentarei encaminhar a dis- presas dentro do setor metal-me-
I
; cussão para, talvez em conjunto, cânico, fossem únicas ou ex-
conseguirmos definir algumas li- clusivas ou determinantes de uma
nhas de reflexão e de futuros tra- tendência histórica e social muito
balhos que possam esclarecer e mais ampla e geral. Deveríamos
orientar a nós e àqueles aos quais pensar em termos de culturas po-
pretendemos apresentar nossas líticas, no sentido de urna grande
conclusões e recomendações. abrangência, quanto ao comporta-

• Professor titular do Depto. de Economia da Faculdade de Economia, Administração e


Contabilidade da USP. Consultor da Universidade das Nações Unidas (USP).

I
76 77

I
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T
~
f
mento dos indivíduos, das insti- análise. Há tentativas bastante re- Não existe uma evolução li- o terceiro ponto crítico é o
tuições e das organizações, por- centes de tentar tratar desses pro- near, como seria muito de nosso contexto internacional. Claro que
que a cultura política tem uma
amplitude maior do que apenas a
atuação dentro de uma organiza-
ção produtiva. Ela se refere à pr6-
pria forma como os indivíduos de
todas as categorias, dentro da or-
blemas de um ponto de vista mais
abrangente e sistêrnico do que se
propõem os estudos no nível da
cultura da organização.
A segunda observação, sem-
I

~
I
!!
agrado, para· podermos prever e,
eventualmente, planejar. A evolu-
ção social é, na realidade, contra-
ditória, dada essa heterogenei-
dade e complexibilidade das cul-
não cabe tudo isso dentro de um
projeto de pesquisa limitado, so-
bretudo quando se trata de um es-
tudo de caso ou de uma amostra
limitada de empresas. Mas há,
claramente, alguma relação entre
pre dentro dessa preocupação com turas políticas. Por isso, a perspec-
ganização, justificam ou legiti- f
tiva hist6rica me parece o que está se processando em ní-
o referencial mais amplo, é a ques-
mam suas ações ou procuram fundamental. Sem ela, seria extre· vel internacional em termos da
tão da perspectiva hist6rica, o que
encontrar sua raison d'être. A ra- reestruturação da economia in-
implica necessariamente numa re- mamente difícil encontrar algum
cionalidade não pode ser concebi- dustrial, sobretudo das relações de
trospectiva. As análises feitas pe" amparo para propostas concretas
da segundo os parâmetros nos poder e o que se passa interna-
los três colegas se fIXam num de políticas e de diretrizes.
quais somos formados e treina- mente na sociedade brasileira no
determinado momento histórico, É a perspectiva histórica que nível das organizações industriais
dos, ou seja, como racionalidade embora, no caso da Márcia de permite situar e avaliar mais ade- que são objeto dessas pesquisas.
única, substantiva, que seria váli- Paula Leite, haja também pesqui- quadamente o que está acontecen- Isso, na realidade, é fundamental
da para todos, mas a que a maioria sas dos anos 80 e 85, e, no caso do. Enfocando a evolução política quando se discute um aspecto par-
não tem acesso por falta de infor- dos outros, do começo da década recente, dentro de uma perspecti- ticular da modernização conser-
mação. É absolutamente errada de 90, mas, ainda assim, em um va hist6rica mais ampla, fica claro vadora que a Márcia de Paula
essa visão, pois, na realidade, o !l
~:
momento muito específico. Acho que aquilo que normalmente po- Leite menciona. Ora, me parece
que se evidencia ao analista críti- que o processo de trabalho e as deríamos considerar como aspec- que todas as modernizações im- !'
co é a pluralidade de racionalida- relações de trabalho dentro da or- tos extremamente negativos são, portantes DO último século foram
:i I·I

n
des. Cada grupo e cada indivíduo ganização que, no fundo, como na realidade, sinais de vitalidade conservadoras. Afinal, amoderni-
desenvolve uma determinada vi- todos reconhecem, são relações e de superação de certas condi- zação do Japão não tinha nada de
são do mundo, com uma estrutura de poder, têm que ser vistos em ções que prevaleceram ao longo revolucionária. Era conservadora,
cognitiva e seus valores, com seus sua perspectiva e retrospectiva dos últimos 20 ou 30 anos, mas no sentido de manter as relações
vieses, com s\las formas de agir e histórica, Não basta nos fixarmos que não foram devidamente dis- de poder existentes dentro da so-
de reagir e com suas formas espe- :'
em um determinado mõmento, cutidos porque não foram levados ciedade. Por sinal, conseguiram
cíficas de interpretar certos fenô- numa história muito peculiar, mui ao conhecimento da sociedade. isso muito bem. Da mesma forma,
menos da realidade de acordo com "sui generis" da sociedade brasi- Hoje parecem graves porque, de a modernização da estrutura da
uma racionalidade específica. leira. Há necessidade de se anali- repente, pipocaram de todos os Alemanha, iniciada por Bismark,
i
Dos pontos acima advêm vá- sar ou, pelo menos, fazer refe- lados, embora sempre estivessem no fmal do século passado, foi i
rios dos problemas de funciona- rência a toda uma evolução das presentes. Refletem, mais uma extremamente conservadora e le-
vez, a estrutura de poder, as rela- vou às contradições que desembo-
mento de um sistema demo- relações de trabalho e de poder.
ções de poder profundamente ar- caram no nazismo e na Segunda
crático. Toda nossa visão mani- Para isso, bastaria fixarmo-nos na
raigadas nesta sociedade. Todas Guerra Mundial. Temos que man-
queísta do bem e do mal, de direita evolução industrial capitalista,
essas facetas, todos esses aspectos ter esses aspectos em mente quan-
e esquerda, do que é certo e do que que passou por diversas fases, que do discutimos esses problemas
que estamos observando e viven-
é errado é totalmente irreal à luz se refletiram na evolução especí- porque, se não, deixamos implíci-
do, na realidade, são sinais de rea-
desse pluralismo político e cultu- fica das sociedades, com alguns to que existiria alguma forma de
ção e de vitalidade da sociedade
ral. Esta é uma primeira observa- passos para a frente, Ol.ltCós para modernização revolucionária,
para enfrentar seus problemas.
ção metodológica, em termos da trás. dentro do marco jurídico-político

78 79
í
capitalista, que não se sabe muito tos quanto entre instituições polí- com esses resultados. Isto, me pa- zes muito claras que é possível
bem onde poderia ter ocorrido. ticas regionais, locais e descentra- rece, não pode ser inferido apenas apreender através de análise des-
O que mais se aproxima desta lizadas, de caráterpúblico e destas a partir,das descrições. É necessá- ses e de outros estudos, realizados
categorização das diferentes es- com a sociedade civil, através da- rio também fazer algumas infe- em várias partes do mundo. Não
tratégias de inovação tecnológica quilo que se costuma chamar hoje rências e deduções e, se não for bastará mais às empresas que
de organizações não governamen- possível tirar conclusões, pelo queiram acompanhar essas ten-
ou de modernização é ainda o tra-
tais (que obviamente não são ape- menos fazer projeções ou extra- dências à modernização, uma
balho de Chrís Freeman sobre ino-
nas aquelas que se preocupam polações dessas tendências, para mão-de-obra, seja de que nível
vação tecnológica na indústria.
com a biodiversidade e a proteção nos situarmos dentco do processo for, mas sobretudo no nível admi-
Trata-se da obra clássica de Free-
do meio ambiente). Há inúmeras histórico, assim caracterizado. nistrativo' que tenha uma fonna-
man, Economia Política da Ino-
organizações não governamentais Quando indagamos que tipo ção orientada para a mera exe-
vação, em que ele estabelece 7 ou
que aparecem como atores políti- de formação da mão-de-obra, que cução de instruções que vêm de
8 estratégias ou formas de ação cima.
das empresas face à problemática cos importantes e que certamente tipo de educação propor às esco-
da inovação, porque todas elas, vão continuar a pressionar e a par- las, desde o primeiro grau até a O novo padrão exige que o
para pennanecer no mercado, são ticipar nas definições das regras universidade, tocamos em um indivíduo tenha a capacidade de
do jogo em tudo o que diz respeito problema que de alguma forma analisar, interpretar e, se for ne-
obrigadas a inovar. Mas há diver-
à sociedade e, sobretudo, no que deriva das tendências do sistema cessário, corrigir as instruções
sas fonnas de inovar. Alguém que
diz respeito à fonnação e à educa- produtivo. Mas esse tipo de infe- que lhe chegam, sejam de quem
investe em pesquisa, se coloca na
ção do cidadão como, também, à rência ou de raciocínio, por en- for. Vejam bem, isso não é apenas
fronteira, procura realmente ser o quanto, está faltando. Diria que
configuração das próprias estrutu- uma questão quê se põe para as
pioneiro porque tem recursos, tem nós teríamos que trabalhar sobre organizações produtivas. Os pró-
produção em escala e tem também ras políticas.
isto. Porque se não for derivado prios exércitos que estão se mo-
uma certa visão dos negócios que A visão histórica da evolução desse tipo de estudo, de onde vi- dernizando, as forças annadas,
geralmente falta aos pequenos e das relações de trabalho, de poder, ria? Simplesmente continuar abriram espaço para esse tipo de
médios empresários, sobretudo no é referencial importante para se como antes, - "business as usual" questionamento e refonnulação
contexto econômico e político de distinguir o que se passa em nível - como dizem os americanos? do regulamento interno. Todas as
um país de desenvolvimento tar- nacional e internacional. Essa Continuar como o sistema sempre rotinas estavam baseadas no prin-
dio como o Brasil. Seria exagera- perspectiva nos ajuda a melhor foi, supondo-se que assim terá que cípio da obediência estrita às or-
do esperar um comportamento interpretar todos os dados forneci- ser porque assim se mantém as dens: se a ordem é de morrer, de
diferente, senão o conservador, dos pelas pesquisas apresentadas estruturas de poder? Francamen- torturar, de matar, tem que ser
por parte dos outros empresários. que, sem dúvida alguma, são bem te, acho que sem enfrentar esse cumprida. Todas as experiências
Simplesmente não há argumento fundamentadas e refletem uma problema nós falharíamos e falta- das últimas décadas mostraram a
para defender essa expectativa. E certa realidade e que, por outro ríamos à nossa tarefa, às nossas inviabilidade desse posiciona-
isto tem implicações, no trata- lado, nos ajudam a encontrar dire- obrigações para com a sociedade. mento, não somente do ponto de
mento da força de trabalho, geran- trizes para a educação e o treina- Diria que, dentro dessa visão, te- vista ético, mas também do ponto
do falta de qualquer disposição de mento. Acho que esse é o objetivo mos que nos perguntar que tipo de de vista funcional. Certas ações
dialogar com os trabalhadores e fundamental desses estudos. Não formação e de treinamento propor com~ndadas pelos chefes sim-
de estabelecer um consenso. pesquisamos apenas para acres- às próprias empresas, às institui- plesmente vão contra os interes-
centar mais um ponto às evidên- ções educacionais, às escolas, às ses superiores da organização, da
Por outro lado, todas as ten- cias empíricas já existentes. Em universidades, sobretudo aos cur- nação, à qual supostamente as for-
dências parecem levar a que se certos momentos, há necessidade sos de nível superior que fonnam ças armadas devem servir. Se há
estabeleça um diálogo, tanto entre de se fazer uma espécie de resumo os dirigentes, os gestores, os tec- mudanças até nesse setor da socie-
entidades empresariais e sindica- e perguntar o que a sociedade fará nocratas. Há uma série de diretri- dade, com muito mais razão deve-

80 81
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de uma empresa. é fundamental culturas, do que sentem falta, mas chamado desenvolvimento sus-
ria haver nas organizações produ-
no treinamento da mão-de-obra não sabem expressar? tentável. É assim, também, que o
tivas.
Exige-se a capacidade de ana- japonesa. Novamente, em retrospectiva indivíduo encontrará o que hoje
lisar e interpretar e. se for neces- Outra característica refere-se histórica, o que me parece impor- em dia está faltando para a maior
sário, corrigir e defender essa ao sistema de comunicação e isso tante ressaltar é que há toda uma parte: o sentido da vida. Qual é o
nova postura perante as instâncias tem a ver com o que o Mário Sér- transformação, desde a desapro- significado daquilo que os indiví-
superiores. Há necessidade de gio Salemo levantou sobre o tra- priação dos meios de produção até duos estão fazendo? É possível
educar o indivíduo para enxergar balho prescrito e o trabalho real. a fase de desapropriação do saber encontrar uma resposta num siste-
os problemas da empresa em ho- Está claro que, com toda a auto- profissional e, eventualmente, ma taylorista e mesmo no sistema
rizontes geográficos 'e temporais mação e com todo o sistema flexí- uma nova fase, que se vislumbra, já um pouco mais avançado da
mais amplos do que o instantâneo, vel. o indivíduo tem que ter de retomada do saber profissional produção flexível? O indivíduo
de produzir com eficiência para espaço para se expressar, tem que e talvez dos próprios meios ode encontraria aí uma resposta à per-
colocar os produtos no mercado. ter a possibilidade de comunicar produção no processo histórico. gunta fundamental, para o sentido
Mas que mercado? Como houve suas impressões, suas vontades, Claro que não se repete a História, da existência? O sentido é algo !
evolução, quais as tendências. dizer aos colegas aquilo que sente não se volta atrás. Se falamos da construído e, ao meu ver, cons- ,I
quais as inovações que despontam e receber "feedback". É essa co- retomada do saber e dos meios de truído coletivamente. I

no horizonte? É mais ou menos municação que vai resultar em produção, pensamos que se dará Os estudos que foram aqui
nesta direção que uma parte das maior identificação com a organi- através do esforço coletivo. Os
empresas japonesas está tentando apresentados, bem como as dire-
zação, com a tarefa a cumprir, ge- produtores (e isso abrange desde
difundir uma nova filosofia nas rando, assim, uma solidariedade trizes que são passíveis de serem
a função menos qualificada até a extraídas desses estudos, certa-
relações industriais. Essa difusão que é fundamental para alcançar
mais alta direção), organizados mente contribuirão para uma defi-
não é completa e abrangente. mas os objetivos da organização, seja
coletivamente dentro de uma filo- nição - seja no sentido filosófico,
é a visão dos horizontes interna- ela empresa, seja ela uma entidade
cionais mais amplos que tem aju- cultural, educacional ou política. sofia e de uma cultura política di- seja no sentido prático - da edu-
dado as empresas japonesas a A comunicação em dois sentidos, ferenciada, realizam tarefas para caç~o, da organização do trabalho
superar certas adversidades que em duas mãos, é que definirá o atender as necessidades da socie- e das relações de poder, enfim, da
surgiram nos últimos anos, como grau de identificação e de solida- dade e de cada um. É assim que a sociedade, como sociedade civil e
a desvalorização do dólar, por riedade. sociedade encontra seu equilíbrio civilizada.
exemplo. O fluxo de exportações e maior hannonia, assegurando o
E aqui chegamos ao último
japonesas teria sido inviabílizado ponto, fundamental. Quando falei
não fosse essa capacidade dos da qualidade da cultura, a pergun-
funcionários de intemalizar esse ta subjacente era: no fundo, a que
contexto e agir de acordo. Quer leva a nossa cultura contemporâ-
dizer: tentar, esforçar-se, empe-
nea? Há várias tendências, sem
nhar-se para elevar a eficiência do
dúvida. Já disse alguém que ten-
processo para que o produto man-
dência não é destino. Existem ten-
tivesse sua competitividade, em-
bora, em termos da moeda nacio- dências, mas a última opção é
nal japonesa. seu preço pudesse nossa. É nossa como entidade or-
ter aumentado. Em resumo, a vi- ganizada, consciente, trabalhando ib
!l'
são, o horizonte geográfico e tem- sobre os problemas, tentando en- "

poral. muito mais amplo do que contrar caminhos e saídas. O que i


normalmente se dá ao empregado os indivíduos procuram nessas
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DEMANDAS POR
RECURSOS HUMANOS
EMUDANÇAS
ORGANIZACIONAIS

I
1
o EMPRESARIADO E A EDUCAÇÃO

Horácio Penteado de Faria e Silva Filho *

Um dos objetivos do nosso Instituto é apoiar e gerenciar projetos, basica-


mente, nas áreas de meio ambiente e educação.
Uma das ações do IHL está sendo junto ao Comitê de Educação da
Comissão Empresarial de Competitividade (CEC). A CEC, criada por
decreto presidencial, é constituída por cerca de 210 empresários represen-
tando todos os segmentos do setor produtivo e todos os estados do Brasil.
Os empresários estavam, em sua maioria, preocupados com o ensino
técnico de 2!! e 3!! graus, mas muitos não sabiam sequer que não existiam
mais o primário e o ginásio. A primeira tarefa foi colocar para o cOnlltê a
importância do ensino fundamental, enfatizando que aí estava o gargalo
do sistema educacional brasileiro.
NOJl_assado, os anseios da oferta (educadores) e as necessidades da
dema~da (empresáiiós)erarn conflítahtes. A escola'única com qualidade
igual para todos não era necessária, pois, na primeira etapa do processo de
industrialização, foi possível a países corno o nosso estabelecer um parque
industrial razoável contando com uma base estreita de mão-de-obra qua-
lificada, somada a um contingente enorme de trabalhadores pouco educa-
dos e mal preparados para enfrentar desafios mais complexos.
:'1' Hoje, no entant,o,a realidade é outra. Predominam as altas tecnologias
de produção e infOrmação, e nenhum país se airisca aentrar em competição
por mercadosintemacionais sem haver antes estabelecido um sistema
educacional onde a totalidade da população, e não só a força de trabalho,
tenha atingido um mínimo de 8 a 10 séries de ensino de boa qualidade. Na
maioria dos países europeus, foi preciso um século para que se atingisse
essa performance, no Japão 70, na Coréia e Taiwan menos de 30 e em
Cingapura menos de 20.

• Coordeoadorde projeto. na áreaeducacíooa! do Instituto HerbertLevy. Assessor da presidencia


da Gazeta Mercantil.

j 87
Para se integrar no contexto da época atual e exercer ~ficazmente um porque, se fosse composto um grupo muito heterogêneo, ia ficar improdu-
pape! na atividade econômica, o indivíduo tem que, no mínimo, saber ler, tivo.
interpretar a realidade, expressar-se adequadamente, lidar com conceitos Na primeira parte, o trabalho mostra a realidade do ensino de primeiro
científicos e matemáticos abstratos, trabalhar em grupos na resolução de grau nos aspectos de eficiência, qualidade e financiamento.
problemas relativamente complexos, entender e usufruir das potencíalida- O acesso à escola de primeiro grau está hoje praticamente universali-
des tecnológicas do mundo que nos cerca. E, principalmente, l?recísa zado: 95% da faixa etária adequada se matricula na 1ª série do I!! grau e
aprender a aprender, condição indispensável para poder acompanhar as dos 5% sem acesso, 80% encontra-se no Nordeste rural miserável, onde a
mudanças e avanços cada vez mais rápidos que caracterizam o ritmo da educação não é prioridade.
sociedade moderna.
Os dados sobre a ineficiência do ensino são alarmantes. Os 43% que
Essas competências são imperativas não só para o trabalhador mas se formam levam em média 12 anos, desses apenas 3% se formam em 8
também para o indivíduo e o cidadão. anos: o sistema consome mais de 20 matrículas para um graduado. A
Procuramos com esse discurso mostrar que hoje os anseios dos educa- evasão precoce é um mito: os 57% que não se formam ficam de 6 a 7 anos
dores - escola única, voltada para o desenvolvimento pessoal, a preparação na escola e se evadem após 3 ou 4 repetências. Essa pedagogia da repetên-
para a cidadania e a preparação para o trabalho - vão de encontro às cia, denunciada pelo Prof. Sérgio Costa Ribeiro, massacra a auto-estima. i
necessidades dos empresários. Boa parte dos evadidos acaba nas ruas das periferias e milhares deles "

Com relação ao papel dos empresários, evoluiu-se para a seguinte acabam indo para as áreas centrais, fazendo da rua a sua sobrevivência e
posição: não sugerimos que os empresários podem ou devem cuidar das até mesmo a sua moradia.
escolas melhor do que o governo ou ao invés do governo. Essa não é sua Os dados sobre a qualidade do ensino indicam que a qualidade no
responsabilidade, sua missão e, muito menos, sua intenção. Além disso, Brasil é urna das piores do mundo. Em 1990, o programa chamado Sistema
por mais que os empresários se envolvam diretamente com as escolas, o de Avaliação do Ensino Básico do MEC (SAEB) realizou testes em mais
efeito dessas intervenções será sempre limitado. Hoje existem centenas e de 100 mil alunos em todo o Brasil; os alunos aprendem, em média, 48, I %
centenas de empresas que se dedicam a atuar no ensino fundamental, mas do que deveriam aprender e o Estado com maior média foi Santa Catarina
não chega a duzentos mil o número de crianças que são atendidas. Isto em (53,4%), que é um escore muito baixo. Em 1991, o Educational Testing
um universo de vinte e nove milhões de crianças de 7 a 14 anos. A solução Services, em New Jersey (ETS), realizou testes em alunos de 20 países:
passa necessariamente pela escola pública. somente conseguimos melhor desempenho do que Moçambique, um dos
No entanto, a participação direta do empresário no trato das questões países mais pobres da África, assolado por uma guerra civil e varrido por
da educação e da escola é importante, por três razões: porque fainiliariza uma crise que o Brasil jamais conheceu.
o empresário com essas questões; porque, no estado atual da educação A Educação tem recursos garantidos pela Constituição. Ela impõe à
brasileira, é útil complementar a ação do governo; e, como atesta a própria União, Estados e Municípios que destinem, respectivamente, 18%,25% e
vivência dos empresários, é a empresa quem mais ganha quando a comu- 25% das receitas líquidas àEducação. Desses valores, até 1998, pelo menos
nidade onde se insere melhora seu padrão educacional. 50% devem ser aplicados na erradicação do analfabetismo e no ensino
Além da participação direta, o empresário pode atuar localmente, fundamental. Para esse grau de ensino existem também os recursos do
participando da gestão da escola, e, através das confederações, que têm salário educação: 2,5% dos salários. Estudos garantem que poderíamos
acesso ao poder, propor e cobrar políticas educacionais. Para tanto, os destinar cerca de US$ 300 por aluno/ano, que, se aplicados racionalmente
I . no ensino, permitiriam, por exemplo, dobrar ou triplicar a remuneração
empresários precisam conhecer o tema Ensino Fundamental.
dos professores.
Com esse objetivo, o Instituto começou a desenvolver um primeiro
trabalho intitulado "Ensino Fundamental e Competitividade Empresarial No entanto, gastam-se apenas US$ 200 face ao não cumprimento da
lei (a União não destina os 50%), atrasos e corrosões provocadas pela alta
- uma proposta para ação do governo". Contratamos especialistas, gente
de renome internacional que pensa a questão da educação para o trabalho inflação. Desses 200, apenas 100 chegam à sala de aula. Estamos falando
da forma como expusemos. A identidade de pensamentos foi proposital em média, pois há escolas que recebem 25 e escolas que recebem 250.

89
88
Esta segunda malversação dos recursos advém de inchaços fantásticos titividade empresarial, mas principalmente como instrumento indispensá-
nas máquinas das secretárias, do absurdo pagamento dos inativos, da ilegal vel para a cidadania e o desenvolvimento pleno das potencialidades hUma-
utilização da verba de educação para compra de merenda etc. nas; que se desenvolvam estudos complementares sobre a questão do
Finalmente, o que chega nem sempre é eficazmente utilizado. Há magistério; definindo caminhos e possibilidades viáveis, tanto em relação
escolas com funcionários em demasia face ao empreguismo político. à fonnação profissional como no que diz respeito à remuneração do
Definitivamente, o problema não é de falta de recursos. Eles existem. professor e à sua motivação para o exercício da função, tendo em vista a
Ocorre que se gasta mal. essencialidade de seu papel na reforma do sistema educativo; que as
experiências que estão acontecendo em diversos pontos do país visando à
Na segunda parte, o trabalho coloca estratégias de mudanças. Propõe remodelação do ensino fundamental sejam apoiadas, dentro do possível,
a implantação de um mecanismo que garanta um padrão mínimo de pelo MEC, e que se proceda a uma constante avaliação de sua evolução e
recursos para as escolas e um sistema nacional de avaliação das escolas. resultados, recolhendo subsídios para que outras ações do gênero sejam
Em outros termos, não é outro o objeto da proposta que equipar as empreendidas com sucesso; que se fomentem, com base na proposta,
escolas e instrumentalizar a sociedade. Nós entendemos que avaliações experiências-piloto objetivando testar as teses centrais do documento,
feitas permanentemente, comparando escolas em áreas e situações diferen- tanto as relativas ao financiamento, quanto as referentes aos processos
tes, vão começar a traçar um caminho para que a sociedade possa eficaz- sugeridos para a determinação dos padrões de desempenho e avaliação dos
mente cobrar. Hoje é muito difícil alguém chegar e dizer que aquela escola alunos das escolas e das políticas públicas; que a avaliação seja considerada
ensinou bem ou mal seu filho; não existe parâmetro, não existe avaliação e utilizada como elemento transformador, indo além de sua função diag- !.
externa. O nosso trabalho mostra também corno outros países equaciona- nóstica, contando nesse sentido com a participação de todos os envolvidos
ram suas políticas educacionais. no processo, dentro e fora do sistema educativo; que o documento seja
O trabalho foi entregue ao Presidente da República e ao Ministro da considerado como contribuição importante no processo de mudança da
Educação e foi muito bem recebido. O Secretário Nacional de Educação cultura política brasileira, ora em ruptura com o velho modelo de estado
Básica Dr. Paulo Elpydio Menezes Neto promoveu um seminário realizado patrimonial e clientelístico, que sempre impediu quaisquer tentativas de
no Rio de Janeiro nos dias 3 e 4 de agosto de 1992. Convocou represen- desenvolver uma política educacional de qualidade, condizentes com os
tantes de vários segmentos da sociedade, acadêmicos de quase todos os interesses legítimos da população; que se considere a influência dos fatores
Estados, integrantes da CUT, profissionais do SENAI e SENAC, presiden- políticos, econômicos e culturais como ponto relevante da determinação
tes do CONSED - Conselho dos Secretários Estaduais de Educação, e da da baixa qualidade do ensino, incorporando propostas e soluções capazes
UNDIME - União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação. de superar a persistência das desigualdades sociais dentro das escolas; que
se desenvolvam propostas visando ao equacionamento dos descompassos
No seminário o trabalho foi debatido. Houve intensa participação de existentes entre os processos pedagógicos, livros didáticos e as fonnas
alto nível, gerando o seguinte documento: modernas de comunicação; que se enfatize nos processos culturais-educa-
"Os participantes do Seminário sobre Educação Fundamental e Com- tivos a valorização das associações de pais e o papel da família e da
petitividade Empresarial, reunidos nos dias 3 e 4 de agosto para analisar comunidade como fator decisivo na transformação da escola; que se
as propostas contidas no documento do mesmo nome, e com base nas estabeleçam, junto aos meios de comunicação de massa, ações no sentido
diversas contribuições fornecidas pelos presentes, recomendam à Secreta- de obter a adesão dos pais e da sociedade civil como estratégia no
ria da Educação Básica: Que se aprofundem as propostas referentes às fortalecimento do papel social e pedagógico da escola; que se considere,
questões do financiamento e gerenciamento do ensino fundamental, crian- como um dos pontos fortes do documento em referência, a participação
do mecanismos claros e declarados para a sua aplicação prática, dentro da dos pequenos, médios e grandes empresários, entendida como manifesta-
heterogeneidade social e cultural das regiões brasileiras; que se reveja ção de preocupações capazes de contribuir decisivamente para a organiza-
também, clara e precisamente, a distribuição das competências entre as três ção das demandas por uma escola pública de qualidade; que se reexaminem
instâncias públicas com responsabilidade no ensino fundamental - União, os mecanismos atuais de financiamento da educação, ampliando-os se for
Estados e Municípios; que se considere a educação, na definição dos o caso, tendo em vista corrigir as distorções do ensino fundamental; que
objetivos gerais da proposta apresentada, não só sob o prisma da compe- se reafirme a contribuição social do salário-educação como instrumento

90 91

i
_I
:1
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.. importante de combate às desigualdades regionais no ensino fundamental


e se fortaleça a locação de recursos com base em critérios redistributivos,
objetivos e transparentes; que se considere a imperativa necessidade de
realizar estudos adicionais que analisem mais especificamente a relação
entre educação e competitividade empresarial, observando inclusive ou-
tros níveis de ensino sem prejuízo da adequada ótica comparativa interna- CAPACITAÇÃO TECNOLÓGICA,
cional; que o documento passe por uma discussão mais ampla entre os REVALORIZAÇÃO DO TRABALHO
empresários e outros setores da sociedade visando a um maior engajamento
às propostas".
E EDUCAÇÃO
Procurei fazer um resumo da atividade do Instituto Herbert Levy junto
à classe empresarial. A sensação que estou tendo é que os empresários terão
Ruy de Quadros Carvalho *
uma força razoável baseada em uma intensa necessidade. O nosso plano é
que os empresários estejam a serviço da educação, pressionando, partici-
pando, tentanto buscar o engajamento da sociedade como um todo. Eu
gostaria muito de terminar ~izendo que hoje temos 90% dos empresários
engajados. Mas isso é, por enquanto, um ideal distante. Mas acredito que
Este textoJçm.como objetivo situar a importância da oferta deeducação
de qualidade e da clisponibilidadedeümabase de recursos humanos
I
i
I I
trabalhando muito chegaremOll lá. qualificada, paiáodesenvolvimento da com~titividade do setor produtivo f.
no Brasil, nas atuais condições de aceleração do progresso técnico. O artigo
procura fazer umbalailço crítico da situaçãõda iiia"stria brasileira no que
t
diz respeito à sua base de recursos humanos e às políticas'de uso do trabalho
adotadas pelas empresas industriais, em grande medida responsáveis pela
conformação daquela base.
O eixo do argumento é de que a disponibilidade de uma força de
trabalho educada é condição necessária, embora não suficiente, para via-
bilizar estratégias produtivas centradas na capacidade de aprendizado e
inovação das firmas. A ex.periência internacional, examinada na Seção 2,
demonstra que face à aceleração do progresso técnico a capacidade de
inovação das.empresas é fator dinâmico crucial para a competitividade de
uma econOmIa.
Por sua vez, tal capacidade requer políticas de recursos humanos (no
plano macro) e de uso do trabalho (no plano micro) que valorizem o
desenvolvimento do conhecimento e da inteligência da força de trabalho,
em todos os níveis da atividade produtiva, da alta administração até o chão
de fábrica. As experiências dos países melhor sucedidos no atual processo
de reestruturação industrial também apontam nessa direção. Entre os vários
aspectos da transformação social associada ao atual processo de mudança
tecnológica naqueles países, um dos mais importantes é a mudança da
natureza do trabalho e a percepção de seu papel pelas gerências, sobretudo

• Professor Assistente-Doulor do Departamento de Política Cientffica e Tecnológica. Instituto


de Geocienci.sfUNICAMP.

92 93

: f.
dessa situação requer mudanças significativas nas políticas empresariais e
do trabalho produtivo na indústria e nos serviços. Muitos autores têm
governamentais.
apontado com ênfase para uma radical re~isã~ do papel do trabalh.o nas
estratégias de produção das empresas. A difusao das novas tecnologias de
produção, das novas técnicas de gestão a elas associadas e a busca perma-
I. ACELERAÇÃO DO PROGRESSO TÉCNICO E
nente da capacidade de inovação exigiriam a recuperação da "inteligência
REVALORIZAÇÃO DO TRABALHO NAS ECONOMIAS
da produção", vista como ruído indesejável dentro do dogma taylorista, até
CAPITALISTAS AVANÇADAS
então dominante!.
A situação do Brasil é examinada em contraste com a experiência
internacional (Seção 3). A estrutura ocupacional da indústria brasileira é 1.1. Aceleração do progresso técnico e capacidade de inovação da
extremamente polarizada entre uma grande massa de trabalhadores semi- empresa
qualificados ou sem qualificação e uma parcela bem menor composta por Uma das características centrais da atual mudança estrutural das
trabalhadores qualificados, técnicos de nível médio e superior e pessoal de economias industrializadas é a aceleração do progresso técnico, isto é, a
direção. Metade dos trabalhadores empregados na indústria (setor formal) intensificação do crescimento da taxa de acumulação de conhecimento
não foram além dos quatro anos de escola. O salário médio não chega a científico e tecnológico e de sua correspondente participação na geração
quatro salários DÚnimos, e a rotatividade da mão-de-obra é altíssima de crescimento e riqueza. A larga disseminação da expressão "revolução
(acima de 50% no setor formal da indústria, na segunda metade da década tecnológica" revela o lado mais aparente do fenômeno: a impressionante
passada). Estes números indicam que o desenvolvimento e O aproveita- rapidez na geração e difusão de novas tecnologias, na introdução de novos
mento da "inteligência da produção" não são O ponto forte da indústria produtos e processos produtivos e na disseminação de novos métodos de
brasileira. E'mbora haja significativas exceções setoriais (que são comen- organização da produção.
tadas), o trabalho corri pouca qualificação, barato e muitas vezes "descar- A crise dos anos 70 levou as empresas e economias nacionais a
tive!" continua sendo a base em que se sustenta a maior parcela das intensificarem a busca de novos caminhos para a elevação da produtividade
atividades do setor secundário no Brasil. O artigo busca documentar e e para o desenvolvimento de novos produtos e mercados. Tal procura
discutir os principais determinantes desta contradição, representada pela realizou-se sobretudo pela exploração das oportunidades oferecidas com
continuidade no Brasil de um padrão predatório de uso do trabalho num o progresso realizado no campo das novas tecnologias.
momento em que as economias mais avançadas do mundo promovem a
valorização do trabalho. A este respeito, o caso das tecnologias da informação, baseadas na
microeletrônica, tem sido notável, devido à sua ampla pervasividade e
Embora o tratamento dado neste artigo privilegie o setor se_cundário potencial para criar novos produtos e mercados, influir na transformação
corno um todo, exemplos setoriais, baseados em pesquisa do autor, são de quase todos os produtos e serviços existentes ou pelo menos na maneira
introduzidos a fim de enriquecer os argumentos. A principal conclusão do de produzi-los e vendê-los'. A difusão dos meios de produção da nova base
artigo (Seção 4) é a de que o nosso "atraso" no que diz respeito ao perfil técnica abriu caminho para uma profunda reorganização tecnológica e
da força de trabalho industrial e ao uso que dela se faz está profundamente organizacional em quase todos os setores de atividade econômica. Produ-
associado à fragilidade tecnológica da indústria brasileira. A superação tos têm sido inteiramente redefinidos, para se tomarem "inteligentes".
Foram derrubadas algumas das mais antigas barreiras técnicas à automa-
L Entre os autores que apontam para a revalorização do trabalho, a reprotissionalização e a perda. ção, viabilizando a associação desta com a flexibilidade de produção. A
de funcionalidade do paradigma taylorista nas novas condições de produção. Schmitz (Schmitz e
Cassiolato 1992), Corlat (1990) e Kem e Schumann (1987) estão entre os mais difundidos no Brasil.
Outros autores chegaram a fonnular teorias mais compreensivas.. em que a reversão da tendência à
emergência de tecnologias descentralizadas de processamento e sua com-
binação com novas técnicas de telecomunicações têm pennitido um ver- '[
..•
fragmentação do trabalho é colocada no centro do que seria uma ruptura na hIst6ria do capitalismo
industrial. equivalente em importância ao que foi, por exemplo, a passagem do artesanato para a
manufatura_ Neste sentido, talvez a "marchê·' mais conhecida seja The Second lndustrial Divide, de
Piore e Sabel (1984). O sistema desenvolvido por Kaplinsky (Kaplinsky 1988, Hoffman e Kaplinsky
r
1988), que apresenta o momento atual como de constituição da era da "sistemofatura". sucedendo a
era da maquinofatura, é igualmente abrangente. Estes autores vêem no Japão, e particulannente em
. 2. Ver Freeman e Soete (1987), para uma discussão abrangeote e empiricamenle documentada
das novas indústrias e serviços baseados nas tecnologias da infonnaçllo, e de co?,o ~stas lê?, :üetado li
as demais indústrias, Para uma avaliação abrangente e documentada da expenênc.a braSIleIra. ver :1
sua indústria automobil[stica~ o lugar de nascimento do "novo processo de rrabalho'·. A propósito da Schmitz e Cassiolato (1992)_ I:
configuração e transferihilidade de um modelo japonês de organização industrial, ver Rirata (1993). I
I

95
94
dadeiro salto no processo de horizontalização e descentralização das tecnológico na América Latina: desde meados dos anos 70, os investimen-
tos em P & D realizados no Brasil não ultrapassam 0,6% do Pffi nacionat
organizações.
A geração e difusão das tecnologias da informação constituem um dos A distância das l;mpresas brasileiras em reiação ao esforço de acumu-
aspectos centrais do que acima se chamou de aceleração do progresso lação de conhecimento tecnológico pelas empresas das economias mais
técnico. A competição com base na inovação tecnológica é o fator domi- dinâmicas é ainda mais expressivo. Enquanto nestas o setor privado é o
nante num número cada vez maior de mercados de produtos industriais e maior responsável pelos investimentos em P & D realizados na economia
de serviços. Firmas e países têm intensificado seu esforço na busca de (em tomo de 80%, nos casos de Japão e Coréia)\ o setor produtivo
novas trajetórias tecnológicas. Aumento da produtividade, melhora da brasileiro é responsável por apenas 7% dos gastos nacionais em P & D
qualidade e conquista de mercados dependem crescentemente da capaci- (SCT 1991). A diferença revela o quanto as empresas brasileiras estão
3
tação tecnológica de firmas e países. Em suma, a competitividade depen- atrasadas em seu ajuste para acompanhar a "revolução tecnológica"·.
de, em grande medida, da capacidade de gerar ou incorporar inovações. A importância da capacitação tecnológica como fator competitivo,
Um indicador aproximado da intensificação dos esforços tecnológicos bem como da ação inovadora das firmas para o entendimento da dinâmica
nas economias avançadas é o crescimento dos investimentos em pesquisa econômica, tem-se refletido no crescimenio do interesse pela investigação
e desenvolvimento (P & D) como proporção do PNB. Entre meados dos da natureza da atividade tecnológica, ao nível da fIrma e dos espaços
anos 70 e meados dos 80, este indicador cresceu de um patamar abaixo dos econômicos nacionais. Dada a irrealidade de seus pressupostos e a incapa-
2% para o nível de 2,7%, no conjunto dos sete países mais industrializados cidade de seus modelos para explicar a dinâmica da inovação, a abordagem
(CEPAL 1990)4. Nos Estados Unidos e Japão, os investimentos em P & D neoclássica tradicional tem sido refutada. Tem crescido a influência das
superavam os 3% do PNB, em 1985 (Dahlman 1989). Estes números teorias "evolucionárias" da inovação, de inspiração schumpeteriana, so-
subestimam a totalidade do esforço tecnológico feito por estas economias, bretudo na formulação de Nelson e Winter (1982) e Dosi (1982 e 1984),
porque não consideram as atividades inovativas no âmbito da produção Para esta perspectiva, o conhecimento tecnol6gico e a capacidade de inovar
que não são formalizadas como P & D. Tais atividades têm um peso são um processo cumulativo, em muitos aspectos endógeno à fuma,
bastante significativo para a geração e incorporação das inovações incre- embora determinado em grande medida por fatores institucionais. Assim,
mentais (minor innovations). Ainda assim, é a ordem de magnitude do o conhecimento tecnológico não é um bem livremente disponível, nem
.1

crescimento do investimento formalizado como P & D que se apresenta facilmente imitado ou transferível entre as fIrmas. A transferência de li

como bom indicador da aceleração do progresso técnico. tecnologia requer aprendizado, porque as tecnologias são, em grande
medida, tácitas e, portanto, apropriáveis pelas fIrmas inovadoras. A mu-
Da mesma forma, são as variações no tempo e a distância em relação dança tecnológica (desde as pequenas mudanças até as inovações radicais)
à posição dos países mais industrializados que nos permitem situar, a partir é entendida como parte de um processo contínuo para absorver e criar
do mesmo indicador, a posição relativa dos países em desenvolvimento, conhecimento tecnológico, determinado. em parte por inputs extemos e em
frente à aceleração tecnológica. Ainda de acordo com os dados da CEPAL, parte pela acumulação anterior de conhecimento e qualificações.
os países asiáticos 5 expandiram significativamente seus gastos em P & D
ao longo dos anos 80, a partir de uma base quase nula nos anos 70, até 6. Este dado é divulgado pelo governo brasileiro (Brasil/Ser 1991) e se baseia numa estimativa
atingir 1,3% do PlB, em meados da década (CEPAL 1990). O caso da dos gastos em C & T em 1988. Todavia, a metodologia adotada bem como os números divulgados pela
Secretaria de Ciência e Tecnologia têm sido questionados. Aron Kuppermann, em seminário recente-
Coréia é que o revela maior dinamismo, com gastos em P & D saltando de mente realizado na Universidade de São Paulo, apresentou uma estimativa discrepante, baseada em
0,6% do PIB em 1980 para 1,6% do PIB em 1985 (Dahlman 1989). Em novas observ.ções empíricas para o ano de 1995. Na sua avaliação, os gastos em C & T no Brasil não
contraste, a situação do Brasil é reveladora da estagnação do esforço ultrapassariam 0,35% do Pro (Gazeta Mercantil, 13110193).
7. Um aspecto importante desse fenômeno é que Ocrescimento da participação das atividades de

3. Sobre o conceito de c.pacitação tecnológica, particularmente nO caso dos países em desenvol-


P & D na produção de valor agregado não se dá apenas nas indústrias de alta tecnologia. Nas economias
avançadas. esta tendência também é presente em muitas das indústrias ditas maduras. A esse propósito
ver OIT, 1988. e a avaliação de Business Week, de 28106193.
8. Pela estimativa da Secretaria de Ciência e Tecnologia, as empresas produtivas (estatais e
f6
'1.

vimento, ver Bell (l984), Fransman (1986), Enns e Park (1988), Enos (1991) e Lall (1992).
privadas) no Brasit investiram em conjunto cerca de US$ 700 milhões anualmente em P & D. Em
4. Inclui Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França. llália, Japão e Reino Unido, contraste, as 200 empresas estrangeiras não americanas que mais investitam em P & D no IDO de 1992
5. Inclui Coréia, Filipinas, Hong-Kong, Cingapura e Tailândia. • colocaram cerca de US$ 88 bilhões em P & D (Basiness Week, 28f06l93). Apenas as oito empresas
italianas que constam desse mesmo grupo investiram US$ 3,8 bilhões em P & D em 1992.

96
97
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Como veremos a seguir, as tendências recentes do progresso técnico com investimentos elevados em P & D (por exemplo, nas indústrias de
têm implicado mudanças substanciais nos processos de trabalho nas eco- máquinas), as atividades ligadas à inovação de produto estão se tomando
nomias mais avançadas, com reflexos sobre o emprego e o uso do trabalho. cada vez mais importantes, como resultado da fragmentação dos mercados
O entendimento da atividade inovativa como um processo de aprendiza- e da maior importância da produção costumizada.
gem, localizado e cumulativo, ajuda a entender as novas funções do
trabalho. No entanto, esta tendência não deve ser entendida como perda da
importância estratégica da produção. Ao contrário, o mesmo processo que
leva a ampliar o conceito de produção para incorporar a "produção da
1.2. As implicações da aceleração do progresso técnico para o processo inovação", atua no sentido de ampliar o conceito de inovação para incor-
de trabalho: atenuação da divisão do trabalho e crescimento de seu porar a inovação que "nasce" no chão da fábrica. Em indústrias cuja
conteúdo inovativo competição está mais centrada na inovação de produto, a força de trabalho
na produção tem tarefas decisivas relacionadas com a implementação, o
No que diz respeito às implicações do atual processo de aceleração do teste e a correção dos novos processos e produtos. O mesmo argumento
progresso técnico para o processo de trabalho produtivo, nas econolIÚas vale com relação à contribuição do conhecimento acumulado no chão da
mais avançadas, três aspectos merecem destaque. fábrica para que as empresas que adotam automação programável possam
a) Em primeiro lugar - e talvez esta seja a mudança de impacto mais se beneficiar das oportunidades oferecidas por esta tecnologia para acele·
profundo e duradouro, embora de realização mais demorada - o cres- ração da taxa de inovação de produto e processo, como argumentado por
cimento da participação das atividades de inovação (e não apenas de P Hoffman (1988). A idéia de "fábrica-laboratório" (Freeman 1988), nascida
& D), no valor agregado pela produção industrial, coloca em xeque o a partir de uma pesquisa em indústrias japonesas de bens de consumo
conceito mesmo de processo de trabalho. Isto parece especialmente eletrônicos, sintetiza bem esta noção de que a fábrica é o local privilegiado
válido para as fronteiras que a literatura sobre processo de trabalho dos testes de projetos de novos produtos, cujos ciclos de vida são cada vez
usualmente estabelece, ao restringir o conceito ao que ocorre no chão menores.
da fábrica ("shopfloor"). Do ponto de vista da produção de valor, A força do "modelo" japonês de inovação consiste exatamente no
atividades que se consideram fora da "produção", como P & D, enge- aproveitamento máximo da força criativa decorrente da acumulação de
nharia e serviços após venda têm sido sua participação relativa subs- conhecimento no chão da fábrica. Organizacionalmente, a principal carac-
tancialmente ampliada. terística do modelo consiste em aproximar e integrar as áreas e funções de
A separação conceitual completa entre inovar e produzir começa a engenharia e produção. Amsden (1989) também insiste neste ponto, ao
deixar de fazer sentido. Nas condições do capitalismo contemporâneo, tratar das características do processo de aprendizado tecnológico na Co-
produzir é cada vez mais "produzir inovação". Esta generalização deve ser réia, bastante inspirado nas características organizacionais japonesas.
qualificada em função das distintas realidades setoriais, sobretudo no que b) Em segundo lugar, é importante ressaltar que a mudança por processos
diz respeito às diferentes características da geração e difusão de tecnolo- de trabalho industriais modernos é impulsionada em grande medida
gias. Não cabe aqui entrar numa classificação deste tipo, mas a menção a pela difusão da automação programável. Sobretudo nos setores que,
alguns casos concretos ajuda a fortalecer o argumento. antes da atual onda de automação, eram caracterizados por processos
Para indústrias que esmo na fronteira tecnológica, e que já constituem de trabalho predominantemente manuais ou semi-automatizados (por
uma parcela muito significativa da produção nas economias avançadas, exemplo, nas indústrias envolvendo mOlltagem em série, como a ele-
"produzir" avanços tecnol6gicos é o estágio crucial do seu ciclo produtivo, trônica e a automobilística), está havendo mudança na I)atureza e no
assim como a inovação é o principal produto ou serviço que vendem. conteúdo do trabalho na produção. Para além da destruição/criação de
Quanto mais um setor ou fuma é "intensivo em ciência", isto é, quanto empregos, a própria natureza do trabalho "vivo" está se modificando
mais sua posição competitiva depende do contínuo desenvolvimento de no curso do presente salto da automação. O trabalho manual direto -
tecnologias apropriáveis derivadas de avanços científicos, mas o centro de em sua maior parte fragmentado e pouco qualificado ~ está sendo
gravidade de seu ciclo produtivo tende a se deslocar para suas atividades progressivamente eliminado, emergindo em seu lugar tarefas de moni-
de inovação. Não obstante, mesmo em indústrias mais dependentes de toramento e supervisão de sistemas automatizaüos, de natureza total·
outros fatores competitivos como escala e produtividade do trabalho, mas mente distinta (Carvalho 1993).

.1
98 99 r
t.
t.
o trabalho em sistemas automatizados contém um conteúdo intrinse- voltado direta ou indiretamente à inovação, em todas as esferas da atividade
camente relacionado com o processo de inovação tecnológica. Não se trata produtiva. Tem crescido progressivamente, também na produção, a pro-
apenas da maior freqüência de introdução de novos produtos possibilitada porção ~de tarefas e responsabilidades não rotinizáveis, que de alguma
pela extrema flexibilidade da nova tecnologia e que tem no teste da fonua estão relacionadas com objetiyos que constantemente se renovam.
produção um laboratório indispensável para aperfeiçoamentos. Trata-se
também de que os sistemas automatizados são sistemas abertos, perma-
nentemente em evolução, sendo que esta se vale muito do feedback que 1.3. As lmfJYcaj:õe~pªrClo uso do trabalho e o perfil do emprego
industrial
vem do chão da fábrica. Neste sentido, pode-se dizer que a automação
flexível, ao mesmo tempo que libera o trabalhador produtivo de grande Nessas condições, parece que estão mudando radicalmente o papel
parte das tarefas mais repetitivas elou perigosas, exige-lhe um novo tipo ~1!ͺoª.Q. tr{lJ~!j.lhQ.p.clas-emp.[~ª~~..suunanejrade (lr.&llni~á-lo e admi-
de tarefa, ligada ao conhecimento do sistema produtivo e à necessidade de nistrá-19. Numa organização onde .o ritmo da mudançaJe~está
prever e corrigir disfunções do sistema. sendo ac_~I~rllcl.ll, a..h{lbilidade-<:hl.fm:ça de trabaJh~~adaptar r~ida­
c) Em terceiro lugar, mas não menos importante, a mudança nos processos ~el~!"~_a novas "campanhas" de produção pode ser um importantefatõrOe
, de trabalho tem sido facilitada pela disseminação de novos métodos ou ç.Q!!l~YjjYid~. Face à intensifica ão da competi ão com base na inova-
"I técnicas de organização da produção (para alguns autores, "técnicas
i,l ~ ';: 5~? te.~~~I?g~c~~~()SQ.I1ML1ffiento_ªcumu a _~~ trabalha<!orej:-:-é_u.!!iJ1
japonesas de organização da produção", para outros, "novos métodos }õnte c~(:~vações.incrementais,que não pode ser subestimada. O
de qualidade e produtividade"), tais como just-in-time, Kanbam etc. acompanhamento de ~~~e_semp.n;.
Tal difusão é relativamente independente de mudanças tecnológicas podem ~rf.s.entar falhas m~Eera as requer uma mão-de-obra res onsá-
de produto ou de processo que envolvam equipamentos, matérias-primas ver;~~~nta e conh~ dos eq~ipamentos. Os benefícios da integração
etc. As novas técnicas de gestão facilitam a integração das funções de entre velldils";P& D e a área de Ij'lanufatura serão maiores se o trabalhador
produção, controle de qualidade e organização da produção. A idéia de individual ou o grupo receberem maior responsabilidad~utonl})li1a"e
"produzir qualidade", um dos objetivos principais dessas técnicas, pressu- m~flIll se comunic.ll!-:C?~g\!.~á!:e~~ .d~~tro da empresa. Todos e;ses-
põe uma delegação considerável da responsabilidade sobre a qualidade Íatores coriêorrempãía tomar ineficaz uma abordagem taylorista rígida,
para o trabalho de produção. Além disso, pressupõe também uma busca seja na organização do trabalho, seja na gestão do mesmo 9•
permanente de pequenas inovações na maneira de produzir, que nascem
Com efeito, o_ql:l.~~os assistindo. nas eco!l9~ais avançadas
do conhecimento acumulado pelos trabalhadores na própria vivência da
é nill.Jeal enfragu~ms:n~dosdogI)lª~!ªyJ-º.tistas sobre ~Jragmenta.x!9
produção. Neste sentido, as novas técnicas organizacionais parecem ser
do trabalho, com as gerências mudando em direção a um usõ~mais abran-
um instrumento importante (embora não suficiente) para viabilizar aquilo
gente dó mesmo, no qual o conhecimento e a criatividade de uma força de
que acima denominamos como "a inovação que nasce no chão da fábrica".
trabalho responsável e cooperativa constituem uma contribuição bem-vin-
Algumas dessas técnicas criam um espaço fonual para que trabalhadores
da na busca da eficiência, da qualidade e da inovação.
de diversos níveis e funções participem deste tipo de processo inovativo.
A consideração das três tendências, acima comentadas, em separado, As mudanças no processo de trabalho capitaJista, particularmente a
só faz sentido como urna abstração construída para fins analíticos. Em mªiorinventividade e conhecimentos requeridos do trabalhador, refletem-
concreto e na prática, elas ocorrem em conjunto e fazem parte de um se em mudançasaêentuadas no padrão de uso do trabalho e nas caracterís-
mesmo processo marcado pela aceleração do progresso técnico, afetando, ticas quantitativas e qualitativas do emprego do setor industrial das
cada urna delas, em maior ou menor grau, a maioria dos setores produtivos. economias avançadas. Estas mudanças serão aqui sintetizadas em quatro
• 10 '
Mais ainda, essas tendências se reforçam mutuamente; por exemplo, a Itens .
eliminação do trabalho manual mais pesado e repetitivo abre espaço para
o melhor aproveitamento do trabalhador em atividades que requerem
inventividade. 9. Entre os inúmero, autores que chamaram a atenção para e'te ponto, eslão Schmitz (1985 e I
1988), Coriat (1990), Kaplinsky (1988), Kem e Schumann (1987) e Schumann (1990). Há também
O que parece ser subjacente a todas estas mudanças no processo de uma vasta literatura, de caráter mais nOrnlativo, na área de Administração. sobre o mesmo tema. I
trabalho capitalista é o aumento substancial da proporção de trabalho 10. Estes mesmo, pontos são di,cutidos com detalhe em Carvalho (1993, Capftulo lI).
t

100 101
iI,l
11:
a) Mudança na estrutura ocupacional: "Terciarização" e dissipação do diferentes maneiras, umas favorecendo mais um enriquecimento geral dos
trabalho produtivo direto conteúdos dos postos de trabalho e outras favorecendo a polarização entre
A intensificação das atividades de P & D e a difusão da automação trabalhos mais e menos qualificados. A escolha entre estas alternativas é
programável têm atuado em conjunto para acelerar a tendência - já primordialmente, questão gerencial, portanto, escolha social. .,
anteriormente detectada - de queda da participação dos trabalhadores Se tormarmos como objeto da nossa análise aquelas situações (indús-
diretos na estrutura global da força de trabalho, com o correspondente Irias) em que, de alguma forma, se combinam intensificação das atividades
ll
crescimento do número relativo de trabalhadores indiretos . Esta tendên- de P & D e alta densidade de difusão das novas técnicas de produção, é
cia pode ser desdobrada em dois aspectos. Em primeiro lugar, tem crescido possível verificar uma profunda mudança nas qualificações exigidas para
substancialmente a participação, na estrutura ocupacional, dos cientistas, o trabalho industrial. Apesar dos múltiplos aspectos envolvidos, essa
engenheiros, técnicos e outros profissionais ligados ao suporte à gerência. mudança poderia ser sintetizada como perda de importância das habilida-
A esta tendência corresponde a idéia de urna "terciarização" da indústria des manuais em favor das habilidades cognitivas e comportamentais
(Cardoso 1982). Watanabe (1987), por exemplo, reporta que entre os anos (Carvalho 1993). Estas "novas" qualificações poderiam sercompreendidas
60 e 80 a proporção de trabalhadores da indústria automobilística japonesa em três grandes grupos: novos conhecimentos práticos e teóricos, capaci-
engajados na produção decresceu de 57% para 45 %, ao passo que a parcela dade de abstração, decisão e comunicação, e qualidades relacionadas à
representada pelo "staff' técnico e adlIÚnistrativo subiu de 19 para 34%. responsabilidade, atenção e interesse pelo trabalho l2•
Isto, por um lado, é reflexo do crescimento dos esforços em P & D
No entanto, a cautela recomendara evitar uma conclusão apressada a
realizados pela indústria automobilística japonesa.
respeito de uma tendência geral ao aumento do nível de qualificação dos
Por outro lado, e aí está o segundo aspecto, a diminuição da proporção trabalhadores industriais diretos das economias mais avançadas. Além do
de trabalhadores diretos é reflexo do que Coriat (1990, p. 199) chamou fato de os estudos existentes estarem bastante concentrados em um limi-
"dissipação" do trabalho direto de produção e extensão do trabalho indi- tado número de setores, há outros motivos metodológicos para tal cautela.
reto. Estes são fenômenos complementares decorrentes da difusão da As mudanças que as empresas estão introduzindo na organização do
automação programável que, como vimos, tem efeitos significativos na u:abalho são, na maior parte dos casos, experimentais, sendo que a diver-
eliminação do trabalho manual, sobretudo o de natureza simples e repeti- sldade de situações não parece indicar que haja um "modelo" dominante.
tiva. Ao mesmo tempo que concorre para aumentar a produtividade do Além disso, dado que o material empírico das pesquisas disponíveis em
trabalho direto, a introdução de sistemas automatizados complexos requer geral não se vale de medidas objetivas do grau de qualificação, fica difícil
um volume maior de manutenção, inclusive em áreas de especialização estabelecer comparações. O que, sim, parece inquestionável é que, com o
novas, como a programação e a manutenção eletrônica dos equipamentos. avanço da automação programável, há uma tendência para que o trabalho
b) As novas qualificações exigidas: conhecimento, capacidade de abstra- direto assuma um caráter de monitoramento, passando a exigir do traba-
ção e qualidades comportamentais lhador maior capacidade de abstração, decisão, comunicação e um maior
grau de responsabilidade. No.entanto, como sugere Coriat (1990), trabalho
A questão das novas qualificações exigidas pela aceleração do pro-
mais abstrato não necessaria'!1ente significa trabalho mais qualificado.
gresso téénico é complexa e bastante dependente dos contextos tecnológico
e social. O grau de difusão da automação programável em uma indústria é Os novos perfis profissionais associados ao avanço da automação e à
uma variável-chave, à medida que dele dependerá a maior ou menor difusão dos novos métodos de organização da produção requerem maior
mudança na natureza do trabalho vivo, da qual decorrerão necessariamente capacidade de abstração, o exercício do discernimento, e certas qualidades
determinadas tarefas. No entanto, novas tarefas podem ser agrupadas de comportamentais relacionadas com a confiança e a cooperação. Como
lembra Coriat, "esta dissolução do trabalho direto e a extensão do trabalho
11. Estou considerando como trabalhadores diretos aqueles encarregados de rarefas diretamente indireto poderiam também ser vistas como um movimento geral em direção
relacionadas com a operação de processos produtivos (tais como a operação/coorrole de equipamentos
ou ferramentas, a alimentação ou monitoramento de máquinas automáticas. a montagem ou manipu-
lação de componentes ou materiais etc.). Em contraparte, as tarefas dos trabalhadores indiretos >lio 12. Isto é o que se depteende das pesquisas empíricas de Kem & Schumann (Kem & Schumann
tod"" aquelas que se referem à manutenção/transformação das condições gerais para a produção (desde 1987, 1991; Schumann 1990) realizadas sobre a experi~ncia alemã no. setores automotivo. químico e
as tarefas de fIUlnutenção até aquelas relativas à pesquisa e desenvolvimento de novos processos e de máquinas.ferramenta. Schmitz (198$) realiza um survey da literatura dos países mais industrializa-
produtos). dos que aponla na mesma direção.

102 103
II

à abstração do trabalho, abstração significando que, mais do que o manejo para um aumento do grau de escolaridade da força de trabalho, dentro e
oncreto de ferramentas baseado em prescrições de operação, agora esta- fora da fábrica (OIT 1988).
~os lidando com a capacidade para ler, interpretar e decidir com base em Este crescimento está certamente relacionado ao aUmento do pessoal
dados formalizados e fornecidos pelas máquinas" (1990, p. 202). Pode-se engajado em atividades de P & D e engenharia, mas não só a isto. Por
ainda acrescentar que a inclusão no escopo do trabalho de produção de exemplo, na indústria automobilística alemã, a existência prévia de uma
responsabilidades tais como controle de qualidade e busca pe~anente de mão-de-obra com alto nível de escolaridade formal e treinamento vocacio-
pequenas melhoras no processo produtivo reforçam a necessIdade de o nal facilitou a transição para um novo esquema de organização do trabalho
trabalhador compreender a lógica e as condições do seu trabalho, estabe- nas plantas mais automatizadas, em que os novos cargos de "controladores
lecer relações e decidir entre alternativas. de sistemas" puderam ser enriquecidos com tarefas mais complexas de
Finalmente, parece também ser uma exigência bastante difundida, nas manutenção (Jürgens et aI. 1986). O fato de os operários de produção
novas condições de produção, que a força de trabalho apresente uma atitude alemães em geral terem educação básica e profissional acima da exigência
confiável, cooperativa e interessada pelo trabalho e pelos objetivos da média da estrutura fordista anterior acabou contribuindo para uma transi-
produção. Se considerarmos as características centrais do processo de ção mais rápida.
reestruturação produtiva acima comentadas e suas implicações para o Parece provável que as indústrias que agora estão se automatizando·
processo de trabalho, não é difícil compreender de onde nascem estas (sobretudo aquelas que produzem produtos mais complexos) irão seguir o
exigências. Apenas para ficarmos com as implicações da difusão da caminho das indústrias de processo em fluxo contínuo, onde o nível de
automação programável, vale lembrar que, nas condições de uma produção escolaridade formal é mais alto, em todos os níveis da mão-de-obra. As
altamente automatizada e integrada, os custos de quebras e interrupções novas exigências de capacidade de abstração, raciocínio crítico e presteza
são muito altos (em comparação com processos semi-automatizados). Isto de intervenção são de tal ordem que o grau e a qualidade da escolaridade
é função não apenas dos custos de manutenção dos equipamentos, mas formal terminam por ter impacto direto sobre a produtividade do trabalho.
também dos custos geralmente maiores da perda de produção advindos de
paradas em produção integrada. Isto requer que os trabalhadores tenham Neste ponto, nada melhor do que o exemplo do Japão e das novas
responsabilidade para atuar dentro das especificações, atenção para perce- economias industrializadas do Leste Asiático. Estas economias entende-
ram que o investimento na universalização de uma boa educação de
ber rapidamente sinais de pane e interesse (motivação) para antecipar
primeiro e segundo graus era um requisito essencial para acelerar a adoção,
problemas, intervir no processo em tempo adequado etc. Da mesma forma,
a adaptação e a absorção de tecnologia. O espetacular uso da engenharia
conceitos de organização da produção como Qualidade Total e Grupos de
reversa feito por países como Coréia, Taiwan, além do próprio Japão, que
Aperfeiçoamento pressupõem uma clara motivação da força de trabalho
para participar, refletir criticamente sobre o trabalho e sugerir modifica· lhes permitiu ir até os estágios finais na absorção de tecnologias importa-
das, seria impensável num contexto com mão-de-obra pouco escolarizada.
çõcs.
O sucesso desses países, em particular nas indústrias que constituem a base
Para concluir, todas as evidências levam a crer que o operário limitado, do novo paradigma tecnológico. deve muito aos pesados investimentos
de gestos mecanizados e pouco discernimento, típico do modelo tayloris- feitos na melhora e universalização da educação secundária e na ampliação
ta/fordista de organização da produção, deixa de ser funcional para os da educação superior, em particular sua ênfase na engenharia e outras áreas
objetivos gerenciais dentro da nova etapa aberta com a recente aceleração de ciência aplicada (Dahlman 1989). A Tabela I, a seguir, dá uma dimen-
do progresso técnico. Como veremos, esta mudança está associada a um são do avanço da educação secundária e terciária nesses países, em
crescimento substancial da importância de uma boa educação formal da contraste com a situação de países da América Latina, entre eles ° Brasil.
força de trabalho. A situação do Brasil será comentada mais à frente.
c) Maior exigência de escolaridadefarmal
As mudanças nas exigências de qualificação tendem a afetar a estrutura ~
ocupacional também no que se refere ao grau de escolaridade formal. Nas I
economias industriais mais avançadas parece haver uma clara tendência

104 lOS

J
, I
i I

d) Políticas de gestão da mão-de-obra voltadas para a estabilização e o


envolvimento
TABELAl
INDICADORES DE EDUCAÇÃO EM PAÍSES O desenvolvimento dos novos requisitos comportamentais, educacio-
SELECIONADOS nais e de conhecimento do processo produtivo, exigidos dos trabalhadores,
tem levado as empresas a introduzirem inovações em suas políticas de
pessoal e de relações industriais. Nas empresas dos países mais industria-
Coréia Taiwan Japão México Brasil lizados, é crescente o número de experiências com novas políticas de
salários e carreiras, desenhadas com o intuito de desenvolver o compro-
li Percentagem do grupo
etário matriculado no
metimento dos funcionários com os objetivos da organização e estabilizar
l" o vínculo empregatício.
i Ensino Secundário A partir do que já foi examinado nas seções anteriores, é possível
I (1965) 35 38 82 17 16
(1985) 94 91 96 55 35'
entender a motivação das empresas para tal mudança, O investimento em
treinamento para operação de novos equipamentos, ou para desenvolver
Ensino Superior funções dentro das novas técnicas japonesas, é geralmente elevado. As
(1965) 6 7 13 4 2 empresas têm interesse em preservar este tipo de ativo. Da mesma forma,
(1985) 32 13 30 16 11
há grande interesse em preservar as "cabeças" e as "idéias" desenvolvidas
Estudantes do
e acumuladas ao longo de anos num laboratório de pesquisa. O conheci-
Ensino Superior como mento detalhado da produção, base do aperfeiçoamento permanente, exige
% da população 3,6 2 2 1,5 1,1 tempo, confiança e estabilidade do vínculo empregatício, Confiança recí-
proca é também a base para que se possa contar com uma atitude respon-
Esrud8lltes de
Engenharia
sável da parte de trabalhadores que operam equipamentos caros. Todos
esses fatores convergem no sentido de ampliar o interesse das gerências
Total (milhares) 227,6 128,7 418,9 281.8 164,6 pela estabilização de sua força de trabalho. Neste sentido, parece confir-
mar-se a expectativa de Schmitz (1985) de que a difusão das novas
Como % da população 0,54 0,68 0,34 0,35 0,13 tecnologias iria ampliar a tendência de as empresas buscarem a estabiliza-
ção de seus empregados, tendência esta que Schmitz caracteriza como
Ano (1987) (1984) (1986) (1986; (1983) típica da produção automatizada em fluxo contínuo (na indústria química,
por exemplo).
A novidade, contudo, está em que as atuais experiências em matéria
Fonte: Dahlman e Frischtak (1990).
de políticas de remuneração e çarreira implicam mudanças mais profundas
• Os dados relativos ao Brasil provavelmente subestimam seu indicador porque~ devido a diferentes do que o simples pagamento do salário-confiança (reliability wage) que
definições de curso secundilrio, a faixa etária considerada como base no caso brasileiro vai de 15 Schmitz identificou como a peça central das políticas de estabilização
a 17, em contraste com as faixas considendas para o México eJapão (12-17) e Coréia (lO-la). naquele tipo de produção'. Ainda que este aspecto não esteja descartado,
A necessidade de que a força de trabalho receba uma boa educação nas experiências atuais predominam sistemas em que se busca antes
básica vem tornando obsoleto o conceito que separa a educação básica da vincular a progressão funcional e salarial à performance individual dos
educação profissional. Embora a educação profissional continue sendo trabalhadores. Sistemas de carreira/remuneração do tipo pay-for-Ieaming
necessária para a formação de determinadas "fam.I1ias" de profissionais ou performance-pay, na trilha da experiência japonesa, desvinculam a
(eletrônica, mecânica, química) que constituem a base a partir da qual as carreira individual de postos de trabalho específicos. No caso do pay-for-
novas categorias de trabalhadores da produção estão se constituindo, a leaming, por exemplo, os trabalhadores são promovidos salarialmente à
exigência de uma boa formação de segundo grau vem a ela se agregar. medida que são capazes de aprender e dominar um novo grupo de qualifi-
cações, que podem inclusive estar fora da produção. Assim, as carreiras

106 107
I
I
são mais abertas, podendo um trabalhador de produção .resenvolver com- as mais altas. Além disso, as empresas brasileiras investem pouco em
petência e atuar na área de manutenção (Carvalho 1993). treinamento e formação, quando comparadas com padrões internacionais.
Estes s_ão sintomas de que, na maior parte das empresas, ainda prevalecem
É necessário, no entanto, estar atento para as críticas a esses novos
políticas de pessoal de visão curta - inexistência de carreiras, baixos
sistemas, que apontam para o enfraquecimento da capacidade de atuação
salários, uso da demissão como instrumento disciplinador e como expe-
coletiva dos trabalhadores. Malsch, Dohse e Jürgens (1984), por exemplo,
diente para controle de reivindicações salariais - que revelam pouco
falam do caso japonês como uma verdadeira refeudalizaçãodas relações
interesse das gerências com a fixação da força de trabalho. Examinemos
de trabalho. No entanto, não há como negar que estes novos esquemas de
esta situação em maiores detalhes.
gestão do trabalho, em suas diferentes formas, representam uma ruptura
com os padrões tradicionais, em que as perspectivas de carreira e ascensão
individual eram, para a grande massa de trabalhadores manuais com pouca Il.l. O escasso dinamismo tecnol6gico e o atraso relativo da indústria
qualificação, bastante limitadas. brasileira
Ainda que, dentro do quadro de heterogeneidade tecnológica que
11. O CONTRASTE DA SITUAÇÃO BRASILEIRA: marca nossa estrutura industrial, uma parcela ponderável dos setores
FRAGILIDADE TECNOLÓGICA} PERMANilNCIA DO industriais seja relativamente moderna, atualizada em termos de tecnolo-
TAYLORISMO E USO PREDATORIO DO TRABALHO gias de produto e processo (Araújo Ir. 1992), a indústria brasileira apre-
senta um baixo grau de capacitação tecnológica, isto é, dificuldade
, i
Em relação à experiência dos países de industrialização avançada e estrutural de inovar. Tal dificuldade deve ser entendida no contexto de um
,I
dos NICs asiáticos, a situação brasileira apresenta um contraste marcante. padrão de industrialização que foi marcado pela exploração predatória de 1

Embora o processo de industrialização brasileira também tenha ocorrido mão-de-obra barata e de recursos naturais abundantes e na manutenção de
com velocidade e vigor notáveis, ele tem sido marcado pelo baixo dina- um protecionismo generalizado e ilimitado no tempo.
mismo tecnológico, o que constitui uma fragilidade crucial no atual mo- É importante distinguir aqui entre atraso/modernidade tecnológica e
mento de reestruturação baseada na aceleração da mudança tecnológica. baixo grau de capacitação ou dinamismo tecnológico. Enquanto o primeiro
A baixa prioridade atribuída historicamente à capacitação tecnológica é um conceito estático e diz respeito ao grau de atualização (em relação às
no Brasil, aliada aos efe!tos da crise sobre o investimento, que terminaram tecnologias mais modernas) das tecnologias de produto e processo utiliza-
por retardar o processo de modernização e a difusão de novas tecnologias dos na indústria, o segundo refere-se à capacidade das firmas de acumula-
e técnicas organizacionais, são os determinantes mais diretos da relativa rem conhecimento tecnológico, que lhes permita evoluir numa cadeia que
permanência de processos de trabalho convencionais, assentados sobre o vai desde a compra e a utilização competentes de "pacotes" tecnológicos
princípio taylorista da separação entre o saber e o fazer. Assim, em que até à capacidade de geração endógena de inovações. Trata-se, portanto, de
pese a ocorrência de exceções setoriais, prevalecem no Brasil processos um conceito'dinâmico, de particular importância para países de industria-
de trabalho industriais com baixo grau de automação, organizados com lização recente, em que o dinamismo tecnológico é, em parte, função da
base na fragmentação do trabalho e na constituição de postos de trabalho capacidade das fIrmas de "completarem o ciclo de assimilação de tecno-
com tarefas simplificadas, cuja participação no processo inovativo das logias importadas" (Enos e Park 1988).
empresas, quando ocorre, é marginal. Se efetivamente há modernidade em áreas do parque industrial brasi-
Esta situação se reflete claramente nas características estruturais da leiro, isto se deve sobretudo ao fato de que setores como a petroquímica,
força de trabalho industrial no Brasil bem como no padrão - preôatório - papel e celulose, parte do setor sidenírgico etc. são de constituição relati-
prevalecente no uso do trabalho. A maior parcela da força de trabalho vamente recente e foram implantados com base em importação de "paco-
industrial é composta de trabalhadores semiqualificados ou não-qualifica- tes" tecnológicos atualizados, No entanto, é preciso enfatizar que, de
dos, COm baixo grau de escolarização formal e cujas experiências de acordo com os resultados de pesquisas recentes (Furtado et aI. 1992;
treinamento são de curta duração. Os salários da mão-de-obra industrial IE-UNICAMPIIPT 1992), a indústria brasileira apresenta, de maneira
no Brasil estão entre os mais baixos do mundo, enquanto que a taxa de geral, um baixo grau de capacitação tecnológica, que tem se refletido numa
rotatividade no emprego, mesmo excluindo a construção civil, está entre

108 109
i
I.
i.
incapacidade para gerar ganhos significativos de produtividade e para mento", mais do que mudanças de maior fôlego nas estratégias tecnológi-
desenvolver inovações e aperfeiçoamentos em seus produtos. 14
cas .
Esta afIrmação deve ser qualificada dentro do contexto de heteroge- Tàis estratégias defensivas têm se refletido claramente na lenta difusão
neidade da indústria brasileira. Nas empresas mais atrasadas, a fragilidade da automação flexível na indústria brasileira. Com maior intensidade entre
tecnológica se manifesta até mesmo na dificuldade das empresas em os usuários da automação da manufatura do que entre as indústrias de
identificar oportunidades tecnológicas, em escolher equipamentos e for- processo, acumula-se uma enOrme defasagem entre a indústria brasileira,
necedores de tecnologias e em utilizá-los adequadamente. Mas mesmo nos de um lado, e os pa(ses de industrialização mais avançada e os "tigres"
setores mais atualizados tecnologicamente (na siderurgia e na petroquími- asiáticos, de outro (Carvalho 1993). Entende-se essa defasagem quantita-
ca, por exemplo), ainda que se tenha desenvolvido uma considerável tiva quando se examina a natureza dos investimentos em automação
capacitação operacional nas empresas líderes, propiciando um nível efI- industrial no Brasil. Conforme assinalado em diversos estudos setoriais, o
ciente de operação e a introdução de pequenos aperfeiçoamentos tecnoló- objetivo conservador ou defensivo da maior parte desses investimentos se
gicos, muito pouco se avançou em direção a estágios mais avançados de revela, em graus variáveis, no caráter seletivo e pontual da incorporação
capacitação tecnológica. Em que pesem as exceções já conhecidas, as dessas inovações •
15

empresas desses setores pouco fizeram no sentido da assimilação efetiva


das tecnologias importadas, que lhes permitisse não apenas reproduzir Os mesmos fatores que retardam a difusão de novos equipamentos de
produtos e processos industriais, mas neles introduzir modificações signi- produção atuam no senti~o de atrasar a incorporação dos novos métodos
ficativas e, principalmente, desenvolver produtos e processos inéditos". Uaponeses) de organização da produção voltados para o aumento da
qualidade e produtividade. Uma criteriosa pesquisa encomendada recen-
A assimilação de tecnologias e o desenvolvimento endógeno de ino- temente pelo IPEA, compatrocínio do Banco Mundial (Fleury e Humphrey
vações são processos cumulativos que exigem das empresas uma signifi- 1992), e que se concentrou numa amostra de empresas que estavam
cativa mobilização de recursos ~ financeiros e humanos - e, não menos, introduzindo novos métodos e técnicas (TQC, m, TPM etc.) levou às
uma organização e estratégia de longo prazo voltada para este objetivo. seguintes conclusões:
Um bom indicador da fragilidade das empresas brasileiras, neste aspecto,
é a reduúda dimensão de seus investimentos em P & D. Como se observou .. • Existe, efetivamente, um reduzido número de empresas no Brasil que
na Seção 11.1., estes investimentos podem ser considerados desprezíveis estão avançadas na introdução dos novos métodos de Q & P;
em qualquer comparação internacional. • a imensa maioria das empresas industriais sequer iniciou esforços
nessa direção;
Esta fragilidade tecnológica da indústria brasileira, herança estrutural
da forma assumida pelo processo de industrialização por substituição de • o ritmo de difusão é lento e tem sido sujeito a retrocessos.
importações no Brasil, parece difícil de ser revertida na presente conjun- O mais importante, no entanto, é que a introdução desses métodos no
tura. A intensificação de atividades de P & D e capacitação tecnológica Brasil está passando por uma adaptação que tende a evitar mudanças mais
das empresas exigiria um esforço de investimento incompatível com o profundas na organização do trabalho, concentrando-se nos aspectos mais
atual contexto econômico e institucional. No atual quadro de incertezas fonnais e técnicos dos novos métodos (Posthuma 1990, Humphrey 1991).
econômicas e de dificuldades que o Brasil vem encontrando para estabili- Humprey e Fleury (1992) chamam a atenção para o fator que poderia ser
zar sua economia e recuperar a capacidade do Estado de articular políticas, identificado como o principal obstáculo à difusão dos novos métodos de
as decisões de investimento são conservadoras e defensivas. Não cabe aqui Qualidade e Produtividade: "a amplitude e a profundidade das mudanças
aprofundar esta discussão, mas vale registrar que a substancial queda da exigidas por tais programas". Em condições de retração do investimento,
taxa de investimento nesta década (agravada nos ultimos dois anos) reflete
a prevalência de estratégias de modernização defensivas ou reativas, onde 14. Há exceções importantes neste quadro~ que compreendem sobretudo empresas ligadas a !
se destacam objetivos como racionalização, redução de custos, "enxuga- setores que têm ap(csentado notável crescimento na atividade exportadora. Destacam-se uma parcela
b
dos produto(es de autopeças. o setor produtor de papel e celulose e uma parcela da agroindústria.
(
15. Sobre as características qualitativas da inc0'1JOração da automação programável na indústria
13. Para uma ilustração deste ponto. ver Carvalho (1992). que discute a fragilidade tecnológica
b(asileira nOs anos 80, ver Prado (1989) para o caso do setor de autopeças, Hewitt(1988) para a indústria
de bens de infonnátic. e Carvalho (1987 e 1990) para a indústria automobilística. Laplane (1988) I
na indústria petroqufmica brasileira a partir de um sW'Vey em 18 empresas.
apresenta uma avalíação semelhante.

110
I
li!
I

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eu acrescentaria que é pouco factível (embora não impossível) esperar cimento prático sobre processos acumulado pelos operadores petroquími-
mudanças em profundidade. Este ponto será retomado adiante. cos seja potencialmente decisivo para a capacitação tecnológica dessa
indústria, já que na maioria dos casos ela opera com pacotes tecnológicos
i~portados pouco transparentes para os engenheiros, as práticas de orga-
/l.2. A pennanência de processos de trabalho convencionais: o pequeno nização do trabalho adotadas pela maioria das empresas petroquúrricas
conteúdo inovativo do trabalho no Brasil brasileiras não facilitam o desenvolvimento e aproveitamento desse conhe-
A fragilidade tecnológica da indústria brasileira e a sua defasagem na cimento. Ao contrário das práticas de trabalho em equipe com rodízio de
incorporação de novos conceitos e técIÚcas de produção estão na raiz do tarefas, comuns nas plantas de processo contínuo em países mais indus-
grau relativamente modesto, em comparação com outras econorruas, das trializados, as empresas petroquímicas brasileiras mantêm uma fórmula
mudanças por que têm passado os processos de trabalho industriais no ultrapassada que divide e separa tarefas de controle central das tarefas de
Brasil. Para facilitar a argumentação, faço a seguir uma comparação campo (operadores de painel x operadores de campo) e fixa os operadores
sistemática com as principais tendências levantadas na seção II.2. em áreas específicas da fábrica por longos períodos. Isto dificulta o
desenvolvimento de uma visão mais integrada pelos operadores, o que
a) Pequena participação das atividades de inovação na agregação de
poderia constituir excelente fonte de informações e conhecimento para o
valor setor de engenharia (Carvalho 1993, capo 7).
Se a tendência nas economias mais avançadas é para uma crescente
b) A pennanência de processos intensivos em trabalho manual
integração entre as funções de inovação e produção, com a agregação de
valor cada vez mais se fazendo a partir das atividades voltadas para a Ao contrário da tendência encontrada nas economias mais industriali-
inovação em todos os níveis da empresa, na produção industrial brasileira zadas, em que o avanço da automação programável implicou um signifi-
prevalece uma baixa participação das atividades de inovação na agregação cativo deslocamento do trabalho manual direto (sobretudo das tarefas
de valor e a dissociação entre inovação e produção. manuais mais simples) o caráter seletivo da difusão dessa nova tecnologia
nas fábricas brasileiras não resultou em nenhuma mudança substancial na
A baixa participação das atividades de inovação no valor agregado pela natureza do trabalho nos processos mais intensivos em mão-de-obra.
indústria é reflexo de sua baixa capacitação tecnológica. Esta, por sua vez, Enquanto que nos sistemas mais automatizados há a emergência dos
é condicionada pela escassez de investimentos em P & D. A pequena "controladores de sistemas", cujas tarefas se aproximam, pelo menos nos
expressão da formalização das atividades de P & D nas empresas brasilei- objetivos, das tarefas de manutenção, nas fábricas brasileiras serru-auto- i'
ras reflete··se, por exemplo, na presença quase insignificante de pesquisa- matizadas as tarefas de produção, em sua maioria, continuam a ser funda-
dores em seus quadros. De acordo com Dahlman e Frischtak (1990, p. 5), mentalmente diferentes daquelas de manutenção e controle de qualidade.
apenas 2% do universo de pesquisadores empregados no país em 1987
(totalizando pouco mais de 1.000 pessoas) faziam parte dos quadros das Neste sentido, o caso das indústrias de montagem, em particular do
empresas, sendo que mais de dois terços dos mesmos exerciam suas setor automobilístico, é paradigmático..A automação seletiva "deixou"
atividades em empresas do setor público '6 . Mesmo em setores industriais para o trabalho humano o grosso das operações de manufatura, incluindo
onde o índice de formalização de atividades de P & D é maior, como na as tarefas menos nobres de montagem. Dado o quadro de instabilidade
petroquímica, a importância dessas atividades, medida no número de econômica, e retração de investimentos em novas fábricas mais automati-
patentes registradas ou de pesquisadores empregados, é extremamente zadas, fatores como o baixo custo de mão-de-obra não qualificada e o custo
pequena, quando comparada com padrões internacionais. que representaria o treinamento ou a substituição de coletivos de trabalha-
dores pouco qualificados, parecem ser determinantes da continuidade de
Da mesma maneira, a preocupação com a inovação ainda é uma práticas tradicionais de organização do trabalho. É difícil conceber como
realidade distante do chão das fábricas. Nesse sentido, minha investigação um esquema de organização do trabalho que não estivesse fundamentado
no setor petroquímico brasileiro foi bastante reveladora. Embora o conhe- na continuidade de postos de trabalho simples e fragmentados poderia ser
econorIÚcamente eficiente. O baixo nível de automação em indústrias de
16. Como me sugeriu André Furtado. esla baixa participação é ainda mais significaliva (e
intrigante) quando se leva em consideração que o estoque de cientistas e engenheiros fonnados no produção em massa termina por induzir a continuidade da fragmentação
Brasil é um dos maiores entre os pafses de industrialização recente (acima de 1.350, de acordo com o
Anuário Estarfstico da Unesco de 1988).

113
112
I
j
indústria de produção em série (Carvalho 1993), é corroborado por outros
do trabalho, particularmente quando se trata da modernização de plantas
estudos que enfocaram a difusão das técnicas japonesas de organização da
já existentes onde a mão-de-obra é barata (Carvalho 1993).
produçªo no Brasil. Posthuma (1990), por exemplo, ao examinar as impli-
c) A permanência de prindpios tayloristas, fordistas de organização do cações dessas técnicas para a indústria de autopeças brasileira, insiste em
trabalho: A continuidade da divisiÚJ do trabalho que elas têm passado por um processo de adaptação ou "brasilianização"
No quadro da incipiente difusão dos novos métodos de Qualidade e que, embora resultem em ganhos significativos de qualidade, não implicam
Produtividade na indústria brasileira, os resultados das pesquisas disponí- mudanças significativas no processo de trabalho em si mesmo (p. 2 e
veis sugerem que as modificações introduzidas nos esquemas de organi- p.II).
zação do trabalho não alteraram substancialmente os princípios tayloristas Humphrey (1991), avaliando casos de fumas brasileiras que adotaram
que detenninam a estreita divisão do trabalho entre planejamento, controle técnicas como SPC, produção e células, Kanbam, etc., indica que, de fato,
e produção e entre as várias funções de produção (em particular a divisão nesses casos tem havido uma certa transferência de funções de controle de
entre produção e manutenção). Nas indústrias de produção de bens discre- qualidade para os trabalhadores nas linhas de produção, que também
tos (particularmente na produção em série), predominam os postos de muitas vezes passam a operar mais de uma máquina. Todavia, Humphrey
trabalho simplificados e é apenas marginal o envolvimento dos trabalha- chama a atenção para o fato de que a mudança na natureza do trabalho e
dores com atividades de aperfeiçoamento permanente. das qualificações, em muitos casos, é mínima (p. 14). Mais ainda, ele
Mais uma vez, o caso do setor automobilístico parece ser paradigmá- identifica uma certa "tecnificação" da abordagem feita pelas gerências
tico. Em contraste com as experiências recentes de países como Alemanha brasileiras, no sentido de que muitas firmas se preocupam mais com o
e México, as gerências das montadoras brasileiras escolheram evitar aspecto formal da adoção da técnica do que com a criação de condições
qualquer mudança de peso na enraizada divisão de trabalho fordista. Ao para um maior envolvimento e participaçãO dos trabalhadores. Neste
contrário, revelando que o controle sobre o trabalho continua sendo um de sentido, ele antevê como possível uma opção com "baixo envolvimento",
seus objetivos, essas gerências aproveitaram-se das novas tecnologias para embora se possa questionar os limites de tal opção em relação a um dos
estender a organização fordista do trabalho a novas áreas de produção. Em objetivos centrais das novas técnicas, que é o da inovação permanente.
linha com esta mentalidade no desenho dos lay-outs de produção, o Resumindo o argumento desenvolvido nesta seção, a incorporação de
desenho dos postos de trabalho continuou seguindo uma abordagem estrei-
ta. Trabalhos semiqualificados continuam a predominar e a ser definidos
conteúdos inovativos no trabalho industrial no Brasil tem sido marginal, II
em comparação com as tendências dominantes nos países de industriali-
com base em tarefas fragmentadas e simples, especializadas por áreas de !'
zação avançada.
produção. Os períodos de treinamento (on-the-job) para a massa de traba- i.;
[I
lhadores semiqualificados são curtos (duração máxima de 6 meses). O , '
número de categorias de trabalho aumentou (na contramão da tendência IJ.3. O peifil do trabalho no Brasil: O uso predatório de umaforça de
universal de redução do número de categorias). Montadores, soldadores, trabalho pouco qualificada
pintores, operadores de prensa, operadores de máquinas continuam presos
Sempre lembrando os limites da possibilidade de generalização sobre
aos seus postos e tarefas (Carvalho 1993).
uma estrutura industrial heterogênea como a brasileira, passemos a exami-
O que estou afinnando não significa desconhecer a ocorrência de nar as implicações das tendências apontadas acima - fragilidade e defasa-
mudanças, mas apontar para sua superficialidade. Por exemplo, embora se gem tecnológica, continuidade de padrões tayloristas e de organização do
tenha introduzido tarefas de Controle Estatístico de Processo para traba-
lhadores da produção em algumas montadoras, a responsabilidade sobre a
trabalho e, portanto, baixo conteúdo inovativo do trabalho - para o uso da
força de trabalho industrial no Brasil.
il"
i
l

qualidade continua fundamentalmente numa área separada: de inspetores ,I

de qualidade. Nem mesmo a experiência de rotação dos trabalhadores entre


a) Estrutura ocupacional: Uma força de trabalho pouco qualificada
(,1<
l
diferentes "especialidades" semiqualificadas tem sido tentada (Carvalho O perfil ocupacional do emprego industrial no Brasil revela claramente :b
I/
1993). os efeitos de uma atividade industrial marcada por um baixo grau de
inovação e pela predominância dos princípios tayloristas na organização I,I
Este tipo de resultado, decorrente de um estudo que enfocou as relações da produção. O contraste com as tendências recentemente reveladas nos I
entre a automação programável e a organização e uso do trabalho numa I

114
115 I
I
.(
:[.
países avançados - terciarização. queda da participação dos trabalhadores sionais, gerência e operários qualificados) compreende mais da metade do
blue-collar, queda da participação dos trabalhadores diretos - é significa- emprego. Apesar de as atividades de P & D serem limitadas, a participação
tivo. de engenheiros é significativa, o que decorre do interesse das empresas por
i No Brasil, a estrutura ocupacional da indústria é bastante polarizada: sua capacitação operacional.
I:
! o emprego industrial parece ser majoritariamente composto por trabalha- Todavia, no universo industrial brasileiro, a situação do setor petro-
dores com pouca qualificação. com a participação de uma camada bem químico é certamente a exceção e não a regra. São pouquíssimos os setores
menor de operários qualificados e de outra camada ainda menor composta que acompanham o mesmo perfil.
por técnicos, engenheiros e administradores. Como se poder observar na
Tabela 2 a participação dos operários de todos os tipos no emprego da TABELA 2
indústria de transformação é largamente majoritária (perto de 70%), en-
quanto que o componente de engenheiros, técnicos e profissionais de todos
COMPOSIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO NA INDÚS-
os tipos é de apenas 5%. TRIA DE TRANSFORMAÇÃO BRASILEIRA (pOR CATE-
GORIA DE QUALIFICAÇAO) (EM %)
O exame da composição do emprego no setor automobilístico é mais
I
revelador, não apenas por estarem os dados mais desagregados, mas I
principalmente porque permite o contraste numa indústria moderna cujo ,

rápido e profundo processo de mudança, a nível global, tem sido bastante Indústria
Transformação
Setor Setor II
estudado. Em 1986, mais da metade do emprego (55%) naquele setor (1983)
Aulomobil.
(1986)0
Pelroqufm. I,
(1986)
correspondia a operários semiqualificados e não qualificados (Tabela 2).
A segunda maior categoria, com participação bem menor (15%), é com- Engenheiros, Técnicos
e outros profissionais 5,0 8 3*.
posta de operários qualificados. Finalmente, enquanto que a participação 1 18,4
dos técnicos está acima da média para a indústria de transformação, a Gerência 1,2 0,7 2,3
presença dos engenheiros é desprezível (0,7%). Em que pese o fato de ser
um setor internacionalizado e, portanto, com o grosso de suas atividades Saff Administrativo 13,8 6.8 21,1
de P & D fora do país, este é um número surpreendentemente baixo para
uma indústria que tem sido considerada líder do ponto de vista tecnológico Operários 68,1 75,4 48.3
ou, pelo menos, indutora de inovações no complexo metal-mecânico.
Supervisores 4,4 3,2
Poder-se-ia argumentar que dados de um único ano não _revelam Qualificados 14,9 28,2
Semiqualif. 47,6
tendência. Mas em oulro trabalho (Carvalho e Schmitz 1990), o exame da Nãoqualif.
8,5
8,5 8,5
estrutura ocupacional do setor automobilístico mostrou a ausência de
qualquer mudança significativa. Entre 1980 e 1986, período em que Serviços gerais 3.5 2,9 5,4
ocorreu o volume mais expressivo de investimentos em modernização, a
participação do trabalho semiqualificado foi ampliada. De lá para cá, o Resíduo 8,4 5.9 4.5
ritmo de inovações no setor desacelerou-se.
A Tabela 2 apresenta ainda a composição do emprego no setor petro-
químico brasileiro. Esta foi incluída a fim de contrastar com as anteriores Fonte: RAlSIMTB (tabulação preparado pelo autor para os Se to". automobj/(stico e petroqulmico).
i
e exemplificar a heterogeneidade de situações, já que está indústria apre- • Os dados referem-se às quatro maiores montadoras de automóveis inslaladas no Brasil.
senta uma fora de trabalho com alto grau de qualificação. Neste caso, a
I
:1
:1
participação dos operários não chega a 50%, sendo que a maioria deles é
qualificada (o que decorre do fato de ser uma indústria altamente automa-
tizada, operando processos razoavelmente complexos). O componente
** Desta percentagem, 0,7% s.o engenheiros e 6,9%. lécnicos, dos quais a grande maioria é de
desenhistas e cronometristas.
li
I qualificado da mão-de-obra nesta indústria (engenheiros, técnicos. profis-
I
I
116

I
117
b) Baixo grau de escolaridadefomuJl daforça de trabalho de atividade. O ,setor automobilístico acompanha de perto a indústria de
As características de escolaridade da força de trabalho industrial no transformação. A medida que subimos para os graus superiores o desem-
Brasil são simétricas "às da estrutura ocupacional polarizada acima apre- penho da indústria automobilística é inferior ao da indústria d~ transfor-
sentada. A composição do emprego por grau de instrução indicada na mação. Apenas 9,5% dos trabalhadores automobilísticos apresentam nível
Tabela 3 revela a existência de uma massa majoritária de trabalhadores que de escolaridade i~ual ou superior ao segundo grau completo, enquanto que
não chegaram a completar o primeiro grau do ciclo básico (8 séries), ao a proporção equivalente é de 13% na indústria de transfonnação e 28%
lado de um grupo bem menor dos que têm o segundo grau completo (lI para o setor formal da economia como um todo. Deve-se acrescentar que
séries), e um grupo bastante reduzido de empregados que chegaram à os dados da Tabela ~ superestimal? o nível de escolaridade da população
educação superior. trabalhadora, à medIda que os dados da RAIS são obtidos apenas junto ao
setor formal da economia.
TABELA 3 _Estes nú~ero~ são bastante expressivos e contêm uma série de impli-
GRAU DE INSTRUÇÃO DE FORÇA DE TRABALHO (BRA- caçoes, Em pnmerro lugar, salta aos olhos o contraste com países como o
SIL E INDÚSTRIA DE TRANSFORMAÇÃO) Japão, a Coréia e a Alemanha, que praticamente lograram universalisar o
ensino de segundo grau. .
Em segundo lugar, é preciso enfatizar que tal situação de escolaridade
1985 (em % do emprego)
do estoque de trabalhadores industriais é produto, entre outros fatores, de
Indústria Indústria uma ~emanda que vem sendo formada, ao longo do tempo, por critérios
Transform. Aulomobilísl. *
taylonstas derecrutamento. Em boa parte das atividades industriais as
exigências de escolaridade para a obtenção de emprego são bast~te
Grau (em séries) baix.as, o.que é compreensível quando se trata de recrutar para empregos
semlquahficados (co~o vimos, a Jmensa maioria) que não exigirão mais
Até 4' completa 38.0 49,7 do que 6 meses de tremamento. E verdade que um número crescente de
Até 8' incompleta 51.5 68,9 69.3 empresas tem aumentado as exigências de escolaridade nos ultimos anos 17•
Até 8' completa 63,7 80.3 Mas esta mudança não parece ter atingido um nível crítico que levasse a
Até 2' grau incompl. 70,8 86,4 91,1 mudanças significativas nos indicadores mais agregados. Minha pesquisa
nas montadoras do setor automo~ilístico (Carvalho 1993), por exemplo,
2" grau completo 15,4 7,4 5,5 revelou pouca ou nenhuma modIficação nos níveis de escolaridade da
mão-de-obra entre 1980 e 1988.
Superior (comp+incomp) 12,7 5,7 4,0
De qualquer maneira, e em terceiro lugar, os dados parecem indicar
Total 100 100 100
~ue, aI! aqui, ~um contexto de fragilidade tecnológica, baixo grau de
lllovaçao e de difusão de novas tecnologias, o nível de escolaridade dos
trabalhadores que as empresas estão buscando no mercado de trabalho tem
sido, grosso modo, compatível com a oferta do sistema educacional que, I
Fonte: RA1S/MTB (tabulação da aulor).

• Dados de 1986.
como sabemos, é também bastante polarizada. Afinal, se apenas 30% da
população do grupo etário correspondente eram capazes de concluir a 8!
~
série do primeiro grau em 1985 (de acordo com os dados do modelo 't
Mais significativo é que a indústria de transformação apresenta indi-
cadores piores do que aqueles que se referem à economia formal como um
17. Gitahy e RabellO,estudando empresas do setor produtor de autopeças no Brasil, identificaram
que duas empresas !fderes. que têm ampliado suas exparta,ões, têm elevado o perfil de escolaridade ',~
I
todo (Brasil): a proporção dos trabalhadores que não completaram o de sua mão-de-obra. Isto parece ter sido efejto da ação combinada de dJis fatores: maior corte nos
quadros com baixa escolaridade nas situações de demissões coletivas e exigência de escolariclade mais :i
primeiro grau chega a quase 70% na indústria de transformação, enquanto elevada como critério de recrutamento. Ainda assim. a participação de trabalhadores que não foram !j
que esta proporção é próxima de 50% quando considerados todos os setores além do primeiro grau completo no total da fo,>" de trabalho era de 72% em um caso e de 63% em !i
outro (Gítahy e Rahello 1991. Tabela 7, p. 22).
:1
"

!
118 119

lI.
Profluxo aplicado à PNAD) (IPEA 1991), igualmente apenas 31% da algumas empresas, o uso disciplinar da demissão ainda é visto como
população empregada na indústria de transfonnação possuíam tal nível de instrumento corriqueiro para resolver problemas como absenteísmo, al-
instrução. coolismo, acidentes de trabalho e doenças profissionais. Este é o caso, por
Empresas e empresários têm apontado o baixo grau de instrução da exemplo, de uma das grandes montadoras visitadas em minha pesquisa
mão-de-obra no Brasil como um sério obstáculo à implementação de novas (Carvalho 1993).
ténicas de qualidade e produtividade (Posthuma 1990, Humphrey 1991, A rotatividade da mão-de-obra na indústria de transformação havia
Gazeta Mercantil 1991). No entanto, as evidências são de que o problema, caído em meados dos anos 80 (em comparação com os últimos anos da
além de ser decorrência da precária oferta do sistema educacional, foi década de 70), seja como decorrência da crise (que diminuiu a mobilidade
gerado pela própria indústria, que insistiu em práticas de recrutamento que dos trabalhadores) seja como efeito de um maior poder de controle do
não privilegiam o grau de instrução, levando à constituição de um estoque movimento sindical sobre demissões abusivas. No entanto, os números
de mão-de-obra de baixo grau de instrução. Desse ponto de vista, parece apresentados na Tabela 4 evidenciam que ela não apenas se mantinha muito
lógico que, caso se privilegie a estabilidade do vínculo empregatício, os elevada para padrões internacionais, como voltou a subir significativamen-
esforços das empresas nesse campo devem ser prioritariamente dedicados te em 1988. Isto parece confirmar a continuidade de práticas de emprego
18
a elevar o grau de instrução de seus empregados. Não obstante, de acordo que buscam a instabilização da mão-de-obra •
com pesquisa recente de uma grande empresa de consultoria (Gazeta
Mercantil 27107/92, p. 7), as maiores empresas brasileiras dedicam menos TABELA 4
de 5% de seu investimento ao desenvolvimento de recursos humanos ÍNDICES DE ROTATIVIDADE DO TRABALHO PARA CA-
(atividades de treinamento), o que foi considerado, pelo mesmo estudo, TEGORIAS SELECIONADAS NA INDÚSTRIA DE TRANS-
como absolutamente insuficiente.
FORMAÇÃO (1985 E 1988) (EM PORCENTAGEM DO
c) Baixos salários e alta rotatividade: O uso predatório dos recursos EMPREGO MÉDIO ANUAL)
humanos
O quadro que estamos examinando se completa ao acrescentarmos as 1985 1988
práticas de gestão do trabalho que são dominantes na indústria brasileira.
A revalorização do papel do trabalho nas economias mais avançadas
terminou por acelerar a tendência à difusão de práticas de emprego voltadas Indústria de transformação 42.6 53,1
para a estabilização do vínculo empregatício. Além de políticas salariais
Operários (grupos 7/819 da eSQ) 59,3 72,2
inovadoras, fomentadoras da identificação do empregado com a empresa
e premiadoras do esforço individual, as empresas aperfeiçoaram outros Mestres 31,5 36,9
esquemas que visavam à redução do absenteísmo e da rotatividade da
mão-de-obra. Operadores de tomo 37.5 41,9
Neste sentido, o contraste com as práticas brasileiras é, mais uma vez,
marcante. É sabido que a indústria brasileira paga um dos salários mais Mecânicos 33,0 38,3
baixos do mundo (o salário médio do setor formal da indústria de transfor-
Soldadores 55,8 64,8
mação equivalia a 4 salários I1Únimos em 1985). Mais importante, no
entanto, é o fato de que são raríssimos os casos de empresas que alteraram Trabalhadores não qualifico 71,5
suas políticas salariais com a perspectivade estabilizar a mão-de-obra (com
exceção de setores que, desde sua constituição, sempre dependeram bas-
tante da estabilidade dos trabalhadores como, por exemplo, os setores
Fonte: RAISlMT8.
petroquímico e siderúrgico).
Além disso, a falta de perspectiva de carreira e um enfoque excessiva-
mente disciplinador na relação gerência/trabalhadores continuam contri- 18. Apenas a tflulo de comparação. vale mencionar que, na Coréia, a taxa média nacional de
rotatividade do trabalho era de 5,4% em 1984 (Amsden 1989).
buindo para a manutenção de taxas elevadíssimas de rotatividade. Em

120 121
II
J

Pesquisas recentes (Humphrey 1991, Gitahy e Rabelo 1991) aponta- de trabalho efetivamente se modificarão e a demanda por trabalho quali-
ram casos de empresas que têm implementado tentativas de estabilização ficado e trabalhadores escolarizados no Brasil assumirá grandes propor-
dos trabalhadores, com isso reduzindo sua rotatividade de maneira expres- ções.
siva, em associação com a adoção de técnicas japonesas de organização da Mas não será o mercado, ainda que mais competitivo, que por si mesmo
produção. A estabilidade é considerada imprescindível para a criação de criará as condições para uma mudança de tal envergadura nas estratégias
um ambiente cooperativo e de confiança na relação com os trabalhadores, empresariais. Tal mudança exige a recriação de um ambiente favorável ao
e para sua colaboração com estratégias de melhoria de qualidade. investimento, em particular do investimento em desenvolvimento tecno-
De forma análoga, já se apontara uma queda da rotatividade do lógico. E isto, a meu ver, exige bem mais do que a liberação das forças de
trabalho na indústria automobilística na primeira metade dos anos 80 mercado. Cabe à política econômica, e em particular a uma política
(Carvalho 1987, Silva 1988), como induzida por aspectos ligados à res- industrial e tecnológica fazê-lo. Isto certamente tem relação com a estabi-
ponsabilidade requerida no trabalho com equipamentos automatizados (a lização da economia e a recuperação da confiança no futuro, mas refere-se
despeito disto, a taxa de rotatividade neste setor voltou a dobrar entre 1983 também a mecanismos de financiamento que estimulem a tomada do risco
e 1986). Estes parecem ser ventos promissores de mudança de algumas das tecnológico. cuja criação deve ser encaminhada simultaneamente.
práticas empregatícias tradicionalmente adotadas na indústria brasileira, A contribuição das demais políticas públicas será importante para
Mas nada indica que tal mudança esteja perto de se constituir em regra. viabilizar a reorientação das estratégias das empresas industriais. Em
particular, será fundamental uma política educacional que busque a uni-
* * * versalização do ensino básico e a elevação de sua qualidade, que privilegie
Este artigo procurou evidenciar que o gap que nos separa do Primeiro
a formação de cidadãos bem informados e trabalhadores qualificados; e
Mundo é sistemático (reproduzindo-se em todos os indicadores), tanto no
uma política trabalhista que estimule a associação nos ganhos e responsa-
que se refere à capacidade de inovação da indústria como na maneira de
bilidades, ao invés do conflito e da desconfiança.
perceber e lidar com o trabalho produti vo.
A meu ver, talvez a conclusão mais importante que daí se pode tirar é
que o nOSso "atraso" no que diz respeito ao perfil da força de trabalho
industrial e ao uso que dela se faz no Brasil não pode ser dissociado da
I,
'I própria fragilidade tecnológica da indústria brasileira. São fenômenos
gêmeos, originários de anos de prática de uma industrialização que privi-
"

legiou a ocupação do mercado interno, mas negligenciou a eficiência, que


se valeu de um protecionismo e de subsídios sem limites, mas não se
colocou o desafio da ocupação estruturada dos mercados externos, que
preferiu se valer da exploração da mão-de-obra barata e descartável, e de
recursos naturais abundantes, a construir uma capacitação tecnológica
estruturada sobre recursos humanos e organizações qualificadas, que lhe
permitisse dar um salto qualitativo em face dos desafios apresentados pela
presente fase de mudanças acentuadas na economia mundial.
Como lados de uma mesma moeda, acredito que ambos os problemas
só serão resolvidos em conjunto. A questão crucial, a meu ver, diz respeito
às estratégias empresariais que se forjarão para enfrentar a crise e a
competição nos próximos anos. É a busca da modernização, da capacitação
e da inovação que colocará para as empresas a necessidade de fazer uma
revolução em suas políticas de recursos humanos. Somente quando uma
parcela substancial das empresas brasileiras adotarem estratégias que
busquem a acumulação do conhecimento tecnológico é que os processos

122 123
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126 127
paradigmas de produção, de trabalho e de qualificação toma incontornável
a reflexão sob~e o lugar do sujeito, da subjetividade e da intersubjetividade
no desenvolVImento e no sucesso da implantação dos novos modelos
produtivos.

DA POLARIZAÇÃO DAS QUALIFICAÇÕES AO


MODELO DA COMPETÊNCIA 1. OS NOV_OS PARADIGMAS DE PRODUÇÃO E A EVOLUÇÃO
DA DIVISA0 DO TRABALHO E DA QUALIFICAÇÃO
? desenvolvimento d~ pro~ução no quadro do regime de acumulação
Helena Hirata* fordlsta baseou-se na fabncaçao em massa de bens padronizados através
do uso de máquinas especializadas não flexíveis e com recurso a uma
massa de trabalhadores semiqualificados.
o objeto desse texto é de apresentar as tendêrrcias recerrtes do debate em Desses trabalhadores se exigia (e se exige, pois o fordismo não se
conjuga inteiramerrte no passado...) um cumprimento rigoroso das normas
sociologia e em economia do trabalho sobre a evolução das qualificações
e da divisão social do trabalho conseqüente às mudanças tecnológicas e operatórias, segundo um one best way, a prescrição das tarefas e a disci-
p~i,na no seu cumprimento; a não-comunicação (isolamento, proibição de
organizacionais na empresa, mudanças que configuram hoje a emergência
de um novo paradigma produtivo, considerado alternativo ao fordismo. dialogas durante o trabalho em linha etc.). .

Apresentamos inicialmente as característícas de qualificação e, mais As rrovas modalidades de organização e desenvolvimento industrial
geralmente, do trabalho, requeridas pelo novo paradigma de produção alternativas ao paradigma fordista, foram conceptualizadas no início do~
emergente, analisando simultaneamente a evolução do debate acadêmico anos oitent~ como o modelo da "especialização flexível" por economistas
como M. PlOre e Ch. Sabel (1984) nos Estados Urridos e como um "novo
l; que acompanha essas mudanças no terreno da empresa. Concentraremos
conceito de produção" por sociólogos como H. Kern e M. Schumann
nossa atenção sobretudo no momento da passagem das teses sobre a
(1984) na Alemanha.
polarização das qualificações para o modelo da competência, indicando a
importância que vem adquirindo a distinção entre qualificação formal e O modelo da especialização flexível representaria o incremento das
qualificação "tácita" no contexto desse debate. inovações organizacionais e tecnológicas, a descentralização e a abertura
Em segundo lugar será feita uma crítica aos novos paradigmas produ- ao mercado internacional (M. Piore e Ch. Sabel, 1984). Ele teria como
tivos e aos novos paradigmas de qualificação a partir da introdução, na figura emblemática, no plano da organização da produção, a fábrica
flexível; no plano da hierarquia das qualificações, o operário prudhoniano;
análise, da divisão internacional do trabalho e da divisão sexual do traba-
e, no plano da mobilidade dos trabalhadores, o trabalhador temporário isto
lho. A tese da requalificação dos operadores como conseqüência da intro-
é, a possibilidade de variar o emprego e o tempo de trabalho em função da
dução de rrovas tecnologias de base microeletrônica será fortemente
conjuntura (R. Boyer, 1986:237).
questionada a partir de um enfoque levando em conta as diferenças de
gênero e o lugar ocupado na divisão irrtemacional do trabalho. Os novoS Essa flexibilidade, que deveria permitir a superação da crise da produ-
paradigmas de produção tem como referencial explícito ou implícito o ção de massa fordista, teria como corolário a volta a um trabalho de tipo
trabalhador homem como encarnarrdo o universal. A especialização flexí- artesanal, qualificado e uma relação de cooperação entre management e
vel não parece um conceito pertinente para a mão-de-obra feITÚnina, nem operários multifuncionais.
no Brasil e nem nos países de capitalismo mais avançado. E.ste "novo conceito de produção", segundo H. Kem e M. Schumann,
Por último, abordaremos a questão da subjetividade e dos componentes representaria uma ruptura com o taylorismo e o fordismo, com uma nova
intersubjetivos da competência, na medida em que a emergência dos novos lógica de utilização da força de trabalho. A divisão do trabalho seria menos
pronunciada do que no taylorismo, uma maior integração de funções se
• Direlora do "Groupe d'éludes sur la division sociale el sexueUe du travail" (GEDISST) do
tornando perceptível. A automatização da produção é corrsiderada como
"Institut de Recherche sur les Sociétés Contemporairtes", Paris, França, representando tendencialmente um impulso para a formação e para a

128 129 ,I
I I:
reprofissionalização da mão-de-obra direta, nos três ramos industriais
estudados por esses autores (química, máquinas-ferramentas, automobilís-
tica), mesmo naquel~s s~tores onde ~ mão-de-obra não qualific~da :epr~­ 2. DA POLARIZAÇÃO DAS QUALIFICAÇÕES AO MODELO
senta ainda a maiOrIa dos efellvos (54%), como na mdustna DA COMPETÊNCIA: A EVOLUÇÃO DO DEBATE NO
automobilística alemã (cf. M. Schumann, 1989:8). CONTEXTO DOS NOVOS PARADIGMAS PRODUTIVOS
A emergência de um novo paradigma de produção industrial alterna- O debate aberto por H. Braverman (1974) no início dos anos setenta
tivo à produção de massa fordista é bem representada, segundo autores em tomo da desqualificação inelutável, gradual, progressiva como conse-
corno M. Piore e Ch. Sabel (1984), R. Boyer (1991) ou B. Coriat (1991) qüência do aprofundamento da divisão do trabalho no capitalismo teve
pelo modelo empresarialjaponês, modelo que é, ao mesmo tempo, um dos como uma de suas variantes consagradas durante um período relativamente
inspiradores da construção teórica de um tal paradigma por economistas e longo a tese da polarização das qualificações. Segundo essa tese, a moder-
sociólogos. nização tecnol6gica estaria criando, de um lado, uma massa de trabalha-
As características da organização do trabalho da empresa japonesa em dores desqualificados e, de outro, um punhado de trabalhadores
superqualificados (Freyssenet, 1977; H. Kern e M. Schumann, 1980; A. i
ruptUla com o taylorismo e o fordismo são essencialmente o trabalho
cooperativo em equipe, a falta de demarcação das tarefas a partir dos postos Sorge el alii, 1983 etc.). As novas tecnologias reforçariam a divisão do il
de trabalho e tarefas prescritas a indivíduos, o que implica num funciona- trabalho e a desqualificação da mão-de-obra'. :I!
mento fundado sobre a polivalência e a rotação de tarefas (de fabricação,
de manutenção, de controle de qualidade e de gestão da produção). O
Uma ruptura se dá com esse paradigma dominante da qualificação em
meados de oitenta. Vinte anos depois dos primeiros estudos sobre as
i~
trabalhador japonês, polivalente e multi funcional, não tem uma visão conseqüências da introdução das IJovas tecnologias sobre a divisão do
parcial e fragmentada, mas urna visão""de conjunto do processo de trabalho trabalho e a qualificação, autores como M. Freyssenet, B. Coriat, H. Kern
em que se insere (1. Magaud e K. Sugita, 1992). Tal visão de conjunto é e M. Schumann, constatam uma requalificação dos operadores, ou uma
necessária para julgar, discernir, intervir, resolver problemas, propor solu- reprofissionalização, com o aprofundamento da automatização de base
ções a problemas concretos que surgem cotidianamente no interior do microeletrônica nas indústrias.
processo de trabalho. Essa requalificação dos operadores está estreitamente relacionada,
As qualificações exigidas no interior desse "novo modelo produtivo", nessas análises, à adoção de novos modelos de organização industrial que
represen.tado pelo modelo empresarial japonês, contrastam fortemente levariam as empresas a adotarem organizações do trabalho de tipo "quali-
com aquelas relacionadas com a lógica taylorista de remuneração, de ficadoras" (cf. Ph. Zarífian, 1990; M. Freyssenet, ]992), tanto pelas
definição de postos de trabalho e de competências: trata-se da capacidade oportunidades de formação profissional abertas pela introdução de inova-
de pensar, de decidir, de ter iniciativa e responsabilidade, de fabricar e ções na empresa quanto pelas próprias modalidades de execução das
consertar, de administrar a produção e a qualidade a partir da linha, isto é, atividades produtivas.
ser simultaneamente operário de produção e de manutenção, inspetor de O novo "conceito de produção" exigiria, assim, uma massa de conhe-
qualidade e engenheiro, Se tal caracterização se aplica menos às trabalha- cimentos e atitudes bastante diferentes das qualificações fonnais requeri-
doras do sexo feminino e aos operários de empreiteiras subcontratados pela das pelas organizações do trabalho de tipo taylorísta, e mais próximas
empresa, trata-se em todo caso de uma caracterização válida em geral para daquelas requeridas pela empresa J (empresa japonesa, em oposição à
o conjunto dos trabalhadores do sexo masculino das grandes empresas, empresa A - americana; cf. M. Aoki, 1991). A atualidade do debate sobre
com um emprego regular. Também pode-se afirmar que as pequenas e a empresa J é provavelmente um dos fatores explicativos 2 da importância
médias empresas (e no que se refere aos trabalhadores temporários e aos
do sexo feminino) acompanham tendencialmente o movimento geral das 1. Uma excelente revísão bibliográfica internacional sobre 3 evolução do debate sob(e a
grandes, que influenciam fortemente as modalidades de gestão das demais, qualiflc.ação e a divisão do trabalho pode: ser encontrada em V, Paiva. 1989. Para uma revisão mais
sucinta do debate, cf. C. du Teme e G. S,ntilli, 1992:136-153.
impondo um padrão de um máximo de polivalência e multifuncionalidade, 2. Os outros dois fatores explicativos d. importância crescente da distinção entre qualificação
de controle de qualidade e de manutenção possível para cada categoria de tácita Ou social e qualificação formal e organizada são, a nosso ver, o desenvolvimento nos anos
trabalhadores e tipos de empresa. recentes da sociologia dos modos de vida e da sociologia das (elações de gênero. Ambas, mas
p.rtlculannenlc a última (cf. D. Kergoal, 1982), estabelecem uma forte relação entre a qualificação,
de um lado, e a socialIzação famHiar e as dimensões e,;;tratrabalho (profissional}, de outra.

130 131
! I

adquirida, na evolução recente do debate so1?re a q~alifica5ã?, pela ~uestã~ trabalho, noção que resulta da distinção mesma entre qualificação dos
do seu nível de fonnalização: componentes ImplícItos e oao orgamzados empregos e qualificação dos trabalhadores (cf. D. Kergoat, 1984:27).
da qualificação versus componentes "organizados" (a express!o é, de.M. Difêrentemente desta acepção mu1tidimensional da qualificação, o
Aoki, 1991:12 e seg.) e explícitos: educação escolar, forrnaçao tecmc_a, modelo da competência corresponderia a um novo modelo, pós-taylorista,
educação profissional. Um enfoque por postos de trabalho e por aloc~çao de qualificação no estágio de adoção de um novo modelo, pós-taylorista,
do indivíduo ao posto daria ênfase aos últimos; um enfoque por eqUlp~s de organização do trabalho e de gestão da produção. Sua gênese estaria
de trabalho e responsabilização coletiva na execução do trabalho tendena associada à crise da noção de postos de trabalho (Ph. Zarifian, 1992), e a
a enfatizar os primeiros. Ademais, a "qualificação tácita" (B. Jones e S. de um certo modelo de classificação e de relações profissionais.
Wood, 1984), ou social ou informal é amplamente solicitada para a
implantação de novas tecnologias. A adoção do modelo da competência implica um compromisso pós-
taylorista, sendo difícil de pôr em prática se não se verificam soluções
Enfim, a tese da requalificação dos operadores com a adoção de novas (negociadas) a toda uma série de problemas, sobretudo o de um desenvol-
condições de produção vai conduzir - dentro da sociologia das qualifica- vimento não remunerado das competências dos trabalhadores na base da
ções - a uma superação do paradigma da polarização das qualificações, hierarquia (Ph. Zarifian, 1992), trabalhadores estes levados no novo mo-
dominante desde o fim dos anos setenta e à emergência do modelo da
delo de organização do trabalho a uma participação na gestão da produção,
competência. a um trabalho em equipe c a um envolvimento maior nas estratégias de
A competência é uma noção oriunda do discurso empresarial nos competitividade da empresa, sem ter necessariamente uma compensação
últimos dez anos e retomada em seguida poc economistas e sociólogos na em termos salariais.
França (cf. M. Dadoy, 1990). Noção ainda bastante imprecisa, se ~omp~­
rada ao conceito de qualificação, um 'dos conceitos-chaves da SOCiOlogIa Nesta nova empresa, "a qualificação, correspondência entre um sa·
do trabalho francesa desde os seus primórdios (cf. P. Naville, 1956); noção ber, uma responsabilidade, uma carreira, um salário, tende a se desfazer"
marcada política e ideologicamente por sua origem, e da qual está total- (P. Rolle, 1985 :35), na medida em que a divisão social do trabalho se
mente ausente a idéia de relação social, que define o conceito de qualifi- modifica. Às exigências do posto de trabalho se sucede" um estado instável
cação para alguns autores (cf. D. Kergoat, 1982, 1984; M. Freyssenet, da distribuição de tarefas" onde a colaboração, o engajamento, a mobili-
1977,1992). dade, passam a ser as qualidades dominantes.
A riqueza da noção de qualificação foi ressaltada por esses últimos A imprecisão - o avesso mesmo da codificação que representa a
estudios05, que salientaram a sua multidimensionalidade: qualificação do classificação (dos cargos) - marca, assim, a noção de competência. Como
emprego, definida pela empresa a partir das exigências do posto de diz A. Lerolle analisando essa noção: "A referência às aptidões pessoais
trabalho, e que serve de base ao sistema de classificações na França); necessárias aos empregos não é certamente uma novidade. Parece entre·
qualificação do trabalhador, mais ampla do que a primeira, por incorporar tanto que a parte destas capacidades gerais e mal definidas tende a crescer
as qualificações sociais ou tácitas que a noção de qualificação do emprego com a aceleração das variações da organização e das atribuições (de
não considera - essa dimensão da noção de qualificação sendo, por sua cargos). Quanto menos os empregos são estáveis e mais caracterizados por
vez, susceptível de decomposição em "qualificação real" (conjunto de objetivos gerais, mais as qualificações são substituídas por "saber-ser" (A.
competências e habilidades, técnicas, profissionais, escolares, sociais) e Lerolle, 1992:5).
"qualificação operatória" ("potencialidades empregadas por um operador
A competência remete, assim, a um sujeito e a uma subjetividade, e
para enfrentar uma situação de trabalho", cf. M. Sailly in A. Lerolle,
1992:7); finalmente, a dimensão da qualificação como uma relação social, nos leva a nos interrogar sobre as condições subjetivas (e intersubjetivas)
como o resultado, sempre cambiante, de uma correlação de forças capital- da produção (Ph. Zàrifian, 1992:49): passamos aqui a analisar a relação de
gênero, quase sempre ignorada pelos teóricos e estudiosos dos novos
paradigmas de organização e de produção.
3. As classificações profission;lo~s são li expressão fonnalizada c objetivada das qualificações
individuais. consagrada ao nfvel dos acordos coletivos na França desde 1936. Como diz M. Da~oy. "~
qu.alificação é de nall/.reza qualitativa. as classificações profissionais são sua expressão quanf,fotJva
(M. Dadoy, La qualificalion <n questiono cit. in Définir la qualifica/ion? '/autor, Cadres CFDT,
1984:48).

133
132
prefácio à edição francesa (1989) de seu livro, eles reconhecem: "Aqueles
que nos criticam podem citar exemplos de vestígios importantes de velhas
3. QUALIFICAÇÃO, ESPECIALIZAÇÃO FLEXíVEL E estruturas e práticas da produção em série, e mesmo casos em que
DIVISÃO SEXUAL E INTERNACIONAL DO TRABALHO economias nacionais inteiras ~ em particular a Coréia do Sul - se
lançaram. não apenas na via do desenvolvimento, mas conseguiram ainda
As teses sobre os novos paradigmas de organização industrial e sobre se manter e progredir ao longo dos anos 80 graças a uma estratégia de
a requalificação dos operadores como conseqüência da introdução de produção em série. E as experiências mais bem sucedidas do mundo
novas tecnologias são fortemente questionadas se introduzinnos, na aná- industrial neste domínio parecem ter permitido a elaboração de uma
lise, a divisão sexual e a divisão internacional do trabalho. A coexistência estratégia mista no interior mesmo da produção. estratégia aliando equi-
de novas figuras produtivas e do fordismo, que é uma realidade mesmo em pamentos rígidos, especializados e ilhas deflexibilidade. Pode-se deduzir
países de capitalismo avançado como a França (cf. S. Volkoff, 1981), é destas constatações que o sistema que emerge atualmente como suporte
ainda mais verdadeira em países ditos do "Terceiro Mundo", onde as da recuperação econômica é um sistema misto, aliando as duas tecnolo-
fonuas tayloristas de produção e de organização do trabalho são ainda gias de uma maneira que o texto (The Secand Industrial Divide) não soube
amplamente dominantes (cf., por exemplo, R. Quadros Carvalho e H. antecipar" (M. Piore e Ch. Sabel, 1989:13).
Schmitz, 1989).
Esse reconhecimento se limita, na verdade, à evolução empírica, pois
Não se pode afinnar que no Brasil já se deu a dupla ruptura, com a a ressalva que fazem a seguir reduz bastante seu alcance: "Num sentido,
ideologia do taylorismo na empresa e com o modelo taylorista ao nível da pensamos que essa maneira de ver representa uma leitura correta de
teoria, constatada por autores como M. Schumann na Alemanha (1989), certos fatos recentes. Entretanto, a um outro n(vel, ela constitui um erro
embora alguns autores brasileiros enfatizem, a partir de pesquisas efetua- fundamental de interpretação da problemática de base" (id. ib, 1989:14).
das em grandes indústrias dinâmicas e competitivas, empregando mão-de-
Entretanto, mesmo se a retificação é parcial e não questiona os postu-
obra masculina, a emergência, também no Brasil, de um novo padrão de
organização do trabalho e da produção alternativo ao fordismo (cf. por ex. lados teóricos, o reconhecimento da heterogeneidade tecnológica, a partir .. ,
A. F1eury, 1988). da consideração da divisão internacional do trabalho, é digno de nota; não
se pode dizer que nuances do mesmo tipo sejam introduzidas em textos
A introdução da divisão sexual do trabalho tem, como primeira con- mais recentes dos dois autores sobre a questão da divisão sexual do
li seqüência no plano analítico, fazer explodir a unidade categorial "empre- trabalho.
I'
I
sa", pois as relações de gênero e a divisão entre os sexos atravessa o
conjunto da sociedade, e não apenas o espaço da empresa. A segunda A noçãoJmesma de flexibilidade ou de especialização flexível foi
conseqüência importante é que a introdução da dimensão de gênero ques- construída ignorando todo enfoque em tennos de gênero; também a tese I·
tiona fortemente as ciências sociais e as ciências econômicas, que partem, de uma requalificação dos operadores como conseqüência da introdução
:1 de novas tecnologias de base microeletrônica na empresa foi fundada até
;1
iI
ii:1
I
nas suas elaborações teóricas, da figura do trabalhador homem como
encarnando o universal. Assim, os novos paradigmas da "especialização
flexível" ou do "novo conceito de produção" são fundados sobre essa
aqui quase exclusivamente sobre estudos de ramos masculinos (por ex., na
França, o caso da indústria automobilística, estudado por M. Freyssenet;
o caso da petroquímica, estudado por G. de Terssac e B. Coriat - cf. para
J
,! figura arquetípica do operário prudhoniano. Caso mudarmos o ângulo de
ataque e passanuos a considerar como objeto de estudo o trabalho das os dois estudos o n. especial de Sociologie du Travail, 3/84; na Alemanha, 1I

mulheres e os países ditos "em vias do desenvolvimento", verificaremos o caso de diferentes ramos utilizando mão-de-obra masculina - química,
automobilística, máquinas-ferramenta - estudados por H. Kern e M. Schu·
li
que as práticas e os métodos tayloristas e a produção em grande série de b
bens estandardizados, muitas vezes sem grande preocupação com a quali- mann, 1989). Da mesma maneira, os estudos sobre a fonnação para novas
dade, vai coexistir com algumas "ilhas" de modernidade e de sofisticação tecnologias não se referem praticamente nunca ao sexo dos trabalhadores
objetos de formação, e, em todo caso, as conclusões são enunciadas em
tecnológica e organizacionaL
O cenário de uma tal coexistência foi, aliás, reconhecido mais recen-
relação ao conjunto de efetivos, sem distinção de sexo (cf. por exemplo A.
Rosanvallon e l.F. Troussier, 1983 ou Y. Lucas, 1990).
r,

i
temente como um dos cenários possíveis por M. Piore e Ch. Sabel, a partir,
justamente, da consideração da divisão internacional do trabalho. No
f
i
I
134 135
li
lt·
I.
i:l .
Entretanto, alguns estudos sobre a divisão sexual dos processos de
formação para inovações tecnológicas mostram até que ponto esta genera-
lização, a partir de uma população masculina, pode induzir em erro. As 4. OS COMPONENTES INTERSUBJETIVOS DA
ações de requalificação não têm a mesma extensão, nem o mesmo alcance, COMPETÊNCIA NOS NOVOS PARADIGMAS DE
nem a mesma significação, para as mulheres e para os homens, e a ORGANIZAÇÃO INDUSTRIAL
formação pode ser o lugar mesmo da construção da incompetência técnica
das mulheres (cf. G. Doniol-Shaw et alii, 1989; G. Doniol-Shaw e A. o conjunto de questões aqui levantado sobre os novos requisitos de
Lerolle, 1990). qualificação associados à emergência e ao desenvolvimento de novos
paradigmas de organização e de desenvolvimento industrial aponta para
Um primeiro exame dos textos sobre a empresa, a divisão sexual do um problema incontornável, mas raramente levado em conta pelos econo-
trabalho e a inovação mostrou que tais inovações podem reforçar a margi- mistas e sociólogos do trabalho que estudam a questão dos novos modelos
nalidade das mulheres, e que podem constituir um perigo, sobretudo para produtiv~s: o do sujeito, da subjetividade e das relações intersubjetivas,
as mulheres não qualificadas (cf. um "state of the arts" sobre a questão in que condiCIOnam o sucesso da implantação dos novos paradigmas organi-
H. Hirata, 1991). zacionais, fundados na comunicação.
Essas diferenças no plano da qualificação, da formação e da flexibili- Claus Offe à questão: "O trabalho é uma categoria fundamental da
dade são exemplarmente resumidas por D. Kergoat quando indica dois sociologia?" respondia pela negativa, numa convergência explícita com J.
· ,
cenários sexuados da flexibilidade: "Primeiro caso: dois setores coexistem.
Um, flexibilizado (masculino), outro taylorizado (feminino): é por exem-
Habermas, assinalando a passagem de um paradigma do trabalho e da
produção para um paradigma da comunicação (C. Gffe, 1989).
plo o caso das empresas onde a rentabilidade exige automatizar apenas a
produção, a manutenção (do estoque) e a embalagem, setores femininos, O não-reconhecimento, por C. Offe, da centralidade do trabalho na
permanecendo taylorizadas. Segundo caso: todos os setores, masculinos e sociedade contemporânea se deve, a nosso ver, a diferentes razões: uma
femininos, são afetados pela modernização. Mas de maneira bem diferente definição extremamente restritiva do trabalho que exclui todo trabalho que
quanto ao espírito e quanto aos resultados (reprofissionalização para os não seja diretamente produtivo e industrial (cf. C. Gffe, 1989:8-9), elimi-
homens e utilização de formas atípicas de emprego para as mulheres), (...) nando, assim, desde o trabalho no setor de serviços até o trabalho doméstico
A política seguida consiste, ao contrário, em justapor taylorismo e flexibi- - um enfoque pela divisão sexual do trabalho nuançaria provavelmente sua
lidade; a "nova" qualificação feminina é assim concebida como a adição análise; e uma visão europocentrista, que não leva em conta a divisão
das qualidades novas (capacidade de autocontrole, integração das exigên- internacional do trabalho, que concentra cada vez mais nos países ditos
cias de qualidade, de gestão dos estoques, regulagens e primeiras manu- "subdesenvolvidos" ou "semi-industrializados" as atividades labour-in-
tenções corretivas) às qualidades antigas destreza e rapidez" (D. Kergoat, tensive.
1992:80,81). Nós tenderíamos a concordar com Ph. Zarifian, quando ele conclui sua
Todas essas considerações nos conduzem a pensar que o panorama é análise sobre o trabalho nas indústrias automatizadas: "Habermas propõe
extremamente complexo e heterogêneo quando se leva em consideração substituir o paradigma do trabalho, pelo da linguagem. N6s pensamos que
as diferenças relacionadas com O gênero, a qualificação e a divisão inter- é necessário procurar, não uma substituição, mas uma nova s(ntese entre
nacional do trabalho: as teses de alcance universal, tais como as dos novos trabalho e comunicação. Um paradigma do tipo: o trabalho comunicacio-
nal'~ (Ph. Zarifian, 1990b:21).
paradigmas ou dos novos conceitos de produção, são forçosamente ques-
tionadas à luz de pesquisas empíricas introduzindo tais diferenciações. Neste tipo de trabalho, o lugar do sujeito e das relações intersubjetivas
seria absolutamente central, na medida em que a mobilização psíquica do
indivíduo, sujeito do processo de trabalho, constituiria a pré-condição
mesma de toda atividade produtiva.

136 137
!II.
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Pretendo levantar aqui duas
VOLKOFF, S. F1exibilité du travail ouvrier: une approche chiffrée. Tra- vertentes e comentá-las breve- nha consciência de suas implica-
vai/, n. 12, 1987. mente porque permeiam, de certa ções. Essas prioridades e essas
WALBY, S. Flexibility and lhe chaging sexual division of labour. In: forma, todos os trabalhos. políticas, em verdade, fazem parte
WOOD, S. The transformation of work. Londres: Unwin Hyman, do contexto internacional. Neste
Com relação às inovações e às sentido, foi importante ter Henri-
1989. novas formas de produção, foi~ que Rattner recolocado a perspec-
- (ed.). The degradation ofwork? Skill, deskilling andlhe /abourprocess. nos mostrado que não devemos tiva internacional e histórica no
Londres: Hutchinson, 1982. ficar limitados ao que está aconte- bojo de nossas discussões. Hoje, é
WOOD, S. (ed.). The lransfonnation ofwork? Londres: Unwin Hyman, cendo na fábrica, mas considerar preciso situar os problemas de
1989. que há uma dinâmica de transfor- uma perspectiva de internaciona-
mação que está fora dela. Vou me lização da economia e do merca-
ZARIFIAN;, Ph. La nouvelle productivilé. Paris: Hannattan, 1990.
referir, também, ao que foi trazido do. Sabemos que, muitas vezes,
TravaU et communication dans les induslries automalisées: conferên- aqui por Helena Hirata, ao discutir vários países se juntam para reali-
cia. São Paulo: Depto. de SociologialUSfI, 1990. o problema da formação profis- zar detenninadas fonnas de coo-
Organisation qualifiante et capacité de prise de décisions dans l'in- sional versus escolaridade. São peração. O que acaba prevale-
dustrie, 1990a (mimeo.). dois enfoques que podem forne- cendo são decisões oriundas de
';1'I::
"

agências internacionais, com inte-


Vers une sociologie de /'organization industrielle: un itinéraire de cer mais elementos para o debate.
resses muito específicos.
! .' recherche; coopération, qualification, gestion, organisation en milieu Em um dos textos, há a se-
li '.; industriel. Université Paris X - Nanterre, LATIS-CERTES, Ecole guinte frase: "Para que o Brasil se Para ilustrar as afirmações
acima, parece importante relatar
Nationale des Ponts et Chaussées, 1992 (Rapport d'habilitation). viabilize como nação qualificada
l,Ii e alcance a modernidade, deve ser aqui urna experiência que viven-
" implantado um sistema de educa- ciei como técnico do BID, espe-
i
! ção fundamental que seja univer: cialista em projetos de Educação
sal, eficiente c de qualidade". E para a América Latina. O BID é
uma afirmação absolutamente um· banco multinacional, finan-
correta e todos nós a endossamos. ciado majoritariamente pelos Es-
No entanto, gostaria de alertar que tados Unidos. Neste depoimento,
a mesma pode estar profunda- em nenhum momento estarei mi-
mente incompleta, além de esca- nimizando a prioridade da educa-
motear determinadas prioridades ção básica. O objetivo é levantar
e políticas que começam a ser pra- uma outra dimensão, pois discar-

• Texto editado a partir da gravação da palestra (Seminário "Trabalho e Educação", Fundação


Carlos Chagas, 1992), (sem revisão final do autor).
:f * Che fe de Assessoria de Planejamento Estratégico N acionaI do SENAI. Vice~presidente para

â América do Sul da '"'Intemational Vocational Eduçation and T{ainningAssodation·~.

142 143
do da idéia de que o ensino básico Este fato gerou uma nova discus- O problema fundamental é fa- dos questionamentos mais sérios
seja suficiente para que a nação são, entre especialistas e direto- zer com que a universalização é o seguinte: at~ agora estivemos
alcance a modernidade e para que res, que durou duas semanas. atinja pelo menos o 2g grau, por- trabalhando com alunos, de uma
a população conquiste a cidada- Alguns de nós perguntávamos: que alcançar a escolaridade de I º escolaridade determinada, mas
nia. por que priorizar o ensino básico grau não é suficiente. É suficiente existe um outro contingente que
Vejamos como isto se coloca implica na exclusão dos outros ní- numa "democracia manca". A ainda não atingimos. Precisamos
no caso do BlO do qual participei. veis? E a resposta que permeou a universalização do ensino funda- enfrentar o problema d a nova seg-
discussão foi aproximadamente a mental, mal ou bem, parece estar mentação de mercado, pois pode ,
~J Apresentou-se para ser apro- seguinte: existe um nível de mer- I
~' resolviQa no Brasil. É certo que estar sendo aprofulldada a divisão

tI
vado pelo BID um projeto de me-
lhoramento da Universidade de
cada internacional, estabelecido
(posso estar explicando as coisas
permanece o problema da quali- entre os jovens que terão possibi- ~ I

São Paulo, que incluía uma gran- dade. No entanto, é preciso notar lidade de se integrarem à moder-
linearmente, mas vou correr esse que esse problema não se resolve 'I
I1 de reformulação daquela institui- , nidade e aqueles que serão excluÍ-
~, perigo) de tal forma que a deter- 'I
ção em vários aspectos. Nós éra- somente ao implantar programas dos. Para dar conta dessa situação,
minados grupos de países cabe,
(1 mos, naquela época, cinco espe- nacionais de avaliação, como pa- o SENAI tratou de fazer algo a 11

para sua realização democrática,


recem sugerir alguns analistas. partir de sua própria experiência.
''Ii!l
L cialistas internacionais em educa- um determinado nível de escolari-
ção no BID. Pessoalmente. fui Concordo plenamente qUé é pre- Verificou-se que determinados ·il
dade da população. "r
!
contra O projeto durante todo seu ciso estabelecer sistemas de ava- currículos estavam adequados
Visões correlatas embasam liação. mas todos sabemos que a
processo de análise, pela seguinte para atender níveis de escolarida-
os relatórios do Banco Mundial
razão: julguei que o Banco Inte- escola pública, em nosso país, tem de mais elementares, mas estavam
ramericano deveria seguir a sua sobre Educação Superior no Bra- sido engolida nos últimos vinte :1"
equivocados para incorporar a
linha de apoio a uma política de sil e sobre Ensino de 2Q grau. Para
anos pelas próprias políticas de inovação tecnológica e a reformu-
desenvolvimento e de melhoria da o 2g grau, as propostas fundamen- desenvolvimento social. Há 20 lação dos processos de produção.
Universidade do Brasil, gerando tais são: eliminação das escolas
anos as escolas públicas eram cen- Partiu-se, então, para a criação de
centros de excelência, ou de semi- técnicas, transformação das mes-
tras de excelência. Deix:rram de centros tecnológicos. O SENAljá
I ;~ excelência nas diferentes regiões mas em centros de estudos de
ser. Volto a repetir que é impor- tem hoje doze centros tecnológi-

r: do País e não apenas na USP. Essa ciências e reformulação das mo-


tante reavaliar o que significa es- cos, especializados por área ou
discussão foi muito desgastante, dalidades de financiamento para o
colaridade no Brasil. por setor econômico: Centro Tec-
mas, finalmente, a proposta che- sistema de formação profissiollal i
Por exemplo, a explicação nológico da indústria têxtil. da in- I
gou ao "board" de diretores. Eu- no Brasil. Ou seja. algo que deu
I tretanto, em apenas cinco minutos certo, pelo menos razoavelmente acerca da falência do ensino bási- dústria de madeira, da indústria de
I de reunião do "board", mudei de certo, estava sendo questionado. co, inclusive a contextualização couro, de preparação de pessoal
para cuidar do meio ambiente, de
Ii ,
opinião. Por quê? Porque um dire- Quanto ao 3!! grau, o relatório do histórica e internacional, precisa
11
Banco Mundial diz que, no Brasil, ficar mais clara. É preciso pergun- alimentos, e assim por diante.
,I tor, representante dos Estados
i
Unidos, manifestou-se contra o basicamente, se salvam três uni- tar se a prioridade do ensino fun- Nesses Centros, fornecemos as-

I projeto da USP, não pelos moti-


vos que eu levantava, mas com o
versidades: USP, UNICAMP E
UFRJ. As outras, para sobreviver,
damental não está sendo manipu-
Jada por interesses alheios ao de-
sistência técnica às empresas,
principalmente as pequenas e mê-
seguinte argumento: considerava deveriam comprovar determina- senvolvimento econômico e sa- dias, cujos proprietários, em ge-
ral, têm baixo nível de escola- II
que as ajudas internacionais ao
Brasil e à América Latina não de-
das eficiências. Mas sabemos que
a história não é bem assim, prin-
cial no Brasil. Por quê? Vou
recorrer a um exemplo concreto: dade. Assim, além da formação Il~
veriam ultrapassar, de nenhuma profissional, ê preciso trabalhar ,ii
~ cipalmente no caso das Universi- O SENAI, nos últimos cinco anos,
i' forma, o ensino básico. Esta deve- dades Federais. tem passado por reformulações e na área da assistência técnica, da
II
:1 ria ser a prioridade fundamental. questionamentos internos. Um transferência tecnológica e da in-
,j
I
J
,I
I
li
I
144 145
I

t
formação tecnológica. Mas, para nação e em relações trabalhistas tirem estudos sérios que analisem todo o processo tecnológico do
isso, ou seja, para legitimar essas autoritárias. Assim, é preciso as relações que se estabelecem en- País. S6 então será possível con-
quatro atividades, deve haver pes- compreender tais fatos para não tre a avaliação, o setor produtivo trapor as duas faces da questão:
quisa tecnológica no âmbito do fazer análises reducionistas. Na e o processo tecnológico do país. aqui está o processo tecnol6gico e
Centro Tecnológico. Toma-se ne- verdade, estou enfatizando algu- Com isso, não estou ressusci- aqui está o processo educativo. É
, cessária, então, a presença de qua- mas idéias para que não tenhamos tando a teoria de Capital Humano preciso saber em que interface es-
I' dros universitários nas empresas e a ingenuidade de querer resolver, dos anos 70. Também não estou ses dois componentes vão se rela-
'I somente com o ensino fundamen- cionando, porque, hoje, pensar em
nos centros tecnológicos, capazes defendendo que a escola deva su-
! de reformular os cursos de apren- tal, o problema da inovação tecno- bordinar seus objetivos à necessi- um cidadão que não tenha a neces-
i
! dizagem do SENAI para que vol- lógica, do progresso científico, da dade da empresa. Estou, sim, sária participação tecnol6gica, é
tem a ter a importância que melhoria da qualidade de vida, da dizendo que a escola deve repen- pensar em um cidadão alienado e
tiveram nos anos 40. melhoria da eficiência da empresa sar o processo tecnol6gico exis- sem a possibilidade de entender
e da incorporação do avanço tec- tente no país, para que seja em que sistema econômico ele
Não podemos, pois, priorizar
nológico. Repito: esta não é a ex- possível trabalhar com indicado- está vivendo ou sobrevivendo.
apenas o ensino fundamental e
periência dos outros países. Ne- res e referências de qualidade. O Trata-se de um cidadão que não
correr o risco de limitar a possibi-
nhum país, que conseguiu chegar SENAI, por exemplo, está fazen- sabe de que tipo de produção está
lidade do avanço tecnológico do
a um certo patamar de desenvol- do isso. O SENAI desenvolveu, participando, que tipo de inserção
País. É preciso, sim, um ensino
vimento, desprezou a sua Univer- nos seus 50 anos de existência, vai ter, seja no mercado foonal ou
fundamental de qualidade, mas,
sidade, o seu ensino superior programas de formação tecnoló- informal, seja na pequena e média
também escolaridade de 2º e de 3º
médio e as suas pesquisas. gica de ponta, mas no nível da empresa ou no setor de tecnologia
graus. É certo que alguns países de ponta.
demoraram um século para che- Outra vertente que queria co- produção artesanal da pequena e
gar à escolarização de lº grau, mentar diz respeito à formação média empresa e da produção ar- Reduzir a questão da eficiên-
mas durante esse tempo não des- profissional e seu vínculo com a tesanal de massa (que é um seg- cia do sistema a uma questão de
prezaram os seus cursos médio e questão da avaliação. A atual ên- mento fundamental no Brasil) avaliação pennanente, como mui-
superior. São exemplos: a Europa, fase que se coloca na necessidade esta formação está muito pouco tos analistas apregoam hoje, sig-
o Japão, a Coréia, e outros países de estabelecimento de um sistema desenvolvida. Está-se repensando nifica tecnificar a problemática e
asiáticos. Os famosos Tigres Asiá- nacional ou regional de avaliação isso no SENAI. contribuir para a criação dé equí-
ticos cuidaram do desenvolvi- precisaser analisada frente a ex- Em geral, está também muito vocos. Em matéria de avaliação
mento do ensino de 2º grau e da periências internacionais. Exis- pouco discutido o problema da ar- educacional, lembro o SAT, que é
Universidade. Não estabeleceram tem países que não desenvol- ticulação do sistema de ensino um teste americano considerado
prioridades excludentes. Esse tipo veram processo avaliativo nacio- com a necessidade de inserção do aqui como muito eficiente para
de exclusão pode ser absoluta- nal, mas têm sistemas de ensino cidadão no processo teçnológico. medida da qualidade do sistema
mente correto do ponto de vista de fundamental e médio bastante ra- Para relacionar o sistema educati- educacional daquele país. No en·
uma eficiência limitada, mas não zoáveis para as suas necessidades. vo (relacionar e não subordinar) tanto, através da experiência de
do ponto de vista político. Além Quando digo "para as suas neces- às necessidades da Nação, toma- meus filhos nos EUA, onde estu-
disso, é preciso considerar que os sidades" quero enfatizar que, se necessário ter um entendimen- daram, acabei constatando que
'I
empresários brasileiros têm difi- além do problema da avaliação do to muito concreto do que significa 67% dos candidatos a Universida- L

des americanas preparam-se atra- !~


culdade muito grande em superar ensino de Iº grau, é preciso repen- o processo tecnológico. Tal enten- :1
o modelo de desenvolvimento sar a própria finalidade do lº grau dimento não se limita ao conheci- vés de cursos particulares para
econômico baseado na mão-de- no contexto da escola brasileira. submeterem-se ao SAT. São cur- 1[1..

Isso será possível somente se exis-


mento da empresa, mas abrange
sos de duração média de seis se- Ii
obra não qualificada, na discrimi-

\1
147
146
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"'="";;','."" e"'-:r~',--~F",.-~ ~'?.:l", :"':i.!'l". ,~:~i,_:::;:r"'~~-::~r;'"

manaS, especializados em ensinar


"truques" para obtenção de apro-
Levantei apenas um exemplo
que pode sugerir reflexões mais
CAPÍTULo
,
.~
. .
vação no exame. Tais "truques" acuradas a respeito da exagerada
podem ser eficientes e, por isso, o validade que muitos atribuem à
sAT e outros testes semelhantes avaliação externa enquanto guia
estão sendo contestados nos EUA. do avanço educacional.

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MUDANÇAS
ORGANIZACIONAIS,
! NOVAS TECNOLOGIAS
I:
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EEDUCAÇÃO
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148
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'I
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1
I
I
o TRABALHO COMO PRINCÍPIO EDUCATIVO
FRENTE Às NOVAS TECNOLOGIAS
r

I
Dermeval Saviani*

'~ o problema das relações entre educação e trabalho tem sido abordado de
diferentes maneiras.
Em termos gerais, a cO!1cepção difusa parece ser aquela que contrapõe
de modo excludente educação e trabalho. Considerando-se que na atuali-
dade educação tende a coincidir com escola (esse tema será retomado mais
adiante), a tendência dominante é a de situar a educação no âmbito do
não-trabalho. Daí o caráter improdutivo da educação, isto é, o seu enten-
dimento como um bem de consumo, objeto de fruição.
Essa situação tendeu a se alterar a partir da década de 60 com o
surgimento da "teoria do capital humano", passando a educação a ser
entendida como algo não meramente ornamental mas decisivo para o
desenvolvimento econômico. Postula-se, assim, uma estreita ligação entre
educação (escola) e trabalho; isto é, considera-se que a educação potencia-
liza trabalho. Essa perspectiva está presente também nos críticos da "teoria
do capital humano", uma vez que consideram que a educação é funcional
ao sistema capitalista, não apenas ideologicamente, mas também econo-
micamente, enquanto qualificadora da mão-de-obra (força de trabalho).
Entre as duas posições opostas acima indicadas, os educadores têm
oscilado ao considerar a educação apenas em termos gerais, com ou sem
referências à, formação vocacional e profissional, ou propondo um sistema
dualista com a formação geral desvinculada da formação profissional ou,
ainda, concebendo uma escola única que pretenderia articular educação
geral e formação profissional.
As discussões atuais obviamente não ignoram o quadro acima. De
minha parte, gostaria de convidar os colegas a refletirem sobre as origens
r
• Professor Titular em História da Educação da Faculdade de Educação da UNICAMP. Diretor
associado da Faculdade de Educação da UNICAMP.
I

151
e o desenvolvimento histórico do problema, como via para a compreensão era a educação escolar. Por contraposição, a educação geral, a educação
da maioria era o próprio trabalho: o povo se educava no pr6prio processo
de suas coordenadas atuais. de trabalho. Era o aprender fazendo. Aprendia lidando com a realidade,
aprendia agindo sobre a matéria, transfonnando-a.
EDUCAÇÃO E TRABALHO: AS ORIGENS A forma como a classe proprietária ocupava o seu ócio é que constituía
seu tipo específico de educação. Não só a palavra escola tem essa origem
É sabido que a educação praticamente coincide com a própria existên- mas também a palavra ginásio, que era o local dos jogos que eram
cia humana. Em outros termos, as origens da educação se confundem com praticados pelos que dispunham de 6cio. A palavra ginásio mantém esta
as origens do próprio homem. À medida em que determinado ser natural duplicidade de significado ainda hoje. A origem da palavra ginástica é a
se destaca da natureza e é obrigado, para existir, a produzir sua própria vida mesma da palavra ginásio: exercícios físicos'como lazer. A ginástica dos
é que ele se constitui propriamente enquanto homem. Em outros termos, que tinham que trabalhar era o próprio trabalho, era o trabalho manual, era
diferentemente dos animais, que se adaptam à natureza, os homens têm o manuseio físico da matéria, dos objetos, da realidade, da natureza.
que fazer o contrário: eles adaptam a natureza a si. O ato de agir sobre a
natureza, adaptando-a às necessidades humanas, é o que conhecemos pelo
nome de trabalho. Por isto podemos dizer que o trabalho define a essência IDADE MÉDIA: ESCOLA E PRODUÇÃO
humana. Portanto, o homem, para continuar existindo, precisa estar conti-
nuamente produzindo sua pr6pria existência através do trabalho. Isto faz Algumas características da sociedade antiga persistem na Idade Média,
com que a vida do homem seja determinada pelo modo como ele produz no modo de produção feudal, porque, assim como na Antiguidade, também
sua existência. na Idade Média o meio dominante de produção era a terra e a forma
econômica dominante era a agricultura. Na Grécia e Roma, os homens
Inicialmente prevalecia o modo de produção comunal, o que hoje viviam na cidade, mas do campo, porque a vida na cidade era suprida pelo
chamamos de "comunismo primitivo". Não havia classes. Tudo era feito trabalho desenvolvido nos arredores da cidade, que era o trabalho agrícola.
em comum: os homens produziam sua existência em comum e se educa- Na Idade Média, os homens viviam no campo e do campo, ou seja, viviam
vam neste próprio processo. Lidando com a terra, lidando com a natureza, no meio rural e da atividade agrícola. A forma do trabalho da Idade Média
se relacionando uns com os outros, os homens se educavam e educavam se diferenciava da Antiguidade na medida em que não temos mais o
as novas gerações. À medida em que ele se fixa na terra, que então era trabalho escravo e sim o trabalho servil.
considerada o principal meio de produção, surge a propriedade privada. A Temos, na [dade Média, as escolas paroquiais, as escolas catedralícias
apropriação privada da terra divide os homens em classes. e as escolas monacais que eram as escolas que se destinavam à educação
Na Antiguidade, tanto grega como romana, ocorre a propriedade da classe dominante. As atividades que constituíam a educação dessas
privada da terra: ternos então a classe dos proprietários e a classe dos não classes se traduziam em formas de ocupação do 6cio, como na Antiguida-
proprietários. O fato de uma parte dos homens se apropriar privadamente de. Isto foi traduzido na Idade Média através da expressão "ócio com
da terra dá a eles a condição de poder sobreviver sem trabalhar. Com efeito, dignidade". Então, ocupar o ócio com os estudos significava não precisar ,
'
os não proprietários que trabalham a terra assumem o encargo de manter trabalhar para suprir as necessidades da existência. Ocupar o 6cio com ,

a si próprios e aos senhores. Nesse sentido, surge uma classe ociosa, ou dignidade é ocupá-lo com atividades consideradas nobres e não com
seja, uma classe que não precisa trabalhar para viver: ela vive do trabalho atividades consideradas indignas. Essa expressão deriva da influência da
alheio. Igreja. A classe dos proprietários se dedicava aos exercícios físicos que
estavam ligados às atividades guerreiras, o que é expresso através da noção ib
Se antes, no comunismo primitivo, a educação coincidia inteiramente
com o próprio processo de trabalho, a partir do advento da sociedade de I da Cavalaria, cuja ocupação era a guerra. Daí a relação cavaleiro e I:'
I
cavalheiro como o sujeito de boas maneiras- a formação dos nobres incluía :f
classes, com o aparecimento de uma classe que não precisa trabalhar para
viver, surge uma educação diferenciada. E é aí que está localizada a origem I as atitudes corteses. Cortês deriva de corte, formação destinada à aristo-
cracia - a formação para a cavalaria envolve então esses dois aspectos, o
da escola. A palavra escola em grego significa o lugar do ócio. Portanto, a
I da arte militar e o da vida aristocrática. Em contrapartida, a grande maioria
escola era o lugar a que tinham acesso as classes ociosas. A classe
continuava se educando pelo trabalho, no próprio processo de produzir a
dominante, a classe dos proprietários, tinha uma educação diferenciada que
I
II
J!
.1
152 J53
I
'I
J I.
própria ex:istência e de seus senhores. Nesse contexto, a fonna escolar da tipo natural e se constituíam comunidades segundo laços de sangue. Daí o
educação é ainda uma fonua secundár!a qu~ se contrapõe como não-traba- caráter estratificado, hereditário: a nobreza passava de pai para fJlho, a
lho à fonna de educação dominante detenmnada pelo trabalho. servidão também passava de pai para filho. Na sociedade moderna, capi-
talista, as relações deixam de ser naturais para serem dominantemente
O modo de produção feudal contrapunha o campo, que era referência sociais. Neste sentido é que a sociedade capitalista rompe com a idéia de
da vida na Idade Média, à cidade, que eram núcleos subordinados ao comunidade para trazer, com toda a força, a idéia de sociedade. Sendo
campo, onde se desenvolvia apenas o artesanato. O que é artesanato? É assim, a sociedade capitalista traz a marca de um rompimento com a
uma espécie de indústria rural, de indústria própria da agricultura. Por quê? estratifrcação de classes.
Porque através do artesanato se produziam apenas aqueles instrumentos
rudimentares que a própria vida no campo demandava. No entanto, o Isto é posto em evidência pelo fato de que a sociedade deixa de se
desenvolvimento das atividades artesanais, fortalecendo as corporações de organizar segundo o direito natural, mas passa a se organizar segundo o
ofícios, aliado ao grau de acumulação que a economia feudal pôde desen- direito P9sitivo, um direito estabelecido fonnalmente por convenção con-
volver, possibilitou o crescimento de uma atividade mercantil que está na tratual. E por isto que os ideólogos da sociedade moderna vão fazer
origem da constituição do capital. Esta atividade mercantil foi se concen- referência ao chamado contrato social e à sociedade como sendo organi-
trando nas cidades, primeiro organizadas periodicamente na fonua de zada através de um contrato e não por laços naturais.
feiras de trocas, de grandes mercados de trocas. Esses mercados foram se A isso está ligada a noção de liberdade. A noção de liberdade, como I
i
fix.ando e dando origem às cidades. A origem do burguês é o habitante do princípio do modo de organização da sociedade moderna, que está carac- I1
burgo, ou seja, o habitante da cidade. Através do comércio, ele foi acumu- terizada na ideologia do liberalismo, significa que cada um é livre para
lando capital que, em seguida, passou a ser investido na própria produção, dispor de sua propriedade. É importante considerar que a liberdade está
originando assim a indústria. Estes processos de transfonuação conduzi- estreitamente vinculada à propriedade. É uma sociedade de proprietários
li
ram ao deslocamento do eixo do processo produtivo do campo para a livres. Considera-se o trabalhador como proprietário da força de trabalho
li
Ir
cidade, da agricultura para a indústria. Temos, então, a partir deste proces- e que vende essa força de trabalho mediante contrato celebrado com o
11:
so, a constituição de um novo modo de produção que é o capitalista ou capitalista. Isto rompe com o caráter servil da Idade Média. A sociedade 'i
burguês, ou modo de produção moderno.

EDUCAÇÃO E MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA


moderna arranca o trabalhador do vínculo com a terra e o despoja de todos
os seus meios de existência. Ele fica exclusivamente com sua força de
trabalho, obrigado, portanto, a operá-Ia com meios de produção que são
alheios. É neste sentido que Marx, em O capital, faz referência a esta
l
libertação que a sociedade capitalista opera e que o faz em dois sentidos: I'
A época moderna se caracteriza por um processo baseado na indústria
e na cidade. Neste sentido, diferentemente da Idade Média onde era a
o trabalhador se converte em trabalhador livre porque desvinculado da
terra, livre porque pode vender sua força de trabalho, mas também porque
ir
cidade que se subordinava ao campo, a indústria à agricultura, na época i
é despojado de todos os seus meios de existência. A liberdade posta num
moderna, inverte-se a relação e é o campo que se subordina à cidade; é a sentido contraditório, duplo, aparentemente positivo -livre para dispor de
agricultura que se subordina à indústria. Por isso, na sociedade capitalista, sua força de trabalho - mas também no sentido negativo na medida em que
,]'
I'
a agricultura tende a assumir cada vez mais a fonua da indústria, tende a
se mecanizar e adotar formas industriais e a se desenvolver segundo
é desvinculada dos seus meios de existência. II.
determinados insumos, insumos esses que são produzidos segundo a forma I
industrial. De outro lado, dado que a indústria é a base do desenvolvimento A ESCOLA NA SOCIEDADE MODERNA I
das cidades, a sociedade moderna vai se caracterizar pela subordinação do b
campo à cidade ou, dizendo de outra maneira, por uma crescente urbani- A questão da educação e da escola, o que tem a ver com isso? Tudo
zação do campo. O próprio campo passa a ser regido por relações do tipo isso é importante pelo seguinte: a sociedade contratual, baseada nas I,-
urbano. relações fonuais, centrada na cidade e na indústria, vai trazer consigo a
I
~
Esta sociedade rompe as relações dominantemente naturais que pre- exigência de generalização da escola.
valeciam até a Idade Média, ou seja, dado que até aí a forma de produção A produção centrada na cidade e na indústria implica que o conheci- ,i
dominante era lidar com a terra, as relações também dominantes eram do mento, a ciência que é uma potência espiritual, se converta, através da

155
154
:ndústria, em potência material. Então, o conhecimento - Bacon assim uma sociedade agrária baseada no campo, que sugere algo atrasado, pouco
colocava no início da Época Moderna - é poder, conhecer é poder. Todo desenvolvido.
o desenvolvimento científico da Época Moderna se dirigia ao domínio da A escola está ligada a este processo, como agência educativa ligada às
natureza: sujeitar a natureza aos desígnios do homem, transformar os necessidades do progresso, às necessidades de hábitos civilizados, que
conhecimentos em meios de produção material. E a indústria não é outra
corresponde à vida nas cidades. E a isto também está ligado o papel político
coisa senão o processo pelo qual se incorpora a ciência, corno potência
da educação escolar enquanto formação para a cidadania, formação do
material, no processo produtivo. Se se trata de uma sociedade baseada na
cidadão. Significa formar para a vida na cidade, para ser sujeito de direitos
cidade e na indústria, se a cidade é algo construído, artificial, não mais algo
e deveres na vida da sociedade moderna, centrada na cidade e na indústria.
natural, isto vai implicar que esta sociedade organizada à base do direito
O que tivemos com este processo? Que a fonnaescolar emerge corno forma
positivo também vai trazer consigo a necessidade de generalização da dominante de educação na sociedade atual. Isto a tal ponto que a forma
escrita. Até a Idade Média, a escrita era algo secundário e subordinado a
escolar passa a ser confundida com a educação propriamente dita. Assim.
formas de produção que não implicavam o domínio da escrita. Na Época
hoje, q~ando pensamos em educação, automaticamente pensamos em
Moderna, a incorporação da ciência ao processo produtivo envolve a
escola. E por isso que quando se levantam bandeiras em prol da educação.
exigência da disseminação dos códigos formais, do código da escrita. O o que está em causa é o problema escolar.
direito positivo é um direito registrado por escrito, muito diferente do
direito natural que é espontâneo, transmitido pelos costumes. O domínio Se a educação escolar é a forma dominante na sociedade atual, com-
da escrita se converte, assim, numa necessidade generalizada. Com efeito, preende-se por que as demais formas de educação, ainda que subsistam na
já que não existe ciência oral (a ciência implicá em registro escrito), ao sociedade moderna, passam para um plano secundário, se subordinam à
incorporar a ciência a cidade incorpora, na sua forma de organização, a escola e são aferidas a partir da escola. Ocorre aqui com a questão escolar
exigência do domínio da escrita. Esta é uma questão que ainda hoje está o mesmo fenômeno que Marx descreveu com relação à economia, ou seja,
presente. ou seja, o desenvolvimento da escola vinculado ao desenvolvi- trata-se de compreender as formas menos desenvolvidas a partir das mais
mento das relações urbanas. É o que por vezes se chama de vínculo entre desenvolvidas e não o contrário. É nesse sentido que é possível compreen-
a escola e os padrões urbanos. Quanto mais avança o processo urbano-in- der a educação a partir da escola e não O contrário. As formas não escolares
dustrial, mais se desloca a exigência da expansão escolar. Por aí é possível de educação têm que ser compreendidas a partir da escola, que é a forma
compreender exatamente por que esta sociedade moderna e burguesa desenvolvida de educação. Este é o fenômeno que observamos hoje em
levanta a bandeira da escolarização universal, gratuita, obrigatória e leiga. dia, a tal ponto que, quando falamos em escola, não é necessário adjetivar;
A escolaridade básica deve ser estendida a todos. todos entendem do que se está falando. Mas quando se quer falar em
educação que não seja a da escola, temos que fazer a referência sempre
A palavra cidade traz sempre referência ao progresso, ao desenvolvi- pela via negativa: educação não escolar, educação não fonnal, infonnaL O
mento, enquanto o campo está sempre vinculado ao atraso, ao rústico, ao critério para entender as demais é a forma escolar.
pouco desenvolvido. Se levarmos em conta a etimologia das palavras, isto
fica claro. Assim temos civilizado, que vem de civitas - que é a palavra Isto nos permite compreender por que assistimos hoje em dia a urna
latina que designa cidade - da qual igualmente deriva cidadão, que designa verdadeira hipertrofia da escola. Em outros termos: tende-se a considerar
o habitante da cidade; mas também cidadão significa sujeito de direitos e e a atribuir à escola tudo aquilo que é educativo; a escola tem que absorver
deveres, sujeito de direitos políticos. Político vem de pólis, palavra grega todas as funções educativas que antes eram desenvolvidas fora da escola,
que significa cidade, e daí também derivam expressões como polido, j á que hoje há uma tendência a esperar que as mesmas sejam desenvolvidas
sujeito bem educado. dentro da escola. Ela é alargada tanto em sentido vertical como em sentido
horizontal. No sentido vertical, ela é espichada para cima (3~ grau, 4~ grau)
Se examinarmos as palavras originárias de campo, como por exemplo e é espichada para baixo (pré-escola). Veja-se como ocorre hoje a reivin-
rus, palavra latina que designa campo, temos então rústico, rude, para dicação da pré-escola: não se trata apenas de acrescentar I ano, para
designar algo atrasado, não desenvolvido. E se tornarmos a palavra agrós, preparar as crianças para o processo de alfabetização, mas reivindica-se
que em grego significa campo, vamos ter agreste, acre, que significa algo mais do que isso; quer-se uma pré-escola do zero aos seis anos. Isso foi
agressivo, que não tem boas maneiras, que não é polido, que não é reivindicado junto à Constituinte e incorporado à nova Constituição. Já se
civilizado. Estas referências sugerem, então, uma contraposição entre uma fala até em educação pré-natal. Há uma expectativa de alargamento das
sociedade baseada na cidade e na indústria, desenvolvida, por oposição a

156 157
mnções da escola. Nessa exp~ctativa o que ~stá aconte<;endo? A função
educativa que antes se acreditava ser própna da família agora passa a
A CONTRADIÇÃO DO PROCESSO ESCOLAR
assumir a forma escolar.
Também se advoga o alargamento da escola no sentido horizontal, ou Ao mesmo tempo em que a escola é desvalorizada, ela é hipertrofiada.
seja, a expansão do tempo de permanência nas escolas. Está na ordem do Essa contradição atravessa o próprio interior da escola; pode-se dizer
dia a defesa da jornada de tempo integral, 8 horas por dia. que existe essa tendência de se dar com uma mão e tirar com a outra. Ela
A exigência da escola se alarga tanto vertical como horizontalmente, se amplia e se esvazia ao mesmo tempo. Estende-se, mas perde substância.
isto é o que se chama hipertrofia da escola. Hoje se' coloca dentro da escola toda uma série de atividades que acabam
Além disto, também se reivindica que a escola, no seu interior, assuma descaracterizando-a. Parece que a escola cuida de tudo, menos de ensinar,
encargos que extrapolam aquilo que é especificamente pedagógico. de instruir. Isso é mais ou menos palpável observando nossas escolas.
Cheguei a ilustrar isso num artigo com as famosas semanas de comemo-
Começa-se a introduzir no cumculo toda uma série de atividades que rações. O ano letivo começa na 21 quinzena de fevereiro e já em março
se imagina que tenha alguma função educativa, portanto, deve ser tratada
vinha a semana da RevoluçãO, depois a Semana Santa, a Semana das Mães,
dentro da escola. Isto para falar no currículo. Mas existem as atividades
as Festas Juninas, Semana do Índio, Semana do Folclore, Semana da Pátria,
extracurriculares, como a merenda escolar que envolve o sentido mais
Jogos da Primavera, Semana da Criança, Semana da Asa, e nesse momento
amplo que a educação possa assumir, inclusive ° sentido latino de educar
já estamos em novembro; o ano está terminando, se comemorou muito,
enquanto alimentar, portanto propiciar o crescimento físico no sentido
literal da palavra; e se reivindica que a escola exerça também este tipo de mas pergunta-se: estudou-se Português, História, Geografia, Ciências?
função. Esta tendência é compreensível no quadro histórico esboçado. Se Constata-se, então, que isso foi relegado a plano secundário. As comemo-
se trata de um tipo de sociedade onde a forma escolar é dominante e ela é rações acabaram esvaziando o conteúdo específico da escola.
que define a educação, as demais formas são aferidas a partir dela. Então, Como entender este paradoxo em que se enreda a escola? Aqui
é compreensível que se reivindique que a forma escolar asst,lina. na prática, chegamos a um ponto importante do tema em discussão. Trata-se do modo
toda aquela extensão que o tipo de sociedade está exigindo dela. Se nós como a história chega a colocar a forma escolar como forma dominante da
prestarmos atenção, vamos verificar que, concomitantemente a esta ten- educação. Já que a fonna escolar é a forma dominante e a escola vive este
dência que descrevi, ocorre também hoje em dia a tendência oposta. paradoxo, como situar o papel que a educação deve assumir nanossa época,
Ao mesmo tempo em que a escola é hipertrofiada nos dias de hoje, ela na história presente, na história que, de algum modo, estamos fazendo?
também tende a ser secundarizada; ou seja, surgiu também nos dias de hoje Parece importante resgatar algo que está subjacente à exposição. Coloquei
um discurso que tende a afirmar que a educação escolar não é a única forma as origens da educação concomitantemente à origem do próprio homem.
de educação e sequer a principal. É muito comum hoje afirmar-se que a Essa origem era inicialmente comum, coletiva. A humanidade se divide
escola é uma das formas de educação, uma entre muitas e, entre estas, não em classes. A história da escola começa com a divisão dos homens em
é a principal. Educa-se através de múltiplas organizações, não apenas classes. Essa divisão da sociedade em classes coloca os homens em
através da escola. Educa-se, por exemplo, através dos sindicatos, dos antagonismo, uma classe que explora e domina outra. Atingimos, com a
partidos, das associações dos mais diversos tipos, através dos clubes, do sociedade capitalista, o máximo de desenvolvimento da sociedade de
esporte, dos clubes de mães. Educa-se através do trabalho, através da classes.
convivialidade do relacionamento informal das pessoas entre si. Daí se A contradição entre as classes marca a questão educacional e o papel
considera que a escola é uma entre essas muitas formas de educar e não é da escola. Quando a sociedade capitalista tende a generalizar a escola, esta

l
a que tem maior peso. No bojo disso surgiu até uma tendência radical de generalização aparece de forma contraditória, porque a sociedade burguesa
desvalorização da escola: a teoria da desescolarização, encabeçada por preconizou a generalização da educação escolar básica. Sobre esta base
IlIich. Aí chega-se a afirmar que a escola tem uma função negativa do ponto comum, ela reconstituiu a diferença entre as escolas de elite, destinadas
de vista educacional e, portanto, a sociedade ganharia se se livrasse das f
predominantemente à formação intelectual, e as escolas para as massas,
escolas.
_ Como entender essa contradição?
que ou se limitam à escolaridade básica ou, na medida que têm prossegui-
mento, ficam restritas a determinadas habilitações profissionais.
I

158 159
f
I f

Essa contradição da sociedade capitalista em relação à escola está detenha a força de trabalho. Aí está a contradição que se insere na essência
presente desde as origens da sociedade capitalista, mas de fonna subjacen- do capitalismo: o trabalhador não pode ter meio de produção, não pode
te. Na época atual, essa contradição vem à tona e se torna mai]> aguda. Os deter o saber, mas, sem o saber, ele também não pode produzir, porque
ídeólogos da burguesia proclamaram a escola universal, gratuita e obriga- para transformar a matéria precisa dominar algum tipo de saber. Sim, é
tória, portanto, uma escolaridade comum para todos, porque isto corres- preciso, mas "em do~es homeopáticas", apenas aquele mínimo para poder
pondia ao caráter da burguesia revolucionária que expressava seus operar a produção. E difícil fixar limite, daí por que a escola entra nesse
interesses em termos universais. Neste sentido o acesso ao saber, à cultura processo contraditório: ela é reivindicada pelas massas trabalhadoras mas
letrada, o domínio dos números, dos elementos necessários para conhecer as camadas dominantes relutam em expandi-la. '
cientificamente a realidade era considerado um direito de todos os homens.
Dessa maneira, a burguesia se contrapunha aos privilégios de que gozavam No próprio processo de produção foram encontrados instrumentos
a nobreza e o clero. Mas esta pregação universalizante já apareceu de forma mais adequados de contornar este problema. Uma das formas bem lípicas
diferenciada no discurso da economia política clássica. Ali os teóricos da é o taylorismo, ~ue partiu do estudo de como os trabalhadores produziam,
economia política localizavam com mais realismo a questão da escola. portanto, de q~als os conhecimentos que os trabalhadores dominavam para
Alguns deles chegavam a afirmar que a escola era totalmente dispensável poder produzlr, chamado estudo de tempos e movimentos. Analisando as
para os trabalhadores, que a instrução escolar era tempo roubado à produ- formas do processo de produção cujo saber os trabalhadores dominavam
ção; que enquanto as crianças estavam nas escolas, não estavam colabo- 05ue fez Taylor? Elaborou, sistematizou essas formas. Com esse proce~
rando com a produção e, portanto, com o crescimento da mais-valia, ou dlmento, ele desapropriou os· trabalhadores daquele saber, elaborou-o e
seja, com o crescimento e acumulação do capital. Mas os te6ricos da desenvolveu-o na forma parcelada. Nesse processo da análise dos conhe-
economia política mais perspicazes, que captavam de forma mais objetiva cimentos que os trabalhadores detinham e na sua elaboração, os trabalha-
o processo da sociedade burguesa, percebiam que a instrução escolar dores foram desapropriados c o saber sistemático relativo ao conjunto do
estava ligada a uma tendência modemízadora, a uma tendência de desen- processo produ!ivo passa a ser domínio apenas da classe dominante, do
volvimento própria de uma socíedade mais avançada. Esses teóricos, como empresariado. E dessa forma que se contorna a contradição. O trabalhador
Adam Smith, afirmavam que a instrução para os trabalhadores era impor- domina algum tipo de saber, mas não aquele saber que é força produtiva, "
tante; à medida que os trabalhadores dispusessem de educação básica, se porque a produção moderna coletivizou o trabalho e isso implica em
tomavam mais aptos para viver na sociedade, e se inserir no processo conhecimento do conjunto do processo, conhecimento esse que é privativo
produtivo, se tomavam mais flexíveis, com pensamento mais ágil e mais dos grupos dirigentes. Cada trabalhador só domina aquela parcela que ele
adequado à necessidade da vida moderna. Adam Smith percebia isso no op~ra no processo de produção coletiva. Este processo atinge um ponto
nível da educação básica. Daí a famosa frase a ele atribuída: "Instrução malS avançado na fase atual do capitalismo, que é a fase monopolista.
para os trabalhadores, porém, em doses homeopáticas". Quer dizer, é Neste ponto, cumpre registrar que o processo de constituição da escola
preciso um mínimo de instrução para os trabalhadores e este mínimo é como forma principal, dominante e generalizada de educação, iniciado na
positivo para a ordem capitalista, mas, ultrapassando esse mínimo, entra-se modernidade, ainda não se completou. Com efeito, no interior desse
em contradição com essa ordem sociaL processo foram mantidas, obviamente com novas configurações, formas
O que significa ultrapassar esse mínimo? Significa o seguinte: na l~portantes de educação à margem da escola, especialmente aquelas

sociedade moderna, o saber é força produtiva. A sociedade converte a dlfeta~ente ligadas às atividades produtivas. Assim, a formação profissio-
ciência em potência material. Bacon afirmava: "saber é poder". É meio nal fOl sendo organizada no interior do próprio aparelho produtivo, com
de produção. A sociedade capitalista é baseada na propriedade privada dos destaque para as fábricas, brotando daí organizações que, refletindo a
~eios de produção. Se os meios de produção são propriedade privada, isto
tendência dominante, assumiram a forma de escolas de tipo especial, as
escolas profissionalizantes, como um siste"ma paralelo e independente da f
SIgnifica que são exclusivos da classe dominante, da burguesia, dos capi-
talistas. Se o saber é força produtiva deve ser propriedade privada da escola propriamente dita. Esse fenômeno pode melhor ser compreendido I
,~
burguesia. Na medida em que o saber se generaliza e fi apropriado por à luz da divisão entre trabalho manual e trabalho intelectlla!. 'i
todos, então os trabalhadores passam a ser proprietários de meios de Até aqui, a leitura proposta do processo histórico privilegiou a divisão !
produção. Mas é da essência da sociedade capitalista que o trabalhador só entre trabalho e não-trabalho ficando a educação para o trabalho de um
J
li
160 161 II
l,L
lado e a educação para o não-trabalho, de outro. Em outros tennos, a ções manuais, sejam elas executadas pelas próprias máquinas ou pelos
formação dos que necessitavam trabalhar, isto é, produzir diretamente os home?s, os quais passam a operar manualmente como sucedâneos das
meios de existência, se dava no próprio processo de trabalho, ao passo que máqumas, não necessitando, nessa condição, de fazer intervir as suas
a formação dos que não necessitavam produzir diretamente os meios de faculdades intelectuais. Pode-se, pois, estabelecer uma relação entre o
vida se dava fora do trabalho, num espaço e tempo próprios, definidos caráter abstrato do trabalho, assim organizado, com o caráter abstrato
como escola. Portanto, os primeiros se educavam fora da escola; os próprio das atividades intelectuais. Em outros termos, o trabalho se tornou
segundos, na escola. ,- abstrato, isto é, simples e geral, porque organizado de acordo com os
É possível, porém, refazer essa leitura considerando que no primeiro princípios científicos, simples e gerais, vale dizer, abstratos, elaborados
caso a educação correspondia às necessidades do trabalho manual; no pela inteligência humana. Nessas condições, o trabalho especificamente
segundo caso estava em causa o trabalho intelectual. humano, mesmo no ~bito da produção material (no interior das fábricas),
passa a ser o trabalho mtelectual consubstanciado no controle e supervisão
Assim é que, desde suas origens, a escola foi posta do lado do trabalho
das máquinas e de seus eventuais sucedâneos. É, assim, um trabalho
intelectual, constituindo·se num instrumento para a preparação dos futuros
"político" já que diz respeito ao exercício do poder de controle, de direção,
dirigentes que se exercitavam não apenas nas funções da guerra (liderança de comando.
militar), mas também nas funções de mando (liderança política), através
do dominio da arte da palavra e do conhecimento dos fenômenos naturais À medida em que essa nova fonna de produção da existência humana
i
e das regras de convivência social. Isso pode ser detectado no Egito desde se torna dominante, reorgànizam-se as relações sociais de maneira corres-
as primeiras dinastias até o surgimento do escriba, assim como na Grécia, pondente. Assim, à dominância da indústria no âmbito da produção cor-
I r
em Roma e na Idade Média cujas escolas, restritas, cumpriam a função de ~esp?nde a dominância da cidade no âmbito das relações sociais,

I
preparar os também restritos quadros dirigentes (intelectuais) então reque- Imphc~n~o, em ambos os casos, a generalização das funções intelectuais
ridos. Nesses contextos, as funções manuais não requeriam preparo esco- e a oh~etlvação das operações abstratas, quer dizer, a incorporação de
lar. A formação dos trabalhadores se dava com o concomitante exercício p:oc~~Imentos f?~ais à vida social em seu conjunto. E se a máquina
das respectivas funções. Mesmo no caso em que se atingiu alto grau de vI~bIhza a mat~n.ahzação das funções intelectuais no processo produtivo,
especialização, como no artesanato medieval, o sistema de aprendizado de a VIa para se ObjetIvar a generalização das funções intelectuais na sociedade
longa duração exigido ficava a cargo das próprias corporações de ofícios: fo~ a ~sc.ola. ~is por que foi sob o impacto da revolução industrial que os 1
o aprendiz adquiria o domínio do ofício exercendo-o juntamente com os
oficiais, sob a orientação do mestre, por isso mesmo chamado de "mestre-
pnnCIpaIs palses se entregaram à tarefa de constituir os seus sistemas
nacionais de ensino, generalizando, assim, a escola básica. Dir·se-ia, pois.
II
de-ofícios". que à Revolução Industrial correspondeu uma Revolução Educacional. , ,
Aquela colocou a máquina no centro do processo produtivo; esta erigiu a
O advento da indústria moderna conduziu a uma crescente simplifica-
escola em fanua principal e dominante de educação.
ção dos ofícios, com a conseqüente redução (tendente à supressão) da
qualificação específica. Isso foi possível pela incorporação da ciência à . . ~ universalização da escola primária promoveu a socialização dos
produção, a qual propiciou a introdução da maquinaria que passou a Indl vIduos nas fonuas de convivência próprias da sociedade moderna.
executar a maior parte das funções manuais, Ora, a maquinaria não é outra Familiarizando-os com os códigos formais integrantes do universo da
coisa senão trabalho intelectual materializado, dando visibilidade ao pro- ~ultura letrada, que é o mesmo da indústria moderna, capacitou-os a
cesso de conversão da ciência, potência espiritual, em potência materiaL
Tal processo ganhou nitidez com a chamada "Revolução Industrial" que
Inte~r~r 0processo ~rodutivo. Assim, a introdução da maquinaria eliminou
a eXlgencla de qualIficação específica;mas impôs um patamar mínimo de Ib
II' data do final do século XVIII e a primeira metade do século XIX. O qualificação. g~raI, equacionado no currículo da escola primária. Preenchi- I
fenômeno da objetivação e simplificação do trabalho coincide, pois, com
o processo de transferência para as máquinas das funções próprias do
trabalho manuaL Assim, os ingredientes intelectuais antes indissociáveis
do eS,se ~eqU1slto, os trabalhadores estavam em condições de conviver com
as maqUInas, operando-as sem maioras dificuldades. Mas, além do trabalho
de operar com as máquinas, era necessário também realizar atividades de
l
!
do trabalho manual humano, como ocorria no artesanato, dele se destacam, manuten~ão, reparos, ajustes, assim como o desenvolvimento e adaptação I
indo incorporar-se às máquinas, o que viabiliza a mecanização das opera- a nova~ c.Hcunstâncias. Subsistiram, assim, no interior da produção, tarefas
que eXigIam determinadas qualificações específicas, obtidas por um pre-

i 162
163
·paro intelectual também espe.cífi~o. Esse espaço foi ocu~ado pelos c~sos a capacidade de manejar conceitos, o desenvolvimento do pensamento
profissionais organiz~dos no a~bIto das empresas ou d? sIstema.de enSinO, abstrato.
tendo coma referênCia o padrao escolar, mas determmados dIretamente Entretanto, o atingimento dessa meta enfrenta obstáculos postos pelas
pelas necessidades do processo produtivo. Portanto, sobre a base geral e relações sociais vigentes que, dificultando a generalização da produção
comum da escola primária, Q sistema de ensino se bifurcou entre as escolas baseada na incorporação maciça das tecnologias avançadas, dificultam
de formação geral e as escolas profissionais. Estas, por não estarem também a universalização da referida escola unitária. Esta, com efeito, só
diretamente ligadas à produção, tenderam a enfatizar as qualificações se viabilizará plenamente com a generalização do não-trabalho ou, para
gerais (intelectuais) em detrimento da qualificação específica, ao passo que usar um eufemismo, com a generalização do trabalho intelectual geral. Isto
os cursos profissionalizantes, diretamente ligados à produção, enfatizaram porque, se as prQrjas funções intelectuais específicas também são transfe-
os aspectos operacionais vinculados ao exercício de tarefas específicas ridas para as máquinas, conclui-se que todo o trabalho passa a ser feito por
(intelectuais e manuais) no processo produtivo considerado em sua parti- elas. O processo de produção se automatiza, vale dizer, se torna autônomo
cularidade. auto-regulável, liberando o homem para a esfera do não-trabalho. Genera~
Parece que é essa situação que vem sendo posta em xeque atualmente liza-se, assim, o direito ao lazer ou, como dizia Lafargue, o "direito à
no contexto da chamada introdução de novas tecnologias. preguiça", atingindo-se o "reino da liberdade" próprio da "sociedade
regulada" nas palavras de Gramsci.
Por certo que o trabalho, mesmo aí, continuará sendo uma prerrogativa
NOVAS TECNOLOGIAS E EDUCAÇÃO humana, conservando-se a sua definição geral corno atividade através da
Estamos vivendo aquilo que alguns chamam de Segunda Revolução qual O homem, guiado por deteffiÚnada finalidade, transforma um objeto
Industrial! ou Revolução da Informática ou Revolução da Automação. E por meio de determinados instrumentos (K. Marx, O Capital, livro I, vaI.
I, Civ. Brasileira, 1968, p. 201-210).
qual é a característica específica dessa nova situação? Penso que se antes,
como se descreveu, ocorreu a transferência de funções manuais para as As máquinas, corno extensão dos braços e agora também do cérebro
máquinas, o que hoje está ocorrendo é a transferência das próprias opera- humano, não são mais do que instrumentos através dos quais o homem
ções intelectuais para as máquinas. Por isso também se diz que estamos na realiza aquela atividade, ainda que se trate de instrumentos capazes de pôr
"era das máquinas inteligentes". Em conseqüência, também as qualifica- em movimento operações complexas, múltiplas, amplas e por tempo
ções intelectuais específicas tendem a desaparecer, o que traz como con- prolongado. Portanto, o criador desse processo, aquele que o domina
trapartida a elevação do patamar de qualificação geral. Parece, pois, que plenamente e que o controla em última instância, continua sendo o homem.
estamos atingindo o limiar da consumação do processo de constituição da Continua, pois, sendo um trabalhador. Seu trabalho consiste agora em
escola como forma principal, dominante e generalizada de educação. Se comandar e controlar todo o compleXco das suas próprias criaturas, man-
assim é, a universalização de uma escola unitária que desenvolva ao tendo-as ajustadas às suas necessidades e desenvolvendo·as na medida das
máximo as potencialidades dos indivíduos (formação omnilateral) condu- novas necessidades que forem se manifestando. Mas convenhamos que as
zindo-os ao desabrochar pleno de suas faculdades espirituais-intelectuais, fronteiras entre esse tipo de trabalho e o lazer, entreesse tipo de atividade
estaria deixando o terreno da utopia e da mera aspiração ideológica, moral e aquela própria do desfrute das artes e dos jogos desportivos se tomam
!
ou romântica para se converter numa exigência posta pelo próprio desen- tênues, diversamente do que ocorria (e ainda ocorre) no !'reino da neces-
volvimento do processo produtivo. Indícios dessa tendência estão apare-
cendo cada vez mais fortemente, como se vê pela universalização do ensino
médio, já real em vários países, e pela perspectiva de universalização do
ensino superior, assim como pela convicção crescente, inclusive entre os
sidade".
Em suma, pode-se afimar que o trabalho foi, é e continuará sendo o
princípio educativo do sistema de ensino em seu conjunto. Determinou o
lI·
seu surgimento sobre a base da escola primária, o seu desenvolvimento e
empresários, de que o que importa, de fato, é uma formação geral sólida, diversificação e tende a determinar, nOCOntexto das tecnologias avançadas, ~
a sua unificação. f

1. Outros autores preferem denom inar essa fase de Terceira Revolução Industrial. considerando
I
A incorporação das novas tecnologias por empresas brasileiras nas
como Segunda Revolução Industrial O Proçe~lso que preparou e desembocou no taylorismo/fordismo.
atuais circunstâncias, além de pôr em evidência o atraso em que nos II
r
164 165
I
lI.
encontramos em matéria de educação, terá, espera-se, o papel de acentuar
o sentimento de urgência na realização da meta de universalizar a escola
básica a antiga escola primária com o seu currículo já clássico, como ponto
de par'tida para a construção de um sistema educacional unificado em
correspondência com as exigências da nova era em que estamos ingressan-
do. A sensibilidade nessa direção já começa a se manifestar msmo naquela
área mais recalcitrante da "Intelligentia" nacional representada pelo em- REFERÊNCIAS
presariado, como o ilustra o artigo do candidato da situação à presidência
da FIESP (cf. Folha de S. Paulo, 22/06/92, caderno I, p. 3). BIBLIOGRÁFICAS
Foi com base nessas coordenadas e tendo presente a perspectiva
indicada que se procurou introduzir no texto da nova L.D.B. o dispositivo
relativo ao sistema nacional de educação. Tal idéia vem enfrentando,
porém, resistências acirradas, oriundas dos setores conservadores vincula-
dos ao atual governo federal que ironicamente se apresentam como os
paladinos da modernidade. Este parece ser, no entanto, o grande desafio
interposto à educação pela introdução de novas tecnologias em empresas
brasileiras. Com efeito, como vem sendo reconhecido cada vez mais
amplamente, sem um sistema educacional consolidado sobre a base de uma
escola elementar comum universalizada, não será possível modernizar o Este texto foi elaborado como uma síntese pessoal, a partir de um
parque produtivo nacional. Se esse desafio permanecer sem resposta, as conjunto amplo de estudos. Segue, abaixo, a lista das obras que foram
I' metas proclamadas de modernização tecnológica, incremento da produti- levadas em conta de forma mais direta na exposição do tema:
'I
I vidade e ingresso no Primeiro Mundo não passarão de promessas blandi- FRlGOrrO, G. A produtividade da escola improdutiva. São Paulo: Cor-
i
.1
ciosas. tez, 1984.
i ILLICH, l. Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes, 1973.

!if' LOCKE, J. Segundo Tratado sobre o Governo. In: OS PENSADORES:


Locke. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
, MANACORDA, M.A. História da educação. São Paulo: Cortez, 1989.
MANDEVILLE, B. Historia de las abejas. México: Fondo de Cultura
Econ6mica.
MARX, K. O Capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
- Fonnações econômicas pré-capitalistas. Rio de Janeiro: paz e Terra,
1975.
OLIVEIRA, M.a.L. Escolaridade e processo de trabalho: o impacto das
inovações tecnológicas na qualificação do trabalhador da indústria
mecânica. São Paulo, 1991. Tese (doutor.) - PUC-SP.
PINTO, A.M.R. O mundo capitalista e as transformações do fordismo: a
reabilitação da escola clássica na era das máquinas inteligentes. São
Paulo, 1991. Tese (doutor.) - PUC-SP.
PONCE, A. A Educação e luta de classes. São Paulo: Cortez, 1985.

166 167
.1
;1
I
ROUSSEAU, J.l. Du Contrat social. Paris: Aubier Montaigne, 1976.
SALM, C. Escola e trabalho. São Paulo: Brasiliense, 1980.
SCHUL1'2, T. O Capital humano. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.
SMITH, A. Inquérito sobre a natureza e as causas da riqueza das Nações.
Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1981, v. 2. A EDUCAÇÃO E OS DESAFIOS DAS NOVAS
TECNOLOGIAS

Lucl1ia Regina de Souza Machado *

INTRODUÇÃO

Os estudos sobre os impactos sociais das atuais inovações tecnológicas,


organizacionais e gerenciais, introduzidas nos processos de trabalho, sobre
o perfil da força laboral, partem do pressuposto de que o trabalho linear,
i
segmentado, padronizado e repetitivo, característico do padrão tecnológico I
,

~
taylorista e fordista, tem sido substituído por uma nova modalidade mar-
cada pela integração e pela flexibilidade.
Por impactos sobre o perfil da força de trabalho, estamos considerando i
I:
o conjunto de transformações e ajustes que ocorrem no plano dos requeri- I

mentos culturais, educacionais, ideológicos, psicossociais etc., tendo em


vista atender à necessidade objetiva de correspondência entre as funções
laborais dos trabalhadores e o nível de desenvolvimento da base técnica
l
da produção social.
A qualidade do trabalho humano, manifestada nos objetivos alcança- . :1
, !
I ~i

dos e na fonna de consegui-los, depende da qualidade do trabalho vivo,


mas este é resultado de um conjunto de fatores relacionados ao nível e à I'
direção da organização da produção e do desenvolvimento tecnológico. I
I
Tais fatores envolvem aspectos econômicos, políticos, ideológicos e
culturais, tais C2!"IlO o grau médio de qualificação dos trabalhadores, o nível t
I
de progresso da ciência, o tipo de organização social, o volume e a eficácia I

dos meios de produção, as condições naturais etc.


Assim, quando ocorrem transformações nas funções dos trabalhado-
res, estas são acompanhadas por todo um conjunto de mudanças que
l
I!
incidem sobre as diferentes combinações sociais do processo de trabalho.
~
• Professora Adjunta e vice-<liretora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de I
Minas Gerais.

168 169
Na atual etapa monopolista de reestruturação industrial dos países
capitalistas mais avançados, a tecnologia tem se constituído no fator mais
1. o DESENVOLVIMENTO DA BASE TÉCNICA DA importante deste processo, pois cria novas oportunidades de investimento.
PRODUÇÃO SOCIAL A tecnologia, enquanto expressão teórico-prática da ciência, configura.
atualmente, uma agregação de interesses político-econômicos, um poder
As necessidades da produção material estimulam o desenvolvimento
social.
progressivo e inter-relacionado da ciência e da técnica, convertendo a
própria produção em um processo tecnológico. A atividade de conheci-
mento se faz presente na organização do processo de trabalho, mediando
2. DESENVOLVIMENTO DA BASE TÉCNICA E MUDANÇAS
as relações entre capital e trabalho. Este processo tem transformado a
NA DIVISÃO DO TRABALHO
ciência em força produtiva direta, não somente corno apoio ao processo de
reprodução ampliada e intensiva do capital, mas também como área A desigualdade no plano da divisão internacional do trabalho acentua-
específica de investimento produtivo capitalista. Surgem, então, empresas se com o desenvolvimento da crise geral do capitalismo e com a forma,
voltadas exclusivamente para a produção de alta tecnologia e de novos por saltos, com a qual se processa o desenvolvimento dos países imperia-
processos de produção. listas. Estes saltos decorrem do brusco processo de concentração e centra-
Às atuais transformações no sistema de conhecimentos científicos lização do capital graças às conquistas das ciências e das técnicas,
tem-se atribuído, graças à sua radicalidade, um caráter revolucionário. Esse apropriadas pelo capital monopolista.
J
novo sistema de conhecimentos e essa transformação radical da técnica Nas matrizes das empresas multinacionais são desenvolvidas as ativi- I
decorrem de descobrimentos significativos em pelo menos cinco áreas: na dades dc pesquisa e desenvolvimento, concentrando-se lá os recursos i
compreensão da estrutura atômica e molecular da matéria, pennitindo-se materiais, técnicos e financeiros. Às filiais cabe somente fazer a adaptação
a produção de novos materiais sintéticos; na química, com a obtenção de dos produtos e processos às condições locais.
substâncias com propriedades pré-definidas; no estudo dos fenômenos
elétricos que ocorrem nos corpos s6lidos e gases, ensejando o aparecimen-
Vantagens competitivas apresentadas, até então, pelos países periféri- t
cos como mão-de-obra e matérias-primas abundantes e baratas deixam de
to da ele~rôni~a; .no domínio do núcleo atômico, dando origem à exploração I
ter importância significativa para o atual padrão tecnológico.
da energia atolTIlca e no plano da matemática, abrindo amplas perspectivas
para a automatização.
A atual revolução científico-técnica manifesta-se no campo da micro-
eletrônica, com formidáveis resultados como a informática, as máquinas
O desenvolvimento do progresso técnico nos países capitalistas avan-
çados não é, todavia, linear. Ele ocorre de forma contraditória, corno
conseqüência da tendência ao estancamento na atual fase parasitária do
.1
Il

capitalismo monopolista.
numéricas e a robótica. Evidencia-se, também, no campo da microbiologia,
dando orig~m à nova pesquisa biotecnológica e no campo energético, com Nesta fase, a tendência é da predominância dos interesses rentistas, de I
I'
a engenhana nuclear. setores que crescem às custas de inversões especulativas. O progresso I
_ P~a a produção social, tais avanços constituem alavancas propulsoras,
técnico pode ser também deslocado para gastos improdutivos, tais como I:
fins militares e até mesmo ser refreado se for de interesse dos grupos
pOIS lIbertam o homem de uma série de limites impostos pela natureza e I
monopolistas.
pelas suas próprias condições físicas. Tais possibilidades no entanto I
permanecem, para a imensa maioria da humanidade urna m;ra promessa' A mudança de padrões tecnológicos provoca saltos qualitativos no
pois o capitalismo se vê impossibilitado de cumprir ~arefas sõciais corres~ avanço do capitalismo. Trata-se, no entanto, de um processo restritivo,
p~ndentes ao avan~o técnico alc~nçado. Este desenvolvimento, por si só, heterogêneo e não coetâneo, na medida em que está intimamente ligado à
na? g,arante a geraçao de urna sociedade realmente emancipada da pobreza, dinâmica da concorrência intercapitalista e aos períodos de acentuada crise f
pOIS e modelado pelas relações de produção dominantes. e estagnação econômica. b
f
Sua utili~ação volta-se, sobretudo, para a intensificação do trabalho e Mesmo dentro de uma mesma empresa, é possível encontrar um
para urna maIOr concentração da riqueza. sistema de produção dual, coexistindo diferentes opções tecnológicas
tendo, de um lado, um grupo de trabalhadores atuando segundo a organi-

170 171
c..
.'.;. . 1

ã !~
!I.
dores, de forma a potenciar os recursos naturais, culturais e humanos
i.ação fordista e. de outro, outro grupo operando sistemas flexíveis. São
disponíveis. Temos, assim, de um lado, meios de trabalho e objetos de
.ógicas organizacionais diferenciadas, que necessariamente não se opõem,
trabalho, que sob o domínio da propriedade privada capitalista atuam como
porque sua combinação atende a uma lógica comum e superior, à lógica
capital. De outro, força de trabalho ou capacidade humana de transforma-
da acumulação. ção e de realização de trabalho útil, cuja venda ao capitalista toma o
Os incentivos em direção às novas tecnologias são estimulados pela trabalhador alienado das suas condições de produção e realização.
busca de antídotos à tendência de queda da taxa de lucros e dão origem a
Os instrumentos de trabalho, parte integrante dos meios, constituem a
uma nova política de produção.
espinha dorsal de toda produção e crescem em im~ortância c?m a atual
Esta política, que tem sua origem na necessidade de reordenamento do revolução científico-técnica. Os avanços nos conheclmentos, tais como os
processo de acumulação capitalista. sai do âmbito fabril para outras esferas que permitem a alteração da estrutura atô~ca e molecular das substância~,
da sociedade - especialmente o Estado - responsáveis pelos fatores da têm incrementado também o papel dos objetos de trabalho, com a substl-
produção, tais como a reprodução da força de trabalho e o aperfeiçoamento tuição de materiais naturais por outro.s produzidos ar:ificialmente, a exem-
dos meios de produção (objetos e meios de trabalho). Com isso, surgem plo do uso alternativo das fibras ótlcas. com relaçao ao ~obre. Surgem,
novas demandas para as políticas de educaçãO, saúde, ciéncia e tecnologia, assim. novos campos de trabalho relaCIOnados ao aperfelç?amento dos
industrial etc. meios de produção, tanto no desenvolvi~e~to d~ novos I~strumen~os
Do ponto de vista da divi são social do trabalho por setores da produção, quanto no tratamento preliminar dos materIaIS, sejam natur31S ou artifi-
ou seja, da divisão geral, tem se verificado uma diluição das diferenças ciais, que serão submetidos· à ação humana.
específicas que os caracterizam, com o emprego generalizado das novas Para o capital é de crucial importância o aperfeiçoamen.to do.s mei?s
tecnologias. O novo padrão tecnológico traz a necessidade de adoção de de produção, pois embora estes não sejam capazes d~ prodUZir ~a.:s-vaha,
linguagens, instrumentos e estilos organizacionais relativamente comuns característica específica da força de trabalho, constituem condIçao desta
por todos os setores que o incorporam. Considerando-se a participação produção, ao incidir sobre o aumento. da produtiv~dade. Com as ~o:as
percentual dos setores no volume das ofertas de emprego,verifica~se que tecnologias, aumenta a relação entre melOS de produçao (trabalho preteTl:o)
a adoção das novas tecnologias tem implicado em significativo crescimen- e número de trabalhadores (trabalho vivo) empregados na produçao,
to do setor terciário em detrimento dos demais. Nesta direção, de crescí- alterando-se a composição técnica do capital e a relação entre capital
menta do setor terciário, é importante destacar as conseqüências sobre a constante (destinado à compra dos meios de produção) e capital variável
divisão singular do trabalho, aquela que ocorre dentro da empresa, com a (destinado à compra da força de trabalho).
expansão das atividades de escritório no interior das fábricas. Assim, o
As políticas voltadas para o aperfeiçoamento do~ meios d~ p~odução
impacto das inovações tecnológicas sobre o modo de produção incide tanto visam buscar alternativas para a perda das suas propnedades tecmco-pro-
nas relações de troca, atingindo os setores da economia, quanto -nas dutivas e de seu valor de uso, provocada pelo seu desgaste físico e sua
relações de produção stricto sensu, nas formas de cooperação e de incor- desatualização. Os novos instrumentos se caract~rizam p~la flexibilid~de
poração ao trabalho, nas características e maneiras de combinar os elemen- e capacidade de múltiplas combinações, dando ongem a dlfere?tes opçoes
tos do processo de trabalho (a atividade humana, a matéria a que se aplica integradas e passam a responder por funções novas como momtoramento,
o trabalho e os meios e instrumentos utilizados).
controle e operações lógicas.
Se a mecanização da produção represento~, no pas.sad,o~ a subs~it~ição
3. DESENVOLVIMENTO DA BASE TÉCNICA E MUDANÇAS do trabalho manual pelas máquinas, pela adoça0 do prInCIpIO ~ec~mco. o
NO PROCESSO DE TRABALHO novo princípio de base microeletrônica e calcado na aut.omatIzaç~o., vem
trazer possibilidades absolutamente novas para a técmca maqUlnIzada.
O desenvolvimento das forças produtivas· se expressa na produção de Dispositivos automáticos, sob a direção, o~servação, ac~mpanhamento e
novos conhecimentos, no aperfeiçoamento da experiência produtiva e dos ajustes de operadores, orientados por préVia progra~açao, passam.a co- ~
hábitos de trabalho. Isto significa desenvolvimento do instrumental, mo- mandar e controlar as funções das máquinas. Um conjunto de procedImen- II
dificações no processo de trabalho, utilização de alternativas energéticas
mais racionais e investimento na formação científico-técnica dos trabalha-

172
173 I
I'J
11.
r~-

u..s e meios técnicos volta-se para uma maior eficácia na obtenção, fixação, social dos processos de trabalho, constituem fatores fundamentais que
transmissão, armazenamento e processamento das informações. interferem nO perfil de qualificação dos trabalhadores.
Os novos instrumentos de trabalho caracterizam-se pela funcionalida- Os meios de produção, especialmente os meios de trabalho, contri-
de, pois compõem-se de pequenos blocos adaptáveis uns aos outros, que buem decisivamente para demarcar e distinguir épocas históricas, pois são
se prestam à produção de um amplo espectro de valores de uso, materiais indicadores do nível de desenvolvimento social alcançado e das potencia-
e simbólicos, podendo atender imediatamente ao redesenho de produtos e lidades oferecidas ao aperfeiçoamento individual e coletivo dos trabalha-
de processos. Todas estas características e a capacidade de retroalimenta- dores, enquanto mediadores das relações sociais de ~rod~ção. São fatores
ção compõem o que se chama de flexibilidade tecnológica, ajustada para da qualidade do trabalho e criam a base para a orgam~açao d? pr~cesso de
atender demandas diversificadas de produtos, sem riscos acentuados de produção: as formas de cooperação, os padrões de.hl~rar~UlzaçaO e co~­
rápida obsolescência. trole da força de trabalho, as possibilidades de soclahzaçao ~~s conheCI-
A organização do processo de trabalho, baseada na automação, resta- mentos, as oportunidades de desenvolvimento das hablhdades, de
belece, sob novas bases, princípios utilizados pela organização clássica interação e de exercício da autonomia.
anterior, como a implementação do fluxo contínuo da produção, com a A qualidade do trabalho não é, entretanto, uma decorrência nat~r~l do
introdução de uma racionalização sistêmica, e o fracionamento do traba- aperfeiçoamento dos meios de produção. ~ão ~~is,decisivos os obJetIvos,
lho, com a atribuição a grupos pequenos da responsabilidade por tarefas as intenções e as orientações de quem deCIde utilIza-los e segundo a forma
específicas. que deseja. O anestesiamento das capacidades dos tra~alhadores permane-
A fragmentação do trabalho taylorista-fordista levou ao máximo a ce um recurso acionável a qualquer momento que os mteresses do lucro o
parcelização e a especialização como formas de intensificação do trabalho exigirem. No entanto, ficam como contraponto, a questi.onar as opç?es ,da
na produção seriada. A gerência se reservava o monopólio do conhecimen- gestão, as necessidades objetiva.s da bas~ técnic~-rnaten.al. Um~ COIsa e o
to e toda a organização pressupunha um adestramento prático do trabalha- padrão tecnológico; outra, o regime fabn~, que diZ respeito .a~ sIstema que
dor nas tarefas mecânicas e padronizadas, de tal maneira que habilidade rege as relações de trabalho, tanto as téclllcas quanto as SOCIaIS, bem como
tornou-se sinônimo de repetição rápida e com margem mínima de erros de suas interdependências.
um pequeno número de gestos predeterminados e fixos. O taylorismo e o fordismo, intrinsecamente, aportaram organizações
O fordismo representa a adaptação do taylorismo à linha de montagem de trabalho autoritárias. As inovações organizacionais subvertem este
e também está voltado para a produção estandardizada para o consumo de modelo trazem formas mais participativas, integradas, grupais, descentra-
massa, se possível a custos unitários sempre decrescentes. Enquanto eco- lizadas:autônomas, envolventes e flexíveis, maS não significam que sejam,
nomia de escala, tira todo proveito da base eletromecânica para disciplinar por isso, democráticas, ainda que constituam patamares superiores que
e intensificar o trabalho segundo um ritmo imposto mecanicamente. A favorecem o aperfeiçoamento do trabalho humano.
estrutura ocupacional apresenta-se polarizada, hierarquizada e rígida. Sal- Por pressão da concorrência emerge um novo tipo de gestão do
vo um pequeno grupo de trabalhadores qualificados, composto por técni-
cos, tais como ferramenteiros e da manutenção, a grande maioria não
processo produti vo orientado por uma sistemática racionalização de custos
e de busca de maior produtividade. A capitalização decorrente da acumu-
I:
requer atributos escolares e culturais de alguma relevância. lação de mais-valia, resultado da aplicação do progresso técnico, cria, por I
sua vez, novas condições para a elevação da eficiência da produção, que i.
O modelo fordista mostra-se ainda presente e adequado a muitos r
objetivos produtivos, principalmente nos processos de trabalho discretos, para o capitalista significa uma menor relação entre gastos efetuados e
mas tem sido ameaçado pelos seus próprios limites, manifestados pela resultados conseguidos.
condenação dos trabalhadores à degradação e brutalização por ele impos- As inovações tecnológicas, ao permitirem o crescimento da pro?utivi-
tas, e pelas novas alternativas tecnológicas e organizacionais flexíveis e dade do trabalho, favorecem a redução dos gastos com os salános; ao
integradas surgidas com a microeletrônica. possibilttarem o uso mais intensivo das capacidades de prOdução,. levam à
A quantidade e a qualidade dos meios de produção, as possibilidades diminuição dos gastos com amortização e ao elevarem a quahdade da
de aplicação das ciências na produção, associadas a formas de organização produção, contribuem para o aumento da eficiência do conjunto da produ-
ção sociaL

174 175
· Uma produção qualitativamente diferente e diferenciada, quase que trabalho e nas relações entre os membros das unidades produtivas, trazendo
personalizada. voltada para pequenos segmentos do mercado e em peque- novos contornos para a relação entre capital e trabalho.
nas quantidades vem substituindo a economia de escala com ênfase na O conjunto destas transfonnações representa um reordenamento do
produção de massa e organizada em série. Numa conjuntura de prolongada processo social da produção, próprio da reprodução ampliada do capitalis-
crise e de crescimento retardado. o que passa a contar não é tanto a mo, que lhe é inerente. Trata-se de urna reprodução ampliada intensiva,
quantidade do que se produz, mas a possibilidade de se atender à contínua pois se baseia na incorporação de recursos correspondentes a um nível
mudança no produto e nos processos, um mercado minoritário e seletivo, tecnológico superior, tendo em vista saltos qualitativos no crescimento da
mesmo às custas de uma obsolescência precoce, artificial e rápida das produtividade.
mercadorias. Esse processo implica na reprodução não só dos meios de produção e
A organização taylorista e fordista atendia às necessidades da econo- da força de trabalho, como também das relações de produção e das
mia de escala e da produção de massa. No atual processo de reconcentração contradições capitalistas. As transfonnações e os ajustes que se fazem
do capital, algumas empresas procuram sair da crise através da renovação necessários nem sempre são possíveis. pois o caráter anárquico da produ-
do capital fixo, propiciada pelo progresso técnico. A crise, por ser inerente ção capitalista impede a realização de um movimento proporcional das
ao desenvolvimento da produção capitalista, não pode ser resolvida pela partes, de forma a conferir harmonia ao todo.
via da inovação tecnológica e organizacional, apesar do momentâneo A busca da reprodução ampliada e intensiva do capital pelo emprego
alívio que esta propicia. A própria aceleração do progresso técnico acelera crescente das novas tecnologias e das novas formas de organização do
também a obsolescência do capital fixo, tomando as crises mais freqüentes trabalho representa mais que a simples busca de mais-valia relativa,
e profundas. A base de tudo isso é a tendência decrescente da taxa de lucros, resultado do incremento da produtividade social do trabalho. Trata-se da
resultado da incidência de fatores contraditórios como a elevação da tentativa de realização de uma mais-valia extraordinária, que tem como
composição orgãnica do capital e a diminuição da sua rotação. fonte uma produtividade individual mais elevada, pennitida pelo emprego
Em resposta a estes desafios, as empresas passam a buscar fonnas que de uma tecnologia superior, ainda não generalizada, cujo resultado é uma
reduzam os custos de capital e as necessidades de capital circulante, significativa redução do valor unitário da mercadoria, comparativamente
diminuindo, por exemplo, seus estoques; a encurtar, cada vez mais, os ao valor social da mesma, ditado pelas condições sociais médias de
tempos gastos com a fabricação e a comercialização; a procurar uma produção. Ao colocar as mercadorias no mercado pelo seu valor social, o
melhor qualidade da produção; a se pautar pela flexibilidade de modo a capitalista consegue aumentar sua margem de lucro, até que se generalizem
atender, ao mesmo tempo, mercados distintos e a montar uma organização os avanços técnicos por ele utilizados. Com isso, a concorrência interca-
mais leve e ágil nas respostas às necessidades emergentes. pitalista invade o terreno das investigações científicas e tecnológicas e as
submete à sua lógica e ao seu domínio.
Com relação à força de trabalho, surgem novas necessidades e desafios
4. FORÇA DE TRABALHO E REPRODUÇÃO AMPLIADA E pertinentes ao aperfeiçoamento profissional, ao domínio de novas especia-
INTENSIVA DO CAPITAL
lidades, à mudança nas atividades, à requalificação dos trabalhadores
As atuais transformações tecnológicas vêm incrementar enonnemente dispensados e à redistribuição da força de trabalho pelos ramos e ati vidades
a composição técnica do capital, com a redução relativa da força de da economia. I
~
trabalho empregada. Trazem, no entanto, novos elementos à tendência Verifica-se um movimento complexo, heterogêneo, não coetâneo e
contraditória do desenvolvimento do capitalismo, pois se se exige elevação difuso de qualificação e desqualificação da força de trabalho, com os
dos gastos com capital constante, também se tomam mais elevadas as
despesas com o capital variável, haja vista a necessidade de utilização de
uma força de trabalho mais qualificada. Além disso, importantes alterações
ocorrem no âmbito do trabalhador coletivo, ou seja, na combinação social
deslocamentos, substituições e absorções de segmentos laborais, a partir
de critérios emergentes e pouco explícitos de inclusão e exclusão, ditadas
pelas inovações tecnológicas e organizacionais.
Os efeitos das novas tecnologias sobre a superpopulação relativa, a
l
f
das forças de trabalho individuais, com as mudanças no conteúdo do força de trabalho sobrante com relação à sua demanda por parte do capital,

176 177
I
Se estas relações sociais mostram-se passíveis de modificações a partir
são difíceis de separar porque o fenômeno do desemprego depende, em de transformações nas forças produtivas, é necessário considerar tanto a
larga medida, do ritmo dos investimentos. possibilida<!e de sua completa alteração, se não se revelâm capazes de
Espera-se, no entanto, perda de postos de trabalho nos. setores e absorvê-Ias, como de adaptações que representem formas ativas de dire-
empresas que não apresent~ compe~~vidade e im~actos negatIvos s?bre cionamento deste movimento de mudança tecnológica, sem que seja
ocupações rotineiras, manUaIS e repetitivas, transfendas para. as ~áqumas. necessária a alteração da base social que alicerça o regime vigente de
Perdem lugar operadores de máquinas-ferramentas convenCIOnaIS, o~rá­ propriedade social.
rios-a!tífices, oficiais mecânicos, supervisores e trabalhadores manuais em São as relações de propriedade que definem a forma de relacionamento
geral. Inauguram-se formas alternativas de contrata~ão de mão-de-obra dos trabalhadores com os meios de trabalho, na qual se fazem cada vez
como subcontratações e encomendas de tarefas espeCIficas. mais presentes as inovações técnicas e organizacionais, pois são elas que
Os estudos têm indicado, entretanto, efeitos estimulantes em outras também definem a própria finalidade da produção social, a partir da lógica
áreas do mercado de trabalho, seguramente não compensadores em termos da apropriação social.
numéricos, pois a nova tecnologia é capital-intensivo e a dinâmica d~ novOS Assim, o papel dos trabalhadores no processo da produção, a possibi-
investimentos tem sido afetada pela profunda e prolongada cnse que lidade de desenvolvimento das suas forças físicas e espirituais e de apro-
atravessa o sistema capitalista. veitamento do potencial criador inerente ao trabalho humano, neste
Os impactos positivos têm incidido sobre ocupações com nível. mais momento de importantes transfonnações tecnológicas, vêm recolocar a
elevado de qualificação, principalmente as voltadas para o desenvolVImen- necessidade de indagações sobre as implicações do sistema de relações
to de novos produtos e processos, a melhoria da qualidade e substituição sociais sobre o modo de se produzir.
dos produtos existentes.
Ganham lugar também as atividades de escritório, inclusive n~ fá?rica,
que passa a apresentar um fluxo mais intenso entre trabalhadores mdlfe~os
5. SISTEMOFATURA, RACIONALIZAÇÃO SISTÊMICA E
e diretos, estes com tendência ao declínio. Crescem as atividades de servIço
DEMANDAS DE QUALIFICAÇÃO
em geral, apresentando novas modalidades como o "telework", tra~alho A nova forma de integração social no trabalho decorre de um tipo de
em residência com comunicação instantânea com contratante, atraves de racionalização de caráter sistêmico, podendo-se dizer, mesmo, que se trata
equipamentos informáticos. de uma sistemofatura, por contraposição à maquinofatura, característica
As contradições que surgem neste movimento de qualificação e des- do padrão tecnológico e organizacional anterior.
qualificação da força de trabalho são amplas e ?r~fund~s por~ue. as O núcleo central e irradiador da dinâmica deste sistema é o processa-
substituições e ajustes nem sempre se revelam posslvels. EXistem lumtes mento rápido, intenso e confiável da informação. O elemento integrador é
estruturais dados pela impossibilidade inerente ao capitalismo de compa- o próprio tempo exigido pelos equipamentos que processam as infonna-
tibilizar transformações na base técnica da produção com a criação de çõcs, com a tendência de se definir o "tempo real" para todas as operações,
condições sociais adequadas à formação do trabalhador, apesar das neces- o que significa garantir imediata resposta às demandas apresentadas e
sidades objetivas do sistema produtivo. simultaneidade de condutas.
Essa não-correspondência decorre da forma social do trabalho em Para tal faz-se necessário um planejamento rígido e fonnalista, a partir
vigor neste sistema social, de seu caráter social, do tipo de vínculos e de de regras prescritas com antecedência, tendo em vista atender fins prag-
relações que são estabelecidos pelas pessoas, que fazem co~ que. os máticos. Essa prescrição é feita a partir da apropriação de conhecimentos,
resultados do trabalho, embora este tenha sua feição cada vez maIS socIal, muitos deles produzidos pelos trabalhadores diretos, que são codificados
sejam apropriados de forma privada e cada vez mais monopolista. e congelados para serem utilizados sob a forma de programas.
Os produtos do trabalho humano, inclusive as conquistas científicas e A prescrição determina os meios considerados adequados à execução
tecnológicas, tornam-se independentes de seus produtores, passam a ter do trabalho e tem forte componente intelectual, incluindo-se especifica-
vida própria e a ser expressão do capital, proprietário dos meios que as ções quanto ao conteúdo da tarefa, a definição de responsabilidades, as
produziram.

179
178
regras e métodos, as condições ambientais, as habilidades requeridas, os ~ operador tem ~dquirido um perfil amplo, ao integrar à operação as
tempos etc. funçoes de pr~p~açao, de ~o?"trole de qualidade e até de elaboração de
Um trabalho orientado fortemente por instruções formalizadas não programas maIs SImples, eXlgmdo-se dele maior responsabilidade e com-
favorece o desenvolvimento da imaginação e da criatividade dos trabalha- ~~ência. Com isso, removem-se tempos mortos e alcança·se maior produ-
dores e mais facilmente os conduz à monotonia e à desqualificação. No tIVIdade.
caso da flexibilização tecnológica, entretanto, este resultado pode ser A programação é uma área em cres~imento dentro das empresas, que
relativizado com a reunificação do trabalho antes parcelado e diversifica- vem renovando sua_base tecn~lóglca. Ex~ge conhecimento teórico e prático
do, no funcionamento de equipes, que se ocupam de um conjunto de e envo!ve elabor~~ao de proJetos, espeCIficação do processo de execução
funç6es integradas. (máquma a ser utilIzada, com que velocidade, seqüência etc.), transforma-
A racionalização sistêmica introduzida pela nova organização do ção d? processo de execução em programa (adaptação à linguagem da
trabalho diminui os espaços de liberdade que possam existir entre o máquma), preparação do relatório, da fita e realização do teste, orientação
trabalho prescrito e o trabalho realmente executado, pois são reduzidos ao do operador no manejo do programa etc.
máximo todos os componentes indetermináveis, sujeitos a julgamento e A atividade de manutenção vem exigindo, também, um perfil mais
enfatizados os passíveis de codificação, padronização e transferência. amplo e qualificado do trabalhador, pois requer que este compreenda, para
A produção informaticamente programada não é muito permeável à poder exercer sua função, o processo que orientou a concepção do equipa-
introdução de modificações no processo de trabalho pelos operadores, não mento, no qual intervêm "diversas áreas do conhecimento. Nem todos os
possibilita muitos espaços para a emergência de saberes originados do conteúdos são revelados pelo fabricante do equipamento ficando reserva-
trabalho. Por outro lado, a informática consegue dar conta de um número dos à assistência técnica. Cabe ao técnico da empresa zelar pela manuten-
maior de variáveis a serem controladas, tornando o planejamento mais ção preventiva, pois, além do ônus desta assistência. os sistemas integrados
potente, enquanto instância prescritora. As possibilidades de prévia deter- são duramente atingidos pelas interrupções no funcionamento dos equipa-
minação crescem com o recurso das novas tecnologias, embora se possa mentos.
dizer que nenhu!ll trabalho é totalmente prescritívcl. Se considerarmos estas exigências do novo conteúdo do trabalho
A demanda de intervenção criadora dos novos operadores sai do v~rifica-~e que a organização flexível do trabalho toma-se necessária, poi~
âmbito da mera execução e cresce em exigências nas tarefas de acompa- a mteraçao que promove contribui para facilitar a comunicação entre os
nhamento e ajuste dos equipamentos, no caso de surgimento de imprevis- trabalhadores e relativizar as defasagens entre o trabalho prescrito e o
tos. Mesmo com a forte presença do elemento da prescrição, o trabalho trabalho real. Todavia, há que ressaltar o aumento das dificuldades de
tradicionalmente considerado como manual tem, portanto. seu componen- comunicação entre os técnicos e operadores, nos novos sistemas integra-
te intelectual acrescido, ainda que submetido às lógicas formalistas dos dos, comparativamente às exigências do padrão anterior. Essas dificulda-
modelos. Surgem novos parâmetros a orientar o trabalho do operador: des demandam resolução, pois é contraproducente, neste novo modelo
observação de painéis, leitura de mostradores etc. uma grande distância entre a concepção e execução. '
A mudança que ocorre no trabalho do operador é ampla e atinge seu . A inovação requer, para o seu próprio aprimoramento, a participação,
conteúdo, sua estrutura c seqüência, pois é a máquina que vai responder o mteresse e o envolvimento dos trabalhadores e se ela pressupõe flexibi-
por uma execução tradicionalmente conhecida como função dele. No lidade é preciso preparar todos para reagir às mudanças dc demanda do
entanto, novos desafios se apresentam para as tarefas de preparação da mercado, dos produtos e dos processos.
máquina, que passa a ser da responsabilidade do operador, em tennos de O trabalhador necessita ser flexível, ou seja, saber lidar com uma l'
conhecimentos e habilidades. Estes se referem aos testes e ajustes, à

l
variedade de funções, saber integrar-se a diferentes formas de agregação
necessidade de informar ao técnico-programador sobre os procedimentos e mobilização de trabalhos.
adotados e as dificuldades encontradas, à necessidade de fazer o acompa- Além disso, exige-se que seja mais responsável por estar lidando com
nhamento e o controle de qualidade etc. I
equipamentos sensíveis e de alto custo. Isto significa que deve observar

180 181

I
normas, realizar com exatidão o seu trabalho e ter consciência das conse- qualificação formal, a requerida pela empresa, e a real, a efetivamente
qüências trazidas por seus atos. apresentada pelo trabalhador no desempenho de suas funções.
Esses elementos mostram que o controle dos trabalhadores pelo capital ~ -matéria-pr~ma fur:damen~al é a informação e ganha mais em quali ~
pede também novos parâmetros. ficaçao quem estiver mais prÓXImo e souber dominar o circuito completo
Este controle é dado, antes de tudo, pelo próprio caráter integrador das de seu processamento, o que demanda fundamentos teóricos do conheci-
novas tecnologias e formas organizacionais, que tende a diminuir a parce- mento formal, habilidades que permitam uma interação inteligente com os
larização do trabalho, com a perda de importância dos postos fixos de equipamentos e visão ampla e profunda do processo produtivo como um
trabalho e das tarefas parciais, a dispensar o supervisor e o capataz. todo.
Além disso, são criados novos tipos de controle embutidos no próprio O novo conteúdo do trabalho exige um menor recurso às atividades
equipamento e nas formas grupais asseguradoras de uma participação sensório-concretas, à força física e aos atributos musculares. Demanda,
regulada. também, um menor contato com o objeto a ser transformado, diminuindo
A existência de grupos de trabalho semi-autônomos indica aparente- o peso das atividades diretas na produção, tomando o trabalho mais
desmaterializado.
mente um modelo de organização descentralizado, onde seja possível
exercer a liberdade de planejar, a capacidade de decidir e de organizar o Requer, porém, um maior recurso à atividade de abstração, à capaci-
próprio trabalho. No entanto, há um tempo infonnático que integra o que dade analítica, necessárias para lidar com operações que levem à transfor-
parece estar disperso. Além disso, o forte apelo à lealdade à empresa cuida ~~ção d,~ símbol~s em ações de máquinas. É preciso interagir com o ,
de assegurar o mesmo espírito integrador e de restauração da centralização. _cerebro dos equlp!1mentos e fazer com que ele leia e transforme cada I
Instrução em ações. E preciso saber decodificar as mensagens emitidas por
~
Se, de um lado, t necessário ter abertura, criatividade, motivação,
iniciativa, curiosidade, vontade de aprender e de buscar soluções, de outro, ele no acompanhamento e controle da execução e na avaliação do desem-
penho segundo padrões previamente estabelecidos.

l
deve-se demonstrar cooperação, responsabilidade, organização, equilí-
brio, disciplina, concentração e assiduidade. Surgem, portanto, novas referências culturais com a necessidade do
Essa forma grupal de organização constitui uma novidade capaz de domínio de códigos diferentes para leitura e interação com a realidade. O
introduzir ganhos significativos em termos de produtividade com a com- novo universo simbólico tem sido introduzido e, às vezes, de forma
binação de capacidades humanas, antes degradadas pelo esquema tayloris- a~rupta, s~m prévia iniciação, no cotidiano das pessoas, isto é, em dimen-
ta-fordista. Ela modifica a estrutura hierárquica verticalista anterior e soes da VIda para além das relações de trabalho, pois expressa um novo
modo de vida cultural e moral.
confere espaços e oportunidades de manifestação, exercício e desenvolvi-
mento de competências, ao permitir maior integração vertical e horizontal O conhecimento do significado dos símbolos, o domínio de diferentes
das informações. tipos de linguagem destinados a um consumo imediato e vulnerável à
O trabalho em equipe pode ser analisado, em termos de qualificação, rá?~da ~ubstitui~ão e o desenvolvimento de habilidades que pennita sua
sob dois ângulos: seus resultados para o coletivo e para o indivíduo. Tanto utIllzaçao constituem desafios para a formação na perspectiva da nova
cultura tecnológica.
a qualificação coletiva quanto a individual podem ser vistas como pressu-
posto e resultado de uma e da outra. No entanto, assim como o todo é maior . Ver~fic~-se, com isso, a substituição da demanda de formação profis- I

que a soma das partes, cada parte não guarda correspondência biunívoca
com o todo. É necessário analisar como essa nova divisão de trabalho se
estabelece tanto entre como intra-equipes.
SIOnal dIreCIOnada para o aprender a fazer por outra formação que permita
o aprender a aprender. Trata-se de uma nova maneira de trabalhar a
informação, de uma nova matriz a orientar os critérios de eficiência e
l
I
Assim, um enriquecimento intelectual de uma equipe não significa
competência, portanto, a própria política de qualificações. i
necessariamente enriquecimento intelectual de todas as equipes ou de Em termos de habilidades, o que se requer é saber identificar tendên-
todos os indivíduos que as compõem. A própria atividade em grupo pode cias, limites, problemas, soluções e condições existentes; associar, discer- r
I
também ajudar a dissimular as diferenças normalmente existentes entre nir, analisar e julgar dados e informações, usando um raciocínio ágil,
abstrato e lógico; saber lidar com situações diferenciadas, aproveitando lI
I

182 t83
I,
t
r
.l.
conhecimentos extraídos e transferidos de outras experiências, demons- pIos desta rearticulação no campo da organização das ciências, que leva à
trando predisposição para o trabalho grupal, dispondo de recursos de criação de novas áreas e à redefinição de anteriores, constituem as propos-
comunicação oral, escrita, visual, de forma a se mostrar com condições de tas inovadoras de cursos de graduação introduzidas pela Universidade de
mobilidade, flexibilidade e adaptação às mudanças. Tais habilidades são São Paulo: Ciências Moleculares e Mecatrônica.
consideradas importantes para que o trabalhador tenha condições de trei- Essas propostas voltam-se contra a concepção analítica, originada no
nabilidade e saiba continuar aprendendo com autonomia. século passado, a partir do modelo comteano e confrrmam a tendência
Componentes integrantes do padrão tecnológico-cultural anterior não sintética do desenvolvimento científico contemporâneo. Para dar resposta
são necessariamente eliminados. Com alguns isso pode realmente aconte- às novas necessidades, será necessário, entretanto, ir além da mera inter-
cer, mas o que efetivamente ocorre é a implantação de uma nova 16gica disciplinaridade. I
sistêmica, que leva à redefinição da agregação das informações, o que
pressupõe a criação de componentes culturais específicos às novas neces- * * *
'ii
; sidades: domínio de funções conexas, de linguagens diferenciadas, de A sistemofatura refere-se, portanto, a uma nova e ampla fonna de
.) símbolos verbais e numéricos, de modelos etc. aglutinar e trabalhar com as informações, num mundo onde o poder que o
acesso às mesmas confere tem se transformado numa questão estratégica
As infonnações correspondem a todos os dados da realidade que nas relações entre indivíduos, grupos, classes, regiões e nações.
nossos sentidos possam captar. Esta captação depende basicamente das
possibilidades oferecidas pelo contexto social para o desenvolvimento de O papel das informações, na atualidade, tem se tornado cada vez mais
nossas condições físicas e mentais, imprescindíveis ao pleno uso dos importante. Todas as atividades humanas necessitam se apoiar numa base
sentidos. Faz parte destas possibilidades a disponibilidade de instrumentos de informações confiável e, se possível, cada vez mais completa e são
e mecanismos, em quantidade e qualidade suficientes, que potenciem o uso afetadas quando essa base passa a ser objeto de disputa e elemento para a
dos sentidos pelos sujeitos para uma mais completa percepção dos objetos. reprodução das desigualdades sociais. A disponibilidade destes recursos
deve integrar a pauta de reivindicações por uma sociedade mais justa e
É necessário, portanto, analisar se os recursos apartados pelas novas igualitária.
tecnologias para captar, tratar, organizar, sistematizar, conservar e trans-
mitir as infonnações, estão realmente potenciando os sentidos dos seus Não se trata, entretanto, de desenvolver apenas a capacidade de usar
usuários. as informações e de com elas produzir melhor. Neste nível, as conquistas
são necessárias, porém insuficientes. Não basta saber aplicar conhecimen-
As análises têm chamado á atenção para as enormes vantagens com- tos, dominar praticamente procedimentos, empregar habilidades específi-
í.'; parativas das novas tecnologias em relação aos recursos do passado, para cas e instrumentais, encontrar soluções tecnológicas disponíveis para
I;,,'
1"1 o processamento das informações. Falta, entretanto, esforço similãr para objetivos determinados etc.
analisar as implicações, em termos qualitativos, do uso dos novos instru-
mentos para o desenvolvimento dos indivíduos, considerando-se a integra- Este patamar de relacionamento com as novas tecnologias, embora
lidade do ser humano e o pressuposto de que a formação humana elementar, exige posse de educação básica e treinamentos específicos e
transcende a racionalidade técnico-instrumental. Além disso, uma maior práticos. A preparação informal tem cedido lugar a atividades mais siste-
qualidade dos instrumentos c uma maior qualificação das funções não máticas de formação. Os cursos, apesar de curta duração e voltados para
significa, necessariamente, maior qualificação do indivíduo. conteúdos bem definidos, tendem a exigir níveis mais aprofundados de
A integração multilateral das informações e a natureza das descobertas
científicas têm trazido conseqüências para a organização das ciências,
provocando o rompimento das fronteiras que delimitam tradicionalmente
formação geral.
Trata-se de desenvolver a capacidade de inovar, de produzir novos
conhecimentos e soluções tecnológicas adequadas às necessidades sociais,
o que exige muito mais do sistema educacional.
l
I
as áreas do conhecimento. Essa tradição representada pelo modelo formal
positivista, baseado no princípio da coordenação, não possibilita captar as Exige o desenvolvimento de habilidades intelectuais gerais e funda-
conexões genéticas que engendram as diversas formas de movimento da
matéria, objeto sobre o qual se debruçaram as ciências intermediárias, tais
como a bioquímica, a geofísica etc., que cuidam destas transições. Exem-
mentais ao emprego de estruturas lógicas inerentes a métodos e teorias.
Requer o domínio prático de procedimentos que permitam, além do uso, a f
produção de instrumentos necessários à realização de fins previamente

t84 t85
definidos, segundo as cadeias causais objetivas, das quais é expressão o
conhecimento científico.
A capacidade de inovar sintetiza competências adquiridas pelo domí-
nio de conhecimentos e habilidades científico-técnicas, sociais e metodo-
lógicas, dentro de um sistema de relações sociais e técnicas, que favoreça
o despertar da consciência e dos valores emancipadores do ser humano,
tais como autonomia e liberdade. REFERÊNCIAS
Pressupõe domínio da técnica com cultura científica e discernimento BIBLIOGRÁFICAS
político, que resultem num saber gestionário, numa nova capacidade de
intervenção nas atuais fonnas organizat6rias do trabalho humano. Trata-se
da elevação da técnica-trabalho à técnica-ciência e do desenvolvimento da
capacidade de organização e construção. Este discernimento refere-se ao
desenvolvimento da consciência, conhecimento do mundo pelo homem e
dele mesmo no mundo.
° princípio educativo fundado na tradição greco-romana, baseado no
humanismo clássico, na cultura geral indiferenciada, tal como mostrou
Gramsci, mostra-se desatualizado. As novas relações entre trabalho inte-
lectual e trabalho industrial colocariam, segundo ele, tanto para a escola ALB UQUERQUE, E. A Foice e o robô: as inovações tecnológicas e a luta
como para a vida social em geral, a necessidade de um outro princípio operária. São Paulo: Artes Gráficas, 1990,338 p.
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dade, com as transfonnações tecnológicas, pede uma fonnação correspon-
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Revista Latinoamericana de Estudios Educativos, México, v. 12, n. 2,
vimento da base técnico-material, na direção dos atuais desafios.
p. 81-95, 1982.
A politecnia pressupõe s6lída formação básica que contribua para
~ Efectos de la inovación tecnológica sobre el empleo y Ia calificaci6n.
superar a dualidade tradicionalmente existente entre fonnação técnica e
Revista Latinoamericana de Estudios Educativos, México, v. 15, n. I,
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1986, v.3. ainda vivemos uma fase de transição para as novas tecnologias, em que a
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Discussão n. 214, Rio de Janeiro. vam a organização do processo produtivo, cuja tônica era a divisão do
WOOD, S. O Modelo japonês em debate: pós-fordismo ou j aponização do trabalho e a especialização funcional. Recentemente, àelétrônlca-e'l11aIs
fordismo. Revista Brasileira de Ciências Sociais, ouL 1991. prêl:Ísatneil1eairlicroeleüônlca'[oram invadindo as plantas fabris e cau-
sando alterações profundas no processo de produção, de tal sorte qlle ,hoje
se reconhece que <UruIústria ~y.oluiu de~uma_Q.ase técnica eletrom&:ânica
para uma base micr(J_el~trQnica. Essa nova ba5eTécrucapropiciou, entre
outtos;6-apaiêdmento do fenômenoda automação. A par disso, novas
* Chefe da Divisão de Pesquisa, Planejamento e Avalia.ão do Depto. Regional do SENAI em
São Paulo.
I. De falo, estudos realizados mostram que, embora as inova.iles já estejam presentes em parte
do parque industrial. elu não atingem igualmenle todo o setor; na verdade, O que se observa. pelo
menos no Brasil, é um ainda reduzido grau de abs-orçio dessas tecnologias tanto intra como interem-
presas. Nos vários ramos industriais, é pequeno o número de estabelecimentos que contam com NTs
e, além disso. quando elas existem, convivem com a maquinaria tradicional que constitui a maior pane
do parque de máquinas (cf. ASSIS, 1988). Na Região Metropolitana de Slo Paulo, por exemplo, não
mais que 6%, 18% e 45% dos estabelecimento. industriais, respectivamente, pequenos, médios e
grandes possuem alguma informatização nos seus selores de produçilo; 4%, 10% e 36%, respectiva-
mente. nos seus selores de feaamentaria; as áreas de manutenção foram atingidas pela informatização
apenas nas empresas médias e grandes, nas proporções de 3% e 30%; os setores mais informatizados,
em qualquer dimensão, sio os de administração, "marketing·' e vendas~ planejamenlo e suprimentos
(sobre O assunto ver LIMA, 1991). Igualmente, a difusão das.novas teenologias de organização é ainda
limitada, pois encoctra algumas bane.iras de natureza "cultural'" que contribuem para impedir que das
sejam aplicadas de forma mais integral e sem desfigurações muito gmves, no contexto das empresas
(CARVALHO e SCHMITZ, 1990; ASSIS E ARRUDA, 1990).

188 189

[.
das posições sobre a questão, os parágrafos que se seguem procuram
técnicas organizacionais desenvo.lve;a:n-se e dirundiram-s~, favorecendo,
em boa parte, a superaçãodos !?nnClplOs taylonstas e t:.o~cli~tas. apresentar alguma evidência de que ~ novas_.te~_nol~gl!J.S - segundo o
sugerem alguns indicadores disponíveis - em várias oc~i.Q.e.§~êm-l>e fe.itÇ)
Nesse quadro erri"q~e-as mudanças ~i~da estão ocorrendo, muitas vezes acompanhar de qualificação mais elevada da força de trabalho, o que traz ..
em ritmo acelerado, os estudiosos - embora reconhecendo a existência de umaimpliêãÇão-óbvia para a educação e a fonnação profissionâl,que~~rão
reflexos das inovações tecnológicas sobre o fator trabalho - estão longe obJigadas a se reposicionar no futuro, para que possam atender a demandas
de chegar a um consenso quanto à direção das modificações daí resultantes. mais complexas advindas do setor próâúllvo.
O dissenso passa por temas os mais diversos como o nível de emprego, o
nível de qualificação do trabalho, o grau e ritmo de difusão dessas inova- Á-ca'~~i~são de que asNTs promoveriam aqui denominad~~Q:_
, ções e a importância relativa das diferentes categorias ocupacionais no cação mais et~v.a~a" da força de trabalho se baseia na análise de trêsdasses .\'
li' de indicadóres: os atributos e conhecimentos considerados essenciais ao <~
i' futuro.
trabã.Íhador·que as irá operar; a demanda futura pelas diferentes categorias
Assim, por exemplo, no capít!lI..2.-do emprego, há os que acreditam que profissionais que compõem a estrutura ocupaciomil das empresas; e o tipo
no futuro haverá uma extensa e intensa redução do nível deste; outros de profissional demandado pela "nova" indústria.
argumêritam-qüe aÍgumas categorias ocupacionais poderão tcr seus con-
. As evidências mais recentemente levantadas em pesquisa 3 vão na
tingentes ampliados~~if6-ruturo, não obstante a queda geral do nível de
direção de mostrar que "as novas tecnologias se difundem graças ao
emprego; para outros, a destruição de postos de trabalho em algumas áreas
emprego de pessoal mais qualificado na fábrica" (IEIlUFRJ, 1989, p. 465)
será compensada pela criação de postos em outros setores.
e se sustentam graças a dados coletados junto a proprietários/altos dirigen-
As teses sobre a Cl!!ª1i!}çação dotrabalhQ t!lJ.l).b.ç~ se .colocam d,;ntro tes de empresas já "experientes" no uso de NTs, que foram questionados
~ de ampla gama de variaçª-o. P~1J!!~' ()ll,lt\lrQJ~!fá ~iu~ deiqua~i~~a­ sobre suas expectativas quanto a variações no nível de qualificação das
ção; para outros, seráinevitáve! uma._p.Q!a.!i~ªção<!asqualificações,sur- diversas categorias profissionais (técnicos qualificados e semiqualifica-
gindo um número restrito de postos de trabalho de alto nível de qualificação dos), nos vários setores de trabalho (projeto, planejamento, produção,
e um grande número de outros mais desqualificados que os atuais; para controle de qualidade e manutenção), sob O impacto das NTs. Levantadas
ciiliro grupo ainda, daqui para a frentêbaverá o aumento generalizado da as opiniões desses informantes mediante a aplicação de uma escala com-
qu~lificação do trabalho (sobre o assunto ver PAIVA;1989):
Além do fato de que o processo de difusão de NTs está ainda em curso, te: há como que uma recomposição da unidade original. O processo de manutenção de ocupações se
a variedade de pontos de vista sobre os resultados do seu uso é conseqüên- dá quando a introduçlio das iilovações tecnol6gicas não produz alterações nos perus das ocupações
cia, também, da observação de que os impactos das inovações não incidem tradicionais, ou elas são tão pequenas. que o conleúdo das funções que as compõem l'antes'" c: '~depois"
são praticamente idênticos. Essas alterações núnimas tanto podem ser no sentido de alargar como de
igualmente sobre todos os ramos/ocupações que as incorporam: em alguns reduzir um pouco o conteúdo dos pedis originais; também esses dois processos podem ocorrer
casos, elas causam a criação de ocupações novas, em outros· ainda a simultaneamente. reproduzindo-se em escala mais restrita o "movimento compensatório" já mencio-
recriação, a manutenção ou a destruição de ocupações preexistentes (AS- nado no processo anterior. O que diferencia a "recriação" da "m.nutenção" de ocupações está
exatamente na magnitude das adições tlou subtrações do perfil original. Quando essa> parcelas são
SIS, 1988). Evidentemente, processos tão distintos como esses não podem llÚnimas, identifica-se um processo de "manutenção"; quando estas são mais expressivas. o que ocorre
produzir efeitos iguais em termos de nível de emprego e de qualificação é a "recriação"; O processo de criação de ocupações difere fundamen..lmenle dos anteriores uma vez
do trabalho'. que a introdução das n(}vaS tecnologias determina mudanças de tal ordem nas formas de realização do
tr;balho~ que .provocam Uma ruptura com o sistema convencional, tornalldo-se inviáve1. nas: novas
Sem ignorar o quadro de debate ainda aberto sobre as relações entre funções. a utilização de conhecimentos e habilldades anteriores. Nesse caso há efetivamente o
aparecimento de uma ocupação "nova" rom conlelido próprio. o qual guarda pouca (ou nenhuma)
NTs e trabalho bem como o grau de risco envolvido na defesa de qualquer relação com Os perfis ocupacionais convencionais. Nessasituação~ não se trata de adaptar ou reconverter

2. o processo de recriação tem lugar quando o perfil das ocupações uadicionais se vê ampliado
Ou alargado por novos conhecimentos/habilidades na transição para as novas tecnologias. ao mesmo
conhecimentúslhabilidades do sistema convencional para o "novo'·, pois as funções emergentes
prescindem desles. O processo de destruição de ocupações se dá quando tarefas e operações presentes
na prOCeSSO produtivo precedente desaparecem com a disseminação da inovação tecoológica, ou estas
'l
tempo em que alguns conhecimentos e habilidades deixam de integd-lo. Não há uma ruprura entre as
"novas'· ocupações e as ocupações convencionais. Nesse sentido, a inovação técnica cria uma
funções são totalmente assumidas pelo equipamento. dispensando-se a presença de trabalhadores que I
as executem.
qualificação adicional que pode ser construída a pattir de conhecimentos ..antigo..•• que passam a 3. Referimo-nos aqui a estudo recentemente patrocinado pelo Departamento Nacional d(} SENAI \j
constituir o ponto de partida da "nova" qualificação. Cumpre lembrar que o prOCeSSo de ''recriaçlio'' - executado pelo Instituto do: Ec(}nomia Industrial da l1nivo:rsidade Federal do Rio de Janeiro i
de ocupações implica - ao lado da incorporação - também a "subtração" deconhecimento<!habilidades (IEI!UFRJ). Com Oobjetivo de delinear o cenário para a fonnação pmfissional no ano 2000 - que teve I
de um perfil prévio, É como se ocorresse um movimento compensatório, onde a cada parcela perdida. como informantes empresas Ifderes nos seus segment(}s de mercado e que já inicíatam o processo de
I
outra fosse devolvida. na figura de conhecimenloslhabilídades não requeridos no sistema preceden- incorporação de inovações modernizaoles. Para O estudo foram entrevistadas 134 empresas.
-4

191
190

,ti.
posta de três pontos - aumento, es~abilidade e queda de nível de qualifica- obra ocupada - o baixo perfil educacional da força de trabalho e o ~rnQdesto
ção - os resultados foram os segumtes: ' requisito de quaIlficação do cóletivo de trabalho (reqüeiiopÕrque restrito
a uma parédareduzida do p~ssoal) não chegaram a constr.!J1IEoo~Sláculo a,?~-
Setores Técnico Qualifi<:ado Semiqualificado processode industrializaçãO . - -- -
ProjelO alimento estabilidade estabilidade ContudQ"quando a indústria passa a se confrontar com técnicas dife-
Planejamento aumento aumento estabilidade rentes'de organização QQ.tn!b"alho e de aut,?mação, istonãOémais possível:
Produção aumento aumento aumento "oresultado mais espetacular... é a valorização do trabalhãêlof direto.
Cootrole de qualidade aumento aumenlO aumento
Agoi-a:::aestrUtUra ocupacional passa a ser mais iritegradã-;""c-ómmaior
aumento aumenta
participação dos trabalhadores em decisões que,antes eram exclusivas da
Manutenção estabilidade
gerência. Isto se deve não só às características técnicas do novo equipa-
mento, mas, principalmente, às n"ovas formas de organizar o trabalho"
Como regra geral, os informantes julgaram que o nível de qualificação (SALM e FOGAÇA, 1992, p. 6).
da mão-de-obra tenderá a ser maior com a introdução das inovações Esse (!!!plD_efeito.nas NTs - recriando ocupações que ganham conteúdo
modemizantes, não importando o setor de trabalho que as incorpore. Essa I.
t'novo e-íntegrando funções produtivas - pode~~r Qbsery~?O, por exemplo, l,i I,
mesma expectativa se aplica à categoria de técnicos, sem exceção, e aos na ocupação de operador demªquina.~feiTarn~l!tacoméorri~n~hiiüifférico,\
profissionais qualificados (exclusive os que aluam em áreas de projeto, que rnliitos-cõnsideram ter sofrido processo de desqualificaç~éi-tülJiassa­
I"'
'I
cujo nível de qualificação deverá se manter estável, conforme opinião dos gero para as novas tecnologias, comparativamente à ocupação ex~rcida i
entrevistados). Vale ressaltar que os informantes manifestam forte consen- pé/o Pfl;>Í}ssi0rtalque trabalhava ~om máqui~as convencionais. Conforme·
so quanto a essas expectativas, pois pelo menos 70% destes partilham delas constatQ4 LEITE, cotejaIl-~o 8;~ funções do trabálhadorque.!11ane)ava
(apenas no caso dos qualificados da área de projelos a concordância não é miq~inas~ferrãmentas "anfes"'e "depois" do comando numérico, observa-
tão forte, visto que a opinião majoritária é partilhada por apenas 54% do se que as tarefas de execução da peça realizadas poreste último reduzem-se
grupo). Quanto à mão-de-obra semiqualificada, o impacto das novas
rriilíio,'pois a máquina praticamente faz o trabalho sozinha; em compensa-
tecnologias parece ser ainda'uma questão em aberto, visto que não só os
çãO. as aÍlviªalfesde-pre,Paração do trabalho (incluindo preparação de
resultados esperados variam entre setores como obtêm baixo consenso,
máquina, ferramental, teste do programa) tomam-se mais complexas,
uma vez que não chegam a concentrar porcentagens altas de respostas.-E~.
exigindo_novas habilidªde.s/conhecimentos, além do que o "novo" opera-
suma,pç.19 menosos.técnico~Le.os_qlJ.ªljflç-ª{)os_~e:~e:Iiíº aprese.n!.ar .quah-
doirealiza também o try-ou~ do programa e a inspeção/controle de quali-
fícação maior, seg!-'indo a..lêxpectativa dos informantes.
dade da peça. Em complemêntação, passa a ser chamado a participar mais I
Esses resultados evidenciam que não deve ocorrer nem desqualifica- das tarefas de programação da máquina - estas de responsabilidade do ',('I

ção, nem requal ificação generalizada da força de trabalho. Aparentemente, programador - pois com sua "prática" p9de perceber erros de programa e I
as distintas categorias ocupacionais ampliarão seu nível de qualificação na sugerir soluções, visto que, segundo empresas e empregados entrevistados, I
proporção direta do grau de qualificação hoje apresentado (o trabalho "nenhum programa sai perfeito" (LEItE, 1985, p. 59).
técnico ampliará mais seu nível de qualificação que o trabalho qualificado
e este mais que o trabalho semiqualificado). As evidências acima indicam que, de fato, do ·'.!.rªb~lhadordo futur~"
será exigido "maior nível de qualificação"; contudo, se deve convir que
Essa perspectiva de aumento de qualificação da mão-de-obra não é de esta condusãoéairida genérica e abstrata para emb?sar qualquer ação
todo inesperada, ao contrário, ela encontra justificativa na natureza das fúfúra voltada para a preparação desse profissional. Afinal, oque significa
mudanças que a indústria vem sofrendo na passagem para a nova base séi mais qualificado? '
técnica e para os novos processos de organização do trabalho, já referidos.
'A"ffienci~nada pesquisa do IEIJUFRJ pode ajudar no aprofundamento
No sistema vigente até o surgimento das novas tecnologias, ass~ntado,,\," dessa questão. Ainda a partir da opinião dos infonnantes, o estudo mostrou
na intensa divisão do trabalho e especialização funcion,al e apoiadoem UIlla \ ~
estrutura ocupacional poiiiriziida - em que a grande maioria dos tiãl:íãlha- 4. o Estado de São Paulo é um exemplo típico desse falo. O seu inegável "boom" industrial- pelo
I
I
dores executava tarefas simples e rotineiras em um ritmo imposto pela menOs até os anos 80 - ocorreu na presença de baixo DÍvel educacional do pessoal ocupado. Dados da I
RAIS refereotes ao Estado de São Paulo moslram que 48% da mão-de-obra industrial havia condufdo.
supervisão ou pelo equipamento e apenas uma proporção mínima se 00 máximo. as quatro séries do l' grau; 32% fi I' grau; 13% fi 2' grau e 7% o 3' grau (RAISIMTb-1987),
responsabilizava pelo planejamento e transmissão de tarefas à mão-de-

192 193
...'ue em um rol de 15 atributos de qualificação despontaram coroo os mais para trabalhar com as novas tecnologias, em especial de trabalhadores
r~levantes para o profissional do futuro os que se seguem, todos eles qualificados.E!'tu~q~<l.~ o SEN.~! reali~ou na indústria metalmecânica e
apontados por mais de 213 dos entrevistados: gráfica reiteràm ~. conclusã6 de que-a:agilrdade deracíõdrn(j~ vivacidade
mental:racilldade de aprendêr. capacidade de julgarrieiifo,iriiCiativa, cria-
- raciocínio lógico; tividade e discernimento, entre outros, são aptidões associadas-ã-várias
_ habilidade para aprender novas qualificações; ocupações Vinculadas às NTs como operador, programaaôi~ J!iantenedor
de máquina~~erraJijehta~oiíl comandónumérico, operador de fotocótTIp()-
- conhecimento técnico geral;
nedoraeoperador de scânner. Já no caso de trabalhadores semiqualifica-
- responsabilidade com o processo de produção; dos, esses atributos "menfáis"são substituídos por atributCJ's "físicos",
- iniciativa para resolução de problemas. como é o caso, por exemplo, de fiandeiros open-end e tecelões de tear sem
lançadeira, que precisam apresentar estatura, agilidade/rapidez, habilidade
A simples enumeração dessas qualidades revela qu~ mudançaleCnQ~ manual, acuidade visual e capacidade tátil, o que é consistente com o fato
lógica, _~_um certo sentido, subverteu a escala, de I1rioridades antigas, anteriormente mencionado de que, sobre essa categoria ocupacional, nem
e
cólocando no'-selltopoaptiâãen:ognitivas cQnht:çimeritos teóricos' àté há expectativas definidas de aumento futuro do nível de qualificação dos
entãopoucoimpo.rtantés, e, conseqüeillêmtmte, relegandoa posiçãõsecun-
--aan;;habilidaaés manuais fundamentais para o trabalhador tr'adicional:
I trabalhadores nem consenso absoluto sobre os pontos de vista dominantes
sobre a questão.
coordenação motora e destreza manual; por exemplo, ,perdem status no
perfil de qualificações criado pelas NTs, caindo para as últimas posições Esses dados parecem configurar uma situação em que se demandam
doranking de atributos (quando representavam as qualidades mais impor- das ocupações mais simples qualidades físicas e das demais, atributos
tantes no sistema convencional de trabalho). "mentais".
Essa mud~llçªrªgJ~at na on:I~_naçªo dos atributos de qualificação não Voltando à análise do que significa "trabalho mais qualificado", tor-
tem apenas significado em si: ela também é importante porque determina na-se necessário considerar um outro componente da qualificação aponta-
a valorização de um fator até então colocado à margem no processo de . da como necessária ao profissional que estará atuando no contexto das
formação dos conhecimentoslhabilidades requeridos do trabalhador. Dito novas tecnologias, isto é, os conhecimentos que a integram. A opinião de
de outra forma, os atributos mais valorizados - raciocínio, capacidade de empresários que já possuem experiência de utilização de NTs confirma a
aprender, capacidade de resolução de problemas, capacidade de decisão - conclusão de que o novo trabalhador não poderá ser preparado apenas para
são qualidades adquiridas através dos conteúdos gerais da educação básica. o exercício de tarefas fragmentadas e repetitivas. No nível da atividade
Desse ponto de vista, a educação - reduzIda: áiJril papelmarginal na concreta do trabalhador tomam-se prioritários no novo paradigma conhe-
preparação dos trabalhadores no paradigma anterior, visto que a grande cimentos sobre processo global de fabricação e gestão da produção, que se
maioria da mão-de-obra se destinava à realização de tarefas atQmÍzadas;' configuram corno conhecimentos abrangentes e amplos do processo pro-
rotineiras e repetitivas - se vê resgatada, j~ que o novo padrãotecnológico dutivo. A esses se juntam conhecimentos de eletrônica, informática e
demanda olltrogênero de capaciaaâ~ éujo deseny.olvil1).~nto só pode ser estatística, pouco demandados no processo convencional.
asseguradopo~_ela. "Os novos requisitos apontam numa direção que é Confirmando as mudanças no perfil de conhecimentos e atributos que
oposta ao conceito tradidonalde qualificação, mas que não é eSil"aMitab compõem a qualificação requerida pelas inovações tecnológicas, é impor-
sistema educacional. São requisitos novos em relação ao operariado, mas tante ressaltar ainda que muitos deles, fundamentais no sistema conven-
são exatamente os mesmos que sempre foram persegl!idos na formação da cional ~ como destreza manual e coordenação motora, no primeiro caso, e
elite dirigente, de modo geral oriunda das UnIversidades e, portanto, das eletricidade e mecânica, no segundo - perdem status, sendo relegados às
escolas deerisino básicoacadêrnico ou propedêutico" (SALM e FOGAÇA, últimas posições em um rol de vários títulos. t
I,
op.Cit., p. 7-8). I
A hipótese de que a qualificação exigida pelas NTs tende a superar a J

Vale observar que pesquisas realizadas com enfoque diferente do demandada pelo sistema convencional encontra apoio ainda no fato de que
adotado no estudo do IEIlUFRJ - não mais expectativas dos empresários, há expectativas de que categorias ocupacionais hoje pouco numerosas e
mas condições postas em prática nas áreas de recrutamento de pessoal em comparativamente mais qualificadas, situadas mais no topo da estrutura
empresas que possuem NTs - confirmam que esse repertório de atributos ocupacional vigente (que se apresenta em forma de pirâmide), cresçam
"mentais" faz parte dos pré-requisitos de vários profissionais recrutados

194 195
;,'(ativamente mais no futuro que categorias ocupacionais de menor qua- Cumpre registrar que os técnicos/engenheiros serão a categoria numç:
lificação. Esse é, por exemplo, o caso dos técnicos. ricamente mais e~pressiva noSQr.jUllto. (l()Jgt4! d~ mão-de-9bra ºcupa,da
Uma tendência muito apontada em estudos internacionais é a de que no ano limite da previsão, representando nada menos que 40% do total da
os técnicos/engenheiros - categorias próximas ao topo da qualificação - força de trabalhó industrial.
deverão crescer tanto em tennas absolutos como em números relativos, A tendência de ampliação da mão-de-obra técnica - categoria hoje
enquanto a maioria das demais categorias ocupacionais será reduzida (em relativamente pouco expressiva - no conjunto da mão-de·obra industrial'
proporção e/ou em volume absoluto). . é também perceptível no Brasil.
O gráfico que se segue ~ apresentado em estudo da Comissão da Recente pesquisa conduzida pelo SENAI de São Paulo sobre demanda
Comunidade Européia - retrata com clareza essa tendência, sugerindo e perfil do Técnico em Informática Industrial, realizada em 1990, permite
necessidade de revisão do papel da educação que prepara técnicos (2!!
analisar com clareza essa questão. O material coletado no bojo deste estudo
grau), que provavelmente será chamada a ampliar em muito sua contribui-
- constante, entre outros, de entrevistas diretamente realizadas com repre-
ção para a formação do novo trabalhador.
º.
gráfiçQJugerecomclar.e_~~.ilue a de~_~~ia. de mão-de-~m
termos absolutos tenderá adiminuir. Além disso, fica evidenciado que as
sentantes de empresas quejá possuem recursos de automação da manufa-
tura e de depoimentos registrados em bibliografia disponível sobre o
assunto -levou à conclusão de que, na perspectiva da classe empresarial,
catêgonas ocupacio'nilis situadas nos níveis mais elevados da pirâmide o SENAI, na condição qe agência de formação para o trabalho, no futuro,
ocupacional crescerão proporcionalmente (é o caso de gerentes, técni· deverá cada vez mais ser chamado a dar sua contribuição para a solução
cos/engenheiros e pessoal de escritório/administrativo) e as mais próximas do problema da preparação da mão-de-obra técnica. ~rnUl1la macrovisâo
à base (qualificados, semiqualificados e não qualificados) declinarão pro- do mercado, de acordocom oe~presariado,aparceIa da força d_e~traoãlho
porcionalmente. .que~ais' deveria'- receber á átenção das agências de fonnação profissional
MUDANÇAS PREVISTAS NO VOLUME E ESTRUTURA OCUPA· seria. a'correspondente às categorias profissionái~ intennediárias da pirâ-
CIONAL DO EMPREGO NA INDÚSTRIA MANUFATUREIRA DO mide ocupacional, pois são elas as maisdiretarnente responsáveis pelos
REINO UNIDO "gargalos" que comprometem a produtividade (que deveria ser mais ele-
vada) e o custo dos produtos(que deveria ser mais baixo). O depoimento
10%
abaixo é ilustrativo dessepo'sicionamento:
"...nossos operadores... não .são absolutamente os responsáveis pelo
nível de produtividade relativamente baixo e de qualidade ainda de
alto custo... descartando ou reduzindo a responsabilidade do opera-
dor... resta-nos a hipótese de responsabilizar a média e alta gerência,
os níveis administrativos e técnicos, o pessoal dedicado à gestão do
.o+~'00%='-----_ Gelentes
processo produtivo. São esses os níveis que mais precisam se aperfei-
çoar..." (DOMPIERI, 1989).
~--Tecnicos
'- • c' .• ,.1- IlnclLíndo engen'1eiros) Essa perspectiva é reiterada pelo estudo realizado pelo lEI-UFRJ já
citado. Uma das questões propostas aos informantes dessa pesquisa dizia
respeito ao grau de importância atribuído a atividades que o SENAI deveria
41% -.....:.<.<2~ ;t, {f;i*=-~~- Pessoal de 8SCrifÓl'10
ou Oc1mlniSlrOtiVO
desempenhar até o ano 2000. Foram relacionadas diversas ações (algumas
~ Qu:ltifJcadOS de caráter formativo e outras de apoio técnico às empresas) e os entrevis-
.-l----~~~~ ~~~1_0_%llf=---~-- Sem 00 nãoqualilicodos
1980 1995 5. Segundo estudo realizado pelo SENAl·SP, em 1990, por inlennédio de sua Diretoria de
Fonte~ Commission af lhe Eumpean Communities (in association with the joumal FUTURES)~ Pesquisas, Estudos e Avaliação (DPEA), em aproximadamente 650 estabelecimentos industriais da
Eurofutures - The challenges of innovation, The FAST Report (London Butterworths, \9&4), p. 100. Região Metropolitana de São Paulo, as ocupações té<'nicas concenlravam apenas 4% do pessoal
apud ALFfHAN. TorkeL Deve10ping skiils for technological cnange: some policy issues, in lotema· ocupado, contra 19% absorvidos pelas ocupações qualificadas, 44% pelas semiqualificadas e 67% pelas
tional Labour Review, vol. 124, n. 5. september-october, 1985. p. 517·529. demais calegorias ocupacionais (cf. LIMA. 1991).

196 197
I

I
"
:"dos indicaram a importância de cada uma delas a partir de uma escala de No Brasil "A automação industrial está entrando... em sua segunda
4 pontos ("não importante", "pouco importante", "importante" e "muito etapa: os grandes usuários que começaram a se automatizar na década de
importante"). 70 já'têm um número razoável de máquinas automáticas e estão passando
A apuração das respostas obtidas mostrou que, conforme os entrevis- a integrar essas máquinas para obtcr a automação global do processo de
tados, em uma ordem de prioridade, as atividades formativas a serem fabricação" (INFORMÁTICA HOJE, 1989, p. 12).
desempenhadas pelo SENAI na década de 90 seriam, em ordem decres- Os indícios de que as empresas já se estão aventurando no campo da
cente de importância: integração de tecnologias isoladas são dados, por exemplo, pela dissemi·
- formação profissional de 2Q grau (ensino técnico); nação de equipamentos CAD/CAM - independentemente de porte - que
- treinamentos (cursos específicos de curta duração); constituem tecnologias nitidamente integradoras, pennitindo estabelecer
um fluxo único entre as áreas de projeto e de fabricação. Segundo dados
- formação de tecnólogos (3 Q grau);
da SOBRACOM, em 1989, apenas a indústria nacional comercializou
~ formação profissional de 1Q grau. quase 1.500 estações CAD/CAM(das quais 93% de pequeno porte, isto é,
A relevância da formação profissional técnica aqui indicada é consis- estações e softwares baseados em microcomputadores e plataformas de 32
tente com o fato de ter sido esta a categoria profissional para a qual foi bites e 7% de grande porte, isto é, em main[rames). Além disso, os
previsto não só o maior aumento do nível de emprego, em razão da difusão equipamentos CAD/CAM, notadamente os de pequeno porte, foram os
das novas tecnologias, como também a maior elevação do nível de quali- recursos que mais tiveram sua comercialização aumentada entre 1986/89,
ficação, conforme já mencionado em parágrafos anteriores. comparativamente a máquinas-ferramenta com comando numérico, con-
Finalmente, vale lembrar que a evolução das NTs, parece, criará troladores lógicos programáveis e robôs/manipuladores.
necessidades específicas em termos do tipo de profissional a ser chamado Confonne recente_e_studo do SENAI, o perfil do profi_ssiomll a ser
a trabalhar com elas. Vai ser requerido um profissional mais eclético, ou chamado a atuar em empresas que já ingressaram - mesmo que parcial-
"muI tidiscípli nar". mente - no sistema de automação integrado deve contemplar um conteúdo
.De.fato, emnível internacional, as inovações tecnológicas começaram amplo que o capacite a trabalhái-em"qualquer ponto do sistema;':Opõí-itü'O .
a atmgIr as empresas sob a forma de recursos tecnológicos isolados, isto dê Vista abaixo, emitido por um dos infonnantes da pesquisa, ilustra bem
é, máquinas/equipamentos de base microeletrônica que podiam ser auto- a perspectiva acima mencionada:
matizados e controlados individualmente, mas qué traba.lhav:úri'iildepen- "...estamos fazendo um esforço danado para montar umas áreas novas
dentemente uns dos outros. Essa etapa do processo caracterizou-se pela onde a gente 'só tem jogador de vôlei', quer dizer, o indivíduo pode
recorrência às máquinas-ferramenta de controle numérico, que automati- até ser um bom 'cortador', ou bom na 'barreira', ou bom no 'saque',
zavam a usinagem de materiais, mas que não tinham capacidade de mas ele vai jogar em todas as posições 90% do tempo ... então não
trabalhar interligad'as entre si ou com outros tipos de recursos de automação funciona ficar com alguns preciosismos de definição: esse aqui é um
industrial. operador CAD para projetos de arquitetura, este aqui é especialista em
CAD para projetos de placa eletrônica... Não é isso que a gente está
. Mais recentemente, evoluiu-se desseconceito para o de automação
Vendo, nós estamos vendo 'um mOl1te de funções' que precisam ser
~ntegrada, que pressupõe a automação e 'éoiifrole, por-compütador, de
executadas" (ASSIS e ARRUDA, 1990, p. 80). .
lfistalações complexas, compostas pelo encadeamento ordenado e orgáiü-
zadq de várias máquinas individuais: Issole"Vã;ao lâdõ'Qã iisiriãgem Na mesma linha, um outro participante da pesquisa enfatizou a natu-
automatizada da peça, à análise das funções técnicas complementares de reza variada dos conhecimentos necessários ao profissional destinado ao
manejo, transporte, medição, controle de qualidade, lavagem, tratamento trabalho em sistemas integrados de automação: "para trabalhar... tem que
térmico, estocagem e montagem (cf. MOURA, 1979, p. 60). A interligação ter boa noção dos sistemas produtivos: corno estão estruturados, como
de todas essas seqüências cria "fluxos contínuos" na produção de indústrias estão montados e como O FMS, o CIM etc. passam por problemas de
de processos discretos. conectividade. Então, é por isso que o indivíduo precisa ser multidiscipli-
nar: realmente, ele tem que ter uma visão mecânica, tem que ter uma noção

198 199
quanto às gerências fazem Parte. do perfil do profissional das novas
eletrônica, de potência, de software e até de conexão de softwares..."
l",
tecnologias.
(ASSIS e ARRUDA, 1990, p. 80).
O comentário, em tom jocoso, de outro informante do mesmo estudo * * *
vem na mesma direção do anterior: "Se a gente buscar muito a especiali- Os resultados de alguns estudos aqui apresentados confirmam que -
zação, uma vez que essas máquinas em si têm multifunções, há o risco, por em termOS genéricos - O nível de qualificação do trabalho deverá crescer
exemplo, de um fornecedor qualquer - quando o equipamento fornecido sob o efeito das NTs, o que significa uma formação mais "sofisticada" e
'der pau' em qualquer lugar deste Brasil- ter que mandar um Boeing cheio complexa que privilegie o desenvolvimento do raciocínio lógico do traba-
de técnicos para pegar da tomada até a ponta da ferramenta de uma lhador, de sua capacidade de aprender, de sua iniciativa para resolver
máquina" (ASSIS e ARRUDA, 1990, p. 150). problemas, entre outros. Essa fonnação para o futuro necessariamente terá
que implicar a preparação de profissionais flexíveis/poliviilentes, que I
As observações acima indicam que o processo de automação na sua
dominem o processo de fabricação de suas empresas e que iconheçam j)
fase "integrada" cria demanda por um profissional "multidisciplinar" ou I.1
funcionamento dos equipamentos. - !I
"multitarefa", com visão abrangente do seu campo de trabalho. fi ,
Entretanto, nãose--pode--ignorar que essa realidade não pode ser 'I ,
A existência dessa demanda é comprovada pelo fato de que - na i
generalizada para toda a força de trabalho: os conhecimentos, qualificações
dificuldade de contarem com tio) profissional único que incorpore esse !
e atitudes requeridas pelas NTs variarão segundo diferentes categorias
conjunto de conhecimentos que são verdadeiros ecléticos - as empresas
ocupacionais, de modo que de algumas delas será. exigido nível maior que
vêm recorrendo à constituição de equipes de trabalho compostas por
o atual e, de outras, as demandas permanecerão inalteradas ou mesmo serão
diversos profissionais com formação/experiência variadas, cada um deles
menores.
apresentando parte desses conhecimentos.
No contexto de elevação de nível, a educação ganha nova dimensão,
A conclusão de que as NTs - principalmente em seu estágio mais
pois só ela tem condições de desenvolver as novas capacidades espéradas
avançado - implicam a presença de trabalhadores com formação mais
do trabalhador, uma vez que, no nível de responsabilidade e compIexibi-
abrangente encontra apoio em dados obtidos junto a empresários sobre os
lidade dos trabalhos definidos pelas NTs, as habilidades manuais especí-
impactos das inovações tecnológicas na organização do trabalho
ficas vão se tomancio cada vez menos importantes e vãocrescendó em
(IEIlUFRJ, 1989). O estudo comprovou que os informantes têm expecta-
importância as qualificações de ordem superior, especificamente os-conhe-
tivas de que:
cimentos gerais teóricos e conceituais.
- o grau de flexibilidade/polivalência (envolvimento de trabalhador direto
A visão de que deverá surgir um novo tipo de assoct!lçú_ .entre
em decisões que antes não lhe competiam) do corpo coletivo de trabalho
educação e trabalho, contudo, não pode ser acompanhadidà perspectiya
venha a ser maior (do total de informantes mais de 80% manifestaram
de que a tecnologia é a variável causal e ª~ducaçã9_a,.Y<ifÍ~vej dependente
essa crença);
e de que a formação desse novo trabalhadordeva responcÚr às mudanças
- o grau de especialização (conhecimentos específicos do trabalhador para nas qualificações e conheci'!1entos determimidos peias inovações tecnoló·
operar equipamentos) seja maior (mais de 2/3 compartilhavam dessa gicas. Isso seria reduzir a educação e ignorara fato - talvez mais importante
idéia); - de que a causação pode se dar no sentido oposto e de que as políticas de-
- o grau de repetitividade das tarefas seja menor (em torno de 60% dos formação podem influir na direção e ritmo das mudanças tecnológicas. Em
informantes defendiam esse ponto de vista); lugar de ajustar-se reativamente e defensivamente às inovações tecnológi-
- o grau de controle da gerência sobre o trabalho seja menor (cerca de 45% ~as, deve-se considerar que a educação tem U1n~pelativo_e_estimulador
de respostas endossavam esse ponto de vista). a desempenhar e que tem, além disso, que cumprir um importante objetivo,
a saber, a promoção da inovação e do progres_S.QJé.cpJfc>'pa ec()nqrnia.
Portanto, conhecimeJ1tos mais profundos sobre equipaIne_n~o,~ici­
pação_~m tarefas anterionnenie-éoncentradas nas"inãos de profissionais de
ca:fegorià mais elevada (aesfratégiáda "Qiúilidiide 'tÓl:<il" é excrnpló-típiCo
desse fato), maior autonomia quanto aos métodos de trabalho utilizados e

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IMAM,1979.

202 203
tem antigas crenças de que foi a Por outro lado, quando se in-
Revolução do século XVIII, com tensifica a incorporação dessas
seus ideais de democratização, tecnologias, como tem ocorrido
que levou à difusão da escolarida- em países de economia mais de-
de naquele país. Historiadores senvolvida, certos efeitos se fa"
Aparecida Joly Gouveia* pesquisaram os arquivos das pa- zero sentir também no volume
Os textos apresentados são A respeito do texto de Derme- róquias e descobriram que, muito total d'a mão-de-obra, que tenderia
bem diferentes quanto à abran- vai Saviani, tenho algumas dúvi- antes da Revolução Francesa, as a diminuir. E, ao mesmo tempo,
gência do campo de análise. Der- das. Saviani afirma que o regiões onde o protestantismo ha- há reflexos da participação dife-
meval Saviani aborda o tema, desenvolvimento industrial, via se expandido mostravam os rencial das diferentes categorias
objeto deste seminário, percor- aquele que se deu há mais de um maiores índices de alfabetização. da estrutura ocupacional. Sobre
rendo longo caminho que vai dos século, exigiu a elevação do nível As áreas que permaneceram pre- essas alterações, o gráfico repro-
primórdios da civilização aos nos- de escolaridade da população, ou dominantemente católicas conti- duzido, informativo e bem docu-
sos dias, ou seja, até a situação seja, a elevação da escolaridade nuaram, por longo tempo, com mentado, no trabalho de Marisa
atual do mundo capitalista. Suge- teria sido conseqüência da Revo- taxas de escolarização muito bai- de Assis mostra que a oferta de
re, também, como gostaria que se lução Industrial. Alguns estudos xas. emprego tenderia a aumentar nas
encaminhasse a relação entre edu- realizados por historiadores da Quanto aos pontos levantados categorias que exigem qualifica-
cação e trabalho daqui para o fu- Educação chegaram à conclusão por Lucília Machado, pediria que ção mais elevada e a diminuir para
turo. O texto pareceu-me bastante que a escolarização no sul da In~ esclarecesse como a politecnia funções menos qualificadas. Es-
otimista em suas conclusões. O glaterra, na realidade, iniciou-se poderia ser operacionalizada em sas previsões, relativas ao ano de
autor espera que muita coisa acon- antes da eclosão do surto indus- 1995, foram elaboradas por uma
nossas escolas. Também gostaria
teça no que respeita à qualidade da trial. Sabemos, também, que as de saber qual a importância que comissão da Comunidade Euro-
educação. Lucília Machado foca- próprias invenções tecnológicas, ela atribui à orientação politécni- péia e referem-se apenas ao setor
liza diretamente os efeitos da in- que perrni- tiram o desenvolvi C industrial; porém, em face das
ca nos diferentes níveis de ensino.
corporação das novas tecnologias mento industrial daquele país sur- transfonnações que ocorrem com
São duas questões que valeriam
sobre a organização da produção giram fora da escola. As velocidade no setor das comuni-
ser discutidas neste fórum.
e as exigências colocadas aos tra- biografias dos inventores da épo- cações e no setor das finanças, é
ca atestam que a Universidade não O trabalho de Lucília Macha- de se esperar que diferenciais de
balhadores. A perspectiva é bas-
contribuiu direta- mente para o do aborda, ainda, o caráter com- demanda próximos daqueles pre-
tante ampla. Marisa de Assis
desempenho desses inventores. plexo das conseqüências das vistos para o setor manufatureiro
aborda as transformações da es-
Oxford e Cambridge tratavam de novas tecnologias quanto aos re- ocorram também no terciário.
trutura da mão-de-obra e centra-
preparar elites dirigentes sociali- querimentos relativos à força de Esta ilação encontra apoio na di-
se nas habilidades requeridas dos
zando os estudantes em valores trabalho. A autora também men- luição tendencial das diferenças
trabalhadores em decorrência da
ulitização das novas tecnologias aristocráticos, clássicos, expon- ciona o que acontece na organiza- que caracterizam os vários seto-
do-os às obras de autores e fami- ção da produção. De acordo com res, diluição essa que é apontada
nas indústrias de transformação.
liariando-os com certos estilos de as conclusões de diversos estudos, por Lucília e, de certa forma, foi
Como se vê, a seqüência da vida. Por outro lado, estudos rela- a tese da desqualificação tenden-
apresentação corresponde a uma mencionada também por outros
tivamente recentes sobre História cial da força laboral, se não está participantes. Como tem crescido
ordem decrescente de abrangên- da Educação na França desmen- superada, deve ser pelo menos re-
cia do campo de análise. muito, como se sabe, a participa-
lativizada. ção relativa do setor terciário, des-
• Professora titular do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências de que se registre neste setor um
Humanas da USP.

204 205
:X:rfil de ofertas semelhante ao caracterizados por baixos níveis mente através da extensão dos tê~ sido apontadas como desejá-
previsto para o setor fabril, é de se de aplicação das novas tecnolo- anos em que as pessoas passam na veiS, ou mesmo necessárias a pes-
esperar que o aumento dos empre- gias. a elevada heterogeneidade, escola. Por outro lado, é pouco soas que se envolvam em situa-
gos de qualificação mais elevada própria da estrutura global tradi- provável que tais competências ções de trabalho decorrentes da
resulte numa alteração sigrúficati- cional, convive com uma nova he- possam ser desenvolvidas em cur- introdução de novas tecnologias:
sos voltados para a transfonnação flexibilidade, raciocínio lógico,
va do perfil do conjunto da força terogeneidade desencadeada
de perfis profissionalizantes de iniciativa, capacidade de decisão
de trabalho. pelos setores mais modernos. In-
etc. Entretanto, o novo perfil não
As análises referentes ao pro- clusive, entre nós, o ritmo da ab- feição convencional. Isso me pa-
será exigido de todos os trabalha-
cesso de modernização indicam, sorção da tecnologia ainda não é rece importante em face da idéia
dores, pois é necessário conside-
tão abrangente, mesmo em indús- de um 2º grau técnico e de cursos
porém, que as inovações técnicas rar as características diferenciais
trias que poderíamos considerar profissionalizantes na rede regu- do mercado e também as diversas
e organizacionais que tendem a
alterar a estrutura do emprego não mais modernas. Suponho que tal lar de ensino desse nível. categorias de trabalhadores de
atingem de maneira uniforme situação não seja irrelevante Pelo que nos relata Vanilda uma determinada organização ou
todo o sistema econôrrúco. O mo- quando se considera o sistema Paiva a respeito de reflexões feitas de determinada empresa. [sto nos
i
vimento é mais acelerado e abran- educacional em face das caracte- por autores alemães e franceses, traz outra questão: essa heteroge- ,f
gente em certos ramos que em rísticas do mercado de trabalho. não bastaria promover alterações neidade não constituiria mais um I,
I!

outros, naqueles onde persistem Esta é urna questão que me parece na estrutura dos sistemas educa- complicador quando se tem em
as técnicas e as fannas de organi- interessante considerar na discus- cionais, pois o currículo teria im- mente um sistema educacional iI'
zação de trabalho herdadas de fa- são. Contudo, por significativas portância igualou até maior do abrangente e democrático?
ses anteriores. Assim sendo, se a que sejam ou venham a ser as que os aspectos fonnais da se- A respeito ainda das altera-
exigência de maior qualificação alterações do volume relativo das qüência escolar. ções do perfil da força de trabalho, 11,

dirrúnui a probabilidade de em- diferentes categorias, mais ou me-


nos qualificadas, no conjunto da
Como nenhum dos trabalhos
detalhada é a análise apresentada
no texto de Lucília Machado.
~'
prego para trabalhadores menos apresentados se detém sobre as
qualificados, ou até provoca a sua força laboral, importante em um Afinna-se, de um lado, ser neces-
condições que propiciariam o de- I
f
expulsão dos setores de ponta, de seminário como este, particular- sário ter abertura, criatividade,
senvolvimento das habilidades
outro lado, podem eles buscar al- mel)-te nesta sessão, é a questão da motivação, iniciativa, curiosida- II
desejáveis ou mesmo requeridas
natureza da qualificação agora de, vontade de aprender (Interes-
ternati vas em setores de alto risco, pelas novas tecnologias, seria in- I'
exigida dos trabalhadores. sante que essas características me I
que são encontradas num merca- teressante que seus autores, e tam- ~
fazem lembrar de reflexões en-
do de trabalho que se caracteriza O texto apresentado por Lucí" bém os demais participantes, I

contradas na obra de Kilpatrick, i


pela heterogeneidade. lia Machado, bem corno o referido informassem e emitissem opi- i
que li na escola normal, no tempo
Conforme assinala Vanilda trabalho de Vanilda Paiva, indi- niões a respeito de mudanças na
do escolanovismo). Deoutro lado,
I:
cam que a qualificação requerida educação que vêm sendo pensa-
Paiva, há tendências contraditó-
se reveste de características espe- das, ou menosjá tenham sido im-
acrescenta Lucília Machado, o Ii
rias, ao mesmo tempo homoge- trabalhador precisa demonstrar
ciais, ou seja, não se trata daquelas plementadas. Além dos exposi-
neizadoras e heterogeneizadoras, cooperação, responsabilidade, or-
que se exigiam ou se exigem em tores, vejo que há nesta reunião
que se cruzam no capitalismo con- ganização, disciplina e assiduidade.
indústrias tradicionais. Não é pessoas bem infonnadas e bem
temporâneo. Se isto ocorre nos atentas às tentativas de renovação Importante para"mim é o fato
países de economia desenvolvida mais suficiente um simples au- de Lucília Machado não se limitar
na área. Essa é uma questão que
verifica-se o mesmo fenômeno' mento do nível de escolarização,
proponho para o debate. à enumeração de tais característi- ,!,
com maiores complicações, no~
I
mas é preciso considerar o desen- cas. Ela explicita também por que
volvimento de habilidades que Antes, porém, convém lem-
países periféricos. Nestes países, as transfonnações na organização
não são adquiridas necessaria- brar quais as características que

206
207 I
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.'~ no processo de trabalho, decor- de rumos sócio-econômicos con- Resta perguntar agora como neira como essas matérias são de-
tentes das novas tecnologias, tor- siderados indesejáveis. seria essa escola que contribuiria senvolvidas, e como se relacio-
nam tais habilidades necessárias. para a modernidade. Enfatizando- nam. Neste contexto, pergunta-se:
Mudanças significativas es-
Ao fazê-lo, porém, parece revelar se a importância do currículo, oU- a temperatura desse caldo e a sua
tão ocorrendo na sociedade e não
grande preocupação com o caráter tros problemas porém se apresen- densidade deveriam ser as mes-
integrador e centralizador que vê apenas na economia. Talvez as
tam. Que ingredientes entrariam mas para todos os níveis de ensi-
nessas novas tecnologias. Emcer- mudanças de maior importância
no currículo a fim de se obter o no? Ou ainda: que importância
to momento, diz: "Se de um lado nem sejam as que ocorram na es-
caldo de cultura propício ao de- teria o formato do sistema educa-
existe um grupo de tarefas semi- fera econômica (por exemplo, as
senvolvimento dessas habilida- cional, especialmente numa so-
autônomas, onde seria aparente- mudanças na relação entre os se-
des? O currículo aqui deve ser ciedade tão desigual como a
mente possível exercer a liberda- xos). De qualquer maneira, não se
entendido no sentido bem amplo: nossa? São essas as questões que
de de planejar, a capacidade de pode negligenciar o mercado de
não apenas no sentido das maté- proponho principalmente aos
decidir e de organizar o próprio trabalho quando se pensa na esco-
rias que o compõem, mas da ma- educadores aqui presentes.
trabalho, de outro lado, há um larização. Isto não simplesmente
tempo informático que exige inte- ou necessariamente porque se de-
gração completa da produção". seje uma economia mais moder-
Então, se de um lado, há con- na, mas, sobretudo, porque é em
dições favoráveis ao desenvolvi- tomo do trabalho que direta ou
mento mais completo do trabalha- indiretamente gira a vida da gran-
dor, há, de outro lado, um tempo de maioria das pessoas.
informático que integra e controla Se aquelas atividades requeri-
as ações. Há, também, um forte das pelas novas tecnologias pude-
apelo à lealdade à empresa. Porém rem, de alguma forma, ser estimu-
se o processo de trabalho mudou ladas pela escolariZação. a escola
I
e a própria organização da empre- estará ao mesmo tempo propi- ~
sa teve que se transformar, per- ciando o desenvolvimento de con-
gunto se a nova centralização é do
mesmo tipo e da mesma qualidade
dições para que o estudante de
hoje possa amanhã participar
[
da antiga e se tem os mesmos efei- mais ativa e responsavelmente de I
tos danosos sobre o trabalhador. todas as esferas da vida, não ape- ,i
Parece-me que necessitamos de nas da economia (Não uso aqui a
1

, '
[.
uma análise mais pontual sobre as palavra cidadania porque é uma 1'.1 ,

novas formas de controle do tra- ,


expressão hoje muito desgasta- I'I
balho. da). Assim, se as novas competên- i
O que se espera da escola é cias, as desejadas, puderem ser
que ofereça condições para que as desenvolvidas no espaço escolar,
crianças e os jovens possam en- a escola não estará produzindo I
frentar situações novas que se de- apenas trabalhadores mais adap- I I

lineiam e possam, ao mesmo tados às novas tecnologias e à eco- f~


tempo, contribuir para a alteração nomia.
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CONSIDERAÇOES i.
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li. Claúdio Salm*
li Os trabalhos aqui reunidos O maior problema que a orga-
são tão ricos e abrangentes que se nização da produção deve enfren-
toma difícil e até pretensioso que- tar é o de valorizar o capital,
rer acrescentar considerações fi- dar-lhe rentabilidade, que se ex-
nais "sobre os temas tratados", pressa por uma taxa de lucro por
Ainda assim não vou me eximir da unidade de tempo (x% ao ano), Ou
tarefa que me foi atribuída!, seja, é uma discussão voltada para
As relações entre inovação os fatores que influenciam a velo-
tecnológica e gestão da mão-de- cidade de rotação do capital.
obra no capitalismo, i. é, num Esta, por sua vez, pode ser decom-
'i mundo "desencantado" (M. We- posta (Marx) em: tempo de produ-
ção, tempo de trabalho e tempo de
bcr) - porque regido pelo cálculo
i econômico - é naturalmente uma circulação. O primeiro tem a ver
I questão afeta à Economia. Digo com as propriedades naturais dos
I materiais, o segundo coma produ-
isso não para reivindicar para os
tividade do trabalho (automação e
I
economistas qualquer domínio I:
sobre a questão, mas para lembrar gestão da mão-de-obra) e o tempo

I
que a partir da literatura especia- de circulação, com o manejo de
lizada fica mais fácil ordenar as estoques e fluxos, tudo convergin-
idéias e, inclusive, como veremos, do para a diminuição dos tempos
indicar o que a Economia não tem mortos e das porosidades.
podido esclarecer mesmo naquilo Em síntese, trata-se do estudo
li· I
que se propõe a analisar. Além das formas de superação dos en- II
disso, na medida em que se dispo- traves que a base técnica (proces- :1
~I
nha de boas teorias, capazes de dar so de trabalho) possa impor ao li
conta de novas situações, não de- processo de valorização do capi-
penderemos tanto de estudos de taf. Portanto, a partir da análise
caso para perceber algumas ten- econômica entende-se o porquê
dências. da tendência de transformar toda

• Professor Adjunto do Institulo de Economi. Industrial da UFRJ.


1. Em se tratando de uma, abordagem multidisciplinar,gOSlariadeas.sinalacalgumas das vantagens
e das limitações da Ecoliomia p.<U'<J. O estudo do tema. Espero. como subproduto. mostrar rambém que
enfoque econômico não é. necessariamente, sindnimo de viés economiciJta.
2. Assim, quando Mário Salemo fala de "rápido atendimento ao mercado, aumento do giro do
capital. redução de esroques e do cusco financeiro ..:· está se referindo a uma mesma coisa: velocidade
de rotação do capital.

213
Por outro lado, Denneval Sa· trabalhador direto na produção
produção em algo o mais parecido proporcionadas pela educação bá- viani comete, a meu ver, um equí- capitalista atuai. A desqualifica-
possível com os processos de flu- sica. E, importante, Marshall de- voco comum aos economistas ção taylorista do trabalho ao longo
xo contínuo, como já fonnulado nunciava como grande equívoco- radicais americanos, que não do século XX foi feita em nome
por Adam Smith, há 200 anos econômico - uma educação para vêem o taylorismo-fordismo do aumento da escala e da "flui-
atrás, ao explicar as vantagens da os trabalhadores voltada para o dez" da produção, para usar um
como uma etapa do desenvolvi-
divisão (manufatureira) do traba- "fazer", distinta da educação de-
mento industrial. O ensino profis- termo do Mário Salerno. Pois
lho. dicada ao "pensar".
I sionalizante, vocacional, foi uma bem, hoje, a atribuição de cres-
Os cientistas c os engenheiros Reconheço, entretanto, que a expressão dessa etapa. Quando cente responsabilidade ao opera-
devem explicar como que as ino- educação da classe operária nem Saviani diz que "o advento da in- dor (programação. controle de
I vações tecnológicas alteram as sempre mereceu a mesma atenção dústria moderna conduziu a uma qualidade, manutenção) - e que
matérias-primas, aumentam a por parte do pensamento econô-
I produtividade do trabalho e das mico. E isso se deve a que a sua
crescente simplificação dos of!-
cios ... certamente não imagina o
corresponde ao conceito mais
"alemão" de poIívalência - se faz
I
U

máquinas; os cientistas polítÍCos, importância tem que ser entendi- quanto custava a formação de um com vistas aos mesmos objetivos.
I os sociólogos e os demógrafos de-
vem nos ajudar a entender os con-
da a partir da base técnica domi-
nante em cada época, como bem
torneiro Oll frezador na segunda
metade do século passado, na 2ª
Lucília Regina Machado sin-
tetizou bemas implicações educa-
flitos que surgem da batalha da lembrou Helena Rirata.
'I concorrência, bem como as suas
Revolução Industrial. A constitui- cionais das novas técnicas de
Ocorre que o processo de tra- ção dos sistemas nacionais de en-
conseqüências sobre a mobilidade balho e, portanto, a necessidade automação e de organização do
ocupacional ou regional; os edu- sino respondeu às necessidades trabalho: "O taylorismo co fordis-
de escolaridade dos trabalhado- dessa nova indústria, incorpora-
cadores, o exame das relações en- res, não é um processo linear de mo, intrinsecamente, aportaram
tre o sistema escolar e o que se dora de ciência. organizações de trabalho autoritá-
desqualificação, como acreditam
requer na produ~ão capitalista, e os adeptos da "Bravermania". Só depois, quando a base téc- rias. As inovações organizacio-
assim por diante. Dermeval Saviani identifica cor- nica taylorista-fordista se torna nais subvertem este modelo,
Preocupado com os efeitos retamente a disseminação da edu- dominante, a desqualificação do trazem fonnas mais participati-
devastadores da divisão do traba- cação escolar com a incorporação trabalho passa a ser um objetivo vas, integradas, grupais, descen-
lho sobre a formação da cidadania. da ciência à produção: "Na época mesmo da gestão. Entretanto, tralizadas, autônomas, envolven-
A. Smith propõe enfaticamente moderna a incorporação da ciên- cabe assinalar que a divisão e sim- tes e flexíveis, mas não significam
que o Estado se encarregue da cia ao processo produtivo envolve plificação das tarefas não consti- que sejam, por isso, democráticas,
educação, pública e gratuita, dos a exigência da disseminação dos tui um objetivo em si do cálculo ainda que constituam patamares
trabalhadores. Seu objetivo era o códigos fonnais, do código da es- empresarial, mas decorre da supe- superiores que favorecem o aper-
de "compensar" o embrutecimen- crita". Mas isso só vai se tornar ração de técnicas que se tomam feiçoamento do trabalho huma-
to a que era submetida a classe uma evidência nas últimas déca- ineficazes face aos objetivos da no... A matéria~prima fundamen-
trabalhadora. O foco muda na se- das do século passado, quando. de valorização do capital ou da busca tal é a informação e ganha mais
gunda metade do século XIX. fato, a indústria incorpora a ciên- de maior competitividade. É sem~ em qualificação quem estiver
Grandes economistas, como AI-
fred Marshall, passam a acentuar
as externaI idades econômicas
cia (química) e se torna essencial-
mente urbana (eletricidade).
pre bom lembrar isso, para não
cairmos em explicações ingênuas
mais próximo e souber dominar o
circuito completo de seu proces~
l
do tipo "di vidir para reinar",
como alguns fizeram. Sim, porque
sarnento, o que demanda funda- I
o que está emjogo nesta discussão
mentos teóricos do conhecimento b
3. Quanto. essas relações, faço um par~rlcese para uma defesa "corporativa" da Economia. Não formal, habilidades que permitam f
conheço outro ramo da filosofia moraJ ou das ciências sociais em geral que tenha enfatizado mais a
i mponânci. da educação escolar para os lf.I>.lhadores. pelo menos até o início do século xx.
é, justamente, a valorização e o
enriquecimento das atividades do
uma interação inteligente com os I