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HUBERTO ROHDEN

ENTRE DOIS MUNDOS

TENTATIVA DUMA SÍNTESE ENTRE O UNO E O VERSO DO UNIVERSO HOMINAL

UNIVERSALISMO

ADVERTÊNCIA

A substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar

é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e

dispensa esforço mental mas não é aceitável em nível de cultura superior,

porque deturpa o pensamento.

Crear é a manifestação da Essência em forma de existência criar é a transição de uma existência para outra existência.

O Poder Infinito é o creador do Universo um fazendeiro é criador de gado.

Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores.

A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada se aniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa mas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa.

Por

convenções acadêmicas.

isto,

preferimos

a

verdade

e

clareza

do

pensamento

a

quaisquer

ENTRE DOIS MUNDOS

(EXPERIÊNCIA CÓSMICA)

O

profano não se interessa pela Auto-Realização.

O

místico foge do mundo para se encontrar com Deus.

O

homem univérsico, de experiência cósmica, penetra tão profundamente na

alma do universo que atinge o Deus do mundo no mundo de Deus. E todo o seu antigo “dever” compulsório se transforma num novo “querer” espontâneo, num flamejante entusiasmo, numa irresistível adoração dinâmica por essa estupenda Realidade que está além de todos os nomes.

Para o mundo profano, esse homem deve necessariamente parecer um louco ou alucinado, um anormal e, de fato, anormal ele é, se por normal se entende essa cegueira habitual dos inexperientes e essa insensibilidade paquidérmica dos profanos. Esse homem é anormal “para cima”, supra-normal, e não anormal “para baixo”, infra-normal, como certos doentes. Mas, como o homem comum nada sabe do supra-normal, ao passo que tem algum conhecimento do infra-normal que admira que coloque o supra-normal no plano dos infra- normais? Cada um pensa e fala segundo a medida do seu conhecimento ou da sua ignorância, porquanto “o conhecido está no cognoscente segundo a capacidade do cognoscente”. O homem normal pode conhecer o infra-normal, que para ele é um “menos”, mas não pode saber o que seja supra-normal, porque é para ele um “mais”. Ninguém pode conceber coisa maior do que ele mesmo é; o nosso SER é a medida do nosso CONHECER.

Entretanto, são os homens universificados os únicos que garantem a continuidade do fogo da espiritualidade sobre a face da terra. É o vasto incêndio da experiência cósmica, desses poucos, que ilumina muitos. Seja, você mesmo, esse Homem universificado!

TOMANDO PERSPECTIVA

O Universo sideral é um perfeito equilíbrio entre o Uno centrípeto e o Verso

centrífugo, formando um cosmos estável e dinâmico.

No Universo hominal, porém, surge um novo fator o livre-arbítrio que pode causar harmonia ou desarmonia. O homem pode, pelo uso ou abuso do seu livre-arbítrio, crear um Universo muito mais maravilhoso do que esse cosmos sideral, e pode também ser autor de um imenso caos, pelo abuso da sua liberdade.

O homem é, aqui na terra, o único ser dotado de creaturidade e de creatividade; só ele é creatura e creador ao mesmo tempo; só ele se pode tornar melhor ou pior do que Deus o fez.

O homem, quando livremente cosmificado, é algo incomparavelmente mais

maravilhoso do que todas as grandezas e belezas fora dele; mas, quando livremente caotizado, é também muito mais repugnante do que outra creatura qualquer.

O macrocosmo sideral, regido por leis imutáveis e automáticas, será sempre

um sistema de perfeita ordem e harmonia mas o microcosmo hominal, pode estabelecer desordem e desarmonia.

Através das páginas deste livro, aparentemente heterogêneas, vai um traço de permanente homogeneidade; todos os capítulos giram em torno de duas alternativas: a voluntária harmonia entre o Eu central e o ego periférico do homem ou então a voluntária desarmonia entre esses dois pólos da sua natureza.

A harmonia é bondade e felicidade a desarmonia é maldade e infelicidade.

A natureza humana participa da mesma bipolaridade que caracteriza todo o

cosmos. Não existem círculos monocêntricos no Universo, há tão-somente elipses bicêntricas. Astros e átomos se movem em trajetórias elípticas,

bipolares. Esses dois pólos não são contrários um ao outro, mas são complementares. Da síntese das duas antíteses complementares resulta a harmonia cósmica, que os gregos chamavam beleza (kosmos), e os romanos denominavam pureza (mundus).

Da mesma forma, da síntese das duas antíteses complementares do homem,

do Eu e do ego, resulta a harmonia, a beleza e a felicidade da vida humana.

O homem é o autor da sua grandeza ou da sua mesquinhez, do seu cosmos ou

do seu caos. O livre-arbítrio é uma espada de dois gumes, é o maior privilégio

e também o maior perigo do homem; é a chave para o céu ou para o inferno da sua vida.

Do uso ou abuso da sua liberdade tece o homem, dia a dia, a sua felicidade, ou

a sua infelicidade.

O livre-arbítrio é o invisível fio de Ariadne, que pode conduzir o homem, são e salvo, através de todos os labirintos da vida terrestre, rumo à sua definitiva libertação, rumo à sua verdadeira auto-realização.

Entre dois mundos, o mundo da luz e o mundo das trevas, oscila a vida humana. Compete ao humano viajor decidir-se livremente por este ou por aquele mundo. Desta decisão depende o seu valor ou o seu desvalor, a sua felicidade ou a sua infelicidade.

QUAL A VERDADEIRA MENSAGEM DO CRISTO À HUMANIDADE

A mensagem do Cristo, segundo o Evangelho, não tem caráter

ritual,

nem moral,

nem intelectual,

nem social.

A mensagem do Cristo é essencialmente

metafísica,

ontológica,

real,

cósmica.

Mas, como esta mensagem incidiu num ambiente humano de baixa compreensão, foi ela, de início, condicionada e contagiada pela atmosfera circunjacente. O conteúdo divino do Evangelho sofreu o impacto dos seus contenedores humanos.

Dos mistérios pagãos do Império Romano herdou o Cristianismo o seu colorido ritualista-sacramental, segundo o qual a salvação do homem consiste em certas práticas mágicas e ocultistas, relacionadas com determinados objetos, fórmulas, gestos, etc.

O judaísmo contemporâneo afetou o Cristianismo nascente com a idéia da redenção pelo sangue, consoante a cerimônia do “bode expiatório” que se realizava anualmente em Jerusalém, e que foi sublimada por um ex-rabino judaico convertido ao Cristianismo, iniciando a concepção bárbara do sangue de Jesus a lavar os pecados da humanidade.

Mais tarde, nos primórdios da Renascença, a mensagem do Cristo foi interpretada intelectualmente, projetada sobre o fundo duma análise da letra da Bíblia, e num ato de fé fiducial no sangue de Jesus.

Por fim, em nossos dias, o Cristianismo foi identificado com filantropia social, obras de caridade e altruísmo, relacionados com a idéia evolutiva de reencarnações sucessivas.

Todas estas versões podem, até certo ponto, ser aceitas como fenômenos concomitantes e subsequentes mas nenhuma delas representa o centro e cerne da autêntica mensagem do Nazareno.

Ritos, sacrifícios, estudos, crenças, altruísmos tudo isto pertence ainda à velha concepção horizontal de que o homem seja apenas o seu ego físico- mental-emocional, conceito que o Cristo transcendeu totalmente. Para ele, o homem não é esse seu invólucro, nem mesmo na forma mais sublimada, que ele chama “remendo novo em roupa velha”; o homem não é a sua persona ou personalidade, mas sim o seu Eu interno, a sua profunda e divina individualidade, a sua alma ou espírito que o Cristo chama o “Pai”, a “Luz”, o “Reino”, o “Tesouro oculto”, a “Pérola preciosa”.

Esta concepção que o Nazareno tem do homem e que forma a quintessência de toda a sua mensagem, é profundamente metafísica, ontológica, realista, cósmica.

A mensagem do Evangelho não visa, em primeira linha, a transformação do

homem-ego vicioso num homem-ego virtuoso, que Jesus rejeita com “remendo novo em roupa velha”; mas convida o homem a descobrir a sua

realidade divina, já existente nele, mas ainda inconsciente; convida-o a tirar a sua luz divina de baixo do alqueire da sua inconsciência e colocá-la no candelabro da sua consciência; convida o homem a conscientizar o Pai, a Luz,

o Reino, o Tesouro, a Pérola, que o homem é por natureza, mas que ignora

ser; o Cristo convida o homem àquilo que os filósofos orientais e, ultimamente,

também os psicólogos ocidentais, denominam “auto-conhecimento”, e que no Evangelho aparece com o nome do “primeiro e maior de todos os mandamentos”.

A mensagem do Cristo não se refere, primariamente, a algo que o homem

deva fazer, mas sim ao alguém que o homem deve ser conscientemente; e deste ser da mística do primeiro mandamento resultará espontaneamente o fazer do segundo mandamento da ética a vivência ética da fraternidade universal é, para ele, o irresistível transbordamento da experiência mística da paternidade única de Deus. Auto-conhecimento místico produz auto-realização ética.

Numa palavra: a mensagem do Cristo gira inteiramente em torno da Realidade Metafísica do homem cujo centro e cerne é Deus, o Absoluto, o Infinito, o Eterno.

Quando o homem se identifica ainda com o seu ego humano, e procura fazer desse ego vicioso e mau um ego virtuoso e bom, anda ele no “caminho estreito” e passa pela “porta apertada” do dever compulsório, sempre difícil e sacrificial; mas, depois de despertado para a consciência da realidade do seu Eu divino entra na zona do “jugo suave e do peso leve” do querer espontâneo; passa da boa vontade da virtuosidade da moral para a sapiência da compreensão, e sua moral dolorosa se transforma numa ética jubilosa e só então encontra ele “repouso para sua alma”.

Quando Mahatma Gandhi escreveu que “a Verdade é dura como diamante e delicada como flor de pessegueiro”, compreendeu ele que a dureza diamantina do tu deves se pode associar à delicadeza flórea do eu quero eu quero espontaneamente o que devo necessariamente suposto que o meu ego virtuoso entre na zona do meu Eu sapiente.

Neste ocaso do segundo milênio da era cristã, e quase na alvorada do terceiro milênio, encontramos, em todas as partes do mundo, uma elite de homens que estão começando a suspeitar – a “farejar”, como diz J. W. Hauer – que a mensagem do Nazareno encerra algo infinitamente mais profundo e sublime do que, geralmente, lemos e ouvimos no ocidente cristão. Estamos começando a descobrir a alma do Evangelho. Entretanto, para esta compreensão é necessário que o homem transcenda a sua intelectualidade analítica e ingresse na nova dimensão de uma consciência intuitiva que o homem parcial de hoje passe a ser o homem integral de amanhã.

MORRER DECENTEMENTE PARA VIVER GLORIOSAMENTE

“Se o grão de trigo não morrer, ficará estéril – mas, se morrer, produzirá muito fruto” (Jesus, o Cristo).

“Eu morro todos os dias, e é por isso que eu vivo – mas não sou eu que vivo, é o Cristo que vive em mim” (Paulo de Tarso).

Quando alguém imagina que já morreu ou melhor, quando se sente empolgado por esta certeza que coisa ainda lhe poderia ser difícil? A única

coisa que lhe sobrou é uma força tranquila, irresistível, que brilha de dentro de

si mesma, como a chama vertical de uma vela num ambiente sem vento. Esta

chama pergunta à vida e à morte: que quereis de mim? este corpo? está

morto! Este ego? dissolveu-se a sua ilusão!

Todos os horrores e todas as amarguras contra os quais se revolta o homem,

já foram dantemão saboreados e superados.

Esta experiência da incorporação da morte, faculta ao homem a experiência duma vida superior. O ego, que, por toda a parte, age como veículo e como obstáculo, já foi dissolvido.

Esta pura vivência interna transforma todas as vivências externas e todas as relações com o mundo de fora.

Qualquer palavra sobre isto é supérflua; basta saber que surgiu uma força silenciosa, inesgotável, capaz de tudo.

Uma vez que alguém morreu deste modo, é ele imortal, incapaz de morrer.

Lá se foi o seu gostar ou não-gostar!

Esse homem está sempre disposto a tudo, sempre pronto para carregar fardos pesados. Permanente serenidade em face das coisas mais difíceis substituiu a sua vacilante atitude de outrora.

O enigma da existência encontrou uma solução definitiva.

Daqui por diante, todas as coisas externas se referem apenas ao modo como fazê-las e isto não tem importância. O agradável e o desagradável desse “como”, nas variadas circunstâncias, foi superado.

O homem que atingiu estas alturas está para além de propriedade e de sexo.

Morrer? pergunta alguém que passou por esta experiência morrer não posso mais; já superei o ser-mortal, assim como superei o ser-criança e o ser- adolescente.

E, na medida que todas as coisas pesadas perdem o seu peso, vai nascendo a intuitiva e espontânea compreensão das circunstâncias.

Todas as coisas se vão tornando transparentes.

Todas as formas e gestos em derredor se vão tornando visíveis de dentro.

A razão-de-ser de todos os fenômenos se torna compreensível, uma vez que

deixou de existir a nebulosidade do ego, que se interpunha entre a visão

original do Eu e o mundo externo.

Para o homem assim transformado nada é sem fala; a sua serenidade receptiva faz eco a toda as coisas. Graças à sua transparente intuição, esse homem participa de todas as coisas do universo.

(cf. H. Zimmermann)

LIBERTAÇÃO PELA SAPIÊNCIA UNIVÉRSICA

Filosofia, Yoga, Metafísica, Mística, Espiritualismo, Esoterismo todas estas palavras, e outras similares, suscitam grave suspeita no espírito de muitos homens do ocidente. Parecem insinuar algo como escapismo, uma fuga das cruas realidades da vida e um refúgio para dentro de um idealismo utópico.

Mas o homem ocidental é terrivelmente realista, e não quer saber de filosofias idealistas, por mais belas e suaves que sejam. E não parece ter razão? O oriental, diz ele, nunca fez nada no campo da ciência e técnica, porque se enamorou de uma filosofia espiritualista e duma metafísica mística. Não descobriu átomos nem realizou viagens cosmonáuticas; não fabricou rádio, televisão, radar, locomotivas, aviões, automóveis nada. De tanto suspirar pelo céu se esqueceu da terra. De tanto amar um Além futuro e distante, se desinteressou pelo Aquém presente e próximo.

Não, não estamos dispostos a trocar o nosso materialismo eficiente por um espiritualismo ineficiente.

Assim pensam e falam milhares de homens sinceros, aqui no ocidente.

E todos eles têm razão na base das suas premissas.

Mas

estas premissas são falsas, radicalmente falsas.

A premissa falsa está nisto: em pensarem que as coisas metafísicas sejam

necessariamente incompatíveis com as coisas físicas. Se assim parece ser de facto, assim não precisa ser de direito. Não é verdade em si que o homem que trata das coisas do espírito não possa tratar dinamicamente das coisas da matéria. Esse antagonismo dualista é fruto da nossa ignorância e duma visão incompleta da Realidade:

A Sapiência Univérsica, a Filosofia Cósmica não afirma a metafísica à custa da

física, não proclama a presença do espírito na ausência da matéria.

A Filosofia Univérsica estabelece a tese, 100% matemática e lógica: quanto

mais intensamente o homem realiza a metafísica tanto mais perfeitamente pode ele realizar a física; a Filosofia verdadeira estabelece uma perfeita

harmonia e complementaridade entre o mundo espiritual e o mundo material.

Se o nosso mundo material é ainda hoje tão imperfeito e se o nosso mundo espiritual é ainda tão deficiente, é porque nem este nem aquele conseguiram

fazer uma verdadeira síntese e simbiose entre as coisas da matéria e as coisas do espírito, entre as Facticidades externas e a Realidade interna.

Nem o ocidente realizador nem o oriente sonhador agiram universicamente, não puseram a constituição do Universo como base e diretriz da sua vida.

UNI VERSO

O ocidente se limita ao unilateralismo do VERSO, ao passo que o oriente se

enamorou do unilateralismo do UNO. Mas nem o UNO nem o VERSO, separadamente, perfazem o Universo Integral esse grandioso Universo, que os gregos chamavam Kósmos (beleza), e os romanos denominavam mundus

(pureza). O Universo é o que seu nome diz: uno e diverso, unidade na diversidade, isto é, perfeita e indestrutível harmonia.

Se o homem pensasse e vivesse universicamente, estaria em perfeita harmonia consigo, com Deus e com o mundo; não seria materialista nem espiritualista, mas sim universalista, ou melhor, universificado.

O

que falta ao ocidental é a visão do UNO no meio do VERSO.

O

que falta ao oriental é o interesse pelo VERSO.

O

ocidental se derrama na pluralidade dos efeitos materiais.

O

oriental se isola na unidade da causa espiritual.

Nós, porém, queremos o UNO da causa manifestado no VERSO dos efeitos.

O primeiro passo para o ocidental é a visão da unidade através dessa imensa

diversidade. E, para conseguir esta visão unitária, deve o homem, por algum tempo, prescindir de qualquer impacto diversitário; deve isolar-se, de vez em quando, nessa conscientização da unidade, fechando os sentidos a todas as diversidades, não para negar ou abandonar estas diversidades, mas para se consolidar na visão da Realidade Una, a tal ponto que as Facticidades Verso nunca mais possam destruir aquela.

O mal não está nas diversidades, como pensam alguns místicos; o mal está na

visão parcial, incompleta, unilateral da realidade, que o profano identifica com essas diversidades dos sentidos e do intelecto.

O homem ocidental, predominantemente diversitário, deve treinar a sua visão

unitária, afirmando a soberania da sua substância una sobre todas as tiranias das circunstâncias múltiplas.

Esse treino unitário não é uma meta, mas é um método; não é um fim, mas um meio.

Muitos orientais, vêem no mundo material uma simples ilusão, maya, irrealidade e por isto não podem entusiasmar-se por ele ninguém pode interessar-se por um fantasma. Para eles, a única Realidade está no mundo espiritual; não está aqui e agora; está no futuro e na distância. E como realidade e valor são homônimos, segue-se que o mundo presente das materialidades não tem para os espiritualistas valor algum. É por isto que os além-nistas nunca compreenderam os aquém-nistas, nem estes aqueles.

A humanidade vive em dois compartimentos-estanque, em dois hemisférios

ideologicamente separados, mecanicamente justapostos, sem nenhuma interpenetração orgânica: os materialistas do aquém e os espiritualistas do além.

Mas não é esta a visão da Filosofia Cósmica, precisamente por ser uma visão harmoniosa do Universo Integral, que não é Uno nem Verso, mas Universo.

Para que o homem possa ver e conscientizar a Realidade Metafísica em todas as Facticidades Físicas, deve ele, já o dissemos, isolar-se, por longo tempo, na pura metafísica, até que o último resquício da física desapareça do horizonte do seu consciente, e ele permaneça, sozinho e desnudo, no seu cosmoconsciente, sentindo em si o grande UNO, longe de todo o VERSO.

Mas é precisamente aqui que está o tremendo problema para quase todos os homens do ocidente, que, em geral, têm 100% de consciência física e 0% de consciência metafísica. Esse peso morto remonta a milhares de anos na raça humana, e tem alguns decênios em cada indivíduo. Neutralizar esse peso morto é um problema de árdua solução.

Quanto tempo necessita o homem para conseguir isto?

Não é questão de tempo, mas de intensidade de exercício.

Todos os grandes iluminados da história isolavam-se, geralmente, por 30 a 40 dias, em total solidão e silêncio. Isto é, cerca de um ciclo lunar, que abrange 28 dias; mas, para maior garantia, convém iniciar o isolamento uma semana antes da lua nova e encerrá-lo uma semana depois da lua nova. Assim, todos os altos e baixos, todos os positivos e negativos, todas as marés e vazantes percorrem as vias experienciais dos nervos e do cérebro, dos quais depende grandemente, na presente existência, o grau da nossa consciência.

Depois que o místico verificou e saboreou devidamente a Realidade do UNO, em total solidão, pode ele levar consigo, ao meio do mundo e da sociedade, essa experiência nirvânica. Pode ver o Transcendente também em forma Imanente; pode enxergar no mundo de Deus, o Deus do mundo, que experimentou fora do mundo.

O profano enxerga o mundo sem Deus.

O

místico enxerga Deus sem o mundo.

O

homem cósmico enxerga o Deus do mundo em todos os mundos de Deus.

Esta intro-visão ou intro-vidência, esta experiência do Deus imanente em todas as coisas, é a última e suprema conquista do homem em evolução ascensional. Ver o Infinito em todos os Finitos, a Realidade eterna em todas as Facticidades efêmeras é o inicio do reino de Deus sobre a face da terra.

É este o supremo ideal da Sapiência Univérsica.

A sua aquisição compensa todos os esforços.

DA FRUSTRAÇÃO EXISTENCIAL À REALIZAÇÃO EXISTENCIAL

Victor Frankl, médico-psiquiatra, diretor da Policlínica Neurológica da Universidade de Viena, em quase todos os seus livros, se refere a casos de neurose provindos da frustração existencial, embora as suas causas imediatas possam apresentar outro caráter.

No seu livro “Theorie und Therapie der Neurosen” (Verlag Urban und Schwarzenberg, Wien Innsbruck, 1956), refere-se ele a numerosos casos, ocorridos no consultório e na clínica, que se baseavam em frustração existencial, e só puderam ser definitivamente sanados com logoterapia.

Um desses casos é o seguinte, registrado na Policlínica Neurológica de Viena, amb. 392/1955, D. Marion A, escreve:

“Meu marido saiu no seu carro, como faz todas as noites. Eu, a bem dizer, tenho pena dele; ele precisa dessa farra. Agora, que o serviço dele é mais leve

e ele está livre às 5 horas, o desassossego o impele para fora de casa. Temos um belo apartamento com rádio; mas não temos nada a nos comunicar um ao outro. E agora, que tudo acabou em rotina velha, estou diante de um vácuo. Livros não interessam o meu marido, a não ser romances criminais e aventureiros; mas essas coisas a gente vê melhor no cinema, o que nos dispensa da leitura; e durante o programa de rádio a gente dorme.

Não estou com vontade de bancar a mulher incompreendida para me tornar interessante.

Poucas semanas mais tarde, após o tratamento, D. Marion escreve:

“Estou de perfeita saúde. Encontrei-me comigo mesma. Sinto-me segura.

Estou cheia de alegria. Tenho a impressão de que se me abriu um vasto portal

e entrei numa claridade ofuscante. Meu coração é um jardim florido, para o qual me posso retirar todas as vezes que quiser. Tudo vai bem. A vida é magnífica, maravilhosa. As coisas grandes em nossa vida, nunca mais as podemos perder”.

Victor Frankl não menciona, com uma única palavra, que a situação matrimonial tenha mudado; parece que não; nem explica o que D. Marion fez, nessas poucas semanas, em que tão radical mudança se deu com ela, como a

sua segunda carta revela. O que é certo é que ela passou dum estado de Frustração Existencial para uma grandiosa Realização Existencial. E à luz dessa Realização do seu Eu central as frustrações do seu ego periférico, de mulher e esposa, se tornaram suportáveis, embora a situação externa continuasse a persistir objetivamente, como antes.

* * *

O caso acima é típico. Quase todas as pessoas existencialmente frustradas, por não terem descoberto a sua verdadeira razão-de-ser que Victor Frankl denomina “realização existencial” – atribuem essa sua insatisfação ao fracasso deste ou daquele objetivo da vida seja na esfera social, profissional ou emocional; confundem o seu Eu central com o seu ego periférico; confundem os sintomas do mal com a raiz do mal. E, por isso, tentam eliminar os sintomas da sua insatisfação. Possivelmente, consigam essa eliminação de sintomas mas amanhã poderão recair na mesma, ou em outra insatisfação, porque a raiz do mal continua viva. E assim arrastam 20, 50, 80 anos de vida, de frustração em frustração.

Suponhamos que um desses infelizes, frustrados no plano social, profissional ou emocional, tenha a clarividência e a coragem de mergulhar nas profundezas do seu Eu central, mediante um verdadeiro auto-conhecimento e subsequente auto-realização: poderemos garantir a esse homem que seu insucesso social, profissional ou emocional, tenha fim? De forma alguma. É bem possível que nada se modifique no plano das circunstâncias externas, como parece ter acontecido no caso acima citado, de D. Marion. Mas a nova e radical atitude da substância interna desse homem assim mudado no seu Eu, suportará as circunstâncias externas de um modo completamente diferente de antes.

Disto já sabiam os antigos estóicos da Grécia. Para eles, o verdadeiro estoicismo não consistia em suportar passivamente o desfavor das circunstâncias inevitáveis; mas sim em crear dentro do sujeito uma atitude ativa de compreensão, de auto-compreensão, de auto-conhecimento. Em última análise, ninguém e nada de fora me poderá fazer mau, se eu não quero ser mal. Mal no meu ego, mas não mau no meu Eu. O meu íntimo ser é inatingível, é um baluarte inexpugnável. Todos me podem fazer bem ou mal, ninguém me pode fazer bom nem mau, sem o meu consentimento.

Se eu sou, pelo poder do meu livre-arbítrio internamente bom, nenhum mal externo, por maior que seja, me pode fazer internamente mau, embora me possa fazer males externos.

Este ser-bom é auto-realização, é realização existencial.

E, em face disto, toda e qualquer circunstância adversa, da natureza ou da humanidade, é suportável.

Quando o homem se tolera a si mesmo, todas as coisas de fora são toleráveis.

Mas quando o homem se sente intimamente mau, frustrado, nenhuma circunstância adversa é suportável.

Frustrar quer dizer despedaçar, desintegrar. O homem frustrado, já o dissemos, se sente interiormente desunido, fragmentado, desintegrado no seu íntimo ser e isto é verdadeira infelicidade. Para ser feliz, o homem desintegrado pela frustração se deve reintegrar pela realização, pela conscientização do seu Eu Integral, que é divino, que é Eterno, que é Infinito.

“Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará” – esta fórmula antiquíssima é a única terapia radical; a conscientização da verdade sobre si mesmo é a única cura de qualquer frustração, porque é a sua integração ou realização.

KARMAN, AKARMAN, NAISKARMAN FALSO-AGIR, NÃO-AGIR, RETO-AGIR

Os dois maiores livros da humanidade giram em torno destas três palavras, ou

seja, em torno das três atitudes que o homem pode assumir em face do mundo

externo.

Cada um desses dois livros abrange cerca de 50 páginas em formato comum.

O volume deles é pequeno, mas o seu conteúdo é enorme, maior que o de

todas as bibliotecas do mundo.

O mais antigo desses pequenos-grandes livros é conhecido pelo nome

sânscrito de Bhagavad Gita, que quer dizer “Sublime Canção”; as suas raízes

se

embebem na era dos Vedas da Índia dos Ários, cerca de 5.000 anos antes

da

nossa cronologia cristã, ou seja, 7.000 anos antes do tempo hodierno. Os

protagonistas da Gita são o avatar Krishna e seu discípulo Arjuna.

O outro livrinho tem o nome grego Evangelion, que significa “boa nova”; nele

aparecem as palavras e atividades de Jesus de Nazaré, cognominado o Cristo,

e remonta a quase 2.000 anos.

A Bhagavad Gita é o livro sagrado de quase todos os povos orientais Índia,

China, Japão e outros países asiáticos; pode-se dizer que ele é a voz da consciência espiritual da Ásia, representada por cerca de 2/3 da humanidade.

O Evangelho, por sua vez, é considerado o livro divino pelos chamados

cristãos de todos os setores coptos, ortodoxos, romanos, evangélicos, espiritistas, etc. Quase todo o mundo ocidental, Europa e Américas, invocam o Evangelho como seu padrão de fé e de vida.

* * *

Entretanto, nem os orientais nem os ocidentais, tomados em seu conjunto, compreenderam o espírito da Gita nem do Evangelho; a alma e quintessência desses livros continua praticamente ignorada pela humanidade deste ou daquele hemisfério.

Por quê?

Porque a alma da Gita de Krishna e do Evangelho do Cristo é algo tão profundo e inaudito que nem os filósofos orientais nem os teólogos ocidentais

foram capazes da atingi-la. E, não conseguindo atingir a alma desses livros, os homens se limitaram a tratar do corpo da Gita e do Evangelho, analisando intelectualmente o que devia ser intuído espiritualmente.

Há milhares de anos que a humanidade só conhece duas atitudes em face do mundo externo em que vive mas a Gita e o Evangelho falam duma terceira atitude, aparentemente paradoxal e impossível.

A humanidade só conhece agir ou não-agir; atividade ou passividade.

A humanidade do ocidente quer agir, ser ativa a humanidade do oriente quer

não agir, ser passiva.

Sobretudo desde os dias de Gautama Siddhartha, o Buda, o oriente se convenceu de que toda a atividade do homem é visceralmente má, negativa, pecaminosa, porque quem age é o ego e como poderia o ego agir senão

egoicamente?

Em face desta suposta impossibilidade de homem agir sem egoísmo, sem karman, sem débito, sem culpa, recomendam muitos orientais o não-agir, cair na passividade total. Pois, se o agir, procedente do homem-ego, produz culpa, débito, então o não-agir pelo menos não aumenta esse débito, embora não possa talvez cancelar o débito já existente.

As “quatro verdades nobres” de Buda, que resumem toda a filosofia do agir e

do não-agir, formam a base, consciente ou inconsciente, do misticismo passivo

de

uma grande parte da humanidade do oriente: não-agir é melhor que agir.

O

homem ocidental, pelo contrário, é essencialmente ativo, a sua filosofia é

agir o mais possível. Nem sequer suspeitou ainda da tara negativa que todo o

agir traz dentro de si. O ocidental é uma espécie de criança que se derrama totalmente numa atividade externa, sem querer saber se essa atividade é boa ou má; o principal é agir, agir sempre, sem muito pensar nas consequências desse incessante agir. O ocidental quer ver os resultados palpáveis do seu incessante agir, sem pensar no porquê nem no para quê dessa atividade.

O

homem oriental, com uma cultura quase três vezes mais antiga que a nossa,

entrou na fase da reflexão, da raflexividade, da introspectividade ao passo

que seu irmão ocidental é, em geral, extroverso, esgotando-se em atividades externas.

* * *

Ora, se é verdade que todo o agir externo nasce do ego, então é claro que o

homem se onera de débitos ou culpas na razão direta da sua atividade. Deixar

de agir sustaria o incremento de novos débitos e novas culpabilidades.

E não afirmam os próprios livros sacros do Cristianismo que “o mundo jaz no maligno”? e não diz o Cristo a seus discípulos: “O príncipe deste mundo (o ego) tem poder sobre vós”?

Toda a humanidade à exceção de alguns iniciados cósmicos oscila, pois, entre estas duas alternativas: ou agir e aumentar os seus débitos ou não agir para não aumentar os débitos.

* * *

E, no entanto, os dois maiores livros da humanidade, a Bhagavad Gita de Krishna e o Evangelho do Cristo, não recomendam nem esta nem aquela atitude; conhecem uma terceira alternativa, equidistante do simples agir do profano e do simples não-agir do místico. Não recomendam nem o falso-agir (karman) nem o não-agir (akarman), mas o reto-agir (naiskarman).

Pergunta-se: em que consiste esse reto-agir? e donde vem ele? do ego? de

alguma outra fonte?

filosofias correntes, não pode deixar de ser egóico, negativo, culposo. Mas, a

Gita e o Evangelho admitem que o agir pode ter outra origem que não seja o ego; insinuam uma fonte extra-egóica, alguma origem cósmica, donde possam

derivar as atividades humanas

algo como cosmo-consciência, algo como as palavras “Conhecereis a verdade,

e a verdade vos libertará”

deve haver uma verdade para além do ego ilusório, uma verdade que,

uma vez conhecida, nos liberta da maldição do débito, da culpa do agir, do karman negativo

Mas

Insinuam algo como auto-conhecimento,

Se todo o agir vem do ego, como parecem supor as

Se o ego fosse a verdade, não nos escravizaria

Que verdade é esta?

Na Gita e no Evangelho não se trata da alternativa de agir ou não-agir, mas sim do falso-agir ou do reto-agir; em qualquer hipótese, recomendam um agir, uma atividade. E também, se “Deus é ato puro” (Aristóteles), pura atividade, como poderia o verdadeiro homem deixar de ser ativo, se ele é “imagem e semelhança de Deus”?

A alternativa não é, pois, agir ou não-agir, mas sim: um falso-agir ou um reto-

agir.

Surge agora a grande pergunta: em que consiste o reto-agir?

O homem-ego age sempre por causa de algum objeto, por causa de algo fora dele, por amor a um não-Eu, de algo separado ou separável da sua intrínseca realidade. O ego, sendo ilusão, sempre age por amor a uma ilusão. O mundo objetivo, feito de quantidades, projetado dentro de tempo e espaço, é maya, ilusão, reflexo, cópia, projeção, mas não é a Realidade em si. Ora, agir por amor a uma irrealidade, uma ilusão, é mau, filho da ignorância.

O homem, para agir retamente, deve retificar a meta e o motivo da sua

atividade; deve agir por causa e por amor à Realidade, embora os canais da sua atuação sejam facticidades ilusórias. A Fonte do nosso agir deve ser a Verdade, que é a consciência da Realidade, embora a manifestação dessa Realidade possa fluir através de facticidades.

O Eu verdadeiro, que é Fonte, pode servir-se dos canais do ego para se

manifestar, mas nunca deve considerar esses canais como a Fonte.

Os objetos do ego podem ser meios mas somente o sujeito Eu pode ser o fim da nossa atividade.

O ego age por causa de alguma quantidade, de algum allos (outro), que ele deseja alcançar com a sua atividade e isto é ilusão, egoísmo, idolatria. Quem age por amor ou adoração a qualquer objeto ama e adora um falso deus, um pseudo-deus, é idólatra e isto é mau.

Esta alo-adoração idólatra é que degrada o homem. Quando o amante ama algo inferior a ele, o amante se inferioriza, degradando-se ao baixo nível do amado. O amado nivela o amante ao plano do amado. Se o amante é representado por “10”, e o amado por “0”, o amante se nulifica por esse amor

ao

nulo.

O

homem que age por amor a uma coisa se coisifica, quantifica a sua

qualidade, desvaloriza o seu valor; ele se esquece do seu alguém e se degrada a algo; nega o seu Eu real e afirma o seu ego irreal.

A última razão da maldade do homem ego-agente radica numa maldade

metafísica, numa maldade ontológica. O divino Alguém do Eu nunca deve ser reduzido ao humano Algo do ego.

Em face desse perigo de apostasia ontológica do ego-agente resolveram os orientais cair na não-agência, por sinal que não descobriram coisa melhor. Krishna e Cristo, porém, descobriram a reta-agência em lugar da falsa- agência. Substituíram a ego-agência pela Eu-agência.

“Homem, trabalha intensamente mas renuncia a cada momento aos frutos de teu trabalho” (Krishna).

“Quando tiverdes feito tudo que devíeis fazer, dizei: Somos servos inúteis; cumprimos a nossa obrigação, nenhuma recompensa merecemos por isto” (Cristo).

A ESSÊNCIA DO RETO-AGIR (NAISKARMAN)

O problema do reto-agir (ou naiskarman) não tem por ponto de partida nem

norma de referência este ou aquele preceito moral, mas baseia-se no caráter fundamental, metafísico, ontológico do próprio agir em si mesmo.

Se o nosso agir tem por fim exonerar-nos e preservar-nos da tragicidade da vida, então importa, em primeiro lugar, compreender nitidamente a natureza da obra, a íntima essência da atuação do homem aqui no mundo.

A visão superficial, que é do ego, enxerga em primeiro lugar o “fruto”, isto é, aquilo que a obra produz ou deseja produzir. Esta perspectiva que vida ao fruto ou à utilidade da obra, é chamada pela Bhagavad Gita “falasanga”, que quer dizer “apego ao resultado”. A filosofia oriental se esforça sempre de novo para mostrar que esse apego ao fruto do trabalho desvia as forças internas do homem para um ponto falso, para um trilho secundário, mostra que essa mania de resultados ou falasanga rouba à atividade humana a sua energia libertadora, e vai emaranhando o homem cada vez mais funestamente em culpas e sofrimentos. As torrentes vitais creadoras fluem de largo, fora do seu leito verdadeiro, inaproveitadas, porque esse pendor objetivo e utilitarista desvia o homem do seu centro de energias, rumo a algo que jaz do lado, fora

do eixo dinâmico da sua atividade.

Esta tendência objetiva e utilitarista, esta mania de sucesso externo, atua como um vampiro que suga as melhores forças do coração da atividade do homem.

É precisamente neste vampirismo utilitarista que se baseia a mais profunda

tragicidade de todo o homem profano.

É esta uma experiência que cada um de nós pode sempre de novo fazer em si mesmo: nada há que tanto disperse as nossas forças vivas e redentoras como essa mania de sucesso e utilidade ou então a amargura em face do insucesso e fracasso externo. Enquanto especularmos com sucessos ou recearmos insucessos, enquanto procurarmos qualquer espécie de resultado objetivo, reconhecimento ou aplausos, visamos a algo fora do centro e cerne da nossa verdadeira atividade, e nunca conseguiremos focalizar num único ponto a força total da nossa obra; não conseguiremos mergulhar sem reserva no coração vital da nossa atividade redentora. Temos de ser como crianças que se entregam de corpo e alma ao seu agir, sem desvios e segundas intenções.

O homem profano age exclusivamente por amor aos objetos, aos possíveis

frutos do seu trabalho e por isto se onera cada vez mais de culpas, que geram sempre novos sofrimentos.

O

místico, à luz desta tragédia, resolve não agir de forma alguma.

O

homem cósmico, porém, compreendeu que a redenção não está no falso-

agir do profano, nem no não-agir do místico, mas sim num reto-agir numa

atividade por amor ao próprio Eu divino no homem, embora esse agir se realize, externamente, através dos canais do mundo objetivo. O homem

cósmico age por amor à Fonte do seu Eu divino, ainda que através dos canais

do

seu ego humano.

O

seu auto-conhecimento se revela através da sua auto-realização.

OS PALHAÇOS E AS PALHAÇADAS DA VIDA

Este mundo é um circo de palhaços.

A vida do homem é uma palhaçada uma humana comédia que não deve

tornar-se uma divina comédia.

A única coisa que o homem sensato pode fazer é descer do palco dos atores e

sentar-se na plateia dos espectadores da grande palhaçada da vida; olhar de longe a comédia, sem tomar parte de perto. Ou então, se tal for a sua missão, subir ao palco, unir-se aos palhaços e dirigir a comédia, mas sem acompanhar internamente as palhaçadas; assim faz o homem contemplativo, místico, cósmico, que atua pelo que é, e não pelo que faz. Deve manter sempre a

consciência nítida “tudo isto é uma palhaçada, por enquanto inevitável”. Não tomar a sério nenhuma das palhaçadas da vida, que os verdadeiros palhaços tomam muito a sério. Deve sempre manter uma consciência interna de não- palhaço, manter uma linha reta através de todos os ziguezagues dessa dança macabra, manter a consciência do EU REAL para além das conveniências do ego ilusório. Deve olhar de cima, das alturas da Verdade, todas as baixadas das ilusões terrenas.

O palhaço-ego compra, vende, registra os seus imóveis no cartório, sobre as estampilhas infalíveis, com firma reconhecida, tudo devidamente carimbado mas o Eu divino sabe que nada é dele nem da sua família; sabe que tudo é de Deus e da humanidade; sabe que acima de todos os cartórios há uma consciência, que fala a linguagem da convicção para além de todas as convenções.

O

nosso ego humano trabalha, corre, luta, cansa-se, ri, e chora, perde o sono e

o

sossego, arranja enfartos e arteriosclerose, câncer, úlcera de estômago,

briga com marido e mulher e filhos, corre 50, 80 anos atrás do dinheiro, compra o último tipo de automóvel, ou até 2 ou 3 e depois vai para o sanatório, para o

hospício ou acaba no hospital e no cemitério tudo isto a serviço das suas importantíssimas palhaçadas

Faça tudo isto, se o achar necessário, de acordo com a sua ignorância; seja palhaço, se quiser mas nunca se identifique realmente com esse palhaço- ego; para além dos bastidores da vida mantenha sempre firme a consciência tranquila “Eu não sou ele”, “Eu sou o meu Eu divino”, “Eu e o Pai somos um”, “Eu sou a luz do mundo”, “O reino de Deus está dentro de mim”.

Homem, conserva sempre a consciência da tua divina ALTERIDADE e não sucumbas à ilusão da tua humana IDENTIDADE. Não te niveles jamais com o conteúdo da tua carteira de identidade pessoal. O teu verdadeiro Eu não tem carteira de identidade, registrada e carimbada em alguma repartição pública o teu divino Eu vive na ignota alteridade do Infinito.

O nosso ego ilusório não aprendeu ainda o abc da verdade, em milhões de anos de existência racial, e alguns decênios de vida individual.

É necessário que ultrapassemos essa escola primária da personalidade humana e entremos na Universidade da nossa individualidade divina.

Nós, os palhaços das palhaçadas da vida terrestre.

AUSCULTANDO MARCIANOS E VENUSIANOS

Que é que os Telúricos celebram no fim do ano? perguntou um Marciano a um visitante de Vênus.

Você quer dizer, no dia 25 de dezembro?

Isto mesmo.

Acho que os Telúricos celebram o aniversário de um velhote da cara

rubicunda, de barbas brancas. Tem cara de palhaço pateta, mas traz muitos presentes à gente.

Como se chama esse velhote?

Pelo que consegui captar no meu receptor, chama-se Papai Noel; em

algumas partes da Terra, lhe chamam Santa Claus. Mas parece que é um só.

Esse Papai Noel ou Santa Claus deve ter sido um grande benfeitor dos

habitantes do planeta Terra, para ter tantos adoradores. Você sabe algo da vida dele?

Nada! Nunca cheguei a saber quando viveu nem o que fez, para ser tão lembrado.

Neste momento apareceu um pequeno Mercuriano, rubro como um salamandra ígneo e exclamou, deitando chispas e chamas:

Vocês estão muito enganados! Os Telúricos, no dia 25 de dezembro, não relembram nenhum Papai Noel nem Santa Claus; eu só ouço referências a uma tal Cesta, uma Cesta de Natal;

Mas o que fez por eles esta Cesta de Natal? perguntaram os dois a uma voz.

O que fez, não sei. Sei que os Telúricos são uns grandes comilões e

beberrões, e quase todos eles só vivem comendo e bebendo, e a Cesta de Natal está cheia de coisas boas. Vivem comendo e bebendo e depois

morrem acabou-se.

Enquanto os três assim conversavam entre si, estava eu, o Telúrico, escondido atrás de um rochedo, sem ser percebido por eles. De repente, saí do meu

esconderijo e exclamei: Nada disto! Os Telúricos não comemoram nada disto na noite de Natal.

Mas disse o Marciano o que aqui se ouve é só isto. Que é, afinal de contas, o que vocês comemoram nessa data?

De tão envergonhado me sentia eu o único Telúrico presente, que não pude falar. Sentia-me humilhado em face das ideias que os nossos vizinhos planetários tinham de nós, os planetários terrestres. Finalmente, cobrei ânimo e tentei falar do verdadeiro objetivo da nossa festa de Natal; mas foi difícil convencer Marcianos, Venusianos e Mercurianos de que nós os Telúricos, no dia 25 de dezembro, celebrávamos o aniversário do nascimento do maior homem do nosso planeta. Falei-lhes dos vaticínios dos profetas, dois mil anos antes da nossa era; falei-lhes do nascimento desse homem num estábulo, da sua vida misteriosa em Nazaré, da sua doutrina e dos seus grandes feitos; da sua morte e ressurreição. Mas nenhum dos meus ouvintes parecia dar fé às minhas palavras. O Mercuriano disse que, alguns séculos atrás os habitantes da Terra haviam falado nesse homem, mas que hoje em dia ninguém mais o conhecia.

Lembrei o nome desse homem, que se chamava Jesus, o Cristo, mas o Marciano interveio perguntando:

Se vocês celebram Jesus, o Cristo porque não o dizem quando mandam mensagens eletrônicas ao espaço?

Eu não sabia o que responder a esta pergunta, quando o venusiano exclamou:

Espere um momento! Lembro-me de ter captado anos atrás uma mensagem

sobre o tal Jesus: um cântico vinha da Terra e dizia assim “Noite Feliz”, uma canção muito bonita, que falava de Jesus. Infelizmente, de repente interrompeu a linda canção religiosa, e uma voz rouca berrou no meio “compra sabão marca

X”, depois continuou o cântico “ó Jesus Deus da luz, quão amável é teu coração”. E quando eu estava me deliciando em espírito, outra voz rouquenha berrou “o melhor calçado do mundo é a marca Y” e deu o nome do tal calçado insuperável. Irritado com essa falta de educação quis desligar o meu aparelho de rádio, quando uma voz de menina vinda da Terra cantou uma linda canção em homenagem à mãe de Jesus, que começava assim “Ave Maria gratia plena” – mas de repente, quando eu me estava deliciando com essa maravilha espiritual levei uma pancada nos ouvidos porque alguém gritou lá da Terra “beba a melhor cachaça da Terra” e deu o nome da droga. Dessa vez perdi a paciência, desliguei o aparelho e fui dormir.

Assim conversavam o Venusiano, que me olhava com uns olhos cheios de amor e de dor, de alegria e de tristeza ao mesmo tempo. Parece que gostava de mim, por seu eu habitante da Terra, e ao mesmo tempo tinha pena de mim,

por pertencer a uma raça tão atrasada, incapaz de saborear as coisas boas e belas que havia entre nós.

Mais tarde, a sós, conversei longamente com o Venusiano, que se me revelou um ser de elevados sentimentos espirituais; invejava a Terra por uma razão:

porque nela se havia revelado visivelmente a maior Entidade do cosmos. Chegou a dizer-me, que, visto lá de Vênus, o nosso planeta era o mais belo de todos, envolto numa atmosfera azulada, que parecia protegê-la num como alo de suave espiritualidade. O Venusiano lamentava que nós, os Telúricos, num ambiente tão maravilhoso, fôssemos uma raça tão atrasada.

O grosso da humanidade acrescentei é verdade, degenerou em materialismo repugnante, incapaz de saborear as delícias de uma vida superior; mas sempre existiram entre nós alguns seres humanos de elevada experiência. Passei a falar-lhe de alguns Telúricos que haviam antecipado, por milhares de anos, e compreendido a alma da mensagem do Cristo.

O Venusiano manifestou desejo de se encontrar com algum desses seres

terrestres mais avançados.

Fiz-lhe ver que podia captar mensagens espirituais sem intermédio de seres

terrestres e mesmo sem um aparelho de rádio. Bastava sintonizar devidamente

a sua alma pela onda exata, e captaria a mensagem desejada. O Venusiano

mergulhou num profundo silêncio, e, mesmo sem dizer nada, percebi, ou adivinhei que ele já tinha alguma experiência dessa sintonização cósmica e sabia de coisas que não se podem dizer nem pensar.

Deixei-o mergulhado em meditação, e, despedir-me dele, disse-lhe: o planeta Vênus, que nosso povo chama estrela D’Alva, visto da nossa Terra, tem um fulgor tão intenso que até parece um pequeno sol.

O

Venusiano não disse nada, mas mandou-me uma mensagem silenciosa com

os

olhos que lembravam a luminosidade da estrela.

NINGUÉM SERVE IMPUNEMENTE

“O dominador deste mundo, que é o poder das trevas, tem poder sobre vós

sobre mim, porém, ele não tem poder, porque eu já venci este mundo” (Jesus,

o Cristo).

Amigo, que ainda vives sob o regime do dominador deste mundo do ego!

Não te esqueças de que a lei deste mundo é “ser-servido”; e quem não

obedece a esta lei, querendo “servir” em vez de “ser servido”, merece castigo,

de acordo com a legislação vigente neste mundo.

É perigoso querer servir desinteressadamente, prestar benefício a alguém sem

segundas intenções, sem esperar nenhuma retribuição.

Cedo ou tarde, o beneficiado se sentirá humilhado pelo benfeitor e planejará vingança, em forma de revolta, ingratidão ou calúnia.

E, quando essa revolta secreta na alma do beneficiado atingir o clímax de

pressão interna, haverá uma explosão vulcânica; a lava ígnea da humilhação

romperá impetuosa e se lançará contra o odiado benfeitor.

Ninguém serve impunemente!

O

servidor desinteressado é réu, porque violou as leis deste mundo.

 

É

um subversivo.

 

O

servidor

desinteressado merece

castigo,

em face dos dispositivos

da

legislação do dominador deste mundo.

Mas

desinteressadamente, é o mais poderoso fator de redenção definitiva e integral para o benfeitor.

não desanimes! Este sofrimento que resulta de serviços prestados

Sem sofrimento não há redenção.

É importantíssimo que o servidor se considere sempre “servo inútil”, de acordo com as palavras do Mestre: “Quando tiverdes feito tudo que fazer devíeis, dizei:

agora somos servos inúteis; cumprimos a nossa obrigação nenhuma recompensa merecemos por isto”.

Continua, pois, a servir desinteressadamente. O maior beneficiado não é aquele que recebe o benefício, mas sim aquele que o faz.

Pode ser que para o ego beneficiado o benefício seja um malefício por culpa dele mesmo, mas para o benfeitor que se considera “servo inútil”, o serviço que prestou é sempre benéfico e redentor.

Nem todo o recebedor recebe com amor o que com amor lhe é dado mas tu,

o doador do amor, podes sempre dar com amor o que dás.

“Há mais felicidade em dar do que em receber”.

Mas, para poderes servir com amor e não te sentires ofendido pelo desamor do recebedor, deve o teu “servir” ser um transbordamento espontâneo do teu “adorar”.

“Só a Deus adorarás – e só a Ele servirás”.

Não podes servir a Deus em suas creaturas, se não aprendeste a adorar a Deus em Deus.

Não há ação correta sem adoração.

A palavra “ação” é a parte final da palavra “adoração”.

Ador - ação.

Ação é filha da adoração.

A ética da ação do servidor é um transbordamento da mística do adorador.

A MORAL DA RELIGIÃO ESTÁTICA E A ÉTICA DA RELIGIÃO DINÂMICA

No seu livro “As duas fontes da religião e da moral”, Bergson entende por religião a “religião dinâmica”, ou mística, ao passo que atribui a moral à

“religião estática”. Esta, de caráter meramente objetivo, tem por fim estabelecer

e manter certa harmonia social no meio dos homens, isto é, um armistício

precário e temporário entre ego e ego, no plano horizontal. A “religião estática”

não pode jamais crear uma paz verdadeira e duradoura, porque não atinge a raiz da natureza humana, que é o Eu real, e não o ego ilusório. Somente a “religião dinâmica”, ou mística, atinge a última raiz do ser humano, pela experiência da sua essencial identidade com o Infinito (Eu e o Pai somos um, o

Pai está em mim”

“O Cristo vive em mim”).

Toda e qualquer religião externa, objetiva, atinge apenas o ego periférico do homem, mas não o seu Eu central; produz uma moral externa, mas não uma ética interna. A moral pode produzir armistício, que é uma trégua entre duas guerras, mas não pode estabelecer verdadeira paz, que nasce do conhecimento intuitivo de que o Deus em mim é também o Deus em ti (namastê), e que, por isto, eu posso amar o próximo assim como amo a mim mesmo, porque o ponto de referência do amor-próprio e do amor-alheio é o mesmo: o verdadeiro Eu Divino, seja em mim, seja em ti. O Deus-em-ti, o Deus-nele, o Deus-nela.

No plano da moral se trata dum ato de boa vontade, de uma virtude, que é coisa incerta e precária. No plano da ética se trata duma atitude de sabedoria ou compreensão, que se baseia na divindade do Eu verdadeiro.

Duas ondas do mar são diferentes como ondas, mas são idênticas como água do mar.

A luz vermelha irradiada pelo prisma é diferente da luz verde, mas as duas

luzes coloridas são iguais do outro lado do prisma, onde dó existe luz incolor.

E por isto pode a onda A amar a onda B, e a luz vermelha pode amar a luz

verde, porque há uma base comum. Amor supõe diversidade na unidade. O amor é univérsico. Quando há somente diversidade não pode haver amor; quando há somente unidade não pode haver amor. Amor é a percepção da diversidade existencial como manifestação da unidade essencial.

Sendo que quase todos os nossos programas educativos giram no plano da egoidade personal, que é meramente externa, é inevitável que essa educação seja ineficiente, incapaz de estabelecer paz e harmonia duradouras. Toda a educação periférica – que é, aliás, mera instrução ou “inducação” – não passa de camuflagem e charlatanismo, interessada em remover sintomas de periferia, mas não em erradicar a raiz do mal.

Para curar a raiz do mal não basta boa vontade, que é do ego, mas requer-se sabedoria, compreensão da realidade do Eu humano.

Horizontal mais horizontal não dá vertical.

Ego mais ego dá ego, egos de boa vontade; não dá Eu, que é sabedoria. O ego e o Eu estão em dimensões diferentes.

Para solver o problema central da educação, temos de abandonar a dimensão- ego e entrar na dimensão-Eu, erguer uma vertical sobre a horizontal, com um ângulo reto entre os dois planos.

Bergson tem sido atacado pelos adeptos da religião estática, por não admitir

uma religião objetiva, histórica, revelada, que possa ser devidamente analisada

e organizada. O filósofo responde que toda a religião externa, objetiva, quando

verdadeira e eficiente, tem a sua raiz na religião interna, subjetiva, isto é, na

experiência mística da religião dinâmica. Não existe nem jamais poderá existir uma mística social, coletiva; a experiência mística é essencialmente individual, em sua raiz; os efeitos dessa experiência individual podem, sim, ser sociais, revelando-se em forma de ética, de harmonia social, de fraternidade coletiva.

Bergson compara a religião dinâmica da experiência mística com um vulcão a lançar lava ígnea pela cratera e compara as religiões estáticas, a simples moralidade social, com a lava fria e as cinzas que sobraram da erupção ígnea do vulcão da mística. Os moralistas, os dogmáticos, os teólogos, os intelectualistas se apoderam dessa lava fria e discutem a sua natureza e procedência, mas toda essa discussão sobre a lava fria da religião objetiva não é fogo e não pode reacender o fogo da erupção mística, que se apagou. Felizmente, de tempos a tempos, certas almas humanas tornam a lançar substancia ígnea, renovando e mantendo assim, através de séculos e milênios,

o entusiasmo espiritual. Se não fossem esses grandes místicos, com a sua

inspiração divina, já teria desaparecida da face da terra a religiosidade, porque

os adeptos da religião estática, dogmática, teológica, são incapazes de reacender o fogo divino no seio da humanidade; são os poucos místicos, de fogo próprio, que garantem luz e calor aos muitos profanos que não têm calor e luz próprios.

Nem adianta usar fogo pintado para substituir o fogo real. Fogo pintado, por mais perfeito que seja, não dá calor nem luz.

* * *

Quando o homem entra na zona da experiência mística, nesse centro atômico do seu Eu então sente ele, pela primeira vez, a sua total alteridade. Percebe que não é um elo na longa cadeia dos determinismos causais; sente-se como auto-determinante, e não mais como alo-determinado. Sente-se como fator ativo do seu destino, e não mais como fato passivo de um fatalismo inevitável e pré-estabelecido. Sente o poder de ser causa própria, e não mais joguete de causas alheias. Terminou a continuidade, o continuísmo passivo do ego, e veio um novo início pelo despertamento do Eu. O fator suplantou os fatos. Uma nova atitude de soberania derrotou os velhos atos de tirania de que o homem- ego é vítima. O homem-Eu sente a realidade do seu livre-arbítrio, a onipotência do seu Eu triunfante.

Outrora, sentia-se o homem, o homem-ego, idêntico com o mecanismo causal dessa egoidade escravizante agora foi essa sua identidade suplantada por uma estranha alteridade, a alteridade do seu Atman sobre o seu Aham, e também sobre o mundo de Maya.

O homem-Eu sente-se como uma realidade triunfante, e não mais como uma

facticidade escravizada. A sua qualidade de hoje derrotou as quantidades de

ontem e de anteontem.

As palavras de Einstein do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores são a expressão da vivência do homem assim liberto pelo conhecimento da verdade sobre seu verdadeiro Eu.

O seu UNO tomou conta dos seus VERSOS.

De ego-pensante passou a ser cosmo-pensado e um dia será cosmo- pensante.

No princípio, parece a experiência mística ser uma morte, uma estranha eutanásia, um egocídio. A onda do Eu parece dissolver-se para sempre no oceano do grande Todo, o imenso Nirvana do Nada absoluto. Só aos poucos, o homem que mergulhou no oceano do Infinito verifica que ele continua a existir como uma onda finita, mas que essa onda tomou outra forma e encheu-se de novo conteúdo. A identidade continua, mas foi cosmificada pelo mundo em que submergiu. A máscara da egoidade personal e ilusória recebeu um novo conteúdo, pela invasão da individualidade do verdadeiro Eu. O pseudo-real do ego foi realizado pela realidade do Eu. O ego-vivente, depois de cosmo- vivido, tornou-se cosmo-vivente. A identidade do Eu real, que subjaz a todo esse processo, continua a existir.

Da nulificação voluntária do ego nasce a totalidade do Eu.

O Eu sente-se mais Eu, depois de desegoficado.

Eu (ego) morro todos os dias e é por isto que eu vivo, mas já não é o meu ego que vive, é o meu Cristo (Eu) que vive em mim, eu sou vivido pelo Eu crístico.

Do Nada da personalidade nasce o Todo da individualidade.

* * *

A estratégia educacional de Bergson, como aliás, de todos os pensadores

clarividentes, é inteiramente diferente da dos educadores comuns.

Estes dizem: o mal está no plano da personalidade e da sociedade; por isto, o remédio só pode vir da personalidade e da sociedade. E se põem a excogitar como melhorar a pessoa pela pessoa, a sociedade pela sociedade. Estranhamente, não percebem que essa estratégia é um círculo vicioso, um charlatanismo pedagógico. É como se um engenheiro quisesse canalizar as águas de um lago sobre os tubos duma turbina a ser movida, argumentando com a grande massa de água do lago. Confunde quantidade com qualidade, amperagem com voltagem. A questão não é quantidade, amperagem; o problema é qualidade, voltagem, isto é, desnível. Do lago à turbina no mesmo nível não há movimento. Mas uma cachoeira, isto é, desnível entre causa e efeito, resolve o problema do movimento da turbina.

Os nossos educadores e autores de programas pedagógicos jogam com o fator imediatismo, resultados imediatos, palpáveis, falasanga, em linguagem de filosofia oriental: mania de resultados.

É claro que ninguém deve esperar resultados imediatos da nossa Filosofia

cósmica. Não contamos com nenhum resultado imediato. Nem daqui a 10 anos, a nossa Filosofia terá melhorado o nível educacional. Estamos investigando a causa última e profunda do descalabro educativo. Essa causa não está na superfície do ego, mas nas profundezas do Eu. Sem uma

verdadeira experiência da realidade do Eu, nenhum melhoramento substancial

se pode esperar no plano da personalidade e da sociedade.

Não hostilizamos as medidas superficiais dos imediatistas; são até necessárias o que negamos é que essas medidas imediatistas sejam suficientes e capazes de resolver o doloroso problema da educação integral.

O ego será sempre egoísta, mesmo ego de boa vontade, que se chama

altruísta. Altruísmo não resolve, porque o ego altruísta não abandonou o plano

do ego e neste plano não há solução real. A questão não é passar dum ego

de má vontade para um ego de boa vontade. A solução está em ultrapassar totalmente o plano do ego, tanto mau como bom, e entrar na nova dimensão do

Eu sapiente.

Objetam que o ego altruísta, de boa vontade, é, pelo menos, um prelúdio e trampolim para o Eu sapiente. Pode ser que isto aconteça, mas em raríssimos casos. Por via de regra, o ego altruísta não é um preliminar para as alturas do Eu sapiente, mas sim uma substituição, como prova a história do fariseu no templo, que foi para casa não ajustado. Apesar de todo o seu altruísmo e toda a sua virtuosidade, estava desajustado.

Não adianta por remendo novo em roupa velha, é necessário jogar fora a roupa velha, despojar-se do homem velho (ego) e revestir-se do homem novo (Eu) e fazer de si uma nova creatura em Cristo, não um ego remendado, mas um Eu remido.

É nisto que Bergson insiste, quando fala em experiência mística, em religião dinâmica, em total alteridade.

Quem nunca experimentou a paternidade única do Infinito, pela experiência mística do seu Eu central, esse não pode viver a fraternidade universal dos Finitos pela vivência ética. Pode ser um homem moral, mas não pode ser um homem ético. Mas a moral, que é do ego de boa vontade, não resolve o problema, que só pode ser resolvido pelo homem ético, o homem que faz transbordar em vivência ética a sua experiência mística. Quem não atingiu a fonte da realidade não pode canalizar as águas vivas pelos canais das facticidades.

PARA QUE ESTOU AQUI NA TERRA?

Estou aqui para melhorar o mundo?

Não!

Estou aqui para melhorar a humanidade?

Não!

O primeiro é desnecessário. Nenhum homem pode fazer um mundo melhor do

que Deus o fez. Quando Deus creou o mundo, diz o Gênesis, “viu que tudo era

bom”.

O segundo é impossível. Nenhum homem pode converter outro homem. Jesus,

durante a vida terrestre, não converteu ninguém, nem mesmo conseguiu

impedir que um dos seus discípulos se pervertesse.

Será que eu sou mais poderoso que Deus, para melhorar o mundo?

Será que eu sou melhor que o Cristo, para melhorar os homens?

Uma coisa, porém, posso fazer que nem Deus nem o Cristo podem fazer por mim ou em meu lugar: posso fazer-me bom. Ninguém, exceto eu, me pode fazer bom. Ninguém pode ser bom em meu lugar.

Deus só me creou com a potencialidade de ser bom, mas eu me posso fazer atualmente bom. Eu me posso fazer melhor do que Deus me fez e também me posso fazer pior do que Deus me fez.

É esta a onipotência do livre-arbítrio, para o bem ou para o mal.

Estou aqui na terra para fazer de mim o que Deus não me fez.

Estou aqui para me fazer o que ninguém pode fazer por mim estou aqui para me fazer bom.

A creaturidade que Deus me deu, deve manifestar-se em creatividade positiva

para o bem.

Mas que quer dizer ser bom?

Ser bom é tronar-se explicitamente o que Deus me fez implicitamente.

Ser bom é conscientizar-se que “eu e o Pai somos um; as obras que eu faço não sou eu que as faço, mas é o Pai em mim que faz as obras”.

Ser bom é estar intimamente convencido de que “o reino de Deus está dentro de mim; é um tesouro oculto, de que eu devo fazer um tesouro manifesto”.

Ser bom é saber que eu sou a luz do mundo, mas que não devo deixar a minha luz debaixo do alqueire, e sim colocar no alto do candelabro.

Ser bom é conscientizar que minha alma é uma pérola preciosa, que devo trazer à tona do oceano da minha vida.

Ser bom é amar o Senhor meu Deus com toda a minha alma, com toda a minha mente, com todo o meu coração e com todas as minhas forças, porque este é o primeiro e o maior de todos os mandamentos.

Ser bom é fazer transbordar a experiência mística da paternidade única do Pai, na vivência ética da fraternidade universal dos homens.

Ser bom é fazer externamente no meu AGIR o que sou internamente no meu SER.

Estou aqui na terra para conhecer o Deus do meu SER e realizá-lo no meu agir.

E, quando eu me tiver realizado assim no meu externo AGIR como sou no meu interno SER; quando a minha ética for o transbordamento fiel da minha mística então terei feito à humanidade o maior bem que lhe posso fazer e então terei feito o mundo muito melhor do que Deus o fez.

Mas, se eu não me fizer assim como posso e devo fazer-me, a minha vida terrestre será uma falência, e sobre a minha lousa sepulcral se deve gravar este tristíssimo epitáfio:

Aqui jazem os restos mortais de um homem que viveu 30, 50, 80 anos sem saber porquê

O MISTÉRIO DO LIVRE-ARBÍTRIO

Muitos representantes da chamada “ciência exata” negam a realidade do livre- arbítrio, afirmando que, num Universo regido por leis férreas e imutáveis, não há lugar para o fenômeno da liberdade, que, segundo eles, seria indeterminismo, incompatível com um cosmos governado por um determinismo absoluto e universal.

Determinismo é causalidade.

Indeterminismo seria não-causalidade.

Na zona do suposto indeterminismo ou livre-arbítrio, haveria algo como não- causalidade, efeito sem causa, quando o cosmos é uma imensa cadeia de causas e efeitos, uma concatenação infalível de precedente causante e de consequente causado. O indeterminismo do livre-arbítrio seria, segundo esses cientistas, um efeito sem causa, o que é anti-cósmico, e, portanto, inadmissível.

Respondemos que o livre-arbítrio não é indeterminismo, efeito sem causa, mas é auto-determinação, em vez de alo-determinismo. O livre-arbítrio, disse alguém, é o poder de ser causa própria. No setor do determinismo ou alo- determinismo tudo depende de uma causa ou causação alheia, externa, ao passo que na auto-determinação, ou liberdade, atua uma causa própria, interna; o ser livre é um auto-agente, e não mais um alo-agido, um auto- causante, e não mais um alo-causado. A substância do autos o libertou das circunstâncias escravizantes dos allos.

No ser livre há uma substância auto-agente, que neutraliza as circunstâncias alo-agidas. Nos seres não livres não há consciência de uma substância central auto-causante, há tão-somente circunstâncias periféricas alo-causadas.

Em vista disto, escreveu Spinoza, séculos atrás, que há no Universo uma única substância que se manifesta em muitas circunstâncias, o único UNO que se revela através de muitos VERSO UNI-VERSO. Ou, na linguagem desse grande monista cósmico, “Deus é alma do Universo, e o Universo é o corpo de Deus”. Alma corresponde a causa, uno – corpo significa efeito, verso. O Universo é um sistema de causa una que atua através de efeitos múltiplos, Essência Infinita manifestada em Existências Finitas.

Liberdade, em sentido absoluto, total, perfeito, é essa Causa Una e Única. Quando um ser finito se torna consciente da presença dessa Causa Una então este ser participa da liberdade do Ser Absoluto, e se torna livre por participação, na medida da sua consciência ou conscientização.

Podemos, pois, afirmar que tanto mais livre é um ser finito quanto mais consciente for da presença do Ser Infinito nele. A participação na liberdade do Ser Infinito por parte de um ser finito está na razão direta da consciência que esse ser finito tem da presença do Ser Infinito.

É inegável, como já dissemos alhures, que a Realidade Infinita está em todas

as Facticidades Finitas, uma vez que a Realidade Infinita é onipresente, é Presença Universal, sem nenhuma ausência parcial. Mas não é o fato objetivo da presença da Realidade Infinita que torna livre o ser finito; se assim fosse, toda a natureza infra-hominal mineral, vegetal, animal seria livre, uma vez que nela está presente a Realidade Infinita. Entretanto, o que gera a liberdade não é a presença objetiva da Realidade Infinita, mas sim a consciência subjetiva dessa presença.

O grau de liberdade é diretamente proporcional ao grau de consciência que um

ser finito tem da presença do Ser Infinito. Se esse grau de consciência for zero,

a liberdade do ser é igual a zero; se o grau de consciência for 10, a liberdade desse ser é 10; se o seu grau de consciência relativamente à presença da Realidade Infinita for 100, então a liberdade desse ser é igual a 100.

A evolução ascensional de um ser, digamos do homem, consiste, pois, essencialmente na evolução do seu consciente relativamente à presença da Realidade Infinita nele. Com outras palavras: a perfeição de um ser consiste no grau de harmonia ante o consciente finito e a Realidade Infinita. Esta harmonia entre o consciente e a Realidade também se chama “Verdade”. E é por isto que o maior sábio que a humanidade conhece disse: “Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará”.

A minha harmonia consciente entre o meu Finito e o Infinito me liberta de toda

a escravidão do alo-determinismo e me introduz na perfeita liberdade da auto-

determinação.

Libertação é, pois, a conscientização da Realidade que se chama Verdade.

A maior ou menor harmonia entre a minha consciência humana e a Realidade

cósmica determina o grau da minha liberdade é esta a Verdade que me liberta.

Ora, sendo que a Realidade cósmica é perfeita vida e saúde, a minha vida e saúde dependem do grau de harmonização consciente com a vida e saúde do Universo.

Isto é cosmoterapia.

Cosmoterapia é uma harmonização consciente entre o ánthropos e o kósmos. O UNO da perfeita vida e saúde do Universo cura o VERSO da vida e saúde imperfeitas, oriundas de uma consciência deficiente do meu ego.

O

meu ego é um VERSO imperfeito.

O

meu Eu é um UNO perfeito.

Cosmoterapia é logoterapia, é a cura do ego pelo Eu, do humano pelo divino em mim.

O meu perfeito Atman cura o meu imperfeito Aham

Se eu tiver a consciência nítida de que o meu Atman é a essência do meu Aham – que “eu e o Pai somos um, que eu estou no Pai, e o Pai está em mim”, então sou realmente liberto pela Verdade.

A IMANÊNCIA DA PSICOLOGIA E A TRANSCENDÊNCIA DA YOGA

Carl G. Jung é o campeão da mais avançada psicologia ocidental, que procura culminar numa tal ou qual psicoterapia. Superou a substrutura “id” de Freud, bem como a estrutura “ego” de Adler e iniciou uma superstrutura rumo a um “super-ego” (Eu).

Segundo Jung, há em cada ser humano certos “arquétipos” (Urbilder), imagens fundamentais que fazem parte da natureza humana, independentes do saber ou querer consciente do homem. Um desses “arquétipos” é a idéia de Deus.

Essas imagens parecem apontar para algo além do homem, algo Trans, ou Transcendente assim como a seta à beira da estrada aponta para alguma cidade distante, mas essa cidade não está presente na seta. O viajor olha para a seta, fixa a direção da ponta da flecha, que vai, digamos, rumo norte isto é “científico” – mas, se o viajante admite a realidade de uma cidade do norte, cidade que ele não vê, isto não é considerado “científico”, porque o viajante, em nosso caso, o psicólogo, só pode “cientificamente” admitir o que vê, ouve, tange, etc. E, como a cidade longínqua não é objeto de visão, audição, tato, etc., ela não pode ser admitida “cientificamente”. Na cidade ausente só pode o viajante crer, mas não a pode ver, e só esse ver é que é cientificamente admissível.

É esta, mais ou menos, a atitude da psicologia de Jung e da sua escola. Os psicólogos dizem, para ficar dentro dos limites da “ciência exata”, só podemos admitir o que está imanente na seta, e, nada do que lhe é transcendente; não podemos admitir algum objeto longínquo apontado pela seta, mas não contido na seta.

Quem admite uma realidade transcendente, dizem eles, não procede “cientificamente”, procede como um crente, um religioso, um místico, um yogui.

Graças a esta atitude, como frisa J. W. Hauer, no seu livro monumental “Der Yoga”, Jung para no conceito da psicoterapia, mas não vai até à logoterapia, como Victor Frankl. Mas, como a psicoterapia é apenas uma terapia de sintomas, e não da raiz, esse processo não contém verdadeira terapia. Imanente não cura imanente. Uma turbina ao nível dum lago não pode ser

movida pelas águas do lago, por maior que seja o volume destas águas. Falta voltagem; amperagem não resolve. Somente o desnível, uma cachoeira, por exemplo é que dá movimento.

No pretenso processo psicoterápico não há desnível entre o doente e a terapêutica, e por isto não há verdadeira cura, que supõe diferença de nível. A psicoterapia, é toda do ego, procurando agir sobre outro ego, o que é falta de desnível. Na yoga, há desnível, o ego doente é curado pelo Eu sadio.

Entre imanência e transcendência há desnível, ectropia.

Entre imanência e imanência não há desnível, há entropia.

Para o oriental, sobretudo o yogui, é espontaneamente evidente que há uma Realidade Transcendente para além das Facticidades imanentes, porque estas não teriam sentido sem aquela assim como uma seta na encruzilhada apontando para uma cidade não teria sentido se essa cidade não existisse; seria um apontante sem um apontado. Estranhamente, porém, para o ocidental parece ser “científico” admitir um apontante sem um apontado, uma agulha magnética que aponta para o pólo norte, sem que esse pólo norte exista independente da agulha.

Por que essa estranha atitude do ocidental?

Porque o ocidental é, por excelência, o homem da análise intelectual, ao passo que o oriental se guia, por via de regra, por uma intuição espiritual. O ocidental tem toda a confiança numa perfeita análise intelectual, e sente-se tomado de uma certa fobia e insegurança em face da chamada intuição espiritual.

Essa atitude do ocidental é, em grande parte, o produto de quase 2000 anos de teologia artificial, substituindo a religião natural. O cientista ocidental sente uma repugnância instintiva em face da idéia de ser tomado por um crente, em vez de um ciente. Ciência lhe parece superioridade, crença tem ares de inferioridade. As teologias, é claro, exigem crença nas suas doutrinas. A Religião, porém, não se baseia em crenças, mas sim na sapiência, isto é, na experiência e no saboreamento (sapiência) interno da própria Realidade.

A ciência é da inteligência.

A crença é da vontade.

A sapiência é da razão.

O homem religioso, que é o verdadeiro yogui, age em nome da razão, da mais alta racionalidade muito além da inteligência e da vontade.

Mas, como é uso e abuso, no ocidente, identificar teologia com Religião, o cientista recusa-se a crer e prefere inteligir, porque vê uma superioridade na ciência e uma inferioridade na crença. Se ele chegasse às alturas da Religião, que é sinônimo de yoga, veria que a sapiência ultrapassa tanto a ciência como também a crença.

Na yoga oriental não há teologia, há tão-somente Religião.

Religio, como já lembrou Santo Agostinho, no século 5, vem de religare, algo que religa o finito com o Infinito, uma ligação consciente e livre entre o homem e Deus e, neste sentido exato, coincide com a idéia de yoga, palavra sânscrita para união: pela yoga, ou religião, se une o homem a Deus.

Na filosofia oriental não existe esse instintivo pavor anti-religioso que caracteriza grande parte da psicologia ocidental, porque não há base para esse pavor, que nasce da confusão entre teologia e Religião. Yoga é Religião, e Religião é yoga.

* * *

Por conseguinte, quem apenas admite arquétipos imanentes, e não uma realidade transcendente, da qual esses arquétipos sejam reflexos espontâneos, não pode curar o homem dos seus males; pratica charlatanismo em nome da psicoterapia, mas não cura pela logoterapia, ou cosmoterapia.

Cosmoterapia supõe o contato consciente com a alma do Universo.

Quem está doente nunca é o UNO, mas tão-somente o VERSO.

Por outro lado, quem pode curar nunca é o VERSO, mas tão-somente o UNO.

No plano da simples psicoterapia imanente, o VERSO tenta curar o VERSO.

No processo da logoterapia, ou cosmoterapia, o UNO cura o VERSO.

Para que o ego doente sinta um impacto dinâmico da parte do Eu, deve haver distância (não local, mas consciente) entre o curando e o curador.

Esse desnível, essa alteridade, essa ectropia entre o ego movendo e o Eu movente, é essencialmente necessário.

Verdade é que o intelecto analítico do homem não pode falar em nome de uma Alteridade Transcendente pois todo ele é Identidade Imanente não pode agir em virtude de algo maior do que ele mesmo. Mas há no homem ultra- intelectual algo que não analisa, mas “fareja” o Transcendente. O homem que não tenha despertado em si esse “faro cósmico” não pode admitir cosmoterapia; vê a seta à beira da estrada, mas não admite a realidade da cidade apontada pela seta. Esse homem permanece no plano penúltimo da

psicoterapia,

e

nada

sabe

do

estágio

último

da

logoterapia

ou

da

cosmoterapia.

Embora o homem-ego, no plano da inteligência analítica, não possa submeter

o Transcendente a uma análise de laboratório; embora ele não possa invadir

essa zona transcendente, contudo ele pode ser invadido pelo transcendente,

suposto que seja invadível, que abra as portas para essa invasão cósmica. Se

o homem estabelecer em si um clima de invadibilidade, de receptividade, de

fides, de fidelidade e harmonia com a alma do cosmos, é certo que vai ter a

experiência do Transcendente.

“Quando o discípulo está pronto – então o Mestre aparece”

A cosmoterapia, como se vê, é muito mais uma questão de atitude de profundidade do que atos de superfície. O que decide não é este ou aquele agir transitório, mas sim um modo de ser permanente.

FRUSTRAÇÃO EXISTENCIAL GERANDO HIPERTROFIA SEXUAL

Fale-nos do sexo.

Foi este o pedido que um grupo de moças modernas fez a uma das minhas alunas do curso de Filosofia Cósmica, no Rio de Janeiro. E ela me consultou sobre se devia aceitar o pedido e o que devia dizer às interessadas.

Respondi à minha aluna, mais ou menos, o mesmo que vou expor nas linhas seguintes.

Que adianta falar sobre sexo separadamente?

Sexo é um dos aspectos biológicos do ego humano, masculino e feminino.

Mas, como se pode falar com eficiência sobre um dos derivados do ego sem ter uma noção correta desse próprio ego em si? E, além disto, como falar de um dos componentes da natureza humana sem ter noção exata do próprio composto dessa natureza?

A filosofia e a psicologia mais avançadas giram em torno desses dois pólos da

natureza humana: o ego periférico e o Eu central do homem.

Que é o homem, esse desconhecido?

O homem é uma harmonia cósmica do Eu central e dos egos periféricos, assim

como o Universo é um equilíbrio entre força centrípeta e força centrífuga, entre

a unidade da atração e a diversidade da repulsão.

Unidade com diversidade é harmonia.

Unidade sem diversidade é monotonia ou estagnação.

Diversidade sem unidade é caos ou dispersão.

Se, no Universo sideral, se hipertrofiasse um dos dois pólos, e se atrofiasse o outro pólo, deixaria de existir o cosmos; acabaria tudo ou em implosão e monotonia rumo ao centro, ou em explosão e dispersão rumo às periferias.

O Universo só existe graças a uma perfeita harmonia e equilíbrio estável entre os dois pólos complementares, da atração centrípeta e da repulsão centrífuga.

O mesmo que se dá no macrocosmo sideral acontece também no microcosmo

hominal.

O

homem que afirma unilateralmente o seu Eu à custa do seu ego, cai vítima

de

monotonia e estagnação.

O

homem que afirma unilateralmente o seu ego à custa do seu Eu, cai vítima

de

caos e dispersividade.

O

primeiro caso acontece, em parte, no oriente.

O

segundo caso está acontecendo, sobretudo agora, no ocidente, ou pelo

menos com numerosos representantes deste hemisfério.

E esse centrifuguismo diversitário do ego à custa do centripetismo unitário do

Eu está assumindo, ultimamente, proporções catastróficas na humanidade do

ocidente.

Nunca a hipertrofia do ego e a atrofia do Eu apareceu tão nitidamente como em nossos dias.

E por que está isto acontecendo agora, no ocaso do segundo milênio da era

cristã?

Até ao fim da Idade Média, século 15, quase só se havia tratado dos interesses do Eu espiritual do homem, da sua alma. “Salve a tua alma”, era o brado universal; salva o teu Eu espiritual, depois da morte, em regiões distantes e ignotas do cosmos; a vida presente não valia nada; era sofrimento e miséria, que deviam ser tolerados, com paciência, contanto que a alma se salvasse, depois da morte e em outros mundos.

A humanidade europeia era, espiritualmente, criança e a criança aceita

qualquer crença que os adultos lhe impinjam. Deus era uma realidade inegável, mas uma realidade apenas crida, distante e futura, aceita docilmente por testemunho alheio, não sabida por experiência própria.

Com a superação da infância espiritual e o despertamento da adolescência, no princípio da Renascença, século 16, o homem repudiou a crença, baseada em testemunho alheio, e tentou substituir a crença pela ciência mas, não tardou a sentir grande decepção. A ciência dá conforto ao ego, pela técnica, mas não satisfaz as necessidades mais profundas do Eu. Voltar à crença num Deus ausente e futuro impossível para os mais avançados. Permanecer no plano da simples ciência e técnica, para satisfazer as coisas do ego era insuficiente para os homens de maior profundidade.

A terceira alternativa, para além de crença e ciência, seria a sapiência, a

experiência própria da Realidade espiritual e divina mas quem é capaz dessa

sapiência? dessa experiência própria e imediata da Realidade Eterna?

E assim, o desequilíbrio continua, por enquanto. O homem perdeu o contato

com o pólo positivo do seu Eu real, e está apenas com o pólo negativo do seu ego fatual, que o deixa insatisfeito e aqui está o grande desequilíbrio, a profunda desarmonia cósmica, ou anti-cósmica.

A clerocracia medieval, que se dizia representante de Deus, morreu para

muitos.

A egocracia do homem profano de hoje não satisfaz os íntimos anseios do

homem.

A cosmocracia seria a solução, cosmocracia, harmonia e equilíbrio entre o

centrifuguismo diversitário do ego e o centripetismo unitário do Eu. Mas essa cosmocracia, esse estado de harmonia cósmica, ainda é um ideal longínquo, não é ainda uma realidade presente, para o grosso da humanidade.

O Eu medieval, desequilibrado pela hipertrofia do Eu e atrofia do ego, foi

substituído pelo ego renascentista, hipertrofiado no ego e atrofiado no Eu.

O

homem medieval cria num Deus desconhecido.

O

homem moderno rejeitou o Deus desconhecido da crença antiga e quis

descobrir um Deus conhecido pela ciência, mas não encontrou. Encontrou muitos ídolos do ego, não encontrou o ideal do Eu.

No meio desse tremendo vácuo do Eu Real, o homem moderno, neste ocaso

do segundo milênio, se agarra cada vez mais freneticamente aos ídolos do ego

ilusório sexo, dinheiro, divertimentos para se esquecer temporariamente da sua profunda desarmonia interior. Recorre a todas as camuflagens, a todos os narcóticos, a todos os analgésicos e anestésicos, a toda a espécie de charlatanismos, para não sentir o seu doloroso desequilíbrio, a sua profunda desarmonia interior.

O que é essa fulminante sexomania e sexolatria da juventude de hoje senão

uma tentativa desesperada de narcotizar a sua profunda infelicidade com uma

ilusão de felicidade? Quem nunca experimentou a mística do espírito afoga-se

na erótica da carne, para ao menos se esquecer, durante umas horas, ou uma

noite de orgias sexuais, da sua frustração espiritual. Procura fugir do inferno

real da sua frustração espiritual mediante um céu ilusório de realização sexual.

E os estímulos têm de ser cada vez mais violentos para poderem fazer

esquecer, por umas horas ao menos, a profunda infelicidade da sua frustração existencial.

E essa alternativa entre gozo e nojo se acentua cada vez mais: quanto mais o

homem goza tanto mais se embota a sua possibilidade de gozar; o próprio gozo diminui a gozabilidade; e, quando a gozabilidade baixa a zero, quando o

homem já gozou tudo, e nada mais resta para gozar, porque a sua capacidade

de gozar baixou a zero então esse infeliz gozador está maduro para o hospício, para o hospital, para o cemitério, para o suicídio, ou então para um inferno em plena vida.

E tudo isto como consequência de um desequilíbrio entre os dois pólos da

natureza humana, como uma hipertrofia do ego periférico e uma atrofia do Eu central.

Mas o homem não quer reconhecer que a cura estaria num reequilibramento, numa corajosa, sincera e honesta reharmonização entre o seu ego humano e o seu Eu divino. O homem continua a adorar os objetivos da vida do ego, e continua a não se interessar pela razão-se-ser da sua existência real, do seu Eu central.

E, quando se fala ao homem dessa razão-de-ser da sua existência, ele grita e

protesta e pensa que o queiramos levar ao outro extremo, à hipertrofia unilateral do seu centro divino Eu, substituindo-o pela querida hipertrofia do seu ego periférico.

O homem profano do ego unilateral, quando ouve falar da necessidade do Eu

cósmico, universificado, universalizado, nada compreende; pensa que lhe queiramos tirar as coisas boas e queridas do ego, e substituí-las pelas coisas, para ele desconhecidas, do Eu. Como ele só conhece as suas profanidades, suspeita que esses ídolos da sua vida devam tombar dos seus pedestais, para ceder lugar ao Deus desconhecido (e temido) do Eu místico. Receia trocar o seu querido caos profano pela monotonia sagrada e ele prefere o seu caos, embora doloroso, à monotonia.

Nós, porém, não somos advogados nem do caos nem da monotonia.

Somos defensores da harmonia cósmica, equidistante desta e daquele.

Nada queremos saber de substituição, nem mesmo de simples justaposição queremos realizar a grande síntese, o perfeito equilíbrio, a maravilhosa harmonia hominal, a grandiosa complementaridade entre todas as forças e faculdades do homem integral.

Não queremos um corpo sem alma, que seria cadáver.

Não queremos uma alma sem corpo, que seria fantasma.

Queremos o homem real e integral, cuja alma vivifique o corpo, e cujo corpo seja a manifestação visível da alma invisível.

Na juventude, o homem e a mulher se interessam principalmente pelas coisas do sexo, que muitos chamam amor.

Na idade adulta, o homem se interessa pelo sexo e pelo dinheiro.

E durante a vida inteira, juventude e adultez, o homem quer divertimentos.

Sexo, dinheiro e divertimentos, essa trindade do ego, que não é má em si torna-se má quando o homem estabelece desequilíbrio entre estes ídolos do ego e os ideais do Eu, quando faz desses três objetivos da vida uma razão-de- ser da sua existência humana, quando hipertrofia, sexo, dinheiro ou divertimentos, e atrofia a realidade central do seu Eu superior.

O homem profano do ego abusa de sexo, dinheiro e divertimentos, e isto é idolatria.

O homem místico recusa tudo isto.

Mas o homem cósmico não abusa nem recusa, mas usa de tudo isto, em perfeita harmonia e equilíbrio com o seu Eu central.

Abusar é proibido, recusar é permitido, usar é recomendado.

Quando substituirá o homem o charlatanismo de hoje pela cura de amanhã?

Quando o seu Eu central, que ainda está dormindo, estiver tão acordado como está hoje o seu ego periférico. Quando o Eu se tornar tão consciente como o ego já é consciente.

Não há nenhuma necessidade de reduzir o ego à inconsciência; convém mesmo tornar o ego cada vez mais egoconsciente contanto que o Eu também se torne tão consciente como o ego. Só assim haverá perfeito equilíbrio e harmonia dentro da natureza humana.

E esta harmonia cósmica é a verdadeira e permanente felicidade do homem.

FANATISMO OCIDENTAL INDIFERENÇA ORIENTAL ENTUSIASMO UNIVERSAL

Nenhum país tem tantas seitas religiosas como a Índia e, no entanto, todas elas convivem pacificamente, em perfeita tolerância e harmonia. Ninguém faz proselitismo, ninguém tenta converter outro à sua religião.

No ocidente, sobretudo nos Estados Unidos, há centenas de seitas cristãs e seitas não cristãs e quase todas vivem hostilizando umas às outras, porque cada uma se considera como possuidora única da Verdade e julga seu dever de consciência converter os adeptos de outro credo. Cruzadas, inquisições, excomunhões, guerras de religião marcam a estrada do Cristianismo teológico

e seus similares há quase 2000 anos.

Donde esta diferença?

A razão última e mais profunda está no seguinte: o genuíno oriental não toma a

serio a personalidade do ego humano, que é para ele o que o seu nome diz, “persona”, isto é, “máscara”; como, aliás, não toma a sério nenhum fenômeno

externo, objetivo, que lhe é maya ou ilusão. O oriental considera todas as facticidades, pessoais ou impessoais, como meras manifestações temporárias

e transitórias da suprema e única Realidade, como luzes multicores emanadas

da única Luz Incolor, ou, servindo-nos da linguagem da nossa Filosofia Univérsica, considera todo o mundo objetivo como o VERSO ilusório projetado pelo UNO verdadeiro do UNIVERSO.

O ocidental, em geral, dá grande importância à persona e aos fatos objetivos, porque não tem experiência da individualidade humana e da Realidade Cósmica; vive mais nas periferias do ego do que no centro do Eu, e por esta razão a personalidade do ego lhe parece ser a única e suprema Realidade, que

a consciência manda defender a todo o custo. Isto torna o ocidental intolerante, sectário e fanático, por motivos de consciência, da sua pseudo ou ego- consciência, que ele confunde com a verdadeira consciência do Eu.

Indiferença oriental?

Fanatismo ocidental?

Que é preferível?

Há uma terceira alternativa, equidistante da indiferença e do fanatismo: é o entusiasmo. En (em) e theós (Deus) deram origem à palavra “entusiasmo”, que quer dizer literalmente “em Deus”. Quem sente Deus em si ou se sente em Deus é um entusiasta. O radical de fanatismo é fantasma; o radical de entusiasmo é Deus. O fanático defende um fantasma irreal, o entusiasta professa um Deus real.

O

fanático corre atrás de fantasmas.

O

entusiasta adora a Deus.

Quando o entusiasta enxerga o Deus do mundo sem o mundo de Deus, é ele um místico mas, quando enxerga o Deus do mundo em todos os mundos de Deus, passa a ser um entusiasta cósmico.

Por via de regra, o ocidental é um profano, por vezes fanático.

O oriental é, não raro, um entusiasta místico.

Mas o homem universal é um entusiasta cósmico, que tanto pode ser oriental como ocidental.

O homem cósmico pode amar sinceramente as coisas do mundo por amor a Deus. A sua física é muito mais bela que a dos profanos, porque está baseada na metafísica. Física baseada em simples física, cedo ou tarde acaba em fastio, como todo o círculo vicioso; física, quando baseada em metafísica, é permanentemente gostosa, e não enjoa nunca.

O homem que vê o Deus do mundo em todos os mundos de Deus, proclama

com grande entusiasmo as suas convicções espirituais, que cada dia lhe revelam novos encantos mas não as impinge a ninguém. Se alguém se converte, não é pelo que alguém diz ou faz, mas por amor daquilo que ele é; não se sente impelido por algo, mas atraído por alguém. O homem cósmico alegra-se sinceramente quando outros seguem o mesmo caminho e o acompanham nessa comunhão dos santos, irmãos anônimos da Fraternidade Branca a que ele pertence, sem legenda nem bandeira.

O homem cósmico, embora tenha o seu altar predileto em algum recanto da grande catedral de Deus, não leva a mal que outros também tenham o seu altarzinho individual com sua devoção pessoal, dentro do mesmo templo da Divindade. Ele é essencialmente inclusivista, e nada exclusivista, porque sabe que todo o VERSO é uma emanação do único UNO.

Quando eu vou ao norte, e vejo alguém demandar o sul, pode-se parecer ele meu adversário, pois que vai rumo adverso ao meu. Mas, quando passo da perspectiva unilateral para uma visão onilateral, verifico que todos os viajores de norte a sul, de leste a oeste, e vice-versa demandam o mesmo e único

centro que eu demando, porque todas essas existências finitas vão rumo à Essência Infinita, rumo ao único UNO central.

O homem cósmico sabe que não há dois indivíduos humanos iguais, porque a Natureza não faz cópias, crea tão-somente originais inéditos. E, como cada indivíduo por ser indiviso e indivisível é único e irrepetível, cada um tem a sua experiência individual e irreversível, e deve seguir o seu caminho individual, rumo à Meta Universal. Mas todos os caminhos do VERSO, quando sinceramente seguidos, convergem infalivelmente no mesmo UNO, que é a Fonte única dos canais múltiplos.

Por isto, pode o homem de visão cosmorâmica saudar entusiasticamente todos os seus companheiros de jornada, quer sigam o caminho dele, quer sigam o caminho deles, uma vez que todos os caminhos convergem na mesma meta, que é a minha meta e é a meta deles.

O homem cósmico não é um fanático nem é um indiferente é um sincero entusiasta; pode amar realmente todas as creaturas de Deus, porque ama o Creador de todas as creaturas.

Quem encontrou Deus em si mesmo encontra-o por toda a parte, tanto nos outros homens como também em todas as coisas da Natureza.

Esse homem realizou:

a mística de Deus,

pela ética dos homens,

na estética da Natureza.

“QUEM NÃO RENUNCIAR A TUDO NÃO PODE SER MEU DISCÍPULO”

De acordo com estas palavras do Cristo, escreveu um dos grandes heróis do século 20, Albert Schweitzer: “Não há heróis da ação – há tão-somente heróis

da renúncia e do sofrimento”.

E isto disse Schweitzer depois de ter prestado, por quase meio século, serviços gratuitos e desinteressados à parte mais infeliz da humanidade, aos negros primitivos da África Equatorial, no pior clima do mundo, no meio duma população boçal, incapaz de aquilatar a grandeza de seu benfeitor.

“Não há heróis da ação” – ninguém é grande pelo que faz.

O “fazer algo” ainda é compatível com a pequenez e mesquinhez do ego

humano – somente o “ser alguém” entra na zona da divina grandeza do homem.

O “fazer algo” ou “ter algo”, quando não nascido do “ser alguém”, obstrui os

caminhos da grandeza do auto-conhecimento e da auto-realização.

“Quem não renunciar a tudo que tem

Esse “ter algo” do divino Mestre não se refere, em primeira linha, a bens materiais, mas sim aos bens mentais e emocionais, que são os grandes males do homem-ego, e aos quais muitos não conseguem renunciar, mesmo depois de terem renunciado aos bens materiais.

Renunciar às suas posses mentais e emocionais é mil vezes mais difícil, e mais importante, do que abandonar as posses materiais. Renunciar a todo e qualquer apego mental, ofendismo emocional, ódios, rancores, ressentimentos, antipatias, animosidades, intrigas, maledicências e malevolências isto é indispensável para abrir o caminho rumo a Deus e ao Eu divino no homem.

Sobre o desapego dos bens materiais e o apego aos bens mentais e emocionais, escreveu Paulo de Tarso uma das suas páginas mais estupendas, aos cristãos do primeiro século:

“Se eu distribuísse aos pobres todos os meus haveres, mas não tivesse amor,

O amor não é ciumento, o amor não é orgulhoso, o

de nada me serviria isto

amor não é rancoroso; o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta – o amor não acaba jamais”.

Quem não renunciou às suas posses mentais e emocionais ódio, rancores, amarguras, ofendismos crônicos e ofendites agudas esse não tem amor, porque não renunciou à posse principal, embora tenha renunciado às suas posses secundárias, de caráter material e está longe de ser discípulo do Cristo, porque não foi liberto pela experiência da verdade sobre o seu Eu real. Pode ser um bom escravo, mas não entrou ainda na “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”.

“Não há heróis da ação – há tão-somente heróis da renúncia e do sofrimento”.

Mahatma Gandhi, de acordo com Schweitzer, com Paulo de Tarso, e com o próprio Cristo, se libertara não só dos ídolos materiais, mas também de toda a idolatria mental e emocional, de ofendismos e ofendites de toda a espécie. Quando, pelo fim da vida, foi perguntado se perdoara todas as ofensas que de seus inimigos recebera, respondeu que nada tinha que perdoar, porque nunca fora ofendido.

O ego vicioso, quando ofendido, se vinga, de acordo com a lei do talião: olho

por olho, dente por dente; o ego virtuoso perdoa generosamente, de acordo com as nossas teologias cristãs; mas o Eu crístico nada sabe de ofensas, é absolutamente inofendível, porque é incontaminável como a “luz do mundo”, que ele é conscientemente, e de acordo com o qual age eticamente. Não se vinga nem perdoa, porque nada sabe de ofensa, ou ofendibilidade entrou na zona da libertação total.

No momento em que Gandhi recebeu as três balas mortíferas do seu assassino, saudou ele o criminoso com a costumada saudação hindu “namastê” (o Deus em mim saúda o Deus em ti). Isto é renúncia total. É deveras estranho escreve um autor moderno que o melhor cristão do século 20 tenha sido um pagão.

Quem quer bem a 99 creaturas de Deus e tem ódio a 1 creatura, esse é inimigo de Deus e não é discípulo do Cristo. É um egoísta disfarçado, que vive a vida inteira se iludindo com aparências de espiritualidade. É ainda um homem ego- vivente, e não um Cristo-vivido, e não pode afirmar com Paulo “já não sou eu que vivo, é o Cristo que vive em mim”.

No meu livro “De Alma para Alma” encontra o leitor um capítulo intitulado “Heróis de Papelão”. Heróis de papelão e de palha são todos os heróis de ação que não querem praticar o heroísmo da renúncia e do sofrimento, porque adoram e idolatram a sua própria atividade heroica; deliciam-se com louvores e elogios, aplausos e admiração.

O ego virtuoso é um herói de ação um pseudo-herói.

O Eu da sabedoria é um herói verdadeiro, porque é herói da renúncia.

Há milhões de cristãos há pouquíssimos homens crísticos.

Quem não passou pelo terremoto, pela tempestade e pelo incêndio do Pentecostes, não foi ainda batizado com o fogo do Espírito Santo, e não é ainda discípulo do Cristo, porque não renunciou às idolatrias do seu velho ego, embora tenha dourado com virtuosidade as grandes férreas da sua antiga viciosidade. Os grandes mestres não querem discípulos que sejam escravos, maus nem bons, nem viciosos nem virtuosos querem discípulos plenamente libertos pelo conhecimento da verdade.

Não é possível ser alguém no Cristo e ao mesmo tempo ter algo, no Anti- Cristo, porque a luz não admite trevas. Possivelmente, um discípulo do Cristo pode ter posses materiais mas ninguém pode ter posses mentais e emocionais anticrísticos. Muitos saúdam o Mestre com um ósculo “salve mestre”, com um ósculo de traição – cristãos anticrísticos.

Quem não se libertou pela renúncia é um pseudo-herói mesquinho.

Quem não trabalha intensamente e renuncia a cada passo aos frutos do seu trabalho esse não é herói.

Só quem pode dizer: fizemos tudo que devíamos fazer, e somos servos inúteis esse é herói, porque renunciou ao próprio apego à ação, e é plenamente liberto.

“Há somente heróis da renúncia e do sofrimento”

OS QUATRO ESTADOS DA CONSCIÊNCIA

Há quatro estados de consciência: o estado de sono nem sonhos, o estado de sono com sonhos, o estado de sonhos sem sono, e o estado de vigília, sem sono nem sonhos.

Sendo que o homem comum do nosso tempo vive no terceiro estado, de sonhos sem sono, passemos a tratar mais explicitamente deste estado.

Em que consiste esse estado de sonhos sem sono?

Consiste, como aliás todo o sonho, na confusão entre o real e o irreal.

No estado de sonho, por exemplo, você ganhou a sorte grande na loteria. Você é milionário, bilionário, e intensamente feliz, enquanto permanece nesse estado; ou você morreu de um acidente, e está morto, enquanto não sair desse estado, em que o irreal é real. No estado de sonho, você é realmente milionário, ou realmente morto, embora essa realidade seja algo relativo; você nada sabe dessa relatividade da realidade. Isto é realissimamente real para você enquanto permanece no estado de sonho.

Fato análogo se dá também no estado de sonho sem sono, estado em que todo homem físico-mental se encontra diariamente, quando se diz acordado. Esta vigília é algo muito relativo; ele não está plenamente vígil, acordado, porque os sentidos e a mente o mantém nesse estado de semi-dormência e semi-vigília, em que o homem sonha sem o sono físico, mas em outro estado de sono ou semi-sono.

Nesse estado físico-mental, o homem considera real o que não é real, pelo menos não pleni-real, mas apenas realizado, isto é, um reflexo do real, como uma imagem no espelho bi-dimensional de tempo e espaço. Este homem, por exemplo, tem num Banco muitos milhões ou bilhões de cruzeiros, que ele tem realmente nesse estado de sonho físico-mental, criado e mantido pelos sentidos e pela mente. O dinheiro é a síntese condensada de todas as coisas que o homem considera reais no mundo das quantidades objetivas: casas, terrenos, fábricas, prestígio social e político, etc.; tudo é baseado na presença do dinheiro, que funciona como uma espécie de valor universal e simboliza todas as coisas da terra.

Outrora, antes da invenção do dinheiro, funcionava o comércio de permuta:

fulano trocava um saco de arroz com sicrano, que lhe dava o equivalente num

saco de feijão. Hoje, em vez da mercadoria, o vendedor recebe do comprador um pedacinho de papel estampado na Casa da Moeda, e que simboliza nominalmente, não apenas um saco de feijão ou de arroz, mas simboliza literalmente todo e qualquer objeto material um único símbolo equivale a milhares e milhões de simbolizados. E os números impressos no símbolo representam o número de simbolizados que o homem pode adquirir com esse farrapo de papel, que é sempre o mesmo.

Esse valor do dinheiro é meramente simbólico, fictício, convencional, porque não há nenhum valor real num objeto, nem pode haver valor num objeto

quantitativo, porque valor e realidade são sinônimos, atributos que não inerem

a nenhum objeto, a nenhuma quantidade. Valor, realidade, são atributos da qualidade, e não da quantidade.

O

valor é a realidade, que é qualidade.

O

valor não é uma facticidade, que é apenas quantidade.

Surge agora a magna pergunta: que é que o homem comum considera valioso,

real?

Segundo tradição multimilenar, impera na humanidade a convicção ou convenção tácita de que reais são os objetos materiais, as quantidades. E, como o homem comum nada sabe da realidade, considera as facticidades dos sentidos e da mente como sendo a própria realidade. Neste qui-pro-quo passa

a ego-personalidade toda a sua vida terrestre, numa permanente e inconsciente ilusão.

E é precisamente aqui que começa a grande bifurcação dos caminhos entre o

profano e o iniciado, entre “o de fora” e o “o de dentro”, entre o ilusionista e o realista.

O homem comum, o homem-ego, considera solidamente reais os objetos dos

sentidos e da mente, que ele chama a “realidade”, ao passo que o homem

iniciado, o homem que superou esse estado de sonho físico-mental, e entrou

na grande vigília, esse homem sabe que os objetos não são reais, auto-reais,

embora sejam realizados, alo-reais. Real é, para o iniciado o homem pleni-vígil, tão-somente a qualidade, não sujeita às categorias de tempo e espaço. A realidade não tem princípio nem fim, é permanente, eterna ao passo que as facticidades dependem de tempo e espaço têm princípio e terão fim.

Quando o divino Mestre disse “que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se sofrer prejuízo em sua própria alma?”, frisou ele essa diferença entre as facticidades ilusórias (“o mundo inteiro”) e a realidade verdadeira (“a alma”).

As facticidades quantitativas são como outros tantos zeros: 000 000, ao passo

que a realidade qualitativa é comparável a “1”; o “1” pode valorizar os “000

000”, mas estes não se podem auto-valorizar: 1 000 000. Neste sentido, disse Einstein “Do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores”. Poderia ter acrescentado: mas do mundo dos valores conduz um caminho para o mundo dos fatos. O valor pode valorizar o fato, assim como o “1” pode valorizar os “000”. A plenitude pode plenificar a vacuidade, mas a vacuidade não pode plenificar a plenitude. A qualidade pode qualificar as quantidades; o real pode realizar o irreal mas não vice-versa.

O homem coleciona milhões e bilhões de facticidades quantitativas, objetos, que ele considera reais e valiosos, enquanto permanecer nesse estado de sonhador de sonhos e caçador de sombras; e ninguém o convencerá da sua ilusão. Compreensão da verdade supõe distanciação, superação desse nível horizontal, supõe a entrada numa nova dimensão de consciência. O sonhador que sonha os seus sonhos, está convencido da sua realidade; enquanto não despertar para a vigília, é vítima da sua ilusão.

Muitos acham que com a morte física, esse sonhador de sonhos desperta para a vigília e visão da realidade, o que, todavia, não é verdade. Morrer não é evigilar, não é despertar da velha ilusão físico-mental. Perder a matéria do corpo não equivale a superar o materialismo mental. Há homens que morrem e continuam escravos do materialismo, que está antes na mente do que na matéria, e a morte não os priva da mente e do seu mentalismo materialista. Esses homens, sem matéria, porém materialistas, se sentirão como peixe fora da água, num ambiente sem matéria, e farão o possível para regressar à sua querida matéria, ao seu céu material; a sua mente materialista descobrirá meios e modos para se rematerializar e recomeça então um novo céu material, que é o seu inferno terrestre. Pode ser que este círculo vicioso desmaterialização-rematerialização prossiga por séculos e milênios, sem nenhum melhoramento. O que escraviza o homem sem corpo físico na sua ilusão não são, propriamente, as facticidades materiais, que ele já perdeu, mas sim a mentalidade materialista, que ele ainda conserva. E, se há tal coisa como rematerialização do homem desmaterializado, só pode acontecer em virtude dessa mentalidade materialista, que tenta reentrar na deliciosa matéria, como peixe fora da água procura reentrar na água. E esse materialismo mental, rematerializado, vive mais uns decênios nesse seu céu material graças a seu inferno mental. É possível que esse círculo vicioso se repita indefinidamente, no mesmo plano horizontal, sem nenhuma verticalização ascensional, que não vem de fatos repetidos, mas poderia vir do impacto do livre-arbítrio.

Mas, para o homem que perdeu a matéria do seu corpo e também o materialismo da sua mente não há mais realidade alguma nem valor algum na matéria, que se nadificou e nulificou irrevogavelmente. Para a Verdade a inverdade não subsiste, assim como para a luz a treva é irreal.

Quando o sonhador de sonhos emerge da zona ilusória dos seus sonhos físico- mentais, e entra na zona verdadeira da vigília espiritual, então, pela primeira vez, adquire ele critério seguro sobre o mundo dos sonhos e do sono, porque compreensão supõe “visão do alto”, distanciação verticalizada, alteridade ectrópica entre o cognoscente e o cognoscido, entre o sujeito faciente e o objeto feito.

Quando a plenitude do Todo atua sobre a vacuidade do Nada então aparece o Algo.

A Essência, atuando sobre a Inexistência, produz a Existência.

A Infinita Realidade, atuando sobre a Infinita Irrealidade, faz nascer as Facticidades Finitas.

O “0”, deixado a si mesmo, é eternamente “0”; não existe operação alguma que

possa fazer do Nada um Algo.

O “1” representa Infinita qualidade em si mesmo, mesmo sem nenhum “0”.

Mas, colocando o “0” do lado direito do “1”, esta Infinita qualidade gera quantidades finitas: 1 000 000 000.

Verso sem Uno é Zero.

Uno sem Verso é Infinito.

Uno-Verso é o Infinito do Uno que se esparrama, verte, através do Verso, em Universo.

para compreender esta Metafísica Matemática, deve o homem achar-se

em estado de plena vigília, capaz de permeiar e valorizar todos os sonhos e todos os sonos assim como o UNO permeia e valoriza todos os VERSOS,

perfazendo a estupenda harmonia do UNIVERSO.

Mas

A MORTE NÃO NOS FAZ O QUE A VIDA NÃO NOS FEZ

É opinião quase geral que basta morrer para saber o que é Deus.

Após o enforcamento de Adolf Eichmann, em Tel-Aviv, disse o reverendo que em vão tentara convertê-lo: “Agora Eichmann já sabe o que é Deus”.

Entretanto, a simples perda do corpo material não torna ninguém sábio, não faz ninguém melhor ou pior do que foi durante a sua vida terrestre. O estado de um defunto permanece o mesmo, após-morte, que foi em vida.

O que modifica o homem não é a morte, nem mesmo a vida como tal, mas sim

uma nova vivência, um outro modo de ser e de agir, nascido da experiência íntima da verdade sobre Deus e sobre o próprio homem.

Quem não morreu espontaneamente antes de ser morto compulsoriamente, perde o seu tempo. Disto sabiam e sabem os grandes mestres da vida.

O Cristo diz: “Se o grão de trigo não morrer, ficará estéril mas, se morrer, produzirá muito fruto”.

E Paulo de Tarso escreve: “Eu morro todos os dias – e é por isto que vivo; mas

já não sou eu que vivo, o Cristo vive em mim”.

Quem não teve a coragem de morrer decentemente não pode ter a esperança de viver gloriosamente, nem aquém nem além-túmulo.

Há quem confie em “guias” invisíveis que o orientem nas veredas escuras da vida terrestre e extra-terrestre. Mas quem nos dará a certeza de que esses “guias” possuam a necessária sabedoria para nos conduzirem com acerto nos caminhos da existência? E como pode o homem confiar nas palavras dessas entidades anônimas? Quem me garante que o “guia” que se me apresenta seja Tomé, Paulo, Agostinho, ou até o próprio Cristo?

Nos sagrados Evangelhos não encontramos uma única palavra do divino Mestre que nos aconselhe a nos entregarmos a um guia espiritual. O único espírito que Jesus conhece é o “espírito do Pai”, o “espírito da verdade”. E ele insiste: “Não chameis ninguém, sobre a face da terra, vosso pai, vosso mestre, vosso guia porque um só é o vosso pai, o vosso mestre, o vosso guia, o Cristo”.

E ainda: “Ninguém vai ao Pai a não ser por mim

todos os dias, até à consumação dos séculos”

e a vida; quem me segue não anda em trevas, mas tem a luz da vida”.

Eis que estou convosco

“Eu sou o caminho, a verdade

O mundo está repleto de espiritualismos mas é pobre em espiritualidade. A verdadeira espiritualidade nasce duma profunda revelação interior, duma radical “transmentalização” (metánoia), como diz o Evangelho; o homem-ego tem de transcender a sua mentalidade habitual e entrar numa nova dimensão do homem-Eu, da “nova creatura em Cristo”.

Esta metánoia é a morte do “homem-velho” e o nascimento do “homem-novo”, em espírito e em verdade. Este processo morte-vida é belamente simbolizado pelo ritual do mergulho (baptisma), representando a morte do velho homem- ego (imersão na água) e o nascimento do novo homem-Eu (emersão).

Se essa transmentalização ou conversão do homem interior não tiver ocorrido, nenhum batismo externo o pode salvar.

O que de fora acontece ao homem não o torna puro nem impuro, não o faz bom nem mau somente o que de dentro acontece ao homem, isto sim o torna puro ou impuro, bom ou mau.

Em última análise, é o uso ou abuso do livre-arbítrio que abre ao homem as portas do céu ou do inferno.

AS HERÓICAS PALHAÇADAS DE UM ESQUILO

No Jardim Zoológico de X vivia um esquilo.

Estava preso numa gaiola redonda que girava em torno de um eixo.

Quando o esquilo corria, a gaiola rodava, rodava, rodava. E quanto mais corria, mais rodava a gaiola.

E o esquilo corria, de manhã até à noite.

Ao anoitecer de um dia, tive esta conversa com o esquilo:

Estás cansado?

Estou, sim. Hoje corri uns 10 km; há dias em que corro até 15 km.

Há quanto tempo estás correndo assim?

Creio que vai fazer uns 5 anos que estou aqui, correndo sempre, sempre Imagina quantos quilômetros corri nesses anos!

Vou fazer o cálculo: 5 vezes 365 dias dá 1.825 dias. Quantas horas corres por dia?

Corro, na média, umas 10 horas por dia.

Dá 18.250 horas em cinco anos. Se, na média, correste 10 km por dia, perfaz 182.500 km em 5 anos.

Puxa vida! que formidável corredor sou eu!

Mas, sabes, meu esquilo, que não saíste do lugar?

Como não? estou a uma distância de

182.500 km.

de

como disseste?

Estou a uma distância de 182.500 km do lugar onde estava 5 anos atrás.

Estás muito enganado, amigo esquilo

Como?

Estás ainda no mesmo ponto zero, onde estavas 5 anos atrás.

Não compreendo

É que sempre te moves em círculo, voltando sempre ao ponto de partida Num interminável círculo vicioso, como diriam os homens.

O esquilo me olhou, incrédulo.

De repente, não vi mais esquilo algum. Na gaiola estava um ser humano muito parecido comigo.

Essa creatura humana havia corrido pela gaiola redonda da terra, não 5 anos, mas 50 anos. E não saíra do lugar.

Esse esquilo humano, na gaiola da vida terrestre, trabalhava 10 a 15 horas por dia, durante 6 dias na semana; por vezes até aos domingos. Havia construído coisas estupendas sobre a face da terra. Tinha no cofre forte e nos Bancos montões de papéis estampados na Casa da Moeda. Havia também criado filhos, viajado muito, gozado a vida. Era um “homem realizado” no plano material e social.

Mas

valores das qualidades. Não criara nenhum valor, só descobrira fatos.

não saíra do lugar, porque confundia os fatos das quantidades com os

No fim de meio século de correrias, estava ainda no marco zero, porque andara em círculo, voltando sempre ao ponto de partida, como fazem todos os ego- esquilos na gaiola rodante da vida terrestre.

Mas, como esses esquilos humanos ignoram a sua triste palhaçada, considerando riqueza a sua pobreza, não se sentem frustrados. Ou, quando suspeitam a sua vacuidade e seu desatino, abafam a sua infelicidade com entorpecentes e ruidosos divertimentos e continuam a correr, a correr, na sua gaiola rodante, sem saírem do lugar

Um desses ego-esquilos, quando compreendeu a palhaçada da sua frenética lufa-lufa circular, resolveu não correr mais na gaiola da sua vida. Parou e se manteve passivo e imóvel sobre o eixo da sua gaiola parada. Olhou para mim com um olhar interrogativo e quase triunfante, como se dissesse: “Então? devo não correr em vez de correr?”

Eu, porém, meneei a cabeça, desaprovando a sua imobilidade, e apontei com o dedo para fora da gaiola, em linha reta, rumo ao Infinito. O esquilo olhou através das grades da sua gaiola, viu o céu azul ao longe, deu um suspiro e continuou preso no seu velho cárcere.

Só conheço dois tipos de esquilos humanos: uns querem correr, num interminável círculo vicioso e estes habitam, de preferência, as plagas do hemisfério ocidental; outros compreenderam a insensatez desse círculo vicioso

e resolveram ficar parados e estes são assaz numerosos no hemisfério oriental.

Mas onde estão os da terceira classe? os que não correm nem param na gaiola? os que saíram da prisão e vivem lá fora, na “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”?

O MAGNETISMO DA REALIDADE ESPIRITUAL

(Mestre Mahasaya fala a Paul Brunton sobre Ramakrishna)

Em Calcutá, um companheiro meu de trem me falava com reverência de seu mestre espiritual, que era um dos poucos discípulos de Ramakrishna ainda sobreviventes. Esse mestre tinha quase 80 anos de idade; não vivia na solidão, mas no coração de Calcutá, no quarteirão hindu da cidade. Pedi a meu companheiro o endereço de seu mestre, e ele mo deu de boa vontade, acrescentando: “Para apresentação não precisa de nada senão manifestar o desejo de o conhecer.”

Em Calcutá, me ponho à procura de Mahasaya, o idoso discípulo de Ramakrishna. Atravesso um pátio aberto e encontro-me ao pé duma escadaria de pedra de uma casa velha. Subo por uma escada escura e entro por uma porta aberta do andar superior. Acho-me numa pequena sala, que dá para um terraço plano da casa. Sofás baixos correm por dois lados da sala; além disso, somente uma lâmpada e uma ruma de livros.

Aparece um jovem e me pede que espere pelo Mestre, que se encontra num dos andares inferiores.

Passados uns 10 minutos, ouço que alguém vem subindo pela escada e subitamente sinto que o homem lá embaixo dirige sobre mim os seus pensamentos. Aparece então o que vinha subindo vagarosamente os degraus. Ao entrar, ninguém me precisa dizer quem é esse homem. Um dos venerandos patriarcas do Antigo Testamento da Bíblia parece ter assumido forma visível. Esse homem, de cabeça calva, longa barba branca, semblante sério, grandes olhos pensativos, com os ombros curvados ao peso dos anos só pode ser o sábio Mahasaya em pessoa.

Senta-se sobre um dos sofás e olha para mim em silêncio.

A sua atitude serena e calma afugenta de mim, subitamente, toda a vontade de zombar, rir ou gracejar, todos os cinismos e dúvidas sombrias que, por vezes, me acometem. Qualquer pessoa pode ler nesse homem que é do mais nobre caráter e ama a Deus.

Benvindo aqui diz-me ele em excelente inglês.

Convida-me a me aproximar e sentar-me ao lado dele, no sofá. Segura minha mão longamente na sua. Faço-lhe a minha apresentação e digo-lhe o que me traz aqui. Depois de terminar, ele me aperta de novo a mão amigavelmente, e diz:

Um poder superior o conduziu para a Índia, à presença dos santos da nossa terra. Tudo isso tem um sentido mais profundo, que o futuro lhe revelará. Aguarde com paciência.

Queira dizer-me algo sobre Ramakrishna é o meu pedido.

Dele lhe falarei com o maior prazer. Faz quase meio século que Ramakrishna

nos deixou, mas a lembrança dele nunca me deixa. Eu tinha 27 anos quando cheguei a conhecê-lo, e durante os últimos cinco anos da sua vida estive sempre perto dele. Tornei-me outro homem, graças à influência do divino Ramakrishna. Todos os que dele se aproximavam sentiam-se empolgados pelo fascínio espiritual dele; ele como que os enfeitiçava e os prendia a si. Mesmo homens mundanos, que tinham vindo para zombar dele, emudeciam na presença de Ramakrishna.

Como podem tais homens sentir reverência pelas coisas espirituais, em que não crêem? perguntei.

Nos cantos dos lábios de Mahasaya houve um tênue sorriso.

Dois homens comem pimenta malagueta replicou ele. Um deles não conhece o nome desse condimento, talvez nunca o tenha visto; o outro sabe o que é. Será que o sabor não é o mesmo para os dois? não será que a pimenta arderá na língua de ambos? Do mesmo modo, o desconhecimento da grandeza espiritual de Ramakrishna não impedia os mundanos de “saborearem” o espírito que dele irradiava.

Era ele na verdade um super-homem espiritual?

Sim, e, ao meu ver, mais do que isto: Ramakrishna era, no fundo, um homem

simples, sem cultura e sem instrução, tão simples que nem sabia escrever o seu próprio nome, muito menos uma carta. O seu exterior era singelo, mais singela ainda era a sua vida; e, no entanto, era seguido pelos homens mais cultos e inteligentes da sua época; curvavam-se diante do seu poderoso espírito, que era tão forte que a gente o sentia sempre. Dizia-nos que orgulho,

riqueza, glória e sucesso são coisas vãs e transitórias, em face da realidade espiritual. Muitas vezes mergulhava num estado de êxtase, que era tão sagrado que nós, que o rodeávamos, tínhamos a sensação de que Ramakrishna era mais Deus que homem. Possuía a faculdade rara de pôr os seus discípulos no mesmo estado, com um simples toque da mão; e durante esse estado de samadhi eram eles capazes de compreender imediatamente os mistérios da Divindade. Deixe-me contar o que ele fez de nós.

Eu tinha sido educado segundo os ditames do mundo profano. O meu cérebro

estava repleto do orgulho da ciência. Em diversos colégios de Calcutá, em tempos vários, ocupava eu as cátedras de literatura inglesa, de história e de ciências econômicas. Ramakrishna vivia, nesse tempo, no templo de Dakshineswar, algumas milhas de Calcutá, rio acima. Foi ali que o encontrei na inesquecível manhã duma primavera a falar das suas experiências internas, em linguagem muito simples. Fiz uma ligeira tentativa de discutir com ele; mas a sua santa personalidade me amarrou a língua. Tornei a voltar à presença dele,

e já não pude viver mais sem esse homem simples e divino. Certo dia, disse

Ramakrishna, gracejando: “Um pavão comeu ópio, e na manhã seguinte reapareceu no mesmo lugar e na mesma hora, porque estava narcotizado pelo ópio e queria outra dose”. Assim acontecera comigo. Nunca me sentira tão feliz como na presença dele. Que admira que eu sempre voltasse a ele? Com o

tempo, passei a pertencer ao círculo dos seus discípulos mais íntimos, o que era mais do que esses visitantes esporádicos. Certo dia, me disse o Mestre:

“Eu leio nos teus olhos, na tua testa e no teu semblante, que tu és um yogui; trabalha na tua profissão, vive com tua mulher e filhos, com pai e mãe mas centraliza a tua alma em Deus. A tartaruga nada nas águas do lago, mas todo

o seu ser está preso ao lugar da praia onde ela tem os seus ovos. Assim, faze também tu o que tens de fazer no mundo, mas sempre com tua alma presa a Deus”.

Quando nosso Mestre Ramakrishna morreu, a maior parte dos seus discípulos renunciou espontaneamente às coisas do mundo, vestindo o manto amarelo e procurando difundir a mensagem do Mestre. Eu, porém, conservei o meu cargo de professor, firmemente decidido a viver no meio do mundo, mas sem me deixar capturar pelas coisas do mundo. Para seguir este caminho, por vezes, altas horas da noite, eu me associava aos mendigos que dormiam ao relento diante da casa do Senado, e dormia no meio deles, a fim de me sentir, pelo menos de vez em quando, como um homem que não possuía nada.

Ramakrishna morreu. Nas suas viagens através da Índia, o Sr. encontrará sempre de novo vestígios desses primeiros discípulos dele, seja no plano social, seja no setor da filantropia ou da medicina. Mas o que o Sr. não encontrará tão facilmente são corações que se tenham modificado pela influência desse homem magnífico. A sua palavra se propagou de discípulo a discípulo. Coube-me a mim a bela missão de registrar, em língua bengali, muitos dos seus ditos: esse livro não falta em quase nenhuma casa, no Bengal,

e é conhecido também em tradução para outras línguas, em outras partes da

Índia. Como vê, a influência de Ramakrishna ultrapassou o círculo de seus discípulos.

Mahasaya calou-se. E eu murmurei:

Desejaria saber o que Ramakrishna diria a um homem que não somente vive da fé, mas quer também satisfazer a sua inteligência e razão.

– Ramakrishna diria: “Ora! a oração é um poder imenso”. O próprio Mestre

orava para que Deus lhe enviasse homens que buscassem o Espírito e daí a

pouco apareceram seus futuros discípulos e outros adeptos.

E, se o homem não ora, que acontece então?

A oração é o último socorro inteligência falha.

do homem. A oração o ajuda quando a

E, se alguém for ter com o Sr. e lhe disser que não sabe orar, que lhe diria?

Que deve procurar muitas vezes a companhia de homens santos que tenham

tido experiências internas; o permanente contacto com esses homens despertará nele a espiritualidade dormente. Esses homens lhe farão sentir a nostalgia de uma vida em espírito. Procurar esses homens é o primeiro passo, e não raro também o último passo, como costumava dizer Ramakrishna.

À noite vêm sempre numerosas pessoas, que enchem o modesto recinto. Também eu venho noite por noite, não tanto para ouvir as palavras do Mestre, mas para me sentir feliz em sua presença. As auras que ele irradia são benéficas, suaves e belas; é que ele alcançou a beatitude interior, que transborda para outros. O que o atraía para Ramakrishna, isto me atrai para ele.

Numa das últimas noites, Mahasaya e eu fomos ao terraço aberto em frente à salinha. Era noite de lua cheia. Ele permaneceu silencioso por alguns minutos, olhando, imóvel, para o disco redondo da lua. Orava em silêncio. Eu, ao lado dele, também me mantinha imóvel. Finalmente, ele disse, em tom solene e vagaroso:

A minha tarefa está para terminar; este corpo cumpriu a missão que Deus lhe deu. Tome a minha bênção, antes de partir.

Ele pousa a sua mão, de leve, sobre a minha testa. Eu, embora não seja um homem religioso, me curvo humildemente.

Esta hora revolucionou todo o meu interior. De sono, nem vestígio, nesta noite. Passei toda a noite em claro, subindo e descendo as ruas de Calcutá.

Se há neste mundo alguém que me possa libertar das minhas dúvidas e encher-me duma fé singela e simples, então é unicamente o Mestre Mahasaya.

Pouco mais tarde, soube que ele havia deixado este mundo.

(Do livro “A Search in Secret India” de Paul Brunton, cap.10)

OS MALEFÍCIOS DA CONCEPÇÃO PARCIAL DO HOMEM OS BENEFÍCIOS DA CONCEPÇÃO DO HOMEM INTEGRAL

Há cerca de meio século que o comunismo, em todas as suas variantes Rússia, China, Cuba está empolgando grande parte da humanidade; e há também alguns decênios que ele está sendo impugnado por outra parte do gênero humano.

Sendo que a nós nos interessa, acima de tudo, a ideologia fundamental do movimento soviético, é indispensável que tenhamos uma visão clara sobre a quintessência dessa mentalidade. A maioria dos que combatem o comunismo limita-se à repressão da sua atuação no setor político e social, esquecendo- se de que, assim, atingem apenas o corpo, mas não a alma do comunismo e estão lutando com armas desiguais e inferiores à panóplia do adversário. Essa luta político-social não atinge o cerne da ideologia comunista, porquanto o movimento soviético não é, em primeiro lugar, uma ideologia político-social, mas sim uma espécie de filosofia metafísica ia quase dizendo, uma mística, como foram, ainda há pouco, o nazismo e o fascismo.

Não se pode lutar com bacamartes obsoletos contra metralhadoras e tanques modernos. Somente uma ideologia de fundo filosófico, metafísico, místico, é capaz de abalar vastos setores da humanidade, para o mal ou para o bem. Os terremotos não vêm da conhecida superfície da terra, mas sim das ignotas profundezas do globo.

E, por se tratar de uma filosofia vertical, deve o comunismo ser contrabalançado no mesmo setor vertical da filosofia e da metafísica de profundidade. Reprimir sintomas de doença não é curá-la; é apenas protelar, e quiçá mesmo, perpetuar o mal. Pode ser que essa repressão de sintomas externos seja uma necessidade, para evitar maiores males, mas não é uma medida suficiente e definitiva.

O Brasil sobretudo neste período inédito de renovação e integração não deve e não pode contentar-se com paliativos e simples repressão de manifestações político-sociais do comunismo; deve descer à raiz do mal; deve opor uma filosofia sadia a uma metafísica doentia. O Brasil clama por uma

terapia e terapêutica profilática ia quase dizendo, por uma vacina, que o imunize preventivamente contra a atuação das bactérias da ideologia soviética.

Não podemos neutralizar uma filosofia metafísica com uma sociologia política, por melhor e mais bem intencionada que esta seja. Uma ofensiva de índole vertical deve ser combatida por uma contra-ofensiva de caráter vertical, e não apenas por uma defensiva meramente horizontal.

Em face disto, achamos necessária e indispensável uma radical mudança de tática e estratégia. Julgamos necessário enfrentar a filosofia do comunismo com outra filosofia na mesma altura.

O recente decreto-lei de 12 de setembro de 1969, sobre Educação Moral e

Cívica em base filosófica, vem em socorro desta nova estratégia, radical; requer uma educação não apenas horizontal, mas também profundamente vertical, uma educação do homem integral, tanto no plano do ego como do Eu. Mas, que eu saiba, a vertical filosófica do decreto não está sendo devidamente realizada; quase todos os professores e educadores se limitam ao plano horizontal de caráter moral-cívico, porque o magistério não dispõe de elementos idôneos para essa tarefa. Duas vezes em 1971, estive em Brasília, realizando semanas de conferências e programas radiofônicos, nos setores militar e universitário, sobre este magno problema, relacionado com a própria segurança nacional e duas vezes voltei decepcionado, em face da incompreensão da base filosófica-metafísica do decreto.

Se perguntarmos em que consiste precisamente a filosofia comunista, respondemos que consiste numa visão unilateral e parcial da natureza humana, e desta premissa falsa derivam todos os erros e males subsequentes do sovietismo. A filosofia comunista conhece apenas o homem-ego, o homem

material-mental, e nada sabe nem quer saber do homem-Eu, do homem espiritual. Em linguagem de Filosofia Cósmica ou Univérsica diríamos: conhece apenas o homem-Verso, não o homem-Uno, deturpando assim o homem integral, o Homem-Universo. Esta concepção incompleta, unilateral do homem

é responsável por todos os males do comunismo, responsável por seu

materialismo dialético e por seu ateísmo militante. O caráter anticósmico, antiunivérsico do comunismo é o alfa e o ômega da sua atuação deletéria e dissolvente no seio da humanidade.

Não existe em todo o universo um único círculo unipolar só existem elipses bipolares. Átomos e astros são governados pela bipolaridade; na eletricidade e no mundo orgânico tudo é bipolar, nada é unipolar. Ora, se o macrocosmo é governado pela bipolaridade complementar, como poderia o microcosmo, o homem, ser um círculo unipolar, um ego sem Eu, um homem-Verso sem ser também um homem-Uno, um Homem-Universo?

A nossa filosofia, precisamente por ser univérsica, não substitui o Verso (ego)

pelo Uno (Eu), mas associa este àquele, formando o Homem-Universo, o homem total, integral. A mais importante de todas as integrações de que hoje se fala por toda a parte é a integração hominal, a integração do homem-ego no homem-Eu. Esta integração individual é a base de todas as outras integrações: social, nacional, internacional.

O único caminho certo para evitar qualquer espécie de totalitarismo, seja da

direita, seja da esquerda é a creação do homem total; somente o homem total e totalizado em sua natureza completa, e só ele é garantia segura contra qualquer espécie de totalitarismo.

Lutamos contra o comunismo em nome da constituição do kósmos, que é também a constituição do ánthropos, o homem integral.

Para combatermos eficazmente a ideologia soviética, temos de dar ao público uma visão exata do homem integral, pois é precisamente a concepção do homem parcial que serve de base a essa filosofia unilateral, e por isto falsa. Temos de demonstrar, em bases rigorosamente científicas e filosóficas, que o homem real é tanto Uno ou espiritual, como também Verso ou material-mental. Só assim lutaremos com igualdade de armas e estratégia.

REALIZAÇÃO DO HOMEM CRÍSTICO

O rico avarento do Evangelho dava 100% dos seus haveres a si mesmo e 0%

aos outros; nem sequer as migalhas que caíam da sua mesa eram dadas ao pobre Lázaro – e esse egoísta 100% e altruísta 0% “foi sepultado no inferno”.

Aliás, mesmo em vida, já estava no inferno, embora não tivesse ainda plena consciência desse inferno (dessa “inferioridade”) que estava nele.

O fariseu no templo dava 10% dos seus haveres aos outros, guardando 90%

para si, sendo, pois, 90% egoísta e 10% altruísta – e este “voltou para casa não-ajustado; continuou tão desajustado como sempre fora, com todo o seu altruísmo e sua ausência de pecados.

O Cristo, porém, não recomenda nenhuma dessas atitudes, exige

categoricamente: “Quem não renunciar a tudo que tem não pode ser meu

discípulo”. “Ama teu próximo como a ti mesmo outros te façam, faze-o também a eles”.

Tudo que queres que os

Este “renunciar” se refere, acima de tudo, ao nosso modo de pensar e de querer, donde nasce o nosso fazer e o nosso ter; é acima de tudo, uma questão de atitude interna, donde brotam os nossos atos externos.

Quem vive num falso-pensar e falso-querer, cedo ou tarde acabará num falso-fazer e num falso-ter. Os grandes mestres da humanidade, sobretudo o Nazareno, não são charlatães que se interessam pela repressão dos sintomas do mal, mas são grandes médicos e curadores que querem, antes de tudo, erradicar a raiz do mal, que é essa atitude interna de falso-pensar e falso- querer.

Em que consiste o falso-pensar e falso-querer?

Consiste na identificação do nosso verdadeiro Eu divino com o nosso ilusório

ego

Em

humano consiste na falta de autoconhecimento.

que consiste o reto-pensar e o reto-querer?

Consiste no descobrimento consciente do meu Eu divino, do Pai em mim, da Luz do mundo, do Reino de Deus em mim, do Tesouro oculto, da Pérola preciosa de minha alma, que sou eu mesmo.

Depois de descobrir a

corretamente no plano do meu Agir Humano, uma vez que a experiência

meu Ser Divino, posso agir

verdade

sobre

o

mística da paternidade única de Deus gera a vivência ética da fraternidade universal de todos os homens.

Pensar e querer são a raiz fazer e ter são ramificações.

O falso pensar e o falso querer geram um falso fazer e um falso ter.

“Assim como o homem pensa no seu coração assim vive ele”.

O nosso pensar e querer não devem visar como um fim ao nosso ego humano, mas sim ao nosso Eu divino, ao aperfeiçoamento, à auto-realização do Deus em nós, embora os atos do nosso ego possam servir como meios para a realização desta nossa atitude divina.

Os atos do ego são canais mas a atitude do Eu é fonte.

O meu corpo, minha mente, minhas emoções são meios, métodos e canais

para a realização do fim, da meta, da fonte divina de minha alma, do meu Eu

verdadeiro.

Renunciar não quer dizer não-fazer, não-pensar, não-querer, não-ter.

Renunciar quer dizer retificar o nosso falso-pensar num reto-pensar.

Renunciar é retificar o falso-querer num reto-querer.

E, uma vez feita essa retificação de base e raiz, segue-se espontaneamente a

retificação do nosso falso-fazer e falso-ter num reto-fazer e num reto-ter.

Quem pensa e quer corretamente pode fazer e ter corretamente.

Os atos de fazer e ter são consequências da atitude de pensar e querer.

Retificar o seu pensar e querer é retificar a sua vida toda.

Falso-agir não se retifica com não-agir mas sim com reto-agir.

Semelhante cura semelhante é esta a homeopatia do mundo da metafísica, como o é do mundo da física. O falso-agir é piorado pelo falso-agir, e não é curado pelo não-agir o falso-agir só é curado por um outro agir, por um reto- agir. Assim como na vacina profilática, a bactéria venenosa é desenvenenada no laboratório e depois neutraliza o veneno das bactérias venenosas, suas irmãs, redimindo o corpo humano da ofensiva das bactérias mortíferas de modo análogo, é também a bactéria venenosa do ego-agir neutralizada pelo agente desenvenenado do Eu-agir, produzindo uma vacina de imunização no organismo da alma e de todo o ser humano.

Nem o dinamismo materialista do ocidente nem o misticismo espiritualista do oriente, resolvem o problema da vida humana; o que resolve é uma atividade cósmica, uma universificação do homem integral, equidistante do falso-agir e

do não-agir o que redime o homem da sua tragicidade existencial é um reto- agir, baseado num reto-pensar, uma auto-realização que nasceu do auto- conhecimento, ética que transbordou da mística.

* * *

Qual o característico desse Homem Integral?

Amar a si mesmo e desamar os outros? Não!

Desamar a si mesmo e amar os outros? Não!

O Homem Integral segue a lei da natureza e a mensagem dos grandes mestres da humanidade: Ama a ti mesmo e ama teu semelhante do mesmo modo que te amas a ti mesmo.

Aqui está o UNO em perfeito equilíbrio com o VERSO.

Aqui está o homem UNIVÉRSICO.

O homem-Eu harmonizado com o homem-ego.

Aqui não temos o Uno do Eu sem o Verso do ego aqui temos o Uno e o Verso.

Nenhum homem normal pode deixar de se amar a si mesmo, porque toda a existência é amor-próprio. O ser vivo que não se ama não existe. O amor- próprio é a própria vida e vivência.

Amor-próprio não é egoísmo. Egoísmo é amar a si mesmo e não amar os outros. Amor-próprio é amar a si mesmo e amar os outros como a si mesmo, e isto é um altruísmo bom e sadio, recomendado por todos os grandes mestres espirituais da humanidade.

Mas, para que alguém possa amar os outros como a si mesmo, é indispensável que tenha chegado ao conhecimento do seu verdadeiro Eu divino, da sua alma, do Pai, do Cristo interno, que é o “primeiro e maior de todos os mandamentos”.

A verdadeira ética é impossível sem a verdadeira mística.

Mística revelada em ética é nestes dois mandamentos que consistem toda a lei e os profetas.

CONFUSÃO ENTRE DEMÔNIO E DIABO

A mais

certamente, a tradicional identificação do diabo com os demônios.

estranha

confusão

que,

séculos,

reina

na

humanidade

é,

Quando eu ia escrever o meu livro “Lúcifer e Lógos”, caiu-me nas mãos o livro “II Diávolo”, de Giovanni Papini. Esperava eu que o notável escritor italiano me fornecesse alguma matéria-prima para o meu livro; mas foi grande a minha decepção: Papini, seguindo o equívoco geral, confunde demônio com diabo.

Há alguns anos, apareceu nos Estados Unidos uma obra de parapsicologia, da

autoria de um médico porto-riquenho, intitulada “God bless the devil” (Deus abençoe o Diabo), obra em que o erudito autor trata das forças ou entidades do

mundo astral ou elemental, que ele confunde com o diabo.

Aqui em São Paulo, uma senhora católica me emprestou um livro sobre a vida

e os exorcismos do sacerdote francês João Batista Vianney, geralmente

chamado o “Cura d’Ars”, para que eu visse que poder estupendo esse sacerdote tinha sobre o diabo, que, como o autor do livro refere, o dito padre

expulsava dos possessos mais uma confusão entre demônios e diabo.

Em 1966 ocorreu na Suíça o monstruoso crime referido pela revista “L’Illustré”, onde uma jovem de 17 anos foi espancada até à morte, a fim de expulsar dela o diabo, de que, segundo a opinião dos carrascos, a jovem estava possessa. Na Idade Média era praxe queimar as bruxas, por serem consideradas endiabradas, ou filhas de um diabo (incubo) e uma mulher humana. Ainda no século XV foi queimada em praça pública, na França, uma jovem de 19 anos, Joana d’Arc, que era clari-audiente e recebia mensagens de uma entidade que

ela chamava o Arcanjo Miguel e por isso foi considerada possessa do diabo.

A Parapsicologia, essa caçula das nossas ciências, tenta lançar luz sobre as

misteriosas regiões do subconsciente e ultraconsciente humano, por vezes dominadas por forças desconhecidas que produzem factos visíveis. As causas invisíveis, sediadas no tenebroso mundo extra-consciente, elemental ou astral, poderiam ser chamadas daimones, como diziam os gregos, palavra que nós transformamos em demônios. Sócrates afirmava que ele havia recebido um “bom demônio”; nós diríamos talvez um “bom gênio”.

Entretanto, esses demônios nada têm que ver com o diabo ou satanás, que são creação da mente e do livre-arbítrio do homem.

É notável que o Evangelho do Cristo, escrito por Mateus, Marcos, Lucas e

João, quando refere expulsões de demônios realizadas pelo Nazareno, nunca confunda essas forças ou entidades com o diabo. Nem uma única vez afirmam os evangelistas que Jesus tenha expulsado diabos.

Repetidas vezes se referem os Evangelhos ao diabo (ou satanás, beelzebu), mas nunca o consideram como uma entidade da natureza separada do homem. O diabo, ou satanás, é, segundo os Evangelhos, uma creação do homem. O apóstolo Pedro é chamado “satanás” (palavra hebraica para adversário) – por quê? Porque se opunha ao espírito do Cristo: “O teu modo de pensar não é segundo Deus, mas segundo o homem”. Por onde se vê que, na linguagem de Jesus, satanás é uma atitude ou mentalidade anticrística, antidivina, creada pelo livre-arbítrio do homem. Sabemos que Pedro, mais tarde, deixou de ser satanás, ou adversário não por ter Jesus expulsado dele algum diabo, mas pelo fato de se ter Pedro convertido, passando livremente de um “modo de pensar humano” para um “modo de pensar divino”.

Segundo o Evangelho, também Judas era diabo (diábolos, em grego, quer dizer opositor): “Não escolhi eu a vós doze? no entanto, um de vós é diabo”. E João explica porque Judas era diabo: “porque não tinha fé nas palavras de Jesus”. Não sabemos se Judas deixou de ser diabo. O certo é que Jesus não expulsou dele o diabo, porque, sendo este uma mentalidade creada pelo livre- arbítrio humano, e sendo que Deus nunca contradiz ao nosso livre-arbítrio, bom ou mau, não podia Jesus expulsar esse diabo. Se fosse apenas demônio, entidade da natureza, certamente teria expulsado esse vampiro, como o expulsou de tantos outros, até uma legião inteira de demônios.

Há tempos, a revista mensal “Realidade”, de São Paulo, publicou uma reportagem sobre a “Falência do Diabo”, continuando na velha confusão entre diabo e demônio. Pedi a um dos diretores que publicasse um artigo meu que retificava o equívoco, mas não consegui ver publicada a minha retificação.

E a confusão continua, aquém e além-mar.

É sumamente instrutivo o episódio do Evangelho, quando os chefes da

sinagoga acusavam Jesus de expulsar demônios pelo poder do diabo (beelzebu, satanás). Replica-lhes o Nazareno: “Se eu expulso demônios pelo

poder de satanás, então está desunido em si mesmo o reino dele, e um reino desunido não pode subsistir”. Depois acrescenta uma comparação muito ilustrativa:

“Quando o Forte guarda os seus utensílios (skeue, em grego), está em segurança tudo quanto possui; mas, quando lhe sobrevém outro Mais Forte, liga o Forte e o despoja de todas as armas (panoplia, em grego) em que confiava”.

Pelo contexto se vê claramente que o Forte é satanás, o Mais Forte é o Cristo, enquanto os utensílios e armas do Forte são os demônios. O Forte é chamado “chefe dos demônios”, mas ele mesmo não é demônio; os demônios são apenas utensílios e armas do diabo. Os demônios pertencem ao mundo vital (astral, elemental), ao passo que o diabo, satanás, pertence ao mundo mental, representado pelo ego humano, quando adversário do Eu espiritual do homem. Freud talvez diria: o demônio é do “id”, o diabo é do “ego”, e o Cristo é do “super-ego”, que nós costumamos chamar o verdadeiro “Eu” homem.

Esperamos que a verdadeira Parapsicologia, de mãos dadas com a Filosofia Cósmica, e iluminada pelo Evangelho, consiga projetar uma luz esclarecedora no meio dessas trevas multisseculares.

DO HOMEM CÓSMICO PRÉ-SEXUAL AO HOMEM TELÚRICO SEXUAL

Depois de passar 40 anos nas solitárias estepes da Arábia, como pastor de rebanhos, teve Moisés a revelação intuitiva da origem do mundo e da humanidade. Mas, como essas relevações são “ditos indizíveis” e não têm palavra nos vocabulários humanos, tentou ele vazar em alegorias o que contemplara na dimensão anônima transcendente.

Os primeiros capítulos do Gênesis são um reflexo dessa visão cósmica de Moisés.

Há, no Gênesis, duas narrativas, no primeiro e segundo capítulo, sobre a origem do ser hominal: a primeira de carácter grandiosamente simples e cósmico; a segunda de um colorido quase mitológico.

Na primeira narrativa refere Moisés que os Elohim (as Potências Divinas) crearam Adam como macho e fêmea literalmente, como pênis e vagina (zakar e nqebah, no original hebraico; como arsen e thelys, na tradução grega).

Nesta narrativa não se fala em mulher como entidade separada, autônoma. Adam1 é simplesmente o ser humano como tal, o anthropos macho-fêmea em uma única individualidade, o andrógino, o hermafrodita potencial, ainda não diferenciado em varão e mulher.

1. Adam é a contração de duas palavras sânscritas, adi (primeiro) e aham (ego), significando o primeiro ser vivo da terra que adquiriu a egoidade pelo despertamento da inteligência consciente, o que insinua que Moisés teve contato com o Oriente longínquo.

Esse ente hominal neutro era implicitamente macho e fêmea, mas não era explicitamente nem isto nem aquilo. Era uma simples potencialidade latente para as duas atualidades futuras.

Nesse estado pré-sexual não podia o homem multiplicar-se, no plano horizontal quantitativo, como fazem os animais. Era, por assim dizer, um puro Eu cósmico, uma Individualidade Hominal, mas ainda não uma personalidade Ego, masculina ou feminina.

É possível que o habitat de Adam não fosse este planeta Terra; talvez o tal Éden do Oriente fosse outro planeta, ou mesmo o espaço astral. Talvez o

corpo de Adam fosse de substância etérea ou astral, de matéria ainda não congelada, na linguagem de Einstein; pura energia astral ainda não cristalizada em materialidade.

Na segunda narrativa do Gênesis temos a bifurcação de Adam em macho e fêmea separados, uma vez que Yahveh que, daqui por diante, substitui os Elohim queria a quantificação do gênero humano pela procreação, que não era possível no puro estado adâmico. O tronco original e único do anthropos se divide nos dois galhos do anér e da gyné, que já não são apenas órgãos genitais masculino (arsen) e feminino (thelys), mas duas personalidades separadas e autônomas. Dois grupos de células orgânicos se tornaram duas entidades humanas. Da Tese inicial do Adam se formaram as duas Anti-teses, varão e mulher, anér e gyné, o pólo masculino e o pólo feminino, para que destas Anti-teses, complementares se pudesse, um dia, formar a Sín-tese da união sexual procreadora.

Neste sentido, era a mulher irmã do varão, e se tornou, mais tarde, sua esposa, a “mãe de todos os viventes”.

A fim de realizar essa Anti-tese2, prelúdio da futura Sín-tese, fez Yahveh vir

sobre Adam um sono profundo, fê-lo descer das alturas do cosmo-consciente para as baixadas do ego-consciente, cujo plano é a nossa Terra e seu ambiente hominal. Durante esse sono profundo, viu Adam a sua “ava”, palavra sânscrita para “reflexo”, “imagem”, e reconheceu esse seu reflexo como sua “contra-parte”, semelhante a ele no sexo, igual a ele na natureza hominal. Antes disto, refere o Gênesis, havia Adam verificado que estava só”, apesar de ser “macho-fêmea”, e havia procurado em vão, entre os animais, alguém que lhe fosse igual na natureza e pudesse servir de “companheira auxiliar”, de contraparte complementar no plano sexual. Agora encontra ele um ser “osso do meu osso e carne da minha carne”.

2. As palavras de radical latino para esses termos gregos seriam: posição (tese), contraposição (antítese) e composição (síntese).

A Tese neutra do anthropos se bifurca e diferencia na Anti-tese varão e

mulher, os quais, chegados à sua plena adultez, se uniriam na Sín-tese da complementaridade sexual.

Não se pode dizer que o fim primário dessa união sexual seja o filho, nem mesmo a simples satisfação da libido masculino-feminina, mas sim a completação do homem e da mulher pelo Eros, isto é, pelo amor mútuo, destinado a transfundir em cada um dos dois aquilo que lhe falta e que o outro lhe dá. O Eros realiza uma doação recíproca entre varão e mulher, doação que não consiste primariamente na procreação de um novo indivíduo humano, nem na mera satisfação da libido animal, mas em algo tipicamente hominal, que é o aperfeiçoamento dos dois pelo intercâmbio vitalizante de auras ou fluidos.

Essa re-integração do masculino parcial e do feminino parcial no homem total;

esse desejo, consciente ou inconsciente, de re-unificação, num plano superior

é o mergulho de dois vivos incompletos na única Vida completa perfeito

paralelo da fusão da creatura finita no Creador Infinito que ocorre na experiência do entusiasmo místico. Pode-se dizer que a erótica3 é a mística da carne, assim como a mística é a erótica do espírito. É essa a razão porque os livros sacros da humanidade sempre se servem de roupagem erótica para exprimir realidades místicas.

3. A minha afirmação de que “a erótica é a mística da carne, assim como a mística é a erótica do espírito”, usada em alguns livros meus, tem dado aso a grandes deturpações; alguns escritores, citando as minhas palavras, afirmam que eu considero o erotismo como o misticismo da carne, e o misticismo como o erotismo do espírito. Nada disto é verdade. Erotismo e misticismo são vícios mas a erótica e a mística são saúde.

O caminho do Lógos vai através do Eros, que não é libido. O animal conhece

libido, mas nada sabe de Eros. Infelizmente, os nossos autores usam o termo “erótico” em vez de “libidinoso”, como também confundem “erótica” com

“erotismo”. O Eros é um amor tipicamente humano entre os sexos. O animal não sabe de amor, Eros. Ao Eros subjaz um anseio de recosmificação do homem telúrico, o que explica a elementar veemência do instinto sexual.

Na narrativa da creação de Adam usa o hebraico o verbo básico barah, ao passo que, no aparecimento dos sexos, usa o termo secundário itser, que quer dizer “formar”, “plasmar”, dar determinada forma a algo já existente. A origem do Adam, do anthropos, era uma verdadeira “creação” inédita, um novo início, ao passo que o aparecimento do varão e da mulher é apenas uma continuação, uma formação, uma evolução ou criação, mas não uma creação4.

4. É profundamente deplorável que a nossa Academia de Letras tenha abolido a forma “crear, creação, creador”, mandando substituí-la por “criar, criação, criador”, quando há enorme diferença de sentido entre “crear” e “criar”. O fazendeiro é um gênio creador, mas não é necessariamente um criador. Deus é o creador do Universo, mas nem por isto é um criador. Esperamos que a Academia, algum dia, restitua o termo “crear”, de acordo com o que acontece em outras línguas cultas.

Tem dado aso a muita pilhéria o tópico do Gênesis de que Deus teria formado a Eva de uma costela de Adão. Convém saber que nos relatos da Assíria e da Suméria sobre a origem do homem e da mulher, nada consta dessa “costela”. Os documentos cuneiformes da Suméria, muito anteriores ao nosso Gênesis, dizem que Deus fez a mulher da “força vital” do homem. A palavrinha “ti”, que figura nesses documentos e significa “vitalidade”, talvez tenha dado origem ao equívoco, uma vez que “ti” também poderia significar “osso”. A ciência moderna sabe que as células vermelhas do nosso sangue têm origem no tutano dos ossos maiores do corpo. Adam diz: “Isto é osso do meu osso”, talvez no sentido: Isto é vitalidade da minha vitalidade.

Parece que, em nosso dias, a “formação” bissexual macho-fêmea está em vias de uma “re-formação”, ou mesmo, uma “deformação”; cada vez mais se apagam as fronteiras entre homem e mulher. Muitos homens não querem mais ser homens, e muitas mulheres estão cansadas de ser mulheres. Por um lado, assistimos a uma crescente hipertrofia do sexo ou do sexismo; por outro, vemos uma hipotrofia ou atrofia sexual. Este fenômeno, embora pareça paradoxal, é profundamente lógico: a hipertrofia do instinto sexual, quando descontrolada, acarreta, cedo ou tarde, a sua atrofia. Toda a fome, quando chega a excessiva fartura, acaba em fastio. O hipersexismo gera infrasexismo. Possivelmente, a humanidade vai desaparecer da face da terra por involução sexual. O regresso não será ao plano do homem cósmico pré- sexual, mas sim a um homem pseudo-cósmico dessexuado por supersexuação, enfastiado por supersaturação.

Dá-se na humanidade o mesmo fenômeno que na física se chama entropia, isto é, nivelamento gradual de todos os desníveis, até acabar na completa paralização de todas as forças vivas do cosmos ou do anthropos suposto que não haja um processo reversivo ou compensador, que os filósofos modernos chamam ectropia, que seria o re-desnivelamento dos desníveis nivelados.

Para que a entropia mortífera seja sustada e contrabalançada pela ectropia vitalizante deve surgir, das profundezas do cosmos ou da humanidade, um fator ativo que compense os fatos negativos. Este fator ectrópico existe na consciência hominal; importa que seja altamente desenvolvido até atingir a elevada voltagem da pleni-consciência do EU SOU, da realidade do Eu.

O grosso da humanidade, certamente, não possui essa elevada voltagem

consciente da sua realidade Eu, não está auto-realizada; mas sempre existe na

grande humanidade-massa uma pequena humanidade-elite, capaz de servir de “fermento vivo” no meio das “três medidas de farinha morta”, podendo levedar com a sua intensa qualidade a extensa quantidade dos outros.

Quando a eletricidade impolar (tese) do Universo se separa em eletricidade bipolar, positiva-negativa (antítese), podem esses dois pólos reunir-se numa síntese, que se manifesta como luz, como calor, como força. Isto, no caso que a eletricidade bipolarizada seja devidamente controlada rumo à síntese, como acontece em nossas lâmpadas (luz), em nossos aquecedores (calor) e em nossos dínamos (força). Mas, quando a re-unificação dos pólos antitéticos se

fizer sem controle como acontece no raio e em nossos curtocircuitos então

há uma violenta explosão momentânea e a eletricidade bipolar voltou a seu

estado neutro, impolar.

A

humanidade

está

agora

nessa

tendência

de

união

descontrolada,

de

explosão

sexual

e

ao

mesmo

tempo

de

desnivelamento

sexual,

de

desmasculinização

mortífera

e

desfeminização.

Explosões

violentas

e

entropia

Será que seremos uma síntese sexual controlada, que dê luz, calor e força?

Será que esta entropia mortífera será contrabalançada por uma ectropia

vitalizante?

Será que essa libido animalesca vai culminar num Eros humano?

Se houver uma elite humana controlada e ectrópica, teremos uma semente para uma futura humanidade cosmificada, cristificada, que povoará o planeta Terra – “e haverá um nove céu e uma nova terra e o reino de Deus será proclamado sobre a face da terra”

O Cristo Cósmico, que apareceu aqui, personificado em Jesus de Nazaré, era

o “novo Adam”. Não era o Adam pré-sexual do Gênesis; nem era o Adam sexuado que creou Eva mas era o novo Adam ultra-sexual, que está além daqueles dois estágios evolutivos da humanidade.

Um dia falou ele de três tipos de homens relacionados com o sexo: os que por deficiência da natureza não eram sexuados; os que tinham sido assexuados pelos homens e os que, por amor ao reino de Deus haviam ultrapassado o sexo e a sexualidade. Falou dos infra-homens, dos semi-homens e dos pleni- homens. E, como os da terceira fase dependem da mais alta compreensão da natureza humana, exclamou o Mestre: “Quem puder compreendê-lo

compreenda-o!”

O Adam pré-sexual não procreava.

O Adam sexuado em macho e fêmea garante a imortalidade racial da humanidade.

O Adam ultra-sexual realiza a sua própria imortalidade individual.

PERIFERISMO OU CENTRALIDADE?

Duma cidade do interior recebi carta pedindo conferências sobre certos assuntos. Os interessados marcaram nada menos de meia dúzia de temas diferentes, todos eles periféricos, desconexos, de superfície nada de profundidade.

Está acontecendo na filosofia o que acontece na medicina: medicação de sintomas não uma cura da raiz do mal.

Este bacharelismo de cursinhos é a morte da Filosofia. Há na Europa, diz Salmananoff, 70 sistemas filosóficos e nunca nenhum deles beneficiou a humanidade.

Coisa análoga se poderia dizer da medicina: há centenas de sistemas de medicação de sintomas mórbidos e há pouquíssima cura radical do organismo.

O mesmo processo se verifica também no plano social: muita instrução e

pouca educação. A instrução se refere aos objetos do ego ao passo que a

educação tem que ver com o sujeito do Eu.

Instrução é do Verso educação é do Uno.

É a força central do Uno que move as periferias do Verso.

Os charlatães do periferismo querem eliminar os males sem abolir a maldade. Querem extirpar os frutos peçonhentos, sem exterminar a árvore venenosa. Combatem os atos maus, mas se esquecem de destruir a atitude má.

Toda a nossa vida, individual e social, sofre desse infeliz periferismo sem nenhuma centralidade. “Remendo novo em roupa velha”, diria o Nazareno.

A nossa Filosofia Univérsica visa exatamente o contrário: procura curar as

doenças do VERSO pela saúde do UNO. Se, na linguagem de Einstein, não há

um caminho do Verso dos fatos para o Uno dos valores, há contudo um caminho do Uno dos valores para o Verso dos fatos, dando em resultado um grandioso UNIVERSO HOMINAL.

Não podemos melhorar a moral do agir sem retificarmos a metafísica do ser. Não podemos esperar auto-realização sem auto-conhecimento. Enquanto o homem não tiver consciência nítida e firme sobre a sua própria Realidade

Central, não há nenhuma esperança de melhorar as suas Facticidades Periféricas. A reforma da vida social depende da conversão do homem individual e esta conversão não é outra coisa senão auto-conhecimento, uma resposta clara à eterna pergunta: Que é o homem, esse desconhecido? que sou eu?

Pouco adianta converter vícios em virtudes, porque tanto estas como aqueles estão na zona do ego humano, na mesma linha horizontal. O pólo negativo dessa horizontal se chama homem vicioso o pólo positivo da mesma horizontal se chama homem virtuoso. A solução definitiva não está nesta transição horizontal do ego vicioso para o ego virtuoso está na superação total de qualquer tipo de egoidade; está na vertical do Eu sábio erguida sobre a horizontal dos egos viciosos ou virtuosos.

Não se trata de pôr “remendo novo em roupa velha”, trata-se de fazer nascer a “nova creatura em Cristo”, o homem integral, o homem universificado.

Mas

pode o ego transformar-se em Eu?

Pode o ego vicioso ou virtuoso atingir as alturas do Eu sábio?

Podem os fatos produzir valores?

Não! do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores, diz Einstein. E o que vale na Matemática vale também na Metafísica.

É um erro multissecular querer fazer do ego um Eu, da semente uma planta.

Mas não vemos cada dia que a semente se transforma em planta? e por que não poderia o ego transformar-se em Eu?

Aqui está uma velha ilusão, um equívoco, aparentemente razoável.

Se dermos à semente ou ao ego o grau 10, e à planta ou ao Eu o grau 100, será possível admitir que o 10 possa causar o 100? Neste caso, o efeito seria maior que a causa, o que é a negação radical da lógica é este, aliás, o erro fundamental do darwinismo, que deriva do animal o homem, do menos o mais.

Se colocarmos uma semente, grau 10, sobre a mesa, nunca veremos a sua transformação em planta, grau 100. Por que não? Porque o 100 da planta não está contido no 10 da semente.

Mas, se pusermos a semente no fundo da terra, com suficiente umidade e calor, ela brotará em planta. Que foi que a fez brotar? que foi que a transformou em planta? que foi que fez do 10 da semente o 100 da planta?

A Vida contida na água do solo e no calor do sol. A potência da Vida Universal do cosmos foi canalizada para dentro da semente e fez nela despertar o vivo potencial da semente para o vivo atual da planta. A semente potencialmente

viva serviu de catalizador para produzir a planta atualmente viva. O céu e a terra, o sol e a água, causaram a evolução da semente em planta. Mas, como no sol e na água há Vida Universal, Vida em grande abundância, Vida recebida do Uno do Universo, pode a Vida Infinita transformar o vivo finito 10 em um vivo finito 100. O 100 não veio do 10, mas veio da Vida Infinita do Cosmos, através do 10.

De modo análogo, não é o 10 do ego que causa o 100 do Eu; mas é o Poder Infinito do Universo que, através do ego, produz o Eu, suposto que o ego funcione como canal e veículo da Fonte Cósmica.

O vivo menor deve receber o impacto da Vida para se transformar num vivo

maior. É inadmissível, à luz da lógica e da matemática, que um vivo menor produza um vivo maior, mas é perfeitamente admissível que um vivo menor sirva de canal para um vivo maior, contanto que, para além de todos os canais, exista uma fonte de Vida.

A Potência Infinita é causa ou fonte.

As Potencialidades Finitas funcionam como condições ou canais.

Quando o ego humano tem suficiente receptividade (potencialidade), o Eu divino flui para dentro dele, assim como as águas da fonte fluem para dentro dum canal aberto.

A natureza extra-hominal é sempre receptiva para a causa ou fonte da Vida,

porque funciona automaticamente, em sentido unilinear.

Mas o homem, dotado de livre-arbítrio, pode abrir ou fechar os seus canais, possibilitando ou impossibilitando o fluxo das águas da fonte para dentro dos canais.

A

Potência da fonte atua nos canais de acordo com a potencialidade destes.

O

efeito não depende da Potência, causa, fonte o efeito, maior ou menor,

depende da maior ou menor abertura dos canais.

O recebimento dos canais é diretamente proporcional à sua receptividade.

E esta receptividade é creação do livre-arbítrio do homem.

Quem mergulha no oceano um copo, tirará um copo de água.

Quem mergulha no oceano um litro tirará um litro de água.

Quem mergulha no oceano um tonel apanhará uma tonelada de água.

A

medida do recebido não está no oceano doador, mas no vaso receptor.

O

Infinito do Uno está finitamente no Verso.

O Infinito de Deus (Eu) está no homem (ego) de acordo com a capacidade

receptiva deste.

Toda a diferença entre a maior ou menor perfeição espiritual dos homens está

na

sua maior ou menor capacidade receptiva.

O

Uno Infinito é condicionado pelo Verso dos Finitos.

As periferias recebem as forças do centro segundo as suas capacidades receptivas.

O livre-arbítrio é o único responsável pela diferença espiritual entre fulano,

sicrano e beltrano.

O

livre-arbítrio é o poder de ser causa própria.

O

livre-arbítrio é um poder interno, auto-causante e auto-causado.

No livre-arbítrio não existe nenhum porquê externo todo o seu porquê é interno.

O livre-arbítrio não é indeterminismo (ausência de causalidade), mas é auto-

determinação, causação própria em vez de causação alheia.

Quando o Verso humano se trona 100% receptivo em face do Uno divino, então este Uno, de infinita riqueza, enche o Verso de acordo com a capacidade deste.

VISÃO UNIVÉRSICA DO COSMOS E DO HOMEM

Para compreender a história da humanidade, devemos ter a visão nítida de que, no cenário do Universo atuam duas forças, aparentemente contrárias, mas realmente complementares: a inteligência analítica e a razão intuitiva.

A

inteligência analítica representa a força centrifuga.

A

razão intuitiva representa a força centrípeta.

O

equilíbrio harmônico entre centrifuguismo e centripetismo forma a harmonia

cósmica.

No homem, a inteligência analítica (divergente) é representada pelo ego; a razão intuitiva (convergente) é representada pelo Eu.

No cosmos, não pode haver desequilíbrio, desarmonia, entre as duas forças, porque elas são automáticas, mecânicas, necessárias, não-livres.

No homem pode haver desequilíbrio, desarmonia, entre o ego centrífugo e o Eu centrípeto.

Desequilíbrio significa destruição, assim como equilíbrio é conservação.

A

manifestação do desequilíbrio se chama sofrimento, que é um convite para

o

reequilibramento do desequilíbrio provocado pelo livre-arbítrio.

Se esse convite ao reequilibramento não é atendido, dentro do ciclo total da evolução humana, o livre-arbítrio do homem se extingue automaticamente, e o indivíduo humano recai ao seio universal do cosmos, como matéria-prima, deixando de ser individual.

Se o homem se harmoniza espontaneamente com a harmonia do cosmos, integra-se nesse cosmos como individualidade, representando um aspecto individual no cosmos universal assim como uma onda na superfície do mar, se fosse permanente, seria um novo aspecto desse mar universal.

Toda a história da humanidade é um duelo permanente entre as forças centrífugas do ego divergente e a força centrípeta do Eu convergente.

Não há nesse drama cósmico nenhuma finalidade, no sentido humano, há apenas causalidade, no sentido cósmico: a infinita intensidade do UNO tende

a manifestar-se na infinita extensidade do VERSO, para equilibrar a qualidade