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Resenha do artigo “Que cada povo teça os fios da sua história: o pluralismo jurídico

em diálogo didático com legisladores” de Rita Laura Segato

A autora foi convocada pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos


Deputados do Congresso Nacional brasileiro, em 2007, para argumentar e esclarecer
aos parlamentares a respeito do chamado “infanticídio indígena”. Era necessário para
que eles pudessem decidir sua posição diante da votação de uma lei que criminalizava
a prática. A partir disso, escreveu este artigo com o conjunto de considerações e
conhecimentos que a prepararam para sua argumentação que fossem aceitáveis aos
parlamentares, tendo em vista o número considerável de representantes das
bancadas ruralista e evangélica, e em sua maioria homens brancos.

Porém, havia uma contradição: apesar da ratificação pelo Brasil da Convenção


de 169 da OIT sobre o direito indígena à diferença e passo importante para o
reconhecimento das justiças próprias, ficava limitada pela obrigatoriedade do respeito
às normas do “sistema jurídico nacional” e aos “direitos humanos internacionalmente
reconhecidos”, mesmo com a Constituição de 1988 que reconhece e garante a
diversidade de culturas e o direito à pluralidade de organizações sociais. Portanto,
apesar das aproximadamente 220 sociedades indígenas, estamos longe de um efetivo
pluralismo institucional e de pautas sobre o direito estatal e os direitos próprios.

Baseado numa lógica integracionista, o Estado visa uma assimilação dessas


populações e assume uma figura de tutela. Essa noção etnocêntrica está vigente até
hoje no Estatuto do Índio, como uma incapacidade da pessoa indígena, reduzindo-a
à subordinação e proteção do Estado Nacional. De modo a perceber que o paradigma
relativista da antropologia não atingiu a consciência pública, tampouco os
parlamentares, que continuam apoiando leis como essas.

Diante de um assunto que cerceia uma prática tão inaceitável na sociedade


ocidental com raízes coloniais, a defesa do valor da pluralidade é um caso limite
considerando a influência midiática e religiosa que o tornam ainda mais difícil de ser
alcançado. Como exemplo, a atuação de uma ONG evangélica e a publicação de
folhetos sobre a história de Muwaji Suruwaha, mulher indígena que enfrentou seu
povo para garantir o direito à vida de sua filha que sofre de paralisia cerebral.
Consequentemente, com a intensificação ao direito à vida, fere a imagem das
sociedades indígenas que passam a ser vistos como bárbaros e cruéis. Outro exemplo
é representado pelo filme Hakani: Buried Alive – A Survivor’s Story que subverte a
ideia, apresentando como recente uma prática de infanticídio passada dos Suruwaha.

O Projeto de Lei 1057/2007, nomeado Lei Muwaji aludindo a mãe Suruwaha,


“ultracriminaliza” o infanticídio indígena por repetir a sanção já presente na
Constituição e Código Penal e, além disso, inclui na acusação todas as testemunhas
reais ou potenciais.

Outro caso, que reforça a propaganda da ação missionária e anti-indígena, é o


resgate da menina Hakani condenada à morte, devido a uma disfunção hormonal
congênita severa, por um casal de missionários que apoiavam e argumentavam a
favor da lei.

Coincidentemente, ou não, no mesmo período em que a autora participou da


Audiência Pública, o parlamento australiano aprovou um pacote de medidas que
implementavam respostas do governo devido os casos de uma suposta epidemia de
“abuso infantil”. Justificando as incursões e intervenções nas comunidades
aborígenes, diminuindo os direitos e liberdades e suspendeu a lei consuetudinária.

A autora apresenta como única solução possível para a resolução desses


conflitos o respeito às autonomias e a consulta aos povos, fornecendo-lhes os meios
necessários, considerando que vivem numa sociedade sem excedentes.

Na terceira parte do artigo, são abordadas as práticas de infanticídio entre


povos que possuem outras concepções de vida e humanidade. No primeiro exemplo,
os Suruwaha, que viviam isolados até fins da década de 70, possuem a concepção
da vida “que vale a pena viver ou não”. Sendo assim, os significados sobre vida e
morte para eles são substantivamente diferentes dos valores cristãos.

Assim também se verifica no povo Yanomami, no qual o parto ocorre fora do


contexto da vida social e deve haver um “nascimento pós-parto”, fruto de uma
construção coletiva para tornar-se um ser humano. Os Javaé compartilham desse
pensamento, onde o recém-nascido deve ser humanizado através de um ritual. Esses
valores, portanto, se distinguem de maneira conflitante com a ideia cristã e se
contrapõe com a biopolítica dos Direitos Humanos.

Segundo Esther Sánchez Botero, para que seja possível a existência desse
direito coletivo das sociedades, é necessário falar na linguagem do Estado, baseando
os argumentos desde o interior das leis. Pois, ao generalizar o direito Ocidental a todas
as comunidades, além de inconstitucional, pode ser prejudicial a própria existência
desses povos, eliminando valores culturais indispensáveis.

A jurisdição própria dos povos indígenas nunca foi uma pauta muito abordada,
não tiveram até aquele momento debates oficiais sobre a temática, pois a
reivindicação por sua autodeterminação e território sempre estiveram a frente. O
reforço da penalidade sobre o infanticídio indígena era longe de ser algo desejado por
eles. E assim, a autora explora os dados para o reforço de seu argumento diante dos
parlamentares, apelando para informações que são aceitáveis dentro de seus padrões
ocidentais e etnocêntricos na forma da lei. Expondo a necessidade do Estado
reparador, envolvendo um projeto nacional pluralista, para cada povo ter sua própria
jurisdição e não necessariamente aprovar a prática de infanticídio.

O primeiro argumento utilizado para expor a defesa aos direitos próprios se


refere ao fracasso da atuação do Estado. O infanticídio ocorre todos os dias em todas
as partes do território, não se restringe aos povos indígenas, mas o massacre e a
desestruturação dos povos, bem como a eliminação da sua cultura ocorre
principalmente com esses. Através da tentativa de “ultracriminalizar” esta prática,
coloca em risco o bem-estar da população nativa e compromete sua própria
existência. Portanto, o direito individual a vida, neste caso, não deve ser superior do
direito da coletividade, pois o compromete. É necessário que o Estado abandone esse
aspecto de punitivo, por não ser eficiente, buscando um viés de reparador. Ao assumir
essa postura punitiva, contribui para o agravamento do genocídio e aculturação dos
povos.

Em seu terceiro argumento expõe que o sistema de justiça criminal é falho,


sendo assim, está longe de ser um inibidor da criminalidade. Assim sendo, indaga o
interesse por trás dos legisladores ao insistirem nesta lei que criminaliza os povos
indígenas. Tal medida que reflete diretamente em contradição ao Convênio 169 da
OIT que está vigente desde 2002 no Brasil. Dessa forma, a lei em questão apenas
enfatiza quem são estes legisladores, esse pequeno grupo detentor do poder, não há
qualquer tipo de consulta ou garantia da participação dos diversos povos na
elaboração de leis.
A falta de um Estado restituidor que os permita restaurar sua ordem institucional
interna pode ser superada por um projeto de Estado pluralista e através do pluralismo
jurídico permitir que cada um deles possa seguir por um caminho próprio para a
resolução de seus conflitos. Ao mesmo tempo que deve permanecer disponível aos
membros das comunidades, oferecendo-lhes garantias e proteção e facilitando o
diálogo entre os poderes da aldeia e seus membros mais frágeis.

Como exposto no texto “o fato de que as sociedades se transformam,


abandonam costumes e adotam e instalam outros” é argumento contrário a lei, para
que a partir de suas próprias mudanças internas cheguem ao fim dessa prática, sem
a necessidade de coação. Por isso se torna fundamental a devolução da justiça
própria para que cada povo teça os fios da sua história. Limitando o papel do governo
e legislação apenas a garantir a existência de cada pluralidade.

Todos os argumentos expostos são de suma importância, assim como os


exemplos para elucidar os contrastes culturais, para que os leitores e aos
parlamentares presentes no debate refletissem a partir de outra perspectiva sobre o
assunto. A colonialidade que persiste enraizada na sociedade afeta diretamente a
existência das sociedades que resistem, tornando o debate a respeito da necessidade
de suas garantias, seu direito próprio e o pluralismo jurídico pautas imprescindíveis
para o bem-estar desses.

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