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Marquês de Sade

RETALIAÇÃO
e outros contos libertinos

COLEÇÃO FACES DE EROS – VOLUME I
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Marquês de Sade

RETALIAÇÃO
e outros contos libertinos

Retaliação
O preceptor filósofo
Que sempre me  
enganem assim!
O marido complacente
A flor do castanheiro

COLEÇÃO FACES DE EROS – VOLUME I
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Índice

Retaliação ........................................................  4

O preceptor filósofo ..........................................  15

Que sempre me enganem assim!..................... 20

O marido complacente.....................................  24

A flor do castanheiro .......................................  27

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RETALIAÇÃO

Um   honesto   cidadão   da   Picardia,  talvez 

descendente   de   um   daqueles  trovadores  ilustres  das 

margens do Oise ou do Somme cuja existência tem sido 

resgatada  das  sombras   apenas  há  dez  ou   doze  anos 

atrás por um grande escritor dos nossos tempos, um 

bravo e honesto cidadão, eu repito, vivia na cidade de 

Saint­Quentin,   tão   famosa  para  os   grandes  homens 

pelo que tem dado à literatura. Ele vivia ali em uma 

honorável   residência:  ele   mesmo,  sua  esposa   e   uma 

prima   de   terceira   geração   que   era   freira   em   um 

convento da cidade. A  prima  de  terceira geração  era 

uma   pequena  morena   de   olhos   brilhantes,   com   um 

rosto  malicioso e pequeno, um nariz altivo e uma fina 

figura; ela sofria sob o peso de seus vinte e dois anos, e 

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era freira há quatro deles. A Irmã Petronilla, era esse 

o   seu   nome,   tinha   ainda   uma   bonita   voz   e   uma 

disposição muito maior para o amor e para a religião. 

Quanto a M. d’Esclaponville, como se chamava o nosso 

cidadão, ele era um refinado e jovial homem de cerca 

de   vinte   e   oito   anos   que   amava   extremamente   sua 

prima e já não tanto Mme.   d’Esclaponville, uma vez 

que estava dormindo com ela  há dez anos, e o costume 

de deitar­se  por dez anos é  fatal para  as chamas  do 

hímen.   Mme.   d’Esclaponville   –   pois   é   necessário 

descrevê­la,   um   escritor   seria   desprezado   se   não 

descrevesse as pessoas em uma época onde apenas as 

imagens são necessárias, e onde mesmo uma tragédia 

não seria recebida  até que os pintores encontrassem 

nela pelo menos meia dúzia de motivos para inspiração 

– Mme.  d’Esclaponville, como eu dizia, era uma loura 

insípida,   levemente   pálida,   mas   com   pele   muito 

branca,   belos   olhos,   bela   carne,   e   com   aquelas 

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bochechas carnudas que são geralmente descritas pelo 

mundo como boas de se apertar.

Até   agora   a   Mme.     d’Esclaponville   não 

sabia   que   tinha   uma   maneira   de   se   vingar   de   seu 

marido   infiel.   Bem  comportada   como  sua   mãe,  que 

tinha   vivido   por   oitenta   e   três   anos   com   o   mesmo 

homem sem ser infiel a ele nem uma vez, ela era ainda 

muito  ingênua  e  correta  para  nem  mesmo  suspeitar 

desse   medonho  crime   que   os   casuístas  chamam  de 

adultério,   e   os   homens  que   são   capazes   de   relevar 

qualquer   coisa  chamam  simplesmente  de  galantaria. 

Mas  uma  esposa desprezada  logo  arranca  formas  de 

retaliação de seu ressentimento, e como ninguém gosta 

de ser deixado para trás, não há nada que ela não fosse 

capaz de fazer logo que possível para estar outra vez 

por cima.   Mme. d’Esclaponville percebeu finalmente 

que seu querido senhor e mestre visitava a prima de 

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terceira   geração   mais   freqüentemente   do   que   o 

esperado. O demônio dos ciúmes tomou sua alma, ela 

soube   aguardar,   ela   tinha   perguntas,   e   finalmente 

descobriu  que  poucas  coisas  em  Saint­Quentin  eram 

tão  certas  quanto   a   relação  entre   o   seu  marido  e   a 

Irmã Petronilla. Certa dos fatos, Mme.  d’Esclaponville 

finalmente  declarou  ao  seu  marido  que  sua  conduta 

feria sua alma, e que uma pessoa como ela mesma não 

merecia  esse  tratamento,   e  que  rezava   para  que  ele 

abandonasse esses equívocos.

“Equívocos?”,   respondeu   o   marido, 

pacificamente. “Você não sabe, minha querida amiga, 

que dormindo com minha prima freira, estou salvando 

a mim mesmo? A alma é purificada em uma relação 

tão santa, é a união de si mesmo com o Ser Supremo, é 

a incorporação do Espírito Santo em uma pessoa: não é 

pecado   de   forma   alguma,   minha   querida,   pois   as 

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pessoas   consagradas  a   Deus  purificam   tudo   que   as 

toca, e   freqüentá­las é, na verdade, abrir os portões 

que levam à salvação.”

Mme.    d’Esclaponville,  de  forma  alguma 

satisfeita   com   os   resutados   de   suas   censuras,  nada 

disse, mas jurou dentro de si mesma que encontraria 

uma forma mais eloqüente, mais convincente... o diabo 

com  isso  é  que  as  mulheres  sempre  têm  a  justiça  à 

mão: não  importa  quão  tolas  sejam,  tudo  o que  elas 

têm a fazer é dizer a palavra, e surgem vingadores de 

todos os lados.

Na cidade havia um certo padre conhecido 

como M. l’Abbé du Bosquet, um homem luxurioso em 

seus trinta anos, que perseguia todas as mulheres e 

tinha transformado as testas de todos os maridos de 

Saint­Quetin em uma floresta. Mme.   d’Esclaponville 

fez contato com o padre; imperceptivelmente, o padre 
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também   fez   contato   com   Mme.     d’Esclaponville,   e 

finalmente seu contato mútuo foi tão perfeito que eles 

poderiam ter pintado um ao outro da cabeça aos dedos 

dos pés sem qualquer possibilidade de erro. Ao fim de 

um   mês   todos   vieram   congratular   o   desafortunado 

d’Esclaponville, que tinha, a princípio, dito que só ele 

tinha  escapado  das  galantarias  do  abade,  e   que   em 

toda a Saint­Quentin a sua cabeça era a única que não 

tinha sido manchada pelos galhos.

“Isso não pode ser”, disse   d’Esclaponville 

para aqueles que lhe trouxeram as novidades. “Minha 

esposa  é  tão  bem  comportada  quanto  Lucrécia.   Você 

pode   me   dizer   isso   mais   cem   vezes   e   eu   não 

acreditarei.”

“Então venha comigo”,  disse  um de seus 

amigos.   “Venha   e   me   deixe   convencê­lo   com   seus 

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próprios olhos, e depois disso vamos ver se você ainda 

terá alguma dúvida.”

D’Esclaponville  aceitou  ser  levado,  e  seu 

amigo levou­o por meia légua para fora da cidade até 

um lugar solitário onde o Somme, entre dois campos 

floridos,   formava   um   deleitoso   lugar   onde   os 

habitantes da cidade podiam banhar­se. Mas como o 

rendezvous  deu­se  numa  hora  em   que  normalmente 

ninguém   estava   ainda   banhando­se,   nosso   pobre 

marido viu chegar, um depois do outro, sua esposa e 

seu   rival,   e   nenhum  dos   dois   demonstrou   qualquer 

desejo  de   interrupção.  “Bem,   agora”,  disse   o   amigo 

para  d’Esclaponville, “sua testa não começou a coçar?”

“Não   ainda”,   disse   o   cidadão,   coçando­a 

involuntariamente. “Talvez ela tenha vindo aqui para 

confesssar­se!”

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“Vamos ficar até o clímax”, disse o amigo. 

Não demorou muito. M. l’Abbé du Bosquet mal tinha 

chegado ao campo, removeu tudo que lhe cobria e que 

podia impedir o voluptuoso contato sobre o qual esteve 

meditando,   e   entregou­se   dedicadamente   aos   seus 

trabalhos de colocar, talvez pela décima­terceira vez, o 

honesto e meritório   d’Esclaponville na mesma classe 

que os outros maridos da cidade.

“Bem,   agora   você   acredita?”,   disse   o 

amigo.

“Vamos   voltar”,   disse     d’Esclaponville. 

“Por acreditar eu poderia matar esse maldito padre, e 

isso me custaria mais do que ele vale. Vamos voltar, 

meu amigo, e guarde meu segredo, eu lhe peço.”

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D’Esclaponville voltou para casa bastante 

confuso, e pouco depois sua gentil esposa chegou e se 

apresentou para o jantar ao seu lado.

“Só um momento, minha querida”, disse o 

furioso homem, “quanto eu era criança eu jurei para o 

meu pai nunca jantar com prostitutas.”

“Que   prostituta?”,   replicou   Mme. 

d’Esclaponville,   com   benevolência.   “Essa   insinuação 

me   choca,   meu   amigo,   o   que   você   tem   para   me 

censurar assim?”

“O   quê!  Você   está  cheia   de   corrupção,  o 

que eu tenho para censurar é que você estava, nessa 

tarde, lá no lugar de banhos com o nosso padre.”

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“Oh,   bons   céus”,   replicou   a   esposa, 

suavemente, “se é apenas isso, se isso é tudo o que você 

tem a me dizer...”

“Bondade!   O   que   você   quer   dizer,   se   é 

apenas isso...”

“Mas meu amigo, eu segui o seu conselho. 

Você   não   me   disse   que   você   não   arriscava   nada 

dormindo   com   membros   da   igreja,   que   a   alma   é 

purificada   numa   relação   tão   santa,   que   é   uma 

identificação de si mesmo com o Ser Supremo, que isso 

faz o Espírito Santo entrar em você, e que na verdade 

abre o portal que leva para a salvação... Bem, então, 

meu amigo, eu só fiz o que você me mandou fazer, e 

portanto eu sou uma santa e não uma prostituta! E eu 

posso assegurá­lo que, se qualquer um dessas  almas 

santas de Deus tem os meios de abrir o portal que leva 

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para a salvação, esse é certamente M. l’Abbé, porque 

eu nunca vi uma chave tão grande!”

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O PRECEPTOR FILÓSOFO

De   todas   as   ciências   que   se   ensinam  a 

uma criança quando se trabalha em sua educação, os 

mistérios do cristianismo, embora sejam decerto uma 

das   matérias   mais   sublimes   dessa   criação,   não   são 

todavia   as   que   se   introduz  com   mais   facilidade   no 

jovem espírito. Convencer, por exemplo, um rapaz de 

quatorze ou quinze anos de que Deus pai e Deus filho 

são um só, que o filho é consubstancial ao pai e que o 

pai também o é ao filho, etc., isso tudo, mesmo que seja 

necessário para a felicidade da vida, é mais difícil de 

fazer compreender do que álgebra; e, quando alguém 

se   vê   obrigado   a   ter   êxito,   é   obrigado   a   empregar 

certas   equivalências   físicas,   certas   explicações 

materiais   que,   mesmo   que   possam   parecer 

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desproporcionais, facilitam a um rapaz a compreensão 

dessa misteriosa matéria.

Ninguém estava convencido desse método 

tão plenamente quanto o padre Du Parquet, preceptor 

do   pequeno   conde   de   Nerceuil,   que   tinha   cerca   de 

quinze anos e o rosto mais formoso que seria possível 

ver. 

– Padre – dizia dia após dia o jovem conde 

ao seu preceptor –, a consubstancialidade está acima 

das   minhas  forças,   é   realmente   impossível   conceber 

que   duas   pessoas   possam   tornar­se   apenas   uma; 

esclareça   esse   mistério,   vos   suplico,   ou   pelo   menos 

coloque­o ao meu alcance.

O   virtuoso   eclesiástico,  desejoso   de   ter 

êxito em sua educação, feliz por poder ajudar seu aluno 

em   tudo   aquilo   que   lhe   poderia   tornar   um   homem 

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elevado,   pensou  um   método   muito   satisfatório   para 

amenizar as dificuldades que preocupavam o conde; e 

esse   procedimento,   necessariamente   obtido   da 

natureza, teria que dar bom resultado. Fez vir à sua 

casa uma pequena jovem de treze ou quatorze anos e, 

depois  de   aconselhá­la  da   maneira  conveniente,   fez 

com que se unisse ao seu discípulo.

–   Então   –   pergunta­lhe   –,   amigo   meu, 

entendestes agora o mistério da consubstancialidade? 

Compreendeis  com   menos  dificuldade  que  é   possível 

que duas pessoas se convertam em uma só?

– Oh, meu Deus, claro que sim, padre – 

responde o encantador energúmeno –, agora entendo 

tudo   com   uma   surpreendente   facilidade.   Não   me 

estranha que esse mistério, como se diz, seja a alegria 

dos seres celestiais, porque é muito agradável divertir­

se unindo dois  num só.
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Alguns   dias   mais   tarde,   o   jovem   conde 

pede ao seu preceptor que lhe dê mais uma lição, uma 

vez que achava que alguma coisa havia no mistério que 

não  podia  entender  bem,  e  que  seria  impossível  que 

alguém o explicasse de outra maneira que não aquela 

forma   como   havia   ocorrido   anteriormente.   O 

benevolente   padre,   que   se   divertia   com   a   cena 

provalvemente   tanto   quanto   o   seu   aluno,  outra  vez 

convoca a jovenzinha e novamente a lição começa; mas 

agora   o   padre,   singularmente   emocionado   pelo 

espetáculo   delicioso   que   o   belo   rapaz   de  

Nerceuil oferecia aos seus olhos ao consubstanciar­se 

com   sua   parceira,   não   pôde   resistir   a   interferir   na 

explicação  da   parábola  evangélica;   e   as   belezas   que 

com essa oportunidade tocariam suas mãos acabaram 

por inflamá­lo totalmente.

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–   Tenho   a   impressão   de   que   isso   está 

muito  rápido –  exclama Du  Parquet, agarrando pela 

cintura  o  jovem  conde  –,   há  muita  desenvoltura  nos 

movimentos, e por isso   conjução não é tão íntima e 

não é um reflexo ideal da imagem do mistério que deve 

ser demonstrado... mas se nos colocamos dessa forma, 

assim exatamente – prossegue o astuto, presenteando 

o  seu  jovem  discípulo  com  aquilo  que  este  oferece   à 

garota.

–   Ah,   ah!   Meu   Deus!   Padre,   me 

machucais!   –   grita   o   jovem.   –   E   também   essa 

cerimônia   toda   me   parece   inútil.  Que   mais  ela   me 

ensina sobre o mistério?

– Ah, não vês, meu amigo, que estou lhe 

ensinando tudo de uma vez só? Isso é a Trindade, filho 

meu... hoje estou lhe explicando a Trindade; mais cinco 

ou seis lições e serás doutor da Sorbonne!
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QUE SEMPRE ME ENGANEM 
ASSIM!

Poucas   criaturas   no   mundo   são   tão 

libetinas quanto o cardeal de ... , cujo nome, tendo em 

conta   sua   existência   ainda   tão   firme   e   saudável, 

permitireis que eu não diga. Sua Eminência tem uma 

relação,   em   Roma,   com   uma   dessas   mulheres   cuja 

servil profissão é a de dar aos libertinos o material de 

que   eles   precisam  como   base   para  as   suas   paixões; 

todas as manhãs, ela leva­lhe uma menina de treze ou 

catorze   anos,   no   máximo,  mas   com   a   qual   goza   o 

monsenhor   dessa   incongruente   maneira   que,   de 

maneira  geral,  faz  a   delícia  dos  italianos,  graças   ao 

qual  a   vestal  deixa   as   mãos  do  Senhor  Ilustríssimo 

mais  ou   menos  tão  virgem   quanto   a   elas  chegou,  e 

pode ser novamente revendida como donzela a algum 

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libertino mais decente. Àquela matrona, que conhecia 

perfeitamente   as   máximas   do   cardeal,   não   tendo 

encontrado  certo  dia  à  mão  o  material  que  se  tinha 

comprometido   a   fornecer   diariamente,   ocorreu­lhe 

vestir como menina um belíssimo menino do coro da 

igreja do chefe dos apóstolos; foi penteado, puseram­

lhe   uma   peruca,   anáguas   e   todos   os   acessórios 

necessários para convencer ao santo homem de Deus. 

Não lhe puderam conceder, entretanto, o que lhe teria 

assegurado verdadeiramente uma semelhança perfeita 

com o sexo que teria que substituir, mas esse detalhe 

pouco preocupava a alcoviteira... 

“Durante toda a sua vida, sempre pôs as 

mãos nesse lugar”, comentava aquela à companheira 

que   a   ajudava   no   embuste:   “Sem   dúvida,   ele   irá 

explorar somente aquilo que faz esse menino igual a 

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todas as meninas do universo; não temos, assim, nada 

a temer...”

Mas   a   matrona   tinha   se   equivocado. 

Ignorava, é certo, que um cardeal italiano tem um tato 

muito delicado e um  paladar  bastante treinado para 

equivocar­se em coisas desse tipo. Comparece a vítima 

e   o   grande   sacerdote   a   imola;   mas,   na   terceira 

estremeção:

­  Per   Dio   santo!  –   exclama o  homem  de 

Deus – Sono ingannato, quésto bambino ragazzo, mai  

non fu putana! 

E comprova­o... não vendo nada, todavia, 

muito  enojoso nessa aventura  para um habitante da 

terra santa, Sua Eminência segue seu caminho, talvez 

dizendo como aquele camponês a quem serviram trufas 

ao invés de batatas:

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“Que me enganem sempre assim!”

Mas, quando terminou toda a operação:

– Senhora – diz à mulher –, não vos culpo 

por vosso erro.

– Perdoai­me, monsenhor.

– Não, não, vos repito, não vos culpo por 

isso, mas se isso voltar a acontecer, não deixeis de me 

advertir, porque ... o que eu não descobrir a princípio, 

descobrirei mais tarde.

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O MARIDO COMPLACENTE

Toda   a   França   acabou   sabendo   que   o 

príncipe  de   Bauffremmont  tinha   mais  ou   menos  os 

mesmos  gostos   que   o   cardeal   de   quem   falamos   há 

pouco.   Concederam­lhe   como   esposa   uma   senhorita 

muito   ingênua,   à   qual,   como   é   de   hábito,   não   se 

ensinou qualquer coisa até a véspera.

– Sem mais explicações – disse a mãe –, 

porque  a  decência  não  me  permite  entrar  em  certos 

detalhes, só há uma coisa que eu devo recomendar­lhe, 

minha filha; desconfie das primeiras propostas que o 

seu   marido   lhe   fizer,   e   lhe   diga   com   firmeza:  não, 

senhor, de maneira alguma é por aí que se possui uma 

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mulher honesta; pode ser por qualquer outro lado, da 

forma como lhe agradar, mas não por aí, decerto...

Deitam­se   e,   por   qualquer   princípio   de 

pudor   e   honestidade   de   que   ninguém   sequer 

suspeitaria,   o   príncipe,  querendo  fazer   as   coisas   de 

acordo   com   a   norma   pelo   menos   na   primeira   vez, 

oferece à sua mulher os castos prazeres do himeneu; 

mas a jovenzinha, bem instruída, lembra­se da lição:

–   Por   que   tipo   de   mulher   me   tomas, 

senhor? –   disse­lhe – Pensas que eu consentiria em 

tais coisas? Por qualquer outro lado, da forma como lhe 

agradar, mas por aí não, decerto...

– Mas, senhora...

–   Não,   senhor,   é   em   vão:   nunca 

conseguirás que eu consinta.

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– Pois bem, senhora, terei que satisfazer­

te –   disse o príncipe, tomando para si os altares que 

lhe eram tão queridos – , seria desgostoso para mim 

que se dissesse, alguma vez, que eu quis desagradar­

lhe. E que agora venham a dizer­nos que não vale a 

pena instruir as mocinhas sobre o que devem dar aos 

seus maridos!

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A FLOR DO CASTANHEIRO

Alguns acreditam, eu não diria isso, mas 

nos   asseguram   alguns   intelectuais   que   a   flor   do 

castanheiro possui, na verdade, o mesmo cheiro que o 

abundante sêmen que a natureza decidiu colocar nos 

rins   dos   homens   para   a   reprodução   de   seus 

semelhantes.

Uma terna dama, de uns quinze anos de 

idade,   que   nunca   tinha   saído   da   casa   de   seu   pai, 

passeava   certo   dia  com   sua  mãe  e   com   um  suposto 

padre   pela   alameda   de   castanheiros   que   com   a 

fragrância das flores embalsamavam o ar com o cheiro 

suspeito que tomamos agora há pouco a liberdade de 

mencionar.

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–   Oh   meu   deus,   mamãe,   esse   perfume 

estranho – disse a jovenzinha à sua mãe sem dar­se 

conta   de   onde   o   cheiro   vinha.   –   Vós   o   sentis, 

mamãe... ? É um cheiro que eu conheço.

–   Senhorita,   calai­vos,   não   digais   essas 

coisas, rogo.

– Por que não, mamãe? Não acho que há 

algo   de   mal   em   dizer­vos   que   não   desconheço   esse 

cheiro e que disso não tenho nenhuma dúvida.

– Mas senhorita...

–   Mas  mamãe,  eu  repito  que  o  conheço: 

padre, peço que me digais que mal eu faço ao dizer à 

minha mãe que conheço esse cheiro.

–   Senhorita   –   responde   o   eclesiástico, 

acariciando sua papada e atenuando sua voz –, não é 

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que tenha feito exatamente mal nenhum, mas é que 

aqui nós falamos debaixo de uns castanheiros e nós, 

que somos naturalistas, admitimos, em botânica, que a 

flor do castanheiro...

– Que a flor do castanheiro...?

–   Pois   bem,   senhorita:   que   ela   tem   o 

cheiro de quando se ejacula.

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Todas as traduções deste ebook 

podem ser reproduzidas, desde que 

seja citada a fonte.

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cortesia pelo blog Faces de Eros:

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publicado em setembro de 2008

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