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Cuidado: o futuro que a série mostra está mais próximo do que você imagina.

lente da verdade sua vida em likes espionagem caseira upload de cérebro


As lentes de contato que A China vai imitar a série: Como agem os hackers que San Junipero é aqui: como
gravam tudo já foram quer ranquear seus cidadãos veem o que você está fazendo a ciência busca transferir a
patenteadas pelo Google. com base na vida social deles. na frente do computador. mente para fora do corpo.

uidado: o futuro que a série mostra está mais próximo do que você ima
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especial black mirror

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especial black mirror

0
0
isso
é
muito

black mirror

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especial black mirror . capítulo 1

SUMÁRIO
0 0
06
carta dos editores

espelho negro as conexões em black mirror


Os episódios que fazem referência
Desligue o celular e olhe para a tela preta. Es- a outros episódios.
se é o “black mirror”, o “espelho negro” que
batiza a série criada pelo britânico Charlie
Brooker, e que acaba de ganhar sua quarta
temporada. Além da escuridão, você também
vê o seu reflexo ali. Por isso é pouco exato di-
zer que Black Mirror trata só de tecnologia –
mais que isso, é uma série sobre você. Sobre
nós. Sobre como a tecnologia está afetando a
forma como a gente convive.
Repare que o tempo verbal está no pre-
sente. Sim, os episódios são centrados em
futuros distópicos. Mas eles só servem para
ilustrar aonde podemos chegar sendo o que
somos neste momento. É o que as reporta-
gens desta edição apresentam: a atualidade
não apenas presente, mas gritante em cada
capítulo de Black Mirror.
Enquanto você lê estas linhas, crimino-
sos transmitem suas ações em tempo real
nas redes sociais, como acontece no episó-
dio do porco; cientistas realizam estudos sé-
rios sobre imortalidade, como em San Juni-
pero; empresas criam gadgets para transfor-
mar soldados em supercombatentes, como
em Engenharia Reversa; hackers invadem re-
des para monitorar pessoas (tema de Man-
da Quem Pode); gente lincha gente na inter-
net (Odiados pela Nação). Tudo isso faz par-
te desta edição, que contou com o trabalho de
mais de uma dezena de repórteres e uma sé-
rie de especialistas.
Aproveite.

ana Prado, rodolfo Viana e Tiago loPes


Editores

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especial black mirror . capítulo 1

00
T1 T2 T3
10
inferno ao vivo
24
fale com os mortos
40
quantos likes sua vida merece?
1 Homicídios e outras barbaridades
transmitidas ao vivo já são
1 Os chatbots estão aprendendo
rápido: o próximo passo
1 A China vai imitar Black Mirror:
está ranqueando seus cidadãos
parte do dia a dia. é trazer mortos “de volta”. com base na vida social deles.

28
marcados para sempre
44
a vida é um jogo
2 As punições polêmicas da vida
real: olho por olho, listas de
2 Seu cérebro está preparado para
games que inserem elementos
pedófilos e castração química. virtuais no mundo real? Nem tanto.

32
animais políticos
48
confissões de um hacker
x políticos animais Como trabalha Shadow Ghost,
3 O rinoceronte e o chimpanzé
3 uma versão de carne e osso do
que se deram bem em eleições. hacker de Manda Quem Pode.

36
tempo elástico
52
upload de consciência
4 Entenda a ciência de verdade por
trás da estrela do episódio:
4 A ideia de transferir a mente para
fora do corpo ronda a cabeça
a distorção do tempo. de cientistas e filósofos.

56
supersoldados

14
propaganda onipresente
5 Novos equipamentos transformam
soldados em versões reais
do Exterminador do Futuro.

2 A publicidade já está tão distópica,


e inteligente, quanto a do episódio
Quinze Milhões de Méritos.
60
odiados pela internet

20
cada segundo da sua vida
6 Os linchamentos virtuais,
e os riscos bem reais
que eles trazem.

3 As lentes de contato que gravam


sem parar serão uma realidade.
E já existe uma minicâmera assim.

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especial black mirror . conexões

0
0
as conexões em
black mirror
Vários episódios fazem
referências bem-humoradas
a outros. Veja todas aqui.
> texto
rodolfo Viana
> edição
ana prado
> infográfico
flaVio pessoa
1h07min14s
00min00s

10min35s

36min36s

00min00s

03min43s

13min40s

31min57s

00min00s

01min07s

29min02s

29min22s

00min00s
04min26s
04min41s
05min00s

00min00s
11min42s
32min39s
44min38s
56min27s
56min34s
56min36s
56min44s
56min57s

06min32s

44min34s

00min00s

e1 e2 e3 e1 e2 e3 e4 e1

Temporada 1 Temporada 2 Temporada 3

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especial black mirror . conexões

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0
Como ler o gráfiCo seus resultados 1ª TEMPOrAdA 1º episódio

As setas partem do episódio que hino nacional


gerou a referência e pousam TEMPOrAdA número do episódio
número de referências
naqueles que fazem as referências episódio
a ele. Entendeu? Então vamos lá. referenciado 5 CENAS em 4 EPiSódiOS

número de referências
x CENAS em x EPiSódiOS

1 O gráfico em miniatura
diz em quais episódios há
alguma referência.
2 As fotos mostram algumas T3:E3 / 49min25s

das cenas com referências,


e a legenda, o momento em
que elas surgem.

T3:E1 / 44min34s

T3:E6 / 59min43s

Em Manda Quem Pode (T3:E3)


aparece o link para uma notícia
sobre o divórcio do primeiro-
ministro do episódio do porco.
O nome dele também aparece em
Queda Livre (T3:E1), numa nota
de site um tanto jocosa: “Michael
Callow foi expulso do zoológico
de novo”. No mesmo episódio,
13min39s

13min42s

17min59s

23min01s

09min43s

49min25s

59min08s

05min05s

13min40s

03min12s

09min56s

12min20s

13min52s

28min05s

59min43s

59min44s

1h25min12s

aparecem cosplayers fãs de Sea


of Tranquility, programa citado no
primeiro episódio da série.
e2 e3 e4 e5 e6 Em Odiados pela Nação (T3:E6),
Michael Callow aparece nos
trending topics. Em Natal, (T2:E4)
há outra menção ao divórcio.

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T3:E6 / 59min44s T3:E2 / 17min59s
1ª TeMpoRada 2º episódio

Quinze Milhões
de Méritos
núMero de referências
4 cenas eM 3 episódios

T3:E3 / 49min25s
em natal (T2:e4), o programa a
que potter assiste se chama Hot
shot. É o show de talentos do qual
abi participa em Quinze Milhões
de Méritos (T1:e2). abi canta a
música anyone Who Knows What
Love is, que também é cantada no
karaokê por Beth, mulher de potter.
o soldado Raiman, de engenharia
Reversa (T3:e5), também canta a
melodia, enquanto mantém parn
Heidekker sob custódia. Uma outra 2ª TeMpoRada 2º episódio
ligação mostra, na verdade, uma
falha de continuação da série:
urso Branco
numa cena do episódio Manda núMero de referências
Quem pode (T3:e3), surge um link 8 cenas eM 4 episódios
com a chamada “Quinze Milhões de
Méritos será lançado na próxima
semana”. “Quinze Milhões de
Méritos” é o nome do episódio –
o do programa é Hot shot mesmo.

Victoria Skillane. Guarde o nome da junto a #DeathTo, hashtag usada para se-
mulher acusada de sequestrar e matar uma lecionar quem será morto. No mesmo epi-
criança em Urso Branco – ele aparece em di- sódio, há uma referência à mulher nos tren-
versas cenas de outros episódios. Em Na- ding topics: um deles é #FREETHEWHI-
tal (T2:E4), o telejornal traz, no rodapé, es- TEBEARONE” (libertem a pessoa de Urso
ta chamada: “Apelação de Victoria Skillane é Branco, em tradução).
rejeitada”. Além disso, no mesmo episódio, Mas não é apenas o nome de Victoria
T2:E4 / 56min27s
o símbolo que aparece na TV de Victoria – que se repete em Odiados pela Nação. A de-
uma reprodução da tatuagem de Ian Ranno- tetive Blue diz que, antes de se juntar à equi-
ch, seu noivo – é mostrado na porta de uma pe de Karin Parke, trabalhou no caso Ran-
cela. O desenho também aparece no equipa- noch – aquele do assassinato da menina Je-
mento de conexão com o cérebro da equipe mima, pelo qual Victoria e seu noivo, Ian
de Shou Saito, no episódio Versão de Testes. Rannoch, foram condenados.
Em Manda Quem Pode (T3:E3), um link No noticiário de Odiados pela Nação
no site mostra as últimas notícias no caso também há uma chamada que faz referên-
de Victoria Skillane. O nome volta a apare- cia a Urso Branco. A nota diz que a Corte re-
T2:E4 / 44min38s cer no episódio Odiados pela Nação (T3:E6), jeitou a apelação de Victoria Skillane.

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especial black mirror . conexões

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T3:E6 / 09min56s
2ª TeMpoRada 3º episódio 3ª TeMpoRada 5º episódio

momento Waldo engenharia


reversa
número de referências
4 cenas em 2 episódios número de referências
2 cenas em 1 episódio

3ª TeMpoRada 2º episódio
odiados pela nação (T3:e6) traz
versão de testes três referências ao episódio.
no rodapé do noticiário, uma
número de referências
mensagem diz: “shou saito
5 cenas em 2 episódios
anuncia novo sistema de jogos”.
saito é o idealizador da franquia
T2:E4 / 11min42s
Harleck shadow em Versão de
“o membro do parlamento Liam Testes (T3:e2). o nome também
Monroe alega que seu Twitter foi aparece em outro momento no
hackeado”, diz a notícia no rodapé telejornal, na chamada “saito
do telejornal de natal (T2:e4). apresenta o jogo Harlech shadow T3:E6 / 03min12s

Liam Monroe foi o adversário Vi”. além disso, o título anterior da


franquia está nos trending topics. o telejornal de odiados pela nação
de Waldo ao parlamento. Mas (T3:e6) mostra, no rodapé, a
essa não é a única referência no chamada “Forças armadas dos eUa
episódio. Um dos participantes da T3:E2 / 13min42s anunciam o projeto Mass”. Mass
3ª TeMpoRada 4º episódio
teleconferência durante o encontro é o programa do qual participam os
coordenado por Matt em natal tem san junipero soldados de engenharia Reversa
o apelido de i_aM_WaLdo. além (T3:e5). o Mass também aparece
disso, a TV exibe a mesma cena do número de referências
nos trending topics ali.
talk-show Tonight for one Week 1 cena em 1 episódio
only, do qual Waldo participa. em Versão de Testes (T3:e2),
Um adesivo do urso azul também uma capa de revista menciona a 3ª TeMpoRada 6º episódio
aparece num computador em TcKR, a empresa de tecnologia
Manda Quem pode (T3:e3). que transporta a consciência para odiados
outras realidades em san Junipero. pela nação
número de referências

T3:E6 / 13min52s
1 cena em 1 episódio
2ª TeMpoRada 4º episódio
0m20s
natal
número de referências
2 cenas em 2 episódios
na tela de um computador que aparece em Manda Quem pode (T3:e3) há outra chamada da revista de Versão
um espaço de publicidade com referência ao cookie de gerenciamento de Testes (T3:e2) diz que a Granular
doméstico do episódio natal. Mais: em odiados pela nação (T3:e6), uma “testa a tecnologia VTs”. Granular
chamada no rodapé do telejornal diz que “a ecHR [corte europeia de é a empresa das abelhas-robôs no
direitos Humanos] decide que cookies têm direitos humanos”. T3:e6.

| BLACK MIRROR | superinteressante 9

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especial black mirror . temporada 1

0 0
T1
E1 título original
ThE NATIONAl ANThEm
na ficção

o “episódio do porco” curiosidade


título em português Fora da ficção, uma
hINO NAcIONAl Esqueça a princesa britânica sequestrada e o primeiro-ministro princesa britânica quase foi
coagido a fazer sexo com um porco ao vivo, em rede nacional, sequestrada. Anne, filha da
exibição original
como forma de resgate. Hino Nacional, episódio que deu início rainha Elizabeth 2a, teve seu
4 dE dEzEmBrO dE 2011
a Black Mirror, na verdade fala de outro assunto: o fascínio pe- carro interceptado em 1974
nota no IMDb la violência. Divulgado no YouTube, o vídeo em que a princesa enquanto se dirigia ao Palácio
8/10 lê a exigência dos sequestradores já acumulava 50 mil visuali- de Buckingham. O algoz,
zações. Tão logo a imprensa começa a cobrir o sequestro, os te- chamado Ian Ball, baleou o
lespectadores colam os olhos na TV. Quando enfim é transmi- segurança, o motorista, um
tido o ato sexual grotesco, 1,3 bilhão de pessoas assistem. Os policial e outras quatro pessoas.
telespectadores estão confortáveis em suas casas, no trabalho, Ordenou à princesa que saísse
em bares, enquanto, do outro lado da tela, um homem é obri- do veículo, mas ela recusou.
gado a cometer zoofilia ao vivo, diante de toda a nação. Alguns, Um ex-boxeador que passava
por repulsa, tapam os olhos diante do horror – mas, de vez em por ali deu um soco em Ball,
quando, abrem os dedos para espiar. e ele fugiu. Acabou preso depois.

10

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especial black mirror . temporada 1

0
0
no mundo real

INFERNO
AO VIVO
homicídios, estupros e outras barbaridades já são
transmitidos a milhares de pessoas em tempo real.
> reportagem Oxford, Reino Unido, 1985. Sedentos por sexo e drogas, jovens
lorena dana da aristocracia britânica se aglomeram na sede do exclusivís-
> edição o simo clube de cavalheiros Piers Gaveston Society. Os calou-
ros mal podem esperar para fazer parte daquele seleto grupo
rodolfo Viana
libertino. Juntos, entoam o lema do grupo: “Ninguém jamais
se lembrará de um homem satisfazendo tanto a outro homem”. Logo, o líder
da reunião dá o comando. Sem reservas, os jovens hedonistas despem su-
as calças e roupas íntimas, acariciam seus órgãos sexuais e os metem den-
tro dos focinhos de porcos mortos. O ritual de iniciação teria sido protagoni-
zado por um rapaz que, anos mais tarde, viria a ser primeiro-ministro britâ-
nico: David Cameron.

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especial black mirror . temporada 1

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O episódio, negado por Cameron,
veio a público na biografia Call Me Da-
ve, escrita por Michael Ashcroft e Isa-
bel Oakeshott, e publicada em 2015.
Tão logo chegou às livrarias do Rei-
no Unido, os leitores fizeram conexão
com o episódio de Black Mirror, exibi-
do quatro anos antes. Charlie Brooker,
criador da série, negou qualquer rela-
ção entre a história e os rumores de
sexo entre Cameron e um suíno mor-
to. Mas nem sempre a ficção está lon-
ge da realidade. Como no episódio do
porco, vários crimes já foram acom-
panhados via internet em tempo real.

Ao vivAço
Desde que as tecnologias de streaming
se popularizaram, criminosos têm usa-
do as redes sociais para transmitir mor-
tes, estupros e outras atrocidades. As
principais plataformas usadas são o Fa-
cebook Live, criado em 2016, e o YouTu-
be, cuja transmissão ao vivo por celu-
lar foi disponibilizada para canais com
pelo menos cem inscritos neste ano.
Um caso que gerou repercussão
foi o de Steve Stephens, conhecido co-
mo “o assassino do Facebook Live”
por matar um idoso de Cleveland, nos
EUA. A vítima era Robert Godwin, um
homem de 74 anos que voltava para ca-
sa após passar a Páscoa com a família.
Nas imagens que viralizaram pela internet, o as-
Rede sociopata o ladRão que RegistRou
sassino se aproxima do carro e pede que a vítima o pRópRio assalto
diga “Joy Lane”, nome de sua ex-namorada que Cinco crimes que
acabara de terminar o namoro. Robert repete as entraram no feed Em janeiro, uma família de
palavras e é atingido por um disparo. Num segun- ao vivo em 2017. Macapá (AP) foi rendida por dois
do vídeo, o atirador diz ter matado 14 pessoas e assaltantes de 17 e 23 anos.
afirma que continuaria a matar. Com o pânico na Quando a polícia chegou e iniciou
região, as autoridades ofereceram uma recom- a negociação para liberar os
pensa de US$ 50 mil em troca de informações que reféns, o de 17 resolveu fazer uma
levassem ao assassino. Dois dias depois, funcio- transmissão ao vivo pelo Facebook.
nários de um drive-thru o reconheceram e cha- No vídeo, ele aparecia deitado
maram a polícia. Após uma perseguição pelas ru- numa cama, ouvindo música,
as da cidade, Steve se matou com um tiro na ca-
enquanto o comparsa coagia uma
beça. Nenhum outro homicídio foi comprovado.
das vítimas. Três horas depois, os
ContrA-AtAque criminosos se entregaram.
Preocupadas com a repercussão negativa, as em-
presas tomam medidas para tentar coibir a publi-
cação de conteúdo violento. Após o caso de Steve

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especial black mirror . temporada 1

0
0
você seria
Stephens, o Facebook anunciou a intensificação
dos esforços para identificar e derrubar vídeos de
crimes, o que incluía a contratação de 3 mil novos

cúmplice se
moderadores (em adição aos 4,5 mil já existentes)
para analisar posts suspeitos. Já o YouTube aposta
em ações educativas, como uma série de vídeos

assistisse
contra bullying feita em parceria com youtubers
influentes. “Também recomendamos que vídeos
de crimes sejam denunciados”, diz Cauã Taborda,
gerente de comunicação da empresa.
A legislação brasileira relacionada a crimes ci-
bernéticos – a Lei “Carolina Dieckmann”, criada
em 2012 após a atriz ter suas fotos pessoais rou-
ao vídeo de
badas e divulgadas – não contempla especifica-
mente transmissões do tipo. O desafio aí é definir
o papel de quem assiste. Se você visse um vídeo
um crime em
de homicídio ao vivo e não reportasse o crime às
autoridades, poderia ser um cúmplice?
De acordo com o advogado especialista em
tempo real e
direito digital Marcelo Crespo, não. “Espectado-
res de vídeos de crimes em tempo real não têm
obrigação legal de notificar as autoridades”, ele
não reportasse
diz. “A não ser que seja constatada uma relação
de responsabilidade, como uma babá que assiste
ao bebê ser torturado.” Mas quem assiste ao ví-
à polícia? no
deo e faz comentários de apoio pode ser enqua-
drado, sim. Publicar “Bem-feito”, por exemplo,
pode indicar apologia. E a pena é detenção de até
Brasil, não.
seis meses ou multa.

um linchamento ao vivo o assassinato transmitido um estupro coletivo o traficante que se entregou


para um país inteiro por acidente no facebook com um vídeo ostentação
Em fevereiro, dois eslovenos foram Publicado em fevereiro via Em março, um estupro coletivo foi Em junho, a polícia de Jacksonville,
presos por espancar a vítima até a Facebook Live, o vídeo mostra uma transmitido ao vivo pelo Facebook na Flórida (EUA), surpreendeu o
morte. O vídeo já acumulava mais mulher grávida cantando enquanto Live. A vítima era uma adolescente traficante Breon Hollings, de 22
de 250 mil visualizações e 400 dirige um carro em Chicago (EUA). e foi atacada por seis rapazes anos, ao fazer uma batida em sua
likes quando a polícia recebeu uma Ali estão também seu namorado e nos EUA. Apesar de 40 pessoas casa. O rapaz estava ao vivo no
denúncia anônima. As autoridades o sobrinho de 2 anos. De repente, terem assistido às cenas, ninguém Facebook, esbanjando maços de
levaram horas para encontrar ouve-se uma rajada de tiros denunciou o crime. O departamento dólares. Ao perceber a chegada dos
a vítima, que ainda estava viva, vinda do lado de fora – era uma de polícia tratou o caso como abuso agentes – que anunciaram a ação
mas não resistiu aos ferimentos. emboscada. As balas atingem o sexual com agravante de criação por meio de um megafone –, ele
De acordo com um jornal local, homem e a criança, que morrem. A e disseminação de pornografia tentou fugir, mas acabou preso.
“Andrej Cekuta morreu enquanto a motorista é ferida na barriga, mas infantil. Dois dos estupradores No local, foram encontradas
Eslovênia assistia”. consegue escapar e buscar ajuda. foram identificados e presos. armas e cocaína.

© Fotos Divulgação Ilustrações Indio San | BLACK MIRROR | superinteressante 13

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especial black mirror . temporada 1

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T1
E2 título original
FIFTeen MILLIon MeRITS

título em português
na ficção

tecnologia a serviço
da escravidão
curiosidade
Satírico na forma como
apresenta programas de
QuInze MILhõeS De MéRIToS talentos da TV e seus jurados
Quinze Milhões de Méritos talvez seja o episódio mais conecta- arrogantes, o episódio foi ao
exibição original
do com o tema principal de Black Mirror: a onipresença das te- ar na mesma noite da final da
11 De DezeMbRo De 2011
las interativas. Aqui, elas cercam o quarto onde as pessoas dor- edição de 2011 da competição
nota no IMDb mem, seus banheiros, tudo. Nesse contexto, acompanhamos musical The X Factor. Com um
8,3/10 o personagem Bing, que passa o dia pedalando em uma bicicle- cover da canção Cannonball,
ta que transforma esforço físico em eletricidade. O pagamento de Damien Rice, o quarteto
pelo trabalho é feito em méritos, uma espécie de moeda virtual. feminino Little Mix saiu
Dinheiro, porém, não significa muita coisa quando a vida vitorioso. Mais de 12,8
se restringe ao trabalho. É por isso que Bing decide usar parte milhões de pessoas
de suas economias para ajudar Abi, sua nova colega e cantora assistiram à final no canal
amadora de grande talento, a se inscrever no programa de ca- ITV1. Quinze Milhões de
louros Hot Shot. A garota encara o desafio e conquista a plateia, Méritos, transmitido pelo
mas logo descobre que não é tão simples sair daquela servidão Channel 4, foi visto por 1,1
– mesmo que ela não envolva mais as bicicletas. milhão de espectadores.

14

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especial black mirror . temporada 1

0
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no mundo real

pedalada quanto cada mérito vale

Uma maçã verde custa em torno de R$ 0,90

Made in Brazil No episódio, uma


maçã verde custa 2.500 méRitos
logo,
CRiAdoR dE BlACK MiRRoR
tiRoU dE PRESídio MinEiRo
A idEiA dE GERAR EnERGiA
CoM BiCiClEtAS EStátiCAS.
1 REAL 2.777,78 méRitos
> reportagem
Rodolfo Viana
Você também pode gerar energia pedalando. Apa-
relhos caseiros como o K-tor Power Box (US$ 200
na Amazon) geram 20 Watts de potência – o bas-
1 méRito 0,00036 REAL
> edição o salário mínimo em méritos
Tiago lopes tante para carregar quatro smartphones de uma vez.
Já a ideia para este episódio veio do Brasil. Charlie
Brooker, o criador da série, comentou em 2014: “É
algo similar ao que acontece em um presídio brasi-
leiro, onde os detentos pedalam para gerar energia
937REAis 4,26 REAL/hoRA isso equivale a
e são recompensados com, sei lá, doces ou algo as-
sim”. Ele se referia ao presídio de Santa Rita do Sapu-
caí, no sul de Minas Gerais. Em 2012, o juiz José Hen-
rique Mallmann instituiu que os detentos com bom
2.602.777,78 ou ainda
méRitos
comportamento usassem bicicletas afixadas no pá- 289 horas, 29 minutos
tio para produzir a energia consumida por oito pos-
tes da Avenida Beira-Rio, no centro do município. A
e 38 segundos
cada 16 horas de pedal, um dia era reduzido da pena. De peDalaDa

* Salário mínimo em 2017


Em Quinze Milhões de Méritos, as pedaladas quanto ganham os personagens
rendem “méritos”, que servem como uma moeda.
Uma maçã verde, no episódio, custa 2.500 méritos. Um ciclista faz Em 220 horas, faz 1.980.000 méritos.
Veja ao lado quanto os méritos valeriam em reais.
2,50
méritos/segundo
R$ Isso dá R$ 712,80 por mês.

quanto custariam as coisas da vida real em horas pedaladas

VAloR (em méritos) VAloR (em real) tEMPo dE PEdAl


no episódio
pular anúncio 1000 0,36 6min40s

escolher cenário para pedalar 200 0,07 1min20s

assistir a um vídeo pornô 10.000 3,60 1h6min40s

Bilhete para hot shot 15.000.000 5.400,00 69d10h40min

na vida real
plano básico da netflix 55.278 19,90 6h8min31s

esta revista 47.222 17,00 5h14min49s

iphone X 19.441.667 6.999,00 90d0h11min7s

pão na chapa com café preto 5.556 2,00 37min2s

spotify premium 46.944 16,90 5h12min58s

multa de cancelamento do uber 19.444 7,00 2h9min38s


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especial black mirror . temporada 1

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no mundo real

propaganda
onipresente
A publicidAde de hoje já é quAse tão distópicA,
e inteligente, quAnto A de quinze milhões de méritos.

> reportagem Bing Madsen pedala todos os dias para gerar energia. Em troca,
KAluAn bernArdo ganha méritos, úteis para comprar itens virtuais, alimentos e ter
o direito de não ver anúncios. Quando Bing não está em frente à
> edição
tela do trabalho, está entre as de seu quarto, jogando, vendo pro-
tiAgo lopes
gramas televisivos e sendo constantemente interrompido por pu-
blicidade: a cada minuto, tem que se deparar com propagandas.
Black Mirror é uma ficção científica distópica: altera alguma prática comum
da sociedade atual para imaginar o pior desdobramento possível caso tal com-
portamento continue se alastrando. Quinze Milhões de Méritos discute meritocra-
cia, sociedade do espetáculo, entretenimento televisivo. Mas um dos aspectos ali
apresentados que mais parecem se aproximar da nossa realidade é a insistência

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de uma publicidade quase onipresente, que fun- uma tecnologia chamada “cookie”. Ela foi criada
ciona como combustível para todo aquele siste- em 1994 por dois programadores: Lou Montulli
ma socioeconômico. e John Giannandrea, que trabalhavam no Nets-
cape, um dos primeiros navegadores de inter-
Mineradores de dados onipresentes net. De forma bem resumida, um cookie é um
Em 2003, um homem entrou furioso num dos pequeno pacote de dados em texto que é arma-
muitos endereços da Target, rede de lojas de va- zenado no seu computador quando você usa um
rejo dos EUA. Sua filha, ainda na escola, estava navegador. Eles são úteis para deixar a navega-
recebendo anúncios sobre maternidade e gravi- ção mais veloz e personalizada (e são eles que
dez. Ele estava preocupado com o fato de a lo- salvam suas senhas, por exemplo), mas também
ja estar incentivando-a a engravidar. O pai ainda são usados para coletar dados dos usuários.
não havia descoberto o que a empresa já sabia: É por isso que quando você procura, diga-
sua filha estava grávida, informação que a Target mos, carros, passa a ver, por dias, anúncios de
deduziu por causa da coleta de dados da menina diversos modelos. O Google e outras empresas
e de outros clientes. que apresentam publicidade online estudam
A história foi contada por um orgulhoso time seus cookies e vendem a anunciantes. Claro que
de estatísticos da rede a uma reportagem do The nem sempre há uma relação direta: se alguém lê
New York Times, publicada em fevereiro de 2012, muitas notícias sobre futebol, séries e compra in-
sobre seus consumidores. Eles se gabavam de gressos de show pela internet, o anunciante po-
saber tudo: idade, estado civil, endereço, tempo de concluir, por exemplo, que é um homem, jo-
de percurso de casa à loja, salário estimado, mu- vem, prestes a comprar seu primeiro carro. E o
danças de endereço, cartões de crédito, histórico usuário passará a ver anúncios de carros mais
de navegação, de empregos, de leituras, de cur- baratos, mesmo que ainda não tenha pensado
sos e, claro, quais tipos de produto gostava. Iso- em adquirir um.
lados, esses dados podem não dizer muito, mas, Giannandrea é o atual chefe de inteligência
quando estatísticos os cruzam, podem até iden- artificial no Google. Na mais recente edição do
tificar se uma mulher está grávida — mesmo que TechCrunch Disrupt, evento de tecnologia no Va-
ela não tenha contado a ninguém. le do Silício que aconteceu em setembro de 2017,
Tudo se intensifica no mundo digital graças a ele disse que as previsões apocalípticas sobre o

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futuro de robôs e algoritmos são exa-
geradas. Apesar disso, reconheceu
AntipropAgAndA
Como cada geração lida com publicidade na internet.
que estamos apenas no começo: se-
gundo o engenheiro, é como se a in- Geração (faixa etária)
teligência artificial fosse uma criança
x (35 a 49) y (20 a 34) z (16 a 19)
de 4 anos sem muito objetivo de vida.
Essa criança, no entanto, parece 100%
estar aprendendo bastante. Quan-
90%
to mais nos conectamos, mais po-
demos ser rastreados e mais nossos 80%

dados podem ser usados. No mes- 70%


mo mês desse TechCrunch Disrupt, 60%
o Facebook anunciou que, por meio
50%
da tecnologia de localização do smar-
tphone, pode saber que você esteve 40%

em uma loja e então passar a te mos- 30%


trar anúncios daquele estabelecimen- 20%
to. E você nem precisa abrir o aplica-
10%
tivo para a rede social saber que vo-
cê esteve lá. 0
Computação ubíqua foi um con- Pulam ignoram Evitam anúncios BloquEiam anúncios
anúncios anúncios fisicamEntE com uso dE tEcnologias
ceito cunhado em 1988 por Mark Wei- (fazendo outras atividades (como ADBlock)
ou desviando o olhar da tela)
ser, ex-chefe de tecnologia da Xerox.
No final da década de 1980, ele previa
que os computadores não estariam
apenas em nossas mesas, mas em nossos bolsos,
pulsos e onde quer que fôssemos. Mas Weiser ia (conglomerado que é dono do Google) quanto o Fa-
além: dizia que, com o tempo, os computadores cebook captaram em 2016 60,4% dos investimen-
iriam se dissolver para estar em todos os objetos ao tos em anúncios digitais nos EUA. A expectativa é
nosso redor. É algo que muitos especialistas e entu- que, apenas no país, o Google tenha receita de US$
siastas começam a enxergar hoje e a chamar de In- 35 bilhões com anúncios online em 2017; e o Face-
ternet das Coisas. book, US$ 17 bilhões. Nenhuma outra plataforma
Mas até onde poderemos ser rastreados em no- conseguiu mais do que 5% desse bolo de receitas.
me da publicidade? E quais as consequências des- “É muito ruim ter duas empresas gerindo tu-
ses anúncios? Será que, tal como na série, passare- do. É um problema sério tê-las ditando as regras
mos a ser interrompidos e até mesmo perseguidos do mercado de publicidade digital”, comenta. “As
por propagandas? pessoas sabem que estão cedendo dados a essas
empresas? Que suas informações podem ser usa-
das para publicidade e outros fins não tão claros?”
Uma pUblicidade só para você De fato, há bastante preocupação também por
Marcelo Santos, doutor em comunicação e semióti- parte da população. Uma pesquisa de 2014 do ins-
ca pela Pontifícia Universidade Católica de São Pau- tituto Pew Research revela que, nos EUA, nove em
lo (PUC-SP), acredita que um dos principais proble- cada dez adultos acreditavam ter perdido o contro-
mas é a falta de transparência na coleta de dados. le da maneira como suas informações pessoais são
“Tudo o que fazemos gera dados. E eles têm sido coletadas por empresas. E oito em cada dez se pre-
entregues de forma obscura para incentivar um con- ocupam justamente com seus dados sendo com-
sumo acrítico 24 horas por dia. Tudo sem que as partilhados com anunciantes.
empresas tenham que assumir qualquer responsa- Para Santos, a saída é mais transparência e con-
bilidade pelo que fazem”, opina. trole por parte das empresas, além de regulações
E quando fala em empresas, Santos está se na esfera pública. “Não é errado eu coletar os da-
referindo a duas: Google e Facebook. Segundo o dos dos consumidores e oferecer produtos a eles; é
instituto de pesquisa eMarketer, tanto a Alphabet errado fazer isso sem o consentimento deles. Falta

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sua geladeira identifica
autores como Chris Anderson, autor do livro
Free - Grátis: O Futuro dos Preços, de 2009.
Ele argumenta que, nos séculos passa-

que você está sem


dos, vivíamos a “economia dos átomos”, na
qual os custos de produção e distribuição
eram altos. Já na economia do século 21, a

iogurte e, “sabendo” qual


dos bits, os custos de produção e distribui-
ção partem do zero — e isso permite que cer-
tas coisas sejam gratuitas (como jogos, apli-
cativos, conta de e-mail etc.). Ou quase. Na

é sua marca favorita, verdade o novo “gratuito” merece uma sé-


rie de aspas. Empresas, usuários e platafor-
mas oferecem algo sem cobrar dinheiro, mas

começa a exibir ofertas vendem dados, apresentam anúncios, propa-


gam ideias específicas e oferecem amostras
de serviços que serão cobrados.

no visor. isso seria útil Em Black Mirror, vale lembrar, o gratuito é


uma “opção”. O usuário sempre pode pular
o anúncio, desde que esteja disposto a pagar

ou assustador? em “méritos”. Há duas moedas: a monetária


e a sua atenção. Não é grátis. Mas a ideia de
ignorar uma propaganda é forte, mesmo em
nossa realidade.
Para assegurar atenção aos reclames, de
acordo com Quintanilha, é preciso criar uma
publicidade mais interessante e menos repetitiva.
“O conteúdo ainda precisa ser mais adaptado às no-
discutir abertamente como a gente pode ter uma so- vas realidades porque o consumidor está procuran-
ciedade de consumo saudável”, defende. do relacionamento com as marcas, não apenas um
Nem tudo é visto com maus olhos, no entanto. gatilho comercial. No Brasil e no mundo a maioria
Ao estudar os hábitos de navegação e conhecer o das propagandas ainda é mera oferta de produto,
público um pouco melhor, anunciantes podem ofe- não um desenvolvimento de relacionamento, co-
recer produtos que sejam mais interessantes. Essa municação de propósito e valores”, defende.
é uma ponderação de Silvia Quintanilha, vice-pre-
sidente de atendimento da Kantar Millward Brown, Uma espiada no fUtUro
instituto de pesquisa global especializado em mar- A computação ubíqua, com tecnologia por todos os
cas e mídia. “De fato há a percepção de que o con- lados, logo se torna publicidade ubíqua, com publi-
sumidor se sente perseguido pela publicidade. Mas cidade por todos os lados. Imagine: sua geladeira
algumas pessoas gostam que você investigue seus identifica que você está sem iogurte e, sabendo que
interesses e ofereça itens relevantes. Isso economi- gosta de determinada marca, automaticamente pro-
za o tempo de ter que ir atrás”, comenta. cura e oferece a melhor oferta de compra. Você faz o
“Se, por um lado, há a irritação de ver o anúncio pagamento pela própria geladeira e, em alguns mi-
durante muito tempo, por outro a pessoa se sente nutos, o produto é entregue na sua casa.
valorizada. Eu, por exemplo, fico feliz de saber que “A publicidade vai ter que ser criativa para ofe-
não verei propaganda de coisas que não me interes- recer algo relevante, não intrusivo”, opina Santos. E
sam. O que vejo o tempo todo são propagandas de ela já caminha nessa direção, “está ficando menos
viagens”, diz Quintanilha. invasiva e mais sutil”. Com isso, a tendência é que
a gente não tenha mais consciência do que é uma
Baixe “de graça” ação publicitária, porque ela vai chegar de forma
“Não existe almoço grátis” é uma máxima econômi- mais amigável e personalizada. Nessa névoa de in-
ca popularizada por pensadores como Milton Frie- formações, já não sabemos ao certo o que são fatos
dman. No contexto digital, ela é ressignificada por e o que são só ativações promovidas por marcas.

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T1
E3 título original
THe enTiRe HiSToRy of you
na ficção

Detalhes naDa
pequenos De nós Dois curiosidades
título em português
ToDA A SuA HiSTóRiA Este é o único episódio escrito por um roteirista convidado, Jes- Robert Downey Jr.
se Armstrong. Estamos numa realidade pós-smartphone. O comprou os direitos de
exibição original
gadget que virtualmente 100% da população tem e passa o dia adaptação do roteiro desse
18 De DezembRo De 2011
imerso é outro: uma espécie de lente de contato que grava tu- episódio em 2013 para
nota no IMDb do o que você vê e ouve. A princípio, parece perfeito: você con- transformá-lo em filme.
8,7/10 segue revisitar cada segundo da sua vida. E melhor ainda: po-
de compartilhar seus melhores momentos com quem quiser. Jesse Armstrong é
Mas para um sujeito inseguro, ciumento e obcecado por de- cocriador da sitcom Peep
talhes, como Liam, o dispositivo é um trem-bala rumo à tra- Show. Ali, a ação é mostrada
gédia. Ele passa a buscar indícios de infidelidade da esposa do ponto de vista dos
em suas gravações. Ela admite a traição, e isso só aumenta personagens, como se
sua paranoia. No auge dramático do episódio, ele exige ver estivéssemos na cabeça de
como foi o sexo entre a esposa e o amante, já que está tudo cada um – algo onipresente
gravado no dispositivo dela. E aí a coisa degringola de vez. em Toda a Sua História.

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no mundo real

cada
segundo
da sua vida
os gigantes já apostam em lentes de contato para
substituir os smartphones. e o google está para lançar
uma microcâmera capaz de gravar tudo o que você vê.
> reportagem “Essas lentes de contato têm a função de capturar imagens e são
bruno vaiano capazes de controlar o momento da captura de acordo com um
piscar de olhos do usuário.” Essa frase parece só uma descrição
técnica do gadget usado neste episódio de Black Mirror. Mas de
ficção não tem nada: foi tirada da patente US 20160097940 A1,
registrada nos EUA pela Sony em 2014.
As lentes, ainda hipotéticas, não devem quase nada às da série: também se-
riam capazes de filmar, e poderiam exibir as fotos e vídeos recentes direto nos
olhos do usuário. Por causa do tamanho reduzido, elas precisariam da ajuda
de um dispositivo externo – que manteria uma conexão sem fio com o acessó-
rio e processaria o grosso das informações recebidas.

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A Sony não foi a primeira nem a única a projetar algo termo sem uma boa tradução em português que se re-
assim: Google e Samsung, na mesma época, registraram fere ao hábito de registrar, com o auxílio da tecnologia,
suas próprias versões da tecnologia. A existência de pa- a própria vida nos mínimos detalhes.
tentes não significa que amanhã esses produtos sairão Um marco histórico da prática veio em 1995, quando
do papel e chegarão às lojas, mas é um sinal de que as um projeto da web pré-histórica chamado Cool Site of the
gigantes da tecnologia resolveram marcar terrenos mais Day (o site legal do dia) destacou um dos projetos visio-
ousados no mercado de wearables – confirmando o exer- nários de Steve Mann, doutor pelo Instituto de Tecno-
cício distópico de Black Mirror. logia de Massachusetts (MIT). Por vários anos, usando
Os idealizadores das lentes smart da vida real querem uma engenhoca complexa pendurada no seu corpo, o
dar a elas finalidades mais nobres do que lavar a roupa inventor transmitiu a própria vida 24 horas por dia, se-
suja com seu cônjuge. Uma das propostas do Google te dias por semana.
é medir os níveis de glicose de diabéticos diretamente Nessa época, carregar um vídeo de alguns segundos
nas lágrimas. Outra é detectar obstáculos na calçada pa- era um suplício para a internet discada. Mesmo assim,
ra guiar pessoas com problemas de visão. Até exibir le- Mann conseguiu acumular um pequeno exército de se-
gendas de filme – ou traduções simultâneas de uma pe- guidores: em 1996, seu site recebia 30 mil visitas diárias.
ça de teatro em outra língua – seria possível, eliminando Para viabilizar a empreitada, ele precisava andar na rua
a inconveniente aparência física dos óculos-gadget que vestindo uma enorme pochete de equipamento eletrô-
já estão no mercado. nico, com óculos especiais e antenas em torno da cabe-
Outro anúncio recente – e com carinha de roteiro da ça. “Muitas pessoas atravessavam a rua para me evitar.”
Netflix – é a Google Clips: uma câmera de cinco centí- A tecnologia, porém, se provou útil na prática: em
metros, 60 gramas e US$ 250 que, usando um algorit- 2004, a casa de Mann foi atingida por um carro. Quando
mo de inteligência artifical, decidirá por você o que va- ele saiu para ver o que tinha acontecido – vestido com
le a pena fotografar. Com uma lente de 12 MP, 16 GB de seu equipamento vistoso –, o motorista deu ré e fugiu,
memória e bateria para durar “alguns dias” em stand-by, atropelando o cientista e quebrando seu pé. A câmera,
ela é ativada automaticamente ao observar uma cena que porém, registrou imagens da placa e do rosto do infra-
parece digna de registro – como os rostos de seus fami- tor, que foi identificado e preso.
liares e amigos sorrindo ou de um cachorro abanando A moral da história é que o lifelogging não é tão no-
o rabo. Além de produzir imagens estáticas, faz GIFs de vo assim. Lentes com câmera e a GoPro autobiográfica
seis segundos que são enviados diretamente para o ce- do Google são só desdobramentos da mochila de fios e
lular do usuário. câmeras que Mann levou por aí enquanto a internet da-
Ela pode ser presa no cinto, no bolso da camisa ou co- va seus primeiros passos. Em um mundo em que todo
locada no canto de uma sala. É bem menor que um smar- mundo pode andar com uma discreta câmera ligada, o
tphone – como se o ícone do Instagram tivesse pulado da medo da vigilância atinge um nível quase conspiratório.
tela e se tornado tridimensional. E, ao contrário das lentes E o nosso desejo de acompanhar a vida alheia de per-
eletrônicas, logo estará à venda – deve inclusive chegar ao to – evidente desde o sucesso de Big Brother – também.
Brasil. O site americano The Verge resumiu a sensação: “A Entre 2009 e 2011, o escritor norueguês Karl Ove
Google Clips é estranha e fofa. Mas não é assustadora?” Knausgård – um homem que, em princípio, não tem
Algumas medidas foram tomadas para evitar inconve- nada de especial – decidiu escrever a própria vida em
nientes de privacidade. Da mesma maneira que o algorit- 3,5 mil páginas. Não ocultou nomes, e incluiu até des-
mo aprende a reconhecer seus conhecidos, ele evita cli- crições dos produtos de limpeza que usou para limpar
car estranhos na rua. Nenhuma das imagens é compar- a casa do pai alcoólatra após encontrá-lo morto no so-
tilhada automaticamente na nuvem – elas vão primeiro fá. Sua escrita é prosa pura, sem floreios literários: uma
para o seu celular, e só saem de lá com o aval do dono. versão impressa de Steve Mann filmando a própria vida.
Além disso, ela não associa rostos a nomes: a Clips sabe Resultado? A obra foi venerada pela crítica, e 10% dos
que aquele nariz é de alguém que está sempre com vo- cidadãos da Noruega têm uma cópia de seus livros –
cê, mas não sabe que esse alguém se chama João e tem mesmo que, ao contrário da câmera do Google, ele não
um perfil no Facebook. tenha ignorado os momentos desinteressantes. Docu-
Tudo isso só reforça o objetivo central do dispositivo: mentar e expor a própria vida, portanto, parece ir além
ele não serve tanto para fotografar uma viagem inesque- do narcisismo: pessoas se interessam por pessoas, e a
cível, mas para criar um diário visual da vida de seu usu- tecnologia dá vazão a esse desejo. Mesmo que ele te-
ário. Tanto as lentes quanto a câmera são herdeiras de nha consequências imprevisíveis... como alimentar bri-
uma tradição que nasceu na década de 1980: o lifelogging, gas de casal.

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a r t i g o
Yasodara Córdova
Pesquisadora brasileira de novas tecnologias, e
filiada à Harvard Kennedy School of Government.

antepassados – acontece durante toda a


vida e também atravessa gerações, sendo
fortemente afetada pelas revoluções tec-
nológicas ligadas à produção e armaze-
namento dos nossos registros.
Em tempos primitivos, o legado pes-
soal dependia de histórias transmitidas
oralmente. Depois vieram a pintura, a es-
crita... E hoje basta um celular para guar-
dar um momento qualquer, e no formato
que desejarmos – vídeos, fotos, áudios,

o passado – e o futuro
mensagens em datas especiais, conquis-
tas gravadas na timeline de redes sociais,
e-mails… É o processo que chamamos de

– das memórias
digitização: deixamos nossos fragmentos
de memória gravados em servidores dis-
tantes, utilizando serviços cujos contra-
tos nunca lemos e que pertencem a em-
Se anteS objetoS noS ajudavam a reSgatar presas governadas por regras que ainda
estão sendo escritas pela maioria dos le-
recordaçõeS, hoje fica tudo regiStrado. gisladores do mundo.
A natureza das memórias mudou:
elas não dependem mais de objetos,

D aniela herdou de seu bisavô um par de esporas de me-


tal com desenhos rústicos: um peão montado em um
cavalo e uma porção de bois guardados por um cão vira-la-
cheiros, pessoas e imagens para serem
despertadas – e estão cada vez menos su-
jeitas a enganos ou reformulações produ-
ta. Sempre que olha para essa herança pendurada na pare- zidas durante o ato de contar histórias ou
de de seu escritório, ela se lembra das histórias que a avó pelo nosso próprio cérebro.
contava sobre a vida no campo e um filme se refaz em sua Quando Daniela recebeu o par de es-
cabeça. Troféus de seus antepassados, os objetos são os poras do bisavô, pôde reconstruir a his-
guardiões desse pedaço de sua memória e provavelmente tória do heroico peão baseada no que sua
serão herdados pelos seus filhos, que continuarão a se or- avó lhe havia contado. Com a tecnologia
gulhar desse fragmento físico do passado. atual, porém, nosso legado não mais se-
As esporas de Daniela são um exemplo de como nós rá resultado exclusivamente de uma cura-
guardamos e acessamos informações do nosso passado. doria pessoal e familiar, mas de registros
Alguns cientistas chamam o conjunto de memórias de le- exatos, armazenados em servidores e
gado pessoal. A criação desse legado pessoal – um pro- editados por algoritmos que nunca va-
cesso de “montagem de histórias”, nossas e de nossos mos conhecer.

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T2
E1 título original
Be RIgHt BACk
na ficção

Tecnologia que faz reviver


(ou quase)
título em português
curiosidades
vOltO já Martha e Ash eram um casal jovem e feliz, até que o rapaz mor-
re em um acidente de carro. Sem saber como lidar com a perda Charlie Brooker disse que
exibição original
e sentindo-se ainda mais desamparada ao se descobrir grávida, pretendia mostrar no episódio
11 de feveReIRO de 2013
Martha resolve testar um novo serviço: uma inteligência artifi- outros androides como Ash
nota no IMDb cial que usa a vasta atividade online de Ash para reconstruir sua que já estavam circulando por
8,2/10 personalidade. Assim, ela passa a conversar diariamente com o ali. Acabou não rolando.
falecido, primeiro por mensagens de texto e depois por meio de
um androide que simula as suas características físicas. Apesar O episódio faz referência
de ficar cada vez mais envolvida, Martha logo percebe as limita- a Alien – O Oitavo Passageiro
ções da tecnologia: por depender de registros nas redes sociais, (1979): no filme, o
o robô é incapaz de reagir a situações inesperadas ou mesmo de personagem Ash (Ian Holm) é
se zangar (Ash, como muitos de nós, não costumava postar coi- um oficial que trabalha na
sas ruins nas redes sociais). E o que temos é um belo ensaio não nave Nostromo e mais tarde
apenas sobre inteligência artificial, mas sobre o luto. se revela um androide.

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no mundo real

fale com
os mortos Já existem aplicativos capazes de recriar pessoas
– e tornar suas personalidades “imortais”.
> reportagem O episódio Volto Já foi inspirado em uma situação pela qual o pró-
carol vilaverde prio Charlie Brooker, criador de Black Mirror, passou. Um dia, me-
xendo na agenda do celular, ele encontrou o número de uma pes-
> edição
soa querida que havia morrido algum tempo antes e ficou sem
ana prado
saber se deletava ou não o contato. “Senti que seria uma falta de
respeito excluir o número, mesmo que fosse uma informação que eu nunca mais
iria usar. Aquela era uma forma de me lembrar dela, ainda que estranha”, contou.
Tudo indica que, nos próximos anos, inteligências artificiais poderão mesmo
oferecer a ilusão de se estar conversando com alguém que já partiu, como acon-
tece em Volto Já. É o que vamos ver nas próximas páginas.

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chatbots
Você abre o WhatsApp e começa uma conversa com um
amigo. Desabafa sobre os problemas no trabalho, e ele te
aconselha a mudar de emprego, fazer algo que te deixe feliz,
já que a vida passa rápido... Você se sente inspirado e deci-
de recomeçar a vida do zero, em outro país.
Tudo isso seria natural não fosse um detalhe: esse seu
amigo não existe. Trata-se de um software de inteligência ar-
tificial que mora no seu Whats. Ele não tem sentimentos, na-
da. Apenas simula respostas baseado em diretrizes pré-pro-
gramadas. Há várias tecnologias
assim hoje. O nome genérico pa-
ra elas é “chatbot”. Empresas já
usam chatbots para lidar com
clientes. O sujeito que atende as
chamadas da Net, a operadora
tecnologias que recriam
de TV a cabo, é tecnicamente um
chatbot, ainda que você só intera-
ja com ele clicando teclas do seu
entes queridos que
telefone (“para agendar uma vi-
sita, tecle 3”). A forma como ele
simula a fala de uma pessoa de
morreram têm potencial,
verdade, no entanto, é tão notória
que todo mundo chama o robô
de “cara da Net”. E há quem sin-
mas use com moderação.
ta pendores românticos por ele.
Mas há chatbots bem mais
sofisticados. A Microsoft, por exemplo, desenvolveu um cha-
tbot capaz de evoluir sozinho. Ele ganha informações e vo-
cabulário conforme interaje com gente de verdade. Para tes-
tar o bichinho, a empresa criou um perfil para ele no Twitter
e o deixou solto para conversar e aprender com todo mun-
do. O problema é que o pessoal não ajudou: ensinaram o
pobre robô a defender Hitler e fazer comentários racistas. A
Microsoft, então, acabou tirando-o do ar.
Mas o fato é que os chatbots seguem se desenvolvendo.
Alguns, inclusive, estão se especializando em simular a per-
sonalidade de alguém que já existe. É o caso do Replika (ve-
ja ao lado). Ele aprende a imitar você. E, caso você morra, o
chatbot fica, conferindo imortalidade ao seu jeito de ser – ou
pelo menos ao seu jeito de conversar no WhatsApp. Claro
que isso traz riscos emocionais. Se o “cara da Net” já emo-
ciona às vezes, imagine uma inteligência artificial que simu-
le à perfeição um ente querido que morreu. O importante,
segundo quem entende do assunto, é se abrir para o sofri-
mento. “É doloroso para Martha quando cai a ficha de que o
androide não é o próprio Ash. Mas isso é bom: não é saudá-
vel nutrir o desejo de manter contato constante com a má-
quina. O desconforto que vem daí é, na verdade, um sinal de
ajustamento”, diz Gabriela Santos, pesquisadora do Labora-
tório de Estudos e Intervenções sobre o Luto da PUC-SP.

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SimulAcro e SimulAção Projetos que já conseguem emular pessoas reais – ou estão perto disso.

With me
replikA
Aplicativo Digitalização 3D
Aplicativo Inteligência artificial
e inteligência artificial
[ disponível para android e ios]
[ disponível em versão beta ]
Em 2015, quando o melhor Replika para permitir que cada
Imagine levar sua esposa já falecida ao show
amigo da programadora russa pessoa construísse seu próprio
da banda que marcou a vida de vocês e ainda
Eugenia Kuyda morreu num amigo virtual. A ideia é um
registrar uma foto do momento. O app With Me,
acidente, ela decidiu usar toda pouco diferente da intenção
da empresa sul-coreana Elrois, quer tornar isso
a memória digital que tinha original: com o aplicativo, o
possível em alguns anos. Com uma combinação
dele, como fotos, vídeos e usuário constroi um clone
de digitalização 3D e inteligência artificial, o
mensagens, para alimentar uma virtual de si mesmo e não de
objetivo é recriar versões digitais de pessoas
inteligência artificial com quem um ente falecido, mas o chatbot
reais, que ficam “morando” dentro do app e
pudesse conversar por meio de fica disponível para conversas
conversam com o usuário por voz. A tecnologia
mensagens de texto (também com outros usuários – inclusive
não é tão complexa quanto a do Replika, mas
conhecida como chatbot). A quando você se for deste
o avatar consegue reconhecer rosto, voz e
criação conseguiu reproduzir mundo. Durante as conversas,
flutuações emocionais simples, além de lembrar
a personalidade do rapaz de o robô identifica e registra os
detalhes das últimas interações. Também dá para
uma forma tão impressionante interesses, gostos e opiniões do
tirar selfies com ele: a coisa funciona de forma
que Kuyda e seus parceiros na usuário até se tornar capaz de
parecida com a dos filtros do Snapchat.
start-up Luka lançaram o app imitar a sua personalidade com
cada mais vez mais precisão.
Para melhorar a experiência,
também dá para conectar contas Augmented eternity
de redes sociais: as informações Aplicativo Inteligência artificial
pessoais compartilhadas são [ em desenvolvimento ]
essenciais para que a Replika
evolua intelectualmente e possa Se hoje ainda é difícil reconstruir a personalidade
estabelecer uma “amizade” de alguém somente a partir de suas atividades
mais profunda. Com o tempo, online, daqui a 50 anos esse não será um
ela se torna capaz até mesmo problema: até lá, serão milhões de bytes de
de identificar variações de informações reunidas por meio de e-mails, redes
humor pela forma como seu sociais, fotos, vídeos, registros de compras…
interlocutor responde. Já estamos, de certa forma, alimentando
Mesmo antes de ser nossas futuras versões virtuais. É o que afirma
oficialmente lançado (hoje já Hossein Rahnama, pesquisador do MIT
está disponível para download Media Lab e fundador da empresa Flybits, que
gratuito na versão iOS e está desenvolvendo o Augmented Eternity
Android), mais de 150 mil (Eternidade Aumentada), um app para permitir
pessoas de todo o mundo às pessoas o compartilhamento de seus
haviam se registrado com conhecimentos por meio de chatbots. O objetivo
interesse em testar o programa. não é promover conversas com falecidos, mas
Em tempo: os usuários do evitar que o intelecto único de uma pessoa
Replika podem conversar com seja perdido com a morte de seu corpo físico.
Roman Mazurenko, o amigo de E vai mais além: Rahnama pretende que essa
Kuyda recriado virtualmente: é só inteligência artificial seja capaz de processar
adicionar @Roman no app. novas informações e continue evoluindo.

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T2
E2 título original
White Bear
na ficção

SadiSmo noSSo de cada dia curiosidade


título em português Qual é a medida exata da punição para um crime? Essa é uma O roteiro original de Urso
UrsO BraNCO das questões de Urso Branco. Nele, Victoria Skillane acorda Branco foi alterado pouco
sem se lembrar de coisa alguma. Ao sair pela porta, percebe tempo antes das filmagens,
exibição original
que várias pessoas gravam seus passos – gente alheia aos pe- enquanto Charlie Brooker
18 de feVereirO de 2013
didos de ajuda da mulher. Nas ruas, ela começa a ser perse- buscava locação para rodar o
nota no IMDb guida por caçadores. Encontra Jem, que também parece es- episódio. Na versão anterior, a
8,2/10 tar em fuga, e que explica: um sinal emitido pelos televisores punição de Victoria não seria
tornou a maioria da população voraz por cenas de violência. repetida diariamente, e a
A única salvação é destruir o transmissor e interromper o narrativa terminaria com uma
sinal. Mas, ao chegar ao local, Victoria se vê diante de uma pla- crucificação pública. Mas, ao
teia eufórica. São visitantes do White Bear Justice Park, criado visitar a base aérea que
especialmente para punir a mulher, cúmplice de sequestro e serviria de locação e ver que
assassinato de uma criança. Depois de deletarem a lembrança havia cercas por todos os
daquele dia, a agonia da perseguição será repetida amanhã – e lados, Brooker teve a ideia de
depois de amanhã, e sempre, numa punição eterna. criar um parque temático.

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no mundo real

Marcados para
sempre
olho por olho, listas de pedófilos, castração:
as polêmicas das punições não convencionais.
> reportagem Em setembro de 2016, Khong Tam Thanh, Michael Le e Vu Thai
lucas Baranyi Son estupraram uma mulher em Singapura, no Sudeste Asiáti-
co. Quase um ano depois, em agosto de 2017, os três britânicos
> edição
receberam a sentença: seis anos e meio de prisão. O tempo da
alexandre
pena se assemelha ao Brasil – aqui, se o crime não envolve mor-
versignassi
te e a vítima tem mais de 18 anos, o condenado enfrenta de seis a dez anos no
encarceramento.
Mas os três jovens, que confessaram o crime para evitar mais tempo na ca-
deia, passarão por outro tipo de condenação antes da reclusão: eles recebe-
rão entre cinco e oito chibatadas com um bastão de 1,2 metro feito de rattan,
um material similar ao bambu, mas muito mais maleável e difícil de quebrar.

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A punição por açoitamento foi instaurada pe-
lo Império Britânico em 1871, e não vigora ape-
nas em Singapura, mas também na Malásia, em
Brunei e em algumas regiões da África.
Carregar marcas de açoitamento está longe
de ser a pior punição física ao redor do mundo.
A amputação, catalogada como penitência pela
primeira vez em 1750 a.C., no babilô-
nico Código de Hammurabi, é aplica-
da até hoje na Arábia Saudita, no Iê-
men, nos Emirados Árabes, no Irã, no
Sudão e em certas regiões da Nigéria.
Segundo a legislação desses paí-
NA ArábiA sAuditA, A peNA
ses – que acompanham as leis do Al-
corão –, quem rouba pela primeira vez
tem a mão amputada na altura do pul-
por roubo coNtiNuA seNdo A
so. Um segundo roubo é punido pela
amputação da outra mão. A partir do
terceiro, o condenado perde um dos
tribAl: AmputAção de mã0s e,
pés, cortado na altura do tornozelo.
No Irã e no Paquistão, existem ca-
sos registrados de punição pela lei do
pArA os reiNcideNtes, dos pés.
Talião – conhecido informalmente co-
mo “olho por olho, dente por dente”:
duas pessoas foram condenadas à ce- criada a Lei Jacob Wetterling, mas os dados eram
gueira depois de jogar ácido nos olhos mantidos em sigilo e divulgados apenas quando
das vítimas. a polícia acreditava necessário.
Assim como em Black Mirror, sentenças que No mesmo ano, porém, Megan Kanka, de 7
duram a vida inteira ainda existem e não se res- anos, foi estuprada e assassinada por um pedófi-
tringem apenas a castigos físicos, podendo dei- lo reincidente, Jesse Timmenquas. Foi então que
xar marcas que o corpo não mostra. a Lei de Megan foi criada, exigindo que os dados
dos cadastrados fossem tornados públicos – e
Lei de Megan que, em alguns locais, as comunidades recebes-
Em 2015, os Estados Unidos contavam com 843 sem notificações da chegada de novos agresso-
mil pessoas registradas em um banco de dados res na vizinhança. Ainda que a Lei de Megan te-
de condenados por crimes sexuais. Alguns Esta- nha boas intenções, ela é falha. Em setembro de
dos americanos disponibilizam essas informa- 2017, um adolescente de 14 anos foi autuado em
ções ao público: nome completo do agressor, en- Houston, no Texas, após ter feito sexo com sua
dereço de casa e do local de trabalho, placas e namorada dois anos mais nova. O Estado tra-
modelos de veículos e, às vezes, retrato. Mes- balha com uma exceção em casos similares –
mo com os dados à disposição, em muitos Esta- chamada de “Romeu e Julieta” –, mas se aplica
dos as autoridades são obrigadas, por lei, a noti- apenas quando as duas partes têm no mínimo
ficar moradores, escolas, vítimas e grupos de in- 14 anos. O jovem foi parar na lista de pedófilos.
teresse sobre a chegada de um predador sexual
nas redondezas. PedófiLos fichados no brasiL
Esse banco de dados surgiu após o desapa- Em maio de 2013, a 4ª Delegacia de Repressão
recimento de Jacob Wetterling. Ele tinha 11 anos à Pedofilia, em São Paulo, inaugurou um banco
quando sumiu. Jacob foi sequestrado em St. Jo- de dados com suspeitos e condenados a crimes
seph, no Estado de Minnesota. Sua mãe, Patty de natureza sexual. Em agosto de 2017, foi a vez
Wetterling, mobilizou a comunidade local para do Mato Grosso do Sul repetir a iniciativa, com a
que o Estado registrasse os agressores sexuais, aprovação de uma lei estadual que torna públi-
facilitando, assim, a identificação. Em 1994, foi cas as informações dos molestadores. A Lei 5.038

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desejo sexual por crianças, e não vai deixar de
sentir. A não ser que... Ele deixe de sentir. E aí en-
tramos em outra seara polêmica da luta contra a
pedofilia: a castração química.
Esse tratamento de pedófilos, como uma
condição para que esses criminosos saiam da
cadeia, é realidade em várias partes do mundo:
EUA, Argentina, Austrália, Dinamarca, Estônia,
Índia, Israel, Moldávia, Nova Zelândia, Polônia,
Coreia do Sul, Espanha, Suécia, Rússia.
Na castração química, o objetivo é bloquear
parte da ação da testosterona, o hormônio mas-
culino ligado à libido. Esse bloqueio é feito com
requer que todo condenado por crime de pedo- medicamentos como o acetato de medroxipro-
filia no Mato Grosso do Sul tenha dados pesso- gesterona – sim, o contraceptivo.
ais e retrato inscritos no Cadastro Estadual de Para Sérgio Adorno, coordenador científico do
Pedófilos. Cidadãos comuns podem ter acesso Núcleo de Estudos da Violência da USP, a ideia é
às informações. “um atentado aos direitos humanos”. “É como se
Coronel David, deputado estadual do PSC e você estivesse autorizado a mutilar pessoas”, diz.
autor da lei, acredita que a medida “dá à socieda- Opiniões à parte, não estamos diante de
de um instrumento de defesa efetiva das nossas uma questão fácil. A castração não é uma forma
crianças”, pois mostrará aos cidadãos “se em de punir pedófilos, mas de proteger crianças (a
seu bairro, cidade ou rua mora alguém que pos- punição é a cadeia). Pedofilia, afinal, não é como
sa trazer qualquer tipo de perigo para crianças e assalto a banco. Você pode decidir se assalta ou
adolescentes”. Em São Paulo, tramita o Projeto não um banco, mas não tem como escolher se
de Lei 795/2016, do deputado estadual Gil Lan- vai ou não vai sentir atração por aquilo que lhe
caster (DEM). A ideia é similar à do Mato Gros- desperta desejo. E se os alvos da sua libido fo-
so do Sul, mas vai além. Caso aprovada, a Lei irá rem crianças, você tem um problema. O ato de
impedir que pedófilos listados no banco de da- satisfazer sua vontade sexual, coisa que boa par-
dos paulista participem de concursos públicos te das pessoas faz todos os dias, vira um crime
nas áreas da saúde e educação. bárbaro, bestial, repulsivo: o estupro de crianças.
Para Alexandre Saadeh, do Instituto de Psi- Justamente por isso a castração química é
quiatria da USP, o banco de dados torna a socie- tão adotada – p0r isso e por ser reversível, o que
dade mais segura. “A maioria dos pedófilos age evita injustiças definitivas no caso da condena-
na sombra e se protege na medida em que nin- ção de algum inocente. Também não faltam pe-
guém sabe do seu passado”, diz. Vitor Blotta, dófilos que preferem exterminar sua libido a abu-
doutor em Direito pela USP, discorda: “A lógica sar novamente de uma criança. Nem tudo o que
da punição acaba estigmatizando”. parece distópico, afinal, é realmente distópico.
Por trás de tudo isso, existe uma questão Às vezes pode se tratar do único paliativo pos-
complexa: o medo público de que todo pedófilo sível para problemas que, no fundo, são inso-
seja um reincidente em potencial, já que sente lúveis.

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T2
E3 título original
The WALdo MoMenT
na ficção

Fantoche político curiosidade


título em português Charlie Brooker previu a eleição de Donald Trump nos EUA, A origem de Waldo está
MoMenTo WALdo sempre relacionando Momento Waldo a essa visão de político detalhada num artigo de
fanfarrão com enormes poderes. Charlie Brooker publicado no
exibição original
Como Trump, a tragédia do episódio começou como uma Guardian em 2008, três anos
25 de fevereiro de 2013
brincadeira: Jamie, um comediante deprimido, por meio de antes da estreia da primeira
nota no IMDb sua voz e da tecnologia de captura de movimentos, dá vida a temporada. Ao criticar o então
7/10 Waldo, um ursinho azul que protagoniza um quadro na TV no candidato à prefeitura de
qual agride verbalmente figuras políticas. Com jeito desboca- Londres, Boris Johnson,
do e sempre ganhando debates no grito, Waldo passa a ser vis- Brooker escreveu sobre uma
to pelos eleitores como uma terceira alternativa ao sistema. ideia antiga de enredo: um
Ele acaba chamando a atenção da CIA. A ideia passa a ser desenho animado de língua
cooptada e manipulada por uma força mais poderosa para aju- afiada, com quem seria
dar na imposição de regimes impopulares em outros territó- impossível debater,
rios. Afinal, se o ditador é um personagem, os opressores re- concorrendo a uma cadeira
ais ficam escondidos dos oprimidos. no Parlamento britânico.

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Juscelino Kubitschek. Eram tempos em Antônio Sérgio Ribeiro, funcionário da
que o eleitor escrevia na cédula eleitoral o Secretaria Geral Parlamentar da Assem-
nome do seu candidato. E, diante do ab- bleia Legislativa de São Paulo.
surdo número de 450 candidatos para 45 Já Itaboraí preferia uma sacada mais
assentos na Câmara Municipal paulista- simples: “Tereco teco por tereco teco,
na, o eleitorado reagiu. melhor votar no Cacareco”. Contudo, pa-
Tal voto de protesto só foi possível
os cerca de ra o “criador da campanha”, houve um

100
graças ao jornalista Itaboraí Martins, de momento de incerteza. Foi então que o
O Estado de S. Paulo. “Papai sempre foi jornalista resolveu falar com Júlio Mes-
um cara irônico, sacador”, relembra a es- quita Filho, o “chefão” do Estadão.
critora Cléo Martins, filha do jornalista. “Ele não queria sair como quem tinha
“Quando ele saiu [da redação], viu pre- lançado a ideia do Cacareco porque pode-
gado em um poste um anúncio de que riam achar que o Estadão estava apoian-
o Zoológico de São Paulo iria hospedar
um rinoceronte do Rio de Janeiro que se
chamava Cacareco. Ele e alguns colegas
de redação andavam pelas ruas de São
Paulo de madrugada, e se questionavam
mil do a história. Mas o jornal achou simpá-
tica a ideia e acabou apoiando mesmo”,
conta Martins.
Não se sabe exatamente o número de
votos de Cacareco. O Tribunal Regional

votos
sobre em quem cada um iria votar. Pa- Eleitoral anulou todas as cédulas em no-
pai respondeu: ‘Ah, no Cacareco’”, conta. me do rinoceronte, mas estimava-se, se-
Inaugurado em 16 de março de 1958, gundo a imprensa da época, que quase
o Zoológico de São Paulo foi uma ideia 100 mil eleitores dos 934.794 que foram
que surgiu um ano antes, na gestão do recebidos por às urnas na capital paulista tinham opta-
então governador paulista Jânio Qua-
dros. Para abrilhantar o novo polo de la- cacareco do pelo simpático animal como seu re-
presentante na Câmara Municipal. Para
zer da capital paulista, era preciso algo de se ter uma ideia, o candidato mais votado
destaque. Segundo reportagem de O Es- naquela eleição para vereador foi Manoel
tado de S. Paulo à época, Jânio solicitou o de Figueiredo Ferraz, do PSP, com 10.214
empréstimo de Cacareco – primeiro rino- votos. A estimativa da votação de Cacare-
ceronte nascido no Brasil, em 1954 – ao elegeriam o co correspondeu ao somatório dos 15 ve-
prefeito do Rio de Janeiro, Negrão de Li- animal como o readores mais votados, ou seja, a um ter-
ma. “Asseguro a V. Exa. que este governo ço do Legislativo municipal.


dispensará a Cacareco todas as atenções O rinoceronte não acompanhou de
e cuidados convenientes”, escreveu Jânio perto a sua “vitória”. Três dias antes, foi
em ofício. Em 5 de fevereiro, o emprésti- devolvido ao Zoológico do Rio de Janei-
mo foi confirmado. Semanas depois, o ri- ro e morreu em 1962, com apenas 8 anos
noceronte desembarcou na cidade. (em média, rinocerontes vivem 45 anos).
“Com o cartaz que está, Cacareco se- Mais do que história, Cacareco virou até
ria um forte candidato aos Campos Elí-
seos”, afirmou Jânio na inauguração do
vereador
mais bem colocado
marchinha de Carnaval, em 1960. E não
foi só: o rinoceronte campeão de votos
zoológico, em referência à então sede do deu origem a brinquedo, filme dirigido
governo de São Paulo. Mal sabia o gover- nas eleições de 2016. por Carlos Manga, gibis e pelo menos
nador que a principal atração dentre os três livros que revisitaram a saga.
300 animais do local faria bem mais his- atrás apenas dos votos de
tória do que o seu discurso um tanto ex- ‘o candidato do povão’
cêntrico tentava sugerir, em tom jocoso.
eduardo suplicy (pT) Três décadas depois, a cidade que “expor-
Nas ruas, a campanha “Para verea-
dor, Cacareco” ganhou corpo. Boas sa-
cadas para obter apoio popular não fal-
301.446
e MilTon leiTe (deM)
tou” Cacareco ganhou um animal político
para chamar de seu. Nas eleições munici-
pais de 1988 no Rio de Janeiro, o descré-
taram: “Cansados de tanto sofrer / E de dito em um período pós-ditadura militar
levar peteleco / Vamos agora responder
/ Votando no Cacareco”, como publicou 107.957 (1964-1985) apontava o voto nulo como
o “grande vencedor” do pleito.

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Cacareco foi capa da revista Maquis Foi assim que nasceu, em um bate-
em 1958; três decadas depois, o -papo em uma mesa de bar entre os hu-
Casseta Popular estampou Tião. moristas Cláudio Manoel e Bussunda, a
ideia de lançar Tião para prefeito do Rio.
Era uma ideia brilhante – tanto que o
antropólogo Roberto DaMatta profetizou
seu sucesso: “[Tião era] quase homem,
perfeito para explicar o mundo da políti-
ca no qual você tem quase personagens”,
afirma ele, em entrevista ao documentá-
rio Macaco Tião – O Candidato do Povo,
que está em fase de finalização e deve ser
lançado até o início do próximo ano.
O primata “virou o candidato do voto
nulo: ‘Já que não tem ninguém bom, vou
votar no Macaco Tião. Não vai fazer gran-
de diferença’”, lembra De la Peña.
A ideia antiestablishment no Rio ga-
nhou corpo não só pela irritação popu-
lar contra a classe política, mas também
por ótimas sacadas. “Se o voto é obriga-
ção, vote no Macaco Tião. Ele tem uma
grande vantagem diante dos outros can-
didatos: já está preso”, dizia um dos car-
tazes da época, em prol de uma candida-
Famoso por jogar Fezes no tura que visava “dar uma banana para a
caduquice da política”.
De la Peña comenta que a repercus-

público, tião obteve 9,5% dos são da iniciativa foi enorme, tendo Tião
ido parar nas capas de jornais e da revis-
ta Veja. “Na época nós éramos autores

votos dos cariocas em 1988. do TV Pirata, então conseguimos enga-


jar os atores do programa, o Diogo Vilela,
o Guilherme Karam, a Débora Bloch. En-
gajamos a campanha pela candidatura do
“A política do Rio estava bem por bai- Macaco Tião. Todos deram depoimentos,
xo, como está acontecendo agora”, lem- tiraram fotos, gravaram vídeos de apoio.”
bra o humorista Hélio de la Peña, do Cas- Nas urnas, Tião conquistou 400 mil
seta & Planeta. Ele integrava o grupo que, votos, segundo o jornal O Globo, ficando
além de escrever para o programa TV Pi- em terceiro lugar entre os 12 candidatos.
rata, da Rede Globo, fazia parte da inicia- Não foi pouco: 9,5% dos cariocas apos-
tiva em torno da candidatura do “último taram nele. O vencedor foi Marcello Alen-
preso político” do País: o Macaco Tião. car (PSDB), eleito prefeito com 31,6%.
Nascido em 6 de janeiro de 1963, o A votação histórica foi parar no Guin-
chimpanzé Tião era o animal mais famo- ness Book, o livro dos recordes. Afinal, ne-
so do Zoológico do Rio de Janeiro. Famo- nhum outro chimpanzé recebeu mais vo-
so não só por ser “mal-humorado, rebel- tos do que ele desde que o mundo é mun-
de, temperamental, explosivo, ciumen- do. No mesmo ano em que o macaco
to e muito exigente”, segundo arquivos faleceu, em 1996, a Justiça Eleitoral ado-
do local, mas também por atirar fezes no tou a urna eletrônica e pôs fim à possibili-
público – incluindo políticos que o visi- dade de o eleitor optar por animais. Des-
tavam. de então, restaram apenas políticos.

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E4 título original
WhiTe ChRiSTMaS
na ficção

fale com ele curiosidade


título em português É Natal, e o falante Matt tenta improvisar uma ceia em uma pe- Natal não foi a única
NaTaL quena cabana em algum lugar remoto. Apesar de dividir a casa produção natalina de Rafe
com Joe há anos, um não sabe nada da vida do outro. Para fa- Spall em 2014. Onze dias antes
exibição original
zer com que o colega se abra – e confesse um crime –, Matt pu- do episódio de Black Mirror ser
16 de dezeMBRO de 2014
xa conversa, trazendo à tona fantasmas pessoais de ambos que exibido na TV britânica, foi
nota no IMDb estavam reservados ao passado. lançado nos cinemas o longa
9,2/10 A percepção do real, contudo, não passa de uma projeção. Que Fim Levou Papai Noel?,
Nada ali é o que parece ser, a começar pelos dois companheiros comédia familiar de enredo um
de cabana. Os personagens são cópias digitais da consciência tanto clichê: gente que se vê
de Matt e Joe. São simulacros de pessoas que, fora daquela pro- disposta e ajudar Papai Noel a
jeção, no mundo real, não se conhecem, não dividem uma ca- recuperar o Natal. Spall
bana num local distante, nunca conversaram. interpreta Steve, que deve
O tempo, também, mostra-se inconstante: enquanto as có- ajudar o filho de 9 anos a
pias de consciência interagem por anos no plano simulado, na colocar o bom velhinho de
verdade passaram-se apenas alguns minutos no mundo real. volta nos trilhos.

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no mundo real

TEMPO

Como funCiona a dilatação do tempo


(na físiCa e na sua Cabeça).
> reportagem Num dos melhores momentos do episódio, Matt manipula o tem-
Carlos orsi po para treinar a “Greta cookie” – uma cópia digital da consciência
da verdadeira Greta, mulher que contratou o serviço, e que serve
> edição
como uma espécie de assistente pessoal. Para convencer aquela
ana prado
inteligência artificial a lhe obedecer, Matt a coloca na solitária por
seis meses – tempo que, para ele, corre em poucos segundos. É o suficiente pa-
ra que o cookie fique atordoado e aceite qualquer trabalho que lhe seja proposto.
Isso não é fantasia. A dilatação do tempo é uma velha conhecida da física e já
pôde ser medida no mundo real, ainda que numa magnitude bem diferente da-
quela registrada em Black Mirror.
Quando o astronauta americano Scott Kelly retornou à Terra, em março de

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Depois De 803
Dias em órbita,
o russo sergei
KriKalyov voltou
à terra mais entanto, ficou com um soviético: o cosmonauta Ser-
gei Krikalyov, que, depois de passar 803 dias em ór-
jovem Do que bita, acumulou um rejuvenescimento de 0,02 segun-
do. Mas não é preciso ir ao espaço para medir o fe-
nômeno. Bastam aviões comerciais.
quem ficou aqui. Em 1971, cientistas puseram relógios atômicos
a bordo de dois voos ao redor do mundo, um viajan-
do para o Leste, na direção da rotação da Terra; ou-
tro, para o Oeste, contra a rotação. Um terceiro re-
2016, depois de passar 340 dias no espaço, ele ha- lógio permaneceu no solo. O avião que viajou para
via se tornado mais jovem do que seu irmão gêmeo o Leste tinha a maior velocidade total em relação ao
idêntico que tinha permanecido na superfície do pla- centro da Terra – pois soma-se à sua velocidade a ro-
neta, o também astronauta Mark Kelly. A diferença de tação do planeta. E não deu outra: o relógio a bordo
idades era, para todos os efeitos práticos, impercep- dele estava 60 nanossegundos atrasado em relação
tível: 0,01 segundo. ao que tinha ficado no chão.
Assim como todos os seres humanos que visi-
tam a Estação Espacial Internacional, Scott sofreu o O tempO de cada um
efeito de dilatação do tempo, conforme previsto pe- Em Natal, a dilatação do tempo afeta os “cookies”,
la Teoria da Relatividade, de Albert Einstein, no co- que são softwares, códigos. Não são de carne e osso.
meço do século 20 (veja o box na página ao lado). Es- Em seres humanos, no entanto, a questão da percep-
se efeito é causado pela altíssima velocidade que as ção subjetiva do tempo – a sensação de que o tempo
naves espaciais atingem: quanto mais rápido se via- “voa” quando nos divertimos ou “se arrasta” na sa-
ja, mais devagar o tempo passa para você. la de espera de um consultório médico – é bem mais
O recorde mundial de dilatação do tempo, no complicada do que isso.

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A teoriA dA relAtividAde e A dilAtAção do tempo
Ou “por que nosso pé envelhece mais devagar que nossa cabeça”.

Pense numa cena de perseguição velocidade de um raio de luz no Teoria da Relatividade Restrita. é dois anos mais jovem que a
de filme policial em que o herói vácuo, de 300.000 km/s, jamais Mas a velocidade não é crosta. Nossos pés envelhecem
põe sua arma para fora do carro será maior ou menor do que isso, o único fator a influenciar a mais devagar que nossas
em movimento e atira no veículo nem mesmo se for emitido por dilatação do tempo. Segundo cabeças. Pessoas que moram no
dos criminosos que vai à frente: uma nave da patrulha espacial a Teoria da Relatividade Geral, alto de montanhas envelhecem
a velocidade da bala, medida voando a 120 km/s. proposta por Einstein em mais depressa do que aquelas
por um observador na calçada, Para que a velocidade da 1915, a gravidade pode fazer o que vivem no litoral.
será a produzida pelo disparo da luz possa ser absoluta, tempo e mesmo: quanto mais próximo do O efeito prático é minúsculo.
arma (que geralmente fica perto espaço precisam ser relativos. centro de uma fonte de atração Em 2010, cientistas publicaram
da velocidade do som, ou 1.000 Em 1905, Albert Einstein gravitacional, mais devagar o na revista Science a medição,
km/h), somada à do carro, de, mostrou que, quanto mais tempo passa. feita com relógios atômicos, da
digamos, 120 km/h: a velocidade depressa um corpo se move, A relação entre tempo diferença de passagem no tempo
total será, assim, de 1.120 km/h. mais devagar o tempo passa e gravidade tem diversas causada por uma diferença de
A regra vale para todos os para ele (dilatação temporal) e consequências: cálculos altitude de 1 m. Resultado: o
objetos do dia a dia; com a luz, mais sua dimensão no espaço publicados em 2016, na revista relógio no ponto mais alto é
porém, isso não acontece: não se reduz (fenômeno chamado European Journal of Physics, 0,000000000000016% mais
importa como se tente medi-la, a de contração espacial). Essa é a mostram que o centro da Terra rápido que os demais.

Em seu livro Felt Time (“tempo sentido”, em tra- minutos parecem durar mais do que para a média
dução literal), de 2016, o psicólogo alemão Marc da população.
Wittmann aponta algo interessante sobre o assun- Nosso nível de memória e atenção também afe-
to central do episódio: “A questão de se o cérebro ta a percepção, criando o que os psicólogos cha-
tem um ritmo que estrutura a percepção e as opera- mam de paradoxo do tempo. “Enquanto espera-
ções motoras ainda não foi respondida”. Traduzin- mos pelo médico – quando a atenção está focada
do: a ciência ainda não sabe se há um relógio cen- no tempo –, meia hora pode passar de forma into-
tral no cérebro que possa ser acelerado ou atrasado. leravelmente lenta. Ao nos lembrarmos da espera,
Há experimentos que mostram que a resolução porém, é quase impossível recordar alguma coisa,
temporal humana – o intervalo mínimo de tempo ne- porque nada aconteceu. Já em meia hora de conver-
cessário para que uma pessoa perceba que uma coi- sa com uma pessoa interessante, mal notamos o
sa aconteceu antes de outra – é da ordem de dezenas tempo passar: mas, depois, nos lembramos de tan-
de milissegundos. Mais: para a maioria das pesso- tos momentos estimulantes que parece que o even-
as, o “agora” corresponde a um intervalo de 3 segun- to durou muito mais tempo”, descreve Wittmann.
dos: o que veio antes está no passado, e o que acon- Atividades de rotina, que executamos de mo-
tece depois é o futuro imediato. Intervalos de tempo do quase automático, podem fazer o tempo passar
de até 3 segundos também são os que melhor con- voando. Mudanças e novidades, por sua vez, redu-
seguimos estimar: durações superiores a isso ten- zem essa percepção subjetiva. Esse é um dos mo-
dem a ser avaliadas como mais longas ou curtas do tivos que levam muitos adultos a reclamar de que
que o tempo efetivamente transcorrido, dependen- os anos estão passando cada vez mais depressa, à
do da personalidade, do grau de atenção e do es- medida que suas vidas entram na rotina de casa e
tado emocional de cada um. Pessoas ansiosas, hi- trabalho. Já crianças e adolescentes, para quem tu-
perativas ou impulsivas, por exemplo, tendem a vi- do é novidade e as descobertas são muitas, experi-
ver num mundo de “tempo dilatado”: para elas, os mentam uma maior duração do tempo subjetivo.

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T3
E1 título original
nosedive
na ficção

Castas virtuais curiosidade


título em português Queda Livre é um episódio épico: extrapola a aprovação que bus- A primeira ideia do roteiro
quedA livre camos com textões no Facebook e selfies no Instagram. As pes- era diferente. As pessoas
soas ali ganham notas que definem seus privilégios diários. Por estavam ranqueadas de 0 a
exibição original
meio de um implante ocular, usuários compartilham suas ativida- 100, e um figurão com nota
21 de outubro de 2016
des e interações com outras pessoas, e podem avaliar estranhos, elevada era chantageado a
nota no IMDb enquanto são avaliados por eles. As notas vão de 0 a 5. derrubar sua própria
8,3/10 Lacie é nota 4,2, mas precisa chegar a 4,5 para conseguir o avaliação em pouco tempo.
desconto no aluguel de um apartamento. Para isso, força uma Mas, conforme ele agia de
aproximação com uma velha conhecida de status social mais maneira maldosa para cair no
vistoso. Acaba convidada para o casamento da amiga, e vê a ranking, mais popular ficava.
oportunidade perfeita de agradar a todos e aumentar sua nota.
Como a jornada de Lacie rumo ao casamento é um campo
minado de imprevistos, sua nota vai caindo, e fica minúscula
a ponto de torná-la uma pária social – coisa que, ela descobre
no final, talvez não seja tão ruim.

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no mundo real

quantos
likes
sua vida
merece?
Não é só No uber e No airbNb. agora
até os goverNos começam a flertar
com a ideia de raNQuear cidadãos.
> reportagem Para Lacie, protagonista de Queda Livre, avaliações são mais do
gabriela moNteiro que mero reconhecimento: são degraus de uma escada social.
e aNa caroliNa Guardando as proporções óbvias, isso já está acontecendo na vi-
leoNardi da de muita gente.
O canadense Sam Fiorella, por exemplo, perdeu um emprego
> edição
em 2011 por causa do aplicativo Klout, responsável por avaliar e ranquear as pes-
tiago lopes e
soas conforme a influência delas nas mídias sociais. O processo é simples: basta
alexaNdre
se cadastrar usando uma de suas redes – Twitter, Facebook, Linkedin etc. – e es-
versigNassi
perar o app fazer o cálculo. Não é fácil aparecer bem ali. A escala de notas vai de
0 a 100, e a maioria das pessoas não consegue passar dos 40. Quem mantém in-
terações frequentes com usuários influentes e famosos, compartilha links úteis
e se mantém ativo na web tende a ver sua pontuação crescer. Foi o caso de Sam.
Após receber a negativa de uma gigante do marketing por “só” possuir 35 pontos,

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ele decidiu reverter a situação. O canadense re-
solveu se tornar um usuário assíduo e relevante
em todas as suas mídias sociais. “Eu estava onli-
ne constantemente, sempre escrevendo e tuitan-
do coisas que eu sabia que as pessoas iriam com-
partilhar. Também parei de falar com quem tinha
ranking baixo”, disse à revista Exame. Deu certo.
Em pouco tempo, Sam viu sua pontuação pular
de meros 35 a gloriosos 75 pontos – uma marca
ótima para “não celebridades”.
Apesar de ter chegado aonde queria, Fiorella
decidiu abandonar o Klout. “De que adianta saber
que o Justin Bieber tem 100 pontos se eu quero,
por exemplo, vender carros? Garotas adolescen-
tes não compram carros, não importa o quanto
Bieber poste minha marca”, questiona. Além dis-
so, ele percebeu que gastava muito tempo cui-
dando de sua pontuação e se preocupando com
o que lhe parecia correto, em vez de simplesmen-
te ser espontâneo.
Seja como for, não há critério de avaliação
mais usado do que o número de seguidores.
Quanto mais followers, melhor. Ou pelo menos
era assim que o produtor que entrou em contato
com a atriz Natallia Rodrigues enxergava. “Ele me
ligou dizendo que tinha um papel que era a mi-
nha cara, mas que isso só seria possível se eu au-
mentasse o número dos meus seguidores no Ins-
tagram”, diz Natallia. “Aí ele propôs que eu com-
prasse seguidores fantasmas... Agradeci e disse
que ele não poderia contar comigo.”
respondeu que não sabia lidar com cartões de cré-
dito e o pessoal a penalizava ainda mais pela sua
UBER E AIRBNB
restrição de mobilidade”.
Um dos melhores exemplos de como avalia-
Preconceito também é cartão vermelho numa
ções podem impactar vidas reais é o Uber, cla-
ro. Nas palavras da assessoria da empresa, o sis- sociedade de notas. “Estava trabalhando na Rua
tema funciona assim: “Motoristas parceiros que Augusta quando recebi uma chamada cuja nota
não mantiverem uma nota mínima de aprovação era 3,22. Resolvi aceitar mesmo assim e, chegan-
(4,6 em uma escala de 0 a 5) por parte dos usuá- do lá, havia dois rapazes de mãos dadas. Quan-
rios podem acabar desconectados do serviço. O do eles entraram no carro, viram que eu tinha
mesmo acontece com usuários que não tiverem um adesivo que diz ‘carro livre de discrimina-
uma aprovação mínima por parte dos motoristas”. ção’. Mesmo sem saberem sua nota, eles já co-
O “podem” prevê flexibilidade na regra, mas a meçaram a desabafar dizendo que muitos moto-
margem de erro oficial é mínima: apenas 0,4 pon- ristas desistem da corrida assim que percebem
to separa você do excelente ao péssimo. Passagei- que são homossexuais”, conta o motorista Moi-
ros que possuem nota baixa costumam ser vis- ses Machado.
tos como problemáticos. Mas o receio dos mo- Outro serviço movido pelas avaliações é o Air-
toristas nem sempre é justificado. “Já recebi um bnb, uma plataforma de hospedagem em que os
chamado de uma passageira 3,7. Fui até o local anfitriões disponibilizam suas residências com
para ver de longe e vi que se tratava de uma ido- preços mais acessíveis que hotéis. Criado em
sa com dificuldades para andar. Aceitei a corrida agosto de 2008, ela já conta com opções em mais
e foi muito divertido, perguntei sobre a nota e ela de 65 mil cidades e 190 países.

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0
CHINA
Mas talvez nada seja mais Black Mirror do que aquilo
que a China pretende fazer. A partir de 2020, eles vão
instaurar um Sistema de Crédito Social para garantir

Comentários a conformidade política e promover o que o Partido


Comunista chama de uma “cultura de honestidade”.
O governo chinês tem feito parcerias com empre-

positivos para sas do mercado financeiro que já usam sistemas de


ranqueamento para criar scores que avaliam o risco
de inadimplência de cada consumidor. Esses núme-

o governo Chinês ros são usados por bancos para definir se alguém
pode ou não receber um financiamento ou parcelar
uma compra, quanto tempo vai ter para pagar e com

nas redes soCiais que juros, qual será o limite do cartão de crédito dela,
etc. – nada muito diferente do que o Serasa e o SPC
fazem no Brasil.

dão aCesso Um dos serviços a quem o governo chinês se as-


sociou é o Sesame Credit, uma empresa afiliada à gi-
gante do varejo Alibaba. A Sesame avalia as pessoas

a Crédito em um score entre 350 e 950 pontos (sabe-se lá por


que não fizeram de zero a mil). A Alibaba divulgou
quais são os fatores usados para calcular esse nú-

mais barato. mero. Além do clássico (seu histórico de crédito e se


você paga suas contas certinho), temos a categoria
“comportamento e preferências”. O que uma pessoa
compra é levado em conta: se comprou fraldas, tem
mais chance de ser uma figura responsável, de famí-
lia. Sobe o score. Gastou tudo em videogames, uma
imaturidade – a avaliação piora.
Como no Uber, há avaliação dos dois lados – Nada disso é surpreendente: os birôs de crédito
e elas são sempre feitas “no escuro”: o anfitrião que atuam no Brasil também levam em conta seu
só vê o comentário feito pelo hóspede após dei-
histórico de compras, só não são tão claros sobre o
xar o seu próprio e vice-versa. “Essa estratégia
que exatamente melhora ou piora seu score. A reali-
não existia antigamente, e isso resultava em algo
dade chinesa só vai além das nossas práticas no úl-
menos confiável: o anfitrião poderia ler uma má
timo critério de avaliação: “relações interpessoais”.
avaliação feita para ele e querer ‘revidar’, dando
Por esse título, o sistema se refere ao tipo de amigo
também uma nota baixa”, diz Rômulo Vieira, que
oferece sua casa em São Paulo há um ano e oito que você tem nas redes sociais e com quem você in-
meses na plataforma. Mesmo assim, o ambien- terage. Aquilo que você compartilha também conta:
te dentro do Airbnb é parecido com o deste epi- fazer posts otimistas sobre o país e as lideranças polí-
sódio: é extremamente raro ver avaliações nitida- ticas chinesas conta como ser “uma energia positiva”
mente negativas. Um anfitrião, afinal, pode aca- na rede. Sobe o score. Com uma pontuação a partir
bar recusando um hóspede depois de ver que ele de 650, você passa a ter o direito de alugar um carro
é um crítico contumaz. Já num site em que as ava- sem deixar uma grana de garantia. Com mais de 666,
liações são unilaterais, nos quais só os usuários você ganha de presente um empréstimo pré-aprova-
de um serviço dão notas, a realidade é bem dife- do de US$ 8 mil. Acima de 750, o processo de pedido
rente: praticamente não há hotel no Trip Advisor, do desejadíssimo visto europeu fica mais simples.
por exemplo, sem alguma avaliação que classifi- O bizarro é que modelos como esse não apenas
que o lugar como “horrível”. No Airbnb não: tu- avaliam comportamentos, mas também acabam por
do tende a ser um mar de rosas. Um mar de ro- moldar a estrutura social – e, em último caso, cercear
sas bem Black Mirror. a liberdade das pessoas. Lacey que o diga.

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T3
E2 título original
PLAytEst
na ficção

Causa mortis: versão beta curiosidades


título em português Em Versão de Teste, a calmaria antes da tempestade apre- Antes de ser a casa onde
vERsão dE tEstE senta um protagonista carismático, para que a audiência Cooper vê seus piores medos,
acompanhe seu sofrimento com mais empatia. Cooper é a Englefield House, no
exibição original
um jovem boa-praça que, apesar de nunca atender às li- condado de Berkshire, em
21 dE outuBRo dE 2016
gações da mãe, esbanja simpatia com estranhos. Duran- Londres, foi a mansão do
nota no IMDb te um mochilão, acaba ficando sem grana para comprar Professor Xavier em X-Men:
8,2/10 a passagem para voltar de Londres aos Estados Unidos. Primeira Classe.
Por um troco fácil, ele se dispõe a ser cobaia de videoga-
mes de imersão. Há diversas referências
Os jogos são carregados diretamente no cérebro de Co- a games, digamos, sombrios
oper. Um, em especial, projeta os piores medos do jogador, no episódio. Por exemplo,
que se vê numa casa mal-assombrada. O que deveria ser o sobrenome de Cooper,
um bico prazeroso se transforma numa sequência de pe- Redfield, é o mesmo dos
sadelos na vida real, uma areia movediça que confere um irmãos Chris e Claire,
novo e fulminante sentido para o termo “jogo de imersão”. personagens de Resident Evil.

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no mundo real

A vidA é
um jogo
Tecnologias de imersão Trazem o mundo virTual dos
games para a realidade. seu cérebro esTá pronTo?
> reportagem Cooper Redfield entra numa sala asséptica da produtora de ga-
claudio prandoni mes SaitoGemu. Recosta-se numa cadeira, mas o conforto ter-
mina logo: um dispositivo é implantado em sua nuca. Plugado
> edição
diretamente ao computador, o rapaz conecta-se a jogos imersi-
rodolfo viana
vos nos quais o virtual se confunde com o real. Um deles é o pro-
tótipo de um game de terror que usa os medos pessoais de Cooper contra ele
próprio. Como a mente já não distingue mais o que é fantasia e o que faz parte
do mundo real, a diversão vira pesadelo.
Muito disso ainda é coisa de seriado de ficção científica, mas uma coisa é
fato: as tecnologias imersivas de realidade virtual (RV) e realidade aumentada
(RA) ganham cada vez mais espaço no mundo dos jogos eletrônicos. Segundo

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desejOs e medOs Hi-tecH
Dois casos recentes de como a
tecnologia brinca com nossas sensações.

O festival japOnês
de pOrnô virtual
Em julho de 2016 aconteceu em
Akihabara, um dos bairros mais geeks
de Tóquio, um festival de pornografia
em RV. Antes de ser cancelado pelo
tumulto, alguns visitantes conseguiram
entrar e aproveitar as demonstrações,
como experiências virtuais mostrando
personagens com acessórios, como
uma espécie de manequim equipado
com sensores e mãozinhas mecânicas,
realizando movimentos bem sugestivos.

WelcOme tO
yOur silent Hill
Um jogo de terror que muda de acordo
com os medos e a personalidade de quem
joga? Isso não é exclusividade de Black
Mirror. Lançado em 2009 para PlayStation
2, Wii e PSP, o game Silent Hill: Shattered
o instituto de pesquisa Superdata, a expectati-
va é que o mercado de games fature US$ 104,6 Memories faz testes psicológicos com
bilhões em 2017, sendo que o segmento RV de- o jogador ao longo da história e usa as
ve responder por US$ 3,8 bilhões desse total – respostas para mudar elementos da
mais que o dobro do ano anterior, na marca de trama, como a forma dos monstros,
US$ 1,8 bilhão. lugares visitados e até personagens que
Surgem, então, muitos gadgets como o Ocu- aparecem pelo caminho.
lus Rift, da Oculus, um visor com display de VR
que foi comprado pelo Facebook em 2014 por
US$ 2 bilhões. Também há o HTC Vive, com sen-
sores para instalar pela sala e registrar com mais
o professor Pedro Calabrez, pesquisador do La-
precisão os movimentos do usuário. Completa a
boratório de Neurociências Clínicas da Unifesp
lista o popular PlayStation VR que, segundo a fa-
e apresentador do canal Neurovox. “O cérebro
bricante Sony, está chegando ao Brasil.
tem problemas para se adaptar a movimentos
Enquanto o mercado fatura, resta saber se o
rápidos, bruscos e erráticos. Ele não consegue
nosso cérebro está adaptado para esse tipo de
processar de maneira coesa e concisa os estí-
tecnologia. É documentado que muitas pesso-
mulos que chegam. E o resultado disso são ver-
as sentem enjoos e tonturas ao usar os visores
tigens – iguais às que você sente numa monta-
de RV, e mesmo quem consegue lidar numa boa
nha-russa.”
não encara sessões muito longas.
Os fabricantes estão atentos a isso, de
“Nosso cérebro não evoluiu para visualizar
qualquer forma. “Os desenvolvedores já cria-
e experienciar a realidade nesses aparelhos”, diz
ram várias técnicas para diminuir o enjoo de

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movimento”, diz Ana Ribeiro, produtora do jo- Tiago Moraes, desenvolvedor da OvniStudios,
go Pixel Ripped 1989. “É preciso evitar que o usu- empresa especializada em tecnologias imersi-
ário veja na realidade virtual algo que entre em vas. “E quando a magia é quebrada, tudo perde
conflito com o que o cérebro percebe. Geralmen- a graça”, completa.
te, o que causa mais enjoo são rotações e movi-
mentos no mundo virtual que não são compatí- PArA Além dos gAmes
veis com a situação no mundo real.” A realidade virtual extrapola o campo dos jogos
eletrônicos para entretenimento. Por exemplo,
“A vidA reAl é chAtA” o game Sea Hero Quest VR, criado pelo estúdio
Realidade virtual é o que há de mais avançado londrino Glitchers em parceria com universida-
em tecnologias imersivas no mundo dos games, des britânicas e suíças, tem sido usado para fa-
mas, se formos levar ao pé da letra a primeira in- zer pesquisas sobre demência, que tem entre
teração de Cooper com um jogo conectado à sua seus primeiros sintomas a perda do sentido de
mente – aquele em que ele precisa acertar uma orientação espacial. O objetivo no jogo é viajar
toupeira –, estamos falando de outra coisa: reali- por ambientes naturais como lagos e pântanos.
dade aumentada, que consiste em sobrepor ele- O sistema, então, colhe estatísticas sobre como
mentos digitais ao mundo real. as pessoas exploram ambientes novos, e gera
O conteúdo de RA ainda é escasso, mas ten- dados que permitem entender melhor a doença.
de a crescer em breve. Hoje, é um campo mais Outro estudo, da Universidade de Barcelo-
explorado pelos smartphones – tanto que Apple na, ajuda as pessoas a encarar o medo da mor-
e Google já lançaram ferramentas específicas pa- te. Na experiência, você vê uma sala de estar co-
ra criar conteúdo em RA para aparelhos com os mum pela perspectiva de um personagem virtual
sistemas iOS e Android. e é capaz de interagir com alguns objetos, como
Com RA dá para traçar, por exemplo, estra- uma bola. Os estímulos do mundo digital são re-
tégias em um jogo de tabuleiro digital montado plicados no seu corpo por pequenos motores de
na mesa da sua sala – aí é só andar ao redor do vibração, o que reforça a sintonia com o corpo
cenário para ter diferentes perspectivas. Aponte virtual. De repente, sua perspectiva é alçada pa-
para o céu à noite e confira informações sobre as ra fora do corpo, como se você se tornasse um
estrelas que estão sobre a sua cabeça. Ou mire espírito e flutuasse para o teto da sala.
a câmera para jogadores em um campo de bei- A experiência de “sair do corpo” é associada
sebol – e estatísticas sobre os atletas aparecem à morte. O mero contato com essa situação, se-
em tempo real. gundo os pesquisadores, é capaz de diminuir o
Já aparecem até aplicativos que usam a tec- medo de morrer em quem tem esse tipo de fo-
nologia de forma bem simples, mas útil em situ- bia. Bem Black Mirror, não?
ações específicas. Que tal vi-
sualizar como ficaria sua pa-
rede com determinada cor
de tinta? Ou ver se aquele so-
fá que você quer tanto com-
prar cabe na sua sala? Tudo
Na uNiversidade de barceloNa,
isso era ficção até há pouco
tempo. Hoje faz parte do dia
a dia.
um experimeNto com vr
A grande dificuldade da
RA é manter a coerência do
digital com o real. “A vida re-
al é chata e não temos con-
simula a descoNexão do corpo
trole sobre ela. A física re-
al é chata. A iluminação real
não tem shader. Tudo isso faz
para ajudar pessoas a perder
com que a imersão seja que-
brada com frequência”, diz o medo da morte.
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T3
E3 título original
SHuT up And dAnCe
na ficção

O Deus TrOll curiosidade


título em português Kenny é um jovem comum, que se masturba na frente do com- A reviravolta no final,
mAndA quem pode putador como qualquer outro. Até que sua câmera é hackea- quando revela-se que Kenny
da, e o seu ato vira moeda de barganha nas mãos de um ha- assistia pedofilia e que as
exibição original
cker. Ele passa a ser coagido a cometer alguns crimes sob pe- outras vítimas tinham algo
21 de ouTuBro de 2016
na de ver público seu momento íntimo. obsceno no passado, não fazia
nota no IMDb Durante um dos trabalhos sujos, Kenny conhece Hector, parte das versões anteriores
8,5/10 que também está sob o jugo do hacker misterioso, que jamais do roteiro. Foi a última opção,
aparece em cena – age como se fosse uma entidade divina, na verdade. Antes de chegar a
onipresente e sempre pronta para aplicar seu castigo. Depois ela, Charlie Brooker
de assaltarem um banco a mando do hacker, eles levam o di- considerou não justificar por
nheiro a um ponto. Ali, é revelado o tipo de pornografia que que o hacker escolhia aquelas
Kenny assistiu (spoiler: pornografia infantil), o que justifica sua pessoas. Também cogitou a
humilhação iminente. Mas a entidade não está interessada no possibilidade de apenas
dinheiro do roubo ou em cumprir com sua parte do acordo, Hector ter um grande segredo.
que é manter os vídeos privados. O deus troll só quer o caos.

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no mundo real

confissões de um
hacker
Conversamos Com o brasileiro shadow Ghost, uma
versão em Carne e osso do invasor de blaCk mirror.
> reportagem Em seu celular, Shadow Ghost mostra o e-mail que acabou de criar.
rodolfo viana É uma mensagem comercial voltada para os funcionários da com-
panhia onde trabalha como analista de segurança. “Temos seis
> edição
meses de Netflix grátis para você, colaborador da empresa X”, co-
ana Prado
meça o texto, seguido por um grande botão de “Participe agora”.
Ao clicar, o usuário é levado a uma página onde, para ter acesso à promoção ex-
clusiva, deve informar seu e-mail corporativo e sua senha.
O site seria facilmente interpretado como uma tentativa de phishing, técnica
usada por cibercriminosos que simula uma página real para adquirir informações
do usuário, como senhas de banco. Mas a criação de Shadow Ghost é diferente:
há um cadeado verde antes do endereço da página. Isso indica que o site tem um

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certificado SSL e, portanto, é legítimo e seguro. Foi justamente uma paquera um dos primeiros
“Tornei autêntico o que é fraude”, diz, com a ca- alvos de suas invasões. No fim do ano de 1999, Sha-
ra de moleque travesso, enquanto dá um gole na dow Ghost conversava no MSN com uma menina
cerveja num bar na Avenida Paulista, numa noite de quem estava a fim. Mandou uma animação boba:
quente de setembro. um Papai Noel desejando Feliz Natal. Quando a me-
Com o certificado, o site não configura amea- nina clicou para assistir, antes de aparecer o bom ve-
ça e passa despercebido por programas de antiví- lhinho fazendo gracejos, um programa misturado ao
rus. Fica de fora de uma estatística preocupante: código da animação foi acionado. Era um trojan, sof-
o Brasil é um dos grandes alvos de phishing. Em tware que abria conexão direta entre invasor e vítima.
2016, ano de Jogos Olímpicos no País – e a ten- A partir de então, Shadow Ghost passou a ter
tação de ganhar ingressos por meio de promo- acesso a tudo o que ela fazia: e-mails trocados, fo-
ções –, 27,61% de todos os ataques do mundo tos salvas, históricos de bate-papo... Ele recebia, por
miraram usuários brasileiros, segundo relatório e-mail, prints da tela do computador da menina de
da empresa de segurança Kaspersky. tempos em tempos. Monitorou a garota por alguns
O site falso de Shadow Ghost é apenas um meses, e ela nunca soube.
teste de segurança da empresa onde trabalha e
não tem implicações reais. Se não fosse uma si- remorso nenHum
mulação, porém, o hacker, com login e senha de A invasão à paquera do MSN na adolescência foi
apenas um funcionário incauto, poderia ter aces- uma exceção, diz Shadow Ghost. Ele não mira pesso-
so à rede interna da empresa e escalar privilégios as físicas, a menos que elas representem uma “ame-
– ou seja, virar o administrador do computador – aça direta”. Por exemplo, um advogado “que me co-
podendo, entre outras coisas, modificar configu- locou num rolo em que eu não estava” teve compu-
rações, redirecionar o fluxo de informação, ras- tador e celular monitorados por algumas semanas.
trear as atividades de todo mundo, deletar docu- O hacker queria saber o que exatamente ele conver-
mentos importantes. Poderia, inclusive, acessar sava por e-mail, WhatsApp, Facebook… Além do ad-
câmera e microfone dos computadores, como o vogado, sete pessoas ao seu redor foram comprome-
hacker do episódio Manda Quem Pode. tidas – ou seja, invadidas e espionadas.
Dias depois, o hacker informa o resultado do Há duas técnicas de invasão usadas por Shadow
teste: 25 funcionários caíram no golpe. Ghost – às vezes, ao mesmo tempo. A primeira é a
engenharia social – ou seja, usar informações dispo-
Hackers também amam níveis para hackear não o sistema, mas o usuário. “Se
Shadow Ghost ganhou seu primeiro computador eu procurar no Google ‘CPF telefone filetype PDF cur-
em 1997. Tinha 12 anos quando o pai, um fun- rículo’, eu vou encontrar uma infinidade de currícu-
cionário público que economizou meses de salá- los com endereço, telefone e CPF”, diz o hacker. Com
rio, lhe deu um AMD K62 400 Mhz, com Windo- essas informações, é possível descobrir a operadora
ws 95, “incríveis 32 Mb de memória e HD de 20 de celular, por exemplo.
Gb”, lembra – um top de linha da época. A pri- Agora imagine a cena: você recebe uma ligação
meira coisa que o garoto fez foi procurar no ex- de alguém que diz ser atendente da sua operadora.
tinto buscador Cadê? uma apostila de hardware, A pessoa confirma seus dados por telefone – nome
imprimir o material e desmontar o computador completo, endereço, CPF – e diz que é possível que a
para ver como funcionava. “Meu pai ficou puto”, linha tenha sido clonada. Antes que o pânico domi-
diz, aos risos. ne seu corpo, você é informado que receberá um e-
O conhecimento em eletrônica desembocou -mail para atualizar seu cadastro e manter sua linha
no primeiro hack de Shadow Ghost, no ano se- segura. Minutos depois, uma mensagem – como a
guinte. Um hack que não envolvia computado- descrita no começo deste texto – aparece no seu e-
res, mas telefones. Ele levava ao orelhão um apa- -mail. Ela tem um botão de “Atualizar cadastro”. Vo-
relho vagabundo, “desses comprados em loja de cê não clicaria? Ok, talvez você não clicasse, mas al-
1,99”. Sem muito esforço, conectava-o no fio da li- guém próximo a você certamente clicaria. E, com o
nha do orelhão, esquivando-se, assim, do equipa- computador comprometido, o hacker poderia man-
mento de cobrança do telefone público. Sem gas- dar mensagens para você – com arquivos anexos ma-
tar um tostão, o moleque de 13 anos passava as liciosos, claro – como se fosse seu avô ou sua tia (afi-
tardes em serviços de disque-paquera. nal, quer remetente mais confiável que um familiar?).

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0
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hackers do passado longínquo
Eles existem desde bem antes dos PCs.

nelvile Maskelyne
1903
Crítico do telégrafo sem fio de
Guglielmo Marconi, Nelvile Maskelyne
aproveitou uma demonstração do
dispositivo feita pelo físico John
Ambroise Fleming, em Londres. Com
um transmissor e uma antena de 50 m,
interferiu na comunicação, e enviou
xingamentos em código Morse.

Marian reJeWski,
1932
henryk Zygalski e
JerZy róZycki
Esses matemáticos poloneses
quebraram a Enigma de três rotores,
a máquina alemã de mensagens
criptografadas, com o uso de
permutação matemática e combinação.

alan Turing, gordon


1939
A segunda técnica de Shadow Ghost fica no campo dos códi- WelchMan e harold keen
gos, e serve para atacar sistemas de empresas. As portas para es- O trio de ingleses, com o gênio Touring à
se tipo de invasão estão nos lugares onde o acesso é feito por lo- frente, quebrou uma versão avançada da
gin e senha. Enigma, usada na Segunda Guerra.
Funciona assim: quando você coloca login e senha em qual-
quer site, o sistema vai consultar no banco de dados as informa-
rené carMille
ções e ver se elas batem com o que você digitou. Isso é feito por 1943
SQL (Structured Query Language, ou linguagem de consulta estru- Especialista em controle de ponto
turada). Mas se, em vez de login e senha, você digitar um coman- do exército francês quando o país foi
do malicioso que o SQL saiba interpretar, você pode criar uma no- invadido pelos alemães, ofereceu-
va credencial e entrar no sistema, ou pode pedir para que o siste- se para coordenar o Departamento de
ma entregue alguma credencial existente. O nome dessa técnica Demografia de Vichy. Durante um censo
é SQL injection (injeção de SQL). Em todos os casos, você já está para encontrar judeus, Carmille alterou
no servidor, e a invasão foi concluída. o aparelho para nunca tabular a religião
Hoje, os ataques de Shadow miram o que ele chama de “esta- como “judeu”, o que salvou muitas vidas,
tais ou multinacionais, cobertas por seguros milionários, que ar- mas o levou a ser enclausurado num
rancam dinheiro de uma galera sem piedade”. Ele, claro, não reve- campo de concentração, onde morreu.
la quais, só diz: “nunca prejudiquei o Zé das Couves da esquina”.
O objetivo dos ataques, ele jura, não é financeiro. Sua motiva-
ção seria simplesmente saciar a própria curiosidade. Seja como for: 1957 Joe “Joybubbles” engressia
para chegar aos alvos corporativos, muitas vezes Shadow Ghost Um garoto cego de 7 anos com uma
toma o controle de máquinas de gente comum: “Eu e um grupo audição impecável descobre que
mantivemos um botnet [rede de máquinas invadidas que executam assoviar ao telefone em uma frequência
tarefas a mando do invasor]. São mais de 1.500 computadores”. de 2.600 Hz interferiria no sistema da
Um deles pode ser o seu. AT&T, permitindo ligações gratuitas.

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T3
E4 título original
SAn JunIpErO
na ficção

felizes para sempre,


numa placa de memória curiosidades
título em português Os direitos autorais das
SAn JunIpErO O pessimismo diante da tecnologia é uma constante em Black músicas que tocam no episódio
Mirror. O soberbo San Junipero, porém, é uma exceção. Nele, foram os mais caros da
exibição original
Yorkie e Kelly se conhecem num clube numa cidade costeira, produção. Girlfriend in a Coma,
21 dE OuTuBrO dE 2016
em 1987. Um flerte aqui, um hit oitentista ali, e as duas acabam dos Smiths, toca por cinco
nota no IMDb se envolvendo. Até que o cenário idílico se revela como uma si- segundos, e pagar por ela foi
8,8/10 mulação criada para o alívio momentâneo daqueles que estão à como “jogar dinheiro na
beira da morte. No mundo real, Yorkie está presa a uma maca, fogueira”, disse Charlie
paralisada. Não só à beira da morte: a simulação está cheia de Brooker.
gente que já morreu. Os corpos pereceram, mas as consciên-
cias foram “subidas” para lá. Para todos os efeitos, é a materia- Inscrito no Emmy Awards
lização da imortalidade, algo inerentemente positivo. San Juni- de 2017 como filme para TV, San
pero até discute se faz mesmo sentido viver para sempre, mas Junipero ganhou os prêmios de
no fim se rende aos fatos: o melhor jeito de alcançar a imortali- melhor filme e melhor roteiro
dade, como já disse Woody Allen, é não morrendo. em filme dramático.

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no mundo real

upload de
consciência A ideiA de trAnsferir A mente pArA forA do
cérebro é um objetivo concreto dA ciênciA.
> reportagem Transferir a mente de alguém para dentro de uma máquina que
cArLos orsi vai garantir a imortalidade a seus usuários é um tema popular
não só na ficção científica, mas também na ciência de fato. Ray
> edição
Kurzweil, um cientista metido a guru, mas ainda assim respeita-
rodoLfo viAnA
do, fala em realizar uploads de consciência dentro das próximas
décadas. Se aquilo que chamamos de “mente” é só um padrão de atividade ce-
rebral, não seria possível copiar esse padrão e reproduzi-lo em algum outro su-
porte, como chips de silício? É nisso que gente como Kurzweil ou o físico Frank
Tipler, autor do livro Física da Imortalidade, aposta.
Mas essa opção depende da resposta, ainda desconhecida, a uma questão
que é, ao mesmo tempo, científica e filosófica: a mente humana é computável?

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Ou, em outras palavras, tudo o que vo-
cê é – ideias, lembranças, comporta-
mentos, opiniões, sentimentos – ca-
be mesmo num programa de compu-
se a mente for traduzível em
tador?
O matemático Alan Turing (1912-
1954) realizou trabalhos teóricos mos-
algoritmos, ela não precisarÁ
trando que é possível criar máquinas
capazes de simular qualquer proces-
so. Pelo menos qualquer um que pos-
de um cérebro como suporte.
sa ser descrito por um algoritmo. Algo-
ritmos são conjuntos de instruções encadeadas para modelar o clima e os processos biológicos. A
de forma lógica, como as regras das quatro opera- própria evolução das espécies por seleção natural, se-
ções que aprendemos na escola ou os programas gundo Dennett, pode ser tratada como um processo
que rodam em nossos computadores. Assim, se a algorítmico. A mente de cada pessoa, então, seria só
personalidade humana puder ser reduzida a um um conjunto de equações. Enorme, de zilhões e zi-
algoritmo, ela deixa de depender exclusivamen- lhões de terabytes, mas ainda assim passível de uplo-
te do suporte material do cérebro, e nada, exce- ad para outra plataforma que não um cérebro.
to o grau de avanço tecnológico, impede que se- Outro agente que acredita nisso é ninguém me-
ja recriada numa máquina. Só tem um problema: nos que a União Europeia, que está investindo 1 bi-
não sabemos como a mente computa. Não sabe- lhão de euros no Projeto Cérebro Humano, uma ini-
mos se os nossos pensamentos são mesmo fei- ciativa que tem, entre seus objetivos, reproduzir um
tos de algoritmos. cérebro humano em computador.
Um filósofo especialmente aberto à possibili-
dade de que, sim, eles são, é o americano Daniel OS CÉTICOS
C. Dennett, autor de livros como Tipos de Mentes Mas há quem defenda o contrário, alegando que a
e Consciousness Explained. Dennett oferece exem- mente não é computável. Ela pertenceria a uma clas-
plos do poder dos algoritmos para produzir resul- se de sistemas que não podem ser adequadamente
tados sofisticados, como os usados atualmente representados por algoritmos. O próprio Alan Turing

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upload de zumbis
A mente pode ser computável,
mas a consciência não.

Filosoficamente, a principal objeção à


possibilidade de mentes serem algoritmos é a
questão da experiência subjetiva: um robô pode
ser programado para se comportar como se
provou que sistemas assim são teoricamente possí- estivesse apaixonado, mas como programá-lo
veis, embora sua aplicação prática seja um desafio. para que se sinta apaixonado? Essas criaturas
O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis e o teóricas, que externamente agem como seres
matemático e filósofo egípcio Ronald Cicurel estão humanos, mas não sentem nada, são os “zumbis
no time dos céticos. No livro The Relativistic Brain,
filosóficos”. Em seu livro The Conscious Mind, o
de 2015, eles argumentam que o grau de integração
filósofo australiano David Chalmers define um
com que o cérebro funciona não pode ser simula-
zumbi filosófico como “alguma coisa idêntica
do por máquinas como as de hoje, que se limitam
a processar algoritmos. Os computadores seriam a mim, mas sem experiência consciente –
“incapazes de dar conta das funções mais elevadas apagada por dentro”. O americano John Searle,
do sistema nervoso central, simplesmente porque outro filósofo que se debruça sobre a natureza
não podem simular o tipo de computação analógica da mente, concorda que zumbis assim são
integrada que gera essas funções em cérebros reais, possíveis. Há ainda mais uma camada filosófica
onde tudo afeta tudo simultaneamente”, escrevem. a ser explorada. Em 1984, o filósofo britânico
Bom, mesmo que o cérebro seja computável, Derek Parfit (1942-2017) propôs o paradoxo
não dá para saber se a sua consciência, aquilo que do teletransporte: imagine uma máquina que
você chama de “eu”, subiria mesmo junto com o destrua seu corpo num lugar, enquanto outra
upload. Aquilo que acabar abrigado em um com- constrói uma réplica em Marte, com exatamente
putador pode funcionar só como uma simulação a mesma aparência, personalidade, memória.
da sua mente. Uma cópia exata, mas “zumbi” (ve- Você foi assassinado e substituído por um
ja mais no box). Sua mente iria para San Junipero, e impostor, ou viajou a Marte por teletransporte?
interagiria com outras mentes lá. Mas seus “olhos” Isso vale para o upload de consciência.
jamais se abririam lá dentro. Sua consciência pere-
Programas não são realmente transferidos:
ceria junto com seu cérebro.
são copiados para um novo lugar e apagados
A mente, afinal, pode até ser algo plenamente
do anterior. As consciências mantidas num
traduzível, se não pelos computadores de hoje, pe-
los de amanhã. Mas a consciência talvez continue reservatório ou na nuvem estarão mesmo
sendo o que sempre foi: o maior e mais inescrutá- preservadas, ou serão apenas simulações
vel mistério do Universo. digitais de gente que, na verdade, já morreu?

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T3
E5 título original
Men AGAinSt FiRe
na ficção

(Não) CoNheça o seu iNimigo curiosidades


título em português Num futuro mais distópico que a média da série, somos O termo “barata” se refere
enGenhARiA ReveRSA apresentados a uma unidade do exército especializada em ao genocídio de Ruanda, em
exterminar as chamadas “baratas”. São seres com estéti- 1994. Durante cem dias,
exibição original
ca de zumbi, de mutante pós-nuclear. Monstros, em su- 800 mil pessoas foram mortas
21 De OutubRO De 2016
ma. Eles entram sorrateiramente nas casas, roubam co- pelos hutus, que perseguiam
nota no IMDb mida, e vivem escondidos em cantos escuros (daí o ape- os tutsis, a quem chamavam
7,9/10 lido de “baratas”). de “baratas”.
Para executar o trabalho, os soldados recebem um im-
plante neural que melhora seus sentidos e lhes fornece in- O título foi extraído do
formações usando realidade aumentada. Mas não é só is- estudo Men Against Fire,
so. O sistema, na verdade, cria as “baratas”. Não existem escrito em 1947 pelo general
zumbis. Não existem mutantes. São apenas civis paupérri- S.L.A. Marshall. O livro fala
mos. O implante desumaniza o “inimigo” para que os sol- sobre soldados que, durante a
dados não pensem duas vezes antes de matar inocentes, Segunda Guerra Mundial, não
se esse for o desejo dos comandantes. dispararam seus rifles.

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no mundo real

Super
soldados
Antes, bombAvAm os militAres com metAnfetAminA.
hoje A ArmA é outrA: reAlidAde AumentAdA.
> reportagem “É muito mais fácil puxar o gatilho mirando no bicho-papão”,
cArol vilAverde diz o personagem Arquette em Engenharia Reversa. Os implan-
tes de realidade aumentada que aparecem no episódio dão conta
> edição
de um dos maiores problemas para um soldado, que é a eventu-
AnA PrAdo
al empatia com o inimigo a ser morto por ele. Além de apresen-
tarem dados da missão e auxiliarem na mira, na comunicação e no condicio-
namento, essa tecnologia coloca “máscaras” sobre os alvos das operações e
fazem com que eles tenham uma aparência monstruosa, pouco humana. Pa-
ra o exército de Black Mirror, alterar a percepção da realidade no combate foi a
chave para obter o soldado exemplar, extremamente focado e sem compaixão.
A ideia de criar supersoldados não é nova, nem ética. Os nazistas enchiam

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A evolução dos
supersoldAdos
Como exércitos transformaram
homens em máquinas de guerra.

1939 ligAdões
Os nazistas tentavam melhorar
o desempenho das tropas com
metanfetamina. Milhões de
pílulas foram distribuídas entre os
combatentes, que lutavam sem sono,
fome ou sede. Os efeitos colaterais, no
entanto, eram terríveis: os soldados
levavam semanas para se recuperar
do esforço feito sob efeito da droga,
e muitos se tornavam dependentes.
Os soldados japoneses também
receberam rações de metanfetamina –
principalmente os kamikazes.

1941 steve rogers soviético


Entre 1936 e 1941, os soviéticos
implantaram eletrodos no cérebro
de 300 voluntários para tentar
eliminar seus sensores neurais de
dor. Também testaram titânio para
reforçar os ossos dos soldados. Nada
deu certo: os implantes causaram
tumores cerebrais e os corpos
rejeitaram o reforço nos ossos.

1958 ArmA psicodélicA


Nos anos 1950 e 1960, o Exército dos

as tecnologias criadas para EUA tentou avaliar se o LSD poderia


ser transformado em arma. A ideia era
incapacitar as tropas inimigas com a

os campos de batalha da vida droga alucinógena em aerosol. Deu


errado: a droga perde efeito quando
lançada no ar. Também existe um registro

real não ficam muito atrás em vídeo com oficiais americanos


participando de um teste divertido em
1958: logo após tomar LSD, eles tentam

daquelas da ficção. marchar e seguir ordens.

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suas tropas de metanfeta-
mina – a droga que Walter
White fabrica em Breaking
Bad. Trata-se de um esti-
mulante superpoderoso,
um sistema do exército
que propicia horas de eu-
foria a mil e cansaço a ze-
ro, mais uma tonelada de
americano faz soldados
efeitos colaterais: danos no
coração, no cérebro e risco
de overdose... (veja mais
enxergarem igual
ao lado).
Essas práticas caíram
em desuso, por motivos
o exterminador do futuro.
óbvios. Mas as tecnologias
que permeiam os campos
de batalha do mundo re-
al não ficam muito a dever
aos da ficção científica. A realidade aumentada, O próximo passo, de acordo com as Forças Armadas
que complementa a visão com elementos digitais, dos EUA, é adaptar esses dispositivos para novas tarefas.
serve de exemplo. O laboratório de pesquisas do A mais interessante: determinar se uma pessoa está falan-
exército americano anunciou neste ano o protó- do ou não a verdade (tarefa dura para qualquer software,
tipo TAR (sigla em inglês para Realidade Aumen- mas não impossível).
tada Tática). São óculos de realidade aumentada
que fazem você enxergar igual o Exterminador do no Brasil
Futuro. Por exemplo: um sensor na sua arma tro- Quem cuida desses assuntos por aqui é o Departamento
ca informações com os óculos e permitem que vo- de Ciência e Tecnologia das Forças Armadas, que pesquisa
cê mire com uma perfeição robótica. e desenvolve produtos para atender às necessidades ope-
“Já a realidade virtual (VR) serve como uma racionais dos militares. Os soldados brasileiros já usam
ótima ferramenta de treinamento militar”, diz realidade virtual para treinamento de combate. O STAL
Eduardo Araújo, pesquisador e designer de si- (Simulador de Tiro de Armas Leves) é um dos destaques:
mulações da empresa Virtopia, especializada na destinado ao treinamento de atiradores, combina simula-
área. “A VR permite uma grande economia: os dores de tiros de pistolas e fuzis e fornece dados sobre o
soldados podem treinar tiro à vontade, sem gas- desempenho dos soldados.
tar nada além da energia elétrica. Essa tecnolo- O Exército também planeja implantar, ainda em 2018,
gia também permite treinar em qualquer cená- um projeto de realidade aumentada, nos moldes do TAR
rio, a qualquer hora”, explica. americano.
Para Joni Amorim, pesquisador colaborador da Uni-
todas as línguas do mundo camp, uma aplicação interessante da realidade aumenta-
Tradução simultânea também é um campo em da poderia acontecer em operações de suporte das Forças
exploração na tecnologia militar. A língua é uma Armadas ao trabalho policial, como ocorre em algumas co-
das principais barreiras a serem superadas pelos munidades do Rio de Janeiro. “Um militar que não conhe-
exércitos em território estrangeiro, especialmen- cesse a região poderia receber orientações via GPS sobre
te quando precisam trabalhar com soldados e ci- qual direção seguir por meio de óculos que mostrassem
vis locais. Além dos tradutores humanos, escas- um mapa sobreposto à imagem real”, diz Amorim.
sos e difíceis de treinar, as Forças Armadas dos A onipresença de sistemas assim não seria boa só do
EUA utilizam a MFLTS (Machine Foreign Langua- ponto de vista tático. Se todo soldado (e todo policial) usar
ge Translation System), máquina que traduz em aparatos de realidade aumentada, isso significa também
tempo real tanto falas quanto texto de sites e re- que todo soldado, e todo policial, poderia ter cada segun-
des sociais. O sistema, que também tem primos do de sua atividade gravado em vídeo. E isso ajudaria a coi-
no mundo civil, roda em smartphones, e em bre- bir justamente aquilo que este episódio de Black Mirror cri-
ve falará 65 idiomas. tica: abusos contra inocentes.

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E6 título original
HATEd in THE nATiOn

título em português
na ficção

TweeT e CasTigo
As redes sociais são, entre tantas coisas, simulacros das praças
curiosidade
O episódio foi inspirado
públicas onde, há alguns séculos, se decapitavam condenados. num fato real da vida de
OdiAdOs pELA nAçãO
Com uma diferença: o carrasco que hoje desce a guilhotina po- Charlie Brooker. Em 2004, em
exibição original de ser o homem sem cabeça de amanhã. Odiados pela Nação é sua coluna no The Guardian,
21 dE OuTuBRO dE 2016 sobre julgamentos imediatos e ódio coletivo – e sobre como é ele criticou George W. Bush e
fácil disseminar esse sentimento em tão poucos caracteres. No concluiu, de forma irônica:
nota no IMDb
episódio que encerra a terceira temporada de Black Mirror, a de- “John Wilkes Booth, Lee
8,7/10
tetive Parke e sua companheira, Blue, devem investigar mortes Harvey Oswald, John Hinckley
misteriosas, como a da escritora Jo Powers e a do rapper Tusk. Jr, onde estão vocês?”. Citar
Ambos são repudiados no Twitter depois de declarações públi- os assassinos de Abraham
cas polêmicas. Lincoln e John Kennedy e o
Parke e Blue descobrem que abelhas-robôs criadas para po- homem que tentou matar
linizar Londres são as responsáveis pelas mortes. Hackeadas, Ronald Reagan pegou mal:
elas vão atrás de vítimas escolhidas por usuários do Twitter: ao Brooker recebeu inúmeros
fim do dia, a pessoa mais citada na rede social junto à hashtag e-mails furiosos e até uma
#DeathTo está marcada para morrer. ameaça de morte.

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no mundo real

#Deathto
AiNDA NãO há ABelhAS-rOBôS ASSASSiNAS, MAS já TeMOS uM MONTe
De geNTe DeSejANDO A MOrTe De OuTrAS peSSOAS NO TwiTTer.
> reportagem “Odiados pela Nação”. Não poderia haver título melhor para o episódio que fecha a terceira temporada de Black Mirror. Ne-
Rodolfo Viana le, as pessoas, no Twitter, associam a hashtag #DeathTo a alguém que queiram ver morto. Se o odiado tiver muitos tweets
> edição em seu nome, as abelhas-robô se encarregam de exterminá-la. É claro que a brincadeira macabra ganhou o Twitter. Desde
ana PRado que o episódio foi ao ar, em 21 de outubro de 2016, 7.072 tweets únicos – ou seja, sem contar retweets – foram publicados.
O pico de tweets ocorreu dois dias depois que o episódio foi disponibilizado na Netflix.

mortes virtuais
Quando a hashtag foi mais usada e quais os nomes mais citados.

23/10/2016
279 tweets (pico de 2016)
usuários comentam o último
episódio de Black Mirror

9/2/2017
69 tweets (pico de 2017)
imprensa divulga notícia 9/7/2017
sobre o japão criar abelhas-
-robôs para polinização 33 tweets
21/10/2016 usuários repercutem notícia
da CNN sobre polinização
Lançamento com uso de drones
do episódio
OUT/NOV FEV/MAR JUN/JUL AGO/SET
2016 2017 2017 2017

as dez vítimas favoritas no mundo

327 (8,50%)
3= Donald Trump Mas boa parte
139 (3,61%)
1=Black Mirror dos tweets não
94 (2,44%)
9= “eu mesmo” tem uma vítima:
são comentários
47 (1,22%)
4= Netflix (plataforma) sobre o episódio, Sem nome
3.223
com nome
3.849
40 (1,04%)
4= jair Bolsonaro demonstrações
de aflição pela 45,6% #Deathto 54,4%
37 (0,96%)
3= Michel Temer existência
32 (0,83%)
3=Abelhas de abelhas
20(0,52%)
2= garrett Scholes (personagem do episódio) assassinas etc.
20 (0,52%)
2= jo powers (personagem do episódio)
15 (0,39%)
1= enrique peña Nieto (presidente do México)

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no mundo real

OdiadOs pela
internet O que mOtiva Os linchamentOs virtuais – e as
cOnsequências desses ataques nO mundO real.
> reportagem Você está viajando com amigos pelo interior do país. Em uma ci-
ana lOurençO dade, passam por um cemitério militar, cuja entrada está deco-
rada com uma placa em que se lê: “Silêncio e respeito”. Você re-
> edição
solve parar e posar para uma foto quebrando as “regras”: com
ana PradO
uma mão, faz um gesto para indicar que está gritando e, com a
outra, mostra o dedo do meio. Um amigo posta a imagem no Facebook e te
marca na publicação. O que era para ser uma simples brincadeira de gosto duvi-
doso vira um pesadelo: a foto viraliza e você começa a receber milhares de mensa-
gens de ódio e ameaças de morte. Páginas do Facebook são criadas com seu no-
me. Poucos dias depois, perde o emprego. Nos meses a seguir, desenvolve depres-
são e passa a se recusar a sair de casa.

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Essa história aconteceu com Lindsey Stone, uma ame-
ricana que, em outubro de 2012, posou para a foto no Ce-
posts iNfelizes
Três casos de linchamento virtual
mitério Nacional de Arlington, onde estão enterrados vete-
com consequências bem reais.
ranos de guerra e figuras políticas importantes dos Estados
Unidos. A história de Lindsey é semelhante à da persona-
gem Clara Meades em Odiados pela Nação – na série, a mu- “Não pego aids, sou braNca”
lher posta nas redes sociais uma foto em que simula estar
urinando em um monumento de guerra. As coincidências Em dezembro de 2013, a relações públicas Justine
terminam por aí, mas as marcas do ódio virtual podem ter Sacco, de 30 anos, aguardava um voo de Londres
tanta força quanto o ataque das abelhas-drones. para a Cidade do Cabo, na África do Sul, quando
tuitou: “Indo para a África. Espero não pegar aids.
A gênese do AtAque Brincadeira! Sou branca.” Onze horas depois, ao
A vítima de um linchamento geralmente “cumpre a função desembarcar, Sacco descobriu que havia recebido
ritual e sacrificial do bode expiatório”, escreve José Mar- mais de 100 mil mensagens de repúdio e ameaças
tins de Souza, sociólogo e professor da USP, no livro Lin- de morte. Até Donald Trump tuitou pedindo sua
chamentos: a justiça popular no Brasil. Em seu levantamen- demissão – algo que de fato aconteceu.
to, Martins estima que haja um linchamento físico por dia
no País, e que, nos últimos 60 anos, cerca de um milhão
de brasileiros tenha participado de pelo menos um ato ou “Mate uM NordestiNo afogado”
uma tentativa desse tipo.
Apesar das diferenças entre o linchamento físico e o vir- Após a vitória de Dilma Rousseff nas eleições de
tual, a efeito de pesquisa, a distinção é menos acentuada: 2010, a estudante paulista Mayara Petruso tuitou
“o linchamento virtual também é real. A pessoa atacada uma série de comentários, entre os quais viralizou a
tem família, vida social, não é só um avatar”, explica a pes- frase: “Nordestino não é gente, faça um favor a SP,
quisadora da Unicamp Karen Tank Mercuri Macedo, que mate um nordestino afogado!”. A forte repercussão
estudou o tema. “Acreditamos que o linchamento virtual levou Mayara a abandonar a faculdade e ser
muitas vezes acontece por falta de letramento digital. Se demitida. Ela foi condenada a um ano e cinco meses
a pessoa não tem uso crítico da tecnologia, não consegui- de prisão por incitação à violência.
rá avaliar a fonte das informações que recebe e tem mais
chances de ser um linchador ou linchado em potencial.” faNtasia: vítiMa da MaratoNa de bostoN
Mas quem toma parte em linchamentos tem consciên-
Em 2013, Alicia Ann Lynch, uma norte-
cia do que está fazendo? Depende da situação. “Há um ca-
so de um linchamento real no Rio de Janeiro em que uma americana de 22 anos, decidiu tuitar sua foto do
idosa foi vista tentando arrancar o olho da vítima com uma Halloween. Sua fantasia: vítima do atentado na
colher. Quando foi levada para a delegacia, ela não lembra- maratona de Boston, que matou três pessoas e
va o que tinha feito. Acreditamos que a fúria da multidão feriu mais 264. A reação foi rápida: mensagens
deixe vir à tona um comportamento que nem a pessoa en- de ódio, informações pessoais e até fotos
tende”, explica Macedo. Mas a situação muda nas redes íntimas de Lynch vazaram na rede.

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sociais, mesmo que envolva uma ação impen- organizados e genericamente definidos como
sada. “A pessoa tem muito mais consciência do haters. Todos estão sujeitos aos seus ataques,
que está fazendo na internet do que na agres- especialmente se defenderem alguma causa
são física no mundo real, que geralmente parte considerada polêmica. É o caso de ativistas femi-
de uma explosão súbita.” nistas (veja mais na página ao lado) e militantes
políticos, ou defensores de pautas como a lega-
Por que linchamos? lização das drogas ou do aborto. Para Macedo,
Não raro, o linchamento virtual resvala para a “a ideia deles seria preservar alguns valores so-
violência física – é o caso de Fabiane Maria de Je- cialmente construídos, tidos como certos. Nes-
sus, dona de casa assassinada em maio de 2014, sa lógica, deve-se ‘destruir’ o que pensa diferen-
no Guarujá, após ser acusada de praticar magia te, que seja uma ameaça aos bons costumes”.
negra e sequestrar crianças. O boato surgiu na
internet, junto a relatos falsos de testemunhas. crime coletivo
Fabiane foi espancada até a morte por morado- Três anos depois, apenas cinco pessoas foram
res, após ser confundida com um retrato fala- condenadas pelo assassinato de Fabiane, com
do da suposta sequestradora. O linchamento penas variando entre 26 e 40 anos de prisão,
foi filmado e divulgado na internet, onde virali- dentre dezenas que podem ser vistas no vídeo
zou. Depois, descobriu-se que o retrato havia si- divulgado. A legislação brasileira ainda não tipi-
do feito em 2012 por policiais do Rio de Janeiro, fica o crime de linchamento: a característica fun-
em um caso sem relação alguma com o boato. damental das penas ainda é individualizar o cri-
O linchamento tem caráter vingativo, de pu- me, não o considerando em contexto coletivo.
nir com força redobrada o suposto crime origi- Mas a penalização para o linchamento vir-
nal. É uma forma de a sociedade julgar a inefici- tual e físico pode se tornar mais rigorosa com o
ência dos procedimentos oficiais de justiça. “A projeto de lei 7544/14, do deputado Rubens Pe-
hipótese mais provável é a de que a população reira Júnior (PCdoB-MA), que foi aprovado em
lincha para punir, mas sobretudo para indicar março na Comissão de Constituição e Justiça
seu desacordo com alternativas de mudança so- (CCJ) da Câmara dos Deputados. O projeto pre-
cial que violam valores e normas de conduta tra- vê aumentar em 1/3 a punição para a “incitação
dicionais”, escreve Martins. “O linchamento não ao crime” via internet ou outro meio de comu-
é uma manifestação de desordem, mas de ques- nicação de massa. “Todos os que compartilham
tionamento da desordem.” ou comentam no linchamento deveriam respon-
Esse questionamento muitas vezes é provo- der criminalmente, mas a dificuldade de rastre-
cado por um dos maiores gatilhos para o lin- ar acaba focando a punição na primeira pessoa
chamento: a intolerância. “Todas as pessoas que que o publicou”, diz Macedo.
já fazem parte de minorias
vão continuar sendo margi-
nalizadas na internet, em-
bora tenhamos por lá es-
sa sensação de igualdade.
Existe sempre um poder,
um grupo mais privilegiado
diferentemente dos
controlando os outros”, res-
salta Macedo. “Se você não
se encaixa no grupo homo-
linchamentos reais, que partem
gêneo, precisa ser destruí-
do, nem que seja só com
palavras. Não existe mais
de explosões de fúria, os
essa fronteira fixa entre o
real e o virtual.”
A intolerância é, gros-
justiceiros virtuais costumam
so modo, uma das bases
para o ataque de grupos agir de caso pensado.
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especial black mirror . TEMPORADA 3

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e n t r e v i s t a
LoLa aronovich
Professora da Universidade Federal do Ceará e autora de um dos
maiores blogs feministas do Brasil, Lola vem recebendo ameaças
há seis anos e já registrou 11 boletins de ocorrência.

mas minha mãe não deixou. Outro l.a. Uma boa parte eu sei quem

Ativismo e episódio foi quando criaram um site


de ódio no meu nome em que diziam
que eu havia realizado um aborto
são, tenho seus nomes, números
de documentos e endereços. As
polícias civil e federal e a Abin

perseguição numa aluna em uma sala de aula


na universidade! E teve gente que
acreditou. É absurdo.
[Agência Brasileira de Inteligência]
têm os nomes de muitos outros
faz tempo. Não adianta muito
ativistas de direitos humanos S você já tomou alguma
processá-los porque eles não
trabalham, não estudam, não
medida para se proteger?
e de causas como o feminismo l.a. Eu fico num dilema: vale a pena
têm nada no nome deles. Já as
centenas de perfis no Twitter que
também vivem sob ataque na rede. acompanhar as ameaças e planos me agridem (a maior parte sem
de ataque (mesmo que nunca sejam necessariamente me ameaçar de
concretizados) ou é melhor deixar morte) são quase todos falsos.
para lá e correr o risco de ser pega É uma luta desigual, pois eu sou
S Quando as ameaças 2013 por um rapaz que foi preso de surpresa? Sinceramente, não uma pessoa de verdade, com nome
começaram? em 2012 e permaneceu mais de sei. É terrível que a gente tenha completo, endereço e fotos, e
l.a. Meu blog vai fazer dez anos um ano na cadeia por seus crimes
que se acostumar com esse tipo de eles são covardes contando com
em janeiro de 2018. As ameaças de ódio. Quando foi solto, voltou
ataque, mas a gente se acostuma. o anonimato. Na vida real, cara
começaram entre 2010 e 2011. a fazer o mesmo de antes. Ele e
Durmo bem à noite, não tenho a cara, eles não teriam coragem
Desde então, elas vêm sendo muito seus comparsas atacam juízas,
medo. Mas estou cansada. São sequer de me dirigir a palavra.
frequentes. Ontem mesmo um delegadas, jornalistas, advogadas,
inúmeras denúncias, 11 boletins
rapaz de Aracaju gravou um vídeo professoras. Eu fiquei sabendo do
de ocorrência, inquéritos, e nada S o Que você acha Que motiva
com um amigo em que me xinga chan porque seu autor me enviou o
é feito. Há um inquérito aberto na as pessoas a atacar outras
e me ameaça de morte. Em 2016, link várias vezes.
Delegacia da Mulher de Fortaleza. pela internet?
esse mesmo indivíduo publicou
S Qual foi o episódio A deputada federal Luizianne Lins l.a.O principal motivo é que as
uma foto de um revólver, com
mais assustador Que você (PT-CE) apresentou um projeto pessoas se sentem protegidas pelo
munição, e uma passagem para
já viveu? com nome de “Lei Lola”, baseado anonimato para falar as piores
Fortaleza [onde Lola mora]. Ele
l.a. Não tive episódios assustadores, no meu caso, exigindo que a PF atrocidades. Elas pensam que a
disse que viria até a minha casa me
porque nunca fui atacada investigue casos de ameaças a internet é terra de ninguém. Acho
matar (eles têm e divulgam meu
fisicamente. Pelo contrário, nas mulheres online. Eu torço para que que muitos promoveram bastante
endereço residencial) e depois se
palestras que dou por todo o Brasil, a lei seja aprovada e cumprida, pois bullying na escola e não superaram
suicidaria.
sou recebida com muito carinho. a verdade é que não temos proteção a fase. Então, ao xingar uma mulher
S como os ataQues chegam Mas alguns são surreais, como alguma. de baleia, de burra, de vagabunda
até você? um misógino gravar um vídeo (porque eles geralmente alvejam
l.a. Algumas ameaças chegam por (mostrando o rosto!) dizendo ser S você sabe Quem são as mulheres), conseguem relembrar
email, outras por comentários não meu filho. Nunca vi o cara, nem pessoas Que atacam você? aqueles “bons tempos”. Além do
aprovados no meu blog, outras no sei o nome dele, e ele diz que eu elas costumam se esconder mais, essa prática cria a ilusão de
Twitter. A maior parte vem de um queria abortá-lo quando fiquei atrás de fakes ou dão seus fazer parte de um grupo, que se une
chan (fórum anônimo) criado em sabendo que o feto era masculino, nomes reais? por meio do ódio.

© Fotos Divulgação Ilustrações Indio San | BLACK MIRROR | superinteressante 65

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