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ISBN

978850262373-6

Araujo, Daniel de
História geral / Daniel de Araujo. – São Paulo: Saraiva, 2016. – (Coleção diplomata /
coordenador Fabiano Távora)
1. História 2. História - Concursos I. Távora, Fabiano. II. Título. III. Série.
14-13036 CDD-900.76

Índices para catálogo sistemático:


1. História geral : Concursos 900.76
Diretor editorial Luiz Roberto Curia
Gerente editorial Thaís de Camargo Rodrigues
Gerência de concursos Roberto Navarro
Editoria de conteúdo Iris Ferrão
Assistente editorial Thiago Fraga | Verônica Pivisan Reis
Coordenação geral Clarissa Boraschi Maria
Preparação de originais Maria Izabel Barreiros Bitencourt Bressan e Ana Cristina Garcia (coords.)
| Carolina Massanhi | Luciana Cordeiro Shirakawa
Projeto gráfico Isabela Teles Veras
Arte e diagramação Know-how editorial
Revisão de provas Amélia Kassis Ward e Ana Beatriz Fraga Moreira (coords.) | Alzira Muniz
Conversão para E-pub Guilherme Henrique Martins Salvador
Serviços editoriais Elaine Cristina da Silva | Kelli Priscila Pinto
Capa Aero Comunicação / Danilo Zanott

Data de fechamento da edição: 3-11-2015


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Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a
prévia autorização da Editora Saraiva. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei n.
9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal.
SUMÁRIO

AGRADECIMENTOS
PREFÁCIO
APRESENTAÇÃO
EVOLUÇÃO DAS QUESTÕES POR ANO
INTRODUÇÃO
1. A Crise do Antigo Regime
1.1. ESTADO MODERNO EUROPEU OU ANTIGO REGIME
1.1.1. A formação
1.1.2. Absolutismo
1.1.3. Economia
1.1.4. Expansão marítima
1.2. CULTURA
1.2.1. O Iluminismo
2. A Revolução Francesa (1789-1799)
2.1. ANTECEDENTES
2.2. PROTAGONISTAS
2.3. AS FASES
2.3.1. Fase moderada (ou das assembleias): 1789-1792
2.3.2. Fase radical (ou convenção nacional): 1792-1795
2.3.3. Fase conservadora (ou diretório nacional): 1795-1799
3. A Era Napoleônica (1799-1815)
3.1. CONSULADO (1799-1804)
3.2. IMPÉRIO (1804-1815)
3.3. GOVERNO DOS CEM DIAS (março-junho de 1815)
4. A Restauração Europeia
5. As Revoluções Liberais
1820
1830
1848
6. Unificações Tardias
6.1. Itália (Risorgimento)
6.2. Alemanha
6.2.1. Introdução
6.2.2. Origens
6.2.3. Bismarck
6.2.4. Etapas do processo
6.2.5. Consolidação
7. As Revoluções Industriais
7.1. PRIMEIRA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
7.1.1. Definição
7.1.2. Pioneirismo britânico
7.1.3. Consequências gerais
7.2. SEGUNDA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
7.2.1. Definição
7.2.2. Características
7.2.3. Consequências gerais
8. Imperialismo ou Neocolonialismo
8.1. Interpretações
8.1.1. Questão econômica
8.1.2. Questão político-social
8.2. Base Ideológica
8.3. Como foi possível?
8.4. Conferência de Berlim (1884-1885)
8.5. O Caso Português
8.6. África do Sul
8.7. Índia
8.8. China
8.9. Japão
8.10. Estados Unidos e América Latina
8.11. Conclusão
9. Os Estados Unidos – Colonização e Independência
9.1. América Inglesa
9.2. O processo de independência
9.3. Instabilidade política inicial
9.4. Marcha para o Oeste
9.5. Guerra de Secessão (1861-1865)
10. A América Espanhola
10.1. Introdução
10.2. Processo de Libertação
10.3. Era dos Cabildos Abiertos
10.4. Movimentos de Libertação
10.5. América Latina no Século XIX
11. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918)
11.1. Antecedentes
11.2. A Guerra
11.3. Construindo a Paz
11.4. Consequências Gerais
12. A Ascensão do Comunismo
12.1. Império Russo
12.2. Revolução de 1905
12.3. As Revoluções de 1917
12.4. Rússia Comunista – Os primeiros anos
12.5. Stalinismo Soviético até a Segunda Guerra Mundial
13. Os Estados Unidos no Período Entre-Guerras
13.1. Introdução
13.2. Anos 1920 – A Era da Ilusão
13.3. A Crise de 1929
13.4. Grande Depressão
13.5. Anos 1930 – A Recuperação
14. Os Fascismos
14.1. Introdução
14.2. Reino da Itália
14.3. Alemanha
14.4. Características Gerais
15. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945)
15.1. Antecedentes
15.2. 1939
15.3. FASES DO CONFLITO
15.3.1. Avanço do Eixo (1939-1941)
15.3.2. Equilíbrio de forças (1941-1942)
15.3.3. Vitória dos Aliados (1943-1945)
16. A Guerra Fria (1947-1991)
16.1. Origens
16.2. O início
16.3. Os Blocos de Poder
16.4. Periodização
16.4.1. Guerra Fria Clássica (1947-1955)
16.4.2. Coexistência pacífica (1955-1968)
16.4.3. Détente (1968-1979)
16.4.4. Segunda Guerra Fria (1979-1985)
16.4.5. O Desmonte (1985-1991)
17. As Lutas de Libertação Afro-Asiáticas
17.1. Fatores
17.2. ESTUDO DE CASOS
17.2.1. Índia
17.2.2. África do Sul
17.2.3. África Portuguesa
17.3. O processo de libertação
18. A América Latina no Século XX
18.1. CUBA
18.2. CHILE
18.3. NICARÁGUA
18.4. MÉXICO
18.4.1. Processo insurrecional (1911-1917)
18.4.2. Governo Cárdenas (1934-1940)
18.5. Argentina
18.5.1. Primeiras décadas do século XX
18.5.2. Ascensão de Perón
18.5.3. Perón no comando do país
18.5.4. Processo de reorganização nacional (1976-1983)
Referências Bibliográficas
1. A CRISE DO ANTIGO REGIME
2. A REVOLUÇÃO FRANCESA (1789-1799)
3. A ERA NAPOLEÔNICA (1799-1815)
4. A RESTAURAÇÃO EUROPEIA
5. AS REVOLUÇÕES LIBERAIS
6. UNIFICAÇÕES TARDIAS
7. AS REVOLUÇÕES INDUSTRIAIS
8. IMPERIALISMO OU NEOCOLONIALISMO
9. OS ESTADOS UNIDOS – COLONIZAÇÃO E INDEPENDÊNCIA
10. A AMÉRICA ESPANHOLA
11. A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL (1914-1918)
12. A ASCENSÃO DO COMUNISMO
13. os ESTADOS UNIDOS NO PERÍODO ENTRE-GUERRAS
14. OS FASCISMOS
15. A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1939-1945)
16. A GUERRA FRIA (1947-1991)
17. AS LUTAS DE LIBERTAÇÃO AFRO-ASIÁTICAS
18. A AMÉRICA LATINA NO SÉCULO XX
Questões do IRBr
1. A CRISE DO ANTIGO REGIME
2. A REVOLUÇÃO FRANCESA (1789-1799)
3. A ERA NAPOLEÔNICA (1799-1815)
4. A RESTAURAÇÃO EUROPEIA
5. AS REVOLUÇÕES LIBERAIS
6. UNIFICAÇÕES TARDIAS
7. AS REVOLUÇÕES INDUSTRIAIS
8. IMPERIALISMO OU NEOCOLONIALISMO
9. OS ESTADOS UNIDOS – COLONIZAÇÃO E INDEPENDÊNCIA
10. A AMÉRICA ESPANHOLA
11. A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL (1914-1918)
12. A ASCENSÃO DO COMUNISMO
13. OS ESTADOS UNIDOS NO PERÍODO ENTRE-GUERrAS
14. OS FASCISMOS
15. A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1939-1945)
16. A GUERRA FRIA (1947-1991)
17. AS LUTAS DE LIBERTAÇÃO AFRO-ASIÁTICAS
18. A AMÉRICA LATINA NO SÉCULO XX
AUTOR
Daniel de Araujo
Graduado na Universidade Federal Fluminense, especializou-se nas áreas de História da África e
do Negro no Brasil e Relações Internacionais. Com mestrado em História Política e Bens Sociais,
realizado no CPDOC da Fundação Getulio Vargas, realizou sua dissertação de mestrado sobre a
relação entre o futebol e a Ditadura Civil-Militar (1964-1985). É professor desde 2000, dedicando-
se à preparação para o CACD nos últimos anos.
Coordenador
Fabiano Távora
Graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC) – Turma do Centenário – 2003.
Especialista em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas (FGV) – 2005. Mestre em
Direito dos Negócios pelo Ilustre Colégio de Advogados de Madri (ICAM) e pela Universidade
Francisco de Vitória (UFV) – 2008. Mestre em Direito Constitucional aplicado às Relações
Econômicas pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR) – 2012. Advogado. Diretor-geral do Curso
Diplomata – Fortaleza/CE. Foi Coordenador do único curso de graduação em Relações
Internacionais do Estado do Ceará, pertencente à Faculdade Stella Maris. Professor de Direito
Internacional para o Concurso de Admissão à Carreira Diplomática. Professor de Direito
Internacional Público, Direito Internacional Privado, Direito do Comércio Exterior e Direito
Constitucional em cursos de graduação e pós-graduação.
AGRADECIMENTOS

Aos meus pais, Vania de Araujo dos Santos e Jailto Leal dos Santos, que sempre foram atentos
para que eu e minha irmã, Daniele, pudéssemos ter a melhor educação possível. Nossa formação em
instituições de ensino público de qualidade (CAP-UERJ, Pedro II e UFF) nos possibilitou ver o mundo
para além dos “outdoors”. Obrigado por tudo.
A minha esposa, Roberta Lemos de Souza, muito mais que uma companheira ao longo de infinitos
fins de semana perdidos em meio à elaboração, revisão e ao fechamento desta obra. E não poderia
deixar de registrar: desde o dia 29 de março de 2015, João Vicente de Souza Santos trouxe ainda
mais alegria às nossas vidas.
Aos amigos constituídos ao longo dessas três décadas de vida, como meus padrinhos de
casamento, Rodrigo Bueno, Simone Vieira, Alexandre Simas, Gisella Moura (autora do sensacional O
Rio corre para o Maracanã), Lívia Gonçalves (autora de A taça nas mãos) e Leonardo Gil. Ao
professor João Daniel de Almeida, autor do Manual de história do Brasil da FUNAG, que abriu as
portas da preparação à diplomacia para mim.
A Igor Vieira, Pedro César, Marcelo Caldas, Vicente Delorme e Eduardo Valladares, pelo
companheirismo de sempre.
Aos amigos de infância, Marcio Cardoso Dyonisio, Gustavo Lima e Vivian Gama.
A Fabiano Távora e Rodrigo Goyena, que confiaram em mim e indicaram meu nome para este
trabalho.
A todos saudações rubro-negras.
PREFÁCIO*

Dez anos atrás, recebi a notícia de que havia sido aprovado no concurso do Instituto Rio Branco
para a carreira diplomática. Era difícil acreditar que meu nome estava na lista de aprovados, que o
meu antigo sonho tornara-se realidade. Aquele momento deu-me a impressão de ser um divisor de
águas, o primeiro passo da carreira que por tantos anos me fascinara.
Hoje, percebo que o primeiro passo para a carreira diplomática havia sido dado em um momento
anterior, quando comecei meus estudos de preparação para o concurso. A preparação para a
carreira diplomática exige o desenvolvimento da capacidade de analisar politicamente a combinação
de diferentes fatores da sociedade. Essa capacidade pode ser adquirida pela leitura atenta de
diferentes pensadores e exposição a diferentes manifestações artísticas, o que requer uma
caminhada de constantes descobertas.
Essa caminhada é feita em direção às mais profundas e fundamentais características da sociedade
brasileira, percorrendo a longa estrada que lentamente mostra as cores que delineiam o
multifacetado cenário que é o Brasil. A preparação para a carreira diplomática requer este
(re)encontro com o Brasil, este momento em que o futuro diplomata reflete sobre seu país e sobre
seu povo. Eu diria que o processo de preparação é uma caminhada para dentro.
Ao caminhar em direção às profundezas do Brasil, o futuro diplomata se defrontará com
perspectivas históricas, geopolíticas, econômicas e jurídicas da realidade brasileira que lhe
proporcionarão o arcabouço intelectual para sua contínua defesa dos interesses do Brasil e do povo
brasileiro no exterior. Essa observação de quem somos como povo e como país é fundamental para o
trabalho cotidiano dos diplomatas brasileiros, principalmente porque também pressupõe as relações
do Brasil com outros países. Ao compreender a história política externa brasileira, o candidato
poderá perceber características do Brasil que explicam como o país percebe sua inserção no mundo.
É interessante notar que essa caminhada para dentro é o início de uma carreira feita para fora,
em contato com o mundo. Os diplomatas são os emissários que também contam para o mundo o que
é o Brasil e o que é ser brasileiro. A aprovação no concurso do Instituto Rio Branco não é, portanto,
o primeiro passo da carreira. É o momento em que a caminhada para dentro do Brasil se completou
e passa a ser uma viagem para fora, para relatar ao mundo o que nós somos e o que pensamos.
Devo confessar que a minha caminhada foi bem difícil. Quando comecei a me preparar para o
concurso, poucas cidades brasileiras tinham estruturas que guiassem os estudos dos candidatos
para o concurso. Apesar de ter certeza de que nunca nenhuma leitura é inútil, estou certo de que a
imensidão de pensadores e artistas que conformam o pensamento brasileiro é difícil de ser abordada
no momento de preparação para o concurso. Lembro-me de que sempre busquei obras que me
guiassem os estudos, mas não tive a sorte de naquele momento haver publicações neste sentido.
Foi com muita alegria que recebi o convite para escrever sobre minha experiência pessoal como
jovem diplomata brasileiro em uma coleção que ajudará na caminhada preparatória dos futuros
diplomatas. Esta coleção ajudará meus futuros colegas a seguir por caminhos mais rápidos e
seguros para encontrar o sentido da brasilidade e a essência do Brasil. Congratulo-me com a Editora
Saraiva, com os autores e com o organizador da coleção, Fabiano Távora, pela brilhante iniciativa e
pelo excelente trabalho.
Aos meus futuros colegas diplomatas, desejo boa sorte nessa caminhada. Espero que se
aventurem a descobrir cada sabor deste vasto banquete que é a brasilidade e que se permitam
vivenciar cada nota da sinfonia que é o Brasil. Espero também que possamos um dia sentar para
tomar um café e conversar sobre o que vimos e, juntos, contar aos nossos amigos de outros países o
que é o Brasil.
Pequim, novembro de 2014.
Romero Maia
APRESENTAÇÃO**

Indubitavelmente, o concurso para o Instituto Rio Branco, uma das escolas de formação de
Diplomatas mais respeitadas do mundo, é o mais tradicional e difícil do Brasil. Todos os anos,
milhares de candidatos, muito bem preparados, disputam as poucas vagas que são disponibilizadas.
Passar nessa seleção não é só uma questão de quem estuda mais, envolve muitos outros fatores.
Depois de muito observar essa seleção, nasceu a ideia de desenvolver um projeto ímpar, pioneiro,
que possibilitasse aos candidatos o acesso a uma ferramenta que os ajudasse a entender melhor a
banca examinadora, o histórico dos exames, o contexto das provas, o grau de dificuldade e
aprofundamento teórico das disciplinas, de forma mais prática. Um grupo de professores com
bastante experiência no concurso do IRBr formataria uma coleção para atender a esse objetivo.
Os livros foram escritos com base nos editais e nas questões dos últimos 13 anos. Uma análise
quantitativa e qualitativa do que foi abordado em prova foi realizada detalhadamente. Cada autor
tinha a missão de construir uma obra que o aluno pudesse ler, estudar e ter como alicerce de sua
preparação. Sabemos, e somos claros, que nenhum livro consegue abordar todo o conteúdo
programático do IRBr, mas, nesta coleção, o candidato encontrará a melhor base disponível e
pública para os seus estudos.
A Coleção Diplomata é composta dos seguintes volumes: Direito internacional público; Direito
interno I – Constituição, organização e responsabilidade do Estado brasileiro; Direito interno II –
Estado, poder e direitos e garantias fundamentais (no prelo); Economia internacional e brasileira
(no prelo); Espanhol (no prelo); Francês (no prelo); Geografia I – Epistemologia, política e meio
ambiente; Geografia II – Geografia econômica; História do Brasil I – O tempo das Monarquias;
História do Brasil II – O tempo das Repúblicas; História geral; Inglês; Macroeconomia;
Microeconomia; Política internacional I – A política externa brasileira e os novos padrões de
inserção no sistema internacional do século XXI; Política internacional II – Relações do Brasil com as
economias emergentes e o diálogo com os países desenvolvidos; Português.
Todos os livros, excetuando os de língua portuguesa e inglesa, são separados por capítulos de
acordo com o edital do concurso. Todos os itens do edital foram abordados, fundamentados numa
doutrina ampla e atualizada, de acordo com as indicações do IRBr. Os doutrinadores que mais
influenciam a banca do exame foram utilizados como base de cada obra. Juntem-se a isso a vivência
e a sensibilidade de cada autor, que acumula experiências em sala de aula de vários locais (Brasília,
São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Curitiba, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Teresina...).
Cada livro, antes da parte teórica, apresenta os estudos qualitativos e quantitativos das provas de
seleção de 2003 até 2015. Por meio de gráficos, os candidatos têm acesso fácil aos temas mais e
menos cobrados para o concurso de Diplomata. Acreditamos que esse instrumento é uma maneira
inteligente de entender a banca examinadora, composta por doutrinadores renomados, bastante
conceituados em suas áreas.
No final de cada livro, os autores apresentam uma bibliografia completa e separada por assuntos.
Assim, o candidato pode ampliar seus conhecimentos com a segurança de que parte de uma boa
base e sem o percalço de ler textos ou obras que são de menor importância para o concurso.
As questões são separadas por assunto, tudo em conformidade com o edital. Se desejar, o aluno
pode fazer todas as questões dos últimos anos, de determinado assunto, logo após estudar a
respectiva matéria. Dessa forma, poderá mensurar seu aprendizado.
Portanto, apresentamos aos candidatos do IRBr, além de uma coleção que apresenta um conteúdo
teórico muito rico, bastante pesquisado, uma verdadeira e forte estratégia para enfrentar o
concurso mais difícil do Brasil. Seguindo esses passos, acreditamos, seguramente, que você poderá
ser um DIPLOMATA.
Fortaleza, 29 de julho de 2015.
Fabiano Távora
EVOLUÇÃO DAS QUESTÕES POR ANO***
INTRODUÇÃO

Objetivando auxiliar os futuros diplomatas a realizar a prova de História Geral, que vem
ganhando mais espaço nos últimos anos no Teste de Pré-Seleção do Concurso de Admissão à
Carreira Diplomática, esta obra é resultado da experiência de anos trabalhando na preparação de
alunos para este concurso e também da leitura de livros outrora recomendados pela banca para a
preparação.
Diferentemente da preparação para a prova de História do Brasil, onde existe um peso muito
maior do conhecimento de correntes historiográficas e discussões entre diferentes autores, a prova
de História Geral é muito mais objetiva e conteudista. A quantidade de temas apresentados também
não apresenta muitas surpresas, sendo a formação da Idade Contemporânea seu pontapé inicial.
Esta formação tem como base três principais eventos: Revolução Inglesa, Revolução Industrial e
Revolução Francesa. Neste livro há um breve recuo no tempo, uma vez que para o bom
entendimento do Iluminismo, base ideológica para a construção do mundo contemporâneo, é preciso
saber qual é o sistema por ele criticado. Explica-se, assim, a presença do Antigo Regime Europeu no
primeiro capítulo.
O longo século XIX é abordado aqui com ênfase aos acontecimentos da história europeia. Existem
capítulos dedicados aos Estados Unidos (Capítulo VIII) e América Latina (Capítulo IX), mas mesmo
quando o alvo preferencial são os continentes africanos e asiáticos, a visão europeísta baliza as
abordagens aqui apresentadas.
Sem dúvida alguma é o “Breve Século XX”, nas palavras de Eric Hobsbawn, que tem maior espaço
tanto nas provas do TPS como nesta obra. O Capítulo Guerra Fria (1947-1991) tem uma atenção
especial, afinal, muitos são os eventos internacionais diretamente ligados a este tema. O livro
História das Relações Internacionais Contemporâneas, organizado por José Flávio Sombra Saraiva,
foi importante para a divisão cronológica do período, com pequenas alterações por questões
didáticas.
Nas Lutas de Libertação Afro-Asiáticas, trazemos a explicação geral dos principais fatores que
motivaram este processo que alterou a geopolítica do hemisfério sul. Alguns casos são estudados de
forma mais atenciosa, chamando a atenção das independências e formação dos Estados Nacionais
na região da antiga África Portuguesa, principalmente devido às históricas relações entre o Brasil e
estas possessões.
Por fim, a América Latina no século XX e a sua tentativa de romper as amarras com o passado
dependente e agroexportador são abordados. Opções pela modernização conservadora, como nos
casos da Argentina e no México, ou aqueles em que a opção socialista é apresentada (Chile, Cuba e
Nicarágua) são contemplados. A escolha por não abordar o Oriente Médio como um capítulo a parte
se explica pela pouca presença deste nos últimos anos do concurso.
Ao ler e reler os capítulos e, principalmente, a cada semana de aula ministrada, surgiam novas
ideias de abordagens e conteúdos a serem colocados nas páginas. O conteúdo do concurso não se
encerra completamente nestas páginas que se seguem mas, sem dúvida, dentro dos limites
impostos, a ideia é trazer uma breve história do Mundo Contemporâneo para melhor capacitar
aqueles que se propõem a fazer um dos mais difíceis concursos públicos do Brasil. Sugestões
sempre serão bem-vindas. Abraços e bons estudos.
1
A CRISE DO ANTIGO REGIME

1.1. ESTADO MODERNO EUROPEU OU ANTIGO REGIME


Considerado um período de transição entre o sistema econômico feudal e o capitalismo industrial,
marcado pelo capitalismo concorrencial por aqueles que privilegiam o econômico na interpretação
dos processos históricos, a formação do Estado Moderno é fruto da desarticulação do sistema feudal
a partir da Crise do século XIV, quando o sistema policêntrico e complexo controlado pelos senhores
feudais assim como o poder universal da Igreja Católica são substituídos pela centralização de
poderes nas mãos de um rei.
Interpretado como um esboço do que hoje compreendemos como um país, o Estado Moderno é
marcado pela “racionalização da gestão do poder e da própria organização política”, segundo Max
Weber. No controle deste Estado, o rei administrava os interesses de diversos grupos sociais com
suas diferentes aspirações.
1.1.1. A formação
Com o enfraquecimento dos senhores feudais, era preciso encontrar alguma nova fórmula para
controlar as massas insatisfeitas durante a Baixa Idade Média. A saída foi o fortalecimento da figura
do rei, até então apenas mais um senhor feudal.
O rei recebe o poder político daqueles senhores feudais enfraquecidos que, em troca da
submissão aos interesses do monarca, buscam proteção de seus interesses, destacando-se a isenção
no pagamento dos impostos, o monopólio sobre a terra e ainda o controle das forças armadas.
Classe em ascensão naqueles tempos, a burguesia tinha interesse na formação do Estado Moderno,
pois a unificação de moedas ou mesmo de tarifas alfandegárias poderia facilitar as suas transações
comerciais. Em troca, seus capitais deram suporte na construção do aparelho burocrático por parte
do rei.
Guerras também fizeram parte das origens do Antigo Regime. A Guerra dos Cem Anos (1337-
1453), citada no capítulo anterior, foi de fundamental importância para a formação da França (o rei
centralizador conduziu seus homens na vitória) e também da Inglaterra. No caso da ilha, dos
escombros da guerra surge a necessidade de centralizar o poder. Duas casas nobiliárquicas
disputavam o trono: os York (Rosa Branca) e os Lancaster (Rosa Vermelha), resultando na Guerra
das Duas Rosas (1455-1485). Este conflito, longo e intermitente, enfraquece as duas casas, e seu
ponto final ocorre quando o senhor de Richmond, Henrique Tudor, assume o poder apoiado pelos
Lancaster ao vencer a batalha de Bosworth Field. Ao casar-se com Elizabeth de York, Henrique VII
une as duas casas rivais.
Também na Espanha guerras e alianças foram fundamentais para a unificação. Após séculos de
dominação muçulmana na Península Ibérica, os espanhóis, após dez anos de luta (1482-1492),
conseguem derrotar os mouriscos que estavam em Granada utilizando-se de novas estratégias
militares, como uma formação mista de artilharia e infantaria. Nesta empreitada estavam juntos os
dois principais reinos católicos da região ainda inspirados em princípios cruzadísticos: Castela e
Aragão. Logo após a vitória cristã na Guerra de Reconquista, os católicos Fernão de Aragão e Isabel
de Castela casam-se, completando a última etapa do processo de unificação espanhola.
Outros elementos colaboraram para a formação de um Estado Moderno, como a existência de
uma moeda única, língua comum, religião e outros considerados símbolos (ou podemos chamá-los de
fatores comuns) nacionais que fazem os súditos se sentirem parte de um determinado reino.
1.1.2. Absolutismo
É de notar-se, aqui, que, ao apoderar-se de um Estado, o conquistador deve determinar as
injúrias que precisa levar a efeito, e executá-las todas de uma só vez, para não ter que renová-las
dia a dia. Deste modo, poderá incutir confiança nos homens e conquistar-lhes o apoio,
beneficiando-os. Quem age por outra forma, ou por timidez ou por força de maus conselhos, tem
sempre necessidade de estar com a faca na mão e não poderá nunca confiar em seus súditos,
porque estes, por sua vez, não se podem fiar nele, mercê das suas recentes e contínuas injúrias.
As injúrias devem ser feitas todas de uma só vez, a fim de que, tomando-se-lhes menos o gosto,
ofendam menos. E os benefícios devem ser realizados pouco a pouco, para que sejam melhor
saboreados4.
Uma complexa forma de centralização de poderes nas mãos do rei. Assim podemos definir o
Absolutismo, resultado da evolução política das monarquias nacionais que surgiram no continente
europeu ainda na Baixa Idade Média. A composição do aparelho burocrático-administrativo é de
fundamental importância para reforçar o poder do Estado, que utiliza-se de seu exército, ministros
ou poder real para submeter aos seus interesses uma decadente nobreza e uma burguesia ainda
frágil.
Importante lembrar que nem todas as monarquias absolutistas conseguiam uma excessiva
centralização de poderes no rei. Considerado o mais forte dos Estados Modernos da Europa, o
absolutismo francês inicia a sua gradual formação ainda no século X com a chegada dos captíngios
ao poder. Nos séculos seguintes os valois e, por fim, os bourbons chegaram e comandaram o mais
importante trono da Europa.
Ao conquistar o trono, Henrique IV cria o edito de Nantes, assinado em 1598, garantindo
tolerância religiosa aos huguenotes. A suspensão dos massacres e perseguições impostas a eles é
importante para a coesão nacional, que atinge seu ápice com o reinado de Luís XIV. Considerado por
muitos como o “único rei de fato absolutista”, Luís XIV sempre será lembrado por sua célebre frase
“O Estado sou eu”.
O czarismo russo também apresenta forte grau de centralização política. O regime iniciado ainda
no século XVI por Ivan IV (o primeiro monarca russo entitulado czar ou tsar) somente tem seu fim
com a Primeira Guerra Mundial e o advento das Revoluções Russas de 1917.
As marcas da Guerra das Duas Rosas (1455-1485) estiveram presentes durante toda a Idade
Moderna na Inglaterra. A principal característica do absolutismo inglês foi o respeito à Magna
Charta Libertatum, assinada ainda no século XIII. Considerado o primeiro estatuto inglês e base
para a constituição britânica, esta coibia as arbitrariedades do rei e abriu caminho para o
fortalecimento gradual do Parlamento, consultado em casos como o do aumento de impostos e
guerras.
Na Península Ibérica a longa guerra de expulsão dos muçulmanos conferiu traços de extremo
fervor religioso à construção dos Estados Modernos tanto em Portugal como na Espanha. Desta
forma, a Igreja Católica tem uma influência maior sobre as questões políticas que em outras regiões
da Europa Moderna. De maneira alguma trata-se de submissão do rei perante a Igreja, mas existe
uma conveniente união de interesses políticos, simbolizada pelo padroado. Neste sistema, era o rei
que organizava e administrava a Igreja Católica em seus Estados, nomeando até mesmo bispos ou
determinando onde seriam as dioceses. É também na Península Ibérica que o Tribunal do Santo
Ofício atua com maior rigor, utilizado para promover perseguições contra os inimigos da Coroa.
Como base ideológica do Estado Absolutista ainda persistia a Teoria do Direito Divino dos Reis
sendo a mais destacada na Europa. Baseada na crença de que o monarca deveria reinar por ser um
representante de Deus na terra, colocava aqueles que eram contra o rei em oposição direta ao poder
divino. As teocracias europeias seculares afirmavam, desta forma, que o poder do rei somente
poderia ser julgado por Deus.
Alguns teóricos obtiveram um luxuoso auxílio de pensadores como Jaques Bossuet (1627-1704) e
Jean Bodin (1530-1596). Bossuet atuou diretamente na corte mais importante da História Moderna
e, ao cuidar da educação do filho de Luís XIV, acabou por escrever Memórias para a educação do
delfim e Política segundo a Sagrada Escritura, onde defendia a sacralização da figura real e sua
função como ministro de Deus na terra. Já Bodin em Os seis livros da república tratava da soberania,
afirmando que esta era limitada apenas pelas leis de Deus e aquelas naturais.
Existiam também aqueles que mais se preocupavam com questões racionais. Os teóricos
chamados laicos mais destacados são, respectivamente, Nicolau Maquiavel (1469-1527) e Thomas
Hobbes (1588-1619). Maquiavel escreveu diversas obras, sendo O príncipe5 a mais polemizada.
Cabe salientar que diversas são as interpretações sobre o livro. Aquela utilizada de forma mais
corrente associa os “conselhos” dados pelo renascentista ao príncipe a uma tentativa desesperada
de Maquiavel auxiliar a criação do Estado Moderno na Península Itálica, assolada pelas guerras
fraticidas entre as diversas repúblicas e saqueada por estrangeiros.
“Os fins justificam os meios” e “força é justa quando necessária” são apenas alguns dos
fragmentos retirados da obra clássica dedicada a Lorenço de Médici para justificar a interpretação
mais aceita entre a historiografia: O príncipe trata de conselhos para o soberano florentino criar um
Estado forte que se sobrepusesse a todos os obstáculos da Itália renascentista.
Hobbes buscava na ideia de “estado de natureza” a necessidade da formação de um Estado
Absolutista. Nessa forma primitiva os homens iriam deixar de existir em breve, uma vez que viviam
em estado permanente de guerra entre si (homem como “um lobo para o homem”). O sentimento de
autoconservação levaria os homens a transferirem seu poder político para o rei por meio do
chamado Pacto Social, um contrato onde este cederia seu poder aos soberanos. Assim, em Leviatã, o
inglês Thomas Hobbes justificava a autoridade do Estado como um meio de proteção contra o caos e
a violência.
1.1.3. Economia
Manufaturas bem protegidas, [...] uma marinha poderosa, uma agricultura próspera e lucrativa,
instituições parlamentares e políticas favorecendo a consulta e o confronto dos interesses, a
Inglaterra estava pronta para a grande aventura industrial. As duas revoluções políticas que ela
atravessara no século XVII tinham liquidado as confrarias, as guildas, os privilégios, muitos
vestígios, obstáculos e preconceitos herdados do passado, e contribuíram para fazer do
mercantilismo um meio muito eficaz de poder e de progresso nacional.6
Se concordamos que a Idade Moderna pode ser interpretada como uma transição do sistema
feudal de produção para o capitalista, é necessário interpretar o chamado capitalismo comercial. O
comércio ganhava importância crescente na Europa desde os tempos do Renascimento Comercial e
Urbano, mas com a formação do Estado Moderno Europeu torna-se política de Estado. Karl Marx
assim explicou o processo em sua obra O capital:
A primeira etapa da acumulação capitalista é comumente chamada de acumulação primitiva.
Realizada inicialmente por meio de transformação das relações de produção e surgimento do
trabalho assalariado e concentração dos meios de produção – nas mãos de poucos, seguidos da
expansão capitalista – “a cumulação primitiva é apenas o processo histórico que dissocia o
trabalhador dos meios de produção. É considerada primitiva porque constitui a pré-história do
capital e do modo de produção capitalista.
O conjunto de práticas econômicas dos Estados Modernos com o objetivo de promover a tal
acumulação primitiva de capitais é chamado de Mercantilismo, que tem no Estado interventor seu
principal mecanismo na obtenção de recursos e riquezas. Como principais práticas adotadas temos:
• Balança Comercial Favorável: exportar uma quantidade de produtos maior que aqueles
importados, acumulando a maior quantidade de ouro e prata possíveis.
• Protecionismo Alfandegário: com o objetivo de desestimular as importações, os Estados
Modernos aumentam a tarifa alfandegária para produtos estrangeiros.
• Colonialismo: busca por territórios no ultramar.
• Exclusivo (ou também pacto) Colonial: quando a economia de uma colônia está submetida aos
interesses da metrópole.
• Corso: associação entre piratas e Estados na informalidade, é claro! Os corsários tinham certas
facilidades em troca de parte dos produtos adquiridos mediante seus ataques no Atlântico Sul.
• Industrialismo: incentivo à exportação de produtos manufaturados. Prática esta adotada
principalmente por aquelas potências que não obtiveram numerosas conquistas ultramarinas na
primeira fase da Expansão Marítima.
Alguns Mercantilismos deram ênfase a determinadas práticas e por isso tiveram uma alcunha
especial:
• Colbertismo: na França de Luís XIV, o controlador geral das finanças Jean-Baptiste Colbert
buscou no incremento do protecionismo e no fomento à exportação de manufaturas de luxo.
• Bulionismo: ênfase no acúmulo de metais preciosos, principalmente praticado pela Espanha.
• Comercialismo: os ingleses buscaram incentivar de todas as formas possíveis a exportação de
manufaturas têxteis, incluindo a prática do cercamento dos campos.
1.1.4. Expansão marítima
Antes deste nosso descobrimento da Índia, recebiam os mouros de Meca muito grande proveito
com o trato da especiaria. E assim, o grande sultão, por mor dos grandes direitos que lhe
pagavam. E assim também ganhava muito Veneza com o mesmo trato, que mandava comprar a
especiaria da Alexandria, e depois a mandava por toda a Europa.7
No contexto do Mercantilismo, um conjunto de Grandes Navegações proporciona a Expansão
Marítima protagonizada pelas principais potências europeias durante a Idade Moderna.
Sem dúvidas o espírito cruzadístico da Península Ibérica em muito influenciou na empreitada
ultramarina. Expulsar os muçulmanos do mundo era o desejo de muitos navegadores no ocaso da
Idade Média. A Queda de Constantinopla em 1453 também tem a sua contribuição, uma vez que o
aumento dos custos para a importação de especiarias somente beneficiava as cidades italianas de
Gênova e Veneza. A busca por um caminho alternativo para as Índias como a necessidade de
obtenção de metais preciosos tornava a conquista dos mares necessária no século XV.
A formação de Estados Modernos é fundamental para a Expansão Marítima. Com a organização
real, burguesia (interessada na ampliação de suas rotas comerciais), igreja (em busca de mais fiéis)
e nobreza (desejando mais terras e poder) participaram ativamente no projeto ultramarino. Novas
embarcações como a nau, a caravela e o galeão, assim como o astrolábio e a bússola, permitiram aos
navegadores superarem os obstáculos reais, como as tormentas, e aqueles imaginários, como as
sereias e os monstros marinhos.
O primeiro Estado Moderno a realizar o projeto nacional objetivando a conquista de territórios no
ultramar foi Portugal. O fato de Portugal ter sido o primeiro Estado Moderno formado ainda no
século XIII foi fundamental para o seu pioneirismo. A Revolução de Avis deu condições para a
organização da expansão. O Estado português possuía excelentes relações com o grupo mercantil
nacional; a localização geográfica portuguesa é favorável em relação ao Atlântico; e, por fim, a
tradição náutica portuguesa foram fatores que contribuíram na reunião de condições necessárias
para a conquista do entreposto comercial árabe de Ceuta em 1415, primeiro passo na conquista do
litoral atlântico.
A partir da conquista de Ceuta os portugueses promoveram, ao longo do século XV, o chamado
Périplo Africano. A ideia era contornar o continente com o objetivo de se chegar ao Oriente.
Navegadores como Diogo Cão, que chegou ao Congo estabelecendo contatos com o soberano local,
e Bartolomeu Dias, que “descobriu” o Cabo da Boa Esperança, são alguns dos mais destacados
lusitanos. Vasco da Gama completou o processo em 1498, quando atingiu as Índias. No intuito de
agraciar os soberanos de Calicute, que tiveram atritos com os homens de Vasco da Gama, o rei
português D. Manuel montou uma expedição com treze embarcações chefiada por Pedro Álvares
Cabral que chega ao litoral brasileiro em 1500.
Após completar seu sangrento processo de unificação, a Espanha apostou no projeto do
navegador genovês Cristóvão Colombo. Após ser rejeitado por Portugal, Colombo apresenta sua tese
do el levante por el poente, projetando chegar às Índias navegando para o Ocidente. Após os reis
católicos permitirem a composição de três embarcações para a aventura (Santa Maria, Pinta e
Nina), e dois meses de viagem, Colombo atingiu as ilhas americanas de Guarani, atual Bahamas.
Batizou os nativos de índios e acreditava que tinha completado sua missão. Américo Vespúcio desfez
a ilusão do genovês: as terras descobertas não pertenciam às Índias Orientais, mas sim a um novo
continente. Nascia assim a América.
Portugueses e espanhóis travaram longas negociações ao longo de toda a Idade Moderna para
delimitar os territórios ultramarinos. Alguns destes tratados são:
• Tratado de Alcaçovas – Toledo (1479-1480): decorre da disputa pela sucessão do trono de
Castilla. Como a Espanha ainda era fragmentada, Portugal tem nele uma ação mais assertiva.
Neste tratado a divisão é horizontal e tem como linha fundamental a altura de Cabo Verde. Com
isso é ratificado o interesse português de continuar explorando o Atlântico Sul.
• Bula Intercetera (1493): No contexto do pós-unificação espanhola e sapiente da existência de
terras no Ocidente, a Igreja busca defender os seus interesses. A divisão, mediada pelo Papa,
passa a ser vertical e coloca-se a cem léguas da ilha de Cabo Verde. Portugal não se vê
satisfeita, não pelo interesse inicial nas terras ao ocidente, mas porque tal divisão
impossibilitava a manobra que permitia contornar o sul da África (a grande volta).
• Tratado de Tordesilhas (1494): satisfatório para as duas coroas. Esse tratado viabiliza a chegada
portuguesa as Índias, permitindo que, no século XVI, Portugal domine a região e faça frente às
rotas comerciais árabes.
1.2. CULTURA
A época moderna apresenta transformações em diversos setores. Na política, como visto
anteriormente, assistimos a uma centralização de poderes nas mãos do monarca, em oposição à
descentralização dos tempos medievais. Na economia, os tempos de um sistema agrário fechado
foram substituídos por uma intensa troca mercantil. Na sociedade, a burguesia é a classe em
ascensão. Como consequência natural deste processo, os elementos culturais serão marcados pelas
transformações em vigor no mundo moderno.
Durante os tempos feudais, notava-se, claramente, o controle da Igreja Católica sobre o
pensamento e a cultura. Consolidada como a organização política mais forte da Europa Ocidental,
após a conversão dos reis e da nobreza ao catolicismo, a Igreja Católica consegue submeter o
pensamento europeu ao modelo teocêntrico, segundo o qual todo o funcionamento do universo seria
explicado mediante as leis divinas. De acordo com o teólogo Santo Agostinho, o homem estaria
marcado pelo pecado original e, por isso, seria uma criatura imperfeita, inferior e mortal.
Reflexos desta submissão em todas as esferas ao poder da Igreja mostravam-se presentes na
arquitetura, na música e nas ciências. Na arquitetura, os dois principais estilos desenvolvidos foram
o gótico e o romântico. O estilo romântico buscava ser o mais didático possível, concretizando o
mundo teocêntrico baseado em duas construções: o castelo, que abrigava a nobreza, defensora da
população e promotora da segurança; e a catedral, onde encontrava-se o clero, simbolizando a
estabilidade espiritual. Já na Baixa Idade Média (séculos X-XV), o estilo gótico unia a religiosidade
cristã-feudal através da grandiosidade dos templos (como o de Notre Dame em Paris) e dos novos
tempos mercantis que se anunciavam, uma vez que o progresso urbano e comercial possibilitava o
seu financiamento.
Na música, o canto é integrado aos cultos no pontificiado de Gregório Magno (590-604), criando o
chamado canto gregoriano. Como a Igreja temia qualquer tipo de estudo que colocasse em risco
seus dogmas católicos e convicções, criam-se, ainda no século XIII, os tribunais do inquérito da
Inquisição, também conhecidos como Santo Ofício. Apesar de todas as instituições educacionais
estarem sob o controle da Igreja, a inquisição é organizada dentro dos muros dos mosteiros, a
escolástica, que buscava conciliar a fé com um sistema de pensamento mais racional. Após décadas,
o esforço humano passava a ser novamente valorizado, tornando-se a base destes estudos a obra de
Tomás de Aquino, Summa Theologica.
Ainda no século XIV, tem origem o movimento filosófico conhecido como Humanismo. Como um
pensamento de oposição ao teocentrismo medieval, o Humanismo buscava a valorização das
aspirações e da capacidade humana – o homem estaria no centro das atenções (e do universo).
Assim, o antropocentrismo caracterizaria-se como a principal base desse pensamento, atribuindo ao
homem a responsabilidade por suas conquistas e fracassos. Buscando a Antiguidade Clássica como
fonte de inspiração (Imitatio), os humanistas resgatavam valores que se enquadravam nas novas
aspirações urbanas-comerciais, como o hedonismo, que valorizava a vida terrena e a natureza.
No presente, o homem se faz através da posse da razão. Se as árvores e bestas selvagens
crescem, os homens, creia-me, moldam-se. [...] A natureza, ao dar-vos um filho, vos presenteia
com uma criatura rude, sem forma, a qual deveis moldar para que se converta em um homem de
verdade. Se este ser moldado se descuidar, continuareis tendo um animal; se, ao contrário, ele se
realizar com sabedoria, eu poderia quase dizer que resultaria em um ser semelhante a Deus8.
Embora o Humanismo contestasse os valores mais tradicionais da Igreja Católica, não pode ser
considerado um movimento ateu. A proposta dos intelectuais humanistas era promover uma nova
interpretação das escrituras e, assim, a valorização do homem seria explicada como uma forma de
adoração a Deus, pois esse seria a mais perfeita criação divina.
Ademais, embora difundido pela Europa, o pensamento humanista não poderia ser considerado
um movimento de massas, restrito que estava a uma pequena parcela da intelectualidade europeia.
Considerado a aplicação dos valores humanistas na pintura, ciências, letras e outras
manifestações artísticas, o Renascimento Cultural foi assim denominado por Giorgio Vassari,
considerado como o primeiro historiador da arte. Em oposição à Idade Média, considerada pelos
humanistas como “Idade das Trevas”, o Renascimento foi assim nomeado devido ao que seus
protagonistas afirmavam ser uma “redescoberta” dos valores classissistas de valorização do homem.
O “berço do Renascimento”, sem dúvidas, foi a Península Itálica, mais precisamente a região da
Toscana; Siena e Florença abrigaram alguns dos principais nomes do estilo.
1.2.1. O Iluminismo
Movimento racionalista do século XVIII, o Iluminismo não é considerado uma escola no sentido
estrito, mas uma tradição intelectual de valorização do racionalismo que teve impacto determinante
na filosofia, na literatura, nas ciências sociais, na história, na música, na geografia, transformando-
as. Apesar de ter sido mais famoso na França, o pensamento ilustrado – como o iluminismo também
é conhecido – teve expoentes relevantes em praticamente todos os países europeus e também na
América. O que une todas essas correntes é a valorização da razão como método para alcançar a
verdade, renegando a tradição e a verdade revelada. É herdeiro do racionalismo estético do
Renascimento e do racionalismo naturalista da Revolução Científica do século XVII, mas se
diferencia desses movimentos ancestrais pela crítica à sociedade, não tendo se restringido à
natureza ou às artes, ainda que sobre elas tenha tido grande impacto.
Sob o ponto de vista sociopolítico une os iluministas a crítica generalizada ao antigo regime e
suas instituições políticas, econômicas, sociais e culturais. Em maior ou menor grau – às vezes
apenas a ironia, o sarcasmo –, eles desmerecem a monarquia absolutista, a lógica intervencionista-
monopolista do mercantilismo, o monolitismo estanque da sociedade estamental e o predomínio
cultural do clero, considerado pelos iluministas, em grande parte anticlericais, o promotor do
obscurantismo medieval e da ignorância.
Dentre suas contribuições está o advento da geografia moderna (Alexander Humboldt), o
historicismo nas ciências sociais (Giambattista Vico), o desenvolvimento da cartografia racional, o
surgimento das primeiras escolas de pensamento econômico – como a fisiocracia – a defesa
intransigente da educação laica (Pombal), o reconhecimento do universalismo da condição humana
(“todo homem é dotado de razão”), a crítica ao monopólio (Adam Smith), a divisão dos poderes
(Montesquieu9), o contratualismo (Jean Jacques Rousseau), a defesa do direito positivo (Augusto
Comte), o sistema de checks and balances (James Madison), o fortalecimento do direito
internacional (John Locke), do sistema judiciário (Cesare Beccaria), da administração pública e a
transformação da filosofia em “mãe de todas as formas de saber”, entre outras conquistas
modernas.
Surpreende descobrir que a origem social da maior parte dos pensadores iluministas era a
aristocracia. Funcionários da coroa ou membros da burguesia abastada também produziram obras
iluministas. Em todos os casos sugeriam transformações estruturais na sociedade que atingiriam
diretamente seus privilégios de classe. Tratava-se de uma minoria ilustrada, frequentemente
perseguida pelos regimes absolutistas, mas que por sua vanguarda conseguiu se impor e
popularizar suas ideias ao longo do século XVIII. Figuras como Voltaire e Diderot se tornaram muito
famosas em vida e verdadeiros fenômenos editoriais a ponto de poderem viver dos livros que
publicavam. A Enciclopédia, monumental e ambicioso projeto de compilação de todo o conhecimento
humano avaliado racionalmente, sustentou Diderot e D’Alembert por meio de assinaturas dos
leitores que pagavam mensalidades adiantadas para financiar a obra que ia sendo entregue
progressivamente ao longo dos anos – sua prisão interrompeu o projeto, mas os leitores seguiram
contribuindo.
No plano econômico, criticavam como irracional as políticas metalistas de acumulação que
provocavam inflação e eram motivadoras de guerras mercantis. Para a promoção da riqueza
propunham a mínima intervenção estatal na economia – exceto em casos de segurança e defesa.
Acreditavam que o comércio livre promoveria a riqueza e a paz entre os homens. Inicialmente essas
ideias aparecem de modo rudimentar na fisiocracia francesa, a primeira escola econômica, cujo
próprio nome já defende a não intervenção; fisios, natureza, cracia, governo. Para esses pensadores,
o natural seria uma economia sem a intervenção do Estado, daí o famoso lema laissez-faire, laissez-
passer, le monde va de lui même. Adam Smith e David Ricardo aperfeiçoam a fisiocracia criando a
teoria de valor a partir do trabalho e definindo de modo mais claro o mercado, como a mão invisível
que controla a disponibilidade de bens e favorece o crescimento da riqueza dos homens e das
nações, discordando da crença de riqueza finita e “jogo de soma zero”, presente na concepção
mercantilista de eterna guerra comercial.
De um modo geral, esses pensadores defendiam uma visão moderadamente reformista da
sociedade, propondo melhorias racionais como escolas leigas, livre comércio, liberdades concedidas
pelo príncipe e estabelecidas em uma constituição ou representação parlamentar. Não chegavam a
defender uma via revolucionária e disruptiva. Eram fortemente elitistas do ponto de vista intelectual
e defendiam a meritocracia. Os homens nasciam iguais mas não eram igualmente capazes. Não se
importavam que o voto fosse restrito por renda e defendiam a igualdade apenas jurídica, não
econômica ou social, defendidas mais tarde pelos socialistas. Apesar deste “conservadorismo” o
iluminismo foi apropriado como a principal arma da burguesia para o desmonte revolucionário do
Antigo Regime tanto na Revolução Francesa quanto nas revoluções burguesas que se seguiram.
Influenciados pelo pensamento mais radical do pensador genebrino Jean Jacques Rousseau (Tratado
da desigualdade entre os homens e O contrato social) defendiam a ruptura do contrato social diante
do despotismo e se valeram desta premissa para legitimar suas revoluções.
Se indagarmos em que consiste precisamente o maior bem de todos, que deve ser o fim de todo
o sistema de legislação, achar-se-á que se reduz a estes dois objetivos principais: liberdade e
igualdade. A liberdade, porque toda a dependência particular é outro tanto de força tirada ao
corpo do Estado; a igualdade, porque a liberdade não pode existir sem ela. Já disse o que é a
liberdade civil; a respeito da igualdade [...] que nenhum cidadão seja bastante opulento para
poder comprar a outro, e nenhum tão paupérrimo para necessitar vender-se, o que supõe. Por
parte dos grandes, moderação de bens e de crédito; dos pequenos, moderação de ânsia e cobiça.
Mas os fins gerais de toda instituição devem modificar-se em cada país pelas circunstâncias que
nascem, tanto da situação local, como a do caráter dos habitantes. E considerando estas
circunstâncias, deve dar-se a cada povo um sistema de instituição, que seja o melhor, embora não
por si, mas para o Estado a que se destina10.
Apesar disso, a maior parte do pensamento iluminista foi incorporada na segunda metade do
século XVIII justamente por monarcas ou estadistas ao serviço do absolutismo. Influenciados pela
hegemonia cultural francesa, ou sinceramente desejosos de reformas, estes “déspotas esclarecidos”
se serviram do arsenal de ideias iluministas para modernizar seus reinos. Perceberam logo que a
implementação da racionalidade administrativa trazia ganhos reais para a manutenção e o
fortalecimento do absolutismo. Ficava claro o paradoxo. O uso de ideias iluministas, fortemente
críticas do regime absolutista, justamente para modernizá-lo. São exemplos do absolutismo ilustrado
os reis da Prússia, Frederico, “O Grande”, e da Áustria, José I, a primeira czarina da Rússia,
Catarina, e o valido do rei Português Sebastião José Carvalho de Melo, o marquês de Pombal.
Tomando-o como exemplo percebe-se o anticlericalismo iluminista na expulsão dos jesuítas e na
ampla modernização do ensino português com a criação do Colégio dos Nobres e a reforma da
Universidade de Coimbra. O redesenho moderno da Lisboa destruída pelo terremoto incorpora as
linhas racionais do iluminismo e a reorganização administrativa da colônia – reestruturação do
sistema fiscal, mudança da capital para o Centro Sul, criação do Vice-Reinado unificado – evidencia
a influência da ilustração.
A aplicação de medidas modernizadoras tem algumas características em comum. Foram em geral
implementadas em países periféricos e/ou atrasados, onde serviram para fortalecer uma burguesia
fraca e enfraquecer os estamentos conservadores clericais e aristocráticos. Ampliavam assim a
autonomia do Estado e incentivavam a manufatura. Estimulavam ainda a educação, e, em algum
grau, a liberalização econômica que tinha por objetivo melhorar as finanças do Estado. Eric
Hobsbawn vincula o despotismo esclarecido ao sucesso econômico da Inglaterra que iniciava sua
Revolução Industrial. Tratava-se de um modo de emular a economia burguesa britânica sem
sacrificar o regime absolutista. Era forma sem conteúdo e, é possível afirmar que foi parcialmente
bem-sucedido enquanto viveram seus propositores, até hoje celebrados em seus países como
grandes estadistas e modernizadores. Dois deles – Frederico e Catarina – foram capazes de inserir
seus reinos – até então periféricos – na dinâmica de poder europeia do século XIX. Pombal consegue
algum grau de autonomia em relação à aliada britânica estimulando a burguesia portuguesa e a
racionalização da exploração.
Por outro lado não foram capazes de eliminar o obstáculo reacionário encastelado na aristocracia
tradicional e no clero conservador. Ainda que enfraquecidos, só seriam efetivamente derrotados
politicamente, mesmo que não destruídos pelas sucessivas revoluções que se seguiram à Francesa.
A própria França não chegou a viver um “despotismo esclarecido” para além de medidas reformistas
pontuais. Muito pelo contrário, assistiu às vésperas da revolução um movimento de reacionarismo
aristocrático de retomada dos cargos públicos que excluiu os setores burgueses do Terceiro Estado
do aparado burocrático monárquico, o que contribuiu em alguma medida para acelerar o
descontentamento pré-revolucionário. É também uma razão possível para entendermos porque a
França foi o dínamo difusor do pensamento ilustrado na Europa. Tratava-se, como se sabe,
justamente do centro do poder absolutista que fora justificado e legitimado ideologicamente por
bispos da igreja francesa a serviço do Estado, como Jean Bodin e Jacques Bossuet.
Se no século XVII a influência da política absolutista de Luís XIV atravessou o Canal da Mancha e
foi decisiva para os rumos da Restauração dos Stuarts (1660-1688), no século XVIII as “luzes”
francesas se espraiaram pelo velho continente. Do Império Russo de Pedro, “o Grande”, a Portugal
de D. João V, o iluminismo francês “balançava os tronos” e estimulava longas conversas em clubes e
bares na Europa.
Destaque especial para a renovação intelectual da Escócia, país periférico que foi um importante
celeiro de iluministas como Adam Smith, David Hume entre outros. Diferenciava-se do pensamento
continental por não aderir ao anticlericalismo e ter um viés mais pragmático e problem-solving do
que as elocubrações filosóficas teóricas dos pensadores franceses. Assim como os pensadores anglo-
saxões em geral – os federalistas e Thomas Paine, por exemplo – buscaram desenvolver as ideias de
Montesquieu a partir de problemas práticos como os que surgem no contexto da Independência das
Treze Colônias. A partir de exemplos práticos surgidos após a Revolução Americana e a Revolução
Francesa o Iluminismo ganharia ainda mais fôlego e se tornaria a matriz hegemônica do
pensamento ocidental alcançando todo o mundo. A racionalidade se torna o modelo básico para a
produção de conhecimento nas ciências humanas e a partir do iluminismo sairão as diversas escolas
de pensamento do século XIX, como o positivismo, o liberalismo, o socialismo. Além disso, o modelo
de revolução racional-iluminista será copiado por todas as revoluções sucessivas dos séculos XIX e
XX, sempre na orientação de ampliar a liberdade ou a igualdade entre os homens, ao menos até a
revolução teocrática iraniana.
A crítica ao iluminismo e à razão instrumental aparece já na virada do século XVIII para o XIX nos
escritos de Immanuel Kant (Crítica da razão prática, Crítica da razão pura) e reaparecem no
pensamento romântico nacionalista do século XIX apelando para as emoções e sensações e não mais
para a razão. No século XX, a razão iluminista tradicional será atacada pela psicanálise de Sigmund
Freud e seu conceito de inconsciente, pela escola de Frankfurt nos anos de 1920, e mais
recentemente pela crítica desconstrutivista da pós-modernidade.
Síntese Didática das críticas iluministas ao Antigo Regime.

Antigo Regime Proposta Iluminista

Plano Político Hegemonia Absolutista Monarquia Constitucional

Plano Mercantilismo Não intervenção do Estado (fisiocracia e a Escola


Econômico Monopolista Clássica)

Plano Social Sociedade Estamental Igualdade Jurídica entre os Homens

Hegemonia Cultural do
Plano Cultural Prevalência da Razão e Ensino Laico
Clero
2
A REVOLUÇÃO FRANCESA (1789-1799)

A Revolução Francesa consigna-se desta maneira um lugar excepcional na História do Mundo


Contemporâneo. Revolução burguesa clássica, ela constituiu, para a abolição do regime senhorial e
da feudalidade, o ponto de partida da sociedade capitalista e da democracia liberal na História da
França. Revolução camponesa e popular, porque antifeudal sem compromisso, tendeu por duas
vezes a ultrapassar seus limites burgueses: no ano II, tentativa apesar do malogro necessário,
conservou por muito tempo valor profético de exemplo, e quando da Conspiração pela igualdade,
episódio que se situa na origem fecunda do pensamento e da ação revolucionários
contemporâneos. Assim, se explica, indubitavelmente, esses vãos esforços no sentido de negar à
Revolução Francesa, perigoso precedente, sua realidade histórica ou sua especificidade social e
nacional. Mas, assim, também se explicam o sobressalto sentido pelo mundo e a ressonância da
Revolução Francesa na consciência dos homens do nosso século. Esta lembrança, só por si, é
revolucionária; ela ainda nos exalta11.
2.1. ANTECEDENTES
Centro difusor da ideologia iluminista, a França vivia uma situação de crise institucional em
meados do século XVIII. Do ponto de vista político, Luís XVI era uma rei enfraquecido; diante de
uma tradição centralizadora oriunda do absolutismo clássico, o rei Bourbon enfrentava um contexto
de crescente mobilização liberal, no qual os súditos franceses contestavam seu governo.
Em termos sociais, o Terceiro Estado, composto pela burguesia, campesinato, artesãos,
profissionais liberais, servos e trabalhadores urbanos parisienses – chamados de sans culottes –,
representava 98% dos cerca de 25 milhões de franceses mas não possuía representação política e,
ainda, sustentava com o pagamento de impostos, os luxos e a ostentação do clero (dividido entre
alto clero e baixo clero) e da nobreza (os nobres de origem feudal tinham privilégios que a nobreza
togada, em sua maioria burgueses que compraram tal título, não possuía). O político francês
Emmanuel Joseph Sieyès, com base nos pensamentos de Rousseau, buscava explicar o que seria o
Terceiro Estado na França pré-revolucionária:
Que é o Terceiro Estado? Tudo. Que tem sido até agora na ordem política? Nada. Que deseja? Vir
a ser alguma coisa...
O Terceiro Estado forma em todos os setores os dezenove/vinte avos, com a diferença de que ele
é encarregado de tudo o que existe de verdadeiramente penoso, de todos os trabalhos que a
ordem privilegiada se recusa a cumprir. Os lugares lucrativos e honoríficos são ocupados pelos
membros da ordem privilegiada...
Quem, portanto, ousaria dizer que o Terceiro Estado não tem em si tudo o que é necessário para
formar uma nação completa? Ele é o homem forte e robusto que tem um dos braços ainda
acorrentado. Se suprimíssemos a ordem privilegiada, a nação não seria algo de menos e sim
alguma coisa mais. Assim, que é o Terceiro Estado? Tudo, mas um tudo livre e florescente. Nada
pode caminhar sem ele, tudo iria infinitamente melhor sem os outros...
Uma espécie de confraternidade faz com que os nobres deem preferência a si mesmos para
tudo, em relação ao resto da nação. A usurpação é completa, eles verdadeiramente reinam...
É a Corte que tem reinado e não o monarca. É a Corte que faz e desfaz, convoca, demite os
ministros, cria e distribui lugares etc. Também o povo acostumou-se a separar nos seus murmúrios
o monarca dos impulsionadores do poder. Ele sempre encarou o rei como um homem tão enganado
e de tal maneira indefeso em meio a uma Corte ativa e todo-poderosa, que jamais pensou em
culpá-lo de todo o mal que se faz em seu nome12.
Soma-se a tal instabilidade política e social a grave crise econômica que assolava o território
francês nos mesmos oitocentos. Gastos com os luxos dos 1º e 2º Estados não impactavam
decisivamente no tesouro real, mas foram explorados de forma hábil pela propaganda iluminista. A
participação francesa na Guerra dos Sete Anos (1756-1763), ainda sob o comando de Luís XV, elevou
consideravelmente os gastos do governo, contexto agravado pelo projeto do ministro Vergennes, que
visava recuperar o prestígio perdido após a derrota diante dos ingleses auxiliando os colonos
americanos na Guerra de Independência das Treze Colônias (1776-1781).
A vitória ao lado dos aliados americanos trouxe efeitos colaterais, uma vez que expôs a
contradição de uma França absolutista em um movimento liberal, além de proporcionar uma
posterior reaproximação com a rival Inglaterra, após a promulgação do Tratado de Paris (1783). Tal
relação fez-se sentir mais fortemente quando da assinatura do tratado comercial Eden-Rayneval,
que permitia a entrada do vinho francês com baixas tarifas alfandegárias no outro lado do Canal da
Mancha, enquanto os tecidos britânicos obtiveram tarifas diferenciadas na França. Por conseguinte,
as manufaturas francesas acabaram não suportando a concorrência e muitas decretaram falência,
agravando ainda mais a situação econômica do país, com o aumento do desemprego nas grandes
cidades.
Sustentada ainda pelas exportações agrícolas, a economia francesa chegava a um de seus
momentos mais caóticos, diante da crise agrícola, oriunda de fenômenos climáticos como secas e
inundações, e agravada pela erupção do vulcão islandês Laki. Foram resultantes dessa situação a
fome e a miséria, assim como o aumento dos impostos, para tentar cobrir o défict do Estado – que
tinha uma dívida externa correspondente ao dobro de todo o seu meio circulante.
Diante desse quadro, o controlador geral das finanças do Estado, Charles Alexandre de Calonne,
acreditava que a única solução seria taxar o clero e a nobreza, pondo fim aos privilégios que estes
possuíam desde os tempos medievais. A reação de tais classes foi imediata, com críticas
contundentes à proposta e ensaios de revoltas, o que Charles Fourrier chamou de “Revolta dos
Notáveis” (1787). Tal mobilização levou à queda do ministro, substituído por Jaques Necker, que
retornava depois de sete anos fora do cargo. Necker convoca a Assembleia dos Notáveis com um
objetivo: estabelecer as regras pelas quais seria convocada uma instituição que desde 1614 não
tinha papel na França: os Estados Gerais.
A mobilização em torno da convocação dos deputados dos Estados Gerais e sua primeira reunião
favoreceram a difusão do iluminismo pela França. A ideologia que antes se restringia aos salões da
nobreza e aos cafés e clubes frequentados pela burguesia, agora, de forma simplificada, chegava às
classes populares. Porém, tal entusiasmo tinha limite. A nobreza tradicional controlava o
Parlamento, já que o voto era orgânico e, naturalmente, o clero e a nobreza comungavam dos
mesmos ideais conservadores.
Percebendo sua pequena margem de manobra – mesmo contando com 578 deputados (contra 291
do clero e 270 da nobreza) –, os representantes do Terceiro Estado exigiram de Luís XVI o voto
inorgânico, ou seja, individual. Como o rei tentou obstruir tal intento, acompanhado de
representantes do baixo clero e da nobreza togada, os membros do Terceiro Estado declararam-se
em Assembleia Nacional Constituinte no dia 17 de junho de 1789. Para defendê-la de possíveis
ataques do rei, a burguesia formou a Guarda Nacional e, para ingressar no movimento
revolucionário, os populares de Paris buscaram armas na fortaleza da Bastilha, antigo símbolo da
repressão do absolutismo francês.
Segundo Eric Hobsbawm, em A era das revoluções: “[...] Em tempos de revolução nada é mais
poderoso do que a queda de símbolos. A Queda da Bastilha, que fez do dia 14 de julho a festa
nacional francesa, ratificou a queda do despotismo e foi saudada em todo o mundo como princípio
de libertação”. O que aconteceu na França a partir de 1789 foi a explosão do sentimento
generalizado de repulsa a um absolutismo crescentemente anacrônico iniciando, segundo a corrente
hegemônica de interpretação historiográfica, a Revolução Francesa.
2.2. PROTAGONISTAS
• Contrarrevolucionários: podemos classificar como contrarrevolucionários todos aqueles que se
colocavam contra o advento da Revolução. De nobres a membros da Igreja, que teriam seus
privilégios violados, passando por camponeses que aderiram ao discurso de seus patrões,
chegando às monarquias vizinhas da França, que temiam a difusão dos princípios de “liberdade,
igualdade e fraternidade”, que ecoavam pelas ruas de Paris.
• Terceiro Estado: nos primeiros momentos da Revolução Francesa, os membros do terceiro
estamento estavam juntos, unidos por um mesmo ideal: acabar com os privilégios do clero e da
nobreza. Porém, com o decorrer do processo revolucionário, diferentes propostas dividiram tal
grupo.
• Girondinos: assim conhecidos porque seu líder, Brissot, representava o departamento da
Gironda e também devido ao fato de que seus principais membros eram provenientes desta
região, representavam os interesses da alta burguesia (banqueiros, industriais e grandes
comerciantes), possuíam discurso moderado, almejando uma revolução política, sem grandes
transformações sociais, e adotando postura crítica com relação ao radicalismo dos setores
populares.
• Jacobinos: estes, liderados pela baixa burguesia (pequenos comerciantes, profissionais liberais e
donos de oficinas artesanais) e contando com o apoio das classes populares (chamadas de forma
pejorativa de sans-culottes), reuniam-se no convento de Saint Jacques (de frades dominicanos) e
por isso ganharam tal denominação. Muito influenciados pelos escritos de Rousseau, defendiam
uma revolução não somente política, mas também social.
• Sans-culottes: grosso modo, eram trabalhadores urbanos de Paris, que desejavam o fim dos
privilégios da aristocracia, alimentos mais baratos e uma maior igualdade social.
• Pântano ou planície: grupo composto por deputados que oscilavam politicamente entre as
tendências majoritárias, ou seja, os jacobinos e os girondinos.
• Cordiliers: assim eram chamados os representantes das camadas mais baixas na Assembleia
Nacional.
• Feudillants: representantes da burguesia financeira.
2.3. AS FASES
2.3.1. Fase moderada (ou das assembleias): 1789-1792
Neste primeiro momento da Revolução Francesa, o principal objetivo do Terceiro Estado, que, de
maneira geral, agia unido, era acabar com o Estado Absolutista e com os privilégios do clero e da
nobreza.
A partir da queda da Bastilha (14 de julho de 1789) e da entrada dos populares na processo
revolucionário, não só Paris participava da Revolução, mas também camponeses oprimidos por
séculos de exploração aproveitaram-se do clima instalado no país para queimar documentos de
servidão e atacar os castelos, símbolos de uma era que se desejava superar. Paralelamente ao
chamado “grande medo” que tomou conta da França, trabalhava a Assembleia Constituinte para
controlar o povo, que exigia imediatas conquistas sociais e políticas.
Uma das primeiras medidas elaboradas foi a abolição dos direitos feudais (agosto de 1789), que
punha fim à isenção no pagamentos dos impostos para o 1º e o 2º Estados, ao monopólio sobre a
terra e à servidão. No mesmo sentido, foram exterminados os privilégios dos clérigos mediante a
Constituição Civil do Clero (1790), que confiscava os bens dos membros do Primeiro Estado e os
transformava em funcionários públicos, submetidos às regras da Assembleia.
Além da representatividade de tais medidas, elas tiveram importância financeira, uma vez que o
governo utilizou estes bens como lastro para a emissão de uma nova moeda, os assignats, buscando
assim amenizar a crise econômica que assolava o país. Em Roma, o papa Pio VI criticava os rumos
da Revolução, levando a uma divisão entre os membros do clero francês: aqueles que aceitaram a
Constituição Civil faziam parte do clero juramentado, e aqueles que se recusavam a reconhecer tal
documento, chamados de clero refratário.
Garantidos o fim dos privilégios e a igualdade jurídica por meio da Declaração dos Direitos do
Homem e do Cidadão, que ainda defendia a propriedade privada, o direito à liberdade de se rebelar
contra os abusos do governo, dentre outros, era chegada a hora da conclusão da primeira
Constituição da França, elaborada em 1791. Dentre seus principais pontos estão:
• Monarquia Constitucional composta pela divisão dos três poderes;
• Executivo (Rei), Legislativo (representantes do povo) e o Judiciário;
• voto censitário
• fim da isenção dos impostos;
• igualdade jurídica entre os indivíduos;
• formação de uma Assembleia Nacional;
• laicização do Estado;
• liberdade de crença.
Com tais medidas, torna-se evidente a consolidação de um Estado burguês (por isso o período
também é conhecido como Era das Instituições), no qual os privilégios baseados no nascimento
foram substituídos por restrições econômicas, não alterando de fato as condições de vida da
população pobre, que nem mesmo participação política possuía segundo os critérios censitários
estabelecidos pela carta constitucional.
O ano de 1791 deixa bem claro que, para a alta burguesia, a revolução já tinha acabado. Leis
como a Le Chapelier, que proibia greves e coalizões populares ou ações como a atuação da Guarda
Nacional em relação a agitação popular no Campo de Marte, em Paris, quando esta abriu fogo
contra a multidão desarmada matando 50 pessoas, seguida de prisões e o fechamento de jornais e
clubes populares, demonstram este fato. Na Assembleia Nacional estes rumos se refletiram na
divisão política de seus membros, em especial, na separação entre girondinos e jacobinos.
Enquanto isso, nobres e clérigos emigravam em busca de auxílio para deter os avanços liberais.
Temendo a difusão da Revolução, as potências absolutistas vizinhas, sob a alegação de defender a
restauração da dignidade real, elaboram a Declaração de Pillnitz. Em tentativa desesperada de
restaurar seus poderes absolutistas, Luís XVI busca refúgio na Áustria de sua esposa, sendo
capturado com sua família na cidade de Varennes, próxima da fronteira (junho de 1791). Como
prisioneiro da Revolução e considerado um traidor, principalmente depois da descoberta de
correspondências em que dava auxílio importante para uma possível invasão austríaca do território
francês, Luís XVI agora era o principal alvo de uma população que não via grandes mudanças
advindas da Revolução e sofria com o alto custo de vida.
Em abril de 1792, a França declara guerra à Áustria e à Prússia que, por sua vez, criaram o
Exército Contrarrevolucionário com o intuito de evitar a difusão dos ideais iluministas pela Europa.
Com apoio de nobres emigrados com o início da Revolução (e principalmente com o Grande Medo),
tal Coligação Internacional marchou rapidamente em direção a Paris. Segundo Hobsbawm, as
dificuldades financeiras se agravavam (especulação financeira associada a uma inflação sem
precedentes) paralelamente ao descontentamento dos setores populares, que defendiam o
republicanismo.
Diante do perigo externo, a solução foi armar o povo, formando assim a Comuna Insurrecional de
Paris, que contava com alguns dos mais famosos representantes jacobinos na sua liderança, como
Robespierre e Marat. Lutando pela primeira vez por sua nação e não por um rei, embalados pela
Marselhesa e por suas bandeiras tricolores (branco, que representava a realeza agora encontrava-se
somado às cores vermelha e azul de Paris), derrotaram os emigrados na batalha de Valmy.
Era o despertar, para muitos analistas, do sentimento nacionalista francês. No embalo da
conquista sobre as forças do Antigo Regime, tinha fim o modelo monárquico, com a proclamação da
República na França. O voto universal transformou a Assembleia Nacional em Convenção Nacional,
sendo o principal objetivo desta redigir uma nova constituição.
2.3.2. Fase radical (ou convenção nacional): 1792-1795
Formada por 749 deputados, a Convenção Nacional apresentou uma divisão geográfica de seus
membros que até os dias de hoje define a política no mundo ocidental, afinal o partido da Montanha
(representando os jacobinos e sans-culottes) colocava-se à esquerda, oposto aos deputados
girondinos que estavam à direita, enquanto os membros do pântano estavam no centro.
É o ponto zero da revolução para os jacobinos. Inspirados no iluminismo rousseauniano, no qual
diz que a propriedade é um instrumento de opressão e o contrato tem que ser feito para que se evite
isto, desejavam uma maior equalização das relações sociais. Segundo um de seus principais líderes,
Maximilien de Robespierre, o principal interesse dos jacobinos era o de “fundar a República sobre
os princípios da igualdade e do interesse geral”. Este é o principal ponto de conflito entre os
girondinos e os jacobinos: enquanto os girondinos tentam salvar a revolução sem fazer concessões
ao povo e sem quebrar a legalidade, os jacobinos queriam uma revolução popular, suspendendo, se
possível, as garantias legais. Para os girondinos, esta posição jacobina significava ser a favor da
mais completa anarquia social, como fica evidente nas palavras de um de seus líderes, Brissot: “Os
desorganizadores são os que pretendem tudo nivelar – os proprietários, o bem-estar, o preço dos
gêneros, os diversos serviços da sociedade”. Neste discurso, fica bem claro que, para os girondinos,
a igualdade social era igual a anarquia (desorganização). Já Robespierre contra-atacava os
girondinos, alegando que estes “só querem constituir a república para si mesmos, que só pretendem
governar no interesse dos ricos e funcionários públicos”.
Por um breve momento inicial, os girondinos dominaram a Convenção. A divisão entre seus
membros sobre o que fazer diante do julgamento de Luís XVI (alguns eram favoráveis ao indulto e
outros à pena de morte) fortaleceu os membros da Montanha, que exigiam a execução real com o
suporte do povo. Somada à divisão interna, a revolta antirrepublicana de Vendeia, estimulada pelos
setores conservadores e protagonizada por camponeses, acirrou o quadro de crise que
impossibilitou a manutenção dos girondinos no poder. Como resultado, não só Luís XVI e a família
real foram executados (21 de janeiro de 1793), como também os montanheses tornaram-se
hegemônicos na Convenção.
Neste contexto de radicalização revolucionária, é formada a Primeira Coligação (Áustria,
Inglaterra, Prússia, Holanda e Espanha); a conscrição maciça de homens solteiros entre 18 e 25
anos (medida precursora do recrutamento militar obrigatório) e a formação de um exército
profissional são as soluções encontradas pelo Comitê de Salvação Pública – órgão liderado por
Robespirre que administrava o país e cuidava de sua defesa externa – para promover a resistência
na França.
Período conhecido também como a Era das Antecipações, este é o único momento durante o
processo revolucionário em que a alta burguesia está alijada do poder, de acordo com Albert
Souboul.13 Marcada pelas conquistas sociais, a Convenção jacobina adota um novo calendário, o
Republicano, abandonando aquele gregoriano (radicalização do Estado laico), sendo o nome de seus
doze meses de trinta dias relacionados aos ciclos agrícolas e à natureza (Vindimário, Frimário,
Nivoso, Pluvioso, Ventoso etc.).
A principal obra do período foi a Constituição do Ano I (ou 1793), que buscava uma sociedade
mais democrática através de:
• Sufrágio universal independente de renda;
• Abolição da escravidão nas colônias francesas;
• Criação de escolas primárias gratuitas;
• Direito à rebelião, ao trabalho e à subsistência;
• Pensão anual e assistência médica gratuita a enfermos, viúvas e população idosas;
• Reforma agrária, com o confisco de terras da nobreza emigrada e da Igreja, que seriam
divididas em lotes menores e vendidas a preços baixos para camponeses pobres.
Mesmo com as medidas em prol de uma sociedade com menores diferenças sociais, a divisão
interna não foi erradicada na França. Para tentar deter aqueles que eram considerados “inimigos da
revolução” – que iam desde membros do clero refratário àqueles que violavam a Lei do Máximo (que
estabelecia preço máximo para preços e salários) –, o Comitê de Salvação Nacional, responsável
pela segurança interna, juntamente com o Tribunal Revolucionário, executaram, entre agosto de
1793 e julho de 1794, cerca de 40 mil pessoas na guilhotina, após julgamentos sumários, nos quais
os réus não tinham direito à apelação.
O governo revolucionário tem necessidade de uma atividade extraordinária, precisamente
porque está em guerra. Suas regras são uniformes e rigorosas, porque as circunstâncias são
tumultuadas e inconstantes [...]. O governo revolucionário não tem nada em comum com a
anarquia nem com a desordem. Sua meta, ao contrário, é de reprimi-las para implantar e
consolidar o reinado das leis14.
Apesar de contar com o apoio de facções que desejavam uma maior igualdade social como os
sans-culottes e os enregês, os jacobinos não poderiam abandonar o principal fator que levava à
desigualdade: a propriedade privada. A luta de facções intensificava-se cada vez mais entre os
jacobinos. Os partidários de Hébert defendiam a intensificação do terror, enquanto os dantonistas se
colocaram a favor da suspensão do regime de exceção e os aliados de Robespierre eram contrários
às duas facções anteriores.
Atingindo todos os franceses, o Terror Revolucionário fez vítimas famosas, como o revolucionário
jacobino Danton, agravando ainda mais a cisão interna no partido. A radicalização, inclusive cultural
(neste período a catedral de Notre Dame foi transformada em “Templo da Razão”), somada ao
agravamento da crise econômica com a resistência de diversos setores à Lei do Máximo, facilitou a
retomada do poder pelos girondinos.
Dessa forma tinha efeito o Golpe do 9 Termidor, quando Robespierre e os demais jacobinos que
comandavam o Estado foram presos e posteriormente guilhotinados – dando início ao chamado
Terror Branco. A Convenção Termidoriana marca a retomada do projeto inicial da alta burguesia,
que previa limitar a Revolução à esfera política. Sendo assim, as medidas consideradas mais
progressistas são extintas e os sans-culottes duramente reprimidos; a Constituição do Ano III foi
marcada pela exclusão do povo do processo político, através da retomada do voto censitário. Ainda
nesta carta constitucional, fica decidido que o Poder Executivo seria controlado por cinco membros
eleitos pelos deputados, que formariam o Diretório.
2.3.3. Fase conservadora (ou diretório nacional): 1795-1799
Com a retirada dos jacobinos do poder, a alta burguesia buscava consolidar as medidas
elaboradas durante os primeiros momentos da Revolução, sem os excessos democráticos do período
em que os jacobinos foram hegemônicos. Retornavam, portanto, os tempos do conservadorismo
girondino, que marcou um longo período, chamado por alguns historiadores de A Era das
Antecipações (1795-1815).
Devemos ser governados pelos melhores: os melhores são os mais instruídos, os mais
interessados na manutenção das leis; ora, com poucas exceções, achareis semelhantes homens
entre os que, possuindo uma propriedade, estão apegados ao país que a contém, às leis que a
protegem, à tranquilidade que a conserva [...]15.
Em sua estrutura política, o Poder Executivo (composto por cinco membros diretores) era eleito
para um período de 5 anos, enquanto o Poder Legislativo encontrava-se dividido entre a Assembleia
Legislativa (também chamada de Conselho dos Quinhentos) e o Conselho dos Anciãos (uma espécie
de Senado, considerado uma segunda casa legislativa). Tais instituições podem ser consideradas um
aperfeiçoamento do sistema republicano no país, mas foram manchadas por inúmeras fraudes de
seus membros, o que as deslegitimavam perante o povo.
Mantinham-se os movimentos populares por melhores condições sociais, paralelamente aos
realistas estimulados pelos reacionários. Com as finanças cada vez mais debilitadas, o Estado tinha
grandes dificuldades para controlar os sans-culottes. Em 1796, o líder popular Graco Babeuf liderou
a Conspiração dos Iguais, na qual realizava duras críticas à propriedade privada, respaldado na
crença de que ela era “odiosa em seus princípios e mortífera nos seus efeitos”. Massacrado, o
movimento de Babeuf é visto como precursor dos movimentos socialistas do século XIX. Para
Edmund Wilson:
Graco Babeuf, primeiro político a dirigir um ataque à propriedade privada, defendia a “ditadura
dos humildes” [...] Para ele, a “natureza conferiria a cada homem o direito igual de desfrutar de
tudo o que é bom, e o objetivo da sociedade era defender esse direito; que a natureza impusera a
cada homem o dever de trabalhar, e quem dele se esquivava era um criminoso [...]”16.
Destacando-se na luta contra os invasores britânicos, o jovem Napoleão Bonaparte era capitão de
artilharia em 1793, com apenas 24 anos. Durante os anos do Diretório, o Exército comandado pelo
corso era utilizado para reprimir as insurreições e manter o controle nas mãos da alta burguesia.
Além disso, foi responsável por deter os exércitos da Segunda Coligação (que agora contavam com
os reinos italianos) e expulsá-los definitivamente do território francês.
Aproveitando-se de seu prestígio junto à população e da completa falta de legitimidade do
governo do Diretório, Napoleão Bonaparte retorna de sua missão no Egito (onde tentava interferir
nos negógios ingleses na região), cerca o local onde se reunia o Conselho dos Quinhentos e promove
um golpe de Estado. Era o dia 18 do mês revolucionário de Brumário, quando os poderes são
usurpados por Bonaparte. Era também o fim da Revolução Francesa. Começava um governo pessoal
de Napoleão, conhecido como a Era Napoleônica.
3
A ERA NAPOLEÔNICA (1799-1815)

Para alguns é apenas a continuação da Era das Consolidações (1795-1815) da Revolução Francesa
(1789-1799)17, para outros, uma ditadura pessoal de Napoelão Bonaparte; a chamada Era
Napoleônica (1799-1815) é responsável por institucionalizar algumas das principais alterações na
ordem política e social francesa, tais como o fim dos direitos feudais, a igualdade perante a lei, o
direito à propriedade privada e a garantia do acesso dos cidadãos franceses a cargos públicos.
Herdando um país que vinha de profunda crise econômica – um dos principais motivos para a
eclosão da Revolução – e dez anos de instabilidade política, Napoleão Bonaparte buscava efetuar a
paz interna, a estruturação da política nacional e, por fim, promover algum avanço do ponto de vista
econômico.
Na minha carreira se encontrarão vários erros, sem dúvida; mas [...] eu soterrei o abismo
anárquico e pus ordem no caos. Eu limpei a Revolução, enobreci os povos e fortaleci os reis. [...]
Minha ambição foi a de consagrar o império da razão. [...] Milhares de séculos decorrerão antes
que as circunstâncias acumuladas sobre a minha cabeça encontrem outro na multidão para
reproduzir o espetáculo18.
3.1. CONSULADO (1799-1804)
Após a queda do Diretório (1795-1799), Napoleão instalou um novo governo baseado em uma
Constituição, a quarta, em menos de dez anos: a Constituição do ano VIII, aprovada por referendo
popular e que entra em vigor a partir de 1800. Nesta, o poder encontrava-se centralizado no
Executivo, comandado por três cônsules, que, dentre suas funções, tinham o poder de escolher os
senadores que, por sua vez, determinavam os membros do Tribunato (Poder Judiciário) e aqueles do
Corpo Legislativo. Tal carta ambém mantinha o voto censitário, excluindo a maior parte da
população francesa da política. Com a posterior Constituição do ano X (1802), o primeiro cônsul (no
caso, Napoleão Bonaparte) passou a ter poderes que se sobrepunham aos demais e tornava-os
conselheiros por um período de dez anos, o que foi alterado com a Constituição do ano XII (1804),
que garantiu vitaliciedade para Napoleão Bonaparte.
Para completar a reorganização da política francesa, o Código Civil Napoleônico (1804) foi
aprovado, consolidando a liberdade individual, a igualdade perante a lei e o direito à propriedade
privada. É basicamente um mecanismo a fim de consagrar os interesses da burguesia, sendo
considerado pedra angular do direito liberal ocidental contemporâneo e exercendo marcante
influência na institucionalização do direito privado na Europa.
No entendimento de Napoleão, era importante concentrar esforços na reestruturação interna, e,
para isso, a paz externa era fundamental. Após a derrota da Segunda Coligação, mencionada no
capítulo anterior, a neutralização das ameaças internacionais ocorre na medida em que são
assinadas a Paz de Amiens (com a Inglaterra) e a Paz de Luneville (com a Áustria). Em relação à
Igreja católica, as relações, que estavam rompidas desde a Constituição Civil do Clero (1790), foram
reatadas em 1801, através da Concordata com o Vaticano, assinada com o papa Pio VII. Segundo
esta, o sumo pontífice voltava a exercer sua autoridade sobre o clero francês. Por sua vez, a Santa
Sé concordaria em abdicar de qualquer constestação aos confiscos de bens realizados durante a
Revolução, sendo seus membros sustentados por meio de pensão paga pelo governo.
Ainda na esfera política, a centralização é uma das principais características do período, sendo
suprimidas, na prática, a liberdade de imprensa e expressão que estavam garantidas pela ordem
legal. Por outro lado, a reorganização da educação pública com a construção de escolas do governo
colocava na prática um antigo projeto dos jacobinos.
Na América, Napoleão não conseguiu evitar que o radicalismo jacobino chegasse aos escravos,
que lideraram a primeira revolução de negros, cuja consequência foi a implementação da primeira
república negra na América – o Haiti. É neste contexto que Napoleão vende a Louisiana para os
estadunidenses. Juntando a quantia recebida pela venda da Louisiana com os capitais obtidos pela
regulamentação da cobrança de impostos e mesmo dos saques sobre os territórios conquistados na
Europa, uma estrutura econômica eficiente é criada, resultando no surgimento do Banco da França.
Tal instituição tinha o monopólio da emissão do franco – a nova moeda francesa – e o resultado seria
um equilíbrio nas contas públicas.
Empreendimentos industriais foram criados, incentivados e financiados pela Sociedade de
Fomento à Indústria, que ainda elevou as tarifas alfandegárias para produtos importados. Até
mesmo um auxílio legal para o desenvolvimento industrial é promovido, uma vez que Napoleão
resgata a Lei Le Chapelier, no intuito de impedir qualquer tipo de movimento grevista, alegando que
este seria uma ameaça para a propriedade privada.
Obras públicas, como a contrução de estradas e portos, tal qual a reforma que modificou a
própria cidade de Paris, geravam emprego e aumentavam ainda mais a idolatria com relação a
Bonaparte.
Enquanto a burguesia prosperava a olhos vistos, no campo, a reforma agrária napoleônica é
considerada uma das maiores da História europeia. Objetivando aumentar a produção agrícola
francesa, atendendo a uma demanda dos primórdios da revolução e, ao mesmo tempo, gerar
mercado consumidor para as nascentes indústrias nacionais, esta medida teve impacto social até os
dias de hoje, uma vez que um dos grupos sociais mais engajados politicamente são os pequenos e
médios produtores do país.
Aproveitando este contexto muito favorável aos seus interesses, Napoleão incentiva a votação,
por parte dos deputados, que põe fim à República e estabelece um Império. Como este deveria ter
base nos princípios das luzes, em plebiscito o povo referenda a vontade napoleônica.
3.2. IMPÉRIO (1804-1815)
Mesmo sendo um imperador, Napoleão não possuía poderes ilimitados, na teoria, afinal, a
existência de uma Constituição e da Câmara dos Deputados mantinham o liberalismo presente no
país. No entanto, ainda se trata de um Império, que possuía uma nobreza hereditária sem privilégios
e uma nova corte, sendo adotados emblemas que remetiam ao Antigo Regime.
O catolicismo foi uma importante ferramenta utilizada por Napoleão para formatar o novo
cidadão francês, que segundo os manuais do catecismo imperial “honrar e servir nosso Imperador é,
pois, honrar e servir a Deus”.
No campo militar, a retomada dos conflitos foi o grande tema neste período. As hostilidades entre
ingleses e franceses tinha cunho econômico, uma vez que ambas temiam a concorrência no
comércio internacional. As monarquias absolutistas, interessadas na extinção do modelo liberal-
revolucionário francês, se associaram aos insulares. Já em 1805, a Terceira Coligação (Inglaterra,
Rússia e Áustria) entra em confronto com o Grande Armée francês, que, auxiliado pela Espanha,
tenta invadir a Inglaterra na famosa batalha de Trafalgar.
Mesmo sendo a França superior no continente, o que possibilitou a submissão do Sacro-Império
Romano Germânico, a transformação desta na Confederação do Reno e a imposição de seus
parentes no comando das nações dominadas, a impossibilidade de derrotar a Inglaterra resultou na
proibição, por parte de Napoleão, do comércio dos países da Europa Continental com a Grã-
Bretanha – era o Bloqueio Continental (1806). A ideia era isolar e sufocar economicamente seu
principal inimigo, debilitando a tal ponto sua economia que a submissão aos interesses napoleônicos
seria inevitável.
Em seis grandes e oito pequenas batalhas navais entre britânicos e os franceses, as baixas
francesas foram cerca de dez vezes maiores que as dos ingleses. Mas, no que tange à organização
improvisada, mobilidade, flexibilidade e acima de tudo pura coragem ofensiva e moral de luta, os
franceses não tinham rivais. Estas vantagens não dependiam do gênio militar de ninguém19.
O fechamento dos portos europeus dependia do poder de coerção da França que, no primeiro
momento, foi bem-sucedido, como pode ser exemplificado por meio do Tratado de Tilsit, quando o
Império Russo aderiu ao Bloqueio Continental. Porém, os países europeus dependiam da venda de
seus produtos agrícolas para a Inglaterra e, como a França era também uma produtora agrícola, não
consumia as matérias-primas destes países.
Portugal tenta burlar a determinação de Napoleão, uma vez que não desejava romper os laços
com a Inglaterra – estabelecidos desde o final da União Ibérica (1640) e reforçados com o Tratado
de Methuen (1703) – mas não obteve êxito. Mediante o Tratado de Fontainebleau, assinado no dia
27 de outubro de 1807, França e Espanha dividiam o território português após a invasão conjunta. A
solução encontrada pelo príncipe regente D. João VI foi promover a transmigração da corte
portuguesa para o Brasil, em novembro de 1807.
Pouco tempo depois, os laços com a Espanha foram rompidos, o que levou à retirada dos
Bourbons do poder e a imposição de José Bonaparte como rei. Os boiardos, a aristocracia russa que
necessitava exportar seu trigo para a Inglaterra, forçaram o czar Alexandre I a romper o Tratado de
Tilsit. Com cerca de 600 mil homens é iniciada a campanha da Rússia, que não trouxe bons
resultados para os franceses que, enfrentando a tática de terra arrasada e um intenso frio (o famoso
“General inverno”), retornam para seu país com menos de cem mil soldados “derrotados não tanto
pelo inverno russo quanto por seu fracasso em manter o Grande Exército com suprimento
adequado”.
O retorno dos problemas financeiros era, principalmente, o reflexo das campanhas militares
desastrosas, que levaram ao crescimento da insatisfação com os rumos do governo, algo impensável
nos tempos do Consulado. Aproveitando este quadro desfavorável, a Coligação formada pelo Império
Russo, a Inglaterra, a Prússia e a Áustria derrota Napoleão na Batalha das Nações, em Leipzig.
Cinco meses depois, o imperador dos franceses assinava o Tratado de Fontainebleau, em que
renunciava ao trono, aceitava uma pensão e a soberania sobre a ilha inglesa de Elba, para onde foi
com sua guarda pessoal e a sua segunda esposa, Maria Luísa de Habsburgo.
“Com homens iguais a vós, a nossa causa não estaria perdida. Mas a guerra teria sido nossos
interesses aos interesses da pátria [...].” (Napoleão. Despedida em Fontainebleau, em 20 de abril de
1814).
Na França, o Antigo Regime é restaurado com o retorno dos Bourbons ao trono. Declarado morto
Luís XVII, que fora encarcerado juntamente com a sua família durante a Convenção Nacional,
assumia o poder seu tio, Luís XVIII. Seu primeiro mandato foi breve, pois Napoleão conseguiu a
evasão de Elba, desembarcou no litoral sul da França e marchou em direção a Paris. As tropas
francesas que supostamente deveriam ser leais ao novo rei ainda respeitavam seu ex-comandante, o
que facilitou as manobras de Napoleão.
3.3. GOVERNO DOS CEM DIAS (MARÇO-JUNHO DE 1815)
Surpreendendo os principais representantes do Antigo Regime europeu que se reuniam no
Congresso de Viena (1814-1815), Napoleão Bonaparte retoma o poder na França, alarmando
aqueles que desejavam a restauração imediata do absolutismo.
A estratégia das potências coligadas foi retomar a guerra, aproveitando a confusa reestruturação
da ordem napoleônica no curto Governo dos Cem Dias. A batalha de Waterloo, quando Napoleão
entrega a sua rendição para o inglês duque de Wellington, marca sua derrota definitiva.
O exílio agora ocorre na ilha de Santa Helena, situada no Atlântico Sul e distante a léguas do
continente europeu. Em 1821, sob circunstâncias suspeitas e controversas, morre Napoleão
Bonaparte, cujo corpo retorna para a França apenas em 1840, repousando até hoje no mausoléu
construído no Hotel dos Inválidos.
4
A RESTAURAÇÃO EUROPEIA

Reunindo-se entre setembro de 1814 e julho de 1815 o Congresso de Viena tornou-se o principal
marco diplomático para o estabelecimento da Restauração, nome pelo qual ficou conhecido o
Período posterior às Guerras Napoleônicas. A Restauração tem uma vertente política explicitamente
reacionária, de retorno aos princípios legitimistas e absolutistas do Antigo Regime, mas igualmente
uma vertente internacional capaz de viabilizar a reconstrução no mapa Europeu. Tal reconstrução
nos moldes anteriores à Revolução Francesa era notoriamente percebida como inviável, por várias
razões. Dentre elas percebemos os interesses das potências vitoriosas em ampliar seu território e
esfera de influência – notoriamente os Prussianos e Russos; a necessidade de acolher em alguma
medida as imensas transformações político-territoriais implementadas por Napoleão Bonaparte –
como a extinção do Sacro Império Romano Germânico – impossíveis de serem simplesmente
revogadas; e a necessidade de dar destino a Estados que apoiaram direta ou indiretamente
Napoleão, como a Saxônia e os poloneses, em que a aplicação do princípio legitimista puro seria
contraditória do ponto de vista da conjuntura política da derrota napoleônica.
A ideia de retorno ao “Antigo Regime glorioso” é embalada pelo movimento artístico, político e
filosófico conhecido como Romantismo. Tal corrente de pensamento foi hegemônica na Europa no
início do século XIX, criticando o racionalismo defendido pelo Iluminismo, associando o liberalismo
ao caos instalado na Europa com a Revolução Francesa e o expansionismo napoleônico. A
idealização do passado serve aos interesses das principais lideranças políticas representadas em
Viena ao exagerar as mais importantes virtudes dos regimes absolutistas.
A historiografia resume cada uma dessas dificuldades no que ficou conhecido como princípio do
Equilíbrio. Buscou-se não simplesmente a restauração pura e simples do status quo ante mas em
termos territoriais o estabelecimento de um novo mapa europeu que viabilizasse alguma forma de
equilíbrio de poder que evitasse a eclosão de novas guerras.
De um modo geral, até por ter tido sua obra subsumida na eclosão de sucessivas rebeliões liberais
das décadas seguintes, a avaliação posterior da obra do congresso é negativa. Se tornou um símbolo
do reacionarismo conservador na historiografia burguesa e marxista dos século XIX e XX. O advento
do Estudo das Relações Internacionais lançou – sobretudo a escola realista – um novo olhar sobre o
evento de 1814-15, notoriamente graças ao trabalho de Henry Kissinger, que em 1854 publicou O
Mundo Restaurado, analisando o Congresso e o sistema que lhe sucedeu sob as lentes do realismo
clássico e das vantagens do sistema de equilíbrio de poder, um dos conceitos mais caros ao realismo.
Para Kissinger, mais que a vitória de Tayllerand, o grande nome do Congresso foi o Príncipe de
Metternich, sendo Viena a pedra de sustentação de sua obra diplomática conservadora que duraria
mais três décadas.
As quatro principais potências integrantes da coalizão antifrancesa que derrotou Napoleão –
Reino Unido, Áustria, Rússia e Prússia – eram os poderes de fato no Congresso. Inexistiu uma sessão
plenária ou mesmo um congresso no sentido formal do termo. Cada arranjo político era discutido em
encontros secretos ou semissecretos intermeados por banquetes, bailes, jantares e festas variadas a
ponto de um famoso dito afirmar que o “Congresso não anda, dança!” A inovação estava por conta
do estabelecimento de um lugar único – a cidade de Viena – para o encontro de ministros
plenipotenciários, e diversos soberanos em pessoa, a fim de decidir os destinos da Europa e assinar
acordos e tratados, o que antes era feito quase que exclusivamente de modo bilateral por meio de
emissários. Era uma novidade sobretudo a escala da empreitada, que abarcava todo o continente
europeu e as colônias.
Afora os quatro grandes que tentaram excluir a França, representada por Tayllerand, havia
também as “potências menores”. A República de Gênova, Suécia, Portugal e Espanha eram as
principais. Tayllerand manobrou habilmente para institucionalizar uma coalizão com este grupo e
questionar os métodos e procedimentos impostos pelos quatro grandes. O fez de modo bem-
sucedido e acabou sendo, após algum tempo, incluído nas negociações das potências, o que evitou o
isolamento francês em Viena e na ordem que se seguiria.
Favorecia a reincorporação francesa à ordem de Viena a adesão generalizada ao que ficou
conhecido como o “princípio das legitimidades”, pelo qual os governos dos estados deveriam ser
restabelecidos às pessoas de seus legítimos monarcas ou descendentes. O legitimismo se torna
quase um sinônimo ideológico de Viena e, na prática, exime o Estado francês, restaurado sob Luís
XVIII, de responsabilidades sobre o que havia ocorrido sob o regime de Napoleão Bonaparte. O
legitimismo interessava significativamente à Tayllerand e contribuiu para a reincorporação da
França ao sistema de poder europeu. Uma vez conseguida esta reincorporação, Tayllerand passou a
desconsiderar a aliança com as “potências menores”.
A obra de Kissinger detalha os meandros do Congresso e permite perceber uma clara clivagem
entre a facção revisionista – Prússia e Rússia, representados pelo príncipe Hardenberg e pelo
próprio czar Alexandre I – e a facção defensora do status quo de Áustria e Reino Unido
representados por Klemens Von Metternich e o Visconde de Castlereagh. A aliança russo-prussiana,
militarmente mais dinâmica e que havia derrotado Napoleão em Leipzig, na prática controlava
quase toda a Europa central e demandava o reconhecimento da incorporação da Polônia pelos
Romanov – seria um reino unido à Rússia, cuja coroa seria entregue ao czar – e da Saxônia aos
Hohenzolern, que se tornaria parte da Prússia.
Este expansionismo não foi aceito pela aliança entre Áustria e Reino Unido. Os ingleses temiam
que uma Rússia muito poderosa pudesse substituir Napoleão como ameaça futura ao equilíbrio,
enquanto os austríacos temiam o expansionismo prussiano do ponto de vista do equilíbrio
germânico. Unidos pelo equilíbrio Castlereagh e Metternich se opuseram às pretensões do czar e
chegaram a assinar com os franceses uma aliança secreta que previa a guerra sobre a questão saxã-
polonesa no início de 1815. Pouco tempo depois, Napoleão Bonaparte fugiu de Elba para retomar
Paris. O Congresso imediatamente o declara fora da lei e forma a sétima coalizão antifrancesa para
derrotá-lo. Cada uma das quatro grandes potências oferece 150 mil homens que, quase 4 meses
depois, o derrotam em Waterloo.
O Congresso seguiu negociando ao longo do governo dos 100 dias (que na verdade duraram 111
dias) e, possivelmente por conta da fuga de Napoleão e da percepção sobre a necessidade de um
governo francês legítimo confiável e fortalecido, foi possível chegar a um acordo nas principais
controvérsias. O Reino da Saxônia foi mantido, mas perdeu 40% do seu território para os
Prussianos, que também incorporam a parte oriental da Polônia. O Ducado de Varsóvia, maior parte
da Polônia, é incorporado pela Rússia que também incorpora ao seu território a Finlândia que tinha
sido território sueco até 1809.
Dentre outras decisões do Congresso de Viena estão a condenação ao tráfico de escravos, a
liberdade de navegação dos rios internacionais europeus, sobretudo o Reno e o Danúbio, a perda
das colônias francesas, parte delas tomada pelos ingleses, a destituição da República de Gênova,
incorporada ao reino Sardo-piemontês, agora expandido com Nice e Savoia. A restauração do Rei
Fernando de Bourbon ao trono do Reino das Duas Sicílias, até então sob o comando do cunhado de
Napoleão Joaquim Murat, que perdeu o trono por apoiá-lo durante o governo dos 100 dias e declarar
guerra aos austríacos no que ficou conhecido como a Guerra Napolitana. Dentre os parentes de
Napoleão, apenas sua esposa, Maria Luisa de Habsburgo, filha do Imperador Austríaco, manteve o
ducado de Parma até sua morte. Os estados papais foram restaurados – a exceção de Avignon – e foi
criado o Reino Unido dos Países Baixos, compreendendo o que seria hoje Holanda, Bélgica e
Luxemburgo.
Para a região alemã, a maior consequência foi a criação da Confederação Germânica em
substituição ao Sacro Império. As mais de 360 unidades soberanas então existentes foram
agrupadas em 38 estados sob a presidência do Imperador Austríaco. Duraria até 1866, quando a
vitória prussiana sobre os austríacos levaria à criação da Confederação Germânica do Norte e à
exclusão da Áustria.
No Congresso os Austríacos assumem o controle direto do Norte da Itália, incorporando ao
Império a Lombardia e o Vêneto e nomeando duques austríacos para os ducados da parte ocidental
da Península. Também incorporam ou reincorporam uma miríade de territórios balcânicos que mais
tarde constituiriam a Iugoslávia, como as províncias da Ilíria e da Dalmácia.
Os franceses foram obrigados a abrir mão de suas conquistas territoriais entre 1795 e 1810 que
já tinham sido acertadas pelo tratado preliminar de Paris (1814) logo após a primeira derrota de
Napoleão para a Sexta coalizão. Apesar disso, há o entendimento de que a França, como potência
derrotada, não foi excessivamente punida, e graças à sua célere reincorporação ao sistema de
Estados Europeu evitou-se um revanchismo francês que poderia ter surgido como o revanchismo
alemão após a guerra de 1914-18. Nas décadas que se seguem, percebe-se a crescente proximidade
entre o governo de Paris e o do Reino Unido, no que ficaria conhecido como a “Primeira Entente”. O
governo francês, na primeira metade do século XIX, se esforçou para recuperar o prestígio e a
preeminência internacional que possuiu até 1815.
Para Portugal algumas questões discutidas no Congresso foram relevantes. A primeira delas, o
tráfico negreiro, foi considerada uma derrota. Dois anos depois seriam os portugueses obrigados a
assinar um novo tratado com o Reino Unido que declarava abolido o Tráfico acima do Equador. A
resistência silenciosa do governo de D. João VI, então residente no Rio de Janeiro, foi simplesmente
procrastinar o assunto, assinando tratados que não eram cumpridos. O status do Brasil, sede da
monarquia, também era motivo de controvérsia. Por sugestão de Tayllerand ao plenipotenciário
português o Conde de Palmela, o príncipe elevaria o Brasil a Reino Unido em 1815. Os
entendimentos com os franceses previam ainda a desocupação de Caiena, o que ocorreu em 1817, e
a desocupação espanhola de Olivença, praça forte na Península Ibérica tomada pelos espanhóis em
1801. Apesar de os direitos portugueses terem sido reconhecidos pelo Congresso em 1815, os
espanhóis não desocuparam Olivença e a controvérsia persiste até nossos dias. Salta aos olhos a
desimportância crescente do reino ibérico diante da principal colônia, o Brasil. Dos assuntos
tratados em Viena, apenas Olivença era assunto exclusivamente europeu. Os demais temas diziam
respeito ao Brasil.
Dentre as consequências de longo prazo do Congresso está o estabelecimento de um sistema de
Concertação europeu que convocava congressos ad hoc para a resolução de assuntos dos interesses
das principais potências, estabelecendo uma forma incipiente de governança global que foi a
precursora das instituições multilaterais do século XX, como a Liga das Nações e a Organização das
Nações Unidas. Procedimentos diplomáticos universalmente aceitos, como a lógica da precedência e
outras liturgias e cerimoniais, também encontram em Viena sua gênese, dado que foi o primeiro
grande encontro multilateral da época contemporânea.
Complementar ao sistema de Concerto Europeu está a criação da Santa Aliança, que mais tarde
agiria em coordenação com a quádrupla e a quíntupla aliança para a repressão de movimentos
sediciosos liberais na Europa restaurada. Tratavam-se de alianças militares reacionárias com o
intuito de manter o legitimismo e reprimir os constitucionalistas. Inicialmente, a Santa Aliança foi
criada por sugestão do czar russo Alexandre I, e congregava apenas Rússia, Prússia e Áustria. O
Reino Unido se recusa a participar apesar da anuência do rei Eduardo, também soberano de
Hanover. A incorporação da França na quádrupla Aliança, e mesmo do Reino Unido na quíntupla,
esconde aparentemente uma contradição, dado que os ingleses não concordavam com a política
repressiva da Santa Aliança e irão progressivamente se afastando dos meandros políticos
continentais. O Retorno de George Canning ao Foreign Office em 1822, em substituição à
Castlereagh que se suicidara, estabelece definitivamente este afastamento que passou para a
história sob o nome de Isolamento Esplêndido, após o Congresso de Verona.
Os principais encontros do chamado Concerto Europeu foram Aix-la-Chapelle (1818), Troppau
(1820), Laibach (1821) e Verona (1822). Tratavam de mobilizações pela manutenção do Antigo
Regime contra a ação dos carbonários italianos e dos levantes no norte e Sul da Itália, na Espanha e
na América, na maior parte dos casos autorizando o uso da força, ou delegando este uso a uma das
potências participantes, como foi o caso da França, que recebe autorização para intervir e reprimir
a revolução na Espanha. Aos poucos vai se percebendo que a unidade se fragmenta e as
controvérsias começam a surgir, sobretudo após o aparecimento da questão grega ao longo dos anos
de 1820. Também a Doutrina Monroe (1823) estadunidense evidenciava a total impopularidade das
potenciais ações da Santa Aliança para reprimir os movimentos de libertação na América que eram
do interesse direto do Reino Unido, e contribuíram para que George Canning se dissociasse dos
parceiros continentais.
A eclosão das revoluções liberais nos anos de 1820 e 1830 na Itália, Polônia, Espanha, América,
Holanda, Grécia e mesmo na França era explícita dos limites da Restauração na Era das Revoluções.
Com o advento da primavera dos povos em 1848, a queda de Metternich e a Guerra da Crimeia na
década seguinte, concluía-se a experiência reacionária e tinha fim o “Sistema de Metternich”.
5
AS REVOLUÇÕES LIBERAIS

Após o Congresso de Viena e a tentativa de Restauração do Antigo Regime, o ano de 1815 é


marcado pelo retorno – ainda que provisório – das monarquias retiradas do poder por Napoleão
Bonaparte, e o liberalismo, associado naquele momento às guerras napoleônicas, é alijado dos
centros políticos europeus. Contudo, as ideias liberais defendidas pela burguesia sobreviviam e o
nacionalismo – desejado em especial por povos submetidos à nova ordem europeia –, a partir de
1820, abalaria o Equilíbrio Europeu.
As “Ondas Revolucionárias” da primeira metade do século XIX, de diferentes formas, resultaram
em uma nova concepção organizacional da política, a partir da segunda metade daquele século. Seja
por meio da imposição de uma constituição aos monarcas, mediante a criação de novos países, ou
mesmo pela implementação de repúblicas, a ordem de Metternich entra em decadência, assinalada
em 1848 com uma cisão marcante dentro do Terceiro Estado.
Sobre os principais movimentos, algumas análises devem ser elaboradas:
1820
Grécia: A Revolução Grega, sob inspiração nacionalista, tinha como principal objetivo a
independência diante do Império Turco-Otomano. Longevos e desgastados, os otomanos
enfrentavam resistência maior na Grécia diante das demais regiões e não foi surpresa ser esta a
primeira grande revolta contra o império multiétnico construído a partir do século XIV.
Tal movimento chama atenção no contexto do regresso, pois os revolucionários, que declararam o
início da luta na Praça de Agios Georgios em Pátras, receberam apoio de potências estrangeiras. Tal
ajuda veio também do Império Russo, aparentemente uma contradição, uma vez que o czar
Alexandre I foi o idealizador da Santa Aliança, órgão responsável por impedir possíveis revoluções
nacionalistas/liberais. Os britânicos, preocupados com uma possível projeção russa em direção ao
“mar quente”, também intervieram no processo grego, tentando neutralizar a influência russa. O
ponto final da revolução foi a assinatura do Tratado de Constantinopla ao final da Conferência de
Londres, em 1932, que resultou na construção de um novo país.
Espanha: Fernando VII, utilizando-se do direito de legitimidade consagrado em Viena, retorna ao
poder na Espanha após a queda de José Bonaparte. Mas, ao contrário de Luís XVIII, que aceita uma
constituição ciente que deveria negociar com os liberais franceses, o rei Bourbons promove a
chamada “restauração radical” em seu país, rearticulando o absolutismo espanhol como cópia fiel do
passado. Utilizando-se da força contra aqueles que se opunham a tal condição, é interessante
perceber que a Revolução de Cádiz é protagonizada justamente por tropas que deveriam atravessar
o Atlântico para reprimir os anseios emancipacionistas dos criollos americanos.
Desejando a restauração da Constituição Liberal de 1812, apelidada de “La Pepa”, os setores
liberais da Espanha lutaram não somente contra as forças de Fernando VII, mas também com tropas
francesas que foram incitadas pelas russos para auxiliar a restauração na Espanha. Temendo que tal
intervenção chegasse na América, Georges Canning inicia conversações com o representante
francês em Londres, o príncipe Jules de Polignac, quando estes elaboraram um memorando
(Memorando de Polignac – outubro de 1823) em que as duas nações reconhecem não haver
esperanças de restauração do colonialismo espanhol no Novo Mundo. Em solo europeu a
intervenção francesa foi bem-sucedida, garantindo o irmão de Carlota Joaquina como rei da Espanha
até a sua morte, em 1833.
Portugal: A transmigração da corte portuguesa para o Brasil mas, principalmente, a manutenção
desta na antiga colônia, mesmo depois da derrota bonapartista na Europa, é o pano de fundo
principal dos movimentos liberais portugueses. Desde 1815, como Reino Unido a Portugal e Algarve,
o Brasil realizava comércio diretamente com a Grã-Bretanha – a partir da abertura dos portos, em
1808 – prejudicando os interesses comerciais da burguesia lusitana, que se aproveita da sensação
de abandono forte entre os populares, para articular movimentos sediciosos.
O primeiro destes, a Conspiração de Gomes Freire de Andrade (1817), foi prontamente reprimida
pelo regente britânico que estava à frente do governo português, Lord Beresford. Após sufocar o
movimento de ideologia republicana, com ampla participação da maçonaria, o britânico viaja até o
Rio de Janeiro para negociar com D. João VI o aumento de seus poderes, uma vez que a crescente
insatisfação colocava em xeque sua administração.
Ao retornar a Portugal com seu pedido atendido, o regente não consegue desembarcar. No Porto,
a burguesia lusitana estava à frente de uma Revolução Liberal (1820), que defendia o regresso
imediato da corte para Lisboa, a constitucionalização e a recolonização do Brasil. Em solo brasileiro,
D. João VI percebia a fragilidade de sua posição e, por isso, opta por jurar a constituição ainda no
Rio de Janeiro. Assim, as Cortes Portuguesas (Assembleia Constituinte) iniciam seus controversos
trabalhos, tendo o príncipe herdeiro como líder e promulgando a primeira Constituição portuguesa
em 1822.
De caráter liberal, o texto constitucional apresentava como principais pontos as liberdades
individuais, a tripartição dos poderes e o fim dos privilégios do clero e da nobreza. A reação dos
conservadores não tardou. Liderados por D. Miguel que, por sua vez, contava com o apoio de
Carlota Joaquina, tentaram por duas vezes impedir a consolidação do liberalismo, com a Revolta de
Vilafrancada (1823) e a Abrilada (1824). Diante desse quadro, D. João VI suspende a Constituição de
1822, alegando a necessidade de conter a radicalização política no reino; acaba falencendo antes de
substituí-la.
Herdeiro do trono, D. Pedro I abdica em favor de sua filha, D. Maria da Glória, que, ao
desembarcar em Portugal, traz consigo a Carta Constitucional de 1826. Inspirada na Carta
Outorgada brasileira de 1824, o texto traz como principal novidade o Poder Moderador, embora
mantivesse em suas principais bases o liberalismo. Nem mesmo o maior autoritarismo desta carta
arrefeceu os ânimos dos miguelistas, defensores da tese de que o direito de hereditariedade de D.
Pedro I sobre o trono português caducou quando este assumiu o trono brasileiro, tornando-se assim
D. Miguel o legítimo rei de Portugal. A Guerra Civil, que a partir de 1831 contou com a presença de
D. Pedro I – que abdicara do trono brasileiro –, tem seu fim com a vitória dos liberais e a assinatura
da Convenção de Évora-Monte, em 1834.
1830
Bélgica: Desde 1815 fazendo parte do Reino dos Países Baixos, a Bélgica busca sua autonomia por
meio de um movimento insurgente em 1830. Os atritos possuíam motivações econômicas, uma vez
que os belgas desejavam o protecionismo para as suas nascentes indústrias, enquanto os
comerciantes holandeses defendiam o livre comércio; além disso, questões culturais também
estavam presentes, em especial no que diz respeito à religião, uma vez que a Bélgica era católica e a
Holanda, protestante.
A independência da Bélgica contou com o apoio da Inglaterra e da França, que assinam o Tratado
de Neutralidade Perpétua com os belgas, violado somente após o início da Primeira Guerra Mundial,
em 1914.
França: A restauração francesa iniciada por Luís XVIII em 1814 foi marcada por uma conciliação
entre setores progressistas – derrotados com a prisão de Napoleão – e os absolutistas, sendo a
Constituição de 1814 um símbolo destes novos tempos pós-Revolução Francesa. A participação no
Congresso de Viena (1814-1815) e a intervenção já mencionada na Espanha (1823) são exemplos da
tentativa francesa de reconquistar o prestígio perdido com as derrotas militares de Bonaparte.
A lenta reconstrução da França, porém, foi desestabilizada com a chegada de Carlos X ao trono.
Seu projeto de restauração do Antigo Regime clássico mobiliza novamente os populares e dá nova
vida ao liberalismo francês. Nem mesmo o aumento do império colonial francês com a conquista da
Argélia foi capaz de salvar o seu governo, abreviado com a Revolução de Julho (também conhecida
como “Os Três Gloriosos”), que colocou no poder Luís Filipe, chamado de “o rei burguês”.
1848
Até 1848, as principais análises afirmam que o Terceiro Estado estaria unido para derrubar os
governos absolutistas e os privilégios do clero e da nobreza. Porém, gradualmente, os novos
governos com participação burguesa adotaram medidas que beneficiavam esta classe em detrimento
do restante da população, ficando claro que interesses díspares separavam burguesia e proletariado.
Era a cisão do Terceiro Estado, denunciada por Karl Marx e Friedrich Engels em seu Manifesto
Comunista, publicado no mesmo ano.
O espírito democrático das revoluções de 1848, chamada de Primavera dos Povos, chegou a
diversos pontos da Europa. Em Viena, Budapeste, Frankfurt e diversas outras regiões do continente
europeu a terceira onda revolucionária do século XIX mesclava nacionalismo e liberalismo com
certas doses de socialismo utópico para incrementar o caráter popular de alguns destes
movimentos. Temas como voto universal, igualdade social e direitos econômicos e políticos
marcaram a polarização social entre burgueses – a partir de então colocando-se entre as parcelas
conservadoras da sociedade – e o proletariado urbano/rural em busca do poder.
Portugal: Duas revoltas populares antecipam a “Primavera dos Povos” em Portugal. A Revolta de
Maria da Fonte (1846) e as Revoltas Populares da Patuleia (1846-1847) seriam demonstrações de
insatisfação das classes populares em relação ao aumento dos impostos, deixando em voga todo o
ódio contra as autoridades monárquicas. Não há projeto político alternativo, mas as revoltas
chamam atenção pelo alto grau de violência e pela participação das mulheres como protagonistas
em diversos episódios.
Inglaterra: Antes mesmo do ano de 1848, revoluções sociais na Inglaterra e, como mencionado
acima, em Portugal prenunciavam a cisão do Terceiro Estamento. Na Inglaterra, depois da intensa
repressão sobre o proletariado ludista, os trabalhadores reúnem-se em torno da Associação dos
Operários que, em 1838, lançou as chamadas Cartas do Povo, contendo uma lista de reivindicações,
tais como: eleição anual, igualdade de direitos eleitorais, sufrágio universal e secreto, além de
remuneração para os parlamentares, no intuito de que representantes do povo tivessem condições
de participar da política. Com milhões de assinaturas, as Cartas do Povo apresentadas ao
Parlamento britânico exigiam também a aprovação das primeiras regulamentações nas relações
trabalhistas. Leis que versavam sobre o trabalho feminino e infantil e sobre a jornada de trabalho de
dez horas são vistas como vitórias deste movimento.
França: Em território francês, a insatisfação dos trabalhadores, parcialmente contida após a
chegada de Luís Filipe I ao poder, retorna com mais força em 1848. Grupos de oposição à monarquia
parlamentar instalada em 1830 estimularam os trabalhadores a exigirem as reformas econômicas e
políticas que não vieram com “Os Três Gloriosos”, reunindo-se em dois principais grupos: os
socialistas, que pregavam a abolição da propriedade privada, e os republicanos-democratas, que
defendiam a maior participação popular por meio do sufrágio universal.
As barricadas retornaram às ruas de Paris em fevereiro, reunindo setores populares sem um
programa político definido, mas com imensa disposição para derrubar Luís Filipe I. O monarca
oferece reformas sociais a fim de abrir negociação com os setores insurgentes, mas a manobra não
obtém resultados, pois os revoltosos controlavam os arsenais e contavam com o apoio de
significativos contingentes das tropas reais. O auge do movimento ocorreu quando, na manhã do dia
24 de fevereiro, o rei foi vaiado ao inspecionar as tropas. Isolado, o rei acaba por abdicar na tarde
do mesmo dia, sendo proclamada a República e dissolvido o Parlamento da Monarquia de Julho.
Iniciada, a Segunda República francesa, ainda em seu governo provisório, estabelece o voto
universal (ampliando a franquia eleitoral de 240 mil para 9 milhões de franceses), a liberdade de
imprensa, o fim da pena de morte por motivos políticos, a definitiva abolição da escravidão nas
colônias francesas e a delimitação da jornada de trabalho em 10 horas diárias, seguindo o exemplo
da Grã-Bretanha. A fim de evitar maior radicalização social, a burguesia moderada aceita integrar
este novo governo, tendo ainda a pequena burguesia e os socialistas assentos no governo.
Alemanha: Desde 1815 a região da atual Alemanha integrava a Confederação Germânica, que
reunia 39 Estados sob a hegemonia política do Império Austríaco e predomínio econômico da
Prússia. Tal situação gerava incômodo em setores importantes da área, especialmente entre as
camadas médias urbanas, a burguesia e os intelectuais prussianos, que afastavam os nobres
latifundiários também descontentes pela viés radical de seus discursos em prol da unificação.
Na visão da burguesia prussiana, a fragmentação política era um obstáculo para o seu
crescimento pois prejudicava seus negócios, uma vez que existiam diferentes moedas e tarifas
alfandegárias naquela região que, por séculos, fez parte do Sacro-Império Romano-Germânico. Com
o objetivo de superar parcialmente este problema, os prussianos organizaram uma união aduaneira
entre os estados germânicos da região em 1834. O chamado Zollverein inicialmente excluía a
Áustria, mas, com os benefícios comerciais gerados pela liberdade alfandegária e as facilidades
maiores no processo de industrialização, este absorve não só os austríacos mas também Estados da
região noroeste, no final dos anos 1840.
Neste contexto de progressiva união econômica, a região acaba também atingida pelas ondas
revolucionárias de 1848. Sob as influências ideológicas do liberalismo, os prussianos buscavam a
unificação política. Reivindicando maior representação popular na Dieta, pequena e média
burguesia se uniram aos trabalhadores (insatisfeitos com o aumento dos preços alimentícios devido
às safras ruins daquele ano) elaborando um movimento que exigia transformações do rei Frederico
Guilherme IV. Comícios, manifestações e barricadas tomaram conta das principais ruas da Prússia
sob a bandeira preta, amarela e vermelha, que simbolizava a Alemanha unida.
De início o monarca procurou se afastar dos massacres e atendeu parcialmente às reivindicações,
buscando identificação com o projeto nacional e aceitando a elaboração de uma constituição em
1849. O principal órgão político oriundo de tal mobilização, o Parlamento de Frankfurt (1848-1850),
teve curta atuação, uma vez que a nobreza latifundiária alemã (junkers) aceitava o projeto nacional,
mas rechaçava o caráter liberal defendido em 1848. O Parlamento acaba sendo dissolvido e
Frederico Guilherme IV não aceita a constituição, adiando por vinte e um anos o sonho de ver uma
Alemanha unida.
6
UNIFICAÇÕES TARDIAS

6.1. ITÁLIA (RISORGIMENTO)


A unificação italiana, sonho de Maquiavel e muitos outros desde o Renascimento, é conhecida
pelos italianos como Il Risorgimento, graças ao periódico unificacionista piemontês que levava esse
nome e cujo editor-proprietário era o Duque de Cavour. Sua origem política remonta às guerras
napoleônicas que reorganizaram completamente a Península Itálica criando reinos novos, como o
Reino da Itália governado por seu irmão José, mais tarde nomeado rei da Espanha. Foram
promovidas reformas liberais e revogados os direitos feudais que com o Congresso de Viena em
1815 foram restaurados.
A situação da Itália convulsionada pelos conflitos do liberalismo sob regimes absolutistas é plena
de contradições e retratada de modo brilhante e envolvente no famoso romance de Stendhal A
Cartuxa de Parma que se passa no principado de Parma, um dos muitos ducados tampões – como
Módena, Lombardia e Toscana – colocados sob a hegemonia austríaca entre os Estados Pontifícios e
a França. Ao sul dos Estados Pontifícios que controlavam o centro da península no entorno a Roma
estava o Reino das Duas Sicílias, cuja dinastia era um ramo dos Bourbon espanhóis.
A única dinastia italiana era os Savoia no norte, responsáveis pelos reinos do Piemonte e de
Sardenha, unificados por Carlos Alberto em 1847. Tinham sido os primeiros a enfrentar as invasões
napoleônicas e pela proximidade com os franceses era também ali que se concentrava a vanguarda
liberal atuante nas camadas médias, burguesas e no jornalismo. Estes indivíduos defendiam o
constitucionalismo liberal e a unificação como bandeira única. Organizavam-se em sociedades
secretas que se espalharam pelo norte da Itália durante o rescaldo napoleônico.
Outra alternativa de unificação era o neoguelfismo, que enxergava no papa um potencial
elemento de unificação, dada a escassez de príncipes italianos autóctones que, com o advento do
nacionalismo seria essencial para a promoção da coesão do novo Estado que se pretendia criar. Com
a eleição em 1846 de Pio IX, considerado um liberal, o neoguelfismo ganhou força e passou a contar
com a adesão de muitos liberais que acreditavam numa monarquia constitucional possível sob a
liderança temporal do Papa.
Uma síntese desta primeira fase da unificação italiana seria, portanto, perceber três correntes
políticas. A corrente hegemônica, reacionária, absolutista, que controlava toda a península.
Impopulares, tais soberanos eram garantidos pelos austríacos que controlavam diretamente o
nordeste do país e indiretamente os arquiducados do centro-oeste da península. A corrente
neoguelfista, que via no papa uma alternativa de unificação, apesar do próprio pontificado ser uma
instituição conservadora. E, finalmente, a corrente liberal, herdeira da Revolução Francesa e das
reformas liberais napoleônicas que se organizavam em sociedades secretas como os carbonários.
Por serem secretas as “vendas” dos carbonários não faziam propaganda de suas atividades e,
portanto, tinham dificuldades para mobilização popular, essencial para a vitória revolucionária. Tais
contradições evidenciam perfeitamente as ambiguidades do discurso liberal burguês que se por um
lado queria destruir o absolutismo, por outro, tinha interesse em evitar ampla mobilização popular
que pudesse resultar em jacobinismo e radicalizações. Temiam igualmente a repressão austríaca e,
por isso, precisavam da legitimidade que seria conferida por um príncipe, que se dispusesse a
aceitar uma constituição. Uma alternativa era Carlos Alberto do Piemonte-Sardenha, outra
alternativa era o papa Pio IX. Ambas se provaram falsas promessas em 1848.
Dissidente dos carbonários, Giuseppe Mazzini parte para a mobilização popular com a fundação
do movimento “Jovem Itália”, em 1831, defendido em um jornal de mesmo nome, que rapidamente
se espalha por toda a península. Preso e exilado, Mazzini exporta o modelo para outras regiões –
Jovem França, Jovem Alemanha – e sua ação em defesa do liberalismo, do progresso e da unificação
favorece a mobilização pela causa. Torna-se o grande pioneiro e patrono intelectual do
Risorgimento.
O ano de 1848 encerraria essa fase e inauguraria uma nova etapa no processo de unificação
italiano. O rei Carlos Alberto, católico, largamente influenciado pelo papa Pio IX, recém-eleito, que
já havia sido regente no reinado de Carlos Félix e dera mostras de ambiguidade política, faz
promulgar em 1848 o Estatuto Fundamental, uma carta constitucional largamente embasada na
constituição francesa de 1830. Decide ainda, influenciado pela opinião pública e por Cavour,
declarar guerra à Áustria, no que, apesar dos sucessos iniciais, é fragorosamente derrotado, sendo
forçado a abdicar do trono em 1849 em favor de seu filho Vittorio Emmanuel. Foi acusado
frequentemente de pouco sincero em suas medidas liberais – apoiou o carlismo espanhol e o
miguelismo português na península ibérica, ambos movimentos absolutistas – e várias vezes voltou
atrás em decisões políticas, o que lhe valeu o apelido de “O Hamlet Italiano”. Morreu exilado em
Portugal meses depois.
O próprio papa declarou em Abril de 1848 que não concordava com a guerra entre o Piemonte e
não era candidato a liderar uma unificação acabando com as esperanças dos guelfos. O papado de
Pio IX foi considerado liberal, logo após sua eleição. Ele promoveu uma série de reformas nos
Estados Pontifícios, construiu ferrovias, incentivou a modernização agrícola, cancelou a
obrigatoriedade de judeus frequentarem missas e concedeu imediata anistia a todos os presos
políticos dos Estados Pontifícios, sendo considerado um governante modelo, e celebrado em todo o
mundo por liberais. Sua incrível popularidade durou vinte meses. Até a eclosão da “Primavera dos
Povos” parecia que o novo papa era de fato uma alternativa liberal de unificação da Itália. Uma vez
que eclodiu a chamada República Romana em 1849, no entanto, a posição liberal de Pio IX
desaparece. Liderada por Giuseppe Mazzini e os liberais romanos foi estabelecida a República
Romana em fevereiro de 1849 declarando liberdade religiosa nos Estados Pontifícios e promulgando
uma constituição Liberal. O papa é obrigado a fugir e só é restaurado ao poder após as tropas do
então presidente Luiz Bonaparte derrotarem as forças de Giuseppe Garibaldi, em junho deste
mesmo ano.
As revoluções na península itálica de 1848-49 foram derrotadas com a mobilização de tropas
estrangeiras, austríacas e inclusive francesas, em tese uma república liberal governada por um
presidente descendente familiar e politicamente de Napoleão. Seu eleitorado era conservador,
católico em um país rural, fortemente influenciado pelo clero, pesava em sua política externa, e sem
seu auxílio, o poder temporal do papa teria sido extinto em 1849 e não apenas em 1870. Ainda que a
Revolução e a esperança de unificação tenham ganhado enorme popularidade após 1848-9, ainda
seria necessário aguardar mais de uma década para novamente mobilizar as forças necessárias para
a empreitada.
Uma vez reinstituído no poder em 1850 – apenas depois de ter garantida a não ingerência
francesa nos assuntos temporais dos Estados Pontifícios –, Pio IX vai se mostrar o mais conservador
dos pontífices revogando muitas de suas medidas anteriormente liberais. O exemplo mais notório é a
relação com o judaísmo, única religião afora o catolicismo autorizada nos Estados Pontifícios. O
gueto judaico é reinstituído e o papa chega a ponto de mandar sequestrar uma jovem criança judia –
Edgardo Montara – que teria sido batizada secretamente como católica por uma empregada católica
que temia que a criança, gravemente doente, morresse sem batismo. As leis proibiam crianças
católicas de serem criadas por pais judeus, ainda que fossem seus pais naturais, e o papa, apesar
dos apelos internacionais e da campanha pela devolução do jovem Montara, adotou-o e mais tarde
ordenou-o sacerdote. Pio IX se torna o bastião mais conservador do absolutismo monárquico na
Península Itálica.
O sucessor de Carlos Alberto, seu filho Vittorio Emmanuel, foi, ao contrário de seu pai, capaz de
conquistar o respeito e a confiança dos liberais da Sardenha e se tornar o candidato mais viável da
península a comandar a unificação. Respeitou a constituição recém-instituída e nomeou Camilo
Cavour para primeiro ministro. Estabeleceu um modus vivendi com os grupos liberais e com os
austríacos ao mesmo tempo que reprimia rebeliões radicais em Gênova. De certo modo, é com
Vittorio Emmanuel que a unificação ganha dínamo graças à unificação do grupos Dinásticos que
viam nos Savoia uma alternativa de manutenção da monarquia aristocrática e o afastamento do
perigo jacobino e dos liberais que viam no novo rei da Sardenha um príncipe que aceitava a
monarquia constitucional.
A viabilidade da unificação dependia, no entanto, da vitória militar sobre os austríacos no norte,
os Bourbon no Sul e a submissão ou anuência do papa na região central, o que se tornou possível,
em menos de dois anos, graças à aliança com os franceses. Após a participação bem-sucedida do
reino Sardo-Piemontês na Guerra da Crimeia que granjeou a Vittorio Emmanuel a simpatia do,
agora, Imperador dos franceses, Napoleão III. Em troca da cessão dos ducados de Nice e Savoia,
Napoleão daria apoio militar aos piemonteses na luta contra os austríacos na retomada da
Lombardia e do Vêneto. A campanha franco-piemontesa se iniciou em 1869 e, após idas e vindas – os
austríacos concordam em se retirar apenas da Lombardia, mas não do Vêneto, o que motivou a
demissão, provisória, de Cavour e a ruptura da promessa com os franceses – foi assinado o tratado
de Turim. Semanas depois as tropas piemontesas partiram para a incorporação dos Estados
Pontifícios e derrotaram as tropas do papa em Castelfidardo, obrigando Pio IX a se recolher no
Vaticano de onde ele excomunga o rei do Piemonte.
Ao mesmo tempo Giuseppe Garibaldi, partindo do norte, lança uma expedição de voluntários que
desembarca na Sicília e inicia uma campanha para conquistar Palermo. “Os Mil” de Garibaldi
rapidamente ganham a adesão dos liberais meridionais e inclusive de alguns aristocratas que
aderem na esperança de moderar o processo revolucionário. As complexas tramas políticas da
conquista da Sicília sob o Risorgimento aparecem deliciosamente retratadas no romance Il
Gattopardo do príncipe de Lampedusa, que se inspira em seus ancestrais para retratar o príncipe de
Salina e a lenta e gradual decadência da aristocracia tentando sobreviver em tempos de agitação
liberal. Com a vitória de Garibaldi e a entrega do comando da Itália meridional a Vittorio Emmanuel,
este é proclamado, em Março de 1861, Rei da Itália, reino recém-criado.
Faltavam, ainda sob o controle austríaco, o Vêneto, o Trentino no noroeste da península e a cidade
de Roma, sob a proteção de Napoleão III, que, apesar de ter recebido Nice e Savoia, não podia abrir
mão do apoio ao pontífice romano por razões de política interna francesa. O Vêneto foi conquistado
graças à hábil aliança entre a Itália e a Prússia na guerra austro-prussiana de 1866. Apesar de
derrotados, os italianos se beneficiaram da rápida e eficaz vitória de Bismarck contra os austríacos,
e com isso conquistaram o Vêneto. Em Setembro de 1870, novamente em meio a uma guerra
prussiana, desta vez contra a França que se viu forçada a retirar as tropas de apoio ao papa,
Giuseppe Garibaldi foi finalmente capaz de incorporar Roma ao reino da Itália após duas tentativas
fracassadas em 1862 e 1867. Roma torna-se enfim capital do reino da Itália em julho de 1871.
Uma síntese do processo do Risorgimento denota dois momentos políticos distintos. O primeiro,
da derrota de Napoleão até a Primavera dos Povos, foi uma lenta rearticulação dos grupos liberais
sob a hegemonia legitimista do absolutismo defendido por Viena. Fracassaram as tentativas de
viabilizar a unificação por estarem divididas as correntes que assim o desejavam. Absolutistas não
aceitavam o apoio dos liberais e os reprimiam, ou adotavam posturas ambíguas como o rei do
Piemonte Carlos Alberto (1831-1848). Os liberais por sua vez se organizavam sobretudo em
sociedades secretas, tendo dificuldades de mobilizar o apoio popular. O amadurecimento da luta se
dá a partir de 1831, com a criação de publicização da Jovem Itália graças ao protagonismo de
Giuseppe Mazzini, dissidente dos carbonários. Por último, havia inclusive grupos – os neoguelfos –
que viam no papa um candidato viável para a unificação da Itália sob uma monarquia constitucional.
A simpatia de Vittorio Emmanuel pelo recém-eleito Pio IX em 1846, fez brotar uma efêmera
esperança para o guelfismo, desautorizado pelo próprio papa em abril de 1848. Percebe-se a
completa desarticulação das forças pró-unificação.
A situação muda estruturalmente depois das Revoluções Liberais de 1848-49 que atingiram
profundamente à Itália, iniciando o segundo e último momento da Unificação. No norte a derrota de
Carlos Alberto para os austríacos na primeira guerra de unificação italiana (1848) leva à sua
abdicação e seu sucessor, Vittorio Emmanuel, com a ajuda de seus ministros Massimo D’Azeglio e,
sobretudo, Camilo de Cavour galvanizou o apoio dos liberais para viabilizar a unificação ainda que
sob o modelo conservador de uma monarquia constitucional. Ao Sul, a derrota da efêmera República
Romana de Mazzini por tropas francesas em 1849 evidencia a fragilidade do papado e transforma
Pio IX em um reacionário antiliberal. Tropas francesas serão necessárias para garantir a defesa de
Roma por mais duas décadas.
As mesmas tropas francesas de Napoleão III se aliam, em troca de Nice e Savoia, contra os
austríacos, em 1859, e viabilizam uma meia vitória ao Piemonte, que consegue de Viena a cessão da
Lombardia em 1860. Em pouco tempo são tomados também os Estados pontifícios – exceto Roma – e
o Reino das Duas Sicílias, graças à expedição dos “Mil” de Garibaldi, que destronaram os Bourbon
de Palermo. Unificava-se a Itália em 1861. A conjuntura de Unificação alemã da década de 1860
beneficiaria por duas vezes a conclusão do Risorgimento. Em 1866, na tomada do Vêneto no
contexto da guerra Austro-prussiana, e em 1870, na retirada das tropas francesas que foram lutar
na Guerra Franco-prussiana, permitindo, finalmente, a tomada de Roma por Garibaldi.
No plano cultural a frase “fizemos a Itália agora precisamos fazer os italianos”, dita por Massimo
D’Azeglio, retrata bem a realidade de um estado fragmentado linguística e culturalmente em uma
miríade de subregiões cada qual com seu dialeto e história definidos e que tiveram que ser
homogeneizados por meio da ação cultural e educacional do Estado que estimulou o uso da língua
italiana e reprimiu o uso dos dialetos. O processo de homogeneização cultural durou décadas e
ainda hoje não é completo.
Do ponto de vista socioeconômico é perceptível a disparidade entre o norte e o sul da península.
Em termos de desenvolvimento do capitalismo, modernização, infraestrutura e industrialização o sul
da Itália permaneceu análogo ao que foi por muitas décadas o nordeste brasileiro, atrasado, agrário,
miserável, sob o controle de grandes senhores latifundiários que exploravam seus trabalhadores
como retratado nos filmes do realismo italiano do pós-guerra, sobretudo no cinema social de
Visconti e Rosselini. A hegemonia da máfia siciliana, que atraiu a atenção internacional para o
problema – surgida no sul da Itália e depois irradiada para todo o país até Milão –, depois dos
sucessos literários de Mario Puzzo filmados por Coppola em O poderoso Chefão, protagonizou
frequentes episódios de assassinato de autoridades e a necessidade de virtual reconstrução do país
nos anos de 1990, sob a operação “mãos limpas”. Altera-se a correlação das forças políticas no país
enfraquecendo os partidos tradicionais como os Socialistas e a Democracia Cristã.
Algumas consequências políticas são inescapáveis ao processo do Risorgimento e essenciais para
a compreensão posterior da história italiana: A questão romana (1861-1829) e o Irredentismo, que
duraria até depois da Primeira Guerra Mundial.
A questão romana é o nome das controvérsias territoriais sob a soberania dos Estados pontifícios,
que envolveram a Santa Sé e o reino da Itália. Subsistiu sob os pontificados de Leão XIII, Pio X,
Bento XV, e Pio XI, que se consideravam prisioneiros da Itália em Roma, criando grandes
dificuldades para um Estado cuja maior parte da população era católica, proibida pelo papa de
participar da vida política italiana, inclusive por meio do voto (non expedit). Foi solucionada pelo
Tratado de Latrão (1929), já sob o governo fascista de Benito Mussolini). O tratado indenizou a
Santa Sé pela perda dos territórios e criou o Estado do Vaticano soberano dentro da cidade de Roma
na tentativa de cooptar os setores conservadores da sociedade italiana, dos quais o catolicismo era o
mais forte.
O Irredentismo é o nome dado ao movimento popular pela incorporação das zonas cultural ou
linguisticamente italianas que ainda não tinham sido incorporadas ao reino da Itália após 1870. O
Trentino e a Venézia Giulia, além da cidade croata do Fiume (Rjeka, em croata), que conta com
maioria ítalo-falante. Para não envenenar as relações com a Áustria, os sucessivos governos da
monarquia italiana não estimularam o irredentismo nas três últimas décadas do século XIX, apesar
de as medidas crescentemente nacionalistas do ponto de vista sociocultural acabarem favorecendo a
popularidade da causa. No início do século XX, no entanto, os irredentistas, que se viam como
herdeiros de Mazzini, passaram a defender crescentemente a mobilização militar e a causa acabou
assumida pela extrema direita italiana, que foi o grupo mais mobilizado a favor da entrada da Itália
na Primeira Guerra Mundial (1914-18). A derrota austríaca na guerra tornou o Trentino província
autônoma do Reino da Itália mas não arrefeceu os ânimos dos irredentistas, entre os quais o poeta
nacionalista Gabrielle D’Annunzio, que reuniu voluntários e invadiu em 1919 a cidade de Fiume,
cujo status estava ainda sob definição da Conferência de Paris. O Fiume tornou-se estado livre e
independente, e D’Annunzio, que se recusou a aceitar o acordo, foi expulso com suas tropas em
1920, mas se tornou extremamente popular na Itália, tornando-se figura próxima do fascismo, que
assumiu sua causa e decidiu pela incorporação à Itália do Estado livre do Fiume em 1924. Com a 2ª
Guerra Mundial, a região tornou-se parte da Iugoslávia e hoje é território croata.
6.2. ALEMANHA
6.2.1. Introdução
A ideia de realização do processo de unificação são anteriores ao século XIX na Alemanha. Mas
certamente em muito influenciaram este processo as convulsões políticas e sociais atravessadas
pela Europa desde o início de tal século.
Herdeiro direto da Revolução Francesa, Napoleão Bonaparte (Napoleão I) justificava seu
expansionismo na difusão dos ideais de “igualdade, liberdade e fraternidade”. Assim, diversas partes
do continente estavam sob seu domínio no início do século, destacando-se a região da atual
Alemanha. Nesta, Napoleão acabara com o principal resquício de medievalismo na Europa, o Sacro
Império Romano-Germânico, substituindo tal organização pela Confederação do Reno.
Uma vez derrotado Napoleão, seus vencedores, reunidos em Viena, veem no fim do Sacro Império
uma forma de organizar politicamente a instável região, criando assim a Confederação Germânica,
já mencionada em outros capítulos desta obra. Com seus trinta e nove Estados componentes, esta
foi por décadas peça de fundamental importância no Equilíbrio Europeu.
6.2.2. Origens
Desde as campanhas napoleônicas destacava-se a força da Prússia, que passara pelo processo
reformador ilustrado no século XVIII e, já no início do século XIX, buscava aumentar a sua influência
sobre a região do Sacro-Império. Em 1815, prevaleceu a tese de Metternich do Equilíbrio, mas a
projeção econômica do Estado, governado pelos Hohenzollern (com grandes reservas de carvão e
quilômetros de malha ferroviária), auxilia em seus intentos expansionistas.
Considerado o primeiro passo para a unificação, a criação da liga aduaneira chamada de
Zollverein aboliu as tarifas de importação entre os diversos Estados germânicos, embora não
incluísse, até a década de 1840, a Áustria dos Habsburgo.
A “Primavera dos Povos” na região da Confederação Germânica teve como principal objetivo a
unificação; porém, naquele momento, não havia interesses em comum entre os grandes
proprietários de terras, que temiam a radicalização do movimento, e os liberais, que estavam à
frente das manifestações; o isolamento dos liberais neste contexto leva ao fim da “Primavera”.
6.2.3. Bismarck
Otto Von Bismarck ganha projeção na política alemã quando é designado pelo rei Guilherme I
(1861-1888) para ser o representante prussiano na Dieta de Frankfurt, o principal órgão político da
Confederação Germânica. Em Frankfurt, o proprietário de terras de Schönhausen destaca-se por
suas ideias conservadoras e antiaustríacas.
Após esta experiência, que segundo o próprio Bismarck foi fundamental na sua formação política,
tornou-se embaixador, com atuação destacada em São Petesburgo e Paris. Mesmo atuando no
exterior, nas visitas à Prussia não deixava de expressar suas opiniões em temas polêmicos na
política. Quando propôs, no Memorial de Baden Baden, a criação do parlamento do Zollverein sem a
participação da Áustria, atraiu a simpatia dos nacionalistas e a desconfiança de Guilherme I.
Em meio à crise entre Guilherme I e o Reichstag, uma vez que o monarca desejava investir no
exército enquanto a assembleia se opunha a tal medida, Bismarck é indicado para o cargo de
primeiro-ministro em 1862. Com ele, a supremacia junker e o militarismo são ressaltados e há uma
significativa melhora nas relações entre os poderes após diversas crises institucionais.
Já no início da década de 1860, Bismarck procurava esvaziar um possível fortalecimento da
Áustria, impedindo a reforma da Dieta de Frankfurt e a criação de um Congresso dos Príncipes,
proposto pela Áustria. Neste sentido, a primeira das alianças de Bismarck é estabelecida ainda
neste momento: a Missão Alvenslaben. Com o objetivo principal de reprimir os movimentos
insurrecionais poloneses, Prússia e Império Russo articulam um acordo militar. Na economia, a
busca pela ampliação de mercados ganha força com a assinatura do Tratado Comercial com a
Bélgica em 1863.
6.2.4. Etapas do processo
Segundo os principais analistas, Bismarck elaborou um cuidadoso plano de integração de todas as
regiões alemãs, já interligadas por ferrovias. Externamente, o chanceler explora os conflitos e
tensões entre as nações europeias com o objetivo de viabilizar a unificação.
Em 1864, Bismarck viu na morte do rei da Dinamarca uma oportunidade de recuperar os ducados
de Holstein e Schleswig para os germânicos, sendo esta a primeira etapa do processo de unificação.
Para tal, é estabelecida a Missão Mantenfell, unindo a Áustria e a Prússia na luta pela região. Com a
Guerra dos Ducados (1864-1865), os austro-prussianos derrotaram a Dinamarca e, pelo Tratado de
Viena (1864), decide-se pela dupla soberania, ficando Holstein com a Áustria e Schleswig com a
Prússia.
A segunda etapa unificatória é aquela que envolve a “Guerra entre Irmãos”; Bismarck fomenta a
rivalidade entre a Áustria e a Prússia, acusando os austríacos de má administração em Holstein.
Com a ocupação deste ducado pelos prussianos, inicia-se a Guerra das Sete Semanas (1866).
Naquele momento, o grande Império Austríaco atuava militarmente contra as tentativas de
autonomia na Hungria e também ao norte da Itália, onde esta possuía o controle da Lombardia.
Desta forma, a rápida vitória prussiana teve como símbolo a Batalha de Sadowa.
O principal resultado desta vitória foi a criação da Confederação Germânica do Norte (1867), sob
a liderança de Guilherme I. O resultado seria a convocação de um Reichstag Constituinte, sob a
hegemonia do partido liberal, definindo um projeto político centralizador. Os Estados do Sul
(Baviera, Baden Baden, Wuttenberg e Hesse-Darmstadt) resistem, tentando Bismarck superar este
obstáculo com o fomento do nacionalismo por meio da criação do Zollparlament, uma espécie de
parlamento do Zollverein.
Insuficiente para incrementar o nacionalismo entre os sulistas, que temiam a excessiva
centralização de poderes nas mãos do rei prussiano, Bismarck busca outra alternativa. Um conflito
entre a França de Napoleão III e a Confederação Germânica do Norte seria interessante, uma vez
que os Estados do Sul ficariam entre os dois rivais. Para além da crise de Luxemburgo (Bismarck se
coloca contra as pretensões expansionistas do francês) e da sucessão espanhola (Guilherme I tenta,
sem sucesso, a indicação de seu primo Leopoldo de Hohenzollern ao trono vago desde 1868), o
Despacho de Ems provoca a declaração de guerra francesa aos austríacos.
A terceira etapa neste processo de unificação, a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), leva não
somente à anexação dos quatro Estados do sul, mas também da região da Alsácia-Lorena, que
estava sob domínio dos franceses desde o século XVII. A guerra possui contornos interessantes,
como os festejos da unificação que ocorrem no Palácio de Versalhes e a Batalha de Sedan, o ponto
final deste conflito.
6.2.5. Consolidação
Ao final da Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), a Alemanha finalmente completa o processo de
formação nacional. Em sua composição, Guilherme I é coroado imperador, tendo Bismarck uma
posição sui generis, sendo ao mesmo tempo chanceler e ministro do exterior da Prússia (o junker de
Schönhausen mantém este título até a sua saída do poder em 1890).
Como principais destaques da política interna de Bismarck podemos destacar:
• Kulturkampf
• Política anticlericalista que criticava a crença na infalibilidade papal e o auxílio de membros
da igreja às minorias polonesas.
• Com esta doutrina, Bismarck procura aproximar-se dos políticos nacionais-liberais (colocando-
se contra os políticos do Centro) e incentivar o nacionalismo na Alemanha.
• Mediante a Lei de Inspeção Escolar, os funcionários do Estado poderiam inspecionar
instituições de ensino católicas, intervindo em seu currículo.
• Tensões com o Reichstag
• Bismarck busca, por meio da crise de “guerra à vista” (1875), mais uma vez estimular o
nacionalismo alemão, analisando a possibilidade de uma guerra preventiva contra a França,
devido a seu rápido crescimento após 1871. No entanto, foi duramente criticado pelos
políticos do Partido do Centro e também por nacionais-liberais, assim como russos e
britânicos que eram contra um novo conflito europeu.
• A proposta de criação do seguro contra acidentes (1883) também gera tensões internas, uma
vez que Bismarck queria a intervenção do Estado nas relações trabalhistas. Foi persuadido
pelos principais partidos e, quando a lei foi promulgada, em 1884, fica para patrões e
empregados a definição sobre como seria instituído o seguro.
• Lei Antissocialista (1878)
• Após dois atentados contra a vida de Guilherme I, Bismarck consegue aprovar, após duas
tentativas frustradas, esta lei, que restringe a atuação do Partido Socialista.
• Este continua a participar do Reichstag, mas a lei suprimiu os sindicatos, proibiu a imprensa
operária, autorizou prisões e exílio de socialistas.
• Proteção Aduaneira (1879)
• Chamadas também de “trigo e aço”, estabelecem o protecionismo econômico sobre os setores
agrícola e industrial. Mesmo não superando imediatamente as dificuldades que estes setores
atravessavam no início da década de 1880 (sobretudo o agrícola), a lei é importante pois
estabelece longa aliança entre estes setores e Bismarck.
• Interdito de Lombard (1887)
• Vetou a negociação de títulos da dívida externa russa no mercado financeiro alemão, o que
favorece a aproximação do Império Russo com a França.
Com relação à política externa, Bismarck desenvolveu uma bem-sucedida política de alianças com
diversas potências da Europa, chamada de Realpolitik. Seus principais objetivos seriam a
integridade do Império Alemão e a neutralização de uma possível aproximação entre as potências
europeias e a França, tomada pelo sentimento de revanchismo após a perda da Alsácia-Lorena.
Dois são os chamados “Sistemas de Bismarck”, abaixo analisados:
• Primeiro Sistema de Bismarck
• Base: Dreikaiserbund (ou a Liga dos Três Imperadores), formada entre 1872-1873.
• Origem: divisão da Polônia entre as três potências (Império Russo, Império Alemão e Império
Austro-Húngaro).
• Obstáculo: Questão do Oriente, uma vez que era desejo russo e austríaco expandir seus
territórios e dominar a região dos Bálcãs, aproveitando a fragmentação do Império Turco-
Otomano.
• As tensões entre os dois impérios levou à convocação do Congresso de Berlim (1878), tendo
Bismarck como árbitro da questão. O resultado desagradou austríacos e, sobretudo, russos, o
que provocou dissolução da primeira versão da Dreikaiserbund.
• Segundo Sistema de Bismarck.
• Base: Dupla Aliança, formada entre Império Alemão e Império Austríaco em 1879.
• Não desejando deixar-se isolar, o Império Russo propõe uma nova Dreikaiserbund (1881-
1887), agora formal e com um dispositivo no qual seria renovada a cada três anos.
• Tríplice Aliança (Império Austro-Húngaro, Império Alemão e Itália).
• Obstáculo: a unificação da Bulgária e os interesses sobre o região dos Bálcãs mais uma vez
colocam os impérios russo e austríaco em oposição, o que leva à não renovação da
Dreikaiserbund.
• A solução encontrada por Bismarck diante desta situação foi, ao mesmo tempo, defender a
manutenção do status quo no Mediterrâneo (Tratado do Mediterrâneo, assinado com
Inglaterra, Itália e Império Austríaco) e assinar com os russos o Tratado do Resseguro (1887).
Com a morte de Guilherme I, Bismarck tem dificuldades para continuar sua atuação política, já
que o novo kaiser, Guilherme II, não admitia a interferência do junker em suas decisões. Desta
forma, em 1890, Bismarck é destituído de seus dois cargos, dedicando o final de sua vida à escrita
de suas memórias.
7
AS REVOLUÇÕES INDUSTRIAIS

7.1. PRIMEIRA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL


7.1.1. Definição
O processo de industrialização ocorrido na Grã-Bretanha, a partir da segunda metade do século
XVIII consistiu, basicamente, na gradual substituição do homem pela máquina, isto é, na introdução
da tecnologia no processo produtivo, promovendo a maquinofatura em lugar da manufatura. É parte
componente da dupla revolução que caracteriza o período 1789-1848, juntamente com a Revolução
Francesa, de acordo com o historiador Eric Hobsbawm.
No final do século XVIII e no início do XIX, após a introdução do bastidor hidráulico de
Arkwright, uma onda de avanços técnicos impulsionou a segunda Revolução Industrial, movida a
eletricidade, produtos químicos e óleos. Juntas, essas descobertas tornariam as indústrias mais
limpas e eficientes do que as fábricas da etapa anterior, movidas a vapor e a carvão. E as novas
técnicas alavancariam o comércio de maneira inimaginável. No final do século XIX, barcos a
vapor, telégrafos e motores elétricos multiplicavam-se: Arkwright não podia ter previsto nada
disso quando patenteou sua máquina fiandeira em 1769. Em um século e meio, o mundo mudou
de forma irreversível nas esferas comercial, social e política20.
Foi no setor têxtil que as primeiras descobertas significativas ocorreram, em particular na
indústria algodoeira. O crescente mercado colonial e uma intensa demanda interna exigiam uma
produção maior. Com a criação da lançadeira volante por John Kay em 1733, a produtividade é
multiplicada em quatro vezes, resultando em dificuldades para os tecelões tradicionais já na década
de 1760. Seguem-se invenções como a spinning-jenny (roda de fiar aperfeiçoada), a máquina a
vapor, criada por James Watt, o water-frame de Richard Arkwright, ou mesmo o mule-jenny de
Samuel Crompton, uma máquina híbrida e robusta que articulava as principais qualidades da jenny
e da water-frame. Definitivamente estava em curso, na segunda metade do século XVIII, a
introdução da máquina no processo produtivo.
Embora o termo Revolução Industrial tenha surgido anos depois do processo em si, inventado por
um grupo de socialistas europeus, seus impactos já se faziam presentes por toda parte ainda no
século XVIII, em especial a partir de 1780, constituindo-se em um dos maiores acontecimentos da
História mundial.
7.1.2. Pioneirismo britânico
O fato de um movimento tão complexo quanto o da industrialização ter ocorrido de maneira
inédita em solo britânico não se deve, evidentemente, ao acaso. Em meados dos 1700, apenas a Grã-
Bretanha reunia as condições políticas, econômicas e sociais imprescindíveis para a concretização
do processo industrial.
Episódio fundamental para a resolução dos principais problemas políticos que existiam na
Inglaterra, a Revolução Inglesa (1642-1688) foi fator decisivo. Originado na peculiaridade da
formação do Estado Moderno inglês, onde convinha ao rei absolutista consultar o Parlamento antes
de elaborar medidas de grande significado político, o processo teve quatro principais etapas:
• Revolução Puritana (1642-1649): Resultado da política centralizadora dos reis Stuarts (Jaime I e
Carlos I), católicos, que sucederam os Tudor após a morte da rainha Elizabeth I, tal movimento
armado tem raízes em uma oposição política, econômica e social. Os Stuarts objetivavam limitar
as ações da ascendente burguesia e dos proprietários de terras a ela ligada, a gentry, por meio
do aumento de impostos e da limitação do processo de cercamento dos campos. Também existia
a questão religiosa, pois, católico, Carlos I seguia os ensinamentos arminianos, que
aproximavam o Anglicanismo de uma direção mais sacramental e tradicionalista, o que afastava
a religião oficial inglesa do puritanismo e gerou temor de um possível retorno do catolicismo
apostólico romano. Quando o rei Stuart solicita o controle do Exército para invadir a Escócia
(onde este enfrentava a oposição na chamada Guerra dos Bispos), é obstruído pelo Parlamento,
que teme a utilização desta instituição para reforçar o absolutismo real. Os crescentes atritos
entre o Legislativo e o Executivo tornam-se irreconciliáveis, levando a uma Guerra Civil.
Liderados por Oliver Cromwell, o New Model Army (fruto da remodelação do Exército
tradicional parlamentar, os chamados “cabeças redondas”) derrotara os “cavaleiros do rei”,
dando início ao único momento republicano da história da Inglaterra.
• República Puritana (1649-1660): Após um período inicial onde o Parlamento inglês comandava
diretamente as ações políticas iniciando o único momento onde a Inglaterra organizou-se de
forma republicana. Neste contexto, Oliver Cromwell exerce toda a sua influência para declarar-
se Lord Protector, implementando o Protetorado (1653-1658) que se sustenta até a sua morte.
Entre o final da Guerra Civil e a morte de Cromwell, uma série de medidas são elaboradas e
modificam por completo a estrutura política da ilha, como a anexação da Escócia e da Irlanda ao
Commonwealth, a expansão ultramarina e, por fim, a criação dos Atos de Navegação, que
resultaram em conflitos com os neerlandeses. Além disso, perseguições contra
católicos/anglicanos e o domínio da burguesia nos principais setores da burocracia estatal
marcam este período. Após a morte de Oliver Cromwell, seu filho Richard ascende ao poder,
mas a radicalização política, simbolizada no surgimento dos diggers (defendiam a reforma
agrária e uma distribuição de terras mais igualitária) e dos levellers (eram favoráveis ao direito
de praticar a religião de forma livre, além da igualdade jurídica) fez as principais correntes
políticas acreditarem que melhor seria buscar a figura de um rei.
• Restauração (1660-1688): Com o objetivo de impedir a radicalização popular, por sugestão do
General George Monck, Carlos II é colocado no trono, marcando o retorno dos Stuarts ao poder.
Por meio da Declaração de Breda, o monarca perdoava alguns opositores da monarquia,
prometia respeitar os poderes do Parlamento e a tolerância religiosa. Em pouco tempo,
entretanto, o rei católico entra em choque com os parlamentares e sua proximidade com Luís
XIV passa a incomodar importantes setores políticos do país. Carlos II e sua esposa portuguesa
Catarina de Bragança não conseguem ter filhos e, quando o rei morre, não deixa herdeiro
direto. Assim, a ascensão do irmão católico de Carlos II abre nova crise política em Londres.
Jaime II, o novo rei inglês, não se submete ao juramento do Ato da Prova, deixando claro que não
abriria mão de sua fé católica. Alguns parlamentares defendem a posse do filho ilegítimo de Carlos
II, outros defendiam a ascensão da filha protestante de Jaime II, Maria Stuart. Neste contexto, os
whigs (liberais) apoiam o Ato de Exclusão para retirar o novo soberano do poder, algo não aceito
pelos tories (conservadores), sendo a vontade dos últimos respeitada.
As suspeitas com relação aos supostos projetos centralizadores de Jaime II criaram um clima de
incerteza no Commonwealth, incrementadas com os privilégios cedidos pelo novo rei aos súditos
católicos. Os choques com o Parlamento tornam-se ainda mais constantes, o que leva a uma grande
mobilização contra o rei. O que amenizava a situação era a crença de que, uma vez morto, Jaime II
daria lugar a sua filha protestante Maria. Mas quando aos 54 anos este consegue um herdeiro
homem (Jaime Francisco), a certeza de que um novo rei católico seria o sucessor faz os tories
abandonarem o que restava do seu apoio ao reinado de Jaime II. Sem o apoio das tropas regulares e
com sua filha e genro invadindo a ilha para lhe usurpar o trono, o rei decide abandonar o poder,
dando início à última etapa do processo revolucionário inglês.
• Revolução Gloriosa (1688-1689): A queda de Jaime II ocorre sem derramamento de sangue, o
que faz com surja a denominação “gloriosa” para tal evento. Um compromisso entre o
Parlamento e Guilherme de Orange, casado com Mary Sturt, levam o casal ao poder, mas não
sem antes submeter o rei a assinar a “Declaração dos Direitos”, em que seria reafirmada a
hegemonia política do Parlamento. O monarca seria, assim, o chefe de Estado, enquanto o chefe
político seria indicado pelo Parlamento, selando o acordo que até os dias de hoje garante
estabilidade política à Grã-Bretanha e, sobretudo, uma crescente influência da burguesia nos
negócios do Estado.
Em termos econômicos, é significativo que um dos poucos países que investiram realmente no
desenvolvimento da agricultura, no sentido de transformá-la em uma atividade tipicamente
capitalista, foi a Inglaterra. Isso levou à formação de empresários agrícolas e de um “proletariado
rural”, segundo Hobsbawm, voltados a aumentar a produção de alimentos para a população, gerar
excedentes para as cidades e tornar-se mecanismo para o acúmulo de capital. Além disso, atividades
como o corso, o comércio de escravos e a exploração das colônias – todas elas realizadas desde o
século XVI – também contribuíram para a formação de uma enorme reserva financeira,
posteriormente utilizada na atividade industrial.
Tratados desiguais assinados com alguns países do continente favoreceriam a ampliação do
mercado consumidor para os produtos britânicos e a obtenção de uma balança comercial
extremamente favorável. Dois exemplos significativos seriam os Tratados de Methuen (1703),
assinado com Portugal e também conhecido como de “panos e vinhos”, e o Tratado Eden-Rayneval
(17886), que estabelecia a redução e tarifas alfandegárias para os produtos manufaturados
britânicos e agrícolas franceses. Até o advento das reformas bourbônicas, a Inglaterra também
obtinha importantes lucros no comércio com a América Espanhola, onde possuía o contrato do
asiento (fornecimento de escravos africanos) e o navio de permiso, quando anualmente um navio
inglês tinha o direito de aportar em Cartagena.
Outra medida importante foi criada ainda nos tempos de Oliver Cromwell: os Atos de Navegação.
Estes estabeleciam que mercadorias comercializadas pelos ingleses somente poderiam chegar aos
seus portos por navios britânicos ou do país importador. Além de atacar a força comercial
neerlandesa, que possuía hegemonia marítima naqueles tempos, os britânicos aumentaram sua
arrecadação com o frete de seus produtos e desenvolveram a construção naval britânica. Os atos
somente foram abolidos no início do século XIX, com o avanço das ideias liberais, mas,
principalmente, quando estes tornaram-se obsoletos diante da força naval britânica, chamada desde
então de “rainha dos mares”.
A grande disponibilidade de matérias-primas, em especial o ferro e o carvão, fundamentais nessa
primeira etapa industrial, além de algodão e lã, provenientes das colônias da América e do processo
de cercamento dos campos – que até então eram de uso comum (terras comunais) –, certamente
facilitou a industrialização britânica. Como citado anteriormente, os enclousures21 foram marcantes
e estimulados pela monarquia inglesa desde o século XVI, com o intuito inicial de fortalecer a
manufatura têxtil. Relevância equivalente teve também a considerável oferta de mão de obra
proveniente do êxodo rural entre os camponeses ingleses, que tornaram-se trabalhadores nas
indústrias das grandes cidades em formação, como Manchester, Londres e Liverpool.
Desde o século XV que gerações de artífices, de técnicos, de amadores apaixonados,
investigam, com um sucesso desigual. Mas é no século XVII, com uma difusão ainda mais ampla do
gosto pelas “mecânicas” [...] com a multiplicação dos experimentadores “esclarecidos”, que os
esforços seculares resultaram, após uma última arrancada de investigações febris. Não se trata de
um acaso, porque o econômico antecipa-se à técnica22.
7.1.3. Consequências gerais
O processo de industrialização acelerada ao final do século XVIII, que conhecemos como
Revolução Industrial, embora tenha ocorrido de modo modesto em outras regiões da Europa, só
teria impacto global a partir da industrialização britânica. O desenvolvimento de um novo sistema
econômico, o capitalismo industrial, adaptado aos mercados nacionais e mundiais, marca o final da
Idade Moderna. Na dianteira deste processo, a Inglaterra torna-se a potência econômica
hegemônica no mundo. A “oficina do mundo” exportou não apenas produtos e bens de consumo, mas
também tecnologia, mão de obra qualificada e engenheiros, que se espalharam por todo o
continente para replicar em zonas atrasadas a magia do progresso.
Em decorrência da industrialização, a Inglaterra verificou uma explosão demográfica e uma
urbanização sem precedentes, fruto direto da instalação de indústrias nas grandes cidades do país.
A energia a vapor e o ferro também foram utilizados nos meios de transporte, com a criação da
locomotiva e do navio a vapor, não apenas diminuindo as distâncias, mas também os custos do
comércio internacional. Na esteira destes acontecimentos, a imigração e os problemas ambientais
em decorrência da poluição trazida pelas fábricas ampliam-se.
No que diz respeito às questões sociais, com o capitalismo industrial duas classes são claramente
definidas. Os burgueses seriam aqueles que detêm capital para obter a propriedade privada dos
meios de produção (máquinas, matéria-prima e instalações), conseguindo lucros crescentes com o
desenvolvimento da economia. Chamamos de proletário todo aquele que, sem condições de
controlar os meios de produção, sobrevive da venda de sua força de trabalho.
Neste contexto, seria mediante a mais-valia que os lucros passam a se realizar a partir de então.
O trabalhador, agora apenas um operário, era obrigado a conviver com péssimas condições de
trabalho: longas jornadas (14 a 18 horas por dia), baixos salários, falta de segurança, exploração do
trabalho feminino e infantil e desemprego, que desembocavam na miséria dos trabalhadores,
moradias precárias e epidemias constantes. Tais condições agravavam-se no contexto de crises
econômicas, reconhecidas já naquela época como fenômenos periódicos regulares, como as que
assolaram a Europa entre 1836-1837, 1846-1848 e 1873.
À medida que as novas cidades industriais envelheciam, multiplicavam-se os problemas de
abastecimento de água, saneamento, superpopulação, além dos gerados pelo uso de casas para
serviços industriais, culminando com as estarrecedoras condições reveladas pelas investigações
sobre moradia e condições sanitárias, na década de 1840. Essas condições, nas vilas rurais ou nas
aldeias têxteis, eram muito precárias, mas a dimensão do problema era certamente maior nas
grandes cidades, pela facilidade de proliferação de epidemias. [...] Os habitantes das cidades
industriais tinham frequentemente de suportar o mau cheiro do lixo industrial e dos esgotos a céu
aberto, enquanto seus filhos brincavam entre detritos e montes de esterco. Na verdade, alguns
desses fatos persistem ainda hoje (década de 1960), no panorama industrial do norte e da região
central da Inglaterra [...]23.
Na tentativa de lutar contra a ausência total de proteção, o proletariado inglês reagiu de muitas
formas no início da luta de classes analisada por Marx e Engels no Manifesto Comunista. São alguns
exemplos:
• Ludismo: O movimento ludista segue a cultura política dos trabalhadores britânicos, que
utilizavam-se da estratégia de “negociação coletiva através da arruaça”, causando impacto
significativo no Parlamento. Assim, os trabalhadores invadiam fábricas à noite, encapuzados, a
fim de quebrar máquinas. Segundo Hobsbawn, a hostilidade da classe operária às novas
máquinas da Revolução Industrial – especialmente entre as que economizavam mão de obra –
foi partilhada pela opinião pública, inclusive por proprietários de manufaturas. Foram duas as
grandes “ondas” ludistas: a pioneira, entre 1792 e 1796, e a segunda, na década de 1810,
favorecida pelo aumento da exploração do proletariado no contexto da crise econômica gerada
pelas guerras napoleônicas. A intensa repressão governamental por meio do Frame Breaking
Act, que determinava a pena de morte àqueles trabalhadores presos por quebrar máquinas, e os
poucos resultados práticos do movimento levaram ao seu declínio.
• Cartismo: Considerado o primeiro movimento político operário de massas, baeava-se no envio
das chamadas “Cartas do Povo” com petições ao Parlamento inglês, representando a busca por
participação política dos trabalhadores, de forma referendada pelos pontos das cartas, entre os
quais se destacam: abolição do sufrágio censitário para a Câmara dos Comuns e a adoção do
sufrágio universal; representação igualitária para todos os distritos industriais; abolição do
trabalho infantil; eleições anuais para o Parlamento e estabelecimento de remuneração aos
parlamentares, para assim os representantes do proletariado poderem atuar como deputados.
• Unionismo: Elementos rudimentares de associação entre os trabalhadores. Em seus primeiros
momentos, essas sociedades articulavam a criação de “caixas de assistência”, em que o
trabalhador mediante o pagamento de uma taxa teria auxílio em caso de desemprego, doença
ou morte, algo que o Estado não lhes fornecia. Clandestinas a partir de 1799, sua proliferação
foi tamanha que o governo as legalizou em 1824 e estas resultariam, posteriormente, nos
primeiros sindicatos.
Os homens do século XIX ensurdecem a história com o clamor de seus desejos [...] Longe dos
odores do povo – é conveniente arejar após a permanência prolongada da empregada, após a
visita da camponesa, após a passagem da delegação operária – a burguesia, desajeitadamente,
trata de purificar o hálito de casa. Latrinas, cozinha, gabinete de toalete pouco a pouco deixarão
de exalar seus insistentes aromas [...] O que significa essa acentuação da sensibilidade? Que
tramas sociais se escondem por detrás dessa mutação dos esquemas de apreciação?24.
Se poucos foram os resultados imediatos obtidos pelos trabalhadores, a burguesia consegue, após
décadas de participação no Parlamento, a hegemonia nesta instituição na década de 1830. A Green
England, formada pelos proprietários rurais que eram líderes no Parlamento e buscavam a proteção
de seus interesses econômicos, dificultava os consolidação da burguesia, mediante a criação de
medidas como a Lei dos Cereais, que estabelecia o protecionismo alfandegário ou mesmo com a
manutenção da Lei dos Pobres (1601), em que o Estado dava subsídio à classe dos trabalhadores
agrícolas. A burguesia repudiava de forma veemente estas barreiras ao livre cambismo que
dificultavam a circulação de mão de obra, uma vez que o trabalhador tinha que fixar-se em um
determinado condado para receber o complemento de seu salário. Em 1832, a Câmara dos Lords
aprova a Reforma Eleitoral de 1832 devido às pressões do rei, que temia uma nova revolução em seu
país. Com a sua aprovação na Câmara dos Comuns, aumenta-se a franquia eleitoral com a redução
do piso para o sufrágio e é realizada uma nova distribuição do mapa eleitoral, acabando por
fortalecer a chamada Black England, e estruturando a Inglaterra definitivamente como um país
liberal.
7.2. SEGUNDA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
7.2.1. Definição
Em meados do século XIX, teriam início consideráveis modificações no sistema produtivo que
levariam o processo industrial a uma nova fase, a chamada 2ª Revolução Industrial. Nesta, o
capitalismo tem suas estruturas de produção modificadas e, consequentemente, assistimos à
passagem da fase concorrencial (ou capitalismo clássico, onde a livre concorrência e a
predominância da indústria sobre o comércio e as finanças eram as características marcantes) para
a monopolista (ou capitalismo financeiro).
7.2.2. Características
Antes restrita aos domínios britânicos, a Revolução Industrial estende-se a novas áreas de
desenvolvimento – França, Prússia, Japão e Estados Unidos. Neste contexto, a produção industrial é
impulsionada por uma nova fase de experimentos e invenções, estimulando a criação de novos
setores produtivos – por exemplo, os automóveis – marcando a nova fase do processo de
industrialização, agora realizada também em outros continentes para além do europeu.
Fundido, o ferro converte-se em aço, resultando na criação da importante indústria siderúrgica
que, juntamente com as indústrias automobilística e química, são os grandes símbolos destes novos
rumos da chamada “Era do Capital”. Novas fontes de energia são adotadas, como a elétrica e a
hidráulica (associada à elétrica), e o petróleo gradualmente torna-se essencial para as economias. Já
no último quarto do século XIX, lâmpadas elétricas eram utilizadas na iluminação e os transportes
barateavam o frete marítimo e os caminhos de ferro carregavam toneladas de produtos.
Eram os tempos da metralhadora, do telégrafo, da máquina de costura, da nitroglicerina, do
telefone, do alumínio, do pneu de borracha vulcanizada, do raio X, dos corantes sintéticos, do
revólver, do bonde elétrico, da dinamite etc. Avanços no campo da medicina e da higiene, a chamada
revolução médico-sanitária, reduziram as taxas de mortalidade, enquanto no campo as melhorias
técnicas introduzidas na agricultura aumentaram a produtividade, resultando em maior oferta de
alimentos para as cidades industriais.
As empresas, percebendo a importância da incorporação de forma regular destas novas
tecnologias para aprimorar seus produtos e lucros, passaram a investir em pesquisas científicas.
Mas, ao mesmo tempo, a incorporação destas inovações técnicas tornam os produtos cada vez mais
caros.
Juntamente com os dos preços, os movimentos dos capitais criam também condições novas do
crescimento. Porque doravante para produzir em grande quantidade e adquirir um equipamento
complicado e caro, para lutar com os concorrentes, a empresa industrial tem de investir mais,
muitas vezes às apalpadelas, sem conhecer bem as evoluções da conjuntura. Tem necessidade de
recorrer ao crédito25.
A fusão do capital bancário ao capital industrial promoveu o advento do capital financeiro, uma
vez que os grandes bancos ou instituições financeiras, por meio de empréstimos e compra de ações,
passaram a controlar a indústria, a agricultura e a pecuária. Sendo assim, formam-se trustes,
holdings e cartéis, uma vez que as pequenas companhias não resistiam à concorrência, sendo os
grandes conglomerados os protagonistas desta nova era do capitalismo.
Economicamente, a 2ª Revolução Industrial colocava fim à abstenção governamental, à ortodoxia
do livre comércio e à era do individualismo, onde grandes empresários e banqueiros controlavam as
ações. Nestes tempos, destacam-se empresas como a Standart Oil de John D. Rockfeller, que
controlava 36 empresas do setor petrolífero, e banqueiros como o estadunidense John P. Morgan ou
a rede britânica dos Rothschild.
7.2.3. Consequências gerais
• Incremento da competição internacional entre economias industriais da Europa e dos Estados
Unidos.
• Primeira crise de superprodução e subconsumo, conhecida como Grande Depressão, causando
queda nos preços dos produtos e falência das pequenas empresas. Esta crise de 1873-1896
incrementou o protecionismo alfandegário e foi especialmente sentida na Grã-Bretanha, uma
vez que esta dependia mais do que as demais concorrentes do mercado internacional.
• Inauguração de uma nova era tecnológica, com formas inéditas de energia (petróleo,
eletricidade, motor a explosão), de máquinas (feitas com ferro, ligas e metais não ferrosos) e de
novas ciências (siderurgia, química orgânica).
• Intensificação da urbanização a partir de 1850, com a formação de povoamentos com mais de
duzentos mil habitantes e cidades metropolitanas com mais de meio milhão, como Londres,
Paris, Berlim e Viena, repletas de cortiços onde morava a população mais pobre.
• Aumento da oferta de emprego nos grandes centros urbanos, proporcionando um crescimento
do mercado consumidor.
• Divisão internacional do trabalho, aprofundando a separação existente entre as economias
periféricas (África, Ásia e América Latina) daquelas dos principais centros industriais europeus.
• Difusão das ideologias de esquerda, que pregavam mudanças na economia e na sociedade em
prol da diminuição (ou eliminação completa) das desigualdades sociais:
• Socialismo Utópico: A crescente pauperização da população levou à formulação de alguns
projetos de reformas sociais, baseados em programas que criticavam a “lei bárbara ditada
pelo capital”. Pensadores como Robert Owen e Charles Fourier realizavam uma oposição
romântica aos novos tempos progressistas da Revolução Industrial. Segundo o revolucionário
francês Conde Claude Saint – Simon, a sociedade deveria ser dividida em três classes (sábios,
proprietários e os que não tinham posses) e governada por um conselho de sábios e artistas.
Estes pensadores receberam a alcunha de utópicos pelos marxistas, que acreditavam ser
impossível a conciliação entre o capitalismo e melhorias para o proletariado. As próprias
experiências fracassadas de Owen, em sua fábrica na Escócia e na comunidade de New
Harmony, nos Estados Unidos, serviram de base para as decepções com os utópicos.
• Socialismo Científico: Karl Marx e Friedrich Engels foram os criadores do marxismo, que estes
acharam por bem chamar de socialismo científico. Para os alemães, a única solução possível
seria a eliminação total do sistema capitalista por meio da luta de classes, onde o proletariado
conquistaria o Estado, promovendo assim a “ditadura do proletariado”, momento no qual
progressivamente o Estado seria abolido e o comunismo seria definitivamente implementado.
A primeira obra que lançaram de forma conjunta e que esboça a teoria posteriormente
desenvolvida foi A ideologia alemã. Posteriormente, juntam-se a Liga dos Justos, organização
de operários alemães exilados, produzindo seu programa em 1848, onde afirmava-se que “um
fantasma ronda a Europa: o fantasma do comunismo”, buscando estimular a união entre
proletariado por meio da frase “proletariado de todo o mundo, uni-vos!” – era o Manifesto do
Partido Comunista. Para Marx e Engels, o “socialismo” seria a fase inferior, primeira, do
sistema comunista, mas no decorrer do século XIX, porém, uma fusão operar-se-á entre ambos
os termos. Em sua mais importante obra, O Capital, Karl Marx analisa o funcionamento
interno da economia de uma sociedade capitalista.
• Anarquismo: com base nos escritos de Pierre-Joseph Proudhon, acreditando que uma
república de pequenos proprietários seria possível sem a presença do Estado, Mikhail
Bakunin opunha-se à ideia de “ditadura do proletariado” defendida por Marx, desejando, o
revolucionário anarquista, a abolição do Estado juntamente com a da propriedade privada –
dois dos principais instrumentos de dominação do proletariado. Esta divergência é um dos
principais fatores que levaram à cisão dentro da Primeira Internacional (1864-1876), levando
ao rompimento total entre estas duas correntes em 1872. O movimento anarquista foi
marcado pelo radicalismo, muitas vezes defendendo ações como o terrorismo para conseguir
derrubar o Estado e implementar uma organização social baseada em cooperação entre os
povos, autogestão e o fim do comércio com fins lucrativos.
• Doutrina Social da Igreja: O papa Leão XIII publicou a encíclica Rerum Novarum em 1891. Por
meio desta, revivificou a religião como instrumento de justiça social, atacando firmemente os
excessos da exploração capitalista. Segundo esta, “o capital e o trabalho deviam viver em
colaboração um com o outro, obedecendo princípios da caridade cristã”.
• Ao longo do século XIX, o nacionalismo tornou-se cada vez mais agressivo. A exaltação dos
heróis nacionais e a repressão aos opositores (considerados “inimigos da pátria”) foram
utilizadas pela burguesia para deter o avanço dos ideais marxistas.
• Segundo as interpretações marxistas, o Imperialismo ou neocolonialismo seria a principal
consequência da Segunda Revolução Industrial, como veremos no próximo capítulo.
8
IMPERIALISMO OU NEOCOLONIALISMO

A ideia que mais me acode ao espírito é a solução do problema social, a saber: nós, os
colonizadores, devemos, para salvar os 40 milhões de habitantes do Reino Unido de uma mortífera
guerra civil, conquistar novas terras a fim de aí instalarmos o excedente de nossa população, de aí
encontrarmos novos mercados para os produtos das nossas fábricas e das nossas minas.
O mundo está quase todo parcelado, e o que dele resta está sendo dividido, conquistado,
colonizado. Penso nas estrelas que vemos à noite, esses vastos mundos que jamais poderemos
atingir. Eu anexaria os planetas se pudesse; penso sempre nisso. Entristece-me vê-los tão
claramente e ao mesmo tempo tão distantes26.
8.1. INTERPRETAÇÕES
O fênomeno do Imperialismo (ou Neocolonialismo) seria, de maneira geral, a exploração de
alguns países europeus, mais Japão e Estados Unidos, sobre a África, a Ásia e a América Latina, por
meio do domínio direto (colônia/protetorado) ou mesmo de relações econômicas assimétricas (áreas
de influência). As frases acima, que compõem a abertura deste capítulo, foram proferidas por Cecil
Rodhes, um dos maiores ideólogos da conquista ultramarina pelo Império Britânico, e evidenciam
como pensavam os gestores da política externa europeia do final do século XIX.
A teoria mais clássica acerca do Imperialismo, influenciada pelos escritos marxistas de Lenin
(Imperialismo: a fase suprema do capitalismo e Rosa Luxemburgo), defende a ideia de que a busca
por colônias seria um processo oriundo das necessidades da industrialização em sua segunda
revolução, a partir do século XIX. Para estes, o imperialismo representava uma forma colonial de
capitalismo, fusão do capitalismo industrial com a formação de oligopólios.
O Imperialismo é o capitalismo chegado a uma fase de desenvolvimento onde se afirma a
dominação dos monopólios e do capital financeiro, onde a exportação dos capitais adquiriu uma
importância de primeiro plano, onde começou a partilha do mundo entre os trustes internacionais
e onde se pôs a termo a partilha de todo o território do globo, entre as maiores potências
capitalistas27.
Insatisfeitos com algumas lacunas deixadas por esta interpretação excessivamente economicista,
outros analistas do processo neocolonial encontraram nas disputas políticas entre as nações
europeias a chave para entender a busca por territórios que, naquele momento, não significavam
lucro imediato para as metrópoles. Além disso, a necessidade de “exportar” pessoas também pode
ser considerado um dos fatores que levam à corrida imperialista. Basicamente podemos explicar o
Imperialismo por meio de dois grandes vieses interpretativos: a questão econômica e a questão
político-social.
8.1.1. Questão econômica
De acordo com este ponto de vista, a Segunda Revolução Industrial teria papel central no
desenvolvimento da expansão imperialista. No século XIX, os conglomerados oriundos da junção
entre o capital bancário e o industrial enfrentaram a primeira grande crise de superprodução e
subconsumo da história do capitalismo: a depressão de 1873 a 1896. Nesta, os oligopólios
perceberam a imperiosa necessidade de angariar maior mercado consumidor, diversificar suas
matérias-primas, obter mão de obra a preços menores, assim como buscar novos locais para investir
o capital excedente.
Apesar do discurso liberal ainda predominante, as ideias a favor do protecionismo alfandegário
começavam a se expandir no continente europeu; desta forma, as alternativas viáveis passavam por
buscar novos mercados na África, Ásia e América (nesta a concorrência estadunidense fez a ação
europeia mais contida), formando-se assim o principal “pano de fundo”do imperialismo, sem este ser
o único motivo para a sua execução28.
Mas algumas questões sempre ficaram em aberto: seria o mercado consumidor afro-asiático
suficiente para pôr fim à crise europeia? Apenas questões econômicas motivaram o imperialismo?
Seriam os setores ligados a burguesia hegemônicos a ponto de determinarem os rumos da política
externa das potências europeias?
8.1.2. Questão político-social
Respondendo de forma negativa a todas as questões acima apresentadas, verifica-se a influência
das rivalidades nacionalistas e fatores políticos internos das potências europeias com maior
importância na corrida imperialista.
Em um primeiro momento, que pode ser demarcado, grosso modo, até o início da década de 1890,
o imperialismo servia como “válvula de escape” para as principais tensões nacionalistas europeias.
Como exemplo, a França buscava amenizar as consequências do isolamento imposto pela Realpolitik
de Bismarck e a humilhação no pós-guerra franco-prussiana (1871) com a conquista de territórios
no ultramar. O caso da Argélia, conquistada de forma gradual desde a década de 1830, é
emblemático: para lá foram enviados os alsacianos que optassem pela cidadania francesa até que
esta região fosse reconquistada.
É também neste momento da expansão que as colônias auxiliariam na questão social, uma vez que
eram uma solução diante do aumento das tensões em uma Europa que sofria com a intensa
migração para as cidades, associada ao excedente populacional, este, por sua vez, oriundo do
crescimento na expectativa de vida e na redução dos índices de mortalidade. Esta soma mostrava-se
explosiva diante do quadro de afirmação das ideologias de esquerda que se utilizavam dos baixos
salários pagos aos trabalhadores europeus, péssimas condições de trabalho e desemprego para
difundir suas ideias de igualdade social e luta de classes. Assim, “exportar pessoas” seria uma
alternativa para evitar – ou pelo menos reduzir – o caos social.
Em um segundo momento, já ao final do século XIX, a disputa entre as potências por territórios,
apresentadas no capítulo posterior com maiores detalhes, serão fundamentais para o acirramento
das tensões entre as potências europeias.
Mais importante do que eleger como verdade absoluta uma das correntes de interpretação é
saber quais são as suas bases e associá-las, assim podendo entender de forma completa o fenômeno
imperialista, sem se comprometer com ideologias ou tendências historiográficas.
8.2. BASE IDEOLÓGICA
Neste momento, nas principais academias e entre os intelectuais europeus, desenvolvia-se uma
adaptação do darwinismo (e da teoria da evolução das espécies daí decorrente) às ciências
humanas: o chamado darwinismo social. A crença em tal ideologia estimulou milhares de europeus a
enfrentarem as dificuldades do ultramar para participarem do processo imperialista.
Com a crença no darwinismo social, traçava-se um parelelo entre a evolução das espécies,
estudada por Charles Darwin, e os diferentes seres humanos: acreditava-se que existia uma raça
superior às demais (a branca) destinada, desta forma, a impor-se sobre as outras. O que hoje
poderia ser contestado mediante diversos estudos e exames, naqueles tempos, acabou por
conquistar mentes influentes não só da Europa, mas do mundo como um todo (lembre-se da
influência do Conde de Gobineau entre os políticos brasileiros oitocentistas).
Uma vez superior, o homem branco europeu tinha um “fardo”: introduzir a civilização e a religião
ao “bárbaro mundo distante”. Assim, estabeleciam-se missões protestantes ou católicas, que se
destinavam não apenas a evangelizar estes povos, mas também transmitir a cultura europeia.
Principalmente no caso do imperialismo luso-francês, a ideia de assimilação era bastante acentuada,
sendo propagandeado que aquele colono que adquirisse por completo os costumes metropolitanos
seria tratado como cidadão. Em Portugal, é criado o “estatuto do colonizado”, no qual são
estabelecidas as principais regras para tornar-se um cidadão português, como falar a língua do
colonizador, ser católico ou até mesmo dormir de pijamas.
Não vamos deixar a África para os pigmeus, quando uma raça superior se está multiplicando ...
Esses indígenas estão destinados a serem dominados por nós ... O indígena deve ser tratado como
uma criança, e o direito eleitoral lhe é proibido pelas mesmas razões do álcool (Cecil Rhodes,
inglês, fundador da Rodésia).
8.3. COMO FOI POSSÍVEL?
É comum louvar os Estados por seu papel na resistência à invasão europeia [...] Na realidade [...]
esse papel foi ambíguo. Se é verdade que alguns resistiram muito bem [...] muitas outras
sociedades constituídas em Estados, em compensação, entraram em colapso no contato com os
europeus [...] Por outro lado, a resistência das sociedades sem Estado foi muitas vezes duradoura e
heroica [...]29.
Até a segunda metade do século XIX, o interior do continente africano era um mistério para os
europeus. Expectativas de minas e diversidade de matérias-primas dominavam a cabeça dos
industriais europeus, assim como as hostilidades de “tribos guerreiras”, ou mesmo doenças
incuráveis. Podemos afirmar que o imperialismo, em especial sobre o continente africano, seria uma
junção de expectativas exageradas e preocupações excessivas por parte da Europa.
Com o passar do século, o desenvolvimento tecnológico, principalmente no setor bélico, de
transportes (ex.: barco a vapor desmontável), telecomunicações (o telégrafo ligava as metrópoles e
suas possessões ultramarinas), ou mesmo com o avanço da medicina (surgimento do quinino),
facilitaram a conquista ultramarina.
Além disso, notadamente, o acirramento da corrida colonial contou com a colaboração de chefias
afro-asiáticas. É um equívoco pensar que todos os colonos resistiram ao imperialismo. Uma parcela
pequena foi beneficiada por meio de sua associação com os europeus e este é um elemento decisivo
para o sucesso da dominação europeia sobre vastas regiões na África e na Ásia. Cada vez mais
surgem estudos combatendo a visão tradicional de “vitimização” dos afro-asiáticos.
8.4. CONFERÊNCIA DE BERLIM (1884-1885)
De forma equivocada, esta reunião entre os países participantes da corrida imperialista é
interpretada como aquela que definiu a partilha do continente africano, algo que definitivamente
não ocorreu neste momento. Podemos afirmar que esta foi uma etapa decisiva sim, mas não única.
Convocada com o intuito de discutir os rumos do Congo, naquela época visto como fundamental
para o escoamento da produção europeia (a bacia do Congo, por completo desconhecimento dos
europeus, era considerada navegável em toda a sua extensão), a Conferência insere-se na breve
tentativa de Bismarck em buscar dividendos políticos de uma possível política expansionista.
Diplomatas de segundo escalão lá estavam presentes, o que por si só esvazia a ideia de definição
de fronteiras. Em tal evento, destaca-se a atuação do rei Leopoldo II da Bélgica que, auxiliado pelo
explorador Morgan Stanley, consegue obter apoio para a criação do Estado Livre do Congo, que
seria administrado indiretamente por ele, caso único no contexto do neocolonialismo.
Outros pontos também foram estabelecidos em Berlim, tais como:
• Livre navegação nas bacias do rio Congo e Níger;
• Proibição da escravidão na África;
• Controle da venda de bebidas alcoólicas para as etnias africanas;
• Proteção e livre circulação das missões cristãs nas colônias;
• Posse pela ocupação efetiva do território.
8.5. O CASO PORTUGUÊS
Portugal possui uma situação inusitada neste processo colonizador, uma vez que foi protagonista
nas conquistas ultramarinas dos séculos XV e XVI e, em pleno século XIX, já mantinha posse de
alguns entrepostos comerciais, como São Jorge da Mina, Luanda e Lourenço Marques.
No entanto, a situação da decadente monarquia lusitana na “corrida imperialista” é desvantajosa:
vivendo em uma economia agrária, suas forças armadas eram inferiores àquelas das demais
potências imperialistas e não possuía recursos para ampliar as suas ocupações. O que restava aos
portugueses era buscar no chamado “direito histórico” o argumento que justificaria a sua expansão
imperialista.
Após a Conferência de Berlim, a diplomacia portuguesa empenhou-se em conseguir apoio às suas
revindicações. Apresenta, inclusive, o chamado “mapa cor-de-rosa”, onde seria criada uma grande
colônia portuguesa na África subsaariana, ligando as duas costas africanas, tendo como ponto de
partida os atuais territórios de Angola e Moçambique, passando por Zâmbia e Zimbábue. Como não
existia ainda ocupação efetiva, era o “direito histórico” que justificaria a posse sobre este vasto
território.
Ao descobrir as intenções portuguesas, imediatamente a Inglaterra se coloca contra seu histórico
aliado, argumentando que as resoluções de Berlim estariam sendo violadas e que o projeto da
ferrovia Cabo-Cairo estaria ameaçado. Não apenas uma oposição político-diplomática é realizada:
canhões ingleses são apontados para Lisboa no intuito de fazer o rei D. Carlos I abandonar seu
projeto expansionista. O “ultimato britânico” é considerado uma das maiores humilhações nacionais
pelos lusitanos, fato bastante explorado pela propaganda republicana, contando, inclusive, no hino
nacional português. O resultado é a criação das colônias inglesas da Rodésia no Norte, Rodésia do
Sul e Botswana. Portugal se contentaria com a manutenção de Angola e Moçambique, além da
Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe.
8.6. ÁFRICA DO SUL
A região da Colônia do Cabo está intimamente ligada às Grandes Navegações, uma vez que ao
dobrar o Cabo da Boa Esperança o navegador português Bartolomeu Dias confirmou ser possível
concluir o périplo africano e chegar às Índias, tão desejadas pelo rei D. Manuel. No século XVII, a
recém-criada Companhia das Índias Orientais holandesa ocupa a região, construindo uma feitoria
que, sob o comando de Jan Van Riebeeck, objetivava abastecer os navios e fornecer repouso seguro
para os tripulantes da EIC. O estabelecimento dos boers data da década de 1650 e seus conflitos
com os nativos, mais precisamente os Khoikhoi, também remontam a esta época.
Na virada do século XVIII para o XIX, diversos acontecimentos na Europa marcaram mudanças
decisivas na região: a guerra anglo-neerlandesa, a falência da Companhia das Índias Orientais e a
consequente ocupação britânica, legitimada ao final do Congresso de Viena (1814-1815). Com o
controle britânico sobre a área, vieram também suas práticas colonialistas, como a atuação das
missões (que procuraram proteger os negros do sistema de castas imposto pelos boers), a luta
contra a escravidão (proibida oficialmente em 1833) e a cobrança de impostos.
Inicia-se a interiorização dos boers rumo ao nordeste, no que ficou conhecido como o Grande Trek
(1836-1844), resultando no Estado Livre de Orange (1842) e na República do Transvaal (1852),
livres da tutela inglesa e com uma legislação baseada na superioridade racial. A descoberta de
diamante e ouro, porém, incrementaram o desejo inglês de controlar tais áreas, uma vez que estes
nunca aceitaram a autonomia boer. Após diversos pequenos atritos, explodiu a Guerra dos Boers
(1899-1902), com o recrudescimento do nacionalismo boer, enorme dificuldade inglesa para
submeter a região sob seu controle, exposição da fragilidade militar da metrópole e a consequente
conciliação com os nativos brancos, resultando na criação da República Sul-Africana, em 1910.
8.7. ÍNDIA
Região inicialmente dominada pelos franceses, a Índia foi transferida aos britânicos ao final da
Guerra dos Sete Anos (1756-1763). A partir daí, a populosa possessão gradualmente transforma-se,
ao longo do século XIX, na mais importante colônia britânca, chamada então de “a joia da coroa”.
Aplica-se o vitorioso modelo inglês de dominação indireta (indirect rule), com a
instrumentalização das chefias locais, que recebiam todo o tipo de benefícios da metrópole em troca
da submissão aos seus interesses coloniais, sendo este controle exercido pela Companhia Britânica
das Índias Orientais. Outras importantes bases para a dominação sobre a região seriam a
exploração das rivalidades religiosas locais entre hindus e muçulmanos, a desestruturação da
manufatura têxtil local em prol da exportação dos industrializados metropolitanos e, por fim, uma
força militar local que serviu não só na preservação da dominação britânica sobre a Índia mas
também foi fundamental na expansão territorial no continente asiático: os cipaios.
E seriam justamente os cipaios aqueles que protagonizariam uma das maiores rebeliões contra o
“Império onde o sol nunca se punha” na Ásia. A Revolta dos Cipaios ou Sipaios (1857-1858)
simboliza a insatisfação da população local com a exploração da mão de obra, mercado consumidor
e a insistente tentativa de ocidentalização dos indianos. O motivo mais conhecido para a eclosão do
conjunto de incidentes que compuseram a revolta, iniciada em maio de 1857, está intimamente
ligado à questão cultural: os soldados se opunham veementemente à utilização de gordura animal na
fabricação dos cartuchos dos fuzis por eles utilizados.
Uma vez controlada tal rebelião, a Companhia das Índias Orientais foi retirada da administração,
passando o local a ser organizado de forma conjunta pela Coroa britânica e pelo vice-rei da Índia. Ao
longo da segunda metade do século XIX, outras modificações nas relações ocorreram, tais como a
coroação da rainha Vitória como Imperatriz da Índia em 1877 ou mesmo a criação do Congresso
Nacional Indiano em 1885, partido fundamental no processo posterior de independência.
8.8. CHINA
Império milenar e que despertava muita atenção dos ocidentais com seus produtos típicos
(principalmente seda, chá e porcelana faziam muito sucesso na Europa), era uma área muito restrita
ao contato com o resto do mundo. Os produtos industrializados europeus tinham dificuldade em
penetrar no amplo mercado chinês, seja pelas restrições impostas pelas autoridades locais (que
mantinha aberto somente o porto de Cantão) ou pelo pouco interesse que despertavam na população
local, o que incomodava especialmente os britânicos. Para amenizar o “déficit comercial”, a venda
ilegal de ópio apresentou-se como uma solução, provocando dependência química em boa parte da
população de algumas cidades litorâneas (principalmente Cantão) e resultando em lucros
extraordinários principalmente aos súditos da Coroa inglesa.
Temendo não só pelas finanças, mas também pelo crescente número de viciados, o Imperador
Daoguang (1820-1850) procura reforçar a ilegalidade do ópio em 1839, lançando novo decreto de
proibição, juntamente com uma campanha de conscientização da população. Após incidente
envolvendo marinheiros ingleses, Daoguang determina a expulsão de todos britânicos de seu
império, aproveitando o contexto favorável para confiscar milhares de barris do produto em Cantão.
Esta carestia da prata provém de que ela sai do país em massa, drenada pelo comércio do ópio.
Esse comércio é feito pelos ingleses. Este povo, não tendo de que viver na sua terra, procura
debilitar os habitantes [...] consumo que fará secar nossos ossos, verme que roerá o nosso
coração, ruína das nossas famílias e das nossas pessoas. Desde que o Império existe, nunca
ocorreu um tão grande perigo. É pior que uma invasão de animais ferozes. Peço que o
contrabando do ópio se inscreva no código entre os crimes punidos com a morte30.
Era a oportunidade que parte do parlamento britânico desejava para “abrir” a China por meio da
força. Prolongado debate foi travado entre seus deputados, envolvendo questões comerciais,
humanitárias e políticas. O resultado foi a Primeira Guerra do Ópio (1840-1842), que expôs a
superioridade naval britânica diante dos navios à vela dos chineses. Bombardeadas Nanquim e
Cantão, com dificuldades de comunicação com a capital, a única solução para o Imperador
Daoguang seria travar uma guerra no continente, mas a insatisfação de grande parte da população
com a Dinastia Qing poderia resultar na queda do próprio imperador. Sendo assim, em agosto de
1842 era assinado o primeiro dos diversos tratados desiguais impostos à China ao longo do século
XIX.
De acordo com o Tratado de Nanquim, seriam abertos cinco portos para o comércio britânico
(Xanguai, Fuchou, Amói, Cantão e Ningpo), Hong Kong ficaria sob o controle inglês e ainda seria
paga uma indenização pelos prejuízos causados pela guerra. A resistência das autoridades locais (os
mandarins) às resoluções do “acordo” resultaram em uma Segunda Guerra do Ópio (1857-1858),
desta vez sendo a Inglaterra auxiliada pela França. Após nova vitória militar, os ocidentais exigem a
abertura de onze novos portos ao comércio com o Ocidente e a livre movimentação de missionários
e comerciantes (muitos traficantes de ópio). O novo imperador Qing, Xianfeng, apesar de tentar
resistir a tal violação da soberania nacional de seu país, com a Convenção de Pequim, aceita o
Tratado de Tianjin. De forma gradual, estadunidenses, alemães e até mesmo japoneses passam a
realizar comércio com a China ao final do século XIX, totalizando mais de 50 portos abertos e
diversas áreas de influência.
A resistência da população foi diversa. A dinastia Qing (também conhecida como Manchu) foi o
alvo preferencial, uma vez que esta era vista como estrangeira e conveniente com a exploração
imperialista. As manifestações variaram de caráter, sendo as mais famosas:
• Rebelião dos Taiping (1851-1864): revolta urbana e de caráter messiânico. Liderada por aquele
que se autoproclamou o filho chinês de Deus (Hong Xiuquan), atacava os Qing, pregando
simultaneamente o fim da tradição confucionista, uma espécie de igualdade social e a expulsão
dos imperialistas do Império. Originada na província de Guangxi, rapidamente se estendeu,
tomando proporção tal que o imperador Xianfeng aceitou o auxílio estadunidense para sufocá-
la.
• Revolta dos Boxers (1899-1900): de origem rural (província de Shandong), a revolta foi
protagonizada por uma das diversas sociedades secretas que surgiram na China na segunda
metade do século XIX, denominada Punhos Harmoniosos e Justiceiros. De caráter
anticristão/antiocidental, seus membros eram xenófobos, acreditando ser possível derrotar os
estrangeiros sem o uso de armas de fogo. Com apoio de algumas autoridades (incluindo a
imperatriz Tzu Hsi em tentativa desesperada de conquistar o apoio popular), os revoltosos
atacaram missões e cristãos chineses na mesma proporção, desencadeando a formação de uma
ampla aliança imperialista, que incluía desde os Estados Unidos até o Império Austro-Húngaro,
para derrotá-la em sangrenta intervenção militar.
• Proclamação da República (1910-1911): uma das organizações secretas existentes na China
tinha como protagonista Sun Yan-Sen, que estudou medicina no exterior e, nos Estados Unidos,
entrou em contato com a ideologia republicana. Acreditava que somente a modernização de seu
país poderia modificar a situação de exploração da população local, algo também compartilhado
por setores da monarquia chinesa – como na tentativa fracassada chamada de Reforma dos Cem
Dias, que somente serviu para enfraquecer ainda mais o Império. Conseguindo apoio de outros
nacionalistas, Sun Yat-Sen forma o Kuomitang, que protagoniza a chamada Revolução de 1911,
contando com significativa parcela do exército para acabar com o milenar império.
8.9. JAPÃO
Sob organização política semelhante àquela da Europa medieval, uma vez que grandes
proprietários de terra detinham a maior parte do poder político em detrimento do imperador, o
Japão estava distante do Ocidente. Em termos comerciais, desde o século XVII, somente uma
semana do ano era destinada ao comércio com os ocidentais, restringindo bastante os lucros das
companhias comerciais mercantilistas.
Mesmo com a expansão imperialista, o Japão manteve-se isolado, o que incomodava
especialmente os estadunidenses, que desde a Marcha para o Oeste tinham o Pacífico como alvo de
sua expansão comercial. Atritos com os japoneses, devido a violações por parte de navios pesqueiros
dos EUA, foram utilizados como argumentos pelo governo para forçar a abertura do Japão. O famoso
Comodoro Perry protagonizou tal evento, que contou com a colaboração das principais autoridades
japonesas, que preferiram negociar a perder a guerra, assinando tratados desfavoráveis como
ocorrera com o Império Chinês.
Alguns eventos foram decisivos para que o Japão se distinguisse das demais regiões orientais em
suas relações com os imperialistas na segunda metade do século XIX. Logo após a assinatura dos
tratados com os Estados Unidos, este país enfrenta uma prolongada Guerra Civil (1861-1865), o que
posterga a execução das cláusulas comerciais, as quais os estadunidenses tinham direito desde a
década de 1850. Enquanto isso, um debate político se estabelecia: estaria o Xogunato correto ao
admitir tais acordos com os ocidentais? Este é o principal motivo para a Guerra Boshin (1867-1868),
que opôs os partidários do fortalecimento do Imperador e aqueles que controlavam o governo
descentralizado.
Ao final desta guerra civil, acabava o Xogunato e o Império era reestabelecido no Japão.
Sucederam-se diversas reformas no país, que levaram a uma modernização de grande envergadura,
assimilando métodos e costumes ocidentais. A Era Meiji (1868-1912) implementou uma Constituição
em 1889, com base no modelo prussiano, em que o imperador dividia o seu poder com o Parlamento.
No setor econômico, as grandes famílias que dominavam a economia agroexportadora
transformaram-se, com o auxílio do Estado, em grandes conglomerados industriais (os zaibatsus). A
defesa era reforçada mediante a criação de um exército que seguia o modelo ocidental, substituindo
o modelo anterior baseado nos samurais.
Não só o Japão mantém a sua independência, mas também consegue realizar seu próprio
imperialismo, obtendo áreas de influência na China e derrotando o Império Russo, até então,
encarado como uma potência ocidental, na Guerra da Manchúria (1904-1905).
8.10. ESTADOS UNIDOS E AMÉRICA LATINA
Desde a adaptação do isolacionismo dos foundings fathers na década de 1820, por meio da
Doutrina Monroe, os estadunidenses têm na América Latina o horizonte de suas intenções
expansionistas, seja do ponto de vista comercial ou, ainda, em termos territoriais. Já na década de
1840, por meio do Corolário Polk, o México foi alvo do crescimento territorial estadunidense (tema
abordado no capítulo sobre a história dos Estados Unidos).
Após a vitória do projeto capitalista-industrial na Guerra de Secessão(1861-1865), de forma
gradual, a política externa dos EUA desenvolve-se. Na década de 1880, com a chegada do
democrata Cleveland ao poder, adota-se a estratégia da “defesa ofensiva”, o que resultaria em
maciços investimentos na Marinha de guerra. Ao mesmo tempo, o secretário de estado Olney busca
um papel hegemônico para os norte-americanos na política continental, colocando, por meio da
diplomacia, estes como mediadores dos conflitos existentes. O corolário Olney pregava a solução
através do arbitramento, conforme ocorreu em dois casos simbólicos no final do século XIX: na
disputa pela região do Essequibo (Venezuela X Inglaterra) e na Questão de Palmas (Brasil X
Argentina).
Do ponto de vista econômico, os EUA cresciam em alguns setores mais de quatro vezes, se
comparados com a Inglaterra, e suas relações com a América Latina não mais eram contestadas
pela maior potência imperialista do período. A Tarifa Makinley, que estabelecia o protecionismo
alfandegário àqueles países que não tivessem acordos bilaterais com os Estados Unidos era um sinal
de que as intenções estadunidenses ultrapassariam, logo, os bons termos diplomáticos.
Foi nas presidências de Makinley e, após a sua morte, do vice Theodore Roosevelt que o
imperialismo estadunidense de fato afirmou-se na América Latina. A Guerra Hispano-Americana
seria o ponto de partida para as intervenções militares cada vez mais presentes na região. Cuba e
Porto Rico eram o resquício do império espanhol no continente e lutavam arduamente pela sua
autonomia, quando obtêm o precioso apoio da Marinha dos EUA. Sob a alegação de que os
espanhóis teriam participado do Desastre do navio Maine (algo que não aconteceu, uma vez que
uma explosão espontânea levou ao afundamento da embarcação), os EUA entram no conflito em
1898, sendo fundamentais na derrota dos ibéricos.
Não somente o controle sob as Ilhas Filipinas conseguem os discípulos de George Washington,
como também exigem recompensas de porto-riquenhos e cubanos. Porto Rico torna-se um
protetorado estadunidense, uma vez que sua economia e defesa eram controladas diretamente pelo
Tio Sam. Já Cuba, aceita uma emenda a sua constituição, proposta pelo senador estadunidense
Orvile Platt, que não somente concede uma base naval aos Estados Unidos, como também dava o
direito de intervenção militar em caso de violação dos interesses políticos e econômicos dos EUA na
ilha caribenha. A partir da Emenda Platt, que vigorou até a década de 1930, Cuba seria conhecida
como o “Quintal dos EUA”.
Outras intervenções militares seguiram-se na América Central e Caribe: intervenção na República
Dominicana (1907), ocupação do Haiti (1915-1934) e intervenção em Cuba com base na Emenda
Platt em 1917. No caso do Panamá, os estadunidenses estimulam o movimento já existente pela
independência da região, uma vez que possuíam interesse na construção do canal que abreviaria a
ligação oceânica entre as suas duas costas. Não houve intervenção direta, mas o apoio dos EUA ao
movimento autonomista fez o governo colombiano desistir de qualquer tentativa de impedir a
secessão da região em 1903, sendo o canal inaugurado em 1914 e mantido sob o controle direto dos
Estados Unidos até 2000.
O início do século XX marca os tempos do Corolário Roosevelt, quando os interesses
estadunidneses eram defendidos por meio de intervenções militares nas áreas da América Latina e
do Caribe. Segundo o presidente que dá nome a tal política externa, aquelas nações desgovernadas
ou turbulentas que não sabem fazer “bom uso da sua independência” sofreriam com as ações
estadunidenses. Até a década de 1930, quando é substituída pela Boa Vizinhança, a política externa
dos EUA para a região é baseada no que fica conhecido como o Big Stick.
8.11. CONCLUSÃO
Consolidado somente ao final do que o historiador inglês Eric Hobsbawn chama de o “longo
século XIX” (1789-1914), com a conclusão da partilha africana, o Imperialismo fez com que
restassem apenas dois Estados independentes naquele continente: a Etiópia cristã, que resistiu à
invasão italiana, e a República da Libéria, com seus históricos laços de união com os Estados
Unidos.
O processo imperialista tem como principais consequências:
• Criação de fronteiras artificiais, que unem em um mesmo território etnias ou grupos rivais;
• Guerras étnicas/religiosas nas áreas coloniais entre tais grupos rivais citados anteriormente, em
alguns momentos estimuladas pelas potências imperialistas;
• Diversas formas de resistência de chefias/grupos contra a submissão ao poder imperialista.
Escutei tuas palavras, mas não vi qualquer motivo para obedecer-te, antes preferiria morrer. Se
o que queres é amizade, estou pronto a oferecer-te, hoje e sempre; mas quanto a ser teu súdito,
isso nunca! Se o que queres é guerra, estou pronto para ela, mas ser teu súdito, nunca! Não cairei
a teus pés, porque és uma criatura de Deus, assim como eu. Sou sultão aqui na minha terra. Tu és
sultão lá na tua!31.
• Exploração da mão de obra local, agora não mais sob o regime escravista (ao menos
oficialmente). Muitas metrópoles usam o artifício da cobrança de impostos para obrigar a
população local a trabalhar em seus estabelecimentos, uma vez que para obter dinheiro a fim de
pagar os tributos estes tinham que se empregar com os colonizadores.
• Desestruturação da economia local, pois muitas vezes os colonos abandonam a agricultura de
subsistência para trabalhar nos estabelecimentos metropolitanos, causando muitas vezes fome.
• Imposição da cultura europeia sobre as colônias, heranças do imperialismo até hoje sobre estas
regiões.
• Tensões interimperialistas: Inglaterra e França possuem as melhores colônias, enquanto
potências emergentes como o Império Alemão somente entram no processo de forma tardia.
[...] A infelicidade da África começou com a escravatura. Milhões de africanos, sobretudo
homens jovens, foram raptados e levados para o outro lado do mar [...]. A colonização europeia,
organizada em torno do tráfico negreiro, aprofundou divisões antigas, criou outras, abalou
estruturas tradicionais, massacrou, destruiu, arrasou. Quando a vasta máquina de extermínio, a
escravatura, deixou de funcionar e os povos de África se libertaram finalmente da opressão
colonial, o que restava era um continente ao qual haviam roubado a população, a dignidade e a
própria memória.Exige-se hoje aos africanos que esqueçam tudo isto. Julgo, pelo contrário, que é
importante lembrar. Porém, ao invés de chorar sobre o leite derramado, devemos procurar utilizar
a nosso favor alguns dos frutos da política europeia relativa à África. Acontece que de árvores
ruins podem nascer frutos saudáveis e saborosos. A escravatura, por exemplo, deu origem a
florescentes sociedades crioulas no Novo Mundo. É preciso que estas sociedades, e a comunidade
negra dos Estados Unidos da América, com crescente poder político e econômico, reencontrem a
África32.
9
OS ESTADOS UNIDOS – COLONIZAÇÃO E
INDEPENDÊNCIA

9.1. AMÉRICA INGLESA


Embora por determinação do Tratado de Tordesilhas a região hoje conhecida como América do
Norte estivesse sob domínio espanhol, a Inglaterra – que passava por intenso crescimento
econômico e iniciava sua expansão pelos mares – venceu a resistência militar espanhola e organizou
expedições que iniciaram a exploração da área, com navegadores como John Howkins e Francis
Drake. Pouco depois, os ingleses fundariam a Companhia das Índias Ocidentais, que ficaria
responsável pelos laços comerciais estabelecidos com a nova colônia.
De maneira geral, os problemas sociais pelos quais passava a Inglaterra durante o século XVI
acabaram contribuindo decisivamente para que a ocupação e exploração do território que ficaria
conhecido como Treze Colônias (New Hampshire, Massachusets, Rhode Island, Connecutict, Nova
Iorque, Nova Jérsei, Delaware, Pensilvânia, Maryland, Virgínia, Carolina do Norte, Carolina do Sul e
Geórgia) obtivesse êxito.
Em primeiro lugar, os conflitos político-religiosos que opunham, na Inglaterra, católicos e
protestantes, estimularam de forma significativa a vinda de perseguidos religiosos para a América e,
consequentemente, a colonização das Treze Colônias. A chegada do navio Mayflower na costa de
Massachussets, em 1620, é o grande marco da entrada maciça de puritanos na região. Além disso,
membros oriundos de classes mais baixas, em especial camponeses que perderam suas terras após o
processo de cercamento dos campos, iniciado por Henrique VIII ainda no século XVI, também
compuseram o contingente de emigrados para a América inglesa, bem como burgueses que viam no
Novo Mundo uma alternativa atraente de investimentos e enriquecimento.
As particularidades geográficas do território americano e, claro, os interesses da metrópole
inglesa, são responsáveis por ditar as regras e a forma pela qual se desenvolveria o modelo de
colonização inglesa.
Na região Sul, detentora de um clima subtropical que possibilitava a produção de gêneros
diferenciados daqueles que eram encontrados na Europa, estabeleceu-se uma colonização baseada
na plantation, ou seja, grandes propriedades monocultoras (arroz, algodão, tabaco etc.),
dependentes do trabalho escravo africano e voltadas para o abastecimento do mercado externo. Em
tais áreas, o pacto colonial era rigidamente fiscalizado – o que não impedia que fosse burlado vez
por outra – visto que o retorno econômico obtido pela metrópole era considerável.
Já na parte setentrional das Treze Colônias, conhecida como Nova Inglaterra, cujo solo e clima
eram bastante semelhantes aos que se viam na própria metrópole, predominaram as pequenas e
médias propriedades, voltadas para atender ao mercado interno e o uso da mão de obra livre,
familiar ou assalariada. Dessa forma, instituiu-se na região uma política colonial peculiar, conhecida
como negligência salutar, em que o pacto colonial, apesar de presente, não era alvo de intensas
fiscalizações como em outras áreas coloniais. Tal postura da metrópole acabaria propiciando um
maior desenvolvimento do Norte das colônias, o que seria verificado anos mais tarde, quando essa
área se consolidaria como um polo manufatureiro no continente.
O conhecido comércio triangular, desenvolvido com sucesso durante anos envolvendo Europa,
África e América, consolida a ideia de integração capitalista mundial citada anteriormente,
consistindo na compra e venda de produtos como armas de fogo, algodão, rum e produtos
manufaturados sem necessariamente passar pela metrópole, o que vai de encontro com as
tradicionais relações entre metrópole e colônia.
9.2. O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA
O século XVIII é marcado pelo surgimento e difusão do Iluminismo, conjunto de ideias liberais
surgidas na Europa, que chegaria ao continente americano servindo de base para a independência
das Treze Colônias, antes de se espalhar pelos demais domínios europeus na região. John Locke,
intelectual contemporâneo da Revolução Inglesa (1640-1689) e autor de livros que defendiam a
existência de leis naturais do contrato entre governantes e governados, da autonomia entre os
poderes de Estado, do direito à revolta e outras, foi considerado o pensador-chave do processo
revolucionário que originaria os Estados Unidos da América.
O caráter pioneiro da libertação das Treze Colônias inglesas – quando comparado aos demais
processos de independência do continente – relaciona-se com a mudança de postura por parte da
metrópole, que, em meados do século XVIII, altera as relações estabelecidas com seus colonos.
Passando pela Revolução Industrial (a partir da metade do referido século) e pela Guerra dos Sete
Anos contra a França (1756-1763), a Inglaterra inicia um arrocho no pacto colonial, acabando com a
liberdade vivenciada pela região Norte por meio da negligência salutar – política de não fiscalização
do pacto colonial – buscando um maior controle sobre suas possessões ultramarinas e anunciando
novos tributos que oneravam consideravelmente a população colonial. Nesse sentido, o governo
britânico estipulou a Lei do Açúcar (1764 – criava impostos adicionais sobre o açúcar, procurando
proteger os produtores da concorrência das Antilhas), a Lei do Aquartelamento (1765 – exigia que
os colonos alojassem, concedessem alimentos e transporte às tropas enviadas para a colônia), a Lei
do Selo (1765 – imposto sobre todos os documentos em circulação na região colonial), entre outros
mecanismos de taxação.
A reação na colônia foi imediata. Os colonos argumentavam que não possuíam representação no
Parlamento britânico e, portanto, não poderiam ser taxados. Reunidos em Nova Iorque, realizaram o
Congresso da Lei do Selo (1765), em que decretaram o boicote aos produtos importados da
metrópole e a suspensão da Lei do Selo. As pressões de negociantes ligados ao comércio atlântico
foram inúmeras, o que resultou no recuo das autoridades coloniais. Estava abolida a Lei do Selo.
Insatisfeito com essa vitória dos colonos, o primeiro-ministro Charles Townshend decretou, em
1767, diversas novas taxações sobre produtos que eram exportados para as Treze Colônias
americanas, como chá, vidro, corantes e papel. Novamente foram articulados boicotes que
esgarçaram as relações entre colônia e metrópole, com resultado próximo àquele de 1765, ou seja, a
revogação das taxações, exceto de um produto: o chá. A Inglaterra acabara de conquistar a Índia,
importante colônia francesa no Oriente, sendo grande a quantidade de chá armazenada com a
Companhia das Índias, que fazia pressão pelo estabelecimento do monopólio do produto,
estabelecido em 1773. Apesar da redução dos preços, os americanos acreditavam que estava aberto
um precedente perigoso, uma vez que o mesmo poderia acontecer com outros produtos.
Diante dessa situação, os colonos dividem-se em dois grupos: os chamados legalistas, próximos
aos tories, que defendiam a autoridade da Coroa inglesa e pretendiam uma conciliação com a
metrópole. Esta tendência é formada, principalmente, por funcionários reais e latifundiários. Já os
conhecidos como patriotas, defensores de uma radicalização política que culminaria na
independência, apresentavam-se mais perto dos whigs, e eram oriundos, em especial, de setores da
burguesia e dos yeomen.
Em 1773, alguns colonos, liderados por Samuel Adams e componentes de um grupo pró-
independência, os “Filhos da Liberdade”, disfarçaram-se de índios e, misturados aos trabalhadores
portuários de Boston, lançaram todo o carregamento de chá da Companhia das Índias – cerca de 45
toneladas – ao mar. A reação inglesa foi severa: as chamadas Leis Intoleráveis decretaram o
fechamento do porto de Boston até que a indenização devida fosse paga à companhia, a
transformação de Massachussets em colônia real, a transferência do poder jurídico nas colônias
para os tribunais metropolitanos e o aumento da quantidade de tropas do exército para fiscalizar o
cumprimento destas leis.
No ano seguinte, os colonos organizaram o Primeiro Congresso Continental da Filadélfia, cujas
decisões, compiladas na Declaração de direitos e agravos, foram: intensificar o boicote às
mercadorias britânicas, confiscar as importações metropolitanas, recusar as leis intoleráveis e
pleitear um novo Congresso, com participação dos colonos (no taxation without representation). A
petição foi enviada ao rei George III, que a recusou imediatamente. Uma vez que a tendência
legalista não alcançara resultados, realiza-se o Segundo Congresso Continental da Filadélfia, entre
1775 e 1776, que, na Declaração das causas e necessidades de pegar em armas, determina a
utilização do uso da força como forma de resistência à agressão britânica, o estabelecimento do
Exército Continental – comandado por George Washington – e, finalmente, em quatro de julho de
1776, a Declaração de Independência dos EUA.
Esse documento, que teve Thomas Jefferson como principal autor, baseava-se especialmente na
defesa dos direitos individuais e do direito de revolução, comunicando oficialmente que as Treze
Colônias não mais faziam parte do Império Britânico. Diante da recusa inglesa em aceitar a
independência de suas colônias, iniciou-se um conflito militar (1775-1781) no qual os colonos
formalizavam a luta pela autonomia, contando com apoio francês (Tratado de Aliança Franco –
Americana) e espanhol.
Finalizado em 1783, o processo de independência teve como ponto final o Tratado de Paris,
quando, finalmente, a Coroa inglesa reconheceria a separação do antigo território colonial. A partir
de então, os estadunidenses buscam a pacificação externa tendo em vista a própria integração
interna. Neste sentido, o governo dos EUA evita participar do processo revolucionário francês
(1789-1798), mesmo quando seu auxílio foi solicitado mediante cobrança de cumprimento do
Tratado de 1778, que falava de uma aliança perpétua entre os dois países. Tal atitude gera críticas
dos gauleses e aproxima os americanos de sua ex-metrópole (Tratado de Jay – 1794). O próprio
George Washington pregava em seu discurso de despedida que os Estados Unidos deveriam “evitar
anexos e envolvimentos em assuntos estrangeiros, especialmente os da Europa, que teriam pouco ou
nada a ver com os interesses da América”. Para um dos founding fathers, não fazia sentido o povo
estadunidense ingressar em um conflito europeu, sendo ainda a neutralidade vantajosa para
concentrar-se em seus próprios assuntos.
Com relação à organização política interna, as disputas mais significativas eram protagonizados
por aqueles que defendiam um poder central mais forte, respeitando as autonomias dos estados
(federalistas), e os antifederalistas, favoráveis a uma grande autonomia para os estados, publicando
suas ideias nos chamados Artigos da Federação (1781-1787). Para evitar que tais atritos e visões
opostas levassem a revoltas populares de grandes proporções, os federalistas redigem a primeira
Constituição estadunidense em 1787, a primeira do continente, que é composta por princípios
liberais, tais como:
• República como forma de governo;
• Tripartição dos poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário);
• Bicamaralismo, com o Senado representando os estados (dois senadores por estado) e a Casa
dos representantes (o número de deputados seria proporcional à quantidade de habitantes do
estado);
• Voto censitário, sendo a renda o critério de participação no processo eleitoral;
• Estado laico;
• Manutenção da escravidão.
Mas a aprovação do texto constitucional nos estados não foi tarefa fácil. Federalistas como
Alexander Hamilton, John Jay e James Madison, defenderam a ratificação da Constituição nos
chamados Papéis Federalistas, uma série de artigos publicados em jornais em defesa do governo
central forte que respeitasse a tripartição de poderes. A antipatia dos antifederalistas somente foi
suplantada com a aprovação de 10 emendas em defesa dos direitos individuais, aprovadas pelo
Congresso, conhecidas como a Declaração dos Direitos. São algumas delas:
• Liberdade de imprensa, expressão, religião e o direito de se reunir pacificamente, de protestar e
exigir mudanças (Primeira Emenda);
• Proteção contra buscas, confisco de propriedade e prisão injustificadas (Quarta emenda);
• Cumprimento dos procedimentos legais em todos os casos criminais (Quinta emenda);
• Direito a um julgamento justo e rápido (Sexta emenda);
• Proteção contra penas cruéis e incomuns (Oitava Emenda);
• Dispositivos assegurando que as pessoas reteriam direitos adicionais não enumerados na
Constituição (Nona Emenda).
Outras alterações ocorreram na Constituição, como aquela referente ao voto qualificado dos
negros (1865), voto universal (1870), voto secreto (1888) e o sufrágio feminino (1920). Mas até hoje
a Constituição original se mantém nos Estados Unidos.
9.3. INSTABILIDADE POLÍTICA INICIAL
Enquanto os federalistas se posicionavam ao lado da Inglaterra no contexto das guerras
europeias, uma vez que lucravam no comércio com a maior potência econômica da época, por
ideologia, os republicanos (antes chamados de antifederalistas) acreditavam que o alinhamento com
a França era natural.
Decretado o Bloqueio Continental (1806), crescem as tensões com a Inglaterra, descontente com
a neutralidade estadunidense. Incidentes com índios no Oeste, o recrutamento forçado de
marinheiros e o desejo de anexação do Canadá por parte dos Estados Unidos foram fatores
fundamentais para a eclosão da Guerra de 1812, também chamada de Segunda Guerra de
Independência.
O posicionamento contra a guerra por parte dos federalistas na Convenção de Hartford
enfraqueceu sua posição interna, uma vez que os ânimos nacionalistas exaltados com o desenrolar
do conflito, que tem episódios emblemáticos na história estadunidense como a tomada de
Washington pelos britânicos ou mesmo a composição do hino dos Estados Unidos da América, foram
utilizados pelos democratas-republicanos (antes republicanos), que, ao assinar a Paz Eterna de Gand
em 1814, colocaram um ponto final no conflito, capitalizando tal vitória militar. Nesta, a região dos
Grandes Lagos foi confirmada como zona neutra, fixando a fronteira norte entre os Estados Unidos e
o Canadá.
Entre os principais destaques da política estadunidense na primeira metade do século XIX está a
democracia jacksoniana (1829-1837). O chamado jacksonianismo tem como base o apoio dos
trabalhadores e dos pequenos camponeses aos republicanos-democratas, acreditando em um
governo que promoveu a ampliação da cidadania, o sistema de spoils (retirando os antigos
funcionários públicos ligados ao governo de John Quincy Adams, entre 1825 e 1829) e a extinção do
II Banco dos EUA, considerado pelas camadas baixas especulador e explorador da economia
popular.
9.4. MARCHA PARA O OESTE
Sobre a composição territorial, com o Tratado de Paris (1783) os Estados Unidos garantiram a
posse das terras a Oeste até o rio Mississipi. Ao longo do século XIX, os estadunidenses não
respeitaram este limites e deram início ao processo de expansão territorial em direção ao Pacífico,
que daria ao país sua configuração geográfica atual, impulsionados por fatores econômicos (como a
necessidade de terras para a agricultura), sociais (como a perseguição aos novos grupos religiosos –
Novo Despertar) e políticos.
A chamada Marcha para o Oeste era justificada ideologicamente pela Teoria do Destino
Manifesto, segundo a qual os estadunidenses haviam sido escolhidos por Deus para ocuparem as
terras a Oeste de seu território. John L. O’Sullivan, escritor e político defensor do Partido
Democrata, lançou pela primeira vez a ideia de que os “norte-americanos foram escolhidos pelo
destino para dominarem a América”, em um misto de liberalismo e teoria da predestinação.
Baseados nessa doutrina, milhares de homens – conhecidos como pioneiros – lançaram-se na
empreitada, que possibilitou um grande crescimento, não apenas geográfico, mas também
econômico para os EUA, que adquiriram áreas ricas em ouro e petróleo, além de desenvolverem
atividades como a agricultura e a pecuária.
O processo de expansão territorial inicia-se ainda em 1803, quando após negociação com
Napoleão Bonaparte, foi comprada a Louisiana. Pouco tempo depois, em 1819, a Flórida foi
comprada da Espanha, importante para o acesso estadunidense para o golfo do México e para as
Antilhas. Neste contexto, ainda foi comprado o Alasca, pertencente ao Império Russo, em 1867.
Objetivando estimular a ocupação das novas áreas conquistadas no Oeste, o governo norte-
americano oferecia terras a preços baixos. Em 1820, por exemplo, oitenta acres poderiam ser
comprados por cem dólares e, em 1862, foi decretado o Homestead Act, segundo o qual seriam
cedidas terras a quem se comprometesse a torná-las produtivas em um prazo de cinco anos. Um dos
principais incentivadores foi o presidente James Polk (1845-1849), que dentre outras medidas, como
a redução de tarifas e o reestabelecimento do sistema independente do Tesouro, conquistou a região
do Oregon (hoje Oregon, Washington, Idaho e Columbia Britânica) por meio de negociações com a
Inglaterra e, ao mesmo tempo, ao sul, travou intensa guerra contra o México para expandir o
território estadunidense.
A Guerra México – Americana (1846-1848) inicia-se quando o presidente Polk envia o diplomata
John Slidell com o intuito de negociar a compra das regiões do Novo México e da Califórnia.
Insatisfeitos com a perda do território do Texas para os estadunidenses (o Texas foi um Estado
independente de 1836 até ser aceito pela união em 1845 – era chamado de “lonely star republic”),
os mexicanos não aceitaram nem mesmo receber o diplomata, sendo este o estopim para a
declaração de guerra. Após meses de conflito, os mexicanos aceitam os termos do Tratado
Guadalupe – Hidalgo (1848), no qual perdeu 2 milhões quadrados de seu territórios, que deram
origem ao Texas, à Califórnia, ao Novo México, ao Arizona, a Utah e a Nevada, sendo assim obtida a
saída para o Pacífico. Além da conquista de mais de 2/3 do território mexicano, a Marcha para o
Oeste ocorreu a desrespeito das populações indígenas (apaches, navajos, cheyennes, dakotas dentre
outros), dizimadas ou confinadas em Oklahoma, distantes de suas origens por meio da Lei da
Transferência de Índios, forjou-se a construção nacional dos Estados Unidos da América.
9.5. GUERRA DE SECESSÃO (1861-1865)
Em todos os sistemas sociais, é preciso haver uma classe para desempenhar as tarefas
indígenas, para fazer o que é monótono e desagradável ... nós a chamamos escravos. [...] não
chamarei a classe existente do norte usando esse termo; mas vocês também os possuem; [...] A
diferença entre nós, é que os escravos são contratados pela vida toda, e são bem recompensados;
não há fome, nem mendicância, nem desemprego entre nós, e nem excesso de empregos,
também. Os de vocês são empregados por diárias, não são bem tratados, e têm escassa
recompensa, o que pode ser provado, da maneira mais deplorável, a qualquer hora, em qualquer
rua de suas cidades. Ora, pois a gente encontrava mais mendigos em um dia, em uma só rua de
Nova Iorque, do que os que se encontram durante toda uma vida no sul inteiro. Nossos escravos
são pretos, de uma raça inferior; ... os de vocês são brancos, de sua própria raça; são irmãos de
um só sangue33.
Ao mesmo tempo em que assistia à expansão de seu território, o país viu crescer também as
disparidades regionais, especialmente no que diz respeito às diferenças entre os estados do Norte e
os do Sul.
Enquanto os primeiros configuravam-se, geralmente, como polos industriais, utilizando
predominantemente o trabalho assalariado e defendendo o protecionismo alfandegário, a região Sul
caracterizava-se, ainda, como na época colonial, por uma estrutura baseada na agroexportação, no
trabalho escravo e no livre-comércio, típicos de uma sociedade consumidora – e não produtora – de
gêneros industrializados.
As divergências, que remontam ao início da colonização inglesa na região, tornaram-se
irreconciliáveis diante da expansão territorial para o Oeste, uma vez que os estados lutavam para
que as novas áreas adquiridas adotassem seus modelos socioeconômicos. Várias foram as tentativas
de organização:
• Compromisso do Missouri (1820): neste compromisso, o Missouri foi admitido como escravista;
em contrapartida o Maine era reconhecido como livre. O restante da Louisiana seria integrada
como territórios livres.
• Compromisso Clay (1850): a Califórnia era admitida como território livre, mesmo com parte de
suas terras ao sul.
• Ato Kansas-Nebraska (1854): os dois estados citados teriam liberdade de escolha, por meio de
um plebiscito, para escolher se seriam admitidos como escravistas ou livres, violando assim o
Compromisso de 1820, uma vez que os dois faziam parte da antiga Louisiana.
Episódios como a repercussão positiva do romance A Cabana do Pai Tomás, considerado um libelo
abolicionista, a formação do Partido Republicano (1854) e o Caso Dread Scott, quando foi negado
aos negros o acesso à justiça, foram elementos importantes no acirramento das tensões internas.
Favorável à extensão dos territórios livres, o ex-deputado Abraham Lincoln se opôs ao senador
Stephen A. Douglas, idealizador da Lei Kansas-Nebraska. Apesar de derrotado nas eleições para o
senado em 1858, protagonizou uma série de debates sobre a abolição, sendo seu discurso da “Casa
Dividida” um símbolo da divisão política interna e um dos principais fatores para a sua projeção
nacional.
Com os democratas divididos entre duas candidaturas para a décade de 1860, o caminho para a
vitória de Lincoln estava aberto. A confirmação nas urnas da vitória do primeiro presidente eleito
pelo Partido Republicano e defensor do abolicionismo foi a gota d’água para que a região Sul
formasse os Estados Confederados da América e declarassem a secessão do restante do país. Este
episódio deu início à Guerra Civil entre o Norte e o Sul dos EUA.
Graças, em parte, ao elevado contingente demográfico – cerca de 2/3 da população dos EUA vivia
nos estados do Norte – e a uma sólida industrialização, a região – que contava com pelo menos três
fábricas modernas de armamentos – pôde vencer o Sul que, embora tenha saído em vantagem nas
primeiras batalhas, não teve possibilidade de manter-se no conflito, assinando a rendição em abril
de 1865.
Com um resultado final de seiscentos mil mortos, boa parte do Sul devastada, e o decreto de
abolição da escravidão finalmente assinado, a guerra civil trouxe como consequência nefasta uma
radicalização ainda maior da segregação racial no país, dando origem a associações racistas como a
Ku-Klux-Klan, fundada em Nashville no ano de 1867, que não aceitava a integração dos negros como
homens livres com direitos adquiridos e garantidos por lei após 1865. Vestindo capuzes cônicos e
longos mantos brancos, a fim de não serem reconhecidos, os membros da KKK organizavam
manifestações racistas, linchamentos, espancamentos, incêndios de residências e assassinatos, não
apenas de negros, mas também, em menor escala, de brancos que com eles simpatizavam, judeus,
católicos e hispânicos.
Apesar dos prejuízos causados pelo conflito, a recuperação econômica dos Estados Unidos foi
rápida, possibilitando a expansão do modelo capitalista-industrial de Norte a Sul e transformando o
país na grande potência do continente americano entre os séculos XIX e XX.
10
A AMÉRICA ESPANHOLA

Porventura, este imenso território, seus milhões de habitantes devem reconhecer a soberania
dos comerciantes de Cádiz e dos pescadores da Ilha de Léon? (...) Porventura, terão passado a
Cádiz e à Ilha de Léon, que fazem parte da Andaluzia, os direitos da Coroa de Castela, à qual foram
incorporadas as Américas? Não, senhor; não queremos seguir a sorte da Espanha, nem ser
dominados pelos franceses. Resolvemos tomar de novo o exercício de nossos direitos de nos
salvaguardarmos a nós mesmos34.
10.1. INTRODUÇÃO
O processo de independência das colônias espanholas na América insere-se no contexto de
difusão das ideias iluministas pelo continente, consolidadas especialmente após a emancipação das
Treze Colônias, ainda no século XVIII e a expansão do iluminismo revolucionário francês com
Napoleão Bonaparte.
No entanto, podemos elencar alguns fatores mais específicos no que diz respeito à relação
metrópole-colônia na região, a partir de meados dos anos 1700. Nesse sentido, a política
metropolitana de restrições comerciais típicas do pacto colonial e a profunda insatisfação com a
organização político-social marcaram o período de crise do antigo sistema colonial na América
espanhola.
Marcada pelo preconceito racial, a sociedade colonial era dividida de acordo com o nascimento.
Os chapetones (cerca de 0,3% da população total) eram espanhóis nomeados pelo Conselho Real e
Supremo das Índias para ocuparem os órgãos administrativos; logo abaixo na hierarquia social
vinham os criollos (aproximadamente 20% da população), brancos nascidos na América, que
formavam a elite colonial, detentores das minas, terras e altos postos no exército e na Igreja
colonial, porém tinham participação limitada na política (somente atuavam nas câmaras municipais,
os cabildos) enquanto os não brancos levavam uma vida miserável, trabalhando de forma
compulsória (índios na mita e encomienda), escrava (negros) ou em atividades de pouca qualificação
(mestiços).
Durante o reinado de Carlos III (1759-1788) uma série de mudanças na política colonial foram
estabelecidas, ficando conhecidas como as Reformas Bourbônicas. Procurando associar o
absolutismo com ideias liberais, o principal objetivo do Despotismo Esclarecido espanhol seria
promover a modernização da Espanha, reinserindo a península ibérica entre as maiores potências
da Europa. Para isso, a exploração mais racional das colônias era fundamental, obtendo capital para
financiar as inovações na metrópole. Agumas destas medidas são:
• Criação de companhias de comércio que seriam beneficiadas com monopólios;
• Criação do Vice-Reino do Prata, que reunia territórios que hoje pertencem ao Uruguai, à
Argentina, ao Paraguai e à Bolívia);
• Substituição dos alcaides pelas intendências;
• Aumento de impostos e das forças militares nas colônias;
• Ampliação do exclusivo colonial, com o fim do asiento e permiso aos ingleses;
• Incentivo à diversificação agrícola, com o aumento do número de índios cedidos para a mita e
para a encomienda;
• Expulsão dos jesuítas das colônias americanas.
Influenciados de certa forma pelos ideais iluministas e pela independência dos Estados Unidos
(1776) surgem as primeiras ações pela libertação no final do século XVIII. É o caso da rebelião
liderada por Tupac Amaru (seu nome real era José Gabriel Condorcanqui), descendente direto do
último imperador Inca, profundo conhecedor do território peruano devido a sua atividade de
tropeiro e frequentador da universidade de Lima, através de uma carta, pedia ao rei espanhol a
diminuição do número de índios na mita/encomienda. Ignorado pelo soberano, Tupac incentivou os
índios a pegarem em armas pela abolição do trabalho compulsório e dos impostos. Interpretada por
muitos como o primeiro movimento pea libertação da América, terminou de forma trágica: traído,
Tupac Amaru foi preso, torturado na Plaza de Armas em Cuzco e decapitado.
10.2. PROCESSO DE LIBERTAÇÃO
Não obstante alguns movimentos que já usavam a palavra independência, ainda no século das
luzes, a onda emancipatória só se tornaria real nas colônias hispano-americanas a partir da década
de 1810. A associação entre a Coroa Espanhola e o expansionismo napoleônico, que rendeu bons
frutos no início do século XIX (conquista de Olivença no contexto da Guerra das Laranjas), após a
invasão da Península Ibérica por parte dos franceses como forma de retaliação pela violação do
bloqueio continental (1806), por parte de Napoleão, agora era onerosa para os súditos de Carlos IV.
Símbolo deste conturbado momento, o Motim de Aranjuez (1808) marca a revolta da população
com a situação de submissão aos interesses napoleônicos e, em especial contra o gestor desta, o
Primeiro Ministro Manuel de Godoy – jovem comandante da Guarda Real que passou a ter uma
influência política gigantesca na Corte –, cerca o palácio imperial, exigindo a renúncia do rei. Após o
quase linchamento de Godoy e os rumores, mal recebidos pelo povo espanhol, de que a família real
fugiria para a América, Carlos IV acaba abdicando ao trono em favor de seu filho, D. Fernando,
recebido com festa pelos populares.
Tentou o novo monarca negociar a manutenção da soberania espanhola com Napoleão, sendo a
resposta deste a invasão de Madri por seu exército (comandado por Murat), forçando a abdicação de
Fernando VII que ficou até 1813 preso no castelo de Valençay. Assim, o irmão de Napoleão assumia
o trono espanhol sob o título de José I, prometendo implementar os princípios revolucionários
franceses na Espanha.
Em 1812, o novo governo promulgou a Constituição de Cádis, também conhecida como La Pepa,
que estabelecia a igualdade entre os súditos, o fim dos tributos indígenas, a abolição do Santo Ofício
e a liberdade de imprensa, entre outras medidas. Apesar da curta vigência (cerca de dois anos), esse
texto constitucional é considerado um marco na política espanhola e europeia, de modo geral.
10.3. ERA DOS CABILDOS ABIERTOS
Na América, os criollos se dividiram em diversas tendências. Alguns se recusaram a receber
ordens de José Bonaparte, declarando-se fiéis a Fernando VII, aproveitaram tal isolamento e
liberdade diante da instabilidade política da metrópole para boicotar impostos, expulsar os
chapetones e realizar o comércio direto com a Inglaterra. Em outros locais aproveitaram para
realizar a independência já neste momento, enquanto outros foram convulsionados por tentativas de
revoluções com caráter social. Uma das poucas exceções foi a região do Vice-reino do Peru, onde
forças legalistas predominaram.
Em Buenos Aires, as duas tentativas de invasão inglesas entre os anos de 1806 e 1807 são
consideradas importantes antecedentes para a Independência, uma vez que confirmavam a
capacidade de autodefesa criolla, assim surgindo as primeiras correntes que acreditavam que a
situação metropolitana era de inferioridade com relação à colônia. A partir de 1809, os rumores de
uma suposta invasão napoleônica na Espanha foi difundido na América, tendo sido confirmada
quando uma fragata inglesa chegou a Montevidéu e confirmou as notícias. Imediatamente algumas
correntes políticas defenderam a autonomia total enquanto a legalista acreditava que, enquanto
Fernando VII estivesse impossibilitado de comandar a Coroa, Carlota Joaquina poderia comandar
provisoriamente a colônia, aproveitando que esta estava no Rio de Janeiro com a Corte Portuguesa.
Hegemônico foi o projeto de uma autonomia parcial, resultando na Revolução de Maio (1810),
formando a Primeira Junta Governativa. Acreditavam os portenhos que poderiam promover a
autonomia de toda a região do Vice-reino do Prata, mas isto não foi possível, uma vez que o Paraguai
promoveu a sua independência em separado, liderado por Juan Gaspar Rodriguez de Francia (1811),
escolhido por unanimidade como chefe supremo da primeira república da América do Sul. Enquanto
isso, a banda oriental do rio da Prata também articulou a sua independência, obstruída pelo desejo
luso-brasileiro de controlar a região, que em 1821 foi anexada ao Brasil com o nome de Província
Cisplatina.
Sob a liderança do padre Miguel Hidalgo, uma tentativa de independência que preservasse os
direitos das comunidades indígenas foi arquitetada no Vice-reino da Nova Espanha, tendo como
base o Grito de Dolores (setembro de 1810): “Viva a Virgem de Guadalupe! Morte ao mau governo!
Viva Fernando VII”. Pregando o voto universal, a abolição da escravatura e do trabalho compulsório
indígena, o fim dos monopólios governamentais, a reforma agrária baseadas nos ejidos (pequena
propriedade indígena) entre outros, o movimento foi duramente reprimido pelas forças legalistas,
levando à execução não só de Hidalgo, mas de seu sucessor na liderança do movimento, José María
Morelos y Pavón.
Na atual Venezuela, também em 1810, o movimento separatista liderado por Francisco Miranda
chegou ao poder, estabelecendo uma república presidencialista, sendo Miranda o presidente com
poderes centralizados. A oposição da Igreja Católica, que considerava o discurso do revolucionário
demasiadamente liberal e das forças espanholas, levaram à abdicação daquele que é considerado
precursor da independência da região. Tanto a Revolta de Francisco Miranda como a Rebelião de
Hidalgo e Morelos fracassaram em seus intuitos separatistas, mas foram fundamentais na
construção de um sentimento autonomista na região.
10.4. MOVIMENTOS DE LIBERTAÇÃO
Com a derrota das tropas de Napoleão Bonaparte, em 1813, o rei espanhol volta ao trono.
Agraciado posteriormente pelo princípio da Legitimidade criado no Congresso de Viena, Fernando
VII realiza uma restauração radical do absolutismo, tentando restaurar o controle das colônias
americanas. Uma vez experimentada a liberdade, os colonos pegariam em armas para manter a sua
liberdade.
Influenciados pelo liberalismo e com o apoio da opinião pública internacional, os criollos
lideraram o processo de libertação colonial. Interessados no comércio direto com a América, a
Inglaterra não pode conceder auxílio direto devido aos compromissos com o Equilíbrio Europeu. Até
mesmo a venda de armas e a vinda de mercenários para as colônias espanholas eram formalmente
proibidas pelos ingleses. A mudança na posição inglesa viria com a chegada de Lord Canning ao
poder substituindo Castlereagh em 1822 na secretaria do exterior.
Lord Canning almejava o apoio dos Estados Unidos, que é rejeitado na medida que, influenciado
por John Quincy Adams, o presidente James Monroe divulga um conjunto de princípios de política
externa baseados na ideia de “América para os americanos”: era a Doutrina Monroe (1823). O
governo estadunidense reconhecia as independências americanas e negava qualquer tipo de
cooperação com as potências europeias.
Os chamados “Libertadores da América”, criollos, líderes dos exércitos de libertação, destacam-se
neste contexto. Seus principais nomes são:
• Agustín de Iturbide
• Destacou-se na repressão à Rebelião de Hidalgo e Morelos como oficial do exército espanhol,
e aliou-se aos separatistas criollos como Vicente Guerrero, formulando, em 1821, o Plano
Iguala, que continha as bases da declaração de independência do México. Chegou a oferecer o
trono do país independente a Fernando VII, que se negou a receber o trono, caindo este nas
mãos de Iturbide. Pouco tempo depois, o autoritarismo de Iturbide levou a sua queda e
consequente instalação da República em 1823.
• Bernardo O’Higgins
• Filho de um general espanhol que fora vice-rei do Peru, O’Higgins foi um dos membros da
elite que se recusou a aceitar o governo de José Bonaparte, criando uma Junta Governativa
em setembro de 1810. Eleito deputado do Congresso chileno de 1811, contou com o apoio dos
soldados de San Martín na longa luta pela libertação contra a Espanha terminada em 1818.
Após a assinatura da Ata de Independência, em 1818, um longo período de instabilidade
política ocorre fruto do choque entre os que defendiam a visão centralista e os federalistas.
Até a década de 1830, guerras e golpes de Estado foram constantes no país quando, por fim, a
facção conservadora centralista venceu a disputa pelo poder.
• José Artigas
• Considerado pelos uruguaios o líder do prcesso de independência nacional, José Artigas
liderou as tropas de Montevidéu contra a primeira invasão luso-brasileira iniciada em 1810.
Considerado por muitos o primeiro grande “reformador agrário” da América do Sul, Artigas
confisca, sem indenizações, terras pertencentes aos “maus europeus e piores americanos”,
distribuindo-as entre “negros livres, índios e pobres criollos”, o que gera descontentamento
entre as elites uruguaias. A cisão interna favorece a segunda invasão das tropas luso-
brasileiras que ocorre em 1817, transformando a Banda Oriental do Rio da Prata na Província
Cisplatina, adiando o sonho da definitiva autonomia em alguns anos.
• José de San Martín
• De origem aristocrática, filho de um militar europeu que estudou na Espanha, regressou à
Argentina em 1812, onde foi integrado ao exército na qualidade de general. Favorável à
independência, liderou o movimento de libertação, auxiliado por Manuel Belgrano,
consagrada no Congresso de Tucumán em 1816.
• Simón Bolívar
• De origem aristocrática (seus pais eram donos de minas de prata e cobre, de plantações de
açúcar e criação de gado), aprofundou seus estudos e entrou em contato direto com os ideais
iluministas na Europa, onde viveu entre Espanha e França, passando ainda por diversas
cidades dos Estados Unidos antes de regressar para a Venezuela em 1807. Nesta participou
da Revolta de Francisco Miranda antes de formar seu próprio exército composto por criollos,
mestiços, mulatos, estrangeiros voluntários e negros livres protagonizando as lutas de
libertação da América do Sul (Capitania Geral da Venezuela, Vice-Reino de Nova Granada,
Província de Quito, Província Livre de Quayaquil e o Vice-Reino do Peru). Como consequência
direta desses processos de libertação, foi criada, a partir do Congresso de Angostura (1919), a
Gran Colombia, país que reunia os atuais Colômbia, Equador, Panamá, Venezuela e a região
do Essequibo. As disputas entre unitaristas e federalistas impediram a consolidação desse
grande projeto político defendido pelo libertador Bolívar.
Após derrotar as tropas espanholas no Peru, foram formadas diversas repúblicas como fruto da
fragmentação política da antiga colônia espanhola, o processo de emancipação resultou no fim do
trabalho compulsório dos índios por meio da mita e da encomienda, assim como o fim da escravidão
negro-africana. Mantendo o povo afastado da participação política, a independência favoreceu as
elites criollas, que agora monopolizavam não somente o poder econômico, mas também o poder
político e social.
10.5. AMÉRICA LATINA NO SÉCULO XIX
A política latino-americana era dominada, em muitas de suas regiões, por ex-criollos agora
chamados de caudilhos. Proprietários de terras e carismáticos em sua maioria, possuíam o poder
político, econômico, social e militar em suas regiões. Como principal resultado do caudilhismo,
surgiram governos autoritários instituídos por meio de golpes de estado, resultando em uma disputa
entre federalistas e unitaristas que levaram a décadas de instabilidade política na América Latina.
O caudilhismo representou em certos casos a defesa das estruturas socioeconômicas
tradicionais, como também o artesanato e a indústria incipiente, contra elites burguesas que
atuavam na exportação de matérias-primas, construindo a típica burguesia “compradora”.
Na América Latina, o termo caudilho ainda continua a ser usado, como o de cacique, para
designar chefes de partido local ou aldeia, com características demagógicas.
O epíteto foi expressamente rejeitado pelos ditadores militares do nosso século, pelas
conotações naturais e inorgânicas que implicam a região, contrariamente ao que acontecia na
Espanha, onde os partidários do franquismo chamavam oficialmente o seu chefe de caudilho. Mas
não se aludia neste caso à tradição latino-americana, mas ao lema das forças antirrepublicanas
durante a Guerra Civil: “una fe, una pátria, un caudilho”.
Presentemente, parte dos estudiosos da ciência política creem que o caudilhismo é
particularmente significativo para a compreensão da gênese do militarismo na América Latina35.
Por exemplo, na Argentina, até a década de 1860 viram diversos caudilhos lutarem para o poder,
tais como Juan Manuel Rosas, que foi retirado do poder depois de uma guerra (com intervenção
brasileira) por Justo José de Urquiza (1854-1860) que, por sua vez, foi suplantado pelos desejos
unitaristas de Bartolomeu Mitre (1860-1868). Tal instabilidade favoreceu o Brasil que, com sua
política estável com a chegada de D. Pedro II ao poder em 1840, atraiu capitais estrangeiros.
Com a queda dos preços de gêneros alimentícios nas décadas posteriores à independência, as
novas repúblicas cada vez mais ficaram endividadas com as potências europeias industrializadas,
principalmente a Inglaterra. A manutenção do modelo de uma economia baseada na exportação de
produtos agrícolas e matéria-prima fez com que a América Latina ficasse dependente não só
economicamente, mas também politicamente.
Era desejo de Simón Bolívar a promoção da integração da ex-colônia espanhola. Em 1815, quando
pressionado pelas forças legalistas, foi obrigado a refugiar-se na Jamaica; Bolívar negava a ideia de
formação de um só país, mas explicitava seu desejo na criação de uma confederação hispano-
americana. Até hoje a oposição de ideias entre Bolívar e San Martín não foi completamente
esclarecida, mas acredita-se que o líder argentino não aceitava a ideia republicana e integradora do
venezuelano e, para não dividir as forças pró-libertação, abandonou a vida pública e renunciou a
todos os seus cargos em favor de Bolívar.
Após a vitória da maior parte do processo de emancipação, Bolívar articulou a criação do
Congresso do Panamá (1826), que reuniria todas as principais forças políticas na América Latina
para organizar como seria a integração da região, conhecida como Bolivarismo ou Pan-
Americanismo. Os convites foram enviados pelo Congresso colombiano, incluindo o Brasil
monárquico (que não teve interesse em enviar seu representante, mas alegou oficialmente
enfermidade para tal), à Inglaterra (que possuía colônias na América) e aos Estados Unidos.
A participação estadunidense nesta reunião foi prejudicada devido à divisão interna no governo
de John Quincy Adams (1825-1829), o que retardou a escolha de um novo representante após a
morte do primeiro escolhido. Enquanto a política oficial dos Estados Unidos seria a Doutrina Monroe
(1823), que pregava a adaptação no isolacionismo para o contexto latino-americano de
independências, a Inglaterra tinha o astuto Canning à frente de seus negócios estrangeiros. Este
envia como representante Dawkins, que se opõe à política de “duas esferas” pregada pelos
estadunidenses, buscando uma cooperação com as repúblicas recém-criadas na América.
Prevaleceu a visão inglesa, que dominou a política do continente nas décadas posteriores à
libertação. Como fruto do Congresso, o Tratado de União, Liga e Confederação Perpétua foi
assinado por México, Peru, Colômbia e República Centro-Americana (posteriormente dissolvida e
dividida em El Salvador, Nicarágua e República Dominicana), assim como a formação de um exército
comum, abolição do tráfico de escravos e a convocação para futuras reuniões.
A oposição dos caudilhos e chefes políticos locais, a oposição e desconfiança da monarquia
constitucional brasileira e as diferenças culturais entre os países sul-americanos foram fatores
decisivos para o fracasso do bolivarismo. Outras conferências não tiveram êxito:
• Congresso de Lima (1847-1848)
• Participação de Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru.
• É criada a “Confederação de Estados”, nunca materializada.
• Assinado um tratado definindo as regras do comércio e da navegação, que também não saíram
do papel.
• Congresso de Santiago (1856)
• Participação do Chile, Equador e Peru.
• É assinado pela primeira vez na América um Tratado de Aliança Militar e de Assistência
Recíproca, retomando a ideia de solidariedade continental de Bolívar.
• No mesmo ano, Estados Unidos, México, Colômbia, Guatemala, Costa Rica, Honduras e Peru
assinam com o mesmo caráter no Congresso de Washington (1856).
• Nenhum dos dois tratados foi ratificado.
• II Congresso de Lima (1864-1865)
• Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, El Salvador, Venezuela e Peru.
• Debates com relação ao perigo da fragmentação territorial contínua tomam conta das
reuniões.
• É assinado um Pacto de União por meio de uma aliança defensiva, sem efetivas consequências.
A ideia de unificação permeou a história latino-americana ao longo de todo o século XIX.
Efêmeras tentativas como aquela da Confederação Peru-Boliviana naufragaram. Fruto da
instabilidade política peruana e dos projetos ambiciosos do presidente boliviano Andrés de Santa
Cruz, tal união andina durou apenas três anos, entre 1836-1839, sendo derrotada pelos ataques do
caudilho Manoel Rosas e do governo chileno, insatisfeito com o protecionismo promovido por Santa
Cruz.
Os conflitos políticos, as rivalidades econômicas e as guerras marcam a segunda metade do
século XIX. Para além da Guerra do Paraguai (1864-1870), fruto da formação dos Estados Nacionais
platinos, a Guerra do Pacífico (1879-1884) deixa nefastas consequências até os dias de hoje. A
exploração de guano e salitre no litoral pacífico era alvo de constantes disputas entre Peru, Bolívia e
Chile. Diante de maior força chilena, Peru e Bolívia assinaram um acordo secreto de cooperação
mútua diante de uma possível agressão de Santiago. E este foi acionado quando, após a
nacionalização da empresa chilena de capitais britânicos Antofogasta Nitrate & Railway Company,
200 soldados chilenos invadiram a Bolívia. Após anos de conflitos, o vitorioso Chile assina o Tratado
de Ancón (1883) com o Peru, no qual anexa o departamento de Taparacá, ocupando Tacna e Arica. Já
com a Bolívia, o acordo de paz prevê a cessão de sua saída para o Pacífico ao Chile, sendo tais
anexações ainda alvo de protestos e rivalidades nacionalistas.
11
A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL (1914-1918)

Como se explica que um período de tanto progresso pudesse levar o Velho Continente, berço da
civilização ocidental, a experimentar novamente a barbárie, como se viu durante a Primeira Guerra
Mundial? [...] Em 11 de novembro (1918), terminava a Grande Guerra. Morreram 8 milhões de
pessoas, 20 milhões ficaram inválidas, sem falar nos prejuízos econômicos e financeiros que
atingiram os países europeus envolvidos diretamente com a guerra36.
11.1. ANTECEDENTES
Podemos interpretar os fatores que resultaram na eclosão da Primeira Guerra Mundial de duas
formas. A versão mais utilizada pelos historiadores, influenciados pela visão leninista, trabalha que a
guerra seria um “choque entre imperialismos”. Por este viés, configura-se uma profunda ênfase nas
tensões interimperialistas. Outras análises, contudo, como a desenvolvida no livro História das
relações internacionais, não ignoram a importância do neocolonialismo, mas ressaltam as
modificações na estrutura política europeia após a unificação alemã como ponto de destaque dentro
do contexto que antecede o conflito mundial.
Após a criação desse novo país, o pragmatismo da política bismarckiana suplantou os
nacionalismos europeus em nome da garantia das fronteiras do Império Alemão e do isolamento da
França nas relações internacionais no pós-1870, com o objetivo principal de neutralizar qualquer
tipo de revanchismo francês. Porém, a partir da queda do chanceler, a agressiva Weltpolitik toma
conta de Berlim.
Ainda que alguns dos principais elementos deste período tenham origens no período de Bismarck
– como o afastamento em relação ao Império Russo, o esboço de uma política imperialista e o
fortalecimento da indústria pesada germânica – é com Graf von Caprivi que a promoção de uma
política mundial alemã é incrementada. A insatisfação cada vez maior com suas parcas possessões
ultramarinas faz com que o Império Alemão invista cada vez mais em sua Marinha, incrementando
não somente as tensões interimperialistas, mas acirrando também os ânimos nacionalistas.
Enquanto isso, o momento britânico não era dos mais favoráveis no início do século XX; o
incidente de Fashoda (1898) marcava uma dissociação com a França devido às disputas territoriais
ao norte da África, e a Guerra dos Boers (1899-1902) repercutiu muito mal entre os europeus,
recebendo os britânicos críticas dos principais meios de imprensa do continente. O crescimento
naval alemão resultou no chamado navy scare, sendo o contexto favorável para uma profunda
mudança na política externa realizada há décadas pela ilha.
O “isolamento esplêndido”, gestado ainda na década de 1820, chegava a seu fim em 1904, quando
a Inglaterra promove a Entente Cordiale com a França. Com os gauleses, a Grã-Bretanha realiza um
acordo no qual tem reconhecido o domínio dos súditos da rainha Vitória sobre o Egito, em troca do
fornecimento de todo suporte à França para que esta mantivesse o protetorado sobre o território
marroquino, pondo fim à isonomia determinada pela Convenção de Madri (1880). Para muitos, é
com o intuito de evitar um confronto direto com a Grã-Bretanha que a Alemanha aceita a Convenção
de Algeciras (1906) ou mesmo recua na Crise de Agadir (1911), aceitando a exploração de parte do
Congo em troca da aceitação da presença francesa no Marrocos, compondo o que ficaria conhecido
como a Questão Marroquina.
Dois anos depois, com a abdicação russa de suas pretensões no extremo oriente (após a derrota
na Guerra da Manchúria seguida da Revolução de 1905), os britânicos pleiteiam a entrada do
Império Russo na Tríplice Entente (1907). Formada ainda em 1882, em meio à gestação do segundo
sistema bismarckiano, a Tríplice Aliança era composta por países que pretendiam melhores
condições de exploração na África-Ásia (Itália e Império Alemão) e aqueles unidos pelo
pangermanismo (Império Alemão e Império Austro-Húngaro).
Disputas territoriais também compunham este instável cenário europeu que antecede a Primeira
Guerra Mundial. A região dos Bálcãs era alvo de complexas tensões, sendo a fragmentação do
Império Turco-Otomano sua origem imediata. Nacionalismos locais, potências expansionistas
regionais (Bulgária e Sérvia) e grandes potências aproveitaram-se desse vácuo de poder para impor
suas próprias agendas. No início do século XX, o principal território em disputa era a Bósnia,
pretendida tanto pelo Império Austro-Húngaro (defensor do Pangermanismo) como pela Sérvia, que
integrava o Pan-eslavismo. O choque entre os nacionalismos leva à forte insatisfação dentro da
Bósnia, que possuía população eslava, mas estava sob o domínio dos austríacos.
Ainda nesse contexto, os russos pretendiam obter a sua saída para o “mar quente”, uma vez que
seu litoral norte congelava durante a maior parte do ano, dificultando a comunicação com o exterior.
Aproveitando o processo de declínio do Império Turco-Otomano, o Império Russo pretendia, através
da conquista dos estreitos de Bósforo e Dardanelos, resolver sua dificuldade histórica, conseguindo
desta forma “nadadeiras para o urso”.
Enquanto isso, acreditava-se que a Europa estava em paz; mas o cenário era de “paz armada”,
uma vez que boa parte dos orçamentos era destinada ao incremento do setor bélico. Eram tempos
de hegemonia da belle époque nos grandes salões, e as exposições tecnológicas contribuíram para a
maior parte da população europeia ignorar o que acontecia nos bastidores políticos. Bastaria um
pequeno incidente para transformar o momento de tensão em guerra de proporções inimagináveis.
O assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando (juntamente com sua esposa, a condessa Sofia
Chotek) em visita a Sarajevo, capital da Bósnia Herzegovina, no dia 28 de junho de 1914, serviu de
estopim para a deflagração do conflito. O grupo nacionalista eslavo “Mão Negra” encomenda a
execução do nobre austríaco para demonstrar sua insatisfação com o domínio do império
multiétnico. Como retaliação, Francisco José I declara guerra à Sérvia no intuito de vingar a morte
de seu sobrinho. As alianças saíam do papel e entravam em confronto exatamente um mês após o
assassinato, iniciando assim um conflito bélico sem precedentes na história: a Primeira Guerra
Mundial (1914-1918).
Nenhum dos envolvidos no conflito acreditava que a guerra iria durar mais de alguns poucos
meses. O nacionalismo exaltado colaborou para o sucesso do recrutamento forçado nas grandes
potências envolvidas, assim como na gestão da economia de guerra para o desenrolar do confronto.
11.2. A GUERRA
Nos primeiros meses de conflito, uma guerra de movimentos mobilizou as principais divisões
europeias. Nesta “Primeira Guerra de Movimentos” destacou-se o exército alemão, que tentou
executar o Plano Schlieffen. Neste, para evitar um prolongado conflito em duas frentes, o Império
Alemão buscava concentrar todo o esforço bélico para ganhar a guerra, primeiramente na Europa
Ocidental e, depois, voltaria sua atenção para a frente oriental, evitando assim uma divisão das
tropas e das reservas. Assim, a França foi invadida pelos alemães através da Bélgica, marchando o
exército alemão em direção a Paris.
As consequências desta estratégia foram marcantes para o futuro do conflito. Ao invadir a
Bélgica, a Alemanha violava os termos da Conferência de Londres (1831), quando Inglaterra e
França se comprometeram a defender a neutralidade perpétua daquele país. Por esse motivo, a
Inglaterra entra na guerra. Ao mesmo tempo, uma inesperada ofensiva russa no Oriente levou à
divisão das forças alemães, que não contavam com a rápida mobilização militar francesa (incluindo
a ida de soldados para o front de táxi) ao Norte. Era o fracasso do Plano Schlieffen.
A partir desse momento, verifica-se um equilíbrio entre os exércitos, que caracteriza uma guerra
de posições, também chamada de Guerra de Trincheiras. Apesar dos maiores combates acontecerem
na Europa, outros continentes também participaram ativamente do conflito. Ao lado da Entente,
lutaram Japão, China, Estados Unidos e Brasil, por exemplo, existindo combates na Pérsia, Arábia e
nas colônias alemãs da África e nas ilhas do Pacífico. A pouca movimentação dos exércitos (por
exemplo, os alemães recuaram 16 km em cerca de três anos e meio) não impediu mudanças entre os
protagonistas.
Atritos com o Império Austro-Húngaro devido à Questão da Itália Irredenta (territórios almejados
desde os tempos da unificação – região de Trentino, Tirol e Ístria) fizeram com que a Itália não
entrasse em guerra mesmo compondo a Tríplice Aliança, mantendo sob diversos subterfúgios a
neutralidade. Aproveitando tal situação, a Inglaterra promete territórios aos italianos, que
ingressam na Tríplice Entente em maio de 1915. À medida que a guerra se prolongava, as
dificuldades também cresciam: falta de alimentos, que resultavam em dias de racionamento, alta de
preços e aumento da jornada de trabalho em nome dos “esforços de guerra”. Nas fábricas, as
mulheres substituíam os homens que foram para o front.
As alterações mais significativas ocorreram em 1917. Em abril desse ano, os estadunidenses
romperam seu isolacionismo. Ataques de submarinos alemães a navios mercantes no Atlântico, com
o objetivo de abreviar o intenso comércio entre os Estados Unidos e os membros da Entente, além
da defesa dos capitais investidos na França e Inglaterra, foram fatores decisivos para a entrada do
“Tio Sam” na guerra, assim como a tentativa de aproximação militar entre o Império Alemão e o
México que, em troca de suas bases militares e aliança, receberia de volta os territórios perdidos
durante a Marcha para o Oeste (Telegrama Zimmerman37).
Em novembro do mesmo ano, como consequência direta da Revolução Bolchevique, Lenin e seus
camaradas retiram a Rússia do conflito. Uma das principais reivindicações do povo russo e
promessa dos bolcheviques durante o processo revolucionário, a saída da Rússia foi concretizada
com a assinatura do Tratado de Brest-Litovisk (3 de março de 1918). Os termos do acordo geraram
muitas críticas internas, uma vez que a Rússia perdia o controle de alguns territórios, tais como
Finlândia, Estônia, Lituânia, Letônia, Ucrânia, Bielorússia e Polônia.
O Império Alemão parecia pronto para concentrar suas forças na frente ocidental. Mas a entrada
do exército estadunidense e a introdução de novas armas, como tanques, armas químicas e aviões
de guerra superaram as trincheiras e provocaram a retomada da Guerra de Movimentos. Sucessivas
derrotas, enfraquecimento progressivo de aliados como o Império Turco-Otomano e a Bulgária,
assim como as revoltas internas na Alemanha levaram à renúncia do imperador Guilherme I. O
Império Austro-Húngaro pede um armistício com base na proposta de paz estadunidense ainda em
outubro. Isolada, não resta outra alternativa à república alemã a não ser assinar o Armistício de
Compiegne, pondo fim à Grande Guerra.
11.3. CONSTRUINDO A PAZ
Sucessivos armistícios compuseram o final dos embates armados e, findas as operações militares,
era a hora da reunião entre os vitoriosos para decidir acerca do pós-guerra. Na Conferência de Paz
de Paris (1919), as propostas estadunidenses e franco-britânicas se opunham. Enquanto o
presidente dos Estados Unidos, Wodrow Wilson, ignorava os anseios populares expressos por meio
do Congresso conservador, que desejava o afastamento das questões políticas europeias, ingleses e
franceses desejavam uma paz punitiva aos alemães.
Os 14 Pontos de Wilson foram divulgados ainda em janeiro de 1918, baseados na ideia de “paz
sem vencedores”:
1. Inaugurar pactos de paz, depois dos quais não deverá haver acordos diplomáticos secretos, mas
sim diplomacia franca e sob os olhos públicos;
2. Liberdade absoluta de navegação nos mares e águas fora do território nacional, tanto na paz
quanto na guerra, com exceção dos mares fechados completamente ou em parte por ação
internacional em cumprimento de pactos internacionais;
3. Abolição, na medida do possível, de todas as barreiras econômicas entre os países e o
estabelecimento de uma igualdade das condições de comércio entre todas as nações que
consentem com a paz e com a associação multilateral;
4. Garantias adequadas da redução dos armamentos nacionais até o menor nível necessário para
garantir a segurança nacional;
5. Um reajuste livre, aberto e absolutamente imparcial da política colonialista, baseado na
observação estrita do princípio de que a soberania dos interesses das populações colonizadas
deve ter o mesmo peso dos pedidos equiparáveis das nações colonizadoras;
6. Retirada dos Exércitos do território russo e solução de todas as questões envolvendo a Rússia,
visando assegurar melhor cooperação com outras nações do mundo. O tratamento dispensado à
Rússia por suas nações irmãs será o teste de sua boa vontade, da compreensão de suas
necessidades como distintas de seus próprios interesses e de sua simpatia inteligente e
altruísta;
7. Bélgica, o mundo inteiro concordará, precisa ser restaurada, sem qualquer tentativa de limitar
sua soberania à qual ela tem direito assim como as outras nações livres;
8. Todo território francês deve ser libertado e as partes invadidas restauradas. O mal feito à
França pela Prússia, em 1871, na questão da Alsácia-Lorena, deve ser desfeito para que a paz
possa ser garantida mais uma vez, no interesse de todos;
9. Reajuste das fronteiras italianas, respeitando linhas reconhecidas de nacionalidade;
10. Reconhecimento do direito ao desenvolvimento autônomo dos povos da Áustria-Hungria, cujo
lugar entre as nações queremos ver assegurado e salvaguardado;
11. Retirada das tropas estrangeiras da Romênia, da Sérvia e de Montenegro, restauração dos
territórios invadidos e o direito de acesso ao mar para a Sérvia;
12. Reconhecimento da autonomia da parte da Turquia dentro do Império Otomano e a abertura
permanente do estreito de Dardanelos como passagem livre aos navios e ao comércio de todas
as nações, sob garantias internacionais;
13. Independência da Polônia, incluindo os territórios habitados por população polonesa, que
devem ter acesso seguro e livre ao mar;
14. Criação de uma associação geral sob pactos específicos para o propósito de fornecer garantias
mútuas de independência política e integridade territorial dos grandes e pequenos Estados.
A reunião de Paris não concretizou as ideias de Wilson, vencedor do prêmio Nobel da Paz de
1919. Os interesses de Lioyd George (Inglaterra) e Clemenceau (França) predominaram, uma vez
que os diversos acordos paralelos às negociações levaram à criação do Tratado de Versalhes (1919).
A despeito das críticas de alguns delegados, inclusive britânicos como Lord Keynes, que
acreditavam que a Europa não poderia prescindir da economia alemã no pós-guerra, a paz punitiva
foi estabelecida.
Segundo o tal tratado, a Alemanha foi considerada culpada pela guerra, obrigada desta forma a
acatar uma série de pontos que visavam enfraquecer a recém-criada república. Entre os principais
pontos destacam-se:
• Pagamento de indenizações de guerra pelos danos causados;
• Devolução da Alsácia-Lorena aos franceses;
• Acesso da Polônia ao mar por uma faixa de terra dentro do território alemão, que desembocava
no porto de Danztzing;
• Perda de terriórios na Europa: Eupen e Malmedy com a Bélgica; Soldau, Vármia e Masúria com
a Polônia; Klaipeda com a Lituânia; Sonderjutlântia com a Dinamarca, dentre outros.
• Perda de todas as colônias38;
• Exército limitado a cem mil homens;
• Proibição de desenvolvimento das indústrias bélica e naval;
• Província de Sarre sob o comando da Liga das Nações por 15 anos.
É também neste contexto que foi oficializada a criação da Liga das Nações, organismo com o
objetivo de manter a paz mundial e resolver os principais conflitos internacionais por meio do
arbitramento e da negociação. A Secretaria Geral era sediada em Genebra, tendo como principais
órgãos a Assembleia Geral e o Conselho Executivo, composto inicialmente por Grã-Bretanha,
França, Itália e Japão como membros permanentes, já que a Liga não tinha a participação da
Alemanha e da União Soviética, que posteriormente iriam compor o Conselho Executivo, cujos
membros não permanentes seriam escolhidos pela Assembleia Geral (o Brasil foi um destes
membros entre 1919 e 1926).
Outros acordos foram discutidos com os derrotados. O Tratado de Saint-Germain, assinado com a
República da Áustria, declarava dissolvida a monarquia austro-húngara, retirava a saída para o mar
austríaco, forçava-a a reconhecer as independências da Polônia, Tchecoslováquia, Hungria e
Iugoslávia, assim como proibia uma suposta anexação da Áustria à Alemanha. O Tratado de Trianon
(1920) foi responsável por regular o estatuto de uma Hungria independente do Império Austro-
Húngaro, bem como determinar suas fronteiras. Situação complicada ocorreu com o Império Turco-
Otomano, uma vez que os turcos não aceitaram as condições do Tratado de Sèvres, que determinava
a dissolução do “gigante doente” da Europa. Na Guerra de Independência Turca, composta por
conflitos contra franceses, armênios e gregos – entre 1921 e 1923 – liderados por Kemal Ataturk, a
Turquia conseguiu a assinatura de um novo acordo, o Tratado de Lousanne (1923), que estabelece
as bases da Turquia moderna.
11.4. CONSEQUÊNCIAS GERAIS
O fim dos grandes impérios veio acompanhado de questões que marcaram o período entre-
guerras. O presidente Wodrow Wilson viu por duas vezes o Senado estadunidense vetar a
participação do país na Liga das Nações, que não contaria com a participação dos founding fathers
do projeto. Enquanto isso, a Itália lamentava a humilhação pela forma como fora tratada pelas
grandes potências, uma vez que seus limitados esforços durante o conflito (como na capitulação
austríaca na batalha do Vittorio Veneto) não foram recompensados com o recebimento dos
territórios prometidos quando da mudança para a Tríplice Entente.
Hegemônicos na economia mundial, os Estados Unidos voltaram à posição isolacionista anterior
ao conflito. A Europa enfrentava uma grave crise econômica em seus esforços para a reconstrução,
sendo esta situação aproveitada pelos colonos afro-asiáticos que, naquele momento, realizavam seus
primeiros movimentos pró-independência.
Em tentativa de reorganizar as relações internacionais europeias, algumas conferências são
realizadas ao longo da década de 1920. Em 1922, representantes de 34 países do mundo se
reuniram em Genebra para discutir os rumos da economia mundial após a Primeira Guerra Mundial.
Discussões acerca das relações com a Rússia e o pagamento das indenizações de guerra por parte
da Alemanha favoreceram a aproximação entre Berlim e Moscou. O Tratado de Rapallo (1922),
assinado pelo ministro das relações exteriores soviético George Chicherin e pelo alemão Joseph
Wirth, buscava romper o isolamento imposto aos dois países pela Conferência de Paz de Paris. A
ideia central era normalizar as relações diplomáticas, destacando-se a renúncia das reivindicações
territoriais entre ambos e também, por meio de uma cláusula secreta, a permissão de treinamento
militar de tropas alemãs em solo soviético.
Tal aproximação fez crescer a preocupação britânica com relação à situação alemã. A profunda
crise econômica alemã de 1923 e a ocupação francesa, com o recrudescimento das posições
bilaterais, são seguidas por um movimento delicado: a desvalorização do franco faz com que a
França pegue empréstimo de banqueiros estadunidenses interessados em um fortalecimento da
economia alemã. Em 1924, o Plano Dawes de ajuda estadunidense à Alemanha previa não apenas a
diminuição da dívida alemã, mas também a facilidade do pagamento das reparações de guerra, e,
em contrapartida, a França, comprometida com os banqueiros dos Estados Unidos, se comprometeu
a evacuar Ruhr e uma parte da Renânia.
Diante de tal quadro, a reinserção da Alemanha na geopolítica europeia se impunha. Em outubro
de 1925, representantes da República de Weimar, França, Grã-Bretanha, Bélgica, Reino da Itália,
Tchecoslováquia e Polônia reuniram-se na Suíça para acertar as “arestas”. Dentre os principais
acordos assinados em 1925, destaca-se o “Pacto da Estabilidade”, no qual as potências aliadas se
comprometem a não violar a soberania alemã em troca da garantia do respeito, por parte de Berlim,
das fronteiras determinadas pelo Tratado de Versalhes com a França e Bélgica, assim como a
desmilitarização da Renânia. Os Tratados de Locarno (1925) abriram o caminho para a entrada da
Alemanha na Liga das Nações em 1926.
Mesmo com tais negociações entre as potências, no qual inclusive há um acordo em que os
signatários estipulavam a renúncia à guerra como instrumento de política nacional (Pacto Briando-
Kellog), as humilhações derivadas da Primeira Guerra Mundial figuram como um elemento
fundamental para a eclosão de uma nova guerra de proporções mundiais, pouco mais de duas
décadas da assinatura do armistício de 1918.
12
A ASCENSÃO DO COMUNISMO

A Rússia era até então economicamente desprezível, embora observadores de larga visão já
previssem que seus vastos recursos, sua população e seu tamanho iriam, mais cedo ou mais tarde,
projetá-la mundialmente. As minas e as manufaturas criadas pelos czares do século XVIII, tendo
senhores ou mercadores feudais como empregadores, e servos como operários, estavam
declinando lentamente. As novas indústrias – fábricas têxteis domésticas de pequeno porte –
somente começaram a apresentar uma expansão realmente digna de nota a partir de 186039.
12.1. IMPÉRIO RUSSO
Em inícios do século XX, a Rússia vivia uma situação de anacronismo político; enquanto o mundo
ocidental vivia a afirmação do liberalismo originado, segundo expressão utilizada pelo historiador
Eric Hobsbawn em seu livro “Era das Revoluções”, a maior potência do leste europeu ainda se
encontrava na Idade Moderna.
O czarismo dos Romanov era um regime autocrático, próximo ao da França absolutista e
ideologicamente embasado no cristianismo ortodoxo. Nicolau II, o último dos sucessores de Pedro
(O Grande), administrava um Estado que desde a derrota na Guerra da Crimeia buscava a
modernização. O fim da servidão ainda na década de 1860, a entrada de capitais estrangeiros para a
industrialização e a constituição de um proletariado urbano influenciado pelo socialismo conviviam,
paradoxalmente, com uma economia baseada na agroexportação, forte concentração fundiária e
ausência de leis trabalhistas.
É nesse contexto que se fortalece a resistência ao czarismo. Desde os anos 1840, sucessivas
gerações de intelectuais críticos se opunham ao czarismo dos Romanov, atacando as reformas
parciais protagonizadas pelo Estado, sendo aí criado o termo intelligentsia que, posteriormente,
daria a volta ao mundo.
A oposição clandestina ganhou notoriedade com os populistas, também conhecidos como
narodniks, entre os anos 1860 e 1870. Estes acreditavam nas comunas como forma de estabelecer a
igualdade social no país e se utilizavam do terrorismo contra as principais figuras do governo, sendo
a tentativa de assassinato do czar Alexandre III o auge dessa estratégia. A institucionalização do
populismo ocorre no início do século XX, com a criação do Partido Socialista Revolucionário (1902),
defensor da reforma agrária e da igualdade social e liderado por Vitor Chernov, que, em pouco
tempo, transformou-se na mais popular organização partidária do Império Russo.
Enquanto os socialistas revolucionários eram hegemônicos entre o campesinato russo, o Partido
Operário Social-Democrata Russo (POSDR) atuava majoritariamente nas cidades. Seguindo as
orientações da II Internacional Socialista, o POSDR acaba tendo muitas dificuldades para atuar
dentro do Império e sua existência foi efêmera, uma vez que, cinco anos depois de sua fundação, em
seu II Congresso, ocorre uma grave cisão interna. Enquanto os Mencheviques (“minoria” em russo,
liderados por Martov) desejavam um critério menos rigoroso na votação do Congresso, os
Bolcheviques (“maioria” em russo, liderado por Lenin) defendiam que somente filiados do partido
poderiam decidir os seus rumos.
Em termos historiográficos, os Mencheviques ficaram marcados pela sua ortodoxia na
interpretação dos escritos de Marx. Estes defendiam que a Rússia não poderia realizar
imediatamente a revolução socialista, uma vez que não tinha passado pelo estágio capitalista (nem
mesmo por uma revolução liberal). Enquanto isso, Lenin adaptava o marxismo às condições russas,
acreditando na viabilidade da revolução socialista mesmo em uma economia agrária com
características feudais, como aquela do Império Russo.
Por fim, a burguesia e os latifundiários organizaram o Partido Constitucional-Democrático, cujo
principal projeto político era a construção de um Estado liberal na Rússia. Era essa a cena política
que vigorava no Império Russo às vésperas das revoluções que viriam a se desenrolar ainda no
início do século XX.
12.2. REVOLUÇÃO DE 1905
As décadas de crescimento econômico industrial ao final do século XIX resultaram na depressão
iniciada em 1899. Ao lado deste quadro de crise, as dificuldades do povo russo são agravadas devido
às sucessivas derrotas das tropas do czar diante do exército japonês. A disputa pela Manchúria (rica
região chinesa) demonstrou a fragilidade daquela que, outrora, acreditava-se ser uma potência
europeia. As manifestações de caráter “socialista policial”, onde figuras do governo imperial se
infiltravam em movimentos populares, se avolumavam.
Em uma dessas manifestações, liderada pelo padre George Gapon, os participantes exigiam
melhorias das condições de vida, embalados sob o Hino Imperial, Deus Salve o Czar. O planejado
era chegar ao Palácio de Inverno do Czar, mas antes se depararam com a infantaria do Império, e o
confronto resultou em noventa e dois mortos. Greves, insurreições militares (como aquela do
Encouraçado Potenquim) e novas manifestações populares quase levaram à queda de Nicolau II.
Para se manter no poder, o governante lança o Manifesto de Outubro, prometendo liberdades
individuais, reforma agrária, legalização dos partidos políticos e soviets, assim como a criação de
uma Duma Nacional.
Dessa forma, Nicolau II consegue retomar o controle do Império, elaborando reformas limitadas
que logo seriam suspensas. Até mesmo um novo grupo político – favorável à manutenção dos
Romanov no poder sob um regime liberal moderado –, os Outubristas, foi constituído. Já no início da
década de 1910 a economia retomara os números no início do século, os partidos retornaram à
ilegalidade e a Okhrana (polícia política do czar) reprimia os opositores como nunca. Segundo Lenin,
as manifestações de 1905 constituíram-se em um “Ensaio Geral”, preparando os ânimos para os
acontecimentos de doze anos depois, quando uma nova onda de revoltas viria a acabar
definitivamente com o Império de três séculos.
12.3. AS REVOLUÇÕES DE 1917
O expansionismo do Império Russo, uma das características mais marcantes do czarismo, possuía
no pan-eslavismo sua principal ideologia. Em tempos de pan-germanismo, rivalidade anglo-
germânica e, sobretudo, revanchismo francês, a disputa pelo controle da região dos Bálcãs opõe o
Império Russo ao Império Austro-Húngaro. O assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando
coloca em pé de guerra a Tríplice Aliança (Império Alemão, Império Austro-Húngaro e Itália) e a
Tríplice Entente (Inglaterra, França e Império Russo), levando o mundo à Primeira Guerra (1914-
1918).
Na fronteira oriental, russos e alemães disputavam territórios. Se no início do século XX a guerra
contra Japão foi árdua para o exército russo, a partir de 1914 sucessivas derrotas no front
expunham novamente a fragilidade dos russos diante do mais bem estruturado exército europeu. O
Estado Maior do Exército imperial exigia a imediata retirada do conflito e a negativa do czar o leva
ao isolamento político. Sem o apoio do aparato repressor e de seus principais colaboradores, em
apenas cinco dias de greves e manifestações, os liberais moderados protagonizam a queda de
Nicolau II, que abdica ao trono. É a Revolução de Fevereiro de 1917.
Com os Romanov na Sibéria, o Governo Provisório deveria controlar os destinos da Rússia até a
organização da Assembleia Constituinte. Na prática, um poder dual é instalado na Rússia:
oficialmente, a Duma Nacional é órgão gestor da política; entretanto, nas grandes cidades, os
soviets buscam influenciar os rumos do país. O príncipe Georgy Lvov (até julho) e Kerensky (até
outubro) comandaram a Duma que, apesar de promover as liberdades individuais, não atendeu aos
principais anseios do povo russo: a realização de uma reforma agrária e a retirada do país da
Primeira Guerra Mundial.
Em um quadro de crescente insatisfação popular e grave crise econômica, a cúpula do partido
Bolchevique retorna do exílio desvencilhando-se de qualquer relação com o Governo Provisório. Em
suas Teses de Abril, Lenin critica a manutenção da Rússia na “guerra burguesa do capitalismo” e
promete ao povo russo, além da saída da Primeira Guerra Mundial, uma ampla reforma agrária e a
solução dos problemas econômicos, sob o lema “pão, paz e terra”. Hegemônicos no principal soviet
do país, o de Petrogrado, os bolcheviques decidem pegar em armas contra o Governo Provisório em
outubro de 1917, encabeçando a segunda revolução de 1917, agora de caráter socialista.
A Revolução de Outubro teve repercussões muito mais profundas e globais que sua ancestral,
pois, se as ideias da Revolução Francesa, como é hoje evidente, duraram mais que o bolchevismo,
as consequências práticas de 1917 foram maiores e mais duradouras que as de 1789. A Revolução
de Outubro produziu, de longe, o mais formidável movimento revolucionário organizado na história
moderna. Sua expansão global não tem paralelo desde as conquistas do Islã em seu primeiro
século40.
12.4. RÚSSIA COMUNISTA – OS PRIMEIROS ANOS
Governo Lenin (1917-1924)
DECRETO SOBRE TERRAS DA REUNIÃO DOS SOVIETES DE DEPUTADOS OPERÁRIOS E SOLDADOS.
26 de outubro (8 de novembro) de 1917
1) Fica abolida, pelo presente decreto, sem nenhuma indenização, a propriedade latifundiária.
2) Todas as propriedades dos latifundiários, bem como as dos conventos e da igreja,
acompanhadas de seus inventários, construções e demais acessórios ficarão à disposição dos
comitês de terras e dos Sovietes de Deputados Camponeses, até a convocação da Assembleia
Constituinte.
3) Quaisquer danos causados aos bens confiscados, que pertencem, daqui por diante, ao povo, é
crime punido pelo tribunal revolucionário41.
A eleição da Assembleia Constituinte, marcada para dezembro de 1917, foi mantida por Lenin. A
popularidade dos socialistas-revolucionários refletiu-se no resultado eleitoral, que garantiu a
maioria das cadeiras disponíveis ao grupo. As dificuldades que se apresentariam aos bolcheviques
com a manutenção deste órgão fazem com que Lenin dissolva a Assembleia, sublinhando mais de
uma vez que a República dos Sovietes é uma forma de democratismo mais elevada do que a
república burguesa habitual, com a Assembleia Constituinte. Em seu lugar, é convocado o III
Congresso dos Soviets de toda a Rússia e o Comitê dos Comissários do Povo comanda a política
russa, sob a liderança de Lenin.
O decreto sobre os povos da Rússia concedia liberdade àqueles que por séculos foram oprimidos
pelo Império czarista, enquanto o decreto sobre o controle operário transferia a administração das
fábricas para o proletariado russo. O decreto sobre a terra inicia a reforma agrária tão esperada
pelos camponeses e, por fim, o Tratado de Brest-Litovsk retira a Rússia da Primeira Guerra Mundial,
mediante a cessão de diversas terras no leste para a Alemanha.
Para além destas primeiras medidas, a economia russa passa por diversas alterações para se
adaptar aos novos tempos socialistas, como a estatização imediata dos bens de produção e a
declaração da moratória. No plano político, a Igreja Cristã Ortodoxa é fechada e, para que não
restasse qualquer possibilidade de retorno dos Romanov ao poder, a família real é executada. O
temor da articulação dos seus inimigos leva à reforma do exército, agora chamada de Exército dos
Trabalhadores e Camponeses, comandado por Leon Trotsky.
Ainda no ano de 1918, os contrarrevolucionários, chamados de “brancos”, iniciam a Guerra Civil
(1918-1921) contra os “vermelhos” bolcheviques. Apesar de contarem com um discreto apoio de
potências capitalistas e ainda dos homens da temida “Legião Tcheca”, o confisco de toda a produção
por parte do Estado para abastecer o Exército Vermelho, assim como a apoio dos “pretos”
(anarquistas) em regiões importantes como a Ucrânia, garantem a vitória e a consolidação do agora
chamado Partido Comunista da Rússia (1919).
No início da década de 1920, a maior parte do que fora antes de 1914 o Império Russo dos
czares emergiu intacta como império, mas sob o governo dos bolcheviques e dedicada à
construção do socialismo mundial. Foi o único dos antigos impérios dinástico-religiosos a
sobreviver à Primeira Guerra Mundial, que despedaçara tanto o Império Otomano – cujo sultão
era califa de todos os muçulmanos – quanto o Império Habsburgo, que mantinha relação especial
com a Igreja romana42.
No entanto, os rumos centralizadores do governo comunista geravam críticas internas fortes,
como aquelas dos marinheiros da base de Kronstadt. Em 1921, eles exigiam o retorno do poder aos
soviets, sendo estes eleitos por voto direto e secreto imediatamente, liberdade de expressão e de
imprensa, direito à reunião e liberdade dos sindicatos, dentre outros pontos. A Revolta de Kronstadt
foi massacrada ainda em março de 1921, sendo esta uma clara demonstração de força e
centralização do governo leninista.
Diante de uma crise econômica sem precedentes e de uma forte insatisfação social, reformas
eram necessárias e urgentes. Ainda em 1921, Lenin anuncia um conjunto de modificações que
sinalizavam a conciliação entre medidas comunistas e capitalistas, objetivando a dinamização da
economia soviética. Eram tempos de Nova Política Econômica (NEP), de “um passo atrás para dar
dois passos à frente”, com a permissão de investimentos estrangeiros, a diferenciação dos salários,
propriedades privadas no campo aliadas à liberdade de comércio em alguns setores. Outra medida
elaborada no contexto de recuperação foi a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
(URSS), unindo os territórios da Transcaucásia, Ucrânia, Rússia e Bielorrúsia. Federalista em sua
forma, ao longo de toda sua existência a URSS transparece características centralizadoras. A
recuperação econômica ocorre de forma gradual até 1928, embora o líder bolchevique não estivesse
mais à frente de seu povo quando a NEP foi concluída.
Após longo período enfermo, Lenin faleceria em 21 de janeiro de 1924. A disputa pela sucessão
na liderança no Partido Comunista da União Soviética é incrementada, sendo os protagonistas Leon
Trotsky e Joseph Stalin (na época, Secretário-geral do Comitê Central). Nos manuais de História em
geral, a oposição de projetos políticos é considerada o principal motivo para a vitória de Stalin, já
que mais membros do politburo (onde ocorre a eleição) apoiaram a ideia de fortalecer o socialismo
primeiro na URSS para, posteriormente, difundi-lo (“socialismo em um só país”), enquanto a
imediata internacionalização do socialismo soviético, defendida por Trotsky (“revolução
permanente”), era vista com receio, principalmente depois do fracasso da tentativa de levar o
leninismo para a Polônia (Guerra Russo-Polonesa, entre 1919 e 1921). Fatores como o racismo
existente no leste europeu (Trotsky era judeu) e a posição de Stalin no Comitê Central, facilitando
articulações políticas para isolar Trotsky, também são preponderantes para a consolidação do
georgiano no Kremlin.
12.5. STALINISMO SOVIÉTICO ATÉ A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
Nascido Iossif Vissarionovitch Djugashvili na Georgia, filho de mãe costureira e pai sapateiro,
dedicou-se à oposição ao regime dos Romanov na juventude, quando adotara uma gama de
alcunhas, dentre elas aquela que seus mais próximos companheiros o chamavam mesmo depois da
sua consolidação entre os bolcheviques: Koba. Stalin, ou homem de ferro, viria posteriormente,
destacando o fato de nunca ter saído da Rússia imperial mesmo sendo duramente perseguido pela
Okhrana, a polícia secreta czarista.
Sua ascensão até o posto de Secretário-geral do PCUS é envolta de muitas intrigas e diversas
interpretações. Após a morte de Lenin, Stalin incrementa algumas características já apresentadas
nos tempos leninistas, tais como o autoritarismo, a repressão dos opositores ao projeto bolchevique
e, também, dentro do PCUS, em nome do centralismo democrático. Dessa forma, quando Trotsky
critica publicamente os novos rumos adotados pela gestão stalinista, é expulso do partido, parte
para o exílio da República Socialista Soviética do Cazaquistão e, em 1929, é expulso da URSS.
Considerado por Stalin “inimigo do povo”, Trotsky vê familiares e ex-camaradas de partido como
Kamenev e Bukharin sendo duramente condenados nos “Processos de Moscou” (1936-1938),
também conhecidos como o Grande Expurgo. A repressão stalinista atinge todos os setores da
sociedade soviética, sendo os campos de concentração (GULAGS) sistematizados para “recolher”
esses indesejados. Mesmo no México, Trotsky não escapa do destino de seus conterrâneos: morre no
México, assassinado pelo agente stalinista Ramón Mercader em agosto de 1940.
Se a repressão e o autoritarismo deixavam nas páginas da História a esperança democrática do
“todo o poder aos sovietes”, na economia, Stalin promove um forte crescimento econômico por meio
da planificação: eram os tempos dos Planos Quinquenais. A partir de 1928, a GOSPLAN determinava
as metas para cada setor da economia soviética, estabelecendo investimentos, modo de produção e
quantidades. Os três primeiros planos quinquenais deram ênfase maior à indústria pesada e aos
bens de capital, mais do que triplicando a produção de aço e carvão, enquanto mantinha um padrão
social mínimo, mesmo que as indústrias de bens de consumo não fossem esquecidas.
Uma questão amplamente debatida dentro das fileiras do politburo soviético preocupava
especialmente Stalin: a natureza da reforma agrária. Para o georgiano, o estímulo à criação de
pequenas propriedades nos tempos de NEP era um traço do capitalismo: as propriedades deveriam
ser coletivas. Com os planos quinquenais, ocorre a coletivização forçada no campo, na qual os
camponeses foram obrigados a formar cooperativas agrícolas (kolkhozes), em que os meios de
produção eram fornecidos pelo Estado em troca de uma parte da produção, ou se tornaram
funcionários de uma fazenda estatal – sovkhozes. Desde o início, tal projeto foi criticado por
inúmeros camponeses, que resistiram e foram duramente reprimidos pelo Estado.
O stalinismo muitas vezes é interpretado como uma forma de totalitarismo. Críticos e defensores
de tal interpretação são unânimes em afirmar que a Segunda Guerra Mundial (1939-1945)
modificou a face do regime. Até mesmo o apelo ao nacionalismo aparece, na medida em que a
internacional socialista é substituída pelo hino da URSS. Tal impacto será analisado de forma mais
apurada nos próximos capítulos.
13
OS ESTADOS UNIDOS NO PERÍODO ENTRE-GUERRAS

13.1. INTRODUÇÃO
A primeira guerra mundial, anunciada como a “guerra para terminar com as guerras”, deixou
fixa a imagem de devastações e morticínios. Perto de treze milhões foram mortos e vinte milhões
feridos. As despesas bélicas não apresentam termos de comparação com as das guerras
precedentes e as devastações [...] alcançam números vertiginosos43.
Enquanto a Europa sofria com as sequelas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com seu
parque industrial afetado e cidades parcialmente destruídas, os Estados Unidos da América colhiam
os frutos de sua participação tardia e sua localização privilegiada longe das tormentas europeias.
Ao longo de todo o conflito, as empresas estadunidenses obtiveram lucros ao exportar seus
produtos industrializados para os beliciosos europeus que, no pós-guerra, não só ainda precisavam
dos produtos americanos, mas também de créditos para a sua reconstrução. Enquanto isso, os
estadunidenses incrementavam o fordismo, a produção em série que capacitava suas indústrias a
produzirem em larga escala, além de protegerem seu mercado interno por meio do protecionismo da
tarifa Fordney – MacCumber (38,5%). Já em 1921, a Breve Crise de reconversão industrial ficara
para a história e os estadunidenses viveriam tempos de euforia.
13.2. ANOS 1920 – A ERA DA ILUSÃO
Se o isolacionismo político foi retomado ainda no calor da decepção com o desprezo europeu
pelos 14 Pontos de Wilson e o consequente veto do Congresso, a participação dos Estados Unidos no
órgão que buscava a paz mundial, não podemos afirmar que há uma completa ausência do gigante
americano com relação aos assuntos internacionais.
Ainda em 1922, os Estados Unidos convocam as principais potências navais com o objetivo de
evitar uma corrida armamentista em um contexto de fadiga de guerra após o conflito iniciado em
1914. Em fevereiro daquele ano, o Império Britânico, o Império do Japão, o Reino da Itália e a III
República Francesa, juntamente com os Estados Unidos (temerosos com relação ao aumento do
poderio bélico japonês no Pacífico) assinam o acordo. Com relação à economia, os estadunidenses
foram fundamentais para salvar a Alemanha do caos em 1923, com empréstimos e renegociações
das dívidas de guerra por meio dos Planos Dawes e Young.
Mesmo não participando da Liga das Nações, o kantianismo pacifista não foi esquecido na
Secretaria de Estado. Em 1928, Frank B. Kellogg, secretário de Estado, foi protagonista na
elaboração do Tratado de Renúncia à Guerra, também conhecido como Pacto Kellog-Briand, no qual
seus signatários “renunciavam à guerra como instrumento de política nacional”.
Enquanto isso a sociedade estadunidense vivia a euforia do American Way of Life, quando o
enriquecimento fácil e rápido era o sonho da maioria. Livros como The Great Gatsby, de F. Scott
Fitzgerald, demonstravam que nem todos aceitavam tal clima. Sucesso posterior de vendas, o livro
de Fitzgerald tem em seu protagonista um exemplo da prosperidade muitas vezes aparente de
poucos em meio a um crescente número de excluídos – é sempre importante lembrar que a
desigualdade social era crescente nos Estados Unidos.
Outro elemento explorado pelo autor são as consequências da Lei Seca (ou Volstead Act),
aprovada em 1919. Tendo raízes nos Movimentos de Temperança do século XIX, o Ato de Proibição
Nacional era um exemplo da força de uma sociedade conservadora, que baseava-se nas escrituras
para pautar sua ação política. Qualquer bebida com mais de 0,5% de teor alcoólico seria
considerada intoxicante e automaticamente teria sua fabricação, venda e distribuição proibidas pelo
governo. Para alguns analistas tratava-se também de uma forma de controlar os operários para além
do muro das fábricas. As consequências são amplamente conhecidas: trabalhadores com graves
problemas de saúde por ingerir bebidas caseiras altamente tóxicas, o estabelecimento de inúmeros
speakeasies (bares clandestinos) e o fortalecimento da máfia, que ganhou espaço ao traficar bebidas
para as mais diversas cidades, sendo a Chicago de Al Capone um símbolo deste período.
Os excluídos do American Way of Life eram fortemente reprimidos quando tentavam romper esta
barreira. A Ku Klux Klan crescia em número e influência nas mais altas esferas governamentais,
ampliando também seus alvos: para além dos negros, os cavaleiros da KKK também reprimiam
judeus e católicos, uma vez que estes também não se encaixavam no modelo WASP (White, Anglo-
Saxo and Protestant).
Operários também recebiam a sua cota de repressão. Se na Europa os sindicatos eram
reconhecidos como legítimos representantes dos trabalhadores na interlocução com patrões e
Estado, nos Estados Unidos a ação destes era obstruída de todas as formas. Vistos como vetores de
ideologias que ameaçavam a sociedade estadunidense, como o anarcossindicalismo e o comunismo,
greves o movimentos sindicais eram alvo da polícia ou mesmo do aparato jurídico conservador. Até
hoje controversa, a execução por eletrocução dos imigrantes anarquistas italianos Nicola Sacco e
Bartolomeo Vanzetti à morte é interpretada como símbolo da intolerância com relação às esquerdas.
13.3. A CRISE DE 1929
O enriquecimento fácil e rápido era o sonho da maioria dos norte-americanos. O perigoso vírus
da especulação contaminava especialmente aqueles que viviam em Nova York, mais próximos da
caixinha mágica – a Bolsa de Valores – onde tais maravilhas aconteciam44.
Na segunda metade da década de 1920 os efeitos da recuperação econômica europeia sobre os
Estados Unidos já eram sentidos. Se na área rural, cenas de camponeses perdendo suas terras em
um contexto de endividamento com os bancos e baixos preços dos produtos agrícolas era comum,
nas cidades a prosperidade ocultava as mazelas de uma sociedade cada vez mais desigual, onde
90% da riqueza do país estava nas mãos de 13% dos estadunidenses.
Após a utilização de empréstimos estadunidenses, os europeus reduzem as importações do Tio
Sam. Se o refluxo do mercado externo era uma novidade, aquele que se referia ao mercado interno
não. Baixos salários pagos aos operários somados à estandartização da produção, que não
estimulava o consumo, levaram redução do mercado interno. Consequentemente, o sistema produzia
muito mais do que podia absorver, sendo as demissões em massa o resultado imediato. Como
solução para a crise de superprodução e subconsumo, os empresários buscaram a exportação de
capitais e os investimentos no mercado financeiro.
Em busca de lucro rápido, a especulação na bolsa de valores eleva o preço das ações de inúmeras
empresas que não possuíam real valor. Enquanto o índice da Bolsa de Valores de Nova York subiu de
105 para 220 pontos entre 1926 e 1929, o volume de negócios produtivos cresceu somente de 105
para 120 – a diferença era pura especulação. O governo estimulava a concessão de créditos fáceis,
para que o cidadão comum investisse também na bolsa, muitas vezes podendo comprar lotes de
ação por apenas 10% do seu valor, sendo o restante liquidado com os lucros da própria aplicação.
A crise seria fruto da percepção de que a economia real não crescia no mesmo ritmo da
especulação na bolsa, buscando retirar seu dinheiro do mercado financeiro em busca de
investimentos mais seguros. Desde o início de 1929 os grandes banqueiros estavam preocupados
com os créditos abundantes diante da crescente volatilidade do mercado, que atingiu seu momento
mais crítico entre a quinta-feira negra (24 de outubro) e o total desespero na terça-feira dia 29 de
outubro. Era o Crack (quebra) da Bolsa de Nova York.
13.4. GRANDE DEPRESSÃO
A partir da Crise de 1929, a economia estadunidense e também mundial entram em um profundo
processo de recessão. Em Washington, o presidente republicano Herbert Hoover exortava a
população a manter a calma e repetia o mantra dos liberais, afirmando que “o próprio mercado iria
resolver o problema”. Mesmo com o Congresso disponibilizando uma linha de crédito para o
governo, o ultraliberal Hoover pouco investiu pois não acreditava na intervenção do Estado nas
questões econômicas.
As consequências foram inúmeras:
• Falência de Empresas.
• Desemprego em massa, chegando ao número de 14,5 milhões.
• Miséria e fome.
• Camponeses perdem suas terras para os bancos, uma vez que não conseguiram pagar suas
hipotecas e, para piorar, a região do Meio Oeste enfrentou ondas de seca em 1930, 1934 e 1936.
• Quebra de centenas de bancos.
• Internacionalização da crise, com a retirada de capitais estadunidenses na Europa e a
deteriorização do comércio mundial.
13.5. ANOS 1930 – A RECUPERAÇÃO
Hegemônicos na Casa Branca desde a eleição de Lincoln, os republicanos tentavam em 1932 o
quarto mandato consecutivo. Mas nestas eleições o desafio seria enorme, pois os Estados Unidos
estavam afundados na crise e diante da pouca eficácia das tímidas ações do presidente Hoover. O
opositor, F. D. Roosevelt, tinha longa tradição de atuação política junto ao partido Democrata e,
neste momento, criticava o liberalismo republicano tendo como base a sua administração em Nova
York, onde promoveu obras sociais com o intuito de amenizar os efeitos da crise.
A vitória de Roosevelt veio acompanhada da aplicação dos princípios do economista inglês John
Maynard Keynes, defensor da intervenção do Estado na economia para promover o bem-estar social
e, consequentemente, superar a Crise de 1929. Diversas medidas keynesianas foram adotadas pelo
New Deal, sendo Roosevelt acusado por opositores de adotar o marxismo. Mais interessante ainda
foi a reação da imprensa nazista, que chegou mesmo a elogiar o estadunidense por ter adotado
“medidas nacionais-socialistas” nos Estados Unidos.
Algumas das principais medidas adotadas pelo grupo conhecido como os “inventores do New
Deal” estão:
• Administração da Reconstrução Nacional
• Órgão responsável pela aplicação de bilhões de dólares em obras públicas (Administração dos
Trabalhos Civis), criando em menos de uma década mais de 8 milhões de empregos nos
Estados Unidos. Reconstrução de hospitais, escolas, aeroportos e pontes. Neste contexto,
foram criadas agências que forneciam ajuda governamental e criavam empregos temporários,
como a WPA (Works Progress Administration) e a CCC (Civilian Conservation Corps).
• Autoridade do Vale do Tennessee
• Conjunto de medidas para auxiliar uma das regiões mais pobres do país e, portanto, que mais
sofreram com a Crise de 1929. Construção de represas e incentivos para a criação de
empresas são os destaques.
• Ato de Ajustamento Agrícola
• O governo não somente promoveu o refinanciamento das hipotecas (Corporação de
Empréstimos para Proprietários), mas também promoviam estímulos em dinheiro para que os
produtores agrícolas diminuíssem suas produções com o objetivo de reduzir a superprodução.
Além disso, a Administração para a Eletrificação rural procurava dar suporte a estas áeras,
além de facilitar créditos para os produtores.
• Administração Federal de Moradias
• Responsável pela intervenção do setor imobiliário. Criada pela Lei Nacional de Habitação de
1934, auxiliava no pagamento de hipotecas bancárias.
• Leis Trabalhistas
• Atenção especial foi dada pelo governo para o setor trabalhista. Ações como o incremento do
salário mínimo ou mesmo a redução da jornada de traballho estimularam não somente a
criação de novos cargos de trabalho, mas também aumentaram o poder de consumo das
classes mais baixas.
• Lei Wagner
• Não somente criar leis trabalhistas, mas também estimular seu cumprimento. Para isso, esta
lei, idealizada pelo senador Robert Wagner, estimulava a sindicalização ao defender o direito
de greves e também promoveu a proteção de trabalhadores sindicalizados.
• Ato de Segurança Social
• Aprovado pelo Congresso estadunidense, em 1935, estabelecia a Lei da Previdência Social,
garantindo não somente a ampliação do consumo como também o bem-estar de grande parte
da população.
Uma série de medidas também foram realizadas com o objetivo de regulamentar o setor
financeiro, como a criação do Depósito Federal de Seguros Corporativos, que garantia os depósitos
e também o Ato de Emergência Bancária, que intervinha no setor bastante prejudicado com a crise.
Além disso, houve estímulos à indústria automobilística e também às empresas ligadas ao setor do
entretenimento.
Apesar do sucesso do New Deal, em 1939 os números da economia estadunidense se
aproximavam daqueles de 1929, ou seja, no início da crise. A economia saíra da recessão, ficando a
Grande Depressão na memória da população. Mas a Crise de 1929 ainda não estava totalmente
superada, sendo para isso fundamental a participação dos Estados Unidos em um evento de grandes
proporções: a Segunda Guerra Mundial.
14
OS FASCISMOS

14.1. INTRODUÇÃO
O nazifascismo que se consolidaria na Europa nas décadas de 1920 e 1930 foi um marco
fundamental e decisivo não apenas para a vida das populações submetidas aos regimes, mas para o
rumo das relações internacionais de forma geral, a partir de um forte nacionalismo e de uma
concepção política que ignorava diversas decisões tomadas anteriormente.
Os regimes totalitários em ascensão na Europa aproveitaram-se de um contexto que aparecia de
forma comum em quase todos os países que acabaram por adotar esse modelo político; tal contexto
caracterizava-se, em parte, pela situação caótica trazida após a Primeira Guerra Mundial (1914-
1918), geradora de crises econômicas muito graves e humilhações inimagináveis, em especial para
italianos e alemães. Além disso, o cenário também pautava-se pelo chamado “medo vermelho”, isto
é, a oposição de determinados grupos sociais – em geral, burgueses, elites, classes médias, entre
outros – à doutrina socialista que parecia ganhar força pelo mundo, em especial após a vitória da
Revolução Russa de 1917.
Evidentemente, há fatores mais específicos que serão abordados no estudo de casos, porém a 1ª
Guerra mostrou-se como um antecedente importante na consolidação dos regimes nazifascistas na
Europa.
14.2. REINO DA ITÁLIA
Camisas negras de Milão, camaradas operários! Há cinco anos, as colunas de um templo que
parecia desafiar os séculos desabaram. O que havia debaixo destas ruínas? O fim de um período
da história contemporânea, o fim da economia liberal e capitalista [...] Diante deste declínio
constatado e irrevogável, duas soluções aparecem: a primeira seria estatizar toda a economia da
Nação. Afastamo-la, pois não queremos multiplicar por dez o número dos funcionários do Estado.
Outra impõe-se pela lógica: é o corporativismo englobando os elementos produtores da Nação e,
quando digo produtores, não me refiro somente aos industriais mas também aos operários. O
fascismo estabeleceu a igualdade de todos diante do trabalho. A diferença existe somente na
escala das diversas responsabilidades. [...] O Estado deve resolver o problema da repartição de
maneira que não mais seja visto o fato paradoxal e cruel da miséria no meio da opulência45.
Crise. Esta é a palavra que melhor define o reino de Victorio Emanuel III após a Primeira Guerra
Mundial (1914-1918), mesmo participando do lado vitorioso do conflito. O sentimento geral na Itália
naquele momento era de humilhação, uma vez que os Aliados (em particular os ingleses) violaram o
Tratado de Londres (1915) quando das negociações de paz em Versalhes. Mesmo os tratados
cedendo aos italianos àreas austríacas ao Norte (Trentino e Alto Ádige), região da costa da Dalmácia
e as fronteiras da recém-criada Iugoslávia, não foram anexadas aos Reino da Itália, sendo as
aspirações eslavas defendidas em detrimento do Irrendentismo.
Na economia, a reconversão industrial que atingiu todas as economias de alguma forma
relacionadas pela guerra resultou em uma grande depressão na Itália, sendo seu ápice entre 1921-
1922. Diante deste quadro, a burguesia cortava custos de produção, sendo as demissões e salários
baixíssimos comuns na península. Neste contexto, os trabalhadores aderiam as organizações
sindicais que foram incrementadas, fortalecendo também as ideologias de origem marxista na
península. Para a burguesia e parte significativa da classe média, o chamado medo vermelho fez
com que estas buscassem uma solução para a radicalização de esquerda, sendo a extrema-direita
uma alternativa apresentada.
Baseando-se em uma popularidade crescente, o movimento fascista italiano, fundado em 1919,
mostrava suas “garras”. Repressão aos movimentos de esquerda realizados por uma ala radical – a
Milícia Voluntária para a Segurança Nacional – e um discurso salvacionista foram utilizados pelo seu
líder, o ex-socialista Benito Mussolini para conquistar a confiança dos conservadores e também de
setores operários. Ultranacionalista (lembre-se que fascio era um símbolo de poder dos magistrados
do Império Romano), o movimento pregava a defesa da monarquia, de propriedade privada, além da
Igreja.
Como alternativa ao discurso de luta de classes proposto pelos marxistas, os fascistas
apresentavam o corporativismo. Este último parecia ser a forma mais conveniente de conter o
sindicalismo ao propor a cessão de benefícios aos trabalhadores em troca de uma suposta “união de
classes”. Segundo esta ideologia, a colaboração entre burguesia, Estado e proletariado
proporcionaria não somente o crescimento econômico da Itália, mas também benefícios sociais aos
trabalhadores.
A crescente violência praticada pelos “camisas negras” (os membros da Milícia Voluntária para a
Segurança Nacional), que violavam abertamente princípios constitucionais, foi contestada por
diversos setores da sociedade. Inconformados, sindicalistas convocaram uma greve geral em
outubro de 1922. Como resposta, os fascistas, agora reunidos em um partido, o Partido Nacional
Fascista, convocaram uma manifestação em Roma para “protestar”contra a instabilidade política e
social proporcionada pela “mobilização comunista”. O governo do primeiro-ministro Luigi Facta era
ameaçado por todos os lados.
Como resultado direto desse episódio, o rei Vitório Emanuel III, com apoio de importantes setores
da indústria italiana e do governo, que acreditavam ser o fascismo uma solução para os graves
problemas políticos e sociais do reino, convida Mussolini para assumir o cargo de Primeiro Ministro.
O líder fascistas assumia o poder, mas ainda não possuía maioria parlamentar para poder alterar as
bases da política italiana. Para isso, usa de todos os meios legais e ilegais para ganhar as eleições
1924, obtendo maioria absoluta dos votos.
Com o parlamento em suas mãos, Mussolini promove a Reforma Constitucional de 1925, que não
apenas centraliza o poder em suas mãos, mas também expulsa os deputados “aventinos” (socialistas
e católicos opositores) do Parlamento e cria novos tribunais formados por oficiais do Exército e da
Milícia Voluntária para a Segurança Nacional, que julgariam os delitos políticos. Duas tentativas de
assassinato a Mussolini foram amplamente utilizadas pelos fascistas para justificar o massacre aos
opositores. O caminho para o totalitarismo foi completado quando, em 1928, o Grande Conselho do
Fascismo tornou-se o principal órgão constitucional do reino, sendo abolidas as eleições. Benito
Mussolini era o “Duce”, assumindo o controle total do país.
14.3. ALEMANHA
Após a Primeira Guerra Mundial, a República de Weimar teve controle muito limitado sobre as
forças militares e policiais necessárias à manutenção da paz interna. No final, a República caiu em
consequência dessa limitação, fragilidade explorada por organizações da classe média, as quais
achavam que o regime parlamentar-republicano as discriminava e, assim, procuraram destruí-lo46.
Ainda em 1918 diversas mudanças políticas atingiram a Alemanha em meio às sucessivas derrotas
na Primeira Guerra Mundial (1939-1945). A queda do kaiser Guilherme II foi sucedida pela chegada
dos republicanos ao poder, que negociaram o armistício que pôs fim ao conflito, como visto
anteriormente. Ainda em meio a reconstrução nacional, algumas das figuras mais destacadas do
novo regime saíram da conturbada Berlim para elaborar as bases de uma nova Constituição.
Aprovada, com um caráter social destacado, a Constituição de 1919 é a base para o período
republicano que se extende até a centralização de poderes nas mãos dos nazistas, conhecido como
República de Weimar (1919-1933).
Acompanhada da humilhação sofrida na Conferência de Paz de Paris, onde viu seu território ser
dividido pelos vitoriosos, perdeu todas as suas possessões ultramarinas, pagamento de indenizações
no valor de 132 bilhões de marcos dentre outras violações da soberania nacional impostas pelo
“Tratado de Versalhes” – chamado de Diktak pelos alemães –, a situação alemã no pós-Primeira
Guerra Mundial era consideravelmente mais grave do que a da Itália, uma vez que a crise
econômica que atingiu os germânicos foi um episódio sem precedentes na história daquele país. A
hiperinflação atingia números exorbitantes, o desemprego assolava a população em massa e o
governo da República de Weimar não parecia estar nem perto de uma possível solução para tal
situação.
Encarada por muitos como a mais organizada da Europa, a esquerda alemã dividia-se com
diversas estratégias para chegar ao poder. Enquanto os sociais-democratas buscaram a via eleitoral
e o aumento de sua representatividade no Reichstag (Parlamento) alemão, os espartaquistas de
Rosa Luxemburgo, defensores de uma espécie de comunismo libertário, foram brutalmente
reprimidos. Para completar o quadro instável, o Partido Social Democrata Independente radicalizou
suas ações ao tomar o poder e, por algumas semanas, implementar a êfemera experiência da
República Soviética da Baviera em 1919.
Enquanto isso, o movimento ultranacionalista também buscava o seu “lugar ao sol”. Fundado em
1920, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nazista) ganha projeção ao longo
da década. Muitas vezes as características do partido são associadas às ideias do seu mais longevo
presidente: Adolf Hitler. Austríaco e ex-combatente no Exército Alemão durante a Primeira Guerra
Mundial (1914-1918), Hitler não aceitava o desfecho desfavorável do conflito para a Alemanha,
identificando como traidores aqueles que aceitaram as humilhações impostas pelas potências
vitoriosas.
Creditava aos inimigos internos não somente a assinatura do Tratado de Versalhes, mas também a
crise econômica e social. Quem seriam estes inimigos? Os judeus. Defensor do arianismo, Hitler e
seus companheiros mais próximos como Joseph Goebbels (futuro ministro da propaganda nazista)
viam nos judeus uma ameaça à pureza da raça ariana, assim como creditavam a crise econômica aos
burgueses (principalmente banqueiros e empresários) de origem judaica e também as humilhações
impostas pelos vitoriosos na Primeira Guerra como uma associação da comunidade judaica
internacional com aqueles que participavam da República de Weimar. O antissemitismo enraizado no
continente europeu ganhava seu capítulo mais sombrio neste momento.
Como fórmula para a crise econômica alemã, sugeria a superação do capitalismo por meio da
intervenção da economia e de um Estado forte; e como alternativa ao discurso de igualdade social
dos comunistas, Hitler defendia medidas sociais para os trabalhadores alemães, buscando esvaziar o
discurso revolucionário das esquerdas. A fracassada tentativa de golpe liderada por Adolf Hitler em
1923 – o Putsch de Munique – e a publicação do livro de sua autoria, Mein Kampf (minha luta), no
qual algumas características fundamentais do nazismo se apresentavam sem disfarce perante a
sociedade alemã, contribuem para o crescimento da ideologia de extrema direita no país.
Entre 1925 e 1929 os movimentos radicais apresentam um refluxo, visto que a República de
Weimar parecia poder começar a respirar economicamente, graças aos Planos Dawes e Young,
promovidos pelos estadunidenses. Juntamente com créditos facilitados, estes planos econômicos
renegociavam o pagamento das indenizações de guerra, o que proporcionou um contínuo
crescimento ao país. Porém, com a Crise de 1929, a retirada total dos capitais estrangeiros, em
especial os estadunidenses que vinham dando um pequeno fôlego aos alemães, afunda o país em
uma nova espiral de crise.
Pautando-se no binômio repressão-arianismo, o Partido Nazista, em meio ao desespero de grande
parcela da população alemã, conquista cadeiras no Parlamento. Em 1930, os nacionais-socialistas
obtêm cerca de 18,3% dos votos. Em 1932, eram 38%, concedendo maior força à atuação de Hitler
no Reichstag. O general Paul von Hindenburg, herói da Guerra Franco-Prussiana (1870-1871),
estava em seu segundo mandato47 de presidente (Reichspräsident), buscando conter mais uma
crise política da República de Weimar. Três chanceleres estiveram à frente do Reichstag em 1932,
sendo a indicação de Hitler por Hindenburg, em janeiro de 1933, uma alternativa. Poucas semanas
depois (27 de fevereiro), um criminoso incêndio no Reichstag, promovido por três comunistas
búlgaros ligados ao Comitern, favoreceu os anseios autoritários nazistas, sendo muito bem
explorado o medo vermelho (Hitler falava em “conspiração vermelha”) na sociedade alemã.
A novidade do nazismo era sua força psicológica, que predispunha todos, trabalhadores ou não,
a aceitarem ou assumirem seu corpo ideológico. Os recalques sexuais e a energia psicossocial das
massas eram canalizadas para um envolvimento contagiante com as propostas do movimento, e
isto apesar de que elas se voltarem contra os interesses dos próprios trabalhadores48.
Na sequência dos fatos, mais um avanço eleitoral nazista ocorre e, com maior poder em suas
mãos, Hitler promove o fechamento de sindicatos e partidos de esquerda, sendo seus recursos
confiscados e suas sedes invadidas49. Com a lei de depuração, o governo inicia uma autêntica “caça
às bruxas”no funcionalismo público, sendo expulsos não somente judeus, como comunistas e
defensores da democracia em bases liberais. Já em 1933, os 45 Lager (campos de concentração)
possuíam cerca de 45 mil presos, sendo esta uma pequena amostra do que ainda estava por vir.
Em agosto de 1934, com a morte de Hindenburg, em poucos dias os nazistas conseguem aprovar
a unificação dos dois principais cargos políticos no país: presidente (Reichspräsident) e chanceler
(Reichskanzler). A partir de então, ele era o “Führer”, isto é, único líder do país. Dentre suas
concepções políticas fundamentais estavam o planejamento de anexar territórios com população
germânica a fim de garantir o “espaço vital” e formar a Grande Alemanha. Também é importante
assinalar que, gradualmente, são incrementadas as perseguições à comunidade judaica, sendo seu
momento mais tenebroso a opção pela solução final em meio à Segunda Guerra Mundial (1939-
1945).
14.4. CARACTERÍSTICAS GERAIS
Surgidos em contexto e épocas concomitantes, os governos nazista alemão e o fascista italiano
apresentavam diversas características em comum. Autores como Leandro Konder, em artigo
“Cultura Política nos anos críticos”50, inserido na coleção O Século XX – O tempo das crises
(revoluções, fascismos e guerras), tratam o nazismo como uma variação do fascismo na Alemanha,
devido às similaridades apresentadas pelos dois regimes. Dentre estas, podemos destacar:
• Totalitarismo
• O Estado está acima de tudo, sendo a frase de Benito Mussolini emblemática desta forma de
governo: “Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado. O indivíduo está
subordinado às necessidades do Estado e, à medida que a civilização assume formas cada vez
mais complexas, a liberdade do indivíduo se restringe cada vez mais”. A filósofa alemã
Hannah Arendt em sua obra As origens do totalitarismo51 identificava tais características
mais presentes na Alemanha Nazista e na URSS Stalinista do que na Itália Fascista. Existem
críticas crescentes a esta ideia.
• Antiliberalismo
• Por basearem-se no totalitarismo são também favoráveis a toda e qualquer intervenção estatal
na vida política e econômica dos países;
• Antidemocracia
• O Estado garante a coesão nacional e tem o dever de gerir a vida de todos os cidadãos.
• Unipartidarismo
• Os únicos partidos políticos legalizados e admitidos pelo Estado seriam o Nazista, na
Alemanha, e o Fascista, no Reino da Itália.
• Anticomunismo
• Uma das principais bandeiras, levantadas desde o surgimento dos partidos, era a luta contra o
comunismo. O medo vermelho foi muito explorado, como visto anteriormente, pelos fascistas.
A burguesia e a classe média, temendo ideias como a abolição da propriedade privada, apoiam
a ascensão dos fascismos e a consequente repressão aos “vermelhos”.
• Repressão
• O uso da violência contra os opositores políticos (democratas, liberais, socialistas, comunistas,
anarquistas ou simplesmente aqueles que se opunham ao totalitarismo nazista). Antes mesmo
de chegarem ao poder a violência contra os opositores era largamente utilizada, sendo as
milícias notórias neste quesito. No caso italiano, os “camisas negras”. No caso alemão, as
Seções de Assalto (SA) e, posteriormente, as Seções de Segurança (SS).
• Ultranacionalismo
• A utilização de símbolos nacionais (bandeiras, hinos, desfiles) e os discursos nacionalistas,
baseados na ideia de superação, vingança, vitória, foi fundamental para buscar uma coesão
que facilitou a consolidação das ideologias fascistas no Reino da Itália e na Alemanha. Neste
aspecto, o uso do esporte adquiriu um peso considerável também (exemplos são as
Olimpíadas de 1936 em Berlim e a Copa do Mundo de 1934 no Reino da Itália).
• Militarismo
• Os investimentos na indústria bélica e no treinamento dos exércitos, bem como a ênfase no
sentimento revanchista, uniram a população nos dois países e foram fundamentais durante a
2ª Guerra (1939-1945).
• Expansionismo
• Característica marcante no período que antecede a 2ª Guerra, ficaria bastante evidente na
tentativa de anexação de territórios europeus pela Alemanha e no Norte da África pelo Reino
da Itália. No caso italiano, os fascistas afirmavam que, para além da anexação dos territórios
ligados à questão do Irredentismo, desejavam reconstruir as fronteiras estabelecidas pelo
Império Romano. No III Reich, Hitler pregava a Teoria do Espaço Vital, formando um império
unindo todos os povos de origem germânica, a “Grande Alemanha”.
• Censura e Propaganda
• Artifícios comuns a quase todos os regimes totalitários e/ou ditatoriais, a censura aos meios de
comunicação que divulgassem pontos negativos dos governos e a propaganda positiva dos
regimes eram estratégicos para o bom funcionamento dos mesmos, controlando a opinião
pública e, consequentemente, a opinião das massas.
• Culto ao líder
• Parte integrante da propaganda dos governos, a ideia de transformar as imagens de Hitler e
Mussolini em grandes heróis, figuras sem defeitos e que, portanto, deviam ser seguidas sem
discussão, foi também importante para a consolidação dos regimes fascistas na Europa. O
ditador era a encarnação da sua nação.
• Racismo
• Característica específica da Alemanha nazista, defendia a crença na superioridade da raça
ariana e pregava a necessidade de eliminar grupos inferiores e que, de alguma maneira,
ameaçavam a homogeneidade e pureza da raça ariana: judeus, negros, ciganos,
homossexuais, deficientes etc.
• Corporativismo
• Traço típico da Itália Fascista, o corporativismo estabelecia o controle dos trabalhadores por
meio da subordinação dos sindicatos ao Estado, substituídos por corporações, que reuniam
trabalhadores e patrões, sob a direção de um delegado nomeado pelo governo. Uma vez
cooptados, os operários seriam beneficiados pelas leis trabalhistas inseridas na Carta del
Lavoro, que se, por um lado, significou a perda da autonomia sindical e a criação de
mecanismos de controle da ação política dos cidadãos (por meio das agências estatais), trouxe
benefícios trabalhistas ao operariado.
Em 1936 teria início a Guerra Civil Espanhola, que reforçou definitivamente a aliança Alemanha-
Itália (países que apoiaram o general Franco contra a Frente Popular), dando origem ao eixo Roma-
Berlim, fortalecida posteriormente com a adesão do Japão. A partir daí ganharia força a escalada
expansionista do nazifascismo, que culminaria na eclosão da Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e
1945.
15
A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1939-1945)

A guerra europeia que se iniciou no primeiro de setembro de 1939 foi a guerra de Hitler.
Historiadores continuarão a discutir as forças sociais, econômicas e políticas que o levaram a
assumir uma série de riscos calculados que culminaram em uma guerra em grande escala52.
Iniciada em setembro de 1939, a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) teve enormes proporções
ao envolver setenta e dois países e todos os continentes direta ou indiretamente. Para alguns
intérpretes, não existiram duas guerras mundias, e sim uma grande guerra mundial que iniciou-se
em 1914 e terminou em 1945. Esta interpretação está relacionada às origens da Segunda Guerra
Mundial que, em sua maior parte, tem início na forma como foi constituída a paz em 1919.
O revanchismo alemão, a busca italiana por uma resposta à humilhação ao ver suas ambições
territoriais negadas em 1919 ou mesmo a pouca importância concedida aos asiáticos que
participaram na Primeira Guerra Mundial nas negociações de paz são fatores apontados como
determinantes para que os regimes fascistas conseguissem angariar apoio suficiente para envolver
seus povos em um novo conflito militar pouco mais de duas décadas após o fim das hostilidades
iniciadas com o assassinato de Francisco Ferdinando.
Para aqueles que privilegiam as análises econômicas, questões ligadas às dificuldades de
negociação e transação entre os países na década de 1930 seriam fundamentais para entender as
raízes deste conflito. A Crise de 1929 levou não apenas a uma retração da produção mundial mas
também à adoção por parte de diversos países de um maior protecionismo econômico, produzindo
uma “guerra tarifária” sem precedentes. Desta forma, a disputa por novas fontes de matéria-prima e
mercados entre as principais potências que compunham o “Eixo” e os “Aliados” levaria o mundo a
mais seis anos de confrontos bélicos.
15.1. ANTECEDENTES
As raízes do conflito relacionam-se com as políticas estabelecidas por determinados países
europeus naquele momento, em especial à ascensão dos regimes nazifascistas na Alemanha e na
Itália. Como trabalhado anteriormente, características como o belicismo, militarismo ou mesmo o
expansionismo são características destacadas dos regimes fascistas europeus, e a consequência
natural de tais atitudes levaria ao confronto, ao menos no campo ideológico, com as principais
potências europeias.
Do outro lado do mundo, mais especificamente no Japão, tais regimes encontraram um
importante aliado. Alvo de muitas interpretações, o período que correspondeu ao período Showa,
mais precisamente no reinado de Hirohito, possui diversas características semelhantes aos
fascismos europeus. Mesmo sem um ditador carismático ou um único partido forte e centralizador, o
Estatismo japonês era expansionista e militarista.
Na segunda metade da década de 1930, quando os fascismos italiano e japonês já estavam
consolidados, Hitler, como führer, alemão, articula a assinatura de um acordo com a potência
asiática. Assinado pelo ministro alemão Joachim von Ribbentrop e pelo embaixador japonês Kintomo
Mushakoji, em novembro de 1936, o Pacto Anticomintern objetivava proteger tais signatários das
supostas ameaças do comunismo. Meses depois, já em 1937, a Itália aderiu a tal acordo, deixando
de lado o incômodo quanto às pretensões alemãs com relação à Áustria, formando-se aquilo que
posteriormente ficou conhecido como o Eixo. Em 1938, um dos lados do conflito já era realidade.
Diante de tal expansionismo e articulação entre os fascistas era esperada uma reação forte por
parte das potências capitalistas ocidentais – principalmente Inglaterra e França – ou mesmo daquele
órgão criado para garantir a paz mundial: a Liga das Nações. Porém, refletindo os receios de seus
populares, que ainda tinham em mente os horrores da Primeira Guerra Mundial e não queriam
repetir desgastante experiência, ingleses e franceses nada fazem para deter o avanço do Eixo.
Apostavam também os anglo-franceses que o discurso anticomunista dos fascistas acarretaria em
um ataque à URSS, o que seria salutar para aqueles países que, em menor grau, também sofriam
com o “medo vermelho”.
Ausente os Estados Unidos deste órgão, cabia a ingleses e franceses a direção da Liga das
Nações, que atua de forma também tolerante com relação ao expansionismo do Eixo. Era a Política
do Apaziguamento franco-britânica que, adotada ao longo da década de 1930, foi interpretada por
Hitler e Mussolini como um ato de fragilidade por parte de tais potências. Com isso, os fascistas não
enfrentaram grandes obstáculos para elaborar o expansionismo.
Enquanto as potências cultivavam a tolerância com os excessos fascistas, os mesmos espraiavam
seus tentáculos no mundo. No Oriente, o Japão, fortalecido com os adventos da Era Meiji, tinha
notórios problemas quanto à limitação de seu território e elegeu a República da China, frágil, como
alvo de seus ataques. Desde o início do século XX, a Manchúria era alvo preferencial nipônico e,
desde o final da Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), influenciava em demasia a economia daquela
região, rica em minerais e com destaque para suas reservas de carvão.
Desejando controlar de forma mais direta a Manchúria, o que até então era realizado em
associação com os “senhores da guerra” chineses, o Japão aproveitou-se do Incidente de Mukden
(1931), quando dissidentes chineses foram acusados de atacar uma ferrovia de propriedade
japonesa ao sul da região para invadir a Manchúria. Como resultado direto desta situação é criado o
Manchukuo (1932-1945), um Estado satélite do Japão Imperial, comandado pelo último imperador
da China, que pertencia à Dinastia Qing de origem manchu. Pu Yi assume o trono em 1934, e
comanda a região até 1945.
Incidentes se sucederam entre a República Chinesa, neste momento assolada por uma Guerra
Civil, e o Império do Japão, que resultarão na Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945). A partir
de 1937, a guerra total entre os dois inicia-se, sendo interpretada por muitos como o início “de
fato”da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Última nação livre do continente africano (afinal a Libéria possuía profundas ligações com os
Estados Unidos da América), a Abíssinia resistira à ofensiva do Reino da Itália na última década do
século XIX mas, na década de 1930, os tempos eram outros. Mussolini estava no poder há mais de
uma década, consolidado e desejoso por mais uma demonstração de poder. Se no ano de 1934
comprovara a superioridade da organização corporativa nos campos de futebol com a vitória na II
Copa do Mundo de Seleções da Fifa, um ano depois Mussolini estava disposto não só a “enterrar”a
humilhante derrota na Primeira Guerra Ítalo-Etíope (1895-1896), mas também fomentar seu sonho
de “reconstruir o Império Romano”.
Atritos na fronteira entre a Somália italiana e a Abissínia resultaram no conflito que resultou na
morte de mais de trezentos mil italianos entre 1935 e 1936. Os fascistas não esperavam uma nova
resistência vigorosa dos súditos de Haile Selassie e, mesmo com a notória superioridade bélica, os
italianos recorreram a recursos como o uso de armas químicas para derrotar os etíopes. Mussolini
anunciava a fundação do Império Italiano, sendo Vítor Emanuel III o imperador da Etiópia e, ao
mesmo tempo, Primeiro Marechal do Império.
A Liga das Nações demonstrou toda a sua fragilidade ao longo de todo o processo, iniciado ainda
em 1928, quando os italianos violaram a fronteira construindo um forte em território etíope.
Membros de pleno direito neste órgão, teoricamente o Reino da Itália e a Abissínia possuíam a
mesma força. Mas a política do apaziguamento franco-britânica aqui também atuou, sendo a
soberania africana sacrificada em nome dos interesses geopolíticos europeus.
Enquanto isso, na Alemanha, o führer colocava em prática seus planos anunciados anteriormente
em seu livro, Mein Kampf (Minha luta). O Tratado de Versalhes era considerado o “garrote”do povo
alemão e, após inúmeros pedidos de revisão dos prazos para o pagamento de indenizações de
guerra e secretamente investir na indústria bélica53, viola de forma flagrante o tratado de 1919 ao
anunciar a criação de 400 mil postos dentro do exército alemão (o Wehrmacht). Como afirmava seu
pacifismo e renunciava qualquer tipo de pretensão sobre a Alsácia-Lorena, afirmando que apenas
estava exercendo um direito legítimo de defender o seu país de possíveis ataques estrangeiros, a
opinião pública das potências ocidentais tolerava tais ações alemães.
Foi além no ano de 1936, quando violou mais uma vez o Tratado de Versalhes remilitarizando a
região de fronteira com a França. Em um contexto em que o governo francês promovera um acordo
com a URSS de Stalin de assistência mútua, o Pacto Laval-Stalin (1935), Hitler remilitariza a
Renânia. Divididos internamente em uma luta fraticida entre as esquerdas e os fascistas, a
população francesa pouco reagiu com a tal ocupação, talvez por confiar demasiadamente na Linha
Maginot.
Em 1938 o alvo é a pátria-mãe de Adolf Hitler. As disputas políticas internas geraram forte
instabilidade na política austríaca: nazistas, social-democratas e comunistas disputavam o poder,
com golpes e assassinatos fazendo parte da política local, após o chanceler Kurt Schuschnigg
negociar um acordo com os nazistas, anistiando estes em troca da não intervenção de Hitler na
política austríaca. Tal acordo foi ignorado, conseguindo os nazistas hegemonia na política. Um
referendo em que 99% da população austríaca aceitou o Anschluss (anexação ou conexão) foi
realizado em abril de 1938.
A aceitação por parte das potências ocidentais motivou Hitler a discutir a questão da população
alemã que vivia na região dos Sudetos. Conhecida na Tchecoslováquia como a “Sentença de
Munique”, a Conferência de Munique (setembro de 1938) foi simbólica com relação à política do
apaziguamento. O Führer alemão aproveita a ocasião para conseguir junto a Neville Chamberlain e
Edouard Daladier a permissão para a anexação da região dos Sudetos tchecos, o que é realizado
mediante um compromisso de que não mais iria reivindicar outros territórios para a Alemanha – era
o Acordo de Munique.
Interessante é lembrar as reações populares com relação a tal acordo. Ao retornar a Londres,
Chamberlain faz seu célebre discurso onde afirma que voltou da Alemanha com a “paz em nosso
tempo”. Na França o apoio popular também existiu, enquanto Hitler detectava ali sinais flagrantes
de fragilidade nas autoridades ocidentais. O caminho estava livre para a construção do “espaço
vital”.
Antes mesmo de um conflito de proporções mundiais, as principais potências fascistas
encontraram na Espanha uma espécie de “campo de testes” antes do conflito de proporções
mundiais. A Segunda República Espanhola vivenciava uma guerra civil desde que, após a vitória das
esquerdas nas eleições de 1936, quando anarquistas, comunistas e socialistas uniram-se de forma
surpreendente, as direitas nacionalistas liderada pela Falange Fascista do general Francisco Franco
tentam um golpe que desencadeia um dos conflitos mais sangrentos do século XX.
Enquanto os republicanos contavam com o auxílio limitado e muitas vezes prejudicial de Stalin,
destaca-se a solidariedade das esquerdas mundiais que enviaram milhares de voluntários (“brigadas
internacionais”) para lutar na guerra. Enquanto isso, o “Movimento Nacional”franquista obteve a
ajuda militar direta do III Reich e do Reino da Itália, enquanto o regime salazarista permitia o
recrutamento de voluntários, mesmo sendo oficialmente neutro diante da Guerra Civil Espanhola
(1936-1939).
Neste conflito, Hitler e Mussolini tiveram a oportunidade de testar a eficiência em uma guerra
convencional de algumas estratégias idealizadas por seus militares. Por exemplo, os alemães
concedem importante apoio à força aérea franquista através da Legião Condor, que chegou a reunir
cinco mil aviadores. O Corpo Truppe Volontarie seria a materialização do apoio italiano à Falange,
com mais de cem mil homens atuando na Espanha. Uma das ações mais destacadas desta união de
forças fascistas é o bombardeio da cidade de Guernica, eternizada na obra de Pablo Picasso.
A vitória de Francisco Franco e dos nacionalistas ao final do conflito e a implementação de uma
ditadura que se estende até o ano de 1975 são resultados diretos deste evento, também conhecido
como o “Grande Laboratório”, uma vez que nazifascistas anteciparam e aperfeiçoaram armamentos
e estratégias posteriormente utilizados na guerra que se iniciaria em 1939.
15.2. 1939
O ano de eclosão do segundo conflito de proporções mundiais é marcado por uma profunda
tensão entre as chamadas nações democráticas e o Eixo. Em março, com o exército alemão cada vez
mais sob seu controle direto, Hitler invade as regiões da Tchecoslováquia que não estavam sob
domínio nazista, dividindo o território em três.
Posteriormente, o alvo seria a região do chamado “corredor polonês”, na Crise de Danzing. O
führer alemão exigia a anexação da Cidade Livre de Danzing, que estava sob controle político da
Liga das Nações e econômico da Polônia. Diante das pressões diplomáticas dos alemães, a Polônia
aceita a criação de uma estrada sobre a região do “corredor”, mas não o controle nazista sobre
Danzing, no que recebe o apoio de França e Inglaterra.
Em abril, interessado no controle do Mar Adriático e em uma estratégica posição para uma futura
campanha sobre a região dos Bálcãs, além de uma “resposta nacionalista”o fracasso militar italiano
na Guerra de Vlora e a posterior retirada do sul da Albânia, Benito Mussolini promove uma rápida e
intensa campanha militar sobre a região, incorporando a Albânia ao Império Italiano como um reino
independente em união pessoal com a Coroa Italiana, forçando o exílio do Rei Zog I.
Mesmo depois de tantas ações ousadas em sua política exterior, Hitler ainda tinha o poder de
surpreender o mundo e o faz mais uma vez no oitavo mês no ano. Após anos de isolamento
diplomático, a URSS gradualmente rompia as amarras impostas pelo “cordão sanitário”. A
dificuldade dos anos 1920, quando o Tratado de Rapallo (1922) e o Tratado de Berlim (1926) com a
República de Weimar era uma exceção, foi superada na década seguinte. Em 1932 os soviéticos
participaram da Conferência Mundial do Desarmamento; no ano seguinte foram estabelecidas
relações diplomáticas com os Estados Unidos e, finalmente, em 1934, a URSS é admitida na Liga
das Nações. Acordos bilaterais, como o já mencionado Laval-Stalin (França-URSS), também foram
estabelecidos na segunda metade da década de 1930, o que justificava o grande trânsito de
diplomatas estrangeiros em Moscou.
O que não se esperava era que, da visita do ministro do exterior do III Reich, Joachim von
Ribbentrop, um amplo pacto de apaziguamento fosse construído. Com a chegada dos nazistas ao
poder, a questão racial ganha força novamente, revigorando a oposição entre pan-germanismo e
pan-eslavismo do início do século XX. Para os nacional-socialistas, os povos de etnia eslava eram
considerados untermenschen (sub-humanos) e, para aumentar a dose de ódio, Marx era judeu, o que
fazia com que o bolchevismo soviético fosse associado ao antissemitismo. O ódio aos comunistas era
uma das bases do nazismo, sendo o Pacto Anticomitern uma consequência natural de todo o
processo.
Mas no dia 23 agosto de 1939 todo o histórico de oposição e ódio foi deixado de lado quando
Ribbentrop assina com o Vyacheslav Molotov o conhecido Pacto Germano-Soviético. Naquele
momento, interessava ao III Reich evitar uma possível guerra em duas frentes de batalha como
ocorrera na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Pelo lado soviético, em meio ao terceiro Plano
Quinquenal iniciado em 1938, interessava evitar a entrada na guerra a todo o custo e, ao mesmo
tempo, contar com o beneplácito nazista com relação ao expansionismo no leste europeu.
Fica acertado entre as duas nações, além de uma paz de cinco anos entre os dois gigantes (não
agressão), o afastamento bélico e o distanciamento com relação aos rivais diretos. Era importante
tal medida naqueles tempos, lembrando que em julho de 1938 os soviéticos entraram em confronto
com o Japão. O regime expansionista nipônico tentou alterar a fronteira mongol à força,
respondendo a URSS com o ataque do Exército Vermelho. A Batalha do Lago Khasan deixou claro
para os japoneses que os soviéticos eram adversários duros de serem superados, mudando o foco da
sua expansão. Para os soviéticos, havia a sensação de que seria difícil manter suas fronteiras
intactas diante do fortalecimento dos fascistas e, para tal, o pacto de fevereiro de 1939 teria forte
contribuição.
Mas gera muita polêmica nos anos 1950 a divulgação, por parte de Nikkita Kruschev no contexto
da desestalinização, das cláusulas secretas do Pacto. Nestas, a Europa Oriental era dividida em
zonas de influência entre germanos e soviéticos, a invasão mútua da Polônia (que deixaria de existir
novamente, sendo partilhada pelos dois países) é acertada e os homens de Stalin comunicam a
posterior ocupação soviética da Finlândia. Relações comerciais também estavam neste acordo,
sendo interessante para a Alemanha nazista poder contar com o petróleo soviético enquanto a
reconstrução do exército soviético contava com o material bélico alemão.
Caiu como uma “bomba”em Paris e Londres tal acordo. As autoridades franco-britânicas, que
apostaram em um possível ataque à URSS por parte dos fascistas, encaravam neste momento o
fracasso da Política do Apaziguamento. Era tarde em demasia para conter o fortalecimento do Eixo,
mas não restava outra alternativa para as potências ocidentais reafirmar que não telerariam outros
avanços nazistas neste contexto. Iniciava-se uma “Guerra de Nervos”54.
Quando o Führer alemão anuncia a necessidade de conquistar os territórios poloneses
teoricamente usurpados ao final da Primeira Guerra Mundial, a reação franco-britânica foi de forte
defesa da soberania da Polônia. Hitler manteve seu desprezo a Chamberlain e Daladier, preparando
o ataque aos vizinhos do leste sem algum embargo. Finalmente, em 1º de setembro de 1939,
quando, às quatro e quarenta e cinco da manhã, navios alemães abrem fogo contra guarnições
polonesas na península de Westerplatte, franceses e britânicos não tinham outra saída senão
declarar guerra, no dia 3 de setembro, dando início à 2ª Guerra Mundial.
15.3. FASES DO CONFLITO
15.3.1. Avanço do Eixo (1939-1941)
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) inicia-se de forma diferente do que era esperado. A
primeira “surpresa” veio do leste, quando em outubro de 1939 ocorreu a ocupação soviética sobre o
leste polonês. Um mês depois, o Exército Vermelho invadia também a Finlândia, promovendo uma
enérgica resposta da já combalida Liga das Nações, que expulsa a URSS se suas fileiras.
Enquanto isso, França e Inglaterra pouco faziam com relação à mobilização militar. A imprensa
chamava o conflito de “a guerra estranha”, pois poucas ações efetivas de guerra foram tomadas
pelos dois gigantes europeus. Na verdade, isso era reflexo da “fadiga de guerra” mencionada
anteriormente como um dos fatores para a Política do Apaziguamento. Franceses acreditavam (ou
queriam acreditar) que a “Linha Maginot” impediria qualquer avanço nazista sobre seu território,
enquanto os britânicos confiavam na defesa natural (o mar) contra a Wehrmacht.
A estratégia alemã baseava-se na blitzkrieg, uma guerra-relâmpago que permitiria a Hitler uma
rápida vitória diante das escassas condições militares de manter-se em um conflito mais prolongado,
já que a Alemanha ainda se encontrava em recuperação dos estragos causados pela 1ª Guerra e pela
Crise de 1929. O avanço nazista era acompanhado pela conversão de prisioneiros de guerra em
trabalhadores que, sob coersão, produziam para abastecer a máquina de guerra nazista.
Enquanto isso, destacam-se as ações militares japonesas no Pacífico Asiático – mediante aliança
com a Tailândia – o avanço italiano ao norte da África e na Grécia e a atuação germânica na Europa
Ocidental, conquistando Dinamarca, Polônia, Noruega, Bélgica, Luxemburgo e Holanda.
Conquistando a região dos Países Baixos, Hitler não precisa superar a Linha Maginot, invadindo a
França pelo norte. Neste momento, a III República se encerra: o norte do país é administrado
diretamente pelos nazistas e a região sul será administrada pela República de Vichy, um governo
colaboracionista comandado pelo herói da Primeira Guerra, o Marechal Phillipe Pétain.
A vitória do Eixo parecia certa no primeiro semestre de 1941, quando a Europa estava prestes a
se submeter à Blitzkrieg. Mas existia uma ilha no caminho do fascista alemão. Diante da
impossibilidade da mesma estratégia usada contra os franceses, o Wehrmacht precisava da
Deustche Marine, que, por sua vez, batizou de Operação Leão Marinho a batalha nos mares que
derrotaria o tradicional Real Marinha britânica. Sabendo da eficácia naval de seus adversários,
demonstrada ao longo de séculos de história, os oficiais nazistas projetaram primeiro um amplo
ataque aéreo aos súditos do rei George VI.
Meses consecutivos de ataques da Luftwaffe não dobraram os britânicos que, embalados pelos
discursos acalorados do experiente parlamentar e, nesta ocasião, primeiro-ministro Winston
Churchill, conseguem resistir a força do expansionismo nazista. Por meio dos microfones da BBC, o
sexagenário ministro conclamava:
[...] Iremos até ao fim. Lutaremos na França. Lutaremos nos mares e oceanos, lutaremos com
confiança crescente e força crescente no ar, defenderemos nossa ilha, qualquer que seja o
custo. Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e
nas ruas, lutaremos nas colinas; nunca nos renderemos, e se, o que eu não acredito nem por um
momento, esta ilha, ou uma grande porção dela fosse subjugada e passasse fome, então nosso
Império del além-mar, armado e guardado pela Frota Britânica, prosseguiria com a luta, até que,
na boa hora de Deus, o Novo Mundo, com toda a sua força e poder, daria um passo em frente para
o resgate e libertação do Velho.
Decisiva para os rumos do conflito mundial, a estratégia da Royal Air Force impediu a ideia de
Hitler de vencer a guerra na Europa Ocidental em dois anos. A Batalha da Inglaterra obrigou o líder
alemão a mudar seus planos e ampliar o conflito em busca de matérias-primas, buscando condições
para resistir a uma guerra longa.
15.3.2. Equilíbrio de forças (1941-1942)
Necessitando de fontes de petróleo para abastacer sua máquina de guerra, o III Reich tinha duas
opções: o Oriente Médio e a URSS. A primeira opção foi prontamente descartada pelas dificuldades
enfrentadas pelos italianos ao norte da África. Mesmo com as destacadas ações do Panzergruppe
Afrika, muito difícil seria conseguir explorar o petróleo do Oriente Médio.
Uma visão otimista fez Hitler almejar o petróleo do Cáucaso soviético. Para o Führer, a URSS era
como uma casa podre, onde “só precisamos chutar a porta da frente [...] então toda a apodrecida
estrutura interna irá desmontar”. Alegando violação de fronteira, Hitler invade a URSS sem
declaração formal de guerra ou mesmo um ultimato comum nestes casos. Stalin não esperava a
violação do Pacto Germano-Soviético naquele momento, chegando mesmo a acreditar que poderiam
ser dissidentes nazistas que queriam jogá-lo contra o Führer. Mais de uma semana depois de
iniciada a Operação Barbarossa, Stalin convoca os trabalhadores para ingressar em uma “Guerra
Patriótica”, inclusive libertando generais do Exército Vermelho presos nos Processos de Moscou
(1936).
Enquanto isso, os atritos entre estadunidenses e japoneses no Pacífico aumentavam. Diante da
progressiva marcha dos homens de Hirohito iniciada ainda na década de 1930 em uma região
importante para a sua política desde a conquista do oeste, os estadunidense retaliaram o Japão com
um bloqueio econômico. Para os generais japoneses, este seria o primeiro aviso estadunidenses,
reforçando tal ideia após o ultimato enviado por Washington em 1941. Assim, uma guerra contra os
Estados Unidos seria inevitável e em duas Conferências Imperiais foram discutidas as bases de um
ataque às possessões estadunidenses do Pacífico.
O local escolhido para o ataque japonês foi a base de Pearl Harbor na manhã do dia 7 de
dezembro de 1941. Mesmo com sinais colhidos ao longo dos meses sobre um possível ataque do
Japão, as autoridades estadunidenses não se prepararam devidamente para tal, nem mesmo estando
a base em alerta máximo para minimizar possíveis perdas, o que até hoje gera especulações sobre
tal postura. Com quase duzentos aviões destruídos e dois mil e quinhentos estadunidenses mortos
em tal ataque, seguiu-se a declaração de guerra dos Estados Unidos ao Japão, ordenando o
presidente Roosevelt um ataque a Tóquio.
Quatro dias depois, era o III Reich que declarava guerra aos Estados Unidos, que ingressavam
definitivamente na guerra, antes limitando sua participação aos lend-and-lease acts, importantes
para a o fornecimento de armas e outros suprimentos militares para as nações aliadas que lutavam
contra o Eixo. Ainda no início de 1942, é convocada a III Conferência do Rio de Janeiro, em que os
estadunidenses conseguem, sob a justificativa de salvar a “unidade continental”, uma moção que
recomendava o rompimento de relações com o Eixo.
O Brasil sinaliza o apoio aos Estados Unidos ao final do encontro em sua capital, rompendo
relações diplomáticas com o Eixo no dia 28 de janeiro de 1941. Tal posição brasileira recebe como
resposta sucessivos ataques de submarinos alemães ao seu vasto litoral, o que favorece as pressões
populares e estadunidenses para a entrada na guerra. É somente em agosto que Getúlio Vargas
decreta o estado de beligerância (22 de agosto) e, a seguir, o estado de guerra (31 de agosto) contra
Alemanha e Itália. Bases aéreas estadunidenses foram montadas no nordeste brasileiro, destacando-
se aquela de Natal, chamada por muitos de “o trampolim para a vitória” dos Aliados ao norte da
África.
É neste momento que ganha força a Resistência Francesa, que tinha nos general Henri Giraud e
no marechal Charles de Gaulle seus principais líderes militares. Comandando o governo da França
Livre, de Gaulle gradualmente conseguiu controlar algumas das principais colônias francesas e
também colocar a França em posição de destaque nas conferências entre os principais líderes
políticos aliados, sendo a primeira de grande importância sediada no Marrocos francês.
A Conferência de Casablanca (janeiro/1943) reuniu os dois líderes franceses, Franklin D.
Roosevelt e Winston Churchill, declinando Stalin do convite devido à situação de guerra em
Stalingrado. Nesta, é decidida que os Aliados somente encerrariam as hostilidades contra o Eixo em
caso de rendição incondicional do mesmo. Também é discutida a possibilidade de abertura de uma
frente na Europa Ocidental com vistas a auxiliar a ofensiva russa no leste, assim como o
fornecimento de auxílio para o Exército Vermelho. Por fim, é importante destacar a aproximação dos
Aliados com a Turquia, que possuía ligações históricas com os germânicos.
15.3.3. Vitória dos Aliados (1943-1945)
É importante salientar que a divisão cronológica aqui apresentada é uma ferramenta didática a
fim de melhor apresentar os eventos deste conflito. Assim tomamos como principal marco para a
última fase a vitória soviética na Batalha de Stalingrado, mesmo sabendo que importantes vitórias
aliadas ocorreram antes mesmo desta.
Entre outubro e novembro de 1942, ao norte da África, as tropas aliadas, comandadas com
maestria pelo general estadunidense Bernard Montgomery derrotaram as tropas do Eixo na Batalha
de El-Alamein. Esta foi fundamental não somente para garantir que as tropas fascistas atingissem o
petróleo do Oriente Médio, mas também pois os Aliados conseguem retomar o Mar Mediterrâneo.
Com o Mediterrâneo sob controle, imediatamente iniciam-se os ataques ao sul da Itália, iniciando
a libertação do país juntamente com a Resistência Italiana que resultou na rendição em setembro de
1943. A reação dos fascistas foi a instauração da República Social Italiana (também conhecida como
a República de Saló) na porção setentrional da península, chefiada por Benito Mussolini. É no
auxílio das tropas estadunidenses contra tal governo fascista que as ações militares brasileiras
ocorrem. A Força Expedicionária Brasileira destaca-se em diversas ações, como na Batalha de
Monte Castelo.
Mais importante batalha da Segunda Guerra Mundial, aquela que ocorreu entre julho de 1942 e
fevereiro de 1943 tem algumas peculiaridades a serem ressaltadas. Após serem expulsas dos
subúrbios de Moscou, quando Stalin apelou ao sentimento nacional para fortalecer a resistência
militar criando até mesmo hino para a URSS, as tropas nazistas deslocaram-se para o sul soviético
objetivando a região do cáucaso. Para isso, deveriam ocupar a cidade que era batizada com o nome
do líder máximo da URSS desde 1924, o que simbolicamente seria significativo.
Para conter o Wehrmacht, Stalin aproveitou-se das condições climáticas adversas. O rigoroso
inverno russo impunha uma fragilidade temporária aos alemães, o que favoreceu a decisão do
Stavka soviético de iniciar um contra-ataque em julho de 1942. A reação alemã também foi
dificultada pela distância entre o front e as indústrias que abasteciam o exército, pois, antes mesmo
de entrar na guerra, Stalin promoveu a sua própria versão da tática de “terra arrasada” ao
transferir centenas de indústrias para o lado oriental da URSS.
Ao derrotar o poderoso exército do III Reich, o líder soviético consolidava sua posição de
protagonismo nas relações internacionais naqueles tempos. Extinto o Comintern como forma de
apaziguar suas relações com as demais potências aliadas, Stalin agora estava em condições de
pressionar estadunidenses e ingleses para que estes promovessem a abertura da frente ocidental
contra Hitler. Os estadunidenses concentravam suas atenções no Pacífico Asiático, onde obtiveram
sua primeira grande vitória contra os japoneses no mesmo fevereiro de 1943 em que Stalin
derrotava o Wehrmacht às margens do rio Volga, sendo esta considerada uma turning point naquele
teatro de guerra.
Em novembro de 1943 acontece a primeira reunião entre os três grandes líderes das forças
antifascistas. Na Conferência de Teerã (novembro-dezembro de 1943), Roosevelt, Stalin e Churchill
lançam as bases para a futura divisão do mundo em áreas de influência. Importante também foi o
reconhecimento de Tito como líder das forças aliadas na Iugoslávia, o reconhecimento da presença
soviética no Báltico e a promessa estadunidense de que, em breve, colocariam em ação suas tropas
na Europa continental por meio da Operação Overload. Outros temas como a entrada da Turquia na
guerra e a crise do Irã foram alvos de longas discussões na conferência, garantindo os três
principais aliados auxílio econômico para o novo governo iraniano mesmo em um contexto de
privações devido à guerra. Analistas ressaltam a importância da aproximação pessoal entre Stalin e
Roosevelt neste momento, apostando o presidente estadunidense que poderia alterar algumas das
políticas soviéticas por meio da aproximação com Moscou. Roosevelt, inclusive, prometeu auxílio
econômico para a reconstrução soviética no pós-guerra.
Stalin ainda esperou até o dia 6 de junho de 1944 para ver as forças alemãs divididas em duas
frentes de batalha do continente europeu. Com o desembarque aliado na Normandia, o “Dia D”,
inicia-se a “desnazificação”da Europa Ocidental, sendo Paris oficialmente libertada no dia 25 de
agosto de 1944. Neste contexto, as tropas aliadas almejavam a invasão da Alemanha. Sob a
percepção de uma derrota iminente, Hitler ordena a execução da “solução final” nos campos de
concentração, enquanto se resguardava em um dos diversos bunkers espalhados por Berlim.
A proximidade da paz e a certeza de que a vitória era uma questão de tempo fez com que os
aliados buscassem arquitetar como seria o mundo do pós-guerra. Do ponto de vista econômico, a
interpretação é de que a guerra foi fruto das dificuldades no comércio mundial nos anos 1930 com o
crescente protecionismo fruto da Grande Depressão. Assim, era preciso fomentar as relações
comerciais entre os países e, para isso, são organizadas as Conferências de Bretton Woods reunindo
representantes das 44 nações aliadas, tendo como centro dos debates o Hotel Mount Washington,
em New Hampshire. Ao final das conversações, o Acordo de Bretton Woods foi assinado, definindo
um sistema de regras, procedimentos e instituições como o Banco Internacional para a
Reconstrução e Desenvolvimento e o Fundo Monetário Internacional. Fundamental para o
incremento das trocas comerciais seria a adoção de um política monetária que mantivesse a taxa de
câmbio dos países membros indexada ao dólar – era o padrão dólar-ouro.
Neste mesmo contexto ocorrem as Conversações em Washington para a Paz Internacional e a
Organização de Segurança, mais conhecidas como a Conferência de Dumbarton Oaks (agosto-
outubro/1944). O objetivo central era discutir os formatos para a construção de um novo órgão para
a paz mundial, substituindo a Liga das Nações. China, União Soviética, Estados Unidos e Inglaterra
decidiram pela criação do Conselho de Segurança, que seria o órgão mais importante nesta nova
instituição. Roosevelt chega a propor a entrada do Brasil como sexto membro permanente neste
órgão, mas a resistência de soviéticos e britânicos fez o democrata adiar seus planos. Quando ocorre
a criação oficial da Organização das Nações Unidas, na Conferência de São Francisco (abril-
junho/1945), o Brasil recebe apenas o assento temporário no Conselho de Segurança.
Último encontro entre os três grandes, a Conferência de Yalta (fevereiro/1945) tem como ponto
alto a assinatura da Declaração da Europa Libertada, onde os aliados se comprometem pelo
estabelecimento e defesa da democracia nas áreas desnazificadas no pós-guerra – compromisso este
que seria violado pelos soviéticos. Também são decididos os detalhes da invasão e ocupação da
Alemanha no pós-guerra.
O mês de abril reserva ao mundo a saída de cena de três dos protagonistas do conflito. No dia 12,
Roosevelt morre e é substituído por Harry Truman. Benito Mussolini, diante da eminente queda da
República de Saló, busca refúgio na Suíça mas é aprisionado por membros da Resistência, que
realizam um julgamento público e executam o antigo Duce italiano no dia 28, um dia antes da
rendição oficial. Hitler não queria correr o risco de ter o mesmo destino de seu aliado, que teve seu
corpo exposto em praça pública, e decide pelo suicídio no dia 30 de abril, resistindo os alemães mais
alguns dias até a assinatura do Tratado de Rendição (7 de maio). Era o fim da guerra na Europa.
Ainda restavam algumas questões em aberto para serem decididas entre as potências e os aliados
se reúnem pela última vez em julho de 1945. Roosevelt não mais estava lá e Churchill chega a
participar dos primeiros encontros, mas perde as eleições inglesas para o representante do Partido
Trabalhista Clement Attlee, que o substitui na Conferência de Potsdam (julho-agosto/1945). Entre as
principais decisões tomadas, estavam a divisão da Alemanha e de Berlim em quatro áreas de
influência (URSS, EUA, Inglaterra e França), a oficialização de uma nova fronteira entre a Polônia e
a URSS (Linha Oder-Neisse) e o julgamento dos nazistas por crimes contra a humanidade no
Tribunal de Nuremberg. Como a guerra ainda existia no Oriente, Stalin promete mais uma vez
direcionar suas tropas para o Pacífico Asiático.
Em meados de 1945 restava apenas o Japão no conflito que, com a utilização de pilotos
kamikazes, ainda realizava estragos consideráveis nas regiões comandadas pelos aliados, atirando
seus aviões sobre encouraçados dos estadunidenses. Diante da recusa nipônica em abandonar o
conflito, os Estados Unidos, de maneira unilateral, optam pelo lançamento de uma bomba atômica
na cidade de Hiroshima. Fruto do Projeto Manhattan que, sob a direção do major-general Leslie
Groves, desde 1942 buscava elaborar uma arma a partir da fissão do átomo, muitas vezes obtendo
informações importantes de pesquisas alemães que iam no mesmo sentido. Como o Japão não se
rende, mesmo após os estragos realizados pela bomba, Washington decide por um novo ataque
nuclear, dessa vez tendo como alvo a cidade de Nagasaki. É somente após este segundo golpe que
os japoneses assinam a rendição no dia 15 de agosto de 1945.
Muitos consideram que a decisão estadunidense ao usar as bombas atômicas seria apenas para
demonstrar força para os soviéticos que, àquela altura, possuíam aquele que era considerado o
maior exército do mundo. Oficialmente, as bombas atômicas objetivavam abreviar a guerra, uma vez
que, mesmo depois das rendições italiana e alemã, o Exército Imperial Japonês não se rendia. Além
disso, outro elemento deve ser considerado: evitar a presença soviética no Pacífico Asiático,
mantendo esta região sob a influência estadunidense após o fim da Segunda Guerra Mundial.
Nos últimos quatro meses de 1945, as atenções mundiais são divididas entre os impactos que as
bombas atômicas provocaram no território japonês e o início do Julgamento de Nuremberg, quando
os nazistas aprisionados foram julgados pelos crimes de guerra cometidos durante a Segunda
Guerra Mundial (1939-1945). Muitos dirigentes ligados ao nacional-socialismo conseguiram fugir da
Europa (para a Argentina, por exemplo, através da Operação Odessa), mas daqueles que
enfrentaram os Processos de Guerra de Nuremberg apenas três foram absolvidos (Franz von Papen,
Hans Fritzsche e Hjalmar Schacht) e outros 12 foram condenados à morte. Iniciava-se a
reconstrução do mundo nos escombros da longa guerra mundial.
16
A GUERRA FRIA (1947-1991)

16.1. ORIGENS
A Segunda Guerra Mundial mal terminara quando a humanidade mergulhou no que se pode
encarar, razoavelmente, como uma Terceira Guerra Mundial, embora uma guerra muito peculiar.
Pois, como observou o grande filósofo Thomas Hobbes, “a guerra consiste não só na batalha, ou no
ato de lutar: mas num período de tempo em que a vontade de disputar a bataha é suficientemente
conhecida”. A Guerra Fria entre EUA e URSS, que dominou o cenário internacional na segunda
metade do Breve Século XX, foi sem dúvida um desses períodos. Gerações inteiras se criaram à
sombra de batalhas nucleares globais que, acreditava-se firmemente, podiam estourar a qualquer
momento, e devastar a humanidade55.
A tensão entre soviéticos e estadunidenses está intimamente ligada aos contornos finais da
Segunda Guerra Mundial. É evidente que a força operada pelo exército de Stalin, que nos
primórdios da Operação Barbarossa chegou a demonstrar certo despreparo e fragilidade diante dos
homens de Hitler, mas depois comandou a desnazificação do Leste europeu, foi determinante para
as atitudes dos EUA nas últimas semanas do conflito. Inclui-se, aí, a decisão de abreviar a guerra
utilizando as bombas atômicas recém-testadas no deserto do Novo México.
Como já vimos no capítulo anterior, a divisão do mundo proposta em Yalta gerava temor de uma
possível influência soviética no Japão. Era uma demonstração clara ao camarada que controlava o
maior exército do mundo o poder de destruição dos Estados Unidos.
Mas a Guerra Fria ainda não começara. A URSS, preocupada com a sua reconstrução,
desmobilizou o poderoso exército vermelho. A economia ainda sofria com os efeitos do conflito,
devido à desestruturação de suas indústrias e ao recuo pela metade de sua produção agrícola. Stalin
aguardava pelos empréstimos prometidos por Roosevelt em Yalta.
Na América, os Estados Unidos superavam uma pequena crise econômica de reconversão
industrial e aproveitavam o menor recuo soviético para ocupar espaços na geopolítica mundial,
como ocorrera no Irã. Era o chamado “Efeito Irã”. No mundo ocidental, não só George Frost Kennan
acreditava no antagonismo inevitável entre o capitalismo e o comunismo, mas o ex-primeiro ministro
britânico Winston Churchill anunciava que uma “cortina de ferro” dividia a Europa em duas partes.
16.2. O INÍCIO
Em 1945, o sistema econômico-financeiro mundial apresentava-se profundamente
desorganizado. Elementos de continuidade misturavam-se às evidentes rupturas provocadas pela
guerra, tanto com referência aos diferentes agentes públicos e privados, Estados e empresas,
quanto à hierarquia e à natureza das relações que eles mantinham entre si. Sob a influência
predominante dos EUA, e também em grande parte sob a égide da Organização das Nações Unidas
(ONU), erguia-se uma nova ordem mundial, que, baseada em um liberalismo renovado, perpassava
tanto a disciplina monetária quanto as regras do comércio internacional. Em um mundo
politicamente dividido e economicamente heterogêneo, a reconstrução liberal não conseguiu
derrubar todas as barreiras que teimavam em dividir a economia mundial56.
A decadência da Europa, destruída por anos de guerra, montava um cenário ideal para o
espraiamento dos ideais de esquerda. Se na Itália, que por meio de um referendo estabeleceu o
regime republicano, os socialistas faziam parte do governo de coalização nacional (panorama
semelhante àquele da França onde os comunistas também auxiliaram na expulsão dos fascistas), na
Grécia e na Turquia a instabilidade política poderia resultar na conquista do poder pelos
simpatizantes do marxismo.
Na Grécia, os partisans, que protagonizaram a expulsão dos nazistas no país, contavam com o
apoio dos estados socialistas vizinhos para derrubar o frágil governo Tsaldaris. As tropas britânicas
que estavam na região desde a Segunda Guerra retiraram-se devido à grave crise econômica pela
qual atravessava o país, aumentando, assim, as chances de vitória das forças esquerdistas. A
aprovação de uma ação estadunidense contundente passa a ser o principal objetivo dos conselheiros
políticos do presidente Truman: George Frost Kennen, Dean Acheson e George Marshall.
Como um líder de uma nova cruzada, o presidente dos Estados Unidos faz um emblemático
discurso no Congresso, no qual deixava evidente que a oposição entre os ex-aliados aprofundou-se a
ponto de colocar o mundo diante de uma nova guerra. Nesta, a Europa não se apresentava mais no
epicentro das decisões mundiais, sendo Moscou e Washington os novos protagonistas. O mundo
apresentava-se dividido entre duas tendências ideológicas: o comunismo e o capitalismo.
Mergulhado na tensão gerada pelo conflito político entre Estados Unidos e União Soviética, o
mundo agora encontrava-se bipolarizado.
O discurso de Truman no Congresso foi uma peça primorosa da dimensão messiânica que os
Estados Unidos dariam à Guerra Fria. O presidente insistiu que todas as nações teriam que
enfrentar uma escolha fundamental entre duas formas de vida. A primeira, aquela que primava
pelas instituições livres e governos representativos. A segunda, a sustentada na vontade da
maioria sobre a minoria57.
A partir de então, a expectativa de um confronto nuclear tornou-se iminente. Os investimentos na
área militar resultaram no “equilíbrio pelo medo”, baseado na ideia de “destruição mútua
inevitável”. Liderada por Washington, tinha início uma cruzada contra o comunismo, rompendo de
forma definitiva os contestados laços estabelecidos a partir da Conferência de Teerã.
16.3. OS BLOCOS DE PODER
A guerra produziu uma redistribuição de poder mais impulsiva do que qualquer período anterior
da história. Entre as nações principais no sistema internacional multipolar pré-guerra, Japão, Itália
e Alemanha foram derrotados e ocupados. Exausta e quase falida, a antes dominante Grã-
Bretanha foi reduzida a uma potência de segundo nível. Derrotada no início da guerra e liberada
por seus aliados, a França sofreu perda ainda maior de status e poder. O mundo eurocêntrico,
devido em grande parte a um processo de autodestruição, chegou a um fim inglório. Um novo
sistema bipolar substituiu o antigo. Apenas os Estados Unidos e a União Soviética emergiram da
guerra capazes de exercer influência significativa além de suas fronteiras58.
Com base na ideia de contenção do avanço comunista em todas as partes do mundo, os
estadunidenses voltam suas atenções mais imediatas para o continente europeu. Nos primeiros anos
do pós-guerra, embalados pela participação na luta contra os nazistas, os comunistas conseguiram
expressivas votações eleitorais, acirrando o medo – por parte dos EUA – de uma possível
“penetração soviética” na Europa Ocidental.
Os secretário de Estado estadunidense, George Marshall, apresenta na aula inaugural na
Universidade de Harvard (junho de 1947) um plano de ação econômico-social cujo intuito era
reconstruir a devastada Europa. Os investimentos do Plano Marshall, que obteve do Congresso
iniciais 12 bilhões de dólares, estariam condicionados à importação de produtos estadunidenses e à
retirada dos comunistas que compunham os governos de coalizão nacional. Tal decisão foi bastante
criticada, por ser excessivamente intervencionista e violar a soberania nacional.
Os primeiros investimentos seriam destinados aos casos considerados mais críticos. Na Grécia,
por exemplo, os Estados Unidos associaram os planos de intervenção militar com mais de vinte mil
homens e investimentos superiores a 250 milhões de dólares, conseguindo em 1949 a rendição final
dos partisans.
Delicada também era a situação da Alemanha. Dividida em quatro áreas de influência, o país fora
duramente atingido nos momentos finais da guerra, sendo necessários investimentos maciços para a
sua reconstrução; além disso, com a eclosão da Guerra Fria, um novo elemento ganhava relevância:
era imprescindível fortalecer a parte capitalista diante dos soviéticos, que ocupavam o lado oriental.
A reforma do marco é um símbolo desses esforços capitalistas.
Ainda nos primeiros momentos da bipolarização é organizado um sistema de defesa coletiva das
principais nações do Atlântico Norte, a OTAN (Organização dos Tratados do Atlântico Norte). Com
uma estrutura militar coordenada pelos Estados Unidos, a aliança foi inicialmente composta por
Canadá, França, Luxemburgo, Holanda, Portugal, Itália, Reino Unido, Itália e Finlândia, contando
posteriormente com a adesão de países como a Turquia, a Grécia e a República Federal da
Alemanha.
Porém, a preocupação dos estadunidenses não estava direcionada somente para os rumos da
Europa Ocidental. Também existiam problemas em outras regiões do globo, o que resultou na
criação de alianças militares para a Ásia (OTASE – Organização dos Tratados do Sudeste Asiático) e
América (TIAR – Tratado Interamericano de Assistência Recíproca). Da mesma forma, são
elaborados programas de auxílio econômico para essas áreas, como o Plano Colombo, destinado
para o continente asiático e, mesmo que tardiamente, a Aliança para o Progresso, que visava o
desenvolvimento socioeconômico da América Latina.
Enquanto isso, na URSS, o grande foco era superar a crise do pós-Segunda Guerra Mundial. Com
o fim das esperanças de receber auxílio estadunidense para a reconstrução do Leste europeu, o
politburo soviético decide por atuar em dois vieses: por um lado, o fortalecimento de sua estrutura
militar e, de outro, a promoção da sovietização do Leste Europeu.
Mesmo com a perda de cerca de 20 milhões de homens na guerra, o contingente de 3 milhões de
soldados ainda era considerável em 1945. O exército foi fortalecido com a ampliação do
recrutamento e a Aeronáutica investe no desenvolvimento da aviação de caça. Além disso, é
acelerado o projeto nuclear, que culminou no primeiro experimento soviético atômico em 1949. Tais
elementos foram fundamentais na reorganização da potência comunista.
Após liderar a o Conselho Antifascista de Libertação Nacional, Josip Broz Tito expulsou os
invasores e liquidou a organização nacionalista Ustase, que apoiou a ocupação nazista. Com tais
credenciais e extremamente popular, Tito foi escolhido para o cargo de primeiro-ministro do Reino
da Iugoslávia, onde enfrentaria com sucesso a resistência daqueles que defendiam a monarquia e
proclamaria a Iugoslávia Democrática Federal, que oscilou de uma posição pró-soviética a uma
equidistância perante a bipolarização.
Perante tal contexto, era imperioso evitar que o exemplo do titoísmo resultasse no
enfraquecimento da influência soviética nos demais países do Leste Europeu. O Komitern, extinto
em 1943, foi substituído pelo Komiform, cujo objetivo era semelhante no sentido de auxiliar no
esvaziamento da ideologia comunista. Violando unilateralmente a Declaração da Europa Libertada, a
URSS promove as chamadas “revoluções pelo alto”, impondo, com muita dificuldade, partidos
aliados na Hungria, Tchecoslováquia e Polônia.
Com um vasto histórico de domínio russo em sua história – sendo os mais recentes aqueles que
levaram à dissolução do país após o Congresso de Viena, sem esquecermos da invasão resultante do
Pacto Germano-Soviético ainda em 1939 –, faziam do sentimento antissoviético um obstáculo para os
planos de Stalin, que enfrentou o Levante de Varsóvia (1944) e colocou o Partido dos Trabalhadores
Poloneses, oriundos da Resistência comunista, no poder.
Ao final da Segunda Guerra Mundial, a Rutênia era cedida à URSS e progressivamente os
comunistas aumentam a sua força, o que resultou no Golpe de Praga (também conhecido como
“Fevereiro Vitorioso”) em 1948. Este episódio teve início com o aumento do poder do ministro
comunista do interior, Václav Nósek, seguida de demissões voluntárias de democratas com o intuito
de gerar instabilidade, greves convocadas pelos setores de esquerda e, por fim, a hegemonia
comunista nos ministérios sob a liderança de Klement Gottwald.
O processo na Hungria também teve enredo semelhante. O Partido dos Pequenos Proprietários
consegue a maioria eleitoral em 1945, recebendo 57% dos votos contra apenas 17% do Partido
Comunista Húngaro. No comando soviético da Hungria (ainda resquício da desnazificação do Leste
Europeu), o marechal Voroshilov impediu a formação de um novo regime com a maioria dos
vencedores, impondo um governo de coalizão nacional, nomeando comunistas para posições
importantes.
Ao longo dos meses subsequentes, a polícia de segurança promoveu intensa repressão aos
anticomunistas. Em 1947, resultado da fusão entre o fraco Partido Comunista Húngaro e o Partido
Social-Democrata, o Partido dos Trabalhadores Húngaros consegue expressiva votação nas urnas e,
progressivamente, sob a chefia Mátyás Rákosi, centralizou o poder em suas mãos. Até 1956 esta
versão de comunismo fica no poder. Na Romênia, o rei Miguel parte para o exílio, abrindo espaço
para a implementação do comunismo, sendo assim criada a República Popular em 1947, ligada aos
interesses soviéticos.
Segundo José Flávio Sombra Saraiva, Stalin tinha a concepção de que a Europa Oriental era parte
do Império Soviético, sendo assim “o controle político na região recrudesceu, o monitoramento e a
planificação das economias foram ampliados e a regra do arbítrio foi imposta sobre as vozes
dissonantes da democracia política”. Considerado como uma resposta ao Plano Marshall, cria-se o
Conselho de Ajuda Mútua Econômica (CAME ou Comecom), que objetivava promover a integração
das economias do Leste, com o intuito de criar uma espécie de “mercado comum” entre os
comunistas. Foram criados acordos de comércio preferencial, de complementação econômica e
mesmo sobre tarifa externa comum. Este órgão foi ampliado ainda em 1962 com o ingresso da
Mongólia e, nos anos 1970, com a inserção cubana (1972) e vietnamita (1978).
Do ponto de vista militar, uma aliança militar foi realizada em maio de 1955 sob a liderança da
União Soviética. Além desta, Hungria, Tchecoslováquia, Romênia, Albânia, Bulgária e Alemanha
Oriental estabeleceram um compromisso de auxílio militar mútuo em caso de agressões. Mesmo que
as suas principais ações tenham ocorrido por questões internas e não devido a uma ameaça externa
ao bloco soviético, esta aliança militar preventiva e defensiva pretendia ser uma antagonista aos
países que compunham a OTAN.
16.4. PERIODIZAÇÃO
Mesmo sabendo que existem diferentes interpretações sobre as fases que compõem a Guerra
Fria, é importante para fins didáticos a escolha de algum tipo de corte cronológico. Desta forma,
segue uma divisão básica em cinco períodos.
16.4.1. Guerra Fria Clássica (1947-1955)
Período de maior tensão entre os blocos de poder e definição de quais seriam as bases da
oposição entre as duas maiores potências mundiais. Neste momento, são estruturados os
mecanismos econômicos (Plano Marshall e Comecom) e militares (OTAN e Pacto de Varsóvia) de
cada lado, assim como o mundo assiste a alguns dos principais embates entre comunistas e
capitalistas.
Nos Estados Unidos, o presidente Harry S. Truman buscava internamente manter o legado de seu
antecessor Franklin Delano Roosevelt, realizando ajustes no New Deal (chamado de Fair Deal) e, ao
mesmo tempo, fazendo da cruzada anticomunista a principal marca de seu governo. Já na URSS, o
camarada Stalin reestruturava a sua política com o final da guerra, incorporando elementos como o
nacionalismo e o militarismo que não faziam parte do stalinismo antes da Operação Barbarossa.
Não seria de se surpreender que a Alemanha se tornaria o palco da primeira grande tensão dos
tempos de Guerra Fria. Acertado ainda na Conferência de Potsdam, quando da divisão da Alemanha
em quatro áreas de influência, o entendimento mútuo sobre as ações elaboradas no país não seria
respeitado a partir da eclosão da Guerra Fria. Desta forma, os capitalistas iniciam investimentos
para, da forma mais acelerada possível, recuperar a economia alemã com capitais oriundos do Plano
Marshall. Dentre as principais medidas tomadas, estava a já citada reforma do marco, encarada por
Stalin com desrespeito aos acordos de 1945.
O secretário geral da União Soviética, em uma tentativa de demonstrar sua força diante da
Doutrina Truman estadunidense, cortou o tráfego ferroviário e rodoviário a Berlim Ocidental,
provocando uma crise de abastecimento na área capitalista incrustrada em meio à região ocupada
pelo exército vermelho ao final da Segunda Guerra Mundial. A reação capitalista é imediata: é
criado um “corredor aéreo”, com mais de duzentos mil voos em quase um ano para amenizar a crise.
Foram gastos milhões de dólares nesta solução, que transportou alimentos, combustíveis e demais
materiais necessários à contenção do caos implementado pelo bloqueio mas, principalmente, atacou
o moral de Stalin.
No dia 11 de maio de 1949 o bloqueio foi encerrado. Seu principal resultado foi a criação de dois
países: a República Popular Democrática Alemã (RDA) e a República Federal da Alemanha (RFA). A
Alemanha estava oficialmente dividida.
Em 1949, encerrava-se um longo período de guerra civil na China, iniciado em 1910, quando a
milenar monarquia foi derrubada a partir do levante de Wuchang, sendo substituída pelo regime
republicano. A implementação deste governo está intimamente ligada à figura de Sun Yat-sen, que
atuou no exílio contra o regime imperial participando de diversas organizações secretas, dentre as
quais, a Sociedade da Aliança Unida, embrião do partido que comandaria a República da China: o
Kuomitang.
Formar um novo Estado na China foi tarefa árdua. Yat-sen apoiou a posse do líder do novo
exército (com bases ocidentais de organização), Yuan Shikai, como presidente, mas suas ambições
imperiais levaram-no ao isolamento e sua consequente saída do poder em 1916. A partir daí, a
República é dividida entre os chamados senhores da guerra (chefes militares que detinham o poder
em diversas regiões do país) e a tentativa de unificação promovida pelo Kuomitang.
Em meio à crise, ações nacionalistas se destacam, como o Movimento Quatro de Maio, organizado
para protestar contra a pouca importância conferida à China nas negociações que resultaram no
Tratado de Versalhes. Em julho de 1921 é fundado o Partido Comunista Chinês, de base urbana e
que se aproxima do Kuomitang. Os dois partidos se unem, com o apoio do Komitern (simpático à
organização do Kuomitang), contra os senhores da guerra. Com a morte de Sun Yat-sen, assume a
direção dos nacionalistas Ching Kai-shek, que obtém a submissão dos senhores da guerra nortistas e
volta a sua atenção contra os comunistas. A forte repressão expulsa os comunistas para as zonas
rurais, onde este faz uma inédita aliança com o campesinato, conseguindo inclusive romper o cerco
quase mortal no Noroeste através da Longa Marcha (1934-1935). Destaca-se neste evento a
estratégia de guerrilhas, a libertação e implementação de reformas nestas áreas e a afirmação de
Mao Tsé-tung como dirigente máximo do PCC.
Em 1937 o Japão, que já ocupara o território da Manchúria em 1931, inicia sucessivos ataques ao
litoral chinês. Diante de uma ameaça estrangeira, senhores da guerra, PCC e Kuomitang formam a
Frente Única Bem Chinesa, uma aliança nominal que propunha, inclusive, a incorporação do
Exército de Libertação Popular àquele regular chefiado por Kai-shek.
Após a retirada japonesa, a guerra civil é retomada. Sendo um dos cinco membros do Conselho de
Segurança da ONU, era interessante para as potências uma paz negociada, que fracassou. Os
estadunidenses, preocupados com as ações vitoriosas do PCC, repassam armas e dinheiro para o
Kuomitang, que mesmo assim não consegue êxito em seus esforços. No dia 1º de outubro de 1949,
contando com limitado apoio soviético, Mao Tsé-tung proclama a República Popular da China. Os
nacionalistas transferem seu governo para Taiwan, sendo reconhecidos pela ONU como o legítimo
representante da China em sua estrutura.
Tal reação da ONU diante da Revolução Chinesa causou protestos na península da Coreia. Parte
do Império Japonês desde 1910, a Coreia foi libertada por tropas estadunidenses ao sul e soviéticas
ao norte, o que resultou na divisão do país através do paralelo 38. Em 1948, o líder da resistência
contra a ocupação japonesa Kim II-sung tornou-se a principal liderança política da República
Popular Democrática da Coreia do Norte enquanto na República da Coreia do Sul fora colocado
como presidente Syngman Rhee, liderando um governo de notáveis que haviam colaborado com o
Japão.
Incentivados pelos principais arquitetos da Guerra Fria – Acheson e Dulles –, os sul-coreanos
iniciaram uma série de “provocações” no paralelo 38. Acreditando em uma vitória semelhante
àquela obtida pelo PCC, os homens de Kim II-sung invadiram o Sul e conseguiram a sua capitulação,
buscando a unificação da Coreia. Aproveitando os protestos soviéticos que se materializaram na sua
ausência no Conselho de Segurança e manobras da diplomacia estadunidense, a ONU intervém no
conflito.
O exército estadunidense lidera uma ampla coalizão de tropas que rumaram ao sudeste asiático
liderados por Mac Arthur. URSS e China deram suporte aos nortistas. O maior conflito após a
Segunda Guerra é abreviado em 1953, uma vez que o contexto político nas duas potências foi
sensivelmente alterado: Stalin morre em março de 1953 e os republicanos saem vitoriosos nas
eleições de 1953. A paz em Pan Munjon manteve o paralelo 38 como divisão entre as duas Coreias,
suspendendo, ainda que não definitivamente, as hostilidades na península.
16.4.2. Coexistência pacífica (1955-1968)
O curso das duas décadas que vinculam o ano de 1947 ao de 1968 foi ditado pela supremacia
de dois gigantes sobre o mundo. Os Estados Unidos e a União Soviética assenhorearam-se dos
espaços e criaram um condomínio de poder que só foi abalado no final da década de 60 e início da
de 70. Existiam, no entanto, nuanças no sistema condominial de poder. Da relação “quente” da
Guerra Fria – 1947-1955 – à lógica da coexistência pacífica – 1955-1968 –, as duas superpotências
migraram da situação de desconfiança mútua para uma modalidade de convivência tolerável59.
Algumas mudanças no Leste Europeu foram fundamentais para o início de uma “gradual
flexibilização” da ordem bipolar, entre 1955 e 1968, no período conhecido como Coexistência
Pacífica. Dentro deste contexto destaca-se, como mencionado anteriormente, a morte daquele que
construiu a URSS como uma potência militar-política mundial, Stalin. Logo depois assume a
liderança do PCUS o camarada Nikita Kruschev, após vencer a disputa interna com outros membros
destacados dos tempos stalinistas, como Gueórgui Malenkov (burocrata e líder por um breve
momento após a morte de Stalin) e Viatcheslav Molotov (diplomata). O apoio de setores dentro do
exército vermelho foi de fundamental importância para o fortalecimento de Kruschev dentro do
politburo.
Com a chegada de Kruschev ao poder, que possuía uma tendência mais “liberal” que seu
antecessor, ocorre a chamada desestalinização. Baseado na tese de que o socialismo soviético fora
vitimado por uma doença – o “culto à personalidade”de Stalin, fonte de graves perversões dos
princípios do partido, da democracia partidária e da legalidade revolucionária, Kruschev denuncia e
usa o XX Congresso do PCUS para denunciar os “crimes de Stalin”. Em discurso marcante no
Congresso, Kruschev assim se refere aos tempos do georgiano:
Stalin inventou o conceito de “inimigo do povo”. Tal termo, automaticamente, tornou-se
desnecessário comprovar os erros ideológicos de um ou vários homens engajados em
controvérsia; o termo propiciou o uso da mais cruel repressão [...] contra qualquer um que, de
qualquer modo, discordasse de Stalin, contra os apenas suspeitos de intenções hostis, contra
pessoas de má reputação. [...] A fórmula “inimigo do povo”foi especificamente introduzida com o
propósito de aniquilação física destes indivíduos60.
Também chamado de Degelo de Kruschev61, este novo período da história soviética é marcado
por uma série de reformas que afetaram diversos setores, mudando a ênfase da industrialização
(privilegiando as indústrias de bens de consumo), acabando com o culto à personalidade e
libertando alguns milhares de prisioneiros dos temidos campos de concentração, os gulaks. Na
política exterior, é aberto o caminho para uma maior aproximação com Washington.
Na maior potência ocidental as mudanças também eram perceptíveis. A chegada dos republicanos
ao poder encerrava a longa gestão dos democratas sobre os negócios do Estado, retirando do poder
os “arquitetos”da Guerra Fria, juntamente com Truman. Com o presidente Eisenhower, alternativas
para a construção da legitimidade internacional estadunidense são elaboradas. A Cúpula de
Genebra (1955) é considerada marco inicial deste novo período das relações internacionais, sendo
este o primeiro encontro entre os principais líderes mundiais desde a Conferência de Potsdam
(julho-agosto/1945). O clima cordial não conseguiu aprovar a proposta de Eisenhower de “Céus
Abertos”, onde os protagonistas da Guerra Fria permitiriam uns aos outros vigilância aérea de seu
território, com sobrevoos livres de aeronaves. Mesmo os soviéticos recusando tal política
transparente, o caminho para uma maior aproximação entre os blocos foi aberto.
O quadro político da segunda metade da década de 1950 apresenta duas superpotências que não
mais conseguiam manter seus blocos de poder coesos, possibilitando novas formas de inserção na
ordem internacional. O monolitismo político da URSS e dos EUA apresentava fissuras já em 1955,
quando os países recém-independentes que se reuniram na Conferência de Bandung propuseram
uma neutralidade positiva diante da Guerra Fria.
No Oriente Médio, o líder egípcio Nasser nacionalizou o canal de Suez (ainda em poder de
empresas britânicas e francesas) e posteriormente bloqueou o estreito de Tiram aos israelenses,
única ligação entre Israel e o Mar Vermelho. Auxiliando os interesses de Israel, ingleses e franceses
promovem uma intervenção conjunta condenada pela ONU, incluindo aí votos dos EUA e da URSS.
Ao final da guerra, Nasser fortaleceu seu discurso baseado no panarabismo e seus laços com a
URSS, enquanto, por outro lado, o presidente estadunidense divulgava a sua Doutrina Eisenhower,
afirmando que todos aqueles que eram contra os soviéticos no Oriente Médio receberiam apoio de
seu país, legitimando a aliança com Israel.
Reflexos diferentes na Europa são sentidos. Enquanto a Inglaterra retira-se definitivamente do
Oriente Médio, acabando com anos de intervenção desde o ocaso do Império Turco-Otomano, a
França vai ao encontro do fortalecimento da economia do continente, simbolizado pela formação da
Comunidade Econômica Europeia, afirmando “que a solidariedade americana não deveria ser
presumida como automática.”
A Segunda Guerra Árabe-Israelense (1956) teve seus contornos eclipsados pelos acontecimentos
na Hungria. A crescente insatisfação devido ao baixo padrão de vida e ausência de liberdade a partir
da “revolução pelo alto” que colocou Mátyás Rákos no poder levam a diversos protestos,
destacando-se aquele liderado por estudantes que exigiam mudanças no governo. O choque entre os
manifestantes e a Autoridade de Proteção de Estado (AVH) gerou comoção nacional e provocou uma
série de choques que resultaram na queda do governo pró-soviético que, naquele momento, tinha
Ernõ Gerõ no poder.
O novo governo, que possuía o líder da facção conservadora do PC húngaro Imre Nagy, assumiu
no dia 25 de outubro de 1956. Com o intuito de aproximar-se dos anseios populares, anunciou
medidas como o retorno do pluripartidarismo, a extinção da polícia política e a libertação de presos
políticos. As reformas superaram a tolerância da URSS diante do evento, resultando na primeira
intervenção do Pacto de Varsóvia, que massacrou os insurrentos e impôs o governo de János Kádár,
que permaneceu no poder até 1988. A Revolução Húngara (1956) gerou grande repercussão no
Ocidente, incitando diversos protestos. Ficava claro que a desestalinização de Kruschev tinha os
seus limites.
É neste momento que a URSS de fato torna-se uma potência mundial. Na segunda metade da
década de 1950, os soviéticos finalmente recuperam-se dos estragos da Segunda Guerra Mundial
nos planos econômico e demográfico, refletindo esta estabilidade na conquista do espaço com o
lançamento do Sputinik (1957) e o fim da vulnerabilidade nuclear, conquistando um real equilíbrio
neste campo com os europeus ocidentais.
Uma série de viagens diplomáticas marcaram os primeiros anos do governo de Kruschev na
URSS. O líder do PCUS buscou a normalização das relações com a Iugoslávia de Tito, rompidas no
ano de 1948, visitou a República Popular da China e protagonizou a primeira visita de um líder
soviético aos Estados Unidos entre 15 e 27 de setembro de 1959. Cercados de muitas expectativas,
os encontros entre Kruschev (que no mesmo ano ganhou o prêmio Lenin da Paz) e Eisenhower
resultaram nos primeiros passos de uma aproximação entre as duas potências. Nas palavras do líder
soviético após o encontro havia entusiasmo: “Eu tenho a impressão que ele (Eisenhower) quer
sinceramente liquidar a Guerra Fria e melhorar as relações entre duas grandes nações”.
Ao mesmo tempo em que os soviéticos aproximavam-se dos nacionalistas do Terceiro Mundo,
aumentando as suas áreas de influência, o incremento das políticas de Kruschev afastavam a URSS
da China popular. Na verdade as relações entre as duas maiores potências comunistas eram tensas
desde os primórdios da Revolução Chinesa (1949). Os soviéticos pouco auxiliaram a chegada de Mao
Tsé-tung ao poder, incomodados com a própria interpretação do marxismo, realizada pelo líder
chinês.
A visita de Mao Tsé-tung a URSS logo após a vitória da Revolução Chinesa reforçou suas
impressões de que a URSS fazia pouco caso de seus esforços na Ásia. Empréstimos limitados e o
envio de alguns técnicos foram as poucas ações de auxílio vindas de Moscou. O agravamento da
crise econômica na China após a tentativa de acelerar a industrialização com o chamado “Grande
Salto para Frente” fez Mao engrossar seus discursos contra a URSS.
Acusando Kruschev de trair os princípios do marxismo (seria um revisionista), Mao criticava a
insistência soviética de que a China deveria dar ênfase às indústrias de bens de consumo. Isto
significaria a submissão aos soviéticos. Acusações da URSS vieram como resposta, culminando no
rompimento do acordo nuclear em 1959 e no aumento das tensões nas fronteiras. No ano seguinte,
os técnicos soviéticos eram retirados da República Popular e os acordos econômicos, extintos. A
partir deste momento, rompia-se o monolitismo político da URSS sobre o Segundo Mundo, deixando
de ser a satelização uma realidade no mundo comunista.
Até mesmo a aproximação com os Estados Unidos é colocada em xeque no início dos anos 1960 e
o Caso U-2 tem papel fundamental neste processo. No dia 1º de maio de 1960 um avião Lockheed U-
2 de espionagem estadunidense, que usava bases no Paquistão, foi abatido sobre a URSS. Em meio à
aproximação com a URSS e 13 dias antes da reunião Leste-Oeste em Paris, Washington tentou
encobrir de todas as formas o ocorrido, mas diante da divulgação soviética de que o piloto Francis
Gary Powers estava vivo e de que juntamente com ele os soviéticos possuíam destroços da aeronave,
nada puderam fazer os EUA. Tentando salvaguardar sua imagem, o governo Eisenhower se nega a
emitir nota pedindo desculpas oficiais, o que inviabiliza a reunião de Paris.
Como consequência do fatídico caso, as relações entre comunistas e capitalistas deterioram-se,
retomando um período de cístole na Coexistência Pacífica. Os soviéticos finalmente autorizam a
construção do Muro de Berlim pelo governo da República Democrática Alemã que, por sua vez,
buscava impedir a fuga de mão de obra qualificada para o lado capitalista. Diante do uso de bases
paquistanesas pelos EUA, Moscou intensifica o envio de armas, equipamento e dinheiro para a
Índia, aumentando ainda mais o desequilíbrio entre os dois vizinhos.
Eleito em 1960 como o mais jovem presidente norte-americano da história e o primeiro católico a
ocupar o cargo, depois de vencer por pequena margem o candidato republicano, Richard Nixon,
John Kennedy apoiou uma expedição de cubanos exilados contra a Revolução de 1959, no famoso
episódio da invasão da Baía dos Porcos, que resultou num grande fracasso. O aprofundamento das
reformas nacionalistas ao longo do ano de 1960, especialmente a reforma agrária e as
nacionalizações de empresas estrangeiras, incomoda o governo estadunidense, que promove nestes
tempos o famoso embargo econômico, dificultando ainda mais o entendimento entre os dois países.
O envolvimento de Kennedy com a América Latina foi intenso, e não se limitaria a estipular
diretrizes a serem seguidas por seus colaboradores nesse continente. Na realidade, deveria assumir
a liderança de “revolução social pacífica” com o objetivo de, no espaço de um decênio, mudar a face
do continente. Neste período, segundo os cálculos estimados por eles, os Estados Unidos investiriam
um bilhão de dólares por ano (metade dos quais nos setores públicos), a serem complementados por
investimentos locais numa proporção quatro vezes superior. Desta forma, esperava-se consolidar
uma terceira via que serviria de alternativa à tentação revolucionária e ao imobilismo conservador
ou direitista que, tradicionalmente, predominava na América Latina.
Como medida de precaução em relação a um possível fracasso do reformismo aliancista, e
também para satisfazer os setores mais conservadores do Congresso e do Pentágono, o governo
Kennedy passou a dar suporte prático, com o auxílio de um militar da reserva, o general Maxwell
Taylor, à teoria da contra-insurgência. Tratava-se de uma ampla remodelação da instrução militar do
continente, para adaptar as Forças Armadas latino-americanas à luta antiguerrilheira. Até o início
dos anos 60, os exércitos e as demais armas de guerra do continente haviam sido adestrados e
treinados para a guerra convencional, para, seguindo o TIAR (Tratado Interamericano de auxílio
recíproco), atuarem como tropa auxiliar dos norte-americanos em caso de um conflito aberto com a
União Soviética.
O aparecimento da guerrilha fidelista e o êxito obtido por ela mudou totalmente o quadro da
instrução militar e da sua estratégia geral. Os exércitos, seguindo o modelo que os Estados Unidos
aplicavam ao exército sul-vietnamita, deveriam ser dali em diante uma força contra-insurgente. Para
tanto foi fundada em 1961 a School of the Americas, localizada no Forte Gulick, na Zona do Canal do
Panamá. A Escola das Américas, logo apelidada de Escola dos Ditadores, chegou a formar 33.147
militares vindos de todos os países latino-americanos. Como atuação complementar, a Junta
Interamericana de Defesa apressou-se em criar o Colégio Interamericano de Defesa (CID) para
acelerar o ensino da antissubversão. Até 1975, mais de 70 mil oficiais latino-americanos haviam
passado pelos cursos oferecidos por aquelas instituições, e, segundo dados da mesma época, dos
500 oficiais superiores que ocupavam postos relevantes nos países ao sul do Rio Grande
(presidentes, ministros, comandantes de exército etc.) 382 deles haviam feito cursos de
aperfeiçoamento nos Estados Unidos.62
A adoção da doutrina da contra-insurgência fez com que, nos anos que se seguiram, não só a
política externa dos Estados Unidos retomassem os princípios intervencionistas (ocupação de São
Domingos em 1965), como realizasse uma completa reciclagem da função das forças armadas latino-
americanas. Os militares, subentendia-se, não seriam apenas os guardiães das normas
constitucionais e das fronteiras nacionais mas passariam a exercer diretamente eles próprios o
poder em seus respectivos países, se as circunstâncias assim o determinassem. Para os altos
estrategistas do Departamento do Estado a debilidade da democracia nos países latino-americanos
fazia com que ela fosse alvo fácil dos assaltos da subversão, obrigando que medidas extraordinárias
fossem tomadas para contê-la. Expedientes que, fatalmente, conduziam a um sacrifício temporário
das normas democráticas e à suspensão dos direitos gerais dos cidadãos, visto que o inimigo
ideológico (as várias agrupações e partidos marxistas espalhados pelos continente) aproveitava-se
das instituições e das garantias constitucionais de um Estado de Direito para semear a discórdia e
difundir programas que insuflavam a luta armada contra a ordem instituída.
Assim, durante o governo Kennedy, em meio às suas próprias ambiguidades, é que foram lançadas
as sementes das futuras ditaduras castrenses que multiplicaram-se a partir de 1964. A Doutrina da
contra-insurgência e a Aliança para o Progresso eram as duas faces da mesma moeda,
complementos da política que caracterizou o curto mandato do governo Kennedy.
Os potenciais aliados e melhores intérpretes latino-americanos da política Kennedyana eram
significativamente os dissidentes do sistema oligárquicos que se alinhavam em meio aos partidos
democráticos, liberais-esquerdistas ou populistas, tais como Eduardo Frei no Chile, Fernando
Belaunde no Peru e Raul Leoni na Venezula. Mas o que têm em comum esses três governos?
Eduardo Frei fundou o partido da democracia cristã. Foi presidente do Chile no período de 1964 a
1970. Seu governo se caracterizou pelo desenvolvimento de um programa de grande conteúdo
social e em política exterior delineou a integração da América Latina. Deu forte impulso à indústria
também. Raul Leoni foi presidente da Venezuela de 1963 a 1968. Ele teve um destaque pela
pacificação e aproximação com os Estados Unidos. Fernando Belaunde, presidente da República de
1963 a 1968 e de 1980 a 1985, favoreceu os proprietários de terras da região costeira e as
companhias de petróleo dos Estados Unidos.
Ou seja, o que podemos perceber é que aliados, para os americanos, eram aqueles que apoiavam
sua política externa e abriam sua economia interna para os Estados Unidos. E a marca comum
desses três governos é o domínio social, a pacificação de conflitos sociais com alguma preocupação
com o desenvolvimento interno. Interessante é notar que poucos deles sobreviveram ao vendaval
golpista que se desencadeou sobre a América Latina após a morte de John Kennedy em novembro de
1963.
A Terceira Via elaborada pelos assessores de Kennedy, um caminho alternativo entre o domínio
oligárquico e a revolução comunista, foi definitivamente sepultada com a ascensão do seu vice-
presidente, o texano Lyndon Johnson (1963-1969). Com ele deu-se o recrudescimento da
intervenção norte-americana na Guerra do Vietnã, levando os Estados Unidos para o atoleiro de uma
guerra sem horizontes no Sudeste Asiático. Tornou-se uma contradição cada vez mais gritante
apregoar-se a liderança de uma política reformista e de compromisso social na América Latina com
as exigências de os Estados Unidos conseguirem sustentação para com seu crescente envolvimento
na guerra indochinesa.
Lyndon Johnson, ao tempo em que encaminhava ao Congresso norte-americano a progressista
legislação dos Direitos Civis em favor do negros, reclamada pelo reverendo Martin Luther King,
inclinou-se externamente cada vez mais para uma solução de direita para enfrentar a ascendente
maré de turbulências que começou a sacudir a América Latina motivada pelo sucesso da revolução
cubana.
Sendo assim, a criação da Aliança para o Progresso, em 1961, é encarada pelos próprios norte-
americanos como um divisor de águas nos rumos da política externa daquele país em relação aos
seus vizinhos latino-americanos. Na visão deles, antes e após Kennedy tudo foi diferente. Se, até
então, “... a América Latina foi negligenciada e ignorada”63, nesse momento os EUA faziam sua mea
culpa e encaravam sua “missão” de expandir a democracia e o progresso, objetivos já utilizados em
outros momentos da retórica norte-americana, revestidos nessa época pelo medo do alinhamento do
chamado Terceiro Mundo ao comunismo. Foi mais um momento em que a ideia de missão do norte-
americano como povo escolhido foi retomada; além disso parece que a wilderness, aparentemente
terminada com a conquista do Oeste, reaparece nos países fracos e que necessitam de auxílio, com o
surgimento da Nova Fronteira. Dessa forma, percebemos como o mito consegue se transformar e se
adequar às novas situações, sendo, por isso, tão forte e duradouro.
Evidentemente, embora apresentasse traços de continuidade, a Aliança para o Progresso tinha
características que a diferenciavam dos demais projetos e planos que antecederam o governo
Kennedy, estabelecendo verdadeiras rupturas com esses. Pela primeira vez falava-se realmente em
mudanças estruturais na América Latina, como a reforma agrária e a reforma educacional. Não se
limitava a uma tentativa de integração econômica ou a relações de amizade apenas. Nas palavras do
presidente Kennedy, a Aliança era um grande esforço cooperativo, sem paralelos em sua magnitude
e na nobreza de seus propósitos, para que fossem satisfeitas as necessidades básicas dos povos das
Américas, de lares, trabalho e terra, saúde e escolas, com um grande plano que transformará a
década de 60 em um período histórico para o progresso democrático.64
O momento de maior rivalidade entre os dois blocos ocorre justamente na ilha caribenha: a Crise
dos Mísseis. No dia 14 de outubro de 1962 o governo estadunidense divulga fotos apontando cerca
de 40 silos que poderiam conter mísseis nucleares em Cuba. A proximidade com o território dos
EUA gerou temor generalizado, causando pânico nos treze dias que se seguiram. Depois da
divulgação do Missile Gap, quando os EUA desnudaram a estratégia nuclear de Kruschev que
consistia em blefar afirmando que a URSS possuía superioridade diante de seu rival e em tentativa
de obter apoio do Terceiro Mundo levou, muito provavelmente:
[...] à instalação de mísseis médios soviéticos em Cuba, pois estava em jogo o prestígio de
Moscou junto ao Terceiro Mundo. Embora o affair tenha resultado numa derrora para o Kremlin,
no plano regional, concretamente, houve uma barganha entre o recúo soviético e o compromisso
americano em não atacar Cuba, o que permitiu a sobrevivência de seu regime revolucionário65.
Se o temor de uma guerra nuclear serviu para o início de uma nova diástole entre as duas
maiores potências mundiais, sendo marcante a construção de um complexo sistema de comunicação
entre a Casa Branca e o Kremlin, conhecido como “telefone vermelho” ou mesmo acordos como
aquele que proibia testes nucleares “sob a água, na atmosfera e no espaço extraterrestre”, o
impacto das negociações que culminaram na retirada dos mísseis instalados em Cuba foram
desastrosos para Nikita Kruschev.
Acusado de cometer erros políticos graves, Kruschev foi destituído em uma espécie de golpe
palaciano ainda em 1964. O líder soviético responsável pelo programa espacial soviético que levou o
cosmonauta Yuri Gagárin ao espaço era acusado de não solucionar o grave problema agrário
originado ainda na coletivização forçada e inserir a URSS em uma guerra armamentista que
interessava tão somente aos EUA. Os conspiradores aproveitaram as férias de Kruschev para retirá-
lo do poder, assumindo então uma troika (triunvirato) liderada por Leonid Brejnev, primeiro-
secretário do partido, que contava ainda com Alexey Kossiguin, presidente do Conselho de
Ministros, e Nikolai Podgorny, presidente do Soviet Supremo.
Enquanto os soviéticos retomavam a linha política de centralização do poder, os EUA viviam a
traumática sucessão presidencial forçada pelo assassinato de Kennedy. Lyndon Johnson tem seu
mandato marcado pela aprovação da Lei dos Direitos Civis (1964), que assegurava aos negros
igualdade jurídica após décadas de lutas e pelo incremento da participação dos EUA na Guerra do
Vietnã.
Anos depois da luta contra os japoneses na Segunda Guerra Mundial, a Indochina trava uma
longa porém bem-sucedida batalha contra a metrópole francesa que culminaria na Convenção de
Genebra, onde a independência é acompanhada pela fragmentação da ex-colônia em quatro países:
Camboja, Laos, Vietnã do Sul (capitalista) e Vietnã do Norte (comunista), separados pelo paralelo
17.
Estava prevista a elaboração de um plebiscito organizado pela ONU para a reunificação do
Vietnã. O governo de Saigon, cuja liderança foi entregue ao imperador Ngo Dinh Diem, era
extremamente instável e caótico. Diante do desastre eleitoral que se aproximava, o imperador é
substituído pelo general Ngo Dinh Diem, que implementou uma ditadura militar arbitrária, com a
ocidentalização dos costumes, além de cancelar o plebiscito previsto em Genebra.
Parte da população do Sul, insatisfeita com os rumos da governo repressor, formou a Frente de
Libertação Nacional (FLN). Reunindo nacionalistas e comunistas, a FLN adota uma guerra de
guerrilhas contra Diem auxiliados pelo governo nortista liderado por Ho Chi Minh. A crescente
participação dos EUA contra os chamados vietcongs explica-se por quatro fatores:
• Participação na Organização dos Tratados do Sudeste Asiático;
• Teoria do Efeito Dominó, assim explicada por Diem: “Se vocês colocarem uma série de peças de
dominó em fila e empurrarem a primeira, logo acabará caindo até a última... se permitirmos que
os comunistas conquistem o Vietnã, corre-se o risco de se provocar uma reação em cadeia e
todo os estados da Ásia Oriental tornar-se-ão comunistas um após o outro”;
• Incidente no Golfo de Tonkin, quando o navio estadunidense USS Maddox, em missão de
espionagem ao largo da costa vietnamita envolveu-se em conflito com os norte-vietnamitas. O
Congresso aprovou a Resolução do Golfo de Tonkin, cedendo ao presidente permissão para
ampliar as ações armadas estadunidenses na região;
• Interesses econômicos ligados à indústria bélica estadunidense.
Enquanto ao sul a Guerra Fria mostrava-se cada vez mais intensa, com disputas entre comunistas
e capitalistas em diversos países, ao Norte o conflito entrava em sua fase “congelada”, onde EUA e
URSS possuíam interesses cada vez mais próximos, inaugurando uma nova fase do confronto.
16.4.3. Détente (1968-1979)
Cabe aqui mais uma vez ressaltar, há diferentes interpretações sobre o marco para a passagem de
tempo entre a Coexistência Pacífica e a Détente. Não há dúvidas quanto à importância da criação do
Muro de Berlim (1961) e da Crise dos Mísseis (1962), sendo cabível, portanto, que autores como
Maurise Vaisse tenham eleito o ano de 1962 como o marco desta transformação.
Ao escolhermos nossa vertente historiográfica baseados naqueles autores que percebem 1968
como o ponto de partida da Détente, entendemos que somente no final dos anos 1960 a série de
encontros e acordos entre URSS e os Estados Unidos realmente deram frutos, conseguindo assim
organizar “um condomínio mundial administrado entre as duas potências”. Desta forma, as duas
superpotências agora buscavam parcerias, como aquela proposta na ONU sobre o controle nuclear.
A assinatura do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), em julho de 1968, seria o marco para o
início deste novo período, permeado por negociações no intuito de limitar o arsenal nuclear dos
lados divergentes do planeta.
O TNP dividia o mundo entre países responsáveis – aqueles que fizeram experimentos nucleares
até então: Estados Unidos, União Soviética e Inglaterra – e os chamados “irresponsáveis”, que
concordariam em renunciar ao desenvolvimento e à aquisição de armas nucleares. Em
contrapartida, estes países desenvolveriam programas para fins pacíficos (associados às potências
nucleares) submetidos a regulares inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea).
Interessante notar a reação crítica de países desenvolvidos como França e Alemanha, assim como
Estados do chamado Terceiro Mundo, como Índia, Cuba, Argentina e Brasil. Símbolo da posição
brasileira em relação ao TNP seria o discurso do chefe da missão brasileira na ONU, Araújo Castro,
que denunciava o “congelamento de poderes” e afirmava que o tratado tinha caráter excludente,
uma vez que traçava uma fronteira tecnológica entre os Estados, utilizando a assinatura do Tratado
de Tlatelolco (1967), onde os países sul-americanos baniam as armas nucleares da região.
Nos Estados Unidos, os republicanos retornam à Casa Branca com o californiano Richard Nixon,
que conseguiu derrotar o democrata Hubert Humphrey em 32 estados nas eleições de 1968,
tornando-se o trigésimo sétimo e um dos mais polêmicos presidentes da história estadunidense. Com
ele, assume a Secretaria de Estado o intelectual Henry Kissinger, responsável em grande medida
para a construção da Détente.
Dentre as primeiras ações externas da dupla Nixon-Kissinger, ainda no primeiro ano de governo,
está a participação, na Finlândia, em conversações, entre as potências a respeito da limitação de
armas estratégicas. O resultado, após longas negociações capitaneadas por Henry Kissinger, foi a
criação do Strategic Arms Limitation Treaty (Salt) que limitavam o crescente poder bélico das duas
superpotências. Assinado em Moscou durante a primeira visita de um presidente estadunidense à
capital da URSS em 1972, Nixon e Brejnev estabelecem:
• Congelamento das bases de lançamento de mísseis antibalísticos;
• Determinação de que os mísseis balísticos lançados de submarinos (uma arma considerada
invulnerável) somente seriam utilizados quando os mísseis balísticos intercontinentais fossem
desmontados;
• Congelamento por cinco anos do desenvolvimento e produção de armas estratégicas.
A partir do encontro entre os dois grandes líderes em Moscou, uma série de novas reuniões foram
acertadas entre soviéticos e estadunidenses. Intercâmbios econômicos foram assinados, facilitados
pela aprovação do Export Administration Act (1969) pelo Congresso dos Estados Unidos. Até mesmo
a cláusula que cedia aos soviéticos o status de nação mais favorecida está neste contexto. Ainda em
1974, foi assinado o acordo que proibia os testes nucleares subterrâneos com a potência maior a
150 quilotons. O auge desta aproximação, já com Gerald Ford na presidência estadunidense, o
acordo final da Conferência de Helsinki, determinava as cláusulas de inviolabilidade das fronteiras
nacionais e o respeito pela integridade territorial.
Reflexos desta aproximação também ocorreram em outra região conflituosa: a Alemanha. Willy
Brandt, Ministro dos Negócios Estrangeiros e chanceler da República Federal da Alemanha, busca a
normalização das relações entre o seu país e os vizinhos comunistas, incluindo aí a República
Democrática Alemã. Desde março de 1954, quando a União Soviética reconheceu a soberania da
RDA, os alemães ocidentais se recusavam a aceitar tal fato, elaborando a Doutrina Hallstein,
afirmando que somente a República Federal da Alemanha representava internacionalmente a
Alemanha.
Com os sociais-democratas no poder, o liberal Brandt substitui a Doutrina Hallstein pela
Ostpolitik (Política do Leste). Em 1972 a pedra fundamental para a normalização das relações entre
as duas Alemanhas é lançada, por meio do Acordo Básico, no qual os dois países se reconheciam
mutuamente. Ao sul, a África, parte da América Latina e do continente asiático buscavam projeção
internacional independente, objetivando a efetiva consolidação do bloco terceiro-mundista por meio
do Grupo dos 77 ou mesmo no âmbito da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e
Desenvolvimento.
Kissinger também foi protagonista da mudança nas relações entre Estados Unidos e a República
Popular da China, tensas desde a Revolução de 1949. A aproximação entre as duas potências
acontece a partir de um encontro entre atletas que participavam de um campeonato internacional
de tênis de mesa no Japão. O atleta estadunidense Glenn Cowan entrou por engano no ônibus da
delegação chinesa, sendo recebido de forma amistosa pela maior estrela chinesa, o tênis mesista
Zhuang Zedong, que confessou posteriormente ter seguido orientação do próprio Mao para buscar
boas relações com a equipe oponente capitalista. Ainda em 1971, Kissinger arquiteta a Diplomacia
do Pingue-Pongue, que tem seu auge quando Nixon visita a China em 1972. O resultado desta foi um
comunicado conjunto no qual os dois países negligenciavam a busca por hegemonia naquela região.
Diziam também que nenhuma outra potência poderia almejar o mesmo, em clara referência à URSS
que, naqueles tempos, mantinha excelentes relações com a Índia.
Entretanto, não podemos afirmar que este período de aproximação entre as duas potências é
ausente de tensões e, até mesmo, de conflitos. Na URSS ruídos no relacionamento com seus
satélites novamente aparecem. Na Tchecoslováquia, em janeiro de 1968, reformas democráticas são
implementadas por Alexander Dubcek que, apoiado por intelectuais, concede não apenas a
ampliação dos direitos individuais, mas também o relaxamento do controle da imprensa e mudanças
na economia planificada. Conhecida como a Primavera de Praga, esta tentativa de dar ao socialismo
de bases soviéticas “um rosto mais humano”foi recebida por Moscou com receio.
Após a publicação do texto “Duas mil palavras”, em que representantes de diversos setores
sociais pediam a aceleração do processo de abertura política, o politburo soviético reage. Temendo
perder o controle sobre a Tchecoslováquia, o camarada Brejnev revitaliza a narrativa de perigo de
uma possível contrarrevolução antissocialista, afirmando que todo o socialismo soviético estaria
ameaçado diante do programa reformista de Dubcek. Era a Doutrina Brejnev que justificava a
intervenção e o emprego da força todas as vezes que um regime aliado estivesse ameaçado por
forças “fascistas”ou “anticomunistas”, cabendo à URSS a defesa do socialismo a qualquer preço, em
nome da libertação geral da humanidade.
A porta principal abriu novamente e alguns altos oficiais da KGB entraram [...]. O pequeno
coronel rapidamente sacou uma lista de todos os membros do Partido Comunista presentes e nos
disse que estávamos sendo postos “sob sua proteção”. Realmente estávamos protegidos, sentados
ao redor da mesa – cada um de nós tinha uma metralhadora apontada para a nuca66.
Na madrugada do dia 21 de agosto, as tropas do Pacto de Varsóvia iniciam a Operação Danúbio,
considerada a maior ação militar realizada na Europa após a Segunda Guerra Mundial. Era cerca de
250 mil soldados que, utilizando como pretexto um suposto pedido de ajuda de alguns membros do
Partido Comunista da Tchecoslováquia, ocupou Praga e prendeu Dubcek, substituindo-o por Gustáv
Husák que, alinhado aos interesses do Kremlin, suspendeu a maior parte das reformas iniciadas em
janeiro de 1968. O impacto mundial foi enorme, sendo criticada a URSS não apenas no plenário da
ONU, mas também dentro dos próprios partidos comunistas espalhados pelo mundo. Para aqueles
que acreditavam na possibilidade de um regime marxista conciliado com a ampliação dos direitos
sociais e políticos, a repressão à Primavera de Praga significava o fim de um sonho.
No mesmo ano que o TNP foi assinado, os estadunidenses estavam sofrendo os piores reveses no
sudeste asiático. A chamada Ofensiva do Tet (ano novo luar amplamente celebrado pelos
vietnamitas) punha em voga a fragilidade do exército regular dos Estados Unidos diante da
estratégia do inimigo: a guerra de guerrilhas. Os métodos usados pelo exército estadunidense
passavam desde a utilização de Napalm, bomba incendiária que dizimava comunidades consideradas
aliadas aos chamados vietcongs até o recurso do “Agente Laranja”, uma arma química que
objetivava desfolhar a selva (esconderijo dos mais de 20 mil kilômetros de túneis subterrâneos)
vietnamita.
O desenvolvimento dos meios de comunicação, que cobriram a guerra ao vivo no local e
transmitiam suas imagens para os lares estadunidenses sem censura do governo, foi um importante
elemento na mobilização da população estadunidense em torno do tema, principalmente quando
foram divulgados massacres de civis, mulheres e crianças. Muitos foram aqueles que se colocaram
contra o conflito: o movimento negro, que acreditava que o governo estava utilizando a guerra para
eliminar aqueles que defendiam a igualdade social entre negros e brancos; os movimentos de
contracultura, que acreditavam ser o conflito fruto da barbárie capitalista e pregavam “a paz e o
amor”; e também os políticos opositores, que se aproveitavam da crescente insatisfação popular
para pressionar o presidente Richard Nixon pela retirada do conflito.
O republicano ganhou as eleições de 1968 sob o lema “paz com honra no Vietnã”. Mas sua
estratégia de fortalecer os vietnamitas do Sul ainda não tinha resultado em avanços concretos para
a paz, sendo o conflito estendido até o então neutro Camboja. O vazamento dos Pentagon Papers
influenciou fortemente nas pressões contra Nixon, pois ficava evidente para a opinião pública que
muitos dos argumentos utilizados pelo Departamento de Estado para justificar a intervenção não se
sustentavam.
Além das contestações políticas ao envolvimento prolongado no conflito, a crise econômica era
outro abstáculo a ser enfrentado. Em 1971, a administração Nixon rompe unilateralmente o padrão-
ouro estabelecido em Bretton Woods ao desvalorizar o dólar como forma de tentar salvar sua
economia, que sofria, com o crescimento europeu, a concorrência com a indústria automobilística
japonesa e os gastos com a Guerra do Vietnã.
A “vietnamização da guerra” foi iniciada ainda em 1971, com a redução das tropas da Austrália e
Nova Zelândia, assim como a diminuição da presença de soldados americanos, que seguiriam um
calendário para a retirada total das tropas, neste momento já tomadas pelo desânimo, consumo de
drogas, conflitos raciais e insubordinações crescentes.
Após a controversa vitória sobre o democrata George McGovern, marcada pelos debates sobre o
futuro da intervenção no Vietnã e soluções para a crise econômica, Nixon anuncia em janeiro de
1973 a retirada das tropas e assina os Acordos de Paris com o Vietnã do Norte. O auxílio aos
capitalistas do sul continua até 1975, quando finalmente a Frente Nacional de Libertação ganha o
conflito e unifica o país, dando origem à República Socialista do Vietnã (1976) que não só
ingressaria no COMECOM, mas também expandiria sua influência na península da Indochina,
transformando Laos e Camboja em uma espécie de “protetorados”, entre 1977 e 1979.
Não apenas a hegemonia militar estadunidense foi abalada no início da década de 1970. A quatro
meses das eleições de 1972, pessoas ligadas ao Partido Republicano foram descobertas tentando
instalar um sistema de escutas telefônicas em escritórios do Partido Democrata no Complexo
Watergate. As investigações foram acompanhadas pelos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein
do Washington Post. Contavam com um informante chamado apenas de Garganta Profunda,
conseguindo estabelecer uma linha direta entre a Casa Branca e o Caso Watergate. Para evitar o
impeachment, Nixon renuncia, abalando significativamente a democracia dos EUA.
Com um discurso de resgate do orgulho cívico, Jimmy Carter vence o presidente republicano (vice
na administração Nixon e que concedeu “perdão pleno e absoluto”ao ex-mandatário) Gerald Ford
por uma pequena margem de votos. O governo Carter destaca-se, principalmente, pela defesa dos
direitos humanos, intensificação dos acordos de distensão com os soviéticos (neste contexto é
assinado o Salt 2 que estabeleceu a redução de mísseis e bombardeiros estratégicos) e tentativas de
solucionar os conflitos do Oriente Médio, como o ocorrido na Conferência de Camp David, que deu
origem ao tratado de paz entre o Egito de Anuar Sadat e Israel.
Com o passar dos meses de governo, Carter parecia não conseguir superar problemas como a
crise econômica e enfrentava crescente descontentamento de setores conservadores com relação à
sua política externa. Ao final do mandato, quando tentava a reeleição, sucessivas crises
internacionais afetaram sua campanha. A chegada de um governo socialista na Nicáragua foi a de
menor impacto naqueles tempos.
O evento que capitalizou as atenções da mídia estadunidense foi a deposição do xá Mohammad
Reza Pahlevi no Irã, em 1979. Colocado no poder após seu pai, Reza Pahlevi, ter flertado com os
fascistas durante a Segunda Guerra Mundial, sua imagem de um político favorável ao Ocidente foi
reforçada após os atritos com o primeiro-ministro nacionalista Mohammed Mossadegh. Seu governo
buscava a modernização do Irã mas, ao mesmo tempo, exercia o poder de forma ditatorial. Uma
ampla coalizão opositora, que reuniu comunistas, liberais e religiosos ligados à Ulema – uma
comunidade de religiosos islâmicos que preocupava-se com a crescente ocidentalização do país –
ganhava força no país, mas, ao mesmo tempo, a repressão crescia e, neste contexto, foi aprisionado
e exilado o principal nome ligado à oposição islâmica: o aiatolá Khomeini.
O estopim para a revolução de 1979 foram ataques nos jornais governistas ao exilado Khomeini,
gerando uma série de manifestações nas ruas de Teerã. Na medida em que membros do Exército se
recusavam a reprimir os populares, Pahlevi concluiu que somente o anúncio de reformas
democráticas poderiam salvar seu governo. Após a deposição do xá e o retorno triunfal de Komeini,
é proclamada a República Islâmica do Irã. Uma das principais bases do governo era o nacionalismo
religioso, que tinha nos Estados Unidos o principal alvo de seu ódio. A ocupação da embaixada
estadunidense por populares ligados aos regime fundamentalista, fazendo inúmeros funcionários
reféns, teve reação imediata da potência capitalista. Carter articulou uma intervenção militar para
resgatar os sequestrados, mas o fracasso de seu intento e o prolongamento da crise na embaixada
acabaram sendo decisivos para a vitória dos republicanos, liderados por Ronald Reagan.
Nem mesmo o retorno das tensões com a União Soviética conseguiu salvar os democratas,
acusados de fragilidade nas posições externas. As represálias estadunidenses aos comunistas
soviéticos ocorreram porque estes invadiram o Afeganistão. A URSS tinha relações históricas com o
Afeganistão, que remontavam ainda os tempos czaristas, aprofundadas na década de 1970 e que
chegaram ao auge com a consolidação do Partido Democrático Popular do Afeganistão no poder. E
foi justamente para defender a manutenção deste no poder, temendo o fortalecimento dos
fundamentalistas rebeldes do movimento Mujahidin, que a URSS invadiu o país, iniciando a longa
Guerra Afegã-Soviética (1979-1989).
O governo Carter condenou a intervenção soviética, suspendendo os acordos econômicos
estabelecidos durante o governo republicano e liderando o boicote às Olimpíadas de Moscou, que
pôs fim ao período de Détente. Era o início, de fato, dos anos 1980 e de uma nova fase na Guerra
Fria.
16.4.4. Segunda Guerra Fria (1979-1985)
Levantando a bandeira da redução dos impostos, menor interferência do governo na vida dos
estadunidenses e do fortalecimento da defesa nacional, os republicanos conseguiram a maioria no
Senado (algo que não acontecia desde 1952) e a presidência com o ex-ator e governador da
Califórnia, Ronald Reagan. Em sua política externa, Reagan retomou os primórdios da Guerra Fria
nos primeiros anos de seu governo, onde as tensões entre EUA e URSS retomaram grande vulto.
Anunciando novos tempos nas relações com os soviéticos, a quem chamou de “império do mal”,
Reagan afirmava: “(…) a marcha da liberdade e da democracia vai deixar o marxismo-leninismo no
monte de cinzas na história”.
O novo presidente ampliou as sanções econômicas à URSS em represália não somente à guerra
do Afeganistão, mas também em relação às ações soviéticas repressivas na Polônia, onde o Sindicato
Solidariedade (não comunista), liderado por Lech Walesa, sofre dura repressão a partir da
decretação da lei marcial. Simultaneamente, os Estados Unidos recrudesceram a corrida
armamentista simbolizada por meio da chamada Iniciativa Estratégica de Defesa. Conhecida como
Guerra nas Estrelas, o projeto bélico de mísseis que visavam montar um escudo protetor sobre os
Estados Unidos geraram protestos pelos seus gastos. Enquanto isso, os soviéticos, liderados por Iúri
Andropov desde novembro de 1982, não conseguiram responder à altura o kaynesianismo militar de
Reagan, fato que hoje é visto como peça fundamental para o fim da Guerra Fria.
Na América Latina, as intervenções continuavam a ocorrer. Em outubro de 1983, Reagan
promoveu a ocupação da ilha de Granada, que desde 1979 tinha o Governo Revolucionário do Povo
no poder, liderado por Maurice Bishop. Esta foi a primeira ação militar estadunidense de vulto após
a Guerra do Vietnã. Bem-sucedida, a Operação Fúria Urgente durou poucos dias e, após a morte de
19 de seus homens, um novo governo alinhados aos interesses estadunidenses já estava empossado.
Na Nicarágua, o apoio aos Contras que se opunham ao governo da Frente Sandinista de Libertação
Nacional, foi alvo de um escândalo. O chamado Irãgate (ou Caso Irã-Contras) envolvia o
fornecimento de armas ao Irã, que sofria embargo internacional, sendo que lucros desta operação
seriam desviados aos Contras. Não foi comprovada a participação direta de Reagan neste episódio.
O financiamento de filmes que se enquadravam no contexto da Guerra Fria (como Rocky 4 ou
Rambo III) estimulava ainda mais o ódio aos soviéticos, que crescia na mesma proporção da
economia, estimulada pelo neoliberalismo – implementado também na Inglaterra de Margaret
Tatcher. Embalado pelos números positivos na economia e pela ideia de que os EUA foram
recolocados na liderança mundial, a popularidade do republicano só crescia, culminando em sua
reeleição, em 1984.
Enquanto isso, a URSS passava por um delicado momento político. Entre a morte de Brejnev e a
posse de Gorbatchev passaram-se pouco menos de três anos, e outros dois dirigentes soviéticos no
poder (Tchernenko e Andropov). Envelhecido, o politburo soviético não conseguia solucionar os
principais problemas do gigante do Leste. A insatisfação dos camponeses com a coletivização
forçada no campo resultavam em fracos números na produção agrícola; na política externa, os
problemas no Afeganistão continuavam, arrastando uma guerra de alto custo para os soviéticos; na
economia, a URSS exportava petróleo e importava máquinas e outros produtos industrializados,
evidenciando o atraso de seu parque industrial (principalmente aquele ligado aos bens de consumo)
comparado aos das potências capitalistas; e, por fim, os subsídios dados os satélites pesavam nas
contas soviéticas, que não mais conseguia sustentar a corrida armamentista.
O bloco terceiro-mundista esfacelava-se em meio ao aumento da dívida externa. O segundo
Choque do Petróleo (1979) arrastou os países “em desenvolvimento” a uma crise sem precedentes, o
que dificultou a unidade entre os mesmos e proporcionou aos Estados Unidos a promoção de
acordos bilaterais. Na segunda metade da década de 1980, a hegemonia estadunidense era algo
evidente, não restando outra solução aos soviéticos senão promover intensas mudanças estruturais.
16.4.5. O Desmonte (1985-1991)
Procurando pôr fim à gerontocracia que estava à frente do poder no Kremilin, novos dirigentes
conquistaram cargos no governo soviético na primeira metade dos anos 1980. Natural de Stavropol,
Mikhail Gorbatchev fortaleceu suas posições dentro do PCUS por suas relações com Iuri Andropov e
o bom relacionamento com os principais dirigentes do partido. Na década de 1970, havia
conseguido diversos cargos, tais como o de representante do Soviete Supremo, alcançando projeção
nacional e Internacional. Após o breve governo Konstantin Chernenko (fev./1984 – mar./1985),
Gorbachev assume como secretário geral do PCUS.
O discurso de mudanças resultam, ainda nos primeiros meses de governo, na criação de dois
amplos planos: a Perestroika e a Glasnost. Significando reconstrução (ou reestruturação como ficou
mais conhecida esta política), a perestroika indicava mudanças econômicas. Objetivando reduzir os
gastos na defesa e promover uma dinamização do setor industrial, a ideia era adaptar-se à chamada
revolução tecnológica, baseada na microeletrônica por meio da atração de investimentos privados
de forma semelhante àquela implementada pela República Popular da China. A Glasnost procurava
promover a transparência política mediante um socialismo realmente democrático, deixando para
trás um “sistema de administração burocrático e autoritário”.
Para reduzir os gastos com a defesa seria necessário uma aproximação com os Estados Unidos.
Em 1986, a cúpula estadunidense e soviética encontraram-se na Islândia para negociações sobre a
redução dos arsenais nucleares. A chamada Cimeira de Reiquiavique não logrou em um acordo
imediato, mas as conversações resultaram no Tratado de Forças Nucleares de Alcance
Intermediário, no ano de 1987. Além de permitir inspeções mútuas de instalações militares e tratar
de questões sobre os direitos humanos, o tratado determinava a extinção dos mísseis balísticos e de
cruzeiros (nucleares ou convencionais) localizados na Ásia e na Europa até o início dos anos 1990.
Mas a crise no Leste europeu estava em marcha acelerada. O desastre de Chernobil expôs ao
mundo a fragilidade da maior potência comunista. Considerado o maior desastre nuclear da história,
a usina soviética instalada próxima à fronteira entre a Ucrânia e a Bielorrússia sofreu com a
explosão de um dos reatores, produzindo uma nuvem de radioatividade que atingiu milhares de
pessoas em todo o continente europeu. A radioatividade produzida foi centenas de vezes maior do
que aquela liberada pela bomba atômica lançada sobre Hiroshima. A situação era tão grave que,
pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a URSS aceitou a ajuda de um cientista
do Ocidente para enfrentar o desastre, dando visto de entrada no país ao médico americano Robert
Gale. Era uma demonstração pública de fragilidade.
No Afeganistão, o envolvimento indireto dos Estados Unidos ao lado dos mujahidin fortaleceu os
rebeldes islâmicos, que receberam mísseis que possibilitaram o enfraquecimento das posições
soviéticas. A URSS não mais controlava o ar e as crescentes dificuldades no Afeganistão
estimularam a negociação de uma trégua, que levou à gradual retirada das tropas soviéticas entre
1988 e 1989. Sem as tropas soviéticas, o governo comunista foi deposto.
Em 1988, outra intervenção tinha fim. Os Acordos de Nova York assinados por Angola, Cuba e
África do Sul na ONU – sob intermédio das superpotências – estabeleciam não somente a retirada
das tropas estrangeiras e a paz em Angola, mas também a independência da Namíbia. Eram tempos
da Doutrina Sinatra, descrita desta forma pelo porta-voz da URSS ao programa de entretenimento
estadunidense Good Morning America em 1989: “Nós temos agora a doutrina de Frank Sinatra. Ele
tem uma música, I Did It My Way. Assim, cada país decide sobre qual o caminho a tomar.” Quando
perguntado se isso incluiria Moscou aceitando a rejeição dos partidos comunistas do bloco soviético,
ele respondeu: “Isso com certeza... estruturas políticas devem ser decididas pelo povo que lá vive.”
O aprofundamento da Glasnost ocorre em 1989 quando ocorrem eleições livres no Leste europeu,
com ampla cobertura da mídia e diversos candidatos de oposição. Na Polônia, diante das intensas
atividades do Sindicato Solidariedade, o governo resolve legalizá-lo e ainda propor um governo de
coalizão nacional. Era o fim da hegemonia comunista no país do Papa João Paulo II, que felicitou as
mudanças naquelas terras em que sofrera perseguição por ser católico.
A partir da Polônia, outros “satélites” também acabaram se flexibilizando. Nação considerada
precursora na adoção da Perestroika, a Hungria promoveu mudanças a partir da retirada do
secretário geral do Partido Comunista imposto após a intervenção do Pacto de Varsóvia em 1956,
János Kádár. O Parlamento adotou medidas como a liberdade sindical, eleições partidárias,
multipartidárias e mudanças na Constituição. Como reflexo destas mudanças, o Partido Comunista
transforma-se em Partido Socialista e o país tornava-se oficialmente a República da Hungria, com a
adoção da tripartição dos poderes e um intenso projeto de privatizações, acompanhado pela entrada
de capital externo no país.
A chamada Revolução de 1989 tem seus últimos capítulos na Bulgária, onde o líder comunista
Todor Jivkov abandona o poder após 35 anos, abrindo espaço para as reformas democráticas que
levariam à vitória eleitoral da União das Forças Democráticas, em 1991. Na Tchecoslováquia, os
reivindicações encapsuladas desde a “Primavera” de 1968 originaram uma série de manifestações
estudantis nos dois últimos meses do ano. O governo anunciou o fim do Estado de partido único. Era
a Revolução de Veludo, que culminou na pacífica dissolução da nação em 1993. Enquanto isso, na
Romênia, o ditador Nicolae Ceausescu era executado juntamente com a sua mulher, marcando assim
o fim de um governo de 24 anos e que seria substituído a partir das eleições de 1990.
A metáfora mais significativa em simbolizar o fim da Guerra Fria ocorre na República
Democrática Alemã. Em visita à RFA em 1987, Ronald Reagan discursa acaloradamente:
(…) Secretário-Geral Gorbatchev, se você procura a paz, se você procura prosperidade para a
União Soviética e a Europa Oriental, se você procura a liberalização, venha aqui para este portão.
Sr. Gorbatchev, abra o portão. Sr. Gorbachev, derrube esse muro!
A liberalização aconteceria bem antes do previsto por todos, com muitas mudanças promovidas
pelos vizinhos do Leste. Repercute na Alemanha principalmente a abertura das fronteiras húngaras,
pois esta levou milhares de alemães orientais para o lado acidental sem precisar passar pelos tão
temidos postos de fronteira instalados no Muro. As posições autoritárias do líder comunista alemão
Erich Honecker foram de encontro à política de Gorbachev, sendo este publicamente contra a
política repressora liderada pela Stasi (polícia secreta) quando de sua visita à Alemanha Oriental em
outubro de 1989. O Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED) decidiu retirar Honecker do
poder, colocando Egon Krenz, que era favorável às reformas. As pressões populares pelo livre
trânsito e pelo fim do Muro de Berlim saíram do controle do SED, que assistiu não somente à queda
do Muro em novembro, mas também ao acelerado processo de reunificação, concluído já em
outubro de 1990.
O fenômeno da crise do socialismo real atingiu mesmo aqueles Estados socialistas que não tinham
relações com a URSS. Na China, as mudanças iniciaram-se com a morte de Mao Tsé-Tung e a
chegada ao poder, em 1978, de um grupo favorável a mudanças no regime. Liderado por Deng Xiao-
Ping, os novos detentores do poder procuram “enterrar” a Revolução Cultural por meio das Quatro
Modernizações. Propostas ainda na década de 1960 por Chun En-lai, estas significaram
investimentos e transformações nos setores de Defesa, Ciência e Tecnologia, Agricultura e Indústria.
De maior impacto, a permissão para a entrada de capital estrangeiro em determinadas áreas do país
(chamadas de Zonas Econômicas Especiais) seria fundamental para o fortalecimento econômico
chinês em um contexto de deteriorização do bloco comunista liderado pelos soviéticos. A pujança
econômica serviu de base, inclusive, para a manutenção do poder pelos dirigentes comunistas que,
ao promover o “Massacre da Paz Celestial” (1989), deixaram claro que a abertura seria restrita ao
campo econômico.
Na Iugoslávia, a morte de Tito em maio de 1980 marca uma profunda transformação no país.
Apesar das tensões étnicas existentes, a divisão do país era solapada pela divisão de poderes
controlada atentamente pelo líder da resistência aos fascistas durante a Segunda Guerra Mundial.
Ao perder o chefe máximo, dirigentes com discursos crescentemente mais nacionalistas ganharam
força nas repúblicas da Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina e Macedônia. Criticando sobretudo
a hegemonia da Sérvia e reivindicando maior democracia dentro do bloco, as hostilidades ganham
terreno ao final dos anos 1980. Considerado como um marco para o fim da Iugoslávia, a batalha
campal entre croatas, torcedores do Dínamo de Zagreb, e sérvios, fanáticos pelo Estrela Vermelha,
em maio de 1990 seria um exemplo do que estava por vir. Entre 1991 e 1995, uma sangrenta guerra
civil toma conta novamente dos Bálcãs, sepultando definitivamente as aspirações unitaristas do líder
sérvio Slobodan Milosevic.
A esta altura dos acontecimentos, Gorbatchev vivenciava uma inusitada situação. Aclamado no
Ocidente como aquele que salvou o mundo de sua destruição e trouxe a democracia para o Leste
europeu – o que lhe rendeu um Prêmio Nobel da Paz, em 1990 –, não contava com o apoio do povo
soviético. Nações subjugadas ao poder russo desde os tempos czaristas demandavam sua autonomia
como ocorrera nos “satélites”. Em agosto de 1991, conservadores do politburo soviético tentam
frear as mudanças retirando Gorbachev do poder. Mas o golpe foi frustrado pelos reformistas
(ultraperestroikistas) que, liderados por Bóris Yeltsin, o mantiveram no poder.
Numa avassaladora escalada de enfraquecimento, Gorbatchev pôs fim ao PCUS e não apenas
assistiu à declaração unilateral de independência das repúblicas bálticas, como reconheceu a
soberania de Estônia, Letônia e Lituânia. No mesmo ano, apoia os Estados Unidos na intervenção na
Guerra do Kwait, algo que não ocorria desde a Segunda Guerra Mundial. O ponto final para o líder
soviético ocorre quando é assinado o Acordo de Minsk, em dezembro de 1991, que estabelece a
criação da Comunidade dos Estados Independentes (CEI) liderados pelo popular Yeltsin. Rússia,
Ucrânia e Bielorrússia declaravam que não mais estariam submetidas à URSS. Exatamente dois dias
depois, Gorbachev fazia aquilo que dele se esperava desde o dia 9 de novembro de 1989 (o dia da
queda do Muro de Berlim): anunciava o fim da União Soviética.
Historiadores divergem sobre qual fato que realmente pôde assinalar o fim da Guerra Fria. É
certo, contudo, que com o fim da URSS definitivamente não mais existia um mundo caracterizado
pela disputa por hegemonia entre a União Soviética e os Estados Unidos. Era também, para Eric
Hobsbawn, o fim do “breve século XX”, a “Era dos Extremos”.
17
AS LUTAS DE LIBERTAÇÃO AFRO-ASIÁTICAS

A África passou por uma experiência colonial relativamente curta no tempo decorrido, mas muito
intensa no sentido das mudanças econômicas, sociais e culturais. A expansão colonial europeia
sobre o continente africano adquiriu maior vigor na virada do século XIX para o XX, quando
precisou defrontar diversas resistências pulverizadas de maior ou menor envergadura, mas ainda
sem os desenhos das lutas políticas nacionais que se delineariam a partir de meados do século XX.
Passado pouco mais de meio século, a dominação colonial europeia enfrentaria um desejo de
independência mais consistente por parte dos africanos. Desejo esse que se transformaria numa
inadiável realidade no pós-Segunda Guerra, em especial a partir dos anos 195067.
17.1. FATORES
Com o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as principais potências europeias
colonialistas voltaram as suas atenções para seus problemas internos. Gastos com a reconstrução e
o medo da expansão do comunismo pelo continente sugaram as forças destes agora combalidos
Impérios. Ao mesmo tempo, os movimentos de libertação nacional, alguns gestados ainda no período
entre-guerras (1918-1939), se fortaleciam sobremaneira.
A participação de muitos afro-asiáticos nas guerras mundiais tem sua importância. Calcula-se que
cerca de 2,5 milhões de africanos participaram de alguma forma ao lado das tropas metropolitanas
na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), recrutados de forma forçada. Indiretamente muitos outros
sofreram com o esforço de guerra. Na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) este número foi
ampliado, participando em operações contra o Eixo, principalmente ao norte da África e no Pacífico
asiático, levando a um contato intenso destes com um armamento moderno e táticas de guerras que
fortaleceram a ideia de que se estes eram capazes de ganhar guerras dos fascistas, conseguiriam
derrotar outros europeus ou, no mínimo, conhecer de perto as fraquezas de seus inimigos.
Décadas de colonialismo proporcionaram a formaçào de uma elite colonial que tinha posses para
enviar seus filhos para a metrópole,onde ingressavam no ensino superior, trazendo para as colônias
experiências de contato direto com o sistema legal europeu. Estes formam quadros necessários para
liderar os movimentos de libertação nacional que protagonizaram o processo de luta pela libertação.
Também eram importantes os contatos com a esquerda europeia, que desde a II Internacional
Socialista estava comprometida com a autonomia dos povos afro-asiáticos – vista como condição
fundamental para o enfraquecimento do capitalismo.
Ideologicamente o conflito mundial tem uma importância vital para os rumos independentistas
das colônias, uma vez que expõe as mazelas de políticas baseadas no racismo. O holocausto tem
como principal consequência a luta contra o racismo no mundo, o que torna sem sentido o discurso
colonialista baseado no darwinismo social. Importante também ressaltar que a vitória das
democracias reforçou as críticas aos regimes colonialistas.
Neste contexto, ganha força o pan-africanismo. Movimento político e ideológico, fruto de um
prolongado e efervescente intercâmbio entre os negros da África e os negros dos Estados Unidos e
da Grã-Bretanha, este seria um elemento diferenciador dos protonacionalismos nos espaços
geopolíticos colonizados pelos britânicos. Gestado ainda no início do século XX, o pan-africanismo é
centrado na noção de raça, com o objetivo de unir aqueles que, a despeito de suas especificidades
históricas, são assemelhados por sua origem humana e negra. Um dos seus principais ideólogos era
o intelectual William Edward Du Bois, importante figura na luta pelos direitos civis nos Estados
Unidos, uma vez que foi um dos fundadores da National Association for the Advancement of Colored
People (NAACP).
O apoio com armas e financiamento das duas potências mundiais, antagônicas no contexto de
Guerra Fria (1947-1991), também foi fundamental para o fomento das libertações. EUA e URSS
tinham interesse na expansão de suas áreas de influência, sendo decisivas com suas ações para a
ONU pressionar as metrópoles em defesa da autodeterminação dos povos.
A concessão de bolsas de estudos para jovens do continente africano, a ajuda financeira, a
distribuição de alimentos, o recurso à ONU para despolitizar as ajudas à África, a assistência
técnica, a cooperação educacional, o estabelecimento de um fundo das Nações Unidas para o
Congo, a ajuda militar a alguns países para salvaguardar sua segurança, a criação da Associação
Internacional de Desenvolvimento, um fundo de ajuda ao desenvolvimento do Banco Mundial,
tudo isso fez parte do pacote norte-americano para a África. A ideia era afastar os soviéticos do
continente68.
Uma vez iniciado o processo de lutas de libertação, aqueles territórios que conseguiram
autonomia buscaram integração para auxiliar aqueles que ainda estavam sob o domínio de suas
metrópoles. Um passo decisivo nesta direção aconteceu na Conferência de Bandung (abril de 1955).
Reunidos 29 países independentes, sendo destes apenas seis africanos, tinham como principal
objetivo debater os problemas dos povos afro-asiáticos, propondo a substituição do conflito leste-
oeste por aquele que oporia os países do norte e do sul. Dentre suas principais propostas estavam:
• Respeito aos direitos do homem e da Carta da ONU;
• Defesa da autodeterminação dos povos, portanto a não intervenção e a não ingerência nos
assuntos internos de outro país;
• Não ingerência nos assuntos internos de outros países, assim como o direito de cada nação se
defender só ou coletivamente, conforme a Carta da ONU;
• Luta contra o racismo e o reconhecimento da igualdade de todas as raças e nações;
• Oposição ao uso do recurso da força contra um outro país, defendendo a resolução negociada
dos problemas de litígio, cooperação, respeito pela justiça e pelos compromissos internacionais;
• Recusa na participação de compromissos ou acordos de defesa coletiva destinada a servir
interesses particulares das grandes potências;
• Busca de uma neutralidade positiva, que posteriormente resultou na ideia de não alinhamento.
A Conferência de Bandung, depois de ter proclamado a necessidade de se pôr termo ao
colonialismo sob todas as suas formas, tinha também definido uma linha de política internacional:
havendo concluído ser imperioso salvaguardar a paz no Mundo, reclamava, para atingir esse
objetivo, a redução dos armazenamentos e a eliminação das armas nucleares, sob um controle
internacional eficaz69.
17.2. ESTUDO DE CASOS
17.2.1. Índia
Ainda no século XIX os indianos tentaram a sua libertação através de movimentos armados. O
mais famoso deles, a Revolta dos Cipaios (1857-1858), ocorre quando os soldados indianos que
serviam aos interesses expansionistas britânicos na Ásia se insurgiram contra a exploração imposta
pela Companhia das Índias Orientais. Massacrados pelas tropas leais ao britânicos, os indianos
conseguiram ao menos a extinção da companhia de comércio que explorava a região. A submissão
direta à Coroa britânica, elevação da Índia à condição de vice-reinado e a criação do Parlamento
Indiano não satisfizeram completamente a população local.
No século XX, a trajetória de contestação de um advogado indiano iria definir os rumos políticos
do território da “joia da Coroa britânica”. Mohandas Karamchand Gandhi, filho de uma autoridade
destacada na Índia Ocidental, teve acesso a uma boa educação que serviu-lhe de trampolim para
ingressar na University College, onde cursou a faculdade de Direito. Ao retornar à Índia, aceitou o
desafio de defender uma empresa hindu na região da atual África do Sul. Neste local, interessou-se
na luta pelos direitos dos indianos que lá estavam (cerca de 200 mil) tolhidos de seus direitos; por
mais de vinte anos dedicou-se por lutar pela “verdade e pela justiça, sem qualquer forma de
violência”. A projeção que o agora chamado de Mahatma Gandhi ganhou fez com que este voltasse a
sua terra natal.
Divididos no início do século XX entre o Partido do Congresso (ou Congresso Nacional indiano, de
maioria hindu) e a Liga Muçulmana, os colonos alteraram a estratégia conservadora de luta com o
retorno de Gandhi. Pregando a união entre hindus e muçulmanos, Gandhi procurou divulgar a ideia
que a independência da índia seria possível em um curto espaço de tempo, baseada na não
violência. O princípio do satyagraha (“caminho da verdade”ou “busca da verdade”) uniu as
principais lideranças políticas locais, como Jawaharlal Nehru (hindu) e Muhammad Ali Jinnah
(muçulmano). Pregando cinco principais pontos (Igualdade, nenhum uso de álcool ou droga,
amizade, igualdade entre as mulheres e a unidade hindu-muçulmana), Gandhi conseguiu cada vez
maior apoio popular.
Dentre as principais ações da desobediência civil que objetivava inviabilizar a manutenção do
colonialismo inglês, estão:
• Passeatas;
• Boicote aos produtos industrializados britânicos, defendendo o uso de tecidos rústicos de
algodão;
• Não alistamento no exército colonial inglês;
• Não pagamento de impostos;
• Boicote ao sal vendido pela administração inglesa sob o regime de monopólio.
Em 1930 Gandhi promoveu a Marcha do Sal, onde conseguiu reunir mais de 60 mil em uma
passeata pacífica em direção ao mar que duraria mais de 24 dias. A ideia era mostrar ao povo
indiano que era possível romper pacificamente o monopólio britânico sobre o sal. Uma vez preso, as
manifestações nas ruas estavam sem controle, as autoridades metropolitanas perceberam que um
confronto direto seria impossível, adotando a estratégia de libertação gradual da sua principal
colônia.
Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) a Inglaterra envia o último vice-rei da Índia para
negociar a libertação definitiva. Aproveitando a rivalidade étnica e religiosa entre hindus e
muçulmanos, os ingleses promovem a fragmentação política da colônia em União Indiana (de
maioria hinduísta sob a liderança de Nehru) e o Paquistão (muçulmano, dividido em Oriental e
Ocidental, governado por Ali Jinnah). A migração forçada de milhões de refugiados teve como
principal consequência a primeira guerra entre os dois Estados recém-criados. Gandhi, que resistiu
até o último momento a ideia de divisão política, fez a sua última greve de fome em tentativa de
conter as hostilidades. Como consequência de mais um êxito em sua luta pela paz, foi assassinado
por hindus radicais que eram contra seu discurso pacifista.
Ainda com relação ao território da antiga Índia, no extremo sul da região, na ilha de Celião,
forma-se o Sri Lanka, com maioria da população budista. Criada em 1971, a República de
Bangladesh fica independente depois de uma guerra de libertação contra o Paquistão Ocidental.
17.2.2. África do Sul
Como consequência da resistência dos colonos brancos durante a chamada Guerra dos Boers
(1899-1902), foi criada a União Sul-Africana em 1910. Protetorado britânico, estava sob o controle
político dos brancos, de origem inglesa e afrikaner, institui um racismo não oficial na região. Em
1934, o Partido Unido busca conciliar as diferentes correntes políticas de brancos, ficando quase
quatorze anos no poder.
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os horrores do holocausto, a atuação das Nações Unidas
na busca pela cooperação entre os povos são alguns dos elementos que levam muita incerteza aos
brancos no extremo sul do continente africano, que temiam o fim dos seus priviégios perante os
negros.
Um ano após a libertação parcial perante a Inglaterra e a criação da África do Sul, os radicais
brancos chegam ao poder, sob a legenda do Partido Nacionalista. Estes defendiam o futuro da
sociedade africânder, propondo a política do governo baseado na “política da boa vizinhança”.
Nesta, o dr. Verwoed, seu idealizador pregava:
[...] aceitar as diferenças entre os povos e recomendava que se todos se comportassem como
bons vizinhos seria possível não só levar uma vida em comum, mas também desenvolver uma
ajuda mútua entre os diversos povos70.
Desta forma é criado o apartheid, uma segregação política, econômica, geográfica e social entre 2
milhões de brancos, 2 milhões de mestiços e 11 milhões de negros na África do Sul. Seria a
legitimação do racismo por meio de leis como:
• Proibição das relações sexuais e o casamento entre brancos e não brancos;
• Classificação da população por categoria racial entre brancos e não brancos (indianos, mestiços
e negros);
• Proibição do Partido Comunista;
• Demarcação de áreas residenciais por categorias raciais: os brancos e os não brancos viveriam
em locais separados (também conhecida como Group Area Acts);
• Lei do passe, que obrigava os negros ao uso constante e obrigatório de um passaporte interno
com um conjunto de informações, como a autorização de permanência em locais destinados aos
brancos;
• Banto Education Act: destinava aos negros uma educação inferior do que aquela destinada aos
brancos.
Negros e mestiços procuraram resistir a segregação racial. O Congresso Nacional Africano e o
Congresso pan-Africano eram os partidos de negros, mestiços e indianos que lutavam contra tal
situação. Outro obstáculo seria a divisão étnica existente (xhosos, zulus, swasis e ndebele juntos
eram mais da metade da população), utilizada pelos brancos para dividir os negros e o intenso
militarismo por parte do executivo.
O governo do apartheid contava com o apoio das principais potências capitalistas, uma vez que a
África do Sul (que a partir de 1961 fica completamente independente da Inglaterra, fora do
Commonwealth) realizava uma série de intervenções contra os movimentos comunistas vizinhos,
como aquelas contra o MPLA em Angola ou mesmo o estímulo à criação da RENAMO em
Moçambique.
Pressões de vizinhos da África subsaariana cresceram na década de 1970. O caso brasileiro é
emblemático, uma vez que o país mantinha relações com a África do Sul e se esforçava para criar
laços com o restante do continente. Porém, em 1973, um grupo de 17 países da África subsaariana
liderados pela Nigéria (produtora de petróleo) ameaçou boicotar o Brasil para que este rompesse
seus laços com o colonialismo português e com o regime do apartheid. A pressão deu resultado. O
Brasil, que até então se abstinha das votações contra o segregacionismo sul-africano na Assembleia
Geral da ONU, posiciona-se contra a África do Sul, aderindo ao boicote já existente.
Enquanto a Assembleia Geral da ONU pressionava a África do Sul, o Conselho de Segurança
protegia o país de qualquer tipo de sanção mais contundente. A virada ocorre com o declínio da
Guerra Fria na década de 1980, quando o papel geopolítico da África do Sul segregacionista é
diminuído com o enfraquecimento da oposição entre URSS e EUA. Com isso, o Conselho de
Segurança aprova o embargo ao fornecimento de armas ao país. Neste contexto, aumentam também
os protestos internos e as pressões da opinião pública internacional.
Em 1989, Frederik De Klerk, chefe do Partido Nacional, admitia que a única forma de combater a
crise econômica, resultado da fuga de capitais e boicotes estabelecidos, seria negociar com o CNA o
fim do apartheid. Nelson Mandela, advogado e ativista contra o apartheid, condenado à pena de
morte convertida à prisão perpétua na ilha Robben, torna-se uma figura-chave nas negociações,
assim como o bispo Desmond Tutu, que livre pregava a “intolerância positiva” contra as leis
injustas.
A partir daí diversas medidas foram elaboradas: legalização do CNA, do PC e do Partido Pan-
Africano; libertação de Mandela; fim do apartheid nos locais públicos; referendo sobre o fim do
apartheid; formação do Comitê Executivo de Transição; e, por fim, eleições diretas marcadas para
1994. Mandela foi eleito com mais de 62% dos votos, resultado que definitivamente criava um novo
país ao sul do continente, livre e igualitário do ponto de vista étnico.
17.2.3. África Portuguesa
A ditadura salazarista não aceitava negociar a libertação de suas colônias. Mesmo com as
pressões contra o colonialismo e pela democracia intensas após a Segunda Guerra Mundial (1939-
1945), Antonio Pereira Salazar conseguiu manter tanto o Estado Novo português, que se manteve
neutro no conflito, e também o Império Ultramarino.
O regime salazarista não poderia perder suas colônias. Sua economia estava baseada na
exploração indireta das colônias, uma vez que permitia que mineradoras e petrolíferas
multinacionais explorassem suas colônias em troca de parte dos lucros. Em Moçambique, o principal
porto, por exemplo, era utilizado pela África do Sul para exportar os seus produtos.Além disso, o
discurso nacionalista salazarista difundia a ideia que as colônias seriam o resquício do Império
Ultramarino português formado ainda no século XV. As colônias não poderiam ficar independentes.
Para conter as críticas vindas da ONU (sob o lema “orgulhosamente sós”), o governo fascista
português transforma suas colônias em províncias ultramarinas e utiliza os escritos de Gilberto
Freyre em que o autor brasileiro destacava a posição do colonialismo português desde os tempos de
América portuguesa, afirmando que as relações eram baseadas no luso-tropicalismo, onde existe
uma relação próxima entre negros e brancos em sua obra clássica “Casa Grande e Senzala”.
Enquanto Salazar batalhava para manter intactas as bases de seu regime, o processo de lutas de
libertação (ou descolonização) chegava no continente africano, destacando-se o período entre 1956
e 1962, quando 36 países autônomos surgiram no continente. Nas áreas lusófonas, a maior
exploração portuguesa é o aumento da imigração de brancos metropolitanos, que ocupariam o
espaço econômico dos crioulos (uma diminuta elite urbana resultado de uma mestiçagem cultural –
aquele branco, mestiço ou negro que tem, simultaneamente, elementos das culturas africana e
europeia). É justamente este segmento letrado que protagoniza o início da contestação ao
colonialismo português, reunindo-se em clubes e associações, muitas vezes dialogam com o
marxismo. Os principais movimentos nacionalistas a levantar a bandeira do anticolonialismo na
África Portuguesa eram:
• FRELIMO (Frente de Libertação Moçambicana)
• Reunião de três outros movimentos de libertação (UDENAMO, MANU e UNAMI criados entre
1960 e 1961), foi formada em 1962 na Tanzânia pelo presidente do “Comitê de Fusão”
Eduardo Chivambo Mondlane. De orientação marxista-leninista, tinha como base social os
macondes, grupo étnico forte do norte de Moçambique, sul da Tanzânia. Após treinar seus
membros, inicia a guerra de independência em 1964 a partir de suas bases na Tanzânia. Após
o assassinato de Eduardo Mondlane, assume a liderança do movimento Samora Moisés
Machel, que tinha a difícil tarefa de conciliar os dois principais grupos políticos dentro da
FRELIMO: os socialistas revolucionários (“linha revolucionária”) e os grupos moderados
(“linha reacionária”).
• PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde)
• Criado em 1956 na Guiné-Bissau, em 1960 foi reconhecido como legítimo representante da
luta de libertação dos povos da Guiné e Cabo Verde. Liderados por Amílcar Cabral e
inspirados na teoria do foquismo, que foram bem-sucedidos em Cuba, iniciaram a sua luta
contra Portugal a partir de 1963. Pregando a erradicação do analfabetismo, o reconhecimento
do direito de liberdade de opinião e expressão, além do desejo de promoção da justiça social,
ganhou pouco a pouco o apoio dos colonos.
• CLSTP (Comitê de Libertação de São Tomé e Príncipe)
• Movimento de caráter nacionalista criado em 1960, buscou o apoio dos grupos comunistas e
socialistas em sua luta contra o governo metropolitano. Tem como líder Manuel Pinto da
Costa, tendo como base o Gabão. Em 1972, com a ampliação de sua base social, transforma-se
em Movimento para a Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP), objetivando, dentre outros
pontos, a organização e orientação de todas as forças patrióticas.
• MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola)
• A data de criação do MPLA é alvo de muitas contestações e debates entre historiadores e
integrantes do grupo, que defendem que sua origem estaria no final dos anos 1950. O recuo
no tempo concederia maior legitimidade ao movimento diante dos demais angolanos, o que
gera tal controvérsia. Formado pelos “de dentro” (que estavam em Luanda) e os “de fora”
(angolanos que estavam em Portugal ou em outros países europeus) e liderado pelo médico
Agostinho Neto, aproximou-se de países socialistas como a URSS, Iugoslávia e Cuba. Com
relação as etnias, o movimento era apoiado principalmente pelos Kimbumdus, mas tal divisão
étnica não era o fator mais importante para a adesão aos movimentos, mas sim como afirmou
o historiador Marcelo Bittencourt os chamados “vínculos de solidariedade”(local de
nascimento, frequência de clubes ou colégios, sindicatos etc.).
• FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola)
• Originalmente chamada UPNA (União das Populações ao norte de Angola), foi alterado por seu
nome ser excessivamente étnico, uma vez que os povos do norte eram os bakongos. Liderado
por Holden Roberto, por algum momento teve apoio da China, mas seu alinhamento com os
ideais capitalistas o aproximou dos Estados Unidos e do Zaire de Mobutu See Seko.
• UNITA (União Nacional para a Independência total de Angola)
• Jonas Savimbi estudou em missões protestantes ao sul de Angola, recebeu uma bolsa de
estudos e, com isso, procurou concluir seus estudos entre Portugal e Suíça. Na Europa, entrou
em contato com a luta anticolonial de perto e voltar para Angola. Flertou seu alinhamento ao
MPLA (desejo inclusive da URSS com intuito de fortalecer o movimento socialista), mas
entrou mesmo na FNLA. Acusou o movimento de ser excessivamente étnico, fundou seu
próprio movimento, criticando principalmente o MPLA.
Os movimentos não conseguiram derrotar militarmente o exército português, sendo a única
“vitória” uma proclamação da independência unilateral da Guiné-Bissau, reconhecida por alguns
países socialistas africanos. A libertação, de fato, somente aconteceria devido a fatores exógenos.
No início da década de 1970, Portugal vivia sob a chamada “Primavera Marcelista”, como ficou
conhecido o período posterior à morte do ditador Salazar quando o país ficou sob o controle do
advogado Marcelo Caetano. Tal período é marcado por uma tentativa de “modernização”do
salazarismo em tentativa tardia de salvar o regime já desgastado pela crise econômica e pela
longevidade da guerra do ultramar (chamada de forma pejorativa de “A Guerra dos Pretos”). Isolado
no contexto internacional, Caetano não consegue o apoio dos setores de oposição e desagrada aos
conservadores com seu discurso reformista; não conseguindo contornar a crescente insatisfação
popular, sendo as divisões internas decisivas para o fim do regime.
Militares insatisfeitos com as dificulades de ascensão dentro da hierarquia do exército português
e pretendendo alterar os rumos da política colonial, o Movimento das Forças Armadas articula o
golpe de estado. Após sucessivas reuniões, divulgam o documento “Os Militares, as Forças Armadas
e a Nação”, gerando demissões de generais destacados como Costa Gomes e Spínola. Era o
momento da sublevação.
Às dez horas e cinquenta e cinco minutos do dia 24 de abril de 1974 é transmitida a canção E
depois do adeus, de Paulo de Carvalho. Era o primeiro sinal previamente acordado pelos golpistas,
que iniciaram o movimento após a execução, aos vinte minutos do dia 25 de abril, da canção
“Gândola, Vila Morena”, de José Afonso, canção ilegalizada pelo regime salazarista por ser
considerada comunista. Era o início da Revolução dos Cravos.
Marcelo Caetano, percebendo que não tinha condições de resistir, rende-se ao final do dia. A
população já estava nas ruas, em demonstração de apoio ao novo regime. Poucas foram as mortes e
o novo governo tinha um desafio pela frente: organizar as libertações no ultramar.
17.3. O PROCESSO DE LIBERTAÇÃO
Portugal reconhece a independência da Guiné-Bissau (10 de setembro de 1974), Cabo Verde (19
de dezembro de 1974) e São Tomé e Príncipe (25 e julho de 1975). O PAIGC foi reconhecido como
único partido no poder tanto na Guiné Bissau como em Cabo Verde, fomentando não apenas a
construção do socialismo, mas também a união das duas ex-colônias portuguesas que, a partir de
então, possuíam o mesmo presidente: Luís Cabral, irmão de Amílcar, assassinado pouco antes da
independência, ainda em 1973.
A instabilidade econômica nos dois países gerou desconfianças e dissidências, o que não apenas
auxiliou na instabilidade política como foi elemento primordial para a divisão entre os dois países
em 1980, após golpe de estado em Cabo Verde.
Entre setembro e outubro de 1974 são assinados o cessar-fogo em Angola e Moçambique
respectivamente. Em Moçambique, a FRELIMO chegaria ao poder após a assinatura dos Acordos de
Lusaka, formalmente ocorrida no dia 25 de junho de 1975.
Dissidentes da FRELIMO juntamente com ex-militares (ou colonos) portugueses buscam refúgio
na vizinha Rodésia. O regime de Ian Smith, racista semelhante àquele instalado na África do Sul, dá
apoio aos opositores do socialismo moçambicano que articulam a criação da Resistência Nacional
Moçambicana – a RENAMO. Em 1977 inicia-se a longa guerra civil no país.
Do exterior, a RENAMO buscava desestabilizar o regime socialista da FRELIMO, atacando
estradas, aldeias legalistas e disseminando o terror por meio de minas terrestres no interior do país.
Após a queda de Ian Smith e a criação do Zimbábue, os homens da RENAMO transferiram sua base
de atuação para a África do Sul, interessada esta na queda do socialismo vizinho não apenas por
questões ideológicas, mas também porque temia um possível fortalecimento do CNA. Esta era a
justificativa para a intervenção sul-africana na guerra moçambicana, incluindo ataques a Maputo.
Mesmo com a mudança de sua base, a RENAMO mantém os seguidos ataques que geraram muitas
dificuldades econômicas para o país.
Na década de 1980 a situação econômica se agrava. Com o setor agrícola fortemente afetado pela
guerra civil e a lenta decadência do bloco socialista europeu, Moçambique não vê outra alternativa
senão buscar auxílio no FMI. Este empresta dinheiro para o governo de Joaquim Alberto Chissano,
substituto do líder nacionalista Samora Machel que morrera em 1986, vítima de um acidente aéreo.
Em troca, a economia moçambicana atrela-se aos ditames do fundo, abandonando o socialismo a
partir de então.
O fim da bipolarização mundial, o abandono anterior da ideologia marxista por parte da FRELIMO
e, principalmente, a necessidade de solucionar o grave problema econômico, levaram a negociações
entre os dois movimentos, intermediadas pela Comunidade de Santo Egídio, organização católica
que tem como um de seus principais objetivos a promoção da paz, atuando em regiões como
Guatemala, El Salvador e Albânia.
Em 1992, o presidente Chissano e o líder rebelde Afonso Dhlakama assinam o Acordo Geral de
Paz, acabando com 25 anos de conflito entre os dois grupos. Sob a supervisão da ONU, o
desarmamento ocorre e as eleições gerais acontecem em 1994, iniciando um longo caminho para a
consolidação da democracia no país.
Em Angola, a negociação do cessar-fogo ocorre separadamente com os três principais
movimentos de libertação: MPLA, FNLA e UNITA. O Acordo de Alvor (janeiro de 1974), assinado
entre Portugal e os três movimentos de libertação, determina a criação de um governo de transição,
que organizaria eleições em outubro, e no dia 11 de novembro de 1975, data oficial da
independência do país, outorgaria o poder ao movimento vencedor nas urnas.
A partir deste momento, a luta a ser travada pelos movimentos é pela legitimidade: qual dos
movimentos deveria comandar o país? A utopia de um governo de transição parecia possível
somente para Portugal (afinal estes movimentos já lutavam entre si antes de Portugal entregar o
poder), e o primeiro semestre de 1975 apresenta rupturas dentro deste governo, com a quebra de
acordos e conflitos armados no interior do território.
A corrida pelo fortalecimento de suas posições e pelo poder faz com que os movimentos de
libertação nacional, que divergiam em aspectos étnicos, econômicos, políticos e em termos de
vínculos de solidariedade, passassem a se valer do antagonismo internacional para fortalecer suas
posições internas e conseguir o poder do país, aprofundando desta forma a luta interna pelo poder.
Começa a 2ª Guerra de Independência.
A FNLA finca raízes ao norte do país, e a ajuda do Congo de Mobuto, que, com armas (inclusive
chinesas) e apoio estratégico na fronteira, possibilitou o domínio desta região por parte das forças
de Holden Roberto. Ao sul, os membros da UNITA contavam com a ajuda de mercenários
ingleses(contratados juntos a uma empresa privada ligada ao M16), além da África do Sul. Este país
atende aos pedidos de Jonas Savimbi, decidindo ajudar o movimento mais fraco militarmente
naquele momento com tropas, campos de instrução, armamentos e 18 instrutores colocando em
prática a Operação Savannah em outubro71, pois temia a influência de processo de independência
angolana, liderada pelo MPLA (que já tinha tendências socialistas) na luta da Namíbia por sua
autonomia (país este que faz fronteira com Angola e que era dominado pela África do Sul) e também
que o futuro governo do MPLA impedisse a ação do capital sul-africano no país72.
Com estes apoios internacionais e também contando com a ajuda do capital estadunidense, que
era enviado por meio da CIA, a FNLA e a UNITA caminhavam a passos largos para a capital Luanda.
Na luta travada pelos movimentos pela conquista da capital Luanda no dia 11 de novembro (o que
“legitimaria” o comando do país), o MPLA conta com um importante aliado para permanecer neste
local: Cuba.
Sendo para muitos uma surpresa, o auxílio militar cubano aos socialistas do MPLA, a chamada
“Operação Carlota”, inicia-se com o envio de técnicos cubanos ao campo de batalha e é
incrementado no início de novembro de 1975. São pegas de surpresa as tropas da FNLA, da UNITA
e de seus aliados africanos da África do Sul e do Congo, e também os agentes da Central de
Inteligência Americana. Nem mesmo os soviéticos esperavam a ajuda contundente que o aliado de
longa data, Fidel Castro, prestou a seu amigo (como repetido inúmeras vezes ao longo de seus
discursos) Agostinho Neto, que possibilitou a este, às vinte horas do dia 11 de novembro, proclamar
a independência em Luanda.
O próprio Fidel Castro comandava os preparativos para a guerra, tais como a checagem dos
navios enviados para a África e ainda se arriscava a dar palpites sobre cada batalha em uma sala de
operações com mapas de Angola espalhados por todo lado com direito a pinos coloridos que
simbolizavam a movimentação das tropas. Era também Fidel que ministrava palestras para os
soldados que iam para a guerra, demonstrando um engajamento tal que poderia dissertar sobre
qualquer cidade do país ou mesmo seus costumes, como qualquer um nativo angolano73.
Nós estamos preenchendo nosso dever elementar do internacionalismo em Angola. Preenchendo
o dever nós não estamos fazendo um favor, mas simplesmente preenchendo um favor. Nós sempre
pensamos que se um homem não pode se sacrificar pelos outros, ele é incapaz de se sacrificar
para coisa alguma (aplausos). [...] a pessoa que não está disposta a se sacrificar pela liberdade dos
outros nunca estará pronta para lutar pela sua própria liberdade. (...).
Muitas coisas nos unem a Angola: a causa, os interesses comuns, política, ideologia. Mas nós
também estamos unidos por laços de sangue. (aplausos) E eu digo de duas formas: do sangue de
nossos ancestrais e do sangue que jorramos unidos no campo de batalha!(aplausos
prolongados)74.
Durante os meses de novembro e de dezembro os cubanos tentaram conter as tropas sul-
africanas, formando uma linha de defesa a menos de 200 milhas ao sul de Luanda. Sucessivas
batalhas foram travadas entre os dois lados, sendo a aliança (entre os cubanos e as FAPLA) vitoriosa
na maioria delas, destacando a ocorrida no dia 23 de novembro, chamada de “Black Sunday” pelos
sul-africanos, e a do dia 14 de dezembro, quando após derrotar as tropas inimigas e destruir a única
ponte que os separava a 14 milhas ao sul da estratégica cidade de Catofe, os cubanos sofreram um
grande contra-ataque sul-africano, rapidamente contido e transformado em uma das maiores
vitórias dos latinos em Angola75.
A reação da África do Sul era de total espanto com a reversão tão rápida da situação militar em
Angola. Jornais estampavam nas primeiras páginas o sucesso da “Operação Carlota”. Um dos mais
importantes jornais do país, o Cape Times, trouxe uma reportagem no dia 21 de novembro dizendo
que os comandantes da FNLA e da UNITA estavam muito admirados com a coragem(do que diziam
ser) mercenários de Cuba combatendo com o MPLA.
Enquanto o MPLA proclamou a República Popular de Angola, a FNLA e a UNITA, paralelamente,
criaram a sua República Democrática de Angola. Cada um reivindicava para si o título de governo,
mas o fato de estar em Luanda e dominar a maior parte das importantes regiões do país traz um
maior peso para o MPLA, que se torna o governo e obtém o reconhecimento de governos de
importantes países como o Brasil76.
O reconhecimento da independência de Angola por parte do Brasil foi fruto mais emblemático do
Pragmatismo Ecumênico e Responsável. Em um contexto de falência do Milagre Econômico, Ernesto
Geisel busca atender às necessidades comerciais brasileiras, estabelecendo relações diplomáticas e
comerciais com aqueles que pudesse atendê-las, independentemente de suas bases ideológicas. É o
momento em que o Brasil mais se afasta dos EUA no cenário internacional.
Seguindo a sua política, Geisel e o ministro das Relações Exteriores Antonio Francisco Azeredo da
Silveira reconheceram o governo do MPLA imediatamente após o 11 de novembro. Segundo Geisel,
o Brasil sabia da existência de tropas cubanas no país mas...
[...] Mas havia outros interesses. Em primeiro lugar, tratava-se de uma fronteira marítima nossa
e, em segundo lugar, os angolanos falam português, a nossa língua. Já disse que éramos a favor
das colônias portuguesas que se emancipavam de Portugal. Achávamos que nosso apoio a
Portugal nesse terreno tinha que mudar, inclusive porque somos anticolonialistas. [...] O
importante é que em Angola há petróleo!77.
Mais importante do que a declaração do presidente do Brasil, na época reconhecendo a
intervenção cubana em Angola, foi a entrevista concedida ao jornalista Elio Gaspari pelo
representante diplomático brasileiro no país entre 1974 e 1975, Ovídio de Melo. Nesta, o
representante fala abertamente sobre a relação entre EUA e FNLA:
Eles acreditaram que o MPLA era fraco. Acreditaram que a FNLA era um movimento poderoso.
Era uma ficção, subvencionada pela CIA. Eles pagavam US$ 300 mil ao Mobutu por informações.
Acreditavam no Mobutu78.
A internacionalização do conflito é aprofundada no final da década de 1970 e na primeira metade
dos anos 1980, com o discurso anticomunista de Ronald Reagan atingindo o território angolano,
chegando até mesmo ao ponto de anunciar ao congresso uma ajuda financeira de 15 milhões de
dólares à UNITA.
Porém, a pressão da opinião pública internacional contra o regime do apartheid abala o apoio às
movimentações sul-africanas dado pelo governo estadunidense, abrindo caminho para a resulução
diplomática da “Questão Angolana”. Também se insere neste contexto o histórico encontro entre
Ronald Reagan e Mikhail Gorbachov, onde as duas potências mundiais declaram o princípio da
“interação produtiva”, que seria a busca de soluções pacíficas e diplomáticas para com os conflitos
regionais que envolviam os interesses soviéticos e estadunidenses. Naquele dia 1º de julho de 1988
foi dado o início para os “Acordos de Nova York”.
Assinados os Acordos Tripartidos ou Acordos de Nova York, fica acertada a Resolução 435/78, que
decide pela retirada dos cubanos de Angola e o fim do apoio dos EUA à UNITA em troca de eleições
livres. A partir daquele momento, os esforços seriam voltados para o cumprimento das medidas
previstas nos Acordos.
A África do Sul retira as suas tropas de Angola e acerta a transição para a democracia e a
autodeterminação na Namíbia. O antigo sudoeste africano, colônia alemã até o final da Primeira
Guerra Mundial, quando sua administração fica a cargo da Liga das Nações, foi incorporado à União
Sul-Africana em 1946, conseguindo a independência, nesse contexto, em março de 1990, sob o nome
de República da Namíbia. Enquanto isso, os 50 mil cubanos, que estavam em Angola no momento da
assinatura dos Acordos de Nova York, retiram-se gradualmente até o início dos anos 1990,
cumprindo Havana um detalhado calendário faseado de retirada de seus homens.
A paz momentânea abriu espaço para que as urnas decidissem qual movimento ficaria no poder,
algo que não aconteceu em 1975. As eleições parlamentares ocorreram em 1992, sendo vitorioso o
presidente José Eduardo dos Santos, o sucessor de Agostinho Neto que chegara ao poder ainda em
1970. Jonas Savimbi não aceita o resultado das eleições e retoma as hostilidades militares. É
interessante observar que parte da UNITA aceita o resultado, ficando dividido este movimento.
Mais uma década de guerra civil impõe severas dificuldades econômicas para a ex-república
socialista. É somente em fevereiro de 2002 que finalmente a guerra acaba, quando o líder da
UNITA, Jonas Savimbi, é assassinado pelo exército regular no dia 22 de fevereiro. Dez anos depois,
“eleições democráticas” novamente acontecem para que os angolanos pudessem escolher o
mandatário do Executivo nacional. Novamente José Eduardo dos Santos, conhecido como “o velho”,
ganha nas urnas o direito de manter-se no poder e reconstruir um país assolado pelas minas
terrestres escondidas, milhares de mutilados e o descrédito de políticos que protagonizaram um dos
episódios mais violentos do século XX.
18
A AMÉRICA LATINA NO SÉCULO XX

18.1. CUBA
Nenhuma revolução poderia ter sido mais bem projetada para atrair a esquerda do hemisfério
ocidental e dos países desenvolvidos, no fim de uma década de conservadorismo global; ou para
dar à estratégia da guerrilha maior publicidade. A revolução cubana era tudo: romance, heroísmo
nas montanhas, ex-líderes estudantis com a desprendida generosidade de sua juventude – os mais
velhos mal tinham passado dos trinta –, um povo exultante, num paraíso turístico tropical pulsando
com os ritmos da rumba. E o que era mais: podia ser saudada por toda a esquerda
revolucionária79.
Desde o final da Guerra Hispano-Americana (1898), que após o incidente do Maine (uma explosão
no navio estadunidense ancorado em Cuba) contou com a participação militar dos EUA, Cuba tem
uma relação de submissão aos interesses estadunidenses. Diferentemente do proposto por muitos
políticos ao norte do Rio Grande no contexto do Destino Manifesto, a ilha caribenha não foi anexada
ao território dos Estados Unidos após a sua independência, mas prevaleceu o projeto apresentado
pelo senador Orvile Platt: uma emenda que autorizava uma intervenção militar estadunidense em
Cuba caso “os interesses recíprocos de ambos os países fossem ameaçados”. A emenda Platt (1902)
representava a restrição do exercício soberano da política cubana, fazendo da ilha uma espécie de
protetorado e conhecida como o “quintal dos Estados Unidos” até a década de 1930.
Dezenas de latifundiários de origem estadunidense se instalaram em Cuba explorando o setor
açucareiro, assim como empresários (principalmente ligados setor de serviços) e os mafiosos que
buscavam um lugar seguro para investir o capital ganho nos tempos da Lei Seca (1919). Mas tal
situação gerou descontentamento entre a população local, que realizou uma série de manifestações
contra a emenda que, segundo Fidel Castro afirmaria posteriormente, simbolizaria o “colonialismo
econômico”. Como as contestações cubanas não estavam isoladas no contexto latino-americano de
hostilidades contra o Corolário Roosevelt e cresciam os temores estadunidenses de uma possível
influência dos fascismos sobre o continente, o presidente Franklin Delano Roosevelt decide por
superar a política externa intervencionista de seu primo trocando-a por uma espécie de
“Imperialismo Sedutor” segundo Antonio Pedro Tota.
A Política da Boa Vizinhança substituía as intervenções diretas dos tempos do Big Stick pelo apoio
a governos pró-Estados Unidos. Não importava se estes eram democráticos ou ditatoriais, mas se
seguiam a cartilha de Washington. Em Cuba, a Emenda Platt seria retirada durante o governo
provisório do presidente Carlos Mendieta, sendo a base naval de Guantánamo (arrendada pelos EUA
por cerca de quatro mil dólares anuais) um resquício destes tempos de submissão.
Por trás do governo cubano a partir da Revolta dos Sargentos de 1933 estava Fulgêncio Batista.
Militar de formação, Batista liderou a revolta que destituiu o ditador Gerardo Machado (1925-1933)
e assumiu o comando das Forças Armadas do país sendo “de fato” o comandante da nação até 1940
(período chamado de “batistiano sem Batista”), quando foi eleito pela Coalizão Socialista
Democrática. Após o fim de seu governo em 1944, Batista exilou-se nos Estados Unidos alegando
questões de segurança. Entre Nova York e Miami continuou ativo na política cubana, retornando ao
país como senador eleito no final da década de 1940, abrindo espaço para a formação de uma nova
agremiação chamada Partido da Ação Progressista. Nas eleições de 1952 estava em terceiro lugar
nas intenções de voto quando optou por um golpe militar para chegar ao poder, acabando com a
frágil democracia que o país vivia desde 1944 com os governos de Grau San Martin (1944-1948) e
Prío Socarrás (1948-1952).
Era uma vez uma República. Tinha uma Constituição, suas leis, suas liberdades; possuía
presidente, congresso, tribunais; todo mundo podia reunir-se, associar-se, falar e escrever com
inteira liberdade. O governo não satisfazia o povo, mas o povo podia substituí-lo e só faltavam
alguns dias para fazê-lo (…) Certa manhã, a população despertou estarrecida….Não. Não era um
pesadelo. Tratava-se da triste e terrível realidade: um homem chamado Fulgêncio Batista acabava
de cometer o terrível crime que ninguém esperava80.
A Ditadura de Batista (1952-1959) possuía características comuns a muitas outras na América
Latina daqueles tempos: autoritarismo, repressão aos opositores e abertura ao capital
estadunidense como forma de desenvolvimento econômico. Mas os números atingidos em seu
governo chamam a atenção quando analisados friamente: quinto lugar em renda anual per capita;
segundo quanto ao consumo de energia e primeiro em relação à construção de estradas de ferro e
posse de televisores.
Porém tal desenvolvimento não podia ser desfrutado por todos. As desigualdades sociais
agravadas neste período serviram de catalizador para os movimentos que viram fechados os meios
democráticos para se chegar ao poder. Alguns destes optaram pela luta armada como principal
método de ação contra a Ditadura de Batista, como aquele liderado por um jovem advogado que
tentara a vaga de deputado pelo Partido Ortodoxo em 1952: Fidel Castro. Filho de um rico
fazendeiro de origem espanhola, Fidel estudou na Universidade de Havana e lá desenvolveu
atividades políticas estudantis.
Objetivando o retorno da democracia, articula um movimento armado que tomaria os quartéis de
Moncada e Bayamo e, a partir deste ato, decretar uma greve geral que resultaria em um movimento
insurrecional que levaria à queda de Batista. Cento e trinta e cinco homens, em sua maioria jovens,
participaram do fracassado ataque do Mancada. Fidel e seu irmão Raul Castro foram presos,
enquanto noventa outros revolucionários morreram em combate ou na repressão posterior às
prisões. Em sua defesa, Fidel expõe de forma detalhada os objetivos do movimento e detalhes de
como seria organizado o novo governo revolucionário81.
Condenado a quinze anos de prisão, reescreveu sua defesa, publicada com o nome de A História
me Absolverá, de forma clandestina. Sem dúvidas, este documento contribuiu para a eclosão de
movimentos populares pela sua libertação. Após sair da prisão, Fidel vê suas atividades censuradas
pelo governo e decide pelo exílio no México, onde encontraria condições mais adequadas para
organizar o MR-26 de julho (data do desastre do La Moncada, erro que jamais seria cometido
novamente segundo Fidel). Nos tempos passados na Cidade do México encontra o argentino Ernesto
Guevara, que decide ingressar como médico no pequeno barco de turistas Granma com outros 82
nacionalistas para derrotar Batista no dia 26 de novembro de 1956.
Ao chegarem à ilha, foram recebidos pelos homens do ditador, restando apenas 12 que se
refugiaram na lendária Sierra Maestra. Deste local, uma série de pequenas ações guerrilheiras são
articuladas divididas em três colunas lideradas por Fidel, Raul e Guevara. A escolha de Fidel Castro
pela ação do foco revolucionário em detrimento ao movimento democrático desarticulado, corroído
pela ideologia e desfavorável à mobilização total, que residia nos centros urbanos, ou seja, a ação da
guerrilha sempre esteve à frente do movimento urbano. A teoria de Fidel considera que a luta deve
ser lançada por um grupo restrito de revolucionários que não visa mobilizar o povo, mas sim
destruir o Estado. Posteriormente, a vanguarda militar que derrubou o regime dará lugar a uma
vanguarda política que controlará o país.
A guerra de guerrilhas elaborada pelo Movimento 26 de julho conta com a criação de condições
favoráveis à revolução, como o crescente ativismo político dos setores populares, a divisão na base
de sustentação do regime de Batista mediante o impacto favorável das mudanças sociais nas áreas
libertadas pelos guerrilheiros.
O crescente apoio popular o projeto revolucionário resultou na queda de Fulgêncio Batista na
noite de Reveillon de 1959. Poucos dias depois, Fidel Castro desfilava triunfante pelas ruas de
Havana. Enquanto a imprensa estadunidense exaltava os feitos dos guerrileiros, a diplomacia
preocupava-se com a retórica antiestadunidense de Fidel e, principalmente, com esquerdistas
notórios do movimento, como o argentino Guevara.
Em seus primeiros momentos, a Revolução Cubana era nacionalista. Fidel Castro tenta abrir
diálogo com o governo estadunidense. Aproveitando um convite da American Society Newspapers
Editors, Fidel viaja para os Estados Unidos. Demonstrando sua aversão à diplomacia para com a
América Latina, o presidente Eisenhower prefere jogar golfe a encontrar-se com o líder cubano, que
tem reunião com representantes do setor privado e com o vice-presidente Nixon, que acreditava
poder colocar Castro no “rumo correto”.
O curso da revolução não é alterado. Medidas reformistas como um amplo projeto de reforma
agrária, assim como o aumento dos salários, a diminuição de aluguéis residenciais e a
implementação dos direitos trabalhistas, que constavam no programa do MR-26 de julho, foram
executados. A repercussão é instantânea, criticando tais projetos tanto cubanos das elites como
proprietários estadunidenses que viam nestes uma ameaça aos seus lucros exorbitantes. Após
divulgação de nota oficial que demonstrava a preocupação com a Lei de Reforma Agrária cubana, o
governo estadunidense restringe a exportação de petróleo e reduz a cota de importação do açúcar
em 95%.
Ao entrar em Havana, sendo ovacionado pela população de seu país, Fidel Castro provavelmente
não estava pensando em uma das principais dificuldades do regime que acabava de fundar: a
legitimação internacional e, principalmente, as relações com os Estados Unidos da América. Poderia
se pensar que a capa da revista Times saudando os “barbudos” de Sierra Maestra ou a visita de
Fidel aos Estados Unidos seriam prenúncios de relações estáveis.
Em um curto espaço de tempo, as hostilidades de Washington demonstraram que não havia
disposição de colaboração com o regime castrista. Estas iniciaram-se com protestos contra o
julgamento e fuzilamento de soldados de Batista em La Canbaña. Daí seguem acusações de que os
principais líderes da Revolução eram comunistas (sem que estes tivessem assumido esta condição),
boicotes econômicos, agressões militares (com aviões estadunidenses sobrevoando e atacando o
país), oposição radical ao projeto de reforma agrária (que expropriava bens estadunidenses na ilha)
e, ainda no governo de Einsenhower, a articulação por parte da CIA de um projeto chamado
“Programa de ação secreta contra o regime Castro”, que continha inclusive a formação de uma força
paramilitar para derrubar Fidel82.
As relações só pioram ao longo de 1960 até culminar na decretação do embargo econômico no dia
19 de outubro. Cuba estava em uma situação preocupante, sofrendo ataques constantes de uma
potência mundial que está a pouco mais de 140Km de seu território e isolada no cenário
internacional. É com este quadro que acontece a aproximação de Cuba e URSS. Os soviéticos
aparecem como solução para os problemas econômicos da ilha, sendo gradativa a entrada de Cuba
na zona de influência soviética a partir da assinatura de um acordo comercial em 13 de fevereiro. A
invasão da Baía dos Porcos (batizada de “Operação Pluto”) serviu como um elemento catalisador
desta relação, culminando na declaração do caráter socialista da Revolução por Fidel Castro e o
tardio reconhecimento de Cuba como um país membro da comunidade socialista internacional em
11 de abril de 1962, através do jornal oficial Pravda83.
Em setenta e duas horas, sob o comando direto de Fidel na própria zona de ataque, o
desembarque foi frustrado, principalmente porque a previsão do governo norte-americano,
convencido pelos grupos exilados em Miami, de que a massa da população se somaria ao ataque e
derrubaria o governo revolucionário, não encontrou nenhuma confirmação na realidade, que, ao
contrário, evidenciou a disposição dos cubanos de defender maciçamente o governo84.
As desgastadas relações entre Cuba e Estados Unidos levam à aproximação de Cuba com a URSS.
Pouco os comunistas sabiam sobre a Amérca Latina, mas existia uma disposição de Cuba em
aprofundar estas relações. Pressionados militarmente (a CIA coloca em prática a Operação
Mangusto85), e também economicamente pelos Estados Unidos (o embargo econômico é instituído
em fevereiro de 1962), a maior potência comunista era uma solução para os problemas cubanos. Os
primeiros contatos em 1960 e a declaração de seu caráter socialista em 1961 resultam em acordos
bem acabados em 1962.
Acordos econômicos, como aquele em que Cuba vendia açúcar a preços altos para o Leste
europeu e comprava petróleo a preços baixos, são emblemáticos. Importante lembrar que, em 1972,
Cuba é incorporada ao Comecon, aumentando sua dependência com relação aos soviéticos.
Aproveitando tal relação, acordos militares também são realizados. Neste contexto, bases para a
instalação de mísseis atômicos russos são construídas em Cuba. Logo descobertas por aviões
espiões estadunidenses, o episódio da Crise dos Mísseis (outubro de 1962) transformou-se no
momento mais crítico da Guerra Fria.
Após negociações diretas entre a Casa Branca e o Kremlin, as bases são retiradas de Cuba,
enquanto os estadunidenses retiram seus mísseis obsoletos apontados para a União Soviética da
Turquia. Fidel não foi consultado por Kruschev, o que marcou de forma negativa as relações entre os
dois líderes até a queda do soviético em outubro de 1964. A distensão das relações entre as
potências se reflete em Cuba, pois as preocupações com uma possível invasão estadunidense
diminuem na medida em que a ilha busca afirmação no cenário internacional.
Em seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas em setembro de 1960, Fidel Castro
tinha como objetivo engajar Cuba na luta dos países que compunham o bloco terceiro-mundista,
procurando afirmar que a ilha sofria dos mesmos problemas que os países que aderiram ao
protocolo de Bandung em 1955. Desta forma, Fidel a todo momento procura realizar um paralelo
entre a luta de países como a Argélia e o Congo com os problemas internos dos cubanos, realizando
até uma curiosa associação entre o ditador do Congo Mobuto See-Seko e o ex-ditador cubano
Fulgêncio Batista. Outra temática bastante abordada por Fidel era o forte sentimento
antiestadunidense da Revolução Cubana e inserindo este no contexto das lutas afro-asiáticas, uma
vez que, se estes países lutavam contra as suas ex-colônias europeias, Cuba lutava contra os Estados
Unidos86.
Esta bandeira terceiro-mundista estendida pelo líder cubano nas Nações Unidas ocultava os
acordos que este vinha traçando com a URSS durante os anos de 1960 e 1961, que culminaram na
entrada (como já abordamos) de Cuba na comunidade socialista internacional, com acordos
militares (tropas soviéticas, armamentos no país etc.) políticos e econômicos. Afinal de contas, em
que lado está Fidel?
Na verdade, o discurso nas Nações Unidas e a aproximação com a URSS sedimentaram as bases
para a política externa cubana na primeira metade da década de 1960. Uma política onde Cuba
procurava entrar juntamente com o continente americano no bloco dos países terceiro-mundistas,
formando a Tri-Continental e assinalando um importante papel do país e de seu líder nas Nações
Unidas, podendo ser no futuro um centro de poder (Fidel almejava um assento ao lado de líderes
como Frantz Fanon, Léon Damas, René Depestre e Nasser). O discurso cubano ressaltando a sua
origem africana serviria como uma ponte entre o país e o continente negro, legitimando desta forma
a sua entrada e força ao lado dos não alinhados87.
A entrada cubana ao lado dos países terceiro-mundistas seria parte do plano castrista de
consolidação de Cuba em um mundo bipolarizado: uma vez exercendo liderança sobre o bloco dos
não alinhados, Cuba seria importante aos soviéticos em uma tentativa de trazer África para sua
órbita de influência; e fazendo parte da comunidade socialista teria a tão esperada “imunidade”
perante as agressões estadunidenses, o que garantia ao país uma relativa tranquila com relação aos
perigos de uma nova “Operação Pluto” em seu território.
A visita do presidente da Guiné Séku Touré’s a Cuba e a morte de Patrice Lumumba deram aos
cubanos oportunidade de realizar as primeiras operações no continente africano. O discurso de
Castro nas Nações Unidas deixava claro as suas intenções e a morte de Lumumba mostrou ao
mundo as atrocidades cometidas pela coalizão imperialista no Congo, legitimando futuras ações
cubanas no país e consequentemente no continente. Segundo Che Guevara, “a situação no Congo
era um problema de toda a humanidade” e, é claro, também de Cuba. A visita do presidente Touré’s
estabeleceu sólidas relações diplomáticas, que resultaram em 1961 na chegada do primeiro
contingente de estudantes africanos ao país.
Já o primeiro navio cubano carregado de armas e pronto para ajudar um coirmão africano chegou
a Casablanca em dezembro de 1961, e tinha como destinatário os rebeldes argelinos, voltando
carregado não de armas, mas sim de crianças e combatentes oriundos de um campo de refugiados.
Começava uma longa relação de Cuba não só com um país, no caso a Argélia, mas sim com todo um
continente com um grande potencial revolucionário.
Após o final da crise dos mísseis em 1962, que deixou Fidel Castro muito insatisfeito com o líder
da URSS Nikita Kruschev (este afirmava que o único perdedor com o final deste episódio tinha sido
Cuba), as relações entre os dois países deterioram-se e o resultado deste distanciamento foi uma
política externa mais agressiva de Cuba em relação à África, com o objetivo de exportar a revolução,
o que ia de encontro com o planejamento soviético para a região.
Nesta nova fase das relações entre Cuba e África, há o envio de tropas para ajudar o líder da
Argélia Ben Bella em sua luta contra o Marrocos. Aproximadamente dois mil negros cubanos
participam desta ação em 1963. Anos depois, uma viagem de três meses para o continente do ícone
socialista Che Guevara aprofunda os entendimentos entre a ilha e o continente negro, uma vez que
há encontros entre Che e os principais líderes dos movimentos de libertação africanos e também
importantes chefes de estado. Nestes encontros, foram traçados planos de ajuda para movimentos
como o MPLA (que aprofundaremos mais adiante), mas o principal objetivo era estabelecer as bases
para uma intervenção direta na guerra civil no Congo88. No ano de 1965, Che Guevara
pessoalmente liderou uma coluna de 120 homens que entraram no Congo por meio da Tanzânia,
enfrentando condições de luta que desapontaram o mártir latino-americano, tanto que esta aventura
ficou conhecida como “o ano perdido no Congo”89. A experiência congolesa foi um desastre, o que
não desestimulou o guerrilheiro, que acaba assassinado na Bolívia.
O fracasso da operação no Congo e também na Bolívia (e a consequente morte de Che Guevara) e
os problemas internos enfrentados pela ilha como a crise energética e de combustível, frutos de um
corte punitivo do fornecimento por parte da URSS (deixando bem claro a dependência econômica do
país em relação a potência socialista), mostram, em meados de 1968, que a estratégia castrista de
estabelecer uma maior independência em relação à URSS e realizar uma política mais agressiva
com relação a África (e também América) falhou. Ficou claro que Cuba necessitava dos soviéticos e
para obter esta ajuda teria que “seguir as orientações” do Kremlin90.
É então após 1968 que a política africana de Cuba vai ao encontro com os interesses soviéticos na
região. É neste momento que as relações dos dois aliados voltam-se para a luta entre as colônias
portuguesas e o imperialismo salazarista. Os movimentos de libertação que tinham o socialismo
como horizonte para uma “Nova África” terão ajuda militar e política não só da URSS, mas também
dos cubanos, que mais uma vez evocam as raízes africanas, “la cubanidad”, para consolidar a sua
influência na região e fincar a bandeira do socialismo no continente91.
Nos anos 1980, a crise no leste europeu chega também a Cuba. Ainda no governo Andropov a
cooperação militar com Cuba tem refluxo significativo, enquanto com o processo de Perestroika os
acordos econômicos que sustentavam a Revolução foram suspensos. Com o fim do socialismo real,
os principais parceiros comerciais de Cuba agora estavam mais preocupados em integrar-se ao
sistema capitalista, o que resulta em escassez de alimentos e energia na ilha caribenha.
Cuba vive o chamado Período Especial em Tempos de Paz, na década de 1990. A fome e os
constantes apagões em Cuba, juntamente com o incremento do embargo econômico estadunidense
com as Leis Torricelli e Helms-Burton, dificultam muito as condições de vida do povo. Ataques da
opinião pública internacional criticando a violação dos direitos humanos são maiores e a Revolução
parecia fadada ao fracasso em meados da última década do século XX. A saída foi uma “reinvenção”
do processo: a implementação de join-ventures, um significativo afluxo de capitais com a abertura
ao turismo, e o incremento das relações com a Venezuela de Hugo Chávez deram uma sobrevida ao
regime de Fidel Castro.
Após a renúncia por motivos de saúde em 2008, Fidel passa seus poderes ao irmão Raul Castro,
que desde então procura modernizar Cuba, por meio de medidas de maior abertura econômica.
Provavelmente somente os efeitos do “deus cronos” promoverão mudanças mais profundas na ilha
onde os Buick, Chevrolet Bel-air e Dodge ainda circulam como nos anos 1950.
18.2. CHILE
Na década de 1960, o Chile vivia sob um governo do Partido Democrata-Cristão. Eduardo Frei
Montalva (1964-1970) foi eleito em 1964 com uma proposta de promover reformas econômicas
juntamente com a ordem, controlando os movimentos de esquerda como o MIR (Movimento da
Esquerda Revolucionária). Porém pouco fez neste sentido e, mesmo mudanças legislativas
significativas, como a aprovação da Lei da Reforma Agrária aprovada em 1967, não saíram do papel.
Desgastado após anos no poder, não consegue influenciar de forma decisiva no processo eleitoral
de 1970. Neste, surge uma frente de esquerda que procurava associar o reformismo social com a
democracia, possuindo até mesmo uma certa retórica demagógica, prometendo em seu programa
um litro de leite e um médico de família ou mesmo o pleno emprego aos chilenos. Dentro da
Unidade Popular uma questão era levantada: quem seria o candidato? O candidato natural, Salvador
Allende, estava desgastado após três derrotas eleitorais consecutivas.
Após a confirmação do nome de Allende, a campanha toma as ruas do Chile. Os opositores
indicam Rodomiro Tomic (Partido Democrata-Cristão), que consegue 28% dos votos e o segundo
colocado do processo eleitoral, Jorge Alessandri (Partido Nacional), obtém 35, 29% dos votos.
Allende consegue 36,63% dos votos e, como a diferença de votos foi pequena, o Congresso tinha que
confirmar o resultado das urnas, o que foi feito como tradição de longa data.
Salvador Allende assume o poder em novembro de 1970. Apesar das ações da CIA para tentar
impedir a posse do socialista, o Exército legalista liderado pelo general Carlos Prats garante a
normalidade do processo, sendo consolidada a “Via Chilena para o Socialismo”. Nos primeiros
meses de governo, mesmo com a oposição da burguesia e dos Estados Unidos, que mantiveram
agentes da inteligência no Chile, o crescimento econômico era notório.
Entretanto, foi durante o governo Allende que o discurso de aproximação com a América Latina
ganhou mais força. Allende destacou-se pela implantação de medidas de grande impacto, que
fizeram com que o período se tornasse conhecido como “a experiência socialista de Allende” ou,
simplesmente, “a experiência chilena”. Seu governo ficou assim conhecido, pois, após ter chegado
ao poder pela via democrática, procurou instalar medidas socialistas, dentre as quais, merece
maior atenção a nacionalização da exploração mineira – com destaque para o cobre – e a reforma
agrária92.
A nacionalização das mineradoras no chamado “dia da dignidade nacional” e o controle acionário
dos bancos através da oferta ofensiva de ações são símbolos destes novos tempos socialistas. Com a
base na Lei de 1967, Allende implementa a reforma agrária de fato no país. O aumento da renda da
população e o aumento do PIB resultam no apoio da classe média no ano de 1971. Eram os “Anos
Dourados”do socialismo chileno, atraindo a atenção das esquerdas de todo o mundo. O Chile era
uma espécie de “Oásis das esquerdas”, especialmente as latino-americanas93. Diversos foram os
brasileiros que participaram desta experiência de um socialismo democrático, até mesmo exercendo
cargos no governo, como Darcy Ribeiro.
Entre 1972 e 1973 o modelo apresenta sinais de deteriorização. De um lado, as esquerdas
acreditavam que as reformas poderiam ser mais aceleradas, promovendo ações radicais que,
segundo Peter Winn94, levam a uma “revolução de baixo”, protagonizada pelos movimentos
populares, com destaque para o MIR. Nas direitas, uma articulação entre a burguesia, o alto clero e
os Estados Unidos, que incentivaram um bem-sucedido boicote econômico, que gera uma grave
escassez de alimentos.
Manifestações crescentes nas ruas pró e contra o governo geraram um clima de incerteza e
polarização política. É neste contexto que setores do Exército, influenciados pela doutrina de
segurança nacional, auxiliados pelos agentes do Governo Médici (1969-1974), promoveram o golpe
militar. Allende resiste até o fim e somente deixa o Palácio La Moneda morto.
O general, chefe do exército, implantou, em 1973, uma das mais violentas e sanguinárias
ditaduras latino-americanas [...] mineiros, dirigentes sindicais e políticos de esquerda foram
presos, torturados, mortos, jogados nos rios ou enterrados nas minas [...] O Chile deixou de ser
um país democrático e entrou no rol das ditaduras militares, predominantes na América Latina95.
Líder do golpe militar chileno, Augusto Pinochet comanda o triunvirato que domina o Executivo
chileno durante a Ditadura Militar (1973-1990). Ao chegar ao poder, os militares iniciaram uma
verdadeira “caça às bruxas”, perseguindo de forma indiscriminada todos aqueles que se
identificavam, de alguma forma, com o governo socialista de Allende. Um dos principais palcos
desta barbárie foi o Estádio Nacional, transformado em uma grande prisão onde torturadores
brasileiros auxiliaram os militares chilenos recém-empossados.
A DINA (Diretoria de Inteligência Nacional), polícia política de Pinochet, é um dos principais
sustentáculos do regime que busca cooperar com as suas coirmãs latinas. O Plano Condor, criado
neste contexto, seria uma forma de integração dos aparelhos repressores dos regimes do Brasil,
Uruguai, Paraguai, Argentina e Chile.
Enquanto isso, o apoio da maior parte da população é viabilizado pelo crescimento da economia.
Logo nos primeiros meses, a Ditadura Militar tratou de reverter o processo de nacionalizações
promovidas por Allende: mais de 170 empresas são privatizadas somente no primeiro ano do
governo. A partir de então, a progressiva retirada do Estado da economia, simbolizada pela
autonomia do Banco Central ou mesmo pela redução das barreiras alfandegárias, atrai capitais
estrangeiros que auxiliam no “Milagre Chileno”.
A década de 1980 traz consigo não somente um agravamento da crise econômica no sistema
internacional, mas também uma onda de redemocratizações na América Latina. Isolado
politicamente, o governo chileno propõe um plebiscito, acreditando assim poder legitimar a
presença dos militares no poder. Não esperavam os donos do poder com a hábil campanha pelo NÃO
no plebiscito, que reuniu todos os elementos opositores e, usando táticas de propaganda, conseguiu
levar os insatisfeitos às urnas para derrotar o governo Pinochet de forma democrática.
Controlando o processo de transição para a democracia, os militares buscaram meios de não
serem responsabilizados pelos abusos nos anos da Ditadura. Por exemplo, Pinochet é colocado como
senador vitalício, com imunidade parlamentar. Somente nos anos 2000 o “ajuste de contas” inicia-se,
sendo importante salientar que ditador líder pouco enfrenta a justiça antes de encarar a morte.
18.3. NICARÁGUA
Desde o início do século XX a América Central foi escolhida como alvo do imperialismo
estadunidense. Dentre seus países, a Nicarágua destaca-se pelas sucessivas intervenções diretas de
mariners (fuzileiros navais) que colocavam no poder políticos ligados aos seus interesses políticos e
econômicos.
Insatisfeitos com a intervenção estadunidense em seu país, democratas e liberais, liderados por
César Augusto Sandino, resistiam por meio do Exército da Soberania da Nicarágua, destacando-se o
massacre da pequena cidade de Ocotal em julho de 1927, com 300 mortos acusados de adesão ao
Sandinismo. Nos anos 1930, a Política da Boa Vizinhança modifica a forma de hegemonia
estadunidense sobre a América Latina. Na Nicarágua, entre 1934 e 1936, o chefe da Guarda
Nacional Nicaraguense96 Anastácio (“Tacho”)Somoza usurpou o poder, esmagou a oposição liberal
(simbolizada pelo assassinato de Sandino) e serviu aos interesses do Tio Sam.
A partir de então inicia-se uma ditadura familiar no país, uma vez que de forma direta ou indireta
a família Somoza controla o país. Os dois filhos de Anastácio, Luís (1956-1963) e Anastacio Somoza
Debayle (1967-1972/1974-1979), sucedem o pai no comando da Nicarágua, mantendo o perfil
autoritário e repressor do progenitor, associando-se aos interesses do capital estadunidense,
podendo assim o país ser encaixado no perfil “República das Bananas” cunhado pelo cronista
estadunidense O. Henry em 1904.97
O exemplo da Revolução Cubana inspira parcela da população nicaraguense. No início da década
de 1960, Carlos Fonseca Amador e estudantes radicais ligados ao Partido Socialista Nicaraguense
organizam um movimento guerrilheiro inicialmente denominado Guerra Popular Prolongada,
posteriormente transformada em Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Fonseca, que
teve apoio de Che Guevara em sua primeira coluna guerrilheira, buscava desde o início o apoio de
camponeses, burguesia e operários.
Reagindo à mobilização das esquerdas, a Nicarágua não somente integrou o Conselho de Defesa
Centro-americana (Condeca), órgão liderado pelo Pentágono com o intuito de evitar novas
revoluções nacionalistas, como cedeu Manágua para sede do conselho.
Em 1972 um terremoto abalou Manágua e regiões viznhas, destruindo cerca de 90% do centro
comercial da capital do país e deixando cerca de 10 mil mortos. Auxílio humanitária de todas as
regiões do mundo chegaram ao país, mas de forma surpreendente foram desviados ou controlados
de alguma forma por “Tachito” Somoza, que dominava o país neste momento. Um dos escândalos
revelados possuía ligação com Cuba. Mobilizados por Fidel e seu discurso terceiro-mundista,
milhares de cubanos doaram sangue às vítimas do terremoto na Nicarágua, mas o que se assistiu foi
a venda das doações a importadores estadunidenses pelo filho do presidente que, no período, era
diretor do Banco de Sangue Nicaraguense.
Neste contexto, os sandinistas alteram sua estratégia de luta ao levá-la às cidades, conseguindo o
apoio de setores do clero católico e da classe média e, na medida em que “Tachito” desgastava a sua
imagem e crescia a crise econômica, a própria burguesia aceita uma aliança com a Frente
Sandinista. Em 1978, o assassinato do jornalista liberal Pedro Chamorro por seguidores de Somoza
foi o estopim para a revolução98.
Unificados internamente, os sandinistas conseguem avançar do sul em direção a Manágua. No
exterior, recebem apoio internacional, destacando a atuação de trotskistas colombianos que atuam
diretamente no conflito, formando a Brigada Simón Bolívar. Por outro lado, o governo estadunidense
pede a intervenção militar da OEA que não se concretizou. Enquanto isso, o Pacto Andino
(Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia) reconhece a FSLN como legítima combatente em um estado
de beligerância.
A evolução dos fatos leva ao isolamento interno e externo do governo de Somoza. Alexander
Brasil Ceci assim descreve a situação na Nicarágua na metade de 1979:
A ditadura Somoza agonizava, e o sucesso da revolução avançava a passos largos. “Tachito” e a
Guarda Nacional começaram a articular verdadeiros “banhos de sangue”, a chamada “Operação
Massacre” (…) A OES, com exceção do Paraguai e da Guatemala, exigiu que Somoza renunciasse.
O novo embaixador americano na Nicarágua, Lawrence Pezzullo, sugeriu também a renúncia do
ditador99.
No dia 17 de julho de 1979, completamente isolado, “Tachito” abandona e país rumo aos Estados
Unidos. Dois dias depois, chegava ao poder a Revolução Sandinista, sendo formado o Governo de
Reconstrução Nacional, que nos primeiros dias tem o reconhecimento externo de diversos países
latino-americanos.
Após a chegada ao poder, os sandinistas esvaziam o radicalismo do período revolucionário. O
primeiro governo provisório (chamado de Governo de Reconstrução Nacional) era composto por
elementos de diversas origens políticas e sociais, desde o ex-guerrilheiro Daniel Ortega até Sérgio
Ramirez, advogado pós-graduado em Kansas que contava com a simpatia da imprensa
estadunidense. Dentre as primeiras medidas estavam a nacionalização dos haveres dos Somoza e do
comércio exterior, as dissoluções da Guarda Nacional e do Congresso Nacional e, também, eleições
nas grandes cidades.
Os novos governantes não tinham experiência administrativa: pediram sugestões aos cubanos.
Estes preferiram não dar conselhos. Remeteram à Nicarágua a lista de erros cometidos por Cuba
em seus primeiros anos de revolução. Sublinharam: não fazer investimentos sociais acima da
produtividade real. Toda revolução tem bom coração. Quer dar bem-estar ao povo, aumentar os
transportes, contruir áreas de esporte, desenvolver a rede hospitalar, multiplicar as escolas,
pagar bem aos professores, facilitar a aquisição de gêneros de primeira necessidade, suprimir
impostos. Porém, que isso não se faça de forma paternalista, por iniciativa do Estado100.
Com a chegada dos republicanos ao poder nos Estados Unidos, os empréstimos da época de
Carter foram substituídos por uma crescente pressão sobre os sandinistas, exigindo a ONU que o
país fosse uma democracia. Nem mesmo o compromisso dos sandinistas de respeitar uma
representação policlassista, que objetivava passar confiabilidade à comunidade internacional, foi
levado em conta. Empréstimos foram suspensos e João Paulo II demonstra sua oposição ao novo
regime exigindo, inclusive, a demissão daqueles ligados à Teologia da Libertação que tinham cargos
no governo em 1981 (posteriormente suspensa).
Contatos estabelecidos entre os ex-membros da Guarda Nacional e funcionários do governo
estadunidense evoluíram e, pouco mais de dois anos depois da chegada dos sandinistas, é formada a
guerrilha dos contrarrevolucionários. De um apoio discreto, o Governo Reagan (1981-1989) não só
financiou os “Contra”, mas também chegou a oferecer abertura de fronteiras para o treinamento em
terras estadunidenses dos insurgentes. Críticas da imprensa levaram ao recuo do ex-ator, que
chegou a chamar os rebeldes de “lutadores pela liberdade”.
Em 1984 eleições colocam Daniel Ortega na presidência do país de forma democrática, sendo
assim um anteparo para as críticas externas. Mas os próximos anos apresentaram uma série de
obstáculos para os sandinistas, como as destruições e gastos resultantes da guerra civil, a
resistência dos camponeses ao projeto de reforma agrária implementado no país e a gradual
oposição burguesa mesmo com os constantes acenos dos socialistas a esta classe.
Um quadro de hiperinflação, que superava a barreira de mil por cento ao ano no final dos 1980,
aumentou a insatisfação popular ao governo. Quando chegaram as eleições de 1990, a oposição
liberal liderada por Violeta Chamorro consegue o executivo nacional. Era o ponto final da primeira
experiência sandinista no poder nicaraguense, uma vez que estes retornam em 2006 com discurso
renovado e adaptado ao contexto da ascensão das “novas esquerdas” na América-Latina.
18.4. MÉXICO
Único país da ex-América Espanhola a passar por uma breve experiência monárquica após a sua
independência, o México manteve muitas das estruturas políticas e sociais da época colonial,
principalmente o latifúndio e a exclusão social indígena. Um dos primeiros movimentos no sentido
oposto foi liderado pelo advogado de origem indígena Benito Juárez, que chega ao poder em 1859 e
promove uma série de reformas liberais, tendo como um dos principais alvos a maior latifundiária do
México: a Igreja Católica.
Em meio à nacionalização dos bens do clero e à divisão das terras no país, Juárez e os mexicanos
são surpreendidos com o projeto expansionista napoleônico. Napoleão III aspirava resturar o
Império e para tal indicou o arquiduque austríaco Maximiliano, que tinha o apoio dos conservadores
europeus para retomar a influência perdida sobre o continente. O rei mexicano nunca conseguiu
governar de forma estável o país, sendo deposto ainda na década de 1860 pelas forças liberais
mexicanas.
Na década seguinte, Porfírio Díaz surge como principal figura política do país, chegando ao poder
em 1876. Seu discurso é modernizador: chegou a criar leis para inserção social dos indígenas (que,
na prática, não saíram do papel), promoveu um intenso desenvolvimento capitalista investindo em
infraestrutura (estradas de ferro foram construídas, por exemplo), proporcionando a intensificação
do comércio externo e uma maior industrialização do país. Politicamente, o perfil oligárquico e
personalista marcaram as mais de três décadas em que porfírio Díaz esteve à frente do Executivo
mexicano (com uma pequena interrupção entre 1880 e 1884, quando era uma espécie de “eminência
parda”durante o governo de Manuel Gonzáles).
Para as oligarquias que governavam juntamente com Díaz, não interessava alterar o perfil da
inserção do México na divisão internacional do trabalho. Logo, um dos pontos mais controversos na
política econômica era a abertura aos Estados Unidos, fato este criticado fortemente pelo
empresariado local, insatisfeito com a concorrência predadora estadunidense. Ao norte do país,
setores como o minerador, eram completamente dominados por aqueles que vivem acima do Rio
Grande.
O governo de Porfírio Díaz sofre forte oposição da classe média, que não se vê representada pelo
governo oligárquico; pelo empresariado mexicano, que desejava maior proteção perante a
hegemonia econômica estadunidense; e pelo campesinato, que sofre nas mãos dos grandes
proprietários de terra e tem como principal bandeira a reforma agrária. No apogeu do porfiriato, a
maior parte da população mexicana convivia com a miséria, aproximando-se dos limites mínimo de
sobrevivência.
A repressão era utilizada de forma indiscriminada por Díaz, sustentada por oficiais que apoiavam
seu projeto de governo – eram os chamados científicos, que eram influenciados pelo positivismo
francês. No início do século XX a insatisfação contra o desgastado governo do septuagenário Díaz
era grande, organizando-se a oposição principalmente no Centro Antirreeleicionista, liderado por
Francisco Madero.
A campanha antirreeleição ganha força não esperada pelos adeptos do porfirismo. Madero
apresentava-se como uma opção viável para diversos setores e a possibilidade de derrota de Díaz
era cada vez maior, mesmo tendo este toda a máquina eleitoral a seu favor. Em tentativa
desesperada de enfraquecer a campanha antirreeleicionista, o juiz de San Luiz de Potosí acusa
Madero de incitar a rebelião e o aprisiona. Mesmo libertado pouco mais de um mês depois, a
campanha estava prejudicada, favorecendo mais uma eleição de Díaz em meio a diversas denúncias
de fraudes eleitorais.
Forçado a exilar-se, Madero não se conforma com os rumos do processo eleitoral e decide por
uma movimentação armada contra Díaz. Dos Estados Unidos, lança o Plano de San Luíz de Potosí,
onde convocava o povo mexicano à insurreição armada, prometendo proteção aos trabalhadores
urbanos e terras ao campesinato. Juntamente com militares insatisfeitos, como Pascual Orozco,
Madero lidera o longo processo que leva ao fim do porfiriato, marcando este o início da revolução
mais marcante na América Latina na primeira metade do século XX.
18.4.1. Processo insurrecional (1911-1917)
Os embates armados entre as tropas legalistas e os revolucionários mexicanos foram travados
entre novembro de 1910 e maio de 1911. Ao final, Díaz é obrigado a renunciar ao cargo de
presidente mexicano no dia 25 de maio de 1911, abrindo espaço para um governo de transição
liderado por Francisco L. De la Barra que, em dezembro de 1911, organiza as eleições
extraordinárias, onde Madero consegue 99% dos votos.
Tendo como principal obstáculo a expectativa gerada pelas suas inúmeras promessas
apresentadas no Plano Ayala, o governo Madero é marcado pela forte instabilidade política. Sua
primeira dificuldade é com os vizinhos ao norte do Rio Grande, uma vez que este implementa as
medidas nacionalistas exigidas pelo empresariado mexicano desde os tempos de Díaz. Por outro
lado, as forças populares que atenderam o pedido de Madero em 1910 sentiam-se traídas pois as
medidas sociais foram completamente ignoradas pelo novo presidente.
Sindicatos fazem inúmeras mobilizações contra Madero, que também enfrenta a resistência
campesina sulista. Liderados pelo popular Emiliano Zapata, filho de um pequeno proprietário da
região de chinampas, estes exigem uma reforma agrária imediata ao sul que respeitasse a pequena
propriedade indígena – os chamados ejidos. No Plano Ayala, Zapata afirma que o povo mexicano
precisa de Terra e Liberdade, transformando-se estas nas palavras de ordem no sul do país.
Problemas políticos, econômicos e sociais dos tempos do porfirismo não eram enfrentados.
Persistiam o controle político/social dos grandes latifundiários em suas localidades – o caciquismo
mexicano – agravando a exploração dos pequenos camponeses que clamavam por reformas. Nas
cidades, os trabalhadores urbanos se associaram de diversas formas, sendo a mais destacada a Casa
do Operário Mundial, que exerceu influência significativa sobre o proletariado nos primórdios do
processo revolucionário.
Sem respaldo popular e enfrentando opositores em todas as regiões, Madero era alvo fácil para os
conspiradores do Exército. Estes contaram com o auxílio direto da embaixada estadunidense. O
governo republicano de William Taft almejava limitar os alcances da Revolução Mexicana, a ponto
que seus interesses no vizinho não fossem prejudicados, principalmente aqueles ligados à indústria
petrolífera (o aumento de impostos para as estrangeiras que atuavam neste setor contrariou os
investidores estadunidenses). A promessa de apoio por parte do embaixador Henry Lane Wilson ao
golpe militar contra Madero, o chamado Pacto da Embaixada (ou Pacto da Cidadela), é um dos
vários exemplos da Política do Big Stick estadunidense.
Em poucos dias de mobilização golpista, por isso conhecida como “Dezena Trágica”, o governo
eleito em dezembro de 1911 é deposto. Comandado pelo general Victoriano Huerta, o movimento
militar não apenas retira Francisco Madero da presidência como retira a sua vida e a de seu vice,
Pino Suárez.
A Ditadura Militar que se seguiu à queda de Madero suspendeu todas as garantias constitucionais
que vigoravam no México. Com o apoio das elites eclesiásticas, rurais e militares, Huerta enfrenta a
resistência dos governadores de Sonora e Coahuila, sendo este último o destacado Venustiano
Carranza, e uma inesperada mudança de posição estadunidense. A chegada de Woodrow Wilson e a
nova política externa adotada por este, chamada de Nova Liberdade, que pregava a difusão de
nações democráticas no continente, afastaram os estadunidenses dos golpistas de fevereiro de 1913.
Mesmo buscando uma maior aproximação com a Inglaterra como forma de contrabalancear as
hostilidades vindas do Norte, Huerta enfrentou muitos problemas. Para além da redução dos
investimentos diretos e outras pressões de natureza econômica, o Departamento de Estado aprovou
a intervenção direta de mariners em Tampico e Vera Cruz. O rompimento de relações diplomáticas e
o bloqueio comercial foram consequências imediatas, sendo a Conferência Pan-Americana de Niagra
Falls marcada pela tentativa de mediação por parte do efêmero grupo ABC (formado por Argentina,
Brasil e Chile).
Internamente, a instabilidade era crescente. Ao Norte e Nordeste do país, populares eram
mobilizados por Pancho Villa, realizando ações contra os grandes latifundiários e também atacando
propriedades de estadunidenses. O Exército Constitucionalista, rebelde, era liderado por Venustiano
Carranza no Sul do país que, por meio do Plano de Guadalupe, afirmava lutar contra o governo de
Huerta. O controle das forças legalistas limitaram as ações contra a Ditadura, conseguindo Zapata
mobilizar cerca de 8 mil homens por volta de março de 1914. Para alguns, a Revolução Mexicana
popular começa de fato neste momento. Huerta perde posições e, pouco mais de um ano após
derrubar Madero, em 15 de julho de 1914, anuncia a sua renúncia ao Congresso.
Com o fim da ditadura, uma intensa luta entre as diversas facções formadas ao longo do processo
revolucionário ocorre. Com o apoio das forças chamadas de constitucionalistas, Carranza consegue
o reconhecimento de figuras como Obregón para se declarar presidente do país (20 de agosto de
1914). Emiliano Zapara e Pancho Villa mantinham-se em revolução, sendo a ação mais espetacular
deste período a entrada de 50 mil combatentes liderados pelos dois na Cidade do México no dia 6 de
dezembro de 1914, sendo a foto destes no Palácio Nacional a mais emblemática da Revolução.
Tentaram indicar Eulalio Gutierrez para a presidência do país em oposição a Carranza, mas logo
foram derrotados pelos constitucionalistas.
Nas cidades, ao longo de todo o ano de 1915, foram estabelecidos os Batalhões Vermelhos
formados por operários. O desemprego e a crescente inflação atingiam principalmente as classes
mais baixas, levando esses trabalhadores a denunciarem o caráter burguês do governo carrancista.
Os atritos resultaram em uma crescente repressão governista, sendo a pena de morte e a expulsão
de líderes operários de origem espanhola algumas das medidas tomadas contra o proletariado.
Em meio à “revolução popular” nos campos e nas cidades, o governo de Carranza responde
promovendo algumas medidas populares, como a regulamentação da distribuição de terras
improdutivas, a proteção de sindicatos e também a restrição da prática da peonagem nos campos.
Ao mesmo tempo, convoca uma Convenção Constituinte, em Querétaro, buscando uma
institucionalização da Revolução. Tal Assembleia não era democrática, uma vez que somente
deputados ligados aos constitucionalistas poderiam participar, mas encheu de esperanças grande
parte da população mexicana, afinal seria a primeira sem elementos das oligarquias latifundiárias e
membros do clero.
Resultado de meses de trabalho dos constituintes, a nova carta constitucional era inspirada
naquela realizada nos Estados Unidos e nas francesas. A ideia era absorver o elemento nacionalista,
popular e antilatifundista do processo revolucionário iniciado em 1910. O resultado é uma
constituição extremamente progressista para a época, estabelecendo a igualdade jurídica universal
– inclusive abrangendo os indígenas, leis trabalhistas (como a jornada de oito horas de trabalho,
fixação do salário mínimo e a regulamentação do salário de mulheres e crianças), voto universal
amplo e a confirmação do Estado laico (além da separação entre o Estado e a Igreja, o artigo 130
determina que os membros do clero não poderiam participar da política mexicana ou mesmo tornar-
se proprietários).
Principal reivindicação dos camponeses mexicanos, a reforma agrária estava presente no artigo
27, que determina que “a propriedade das terras e águas compreendidas dentro dos limites do
território nacional corresponde originariamente à Nação, a qual tem o direito de trasnsmitir o
domínio delas a particulares, constituindo a propriedade privada”.
Diferentemente do que acreditavam os constitucionalistas, os levantes populares não foram
interrompidos com a promulgação da Constituição de 1917. Zapatistas, villistas e outros grupos de
menor destaque procuraram desestabilizar o governo constitucional de Venustiano Carranza (1917-
1920). Objetivando esvaziar o conteúdo social da revolução, os principais líderes populares são
executados: há um retrocesso do processo revolucionário simbolizado pelo assassinato de Emiliano
Zapata em 1919 e Francisco Vila em 1923. Neste contexto, o próprio Carranza é assassinado em
meio o processo de reeleição. Seguiram-se governos de Adolfo de la Huerta, Álvaro Obregón (que
conseguiu controlar o movimento sindical e o Exército por meio do peleguismo e farta distribuição
de promoções respectivamente) e Plutarco Elías Calles (afirmando ser herdeiro de Zapata, no início
de seu governo promoveu ampla reforma agrária e promoveu reformas trabalhistas, mas seu
governo destacou-se pelos atritos com os católicos – conflitos armados com os cristeros foram
intensos – e pelo retrocesso da agenda social ao final da Era Calles) sem contemplar efetivamente os
principais anseios populares. O espírito da Revolução Mexicana parecia ter perecido.
18.4.2. Governo Cárdenas (1934-1940)
Dentre aqueles milhares de mexicanos que ingressaram nas fileiras revolucionárias, Lázaro
Cárdenas del Río destaca-se. Alinhado às forças de Obregón, Cárdenas é indicado para governar seu
Estado natal Michoacán entre 1928 e 1932. Neste período elabora uma série de medidas que
aproximavam-no de algumas das principais aspirações revolucionárias de 1910: educação popular
gratuita, apoio aos pequenos camponeses e empresas nacionais.
Estas foram as credenciais apresentadas para ascender dentro da estrutura do Partido Nacional
Revolucionário, pelo herdeiro institucional dos constitucionalistas revolucionários e proprietário dos
rumos políticos do país. Cárdenas passou por diversas secretarias até tornar-se presidente do
principal partido do país, sendo este o passo mais importante para concorrer ao cargo de
presidente. Em 1934 estava no comando do país e desde o endereço na Praça Zócalo, promoveu as
maiores transformações estruturais na história recente do México.
Em seu governo, o nacionalista Lázaro Cárdenas (1934-1940)101 consegue libertar-se de Calles
(1924-1934), objetivando modernizar o México por meio de uma aliança efetiva com três setores da
sociedade: o Exército (para isso afastou os principais homens de Calles), os trabalhadores urbanos
(reunidos na Confederação dos Trabalhadores Mexicanos) e o campesinato. A ideia era fazer da
Constituição mexicana de 1917 um instrumento para a implementação das principais reivindicações
populares do país.
Na economia, Cárdenas lança seu Plano Sexenal. Neste, o nacionalismo destaca-se (lembre-se que
é Cárdenas o autor da frase: “pobre México, tão longe de Deus e tão próximo dos Estados Unidos”).
A industrialização de bases nacionalistas é implementada, acompanhada de um projeto de
estatizações no setor siderúrgico, nacionalização do subsolo e a expropriação de empresas
americanas – como a US Steel, que tinha investimentos em toda a América Latina, mas,
principalmente, no México102. A estatização do petróleo proporcionou à PEMEX (Petróleos
Mexicanos) o monopólio da exploração dos recursos energéticos no país, posição que ocupa com
muitas dificuldades e resistindo a uma intensa pressão externa até os dias de hoje.
O contexto internacional favorece as ações de Cárdenas, já que os estadunidenses sofriam com os
efeitos da Crise de 1929 e necessitavam de uma maior aproximação com a América Latina – eram
tempos da Política da Boa Vizinhança de Roosevelt. Uma intervenção militar dos Estados Unidos
naqueles tempos era uma remota possibilidade.
Em sua política exterior, a presidência de Cárdenas exporta uma imagem do México como um país
libertário. Neste contexto, recebe o revolucionário bolchevique Leon Trotsky, que atua no país
contra os desmandos de Stalin em Moscou – é na Cidade do México que o ex-líder do Exército
Vermelho é assassinado em 1940. É também neste momento que o México incrementa suas relações
comerciais com os países do Eixo (Alemanha, Japão e Itália).
Com relação aos trabalhadores urbanos, o Estado procura ser o principal interlocutor nas
relações entre o trabalho e o capital, criando diversas leis trabalhistas. Por outro lado, o governo
pretendia exercer o controle do proletariado mexicano por meio do corporativismo na Central dos
Trabalhadores Mexicanos (CTM). Ao mesmo tempo, é promovida uma ampla reforma educacional,
que é acompanhada, na cultura, pela valorização da Revolução Mexicana, com destaque para o
movimento do Muralismo. Dentre os muralistas, destacam-se Diego Rivera e David Alfaro Siqueiros
(que participaram de uma das diversas tentativas frustradas de assassinar Trotsky).
A questão agrária, tão importante para os revolucionários de 1910, também seria contemplada
por Cárdenas. É implementada uma das maiores reformas agrárias da América Latina, eclipsada
apenas por aquela implementada pelos revolucionários cubanos. Interessante é a singularidade
desta, baseada na pequena propriedade comunal indígena – os ejidos. Cerca de metade das terras
cultiváveis do país foram alvo desta política agrária.
Outro mérito de Cárdenas é a reorganização da estrutura partidária, criando as bases para a
fundação do Partido Revolucionário Institucional (PRI) em 1943, que permanece no poder por sete
décadas. A eleição de Vicente Fox tirá-los-ia temporariamente do poder. Com a eleição de Pena
Nieto, o PRI voltou ao poder.
Durante os mais de 70 anos de duração do regime do partido único Partido Revolucionário
Institucional (PRI), os movimentos camponeses, operários e populares que discordavam do modelo
de nação priista enfrentaram consecutivas e sistemáticas repressões, fazendo com que muitos
jovens considerassem os canais legais da participação política fechados e apostassem na formação
de organizações armadas para buscar a derrota de um regime que, de seu ponto de vista, era
autoritário, e melhorar as condições de vida da população.
De uma dessas organizações, a Força de Libertação Nacional (FLN), surgiu o Exército Zapatista
de Libertação Nacional (EZLN), organização armada de caráter político-militar e composição de
maioria indígena. Sua inspiração política principal é o anarcossindicalismo, corrente principal de
Zapata e Magón, e sua estratégia militar é a guerrilha. Seu objetivo é “subverter a ordem para fazer
a revolução socialista e criar uma sociedade mais justa” (indigenismo).
18.5. ARGENTINA
18.5.1. Primeiras décadas do século XX
Após a chegada de Bartolomeu Mitre ao poder e a vitória dos unionistas na década de 1860, a
Argentina vive um período de estabilidade política nunca antes vivenciada em sua História. Desta
forma, a consolidação do Estado Nacional proporciona a atração de capitais (importante comparar
este momento com aquele vivido pelo Império do Brasil nos anos 1840/1850), resultando no rápido
crescimento econômico no final do século XIX, recebendo grandes fluxos de migração europeia.
Até hoje, a identidade nacional do país é marcada pela valorização da ideia de uma europeidade
(no Brasil, valoriza-se a ideia de miscigenação, no México, a ancestralidade indígena/asteca), não
apenas na arquitetura das principais cidades, mas também em outros aspectos da sociedade
argentina, principalmente a portenha.
Esta modernização é liderada pela União Cívica Radical (UCR), partido liberal da Argentina, que
reunia setores desta nova sociedade emergente – principalmente empesários. Por outro lado, a
formação de um proletariado organizado leva à criação do Partido Socialista, refletindo uma maior
mobilização das classes populares.
Tais mudanças sociopolíticas não apenas concederam um aspecto mais cosmopolita a Buenos
Aires, que já na década de 1910 possuia metrô, como também aperfeiçoaram os mecanismos
democráticos do país. A eleição de Hipólito Yrigoyen é um símbolo desta nova Argentina, uma vez
que este foi o primeiro presidente eleito por meio do voto secreto, universal e obrigatório, sendo
aclamado pelo povo portenho na sua posse em outubro de 1916.
Com o final da Primeira Guerra Mundial e a consequente crise econômica europeia resultante
deste conflito, a Argentina ingressa em um novo ciclo de crescimento, aproveitando-se da abertura
de mercados para seus produtos primários. Neste governo destacam-se não apenas a aprovação de
medidas sociais como o descanso semanal remunerado, mas também medidas nacionalistas na
economia, como a criação da Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF), a estatal do petróleo que
precedia em muitas décadas a Petrobras brasileira.
Personalista, Yrigoyen deu lugar a Marcelo Avelar (1922-1928), que manteve os radicais no poder,
retornando ao governo com o final do mandato de seu sucessor. Em sua segunda passagem pela
Casa Rosada, sofre com os efeitos devastadores da Crise de 1929 e o crescimento da influência
fascista em alguns segmentos da sociedade, principalmente dentro do Exército. É justamente este
setor, liderado pelo general José Félix Uriburu, que promoveu um golpe de Estado que retirou o
radical Yrigoyen do poder.
A chamada República Conservadora (1930-1943) coloca novamente no poder os setores
oligárquicos, alijados nos quatorze anos de governos radicais. Ameaçados seus interesses com o
fortalecimento do protecionismo nas principais economias do mundo, os novos comandantes
argentinos aceitaram a assinatura de um típico tratado desigual inglês, o Pacto Roca-Runciman
(1933). Neste, a carne e o trigo hermanos entravam sem impostos na Inglaterra, enquanto os
industrializados britânicos entrariam na Argentina sem qualquer tipo de taxação, consolidando a
vocação agro-exportadora oriunda do século XIX – por isso este período também é conhecido como a
“Década Perdida” para a maior parte dos analistas.
Mesmo entre os conservadores que tomaram o poder não existia uma unidade com relação ao
Pacto Roca-Runciman, sendo esta heterogeneidade exacerbada com a eclosão da Segunda Guerra
Mundial. Políticos defensores dos ideais agroexportadores defendiam um alinhamento com a
Inglaterra, enquanto aqueles setores militares mais à direita eram simpatizantes do Eixo. Enquanto
isso, a mobilização operária crescia, aproveitando-se da insatisfação proletária com os poucos
benefícios dados aos trabalhadores urbanos após a saída dos radicais. O comunismo era forte
naquele país em que o Partido Comunista primeiro se alinhou à III Internacional na América Latina.
Usando como justificativa o controle da sociedade em meio ao caos e uma possível chegada dos
comunistas ao poder, setores fascistas do Exército argentino, organizados no Grupo de Oficiais
Unidos (GOU), depõem o general Pedro Pablo Ramírez. Iniciava-se um período curto mas
fundamental para o entendimento da construção política da Argentina contemporânea.
18.5.2. Ascensão de Perón
Durante a Segunda Guerra Mundial, os generais do GOU buscam manter a neutralidade ou até
mesmo demonstram simpatia aos membros do Eixo, o que muito preocupava a Casa Branca. A
resistência da Argentina em romper relações com os países do Eixo e o apoio dado ao governo
nacionalista boliviano de Gualberto Villarroel facilitaram a política de barganhas de Getúlio Vargas
em meio à Equidistância Pragmática, pois acreditava Washington que um Brasil forte poderia sustar
planos argentinos de aliança com o Eixo.
Nacionalistas ao extremo, os principais oficiais do GOU mantêm a neutralidade até março de
1945 quando declaram guerra ao Eixo, um ano e dois meses após terem rompido relações com o
Japão e com a Alemanha. Enquanto isso, destacava-se a figura de Juan Domingo Perón que, dentre
outras posições de relevo na administração do Governo Provisório esteve à frente do Ministério do
Trabalho. Sua aproximação com as classes trabalhadoras ameaçava os demais membros da GOU,
precipitando sua prisão – a qual desencadearia uma onda de greves no país liderada por Eva Perón,
segunda esposa do coronel e ativamente envolvida na política.
Cerca de uma semana depois de encarcerado, Perón é libertado e, nos braços do povo, realiza um
discurso para mais de trezentos mil argentinos clamando pela democracia, já lançando-se como o
líder do processo de redemocratização do país no pós-Segunda Guerra Mundial. Em 1946, com
pouco mais de 50% dos votos, Perón é eleito pela primeira vez presidente da Argentina para um
mandato de seis anos.
Trabalhadores, há quase dois anos, deste mesmo balcão, afirmei ter três pontos de honra: o de
ser soldado, o de ser patriota e o de ser o primeiro trabalhador argentino. [...] Por isso, senhores,
quero nesta oportunidade, misturado com esta massa suada, estreitar profundamente a todos
contra meu coração, como faria com minha mãe103.
18.5.3. Perón no comando do país
Lançando seu Plano Quinquenal, Perón implementa um conjunto de reformas econômicas
nacionalistas, buscando libertar-se definitivamente das amarras ao capital internacional,
principalmente o inglês. Desta forma, colocou sobre o controle do Estado ferrovias, bancos e
companhias de eletricidade, não escapando das esferas governamentais nem mesmo a iniciativa
privada. É neste momento que a YPF ganha maior projeção e investimentos do governo, que não
esquecia da questão social ao promover obras como a construção de hospitais e escolas públicas.
Para auxiliar este nacionalismo econômico, o posicionamento argentino com relação à Guerra Fria
é muito diferente daquele adotado pelo vizinho maior, o Brasil. Enquanto o general-presidente
Eurico Gaspar Dutra promoveu o “Alinhamento sem Recompensas104” com os Estados Unidos,
acreditando que o Brasil ainda era um aliado especial e por isso receberia investimentos
preferenciais estadunidenses, Perón sabia que teria que “lutar” para obter tais capitais. E, para
atingir tal objetivo, adotou a “Terceira Via”, independente dos Estados Unidos e da URSS, tendo
boas relações diplomáticas com os dois lados.
Quando Getúlio Vargas retorna ao Palácio do Catete, Perón tenta uma aproximação com o
brasileiro ao propror uma restauração do Pacto ABC105, objetivando tanto um poder maior de
barganha com os Estados Unidos quanto uma melhora de sua posição comercial e política no mundo
na década de 1950. As pressões políticas sofridas por Vargas no plano interno, quando os setores
liberais-conservadores acusam o ex-ditador de aproximar-se de Perón para criar uma República
Sindicalista no Brasil, levam ao afastamento do Itamaraty com relação a Casa Rosada, deixando o
pacto apenas no papel106. A principal polêmica nestes tempos é a grande imigração de ex-nazistas
para o país, inclusive com o auxílio de importantes figuras do governo por meio da Operação
Odessa.
Como característica do Peronismo, o intenso diálogo com os trabalhadores urbanos é algo a ser
relevado. Aproveitando-se de sua origem social próxima das classes baixas (este ascendeu
socialmente graças a sua posição dentro do Exército), Perón colocava-se como o “amigo dos
trabalhadores”. O corporativismo peronista é reflexo da admiração de Perón ao projeto político de
Mussolini. Mais póximo do modelo italiano comparado àquele adotado por Vargas no Brasil, o
corporativismo argentino estimulava as manifestações de massa, usou de forma mais intensa a
repressão e, mediante o Decreto 23.852, deu forma à estrutura do sindicalismo oficial espelhando-se
nos principais pontos da Carta del Lavoro.
Perón chamava a sua política de justicialista, sendo encarada como uma forma de atenuar o
sofrimento dos cabecitas negras (trabalhadores urbanos egressos do campo sem qualquer ligação
com as grandes cidades e carentes da tutela dos grandes latifundiários, portanto mais facilmente
manipulados, segundo algumas interpretações) e diminuir a histórica concentração de capitais do
país. Neste contexto, é formado o Partido Justicialista (também conhecido como Partido Peronista)
em 1947.
A atuação de Eva Duarte Perón é uma das principais bases do peronismo. Seria ela o elemento
carismático e a união dos dois contava com a simpatia dos argentinos. Evita, como era chamada de
forma carinhosa pelo seus admiradores, contava com sua beleza e a experiência como atriz de
radionovela para aproximar-se dos mais carentes com incansáveis ações assistencialistas por meio
da Fundação Eva Perón. No que diz respeito aos direitos da mulher, lidera a campanha pelo voto
feminino implementado em 1947 e pela igualdade entre os gêneros assegurada por lei.
Nos anos 1950 a primeira fase do peronismo apresenta desgaste. Mesmo participando
intensamente das eleições de 1951, Evita lutava contra um devastador câncer que levou ao óbito a
Chefe Espiritual da Nação em 1952107. No plano internacional, as pressões estadunidenses contra
governos nacionalistas e o direcionamento de capiatais para áreas em que a Guerra Fria
apresentava maiores desafios aos capitalistas (Europa Ocidental e Ásia) levaram Perón a
gradualmente romper com a ideia de “Terceira Via”, aproximando-se dos Estados Unidos sem obter
a resposta esperada.
Internamente, enfrentava a oposição não somente de setores militares, mas também da Igreja
Católica, que até então estava ao lado dos peronistas. A ampliação da participação social do
peronismo (principalmente no setor educacional) enfraquecia a posição da Igreja no país. Como
resposta, surge no final de 1954 o Partido Democrata Cristão, que busca se opôr ao projeto nacional
de peronização das instituições da sociedade argentina, chamado por meio da Comunidade
Organizada.
Os enfrentamentos chegam ao auge quando, após proibir procissões públicas, a supressão do
ensino religioso, legalizar a existência dos prostíbulos, Perón tentou o mesmo com o divórcio – logo
depois suspenso pelo Congresso. A reação católica foi a excomunhão do presidente, o que
incrementou o afastamento do presidente da classe média urbana. As dificuldades eram agravadas
pela ausência de Evita e pela estagnação econômica. Neste ambiente desfavorável, Perón tem o
mesmo destino dos nacionalistas Vargas e do guatemalteco Jacobo Arbenz, ou seja, um governo
abreviado por “forças maiores”. No dia 16 de setembro de 1955 acontece a Revolução Libertadora,
liderada pelo general Eduardo Lonardi, que derruba Perón.
Exilado na embaixada paraguaia, Juan Domingo passa temporadas neste país e também no
Panamá. Enquanto isso, é condenado por suas ações no governo e destituído de suas patentes
militares. Definindo Madri como seu novo lar, Perón assiste a uma sucessão de golpes e
contragolpes em sua terra natal, intervalados por governos marcantes como aquele de Arturo
Frondizi, que permitiu o retorno da influência do peronismo nos sindicatos. Um episódio sintomático
do quão conturbado é o período seria o sequestro do cadáver embalsamado de Evita para evitar o
culto à sua imagem, promovido pelo chefe da inteligência do Exército argentino, o coronel Carlos
Koeing. Sob a alegação de evitar o culto à sua imagem (e ao peronismo em particular), ele acaba se
apaixonando pelo cadáver, em um roteiro que deixaria surpreso o mais entusiasta dos apaixonados
pelo realismo fantástico de Garcia Marquez.
Em meio a este caos político, a idolatria ao antigo presidente cresce proporcionalmente à
mobilização de uma esquerda armada. Acreditando que o peronismo seria o caminho para uma
maior equalização social no país, alguns grupos influenciados pelo marxismo formam movimentos
como os Montoneros e as Forças Armadas Revolucionárias. Já casado pela terceira vez, desta vez
com Maria Estela Martínez, no início da década de 1970, Perón tem uma oportunidade de retornar
ao país e ingressar nas atividades políticas. Entre 1971 e 1973 a redemocratização permite novas
eleições, em que o peronista Héctor José Cámpora é eleito e, assim, permite o retorno triunfal de
Juan Domingo em junho de 1973.
Diante da mobilização popular com a volta do maior símbolo da política argentina no século XX,
Cámpora estabelece novas eleições, nas quais Perón é eleito presidente com mais de 60% dos votos,
derrotando a chapa de Ricardo Balbín-Fernando de la Rúa, que havia sido postulada pela União
Cívica Radical.
A idealização em torno da figura de Perón foi prejudicial quando do retorno deste à Casa Rosada.
Como anteriormente mencionado, o peronismo englobava desde antigos membros de uma direita
conservadora que participaram do primeiro governo Perón (1946-1955), como setores mais jovens
que viam no peronismo “uma via argentina para o socialismo”. Todos esperavam uma solução
milagrosa para todos os problemas do país. Uma vez no poder, estes grupos se degladiaram pelo
controle do governo, gerando uma instabilidade absurda diante de um Perón desgastado pelo tempo.
No dia 1º de julho de 1974, Perón falece. A dramática despedida do povo argentino a seu líder foi
embalada pela incerteza: seria “Isabelita” (como era chamada de forma carinhosa Maria Estela)
capaz de comandar o país? De forma bastante dura chegaram à conclusão que não. Afetada também
pelo Choque do Petróleo (nov./1973), a já combalida conomia do país sofre ainda mais com as
políticas desastradas de José López Rega, conhecido como el brujo pelos seus críticos, e do ministro
da economia Celestino Rodrigo, que geraram uma situação de hiperinflação (eram tempos do
Rodrigazo). Soma-se a isso a completa inabilidade política de Isabelita, o resultado é catastrófico.
A radicalização política chega às ruas sem que o débil governo conseguisse controlar a situação.
De forma desesperada, Isabelita apoia os paramilitares de direita da Triple A (Aliança Anticomunista
Argentina), que atuavam contra os Montoneros das mais diversas formas: assassinatos, torturas e
sequestros eram amplamente praticados108.
Em meio ao caos, a tradição argentina de intervenções militares novamente aparece. Agora, em
meio a um continente repleto de ditaduras comandado por militares que tinham como base
ideológica a Doutrina de Segurança Nacional, o combate ao comunismo era a alegação do momento
para tomar o poder. Para determinada ala do Exército, a estabilidade só poderia voltar à Argentina
por meio de um governo forte. Assim, o resultado será mais um golpe de Estado, desta vez
autointitulado “Processo de Reorganização Nacional” – na prática, é uma ditadura militar que
perdurará do dia 24 de março de 1976 ao dia 10 de dezembro de 1983. A Argentina segue os
mesmos passos de Brasil, Uruguai e Paraguai.
18.5.4. Processo de reorganização nacional (1976-1983)
Assim que os militares chegam o poder, uma junta comandada pelos três comandantes das Forças
Armadas lideram o país: Orlando Ramón Agostí (Aeronáutica), Emílio Eduardo Massera (Marinha) e
o mais destacado de todos, Jorge Rafael Videla (Exército), indicado como o primeiro presidente
daqueles tempos.
Sempre comparada com as ditaduras vizinhas, principalmente aquela brasileira, El Proceso tem
como principal característica o menor grau de institucionalização. Constantemente os militares
argentinos violavam as regras por eles mesmos criadas naqueles tempos (ou até mesmo faziam
questão de não criá-las). Outra singularidade da Argentina é a ausência de melhorias econômicas.
Diferentemente do Brasil e do Chile, que na década de 1970 vivenciaram tempos de “Milagre
Econômico”, El Proceso conviveu com a crise.
O Estado se viu afetado de forma ainda mais profunda. O chamado Processo de Reorganização
Nacional supunha a coexistência de um Estado terrorista clandestino, encarregado da repressão,
e outro visível, sujeito a normas estabelecidas pelas próprias autoridades revolucionárias, mas
que submetiam suas ações a uma certa jurisprudência. Na prática, essa diferença não se
manteve, e o Estado ilegal foi corroendo e corrompendo o conjunto das instituições do Estado e
sua própria organização jurídica109.
Os principais arquitetos da economia do país naquele momento buscaram fortalecer o setor
financeiro, favorecendo a entrada de dólares através do aumento da taxa de juros internas. A
abertura econômica fez com que a indústria perdesse a proteção do Estado, fazendo com que o
desemprego aumentasse no período e a produção do setor recuasse em cerca de 20% nos primeiros
cinco anos dos governos militares110.
Apesar do baixo desemprego, uma das exigências dos comandantes militares aos economistas
contratados, a incapacidade do governo de superar os obstáculos econômicos fortalecia a oposição
de grupos como o Exército Revolucionário del Pueblo e, principalmente, os Montoneros. Logo, a
resistência popular é muito maior que nos outros países – como consequência, a repressão também.
Eram tempos de “Guerra Suja”, em que os militares produziram entre 25 e 35 mil desaparecidos
num período de apenas 7 anos, sendo o sequestro de crianças um dos aspectos mais nefastos deste
processo.
Em uma tentativa de eclipsar a violenta repressão e a incompetência no campo econômico, os
militares argentinos promoveram uma forte propaganda nacionalista. Ainda foram agraciados com a
organização de um dos maiores eventos esportivos mundiais: a Copa do Mundo de 1978. Primeira
Copa organizada pelo brasileiro João Havelange, na época presidente da FIFA, a organização do
evento e a paixão pelo futebol foram utilizados pelos militares como uma forma de legitimação do
regime no exterior. Muitos foram os casos de jornalistas estrangeiros que produziram matérias
críticas ao Processo, mas a vitória da Seleção argentina ganhando seu primeiro título mundial
ajudaram na criação de algum tipo de consenso no país.
Mas à medida que o tempo passava, as glórias da Copa do Mundo eram esquecidas pelo povo,
enquanto as dificuldades econômicas mantinham-se as mesmas. Era preciso um novo evento
nacionalista capaz de unir todos os argentinos com um propósito comum. A reconquista das Ilhas
Malvinas, conquistadas pelo imperialismo inglês em 1833, seria este evento. Discussões sobre o
assunto aconteciam na ONU, mas a Junta Militar111 concluiu que os Estados Unidos estariam
interessados em uma solução favorável a seu país no caso das Malvinas/Falklands, como condição
quase imprescindível para a construção de uma estrutura defensiva do Atlântico Sul, com a criação
de uma espécie de cordão de bases militares, capaz de enfrentar e conter a União Soviética.
Mas Washington não tinha esta visão quando do início da Operação Rosário que invadiu e ocupou
as Malvinas no dia 2 de abril de 1982. Vernon Walters vai a Buenos Aires com a missão de exigir de
Galtieri a retirada de suas tropas do arquipélago e, como Galtieri não mais tinha condições de
recuar, uma vez que tinha conseguido a tão esperada coesão nacional ao reacender militarmente
uma causa quase que sagrada para a Argentina, não restou ao governo Reagan outra alternativa, em
face da opinião pública estadunidense e dos seus compromissos com a OTAN, senão o apoio oficial à
Grã-Bretanha. Assim, a esperança argentina de uma possível ação conjunta do TIAR não sai do
papel. Apesar da Doutrina Monroe, os Estados Unidos nunca reconheceram a soberania da
Argentina sobre as Malvinas e entenderam que o TIAR não implicava nenhum compromisso de
defendê-la, uma vez que ela iniciara o conflito, ao atacar um território sob o domínio da Grã-
Bretanha.
A Grã-Bretanha comandada pela “dama de ferro” não demonstrou menor receio de recorrer a
uma reação armada e despachou de imediato as poderosas forças navais britânicas para o Atlântico
Sul. Margareth Tatcher sabia que a vitória do seu Partido Conservador dependia do sucesso militar
contra El Proceso. Paralelamente à ação bélica, diplomaticamente o Reino Unido agia. Logrou que a
ONU aprovasse a Resolução 502, exigindo a retirada das tropas argentinas dos arquipélagos
ocupados como condição prévia a qualquer processo negociador.A Comunidade Econômica Europeia
apoia as sanções econômicas britânicas, dando importante respaldo político àquele país, decretando
embargo por trinta dias às exportações do país sul-americano.
Sem o apoio do gigante ao norte do Rio Grande, restou a Galtieri demonstrações de apoio por
parte do governo soviético e à neutralidade imperfeita brasileira112, que, na prática, favorecia a
Argentina, ao conceder-lhe ajuda material, inclusive militar – peças de reposição de material bélico
e alguns aviões, enquanto assumia a representação de seus interesses na Grã-Bretanha.
O desastre militar devido à disparidade absurda favorável aos britânicos em termos de força levou
à rendição da Argentina no dia 14 de junho de 1982, quando mais de oito mil soldados foram feitos
prisioneiros de guerra e 649 argentinos mortos. A humilhação imposta pelos europeus somente foi
respondida no campo do estádio Azteca em 1986, quando La Mano de Díos lavou a alma dos
argentinos derrotados quatro anos antes.
Os rumos da guerra levaram à queda da Terceira Junta Militar de Governo e, consequentemente,
chega à Argentina o mesmo vírus que atingira o Brasil e o Uruguai: aquele da redemocratização. O
último líder militar, Bignone, convoca eleições que colocam um ponto final na Ditadura Militar
Argentina.
O primeiro presidente que conduzirá o processo de redemocratização é Raul Alfonsín. Seu maior
desafio é reverter a situação de desastre econômico. O Plano Austral, muito semelhante ao Plano
Cruzado de José Sarney, tentará deter a inflação congelando os preços dos alimentos – sem sucesso.
Uma das questões mais importantes é sobre se se deve punir ou não os militares pelos crimes
cometidos durante El Proceso. As pressões de diversos setores sociais são enormes, sendo o mais
importante o movimento das Mães (e Avós) da Praça de Maio. Os processos contra os militares são
iniciados ainda neste primeiro governo democrático depois de sete anos, cujo presidente era Raul
Alfonsín. Mas a pressão dos militares leva à aprovação de leis que limitavam a tal “ajuste de
contas”: a Lei do Ponto Final (24/12/1986) impunha um prazo de 60 dias para processar os acusados
de delitos de lesa-humanidade cometidos durante o governo militar e a Lei da Obediência Devida
(4/6/1987) excluía os militares de baixa patente das responsabilidades pelos delitos cometidos
durante os tempos da Ditadura.
Renovando seu discurso político, os peronistas escolhem o dissidente Carlos Saul Menem para a
disputar a presidência do país, chegando à Casa Rosada em 1989, onde ficaria por uma década. O
nacionalismo dos tempos em que o Partido Justicialista foi criado ficara na história, uma vez que o
ministro da economia de Menem, Domingos Cavalo, adotou um plano de abertura econômica com
bases neoliberais no país, que teve como bases uma série de privatizações, sendo simbólica aquela
da YPF. Em meio a um breve período de prosperidade econômica depois de décadas de crise, parte
da sociedade argentina aceita a suspensão “ajuste de contas” pelo novo mandatário. Mas o
crescimento econômico do início dos anos de 1990, embalado pela rápida entrada de capital
especulativo, não se sustenta por muito tempo, sendo a fuga de capitais sentida já no final da última
década do século XX.
Nos anos 2000, a fuga de capitais gera uma grave crise econômica que abalou o país, sendo o
auge da crise durante o corralito estabelecido por Fernando de la Rúa para tentar evitar a quebra
do sistema financeiro do país. A instabilidade política e econômica foi interrompida com a chegada
do governador da província de Santa Fé à presidência, o ex-montonero Nestor Kirchner. Buscando
restabelecer a ordem e o crescimento econômico no país, Kirchner renegocia a dívida externa com
os credores e promove algumas medidas de reinserção do Estado em alguns setores da economia.
Na política, sua história pessoal de perseguido político legitima a suspensão da Lei do Ponto Final e
da Lei da Obediência Devida, retomando o processo contra os militares.
Cristina Kirchner, a ex-primeira dama, ganha as eleições de 2007, sucedendo seu marido que
mantinha-se como uma espécie de “eminência parda”no governo até a sua morte em 2010. Na
gestão de Cristina, a adoção de medidas sociais e de um discurso nacionalista – como a
reestatização da YPF que estava nas mãos da Repsol – é incrementada, aproximando-se a viúva de
vizinhos que tinham uma retórica semelhante, como Evo Morález e Hugo Chavez. Há, hoje, grande
polarização no cenário político, entre aqueles favoráveis ao governo de Cristina e aqueles
radicalmente contrários – entre estes, estão, sobretudo, os latifundiários.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. A CRISE DO ANTIGO REGIME


FORTES, Luiz Roberto Salinas. O Iluminismo e os reis filósofos. 8. ed. Brasiliense, 1989.
HOBSBAWN, Eric. A era das Revoluções (1789-1848). São Paulo: Paz e Terra, 2003.
2. A REVOLUÇÃO FRANCESA (1789-1799)
GALLO, Max. Revolução Francesa. Volume 1: O povo e o rei (1774-1793).
________. Revolução Francesa. Volume 2: Às Armas, cidadãos! (1793-1799). Porto Alegre: L&PM Editores, 2012.
HOBSBAWN, Eric. A era das Revoluções (1789-1848). São Paulo: Paz e Terra, 2003.
VOVELLE, Michel. A Revolução Francesa. São Paulo: Edusp, 2004.
3. A ERA NAPOLEÔNICA (1799-1815)
AQUINO, Rubim Santos Leão de. História das sociedades: das sociedades modernas às sociedades atuais. Rio de
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RÉMOND, RENÉ. O século XIX (1815-1914). São Paulo: Cultrix, 1983.
4. A RESTAURAÇÃO EUROPEIA
KISSINGER, Henry. Diplomacy. New York: Harper Books, 1994.
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MAGNOLI, Demétrio (Org.). História da paz.
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5. AS REVOLUÇÕES LIBERAIS
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LESSA, Antônio Carlos. História das relações internacionais I – A Pax Britânica e o mundo do século XIX. 4. ed.
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6. UNIFICAÇÕES TARDIAS
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7. AS REVOLUÇÕES INDUSTRIAIS
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8. IMPERIALISMO OU NEOCOLONIALISMO
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PINTO, Paulo Antônio Pereira. A China e o Sudeste Asiático. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2000.
9. OS ESTADOS UNIDOS – COLONIZAÇÃO E INDEPENDÊNCIA
CINCOTTA, Howard (Org.). O perfil da história dos EUA. Departamento de Estado dos Estados Unidos da América,
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EISENBERG, Peter Louis. A guerra civil americana. São Paulo: Brasiliense, 1982.
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10. A AMÉRICA ESPANHOLA
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DIVINE, Robert et al. América: passado e presente. Rio de Janeiro: Nórdica, 1992.
WASSERMAN, Claudia (Org.). América: cinco séculos. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1998.
11. A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL (1914-1918)
HENING, Ruth. As origens da Primeira Guerra Mundial. São Paulo: Ática, 1991.
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VIZENTINI, Paulo Fagundes. Segunda Guerra Mundial. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004.
12. A ASCENSÃO DO COMUNISMO
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________. As revoluções russas e o socialismo soviético. São Paulo: UNESP, 2007.
13. OS ESTADOS UNIDOS NO PERÍODO ENTRE-GUERRAS
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COGGIOLA, Osvaldo. As grandes depressões (1873-1896 e 1929-1939): fundamentos econômicos, consequências
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LIMONCIC, Flávio. Os inventores do New Deal: Estado e sindicatos no combate à grande depressão. Rio de Janeiro:
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14. OS FASCISMOS
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KONDER, Leandro. Cultura política nos anos críticos. In. O século XX – o tempo das crises (Revoluções, Fascismos e
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LENHARO, Alcir. Nazismo – o triunfo da vontade. São Paulo: Ática, 1986.
15. A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1939-1945)
BRENER, Jayme. A Segunda Guerra Mundial: o planeta em chamas. São Paulo: Ática (Coleção Retrospectiva do século
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MAGNOLI, Demétrio. A história das guerras. São Paulo: Contexto.
VIZENTINI, Paulo G. Fagundes. Segunda Guerra Mundial. Porto Alegre: Editora da UFRGS.
16. A GUERRA FRIA (1947-1991)
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REIS FILHO, Daniel Aarão; FERREIRA, Jorge; ZENHA, Celeste (Org.). O século XX. Rio de Janeiro: Civilização
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VIZENTINI, Paulo G. Fagundes. Da Guerra Fria à crise.
17. AS LUTAS DE LIBERTAÇÃO AFRO-ASIÁTICAS
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HERNANDEZ, Leila. Á África na sala de aula: visita à história contemporânea. Selo Negro Edições (Summus
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SARAIVA, José Flávio Sombra. Dois gigantes e um condomínio: da guerra fria à coexistência pacífica(1947-1968).
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globalização.
18. A AMÉRICA LATINA NO SÉCULO XX
AYERBE, Luis Fernando. A Revolução Cubana. São Paulo: Editora Unesp, 2004 (Coleção Revoluções do Século XX).
BARBOSA, Carlos Alberto Sampaio. A Revolução Mexicana. São Paulo: Editora Unesp, 2010 (Coleção Revoluções do
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GUERCIO, Maria Rita; CARVALHO, Dorisney. Cuba e Estados Unidos: uma história de hostilidades. In: Revolução
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ROMERO, Luiz Alberto. Breve historia contemporanea de la Argentina. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
SADER, Emir. A Revolução Cubana. São Paulo: Moderna, 1986. p. 53.
QUESTÕES DO IRBR

1. A CRISE DO ANTIGO REGIME


1. (IRBr 2004) É na visão retrospectiva que se descobrem as características (boas ou más)
da cultura nacional, cuja originalidade não precisa ser proposta nem defendida, mas pode
ser constatada e criticada. A liberdade de criação será maior se o artista, o escritor ou o
pensador, como Machado de Assis e Clarice Lispector, não tiverem de criar uma arte, uma
literatura ou um pensamento supostamente nacionais. Uma tal perspectiva não significa
abdicar do nacional em detrimento do universal, do local em detrimento do global, pois, se
o universalismo pode ser visto como uma invenção eurocêntrica, a universalidade não tem
centro.
Embora desigual e assimetricamente, valores, ideias, expressões culturais e costumes –
nacionais e locais – migram, farão isso mais frequentemente com a maior facilidade das
comunicações e sempre terão o potencial de universalizar-se. As obras de Machado e
Clarice, sem deixar de ser brasileiras, são um claro exemplo dessa possibilidade de
universalização.
João Almino. De Machado a Clarice: a força da literatura. Apud: Carlos Guilherme Mota
(organizador). Viagem incompleta: a experiência brasileira (1500-2000) – a grande transação. São
Paulo: SENAC, 2000, p. 7-9.
Tendo o texto acima como referência inicial e considerando os múltiplos aspectos da
cultura, julgue o item seguinte.
( ) Renascimento dos séculos XV e XVI, malgrado sua força criativa, não se enquadra naquilo que
o texto classifica de universalismo como “invenção eurocêntrica”. A rigor, figuras como Camões,
Shakespeare, Michelangelo, da Vinci, Rafael ou Miguel de Servet, entre tantos outros,
expressam – na literatura, nas artes plásticas e na ciência – uma cultura não mais que local,
desprovida de suficiente latitude para representar uma visão de mundo que transcendesse os
horizontes europeus.
Resposta: E
2. (IRBr 2006 – Adaptada) Em linhas gerais, entre as últimas décadas do século XVIII e a
primeira metade do século XIX, assiste-se ao confronto entre as forças sociais que se
batiam pela superação do Antigo Regime e as que defendiam a manutenção dele, ainda
que sob condições e intensidade variáveis. Nesse contexto, com referência à Revolução
Francesa, julgue (C ou E) o item a seguir.
( ) O pensamento iluminista, mesmo restrito a alguns países da Europa ocidental no transcurso do
século XVIII, foi decisivo para a eclosão da Era Revolucionária. Entre seus principais expoentes,
Voltaire se destaca, por ter formulado a teoria da separação dos poderes, fundamental para a
contestação ao Estado absolutista.
Resposta: E
3. (IRBr 2010) Quanto aos vários sentidos de que se revestiu historicamente a noção de
liberalismo político, assinale a opção incorreta:
a) conformidade com a lei.
b) rejeição sistemática ao status quo.
c) valorização dos direitos individuais.
d) defesa intransigente da liberdade.
e) faculdade de escolha sem coerção.
Resposta: Alternativa B
4. (IRBr 2012 – Adaptada) A história mundial contemporânea, iniciada no último terço do
século XVIII, apresenta-se como uma sucessão de sistemas mundiais intercalados por fases
de transição e configuração de novas lideranças. Assim, de 1776 (ano da independência
dos EUA e da publicação de A Riqueza das Nações, de Adam Smith) a 1890, a Pax
Britânica, embasada na Revolução Industrial e regulada pelo liberalismo, deu início ao
mundo dominado pelas potências anglo-saxônicas.
Paulo G. Fagundes Visentini e Analúcia Danilevicz Pereira. História do mundo contemporâneo.
Petrópolis: Vozes, 2008, p. 10 (com adaptações).
Tendo o texto acima como referência inicial e considerando aspectos da história econômica
mundial, julgue (C ou E) o item seguinte.
( ) Em A Riqueza das Nações, Adam Smith critica o mercantilismo, alinhando-se, nesse aspecto,
com os fisiocratas franceses, mas deles se afastando ao sustentar que ao Estado compete
conduzir e proteger a economia nacional na disputa por mercados com outros países.
Resposta: E
5. (IRBr 2013 – Adaptada) A execução de Carlos I, em 30 de janeiro de 1649, foi decisão do
Parlamento inglês que simbolizou o fim do absolutismo na Inglaterra e comprometeu o
mito da identificação entre poder real e sua origem divina. Manifestação inicial da crise do
Antigo Regime, a Revolução Inglesa do século XVII foi o ponto de partida da Era das
Revoluções, que, entre fins do século XVIII e primeira metade do século XIX, iria desvelar
o mundo contemporâneo. Relativamente a esse processo histórico, julgue (C ou E) o item
seguinte.
( ) Chamados iluministas, pensadores europeus do século XVIII – especialmente franceses –
revolucionaram intelectualmente o mundo moderno ao atacarem com vigor a injustiça, a
intolerância religiosa e os privilégios, preparando o terreno para as revoluções que destruiriam o
Antigo Regime.
Resposta: C
2. A REVOLUÇÃO FRANCESA (1789-1799)
1. (IRBr 2010) Assinale a opção correta com relação às transformações institucionais
introduzidas pela Revolução Francesa.
a) A concessão de voto universal, independentemente de renda.
b) A tentativa bem-sucedida de aprovação de um código civil, já em 1789.
c) A separação entre Igreja e Estado, uma das principais reformas da Assembleia Nacional no ano
de 1789.
d) A instituição de um sistema de compra de cargos públicos, em substituição ao sistema
hereditário existente no Antigo Regime.
e) A conscrição maciça de homens solteiros entre 18 e 25 anos, medida precursora do
recrutamento militar obrigatório.
Resposta: Alternativa E
2. (IRBr 2005) Quando as 5 mil pequenas lâmpadas iluminaram a fachada do Palácio da
Eletricidade, por ocasião da inauguração da Exposição Universal de Paris (1900), causando
assombro à multidão que assistia ao espetáculo, comprovou-se o triunfo da ciência e a
soberania da máquina. A luz vencera o limite da noite e instaurava as 24 horas como o
novo tempo da cidade.
A arte afastava-se do mundo burguês à procura de nova clientela, capaz de um ato de
fruição total. Era preciso tornar-se autêntica e, para isso, ela precisava eliminar dos seus
efeitos específicos quaisquer outros que pudessem ter sido tomados por empréstimo. Era
necessário tornar-se “autárquica”, “pura”.
A busca incessante dessa pureza motivou os artistas do início do século XX, o que resultou
na produção de obras que deram corpo a uma notável revolução cultural.
P. E. Grinberg e A. A. Luz. Revoluções artístico-culturais no século XX. In: F. C. Teixeira da Silva
(coord.). Século sombrio: guerras e revoluções do século XX. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004 (com
adaptações).
Considerando-se os dados estritamente cronológicos, a exposição a que se refere o texto
ocorreu no último ano do século XIX. Tempo das revoluções, como é conhecido, o século
XIX é também assinalado por grandes representações, a exemplo do industrialismo, do
liberalismo, do nacionalismo e do socialismo. Julgue (C ou E) o item a seguir, relativo ao
quadro revolucionário de fins do século XVIII e da primeira metade do século XIX.
( ) A Revolução Francesa, iniciada em 1789, conheceu longa e complexa travessia em suas etapas.
Ao ser concluída, com a era napoleônica, estavam parcial ou totalmente destruídas muitas das
bases sobre as quais se assentava o Antigo Regime.
Resposta: C
3. (IBBr 2006 – Adaptada) Em linhas gerais, entre as últimas décadas do século XVIII e a
primeira metade do século XIX, assiste-se ao confronto entre as forças sociais que se
batiam pela superação do Antigo Regime e as que defendiam a manutenção dele, ainda
que sob condições e intensidade variáveis. Nesse contexto, com referência à Revolução
Francesa, julgue (C ou E) os itens a seguir.
I. Por simbolizar a luta contra o despotismo, a Revolução Francesa foi alvo da reação conjunta dos
defensores do Antigo Regime, na qual se sobressaiu a Inglaterra, a quem convinha a manutenção
da estrutura de poder absolutista para a expansão de negócios financeiros e para a abertura de
mercados para seus produtos industrializados.
II. O que aconteceu na França a partir de 1789 foi a explosão do sentimento generalizado de
repulsa a um absolutismo crescentemente anacrônico, ainda que amenizado pelo reformismo
assumido pela dinastia Bourbon, a qual empreendera estratégia de conferir ao regime ares de
pretensa modernidade – o despotismo esclarecido.
III. Entende-se a Revolução Francesa como um processo que não se esgota rapidamente, com
períodos de maior ou menor intensidade do fervor revolucionário. De todas as fases desse
processo, a Convenção Nacional, dominada pelos jacobinos, foi a que conferiu caráter mais
radical à Revolução, de que são exemplos o fim da monarquia, a adoção do sufrágio universal e o
grande número de execuções de adversários.
Resposta: I. E – II. E – III. E
4. (IRBr 2013 – Adaptada) A execução de Carlos I, em 30 de janeiro de 1649, foi decisão do
Parlamento inglês que simbolizou o fim do absolutismo na Inglaterra e comprometeu o
mito da identificação entre poder real e sua origem divina. Manifestação inicial da crise do
Antigo Regime, a Revolução Inglesa do século XVII foi o ponto de partida da Era das
Revoluções, que, entre fins do século XVIII e primeira metade do século XIX, iria desvelar
o mundo contemporâneo. Relativamente a esse processo histórico, julgue (C ou E) o item
seguinte.
( ) A Revolução Francesa de 1789 marcou o perfil ideológico das revoluções burguesas, dado seu
caráter liberal e pioneiramente democrático, que acompanhou todo o processo revolucionário, da
queda da Bastilha à ascensão de Napoleão Bonaparte ao poder.
Resposta: E
3. A ERA NAPOLEÔNICA (1799-1815)
1. (IRBr 2006) Com a derrota de Bonaparte, os países vitoriosos reuniram-se em Viena, em
1815, dispostos a restaurar o status quo vigente na Europa antes de 1789, o que pode ser
entendido como tentativa de dar sobrevida ao Antigo Regime.
Resposta: C
4. A RESTAURAÇÃO EUROPEIA
1. (IRBr 2012) A respeito da ordem internacional decorrente do Congresso de Viena,
encerrado em 1815, assinale a opção correta.
a) A partir de 1815, a ordem internacional, uma espécie de condomínio de poder pautado pela
força, favoreceu o equilíbrio e a estabilidade no continente europeu ao longo do século XIX.
b) Entre 1815 e 1848, embora divergissem em determinados aspectos relacionados à ordem, as
grandes potências europeias, fazendo uso do direito de intervenção coletiva, agiram em
concerto, do que decorre a expressão Concerto de Viena.
c) A Ordem de Viena definiu um arranjo de poder com dois eixos claramente delimitados: o
formado por Inglaterra e Prússia, consideradas potências liberais, e o constituído por Áustria,
França e Rússia, consideradas potências conservadoras.
d) O princípio geral do equilíbrio entre as potências europeias valia tanto para a geopolítica
quanto para a esfera econômica do continente.
e) Uma das principais características da ordem que se construiu a partir de 1815 e perdurou até o
final do século XIX foi a ausência de guerras entre as grandes potências europeias.
Resposta: Alternativa B
2. (IRBr 2012) O Romantismo representa uma crítica à modernidade, isto é, à civilização
capitalista moderna, em nome de valores e ideais do passado (pré-capitalista, pré-
moderno). Podemos dizer que, desde sua origem, o Romantismo é iluminado pela dupla luz
da estrela da revolta e do “sol negro da melancolia” (Nerval). O elemento central dessa
estrutura – da qual dependem todos os outros – é uma contradição, ou oposição, entre dois
sistemas de valor: os do Romantismo e os da realidade social dita moderna.
M. Löwy e R. Sayre. Revolta e melancolia – o romantismo na contramão da modernidade. Petrópolis,
RJ: Vozes, 1995, p. 34-5 (com adaptações).
Tendo o texto acima como referência e considerando as questões por ele suscitadas,
assinale a opção correta.
a) O Romantismo reunia a revolta contra estruturas estéticas e filosóficas medievais e a
melancolia diante dos fundamentos ideológicos da modernidade, ou seja, combinava alienação
com fetichismo da mercadoria.
b) Apoiado em valores filosóficos de afirmação da subjetividade e do idealismo, o Romantismo
promoveu uma estética de equilíbrio e racionalidade.
c) O Romantismo apoiou no idealismo, na imaginação e na fuga para o exótico, entre outras bases
estéticas, a sua reação crítica à realidade capitalista.
d) O Romantismo celebrou esteticamente a urbanidade e os avanços tecnológicos alcançados com
a industrialização europeia verificada durante o século XIX.
e) Movimento que apregoava a alienação, o Romantismo desvinculou-se das transformações
sociais pelas quais a Europa passou durante o século XIX.
Resposta: Alternativa C
3. (IRBr 2010) Do ponto de vista da importância diplomática do Congresso de Viena
(1814/1815), julgue C ou E.
( ) Permitiu, como exercício pleno de diplomacia parlamentar, ativa participação de todos os
delegados presentes na Conferência.
( ) Lançou as bases do chamado Concerto Europeu, que assegurou maior estabilidade ao
continente europeu no período que vai até 1914.
( ) Foi a partir de então que se formou o conceito de “grandes potências”, considerado por vários
autores como precedente histórico da categoria “Membros Permanentes” do Conselho de
Segurança da ONU.
( ) Não logrou resolver o problema da ordem de precedência do corpo diplomático, o que provocou
conflitos protocolares com sérias implicações políticas.
Resposta: E – C – C – E
4. (IRBr 2006) Relativamente ao “revolucionarismo endêmico” a que o texto se refere,
julgue (C ou E) os itens subsequentes.
( ) Com a derrota de Bonaparte, os países vitoriosos reuniram-se em Viena, em 1815, dispostos a
restaurar o status quo vigente na Europa antes de 1789, o que pode ser entendido como
tentativa de dar sobrevida ao Antigo Regime.
( ) A decisão de se criar a Santa Aliança, emanada do Congresso de Viena, subordinava-se,
fundamentalmente, a dois objetivos: sufocar, na Europa, novas tentativas revolucionárias que
pudessem surgir no rastro da Revolução Francesa e impedir que, na América, se concretizassem
os ensaios emancipacionistas das colônias.
Resposta: C – C
5. (IRBr 2015 – Adaptada) O título dado por Henry Kissinger a sua tese de doutoramento –
O Mundo Restaurado – desvela a correta dimensão do Congresso de Viena (1815).
Aparentemente, vencida estava a etapa histórica representada pela Revolução Francesa e
pelo expansionismo napoleônico. Todavia, cinco anos depois, iniciaram-se ondas
revolucionárias (1820, 1830, 1848) que convulsionariam a Europa e, em larga medida, a
América. A respeito do Congresso de Viena, julgue (C ou E) os itens que se seguem.
( ) O princípio do equilíbrio europeu norteou as decisões tomadas; para tanto, limitou-se o poderio
francês.
( ) A criação da Santa Aliança estava subordinada a duplo objetivo: manter a ordem na Europa e
impedir a independência das colônias.
( ) O resultado do congresso em apreço foi parcialmente frustrado devido a guerras entre a
França e a Espanha e entre o Piemonte e a Suíça.
Resposta: C – Anulado – E
5. AS REVOLUÇÕES LIBERAIS
1. (IRBr 2007) Poucas vezes, a incapacidade dos governos em conter o curso da história foi
demonstrada de forma mais decisiva que na geração pós-1815. Evitar uma segunda
Revolução Francesa, ou ainda a catástrofe pior de uma revolução europeia generalizada
tendo como modelo a francesa, foi o objetivo supremo de todas as potências que tinham
gasto mais de vinte anos para derrotar a primeira.
Houve três ondas revolucionárias principais no mundo ocidental entre 1815 e 1848. A
primeira ocorreu em 1820-4. Na Europa, ela ficou limitada principalmente ao
Mediterrâneo, com a Espanha, Nápoles e a Grécia como seus epicentros. A Revolução
Espanhola reavivou o movimento de libertação na América Latina.
A segunda onda revolucionária ocorreu em 1829-34 e afetou toda a Europa a oeste da
Rússia e o continente norte-americano, pois a grande época de reformas do presidente
Jackson deve ser entendida como parte dela. Ela marca a derrota definitiva dos
aristocratas pelo poder burguês na Europa Ocidental. A classe governante dos próximos
cinquenta anos seria a grande burguesia de banqueiros, grandes industriais e, às vezes,
altos funcionários civis. Ela determina, também, uma inovação ainda mais radical na
política: o aparecimento da classe operária como uma força política autoconsciente e
independente na Grã-Bretanha e na França e dos movimentos nacionalistas em grande
número de países na Europa.
A terceira e maior das ondas revolucionárias foi a de 1848. Nunca houve nada tão próximo
da revolução mundial com que sonhavam os insurretos que essa conflagração espontânea
e geral. O que, em 1789, fora o levante de uma só nação era, agora, assim parecia, a
primavera dos povos de todo um continente.
Eric J. Hobsbawm. A era das revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981, p. 127-30 (com
adaptações).
Considerando as duas primeiras ondas revolucionárias do século XIX, citadas no texto, e
sua vinculação, direta ou indireta, com o continente americano, julgue (C ou E) os itens
que se seguem.
( ) Fatores internos, ainda que existentes, tornaram-se irrelevantes para a desintegração do
sistema colonial ibérico frente à influência exercida pela conjuntura revolucionária europeia no
processo de independência latino-americano, conforme sugerido pelo texto.
( ) Semelhantemente ao ocorrido quando da invasão da Península Ibérica pelas tropas francesas
de Napoleão (1808), a Revolução Espanhola de 1820 contribuiu para o recrudescimento da luta
pela independência das colônias latino-americanas.
( ) Inexistência de mercado interno expressivo e impossibilidade de aplicação de capitais pela via
de empréstimos aos Estados são dois poderosos motivos que explicam o reduzido impacto da
expansão.
Resposta: E – E – E
2. (IRBr 2005) Quando as 5 mil pequenas lâmpadas iluminaram a fachada do Palácio da
Eletricidade, por ocasião da inauguração da Exposição Universal de Paris (1900), causando
assombro à multidão que assistia ao espetáculo, comprovou-se o triunfo da ciência e a
soberania da máquina. A luz vencera o limite da noite e instaurava as 24 horas como o
novo tempo da cidade.
A arte afastava-se do mundo burguês à procura de nova clientela, capaz de um ato de
fruição total. Era preciso tornar-se autêntica e, para isso, ela precisava eliminar dos seus
efeitos específicos quaisquer outros que pudessem ter sido tomados por empréstimo. Era
necessário tornar-se “autárquica”, “pura”.
A busca incessante dessa pureza motivou os artistas do início do século XX, o que resultou
na produção de obras que deram corpo a uma notável revolução cultural.
P. E. Grinberg e A. A. Luz. Revoluções artístico-culturais no século XX. In: F. C. Teixeira da Silva
(coord.). Século sombrio: guerras e revoluções do século XX. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004 (com
adaptações).
Considerando-se os dados estritamente cronológicos, a exposição a que se refere o texto
ocorreu no último ano do século XIX. Tempo das revoluções, como é conhecido, o século
XIX é também assinalado por grandes representações, a exemplo do industrialismo, do
liberalismo, do nacionalismo e do socialismo. Julgue (C ou E) os itens a seguir, relativos ao
quadro revolucionário de fins do século XVIII e da primeira metade do século XIX.
( ) Na Europa, ondas revolucionárias em 1820, 1830 e 1848 demonstram não ter sido tarefa
simples o aniquilamento do Antigo Regime, o qual, após o vendaval revolucionário francês,
ganhou certo fôlego restauracionista com a queda de Napoleão Bonaparte.
( ) Pode-se afirmar que o processo revolucionário vivido pela Europa Ocidental apresentava, até
1848, clara simetria entre suas duas frentes – a econômica, representada pela Revolução
Industrial, e a política, representada pelas revoluções liberais. A partir de 1848, a unidade se
rompeu, e a bandeira do liberalismo burguês assumiu contornos cada vez mais conservadores.
Resposta: C – C
3. (IRBr 2010) Quanto aos vários sentidos de que se revestiu historicamente a noção de
liberalismo político, assinale a opção incorreta:
a) rejeição sistemática ao status quo.
b) valorização dos direitos individuais.
c) defesa intransigente da liberdade.
d) faculdade de escolha sem coerção.
e) conformidade com a lei.
Resposta: Alternativa A
4. (IRBr 2006) Relativamente ao “revolucionarismo endêmico” a que o texto se refere,
julgue (C ou E) os itens subsequentes.
( ) A trajetória política vivida pelo Brasil, da independência aos primeiros anos do Segundo
Reinado, apresenta semelhanças com o quadro de sucessivas ondas revolucionárias que
atingiram parte considerável da Europa na primeira metade do século XIX. Disso é exemplo a
Revolução Praieira, cujo sentido social se aproxima do ideário das revoluções europeias de 1848.
( ) Quando a Era Revolucionária se esgotou, em 1848, o mapa político e social europeu em muito
se aproximava do cenário pré-1789, o que demonstra ter sido o impacto da industrialização bem
mais aparente que real para a configuração da nova sociedade liberal e burguesa.
Resposta: C – E
5. (IRBr 2004) Há algo que não se pode dizer do século XX: que foi um tempo de brumas,
silêncios e mistérios. Tudo nele foi a céu aberto, agressivamente iluminado, escancarado e
estridente. E, no entanto, ele é ainda um enigma – um claro enigma, parafraseando
Drummond –, e dele não podemos fazer o necrológio completo. E porque findou como uma
curva inesperada da história, em um astucioso desencontro do que achávamos ser o futuro,
turvou nossa memória e nosso olhar. E tornou-se pedra e esfinge, com um brilho que ainda
cega e desafia.
O século XX foi, sem dúvida, um século das utopias. O seu andamento coincidiu com a
máxima expansão das categorias fundamentais do mundo moderno – sujeito e trabalho –,
eixos que presidiram a atualização e exasperaram os limites do liberalismo e do
socialismo, as duas grandes utopias da modernidade. E talvez por isso exiba uma
característica única e contraditória: parece ter sido o mais preparado e explicado pelos
séculos anteriores e, simultaneamente, o que mais distanciou a humanidade de seu
passado, mesmo o mais próximo, decretando o caráter obsoleto de formas de vida e
sociabilidade consolidadas durante milênios. O século XX sancionou o Estado-nação como
a forma, por excelência, de organização das sociedades em peregrinação para o futuro e
em busca de transparência. Os Estados nacionais ergueram-se como personagens
privilegiadas de uma história humana cada vez mais cosmopolita, para lembrar Kant,
modificando de forma radical a paisagem do mundo. Com eles, o direito assumiu
progressivamente a condição de um idioma universal, reagindo sobre o passado e
destruindo velhas estruturas hierárquicas fundadas em privilégios e na tradição.
Mas o século XX não é apenas um tempo de esperanças. É também o século do medo e das
tragédias injustificáveis. A dura realidade dos interesses provoca dois grandes conflitos
mundiais, um tenso período de guerra fria e uma interminável série de guerras
localizadas. Um século de violência dos que oprimem e dos que se revoltam.
Rubem Barboza Filho. Século XX: uma introdução (em forma de prefácio). Apud: Alberto Aggio e
Milton Lahuerta (org.). Pensar o século XX. São Paulo: Unesp, 2003, p. 15-9 (com adaptações).
A partir do texto acima, julgue os itens que se seguem, relativos à evolução histórica do
Brasil republicano.
( ) Liberalismo e socialismo, “as duas grandes utopias da modernidade”, como afirma o texto,
encontraram seus limites à mesma época, ainda que por motivos e caminhos distintos. Com
efeito, a crise social, política e econômica verificada nas décadas de 20 e 30 do século XX
destruiu as bases do Estado liberal – substituído pelos modelos totalitários fascistas – e eliminou
todo e qualquer apoio ideológico ao stalinismo soviético.
( ) Exemplos de violência não faltam neste século XX, classificado também no texto como o tempo
“do medo e das tragédias injustificáveis”. Entre eles, podem ser destacados os artefatos
nucleares e os fascismos, síntese incontrastável do que Hannah Arendt definiu como a
banalização do mal.
Resposta: E – C
6. (IRBr 2010) Acerca do movimento revolucionário de 1848, julgue C ou E os itens
seguintes.
( ) A publicação do Manifesto Comunista, de Marx e Engels, tornou-se, rapidamente, a referência
ideológica do movimento revolucionário em toda a Europa.
( ) Na França, a burguesia, a nobreza e os setores populares mais conservadores consideravam o
sobrinho de Napoleão, Luís Napoleão, eleito presidente em 1849 e proclamado Imperador em
1851, um “domador de revoluções”.
( ) Em algumas regiões, o movimento de 1848 assumiu, rapidamente, características nacionalistas:
na Hungria, o governo provisório efetivamente declarou a independência do Império austro-
húngaro, o qual só recuperou os territórios perdidos com a ajuda de tropas russas.
( ) A Inglaterra foi pouco atingida pela onda revolucionária de 1848, pois já vinha adotando
medidas liberais.
Resposta: E – E – E – C
7. (IRBr 2007) Poucas vezes, a incapacidade dos governos em conter o curso da história foi
demonstrada de forma mais decisiva que na geração pós-1815. Evitar uma segunda
Revolução Francesa, ou ainda a catástrofe pior de uma revolução europeia generalizada
tendo como modelo a francesa, foi o objetivo supremo de todas as potências que tinham
gasto mais de vinte anos para derrotar a primeira.
Houve três ondas revolucionárias principais no mundo ocidental entre 1815 e 1848. A
primeira ocorreu em 1820-4. Na Europa, ela ficou limitada principalmente ao
Mediterrâneo, com a Espanha, Nápoles e a Grécia como seus epicentros. A Revolução
Espanhola reavivou o movimento de libertação na América Latina.
A segunda onda revolucionária ocorreu em 1829-34 e afetou toda a Europa a oeste da
Rússia e o continente norte-americano, pois a grande época de reformas do presidente
Jackson deve ser entendida como parte dela. Ela marca a derrota definitiva dos
aristocratas pelo poder burguês na Europa Ocidental. A classe governante dos próximos
cinquenta anos seria a grande burguesia de banqueiros, grandes industriais e, às vezes,
altos funcionários civis. Ela determina, também, uma inovação ainda mais radical na
política: o aparecimento da classe operária como uma força política autoconsciente e
independente na Grã-Bretanha e na França e dos movimentos nacionalistas em grande
número de países na Europa.
A terceira e maior das ondas revolucionárias foi a de 1848. Nunca houve nada tão próximo
da revolução mundial com que sonhavam os insurretos que essa conflagração espontânea
e geral. O que, em 1789, fora o levante de uma só nação era, agora, assim parecia, a
primavera dos povos de todo um continente.
Eric J. Hobsbawm. A era das revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981, p. 127-30 (com
adaptações).
Tendo o texto acima como referência inicial e considerando o contexto histórico ao qual
ele se reporta, assinale a opção incorreta.
a) As ondas revolucionárias citadas no texto refletem, ao lado de outros fatores, o choque entre as
forças comprometidas com o Antigo Regime e as identificadas com o anseio de transformações
na sociedade europeia na primeira metade do século XIX.
b) O segundo período do texto revela um dos principais objetivos do Congresso de Viena, qual
seja, o de impedir a repetição da experiência libertária que a França protagonizara a partir de
1789 e que Bonaparte, a despeito de sua vocação imperial, disseminara pela Europa.
c) Tendo ficado imune às ondas revolucionárias que convulsionaram a Europa continental, a Grã-
Bretanha recusou-se a aceitar as determinações do Congresso de Viena e, internamente, a
promover reformas em suas instituições políticas.
d) A Revolução Constitucionalista do Porto, de 1820, inscreveu-se no contexto da primeira onda
revolucionária europeia e, em seus desdobramentos, provocou o retorno de D. João VI a Portugal
e a adoção de medidas recolonizadoras pela metrópole, o que impulsionou o processo de
independência do Brasil.
e) O Nacionalismo já se manifestava nas ondas revolucionárias mencionadas no texto e teve, nas
unificações alemã e italiana, na segunda metade do século XIX, dois de seus símbolos mais
expressivos.
Resposta: Alternativa C
8. (IRBr 2007 – Adaptada) Poucas vezes, a incapacidade dos governos em conter o curso da
história foi demonstrada de forma mais decisiva que na geração pós-1815. Evitar uma
segunda Revolução Francesa, ou ainda a catástrofe pior de uma revolução europeia
generalizada tendo como modelo a francesa, foi o objetivo supremo de todas as potências
que tinham gasto mais de vinte anos para derrotar a primeira.
Houve três ondas revolucionárias principais no mundo ocidental entre 1815 e 1848. A
primeira ocorreu em 1820-4. Na Europa, ela ficou limitada principalmente ao
Mediterrâneo, com a Espanha, Nápoles e a Grécia como seus epicentros. A Revolução
Espanhola reavivou o movimento de libertação na América Latina.
A segunda onda revolucionária ocorreu em 1829-34 e afetou toda a Europa a oeste da
Rússia e o continente norte-americano, pois a grande época de reformas do presidente
Jackson deve ser entendida como parte dela. Ela marca a derrota definitiva dos
aristocratas pelo poder burguês na Europa Ocidental. A classe governante dos próximos
cinquenta anos seria a grande burguesia de banqueiros, grandes industriais e, às vezes,
altos funcionários civis. Ela determina, também, uma inovação ainda mais radical na
política: o aparecimento da classe operária como uma força política autoconsciente e
independente na Grã-Bretanha e na França e dos movimentos nacionalistas em grande
número de países na Europa.
A terceira e maior das ondas revolucionárias foi a de 1848. Nunca houve nada tão próximo
da revolução mundial com que sonhavam os insurretos que essa conflagração espontânea
e geral. O que, em 1789, fora o levante de uma só nação era, agora, assim parecia, a
primavera dos povos de todo um continente.
Eric J. Hobsbawm. A era das revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981, p. 127-30 (com
adaptações).
Considerando as duas primeiras ondas revolucionárias do século XIX, citadas no texto, e
sua vinculação, direta ou indireta, com o continente americano, julgue C ou E o item a
seguir.
( ) A onda revolucionária de 1848 evidenciou um aspecto historicamente decisivo daquele
momento, isto é, o fato de as burguesias liberais terem assumido, resolutamente, a partir de
então, as bandeiras revolucionárias da democracia social e de um socialismo mais atenuado, que
não se confundia com aquele proposto por Marx e Engels.
Resposta: E
9. (IRBr 2006) Poucas vezes a incapacidade dos governos em conter o curso da história foi
demonstrada de forma mais decisiva do que na geração pós-1815. Evitar uma segunda
Revolução Francesa, ou, ainda, a catástrofe pior de uma revolução européia generalizada
tendo como modelo a francesa, foi o objetivo supremo de todas as potências que tinham
gasto mais de 20 anos para derrotar a primeira, até mesmo dos britânicos, que não
simpatizavam com os absolutismos reacionários que se restabeleceram em toda a Europa e
sabiam muito bem que as reformas não podiam nem deviam ser evitadas, mas que temiam
uma nova expansão franco-jacobina mais do que qualquer outra contingência
internacional. E, ainda assim, nunca na história da Europa e poucas vezes em qualquer
outro lugar, o revolucionarismo foi tão endêmico, tão geral, tão capaz de se espalhar por
propaganda deliberada como por contágio espontâneo.
Eric J. Hobsbawm. A era das revoluções: Europa 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981, p.
127.
O espírito revolucionário que acompanha o século XIX, “tão capaz de se espalhar por
propaganda deliberada como por contágio espontâneo”, como afirma o texto, foi embalado
pelas grandes ideias que arrebataram, naquele contexto histórico, o Ocidente, em especial
a Europa: liberalismo, nacionalismo e socialismo. A respeito desse cenário, no qual se
gesta o século XX, assinale a opção correta.
a) O sentimento nacional, que aflora sobretudo com a Revolução Francesa, amplia-se na medida
em que o movimento social e as lutas políticas se intensificam. Exemplo especial disso foi a luta
pela independência da Grécia, na primeira metade do século XIX, causa a que aderiram
combatentes libertários oriundos de várias nações.
b) Os socialistas aparecem na cena política europeia participando de movimentos revolucionários
ou insurrecionais, a partir do momento em que as obras de Marx e Engels são mais divulgadas e
estudadas, o que acontece nas décadas finais do século XIX.
c) Movimento anarquista, a Comuna de Paris (1870) constituiu-se, concreta e objetivamente, no
“assalto ao poder” por parte do operariado, utopia que tanto estimulava as ações dos grupos
socialistas. O êxito do movimento, que levou pânico às elites europeias, garantiu aos
revolucionários o controle da capital da França até às vésperas da Primeira Guerra Mundial.
d) As unificações políticas da Alemanha e da Itália foram alcançadas graças à mobilização popular
e à força de movimentos sociais. Esse fato explica o viés pacifista e levemente socialista que
ambos os Estados passaram a ostentar, em flagrante oposição à realidade da época.
e) A unificação política da Alemanha seguiu trajetória singular. Ela se fez a despeito da mais
absoluta ausência de unidade econômica entre os Estados germânicos e da adoção do mais
extremado liberalismo.
Resposta: Alternativa A
6. UNIFICAÇÕES TARDIAS
1. (IRBr 2015) Entre 1870-71, completou-se o processo de unificação política da Alemanha
e da Itália, o que alterou substancialmente o mapa político europeu. Em 1914, a eclosão da
Grande Guerra sepultou as ilusões da Belle Époque e destruiu uma estratégia de
convivência entre as potências que se pretendia assentada no equilíbrio. Com relação ao
período entre 1871 e 1914, julgue (C ou E) os itens a seguir.
( ) As relações intraeuropeias foram tensas, devido à aliança de defesa mútua entre o Reino da
Itália e o Império Austro-Húngaro, na última década do século XIX, para conter as ameaças
francesa e alemã.
( ) Houve a neutralização da Confederação Suíça, em 1871, e a incorporação a seu território de
parte da Savoia, o que contribuiu para restabelecer o equilíbrio geopolítico na Europa
continental.
Resposta: E – E
2. (IRBr 2013) No que concerne à unificação da Itália e suas consequências, assinale a
opção correta.
a) A deposição de Napoleão III na França liquidou as garantias de que gozava o Papa, que assistiu
à invasão dos Estados Pontificais pelas forças unionistas e à conversão de Roma em capital da
Itália unificada.
b) A unificação italiana teve consequências diretas no equilíbrio da política europeia, em especial,
na intensificação da política denominada isolamento esplêndido (splendid isolation),
implementada pela Inglaterra.
c) O Romantismo literário, o republicanismo revolucionário e o historicismo que enfatizava a
singularidade nacional inspiraram o processo de unificação da Itália.
d) O processo de unificação da Itália iniciou-se nos Condados de Nice e de Savoia, que
comandavam a guerra contra a Áustria e conseguiram amalgamar os movimentos secessionistas
que começaram a eclodir em 1859.
e) A questão romana e do pontificado somente seria resolvida em 1929, no Tratado de Locarno,
em que se estabeleceu a criação do Estado do Vaticano.
Resposta: Alternativa A
3. (IRBr 2008) Entre os movimentos nacionalistas que se destacaram na Europa do século
XIX, poucos poderiam rivalizar, em termos de importância, com as unificações alemã e
italiana. Fatores internos e externos se conjugaram para que, ao fim de complexo processo
de luta, Alemanha e Itália surgissem como Estados nacionais. A propósito desses
acontecimentos, julgue (C ou E) os itens subsequentes.
( ) Absorvido pela política interna da Prússia, o chanceler Otto von Bismarck não empreendeu
projetos na área econômica que pudessem contribuir para a Alemanha como um todo.
( ) Para reduzir custos e ampliar a possibilidade de alianças externas, Bismarck optou por não
investir na modernização do exército prussiano, apostando na via diplomática e na ação política
para isolar a Áustria, cujo interesse era a manutenção de uma Alemanha fragmentada.
( ) A guerra de 1870 contra a França surpreendeu o chanceler Bismarck, que considerava o
conflito empecilho perigoso a seus planos de unificação da Alemanha.
( ) Na Itália, o processo de unificação, que teve em Mazzini e Garibaldi lideranças exponenciais,
envolveu necessariamente confrontos externos, até porque seu território era alvo de interesses
múltiplos, a exemplo dos interesses austríacos, dos pontifícios e dos franceses.
Resposta: E – E – E – C
4. (IRBr 2005) Na segunda metade do século XIX, o imperialismo – inclusive por sua
vertente neocolonialista – atesta o grau de desenvolvimento do capitalismo e sua
incessante busca de conquista dos mercados mundiais. A respeito desse processo de
expansão, julgue (C ou E) o item seguinte.
( ) O surgimento de uma Alemanha unificada, a partir de 1870, adicionou elemento novo e
potencialmente explosivo na acirrada competição por colônias e mercados encetada pelas
potências industrializadas. Esse novo elemento está na raiz de sucessivas crises que, em
princípios do século XX, desnudaram a precariedade do equilíbrio de poder e do quadro de paz
existente na Europa.
Resposta: C
5. (IRBr 2011) Na chamada Era de Bismarck, as relações internacionais dos Estados
europeus foram marcadas por concepções políticas e de segurança atribuídas, em parte, a
esse chanceler alemão. A respeito desse tema e considerando o contexto europeu no
referido período, julgue (C ou E) os itens que se seguem.
( ) Entre 1870 e 1891, as relações internacionais da Europa foram marcadas pela ampliação da
rigidez sistêmica e pela formação de bipolaridade de blocos, o que criou antagonismos entre
antigas e novas potências.
( ) O ensaio de uma política de país insatisfeito, ansioso por ampliar sua hegemonia, mesmo por
meios semibelicosos, caracterizou a política internacional de Bismarck, o que suscitou fortes
reações de potências europeias, em particular da França.
( ) A política externa de Bismarck foi preferencialmente europeia e voltada para o equilíbrio do
continente europeu, que, segundo o chanceler alemão, deveria ser recomposto após a guerra
franco-prussiana.
( ) Bismarck visava, entre outros aspectos, garantir a integridade territorial do recém-criado
Estado alemão e o equilíbrio do sistema internacional europeu com a inclusão da Alemanha
nesse sistema.
Resposta: E – E – C – C
6. (IRBr 2011) A atitude romântica teve, no Romantismo, a sua expressão mais completa,
mas não se restringe a ele; o romântico vige até os dias de hoje. Não se trata de fenômeno
exclusivamente alemão, mas na Alemanha ganhou marcas tão especiais que, no
estrangeiro, volta e meia, confundem-se cultura alemã e atitude romântica.
Rüdiger Safranski. Romantik. Eine deutsche Affäre. München: Carl Hanser, 2007, p. 12 (trad. com
adaptações).
Considerando o texto acima como referência inicial, assinale a opção correta a respeito do
movimento romântico.
a) Alguns escritores europeus da segunda metade do século XIX, tais como Johann Wolfgang von
Goethe, Charles Baudelaire e James Joyce, pertenceram à chamada geração ultrarromântica,
marcada por atitude pessimista em relação à vida, gosto pelo macabro e pela vida boêmia.
b) Foi característica marcante do Romantismo literário a simpatia pela Antiguidade Clássica,
sobretudo pela cultura latina, cujos padrões estilísticos os escritores oitocentistas procuraram
emular.
c) As composições de Wolfgang Amadeus Mozart figuram como exemplos da música romântica,
em razão da ênfase na expressão das emoções individuais, da preferência pela música
instrumental, da opção frequente por grandes orquestras e da desvalorização da música sacra.
d) Diversos artistas e estetas românticos adotaram uma postura crítica diante do ideário
iluminista ao enfatizarem a intuição, os sentimentos individuais, a imaginação, o mistério, em
detrimento do racionalismo, do universalismo e do otimismo típicos dos iluministas.
e) Artistas ligados ao Romantismo alemão propunham aproximar dos seus congêneres europeus a
literatura, a música e as artes plásticas produzidas nos países de língua alemã, o que, somado à
atitude de desligamento em relação ao mundo cotidiano e à política, imunizou esse movimento
contra o crescente nacionalismo da cena cultural europeia.
Resposta: Alternativa D
7. (IRBr 2012) A ideia de uma União Europeia, de uma forma ou de outra, não era nova. O
século XIX havia experimentado na Europa Central uma variedade de uniões alfandegárias,
com diferentes graus de sucesso, e, mesmo antes da Primeira Guerra Mundial,
ocasionalmente, falava-se com idealismo a respeito da noção de que o futuro da Europa
estava na convergência das diversas partes. A própria Primeira Guerra Mundial, longe de
dissipar essas visões otimistas, parece ter-lhes conferido mais vigor: conforme Aristide
Briand insistia, chegara o momento de superar rivalidades passadas e pensar e falar como
europeu, sentir-se europeu.
Tony Judt. Pós-guerra: uma história da Europa desde 1945. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p. 166
(com adaptações).
Tendo o texto acima como referência inicial e considerando a temática por ele abordada,
julgue (C ou E) o item que se segue.
( ) Exemplo de êxito daquilo que o texto identifica como “variedade de uniões alfandegárias”, o
Zollverein foi o passo inicial e decisivo para o processo de unificação política alemã. Liderada
pela burguesia austríaca, a crescente integração econômica dos Estados germânicos isolou a
aristocracia junker e deu suporte à estratégia bismarckiana.
Resposta: E
8. (IRBr 2005 – Adaptada) Julgue (C ou E) o item seguinte, considerando o século XIX
como o laboratório em que foi gerado o século XX, a despeito das singularidades de cada
um dos períodos.
( ) O Romantismo, espécie de escoadouro de aspirações e perplexidades típicas do século XIX,
encontrou, nas primeiras décadas do século XX, o espaço ideal para se expandir,
particularmente, na literatura, na música erudita e nas artes plásticas.
Resposta: E
9. (IRBr 2014) A Revolução Industrial provocou substancial modificação nos fluxos do
comércio internacional, e o fez pela própria natureza de sua produção; paralelamente, o
aumento populacional ampliou a demanda por alimentos de modo a alterar as formas
tradicionais de suprimento desses bens. Ao longo do século XIX, o comércio internacional
sofreu profundas mudanças tanto em relação às principais mercadorias que o compunham
como em relação aos países ou às regiões produtores envolvidos nesse comércio. Mas
também é certo que, após 1870, houve substanciais mudanças na estrutura e na dinâmica
da economia capitalista mundial, com a afirmação de outras potências, que passaram
efetivamente a competir com a Grã-Bretanha. Por isso, justifica-se a definição de 1870
como um marco cronológico fundamental, inclusive ao adotar, para o período que aí se
inicia, o rótulo de fase imperialista do capitalismo.
Flávio Azevedo Marques de Saes e Alexandre Macchione Saes. História econômica geral. São Paulo:
Saraiva, 2013, p. 179-93 (com adaptações).
Considerando as razões pelas quais o texto acima define 1870 como “marco cronológico
fundamental” para o mundo contemporâneo, julgue (C ou E) os próximos itens.
( ) Conduzida pelo vitorioso chanceler prussiano Bismarck, a unificação alemã alterou
radicalmente o cenário político europeu, em especial por ter colocado a França em posição
subalterna. Pequeno foi, contudo, seu impacto econômico em uma época em que o imperialismo
alçava voos em direção às mais distantes regiões do globo.
( ) Nos primeiros anos do século XX, a militarmente poderosa Alemanha e a economicamente forte
Grã-Bretanha, em estreita aproximação, isolaram os impérios centrais – Áustria-Hungria,
Turquia e Rússia – e neutralizaram diplomaticamente a França, preparando o terreno para a
Grande Guerra de 1914.
Resposta: E – E
7. AS REVOLUÇÕES INDUSTRIAIS
1. (IRBr 2013) A partir de meados do século XIX, acompanhando o processo de
desenvolvimento da industrialização, o proletariado buscou desenvolver formas de
solidariedade. Nessa perspectiva, surgiram cooperativas, associações de ajuda mútua e,
por fim, sindicatos. Muitos governos chegaram a desenvolver políticas sociais,
provavelmente para enquadrar o movimento operário, como evidencia a avançada política
habitacional na Alemanha de Bismarck. Relativamente a esse cenário, assinale a opção
correta.
a) Com o apoio das tropas prussianas, a Comuna de Paris logrou assumir o controle da capital
francesa e nela implantou o modelo anarquista de administração pública.
b) Presa às circunstâncias históricas do passado, a Igreja Católica mostrou-se insensível à questão
social, vindo a se manifestar sobre esse tema apenas no século XX.
c) Ao longo do século XIX, o movimento operário europeu foi marcadamente ideológico e, na
maioria absoluta dos casos, plenamente identificado com o socialismo.
d) Apesar da acirrada oposição de Marx e Engels, o avanço do movimento operário sustentou-se
em aguda radicalização política e ideológica.
e) Surgida em 1864, a Associação Internacional dos Trabalhadores, ou I Internacional, pretendia
articular a luta do movimento operário em escala mundial.
Resposta: Alternativa E
2. (IRBr 2012) A respeito da Revolução Industrial na Europa e de fatos a ela relacionados,
julgue (C ou E) os itens subsequentes.
( ) A expansão da Revolução Industrial na Europa favoreceu o surgimento de movimentos políticos
e sociais, alguns deles relacionados ao rápido processo de urbanização que se verificou no
continente a partir do século XIX.
( ) A economia industrial no continente europeu foi dinamizada, entre outros importantes fatores,
pela inexistência, até a década de 60 do século XIX, de políticas protecionistas de comércio
exterior.
( ) O retardo do desenvolvimento da economia industrial nos países da Europa Continental,
comparativamente ao da Grã-Bretanha, deveu-se à precária cultura liberal empreendedora e às
dificuldades econômicas advindas de conflitos armados.
( ) A disseminação da economia industrial na Europa Continental foi facilitada pelos grandes
fluxos de investimentos internacionais que surgiram dos excedentes de capitais, com o objetivo
de boas oportunidades de negócios, o que permitiu a injeção de capitais no sistema financeiro
europeu e de tecnologias no processo de industrialização.
Resposta: C – C – E – C
3. (IRBr 2012) A história mundial contemporânea, iniciada no último terço do século XVIII,
apresenta-se como uma sucessão de sistemas mundiais intercalados por fases de transição
e configuração de novas lideranças. Assim, de 1776 (ano da independência dos EUA e da
publicação de A Riqueza das Nações, de Adam Smith) a 1890, a Pax Britânica, embasada
na Revolução Industrial e regulada pelo liberalismo, deu início ao mundo dominado pelas
potências anglo-saxônicas.
Paulo G. Fagundes Visentini e Analúcia Danilevicz Pereira. História do mundo contemporâneo.
Petrópolis: Vozes, 2008, p. 10 (com adaptações).
Tendo o texto acima como referência inicial e considerando aspectos da história econômica
mundial, julgue (C ou E) o item seguinte.
( ) Ao longo do século XIX, nas regiões economicamente mais dinâmicas, capitalismo e sociedade
industrial consolidaram-se em meio a um cenário de crescente urbanização, de formação e
expansão do mercado de trabalho assalariado, de uma economia cada vez mais permeada por
bens industrializados, de concentração e centralização da riqueza e dos capitais em grandes
empresas, e de um mercado em franco processo de mundialização.
Resposta: C
4. (IRBr 2013) Por volta de 1860, uma nova palavra entrou no vocabulário econômico e
político do mundo: “capitalismo”. O triunfo global do capitalismo é o tema mais
importante da história nas décadas que sucederam 1848. Foi o triunfo de uma sociedade
que acreditou que o crescimento repousava na competição da livre iniciativa privada, no
sucesso de comprar tudo no mercado mais barato (inclusive trabalho) e vender no mais
caro.
Eric J. Hobsbawm. A Era do capital (1848-1875). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 21 (com
adaptações).
Tendo o texto acima como referência inicial e considerando o significado histórico da
Revolução Industrial, julgue (C ou E) os itens a seguir.
( ) Assentada na notável evolução tecnológica que a caracterizou, a Revolução Industrial alterou
radicalmente o sistema produtivo, ampliando, de maneira inédita, o volume da produção e os
mercados consumidores. Essa transformação, contudo, foi insuficiente para determinar novos
padrões de pensamento e de comportamento da sociedade, que ainda permanecia presa a ideias
e valores do passado rural.
( ) Entre os diversos elementos que se conjugam para a conceituação mais abrangente da
Revolução Industrial, destacam-se a substituição das ferramentas pelas máquinas, da energia
humana pela motriz e da forma doméstica de produção pelo sistema fabril.
( ) No período de tempo mencionado no texto, a partir de meados do século XIX, a Revolução
Industrial deixa de ser um acontecimento essencialmente inglês e tende a se disseminar. Nesse
processo de universalização da moderna indústria, assinalada pela expansão imperialista,
verifica-se a consolidação do capitalismo como sistema econômico dominante.
( ) A competição citada no texto, razão de ser de crescimento econômico que não teria fim, como
se acreditava à época, circunscreveu-se à iniciativa privada. A triunfante sociedade burguesa,
defensora intransigente dos princípios liberais, impediu que a ação dos Estados nacionais
interferisse na economia, o que resultou em clima de paz e de rivalidades amortecidas, que
perdurou até meados do século XX.
Resposta: E – C – C – E
5. (IRBr 2010) A Revolução Industrial começou na Inglaterra na segunda metade do século
XVIII. A respeito desse assunto, assinale a opção correta.
a) Como a Inglaterra foi pouco beneficiada pela Revolução Comercial, a Revolução Industrial veio
a oferecer-lhe oportunidade para recuperar seu relativo atraso econômico.
b) À época, a população inglesa era equivalente, em número, à da França, embora a Inglaterra
tivesse dimensões bem menores.
c) O carvão, o ferro – as duas grandes riquezas da Inglaterra – já eram fartamente exploradas no
início da Revolução.
d) O fato de ter um sistema financeiro ainda precário não impediu que a Inglaterra levasse adiante
seu processo de industrialização.
e) A Inglaterra não dispunha de recursos agrícolas e florestais suficientes para as suas
necessidades.
Resposta: Alternativa E
6. (IRBr 2009) No final do século XVIII e no início do XIX, após a introdução do bastidor
hidráulico de Arkwright, uma onda de avanços técnicos impulsionou a segunda Revolução
Industrial, movida a eletricidade, produtos químicos e óleos. Juntas, essas descobertas
tornariam as indústrias mais limpas e eficientes do que as fábricas da etapa anterior,
movidas a vapor e a carvão. E as novas técnicas alavancariam o comércio de maneira
inimaginável. No final do século XIX, barcos a vapor, telégrafos e motores elétricos
multiplicavam-se: Arkwright não podia ter previsto nada disso quando patenteou sua
máquina fiandeira em 1769. Em um século e meio, o mundo mudou de forma irreversível
nas esferas comercial, social e política.
Patrícia S. Daniels e Stephen G. Hyslop. Atlas da história do mundo. National Geographic, São Paulo:
Abril, 2004, p. 242-3 (com adaptações).
Tendo o texto acima como referência e considerando o significado histórico da Revolução
Industrial, julgue (C ou E) os itens subsequentes.
I. Infere-se do texto que as incessantes inovações tecnológicas estão presentes no transcurso da
Revolução Industrial, o que altera o tipo de força motriz que impulsiona a moderna
industrialização e, certamente, contribui para a ampliação da capacidade produtiva e para a
expansão do comércio mundial.
II. O processo de industrialização iniciado na Grã-Bretanha, na segunda metade do século XVIII,
acelerou a substituição de antigas formas de produção pelo capitalismo, que se consolidava
como sistema econômico dominante, com a atividade fabril suplantando o trabalho doméstico e a
crescente prevalência do trabalho assalariado.
III. As novas condições sociais geradas pela Revolução Industrial constituíram fermento de ondas
revolucionárias que convulsionaram a Europa, notadamente em 1848.
IV. Entre as transformações irreversíveis mencionadas no texto, produzidas pelo avanço da
industrialização, o cenário existente em fins do século XIX assinalava a proibição do trabalho
infantil e feminino, a regulamentação da jornada de trabalho e o surgimento dos serviços
previdenciários, em meio a uma sociedade que lentamente se urbanizava.
Resposta: I. C – II. C – III. C – IV. E
7. (IRBr 2008) Com relação ao peso da industrialização no desenvolvimento do capitalismo,
do século XVIII aos nossos dias, julgue (C ou E) os seguintes itens.
I. A fase inicial da industrialização, predominantemente inglesa, a partir do século XVIII, foi
marcada pela produção de bens de consumo, especialmente os têxteis, e pela utilização do ferro
e do carvão como base do processo produtivo.
II. Embora emitindo sinais que apontavam para a universalização futura do capitalismo, a
industrialização ascendente ao longo do século XIX foi monopolizada pela Inglaterra e manteve-
se adstrita à Europa Ocidental.
III. Novas formas de produção de energia, como a hidrelétrica, e novos combustíveis, como o
petróleo, tiveram discreta participação no ciclo industrial que, já no final do século XIX, colocava
o motor a explosão no centro do processo industrial.
IV. As formas de indústrias desenvolvidas nas últimas décadas do século XX e início do século XXI
modificaram o paradigma da linha clássica de produção em favor da produção informatizada e
com alto grau de automação e tecnologia.
Resposta: I. C – II. E – III. E – IV. C
8. (IRBr 2006) O século XX coincidiu com a máxima expansão das categorias fundamentais
do mundo moderno – sujeito e trabalho –, eixos que presidiram a atualização e
exasperaram os limites do liberalismo e do socialismo, as duas grandes utopias da
modernidade. Tais utopias não nasceram no século XX, mas este foi o laboratório mais
distendido de todas elas, o campo concreto de experimento de suas virtualidades, das suas
figuras e de sua imaginação. Talvez por isso o século XX exiba uma característica única e
contraditória: parece ter sido o mais preparado e explicado pelos séculos anteriores e,
simultaneamente, o que mais distanciou a humanidade de seu passado, mesmo o mais
próximo, decretando o caráter obsoleto de formas de vida e sociabilidade consolidadas
durante milênios. O século XX foi o salto definitivo da humanidade para o futuro, para a
história entendida como transformação permanente e fluxo contínuo do tempo em direção
a um tempo de abundância e liberdade, perspectiva avalizada pela sistemática ampliação
das promessas da ciência, da tecnologia, das novas modalidades de organização social e da
produção material. Um século, portanto, de mandamentos utópicos que sacrificaram o
passado e seus mitos, mudaram o ritmo da vida e ocidentalizaram a Terra, tornando-a mais
homogênea e seduzida por semelhantes imagens de futuro. Nesse sentido, nada mais
próximo e nada mais distante do século XIX do que o século XX.
Rubem Barboza Filho. Século XX: uma introdução (em forma de prefácio). In: Alberto Aggio e Milton
Lahuerta (orgs.). Pensar o século XX: problemas políticos e história nacional na América Latina. São
Paulo: Editora UNESP, 2003, p. 16 (com adaptações).
No quadro mais amplo da contemporaneidade, o texto aproxima e distingue tendências do
século XIX e do século XX. Nesse contexto, julgue (C ou E) o item seguinte.
( ) A Revolução Industrial consolida novas relações de produção e, ao promover a expansão
imperialista, contemplando novas formas de dominação colonial, estende a atuação do moderno
capitalismo às mais distantes regiões do planeta.
Resposta: C
9. (IRBr 2004) Há algo que não se pode dizer do século XX: que foi um tempo de brumas,
silêncios e mistérios. Tudo nele foi a céu aberto, agressivamente iluminado, escancarado e
estridente. E, no entanto, ele é ainda um enigma – um claro enigma, parafraseando
Drummond –, e dele não podemos fazer o necrológio completo. E porque findou como uma
curva inesperada da história, em um astucioso desencontro do que achávamos ser o futuro,
turvou nossa memória e nosso olhar. E tornou-se pedra e esfinge, com um brilho que ainda
cega e desafia.
O século XX foi, sem dúvida, um século das utopias. O seu andamento coincidiu com a
máxima expansão das categorias fundamentais do mundo moderno – sujeito e trabalho –,
eixos que presidira a atualização e exasperaram os limites do liberalismo e do socialismo,
as duas grandes utopias da modernidade. E talvez por isso exiba uma característica única e
contraditória: parece ter sido o mais preparado e explicado pelos séculos anteriores e,
simultaneamente, o que mais distanciou a humanidade de seu passado, mesmo o mais
próximo, decretando o caráter obsoleto de formas de vida e sociabilidade consolidadas
durante milênios.
O século XX sancionou o Estado-nação como a forma, por excelência, de organização das
sociedades em peregrinação para o futuro e em busca de transparência. Os Estados
nacionais ergueram-se como personagens privilegiadas de uma história humana cada vez
mais cosmopolita, para lembrar Kant, modificando de forma radical a paisagem do mundo.
Com eles, o direito assumiu progressivamente a condição de um idioma universal,
reagindo sobre o passado e destruindo velhas estruturas hierárquicas fundadas em
privilégios e na tradição.
Mas o século XX não é apenas um tempo de esperanças. É também o século do medo e das
tragédias injustificáveis. A dura realidade dos interesses provoca dois grandes conflitos
mundiais, um tenso período de guerra fria e uma interminável série de guerras
localizadas. Um século de violência dos que oprimem e dos que se revoltam.
Rubem Barboza Filho. Século XX: uma introdução (em forma de prefácio). Apud: Alberto Aggio e
Milton Lahuerta (org.). Pensar o século XX. São Paulo: Unesp, 2003, p. 15-9 (com adaptações).
Considerando o texto acima, julgue o item seguinte, relativo ao cenário histórico do mundo
contemporâneo.
( ) A moderna industrialização, a partir da Revolução Industrial inglesa, desvelou uma nova
realidade histórica que o texto indica como visceralmente oposta ao que existia antes, tornando
obsoletas as “formas de vida e sociabilidade consolidadas durante milênios”. Essa diferença
manifesta-se, por exemplo, de modo “escancarado e estridente”, na mudança do locus tradicional
da vida social – homens e mulheres fogem ou são expulsos do mundo agrário e rural para as
cidades.
Resposta: C
10. (IRBr 2015) Iniciada nas últimas décadas do século XVIII, na Inglaterra, a Revolução
Industrial é um processo que se prolonga no tempo. A partir de meados do século XIX, ela
conheceu novo e extraordinário impulso, etapa normalmente definida como Segunda
Revolução Industrial. Esse período é assinalado pela difusão do uso do aço, da eletricidade
e do petróleo, entre outras inovações. Com referência a esse período da moderna
industrialização, julgue (C ou E) os próximos itens.
( ) O processo industrial expandiu-se para os diferentes continentes e, simultaneamente, o sistema
financeiro internacionalizou-se.
( ) O ritmo da industrialização europeia, principalmente na Alemanha, Inglaterra e Itália, foi
prejudicado pelo encarecimento das novas formas de energia e pela falta de mão de obra,
decorrente da emigração em massa de europeus para os EUA e para a América do Sul.
( ) Incrementou-se o comércio internacional, tendo havido, ainda, expansão econômica da América
Latina, particularmente da economia primária e de exportação.
( ) A utilização de novos materiais e fontes de energia ampliou a capacidade de produção e
consolidou o capitalismo como sistema dominante.
Resposta: E – E – C – C
11. (IRBr 2006) Compreender o processo histórico protagonizado pelo século XIX e seus
desdobramentos no século seguinte requer, em meio a tantos outros aspectos essenciais, o
exame da trajetória seguida pelo capitalismo. A propósito desse cenário histórico, julgue
(C ou E) o item seguinte.
( ) A partir de meados do século XIX, o sistema capitalista adquire feições novas. Sem perder suas
características fundamentais e definidoras, como a propriedade privada dos meios de produção e
o objetivo da acumulação, ele se torna crescentemente monopolista e financeiro.
Resposta: C
12. (IRBr 2003) Não podemos comparar o mundo do final do breve século XX ao mundo de
seu início, em termos de contabilidade histórica de mais e menos. Tratava-se de um mundo
qualitativamente diferente em pelo menos três aspectos.
Primeiro, ele tinha deixado de ser eurocêntrico. Trouxera o declínio e a queda da Europa,
ainda centro inquestionado de poder, riqueza, intelecto e civilização ocidental quando o
século começou. A segunda transformação foi mais significativa. Entre 1914 e o início da
década de 1990, o globo foi muito mais uma unidade operacional única, como não era e
não poderia ter sido em 1914. Na verdade, para muitos propósitos, notadamente em
questões econômicas, o globo é agora unidade operacional básica, e unidades mais velhas
como as economias nacionais, definidas pelas políticas de Estados territoriais, estão
reduzidas a complicações das atividades transnacionais. A terceira transformação, em
certos aspectos a mais perturbadora, é a desintegração de velhos padrões de
relacionamento social humano, e com ela, aliás, a quebra dos elos entre as gerações, quer
dizer, entre passado e presente.
Eric Hobsbawm. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das
Letras, 1995, p. 23-4 (com adaptações).
A partir da análise contida no texto acima, julgue o item seguinte, relativo ao processo
histórico do mundo contemporâneo.
( ) O mundo que o século XX deixa para o XXI é, em linhas gerais, uma aldeia global, possível
também pela acelerada revolução das comunicações e dos transportes. Nessa perspectiva, a
globalização em marcha na atualidade corresponde a uma ruptura histórica com o capitalismo
que a precedeu, tamanhas e fundas as diferenças entre o modelo econômico gestado pela
Revolução Industrial e o praticado, em escala planetária, nos dias de hoje.
Resposta: C
13. (IRBr 2003 – Adaptada) Considerando o cenário econômico mundial na passagem do
século XIX ao século XX, julgue (C ou E) os próximos itens.
( ) As transformações verificadas no sistema produtivo capitalista, a partir de meados do século
XIX, tiveram na substituição do ferro e do carvão pelo aço e pela eletricidade o ponto de partida
para a configuração da moderna industrialização.
( ) As últimas décadas do século XIX assistiram à disseminação da crença burguesa em um
progresso ilimitado, do qual as exposições universais – tal como a citada no texto – eram
símbolos poderosos.
( ) A inexistência de crises mais pronunciadas no sistema capitalista, ao longo da segunda metade
do século XIX, reforçava o ponto de vista de governos e de grandes empresários no tocante à
perenidade do desenvolvimento material que estava em marcha.
( ) Assinada pelo Papa Leão XIII em 1891, a encíclica Rerum Novarum, primeira grande
manifestação oficial da Igreja Católica para a elaboração de uma doutrina social-cristã, ao
mesmo tempo em que atacava firmemente os excessos da exploração capitalista, expressava sutil
apoio às teses socialistas.
Resposta: C – C – E – E
8. IMPERIALISMO OU NEOCOLONIALISMO
1. (IRBr 2012) Com relação ao colonialismo europeu no século XIX, julgue (C ou E) os itens
que se seguem.
( ) A corrida colonialista do final do século XIX, para a qual serve de exemplo de ordem econômica
o capitalismo industrial, necessitado, naquele momento, de ampliar o fornecimento de matérias-
primas e de aumentar o mercado consumidor, resultou da conjunção de vários processos, entre
os quais se incluem fatores de natureza estratégica e ideológica.
( ) A disputa entre Portugal e Bélgica pelas riquezas minerais de Angola exemplifica a influência
determinante exercida pela corrida colonial sobre a política continental, com a qual se
envolveram as potências europeias no período de 1871 a 1890.
( ) A Conferência de Berlim, realizada entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885, consagrou o
princípio da ocupação declarada de áreas em litígio, garantindo a soberania ao país que ocupava
o território.
( ) O novo colonialismo europeu, identificado a partir do último terço do século XIX, retomou a
corrida por possessões coloniais, motivado pelos mesmos interesses e inspirado pelas mesmas
dinâmicas políticas, religiosas, civilizacionais e econômicas que marcaram o século XVI.
Resposta: C – C – C – E
2. (IRBr 2014) A Revolução Industrial provocou substancial modificação nos fluxos do
comércio internacional, e o fez pela própria natureza de sua produção; paralelamente, o
aumento populacional ampliou a demanda por alimentos de modo a alterar as formas
tradicionais de suprimento desses bens. Ao longo do século XIX, o comércio internacional
sofreu profundas mudanças tanto em relação às principais mercadorias que o compunham
como em relação aos países ou às regiões produtores envolvidos nesse comércio. Mas
também é certo que, após 1870, houve substanciais mudanças na estrutura e na dinâmica
da economia capitalista mundial, com a afirmação de outras potências, que passaram
efetivamente a competir com a Grã-Bretanha. Por isso, justifica-se a definição de 1870
como um marco cronológico fundamental, inclusive ao adotar, para o período que aí se
inicia, o rótulo de fase imperialista do capitalismo.
Flávio Azevedo Marques de Saes e Alexandre Macchione Saes. História econômica geral. São Paulo:
Saraiva, 2013, p. 179-93 (com adaptações).
Considerando as razões pelas quais o texto acima define 1870 como “marco cronológico
fundamental” para o mundo contemporâneo, julgue (C ou E) os próximos itens.
( ) A partilha da África foi decidida na Conferência de Berlim, em 1885, sob a chancela da Liga das
Nações e subordinada a critérios consensualmente aceitos pelos participantes, a exemplo da
observância à identidade cultural das populações locais e do respeito às fronteiras naturais.
( ) A expansão imperialista no século XIX, que se estendeu ao século seguinte, foi conduzida pelas
potências industrializadas do Ocidente. Na África, elas transformaram antigos Estados nacionais
em meras colônias e, na Ásia, subjugaram o Japão e a Indochina, mas não conseguiram conter a
vigorosa resistência chinesa.
Resposta: C – E
3. (IRBr 2010) Em 1866, o Primeiro Ministro britânico Disraeli declarou que a Inglaterra
era uma potência mais asiática do que europeia. Com efeito, no final do século XIX, o
equilíbrio europeu começou o processo de transição para o equilíbrio do poder em escala
mundial, com a influência crescente de atores extraeuropeus. A respeito desse tema,
julgue C ou E.
( ) Em 1904, como resultado da primeira guerra entre uma potência europeia e uma potência
asiática, a Rússia vitoriosa deteve temporariamente a ascensão japonesa.
( ) O Japão se beneficiou mais do que a Inglaterra com a inédita aliança bilateral estabelecida em
1902.
( ) A política norte-americana da Porta Aberta (Open Door), em relação à China, significou a
intenção dos EUA de se eximir de interferências nas disputas em curso por zonas da influência
em território chinês.
Resposta: E – C – E
4. (IRBr 2015) Seguindo a marcha de afirmação da Revolução Industrial, o século XIX
testemunhou a consolidação do capitalismo como um sistema que estende seu domínio
sobre as demais formas de organização da economia. Como já previa o Manifesto
Comunista, de 1848, ele se universalizou, incorporando as mais diversas regiões do
planeta. Esse processo de expansão é comumente denominado imperialismo e tem no
neocolonialismo sua face mais visível. Relativamente a esse cenário que desvela, sob o
ponto de vista econômico, a contemporaneidade, julgue (C ou E) os itens seguintes.
( ) No Extremo Oriente, a expansão do mercado capitalista foi facilitada pelo fato de que China e
Japão eram sociedades historicamente abertas ao intercâmbio com estrangeiros, o que pode ser
comprovado pela presença, em ambos os países, de número considerável de comerciantes e
missionários ocidentais.
( ) Ainda que possa ser interpretada como uma continuidade da expansão ocorrida na Idade
Moderna, a expansão capitalista ao longo do século XIX assumiu novas características em termos
de motivações inspiradoras, métodos utilizados e objetivos perseguidos.
( ) A expansão imperialista do século XIX encontrou unidade e consistência na ideia, disseminada
à exaustão, de que a expansão seria benéfica para os povos por ela atingidos: assim, levar o
progresso e propagar a civilização seria missão e direito; e a incompreensão dos beneficiários
seria o “fardo do homem branco”, na conhecida expressão de Kipling.
( ) Na Índia, o impacto da dominação britânica pode ser sintetizado em dois aspectos essenciais: a
desarticulação da economia artesanal, especialmente a rural, e a exploração imperialista
sistemática, ou seja, a adoção de determinadas práticas de dominação e de controle pelos
ingleses.
Resposta: E – C – C – C
5. (IRBr 2006) O século XX coincidiu com a máxima expansão das categorias fundamentais
do mundo moderno – sujeito e trabalho –, eixos que presidiram a atualização e
exasperaram os limites do liberalismo e do socialismo, as duas grandes utopias da
modernidade. Tais utopias não nasceram no século XX, mas este foi o laboratório mais
distendido de todas elas, o campo concreto de experimento de suas virtualidades, das suas
figuras e de sua imaginação. Talvez por isso o século XX exiba uma característica única e
contraditória: parece ter sido o mais preparado e explicado pelos séculos anteriores e,
simultaneamente, o que mais distanciou a humanidade de seu passado, mesmo o mais
próximo, decretando o caráter obsoleto de formas de vida e sociabilidade consolidadas
durante milênios. O século XX foi o salto definitivo da humanidade para o futuro, para a
história entendida como transformação permanente e fluxo contínuo do tempo em direção
a um tempo de abundância e liberdade, perspectiva avalizada pela sistemática ampliação
das promessas da ciência, da tecnologia, das novas modalidades de organização social e da
produção material. Um século, portanto, de mandamentos utópicos que sacrificaram o
passado e seus mitos, mudaram o ritmo da vida e ocidentalizaram a Terra, tornando-a mais
homogênea e seduzida por semelhantes imagens de futuro. Nesse sentido, nada mais
próximo e nada mais distante do século XIX do que o século XX.
Rubem Barboza Filho. Século XX: uma introdução (em forma de prefácio). In: Alberto Aggio e Milton
Lahuerta (orgs.). Pensar o século XX: problemas políticos e história nacional na América Latina. São
Paulo: Editora UNESP, 2003, p. 16 (com adaptações).
No quadro mais amplo da contemporaneidade, o texto aproxima e distingue tendências do
século XIX e do século XX. Nesse contexto, julgue (C ou E) o item seguinte.
( ) Ao contrário da Ásia e, particularmente, da África, ambas repartidas entre as principais
potências ocidentais, a América Latina praticamente não sofreu a ação do imperialismo, o que se
explica pelo fato de, em larga medida, as antigas colônias ibéricas terem conquistado sua
independência na primeira metade do século XIX.
Resposta: E
6. (IRBr 2005) Na segunda metade do século XIX, o imperialismo – inclusive por sua
vertente neocolonialista – atesta o grau de desenvolvimento do capitalismo e sua
incessante busca de conquista dos mercados mundiais. A respeito desse processo de
expansão, julgue (C ou E) os itens seguintes.
( ) A fragilidade do Estado chinês, imerso em profunda crise interna, facilitou a presença, nesse
país, do imperialismo ocidental na segunda metade do século XIX. Em pouco tempo, boa parte do
litoral da China passou ao controle das potências ocidentais e, graças a tratados desiguais, a elas
foi conferido o direito de extraterritorialidade.
( ) Foge aos padrões tradicionais a forma pela qual o Japão reagiu às pressões externas para que
abrisse seu mercado ao comércio internacional. A Era Meiji, iniciada nesse contexto de expansão
do capitalismo, significou a decisão de se proceder à modernização do país, inserindo-o na nova
economia mundial, sem que se abdicasse da soberania.
( ) A Conferência de Berlim, em fins da década de 80, tratou da partilha da África entre os grandes
Estados europeus. Digna de destaque foi a preocupação registrada no documento oficial do
encontro, qual seja, a de se respeitar a identidade étnico-cultural dos povos africanos no
momento da definição das fronteiras coloniais.
Resposta: C – C – E
7. (IRBr 2003) Não podemos comparar o mundo do final do breve século XX ao mundo de
seu início, em termos de contabilidade histórica de mais e menos. Tratava-se de um mundo
qualitativamente diferente em pelo menos três aspectos. Primeiro, ele tinha deixado de ser
eurocêntrico. Trouxera o declínio e a queda da Europa, ainda centro inquestionado de
poder, riqueza, intelecto e civilização ocidental quando o século começou. A segunda
transformação foi mais significativa. Entre 1914 e o início da década de 1990, o globo foi
muito mais uma unidade operacional única, como não era e não poderia ter sido em 1914.
Na verdade, para muitos propósitos, notadamente em questões econômicas, o globo é
agora unidade operacional básica, e unidades mais velhas como as economias nacionais,
definidas pelas políticas de Estados territoriais, estão reduzidas a complicações das
atividades transnacionais. A terceira transformação, em certos aspectos a mais
perturbadora, é a desintegração de velhos padrões de relacionamento social humano, e
com ela, aliás, a quebra dos elos entre as gerações, quer dizer, entre passado e presente.
Eric Hobsbawm. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das
Letras, 1995, p. 23-4 (com adaptações).
A partir da análise contida no texto acima, julgue o item seguinte, relativo ao processo
histórico do mundo contemporâneo.
( ) Seguindo a trajetória ascensional da economia capitalista ao longo do século XIX, a Europa
exerce incontrastável supremacia mundial quando do início do século XX. Ao comandar a
expansão imperialista, especialmente em termos de neocolonialismo, as principais potências
europeias dividem o globo segundo seus interesses, muitas vezes justificando sua ação
dominadora por meio de um construto ideológico – a missão civilizadora do branco europeu
sobre povos e regiões considerados atrasados.
Resposta: C
8. (IRBr 2007 – Adaptada) Considerando o quadro histórico do século XIX no Ocidente,
julgue (C ou E) o item seguinte.
( ) O processo de expansão do capitalismo, a partir de meados do século XIX, fez-se à margem dos
Estados nacionais, conduzido que foi pela iniciativa privada. Isso explica a reduzida intensidade
das crises que envolveram os países europeus ao longo da corrida imperialista, quadro que
tendeu a modificar-se apenas a partir dos anos 1930, devido ao impacto da grande depressão
econômica.
Resposta: E
9. (IRBr 2006) Compreender o processo histórico protagonizado pelo século XIX e seus
desdobramentos no século seguinte requer, em meio a tantos outros aspectos essenciais, o
exame da trajetória seguida pelo capitalismo. A propósito desse cenário histórico, julgue
(C ou E) os itens seguintes.
( ) A tendência à concentração de empresas e à centralização de capitais altera, na prática, as
antigas formas de concorrência e elimina o antigo discurso liberal assentado no livre-cambismo,
na liberdade dos mares e na condenação às práticas protecionistas.
( ) Instituição poderosa, com larga ascendência sobre governos e sociedades, a Igreja Católica
adota, com o Papa Leão XIII, a corajosa atitude de expor sua doutrina social em um contexto de
grave crise social – a depressão econômica dos anos 1870. O conteúdo da encíclica Rerum
Novarum representava um convite aos católicos a combater o “capitalismo materialista” e, em
decorrência, a apoiar pontos centrais do marxismo, em remota preparação ao advento da
Teologia da Libertação, cem anos mais tarde.
( ) A partir de meados do século XIX, o sistema capitalista adquire feições novas. Sem perder suas
características fundamentais e definidoras, como a propriedade privada dos meios de produção e
o objetivo da acumulação, ele se torna crescentemente monopolista e financeiro.
Resposta: E – E – C
10. (IRBr 2005) Quando as 5 mil pequenas lâmpadas iluminaram a fachada do Palácio da
Eletricidade, por ocasião da inauguração da Exposição Universal de Paris (1900), causando
assombro à multidão que assistia ao espetáculo, comprovou-se o triunfo da ciência e a
soberania da máquina. A luz vencera o limite da noite e instaurava as 24 horas como o
novo tempo da cidade. A arte afastava-se do mundo burguês à procura de nova clientela,
capaz de um ato de fruição total. Era preciso tornar-se autêntica e, para isso, ela precisava
eliminar dos seus efeitos específicos quaisquer outros que pudessem ter sido tomados por
empréstimo. Era necessário tornar-se “autárquica”, “pura”. A busca incessante dessa
pureza motivou os artistas do início do século XX, o que resultou na produção de obras que
deram corpo a uma notável revolução cultural.
P. E. Grinberg e A. A. Luz. Revoluções artístico-culturais no século XX. In: F. C. Teixeira da Silva
(coord.). Século sombrio: guerras e revoluções do século XX. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004 (com
adaptações).
Tomando o texto como referência inicial e considerando o cenário econômico mundial na
passagem do século XIX ao século XX, julgue (C ou E) os próximos itens.
( ) As últimas décadas do século XIX assistiram à disseminação da crença burguesa em um
progresso ilimitado, do qual as exposições universais – tal como a citada no texto – eram
símbolos poderosos.
( ) As transformações verificadas no sistema produtivo capitalista, a partir de meados do século
XIX, tiveram na substituição do ferro e do carvão pelo aço e pela eletricidade o ponto de partida
para a configuração da moderna industrialização.
( ) A inexistência de crises mais pronunciadas no sistema capitalista, ao longo da segunda metade
do século XIX, reforçava o ponto de vista de governos e de grandes empresários no tocante à
perenidade do desenvolvimento material que estava em marcha.
Resposta: C – C – E
11. (IRBr 2011) O conceito de imperialismo é polissêmico, tendo sido utilizado pela
historiografia mundial em referência a diferentes processos históricos. Acerca do
imperialismo formal no final do século XIX e início do século XX, julgue (C ou E) os itens
subsequentes.
( ) Os indirect rules, forma de ocupação territorial anglo-francesa na Ásia e na África, constituíram
o modelo hegemônico de expansão imperialista europeia nas denominadas áreas periféricas.
( ) Segundo Rosa Luxemburgo e Lênin, o imperialismo representava forma colonial de capitalismo,
fusão do capitalismo industrial com a formação de oligopólios.
( ) Durante o século XIX, o imperialismo europeu na África foi caracterizado pela ocupação
gradual de grandes extensões territoriais, diferentemente do que ocorreu, nesse período, na
América Latina.
( ) Ao contrário do que aparentava, o imperialismo formal, que caracterizou o final do século XIX,
foi uma continuação histórica de processo anterior, que, já em curso na história do Atlântico Sul
desde os tempos do mercantilismo, permitia a acumulação capitalista por meio do mercado de
escravos e especiarias.
Resposta: E – C – C – E
12. (IRBr 2012) A história mundial contemporânea, iniciada no último terço do século
XVIII, apresenta-se como uma sucessão de sistemas mundiais intercalados por fases de
transição e configuração de novas lideranças. Assim, de 1776 (ano da independência dos
EUA e da publicação de A Riqueza das Nações, de Adam Smith) a 1890, a Pax Britânica,
embasada na Revolução Industrial e regulada pelo liberalismo, deu início ao mundo
dominado pelas potências anglo-saxônicas.
Paulo G. Fagundes Visentini e Analúcia Danilevicz Pereira. História do mundo contemporâneo.
Petrópolis: Vozes, 2008, p. 10 (com adaptações).
Tendo o texto acima como referência inicial e considerando aspectos da história econômica
mundial, julgue (C ou E) os itens seguintes.
( ) O processo de colonização vigente nas décadas finais do século XIX integra um contexto de
expansão do sistema produtivo, do qual resultam a busca de mercados consumidores, de
matéria-prima industrial e de bases estratégicas, bem como o surgimento de áreas propícias ao
investimento de capitais e ao recebimento dos contingentes populacionais excedentes das
metrópoles.
( ) Maior potência industrial do século XIX, a Inglaterra, que optou pela mediação política de
autoridades locais em suas colônias, não se beneficiou da corrida imperialista na mesma
proporção alcançada por seus concorrentes diretos, como a Alemanha.
Resposta: C – E
9. OS ESTADOS UNIDOS – COLONIZAÇÃO E INDEPENDÊNCIA
1. (IRBr 2014) Com base no processo histórico durante o século XIX, quando os Estados
Unidos da América se constituíram potência econômica e política, julgue (C ou E) os
próximos itens.
( ) Como resultado da vitória norte-americana sobre a Espanha na Guerra Hispano-Americana, o
Panamá tornou-se independente, o que favoreceu os interesses de comerciantes norte-
americanos.
( ) Aproveitando-se da vulnerabilidade militar da França, por conta das campanhas militares de
Napoleão na Europa, o presidente Thomas Jefferson incorporou Louisiana ao território norte-
americano, em 1803, mediante bloqueio naval e ocupação militar.
( ) Os Estados da União, por disporem de indústria de armamento que lhes permitia sustentar um
exército moderno, mantiveram-se, desde o início da Guerra de Secessão, na ofensiva e obtiveram
vitórias sucessivas contra os Estados Confederados.
( ) A criação de uma união aduaneira continental e a adoção de moeda comum a todos os países do
continente americano foram propostas pelo governo norte-americano na primeira Conferência
Pan-Americana realizada em Washington (1889-1890).
Resposta: E – E – E – C
2. (IRBr 2005 – Adaptada) Quando as 5 mil pequenas lâmpadas iluminaram a fachada do
Palácio da Eletricidade, por ocasião da inauguração da Exposição Universal de Paris
(1900), causando assombro à multidão que assistia ao espetáculo, comprovou-se o triunfo
da ciência e a soberania da máquina. A luz vencera o limite da noite e instaurava as 24
horas como o novo tempo da cidade. A arte afastava-se do mundo burguês à procura de
nova clientela, capaz de um ato de fruição total. Era preciso tornar-se autêntica e, para
isso, ela precisava eliminar dos seus efeitos específicos quaisquer outros que pudessem ter
sido tomados por empréstimo. Era necessário tornar-se “autárquica”, “pura”. A busca
incessante dessa pureza motivou os artistas do início do século XX, o que resultou na
produção de obras que deram corpo a uma notável revolução cultural.
P. E. Grinberg e A. A. Luz. Revoluções artístico-culturais no século XX. In: F. C. Teixeira da Silva
(coord.). Século sombrio: guerras e revoluções do século XX. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004 (com
adaptações).
Considerando-se os dados estritamente cronológicos, a exposição a que se refere o texto
ocorreu no último ano do século XIX. Tempo das revoluções, como é conhecido, o século
XIX é também assinalado por grandes representações, a exemplo do industrialismo, do
liberalismo, do nacionalismo e do socialismo. Julgue (C ou E) o item, a seguir, relativo ao
quadro revolucionário de fins do século XVIII e à primeira metade do século XIX.
( ) Historicamente, a independência das 13 colônias inglesas da América do Norte, em 1776, a
qual integra o cenário em que se desenrolou a Revolução Francesa, exerceu notória influência
nos movimentos de emancipação política das colônias ibéricas no continente americano.
Resposta: C
3. (IRBr 2015 – Adaptada) Entre fins do século XVIII e as primeiras décadas do século
seguinte, a maior parte das colônias americanas conquistou sua independência. Em geral,
malgrado a singularidade de cada colônia, essas emancipações enquadraram-se no
contexto mais amplo de crise do Antigo Regime europeu e, sobretudo em relação às
colônias ibéricas, também refletem o quadro histórico suscitado pela Era Napoleônica.
Com relação ao processo de independência nas Américas, julgue (C ou E) os itens a seguir.
( ) Os colonos na América Inglesa sublevaram-se contra o monopólio comercial, a interdição da
produção local de manufaturas e a proibição do cultivo do chá.
( ) Os movimentos de independência nas Américas inglesa e hispânica tinham em comum o fato de
terem se originado de alterações no equilíbrio europeu causado pela França e o de defenderem a
forma federalista de organização do Estado pós-independência.
Resposta: E – E
4. (IRBr 2007 – Adaptada) Poucas vezes, a incapacidade dos governos em conter o curso da
história foi demonstrada de forma mais decisiva que na geração pós-1815. Evitar uma
segunda Revolução Francesa, ou ainda a catástrofe pior de uma revolução europeia
generalizada tendo como modelo a francesa, foi o objetivo supremo de todas as potências
que tinham gasto mais de vinte anos para derrotar a primeira.
Houve três ondas revolucionárias principais no mundo ocidental entre 1815 e 1848. A
primeira ocorreu em 1820-4. Na Europa, ela ficou limitada principalmente ao
Mediterrâneo, com a Espanha, Nápoles e a Grécia como seus epicentros. A Revolução
Espanhola reavivou o movimento de libertação na América Latina.
A segunda onda revolucionária ocorreu em 1829-34 e afetou toda a Europa a oeste da
Rússia e o continente norte-americano, pois a grande época de reformas do presidente
Jackson deve ser entendida como parte dela. Ela marca a derrota definitiva dos
aristocratas pelo poder burguês na Europa Ocidental. A classe governante dos próximos
cinquenta anos seria a grande burguesia de banqueiros, grandes industriais e, às vezes,
altos funcionários civis. Ela determina, também, uma inovação ainda mais radical na
política: o aparecimento da classe operária como uma força política autoconsciente e
independente na Grã-Bretanha e na França e dos movimentos nacionalistas em grande
número de países na Europa.
A terceira e maior das ondas revolucionárias foi a de 1848. Nunca houve nada tão próximo
da revolução mundial com que sonhavam os insurretos que essa conflagração espontânea
e geral. O que, em 1789, fora o levante de uma só nação era, agora, assim parecia, a
primavera dos povos de todo um continente.
Eric J. Hobsbawm. A Era das revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981, p. 127-30 (com
adaptações).
Considerando as duas primeiras ondas revolucionárias do século XIX, citadas no texto, e
sua vinculação, direta ou indireta, com o continente americano, julgue (C ou E) os
próximos itens.
( ) A onda revolucionária de 1848, por sua amplitude e espontaneidade, foi amplamente exitosa
em suas aspirações populares, tanto na Europa – com o fim do sistema eleitoral censitário –
quanto na América – com as reformas de Jackson (EUA).
Resposta: E
5. (IRBr 2015) Independentes em 1776, os EUA lançaram-se ao esforço de consolidação
nacional ao longo do século XIX, assumindo e vencendo muitos desafios, mas foram
envolvidos em uma monumental guerra civil que explicitou diferenças marcantes –
aparentemente inconciliáveis – entre o Sul e o Norte do país. Ao fundo, o que estava em
jogo era o modelo de desenvolvimento econômico, que colocava no centro do debate a
dramática questão da escravidão. A eleição de 1860, na qual Abraham Lincoln saiu-se
vitorioso, polarizou de tal forma o debate acerca do trabalho escravo que abriu o caminho
para a Guerra de Secessão.
A respeito da história norte-americana no século XIX, julgue (C ou E) os itens que se
seguem.
( ) Na Guerra de Secessão, defrontaram-se o Sul – essencialmente agrícola, senhorial e escravista
– e o Norte, onde vigoravam o trabalho assalariado, a pequena propriedade e uma sólida classe
média urbana; em ambos os casos, porém, o negro estava excluído da vida política.
( ) Legítimo representante do Norte empreendedor e capitalista, Abraham Lincoln era
antiescravista e abolicionista, defensor da igualdade racial: por tais posições, sua eleição
constituiu a senha que deu início ao conflito que dividiu o país ao meio.
( ) A partir da aquisição da Louisiana à França, no governo de Thomas Jefferson, o sentimento
nacionalista norte-americano começou a ganhar nova roupagem, a de conquistas territoriais,
vindo a Marcha para o Oeste traduzir esse espírito.
( ) O governo de Andrew Jackson conduziu os EUA a uma democracia de massas, e suas propostas
inovadoras – universalização do voto, demarcação de terras indígenas e grandes obras públicas –
angariaram o que antes parecia impossível: o apoio de democratas e republicanos, de lideranças
sulistas e nortistas.
Resposta: C – E – C – E
6. (IRBr 2010) Em 1866, o Primeiro Ministro britânico Disraeli declarou que a Inglaterra
era uma potência mais asiática do que europeia. Com efeito, no final do século XIX, o
equilíbrio europeu começou o processo de transição para o equilíbrio do poder em escala
mundial, com a influência crescente de atores extraeuropeus. A respeito desse tema,
julgue C ou E.
( ) Ao saírem de seu isolamento, os Estados Unidos da América (EUA) dirigiram sua expansão para
o Pacífico, tendo criado uma esquadra autônoma para aquela zona.
Resposta: C
7. (IRBr 2011 – Adaptada) Com relação aos processos políticos, econômicos e sociais das
Américas, bem como às relações internacionais nos séculos XIX, XX e XXI, julgue o item a
seguir:
( ) Nos EUA, onde se desenvolveram processos históricos internos muito diversificados ao longo
do século XIX, registra-se transformação pouco acentuada na sociedade individualista de
pequenos produtores, a qual caracterizou o período que antecedeu e sucedeu a Guerra de
Secessão.
Resposta: E
10. A AMÉRICA ESPANHOLA
1. (IRBr 2015) Entre fins do século XVIII e as primeiras décadas do século seguinte, a
maior parte das colônias americanas conquistou sua independência. Em geral, malgrado a
singularidade de cada colônia, essas emancipações enquadraram-se no contexto mais
amplo de crise do Antigo Regime europeu e, sobretudo em relação às colônias ibéricas,
também refletem o quadro histórico suscitado pela Era Napoleônica. Com relação ao
processo de independência nas Américas, julgue (C ou E) os itens a seguir.
( ) Na América Hispânica, a luta pela independência pretendia alcançar uma espécie de novo
pacto colonial, de modo que seus produtores pudessem ter contato direto com a grande potência
econômica que a Revolução Industrial consagrara, a Inglaterra.
( ) Na América Hispânica, o processo de independência foi liderado pela elite mineradora, em
reação ao imposto da Coroa de 20% sobre a produção de metais preciosos.
Resposta: C – E
2. (IRBr 2007 – Adaptada)
Considerando as duas primeiras ondas revolucionárias do século XIX e sua vinculação,
direta ou indireta, com o continente americano, julgue (C ou E) os próximos itens.
( ) Fatores internos, ainda que existentes, tornaram-se irrelevantes para a desintegração do
sistema colonial ibérico frente à influência exercida pela conjuntura revolucionária europeia no
processo de independência latino-americana, conforme sugerido pelo texto.
( ) Entre os grandes libertadores da América espanhola, Simon Bolívar notabilizou-se pelo
destemor com que se lançou à luta para emancipar a atual Argentina e pela convicção de que a
prosperidade da América subordinava-se à existência de Estados plenamente autônomos.
( ) Semelhantemente ao ocorrido quando da invasão da Península Ibérica pelas tropas francesas
de Napoleão (1808), a Revolução Espanhola de 1820 contribuiu para o recrudescimento da luta
pela independência das colônias latino-americanas.
( ) Inexistência de mercado interno expressivo e impossibilidade de aplicação de capitais pela via
de empréstimos aos Estados são dois poderosos motivos que explicam o reduzido impacto da
expansão capitalista europeia, ocorrida na segunda metade do século XIX, sobre a América
Latina.
Resposta: E – E – C – E
3. (IRBr 2014) Julgue (C ou E) os itens a seguir, a respeito das características econômicas
dos países hispano-americanos no século XIX.
( ) A inserção dos países hispano-americanos na divisão internacional do trabalho como
fornecedores de produtos primários contribuiu para promover a estabilidade política desses
países na segunda metade do século XIX.
( ) As estreitas vinculações comerciais entre a Grã-Bretanha e a Argentina contribuíram para a
prosperidade da economia argentina a partir da década de 70.
( ) As elites que fizeram as independências buscaram, nos anos seguintes, manter o mesmo papel
econômico que a região havia tido até então, o de fornecedora de produtos primários para a
Europa.
( ) Livre das amarras coloniais, os novos países hispano-americanos vivenciaram grande
prosperidade econômica nas décadas de 20 e 30.
Resposta: C – C – C – E
4. (IRBr 2014) Os processos de independência que afetaram as colônias europeias da
América compartilham vários aspectos, embora haja especificidades que não podem ser
desprezadas pelos historiadores. A respeito desse contexto histórico, julgue (C ou E) os
itens seguintes.
( ) No Chile, cuja Ata de Independência data de 1818, os enfrentamentos entre os partidários da
Coroa espanhola e os libertários e, em seguida, o choque entre os que defendiam a visão
centralista e os federalistas convulsionaram o jovem país, que suportou longo período de
guerras, até que, em 1830, a facção conservadora centralista venceu a disputa.
( ) O processo de independência da Venezuela esteve ligado ao da Colômbia, do Equador e do
Panamá, com os quais a Venezuela formava, em 1821, a Gran Colombia, embora essa unidade,
repleta de conflitos, só tenha sido mantida até a morte de Simon Bolívar, seu principal defensor.
( ) A independência dos EUA (1776), que antecedeu a dos demais países americanos, costuma ser
apontada pela historiografia como fonte inspiradora para o discurso dos movimentos separatistas
ibero-americanos, principalmente em razão dos ideais de igualdade, liberdade e respeito aos
direitos dos indivíduos.
( ) A independência da Argentina, em 1816, foi fruto das invasões napoleônicas, momento em que
as elites agrárias aproveitaram o vazio do poder colonial e, de forma coesa, implantaram um
sistema federalista que garantiu a estabilidade política do país até a Guerra do Paraguai.
Resposta: C – C – C – E
11. A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL (1914-1918)
1. (IRBr 2012) A Belle Époque terminou subitamente em 28 de junho de 1914, dia do
assassinato de Francisco Ferdinando, herdeiro do trono da Áustria-Hungria, pelo jovem
sérvio Gavrilo Princip. Aquele ato de terror perpetrado em Sarajevo, nos turbulentos
Bálcãs, empurrou as potências para a guerra geral que ninguém desejava.
Demétrio Magnoli e Elaine Senise Barbosa. Liberdade versus igualdade. In: O mundo em desordem
(1914-1945), v. I. Rio de Janeiro: Record, 2011, p. 21-2 (com adaptações).
Tendo o texto acima como referência inicial e considerando o contexto histórico que
antecedeu a Primeira Grande Guerra, julgue (C ou E) os itens seguintes.
( ) Comprovada a participação direta do governo sérvio no assassinato do sucessor ao trono
austro-húngaro, o governo da Áustria radicalizou sua posição em relação ao de Belgrado. Ao
apresentar seu ultimato à Sérvia, a Áustria demonstrou, ainda que de maneira sutil, apoio ao
movimento nacionalista eslavo na região balcânica.
( ) Entre os contextos de crise que impeliram as potências para a guerra, destacam-se a criação da
Entente Cordiale anglo-francesa e a reação alemã à sua criação, manifestada nas pretensões de
Berlim em relação ao Marrocos, em claro sinal de que a Alemanha desejava barrar a expansão
francesa no norte da África.
( ) Ao término da Primeira Guerra, além de sofrer as consequências dos milhões de mortos e
inválidos, a Europa viu-se devedora dos EUA, tendo perdido a primazia na economia mundial e,
ainda, assistiu a manifestações de muitas de suas colônias, que reivindicavam a alteração de
suas relações com as metrópoles.
( ) A Belle Époque, destruída pela guerra, é definida como o espírito que prevaleceu na Europa
antes de 1914, compartilhado por todos os estratos sociais e assentado nos sonhos otimistas e
grandiosos provocados pela prosperidade e pelos avanços tecnológicos da Segunda Revolução
Industrial.
Resposta: C – E – C – E
2. (IRBr 2012) Acerca da política internacional do período pós-Primeira Guerra Mundial,
assinale a opção correta.
a) Os Tratados de Locarno, de 1925, além de permitirem a admissão da Alemanha na Liga das
Nações, garantiram-lhe as fronteiras e favoreceram a reintegração da Renânia ao território
alemão.
b) Expressão do idealismo que contagiou as relações internacionais no período pós-Primeira
Guerra Mundial, o Pacto Briand-Kellogg prescreveu a renúncia à guerra como instrumento das
políticas nacionais.
c) A Liga das Nações foi criada com o objetivo de solucionar pacificamente controvérsias e o de
promover a cooperação internacional para o desenvolvimento econômico.
d) O Protocolo de Genebra, negociado e aprovado pela Liga das Nações, regulamentou a
segurança coletiva, instituiu o arbitramento compulsório sobre temas de desarmamento e
regulou, até a eclosão da Segunda Guerra Mundial, as relações entre as potências no que se
refere a temas de segurança.
e) Em 1926, o Brasil, que pleiteava um assento permanente no Conselho da Liga das Nações,
retirou-se dessa organização em razão da inclusão da Alemanha, por acreditar que esse país não
estava ainda plenamente reabilitado e não dispunha das condições necessárias para atuar em
favor da garantia da paz mundial.
Resposta: Alternativa D
3. (IRBr 2008) Para o surrealista André Breton, “a beleza tem que ser convulsiva para
deixar de sê-lo”. Uma arte que se concentrava na visão interna é o que se depreende da
afirmativa de Picasso de que a arte “não é o que você vê, mas o que você sabe que está lá”.
Considerando esses pontos de vista e o cenário cultural do Ocidente nas primeiras décadas
do século XX, julgue (C ou E) os itens que se seguem.
( ) Ainda que com temas recorrentes, a arte do início do século XX caracterizava-se, entre outros
aspectos, pela rapidez com que os estilos se sobrepunham.
( ) A preocupação em retratar grandes eventos históricos, seguindo a trilha aberta pelos
românticos do século XIX, em vez das cenas da vida quotidiana, marca a pintura do início do
século XX.
( ) Infere-se das citações de Breton e Picasso, acima reproduzidas, que, na visão desses artistas, a
arte do século XX deveria ser desafiadoramente realista.
( ) O Cubismo é o exemplo por excelência de um estilo artístico bem recebido pelo grande público
e cuja aceitação transcendeu, de imediato, os meios mais familiarizados com a pintura.
Resposta: C – E – E – E
4. (IRBr 2005) Quando as 5 mil pequenas lâmpadas iluminaram a fachada do Palácio da
Eletricidade, por ocasião da inauguração da Exposição Universal de Paris (1900), causando
assombro à multidão que assistia ao espetáculo, comprovou-se o triunfo da ciência e a
soberania da máquina. A luz vencera o limite da noite e instaurava as 24 horas como o
novo tempo da cidade.
A arte afastava-se do mundo burguês à procura de nova clientela, capaz de um ato de
fruição total. Era preciso tornar-se autêntica e, para isso, ela precisava eliminar dos seus
efeitos específicos quaisquer outros que pudessem ter sido tomados por empréstimo. Era
necessário tornar-se “autárquica”, “pura”.
A busca incessante dessa pureza motivou os artistas do início do século XX, o que resultou
na produção de obras que deram corpo a uma notável revolução cultural.
P. E. Grinberg e A. A. Luz. Revoluções artístico-culturais no século XX. In: F. C. Teixeira da Silva
(coord.). Século sombrio: guerras e revoluções do século XX. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004 (com
adaptações).
Com o auxílio do texto, julgue (C ou E) os itens seguintes, considerando o século XIX como
o laboratório em que foi gerado o século XX, a despeito das singularidades de cada um dos
períodos.
( ) Apesar de seu reduzido impacto científico, a teoria da relatividade, exposta pelo físico alemão
Albert Einstein em 1905, repercutiu intensamente no campo da produção artística, estimulando
o surgimento de obras sintonizadas com a concepção de um espaço estático e inflexível, de que
decorreram trabalhos essencialmente subordinados ao formalismo acadêmico, ao conformismo
burguês e à utilização de cores suaves.
( ) Nos anos 20 do século passado, o cinema mudo alcançou seu apogeu. Hollywood despontou
como uma produção marcante, em que se destacaram a comédia – aponte-se o sucesso de
Charles Chaplin – e as chamadas superproduções, que tiveram em Cecil B. de Mille sua mais
fulgurante estrela.
( ) Provavelmente em razão da crise que sobreveio à Primeira Guerra Mundial, os anos 20 do
século passado foram marcadamente pobres em produção literária, não se registrando textos
que tenham merecido a atenção dos leitores e influenciado as gerações seguintes.
Resposta: E – C – E
5. (IRBr 2010) O historiador Geoffrey Barraclough considera que os “14 Pontos” do
Presidente Wilson podem ser interpretados como resposta à revolução mundial concebida
por Lenin. Agrega que os dois líderes apresentam traços em comum. A propósito, julgue (C
ou E) os pontos que os aproximam:
( ) o papel de “profetas da nova ordem internacional”.
( ) rejeição do “equilíbrio de poder”.
( ) reconhecimento de que negociações secretas são, às vezes, indispensáveis.
( ) coincidência ideológica, com ênfase democrática.
Resposta: C – C – E – E
6. (IRBr 2009) Acerca do processo histórico que desencadeou a I Guerra Mundial, julgue (C
ou E) os itens a seguir.
( ) A ascensão econômica e política do Império Austro-Húngaro levou-o a confrontar os interesses
ingleses nos Bálcãs. O assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, em Sarajevo, permitiu
que se atribuísse ao imperialismo britânico a responsabilidade pelo clima de tensão regional, e
constituiu o marco inicial da guerra.
( ) A expansão econômica da Alemanha levou-a a competir com a Inglaterra e com a França.
( ) Na França, o governo do presidente Poincaré, acossado por reivindicações nacionalistas,
encontrou na guerra uma alternativa para desviar as atenções dos problemas internos.
( ) No início, a guerra reforçou a coesão nacional no Império Austro-Húngaro e na Rússia.
Resposta: E – C – E – C
7. (IRBr 2009) No início da década de 1920, a maior parte do que fora antes de 1914 o
Império Russo dos czares emergiu intacta como império, mas sob o governo dos
bolcheviques e dedicada à construção do socialismo mundial. Foi o único dos antigos
impérios dinástico-religiosos a sobreviver à Primeira Guerra Mundial, que despedaçara
tanto o Império Otomano – cujo sultão era califa de todos os muçulmanos – quanto o
Império Habsburgo, que mantinha relação especial com a Igreja romana.
Eric Hobsbawm. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das
Letras, 1995, p. 362 (com adaptações).
Considerando os aspectos marcantes da história do século XX a que se refere o texto
acima, julgue (C ou E) os itens subsequentes.
( ) Consequência significativa da Grande Guerra de 1914, o desmoronamento do Império Turco
abriu caminho para a nova configuração geopolítica do Oriente Médio, uma das mais
estratégicas regiões do mundo contemporâneo.
( ) A desintegração do Império Austro-Húngaro, advinda da Primeira Guerra, permitiu o
surgimento de novos Estados no leste europeu, o que livrou a região das pretensões
expansionistas eslavas e, sobretudo, germânicas.
( ) Tensões nacionalistas semelhantes às que levaram ao desmonte de impérios existentes até a
Primeira Guerra, a exemplo do Otomano e do Habsburgo, surgiram ou reapareceram em fins dos
anos 80 do século passado, quando ocorreram o desmantelamento da União Soviética e o colapso
da experiência do socialismo real na Europa do Leste.
Resposta: C – E – C
Texto para as questões 8 e 9:
Para alguém que observasse o mundo dos anos 1960 e o comparasse com o de 1870 ou
1880, nada seria mais impressionante, talvez, que a mudança que se operou na estrutura
das relações internacionais. A explicação mais óbvia para essa mudança é a exaustão da
Europa em duas guerras mundiais. Isto, somado à ascensão dos EUA e, paralelamente, à
ascensão da Rússia no plano das potências mundiais foram, de fato, os acontecimentos
decisivos que propiciaram o advento de um novo período na política mundial. Quando, no
início de 1917, o presidente Wilson proclamou que “não deve haver um equilíbrio de poder,
mas uma comunidade de poder, não rivalidades organizadas, mas uma paz comum
organizada”, ele estava anunciando, com efeito, que a velha estrutura de relações
internacionais ficara obsoleta em uma época de política em escala mundial. Depois da
revolução bolchevista na Rússia, tomou forma tangível a divisão do mundo em dois
grandes blocos de potências rivais, inspirados por ideologias manifestamente
inconciliáveis. Wilson e Lenin sabiam, desde o princípio, que estavam competindo pelo
sufrágio da humanidade; e foi para impedir que Lenin ganhasse o monopólio dos planos de
edificação do mundo de pós-guerra que, em janeiro de 1918, Wilson publicou os seus
famosos Quatorze Pontos. “Wilson ou Lenin”, escreveu o socialista francês Albert Thomas;
“democracia ou bolchevismo... uma escolha a fazer”.
Geoffrey Barraclough. Introdução à história contemporânea. Rio de Janeiro: Zahar, 1964, p. 90-113
(com adaptações).
8. (IRBr 2007 – Adaptada) Infere-se do texto que “o advento de um novo período na política
mundial”, no final do primeiro parágrafo, vincula-se, entre outros aspectos, ao(à)
a) fato de que a supremacia das potências europeias, na passagem do século XIX ao XX, deixara
de sofrer as contestações tão comuns à época da expansão imperialista.
b) surgimento de novos atores importantes no cenário internacional, a exemplo da Rússia, dos
EUA e, no Extremo Oriente, do Japão.
c) Grande Guerra de 1914, responsável pela exclusão definitiva das potências derrotadas, como a
Alemanha, das principais decisões mundiais.
d) Substituição dos Estados nacionais pelas grandes corporações transnacionais na condução do
processo de disputas por mercados consumidores e por áreas de investimentos.
e) recrudescimento da posição de liderança inconteste do sistema capitalista por parte dos países
mais industrializados da Europa Ocidental, à frente dos quais se apresentavam França e
Inglaterra.
Resposta: Alternativa B
9. (IRBr 2007) Ainda com referência ao texto, assinale a opção correta relativamente ao
papel representado pelo presidente Wilson no contexto da Primeira Guerra Mundial e ao
significado de seus Quatorze Pontos.
a) Embora questionassem o sistema internacional vigente, Lenin e Wilson admitiam a diplomacia
secreta e as anexações territoriais.
b) As propostas de Wilson – que preconizavam uma “diplomacia nova”, com vistas à preservação
da paz – previam, entre outras medidas, remanejamentos territoriais norteados pelo princípio da
autodeterminação dos povos.
c) Ao propor a criação da Liga ou Sociedade das Nações, Wilson o fez com o respaldo da opinião
pública norte-americana e, sobretudo, do Congresso de seu país, razão pela qual os EUA tiveram
condições de liderar confortavelmente a nova organização internacional.
d) Embora tenham entrado na Grande Guerra ao lado das potências centrais (Tríplice Aliança), os
EUA puderam superar essa circunstância aparentemente negativa pela força de sua economia,
vital para a recuperação europeia após o conflito.
e) A partir de Wilson, e de forma acintosa, os EUA passaram a assumir responsabilidades
crescentes na condução da política interna europeia, rompendo o isolamento que praticaram
antes da Primeira Guerra Mundial.
Resposta: Alternativa B
10. (IRBr 2005) Não são poucos os historiadores que veem na Primeira Guerra Mundial
(1914-1918) o fim do historicamente longo século XIX. Quer pela complexidade de suas
causas, quer por seus efeitos profundos, um dos quais a vitória bolchevique na Rússia, a
Grande Guerra assinala o epílogo de uma era e o início propriamente dito do século XX. A
esse respeito, julgue (C ou E) os itens seguintes.
( ) Entre os fatores determinantes para a eclosão do conflito mundial em 1914, podem ser
destacados o exacerbado nacionalismo – não raro revestido das cores da xenofobia – e as
disputas ditadas pelos interesses imperialistas.
( ) A rápida ascensão da Alemanha no pós-1870 constituiu fator desestabilizante no cenário
europeu. Ainda que tenha mantido permanente aliança econômica com a Grã-Bretanha, sua
disputa com a França por influência política criou condições propícias à guerra.
( ) A expressão “paz armada” consagrou-se como a melhor caracterização do cenário europeu nos
anos imediatamente anteriores a 1914. Nesse contexto, por temerem as consequências da
guerra, os diversos Estados renunciaram à velha prática da diplomacia secreta visto que esta os
amarraria a uma perigosa teia de acordos militares.
Resposta: C – E – E
11. (IRBr 2005) O período que se seguiu à Grande Guerra pode ser decomposto em três
grandes fatias: de 1919 a 1924-28, quando todos os países europeus procuraram liquidar
os resquícios deixados pela guerra e voltar às condições econômicas normais, equivale
dizer, às condições dominantes em 1914; de 1924-28 a 1931-33, com o grande surto de
prosperidade, que trazia, no seu bojo, os elementos da crise detonada nos EUA em 1929;
de 1932-33 a 1939, quando os 10 governos se empenharam no esforço coletivo para
superar a crise, desenvolvendo práticas intervencionistas não adotadas até então.
J. J. de Arruda. A crise do capitalismo. D. A. Reis Filho, J. Ferreira, C. Zenha (orgs.). In: O século XX.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 22 (com adaptações).
O curto período entre as duas guerras mundiais do século XX (1919-1939) testemunhou a
crise profunda do modelo econômico e político liberal. No que concerne a esse quadro
histórico, julgue (C ou E) os itens seguintes, ainda considerando o texto.
( ) A humilhante derrota militar da Alemanha, que chegou ao fim da Primeira Guerra invadida e
ocupada pelas tropas inimigas, determinou a queda do regime monárquico nesse país e a
ascensão ao poder das forças socialistas – República de Weimar.
( ) A entrada dos EUA na etapa final do conflito (1917) foi decisiva para selar a derrota dos
chamados impérios centrais. Terminada a guerra, esse país viu-se na inovadora condição de
grande credor internacional, com excepcionais condições de se transformar em potência
mundial.
( ) Sob o ponto de vista político, a crise do Estado liberal que se seguiu à Grande Guerra de 1914
materializou-se, sobretudo, na ascensão de regimes totalitários, dos quais as mais diversas
formas de fascismo seriam exemplos exponenciais.
Resposta: E – C – C
12. (IRBr 2003 – Adaptada) “Não podemos comparar o mundo do final do breve século XX
ao mundo de seu início, em termos de contabilidade histórica de mais e menos. Tratava-se
de um mundo qualitativamente diferente em pelo menos três aspectos.
Primeiro, ele tinha deixado de ser eurocêntrico. Trouxera o declínio e a queda da Europa,
ainda centro inquestionado de poder, riqueza, intelecto e civilização ocidental quando o
século começou. A segunda transformação foi mais significativa. Entre 1914 e o início da
década de 1990, o globo foi muito mais uma unidade operacional única, como não era e
não poderia ter sido em 1914. Na verdade, para muitos propósitos, notadamente em
questões econômicas, o globo é agora unidade operacional básica, e unidades mais velhas
como as economias nacionais, definidas pelas políticas de Estados territoriais, estão
reduzidas a complicações das atividades transnacionais. A terceira transformação, em
certos aspectos a mais perturbadora, é a desintegração de velhos padrões de
relacionamento social humano, e com ela, aliás, a quebra dos elos entre as gerações, quer
dizer, entre passado e presente.”
Eric Hobsbawm. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das
Letras, 1995, p. 23-4 (com adaptações).
A partir da análise contida no texto acima, julgue o item seguinte, relativo ao processo
histórico do mundo contemporâneo.
( ) A Grande Guerra de 1914 resulta, entre tantos e múltiplos fatores, das disputas
interimperialistas notadamente aquelas que colocam frente a frente duas forças econômicas, a
declinante Grã-Bretanha e a ascendente Alemanha – e do peso ponderável do nacionalismo, em
particular daquele conduzido e manipulado pelos Estados. Quando o conflito chega ao fim, uma
Europa em crise assiste à emergência mundial dos Estados Unidos da América (EUA) e à quase
generalizada decadência dos regimes políticos liberais.
Resposta: C
13. (IRBr 2014 – Adaptada) A respeito da questão dos Bálcãs, julgue (C ou E) os próximos
itens.
( ) A região dos Bálcãs assumiu características de zona conflitiva a partir da dissolução do Império
Otomano e da eclosão da Primeira Guerra Mundial, quando as diferentes etnias ali instaladas
ficaram livres da dominação turca.
( ) Durante a Primeira Guerra Mundial, a Entente, por reconhecer o potencial de conflito que a
região dos Bálcãs supunha, tentou preservar a integridade de cada país de acordo com as
respectivas etnias e religiões.
Resposta: E – E
14. (IRBr 2011 – Adaptada) A Primeira e a Segunda Guerras Mundiais foram objeto de
interpretações historiográficas divergentes, que se estendem aos dias atuais. Acerca desse
debate historiográfico, julgue (C ou E) os itens que se seguem. Em reação às acusações
franco-britânicas de que a
( ) Alemanha seria a única responsável pela ocorrência dos dois conflitos mundiais do século XX,
historiadores alemães defenderam consensualmente, na última década, a tese segundo a qual as
provocações feitas pelo czar russo, no início do século XX, teriam assegurado à Alemanha o
direito de legítima defesa.
( ) A chamada linha Maginot, estratégia defensiva posta em prática pela França no período que
antecedeu ao início da Primeira Guerra Mundial, embora contestada inclusive por alguns oficiais
franceses, contribuiu para retardar a invasão do país pelas tropas alemãs na Segunda Guerra.
Resposta: E – E
12. A ASCENSÃO DO COMUNISMO
1. (IRBr 2013 – Adaptada) Rússia e China protagonizaram as duas mais importantes
revoluções socialistas que o século XX conheceu, cujos passos, na América Latina do pós-
Segunda Guerra Mundial, foram seguidos por Cuba. Relativamente aos processos
revolucionários que exerceram considerável impacto na história do mundo contemporâneo,
assinale C ou E.
( ) Dada a sua participação na Grande Guerra de 1914, a Rússia czarista enfrentou efeitos
devastadores, tais como sublevações nas províncias muçulmanas da Ásia Central, revoltas
camponesas e desintegração do próprio exército. Esses e outros fatores foram essenciais para os
dois movimentos revoltosos que, em 1917, derrubaram a tricentenária dinastia dos Romanov e
instituíram a república socialista.
( ) Reforma agrária e nacionalização de indústrias e bancos incluem-se nas primeiras decisões
tomadas pelo governo bolchevique de Lenin, as quais foram mantidas, sem retrocesso, ao longo
da experiência socialista da União Soviética, aprofundadas sob Stalin e apenas amainadas com o
advento da perestroika, já em meados dos anos 80.
Resposta: C – E
2. (IRBr 2009) “No início da década de 1920, a maior parte do que fora antes de 1914 o
Império Russo dos czares emergiu intacta como império, mas sob o governo dos
bolcheviques e dedicada à construção do socialismo mundial. Foi o único dos antigos
impérios dinástico-religiosos a sobreviver à Primeira Guerra Mundial, que despedaçara
tanto o Império Otomano – cujo sultão era califa de todos os muçulmanos – quanto o
Império Habsburgo, que mantinha relação especial com a Igreja romana.”
Eric Hobsbawm. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das
Letras, 1995, p. 362 (com adaptações).
Considerando os aspectos marcantes da história do século XX a que se refere o texto
acima, julgue (C ou E) o item subsequente.
( ) Infere-se do texto que a Revolução de Outubro, cujo ideal era a construção de sociedade
diferente e oposta ao capitalismo, rompeu com o passado da Rússia czarista e abdicou do projeto
de constituição de uma entidade multiétnica, que abrangeria a totalidade da grande extensão
territorial do país.
Resposta: E
3. (IRBr 2007) O texto indica o impacto da Revolução de Outubro de 1917 no plano das
relações internacionais. Relativamente a esse acontecimento, que marcou a maior parte da
trajetória histórica do século XX, assinale a opção correta.
a) O processo revolucionário, que culminou com a chegada de Lenin ao poder, foi possível, entre
outros fatores igualmente significativos, graças à unidade político-ideológica apresentada pelo
movimento socialista russo.
b) A primeira etapa do processo revolucionário russo foi cumprida já em fevereiro de 1917,
quando ocorreu a implantação do regime parlamentar, que reforçava o caráter esclarecido do
czarismo, o qual se afastara do modelo despótico clássico desde meados do século XIX.
c) De Lenin a Stalin, a implantação do modelo econômico socialista fez-se de forma gradativa e,
apesar das naturais dificuldades, não conheceu fase de retrocesso nem passou por eventuais
adaptações ao longo do percurso.
d) A morte de Lenin, em plena depressão econômica causada pela crise de 1929, possibilitou a
vitória do ideal trotskista de revolução permanente e de universalização do socialismo sob
modelo soviético.
e) Os “dois grandes blocos de potências rivais”, mencionados no texto, foram marcantes em
grande parte no século XX e, para além das disputas político-militares e econômicas,
expressavam nítido antagonismo ideológico.
Resposta: Alternativa E
4. (IRBr 2005) Não são poucos os historiadores que veem na Primeira Guerra Mundial
(1914-1918) o fim do historicamente longo século XIX. Quer pela complexidade de suas
causas, quer por seus efeitos profundos, um dos quais a vitória bolchevique na Rússia, a
Grande Guerra assinala o epílogo de uma era e o início propriamente dito do século XX. A
esse respeito, julgue (C ou E) o item seguinte.
( ) Impulsionada pelas circunstâncias da guerra, que explicitaram ainda mais a grave situação
interna da Rússia, a Revolução Russa de 1917 significou a primeira grande fissura na unidade
capitalista que a Revolução Industrial e as revoluções liberais burguesas haviam começado a
edificar desde as últimas décadas do século XVIII.
Resposta: C
5. (IRBr 2006) O século XX coincidiu com a máxima expansão das categorias fundamentais
do mundo moderno – sujeito e trabalho –, eixos que presidiram a atualização e
exasperaram os limites do liberalismo e do socialismo, as duas grandes utopias da
modernidade. Tais utopias não nasceram no século XX, mas este foi o laboratório mais
distendido de todas elas, o campo concreto de experimento de suas virtualidades, das suas
figuras e de sua imaginação. Talvez por isso o século XX exiba uma característica única e
contraditória: parece ter sido o mais preparado e explicado pelos séculos anteriores e,
simultaneamente, o que mais distanciou a humanidade de seu passado, mesmo o mais
próximo, decretando o caráter obsoleto de formas de vida e sociabilidade consolidadas
durante milênios.
O século XX foi o salto definitivo da humanidade para o futuro, para a história entendida
como transformação permanente e fluxo contínuo do tempo em direção a um tempo de
abundância e liberdade, perspectiva avalizada pela sistemática ampliação das promessas
da ciência, da tecnologia, das novas modalidades de organização social e da produção
material. Um século, portanto, de mandamentos utópicos que sacrificaram o passado e
seus mitos, mudaram o ritmo da vida e ocidentalizaram a Terra, tornando-a mais
homogênea e seduzida por semelhantes imagens de futuro. Nesse sentido, nada mais
próximo e nada mais distante do século XIX do que o século XX.
Rubem Barboza Filho. Século XX: uma introdução (em forma de prefácio). In: Alberto Aggio e Milton
Lahuerta (orgs.). Pensar o século XX: problemas políticos e história nacional na América Latina. São
Paulo: Editora UNESP, 2003, p. 16 (com adaptações).
A partir das observações formuladas no texto, julgue (C ou E) o item subsequente,
considerando o desenrolar do século XX.
( ) A Revolução Russa de 1917, com a coletivização dos meios de produção e o Estado posto a
serviço dos trabalhadores, inaugura uma nova forma de utopia, que exerceria forte impacto na
história do século XX, qual seja, a construção de uma sociedade distinta daquela que atendia aos
interesses do capitalismo. A experiência soviética, contudo, ruiu em fins do século XX, não sem
antes ter sido alvo de questionamento e de crítica, inclusive de setores da esquerda, quanto ao
modelo político totalitário que adotara.
Resposta: C
6. (IRBr 2011) A Revolução de Outubro teve repercussões muito mais profundas e globais
que sua ancestral, pois, se as ideias da Revolução Francesa, como é hoje evidente, duraram
mais que o bolchevismo, as consequências práticas de 1917 foram maiores e mais
duradouras que as de 1789. A Revolução de Outubro produziu, de longe, o mais formidável
movimento revolucionário organizado na história moderna. Sua expansão global não tem
paralelo desde as conquistas do Islã em seu primeiro século.
Eric Hobsbawm. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das
Letras, 1994, p. 62 (com adaptações).
Tendo o texto acima como referência inicial, julgue (C ou E) os itens seguintes, relativos
aos impactos internacionais da Revolução Russa, de 1917.
( ) A adoção da união antifascista permitiu que se rompesse, nos anos 20 e 30 do século XX, parte
do isolamento sectário dos comunistas ortodoxos da Europa, propiciando-lhes a busca de apoio
de massa tanto entre trabalhadores quanto entre intelectuais.
( ) Na Ásia e na América Latina, a organização dos partidos comunistas após a Revolução Russa
reproduziu, sem adaptações culturais e políticas, o modelo organizacional do Partido Comunista
Russo.
( ) Os impactos da Revolução Russa foram relevantes, mas não a ponto de acarretarem a
imposição de uma disciplina de revolucionários profissionais a seus militantes, como evidenciam
as resistências, na Terceira Internacional Comunista, ao modelo revolucionário soviético.
( ) Menos de quarenta anos após a chegada de Lenin ao poder, os modelos socialistas inspirados
na Revolução de Outubro fundamentavam os governos aos quais estava submetido
aproximadamente um terço da população do mundo.
Resposta: C – E – E – C
7. (IRBr 2015) O século XX é considerado o século das revoluções. A partir de 1917, quando
a autocracia czarista foi derrubada, as utopias engendradas pelo século XIX buscaram
materializar-se. A rigor, as revoluções se universalizaram, indo da Europa à Ásia, da
América à África. Relativamente às revoluções do século XX, julgue (C ou E) o item
subsequente.
( ) A Revolução Russa de 1917 confirmou a tese de Marx segundo a qual o fim do capitalismo
começaria pelos países menos desenvolvidos, que ele classificou como os elos mais fracos da
corrente, onde a miséria era maior.
Resposta: E
13. OS ESTADOS UNIDOS NO PERÍODO ENTRE-GUERRAS
1. (IRBr 2013) O colapso econômico de 1929 foi único em termos de profundidade e
amplitude. Já houvera crises cíclicas antes, mas nunca como essa. A economia dos países
industrializados permaneceu desintegrada por mais de cinco anos, com redução de um
quinto na produção e desemprego que atingiu um quarto da força de trabalho. Crises
financeiras e cambiais se reproduziram no mundo todo em um intervalo de semanas,
fazendo que economias inteiras afundassem juntas. Nenhuma das principais nações foi
poupada.
Jeffry A. Frieden. Capitalismo global: história econômica e política do século XX. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed., 2008, p. 191 (com adaptações).
Tendo o texto acima como referência inicial e considerando as múltiplas implicações do
tema nele abordado, além do contexto histórico que lhe serve de moldura, julgue (C ou E)
os itens seguintes.
( ) O New Deal promoveu radical transformação na organização e no funcionamento do
capitalismo nos EUA: os setores financeiro e industrial passaram a ser fiscalizados
vigorosamente pelo governo federal, que optou por não se envolver na recuperação de áreas
mais debilitadas, como a agricultura e a organização do trabalho.
( ) Com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque em outubro de 1929, iniciou-se a maior crise
que o moderno capitalismo conhecera até então. Embora rapidamente disseminada, devido à
vigorosa presença dos EUA no cenário econômico mundial pós-Primeira Guerra, a crise passou
ao largo de países com pouca ou nenhuma industrialização, como os de grande parte da Ásia e os
da América Latina.
( ) Em 1933, no auge da crise, Roosevelt e Hitler chegaram ao poder, e seus governos
notabilizaram-se por oferecer respostas contundentes ao caos social e político em que se
encontravam EUA e Alemanha. Com o New Deal, de Roosevelt, ainda que preservada a
democracia, amplia-se a presença do Estado na economia, em contraste com as práticas
econômicas ultraliberais que haviam levado ao colapso do sistema.
( ) A Grande Depressão dos anos 30 do século XX selou o fracasso da ordem econômica clássica,
que não trouxera paz nem cooperação; ao contrário, provavelmente tenha acirrado os conflitos
entre as nações. Entende-se a relação entre a crise de 1930 e a Segunda Guerra Mundial ao
considerar que a recuperação econômica dos países, sobretudo os da Europa, assentou-se, em
larga medida, na corrida armamentista, como foi o caso da Alemanha nazista.
Resposta: E – E – C – C
2. (IRBr 2014) Julgue (C ou E) os itens a seguir, relativos à Crise de 1929.
I. Apesar da crise na Bolsa, os setores da economia gerenciados, sobretudo, por grupos familiares
mais conservadores foram preservados dos efeitos negativos da Crise de 1929, uma vez que não
arriscavam seu capital no mercado de valores.
II. Após o final da Primeira Guerra Mundial, a economia dos principais países da Europa era
dependente do comportamento do dólar americano, o que afetava diretamente a balança de
pagamentos e interferia negativamente no poder de compra interno e nos salários.
III. De forma geral, para debelar a crise, os Estados, em contraposição ao modelo liberal, optaram
pela via da intervenção na economia, por meio de ações que regulassem a produção, criassem
empregos em larga escala e, sobretudo, moralizassem o sistema financeiro.
IV. O Crash de Wall Street, em 1929, na tristemente famosa “quinta-feira negra”, deveu-se à queda
vertiginosa do valor das ações negociadas na Bolsa de Nova Iorque, o qual era medido pelo
índice Dow Jones.
Resposta: I. E – II. C – III. C – IV. C
3. (IRBr 2007 – Adaptada) O período entre as duas guerras mundiais do século XX foi
marcado pela radicalização política. A instalação de regimes totalitários em vários países
europeus contribuiu para o acirramento das tensões, que, ao lado de outros fatores,
colaborou decisivamente para a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A
respeito desse quadro histórico, julgue (C ou E) os itens subsequentes.
( ) Nas Américas, enquanto o New Deal, de Roosevelt, reiterava a aposta dos EUA na viabilidade
do modelo ultraliberal de capitalismo, a experiência brasileira sob o regime de Vargas, no Estado
Novo, apontava para a crescente presença estatal na economia.
Resposta: E
4. (IRBr 2010 – Adaptada) Com relação ao quadro econômico e social subsequente ao fim
da Segunda Guerra Mundial, julgue C ou E.
( ) Ao defender o papel regulador do Estado na economia e nas relações sociais, estimulando a
demanda e o aumento da produção, da renda e do emprego, a doutrina keynesiana forneceu
sustentação para o Estado do bem-estar social.
Resposta: C
5. (IRBr 2005 – Adaptada) O período que se seguiu à Grande Guerra pode ser decomposto
em três grandes fatias: de 1919 a 1924-28, quando todos os países europeus procuraram
liquidar os resquícios deixados pela guerra e voltar às condições econômicas normais,
equivale dizer, às condições dominantes em 1914; de 1924-28 a 1931-33, com o grande
surto de prosperidade, que trazia, no seu bojo, os elementos da crise detonada nos EUA em
1929; de 1932-33 a 1939, quando os 10 governos se empenharam no esforço coletivo para
superar a crise, desenvolvendo práticas intervencionistas não adotadas até então.
J. J. de Arruda. A crise do capitalismo. D. A. Reis Filho, J. Ferreira, C. Zenha (orgs.). In: O século XX.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 22 (com adaptações).
O curto período entre as duas guerras mundiais do século XX (1919-1939) testemunhou a
crise profunda do modelo econômico e político liberal. No que concerne a esse quadro
histórico, julgue (C ou E) os itens seguintes, ainda considerando o texto.
( ) As práticas intervencionistas, às quais o texto alude, decorreram da necessidade imperiosa de
se enfrentar a Grande Depressão que se seguiu à Crise de 1929 e foram implementadas por
quase todos os países. A esse respeito, notável exceção se deu nos EUA, onde nem mesmo o New
Deal conseguiu arranhar os sólidos princípios liberais, que sempre caracterizaram a economia e
as instituições políticas norte-americanas.
Resposta: E
6. (IRBr 2015) O crash da Bolsa de Valores de Nova York, em outubro de 1929, foi o sinal
do que ocorreria nos próximos anos: uma crise econômica sem precedentes, na qual
falências, desemprego e falta de perspectivas se somaram para configurar um cenário
socialmente dramático. A eleição do democrata Franklin D. Roosevelt desalojou os
republicanos do poder e inaugurou uma nova era para os EUA. Relativamente à política de
Roosevelt para enfrentar a referida crise, julgue (C ou E) os itens seguintes.
( ) Reduziram-se as funções do Estado, de modo a diminuir os gastos públicos e a cobrança de
impostos, para induzir a ampliação da poupança privada com vistas a gerar demanda e
investimentos que recuperassem a atividade produtiva.
( ) Foram criados subsídios à indústria, com a finalidade de reduzir a pressão inflacionária sobre a
população e garantir a continuidade do emprego nas linhas de produção.
( ) Para aliviar o desemprego, criou-se o Civilian Conservation Corps, que empregou trabalhadores
na recuperação de parques e em obras ligadas à infraestrutura física do país.
( ) No início de sua administração, priorizou-se a criação de instrumentos voltados para pôr fim ao
processo deflacionário e aliviar a situação da população, principalmente das camadas mais
pobres.
Resposta: E – E – C – C
7. (IRBr 2009) “Seis décadas após o fim da Segunda Guerra, a Aliança do Atlântico, firmada
entre a Europa e os Estados Unidos, estava em desalinho. De certo modo, a situação era o
resultado previsível do fim da Guerra Fria – embora pouca gente desejasse seu
desmantelamento, a organização, em seu estado presente, não fazia muito sentido. A
Aliança fora criada para compensar a incapacidade da Europa Ocidental de se defender
sem a ajuda norte-americana. O fracasso contínuo dos governos europeus em constituir a
sua própria força militar eficaz foi responsável pela sobrevivência da organização. Dez
anos depois da assinatura do Tratado de Maastricht, a União Europeia (UE) estava prestes
a estabelecer uma Força de Reação Rápida, composta por 60 mil indivíduos, para realizar
intervenções e missões de paz.”
Tony Judt. Pós-Guerra: uma história da Europa desde 1945. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. p. 773-4
(com adaptações).
Tendo o texto acima como referência inicial e considerando o cenário histórico mundial
desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), julgue (C ou E) o item que se segue.
( ) Embora desprovido de base teórica que orientasse suas ações, o Estado do pós-Segunda
Guerra, classificado, no texto, como regulador ou de bem-estar social, teve êxito graças ao
aumento da produção, da renda e do emprego, enquanto se comprimia a demanda como forma
de impedir a volta da inflação.
Resposta: E
14. OS FASCISMOS
1. (IRBr 2007) O período entre as duas guerras mundiais do século XX foi marcado pela
radicalização política. A instalação de regimes totalitários em vários países europeus
contribuiu para o acirramento das tensões, que, ao lado de outros fatores, colaborou
decisivamente para a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A respeito desse
quadro histórico, julgue (C ou E) os itens subsequentes.
( ) Embora tenha participado da aliança vitoriosa na Primeira Guerra Mundial, a Itália afastou-se
das democracias liberais na medida em que, já na década de 20 do século passado, o país se
tornou vítima dos métodos violentos do fascismo, que não encontrou resistência organizada.
( ) Na Alemanha, o totalitarismo nazista aproximava-se dos demais regimes fascistas, entre outros
fatores, pela adoção do racismo como política de Estado.
( ) Espanha, Portugal, Polônia, Iugoslávia e Hungria são exemplos de Estados europeus que
adotaram regimes ditatoriais de cunho fascista que não sobreviveram à vitória dos Aliados,
derrubados nos anos que se seguiram ao imediato pós-Segunda Guerra Mundial.
Resposta: C – E – E
2. (IRBr 2015) Contraditório, o século XX já foi chamado de luminoso e de sombrio. Da
mesma forma que viu a expansão de regimes democráticos, mormente após a Segunda
Guerra Mundial, ele também conviveu com um fenômeno político visceralmente antiliberal
e antidemocrático, os fascismos. Em verdade, os anos 20 e 30 desse século foram marcados
pela crise do liberalismo e pela ascensão de regimes totalitários de esquerda (URSS) e de
direita, como, entre outros países e regiões, na Itália, Alemanha, Polônia, Península
Ibérica e no Japão. Acerca dessa realidade histórica, julgue (C ou E) os próximos itens.
( ) Se, no Japão, os militares assumiram posições claramente fascistas e puseram em prática um
ambicioso processo de expansão do país pela Ásia, na Península Ibérica deu-se o contrário: em
Portugal e na Espanha, Salazar e Franco prescindiram do apoio militar e chegaram ao poder com
apoio popular, comprovado em vitórias eleitorais de seus respectivos partidos.
( ) O quadro de instabilidade gerado pela Grande Guerra de 1914, com o país, embora vencedor,
se sentindo ludibriado pelos aliados mais poderosos, levou os fascistas de Benito Mussolini ao
poder na Itália, em 1922. A Marcha sobre Roma pretendeu ser uma demonstração de força do
partido e de seu líder supremo, que acabou sendo convidado pelo rei para assumir a condução
do governo italiano.
( ) Em meio à grande depressão decorrente da crise de 1929, que devastou a economia alemã,
Adolf Hitler se fez líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães e, ante um
país depauperado, mas com as instituições políticas ainda fortalecidas, ele comandou o golpe
militar que o levou ao poder em 1933.
Resposta: E – C – E
15. A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1939-1945)
1. (IRBr 2013) A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) é, geralmente, considerada o
grande momento de inflexão do século XX. Decorrência de duas décadas de instabilidade
política, comoção social e crise econômica, ela foi o mais universalizado dos conflitos e, ao
chegar ao fim, gerou uma ordem internacional que se afastava dos padrões vigentes, a
rigor, desde a Idade Moderna. Relativamente aos fatores que determinaram o início de
hostilidades e às conferências que estabeleceram as balizas do novo cenário mundial,
assinale a opção correta.
a) Em face de sua contribuição na luta contra o Reich nazista, a União Soviética teve o
reconhecimento internacional reforçado na Conferência de Teerã e, em Ialta, assegurou sua
influência no Leste Europeu.
b) A política da Paz Armada desencadeada por Hitler, ainda que não necessariamente
expansionista, abriu o caminho para a guerra, por gerar desconfiança e temor generalizados.
c) A Liga das Nações condenou a anexação da Áustria pela Alemanha nazista, tendo sido
veemente o protesto da França e da Inglaterra, que romperam relações diplomáticas com
Berlim.
d) Embora combatido por liberais, trotskistas e social-democratas, o Pacto de Não Agressão
Germano-Soviético foi fundamental para retardar o início da Segunda Guerra Mundial.
e) A Conferência de Potsdam definiu a internacionalização de Berlim e a divisão da Alemanha em
duas áreas de influência: a área sob influência da União Soviética e a sob influência dos EUA.
Resposta: Alternativa A
2. (IRBr 2014) “Os projetos de Bretton Woods se mostraram irrelevantes perto do objetivo
urgente de reconstruir as economias das nações que estiveram em guerra. O pior conflito
do mundo foi mais destrutivo para economias e sociedades do que o previsto. No pós-
guerra, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita dos aliados europeus – URSS, França,
Bélgica, Holanda e outros – correspondia a menos de 4/5 do que valia em 1939; na maioria
desses países, os índices de 1946 estavam bem menores que os do início da década de 20.
As condições nos países derrotados eram muito piores. A mudança de posição da Europa
ocidental na economia internacional dificultaria a recuperação. Para se reconstruir, o
continente precisava importar alimentos, matérias-primas e equipamentos tecnológicos.
No entanto, boa parte da capacidade europeia de ganhar dinheiro para financiar as
importações havia se esgotado. Com a Guerra Fria, a Europa Ocidental passou a não ter
mais acesso aos mercados das partes oriental e central do continente. Enquanto isso, os
EUA e o restante do hemisfério ocidental desfrutavam de prosperidade.”
Jeffry A. Frieden. Capitalismo global: história econômica e política do século XX. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 2008, p. 283-4 (com adaptações).
Relativamente a aspectos da história contemporânea esboçados no texto acima, julgue (C
ou E) os itens a seguir.
I. A liberação do comércio e dos investimentos internacionais preconizada em Bretton Woods
acabou por inviabilizar a expansão do setor público. Com isso, os investimentos na área social,
base dos sistemas de bem-estar social, ficaram restritos aos pequenos países nórdicos, como a
Suécia.
II. Traçar planos para o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a ordem
financeira e monetária do pós-guerra foi um dos principais objetivos do encontro de
representantes de mais de quatro dezenas de países, em 1944, em Bretton Woods.
III. Harry Dexter White e John Maynard Keynes, representantes das autoridades monetárias
anglo-americanas, destacaram-se na conferência de Bretton Woods, coroando um trabalho
iniciado havia alguns anos visando à formulação de propostas para as relações monetárias
internacionais e os investimentos globais do pós-Segunda Guerra Mundial.
IV. O texto aponta para os efeitos danosos da Segunda Guerra Mundial na economia europeia.
Continente fisicamente devastado que sofrera elevadas perdas humanas, cujo prestígio fora
abalado e cuja posição no comércio global se alterara profundamente, a Europa não teria
condições de, por suas próprias forças, empreender o dispendioso esforço de recuperação e de
reconstrução.
Resposta: I. E – II. C – III. C – IV. C
3. (IRBr 2008) Considerando a relevância da III Conferência de Chanceleres Americanos
(Rio de Janeiro, 1942) para o destino dos países latino-americanos em face da Segunda
Guerra Mundial e o próprio contexto histórico do conflito, assinale a opção correta.
a) O presidente Roosevelt aceitou, com relativo conformismo, o predomínio das visões de
neutralidade dos países latino-americanos em relação ao conflito que envolvera os EUA na
guerra europeia.
b) A transferência gradual do eixo de poder mundial da Europa para os EUA, bem como as
oportunidades de investimento em projetos de industrialização e desenvolvimento, animaram
países como o Brasil a buscar barganhas e negociar brechas na ordem internacional, durante a
Segunda Guerra Mundial.
c) Países como a Argentina, mesmo ante a relevância econômica de suas exportações de couros,
cereais e carnes para países beligerantes, sentiam-se animados a optar, na Conferência do Rio de
Janeiro, pelo alinhamento com os EUA e seus aliados na guerra.
d) A visão da harmonia pan-americana, ideia que migrara do século XIX para o século XX no
ideário político das Américas, teve discreta presença nos debates da III Conferência de
Chanceleres Americanos.
e) A agenda da integração latino-americana, criada no contexto da Conferência do Rio de Janeiro,
decorreu da percepção de que essa era a única saída política diante da hegemonia hemisférica
norte-americana.
Resposta: Alternativa A
4. (IRBr 2009) Julgue (C ou E) os itens que se seguem, relativos à Conferência de Yalta,
que, realizada em fevereiro de 1945, reuniu Roosevelt, Stalin e Churchill.
( ) Stalin buscava uma base territorial para promover, no imediato pós-guerra, ações
desestabilizadoras contra governos da Europa ocidental.
( ) Roosevelt e Churchill, diante da pressão de Stalin, aceitaram formalmente a criação de uma
área de influência soviética na Europa oriental.
( ) Em Yalta, houve acordo quanto às zonas de ocupação da Alemanha derrotada.
( ) Ao perseguir sua hegemonia na Europa oriental, a URSS buscava proteção contra eventuais
ações militares vindas do Ocidente.
Resposta: E – E – C – C
5. (IRBr 2009) O período posterior à Segunda Guerra Mundial foi marcado pela
reconstrução europeia e japonesa, pela Guerra Fria, pela descolonização e pela
internacionalização da hegemonia americana. Foi, também, um período de enorme
crescimento produtivo nos países desenvolvidos. O fato é que os primeiros trinta anos do
pós-guerra constituíram uma era única na história contemporânea. A espantosa
recuperação do mundo capitalista, quanto ao crescimento econômico e avanços
tecnológicos, revolucionou as pautas de consumo e comportamento até então existentes. A
interdependência gradual dos mercados, combinando-se com um Estado que assumia
tarefas econômicas e sociais, propiciou o que Hobsbawm definiu como “o grande salto”.
Era o Estado regulador ou de bem-estar social.
Enrique Serra Padrós. Capitalismo, prosperidade e Estado de bem-estar social. In: Daniel Aarão Reis
Filho, Jorge Ferreira e Celeste Zenha (orgs.). O Século XX: o tempo das crises – revoluções,
fascismos e guerras. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 229-236 (com adaptações).
Tendo o texto acima como referência e considerando a realidade histórica mundial que se
segue à Segunda Guerra Mundial, julgue (C ou E) os itens a seguir.
( ) Os EUA souberam tirar proveito da expressiva queda na produção industrial e agrícola
europeia durante a Segunda Guerra: sua produção industrial triplicou – em 1946, o país já
respondia por metade da produção mundial – e a renda per capita mais que duplicou, o que
indica o caminho definido, no texto, como “internacionalização da hegemonia americana”.
( ) Foram extraordinárias a recuperação europeia e a japonesa na agricultura após 1945:
modernização tecnológica e uso intensivo de máquinas aumentaram consideravelmente a
produtividade no campo, fato potencializado, no Japão, pela reforma agrária iniciada durante a
ocupação norte-americana.
Resposta: C – C
6. (IRBr 2006) Ainda com referência ao cenário mundial do pós-Segunda Guerra Mundial,
julgue os itens seguintes.
( ) Bretton Woods, Dumbarton Oaks, Ialta, Potsdam e São Francisco foram algumas das mais
importantes reuniões ocorridas na etapa final da Segunda Guerra, quando aspectos
fundamentais da ordem econômica e política, a vigorar após a cessação das hostilidades, foram
fixadas mediante arranjos diplomáticos e militares.
( ) Após o fim da Segunda Guerra, já em clima de paz, a Conferência de Bretton Woods criou duas
importantes instituições: o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Banco
Mundial) e o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Resposta: C – E
7. (IRBr 2005) O período que se seguiu à Grande Guerra pode ser decomposto em três
grandes fatias: de 1919 a 1924-28, quando todos os países europeus procuraram liquidar
os resquícios deixados pela guerra e voltar às condições econômicas normais, equivale
dizer, às condições dominantes em 1914; de 1924-28 a 1931-33, com o grande surto de
prosperidade, que trazia, no seu bojo, os elementos da crise detonada nos EUA em 1929;
de 1932-33 a 1939, quando os 10 governos se empenharam no esforço coletivo para
superar a crise, desenvolvendo práticas intervencionistas não adotadas até então.
J. J. de Arruda. A crise do capitalismo. D. A. Reis Filho, J. Ferreira, C. Zenha (orgs.). In: O século XX.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 22 (com adaptações).
O texto faz do ano de 1939 – não por acaso, o que assinala o início da Segunda Guerra
Mundial (1939-1945) – seu marco cronológico final. A propósito desse conflito, cujo
caráter mundial é bem mais acentuado do que o daquele que o antecedeu, julgue (C ou E)
os itens subsequentes.
( ) Entre os múltiplos fatores que levaram à Segunda Guerra, um dos mais determinantes foi a
acentuada desestruturação da economia mundial, que, mal recuperada dos efeitos da Primeira
Guerra, sucumbiu ao quadro de profunda depressão advinda do crash financeiro nova-iorquino.
( ) Apesar de não expansionistas, os regimes nazifascistas contribuíram para que a Segunda
Guerra Mundial acontecesse ao insistirem nos métodos econômicos intervencionistas e nos
maciços investimentos militares.
( ) Nos encontros entre os líderes aliados, na etapa final da Segunda Guerra, traçou-se a
estratégia de uma nova ordem internacional, na qual ficaram nítidas a força e a intenção dos
vitoriosos de conter o poderio dos integrantes do Eixo.
( ) Apesar de ter participado diretamente do conflito, ao ceder bases aéreas e navais no Nordeste,
ao constituir a Força Aérea Brasileira (FAB) e ao enviar para a Itália os contingentes da Força
Expedicionária Brasileira (FEB), o Brasil do Estado Novo getulista passou ao largo dos efeitos
democratizantes trazidos pelo término da guerra, com a derrota do totalitarismo nazifascista.
Resposta: C – E – C – E
8. (IRBr 2008) Com relação aos regimes políticos autoritários no século XX e às ideologias
concorrentes nesses regimes e nos de caráter democrático, assinale a opção correta.
a) O ideário liberal e democrático serviu, no século XX, como alternativa política aos regimes
fechados, muito embora tenha havido dificuldades para serem universalizadas suas
características por todo o mundo.
b) Como fenômeno histórico, o fascismo esgotou-se com a derrota na Segunda Guerra Mundial, e
seu ideário, ainda que amainado e diluído em formas menos radicais, não encontra condições
para sobreviver desde então.
c) Os regimes de caráter autoritário – tanto os de direita, como o fascismo italiano, quanto os de
esquerda, como o socialismo real soviético – foram discretos na utilização de técnicas da
propaganda como forma de fomento à sua legitimidade.
d) O regime nazista manteve-se na Alemanha, mesmo com baixa adesão das classes populares e
elevada reação dos setores tradicionais da política alemã.
e) Mesmo sofrendo o impacto da crise econômica e política das décadas de 1920 e 1930, o
continente americano conseguiu reagir aos efeitos da crise sem apelar para a solução autoritária
ou adotar regimes mais acentuadamente centralizados, o que significou manter praticamente
intactas as instituições liberais.
Resposta: Alternativa B
9. (IRBr 2006) O século XX coincidiu com a máxima expansão das categorias fundamentais
do mundo moderno – sujeito e trabalho –, eixos que presidiram a atualização e
exasperaram os limites do liberalismo e do socialismo, as duas grandes utopias da
modernidade. Tais utopias não nasceram no século XX, mas este foi o laboratório mais
distendido de todas elas, o campo concreto de experimento de suas virtualidades, das suas
figuras e de sua imaginação. Talvez por isso o século XX exiba uma característica única e
contraditória: parece ter sido o mais preparado e explicado pelos séculos anteriores e,
simultaneamente, o que mais distanciou a humanidade de seu passado, mesmo o mais
próximo, decretando o caráter obsoleto de formas de vida e sociabilidade consolidadas
durante milênios.
O século XX foi o salto definitivo da humanidade para o futuro, para a história entendida
como transformação permanente e fluxo contínuo do tempo em direção a um tempo de
abundância e liberdade, perspectiva avalizada pela sistemática ampliação das promessas
da ciência, da tecnologia, das novas modalidades de organização social e da produção
material. Um século, portanto, de mandamentos utópicos que sacrificaram o passado e
seus mitos, mudaram o ritmo da vida e ocidentalizaram a Terra, tornando-a mais
homogênea e seduzida por semelhantes imagens de futuro. Nesse sentido, nada mais
próximo e nada mais distante do século XIX do que o século XX.
Rubem Barboza Filho. Século XX: uma introdução (em forma de prefácio). In: Alberto Aggio e Milton
Lahuerta (orgs.). Pensar o século XX: problemas políticos e história nacional na América Latina. São
Paulo: Editora UNESP, 2003, p. 16 (com adaptações).
A partir das observações formuladas no texto, julgue (C ou E) os itens subsequentes,
considerando o desenrolar do século XX.
( ) Os regimes totalitários de direita comandaram os destinos de muitos países europeus, entre os
anos 20 e 40 do século XX. O discurso nazifascista condenava o capitalismo, preconizando forte
controle do Estado e das instituições políticas liberais e democráticas, consideradas incapazes de
oferecer resposta rápida e satisfatória às demandas de uma sociedade em crise profunda.
( ) Entre as características marcantes do século XX, uma enquadra-se perfeitamente no que o
texto identifica como o fim “de formas de vida e sociabilidade consolidadas durante milênios”.
Trata-se do fenômeno da urbanização, a alterar radicalmente, entre outros aspectos próprios da
sociedade de massas, modos de pensar, consumir, morar, vestir-se, comunicar-se e locomover-se.
Resposta: C – C
10. (IRBr 2015) Em pleno desenrolar da Segunda Guerra Mundial, reuniões eram feitas
entre as principais lideranças aliadas com vistas à reconfiguração geopolítica mundial pós-
conflito. Na nova ordem que emergiu a partir de 1945, também se traçou o destino da
América Latina e se discutiu a posição que ela iria ocupar no sistema bipolar.
Relativamente aos múltiplos aspectos que envolvem essa questão, julgue (C ou E) os itens
subsequentes.
( ) No contexto da Segunda Guerra, os EUA condicionaram suas relações com os países latino-
americanos ao grau de adesão desses países à política de guerra e de envolvimento no conflito, o
que explica, por exemplo, o adensamento das relações de Washington com o Brasil e o México.
( ) Na América do Sul, destaca-se a posição da Argentina de atrelamento incondicional à política
externa norte-americana do pós-Segunda Guerra, o que acirrou as desconfianças de países
vizinhos, entre os quais o Brasil.
( ) No pós-Segunda Guerra, a chancelaria brasileira deu apoio explícito à criação da Organização
dos Estados Americanos no quadro da estratégia global dos EUA para a América Latina, à luz
dos condicionamentos impostos pela ordem bipolar.
( ) Malgrado ter cassado o registro do Partido Comunista Brasileiro e os mandatos de seus
parlamentares, além de ter rompido relações diplomáticas com a URSS, o Brasil se recusou a
assinar o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) por ver nele um instrumento
de dominação ideológica sobre a América Latina.
Resposta: C – E – C – E
11. (IRBr 2003) “O curso das duas décadas que vinculam o ano de 1947 ao de 1968, no
âmbito das relações internacionais, foi ditado pela supremacia de dois gigantes sobre o
mundo. Os EUA e a União Soviética (URSS) assenhorearam-se dos espaços e criaram um
condomínio de poder que só foi abalado no final da década de 60 e início da de 70.
Existiram, no entanto, nuances no sistema condominial de poder. Da relação quente da
Guerra Fria (1947-1955) à lógica da coexistência pacífica (1955-1968), as duas
superpotências migraram da situação de desconfiança mútua para uma modalidade de
convivência tolerável. Da corrida atômica do final da década de 40 e início da de 50 às
negociações para um sistema de segurança mundial sustentado no equilíbrio das armas
nucleares, os dois gigantes evoluíram nas suas percepções acerca da avassaladora
capacidade destrutiva que carregavam.”
José Flávio Sombra Saraiva. Dois gigantes e um condomínio: da Guerra Fria à coexistência pacífica.
In: José Flávio Sombra Saraiva (org.). Relações internacionais: dois séculos de História – entre a
ordem bipolar e o policentrismo (de 1947 a nossos dias). Brasília: IBRI, 2001, p. 19 (com
adaptações).
Tendo o texto apresentado como referência inicial e considerando as relações
internacionais do pós-1945, julgue os itens a seguir.
( ) À medida que os acontecimentos da Segunda Guerra apontavam para o término do conflito,
com a derrocada militar das forças do eixo nazifascista, delineavam-se os contornos do novo
sistema de poder mundial que doravante vigoraria, algo cada vez mais presente nas reuniões de
cúpula dos aliados, a exemplo do ocorrido em Teerã, em novembro de 1943, Yalta, em fevereiro
de 1945, e Potsdam, em julho de 1945.
( ) A mesma linha idealista que presidiu a criação da Liga das Nações após a Grande Guerra de
1914, guardadas as naturais singularidades de um outro momento histórico, está presente na
Conferência de São Francisco (1945), da qual surgiu a Organização das Nações Unidas (ONU). A
existência de uma Assembleia Geral com poder deliberativo, em que todos os Estados se igualam
no direito à voz e ao voto, e de um Conselho de Segurança com razoável simetria entre seus
membros, reforça o clima de concórdia que, pouco mais de duas décadas antes, embalara os 14
pontos do presidente Wilson.
Resposta: C – E
16. A GUERRA FRIA (1947-1991)
1. (IRBr 2012) Considerando as negociações sobre armamentos estratégicos, julgue (C ou
E) os itens que se seguem.
( ) As negociações entre os EUA e a União Soviética na década de 70 do século XX resultaram no
estabelecimento de determinados limites para a produção de armas estratégicas.
( ) O Tratado de Não Proliferação Nuclear, cujo objetivo era evitar que os países não signatários
desenvolvessem armas nucleares, foi um dos acordos decorrentes do avanço das negociações
entabuladas no contexto do Plano Salt.
Resposta: E – E
Texto para as questões 2 e 3:
Os projetos de Bretton Woods se mostraram irrelevantes perto do objetivo urgente de
reconstruir as economias das nações que estiveram em guerra. O pior conflito do mundo
foi mais destrutivo para economias e sociedades do que o previsto. No pós-guerra, o
Produto Interno Bruto (PIB) per capita dos aliados europeus – URSS, França, Bélgica,
Holanda e outros – correspondia a menos de 4/5 do que valia em 1939; na maioria desses
países, os índices de 1946 estavam bem menores que os do início da década de 20. As
condições nos países derrotados eram muito piores. A mudança de posição da Europa
Ocidental na economia internacional dificultaria a recuperação. Para se reconstruir, o
continente precisava importar alimentos, matérias-primas e equipamentos tecnológicos.
No entanto, boa parte da capacidade europeia de ganhar dinheiro para financiar as
importações havia se esgotado. Com a Guerra Fria, a Europa Ocidental passou a não ter
mais acesso aos mercados das partes oriental e central do continente. Enquanto isso, os
EUA e o restante do hemisfério ocidental desfrutavam de prosperidade.
Jeffry A. Frieden. Capitalismo global: história econômica e política do século XX. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 2008, p. 283-4 (com adaptações).
2. (IRBr 2014) Relativamente a aspectos da história contemporânea esboçados no texto
acima, julgue (C ou E) o item a seguir.
( ) O texto aponta para os efeitos danosos da Segunda Guerra Mundial na economia europeia.
Continente fisicamente devastado que sofrera elevadas perdas humanas, cujo prestígio fora
abalado e cuja posição no comércio global se alterara profundamente, a Europa não teria
condições de, por suas próprias forças, empreender o dispendioso esforço de recuperação e de
reconstrução.
Resposta: C
3. (IRBr 2014) Tendo ainda o texto de J. A. Frieden como referência, julgue (C ou E) os
itens subsequentes, relativos ao quadro histórico europeu e mundial do pós-Segunda
Guerra.
( ) A expressão “Cortina de Ferro”, utilizada por Winston Churchill em discurso tido como ato
inaugural da Guerra Fria, correspondia aos países do Leste Europeu que se tornaram
“democracias populares”, denominação por eles adotada ao se proclamarem marxistas.
( ) O fato de URSS e EUA terem lutado do mesmo lado na Segunda Guerra Mundial explica que, a
despeito de todas as diferenças entre ambos, o programa de ajuda norte-americana para a
recuperação europeia – Plano Marshall – contemplou também os países identificados como
satélites de Moscou.
( ) Conquanto plenamente discutível, a tese defendida – ou, pelo menos, sugerida – pelo texto é a
de que a bipolarização do poder mundial, surgida pouco depois de encerradas as hostilidades da
Segunda Guerra, restringiu-se a aspectos fundamentalmente ideológicos.
Resposta: C – E – E
4. (IRBr 2013) A Guerra Fria constitui um dos fenômenos mais importantes da História
Contemporânea. Acerca de sua fase inicial, julgue (C ou E) os itens a seguir.
( ) Considerada uma atualização da Doutrina Monroe, a Doutrina Truman foi a primeira
formulação política com caráter universal a esboçar-se na política externa norte-americana.
( ) Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a política externa dos EUA passou a sustentar-se na
ideia de ação de longo prazo vinculada à necessidade de contenção das tendências
expansionistas da União Soviética.
( ) O Plano Marshall foi peça fundamental da estratégia norte-americana na Guerra Fria,
configurando-se como tradução econômica da Doutrina Truman.
( ) O bloqueio de Berlim e a imediata construção do muro que dividiu a cidade em duas zonas, em
1948, constituem a resposta da União Soviética à política de contenção estabelecida pelos EUA.
Resposta: E – C – C – E
5. (IRBr 2010) Com relação ao quadro econômico e social subsequente ao fim da Segunda
Guerra Mundial, julgue C ou E.
( ) O chamado “Sistema de Bretton Woods” – que previa a paridade do dólar com o ouro –
perdurou até a Primeira Guerra do Golfo, no início dos anos noventa.
( ) Em resposta ao Plano Marshall, a URSS criou o Conselho de Ajuda Econômica Mútua
(COMECON) em 1949, voltado para a Europa Oriental mas que, a partir dos anos 70, estendeu-
se à Mongólia, Cuba e Vietnã.
( ) O Plano Marshall, também denominado Programa de Recuperação Europeia, foi bem recebido
pela então URSS, sobretudo porque se destinava ao conjunto da Europa e não apenas a alguns
países.
Resposta: E – E – E
6. (IRBr 2010) Em 1947, a política externa americana ganhou contornos definidos com a
Doutrina Truman. Com relação a esse assunto, julgue C ou E.
( ) A Doutrina Truman constitui uma manifestação clara de que os EUA pretendiam restringir seu
envolvimento com os problemas europeus à esfera da assistência material e financeira.
( ) A Doutrina Truman demonstrava preocupação imediata com a situação na Grécia e na Turquia,
países estrategicamente importantes para a política externa dos EUA.
( ) A Doutrina Truman recomendou a criação da Organização Europeia de Cooperação Econômica,
o que, de fato, ocorreu em 1948.
( ) Por seu tom conciliatório, a Doutrina Truman indicava que, para os EUA, a expansão comunista
não constituía uma ameaça.
Resposta: E – C – E – E
7. (IRBr 2010) Com relação à evolução da Guerra Fria, julgue C ou E.
( ) Desde sua criação, o bloco comunista consolidado no Pacto de Varsóvia manteve-se coeso, sem
crises internas.
( ) Após o fracasso da intervenção americana no Vietnã, o apoio abrangente do Bloco Ocidental a
Israel na Guerra do Yom Kippur (1973) demonstrou a unidade do Ocidente.
( ) Entre os principais chefes de Estado que fundaram o Movimento dos Não Alinhados, na
Conferência de Bandung, encontravam-se Nehru (Índia), Sukarno (Indonésia), Nasser (Egito),
Tito (Iugoslávia) e Fidel Castro (Cuba).
( ) Mais do que em razão de disputas territoriais no subcontinente indiano, três guerras sucessivas
(sino-indiana, em 1962, e indo-paquistanesas, em 1965 e 1971) evidenciaram a intensidade da
Guerra Fria naquela região.
Resposta: E – E – E – E
8. (IRBr 2006) A condição norte-americana de superpotência consolidou-se realmente no
momento da rendição da Alemanha e do Japão e da realização das conferências de Yalta e
Potsdam, que selaram o encerramento da guerra. O crescimento do poderio soviético e a
decadência das velhas potências europeias formavam o pano de fundo para que
Washington assumisse finalmente a vocação de liderança do Ocidente capitalista. A
hegemonia global dos Estados Unidos da América (EUA) traduzia-se nas esferas econômica
e estratégica. Os conglomerados transnacionais americanos tornam-se grandes
investidores. Na condição de credores das nações capitalistas, os EUA organizam
programas voltados para a reconstrução europeia (Plano Marshall) e asiática (Plano
Colombo). Os acordos de Bretton Woods transformavam o dólar em “moeda do mundo”, ao
estabelecerem um sistema de paridade fixa e convertibilidade entre o dólar e o ouro. Cria-
se uma nova arquitetura financeira global, cujos instrumentos eram o Banco Internacional
para a Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD, ou Banco Mundial) e o Fundo Monetário
Internacional (FMI). A Guerra Fria trouxe o desenvolvimento do armamentismo nos EUA e
na União Soviética, assim como, em menor escala, nos países europeus e na China. O
esforço armamentista originou também o chamado Complexo Industrial-Militar, que liga o
Pentágono aos conglomerados industriais fabricantes de equipamentos bélicos e atua no
Poder Legislativo por meio de poderosos lobbies.
Demétrio Magnoli. O mundo contemporâneo. São Paulo: Atual, 2004, p. 71-2 (com adaptações).
Tendo o texto como referência inicial e considerando o panorama mundial do pós-Segunda
Guerra, julgue os itens seguintes.
( ) Presença marcante nas duas guerras mundiais do século XX, W. Churchill notabilizou-se pelo
esforço de aproximar Truman (EUA) e Stalin (URSS) no pós-1945, cruzada que levou o líder
britânico a ser laureado, nos anos 1950, com o Prêmio Nobel da Paz.
( ) Sistemas militares da Guerra Fria, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e o
Pacto de Varsóvia surgiram quase que simultaneamente e, no caso do último, a força coercitiva
de Moscou garantiu a presença de todos os países comunistas europeus.
( ) A Crise dos Mísseis, em 1962, trouxe para o continente americano toda a carga de
dramaticidade que envolvia o sistema bipolar do pós-Segunda Guerra. Após tensas negociações
secretas, a URSS concordou em retirar os armamentos instalados em Cuba ante o compromisso
norte-americano de não mais investir na derrubada do regime cubano.
Resposta: E – E – C
9. (IRBr 2006) No que respeita ao novo tempo nas relações internacionais que marcou a
construção dos cenários posteriores à Segunda Guerra Mundial, como expresso no texto,
julgue (C ou E) os itens que se seguem.
( ) O processo de declínio da Europa Ocidental, iniciado com a Grande Guerra de 1914, consolida-
se quando a Segunda Guerra Mundial chega ao fim. Expressões dessa nova realidade pós-1945
seriam, entre outras, a emergência de dois polos de poder mundial – os EUA e a URSS – e a
descolonização afro-asiática.
( ) Sucessivos encontros entre as principais lideranças aliadas, no decorrer da Segunda Guerra,
não foram capazes de, pelo menos, delinearem o novo sistema mundial que prevaleceria após o
conflito. Foi preciso que a URSS dominasse a tecnologia nuclear para receber a concordância do
Ocidente para seu propósito de fazer do Leste Europeu área de sua influência direta.
( ) O êxito do Plano Marshall deve-se menos ao montante de dólares liberados por Washington do
que à abrangência da área em que foi desenvolvido. Lançado bem antes da oficialização da
ruptura entre EUA e URSS, geradora do esquema bipolar que sustentou a Guerra Fria, o
programa de recuperação europeia patrocinado por Washington contemplou também a URSS e
os países do Leste Europeu.
Resposta: C – E – E
10. (IRBr 2003) “O curso das duas décadas que vinculam o ano de 1947 ao de 1968, no
âmbito das relações internacionais, foi ditado pela supremacia de dois gigantes sobre o
mundo. Os EUA e a União Soviética (URSS) assenhorearam-se dos espaços e criaram um
condomínio de poder que só foi abalado no final da década de 60 e início da de 70.
Existiram, no entanto, nuances no sistema condominial de poder. Da relação quente da
Guerra Fria (1947-1955) à lógica da coexistência pacífica (1955-1968), as duas
superpotências migraram da situação de desconfiança mútua para uma modalidade de
convivência tolerável. Da corrida atômica do final da década de 40 e início da de 50 às
negociações para um sistema de segurança mundial sustentado no equilíbrio das armas
nucleares, os dois gigantes evoluíram nas suas percepções acerca da avassaladora
capacidade destrutiva que carregavam.”
José Flávio Sombra Saraiva. Dois gigantes e um condomínio: da Guerra Fria à coexistência pacífica.
In: José Flávio Sombra Saraiva (org.). Relações internacionais: dois séculos de História – entre a
ordem bipolar e o policentrismo (de 1947 a nossos dias). Brasília: IBRI, 2001, p. 19 (com
adaptações).
Tendo o texto apresentado como referência inicial e considerando as relações
internacionais do pós-1945, julgue os itens a seguir.
( ) A bipolaridade do pós-Segunda Guerra, também conhecida como o período da Guerra Fria,
apresenta, entre outras, uma singularidade em relação a sistemas de poder mundial que a
antecederam. Além de evidenciar uma situação de confronto entre duas superpotências situadas
fora do tradicional eixo de poder europeu, a URSS e os EUA, também serviu – pelo menos em
termos retóricos – ao embate travado entre dois sistemas distintos, o capitalista e o socialista.
( ) No período correspondente à coexistência pacífica, tal como concebido pelo texto, a crise dos
mísseis – como ficou conhecido o episódio de instalação desses artefatos pela URSS em Cuba,
descoberto pelos EUA, que reagiram vigorosamente – acirrou o quadro de confronto entre as
duas superpotências e foi visto por muitos como causa de um iminente e aterrador embate
nuclear, que não se concretizou. O estratégico recuo de Kennedy, ante a firme decisão de
Krushev de não retirar os mísseis, pôs fim ao contencioso.
( ) A expressão “assenhoraram-se dos espaços”, utilizada pelo autor para definir o comportamento
das superpotências que construíram um “sistema condominial de poder”, também pode ser
entendida em sentido ainda mais literal. Trata-se da corrida espacial empreendida por ambas,
que, além de refletir o evidente avanço tecnológico da época, servia aos propósitos de dominação
global que as impulsionava.
Resposta: C – E – C
11. (IRBr 2004) “Há algo que não se pode dizer do século XX: que foi um tempo de brumas,
silêncios e mistérios. Tudo nele foi a céu aberto, agressivamente iluminado, escancarado e
estridente. E, no entanto, ele é ainda um enigma – um claro enigma, parafraseando
Drummond –, e dele não podemos fazer o necrológio completo. E porque findou como uma
curva inesperada da história, em um astucioso desencontro do que achávamos ser o futuro,
turvou nossa memória e nosso olhar. E tornou-se pedra e esfinge, com um brilho que ainda
cega e desafia. O século XX foi, sem dúvida, um século das utopias. O seu andamento
coincidiu com a máxima expansão das categorias fundamentais do mundo moderno –
sujeito e trabalho –, eixos que presidiram a atualização e exasperaram os limites do
liberalismo e do socialismo, as duas grandes utopias da modernidade. E talvez por isso
exiba uma característica única e contraditória: parece ter sido o mais preparado e
explicado pelos séculos anteriores e, simultaneamente, o que mais distanciou a
humanidade de seu passado, mesmo o mais próximo, decretando o caráter obsoleto de
formas de vida e sociabilidade consolidadas durante milênios. O século XX sancionou o
Estado-nação como a forma, por excelência, de organização das sociedades em
peregrinação para o futuro e em busca de transparência. Os Estados nacionais ergueram-
se como personagens privilegiadas de uma história humana cada vez mais cosmopolita,
para lembrar Kant, modificando de forma radical a paisagem do mundo. Com eles, o
direito assumiu progressivamente a condição de um idioma universal, reagindo sobre o
passado e destruindo velhas estruturas hierárquicas fundadas em privilégios e na tradição.
Mas o século XX não é apenas um tempo de esperanças. É também o século do medo e das
tragédias injustificáveis. A dura realidade dos interesses provoca dois grandes conflitos
mundiais, um tenso período de guerra fria e uma interminável série de guerras
localizadas. Um século de violência dos que oprimem e dos que se revoltam.”
Rubem Barboza Filho. Século XX: uma introdução (em forma de prefácio). Apud: Alberto Aggio e
Milton Lahuerta (orgs.). Pensar o século XX. São Paulo: Unesp, 2003, p. 15-9 (com adaptações).
Considerando o texto acima, julgue os itens seguintes, relativos ao cenário histórico do
mundo contemporâneo.
( ) Uma “curva inesperada da história”, como diz o texto ao se referir à forma pela qual o século
XX chegou ao fim, pode ser identificada na desintegração da União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas (URSS) e no desmonte do denominado socialismo real do Leste Europeu,
sacramentando a morte de um sistema bipolar de poder mundial que vigorou, com maior ou
menor intensidade, desde o pós-Segunda Guerra.
( ) Quando o texto fala no direito assumindo “progressivamente a condição de um idioma
universal” ao longo do século XX, certamente se refere, entre outros aspectos, ao surgimento da
Liga das Nações e da Organização das Nações Unidas (ONU), ambas criadas a partir de
pressupostos idealistas e razoavelmente apartadas do jogo de interesses e de manipulação do
poder por parte dos Estados nacionais.
( ) A Guerra Fria assinalou a fase de confronto entre as duas superpotências que emergiram da
Segunda Guerra Mundial, tendo seu clímax após o anúncio da Doutrina Truman, pela qual os
Estados Unidos da América (EUA) se dispunham a apoiar os países que resistissem ao
comunismo.
( ) O fato de a URSS de Stalin ter conseguido fabricar a bomba atômica, mas não a de hidrogênio,
impediu que durante a fase de tensão mais pronunciada da Guerra Fria houvesse um equilíbrio
entre as superpotências em termos de poder de destruição do inimigo, o que levou o governo de
Moscou a manter uma atitude de prudente cautela em momentos críticos, como os ocorridos na
Coreia (1951), Vietnã (1954) e Cuba (1962).
Resposta: C – E – C – E
12. (IRBr 2005) Os acontecimentos que convulsionaram o país na primeira metade dos
anos 60 e que culminaram com os atos de força que depuseram Goulart não podem ser
adequadamente compreendidos sem que se leve em conta o processo de transformação
experimentado pelo Brasil desde 1930. Com efeito, a Era Vargas (1930-1945) havia
iniciado o esforço de modernização nacional que, sob a ditadura do Estado Novo (a partir
de 1937), atingira dimensão mais acentuada. Essa modernização foi bastante impulsionada
na segunda metade da década de 50: era o desenvolvimentismo dos Anos JK, sintetizado no
Plano de Metas e consagrado pelo lema “50 anos em 5”. Nessa conjuntura, a Política
Externa Independente refletia um quadro internacional favorável à obtenção de margens
mais amplas de autonomia por parte das áreas periféricas – com a consolidação das
independências na Ásia, o surto de descolonização na África e o advento de novas posições
(pan-africanismo, pan-arabismo, neutralismo, pacifismo) alicerçadas no conceito de
Terceiro Mundo – e, ante a acentuada radicalização interna, passou a ser alvo da máxima
atenção dos grupos em choque.
A. J. Barbosa. Parlamento, política externa e o golpe de 1964. In: E. C. de R. Martins (org.). Relações
internacionais: visões do Brasil e da América Latina. Brasília: IBRI, 2003, p. 251 e 254 (com
adaptações).
Considerando a conjuntura apresentada no texto, verifica-se que, passados cerca de trinta
anos, a realidade mundial era muito distinta da existente naqueles convulsionados anos
60. No que concerne ao novo quadro histórico que começou a ser consolidado na década
de 80 do século XX, julgue (C ou E) os itens que se seguem.
( ) Em uma economia que mais e mais aprofundava seu caráter global, a formação de blocos
regionais e continentais passou a ser uma tendência, o que se justifica, entre outras motivações,
pela necessidade de juntar forças para a atuação em um mercado acentuadamente competitivo.
( ) Há consenso entre os especialistas para explicar as dificuldades aparentemente intransponíveis
encontradas pela União Europeia (UE) em seu esforço para se transformar em um bloco
continental poderoso. Para esses observadores, a falha da UE consistiu em voltar-se
exclusivamente para as questões econômicas, deixando de lado aspectos políticos, sociais e
culturais.
( ) Nos anos 80, havia uma nítida convergência das posições do governo dos EUA e do governo do
Reino Unido. Com efeito, a Era Reagan-Thatcher notabilizou-se pela ação moderada e tolerante
na política externa e, sob a ótica da economia, por ter levado ao extremo a defesa do Estado de
Bem-Estar Social.
Resposta: C – E – E
13. (IRBr 2003 – Adaptada) Não podemos comparar o mundo do final do breve século XX ao
mundo de seu início, em termos de contabilidade histórica de mais e menos. Tratava-se de
um mundo qualitativamente diferente em pelo menos três aspectos. Primeiro, ele tinha
deixado de ser eurocêntrico. Trouxera o declínio e a queda da Europa, ainda centro
inquestionado de poder, riqueza, intelecto e civilização ocidental quando o século
começou. A segunda transformação foi mais significativa. Entre 1914 e o início da década
de 1990, o globo foi muito mais uma unidade operacional única, como não era e não
poderia ter sido em 1914. Na verdade, para muitos propósitos, notadamente em questões
econômicas, o globo é agora unidade operacional básica, e unidades mais velhas como as
economias nacionais, definidas pelas políticas de Estados territoriais, estão reduzidas a
complicações das atividades transnacionais. A terceira transformação, em certos aspectos
a mais perturbadora, é a desintegração de velhos padrões de relacionamento social
humano, e com ela, aliás, a quebra dos elos entre as gerações, quer dizer, entre passado e
presente.
Eric Hobsbawm. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das
Letras, 1995, p. 23-4 (com adaptações).
A partir da análise contida no texto acima, julgue os itens seguintes, relativos ao processo
histórico do mundo contemporâneo.
( ) A contínua incorporação do conhecimento científico ao sistema produtivo contemporâneo, cujos
passos iniciais foram dados ainda em meados do século XIX, quando o capitalismo mais e mais
passava a ser controlado pelos capitais financeiros, adquire prodigiosa dimensão ao longo do
século XX. A Era de Ouro da economia contemporânea, entre o pós-Segunda Guerra e o início da
década de 70, amplia o processo de mundialização dos mercados, deixando para trás o que
Hobsbawm chama de estágio de “economias nacionais” comandadas por Estados territoriais.
( ) A “desintegração de velhos padrões de relacionamento social”, mencionada no texto e
característica marcante do atual momento histórico, pode ser representada, entre outros
possíveis aspectos, pela erosão das sociedades e religiões tradicionais, pelo fim da utopia
pregada pelo socialismo real e pela exacerbação de um individualismo associal absoluto.
Resposta: C – E
14. (IRBr 2009) “Seis décadas após o fim da Segunda Guerra, a Aliança do Atlântico,
firmada entre a Europa e os Estados Unidos, estava em desalinho. De certo modo, a
situação era o resultado previsível do fim da Guerra Fria – embora pouca gente desejasse
seu desmantelamento, a organização, em seu estado presente, não fazia muito sentido. A
Aliança fora criada para compensar a incapacidade da Europa Ocidental de se defender
sem a ajuda norte-americana. O fracasso contínuo dos governos europeus em constituir a
sua própria força militar eficaz foi responsável pela sobrevivência da organização. Dez
anos depois da assinatura do Tratado de Maastricht, a União Europeia (UE) estava prestes
a estabelecer uma Força de Reação Rápida, composta por 60 mil indivíduos, para realizar
intervenções e missões de paz.”
Tony Judt. Pós-Guerra: uma história da Europa desde 1945. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. p. 773-4
(com adaptações).
Tendo o texto acima como referência inicial e considerando o cenário histórico mundial
desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), julgue (C ou E) os itens que se seguem.
( ) A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) foi a aliança militar celebrada entre os
EUA e países da Europa Ocidental no contexto da bipolaridade que marcou as relações
internacionais no pós-Segunda Guerra e explicitou a condição de superpotências mundiais dos
EUA e da URSS.
( ) Certamente por cálculo estratégico, mas também para não ampliar os gastos de uma economia
em relativo estado de escassez, o governo soviético – sob o comando de Stalin e seus sucessores,
até a década de 60 do século passado – optou por não criar estrutura militar semelhante à OTAN,
embora mantivesse elevados investimentos na produção de arsenal nuclear e na corrida espacial.
( ) Sugere-se, no texto, que, decorridos mais de sessenta anos desde o fim da Segunda Guerra,
subsistem as condições que motivaram a criação da OTAN.
( ) No processo de constituição do bloco europeu, sacramentado em Maastricht, as questões
militares foram suprimidas, dada a prioridade máxima conferida à unificação econômica e a seus
desdobramentos políticos, sociais e culturais.
Resposta: C – E – E – E
15. (IRBr 2015) Um dos mais expressivos resultados da Segunda Guerra Mundial (1939-
1945) foi a nova configuração geopolítica do mundo contemporâneo: de um lado, a
emergência de um sistema de poder assentado na bipolaridade americano-soviética e, de
outro, um vigoroso processo de descolonização protagonizado, sobretudo, por asiáticos e
africanos. Em relação ao cenário histórico mundial pós-1945, julgue (C ou E) o item
subsequente.
( ) Embora detentores de inegáveis instrumentos de poder e de dissuasão, Estados Unidos da
América (EUA) e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) optaram por ficar à
margem do processo de descolonização, salvo em poucas situações, justamente para que não
fosse prejudicado o projeto de hegemonia mundial que ambos acalentavam.
Resposta: E
16. (IRBr 2009) Com relação à vitória comunista na China em 1949, julgue (C ou E) os
itens seguintes.
( ) O Partido Comunista, liderado por Mao Tsé-tung (Mao Zedong), assumiu a vanguarda do
movimento revolucionário.
( ) A revolução chinesa somente se tornou possível com o apoio ativo, desde 1936, da União
Soviética à estratégia de luta armada do Partido Comunista chinês.
( ) O movimento revolucionário contou sobretudo com o apoio da classe operária urbana.
( ) A despeito da crise ocorrida em 1960, o regime comunista chinês manteve laços políticos
estreitos com a União Soviética.
Resposta: C – E – E – E
17. (IRBr 2015) O século XX é considerado o século das revoluções. A partir de 1917,
quando a autocracia czarista foi derrubada, as utopias engendradas pelo século XIX
buscaram materializar-se. A rigor, as revoluções se universalizaram, indo da Europa à Ásia,
da América à África. Relativamente às revoluções do século XX, julgue (C ou E) o item
subsequente.
( ) Em 1949, os comunistas chineses tomaram o poder em Pequim após uma longa luta de
guerrilhas, que se estendeu pela área rural e, posteriormente, chegou às cidades.
Resposta: C
17. AS LUTAS DE LIBERTAÇÃO AFRO-ASIÁTICAS
1. (IRBr 2015 – Adaptada) Um dos mais expressivos resultados da Segunda Guerra Mundial
(1939-1945) foi a nova configuração geopolítica do mundo contemporâneo: de um lado, a
emergência de um sistema de poder assentado na bipolaridade americano-soviética e, de
outro, um vigoroso processo de descolonização protagonizado, sobretudo, por asiáticos e
africanos. Em relação ao cenário histórico mundial pós-1945, julgue (C ou E) os itens
subsequentes.
( ) A vitória militar francesa na batalha de Dien Bien Phu, em 1954, preservou por mais alguns
anos a Indochina – uma artificial invenção do colonialismo – e permitiu ao governo de Paris
comandar o processo de negociação que levou à independência gradual do Vietnã, do Laos e do
Camboja.
( ) Marco da nova configuração mundial pós-Segunda Guerra, a conferência de Bandung, na
Indonésia, reuniu, pela primeira vez, cerca de três dezenas de chefes de Estado da Ásia e da
África e, ao final, pronunciou-se a favor de um capitalismo “de face humana”, pela condenação
do Ocidente (EUA) e pela aproximação política com a URSS.
( ) O processo de independência das colônias africanas e asiáticas derivou de vários fatores e
ações que envolveram o poder das velhas metrópoles europeias, as condições internas de cada
colônia e a conjuntura internacional, desde fins da Segunda Guerra, amplamente favorável à
mudança do status quo político dos impérios em causa.
Resposta: E – E – C
2. (IRBr 2014) Julgue (C ou E) os itens seguintes a respeito da descolonização, uma das
características da ordem internacional surgida após a Segunda Guerra Mundial.
( ) A Holanda concedeu a independência política às suas colônias na América (Suriname) e na Ásia
(Indonésia) em 1954, mas manteve privilégios comerciais mediante a assinatura de tratados
comerciais com os novos países.
( ) Nas colônias portuguesas na África, uma diminuta elite local, cujas lideranças tinham educação
formal, desenvolveu, nos anos 60, um nacionalismo anticolonialista, influenciado pelo marxismo.
( ) O antigo sudoeste africano, administrado pela Alemanha desde 1885, incorporou-se à União
Sul-Africana em 1946 e tornou-se independente em 1990 com o nome de República da Namíbia.
( ) Uma das características do processo de descolonização é o de ter sido a Grã-Bretanha mais
bem-sucedida que a França em promover transições negociadas das colônias para países
independentes.
Resposta: E – C – E – C
3. (IRBr 2014) O termo Terceiro Mundo designa, a partir da Guerra Fria, o conjunto de
países que se afastam dos blocos ocidental e soviético. Preocupados em passar da
independência jurídica ao desenvolvimento autônomo, os países que saíram há pouco da
condição de colônia reúnem-se, logo depois da Segunda Guerra, em grupos de
solidariedade.
Serge Berstein; Pierre Milza. História do século XX, 1945-1973. Rio de Janeiro: Companhia Editora
Nacional, v. 2.
A respeito das características e consequências da realidade expressa no texto acima,
julgue (C ou E) os itens subsequentes.
( ) O anti-imperialismo ideológico do movimento dos países não alinhados levou-os a se oporem à
política externa dos Estados Unidos da América e a aderirem a posições defendidas pela União
Soviética.
( ) A primeira manifestação do “grupo de solidariedade” ocorreu em 1947, em Nova Deli, onde
delegados de países da Ásia se reuniram para tratar da descolonização e do subdesenvolvimento.
( ) A Conferência de Bandung em 1955, composta de nações afro-asiáticas, propôs a
implementação, pelos EUA, de um Plano Marshall para todos os países em desenvolvimento.
( ) Nas conferências com países do Terceiro Mundo surgiram divergências, como aquela entre os
adeptos de um rígido neutralismo na Guerra Fria, cujo maior defensor era a Índia, e os
partidários de uma ação decidida contra o neocolonialismo e o imperialismo, compostos
principalmente por países africanos.
Resposta: C – C – E – C
4. (IRBr 2010) Síria e Líbano tornaram-se independentes em 1945; Índia e Paquistão, em
1947; Birmânia, Ceilão (Sri Lanka), Palestina (Israel) e Índias Ocidentais Holandesas
(Indonésia), em 1948. Em 1946, os Estados Unidos da América (EUA) concederam status
formal de independência às Filipinas, que haviam ocupado desde 1898.
Eric Hobsbawm. Era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p.
214-5 (com adaptações).
A partir do fragmento de texto acima e considerando o processo de descolonização no
século XX, assinale a opção correta.
a) Além da descolonização em massa, a Segunda Guerra Mundial foi responsável pelo colapso de
grandes impérios, como o alemão e o turco otomano.
b) As independências da Síria e do Líbano, no imediato pós-Segunda Guerra, privaram a Grã-
Bretanha de duas de suas mais ricas e estratégicas colônias.
c) A ocupação americana do Japão, além de breve, não interferiu na reorganização política do
Império nipônico.
d) As colônias asiáticas que hoje correspondem a Vietnã, Laos e Camboja foram as que ofereceram
resistência mais duradoura à dominação estrangeira.
e) A figura de Ho Chi Minh está diretamente vinculada à Revolução Chinesa de 1949, em especial,
por sua liderança na Grande Marcha, na década de 30 do século XX.
Resposta: Alternativa D
5. (IRBr 2009 – Adaptada) No que concerne ao domínio de potências coloniais na Ásia, no
início do século XX, julgue (C ou E) os próximos itens.
( ) A China, civilização milenar e até então com estrutura política própria, foi dividida em
protetorados sob domínio das potências ocidentais, ficando o imperador com sua autoridade
restrita a Pequim e arredores.
( ) O Japão preservou sua independência ao promover modernização de grande envergadura,
assimilando métodos e costumes ocidentais.
( ) A tentativa de modernização promovida pela imperatriz Tsen-hi, na Reforma dos Cem Dias,
gerou tensões que provocaram sua deposição, tendo a Revolução de 1911, que proclamou a
República, posto fim à dinastia Manchu na China.
( ) O novo poderio militar japonês ficou comprovado na guerra de 1904-1905 contra a Rússia.
( ) Dois fatores foram decisivos para que se concretizasse a descolonização afro-asiática: o
fortalecimento dos movimentos nacionais pela independência – a despeito de projetos e
estratégias distintos que, não raro, defendiam – e o declínio europeu que a guerra evidenciara,
sobretudo em relação à perda de poder das antigas potências coloniais.
Resposta: E – C – E – C – C
6. (IRBr 2008) Ao chegar ao fim, a Segunda Guerra Mundial desvelava um novo cenário
mundial. Ao declínio europeu e à emergência de um sistema internacional bipolar, soma-se
o movimento de independência na Ásia e na África. Relativamente a esse processo de
descolonização, julgue (C ou E) os itens que se seguem.
( ) A descolonização ocorre em meio ao novo quadro internacional, no qual despontam, de um
lado, os EUA e sua hegemonia sobre o mundo capitalista e, de outro lado, o prestígio alcançado
pela URSS à frente do nascente bloco socialista.
( ) O processo de descolonização foi marcado pelo ambiente de tensão próprio da Guerra Fria, mas
não pode ser a esta debitada influência exclusiva sobre as motivações e a forma de condução da
luta pela emancipação das colônias.
( ) As semelhanças verificadas na descolonização de regiões distintas, como a África Negra, o
Magreb, o Sudeste Asiático, o Oriente Próximo e o Extremo Oriente, explicam-se pela
uniformidade da ação imperialista nessas áreas.
( ) Tendo em conta que a libertação nacional era objetivo comum, não se verificam diferenças
significativas no pensamento e na ação de líderes como Nehru (Índia), Lumumba (Congo),
Nasser (Egito) e Ho Chi Minh (Vietnã).
Resposta: C – C – E – E
7. (IRBr 2007) Poucas vezes, a incapacidade dos governos em conter o curso da história foi
demonstrada de forma mais decisiva que na geração pós-1815. Evitar uma segunda
Revolução Francesa, ou ainda a catástrofe pior de uma revolução européia generalizada
tendo como modelo a francesa, foi o objetivo supremo de todas as potências que tinham
gasto mais de vinte anos para derrotar a primeira.
Houve três ondas revolucionárias principais no mundo ocidental entre 1815 e 1848. A
primeira ocorreu em 1820-4. Na Europa, ela ficou limitada principalmente ao
Mediterrâneo, com a Espanha, Nápoles e a Grécia como seus epicentros. A Revolução
Espanhola reavivou o movimento de libertação na América Latina.
A segunda onda revolucionária ocorreu em 1829-34 e afetou toda a Europa a oeste da
Rússia e o continente norte-americano, pois a grande época de reformas do presidente
Jackson deve ser entendida como parte dela. Ela marca a derrota definitiva dos
aristocratas pelo poder burguês na Europa Ocidental. A classe governante dos próximos
cinquenta anos seria a grande burguesia de banqueiros, grandes industriais e, às vezes,
altos funcionários civis. Ela determina, também, uma inovação ainda mais radical na
política: o aparecimento da classe operária como uma força política autoconsciente e
independente na Grã-Bretanha e na França e dos movimentos nacionalistas em grande
número de países na Europa.
A terceira e maior das ondas revolucionárias foi a de 1848. Nunca houve nada tão próximo
da revolução mundial com que sonhavam os insurretos que essa conflagração espontânea
e geral. O que, em 1789, fora o levante de uma só nação era, agora, assim parecia, a
primavera dos povos de todo um continente.
Eric J. Hobsbawm. A era das revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981, p. 127-30 (com
adaptações).
Tendo o texto como referência inicial e considerando o quadro histórico do século XIX no
Ocidente, julgue (C ou E) os itens seguintes.
( ) A partilha da África, decidida na Conferência de Berlim (1885), símbolo marcante dos
princípios, métodos e objetivos da expansão capitalista, reiterou o caráter quase exclusivamente
anglo-francês da competição por novas colônias na passagem do século XIX ao XX, já que
praticamente inexistiam, à época, potências que com Inglaterra ou França pudessem rivalizar.
Resposta: E
8. (IRBr 2007) Tal como oficialmente apresentada, a Conferência de Bandung, realizada em
1955, procurou criar um novo bloco que tivesse capacidade de ação política internacional
diante dos dois polos de poder dominantes. A bússola que orientaria essa terceira força
seria, conforme a declaração assinada ao final do encontro, a busca da paz por meio da
cooperação internacional. Julgue (C ou E) os itens que se seguem, concernentes a esse
contexto histórico do mundo pós-1945.
( ) A Conferência de Bandung consagrou uma linha política de não alinhamento, ou seja, uma
opção diplomática de equidistância em relação ao sistema bipolar que emergiu depois da
Segunda Guerra Mundial.
( ) O êxito do espírito de Bandung deveu-se, sobretudo, à capacidade de superação de
divergências históricas entre países asiáticos e africanos, de que seria exemplo emblemático a
cordial e amistosa convivência entre Índia e Paquistão após a conquista das respectivas
independências.
( ) A Conferência de Bandung condenou explicitamente toda e qualquer forma de colonialismo,
identificado como um mal que devia ser extinto imediatamente, por ser visceralmente contrário à
Carta das Nações Unidas e aos direitos humanos.
Resposta: C – E – C
9. (IRBr 2007) Entre as numerosas transformações trazidas pela Segunda Guerra Mundial,
destacou-se a emergência da África e da Ásia, assinalada pela libertação das antigas
colônias localizadas nesses continentes. A respeito desse processo de descolonização,
decisivo para a configuração da nova realidade mundial pós-1945, assinale a opção
correta.
a) No processo de independência da Índia, destacou-se a ação política de Mahatma Gandhi, que
tinha por princípio a não violência, expressa na resistência pacífica aos dominadores britânicos.
Quando assumiu o cargo de primeiro-ministro, em face das dissensões políticas internas, Gandhi
optou pela renúncia.
b) Embora pacífico em praticamente todas as suas fases, o processo de independência da
Indochina culminou na Guerra do Vietnã, região que, sucessivamente dominada por norte-
americanos, japoneses e franceses, se tornou independente em face da ação do Conselho de
Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).
c) O atual Iraque, alvo de invasão militar norte-americana que culminou na prisão e na morte de
Saddam Hussein, foi uma criação artificial do pós-Segunda Guerra, por imposição de Moscou,
com a intenção de estabelecer, no Oriente Médio, uma área de influência soviética quando a
Guerra Fria se apresentava mais ativa.
d) Depois de nove anos de guerra, que deixou número expressivo de vítimas e que assinalou a
firme disposição francesa de não abrir mão de sua colônia, a Argélia conquistou a independência
em 1962, em meio a uma conjuntura emancipacionista que envolveu parte significativa do
continente africano.
e) O império colonial português na África foi um dos primeiros a desintegrar-se, provavelmente
pelo fato de que ele jamais se submetera às condições impostas pelo moderno capitalismo de
base acentuadamente financeira e crescentemente globalizado.
Resposta: Alternativa D
10. (IRBr 2006) A condição norte-americana de superpotência consolidou-se realmente no
momento da rendição da Alemanha e do Japão e da realização das conferências de Yalta e
Potsdam, que selaram o encerramento da guerra. O crescimento do poderio soviético e a
decadência das velhas potências europeias formavam o pano de fundo para que
Washington assumisse finalmente a vocação de liderança do Ocidente capitalista. A
hegemonia global dos Estados Unidos da América (EUA) traduzia-se nas esferas econômica
e estratégica. Os conglomerados transnacionais americanos tornam-se grandes
investidores. Na condição de credores das nações capitalistas, os EUA organizam
programas voltados para a reconstrução europeia (Plano Marshall) e asiática (Plano
Colombo). Os acordos de Bretton Woods transformavam o dólar em “moeda do mundo”, ao
estabelecerem um sistema de paridade fixa e convertibilidade entre o dólar e o ouro. Cria-
se uma nova arquitetura financeira global, cujos instrumentos eram o Banco Internacional
para a Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD, ou Banco Mundial) e o Fundo Monetário
Internacional (FMI). A Guerra Fria trouxe o desenvolvimento do armamentismo nos EUA e
na União Soviética, assim como, em menor escala, nos países europeus e na China. O
esforço armamentista originou também o chamado Complexo Industrial-Militar, que liga o
Pentágono aos conglomerados industriais fabricantes de equipamentos bélicos e atua no
Poder Legislativo por meio de poderosos lobbies.
Demétrio Magnoli. O mundo contemporâneo. São Paulo: Atual, 2004, p. 71-2 (com adaptações).
No que respeita ao novo tempo nas relações internacionais que marcou a construção dos
cenários posteriores à Segunda Guerra Mundial, como expresso no texto, julgue (C ou E) o
item que se segue.
( ) As posições terceiro-mundistas ganharam visibilidade internacional a partir de meados dos
anos 1950. Nesse sentido, a Conferência de Bandung desempenhou o importante papel de
catalisador das aspirações de jovens nações africanas e asiáticas em busca de ação mais
autônoma em relação às duas superpotências, sentimento que também se difundiu por outras
áreas periféricas do planeta.
Resposta: C
11. (IRBr 2005) Os acontecimentos que convulsionaram o país na primeira metade dos
anos 60 e que culminaram com os atos de força que depuseram Goulart não podem ser
adequadamente compreendidos sem que se leve em conta o processo de transformação
experimentado pelo Brasil desde 1930. Com efeito, a Era Vargas (1930-1945) havia
iniciado o esforço de modernização nacional que, sob a ditadura do Estado Novo (a partir
de 1937), atingira dimensão mais acentuada. Essa modernização foi bastante impulsionada
na segunda metade da década de 50: era o desenvolvimentismo dos Anos JK, sintetizado no
Plano de Metas e consagrado pelo lema “50 anos em 5”. Nessa conjuntura, a Política
Externa Independente refletia um quadro internacional favorável à obtenção de margens
mais amplas de autonomia por parte das áreas periféricas – com a consolidação das
independências na Ásia, o surto de descolonização na África e o advento de novas posições
(pan-africanismo, pan-arabismo, neutralismo, pacifismo) alicerçadas no conceito de
Terceiro Mundo – e, ante a acentuada radicalização interna, passou a ser alvo da máxima
atenção dos grupos em choque.
A. J. Barbosa. Parlamento, política externa e o golpe de 1964. In: E. C. de R. Martins (org.). Relações
internacionais: visões do Brasil e da América Latina. Brasília: IBRI, 2003, p. 251 e 254 (com
adaptações).
Na conjuntura mundial de que trata o texto, uma das mais significativas manifestações de
que um novo cenário nascia dos escombros da Segunda Guerra Mundial foi a emergência
afro-asiática. Com efeito, enquanto Moscou e Washington concebiam o mundo como
condomínio a ser disputado por dois síndicos poderosos, consolidava-se o processo de
afirmação nacional na Ásia e, na África, avançava o movimento anticolonial. Tendo em
vista esses acontecimentos, julgue (C ou E) os itens subsequentes.
( ) Nas colônias ou nas metrópoles, não foram poucos os intelectuais que assumiram a luta
emancipacionista. Nesse sentido, um exemplo se impõe: o de Jean-Paul Sartre, que se notabilizou
como a grande voz da consciência europeia contra o colonialismo.
( ) Considera-se o ano de 1947 a data simbólica do início da dissolução dos impérios coloniais: é a
data da independência da Índia e de sua partilha entre hindus e muçulmanos, que resultou na
criação do Paquistão.
( ) O processo de emancipação dos povos colonizados não seguiu um modelo-padrão, variou de
região para região e foi contingenciado por fatores diversos, entre os quais, os métodos
utilizados pelo colonizador e as condições internas de cada colônia.
( ) Na Conferência de Bandung (Indonésia, 1955), 29 países procuraram materializar o conceito de
Terceiro Mundo, pronunciaram-se pelo neutralismo em face do sistema bipolar e
comprometeram-se a apoiar a luta pela libertação dos povos ainda colonizados.
Resposta: C – C – C – C
12. (IRBr 2010) Na Península Ibérica, a transição de regimes autoritários (Salazarismo, em
Portugal, e Franquismo, na Espanha) para a democracia realizou-se em processos quase
simultâneos, na década de 70 do século passado. Acerca desse tema, assinale a opção
correta.
a) O principal fator da queda do Salazarismo, em Portugal, e do Franquismo, na Espanha, foi a
perda dos respectivos Impérios coloniais desses países.
b) Na Espanha, a transição para a democracia realizou-se em contexto de depressão econômica,
ao passo que, em Portugal, ocorreu em momento de crescimento e modernização da economia.
c) Tanto o Salazarismo quanto o Franquismo foram estabelecidos por meio de guerras civis
violentas.
d) A Revolução dos Cravos foi liderada por setores militares insatisfeitos com o rumo da guerra
colonial empreendida por Portugal.
e) Na Espanha, a Revolução que encerrou o regime ditatorial franquista foi liderada por Juan
Carlos I, coroado em 1975.
Resposta: Alternativa B
18. A AMÉRICA LATINA NO SÉCULO XX
1. (IRBr 2012 – Adaptada) Em 1945, o sistema econômico-financeiro mundial apresentava-
se profundamente desorganizado. Elementos de continuidade misturavam-se às evidentes
rupturas provocadas pela guerra, tanto com referência aos diferentes agentes públicos e
privados, Estados e empresas, quanto à hierarquia e à natureza das relações que eles
mantinham entre si. Sob a influência predominante dos EUA, e também em grande parte
sob a égide da Organização das Nações Unidas (ONU), erguia-se uma nova ordem mundial,
que, baseada em um liberalismo renovado, perpassava tanto a disciplina monetária quanto
as regras do comércio internacional. Em um mundo politicamente dividido e
economicamente heterogêneo, a reconstrução liberal não conseguiu derrubar todas as
barreiras que teimavam em dividir a economia mundial.
Serge Berstein e Pierre Milza. História do século XX. V. 2: 1945-1973 – o mundo entre a guerra e a
paz. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2007, p. 14 (com adaptações).
Tendo o texto como referência inicial e considerando o quadro da economia mundial nas
duas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, julgue (C ou E) o item a seguir.
( ) Brasil, México e Argentina, identificados como economias periféricas, encontraram, no pós-
1945, em relação ao desenvolvimento industrial, mais obstáculos que os demais países devido a
dois fatores básicos: irrelevante acumulação de divisas durante o conflito e reduzida participação
nas exportações mundiais.
Resposta: E
2. (IRBr 2006) Resguardadas as condições específicas de cada país e os aspectos singulares
e próprios de seus processos históricos, é possível proceder-se à síntese da experiência
latino-americana nas últimas cinco décadas. Relativamente a esse quadro geral, julgue (C
ou E) os itens subsequentes.
( ) Regimes autoritários, normalmente chefiados por militares, prevaleceram entre os anos 60 e 80
do século passado. Mantendo sua condição de “Suíça da América Latina”, o Uruguai conseguiu
ser a exceção democrática em um Cone Sul dominado por governos ditatoriais.
( ) Líder de movimento armado similar ao empreendido pelos guerrilheiros de Sierra Maestra,
Salvador Allende foi o primeiro presidente socialista da América do Sul. Com sua queda, em
1973, o país mergulhou em uma das mais truculentas ditaduras do período, que foi chefiada pelo
general Augusto Pinochet.
( ) Na Argentina, sucessivos golpes militares interromperam a experiência reformista em curso
desde o final dos anos 1950 e conseguiram minar, possivelmente em definitivo, a força política
que o peronismo historicamente possuíra no país.
( ) De maneira geral, o fim do ciclo autoritário na América Latina coincidiu com o esgotamento do
modelo econômico por ele adotado. Não por outra razão, o retorno à democracia se fez
acompanhar por novo surto de prosperidade econômica, razão direta da redução dos níveis de
desigualdade social na região.
Resposta: E – E – E – E
3. (IRBr 2005) Os acontecimentos que convulsionaram o país na primeira metade dos anos
60 e que culminaram com os atos de força que depuseram Goulart não podem ser
adequadamente compreendidos sem que se leve em conta o processo de transformação
experimentado pelo Brasil desde 1930. Com efeito, a Era Vargas (1930-1945) havia
iniciado o esforço de modernização nacional que, sob a ditadura do Estado Novo (a partir
de 1937), atingira dimensão mais acentuada. Essa modernização foi bastante impulsionada
na segunda metade da década de 50: era o desenvolvimentismo dos Anos JK, sintetizado no
Plano de Metas e consagrado pelo lema “50 anos em 5”. Nessa conjuntura, a Política
Externa Independente refletia um quadro internacional favorável à obtenção de margens
mais amplas de autonomia por parte das áreas periféricas – com a consolidação das
independências na Ásia, o surto de descolonização na África e o advento de novas posições
(pan-africanismo, pan-arabismo, neutralismo, pacifismo) alicerçadas no conceito de
Terceiro Mundo – e, ante a acentuada radicalização interna, passou a ser alvo da máxima
atenção dos grupos em choque.
A. J. Barbosa. Parlamento, política externa e o golpe de 1964. In: E. C. de R. Martins (org.). Relações
internacionais: visões do Brasil e da América Latina. Brasília: IBRI, 2003, p. 251 e 254 (com
adaptações).
Considerando a conjuntura apresentada no texto, verifica-se que, passados cerca de trinta
anos, a realidade mundial era muito distinta da existente naqueles convulsionados anos
60. No que concerne ao novo quadro histórico que começou a ser consolidado na década
de 80 do século XX, julgue (C ou E) o item que se segue.
( ) Brasil e Argentina, quando governados, respectivamente, por José Sarney e Raúl Alfonsín,
iniciaram um processo de aproximação cujo desdobramento foi a constituição do Mercado
Comum do Sul (MERCOSUL), que incorporou dois outros sócios – Paraguai e Uruguai.
Resposta: C
4. (IRBr 2010) Acerca da Revolução Mexicana de 1910 e da política mexicana no século XX,
julgue C ou E.
( ) A expressão porfiriato refere-se ao longo período em que Porfírio Díaz dominou a política
mexicana, até 1911. O porfiriato pode ser descrito como um período de estabilidade e expansão
econômica, mas também de repressão e de injustiça social crescentes.
( ) Depois da ascensão, em 1911, de Pancho Villa à presidência do país, registrou-se um surto de
desenvolvimento industrial paralelo ao processo de reforma agrária.
( ) A Constituição de 1917, fruto do processo revolucionário, continua sendo a Constituição dos
Estados Unidos Mexicanos.
( ) Representante do continuísmo dos regimes surgidos após a Revolução Mexicana, o Partido
Revolucionário Institucional (PRI) mantém-se no poder até os dias atuais.
Resposta: C – E – C – E
5. (IRBr 2007) Seguindo uma tendência que a África e a Ásia levaram ao extremo, também
a América Latina teve sua trajetória marcada pela radicalização política nas décadas
seguintes à Segunda Guerra Mundial. A esse respeito, julgue (C ou E) os itens a seguir.
( ) A onda de regimes políticos nacionalistas e reformistas na América Latina, iniciada com a
Revolução Mexicana, que Cárdenas retomou a partir de 1934, ressurgiu na década de 50 do
século passado, especialmente na Guatemala e na Bolívia.
( ) Vitoriosa em 1959, a Revolução Cubana, comandada por Fidel Castro, assumiu, em 1961, o
caráter socialista de inspiração marxista e aprofundou os processos de coletivização de terras,
nacionalização de empresas e monopolização do poder político.
( ) O Chile protagonizou a experiência latino-americana, inédita até então, de adoção do
socialismo pela via eleitoral, que se deu com a vitória de Salvador Allende. Em 1973, um golpe
de Estado pôs fim ao governo socialista e mergulhou o país em uma das mais ferozes ditaduras
do Cone Sul.
( ) A chegada dos sandinistas ao poder nicaraguense, graças à vitória nas eleições de 1979 e ao
apoio ostensivo de Washington, encerrou o ciclo de uma das mais duradouras ditaduras latino-
americanas, a de Somoza.
Resposta: C – C – C – E
6. (IRBr 2014) Os projetos de Bretton Woods se mostraram irrelevantes perto do objetivo
urgente de reconstruir as economias das nações que estiveram em guerra. O pior conflito
do mundo foi mais destrutivo para economias e sociedades do que o previsto. No pós-
guerra, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita dos aliados europeus – URSS, França,
Bélgica, Holanda e outros – correspondia a menos de 4/5 do que valia em 1939; na maioria
desses países, os índices de 1946 estavam bem menores que os do início da década de 20.
As condições nos países derrotados eram muito piores. A mudança de posição da Europa
Ocidental na economia internacional dificultaria a recuperação. Para se reconstruir, o
continente precisava importar alimentos, matérias-primas e equipamentos tecnológicos.
No entanto, boa parte da capacidade europeia de ganhar dinheiro para financiar as
importações havia se esgotado. Com a Guerra Fria, a Europa Ocidental passou a não ter
mais acesso aos mercados das partes oriental e central do continente. Enquanto isso, os
EUA e o restante do hemisfério ocidental desfrutavam de prosperidade.
Jeffry A. Frieden. Capitalismo global: história econômica e política do século XX. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 2008, p. 283-4 (com adaptações).
Tendo ainda o texto de J. A. Frieden como referência, julgue (C ou E) o item subsequente,
relativo ao quadro histórico europeu e mundial do pós-Segunda Guerra.
( ) A guinada da Revolução Cubana para o socialismo transplantou a Guerra Fria para a América.
Na primeira metade da década de 60, a descoberta de mísseis soviéticos instalados na ilha
comandada por Fidel Castro exacerbou dramaticamente a tensão mundial e o confronto Leste
versus Oeste.
Resposta: C
7. (IRBr 2015) O século XX é considerado o século das revoluções. A partir de 1917, quando
a autocracia czarista foi derrubada, as utopias engendradas pelo século XIX buscaram
materializar-se. A rigor, as revoluções se universalizaram, indo da Europa à Ásia, da
América à África. Relativamente às revoluções do século XX, julgue (C ou E) os itens
subsequentes.
( ) A Revolução Mexicana, de 1910, foi desencadeada a partir de uma questão político-eleitoral, a
reeleição de Porfirio Díaz, e ganhou densidade com as demandas sociais, especialmente as do
campo.
( ) A Revolução Cubana, iniciada em 1956 sob a liderança de Fidel Castro, tinha caráter comunista
e contou com o apoio logístico e político do Partido Socialista Popular (futuro Partido Comunista)
para se consolidar nas montanhas de Sierra Maestra.
Resposta: C – E
8. (IRBr 2003) O Estado desenvolvimentista, de características tradicionais, reforça o
aspecto nacional e autônomo da política exterior. Trata-se do Estado empresário que
arrasta a sociedade no caminho do desenvolvimento nacional mediante a superação de
dependências econômicas estruturais e a autonomia de segurança. O Estado normal,
invenção latino-americana dos anos noventa, foi assim denominado pelo expoente da
comunidade epistêmica argentina, Domingo Cavallo, em 1991, quando era ministro das
Relações Exteriores do governo de Menem. Aspiram a ser normais os governos latino-
americanos que se instalaram em 1989-90 na Argentina, Brasil, Peru, Venezuela, México e
outros países menores. O terceiro é o paradigma do Estado logístico, que fortalece o
núcleo nacional, transferindo à sociedade responsabilidades empreendedoras e ajudando-a
a operar no exterior, de modo a equilibrar os benefícios da interdependência mediante