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Subsidios para a historia de Iguape

X o Esbogi ltistni.?m rln ~ I L ? L I J I I C Cile


O ~ q i r n l ~ ~irocitrri
e, tiscln-
reeer certos factos, coniprovndas por doeiiineiitos, dcscoiilitrridris
j~eloç liistorindores eni geral e qiie tiveasern i.ela~Zocnni a nasça
liiçtorix local; no iiiesnia tempo, deixei dn salientar niuitas tin-
diç3es loeaes, nl-;iimns das qu;ios sno relneioiindas coiii os funda-
dores de Izunlie e em firande parte eorrobor;~dnspor documeritos.
IIa tanta divergencin nas ohras liistorict~sr e k r e n t r ç :ios h-
e t o j occoriidos no coiiisr;~ do seciilo deztsriç, que B neeesjiirio
usar do inaior cscrupulo iin traiiseripç8o dellrs.
Pelos chi.nnistns antigos 550 çiti~dosn o ~ n e sde diversas pes-
sòns, como existeii(es nestn distiicto do littoral do Broail, coiii-
l,reliciiilido niitre S. Vicento e C;iii;iriin. nntes do aitno do 1582,
quaiido llnrt,iiii .iffonso de Souza estnbrleccii nqunlla villa, drn-
tre eujos notiies podeinos cit.ir os de JoXo IZ.~innllio, Antonio iio-
drigues, Fr:incisco de Chaves. Duarte Peres e Alrixo Gnrcia.
Sohrr a data d:i. clieg;idn destes Iiomens a nossa I i i ~ t o r i ; 6 ~
omissa, n8o teiido sido possivel eiieontrnr dados siifficientis lia?
podermoi. lireeisar tnes nconte<:iinentos ; liortrii, erii vista <lilç di-
rersns obras que tratam destt: nssuinpto deurnros julgar que
.Tono I<nriiallio eticgnii a S. Ticonte iio nnno d e 1510 ou 1511,
coiiio tninheiii d e r e ter-se dado por essa epoelin a ehc.gadn d e
.(\iitoiiio Ilodriguos.
NRo h a iiada com reliiqPo :L estes Iiomens qun iius faça siyi-
1~Urtcreni sido ellrs inorndoras de Ic.un~icou d z Cannii<:n.
A rzslteito do Francisco dr? ~ l i h o s ii:io , lia diividn que elle
e r a morador da ~isiiilinnqade Igunlie iio nniio de 1531, eonlie-
<:e~idolog:iriis onde existiam iiiineracs preciosos e f d bem
a litigua dos indigerias. 1 I a ~ i : i iin sua cornpniihia u m bneliarcl
q u e trinta niinos viveu nestas [iurngcns r cinco oii seis cnstelh;inos.
YRo lin certozn du tempo da chegada deste Frnnciseo d e
Chaves aíjui, iirtn~provas l>ositi~-ni d a sua nncioiialidadr, podendo-
se, l>orén~,5IlppOr que fosse post~i=ue%pvli~ distil~cçBoque f n o~
auctor do Iliniiri lia iiao,::lii$i<o da n i n ~ < ~ r.sul>l n n c < ~ l i i t a i i f a~ 7 r
Mai.tini .fi>i~$C de iSoi~n.r, quarirlo dia : « Francisco de C h n r e s
e o bacharel, e cirico o11 seis eastellinnos~.
De Duarte Peres, os l>oueos dados que possiiiiiios são inslif-
ficieriteç para se poder affirin:~r qiial o logar onde este homt?rii
foi encontrado ori n eiioclia certn deste facto. Tainherii n%o deve-
mos considerar o iioine de Uuarte Perca couio seiido o do bn-
elinrel dt5aterrndri erii 1501, ~ i r l niiiesiiia rneao d e falt,a de ovi-
denci:,, e , ainda mais, Cbnrievois iiâo dccl:rrou ser elle u m hn-
r l i a ~ e l ,mas, sim, n huin earallieiro portuguez elininado Dunrte
Pcres>>.
Ein relaqxo n Aleixo Gnrcia, teinos noticias mais fidedigiias
d e t,er elle dirigido uma cxl>ediçiiopara o interior deste eaiitinerite,
constarido, poréin, que rbtn exl>t,diçkol ~ a r t i i de i S. Viceritr:.
?iAo ó acceitavel esta bistoria em toda a siia integra, visto que
seria ditiieil a elle ter fsito siiirilhaiitt: çsiiediç;io, coiupostn infalli-
relirielite n a sua iiinioria yor iiidigeiins, sem qiio o celebre J o i o
12amnlbo tivesse tido eonheiirneuto dell;t i tanto mais que est,e
Iiomem vivia nn melhor linrmoiiia com os iridigeii;rs proximos a
Sáo Vieinite, tendo por mnllicr unia das fiilias do poderoso Tibi-
riqá. Oiitra facto que deliiie contra n idi.2. de ser 8x0 V i r e n t r o
po1~tode pnrtidal é terem ido iia coriipaiiliia d e illeixo Garcin riinis
homeiis europeus. Ainda inais, se J o i o Rnniallio souhcsse desta
espediç.iio deveria tarnbcm eoiihecer o roteiro qiie ella seguia r
teria comiuunicado esse facto nos portugiiezos, corn os quaes rlle
rivcii ile 1532 a 1583. anuo e m que fl~lleccu.
Qut: Iiouve csta ezpediçno antes d a ehr:gadn de 31artiin A f f ~ n -
so de Saiiaa, iiko devemos duvidar, e , f:~ecri<lodcdueçí>cs dos do-
eiimeiitos esistentits, i. natural suppor qiio ella I*artiu do Iguniic e
não de SBo \.'icente.
R u y Dias de Giismnn dí?isou biistnrite~ detalhes relativos á
expedição de bleixo (:areia, rnns n8o provou A minha satisfacp8o o
ponto d : ~littornl donde partiu. A sirnplrs nffirrna?%ode uina lieç-
soa, baseada erii trndiqoes, ou sohre contos dc terci.iros, enmo, 110s
exemplo, de filho de (+areia, qlie Ruy Dias do Criismxn deelnroii
tor encontrado em A s s u m y ~ â or que escapou d a sorte d e seu ,,ar'
por causa d a sua tenra ednde, n ã o é guifieirnte pari1 ser aceeita e m
todo o rigor.
Teinos ainda u m oiitla poiito relativo n este Iiorneiii e q u e nRo
está eçelareeido pelos histoi.indorcs aritigos.
Diec!rn elles q u e a tal expediqão foi dirigida por i i n ~portuguez
d e nome Aleixo Garaia.
D o i d e vcni esta aüiririnqão d e siia rrneiorialidade?
Do seu iiorne ou <Ia noticia de ti!? partido n exprdiq;io de São
y 'ic<!iiie Y
Podi'ser que me eiiynne : m;is liarpce-rna que o sohienome de
G n r r i . ~i: cio uiigclii ii<ispa~itiula,como tambern o é o nome de
Alririi.
Elri 1526, mais nu mriios, havia iima frnta lieapanlioln. com-
rnnridi~dapor I l i e ~ aGarcia. de qiir o erudito elironista .Idolplio
de Variili;~yeiidiz : asportou rin S. Vicerite : i: t:~iitos iriezes a h i
se <leiiir>ri>u qiie pariçia esquecer-se do z c i ~ destiiio, que era subir
o Rio d a I'ratn. Por meio d a relnçrto q n i d a sua viageiii nos traua-
i~iittiu,iihe se nos rrcom~iienda.corno liomern verdadeiro, npni $10-
lido, nem siiperior A mesquinha invejal e deve ]<:r-se coni pre-
ratiq8o».
Iiifelistneiite ainda não tive o prazer de 1c.r n relação drsta
viageml e talvei a h i esistn alguinn ligaçâo corii a nossa histeria,
riu", i'or : ) ~ l t ;d~e outros dndoi, escnpoii i perceltçao do sr. C a r -
niiagr~i.
O Aleixn G a r i i s do q u d elle. ern s u l Hiatiria Geral do
Hrazil, diz: .que segundo n tradiqão, aprisionado juven, veiu a
Ixestnr ilri!>ortnntei serviços n a eoío~is:tç&o do Pnragunq-», 6
indiibitavrliireiitn o filho do chefe da dita erpediçio e que foi
encoirtr:ido por 1Zuy Dias de Giisman em Assiinipção.
Ruherto Sauthry, ein s u a IIistori<z do Hiozll, tratando d a
v i a z e n d e Diezo Garcin, diz: =Chegou a bahia de Sari Vi-
eeiite, onde u n i P o ~ t u ~ u e qí ,u e tiiilia o grau de bacharel, o
ahasteeeii de ç:irne, peixe e outros generos, que o p a i s offere-
cia, daiido-llin demais iiin g e n r o seu, que seuviuse de interprete
no Iiio Solisa. Tanibeni ein referencia no Aleiro Gareia diz:
<Grande perta t não se ter conservado a liiatoria dest,e aventu-
reira portiiguez; liomeni deve elle ter sido de t!stiaordinarios
dotes, para coni sbs cinco eurnpeiis ter levantado iim exercito-..
?ia n a t a que neoinparilia esti: treclio encontra-se o siaguinte :
<<RuyDias d e Gusniaii, n a Argeritina, pUe esta j o r i i ~ d an o a n n o
de 1526. Segundo este escriptor tarnhem Gareia foi enviado d e
S. Vicenti. por Yartiin Affonso, em raoho da sna ~profieiencia
nas liiigtias a tupy e tarnoya. Alcançoii o Pav;ini e o
l'araxaey, e A testa d e uma íbrça indiana penctron at6 noa con-
fins do Peiii, donde, apesar de rechaqado pelos Chnreas, voltou
carrrgiido de despojos. Cliegando outra v r a ao Pareguay, man-
dou Gareia dous dos seus tres cotnp~nheirosadeante eoni amos-
tras das riqiirnas do pniz. Voltara", estes salvos a S. Vieento;
entretanto, foi elle assassin:id<>;o os riiosinos indios que o tinliam
morto tizeraiii outro tanto a Sadonlio e a sua gente, que seguia
as pegidas daquelle».
Confrontando o que diz Varnhagen com a narração escri-
pta por Southey, relativa ao estadio de Diego Garcia em S.
Vicente, verificárnos que aquelle não faz menção do encontro
de Garcia. com o bacharel, e, em vista da afflrmação de Sou-
they, de ter este homem fornecido generos e um interprete ao
commandalite da frota, e uma circumstancia a favor de nossa
idéa de ter sido em Cananéa e não em S. Vicente onde Diego
Garcia demorou tanto. Tambem no que diz Southey a res-
peito dos companheiros europeus de Aleixo Garcia, encontramos
apoio para nossa asserçáo de ter a dita expedição partido de
Iguape, ainda que ha uma pequena diacordancia entre o que
diz Southey e a nota de llu? Dias de Ousman. Aquelle diz:
c i n c o europeus*, e este, que Garcia mandou adois dos seus tres
eompaiilieiros adeante com amostras das riquezas do p a i z ~ . Seja
qual for o numero, devemos considerar que alguns voltaram e
que fosse destes que Francisco de Cliaves recebesse as noti-
cias, ainda que elle não fòsse um dos actiines participadores das
peripecias da viagem, donde resultaram as informações dadas a
Yartim Affouso em Agosto de 1531.
Niio ha a menor duvida que Francisco de Chaves c o bacha-
rel desterrado em 1501, com mais cinco ou seis castelbanos, fo-
ram encontrados por Pedro Bnnes iin vizinhança de 1-guape, e
por documentos existentes esti provado que. o dito bacharel viveu
durante alguns annos oa villa sellia de lguape, situada ao pé de
um pequeno monte conliecido pelo nome de n0iteiro do bacha-
rela. Egnalmente, as iiiformiições dadas a Xartim Affonso por
Francisco de Chaves, relativas a existenci;% de mineraes precio -
aos, foram de tal importnncia e cunho veridico, que aquelle
commandante mandou Pcra Lobo com oitenta homens em pro-
cura desses mineraes.
Estudando um pouco este facto, parece impossivel que Mar-
tim Affonço desfalcasse a sua frota de tantos homens para R S S ~
expediçHo, que se contava duraria dez mezes, sem que tivesse
provas positivas da existeneia de mineraes que compensassem os
incommodos que lhe ia fazer a falta destes homens em suas via-
gens futuras.
Considerando que Francisco de Chaves tinha pleno conheci-
mento da existencia de minas de ouro naquella epocha, poderiamos
suppôr que fossem as do rio Ribeira ; porém contra esta supposi-
ção ha um facto que é necessai-io tomar em consideração.
As minas de ouro, que mais tarde foram exploradas durante
muitos annos, nn zona do ria Ribeira, são todas situada8 em dis-
tancia maxima de um dia de viagem a pé da margem do dito rio,
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ou de algum dos seus affluentes, navegaveis por canoas. A maior
distancia a percorrer em canoa e por terra do Iogas onde se acliava
fundeada a frota de 3lartim Affonso, não levava a16m dc doze dias.
e, como entre as informaçües dadas devia naturalmente contar-se
o tempo nccess;irio para a viagem, é nstur:al concluir que si fossem
as minas t i o perto, o proprio commandante liavin de ir pessoal-
mente examinal-as com Francisco de Chaves.
Reparando na asserçao de Ruy Dias de Gusman referente a
dois compnnheiros de Aleixo Garcia, ver-se-a que elle diz : ~ V o l -
taram estes salvos a S. Viceute; entretanto foi elle assassinado ; e
os mesmos indios que o tinham morto fizeram or1ti.o tanto a Se-
denho e i sua gente, que seguia as pegadas daquallei>.
Aeceitando esta asserpão como veridica, deveiiios desprezar
parte da de frei Gaspar da Madre de Deus, em suas ~IvIemorias
para a historia da capitania de S. Vicenten, onde tratando de
Xartirn Affonso, diz: «A sua ultima acção niemora~el tio Brasil
tere por objecto o descobrimento de Minas. Constando-lhe, por
informaqlo doi indios, que nas vizinhanças de Cananéa havia ouro,
aproniptou uma Bandeira de 80 homens, e por elles mando11 esa-
minar o sitio indicado das Minas, nias com successo infeliz;
porque os barbsros CarijOs, senhores do Paiz existente ao Sul do
rio de Cananéa, mataram os Exploradores das Minas, antes d e
as descobrirem. Nas vesperas do embarque de Nartim Affonso
chegaram a S. Vieente as noticias desta derrota ; e não lhe sendo
possivel castigar pessoalinente o insulto do Gentio, como desejava,
ordenou que os aggressores fossem punidos com mno armada, or-
denando para CapitSes de Guerra os Fidalgos Pedro de Goes e
Ruy Pinton.
E a manifesta illusão em pirte desta Iiistoria de frei Gaspar,
visto ter sido em 1."de Setembro de 1551 que partiu do Carianéa a
expediçxo composta de 80 homens em procura de ouro, e, portanto,
anterior á fundação da villa do São Vicente, ultima acqão inenio-
ravel de Martim Affonso no Braeil.
Tomando em eonsideraç8o o facto que, entre a da-
qiiella bandeira de Cananéa e a chegada da noticia da derrota
em São Vicento! que, conforme frei Gaspar, era na occasião da
partida de hlartim Affonso para Portugal, decorreu o espaço de
18 a 20 meles, duplo do tempo marcado por Francisco de Cha-
ves para a duração da viagem, devemos concluir que a expedi-
ção seguia o roteiro de Aleixo Garcia, e que fòçse a mesma da
qual Kuy Gusman declara: .e os mesmos Indios que o tinhão
morto fizerão outro tanto a Sederiho e a sua geiitea.
Si a mortandade destes homens tivesse sido nas minas do
Ribeira ou nas de Curitiha, niio devia ter demorado tanto tempo
para chegar a noticia a São Vicente.
P a r a que a noticia dessa derrota fosse trnnsniittida, a 31ar-
tim Affonsu, devemos supp6r q u ç alg.iem q u e acornpanliou a es-
pedição voltasse ; por6in, si este era eiiroyeii oii indigena n8o-
h a indicio corto.
E m relaç%o ás erpediç5es e com especialidade á que foi
dirigida por Aleixo Garcia, h a u m facto que pode servir d e
corroboração a liiatoria do ter clle cliegado a03 confins do Perú,
o d e volta, niandar adeante algum dos srms companheiros caiu
amostras da riqueza do p i a . Este facto <: ter-se achado no rio
Ribeira, logo abaixo de Xiririca, niiiri logar eli:~iiiado Illia-raea,
um machado de bronze, o qual, descoberto pelo sr. IIenriquo
Ernesto Bauer: h a :mnos se acha eollocn<lo iio 3Iuseu K a c i o n d
do Rio de Janeiro. Constame ser considerado o dito machado
como sendo peruviano e, assim, podemos jiilgar q u e fosse perdi-
do iia volts dos companheiros d e Aleiiro Gariia que vieram ade-
a n t e trazendo amostras da riqueza do paiz.
Deixando agora os acontecime~itosji desciiptos e m diversas
obras, vejamos o q u e dizem as trndiqües locaes a respeito dos
primeiros moradores europeus e do seus feitos, prociirando em
seguida corroborar estas noticias com documeiitos; porque, geral-
mente, as lendas e tradie6rs s l o iiiiidnrlas e m factos liistoricos,
ainda que pelo correr dos tempos fiquem corrompidas.
Como citei no Esbogo ?ristorico dafui~dnciio f7e Gliape, coris-
tn por tradiçáo qiie e m tempos remotos iim bacharel desterrado
estabeleceu-se ao p6 de um pequeno monte, situado em frente á
barra do Ieapnra, iiionte ein que elle levava dias inteiros as-
sentado, olharido para o lado do mar, a t é que cbi::aram mais al-
giins liameris, naufragas de um bote, e com os quaes ellr for-
mou o nueleo da antiga villa do Igualia.
Outra tradiçho, oii lenda, diz qiin existe prosiino de Iguape
iima g r ; ~ i ~ dcaverna
e deslumbrante, onde os ~iriinitivosmoradores
se escondiam em occasião de perigo, e, e chagnndo esta ao
eonlieeimento dos primeiros europeus aqui vindos, estes utiliza-
vam-na para escoridcr nas suas profiiiiiidezas milito ouro e m pú
e outros objectos de ~ ~ a l osendo
r, Iior eiles depois tapada a en-
trada quando foram obrigados a fugir daqui e, conio nunca
mais voltaram, ficoa par esta mijo dcseonlieciclo o logar da
entradii.
Uina outm lenda, q u e foi transcripta h a annos n o Livro do
Tombo da Cariiara, dia que b n r i s iimn grande caverna iio riioii-
t e proximo á villa, habitada durante muitos annos por duas co-
bras enormes, que faziam grande damno aos moradores na vizi-
nhanqa e que! para acabar com ellas, oa homens fizeram u m a
peça de madeira chnpeada de ferro, com que, dando u m tiro ma-
taram uma das cobras, voando a outra pelas mattas, derrubando
arvores e abrindo u m siileo profundo na terra, de cujo facto
provém o nome de Koycoara e que, depois da morte da dita
cobra, os homens entulharam a hoeca da dita caverna.
E' provavel que estas duas lendas tivessem sua origem n u m
só acontecimento, sendo possivel que haja alguma caverna que os
primeiros europeus utilizavam como esconderijo e m occasióes op-
portunas, forjando a historia das cohras para afastar os indigenas
daquelle logar.
Ha uma outra tradição, constando que o primeiro morador
branco de Iguape, sendo degradado da sua terra e não podendo
mais voltar a ella, sob pena de morte, consagrou annos da sua
vida e m ajuntar ouro e m pó, e que, na occasi%o da m a morte,
cumprida a expressa vontade deixada, foi enterrado numa grande
cova aberta e m rocha v i s a , sendo seu corpo rodendoe coberto com
o dito ouro e m pó e tapada a cova com uma grande lage de pedra.
Esta tradicão é t i o conhecida do povo que nno 4 raro ouvir u m a
pessoa, batendo por acaso sobre rima pedra que produza som oco,
dizer : .Quem sabe si aqui não foi enterrado o tal homem?=.
Kão podemos dovidar que esta lenda refere-se ao bacharel
desterrado, tanto pela referencia que faz do primeiro morador bran-
co de I ~ u a p e como
, relatando o facto de ter sido desgraçado e não
poder mais voltará sua terra.
No cartorio desta cidade, entre os papeis velhos e nos livros
antigos, existem bastantes transcripções de vendas de terras, de
requerimentos de medições e demarcações de sesmarias concedidas,
testamelitos, doaqOes, etc., comprovando a existencia de muitas fa-
milias no fim do seculo dezeseis ; como tambem ha documentos n o
archivo da camara miinicipal n o mesmo sentido, pelos quaes pu-
demos compilar a lista seguinte de nomes:

Antonio de Barcellos.
Carlos Munir, de Gusman.
Francisco Gonçalves, pae de
Bartholomeu Gonçalves.
Agapito Garcia, pae de
Manoel Dias Garcia.
Francisco de Ozedo, pae de
Braz de Ozedo.
Domingos de Agxiar, p a r de
Antonio d e Ozedo.
Francisco Alvares ?Iarinlio.
Francisco de Pontes Vidnl, Iiac de
Francisco do Pontes Vidnl i,desiznado «o ii~ossu».
L.

J o ã o de Azihaya, pae de
Frrriando de Anhaya.
Trindado de Anhaya, irmão de J o i o do B r i h a p .
Aiitoiiio de Anhaya, irmão de Joâo de Anhnya.
Dorniiigos Rodrigiiei Cunha.
Antoiiio Pereira Xunes. nae d e
, L

Diogo Pereira 'iiines.


Doriiingos Dias.
Pasclioal Feres, pae de
Aiitanio Peres.
D o i u i n ~ o sde Veras, pne de
Innorencio de Veras
Hernardo Chaves
1ldnEor:so Tinocol pae de
Bartolomeu Tinoco.

P o r eat,n relaqão ar-se-á que geralnieiite os filhos usaram do


sobrenome dos seus uaes, principiando, porem, nessa epocha a ser
este costume alterado, como ha de ser demonstrado, e, e m v i s b
deste costume, podemos acreditar que os mesmos sobrenomes vie-
ram dos seus ~irogenitores.
E u t r e este3 nomes h a diversos de origem hespanhola, como
tambern encontramos alguns de pessoas occiipando posiqões d e
coiifia~rça,naquella epocha, de nomes Gnrcia o Cliaves.
NILo serao estes descendentes de Aleixo Gsrcia e de Francisco
de Chaves ?
Dos nomes citados existem represeiitaiiter das fninilias de
Garcia, Francisco Alvares Marinho, Foiites Bidxl, Cunha, Nunes
e Veras, todos os quaes se consideram como descendentes dos
primeiros moradores d e Igunpc.
Seja como for, não é nossa intenção estabelecer parentesco
entre os moradores de Iguape de 1600 com os de 1520, sin8o
iin parte q u e diz r e ~ p e i t oao proprio bacliarel, esperaudo assim
derramar alguma luz sobre o seu nome.
H a muitas documentos existentes em que se declarava ter
sido o primeiro possuidor de !erras em Iguape um homem cha-
mado Cosine Fernnndes. E m u n s rcfrrem-se a. eile Iior nquelle
nomo, einquiinto que em outros diacm aCosmc Ferr!aiidcs Pessua.;
porCm, creio que a addicção de .Fessíinu ao sei, nome i: sim-
ples~iierite o eEeito de engano de tiiiiiscriliqBo, usnrido a lia-
lavra cqmo nome propiio em 1og.u dn s(!r c111 ~.eferrncia i sua
pessBa.
l i a egreja inatriz Laria lia poucos anrioç u m l i n o de Toml;o,
aberto e riibricado por Xiitoi,io Ribeiro, vigario coilado dn viila
d e I g n a l ~ e , por ordem do re1:errndo <i. Bernnrdo R o d r i p e s
Bueno, bisvo d : ~diocese. n o anno de 1726, em ciue diz: aCosnie
F e r n a n r 1 e s ' ~ e s s ~ ade grandes :nericiineiitos dei& em seu tos-
tamento declnraçZo de qiic siizis tr,rr.T.?sfizno oneradas caiii a pençno
aniiunl de uma missa IGtrn todo e seirilire lielo descanio ;Ia siia
alma seiido como h é do uni grnirrle criiiiinoso ficniido o pn-
rocho encarregado d e arree:id:~r &a dita lier~s;io dos seus
herdeirrisn.
Por um termo de doa?:io dr? tci.i.ns liara o rorio da villn,
l.ivrr.do iiniii l i r r o de açereniiqn do consellio da rnlri:irn da vil1;i
de Kosss Senliora daa Xeves dc I:uaj>e», r acliei entre ],a-
peiç velhos no arcliivo 113 caniara, rcriiiea-se que os seriLoreç
capitZes Francisco dr: Fontes \ida1 r lJ:.no~l da Costa de-
clarnrnm em 1GiO serriii lierdpiros de Ccsnie Fernarides. (2111-
nexo n. 1).
Pelo dacumeiito n. 4> qiie acompanha o «E.~boqoliistorico d a
fundnc<rrJ de I g i ~ c p e a , eiii ItiUO, rcr-se-;i que o capitzo
Bernardo Rodrigues Baeno requereu i camnra desta villa, pcdindo
attestado de como foi verd;idc qiir seli sogro Francisco Aivares
Ifnrinlio fez a mudanqn da rilln. e deu a i terras onde elle
existia.
P a r a esclarecer a relaqXo rsistente entre Francisco de Pon-
tes Vida1 e DLnuel da Costa: qiie fizeraili donpão legitima das
terras para o rocio da vills, e Francisco Alrnres Maririlia, G
necessario tratar da geiieaiogi;~ deste durante a1;urnns geraqõe;.
l i a o me foi possivel ~ a b e rdas seus asceridentes, sin8o que clle
foi hcrdeiro d e Cosme Farnnndes ; liorêiii, em relayRo noz. seus
descendentes, torna-se mais facil, e m rista do grande numero
d e escrilituraç de vendns CIOensns s terras qiie exist,ciii.
Xão consta que Francisco Alvnres Marinho tivesse fillios, e,
ainda que os tivesse, n l o existinnl n a occasião da donçZo das
temas, como se infere dos dociimentos ; mas, tinlia duas filhas, uma
casada com Francisco Fontes Vidal e a oiitrn com Bernardo Bo-
diigues Rueno. EsteFrancisco de Pontes Vidal era o mesmo ao
qual se referiu o reqiierimento feito em 163'i;pedindo urna sesmnrin
de duas l e g ~ t a sde terra, com a designaqso-io mossou (Vide do-
euniento n. 2 do E s b o ~ oIIistoiici,), e 6 dwnecessario de nionstrar
a j o r a a prole delle, visto ser nm dos prolwios doadores das
terras.
Bcrnnrdo Rodrigiies Bueno; genro de Francisco Alvarrs Ira-
rinho, tinha tima filha, de nome Anria IIaria das Dores, q u e casnii-
se eoin Xanoel da Costa, de cujo niatrimoiiio nasceram divr-rsos
filhos e iilhas, entre os quaes uin de nome Sebasti5o Rodrigues
Hueno, que occuyuu diyersos cargos n a adminiitração da villa, e
casoti-se com Maria Nunes Cliaveiros.
O referido Unnoel da Costa, rrn rirtude de seu casaiiiento com
Annn IInria dos Dores, filha d e Bernardo Xodrigues l i u ~ i i o ,tor-
nou-se ht:rdeiro d : ~metade das terras pertrncrntza a Francisco'Al.
r a r r s liarinho, sendo qtie a outra inctade liertencia: como herdeiro
deste, a Francisco de Pontes Vidnl, par parte de sita mulher.
Podemos inferir que a dndivn feita 6 cnmara n a oeeasiZo da
mudança por Frnneisco alva ri:^ Ifarinha: certificnd:~ pelos o&ciaes
da calnara rio reqiierimcnto de 13eriiardo I!oilripues Uiieno, ?osse
verbnlmcnte: porque, no dia 2 dc Jiilho do 1679, a can:ai.:L d<içln-
rou ao cnpitáo~mii:., e ouvidor da comarca. Luiz Lopes de Cnrl-alho,
que r?lln. n i o posuuia terras. e nrste mesriio dia, sendo clinnindos os
senhorcs P~.,lriciscode Pontei Vidnl e 3lt1rioel da Costa, r,stns (leram
i cainara 250 braijns ein quadro di: terr:ino cuja deicarcaqtio foi
feita eanio consta o docurirento aiiiieru 11. 1.
Sendo este docuniento de doa@o assignado por Francisco d e
Pontes f ida1 e Ifanoel da Costa e nEo eonst;indo quo rxistisseni
outros pretendentes 6s terras do fallecido Friinei~co B1~arc.s 3Ln-
riiilio, i: rnznnvel affirmar q u r iiâo hnvin outros lierdeiros ~ i r i ã o
aqiiriles que assigiiaraui a doaqno, e seus de'icendentc~.
Egiinlmente devernos infrrir que a t e ilquelln data os lierdeiros
d e Francisco Alrares Hariiilio, oii, coma dizem n o termo da don!:io:
aerdeiros de Cosme Fernandesn, não tinham reliartido entre si a s
referidas terras, sinno riia hnx-ia razjo dos dois nssi~nni.rms cs-
criptura; porém mais t a r d ~ entre
, as aniios de lGi9 e 1686, ns
terras de Cosme Fernandes foram divididas, ficando Alanoel da
Costa e setis herdeiros com R parte que fazia fienrr para o
llar-pcqueno, e os Iierdeiros de Francisco de Pontes Vidnl com
a psrte que fazia fi-ente para o Itio Ribeira, sendo a linha
divisoria em distancia nppronimadninente e ~ u n entrel o lIar-peque-
no e o rio Ribeira.
Além desta doaçüo de 1679, houve outras em diversas epochas
posteriores, augmentando a qiiantidade do terreno pertenceiite B
villa, das qiiaes existern alguns doeume,ntos referindo-se ao primeiro
dono Cosrrie Fernandes.
Yo atino de 1880, em audiencia do juiz de yaa, José In-
nocencio Alves Alvim, do dia 18 de Setembro, liouve uma eon-
ciliaqão relativa ás terras no porto da Riheira, entre partes:
Igiiacio Antonio de Souza por si e por sua mãe, e Sebastião
Rodrigiies. I h a e outros, em c ~ i j oaiita consta o seguinte : O
herdeiro Sal7,ador respondeii : Que sendo wus ascendentes se-
nhores das terias do Furto, por titulos Iegitimos, aconteceu v i r
a esta villa hum Ouvidor I>or nonie iilaiiael de iiiello Godinbo
Xlanso, o qual mandou queininr os ditos titulos. Que passando
um grande iluniero de annos teiido rarias pessons tomado posse
de parte das ditas temai: rio porto da Xibrira, o seu pae, delle
supplicado, For nome Raimundo Xodrigiies Percira, fizera uma
justificaqLo pnra mostrar que aquellas terra,s lhe ltertenciam, cujo
documento existe no eartorio desta villa, e 4 o iiiiico titulo que
ora h a dessas tprrasn. Xlcis adeaiite, no ine.smn auto de aiidicn-
eia, encontra-se o seguinte : <Que alEm de todas estas eireums-
taiicias exiete mais a favor do suplilirado uma, e r e m a ser:-
Que esiaiido aqnellas terras oneradas com a pensão de uma
missa annual liela alma de Cosme Fernaudes Pessoa somente
elle siiplilicadn, e seu fallecido pac, eumyriram aqurlle oniis,
seni que os mais herdeiros coiitribuiasem pnra isso*.
devemos duvidar que o 1,acliarel que riveu tantos aii-
nos entie as indigeiias, teiido lielo rnriios uma filha, sináo ~ i k o
podia ter fnriiecida um gerira seu para serrir de interprete ao
Diogo Oarcia, tivesse escolliido para si c sua fainilia um dos
logares mais al>royriados para sua \.ivendn; r o logar mais apra-
z i ~ e lliroxin~aá antiga villa G o logar onde mais tarde se achn-
va estabelecido Francisco Alvarei Marinlio c onde actiialmente
existe a cidade de Igiiape.
PTBo podemos ter a miiiima duvida sobre ser o dito Fran-
cisco A l ~ a r e sMarinho a herdeiro de Cosmr Fernandes, em vista
de tniitoa doeurnrntcs que existem, prorsndo que os deseenden-
tes delle se considrraram como lierdeiras de Uostne Ftxnaiides.
Agora: não t possivel ter elle sido o bailiare! desterrado
em 1501?
Perçuiitainos mais : de onde vem a noticia qiic h a n a nota
iluinero 10 do priniriro tomo da Watoiio Geral r70 Rr<izil, por
Adolpbo de V a r n h a p n , ondr: diz : nErn S . Viceiite havia pou-
co depois outro baeliarel que eharnavnm Jlestre Cosme ?r
Basta estudar u m pouco a historia para ficas eonve~>eido
que Gonçalo Xonteiro: capitio commandante do littoml: nomea-
do por llartim Affonso de Souza, mandou reunir eiii S.Viecente
os moradores europeus de Ignitpe, cuja ordem foi cuiiilirida ye-
10s portusueaes aqui existentes: entre os qii:ies o haeliarr!l.
Desejava milito saber a origem da noticia dada gelo Sr.
Varnhagrii a respeito do bneliarrl Uestre Cosme, cujo trata-
mento parece-me sufficiente para cliamnr n attenqiio de qualquer
pessoa, devendo-sr lembrar que, si nós, hoje, damos nos homens
d e pergaminho a importancia que merecem, tanto mais era o
respeito, iia era de 1630 a 1540, do poro para u m bacharel, e
que ninguem ousava chamal-o simplesmente *Mestre C o s m e . ~
Estarei, talvez, enganado; porém acradito que Cosme Fer-
nandes de Iguape é o mesrno 3Lestrc Cosme de S i o Vicente,
sendo elle o Lmcharel desterrado ein 1601.
E ' possivel que haja algiim documeiito entre os papeis juri-
dicoe em Portugal, que possa provar o s r u iioine, e dar r.otos para
que seja encontrado um que prove o nome do celebre bacharel que
aqui em I p a p e é considerado corno sendo seu fundador.

Iguapa, 1902.
ERXESTOG~ILHERME
ion-~.
Aos dois dias do moa de J u l h o d e inil Seis Senttos c! seten:a
o nove aiiiios e nas cazas do Seriado desta Villa os offiriaes da Ca-
iiiara della os abaixo-aSigiiados reiliiirerani ao Capitio-3Ior Ou-
~ i d o Liiii.
r Lopes de Carvallio qui: esta Camava iiZo tinha terras
medidas rieiii deiuarradas que Liara so saber o que h e r a do conse-
liio lhe iiiniidasse medir o quc fiisse licito paiu s<itazrrcni cazas in-
do esta Vil13 em aiiiineiito e ptilo dito forcio iii:iiidado rlrainnr o
Cnpitlo 1ilniioi:l d ~ Costa
. e o C:iliitRo Fraiieieeo à c Pontes Vidal
por eererii os iierieiros de Costiis Fcriiniides PossGa de qiieni a i di-
t,as torras iUrKo, e lhes prldio eiii ~ i o n i sdo Beiilior Conde Doiintario,
de que v!:cs qiiisiessi,in da:. terras parti Rucio desta, R O cjiie elles
respoiideram IierBo coiitentes e d,i;-Tio d e suar iivres vontades du-
neiit:is e çinr,oerita bravas crnieiros de terras em quadra pzra Rocio
desta i7ilia, as qiiaes conieçso d:i n a r r a do Rio Ypiwnga ria baiidn
nordeste r acabãria para n bniid:~do siidiicste, r logo pelos ditos
Oficiaes d a Cainarn eni 1,res;riqa do dito Ouvidoi e adondores
for30 nir?diilas as ditas d u z r n t : ~e ~einçoeiitr. brnqas, e acharão aca-
barno adiante d a casa de Fi.ai!cisco Giiedes. -onde est6 na Rebii-
leira de m ~ t oalto e ontro t n i ~ t cse intenrlerú 1,ai.n a bnrida do iio-
rorsto e de como assirii os ditos ndo:~dnres deriim a i ditas tciros
pzra. O Coiisellio e llncio deita \ i l L de suas livres voiitndea as di-
tos Oi!!ciaes d a Camarn aeritarío, 1iinnd:iirdo f:izer este ternio onde
todos nSigiiarRo. E eu, J<moiiiiiio dii rlraiijo EserirAo d;i Camara
que o eçcre1y.-Valenitiiii ??odri;iies.-Frniicisco del'orites. Vidal.
--BI:iiioel da Costa.-Aiitonio Franco.-Cruz + de Belror Forao.
-Fclipe Perera.-1\Iaiiool Xartins de 3liranda.-Luir Lopes de
Cnrralho.
E. G. Yocsc.