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O BHAGAVAD GITA E A PSICOLOGIA TRANSPESSOAL

Para compreender o Bhagavad Gita é necessário ter em mente que a vida tem um sentido e que esse
sentido está ligado à superação de si mesmo, como um caminho pessoal e intransferível. Este
caminho tem como ponto de chegada a união da Alma individual com a Alma Universal, com Deus.
Essa é a essência do Sanatana Dharma, aquilo que permeia todas as Religiões e todo o caminho
do Yoga, dois termos que expressam o mesmo sentido, de religação e união.

O Bhagavad Gita é o sexto dos 18 livros que compõe o Mahabharata, grande épico do Hinduísmo.
A história do Bhagavad Gitacomeça com o surgimento do rei Bharata e seus dois
filhos, Pandu e Dritarashtra. Pandu teve cinco filhos virtuosos, chamados Pandavas (ou Pandus),
enquanto Dritarashtra, que era cego, teve centenas de filhos, conhecidos
como Kauravas (ou Kurus). Pandu era o mais velho e se tornou o
Rei. Pandavas e Kauravas viveram em relativa harmonia, até a morte do rei Pandu,
quando Kauravas passaram a desejar o reino, que por direito pertencia aos Pandavas.

Os Kauravas tentaram de diversas maneiras tomar o reino até que Duruyodhana, filho mais velho
de Dritarashtra, bolou um plano: um jogo de dados fraudulento, no qual conseguiu
derrotar Yudhishitra, o irmão mais velho dos Pandavas. Yudhishitra foi derrotado e perdeu o
reinado, perdeu seus irmãos, sua esposa, perdeu a si mesmo. Duruyodhana, então, fez com que
os Pandus fossem para um exílio de 12 anos na floresta e depois permanecessem um décimo terceiro
ano disfarçados, sem serem reconhecidos. Só então poderiam voltar e reivindicar novamente o reino.
Passados treze anos, os cinco irmãos Pandavas conseguiram vencer os seus desafios e voltaram para
reivindicar o seu reino. No entanto, os Kauravasnão estavam dispostos a ceder nenhum centímetro
de terra e a batalha se tornou inevitável. Essa batalha entrou para a história como a batalha
de Kurukshetra.

Arjuna era o terceiro dos irmãos Pandavas e foi, juntamente com Duruyodhana, requisitar o auxílio
de Bhagavan Krishna, que era um primo reconhecido por sua grande sabedoria, que governava um
reino distante. Quando chegaram até ele, Krishna afirmou que um deles poderia contar com seu
imenso exército, enquanto o outro contaria com seus conselhos, sendo que ele, Krishna, não pegaria
em armas. Coube a Arjuna escolher e ele escolheu contar com Krishna como conselheiro, abrindo
mão do exercito, o que muito agradou a Duruyodhana, pois este preferia o exército.

A descrição da batalha começa com o cego rei Dhirtarashtra interrogando a Sanjaya sobre o destino
– “O que se passa?” - da batalha entre Kauravas ePandus. Guardemos essa imagem da posição
privilegiada em que Sanjayapode ver a batalha, pois ela será útil mais adiante. Todo o Bhagavad Gita
é narrado por Sanjaya.

Krishna mostra a Arjuna a reunião dos Kauravas. Arjuna, vendo ali os seus parentes, recusa-se a
lutar: “Como posso apontar minhas setas contra Bishma e Drona?”. Diz Krishna “Levanta deste
desalento que te impede de alcançar o Céu, estás lamentando por quem não merece tuas
lamentações”.

Para vencer a batalha, Krishna recomenda a Arjuna o caminho do Yoga, composto por três
pilares, Jnana Yoga, Bhakti Yoga e Karma Yoga. Krishnaensina muitas coisas a Arjuna, mas o
caminho do Yoga constitui a espinha dorsal de todo o ensinamento.

OS PRINCIPAIS PERSONAGENS E SIMBOLISMOS

Krishna ------------ Self, o mestre interior


Pandu -------------- Budhi, o discernimento puro
Arjuna ------------- Ego consciente
Sanjaya ------------ o observador imparcial
Pandavas ---------- As virtudes da alma
Kurukshetra ------- campo de ação, o corpo
Dhritarashtra ------ Manas, a mente cega pelos sentidos
Bishma e Drona --- Egoísmo, o líder, e os condicionamentos
Kauravas ----------- As limitações da alma
Duruyodhana ------- Ganância

A partir disso, considerando que toda essa descrição é uma metáfora para compreender o que se
passa na intimidade da Alma, podemos traçar um panorama geral sobre o que está delineado até
aqui.
Voltando ao início da história, podemos perceber que Pandu e Dhritarashtra representam duas
forças em potencial, duas sementes que irão se desenvolver e gerar os seus frutos nos campos da
Alma. Os frutos, ou filhos de Pandu, o discernimento puro, chamados Pandavas, são as virtudes, que
produzem alegria, satisfação e paz, enquanto os filhos de Dhritarashtra, a mente cega, provocam
confusão, inquietude e sofrimento.
Naturalmente surge em nós a pergunta: E não seria mais fácil, ou mais prático, haver apenas a
semente de Pandu, com seus descendentes virtuosos, dentro de nós?
O Gita afirma que Pandavas e Kauravas cresceram juntos. Ou seja, para que possa haver um
desenvolvimento adequado das qualidades interiores é necessário que exista essa polaridade. Isso vai
ao encontro dos ensinamentos de Jesus, quando afirma que é preciso que o joio e o trigo cresçam
juntos, para que a ceifa ocorra apenas no momento adequado, pois se for feita muito cedo pode levar
junto bons ramos de trigo. O joio representa os Kauravas e o trigo representa os Pandavas.
Vamos encurtar a trajetória de desenvolvimento da alma, em sucessivas jornadas pela matéria e
chegar ao ponto em que, inevitavelmente, os Kauravas tomam conta do reino, pois o trono estará
desocupado. Então, toda a caminhada espiritual, todo esforço de Religare, diz respeito a essa
retomada do reino.
Agora que o palco está armado, vamos trazer essa história para a linguagem psicológica, da
Psicologia Transpessoal. Para nos auxiliar nesse processo, podemos lançar mão de um diagrama
como o abaixo:

MÁSCARA
O primeiro passo da batalha é o reconhecimento, por parte de Arjuna, da presença dos Kauravas,
suas posições e formas de organização. A máscara não aparece no Bhagavad Gita, pois ir além da
máscara é o passo número zero. Não querer ver é o principal obstáculo. Enquanto não podemos dar
esse passo a batalha nem começou.

De onde vem as nossas máscaras?

São frutos da carência, da necessidade de se sentir aprovado e aceito. É uma camada de irrealidade,
que inconscientemente visa a encobrir os impulsos interiores. A máscara pode ser entendida como
um mecanismo de defesa que utilizamos para não ter que se confrontar com a crueza dos impulsos
provenientes do Eu inferior. Quando essa máscara, esse disfarce, é colocado intencionalmente, já não
se trata do mesmo mecanismo, mas sim da atuação de um dos Kauravas, um dos personagens do Eu
inferior, chamado de Mentira. A máscara, assim como todas as demais matrizes do Eu inferior,
carrega uma cota de Mentira e mais adiante nós veremos os motivos disso.
As máscaras podem ser das mais variadas ordens, se utilizando de mecanismos como repressão,
racionalização e projeção. Para esse estudo, no entanto, vamos identificar as três principais máscaras
que impedem o confronto consigo mesmo. São as máscaras do Agressivo, do Submisso e do
Indiferente. Cada uma dessas máscaras é uma distorção de determinado atributo que deve surgir
como uma consequência natural da expansão da consciência. A máscara do Agressivo distorce o
Poder, o poder de realizar, e funciona como uma cerca elétrica que repele qualquer aproximação. A
máscara do Submisso é também chamada de Vítima, uma distorção da aceitação, que lança nos
ombros alheios o peso do próprio sofrimento. A Vítima se alimenta dos sentimentos de comiseração
e auto-comiseração. Por fim, a máscara do Indiferente, que é uma distorção da Serenidade ou
Equanimidade, que se defende da confrontação simplesmente não se envolvendo, não se permitindo
sentir ou perceber os próprios sentimentos. A verdadeira equanimidade é a capacidade de não se
perder com os eventos que vem de fora, com críticas ou elogios, dificuldades ou facilidades, porém
essa equanimidade sente e se envolve, apenas não se perde.

A camada da máscara guarda também uma semelhança com aquilo que foi chamado por Jung de
Persona, sendo que a Persona simboliza uma identificação excessiva com os papéis que
desenvolvemos ou representamos na vida. Essa identificação também é capaz de nos manter do lado
de fora da batalha e pode ser entendida como máscara.
Nos ensinamentos do mestre Jesus a máscara aparece bem descrita na parábola do filho pródigo.
Aquele filho que permanece em casa, fingindo estar tudo bem, mas intimamente ardendo de inveja,
ciúmes, ganância. O irmão que saiu de casa experimentou todas as matrizes do Eu inferior até se
cansar de sofrer e resolver retornar. O filho que está estagiando no nível da máscara mal começou o
seu caminho, porém o Pai o compreende e o aguarda.

EGO
Existe muita literatura que trata a respeito dessa estrutura chamada Ego. Aqui vamos considerá-lo
como a camada de nosso Ser com a qual nos identificamos, ou seja, é aquilo que nós acreditamos ser.
O Ego seria então esse território por onde transitam as nossas máscaras, nossa auto-imagem
idealizada e também os diversos personagens do Eu inferior. Vemos no diagrama que apenas uma
pequena parcela do Ego é consciente e é essa pequena parcela que exerce a função de analisar,
escolher e decidir.
Arjuna é o símbolo do Ego consciente. Vamos visualizar o centro do diagrama sendo puxado para
cima, gerando uma montanha. Arjuna deve trilhar todo esse caminho até o cume da montanha, mas
não como uma escalada vertical e sim como uma caminhada em espiral ascendente, percorrendo
todos os caminhos da alma, sem deixar nenhuma parte de si mesmo para trás.

O EU INFERIOR E AS DORES DA ALMA

Essa é a camada que pode ser entendida como a Sombra descrita por Jung. São os Kauravas.
Lembremos que no início do Gita foi dito que eram centenas de Kauravas, mas apesar de serem
centenas podem ser compreendidos como derivados de alguns princípios gerais, chamados Matrizes
do Eu inferior, conforme termo utilizado por Sri Prem Baba. Vamos fazer uma descrição breve
dessas matrizes:

GULA: Representa todas as compulsões, não somente alimentar, mas por drogas, sexo, compras,
etc...

PREGUIÇA: Incapacidade de fazer o que deve ser feito. Pode-se até realizar muitas coisas, menos
aquilo que é necessário. Trata-se de um desequilíbrio do poder da Vontade, então temos em um polo
a preguiça e no outro polo a teimosia, a obstinação. O correto uso da Vontade é fundamental no
caminho.

GANÂNCIA/ AVAREZA: Desejo de ter tudo para si. Necessidade de acumular.

INVEJA: Agir a partir da crença de que “existe uma cota, como que um bolo, de felicidade e
realização disponíveis e que a cada um que pega um desses pedaços sobra menos para mim”. Da
inveja nasce a necessidade de comparação.
LUXÚRIA: Desejo de dominar e subjulgar o outro. Esse desejo de dominação ocorre por uma
distorção da energia sexual, que tem a finalidade de nos mover para a fusão, para a união.

ÓDIO: Vai desde o estado mais ativo da ira/raiva/revolta até o estado mais passivo do
rancor/mágoa/ressentimento. Traz consigo, de maneira mais explícita ou mais velada, um projeto de
vingança. Esses sentimentos podem se dirigir ao outro, a si mesmo ou a própria vida.

ORGULHO: Provavelmente é a matriz com mais desdobramentos. Podemos citar alguns como a
vergonha, a vaidade, a arrogância e o perfeccionismo.

MEDO: Está relacionada com a falta de confiança na vida. Daí surge a necessidade de controlar
tudo, a insegurança, a ansiedade,o pânico.

MENTIRA: Inclui desde uma camada mais superficial, das mentiras que contamos para nos
promover ou escapar de uma situação embaraçosa, até a mentira mais profunda, a própria ilusão de
que somos seres separados uns dos outros e separados da Fonte Universal da Vida. Estando separado
necessitamos receber e então surge a carência, que se manifesta desde a necessidade de receber
exclusivamente até a mais fina camada de anseio por reconhecimento e admiração.

Vamos observar que dentro de cada matriz existem os aspectos mais superficiais e os mais
profundos. Mesmo entre as diferentes matrizes existe uma hierarquia, sendo a Gula mais superficial e
a Mentira mais profunda. Cada matriz mais profunda serve de sustentação para as mais superficiais.
Essas matrizes vão se misturando e dando origem a novas nuances. Assim, se observamos com
cuidado veremos que cada uma das nossas mazelas, individuais ou coletivas, têm aí a sua fonte.
Vamos ilustrar com alguns exemplos: Juntando a gula/compulsão com o ódio dirigido a si mesmo
chegamos aos comportamentos auto-destrutivos. Juntando a preguiça com a mentira, contada para si
mesmo, temos a procrastinação, com a qual nos enganamos ao dizer que aquela realização
importante será iniciada sempre amanhã. Juntando a ganância/avareza com a luxúria/desejo de
dominar, temos a exploração do homem pelo homem. Juntando a inveja, o medo/insegurança, a
luxúria e a carência (como um aspecto da mentira) temos os ingredientes do ciúme. Juntando a
carência, a luxúria e a vaidade chegamos nesse desejo, tão frequente nos dias de hoje, de ser sensual
para receber algumas migalhas de afeto e também para ter domínio sobre o outro. Por último, se
juntarmos a mágoa de si mesmo com o perfeccionismo (uma faceta do orgulho) temos a culpa. A
culpa merece uma atenção especial, por ser tão frequente e com efeitos tão intensos. Existe uma
diferença enorme entre arrependimento e culpa. É como se estivéssemos em uma trilha na floresta e
nos déssemos conta de ter tomado o caminho errado. No arrependimento, essa percepção produz o
movimento de buscar a trilha correta, enquanto na culpa o sentimento é “eu errei o caminho, não
tinha esse direito (perfeccionismo) e agora mereço punição (ódio/vingança), então se for para voltar
esse caminho, vou primeiro cortar uns 80kg de madeira dessa floresta para carregar nas costas, que é
para ver se eu aprendo”.

Estes são apenas exemplos para auxiliar na visualização, pois em cada indivíduo esses complexos
assumem uma tonalidade peculiar.

Ninguém consegue se esquivar por longo tempo do encontro com esses personagens do Eu inferior.
Quando insistimos em evitá-los, materializam-se na nossa vida na forma de destino, de situações
desafiadoras, ou no nosso corpo na forma de doença.
Quando é possível atravessar esses personagens interiores, ir além desses Kauravas, o que nós
encontramos dando sustentação a eles são as dores da alma. Essas dores são complexos emocionais
gerados em situações do passado, que se encontram estagnados. Situações dolorosas como abandono,
exclusão, privação, humilhação.
O encontro com esses núcleos de dor e a liberação dessa energia emocional acumulada pode se dar
de maneira lenta e gradual ou na forma de uma catarse. Essa liberação é uma cura muito profunda,
que possibilita a transformação do aspecto distorcido em virtude. Essa transformação é sempre
gradual, é por isso que o amor e o ódio, a verdade e a mentira, caminham lado a lado dentro de nós.
Dentro da compreensão de que esses :"Eus" psicológicos habitam esse território chamado de Ego,
podemos considerar o egoísmo como toda a ação que produza frutos para os personagens que
transitam por essa dimensão do Ego. No oriente, especialmente na Índia, é comum a postura de se
evitar qualquer ação, com o intuito de não alimentar o Ego. No Bhagavad
Gita, Krishna orienta Arjuna a não seguir por esse caminho da inação, mas ter uma postura ativa,
indo de encontro ao próprio caminho, até chegar ao ponto em que as ações se tornem puras.

O CAMINHO DE ARJUNA: OS YOGAS DO CONHECIMENTO, DA DEVOÇÃO E DA


AÇÃO. O FLORESCIMENTO DAS VIRTUDES DA ALMA

“Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a Ti mesmo”


Krishna prescreve a Arjuna um caminho formado por três pilares, que constituem caminhos de união
da Alma individual com Deus, três Yogas: Karma Yoga, a união por meio do serviço
desinteressado; Bhakti Yoga, a união por meio da devoção a Deus; Jnana Yoga, a união por meio do
conhecimento. Uma outra forma de sintetizar esse caminho é “Amar a Deus sobre todas as coisas
(Bhakti Yoga), amar ao próximo (Karma Yoga) assim como amar a si mesmo (Jnana Yoga)”.

E quanto ao Yoga das posturas e respirações que conhecemos no ocidente?

É uma ferramenta auxiliar. Mantém o ânimo e a disposição para a caminhada, ajuda a serenar a
mente e preparar o corpo para a meditação. Ao mesmo tempo, ajuda a romper bloqueios do nível
físico e sutil.
Bhakti Yoga pode ser exercitada por meio das orações, mantras e canções devocionais. É um
relacionamento de amor e entrega que pode ser comparada a uma fogueira que precisa ser alimentada
diariamente, com sopros e lenhas novas. Devemos dedicar um tempo de nosso dia para essa prática,
mesmo que esse fogo esteja em estado de tímidas brasas, ele jamais se extingue.

Karma Yoga tem um papel fundamental, o de vencer Bishma, o egoísmo, enquanto Jnana Yoga deve
transformar Drona, os condicionamentos, hábitos arraigados. Lembremos que Bishma e Drona são
os generais da linha de frente do exército dos Kauravas e não se entregam sem uma boa dose de
resistência, portanto teremos que lidar com eles até o termo da batalha.

É muito difícil falar em curto espaço sobre Karma Yoga, devido a sua extensão e profundidade. O
pilar essencial aqui é o desapego aos resultados da ação, é agir sem alimentar o Ego, sem alimentar
os personagens internos da gula, preguiça, ganância, inveja, luxúria, ódio, medo ou mentira. É agir
sem expectativa de receber qualquer coisa em troca, nem mesmo um reconhecimento, um olhar. Não
significa se negar a receber, significa não ser movido pelo desejo ou expectativa de receber. Karma
Yogaé o amor sendo colocado em movimento, se transformando em atos, é o serviço em benefício do
outro, da coletividade. Todos têm com o que contribuir, cada um dentro das suas aptidões. Movido
pelo espírito correto, tanto faz se tratar de uma palestra de esclarecimento espiritual, do atendimento
a necessidades materiais ou da limpeza do chão da sala, não existe serviço grande ou serviço
pequeno, o que existe é serviço, é Karma Yoga. Podemos dedicar algum tempo específico para essa
prática e isso é de grande valor, mas o fundamental é direcionar a nossa vontade para inundar nossas
atividades cotidianas e profissionais por esse espírito de serviço.

Jnana Yoga é o caminho da união por meio do conhecimento. O conhecimento sobre si mesmo e o
conhecimento sobre as leis que regem a vida universal. No que tange ao conhecimento das leis
universais, Arjunarecebe de Krishna a instrução necessária sobre as relações entre Deus, Espírito e
Matéria, os princípios cósmicos do Karma (ação e reação), os atributos da natureza, os ciclos de
morte e renascimento, destruição e transformação. A essência do Jnana Yoga é a capacidade de
distinguir entre o permanente e o impermanente, entre a realidade e a ilusão. É, portanto, um
processo de “des-ilusão” e neste processo o mais indispensável dos conhecimentos é o conhecimento
sobre si mesmo.
O conhecimento sobre si mesmo não consegue avançar sem o desenvolvimento da capacidade de
silenciar a mente, aquilo que chamamos de meditação. Vamos recordar o papel de Sanjaya, o
observador, que narra toda a batalha do Bhagavad Gita. Quem solicita os serviços de Sanjaya
é Dhritarashtra, a mente cega. Por meio da mente, dos processos intelectuais, não é possível
enxergar o que ocorre no campo de batalha da alma. Para que a voz de Sanjaya possa falar dentro de
nós, é necessário silenciar a mente, ou ao menos reduzir o volume de sua permanente tagarelice.
Devemos repetir a pergunta feita pelo rei cego: o que se passa na batalha
entre Kauravas e Pandavas?
De modo prático, podemos dedicar alguns minutos do nosso dia para essa meditação analítica,
intercalando com outra parte dedicada exclusivamente ao cultivo do silêncio. Porém, para que o
processo ganhe a força necessária, devemos direcionar a vontade para manter Sanjaya desperto ao
longo de todo o nosso dia. Precisamos romper com o primeiro empecilho, que é não querer ver,
precisamos estar dispostos a enxergar verdades desagradáveis sobre nós mesmos. Deixando o
observador imparcial falar dentro de nós, vamos montando nosso mapa interior, compreendendo as
formas de atuação das nossas máscaras e dos demais personagens internos, representantes das
matrizes do Eu inferior. Todos os movimentos da alma passam a ser objeto de estudo e compreensão:
“Quem é esse dentro de mim produz tal situação ou que gera tal sentimento:”. Com o refinamento da
percepção, vamos descobrindo personagens novos, ou novas maneira pelas quais um velho
conhecido (por exemplo, o orgulho) se manifesta. Nestes momentos, é importante estar atento com
as vozes do perfeccionismo, da vergonha e da decepção, porque elas se levantam com intensidade e
devem receber o mesmo tratamento conferido aos demais personagens do Eu inferior. Vamos
descobrindo que cada um desses personagens se alimenta de determinados pensamentos, sentimentos
e atitudes. Não apenas se alimenta, mas gera as situações em que esses
pensamentos/sentimentos/atitudes se fazem presentes. Ou seja, produzem sofrimento porque se
alimentam de sofrimento e não estão interessados em morrer de fome.
É preciso desenvolver uma certa leveza para lidar com esses personagens internos, fazer uso do bom
humor, pois do contrário a caminhada pode se tornar desnecessariamente árida. Em algumas
situações é necessário tratar com carinho e compaixão esses personagens, em outras é preciso fazer
uso da austeridade e ser firme na decisão de não fornecer o alimento. Por exemplo: descobrimos em
nós uma faceta do orgulho + obstinação que se alimenta ao acreditar estar coberto de razão em um
debate ou discussão e com isso quer ter sempre a última palavra. Pode ser que durante um tempo seja
necessário simplesmente não fornecer esse alimento, calando e concedendo a “vitória” ao outro.
Perceber a atuação do Kaurava já é um grande passo. Perceber e conseguir escolher não alimentá-lo
é um passo enorme. Tenhamos paciência, pois iremos ser pegos pelo mesmo impulso muitas vezes,
mesmo quando acreditamos já ter trabalhado com ele o suficiente. É necessário ir além da
identificação do personagem, temos que compreender os seus projetos, os seus desejos, para poder
chegar até as crenças equivocadas e as emoções escondidas que sustentam a sua existência. Assim,
com calma e tranquilidade, podemos entrar em contato com os núcleos de dor existentes em nós e
testemunhar a sua dissolução. Isso se chama cura.

Todo esse processo tem por objetivo ampliar a consciência e desenvolver sabedoria. Os pontos
culminantes são essas curas da alma. Porém isso é apenas uma parte do trabalho do Jnana Yoga.
Podemos chamar essa parte do trabalho de desconstrução do falso, o que significa remover as
camadas que encobrem o Eu verdadeiro, o Self. A outra parte, que deve ser realizada
paralelamente à primeira, é a edificação da verdade sobre si mesmo. A pergunta a ser feita aqui é:
“Quem sou eu?”. Essa resposta não pode ser dada pela mente, deve emergir das profundezas do mar
do silêncio.

É natural que muitos de nós, por aptidões interiores, trilhemos mais por um desses caminhos do que
pelos demais (tenho mais afinidade pelo Jnana Yoga, por exemplo), no entanto podemos ter a certeza
de que em algum momento esses caminhos terão de se encontrar. Se pudermos desde já caminhar
pelos três será um tanto melhor, pois cada um desses caminhos, desses pilares, funciona como
proteção contra os desvios do outro caminho: a prática da devoção é muito poderosa, porém sem o
auxílio do conhecimento tem boas chances de se converter em fanatismo. A prática do serviço
desinteressado é difícil, nossa tendência é desanimar e acabar desistindo se não houver o combustível
da devoção. Além disso, podemos estar cheios de boa vontade para auxiliar o próximo, porém, sem o
processo de auto-conhecimento, tendemos a projetar nossos desequilíbrios no outro e acabar gerando
mais confusão do que auxílio. O caminho do auto-conhecimento tende a estagnar se não for
alimentado pela chama da devoção e pode se converter em intelectualismo vazio se não for levado a
arena do serviço.

Conforme caminhamos por essas trilhas, por esses três pilares que sustentam a transformação da
consciência, um processo de jardinagem orgânica vai ocorrendo na alma e pouco a pouco o lixo vai
sendo transformado em flores e frutos. Assim vão amadurecendo as virtudes da alma, dividindo
espaço com o lixo que ainda existe. O lixo se torna a terra e a terra por sua vez se transforma em
flores e frutos.
Gula/Compulsão ----------------------------------------------- Contentamento
Preguiça/ Teimosia --------------------------------------------- Poder da Vontade
Avareza/Ganância ---------------------------------------------- Generosidade
Inveja ------------------------------------------------------------ Alegria compartilhada
Luxuria/Dominação do outro ----------------------------------- Devoção
Ira/Revolta/Ódio/Rancor/Mágoa------------------ Gratidão/Perdão/Compaixão/Amor
Orgulho/Perfeccionismo/Vaidade ------------------------------- Humildade
Medo/Controle------------------------------Fé/Comprometimento/Confiança/Entrega
Carência/Separação/Mentira -----------------------------Plenitude/Unidade/Verdade

Cada um desses florescimentos traz consigo a sua cota de realização e alegria. São esses os
verdadeiros prazeres da alma. Nenhuma dessas transformações ocorre do dia para a noite, vão
ocorrendo gradualmente. No atual estágio em que nos encontramos, temos algumas sementes de
virtudes já florescendo, enquanto outras ainda dormem na casca. Isso é natural e devemos
compreender que neste terreno também existe uma certa hierarquia, na qual o amadurecimento de
uma determinada potencialidade prepara o terreno para aquela que vem a seguir. Para não nos
prolongarmos em demasia, vamos partir do ponto em que a ampliação da consciência vai permitindo
que os núcleos de ódio sejam transformados em Amor. A gratidão, o perdão e a compaixão são
diferentes notas da mesma música do amor. Conforme essa música passa a ser tocada no interior da
alma, as sementes de humildade ganham um poderoso impulso e começa a brotar esse estado de
aceitação, de não exigência. Quando o indivíduo passa a se dedicar a esse caminho de auto-
transformação, o primeiro amadurecimento da fé é o comprometimento com o caminho em si, a
fidelidade, que surge quando essa busca se torna o centro da existência. Então, o surgimento da
genuína humildade vai proporcionar uma transformação ainda mais profunda no estado da fé, que se
tornará confiança inabalável na vida, em Deus, até que o terreno esteja preparado para o grande salto
da entrega, que deve nos conduzir até a Verdade.

O Cristo afirmou “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”. Do que é que a verdade poderá
nos libertar? De nós mesmos, dos nossos condicionamentos, dos personagens interiores que geram
sofrimento. Aqui, devemos compreender que essa Verdade, com “V” maiúsculo, não está
relacionada ao conhecimento intelectual ou a uma teoria, uma explicação, mas a uma experiência.
Mais adiante, o Cristo afirma “Neste dia sabereis que Eu estou no Pai e Vós em Mim e Eu em Vós”.
Isso nos mostra que a experiência da Verdade tem uma relação direta com a Unidade. Esse terreno da
Verdade, da Unidade, existente no íntimo de cada alma, era por Ele chamado de Reino de Deus, ou
Reino dos Céus. Para nós que estamos neste caminho, contudo, compreender apenas
intelectualmente a Unidade nada resolve. Somente a experiência da Unidade pode dar o golpe de
misericórdia no edifício de sustentação do sofrimento.

Ao longo desse caminho, podemos ter experiências temporárias de Unidade, como se fossem visitas
às terras do Reino dos Céus. Essas experiências são chamadas de Êxtase, ou Samadhi. Isso não é
privilégio de alguns, mas algo natural com que todos travarão contato em algum momento. Porém,
enquanto houver um Eu psicológico não integrado será necessário buscá-lo, seremos trazidos
novamente ao sofrimento. Chegar à experiência definitiva da Verdade é algo que está no destino de
todos nós. Porém o tempo, os percalços e o ritmo em que trilhamos esse caminho depende de cada
um. Esse é o capítulo final do Gita, em que Krishna diz a Arjuna “Eu te prometo, Tu me realizarás”.

Esse é um resumo do Caminho, do qual sou eu um iniciante. Ter em nossas mãos um mapa desse
caminho pode ser muito útil. Contudo, ter um mapa não deve ser motivo de pressa, devemos abrir
mão de toda a pressa, para dar um passo de cada vez.
Tenhamos a certeza de que em qualquer ponto do caminho, mesmo quando se ignora o caminho,
ninguém está só. Somos todos guiados pela força infinita do Amor Divino.

* Texto baseado em palestra realizada no Espaço Ananda Ganesha, novembro/2014, Maringá-PR.

REFERÊNCIAS:
 A Yoga do Bhagavad Gita, de Paramahansa Yogananda
 Bhagavad Gita, tradução de Huberto Hoden
 Transformando Sofrimento em Alegria, de Sri Prem Baba
 O que é Yoga, de Hermógenes
 Não Temas o Mal, de Eva Pierrako

MARCUS VINICIUS BRESSAN LEITE

Médico formado pela Universidade Federal do Paraná, com residência médica em Medicina
de Famíliapela UNICAMP, especialização em Medicina Chinesa - Acupunturapela
UNIFESP, especialização em Homeopatia pela Escola Homeopática de Curitiba,
especialização em Psicologia Transpessoal pela UNIBEM.

http://equilibriovitalecura.blogspot.com.br/2014/12/o-bhagavad-gita-e-psicologia.html

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