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DISCIPLINAS COMPLEMENTARES

Direito Processual Coletivo


Fernando Gajardoni
Aula 04

ROTEIRO DE AULA

4. Legitimidade Passiva

Não há previsão legal para legitimidade passiva na ação civil pública. Não havendo norma específica para a temática
poderíamos supor que pudéssemos nos utilizar das várias leis do micro sistema processual coletivo. Como por exemplo
o art. 6º da Lei 4.717/65 para identificar contra quem intentar a Ação Civil Pública.

 Art. 6 da Lei 4.717/65: A ação será proposta contra as pessoas públicas ou privadas e as entidades referidas no
art. 1º, contra as autoridades, funcionários ou administradores que houverem autorizado, aprovado, ratificado
ou praticado o ato impugnado, ou que, por omissas, tiverem dado oportunidade à lesão, e contra os
beneficiários diretos do mesmo.

No entanto, vejamos:

a) Inaplicabilidade do microssistema (Art. 6º da LAP) - Doutrina e jurisprudência negam a aplicabilidade do art. 6º da lei
4.717/65 na Ação Civil Pública em razão de incompatibidade estrutural ente o art. 6º da Lei de ação popular e a lei de
ação civil pública. O artigo 6º seria específico para aplicação à Ação Popular (o autor NÃO pode escolher contra quem
intentar a ação)

b) Ausência de previsão Legal (duas posições)

Quem é o réu na Ação Civil Pública?

 1ª posição: Litisconsórcio facultativo (Resp. 789.027-PR), salvo se tratar de anulação de contrato (Resp 901.422-
SP) - o autor escolhe contra quem demandar - Art. 113 do Código de Processo Civil.
Anulação de contrato- neste caso o litisconsórcio é necessário - art. 114 do Código de Processo Civil.

 2ª posição: Definição do direito material à luz dos art. 113 e 114 do Código de Processo Civil.
 A segunda posição é a que prevalece na doutrina.

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5. Competência na ACP (aplicação para AIA?)

5.1 Critério funcional hierárquico (foro privilegiado) existe foro privilegiado em ACP?
R: Não existe, é sempre julgado em 1ª instância.

Alguns autores apontam que seriam hipóteses de foro privilegiado as situações dos art. 102,I,"n" da CF e art. 102,I,"f" da
CF, mas entendemos que não é verdade.

Vejamos:

Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição, cabendo-lhe:
I - processar e julgar, originariamente:
(...)
n) a ação em que todos os membros da magistratura sejam direta ou indiretamente interessados, e aquela em que mais
da metade dos membros do tribunal de origem estejam impedidos ou sejam direta ou indiretamente interessados;

Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição, cabendo-lhe:
I - processar e julgar, originariamente:
f) as causas e os conflitos entre a União e os Estados, a União e o Distrito Federal, ou entre uns e outros, inclusive as
respectivas entidades da administração indireta;

Esses dois artigos não são regras específicas para Ação Civil Pública, servem para qualquer tipo de ação. Sempre a Ação
Civil Pública se processa em 1ª instância e não há foro privilegiado.

5.2. Critério Material - qual a justiça competente para processar a Ação Civil Pública?

1- Eleitoral - (art. 121 da CF) - Não há (105-A da Lei 9.504/97) (STJ CC 113.433/AL)

 Art. 121, CF: Lei complementar disporá sobre a organização e competência dos tribunais, dos juízes de direito e
das juntas eleitorais

 Art. 105-A da Lei 9.504/97 Em matéria eleitoral, não são aplicáveis os procedimentos previstos na Lei no 7.347,
de 24 de julho de 1985

2 - Trabalhista (114 da CF) - Súmula 736 do STF


3 - Federal (119 da CF): Parte ou causa de pedir (MPF: STJ, Resp. 1.057.878-RS e CC 90.722) (MPE - STF, Reclamação
7358) (Revogação s. 183 STJ)

Observações:

1ª Obs.: Critério determinante para definir a competência da Justiça Federal é o critério da parte ou da causa de pedir -
Art. 109, XI CF

 Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar:


XI- a disputa sobre direitos indígenas.

Atenção: O fato do bem ser da União não necessariamente atrai a competência para a Justiça Federal ( art. 20 da CF);
Deve-se observar se União é parte para que a competência seja da Justiça Federal.

2ª Obs.: Ministério Público Federal atua em qual justiça?

 Art. 109, I da CF- Aos juízes federais compete processar e julgar:


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I - as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal forem interessadas na condição
de autoras, rés, assistentes ou oponentes, exceto as de falência, as de acidentes de trabalho e as sujeitas à
Justiça Eleitoral e à Justiça do Trabalho;

Muitos doutrinadores entendem que o MPF tem possibilidade de ajuizar a ação em qualquer das justiças, de pendendo
contra quem iria demandar, mas conforme o entendimento do STJ o MPF só atuaria na Justiça Federal por ser órgão da
União. (MPF: STJ, Resp. 1.057.878-RS e CC 90.722).

3ª Obs.: Os MPE's têm autonomia para demandar inclusive em tribunais Federais, podendo demandar em qualquer
órgão do judiciária,, portanto perfeitamente possível que o MPE entre com ações na Justiça Federal. (MPE - STF,
Reclamação 7358)

4ª Obs.: Revogação da Súmula 183 do STJ - Não há delegação de competência da justiça estadual para a justiça federal
em tema de Ação Civil Pública. O fato de não existir Justiça Federal no local do dano não acarreta a competência da
Justiça Estadual, observa-se que a competência será da localidade mais próxima.

4) Estadual (residual)

1ª Obs.: A competência da Justiça Estadual é residual.

2ª Obs.: Sociedade de economia mista, ainda que o capital predominante seja da União, a competência será da Justiça
Estadual. (Súmula 42 do STJ)

3ª Obs.: Intervenção de entes federais em processos em curso na Justiça Estadual: Se estiver em curso uma ação civil
pública e intervier no juízo um ente federal demonstrando interesse na causa o processo será remetido a Justiça Federal
que decidirá se o ente federal pode ou não suscitar a competência da Justiça Federal. Se não poder intervir o processo
é remetido de volta ao juízo estadual (Súmulas 150 e 224 do STJ e art. 45§3º, do CPC)

4ª Obs.: ( Cumulação de pedidos - STJ, REsp1.120.169/RJ e 45 CPC) - STJ entendeu que a formação de litisconsórcio
passivo facultativo na Justiça Federal deve obedecer a regra de cumulação de pedidos do art. 327,§1º do CPC ( o juiz
deverá ser competente para julgar todos os pedidos);

 Art. 327. É lícita a cumulação, em um único processo, contra o mesmo réu, de vários pedidos, ainda que entre
eles não haja conexão.
§ 1o São requisitos de admissibilidade da cumulação que:
I - os pedidos sejam compatíveis entre si;
II - seja competente para conhecer deles o mesmo juízo;
III - seja adequado para todos os pedidos o tipo de procedimento.

5ª Obs.: Continência entre duas ACP, uma na Justiça Federal e outra na Justiça Estadual, a competência será da Justiça
Federal. (Súmula 489 STJ- continência).

5.3 Critério Valorativo: Não há. (Art. 3º, I da Lei 10.259/2001 e 2º, §1º da Lei 12.153/2009).

5.4. Critério territorial - Duas posições:

a) Posição Dominante: diz que, para definir a competência territorial da Ação Civil Pública aplica-se o art. 93 do CDC
para direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos (competência absoluta). Insuficiência legal do critério - uso da
regra da prevenção.

 Dano local - local do dano;


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 Dano regional- capital do estado;
 Dano Nacional - DF ou capital do Estado;

b) Aplica-se o art. 2º da LACP para difusos/coletivos (competência absoluta) e art. 93 do CDC para direitos Individuais
Homogêneos (competência relativa ou absoluta).

6. Coisa Julgada (Arts. 103/104 CDC) (art. 16 da LACP)

Processo Individual X Processo Coletivo

No processo individual: A coisa julgada é entre as partes.


 Intra-partes - Art. 506 do CPC
 Pro et contra - sempre haverá coisa julgada material.

No processo coletivo
 Erga omnes e ultra partes
 Secundum eventum litis - só impede ação individual se a coisa julgada é procedente.

REGIME JURÍDICO C.J. ERGA OMNES C.J. ULTRA PARTES SEM COISA JULGADA
(coisa julgada (Todos) (membros do grupo) MATERIAL
coletiva) IMPEDE OUTRA COLETIVA IMPEDE OUTRA COLETIVA NÃO IMPEDE OUTRA
COLETIVA (prova
nova)

DIFUSOS Procedente - Improcedência por


Improcedente falta de provas
COLETIVOS - Procedente Improcedência por
Improcedente falta de provas
INDIVIDUAIS Procedente - -
HOMOGÊNEOS Improcedente
(qualquer fundamento)

6.1. Erga omnes e ultra partes

Ambos são fenômenos típicos do modelo da legitimação extraordinária do modelo da substituição processual.

"Erga omnes e ultra partes"


A decisão não vale apenas para as partes processuais do processo, mas a decisão do processo atinge todos aqueles
interessados.

6.2. Transporte in utilibus secundum eventum litis

 Princípio do máximo benefício da tutela jurisdicional coletiva - o indivíduo pode aproveitar da coisa julgada
coletiva naquilo que lhe favorece ou beneficia.

Art. 104 do CDC

Art. 104. As ações coletivas, previstas nos incisos I e II e do parágrafo único do art. 81, não induzem litispendência para
as ações individuais, mas os efeitos da coisa julgada erga omnes ou ultra partes a que aludem os incisos II e III do artigo
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anterior não beneficiarão os autores das ações individuais, se não for requerida sua suspensão no prazo de trinta dias, a
contar da ciência nos autos do ajuizamento da ação coletiva.

Questionamento: Essa regra do transporte in utilibus secundum eventum litis abrange somente os direito Individuais
homogêneos? Abrange os direito individuais homogêneos e coletivos (lei)? Ou se aplica aos individuais homogêneos,
coletivos e diretos difusos?

R: A doutrina entende que é para todos os direitos apesar do enunciado do art. 104 do CDC.

6.3. Intervenção do lesado/sucessor no processo coletivo (Art. 94 do CDC)

O indivíduo que é vítima de determinado evento danoso pode intervir na ACP para atuar ao lado do autor legitimado da
ação. Isso ocorrerá da seguinte forma, o indivíduo não tem legitimidade para intentar a ação, mas pode ajudar o MP a
ganhar a lide do seu interesse. A decisão faz coisa julgada material para o indivíduo que está atuando junto ao MP por
agido como parte no processo em questão.

 Atenção: Só nos direitos individuais homogêneos

6.4. Condições para o transporte in utilibus da cj coletiva ( para quem já tenha uma ação ajuizada) - suspensão da
ação individual.

 Essa condição só é válida para os direitos individuais homogêneos, em que se pode ter ao mesmo tempo uma
pretensão individual e outra coletiva com o mesmo objeto.

a) Suspensão voluntária da ação individual - art. 104 do CDC (comunicação do réu da ação coletiva).

b) Suspensão judicial da ação individual (STJ - REsp 1.110.549 RS) - Não tem previsão legal mas é uma decisão judicial. O
Superiro Tribunal de Justiça ou o Supremo Tribunal Federal, somente eles, podem determinar a suspensão das ações
individuais independente de requerimento da parte.

Prazo de suspensão da ação individual no aguardo do julgamento da ação coletiva: Não existe prazo, independente de
como aconteceu a suspensão, se por requerimento da parte ou decisão do tribunal superior.

6.5 - Consequências do Julgamento da coletiva com a individual suspensa

a) Improcedente a coletiva - pode-se prosseguir na ação individual que estava suspensa.


b) Procedente a coletiva - aplica-se o título executivo (sentença coletiva) a favor do autor.

 extinção sem mérito da individual - liquidação e execução nos moldes da decisão coletiva.
 conversão da ação de conhecimento em liquidação e execução de sentença

6.6. Coisa julgada coletiva secundum eventum probationis (Art. 16 da LACP)

"secundum eventum probationis" = Segundo o resultado da prova

Nos direito difusos e no coletivos - existe a possibilidade de repropor a ação civil pública se julgada improcedente por
falta de provas.

Observações:

1 - Na nova ação deve haver uma preliminar de cabimento que indique qual é a prova nova.
2 - A propositura da ação com aprova nova pode ser feita, inclusive, por quem foi vencido na primeira ação.
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3 - Não há necessidade de reconhecimento no dispositivo da sentença da ação primitiva desse direito de repropor a
ação.

Obs: se a sentença foi improcedente por falta de direito não pode ser intentada outra ação coletiva.

6.7. A questão do art.16 da LACP e art. 2º, a, da Lei 9.494/97 (STJ Resp. 1.391.198-RS e Resp. 1.243.887 - PR - Corte
Especial) (STJ- Resp. 1.614.263-RJ - Rel. Min. Herman Benjamim, j. 18.08.16)

 Art.16 da LACP - Difusos e Coletivos


 Art. 2º, a, da Lei 9.494/97 - Individuais homogêneos

Discussão:

Esses artigos estabelecem que a sentença na Ação Civil Pública só é válida nos limites territoriais do órgão prolator da
sentença. A doutrina aponta três vícios

 Inconstitucionais - seriam dispositivos que limitam a base territorial do órgão prolator. Violariam o princípio da
proporcionalidade ( limita seu alcance no caso de dano nacional); O intuito da ação civil pública é ter uma
sentença que favoreça a muitos.

 Ilógicos - confusão entre competência e efeitos da sentença (coisa julgada) do órgão prolator.

 Ineficazes - Tanto o art. 16 da Lei ACP quanto o art. 2º da Lei 9.494/97, definem que a sentença da ACP só é
válida nos limites territoriais do órgão prolator, no entanto, o art. 103 do CDC não faz limitação dos seus efeitos,
não foi alterado, o que leva-nos a aplicação do art. 103 do CDC (prevalecendo).

E no STJ:

(STJ Resp. 1.391.198-RS e Resp. 1.243.887 - PR - Corte Especial) (STJ- Resp. 1.614.263-RJ - Rel. Min. Herman Benjamim,
j. 18.08.16)

As decisões do STJ declaram ineficazes os art. 16 e art. 2º da Lei 9.494/97.

Atenção: É plenamente possível que a sentença da ação covil pública valha em todo território nacional se o dano for
Nacional, todavia, é pacífico que o que limita os efeitos da sentença é o pedido da parte. S e aparte pede que a sentença
valha somente em determinados Estados valerá somente naqueles limites.

7. Relação entre demandas

Duas ou mais ações com elementos comuns.

7.1. Individual x Individual

 Identidade total de elementos - litispendência/ coisa julgada - art. 485, V CPC.


 Identidade parcial dos elementos - Conexão / continência - art. 55, 58 do CPC.

7.2. Coletiva x Individual (unicamente aos Individuais Homogêneos)


a) Identidade total entre ação coletiva e ação individual - nunca terá identidade total porque o pedido nunca será igual.
Na coletiva a decisão é genérica e na ação individual a sentença é de caráter individual.

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b) Identidade parcial entre ação coletiva e ação individual: Entre a ação coletiva a e ação individual haverá conexão pela
causa de pedir. No âmbito no processo coletivo o efeito é diferente do processo individual porque nos termos do art.
104 se houver conexão entre uma demanda para a tutela dos direitos individuais homogêneos e houver uma ação
individual para discutir o mesmo tema e mesma causa de pedir teremos a suspensão da ação individual para esperar o
julgamento da ação coletiva.

7.3. Coletiva X Coletiva (todos os metaindividuais, inclusive ritos diferentes)

a) Identidade total - É possível entre duas demandas coletivas?


R.: Sim, por litispendência- duas ACP para discutir um dano regional, por exemplo.

Consequência da litispendência:
 Se as partes formais forem iguais - a melhor solução é extinção sem julgamento do mérito.
 Se as partes formais forem diferentes - a melhor solução é a reunião para julgamento conjunto.

b) Identidade parcial

 Conexão
 Continência

Pode existir três ações, como por exemplo uma Ação Popular, uma Ação Civil Pública e uma Ação de improbidade, com
a mesma causa de pedir, mas com pedidos diferentes, elas serão conexas pela causa de pedir, nesse caso o efeito é a
reunião para ao julgamento conjunto nos termos do art.- art. 58 do CPC.

7.4. Critério para a reunião de demandas coletivas (Art. 2º da LACP)

Havendo várias ações coletivas será prevento o juiz a quem foi distribuída a primeira ação.

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