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Para Melissa Anelli, que sabe como se sente

ao subir a longa estrada, enrolando só para


ver o amanhecer.
Ó

Calliope marchou através do campo ensolarado enquanto ela ignorava o


murmúrio da ruiva atrás dela. Ingrid foi a primeira mortal que tentou passar no
teste para se tornar a esposa de Henry, e talvez se ele tivesse passado mais de
cinco minutos em um dia com ela, Henry teria entendido por que Calliope a tinha
matado.
— Você está surpresa, — disse Ingrid, pegando um coelho da grama alta e
abraçando-o contra o peito. — Tudo vai florescer ao meio-dia.
— Como fez ontem? — Disse Calliope. — E no dia anterior? E no dia antes
disso?
Ingrid sorriu. — Não é lindo? Você viu as borboletas?
— Sim, eu vi as borboletas, — disse Calliope. — E o veado. E qualquer
outra peça inútil de sua vida após a morte.
Uma nuvem escura passou pelo rosto de Ingrid.
— Eu sinto muito que você acha que é estúpido, mas é a minha vida, e eu
gosto assim.
Precisou um grande esforço, mas Calliope lutou contra a vontade de
revirar os olhos. Perturbar Ingrid só pioraria as coisas, e a medida que isto ia,
seria eras antes de Calliope sair daqui.
— Você está certa, — disse ela com firmeza. — É só que eu nunca gastei
algum tempo neste reino, de modo que o processo é desconhecido para mim.
Ingrid relaxou e correu seus dedos através da pele do coelho. — É claro
que você não gastou tempo aqui, — disse ela com uma risadinha que colocou os
dentes de Calliope na borda. — Você é uma deusa. Você não pode morrer. Ao
contrário de mim, — disse ela, pulando através de alguns metros de prado. —
Mas não foi tão ruim quanto eu pensei que seria. — Se essa menina idiota
soubesse alguma coisa, ela teria sabido que Calliope não era apenas qualquer
deusa. Ela era um dos seis membros do conselho, antes que tivesse filhos e se
expandisse. Antes de seu marido ter decidido que fidelidade estava abaixo dele.
Antes que eles começassem a distribuir a imortalidade como se fosse doce. Ela
era a filha dos Titãs, e ela não era apenas uma deusa.
Ela era uma rainha.
E não importa o que o conselho e aquela cadela Kate tinham decidido, ela
não merecia estar aqui.
— Bom, — disse Calliope. — A morte é uma coisa estúpida a temer.
— Henry garante que eu me sinta confortável. Ele vem de vez em quando e
passa a tarde comigo, — disse Ingrid, e ela acrescentou com um sorriso
malicioso, — Você nunca me disse quem ganhou.
Calliope abriu a boca para dizer que não foi uma competição, mas isso
não era verdade. Cada parte tinha sido uma competição, e ela trabalhou para ter
o prêmio muito mais do que os outros. Ela eliminou suas adversárias com
maestria. Mesmo Kate teria morrido se Henry e Diana não tivessem intervindo.
Calliope deveria ter ganhado, e ela sentia o sorriso no rosto de Ingrid como
sal no buraco onde seu coração havia estado. Primeiro ela perdeu o marido, e
quando ela pensou que tinha encontrado alguém que pudesse entender sua
situação e dar-lhe o amor que ela tanto tinha desejado, esse alguém – Henry –
nunca tinha dado a ela uma chance. Por causa disso, ela tinha perdido tudo. Sua
liberdade, sua dignidade, cada grama de respeito que ela tinha lutado para
ganhar através dos milênios, mas acima de tudo, ela tinha perdido Henry.
Eles estavam juntos, dois dos seis originais, desde antes do início da
humanidade. Por eras ela o observava, envolto em mistério e solidão que ninguém
podia quebrar, pelo menos até que Persephone tivesse aparecido. E depois do que
ela tinha feito para ele...
Se alguém merecia ser punido, era Persephone.
Tudo que Calliope sempre quis foi que Henry fosse feliz, e um dia ele
entenderia que a única maneira seria quando eles finalmente estivessem juntos.
Não importa quanto tempo levasse, ela iria fazê-lo ver. E, no final, Kate pagaria
por ter roubado o tempo precioso do seu futuro.
— Calliope? — Disse Ingrid, e Calliope tentou sacudir os pensamentos de
sua cabeça. As palavras fugiram para os recessos de sua mente, mas sua raiva e
amargura permaneceram.
— Kate, — disse Calliope, cuspindo o nome como se fosse venenoso. — O
nome dela é Kate. Ela é filha de Diana.
Os olhos de Ingrid se arregalaram.
— É a irmã de Persephone? — Calliope assentiu, e atrás de Ingrid, uma
névoa estranha se formou à distância. Ela parecia acenar para ela, mas ela
resistiu ao impulso de se desprender de Ingrid e segui-la. Enquanto ela estava
servindo sua sentença gastando tempo com cada menina que ela matou, ela não
podia sair sem alertar Henry. Se ela deliberadamente desobedecesse as ordens do
conselho, ela seria permanentemente banida e seu lugar no conselho seria
preenchido por outra pessoa.
Ela sabia exatamente que alguém seria, e ela jurou para si mesma que,
enquanto ela ainda fosse uma deusa, Kate nunca chegaria perto de seu trono.
Calliope olhou para a névoa. — Você já passou por lá?
— Por onde? — Disse Ingrid. — As árvores? Às vezes, mas eu prefiro o
prado. Você sabia que as pétalas das flores tem gosto de doces? Você deveria
experimentá-las.
— Eu não como doces, — disse Calliope, ainda distraída pela névoa. Ela
não tinha visto nada como isso, quando estava no Submundo, e isso deve
significar alguma coisa. Talvez fosse a maneira de Henry dizer que ela podia
passar para a próxima garota. Talvez ele entendeu o quão terrível Ingrid era
depois de tudo.
— Como você não come doces? — Disse Ingrid. — Todo mundo ama doces.
— Eu não sou todo mundo, — disse Calliope. — Fique aqui.
— Então você pode ir embora? — Disse Ingrid. — Eu não penso assim.
Você precisa de mim para perdoá-la antes de sair, ou já se esqueceu?
Calliope rangeu os dentes. É claro que ela não tinha esquecido, mas, tanto
quanto ela estava preocupada, Ingrid nunca iria perdoá-la. Mesmo que ela
fizesse, Calliope duvidava que cada menina que ela tinha matado iria, conforme
decisão de Kate, o que significava que provavelmente estaria presa no Submundo
para a eternidade. Isso era mais do que Calliope estava preparada para esperar.
— A menos que você queira que eu anexe seus pés no chão, você vai ficar, — ela
retrucou.
— Você pode fazer isso?
Calliope não se incomodou em responder. Em vez disso, ela foi em direção
ao nevoeiro e longe de Ingrid, que pelo menos teve a decência de não segui-la.
Quanto mais longe de Ingrid ela ficou, menor o prado tornou-se, até Calliope
estar cercada por rocha – a real face do Submundo agora que não havia uma
alma morta em torno para influenciar sua aparência.
Agora que ela estava mais perto, ela podia ver que a neblina não era
realmente nevoeiro depois de tudo. Em vez disso, parecia brilhar no ar, milhares
de tentáculos de luz que chegavam para ela. Calliope virou, e no momento que os
dedos dela tocaram o brilho estranho, ela entendeu por que ele tinha chamado
por ela. Finalmente, depois de décadas de espera, ele estava acordado.
Calliope sorriu, e uma onda de energia tão antiga que não tinha um nome
espalhou por ela. Com Ingrid nada mais que uma memória distante, ela avançou,
e a raiva que ela nutria por tanto tempo finalmente encontrou o seu propósito.
— Olá, Pai.
01
RETORNO PARA ÉDEN

Quando eu era criança, cada outono meus professores tinham uma aula
para escrever e apresentar um daqueles ensaios horríveis. “O Que Eu Fiz No
Verão Passado”, completo com fotos e histórias engraçadas projetadas para fazer
uma sala de aula cheia de alunos entediados prestarem atenção.
Cada ano eu sentei e ouvi quando meus colegas na minha escola
preparatória de New York falaram sobre como eles passaram o verão nos
Hamptons ou na Flórida ou na Europa com seus pais ricos, ou au pair, ou
conforme ficamos mais velhos, namorados e namoradas. No momento em que
chegava à escola, eu ouvia as mesmas histórias chamativas uma e outra vez:
escapadas em Paris com supermodelos, festas a noite toda nas praias nas
Bahamas com rock stars – cada aluno disputava a atenção com façanhas que
ficavam mais selvagens a cada ano.
Mas a minha história era sempre a mesma. Minha mãe trabalhava como
florista, e porque a maior parte de sua renda foi para pagar por essa escola,
nunca saímos de Nova York. Em seus dias de folga passamos nossas tardes no
Central Park, absorvendo o sol.
Depois que ela ficou doente, meus verões eram passados no hospital com
ela, segurando seu cabelo para trás, quando a quimioterapia atacava seu sistema
ou passando através dos canais de televisão procurando algo para assistir.
Não eram os Hamptons. Não era Florida. Não era Europa. Mas eles eram
meus verões.
Um dos meus primeiros seis meses com Henry, no entanto, explodiu cada
único verão que meus colegas já tiveram.
— Eu não posso acreditar que você nunca tinha nadado com os golfinhos
antes, — disse James enquanto eu dirigia por uma estrada de terra áspera que
não via muita utilidade. Estávamos de volta na península superior do Michigan e
cercados por árvores mais altas do que a maioria dos edifícios. Quanto mais perto
chegávamos ao Éden Manor, maior ficava a disseminação do meu sorriso.
— Não é como se tivéssemos uma tonelada deles no rio Hudson, — eu
disse, empurrando o acelerador. Nós estávamos tão longe da civilização, que não
havia limites de velocidade, e da última vez que tinha estado por esta via, a
minha mãe tinha estado muito mal para eu arriscar tirar vantagem disso. Mas
agora, após o Conselho ter me concedido a imortalidade, a única coisa que eu
arriscava era o meu carro velho batido. Até agora, eu gostava das regalias. — Eu
estou mais impressionada com o vulcão em erupção.
— Não tenho ideia de por que ele fez isso, — disse James. — Tem estado
adormecido por mais tempo do que alguns de nós estivemos vivos. Podemos ter
que perguntar ao Henry sobre isso quando voltarmos.
— O que ele tem a ver com um vulcão? — Eu disse, e meu coração pulou
uma batida. Estávamos tão perto agora que eu quase podia senti-lo, e eu batia
meus dedos nervosamente contra o volante.
— Vulcões agem de acordo com a vontade de Henry. Se um velho dispara
assim, então algo está acontecendo. — James mordeu um pedaço de carne seca e
ofereceu-me o resto. Eu franzi o nariz. — Faça como quiser. Você percebe que
você vai ter que dizer a ele sobre tudo o que fizemos, certo?
Eu olhei para ele. — Eu não tinha planejado o contrário. Por quê? O que
há de errado com isso?
James deu de ombros. — Nada. Eu imaginei que ele não estaria muito
entusiasmado com a ideia de você passar seis meses na Grécia, com um bonito
estranho loiro, isso é tudo. — Eu ri tanto que quase saí na beira da estrada.
— E quem era esse bonito estranho loiro? Eu não me lembro dele.
— Exatamente o que você deve dizer para Henry, e nós dois vamos estar
limpos dessa, — disse James alegremente.
Foi uma brincadeira, é claro. James era o meu melhor amigo, e nós
tínhamos passado o verão inteiro juntos em turnê nas ruínas antigas, cidades
grandes e ilhas de tirar o fôlego em um dos lugares mais bonitos do mundo.
Talvez um dos mais romântico, também, mas James era James, e eu era casada
com Henry.
Casada. Eu ainda não estava acostumada com isso. Eu mantive a minha
aliança de casamento de diamante negro em uma corrente em volta do meu
pescoço, com muito medo de perdê-la para usá-la corretamente, e agora que
estávamos apenas a mais ou menos um quilometro e meio do Éden, era hora de
colocá-la de volta.
Eu lutei para passar os sete testes que o conselho de deuses me deu para
ver se eu era digna da imortalidade e de me tornar a rainha do Submundo, e
porque eu tinha ganhado – Henry e eu éramos agora tecnicamente marido e
mulher.
Com o silêncio entre nós nos últimos seis meses, no entanto, não senti
assim. Eu não tinha admitido isso para James, mas eu passei o verão olhando ao
redor na esperança de ver Henry no meio da multidão, mesmo quando não era
para estar. Mas não importava o quão duro eu olhei, eu não tinha visto nenhum
sinal dele. Concedido, metade de um ano era praticamente um piscar de olhos
para alguém que já existia desde antes do nascimento da humanidade. Mas,
certamente, um sinal de que ele sentiu minha falta não erai muito para pedir.
Durante meu inverno com ele, porém, eu tinha que brigar para cada
pequeno passo em frente. Cada olhar, cada toque, cada beijo – e se seis meses de
intervalo nos trouxe de volta à estaca zero? Ele passou mil anos lamentando sua
primeira esposa, Persephone, e ele só me conhece há um. Nosso casamento não
tinha sido o final perfeito para uma história de amor maravilhosa. Isso tinha sido
o início da eternidade, e nada sobre nossa nova vida juntos ia ser fácil. Para
qualquer um de nós.
Especialmente considerando que em cima do ajuste de casamento, eu
teria que aprender a ser rainha do Submundo, também.
E não importava quantos anos eu passei cuidando de minha mãe
morrendo, eu tinha um sentimento afundando que nada iria ajudar quando
viesse a decisão sobre os mortos.
Eu empurrei minhas preocupações de minha mente quando o portão preto
de ferro forjado do Éden Manor veio à tona. Nova York, a escola, a doença da
minha mãe, isso era o meu passado. Minha vida mortal. Este era o meu futuro.
Não importa o que tinha ou não acontecido durante o verão, eu teria a chance de
estar com Henry agora, e eu não ia perder um momento.
— Lar doce lar, — eu disse enquanto eu dirigia até o portão.
Eu poderia fazer isso. Henry estaria esperando por mim, e ele ficaria feliz
em me ver. Minha mãe estaria lá também, e eu não teria que passar mais seis
meses sem vê-la novamente. Depois de quase perdê-la, passar o verão sem a
minha mãe foi uma tortura, mas ela insistiu que este primeiro verão fosse meu, e
ela e Henry não estariam envolvidos. Mas eu estava de volta agora, e tudo ficaria
bem.
James esticou o pescoço para olhar para as árvores coloridas que
ladeavam a estrada. — Tudo bem? — ele disse para mim.
— Eu deveria perguntar-lhe isso, — eu disse, olhando para a forma como
ele batia os dedos no braço nervosamente. Ele acalmou, e depois de um momento
eu adicionei antes que eu pudesse me parar, — ele vai ficar feliz em me ver,
certo?
James piscou e disse friamente, — Quem? Henry? Não poderia dizer. Eu
não sou ele.
Essa era a última resposta que eu esperava, mas é claro que ele não ia
estar alegre. James teria sido o único a substituir Henry como o governante do
Submundo se eu tivesse falhado, e mesmo que ele não tivesse desejado, James
estava, sem dúvida machucado sobre isso.
— Você poderia ao menos tentar fingir estar feliz por mim? — Disse. —
Você não pode gastar toda a sua existência chateado com isso.
— Eu não estou chateado. Estou preocupado, — disse ele. — Você não
tem que fazer isso se você não quer, você sabe. Ninguém iria culpá-la.
— Fazer o quê? Não voltar para o Éden? — Eu já tinha passado nos testes.
Eu disse ao Henry que estaria de volta. Nós nos casamos, pelo amor de Deus.
— Todo mundo está agindo como se você fosse "ser" tudo e o fim de tudo
de Henry, — disse James. — Não é justo colocá-la sob esse tipo de pressão.
Meu Deus, ele realmente estava falando sobre não voltar.
— Ouça, James, eu sei que você gostou da Grécia, assim como eu, mas se
você acha que pode me convencer a não voltar...
— Eu não estou tentando convencer você em nada, — disse James com
firmeza surpreendente. — Eu estou tentando ter certeza de que ninguém mais
faz. Esta é a sua vida. Ninguém vai levar sua mãe longe de você agora, se você
decidir que não quer fazer isso depois de tudo.
— Não é por isso que eu vou voltar afinal, — eu gaguejei.
— Então por que, Kate? Dê-me uma boa razão, e eu vou parar.
— Eu posso lhe dar uma dúzia.
— Eu só quero uma.
Funguei. Não era nada da conta dele. Eu quase morri nas minhas
tentativas para salvar Henry de desvanecer-se, eu não iria me afastar dele por
causa da possibilidade de eu não gostar do Submundo. — Eu não sei como você
faz as coisas, mas eu amo Henry, e eu não vou deixá-lo só porque você não acha
que ele é bom para mim.
— Muito bem, — disse James. — Mas o que você vai fazer se Henry não te
amar?
Eu bati o pé no freio e forcei o carro em uma parada tão violenta que a
cabeça da marcha saiu do câmbio. O carro era um pedaço de merda de qualquer
maneira. — Isso é impossível. Ele disse que me ama, e eu confio nele para não
mentir para mim. Ao contrário de alguém que eu conheço.
Eu olhei para ele, mas sua expressão não se alterou. Com um huff, saí do
carro, xingando quando o cinto de segurança pegou no meu jeans. Depois de
minhas poucas tentativas de me soltar, James se aproximou e gentilmente desfez
para mim.
— Não fique chateada, — disse ele. — Por favor. Depois do que aconteceu
com Persephone, eu quero ter certeza que você não tem que passar pela mesma
coisa, certo? Isso é tudo. — Eu não era uma idiota. Eu sabia que uma parte de
Henry estaria sempre apaixonado por Persephone. Afinal, ele tinha perdido a
vontade de continuar depois que ela desistiu de sua imortalidade para morrer e
passar a eternidade com um mortal, e ele não teria se sentido dessa forma, se
toda a sua existência não girasse em torno dela. Mas eu poderia dar a ele a única
coisa que ele nunca teve, amor correspondido.
— Se você realmente é feliz e vocês dois se amam de forma igual, então
ótimo, — disse James. — Boa sorte para os dois. Mas se vocês não... se você
acordar um dia e perceber que está forçando-se a amá-lo, porque você acha que é
a coisa certa a fazer, não porque ele te faz mais feliz do que você já foi, então eu
quero ter certeza que você sabe que tem uma escolha. E se você quiser ir embora,
tudo que tem a fazer é dizer a palavra, e eu vou com você.
Eu corri em direção às portas da frente da mansão, puxando forte. —
Ótimo, então se eu decidir que a vida de Henry não vale a pena, eu vou ter a
certeza de que você saiba. Ajude-me com estas, sim?
James não disse uma palavra quando ele se juntou a mim e abriu as
portas pesadas, como se elas fossem feitas de penas. Eu deslizei para dentro e
forcei um sorriso, esperando ver Henry me esperando no maravilhoso hall de
entrada feito de espelhos e mármores. Mas o foyer estava vazio.
— Onde estão todos? — Eu disse, meu sorriso desaparecendo.
— Esperando por você, eu suspeito. — James entrou depois de mim, e a
porta bateu atrás de nós, ecoando através do corredor.
— Você não achou que íamos ficar aqui, não é?
— Eu não sabia que havia outro lugar para ficar. — Ele passou o braço
sobre os meus ombros, mas quando eu encolhi os ombros, ele enfiou as mãos nos
bolsos em vez.
— É claro que há algum outro lugar. Siga-me. — James me levou ao
centro do hall de entrada, onde um círculo de cristal brilhava com um arco-íris de
cores no centro do chão de mármore branco. Quando eu tentei continuar para o
outro lado da sala, ele pegou minha mão e me parou.
— Esta é a nossa parada, — disse ele, olhando para baixo.
Eu olhei para o cristal sob os meus pés, e finalmente eu vi. Uma aura
estranha, cintilante parecia emanar de onde estávamos, e eu pulei para fora do
círculo. — O que é isso?
— Henry não lhe disse? — Disse James, e eu balancei a cabeça.
— É um portal entre a superfície e o Submundo. Para sua segurança, eu
prometo. Eles são como atalhos para não ter que tomar o caminho mais longo.
— O caminho mais longo?
— Se você souber onde olhar, você poderá achar uma abertura para o
Submundo e viajar através de várias cavernas e esse tipo de coisa, — disse ele. —
Escuro, sombrio, demorado, consumidor e problemático se você estiver nervosa
sobre ter milhões de quilos de rocha pressionando você para baixo.
— Não há nada por debaixo da superfície, exceto lava e sujeira, — eu
disse, ignorando o pensamento de ser enterrada viva. — Todos com oito anos de
idade sabem disso.
— Nós somos deuses. Somos excelentes em cobrir nossas pistas, — disse
James com um sorriso de menino, e desta vez, quando ele me ofereceu sua mão,
eu peguei e voltei para o círculo.
— O que mais você é bom? — Eu resmunguei. — Transformar a água em
vinho?
— Essa é a especialidade de Xander, — disse ele. — Estou surpreso que
ele não virou o Mar Morto em uma grande festa da cerveja por agora. Deve ser
muito salgado para ele. Quanto a mim, eu posso achar qualquer coisa ou
qualquer um ou qualquer lugar que você quiser. Você não percebeu que nunca
nos perdemos na Grécia?
— Só aquela uma vez.
— Nós não estávamos realmente perdidos então, também, — ressaltou.
— Ainda. — Eu dei-lhe um olhar, e ele ficou rosa. — Eu apenas pensei
que você conhecia bem a área.
— Eu conheci, milhares de anos atrás. Eles fizeram algumas modificações
desde então. Feche os olhos. — Uma onda de energia eletrizante girava em torno
de nós, e um rugido encheu meus ouvidos. Sem aviso, o chão caiu debaixo de
nós, e eu gritei.
Meu coração saltou em minha garganta e meus olhos abriram enquanto
eu tentava me afastar de James, mas seu braço envolveu ao redor de mim como o
aço. Estávamos cercados por rocha, não, nós estávamos dentro da rocha, e
passamos por ela como se não fosse mais substancial do que o ar. A expressão de
James era tão calma como sempre, como se passando por pedra e terra e só Deus
sabe o que mais era perfeitamente normal.
Parecia durar por séculos, mas apenas alguns segundos mais tarde os
meus pés desembarcaram em terra firme. James afrouxou o controle sobre os
meus ombros, mas minhas pernas tremiam tanto que eu me agarrei a ele, mesmo
que tudo o que eu queria fazer era dar uma paulada na cabeça dele.
— Isso não foi tão ruim, foi? — Ele disse, alegremente, e eu dei um olhar
frio.
— Eu vou pegar você por isso, — eu disse. — Você não vai ver chegando,
mas quando acabar, você vai saber o que era.
— Estou ansioso por isso, — disse ele, e, finalmente, me senti firme o
suficiente para ficar sozinha. Eu mordi de volta a minha réplica quando olhei ao
redor, e as sobrancelhas se ergueram.
Nós estávamos em uma caverna enorme, tão grande que eu não conseguia
ver o topo. A única maneira que eu poderia dizer que estava sob a terra - além da
jornada angustiante que eu quase não sobrevivi - era a falta de luz solar.
Ótimo. Aparentemente Henry vivia em uma caverna.
Em vez do céu, rios de cristal corriam através da rocha, proporcionando
uma luz brilhante que iluminou a caverna inteira.
Estalagmites e estalactites gigantes se uniram em fileiras de colunas que
não poderia ter sido natural, e para meu alívio, eles formaram um caminho para
um magnífico palácio feito de rocha negra brilhante que parecia como se tivesse
crescido para fora do lado da caverna.
— Se eu puder, — disse James. — Em nome do conselho, deixe-me ser o
primeiro a recebê-la no Submundo. — Eu abri minha boca, mas antes que eu
pudesse dizer uma palavra, gritos enfurecidos de Henry encheram meus ouvidos,
e eu caí de joelhos quando o mundo ficou preto.
02
DOM

Henry apareceu polegadas na minha frente, o rosto torcido com tanta


fúria que eu me encolhi. Ele estava no Submundo, cercado pela mesma pedra de
cristal-infundida que eu reconheci na minha chegada, mas a caverna não era a
mesma. Era tão grande que eu não poderia ver o outro lado, e estava vazia,
exceto pelo portão enorme que parecia como se tivesse sido feito da própria
parede.
Henry levantou as mãos trêmulas contra uma espessa neblina que se
infiltrou entre as barras feitas de pedra, a mandíbula dele apertada. Seus irmãos,
Walter e Phillip, seguiram-no em ambos os lados, mas era claro que Henry era o
general nesta batalha.
— Isso não vai funcionar, — disse uma voz feminina que fez minhas
entranhas virar gelo. Atrás de Henry estava Calliope, os olhos brilhantes de
diversão. — Ele já está acordado.
— Por quê? — Disse Henry, a voz tensa com esforço. — Você realmente
está tão longe que você acredita que esta é a resposta? — Mas qualquer que seja
a questão passou a ser, eu não tive a chance de descobrir. Henry e seus irmãos
desapareceram, e eu abri meus olhos e inspirei o ar frio e úmido da caverna que
continha o palácio. De alguma forma eu tinha acabado em minhas mãos e
joelhos, e James ajoelhou-se ao meu lado, a testa franzida quando ele esfregava
minhas costas.
— Você está bem? — ele disse.
— O que aconteceu? — Avistando duas figuras se aproximando na
distância, eu fiquei tensa. Não poderia ser Henry e Calliope. Ele nunca iria deixá-
la perto de mim.
— Nada, — disse James incerto. — Você bateu sua cabeça?
Eu não respondi, muito ocupada examinando as duas silhuetas.
James não estava preocupado, por isso não poderia ser Calliope, mas ele
tinha visto a caverna com a porta? Será que ele sabia que ela estava lá fora,
lutando contra Henry e seus irmãos?
Finalmente as duas figuras apareceram, e alívio flutuou através de mim.
— Mãe, — eu chamei, em pé com as pernas trêmulas. James segurou-me, e eu
consegui dar alguns passos para frente.
Minha mãe, que passou anos lutando contra o câncer que tinha
finalmente matado sua forma mortal, caminhou radiante em minha direção. Eu
ainda não tinha me acostumado com a ideia de que ela também era uma deusa e
deixou de mencionar isso para mim por 18 anos, mas naquele momento tudo o
que importava era preencher o buraco que tinha crescido dentro de mim durante
os seis meses que eu tinha ido.
— Olá, minha querida, — disse ela, abraçando-me. Eu respirei seu cheiro,
maçãs e frésia, e a abracei com força em retorno. Eu senti falta dela mais do que
eu poderia ter colocado em palavras, e, tanto quanto eu estava preocupada,
ninguém jamais me convenceria a deixá-la por qualquer período de tempo
novamente.
— O que foi aquilo? — Disse uma segunda voz. Ava. Minha melhor amiga
e a razão que eu conheci Henry em primeiro lugar. Outra que tinha mentido para
mim sobre ser mortal.
— Kate, parecia que ela estava tendo um ataque.
— Não é nada que não possa ser controlado com um pouco de prática, —
disse minha mãe, tocando minha bochecha. — Eu vejo que você teve abundância
de sol. Será que a Grécia a tratou bem? — Ela me deixou ir, e Ava voou para um
abraço e um guincho.
— Você está linda! Olhe para o seu bronzeado. Estou tão ciumenta. Será
que você pintou o cabelo? Parece mais claro.
Eu procurei por cima do ombro, mas o caminho que levava ao palácio
obsidiana estava vazio. Henry não tinha vindo para me cumprimentar depois de
tudo. Meu coração afundou, e eu evitava olhar para James. Eu não queria vê-lo
se vangloriar. — O que você quer dizer, algo que pode ser controlado com um
pouco de prática?
— Seu dom, é claro. — O sorriso da minha mãe vacilou. — Diga-me que
Henry explicou isso para você no inverno passado. — Eu cerrei os dentes.
— De agora em diante, que tal todo mundo assumir que se era para Henry
me dizer algo, ele não disse. Soa como um plano?
— Provavelmente não achou que você sobreviveria tempo suficiente para
que importasse, — murmurou James.
Ava ignorou e enrolou seu braço no meu. — Você está mal-humorada
hoje.
— Você estaria também se você caísse por um buraco no chão e acabasse
no inferno, — eu disse.
Minha mãe pegou meu outro braço, e James arrastou atrás de nós
quando nós fomos em direção ao palácio. — Não deixe que Henry ouça você
chamar esse lugar de inferno, — disse ela. — Ele é muito sensível sobre esse tipo
de coisa. Este é o Submundo, não inferno. É onde...
— As pessoas vão depois que morrem, — eu disse. — Eu sei. Ele me disse
pelo menos isso. Onde ele está?
Mesmo quando eu perguntei, eu tinha uma sensação ruim que sabia
exatamente onde ele estava.
— Ele e alguns dos outros tinham um assunto para atender, — disse
minha mãe. — Eles vão estar de volta antes de sua cerimônia de coroação esta
noite.
— Será que o assunto tem algo a ver com um portão gigante e Calliope?
Ava parou, e eu puxei o braço dela, mas seus pés permaneceram
plantados no chão. — Como você sabe disso?
Eu dei de ombros. — Isso é o que eu estava tentando dizer a todos, eu vi,
agorinha.
Na superfície, ter visões como essa teria me conseguido internada, mas
minha mãe não fez tanto como piscar de olhos.
— Sim, querida, isso vai acontecer ao longo do tempo e, eventualmente,
você vai aprender a controlar.
—Ótimo, — eu disse irritada. — Você poderia pelo menos explicar o que é?
— Não há necessidade de ficar chateada, — disse minha mãe, e minha
exasperação imediatamente dissolveu. Ela poderia não estar morrendo mais, mas
depois que eu passei quatro anos a observando balançar no limite entre a vida e
a morte, esqueci de como ficar chateada com ela. Seis meses de distância não ia
mudar isso.
— Sinto muito, — eu disse, a culpa correndo através de mim. Olhei para
James, que ficou no fundo, as mãos enfiadas nos bolsos e seu tufo de cabelos
loiros caindo em seus olhos.
Mas eu queria respostas, não diatribes sobre como eu tinha uma escolha.
— O que está acontecendo? Por que eu podia ver Henry?
Minha mãe colocou os braços em volta dos meus ombros, e eu relaxei
contra ela. — Por que não vamos para dentro, onde é confortável, e então nós
vamos dizer-lhe tudo? — De alguma forma eu duvidava que eu jamais iria
realmente aprender tudo o que estava acontecendo quando vim para a minha
nova família, mas meus jeans estavam úmidos do chão, e quanto mais cedo
chegasse ao palácio, mais cedo eu iria ver Henry. E depois...
E depois?
A oferta de James escorreu de volta para minha mente, circulando meus
pensamentos, até que eu não podia ignorá-la por mais tempo. Ele estava errado.
Ele tinha que estar. Eu tinha sobrevivido, eu tinha passado, e Henry me amava.
Assim que nos víssemos, tudo cairia no lugar, e as coisas estariam normais
novamente. E eu me sentirei como uma idiota por questionar Henry.
O caminho foi mais curto do que eu pensava, inclinando para baixo em
direção a um pátio em frente do palácio. Em vez de camas de flores e árvores, o
chão estava coberto de magníficas joias em cores de arco-íris que brilhavam na
luz.
Muito da mesma forma que os jardins de minha mãe eram arte, isto era
uma obra-prima, e eu não conseguia tirar os olhos dele.
— Persephone projetou, — disse Ava quando nos aproximamos das portas
intimidantes. Eu mordi o interior da minha bochecha para me impedir de uma
réplica rude. Eu nunca tinha considerado o quanto estar no Submundo iria
lembrar Henry de Persephone, e depois que eles passaram milênios juntos, não
havia nenhuma maneira que eu poderia combater cada pedaço dela que
permaneceu em sua vida. Mas eu não estava preparada para enfrentar isso tão
cedo.
Eu tomei uma respiração profunda. Tudo estaria bem. Eu tinha jet-lag,
isso é tudo, e assim que eu tivesse pouco de descanso e quando visse Henry, tudo
voltaria ao normal. Ficar com raiva sobre cada pequena coisa não ia ajudar.
O saguão era nada como eu esperava. Ao contrário da escuridão do
mundo do lado de fora do palácio, era alegre por dentro, com paredes vermelhas e
muitos espelhos como os que pendiam no Éden Manor. Este salão era menor,
porém, masculino de alguma forma. Desde os detalhes de ouro ao redor dos
espelhos ao mobiliário de couro marrom espalhados por todo o corredor, tudo
estava quente. O palácio era enorme, mas por dentro, não parecia nem um pouco
impressionado com ele mesmo.
Eu gostei.
— Aqui é onde eu vou viver durante o inverno? — Eu disse, e minha mãe
concordou.
— Esta é a ala privada do palácio, feita para você, Henry e seus
convidados.
— Há convidados?
Ava pulou ao meu lado, quase arrancando meu braço para fora de seu
encaixe. — Como nós, boba. Todo o conselho está aqui agora para ver a sua
coroação.
— Eles estão? — Minha boca ficou seca. — Eu pensei que só ia ser eu e
Henry. E vocês.
— É claro que todo o conselho está aqui. Henry irá coroar uma nova
rainha do Submundo esta noite, — disse minha mãe, estabelecendo a mão nas
minhas costas para me levar até outro corredor. — Isso não acontece com muita
frequência. — Ela parecia saber exatamente onde estava indo, e trepidação
borbulhou dentro de mim. Ela devia ter gastado tempo aqui com Persephone, que
tinha sido sua filha - minha irmã - e a familiaridade dela com o palácio foi mais
um lembrete de quão profundamente enraizada Persephone tinha sido na vida de
Henry. Quão profundamente arraigada sua memória ainda estava.
— Seu quarto, — disse Ava, apontando para uma porta ricamente
decorada no final do corredor. Eu queria perguntar-lhe como ela sabia disso, mas
quando nos aproximamos e eu reconheci os entalhes de madeira, quase
engasguei.
Ela era exatamente como a do Éden que levava para o quarto de
Persephone. Na metade superior estava um belo prado, e de alguma forma o
artista conseguiu criar luz solar na madeira. Abaixo estava o Submundo com
seus pilares de pedra e jardins de joias, e era tudo que eu pude falar foi. — Você
acha que Henry se importaria se eu fizesse alguma redecoração?
Ava e minha mãe trocaram um olhar confuso, mas James, que tinha
ficado quieto até então, deu um passo adiante.
Eu não queria sua simpatia embora. Ou a sua compreensão.
Henry estava ocupado, não me ignorando, e ele não poderia ter sabido
como uma simples porta seria como um soco no estômago para mim. Eu não
queria que ele escolhesse entre mim e sua esposa morta, eu só queria ser uma
parte mais importante de sua vida agora. Talvez demoraria algum tempo, mas
essa era hora que eu estava disposta a interferir se Henry estava, também.
Eu balancei a cabeça. É claro que Henry iria querer isso.
Ele tinha sido o único a se aproximar de mim ao lado do rio, para
começar. Ele tinha sido o único a me proteger durante meu tempo no Éden. Ele
foi o único que tinha ajudado a me trazer de volta dos mortos. Ele foi o único que
tinha ficado ao lado de minha cama quase todas as horas de vigília depois. Ele se
importava. Ele tinha que se importar.
Isso tudo foi antes de ter sido concedida à imortalidade pelo conselho,
disse uma voz pequena que parecia suspeitamente como a de James na parte de
trás da minha mente. Minha mãe era a irmã favorita de Henry. Talvez ele
estivesse apenas tentando me proteger por causa dela.
Eu forcei o pensamento de lado. Eu estava em pânico por nada.
Henry iria aparecer em breve, e ele não podia evitar-me todo o inverno.
Mesmo se ele tinha alguma apreensão sobre essa coisa toda, nós seriamos
capazes de conversar sobre isso. Não era como se eu não estivesse nervosa,
também.
— Esta é sua casa também agora, e você deve fazer o que mais lhe agrada,
— disse James. — Se Henry realmente te ama, ele vai entender.
— Como você pode dizer algo assim? — Disse Ava, estarrecida. — Claro
que ele a ama. Eu deveria saber.
— Sim, — ele disse secamente. — Você deveria. Se todas vão me
desculpar, eu tenho coisas para fazer antes da cerimônia. — Ele me beijou na
bochecha antes de passar por Ava e minha mãe calmamente, e nós três o
assistimos ir. Eu tentei não deixar isso sob a minha pele, mas o pensamento de
ficar seis meses sem ver James, depois de passar todo o verão com ele foi difícil
de engolir. Não importava o que seus sentimentos por mim podem ou não ter
sido, ele ainda era meu amigo.
— Eu vou ver o que está acontecendo com ele, — disse minha mãe uma
vez James estava fora de vista.
— Obrigada, — eu disse. — Ele não estava assim quando estávamos na
Grécia.
Ela suspirou. — Não, eu imagino que ele não estava. — Dando-me um
abraço, ela acrescentou, — eu vou verificar você antes da cerimônia. Ava, fique
com ela até a volta de Henry.
— Planejava isso, — disse Ava, e uma vez que a minha mãe tinha corrido
atrás de James, Ava virou para mim com um sorriso malicioso. — Então, quer ver
onde a mágica acontece?
O olhar na minha cara a mandou em uma crise de riso, e foi só quando eu
ameacei seguir a minha mãe que ela ficou sóbria.
— Sinto muito, é só... você é tão puritana. — Eu não sabia dignificar isso
com uma resposta. A única vez que eu tinha dormido com Henry tinha sido
depois de ser dosada com um afrodisíaco, graças a Calliope. Enquanto o
pensamento de eu falhar em um teste teve Henry furioso, parte de mim tinha
esperança que ele tinha gostado tanto quanto eu. Nós não tínhamos dormido
juntos desde então, mas agora que estávamos casados, poderia ser algo que ele
estava esperando.
Eu não tinha certeza o que era pior: o pensamento de Henry me
esperando para dormir com ele, ou o pensamento de Henry não querer dormir
comigo.
Ava finalmente empurrou a porta aberta, revelando uma suíte grande do
outro lado. O tapete era suave e cor de creme e as paredes foram pintadas do
mesmo vermelho rico como o hall de entrada. No centro havia uma enorme cama
em uma plataforma elevada, e os lençóis eram douradas. Era perfeita, e eu me
odiava por gostar tanto.
— Por favor, diga-me que alguém mudou os lençóis desde que Persephone
viveu aqui, — eu murmurei, e Ava riu.
— É claro. Eu até falei para Henry me deixar redecorar para você. Eu não
achei que a porta iria incomodá-la, senão eu teria mudado isso, também.
O nó no estômago desfez. — Da próxima vez, comece com isso, — eu
disse, vagando ao redor do quarto para inspecioná-lo. Mobília estava espalhada
por toda parte, incluindo duas namoradeiras, uma escrivaninha e uma
penteadeira, e uma grande janela de sacada com vista para o pátio e jardim de
joias. Eu puxei as cortinas douradas fechadas.
Um latido agudo chamou a minha atenção, e eu me virei a tempo de ver
Pogo, o cachorro que Henry tinha me dado no último inverno, vir correndo para
mim. Suas perninhas não poderiam mantê-lo estável, e abanou o rabo
entusiasticamente que eu estava com medo de batê-lo contra alguma coisa.
— Pogo, — eu murmurei, pegando-o e embalando-o em meu peito. — Você
não cresceu nem um pouco, não é? Onde está o Cerberus? — Ele lambeu meu
rosto, e eu sorri. Finalmente algo estava indo bem.
— Cerberus tem seu próprio trabalho aqui, — disse Ava do outro lado do
quarto. — Eu cuidei de Pogo para você, lhe ensinei alguns truques novos e tudo
mais.
Meu sorriso desapareceu. — Eu pensei que Henry ia tomar conta dele. —
Ele tinha pegado Pogo para mim porque ele queria me mostrar que tinha a
intenção que nossa relação durasse e, em vez de cuidar dele como ele prometeu,
ele o entregou para a Ava durante o verão? Abracei Pogo mais apertado.
— Ele fica ocupado, às vezes, — disse Ava, e eu cruzei o quarto para me
juntar a ela. — Agora, este é o seu armário. Eu até convenci Henry em deixar-me
escolher a sua roupa em vez de Ella.
Ella, que junto com Calliope tinham me assistido em toda a minha estadia
no Éden, havia passado os primeiros poucos meses vestindo-me nas modas mais
dolorosas dos últimos milhares de anos apenas para fazer-me contorcer. Eu
preferia ter passado os próximos seis meses envolvida em um lençol ao invés de
vestir saias rodadas e espartilhos que Ella teria, sem dúvida, previstos para mim.
Ava abriu uma porta, e meus olhos se arregalaram. Era o maior armário
que eu já vi, completo com linhas de jeans, pilhas de blusas e casacos, e uma
parede inteira coberta de sapatos. Havia também uma linha de vestidos
arrumados, mas Ava tinha misericordiosamente os mantidos a um mínimo.
— Eu imaginei que você não gostaria deles, então eu roubei a maioria
deles para mim, — ela disse enquanto eu corri minha mão sobre um vestido
prateado cintilante que eu quase teria considerado vestir se tivesse um lugar para
ir. — Não diga ao Henry.
— Eu não vou. — Sentei-me ao lado da parede de sapatos e inspecionei o
par mais próximo. Tamanho sete, como eu. — Se eu te contar uma coisa, você
promete não contar a ninguém? — Ela estava ao meu lado em um instante, e a
fome em seus olhos para fofocas quase me fez reconsiderar. Mas eu não tinha
mais ninguém para falar sem ser com a minha mãe e James, e eu estava com
vergonha de ir para a minha mãe sobre isso, e James, bem, ele era uma espécie
de problema.
— É claro, — disse ela em um sussurro conspiratório. — Você sabe que
você pode me dizer qualquer coisa, e eu não vou contar a ninguém. — Eu queria
acreditar nela, mas eu ainda lembrava a garota no Éden que me levou a arrombar
a propriedade de Henry, só para tê-la tentando me abandonar lá. Seu golpe tinha
dado errado, levando Ava a morrer e a oferta de Henry para curá-la se eu ficasse
com ele seis meses por ano.
Desde então, porém, ela se tornou uma das minhas melhores amigas, e eu
não podia ignorar isso.
— É sobre James, — eu disse, olhando para o salto que eu segurava.
Ele iria perfeitamente com o vestido prateado. — Ele disse que eu tinha
uma escolha. Que eu não tinha que vir aqui se eu não quisesse. — Eu parei antes
de mencionar a parte onde ele se ofereceu para ir comigo. — Eu acho que ele está
com ciúmes de Henry. — Em vez de rir na minha cara, Ava sentou no chão ao
meu lado.
— É uma possibilidade. Nenhum de nós estava feliz com a ideia de Henry
desaparecer, mas pelo menos James teria conseguido algo.
Eu balancei a cabeça. — Eu não quero dizer com ciúmes dele governar o
Submundo. Quero dizer, ciúmes que ele me tem.
— Oh. — Olhos Ava se arregalaram. — Oh. Você acha que James...?
Eu dei de ombros. — É uma espécie de parece, não é? Nós passamos o
verão inteiro juntos. Ele estava tão feliz e relaxado e James enquanto estávamos
na Grécia, mas agora que estamos de volta aqui, ele ficou todo mal-humorado e
adequado e não quer estar perto de mim. E eu acho que é por causa de Henry.
— Porque Henry tem você e ele não tem. — Ava bateu o dedo contra seu
rosto de porcelana. — Você sabe quem eu sou, não é?
Eu olhei para ela. Isso foi uma pegadinha? — Sim. Você é Ava.
— E que deusa sou? — Disse ela, girando seu cabelo loiro por cima do
ombro.
Ninguém nunca tinha me dito, mas fora dos 14 membros do conselho, Ava
era de longe o mais fácil de combinar com o seu homólogo olímpico. Ao lado de
Henry, é claro.
— Deusa do amor.
Ela sorriu. — Muito bom, embora você esqueceu da beleza e do sexo.
Sim, ela era definitivamente Afrodite. — Qual é o seu ponto? — Na maioria
das vezes eu conseguia esquecer quão deslumbrante Ava era, mas quando eu me
lembrava, era difícil sentir como algo além de um nódulo pouco atraente ao lado
dela.
— Meu ponto é que eu tenho certos dons, e posso dizer que James ama
você. Mas todos nós amamos você, Kate. Você é parte da família agora.
— Que tipo de amor é? Para James, eu quero dizer. — Ela suspirou
dramaticamente e me deu um tapinha no joelho.
— Dizer a você seria uma terrível invasão da privacidade de James, e eu
teria que aguentá-lo no futuro.
Revirei os olhos. — Desde quando você se preocupa com privacidade?
— Desde que Henry chegou dez segundos atrás. — Eu me levantei.
Borboletas invadiram o meu estômago enquanto eu corri para fora do armário,
mas parei quando eu vi Henry sentado na beira da cama, com as mãos
entrelaçadas e seu rosto de pedra. Ele parecia pálido e exausto, e eu pensei que
eu vi um leve tremor em suas mãos, mas não foi o que prendeu minha atenção.
Um corte profundo percorria seu pescoço e desaparecia sob a camisa, mas
o mais notável era a mancha de vermelho em sua pele.
Ele estava sangrando.
03
COROAÇÃO

Eu não sabia muito sobre ser um deus, mas eu sabia que os deuses não
deveriam sangrar.
Eles poderiam adoecer ou ficar feridos quando adotavam corpos mortais,
por curtos períodos de tempo, como Ava tinha feito quando eu primeiramente a
conheci no Éden e como minha mãe tinha feito pelos primeiros 18 anos da minha
vida. Mas uma das vantagens principais de ser imortal é não se preocupar com
as coisas irritantes como o sangue e a morte.
— Henry! — Eu voei para o seu lado, meus dedos pairando acima do corte
em sua pele. Ele precisava urgentemente levar pontos, mas como alguém iria
supostamente curar um deus? — O que aconteceu? — Ele recuou quando eu
gentilmente baixei a gola para expor o resto da ferida. Sua camisa preta estava
molhada de sangue, e sem pedir comecei a desabotoá-la.
— Vou..Vou pegar Theo, — disse Ava, e ela correu para fora da sala, Pogo
em seus calcanhares, deixando-me para cuidar de Henry sozinha.
— Não é nada, — disse Henry, mas a tensão em sua mandíbula disse o
contrário. Uma vez que eu desabotoei a camisa, eu tirei o tecido, expondo um
corte que corria no peito e na metade de seu umbigo.
— Isso não parece como nada, — eu disse. — Deite-se. — Henry começou
a protestar, mas eu dei-lhe um olhar severo, e ele cedeu. Uma vez que ele estava
deitado de costas, eu pairei sobre ele, tentando descobrir algo que eu poderia
fazer para ajudar, mas ele não estava sangrando tanto que eu precisasse aplicar
pressão, e eu não queria machucá-lo mais do que ele já estava.
— Como isso aconteceu? Eu pensei que os deuses não deveriam se
machucar desse jeito.
— Normalmente, nós não machucamos. — Os cantos de seus lábios
levantaram, para um leve sorriso. — Você parece bem, Kate. Como foi o seu
verão?
Ele estava sangrando por toda a cama, e ele queria saber como meu verão
tinha ido. — Comparado a como o meu outono está indo? Fantástico. Eu não
posso fazer alguma coisa? Você está sangrando nos lençóis.
A cama era a última das minhas preocupações, mas foi o suficiente para
distrair Henry de fazer mais perguntas. — Minhas desculpas. Eu vou ter certeza
de limpá-lo antes de hoje à noite. Theo vai estar aqui em breve, e, ah, aí está
você.
Eu virei a tempo de ver Theo entrar. A maioria do conselho agiu como o
pessoal no Éden Manor, e Theo havia assumido o cargo de mestre da Guarda.
Segurança, eu pensei, mas quando eu o vi caminhar através da porta,
sobrepondo sobre Ava quando ela sorrateiramente entrou atrás dele, eu percebi
que o seu papel poderia ter prorrogado para além disso. Henry foi capaz de me
curar, ele tinha provado isso, mas aparentemente ele não podia curar a si
mesmo. Então, novamente, ele não deveria ser capaz de se machucar em primeiro
lugar.
— Onde estão os outros? — Disse Theo. Quando saí de seu caminho, eu
abri minha boca para perguntar quem eram os outros, mas rapidamente fechei.
Walter e Phillip, irmãos de Henry. As mesmas pessoas que eu tinha visto na
minha visão.
— Eles estão vindo, — disse Henry. Theo colocou suas mãos sobre a
ferida, e a expressão de dor do Henry relaxou. — Eles insistiram que eu viesse na
frente.
— Eles estão feridos? — Disse Theo, e Henry balançou a cabeça.
— O ataque foi principalmente focado em mim.
Eu assisti Theo ansiosamente, à procura de sinais de que o que ele estava
fazendo estava funcionando. Em primeiro eu não vi nada, mas então, depois de
alguns segundos, um brilho estranho formou entre suas mãos e a pele de Henry.
Quando ele passou as mãos sobre a ferida, a fechou, deixando para trás uma fina
cicatriz.
Essa era toda a evidência que eu precisava saber que isto não era uma
ocorrência diária. Henry não tinha outras cicatrizes.
— Pronto, — disse Theo, uma vez que ele terminou. Ele puxou um lenço
do bolso e limpou as mãos. — Eu recomendaria pegar leve esta tarde no caso de
haver qualquer dano que eu não peguei.
— Não há, — disse Henry quando ele se sentou. Ele começou a puxar sua
camisa de volta, mas ele deve ter sentido quão úmida estava, porque ele a colocou
de lado. — Obrigado, Theo. Ava. — Theo não perdeu tempo para sair, e Ava
permaneceu atrás dele, com a sobrancelha franzida de preocupação. Ela
empurrou a cabeça para Henry, e eu balancei a cabeça. Por mais que eu queria
ela por aqui, agora que Henry estava aqui, não havia razão para ela ficar.
Sentei-me na beira da cama e corri os meus dedos através da pele do Pogo
quando Henry dobrou a camisa arruinada. Uma dúzia de perguntas passou pela
minha mente, mas eu não sabia por onde começar, então deixei para ele.
Eventualmente ele teria que falar comigo, mesmo que ele não quisesse me dizer o
que realmente tinha acontecido.
Quase um minuto se passou antes que ele falasse, e nesse tempo eu tinha
enfiado as mãos entre os joelhos, nervosa demais para tentar fingir não estar. —
Você está ansiosa para a cerimônia de hoje à noite? — Ele disse, e eu o olhei
boquiaberta.
— Nós não nos vimos em seis meses, você está coberto de sangue, e é
sobre isso que você quer conversar?
Ele deu de ombros. — É tão bom tema como qualquer outro.
— Não, — eu disse, cavando minhas unhas em meu jeans. — Não é
verdade. Por que não vamos começar com a forma como você conseguiu se
machucar tão mal quando você deveria ser imortal? — Ele levantou-se e dirigiu-
se para uma porta ao lado do meu armário.
Quando ele abriu, eu vi que ele tinha um guarda-roupa dele, só que
menor e mais monocromático. Ele pegou uma camisa preta que era idêntica a
que ele tinha descartado, mas antes de colocá-la, ele se dirigiu para a outra
porta.
O banheiro.
— Eu vou ajudar você, — eu disse, pulando da cama e correndo atrás
dele. Ele não se opôs, e eu o segui em um grande banheiro decorado em preto e
dourado. Vendo uma toalha, eu peguei e abri a torneira. — Eu não esperava que
o Submundo teria encanamento.
Isso, pelo menos, teve um sorriso fraco para fora dele. — Ava pode ser
muito convincente, às vezes.
Eu limpei o sangue que manchava sua pele, tendo o cuidado de evitar a
fina cicatriz que agora corria em seu peito. Henry ficou imóvel, e quando olhei
para ele, eu vi ele olhando para mim com um olhar estranhamente suave.
— O que? — Eu disse, corando. — Tenho alguma coisa na minha cara?
— Não, — ele disse, e tão rapidamente como eu tinha notado, o olhar se
foi. — Você perguntou como eu consegui isso. Houve um problema que eu tinha
que cuidar, e enquanto há poucas coisas que podem ferir a minha família, eles
estão lá fora.
— Como o quê? — Eu disse, enxaguando o pano. A água ficou rosa
quando ela rodou pelo ralo.
— Nada que você deveria estar preocupada. — Maravilhoso.
Aparentemente, enquanto eu estava ficando bronzeada na Grécia, ele tinha
voltado para o mesmo Henry que eu conheci há um ano, em vez do que eu tinha
casado. Eu olhei para ele.
— Sério? Isso é tudo que você vai me dizer? Você prometeu que nunca
mentiria para mim.
— Eu não estou mentindo...
— Você disse que não iria manter segredos de mim, — retruquei. —
Então, qual é? Você vai me tratar como uma menina frágil que você precisa
proteger a todo custo, ou você vai me tratar como sua parceira? Porque em
algumas horas, eu vou ser a rainha deste lugar, e eu nunca vou ser capaz de
ajudá-lo a governar corretamente se você sempre manter tudo dentro. Eu tenho o
direito de saber.
Silêncio. Eu suspirei.
— Isso tem alguma coisa a ver com a Calliope?
Henry ficou tenso. — Quanto a sua mãe lhe disse?
Minha mãe sabia disso? — Nada, — eu disse, e quando eu percebi que eu
tinha que dizer a ele sobre o que tinha acontecido mais cedo ou mais tarde, eu fiz
uma careta. — Eu tive uma visão, eu acho. Eu não sei o que mais lhe chamar.
Quando James me trouxe até aqui, de repente eu vi você, Walter e Phillip
brigando, ou alguma coisa. Eu não sei o que era, mas você estava na frente do
portão, e Calliope mostrou-se atrás de você e lhe disse que era inútil, porque ele
já estava acordado.
O silêncio pareceu se estender para sempre. Não foi até que eu peguei a
toalha de novo que ele respondeu, e quando o fez, ele falou com uma estranha
calma.
— Então esse é o seu dom. Eu tinha me perguntado.
— Dom? — Minha mãe tinha mencionado a mesma coisa, mas nunca
tinha chegado a explicar.
— Junto com a imortalidade vêm certos talentos, — disse Henry. — Isso
varia de indivíduo para indivíduo, e, muitas vezes, coincide com o que nós
representamos. Por exemplo, a cura não é apenas o talento de Theo. Como o deus
da música e da poesia, ele também tem afinação perfeita.
Ele estava tentando me fazer rir. Isso tinha que ser um bom sinal. Eu
consegui um pequeno sorriso enquanto um pouco ansiedade drenava do meu
corpo. — Tenho certeza de que vem a calhar o tempo todo.
— Ele faz o entretenimento durante encontros familiares mais suportáveis.
Outro momento se passou em silêncio. Isso deve ter sido o que James quis
dizer sobre nunca se perder. A capacidade de minha mãe para trazer a vida de
até mesmo o pedaço mais negligenciado de terra, a capacidade de Henry para
viajar grandes distâncias em um piscar olhos, de que outra forma ele poderia ter
viajado através do Submundo?
— Por que eu posso ver as coisas que estão acontecendo em outros
lugares? — Disse. — Qual é a utilidade disso? Isso é suposto me deixar melhor
em decidir os destinos das pessoas?
— Sim, e vai ter outras utilizações, também. Uma vez que você for
coroada, você vai começar a desenvolver outros poderes, — disse Henry. — Eu
vou ajudá-la tanto quanto eu sou capaz, e com o tempo você vai aprender a
controlá-los.
Então, em cima de aprender tudo sobre o Submundo, eu teria que lidar
com habilidades incontroláveis, também.
Não que a ideia de ser capaz de fazer coisas divinas não era emocionante,
mas eu não gosto da ideia de ter visões, sem aviso prévio. Não quando elas me
davam uma dor de cabeça forte depois. — Quais serão as minhas habilidades?
— Eu não estou certo. As coisas que Persephone podia fazer não
necessariamente transferem para você.
Meu coração se afundou. Ao ritmo que isto ia, eu nunca iria escapar da
sombra de Persephone. — O que ela podia fazer? — Eu disse, mesmo que ela
fosse a última coisa que eu queria falar. — Ela podia ver as coisas?
— Sim. Suas habilidades eram muito como as minhas. — A sugestão de
um sorriso apareceu em seu rosto, e eu tentei me convencer de que era porque o
sangue tinha quase desaparecido. Não porque ele estava pensando nela. — Ela
podia viajar. Ela também tinha um talento para contar uma verdade de uma
mentira, e ela podia criar, como todos nós podemos.
— Criar?
Ele estendeu a mão, e um momento depois, uma flor feita de joias
apareceu na palma da mão vazia. Exatamente como as do jardim exterior. — Para
você.
Eu peguei e examinei as pétalas delicadas feitas de quartzo rosa. Situado
entre eles estavam minúsculas pérolas creme, e a haste foi feita de metal que era
mais leve que o ar. Eu toquei a flor ao meu nariz, mas cheirava a nada. Tão
impressionante como ela era, não era a coisa real.
— Meus irmãos, irmãs e eu somos muito mais poderosos do que os nossos
descendentes, — disse ele. — A cada geração, os dons crescem menos potentes.
Meu estômago agitou. Nossos descendentes, não deles. Então, novamente,
Henry sempre os agrupou juntos, como se fossem uma única entidade, em vez de
seis seres individuais. — Você... tem filhos? — Eu disse timidamente.
Era humilhante, percebendo que eu sabia muito pouco sobre ele. Depois
de estudar muito e bem no ano passado, eu sabia o que os mitos me ensinaram e
o que ele mesmo tinha me dito, mas os mitos nem sempre foram precisos, e
Henry tinha sido menos que aberto sobre si mesmo. Calliope tinha me dito uma
vez que acreditava-se que Henry nunca tinha dormido com ninguém antes de
mim, nem mesmo Persephone, mas Calliope acabou por ser menos que confiável.
— Não, eu não tenho, — disse Henry, e eu quase engasguei sugando de
volta o meu suspiro de alívio.
— Você... — eu parei, mas Henry assentiu encorajando. — Você quer um
dia? Algumas décadas ou séculos a partir de agora?
Ele me deu um sorriso pálido que não alcançou seus olhos. — Vamos ver
como você se sente depois. Eu não desejo selá-la com outra responsabilidade que
você não pediu. Agora venha, temos que prepará-la.
Eu fiz uma careta. O que isso quer dizer? Será que ele achou que eu não
queria isso, casar com ele e tudo que vinha junto com isso?
As palavras de James flutuaram de volta para mim. Esta foi a escolha que
ele tinha falado, não foi? Ele sabia que Henry estava tendo dúvidas. Ele sabia que
Henry pensava que ele era um fardo para mim, ou que eu ia puxar uma de
Persephone e deixá-lo. Pior, James tentou convencer-me.
— Você sabe que eu quero isso, certo? — Disse. — Não importa o que
alguém já disse...
— Ninguém disse uma palavra sobre isso para mim, — disse Henry. —
Mesmo sua mãe tem respeitado meus limites. Por uma vez, — acrescentou em voz
baixa. — Mas este é o início de nosso reinado juntos. Nós não precisamos tomar
essas decisões de imediato.
O nosso reinado juntos, não a nossa vida juntos. Outra distinção, mas
desta vez não foi um deslize da língua. Minha garganta apertou. — Não quando
você acha que eu poderia desistir disso de qualquer maneira, certo?
Ele hesitou. — Eu não sou o seu captor. Se você quiser sair, você pode.
— Não, você não é meu captor. Você deveria ser meu marido, — eu atirei.
— Você quer que eu vá embora? Você quer governar sozinho ou... ou desaparecer
ou o que vai acontecer com você se eu for?
Eu queria que ele gritasse comigo. Eu queria que ele estivesse lívido.
Eu queria fazê-lo sentir as emoções avassaladoras que ele provocava em
mim quando ele era assim, quando eu estava tão desesperada pela aprovação que
ele se recusava a me dar, que eu estava praticamente arrancando meus cabelos.
Em vez disso, ele me olhou com um olhar irritantemente calmo e disse
calmamente: — Eu gostaria que você nos desse tempo para nos ajustarmos a
isso. É uma vida nova para nós dois, e eu gostaria de crescer dentro dela juntos
em vez de guerra. Não há necessidade de pressa. Nós temos a eternidade.
Foi racional. Essa foi a pior parte sobre isso, eu não tinha nada para
retrucar. Ele estava sendo o maduro, dando-nos espaço para ajustar a isso, e eu
estava sendo a única que se agarrou a isso, porque mesmo que eu confiava nele
com a minha vida, eu não confiava nele o suficiente para me amar do jeito que eu
queria. E nesse momento, parte de mim o odiava por isso.
— Só me diga se você quer que eu esteja aqui ou não, — sussurrei. — Por
favor.
Ele abaixou a cabeça, como se quisesse me beijar, mas ele se afastou no
último segundo. — O que eu quero nunca deveria ditar o que você faz. Eu quero
que você seja feliz, e enquanto você estiver satisfeita, eu vou estar, também. —
Isso não foi uma resposta e ele sabia disso, mas eu esvaziei e segui Henry para o
quarto, onde ele colocou a sua camisa. Eu não queria brigar, também. Eu sabia
que as coisas não iriam ser perfeitas, e talvez a culpa fosse de James por me fazer
duvidar de Henry, para começar, ou talvez fosse os lembretes de Persephone em
todo lugar que eu olhava, mas tudo que eu queria era um pouco de tranquilidade.
Um toque. Um beijo. Uma palavra.
Algo.
Eu escovava meus dedos contra a flor de joias no bolso. Isso tinha que ser
o suficiente por agora.
— Eu presumo que Ava mostrou-lhe o armário, — disse Henry. — Você
pode escolher o que quiser para vestir, mas como a cerimônia esta noite é
considerada formal, algo mais arrumado do que você costuma preferir seria mais
apropriado.
— Certo, — eu disse suavemente. — Posso perguntar uma coisa?
— É claro.
Eu hesitei. Será que ele me ama? Ele ainda está apaixonado por
Persephone? Será que ele ainda quer que eu seja coroada sua rainha, ou eu era
simplesmente uma substituta para a minha irmã? Por que ele não veio para me
ver enquanto eu estava na Grécia com James?
Mas a coragem que tomei para me fazer essas perguntas tinha
desaparecido. Cavei fundo, tentando achar alguns restos do que eu imaginava os
inevitáveis seis meses de tensão e de solidão se eu não fizesse, mas eu vim vazia.
Cada pedaço de mim estava encharcado de medo doentio de que Henry não me
queria aqui, depois de tudo, que ele só fez isso porque a minha mãe e o resto do
conselho tinha o forçado. Que eu seria para Henry o que ele tinha sido para
Persephone: nada, exceto uma obrigação. Então eu me afastei.
— Qual vestido você prefere?
Quando Henry levou-me para dentro do armário para examinar a
prateleira de vestidos formais, peguei a mão dele, mas no momento em que o
toquei, ele se afastou. Em vez disso ele levantou o vestido prateado que eu
admirei antes. — Que tal esse? — Náusea tomou conta de mim. Talvez ele
simplesmente pegou o vestido e não tinha percebido que eu estava chegando para
ele, mas metade do tempo, ele parecia saber o movimento que eu ia fazer antes de
mim. Não importa como eu justifiquei, eu não conseguia afastar a sensação de
que ele tinha feito isso de propósito.
Mas continuando a brigar só lhe daria uma desculpa para me empurrar
para longe, e eu tive o suficiente disso por um dia. Hoje à noite, após a cerimônia,
depois de tudo resolvido, então poderíamos conversar, e eu não lhe daria a
chance de ir embora.
— Esse é bom, — eu disse, forçando um sorriso. Peguei o vestido, mas
antes que pudesse me mover em direção à tela de troca, um grande estrondo
ecoou do quarto, e eu deixei cair o cabide.
James explodiu dentro do armário, parando quando ele me viu lá com
Henry. Seus ombros caíram e todo o ar parecia deixar seus pulmões, e eu podia
jurar que vi um flash de ressentimento em seu rosto. Mas antes que eu pudesse
dizer uma palavra, isso se foi, substituído pelo mesmo vazio que tinha estado lá
antes.
— Houve outro ataque.
Henry endureceu, e qualquer esperança que eu tinha de uma tarde com
ele se foi. Ele pegou o vestido e entregou-o a mim, e um momento ele estava ao
meu lado, e no próximo ele estava no quarto.
— Diga-lhes para continuar os preparativos para a cerimônia, — disse
Henry quando ele terminou de abotoar a camisa. — James e eu voltaremos antes
de começar.
Eu olhei para ele. — Você vai sair de novo? Depois de quase sangrar até a
morte?
Seus lábios formaram uma linha fina. — É meu dever. Isso não vai
demorar muito.
— E se o que te machucou dessa vez torne as coisas ainda piores?
— Não vai, — disse Henry categoricamente. — Faça o que eu digo e não se
preocupe com isso. Voltaremos em breve. — Eu bufei indignada. Fazer o que ele
disse? Durante o meu tempo no Éden, ele deu-me ordens para me manter
segura, mas nós deveríamos ser parceiros agora. Mandar em mim não estava
bem. Se essa é a maneira que ele ia jogar, então as coisas iam ter que mudar. Eu
não era mais uma mortal indefesa. E já era tempo de nós dois começarmos a agir
como tal.
Eu não tive tempo para expressar meus protestos. James pelo menos teve
a decência de me dar um olhar de desculpas, mas a expressão de Henry estava
em branco enquanto ambos piscaram fora de vista, deixando-me sozinha no
quarto. Algo dentro de mim arrancou quando percebi que essas poderiam ser as
últimas palavras que ouvi Henry dizer, e eu apertei o vestido tão apertado que o
tecido ameaçou rasgar.
— Eu juro, — eu murmurei para Pogo, — Se qualquer um deles morrer de
forma permanente, eu não falarei com eles de novo. — Eu posso não estar no
Éden mais, mas algumas coisas nunca mudavam.
Ava me ajudou a ficar pronta, me sentado na frente da penteadeira e
passando quase uma hora fazendo o meu cabelo. Deixei-a aplicar alguma base e
batom, mas eu coloquei meu pé no chão, quando ela tentou me atacar com
delineador e rímel.
— Vamos, Kate, — disse ela com um beicinho. — Isso é uma coisa de
uma-vez-em-uma-vida. Você tem que parecer absolutamente deslumbrante, ou
então eu nunca iria me perdoar.
— Você está dizendo que eu preciso de maquiagem para ficar bonita? —
Eu disse, e seus olhos perfeitamente feitos se arregalaram.
— Não, claro que não! Eu só queria dizer, eu não quero fazer você parecer
como uma pessoa diferente. Eu só quero fazer o melhor que você pode ser.
— Será que vai fazer a diferença na cerimônia?
— Não, — ela disse com relutância, e pôs fim a isso.
Consegui manter meu pânico reprimido pela próxima meia hora ou assim,
mas quando chegou a hora para a cerimônia e Henry e James não tinham
retornado, isso começou a aumentar até que eu já não podia ignorá-lo. E se
alguma coisa tinha acontecido com eles? Como é que alguém saberia para
ajudar?
— Isso parece familiar, — disse Ava alegremente quando ela me levou
pelos corredores que se estendiam da ala privada para o que eu só poderia
assumir que era o setor público do palácio. As paredes mudaram de vermelho
para creme e dourado, e por um momento eu esqueci que estava no Submundo,
pelo menos até que passamos por uma janela com cortinas, e eu cometi o erro de
olhar para fora.
Teria sido suportável se Henry estivesse lá comigo, mas quando Ava me
parou fora de um conjunto de portas duplas que me lembraram fortemente do
salão de baile no Éden Manor, ainda não havia nenhum sinal de Henry ou
James. Pelo lado positivo, eu finalmente entendi o que Ava quis dizer com
familiar.
— Será que Henry teve o Éden Manor construído como este lugar? — Eu
disse, olhando em volta enquanto esperamos. Tudo, desde a cor do tapete e as
paredes para o caminho que Ava tinha usado para me levar daqui, me lembrou
do Éden. Não era exatamente o mesmo, mas era semelhante o suficiente para que
eu não pudesse deixar de lembrar da noite em que eu tinha sido apresentada ao
conselho quase exatamente um ano atrás.
— Algumas partes, — disse Ava. — O palácio é maior, claro, mas ele
manteve os pedaços importantes.
Pelo menos Henry nunca se perdia em sua própria casa, não importava
quantas ele tinha. — Você acha que ele vai voltar a tempo?
— É claro, — disse ela com uma atitude alegre que eu gostaria de trocar
pelo nó no meu estômago. — Ele não pode perder.
— James provavelmente se mataria para que ele não tivesse de vir. — Eu
fiz uma carranca. — Por que você acha que eles fugiram assim antes da
cerimônia?
Ava acalmou, e ela não chegou a encontrar o meu olho, ela respondeu. —
Porque é o trabalho de Henry.
— Não poderia esperar?
Seus lábios pintados puxaram para baixo em uma carranca. — Você não
pode esperar que Henry seja alguém que não é. Ele não foi casado em mil anos.
Vai levar algum tempo para voltar para ele, mas quando isso acontecer vai valer a
pena. Ele está acostumado a colocar seus deveres primeiro, isso é tudo.
Sua resposta me fez sentir como uma idiota, e o meu rosto queimou
debaixo da camada de maquiagem que ela colocou. — Ele mal me tocou, — disse
eu, brigando para manter minha voz igual. — Já se passaram seis meses, e ele
não pôde sequer me dar um beijo de boas-vindas. Eu não quero que ele mude por
mim, mas seria bom se ele pelo menos tentasse me deixasse saber que ele estava
feliz em me ver. Eu não posso... — As palavras ficaram presas na minha
garganta, e me levou um segundo para trabalhar a minha maneira de contornar o
nó que estava se formando. — Eu não posso gastar metade da minha vida com
alguém que não me ama.
— Oh, Kate. — Ava me abraçou, tomando cuidado para não estragar meu
cabelo ou maquiagem. — É claro que ele te ama. Ele nunca foi muito bom com
carinho, isso é tudo, e ele é um homem. Eles nunca são bons em perceber o que
queremos e agir sobre isso, especialmente quando estiveram sozinhos tanto
quanto Henry. Eu realmente tenho que passar os próximos seis meses tendo
certeza que você sabe o quanto ele ama você?
Eu funguei. — Não, mas seria bom se ele fizesse.
— Dê-lhe tempo, — disse ela. — Ele está provavelmente apenas nervoso
com tudo o que está acontecendo.
— O que está acontecendo? — Eu disse, tentando me afastar o suficiente
para olhar para ela, mas enquanto ela estava sendo gentil, seu aperto era
inquebrável. — O que está acontecendo com Calliope?
Ava ficou tensa. — Henry não lhe disse? — Ela disse em uma voz tímida.
— Não, e se você não disser, eu vou esfregar meu batom em todo o meu
rosto. E o seu.
Ela saltou longe de mim e estendeu as mãos, como se para afastar-me. —
Não se atreva. Eu vou atrasar a cerimônia, se tiver que contar.
— Eu acho que Henry e James já estão fazendo isso por você. — Eu cruzei
os braços. — Diga-me o que está acontecendo. Eu tenho o direito de saber.
Ela suspirou. — Você tem, mas Henry vai me matar se ele descobrir que
eu já lhe disse.
— Então eu não vou dizer-lhe que foi você.
Ava olhou em volta nervosamente e puxou um de seus cachos loiros. —
Eu só estou te dizendo isso porque Henry não está aqui para fazer isso por mim,
porque você realmente deve ouvir isso dele, — disse ela em voz baixa, mas eu
tinha certeza que ela estava me dizendo porque sabia que Henry não iria. —
Calliope escapou. Henry, papai e Phillip não estão dizendo muito sobre o que está
acontecendo, mas, bem, você viu a condição que Henry estava. Obviamente algo
ruim está acontecendo.
Algo ruim o suficiente para cicatrizar um deus. — Como é que Henry se
lesionou, te disseram alguma coisa?
— Disseram alguma coisa sobre o que?
Eu virei. James dirigiu-se para nós, o cabelo uma bagunça e seu casaco
rasgado no ombro, mas pelo menos não parecia ter qualquer sangue neste
momento.
— James! — Eu voei em direção a ele, cabelo e maquiagem que se danem.
Ele reuniu-me em seus braços e me abraçou com força, e eu ouvi o grito
estrangulado de Ava de protesto. Por ela, eu não o beijei na bochecha. — Você
está bem? O que aconteceu?
— Não foi nada, — disse ele. — Um pequeno contratempo. Tudo está bem.
— Você quer dizer que não teve nada a ver com a Calliope? — Eu disse, e
James abriu a boca para responder quando uma segunda voz interrompeu.
— Teve.
James fez uma careta, e ele imediatamente me deixou ir e deu um passo
para o lado. Henry atravessou a sala em minha direção, e ao contrário de James,
ele parecia impecável.
— Você está sangrando até a morte de novo? — Eu disse, incapaz de
manter a frieza da minha voz. Henry ou fingiu não perceber ou estava distraído
demais para se importar.
— Eu estou bem. — Ele acenou com a cabeça em direção às portas duplas
atrás de mim. — Eu vou acompanhá-la para dentro. Nós não devemos manter o
resto do conselho em espera.
Essa foi a última coisa que eu estava preocupada, mas quando Henry
ofereceu-me o braço, eu peguei. A este ritmo, era o máximo de contato que eu
teria com ele durante todo o inverno.
Ava e James passaram pelas portas, e Henry olhou para frente enquanto
esperávamos. Eu o vi com o canto do meu olho, à procura de algum sinal de que
ele tinha sido atacado novamente, mas ele estava tão composto como sempre.
Como se ter sua nova esposa dedicando sua vida a ajudá-lo a governar o
Submundo era uma ocorrência diária.
Meu peito se apertou. Eu não poderia fazer esse tipo de compromisso, se
as coisas não iam mudar. Se ele não ia confiar em mim, se ele não me queria
como sua rainha, então eu não queria fazer isso. — O que está acontecendo com
Calliope, eu tenho o direito de saber.
— Você tem, — disse ele. — Eu garanto a você, assim que nós tivermos
um momento, vou dizer-lhe tudo.
— Temos um momento agora, — eu disse. Eu não queria brigar, não à
beira do momento que a minha vida ia mudar irrevogavelmente para sempre. Mas
era exatamente por isso que eu tinha que fazer isso. — Não parece como se você
confia em mim ou, ou me quer aqui, e eu preciso saber o que você quer. E se você
não fizer isso, então não temos de fazer isso.
Henry hesitou. Eu o observei por qualquer sinal de que ele estava
pensando, mas sua expressão entregou. — Se você não quer...
— Eu quero, — eu disse, desespero agarrando dentro de mim. — Eu quero
ficar. Eu quero fazer isso. Eu quero estar com você. Eu não sei como fazer isso
mais claro. Mas eu preciso que você queira, também, ok? Por favor, me diga que
você me quer aqui para que eu possa fazer isso.
Eu esperava silêncio em troca, e quando ele não respondeu, comecei a me
afastar das portas.
A mão de Henry me parou.
— Kate, — ele disse suavemente. — Foi um dia difícil, e lamento pela
preocupação que eu a coloquei esta tarde. No entanto, não importa como as
coisas se tornem difíceis, não importa quanto tempo leve para nós dois nos
ajustarmos a esta nova vida, nunca duvide que eu quero você aqui. Você é capaz
e perspicaz, e você é mais adequada para ficar ao meu lado como minha rainha
do que qualquer mortal que eu já conheci. — Meu coração se afundou. Suas
razões eram racionais, mas não tinha coração. Se Henry teve seu caminho, eu
estava certa de que a sua rainha era tudo que eu jamais seria para ele, mas não
havia nenhum ponto em pressionar a questão. Ele me respondeu.
— Obrigada, — eu disse enquanto minha voz tremeu. Não foi o suficiente,
mas ele precisava de tempo, e eu gostaria de dar a ele.
A cerimônia estava acontecendo agora. O que aconteceria, se ele decidisse
que nunca poderia me amar mais que uma amiga, depois de tudo?
Você não tem que fazer isso se você não quer, você sabe.
Eu balancei a voz de James para sair da minha cabeça. Não agora. Não
quando eu estava prestes a fazer a única coisa mais importante que eu já fiz na
minha vida.
E não quando estávamos entrando na sala de cair o queixo que eu jamais
vi.
Ela colocava o salão de baile no Éden Manor em vergonha. Pilares de
pedra esculpida indo até o teto alto, que foi feito do mesmo quartzo que corria
pelo lado de fora da caverna, e iluminando cada centímetro do grande salão.
Janelas com pesadas cortinas em preto-e-ouro subiam muito acima da minha
cabeça, e um lustre magnífico pendurado no meio de tudo isso. Pelo menos agora
eu sabia por que o palácio era tão grande. Tinha que ser, a fim de abrigar uma
sala como esta.
O clique dos meus saltos ecoava com cada passo que eu dava em todo o
piso cintilante de mármore. Fileira após fileira de bancos enfrentava a frente,
como se Henry muitas vezes encarava uma multidão, e no final do corredor
solitário de pilares estavam dois tronos. Um deles era feito de diamante negro e
outro branco.
Esta era a sala do trono do Submundo.
Os outros membros do conselho se sentaram na primeira fila de bancos e,
felizmente, todos, exceto James, usavam roupas tão extravagantes como o vestido
que Henry tinha escolhido para mim. Pelo menos eu não teria de suportar o
embaraço de vestir demais em cima de todo o resto.
— Lembre-se de exalar, — disse Henry, seu hálito quente em meu ouvido,
e eu tremi. Ele estava certo, em algum lugar entre a entrada na sala do trono e
chegar ao final do corredor, eu tinha me esquecido de respirar.
Henry virou-nos ao redor de modo que enfrentávamos o conselho, e ele
balançou a cabeça uma vez em saudação. Eu fiz o mesmo e tentei me concentrar
em frente, certa de que se eu chamasse a atenção de alguém, meus nervos iriam
obter o melhor de mim, mas, eventualmente, eu tinha que olhar.
Minha mãe estava sentada no centro, de costas retas e os olhos brilhando,
enquanto observava. James sentou-se no final, e a maneira como ele estava
largado na cadeira, eu sabia que ele não queria estar lá. Eu não o culpava.
Todos pareciam pelo menos moderadamente interessados, mas antes que
eu pudesse absorver, Henry me encarou e estendeu as palmas das mãos para
cima. Eu hesitei, mas ele me deu um aceno encorajador, e eu tremendo coloquei
minhas mãos sobre a dele.
— Kate. — Ele falou em um tom de voz normal, mas reverberou pela sala,
Amplificada pelo poder de Henry ou a estrutura do salão ou ambos. — Como
minha esposa, você tem permissão para assumir as responsabilidades da rainha
do Submundo. Você deve governar de forma justa e sem preconceitos sobre as
almas dos que já partiram do mundo acima, e do equinócio de outono para a
primavera de cada ano, portanto, você deve dedicar-se à tarefa de orientar
aqueles que estão perdidos e proteger todos do dano além de suas vidas eternas.
— Eu não conseguia nem convencer Henry a não sair em missões suicidas. Como
é que eu ia ajudar a proteger cada alma neste lugar?
As mãos de Henry ficaram estranhamente quentes. Uma luz quente e
amarela brilhou entre as nossas, e eu mordi o interior da minha bochecha, mal
capaz de me impedir de se afastar. Levaria mais do que algumas horas para me
acostumar com esse tipo de show informal de poder.
— Você aceita o papel de rainha do Submundo, e você concorda em
manter as responsabilidades e expectativas de tal? — Disse Henry.
Eu hesitei. Isso não era por um ano ou cinco ou mesmo dez; isso era para
sempre. Eu ainda não tinha decidido no que eu queria me formar na faculdade, e
muito menos o que eu queria fazer com o resto da minha vida, mas aqui estava
Henry, dando-me uma escolha.
E por uma fração de segundo, seu olhar encontrou o meu, e eu vi o meu
Henry debaixo do deus distante na frente de mim. Seus olhos brilharam ao luar,
os cantos de seus lábios se contraíram para cima, para o mais fraco dos sorrisos
e parecia brilhar com o calor de dentro para fora. Ele estava olhando para mim
como se tivesse de volta no Éden, como se eu fosse a única pessoa no mundo, e
naquele momento, eu teria rasgado o céu e o inferno para ter certeza de que eu
nunca o perdesse.
Mas depois isso desapareceu de volta para dentro de si, por trás da
máscara que ele usava para proteger o lado dele que Persephone tinha rasgado
em pedaços, e a realidade caiu ao meu redor.
Não foi uma escolha real, não é? Tudo o que eu tinha feito desde que me
mudei para o Éden tinha sido liderado até este momento.
Henry não se casou comigo por amor, e eu sabia disso desde o início. Ele
se casou comigo porque eu tinha passado nos testes que ninguém mais tinha
passado, e porque o conselho havia me concedido a imortalidade. Eu era a única
menina que viveu tempo suficiente para tornar-se sua rainha. E se ele ficasse
assim para o resto da eternidade? E se tudo que eu sempre fui para ele era uma
amiga e uma parceira? A maneira como ele tinha estado no Éden, como ele falou
comigo até altas horas da manhã, como ele tinha me visto de uma maneira que
ninguém mais tinha, como ele arriscou sua própria existência para salvar a
minha e se eu nunca visse esse lado dele de novo?
Então, novamente, e se esta era a prova de que ele precisava de que eu
não ia deixá-lo? E se esse era o empurrão final para mostrar a ele que era seguro
se apaixonar por mim completamente?
Eu engoli. Eu já tomei minha decisão no momento em que me casei com
ele. Eu o amava, e ir embora e deixá-lo desaparecer não era uma opção, não
importava o que me custasse.
Eu poderia fazer isso. Eu tinha que fazer isso. Por Henry, por causa da
minha mãe. Por minha causa. Porque no final, sem Henry, eu não sabia quem eu
era mais, e todas as noites durante meu verão na Grécia, eu tinha ido dormir
sonhando como seria passar o resto da minha existência o amando e sendo
amada em troca. Enquanto eu lhe desse uma chance, isso poderia ser tudo o que
eu esperava que fosse. Henry valia a pena o risco.
Quando abri minha boca para dizer sim, um acidente quebrou o silêncio,
e as janelas altas explodiram, enviando pedaços de vidro voando diretamente
para nós.
04
OS TITÃS

Quando vidro voou através do ar, eu cobri minha cabeça instintivamente,


mas as bordas irregulares ricochetearam na minha pele como se eu fosse feito de
Kevlar.
Certo. Imortal. Eu esquecia essa parte.
— O que... — eu virei para observar os danos, mas antes que eu pudesse
dar uma boa olhada, Henry empurrou-me atrás dele. Eu caí no chão em meio aos
cacos de vidro, e quando eu me levantei, Henry e seus irmãos avançaram para as
janelas quebradas.
Ava apareceu ao meu lado e pegou meu cotovelo. — Vamos lá, — disse ela
com a voz trêmula quando seu rosto ficou pálido. — Nós temos que sair daqui.
— Por quê? — Eu disse, mas um senso de pavor me encheu quando eu
tropecei ao lado dela. Os outros se separaram para nos deixar passar, cada um
posicionado como se estivessem prontos para atacar. Não importava o quanto
eles estavam relutantes para falar sobre ela, eu sabia que isso tinha a ver com
Calliope e a cicatriz fresca escorrendo no peito de Henry.
Ava não me respondeu. Ela praticamente me arrastou ao longo do
corredor, meus saltos derrapando contra o chão enquanto eu tentava recuperar o
equilíbrio, mas não estava funcionando.
Eu caí uma segunda vez, puxando Ava para baixo comigo. Nós pousamos
em uma pilha, mas ela não perdeu tempo levantando-me para os meus pés de
novo. Quando nós mexemos para frente, outro acidente ecoou pelo salão, e uma
névoa brilhante penetrou no palácio. A mesma neblina da minha visão.
Nas últimas horas, parecia ter crescido mais forte.
Isso estalou com tentáculos estranhos de luz, e por um momento, a
neblina pairou na frente de Henry, como se o reconhecesse.
Henry levantou as mãos de novo, exatamente como tinha feito na minha
visão, e os outros membros do conselho formaram um semicírculo atrás dele e de
seus irmãos.
Meu coração batia contra minhas costelas, e além de mim, Ava congelou.
Essa foi a coisa que quase matou Henry, e agora estava atacando todos nós. O
instinto de proteger levantou-se dentro de mim, uma vez que se aproximava de
Henry e minha mãe e de todos que eu amava, mas o que eu poderia fazer para
ajudar a parar isso?
Sem aviso, ela cortou o ar mais rápido do que os membros do conselho
poderiam controlar, mas ela não foi destinada a Henry ou Walter ou Phillip.
Ela foi diretamente para mim e Ava.
Eu não tive tempo para pensar. Empurrando Ava atrás do pilar mais
próximo, eu corri atrás dela, mas não rápido o suficiente.
Dor inacreditável chicoteou meu joelho como um raio, atirando através do
meu corpo, até que me cercou, pulsando a cada batida do meu coração. Eu gritei,
e isso era tudo que eu poderia fazer para ficar de pé.
— Ava, — eu ofeguei, inclinando-me contra o pilar quando gritos do
conselho ecoaram pelo corredor. — Saia daqui. — Ela me olhou sem
compreender. Rangendo os dentes contra a dor, eu a peguei pelo braço e me
forcei à frente, meio mancando, meio pulando em direção à saída. Um rastro de
sangue manchou através do chão atrás de mim, mas a névoa não tentou atacar
novamente.
Alguém gritou atrás de mim, e eu pensei que eu ouvi Henry chamar meu
nome, mas tudo parecia distante quando o meu coração batia. Eu ia morrer. Nós
todos íamos morrer. De alguma forma, de alguma maneira, aquela coisa poderia
matar deuses, e desta vez não haveria vida após a morte. Não para imortais.
Eu não estava pronta para ir. Ainda não. Nem nunca.
Uma eternidade depois, finalmente cheguei às portas, e eu empurrei Ava
através. Tonta com o terror e a agonia, eu agarrei o punho para me manter em pé
e assisti a batalha travada na extremidade oposta da sala.
Doze membros da minha nova família lutavam, enquanto Henry e James
bloqueavam o corredor de uma força que eu não podia ver. Eu podia sentir,
porém, profundamente dentro de meus ossos, e cada nervo do meu corpo. Fosse
o que fosse, parecia abalar o alicerce do Submundo.
Sangue escorria do braço exposto de James enquanto ele lutava para
segurar o monstro com sua mão ilesa. Henry estava ao lado dele, uma força
inabalável, e eu não podia me afastar.
— Irmãos, — gritou Henry. — Na minha contagem! — Os três irmãos se
mudaram em direção ao nevoeiro, e os outros atrás deles em uma formação
triangular, poder imensurável irradiando de cada um deles. Dylan e a ruiva Irene
assumiram a liderança, mas eles não tiveram a chance de atacar.
Num piscar de olhos, Henry e seus irmãos voaram para cima e para fora
da janela, levando o nevoeiro com eles.
Após a explosão da batalha, o silêncio soou em meus ouvidos, e eu me
deixei finalmente cair para o chão. A maioria dos membros restantes do conselho
caídos perto dos tronos, mas James e minha mãe correram para nós.
James chegou a mim primeiro, e ele caiu de joelhos vários metros de
distância, seu impulso o deslizando para mim. — Pegou você, não é? Theo! — Ele
gritou por cima do ombro, e eu estremeci.
— Pare com isso, — eu disse. — Você foi atingido, também.
— Sim, mas a diferença é que, se eu morrer, Henry não vai rasgar o
mundo. — Sua mão boa pairou sobre o meu joelho machucado, sem se atrever a
tocar-me ainda. Eu não o culpo. Sangue escorria pela minha perna, acumulando
no meu calcanhar, e agora que a ameaça se foi, ainda que temporariamente, cada
nervo do meu corpo parecia que estava em chamas. Eu nunca tinha estado em
tanta dor na minha vida, nem mesmo quando Calliope tinha me matado e jogado
meu corpo em um rio.
Minha mãe chegou até nós e observou os danos, mas ela não disse nada.
Em vez disso, ela ficou atrás de mim e tomou Ava pelo cotovelo. Agora que a briga
acabou, um pouco de cor voltou ao rosto de Ava, e quando minha mãe tentou
levá-la para longe, Ava ficou plantada em frente de mim.
— Você me salvou, — disse ela, tremendo como se ela estivesse descalça
na neve. — Ele teria me matado se você não tivesse me empurrado para fora do
caminho.
— Não foi nada, — eu disse. — Você teria feito o mesmo por mim.
Ava ficou em silêncio. Minha mãe moveu-se para empurrá-la para trás de
mim novamente, mas desta vez Ava caiu ao meu lado, ao lado de James. — Você
não entende, — disse ela, com os olhos azuis arregalados e sérios. — Eles são as
únicas coisas que podem nos matar, e você salvou a minha vida.
Presa entre a curiosidade queimando e a agonia, eu disse firmemente: —
Por que nos atacaram? Por que não ir atrás de Henry, Walter e Phillip ao invés?
— Porque Calliope o enviou, — disse James, ainda agitado sobre a minha
perna. Ele chamou por cima do ombro, — Theo, ela precisa de você agora, não na
próxima semana.
Theo correu pelo corredor em direção a nós, seus cabelos encaracolados
caindo em seus olhos. Ella combinava com seu ritmo, mas ela se concentrou no
chão, e sua testa estava franzida profundamente. A única vez que eu tinha visto
seu olhar assim foi quando Theo tinha sido atacado no Natal do ano passado. Foi
chocante, ver a sempre confiante Ella parecer como se ela não soubesse
distinguir cima de baixo, e meu estômago revirou.
— Ele pegou ela, — disse James, apontando para a minha perna. Theo se
ajoelhou ao meu lado e definiu suas mãos acima do meu joelho. Eu tinha sido
curada por Henry antes, e eu esperava que o mesmo calor reconfortante viesse de
Theo.
Em vez disso uma luz ardente espalhou através da ferida, empurrando a
dor profunda e agonizante. Calor escaldante substituiu, e eu ofeguei, positiva que
minha perna ia se transformar em cinzas e cair. Eu não ousei abrir meus olhos, e
mesmo quando as mãos se afastaram, a dor permaneceu.
— Concluído, — disse Theo, e ouvi-o levantar-se.
— Não há nada que eu possa fazer pela cicatriz. — Juntando o que
restava da minha coragem, eu abri um olho, aliviada quando vi que minha perna
ainda estava ligada, e por todas as contas parecia perfeitamente normal. Mas
quando eu tentei mexer os dedos do pé, o ardor começou tudo de novo.
— Se ela está curada, então porque é que ainda dói? — Eu disse, em
pânico. E se a dor nunca fosse embora? Como eu poderia viver com isso? Henry
tinha experimentado a mesma coisa em seu peito? Como ele poderia ter
possivelmente lutado com aquela coisa de novo se ele tivesse?
— Porque não há poder no mundo que pode tirar a dor até que esteja
pronta para sair, — disse Theo. — Não é uma ferida comum. Isso não vai durar
mais do que alguns dias, porque ele ainda está muito fraco, mas não há nada que
eu possa fazer por você até então.
— Ele? — Eu cautelosamente toquei a linha fina prateada que corria em
meu joelho. — Vocês todos estão chamando-a de ele.
Theo apontou para a minha mãe. — Vou deixar isso em suas mãos
capazes para explicar. Se você vai nos desculpar. — Ele passou o braço em torno
da cintura de Ella e voltou para o grupo de conselheiros remanescentes. Eles
estavam todos sentados nos bancos novamente, suas cabeças inclinadas em
conjunto, enquanto eles falavam entre si. Quando Theo e Ella abordaram, Dylan,
ex de Ava do Éden High School, levantou-se para dar espaço para eles. Mesmo do
outro lado do corredor enorme, eu podia sentir seus olhos em nós.
— Mãe? — Eu disse, esfregando o meu joelho agora que eu sabia que não
iria doer mais. — Sobre o que todo mundo está falando?
Ela me ofereceu sua mão. Eu a peguei, espantada com o quão forte ela se
sentia em relação aos anos de fragilidade, e com esforço eu levantei. Ava ficou
colada ao meu lado quando minha mãe me levou a um banco na antecâmara, e
eu me sentei. Não era possível que Henry estava em tanta dor e eu não sabia.
Deve ter tido algo a ver com o conselho me conceder a imortalidade apenas seis
meses antes.
Ou talvez Henry fosse imune.
Ava sentou ao meu lado e pegou minha mão. James permaneceu na porta,
encostado de forma casual, mas um olhar para ele e eu podia ver o medo debaixo
de sua máscara de neutralidade. Primeiro Ella, agora ele, o que quer que isso
fosse, não era bom.
— Você se lembra dos Titãs de suas aulas com Irene? — Disse minha mãe
em uma voz tão suave que eu estava subitamente de volta para os dias em um
hospital, inclinando-me sobre ela para que eu pudesse compreender seus
sussurros secos e quebrados.
Eu balancei a cabeça. Irene pareceu bater apenas os pontos mais
salientes nos mitos, e eu não me incomodei em manter muito da informação
passado o primeiro exame de qualquer maneira. Na época, não parecia
importante.
— Eles eram seus pais? — Eu disse. Minha mãe era irmã de Walter, mas
não pelo sangue, como tinham insistido uma e outra vez. Como Henry me disse
há quase um ano, a família era a única palavra que os mortais tinham para
descrever algo perto do vínculo que compartilhavam, mas era muito mais
profundo do que isso.
— De certa forma, — disse minha mãe. Vendo algumas gotas de sangue
em sua manga, ela acenou com a mão e elas desapareceram.
— Os Titãs eram os governantes originais deste mundo, e, eventualmente,
eles estavam entediados e nos criaram. Havia seis de nós no começo - eu, Walter,
Henry, Phillip, Sofia e Calliope.
— Eles eram escravos, — disse James.
— Brinquedos, — corrigiu a minha mãe. Com a maneira direta de falar,
estava claro que ela contou essa história antes.
— Esse era o nosso objetivo. Ser os brinquedos dos Titãs. Eles nos
amaram, e os amamos em troca. Mas então eles decidiram que não éramos o
bastante, então eles fizeram uma nova raça que, ao contrário de nós, poderiam
deixar de existir se eles lutassem entre si.
— Eles criaram a guerra.
Ava parecia tão pequena e humilde que eu não acreditei que era ela
falando. Seus olhos azuis estavam cercados com vermelho, o rosto tinha perdido
sua cor, e a dor em seu rosto era tão palpável que eu mal conseguia olhar para
ela.
— Os Titãs fizeram os seres humanos fazerem coisas terríveis para
entretê-los. — Ava enxugou os olhos com as costas da mão e fungou. — Eles
foram negados os mais básicos direitos e liberdades.
— Os seres humanos eram soldados que nunca viam o fim da batalha, —
disse James. — Eles estavam à mercê dos Titãs, mas ao contrário dos seis
irmão...
— Eles não tinham poder para detê-los. — Minha mãe sentou-se ao meu
lado e colocou a sua mão sobre a minha. — As coisas que os mortais fizeram uns
aos outros não é nada comparado ao que os Titãs fizeram. Tortura física e
mental. Nenhum sinal de alívio. Nenhuma voz poderia influenciar os seres mais
poderosos do universo.
— Então, os seis se rebelaram, — disse Ava. Ela olhou para o espaço entre
nós, aparentemente estudando a almofada de veludo banca, mas um fio de força
correu através de sua voz agora. — Eles se uniram e usaram os poderes que os
Titãs lhes tinham dado para lutar de volta.
— E nós ganhamos. — Minha mãe sorriu. Ela era a pessoa mais gentil que
eu conhecia, ela nem mesmo matava as aranhas e cobras que apareciam em seu
jardim. Eu não poderia imaginá-la indo para a guerra eras incontáveis atrás, com
uma força que eu não começava a entender. — A maior fraqueza dos Titãs foi a
sua crença de que não há poder maior no mundo, e eles não podiam imaginar
que nos pensávamos por nós mesmos. Talvez se não tivessem criado mortais ou
dado habilidades a nós para sua própria diversão, ainda seriamos deles depois de
todo esse tempo. Seu erro não foi ao nos criar, mas em criar algo para nós
protegermos.
Ela correu seus dedos pelo meu cabelo, e foi um gesto tão familiar que
minhas ansiedades começaram a desaparecer, substituídas pelo calor que correu
através de mim e derreteu o medo de gelo que havia se formado.
— Nós quase perdemos tantas vezes, e houve momentos em que
queríamos desistir, mas tudo o que tinha em cada um de nós era a memória do
que os Titãs estavam fazendo aos sem defesa, e seguimos em frente. Enquanto
nós existíssemos, nós não aceitaríamos.
Com surpreendente clareza, eu finalmente vi o equilíbrio entre deuses e
mortais: os deuses eram, de uma forma estranha, os que foram acorrentados por
causa de uma guerra, os seis irmãos haviam vencido uma quantidade
incalculável de tempo atrás. Eles - nós dependíamos da humanidade para a
nossa sobrevivência, tanto quanto a humanidade dependeu de Walter e os outros
todos esses milhares de anos atrás. Foi por isso que James estava com tanto
medo que a humanidade um dia acabaria por morrer e não havia nada sobrando,
exceto os mortos e os que governavam. Uma vez que os seres humanos não
precisassem dele mais, ele iria desaparecer. Todos eles desapareceriam, exceto
por mim e Henry. Mas sem os seres humanos, os deuses não eram nada.
— É isso o que foi? — Disse. — Um... Titã?
— Ele é chamado de Cronus, e ele já foi o rei dos Titãs, — disse minha
mãe. — Ele tem estado adormecido desde o fim da guerra, aprisionado no Tártaro
com Nyx sobre ele e os outros Titãs presos.
Ava estremeceu, mas não disse nada. Eu me mexi. — Nyx? — Eu disse,
odiando o quão pouco eu sabia sobre tudo isso. Minhas aulas no ano anterior se
concentraram sobre os mitos gregos, e não a sua verdadeira herança, e nenhuma
quantidade de estudo jamais iria compensar para o fato de que eu não tinha
vivido como o resto deles. Ou pelo menos não tinha ouvido as histórias por
milênios.
— Ela é a melhor guarda que temos, — disse minha mãe. — Henry se
ofereceu para manter Cronus e o resto dos Titãs, que representavam um risco
para a humanidade trancado no Submundo assim não haveria nenhum humano
por perto para tentá-los, mas sabíamos que, se permitíssemos que Cronus
permanecesse consciente, ele acharia uma saída. Então a única solução que
tínhamos era mantê-lo preso em seus sonhos, que é a especialidade de Nyx.
— Então como é que ele acordou? — Disse. — Como ele chegou ao
palácio?
James enfiou as mãos nos bolsos. — Henry e eu achamos que ele está
acordado por algum tempo, pelo menos algumas décadas. Ele ficou em silêncio
até agora, ganhando força, mas não há nenhuma maneira de verificar e ver quão
acordado ele realmente está sem arriscar nossas vidas.
— Os Titãs nos criaram, — disse minha mãe. — E eles podem nos matar,
também.
Essa foi a última coisa que eu queria pensar, Henry correndo para lutar
com aquele monstro de novo, enquanto ele poderia muito bem estar em agonia.
— Você ainda não me contou como ele acordou em primeiro lugar, — eu disse,
lutando para manter a voz firme.
— Nós não sabemos, — disse James. — Nós pensamos que Calliope fez
isso.
— Mas... — Eu fiz uma careta. — Você disse que ele está acordando há
anos.
— Décadas, — ele corrigiu.
Revirei os olhos. O que era uma vida para a maioria das pessoas era um
piscar de olho ao conselho. Gostaria de chegar lá um dia, eu supunha, se Cronus
não viesse para mim primeiro, mas até então, eu estava no tempo mortal. Seis
meses eram seis meses, e não uma sesta agradável.
— Há uma forte possibilidade que Calliope planejou com antecedência e
começou o processo quando Henry deixou claro que ele nunca iria retornar seus
sentimentos, — disse James. — Quando ele começou a trazer as meninas para
casa para conhecer a família e fazer o teste, bem... — Ele encolheu os ombros. —
Ela deve ter quebrado. Ninguém, além de Calliope tem o poder de quebrar a
lealdade de Nyx para Henry e convencê-la a acordar Cronus.
Outra coisa que eu não era louca sobre ouvir: quão poderosa a deusa que
me queria morta passou a ser. — Não faz qualquer sentido. Se ela estava
tentando proteger os humanos, então por que ela arriscaria as coisas a voltarem
a ser como eram sob os Titãs?
— Nós não sabemos, — disse minha mãe. — Se soubéssemos, nós
tentaríamos argumentar com ela, mas isso tem se mostrado inútil até agora.
— Há uma possibilidade de que ela negociou com ele, — disse James. —
Por que ela iria confiar nele para manter sua palavra, eu não sei, mas ela tomou
sua decisão...
— Ela a odeia. — Ava apertou minha mão. — É o tipo de ódio que tudo
consome, e não para por nada. Especialmente não pela razão.
Então, eu tinha sido o alvo, afinal, não Ava. Estremeci ao pensar no que
poderia ter acontecido se eu tivesse congelado, também.
E James estava certo? Será que Henry teria rasgado o mundo se Cronus
tivesse me matado? Eu queria acreditar que teria sido por causa de como ele se
sentia por mim, mas uma voz irritante no fundo da minha mente salientou que,
se eu morresse, ele poderia ter que desistir de sua posição como governante do
Submundo e desaparecer, se ele não morresse indo atrás de Cronus.
Isso me irritou também.
— James, — eu resmunguei. — Por favor, tenha seu braço arrumado
antes de sangrar até a morte.
Olhando para o casaco rasgado que agora estava encharcado de sangue,
ele franziu a testa, como se tivesse esquecido que ele foi ferido em primeiro lugar.
Mais uma prova de que só minha ferida doía tanto, porque eu poderia lembrar de
como sentia a dor. — Ah. Certo. Eu vou fazer isso, então. Você está bem?
Eu balancei a cabeça, e ele hesitou antes de atravessar a antecâmara e
beijar minha bochecha. Ele não disse adeus, e eu estava grata por esse pequeno
sinal que o conselho não tinha medo que o mundo estava prestes a acabar.
— Venha, — disse minha mãe, oferecendo sua mão. — Vamos para um
lugar onde você pode descansar.
Eu queria protestar. Se Henry não podia descansar, então que direito eu
tinha de fazê-lo enquanto ele estava lá fora lutando contra um Titã?
No entanto, eu sabia melhor do que brigar com minha mãe sobre isso.
Teimosia realmente corria na família.
Ela e Ava me ajudaram quando eu manquei para o quarto. Era
humilhante, sentir como se minha perna estivesse queimando quando a ferida
tinha desaparecido e ninguém mais parecia ser afetado por lesões que eram
piores que a minha. Tentei andar sozinha e ignorá-la, mas só resultou em alguns
passos agonizantes e o constrangimento de ter que parar e encostar à parede.
Eventualmente, eu desisti e deixei-as me ajudar.
Uma vez que eu estava estabelecida na cama contra a montanha de
travesseiros e de seda, minha mãe se desculpou. — Gostaria de ficar, mas os
outros precisam de mim, também, — disse ela se desculpando.
— Eu sei, — eu disse. O que quer que os outros estivessem discutindo
era, sem dúvida, mais importante e produtivo do que ficar em torno de mim. Eu
queria que ela ficasse, mas ela não era só a minha mãe aqui, e ela tinha mais
responsabilidades do que segurar minha mão quando eu estava chateada.
Depois de fazer-me prometer que a deixaria saber se eu precisasse de
alguma coisa, ela caminhou para fora da porta, deixando para trás um rastro de
preocupação que não podia esconder. Isso, mais do que qualquer outra coisa que
tinha acontecido naquele dia, me comeu até que eu estava doente com ansiedade.
— Tudo vai ficar bem, certo? — Eu disse a Ava quando ela se estabeleceu
perto de mim. Pogo pulou na cama e se aconchegou entre nós, e eu
preguiçosamente acariciei sua pele. Pelo menos eu poderia contar com ele para
que não se preocupasse.
Ava não respondeu imediatamente. Imaginando se ela não tinha me
ouvido, eu me virei para ela, só para ver que ela estava chorando de novo.
— Eu não sei, — ela sussurrou. — Nada desse tipo já aconteceu antes.
Não importa quantas lutas eles tiveram ou... ou qualquer coisa, eles nunca
propositalmente feriram pessoas inocentes antes. Nós temos que protegê-los, e os
seis foram sempre muito, muito inflexíveis sobre isso, sabe? É por isso que nós
nunca pensamos que Calliope estava matando as garotas de Henry. É só que, ela
nunca fez nada parecido antes. Nenhum deles tinha.
Ela colocou a cabeça no meu ombro e eu me forcei a engolir o caroço de
medo na minha garganta. Ava precisava de tranquilidade muito mais do que eu.
— Eles vão descobrir, — eu disse, mesmo que eu não tinha nenhuma
maneira de saber se eu estava falando a verdade ou não. — Eles são fortes, certo?
O conselho. E ela é uma contra 13.
— Mas ela tem Cronus, — Ava disse com uma fungada. — Quando ele
recuperar sua força, não há nada que qualquer um de nós possa fazer para detê-
lo. Levaram anos para os seis deles contê-lo da primeira vez, e a única razão que
eles ganharam a guerra então, era porque eles tinham o elemento surpresa. Titãs
nunca pensaram que iriam contra eles. Mas agora...
Agora Cronus sabia o que esperar, e ele tinha quase toda a extensão da
humanidade para chegar a uma maneira de derrotá-los. — Há mais de vocês
agora, porém, — eu disse, mantendo a voz firme por causa da Ava. Era mais fácil
manter uma tampa sobre meus próprios medos, quando ela estava em tão mau
estado. — Vocês podem ganhar de novo.
Ava enxugou seu rosto, e quando ela me deu um olhar sem esperança, eu
pisquei, surpresa. Apesar de seus momentos de dúvida, Ava sempre foi
borbulhante e otimista, vendo o melhor em uma situação, não importava quão
sombria era. Depois que ela morreu, no Éden, em vez de lamentar a perda de sua
vida mortal, não importava quão temporária ela poderia ter sido, ela abraçou
estar morta. Mesmo quando eu impus uma punição severa para o papel que ela
desempenhou na briga que resultou na suposta morte de Xander e lesões graves
em Theo, ela não se virou sobre mim. Ela pescou meu corpo no rio depois que
Calliope tinha me matado, e ela me trouxe de volta para Henry, acreditando que
ele poderia fazer alguma coisa para me salvar. Ava era a única que acreditava no
impossível, não eu. Quando ela perdia a esperança, como eu poderia ter
qualquer?
— Você não entende, — ela disse em uma voz quebrada. — Levou todos os
seis deles da primeira vez. Não importa quantos novos deuses existem. Nenhum
de nós combinados é tão poderoso como um único deles. Sem Calliope brigando
com eles, não temos a menor chance.
Eu desviei o olhar, me recusando a deixá-la ver os meus olhos encherem
com lágrimas. Perder significaria a destruição além de qualquer coisa que eu
pudesse compreender. Na melhor das hipóteses, significaria escravidão para
Henry e minha mãe e todos que eu tinha vindo a me preocupar; na pior das
hipóteses, significaria nossas mortes.
O conselho poderia ter tido incontáveis vidas para viver, mas eu tinha
dezenove anos de idade, e eu realmente queria ver os 20.
Eu não me lembrava de adormecer, mas quando acordei, Ava foi embora e
Pogo roncava na depressão que ela tinha deixado no travesseiro. Suspirando, eu
fiz um inventário, satisfeita de que pelo menos um pouco da dor tinha
entorpecido. Mesmo se ainda doesse para me movimentar, eu estava determinada
a sorrir e aguentar.
Mas no momento em que me sentei, a dor explodiu atrás de meus olhos,
me dando uma dor de cabeça. Eu gemi e me deitei, e Pogo lambeu meu rosto
enquanto eu massageava minhas têmporas. Aparentemente, toda a dor se reuniu
em minha cabeça enquanto eu estava dormindo.
Alguém à minha direita riu, e meus olhos voaram abertos, tendo em
paredes de rocha ao redor de mim. Eu não estava no meu quarto mais. Em vez
disso eu estava na caverna onde eu assisti Henry batalhar na neblina que eu já
sabia ser Cronus, e o portão enorme surgiu diante de mim, esculpido a partir da
própria pedra.
Eu virei para achar quem quer que fosse que tinha rido, e de repente eu
estava frente a frente com Calliope.
Eu congelei. Era isso. Ela de alguma forma conseguiu raptar-me, e não
havia nada que eu pudesse fazer para me proteger.
Se ela era metade de tão poderosa como Ava disse que ela era, ela
provavelmente poderia rasgar-me no meio com um único pensamento, e eu sabia
que não havia esperança alguma que eu poderia sair dessa.
Para meu espanto, ela olhou por mim e deu um passo à frente. Em vez de
correr para mim, ela se moveu através de mim, como se eu fosse nada mais do
que um fantasma.
Eu não estava realmente aqui. Assim como o que tinha acontecido quando
eu primeiro cheguei ao Submundo, esta era outra visão, e Calliope não tinha
ideia de que eu estava assistindo.
Corri para segui-la. Ela caminhou orgulhosamente através da caverna em
direção a uma caverna menor ao lado, e eu notei uma pilha de forma estranha
além da luz que brilhava no teto. Eu só poderia distinguir as sombras, mas o que
era fez Calliope rir novamente.
— Eu não posso acreditar nisso. — Ela parou um pé da entrada da
caverna. — Há tempos debatendo com você, e isso é tudo o que é preciso?
Minhas entranhas se transformaram em gelo. Eu não queria olhar, mas
meus pés avançaram de qualquer maneira, até que eu poderia ver os três corpos
empilhados juntos, ligados por correntes feitas de névoa e pedra.
Walter do lado esquerdo, com a cabeça caída para frente com o sangue
escorrendo pelo seu rosto. Phillip à direita, uma ferida feia correndo através de
um olho, por seu rosto e desaparecendo debaixo de sua camisa.
E Henry no meio, tão pálido e parado como a morte.
05
OPÇÕES

Eu voei para o lado de Henry, com muito medo de tocá-lo, mas com muito
medo de me afastar, também. Desesperada, procurei em todos os três irmãos
qualquer sinal de que eles ainda estavam vivos, mas não vi nada. Nada de
ascensão e queda do peito, nada de balanço revelador de um pulso em seus
pescoços, exceto que aquelas eram formas mortais de julgar se alguém ainda
estava vivo. Henry e seus irmãos não eram mortais e nunca tinha sido.
E finalmente, finalmente eu vi os olhos de Henry se abrirem. Ao contrário
de Calliope, ele parecia concentrar-se diretamente sobre mim, mas se ele poderia
realmente me ver, eu não podia ter certeza. Ele não tinha me visto da primeira
vez. Então, novamente, ele tinha estado no meio de uma luta, também.
— Está tudo bem, — eu sussurrei enquanto eu tentava pegar sua mão,
mas meus dedos deslizaram através dele. — Tudo vai ficar bem. Vou me certificar
de que nada aconteça com você, eu prometo. — Ele suspirou inaudível e fechei os
olhos, e algo dentro de mim piscou. Ele tinha me ouvido, afinal? Estendi a mão
para acariciar seu rosto, parando uma fração de uma polegada acima de sua
pele. Pelo menos assim eu poderia fingir que estava tocando.
— Pai, — chamou Calliope atrás de mim, e eu me afastei do Henry para
vê-la. — Você está preparado para subjugar os outros?
Um estrondo baixo ecoou pela caverna, nenhuma língua que eu pudesse
entender, e as pedras menores no chão derraparam a poucos centímetros de
distância do portão.
— Perdoe-me, — disse Calliope, sarcasmo escorrendo de sua voz
açucarada. — Eu pensei que eu tinha acordado o ser mais poderoso do universo.
Foi mal.
No tempo que levou para piscar, um cacho de nevoeiro escorregou entre
as barras em sua direção. Calliope caiu para trás, e quase perdeu, embora eu
suspeitasse que não tinha nada a ver com a sua capacidade de se defender.
— Pare! — Ela gritou, em pânico, e satisfação surgiu através de mim. —
Você precisa de mim e você sabe disso. — O estrondo continuou, e Calliope ficou
de pé, todo e qualquer traço de dignidade se foi. — Você precisa, — disse ela, e a
incerteza em sua voz foi gloriosa. — Ninguém mais está tentando libertá-lo, e sem
mim, você vai estar preso para o resto da eternidade por essa porta estúpida.
Então você pode fazer as coisas do meu jeito, ou você pode ficar onde está. Não
importa para mim.
Claro que importava para ela, e Cronus devia saber bem, porque seus
murmúrios soavam suspeitos como o riso. Outra mecha do nevoeiro rastejou
para Calliope até que ele tinha apenas alguns centímetros de distância de sua
pele lisa. Tremendo, ela manteve sua posição quando Cronus acariciou sua
bochecha.
Tão rapidamente como ele apareceu, o nevoeiro desapareceu. Calliope
empalideceu, e por um momento eu quase me senti mal por ela. Então me
lembrei de Henry e seus irmãos presos em uma caverna a poucos metros de
distância, e qualquer gota de simpatia que eu já tive por ela evaporou.
A língua quente de Pogo contra meu ouvido me trouxe de volta à
realidade. As pedras desapareceram, substituídas pelas paredes vermelhas do
quarto, e meu estômago virou do avesso, quando o impacto total da minha visão
me atingiu.
— Mãe! — Eu gritei, chutando meus cobertores e rolando para fora da
cama. Eu aterrissei com um baque em minhas mãos e joelhos, e cada centímetro
do meu corpo gritou em protesto, mas eu me forcei a ficar de pé. Pogo correu
atrás de mim, suas orelhas alertas, e cada passo sentia como facas enquanto eu
corria para a porta, quase tropeçando na barra do meu vestido prateado.
Eu estava a meio caminho da sala do trono quando dobrei a esquina e
bati nela, e pela segunda vez em outros tantos minutos, eu esparramei no chão.
— Kate? — Minha mãe se ajoelhou ao meu lado, com as mãos pairando
como se ela não tivesse certeza se era seguro me tocar.
— Eu estou bem, — eu ofeguei. — Mãe, Henry e os outros... Calliope, ela
os tem, e Cronus...
— E ele o que? — Minha mãe empalideceu. — Você viu alguma coisa?
Eu balancei a cabeça. Tudo o que ela me disse sobre os Titãs passaram
por minha mente, deixando-me tonta. — Calliope os tem, e eu acho que... —
Minha voz ficou presa na minha garganta, e não importava quão duro eu pisquei,
eu não conseguia parar os meus olhos de encher de água.
Era realmente isso. Eles não poderiam derrotar Calliope e Cronus por
conta própria, e era só uma questão de tempo antes de Calliope matar Henry. Era
um milagre que ele ainda estava vivo em primeiro lugar.
Em voz baixa e frenética, eu retransmiti os detalhes da minha visão,
minhas palavras tropeçando e atando em conjunto, tornando muito mais difícil
para falar. — Mãe, — eu finalmente disse em voz baixa, desesperada para ela
fazer algo para consertar isso. Quando eu era uma criança, eu tinha certeza que
ela poderia fazer o impossível. Agora eu tinha certeza que podia, mas em algum
lugar profundo de mim, em uma parte que eu não queria admitir que existia, eu
sabia que não havia nada que ela pudesse fazer para que essa bagunça fosse
embora. — Ela vai deixar Cronus matá-los. — Seu rosto tornou-se duro, e por um
terrível momento eu vi o poder por trás dos olhos amáveis e bochechas rosadas
de minha mãe.
— Sofia, — ela chamou em uma voz que me sacudiu de dentro para fora.
Sofia estava ao seu lado em um segundo, e como minha mãe, qualquer
traço de bondade foi embora quando ondas de energia irradiaram de ambas. Por
conta própria, minha mãe era uma força da natureza. Com Sofia de pé ao lado
dela, eu tinha certeza de que poderia rasgar o mundo em pedaços.
— Venha, irmã, — disse minha mãe. Ela olhou para mim, e por um
momento uma gota de humanidade retornou ao seu rosto. — Cuide-se, meu
amor, — disse ela, tocando minha bochecha. Eu tremia. — E coloque um suéter.
Eu vou voltar para você assim que eu puder.
Com isso, ela e Sofia deram as mãos e, como Henry e seus irmãos saíram
em disparada para o vasto Submundo, assim como minha mãe e sua irmã, as
únicas duas sobrando que sabiam como derrotar Cronus.
Sentindo-me oca e mais sozinha do que eu já tinha antes, eu pressionei
meus lábios e me arrastei para o meu quarto para me trocar, querendo saber
quanto da minha família eu iria perder antes que tudo fosse dito e feito.
A sala do trono parecia vazia sem Henry e o resto de seus irmãos. O que
restou do conselho sentava em círculo ao lado da plataforma, as cadeiras
recolhidas de todo o palácio. Eu estava sentada num banco duro que me lembrou
do que eu tinha sofrido há seis meses, quando o conselho tinha feito sua decisão
sobre se eu gostaria de me tornar um deles. Pelo menos esse tinha sido afofado.
Ninguém tocou nos dois tronos. Um era para ser meu, mas a cerimônia
não tinha terminado, e mesmo se tivesse, eu não queria estar lá sem Henry. Eu
não estava pronta para governar sozinha, eu não tinha certeza se eu estava
pronta para governar ao seu lado. Com ele e os outros que se foram, eu não
queria pensar sobre o que iria fazer com a ordem natural das coisas ao redor do
Submundo. As almas ficariam presas no limbo até que Henry voltasse? E se ele
nunca voltasse?
Não. Eu não ia pensar assim. Tinha que haver uma maneira para que isso
funcionasse, Calliope queria mais do que vingança.
Uma sensação ruim se apoderou de mim. Ela queria algo mais do que a
vingança. Ela queria Henry e ela me queria morta.
Isso não era uma opção ainda. Mesmo se eu marchasse até ela e lhe
oferecesse o meu pescoço, não havia garantia de que iria acabar as coisas.
Cronus era mais poderoso do que eu poderia imaginar, e na minha visão ficou
claro que não importava quanto no controle Calliope fingia estar, ela não estava.
Ela não era a pessoa que iria decidir quando isto acabava.
— O que vamos fazer agora?
Minha voz ecoou no silêncio morto da sala do trono.
Tinha passado quase dez minutos e ninguém disse uma palavra, e eu não
podia mais ficar sentada lá enquanto Henry e minha mãe estavam em perigo.
— O que você quer dizer? — Disse Ella, que compartilhava uma poltrona
larga com Theo. Os dois estavam enrolados juntos como se fosse a coisa mais
natural do mundo, e eu os invejava. Eles ainda tinham um ao outro.
— Quero dizer, como é que vamos ajudá-los? — Disse. — Se a mamãe e
Sofia não puderem libertá-los, se elas... — Se elas forem capturadas também. —
O que devemos fazer?
Ella e Theo trocaram olhares, e ao lado deles, Irene suspirou. — Não há
como os ajudar, não quando Cronus e Calliope se ajudam.
Eu pisquei. Era isso? — Tem que ter algo que podemos fazer. — Eu olhei
ao redor do círculo de apoio, mas ninguém encontrou meu olhar. Nem mesmo
James. — Nós não podemos deixá-los lá. Como isso é uma opção?
— Porque qualquer outra coisa seria suicídio, — disse Dylan com um
sorriso de escárnio. — Enquanto você estava recebendo o seu sono de beleza, o
resto de nós passou sobre cada plano viável. Com Diana e Sofia, nossas opções
eram limitadas. Sem elas, não temos escolha a não ser esperar até Calliope fazer
seu próximo passo. Não podemos encará-la de frente, se você quer que haja
qualquer um de nós sobrando para lutar com Cronus quando ele descobrir uma
maneira de escapar. — Quando, não se.
— Tem que ter algo que possamos fazer.
— Elas sabiam que esta era uma possibilidade, — disse Irene. — Elas
sabiam que os nossos poderes são limitados neste reino, e elas tomaram essa
risco e nos deixaram de qualquer maneira.
A nota de dor em sua voz me surpreendeu. Será que eles pensavam que
minha mãe e Sofia os haviam abandonado?
— Além disso, — acrescentou o Theo, — ainda há uma chance de que elas
vão ter sucesso.
— E se elas não tiverem? — Eu disse. Por mais que eu queria agarrar a
esperança de que a minha mãe iria voltar com segurança, sem o resto da
intervenção do conselho, se três dos seis não poderiam suportar Calliope e
Cronus, eu não vejo como é possível que apenas duas iriam.
— Então é só uma questão de tempo antes que Cronus escape, — disse
Dylan. — Uma vez que ele consiga, ele vai destruir o mundo, destruir a
humanidade, e se tivermos sorte, nos matar rapidamente. — A temperatura na
sala do trono pareceu cair 20 graus.
— E nenhum de vocês está disposto a fazer qualquer coisa sobre isso? —
Eu disse, atordoada. — Vocês vão sentar e deixar que isso aconteça, mesmo que
ele vá matá-los de qualquer maneira?
— Não, — disse Ella bruscamente, e ela olhou para Dylan. — Se ficarmos
de fora, ele pode nos deixar em paz.
— Então você prefere perder a única esperança que você tem de derrotar
Cronus e salvar bilhões de vidas, desde que haja uma chance de que vocês serão
autorizados a viver? — Eu disse. — Isso é uma piada? — Ninguém respondeu. É
claro que não era uma piada. Estavam todos sérios, e eu não sabia o que dizer
sobre isso. Estas não eram as pessoas que eu encontrei e comecei a conhecer no
Éden.
Eles eram covardes, e a ideia de que os seres mais poderosos do planeta
poderiam deixar a humanidade morrer não faz sentido. Eles deveriam protegê-los,
não sentar e deixar Cronus matar todos.
Eu apertei minhas mãos em punhos. — Vocês me testaram por seis meses
para ter certeza de que eu era boa o suficiente para ser uma de vocês, moral e
forte o suficiente e altruísta o suficiente. E agora vocês não podem se quer ajudar
a salvar sua própria família? — Uma pequena parte de mim entendeu que deve
ter sido aterrorizante enfrentar a morte quando eles viveram por eras, achando
que nunca fariam isso. Ou, no mínimo, quando desaparecessem, seria pacífico e
sem qualquer dor. A morte era parte do ser humano, e eu não tinha esquecido o
que parecia ainda. Eles nunca tiveram a oportunidade de aprender. Mas isso não
era uma desculpa.
— Só porque você tinha que ser boa o suficiente para ser uma de nós não
significa que o resto de nós é. — Ava encarou Dylan, também, e ele pareceu
encolher-se sob a intensidade do mesmo. — Nós nunca fomos exatamente
íntegros, você sabe. Nós somos apenas bons em atuar “mais santo que tu”,
quando atende às nossas necessidades. E alguns de nós são atores melhores do
que os outros.
Eu estava de pé, e o grito de meu banco contra o piso me deu arrepios. —
Eu não me importo com o que vocês fazem. Vou encontrá-los. Vocês podem ficar
aqui e se sentar em seus traseiros durante todo o dia, ou vocês podem ajudar.
Não importa para mim. Mas eu prefiro ser rasgada em pedaços do que viver com
a culpa de saber que eu poderia ter feito algo e não fiz. — Eu não queria morrer, e
em um mundo perfeito, ninguém quer. Este não era um mundo perfeito, porém, e
eles não eram seres perfeitos. Eu não estava exatamente fazendo o mais
inteligente também, fugindo sem um plano ou uma vaga ideia de qual direção ir,
mas era melhor do que estar sentada e me deixar louca esperando por algo que
nunca poderia acontecer.
Virei em meus calcanhares e comecei a descer o corredor, ignorando a dor
na perna. Levei três passos, mas o som da voz de Irene ecoou pelo corredor.
— Espere.
Eu parei e enfrentei-os novamente, os braços cruzados com força.
— Eu não vou deixar que qualquer um de vocês me convença a desistir.
Eu não quero morrer, e eu não quero que nenhum de vocês também, mas
ficarmos sentados aqui esperando por Cronus nos transformar em churrasco não
vai fazer nada para evitar isso.
— Nós não íamos pará-la, — disse Dylan, e Ava lhe lançou um olhar. Seus
olhos se estreitaram, e ele endireitou os ombros, mas pelo menos ele não disse
mais nada.
Irene limpou a garganta. — O que meu querido irmão quis dizer é que,
enquanto somos ineficazes no Submundo, há coisas que podemos fazer na
superfície.
— Como o quê? — Eu disse cautelosamente, querendo saber se incluía
lutar por um lugar para se esconder.
— Criar uma armadilha, — disse Nicholas, o loiro grande que tinha agido
como meu guarda-costas, no Éden. Ele raramente falava, e eu tive que olhar ao
redor do círculo antes que eu percebi quem estava falando. — Há apenas tantas
saídas que Cronus pode usar se Henry... — Ele fez uma pausa, e eu sabia o que
ele queria dizer.
Se Henry não sobreviver. — Se Henry não for capaz de mantê-lo no
Submundo, — ele emendou. — Ele pode dar uma dica no início e nos mostrar o
caminho que ele pretende tomar. Poderíamos criar uma armadilha para ele, algo
para segurá-lo até que tenhamos um plano.
— Ele vai ter que abrir o portão primeiro se ele quiser alcançar a
superfície, — disse Dylan. — Eu não vejo isso acontecendo tão cedo.
Olhei para James para uma explicação, mas ele estava muito ocupado
olhando para suas mãos. — O que você quer dizer? — Eu disse. — Ele já não
passou?
Os outros deuses olharam para mim como se eu tivesse perguntado por
que um mais um é igual a dois, e minhas bochechas queimaram sob seus
olhares.
— Cronus ainda está atrás do portão, — disse Irene. — Quando ele está
acordado, ele pode alcançar os cantos do Submundo que a maioria de nós nem
sequer sabe que existem. É por isso que os outros o mantiveram dormindo esse
tempo todo. Mas o que você viu anteriormente era apenas uma parte muito
pequena dele, e se ele escapar totalmente, o dano seria catastrófico.
Todo o sangue drenou do meu rosto. — Isso era apenas uma parte?
— Como um dedinho, — disse Dylan, balançando seu dedo para ênfase. —
Você entende agora, por que nenhum de nós quer brigar com ele?
Eu entendi, e minha boca ficou seca. — Isso não muda nada.
— Não, não muda, — disse Irene. — Vamos trabalhar todos juntos para
criar uma armadilha assim que descobrirmos o ponto de saída mais próximo
possível.
— Você pode, — disse Dylan com uma carranca. — Eu não quero ter nada
a ver com isso. Eu adoro uma boa briga, mas isto é um abate.
— Oh, você vai ajudar, — disse Irene. — Mesmo se eu tiver que arrastá-lo
para lá pelas orelhas.
— E como você acha que você vai conseguir isso? — Disse Dylan.
Os olhos dela brilharam. — Você realmente quer descobrir? — Sua
expressão endureceu, e eu praticamente podia ver a fumaça saindo de suas
orelhas.
— Qualquer que seja. Pelo menos não é tão estúpido como vagar sem
rumo no Submundo.
— Sim, eu sei que é estúpido, obrigada, — eu respondi. — Eu ainda vou
tentar, e você agindo como um idiota não vai me impedir.
Eu me dirigi à saída novamente, e desta vez ninguém falou. O mais longe
que eu fiquei deles, mais tonta eu ficava. Eu poderia nunca ver qualquer um
deles novamente.
Até o momento que eu encontrasse a prisão de Cronus, poderia ser tarde
demais, e isso era se eu achasse para começar. Todo mundo que eu conhecia
poderia morrer, e eu poderia passar a eternidade vagando pelo Submundo em
busca de algo que não existia mais.
Assim que eu passei para a antecâmara, afundei no banco e coloquei a
cabeça entre os joelhos. Isso não poderia estar acontecendo. O mundo ia acabar,
a menos que alguém descobrisse um milagre, e não ia ser eu.
Dylan estava certo, eu não tinha certeza de onde eu estava indo, e muito
menos o que eu ia fazer quando eu chegasse lá. Mas quais eram as minhas
outras opções? Ficar com os membros restantes do conselho e esperar para ser
morta? Eu seria a inútil definição de uma armadilha. Eu não poderia mesmo
controlar minhas visões, muito menos qualquer poder que eu possa ter.
Eu não podia fazer nada e deixar todos os outros lidarem com a batalha.
Talvez não fosse inteiramente minha culpa, mas eu certamente ajudei a empurrar
Calliope passando seu ponto de ruptura, e eu não tinha o hábito de deixar os
outros limparem minha bagunça enquanto eu estava ao redor e observava. Nós
não tínhamos nenhuma oração para vencer sem os seis irmãos, e já que ninguém
mais estava indo atrás deles, isso me deixou.
Será que isso teria acontecido se eu tivesse mostrado a Calliope um pouco
mais de compaixão, se eu não tivesse a impedido de ver Henry pelo resto de sua
existência? Será que ela ainda teria feito isso?
Perguntar-me era inútil. Se uma das outras garotas tivesse conseguido,
Calliope teria feito a mesma coisa.
Não havia nada que eu poderia ter feito para fazer Calliope gostar de mim,
não quando ela me odiava desde o início.
Qualquer que seja o papel que interpretei em empurrá-la sobre a borda,
foi ela quem tomou a decisão de fazer isso.
Mesmo que eu soubesse disso, eu não podia evitar, mas me senti culpada.
Ouvi passos se aproximando da sala, e um momento depois, a porta abriu
e fechou. Eu não olhei para cima. Se fosse James vindo para me dizer que eu
estava cometendo um erro, ou Ava insistindo que eu não poderia dar a minha
vida para isso, eu não me importava.
Eu estava fazendo isso se eles gostassem ou não.
Alguém se sentou ao meu lado, e a mão suave em minhas costas era
inconfundivelmente de Ava. — Você está bem? — Disse ela suavemente, e eu me
endireitei, mantendo meus olhos bem fechados em uma tentativa de manter a
cabeça leve na baía.
— Sim, eu estou ótima, — eu murmurei. Sua mão parou, e eu suspirei. —
Sinto muito, é só...
— É apenas que você aprendeu que há uma boa chance de que o mundo
vai acabar, e você precisa de um momento para pensar, — disse Ava, e eu
assenti. Ela parecia estar tomando melhor agora, mas ela esteve com o conselho
antes que eu houvesse estado lá e teve mais tempo para absorver.
— O que teria acontecido se as coisas tivessem sido diferentes? — Eu
disse. — Se eu não tivesse passado no teste...
— Ela ainda teria feito isso.
Abri os olhos. James inclinou-se contra a parede, as mãos enfiadas nos
bolsos e seu cabelo uma bagunça. Foi um peso retirado dos meus ombros ouvi-lo
expressando os mesmos pensamentos que eu estava tentando me convencer que
eram verdade, e eu dei-lhe um pequeno sorriso.
Ele não sorriu de volta. — Calliope está planejando isso há muito tempo, e
uma vez que ela acordou Cronus, nada iria impedi-la. Ela quer você morta. Ela
quer todos mortos. Ela parou de pensar racionalmente muito antes de você
nascer, e nenhuma quantidade de culpar vai mudar isso. — Meu coração se
afundou. Então era isso, eventualmente, eu teria que entregar-me até ela,
independentemente de como isso acabasse. Se o conselho estava certo, se
Calliope e Cronus eram realmente imparáveis, se fôssemos todos morrer de
qualquer jeito.
Eu não queria. Cada fibra do meu ser lutou contra, e eu me senti tonta
tudo de novo, sabendo o que ela faria para mim. Mas e se essa era a única
solução? E se essa era a única maneira de convencer Calliope para ajudar a
dominar Cronus novamente? Se ela realmente lutasse com os outros na guerra
contra os Titãs, então a parte dela que se importava o suficiente para arriscar sua
própria existência pela humanidade tinha que estar em algum lugar. E não
importava quão chateada e humilhada que ela estava, talvez com a minha cabeça
em uma bandeja seria suficiente para ela mudar de ideia.
Último recurso, eu pensei. Apenas como um último recurso.
Se viesse para isso e dando a minha própria vida significava que este
pesadelo poderia acabar, eu queria ser egoísta e viver, mas eu não poderia ficar
para trás e ver todo mundo ser abatido por minha causa. Eu não tinha certeza de
qual opção era mais egoísta, mas quando se poderia estar ao meu alcance acabar
com isso, eu não iria ignorar, tanto quanto eu queria esquecer que era mesmo
uma possibilidade.
De qualquer forma, eu tinha que encontrá-la primeiro. — Como faço para
chegar lá? — Eu disse. — Para o lugar onde Calliope e Cronus estão. Eu sei que
vocês não querem que eu vá, mas...
— Você iria mesmo se eu não lhe dissesse, — disse James. — Eu não sei
onde é, honestamente. Ninguém sabe. Os deuses mais velhos podem encontrá-lo,
mas tiveram a certeza que eu não podia, e a localização foi mantida em segredo
dos outros por razões óbvias. A única pessoa que sabia onde ele estava... — Ele
parou.
— Quem? — Eu disse. — Por favor, James, eu não me importo com o que
eu tenho que fazer. Vou passear pelo Submundo inteiro, se é isso que é preciso.
— Eu sei que você vai, — disse ele com um sorriso apertado. — Isso é o
que eu amo sobre você. Mas, Kate, você tem que entender...
— O que eu entendo é que, se alguém não tentar impedi-los, Calliope e
Cronus vão rasgar o mundo, e todo mundo vai morrer, — eu disse. — Eu não me
importo com o que eu tenho que fazer. Eu vou fazer.
James suspirou. — A única pessoa que sabe onde está o portão... — Ele
fez uma pausa. — É Persephone.
06
LAGO DE FOGO

Persephone. Claro. Fora todos os deuses que já existiram e cada pessoa


que já andou através do Submundo, tinha que ser ela.
Esfreguei as mãos suadas nas minhas coxas e desejei pela primeira vez
que eu nunca tivesse ouvido falar do Éden. Minha vida teria sido destruída, e
minha mãe estaria morta agora, mas pelo menos a vida de bilhões de pessoas não
iria potencialmente descansar em eu engolir meu orgulho e encontrar a pessoa
que eu esperava que eu nunca tivesse que encontrar. A pessoa que meu marido
ainda estava apaixonado.
Minha irmã.
— Não há outra pessoa? — Eu disse com um coaxar.
— Henry, — disse James. — Mas ele está um pouco ocupado agora.
Eu dei-lhe um olhar. — Então o que? Eu rastreio Persephone das milhões
de almas...
— Bilhões, — disse James. — Possivelmente mais de cem até agora. Eu
não estive mantendo o controle.
— Então, eu rastreio Persephone dos bilhões de almas no Submundo? —
Eu disse. — Quanto tempo é que vai demorar?
— Tanto tempo como parece. Encontrar uma agulha em um palheiro é
fácil se você tem tempo suficiente para olhar através dele peça por peça.
— Mas não temos muito tempo.
James empurrou-se da parede e caminhou em nossa direção.
— Então eu acho que é uma coisa boa que você tem a mim.
Eu olhei para ele. — O que você quer dizer?
— Ele quer dizer que ele vai com você, — disse Ava. — Assim como eu. —
Apesar de sua bravura, ouvi o tremor em sua voz.
— Vocês não têm que fazer isso, — eu disse. — Nenhum de vocês.
Agradeço a oferta, mas vocês ouviram o que os outros disseram. As chances de
sair com vida...
— Vai ser muito melhor se eu for com você, — disse James. — Só eu. Não
temos tempo para sentar e discutir isso.
— Eu vou, — disse Ava firmemente. — Três é melhor do que dois, e não
vou ser de qualquer ajuda aqui de qualquer maneira. Eu não sei nada sobre
táticas ou o que é que eles vão fazer. — James avaliou-a, e ela endireitou os
ombros, como se o desafiando a recusá-la novamente.
— Você sabe que não é uma boa ideia, — disse ele. — O objetivo disto é
fazer com que Persephone venha nos ajudar, e você estar lá não vai fazer
absolutamente nada para convencê-la.
Ava bufou, e alguma da cor voltou ao seu rosto. — O que, e você estando
lá vai? Você sabe que eu vou seguir você, mesmo que você me diga que não, então
você pode muito bem não perder seu tempo. Vamos, Kate. — Ela me pegou pelo
braço e me levou para o corredor. Eu não briguei com ela, muito consumida com
a mais recente adição à montanha crescente de problemas.
Não só temos que achar Persephone, mas de alguma forma eu tinha que
convencê-la a arriscar o resto de sua vida eterna para ajudar a família que ela
tinha abandonado. Este não era um passeio pelo Central Park. Isto era nós
quatro enfrentando o ser mais poderoso que jamais existiu.
E eu não tinha absolutamente nenhuma ideia do que dizer para convencer
Persephone a se juntar a nós.
Nós não nos incomodamos com despedidas. Os outros deviam ter sabido
que James e Ava estavam indo comigo quando não retornaram à sala do trono, e
nenhum deles veio nos encontrar enquanto embalávamos. James e Ava – e eu,
uma vez que eu aprendesse como – poderíamos criar o que precisássemos, e
nenhum de nós precisava comer no Submundo, não em nossos corpos imortais.
James foi inflexível em levar suprimentos de qualquer forma, incluindo uma
muda de roupa e tênis que eu não tinha tido tempo para usar. James e Ava
estavam acostumados a vagar pelo mundo apenas com a roupa em suas costas.
Eu nunca subi mais do que alguns quilômetros antes.
No último minuto, eu coloquei a flor que Henry tinha me feito, aquela com
pétalas de quartzo rosa e pérolas, em meu bolso. Era tudo que eu tinha dele,
além do que estava em seu guarda-roupa.
Deixar para trás Pogo foi a parte mais difícil. Eu abracei-o ao meu peito e
meu nariz enterrou em sua pele por alguns breves momentos antes de sair, e
quando eu o coloquei em cima da cama, os olhos líquidos dele quase quebraram
meu coração.
— Ele vai ficar bem, — disse Ava, levando-me para fora do quarto. — Os
outros vão cuidar bem dele, e, ele vai estar aqui esperando quando todos nós
voltarmos.
Só que eu poderia nunca voltar para o palácio de novo.
Não se eu tinha alguma chance de colocar Henry livre. Além de oferecer a
Calliope uma troca, não havia nada que nós três poderíamos fazer para lutar com
ela que os outros não tinham tentado, e eu tinha a maldita certeza de que ela não
cederia pela bondade de seu coração.
Eu tirei meus olhos de Pogo, e ele latiu quando a porta se fechou.
Respirando fundo, eu engoli minhas lágrimas, recusando-me a deixar-me chorar.
Ele estaria bem, e Henry estaria lá para cuidar dele, se eu não voltasse. Como o
jardim de Persephone, pelo menos ele teria algo para se lembrar de mim.
Esse foi um pensamento tão horrível que eu imediatamente empurrei-o
para fora da minha mente. Eu não ia morrer. Eu não queria, e James e Ava não
me deixariam de qualquer maneira. Tinha que haver outra maneira, e nós
teríamos tempo para descobrir.
Eu não olhei para trás quando nós começamos o caminho que levava para
longe do palácio, entre as colunas de pedra negra.
A caverna era enorme, e pelo tempo que atingimos a parede, minha perna
doía tanto que cada passo era como se estivesse andando em facas.
— E agora? — Disse. Não havia para onde ir, e, tanto quanto eu poderia
dizer, não havia cavernas ou túneis escondidos.
— Lembre-se da viagem que tomamos para cá? — Disse James, pegando a
minha mão. Sua mão quente pegando a minha, e eu olhei para Ava, para ver se
ela tinha notado, mas ela estava ocupada olhando para a parede da caverna.
Eu não tive tempo para me preocupar com o chão caindo debaixo de mim
de novo. Sem aviso, James entrou na rocha, puxando-me com ele.
Instintivamente fechei os olhos e me preparei para o impacto, esperando a dor
aguda quando minha testa atingisse a borda irregular, mas tudo o que eu senti
foi uma leve brisa no meu cabelo.
— O que no... — eu abri meus olhos e meu queixo caiu. Nós não
estávamos no Submundo mais. Em vez disso, estávamos em um exuberante
jardim com árvores tão altas como o céu azul brilhante, e flores exóticas nos
cercavam, voltando-se para nós quando nós aparecemos.
— Bem vindo ao Submundo, — disse James. — Ou pelo menos a parte
dele onde as almas ficam. Vamos. — Ele me levou por um caminho de terra com
Ava se arrastando atrás de nós, estranhamente calma por toda a maravilha que
nos cercava. Eu olhei para a flora gigante quando passamos, incapaz de esconder
a minha admiração. Era como se eu tivesse entrado em um conto de fadas. Ou
caído no buraco do coelho.
— Que lugar é esse? — Eu disse. — O Submundo inteiro é assim?
— Não, — disse James. — Olha.
Ele apontou entre as árvores para uma garota balançando para frente e
para trás em uma corda feita de vinhas, seu longo cabelo balançando com seus
movimentos e sua pele escurecida pelo sol. O mesmo sol que tinha sido
substituído por cristal na caverna antes.
— Quem é? — Eu sussurrei. — Essa é Persephone? — Ava bufou
baixinho, e eu dei-lhe um olhar sujo.
— Se fosse assim tão fácil, — disse James com um toque de diversão em
sua voz. — Somente os seis irmãos e a rainha de Henry podem viajar assim aqui
embaixo, e desde que você não aprendeu ainda, temos uma caminhada pela
frente. Essa menina é a razão de nós vermos tudo isso. Henry levou você para
dentro do Submundo uma vez, certo?
Eu balancei a cabeça. Ele tinha feito isso para me consolar, para me
mostrar que minha mãe ficaria bem depois que o câncer ganhou e ela morreu. Eu
não sabia na época que minha mãe era, na verdade, imortal. Isso teria ajudado
um pouco mais.
— Central Park, — eu disse. — Isso era o que parecia para mim. É onde
minha mãe e eu costumávamos ir nas tardes de verão.
— Isso é tão doce, — disse Ava, passando seu braço no meu. — O meu
seria Paris, eu aposto. Eu poderia passar um milênio e nunca me cansar.
Nós duas esperamos pela resposta de James, mas ele olhou para a
menina longe. — Este é o Éden dela. Porque nós somos imortais, o Submundo se
adapta para a alma mortal mais próxima – ela. Em qualquer lugar que ela vai, é
isso que ela vai ver, e assim que chegar perto o suficiente de alguém, vai mudar.
— Eu a vi balançar para trás e para frente, com o rosto inclinado na direção do
sol e um sorriso dançando em seus lábios. Ela parecia feliz.
O tipo de feliz que eu gostaria de ser. — Ela está sozinha? Estão todos em
paz?
James fez um gesto para nós seguirmos. — Será que Henry... — Ele parou
e fez uma careta, e eu mordi de volta uma réplica. Não, Henry não tinha me
informado. — Depende. É parte do que você estará fazendo. Algumas pessoas
estão reunidas com os entes queridos, outras não. Às vezes, as pessoas passam
metade do seu tempo sozinhas e metade com os entes queridos. Não há conjunto
forte e rápido de regras. A pessoa tem o tipo de vida após a morte que elas
esperam, ou pelo menos o que elas acham que merecem. — Oh. Isso. E se havia
dúvidas ou discrepâncias, era onde Henry e eu entrávamos.
— Ele explicou essa parte, — eu disse. — Algumas pessoas realmente
passam o resto da eternidade sozinhas?
O aperto de Ava no meu braço aumentou, e eu apertei de volta.
Isso não soava como o céu para mim.
— Você precisa esquecer suas expectativas, — disse James quando nós
fizemos o nosso caminho em torno de um salgueiro enorme da cor de algodão
doce. — Todo mundo é diferente. Às vezes, a religião desempenha um papel, às
vezes não. Henry vai explicar tudo isso para você.
Somente se todos nós voltássemos em um único pedaço.
Eu sabia o que acontecia com os mortais depois que eles morriam, mas se
resultasse nisso – se me matar fosse suficiente para convencer Calliope a ajudar
a dominar Cronus antes que ele escapasse – o que iria acontecer comigo agora
que eu era imortal? Eu iria desaparecer, eu sabia isso, mas o que isso
significava? Eu sempre acreditei em algum tipo de vida após a morte, mesmo
antes de conhecer Henry e descobrir a verdade. Essa crença me manteve sã
durante os anos que eu passei vendo minha mãe morrer, sabendo que eu iria vê-
la novamente quando houvesse acabado para mim, também. Eu não tinha tanta
certeza agora.
Eu estava tão perdida em meus pensamentos que não percebi quando o
céu ficou escuro novamente. O sol se foi, substituído com as paredes da caverna
de antes, mas desta vez a luz não veio de cristais.
Ficamos nas margens de um lago de fogo. Chamas giraram para os meus
pés, e quando eu tomei um passo assustado para trás na areia preta, James e
Ava começaram a andar em torno dele, como se fosse nada mais do que um
aborrecimento.
E então eu ouvi os gritos.
Eles ecoaram pela caverna, cheios com tanta agonia que eu podia sentir
isso em meus ossos. Um homem gritou em uma língua que eu não entendia, e
horrorizada, eu olhei para o fogo.
Ele se pendurava em correntes que se desvaneceram em nada antes de
chegarem ao teto. A metade inferior de seu corpo estava submerso no lago, e sua
expressão era torcida com uma dor que eu não podia imaginar. Sua pele derretia
a partir do osso, escorrendo para o fogo, mas assim que ela desaparecia, nova
carne substituía.
Ele estava sendo queimado vivo de novo e de novo, sem alívio.
Seus gritos reverberavam pela caverna e se incrustaram em minha
memória, muito atormentada para eu jamais esquecer. Eu não conseguia desviar
o olhar, e o desejo de fazer algo – qualquer coisa – cresceu dentro de mim, forte
demais para ser ignorado.
— Nós temos que ajudá-lo, — eu disse, mas Ava me segurou. Eu lutei
contra ela, e James correu para nós, tomando meu outro braço.
— E como você pretende fazer isso? — Disse. — Andar lá e se queimar,
também?
— Eu não posso morrer, — eu disse entre dentes, quando eu puxei contra
eles. — Lembram-se?
— Isso não é motivo para se colocar nesse tipo de dor, — disse James. —
Você pode não sentir isso no começo, mas você era mortal há seis meses, e seu
corpo não se esqueceu disso. Você não conseguiria passar por um metro e meio,
muito menos ir lá e voltar. Tudo o que ele faz, ele acredita que merece.
Eu olhei boquiaberta, horrorizada. — Ele acha que merece ser queimado
vivo por toda a eternidade? O que poderia ser tão ruim assim?
— Eu não sei, — disse ele. — Quando você for rainha, você poderá
descobrir por si mesma. Agora vamos. Não temos tempo a perder.
Eu não conseguia tirar os olhos do homem quando James e Ava me
obrigaram a caminhar ao redor do lago. Mesmo depois que o Submundo se
transformou em um prado rolante com uma casa amarela situada no meio, eu
ouvi seus gritos ecoando em minha mente.
Pelo menos James confirmou o que eu suspeitava. Meu corpo estava se
adaptando, mas ele ainda se lembrava de como era ser mortal. Vidro ricocheteava
em minha pele, eu poderia cair do topo do Empire State Building e ir embora sem
um arranhão, mas eu podia sentir a queimadura do fogo.
— Quanto tempo antes de eu não sentir mais dor? — Eu disse, minha voz
trêmula.
— É diferente para todos, — disse James. — Talvez alguns meses, talvez
alguns anos. É a sua mente que está fazendo isso, não seu corpo.
— Mas vai embora? — Eu disse.
— Eventualmente.
— E o prazer?
Ava deslizou sua mão na minha. — Kate, se nenhum de nós pudesse
sentir prazer, você realmente acha que faríamos metade das coisas que fazemos?
Eu consegui um leve sorriso. — Bom ponto.
Nós caminhamos em silêncio, passando por vários lugares. Alguns deles
eram tão maravilhosos e exuberantes como o jardim, outros estavam cheios de
dor e tortura. Eu praticamente corri através daqueles, minha cabeça para baixo
enquanto eu tentava ignorar os gritos. Eventualmente, todos se misturavam,
formando um coro de dor, e quanto mais eu ouvia, mais certa eu fiquei de que
Henry e o conselho tinham estado errados. Eu nunca poderia fazer isso. Eu
nunca poderia condenar as pessoas a esse tipo de eternidade, não importava
quais seus crimes tivessem sido.
Tempo perdia todo o significado enquanto andávamos. James parecia
saber para onde estava indo, liderando o caminho, uma vez que ele tinha certeza
que eu não ia tentar correr e ajudar as pessoas que passavam, e Ava se
pendurando em mim. Perdi a conta do número de lugares que atravessamos –
dezenas? Uma centena? Eu não conseguia me lembrar de todos eles. Meus pés
doíam e minha perna sentia como se o osso estava quebrando a cada passo que
eu dava, mas finalmente no meio de uma floresta, James parou e colocou sua
bolsa no chão. — Eu acho que é um bom momento para descansar. — Ele coletou
madeira para fogueira enquanto eu me sentei em uma árvore caída e escondi o
rosto em minhas mãos. Ava sentou ao meu lado e esfregou minhas costas.
— Eu não posso fazer isso, — eu sussurrei. — Eu não sei por que você
pensou que eu poderia, mas eu não posso.
— Não pode fazer o que? — Disse Ava suavemente.
— Eu não posso tomar essas decisões, — disse eu. — Eu não posso, não
posso mandar alguuém para esse tipo de eternidade. Eu não ligo para o que eles
fizeram. Ninguém merece isso para sempre. — Egoistamente eu gostaria de saber
se me dar para Calliope seria a opção mais fácil. Pelo menos, eu não teria de
governar o Submundo. Esquecimento era um preço que eu estava disposta a
pagar se isso significasse que eu nunca teria esses bilhões de vidas descansando
em minha consciência.
— Você ouviu James, — disse Ava. — Isso só acontece se eles acham que
eles merecem.
— E se eles não merecem? E se eles pensam que merecem porque alguém
lhes disse de novo e de novo?
Ela abriu e fechou a boca, e levou um momento antes de dizer qualquer
coisa. — Eu não sei, — disse ela. — Eu acho que é aonde você vem.
Eu balancei a cabeça com amargura. — Ninguém merece nada. Não há
ninguém mantendo pontuação. Por que não podemos todos ser felizes por toda a
eternidade, e ninguém tem que sofrer?
— Eu não sei, — disse Ava suavemente. — Eu sinto muito, mas isso não é
coisa minha. Não é de James, também. É de Henry. E talvez Persephone. Ela
provavelmente poderia te dizer.
—Ótimo, — eu murmurei. — As duas pessoas que podem explicar isso ou
estão sendo mantidos como reféns ou querem ter nada a ver com isso. Eu tenho
certeza que a primeira coisa que Persephone vai querer fazer depois de a
interrompermos é dizer-me tudo sobre os milhares de anos que passou fazendo
isso. Não admira que ela desistiu de sua imortalidade e fugiu.
— Não, — disse James atrás de nós. Eu pulei. Ele estava mais perto do
que eu pensava. — Persephone passou pelo inferno. Ela merece um pouco de
felicidade.
Havia essa palavra de novo. Eu não ligava para o que Persephone merecia.
Eu me importava com o que ela tinha feito e por quê. — É exatamente por que
isso pode ser tudo para nada, — eu disse. — Se ela não vai nos ajudar, então o
que?
— Persephone é uma pessoa melhor do que você pensa, — disse James. —
Provavelmente Henry encheu sua cabeça com todos os tipos de histórias sobre
como ele é a vítima, mas ambos foram. Ele foi preso com uma mulher que ele
amava, que não o amava de volta, e ela estava presa com um marido que não
amava e um trabalho que a fez miserável. Não a odeie por isso. — A única outra
vez que eu tinha visto James assim foi quando ele enfrentou Henry sobre fazer-
me ficar no Éden Manor depois que eu tentei sair, e vendo a ira de James e
desaprovação me fez querer rastejar sob o tronco e me esconder.
— Eu não a odeio, — eu disse calmamente. — Eu odeio que ela foi algo
para Henry que eu nunca vou ser. Eu odeio que ela poderia fazer esse maldito
trabalho sem se sentir pronta para saltar em um lago de fogo. E Henry nunca
disse uma palavra contra ela. — Com a boca numa linha fina, James estabeleceu
as peças de madeira que tinha coletado, e começou a construir uma tenda
pequena que me lembrou das batatas fritas que ele costumava brincar no Lincoln
Logs de volta no Éden High School, antes que eu soubesse que ele era um deus.
Antes que qualquer coisa dessas tivesse acontecido.
— Ela e Henry tiveram milhares de anos juntos. Você mal teve um. Dê um
tempo.
— Eu não vou dizer mais uma vez que Henry ama você, — disse Ava. —
Você pode escolher acreditar em mim ou não, mas eu não mentiria para você.
— Eu sei que você não faria, e eu acredito em você, mas vocês dois não
viram como ele agiu em torno de mim. — Não importa quantos anos passamos
juntos e quanto ele me amava, eu sabia que ele nunca me amaria tanto quanto
ele amava Persephone.
Ele não podia amar duas pessoas tanto assim. Era impossível.
James terminou de arrumar a madeira. Esfregando as mãos, segurou-as
para fora, como se estivesse tentando se aquecer.
Um momento depois, a madeira estalou, e as varas explodiram em uma
fogueira alegre. — Ele age assim com todos nós, mas isso não significa que ele
não se importa.
Eu não era todos eles embora. Era para eu ser sua esposa. Sua rainha.
Sua parceira. — Então eu tenho que aceitar que ter um marido que nunca me
toca está tudo bem?
— Você é a única que decidiu fazer isso, — disse James, e eu olhei furiosa
para ele. — Não me venha com esse olhar. Eu avisei que ele não iria agir da
maneira que você esperava. Não é culpa dele por ser ele mesmo.
— Então, a culpa é minha por empurrá-lo? — Eu disse, e no momento em
que saiu da minha boca, eu sabia que era verdade. Meu rosto ficou vermelho. Eu
odiava o desespero que me enchia, tornando impossível ver a lógica e a razão, eu
odiava a parte de mim que era capaz de agir desta forma. Tudo que eu queria era
saber que ele se importava. Que ele não estava fazendo isso porque tinha que
fazer. Eu não queria forçá-lo, mas ele não estava fazendo isso por conta própria, e
eu não sabia o que sentir. Não quando eu estava dando o meu futuro inteiro em
um talvez.
Eu toquei a flor feita de quartzo rosa e pérolas no meu bolso. As coisas
que ele me disse antes da cerimônia, sua insistência de que ele me queria aqui.
Era o suficiente. Tinha que ser.
— Sim, — disse James, ignorando quão profundamente essa uma palavra
me cortou. — A culpa é sua. Você aceitou isso, para o melhor ou para o pior, e
você precisa dar-lhe mais de um dia. Eu entendo o que você está passando, mas
ficar tocando nesse ponto agora não vai resolver nada. Endureça, obtenha através
de sua cabeça que Henry de fato te ama, e siga em frente. Temos coisas mais
importantes a fazer. — James estava certo. Eu tinha que me recompor. Nós
tínhamos que fazer isso primeiro, e então eu poderia descobrir as coisas com
Henry, se eu conseguisse vê-lo novamente em primeiro lugar.
Quando eu repassei a cerimônia em minha mente, os últimos minutos que
eu o vi, eu apertei meus olhos e dei um suspiro. — Eu hesitei.
Silêncio, e então Ava disse em voz baixa, — O que?
— Durante a coroação, quando Henry me perguntou se eu estava
disposta. Eu hesitei.
— Eu percebi isso, — disse James, e quando eu olhei para ele, ele estava
inclinado contra uma árvore, com os braços cruzados e sua expressão
desenhada. É claro que ele tinha notado. — Isso não significa nada, então não
torne tão importante. Era o seu direito de hesitar.
— James! — Disse Ava, e ele deu de ombros.
— Sim. Você sabe que era. Podemos fingir que isto é apenas sobre Henry,
e que Kate não é nada além de sortuda, mas lembre-se de como era quando você
desistiu de sua humanidade? Não é uma transição fácil.
— Tudo o que eu tinha então era nada comparado com o que eu tenho
agora com todos vocês. Todo mundo me ama aqui, — disse Ava, e James sorriu
levemente.
— Sim, somos todos um pouco apaixonados por você, — disse ele. — Mas
isso é só porque você é dinamite na cama. Caso contrário, você é um pé no saco.
Ava estendeu a mão para bater nele, e quando a tensão se dissipou no
início, eu me esforcei para não imaginar os dois juntos. — Vocês dois? — Eu
disse em uma voz estrangulada.
James focou no fogo, e Ava encolheu os ombros. — Eu sou a deusa do...
— Amor e sexo. Sim, eu entendi isso. — Eu fiz uma careta. — Existe
alguém que você não dormiu?
— Papai e Henry, — disse ela, e eu supunha que era melhor do que
ninguém. — Mesmo que o papai tecnicamente não é meu pai, ainda é um não,
não.
— Walter não é o seu pai? — Disse. — Eu não sabia disso.
— Eu sou adotada, — disse ela, orgulhosa. — É uma longa história, mas o
que eu estou tentando dizer é que Henry ama você, e as coisas vão melhorar. Este
é apenas o começo, imagina o quanto todo mundo vai amar você em mil anos, e
quanto você vai amá-los também.
— Ou odiar, — disse James, e notei uma pitada de tristeza em sua voz que
eu não estava acostumada a ouvir dele.
— Isso tendem a ser dois de um tipo, — disse Ava. — O amor antes do
casamento é uma coisa nova, você sabe, todos os nossos casamentos eram
arranjados, e todos nós tivemos que aceita-los, também. Levei séculos para me
apaixonar pelo meu marido, mas finalmente cheguei lá, e valeu a pena esperar.
Minha boca aberta. — Você é casada?
— Bem, assim como você.
Eu dei-lhe um olhar. Pelo menos Henry era a única pessoa que eu já
estive.
— Não me olhe assim, — disse Ava. — Eu sei o que você está pensando. É
verdade que você é um pouco nova, papai me casou quando eu fiz cem anos,
porque ele disse que eu dava-lhe muita dor de cabeça, mas você vai ver
eventualmente. A maioria dos mortais só vive para ter 70 ou 80, no máximo. Você
espera mais uns quinhentos anos sendo casada com a mesma pessoa, e depois
me diz se você não estará ansiosa para brincar com outra pessoa, não importa o
quanto você ame o Henry. — Eu tinha muita maldita certeza que enquanto Henry
deixaria eu ficar com ele, eu nunca iria querer brincar com outra pessoa, mas eu
não disse isso, não na frente de James. Se alguma vez houvesse alguém mais,
nosso verão juntos havia me mostrado que poderia muito facilmente ser ele. A
menos que ele fosse casado, também.
E com a maneira como ele e Ava interagiram...
— Quem é? — Disse. — Seu marido, quero dizer. — Na fração de segundo
antes de responder, não me atrevi a respirar. Ninguém, exceto James.
— Nicholas, — disse ela, como se fosse óbvio, e eu soltei a respiração que
eu estava segurando. Dentro de todos os membros do conselho, Nicholas teria
sido a minha última escolha.
— Isso é loucura, — eu disse levemente, me recusando a olhar para
James. Eu amava Henry. Não importava como as coisas ficassem difíceis, James
não era mais uma escolha. Talvez tivesse sido antes de eu tomar os meus votos,
mas...
... Mas e se Henry desse uma olhada em Persephone e a quisesse de volta?
Eu empurrei o pensamento de lado. Eu não poderia pensar assim.
— Eu sei, certo? — Ava sorriu. — Ele é um cara bom. Ele realmente sabe
como lidar com suas espadas, também. — Enquanto as imagens de Henry
abraçando Persephone encheram a minha frente, eu lutava para manter-me com
Ava. — O que?
— Ele é um ferreiro, — disse ela, arregalando os olhos inocentemente. —
Ele faz as armas, qualquer coisa no mundo, nomeie, ele pode fazer isso. E ele cria
as coisas para mim, é claro.
— Ele também se importa com você, — disse James, sentado em um toco
de árvore no outro lado da fogueira. — E ele é fiel.
Ava bufou. — Eu não seria capaz de fazer o meu trabalho, se eu estivesse
sempre apenas com ele. Além disso, você não estava reclamando quando... —
James encarou, e ela parou. Em vez observar por mais sobre seus
relacionamentos, eu olhei para as minhas mãos.
Nicholas presumivelmente a amava, ou pelo menos se sentia leal o
suficiente para não trair, ao contrário de Ava. Talvez ela tivesse uma desculpa,
mas me lembrou fortemente de Persephone, e amargura enrolou através de mim,
envolvendo em torno de minhas entranhas e me fazendo ainda como pedra. Por
um momento, eu odiei Ava por fazer isso ao marido se ele estava bem com isso ou
não.
— Você não é casado, não é? — Eu disse para James.
Ele balançou a cabeça. — Ainda não, não oficialmente. Há já algumas
mortais, é claro, mas todos nós tivemos um pouco de mortais ao longo do tempo.
— Mais do que alguns, — disse Ava com um grunhido.
— Então por que casar-se em primeiro lugar se você não vai ser fiel? — Eu
disse.
Ava encolheu os ombros. — Eu acho que papai acreditava que me casar
iria me forçar a me estabelecer, mas não funcionou muito bem. — Ela fez uma
pausa. — Nicholas entende, você sabe. Ele sabia no que estava se inscrevendo no
início, e ele não se importa. No final do dia, ele sabe que é o amor da minha vida.
— Nós nos casamos pelas mesmas razões que os mortais fazem, — disse
James. — Para criar uma família, uma casa, ter a sensação de segurança. Para
ter um parceiro. E nos casos de Walter, Henry e Phillip, para ter uma rainha para
ajudá-los a governar.
— Não saiu muito bem para Henry, — eu murmurei, e James suspirou.
— Não, isso não aconteceu.
Uma brisa forte fez as folhas das árvores acima de nós farfalhar, e eu me
forcei a relaxar. Eu não poderia mudar o que já tinha acontecido. Eu poderia, no
entanto, controlar o que eu fizesse, e eu já sabia que nunca machucaria Henry
assim. Não importa o quão ruim as coisas ficassem.
No entanto, um fio de ressentimento permaneceu dentro de mim, e eu não
pude resistir a resmungar para Ava, — Se você pode ficar com Nicholas, então
por que Persephone não poderia ficar com Henry? — Ela não disse nada. O fogo
crepitava, e ao longe ouvi uma mulher cantando, mas eu não prestei atenção.
Muitos dos mortais que tínhamos passado tinham estado cantando.
Embora algumas das músicas eu reconhecia, outras eram tão velhas que tinham
sido perdidas no tempo, exceto para os mortos que as cantavam.
— Persephone se apaixonou por um mortal, — disse James depois de um
longo momento. — Ela não foi diferente do resto de nós, ela não foi fiel a Henry
antes de ela conhecer Adonis, também.
— Você não pode dizer que vocês todos são assim quando Nicholas não
trai Ava, — eu disse rapidamente. Então, não tinha sido uma vez.
Henry teve de suportar saber que Persephone tinha estado com outras
pessoas uma e outra vez, presumivelmente os outros membros do conselho que
ele tinha que enfrentar depois. No entanto, ele ainda a amava.
— Calliope não traia papai, também, — disse Ava, pensativa, e eu quase
engasguei.
— Calliope e Walter? — Eu chiei. — Mas ele é tão velho.
— Ela é mais velha, — disse Ava com uma fungada. — Além disso, a idade
não importa após os primeiros mil anos ou mais. Ele apenas parece mais velho,
porque ele quer. Ele acha que o faz parecer distinto.
Não fazia qualquer sentido. Não que Calliope era mais velha ou qualquer
coisa, mas que ela era casada e amava Henry tão intensamente que estava
disposta a matar para tê-lo. — Então por que... — Fiz um gesto em torno de nós,
frustrado. — Por que estamos aqui? Por que estamos fazendo isso se Calliope é
casada e fiel ao seu marido? Por que ela faria tudo isso para obter Henry se ela já
tinha Walter?
James e Ava trocaram um olhar que eu não entendi, e eu cravei minhas
unhas em meus jeans. Eu já estava milhares e milhares de anos atrás. Sabendo
que tinha algo que eles não estavam dizendo só fez crescer a minha frustração.
— Walter é pai de todos nós, — disse James. — De todo mundo no
conselho que não são os seis originais.
— Ou eu, — disse Ava. — Ele estava em corpos diferentes e formas, por
isso, quero dizer, não é grave ou nada. Mas eles são todos filhos de Walter.
— E Calliope é apenas a mãe de dois de nós, — disse James. — Nicholas e
Dylan.
Fiquei em silêncio enquanto o peso de tudo o que implicava caiu sobre
mim. Eu não sabia exatamente quanto tempo eles todos existiam, mas eu sabia
que era mais do que eu podia compreender. Cem anos parecia uma eternidade
para mim, mas para eles, era quase nenhuma hora em tudo em comparação com
o resto de suas vidas. E ao longo de tudo isso, Calliope tinha visto o marido amar
outras mulheres, e ela teve que aceitar seus filhos como sua família. Como iguais
a ela.
Por um momento terrível, eu entendi por que Calliope estava fazendo isso.
Eu podia sentir sua raiva, sua dor, toda a dor que ela passou, e sua solidão e o
desejo de ser amada. Ela assistiu Henry percorrer a mesma coisa com sua
esposa, e ela deve ter visto um espírito semelhante. Alguém que ela pensou que
iria entender e querer estar com ela, porque ela nunca iria causar-lhe esse tipo de
dor.
Em vez disso Henry tinha jogado de volta para ela, e ele se tornou mais
uma pessoa a fazê-la se sentir completamente sozinha.
Mas Henry não era o cara mau. Ele permaneceu leal a Persephone apesar
de tudo o que ela tinha feito para ele, e minha compaixão momentânea por
Calliope desbotou. No final, ela era a culpada pelo que tinha feito, ninguém mais.
— Não admira que ela retrucou, — eu murmurei. — Se eu tivesse que
assistir Henry fazer isso comigo, eu acho que iria, também.
— Isso não justifica as mortes, — disse James. — E isso não é desculpa
para a liberação de Cronus. Não importa o quão idiota Walter é, ela é a única que
no fim das contas fez essas escolhas. — E fomos nós os que tiveram que
enfrentar as consequências, como Henry tinha quase desaparecido por causa de
Persephone.
Não fazia sentido embora. — Então, por que Persephone desistiu de sua
imortalidade, quando ela poderia fazer o que quisesse? Ela tinha o mesmo acordo
com Henry como eu, certo? Seis meses do ano, eu sou a esposa dele e o ajudo a
governar, e pelos outros seis, eu posso fazer o que eu quiser? — Ava me jogou
uma maçã amarela aparentemente do nada. Eu a peguei, mas eu não dei uma
mordida.
— Não era assim no início, — disse ela, olhando para James, que estava
olhando para a floresta com um olhar distante. — Henry ofereceu isso a ela
quando ele percebeu o quão miserável ela estava aqui. Nenhum de nós pode
aguentar isto o tempo todo, exceto ele.
— A maioria do conselho não visita, — disse James. — Nossas
capacidades são silenciadas por aqui, e...
Crack.
Madeira chiou acima de mim, e logo olhei para cima para ver o que tinha
acontecido, Ava empurrou-me para fora do tronco e para o chão, perigosamente
perto do fogo. Eu puxei minha mão longe das chamas, e um estrondo
ensurdecedor transformou o mundo em pó.
Tossindo, eu me levantei e tropecei, meu pé se conectou com madeira
lascada no local onde eu estava sentada segundos antes.
— Ava? — Eu disse, engasgando com as nuvens de poeira. — James? —
Eu fechei os olhos. Antes de a poeira baixar o suficiente para eu ver mais do que
alguns centímetros na frente do meu rosto, um par de mãos agarraram meus
ombros e me puxou para trás.
— Vamos lá, — disse James bruscamente, arrastando-me para longe da
tora. — Nós precisamos sair daqui.
— Mas Ava...
— Eu estou aqui, — disse Ava alguns metros à minha esquerda. —
Vamos. — James puxou-me para longe, e eu tropecei em cima de pedras e raízes
que eu não podia ver. Outro crack ecoou pela floresta, e eu corri para frente,
inutilmente cobrindo minha cabeça. A segunda árvore caindo perdeu James e eu
por centímetros.
— O que está acontecendo? — Minha perna doía mais do que tinha desde
que tínhamos deixado o palácio, e eu lutava para acompanhar. O ar mais limpo
agora, e eu vi James segurando sua mão acima da cabeça, como se estivesse
tentando evitar algo.
— Cronus, — disse ele, e outra árvore chiou. — Ele nos encontrou.
07
OASIS

Fora de todas as coisas que eu tinha imaginado que poderia dar errado
com essa jornada através do Submundo, Cronus tentando nos parar nunca
passou pela minha cabeça.
Eu tentei trabalhar o meu caminho em torno de Persephone se recusando
a vir. Eu pensei o que fazer se não pudéssemos encontrar a caverna. E mesmo
que em algum lugar dentro de mim, eu sabia que não havia outras opções, eu
estava tentando como o inferno chegar a algo melhor do que me sacrificar.
Nunca, nenhuma vez, eu pensei que Calliope iria descobrir que estávamos
chegando e enviaria Cronus para nos parar.
Estúpida, estúpida, estúpida.
Não que houvesse muito que poderíamos ter planejado além de correr
para as montanhas, o que era exatamente o que fazíamos.
James agarrou a minha mão e nós corremos por entre as árvores, e Ava se
arrastou atrás de nós. Entre os dois, eles pareciam ter energia suficiente para
manter uma distância segura longe de Cronus.
Isso não impediu que as árvores caíssem, porém, e mais de uma vez
James me empurrou de lado uma fração de segundo antes de eu ver um carvalho
ou um bordo infundido com a mesma neblina que havia cortado minha perna.
Eu não sabia quanto tempo corremos, mas foi tempo suficiente para que
meus pulmões sentissem como se estivessem em chamas. As árvores nos deu
abrigo, mas cada vez que olhava por cima do meu ombro, Cronus parecia estar se
aproximando.
Nós não poderíamos correr para sempre, e eu tinha certeza de que James
e Ava não seriam capazes de segurá-lo tempo suficiente para chegarmos a
Persephone, também. E quando chegássemos a Persephone...
De que ajuda ela seria contra um Titã?
A floresta que nos cercava dissolveu em um deserto, e as opções de tudo o
que tínhamos antes desapareceu. Nós não poderíamos correr para sempre, James
e Ava não poderiam brigar para sempre, e Cronus claramente só queria uma
coisa.
Eu.
Toda árvore que não tinha quase batido em James ou Ava, quase me
acertaram. A primeira tinha aterrado bem onde eu estava sentada momentos
antes. E antes que Henry e seus irmãos tivessem ido após Cronus, o nevoeiro
tinha deslizado através de suas defesas e me escolhido como seu alvo.
A areia quente era difícil para correr, e o céu brilhou ao sol. Eu já estava
esgotada. Se minha perna cedesse e eu tropeçasse, Cronus iria me matar. A
única vantagem que eu tinha era fazer algo que ele não esperava.
Cavei meus calcanhares na areia e puxei minha mão das mãos de James.
Ele caiu de joelhos, perdendo o equilíbrio por não puxar-me atrás dele, e eu mexi
longe dele tão rápido quanto eu podia.
— Cronus! — Eu gritei quando eu endireitei no lado de uma duna a seis
metros de distância de onde James havia caído. Ava estava ao seu lado,
ajudando-o a se levantar, e ambos me olharam como se eu fosse uma lunática.
Talvez eu fosse. Talvez eu estivesse prestes a morrer. Mas se eu não
fizesse algo, estaríamos todos mortos, e valia a pena tentar.
Nós não poderíamos correr mais que um Titã.
A névoa ficou espessa quando diminuiu a velocidade e parecia se juntar.
Apertando os olhos na luz do sol, eu pensei que eu podia ver o contorno de um
rosto, mas o calor que irradiava da areia fez minha visão distorcida demais para
eu ter certeza.
— Você sabe quem eu sou, — eu disse, tentando parecer segura de mim
mesma, em vez de aterrorizada fora da minha mente. — E eu sei quem você é,
então vamos direto ao assunto. Você não pode me matar... ou qualquer um de
nós.
Isso foi uma mentira descarada, mas pelo menos ele pareceu fazer uma
pausa para considerar isso. O mesmo estranho estrondo que eu ouvi na minha
visão ecoou pelo deserto, e eu me tornei muito consciente do fato de que nós
estávamos em uma caverna vasta, não debaixo de um céu infinito. Se eu pudesse
voar, minha mão teria, eventualmente, tocado a pedra.
— Você precisa de nós. — Minhas palavras eram tão parecidas com as de
Calliope, que eu quase as tomei de volta, mas era a única maneira que Cronus
não ia matar-nos para se divertir. Calliope me queria morta, e ele precisava de
Calliope para abrir o portão. Mas...
Ela não sabia como.
Uma onda de confiança correu através de mim. — Calliope não sabe como
abrir o portão. Eu sei. — Poderia Cronus descobrir uma verdade a partir de uma
mentira como Henry? O nevoeiro avançou para perto de mim até que ele estava a
apenas uma respiração de distância.
Em vez de atacar, me cercou até que o calor do sol foi embora e eu não
podia mais ver o céu azul.
Eu me senti tonta, mas eu quis que meus pés permanecessem plantados
na areia. Tocá-lo, sem dúvida, significava dor lacerante, e eu não aguentava mais
do mesmo, não quando havia um longo caminho a percorrer antes de encontrar
Persephone. Eu tinha que fazer isso. Era a minha única chance. Única chance do
conselho.
— Se você deixar eu e meus amigos irmos, nós iremos até você, — eu
disse, cavando profundamente dentro de mim para achar toda a coragem que me
restava. — Quando chegarmos lá, deixe que os outros vão. Eles não podem
derrotá-lo sem Calliope de qualquer maneira. Uma vez feito isso, eu vou abrir o
portão, e você vai estar livre.
Silêncio. Sem murmuro, nem risos, nada. Nevoeiro sussurrou em meu
cabelo, e eu apertei meus olhos fechados. Eu só tinha espaço suficiente para
respirar.
— Se você me matar agora, a única pessoa que pode fazer isso é o Henry,
— eu disse, minha voz embargada. — Ele prefere destruir a si mesmo do que
libertar você. Eu sei que Calliope quer me matar, mas ela está te usando. Eu
tenho o que ela quer, e uma vez que ela não pode me matar, ela está fazendo você
fazer isso por ela, em troca de uma promessa que ela não pode cumprir. Ela não
tem ideia de como abri-lo. Ela não pode, ela não governa o Submundo. Uma vez
que eu estou morta, ela vai deixá-lo trancado na jaula, e os outros deuses
dominarão você novamente. Deixe eu e a minha família viver, e eu juro que eu
vou libertá-lo quando chegar na caverna. — Fiz uma pausa e engoli em seco. —
Eu sou sua melhor chance e você sabe disso. — Quando o espesso nevoeiro me
envolveu completamente, tudo que eu podia imaginar era Henry deitado em uma
pilha quebrado e ensanguentado na caverna enquanto Calliope ria aquele grito
feminino dela. E minha mãe era, sem dúvida, uma prisioneira agora, também. Eu
ia perder tudo se isso não funcionasse.
— Eu sei o que é estar sozinho, — eu sussurrei. — Não por... por tanto
tempo que você tem, mas eu sei o que é perder tudo o que amo. E a maneira
como os deuses te entregaram não é justo. Você foi nada, exceto bom para eles.
Você deu a eles tudo o que poderiam sonhar, e, em troca, eles te prenderam por
toda a eternidade. Não é justo. Você tem o direito de ser livre.
Isso me assustou, o quão facilmente as palavras escaparam, como se eu
realmente acreditasse nelas. Talvez parte de mim secretamente acreditava. Não
que Cronus merecia liberdade, mas eu entendia o que ele passou, de certa forma.
Eu estava com tanto medo de estar sozinha que eu tinha dado a metade do resto
da minha vida na esperança de que eu não teria que estar.
— Deixe-me ajudá-lo. — Meu coração batia forte quando o ar começou a
afinar. — Por favor. Eu quero. E talvez, talvez podemos ajudar um ao outro.
O ar virou frio quando todo o calor do deserto desapareceu, e eu tremi. Eu
mal me movi, mas foi o suficiente, o nevoeiro tocou minha pele nua, frio e sedoso
e muito mais sólido do que eu esperava. Como penas, talvez, ou neve.
Não doeu.
Em vez disso, como ele fez para Calliope, ele acariciou minha bochecha, e
através desse único toque, senti o poder além da imaginação. Não era nada como
a força que Henry e os outros tinham usado para perseguir Cronus. Era
imensurável, como se o universo inteiro fosse comprimido em um fio solitário de
neblina. Finalmente entendi porque todos tinham medo dele.
Seu toque durou meio segundo, e ele se foi antes que eu pudesse abrir os
olhos. Minha mente girava enquanto eu tentava compreender o que havia
acontecido, e apesar do sol mais uma vez bater em mim, minha pele parecia gelo.
Desabei em minhas mãos e joelhos, a areia grossa raspando minhas mãos, mas
isso não importava.
Ele me poupou.
James e Ava estavam ao meu lado em um instante. Areia voou em todos
os lugares quando Ava caiu de joelhos, e James pairava sobre mim, suas mãos
um centímetro acima das minhas costas, como se ele achasse que um toque me
faria desintegrar em cinzas.
— Você está viva? — Disse Ava com os olhos arregalados, como se ela não
estivesse disposta a acreditar. Ela pegou minha mão e segurou-a como se ela
fosse a única coisa que me ancorava a este lugar. Eu não estava tão certa de que
ela estava errada.
— O que aconteceu? — Disse James, urgência e preocupação combatendo
em sua voz. Eu tremulamente me abaixei de joelhos, mas eu não conseguia olhar
para ele. Eu não conseguia olhar para nenhum dos dois. Eu menti para Cronus e
roubei qualquer chance que James e Ava tinham de sair de lá vivos. Eu não tinha
ideia de como abrir o portão, e quando eu admitisse a verdade...
Não iria chegar a isso, pensei firmemente para mim mesma, ou pelo
menos tão firmemente quanto consegui quando meu cérebro parecia geleia. Eu
comprei-nos tempo. Qualquer coisa poderia acontecer antes de chegarmos ao
portão, se chegássemos. Nesse meio tempo, eu tinha um pouco mais de tempo
para chegar a um plano.
— Água, — eu disse, minha boca seca como o deserto em torno de nós.
Meus lábios estavam rachados, e meus músculos gritavam em protesto
toda vez que me mexia, mas eu estava viva.
Eu tremia como se eu não tivesse sentido o calor em anos e, juntos,
James e Ava me levantaram e me ajudaram em direção a um pequeno oásis.
Parecia uma imagem tão perfeita que se eu não soubesse que essa era a ideia de
alguém em um deserto em vez da coisa real, eu teria imaginado que era uma
miragem.
Nós cobrimos a distância mais rápido do que eu esperava, ou talvez o
tempo estivesse se movendo rapidamente para mim agora que eu sabia que não
tinha mais uma chance de sair dessa caverna viva.
O melhor que eu podia esperar era que os outros iriam sair antes de
Cronus ter a chance de atacar.
Eles me colocaram debaixo de um bosque de palmeiras, e encostei-me
contra uma e fechei os olhos. Eu odiava ser fraca em comparação com eles. Eles
lutaram com Cronus com apenas uma reclamação, e eu não conseguia nem falar
com ele sem me sentir esgotada.
— Diga-nos o que aconteceu, — disse James. Ele abriu um coco,
espirrando água por toda a sua camisa, mas ele não parecia se importar. Ele
mergulhou uma das metades para a piscina de água e ofereceu para mim, e as
minhas mãos tremiam quando eu peguei.
Eu bebi profundamente. A água deliciosamente fresca se espalhava
através de mim, e uma vez que eu terminei minha segunda dose, sentei-me e fiz o
inventário dos meus ferimentos. Minha perna latejava e eu estava tonta, mas
Cronus não me machucou de novo. Corri meus dedos pelo meu cabelo em uma
tentativa de penteá-lo, mas era muito de uma bagunça suada para incomodar,
então eu procurei em meu bolso por um laço de cabelo para puxá-lo para tras.
Em vez de elástico, meus dedos roçaram contra algo que parecia seda.
Não, não era seda. Uma pétala de flor. Assustada, eu puxei e segurei a flor
amarela esmagada na minha mão. Era pequena, com sete pétalas pontiagudas
que pareciam que as extremidades tinham sido mergulhadas em roxo, e,
lentamente, começou a desenrolar.
Eu nunca tinha visto nada parecido, muito menos pegado e colocado no
bolso. E estava viva, não estava morta ou esmagada como eu pensei que estava.
Em segundos, ela estava inteira e aberta, e do centro parecia uma gota brilhante
de néctar. Não poderia ter vindo a partir da superfície.
De uma das pós vida que nós passamos? Tinha que ser. Mas eu enfiei as
mãos nos bolsos na floresta antes de Cronus ter nos perseguido, e não estava lá,
então.
Eu simplesmente não havia percebido isso? Essa foi a única explicação.
Ou talvez eu estivesse atordoada demais para pensar direito.
Colocando-a de volta para a segurança do meu bolso ao lado da flor de
quartzo e pérola de Henry, o meu cabelo penteado com meus dedos e disse com
voz trêmula: — O que vocês dois... o que vocês viram?
Sem palavras Ava me ofereceu um laço de cabelo, e eu peguei. Era rosa
brilhante. — Nós vimos Cronus comer você.
— Você estava envolvida, — disse James, e ele hesitou. — Nós pensamos
que você tinha ido embora.
Olhei para a piscina clara. Meu reflexo olhou para mim, e eu me abaixei
para espirrar um pouco de água no meu rosto sujo. Eu era uma bagunça. — Eu
também, — eu murmurei enquanto eu esfregava a sujeira.
— Então por que ele não a matou? — Disse Ava. Ela segurava um coco na
mão, e um segundo depois, um canudo rosa neon enrolado apareceu de dentro
dele. Ela tomou um gole, e eu pude ver a água passar através dos redemoinhos.
Eu não respondi imediatamente. Eu tinha que dizer a verdade, mas eles
não eram estúpidos. Eles iriam ver o que eu pretendia fazer, e se James e Ava
pensavam que era tanto como considerar me sacrificar, eles me marchariam de
volta para o palácio.
Eu precisava de James para achar Persephone, e ele só me mostraria
como chegar lá se ele achasse que estaria me mostrando o caminho de casa,
também. Isso deixava apenas uma opção.
Evitar toda a verdade.
— Porque eu lhe disse que iria abrir o portão, se ele não nos prejudicasse
— disse eu.
James acalmou, e Ava deixou cair o coco. — Você fez o que? — Ela gritou.
— Você está louca? Você tem alguma ideia do que isso significa? Quando você
não libertá-lo, ele vai te matar. Você sabe disso, né?
Eu balancei a cabeça atordoada. — Então eu acho que isso significa que
temos uma quantidade limitada de tempo para chegar a outro plano.
Ava soltou uma série de palavrões e ficou de pé, passeando ao redor da
piscina. — Nós não podemos deixá-lo sair. Mesmo que ele mate todos nós, vai ser
melhor do que o que ele vai fazer no minuto em que sair para o mundo. Você
sabe disso, Kate.
— É claro que eu sei disso, — eu atirei. — Mas o que mais eu poderia
fazer? Ele iria matar todos nós, e todo mundo está muito ocupado tendo medo de
vir atrás de nós se alguma coisa der errado.
— Você deveria ter feito algo mais. Qualquer outra coisa. — O rosto de Ava
ficou vermelha, e ela fechou as mãos em punhos.
Eu nunca tinha a visto tão zangada antes. — Você não entende... não
podemos deixá-lo sair. Nós não podemos.
— Então, não vamos, — disse James. Ele gesticulou para Ava voltar a
sentar, e ela ficou lá por um momento, como se o desafiando a fazê-la, mas
finalmente seus ombros caíram e ela cedeu. — Você fez bem, Kate. Você
comprou-nos tempo. — Pelo menos James entendia.
— Eu sinto muito, — eu disse a Ava quando eu puxava as mangas. — Eu
não sabia mais o que fazer.
— Está tudo bem, — ela murmurou, e ela pegou o coco novamente para
tirar um gole saudável. — Não é como se tivéssemos um plano melhor.
— Nós temos um plano melhor, — disse James. — Encontrar Persephone
e descobrir de lá. Se alguém puder ajudar, é ela.
Ava fez uma careta, aparentemente tão feliz com o pensamento do destino
do universo descansando nas mãos de Persephone como eu estava. — Pelo menos
não temos que nos preocupar com Cronus, até chegarmos lá, eu acho.
— Exatamente. E não sei como abrir o portão ou, então, não importa o
que Kate lhe prometeu para tirá-lo de nossas costas. Vamos descobrir uma saída
para isso. — James ofereceu-nos um sorriso, e ela retornou, mas eu olhei para as
minhas mãos.
Cronus estava ficando mais forte a cada minuto, e ninguém, nem mesmo
Henry ou Walter, poderiam ganhar contra esse tipo de poder impossível. Se ele
seguisse o nosso acordo e deixasse que os outros sobrevivessem, em seguida, a
menos que eu quisesse vê-lo abater todos que eu amava, eu não teria escolha a
não ser abrir o portão.
Tudo o que eu tinha que fazer, entretanto, era convencer Persephone a me
dizer como.
Horas depois que deixamos o oásis, eu encontrei uma segunda flor,
manchado com azul, esperando por mim em uma árvore caída quando me sentei
para descansar. De primeiro o tronco estava vazio, mas quando eu baixei-me,
meus dedos escovaram nas pétalas de seda.
Não poderia ser uma coincidência, mas quem estaria deixando-me
presentes? Henry? Eu me agarrei a essa esperança, mas ele estava inconsciente.
As chances de que eram ele eram escassas.
E então meus olhos caíram sobre James, e eu fiz uma careta.
— O que? — Disse ele quando ele se inclinou contra uma árvore. Eu
levantei a flor, e ele arqueou as sobrancelhas. — Colorida. Onde você conseguiu
ela?
— Estava aqui esperando por mim, — eu disse, mas ele encolheu os
ombros com indiferença. Não era dele, afinal. Por tudo o que importava,
poderíamos estar falado sobre uma folha morta.
Henry, então. Eu aqueci com o pensamento. Ele deve ter sido capaz de me
ver na caverna depois de tudo, ou talvez ele imaginou o que estávamos fazendo.
Talvez ele estivesse tentando me dizer que estava feliz que estávamos chegando
para resgatá-lo. Só porque ele não sabia o que eu planejava fazer.
Nós continuamos, verificando constantemente sobre nossos ombros a
qualquer sinal de Cronus. Cada vez que paramos, eu encontrei uma flor nova
esperando por mim, e eu dobrei com reverência no bolso com o arco-íris das
outras, aninhadas contra a flor de joias. Eventualmente nossas pausas tornaram-
se cada vez menos frequentes, e enquanto eu sentia falta das flores, meu corpo
parou de ficar cansado, e foi mais fácil para continuar.
Eu não sei quanto tempo nós andamos. Parecia uma eternidade, embora
não poderia ter sido mais de uma semana. Minha perna doía cada vez que eu
dava um passo, mas, eventualmente, a dor desapareceu no fundo, dando-me
tempo para absorver a beleza e o horror do Submundo.
— Esta é realmente a maneira mais rápida para lá? — Eu disse quando
outro pesadelo desapareceu. Desta vez, tinha sido uma criança que estava sendo
queimada viva com uma mãe que observava, acorrentada ao chão enquanto ela
gritava, impotente para fazer qualquer coisa.
— Infelizmente sim, — disse James à medida que nos arrastamos até uma
estrada de terra íngreme. — Pena que tudo isso não aconteceu após sua
coroação. Você poderia ter nos tido lá em segundos.
— Obrigada, — eu murmurei, agarrando um galho caído para usar como
uma bengala. — Como se eu precisava de mais um lembrete.
— Você é a pessoa que perguntou, — disse James, e depois disso, eu me
recusei a falar com ele pelo resto do dia.
Agora que o perigo do ataque de Cronus tinha se dissipado, eu passei a
maior parte do meu tempo tentando descobrir a melhor forma de convencer
Persephone não apenas para nos ajudar, mas para me dizer como abrir o portão
sem Ava e James descobrirem. Eu não queria que fosse uma opção, mas era, e eu
não podia ignorar. E a maneira como ele acariciou minha bochecha no deserto...
se Cronus realmente estava disposto a me ajudar em troca de eu liberar ele,
então talvez ele pudesse ajudar a derrubar Calliope. E depois os outros irmãos
poderiam recapturá-lo.
Era instável no melhor, mas era tudo mais sobre este plano, e pelo menos
isso era melhor do que nada.
Quanto mais perto chegávamos de Persephone, mais apertado o nó em
meu peito ficava. Eu pensei em dezenas de maneiras de convencê-la a vir,
argumentos para fazê-la ver como isso era importante, mas não havia nenhuma
garantia de que qualquer coisa que eu dissesse seria o suficiente. Apesar de
tentar persuadi-la, eu também corria o risco de afastá-la.
Entre a preocupação e o estresse de tudo que estava acontecendo, eu
fiquei mais quieta, ouvindo James e Ava falarem em vez de me juntar. Quando
eles não estavam falando sobre meu acerto com Cronus, a maioria de sua
conversa centrava no que os outros estavam fazendo ou se Dylan os convenceu
de que era um desperdício de tempo. Ava estava certa de que ele não faria, James
não tinha tanta certeza, e a disputa cresceu mais e mais aquecida até que eu não
sabia se eu poderia tomar qualquer partido.
Por fim, quando parecia que nunca iríamos parar de andar e nunca iriam
parar de brigar, James levantou a mão, e Ava ficou em silêncio. Eu congelei, e
James olhou através das árvores que nos cercavam.
— O que foi? — Disse Ava em voz baixa. James acenou para nos juntamos
a ele, e eu avancei, na ponta dos pés em torno das raízes. Ele estava à beira de
uma clareira cheia de flores silvestres, e quando olhei em volta dele, eu notei uma
pequena cabana com uma nuvem de fumaça saindo pela chaminé. Feita de
madeira, em vez de tijolo, era coberta com vinhas de flores, quase fazendo com
que pareça como se levantou-se do chão.
— É linda, — eu disse, cansada. — Mas precisamos continuar... — James
cobriu minha boca com a mão, e eu automaticamente a lambi. Foi a mesma coisa
que eu tinha feito para a minha mãe sempre que ela tinha tentado me manter
quieta quando criança, mas pelo menos as mãos dela eram geralmente limpas e
não cobertas com a sujeira do Submundo.
Eu fiz uma cara e cuspi, mas eu não tive a chance de colocar nele por
cobrir a minha boca em primeiro lugar. A porta da casa se abriu, e saiu uma loira
de cabelos cacheados que parecia alguns anos mais velha do que eu. Ela era
pequena, e apesar de o sol brilhando no prado verdejante, sua pele era de
alabastro.
Ao meu lado, James franziu os lábios, e Ava soltou um suspiro suave de
desgosto que eu não entendi. A menina se ajoelhou no jardim ao lado da porta da
casa, e ela começou a arrancar as ervas daninhas enquanto ela cantarolava feliz
consigo mesma. Havia algo perturbadoramente familiar sobre a maneira como ela
se movia, e como um homem lindo de morrer saiu da casa e à luz do sol para se
juntar a ela, eu finalmente entendi.
— Aquela é...? — Eu sussurrei. James engoliu em seco, e minha
respiração engatou na minha garganta.
Persephone.
08
PERSEPHONE

Ela parecia exatamente a imagem que eu tinha visto meses atrás, exceto
que seu cabelo era da cor do trigo em vez de loiro morango. Nós não estávamos
próximos o suficiente para eu ver as sardas, mas eu tinha certeza que elas
estavam lá, também. A memória de Henry dela era perfeita.
É claro que era. O que mais eu esperava?
— E então? — Eu tomei uma respiração profunda para reduzir meu pulso
acelerado. O nó no meu peito tornou difícil para respirar. — Vamos ficar aqui
sentados e olhando, ou vamos ir dizer oi? — James não respondeu. Ele observou
Persephone com olhos grandes e arregalados, e eu não tinha certeza se ele estava
respirando, também.
Eu o cutuquei no ombro, mas ele ignorou o meu toque.
— O que está acontecendo? — Eu disse a Ava. Ela, também, estava
olhando, mas ela tinha o mesmo olhar em seu rosto que ela faz quando estava
olhando para Dylan. Ou Xander. Ou Theo.
— Eu quase me esqueci de como Adonis é lindo, — disse ela. — Nós
deveríamos ter feito dele um de nós.
Ela não teria obtido qualquer argumento fora de mim, mas um som
estranho escapou de James, quase como se estivesse rosnando. — E ter que
suportar outra loira narcisista correndo por ai? Não, obrigado.
Ava abriu a boca para responder, mas eu a cortei. — Vocês são todos
narcisistas. Vamos ou não?
Vestindo uma expressão ferida, James quebrou seu olhar, mas nem ele
nem Ava fizeram qualquer movimento em direção à casa de campo.
Com um acesso de raiva, eu pisei passado o limite das árvores e caminhei
através do prado, fazendo questão de pisar em torno das flores. Não adiantava
arriscar a ira de Persephone, antes de dizer uma palavra.
Persephone devia ter me visto, porque ela se levantou e se colocou
protetoramente na frente do homem, Adonis, aparentemente. Encaixava. Ele
parecia que tinha saído de um filme, com o cabelo longo que pendia de seus
ombros e um abdômen que colocava Henry na vergonha. Era difícil se concentrar
em Persephone com ele ali, e minha boca ficou seca enquanto eu tentava pensar
em algo para dizer.
O desejo de não fazer papel de boba na frente dele tomou conta de mim, e
eu imediatamente me senti culpada por estar tão atraída por ele. Se Persephone
era metade tão superficial como Ava, pelo menos agora eu entendi por que ela
tinha deixado Henry.
Toquei as flores no meu bolso. Agora não era o momento de começar a
pensar como ela.
— Quem é você? — Ela exigiu. Havia uma borda afiada em sua voz, que
forçou a minha atenção de volta para ela, mas o que ela poderia fazer? Me atacar
com uma erva daninha? Ela não era uma deusa mais.
— Eu sou Kate, — eu disse, segurando minhas mãos para cima, quando
eu dei outro passo em frente. — Kate Winters.
Sua expressão não amoleceu. Se nossa mãe tinha visitado ela, ou não
tinha sido nos últimos 20 anos ou ela nunca tinha mencionado que Persephone
tinha uma irmã. Parecia justo.
Ela nunca me disse que eu tinha uma irmã, também.
Eu ouvi passos atrás de mim quando Ava e James chegaram mais perto.
Mesmo que Persephone não tivesse ideia de quem eu era, com a maneira
como a boca dela ficou aberta, era óbvio que ela se lembrava.
— Hermes? — ela disse, atordoada, e então seus olhos se estreitaram
quando ela acrescentou, — e Afrodite. Sorte a minha. O que está acontecendo?
James deu um passo ao meu lado e colocou sua mão no meu ombro.
Ava permaneceu atrás de nós, e eu não a culpei. Qualquer mau sangue
que havia entre as duas, Persephone claramente não tinha esquecido, também.
— Persephone, — disse James com um aceno de cabeça duro. — Tem sido
um longo tempo.
— Não o suficiente, — disse ela, e ela pegou a mão de Adonis, os nós dos
dedos ficando brancos de sua mão. — O que vocês querem?
Nada de mais. Apenas para ela deixar o namorado perfeito e a vida após a
morte para trás para ajudar nós três a encontrar o ser mais poderoso do
universo. Possivelmente libertá-lo também, se ela não se importava muito. Engoli
em seco e abri a boca para responder, mas James chegou lá primeiro.
— Cronus acordou.
Persephone empalideceu. — Como?
— Hera, — disse James, e Persephone franziu a testa.
— É uma longa história. Nós precisamos da sua ajuda.
Persephone olhou-nos com cautela, e seu olhar permanecia em mim mais
do que os outros. — Como eu poderia ajudá-los? Eu não sou uma deusa mais.
James suspirou. — Podemos entrar?
Ela ficou tensa, e quando Adonis a abraçou protetoramente, inveja
serpenteou por mim. Qual seria a sensação de ter estes braços em volta de mim?
Não, eu tinha Henry. Talvez as coisas não estivessem indo tão bem, mas
ele era meu marido. Eu o amava. E quem mais tinha a capacidade de iluminar o
meu humor simplesmente caminhando para o quarto? Eu não precisava de
Adonis.
Mas parte de mim queria ele muito, muito mal.
— Está tudo bem, — disse ele, esfregando a curva de seu pescoço.
— Ninguém pode me machucar mais.
Eu não tinha ideia se isso era verdade, se Cronus poderia atacar os
mortos como ele nos atacou, mas isso não importava. Enquanto Cronus
mantivesse até o seu fim de nosso acordo, não iriamos vê-lo novamente até que
estivéssemos prontos. Não era um conjunto de circunstâncias muito confiável,
mas era melhor do que nada.
— Quem é ela? — Disse Persephone, acenando para mim.
James me deu um olhar de advertência, mas me adiantei antes que ele
pudesse responder. — Henry ia deixar-se desvanecer-se por causa de você, — eu
disse com mais raiva do que eu pretendia. — Ele não poderia governar o
Submundo sozinho, por isso me casei com ele. — Persephone olhou para mim
como se pudesse ver através de mim. Era irritante, mas eu segurei minha cabeça
e olhei de volta, me recusando a deixá-la chegar a mim. Ela estava sob a minha
pele já como era.
Depois de um longo momento, ela se voltou para a porta da casa e acenou
duramente para nós seguirmos. Nós três nos arrastamos atrás dela, Ava
relutantemente, e James me deu outro olhar. Eu ignorei esse também.
O interior de sua casa de um quarto era mais aconchegante do que eu
esperava. Uma centena de diferentes tipos de flores penduravam no teto,
classificadas por família e cor, e eu imediatamente me senti em casa. Quando eu
respirei o cheiro celestial, a tensão no ar parecia derreter. Minha mãe tinha feito
buquês requintados para cada ocasião, em Nova York, e pelo tempo que eu tinha
dez anos, os empresários pagavam quantias exorbitantes para um de seus
arranjos. Antes que eu fosse velha o suficiente para ter muito interesse, porém,
ela ficou doente, e depois de sua segunda rodada de quimioterapia, ela teve que
vender o negócio.
Aparentemente, o câncer não tinha ficado no caminho dela ensinar
Persephone.
Persephone gesticulou para nós tomarmos um assento em uma das duas
cadeiras na mesa, mas James foi o único que aceitou o seu convite. Eu estava ao
lado dele, fazendo um ponto para que eu não pudesse ver Adonis, e Ava
permaneceu perto da porta.
— Há quanto tempo você vem governando o Submundo? — Disse
Persephone. Ela estava no centro da sala, com a boca definida em uma linha
firme enquanto ela me observava. Era inquietante, mas pelo menos ela nos
deixou entrar.
— Eu não tenho, — eu disse. — Henry e eu nos casamos há seis meses.
Eu fui embora para o verão, e Cronus começou a atacar no dia que eu vim aqui.
Não houve tempo para terminar a cerimônia.
Persephone fez um barulho suave no fundo de sua garganta, e seus olhos
se estreitaram. — Por que você o chama de Henry? — Eu pisquei. Essa foi a
última pergunta que eu esperava.
— Pela mesma razão que você o chama de Hades, eu acho. É o que ele me
disse para chamá-lo.
— Os nomes gregos não estavam em grande estilo mais, — disse James.
— E Zeus decidiu que era melhor manter um baixo perfil depois que Roma
caiu, por isso, tivemos que nos adaptar. Eu sou chamado de James agora.
Afrodite é Ava. Hera foi inflexível sobre manter um nome grego – ela foi com
Calliope, sua musa favorita. Ele não se destaca tanto quanto o nosso. —
Persephone estava em silêncio. Adonis caiu ao lado dela e enrolou o braço em
volta da cintura dela, mas ela não se moveu. Eu não poderia olhar para longe
dela sem ser rude, então eu cerrei os dentes e tentei me impedir de deixar
escapar algo completamente inadequado.
— Parece que o mundo seguiu em frente sem mim, — disse ela com um
pequeno fungar arrogante.
— Você não deve agir tão surpresa, — disse James. Ele esticou as pernas
e tirou as botas com os dedos. Persephone torceu o nariz, mas ela não disse
nada. — Tem sido um milhar de anos. Você não iria reconhecê-lo se você for lá
em cima. — Por um momento eu pensei que eu vi um flash de pesar passar no
rosto dela, e meu estômago revirou desagradavelmente. Ela tinha decidido que
não amava Adonis tanto quanto ela pensou que ela tinha? Ava estava certa sobre
a lealdade de Persephone, e que ela tinha se cansado dele e queria seguir em
frente? Eu não podia ver como, a menos que Adonis era nada mais do que um
rosto bonito.
Um rosto muito bonito, mas ainda assim.
Eu não tive tempo para pensar sobre isso por muito tempo. Persephone
voltou-se para mim, os olhos azuis de gelo. — Então, o que, ele escolheu você
dentro de milhões de pessoas no mundo...
— Bilhões, — disse James. — Tem sido um tempo.
Persephone fez uma careta. — O ponto é. Por que você? — Parte de mim
queria evitar isso o maior tempo possível, mas ela era obrigada a fazer perguntas,
e se eu fosse honesta com ela, havia uma chance de que ela estaria disposta a
ajudar. Se ela realmente estava entediada com Adonis, talvez nós tivéssemos
sorte e ela saltaria a chance de ir a algum lugar novo. De qualquer forma, mentir
para ela ou sonegar informações não ia ajudar a minha causa.
— Eu não fui a primeira, — eu disse. — Onze meninas foram testadas
antes de mim ao longo do século passado. Calliope as matou antes que tivessem
uma chance, e...
— Hera nunca faria isso, — interrompeu Persephone. — Talvez se fosse
Zeus, mas...
— Ela é apaixonada por Henry, — eu disse. — Depois que você saiu, ela
pensou que teria uma chance, mas ele não queria estar com ela, então ela matou
a competição.
Persephone fungou. — Você sobreviveu. Você deve ser algo especial.
Aposto que Henry está apenas arrulhando sobre você. — Talvez tenha sido a
maneira como ela disse o nome dele ou o sarcasmo escorrendo de sua voz, mas
algo dentro de mim estalou. Isso era impossível. Eu não ia ficar o dia todo
explicando tudo para ela quando ela não estava ouvindo. Eu nunca iria entender
por que Henry a amava tanto, e se ela não poderia me mostrar cortesia básica, eu
não ia me incomodar, também.
— Ele só está comigo, porque eu sou sua irmã, — eu disse com
veemência. — Diana-Deméter, ela é minha mãe. Ela decidiu me ter em um último
esforço para salvar Henry porque se sentia tão malditamente culpada pelo que
você fez com ele, e ela não queria ser responsável por ele desaparecer. Ele se
casou comigo, porque ele não poderia tê-la, e eu era a melhor coisa. Obrigada por
esfregar meu nariz nisso.
As palavras saíram antes que eu pudesse detê-las, mas não havia como
levá-las de volta agora. Além disso, era a verdade.
Eu nasci para ser outra encarnação dela, para ser a versão dela que ela
não podia ser, mas agora que eu estava de pé na frente dela, eu sabia que nunca
iria chegar perto.
Ela era linda e graciosa e colocava as flores em torno de nós na vergonha,
mas ao mesmo tempo, ela estava disposta a machucar as pessoas que a amavam
por causa da sua própria felicidade.
Eu não era Persephone, e pela primeira vez desde que conheci Henry, há
mais de um ano, eu finalmente percebi que era uma coisa boa. Eu era a única
que poderia querer Adonis e dizer não.
O silêncio esmagador encheu a casa. Persephone olhou para mim, os
olhos ardendo com algo que eu não conseguia identificar, mas eu sabia que não
era bom. Ela não tinha que me dizer para sair. Girei em meus calcanhares e saí
pela porta.
A brisa soprou através do prado, e quando eu respirei fundo, o cheiro de
frésia me encheu, mas eu estava muito longe para me importar. Raiva evaporou
qualquer simpatia que eu tinha por Persephone, e eu não me importava se ela era
minha irmã. Eu nunca tinha tido uma irmã antes, e não havia necessidade de
mudar isso agora.
Eu ouvi a porta se abrir novamente e passos contra a sujeira quando
alguém veio atrás de mim. Eu continuei.
— Kate, — disse Ava. — Kate, pare.
Eu estava a meio caminho das árvores quando ela agarrou meu braço. Eu
girei, pronta para afastá-la, mas as palavras formaram um nó na garganta.
— Você sabe que não é verdade, — disse ela suavemente. — Henry não se
casou com você porque você era irmã de Persephone.
Eu tentei falar de novo, mas tudo o que saiu foi um soluço engasgado, e
minhas bochechas queimaram de humilhação. Eu mal gastei cinco minutos com
ela, e ela já tinha me reduzido a isto.
— Ela... ela é a única razão que eu tive a chance em primeiro lugar, — eu
solucei. — E amor nunca foi parte do acordo. Tudo o que eu tinha que fazer para
casar com ele foi passar, e... e isso é tudo o que eu fiz.
Ava me abraçou, e eu enterrei meu rosto em seu ombro, lutando para não
chorar mais do que já estava. Agora que a barragem estourou, no entanto, eu não
podia parar. Todas as preocupações e tensões que eu mantive engarrafada dentro
de mim desde que cheguei ao Submundo veio derramando, e onda após onda de
soluços me assaltava, roubando cada último vestígio de dignidade que me
restava.
Eu não tinha assinado para isso. Eu não queria enfrentar a minha irmã e
todas as verdades dolorosas que vieram junto com ela. Mesmo com o câncer, eu
estava feliz em Nova York com minha mãe, quando eu não sabia que eu tinha
sido sua segunda filha, uma substituta para a filha que não tinha sido perfeita.
Agora, todas as suas esperanças e expectativas pesavam sobre meus
ombros, e minha determinação rachou.
Eu não queria me casar por dever ou um acordo. Eu amava Henry. Talvez
não fosse o tipo de infinito de amor eterno que poetas escreviam e músicos
cantavam, mas ele me fez mais forte, me fez feliz, e sabendo que ele estava na
minha vida – ele me salvou, em mais de uma maneira.
E quando ele estava comigo, tudo parecia certo. Parecia real.
E, eventualmente, poderíamos chegar lá, se ele me desse uma chance. Em
vez disso, ele queria me manter no comprimento do braço, e todo o tempo eu
sofri, sabendo que eu não era boa o suficiente para ele me amar de volta.
Sabendo que eu não era Persephone.
Não era uma coisa tão boa quando eu pensava sobre isso dessa forma.
Alguém limpou sua garganta atrás Ava, e, eu olhei para cima,
reconhecendo o rosto borrado de James através das minhas lágrimas.
— Está tudo bem? — Disse ele, parecendo que não queria estar aqui. Eu
não o culpava. Eu não queria estar aqui, também.
Eu balancei a cabeça e funguei, enxugando o rosto com a manga da
minha blusa. — Desculpe. Eu só não posso, se ela vai ser assim. É ruim o
suficiente precisar dela e pedir sua ajuda. Eu não posso aguentar ela agindo
assim, também.
— Você não é nenhum prêmio para você mesma, — disse Persephone
atrás de James, e eu enrijeci. Ava colocou-se entre nós, e eu poderia jurar que
ouvi ela assobiar.
James estendeu os braços, como se ele esperava que elas precipitam-se
uma para a outra e arrancassem o cabelo uma da outra.
— Chega, vocês duas. Todas as três. Nenhum de nós quer fazer isso, mas
não importa o que nós queremos, porque se não o fizermos, Cronus e Calliope vão
ganhar. — Eu olhei para a flor selvagem a meus pés. Eu acidentalmente
esmaguei-a com o salto do meu sapato, e eu cautelosamente levantei minha
perna, como se ser gentil agora poderia trazer de volta à vida. Não foi até que a
decepção passou por mim que eu percebi que eu estava olhando para uma das
flores de Henry. Assim, ele poderia estar comigo em todos lugares, mas não aqui.
Não com Persephone.
Persephone golpeou a mão de James para o lado antes de se aproximar. —
Eu sinto muito, — ela disse, sua voz ecoando através do prado. — Não pelo que
eu disse, mas pelo que você está passando. James explicou.
É claro que ele explicou. Meu peito apertou quando outra onda de soluços
avançou, e eu cerrei meu queixo em uma tentativa de mantê-lo na baía. — Está
bem. Você não queria que isso acontecesse. — Ava saiu ao meu lado e pegou
minha mão, e isso era tudo que eu precisava para me sentir ainda mais como
uma idiota do que eu já me sentia. Cronus poderia matar a todos nós, e aqui
estava eu quebrando sobre algo que ninguém poderia ajudar.
— Tenho certeza que mamãe não queria fazer você se sentir assim,
também, — disse Persephone. — Tudo o que ela fez, arranjando meu casamento
com Hades, era tudo para mim e meus melhores interesses. Não foi culpa dela
quando não deu certo. — Não, não era, mas parecia grosseiro concordar com ela
em voz alta.
James estava certo embora. Lutar assim e deixar o ciúme atrapalhar não
ia consertar nada. Não importa como eu me sentia sobre Persephone, ou mesmo
o que ela sentia por mim. O que importava era fazer algo sobre Cronus e salvar os
outros.
Levou cada grama de força de vontade que eu tinha para engolir meu
orgulho. — Por favor, nós precisamos de sua ajuda, — eu disse. — Eu sei que
você não teve nada a ver com isso por um tempo, mas minha mãe e Henry e... e
Walter e todos, todo o resto dos seis originais, Cronus e Calliope sequestraram.
Ela está tentando descobrir como abrir o portão que está mantendo Cronus
dentro, e...
— E o que? — Disse Persephone, e eu tive uma pequena quantidade de
satisfação, ao ver seu rosto drenar de todas as cores. Removida do conselho ou
não, pelo menos ela ainda parecia se importar com eles. — Como eu poderia
ajudar?
— Você sabe onde o portão está, — disse James.
Persephone alcançou para trás dela, e Adonis estava lá em um instante,
como se tivesse surgido do nada. — Você quer que eu te leve lá? — ela disse,
incrédula. — Há uma razão que você não poder achar, James. Há uma razão para
que ninguém, só Hades e eu soubéssemos onde estava. Eu nem deveria saber, ele
só me disse caso algo acontecesse com ele.
— Algo aconteceu com ele, — eu disse. — E se não chegarmos lá antes de
Cronus decidir que mantê-los em torno não vale a pena, ele poderia matá-los ou
pior.
Persephone balançou a cabeça, e Adonis passou os braços em volta dela
de novo, enterrando o rosto em seu cabelo. — Você veio até aqui para me
perguntar se eu poderia levá-los em uma missão suicida, — ela disse. — Você não
pode enfrentar Cronus. Ele vai te matar. — Eu troquei um olhar com James, e ele
me deu um aceno de cabeça pequena.
— Nós já enfrentamos, — disse eu. — Eu acho, eu acho que ele vai nos
deixar em paz, pelo menos até chegarmos lá.
— Até chegarmos lá? — Disse Persephone, uma pitada de pânico em sua
voz. — O que quer dizer, até chegarmos lá?
— Ele está acordado o suficiente para passar uma parte de si mesmo, e
ele pode atacar de dentro do Tártaro, — disse James. — Ele atacou o palácio
antes de Kate ser coroada, e foi quando os irmãos foram atrás dele.
— Ele veio atrás de nós em nosso caminho aqui, — eu acrescentei. — Mas
eu fiz um acordo com ele, e eu não acho que ele vai nos atacar. — Seus olhos se
estreitaram, mas pelo menos ela não perguntou que tipo de acordo.
— Quer dizer que você veio aqui sabendo que um maldito Titã com contas
a acertar poderia facilmente segui-la, e essas não foram as primeiras palavras
fora de sua boca? Você o levou direto para nós?
— Ele não nos atacou desde que Kate fez o acordo com ele, — disse
James. — Você está segura.
Persephone escorregou dos braços de Adonis e começou a andar. — Você
fez isso de propósito, não foi? Se eu for com você, ele pode me destruir. Se eu não
fizer isso, ele sabe onde estou agora, e ele sabe que eu sou a única além de Henry
que sabe encontrá-lo no Tártaro, então ele pode decidir se livrar de mim de
qualquer maneira.
— Por que Cronus faria isso? — Eu bati, minha irritação voltando com
força total. Isso era muito importante para ela agir como se ela fosse a única
pessoa no universo. — Ele quer abrir a porta, e Calliope não tem ideia de como.
Ele não tem a menor chance, a menos que cheguemos lá. Enquanto você está
conosco, você está segura.
Persephone fez uma careta, e ela olhou para Adonis, que não tinha dito
uma palavra. Ele acenou com a cabeça, encorajando, e sua carranca se
aprofundou. — Você jura que ele não tem nenhuma razão para vir atrás de nós?
— Kate está dizendo a verdade, — disse James. — Se Cronus não nos
queria lá, ele teria nos matado há muito tempo.
Persephone pareceu considerar isso, e finalmente ela caminhou de volta
para a casa de campo. — Tudo bem, — ela chamou, e Adonis trotou atrás dela. —
Mas eu te juro, se algo acontecer a mim ou Adonis, eu vou...
O que ela faria, não teríamos a chance de descobrir.
Ela fechou a porta da frente, a poucos centímetros do nariz de Adonis,
mas ele não protestou. Não era de imaginar porque Persephone amava ele tanto.
Ele a aguentava.
— Então, o que, ela espera que a gente vá atrás dela? — Disse Ava com
veemência. — Porque, se esse é o caso, então podemos descobri-lo por conta
própria. Eu não estou rastejando para ninguém, especialmente não a ela.
— Ela disse que viria, — disse James. — Paciência. — Com certeza,
poucos minutos depois Persephone saiu da casa. Ela fez uma pausa longa o
suficiente para dar um beijo profundo em Adonis, e eu me virei para dar-lhes um
pouco de privacidade. Eu queria muito ser capaz de beijar Henry assim um dia,
ou melhor ainda, que ele me beijasse assim e saber que ele quis dizer isso. Mas o
mais próximo que ficávamos de Cronus, menores as chances de que isso
acontecesse se tornava.
— Vamos, — disse Persephone, e ela caminhou através do prado, jogando
uma sacola de lona sobre o ombro. — É uma longa caminhada, mas eu conheço
um atalho.
James fez um gesto para ela liderar o caminho, e nós três seguimos. Ava
arrastou em um huff, ainda de mau humor sobre a coisa toda, e eu ofereci-lhe a
minha mão. Nenhum de nós disse uma palavra, e com sorte, iria permanecer
assim até que chegássemos ao portão.
Nós estávamos andando menos de quinze minutos quando a briga
começou.
Tudo começou inocentemente. James, que parecia estranhamente
retirado, mas determinado a ser educado, perguntou a Persephone sobre como
ela e Adonis estavam indo, e por um momento realmente Persephone sorriu.
— Nós estamos bem, — disse ela. — Muito bem. Você acha que o tempo
que foi, iria ficar monótono, mas eu acho que essa é a beleza deste lugar. Tudo é
tão feliz, e não ficamos entediados um do outro ainda.
Ava bufou. — Isso é um milagre, — ela murmurou sob sua respiração.
Dei-lhe um aperto de mão de aviso.
— Se você tem algo a dizer, basta dizer, — disse Persephone. — Nós todos
sabemos que você está com ciúmes porque Adonis me escolheu ao invés de você,
mas...
Ava soltou uma risada estrangulada. — Ele escolheu você ao invés de
mim? Isso é uma piada? — Ela balançou a cabeça em descrença. — Papai me fez
te deixar tê-lo.
Eu suspirei. Era como o que tinha acontecido no Éden Manor tudo de
novo, só que desta vez Ava tinha ido atrás do namorado de Persephone, em vez do
irmão de Ella. O resultado seria o mesmo, horas e horas de briga e eu estaria
presa no meio. Pelo menos desta vez James estava aqui para ajudar.
Elas discutiram sobre isso por outra hora ou assim, e eventualmente eu
larguei a mão de Ava e coloquei-me no abraço de James em seu lugar. Ele não
poderia bloquear as suas reclamações e xingamentos, mas o peso de seu braço
sobre meus ombros ajudou a lembrar-me de que havia algo mais importante
acontecendo agora do que qual deusa Adonis amava mais.
— É por isso que você pensou que Ava não deveria vir? — Eu disse
suavemente, e James assentiu.
— Você deveria ter visto isso quando Persephone entrou para o conselho
para pedir permissão para se tornar mortal por ele, — ele sussurrou. — Foi um
banho de sangue. Ava se recusou a dar seu consentimento a Persephone mesmo
que o resto de nós tinha concordado, então, eventualmente Walter a anulou. Ele
nunca tinha feito isso antes, e ele não tem feito isso desde então. — Mesmo
Calliope, tanto quanto ela me odiava, concordou em me conceder a imortalidade.
Eu pressionei meu ouvido contra seu ombro para abafar as duas. Funcionou
marginalmente, mas a voz estridente da Ava me arrastava de volta para a
bagunça.
— O que você acha, James? — Ela disse sarcasticamente. — Quem é uma
amante melhor, eu ou Persephone?
Meus olhos se arregalaram, e eu me afastei de James, deixando o braço
cair ao seu lado. Ele virou escarlate e enfiou as mãos nos bolsos, e então...
A dor explodiu na minha cabeça, e eu gritei, tropeçando de joelhos. A
floresta caiu, e eu mergulhei na escuridão.
Apesar do meu pânico, eu sabia o que esperar. Eu ainda estava
consciente, e quando eu abri meus olhos, eu não estava mais no Éden de
Persephone. Em vez disso eu estava de volta na caverna de Cronus, e Calliope
ficou na frente de mim, mais uma vez, olhando através de mim.
— Eu vou matar ela, — rosnou. — Eu vou rasgar seu corpo em pequenos
pedaços e forçá-lo a assistir.
Assustada, eu virei para ver de quem ela estava falando, e quando eu vi
um par de olhos da cor do luar olhando para mim, meu sangue gelou.
Henry estava acordado.
09
LAÇOS QUE UNEM

Um corte corria pelo seu rosto, pingando sangue sobre a gola de sua
camisa preta, mas pelo menos Henry estava vivo. Atrás dele, minha mãe e Sofia
foram acorrentadas a Walter e Phillip, os quatro inconscientes. Eu
cautelosamente contornei Henry, preocupada que ele poderia ser capaz de me
sentir. Suas mãos estavam acorrentadas atrás das costas. Ele lutava contra elas,
mas os elos de metal foram infundidos com nevoeiro.
— Você tem mais uma chance, — disse Calliope, e ela fechou a distância
entre eles. Para seu crédito, ele não recuou. — Diga-me como abri-lo, ou da
próxima vez que você ver Kate, ela vai estar em pedaços.
Henry puxou as correntes novamente, mas a sua expressão em branco
não mudou. Calliope zombou e girou bruscamente em direção ao nevoeiro que
girava em torno do portão.
— Eu quero que você a encontre e a mate, — disse ela em voz alta
irritante. Não havia dúvida do comando em suas palavras. A caverna retumbou
com o riso cruel, e o fervor de Calliope vacilou. Aparentemente Cronus não
gostava de receber ordens.
Olhei para Henry e vi um fantasma de um sorriso nos lábios.
Será que ele sabia que eu estava lá, ou ele, também, sabia quão fútil era
Calliope mandar em um Titã?
— Eu disse saia e a encontre, — ela rosnou, mas Cronus não fez nenhum
movimento para sair. O nevoeiro enfiou através das grades do portão, e eu me
perguntei por que eles estavam ali de qualquer maneira quando ele ainda podia
sair. Talvez não todo ele, mas ele já tinha provado que o nevoeiro era o suficiente
para fazer mais dano do que o conselho poderia segurar.
Com um acesso de raiva, ela se virou e olhou para Henry novamente, e
mesmo eu consegui abrir um sorriso. Ela parecia uma criança mimada que não
tinha conseguido o seu caminho, não importa quantas birras que ela tinha
jogado.
— Eu vou fazer isso sozinha, então, — disse ela com um suspiro, e o
sorriso de Henry desapareceu. — Eles estão a caminho agora, e uma vez que ela
chegar aqui, eu vou ter certeza de que está acordado para ver o que vou fazer com
ela. Você não vai querer perder isso.
Com um aceno de sua mão, ela enviou Henry voando de volta em direção
à boca da caverna onde os outros estavam acorrentados.
Ele acertou o muro, enviando uma chuva de pedras em seu colo, e sua
cabeça caiu para frente.
Corri em direção a ele e tentei, em vão, mudar o cabelo de lado para que
eu pudesse ver se seus olhos ainda estavam abertos, mas eu era um fantasma.
Calliope não iria matá-lo. Ela não podia. Ela queria que ele vivesse para me ver
morrer, e ela não iria negar-se o prazer de vê-lo na dor como essa. De me ver na
dor.
A caverna se virou para o preto mais uma vez, e quando voltei, três pares
de olhos olhavam para mim. Ava e James estavam acostumados, mas mesmo
Persephone não parecia assustada.
Talvez eles tivessem explicado a ela enquanto eu estava fora.
— O que você viu? — Disse Ava ansiosamente.
Empurrei-me em meus cotovelos e esfreguei minha cabeça latejante. —
Calliope está tentando fazer Henry lhe dizer como abrir o portão. Ele não está
falando, — eu adicionei quando os olhos de Ava se arregalaram. — Ele não disse
uma palavra. Ela ficou frustrada e o apagou ele de novo.
— Bom, — disse Persephone. — Ele não vai dizer a ela. Ele sabe melhor do
que correr o risco.
— Eles estão todos lá, — eu disse. — Todos inconscientes. Calliope
ordenou Cronus para vir atrás de mim, mas ele recusou. — Persephone me olhou
em dúvida, mas James e Ava não questionaram.
— Isso é tudo? — Disse James. — Você viu alguma coisa?
— Eles sabem que estamos chegando, — eu disse severamente.
Nenhum deles parecia muito feliz com isso, mas ninguém disse nada. Não
foi nenhuma surpresa que Calliope sabia, não quando Cronus tinha nos caçado,
e agora isso não importa.
Eles não estavam vindo atrás de nós mais. Nós perdemos o elemento
surpresa, mas pelo menos tínhamos tempo para descobrir um plano antes de
chegarmos lá.
James me ofereceu sua mão, e eu peguei, transportando-me a meus pés.
A floresta parecia girar em torno de mim, e eu caí contra James, enquanto
recuperava o meu equilíbrio. — Seria bom se eu pudesse controlar, — eu
murmurei. — Faria isso muito mais fácil.
— Você pode, — disse Persephone. Ela se inclinou contra um tronco de
árvore casualmente, como se as pessoas desmaiassem ao seu redor o tempo todo.
— Desde que você era mortal, antes de tudo isso, provavelmente vai te levar
muito mais tempo para pegar o jeito, mas você vai ter que pegar, eventualmente.
Eu mordi de volta a minha réplica. Não adiantava dar-lhe alguma razão
para marchar de volta para Adonis. — Se você sabe como fazê-lo, então por que
você não me diz para que possamos usá-lo a nosso favor? — Eu disse através de
um maxilar cerrado.
Persephone inspecionou as unhas. — Eu vou pensar sobre isso.
James suspirou. — Persephone, por favor.
Os dois trocaram um olhar pesado, e eu fiz uma carranca. Se Persephone
sabia como controlar esse tipo de poder, então a única razão que ela tinha para
não compartilhar era egoísmo. Eu tinha suas habilidades agora, as que ela tinha
desistido, juntamente com sua família, sua mãe e tudo o que ela amava, tudo por
um cara atraente. Eu sabia por que ela não gostava de mim, mas isso não lhe
dava o direito de pôr em risco nossa segurança.
Eventualmente Persephone se empurrou fora da árvore e começou a
avançar, deixando nós três para nos recuperar.
— Tudo bem, — ela chamou em voz monótona que ralou em meus nervos.
— Eu vou ensinar a ela quando Ava admitir que eu sou mais bonita do que ela é.
— A boca de Ava caiu aberta, e ela invadiu depois dela.
— Sua pequena....
James ofereceu-me o braço, e eu balancei a cabeça. Decepção piscou em
seu rosto, mas ele não pressionou o problema, e ao invés disso ele caminhou ao
meu lado, perto o suficiente para alcançar se eu precisasse dele. Foi legal, sua
proteção, mas eu mantive meus olhos no chão pelo resto do dia.
Ele tinha dormido com Persephone, também, e nenhuma visão ia me fazer
esquecer isso.
Mesmo sem tentar, Persephone contaminou todos os aspectos da minha
vida e cada pessoa que eu amava. Como uma irmã mais nova, cujas coisas só
eram passadas a mim, tudo que eu cheirava era ela, e nada iria fazer o cheiro ir
embora.
Havia um lado positivo em estar com Persephone: nosso ambiente não
mudava, o que significava que eu não tinha que suportar ver alguém ser
torturado. Então, quando eu vi as luzes piscando de um carnaval colorido à
distância, por um momento eu pensei que tinha perdido, mas ela ainda estava lá,
pulando alguns metros à minha frente.
Uma enorme roda-gigante se erguia acima de nós, e o cheiro de pipoca
flutuava no ar, passando a cerca e para o mergulho no campo onde fizemos
acampamento. Não importava quantas vezes Persephone insistiu que estava
cansada e precisava de um tempo, eu tinha certeza que tinha escolhido o local,
por causa das luzes brilhantes e da pitada de futuro que ela nunca tinha tido a
oportunidade de ver. Não tinha sido o Éden dela antes, e era a única explicação
para por que isso estaria aqui agora. Mais do que ninguém aqui, ela sabia como
manipular a vida após a morte para ver esse tipo de coisa.
James e eu coletamos madeira desta vez, deixando Ava e Persephone
continuarem a discutir. Teria sido mais fácil deixá-lo criar gravetos para o fogo,
mas eu precisava ficar longe delas, e aparentemente ele precisava também.
Encontrei outra flor colorida situada em um bosque, e eu sorri quando eu inalei
seu cheiro de algodão-doce e a coloquei no bolso. Henry ainda estava vivo, e não
importava o quão brava Calliope ficasse ela não ia matá-lo.
Após a coleta de uma braçada de gravetos, eu permaneci perto da
bandeira que estava pendurada acima do saguão do carnaval, debatendo se devia
ou não ir para dentro. Por mais que eu não quisesse admitir, eu nunca tinha
estado em um verdadeiro carnaval antes também, e eu estava ansiosa para ver o
que era.
— Sinto muito, — disse James atrás de mim, e eu pulei de surpresa.
Alguns dos gravetos que eu reuni caíram no chão, e quando eu os peguei, James
ajoelhou-se ao meu lado para ajudar.
— Eu consigo, — rebati. James levantou-se e afastou-se, mas ele não
saiu. Em vez disso, ele esperou até que eu tinha recolhido o resto, e quando eu
me endireitei e me dirigi para outro pedaço promissor de grama alta, ele seguiu.
— Eu deveria ter dito a você sobre eu e Persephone, — disse ele. — Se eu
tivesse alguma ideia de como você se sentia sobre ela, eu teria, e eu sinto muito.
— É este o ponto em que você me diz que isso não significou nada? — Eu
disse irritada.
Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo as palavras com
cuidado.
— Não, não é. Enquanto estava acontecendo, significava alguma coisa.
Agarrei os gravetos com tanta força que alguns deles quebraram.
— Você realmente precisa aprender quando é melhor mentir, em vez de
dizer a verdade.
— Não vejo por que, — disse ele. — Então, você estaria chateada que eu
não fui honesto.
Ele estava certo, é claro, mas isso não me fez sentir melhor. — Então o
que aconteceu? — Eu disse. — O que é tão apelante sobre a vaca egoísta que
tinha a metade do conselho enrolado em seu dedo mindinho?
Atravessamos o prado, nenhum de nós disse uma palavra quando o som
metálico da música do carnaval flutuou através da brisa. Os gritos de indignação
e revolta de Ava e Persephone desapareceram no fundo até que eu quase podia
fingir que éramos apenas nós três: eu, James e o elefante gigante que nos seguia.
— Nós éramos amigos antes dela casar com Henry, — disse ele,
finalmente, depois de que vários minutos passaram. — Ela e eu éramos os mais
jovens membros do conselho na época, e nos demos bem. Nós éramos próximos o
suficiente na idade que nenhum de nós tinha passado através dos ritos de
passagem que o resto deles tinha experimentado, e... — Ele encolheu os ombros.
— Foi fácil, isso era tudo.
Vi o que parecia ser um galho de árvore quebrado, e me ajoelhei para
pegar os pedaços. Ele se juntou a mim, seus olhos voltados para o chão.
— Quando seu casamento com Henry começou a desmoronar, eu estava lá
para ela, — disse ele. — Passei muito tempo no Submundo guiando os mortos
para o lugar certo, e quando ela precisava de um ombro para chorar, ela veio até
mim. — Ele hesitou. — Quando Henry ofereceu para que ela saísse por seis
meses do ano, ela aproveitou a chance, e começamos a passar algum tempo
juntos lá em cima também. Uma coisa se transformou em outra... — Ele parou, e
ele não tinha necessidade de terminar.
— Quanto tempo durou? — Eu disse quando náuseas encheram a boca do
meu estômago. James tinha sido a primeira pessoa a trair com ela. Ele era mais
próximo de Henry do que qualquer outro membro do conselho, e ele devia ter
sabido o que faria com ele, mas ele tinha feito isso de qualquer maneira. Ele
deixou Persephone usá-lo assim. Ele fez mais do que deixá-la ferir Henry, ele
tinha ajudado.
— Algumas centenas de anos, — disse ele, e ele deve ter visto a expressão
no meu rosto, porque ele acrescentou apressadamente, — Dentro e fora, e apenas
durante a primavera e o verão. Eventualmente ela conheceu Adonis, e a confusão
toda aconteceu, e eu fiquei na poeira.
— Pobre de você, — eu murmurei.
Ele esboçou um sorriso. Eu encontrei o último graveto na área imediata e,
juntos, nos levantamos. — Não, não, pobre de mim, — disse ele. — Nós sempre
fomos melhores como amigos de qualquer maneira. Além disso, fez o trabalho
com Henry estranho.
Uma coisa era se esconder por trás das costas de Henry, mas foi outro a
ter um relacionamento com sua esposa, quando ele tinha plena consciência
disso. — Ele sabia, e ele não tentou matá-lo?
— Claro que não, — disse James, rindo. Eu não vi o que era tão
engraçado. — Tudo é um segredo aberto com a gente, Kate. Você vai ver,
eventualmente.
Eu não tinha certeza do que eu queria mais, se eu conseguisse fazê-lo sair
dessa vivo, mas não importava. Eu decidi então que se eu ficasse, se Henry ainda
me quisesse aqui depois dessa confusão ser limpa, eu nunca iria traí-lo, nem
mesmo durante o verão. E, especialmente, não com James.
No entanto, eu passei todos os meus seis meses afastada com James, não
passei? O que tinha para mim foi uma ruptura com o caos com um amigo que
poderia facilmente ter sido interpretado como umas férias românticas por Henry.
Se ele realmente não tinha me verificado o tempo todo que eu estava na Grécia
com James...
Oh, Deus.
As coisas que Henry devia ter imaginado – minha mente cambaleou, e
todas as emoções que eu comecei a desenvolver por James desapareceram.
— Você sabia o que a Grécia iria parecer para ele, e você não me avisou?
James fez uma careta. — Isso não importa. Você e eu sabíamos que não
éramos nada mais do que amigos, e se era isso que Henry quis assumir...
— É claro que era o que ele assumiria! — Sem pensar, eu arremessei uma
dos gravetos em James. Ele olhou inofensivamente seu peito, mas pela primeira
vez eu não me importava com machucar. Ele era um deus. Ele sobreviveria, e não
era nada comparado ao horror e culpa e vergonha produzindo dentro de mim. —
Você fez isso de propósito, não foi? O que é, James? Você quer que ele esteja
sozinho? Você quer que ele desapareça? Você quer governar o Submundo depois
de tudo?
— Eu não fiz isso de propósito, — disse ele, inclinando-se para pegar o
graveto que eu tinha jogado. — E eu não quero machucar Henry, mas mais do
que isso, eu não quero que ninguém te machuque, também. Você tem uma
escolha. Uma escolha, Kate, que ninguém mais está apontando para você, porque
eles não veem o que Henry está fazendo para você. Ele está te machucando, e não
há nenhuma garantia de que alguma vez vai ficar melhor.
Suas palavras foram um tapa na cara, e eu engasguei com a minha
resposta. Ele estava dizendo tudo o que eu não queria ouvir. Tudo o que eu
estava tentando desesperadamente ignorar.
— Vai ficar melhor, — eu disse com voz trêmula, a fúria crescendo dentro
de mim até que eu podia sentir o gosto. — Assim que ele entender que eu não
tenho interesse em jamais estar com você, eu tenho certeza que ele vai aparecer.
Para minha imensa satisfação, James fez uma careta. — Acredite no que
quiser, mas o seu negócio com Henry é claro. Ele te tem por seis meses, não
mais. Você pode fazer o que quiser durante o verão, e ele não tem nada a dizer.
— Isso não me dá o direito de quebrar o maldito coração dele. — Eu me
afastei para acampamento. — E isso não lhe dá o direito de tentar me fazer. Eu
não acredito em você, James. De todas as coisas desagradáveis a fazer, brincar
comigo assim...
— Eu não estava brincando com ninguém. — Ele correu para alcançar, e
eu me recusei a olhar para ele. — Eu não estou fazendo isso por diversão, Kate.
Você é a pessoa que me convidou para ir à Grécia, e eu disse que sim, porque eu
gosto de passar o tempo com você. E porque eu queria ajudá-la a ver o que você
estaria perdendo se você decidisse voltar. Você não pode gritar comigo por isso –
eu me comportei. Não importa o quanto eu queria te beijar, eu nunca fiz.
— Não diga isso. — Eu me virei, e ele veio a poucos centímetros de bater
em mim. — Eu não sou Persephone. Eu não vou enganar Henry não importa que
época é, e eu não me importo quanto tempo passe. Isso não vai mudar.
— E se as coisas nunca ficarem melhores? — Disse James. — E se Henry
nunca te amar do jeito que você merece? O que aconteceu com Persephone... Eu
não quero ver você repetir seus erros. Você não deveria ter que passar por esse
tipo de dor... você ou Henry. Ele está definido em seus caminhos, e ele nunca vai
mudar. Não há vergonha nenhuma em admitir que o seu casamento não está
funcionando...
— Só porque nós temos alguns problemas não significa que ele não está
funcionando.
Ele suspirou. — Tudo o que eu estou dizendo é que você tem uma escolha,
Kate. Entenda isso, por favor, e não saia correndo na direção de Henry, porque
você acha que pode consertá-lo.
— Eu não estou, — eu rosnei. — Estou com ele porque eu o amo.
— Então, não deve ser muito difícil para você me fazer uma promessa, —
disse James. Ele era louco se ele achava que eu iria prometer-lhe qualquer coisa.
— Pense sobre a possibilidade de viver a sua própria vida em vez da vida de
Henry e o que o resto do conselho quer que você viva... e eu não quero dizer para
considerar por meio segundo. Quero dizer imaginar como vai ser se Henry nunca
te amar como você o ama. Imagine como vai se sentir voltando para casa para
uma cama fria e um marido que preferiria fazer qualquer outra coisa do que
passar o tempo com você. Porque queira ou não, se você ficar, isso é uma
possibilidade. E em troca, eu vou parar de atormentar você. — Eu abri minha
boca para dizer-lhe para ir se ferrar, mas não saiu nada. Em vez disso, meus
olhos se encheram de lágrimas, e antes que eu pudesse me parar, palavras
voaram da minha língua, emaranhadas e grossas e completamente fora do meu
controle.
— Você realmente acha que vai ser assim? Você acha que ele não me
ama?
James franziu os lábios e estendeu a mão para me tocar, mas eu puxei de
volta. — Ele te ama, mas sim, é uma possibilidade que ele nunca vai estar lá para
você do jeito que você quer que ele esteja. Há um risco de que, desta vez, você
seria Henry e ele seria Persephone.
Então, seria eu ansiando por alguém que não me queria. Eu queria
retrucar e dizer a James que ele estava errado, que eu tinha um bolso cheio de
flores para provar isso, mas eu não podia. Henry poderia enviar-me presentes o
suficiente para encher o Submundo uma centena de vezes, e nunca seria um
substituto para seu toque. Para a sensação de seus braços em volta de mim como
Adonis tinha envolvido os seus ao redor de Persephone.
— Tudo o que eu estou pedindo é que você realmente pense se esta é ou
não a vida que você quer, — disse James suavemente. — Se você decidir que não
quer, ninguém pode forçá-la. E eu não estou pedindo que você gaste sua vida
comigo, também. Eu só não quero que você esteja amarrada a alguém que não a
aprecia do jeito que você merece ser. Você deve ser a única no controle de seu
destino, Kate, não qualquer um de nós. Especialmente não Henry.
Agarrei minha pilha de gravetos para o meu peito e disse ao redor do nó
na garganta, — Ok. Vou pensar sobre isso. Mas, pare de falar assim, ok? Por
favor. Não quando Henry não está aqui para se defender.
James assentiu uma vez, e isso foi o suficiente para mim. Tomando um
suspiro trêmulo, eu me recompus e encaixei meus ombros. Henry teria uma
chance justa. Ele teria uma chance de provar que James estava errado, e quando
o fizesse, o argumento de James seria anulado. E tudo estaria bem novamente.
— Você pelo menos disse a Henry que nada aconteceu na Grécia? — Eu
disse, satisfeita que a borda em minha voz estava de volta. Eu poderia quebrar
outra vez.
Seu silêncio foi tudo o que eu precisei ouvir. Com um grito mudo, eu
marchei de volta para o acampamento, ignorando a cadeia de desculpas que
James derramou atrás de mim.
Enquanto Henry me quisesse, eu iria permanecer fiel.
Mas se ele não quisesse, se esta vida juntos fosse uma corrente para ele,
então a melhor coisa que eu poderia fazer era libertá-lo. Ao mesmo tempo, as
expectativas da minha mãe eram um fardo pesado para eu carregar, e milhares
de anos eram muito tempo para amar uma única pessoa, era perfeitamente
possível que Henry teve as mesmas reservas que o deteve. E se ele realmente
acreditava que James e eu tínhamos nos envolvido durante a nossa viagem para
a Grécia, então, essa era a primeira coisa que eu teria que consertar no momento
que eu tivesse uma chance.
De qualquer maneira, eu amava Henry. Talvez um dia ele iria acreditar
nisso.
Quando cheguei ao acampamento, eu deixei cair meus gravetos no centro
e me sentei pesadamente em um toco de árvore. James se arrastou depois de
mim, e uma vez que ele tinha arranjado os gravetos em outra tenda, ele começou
o fogo. Seria impossível dormir com os sons do carnaval no fundo, mas
Persephone não parecia precisar dele, também. Outra vantagem de morrer, eu
supunha.
Ava e Persephone continuaram a brigar, mas pelo menos Ava parecia
perceber que algo estava errado, e depois de outra rodada de retortas, ela
desistiu. Persephone tentou incitá-la, mas uma vez que se tornou claro que Ava
não estava de bom humor, Persephone sentou-se no toco de árvore ao lado do
meu e amuou.
— Quantas visões você já teve? — Disse Persephone, e os gravetos
explodiram em chamas. James agachou no chão a poucos metros de distância, e
através do fogo eu podia ver sombras nas linhas profundas gravadas em seu
rosto, fazendo-o parecer anos mais velho que ele deveria parecer.
Eu dei de ombros. — Três, eu acho. Tudo para o mesmo lugar.
— Você foi capaz de controlá-las já? — Ela disse, e eu balancei a cabeça.
— Elas acontecem em intervalos regulares?
— Não. — Eu olhava para as minhas mãos, incapaz de engolir ver James.
— Alguma vez você dormiu com Henry?
Persephone não disse nada por um momento, e quando olhei para ela, seu
rosto parecia estranhamente contorcido à luz do fogo.
— Está tudo bem, — eu disse. — Você não tem que responder. — Nossos
olhos se encontraram por uma fração de segundo, e ela se endireitou, sua
expressão suavizando.
— E você?
Eu balancei a cabeça. — Uma vez, em março. É outubro agora, —
acrescentei. — Eu acho.
Persephone puxou um de seus cachos loiros e suspirou.
— Eu costumava ser capaz de dizer. Mesmo depois que eu morri, meu
cabelo mudou de cor com as estações do ano, mas depois de um tempo ele parou.
— Ela sorriu levemente. — Está preso no verão agora. — Isso explica por que o
cabelo dela tinha uma cor diferente na reflexão de Henry.
— Qual - qual a estação que virava loiro morango? — Disse.
— Outono, — disse ela. — Ele ficava mais vermelho com o outono, e no
auge do inverno, era preto. Clareava para castanho na primavera.
Claro. James tinha me explicado que uma reflexão não era uma
representação exata do que tinha acontecido. Foi o que o criador quis. E o que
Henry queria era que Persephone estivesse sorrindo ao vê-lo cada outono.
— Eu não queria dormir com ele, — eu disse, e eu parei. — Isso soa
ridículo, não é? Parte do teste era de luxúria, e Henry tinha-me tão bem protegida
que Calliope não teve a chance de me matar, então em vez disso ela sabotou o
teste, dando-nos um afrodisíaco.
Persephone estalou a língua em desaprovação. — Você certamente já teve
uma vida difícil, não é?
— O que você quer dizer? — Eu disse cautelosamente. Ela estava sendo
sarcástica?
— Bem, eu suponho que você o ama, — ela disse, e eu assenti. — É bom
que você está lá para ele. Ele merece ter alguém que o ama. — Ela hesitou e disse
relutantemente, como se estivesse admitindo algum segredo profundo, escuro, —
eu me preocupo com ele às vezes. É terrível que a única vez que você esteve com
ele teve que ser por causa de um afrodisíaco. — Ela olhou para Ava. — Afrodite
estraga tudo.
— Não fui eu, — disse Ava, de olhos arregalados. — Eu não estava lá.
— É nomeado por você.
Eu comecei a retrucar, mas Ava bufou e permaneceu em silêncio.
Depois de um momento, Persephone gesticulou para ela com desdém.
— Independentemente disso, com o que disse anteriormente sobre a Mãe
só ter você por causa de mim, e depois de tudo isso, bem, eu imagino que não é
fácil. Então você tem a minha simpatia. — Eu não sabia o que dizer sobre isso.
Talvez depois de um dia inteiro de disputas com Ava, ela estava sem nenhum
argumento.
— Essa é a melhor coisa que você disse para mim.
— Não espere que eu vá continuar, — disse ela com um suspiro. — Para
responder à sua pergunta, sim. Uma vez.
Levei um momento para imaginar de que pergunta ela estava falando, e
quando o fiz, minha boca ficou aberta, mas nenhum som saiu. Então Calliope
estava errada, afinal.
Mesmo que eu soubesse que Persephone e Henry tinham sido casados, foi
um soco no estômago ouvir que eu não tinha sido a única de Henry. A última
coisa que eu tive que eu não tinha compartilhado com ela evaporou. Mais uma
vez, Persephone tinha chegado lá primeiro, e tudo que eu tinha eram suas
sobras.
— Foi horrível, — disse Persephone. Sua mão ficou entre nós, como se ela
pudesse sentir como eu estava chateada, mas ela a deixou cair de volta no colo.
— Foi na nossa noite de núpcias, e nós não falamos sobre isso. Só - aconteceu.
Era esperado, e nós dois éramos muito tímidos para perguntar ao outro se nós
queríamos. Nós dois assumimos.
Fiquei em silêncio. Eu não queria pensar sobre o quão mal as coisas
teriam ido para Henry e eu se não tivesse tido a faísca entre nós. Sua culpa e
raiva tinham sido ruins o suficiente na manhã seguinte.
Ava moveu calmamente para o outro lado do fogo, sentando-se ao lado de
James. Inclinaram suas cabeças juntas, e o som suave de sua conversa flutuou
em direção a nós, mas eu não conseguia entender o que eles estavam dizendo.
— Quando nós... — Eu limpei minha garganta. — Eu teria esperado se eu
tivesse a escolha. Mas eu não queria. Esse foi o ponto que eu percebi que eu o
amava, e... pelo que foi, foi bom. Foi muito bom.
— Bom, — disse Persephone distante, olhando para o fogo. — Hades
merece isso. Ele merece você.
Eu balancei a cabeça. Não importava o que Henry merecia, o que
importava era quem Henry queria, e até agora isso não parecia ser eu. — Foi à
manhã seguinte que foi tão terrível. Quando Henry percebeu o que tinha
acontecido, ele pirou. Em pânico, — eu alterei o olhar confuso de Persephone. —
Ele se desculpou e fugiu, e essa foi a última vez que o vi por dias. A única razão
que ele voltou foi porque Calliope me matou, e ele foi para o Submundo me pegar.
Persephone fez uma careta, e disse em voz baixa, — Não, não é.
— Não, o que não é? — Disse.
— Não, essa não é a única razão que ele voltou. — Ela suspirou. —
Quando consumamos nosso casamento, eu fui a única a pirar. — Ela fez uma
careta para a expressão. — Nós não tínhamos estado casados por 12 horas, e eu
já tinha corrido de volta para a Mãe. Ela me convenceu a ficar e dar-lhe uma
chance, e ela deve ter dito algo a Hades, porque nunca tentamos novamente. Eu
dormia em um quarto separado, e ele nunca pressionou o problema.
No outro lado da fogueira, James e Ava ficaram em silêncio.
— Eu sinto muito, — eu disse. — Você não deveria ter que ficar com
Henry, se você não queria.
Então foi por isso que James estava insistindo que eu reconhecesse a
minha escolha para sair, se eu não queria isso. Ele já me disse que tinha sido por
causa de Persephone, é claro, mas ouvir isso dela fez as peças se encaixarem.
James estava me protegendo o melhor que sabia, exatamente como ele tinha no
ano anterior. Quando eu pensei que tinha falhado em um teste, eu tentei sair do
Éden Manor, querendo ver a minha mãe antes de morrer.
Henry tinha me convencido. James não sabia que eu tinha ficado por
minha própria vontade, e isso tinha sido importante o suficiente para ele estragar
seu disfarce.
— Eu era jovem, — disse Persephone. — Eu achava que o amor acontecia
imediatamente. Foi a minha primeira vez vivendo sem a mãe, e eu não sabia o
que esperar. Em cima disso, estar no Submundo e longe do sol me fez infeliz. Foi
a tempestade perfeita, e infelizmente Hades e eu fomos pegos. — Ela balançou a
cabeça com tristeza. — Eu nunca lhe dei uma chance depois. Ele tentou tão
intensamente, você não acreditaria em tudo que ele fez para ver-me feliz. Mas
nunca foi o suficiente. Ele nunca foi o suficiente.
Já estava escuro. O brilho do carnaval e do lamentável fogo eram as
únicas fontes de luz, e quando eu olhei para Persephone novamente, foi difícil ver
seu rosto. — Ele amava você de qualquer maneira, porém, — eu disse. — Ele
ainda te ama mais do que qualquer coisa.
— Eu não tenho mais tanta certeza. — Ela endireitou-se e olhou para o
céu. Eu segui o seu olhar, e uma vez que meus olhos se adaptaram à escuridão,
eu vi que as estrelas não estavam em seu padrão habitual.
— Você disse que ele desceu ao Submundo por você, — disse Persephone.
— Você estava realmente morta?
Eu balancei a cabeça. — Era de noite, e eu estava em um parque que
mamãe e eu costumávamos visitar de volta para casa. Mamãe negociou sua vida
pela minha. Sua vida mortal, — eu corrigi. — Mas o corpo que ela estava usando
estava morrendo de qualquer maneira.
— Não importa, — disse Persephone. — Ele não deveria fazer isso.
Enquanto eu governei com ele, só fizemos algumas exceções, e mesmo assim
houve tantas ressalvas que ninguém nunca conseguiu voltar à superfície. Ele
violou tudo o que ele representava, desde os primórdios da humanidade para
salvar a sua vida.
Do outro lado do fogo, James pigarreou. — Ela está dizendo a verdade,
Kate, — disse ele. — Ele não deveria ter te salvado. — Ele tinha de qualquer
maneira. Sorrindo, eu passei meus braços em torno de meu corpo quando o ar da
noite fria caiu sobre mim. Eu não sabia como classificar tão longe quanto os
gestos românticos iam, mas eu tinha certeza que era pelo menos tão alto como
me dar um filhote de cachorro.
— Você pode me dizer como controlar as visões? — Eu disse a
Persephone, sentindo-me mais leve do que eu tinha desde que desci para o
Submundo. Mesmo me salvar não custou para Henry muito mais do que suas
regras e seu orgulho, Persephone pensava que era um grande negócio, e isso
importava mais para mim do que deveria ter. Ele teria feito a mesma coisa por
ela, eu tinha certeza, mas ele não tinha feito. Eu ainda tinha alguma parte dele
que ela não tinha.
— É fácil, — disse ela com um encolher de ombros. — Você tem que se
concentrar em onde você quer ir ou a pessoa que você quer encontrar.
— Você pode encontrar pessoas? — Eu disse, espantada. Persephone
concordou.
— Isso é provavelmente como você está fazendo, pensando em Henry. É
preciso prática, mas uma vez que você consegue, vai vir cada vez mais fácil.
Tente, — disse ela. — Pense em alguém que você quer ver, e deixe-se derivar para
isso.
Tão fácil como Persephone parecia pensar que era, eu não tinha ideia de
como derivar para nada. Ainda quente de descobrir que Henry tinha quebrado as
regras por mim, eu fechei meus olhos e imaginei seu rosto em minha mente, e...
Nada.
— Não está funcionando, — disse eu.
— Relaxe, — disse Persephone. — Isso não vai acontecer de imediato. —
Aparentemente, não ia acontecer. Eu tentei de novo e de novo, até que todo o
meu contentamento drenou, deixando-me com a falta deprimente de autoestima.
Minha cabeça latejava de tão concentrada, e mais que Persephone me empurrava,
mais fora do alcance parecia.
— Não vai vir naturalmente de primeira, — disse ela alguns minutos mais
tarde, o que era a coisa mais encorajadora que ela disse até agora. — Você nunca
teve habilidades antes.
Por que fazia uma diferença enorme, eu não tinha certeza, mas era claro
que eu não ia conseguir naquela noite. — Eu estou indo para uma caminhada, —
eu disse, e eu levantei. Junto com uma dor de cabeça assassina, minha perna
latejava de novo, e eu balancei. — Eu vou trazer de volta para todos alguns
algodões doces.
Abraçando-me por calor, eu fui para a entrada de carnaval. É claro que
nada disso era para ser fácil – se fosse, qualquer menina poderia ter feito isso e o
teste não teria sido necessário. Ainda assim, eu me senti como um fracasso
completo e absoluto, esgueirando, enquanto os três, sem dúvida, sussurravam
sobre como eu não poderia fazer isso.
Ressentimento surgiu dentro de mim, e eu me forcei a suprimi-lo. Não era
culpa deles que eu não podia controlar minhas visões, e se Persephone estava
dizendo a verdade, eventualmente conseguiria. Mas eu precisava agora, não dias
ou semanas ou meses no futuro. Se nós não sabíamos o que estava acontecendo
com a Calliope...
Um estrondo ecoou pela caverna. Assustada, olhei para cima em direção
ao som, e um senso de pavor encheu a boca do meu estômago.
Estrelas estavam caindo do céu.
10
FISSURA

— Kate!
A voz frenética de James subiu acima do som de rochas quebrando e
sinos tocando, e eu corri para fora do carnaval, cobrindo minha cabeça
instintivamente. O chão tremeu embaixo de mim, mas não havia sinais das
estrelas caídas.
Eu bati em James. — O que está acontecendo? — Eu disse, incapaz de
manter o pânico fora da minha voz.
— Eu não sei. — Ele passou o braço em volta de mim, e, juntos, corremos
de volta para a fogueira. — Seja o que for, eu nunca vi nada como isso antes.
As chamas do fogo balançaram com cada estalar que ecoou pela caverna,
mas as pedras não estavam pousando no prado ou na floresta ou qualquer lugar
perto do carnaval. Ava e Persephone olharam para cima, para o céu, usando
expressões idênticas de alarme. Se isso não estava acontecendo aqui, então
onde...
Sem aviso, o mundo saiu de cima de mim, e eu estava na superfície
novamente. Em vez da densa floresta que cercava Éden, eu estava em um
penhasco com vista para as águas mais azuis que eu já vi quando onda após
onda rolou para a orla branca.
James e eu só tínhamos passado alguns dias na ilha particular, mas o
antigo palácio na distância e a forte queda na água eram inconfundíveis. Esta era
a Grécia.
— Você sentiu isso? — Gritou alguém atrás de mim. — Eu disse que isso
ia acontecer. Eu lhe disse. — Dylan correu atrás de mim, vestido com bermudas
cargo e uma regata. Os outros membros do conselho, todos vestindo roupas
semelhantes a sua, agrupados em torno de algo a poucos metros de distância.
Aproximei-me mais para ver.
Eu tinha sido transportada de volta aqui de alguma forma, sem perceber?
Uma vez que eu estava perto o suficiente, eu coloquei a minha mão sobre o
ombro de Ella. Foi através dela.
Eu era um fantasma de novo, e isso era uma visão, mas não era a que eu
queria.
— Ele está quebrando, — disse Irene. Ela e vários outros estenderam suas
mãos em direção ao chão, e uma sacudida de medo percorreu minha espinha.
Eles formaram um anel em torno de uma fenda na terra. Não poderia ter
sido mais do que alguns metros de comprimento, mas tentáculos de névoa
deslizaram através dele, girando como a língua de uma cobra como se estivessem
provando o próprio ar.
Cronus.
Os membros restantes do conselho estenderam suas mãos como eles
tinham feito de volta ao palácio, e os tentáculos torceram como se eles estivessem
irritados, mas eles finalmente desapareceram de volta para o chão.
— Ele fez isso, — disse Irene, enxugando o suor da testa. — Ele está
rachando a superfície.
— Temos a certeza de que vai todo o caminho? — Disse Theo.
— Como ele poderia vir assim? — Disse Dylan.
— Honestamente, eu sou o único com metade de um cérebro aqui? —
Nicholas, o marido de Ava, deu-lhe um olhar de advertência. Dylan revirou os
olhos e chutou um pouco da sujeira de volta para a rachadura.
— Você acha que Calliope encontrou uma maneira de libertá-lo? — Disse
Ella em voz assustada que não soava como ela.
— Se ela encontrou, então isso é inútil, — disse Dylan.
— Então nós temos que assumir que ela não encontrou, — disse Irene.
Seu cabelo vermelho parecia brilhar na luz do sol, e pela primeira vez desde que
eu a conheci, estava uma bagunça. Todos pareciam desgrenhados e exaustos. —
Temos que continuar indo como planejado.
— Então Cronus pode destruir-nos logo que ele descobrir que estávamos
trabalhando contra ele? — Disse Dylan.
— Então Cronus nunca terá a chance. — Irene acenou com a mão sobre a
rachadura, e a encheu de volta com a sujeira. Segundos depois, no entanto,
começou a esvaziar como o topo de uma ampulheta quando a sujeira caiu no
Submundo.
— Ele realmente fez isso, — disse Theo, e colocou uma mão protetora
sobre as costas de Ella. — Ele tem o seu caminho para fora.
Irene fez uma careta. — Talvez sim, mas isso também significa que
sabemos com certeza onde ele vai sair, e com alguma sorte, teremos tempo para
terminar de colocar nossa armadilha.
— Colocá-la onde? — Disse Dylan. — Em volta de toda a ilha?
— Se tivermos que fazer.
Dylan gemeu e saiu, deixando os outros para moer. Xander, que tinha
agido como um dos meus guarda-costas no Éden e tinha ficado quieto até agora,
passou seus dedos através de seu cabelo. — Nós todos vamos morrer.
— Não, nós não vamos, — disse Irene. — Não, se fizermos isso direito e
trabalharmos juntos.
— E se os outros já estão mortos? — Disse Ella trêmula.
Irene estreitou os olhos, e com um gesto irritado, ela encheu a rachadura
com a sujeira novamente e virou-se. — Nós não temos nenhuma maneira de
saber, por isso temos que continuar e espero que eles não estejam. Nós não
temos uma escolha.
— Sim, nós temos, — chamou Dylan quando ele se sentou na beira do
penhasco, as pernas balançando. — Nós não tentamos lutar, e esperamos que
Cronus não nos mate, também.
Antes que alguém pudesse dizer qualquer outra coisa, a Grécia e a luz do
sol caíram, e eu mais uma vez encontrei-me na escuridão do Submundo.
— Foi Cronus, — eu disse enquanto eu lutava para me sentar. James, Ava
e Persephone, todos olharam para mim, mas desta vez eles não estavam
pairando. Nós na fogueira, e os tremores e quedas tinham parado por enquanto.
Seria apenas uma questão de tempo antes de Cronus tentar novamente, embora.
— Ele quebrou a superfície.
Ava ficou branca, e Persephone se afastou de mim.
Exatamente como Irene se afastou da prova de que Cronus estava
acelerando para a vitória.
— Quão longe é a porta para o Tártaro? — Disse James.
— Eu não sei ao certo, — disse Persephone. — Poucos dias, pelo menos.
— Nós precisamos nos mexer. — James me ofereceu sua mão, e eu peguei
tempo suficiente para deixá-lo ajudar-me. Por mais que eu queria ficar com raiva
dele, eu poderia lidar com isso quando nós voltássemos para o palácio. Se
voltássemos para o palácio.
— Os outros estão fazendo uma armadilha para ele em uma ilha, — eu
disse. — Eles estão brigando sobre isso.
— Mas eles ainda vão tentar? — Disse James, e eu assenti. — Ótimo. Pelo
menos é alguma coisa.
Nós embalamos o acampamento, e logo estávamos em nosso caminho em
direção ao local onde o céu tinha caído, Persephone caiu em passo ao meu lado.
— Você é capaz de controlar?
Eu balancei a cabeça. — Eu não tive tempo de tentar.
Ela fez um som de desaprovação na parte de trás de sua garganta, mas,
para seu crédito, ela não empurrou. — Você está definitivamente fazendo isso
inconscientemente, — disse ela. — Eu tive que trabalhar para isso, no início,
também, mas você está vendo o que você quer ver, quando quiser ver. Você
descobriu da onde o acidente veio, de qualquer maneira.
Eu não respondi. Não importa o que eu vi, isso não mudaria o que estava
acontecendo. O melhor que podia fazer era dar-nos o aviso justo, e mesmo que
não era importante, nós já sabíamos o que estávamos enfrentando. A única coisa
que poderíamos fazer, como Irene e Dylan e os outros, era tentar o nosso melhor
e esperarmos para o inferno que funcionasse.
Nós andamos por dias, mas pareciam semanas. Se eu ainda fosse mortal,
meu corpo teria estado tão dolorido que eu não teria sido capaz de me mover,
muito menos me manter com o ritmo acelerado de James e Persephone, mas eu
consegui. A cada poucas horas, outro acidente ecoaria através do Submundo,
cada vez mais alto e estimulando-me.
— É o mais fino ponto no teto do Submundo, — disse Persephone quando
nós arrastamos pela floresta sem fim. — Hades o abriu quando eles inicialmente
capturaram Cronus, e foi como eles conseguiram colocá-lo em sua prisão em
primeiro lugar. Hades deveria ter reforçado quando ele teve a chance. — Mordi o
lábio para não retrucar. Isso não foi culpa de Henry. Ele não tinha motivos para
suspeitar que um membro da sua família iria trair os outros e despertar Cronus,
e se Calliope não poderia abrir o portão sozinha, então ele provavelmente pensou
que era toda a segurança que precisava. Era, antes de Calliope ter enlouquecido.
Para a maior parte, nós caminhamos em silêncio. Mesmo Ava e
Persephone pararam de brigar, e quando tivemos que parar, era por não mais do
que alguns minutos à uma hora. Eu não precisava dormir mais, mas com o
tempo as falhas eram apenas um quilômetro de distância, tudo que eu queria
fazer era enrolar, fechar os olhos e nunca mais acordar novamente. Isso seria
exatamente o que aconteceria se Calliope tivesse seu caminho, além de um pouco
de sangue e muita dor.
Quase toda vez que paramos, houve uma flor esperando por mim, e antes
que alguém pudesse vê-la, eu coloquei-a no meu bolso com as outras. Elas
pareciam encolher enquanto seguimos, abrindo espaço para as novas, e cada
uma me deu esperança de que tudo ficaria bem. Henry e minha mãe estavam
aguentando. Eles iriam sobreviver, e uma vez que chegássemos lá, não
estaríamos sozinhos em nossa briga para dominar Calliope e Cronus.
Uma tarde, no meio da floresta, Persephone levantou a mão, e nós quatro
paramos. — Por aqui, — disse ela, apontando para a esquerda. — Estamos perto.
— Ela passou por algumas árvores até que chegou um cluster espesso de
arbustos. Agachando-se, empurrou-os de lado, revelando uma folha de rocha
negra por trás disso. A parede da caverna.
Meu coração batia forte.
— Este é o limite, — disse ela, passando a mão carinhosamente sobre a
pedra. — Deve haver uma rachadura aqui em algum lugar - Oh!
Sua mão desapareceu na rocha aparentemente sólida, mas quando ela
puxou-a de volta para fora, estava intacta. — É aqui, — disse ela. — É grande o
suficiente para nos espremer através se formos um de cada vez.
— Até onde ela vai? — Disse Ava nervosamente.
— Eu não sei, — disse Persephone. — Eu nunca tinha passado por isso.
— Ela se endireitou e limpou a sujeira fora de seu vestido. — Bem, nós estamos
indo?
Ava ligou meu braço no dela, e James olhou para nós.
— Kate, você vai ficar aqui, — disse ele.
Eu bufei. — Sim, certo.
Ele estendeu a mão para colocar a mão no meu ombro, mas eu me afastei
de seu toque. — Estou falando sério, — disse ele. — Calliope vai tentar matá-la
no momento em que ela ver você, e você vai ser uma deficiência.
Eu me virei para Ava para apoio, mas ela olhou fixamente para o chão,
mordendo o lábio inferior entre os dentes. — Você também? — Eu disse, e eu
deslizei meu braço do dela. — Então, o que, vocês acham que vocês vão lá e
salvam o dia, mas se eu for com vocês...
— Se você vier, você vai morrer, não importa o que nos acontece, — disse
James. — Você sabe disso.
— Eu fiz um acordo com Cronus...
— Você realmente acha que ele vai segurar o seu lado? — Disse Ava.
— James está certo. Calliope quer você morta, e, desde que ela possa se
concentrar nisso ela vai se distrair. Uma vez que você se foi, ela vai continuar
com seu plano, e então não há como dizer o que pode acontecer.
— Você não tem experiência, — disse James. — Sem habilidades que você
pode controlar. Se você entrar lá, a melhor coisa que poderia acontecer é Calliope
te matar rapidamente.
— Eu não vim até aqui para ficar quieta enquanto vocês são abatidos, —
Disse eu, apertando meus punhos.
— Então para o que você veio até aqui? — Disse Persephone. — Para todos
os efeitos, você é inútil, e você é inteligente o suficiente para saber disso, então,
por que você veio? A única coisa que você vai ser boa lá é morrendo... — Ela
parou, e seus olhos se arregalaram uma fração de polegada.
— Você vai oferecer a Calliope uma troca, não é? — James me deu um
olhar acusador, e a boca de Ava caiu aberta em descrença. Minhas bochechas
queimaram, mas me recusei a desviar o olhar.
— Não, — eu disse com tanta convicção como eu poderia dar, mas
Persephone balançou a cabeça de qualquer maneira.
— Você é uma idiota. Uma idiota absoluta. Eu não me importo com o tipo
de acordo que você fez com Cronus ou quão mal Calliope quer você morta. Todas
as apostas estão fora no momento em que você entrar lá.
— Se você está morta, Henry vai desaparecer, também, — disse Ava. —
Você é a única razão que ele ainda está vivo, e ele não vai ser capaz de viver com
a culpa de você morrer por ele.
— Você tem que entender – se Henry desaparecer, não vamos ter uma
chance contra Cronus, — acrescentou James. — Mesmo se eu tomar o seu lugar,
eu não sou um dos seis. Eu não tenho o poder de manter Cronus contido
enquanto ele está acordado, não como Henry pode. Nós não podemos correr esse
risco.
Meus olhos picaram com lágrimas quentes. Eu pisquei para mantê-las de
transbordarem, mas foi inútil. Limpei meu rosto e olhei para os três, raiva e
frustração fervendo dentro de mim. — Então é isso? Eu fico aqui e espero? O que
acontece se vocês todos morrerem? O que eu devo fazer, então?
— Isso não vai acontecer, — disse Persephone com uma fungada.
— Há apenas uma maneira de lidar com Calliope, e isso é dar o que ela
quer. Como não podemos entregá-la, nós vamos oferecer-lhe a próxima melhor
coisa.
— E o que é isso? — Eu disse amargamente. — Convencer Henry a amá-la
e fazê-la sua rainha em vez de mim?
Persephone bufou. — Dificilmente. Eu vou abrir o portão. — E antes que
qualquer um de nós tivesse a oportunidade de detê-la, ela piscou e desapareceu
através da parede.
11
INGRID

Ava caiu de joelhos ao lado dos arbustos, tateando ao longo da parede


para a rachadura que havia engolido Persephone. A floresta que nos cercava
derreteu, substituída por um prado cheio de flores, mas eu estava muito
apavorada para investigar.
— Ela não quis dizer isso, não é? — Eu disse enquanto James soltou uma
série de palavrões que eu nunca pensei ouvir sair da sua boca.
— Ela é louca, — disse Ava. — Às vezes, ela faz Calliope parecer sã.
Estávamos todos contentes de nos livrar dela quando ela decidiu tomar Adonis e
fugir.
James pairava sobre Ava e passou as mãos sobre o local onde Persephone
tinha desaparecido. — Não, você estava feliz por se livrar dela. Henry
praticamente tentou se enforcar. Aqui. — Sua mão deslizou através da rocha, e
Ava caiu sobre os calcanhares, com um suspiro de alívio.
— Por favor, — implorei. — Deixe-me ir com vocês. Eu vou me esconder
enquanto vocês fazem a conversa, mas eu não posso esperar aqui fora, sabendo
que cada pessoa que importa para mim poderia estar morrendo lá dentro.
— E eu não posso deixá-la passar por aquela parede, sabendo que você
nunca vai sair, — disse James. — Eu sinto muito. Eu sei o quanto isso significa
para você, e nós vamos fazer tudo em nosso poder para libertá-los. Mas não
podemos arriscar a sua vida, não quando isso significa Henry, também. Por favor,
não faça isso mais difícil para nós do que já é.
Eu fiquei de boca aberta para ele, ele poderia muito bem ter me dado um
tapa no rosto. Tinha sido a minha ideia de vir em primeiro lugar. Os três não
iriam mesmo estar lá se eu não tivesse insistido em ir. Eu era a única que tinha
conseguido obter Cronus das nossas costas, mas eu era o problema?
— Sinto muito por ter sido tão malditamente difícil, — eu cuspi. — Eu
sinto muito por não ser forte o suficiente para ser qualquer coisa, mas um fardo,
mas como vocês se sentiriam se vocês viessem até aqui para serem informados de
que eram inúteis e não podiam ajudar?
— Uma merda, — ele disse, sem pestanejar. — Mas se as nossas posições
fossem trocadas, eu entenderia que era a coisa certa a fazer, não importa o quão
difícil era para eu aceitar.
Lágrimas brotaram dos meus olhos, e eu pisquei rapidamente. Isso não
era justo. Eu tinha todo o direito de fazer o que podia para ajudar. Eu não queria
morrer, mas viver em um mundo onde o conselho havia sido dizimado e Cronus
governava-
— Nós podemos fazer isso, — disse Ava. Seus olhos estavam vermelhos. —
James e Persephone e eu. Nós podemos fazer, desde que não temos que nos
preocupar com você, também. Por favor, Kate. Henry te ama. Dê-lhe algo para vir
para casa.
Cada pedaço de força de vontade que eu tinha desintegrou, e eu limpei
meu rosto com as mangas sujas. — Prometa-me que vão voltar.
Nenhum dos dois falou. James se inclinou para mim, e pela primeira vez
em dias, eu não me afastei. Ele apertou seus lábios na minha bochecha, e ele não
teve que dizer isso para eu saber o que era.
Adeus.
Eu os assisti desaparecer na parede, Ava primeiro e James em segundo
para se certificar de que eu não acompanhei, e uma vez que eles foram embora,
eu desabei sobre o musgo debaixo de mim. Um soluço escapou da minha
garganta quando o peso do desamparo e da tristeza esmagou-me, deixando-me
com nada.
Persephone iria abrir a porta, e no momento em que estivesse feito,
Cronus iria matá-los todos. E não havia nada que eu pudesse fazer para detê-lo.
Eu não sei quanto tempo eu sentei lá com meu rosto enterrado nas mãos,
soluço depois de soluço foi arrancado de mim. Meu peito doía, e meu corpo
inteiro tremia, mas tão mal como eu queria segui-los, eu não podia. Não
importava o que acontecesse, Calliope ainda ganharia. Ela iria me matar no
instante em que atravessasse a parede, ou Persephone iria liberar Cronus, e
depois Calliope iria me matar.
Meu pânico foi lentamente substituído por uma enorme necessidade de
ver o que estava acontecendo. Desesperada, eu lutei para me concentrar e
empurrar minha mente na caverna além da rachadura, mas tudo que eu via era a
pedra preta na frente de mim.
Eu tentei mais e mais, uma e outra vez, até que meus soluços se
transformaram em rosnados de frustração. Nada mudou. Por que eu poderia
fazê-lo tão facilmente sem querer, mas quando a vida da minha família estava em
jogo, eu não podia ver tanto como o rosto de Henry?
— Olá?
Eu pulei. Meio que esperando Calliope ter escapado de alguma forma por
trás de mim, eu me levantei, pronta para fugir ou quebrar o nariz, o que era mais
fácil. Em vez disso fiquei cara a cara com uma ruiva sardenta segurando um
coelho.
— Quem é você? — Eu disse, e quando ela deu um passo em minha
direção, eu me movi para trás.
— Ingrid, — disse ela. — Quem é você?
Obriguei-me a relaxar. O prado teve que vir de alguém. A maioria dos
outros no Submundo ou tinha evitado nós ou não tinha nos visto no local em
primeiro lugar, e quando tinha falado com eles, tinha sido breve, e Ava
geralmente tratou. Este era mais um daqueles então, mas desta vez foi só de
mim.
— Eu sou Kate, — eu disse. — Sinto muito por se intrometer. Eu estou
esperando...
— Por James e Ava, — disse ela sem uma pitada de surpresa. — Eu sei.
Eu vi vocês.
Eu pisquei. — Como você sabe os seus nomes? — Ela esteve perto o
suficiente para ouvir? Não conseguia me lembrar se eu tinha usado eles,
enquanto nós discutimos.
— Porque Henry os apresentou para mim. — Ela arranhou seu coelho
entre as orelhas e colocou-o para baixo suavemente. Ele pulou para participar de
um grupo de outros animais que pareciam estar esperando por Ingrid voltar a
eles.
— Henry? — Eu puxei nervosamente as mangas. — Como... como você
conhece Henry?
— Da mesma forma que você, — disse ela alegremente. — Você é a mulher
dele, certo? Kate? Você é a que Calliope estava falando.
Meu coração pulou uma batida. — Calliope estava aqui? Quando?
— Anos atrás. — Ingrid deu de ombros. — Então ela saiu e foi embora
mesmo que ela não devia. Henry que disse. — Henry novamente. Como ela
poderia saber sobre Henry? Ele tinha passado julgamento sobre ela? Mas isso
não explicava como conhecia Calliope ou o que ela estava fazendo aqui.
Exceto...
Meus olhos se arregalaram. — Você é uma das garotas que Calliope
matou, não é?
Ela sorriu, o que era exatamente a resposta que eu não esperava. — Você
já ouviu falar de mim? Isso é incrível. Você é tipo a minha ídola, você sabe.
Calliope tinha matado 11 meninas antes de eu vir para o Éden, mas o
Submundo era tão grande que eu nunca pensei que eu ia esbarrar em uma delas.
— Eu... eu sou? — Gaguejei. — Por quê?
Ela me deu um olhar que deixou claro que eu deveria saber. — Porque
você ganhou, e você a puniu pelo que ela fez para mim. Para nós, eu quero dizer.
— Ela suspirou. — É terrível, não é? Que ela fugiu muitas vezes. Passei anos
pensando que eu era a única estúpida por cair em seu ato.
— Você não foi estúpida, — eu disse. — Você só... ela é uma deusa.
Ela sorriu. — Você também é agora. Diga-me tudo. Como é que é? O que
você pode fazer? Você pode andar sobre a água? Você pode voar? Eu sempre quis
voar, você sabe. Seria incrível, não é? E viver para sempre, quero dizer, o
Submundo é bom e tudo, mas não é a superfície.
O que importava se eu era imortal quando um Titã queria me matar? —
Até agora, sendo uma deusa tem sido tudo menos incrível.
— O que você quer dizer? — Ela disse. Eu hesitei, mas Ingrid estava morta
de qualquer maneira, e não era como se ela pudesse sair. Além disso, ela
provavelmente já ouviu falar das pedras caindo, também. Pelo que eu sabia, o
Submundo inteiro teve. Ela merecia uma explicação.
Então eu disse a ela. Eu mantive curto e retendo alguns detalhes, mas
pelo tempo que eu terminei, todo o sangue havia drenado de seu rosto, e ela
pegou outro coelho para acariciar por conforto.
— Eles foram lá e a deixaram aqui, — ela disse, e eu assenti. — Isso é
terrível. Eles já poderiam estar mortos. Tem sido anos.
— Sim, — eu murmurei. Eu não precisava do lembrete.
— Você deve ir de qualquer maneira, — disse ela, animando-se com a
ideia. — Você a superou uma vez, então não é como se você não pudesse fazê-lo
novamente. Se alguém pode, é você.
Mordi o lábio. — Ela me matou, também, — eu disse. — A única razão que
eu estou viva é porque minha mãe trocou de lugar comigo.
— Então? — Ingrid deu um passo mais perto de mim, e desta vez não me
afastei. — Isso era quando você era mortal. Você não é mais. Você é uma deusa,
também, e daí que se você não pode controlar suas visões? Você não vai precisar
delas se você entrar lá.
— Mas se eu deixar ela me matar, então não há como dizer o que Henry
vai fazer, — disse. — Se Persephone diz a Calliope como liberar Cronus, em
seguida, eles vão precisar de Henry para ter uma chance de ganhar.
Ingrid suspirou. — Você não entende, não é? Você é um deles agora.
Então, o que se Calliope é mais poderosa? Ela não é tão especial, você sabe, e ela
não pode matá-la agora. Deuses não podem matar outros deuses.
— Mas Titãs podem.
— Você disse que fez um acordo com Cronus. Parece-me que ele está
muito menos provável de matá-la do que ele está com os outros. Você tentou ser
gentil com ele, e você não foi a que o prendeu.
Eu hesitei. Ela tinha um ponto, especialmente se Calliope continuasse a
mandar em Cronus. Ele não parecia disposto a colocar-se muito mais tempo.
Mais do que qualquer coisa eu queria que dizer para o inferno e ir atrás deles,
mas isso não resolvia o problema com Henry. — Se algo acontecer comigo...
— Não vai, — disse ela firmemente. — Você superou a Rainha dos Deuses,
e agora você é a rainha do Submundo.
— Eu não sou. — Fiz uma careta para uma inocente flor. — Cronus
interrompeu a cerimônia.
— Então? Você ainda é rainha. Você não precisa de uma cerimônia
estúpida para provar isso.
Enquanto eu olhava para as flores aos meus pés, percebi com um começo
que eram as mesmas que Henry havia estado enviando. Este era o lugar onde ele
tinha conseguido elas, realmente tinha sido ele depois de tudo. Ele queria que eu
viesse aqui. Ele queria a minha ajuda.
— Eu não posso arriscar assim, — eu disse, apesar de minha resolução
estar diminuindo. — Eu não posso arriscar a vida de Henry.
Ingrid me deu um olhar exasperado. — Ouça o que está acontecendo. Tem
sido anos. James e Ava não estão de volta ainda, e enquanto eles ainda podem
estar tentando se esgueirar de Calliope, as chances são de que eles foram
capturados, também. Se não saírem, o que você vai fazer? Aguardar Calliope
jogar os ossos deles através da fresta para que você saiba o que aconteceu? Ou
você vai ser a nossa rainha e brigar pelo seu reino?
Não era o meu reino, embora. Era de Henry. — Eu nem merecia estar
aqui, — eu de todas, mas lamentei. — Henry deveria ter me deixado morrer. Eu
não mereço ser uma deusa ou sua esposa ou sua rainha ou nada disso. Eu
nunca mereci. Eu só estou aqui porque eu era a última sobrando.
Ingrid inclinou a cabeça, como um filhote de cachorro confuso. — É claro
que você merece estar aqui. Henry não é estúpido. Ele nunca iria confiar seu
reino inteiro a alguém que não achava que poderia lidar com isso.
Não, se a única outra escolha era perder completamente, mas não me
atrevi a dizer isso em voz alta.
Ela soltou um bufo frustrado e pulou em volta de mim, como se ela
estivesse me avaliando. — Você não entende? Você foi escolhida porque você é
especial. Eu também era. — Ela jogou o cabelo sobre o ombro. — Se não tivesse
sido por Calliope, eu estaria em seu lugar, e você sabe o que? Eu teria medo,
também. Eu ficaria com muito, muito medo. Ser corajoso não significa nunca ter
medo, você sabe. Isso significa ir de qualquer maneira, porque você sabe que é a
coisa certa a fazer.
— Não há nada que eu possa fazer, — eu disse miseravelmente.
— Como você sabe até tentar? — Ela parou na minha frente e apontou
para a parede. — Você é a única que tem o acordo com Cronus, não eles. Se algo
aconteceu, você poderia ser sua única esperança. Vá ajudá-los. Prove a si mesma
que você merece isso. Mostre-se por que Henry acredita em você.
— E se eu for morta? — Eu chutei uma pedra pequena, e deslizou alguns
metros até atingir a parede de pedra. — E se eu obtiver todos eles mortos?
— E se você é a razão para que eles sobrevivam? — Eu podia ver por que
Henry tinha a escolhido como uma rainha em potencial. Ela era inteligente, o tipo
de esperta que eu não tinha certeza que eu jamais seria, não importava quantos
anos eu vivesse, e seu otimismo era contagiante.
E se ela estava certa? E se James e Ava – e, tanto quanto eu não gosto
dela, Persephone – estavam com problemas, e eles precisavam de mim? Se eu
andasse por aquela parede, havia uma boa chance de que minha vida não estaria
mais no meu controle, mas já tinha estado?
Eu tinha estado no acostamento sem expectativas ou ambições por tanto
tempo que eu tinha esquecido como era estar no comando da minha própria vida.
Eu derramei tanto de mim para ajudar minha mãe a lutar para permanecer viva
que eu tinha conseguido me perder no processo. Eu tinha feito o que ela e Henry
e todo mundo me disseram, desde o início. Mesmo as opções que eu tinha feito –
como a escolha de não ficar com Henry no Éden quando ele me pediu – terminou
em um desastre que me forçou em uma direção que eu não queria ir. Eu não me
importava, não realmente. Eu amava Henry, e o conselho estava se tornando a
família que eu nunca tinha conhecido. E enquanto eu sobrevivesse a ira de
Calliope, a imortalidade era uma boa vantagem, pelo menos até que todos os
outros tinham morrido e Henry e eu éramos os únicos. Mas eu estava tentando
não pensar muito à frente.
Ainda assim, eu tinha feito isso tudo porque eu tinha que fazer. Porque
alguém tinha me feito ou me manipulado. Minha mãe tinha passado toda a
minha vida me preparando para ser o tipo de pessoa que poderia passar por
testes do conselho, os dois amigos que eu tinha feito no Éden só tinham se
aproximado de mim porque eles precisavam me guiar na direção de Henry. O
conselho havia decidido sobre a minha vida inteira, de uma forma ou de outra.
Suas expectativas fizeram-me um fardo para Henry. Meu casamento foi por causa
deles.
Até o meu nascimento tinha sido decisão deles.
James estava certo: nada na minha vida nunca tinha realmente sido a
minha escolha. Mas isto era, e eu ia fazer a coisa certa.
— Tudo bem, — eu disse. — Eu vou. Se Calliope me matar, eu estou
culpando você.
Ingrid sorriu. — Isso significa que você tem que me dar crédito quando
você salvar suas vidas.
— Como você pode ter tanta certeza que vou conseguir sair de lá quando
você não me conhece?
Ela colocou o coelho para baixo e imediatamente me abraçou. Eu não tive
tempo de me afastar, mas eu não achei que eu teria de qualquer maneira. Seus
braços magros estavam quentes em torno de mim, e eu precisava de um abraço.
— Henry acredita em você. Isso é suficiente para mim.
— Obrigada, — eu disse, sem jeito. — Eu vou tentar. — Uma vez que ela
me soltou, eu passei a mão sobre a pedra, tentando achar a rachadura.
Assim quando meus dedos afundaram na rocha, Ingrid disse em uma voz
baixa, — Kate?
— Sim, — eu disse, lentamente deslizando minha mão toda por dentro.
Funcionou. Realmente funcionou. Meu coração batia forte, e meus dedos
enrolaram ao redor da pedra fria quando o prado ao meu redor começou a girar.
Tudo o que eu tinha a fazer era percorrer, e então...
E então eu ou iria voltar ou não, mas pelo menos eu não teria que viver
sabendo que eu não tinha tentado.
— Pode vir me ver algum dia? — Ela disse. — Quando você não estiver
ocupada, eu quero dizer. Calliope foi a única companhia que eu tive, além de
Henry, e ele não vem muitas vezes, também.
Mesmo se ela não tivesse perguntado, eu teria ido. — É claro. Você não
tinha família?
Ela balançou a cabeça, e por uma fração de segundo, o rosto amassou. —
Henry era a minha família. Eu o conhecia há muito tempo antes... — Ela limpou
a garganta e se endireitou, e desta vez seu sorriso era forçado. — De qualquer
forma. Agora você tem que viver, senão eu vou morrer de tédio aqui, e você não
gostaria disso em sua consciência, não é?
Eu ri fracamente. — Obrigada por tudo. Vejo você em breve.
E sem um segundo pensamento, sem dar a aquela voz no fundo da minha
mente a oportunidade de me convencer a desistir ou dizer que James e Ava
sabiam o que era melhor para mim do que eu, eu pisei através da parede, e meu
mundo ficou preto.
12
ACORRENTADOS

Desta vez, quando eu abri os olhos e vi caverna de Cronus, não era uma
visão.
Eu congelei quando peguei na cena diante de mim. Eu meio que esperava
ver o banho de sangue que Calliope havia prometido, mas em vez de mim como a
vítima, ela teria levado a sua raiva para fora em Persephone.
Mas Persephone estava no centro da caverna, completamente ilesa. Seus
olhos se estreitaram e suas mãos em seus quadris quando ela ficou cara-a-cara
com Calliope, e nenhuma das duas disse uma palavra. Por que ela não estava em
pedaços, ou pelo menos muito ensanguentada e quebrada? E onde estavam
James e Ava?
Os membros mais velhos do conselho ainda estavam acorrentados na
boca da caverna, e, tanto quanto eu poderia dizer, todos eles estavam
inconscientes. Eu só contava cinco, embora, e eu não podia ver qualquer sinal de
cabelo loiro entregando Ava.
Então eu vi Cronus. A névoa girava em torno das barras de sua jaula, e
em vez de ir atrás de Persephone, moveu-se para cima, para o teto, formando
uma piscina no topo.
Apenas alguns metros abaixo, pendurados em seus braços por tentáculos
de névoa, estavam James e Ava.
Qualquer questão se eu tinha feito ou não a coisa certa desapareceu. Na
melhor das hipóteses, Calliope iria mantê-los todos como reféns.
Na pior das hipóteses, eles seriam mortos logo que ela lidasse com
Persephone. Eu olhava, em busca de sinais de vida de qualquer um dos dois
corpos pendurados no teto. Nada.
— Eu não tenho o dia todo. — Calliope cortou o silêncio, e um arrepio
percorreu minha espinha. Seu tom de voz, garota inocente, se foi, substituído
pela voz abrangente de uma divindade, o mesmo tipo usada por Henry quando ele
estava chateado. Estava cheia de comandos e exigia respeito, e mesmo que eu
estava escondida, o desejo de obedecer correu através de mim.
— Eu não sei o que você quer de mim, — disse Persephone exasperada. O
que ela estava fazendo? — Eu já te disse que eu não estou dizendo nada a menos
que você os deixe ir. Você não pode me manter aqui, e eu estou perfeitamente
feliz andando de volta para o meu pequeno pedaço do paraíso e esquecer que algo
disso aconteceu.
Calliope xingou, e um choque de puro poder sacudiu a caverna, fazendo
um pedaço de rocha para fora da parede atrás de Persephone.
Em vez de fazer algo sensato como cair morta ou chorando em agonia,
Persephone riu. — É realmente tudo que você tem? Eu tenho a eternidade para
jogar estes jogos, mas se tudo o que você vai fazer é repetir a mesma coisa, vai
ficar tedioso rapidamente.
— Eu vou ter Cronus para matá-los um por um até que você me diga, —
disse Calliope, levantando a voz que subiu até que estalou. — Eu vou fazê-lo
lentamente, e eu vou ter certeza de que saibam que você é a responsável.
— Se você machucar um único deles, o acordo é cancelado, e você vai
estar presa cuidando de um monte de corpos flácidos para sempre, — disse
Persephone. — Tenho certeza que Cronus não apreciaria muito.
O nevoeiro atacou, mas foi direto através de seu torso, e Persephone não
vacilou. Por alguma razão, eles não poderiam machucá-la, e ela deveria saber. Foi
por isso que ela tinha entrado. Este tinha sido seu plano o tempo todo. A menos
que ela tivesse sorte.
— Você acha que eu sou idiota? — Disse Calliope, suas palavras pingando
com desprezo. — Eu sei exatamente o que vai acontecer no momento em que
remover suas correntes, e não termina bem para mim.
— Isso não vai acabar bem para você, não importa o que aconteça, —
disse Persephone. — Você conseguiu ter-se presa em uma situação impossível, e
a única pessoa que você tem que culpar é você mesma.
Calliope rosnou, e as paredes ao nosso redor tremeram. Preocupada que a
caverna inteira ia desabar sobre nós, eu dei um passo para trás em direção à
abertura na parede. Ser enterrada viva – como uma imortal, não menos – não
estava na minha lista de coisas para fazer.
Por fim, o tremor parou, e Calliope disse em uma voz tão suave que eu tive
que me esforçar para ouvi-la, — Traga-me Kate, e eu vou deixá-los ir.
— Deixe-os ir, e eu vou, — rebateu Persephone. — Perdoe-me se eu não
confio em você, mas você não foi muito confiável nos últimos tempos.
Calliope fez uma careta. — Eu não vou fazer isso, não sem Kate, e se você
não vai trazê-la para mim, então não há nenhum ponto em continuar. Ela virá
mais cedo ou mais tarde, e até que isso aconteça, eu vou esperar.
Caramba. É claro que a escolha que eu tinha feito sozinha era a única
coisa que poderia estragar plano de Persephone.
Eu avancei em direção à saída. Se eu pudesse encontrá-la antes que
Calliope me visse, então eu escorregaria para fora e esperaria por Persephone se
juntar a mim. Ingrid iria esconder-me se eu explicasse o que estava acontecendo,
e então nós três poderíamos criar estratégias. Se Persephone poderia vir dentro
da caverna, então que assim poderia Ingrid, e talvez Calliope não seria capaz de
machucá-la, também. Elas poderiam distraí-la enquanto eu libertava os outros,
e...
Um silvo de energia fez o meu cabelo em pé, e a pedra que eu tinha
escondido atrás explodiu. Eu instintivamente cobri minha cabeça e me abaixei
quando a pedra voou quebrada através do ar, mas as peças ficaram a cima de
mim, deixando meu corpo ileso.
Silêncio morto encheu a caverna.
Tudo dentro de mim gritou corra. Eu arranhei a rocha, e se eu ainda fosse
mortal, eu teria raspado meus dedos até o osso. Mas eu não podia achar a saída.
O riso mau de Calliope reverberou pela caverna, e eu parei de lutar. Era
inútil. Ela tinha me visto, e não havia como escapar agora.
— Isso não demorou muito, — disse ela em uma voz cantante. — Você
realmente não pode fazer nada direito, você pode, Kate? Você não pode sequer
correr para salvar o seu precioso Henry do jeito que você queria.
Eu apertei meu queixo e não disse uma palavra. Isso era exatamente o
que Calliope queria para me irritar. Eu não lhe daria a satisfação.
— Hera, — disse Persephone, mas Calliope levantou a mão para silenciá-
la. Persephone olhou para mim. Eu não a culpei.
— Isso certamente muda as coisas, não é? — Disse Calliope alegremente.
Ela fez sinal para eu chegar mais perto. Quando não me movi, ela fez um gesto, e
uma força irresistível me puxou em sua direção. Nenhuma quantidade de travar
meus calcanhares no chão teria feito qualquer diferença.
Eu estava apenas a alguns metros dela quando ela levantou a onda de
poder, e perdi o equilíbrio, eu caí no chão. Seu pé conectou com o meu estômago,
e todo o ar deixou meus pulmões.
— Isso é por ser tão idiota, — disse ela. — Você é patética, você sabe. Nem
mesmo é uma adversária digna. É como pegar as asas de um inseto e vê-lo se
contorcer ao redor.
— Eu não sei, — eu chiei. — Eu não sou uma puta sádica como você.
Ela me chutou novamente, e desta vez o pé conectou com o meu queixo.
Doeu, e minha cabeça chicoteou de volta, se eu tivesse sido mortal, eu tinha
certeza que teria quebrado meu pescoço. Mas ela não poderia ganhar mais
facilmente.
— Pare com isso, — disse Persephone. — Tudo o que ela fez foi passar por
um teste estúpido. Eu sei que você ama Hades, mas existem homens melhores lá
fora. Confie em mim.
— Confiar em você? — Calliope arrodeou Persephone. — Por que eu,
possivelmente, confiaria em você? Você o destruiu. Você tomou o seu amor e
empurrou-o de volta em seu rosto, como Walter fez para mim. Você não poderia
entender o que sente, sua hedionda
— Não, — eu disse, lutando para meus pés. — Ela queria ser feliz. Não há
crime nisso.
— Há, quando você quebra alguém no processo, — disse Calliope com um
grunhido. — Além disso, não é sobre isso, não mais. Henry fez sua escolha
quando ele recuou na sua punição. Você realmente acha que eu teria o
sequestrado se eu pensasse que eu ainda tinha uma chance?
— Então você vai matá-lo, porque eu decidi que você tinha que enfrentar
as consequências pelo que você fez? — Eu disse. — Você está falando sério?
Calliope apertou meu cabelo no punho e puxou minha cabeça para trás.
— Eu estou falando sério quando digo que você não vai sair daqui viva. Se
Persephone não vai me dizer como abrir o portão, então eu vou ter Henry fazendo
em seu lugar. — Do outro lado da caverna, na boca da caverna onde os outros
estavam inconscientes, o corpo de Henry empurrou para cima. Suas correntes
sacudiram e se separaram das dos outros, arrastando no chão enquanto ele
flutuava em nossa direção. Um nó se formou na minha garganta com a visão de
seu corpo ensanguentado, ainda pior do que tinha sido na minha última visão,
mas ele estava vivo. Enquanto Calliope não sabia como abrir o portão, então ela
não iria matar qualquer um de nós. Ela não podia. Henry não abriria se eu
estivesse morta.
— Acorde, — ela resmungou, e Henry abriu os olhos.
Meu coração pulou uma batida, e por um longo momento, olhamos um
para o outro. Seus olhos eram do mesmo tom bizarro de luar, mas a centelha se
foi. Eu procurei por algum sinal de que ele estava lá, qualquer indicação de que
ele poderia lutar, mas era como se ele nem sequer me visse. Ele tinha desistido.
— Henry? — Eu sussurrei, e ele piscou. — Henry, por favor... olhe para
mim.
Ele já estava olhando para mim, mas ele não me via, e eu não sabia como
pedir isso. Ele não estava lá. Seja o que for que Calliope e Cronus haviam feito
com ele, ele recuou muito em si mesmo que o resto do mundo não existia.
Calliope pegou a ponta solta de suas correntes de nevoeiro infusas e as
chicoteou em seu rosto. Engoli em seco e lutei contra ela, mas ela segurou-me
com uma força sobre-humana.
Um padrão vermelho brilhante floresceu em todo rosto de Henry, e,
finalmente, ele balançou a cabeça e voltou a si. Ele tocou seu rosto e fez uma
careta, e eu exalei. Ele estava lá, afinal.
Em vez de olhar para mim, no entanto, seu olhar focou em algo atrás de
mim, e sua mandíbula folgou. — Persephone?
Eu gostaria ter sido cortada aberto por Cronus que a experiência da dor
lancinante que veio com ouvir seu nome antes do meu.
— Olha quem decidiu se juntar a nós, — disse Calliope, puxando meu
cabelo. Henry rasgou o seu olhar de Persephone se concentrando em mim, e o
olhar no rosto dele fez meu estômago revirar. — Parece que alguém não tem um
cérebro em sua cabeça, mas isso não é surpresa, não é? Você sabe como escolhe-
las. Eu não tive que fazer uma coisa. Ambas valsaram aqui por conta própria,
praticamente embrulhadas para presente para mim.
A expressão de Henry endureceu. — O que você quer?
— Será que realmente precisamos passar por isso de novo? — Disse
Calliope. — Diga-me como abrir a porta, e, eu as deixarei ir.
— Henry, não, — eu disse. — É uma...
Calliope bateu a mão sobre minha boca. Sem pensar, lambi sua mão,
exatamente como eu tinha feito para James.
Eu teria mordido ela se eu poderia ter, mas saliva era suficiente. Ela fez
um barulho revoltado e puxou a mão, me dando tempo suficiente para terminar.
— É uma armadilha, — eu disse. — Ela não pode ferir Persephone, e ela vai me
matar de qualquer maneira.
Calliope passou a mão na minha camisa, e seu aperto no meu cabelo
apertou. — Será que isso importa? Nós dois sabemos que Henry não tem escolha
a não ser arriscar.
Eu lutei contra ela, mas não adiantou. Calliope preferia puxar cada fio do
meu cabelo do que me deixar ir.
— Por favor, — eu disse. — Henry, você não pode, não vale a pena...
— Tudo bem, Calliope, — ele disse calmamente. — Eu vou dizer-lhe como
abrir com a condição de que você deixe Kate ir primeiro.
Calliope fungou. — Dificilmente.
— Você tem que me oferecer alguma segurança, — disse Henry. — O que
vai ser?
Ela me pegou em um estrangulamento, com o braço esmagando minha
traqueia. — Você me diz. O portão ou a sua esposa bonita?
O músculo na mandíbula de Henry contraiu, o mesmo que me dizia
quando ele estava à beira da implosão. — Persephone, então, — ele disse. — Você
deixa Persephone ir, e eu vou dizer o que você quer saber.
— Feito. — Calliope acenou para Persephone sair, mas Persephone não fez
nenhum movimento para ir.
— Você é um idiota, — ela disse a Henry. — Eles não podem me
machucar, e eu não vou embora.
— Não importa para mim, — disse Calliope. — Eu fiz a minha parte do
acordo. Persephone está livre para ir, e não é minha culpa que ela não quer,
então você ainda tem que me dizer como abrir o portão. Justo é justo.
Henry ficou em silêncio, e eu abri minha boca para protestar, mas
nenhum som saiu. Calliope pensou que isso era ser justo? Liberando um Titã
para destruir o mundo por vingança, matando todos que entram no caminho dela
– o que algo disso era justo? Minha visão começou a embaçar, e eu pisei no pé
dela, mas ela mal se moveu. Eu teria dado qualquer coisa para alcançar minhas
mãos nas correntes infundidas de nevoeiro de Henry.
— Chop, chop, — disse Calliope, apertando sua mão. — Kate está
sufocando.
— Ela vai acordar no momento em que você deixá-la ir, — disse Henry
friamente, e nada que Calliope dissesse poderia coincidir com o buraco deixado
das palavras dele dentro de mim.
A sala começou a girar e pontos brilhantes apareceram na minha visão,
embora eu não tivesse certeza se era do que Henry tinha dito ou da falta de
oxigênio no meu corpo. De qualquer maneira, usando as poucas forças que eu
tinha sobrando, eu arranhei o braço de Calliope e tentei de novo e de novo
remove-la. Nada funcionou.
— Persephone, vá embora, — ele ordenou.
Ela zombou. — Eu não vou a lugar nenhum.
Poder começou a construir-se em torno dele, tão escuro e perigoso como o
de Calliope. — Você vai fazer o que eu digo e sair imediatamente. Eu sou seu rei,
e você vai me obedecer.
Persephone bufou e girou sobre seus calcanhares. — Tudo bem, — ela
disse enquanto marchava para o outro lado da caverna, onde a rachadura na
parede esperava por ela. — Veja se eu tento ajudá-lo de novo.
A tensão no ar parecia crepitar, e uma vez que ela se foi, Henry exalou e
se reorientou para Calliope. — A fim de abrir os portões, um governante do
Submundo deve voluntariamente sacrificar sangue contra cada uma das barras.
— Ele falava monotonamente, como se ele não se importasse mais, e eu não tinha
tanta certeza de que ele se importava. Calliope afrouxou seu aperto ao redor do
meu pescoço, e eu caí de joelhos. Meus pulmões sentiam como se estivessem em
chamas, e eu inalei o precioso ar frio enquanto meu corpo recuperava a sua
força.
— Interessante, — disse Calliope quando ela enrolou o final das correntes
de Henry ao redor do meu pescoço. Elas queimaram branco-quente contra a
minha pele, mas pelo menos ela não as apertou. — Parece que você tem algum
nível de inteligência depois de tudo. Devo mesmo pedir?
Por uma fração de segundo, eu pensei que eu vi uma dica de um sorriso
no rosto de Henry. Quando eu pisquei, ele se foi. — Você está me pedindo para
liberar o ser mais poderoso do universo, que, sem dúvida, causará estragos no
mundo antes de aniquilar a humanidade e matar todos nós?
— Sim, — disse Calliope, aparentemente sem se abalar com o futuro que
Henry pintou. — Em troca da vida de Kate.
— Em troca da vida de uma garota que conheci há um ano e só vi por
alguns minutos nos últimos seis meses. — Algo dentro de mim se desintegrou, e
eu me forcei a meus pés. Ele estava certo. Eu não valia a pena. Eu sabia que eu
não valia antes que ele tinha dito isso, mas de alguma forma ouvir as palavras
vindas da boca dele tornou real. Mesmo que ele me amava, eu era uma pessoa.
Eu era uma vida. Seria tolo ele abrir o portão para me salvar, não importa como
ele se sentia.
Calliope suspirou. — Você pode ter o resto deles enganado, mas eu te
conheço melhor do que você conhece a si mesmo. Seu blefe não vai funcionar.
— Quão certa você está que eu estou blefando? — Disse Henry. Calliope
não disse nada. — Muito bem. Desde que Kate insiste que você vai matá-la de
qualquer maneira, e uma vez que é claro que você não tem nenhuma intenção de
deixá-la ir, porque não te deixo com a sua recompensa e passo a oferecer outro
comércio? Vou abrir o portão para você depois que você liberar os outros. — Ele
olhou para o teto, onde James e Ava estavam pendurados. — Todos os outros.
Os olhos de Calliope se estreitaram, e ela bateu seus dedos contra sua
coxa. — Você não vai colocar uma briga por Kate, — ela disse, e Henry assentiu.
— Como eu sei que não é uma armadilha?
— Como pode ser? — Disse. — Cronus está aqui, e Kate não tem
importância para o conselho. Querendo ou não, ela vive ou morre, você terá a
vantagem. Você de todas as pessoas sabe que não podemos vencê-lo sem você.
Estou apenas pedindo que a minha família seja devolvida para que possamos nos
preparar para nos render com dignidade.
Eu não conseguia respirar, e desta vez não teve nada a ver com as
correntes que Calliope tinha em volta do meu pescoço. Henry quis dizer isso.
Estando ou não blefando antes, havia agonia em sua voz que sacudiu através de
mim como se fosse a minha dor, também. Ele sabia que era uma causa perdida.
Calliope me queria, e ele queria seus irmãos de volta. Era uma troca justa, e tudo
o que ele iria perder era uma garota que mal conhecia.
Eu estava realmente indo morrer. As incontáveis horas que eu passei me
preparando para esta possibilidade durante a nossa jornada através do
Submundo não fez nada para amortecer a realização angustiante que eu não ia
existir mais. Eu não tinha ideia do que acontecia aos deuses depois que
desapareciam, mas Persephone teve que virar mortal para se juntar a Adonis no
Submundo, eu assumi que não havia qualquer tipo de vida após a morte.
Eu não estava pronta para isso. Ainda não. Não assim.
— Henry, por favor, — eu disse com a voz embargada. Eu escovei meus
dedos contra os dele, e apesar de seu rosto de pedra, seu pomo de Adão
balançou.
Ele não olhou para mim. Eu vim aqui sabendo que isso era uma
possibilidade, que Calliope rasgar-me-ia à parte e eu nunca iria voltar para casa,
mas eu nunca esperei que Henry desse a sua bênção. Antes disso, eu tinha
conseguido segurar a esperança de que em algum lugar dentro dele, ele me
amava, mas isso tinha desaparecido agora. Junto com cada pedaço de força
interior que eu precisava para deixar Calliope roubar o resto da minha vida mais
uma vez.
— Quão tocante, — disse Calliope. — Muito bem, Henry. Você tem um
acordo.
Ela acenou com a mão, e James e Ava começaram a descer. Eu ouvi um
gemido da boca da caverna, mas antes que eu pudesse ver quem era, meu corpo
se moveu involuntariamente em direção ao portão e o nevoeiro ameaçador que
girava em torno dele. Henry se moveu, também, seus pés arrastando pelo chão.
— Por favor, não, — eu ofeguei quando tudo dentro de mim drenou,
deixando-me com nada, apenas o instinto irresistível para sobreviver. Eu
arranhei as correntes no meu pescoço, mas elas queimavam minhas mãos, e não
era de nenhum uso.
Se eu morresse na mão de Calliope ou Henry soltasse Cronus e ele me
despedaçasse por ela, eu não tinha a menor chance se Henry não ia lutar. E ele
estava abrindo o portão - ele não podia. Ele não podia.
— No momento em que você abrir, os outros vão estar acordados o
suficiente para sair, — disse Calliope. — A menos que você quer que eu mude de
ideia e os coloque para dormir novamente, eu começaria se eu fosse você.
Com a boca numa linha fina, Henry pegou um pedaço de névoa com
infusão de pedra nas proximidades. Primeiramente eu não percebi o que ele
estava fazendo, mas quando ele apertou um canto afiado contra a palma da mão
e arrastou-a para baixo, eu cobri minha boca, horrorizada.
Sangue escarlate agrupou em sua mão, e ele apertou-a contra a barra da
primeira porta, sussurrando algo que eu não podia ouvir.
— Henry. — Eu era uma bagunça soluçando agora, mas eu não me
importava. Ele iria fazer todos serem mortos. — Não faça isso. Por favor. Eu vou
fazer qualquer coisa.
Ele não fez mais do que vacilar. Quando Henry puxou a mão dele, a barra
gemeu, e dividindo a pedra no meio da marca que seu sangue fez. Calliope
pairou, vestindo um sorriso tonto, e quando sua excitação cresceu, seu domínio
sobre a corrente em volta do meu pescoço afrouxou. Esperança selvagem me
encheu quando eu escorreguei meus dedos entre meu pescoço e os elos. Nada do
que eu disse poderia parar Henry, mas se eu pudesse escapar-
— A próxima! — Exclamou Calliope.
Henry fechou os olhos e apertou a mão contra a segunda barra. Quando
também se desintegrou, eu freneticamente trabalhei em me soltar da corrente,
enquanto Calliope estava preocupada demais para notar. Seu corpo inteiro
parecia tremer de emoção, e o nevoeiro derramou para fora entre a parte aberta
da porta, tudo, menos obscurecendo Henry. Eu ainda podia ver a silhueta de
Calliope, mas mal. Ao contrário do nevoeiro nas correntes, esse não picava; como
o deserto, parecia como penas contra a minha pele.
Finalmente minha cabeça saiu do laço, e eu estava livre.
Tudo o que eu tinha a fazer era achar a saída. Se Henry continuasse a ir
assim lentamente, eu teria tempo para ajudar a libertar os outros, e talvez eles
poderiam falar algum sentido para ele.
Mas meus pés estavam colados ao chão. Não por alguma força exterior,
mas porque eu não poderia deixar Henry. Se ele parasse, Cronus iria destruí-lo.
Ele iria destruir todos nós. E eu não podia ficar parada e deixar isso acontecer.
Foi a decisão mais difícil que eu já tinha feito, mas eu fiquei.
Havia dez barras no total. Com cada uma que Henry abriu, Calliope
perdeu mais de sua compostura, até que ela soltou a corrente completamente.
Pulando para cima e para baixo, ela bateu palmas e soltou um grito estridente.
Minhas entranhas torceram em nós. Era isso.
O tempo pareceu parar, a névoa abafando tudo. E nesse momento,
quando o mundo ficou em silêncio, o som de sussurros serpenteava em minha
direção da direção da caverna.
Meu coração batia forte. Os outros estavam acordados.
Quando a rachadura da sétima ecoou pela caverna, Calliope riu
alegremente, e na neblina, alguém agarrou meu pulso. Eu lutei para quebrar o
domínio deles, mas o metal frio de um anel de casamento escovou contra a minha
pele, e eu acalmei. Henry.
O que ele estava tentando fazer? Ele tinha mudado de ideia? Ele só tinha
três barras sobrando, e seria uma questão de segundos antes que Calliope
percebesse que ele não estava fazendo o que ela queria mais. Cronus nos cercava,
e tudo o que levaria era – bem, eu não estava inteiramente certa do que, mas ele
iria matar até o último de nós se Henry renegasse.
E então ele pressionou uma corrente dolorosamente quente na minha
mão.
A silhueta de Calliope parou de se mover. — Continue, — ela exigiu. —
Posso contar tão bem quanto você.
— E se eu não quiser? — Disse Henry, uma vantagem que sua voz que
não tinha estado lá antes.
— Olhe ao seu redor, — disse Calliope. — Use seu cérebro, Henry. O que
você acha que vai acontecer? Cronus vai esmagá-lo. Ele lentamente vai moer seus
ossos em pó e pintar as paredes com o seu sangue. Ele vai fazer o mesmo com a
sua esposa, suas irmãs e seus irmãos, e uma vez que ele terminar, ele vai fazer o
mesmo para os que tiveram o bom senso de não vir. Pensando bem, seria muito
mais divertido se nós o mantivéssemos vivo para assistir a coisa toda, não é? Eu
estava pensando em fazer Walter assistir, e eu tenho certeza que ele iria gostar da
companhia.
— Eles são a sua família, também, — eu disse, a corrente queimando
minhas mãos, mas eu me recusei a soltar. Se eu não podia vê-la, então ela não
podia me ver. Ela não podia ver o que Henry tinha feito.
Cronus estava em toda parte, porém, e se ele estivesse prestando
atenção...
— Não, eles não são, — ela cuspiu. — Não mais. O conselho governou por
tempo suficiente, e eles fizeram uma paródia de si mesmos e tudo o que eu
defendo. Jogaram-me de lado, como se eu não fosse nada. Você tem alguma ideia
de como se sente? É claro que você não tem, Kate. Você ganhou. Você tem tudo o
que você queria.
Nem tudo. Eu não tinha Henry, e eu não tinha certeza de que eu jamais
iria. Mas eu mordi minha língua. A última coisa que ela precisava era de um
motivo para fundir-me em pedaços.
Sua silhueta veio à tona quando Calliope arrodeou Henry. — Você e
Walter vão sofrer a dor que vocês me fizeram passar por todas estas eras, e eu
prometo aproveitar cada momento.
Eu não podia ver o que ela fez com ele, mas Henry gritou, um som feio
torcido que me engoliu toda até que tudo deixou de existir, exceto a minha
necessidade premente de pará-la. Eu me movi para ela sem pensar. A corrente
queimando em minhas mãos, e eu balancei tão duro quanto eu poderia. Um
doente crack encheu a caverna quando conectou com a parte de trás da cabeça
Calliope, e os elos enrolaram em seu pescoço, queimando seu rosto bonito.
Eu esperava que ela gritasse ou berrasse ou brigasse de volta de alguma
forma, e eu não iria entregar a ela facilmente. Eu balancei para ela de novo e de
novo, louca com a necessidade de me certificar de que ela nunca tivesse outra
chance de machucar Henry ou qualquer outra pessoa que eu amava, mas alguém
finalmente pegou meu braço.
— Chega, — disse Henry. — Olha.
Meu coração batia forte quando eu avancei para frente, olhando através
da neblina. Agarrei a corrente, preparada para bater de novo se ela pulasse em
mim. Em vez disso, meu pé bateu em alguma coisa quente e sólida.
Calliope.
Henry colocou seu braço em volta de mim e agarrou o tornozelo de
Calliope. Olhei para seu corpo flácido, dividida entre horror e satisfação quando o
sangue escorria de um corte na bochecha.
— Saia, — ele gritou, sua voz crescendo, apesar de seus ferimentos. Um
som sibilante ecoou pela caverna, e o ar ficou tão quente que eu senti como se eu
estivesse sendo cozida viva.
Facas pequenas picaram em mim, enterrando debaixo da minha pele e se
tornando lava derretida.
Eu gritei, incapaz de lidar com a dor monstruosa espalhada através de
meu corpo. Meus joelhos cederam, mas Henry estava lá para me pegar, e suas
correntes caíram no chão. Ele não disse nada quando ele me puxou contra ele e
enterrei meu rosto em seu peito. A próxima coisa que eu sabia, as facadas foram
embora, e o ar frio me envolveu.
— Está tudo bem, — disse Henry em tom suave que eu queria ouvir tão
mal desde que pisei no Submundo. Mesmo que ele devia ter estado ferido,
também, ele correu seus dedos pelo meu cabelo confortavelmente. — Você está
segura. — A agonia da névoa penetrando em meu corpo não tinha me deixado,
mas quando eu fiquei ali tremendo, não ficou pior.
Eu abri um olho, e quando eu vi a parede vermelha, meu estômago
embrulhou. Quem Cronus matou? James? Ava? Ou ele matou Calliope por ter o
falhado?
Quando a minha visão focou, eu percebi que não estávamos mais na
caverna. Estávamos na entrada do palácio, uma com os espelhos e paredes
vermelhas, e Calliope estava deitada no tapete, sangue escorrendo da ferida na
parte de trás de sua cabeça.
Estávamos em casa.
13
SOMBRA

À medida que os segundos passavam como horas, os outros apareceram


ao redor de nós. Ava foi a primeira, com Sofia. Seus pulsos estavam em carne
viva. James apareceu em seguida com Phillip, que segurava um pano
ensanguentado sobre seu olho, e finalmente Walter e minha mãe apareceram. Ela
estava segurando a mão de Persephone.
O momento que eu vi minha mãe, pálida e abalada, mas inteira, eu queria
correr em sua direção. Uma força invisível me segurou embora, e eu não podia
me mover, não enquanto ela segurava Persephone.
Minha mãe me pegou olhando. Seu domínio sobre Persephone apertou, e
para meu espanto, ela deixou cair a mão e se moveu para mim.
Esse foi todo o incentivo que eu precisava. Corri para frente e abracei-a,
enterrando meu nariz em seu cabelo. Mesmo depois de todo esse tempo na
caverna, ela ainda cheirava a maçãs e frésia. Uma leve sugestão de fumaça se
agarrava a ela também, mas ela estava bem.
— Onde ela está? — Disse Walter, empurrando através do grupo de
conselheiros aturdidos. Dylan, Irene e os outros que tinham ficado para trás não
estavam à vista, mas eles provavelmente estavam trabalhando na superfície. Eu
esperava.
— Aqui. — Henry afastou-se e fez um gesto para Calliope.
Walter se ajoelhou ao seu lado - sua esposa, eu me lembrei. Eu olhei de
olhos arregalados ao ver os dois juntos, ele tão velho e ela tão não, e ele afastou
uma mecha de cabelo dos olhos dela.
— Ah, minha querida, — ele sussurrou, mas esse momento suave
desapareceu tão rapidamente como tinha vindo. Sua expressão endureceu, e
recolheu-a em seus braços com não mais cuidado do que ele teria mostrado a
uma pilha de trapos. — Henry, você tem qualquer lugar para ela ficar?
Henry fez um gesto para Walter ir com ele. Eu queria seguir, mas minha
mãe se agarrou a mim, e eu não queria deixá-la ir.
— Você está bem? — ela disse, afastando-se o suficiente para me olhar
por cima da cabeça aos pés.
— Eu estou bem, — eu disse, apesar de que era uma mentira. Eu doía em
todo lugar, e meu sangue estava praticamente fervendo, mas não adiantava
reclamar sobre isso quando os outros deviam estar sentido o mesmo. — Você está
bem? Eles te machucaram?
Ela balançou a cabeça. — Eu estou bem. Foi uma coisa muito corajosa
que você fez, indo nos encontrar.
Desviei os olhos e olhei para a mancha de sangue no tapete, onde Calliope
havia estado momentos antes. — Foi uma estupidez. Sinto muito. Eu nunca quis
que nada disso acontecesse, mas eu não podia, eu não podia ficar sem fazer
nada.
— Claro que você não podia, querida. — Ela gentilmente limpou meu rosto
sujo com a manga e apertou seus lábios contra meu rosto. — Você não seria você,
se você não fizesse alguma coisa. — Com o canto do meu olho, eu vi Persephone
andar em nossa direção, e minha mãe se endireitou. Recusei-me a soltar a sua
mão, e para meu alívio, seu aperto na minha não soltou, também.
— Kate é muito corajosa, — disse Persephone sem uma pitada de
ressentimento. Minha hostilidade começou a derreter, e eu abri minha boca para
devolver o sentimento quando Persephone acrescentou: —Um pouco estúpida e
míope, e completamente ingênua, mas corajosa.
Essa mesma acidez em sua direção solidificou dentro de mim novamente.
Por mais que eu quisesse odiá-la, porém, eu não poderia, e não quando ela
arriscou tudo para ajudar. Ela realmente sabia que Calliope e Cronus não
podiam tocá-la? Agora que tudo acabou, eu tinha certeza de que ela não sabia,
não quando mesmo Calliope não sabia. E a maneira como ela reagiu de volta para
sua casa de campo quando ela descobriu que Cronus tinha vindo a seguir-nos,
não, ela não sabia, mas ela tinha feito isso de qualquer maneira.
— Nós nunca teríamos encontrado eles sem você, — eu disse
relutantemente, e minha mãe, nossa mãe estendeu-lhe a mão.
— Estou tão feliz que vocês duas estão se dando bem, — disse ela. — Eu
nunca quis que vocês se conhecessem nestas circunstâncias, e eu sinto muito
que eu não estava com vocês para isso.
Naquele momento, não importava que ela não tinha contado a Persephone
que eu existia. Enquanto eu não poderia esquecer completamente, a parte
irritante do meu cérebro que me lembrou mais uma vez que eu era a substituta
de Persephone, a segunda melhor, nada mais do que uma peça de reposição, por
agora eu ignorei e me forcei a sorrir. Após a provação que a nossa mãe tinha
passado, eu não podia negar-lhe que pouco de felicidade.
— Persephone.
A voz de Henry foi mais alta do que um sussurro, mas mesmo no
burburinho do hall de entrada, cortou através de mim. Ele estava no corredor,
com os braços cobertos de sangue e sua roupa rasgada, mas como havia estado
na caverna, ele olhou por mim e focou novamente em Persephone. Era como se
nenhuma das últimas semanas tivesse acontecido. Como se nenhum dos últimos
mil anos havia acontecido.
— Olá, Hades, — disse minha irmã. — Tem sido um longo tempo.
Henry escorregou no meio da multidão para se juntar a nós, e embora ele
colocou a mão nas minhas costas, ele não olhou para mim. — Você está bem? —
Disse ele, e Persephone revirou os olhos.
— Claro que eu estou. Eu não posso morrer duas vezes.
Henry hesitou, e o aperto de minha mãe na minha mão aumentou. Ela
sabia o que ele ia fazer, antes que ele fizesse isso, mas seu aviso não ajudou.
Henry apertou os lábios no rosto de Persephone ternamente, e quando
Persephone beijou de volta, uma onda de náusea tomou conta de mim.
— Venha, — disse minha mãe para mim. Nem Henry, nem Persephone
pouparam-nos uma segunda olhada quando a minha mãe levou-me através do
hall de entrada e no corredor, e ela colocou o braço em volta do meu ombro. —
Tem sido um tempo muito longo que eles viram um ao outro.
— Eu sei, — eu sussurrei, mas isso não fazia doer menos. Apenas colocar
um pé na frente do outro era uma tortura, mas eu continuava a avançar, a
necessidade de colocar o máximo de distância entre mim e eles, como eu podia.
Quando chegamos ao quarto, eu hesitei, mas a minha mãe abriu a porta de
qualquer maneira.
— Você precisa descansar, — disse ela, levando-me para a cama.
Eu queria resistir, mas ela parecia quase tão frágil quanto ela teve
enquanto ela lutou contra o câncer, e meu medo intenso de perdê-la disseminou
através de mim, me deixando sem chance de removê-lo.
— Você também, — eu insisti. Eu encostei à beira da cama, mas isso era
tudo que eu estava disposta a dar até que ela tomou mais fácil, também. —
Sente-se.
Ela não discutiu. Juntas, ela e eu nos enrolamos na cama como tínhamos
mil vezes antes, sempre que eu tinha ficado com medo ou só como uma criança,
ou quando ela ficou doente e eu não podia suportar a ideia de deixá-la sozinha
por uma noite inteira. Eu estava com tanto medo que ela fechasse os olhos e
nunca mais acordasse, era difícil conciliar esse medo com o conhecimento de que
ela era imortal e não desapareceria até que ela já não tinha um propósito no
mundo, ou até que Cronus a matasse. E eu gostaria de ir para baixo lutando
antes de eu deixa-lo machucar alguém que eu amava.
Nós ficamos lá juntas, quando tempo pareceu congelar em torno de nós.
Eu contei cada respiração que ela tomou, e ela esfregou minhas costas em
círculos. Por um momento eu consegui esquecer que estávamos no Submundo, e
imaginei que estávamos em Nova York, uma mãe e filha apenas com nada de
especial sobre elas. Eu ia cursar a NYU por agora, ou talvez Columbia. Talvez, se
minha mãe não tivesse ficado doente, eu teria encontrado alguém, Henry nunca
quebraria meu coração, e eu nunca teria que saber como era viver na sombra da
minha irmã.
Eu poderia ter sido feliz. Minha vida teria sido domesticada e curta, mas
sem complicações. E quando eu morresse, eu teria vindo aqui, mais uma alma
para Henry cuidar.
Nada disso teria acontecido.
Tanto quanto eu queria, eu sabia que era apenas uma fantasia.
Eu nunca teria existido se não fosse por Henry e Persephone. Não
importava o que acontecesse, não importava quais as escolhas que fizesse, a
minha vida nunca teria sido simples. Mesmo se eu nunca tivesse conhecido que
os deuses realmente existiam, a minha mãe não teria sobrevivido ao câncer, e eu
teria estado mais sozinha do que eu estava agora.
Com Henry, minha vida era diferente. Minha vida tinha um propósito.
Mas ninguém nunca tinha parado para pensar se era a vida que eu queria
levar. Ninguém além de James.
Não importa que escolha que eu fizesse, eu não poderia competir com o
amor esmagador de alma que Henry sentia por Persephone, e agora que ele a
tinha de novo...
Eu não sabia mais qual era a escolha certa.
— Mãe? — Eu sussurrei. — Por que você decidiu ter-me se tudo o que eu
ia ser era uma substituta de Persephone? — Ela abriu os olhos e, por alguns
segundos, ela não disse nada. Tempo suficiente passou que eu temi que ela não
iria responder, mas finalmente ela beijou minha testa.
— Você realmente acredita que tudo que você é para mim, é uma
substituta da sua irmã? — Eu balancei a cabeça. Eu não queria acreditar, mas
depois de tudo que aconteceu, depois de ser atormentada por dúvidas por tanto
tempo, eu não poderia evitar. Minha mãe suspirou. — Se nós vamos conversar,
vamos pelo menos nos limpar um pouco.
Ela saiu da cama e desapareceu no meu armário, e eu não disse nada. Eu
sabia que ela me amava tanto quanto eu a amava, mas o que teria acontecido se
eu não tivesse passado no teste?
Teria ela soltado a minha mão, também?
Quando ela voltou, ela tinha uma muda de roupa com ela, e eu
relutantemente saí da cama. Apesar de Ava limpá-las regularmente, o jeans e
suéter que usava estavam arruinados, e tão logo eu os tirei, minha mãe os
sumiu.
— Agora, — ela disse enquanto eu me vestia no pijama que ela escolheu
para mim. — Diga-me o que está te incomodando.
Eu não sabia como começar. Tudo deu errado desde o dia em que eu
cheguei ao Submundo, e tão frequentemente como Ava e a minha mãe queriam
assegurar-me que Henry me amava, ele não amava, não realmente. Ele não
podia. Eu não era Persephone.
Era mais do que isso, embora. Muito mais, e o único lugar para começar
era do começo. — Cada parte da minha vida foi planejada, — eu disse com voz
rouca. — Quando eu nasci, como fui criada, o que você ensinou-me, isso era tudo
para passar os testes, não era?
Ela balançou a cabeça lentamente, como se ela não tinha certeza do que
estava tão errado com isso. — Claro, querida. Eu queria dar-lhe a melhor chance
de sucesso que você pudesse ter, especialmente depois do que aconteceu com as
outras.
Eu puxei a barra da minha blusa do pijama. — Você sabia que alguém iria
tentar me matar, e você me deixou ir de qualquer maneira.
— Eu... — Ela franziu a testa. Finalmente, ela pareceu entender. — Kate,
querida, eu nunca teria permitido isso se eu não tivesse certeza de que todas as
precauções possíveis foram tomadas. Antes, apenas alguns de nós
supervisionávamos os testes. Com você, tudo isso mudou. Eu insisti, e assim fez
Henry. Ele queria protegê-la. Nós todos queríamos. Foi por isso que um de nós
estava sempre com você, foi por isso que todos nós vimos você passar nos testes.
Minha mãe não estava lá no Éden Manor, mas eu conversava com ela
todas as noites nos meus sonhos. Eu pensei que era um presente de Henry, uma
chance de me permitir dizer adeus a ela, e talvez em parte era. Mas ela apertou-
me a compartilhar tudo, e eu tinha - quase. Foram as partes que eu não tinha
dito a ela que tinham me matado.
Ela se acomodou atrás de mim e afastou meu cabelo em cursos lentos,
trabalhando seu caminho suavemente através dos emaranhados. — A partir do
momento em que te levamos para o Éden, você estava protegida. James, Ava,
Sofia, mesmo Dylan e Irene - era por isso que estavam lá. Parcialmente para guiá-
la, mas principalmente para ter certeza de que nada lhe acontecesse. Nós
tínhamos assistido outras onze meninas morrerem por causa de nós, e não pense
que nós éramos tão insensíveis que não nos importávamos. Nós todos nos
importávamos, especialmente Henry. A partir do momento em que o conselho
determinou que eu poderia tê-la...
— O conselho determinou que eu poderia nascer?
— Sim, — disse ela, separando meu cabelo em três seções antes de
começar a trançá-lo. — Eu já te disse isso antes, amor. Henry decidiu que queria
desistir, e eu não queria que ele desistisse, então ao invés de sair e encontrar
outra menina...
— Você decidiu fazer uma. — Engoli em seco, e as lágrimas dos meus
olhos ardiam. — Isso é tudo o que você me disse. Você não disse que a única
razão que eu existia era porque todos se sentaram ao redor e discutiram. — Olhei
para o teto, tentando em vão conter a onda de angústia que me encheu. — Tudo
o que jamais foi suposto para eu ser era a esposa de Henry, e você sabia, você
sabia que ele sempre irá estar apaixonado por Persephone. Você sabia que ele
nunca iria sentir o mesmo por mim, e você fez isso de qualquer maneira.
Ela colocou os braços em volta de mim por trás. — Kate... — Eu olhei para
as minhas mãos, me recusando a abraçá-la de volta. Ela poderia negá-lo ou
racionalizá-lo tudo o que ela queria, mas não iria mudar o que tinha acontecido.
— Sim, — ela finalmente disse. — Foi por isso que você nasceu. Todos nós
viemos a este mundo por uma razão, se é amor ou um propósito ou até mesmo
como um acidente. Você não foi por acaso, e eu te amei desde o momento em que
eu sabia que você iria existir. Mesmo se não tivesse sido assim, você teria nascido
eventualmente. Eu queria outro filho por um longo tempo, e eu adiei. Porque eu
tinha vergonha, fiz-me pensar que eu não merecia outra. Eu pensei que eu não
merecia você.
— Por quê? — Eu disse, soluçando. — Do que você estava envergonhada?
Persephone?
— Parcialmente, — disse minha mãe. — Eu tinha vergonha de quão pouco
ela se importou com o bem-estar de Henry e quão egoísta ela agiu. Eu nunca tive
vergonha dela, — acrescentou. — Ela é minha filha, como você é, e nada poderia
me fazer amar qualquer uma de vocês menos.
Eu funguei. — Mas ela estava infeliz com ele. Não é culpa dela que ele se
apaixonou por ela, ou que ela se apaixonou por outra pessoa. Você não pode
forçar duas pessoas juntas e fazê-los viverem felizes para sempre. Não é assim
que funciona.
Ela se mexeu na cama, então ela estava ao meu lado. — É assim que você
se sente? Como que eu te obriguei a estar com Henry?
Eu balancei a cabeça, em seguida, acenei com a cabeça, então balancei a
cabeça novamente. — Eu não sei, — eu murmurei. — Eu não tive escolha para
conhecê-lo, embora.
— Mas você fez uma escolha se queria ou não ficar com ele, — disse ela
suavemente. — Ele esperou por você, mas se você não o amasse, se você não
quisesse fazer isso, nenhum de nós teria forçado você.
— Parece que vocês forçaram, — sussurrei desanimada. — Sem isso, eu
não sou ninguém. Eu não tive tempo para descobrir quem eu era, e agora eu não
sei como fazer isso e ainda ser quem você quer que eu seja.
Ela suspirou e me abraçou um pouco mais apertado. — A única pessoa
que eu quero que você seja é você mesma. Você não é substituta de Persephone.
Você é minha filha, e eu estou tão orgulhosa de você. Nada vai mudar isso. Você é
minha luz, e se eu não tivesse pensado que você poderia ser incrivelmente feliz
com Henry, eu nunca teria deixado isso acontecer.
— Não importa o quanto estou feliz com ele. Isso não muda o que ele sente
sobre Persephone.
— Não, não, — ela admitiu, — Mas vai. Henry esteve preso por um tempo
muito longo, e a história que todos nós temos juntos – ele não vai superá-la
imediatamente. Mas a única coisa que você tem que entender é que antes de
agora, ele não tinha uma razão para tentar. Agora, ele tem você.
Eu solucei novamente. — Você realmente acha que eu posso me igualar
com ela?
Ela acariciou o topo da minha cabeça. — Se eu tivesse você todos aqueles
anos atrás, quando Henry ainda estava solteiro, teria sido você quem eu
ofereceria, não Persephone. — Eu dei-lhe um olhar confuso, e ela riu. — Oh,
querida. A ideia de uma mulher poder escolher quem ela se casa é nova. Quando
se refere a isso, Persephone teve milhares de anos com ele, mas você sabe o que?
Você terá agora até para sempre, se é isso que você quer. — Ela fez uma pausa.
— É isso que você quer?
— Eu quero que seja, — eu disse suavemente. — Muito, muito.
— Então, se dê tempo para deixar que isso aconteça. Estar com Henry não
significa que você tem que desistir de quem você é. Henry não te define, nem o
Submundo ou a imortalidade. Você se define, e quanto mais você agir como você,
mais Henry vai te amar, também. Eu garanto.
Eu queria acreditar nela, e quando eu fechei meus olhos novamente, eu
decidi que, por agora, eu iria. Persephone tinha Adonis para voltar, e ela não
estaria aqui para sempre. Talvez vê-la seria até bom para Henry, poderia dar-lhe
uma chance de lembrar que ela não era a garota em seu reflexo que estava feliz
em vê-lo todo mês de setembro.
Eu poderia ser a garota, embora. Eu queria ser.
Eu não disse mais nada enquanto eu me enrolei contra minha mãe.
Ela continuou a esfregar minhas costas, e a tensão escoou para fora de
mim enquanto os minutos passavam. Ela ainda estava aqui, e um mundo onde a
minha mãe estava viva e saudável não poderia ser tão ruim.
Uma batida na porta me assustou, e eu me sentei e enxuguei os olhos
inchados. — Sim? — eu disse, e a porta se abriu.
— Kate?
Henry. Troquei um olhar com a minha mãe, e ela sorriu
encorajadoramente.
— Entr... entre, — eu disse.
Ele entrou e fechou a porta. Ele estava limpo agora, e de alguma forma ele
tinha trocado de roupa sem entrar no quarto. Havia outro armário no palácio se
ele decidisse que não queria ficar comigo? E quem o ajudou a limpar o sangue de
sua pele pálida como eu tinha feito tantas semanas antes? Eu não tive que
pensar muito sobre isso também para chegar com a resposta.
— Walter está solicitando você, — disse Henry, e quando minha mãe
levantou-se, sacudiu a cabeça. — Não é você, Diana. Kate. — Havia algo estranho
com a maneira como ele disse meu nome, mas eu empurrei de lado. O que quer
que fosse, sem dúvida, tinha algo a ver com Persephone, e quanto mais eu
pensava nela, mais tudo doía. Após a jornada através do Submundo, eu queria
uma única tarde em que eu não tivesse que me sentir a segunda melhor. Eu
estava disposta a esperar por Henry como ele tinha esperado por mim, mas isso
não significava que o tempo entre agora e quando ele estava pronto para me amar
seria indolor.
Confusa, desci da cama e pedi licença para ir ao banheiro. Minha pele
estava em carne viva em todos os lugares que tinha sido exposta ao nevoeiro, e
agora que eu me acalmei, eu tinha que me mover com cuidado se eu não queria
estremecer. Sob circunstâncias normais, eu teria mudado do pijama para ver o
Rei dos Deuses, mas hoje foi tudo menos normal, e essa era para ser minha casa
agora. Se eu quisesse passear de pijama, eu faria. Além disso, qualquer outra
coisa teria feito a dor pior.
Eu fiz um esforço para não pensar sobre o que Walter queria enquanto eu
lavei o rosto suavemente. Repreender-me, eu tinha certeza, mas não havia
utilização em se preocupar com isso até que eu estivesse em pé na frente dele.
Henry não iria deixá-lo me banir do Submundo. Eu esperava. E se ele deixasse -
bem, pelo menos eu tinha certeza de Henry não me queria mais.
Eu ouvi minha mãe falando baixinho do outro lado da porta, mas quando
saí do banheiro, ela imediatamente ficou em silêncio. — O que? — Eu disse, e ela
balançou a cabeça.
— Nada, querida. Vejo você em pouco tempo. — Eu tinha que ser cega
para perder o olhar exasperado que ela deu a Henry, mas eu não disse nada
quando ele me levou para fora do quarto e no corredor.
— Você está se sentindo bem? — Disse ele, apertando as mãos atrás das
costas dele. Reunindo qual determinação que tinha sobrando, eu coloquei minha
mão em seu braço e me recusei a soltar quando ele ficou tenso. Um dia, ele não
iria, e até então, ele tinha que se acostumar a eu estar lá.
— Eu tive meses melhores, — eu disse, uma tentativa fraca de uma piada.
Ele não sorriu. — Será que Theo o curou?
Ele acenou com a cabeça. — Eu busquei os outros, há pouco tempo. Vou
mandar Theo para o nosso quarto uma vez que Walter terminar com você.
Isso soou sinistro. — Ele está chateado?
— Não, — disse Henry. — Ele não está.
Algo ainda estava fora, e eu abracei seu braço, satisfeita quando ele não se
afastou. — E você?
Desta vez, seu rosto ficou em branco. É claro que ele estava com raiva. Se
o que a minha mãe tinha dito era verdade, então ele passou seis meses lutando
como o inferno para me manter segura, e em cima de tudo, quando mais
importava, eu correria atrás de um Titã menos de um dia depois de eu chegar no
Submundo. Não é exatamente a coisa mais inteligente que eu já tinha feito, mas
eu não tive escolha. Certamente Henry entendia isso.
— Eu não vou dizer que sinto muito, — eu disse. — Não por ir atrás de
você e minha mãe. Mas eu sinto muito por assustar você, e eu sinto muito por
não ouvir James e ficar fora da caverna.
Ele soltou suas mãos e pegou a minha. Ele não segurou com força, mas
era mais do que eu esperava, e esperança flutuou dentro de mim. — Não se
desculpe, — disse ele. — Estou ciente de que deixei você e os outros sem escolha.
Eu sou o único que deveria pedir desculpas por ter colocado você nessa situação,
para começar.
Então, ele estava se culpando. De alguma forma, não parecia muito
melhor do que ele me culpando. — Não foi sua culpa, embora. Vocês não tinham
ideia do que Calliope e Cronus estavam planejando, e vocês fizeram o seu melhor
com o que vocês tinham.
— Sim, — ele disse suavemente, — eu suponho que nós fizemos. Isso faz
com o que Walter e eu estamos prestes a pedir-lhe ainda mais tolo. — Paramos
em frente a uma porta indefinida, e eu fiz uma careta.
— O que você quer dizer?
Henry soltou a minha mão para colocar a sua na maçaneta da porta, mas
ele não girou-a ainda. — Eu estarei com você o tempo todo, — disse ele. — Nada
vai acontecer com você.
Meu coração flutuou, e quebrei a cabeça pelo que ele e Walter podiam
querer que eu fizesse que iria assustar Henry assim. É claro que nada iria
acontecer comigo. A menos que Cronus estivesse em jogo.
Quando ele abriu a porta, eu percebi o que ele quis dizer, e toda a tensão
que havia me deixado mais cedo voltou. Eu parei, e ele passou o braço em volta
dos meus ombros protetoramente.
Com o rosto ensanguentado e marcado pela corrente que eu tinha usado
contra ela, Calliope olhou para mim, seus olhos se estreitaram e sem piscar.
Ela estava acordada.
14
INTERROGATÓRIO

O ódio queimando nos olhos Calliope fez todos os ossos do meu corpo
congelar no lugar, como se ela tivesse me transformado em pedra. Eu não tinha
medo dela, não realmente, mas qualquer pessoa com um pingo de
autopreservação teria parado quando enfrentasse esse tipo de aversão.
Walter estava ao lado dela, com as mãos em seus ombros, mas não
parecia com um gesto de proteção. Ela se sentou em uma cadeira de aço, e as
bandas brilhantes ao redor de seus pulsos e tornozelos a asseguravam no lugar.
No canto, Phillip silenciosamente a encarava com os braços cruzados sobre o
peito largo, e havia uma cicatriz profunda correndo através de seu olho esquerdo.
Ele virou branco leitoso.
— Kate, — disse Walter com um aceno de cabeça.
— Oi, — eu disse, desejando que a minha voz não estivesse tremendo
tanto. — O que está acontecendo?
— Eu sinto muito em incomodá-la, mas eu tenho medo que não tenhamos
escolha. — Ele apertou os ombros Calliope, e a mandíbula dela apertou. — Parece
que Calliope se recusa a falar com alguém além de você.
Meu coração se afundou. Olhei para Henry para confirmação, e ele
assentiu duramente. — Está b-bem, — eu disse, mesmo que não estava, e eu
respirei fundo para me equilibrar. Obviamente, isso era importante. — Tudo o
que você precisar.
Uma cadeira almofadada apareceu alguns metros à frente de Calliope, e
Henry me soltou para que eu pudesse sentar. Eu me inquietei, certa de que, se
fosse no poder de Calliope, ela teria me feito explodir em chamas ali mesmo.
— Tudo bem, Calliope, — disse Walter. — Ela está aqui como você pediu.
Diga-nos o que queremos saber.
Sua voz parecia ecoar na sala simples, como se ele estivesse realmente
dezenas de pessoas falando ao mesmo tempo. Não era nada como o mesmo tipo
de tom que Calliope tinha usado na caverna. Se Walter quisesse, eu tinha certeza
que ele poderia destruir o mundo com um único pensamento. Não é de admirar
que ele tinha sido nomeado o chefe do conselho.
Calliope permaneceu em silêncio, e Walter suspirou. Era o som que um
pai fazia quando seu filho estava lhe dando o tratamento do silêncio, não o tipo
de suspiro que um interrogador fazia quando seu suspeito ficou em silencio. Por
todo o seu poder, Walter não iria utilizá-lo contra ela, eu tinha certeza disso. Ela
era da família.
Eu não sabia se eu estava bem com isso ou não. Walter tinha feito coisas
terríveis para ela, involuntariamente ou não, e ele a colocou no inferno. Mas,
assim como James tinha insistido, não a desculpava por tudo que ela tinha feito,
e Walter tinha a obrigação de garantir que nada disso acontecesse de novo. Nós
todos tínhamos.
— Por favor, fale conosco, — disse, aliviada quando minha voz ficou
estável. — O que aconteceu com Cronus, acabou, e Walter e Phillip e Henry - eles
não vão te machucar.
Eu podia sentir Henry tenso atrás de mim. Se ele tivesse o seu caminho,
ela seria uma pilha de cinzas agora.
Um sorriso lento se espalhou pelo rosto Calliope, e seus olhos brilharam
com malícia. — Você acha que isso acabou? Henry abriu sete das barras. Era só
uma questão de tempo antes que Cronus estourasse completamente de qualquer
maneira, mas agora ele estará fora no solstício de inverno. Quando ele estiver
livre, ele vai vir para mim, e ele vai destruir todos vocês por segurá-lo preso. —
Ninguém disse a Calliope que ela estava errada. Os três irmãos, todos nos
assistiam, e nenhum deles se preocupou em dizer a ela que o conselho iria conter
Cronus.
Foi porque não podiam. Cronus iria escapar de qualquer maneira, e não
havia nada que pudessem fazer para detê-lo. Por causa de mim, Cronus faria
exatamente o que ele quisesse, e sem Calliope, o conselho era impotente para
detê-lo.
Tão corajosa como eu queria parecer, todo o sangue drenou do meu rosto,
e eu cerrei as mãos no meu colo.
Henry esfregou as costas do meu pescoço, mas eu não sentia alívio de seu
toque. Tudo isso foi por nada.
— Calliope, — disse Walter suavemente. — Você sabe o que vai acontecer,
não só para nós, mas para o mundo inteiro. Cronus vai recuperá-la como sua, e
não haverá ninguém para proteger a humanidade.
Calliope fungou, mas ela não disse nada.
— Por favor, — disse Walter. — Junte-se a nós, e juntos vamos derrotá-lo
mais uma vez. Você sabe que não podemos fazer isso sem suas habilidades, e se
você fizer isso por nós, perdoaremos as vossas ofensas. Tudo que você fez será
esquecido, e sua punição será suspensa. Você será bem-vinda de volta como a
nossa rainha, e vamos colocar este incidente para trás e seguir em frente com
nossas vidas.
— E o que? — Disse Calliope, todos os sinais de sua presunção se foram.
— Kate vai viver feliz para sempre com Henry, e eu vou ter que ver você quebrar
seus votos para mim cada vez que você encontrar uma garota bonita? Não,
Walter, eu estou muito feliz onde estou. Cronus recompensa a fidelidade. Tudo o
que tenho recebido pela minha lealdade a você é um coração quebrado e enteados
bastardos.
— E onde você acha que a sua lealdade para com Cronus vai chegar? —
Eu disse. — As cinzas daqueles que a amam mais, e nada mais que solidão para
o resto da eternidade se ele não se cansar de você mais cedo. Isso é o que espera
por você, se você continuar por este caminho.
— Pelo menos terei a satisfação de saber que você está morta. Isso vai
fazer mais para me manter aquecida à noite do que você jamais terá.
— Então, essa conversa acabou. — Walter soltou para ela e disse a seus
irmãos, — O que vocês querem fazer com ela?
— Eu suponho que descobrir uma maneira de fazê-la desaparecer seria
pedir muito de você, — disse Henry friamente. — Desde a prisão que a Cronus
estará vazia em breve, talvez ela pudesse tomar o seu lugar.
— Uma ideia excelente, — disse Walter, e ele olhou para Phillip, para
aprovação. Phillip assentiu, e Walter bateu palmas. — Está decidido. Calliope terá
o lugar de Cronus, e se nós o derrotarmos, ela deve se juntar a ele em sua prisão.
Se ela decidir entre agora e depois nos ajudar a lutar, vamos reunir e decidir o
que fazer a partir daí. Você pode ir, Kate.
Eu levantei, e os olhos Calliope nunca deixaram os meus. Eu não podia
me afastar, presa entre simpatia e frustração.
Ela iria nos destruir e ela sabia disso, mas ela estava feliz em sentar e
assistir. Walter tinha oferecido a ela um caminho para sair de tudo isso em troca
de sua ajuda, e ela ainda insistiu em lutar contra o conselho, sabendo o que isso
significava.
— Você é uma idiota, — eu disse antes que eu pudesse me parar. — Você
vai apenas fazer não só o Conselho todo ser morto, mas cada ser humano,
também. O mundo vai ser um deserto, e o que acontece com você, então? Você
vai desaparecer. Você vai desaparecer com o resto de nós. É isso que você quer?
— Eu prefiro desaparecer do que passar um momento a mais na sua
presença, — disse Calliope com estranha calma, como se ela estivesse em
completo controle. Como se Henry e Walter e Phillip não estavam mesmo na sala
com a gente. — Se isso é o que é preciso para ver todos mortos, então que assim
seja. Essa é uma causa que eu estou disposta a desaparecer.
As palavras invadiram minha mente, com raiva e ardor cada centímetro de
mim, e eu tentei, em vão, encontrar as certas para dizer.
Nada no mundo iria convencer Calliope a ceder, embora. Nada, exceto-
— Então me mate, — eu disse rapidamente, antes que os irmãos
pudessem protestar. — Faça isso agora. Eu quero que você faça, se vai significar
que você vai ajudá-los a recuperar Cronus.
— Não, — disse Henry bruscamente. Seu aperto no meu ombro apertado,
mas eu o ignorei. Isto era entre mim e Calliope.
Ela riu, um som mudo escuro que estava vazio de qualquer humor real. —
Você realmente acha que isso é tudo que eu quero, — ela disse em uma voz
adocicada. — Perfeita Kate. Tão disposta a ser mártir para nada. Mas é claro que,
se a oferta ainda está aberta, —Um flash de relâmpago crepitou através dela. Seu
corpo ficou rígido e, depois de um momento tenso, ela caiu em seu assento.
Ao seu lado, Walter estalava com eletricidade.
Eu esperava que ela estivesse inconsciente, ninguém poderia suportar
esse tipo de ataque, mas segundos depois, seus gélidos olhos azuis abriram, e ela
olhou diretamente para mim. Era como se ela pudesse ver cada segredo, cada
pensamento, cada pedacinho de mim que me fazia quem eu era, e seus lábios se
curvaram em um sorriso cruel.
— Kate, — disse Henry. — Nós precisamos ir agora. — No momento em
que quebrei o contato visual, Calliope assobiou.
O som de sua voz deslizou pela sala, arrastando-se sob a minha pele e
colando-me ao chão. — Você tem a minha palavra, Kate Winters, — disse ela, e
um fio de fumaça escapou de sua boca. — Eu vou fazer com você o que você tem
feito para mim, e eu vou pegar o que você mais ama de você enquanto você está
impotente para deter-me.
Um calor estranho formigante me encheu, e havia algo ameaçador sobre
ele, como se estivesse um grau de distância de ser afiado e dor inflexível. — O
que... — eu comecei, mas antes que eu pudesse dizer alguma coisa, Henry se
colocou entre nós, e o sentimento foi embora assim que ele veio.
— Leve-a ao Theo, — disse Walter, e sem dar-me uma escolha, Henry
empurrou-me para fora da sala e bateu a porta atrás de si. Tomando meu braço,
ele correu ao longo do corredor, e eu tive que correr para me manter.
— O que está acontecendo? — Eu disse, meu coração batendo. — O que
foi isso?
— Eu não sei, — disse Henry, e ele jurou. — Eu sinto muito, Kate. Eu
disse a Walter que não era uma boa ideia, mas ele não ouve, e Phillip ficou do
lado dele.
— Não é culpa sua. — Eu fiz uma careta, e quando ele levou-me onde quer
que fosse que íamos, eu levei um inventário. Eu não sentia nada diferente. — Ela
realmente não pode me matar, certo? Nós não podemos matar uns aos outros?
— Ela não pode matá-la, mas há várias coisas que ela pode fazer a você
para fazer você desejar estar morta. — Isso não foi exatamente animador.
Viramos uma esquina, e eu acelerava para coincidir com seu passo.
— O que ela pode fazer? Eu não me sinto diferente agora. Nada dói.
— Pode não ser físico, — disse Henry. — De muitas maneiras, ela é a mais
poderosa de todos nós. Não diga a sua mãe ou a Sofia que eu disse, mas minhas
irmãs são mais poderosas do que os meus irmãos. Temos a vantagem da força
bruta, mas as habilidades delas giram em torno da própria vida.
Minha mãe amava a natureza, eu sabia disso, e ela tinha uma incrível
capacidade de crescer qualquer coisa em qualquer lugar. Fazia sentido para
quem ela era, e se o crescimento de uma árvore no meio de Manhattan contava
como um poder, era um bom de ter.
— O que você não está me dizendo?
Eu reconheci onde estávamos agora: o corredor que levava para a
antecâmara da sala do trono. — Não é uma coisa, — ele disse, segurando a porta
aberta para mim. — Apenas o que ela é capaz. Por que o dom dela é tão
importante para a captura de Cronus, e talvez por isso que ela está tão
convencida de que ele não vai prejudicá-la, é porque ela tem a capacidade de
controlar a lealdade e o compromisso.
Ela era Hera, eu me lembrava. Hera era a deusa do casamento e das
mulheres. Se aquelas eram as coisas que ela podia controlar, então...
— Você acha que ela fez algo para me fazer desleal? — Eu disse. Como se
ela poderia me fazer trair Henry?
Era isso o que ela queria dizer, dizendo que ela iria tirar o que eu mais
amava?
— Eu não sei, — disse Henry severamente, empurrando-me para a sala do
trono e através do corredor de pilares. — Há uma chance de que ela não teve
tempo suficiente para fazer tudo o que ela queria fazer, mas não vai doer verificar.
A boa notícia é que ela não a transformou em um animal.
— Ela faz isso?
— Todo o tempo. Ela favorece vacas em particular. — Bem, isso foi um
alívio, então.
Ele parou no final do corredor. Os outros membros do conselho
circulavam, falando em sussurros saturados com preocupação, e apenas alguns
olharam em nossa direção. — Theo, se puder.
Theo se separou da multidão, soltando a mão de Ella no processo.
Enquanto eu estava no Éden, eu não tinha percebido quão próximos eles eram,
mas agora eu raramente via um sem o outro. Não admira que Ella tinha sido tão
terrível, enquanto ela estava comigo e Calliope.
— Você está ferida? — Disse Theo para mim, e eu balancei a cabeça.
— É possível que Calliope fez alguma coisa para ela, — disse Henry, antes
que eu pudesse explicar. — Você se importaria de olhá-la?
Theo fez um gesto para eu sentar no banco nas proximidades. Eu fiz isso e
esperei enquanto ele estendeu as mãos, e calor dourado tomou conta de mim.
Vários segundos se passaram, e finalmente Theo se afastou, uma linha formando
entre as sobrancelhas.
— Há alguns danos superficiais da caverna, mas fora isso, não há mais
nada. Ela está bem.
— Tem certeza? — Disse Henry, e Theo assentiu. Henry se afastou de mim
e agarrou a parte de trás do banco com tanta força que a madeira se estilhaçou
sob seus dedos.
— Isso não significa que foi algo mental, certo? — Eu disse, minha voz
engatando com medo. — Ou eu vou ficar louca?
Henry não se moveu. Ao meu lado, Theo mexeu em seus pés. — É mais
provável que ela simplesmente não teve tempo para terminar, — disse ele,
olhando para Henry. — Não há nada para se preocupar até que algo aconteça.
— E quando isso acontecer? — Disse Henry perigosamente.
Theo franziu a testa, e Ella mudou-se para o seu lado para tomar sua
mão. Ele pareceu relaxar ao seu toque. — Então, nós vamos lidar com isso da
melhor maneira possível. No entanto, até sabermos que há um problema, não há
nada que possamos fazer sobre isso.
— Não, — disse Henry. — Acho que não há. — Sem aviso, ele atacou de
volta para a porta. Eu me levantei e murmurei um pedido de desculpas quando
eu passei por Theo e Ella, e eu corri atrás dele. — Henry, por favor, espere por
mim.
Antes que eu pudesse alcançá-lo, ele entrou na antecâmara e bateu a
porta atrás de si. O murmúrio na sala do trono ficou em silêncio, e uma vez que
todos perceberam o que estava acontecendo, zumbido curioso substituiu seus
sussurros, mas eu não fiquei por perto para ouvi-lo.
Corri para o corredor, mas quando virei a esquina, não havia nenhum
sinal de Henry no longo corredor. Eu me virei, me perguntando se eu tinha de
alguma forma o perdido na antecâmara, mas ela estava vazia.
Ele se foi.
15
A ERVA & A ROSA

Passei a tarde procurando a ala inteira por Henry, mas ninguém o tinha
visto. Várias das portas estavam trancadas, e eu fiz questão de evitar a que
Calliope estava por trás, mas a menos que ele estava lá ou tinha
propositadamente trancado a porta atrás dele, ele não estava na parte do palácio
que eu estava familiarizada.
No momento em que voltei para o quarto, eu meio que esperava vê-lo na
cama, esperando por mim. Em vez disso, foi Pogo que me cumprimentou com um
yip animado e abanando o rabo. Por mais terrível que eu me sentia, eu peguei
meu cachorro e abracei-o, e ele lambeu minha bochecha. Não foi o suficiente para
afastar completamente meus medos e preocupações, mas foi bom o suficiente
para mantê-los na baía por agora.
— Eu senti sua falta, — eu disse, dando-lhe um arranhão bom atrás das
orelhas. Minha mãe não estava mais lá, sem dúvida, se juntou aos outros, e eu
sentei de pernas cruzadas no meio da cama que eu deveria compartilhar com
Henry. — Espere até você ouvir sobre o mês que eu tive. — Mas antes que eu
pudesse ter outra palavra, uma familiar sensação tomou conta de mim, e eu mais
uma vez mergulhei na escuridão. Desta vez, ao invés de reaparecer na caverna
onde Cronus trabalhava para escapar de sua prisão, eu me vi de pé no meio de
uma sala mal iluminada que se estendia por seis metros em qualquer direção.
Um lado da sala não era nada, exceto uma janela contínua, que olhava
através da caverna vasta, e fogo crepitava em uma lareira de mármore em frente à
vista. Não havia cortinas, e o único mobiliário era uma poltrona branca. Henry
estava sentado nela, apertando os apoios de braços tão forte que eu temia que
fossem quebrar.
— Henry? — Sussurrei, sem saber se ele podia me ouvir ou não.
Por um momento, na entrada para o Tártaro, eu pensei que ele podia, mas
agora quando eu tentei escovar meus dedos fantasmagóricos contra os dele, ele
não fez mais do que piscar de olhos.
A porta no lado distante do quarto abriu e fechou.
Persephone preencheu através do chão de mármore, descalça e vestindo
um vestido de algodão simples. Na luz suave, ela parecia incrivelmente bonita, e
eu mordi meu lábio. Com a possível exceção de Ava, eu nunca conheci ninguém
na minha vida que tinha o poder de me fazer sentir como uma erva daninha ao
lado de uma rosa.
— Eu pensei que eu encontraria você aqui, — disse Persephone.
— Eu venho aqui para pensar, — disse Henry distante. — Eu pensei que
você estava no seu caminho de volta.
— Eu decidi ficar por pouco tempo. Vocês precisam de toda a ajuda que
conseguirem. Especialmente você. — Ela pegou a mão de Henry, a mesma que eu
tinha tentado tocar momentos antes.
— Mamãe me contou o que aconteceu. Kate está procurando por você.
Henry encolheu os ombros, e ele não se afastou. — Eu preferia não
encará-la ainda.
— Por que isso? — Disse Persephone, empoleirando-se no apoio de braço.
Exatamente a pergunta que eu estava morrendo de vontade de saber.
Por um longo momento, ele não respondeu. — Ela poderia ter morrido,
porque eu fui tolo o suficiente para colocá-la em perigo, — ele finalmente disse,
suas palavras pesadas quando elas caíram de seus lábios. — Eu não fiz nada,
apenas a coloquei em perigo desde o momento em que nos conhecemos. Eu não
posso mais fazer isso.
Foi por isso que ele fugiu? Porque ele achava que era um perigo para
mim? Algo dentro de mim se desenrolou. Isso era ridículo, e agora que eu sabia,
poderíamos conversar sobre isso. Eu poderia definir as coisas direito.
Persephone revirou os olhos, e pela primeira vez eu concordei com ela. —
O que Calliope tentou fazer não é culpa sua, e Theo disse que os testes foram
claros. Nada aconteceu com ela.
Os tendões no pescoço de Henry destacaram a tensão em seu corpo. —
Nós não sabemos ao certo. Mesmo que tudo acabe bem, eu concordei em colocá-
la nessa posição. — E eu concordei em ir. Eu não estava completamente
desamparada; Henry não entendia isso? Eu não era mortal mais. Calliope não
poderia me matar, e, eventualmente, ele tinha que reconhecer que eu não ia
quebrar se alguém respirava errado ao meu redor.
Persephone correu seus dedos através do cabelo escuro de Henry, e um nó
se formou na minha garganta. Eu não queria estar lá vendo isso, mas eu não
conseguia desviar o olhar, e eu não tinha ideia de como voltar para o meu corpo.
Vê-los agir tão próximos apesar de estarem separados por milhares de anos - me
doía. Era como se Persephone nunca tivesse ido embora, e Henry estava
simplesmente confidenciando em sua esposa sobre algo que aconteceu durante o
dia.
Esse era para ser o meu trabalho, mas eu não poderia fazê-lo quando ele
estava se escondendo de mim. Minha irmã o conhecia bem o suficiente para não
precisar procurar por horas em lugares errados, embora.
— Ela passou por muito pior ao longo das últimas semanas, — disse
Persephone. — Sua nova garota é forte, não é?
— Sim, — disse Henry. — Quando ela decide fazer algo, é impossível
mudar sua mente, as consequências que se danem.
Persephone bufou. — Parece alguém que eu conheço. Ela ama você, você
sabe. Mais do que eu já amei. — Dor apareceu no rosto de Henry, mas ela se foi
assim que veio.
— Ela não me conhece. Quando ela descobrir quem eu realmente sou, ela
vai embora.
— Assim como eu?
Ele olhou em silêncio para fora da janela.
Persephone deslizou para fora do apoio de braços e em seu colo, e ela
enrolou seus braços ao redor do pescoço dele, como se nunca o tivesse deixado.
Minha garganta apertou, e eu cravei minhas unhas em minhas mãos.
Eu não queria estar aqui. Eu não queria ver isso. Eu não me importava
quão pouco Persephone o amava, e não importava o que minha mãe ou James ou
Ava disseram. Henry ainda estava apaixonado por ela, e ele sempre a escolheria
ao invés de mim.
Quando ele abraçou-a de volta, um soluço borbulhou dentro de mim, e eu
me virei para a janela. Mesmo assim, eu podia ver o reflexo deles, e por mais que
tentasse, não conseguia desviar o olhar.
Era isso. Nosso relacionamento, nosso casamento estava morrendo antes
de ele sequer ter dado uma chance.
— Às vezes eu me pergunto como que as coisas teriam sido se eu tivesse
ficado, — ela disse. — Como a nossa vida juntos teria sido diferente se tivéssemos
tomado o nosso tempo, em vez de saltar para as coisas.
— Mais feliz, — disse Henry calmamente. — Completos.
— Talvez, — ela sussurrou. — Talvez não.
Ambos estavam em silêncio pelo espaço de vários segundos, e quando
Persephone falou de novo, ela se inclinou em direção a ele até que seus lábios
estavam centímetros dos dele. Fechei os olhos.
— Você merece alguém que combina com você, — disse ela. — O que
aconteceu entre nós não foi culpa sua. Somos duas pessoas diferentes, e não
importa o quão forte você se convenceu de que eu sou a sua primeira e única,
não significa nada quando você não é o meu.
Prendi a respiração. Ela estava fazendo isso de propósito. Ela estava
rasgando-o. Por quê? Assim, ele não estaria preso a ela mais? Para abrir espaço
para mim? Seu coração estava quebrado o suficiente como era. Como é que eu ia
achar todas as peças e colocá-las juntas novamente, se ela o quebrasse?
— Pare, — eu implorei, sabendo que era inútil. Ela não sabia o que ela
estava fazendo com ele? É claro que ela sabia. Eu conhecia Henry por um ano, e
estava dolorosamente óbvio para mim. Ela o conhecia por eras.
— Você está verdadeiramente feliz com Adonis? — Disse Henry finalmente.
Persephone sorriu levemente. — Quando eu acordo e a primeira coisa que
eu vejo é o seu rosto, eu sei que vai ser um grande dia. Isso não vai mudar não
importa quanto tempo passe.
Henry enfiou seus dedos através do cabelo dela, e Persephone não fez
nenhum movimento para impedi-lo. — Você alguma vez se arrependeu de ir
embora?
Ela não respondeu de imediato. Em vez disso, ela encontrou sua mão livre
e atou seus dedos no dele. — Às vezes. Sinto falta do sol, a coisa real, não o da
minha vida após a morte. Sinto falta da minha mãe. Eu sinto falta da nossa
família. Eu sinto falta das estações. Eu sinto falta de mudança. — Ela apertou os
lábios nos nós dos dedos dele. — Às vezes eu ainda sinto sua falta. Adonis tem
sorte. Ele é como todas as outras almas, ele não compreende plenamente o que
está acontecendo ou que o mundo ao seu redor é falso. Eu sei, e às vezes isso é o
suficiente para fazer a diferença.
Henry acariciou a bochecha dela com as costas da mão, e seus olhos
mudaram da janela para ela. Ele olhou para ela da maneira que ele me olhou a
noite em que nós dormimos juntos, e meu peito doeu. Porque eu não conseguia
acordar? — Você poderia voltar.
Persephone deu um sorriso triste. — E Kate? Você não faria isso com ela.
Eu sei que você é melhor do que isso. Você pode ter a enganado, mas eu posso
dizer como você se sente sobre ela.
Henry ficou em silêncio, e meu coração batia tão forte que eu pensei que
poderia explodir. Ele faria? Ele estava pedindo que ela voltasse como sua rainha
ou como sua esposa? Ela poderia fazer isso?
Tonta, encostei-me à janela e desejei com toda fibra do meu ser que o
vidro iria desaparecer e me deixar cair. Pelo menos assim eu não teria que ouvir
isso. Eu pensei em sair pela porta, mas se eu não poderia atravessar a janela, eu
não seria capaz de caminhar através dela, também.
— Kate é muitas coisas para mim, — disse Henry finalmente. — Mas ela
não é você.
Eu afundei no chão e abracei meus joelhos. Eu tinha feito tão bem
enganando a mim mesma que isso podia funcionar, que com o tempo e um pouco
de esforço, tudo estaria bem. Mas não podia estar.
Ele teria dito aquelas coisas se soubesse que havia uma chance que eu
poderia estar ouvindo? Claro que não. Ele não era cruel, mas eu as ouvi de
qualquer maneira.
— Hades... — Persephone se inclinou para frente e fechou a distância
entre eles, tocando seus lábios nos dele.
Meu estômago doía, e eu escondi o meu rosto em minhas mãos.
Isso não poderia estar acontecendo. Isto era um pesadelo, não a coisa
real. Eu tinha adormecido sem lembrar, isso era tudo. Eu acordaria em breve, e
quando acordasse, Henry estaria assistindo-me dormir, e ele iria pedir desculpas
por fugir. Conversaríamos, ele me beijaria, e tudo ficaria bem novamente.
Eu não sabia quanto tempo durou. Eu não queria saber, e pelo tempo que
Persephone falou de novo, eu estava quase arrancando meus cabelos. Por que eu
não poderia voltar? Que parte de mim queria ver isto tão mal que eu estava
disposta a me colocar esse tipo de agonia?
— A coisa é, eu não sou eu, também, — ela disse suavemente. — Eu não
sou a pessoa que você ama. Essa pessoa nunca existiu, e me espelhando nela em
sua mente, está destruindo você. Tivemos um bom dia juntos, e o resto foi
horrível. Eu era miserável, e pelo tempo que eu sabia que não queria ser casada
com você, você já tinha se convencido de que estava apaixonado por mim. Mas
você nunca foi. Você se apaixonou por uma pessoa que nunca existiu.
Lágrimas espirraram sobre os joelhos dos meus jeans. Em um ato de
desespero, eu belisquei o interior do meu cotovelo duro, mas eu não sentia dor.
Eu estava presa.
— Diga-me, — disse Persephone. — Foi esse o tipo de beijo que você tinha
passado os últimos mil anos imaginando? Seu coração parou? Fez a sala girar e
tudo mais desaparecer?
No tempo que levou para Henry responder, eu parei de respirar e levantei
minha cabeça. Persephone ainda estava em seu colo, e eles olhavam o outro com
tal intensidade que eu esperava que ele a beijasse novamente, mas então eu vi.
Havia uma distância entre eles agora, como se ela estivesse se afastando. Como
se ele estivesse segurando-a no comprimento do braço.
À medida que os segundos passavam, um raio de esperança se alojou
dentro de mim, e eu fiquei tremendo para me aproximar de modo que não haveria
chance de eu perder o que ele diria.
Exceto que quando eu dei um passo à frente, ele se inclinou em direção a
ela novamente, e ela não o impediu. Minha respiração ficou presa na minha
garganta quando o mundo se dissolveu em torno de mim mais uma vez, e Henry e
Persephone desapareceram.
Passei o resto da noite chorando na cama com Pogo enrolado ao meu lado.
A cada meia hora mais ou menos, ele iria acordar o suficiente para lamber meu
rosto antes de cair no sono. Eu não tive muita sorte.
Qualquer que seja a lição que Persephone tinha tentado ensinar ao Henry
deu errado, e mesmo se ela deixasse o palácio amanhã, isso não mudaria o fato
de que Henry sempre a amaria mais. Eu queria odiá-la pelo o que ela tinha feito,
mas ela não tinha sido a única a explodir em nosso casamento. Eu era a única
que tinha a procurado, e eu a convenci a entrar novamente em sua antiga vida,
apesar de saber muito bem quais poderiam ser as consequências de Henry vê-la
novamente. Tudo o que ela tinha feito era tentar desencorajar os seus
sentimentos de uma maneira torcida que falhou miseravelmente, mas ela havia
tentado.
E agora eu o perdi completamente.
O som da abertura da porta do quarto me acordou de um cochilo leve.
Pogo esticou, e quando eu me sentei, ele pulou no meu colo de barriga para cima,
aparentemente disposto a deixar-me ir a lugar algum sem ele.
Henry estava na porta, e por um longo momento, nós simplesmente
olhamos um para o outro. Seu rosto sem envelhecer estava puxado e seus lábios
virados para baixo em uma careta, e parecia que ele não tinha dormido em
semanas.
Finalmente, ele entrou no quarto e fechou a porta.
Sem chegar a me cumprimentar, ele foi para seu armário e começou a
passar através de suas roupas. Limpei meu rosto para ter certeza que nenhuma
prova da minha sessão de choro permaneceu, mas elas tinham secado por horas.
Assim que ele pegou uma camisa limpa que era indistinguível da que ele
usava, eu esperei que ele dissesse alguma coisa, mas ele sem palavras
desapareceu no banheiro como se eu não estivesse lá. Será que ele pensava tão
pouco de mim que eu não valia um Olá?
Enquanto ele se foi, eu debati se deveria ou não continuar a fingir que
tudo estava bem. A covarde em mim queria, mas eu sabia que se eu tentasse, eu
seria tão miserável como Persephone tinha sido, e eu não queria ser infeliz mais.
Eu não poderia passar minha vida esperando que ele colocasse Persephone lado e
focasse em mim invés disso.
Pelo tempo que ele saiu, eu sabia o que eu tinha a dizer.
Tudo dentro de mim lutou contra as palavras que se espalharam da
minha boca, mas eu precisava dizer isso, e Henry precisava ouvir isso.
— Eu não posso mais fazer isso.
Minha voz era apenas um sussurro, mas Henry parou a meio caminho
entre o banheiro e a porta. Ele não olhou para mim, mas as suas mãos formaram
punhos, e os tendões em seu pescoço se destacaram como eles tinham na sala
com as janelas.
Auto aversão tomou conta de mim. Eu estava fazendo a mesma coisa que
Persephone tinha feito para ele, eu estava desistindo. Antes de nós chegarmos a
ter uma chance, eu estava declarando o fim.
Não. Henry era o único que tinha desistido. Ele era o único que tinha
declarado o fim no momento em que ele se recusou a me tocar ou me tratar como
sua esposa. Ele era o único que tinha perdido nós em algum lugar, eu estava
apenas desistindo da procura, também. Não havia nada que eu pudesse fazer,
não havia palavras mágicas que eu poderia dizer para consertar tudo se ele já
tinha nos abandonado.
— Não pode fazer o quê, exatamente? — Disse Henry, e eu ouvi a tensão
em cada palavra que ele falou, como se levou um esforço monumental para
formá-las. Minhas mãos estavam suadas, e mais do que qualquer coisa eu queria
tomar as palavras de volta, pedir desculpas e implorar para ele falar comigo para
que pudéssemos descobrir isso, mas ele não ia fazer isso. E mesmo que ele
fizesse, amanhã as coisas iam voltar a isto, e nenhum de nós jamais seria feliz
novamente. Eu não poderia fazer isso com ele. Eu não poderia fazer isso comigo.
— Isso, — eu disse suavemente. — Nós. No ano passado, quando
estávamos, antes de nos casarmos, eu pensei que agora seria perfeito, e que eu
seria mais feliz do que eu já estive em minha vida, podendo estar com você.
Podendo te amar pelo resto da eternidade. Mas não importa o quanto eu quero te
amar, você não vai me deixar, e eu não posso mais fazer isso. — Henry não se
moveu. Eu queria que ele viesse para a cama, tomasse minha mão e me dissesse
que estava arrependido, que ele ia tentar com mais força, mas não o fez. Ele
olhou para a porta em vez disso.
— Posso perguntar o que precipitou esta decisão?
Lá estava ele, o elefante na sala. A coisa que eu não deveria ver. A única
coisa que mudou tudo.
— Você beijou Persephone.
De uma vez, várias emoções passaram pelo seu rosto. Vergonha, choque,
humilhação, raiva, dor – alivio? Sim, alívio, também.
— Eu não esperava que ela lhe dissesse. Eu sinto muito. — Silêncio de
morte. Fora de todas as coisas que eu pensei que ele poderia dizer, isso nunca
tinha passado pela minha cabeça.
— Essa é a sua resposta? — Eu soltei. — Que está arrependido que eu
descobri? Persephone não me disse, Henry. Foi este chamado dom. Eu estava na
sala com você. Eu vi cada maldito segundo disso. Eu ouvi cada palavra que você
disse a ela. Eu vi você fazer. — Eu pisquei rapidamente para parar de chorar
novamente, mas eu estava brigando uma batalha perdida. Ele não se importava.
Ele não iria fingir que tinha feito algo errado. — Você sabe o que James disse-me
no final do verão? Ele disse que eu tinha uma escolha, e ele foi o único que ia me
dizer sobre isso, porque todo mundo estava tão preocupado com a sua felicidade
que não deram a mínima para a minha. Eu disse a ele que eu já fiz a minha
escolha quando eu casei com você, mas ele insistia que eu esperasse. Eu não
entendi o que ele quis dizer, mas agora eu entendi.
— James. — Seu nome foi torcido e feio nos lábios de Henry. — Sim, é
claro que ele iria enganar você a se duvidar. Por razões puramente altruístas,
estou certo.
— Eu não estou duvidando de mim mesma, — eu respondi. — Eu estou
duvidando de você. Eu te dei todas as chances do mundo para me mostrar que
você me quer aqui, e você me deu nada. Você foge sempre que você acha que vai
ter que estar em uma sala sozinho comigo por mais de dois minutos. Você não
me toca, você mal fala comigo, você não me beijou desde que cheguei aqui, e
muito menos me tratado como sua esposa. Como sua igual. James me avisou que
faria algo assim, e eu fui estúpida o suficiente para insistir que ele estava errado.
Jogar James em seu rosto novamente e novamente foi cruel, mas eu não
conseguia parar. Fora de todas as pessoas em minha vida, além da minha mãe,
Henry era o único que deveria entender e me conhecer melhor, não James.
— Então talvez eu devesse deixar você e James serem um casal, — disse
Henry, e os trovões em sua voz me deram arrepios. — É isso que você quer, Kate?
Minha permissão para estar com ele? Você tem ela. Pela primavera e o verão, você
pode fazer o que quiser com quem quiser.
— E o que dizer do outono e inverno? Eu deveria sentar-me e esperar o dia
em que você decidir que você me ama?
— Eu te amo.
— Então me mostre.
— Estou tentando, — disse ele bruscamente. — Minhas desculpas se não
é bom o suficiente para você.
Revirei os olhos. — Não fazer nada nunca vai ser bom o suficiente, Henry.
Agora, de onde eu estou sentada, parece que a última coisa que você quer ser é o
meu marido. Você pode dizer que me ama tudo o que você quiser, mas se você só
age como o oposto da verdade, então eu não posso confiar em suas palavras
mais. — Minha voz falhou. — Droga, é isso como vai ser para sempre? Diga-me
agora. Salve-me da miséria, se você nunca vai olhar para mim da maneira que
você olha para Persephone.
— Eu não posso simplesmente parar de sentir algo por ela, — disse Henry
com os dentes cerrados. — Ela foi parte da minha vida por um tempo muito
longo.
— Eu sei. Eu sei que você a ama. Eu não estou pedindo para você
esquecer que ela jamais existiu, estou lhe pedindo para colocá-la no passado,
onde ela pertence, e viver o seu futuro comigo, e não um fantasma.
A garganta de Henry apertou. — Isso é o que estou tentando fazer.
— Mas você não está. — Eu corri meus dedos pelo meu cabelo, a
frustração se acumulando dentro de mim. — Henry, você a beijou.
— Ela me beijou.
— Isso não importa. — Eu bati minha mão para baixo no colchão, e Pogo
correu para debaixo do meu travesseiro. — Você não entende isso? Você queria.
Você gostou. Você queria mais uma vez quando acabou. E tudo o que ela estava
tentando mostrar a você - ela não te ama mais, você não entende isso? Eu. Eu
amo você, e você vai me perder, porque você está com muito medo ou muito –
muito desinteressado ou – eu não sei. Eu não sei por que você não vai me deixar
te amar do jeito que eu quero.
Eu esperei Henry dizer alguma coisa, qualquer coisa para me ajudar a
entender, mas ele ficou em silêncio. Descontroladamente eu procurei através de
todas as desculpas que eu tinha feito para ele desde a chegada, todas as
possibilidades que tinha me ocorrido. Qualquer coisa que explicaria o homem que
eu amava se transformando em um estranho.
A coisa que ele disse a Persephone, a razão por que ele fugiu da sala do
trono naquela tarde. — É porque você acha que Calliope vai matar-me no
momento que você deixar-se sentir algo real por mim? Porque eu sou imortal
agora, Henry. Ela não pode me matar mais.
— Cronus pode. — As palavras saíram tão sufocadas que eu quase não as
entendi, mas lá estava. Sua desculpa. Eu suavizei.
— Cronus não me matou. — Eu deslizei para a borda da cama, perto o
suficiente para ele me alcançar em dois passos, mas ele ficou parado. — Ele
caçou-nos, e quando teve a chance de me matar, ele não matou.
Finalmente Henry olhou para mim, seus olhos brilhando com a confusão,
mas eu continuei. Se eu o deixasse mudar de assunto, eu nunca seria capaz de
terminar isso.
— Você não precisa gastar todo momento me protegendo agora. Eu
deveria ser a sua parceira, e não o seu peso, e se isso é tudo que eu jamais vou
ser para você, então eu não quero mais ficar aqui. Eu quero que você me ame. Eu
quero olhar querer vir aqui cada outono. Eu quero que o inverno seja a minha
estação favorita, porque eu posso gastá-la com você. Então me diga o que vai
acontecer, Henry. Diga-me que as coisas vão ser melhores, que você não vai
pensar em Persephone todas as vezes que você me tocar. Diga-me que você vai
me amar tanto quanto você a ama, e que eu não vou passar o resto da eternidade
pálida em comparação com as suas memórias da minha irmã.
Silêncio.
— Por favor, — eu sussurrei. — Eu estou te implorando. Se você não... se
você não fizer isso, eu vou embora. E eu não quero dizer para o verão. Vou deixar
o Submundo, e eu não vou voltar.
Ele vacilou, e eu soube imediatamente que eu tinha dito as palavras
erradas, mas eu não podia tomá-las de volta agora. — Talvez seja melhor, — disse
ele. — Você vai estar mais segura na superfície, e os outros podem protegê-la.
— Eu não preciso de proteção. — Eu estava chorando de verdade agora, e
minha garganta estava grossa e minha voz estrangulada, mas eu continuei. — Eu
preciso saber que eu não vou ser infeliz pelo resto da minha vida.
— Eu não deveria ser a sua única fonte de felicidade, — disse Henry
duramente. — Se é assim...
— Não é. Você não é. Eu tenho minha mãe e Ava e...
— James, — ele terminou por mim, e eu queria dizer a ele que ele estava
errado, mas eu não queria mentir para ele. James era o meu melhor amigo. —
Sim, eu estou ciente. Eu não vou dar-lhe uma desculpa para ir embora. Se você
quiser fazer isso, então ali está a porta. Tenho certeza que James terá prazer em
ter você só para ele. Agora, se me dá licença, eu tenho os preparativos para fazer.
— Eu abri minha boca para dizer-lhe onde ele poderia enfiar seus preparativos,
mas suas últimas palavras me pegaram desprevenida.
— Preparativos para quê? O que é tão importante que você tem que sair
quando estamos no meio disso?
— Minhas desculpas, — disse ele friamente. — Eu pensei que você já
tinha feito a sua decisão de abandonar-me. — Peguei um travesseiro por trás de
mim e atirei-o para ele.
Sem mover um centímetro, ele descartou antes que estivesse a meio
caminho para ele. — Você é um idiota, — eu atirei. — Se esta é a forma como
você tratou Persephone, então você sabe o que? Eu não a culpo por te deixar. Na
verdade, ela foi uma idiota por esperar tanto tempo.
Agonia indescritível passou no rosto de Henry, e eu pus minha mão sobre
a boca do momento em que eu percebi o que eu havia dito. — Oh, Deus, me
desculpe, eu não...
— Sim, você quis, — disse ele. — Você quis dizer cada palavra. — Eu
enterrei meu rosto em minhas mãos e sufoquei um soluço de choro. Meus
pulmões queimaram, e tudo que eu queria fazer era enrolar na cama e chorar,
mas eu não podia. Não quando Henry estava aqui. Não quando ele estava
finalmente falando comigo.
— Eu odeio isso, — eu sussurrei. — Eu odeio brigar com você. Eu não
estou pedindo a lua e as estrelas, eu prometo. Eu só quero que você me ame, que
me queira, passar o tempo comigo, falar comigo.
— E você espera conseguir se comportando assim? — ele disse. — Você
acredita que dizer essas coisas para mim de alguma forma me faz esquecer das
eras que já vivi?
— Ao contrário do que? Não dizer nada? Eu tentei dar-lhe tempo. Eu
tentei arriscar a minha vida para salvar a sua. Eu tentei tudo que eu posso
pensar, mas quando você não vai nem mesmo falar comigo...
— Henry.
Eu olhei para o som da voz de Walter. Ele enfiou a cabeça na porta, e
quando ele se concentrou em Henry, ele prontamente me ignorou. Eu não tinha
certeza se estava grata ou ofendida.
— Estamos prestes a começar, — disse ele, e Henry assentiu brevemente.
Assim que a porta se fechou, Henry lançou uma respiração como se tivesse
segurando-a por séculos.
— Podemos continuar isso mais tarde, se quiser, mas eu tenho que ir
agora. Estamos planejando a batalha. — Ele hesitou. — Titãs são mais fortes
sobre os solstícios, e esperamos que Cronus vá escapar completamente em algum
momento no final de dezembro, então não há muito tempo.
Fechei os olhos. Se eu não tivesse sido estúpida o suficiente para me
esgueirar para a caverna, Persephone teria lidado com as coisas, e nada disso
estaria acontecendo. — Você se importaria se eu levasse um ou dois dias antes de
eu sair? Eu quero dizer adeus a todos.
De primeira, Henry não disse nada, mas finalmente ele assentiu. — Leve o
tempo que você precisar.
Ele estava a meio caminho da porta quando eu soltei: — Posso te visitar
algum dia?
No momento em que o levou a virar o rosto para mim de novo, eu pensei
que eu vi uma dica de um sorriso, mas ele se foi antes que eu pudesse ter
certeza. — Aconteça o que acontecer entre nós, Kate, eu sempre quero ser seu
amigo. É... — Ele fez uma pausa. — É mais do que eu tinha antes.
Mais do que Persephone tinha dado a ele. Isso me trouxe uma pequena
quantidade de conforto, embora a distância em sua voz me impedia de sorrir. —
Eu irei te ver algum dia.
— Então eu vou fazer o que puder para garantir que você não vá voltar
para um palácio vazio.
— Eu... O quê? — Ele pensou que não ia voltar? Ou ele vai desaparecer?
Morrer em batalha com Cronus? Será que isso importava? — Henry, o que você...
Antes que eu pudesse terminar, trovão ressoou na sala, e Henry piscou
fora de vista, deixando-me sozinha com medo e perguntas sem respostas. Corri
para a porta e a abri, esperando em vão que ele estaria lá, mas eu estava sozinha.
Era o fim.
16
CAMPO DE BATALHA

Henry não voltou após a reunião terminar.


Eu fiquei em nosso quarto durante todo o dia, enquanto esperava por ele,
preparando o que eu ia dizer uma e outra vez na minha cabeça, mas nada
parecia certo. Exigir as coisas que eu queria dele – precisava dele - não
consertaria nada. Ele tinha que decidir mudar, para trabalhar comigo nisto.
Tratar-me como uma igual e fazer o que fosse preciso para manter o nosso
relacionamento vivo. Eu não poderia fazer isso por ele, e nenhuma quantidade de
pressão ia ajudar. Se alguma coisa fosse feia, iria afastá-lo.
No entanto, perto de um milagre, eu estava indo embora. Coloquei de lado
as roupas que eu ia levar comigo, e todo o dia eu pensei sobre o que eu ia fazer e
para onde eu iria. Eu não conhecia ninguém na superfície, e eu não tinha ideia
de como os outros viviam. Será que eles tinham casas como Henry tinha? Será
que o Monte Olimpo realmente existia? Será que eles tinham mortais que eles
amavam e passavam para ver cada poucos anos?
Parte da razão pela qual eu queria adiar minha viagem foi para dar a
Henry a chance de perceber o que tinha dado errado entre nós, juntamente com a
oportunidade de consertar. Não seriamos perfeitos em um dia, eu sabia, mas
havia uma chance de que ele iria tentar. No final, era tudo que eu realmente
queria.
No entanto, a outra razão que eu estava atrasando era simplesmente
porque eu não sabia o que fazer. Eu poderia perguntar a minha mãe, eu presumi,
ou James ou Ava, mas eles estavam planejando sua estratégia para sobreviver a
uma batalha com um Titã, e a última coisa que precisavam era de algo mais para
se preocupar. Eu não ia abandonar o conselho e ir embora da minha vida
imortal, mas eu não sabia para onde ir ou como chegar lá, e por agora foi uma
boa desculpa para ficar parada.
O dia passou lentamente. Toda vez que eu ouvi passos no corredor, eu
prendi a respiração e esperei que a porta se abrisse, mas nunca foi Henry. Minha
mãe me verificou duas vezes, uma após a reunião para me dizer que ela seria
escassa, ajudando os outros a colocar a armadilha para Cronus, e pela segunda
vez para me desejar boa noite. A cada hora que passava, meu coração afundava
um pouco mais, e finalmente eu desisti da esperança de ver Henry naquela noite.
Eu não estava cansada, mas Pogo estava. Ele encolheu-se no travesseiro
ao meu lado e roncava enquanto eu olhava para o teto e tentava imaginar como
isso iria acabar. Henry iria dizer adeus? Será que ele realmente queria que eu o
visitasse? Será que os outros deuses iam me ignorar? Minha mãe não iria, e eu
poderia contar com ver Ava sempre que ela tivesse entediada ou sozinha, mas os
outros - eu mesma não tinha certeza sobre James, a menos que ele decidisse
seguir-me uma vez que eu não estava mais casada. Eu iria deixá-lo? Eu não
sabia, e eu me odiava por minha incerteza. Por mesmo pensar em ferir Henry
assim, se nós ainda estávamos juntos ou não.
Passando a meia-noite, o peso esmagador da realidade definiu.
Uma vez que eu deixasse o Submundo, eu provavelmente nunca veria
Henry novamente. Eu não estaria em seu reino e de fácil acesso, como
Persephone tinha, e eu estava certa de que ele nunca viria me procurar. Não
importava quantas promessas ele fez para que eu pudesse visitar, o melhor que
eu poderia esperar era vê-lo nas reuniões do conselho, se ele não decidisse
desaparecer de qualquer maneira.
Eu soluçava baixinho no meu travesseiro. Tudo o que eu tinha feito desde
que primeiramente entrei no Éden Manor tinha sido evitar que isso acontecesse.
Eu tinha feito tudo que podia para salvar minha mãe e Ava da morte, antes de eu
saber que elas eram deusas, mas enquanto eu tinha falhado com ambas, eu não
tinha falhado com Henry. Ele ainda existia por causa de mim, porque eu o
amava, porque eu casei com ele e concordei em governar o Submundo com ele.
E agora eu estava levando isso para longe dele.
Eu queria ficar. Ele precisava de mim para ficar, mas eu não podia mais
viver assim. Ele tinha que entender – ele quis desaparecer quando Persephone
tinha ido embora, e ele só ficou depois que a décima primeira menina tinha
morrido porque o conselho pediu a ele mais uma tentativa. Mas ele não estava me
pedindo. Ele me diria para ir, e assim eu faria.
No meio da noite, ouvi outro conjunto de passos, e desta vez não houve
batida antes da porta se abrir e fechar. Empurrei-me em meus cotovelos e olhei
através da escuridão. — Henry? — Eu disse, atordoada.
Ele voltou – metade de um dia depois que ele disse que faria, mas eu não
ia ser exigente.
Ele tirou os sapatos e os colocou em seu armário. — Eu sinto muito por
perturbar você. Volte a dormir. — Eu não poderia muito bem voltar a dormir
quando eu não estava dormindo em primeiro lugar, mas eu mordi minha língua e
observei, certa de que ele sairia para outro o quarto, uma vez que ele terminasse.
Ele mudou em calças de pijama de seda, e quando ele andou ao redor da
cama para o seu lado, o meu coração batia forte. Ele ia dormir aqui depois de
tudo.
— Está muito quente? — Ele disse quando se instalou. — Você não está
debaixo dos lençóis. — Ele parecia estar mantendo a maior distância entre nós
quanto possível na enorme cama. Se era porque ele não queria ficar perto de mim
ou porque ele queria me dar espaço, eu não sabia.
— Eu não estava dormindo, — disse eu. — Está tudo bem com o
conselho?
— Quão bom como as coisas podem ser nesta fase. Nós todos decidimos
quais serão os nossos papéis, e temos que definir um calendário a partir de agora
até o solstício de inverno.
Estava ainda a quase dois meses de distância, mas com toda a preparação
que tinha que fazer, e se não era tempo suficiente?
Quanto tempo demorava para construir uma armadilha que iria segurar
uma Titã? — Há algo que eu possa fazer para ajudar?
— Eu pensei que você estava indo embora.
— Se há algo que eu possa fazer por aqui, então eu não tenho que ir
imediatamente.
— Há alguma coisa. — Ele virou-se de lado voltado para longe de mim. —
Fique longe de problemas, deixe-me saber se algo suspeito acontecer e não visite
Calliope. Fora isso, se há algo especifico, eu vou ter a certeza de que você saiba.
Eu me afundei na cama até que minha cabeça tocou o travesseiro. Eu não
me incomodei em ficar sob os cobertores. — Tudo bem, — eu disse, tentando
esconder a minha decepção. Isso era tudo o que eu era para ele agora, um fardo a
ser acompanhado de perto para que eu não me metesse em mais problemas? —
Então vai fazer nenhuma diferença para você se eu sair mais cedo do que tarde.
— Ele ficou em silêncio. Os minutos passavam, e eu olhava para a escuridão, em
busca de algo para lhe dizer. Qualquer coisa que o ajudasse a entender que
queria ficar, mas não assim. Não quando ele não me queria aqui.
— James e eu nunca estivemos juntos, — eu disse calmamente. — O que
você acha que aconteceu na Grécia - não aconteceu. Nós fomos como amigos, e
isso é tudo o que éramos. Eu esperei por você aparecer. Eu procurei você em
todos os lugares que fomos, porque eu estava tão certa de que você me
surpreenderia, e quando você não fez, doeu. Era como se você não queria me ver
em tudo.
Fui para a mão dele, mas no último segundo, eu puxei de volta. Eu não
poderia lidar com sua rejeição física em cima de tudo agora.
— Eu não vou deixar você por ele. Eu não vou deixar você por qualquer
um, e eu nunca teria ido à procura de algo melhor. Você é o meu algo melhor, e
eu desejo... eu desejo que eu fosse o seu, também.
Silêncio retumbante encheu o quarto. Meu coração disparou enquanto eu
esperava que ele dissesse algo, qualquer coisa em troca, mas quando ele nem
olhou para mim, a decepção esmagou qualquer esperança que eu tinha sobrando.
Afastei-me dele e enterrei meu rosto no meu travesseiro, lutando para me
convencer de que ele estava cansado e tinha adormecido antes que eu tinha dito
uma palavra. Eu esperei muito tempo para começar, e eu não podia culpá-lo por
isso. Eu teria que fazer um esforço para repeti-las na parte da manhã, e se isso
falhasse, então pelo menos eu iria embora sabendo que eu tinha feito tudo que
podia.
— Boa noite, — sussurrei e fechei os olhos, certa de que o sono não viria
tão cedo. Mesmo se isso acontecesse, todos os meus sonhos seriam cheios de
pesadelos com Calliope e o momento que Persephone tinha beijado Henry, e nada
valia a pena reviver isso. Eu esperaria até que eu estava tão exausta que eu não
sonharia em tudo.
Sem os cobertores, o quarto estava frio, e eu tremi.
O colchão moveu debaixo de mim, e Henry passou o braço em torno de
mim e pressionou seu peito contra minhas costas.
Ele estava quente, e sua mão procurou até encontrar a minha.
— Por favor, não vá, — disse ele, e seus lábios roçaram meu pescoço. Eu
tremi novamente, mas desta vez por uma razão completamente diferente.
Pelo resto da noite, nenhum de nós disse uma palavra.
Eu fiquei.
Com o passar das semanas, não falamos sobre qualquer coisa que eu
disse a Henry ou qualquer coisa que ele me disse. Às vezes, ele não voltou à noite,
mas esses foram os dias em que ele reapareceria esgotado na manhã seguinte, e
eu deixei-me supor que ele estava trabalhando. Atuamos amigáveis um para o
outra durante os poucos minutos do dia que nos vimos, mas isso foi tudo o que
era. À noite, eu esperava por ele antes de eu ir para a cama, e quando ele se
arrastava para dentro, ele me abraçava sem dizer uma palavra. Ele nunca me
beijou e ele nunca pediu desculpas, mas ele queria que eu ficasse, e isso foi o
suficiente por agora.
Fiz-me escassa enquanto os outros se preparavam para a guerra. Eu
explorei o palácio, achando cada sala mais ou menos exatamente onde estava no
Éden, o que tornou as coisas fáceis e maçantes. Um dia eu tentei descobrir
quantos quartos havia, mas depois de perder duas vezes a contagem, eu parei.
Às vezes, James ou Ava me encontraram, e iríamos passar o dia juntos,
conversando sobre nada em particular e fingindo que eles não pareciam horríveis.
A batalha se aproximando já estava tomando seu pedágio em todos, mas sempre
que eu trouxe, eles me garantiram que tinham passado por pior.
Evitei Persephone como a peste, e eu não me preocupei em esconder isso.
Sempre que ela entrava em uma sala, eu saía, geralmente com uma desculpa
pronta. Nas poucas ocasiões em que fui obrigada a ficar perto dela sem saída, eu
mantive minha cabeça baixa e fiquei quieta, e ela nunca disse uma palavra para
mim. Se ela se sentia culpada ou se ela pensava que tinha feito a coisa certa, eu
não queria ouvir sobre isso.
Apesar de quão inútil eu me senti, eu tive alguma satisfação em saber que
pelo menos eu não estava sobrecarregando ninguém. Eu li, eu explorei, e eu
mantive a minha palavra para Henry. Eu também passei inúmeras horas lutando
para aproveitar minha capacidade. Por duas vezes eu consegui um flash, mas
nunca foi no lugar certo. Quando eu queria ir para a caverna de Cronus, acabei
na casa de Persephone, onde Adonis cuidava das flores enquanto esperava ela
voltar. E quando eu queria ver o que estava acontecendo na reunião, acabei na
sala cheia de janelas de novo, aquela em que Henry tinha beijado Persephone. Ou
Persephone tinha beijado Henry. Não importava.
Fora isso, eu não tive sucesso. Seja qual for o peça que estava faltando, eu
não pude descobrir, e apesar da insistência da minha mãe que eu iria conseguir
eventualmente, eu me senti como um fracasso.
Não admira que os outros não queriam minha ajuda na batalha. Eu não
iria querer minha ajuda, também.
Quanto mais perto chegávamos ao solstício de inverno, mais ansiosa eu
ficava. Alguém dizendo ou não em voz alta, todas estas preparações eram minha
culpa. Eu coloquei Henry em uma posição onde ele tinha sido forçado a abrir o
portão. Se alguma coisa acontecesse a eles, seria sobre mim, e eu não podia
suportar essa culpa.
Ingrid foi a única outra coisa que Henry e eu brigamos. Ele não queria que
eu fosse a qualquer lugar perto da prisão de Cronus, e eu insistia em manter a
minha promessa de vê-la.
Finalmente, nós nos comprometemos, e Henry trouxe Ingrid ao palácio
para uma tarde na semana antes do solstício.
Enquanto os outros estavam no meio da preparação, Ingrid e eu
vagávamos pelos jardins de joias, que se estendia até a borda de um rio preto que
corria pelas paredes de pedra em cada extremidade da caverna monstruosa. O rio
Styx.
— Eu estava tão perto de viver aqui para sempre, — disse Ingrid com um
suspiro, e nós ficamos confortáveis debaixo de uma árvore de ouro com rubis do
tamanho de maçãs penduradas em seus ramos. — Você tem muita sorte.
— Eu não chamaria isso de sorte, — eu disse, cavando meus dedos na
areia preta. — Mais como nepotismo.
Ela riu, e quando ela se estabeleceu ao lado do tronco da árvore de ouro,
eu peguei um dos rubis e cheirei. Nada. Se Henry poderia criar essas belas joias,
por que ele não podia pelo menos dar-lhes a ilusão de ter um perfume?
Eu mantive as flores que ele deixou para mim no Submundo em uma taça
de cristal no meio do meu armário, e mesmo depois de todo esse tempo, elas
ainda cheiravam a doces. Então, novamente, elas eram reais. Mais ou menos.
Eu hesitei. — O que você teria feito se Henry nunca te amasse tanto
quanto você queria que ele amasse?
— Nós não podemos escolher o quanto alguém nos ama, — disse Ingrid
quando ela mergulhou um dedo do pé para dentro do rio e estremeceu. — Ele me
escolheu para o teste porque ele pensou que iria amar-me assim com o tempo.
Ele não teria escolhido você, se ele não achasse o mesmo, você sabe.
— Não parece assim, — eu murmurei, e quando Ingrid pressionou-me,
disse-lhe tudo o que havia acontecido desde que tínhamos retornado da caverna
de Cronus. A briga que tínhamos tido, o que ele disse para mim, como ele me
disse para ir embora e depois mudou de ideia quando ele descobriu que James e
eu não tínhamos feito nada, afinal. Como tínhamos sido cordiais desde então,
mas dificilmente marido e mulher. Como eu estava com medo de que nunca
seríamos.
No momento em que eu terminei, Ingrid tinha o braço em volta de mim, e
eu olhava para a joia na minha mão como se ela guardasse as respostas para
todas as perguntas que eu já tinha.
— Eu conheci Henry quando eu tinha sete anos, — ela disse enquanto
brincava com uma mecha do meu cabelo. — Foi no início do século XX, e os
meus pais eram imigrantes alemães. Nós não tínhamos qualquer outra família na
América, então depois que eles morreram, eu vivia em um orfanato na cidade de
Nova York.
— Eu cresci em Nova York, também, — eu disse fracamente, e Ingrid
sorriu.
— Eu acho que Henry tem uma fraqueza por nova-iorquinas, — disse ela.
— E as meninas sem muita família. Eu acho que ele se sente como seria mais
fácil para nós amá-lo, se já estamos sós.
Eu balancei a cabeça. Ela estava certa, é claro, mas isso não torna mais
fácil de lembrar o quanto Henry odiava a si mesmo. — Eu poderia ter tido uma
enorme família na cidade e o amar da mesma forma.
— Tente dizer isso a ele, — disse Ingrid ironicamente. — Ele sempre foi
assim, você sabe. Convencido de que não é digno de ser amado, mesmo que eu
cresci com ele. Costumávamos passear juntos. Ele não era desta forma - quero
dizer, ele parecia um menino da minha idade, e por um longo tempo, eu achava
que era. Ele era meu melhor amigo. Costumávamos vaguear pelas ruas juntos, e
falávamos sobre tudo - roubar maçãs dos comerciantes e entrar em tantos
problemas. — A pele ao redor dos olhos dela enrugou com a felicidade. — Ele fez
a minha vida miserável valer a pena. Ele me disse quem ele realmente era no dia
em que deixei o orfanato, e ele me levou para sua casa na floresta. Era linda.
Você já esteve lá?
Eu balancei a cabeça. — Éden Menor.
— Foi a primeira casa real que eu tive desde que meus pais morreram. —
Ingrid pegou minha mão e enfiou seus dedos finos nos meus. Seus ossos
pareciam frágeis, como de um pássaro. Como se apertasse muito forte os
quebraria. — Ele me contou sobre Persephone. E ele me disse que enquanto ela
era seu passado, ele queria que eu fosse o seu futuro. — Ela balançou a cabeça.
— É uma coisa ridícula de lembrar, mas eu lembro. E toda vez que ele vem me
visitar, eu penso sobre isso e como ele não estava apenas dizendo isso porque ele
achava que eu precisava ouvir. Ele amava todas nós em sua própria maneira,
Kate. Eu, as outras que morreram, você, mas olha quantas muitas de nós, ele
perdeu. Olhe para o que ele passou com Persephone. Ele acha que é o
responsável por tudo isso, você sabe, e essa culpa não vai ir embora durante a
noite. Você pode culpá-lo por se segurar?
Eu engoli. Não, eu não podia. E eu não tinha ideia de que ele amava as
outras meninas, como ele dizia me amar. Toda aquela perda... tudo que eu tinha
ido com a minha mãe uma dúzia de vezes mais, mas Henry não tinha o câncer
para culpar. — Você deveria ter passado, — eu disse suavemente. — Parece que
vocês dois teriam sido muito felizes juntos.
— Provavelmente. — O sorriso de Ingrid desapareceu quando ela se
concentrou na água corrente. — Mas eu não passei, e não há como voltar agora.
Eu quero que ele seja feliz, Kate.
— Eu também, — eu murmurei. — Eu estou tentando. Eu realmente
estou, mas parece que ele não me quer.
— Ele está sofrendo. Henry nunca foi muito bom em expressar suas
emoções, e às vezes isso exige paciência. Não que eu ache que você não tem
paciência, — disse ela rapidamente. — Só que ele precisa de mais do que a
quantidade normal.
— Eu vou ficar, — disse eu. — Por enquanto, pelo menos. Mas eu não sei
mais o que fazer. Eu não sei como corrigir.
— E se não precisa corrigir? — Ingrid focou em mim, os olhos verdes. — E
se ele já está perfeito debaixo da superfície, e a superfície é o que está ficando no
caminho?
Eu pisquei. — Eu não entendo.
— Você acha que o problema é que Henry não ama você, — disse Ingrid, e
eu dei de ombros. — Mas eu estou dizendo a você - todos estão te dizendo que ele
ama. Então você tem duas escolhas: ou aceitar que você está errada e deixar
Henry amar você em sua própria maneira, ou forçar vocês dois a serem infelizes
até você perceber que ele te ama mesmo assim.
Eu bufei. — Isso não parece muito de uma escolha.
— É claro que é. Você pode escolher ser feliz ou você pode escolher ser
infeliz, e isso está completamente dentro do seu poder. Henry não tem que fazer
uma coisa.
— E se você estiver errada? — Eu disse. — Ou e se você está
superestimando como ele se sente?
— Então você vai dar a Henry a chance de realmente se apaixonar por
você. — Ingrid sorriu. — Isso seria divertido, também, não é?
Eu passei meus dedos em toda a superfície fria do rubi. Era a mesma
forma de uma maçã. — Ele está ocupado com a batalha. Todos eles estão.
— Não por muito tempo, embora. E você pode fazer desculpas ou você
pode engolir e ver as coisas da perspectiva dele, e vocês serão felizes por isso.
Você não tem que fazer nada diferente. Basta pensar sobre o que ele está
passando, e seja você mesma e deixe ambos terem a chance de serem felizes.
Todo o resto vai cair no lugar.
Eu estava em silêncio. Isso era o que eu estava tentando fazer, mas nada
havia mudado. Aquela noite que passamos juntos no Éden Menor - afrodisíaco ou
não, o meu desejo de estar com ele tinha sido todo consumido, e foi a primeira
coisa honesta que eu me deixei sentir desde que eu cheguei à mansão. Essa
paixão foi real. E a maneira como ele me beijou-
Eu estava tão certa de que era real para ele, também. Eu queria isso de
volta. Eu queria os beijos, os toques, a maneira como ele olhou para mim. Eu
queria ser essa pessoa com ele novamente.
— O que você acha que aconteceria se eu fosse até ele e o beijasse? — Eu
disse, e Ingrid riu.
— Eu acho que ele iria deixar. E se ele está esperando por você fazer isso,
Kate? E se ele estiver esperando por um sinal da mesma maneira que você está, e
ambos estão circulando um ao outro, esperando, esperando, esperando?
— Então eu acho que é melhor um de nós começar a se mexer, — eu
murmurei, e Ingrid me abraçou.
— Essa é minha garota.
Eu teria sido melhor nisso se ele me ajudasse, se ele dissesse-me o que ele
estava sentindo, em vez de deixar para a minha imaginação, mas eu tentei de
qualquer maneira. A partir daquela tarde, em vez de se preocupar com os
momentos de silêncio entre nós, eu o observava. Ele não estava debatendo para
dizer alguma coisa ou me ignorando. Seus olhos estavam distantes e com a testa
franzida, e eu me deixei finalmente admitir que não era por causa de mim. Era a
batalha, Calliope, Cronus, mas nada de mim. Porque comigo, pelo menos, ele
sorria.
E, em vez de me concentrar em cada vez que ele não me tocou, eu queimei
em minha memória cada vez que ele fez. Seu braço em volta de mim enquanto ele
dormia, o roçar de seus dedos contra a minha bochecha, mesmo o jeito que ele
olhava para mim depois de um dia particularmente longo. Ele não me beijou, ele
não me abraçou. Ele não disse que me amava novamente. Mas, eventualmente,
eu deixei-me ter a esperança de que ele amava mesmo assim. Ele estava tentando
a sua maneira, e tinha que ser o suficiente por agora. Porque se não fosse, ambos
seriamos miseráveis, e ele não merecia isso. Nem eu.
Quando a semana final antes do solstício passou, eu esperava a
oportunidade de fazer o que eu tinha prometido e beijá-lo corretamente.
Mas Henry passou mais e mais tempo trancado em reuniões com os
outros membros do conselho, e pelo tempo que ele veio para a cama, ele caiu com
pouco mais do que um boa noite.
Eu não tinha percebido que ele podia ficar cansado, mas quando eu
perguntei a minha mãe durante os poucos minutos por dia que eu tinha para vê-
la, sua resposta foi sucinta.
— Não nos cansamos de fazer coisas normais de humanos. É quando
usamos os nossos poderes que drenamos a nós mesmos. — Isso explica por que
eu não parecia precisar mais de sono, mas quando Henry estava comigo, eu
conseguia. Ele precisava de mais do que ele se permitia ter, e eu me recusava a
acordá-lo cedo ou mantê-lo acordado até tarde, não importava o quanto eu queria
que ele soubesse como eu me sentia. Agora não era o momento, e não seria até
depois da batalha. Se houvesse mesmo um após a batalha.
Eu não me deixei pensar sobre essa parte. Ele tinha que sobreviver, não
havia outra opção. Se Cronus não o matou na caverna, ele não iria matá-lo agora.
Ele não iria matar qualquer um dos deuses. Eu tinha que acreditar que tudo
ficaria bem.
Nas horas que antecederam o solstício de inverno, o conselho se reuniu,
seus tronos formando um círculo que se alinhava com os de diamante preto e
branco de Henry e eu. Eu estava hesitante em tomar o meu, já que eu não tinha
nada a ver com o planejamento da batalha e não ia participar, mas Henry
insistiu.
Antes do início da reunião, Persephone empoleirou no braço da cadeira de
nossa mãe como se ela tivesse feito isso milhares de vezes antes. Ela olhou para
mim, e eu me mexi quando eu percebi que meu trono provavelmente pertencia a
ela quando ela tinha sido rainha. Perfeito.
— Irmãos e irmãs, filhos e filhas, — disse Walter.
Ele olhou ao redor da sala gravemente, tendo tempo para examinar cada
rosto, e ele pulou o trono vazio de Calliope, como se não estivesse lá. — Passamos
meses antecipando esta noite, e finalmente está aqui.
Henry se sentou rigidamente, com o queixo erguido e sua expressão em
branco. As bolsas sob os olhos estavam roxas, tão ruins quanto as da minha mãe
tinham sido no seu ano final de vida, e as linhas de seu rosto eram mais
profundas do que jamais estiveram antes. Pavor corria através de mim, e eu me
forcei a não pensar na possibilidade de que ele iria entrar em colapso e morrer na
batalha de qualquer maneira. Eu deveria ter lhe dado mais tempo para dormir.
Eu deveria ter insistido em dormir em outro quarto para que eu não fosse
interrompê-lo. Eu deveria ter feito tantas coisas que eu não tinha feito, coisas que
Ingrid e Persephone teriam pensado.
— Nosso inimigo é forte, não há como negar isso, — disse Walter. — Mas
nós o batemos uma vez, e eu estou confiante que vamos conseguir de novo.
O canto da boca de Henry contraiu. Walter estava mentindo.
Até eu sabia que as chances deles sucederem sem Calliope eram baixas, e
ela estava trancada em um quarto no fundo do palácio, não cooperativa, após
todo esse tempo. Tudo o que ela tinha feito durante a primeira guerra tinha sido o
eixo central para garantir a sua vitória, e sem ela, cada um deles estava
planejando a derrota. Tudo o que eu podia esperar era que eles não iriam
empurrar-se para além do ponto de não retorno.
— Eu gostaria de propor um brinde, — disse Walter, e ao lado dele,
Xander gesticulou. Copos de vinho apareceram na frente de cada um de nós,
flutuando no ar. — Para todos aqui, com o meu mais profundo amor e carinho.
Aconteça o que acontecer esta noite, sei que estou orgulhoso de cada um de
vocês. Nós somos uma família, e nenhum de vocês será esquecido.
Náusea tomou conta de mim, e isso tudo que eu poderia fazer era
murmurar junto com os outros e tomar um gole de vinho. Eles estavam se
preparando para morrer depois de tudo. Talvez não todos, mas a possibilidade me
fez tonta de pavor. Se até mesmo um deles não voltasse... eu não poderia viver
com esse tipo de culpa.
Ninguém disse uma palavra depois disso. Todos eles ficaram em silêncio e
observaram o relógio marcar mais perto de meia-noite, e eu olhava para os rostos
de todos ao meu redor. Minha mãe. Henry. Ava. James. Eles todos estariam
arriscando suas vidas.
Egoistamente eu me perguntava o que iria acontecer comigo se nenhum
deles sobrevivesse. Será que eu permaneceria no palácio com nenhuma maneira
de voltar à superfície, ou Cronus viria atrás de mim para terminar o trabalho? Se
eu fosse a única que sobrou, eu esperava que ele fizesse.
Pouco antes de o relógio bater meia-noite, Henry estendeu a mão para
pegar minha mão. Sua pele estava quente, e ao contrário da minha, sua mão
estava seca. Por um segundo, seu aperto aumentou, e horror serpenteou através
de mim. Ele estava dizendo adeus?
— Por favor, volte, — sussurrei para que apenas ele pudesse me ouvir. Ele
acenou com a cabeça uma vez, um gesto tão pequeno que eu me perguntei se eu
tinha imaginado, e ele soltou.
Henry levantou-se, e assim fizeram os outros. Do outro lado do círculo,
Ava estava de mãos dadas com Nicholas, e olhei para longe. Eu tinha conhecido o
conselho por um ano. Eles se conheciam desde o alvorecer da humanidade, e
tudo o que eu estava sentindo era inconsequente comparado com o que eles
estavam passando.
Quando o relógio soou, Henry entrou no centro do círculo, e os outros se
juntaram a ele. Minha mãe me deu um sorriso triste, e eu levantei a minha mão
num adeus em silêncio. Quando o décimo segundo sinal sonoro tocou, eles se
foram.
Eu afundei contra o braço de meu trono, meu rosto enterrado nas mãos
quando grandes soluços me escaparam. Sobrecarregada com o desamparo, eu
empurrei minha mente para a batalha e lutei para vê-los. Eu tinha que saber o
que estava acontecendo.
Alguém tocou em meu ombro, e eu pulei, quase tropeçando para fora da
plataforma. Minha visão estava embaçada, mas eu vi uma loira com as mãos nos
quadris e, por um momento terrível eu pensei que era Calliope. Servir-me-ia certo
para ela me matar agora, enquanto os outros foram embora.
— Vai ficar tudo bem, — disse ela, e eu deixei escapar um suspiro de
alívio audível quando eu reconheci a voz de Ava. Limpei meus olhos em minhas
mangas e, lentamente, ela entrou em foco.
— Ava? — Meu rosto ficou quente quando eu percebi que ela devia ter me
visto quebrar assim. — O que você está fazendo aqui? Você não deveria estar com
os outros?
— Alguém tinha que ter certeza que você não correria atrás de nós
novamente, — disse ela, e mesmo que ela estava brincando, suas palavras me
deram um soco. — Além disso, eu nunca fui muito boa em brigar. Eu sou mais
do tipo de pessoa faça amor, não guerra. Vem cá, você está uma bagunça. Como
você conseguiu isso em trinta segundos?
Um lenço apareceu do nada, e eu a deixei limpar minhas bochechas e
nariz. Foi uma coisa tão maternal para fazer que meus olhos encheram com
lágrimas tudo de novo, e ela esfregou minhas costas confortavelmente.
— Vamos sentar, vamos? — Ela me levou até um dos bancos
almofadados, evitando os tronos completamente. — Não se preocupe tanto. Eles
são todos muito bons no que fazem, e nós temos um grande plano. Eles estarão
de volta antes que você perceba, eu prometo.
Sua confiança era boa, mas não tinha como saber, e eu não conseguia
engolir uma falsa esperança. — Se acontecer alguma coisa, vai ser minha culpa,
— eu disse entre fungar. — Eu sou a pessoa que causou isso.
— Oh, Kate. — Ava me abraçou. — Não me diga que você realmente acha
isso. Claro que isso não é sua culpa. A única pessoa a culpar é Calliope, e pelo
tempo que terminarmos com ela, ela nunca vai fazer nada de mal para ninguém
nunca mais.
— Eles não podem derrotar Cronus sem ela, porém, — eu disse. — E se
ele matá-los? Walter, ele disse...
— Papai gosta de ser dramático, — disse Ava, e tanto quanto eu queria
acreditar nela, eu não podia. — Eu não estou dizendo que vai ser fácil, mas
nenhum deles vai deixar nada de ruim acontecer com os outros. Que tipo de
família nós seriamos se deixássemos? — Eu não tinha uma resposta para isso.
Coisas ruins acontecem.
Nenhuma quantidade de amor poderia consertar isso. Se pudesse, minha
mãe nunca sofreria com câncer. Fechei os olhos e me fiz relaxar, esperando que
por uma vez o meu dom iria cooperar e eu podia ver o que estava acontecendo.
Não importava que tipo de dor eu testemunharia sem poder ajudar, seria
infinitamente melhor do que sentar aqui esperando, eu tinha certeza disso.
— Você está tentando vê-los? — Disse Ava, quebrando minha
concentração.
Abri os olhos e assenti. Não havia nenhum ponto em mentir sobre isso.
— Não, querida, — disse ela, pegando a minha mão em sanduíche entre
as dela. — Você não quer ver isso.
Um nó se formou na minha garganta. — Eu não posso, não posso sentar
aqui e esperar, — eu disse, minha voz se quebrando. — Como você pode estar tão
calma quando eles podem morrer?
— Estou tranquila porque eu sei o que esperar, — disse ela. — Mesmo se
você obter o seu poder para trabalhar, você está tão acostumada com as lutas
mortais que você não entende o que está acontecendo de qualquer maneira.
Henry vai precisar de você quando ele voltar, e você não quer esvaziar-se por
assistir.
Eu olhei para o chão mármore. Não importava o que Ingrid disse, não
importava o quanto Henry agiu para mim, o fato é que Persephone estava ao seu
lado na batalha. E se algo acontecesse com um de seus irmãos, ele não viria para
mim com a sua dor. — Ele vai ter Persephone.
Ava bufou. — Oh, por favor. No momento em que ela tiver a chance, ela
vai correndo de volta para Adonis.
— Eu não estou tão certa sobre isso. — Eu hesitei. — Ela o beijou.
— O quê? Quem?
— Persephone, — eu disse. — Ela beijou Henry.
— Quando? — Disse Ava, incrédula. — Ela o odeia, por que ela
possivelmente...
— Ela estava tentando provar a ele que o relacionamento deles estava
tudo na imaginação dele. — Eu coloquei minha cabeça contra o banco. — Foi a
noite que voltamos. Eles estavam sozinhos na sala com um monte de janelas, e
ele estava sentado, e ela subiu em seu colo. Eles conversaram um pouco, e ela o
beijou. Eu não queria ver, — acrescentei, no caso de ela pensar que eu
propositadamente espionei eles. — Eu não podia controlar. Mas eu vi, claro como
o dia. Não foi apenas um beijo também, e eu sei que Henry gostou.
— Sim, ele provavelmente gostou, — disse Ava, e ela deve ter percebido
quão completamente inútil foi, porque ela rapidamente acrescentou, — As coisas
tem sido melhor entre vocês? Quero dizer, quantas vezes vocês dois bateram as
botas?
Eu fiz uma careta. — O quê? Quer dizer - nunca. Nós não, - não em tudo,
não desde aquela vez. Como você pode até mesmo... — Eu parei. É claro que ela
iria perguntar esse tipo de coisa, ela era Ava. — Ele me segura à noite, eu acho,
mas não temos ainda sequer beijado.
A mandíbula de Ava caiu aberta. — Você está falando sério? Meu Deus,
Kate, por que você não veio para mim mais cedo?
— Eu tentei te dizer, — eu disse, perplexa. Como isso de repente se tornou
minha culpa? — O que você teria feito de qualquer maneira? Obrigá-lo a me
querer? Eu não quero que isso aconteça dessa forma, Ava.
Ela revirou os olhos. — Honestamente, você acha que eu faria isso? Isso
não é sobre o que o amor é, Kate, mas eu poderia ter-lhe dado uma cotovelada na
direção certa. Sem usar os meus poderes, — acrescentou ela, quando eu olhei
para ela. — Algum dia você vai aprender a confiar em mim. Agora, a bruxa não
vai ficar em torno para sempre, e o que você vai fazer quando ela estiver fora do
caminho?
Eu não gostava de Persephone, mas ela ainda era minha irmã, e a atitude
de Ava em relação a ela ralava para mim. — Por que vocês se odeiam? — Disse. —
Entendo que você gostou de Adonis, também, mas você não tem brinquedos
suficientes?
— Você viu Adonis, — disse Ava com um pequeno sorriso insolente. —
Será que você o chamaria de apenas outro brinquedo?
— Não, mas...
— Exatamente. Eu o vi primeiro, e ela o roubou de mim, puro e simples.
Você pode até mesmo perguntar ao papai.
— Eu não quero perguntar a Walter, — eu disse rapidamente. — Não
deveria Adonis obter uma palavra nisso?
Ava empurrou seu lábio inferior em um beicinho. — Ele queria nós duas.
É por isso que Persephone desistiu de sua imortalidade, você sabe. Ela queria tê-
lo no Submundo só para ela em vez de ter de compartilhá-lo comigo. — E todo o
tempo, Henry teve que assistir enquanto sua esposa e Ava lutaram pelo direito de
estar com um mortal. Persephone tinha feito a coisa certa, deixando-o, mas, por
causa de Henry, eu queria que ela o tivesse deixado antes de brincar por trás das
costas dele. Ou na frente dele.
— Eu não sei o que eu vou fazer quando ela se for, — eu disse. — Mas,
enquanto ele quiser que eu fique, e enquanto ele está trabalhando para tornar-
nos melhores, eu não vou abandoná-lo como ela fez.
— Eu sei que você não vai, — disse Ava, apoiou a cabeça no meu ombro.
— Isso é parte da razão pela qual nós escolhemos você, você sabe.
— Sim, bem, essa é a única coisa que tenho a meu favor. Eu sou inútil.
— Você tem sido imortal por nove meses. Dê a si mesma algum tempo
antes de decidir que estávamos errados. Não estávamos, por sinal, —
acrescentou. — Apenas no caso de você decidir desafiar isso.
Eu hesitei. Eu não tinha contado a ninguém, nem mesmo à minha mãe,
mas eu precisava dizer a Ava. Se ela realmente poderia ajudar, então ela tinha
que saber tudo. — Eu iria deixá-lo. — Ava ficou em silêncio, e quando ela
finalmente falou, ela tudo menos sussurrou.
— Eu sei. Estou feliz que você não fez.
Eu olhei para ela. — Você sabe? Como?
— Henry disse-nos, — disse ela. — Logo depois que você disse que faria.
Eu escondi meu rosto em minhas mãos, me forçando a respirar de forma
constante. É claro que todo mundo sabia. Nenhum deles poderia guardar um
segredo para salvar suas vidas. — Ninguém tentou me fazer desistir. Você falou
com Henry? É por isso que... — Engoli em seco, minha garganta crua de meus
soluços. — É por isso que ele me pediu para ficar, não é?
— Claro que não, — disse Ava. — Kate, pare de fazer isso consigo mesma.
Nenhum de nós disse nada para Henry, e nenhum de nós falou com você sobre
isso, porque James insistiu que era sua escolha.
Um nó se formou na minha garganta, e eu me forcei a falar em torno dele.
— Naquela noite, quando Henry voltou – eu disse-lhe que eu e James não
estávamos juntos. E então ele me pediu para ficar.
— Sério? — Disse Ava, iluminando. — Bem, é isso, não é?
— O que é o quê?
Ela suspirou. — Você é adorável. Sem noção, mas adorável. Henry pensou
que você queria estar com James porque você gastou o seu verão com ele. Então,
ele estava dando a você a chance de ir.
Eu sabia isso, ou pelo menos eu suspeitava. Isso não tornava mais fácil
ouvir, embora. — Mas eu não quero estar com James.
— E uma vez que ele descobriu isso, ele te pediu para ficar, porque é o
que ele realmente quer. — Ava me deu um sorriso pequeno insolente. — Vê? Às
vezes não é tudo desgraça e tristeza.
Funguei, e o peso no meu peito ergueu. — Você realmente acha isso?
Ava deu um beijo barulhento no meu rosto. — Eu sei que sim.
Esperar era uma tortura. Durante as próximas horas, falamos sobre tudo
e nada. Quando ficamos em silêncio, eu tentei de novo e de novo ver o que estava
acontecendo, mas nunca funcionou. Toda vez que o relógio soava, eu me
perguntava quem iria estar ausente quando o conselho retornasse, se algum
deles retornaria. Ava tentou tranquilizar-me de que nenhuma notícia era uma
boa notícia, mas quanto tempo antes de ela admitir que algo devia ter dado
errado?
As 6:45, algo arrepiou contra a volta do meu pescoço. Ava e eu nos
inclinamos uma contra a outra, ambas semiadormecidas, e eu mantive me
acordando cada poucos minutos para ver se eles tinham retornado. Quando abri
os olhos, vi uma neblina estranha ao nosso redor, e por um momento eu pensei
que estava sonhando.
E então eu ouvi uma risadinha e clique de saltos contra o mármore, e meu
sangue se transformou em gelo.
— Bom dia, — disse Calliope quando ela dobrou a esquina para nos
encarar. — Vocês duas parecem acolhedoras, não é? — Sem aviso, a neblina se
transformou em nevoa e envolveu-nos.
17
CINZAS & SANGUE

Abri a boca para gritar, mas não saiu nada.


— Ah, pare com isso. — A voz de Calliope sussurrou em meio à névoa,
ecoando ao redor de mim. — Não há ninguém aqui para ajudá-la de qualquer
maneira.
Estendi a mão para Ava, mas ela se foi. — O que você fez com ela? — Eu
disse, tropeçando nos meus pés. Meus joelhos cederam, mas me recusei a dar a
Calliope a satisfação de me ver cair.
— Você vai ter ela de volta em breve, — disse ela quando ela apareceu
para fora da névoa na minha frente. — Eu disse que Cronus ia me libertar. Você
não ama quando tudo funciona no final?
Calor malevolente se espalhou através de mim, o mesmo que eu senti
enquanto enfrentei Calliope depois que os irmãos a tinham capturado.
— O que você quer? — Eu rosnei, arranhando meu abdômen.
O que ela estava fazendo comigo? Tinha que haver uma maneira de pará-
lo.
— Eu já disse a você o que eu quero, — disse ela. — Eu vou machucar
você da mesma maneira que você me machucou. Vou pegar o que você mais ama
de você, e você vai ser impotente para deter-me. — Ela me deu um tapinha no
rosto, e onde seus dedos me tocaram, minha pele queimou.
Bati a mão. — Onde está Henry? O que você fez com ele?
— Nada, — disse ela, arregalando os olhos inocentemente. — Você não
confia em mim? Realmente, Kate, você deve aprender a não ser tão desconfiada.
Você vai se dar rugas, e você não gostaria de passar a eternidade parecendo como
uma mulher velha, não é?
O nevoeiro retumbou, e Calliope piscou para mim. — Isso me lembra - eu
tenho alguém que quer conhecê-la. — Um homem de cabelos escuros apareceu
ao seu lado, mas ele não era sólido como ela era. Em vez disso o nevoeiro parecia
ondular por ele, como se fossem a mesma coisa, e quando ele se aproximou, vi
que seus olhos eram feitos do mesmo cinza que nos cercava.
Cronus.
— Kate, minha querida, — ele murmurou, sua voz um trovão silencioso.
Ele roçou seus dedos contra a minha bochecha com um toque leve como pluma
que reverberou por todo o meu corpo inteiro. — Eu esperei tanto por este
momento. — Ele parecia Henry. Essa foi a pior parte. Ele era mais velho, mas a
forma de seu rosto, a cor de seu cabelo que pendia de seus ombros, mesmo do
jeito que ele se movia – tudo sobre ele me lembrou de Henry.
Havia uma semelhança física? Henry era o mais velho dos irmãos, ele
tinha sido criado para parecer como Cronus?
Ou foi Cronus tentando se parecer com ele? Por que ele faria isso?
— Cronus, — eu disse duramente, apertando minhas mãos trêmulas
juntas. — O que você fez com eles?
— Eles estão todos muito seguros, eu lhe asseguro, minha querida. —
Cronus sorriu, e todo o calor deixou meu corpo. — Você gostou dos meus
presentes?
— P-presentes? — Gaguejei. — Q-que presentes?
Cronus tomou minhas mãos nas suas e as abriu com facilidade. Ele
cobriu minha mão vazia, e quando ele se afastou, eu estava segurando uma flor
dourada e azul que cheirava a doces.
A névoa parecia iminente a fechar em torno de mim, e todo o ar fugiu fora
dos meus pulmões. Tinha sido Cronus o tempo todo. — Mas por quê? Você nem
mesmo, eu não sou... — Ele se inclinou para mim, seus lábios roçaram meu
rosto, e minha mente estava estranhamente em branco, como se ela, também,
estava cheia de nevoeiro.
— Eu posso te dar tudo o que você sempre quis, minha querida, — ele
murmurou, e suas palavras me inundaram, aconchegantes e convidativas
quando elas se enterraram tão profundamente dentro da minha mente que eu
não poderia sacudi-la. — Uma casa, uma família, e eu te amaria muito mais do
que ele jamais poderia. Você nunca seria a segunda melhor para mim. Você
poderia ser minha eternidade.
Enquanto ele falava, Calliope desapareceu, deixando-nos juntos no casulo
de neblina. Meus olhos se fecharam, e eu balançava quando meu corpo gritava
para eu ficar longe dele. Uma parte de mim não queria, embora. Ele estava
dizendo a verdade, é claro que ele estava. Ele me amaria para sempre. E a
maneira como ele disse meu nome, a maneira como isso enrolou dentro de mim...
— Vem comigo, minha querida, — ele sussurrou. — Dê-me sua mão, e eu
vou levá-la para longe daqui. Em algum lugar tão requintado como você é, onde
você pode ver o céu. Onde nunca faltará o amor.
Eu exalei. Seria tão simples. Uma eternidade no sol com alguém que me
amava – o que mais estava lá para a vida?
Minha mão estava um centímetro de sua quando uma onda de poder me
empurrou de volta para o banco. Cronus rosnou e virou-se para enfrentar um
inimigo que eu não podia ver, e eu lutava para ficar de pé, mas a mesma força me
segurava.
Uma silhueta avançou para nós, e outra onda de puro poder atravessou a
sala do trono. — Eu só vou te avisar uma vez, Cronus, — disse uma voz, escura e
perigosa. — Fique o inferno longe da minha mulher.
Engoli em seco como se eu estivesse indo à tona depois de passar muito
tempo debaixo d'água, e a névoa em torno de mim desapareceu. Atordoada, eu
dobrei, calor torcendo dentro de mim como se eu tivesse levado um soco no
estômago. Mas não era Cronus e o estranho poder que ele tinha sobre mim. Era
Calliope, e desta vez o que ela tinha feito tinha funcionado.
— Henry, — eu me engasguei, e ele se ajoelhou ao meu lado. — Sinto
muito... Cronus, eu não... eu não quis e Calliope, ela escapou...
Ele reuniu-me em seus braços e gentilmente me colocou de volta no
banco. — Acalme-se. Você não fez nada errado. Como você se sente?
Eu olhei para ele e aqueles olhos que brilhavam como o luar e, por um
segundo aterrorizante, eu não senti nada. Nenhum amor. Sem a dor da maneira
como Persephone o consumia. Apenas vazio.
E então caiu através de mim, jogando tudo fora de equilíbrio para o
espaço de vários segundos. Como tinha Cronus feito isso? Como ele me fez não
amar Henry, mesmo que apenas por alguns momentos?
Eu joguei meus braços em torno dele e enterrei meu rosto em seu ombro,
segurando pela vida. Mais uma vez, foi Calliope, não Cronus. Esse era o seu
poder - que era o que Henry tinha estado tão assustado. Eles trabalharam juntos
para Cronus poder me levar com ele. Era a única explicação.
— Eu amo você, — balbuciei, inalando seu cheiro. Ele cheirava a cinzas e
sangue. — Eu te amo tanto. Desculpe-me, eu não quis...
— Tudo está bem agora. Você está segura, — disse ele, esfregando minhas
costas como Ava fez minutos antes.
Meu estômago virou ao avesso. Oh, Deus. — Onde está Ava? — Outra mão
fria tocou a parte de trás do meu pescoço. Mãe.
— Ava está com Walter lá, querida, — disse ela, apontando para uma
mancha escura várias linhas para baixo. Os ombros de Ava tremiam, e Walter
abraçou-a, sussurrando palavras que eu não podia ouvir. — Nicholas foi
capturado.
Minha cabeça latejava, e levou tudo o que eu tinha para não vomitar em
todo o chão de mármore. — E todo mundo...?
— Estamos vivos, — disse outra voz. James.
Henry olhou para cima. — Será que a armadilha segurou?
— Sim. Não é perfeita, mas vai nos ganhar tempo. O que está
acontecendo?
— Calliope escapou com Cronus, — disse Henry.
James murmurou uma maldição e sentou-se pesadamente ao meu lado.
Eu não soltei Henry, mas eu achei a mão de James e apertei. Ele agarrou
a minha em troca. — E agora? — Ele disse a Henry.
— Vamos esperar. Os outros estão vindo?
— Ella está ferida, — disse James. — Theo e Sofia estão com ela. Todo o
resto está bem.
Eu enterrei meu rosto no ombro de Henry e tomei várias respirações
trêmulas me acalmando. Cronus e Calliope foram presos. Henry e minha mãe e
James estavam bem, e tudo ficaria bem.
Exceto a parte onde Ava poderia ter acabado de perder o marido.
Esperamos os outros chegarem, e eles fizeram, um por um. Alguns deles
estavam sangrando, e outros saíram sem um arranhão. Persephone voltou no
braço de Dylan parecendo não tão ruim. Mas Ella...
Ela e Theo apareceram juntos em direção à borda do círculo. Ela estava
deitada no chão, tremendo e da cor de giz enquanto uma poça de sangue
propagava ao redor dela, e eu fiquei dormente. Seu braço esquerdo estava
desaparecido. As mãos de Theo estavam em ambos os lados de sua cabeça, e sua
testa franzida enquanto ele olhava nos olhos dela. Mesmo quando os outros se
reuniram em torno dele, ele não desviou o olhar. Eu pressionei meu rosto no
peito de Henry, incapaz de assistir.
— Será que Calliope te machucou? — Disse Henry em silêncio para que eu
pudesse ouvi-lo, e eu assenti. Não era dor física, mas agora eu entendi o que ele
quis dizer.
— Se foi, agora, — eu menti. A neblina mental desapareceu com ela e
Cronus, mas uma dor permaneceu onde o calor fumegante tinha deslizado
através de mim. — Eu estou bem. — Henry ficou em silêncio, e eu me consolei
com o fato de que dizer a verdade não faria qualquer diferença. Não havia nada
que pudesse fazer sobre isso, não quando Theo estava ocupado com Ella, e eu
não teria de outra maneira. Não importava o que Calliope tinha feito para mim.
Fosse o que fosse, eu estava viva e inteira.
— O conselho se reunirá novamente em cinco minutos, — disse Walter. —
Theo, leve Ella para o seu quarto e cuide dela lá. Eu já sei a sua decisão.
Theo não o reconheceu, mas, em um piscar de olhos, ele e Ella foram
embora, deixando o chão de mármore manchado de vermelho. Silêncio morto
encheu a sala do trono até que minha mãe levantou-se, e com um aceno de mão,
o sangue desapareceu.
Se fosse assim tão simples. Talvez então eu pudesse fingir que não
estávamos todos mergulhando de cara no início de uma guerra brutal.
Desta vez, Henry não me tocou.
Quando Walter levantou-se para enfrentar o que restava do conselho,
deixei minha mão no braço de meu trono no caso de ele querer pegá-la, mas a
sua permaneceu ao seu lado. Ele mal olhou para mim desde que eu confirmei que
Calliope tinha feito alguma coisa para mim, e eu lutava para não deixar escapar
toda a verdade para ele. Não havia nada que ele pudesse fazer para consertar de
qualquer maneira, e enquanto eu ainda amava o Henry, não importava o que
mais ela fizesse para mim.
— Vamos continuar a lutar com Cronus, — disse Walter, e Henry desviou
os olhos de seu irmão. — Não vai ser fácil, e depois do que aconteceu hoje, eu não
vou pedir para nenhum de vocês ajudar. Se você não se sente preparado ou
disposto a arriscar-se para esta causa, você pode sair, e ninguém vai pensar
menos de você por isso.
Eu estava certa de que como a forma que o Conselho era unido, ninguém
iria recuar. Então, quando Dylan e Xander levantaram, eu olhei para eles,
chocada. Ambos reconheceram o conselho com um aceno de cabeça, e Dylan
abriu o caminho para fora da sala do trono. Eu sabia que ele achava que era uma
batalha perdida, mas eu nunca tinha esperado que ele ou qualquer outra pessoa
abandonasse o resto do conselho.
Nem os outros tinham esperado, parecia. Com Theo e Ella também
faltando, apenas dez de nós permaneceram, e eu tinha certeza que Persephone
não tinha intenção de ficar por aqui para a luta. Se Henry insistisse que eu não
poderia participar, novamente, em seguida, o número caía para oito.
— Muito bem, — disse Walter. — A armadilha que construímos vai durar
até o solstício de inverno seguinte, e é minha intenção entre agora e depois que...
— Irmão, — disse Henry. — Se eu puder.
— Claro, — disse Walter, e Henry levantou.
— Irmãs e irmãos, — disse ele, concentrando-se sobre os pilares por trás
dos bancos, em vez de sobre os outros membros do conselho. — Lamento dizer
que eu decidi me retirar da guerra, também.
Minha boca se abriu, e um murmúrio percorreu os restantes membros do
conselho. Ava, que parecia uma criança enrolada em seu trono maciço feito de
conchas, começou a chorar.
Walter trocou seu peso, como se ele estivesse prestes andar, mas na
última hora mudou de ideia. — Estamos contando com você, — disse ele
lentamente. — Juntos, com algum tempo, temos uma chance, mas sem você...
— O Submundo é o meu reino, não o mundo de cima. Vou selá-lo e
garantir que Cronus permaneça preso até o solstício de inverno, mas eu fiz a
minha decisão, — disse Henry. — Peço que todos vocês compreendam que não foi
tomada de ânimo leve.
Minha mãe se levantou, e ela tinha o mesmo olhar no rosto dela que ela
tinha usado quando eu tinha decidido pintar o meu cabelo de vermelho aos 11 e
fazer uma tatuagem quando tinha 14. Nenhuma dessas coisas tinha acontecido.
— Henry, estamos todos com medo dos riscos, mas se você se recusar a nos
ajudar, vamos perder. Certamente você sabe disso. O sangue que Cronus já
derramou...
— É uma vergonha, e aqueles de vocês que estão feridos tenho minhas
mais profundas condolências, — disse Henry. — Você de todas as pessoas deve
entender por que eu estou fazendo isso, Diana. Kate é alvo de Calliope, e você não
pode negar que é um milagre que nada aconteceu com ela hoje. Eu já falhei com
ela duas vezes, e eu não vou permitir uma terceira vez.
Eu estava de pé antes que eu percebesse o que eu estava fazendo, a dor
da minha culpa e tristeza rapidamente substituída pela fúria. — Não se atreva a
me usar como uma desculpa para abandonar a sua família. Calliope virá atrás de
mim se você brigar com eles ou não. Eu não vou ficar parada e deixar você fazer
nada, só assim todos podem me culpar quando o conselho perder.
— Ninguém poderia culpar você, minha querida, — disse Walter. — Henry,
sem você, a perda é inevitável. Não há mais ninguém capaz de parar Cronus, e se
Calliope não vê o erro de seus caminhos dentro de um ano...
— Eu sinto muito, — disse Henry. — Eu não vou mudar de ideia. Você
não é uma desculpa, Kate. Se eu ficar de lado e selar o Submundo, não importa o
resultado da guerra, eu vou ser capaz de mantê-la segura enquanto continua com
os meus deveres e cuidando dos mortos.
— Por que você não pode lutar afinal? — Eu disse. — Todo mundo vai
morrer se você não fizer.
— Todo mundo pode morrer se eu fizer, — disse ele. — Eu não vou
arriscar a sua vida. Nós já vimos as distancias que Calliope vai para destruí-la, e
com o interesse de Cronus em você, é muito perigoso.
Antes que eu pudesse arranhar uma réplica, Persephone levantou.
— E os outros Titãs? Se Henry...
— Que outros Titãs? — Eu disse, meu coração batendo.
Persephone me deu uma olhada. — Será que você me deixa terminar? Se
Henry não quer ajudar, então tudo bem. Há, obviamente, nada que qualquer um
de nós pode dizer para mudar sua mente. — Seus olhos piscaram quando ela
olhou para Walter. — Papai disse que ninguém seria julgado por recuar. E antes
que você jogue uma crise, Kate, não somos os únicos que podem brigar com ele.
Nem todos os outros Titãs foram presos. Se tivermos sorte, os que não foram
poderiam estar dispostos a nos ajudar.
— As chances de os outros Titãs concordando com a luta do nosso lado
depois que usurpamos eles são mínimas, — disse Walter, sua expressão
endurecendo. — Nem seria prudente nos arriscar dando aliados a Cronus.
— Não vale a pena uma tentativa? — Disse Persephone.
— Rhea poderia nos ajudar, — disse James, que tinha permanecido quieto
até agora. — Eu sei onde ela está.
— Nós não temos tempo para cortejá-la, — disse Walter. — Temos de nos
preparar, e convencê-la a ir contra o seu companheiro, sem dúvida, tomaria
tempo...
— Então deixe-me fazer isso, — eu disse, soando muito mais corajosa do
que eu sentia. — Eu quero fazer alguma coisa.
— Kate... — disse Henry, mas eu o interrompi.
— Não faça isso. Você fez a sua decisão, agora deixe-me fazer a minha. Se
você não vai participar, então precisamos de alguém encontrando pessoas que
irão.
— Henry está certo, — disse Walter. — Você não teve nenhuma
experiência com os Titãs antes. Você é nova para esta vida, e uma palavra
errada...
— Então envie alguém comigo.
— Nós não podemos poupar ninguém, — disse Walter firmemente. — Se
você quiser ir...
— Você pode me poupar. — Ava falou suavemente e sem convicção, mas
sua voz se elevou acima de Walter, e ele fez uma pausa. Quando eles trocaram
olhares, algo pareceu passar entre eles.
— Muito bem, — disse Walter, e esperança flutuou dentro de mim.
Finalmente, eu não seria inútil. Mesmo que Rhea não quisesse ajudar, eu
pelo menos teria a chance de tentar compensar por Henry se retirar por causa de
mim. Eu não podia sentar e não fazer absolutamente nada quando não importava
o que os outros disseram, eu sabia que sua perda seria minha culpa.
Uma sombra passou por Henry, escurecendo as linhas em seu rosto até
que ele estava quase irreconhecível. — Kate, por favor. Qualquer preocupação
que você tenha sobre levar a culpa por isso, como você acha que eu me sentiria
se você fez isso porque eu me retirei e o pior aconteceu com você?
Algo estalou dentro de mim. De todas as coisas que ele poderia usar
contra mim, esta foi a que ele escolheu? — Esse é o problema, Henry. Eu não sei
como você se sente sobre mim. Todo mundo parece ter uma opinião sobre isso,
mas a única pessoa que eu quero ouvir é você. Você não vai me dizer que não
importa o quanto eu imploro – tudo que você faz é arriscar a vida de todos que eu
amo para me manter segura. Como você acha que isso me faz sentir?
Por um momento, ele parecia confuso, mas ele rapidamente mascarou
com uma expressão neutra. — Antes de conhecer você, eu estava pronto para
desaparecer. Se algo vier a acontecer com você, meus desejos não mudaram.
Em primeiro eu pensei que eu tinha o ouvido errado. Ele me manipulou
antes, todo o conselho tinha, mas ele nunca tinha usado a sua vida contra mim.
Essa foi uma linha que eu achei que ele não se atreveria a cruzar.
Aparentemente, eu estava errada.
— Perdoe-me por não estar preocupada, — disse eu, minhas palavras
cheias de sarcasmo quando cada pequeno passo que tinha tomado nas últimas
semanas desmoronou. — Agora que Persephone está volta em sua vida, eu
imagino que você vai querer ficar em torno enquanto há uma chance de que ela
vá beijá-lo novamente.
Henry ficou duro, e atrás de mim ouvi silvo minha mãe: — Mais uma vez?
Persephone!
Esse nó doloroso no meu peito voltou. — Eu sei que eu não sou ela e que
eu nunca serei, mas você sabe o que, Henry? Isso é uma coisa boa, porque, ao
contrário dela, eu não vou te trair. Eu não vou me apaixonar por outra pessoa e
decidir que você não vale a pena, porque você vale para mim. Contanto que você
me queira aqui, eu vou ficar, mas não importa o quanto eu te amo, eu não vou
deixar você me manipular assim. Não é justo para mim, não é justo a este
conselho, e você tem que parar com isso antes que nos destrua completamente.
Seja tão miserável como você gostaria. Você quer se agarrar com ela mesmo que
ela não te ame? Mesmo que você não tenha nem ao me dado um beijo de boa
noite desde que eu cheguei? Tudo bem. Evite-me por anos... inferno, me evite por
eras. Mas não se atreva a tentar me impedir de fazer o pouco que posso para
ajudar a evitar que o mundo se desintegre.
Enquanto Henry olhou para mim, com a boca ligeiramente aberta, eu me
virei para Walter. Henry não ia ter a chance de dizer uma palavra no que eu fiz
desta vez. — Se você não se importa, eu vou ficar pronta. Quanto mais cedo nós
temos outro Titã do nosso lado, melhor a chance que temos de vencer.
Walter assentiu uma vez, e eu saí da plataforma e caminhei através do
círculo, com foco para frente. Eu não deixei nenhum deles me ver quebrar.
Ninguém me seguiu através dos pilares e na antecâmara. Uma vez que eu
fechei a porta, encostei-me nela e fechei os olhos, lutando para acalmar meu
coração acelerado. Eu tinha feito a coisa certa. Henry tinha me deixado com
nenhuma outra escolha, e mesmo se ele se afastasse agora, pelo menos seria a
sério e não porque pensou que eu não o amava.
A porta atrás de mim se abriu, e eu tropecei. Persephone deslizou para o
quarto e fechou rapidamente a porta, e naqueles poucos segundos, eu ouvi vários
membros do conselho gritando um com o outro.
— Bem, você certamente sabe como fazer uma saída, — disse Persephone
ironicamente, mas o seu sorriso caiu. — Eu sinto muito pelo que você viu. Eu não
tinha ideia.
Como se eu estar alheia teria feito melhor.
— Não importa, — eu murmurei, toda a briga drenando fora de mim. —
Eu sei por que você fez isso.
— Você sabe? — Ela se sentou em um dos bancos e fez um gesto para que
eu me juntasse a ela. Eu empoleirei na outra extremidade, tão longe dela como eu
poderia ficar. — Eu sei como ele se sente sobre mim. Nunca foi segredo algum, e
não importa o quão forte eu o desencorajei, continuou a crescer mais forte. Essa
foi uma das razões pelas quais eu decidi dar a minha imortalidade, —
acrescentou. — Porque eu sabia que, eventualmente, chegaria ao ponto em que
ele não seria capaz de aguentar mais, e eu o machuquei o suficiente como foi.
Tão bonita história como foi, eu não acreditei nela. Persephone não era
nada se não egoísta. Talvez não tanto quanto eu pensava inicialmente, mas eu já
tinha visto o suficiente para saber que as minhas primeiras impressões não
estavam completamente erradas.
— Você está fazendo a coisa certa, — disse ela, ecoando minhas
autogarantias. — Eu entendo por que Henry está se retirando da luta, mas ele
está fazendo isso pelas razões erradas.
— Você quer dizer que tentando me manter viva não é uma razão boa o
suficiente?
— Sim, isso é exatamente o que eu quero dizer, — disse ela, e eu fiz uma
careta. Não havia nenhum ponto em discutir embora. Ela estava certa. — Goste
ou não, você é apenas uma pessoa. Cronus vai rasgar o mundo inteiro, se ele
escapar da ilha.
— Você não acha que eu sei disso? — Eu disse. — Se eu pudesse me
entregar e parar essa coisa toda, eu o faria, mas eu não posso, porque Calliope
quer todos eles mortos agora. Eu não preciso de você esfregando no meu nariz.
Persephone suspirou. — Desculpe. Parece que eu não posso dizer nada
certo, posso?
Isso poderia ser facilmente resolvido se ela parasse de me tratar como se
eu não soubesse de nada. Eu não sabia, mas não havia razão para ela ser tão
ofensiva sobre isso.
— De qualquer forma, — disse Persephone depois que alguns segundos
passaram em silêncio. — Isso é o que eu queria ter certeza de que você sabia por
que eu o beijei. Sinto muito.
Olhei para as minhas mãos. Eu preferia ter mastigado meus polegares do
que ter esta conversa. — Eu não estou brava com você por beijá-lo. Eu estou com
raiva de Henry por querer isso.
— Você sabia antes de acontecer que ele iria, — disse ela. — Assim como
eu, mas você sabe o que? Ele não gostou.
Eu dei-lhe um olhar desconfiado. — O que você quer dizer?
— Então você não ouviu essa parte depois de tudo, — disse ela com um
traço de presunção. — Eu pensei assim. Você não teria enlouquecido se você
tivesse.
Eu fiz uma carranca. Era difícil ser civil para ela sem sua atuação como
essa. — Diga-me então, não é?
Ela revirou os olhos. — O temperamento vai trazer-lhe problemas algum
dia. Perguntei a Henry se foi tão bom quanto ele esperava, e ele admitiu que não
foi. Levou um tempo, mas eu acho que ele entendeu que o que tínhamos nunca
foi real.
Eu não disse nada. Mesmo se eu estava errada, não iria mudar a forma
como ele tinha me tratado nos últimos meses. Não mudaria o quanto ele queria
beijá-la em primeiro lugar.
Persephone puxou um cacho loiro, e quando ela o deixou ir, ele pulou de
volta em uma espiral perfeita. Ela provavelmente nunca teve um dia de cabelo
ruim em sua vida. — A nossa relação toda foi minha culpa por ser muito jovem e
assustada. Eu não estava pronta para o casamento, e eu sabia isso antes de me
casar. A coisa certa teria sido adiar por uma centena de anos e conhecê-lo
primeiro. Se eu tivesse feito isso, não há como dizer o que poderia ter acontecido.
Mas eu não esperei, e ambos pagamos o preço.
— Henry mais do que você, — eu murmurei.
— Henry mais do que eu, — ela concordou. — Eu tive que carregar essa
culpa pela minha outra vida inteira. Desde que eu o deixei, eu esperava que
alguém viesse e lhe desse outra chance. Alguém como você, — disse ela,
cutucando meu braço. Eu esquivei de seu toque, e ela deixou cair a mão em seu
colo. — Só porque não deu certo entre nós não significa que eu não o amo. Não é
a maneira como ele quer que eu ame, mas eu ainda me importo sobre o que
acontece com ele. Fico feliz que ele te encontrou. Eu estou feliz que a Mãe decidiu
tentar de novo por uma filha que ela pudesse finalmente se orgulhar.
Nesse momento, um pouco da minha animosidade contra Persephone
derreteu, e eu timidamente estendi a mão para ela. Por mais difícil que era para
eu suportar a pressão de viver à altura das expectativas da minha mãe, eu nunca
tinha considerado quão difícil tinha sido para Persephone ir contra elas em
primeiro lugar. — Ela está orgulhosa de você. Ela mesmo disse. E... ela sabe que
você merecia uma chance de ser feliz. Eu sei isso, também, — eu adicionei. — Eu
só queria que Henry pudesse olhar para mim da maneira como ele olha para
você.
Persephone envolveu seus dedos em torno dos meus. — Você deveria estar
feliz por ele não olhar. Quando ele olha para mim, ele dói. Mas quando ele vê
você... — Ela sorriu levemente. — Ele tem esperança. Eu não estou surpresa que
você não percebe isso. Levei um tempo para lê-lo, também. Passei milhares de
anos com ele, embora, e eu conheço esse olhar. Eu o vi no dia em que nos
casamos. Você não esquece a primeira vez que alguém olha para você assim.
Mordi o lábio. Eu queria acreditar nela. Muito. Ela conhecia Henry, ela
não ganhava nada por mentir para mim, e se havia alguma chance de que ela
estava sendo honesta, eu tinha que aceitar. — Como posso fazer isso? Como
posso fazer com que ele me ame?
— Basta ser você. — Persephone acariciou minha mão e se levantou. —
Não vai demorar muito tempo para ele ver o que ele tem. Eu estou indo.
— Tudo bem. — Eu empurrei o meu cabelo atrás das orelhas. — Eu
provavelmente vou vê-la antes de eu sair.
— Você não vai. — Ela sorriu brevemente, e nesse momento, ela parecia
tanto com a nossa mãe que eu fiz uma tomada dupla. — Estou indo embora tão
logo a reunião acabe. Eu fiquei aqui por muito tempo, e tão divertido quanto foi
lutar contra Cronus, eu sinto falta de Adonis. Eu estarei de volta, se eles
precisam de mim, — acrescentou. — Até então, eu estou indo para casa.
— Oh. — Alívio tomou conta de mim, seguido imediatamente pela culpa.
Por mais terrível que as coisas tivessem sido no começo e tanto quanto eu queria
odiá-la pelo que ela tinha feito com Henry, ela estava tentando. E ela ainda era
minha irmã. — Obrigada. Por tudo.
— A qualquer hora. — Ela colocou a mão na porta, mas antes que ela
abriu, ela hesitou. — Você pode vir me visitar, se quiser. Eu gostaria disso. Eu
nunca tive uma irmã de verdade antes, e seria bom conhecer você. Tanto quanto
eu amo Adonis, às vezes ele pode ser um pouco... monótono. — Eu consegui um
pequeno sorriso. De alguma forma, isso não me surpreendeu.
— Eu gostaria disso, também. Desculpe-me, que eu invadi e interrompi
sua vida após a morte assim.
— Eu não sinto. — Ela piscou e desapareceu de volta para a sala do trono.
A porta se fechou, abafando as brigas do conselho mais uma vez. Eu
ainda não tinha certeza de como eu me sentia sobre Persephone, mas pelo menos
agora teríamos a oportunidade de conhecer uma a outra em nossos próprios
termos. Se eu sobrevivesse.
Uma hora mais tarde, eu tinha espalhado metade do meu armário do
outro lado da cama, e Pogo estava enterrado debaixo de uma pilha de camisolas.
Eu não sabia onde Ava e eu estaríamos indo, então eu tinha que me preparar
para qualquer possibilidade. Onde é que uma Titã ficaria sem ser notada, afinal?
Em uma montanha em algum lugar? Antártida? O deserto do Saara? De qualquer
maneira, as possibilidades eram infinitas e não muito promissoras, o que
significava que eu tinha que estar pronta para qualquer coisa.
— Pensa que você pode suportar sentir minha falta por mais alguns
meses? — Eu disse quando Pogo cavou-se para fora. Minhas roupas cheiravam a
cachorro agora, mas eu não me importava. Seria um lembrete gentil da parte dele
quando eu estava sozinha.
Ele soltou um latido suave, e eu sorri, apesar de mim mesma.
— Ele vai sentir sua falta, — disse uma voz atrás de mim. Assustada, eu
larguei as botas que eu estava colocando na mala que eu pude encontrar.
Eu esperava que ele ficasse longe, mas lá estava ele, seus ombros tensos e
seus olhos tempestuosos.
Henry.
18
BALANÇADO

Minha boca ficou seca, e eu peguei as botas e as joguei sobre a cama. Eu


estava tão convencida de que ele não queria mais nada a ver comigo que eu não
tinha me dado ao trabalho de pensar sobre o que dizer. Eu não tinha nenhuma
razão real para me desculpar, exceto talvez por chamá-lo de covarde na frente de
todos, mas essa foi a única parte que eu lamentava.
— Sinto muito sobre a confusão, eu estou apenas...
— Arrumando a mala. Sim, eu vejo isso. — Ele acenou com a mão, e
minha mala já cheia parecia vazia. Quando eu abri minha boca para protestar, eu
vi que ele não tinha feito nada de desaparecer, a mala só tinha ficado mais
profunda. — Este é um momento ruim?
A última coisa que eu queria era brigar com ele, mas eu não poderia muito
bem deixar o Submundo antes de terminar isso de uma forma ou de outra. — Eu
tenho alguns minutos, — eu disse, dobrando um par de jeans. — Sobre o que foi
toda a discussão?
O canto da boca de Henry se contraiu com aborrecimento. — O que você
poderia esperar. Diana não estava satisfeita comigo, e nem Walter. Eu suspeito
que, apesar de nossa discussão anterior, você não está também.
Eu considerei mentir, mas não faria nenhum bem. — Não, eu não estou,
— eu disse. — Nós nunca descobrimos isso. Mas eu não quero ser a pessoa a
tentar forçá-lo sentir algo que você não sente. Eu quis dizer o que disse. Eu não
vou deixá-lo a menos que você não me queira mais aqui.
— Eu desejo que você fique, mas aqui está você, fazendo as malas três
meses mais cedo, — disse ele calmamente, e eu parei.
— Você sabe o porquê, — eu murmurei. — Eu vou estar de volta logo que
eu encontrar Rhea.
— Por quanto tempo?
Eu gentilmente extraí a bota que derrubei da boca de Pogo. — Enquanto
você me quiser.
— Isso vai ser por um tempo muito longo.
Eu sorri, sentindo como se um peso foi erguido do meu peito. — Bom.
Ele deu um passo em minha direção e tocou minha bochecha. — Gosto de
ver você sorrir. Isso significa que eu tenho feito algo certo. Tenho medo que às
vezes eu não posso dizer.
— Está tudo bem. — Inclinei a cabeça em sua mão. Ele segurou meu rosto
e escovou o polegar contra o meu queixo. — Persephone me disse que você disse
que não foi tão bom quanto o esperado. Quando ela beijou você, eu quero dizer.
Algo brilhou por trás de seus olhos, mas se foi tão rápido que eu não
podia dizer o que era. — Não, não foi. Eu encontro pouca alegria em mostrar
afeição a alguém que não devolve.
— Sim, eu também. — Eu cobri a mão dele com a minha e pressionei
meus lábios contra a palma da mão. — Dói ser aquele que ama mais.
Henry chegou mais perto para que os nossos corpos estivessem apenas
centímetros de distância. Apesar do calor que irradiava dele, eu tremi. — Se eu
tivesse estado desamarrado, eu teria rasgado Calliope em pedaços na caverna. Se
Walter tivesse me permitido eu teria feito isso no momento eu tinha-a sozinha no
palácio...
Eu bufei suavemente. — Isso é suposto ser romântico?
— É suposto ser a verdade. — Ele olhou para mim, e minha respiração
ficou presa na minha garganta. — Se eu fosse um homem melhor, eu seria capaz
de mostrar-lhe o amor e carinho que você merece. Como não sou, só posso
oferecer-lhe o que eu sou capaz de dar. Mas eu garanto, só porque eu não mostro
isso não significa que eu não sinto isso.
Era exatamente o que todo mundo estava tentando me dizer desde
setembro, mas ouvir as palavras vindas do Henry finalmente me fez acreditar. —
Eu acho que estou percebendo isso, — eu disse com voz rouca. — Eu não quero
que você seja alguém que você não é.
— Então confie em mim quando eu digo que não há ninguém mais que eu
preferiria estar. — Ele correu seus dedos pelo meu cabelo e fez cócegas no meu
pescoço com as pontas. — Nem mesmo Persephone. Ela foi o meu passado, e eu
nunca fui seu futuro. Houve um tempo em que eu lutei por ela, mas lutar por
alguém é sem sentido se eles não estão felizes com você.
— Eu estou fazendo a coisa certa, então? — Eu disse. — Lutando por
você.
Ele circulou seus braços em volta da minha cintura, e ele estava tão perto
que eu podia sentir sua respiração no meu rosto. — Não, — ele disse, e a palavra
fez meu estômago contrair. Mas antes que eu pudesse entrar em pânico, ele
continuou, sua voz suave e destinada somente para mim. — Você nunca teve que
lutar por mim, para começar. Eu sou seu e tenho sido desde o momento em que
vi você. — Tudo o que eu tinha me preocupado demais, cada pensamento horrível
que eu tive, cada dúvida, merecida ou não – Henry poderia ter evitado todas elas,
se ele simplesmente dissesse isso em setembro. Mesmo a maneira que
Persephone tinha beijado ele, eu poderia ter entendido se eu não tivesse sido
deixada sozinha com os meus medos por tanto tempo. Ou talvez se nós
conversássemos sobre isso antes, ela nunca teria o beijado em primeiro lugar. Eu
chiava um suspiro de alívio.
— Teria sido bom saber disso há três meses.
Um fantasma de um sorriso enfeitou suas feições. — Sim, eu acho que
teria sido, e eu sinto muito por ter agido como eu agi. Vou fazer melhor no futuro.
— Ele apertou seus lábios na minha testa. — Por favor, não vá.
Nesse momento, a última coisa que eu queria fazer era deixá-lo, e eu
enrolei meus braços em torno dele. — Você sabe que eu preciso. Eu não posso
ficar sem fazer nada, e sem Rhea, vocês todos poderiam morrer. Vale a pena o
risco. Você sabe que sim.
Henry suspirou. — Você é teimosa demais para seu próprio bem.
— Ouvi dizer que corre na família. — Um momento se passou, e eu disse
baixinho: — Quando eu voltar... estaria tudo bem com você, se eu ficasse?
Ele franziu a testa. — Por que não? Eu faria qualquer coisa para fazer
você não ir, mas isso não significa que eu não vou recebê-la de volta quando você
voltar.
— Não, eu quero dizer... — eu hesitei. — O nosso acordo. Eu tenho que
sair a cada primavera, ou eu posso ficar aqui com você?
Ele acalmou, com o entendimento. Prendi a respiração enquanto esperava
sua resposta, e ele se afastou o suficiente para olhar para mim, seus olhos
procurando os meus. Ele não iria encontrar a mentira que estava procurando
embora. — Você quer ficar aqui o ano todo? Comigo?
— Com você. Como sua esposa.
— Como a minha esposa, — ele repetiu, com o olhar distante crescente.
Mordi o lábio. — Está tudo bem? Ficar aqui o ano todo não estaria
quebrando todas as regras ou qualquer coisa, não é?
— Eu sou o único que faz as regras. Se você deseja ficar, então você pode.
— Ele segurou meu pescoço, sua mão quente contra minha pele nua. — Eu
ficaria muito grato se você ficasse, mas eu não quero que você fique a menos que
esteja certa de que é o que você quer. Você teria a oportunidade de visitar a
superfície sempre que quisesse, mas é sombrio aqui. — Ele hesitou, como se ele
não soubesse se ele deveria continuar ou não. — Persephone costumava dizer
que depois de ter visto o sol, é impossível ser verdadeiramente feliz sem ele.
— Eu provavelmente vou subir por alguns dias, de vez em quando, — eu
disse, limpando a pontada de ciúme dentro de mim da sua menção de
Persephone. Ele simplesmente não queria me colocar na mesma situação. Eu
poderia entender isso, e se nós iríamos ter alguma chance de fazer isto funcionar,
eu tinha que fazer. Persephone tinha sido uma grande parte de sua vida, e em
alguns aspectos, ela ainda era. Eu poderia brigar ou aceitá-la, e logo em seguida,
eu teria feito qualquer coisa para parar de me sentir tão malditamente miserável
o tempo todo. Incluindo engolir meu orgulho e perdoar a minha irmã pelo que ela
tinha feito para Henry, e perdoar Henry por ainda amá-la. — Mas, enquanto a
superfície tem o sol, eu prefiro estar aqui com você.
Ele descansou sua testa contra a minha. — Eu ficaria muito honrado.
Ficamos assim por um longo momento. Eu notei a cicatriz de prata do
primeiro ataque de Cronus espreitando debaixo do colarinho de Henry, e eu a
segui. Ele estaria seguro no Submundo, e eu não teria que me preocupar com
sua segurança mais. Todos os outros, sim, mas não Henry.
— Na reunião do conselho... — Ele fez uma pausa e passou o polegar
contra o meu lábio inferior. — Você disse que eu não te dei um beijo de boa noite
desde que você chegou. Eu sei que ainda não é meio dia, mas agora seria um
tempo aceitável para resolver isso?
Eu sorri com tanta força que os músculos em minhas bochechas ficaram
tensos. Tinha sido um longo tempo desde que eu tinha sorrido assim. Eu perdi
isso. — Agora seria perfeito.
Quando seus lábios tocaram os meus, desejo inundou através de mim,
entrelaçando com o triunfo delicioso. Calliope não tinha vencido.
Não importava o que ela fizesse para mim ou quantos Titãs ela mandasse
para me matar, ela nunca levaria Henry para longe de mim.
Eu passei meus braços em volta do pescoço dele e deixei o meu corpo
moldar aos contornos do seu. Não havia nenhum substituto para o calor que me
encheu, nenhuma quantidade de me segurando à noite para compensar a falta
disto entre nós. Foi perfeito.
Henry, com todas as suas imperfeições, e eu com minhas - juntos, éramos
certos.
Ele deitou-me sobre o colchão e escovei minhas pilhas de roupa de lado
para dar espaço para nós dois. Ao pé da cama, Pogo soltou um grito irritado e
pulou para o chão. Gostaria de dar-lhe uma agradável coçada na barriga muito
depois, porque agora, ao menos que Cronus apareça no quarto, nada iria me tirar
de Henry.
Quando ele brincou com a barra da minha blusa, puxei-a e joguei-a no
meio das outras roupas. Ele espalhou a mão sobre o estômago nu e se afastou de
mim, me olhando com um olhar perplexo em seus olhos.
— O que é? — Eu disse, pegando a minha respiração. — Está tudo bem?
Ele levou um momento para responder. — Tem certeza de que deseja fazer
isso?
Todas as dúvidas que eu tinha voltaram correndo, mas depois de um
momento de pânico estonteante, lembrei-me que Persephone tinha me contado
sobre a noite de núpcias dela e Henry. Esta seria a primeira vez que faríamos sem
influência de um afrodisíaco, e se ele achava que havia uma chance de que eu
pudesse reagir, como Persephone tinha, então, sua hesitação fazia perfeito
sentido. Eu me forcei a respirar de forma constante. — Eu estou positiva.
Henry pareceu aceitar isso, mas quando ele se inclinou para me beijar de
novo, outra possibilidade terrível surgiu na minha mente, e eu virei minha cabeça
no último momento, então ele pegou meu rosto em seu lugar. — Por quê? Você
não quer? Não tem que acontecer se você prefere que não, está tudo certo. Eu
posso esperar. Quero esperar se você quer.
— Eu prometo a você que eu quero fazer isso mais do que qualquer outra
coisa no mundo, — disse ele, pressionando os lábios para o canto da minha boca.
— Eu queria desde que você primeiramente voltou, mas eu pensei que dar-lhe
tempo seria prudente.
— E lá estava eu, pensando que você preferia dormir em uma piscina de
lava do que comigo, — eu brinquei, mas não era inteiramente falso. Eu dei-lhe
um rápido beijo em troca. — Precisamos trabalhar em toda esta coisa de
conversar um com o outro. Teríamos feito muito mais se tivéssemos.
— Sim, nós teríamos, — disse ele antes de capturar meus lábios mais
uma vez. Eu habilmente desabotoei a camisa dele, e quando ela se abriu, eu me
afastei de novo.
— Você não vai ficar com raiva de novo e jogar coisas quando acabar, vai?
— Eu disse, e Henry me deu um olhar que desencadeou uma descarga de
eletricidade pela minha espinha. O olhar que Persephone tinha mencionado. O
olhar que eu sabia que nunca poderia esquecer agora que eu tinha visto.
— Você poderia, por favor, ficar em silêncio e deixar-me beijar você?
Rindo, o puxei de volta para mim. — Eu sou toda sua. — Ele deu de
ombros a camisa e passou as mãos pelos meus lados, e tudo o mais parecia
derreter. Ele era a única coisa que eu podia ver, a única coisa que eu podia
sentir, e eu não teria de outra maneira. Pela primeira vez desde que eu tinha
chegado ao Submundo, eu estava em casa.
Henry e eu passamos o resto do dia e da noite na cama juntos,
conversando e rindo e batendo as botas, como Ava tinha tão delicadamente
chamado. Entre nós dormindo enrolados juntos, com a minha cabeça em seu
peito e seu braço em volta de mim, a mesma posição que tínhamos dormido
durante meu tempo no Éden Manor. Era familiar e confortável e com tanta
incerteza pela frente de nós, eu precisava muito disso.
No meio da noite, acordei ao senti-lo pairando sobre mim, me olhando.
Presa entre o sono e a consciência, eu passei a mão em seu peito, mergulhando
meu dedo em seu umbigo. — Está tudo bem?
— Perfeito. — Uma bola brilhante de luz apareceu perto do topo da cama
de dossel. — Eu estava simplesmente pensando no futuro.
— O que tem? — Eu disse. — Se você vai tentar me convencer a não ir
atrás de Rhea, pode esquecer...
— Sempre tirando conclusões precipitadas. — Ele riu e me beijou, e eu
obedientemente calei. — Eu quis dizer como seria tê-la aqui durante todo o ano.
Eu nunca tive alguém passando muito tempo no Submundo comigo antes.
— Eu quero, — eu sussurrei. — Você é minha família agora. — Eu
esperava que ele me beijasse de novo, mas em vez disso ele se afastou. Na pouca
luz, eu pensei que eu o vi me estudando, mas a minha visão era turva do sono, e
eu não podia ter certeza.
— Você ainda quer ser minha rainha?
— É claro, — eu disse, confusa. — Eu pensei que estava implícito com
toda a coisa de ser sua esposa.
— Você não tem que assumir os deveres da rainha do Submundo agora,
se você acha que não está pronta, — disse Henry. — Você é minha mulher, não
importa qual o seu papel no trabalho que faço.
Eu não respondi imediatamente. Eu não podia controlar o poder que tive
até agora, quaisquer outros que vinham junto com governar o Submundo, não
havia garantia de que eu seria capaz de controlá-los, tampouco. — Você acha que
eu posso fazer isso?
— Sim, — disse Henry inequivocamente. — Você pode não entender tudo
de imediato, mas com o tempo, eu não tenho dúvida de que você será a melhor
parceira que eu poderia pedir. Você tem um dom raro...
— Derrubando tudo sobre mim mesma e estragando cada escolha que eu
faço? — Eu disse ironicamente, e ele apertou seu dedo aos meus lábios.
— Não toda escolha, — brincou ele, e sua expressão tornou-se sombria. —
Eu gostaria que você pudesse se ver da maneira que eu vejo você. Você tem a
extraordinária capacidade de unir as pessoas quando querem nada mais do que
ir embora e nunca mais voltar. Você vê as soluções mais simples, quando muitas
vezes vemos apenas as complicações, e você tem a esperança na mais impossível
das situações. Mas acima de tudo, você entende as pessoas. Quando você vê
alguém, você não vê as suas ações. Apesar de como você pode se sentir sobre
elas, você vê as suas motivações e tem compaixão para compreendê-los. É assim
que eu sei que você vai ser uma grande rainha. Nem mesmo eu tenho esse
autocontrole.
Eu não estava tão certa de que ele estava certo sobre tudo isso, mas a
sinceridade na sua voz parou minhas objeções. Não importava se ou não a sua
visão de mim era tendenciosa, o que importava era que ele acreditava em mim.
Eu segui um padrão invisível no oco de sua clavícula. A coisa mais
inteligente a fazer seria esperar.
Aguardar até o final da guerra, até que eu poderia fechar os olhos e ver em
qualquer lugar ou alguém que eu queria, esperar até que eu compreendesse o
que era viver, e muito menos morrer, mas como Henry me olhava com aqueles
olhos da cor do luar, brilhando na luz fraca flutuando acima de nós, eu sabia a
minha resposta. Eu tinha colocado minha vida em espera enquanto esperava
peka minha mãe morrer, eu não ia esperar mais. Eu não podia descartar as
esperanças de Henry só porque eu não estava cem por cento certa de que eu
poderia fazer isso. Henry estava, e isso significava mais para mim do que eu
poderia expressar.
— Sim, — eu disse, sem uma pitada de incerteza. — Eu quero ser sua
rainha, quando você for capaz de fazer a cerimônia. Assim que eu voltar, se você
quiser.
Henry pegou as minhas mãos na sua, e uma luz brilhante amarela
apareceu entre elas, etéreo e quente contra minha pele. — Eu não vejo um motivo
para esperar.
Meus olhos se arregalaram, mas eu não me dei a chance de duvidar disso.
Isso era o que eu queria. Eu tinha me preparado para isso desde o momento que
Henry tinha me encontrado no rio ao lado do corpo morto de Ava, e Henry estava
certo. Não havia nenhuma razão para esperar. — Nem eu.
Ele sorriu, e isso era tudo que eu precisava para saber que eu estava
fazendo a escolha certa. — Como minha esposa, você tem consentimento para
assumir as responsabilidades da rainha do Submundo, — disse ele, as mesmas
palavras que ele disse exatamente três meses antes. — Você deve governar de
forma justa e sem preconceitos sobre as almas dos que já partiram do mundo
acima, e do equinócio de outono para a primavera de cada ano, portanto, você
deve dedicar-se à tarefa de orientar aqueles que estão perdidos e proteger todos
de danos para além de suas vidas eternas. — Eu segurei minha respiração,
sabendo o que vinha a seguir. — Você, Kate Winters, aceita o papel de rainha do
Submundo, e você concorda em manter as responsabilidades e expectativas de
tal?
Desta vez eu não hesitei. — Sim, — eu sussurrei. — Cem por cento, sim.
A luz entre as nossas mãos desapareceu, e por um momento fomos
lançados para as trevas. Antes que eu pudesse sequer piscar, no entanto, todas
as luzes do quarto aumentaram o brilho - entre nossas mãos, flutuando acima da
nossa cama, até mesmo as chamas das velas - e uma grande harmonia ecoou
pelo quarto. Através do palácio. Através do Submundo inteiro, tanto quanto eu
sabia.
— Minha rainha, — disse Henry, beijando meus dedos. — Estou honrado.
Corei. — É isso, então? — Eu disse. — Eu sou... Eu sou Rainha?
— Estou certo de que o conselho vai exigir uma cerimônia mais formal,
mas você é minha rainha. — Ele segurou meu queixo e apertou seus lábios nos
meus, castamente primeiro, mas quando os segundos se passaram, a promessa
de mais formou entre nós. — Agora que você está acordada, devo dizer que seria
uma pena desperdiçar esta bela noite simplesmente conversando.
— Está sugerindo que comemorássemos? — Eu disse, e levantei as
sobrancelhas de brincadeira. Eu pensei que ser rainha faria me sentir diferente
de alguma forma, como algo dentro de mim teria mudado fundamentalmente,
mas eu me sentia a mesma. Eu ainda era eu, e com Henry ao meu lado, era tudo
que eu precisava ser.
— Eu estou sugerindo que esta será a nossa última noite juntos por um
tempo, — ele murmurou, — e eu gostaria de fazer mais do mesmo.
Sem palavras eu o beijei, derramando a cada pedaço de esperança,
felicidade e amor dentro de mim para ele. A luz esmaeceu quando ele abaixou-me
de volta para a cama, e pela primeira vez em muito tempo, eu tinha certeza de
que tudo ficaria bem.
Quando a manhã chegou, estávamos melancólicos. Depois que eu passei
20 minutos lutando para dobrar e enfiar tudo o que eu pensei que eu poderia
precisar em minha mala, Henry acenou com a mão e conseguiu pegar minhas
coisas para mim, em questão de segundos. Fingi não estar com inveja, mas
internamente eu esperava que Ava soubesse como fazer o mesmo. Se ela não o
soubesse, estaríamos gastando metade do nosso tempo tentando fechar essa
coisa e fazendo tudo caber, e tínhamos coisas muito mais importantes para se
concentrar.
Nós encontramos minha mãe, Walter, James e Ava no hall de entrada da
ala de hóspedes logo depois. Henry e eu caminhamos lado a lado, com o braço
dele em volta dos meus ombros, e eu me preocupei que ele não estaria disposto a
me deixar ir. Ele mal falou uma palavra desde que eu tinha fechado o zíper da
minha mala, mas cada vez que nossos olhos se encontraram, ele me deu um
pequeno sorriso triste, como se estivesse tentando provar que ele não estava
chateado comigo. Ajudou, mas não impedia a pontada de culpa sempre que eu
pensava sobre a possibilidade de que eu poderia não voltar para casa.
Ava parecia o inferno. Seus olhos estavam vermelhos e inchados, e pela
primeira vez desde que eu a conheci, seu cabelo não foi escovado.
Suas roupas estavam soltas e do tipo que eu usava para a cama, não os
tops apertados e saias reveladoras que ela normalmente usava. Ela olhou para o
chão, com as mãos enfiadas nos bolsos, e ela não fez tanto quanto piscar quando
seu pai passou por ela para se juntar a mim.
— Você está pronta? — Disse Walter, e eu assenti. Henry arrastou minha
mala atrás de si, e Walter colocou sua mão no ombro de Ava. — Minha querida,
você seria tão gentil? — Ava finalmente levantou os olhos do chão, e um momento
depois, a minha mala desapareceu.
— Está segura, — disse ela quando eu abri minha boca para protestar. —
Você vai tê-la quando chegarmos lá.
— Onde exatamente estamos indo afinal? — Eu disse, e James me
entregou um envelope feito de pergaminho pesado, o tipo que as pessoas devem
ter usado de mil anos atrás.
— Rhea se move muito, — disse ele. — Ela ficou no mesmo lugar pelos
últimos anos, porém, assim você pode ter sorte e encontrá-la antes que ela se
mova. Eu tenho as direções escritas. Se você chegar lá e você não puder
encontrá-la, Ava sabe como entrar em contato comigo.
Olhei de relance para Ava. Ela estava mesmo disposta a isso? Ela mexeu
em seus pés e se recusou a encontrar o olhar de alguém, e ela certamente não
parecia que estava prestes a ir em uma rápida viagem para encontrar uma Titã.
Por mais que eu queria tentar sacudi-la, porém, ela tinha todo o direito de agir
dessa forma. Nicholas tinha ido embora, e pelo que eu sabia, ela nunca iria vê-lo
novamente.
James parecia ter a mesma ideia que eu tive. Ele olhou para Ava, a boca
aberta como se estivesse prestes a dizer alguma coisa, e então ele fez uma pausa.
— Talvez eu devesse ir também, — disse ele. — Para se certificar que vocês vão
encontrá-la.
— Não, — disse Walter. — Quanto menos participarem do planejamento,
menos provável é a vitória.
Eu ofereci a James um pequeno sorriso. — Está tudo bem. Se nós
precisarmos de você, nós vamos conseguir falar com você, mas eu não acho que é
uma boa ideia, também. Você é obviamente necessário aqui.
Enquanto eu não estava mentindo, minhas razões para querer que ele
ficasse não tinha nada a ver com a existência ou não da necessidade de Walter.
James foi a primeira pessoa que Persephone tinha ido por trás das costas de
Henry, e mesmo que Henry sabia o quanto eu o amava, eu não tinha intenção de
dar-lhe uma razão para questionar. Infelizmente, por enquanto, James só se
tornaria um obstáculo, e Henry e eu tínhamos tido o suficiente desses
recentemente.
Henry me soltou o suficiente para deixar a minha mãe me abraçar, e eu
desejei com tudo que eu tinha que esta não fosse a última vez que eu iria vê-la.
Se Rhea era qualquer coisa como Cronus, não há como dizer o que poderia
acontecer, e se eu quiisesse ou não, eu tinha que me preparar para o pior.
— Cuide-se, meu amor, — minha mãe murmurou, e ela tirou uma mecha
de cabelo dos meus olhos. — Eu estou tão orgulhosa de você.
Meu rosto ficou quente. — Eu te amo.
— Eu também te amo, meu amor.
Ela abandonou-me para James, que me deu um abraço desajeitado e um
tapinha reconfortante no ombro. — Fique segura. Se você chegar a se perder, não
hesite em ter Ava me contatando.
— Eu não vou. — Fiz uma pausa e me inclinei para mais perto dele para
que ele pudesse me ouvir. — Eu escolho Henry. Depois que eu voltar, eu vou ficar
com ele durante todo o ano. Eu ainda vou ser sua amiga, mas Henry é meu
marido, e eu o amo. E eu vou sempre escolher ele.
Algo que eu não reconheci o que passou pelo rosto de James, e ele
concordou. — Enquanto a decisão é sua, eu vou respeitá-la, — disse ele, e mesmo
que eu suspeitava que iria mudar no momento em que pensasse que Henry não
estava sendo o tipo de marido que James acreditava que ele deveria ser, por
agora eu não pressionei a questão.
— Obrigada, — eu disse, e James me beijou de leve no rosto, uma
despedida silenciosa para mim e uma eternidade de poderia ter sido.
E então foi a vez de Henry, e ele reuniu-me, enterrando seu nariz no meu
cabelo. Por um momento, seus braços eram tão firmes em torno de mim, que eu
pensei que ele não iria soltar, mas eventualmente ele fez. Peguei suas mãos.
— Eu vou estar de volta logo que eu puder, eu prometo, — eu disse,
mesmo que eu sabia que era um voto que posso não ser capaz de manter. —
Basta lembrar o que temos para olhar para frente, tudo bem?
— Por favor, não vá, — disse ele calmamente. — Eu vou fazer o que você
me pedir, mas eu simplesmente não sei o que eu faria se algo acontecesse com
você.
— Nada vai acontecer comigo. — Levantei-me na ponta dos pés, e mesmo
que todo mundo estava olhando, eu o beijei, aprofundando por alguns segundos
antes de eu relutantemente cair de volta para meus calcanhares. — Eu preciso
fazer isso, e depois de pronto, eu não vou brigar com você em sua decisão de ficar
de fora da guerra. Você tem a minha palavra de que vou ficar de fora, também.
Ele ainda parecia infeliz, mas pelo menos ele acenou com a cabeça. Henry
segurou a parte de trás do meu pescoço e me beijou de novo, e eu fechei os olhos,
desejando que eu não tivesse que ir embora.
Todos os desejos do mundo não mudariam os perigos em que estávamos
todos, no entanto, e eu poderia ou me esconder com Henry para me proteger, ou
eu poderia fazer algo sobre isso. Assim como eu sempre escolheria Henry, eu já
tinha feito essa escolha, também.
— Eu te amo, — eu sussurrei quando ele se separou, e por um breve
momento, o rosto dele amassou, como se ele estivesse prestes a chorar. Ele
rapidamente alisou-o novamente, e o único sinal de como ele realmente sentia era
o vermelho aparecendo em seus olhos.
— Eu também te amo, — disse ele. — Por favor, volte para casa.
— Eu vou.
Dando-lhe um último beijinho na bochecha, me juntei a Ava no outro
extremo do hall de entrada e acenei, mas apenas minha mãe acenou de volta. —
Vamos, — eu disse a Ava, ligando o braço dela no meu. Ela abriu a porta sem
dizer nada, e sem olhar para trás, caminhamos pelo jardim de joias em direção ao
portal que nos retornaria ao Éden.
A viagem até o portal e através da rocha foi tão chocante como tinha sido
quando James tinha primeiramente me levado para baixo. Eu mantive meus
olhos firmemente fechados e me segurei em Ava tão firmemente quando eu ousei,
mas nenhuma quantidade de fingir que estava em outro lugar manteve a náusea
na baía.
Quando paramos de nos mover. Abri os olhos. O foyer do Éden Menor nos
cercava, e deixei escapar um suspiro de alívio.
Isso não era algo que eu queria fazer, muitas vezes, e evitando o portal só
poderia muito bem ter me convencido a permanecer no Submundo com Henry.
Lá fora, era o auge do inverno. A neve caía em pedaços grossos,
agarrando-se às árvores que ladeavam o caminho em direção ao portão, e eu
levantei meu rosto para o céu, colocando minha língua para fora na esperança de
apanhar um floco.
— Eu senti falta da neve, — eu disse. — Por que não foi ideia de ninguém
da pós vida perfeita cheia de neve? O que há de tão especial sobre o tempo
quente, afinal?
Eu quis dizer isso como uma piada, mas Ava parou, seu aperto no meu
cotovelo como um torno. — Espere.
— O que? — Disse. — Ava, nós temos que ir.
Ela balançou a cabeça. — Não, ainda não, devemos obter Henry, James
ou ou...
Eu arranquei a mão dela de cima de mim. — Eu sei que você está
chateada sobre Nicholas, mas quanto mais cedo nós acharmos Rhea, mais cedo
nós vamos ser capazes de resgatá-lo. Nós não podemos fazer isso se
continuarmos voltando para dizer adeus.
— Não é isso. — Ava engoliu, mas eu já estava no meu caminho sobre o
monte. — Kate, pare...
Ela correu atrás de mim, e eu apressei o passo. O que quer que a estava
incomodando poderia esperar até que estivéssemos em um avião para onde quer
que nota de James especificava.
Ava apanhou-me a poucos metros do portão, e ela agarrou meu braço
novamente. — Kate, por favor, você não entende...
— Olá, Kate. — Calliope entrou na estrada de terra que corria paralela à
porta, um sorriso diabólico torcia em seus lábios.
Eu congelei. Não podia ser. Medo congelante tomou conta de mim,
apagando tudo o que eu senti naquela manhã. Eu ia morrer.
Calliope ia me matar e amarrar meu corpo através dos portões do Éden
para Henry achar quando ele viesse me procurar.
— Você não pode, — disse Ava desesperadamente. — Calliope, por favor,
você não entende...
— É claro que eu entendo.
O portão se abriu, e Calliope dobrou o dedo dela em nossa direção. Cavei
meus calcanhares no chão, mas uma força invisível arrastou-me para ela, além
do limite do Éden Manor. Ava puxou meu braço, tentando em vão me parar.
— Você fez bem, — disse Calliope a Ava. — O seu marido vai ter orgulho
de saber que a sua esposa está disposta a ir tão longe para garantir sua
segurança, e você deve colher os frutos da lealdade que você me mostrou.
Minha boca caiu aberta. Olhos de Ava encheram com lágrimas, e ela
tentou pegar minha mão, mas eu puxei de volta. — Você sabia que ela estaria
esperando?
— Eu sinto muito, — ela sussurrou. — Eu estou tão, tão triste, Kate. Eu
não sabia.
— Claro que você sabia, — disse Calliope com um gesto de sua mão, e o
portão soou fechado. — Não finja que não teve nada a ver com isso, Ava. Mentir
não é muito atraente.
— Por que você fez isso comigo? — Eu disse a Ava, atordoada. — Por que
você fez isso para Henry e o resto do conselho?
Ava soluçou. — Calliope, você não pode, por favor. Eu vou fazer de tudo,
só - Você não pode. Ela está grávida. — Grávida. Eu pisquei. Quem? Calliope?
Ambas olharam para mim, o rosto de Ava uma bagunça de culpa e desespero e
Calliope brilhando com satisfação, e todo o ar deixou meus pulmões.
Eu. Ava quis dizer eu.
Lutei contra a força que me segurava. Eu precisava voltar. Voltar à
segurança e ao Submundo e ao Henry, mas meus pés estavam enraizados no
chão. — Sim, eu sei, — disse Calliope. — Você fez sua parte admiravelmente, Ava.
Eu olhei para frente e para trás entre elas, tão tonta que eu mal podia ver
direito. — Eu não entendo, como você poderia... Ava, o que você fez?
— Nada, — ela gritou. — Eu juro, Kate, eu não fiz nada. Ela, ela queria
que eu fizesse vocês dois dormirem juntos, mas eu não fiz, eu prometo.
Meu coração batia forte. Não, Ava não teve nada a ver com o dia anterior,
eu tinha certeza disso. Não era como o afrodisíaco que Calliope havia nos dado no
Éden. Ava sabia, embora. Ela sabia, e ela não tinha feito nada para impedir.
— Eu não poderia dizer que estava grávida até que você chegasse até aqui,
— disse Ava. — Eu sinto muito. Eu nunca teria...
— Mas eu não estou, — disse eu, perplexa. — Eu não posso estar. Nós
apenas...
— Tudo o que tinha a fazer era dormir com Henry, — disse Calliope. — Eu
fiz o resto.
Ela contraiu o dedo, e eu caí de joelhos na neve. A coisa que ela tinha feito
para mim, eu percebi, horrorizada.
A deusa do casamento e das mulheres. E da fertilidade.
Este tinha sido seu plano o tempo todo.
— Eu lhe disse que eu iria tirar de você o que você mais amava, — disse
Calliope, e uma grande pedra negra apareceu em sua mão. Era o mesmo tipo de
rocha que tinha estado na caverna, e nevoeiro rodou dentro dela. Ela riu. — O
que, você achou que eu quis dizer Henry?
Uma onda de náusea tomou conta de mim. — Por favor, — eu sussurrei.
Seus olhos se estreitaram, e eu sabia que era inútil.
— Você fez isso a si mesma, — disse ela. — E à sua criança. O troco é
uma cadela, não é?
Com isso, ela rachou a pedra contra a parte de trás da minha cabeça, e
meu mundo ficou preto.

Fim.
GUIA PARAOS DEUSES
Zeus............... Walter
Hera............... Calliope
Poseidon............... Phillip
Deméter............... Diana
Hades............... Henry
Hestia............... Sofia
Ares............... Dylan
Afrodite............... Ava
Hermes............... James
Athena............... Irene
Apollo............... Theo
Artemis............... Ella
Hefesto.............. Nicholas
Dionysus............. Xander