Você está na página 1de 36

3

Proposta de Paz 2010

NOVOS VALORES
PARA UMA NOVA ERA
Por Daisaku Ikeda,
Presidente da Soka Gakkai Internacional

Enviada às Nações Unidas (ONU)


Por ocasião do 35º aniversário da SGI, em 26 de janeiro de 2010
4

Tradução: Elizabeth Miyashiro

Revisão: Thiago de Mello

Colaboração: Elizangela Gomes Marques


Susan Scaranci Ribeiro
Astolfo Valentim Vieira Martins

Arte: Iusse José Filho

Capa (arte e montagem): Henrique Kubota

Foto original: Photos.com

Todos os direitos reservados à Editora Brasil Seikyo Ltda.


Editora Brasil Seikyo Ltda. Administração e redação: Rua Tamandaré, 1.040
São Paulo, SP — CEP: 01525-000
Fones: (11) 3274-1940 / 1941 — Fax: (11) 3274-1949
CNPJ nº 61.612.891/0001-21
Matrícula na Lei de Imprensa nº 2092 — Registro no INPI nº 0060117320
Diretor-Presidente: Wagner Takeshi Issami
Jornalista responsável: Júlio Tadachi China (matrícula no DRT nº 17.595)
Impressão: Prol Editora Gráfica Ltda.
5

Proposta de Paz 2010

NOVOS VALORES
PARA UMA NOVA ERA
Neste 80º aniversário da Soka Gakkai e 35º tunidades de emprego, em virtude da ênfase na po-
aniversário de fundação da Soka Gakkai Interna- lítica de energia renovável.
cional (SGI), minha primeira palavra é de soli- O sistema financeiro mundial, então à beira do
dariedade às vítimas do devastador terremoto no colapso, estabilizou-se graças às ações políticas coor-
Haiti. Oro ardentemente por todos os afetados e con- denadas de vários governos. Contudo, isso resultou
fio que a comunidade internacional reúna esforços em deficits orçamentários massivos e a situação de
de auxílio à reconstrução do país. emprego permanece calamitosa.
Quero sugerir algumas NASA Profundas são as raí-
formas eficazes para a zes da crise. Tudo indica
construção de um mundo que uma recuperação ple-
de paz, minha constante na ainda está distante.
preocupação. Faz um ano Existe, sim, a possibili-
que Barack Obama tomou dade de uma “recessão
posse como presidente dos dupla”, como a da Gran-
Estados Unidos. Sob a de Depressão dos anos 30.
bandeira da “mudança”, O presidente Obama
a eleição do primeiro pre- impulsiona uma transfor-
sidente afro-americano mação fundamental na
dos Estados Unidos criou questão das armas nuclea-
grandes expectativas nos res — produto demonía-
povos do mundo. co da civilização científi-
A recessão global, pe- co-tecnológica moderna.
la falência do banco de in- No discurso de Praga, Re-
vestimentos Lehman Brothers, em setembro de 2008, pública Tcheca, em abril de 2009, falou da respon-
alimentou ainda mais as esperanças de que alguma sabilidade moral dos Estados Unidos por ser o úni-
mudança seria anunciada pelos Estados Unidos. O co país a usar bombas atômicas na guerra. Obama
Ato Americano de Recuperação e Reinvestimento, clamou por um mundo liberto dessas armas, geran-
assinado no mês seguinte à posse de Obama, atraiu do novo ímpeto aos esforços para o desarmamento,
a atenção de todos, como um processo de novas opor- paralisados há muito tempo.
6

A abolição dessas armas é Jossei Toda, segundo presidente da Soka Gakkai e dividuais para alcançar gran-
uma questão antiga, de extre- autor da Declaração pela Abolição das Armas Nucleares des objetivos. Expectativas po-
ma importância para mim: dem ser frustradas. Espero que
compromisso que mantenho a comunidade internacional
com meu mestre, o segundo assuma esses desafios, sem
presidente da Soka Gakkai, perder de vista o seu ideal du-
Jossei Toda (1900-1958). Não rante a luta para vencer todas
me canso de enfatizá-la nos as dificuldades.
meus encontros com intelec-
tuais e líderes políticos ao lon- Perda de valores
go dos anos. Em 8 de setem-
bro de 2009, lancei a propos- Quero me deter numa
ta “Construindo a Solidarie- questão profunda: o pessimis-
dade Global pela Abolição das mo. Ou ainda: o niilismo que
Armas Nucleares” para cele- permeia a sociedade contem-
brar o brado cinquentenário porânea.
de Toda pela eliminação des- O niilismo é comu- WI K
IME
DIA
sas armas apocalípticas. mente atribuído a
Elas representam os impulsos negativos mais pro- Friedrich Nietzsche (1844-1900) por
fundos do coração humano, em toda a história de sua afirmação da morte de Deus. Con-
nossa espécie. Sei que eliminá-las é tarefa difícil. vém notar, entretanto, que não se tra-
É ilusão esperar progressos rápidos. Como o próprio ta de um fenômeno exclusivamente
presidente Obama advertiu ao receber o Prêmio No- europeu. Tem genealogias múltiplas no
bel da Paz: pensamento oriental. Uso aqui o termo em re-
ferência à patologia da civilização que paira como
A não violência de Gandhi e Luther um miasma sobre o desolado panorama hu-
King pode não ter sido possível nem mano ferido pelas contradições da globa-
é aplicável em certas circunstân- lização. Essa tendência é visível no Ja-
cias, mas o amor que pregaram — pão, no teor quase sempre pessimista do
a fé no progresso humano — deve discurso. A razão disso, acredito, não se
1
sempre guiar nossa jornada. ©
LIB
limita ao fim da era de consistente cresci-
RA
RY
OF C
ONGRESS mento econômico.
Como Gandhi observou, “O bem Essa decadência é caracterizada pelo pessimis-
2
viaja com velocidade de lesma”. mo e niilismo que difere da experiência das pessoas
É, portanto, vital manter uma po- durante a Grande Depressão da década de 1930,
sição flexível e persistente; evi- quando o socialismo era colocado como alternativa
M
tar prejulgamentos de políticas in- para o sistema em vigor. O atual pessimismo pare-
K
GA
NG
HI. OR
7

Proposta de Paz 2010

ce o oposto da energia frenética de uma bolha in- ção profunda de nossas prioridades.
LGAÇÃO
/ DIVU
flacionária, mas na realidade, é simplesmen- RAMA O objetivo básico da civilização moder-
te um aspecto daquelas contradições. na é fazer da capacidade econômica — a
O cientista político francês Emmanuel habilidade para o maior lucro possível e
Todd faz a seguinte análise do que cha- o acúmulo de riqueza — o critério único
ma de “culminação lógica” da globaliza- do valor humano. Esta tendência crônica
ção centrada das finanças: “Ao querer ‘li- da civilização capitalista moderna — ali-
bertar o indivíduo’ de qualquer pressão coleti- mentada pela expansão sem limites da ambição
va, só conseguiu fabricar um anão amedrontado e — permanece essencialmente incorreta mesmo de-
desanimado, que procura a segurança na diviniza- pois do experimento devastador do comunismo so-
3
ção e no entesouramento do dinheiro”. viético. Quase quarenta anos depois da advertência
O reverso do mamonismo (culto do dinheiro) é, do Clube de Roma com Os Limites do Crescimento,
em outras palavras, o niilismo. Aspectos que pare- a humanidade já precisa aprender com as lições da
cem diametralmente opostos são, na realidade, gê- atual recessão global e reconhecer essa patologia.
meos nascidos da civilização moderna. São produ- Sejamos conscientes: o padrão de valores que
tos desta era que poderia ser chamada de “era da avalia a qualidade humana a partir de termos eco-
perda de valores”. Nenhuma outra medida é reco- nômicos é o que Todd chama de sistema de valor de
nhecida além da monetária. Até mesmo discussões mediocridades. Ou melhor, de total ausência de va-
de aspectos negativos da globalização, como a po- lores. Precisamos perguntar a nós mesmos pelas ra-
breza e a disparidade de renda, são consideradas zões do pessimismo e do niilismo tão difusos em so-
em termos de valores monetários, tornando-os im- ciedades industriais avançadas, onde o padrão de
produtivos e desumanos. vida avaliado em termos rigorosamente materiais,
A crescente desigualdade de renda é inegável. superam monarquias e aristocracias do passado.
Não podemos fechar os olhos para tantas tragédias
que dela se originam, inclusive crimes e suicídios. Refreando a cobiça
Há muito tempo saliento que existe uma clara res-
ponsabilidade política para enfrentar a situação. As maiores forças que levam ao desenvolvimen-
Medidas legais e sistêmicas para manter uma rede to da civilização moderna são a ciência e a tecnolo-
de segurança social são exigências dos valores éti- gia. Yoshiharu Izumi, cientista que explora a rela-
cos, como equidade e justiça, sobre os quais toda ção entre religião, o budismo em particular, e a ciên-
ordem social próspera repousa. Contudo, minha preo- cia, afirmou: “A humanidade busca um modo de vi-
cupação maior é com o precário resultado dos es- da estável e seguro, com a religião servindo de vo-
forços para melhorar as condições físicas e tangí- lante e freio para guiar e contrabalançar o acelera-
veis. Porque só combatem os sintomas. O funda- dor da ambição que carrega o motor do intelecto”.4
mental é eliminar as causas. Para assegurar a efi- De fato, a civilização moderna e, em especial, o
cácia genuína e duradoura de nossa resposta é im- sistema capitalista moderno era, aos olhos de Max
prescindível um mergulho espiritual, uma reavalia- Weber (1864-1920), caracterizado por um modo de
8

vida em que o grau de estabili- Engenharia Genética cia daqueles preocupados em


dade era assegurado pelo fun- A engenharia genética consiste num conjunto transformar o mercado finan-
cionamento de éticas protestan- de técnicas da biologia molecular. Possibilita a ceiro num cassino gigante.
tes, agindo para frear um dese- modificação do genótipo de uma pessoa, Se a tendência do motor do
acrescentando ou removendo informação
jo desimpedido. Em outras pa- intelecto — ou seja, ciência e
genética específica de células vivas. Há dois
lavras, questões embasadas no tecnologia — escapar do con-
principais métodos: somático (que muda a
valor — Qual o objetivo do tra- trole e não for freada, poderá
constituição genética de células que compreen-
balho, dos esforços árduos de dem órgãos e tecidos — fígado, cérebro, ossos — gerar consequências realmen-
acumulação? — eram aspectos de um indivíduo em particular) e em células te fatais para a humanidade. Os
da vida diária. Isso proporcio- germinativas (que insere genes em óvulos ou horrores de Hiroshima e Naga-
na certo equilíbrio ao espírito esperma, ou em células não diferenciadas de um saki puseram fim à fé no pro-
humano e à vida das pessoas. pré-embrião). A engenharia genética em células gresso que já havia sido forte-
W
IKIM
EDIA
Quando o volante e o germinativas afeta cada célula do corpo do mente abalada pelos aconteci-
indivíduo resultante e as mudanças são passadas
freio param de fun- mentos das primeiras décadas
para todas as futuras gerações.
cionar, tudo o que Embora a engenharia em células germinativas
do século 20. O pesadelo de-
resta são os exces- seja em alguns casos sugerida como um meio sencadeado pelo desenvolvi-
sos do que Weber para evitar a transmissão de doenças hereditárias, mento de tecnologias de armas
chamou de “espe- o fato é que alteraria permanentemente a genética nucleares demonstra claramen-
cialistas sem espírito, da espécie humana, tornando impossível prever te o imenso perigo da interação
sensualistas sem coração”.5 Po- o seu impacto a longo prazo. de conhecimento de ponta, in-
De forma esmagadora, líderes das áreas política,
de-se dizer que a condenação telecto e desejo insaciável de
religiosa e científica opõem-se à manipulação das
que hoje se faz ao supercapita- poder — incluindo o desejo de
células germinativas em seres humanos.
lismo — cobiça incontrolável dominar os outros, condição de
— representa a fase terminal desse processo, em que vida que o budismo denomina de estado de Fome.
o desejo e o intelecto romperam totalmente com quais- O físico nuclear e ativista da paz Joseph Rotblat
quer estruturas éticas. (1908-2005) descreve no
A bolha de crédito que livro do qual sou coautor o
originou a atual crise finan- desespero que o dominou
ceira enraizou-se na expan- ao saber que uma arma atô-
são do mercado altamente mica fora usada contra Hi-
especulativo de derivados roshima. De fato, poucos
desenvolvido pela enge- eventos lançaram sombras
nharia financeira de pon- tão escuras de niilismo —
ta. Não é de admirar que a obliteração de todos os
questões de propósito ou valores — sobre o futuro
Encontro com
impacto maior sempre se Joseph Rotblat da humanidade.
chocaram com a consciên- (fevereiro de 2000) Outra ameaça do niilis-
9

Proposta de Paz 2010

A ÇÃO
ULG
DIV
DP
A/ mo contemporâneo reside no desenvol- o que realmente perturba não é a tecnologia em si,
vimento potencial de formas extremas mas a absurda resposta, totalmente inadequada, que
de biotecnologia, como a engenharia damos aos desafios que ela apresenta.
genética de células germinativas.
Francis Fukuyama (Nosso Futu- 350
A linguagem e os
.O
RG
ro Pós-Humano: Consequên- valores do bem
cias da Revolução da Biotecnolo-
gia) e Bill McKibben (Enough: Staying A filósofa francesa Simone Weil (1909-
Human in na Engineering Age) estão en- 1943) escreveu em 1941 em tom de la-
tre os que sugerem a ostensiva possibili- mentação: ”As principais características
dade de um mundo “pós-humano”, em que da primeira metade do século 20 são o cres-
a herança espiritual acumulada em milênios cente enfraquecimento e o quase desapareci-
— moralidade e religião, cultura e arte — mento do conceito de valor”. Cita a obser-
serão insignificantes e sem valor. vação de Paul Valéry (1871-1945) de que
A engenharia genética pode, por pu- decaiu toda uma classe de palavras, es-
ro egoísmo das pessoas (o desejo de per- pecialmente as que se referem ao bem.
feição delas e de seus descendentes), atin- “Palavras como virtude, nobreza, honra,
R
gir um nível de desenvolvimento que escapa PAULVALERY.F
honestidade, generosidade tornaram-se de uso
à nossa consciência. Assim, se a tecnologia das ar- impossível e ainda adquiriam significados adulte-
mas nucleares é considerada uma ameaça à exis- rados; a linguagem quase já não serve mais para
tência da humanidade, a manipulação de célu- enaltecer legitimamente o caráter humano”. Weil
las germinativas pode ser vista como um de- referiu-se a isso como “enfraquecimento do
safio à nossa humanidade, ameaça à in- senso de valor”.6
tegridade fundamental dos seres huma- A visão de Simone Weil assim como
nos. Envolvendo ambas as ameaças tec- a do filósofo contempo-
nológicas está a sombra escura do niilis- râneo Gabriel Marcel
mo, às vezes manifestando confiança arro- SIM
(1889-1973), incorpo-
IVULG AÇÃO

O NE.W
EIL.FREE.FR
gante, outras vezes fria indiferença... ra verdades eternas. Po-
A ciência e a tecnologia divorciadas da questão demos aplicar facilmente as
EL/D
RC

do valor estão sujeitas a não ter controle algum da conclusões de Weil para a nos-
MA
R IE

A
M
N-
realidade e encerram a possibilidade de WIKIP
EDI
sa atual situação. De fato, o mal JEA
A

conduzir a sociedade a perigo mortal. que ela descreve tem se agravado. A guerra já
Numa era em que o acúmulo de co- representa a patologia humana de forma tão
nhecimento científico já atingiu o concentrada que o uso de armas de destrui-
ponto de não retrocesso, ganham re- ção em massa e de técnicas de terrorismo têm
levo as ideias de Martin Heidegger tornado essa violência quase que totalmente
(1889-1976) em relação à tecnologia — indiscriminada: nos impede de perceber o valor
10

moral do relacionamento Edifício do Seikyo Shimbun ideais de nossas publica-


com as pessoas como in- (jornal diário da Soka Gakkai) ções, como o jornal Seikyo
divíduos únicos e insubs- Shimbun.
tituíveis. “Sem se deixar in-
“Soka” significa, lite- fluenciar pelas tendências
ralmente, “criação de va- da época, o Seikyo Shim-
lores” e os membros da bun expõe uma clara filo-
Soka Gakkai Internacio- sofia, oferecendo o que é
nal estão determinados a mais necessário para a era
responder, a nível mais atual.” “O Seikyo Shim-
profundo, ao desafio do bun oferece às pessoas
niilismo — perda de va- uma fonte de energia e fe-
lores que prevalece atualmente — e a reconstruir licidade e continua a ser amplamente lido, porque
os caminhos que levam com segurança a civiliza- se mantém fiel às perspectivas que a sociedade ja-
ção descontrolada. Consideramos essa empreitada ponesa mais deve valorizar: a paz, a cultura e a edu-
uma das mais significativas dentro de um contexto cação.” “Tolstoi, Goethe e Hugo são gigantes da his-
maior de história humana. tória espiritual da humanidade. Numa época em que
O nosso movimento visa a dissipar as nuvens do muitos estão preocupados com o declínio da cultu-
niilismo para revelar a linguagem e os valores do ra, o Seikyo Shimbun é provavelmente a única mí-
bem que definha e está à beira da extinção. É um dia em que as palavras desses gigantes aparecem
movimento silencioso para reviver o espírito huma- com grande regularidade.”
no e despertar cidadãos comuns, exortando-os a es- Esses comentários mostram que as pessoas de bem
colher o bem que seja fruto do autodomínio e que possuem elevadas esperanças no nosso movimento e
resista às armadilhas do mal. É uma tentativa de na capacidade de romper com o atual impasse entre
transformação fundamental das prioridades huma- o pessimismo e o niilismo que prevalece.
nas, baseada na ideia de que uma mudança no des- Tchinguiz Aitmátov, escritor quirguiz, foi um gran-
tino de um único indiví- de amigo que faleceu em
Tchinguiz Aitmátov,
duo pode transformar o escritor (maio de 1994) 2008. Ele compartilhou o
destino de toda a humani- seguinte episódio, que
dade — tema-chave de transmite a sensibilidade
meu romance Revolução única de um romancista
Humana. notável a um ponto que eu
Muitos comentaristas tenho tentado alcançar.
compreendem a essência Conselheiro de Mikhail
do nosso movimento pela Gorbachev, quando este
criação de valores e ex- era presidente da União
pressam simpatia pelos Soviética, Aitmátov teste-
11

Proposta de Paz 2010

munhou a perestroika. Como Ele enfatizou a ideia de uma


escritor, por longos anos, lu- religião cósmica ou “senti-
tou contra a censura imposta mento religioso cósmico”.8 Is-
pelas autoridades políticas. so coincide com o conceito de
Depois do colapso da União “realidade espiritual derra-
Soviética, a preocupação do deira”,9 que o historiador bri-
escritor voltou-se para a emer- tânico Arnold Toynbee (1889-
gência de nova e talvez ainda 1975) e eu exploramos em
mais intimidadora forma de Um dos momentos do diálogo entre Toynbee e Ikeda. nosso diálogo. Entrar nesse
censura: a comercial. Aitmá- A esposa do historiador, Veronica, e a Sra. Ikeda domínio, de forma tangível,
acompanham atentas (Londres, maio de 1972)
tov descreveu o seguinte epi- requer uma sensibilidade em
sódio: Um jovem jornalista investiu toda a sua for- particular, uma intuição religiosa e filosófica que
tuna para criar um jornal de qualidade. Porém, de- torne relativos os conceitos de tempo e espaço que
pois de dez edições, o jornal faliu. O amigo do jo- têm sido a base da ciência moderna.
vem fez-lhe o seguinte comentário: “Seu jornal não Mas essa sensibilidade não é absolutamente al-
traz artigos sobre fofocas, não publica boatos espa- go que só os gênios possuem. Se observarmos além
lhafatosos, nem notícias de mortes. Quem compra- das diversas atividades da vida diária — o aspecto
7
ria um jornal desses?” ruidoso de uma sociedade de informação que exige
Aitmátov comparou o episódio ao Seikyo Shim- muito das terminações nervosas das pessoas — des-
bun, dizendo que o jornal não publica fofocas, nem cobriremos uma capacidade inata para valorizar a
invencionices e consegue manter um conteúdo de realidade genuína, para ouvir as “batidas do cora-
elevado nível cultural. E o mais importante é que ção” daquilo que realmente vale a pena ouvir.
continua sendo lido por milhares de pessoas. Este
feito, ele observou, é extraordinário. A vida está no aqui e no agora
É nossa convicção imutável que na religião está
a fonte de energia para criar valores e abrir as por- Fiquei impressionado com as seguintes palavras
tas de uma nova era. Existe a necessidade de uma de recente entrevista com o crítico literário japonês
religião que seja compatível com a Ciência e a abar- Shozo Kajima: “Somente o aqui e o agora é real...
que, que sirva para guiar e frear as tecnologias que, Precisamos viver com paixão o aqui e o agora. Quan-
se mal utilizadas, podem causar a devastação da hu- do o sentimento de uma pessoa murcha, ela também
manidade. envelhece”. Sobre a tendência da civilização
Autor da famosa declaração “Deus não moderna de buscar felicidade e plenitude
joga dados”, Albert Einstein (1879-1955) fora dela, Kajima clama às pessoas a “des-
foi firme na rejeição ao milagroso. Nos pertar para a riqueza das capacidades
últimos anos de vida, contudo, Einstein que nem sabem que possuem”.10
mostrou-se cada vez mais sensível à na- A frase “aqui e agora” remete ao provér-
©
LIB
tureza harmoniosa e integrada do cosmos. RY OF CONGRESS
RA
bio “Cave debaixo dos próprios pés e aí acha-
12

rá uma fonte” e também à declaração de Einstein: próprias tecnologias que criamos, oscilando descon-
“Minha eternidade é agora. Tenho apenas um interes- troladamente entre eufóricas bolhas econômicas,
se: cumprir com o meu propósito aqui onde estou”.11 pânico e desespero. A realidade será consumida por
Essa ideia coincide profundamente com a visão sua contraparte virtual. A principal função da reli-
do budismo. Conceitos fundamentais do Budismo gião é ajudar as pessoas a fincar os pés firmemen-
Mahayana — a simultaneidade de causa e efeito, a te no aqui e no agora, de tal maneira que percebam
correspondência do infinito passado com os Últimos a necessidade de corrigir o seu curso.
Dias da Lei, a iluminação imediata, a consecução do Na tradição budista, o caminho do bodhisattva é
estado de Buda na presente forma — não conforme um modo de vida dedicado ao compromisso social.
a passagem linear do tempo físico ou histórico, mas Está enraizado num senso de unicidade com a vida
que só podem ser compreendidos por meio de con- do cosmos, ao mesmo tempo, está comprometido
ceitos de tempo e espaço, diferentes daqueles que com a ação corajosa e o projeto de “viver bem”, do
estão na base da ciência no período moderno. agora para o porvir.
Como Nietzsche observa em seu ensaio “Uso e Einstein, ao buscar o sentimento religioso cós-
Abuso da História na Vida”, a ideia de um passado mico, manifestou a consciência e o caráter univer-
fixo ou de um futuro adicional condicionado pelo sal enquanto se dedicava às atividades pela paz.
tempo físico ou histórico é limitada: não pode in- Do mesmo modo, o pioneiro que decide se levantar
fluenciar no nosso modo de viver. Cada história, sozinho pela transformação da história está viven-
mesmo factual, torna-se estranha a nós, inadequa- do o momento presente, vitalmente comprometido
da à realidade da nossa vida. neste instante com a criação de valor. Ele é levado
No registro minucioso da interpretação de Niti- por impulsos irresistíveis de consciência e, frente
ren Daishonin (1222-1282) do Sutra de Lótus, ele ao rico espectro de possibilidades de espaço e tem-
diz: “Na palavra ‘desde’ (irai), o elemento i (já, ou po compreendido naquele seu momento, corajosa-
decorrido) refere-se ao passado, e o elemento rai mente gera a linguagem de valores do bem.
(porvir) refere-se ao futuro. O presente está incluí- Não há caminho fácil nem para aprender, nem
do nesses dois elementos i e rai”.12 É nada mais para realizar o bem. Não temos escolha, a não ser
que um instante no fluxo do passado para o futuro. assumir deliberadamente desafios difíceis, com os
Mas, este presente instante é uma realidade que pés fincados na realidade, aprimorando-nos inces-
compreende o infinito passado e o ilimitado futu- santemente na fornalha da alma. Este é o caminho
ro: fonte de energia mais profunda e essencial. É direto para a conquista do bem.
essa força que, embora sujeita ao passado, abre es- Como Marcel observou: há sempre uma tensão
peranças para o futuro. entre “a individualidade das circunstâncias e a uni-
Neste sentido, agora é o ponto de partida para versalidade da lei”. Considerou essa tensão “o pon-
tudo. O aqui e o agora são a base, o eixo, o princí- to crucial, a fonte” de valor.13 O budismo ensina: “O
pio e o fim de todos os aspectos da atividade huma- superficial é fácil de abraçar, o profundo é difícil”.14
na. Se perdermos isso de vista e basearmos a vida Esta frase brilha como eterno guia para a vida.
num mundo virtual, acabaremos como escravos das Para vencer essa tensão, essa fornalha, sem des-
13

Proposta de Paz 2010

vios é preciso disposição para buscar o profundo e nos A fornalha da luta espiritual
fortalecer dia a dia, mês a mês. Aqui encontramos a
tensão do coração que possibilita romper com a ten- ED
IA O filósofo espanhol José Ortega
M
IKI
dência do ser humano a sempre buscar o caminho fá- y Gasset (1883-1955) usou o ter-

W
cil, em vez da constante conquista da superação. mo “a vida da história” para
Tudo, em essência, é impermanente. A realida- descrever esta fornalha de in-
de é uma sucessão interminável de transformações. cessante luta espiritual e ofere-
Um adágio ensina que se você não vir alguém por três ceu a seguinte vívida descrição:
dias, espere o próximo encontro com mais esperan-
ça. Em outras palavras, a pessoa que se esforça pa- Não creio na absoluta determinação da
ra amadurecer, em apenas três dias, dá sinais de mu- história. Ao contrário, penso que toda vida
dança. Quem explora as profundezas, logo vai sen- e, portanto, a história, compõem-se de sim-
tindo as mudanças. Responderá a elas com acuida- ples instantes, cada um dos quais está rela-
de, sem deixar de avançar para a criação de valores. tivamente indeterminado em relação ao an-
Palavras como esperança, coragem, esforço, ami- terior, de modo que nele a realidade vacila,
zade e gentileza são qualidades de quem procura rom- piétine sur place, e não sabe bem como se
per as dificuldades, por um fu- decidir entre as várias pos-
turo melhor. Eis por que, em mi- sibilidades. Esse titubeio
nha palestra na Universidade metafísico proporciona a
de Harvard, em 1991, enfati- todo o vital essa inconfun-
zei a importância da contem- dível qualidade de vibra-
plação, do autoquestionamen- ção e estremecimento.15
to, por meio do qual a pessoa
alcança a sua própria essência Esse “titubeio metafísico”
e toma decisões que expres- não deve ser confundido com
sem estímulos internos e mo- falta de decisão. Indica a fon-
tivações da consciência. te de energia para rejeitar to-
Quando as pessoas de fé su- das as concepções fixas e es-
cumbem ao impulso de confiar forçar-se para encontrar o bem
cegamente e de atribuir total dentro de um estado de tensão,
responsabilidade às forças ex- marcado por uma “vibração e
teriores, nesse caso, a religião estremecimento”.
apenas serve de ópio e não é Faz lembrar a súplica de
capaz de ajudá-las na busca Brahma a Sakyamuni para en-
de um novo modo de vida — descrito no budismo sinar o Darma. Depois de atingir a iluminação,
como o caminho do Bodhisattva — como agentes de Sakyamuni relutou em ensinar o Darma sabendo
mudança capaz de transformar a era. quão profunda, misteriosa e insondável era a natu-
14

reza da iluminação. Brahma, o Senhor do Universo


na cosmologia indiana, apareceu diante dele, im-
plorando para ensinar o Darma pelo bem de todos
os que sofrem. Há uma ressonância entre a hesita-
ção de Sakyamuni e o que Ortega y Gasset descre-
ve como titubeio metafísico.
A capacidade de hesitação pode ser comparada Mikhail Gorbachev
em visita ao Japão
à força necessária para retesar ao máximo a corda (11 de junho de 2007)
de um arco: na certeza de que a flecha disparada
vencerá todas as dificuldades para atingir o alvo do [Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704)] cantan-
bem. A pessoa que manifesta essa habilidade con- do o Te Deum quando os dragões [soldados do exér-
segue resolver os dilemas da vida — com flexibili- cito francês] atacavam os protestantes.
dade, cautela e rapidez — enquanto escolhe cons- Pode-se avaliar essa divergência como um con-
cientemente a linguagem e os valores construtivos. fronto, um diálogo interior de Hugo para debater fa-
Desta forma, essa hesitação serve como ponto deci- tos históricos. Hugo não aceita nem toma partido.
sivo e fonte de criação de valor. Isso sugere que a difícil questão de justiça — que
Num poema que dediquei aos jovens, pedi que tem causado sofrimento às pessoas desde a antigui-
fizessem um processo de revolução pessoal “saudá- dade — era de seu interesse.
16
vel e gradual”, nos seus diversos modos de pensar. É preciso resistir à tentação de abandonar o diá-
As escolhas e decisões das pessoas que aspiram logo e adotar a violência. Permanecer comprometi-
ao bem, revelarão imensa variedade, dependendo dos com o processo de hesitação filosófica, resistin-
de seus respectivos aqui e agora, que Marcel cha- do à tensão e à fornalha da luta espiritual incessan-
mou de “particularidade das circunstâncias”. Mas te, onde nossa humanidade é realmente forjada.
é a disposição de ir às profundezas e o esforço pa- A existência dos outros é a premissa inevitável
ra nos fortalecer, que nos possibilitarão levar para um modo de vida genuinamente humano.
avante a determinação, sem evitar e sem O diálogo com os outros é um processo in-
fugir dessas circunstâncias. cessante que nos fortalece cada vez mais.
Os Miseráveis, de Victor Hugo (1802- Ortega y Gasset considera a disposição
1885), é uma obra que aprecio desde jo- e a capacidade para coexistir pacifica-
vem. Inicia com um argumento entre o bis- mente com pessoas diferentes como for-
ITA
BR

NN
po Myriel e um moribundo convencionalis- CA ENCYC DIA/NADA ça que divide barbárie e civilização.
I R
LOPE

ta, sobre os respectivos clamores por justiça da Em meu encontro com o ex-presidente soviéti-
Igreja Católica e da Revolução Francesa. Quando o co, Mikhail Gorbachev, o homem que devolveu o
bispo pergunta ao convencionalista o que ele pen- debate e o diálogo à cultura política da União So-
sa de Marat [Jean-Paul Marat (1743-1793)] aplau- viética, concordamos com a importância de apren-
dindo a guilhotina, o segundo rebate perguntan- der e respeitar os outros e de nos adaptar à realida-
do ao bispo o que ele achava então de Bossuet de dos outros. De início, defini o niilismo como uma
15

Proposta de Paz 2010

recusa ao sentido moral de valor, que nos compele tal até chefes de Estado; o total de árvores plantadas
a nos relacionar com as pessoas como indivíduos chega a mais de uma por habitante do planeta.
únicos e insubstituíveis. Por esta razão, acredito que Em 2008, o Pnuma lançou o programa “Rede
discernir a concepção que os outros têm da vida per- Clima Neutro”, que visa a zerar a emissão de ga-
mite a transformação de uma era enfraquecida do ses de efeito estufa. Várias nações e governos lo-
senso de valores e restaurar a linguagem do bem hu- cais, como também corporações, ONGs, universi-
mano. O fortalecimento de cada um, dia a dia, mês dades e instituições educacionais, estão participan-
a mês, é, portanto, um encorajamento incomparável do dessa rede. Embora seja verdade que negocia-
e insuperável para a tarefa de vencer o niilismo. ções intergovernamentais não tenham chegado a
acordo em Copenhague, esforços contínuos são fei-
Uma vida de contribuições tos para encontrar propostas baseadas em novas for-
mas de cooperação internacional, conduzidas por
Tomo a oportunidade para discutir várias pro- ações produtivas de indivíduos e organizações.
postas que, acredito, podem apoiar esforços que re- Para o encontro de soluções das questões globais,
solvam as crises atuais da humanidade e edi- 2010 será um ano crítico, com vários impor-
ficar uma nova ordem de paz e coexis- tantes encontros programados, incluindo
tência para o século 21. a Conferência das Partes para Revisão
A crise econômica tem causado do Tratado de Não Proliferação de Ar-
forte impacto na vida de cidadãos em mas Nucleares (TNP), em maio, e a
muitos países. Existe a preocupação reunião de cúpula especial sobre os
de que uma de suas consequências Objetivos de Desenvolvimento do
será a de um retrocesso dos esforços Milênio (ODMs), em setembro.
internacionais para solucionar ques- É importante lembrar que sempre
tões globais, como a pobreza e a degra- há um jeito, uma rota que leve ao topo da
dação ambiental. Precisamos evitar o ciclo Tsunessaburo Makiguti,
montanha mais elevada e ameaçadora. Ain-
em que crises dão surgimento ao pessimis- primeiro presidente da da que uma rocha escarpada se agigante
Soka Gakkai
mo, que por sua vez, gera novas crises. diante de nossos olhos, não podemos per-
Apesar de protelados os esforços para a criação der a coragem. Ao contrário, devemos continuar a per-
de uma estrutura internacional capaz de promover a severante busca de um caminho. O que mais se exige
redução dos gases de efeito estufa até 2013, isso não de nós é a imaginação, a capacidade de considerar as
significa que não houve progresso algum. Por exem- crises atuais como oportunidades para transformar fun-
plo, a campanha de plantio de árvores iniciada pelo damentalmente o curso da história. Reunindo a força
Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente de vontade e a determinação, podemos converter de-
(Pnuma), em 2006, resultou, até o fim de 2009, no safios em estímulos para mudanças positivas.
plantio de 7,4 bilhões de árvores no mundo inteiro. Quando a Soka Gakkai foi fundada em 1930, o
Esse trabalho tem a participação de milhões de ci- Japão e o mundo encontravam-se abalados devido
dadãos, desde alunos de escolas de ensino fundamen- ao impacto da crise financeira. Alastrava-se o medo
16

e a inquietude. Na época, o fun- Conferência de Revisão do TPN do contemporâneo, estou con-


dador da Organização, Tsunes- O Tratado de Não Proliferação de Armas vencido de que nada é mais im-
saburo Makiguti (1871-1944), Nucleares (TNP) é amplamente considerado a portante do que a mudança es-
clamou pela mudança de um base dos esforços multilaterais pela não proli- sencial em nosso modo de vida
modo de vida dependente, ou feração. Consiste de três pilares: não proliferação, baseada no compromisso com
desarmamento nuclear e uso pacífico de energia
mesmo independente, para o o bem-estar da humanidade e
nuclear. O Tratado estipula a realização de uma
que chamou de uma vida de Conferência de Revisão de Estados-Partes do TNP do planeta, coerente com os
contribuições. Makiguti rejei- a cada cinco anos. O fracasso dos Estados apelos de Makiguti e Toda. Não
tou o tipo de vida passivo e de- nucleares para alcançar os desafios de desar- basta nos preocuparmos em co-
pendente em que as pessoas são mamento e proliferação tanto pelos Estados- mo o futuro vai se desenvolver.
controladas e vivem à mercê das -Membros como pelos que não fazem parte do O que importa é saber o que fa-
circunstâncias e condições da TNP tem comprometido a sua eficácia. A Confe- zer neste momento crítico, no
rência de Revisão de 2005 falhou em obter
época. Da mesma forma, ele re- papel que cada um pode desem-
qualquer acordo substancial. Em maio deste ano,
futou o modo de vida em que penhar para a mudança do cur-
a Conferência de Revisão será o centro de grandes
nos preocupamos somente com expectativas. Dentre os prováveis tópicos que so da história. Devemos fazer
nossas próprias necessidades e serão tratados estão: desafios da proliferação com que o modo de vida de ati-
permanecemos indiferentes ao emergente; redução de arsenais nucleares va contribuição prevaleça co-
sofrimento dos outros. existentes; promoção de adesão universal ao TNP mo espírito da nova era.
Em vez disso, Makiguti de- e aos seus Protocolos Adicionais; consequências Gostaria de oferecer algu-
por violações de tratado e retratação; zonas livres
fende uma vida de contribuições mas propostas concretas para
de armas nucleares; energia nuclear.
descrita pela máxima budista: duas importantes áreas. A pri-
“Quando acendemos uma lamparina para os outros, meira refere-se às armas nucleares, que continuam
iluminamos o nosso próprio caminho”. A fonte de a ameaçar a humanidade como o mal supremo, re-
iluminação necessária para dispersar o caos e a es- jeitando totalmente as necessidades e o bem-estar
curidão do nosso tempo é encontrada nas ações que dos outros. A segunda diz respeito às distorções es-
despertam a nossa luz interior, ações comprometi- truturais da comunidade global, onde a miséria e a
das com os outros e que visam ao bem-estar geral. fome continuam a ferir a dignidade humana.
O segundo presidente da Soka Gakkai, Jossei To-
da (1900-1958), herdeiro do pensamento de Maki- Por um mundo sem
guti, declara: “Não quero mais ver a palavra ‘miséria’, armas nucleares
usada para descrever o mundo, um país ou um in-
divíduo”.17 Ele pôs sua convicção em prática por Na proposta que escrevi em setembro de 2009,
meio de esforços dedicados à paz, à felicidade das apresentei um plano em cinco partes para estabele-
pessoas e à construção da solidariedade popular, cer os alicerces de um mundo livre de armas nuclea-
enraizada na filosofia de respeito à dignidade da vi- res. Inclui a promoção de vários esforços de desar-
da e do ser humano. mamento e a criação de dispositivos de segurança
Considerando os desafios enfrentados pelo mun- sem os recursos dessas armas. Reafirmei também mi-
17

Proposta de Paz 2010

nha antiga convicção de que devemos lutar contra o bombas atômicas que devastaram as duas cidades
verdadeiro inimigo, que não são as armas nucleares — que efetivamente marcariam o fim desses instru-
propriamente ditas, nem os Estados que as possuem mentos de morte.
ou as fabricam. O inimigo mais perigoso é o pensa-
mento que justifica a existência de armas — a faci- Expandindo as estruturas
lidade de aniquilar os outros transformados em amea- contra as armas nucleares
ça ou obstáculo à realização de nossos objetivos.
Desejo que minhas propostas sejam passos para Até agora, as Zonas Livres de Armas Nucleares
vencer e mudar o pensamento que justifica o uso (NWFZ) têm trabalhado para preencher a lacuna
das armas atômicas, bem como para fortalecer o ím- deixada na estrutura legal pela falta de tratados ou
peto para a abolição delas. convenções que proíbam o uso de armas nucleares.
O primeiro passo seria expandir, a partir do sis- Em 2009, tratados de NWFZ entraram em vigor na
tema do TNP, estruturas com bases institucionais Ásia Central e na África. Estes acordos similares
que obriguem clara e legalmente o não uso de ar- abrangeram a América Latina e o Caribe, o Pacífi-
mas nucleares, eliminando assim a sua função de co Sul e o Sudeste Asiático. A decisão de tantos go-
segurança nacional. vernos de várias regiões do mundo para eliminar os
O segundo passo seria a inclusão da ameaça ou arsenais nucleares é realmente significativa.
do uso de armas nucleares entre os crimes de guer- O prêambulo do TNP, que entrou em vigor há qua-
ra sob a jurisdição do Tribunal Penal Internacional renta anos, apela aos signatários a “empreender to-
(TPI), deixando claro que essas armas jamais de- dos os esforços para afastar o risco de uma guerra e
vem ser usadas. tomar medidas para resguardar a segurança dos po-
O terceiro passo seria criar um sistema funda- vos”.18 Apesar disso, os Estados com armas nuclea-
mentado na Carta das Nações Unidas para que a As- res não cumpriram essa obrigação.
sembleia Geral e o Conselho de Segurança traba- O TNP, obviamente, não confere a esses países
lhem juntos visando à completa eliminação das ar- o menor direito de possuir essas armas. Contudo, a
mas nucleares. adesão contínua destes ao sistema de coibição nu-
Reconheço que não é fácil pôr em prática nenhu- clear resultaram no incentivo tanto da “proliferação
ma dessas propostas. Todas, no entanto, podem ser vertical” (expandido os arsenais nos Estados nu-
firmadas sobre bases institucionais existentes. Não cleares) quanto da “proliferação horizontal” (a dis-
são, de modo algum, objetivos inatingíveis. É meu seminação de tecnologias nucleares para outros Es-
sincero desejo que a Conferência de Revisão do TNP tados e entidades). O verdadeiro efeito mundial foi
a ser realizada em maio, inicie um movimento para abalar as bases do regime do TNP.
esses objetivos e que estes possam ser implemen- Para os Estados nucleares, chegou o momento de
tados nos próximos cinco anos. Tais esforços devem desenvolver a visão comum de um mundo sem ar-
culminar numa reunião de cúpula para a abolição mas atômicas e de se livrar da crença ilusória de que
nuclear em 2015 — realizada em Hiroshima e em a segurança pode ser obtida com ameaças de des-
Nagasaki, setenta anos depois do lançamento das truição mútua e com equilíbrio do terror. É hora de
18

um pensamento novo, voltado para a atuação con- Conforme conclui o relatório da Comissão Inter-
junta a fim de enfraquecer ameaças e criar círculos nacional de Não Proliferação Nuclear e Desarmamen-
mais amplos, capazes de proporcionar segurança fí- to — iniciativa conjunta dos governos australiano e
sica e psicológica, até abarcar o mundo todo. japonês, emitido em dezembro de 2009 — crescem
Como evidência da decisão dos Estados nuclea- os apelos de países que vivem sob o guarda-chuva
res em deixar a coibição, apelei a eles para que fir- nuclear por uma revisão da doutrina tradicional.
massem três compromissos na Conferência de Re- Entre os benefícios do estabelecimento de re-
visão do TNP em 2010 e se empenhassem para im- giões nucleares não declaradas estaria o incentivo
plementá-los totalmente até 2015: ao progresso da desnuclearização global e de um
1. Chegar a um acordo que obrigue legalmente sistema abrangente para evitar a proliferação de to-
a estender as garantias de segurança negativas — das as armas de destruição em massa e interceptar
o não uso de armas nucleares contra quaisquer dos a terrível possibilidade de terrorismo nuclear. O
Estados não detentores dessas armas, cumprindo as objetivo seria transformar a postura de confronto
obrigações com o TNP. prevalecente em certas regiões — inclusive aque-
2. Iniciar a negociação de um tratado que codi- las em que Estados com ogivas nucleares ou os alia-
fique a promessa do não uso de armas nucleares uns dos destes estão presentes — de enfrentar a amea-
contra os outros. ça com ameaça. O que deve ser encorajado em vez
3. Para declarar qualquer área de uma região zo- disso é a redução da ameaça mútua, exemplificada
nas livres de armas nucleares, é preciso um severo pelo Programa de Cooperação de Redução de Amea-
trabalho para comprometê-las a não usar esses ar- ças (CTR), instituído entre os Estados Unidos e os
mamentos. países da ex-União Soviética, após a Guerra Fria.
Não tenho a intenção de subestimar as dificul- Lamentavelmente, o TNP, na estrutura atual, não
dades existentes para o cumprimento desses com- tem sido capaz de reduzir ameaças e oferecer ga-
promissos, em especial o segundo e o terceiro. Mas rantias mútuas para intensificar a confiança. Se pro-
é importante frisar que eles são decisões políticas gressos fossem logrados nas negociações para esses
que os Estados nucleares podem tomar agora, en- objetivos na base regional, mais importante seria a
quanto mantêm a condição atual de possuidores de segurança física e psicológica da sua participação
armas nucleares. no desarmamento, impedindo o crescente isolamen-
Sobre as garantias de não uso mútuo, mesmo um to externo. Sem dúvida, diminuiria a motivação pa-
acordo limitado aos Estados Unidos e à Rússia se- ra desenvolver ou adquirir armas atômicas.
ria um evento divisor de águas que acarretaria na Se, por meio desses sistemas, círculos expandidos
maior redução em ameaças perceptíveis, do qual de segurança física e psicológica pudessem ser cria-
ambas as partes se beneficiariam igualmente. Ofe- dos, para envolver não apenas países que já contam
receria também uma abertura para rever a distribui- com a proteção do “guarda-chuva” de Estados nuclea-
ção extraterritorial de programas de defesa de ogi- res, mas também a Coreia do Norte e o Irã, e nações
vas e mísseis, como medidas para o desmantelamen- como a Índia, o Paquistão e Israel, que atualmente
to gradual do guarda-chuva nuclear. não fazem parte do TNP, isso representaria maior aber-
19

Proposta de Paz 2010

tura para o objetivo de desnuclearização global. armas nucleares.


A relação de tratados que deveriam ser ratifica- Até o momento, tratados já foram estabelecidos
dos pelos países que estão dentro de uma região de- proibindo, de modo abrangente, o desenvolvimento
clarada não nuclear, incluiria: o Tratado Abrangen- e a produção, a posse e a estocagem, a transferên-
te de Proibição de Testes Nucleares, a Convenção so- cia e a aquisição de armas químicas e biológicas de
bre Terrorismo Nuclear, a Convenção sobre Proteção destruição em massa. O Protocolo de Genebra de
Física do Material Nuclear, a Convenção sobre Ar- 1925, que proíbe o uso dessas armas, foi adotado
mas Biológicas e a Convenção sobre Armas Quími- em resposta ao enorme sofrimento ocasionado
ULGAÇÃO
E/DIV
cas. Pensando no futuro, o Tratado de Supressão BIE RAW pelo uso de gás tóxico na Primeira Guer-
B
A

de Material Físsil deveria ser acrescentado à ra Mundial e representou importante


lista quando for finalizada. passo para proibições abrangentes.
Nesses esforços, uma abordagem multifa- O Protocolo menciona a condena-
cetada é requerida. O presidente norte-ame- ção do uso de armas químicas pela opi-
ricano John F. Kennedy (1917-1963) declarou: nião pública internacional, declarando
“Não há uma única chave para a paz — nem uma que a sua proibição seja “universalmente
fórmula extraordinária ou mágica a ser adotada por reconhecida como parte do Direito Internacional e
uma ou duas potências. A paz genuína deve ser pro- imposta tanto à consciência quanto à prática das na-
19
duto de muitas nações, a soma de muitas ações”. ções”.20 Estipula o Protocolo proibição similar ao
Na minha proposta de setembro do ano passado, uso de armas biológicas.
pedi aos países atualmente envolvidos nas conversa- Hoje, o conceito de posse, bem menos que o uso,
ções das seis partes sobre o programa nuclear da Co- de armas químicas ou biológicas por qualquer Esta-
reia do Norte — China, Japão, Coreia do Norte, Rús- do causa grande reação na comunidade internacional.
sia, Coreia do Sul e Estados Unidos — que declaras- A vergonha associada a elas se estabeleceu firmemen-
sem o Nordeste da Ásia como uma região de não uso te. Precisamos dar forma concreta a um reconheci-
nuclear. Este seria um passo em direção à desnuclea- mento similar em relação às armas nucleares, que,
rização da área, incluindo, naturalmente, o abandono sem dúvida, são as armas mais desumanas de todas.
do programa de armas nucleares da Coreia do Norte. Na conferência anual do Departamento de In-
Tenho grandes esperanças de que discussões serão formações Públicas das Nações Unidas
iniciadas para o estabelecimento de tais sistemas (UNDPI) para ONGs, realizada em se-
em regiões como o Oriente Médio e o Sul da Ásia, tembro de 2009, na Cidade do Mé-
onde, há muito tempo, ocorrem tensões. xico, da qual representantes da SGI
participaram, Ban Ki-moon, secre-
Esclarecer a ilegalidade do
ON

tário-geral da ONU, declarou que


U/
DIV

uso das armas nucleares G


“as armas nucleares são imorais e não
U


L

ÃO

deve ser conferido a elas valor militar”.21


Minha segunda proposta é a criação de nor- Os que se encontram em posição de liderança
mas que torne explícita a ilegalidade do uso das têm o dever de reconhecer que as armas atômicas
20

são abomináveis, além de militarmente inúteis.


No percurso dos eventos e resoluções pela proi-
bição abrangente das armas químicas e biológicas,
a primeira coisa a ser feita para encerrar definitiva-
mente a era nuclear deve ser o estabelecimento de
normas proibindo o uso delas.
Há mais de meio século, em setembro de 1957,
meu mestre Jossei Toda condenou as armas atômi-
cas como um mal absoluto, que não deveriam ser
usadas sob quaisquer circunstâncias. Nos anos que
se seguiram, a Assembleia Geral das Nações Uni-
Linus Pauling e
das adotou uma série de resoluções declarando o Daisaku Ikeda
uso dessas armas um crime contra a humanidade e (fevereiro de 1987)

a civilização. Contudo, uma clara norma a respeito


dessa questão ainda precisa ser consagrada. ternacional mais universal e destaca a importância
Em 1996, A Corte Internacional de Justiça (CIJ) da “opinião das pessoas como opinio juris”.24
emitiu um parecer consultivo sobre a ameaça ou o Fazendo um retrospecto da história das armas nu-
uso de armas nucleares: “A ameaça ou o uso de ar- cleares, percebemos que em situações de crise e de
mas nucleares seria geralmente contrária... aos prin- perigo extremo elas foram evitadas, avanços alcan-
cípios e às regras de direito humanitário”. A Corte, çados. Mas a ideia de que as armas nucleares podiam
contudo, absteve-se de opinar sobre a licitude da ser usadas foi se desgastando. Isso foi percebido graças
ameaça ou do uso de armas nucleares “em circuns- à interação sinergética da restrição prática e moral
tâncias extremas de autodefesa, em que a própria exercida pelos líderes políticos e à crescente pressão
sobrevivência de um Estado estaria em jogo”.22 En- da opinião pública internacional de que qualquer re-
quanto esta questão crítica continuar não resolvida, petição dos horrores do uso dessas armas devia ser
o uso de armas nucleares sempre poderá ser justi- evitada a todo custo.
ficado, e eis por que precisamos criar leis severas Por exemplo, a primeira restrição ao desenvolvi-
que tornem os armamentos atômicos inutilizáveis. mento das armas nucleares — o Tratado de Proibição
Christopher Weeramantry, presidente da Asso- Parcial de Testes Nucleares de 1963 — foi adotada
ciação Internacional de Advogados contra as Armas com os esforços de líderes soviéticos e americanos, que
Nucleares, foi um dos juízes participantes da reu- juntos se ergueram para evitar a guerra nuclear duran-
nião. Ele emitiu sua opinião separadamente, expres- te a Crise dos Mísseis Cubanos e com o movimento de
sando que “o uso ou a ameaça de uso das armas nu- cidadãos para “eliminar a bomba”, conduzido por Li-
cleares é ilegal em quaisquer circunstâncias”.23 Em nus Pauling (1901-1994) e outros cientistas.
seu livro Universalising International Law, Weera- De forma semelhante, o Tratado de Forças Nu-
mantry enfatiza que considerar a voz e a palavra dos cleares de Alcance Intermediário (INF), o primeiro
cidadãos comuns contribui para tornar o direito in- acordo a reduzir, de fato, o número de armas nuclea-
21

Proposta de Paz 2010

res, foi adotado numa série de reuniões de cúpula o caminho rumo à total abolição das armas nuclea-
e teve como fundo de cena o impactante desastre da res — desejo ardente não só dos sobreviventes dos
usina nuclear de Chernobyl. Outro importante fator ataques nucleares mas dos povos do mundo.
desse direcionamento político foi a oposição públi- Muitos Estados participantes das negociações que
ca ao desenvolvimento de armas nucleares na Eu- conduziram ao estabelecimento do TPI em 1998, de-
ropa nos anos 80. fendiam a inclusão do uso de armas nucleares como
Embora essas ações apresentem apenas um pro- crime de guerra enquadrado na jurisdição do Tribu-
gresso limitado, refletem o constante aprofundamen- nal. Porém, isso não foi considerado na redação fi-
to de consciência dentro da comunidade internacio- nal do Estatuto de Roma, quando de sua adoção. Re-
nal de que as armas nucleares nunca devem ser usa- considerei a questão em minha proposta de paz do
das e que medidas rigorosas são necessárias para ano seguinte. Em novembro de 2009, na 8ª Sessão
conter sua ameaça. Este fato é ainda mais surpreen- da Assembleia dos Estados-Membros do Estatuto de
dente se lembrarmos que, logo depois da Segunda Roma do Tribunal Penal Internacional, o México pro-
Guerra Mundial, as bombas nucleares foram vistas pôs a emenda ao Estatuto. Um grupo de trabalho foi
como armas convencionais extremamente destrui- criado visando a essa ratificação e outras revisões.
doras e de uso inevitável. Considero o fato um importante avanço da paz.
Por mais discordantes que nossos ideais sejam Os Estados que não fazem parte do TPI, em es-
da realidade, não devemos nos desesperar ou nos re- pecial, as nações nucleares, deveriam ser convida-
signar. Em vez disso, como cidadãos do mundo, pre- dos a participar dos debates sobre esta questão co-
cisamos nos unir e criar outra realidade. A proibi- mo observadores. É importante que o maior núme-
ção das minas terrestres e das bombas de fragmen- ro possível de representantes de governos confron-
tação em anos recentes é fruto de tal solidariedade. te, por meio de sério debate, a natureza desumana
Ano passado, clamei por um movimento de apoio das armas nucleares e a intolerável ameaça que elas
a uma “Declaração dos Povos do Mundo pela Aboli- representam. Obviamente, a finalidade da revisão
ção Nuclear”, que poderia ser feita em conjunto por proposta mais do que punir o uso de armas nuclea-
indivíduos, organizações, grupos religiosos e espiri- res, é estabelecer uma norma clara de que o uso de-
tuais, universidades e institutos de pesquisa e tam- las, em qualquer circunstância, é inaceitável.
bém por agências do sistema das Nações Unidas. Para nós, membros da SGI, a declaração feita pe-
Além dessa iniciativa, sugiro, nesta oportunida- lo segundo presidente da Soka Gakkai, Jossei To-
de, a promoção de um movimento para ratificar o da, clamando pela proibição das armas atômicas, é
Estatuto do Tribunal Penal Internacional, definin- nossa eterna fonte de inspiração. Induzidos por ela,
do o uso de armas nucleares como crime de guerra. ao longo de meio século, prosseguimos na luta pa-
Devemos abraçar o objetivo de fazer da proibi- ra combater os horrores das armas nucleares, ele-
ção desses aparatos de destruição em massa, nor- vando a consciência pública e conquistando apoio
ma e aspiração comuns de toda a humanidade até à sua abolição. Em setembro de 2007, por ocasião
2015, o 70º aniversário do lançamento das bombas do 50º aniversário da declaração de Toda, a SGI lan-
de Hiroshima e Nagasaki. Uma norma para limpar çou a Década dos Povos para a Abolição Nuclear.
22

Também nos dedicamos à Campanha Internacional Uso do Artigo 26 para


pela Abolição das Armas Nucleares (Ican), promovi- obter avanços na questão
da pela Associação Internacional de Médicos pela do desarmamento
Prevenção contra a Guerra Nuclear (IPPNW) e en-
corajamos a adoção de uma Convenção sobre Armas O terceiro principal tema que desejo tratar, fun-
Nucleares (CAN), proibindo essas armas de forma damentando-me na Carta das Nações Unidas, diz
abrangente. Estou convencido de que a ratificação respeito aos esforços de cooperação por parte da As-
do Estatuto do TPI para tornar o uso de armamentos sembleia Geral e do Conselho de Segurança para a
nucleares crime de guerra, daria maior impulso à ado- abolição nuclear.
ção de uma Convenção sobre Armas Nucleares. Atualmente, os Estados Unidos e a Rússia en-
No Japão, desde o início de 2010, os membros da contram-se em negociações para um novo tratado
Soka Gakkai, em particular os jovens, têm se empe- de desarmamento nuclear em substituição do Tra-
nhado em diálogos populares para aprofundar a cons- tado de Redução de Armas Estratégicas (Start) 1,
ciência entre as pessoas sobre a questão nuclear. As- que tecnicamente expirou em 2009. Contudo, mes-
sinaturas também foram coletadas em apoio à ado- mo com as reduções mais ambiciosas sendo nego-
ção de uma CAN para serem entregues na Conferên- ciadas entre os dois países, ainda resta uma quan-
cia de Revisão do TPI, em maio. É de natureza dos tidade enorme de ogivas nucleares no planeta.
jovens não ser dissuadidos diante das dificuldades, Para obter avanços efetivos na redução desse ar-
resistir às tendências perversas da realidade e viver senal, é imprescindível expandir a estrutura além
comprometidos com a realização dos mais elevados destes dois países, incluindo todos os Estados que
ideais. Se a chave para a proibição das armas nu- possuem armamentos. Com este objetivo, proponho
cleares reside em reunir de forma esmagadora a ex- desenvolver e implementar um plano para um mun-
pressão da vontade popular, será na solidariedade do livre de armas nucleares com base na Carta das
dos jovens dedicados a esta causa que poderemos Nações Unidas, a qual todos os governos se com-
encontrar a energia para mudar a época. prometem apoiar.
Até hoje, a exposição “Da Cultura de Violência pa- O Artigo 11 da Carta declara que a Assembleia
ra a Cultura de Paz: a Transformação do Espírito Hu- Geral “poderá considerar os princípios comuns de
mano”, criada pela SGI em 2007, percorreu cinquen- cooperação na manutenção da paz e da segurança
ta cidades de vinte e dois países. Produzimos também, internacionais, inclusive os princípios que dispo-
em DVD, o documentário “Testemunhas de Hiroshi- nham sobre o desarmamento e a regulamentação dos
ma e Nagasaki: o Brado das Mulheres pela Paz” que armamentos, e poderá fazer recomendações relati-
narra as experiências de sobreviventes das bombas vas a tais princípios aos Membros ou ao Conselho
atômicas. Determinados a cumprir a missão confiada de Segurança, ou a este e àqueles conjuntamente”.
por Jossei Toda, continuaremos a utilizar essas ferra- Já o Artigo 26 diz que o Conselho de Segurança
mentas educacionais como veículos para criar uma tem a responsabilidade de formular planos para a
corrente irrefreável de energia popular visando à proi- regulamentação dos armamentos a fim de “promo-
bição e à eliminação de todas as ogivas atômicas. ver o estabelecimento e a manutenção da paz e da
23

Proposta de Paz 2010

segurança internacionais, desviando o menos pos- lição nuclear recai sobre os Estados detentores des-
sível de recursos humanos e econômicos do mundo sas armas. É óbvio também que os Estados não nu-
para armamentos”. cleares não precisam esperar passivamente que as
Até hoje, a Assembleia Geral alicerça-se no Ar- negociações pela redução de armas sejam concluí-
tigo 11, empenhando-se ativamente em questões de das. Por meio das próprias ações, eles podem pres-
desarmamento. Em contrapartida, o Conselho de Se- sionar para que a abolição seja agilizada e se con-
gurança tem falhado em cumprir esse papel, dei- cretize. Tais esforços estariam naturalmente em con-
xando o Artigo 26 adormecido durante todos esses cordância com a linha de conduta estipulada pelo
anos. Essa é uma das razões pela qual a Cúpula do Parecer Consultivo do TPI, de que “qualquer tenta-
Conselho de Segurança da ONU sobre Não Prolife- tiva de desarmamento geral e completo, em especial
ração e Desarmamento Nuclear, realizado em se- o desarmamento nuclear, necessita da cooperação
tembro do ano passado, ter sido tão significativa. de todos os Estados”.26
Para cumprir o compromisso firmado na ocasião, de Porque essas resoluções expressam a vontade da
“criar as condições para um mundo sem armas nu- comunidade internacional, a Assembleia Geral es-
cleares”,25 o Conselho de Segurança — cujos cin- timula esforços ambiciosos de vários países para re-
co membros permanentes são todos Estados nuclea- duzir divergências. Isso, por sua vez, torna-se, nos
res — deve assumir a liderança no estabelecimen- termos do requerimento de Costa Rica (2008) ao Con-
to de um fórum para negociações de desarmamen- selho de Segurança pela regulamentação de armas,
to multilateral por meio de, por exemplo, uma série conforme o Artigo 26, um meio “para romper o cír-
de reuniões de cúpula com a participação do secre- culo vicioso da corrida armamentista que parece ga-
tário-geral das Nações Unidas. nhar ímpeto em várias regiões do mundo, competin-
Uma ação que poderia ser tomada pela Assem- do com a priorização de gastos sociais e o acordo in-
bleia Geral seria fazer uma avaliação crítica do re- ternacional de objetivos de desenvolvimento, incluin-
sultado prático das resoluções dedicadas ao objeti- do os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, e
vo da abolição nuclear. A Assembleia Geral come- afetando negativamente a segurança humana”.27
çaria emitindo recomendações anuais ao Conselho Numa era em que todas as sociedades deveriam
de Segurança, pedindo pelo cumprimento das res- se unir para responder aos desafios comuns da hu-
ponsabilidades para atingir a redução mínima es- manidade — como a destruição ambiental e a po-
pecificada de armas nucleares. Para fortalecer a au- breza —, os gastos militares ultrapassam os limites
toridade moral das recomendações, estas poderiam dos recursos econômicos e humanos. As armas nu-
ser acompanhadas por relatórios FO TOS:WMD C
OM
cleares, em particular, são um mal fundamental que
MI
SS
de Estados sobre ações por eles não pode resolver as complexas ques-
IO
N.
OR

tomadas para a redução das tões globais, só podem agravá-las.


G

tensões e promoção do de- Jayantha Dhanapala, presi-


sarmamento. dente das Conferências Pugwash
Nem é preciso dizer que a sobre Ciência e Questões Mun-
responsabilidade maior pela abo- diais, e Patricia Lewis, vice-dire-
24

tora do Centro de Estudos para Não Proliferação do Conselho de Segurança. O país deveria aproveitar a
Instituto de Pesquisa Internacional de Monterrey, oportunidade para incentivar os Estados Unidos e ou-
são ambos especialistas em questões de desarma- tras nações nucleares a obter progressos no desarma-
mento mundialmente renomados. Num prefácio es- mento. Seja como for, o Japão possui o dever único e
crito em conjunto para um relatório do Instituto das a responsabilidade maior de trabalhar pela concreti-
Nações Unidas para Pesquisa sobre o Desarmamen- zação de um mundo livre das armas nucleares.
to (Unidir), eles clamam que em qualquer discus-
são sobre desarmamento, seja sobre armas de pe- Por um mundo de
queno porte, seja sobre armas de destruição em mas- dignidade humana
sa, à segurança humana deve ser dada prioridade.
“Precisamos falar sobre desarmamento para colo- Analiso agora algumas medidas para a resolução
cá-lo em seu devido lugar: no centro de nosso pen- das distorções estruturais da comunidade global que
samento sobre segurança humana. Desarmamento ameaçam a dignidade humana e que foram trazidas
é ação humanitária.”28 para primeiro plano pela atual crise econômica.
Com base neste princípio, clamo para que todos Em 2009, houve uma pronunciada redução no
os esforços possíveis sejam feitos para a implemen- ritmo de crescimento econômico nos países em de-
tação plena do Artigo 26 da Carta das Nações Uni- senvolvimento. A economia global sofreu uma con-
das, de forma que o Conselho de Segurança cumpra tração que não se via desde a Segunda Guerra Mun-
com as obrigações de desarmamento, fortalecendo dial. Particularmente severo foi o impacto sentido
o ímpeto para a abolição nuclear e a desmilitariza- pelos membros mais vulneráveis da sociedade. Exis-
ção do nosso planeta. te a crescente preocupação de que outras crises hu-
Como país que teve a amarga experiência de um manitárias surjam em diferentes partes do mundo,
ataque nuclear, o Japão patrocina, há mais de uma caso não seja dada assistência a essas populações.
década, resoluções da Assembleia Geral pela aboli- Há muitos anos, tenho frisado a necessidade fun-
ção das armas nucleares. O Japão também adere aos damental da formação de redes de segurança inter-
três princípios não nucleares (não produzir, não pos- nacional para salvaguardar a vida e a dignidade das
suir e nem permitir a entrada de armas nucleares em pessoas e tornar realidade a segurança humana. Ao
seu território) como também aos três princípios de mesmo tempo, defendo a atribuição de poderes aos
exportação de armas. A nação japonesa deve com- indivíduos, de efeito a longo prazo.
prometer-se, aderindo firmemente a esse conjunto de Desejo oferecer propostas concretas sobre o tra-
princípios e, ao mesmo tempo, liderar a opinião pú- balho, os direitos e a valorização das mulheres e das
blica mundial em prol da abolição nuclear. crianças.
Em novembro do ano passado, o Japão e os Esta-
dos Unidos fizeram uma declaração conjunta expres- Trabalho: Fonte de dignidade
sando a intenção de trabalhar ativamente para criar
condições de eliminar por completo os arsenais nu- Antes, peço aos governos que enfrentem corajosa-
cleares. Este ano, o Japão atuará como membro do mente a questão do desemprego e das oportunidades
25

Proposta de Paz 2010

de trabalho, pensando, em sar até que a economia


particular, nos jovens. A global esteja totalmente
comunidade internacional recuperada e as famílias
deve se empenhar para trabalhadoras em todo o
ajudar a estabilizar o qua- mundo possam encontrar
dro de emprego nos paí- empregos decentes”.30
ses em desenvolvimento, Membros Todas as medidas devem
de acordo com o Pacto da Divisão ser tomadas a fim de não
Feminina
Global para o Emprego, da BSGI
repetir a grande contra-
adotado pela Organização dição econômica que se
Internacional do Trabalho (OIT), em junho de 2009. seguiu ao pânico financeiro de 1929, quando o po-
Acredita-se que o número de desempregados te- vo ficou indefeso e a sociedade mergulhou em caos
nha atingido 219 milhões, o maior contingente já cada vez mais profundo.
registrado. É importante dirigirmos nosso olhar pa- Os governos devem cuidar para que iniciativas
ra além desse número vertiginoso, para as inúme- de assistência especificamente formuladas para en-
ras tragédias individuais que ele representa. Há uma frentar a atual crise econômica não acabem de for-
evidente obrigação política de continuar a tomar me- ma prematura. Como a OIT adverte, isso pode atra-
didas para diminuir a insegurança e a pobreza que sar em anos a restauração do mercado de emprego
afligem vários setores da sociedade. e impedir que a economia decole e se recupere. É,
Os jovens, em particular, se não estiverem capa- portanto, essencial que os governos continuem a de-
citados, são afetados por não conseguir arrumar em- senvolver medidas bem coordenadas para expandir
prego e se já estiverem trabalhando, pelo risco de oportunidades de trabalho, de acordo com o Pacto
ser repentinamente demitidos. Além da dificulda- Global para o Emprego.
de financeira, a insegurança em relação ao futuro e Gostaria aqui de propor a criação de uma força-
o sentimento de inutilidade podem deixar marcas -tarefa dedicada à promoção do trabalho decente e
profundas na vida desses jovens. Ao mesmo tempo, do Pacto Global para o Emprego sob incumbência do
a dignidade humana é ameaçada quando indivíduos G-20, por ocasião da Reunião de Ministros do Tra-
são empregados sob condições desumanas ou de- balho do G-20, programada para este ano. Dessa for-
gradantes, ou quando não há segurança de trabalho. ma, o G-20 assumiria a responsabilidade de ser a for-
Tudo isso torna impossível para as pessoas plane- ça motriz para a recuperação do emprego mundial,
jarem o seu futuro. tomando ações compromissadas até que as pessoas
Com base na convicção de que “trabalho não é consigam sentir concretamente que a crise já passou.
conveniência” e de que “o trabalho deve ser fonte
de dignidade”,29 a OIT defende o conceito de tra- Mulheres: construtoras
balho decente para todos. Os líderes que se reuni- de um futuro melhor
ram na Cúpula do G-20 em Pittsburgh, em setem-
bro de 2009, endossaram: “Não podemos descan- Minha segunda proposta tem como foco a pro-
26

moção do ensino para as jovens. A expansão dos ho-


rizontes da educação feminina é vital por muitas ra-
zões e também a chave para atingir os Objetivos de
Desenvolvimento do Milênio (ODMs), que visam a
reduzir de forma significativa o número de pessoas
que sofrem com a pobreza e a fome, mas cuja rea-
lização até 2015, data limite estipulada, infelizmen-
te é duvidosa.
Muitos países em desenvolvimento foram dura- Faculdade Feminina Soka

mente afetados pela crise econômica, sem ter res-


ponsabilidade direta por ela. Isso não só tem mina- das mulheres está a chave para a consecução des-
do os esforços de combate à miséria como tem em- ses objetivos.
purrado as pessoas pobres para baixo da linha de As crianças, cujas mães completaram o ensi-
pobreza. Mais do que nunca, o apoio ativo dos paí- no fundamental, têm maior chance de viver além
ses desenvolvidos tem se tornado indispensável con- dos cinco anos de idade. Recebem também me-
forme a declaração de Ban Ki-moon, secretário-ge- lhor alimentação e frequentam a escola. Dessa for-
ral das Nações Unidas, que pediu por esforços der- ma, a educação recebida pelas mulheres configu-
31
radeiros para atingir os ODMs até 2015. ra importante fator para encerrar o ciclo gerador
A Reunião de Cúpula sobre da pobreza. Os países que in-
os ODMs está programada para Resolução 1325 vestem na educação feminina
setembro. É uma oportunidade A Resolução 1325 do Conselho de Segurança alcançam, a longo prazo, ní-
das Nações Unidas sobre as mulheres, a paz e a
para renovar as estruturas de veis mais elevados de desen-
segurança foi adotada por unanimidade em 31
cooperação internacional e re- volvimento econômico.
de outubro de 2000. Esta foi a primeira vez que
dobrar esforços para uma era o Conselho de Segurança tratou do problema A expansão de horizontes
que possibilite a todas as pes- específico das repercussões dos conflitos armados às mulheres, proporcionada
soas desfrutar uma vida digna e sobre as mulheres, reconhecendo a forma pela educação, conduzirá a
plenamente realizada. depreciativa como é vista a contribuição feminina um futuro brilhante para elas
Volto a frisar a importância para a prevenção e a resolução de conflitos, próprias, para os filhos e a fa-
edificação e manutenção da paz. A Resolução
da educação das jovens e do im- mília e, consequentemente,
enfatiza a importância de igual participação das
pacto dessa questão em todos os permeará a sociedade com a
mulheres nos processos de manutenção da
aspectos do desenvolvimento segurança e da paz. Defende o aumento da luz da esperança. Sem dúvi-
humano. Cada um dos Objeti- representação feminina nas Nações Unidas e pede da, a educação possui esse po-
vos do Milênio, como a ameni- a todas as partes do conflito que tomem medidas tencial.
zação da pobreza e da fome, en- especiais para proteger mulheres e meninas da O número de matrículas de
volve e afeta as mulheres. Nes- violência baseada em gênero, particularmente, meninas em escolas de ensino
se sentido, na igualdade de gê- estupro e outras formas de abuso sexual em fundamental tem revelado no-
situações de conflito armado.
nero e no “empoderamento” tável progresso graças a pro-
27

Proposta de Paz 2010

gramas como a Iniciativa das Nações Unidas para Makiguti, criei programas de curso por correspon-
a Educação de Meninas do Fundo das Nações Uni- dência na Universidade Soka e fundei a Faculdade
das para a Infância (Unicef). Visualizando 2015, Feminina Soka.
precisamos nos empenhar em criar condições para As mulheres desempenham papel fundamental
que o maior número de meninas tenha acesso aos no movimento da SGI. A exposição “As Mulheres e
ensinos médio e superior. a Cultura de Paz” foi criada pelo Comitê de Paz
LIBRARY
D US
Para esse fim, proponho a criação de um das Mulheres da Soka Gakkai, no Japão, com
fundo administrado internacionalmente a colaboração da renomada ativista da paz
dedicado a oferecer um futuro melhor pa- Elise Boulding, e fóruns sobre o valor fe-
ra as mulheres. Esse fundo seria forma- minino são realizados para ajudar a ele-
do por parte das dívidas perdoadas de paí- var a consciência em muitas comunida-
ses em desenvolvimento e pela aplicação des locais. A mensagem subjacente a esses
da quantia equivalente na educação feminina. esforços é que as mulheres são as construtoras
São muitos os desafios e as ameaças enfrentados da paz. Isso representa a tradução da crença de Ma-
pelas mulheres. A ampliação dos horizontes na edu- kiguti para o contexto contemporâneo.
cação possibilitam a elas se levantarem como pro- Essas atividades compartilham o espírito da Re-
tagonistas autoconfiantes, capazes de atravessar cri- solução 1325 do Conselho de Segurança das Nações
ses, redirecionar a vida e a sociedade para um fu- Unidas, adotada dez anos atrás, em outubro de 2000.
turo melhor. Plantar as sementes desse “empodera- O significado da Resolução reside, acima de tudo,
mento” agora é tornar isso uma realidade. no fato de que foi uma declaração para o mundo no
Há cem anos, quando a posição social das mu- início do século 21: o envolvimento das mulheres é
lheres no Japão era muito baixa, o presidente fun- essencial para que a paz duradoura seja alcançada.
dador da Soka Gakkai, Tsunessaburo Makiguti, de- Tive recentemente o privilégio de trocar ideias
dicou-se apaixonadamente para ampliar as oportu- sobre o assunto com o ex-subsecretário-geral das
nidades de ensino às mulheres, certo de que elas se- Nações Unidas, Anwarul K. Chowdhury, que se em-
riam as construtoras de uma sociedade melhor. Ma- penhou incansavelmente para a sua adoção. O em-
kiguti estabeleceu um programa que oferecia aulas baixador Chowdhury também concorda que a par-
por correspondência para mulheres que não pos- ticipação das mulheres possibilita que a cultura de
suíam condições de receber instrução no ensino mé- paz aprofunde as suas raízes.
dio após a graduação no ensino fundamental. Ele Em setembro de 2009, a Assembleia Geral das
compilava materiais de estudo e os editava num pe- Nações Unidas adotou uma resolução para juntar
riódico. Dentre outras iniciativas de Makiguti estão quatro agências e escritórios com a finalidade de tra-
a criação de facilidades, aulas gratuitas para mulhe- tar das questões concernentes às mulheres — o Fun-
res com restrições de recursos financeiros para apren- do de Desenvolvimento das Nações Unidas para a
der a costurar e a bordar, habilidades que, na épo- Mulher, a Divisão das Nações Unidas para o Avan-
ca, constituíam o principal elemento da educação ço das Mulheres, a Assessoria Especial do Secretá-
das meninas no Japão. Como herdeiro do espírito de rio-Geral para Assuntos de Gênero e o Instituto In-
28

ternacional de Pesquisa e Treinamento para o Avan- Seja nos países em desenvolvimento, seja nos
ço das Mulheres — formando uma nova entidade de desenvolvidos, são as crianças quem pagam o pre-
alto nível dedicada à igualdade de gênero. ço mais alto quando a crise bate à porta. Com a eco-
Tenho esperanças de que este novo órgão inclua nomia em recessão e os orçamentos nacional e fa-
entre suas principais atividades a supervisão do cum- miliar duramente afetados, aumenta o número de
primento da Resolução 1325, além de promover o crianças sem acesso à boa alimentação, à saúde,
“empoderamento” das mulheres, incluindo natural- obrigadas a abandonar a escola para trabalhar.
mente a educação para meninas. Diante dessa situação, sugiro que escolas sirvam
O grau de consolidação da Resolução 1325 refle- de refúgio para as crianças se protegerem das vá-
te-se claramente na participação feminina nos pro- rias ameaças — como fortalezas de segurança hu-
cessos de paz. Por outro lado, a Comissão Construto- mana — e tornem-se um local para formá-las como
ra da Paz obedeceu à Resolução 1325 no trabalho de protagonistas de uma nova cultura de paz.
reconstrução em Burundi e em Serra Leoa. Contudo, Em 1995, a Organização Mundial de Saúde (OMS)
mundialmente, as mulheres ainda compõem menos lançou a Iniciativa Global de Saúde na Escola, pro-
de dois por cento dos signatários dos acordos de paz grama conduzido pela Fresh — Focusing Resources
e apenas sete por cento das negociações de paz.32 on Effective School Health (Concentração de Recur-
Este é o ano do 15º aniversário da Plataforma de sos em Saúde Escolar Efetiva). Criada em 2000, con-
Ação de Pequim, padrão de políticas internacional ta com a parceria da Organização Mundial de Saú-
relacionado às mulheres, adotada na Quarta Confe- de, do Fundo das Nações Unidas para a Infância
rência Mundial sobre Mulheres, e também do 10º (Unicef), da Organização das Nações Unidas para a
aniversário da Resolução 1325. É importante, por- Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e do Ban-
tanto, fazer de 2010 um ano rompedor de barreiras, co Mundial. A Fresh tem como objetivos estimular
de progressos significativos em relação ao empode- o aprendizado, melhorar o ambiente de estudo, de-
ramento das mulheres em escala mundial. Para es- senvolvendo habilidades necessárias para estabe-
se fim, espero que mais países venham a unir-se aos lecer práticas saudáveis e oferecendo refeições es-
Amigos da 1325 e ao grupo ad-hoc de Estados-Mem- colares nutritivas.
bros das Nações Unidas, empenhados no respeito à A experiência do Programa Mundial de Alimen-
Resolução. Neste e em outros fóruns devem ser rea- tação comprova, há mais de quatro décadas, que os
lizados debates sobre a melhor forma de aumentar programas de merenda escolar protegem a saúde e
a participação feminina na construção da paz. garantem o futuro das crianças. O Unicef defende o
projeto Escolas Amigas da Criança e a construção
Crianças: tesouro da humanidade de salas de aula capazes de resistir a terremotos e
tempestades, para que as escolas possam servir de
Minha terceira proposta visa a proteger as con- abrigo em tempos de crise, local onde as crianças
dições de sobrevivência das crianças e a solidificar retomem a vida normal, de coração sereno.
as bases para que o século 21 se torne o “Século da Estes esforços e experiências educacionais de-
Paz e da Coexistência”. vem ser aplicados de tal maneira que as escolas se
29

Proposta de Paz 2010

Alunos do Instituto
Educacional Soka do Brasil
(janeiro de 2009)

tornem centros de promoção da segurança humana ras de viver, para que sejam capazes de resolver pa-
e da construção de uma cultura de paz. cificamente as divergências com respeito à dignida-
Em anos recentes, ênfase tem sido dada à valo- de humana, tolerância e não discriminação”.33
rização das crianças como agentes de mudança, em Tenhamos estas palavras como diretriz na impor-
vez de simplesmente protegê-las, tamanha é a im- tante tarefa de formar as crianças para lidar com
portância da questão. Vamos prepará-las porque ameaças à vida e à dignidade, como também a dis-
mais tarde, serão elas quem vão iniciar ondas de posição de resolver questões sempre pelo diálogo,
mudanças, transformar e romper com os ciclos his- jamais pela violência. Estes esforços devem envol-
tóricos de sofrimento e tragédia da humanidade. ver todos os lugares onde as crianças aprendem: o
Este ano de 2010 será o último da Década Inter- lar, a escola e a comunidade. Precisamos educá-las
nacional por uma Cultura de Paz e Não Violência para que se tornem indivíduos capazes de defender
para as Crianças do Mundo. Todas as iniciativas pa- os direitos e a dignidade delas e dos outros. É im-
ra promover a cultura de paz devem continuar nos portante o papel das crianças para que a cultura de
anos vindouros, tendo as escolas como centro de ati- paz finque raízes na sociedade.
vidades. A Declaração e Programa de Ação para uma Para expandir ainda mais o alcance positivo de
Cultura de Paz, adotada pela Assembleia Geral em uma cultura de paz, é imprescindível não apenas o
1999, pede a todos os protagonistas: “Assegurar que trabalho das Nações Unidas e dos governos, mas
crianças desde cedo sejam protegidas e beneficia- também o da sociedade civil. Precisamos elevar a
das com educação sobre valores, atitudes e manei- consciência sobre as ideias constituintes de uma
30

Membros da SGI
(março de 2010)

cultura de paz em termos de valores, comportamen- do” tem viajado a vários países desde a sua inaugu-
tos e modos de vida. ração em 2004 e “As crianças e a cultura de paz” é
Como herdeira dos ideais de Tsunessaburo Ma- exibida em inúmeras cidades japonesas desde 2006.
kiguti, a SGI se empenha para que a felicidade das As crianças são mensageiras do futuro, tesouro
crianças seja o padrão de avaliação do sucesso na comum da humanidade. Convencidos de que o ato
solução dos problemas que a sociedade enfrenta. de encorajar e plantar a esperança no coração das
A fim de corresponder à adoção da Convenção pessoas é o caminho certeiro para a paz mundial,
sobre os Direitos da Criança em 1989, promovemos continuaremos a lutar para edificar uma comunida-
as exposições “As crianças do mundo e o Unicef” e de global, onde a infância tenha as prioridades.
“Quais são os direitos das crianças?”. As exposi- Recordo-me das palavras de Toynbee: “Nós não
ções percorreram todo o Japão. Desde 1996, a mos- estamos fadados à repetição da história. Ela se re-
tra “Valorizando o futuro: os direitos e a realidade vela. Os nossos esforços fazem a história”.34
das crianças” circula pelos Estados Unidos. Para Este ano marca, respectivamente, o 80º e o 35º ani-
servir à Década Internacional, a exposição “Edifi- versários de fundação da Soka Gakkai e da SGI. Nos-
cando uma cultura de paz para as crianças do mun- sa história é a de pessoas comuns, incansáveis na cria-
31

Proposta de Paz 2010

ção de valores, que se recusam a se abater pelas vio- conduzir uma vida de contribuições em benefício
lentas correntezas dos tempos. Quanto mais escuras próprio e dos outros — e do segundo presidente
as nuvens das crises que pairam sobre nós, mais vi- Jossei Toda — de eliminar a miséria da face da
gorosamente os membros da SGI se empenham para Terra — continuaremos confiantes no poder do
irradiar a luz da esperança. Esta é a determinação que diálogo, empenhados em despertar o que há de
inspira os membros da SGI a trabalhar em suas co- melhor em cada indivíduo. Este é o caminho pa-
munidades nos 192 países e territórios. ra formar uma rede mundial de pessoas verdadei-
Sustentados pelo grande espírito de nosso pre- ramente comprometidas com a paz mundial e com
sidente fundador, Tsunessaburo Makiguti — de a vida da humanidade.

Notas
1. Obama, “A Just and Lasting Peace” (“Uma paz que nada busca”), p. 13. Armas Nucleares, p. 266.

justa e duradoura”). 11. Einstein, Ideas and Opinions Based on Mein 23. Weeramantry, “Opinião divergente do juiz

2. Gandhi, Hind Swaraj or Indian Home Rule Weltbild (Ideias e Opiniões Baseadas em Mein Weeramantry”, p. 433.

(Hind Swaraj ou Código Civil Indiano), p. 45. Weltbild), p. 38. 24. Weeramantry, Universalising International

3. Todd, L’illusion économique (A Ilusão 12. Nitiren, The Record of the Orally Transmitted Law (Universalização do Direito Internacional),

Econômica), p. 24. Teachings (Registro dos Ensinos Orais), p. 123. p. 115.

4. Izumi, Kagakusha ga tou: Raise wa aru ka (Os 13. Marcel, The Decline of Wisdom (O Declínio 25. NU, “Manutenção da paz e da segurança

Cientistas Perguntam: Há Vida Depois da da Sabedoria), p. 33. internacionais”.

Morte?), p. 10. 14. Nitiren, The Writings of Nichiren Daishonin 26. CIJ, Legalidade da Ameaça ou do Uso de

5. Weber, The Protestant Ethic and the Spirit of (Coletânea dos Escritos de Nitiren Daishonin), Armas Nucleares, 264.

Capitalism (A Ética Protestante e o Espírito do v. 1, p. 402. 27. NU, “Fortalecimento da segurança coletiva”.

Capitalismo), p. 182. 15. Ortega y Gasset. A Rebelião das Massas, p. 111. 28. Dhanapala e Lewis, “Prefácio”, p. viii.

6. Weil, The Simone Weil Reader (A Leitora 16. Ikeda, Complete Works (Obras Completas), 29. OIT, “OIT marca 90º aniversário com diálogo

Simone Weil), pp. 287-88. 39:39. global”.

7. Aitmátov e Ikeda, “Ikeda SGI kaicho to 17. Toda, Complete Works (Obras Completas), 30. G-20, “Declaração dos líderes: Cúpula de

Chingisu Aitomatofu” (“Diálogo entre o 3:290. Pittsburgh”.

presidente da SGI e Tchinguiz Aitmátov”), p. 3. 18. AIEA, “Tratado de Não Proliferação de Armas 31. Ban, “Relatório para a Assembleia Geral”.

8. Einstein, Ideas and Opinions Based on Mein Nucleares”. 32. Unifem, “Declaração do Unifem”.

Weltbild (Ideias e Opiniões Baseadas em Mein 19. Kennedy, “Discurso de formatura”. 33. NU, “Declaração e Programa de Ação para

Weltbild), p. 38. 20. CICV, “Protocolo sobre a proibição”. uma Cultura de Paz”.

9. Toynbee e Ikeda, Escolha a Vida, p. 259. 21. Ban, “Pela paz e pelo desenvolvimento”. 34. Toynbee, Civilization on Trial (A Civilização

10. Kajima, “Motomenai kokoro” (“O coração 22. CIJ, Legalidade da Ameaça ou do Uso de Posta à Prova), p. 45.
32

Bibliografia
AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica). “Tratado de Não Proliferação das Armas Nucleares”, 1970.
http://www.iaea.org/Publications/Documents/Infcircs/Others/infcirc140.pdf (acesso em 11 de fevereiro de 2010).
AITMÁTOV, Tchinguiz; IKEDA, Daisaku. “Ikeda SGI kaicho to Chingisu Aitomatofu shi tono kaidan” (Diálogo entre o presidente da SGI e Tchinguiz Aitmátov).
Seikyo Shimbun, 20 de novembro de 1998.
BAN, Ki-moon. “Pela paz e pelo desenvolvimento: Desarmamento, já!” Discurso de Abertura da 62ª Conferência Anual do DIP/ONG, Cidade do México,
9 de setembro de 2009. http://www.un.org/News/Press/docs/2009/sgsm12445.doc.htm (acesso em 11 de fevereiro de 2010).
——. 2009. “Relatório para a Assembleia Geral ‘Agora é a nossa hora’”. 23 de setembro. http://www.un.org/apps/sg/sgstats.asp?nid=4089
(acesso em 11 de fevereiro de 2010).
CHOWDHURY, Anwarul K.; IKEDA, Daisaku. Atarashiki chikyu shakai no sozo e: Haha to ko no hohoemi ga kagayaku jidai o (Imaginando uma nova
sociedade global: em direção a uma era iluminada pelo sorriso de mães e filhos). Ushio, junho. Tóquio: Ushio Shuppansha, 2009.
CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha). “Protocolo pela proibição do emprego na guerra de gases asfixiantes, tóxicos ou similares e de meios
bacteriológicos. Genebra, 17 de junho de 1925”. http://www.icrc.org/ihl.nsf/FULL/280?OpenDocument (acesso em 11 de fevereiro de 2010).
CIJ (Corte Internacional de Justiça). Legality of the Threat or Use of Nuclear Weapons, Advisory Opinion (Legalidade da Ameaça ou do Uso de Armas
Nucleares, Parecer Consultivo), Relatórios CIJ, 1996. http://www.icj-cij.org/docket/files/95/7495.pdf (acesso em 11 de fevereiro de 2010).
Década dos Povos para a Abolição Nuclear. http://www.peoplesdecade.org/
DHANAPALA, Jayantha; LEWIS, Patricia. Prefácio, “Desarmamento como ação humanitária”, Unidir/2001/23.
http://www.unidir.ch/pdf/ouvrages/pdf-1-92-9045-001-1-en.pdf (acesso em 11 de fevereiro de 2010).
EINSTEIN, Albert. Ideas and Opinions Based on Mein Weltbild (Ideias e Opiniões Baseadas em Mein Weltbild). Carl Seelig, ed., Sonja Bargmann, trad.
Nova York: Crown Publishers, 1954.
FUKUYAMA, Francis. Our Posthuman Future: Consequences of the Biotechnology Revolution (Nosso Futuro Pós-Humano: Consequências da Revolução
da Biotecnologia). Nova York: Picador USA, 2003.
G-20. “Declaração dos Líderes: Cúpula de Pittsburgh”. 24 e 25 de setembro de 2009. http://www.pittsburghsummit.gov/mediacenter/129639.htm
(acesso em 11 de fevereiro de 2010).
GANDHI, Mahatma. Hind Swaraj or Indian Home Rule (Hind Swaraj ou Código Civil Indiano). Ahmedabad: Navajivan Publishing House, 1938.
GORBACHEV, Mikhail; IKEDA, Daisaku. Nijusseiki no seishin no kyokun (Lições Morais do Século 20), 2 vols. Tóquio: Ushio Shuppansha, 1996.
HUGO, Victor. Os Miseráveis. Frederico Ozanam Pessoa de Barros, trad. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.
ICNND (Comissão Internacional de Não Proliferação Nuclear e do Desarmamento). “Eliminando Ameaças Nucleares”, 2009.
http://www.icnnd.org/reference/reports/ent/pdf/ICNND_Report-EliminatingNuclearThreats.pdf (acesso em 1º de março de 2010).
IKEDA, Daisaku. Seinen no uta (Poemas da Juventude). Em Ikeda Daisaku Zenshu (Obras Completas de Daisaku Ikeda), vol. 39. Tóquio: Seikyo Shimbunsha, 1991.
——. 1991. “The Age of ‘Soft Power’ and Inner-Motivated Philosophy” (“A era do soft power e da filosofia da motivação interior”).
http://daisakuikeda.org/sub/resources/works/lect/lect-01.html (acesso em 28 de fevereiro de 2010).
——. Cf. Revolução Humana, vol. 1. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 1987.
——. “Construindo a solidariedade global pela abolição das armas nucleares”. http://www.daisakuikeda.org/assets/files/disarm_p2009.pdf
(acesso em 11 de fevereiro de 2010).
IZUMI, Yoshiharu. Kagakusha ga tou: Raise wa aru ka (Os cientistas peguntam: Há vida depois da morte?). Hiroshima: Naigai Insatsu, 1999.
KAJIMA, Shozo. “Motomenai kokoro” (“O coração que nada busca”). Entrevista. Nihon Keizai Shimbun, 29 de outubro de 2009.
KENNEDY, John F. “Discurso de Formatura em Universidade Americana”, 1963.
http://www.jfklibrary.org/Historical+Resources/Archives/Reference+Desk/Speeches/JFK/003POF03AmericanUniversity06101963.htm
(acesso em 11 de fevereiro de 2010).
MAKIGUTI, Tsunessaburo. Makiguchi Tsunesaburo Zenshu (Obras Completas de Tsunessaburo Makiguti). Tóquio: Daisan Bunmeisha, 10 vols., 1981-1997.
MARCEL, Gabriel. The Decline of Wisdom (O Declínio da Sabedoria). Nova York: Philosophical Library, 1955.
MCKIBBEN, Bill. Enough: Staying Human in an Engineered Age (Basta: Mantendo-se Humano em uma Era Engenhada). Nova York: Owl Books, 2004.
MOFA (Ministério das Relações Exteriores do Japão). “Declaração conjunta Japão-Estados Unidos para um mundo sem armas nucleares”, 2009.
33

Proposta de Paz 2010

http://www.mofa.go.jp/region/n-america/us/pv0911/nuclear.pdf (acesso em 1º de março de 2010).


NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. On the Use and Abuse of History for Life (Sobre o Uso e o Abuso da História na Vida). Sioux Falls: NuVision Publications, 2007.
Nitiren. The Writings of Nichiren Daishonin (Coletânea dos Escritos de Nitiren Daishonin), Comitê de Tradução de Gosho, ed. e trad. Tóquio: Soka Gakkai.
——. 2004. The Record of the Orally Transmitted Teachings (Registro dos Ensinos Orais), Burton Watson, trad. Tóquio: Soka Gakkai, 1999-2006.
NU (Nações Unidas). Carta das Nações Unidas, 1945. http://www.un.org./aboutun/charter/index.html (acesso em 11 de fevereiro de 2010).
——. Assembleia Geral. “Declaração e Programa de Ação para uma Cultura de Paz”. A/RES/53/243. Resolução adotada pela Assembleia Geral, Nova York,
6 de outubro de 1999. http://www3.unesco.org/iycp/kits/53243A.pdf (acesso em 1º de março de 2010).
——.——. “Coerência do sistema amplo”. A/RES/63/311. Resolução adotada pela Assembleia Geral, Nova York 14 de setembro de 2009.
http://daccess-dds-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/N09/513/62/PDF/N0951362.pdf?OpenElement (acesso em 1º de março de 2010).
——. Conselho de Segurança, “Resolução 1325”. S/RES/1325 (2000). Resolução adotada pelo Conselho de Segurança, Nova York, 31 de outubro de 2000.
http://www.un.org/events/res_1325e.pdf (acesso em 11 de fevereiro de 2010).
——.——. 2008. “Fortalecimento da segurança coletiva por meio da regulamentação geral e da redução de armamentos: o caminho mais seguro para a
paz e o desenvolvimento”. Relatório apresentado por Costa Rica. S/2008/697. http://www.securitycouncilreport.org/atf/cf/%7B65BFCF9B-6D27-
4E9C-8CD3-CF6E4FF96FF9%7D/Disarm%20S2008697.pdf (acesso em 11 de fevereiro de 2010).
——.——. “Manutenção da paz e segurança internacionais: não proliferação e desarmamento nuclear”.
S/RES/1887. Resolução adotada pelo Conselho de Segurança em sua 6191ª reunião, em 24 de setembro de 2009.
http://www.un.org/Docs/sc/unsc_resolutions09.htm (acesso em 11 de fevereiro de 2010).
OBAMA, Barack. “A Just and Lasting Peace” (“Uma paz justa e duradoura”), discurso de aceitação do Prêmio Nobel da Paz, 2009.
http://nobelprize.org/nobel_prizes/peace/laureates/2009/obamalecture_en.html (acesso em 18 de fevereiro de 2010).
OIT (Organização Internacional do Trabalho). “OIT comemora 90º aniversário com diálogo social pelo trabalho decente e pela globalização equitativa”.
OIT/09/22. Press release, 20 de abril de 2009. http://www.unidir.ch/pdf/ouvrages/pdf-1-92-9045-001-1-en.pdf (acesso em 11 de fevereiro de 2010).
——. 2009. “OIT adota ‘Pacto Mundial para o Emprego’ para criar empregos, proteger os trabalhadores e estimular a recuperação da economia”. OIT/09/39.
Press Release, 19 de junho de 2009. http://www2.ilo.org/global/About_the_ILO/Media_and_public_information/Press_releases/lang--
en/WCMS_108482/index.htm. (acesso em 11 de fevereiro de 2010).
ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das Massas, Marylene Pinto Michael, trad. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente). “Campanha 3 bilhões de árvores: contagem de 7,4 bilhões de árvores”, 2009.
http://www.unep.org/Documents.Multilingual/Default.asp?ArticleID=6437&DocumentID=606&l=en (acesso em 11 de fevereiro de 2010).
ROTBLAT, Joseph; IKEDA, Daisaku. A Quest for Global Peace (Em Busca da Paz Global). Londres: I.B. Tauris, 2007.
TODA, Jossei. Declaração pela Abolição das Armas Nucleares, 1957. http://www.joseitoda.org/vision/declaration (acesso em 28 de fevereiro de 2010).
——. Toda Josei Zenshu (Obras Completas de Jossei Toda). Tóquio: Seikyo Shimbunsha, 9 vols., 1981-1990.
TODD, Emmanuel. L'illusion économique: Essai sur la stagnation des sociétés développées (A Ilusão Econômica: Ensaio sobre a Estagnação das Sociedades
Desenvolvidas). Paris: Gallimard, 1998.
TOYNBEE, Arnold J. Civilization on trial, and The world and the West (A Civilização Posta à Prova — o Mundo e o Ocidente). Cleveland: Meridian Books, 1958.
——; IKEDA, Daisaku. Escolha a Vida, Ruy Jungmann, trad. Rio de Janeiro: Record, 1976.
TPI (Tribunal Penal Internacional). “México: Proposta de emenda” em “Relatório do Bureau sobre a Conferência de Revisão: Adendo”. ICC-ASP/8/43/Add.1,
18 de novembro de 1996. http://www.icc-cpi.int/iccdocs/asp_docs/ASP8/ICC-ASP-8-43-Add.1-ENG.pdf (acesso em 1º de março de 2010).
Unifem (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher). “Declaração do Unifem na Sessão Anual do Comitê Executivo do UNDP/UNFPA”,
28 de maio de 2009. http://www.unifem.org/news_events/story_detail.php?StoryID=881 (acesso em 1º de março de 2010).
WEBER, Max. The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo). Talcott Parsons, trad. Nova York: Courier
Dover Publications, 2003.
WEERAMANTRY, Christopher. “Opinião divergente do Juiz Weeramantry”, 1992. http://www.icj-cij.org/docket/files/95/7521.pdf
(acessado em 11 de fevereiro de 2010).
——. Universalising International Law (Universalização do Direito Internacional). Leiden, Boston: M. Nijhoff Publishers, 2004.
WEIL, Simone. The Simone Weil Reader (A Leitora Simone Weil). George A. Panichas, ed. Mt. Kisco, NY: Moyer Bell, 1977.
34

Propostas de paz proferidas por Daisaku Ikeda


em 26 de janeiro, Dia da SGI
2009 — Competição Humanitária: nova esperança na história
2008 — A humanização da religião a serviço da paz
2007 — Resgatar a nossa humanidade: primeiro passo para a paz mundial
2006 — A nova era do povo: uma rede mundial de indivíduos conscientes e fortes
2005 — Uma nova era de diálogo: o triunfo do humanismo
2004 — Revolução interior: uma onda mundial pela paz
2003 — Por uma ética global — A dimensão da vida: um paradigma
2002 — O humanismo do caminho do meio — O alvorecer de uma civilização global
2001 — O desafio da nova era: construir a todo instante o “Século da Vida”
2000 — A paz pelo diálogo — É tempo de falar: uma cultura de paz
1999 — Pela cultura de paz — Uma visão cósmica
1998 — A humanidade e o novo milênio: do caos para o cosmos
1997 — Novos horizontes de uma civilização global
1996 — Rumo ao terceiro milênio: o desafio da cidadania global
1995 — Criando um século sem guerras por meio da solidariedade humana
1994 — A luz do espírito global: uma nova alvorada na história da humanidade
1993 — Rumo a um mundo mais humano no século vindouro
1992 — Uma Renascença de esperança e harmonia
1991 — O alvorecer do século da humanidade
1990 — O triunfo da democracia: rumo a um século de esperança
1989 — A alvorada de um novo globalismo
1988 — Entendimento cultural e desarmamento: os blocos edificadores da paz mundial
1987 — Propagando o brilho da paz: rumo ao século do povo
1986 — Rumo a um movimento global por uma paz duradoura
1985 — Novas ondas de paz rumo ao século XXI
1984 — Criando um movimento unido para um mundo sem guerras
1983 — Nova proposta para a paz e o desarmamento