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A Nova Ordem de Hitler, 1938-45

MAZOWER. Mark. Continente sombrio:


a Europa no século XX.
São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

Tenho a impressão de que a Alemanha possui certos planos [...] referentes a


uma nova ordem européia [...] nos moldes da economia planificada que
conhece e que certamente encerra vantagens importantes, em comparação
com afalta de planejamento quefaz parte do egoísmo liberal e vem reinando
até o momento. Cabe-nos colaborar, calmamente e de boa vontade, com a
adaptação que mencionei.

Thorvald Stauning, primeiro-ministro dinamarquês,


8 de março de 1941'

No verão tornou-se cada vez mais claro para nós que, aqui no Leste, concep-
ções espiritualmente insuperáveis estão lutando entre si: o conceito alemão
de honra e raça e uma tradição militar de muitos séculos contra um modo
asiático de pensar e instintos primitivos alimentados por um punhado de
intelectuais, quase todos judeus [...]. Mais que nunca estamos imbuídos da
idéia de uma nova era, na qual aforça da superioridade racial e das realiza-
ções do povo alemão lhe confia a liderança na Europa. Reconhecemos clara-
mente nossa missão de salvar a cultura européia da barbárie asiática que
avança. Agora sabemos que temos de lutar contra um adversário furioso e

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inflexível. Essa luta só pode terminar com a destruição de um ou de outro;
qualquer acordo está fora de cogitação.
General Hermann Hoth, 17a Exército,
25 de novembro de 19412

Na primavera de 1942, u m j o v e m diplomata italiano c h a m a d o Luciolli voltou


para sua pátria depois de servir p o r u m ano e m e i o e m Berlim. Sua primeira tarefa,
e m Roma, consistiu e m anotar suas idéias sobre a maneira c o m o a aliada da Itália
enfrentava os maiores problemas decorrentes da guerra. Assim, elaborou u m a crí-
tica sagaz das bases da Nova O r d e m nazista na Europa; q u a n d o t o m o u conheci-
m e n t o desse texto, Mussolini declarou q u e "fazia m u i t o t e m p o que n ã o lia algo tão
significativo e de tão amplas conseqüências". Luciolli escreveu:

Defender até a morte a grande extensão conquistada até agora, explorá-la, organizar a
vida econômica e política da Europa de modo que seu poder de resistência aumente e
sua capacidade ofensiva se desenvolva—tudo isso constituiria um objetivo claro e pre-
ciso, um programa capaz de conquistar adeptos e o consenso, não fosse o fato de que é
exatamente nessa missão política que a Alemanha se mostra aquém de sua tarefa.
A inequívoca decisão alemã de organizar a Europa hierarquicamente, como uma
pirâmide, com a Alemanha no vértice, é do conhecimento geral. Mas isso não basta
para captar a atitude do regime alemão diante dos problemas da reconstrução euro-
péia. Em nenhum país, mesmo naqueles que ate ontem mantinham uma postura niti-
damente antialemã, faltaram personalidades e correntes políticas dispostas a admitir
que a ordem internacional que emergiu da Revolução Francesa e culminou em
Versalhes fora suplantada de uma vez por todas e que os Estados-nação teriam de dar
lugar a entidades políticas muito maiores [...] Assim, o conceito de uma organização
hierárquica da Europa não era inaceitável. Contudo, o que choca quem entra em con-
tato com os alemães é sua concepção puramente mecânica e materialista da ordem
européia. Para eles, organizar a Europa significa decidir a produção desse ou daque-
le minério e o número de trabalhadores que cabe utilizar. Não compreendem que
nenhuma ordem econômica pode prevalecer se não se basear numa ordem política e
que para fazer o operário belga ou boêmio trabalhar não basta prometer-lhe deter-
minado salário, mas deve-se incutir-lhe também a consciência de servir a uma comu-
nidade da qual é parte íntima, com a qual sente afinidade e na qual se reconhece. 1

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C o m o Luciolli o b s e r v o u , ao encerrar-se a década de 1930 m u i t o s e u r o p e u s
e s t a v a m dispostos a a b a n d o n a r a o r d e m liberal, d e m o c r á t i c a , criada a p a r t i r de
1918 pela Inglaterra, pela França e pelos Estados Unidos, p a r a abraçar u m f u t u r o
mais autoritário. N ã o c o n t a v a m c o m a realidade b r u t a l d o imperialismo nazista, a
r e i n t r o d u ç ã o da escravidão na E u r o p a e a n e g a ç ã o de t o d a s as aspirações nacionais,
exceto as alemãs.
O g o v e r n o nazista n u n c a foi mais caótico q u e d u r a n t e a g u e r r a : os sátrapas de
Hitler d i s p u t a v a m sua a t e n ç ã o e u m a h o s t e de aliados e c o l a b o r a d o r e s s e m e a v a
intrigas. N o e n t a n t o , p o r m e i o de t o d a a c o n f u s ã o , da incerteza, dos i n u m e r á v e i s
planos p a r a o f u t u r o q u e e m a n a v a m dos institutos de pesquisa nazistas, p o d e m o s
traçar as linhas gerais da Nova O r d e m e n t r e 1938e 1945. N e n h u m a experiência foi
mais crucial p a r a o d e s e n v o l v i m e n t o da E u r o p a n o século x x J c o m o Hitler e Stalin
b e m sabiam, a Segunda G u e r r a M u n d i a l envolveu algo m u i t o mais p r o f u n d o q u e
u m a série d e c o n f r o n t o s militares e n e g o c i a ç õ e s diplomáticas; foi u m a luta p e l o
f u t u r o social e político d o c o n t i n e n t e / E a s u b m i s s ã o a u m r e g i m e de u m a violên-
cia inédita e i n i n t e r r u p t a constituiu t a m a n h o c h o q u e q u e n o intervalo de oito a n o s
as atitudes políticas e sociais dos e u r o p e u s p a s s a r a m p o r u m a extraordinária trans-
f o r m a ç ã o e eles r e d e s c o b r i r a m as v i r t u d e s da d e m o c r a c i a .
O s aliados n a o c o n q u i s t a r a m os e u r o p e u s : H i t l e r é q u e os p e r d e u . M u i t o s
o b s e r v a d o r e s r e p e t i r a m a m e s m a análise d o fracasso dos alemães feita p o r Luciolli.
U m a arguta jornalista a m e r i c a n a i n f o r m o u q u e , q u a n d o c h e g o u à R o m ê n i a , n o
v e r ã o d e 1940, s e n t i r a " q u e H i t l e r p o d i a n ã o só g a n h a r a g u e r r a , c o m o p o d i a
g a n h a r a p a z e, nesse caso, o r g a n i z a r a E u r o p a " . A o deixar o país, " n u m a gélida
m a n h ã de final de j a n e i r o d e 1941, estava convencida de q u e e m n e n h u m a circuns-
tância Hitler poderia g a n h a r a p a z o u organizar a E u r o p a " . C o m e c e m o s nossa aná-
lise da N o v a O r d e m c o m o q u e p o d e r í a m o s c h a m a r de a o p o r t u n i d a d e perdida d o
Führer. 4

A OPORTUNIDADE PERDIDA DE HITLER

Ao encerrar-se a década de 1930, a opinião pública e u r o p é i a n ã o se o p u n h a de


m o d o a l g u m à idéia de u m a r e c o n s t r u ç ã o autoritária d o c o n t i n e n t e sob a lideran-
ça dos alemães. A base potencial de u m a N o v a O r d e m q u e rejeitou a h e r a n ç a de
Versalhes ia m u i t o a l é m dos radicais pró-nazistas o u fascistas. A desconfiança d o

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p o d e r i o a l e m ã o mesclava-se c o m a a d m i r a ç ã o pela r e c u p e r a ç ã o e c o n ô m i c a da
Alemanha; o apego às n o ç õ e s inglesas de liberdade misturava-se à suspeita dos
"plutocratas" londrinos, que, c o m sua defesa d o padrão-ouro e d o laissez-faire, con-
d e n a r a m boa parte d o continente à depressão e não conseguiram encontrar solu
'' ção para a crise/"Esses povos e u r o p e u s t o r n a r a m - s e indiferentes à democracia,
' que e m t e r m o s intelectuais lhes foi apresentada c o m o liberdade de p e n s a m e n t o e
liberdade de expressão, mas que e m t e r m o s de sua experiência cotidiana significou
' , sobretudo liberdade de m o r r e r de f o m e " , observou a condessa Waldeck. "Cons-
tatei que n ã o mais de 10% dos e u r o p e u s prezavam a liberdade individual ou esta-
v a m dispostos a lutar para preservá-la." 5 //
^ N a Bélgica, n o verão de 1940, a opinião pública recebeu c o m "patente alívio"
a notícia da vitória alemã, e d u r a n t e algum t e m p o u m a autêntica "fúria antiparla-
m e n t a r " t o m o u conta de Bruxelas. Os belgas m o s t r a r a m - s e favoráveis aos ale-
mães, felizes c o m o f i m da g u e r r a e esperançosos de q u e seu país recuperasse a
prosperidade n u m continente unificado sob u m sistema político local r e f o r m a d o
e m e n o s d i v i s ó r i o / H e n d r i k de Man, presidente do Partido dos Trabalhadores e
conselheiro do rei Leopoldo, declarou o f a m o s o manifesto de 28 de j u n h o que a era
democrática terminara. "Esse colapso de u m m u n d o decrépito, longe de ser u m
desastre, é u m a libertação", a f i r m o u . Sua visão de u m governo autoritário chefia-
d o pelo rei parecia — n o verão de 1940 — u m resultado mais "realista" d o conflito
q u e qualquer revivescência previsível da democracia. Para políticos e diplomatas
q u e f a z e m do realismo u m fetiche, o verão de 1940 constituiu u m a advertência.
/ N a H o l a n d a t a m b é m a repulsa ao p a r t i d a r i s m o está p o r trás d o a t a q u e de
V H e n d r i k C o l i j n aos "males da democracia"; ex-primeiro-ministro e líder do conser-
vador Partido Anti-Revolucionário, Colijn i m a g i n o u — c o m o De M a n — u m regi-
m e autoritário leal à m o n a r q u i a e disposto a colaborar c o m os alemães,/Ó social-
y
y"~ d e m o c r a t a T h o r v a l d S t a u n i n g , p r i m e i r o - m i n i s t r o d i n a m a r q u ê s desde 1924,
aconselhou a colaboração n o interesse do f u t u r o bem-estar e c o n ô m i c o da Europa,
e e m C o p e n h a g u e u m g o v e r n o de coalizão nacional c o o p e r o u t r a n q ü i l a m e n t e
c o m Berlim. 6 /

E m Estranha derrota, o historiador Marc Bloch procura as causas da humilha-


ção da França — além dos erros cometidos pelo alto c o m a n d o do exército — nas
falhas de u m sistema parlamentar governado por velhos, corroído p o r u m funcio-
nalismo cínico, destruído pela polarização que se seguiu à Frente Popular. Nessa
época p o u c o s conseguiram, c o m o Bloch, deixar o abismo d o "desespero burguês",
buscar u m a f o r m a de democracia renovada, adaptar-se "às exigências de u m a nova

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era"!Muitos acreditavam que a solução para a "decadência" da França estava n u m a
reconciliação com a Alemanha nazista. Aceitar o inevitável é sábio, escreveu André
Gide. "Estamos presenciando o nascimento, mais q u e a morte, de u m m u n d o " ,
afirmou Teilhard de Chardin. As matrículas n o curso de alemão da Berlitz em Paris
saltaram de 939 em 1939 para 7920 dois anos depois; n o curso de inglês os núme-
ros despencaram. 7 ^
A queda da França repercutiu em todo o continente. "Mais u m a notícia ruim
hoje à tarde", u m médico polonês registrou em 1 4 d e j u n h o de 1940. "Paris caiu e m
poder dos alemães." Dois dias depois ele anotou: 'As notícias da França são terrí-
veis. As pessoas estão emocionalmente arrasadas. Algumas perderam por comple-
t o a esperança. O q u e vai acontecer agora?". E m Bucareste, Waldeck percebeu
u m a reação mais positiva, conquanto cautelosa. " C o m a queda da França atingem
o auge vinte anos de promessas vãs da democracia: acabar com o desemprego, com
a inflação, a deflação, a agitação dos trabalhadores, o partidarismo, e sei lá mais o
quê", escreveu ela. Cansada de si mesma, duvidando dos princípios que a nortea-
ram, a Europa sentiu-se quase que aliviada com a solução de tudo [...] Hitler era u m
sujeito esperto — desagradável, mas esperto. Ele conseguiu fortalecer seu país. Por
que não experimentar seus métodos? Era assim que os europeus se sentiam naque-
le verão de 1940.""
^ -Ç^, / Essas atitudes relativamente favoráveis aos alemães logo desapareceriam. Na
y França e na Bélgica, por exemplo, os ânimos m u d a r a m totalmente n o espaço de
<- * ; J dois ou três meses, deixando os colaboracionistas cada vez mais isolados,fem 1941
tT
p , J> o s alemães dissolveram o Sindicato Holandês, declarando-o "indigno de confian-
ça" . Tal mudança deveu-se, e m parte, à indignação provocada pelo comportamen-
t o dos soldados nazistas e das forças de ocupação, e, e m parte, às alterações n o
panorama internacional. Após a batalha da Inglaterra ficou mais claro que a guer-
ra duraria mais do que se pensara. E, c o m o veremos, as dúvidas relativas a possí-
veis modificações de fronteiras e anexações t a m b é m d e s t r u í r a m a fé na Nova
O r d e m de Hitler.

VIVENDO NUMA ÉPOCA HISTÓRICA

Na Alemanha o clima era de euforia. A Nova O r d e m prevalecera contra os


"protetores de u m a era agonizante". Mais que nunca, os alemães sentiam-se viven-
do n u m a época "histórica". Depois da marcha para Praga, Hitler afirmou que "ao

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longo de seus mil anos, o Reich d e m o n s t r o u [...] que lhe cabe restabelecer a o r d e m
na E u r o p a central". Às vésperas da c a m p a n h a ocidental anunciou que "a luta que
ora se inicia decidirá o destino da nação alemã nos próximos mil anos". Goebbels
saudou u m a "época sem precedentes", na qual o "gênio histórico" d o Führer esta-
va a j u d a n d o a construir u m a "nova Europa". E n q u a n t o a W e h r m a c h t avançava
para o leste, r u m o a Moscou, Hitler sonhava c o m "as belezas da Criméia, que tor-
n a r e m o s acessível p o r m e i o de u m a auto-estrada — para nós, alemães, será nossa
Riviera. Creta é q u e n t e demais e seca. Chipre seria ótimo, mas p o d e m o s viajar p o r
terra até a Criméia — passando p o r Kiev! E existe a Croácia, t a m b é m , u m paraíso
turístico para nós. Espero que depois da g u e r r a haja muita celebração [...] Q u e pro-
gresso na direção da Nova Europa!". 9
Conversando c o m Ciano e m o u t u b r o de 1941 — talvez o m o m e n t o de m a i o r
e m p o l g a ç ã o —, Ribbentrop, o ministro das Relações Exteriores alemão, predisse
q u e a Nova O r d e m de Hitler na Europa "garantirá a paz por mil anos". O cínico ita-
liano n ã o se conteve: " C o m e n t e i q u e mil anos é m u i t o tempo", registrou e m seu
diário. " N ã o é fácil f u n d a m e n t a r algumas gerações nos feitos de u m só h o m e m ,
ainda q u e de u m gênio. Ribbentrop acabou fazendo u m a concessão: ' Q u e seja u m
século', falou." 10 C o n t u d o , se o ex-negociante de c h a m p a n h e n ã o conseguia resis-
tir a u m a barganha, o Führer n ã o tinha esse tipo de dúvida. " Q u a n d o o nacional-
socialismo tiver reinado p o r bastante t e m p o " , declarou certa vez, após o jantar,
"não será mais concebível u m a f o r m a de vida diferente da nossa." 11
V i / N i n g u é m e m Berlim duvidava q u e u m a oportunidade histórica se apresenta-
ra ao Terceiro Reich. Restava descobrir a m e l h o r maneira de aproveitá-la. O q u e os
soldados conquistaram, os políticos deviam agora governar. Entretanto, a exten-
são dos territórios controlados pelos alemães n o final de 1941 era assombrosamen-
te vasta — ia do oceano Ártico à orla do deserto do Saara, do Atlântico e dos Pire-
neus à Ucrânia. C o m u m a rápida sucessão de ofensivas, a Blitzkrieg proporcionara
a Hitler u m império m u i t o m a i o r do q u e ele pretendia conquistar.

A partir de Mein Kampf estava claro que o f u t u r o império alemão devia locali-
zar-se n o leste, cobrindo a p r o x i m a d a m e n t e o território que a A l e m a n h a controla-
ra e m 1918, depois d o Tratado de Brest-Litovsk. "Estamos acabando c o m a perpé-
tua m a r c h a dos alemães r u m o ao sul e ao oeste da Europa", Hitler escreveu e m
Mein Kampf, "e voltando os olhos para as terras d o leste." C o m a colonização ale-
mã, a Ucrânia se converteria e m " u m dos mais belos jardins do m u n d o " ; segundo

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u m folheto da ss, tratava-se de u m país "mal explorado, c o m solo fértil de terra
negra, q u e poderia ser u m paraíso, u m a Califórnia européia". 12 ^
A Polônia constituiria u m a ligação c o m o leste e u m a fonte de mão-de-obra
— u m Arbeitsreich para o Herrenvolk, c o m o disse Hitler p o u c o depois da invasão. 13
O d e s m e m b r a m e n t o do país e o t r a t a m e n t o brutal dispensado a sua p o p u l a ç ã o
^ ^ depois d e s e t e m b r o de 1939 m o s t r a r a m o tipo de m é t o d o q u e seria u s a d o para
alcançar tal objetivo/E q u a n t o à Escandinávia, aos Países Baixos, aos Bálcãs, até
c/ m e s m o à França? Esses lugares não se destacavam tanto nos planos de Hitler. T u d o
^ i n d i c a v a que n o final de 1939 ele relutava e m assumir mais compromissos milita-
yv' res. Por que se dar ao trabalho de invadir países que podia intimidar para obter sua
' > y i ' aliança e sua aquiescência? As pressões diplomáticas p r o p o r c i o n a r a m à Alemanha
o controle de recursos vitais na Romênia, na H u n g r i a e na Suécia. Ao iniciar-se o
ano de 1940, Hitler resistiu à idéia de invadir a N o r u e g a até o m o m e n t o e m que se
convenceu de que os planos dos ingleses representavam u m a ameaça para os car-
r e g a m e n t o s de minério da Escandinávia para a Alemanha.' 4 A França tinha de ser
y, excluída da guerra, naturalmente, mas seu papel na Nova O r d e m não estava claro.
^ y A Grécia provavelmente ficaria neutra, n ã o fosse a desastrada invasão italiana, q u e
levou os ingleses para lá e obrigou os alemães a reagir. A invasão da Iugoslávia teve
de ser planejada às pressas, q u a n d o Berlim recebeu a notícia de q u e u m golpe mili-
tar d e r r u b a r a o governo pró-Eixo. '

A política alemã e m relação a muitos dos países d e r r o t a d o s foi, a princípio,


deliberadamente provisória: só q u a n d o a g u e r r a terminasse se definiria seu desti-
no. E m m a i o de 1940, às vésperas d o ataque contra a França, Goebbels decidiu que
a imprensa n ã o publicaria u m a palavra sobre os objetivos bélicos, que, n o decorrer
do conflito, seriam formulados simplesmente c o m o " u m a paz justa e d u r a d o u r a e
u m Lebensraum para o povo a l e m ã o " . Tal política refletia os desejos dos líderes
nazistas. Hitler declarou q u e n ã o havia p o r q u e explicitar os objetivos bélicos:
" D e n t r o de nossas possibilidades nos é d a d o fazer o que q u e r e m o s e de qualquer
m o d o n ã o p o d e m o s fazer o que ultrapassa nossas forças". 15
N o verão de 1940 a W e h r m a c h t e o Ministério das Relações Exteriores viam
c o m b o n s olhos o desejo francês de concluir u m t r a t a d o de paz c o m o Terceiro
Reich, p o r é m a desaprovação de Hitler impediu as negociações. Os generais ale-
m ã e s baseados na Holanda pensavam que o país d e r r o t a d o manteria sua indepen-
dência e se s u r p r e e n d e r a m q u a n d o Hitler resolveu atribuir-lhe u m governo civil.
Entretanto, a afinidade racial dos holandeses e os sonhos de anexação n o sentido

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de reconstituir o Sacro Império R o m a n o seduziam o partido e a ss e certamente
não contrariavam Hitler. 16
Alarmados com a anexação de partes da Polônia e da Tchecoslováquia pelos
alemães, os estadistas da Europa ocidental procuraram assegurar o respeito à inte-
gridade de seus países e a restauração de sua soberania. E óbvio que não acredita-
vam nas numerosas declarações da Alemanha nesse sentido, já que não havia trata-
dos de paz confiáveis c o m Berlim. O iludido rei Leopoldo da Bélgica teve u m
encontro decepcionante com Hitler. Vidkun Quisling levantou a questão ao menos
três vezes, sem n e n h u m resultado; na última vez Hitler disse-lhe que não queria
mais falar sobre o assunto. Funcionários do Ministério das Relações Exteriores e ofi-
ciais da Wehrmacht, que tentaram pleitear concessões de autonomia — à França,
por exemplo, e, depois de 1941, à Estônia — não tiveram maior sucesso.' 7
C o m a questão dos acordos de paz relegada a u m f u t u r o indefinido, o Terceiro
Reich implantou na Europa u m a série de regimes de ocupação mais ou menos pro-
visórios. N u m extremo d e s m e m b r o u alguns países e suprimiu por completo sua
identidade nacional. Foi o que aconteceu c o m a Polônia, a Iugoslávia e a Tche-
coslováquia, cujos nomes seriam riscados do mapa. N o f u t u r o não nos referire-
m o s mais ao ' G o v e r n o Geral dos Territórios Poloneses O c u p a d o s ' , e sim ao
'Governo Geral', sem dar maior atenção a isso", Goebbels proclamou n o verão de
1940; "assim, da m e s m a f o r m a q u e está p o u c o a p o u c o a c o n t e c e n d o n o
Protetorado [da Boêmia-Morávia], que hoje se chama apenas Protetorado, a situa-
ção se esclarecerá automaticamente. Cabe à população desses territórios facilitar
nosso trabalho." Luxemburgo t a m b é m foi praticamente anexado ao Reich e elimi-
nou-se toda referência ao "Grão-ducado" ou ao país" de Luxemburgo. O status
jurídico desses países era vago, p o r é m não seu futuro. 18
J o procedimento usual dos alemães consistia em designar comandantes mili-
tares ou civis, que governavam por intermédio do funcionalismo local. Nessa guer-
ra dentro de u m a guerra, que foi o caos burocrático do Terceiro Reich, os territó-
rios o c u p a d o s t r a n s f o r m a r a m - s e e m feudos, sujeitos a diversos ministérios e
administrados com diferentes graus de sucesso/O governo dinamarquês foi o que
melhor conseguiu preservar a o r d e m pública, talvez por ser o menos afetado pela
ocupação. O rei e o Parlamento continuaram atuando e a princípio desfrutaram —
ao m e n o s teoricamente — considerável soberania: por conseguinte, m e n o s de
cem alemães controlavam o país inteiro; na França, na Grécia, n o Protetorado da
Boêmia-Morávia, na Sérvia e na Noruega governantes fantoches i n t e r p u n h a m u m

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véu de respeitabilidade entre os conquistadores e o serviço público. Na Holanda u m
comissário do Reich, civil, governava por intermédio dos secretários-gerais da admi-
nistração pública, enquanto na Bélgica os secretários-gerais se reportavam às autori-
dades militares. N o m i n a l m e n t e independentes, os governos da Croácia e da
Eslováquia eram, de fato, subordinados aos alemães; parceiros do Eixo, c o m o a
Finlândia, a Romênia, a Bulgária e a Hungria, tinham u m pouco mais de autonomia.
O exemplo dos ingleses na índia seduzia a imaginação de Hitler. Seu modelo
de governo imperial, tal c o m o o concebia, parecia-lhe admirável. Após a invasão da
União Soviética, intrigava-o o fato de os ingleses governarem o subcontinente com
u m p u n h a d o de homens; para ele a Ucrânia era o "novo Império Indiano"; o front
oriental se converteria na fronteira noroeste da Alemanha, onde gerações de ofi-
„-' ciais se distinguiriam e preservariam as virtudes marciais da raça ariana/Mas o
V Führer n ã o compreendia b e m as técnicas imperiais de governo utilizadas pelos
o ' ingleses; condenava a frouxidão de suas atitudes raciais e sua disposição de permi-
tir alguma autonomia política local.'j''
O paralelo com a índia veio à tona n u m a das raras ocasiões em que se men-
cionaram os objetivos bélicos dos nazistas. Isso aconteceu n u m discurso que, pro-
vavelmente seguindo instruções de Hitler, o comentarista de rádio Hans Fritzsche
pronunciou e m o u t u b r o de 1941, q u a n d o parecia certa a derrota da Rússia. Depois
de dizer à imprensa estrangeira que a guerra estava decidida, Fritzsche revelou os
planos políticos de seu pais: a Europa se tornaria economicamente auto-suficien-
te sob a liderança da Alemanha. Os alemães teriam de entender a "idéia imperial
européia" e preparar-se para realizar n o leste operações militares, contínuas e
p e q u e n a s , análogas às dos ingleses q u a n d o e n f r e n t a v a m p r o b l e m a s na índia.
" Q u a n t o às nações d o m i n a d a s p o r nós", explicou, " u s a r e m o s c o m elas u m a lin-
g u a g e m m u i t o mais f r a n c a e fria. N a t u r a l m e n t e n ã o p e r m i t i r e m o s q u e ne-
n h u m Estadozinho vagabundo
p e r t u r b e a paz européia c o m pedidos ou exigên-
cias especiais — nesse caso lhe l e m b r a r e m o s c o m energia o q u e lhe c o m p e t e
fazer na Europa." 2 0
/ ' U m a visão tão dura refletia as críticas dos nazistas ao direito internacional
/ V' liberal. Carl Schmitt, por exemplo, afirmou que agora os territórios conquistados
c . formavam o Grossraum da Alemanha. Assim c o m o a doutrina Monroe devia justi-
J
; -xr ficar a não-intervenção de outras potências n o hemisfério ocidental, escreveu,
V ' ^ t a m b é m a Alemanha conquistara o direito de governar a Europa. Sobretudo o
V ^ / d i r e i t o de governar segundo novas normas: o velho sistema de direito internacio-
->y
153
nal, com suas pretensões universais e sua fundamentação nas relações de Estados
soberanos, cederia lugar a u m a jurisprudência autenticamente nacional-socialista
de "lei do povo". N e m todos os povos conseguiam suportar o peso de u m Estado
constitucional m o d e r n o . Abandonando a noção liberal — c o m o estava sacramen-
tada na Liga das Nações — de que todos os Estados eram soberanos e juridicamen-
te iguais, Schmitt declarou que o m u n d o m o d e r n o requeria u m "alto grau de orga-
» nização" e "disciplina voluntária". Os d o m i n a d o r e s nazistas da H o l a n d a e o
„ Governo Geral indicaram publicamente que a era da "independência absoluta"

y chegara
& ao fim. 2 1 /
A neutralidade não era mais aceitável/Como explicou u m comentarista:

Existe algum Estado pequeno suficientemente independente para ser neutro em


relação às grandes potências? A crise da neutralidade é, de fato, a crise da estrutura
de nosso continente, do colapso das antigas ordens e dos velhos impérios e do nas-
cimento de novas dinastias. Os pequenos Estados tornaram-se presa de um curso
inexorável da história, e a única questão é se vão ceder sem esperança ou cheios de
esperança.22

Luciolli estava certo, portanto, ao observar que o regime tinha u m a concep-


ção de política basicamente hierárquica. A Europa devia dominar o mundo, mas
apenas sob a condição de ser dominada pelo Reich. Hitler considerava inadmissí-
vel transmitir poder aos racialmente inferiores; isso denotaria fraqueza, não força.
Cumpria salvaguardar zelosamente a superioridade alemã, e m todas as esferas,
com resultados às vezes absurdos. Depois que a equipe tcheca de hóquei n o gelo
derrotou os alemães por cinco a u m , e m Praga, Goebbels aludiu à "prática equivo-
cada de bater-se com povos coloniais n u m campo e m que somos inferiores. H e r r
Gutterer deve cuidar [...] para que a repetição de tais incidentes se torne impossí-
vel" . Até os italianos, supostamente sócios dos alemães na criação da Nova Ordem,
receberam o m e s m o t r a t a m e n t o ; n o r m a s relativas ao trato c o m trabalhadores
estrangeiros alertavam: "Relações com italianos não são bem-vistas". 23
N o nível político tais atitudes se repetiam, em detrimento dos eventuais cola-
boradores da Alemanha. C o m o Luciolli observou, dado o descontentamento dos
europeus com a ordem de Versalhes, em 1939, havia poucos motivos para supor que
a colaboração c o m o projeto político não teria êxito. Hoje é difícil lembrar que o pró-
prio conceito tinha algo de positivo para os que o criaram na França. Lavai e Pétain

154
viam a colaboração c o m o u m a parceria de duas potências imperiais e, p o r t a n t o ,
c o m o u m m e i o de salvar a soberania francesa. Hitler contrapunha-se a tais idéias.
Ele desconfiava sobretudo dos soi-disants nacional-socialistas. Impopulares,
t e n d i a m a ser administradores ineficazes; populares, constituíam u m a ameaça.
Quisling chegou ao poder d u r a n t e a invasão da N o r u e g a , mas caiu u m a semana
depois. Degrelle na Bélgica e Mussert na H o l a n d a f o r a m postos de m o l h o . Até
p o d i a m recrutar jovens crédulos ou desesperados para lutar n o front oriental, m a s
o p o d e r estava nas mãos dos funcionários públicos profissionais. Robert Brasillach,
o j o v e m e desiludido colaboracionista francês, concluiu m e l a n c o l i c a m e n t e e m
agosto de 1943: "Não existe mais u m a Europa fascista". 24
O que fazia dos Degrelle e Mussert parceiros inadequados era exatamente seu
nacionalismo. "Para tornar-se germanófila, a N o r u e g a precisa tornar-se nacional",
declarou Quisling. Mussert concebeu u m a Liga dos Povos Germânicos, q u e seria
e n c a b e ç a d a p o r Hitler, m a s c u j o s m e m b r o s (a A l e m a n h a , a Escandinávia, a
Holanda) teriam governos nacional-socialistas i n d e p e n d e n t e s e forças militares
próprias. Dificilmente haveria algo m e n o s atraente para Hitler. E m 30 de j u n h o de
1941, jovens nacionalistas ucranianos desafiaram Berlim c o m sua "Proclamação
d o Estado Ucraniano" e m Lvov; duas semanas depois a maioria estava presa e o
m o v i m e n t o sufocado. O imperialismo de Hitler era, pois, m u i t o diferente d o de
G u i l h e r m e II, que apoiou Paul Skoropadsky d u r a n t e a ocupação alemã da Ucrânia
e m 1918: a m b o s favoreciam regimes autoritários, mas o kaiser estava disposto a
permitir q u e u m representante local governasse e m seu n o m e . Hitler recusou até
m e s m o isso, explicando: N ã o posso estabelecer objetivo algum que u m dia pro-
duza [...] Estados independentes, autônomos". 2 5
[/k "Nova O r d e m européia" era essencialmente u m a O r d e m alemã. E m b o r a
n u m e r o s o s visionários nazistas brincassem c o m a ideologia do europeísmo, para
; ^ Hitler só importava a Alemanha, ou, mais precisamente, o Deutschtum. Após a inva-
são da União Soviética a p r o p a g a n d a de Berlim alardeou q u e se tratava de u m a
"cruzada pela Europa"; a rádio transmitiu u m a "Canção pela Europa"; lançaram-
se selos c o m o lema "Frente Única Européia contra o Bolchevismo"; e a imprensa
até proclamou, e m fins de n o v e m b r o de 1941, que, "nascidos da discórdia, da luta
e da miséria, os Estados Unidos da Europa finalmente se concretizaram". Tais slo-
gans, p o r é m , n ã o correspondiam à realidade da o c u p a ç ã o vivenciada p o r g e n t e
c o m u m , e nada indicava que fora da Alemanha alguém levasse esse e u r o p e í s m o
mais a sério q u e o Führer." Depois de Stalingrado, q u a n d o os alemães c o m e ç a r a m

155
a b u s c a r a m i g o s e aliados c o m m a i o r e m p e n h o , era tarde demais. A reviravolta na
j u r i s p r u d ê n c i a nazista, q u e inspirou declarações de "antiimperialismo", n ã o con-
v e n c e u n i n g u é m , até p o r q u e n ã o teve n e n h u m efeito visível s o b r e a política. N a
E u r o p a oriental, o n d e o avanço d o Exército V e r m e l h o fazia d o c o m u n i s m o u m a
f o r m a de g u e r r a política p o t e n c i a l m e n t e frutífera, o r a c i s m o nazista i m u n i z a r a a
p o p u l a ç ã o c o n t r a a p r o p a g a n d a de Goebbels. N a E u r o p a ocidental, f o r a de qual-
q u e r esfera plausível de influência soviética, o a n t i c o m u n i s m o p o u c o tinha a ofe-
recer. Só na Grécia e, e m m e n o r g r a u , n a Sérvia e n o n o r t e da Itália, foi possível con-
t u r b a r os â n i m o s a p o n t o d e d e s e n c a d e a r u m a g u e r r a civil. A m e d i d a q u e se
retiravam, as forças alemãs deixavam u m legado s a n g r e n t o de massacres fratrici-
das. E m 1944 a s o m b r a da G u e r r a Fria já se projetava sobre a E u r o p a , m a s n ã o tinha
p o d e r b a s t a n t e p a r a salvar o i m p é r i o de Hitler.

A ORGANIZAÇÃO DA EUROPA

/ j Se havia u m e u r o p e í s m o nazista, este inseria-se n o p l a n o e c o n ô m i c o , e n ã o n o


r r p o l í t i c o . À idéia d e u m a d o u t r i n a M o n r o e a l e m ã associava-se a n o ç ã o de u m a
Grossraumwirtschaji—uma e c o n o m i a regional centralizada n a A l e m a n h a —, q u e ,
sob c e r t o s aspectos, guardava a l g u m a s e m e l h a n ç a c o m o M e r c a d o C o m u m d o pós-
g u e r r a . A N o v a O r d e m , a m a d a p e l o s j o v e n s t e c n o c r a t a s d o M i n i s t é r i o da Eco-
n o m i a a l e m ã o , envolvia a i n t e g r a ç ã o e c o n ô m i c a da E u r o p a ocidental e a criação
de u m a z o n a f r a n c a : o m i n i s t r o W a l t h e r F u n k c h e g o u a p r o p o r isso n o v e r ã o de
1940. G o e r i n g , q u e t i n h a m u i t o mais prestígio n a cúpula nazista, t a m b é m a p o n t o u
a n e c e s s i d a d e de i n v e s t i m e n t o s m u l t i n a c i o n a i s n a E u r o p a s o b os a u s p í c i o s da
A l e m a n h a . O u t r o s se v o l t a r a m p a r a os Bálcãs, o n d e a p e n e t r a ç ã o e c o n ô m i c a dos
a l e m ã e s se intensificara n o s a n o s 1930. A c o r d o s comerciais f i r m a d o s c o m a Ro-
m ê n i a e a H u n g r i a e m 1939 e 1940 c o l o c a r a m sob o c o n t r o l e d o Terceiro Reich
matérias-primas fundamentais.
N o final de 1940, H e r m a n n N e u b a c h e r — q u e mais tarde governaria os Bálcãs
— revelou a u m jornalista a m e r i c a n o o b r i l h a n t e f u t u r o q u e aguardava a E u r o p a
depois da g u e r r a : "A o r g a n i z a ç ã o e c o n ô m i c a dos Bálcãs constitui a p r i m e i r a e t a p a
d e u m p l a n o p a r a c o n v e r t e r t o d o o c o n t i n e n t e e u r o p e u n u m só Grossraum, que,
s e m países individuais, f o r m a r á a u n i d a d e e c o n ô m i c a d o f u t u r o . U m p l a n o c o m u m
r e g u l a m e n t a r á a p r o d u ç ã o n o Grossraum europeu". 2 7 Os Estados U n i d o s e a Grã-

156
Bretanha ficariam fora desse bloco continental; a Europa se tornaria auto-suficien-
te. O padrão-ouro e o laissez-faire da ordem pós-Versalhes cederiam lugar à troca
de mercadorias e ao p l a n e j a m e n t o da p r o d u ç ã o e m escala continental, n u m a
extensão da política comercial alemã da década de 1930.
Antes e depois de 1939 se discutiu a "organização" da Europa n u m a vasta eco-
nomia muito mais abertamente que o f u t u r o político do continente. Todavia, par-
ticularmente durante os três primeiros anos da guerra, projetos tão grandiosos
^ x- tiveram na prática pouco impacto sobre a política A estratégia da Blitzkrieg reque-
; ? cxia métodos diferentes de explorar os recursos econômicos dos territórios conquis-
c ^ y 1 tados; só c o m a "guerra total' a idéia de alguma forma de integração econômica
pareceu atraente n o contexto do próprio esforço de guerra^/
• As reflexões nazistas sobre e c o n o m i a internacional n ã o t i n h a m , p o r é m ,
y
< n e n h u m a analogia com a doutrina liberal dos benefícios m ú t u o s oferecidos pelo
r
v»- .
mercado. O regime garantia, as vezes, que os parceiros da Alemanha lucrariam
com tal associação: afinal, foi o que aconteceu, e m certa medida, na década de 1930
e n ã o era totalmente implausível, sobretudo depois das agruras relacionadas ao
capitalismo internacional nos anos 1920. Entretanto, estava cada vez mais claro
que a primeira função econômica da Europa era sustentar a Alemanha. Só se cum-
prisse essa função da melhor forma, assegurando a prosperidade do resto do con-
tinente, poderia haver u m a partilha mais ampla dos benefícios econômicos. Países
c o m o a Grécia e a Romênia logo desconfiaram que tinham trocado a tirania de
Londres pelo torniquete de Berlim.
Essa visão estreita da economia européia foi particularmente pronunciada
durante a guerra. Para o desespero de h o m e n s c o m o Goering e, depois, Speer, aos
y ^ o q u a i s cabia a u m e n t a r a p r o d u ç ã o de a r m a m e n t o s , Hitler relutava e m aceitar a
^ y queda do padrão de vida no Reich. Queria a todo custo evitar que se repetisse o
y, >' desastre de 1918, quando, acreditava, o colapso do setor civil acarretara a derrota
VT • militar. O regime manteve o c o n s u m o de alimentos o mais próximo possível do
V que fora antes da guerra e se mostrava b e m p o u c o disposto a incentivar a presença
de mulheres nas fábricas. Hitler sabia que u m conflito extenso não suscitava gran-
de entusiasmo entre a população e era sensível à insatisfação noticiada pelo parti-
do. Relutava e m testar sua popularidade c o m cortes drásticos na produção de bens
de consumo. Os recursos econômicos da Europa lhe permitiriam evitar isso.ZÍJ
í/Á medida que a Wehrmacht invadia u m país depois do outro, u m a variedade
de peritos e m economia, empresários particulares e agentes especiais assumia o

157
/•o / y

r
u* /
y:controle de firmas já existentes, expropriavam empresas pertencentes a j u d e u s e
tratavam de estabelecer contato c o m e m i n e n t e s industriais locais. A W e h r m a c h t e
outras autoridades cobravam os "custos da ocupação" e requisitavam estoques de
p r o d u t o s estratégicos, q u e iam de j u t a a bicicleta. A maior parte desses artigos era
c o n s u m i d a p o r unidades d o exército ou despachada para o Reich nas remessas dos
soldados. Na Primeira G u e r r a Mundial as tropas alemãs estacionadas nos Bálcãs
recebiam alimentos procedentes da Alemanha; agora os enviavam para sua pátria//
O efeito global dessa política diferia radicalmente de u m a região para outra.
Nas economias industriais d o P r o t e t o r a d o e do n o r o e s t e e u r o p e u a expropriação
física logo cedeu lugar a o u t r a tática: permitir q u e as instalações existentes conti-
n u a s s e m p r o d u z i n d o e confiscar os p r o d u t o s acabados. A arianização de empresas
p e r t e n c e n t e s a j u d e u s p r o p o r c i o n o u o controle direto, p a r t i c u l a r m e n t e de gru-
p o s t c h e c o s e austríacos. C o n t u d o , f i r m a s de n ã o - j u d e u s o u p e r t e n c e n t e s a o
Estado t a m b é m a c a b a r a m sendo controladas pelos alemães. Assim, b o a p a r t e da
indústria pesada e da p r o d u ç ã o de minérios na E u r o p a central foi i n c o r p o r a d a à
Reichswerke AG " H e r m a n n Goering" m e d i a n t e u m processo que recebeu o n o m e
de " r o u b o legalizado". Os alemães apossaram-se de três q u a r t o s d o m i n é r i o de
ferro francês e da m e t a d e da p r o d u ç ã o belga. A p r o d u ç ã o de a r m a m e n t o s tcheca
foi crucial para o esforço de guerra. O lucro líquido da Alemanha c o m esses países
é evidente. 29
Ironicamente, a política econômica dos nazistas f u n c i o n o u m u i t o m e l h o r ali
q u e nos territórios d o Leste, cuja importância e c o n ô m i c a parecia t ã o g r a n d e na
i m a g i n a ç ã o nacional-socialista. Goering, o s u s e r a n o da e c o n o m i a d o Reich até
1942, aceitou a necessidade de explorar recursos in situ na Europa ocidental, mas
n o Leste i m p l a n t o u a "pilhagem" p u r a e simples, até deparar c o m a resistência d o
partido local e dos governantes militares da Polônia e da Ucrânia, q u e tiveram de
arcar c o m as conseqüências. 3 0 /j
/ N a s e c o n o m i a s b a s i c a m e n t e agrícolas da Rússia e dos Bálcãs, a política de
\ expropriação dos alemães n ã o t a r d o u a criar u m a situação das mais terríveis. Os
c a m p o n e s e s p a r a r a m de abastecer o mercado, o excedente desapareceu e as popu-
lações u r b a n a s d e f r o n t a r a m c o m a m o r t e pela fome. Apenas u m m ê s depois da
invasão da Grécia pelos alemães, e m abril de 1941, observadores locais previram a
falta de alimentos. Acertaram: cerca de 100 mil gregos p o d e m ter m o r r i d o de f o m e
n o inverno d a q u e l e ano. N o Leste o r e g i m e nazista estava p r e p a r a d o p a r a algo
ainda pior. "Muitas dezenas de m i l h õ e s de pessoas serão supérfluas nesta área e

158
m o r r e r ã o ou terão de emigrar para a Sibéria", concluiu u m relatório u m mês antes
da invasão. "Toda tentativa de salvar a população da f o m e c o m excedentes da
região de terra negra haverá de sacrificar o abastecimento da Europa." C o m os pri-
meiros atos da resistência guerrilheira ao domínio alemão e a brutal reação dos
nazistas, a vida n o campo tornou-se precária e todas as possibilidades de explorar
eficientemente a "terra negra" da Ucrânia esvaíram-se durante a guerra. 3 ^
/ E n q u a n t o Goering e o Partido Nazista preferiam a exploração direta da popu-
la ã o local
? > Alfred Rosenberg, que era nominalmente o encarregado da política no
Leste, preferia encorajar g r u p o s nacionalistas pró-alemães e anti-russos. C o m o
guerra política, poderia ter funcionado, não fosse a oposição dos próprios colabo-
radores de Rosenberg. O Reichskommissar Kube p r o m e t e u aos bielo-russos
" n e n h u m absurdo parlamentar e n e n h u m a hipocrisia democrática". Na Ucrânia
encontrava-se Erich Koch, devotado seguidor de Hitler. "Tirarei t u d o desta terra",
dissera. "Vim aqui não para distribuir felicidade, e sim para ajudar o Führer." Os
ucranianos e r a m "negros", e suas tentativas de afirmação política esbarraram n o
desprezo de K o c h /
Os resultados eram óbvios para muitos de seus subordinados. "Se m a t a r m o s
os judeus, liquidarmos os prisioneiros de guerra, deixarmos m o r r e r de f o m e u m a
considerável parcela da população e ainda perdermos parte dos agricultores", pro-
testou u m administrador, " q u e m haverá de ser e c o n o m i c a m e n t e produtivo por
aqui?" N o começo da ocupação, os camponeses da Ucrânia receberam os alemães
c o m o libertadores. Se Hitler tivesse concordado e m privatizar as fazendas coleti-
vas, c o m o Rosenberg e seus conselheiros r e c o m e n d a r a m , a p r o d u ç ã o agrícola
poderia ter aumentado ao invés de diminuir. Mas ele não o fez, e o grande celeiro
da Europa nunca cumpriu sua promessa. N o inverno de 1941, a f o m e espalhou-se
pela Ucrânia e pela Galícia oriental. Ocorreu n o leste u m a retomada da atividade
industrial depois que Goering m u d o u de opinião, p o r é m era tarde demais para
reconquistar a simpatia de u m a população já totalmente desiludida. E m 1943 mui-
tos camponeses voltaram novamente seus pensamentos para Moscou, alegando
q u e " u m a m ã e r u i m ainda é m e l h o r q u e u m a madrasta que p r o m e t e demais".
Rosenberg acreditava que seu lacaio Koch "arruinou u m a grande oportunidade
política". Só a estratégia mais moderada que a W e h r m a c h t adotou com os monta-
nheses muçulmanos do Cáucaso indicou u m a das grandes possibilidades perdidas
da guerra. 32

159
GUERRA TOTAL

'A Blitzkrieg t e r m i n o u " , escreveu u m e c o n o m i s t a militar e m j a n e i r o de 1942.


^, " Q u a n t o à e c o n o m i a , é p r i o r i d a d e a b s o l u t a reconstruí-la c l a r a m e n t e e m conse-
\ q ü ê n c i a de u m a l o n g a g u e r r a . " N o i n v e r n o de 1941, os líderes a l e m ã e s t i v e r a m d e
o r i e n t a r a e c o n o m i a p a r a u m a g u e r r a total. Isso significava, c o n f o r m e o b s e r v a
Milward, q u e o p r o j e t o original de criação de u m a N o v a E u r o p a falhara e c o m ele
V os esforços de G o e r i n g p a r a c o o r d e n a r a p r o d u ç ã o de a r m a s p o r m e i o d o P l a n o
t f Q u a d r i e n a l ; a salvação da r e v o l u ç ã o nacional-socialista d e m a n d a v a u m a p r o f u n d a
t r a n s f o r m a ç ã o das relações e c o n ô m i c a s e u m a racionalização d o g i g a n t e s c o m a s
r u i n o s o p r o g r a m a d e r e a r m a m e n t o iniciado e m 1936. 3 /
A g o r a era preciso explorar m a i s q u e n u n c a os países-satélites. O j o v e m tecno-
crata Albert Speer, u m dos favoritos de Hitler, c o m e ç o u a c o o r d e n a r a p r o d u ç ã o
bélica. Fritz Sauckel, i n s t r u m e n t o d o p a r t i d o , r e c e b e u o r d e n s de a r r e b a n h a r mais
alguns m i l h õ e s de t r a b a l h a d o r e s e s t r a n g e i r o s p a r a s e r v i r e m ao Reich. T e n d o exter-
m i n a d o n a q u e l e i n v e r n o q u a s e 3 m i l h õ e s de prisioneiros d e g u e r r a russos, o regi-
m e p e r c e b i a a g o r a sua d e s e s p e r a d o r a n e c e s s i d a d e de m ã o - d e - o b r a . C o n f o r m e
escreveu u m f u n c i o n á r i o e m fevereiro d e 1942: 'A atual dificuldade na distribuição
de t r a b a l h a d o r e s n ã o existiria se n o m o m e n t o a d e q u a d o se tivesse decidido distri-
b u i r e m m a i o r escala os prisioneiros d e g u e r r a russos. D o s 3,9 m i l h õ e s de russos
disponíveis, r e s t o u a p e n a s 1,1 m i l h ã o
/ / O Reich já d e p e n d i a da m ã o - d e - o b r a estrangeira: cerca d e 700 mil p o l o n e s e s
' f o r a m e m p r e g a d o s n o v e r ã o de 1940 e u m a n o depois havia 2,1 m i l h õ e s de traba-
v, J~ V
N„ l h a d o r e s civis e 1,2 m i l h ã o de prisioneiros de g u e r r a . A p a r t i r de 1942, os esforços
d e Sauckel p e l o c o n t i n e n t e afora r e s u l t a r a m n o r e c r u t a m e n t o f o r ç a d o de m i l h õ e s
de t r a b a l h a d o r e s . O s m é t o d o s violentos utilizados p o r seus s u b o r d i n a d o s provoca-
r a m e n o r m e p r o t e s t o e a j u d a r a m a intensificar a resistência a o d o m í n i o nazista.
U m r e l a t ó r i o d e n o v e m b r o d e 1942 a p r e s e n t a u m a vivida descrição da m a n e i r a
c o m o se a r r e g i m e n t a v a m trabalhadores:

Homens e mulheres, inclusive adolescentes a partir de quinze anos, são agarrados na


rua, nas feiras livres e nas festas de sua comunidade e conduzidos para longe. Por esse
motivo os moradores estão com medo, escondem-se e evitam sair de casa [...] Além
de se aplicarem chibatadas como castigo, desde o começo de outubro incendeiam-se

160
sítios ou aldeias inteiras em represália à desobediência da municipalidade local às
ordens de providenciar a mão-de-obra disponível.35/'

E m abril de 1943 o chefe da agência de Sauckel e m Varsóvia foi m o r t o e m seu


escritório; n o m ê s seguinte o protesto generalizado resultou n u m a diminuição do
r e c r u t a m e n t o forçado na Europa ocidental.
M e s m o assim, a mão-de-obra estrangeira era essencial para o esforço de guer-
ra a l e m ã o . Já e m 1942 e n t r e 80% e 90% dos 600 mil operários da gigantesca
Reichswerke de Goering e r a m estrangeiros civis e prisioneiros de guerra; o restan-
te da economia seguia o exemplo. E m 1944 havia 8 milhões de trabalhadores n o
Reich, na maioria civis, e 2 m i l h õ e s d i r e t a m e n t e s u b o r d i n a d o s aos alemães e m
o u t r o s países. Eles a t u a v a m n a a g r i c u l t u r a e c o n s t i t u í a m u m a f o n t e b a r a t a de
e m p r e g a d o s domésticos. C o r r e s p o n d i a m a u m terço da mão-de-obra utilizada na
p r o d u ç ã o de a r m a m e n t o s , e m n o v e m b r o de 1944, e a mais de u m q u a r t o dos ope-
rários dedicados à construção de m á q u i n a s e à indústria química. Sua presença res-
g u a r d o u a p o p u l a ç ã o alemã e p o u p o u o r e g i m e de estabelecer u m a estratégia
interna q u e teria obrigado donas-de-casa a trabalhar fora. C o n f o r m e escreveu u m
estudioso nazista: "Preferimos s u p o r t a r u m a u m e n t o t e m p o r á r i o n o e l e m e n t o
estrangeiro e m certas ocupações a colocar e m perigo o vigor biológico d o povo ale-
m ã o c o m a m a i o r participação das m u l h e r e s na força de trabalho". 3 6
A caçada h u m a n a de Sauckel pelo continente p o d e ter ajudado o esforço de
g u e r r a na Alemanha, mas e m outros lugares causou transtornos tremendos. Ante
a a m e a ç a de s e r e m c a p t u r a d o s e d e s p a c h a d o s p a r a o Reich, t r a b a l h a d o r e s da
E u r o p a ocupada c o m freqüência a b a n d o n a v a m o e m p r e g o e tratavam de se escon-
der. Os administradores locais p r o c u r a v a m f o r m a s de protegê-los da deportação e
os policiais faziam vista grossa. O crescimento d o Maquis na França e da resistên-
cia na Grécia teve relação direta c o m a intensidade crescente das investidas de
Sauckel. Políticos e funcionários públicos t e n t a r a m convencer os alemães a m u d a r
sua estratégia. E n c o n t r a r a m seu m a i o r aliado na pessoa de Albert Speer, o minis-
tro da P r o d u ç ã o Bélica.
D i f e r e n t e m e n t e de Sauckel, Speer acreditava q u e a cooperação econômica
c o m as economias industrializadas da França, da Bélgica e da Holanda era essen-
cial para o esforço de g u e r r a do Reich. O r e c r u t a m e n t o forçado de trabalhadores
não fazia sentido se malquistava governos e empresários estrangeiros, desmante-
lava a p r o d u ç ã o e intensificava a resistência ao domínio alemão. Na França a tática

161
de Sauckel levara Lavai ao desespero: "Esta política já n ã o é de colaboração, e sim
de sacrifício, d o lado francês, e de compulsão, do lado alemão". Speer propôs, na
verdade, ressuscitar a colaboração — u m a questão de racionalidade mais q u e de
orgulho político. 37
/. A racionalização da p r o d u ç ã o concebida p o r Speer considerava t o d o o
noroeste e u r o p e u c o m o u m a só unidade econômica. Era algo m u i t o diferente da
expropriação que caracterizara as primeiras f o r m a s da política econômica alemã e
que, e m certo sentido, atingiu o auge na exploração da mão-de-obra européia p o r
parte de Sauckel. Speer tinha u m a visão mais fria e m e n o s nacionalista; preferia o
p l a n e j a m e n t o à pilhagem e o m u n d o dos negócios à ideologia nacional-socialista.
Para ele, a criação de u m a indústria bélica de proporções européias — essencial
para a Alemanha ter u m a possibilidade de g a n h a r a guerra — requeria a proteção
de e c o n o m i a s industriais externas ao Reich e, p o r extensão, a p r o t e ç ã o de u m a
força de trabalho a d e q u a d a m e n t e capacitada e motivada.'
Os esforços de Speer para i m p l a n t a r a p r o d u ç ã o de a r m a s na Polônia e n a
Ucrânia e s b a r r a r a m na devastação econômica provocada p o r políticas anteriores.
Na França, p o r é m , o n d e os interesses ideológicos e r a m pequenos, sua estratégia
causou impacto. Ele conseguiu sustar o r e c r u t a m e n t o forçado de Sauckel e chegar
a u m e n t e n d i m e n t o c o m tecnocratas locais ( c o m o Jean Bichelonne, o ministro da
P r o d u ç ã o Industrial de Vichy), o q u e possibilitou planejar a p r o d u ç ã o industrial
e m c o n j u n t o e m vez de simplesmente destiná-la à expropriação. "E u m a imbecili-
dade convocar 1 milhão de franceses", a r g u m e n t o u , criticando Sauckel, "para ficar
c o m 2 milhões de trabalhadores a m e n o s na França e entre 50 mil e 100 mil a mais
na Alemanha." N ã o só material bélico, c o m o bens de c o n s u m o iam para o Reich.
N o o u t o n o de 1943 os alemães utilizaram cerca de 40% a 50% da p r o d u ç ã o indus-
trial francesa. Nessa época Speer pensava e m criar gigantescos cartéis industriais
de carvão, carros, alumínio e o u t r o s p r o d u t o s , que p o d i a m ser incluídos n u m a
z o n a franca européia. 3 8
Por causa disso, ele é considerado u m pioneiro dos acordos industriais q u e
levariam à C o m u n i d a d e E u r o p é i a d o C a r v ã o e do Aço e, p o r fim, ao M e r c a d o
C o m u m . H á alguma verdade e m tal interpretação, que decerto é n o m í n i m o tão
plausível q u a n t o a que faz essas instituições do pós-guerra r e m o n t a r ao federalis-
m o da resistência antinazista. C o n t u d o , p e r m a n e c e inalterado o fato de que a Nova
O r d e m foi m u i t o mais, e m u i t o menos, q u e u m proto-Mercado C o m u m . Por u m
lado Speer era realista, pois reconhecia a impossibilidade de g a n h a r u m a g u e r r a

162
m o d e r n a , a l t a m e n t e industrializada, c o m a primitiva e c o n o m i a de c o n q u i s t a d e
Hitler; p o r o u t r o , p o r é m , estava e n g a n a d o , pois s e m a política de Hitler o Terceiro
Reich n ã o era nada. E m o u t r a s palavras, sua visão de u m m u n d o o n d e os negócios
s u p l a n t a v a m o conflito p o l í t i c o — u m m u n d o s u r p r e e n d e n t e m e n t e s e m e l h a n t e a o
q u e a c a b o u d e s p o n t a n d o depois de 1945 — n ã o podia concretizar-se n a E u r o p a de
Hitler. O p r ó p r i o Hitler limitou o p l a n e j a m e n t o de Speer e n u n c a retirou inteira-
m e n t e seu a p o i o a Sauckel: a vitória da racionalidade sobre a ideologia foi a p e n a s
temporária.
Se a E u r o p a n ã o p ô d e ser "organizada", b o a p a r t e da culpa c o u b e aos "orga-
nizadores" e a seu c o n c e i t o de "organização". C o m a lucidez q u e o caracteriza, o
filólogo Victor K l e m p e r e r a p o n t o u as c o n o t a ç õ e s nazistas desse c o n c e i t o — disci-
plina i m p o s t a , hierarquia, o r d e m — , devidas a seu r a c i s m o subjacente. Seu rever-
so foi a " o r g a n i z a ç ã o " (isto é, o r o u b o , o f u r t o , o saque) e f e t u a d a pelos í n f i m o s n o s
c a m p o s de c o n c e n t r a ç ã o . Mais q u e u m princípio de eficiência administrativa isen-
ta d e j u í z o d e valor, a o r g a n i z a ç ã o n o estilo nazista significou a s u b o r d i n a ç ã o eco-
n ô m i c a das raças inferiores da E u r o p a ao Volk n ó r d i c o - g e r m â n i c o . Assim, a econo-
m i a era inseparável da ideologia; a raça seria o a u t ê n t i c o princípio " o r g a n i z a d o r "
d o continente. 3 9

A EUROPA COMO ENTIDADE RACIAL

/ E m agosto de 1941 Hitler p r o c l a m o u : 'A E u r o p a n ã o é u m a e n t i d a d e g e o g r á -


, fica. É u m a entidade racial . A Liga das N a ç õ e s havia t e n t a d o c o n s e r v a r as m i n o -
jS rias o n d e elas estavam e assegurar a estabilidade p o r m e i o d o direito internacional;
4 Hitler, ao contrário, n ã o acreditava e m direito e p r e t e n d i a assegurar a estabilidade
d e s l o c a n d o populações. E m n o m e de objetivos raciais r e m a n e j a r a m - s e nações, e
m i l h õ e s d e pessoas f o r a m a r r a n c a d a s d e sua pátria, reinstaladas n u m l u g a r estra-
n h o , a c e n t e n a s de q u i l ô m e t r o s de distância, a b a n d o n a d a s , e n c e r r a d a s e m c a m p o s
de trabalho o u d e l i b e r a d a m e n t e eliminadas. É s o b r e t u d o nesse aspecto que a
S e g u n d a G u e r r a M u n d i a l difere de conflitos anteriores. Existe u m a b i s m o e n o r m e
e n t r e as aspirações d o kaiser G u i l h e r m e e m 1918 — c o m seu a n t i q u a d o p r o g r a m a
d e assimilação pela g e r m a n i z a ç ã o c u l t u r a l — e o r a c i s m o b i o l ó g i c o d e 1939.40/'
^y^i / E s s e m u n d o n o v o de e x t e r m í n i o e m m a s s a e aniquilação cultural patrocina-
yi1" dos p e l o Estado d e u o r i g e m a u m n o v o t e r m o — g e n o c í d i o —, q u e s u r g i u e m 1944,
a
163
n o estudo Axisrulein occupiedEurope, d o advogado j u d e u polonês Raphael Lemkin.
Depois d o conflito, os j u l g a m e n t o s de N u r e m b e r g , a Convenção do Genocídio das
Nações Unidas, o j u l g a m e n t o de E i c h m a n n e o interesse da mídia pelo que se tor-
n o u c o n h e c i d o c o m o H o l o c a u s t o d i f u n d i r a m a idéia de q u e a Segunda G u e r r a
Mundial foi, e m certa medida, u m a g u e r r a racial — vista, c o m freqüência, exclusi-
v a m e n t e e m t e r m o s de "a g u e r r a contra os j u d e u s " (para citar o título de u m estu-
do famoso),'t)e fato, a solução final da questão judaica surgiu de u m entrelaçamen-
to mais a m p l o de questões raciais que o r e g i m e nazista p r o c u r o u "resolver" p o r
m e i o da guerra.
U m a conseqüência da conquista da E u r o p a pelos nazistas foi a extensão da
dialética d o Estado d o bem-estar racial a u m a escala continental — u m Estado, e m
outras palavras, o n d e as medidas policiais de repressão aos "racialmente indesejá-
veis" e r a m o anverso da estratégia de salvaguardar o vigor da Volksgemeinschaft. A
Nova O r d e m na Europa envolvia, p o r u m lado, medidas para eliminar a "ameaça"
q u e judeus, ciganos, poloneses, ucranianos e outros Untermenschen representavam
para o Reich e, p o r outro, planos grandiosos e m prol d o Deutschtum — e m particu-
lar, p r o v e r o b e m - e s t a r e o r e a s s e n t a m e n t o dos c h a m a d o s Volksdeutsche, os 10
m i l h õ e s d e g e r m a n ó f o n o s q u e v i v i a m f o r a d o Reich. Expulsão e colonização,
extermínio e assistência social e r a m os dois lados da m e s m a m o e d a imperial.
A g u e r r a n ã o só expandiu o alcance geográfico da política racial nazista c o m o
a radicalizou e complicou. Foi o g r a n d e catalisador. Para Hitler, n o final dos anos
1930, o primeiro r e a s s e n t a m e n t o de alemães d o Tirol meridional constituiu inicial-
m e n t e u m a questão de necessidade diplomática: nas mãos de Himmler, depois de
o u t u b r o de 1939, converteu-se n o prelúdio de u m a visão m u i t o mais ambiciosa,
envolvendo o c o m p l e t o r e m a n e j a m e n t o étnico da Europa oriental. Os objetivos
d o r e a s s e n t a m e n t o p a s s a r a m p o r várias m u d a n ç a s à m e d i d a q u e a u m e n t a v a a
extensão territorial dos alemães e as perspectivas se modificavam. Pode-se dizer o
m e s m o sobre a estratégia relativa aos "racialmente indesej áveis". A progressão da
g u e r r a levou a política para águas desconhecidas.
N o tocante à "questão judaica", abriram-se novas perspectivas, e s u r g i r a m
novas dificuldades, q u a n d o a Polônia, depois a Europa ocidental e p o r f i m g r a n d e s
porções da União Soviética caíram e m p o d e r dos nazistas. A "estrada tortuosa para
A u s c h w i t z " c o m p r e e n d e u atalhos equivocados, c o m o o Plano M a d a g á s c a r de
1940 (o envio dos j u d e u s e u r o p e u s para essa ilha), e improvisações m o r t í f e r a s ,
c o m o as u n i d a d e s de gás usadas na Sérvia, na Ucrânia e e m C h e l m n o , antes de

164
(

ocorrer à cúpula nazista a idéia da aniquilação maciça, industrializada, nos c a m p o s


de extermínio.
/ Paralelamente à expansão e à radicalização da agenda racial h o u v e u m rápido
- crescimento da ss. Ao a g r u p a r os serviços de segurança na RSHA, sob a direção de
^\ Heydrich, H i m m l e r passou a exercer ampla influência n o policiamento e n o servi-
ço de informações e m boa parte dos territórios ocupados. Criado e m 1934, o impé-
j rio do c a m p o de concentração (excluindo-se os c a m p o s de extermínio) expandiu
sua população de 25 mil e m 1939 para 714 mil e m 1945 e foi administrado p o r o u t r o
setor da ss, a WVHA. OS c a m p o s de e x t e r m í n i o n ã o existiam e m 1939; e m 1942,
' m a t a r a m mais de 1 milhão de pessoas!/a criação de u m a nova classe de colonos ale-
m ã e s a partir dos infelizes Volksdeutsche tornou-se responsabilidade da RKFDV, que,
*V ° instituída e m o u t u b r o de 1939, retirou de suas casas mais de 1 milhão de alemães
étnicos, administrou centenas de c a m p o s de reassentamento e instalou n o m í n i m o
400 mil na Europa oriental. Foi, p o r t a n t o , a g u e r r a q u e permitiu à ss rivalizar c o m
o p o d e r d o aparato estatal estabelecido na União Soviética para controlar a vida e
o destino de milhões de pessoas. 4 '
/ A centralidade d o p e n s a m e n t o racial — b e m c o m o a idéia d o assassinato
N^r maciço industrializado — constituiu a diferença básica entre o império de Hitler e

W o de Stalin. C o m o p o d e r de r e f o r m u l a r a composição h u m a n a de u m continente


inteiro, H i m m l e r e a ss d e p a r a r a m c o m as ambigüidades, os dilemas e as limitações
de u m a política imperial configurada pelas premissas do racismo biológico. Para
C
começar, qual devia ser o papel dos alemães? Deviam concentrar-se n o Reich, con-
NTV f o r m e a opinião que prevaleceu até 1941, o u f o r m a r u m a classe fronteiriça para
povoar as marcas orientais, tal qual f i z e r a m seus antepassados medievais? C o m o
raça superior, deviam encher suas propriedades c o m milhares de servos eslavos, ou
cultivar a terra de acordo c o m a n o ç ã o nazista de q u e Blut und Boden constituía a
garantia máxima da vitalidade ariana? C o m o reconhecer u m alemão étnico: pelo
idioma, pelas características físicas o u pela genealogia? D u r a n t e toda a guerra, os
b u r o c r a t a s nazistas d i s c u t i r a m a c a l o r a d a m e n t e essas questões. Q u a n t o aos
Untermenschen, e r a m u m a força de trabalho necessária ou u m a ameaça biológica
q u e cumpria eliminar? Tais e r a m os dilemas d o apartheid praticado na vasta e cri-
minosa escala da Nova O r d e m de H i t l e r /

165
A GUERRA RACIAL ( 1 ) : POLÔNIA, I 9 3 9 - 4 I

As disposições de Versalhes referentes aos problemas das minorias na Europa


oriental expiraram e m Munique, q u a n d o Ribbentrop, o ministro do Exterior ale-
mão, secretamente p r o m e t e u aos italianos reassentar n o Reich os alemães étnicos
do Tirol meridional. J u n t o c o m a anexação dos Sudetos, essa promessa encerrou a
era dos Tratados das Minorias e inaugurou u m a abordagem mais brutal das ten-
sões étnicas na Europa. As garantias legais cederam lugar a traslados compulsórios
de populações nos moldes da troca greco-turca efetuada quinze anos antes.
A princípio, isso resultou n u m grande influxo de alemães étnicos n o Reich.
Assim c o m o a necessidade de contar c o m o apoio da Itália levou Hitler a revogar
u m a política anterior e sancionar o reassentamento de 80 mil alemães d o Tirol
meridional, sua necessidade de contar c o m o apoio da Rússia e m 1939-40 levou-o
a u m sacrifício semelhante das comunidades alemãs do Báltico e da Bessarábia. Em
o u t u b r o de 1939, a ss recebeu a incumbência de repatriar cerca de 75 mil alemães
da Letônia e da Estônia; n o mês seguinte u m novo acordo entre Berlim e Moscou
abrangeu os 128 mil Volksdeutsche da Polônia ocupada pelos soviéticos. D e n t r o de
semanas essa gente começou a chegar ao Reich e à Polônia ocupada, e não se sabia
ainda onde e c o m o instalá-la.
Hitler concebeu o reassentamento c o m o u m a tarefa do Partido Nazista, mas
H i m m l e r logo o convenceu a confiá-lo à ss. N o c o m e ç o de 1940 ele criou a
Comissão do Reich para a Consolidação da Nacionalidade Alemã (RKFVD), encar-
regada de organizar evacuações, a triagem racial de evacuados e campos de recep-
ÜD
ção. Cabia à RKFVD não só zelar pelos imóveis que os alemães bálticos haviam dei-
xado para trás c o m o encontrar novas propriedades onde reassentá-los. Esta última
tarefa envolvia a expulsão dç poloneses e j u d e u s de seus imóveis nos territórios
conquistados.;
Entre 1939 e 1941, as atividades da RKFVD concentraram-se na Polônia, agora
dividida nos territórios ocidentais de Warthegau e Dantzig, que f o r a m incorpora-
dos ao Reich, e n o G o v e r n o Geral, administrado c o m o u m a colônia p o r H a n s
Frank. H i m m l e r pensou e m criar u m a linha de demarcação clara entre os alemães
e a população "racialmente inferior". Os alemães étnicos seriam conduzidos para
os territórios ocidentais incorporados, enquanto os poloneses e os judeus daque-

166
Ias regiões seriam transferidos para o leste, para o Governo Geral, que constituiria
u m a reserva de Untermenschen.
Tal projeto, n o entanto, desagradava a outros burocratas nazistas. E m primei-
ro lugar, envolvia praticamente a desintegração da economia local. N o s territórios
anexados, a expulsão dos camponeses poloneses e dos artesãos j u d e u s ameaçava
provocar u m colapso econômico; n o Governo Geral os administradores n ã o esta-
v a m gostando n e m u m p o u c o de receber multidões de poloneses e j u d e u s pobres
e erradicados, pois assim n ã o p o d e r i a m concretizar as próprias ambições de trans-
f o r m a r a região n u m i m p o r t a n t e centro de atividade econômica. O c h o q u e entre
o d o g m a t i s m o racial e o interesse e c o n ô m i c o colocou Himmler, a ss e os ideólogos
do Partido Nazista contra H a n s Frank, chefe d o Governo Geral, e Goering, porta-
voz dos grandes interesses econômicos d o Reich.
Esse conflito ainda estava p o r ser resolvido q u a n d o novos a c o r d o s e n t r e
Berlim e M o s c o u o b r i g a r a m a " c h a m a r de volta à Pátria" 50 mil alemães da
Lituânia e 130 mil da Bessarábia e da Bucovina setentrional. N o verão de 1941, às
vésperas da invasão da U n i ã o Soviética, a RKFVD havia a s s e n t a d o 200 mil
Volksdeutsche na Polônia ocidental, a maioria e m fazendas desapropriadas. O u t r o s
275 mil i m i g r a n t e s p e r m a n e c e r a m e m c e n t e n a s de centros de r e a s s e n t a m e n t o
a g u a r d a n d o t r i a g e m e t r a n s p o r t e para c o m e ç a r u m a nova vida. U m m i l h ã o de
poloneses e j u d e u s f o r a m s u m a r i a m e n t e despachados para o G o v e r n o Geral. A
m e t a d e de todos os estabelecimentos comerciais estava agora nas m ã o s de curado-
res alemães do Reich. A população judaica a u m e n t a r a para 1,65 milhão, os recém-
chegados apinhados e m guetos e c a m p o s de trabalho repletos de doenças. Frank
recrutara entre 600 mil e 700 mil trabalhadores poloneses para o Reich

/ O t r a t a m e n t o que a RKFVD, O Partido Nazista e outras agências dispensaram


aos alemães étnicos que chegavam ao Reich era extraordinariamente compreensi-
X
vo e até c a l o r o s o — u m p r o g r a m a de bem-estar social e m escala imperial. U m a jor-
nalista americana que visitou o c a m p o Galatz, na Romênia, criado para abrigar ale- '
m ã e s da Bessarábia n o final de 1940, relatou que

os velhos tomavam sol, tranqüilamente sentados nos bancos [...] As mulheres, a cabe-
ça coberta como é costume das alemãs nessas partes do mundo, conversavam,
enquanto lavavam a roupa nos tanques dispostos ao longo dos galpões. Nas varan-
das cobertas de vegetação outras mulheres passavam e lavavam roupa. Os jovens
marchavam, cantavam e faziam a saudação [nazista] sob a supervisão da ss e dos

i6 7
Volksdeutsche [...] Os bebês e as crianças pequenas, aparentemente mais numerosos
que no Canadá francês, brincavam sob os cuidados de professoras, a maioria das quais
eram moças alemãs da Romênia e da Iugoslávia, que assim prestavam seu trabalho
voluntário. De quando em quando, um jovem ss carinhosamente pegava uma crian-
ça e carregava-a nos ombros ou a segurava no colo [...]
Foi surpreendente ouvir esses refugiados. Ter de deixar a terra de seus ancestrais
constituiu para eles uma catástrofe, sem dúvida. E ainda não sabiam quando e onde
encontrariam u m novo lar. Seu futuro imediato era seguir para outros campos, pois
ainda não se decidira seu destino final. Entretanto velhos e jovens, ricos e pobres
expressavam u m mínimo de tristeza e uma confiança ilimitada na Alemanha do
Führer. Esses prolíficos descendentes de colonos prolíficos, que falavam o alemão
antiquado de W u e r t t e m b e r g na época de Schiller, estavam voltando para a
Alemanha de Hitler como se fossem para a Terra Prometida [...] Temos de admitir
que infundir-lhes tão fervorosa certeza foi u m grande triunfo para Hitler. Não havia
como não se impressionar com tal triunfo. Aqui o Estado protetor exercia seu papel
em grandioso estilo. u

C a b e n o t a r q u e Stalin exerceu sobre esses r e f u g i a d o s u m a influência n o míni-


m o t ã o i m p o r t a n t e q u a n t o a d e Hitler (os Volksdeutsche q u e se e n c o n t r a v a m fora da
esfera soviética v i a m a "repatriação" c o m m u i t o m e n o s entusiasmo); todavia n ã o
deixa d e ser v e r d a d e q u e o Terceiro Reich, p e r m a n e c e n d o fiel a sua p r e o c u p a ç ã o
c o m o b e m - e s t a r racial, investiu idealismo, e s f o r ç o e d i n h e i r o n o p r o g r a m a d e
repatriação.
/ / N e m t o d o s os i m i g r a n t e s aceitavam o d e s a r r a i g a m e n t o : u m n ú m e r o signifi-
cativo deles ficava p a r a trás, e n q u a n t o m u i t o s c h o r a m i n g a v a m , q u e r e n d o voltar

&
vf
p a r a casa. O s a l e m ã e s da L o r e n a n ã o t i n h a m a m e n o r v o n t a d e d e p a r t i r p a r a a
Galícia a f i m d e g a r a n t i r os e x p e r i m e n t o s raciais d e H i m m l e r ; os da Letônia dese-
j a v a m ir p a r a sua t e r r a depois q u e a W e h r m a c h t ocupasse os Estados bálticos; os
Volksdeutsche dos a r r e d o r e s d e Atenas, cujos antepassados b á v a r o s se instalaram ali
c o m o rei Oto, u m século antes, a g o r a se e n c o n t r a v a m n u m c a m p o d e Passau, se
lamuriando: " N ã o g o s t a m o s daqui, q u e r e m o s voltar para a Grécia". Muitos,
p o r é m , e r a m apaziguados pelas jovens da Liga das Moças A l e m ã s (BDM), q u e saíam
d o Reich p a r a ir ao Leste dar as boas-vindas a novos g r u p o s , a r r u m a r sítios expro-
priados p a r a a c o m o d á - l o s e ajudá-los a cuidar das crianças. Milhares de m e m b r o s

168
da J u v e n t u d e Hitlerista sentiam-se atraídos pelo "mistério d o Leste" e utilizavam
seu A n o de Serviço Agrícola para cooperar na instalação dos recém-chegados.'"/
w' /Desnecessário é dizer, p o r é m , que poloneses e j u d e u s receberam t r a t a m e n t o
a*' diferente. A ss d e p o r t o u os pobres Untermenschen dos territórios ocidentais s e m
v
J avisá-los c o m maior antecedência. P o d e n d o levar apenas u m a p e q u e n a b a g a g e m
de mão, u m a p e q u e n a quantia e m dinheiro e n e n h u m objeto valioso, f o r a m con-
d u z i d o s à estação ferroviária mais p r ó x i m a o u s i m p l e s m e n t e a b a n d o n a d o s e m
c a m p o aberto. N ã o se t o m o u n e n h u m a providência relativa a seu f u t u r o b e m -
estar. N u m esforço deliberado para enfraquecer ou eliminar a resistência polonesa
— o q u e Hitler c h a m o u de "faxina política" —, os esquadrões da ss voltaram-se
c o n t r a os intelectuais e o u t r o s m e m b r o s da elite nacional. Os p r o f e s s o r e s da
Universidade da Cracóvia, p o r exemplo, seguiram, e m n o v e m b r o de 1939, para o
c a m p o de c o n c e n t r a ç ã o d e S a c h s e n h a u s e n , o n d e a maioria m o r r e u . E m 1940,
n u m a série de represálias contra ataques a alemães, os nazistas incendiaram aldeias
e m a t a r a m centenas de civis, definindo o padrão de truculência q u e logo se alastra-
ria pela Europa oriental. A "Ação AB", p e r p e t r a d a naquele verão, resultou na prisão
e execução de 3 mil pessoas ilustres: os oficiais responsáveis receberam garantias
de q u e n ã o s e r i a m processados. E m 12 de j u l h o o m é d i c o p o l o n ê s Z y g m u n t
Klukowski a n o t o u e m seu diário a "terrível notícia sobre as execuções de mais de
quarenta pessoas e m Lublin [...] Custa-me crer q u e seja verdade". Dois dias depois,
ao t o m a r c o n h e c i m e n t o de que u m guarda-florestal disparara i m p u n e m e n t e n u m
j o v e m polonês, escreveu c o m tristeza: "Para os alemães, é legítimo atirar e m polo-
neses e judeus".' 4

^ / O q u e tornava particularmente terrível a situação dos poloneses era a condu-


íf ta ainda mais d e s u m a n a das forças soviéticas na Polônia oriental, o c u p a d a pelo
Exército Vermelho entre 1939 e 1941. Ali t a m b é m estava e m curso o assentamen-
. to compulsório, e nas m ã o s dos soviéticos m o r r e r a m muitas centenas de milhares
de pessoas. Nessa época, o n ú m e r o de assassinatos c o m e t i d o s pelos nazistas foi
m u i t o menor. C o n t u d o , e m sua g u e r r a de conquista racial, os alemães logo supe-
r a r a m os comunistas e d e r a m início a u m a " g u e r r a de aniquilação" total. Já os
internos de hospícios poloneses haviam sido reunidos e fuzilados para deixar espa-
ço para os alojamentos da ss. Assim, o p r o g r a m a de eutanásia dos nazistas chega-
va aos territórios ocupados. Os j u d e u s poloneses receberam u m t r a t a m e n t o igual-
^ j m e n t e assustador. O p r o g r a m a de d e p o r t a ç ã o dos t e r r i t ó r i o s ocidentais n ã o
f estabelecera distinção entre poloneses e j u d e u s — a m b o s deviam ser banidos das

/ 169
áreas reservadas ao assentamento de alemães. Mas a ss, por meio das unidades da
Caveira e dos Einsatzgruppen do S Í P O / S D , realizou execuções sumárias de judeus
velhos, q u e i m o u sinagogas e saqueou propriedades judaicas. Lublin era o destino
de centenas de milhares de judeus expulsos da Polônia ocidental.
N o século xix a germanização da Polônia se processara gradativamente, c o m
tf a cultura e a língua proporcionando u m a transmissão paulatina de valores germâ-
v nicosà população e m geral (muitas vezes pelos judeus). Já a política nazista adotou
:< c o m o princípios básicos a exclusão, a separação e o extermínio. Os territórios
ocupados t i n h a m de ser g e r m a n i z a d o s à força e c o m a maior rapidez possível.
Hitler i n f o r m o u a seus Gauleiters que d i s p u n h a m de apenas dez anos para com-
pletar a g e r m a n i z a ç ã o das províncias. O a l e m ã o substituiu o p o l o n ê s na vida
pública, e as cidades, e m particular, logo se t r a n s f o r m a r a m : Lódz r e c e b e u o
n o m e de Litzmannstadt; Poznan, o de Posen. Até n o Governo Geral, n o centro
e n o sul da Polônia, o c o r r e r a m processos semelhantes. Klukowski observou q u e
" e m Bilgoraj há u m a crescente germanização. Por toda parte vêem-se novas pla-
, cas e m alemão". 4 5 /
/JA germanização envolveu u m a política de negação cultural. As universidades
, polonesas foram fechadas (como as tchecas algum t e m p o antes), e, de acordo c o m
f V^^A a estratégia de "esterilização espiritual", restringiu-se a instrução à elementar e
profissional. E m maio de 1940 H i m m l e r explicou a política educacional nazista:
"Essa escola deve ter c o m o objetivo único: ensinar a contar, n o m á x i m o até qui-
nhentos, a escrever o próprio n o m e [...] a obedecer aos alemães e ser honesto, tra-
balhador e b o m . Não acho necessário ensinar a ler. Além dessa escola, não deve
haver n e n h u m a outra e m todo o leste'
/ T e n d o estabelecido u m a nítida distinção entre culturas, a ss ainda se esforçou
para separar os indivíduos racialmente "valiosos" dos "inúteis". E n t r e t a n t o , a
^ pseudociência do racismo biológico n ã o a j u d o u muito a identificar os alemães
,\j potenciais entre a população eslava das sociedades etnicamente mistas da Europa
oriental. O processo de seleção era tão estrito quanto arbitrário. U m funcionário
c
nazista sentiu-o na pele q u a n d o , antes de
conseguir provar sua identidade, foi
incluído p o r engano na triagem de centenas de tchecos e declarado racialmente
imprestável. Mas esse m o m e n t o de humilhação foi insignificante e m comparação
com os vividos p o r milhares de famílias despedaçadas n o esforço de preservar o
valor racial ou pelas centenas de milhares de mulheres consideradas germanizá-
veis e enviadas para o Reich a f i m de aprender m o d o s alemães trabalhando c o m o
17'
d o m é s t i c a s e m casas alemãs. O p r o c e s s o de t r i a g e m a c a b o u se e s t e n d e n d o até os
c a m p o s de c o n c e n t r a ç ã o , n u m a tentativa de reforçar c o m escravos de olhos azuis
e cabelos loiros os e s t o q u e s cada vez m e n o r e s de Deutschtum ,47/
Os j u d e u s n ã o t i v e r a m essa possibilidade. A própria cultura judaica e n c o n t r a -
ria u m a " m o r t e histórica" e existiria a p e n a s c o m o l e m b r a n ç a . Alfred R o s e n b e r g , o
principal teórico da ideologia nacional-socialista, espalhou pela E u r o p a b a n d o s de
soldados, bibliógrafos e historiadores da a r t e e n c a r r e g a d o s de recolher os b e n s cul-
turais das c o m u n i d a d e s j u d a i c a s e despachá-los p a r a F r a n k f u r t , o n d e H i t l e r lhe
o r d e n a r a criar u m c e n t r o de pesquisa p a r a ideólogos nazistas. E m 1943 u m admi-
n i s t r a d o r g a b o u - s e de q u e "na N o v a O r d e m da E u r o p a a biblioteca sobre a q u e s t ã o
judaica, n ã o só p a r a os e u r o p e u s , m a s p a r a o m u n d o , estará e m F r a n k f u r t sobre o
Meno". 4 8

A GUERRA RACIAL (2): VERNICHTUNGSKRIEG, I94I-5

As d i m e n s õ e s criminosas da política nazista e m relação aos j u d e u s d e m o r a -


r a m p a r a e m e r g i r da c o m p l e t a r e e s t r u t u r a ç ã o racial d o Leste e u r o p e u . C o m o os
planos de H i m m l e r relativos a u m E s t a d o de apartheid n a antiga Polônia esbarra-
r a m n a oposição de o u t r o s b u r o c r a t a s nazistas, a b a n d o n o u - s e o p r o j e t o de utilizar
o G o v e r n o Geral c o m o u m a "reserva" de j u d e u s . O p r ó p r i o Hitler r e c o n h e c e u , e m
m a r ç o de 1940, q u e n ã o era viável r e u n i r m i l h õ e s de j u d e u s na região de Lublin. N o
e n t a n t o , a invasão da França p r o p o r c i o n o u a H i m m l e r u m a nova o p o r t u n i d a d e , e
e m m a i o de 1940 ele a p r e s e n t o u a o F ü h r e r u m a n o v a s o l u ç ã o p a r a os d i l e m a s
raciais da A l e m a n h a .
/ E m 'Algumas considerações sobre a f o r m a de tratar populações estrangeiras
n o leste", sugeriu a triagem racial de t o d a a p o p u l a ç ã o da antiga Polônia: os "racial-
W m e n t e valiosos" p o d i a m ser transferidos p a r a a A l e m a n h a , e os demais seriam joga-
dos n o G o v e r n o Geral, constituindo u m reservatório de mão-de-obra barata p a r a o
Reich. Ao a b o r d a r s u c i n t a m e n t e a questão judaica, H i m m l e r observou: "Espero apa-

V
gar de u m a vez p o r todas o conceito de j u d e u c o m a possibilidade de u m a g r a n d e
e m i g r a ç ã o p a r a u m a colônia na África o u alhures". O m e m o r a n d o levantou a hipó-
tese de genocídio, p o r é m a descartou: "Por mais cruel e trágico q u e possa ser cada
caso individual, esse m é t o d o ainda é o mais b r a n d o e o melhor, se r e j e i t a r m o s a táti-
ca bolchevique da aniquilação física de u m p o v o c o m o não-alemã e impossível". 49

171
A colônia africana disponível após a vitória sobre a França era Madagáscar, e
durante alguns meses os nazistas levaram a sério o "Plano Madagáscar". Seu suces-
so, porém, dependia da derrota não só dos franceses, mas t a m b é m dos ingleses, e,
q u a n d o ficou claro que a batalha da Inglaterra fracassara, o plano caiu n o esqueci-
mento. A reação imediata de Hitler foi ignorar as objeções de Hans Frank quanto a
receber mais judeus n o Governo Geral/Todavia, c o m o Christopher Browning assi-
p nalou, o objetivo da solução final nesse estágio ainda consistia e m "expulsar os
f/\judeus para o extremo mais distante da esfera de influência alemã". O que modificou
a política nazista e m relação aos j u d e u s foi a invasão da União Soviética e a conse-
qüente radicalização da guerra. E m 1940 os alemães m a t a r a m n o m á x i m o cerca de
(r'
100 mil j u d e u s ; n o a n o seguinte, m a t a r a m mais de 1 milhão. C o m a O p e r a ç ã o
' Barbarossa o conflito transformou-se n u m a Vernichtungskrieg—uma guerra de ani-
quilação—contra o inimigo "judeu-bolchevique", e conceberam-se planos e ordens
militares envolvendo o extermínio e m massa n u m a escala sem precedentes. ;-

v
V
: \ / A conduta d o exército alemão e da ss nas fases iniciais da O p e r a ç ã o Barbarossa
. -V d e m o n s t r a o h o r r o r da Vernichtungskrieg. A d o t a n d o u m novo p r o c e d i m e n t o e des-
respeitando o direito internacional, as tropas fuzilavam todos os comissários sovié-
ticos que lhes caíam nas mãos. Os escalões superiores da W e h r m a c h t apresenta-
v a m poucas objeções. Os n u m e r o s o s prisioneiros de guerra soviéticos receberam
dos alemães u m t r a t a m e n t o m u i t o diferente d o que fora dispensado n o ano ante-
rior a seus colegas franceses ou belgas. Os que n ã o m o r r i a m de inanição t i n h a m de
caminhar até parecer "mais esqueletos de animais que seres h u m a n o s " . E m seis
meses, mais de 2 milhões de prisioneiros de g u e r r a soviéticos m o r r e r a m de f o m e
n o cativeiro nazista. 5 ^
À medida que avançava para o Leste, o exército dava m o r t e violenta a milhões
de civis. N o rastro das tropas seguiam os Einsatzgruppen de Heydrich — os esqua-
drões da m o r t e motorizados do SÍPO/SD — à cata de judeus, guerrilheiros e comu-
nistas. Suas vítimas e r a m principalmente j u d e u s soviéticos de todas as idades: mais
de 2,7 milhões viviam n o antigo Território Confinado, mais de 5 milhões nas frontei-
ras da União Soviética e m 1941. E m m e a d o s de abril de 1942 os quatro Einsatzgruppen
já haviam registrado a m o r t e de 518 388 pessoas, na vasta maioria judias. O u t r a série
de matanças ocorreu n o ano seguinte, e mais 1,5 milhão p o d e ter sucumbido: ao ter-
minar a guerra, apenas 2,3 milhões de judeus soviéticos ainda viviam. 52

172
O extermínio maciço nessa escala apavorante assinalou u m novo estágio na
a b o r d a g e m da Endlõsung e m o s t r o u q u e os nazistas já não consideravam a solução
final e m t e r m o s de r e a s s c n t a m e n t o / C o n t u d o , a execução de tantos civis, inclusive
<r , ' de mulheres e crianças, estava custando caro aos executores. E m agosto de 1941 o
s ^ S o n d e r k o m m a n d o 4a m a t o u as centenas de j u d e u s adultos que habitavam a cida-
l
y Jy de ucraniana de Byelaya Tserkov, mas deixou cerca de noventa crianças sob vigilân-
cia. "Tendo sido aniquilados t o d o s os j u d e u s da cidade, tornou-se necessário elimi-
n a r as crianças, e s p e c i a l m e n t e os bebês", r e g i s t r o u u m oficial da W e h r m a c h t .
Completou-se o morticínio. Depois, c o n t u d o , o m e s m o oficial observou — dei-
xando furioso o marechal-de-campo Von Reichenau, u m militar linha-dura — q u e
"as medidas t o m a d a s contra mulheres e crianças não diferiam e m nada das atroci-
dades cometidas pelo inimigo". Tais escrúpulos n ã o i m p e d i r a m o extermínio e m
massa, p o r é m o c o m p l i c a r a m . "

. / E m parte para evitar constrangimentos, e m parte para a u m e n t a r a eficiência


v ' , a d o processo, passou-se a utilizar gás nos c a m p o s especialmente concebidos para
extermínio. Inaugurou-se o n o v o m é t o d o , s e g u n d o parece, n o final d o verão e
;' c o m e ç o do o u t o n o de 1941, mais ou m e n o s na m e s m a época e m q u e H i m m l e r
assistiu pessoalmente a u m f u z i l a m e n t o maciço realizado pelo E i n s a t z k o m m a n d o
8 e m Minsk. A ss já havia usado unidades de gás móveis na Prússia oriental e n o
Governo Geral e m 1939-40. E, j u s t a m e n t e q u a n d o H i m m l e r procurava u m a alter-
nativa aos fuzilamentos, a indignação d o público d e t e r m i n o u o f i m da c a m p a n h a
da eutanásia n o Reich. A chancelaria de Hitler assumira o controle do programa T-4;
agora especialistas e m técnicas de e n v e n e n a m e n t o p o r gás estavam disponíveis
p a r a seguir para o Leste.

E m s e t e m b r o de 1941, alguns centros de eutanásia receberam j u d e u s proce-


dentes dos campos de concentração, sinal de que já se destinavam ao extermínio
maciço de judeus. Por volta dessa época u m castelo de C h e f r n n o , p e r t o d e t ó d z ,
converteu-se n u m c a m p o de extermínio r u d i m e n t a r , e a partir de d e z e m b r o de
1941 se e m p r e g a r a m unidades de gás fixas, operadas p o r especialistas d o antigo
p r o g r a m a d e eutanásia, p a r a eliminar o restante da p o p u l a ç ã o judaica d o War-
thegau. Os Einsatzgruppen passaram a utilizar unidades móveis e m t o d o o Leste.
Os técnicos da ss desenvolveram dois tipos — o D i a m o n d , c o m capacidade para 25
a 30 pessoas, e o Saurer, c o m capacidade p a r a 50 a 60 — e m o n i t o r a v a m as opera-
ções cuidadosamente, sobretudo e m condições de m a u t e m p o . "Desde d e z e m b r o

173
de 1941, processaram-se 97 mil com três unidades, e as máquinas não apresenta-
r a m defeito algum", informa u m relatório. 54
Entretanto, a chave da solução final era a construção de centros de extermí-
nio especiais n o Governo Geral. A princípio a ss concentrou-se na área de Lublin,
que, segundo os antigos planos de reassentamento, deveria transformar-se n u m
depósito de judeus procedentes da Polônia ocidental. Christian Wirth, especialis-
• ta e m eutanásia, t o r n o u - s e responsável pelo p r i m e i r o c a m p o de extermínio,
Belzec, onde as execuções c o m monóxido de carbono tiveram início e m março de
1942. N o final de 1941 prisioneiros de guerra soviéticos construíram o campo de
Majdanek, que recebeu os primeiros j u d e u s de Lublin e m d e z e m b r o e passou a
operar câmaras de gás e m setembro de 1942. Outros técnicos e m eutanásia foram
designados para Treblinka e Sobibor. Nesses e e m outros campos de extermínio
foram construídas câmaras de gás, ampliadas à medida que surgiam problemas de
capacidade. 5 5 /
Auschwitz, concebido para prisioneiros políticos poloneses, t a m b é m se
ampliou. Urbanistas da ss s o n h a v a m e m t r a n s f o r m a r a polonesa Oswiçcim na
Stadt Auschwitz, u m núcleo da colonização alemã, c o m ruas retas, cinemas
m o d e r n o s e terras férteis n o lugar dos pântanos que rodeavam a cidade. O campo
compreendia, além dos barracões dos prisioneiros, a e n o r m e fábrica de borracha
sintética que os diretores da IG Farben resolveram construir longe do alcance dos
bombardeiros aliados. Na vizinha Birkenau u m novo campo, gigantesco, abrigava
prisioneiros de guerra soviéticos e m condições assustadoras; foi nesses h o m e n s
que e m 3 de setembro de 1941 se testou pela primeira vez u m inseticida chamado
Zyklon-B, patenteado por u m a subsidiária da IG Farben. Pouco depois surgiram
novas câmaras de gás para a matança e m massa. Em 1942-3 Birkenau converteu-se
n o principal campo de extermínio dos judeus europeus. 56
Portanto, e m 1942já se dispunha dos pré-requisitos tecnológicos para o mor-
ticínio industrializado. Os campos de extermínio estavam sendo construídos e
havia disponibilidade de gases venenosos, baratos e devidamente testados. Sob a
condução da ss e c o m o apoio de Hitler, concluíam-se os complexos arranjos diplo-
máticos, legais e logísticos para eliminar toda a população judaica da Europa ocu-
pada. E m o u t u b r o e novembro de 1941 a cúpula nazista discutira exaustivamente
o assunto, cujas dimensões administrativas constituíram o tema da Conferência de
W a n n s e e , m a r c a d a para d e z e m b r o mas adiada para j a n e i r o de 1942. Q u a n d o
Heydrich, a d j u n t o de Himmler, foi assassinado, e m maio de 1942, a "Operação

174
Reinhard" estava liquidando os judeus da Polônia e os primeiros trens cheios de
judeus eslovacos já haviam chegado a Auschwitz."
N o início de 1943, Richard Korherr, principal estatístico da ss, elaborou para
H i m m l e r u m relatório sobre o progresso da solução final, i n f o r m a n d o que
1449692 j u d e u s poloneses já haviam recebido " t r a t a m e n t o especial". H i m m l e r
reprovou o uso desse eufemismo e corrigiu o texto: "Transporte dos judeus das
Províncias Orientais para o leste da Rússia: [1449692]". Os n ú m e r o s falam por si.
N o final de 1943, quando se fecharam os campos de extermínio, haviam morrido
aproximadamente 150 mil j u d e u s e m K u l m h o f / C h e f c i n o , 200 mil e m Sobibor,
550 mil em Belzec e 750 mil e m Treblinka — assim, os judeus da Polônia f o r a m
m o r t o s principalmente nos chamados campos de "Reinhard". Auschwitz-Birke-
nau, o gigantesco complexo que reunia campo de trabalhos forçados e centro de
extermínio, continuou operando por mais u m ano. Entre março de 1942 e novem-
bro de 1944 ali m o r r e r a m muito mais de 1 milhão de pessoas, na maioria judeus da
Grécia, da Hungria, da França, da Holanda, da Itália e da Polônia. 58
Korherr resumiu o impacto da solução final n o relatório que redigiu para
Hitler e m abril de 1943. "No total, os j u d e u s da Europa reduziram-se praticamen-
te à metade desde 1933, ou seja, na primeira década do desenvolvimento do poder
do nacional-socialismo. Novamente a metade, quer dizer, u m quarto da população
judaica de 1937, fugiu para outros continentes." Na verdade, o n ú m e r o total de
mortes foi consideravelmente maior, pois a chacina prosseguiu, dentro e fora dos
campos, até o fim da guerra.' 9

y //Ao término do conflito, haviam sido assassinados entre 5 milhões e 6 milhões


de judeus europeus, quase a metade dos 11 milhões registrados na Conferência de
Wannsee. E m alguns países, c o m o a Polônia e a Grécia, liquidou -se praticamente
a comunidade inteira. Outros g r u p o s étnicos t a m b é m foram dizimados, notada-
m e n t e 200 mil a 500 mil ciganos (muitos deles e m Belzec e Birkenau), sérvios, polo-
neses, ucranianos e russos; mas por sua natureza sistemática a solução final cons-
titui u m caso à parte. Comparada c o m as técnicas primitivas utilizadas por outros
expoentes do genocídio — c o m o o croata Ustase, que massacrou n o mínimo 334
mil sérvios na Croácia e na Bósnia, e os r o m e n o s , q u e realizaram s a n g r e n t o s
pogroms e m Transnistria —, a Endlõsung d e m o n s t r o u a superior eficiência genoci-
da de u m a operação efetuada por u m a burocracia m o d e r n a com e q u i p a m e n t o
industrial. 60 /

175
.V^
//Não é preciso imaginar que todos os alemães f o r a m cúmplices para aceitar-
m o s o fato de q u e a responsabilidade e o c o n h e c i m e n t o desse crime extrapolaram
' W- ; as fileiras da ss. E m 27 de m a r ç o de 1942 Goebbels, o ministro da Propaganda, refe-
riu-se e m seu diário à "liquidação" dos j u d e u s poloneses; e m m a i o os chefes do
D e p a r t a m e n t o de Ferrovias d o Reich discutiram c o m a ss aspectos d o transporte
relacionado ao "extermínio total" dos judeus. O Exército, a Marinha e o Ministério
das Relações Exteriores f i z e r a m sua parte. E m Salônica, p o r exemplo, u m a peque-
na equipe de "peritos" da ss n ã o poderia ter d e p o r t a d o u m quinto da população,
quase 50 mil pessoas, sem a ajuda da administração militar local. Q u a n t o aos cien-
tistas, doutores e acadêmicos, suas i n f o r m a ç õ e s e seu entusiástico envolvimento
f o r a m essenciais para o p r o g r a m a racial nazista desde o começo." •
^Convidados a colaborar, os governos estrangeiros reagiram de acordo c o m as
possibilidades de u m a vitória alemã, a natureza das atitudes locais e m relação aos
j u d e u s e os custos da resistência. E m geral se dispuseram a entregar refugiados ju-
' > " d e u s e outros estrangeiros e r e l u t a r a m e m permitir a deportação de seus cidadãos.
Alguns governos, n o t a d a m e n t e o francês, o eslovaco e o croata, e r a m n o m í n i m o
tão fervorosos e m seu anti-semitismo q u a n t o os alemães e acataram c o m p r a z e r a
o p o r t u n i d a d e de despachar "para o Leste" sua população judaica. Na R o m ê n i a e
mais tarde na H u n g r i a , o n d e anti-semitas radicais detiveram o p o d e r p o r algum
t e m p o , as conseqüências sangrentas c h o c a r a m os próprios alemães. M e s m o nos
países c u j o g o v e r n o se m o s t r o u p o u c o disposto a colaborar, c o m o à Grécia e a
Holanda, a cooperação entre as várias autoridades alemãs g e r a l m e n t e resultou na
,- deportação de g r a n d e n ú m e r o de judeus. Os dinamarqueses f o r a m praticamente
15
^ A<r os únicos que a j u d a r a m m u i t o s j u d e u s a fugir, m a s os italianos, por motivos pró-
V- v ' ^ p r i o s , f i z e r a m o possível para obstruir a solução final nas áreas sob seu controle,
v ^ Q u a n t o às n e u t r a s Suíça e Suécia, revelações recentes indicam sua disposição de
. f.'' aproveitar-se da política racial nazista./J

Por sua vez, os governos britânico e americano n ã o p o d i a m alegar falta de


i n f o r m a ç ã o . Churchill recebia de seu serviço de inteligência os relatórios dos
Einsatzgruppen, devidamente decifrados, sobre os n ú m e r o s da m a t a n ç a n o Leste.
Vários indivíduos, inclusive Jan Karski, u m corajoso emissário polonês, emergi-
r a m da E u r o p a o c u p a d a para apresentar a Londres e W a s h i n g t o n t e s t e m u n h o s
oculares dos g u e t o s e até dos c a m p o s de extermínio. N o e n t a n t o , p o u c o se fez,
além de vagas advertências públicas aos alemães, e perdeu-se a o p o r t u n i d a d e de
b o m b a r d e a r os campos. Até h o j e se discute se essa inércia se deveu ao anti-semitis-

176
mo, à incapacidade de imaginar o que estava o c o r r e n d o ou simplesmente ao fato
de q u e a solução final n u n c a foi u m a p r e o c u p a ç ã o m a i o r n o esforço de g u e r r a dos
aliados."
T a m b é m é difícil avaliar a opinião pública na Europa ocupada. O anti-semitis-
m o constituía u m f e n ô m e n o continental c o m u m a longa história e e m alguns luga-
res explica u m a atitude de indiferença ou até m e s m o de satisfação pelos sofrimen-
tos dos j u d e u s / T a m p o u c o se deve esquecer q u e o genocídio sempre proporciona
" , espetaculares oportunidades de e n r i q u e c i m e n t o — fábricas, lojas, propriedades,
j móveis, roupas abandonadas —, c o m as quais a potência invasora p o d e c o m p r a r o
.y c o n t e n t a m e n t o popular. D e p o i s d e 1940, Eichmann estendeu o "modelo Viena" de
"arianização" de bens judaicos a Amsterdã, Paris, Salônica e a outras grandes cida-
des européias, e n q u a n t o os agentes de Rosenberg sozinhos se apossaram do equi-
valente a 674 trens carregados de móveis e utensílios domésticos na Europa oci-
dental. O o u r o arrancado dos dentes das vítimas de Auschwitz lotou 72 trens, que
r u m a r a m para Berlim. Se o grosso desse o u r o foi para casas alemãs ou para bancos
suíços, u m a parte considerável encheu os bolsos de indivíduos inescrupulosos —
colaboracionistas, informantes, agentes — de todas as n a c i o n a l i d a d e s / c a b e ressal-
tar, p o r é m , que a aprovação da solução final n ã o foi u m f e n ô m e n o c o m u m . Diante
dos h o r r o r e s da ocupação, a maioria das pessoas q u e vivia sob o d o m í n i o nazista se
recolheu a u m m u n d o privado e t e n t o u ignorar t u d o o que n ã o lhe dizia respeito
d i r e t a m e n t e . C o m as n o r m a s m o r a i s tradicionais e v i d e n t e m e n t e revogadas, a
extraordinária crueldade dos alemães para c o m os j u d e u s criou u m m e d o mais
generalizado entre os não-judeus.
^ / O que n ã o p o d e m o s perder de vista são as reações — ou a falta de reações —
dos alemães. N ã o h o u v e n o Reich n e n h u m protesto público equivalente ao f u r o r
V suscitado pela c a m p a n h a da eutanásia. A p a r e n t e m e n t e , a maioria dos alemães
A
aceitou a exclusão dos j u d e u s de sua c o m u n i d a d e . Policiais de meia-idade partici-
p a r a m das execuções e m massa; professores universitários, advogados e médicos
• p- c o m a n d a r a m os Einsatzgruppenf/Não agiram assim por m e d o : n ã o há registro de
n i n g u é m q u e tenha sido p u n i d o c o m a m o r t e p o r se recusar a fuzilar civis inocen-
tes. Ao contrário, as cartas dos guardas dos c a m p o s de concentração e dos m e m -
b r o s dos e s q u a d r õ e s da m o r t e revelam o q u e indivíduos c o m u n s , vivendo n a
Europa e m m e a d o s do século xx, f o r a m capazes de fazer sob a influência de u m a
ideologia criminosa. N e m m e s m o e m plena carnificina eles deixaram de lado suas
preocupações pessoais c o m n a m o r a d a s , esposas o u filhos.

177
Ao julgar o s s - U n t e r s t u r m f ü h r e r Max Táubner, e m maio de 1943, pelo fuzila-
m e n t o n ã o a u t o r i z a d o de j u d e u s na Ucrânia, a ss e a S u p r e m a C o r t e Policial de
M u n i q u e d e m o n s t r a r a m quais e r a m os valores morais do Terceiro Reich. O julga-
m e n t o enfatizou q u e m a t a r j u d e u s n ã o constituía crime: "Os j u d e u s t ê m de ser
exterminados e n e n h u m dos j u d e u s m o r t o s representa u m a g r a n d e perda". Aos
olhos do tribunal, o delito de T ã u b n e r consistiu e m matá-los c r u e l m e n t e e permi-
tir q u e "seus h o m e n s se conduzissem sob seu c o m a n d o c o m o u m a horda selva-
g e m " . E m b o r a tivesse agido p o r "sincero ódio aos judeus", e n ã o p o r "sadismo",
ele revelara u m caráter "inferior" e "alto g r a u de brutalização mental". "A condu-
ta d o acusado é indigna de u m a l e m ã o h o n r a d o e decente", foi o veredicto. 63
U m a aceitação semelhante d o assassinato p o r motivo racial evidenciava-se n o
interior do Reich. Passou-se a considerar n o r m a l a segregação de forçados civis e
prisioneiros de guerra, estabelecida pela Gestapo. Sucediam-se as denúncias con-
tra trabalhadores estrangeiros. A p a r e n t e m e n t e , o e n f o r c a m e n t o o u a flagelação
pública de trabalhadores estrangeiros q u e tiveram relações sexuais c o m cidadãs
alemãs provocavam p o u c o s protestos, assim c o m o as restrições impostas pela polí-
cia a seus m o v i m e n t o s e atividades: os poloneses, p o r exemplo, estavam proibidos
de usar bicicleta ou ir à igreja. As opiniões nazistas sobre a inferioridade dos "ope-
rários orientais" pareciam gozar da aprovação geral. Os habitantes de M a u t h a u s e n
h a b i t u a r a m - s e a ver prisioneiros d o c a m p o arrastando-se pelas ruas da cidade,
s o f r e n d o a brutalidade da ss. Q u a n d o várias centenas de prisioneiros de g u e r r a rus-
sos conseguiram escapar do campo, e m 2 de fevereiro de 1945, apenas duas famí-
lias o f e r e c e r a m esconderijo e abrigo. A maioria dos fugitivos logo foi capturada o u
fuzilada c o m o "coelhos" p o r agricultores, adolescentes da J u v e n t u d e Hitlerista e
citadinos ansiosos p o r participar de u m terrível b a n h o de sangue. 64

Os c a m p o s de extermínio faziam parte de u m "universo de c a m p o s de con-


centração" e m q u e a ss controlava centenas de milhares de prisioneiros, n u m a rede
q u e se espalhava pela Europa./As f r o n t e i r a s desse "universo" estendiam-se, ao
n o r t e , até a N o r u e g a e, ao sul, até Creta. Cerca de 1,6 m i l h ã o de pessoas f o r a m
1
; encarceradas e 1 milhão delas m o r r e r a m (além daquelas deliberadamente elimina-
V das) até o final da guerra. E m toda a E u r o p a havia mais de 10 mil campos, incluin-
do-se nesse n ú m e r o — além dos oito c a m p o s de extermínio e dos 22 c a m p o s de
concentração principais, c o m suas 1200 ramificações — mais de quatrocentos gue-

178
tos, a p r o x i m a d a m e n t e 29 asilos psiquiátricos e trinta orfanatos o n d e os internos
e r a m assassinados, 26 campos nos territórios orientais ocupados, o n d e se institu-
cionalizou a matança, e muitos outros depósitos de prisioneiros de guerra, traba-
lhadores civis, europeus orientaisjovens ou "germanizáveis". 6 5 F o r a m encontradas
cerca de 33 nacionalidades e m D a c h a u e mais de catorze e m Ravensbruck. Os for-
çados e r a m submetidos a condições tão opressivas que muitos dos c h a m a d o s cam-
pos de trabalho eqüivaliam, na verdade, a centros de e x t e r m í n i o / D e s c r e v e n d o a
pedreira de granito de Gross-Rosen, p e r t o de Breslau, u m médico francês proce-
dente de Auschwitz anotou: " E m lugar n e n h u m vi assassinatos individuais come-
tidos c o m tanta destreza c o m o e m Gross-Rosen; os kapos, a polícia d o campo, a ss
c o m seus cães praticavam o h o m i c í d i o s e m d o r na consciência. E x t r e m a m e n t e
hábeis, conseguiam m a t a r u m h o m e m c o m dois ou três golpes". 66
/Os internos desses campos constituíam a base da principal atividade econô-
mica da ss, que, e m 1944, se estendeu da m i n e r a ç ã o à indústria pesada, da recupe-
ração de terras à "pesquisa" científica. N o final de 1944,480 mil dos 600 mil prisio-
neiros f o r a m declarados aptos para o trabalho. Além de organizar os pertences dos
c o m p a n h e i r o s m o r t o s p a r a distribuição e n t r e os m e m b r o s da Waffen-ss ou de
o u t r o s departamentos, trabalhavam e m construção, pedreira e mineração, b e m
c o m o na fabricação de borracha sintética e e m outras operações industriais. C o m o
a União Soviética na década de 1930, o Reich e m g u e r r a tornou-se u m a e c o n o m i a
baseada n o trabalho escravo.'
E m fevereiro de 1944, Speer, o czar dos a r m a m e n t o s , r e q u e r e u a ajuda de
H i m m l e r para "colocar internos de campos de concentração e m funções q u e con-
sidero p a r t i c u l a r m e n t e urgentes". A requisição i n a u g u r o u u m a rápida expansão
do trabalho escravo na fabricação de m u n i ç õ e s e de aviões e s o b r e t u d o na constru-
ção de fábricas subterrâneas de foguetes e m " D o r a " e P e e n e m ü n d e . Aqui os índi-
ces de mortalidade são horrendos: e m p o u c o s meses 2882 dos 17 mil trabalhado-
res m o r r e r a m n o p r o j e t o " D o r a " , q u e p a r a Speer c o n s t i t u i u u m "sensacional
sucesso". N o total, cerca de 140 mil prisioneiros f o r a m utilizados c o m o escravos
p o r Speer e 230 mil p o r indústrias d o setor privado. Nessa época, a crise de arma-
m e n t o s chegara a tal p o n t o q u e pela primeira vez se deixou de lado a ideologia anti-
semita e se recorreu ao trabalho de j u d e u s h ú n g a r o s confinados e m Auschwitz. 67
A O p e r a ç ã o Barbarossa t a m b é m a m p l i o u as responsabilidades da ss e m
outras direções. O terror substituiu a lei n o Leste, e H i m m l e r recebeu autorização
para lidar c o m os civis diretamente, sem recorrer aos tribunais. A Waffen-ss passou

179
a ser seu exército; c o m a p r o x i m a d a m e n t e 75 mil h o m e n s e m 1939-40, chegou a ter
cerca de 500 mil n o final de 1944; e m p a r t e a m e a ç a n d o , e m p a r t e a j u d a n d o a
W e h r m a c h t , constituiu u m i n s t r u m e n t o f u n d a m e n t a l para a gradativa nazificação
do exército. Atribuiu-se à ss a responsabilidade pelo policiamento dos territórios
ocupados n o Leste, e n q u a n t o o s s - G r u p p e n f ü h r e r Bach-Zelewski recebeu o encar-
go de coordenar as operações antiguerrilha.
/^Não é preciso dizer q u e tais o p e r a ç õ e s r e s u l t a r a m e m m u i t a d e s t r u i ç ã o e
m o r t e . A estratégia básica consistia e m "responder ao terror c o m terror", e m revi-
A
, ^ dar t o d o ataque contra a vida o u a propriedade de alemães. Assim, incendiaram-se
milhares de aldeias e m a t a r a m - s e centenas de milhares de civis nas "operações-lim-
peza", c u j o i m p a c t o sobre as atividades da resistência foi c o n t r a p r o d u c e n t e , levan-
d o m u i t o s jovens p a r a a clandestinidade. U m a estratégia c o n t r a g u e r r i l h a mais
sofisticada teria de esperar várias décadas: depois de 1945, as potências coloniais
européias e os americanos e s t u d a r a m e a p r e n d e r a m m u i t o c o m as falhas da políti-
ca nazista de retaliação./
E m b o r a n ã o constituísse de fato u m a ameaça militar para o poderio alemão, a
resistência obstruiu o processo de germanização. C o m relação a esse processo, o
p e n s a m e n t o nazista t o r n a r a - s e mais radical e ambicioso a partir da O p e r a ç ã o
Barbarossa. Logo após a conquista da Ucrânia e da Bielo-Rússia, os urbanistas da ss
apresentaram propostas para a criação de p e q u e n a s cidades alemãs e m território
ucraniano. O "Plano Geral para o Leste" incluía u m p r o g r a m a de colonização maci-
ça, estendendo-se da Lituânia à Criméia n o p r a z o de 25 anos. E m Auschwitz os pri-
^ ( sioneiros c o n s t r u í r a m viveiros de peixes, estábulos e tulhas para fazendas-modelo
' o n d e colonos nazistas receberiam t r e i n a m e n t o antes de seguir para o Leste.
^ N o m u n d o real, p o r é m , a idéia da g e r m a n i z a ç ã o esbarrava e m algumas difi-
^ culdades. U m a delas era a corrupção, pois entre os alemães d o Velho Reich havia
m u i t o s "cavadores de o u r o " (ou "faisões dourados", c o m o os c h a m a v a m ) e aven-
tureiros atraídos pela possibilidade de e n r i q u e c i m e n t o rápido e pilhagem fácil. E m
contrapartida, p o u c o s agricultores q u e r i a m mudar-se. Os colonos sentiam-se des-
p r o t e g i d o s e m áreas rurais cuja p o p u l a ç ã o descontente lhes ameaçava a vida e a
propriedade.(
Ironicamente — considerando-se a obsessão do r e g i m e pelo "espaço vital" —
parece q u e n ã o havia gente bastante para ocupar a vasta extensão territorial q u e
H i m m l e r sonhava colonizar. " C o m o está se saindo, Kamerad?", perguntava o líder
c a m p o n ê s local n u m j o r n a l nazista da época. "E terra demais", respondia o lavra-

180
dor desanimado, contemplando a imensidão. "As proporções entre espaço e popu-
lação inverteram-se", c o m e n t o u outro crítico e m 1942. "Já não se trata de encon-
trar u m a forma de alimentar muita gente n u m espaço pequeno, mas de descobrir
a melhor maneira de explorar os espaços conquistados com o n ú m e r o restrito de
pessoas disponíveis." 68
/ E n q u a n t o o regime caçava voluntários, a triagem de colonos e m potencial
criava alguns problemas espinhosos para os teóricos do racismo: alguns linhas-
r
V duras do partido estavam dispostos a aceitar candidatos com a aparência adequa-
y^ ^ da, ainda q u e tivessem vagos laços c o m a Alemanha; o u t r o s consideravam o
c o n h e c i m e n t o da língua e da cultura mais i m p o r t a n t e q u e os atributos físicos./
Alguns até argumentavam que, se a ss transferisse da Rússia para a pátria muitos
espécimes racialmente superiores, os habitantes do Reich poderiam desenvolver
u m complexo de inferioridade e dar início a u m a guerra racial! Por outro lado, dos
35 mil eslovenos levados à força para a Alemanha apenas cerca de 16 mil foram con-
siderados aptos para a germanização; o n ú m e r o é surpreendentemente alto, já que
a maioria tinha parentesco c o m m e m b r o s da resistência eslovena. Os restantes,
b e m c o m o outros indivíduos trasladados de L u x e m b u r g o e da Alsácia, ficaram
presos nos campos de detenção até o f i m da guerra.
Jbs limites impostos pela realidade do conflito à engenharia demográfica de
H i m m l e r evidenciaram-se plenamente n o caso de Zamosc, cidade ao sul de Lublin,
o n d e se fez u m esforço especial para criar u m a c o m u n i d a d e planejada de Volks-
deutsche. Trata-se do único caso e m que a ss quase concluiu seu projeto de coloniza-
ção. Mais de 10 mil poloneses tiveram de deixar suas casas para dar lugar aos colo-
nos alemães; a m e t a d e desses poloneses f u g i u para as florestas, j u n t o u - s e à
resistência e passou a atacar fazendas e aldeias; o restante foi submetido a triagem e
deportado, por falta de pureza racial. N u m a área onde ainda viviam 26 mil ucrania-
nos e 170 mil poloneses, instalaram-se 25 mil alemães — os quais, segundo u m pro-
pagandista, formavam "a primeira célula alemã da m o d e r n a colonização do Leste,
incentivados por essa busca de u m a pulsátil vida colonial alemã". N o início de 1944,
porém, as autoridades locais já estavam tentando convencer H i m m l e r a abandonar
o projeto e transportar os colonos para o Oeste: os ataques às fazendas e r a m fre-
qüentes e os h o m e n s d o r m i a m no campo para que a resistência não os liquidasse. 6 "
Entretanto, H i m m l e r e Hitler sonhavam obstinadamente c o m u m império
alemão n o Leste e adiaram quanto p u d e r a m a evacuação de seus intrépidos colo-
nos. A falta de u m plano de emergência para a retirada era apenas u m aspecto do

181
i r r e a l i s m o básico d e seus p r o j e t o s . M e r a i m i t a ç ã o da tática de f r o n t e i r a s dos
H a b s b u r g o s e m a flexibilidade política dos Habsburgo, seu colonialismo racista
estava fadado ao fracasso. Inspirou t a m a n h o ódio entre a população local que, na
ausência de " u m a p o d e r o s a m á q u i n a policial", n ã o havia c o m o Berlim reunir o
n ú m e r o de colonos necessários para m a n t e r a posse de extensas áreas da antiga
U n i ã o Soviética. N o l o n g o p r a z o a e s t r a t é g i a de Hitler consistia e m ver "100
milhões de alemães assentados nesses territórios". Mas tal n ú m e r o era inexisten-
te. Os nazistas q u e r i a m t r a n s f o r m a r os alemães e m camponeses, p o r é m m u i t o s se
recusaram. É duvidoso que, ao voltar d o front, os heróis de g u e r r a t e n h a m exulta-
do, c o m o H i m m l e r acreditava, p o r g a n h a r c o m o recompensa u m sítio na Polônia
ou na Ucrânia. 70
/ À medida q u e o Exército Vermelho avançava, o projeto de colonização se des-
^ :y fazia. E n t r e a g o s t o de 1943 e j u l h o de 1944, f o r a m deslocados p a r a o o e s t e da
(N .
Polônia cerca de 350 mil a l e m ã e s da Criméia, aos quais se s e g u i r a m o u t r o s da
Ucrânia e da Bielo-Rússia. A tática alemã da terra devastada impediu que m u i t o s
V ' J ' colonos p e r m a n e c e s s e m o n d e se e n c o n t r a v a m , ainda que quisessem. N o início de
•a • v x ,. . .
1945, centenas de milhares de refugiados alemães dirigiram-se para o Oeste, para
o Reich, n u m êxodo i m e n s o e espontâneo.
1
y / N a m e s m a época, u m a série ainda mais lúgubre de marchas forçadas revelou
o lado n e g r o d o s o n h o racial. Na última fase da solução final, os c a m p o s de exter-
1
QJ ^, mínio e os de concentração f o r a m fechados e, e m alguns casos, destruídos, e os pri-
sioneiros sobreviventes t i v e r a m de realizar longas marchas pela neve, r u m o ao
Reich. D o s 714 211 q u e ainda estavam nos c a m p o s e m j a n e i r o de 1945, cerca de 250
mil m o r r e r a m nesse processo.
Por trás das marchas havia diversos m o t i v o s — c o m o a relutância da ss e m per-
mitir q u e os prisioneiros caíssem nas m ã o s dos aliados e o desejo de explorá-los
c o m o escravos. E m alguns casos, entretanto, as viagens a pé o u de t r e m n ã o t i n h a m
n e n h u m p r o p ó s i t o ; p a r e c e q u e a i n t e n ç ã o se r e s u m i a a " c o n t i n u a r p o r o u t r o s
meios a m o r t a n d a d e generalizada dos c a m p o s de concentração". Os prisioneiros
m o r r i a m de f o m e , e principalmente os q u e estavam tão exaustos q u e n ã o conse-
g u i a m a c o m p a n h a r os o u t r o s e r a m espancados e fuzilados. Além da truculência da
ss, e n f r e n t a v a m p o r toda p a r t e a hostilidade ativa dos civis alemães. " E m Chris-
tianstadt algumas m u l h e r e s t e n t a r a m nos dar pão, m a s as guardas n ã o deixaram",
l e m b r o u u m a ex-prisioneira. " U m a a l e m ã de c o r a ç ã o h u m a n o e x c l a m o u : 'Ihr
Elende, Ihr Unglückliche' ['Coitados, infelizes']. A guarda b e r r o u : 'Está c o m p e n a de

182
judeus?'." Cabe notar que não há registro de alemães executados p o r expressar soli-
dariedade diante da ss. M e s m o assim, a desaprovação e a indiferença superavam a
piedade: n o início de 1945, c o m o f i m próximo, m u i t o s civis alemães considera-
vam-se as principais vítimas da g u e r r a e continuavam cegos para o infortúnio dos
prisioneiros que passavam p o r e l e s . 7 /
Nessa fase terminal d o império de Hitler caíram as barreiras entre o m u n d o
o r d e n a d o da Volksgemeinschaft e o s u b m u n d o dos campos. Os prisioneiros emergi-
r a m dos c a m p o s " c o m o marcianos". Seus guardas já n ã o e r a m apenas h o m e n s da
ss, obrigados a m a n t e r segredo, mas t a m b é m soldados e m retirada, civis, funcio-
nários d o partido, m e m b r o s da J u v e n t u d e Hitlerista. Os massacres o c o r r i a m n ã o
mais n o p e r í m e t r o dos campos, e sim nas estradas, nos bosques e nos arredores das
cidades e aldeias alemãs e austríacas. 72
O g r a n d e p r o b l e m a criado p o r essa m a t a n ç a e m larga escala consistia e m
livrar-se dos corpos, q u e nos c a m p o s de e x t e r m í n i o e r a m q u e i m a d o s e m piras
imensas ou e m fornos. Agora já n ã o havia tanta facilidade e m limpar a sujeira da
chacina aleatória e onipresente. Ao deixar a região de Lublin, os alemães t e n t a r a m
apressadamente — e sem sucesso — esconder os vestígios do genocídio. Klukowski
r e g i s t r o u , h o r r o r i z a d o , "o o d o r de cadáveres e m d e c o m p o s i ç ã o n o c e m i t é r i o
judaico", o n d e se cavaram valas comuns. E m lugares c o m o N o r d h a u s e n , Gusen e
Woebbelin as tropas aliadas que libertaram os prisioneiros dos c a m p o s o b r i g a r a m
cidadãos locais n ã o só a inspecionar os m o n t e s de cadáveres c o m o a enterrá-los,
às vezes na praça central e nos parques de suas elegantes cidades antigas. 73
Vencido pela náusea, u m sacerdote austríaco que e n t r o u e m M a u t h a u s e n dias
depois da libertação a n o t o u : "Por duas o u três vezes estive a p o n t o de vomitar.
Venho da civilização. E aqui dentro? [...] Q u e triste feito de nosso século arrogante,
esse horror, esse m e r g u l h o n u m a falta de civilização sem precedentes, e ainda p o r
cima n o coração da Europa!". Mas fora dos campos os m o r t o s t a m b é m j a z i a m . Nos
anos seguintes à guerra, suas sepulturas pontilhavam as estradas da Europa central,
até que comissões locais decidiram remover essas manchas da paisagem, construin-
d o memoriais coletivos e desfazendo-se dos restos h u m a n o s . Surgiu assim u m a pai-
sagem rural recém-saneada, para o prazer de turistas e habitantes locais.74

N o Natal de 1942, resolvera-se distribuir as roupas e os pertences pessoais dos


prisioneiros de Auschwitz entre os Volksdeutsche instalados na Ucrânia. Depois a

183
distribuição expandiu-se e trens carregados desses objetos p a r t i a m para entregá-
los aos pioneiros alemães. Genocídio e colonização estavam inextricavelmente
ligados, pois a g u e r r a de Hitler visava à completa reconstituição racial da Europa. 75
Tal p r o j e t o n ã o tinha paralelo histórico. N e m Napoleão n e m os H a b s b u r g o
p r e t e n d i a m u m a d o m i n a ç ã o t ã o exclusiva na Europa, m a s a f o r m a ç ã o de Hitler
c o m o crítico nacionalista a l e m ã o de Viena ajuda a explicar o c o n t r a s t e c o m os
m é t o d o s de governo da m o n a r q u i a dual. N o tocante à violência e ao racismo, o
imperialismo nazista assemelha-se mais à atuação européia na Ásia, na África e —
s o b r e t u d o — nas Américas. " Q u a n d o c o m e m o s trigo d o Canadá, n ã o p e n s a m o s
nos índios espoliados", Hitler c o m e n t o u certa vez, d u r a n t e a guerra. E m o u t r a oca-
sião descreveu a Ucrânia c o m o "aquele novo império indiano". C o n t u d o , se n ã o
gostariam de ser governados c o m o os ingleses governavam a índia, os e u r o p e u s
ficaram chocados ao sofrer u m a experiência mais semelhante à que as populações
nativas das Américas sofreram. 7 6
O nacional-socialismo c o m e ç o u a n u n c i a n d o a criação de u m a Nova O r d e m
na Europa, p o r é m , à medida q u e a ideologia racial prevalecia sobre a racionalida-
de econômica, a extrema violência implícita nesse p r o j e t o tornava-se mais eviden-
te. "Pão de m e l e chicotadas": assim Goebbels r e s u m i u sua política, m a s o pão de
m e l era insuficiente e as chicotadas e r a m demasiadas. O " G r a n d e Espaço Vital
[Grosslebensraum] da família européia d e nações" p r o m e t i a vida aos alemães, u m a
existência incerta e precária à maioria dos e u r o p e u s e o extermínio aos judeus. "Se
a E u r o p a n ã o p o d e existir s e m nós, t a m p o u c o n ó s p o d e m o s sobreviver s e m a
E u r o p a " , Goebbels escreveu e m sua fase pró-européia. Os alemães p e r d e r a m a
o p o r t u n i d a d e de d o m i n a r o continente depois de 1940, e a derrota deles acarretou
a própria catástrofe. A visão original de H i m m l e r concretizou-se — os alemães
concentraram-se na A l e m a n h a —, m a s n ã o sabemos se ele teria considerado u m
triunfo a maneira c o m o isso ocorreu. 7 7

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