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1 Insalubridade para fotocopistas

2 negro de fumo
Flávio Rogério de Aragão Ramalho
Elaborado em 09/2003.
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Desativar Realce a A

Considerando as constantes mutações das normas técnicas


acerca de segurança do trabalho em nosso país, a Administração
Pública enfrenta uma dificuldade natural em comprovar a
necessidade de pagamento de adicional de insalubridade para os
servidores lotados nos setores de reprografia, popularmente
chamados fotocopistas.

Nestes casos, o laudo pericial deve ser emitido de forma


conclusiva pela respectiva Delegacia Regional do Ministério do
Trabalho ou por outro órgão ou instituição credenciada pelo
Governo, que detenha idoneidade e capacidade técnica específica
para realização de análise quantitativa da substância química
encontrada nas máquinas fotocopiadoras utilizadas em cada caso,
denominada Negro de Fumo.
Comprovando-se a exposição dos colaboradores à referida
substância química, em quantidade nociva ao corpo humano, deve
ser pago o adicional de insalubridade no grau máximo, como
demonstraremos adiante.

Na regulamentação anterior, era desnecessária a análise


quantitativa da substância negro de fumo para concessão do
adicional de insalubridade para os fotocopistas, tendo em vista o
enquadramento da substância nociva no Anexo 13 da NR nº 15 do
Ministério do Trabalho, cuja avaliação é qualitativa.
Nesse sentido, citamos o Laudo Pericial nº 01/90, de
19/03/1990, realizado pelo Conselho Regional de Engenharia,
Arquitetura e Agronomia da Paraíba - CREA/PB, emitido pela
DRT/PB, do qual merecem destaque os seguintes excertos, in
verbis:
"(...) 4.2 - Dos possíveis riscos ocupacionais: nos toners são encontrados
o negro de fumo, substância essa que pode provocar alterações no sistema
hematopoético dos trabalhadores.
(...) 5 - Análise Quantitativa: Desnecessária em virtude das substâncias
em apreço se enquadrarem no Anexo 13, da NR - 15, cuja avaliação é
qualitativa." (grifo nosso).

Para que possamos esclarecer melhor a matéria em


destaque, mister que façamos algumas considerações sobre a
substância química de que trata o presente artigo.

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vedação do retrocesso social

A substância conhecida por Negro de Fumo é o carbono em


dispersão muito fina, obtido por combustão incompleta de gás
natural (do petróleo), fazendo parte dos Hidrocarbonetos
Policíclicos Aromáticos (HPAs), referidos na NR nº 15 do Ministério
do Trabalho.
Muito empregado na indústria, principalmente da borracha,
como carga reforçadora e como pigmento preto, é uma das
matérias primas para a fabricação de pneus e toners utilizados
nas fotocopiadoras e impressoras de computador, sendo a mesma
fuligem que sai do escapamento dos carros desregulados, fruto
da queima incompleta do combustível.
Na indústria, reproduz-se exatamente o processo dos
motores desregulados para obtê-lo, porém com a combustão de
óleos aromáticos, considerados extremamente cancerígenos.
Em minuciosa pesquisa sobre o tema,
concluímos que o negro de fumo é recuperado em filtros, para
utilização como matéria prima, mas estes filtros não impedem a
passagem de gases poluentes, do grupo dos hidrocarbonetos e
óxidos de nitrogênio que, uma vez na atmosfera, entram na
composição do ozônio de baixa altitude, o chamado "ozônio ruim".
A maior preocupação dos pesquisadores e técnicos do
trabalho com a utilização deste produto em ambientes de trabalho
é com o ozônio atmosférico, associado a doenças respiratórias e
aumento de índices de aborto espontâneo, além da emissão de
dióxido de enxofre, o principal gás da chuva ácida.

Não obstante a grande utilidade desta substância na


indústria de plásticos, borrachas, etc, a exposição humana acima
dos limites de tolerância expõe o servidor a um elevado risco de
contaminação.

Nesse sentido, minucioso estudo publicado na Revista


Química Nova, do qual extraímos os seguintes excertos,
textualmente:

"(...) De maneira geral, tanto os HPAs (Hidrocarbonetos Policíclicos


Aromáticos), quanto seus derivados estão associados ao aumento da incidência
de diversos tipos de canceres.

(...) Dentre suas inúmeras fontes, podem ser citados os processos de


combustão de material orgânico (particularmente exaustão de motores a diesel ou
a gasolina), a queima de carvão, as fotocopiadoras, a exaustão de plantas de
incineração de rejeitos, a fumaça de cigarro, além de vários processos
industrializados como, por exemplo, a produção de alumínio e a gaseificação do
coque, etc.
(...) Em virtude de suas propriedades fisico-químicas e da grande
distribuição ambiental, o risco de contaminação humana por estas substâncias
é significativo. De fato, devido a seu caráter lipofílico, HPAs e seus
derivados podem ser absorvidos pela pele, por ingestão ou por inalação,
sendo rapidamente distribuídos pelo organismo." - grifo nosso.

(Annibal D. Pereira Netto, Josino C. Moreira, Ana Elisa X. O.


Dias, e outros - Avaliação da contaminação humana por
Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos (HPAs) e seus derivados
nitrados (NHPAs): Uma revisão metodológica; in Química Nova, de
23/06/2000, p. 765 a 773).
Pode-se dizer que a atividade de determinado trabalhador é
insalubre quando ele, no exercício de suas atribuições normais,
estiver em contato habitual com agentes capazes de lhe causar
danos à saúde no curto, médio ou longo prazo.
Na prática, são consideradas atividades ou operações
insalubres, nos termos da legislação federal em vigor,
as que importem em contato com os agentes descritos na Norma
Regulamentadora nº 15, constante da Portaria 3214/1978, do
Ministério do Trabalho, desde que importem em contato acima dos
limites de tolerância, em razão do tempo e quantidade de contato,
com exceção apenas para as substâncias constantes do Anexo 13
da NR nº 15, que dependem apenas de análise qualitativa, sendo
presumido o risco da exposição humana a tais substâncias.
Ocorre que em 09/10/1992, o Departamento Nacional de
Segurança e Saúde do Trabalhador, da Secretaria Nacional do
Trabalho, editou Portaria nº 09/92 (anexo), que em seu art. 3º
excluiu expressamente do Anexo 13 da NR nº 15 a manipulação da
substância denominada Negro de Fumo.
Desta forma, considerando que as normas
regulamentadoras do Ministério do Trabalho são instrumentos
dinâmicos, é natural que sejam revisadas quando necessário,
o que ocorreu com a edição da Portaria nº 09/92, em contraposição
à norma anterior, que considerava desnecessária a análise
quantitativa da exposição dos fotocopistas ao negro de fumo, pelo
simples enquadramento desta substância no Anexo 13 da NR nº 15
do Min. do Trabalho, o que não mais subsiste.
Por outro lado, a mesma Portaria nº 09/92, em seu art. 1º, §§
1º e 2º, determina que o limite de tolerância de exposição humana
ao negro de fumo "é de 3,5 mg/m³ para uma jornada de 48
(quarenta e oito) horas semanais de exposição", considerando
insalubre no grau máximo as atividades e operações queenvolvam
a produção ou utilização
do negro de fumo, sempre que ultrapassado o referido limite de
tolerância.
Destarte, é incontestável a exposição dos fotocopistas
ao negro de fumo. No entanto, a evolução da engenharia e da
medicina do trabalho, com a criação de filtros e ajustes nas
máquinas de fotocópias utilizadas em nosso país, as normas
regulamentadoras passaram a considerar indispensável a análise
quantitativa da exposição humana à substância química em tese
nociva à saúde dos fotocopistas.
Assim, para o pagamento do adicional de insalubridade é
necessário saber se o limite de tolerância está sendo ou não
ultrapassado, o que determinaria a concessão do adicional de
insalubridade em grau máximo, nos termos dos §§ 1º e 2º do art. 1º
da Portaria nº 09/92, da Secretaria Nacional do Trabalho, que deu
nova redação aos Anexos 11 e 13 da NR nº 15.
Em consulta formulada às Secretarias de Recursos
Humanos de vários TRE’s do País, verificamos que a maioria dos
Tribunais Eleitorais terceirizam os serviços de reprografia, ficando
o pagamento do adicional de insalubridade, caso constatada a
necessidade, a cargo da empresa contratada.
Todavia, o TRE do Rio Grande do Sul paga 10% (dez por
cento) de adicional de insalubridade aos servidores fotocopistas,
sendo a perícia realizada pela Delegacia Regional do Trabalho
daquele Estado.
O TRE do Ceará informou que a perícia naquele Tribunal foi
também realizada pela DRT local, quando se constatou que "o
nível tóxico a que os servidores estariam submetidos está dentro
dos limites toleráveis, e por isso não foi concedida insalubridade".
Por sua vez, o Tribunal Regional Eleitoral do Piauí
informou que não paga adicional de insalubridade aos servidores
fotocopistas.
De tudo que vimos, constatamos que a insalubridade em
estudo decorre de vários fatores, e não apenas da simples
presença ou contato dos servidores com a substância tóxica
denominada negro de fumo.
Exerce grande repercussão no organismo humano o local
onde são desempenhadas tais atividades. Mister que seja um local
arejado, bem iluminado ou com manutenção periódica no sistema
de ar-condicionado, caso exista, de forma a evitar a umidade, além
de diversos outros fatores, que somados à exposição
aonegro de fumo, determinam o grau de insalubridade do ambiente
de trabalho.
No caso, a insalubridade deve ser medida caso a caso,
através de uma perícia quantitativa do grau de exposição humana
à substância nociva conhecida como negro de fumo, observando-
se o tipo de equipamento utilizado e o ambiente de trabalho.
De fato, não seria difícil encontrar-se uma condição
insalubre com determinado equipamento/marca de fotocopiadora,
enquanto outro tipo de equipamento/marca, utilizado no mesmo
ambiente, não ofereça risco aos servidores. Pelos mesmos
fundamentos, pode-se fazer a experiência utilizando o mesmo
equipamento/marca em ambientes diferentes e alcançar-se dois
resultados distintos, um insalubre e outro não.

Ultrapassado o limite de tolerância de 3,5 mg/m³ para uma


jornada de 48 horas semanais de exposição, é justo e legítimo o
pagamento do adicional de insalubridade no grau máximo (20%)
aos servidores fotocopistas, com fundamento na CF/88, art. 7°,
inciso XXIII e nas Leis nº 8.112/90, arts. 68 e seguintes; e 8.270/91,
art. 12, além das demais normas regulamentadoras da matéria,
expedidas pelo Ministério do Trabalho (Portaria nº 3214/78, NR nº
15, Anexos 11 e 13, e Portaria nº 09/92).

Em todo caso, para implantação do adicional de


insalubridade se faz necessário um laudo pericial conclusivo e
objetivo, com análise quantitativa do nível de exposição humana
ao negro de fumo.
Sobre o assunto, destacamos a lição do magistrado e
sociólogo Roberto Davis, em artigo objetivo publicado em jornal
especializado, textualmente:
"(...) já restou constatado que a operação do instrumental respectivo,
em que pesem as precauções dos fabricantes, expõe seu operador a efeitos
deletérios, produzidos pela ação de agentes nocivos à saúde. Como é o caso da
luz actínica, emitida pela aparelhagem e motivadora de afecções e lesões
oftálmicas, notadamente conjuntivite e catarata precoce. Sem prejuízo de
desconforto térmico, oriundo de radiações caloríficas e, igualmente das alergias e
irritações de pele e mucosas, estas causadas por resíduos químicos poeirentos."
(Fotocopistas. Jornal Trabalhista, ano XII, nº 558, 29 de maio de 1995, p. 542).

No mesmo artigo, o renomado especialista cita acórdão do


TRT/RO - 14ª Região, Processo nº 152/91, em que o relator Juiz
Heraldo Fróes Ramos destaca a certeza de que o labutar com
máquinas fotocopiadoras é insalubre a seus operadores, porquanto
causam toxidade aguda, oral, dérmica e ocular.
Em conclusão, afirma Roberto Davis, in verbis:
"Não há, portanto, duvidar de que os fotocopistas ou operadores de
máquinas fotocopiadoras exercem atividade insalubre, a qual lhes assegura, por
força da Constituição (art. 7º, inciso XXIII) e da lei ordinária (art. 192, da CLT) o
recebimento do adicional remuneratório pertinente."

Assim, a insalubridade dos fotocopistas não decorre apenas


da exposição ao agente químico negro de fumo, uma vez que tal
atividade laboral causa lesões oftálmicas, alergias, irritações de
pele e mucosas, além de outras complicações físicas, sendo justo
o pagamento do adicional de insalubridade previsto em lei e nas
normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho.
Em todo caso, considerando a burocracia da Administração
Pública para viabilizar a realização da necessária perícia
quantitativa, mais simples e eficaz seria a terceirização destes
serviços nos órgãos públicos, ficando a responsabilidade da
análise técnica do equipamento e ambiente de trabalho a cargo da
empresa contratada.

A terceirização sugerida possibilita ainda o acesso livre dos


servidores e do público em geral aos serviços de fotocópias,
encadernação ou reprografia de interesse particular, o que seria
uma grande economia para as repartições públicas.

4 REFERÊNCIAS:
Artigos de revista e jornais especializada:

1- Annibal D. Pereira Netto, Josino C. Moreira, Ana Elisa X. O.


Dias, e outros - Avaliação da contaminação humana por
Hidrocarbonetos ; Policíclicos Aromáticos (HPAs) e seus derivados
nitrados (NHPAs): Uma revisão metodológica; in Química Nova, de
23/06/2000, p. 765 a 773;
2- Davis, Roberto. Fotocopistas. Jornal Trabalhista, vol 12 n
558 p 542 maio 1995.
Legislação:
1- CF/88;

2- Lei n° 8.112/90;

3- NR n° 15, Anexos n° 11 e 13, do Ministério do Trabalho.

Leia mais: http://jus.com.br/revista/texto/5256/insalubridade-para-fotocopistas#ixzz2Y4v0r2P4