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O Domo da Rocha

❖ Três cidades sagradas do islã – Meca, Medina, Jerusalém

❖ Locais de peregrinação, exigências litúrgicas, memórias


sagradas, tradições

❖ Topografia religiosa – construção de narrativas


❖ Significados diferentes em diferentes épocas – quando e por que
foram feitas essas associações e construídos esses monumentos

❖ Fada’il – guias para peregrinos – depois das cruzadas (1099-1187).


Quando essas tradições se formaram?

❖ Outros “documentos”: localização, inscrições, mosaicos.

❖ Mais antigo monumento sobrevivente do Islã

❖ Monumento importante mais antigo (mesquitas de Basra, Fustat,


Kufa e Jerusalém não tinham grandes pretensões arquitetônicas, o
mesmo podendo ser dito dos palácios de Mu‘awiya em Damasco)
A sucessão de Maomé
Os “Califas Bem-Guiados” (al-khulafa al-rashidun)

Abu Bakr 632-34 Guerras de Apostasia (Hurub al-Ridda): 632-33

640: Mesopotâmia, Síria, Palestina; 642: Egito; 643: Império


Umar 634-644
Persa

Uthman 644-656 Compilação do Alcorão. Revolta nas Províncias.

Guerra Civil (Primeira Fitna: 656-661). Mu‘awiya (Síria).


Ali 656-661
Kharijitas. Batalha de Siffin contra Mu‘awiya (657).
A Dinastia Omíada
Expansão durante a vida de Maomé: 622-32
Expansão dos Califas Bem-Guiados: 632-661
Expansão do Califado Omíada: 661-750
❖ Mu‘awiya: 661-80.

❖ 680-692. “Segunda Fitna” (Guerra Civil). Oposição ao governo dinástico (Mu‘awiya


designara seu filho Yazid como sucessor). Husayn ibn Ali (morre Batalha de Karbala,
xiitas).

❖ Al-Zubayr: “anticalifa”. Domínio do Iraque, Arábia, partes da Síria e do Egito.


Derrotado pelo general al-Hajjaj no califado de Abd al-Malik em 692, decapitado e
crucificado.

❖ Ibn al-Zubayr concentrava seu governo em volta da Kaaba, que reconstruíra em 684
“segundo o modelo de Abraão”, depois de um cerco pelo exército de Yazid I.

❖ Abd al-Malik: derrota kharijitas.

❖ Fim da influência política da Arábia.


O Domo da Rocha

❖ Datado 72 a.h. / 691-692 d.C.

❖ Associação entre os monumentos ou locais da esplanada com


eventos da história sagrada é complicada e só ocorre aos poucos
– tradições posteriores confundem mais do que explicam.


Teorias da Construção
1. Baseado em: al-Ya‘qubi (260AH/874 d.C.), xiita baseado em Bagdá e
Eutíquio (876-940 d.C.), um sacerdote melquita de Alexandria. Como
Ibn al-Zubayr dominava Meca, `Abd al-Malik queria desviar os
peregrinos do Hejaz estabelecendo a cidade palestina como o centro
religioso do Islã. E foi afirmado que o plano do Domo da Rocha, com
dois ambulatórios ao redor da Rocha, originou-se dos requisitos
litúrgicos do tawaf. Creswell, Early Muslim Architecture, 1932;
Goldziher, Muhammedanischen Studien, 1889-1890). Entretanto,
historiadores famosos como al-Tabari e Baladhuri, ou um nativo local
como al-Maqdisi, não dão tal explicação. Al-Hajjaj: peregrinação a
Meca, mesmo durante combates contra al-Zubayr; al-Hajjaj “restaura”
Kaaba a “estado original”. O próprio Ya‘qubi afirma que o “hajj”
hierosolomitano continua no califado omíada.
2. Ainda hoje geralmente aceita pelos fiéis. Sura 17:1:

Glorificado seja aquele que levou seu servo à noite da masji al-haram à masjid al-aqsa.

Séc. VIII - Ibn Ishaq liga Jornada Noturna (isra) à Ascenção (mi‘raj) de Maomé. Alega que
masjid al-aqsa estava em Jerusalém e que foi de Jerusalém que o profeta subiu aos céus.

Várias qubbas (cúpulas), maqams (“estações”), mihrabs comemorando esses eventos na


esplanada

Seria o Domo da Rocha, então, uma espécie de martyrium ? Característica em consonância


com santuários cristãos em Jerusalém, um dos quais comemora ascensão de Cristo
❖ Problemas com a teoria no. 2.:

• Entre os primeiros “tradicionalistas”, muitos não aceitavam identificação automática


da masjid al-aqsa com o santuário em Jerusalém.

• Textos sugerem que essa identificação não era percebida como dogma nos primeiro
séculos.

• Onde fica al-masjid al-aqsa? Guillaume (1953) sugere que seja al-Ji‘rana, perto de
Meca, onde há dois santuários (masjid al-adna e masjid al-aqsa).

• «One of Abu Bakrs family told me that Aisha, the Prophet's wife, used to say: “e
apostle’s body remained where it was but God removed his spirit by night”.» (Ibn
Ishaq, Sirat Rasulullah, p. 183).

• Qubbat al-Mi‘raj – Domo da Ascensão. A rocha propriamente dita não é


considerada por todos como o ponto de partida da Ascensão
Evidências não-textuais

❖ Localização

❖ Arquitetura e decoração

❖ Inscrição
Localização
❖ Por que a Rocha foi escolhida como centro (ou pelo menos a construção mais importante)
do complexo?

❖ Função exata da Rocha na tradição judaica: obscura. Podium do altar de Salomão? Pedra
angular do edifício Herodiano?

❖ Templo de Herodes - destruído em 70 d.C.

❖ Época medieval: Monte Moriá e rocha – omphalos da Terra, tumba de Adão, lugar da criação
de Adão

❖ Tradição ligada à Rocha: sacrifício de Abraão (confusão entre “Terra de Moriá” e “Monte
Moriá” (Gen. 22,2).

❖ Associação da Rocha com o sacrifício de Isaac já ocorre na obra de F. Josefo (séc. I d.C.)

❖ “Peregrino de Bordeaux”: lapis pertusus, “ao qual os judeus vêm todo ano e que eles ungem”.
Remanescente do Templo?
Localização

❖ Desafio direto à doutrina cristã pela própria escolha do local: o


Templo judeu seria destruído, segundo a profecia de Cristo: Jo.
4,21; Luc. 21,5–6, 20–24; Mt. 24,2.
❖ Era cristã – associações do omphalos da Terra transferidas ao Gólgota

❖ Conquista de Jerusalém por Umar - pediu para ver local do Templo judeu
(mihrab Dawud do Alcorão: 38:20-21)

❖ Umar rejeita sugestão de Ka‘b al-Ahbar, um convertido judeu, de que qibla


fosse feito do lado da rocha

❖ Tradição muçulmana não é unânime quanto ao local de sacrifício de Abraão


(nem se foi Isaac ou Ismael, ou em Meca, ou em Jerusalém ou alhures).

❖ Ibn al-Zubayr: reconstruiu a Kaaba depois do cerco omíada, como o profeta


disse que era no tempo de Abraão.

❖ Al-Hajjaj: reconstruiu a Kaaba como era no tempo do profeta.


❖ Abd al-Malik ao “islamizar” o recinto judeu, estava afirmando a
preeminência de Jerusalém e da Síria-Palestina sobre Meca: não
um substituto à Kaaba, mas uma oposição à aristocracia de
Meca representada por Ibn al-Zubayr.

❖ Propaganda xiita e abássida: Abd al-Malik teria tentado


substituir a peregrinação. Um ato religioso-político sobre um
ponto incerto de doutrina (o status de Jerusalém e do Monte do
Templo) foi retratado como um ato de impiedade.
Arquitetura
❖ Cibório ou “relicário” sobre lugar sagrado, modelo razoavelmente comum
entre martyria (exemplos em Jerusalém). Então, seria um local de
comemoração.

❖ Mosaicos: maioria motivos vegetais entremeados com vasos, cornucópias,


“joias”.

❖ Exceto as “joias”, são elementos comuns da arte do fim do séc. VII.

❖ Decoração de joias quase exclusiva à face interior da colunata octogonal.

❖ Diferença dessas joias – efeito não puramente formal (pedras e


madrepérola), mas possivelmente a intenção era mostrar coroas, braceletes
e ornamentos “verdadeiros” ao redor e de face ao lugar sagrado central.
Tipos de joias: coroas, diademas com
pedras preciosas pendentes ou incrustadas,
freq. encimadas com formas triangulares,
ovais ou arqueadas.

Couraças, colares, broches, brincos


Diademas sobrepostos a asas e crescente
❖ Origem dos ornamentos: ornamentos imperiais ou reais de Bizâncio
(principalmente) ou Pérsia; ornamentos usados pela Virgem ou pelos
santos na arte bizantina.

❖ Símbolos de santidade, poder e soberania na arte bizantina ou persa.

❖ Uso consciente de representações e símbolos dos povos derrotados.

❖ Prática de pendurar coroas ou representações de coroas e joias em


santuários: a) grupo de evangelhos armênios e etíopes: tabela de
cânones; b) Caixa de Pola (coroa no santuário de S. Pedro em Roma);
c) sobre as mãos dos bispos de Ravenna em S. Apolinário em Classe; d)
Coroas visigóticas da Espanha. Dificilmente distinguíveis de lâmpadas
de óleo sagrado; enfatizam santidade e grandeza da pessoa ou lugar.
Evangelho de
Rabbula, siríaco,
Mesopotâmia, séc.
VI.
❖ Evangelho Armênio, 989.
A Caixa de Pola. Marfim.
Museu Arqueológico de Veneza, início séc. V.
Bispo Ursicinus. Basílica de Santo Apolinário em Classe (532-549),
Ravenna, Itália.
Coroa votiva do rei visigótico
Recceswinth, Espanha, séc. VI.
(Faz parte de um conjunto de 26 coroas votivas)
❖ Coroas persas – não somente “santidade”

❖ Explicação puramente islâmica possível? (Grabar).

❖ Objetos enviados e Meca e mantidos na Kaaba.

❖ Aparentemente até a época de Ibn Zubayr o santuário mantinha dois chifres


de carneiro sacrificados por Abraão e outros profetas

❖ Umar pendurou dois ornamentos em forma de crescente tomados de Ctêsifon

❖ Yazid I deu dois crescentes incrustados com rubis, pertencentes a uma igreja
damascena, e dois cálices; Abd al-Malik enviou dois colares e duas taças de
vidro; al-Walid I: dois cálices; al-Walid II: trono e dois ornamentos em forma
de crescente com inscrição.
❖ Duas caixas de ouro e joias com votos de lealdade dos filhos de
Harun al-Rashid

❖ Rei do Tibete, convertido: ídolo de outro com coroa de ouro e


joias num trono de prata com baldaquim (enviados a Meca em
201 ah e destruído em 202 ah, mas coroa permaneceu pelo menos
até séc. IX).

❖ Espólios de Kabul-Shah, convertido em 199 ah.

❖ Três categorias: 1) para enfatizar a santidade do lugar e a piedade


dos doadores; 2) declarações de juramentos (santificados pelo
lugar sagrado); 3) espólios de valor edificante.
Inscrições
❖ Muito rico em inscrições. Três delas são omíadas.

❖ Maior: 240m, sobre arcos da arcada octogonal, ambos os lados

❖ Placas de cobre nos portões leste e norte.

❖ Conteúdo: religioso (exceto construtor e data). Citações alcorânicas.

❖ Propósito e significado de uma construção/elemento pode se inferido das


inscrições. Ex.: Nilômetro (água 42, 27-28; 14, 37; 16,10-11); mesquita de al-Hakim
(imam: 28,4); Hospital de Nur al-Din em Damasco (arte da cura: 16,71; 26,78-80).

❖ No entanto, essas inscrições só podem ser lidas com dificuldade. Mas a natureza da
língua e da relação com a escrita e a religião facilitam a leitura (escrita como ajuda à
memória, frases repetidas, textos conhecidos e decorados, alcorão como recitação).
Califa Abássida al-Ma’mun substituiu seu
nome pelo de Abd al-Malik (seção
sudeste da face exterior da arcada
octogonal)
Inscrição do interior
❖ Sura 112: Dize: Ele é Deus, o Único! Deus! O Absoluto! Jamais gerou
ou foi gerado! E ninguém é comparável a Ele!

❖ Em verdade, Deus e Seus anjos abençoam o Profeta. Ó fiéis, abençoai-o


e saudai-o reverentemente! (33,56)

❖ 17:111: E dize: Louvado seja Deus, que jamais teve filho algum,
tampouco teve parceiro algum na Soberania, nem (necessita) de
ninguém para protegê-Lo da humilhação, e é exaltado com toda a
magnificência.

❖ Obs: A sura 17 é a Sura da Viagem Noturna (Al-Isrâ’), mas a


passagem citada não se refere à Viagem do Profeta.
Inscrição do interior
❖ Ó povo do livro! Não exagereis em vossa religião, nem digais nada a
respeito de Deus a não ser a verdade. O Messias, Jesus, filho de
Maria, era só um mensageiro de Deus, e uma palavra que Ele deu a
Maria, e um espírito dEle. Então crede em Deus e Seus mensageiros,
e não digais: “Três”! Parem! É melhor para vós. Deus é um deus
único. Longe de Sua glória que ele tenha um filho! Dele é o que está
no céu e o que está na terra. E Deus basta como guardião. [4:171]

❖ O Messias não desdenhará ser servo de Deus, e nem os anjos


próximos [dEle]. E os que desdenharem Sua adoração e se
ensoberbecerem, Deus os congregará todos diante de Si. [4:171-72
completos]
❖ Ó Deus, abençoa Teu mensageiro e Teu servo Jesus filho de Maria
[interjeição introduzindo a passagem seguinte]. A paz esteja sobre ele
no dia em que nasceu, e no dia em que morrer, e no dia em que ele for
ressuscitado vivo! [19:33 completo, com mudança da primeira para
terceira pessoa].

❖ Tal foi Jesus, filho de Maria, palavra de verdade da qual eles duvidam.
Não é de Deus que ele tome alguém por filho. Glória a Ele! Se ele
decreta algo, basta que Ele diga a essa coisa: “Seja!”, e essa coisa passa
a existir. [19:34-35]

❖ Deus é meu Senhor e vosso Senhor, adorai-O, então! Esse é o caminho


certo! [19:36 completo, exceto pelo “e” inicial]
❖ Deus dá testemunho de que não há deus além dEle e os anjos e os
sábios [também são testemunhas]; não há deus além dEle, o
Poderoso, o Sábio. [3:18]

❖ E a religião para Deus é a Submissão (al-islâm) e os povos do


livro só discordaram depois que o conhecimento veio até eles, por
transgredirem entre eles. E quem renegar as provas/versículos/
revelações (ayât) de Deus, então Deus é rápido para o acerto de
contas [3:18-19 completo].
Inscrição na porta norte
❖ 9:33 (ou 61:9): “Foi ele que enviou Seu mensageiro com a
orientação e a religião da verdade, para que a faça prevalecer
sobre todas as religiões, não importa o quanto os idólatras o
odeiem”.

❖ forma resumida de 2:136 ou 3:84 que vem depois da


enumeração dos profetas: “Cremos em Deus, naquilo que foi
passado para Muhammad [isso não está presente no Alcorão] e
naquilo que os profetas receberam do seu senhor, e não
fazemos distinção entre nenhum deles, e a Ele nos
submetemos.”
❖ Essas citações, em sua maior parte, não pertencem ao ciclo
usual de inscrições alcorânicas em monumentos.

❖ Pontos fundamentais: soberania de Deus, missão universal de


Maomé, posição de Cristo.

❖ Asserção de superioridade da fé e do Estado.


❖ O geógrafo al-Maqdisi (séc. X) perguntou a seu tio por que al-Walid tinha
gasto tanto dinheiro para construir a mesquita de Damasco. O tio
respondeu: “Meu pequeno filho, você não tem entendimento. Na verdade al-
Walid estava certo, e ele foi motivado a realizar uma obra digna. Pois ele viu
que a Síria era um país que tinha sido durante um longo tempo ocupado
pelos cristãos, e notou lá as lindas igrejas que ainda pertenciam a eles, tão
encantadoramente belas, e tão renomadas por seu esplendor, como a Igreja
do Santo Sepulcro, e as igreja de Lydda e Edessa. Então ele procurou
construir para os muçulmanos uma mesquita que fosse única, uma
maravilha em todo o mundo. E de maneira semelhante, não é evidente que
Abd al-Malik, vendo a grandeza do martyrium (qubbah) do Santo Sepulcro e
sua magnificência, foi motivado pelo receio de que ele deslumbrasse os
muçulmanos e portanto ergueu acima da rocha o domo que agora é visto
lá?”
O significado do Domo da
Rocha
❖ Compreendido por judeus e cristãos (o islamismo como sucessor)

❖ Fortalecer a sacralidade da Palestina contra pretensões de Meca

❖ Símbolos de realeza nos mosaicos: ex-votos ou comemoração de vitória


(espólios)

❖ Declaração do unitarianismo e da verdade final do islamismo (afinal, vitória


= verdade…) numa cidade essencialmente cristã.

❖ Percepção que os líderes omíadas tinham de si mesmos como herdeiros do


Império Romano

❖ Prática geral de erigir monumento de conquista (ex: tropaia romanos,


Basílica de Belém (?), Nahr al-Kalb)
O contexto histórico da
construção do Domo da Rocha
❖ Anos 69-72: reveses par aos omíadas. Lutando contra
muçulmanos na Arábia (Ibn al-Zubayr) e no Iraque (kharijitas).

❖ Pagando enorme tributo aos bizantinos

❖ Forças irregulares em território omíada (mardaítas).

❖ Clima de animosidade – “guerra fria”. (Culminando na expedição


contra Bizâncio em 715-17)

❖ Perdeu seu significado político, mas continuou a ter o significado


de comemoração de um evento específico na vida do profeta,
juntamente com a esplanada (Haram al-Sharif).
O Domo da Rocha no contexto dos
martyria concêntricos de Jerusalém

❖ Domo: monumento sui generis?

❖ Conotação que esse design tinha num contexto cristão.

❖ Como as “palavras visuais” podiam ser “lidas” pelos cristãos de


Jerusalém e da região?
❖ Onde há igreja em Jerusalém:
✴ Com forma exterior similar?

✴ Com espaço interior semelhante?

✴ Com cúpula semelhante?

๏ Como os cristãos interpretariam essa associação?


❖ Plano arquitetônico do Domo da Rocha pertence à tradição
local de santuários memoriais concêntricos bizantinos.

❖ Igreja da Natividade, Belém, construída por Constantino ca.


333.

❖ Rotunda da Anastasis, construída sobre o Santo Sepulcro. Ca.


348, Constantius (r. 337-61), filho de Constantino o Grande.

❖ Igreja da Ascensão no Monte das Oliveiras, construída sob


estrutura octogonal posterior dos cruzados.
Dois ambulatórios concêntricos
em volta de espaço circular
central.

Lugar da Ascensão de Cristo.

Ambulatórios concêntricos
surgem no século IV,
modificados no séc. V (Igreja
de Kathisma).

Igreja da Ascensão e Domo da


Rocha são mutuamente visíveis.
Capela com abside entre 2
ambulatórios. Capela de S.
Estêvão, 438.
Capela da Ascensão,
reconstruída pelos cruzados.
Igreja de Kathisma
❖ 456, estrada entre Jerusalém e Belém.

❖ Construída sobre e ao redor da rocha sagrada identificada como local onde Maria,
grávida, sentou-se na jornada para Belém (Protoevangelho de S. Tiago, 17,2-3.

❖ Plano octogonal possivelmente inspirado pela forma da estrutura sobre caverna da


Natividade em Belém.

❖ Grande, independente, concêntrico, dois ambulatórios, capelas no ambulatório


exterior (possivelmente com relíquias e ícones).

❖ Martyria: Multifuncionais: locais de comemoração e liturgia.

❖ Quando Domo da Rocha foi construído, ca. 692, a única estrutura octogonal nas
redondezas de Jerusalém era a Igreja de Kathisma, a aprox. 3 milhas.
Norte

Exclusiva da
Palestina; maioria dos
Abside exemplos em
Jerusalém

Capelas Leste Divisão em 3

Norte

Entrada

Rocha

~18,3m Entrada ~20m


Igreja do Santo Sepulcro
Paralelos com S. Sepulcro
❖ Domo da Rocha: omnipotência, domínio, soberania de Deus.
Versículo do Trono (2:255) (domo):

• Deus! Não há mais divindade além d’Ele, Vivente, Subsistente,


a Quem jamais alcança a inatividade ou o sono; d’Ele é tudo
quanto existe nos céus e na terra. Quem poderá interceder
junto a Ele [no Dia do Julgamento], sem a Sua anuência? Ele
conhece tanto o passado como o futuro, e eles [humanos] não
sabem nada do que ele sabe, exceto o que Ele permite. O Seu
Trono abrange os céus e a terra, cuja preservação não O abate,
porque é o Grandioso, o Altíssimo.
❖ Maiestas Domini - associado à peregrinação à Terra Santa e da vinda de Cristo
entronizado, juiz da humanidade.

❖ Rocha do Calvário (Golgotha, identificado como o omphalos)

❖ Caverna subterrânea

❖ Cruz monumental

❖ Rotunda sobre a tumba vazia, comemorando o enterro e a ressurreição, que são


negados pelo Alcorão.

❖ João Damasceno (m. ca. 750): islamismo seria “amálgama de heresias”: a) dos judeus,
monoteísmo absoluto (“monarquia”); b) dos arianos, afirmação de que a palavra e o
espírito de Deus são criados [ver Alcorão e inscrição no Domo]; c)
“antropolatria” (ideia de que Cristo era somente homem).
❖ Festa da eotokos celebrada em Kathisma.

❖ Homilias do séc. V (não incluem história da lenda de Kathisma), ligam Maria ao Templo
judeu: Maria como Trono de Deus e como Templo, tão importante quanto a cátedra dos
querubins e do Santo dos Santos.

❖ Crisipo (m. ca. 480) compara Maria ao monte de onde foi tirada a pedra para a fundação do
Templo.

❖ Alcorão 3,32: Maria recebe alimento de Deus; Prot. S. Tiago 8,1: recebe alimento de um
anjo.

❖ Construção da Igreja de Kathisma: séc. 5, 6, 8. Séc. 8: nicho: sul: mihrab?

❖ Inscrição do mosaico com cruz: séc. 9. Utilização conjunta: mesquita-igreja.

❖ Perto do nicho, mosaico em forma de palmeiras.


❖ Alcorão Surat Maryam (19), v. 23-26:

• As dores do parto a constrangeram a refugiar-se junto a uma


tamareira. Disse: Oxalá eu tivesse morrido antes disto, ficando
completamente esquecida. * Porém, chamou-a uma voz, junto
a ela: Não te atormentes, porque teu Senhor fez correr um
riacho a teus pés! * E sacode o tronco da tamareira, de onde
cairão sobre ti tâmaras madura e frescas. * Come, pois, bebe e
consola-te […]
❖ Citações da mesma sura do Alcorão no Domo da Rocha.

❖ Segundo algumas fontes, dois homens supervisaram a


construção do Domo da Rocha:

• Raja’ ibn Haywa, de Beth Shean, teólogo e erudito que serviu


a Abd al-Malik (r. 685-705) até seu filho Hisham (r. 724-47),
reconhecido por conhecer os lugares sagrados da Palestina;

• Yazid ibn Salim, um convertido cristão que vivia em


Jerusalém.
❖ Domo (Anastasis), plano octogonal, ambulatórios etc.:
Kathisma, Igreja da Ascensão, Igreja da Natividade); pedra
(Maria: Kathisma; Jesus: Ascensão; Jesus: tumba(?))


Importância de Jerusalém no
começo da história islâmica
❖ Califa Omar: atribui-se a ele a “limpeza” do Monte do Templo (até
então utilizado como “lixão”) e a descoberta da rocha após a
conquista de Jerusalém (638), e a construção de uma mesquita
modesta.

❖ Mesquita possivelmente renovada por Mu‘awiya, governador da


Síria-Palestina (anos 640) e primeiro califa omíada (r. 661-80).

❖ Pacto entre Mu‘awiya e ‘Amr ibn al-‘As (que conquistara Egito em


658) contra ‘Ali na Primeira Guerra Civil (Primeira Fitna, 657-61).

❖ 660: cerimônia de reconhecimento do califado de Mu‘awiya em


Jerusalém
O complexo do Haram al-Sharif

❖ Plataforma trapezoidal elevada, com oito entradas arqueadas,


com escadas.

❖ Domo da Rocha (qubbat al-sakhra)

❖ Domo da Ascensão (qubbat al-mi‘raj)

❖ Domo da Corrente (qubbat al-silsila)


Vista a partir da entrada sul.
Minbar al- Domo de José: Profeta José (Yusuf), Yusuf Salah al-Din,
Sayf, Qubbat Yusuf (esquerda). Yusuf Agha (eunuco-mor otomano do séc. XVII que o
reformou.
Domo do Profeta

Otomano, 3m diam., construído em 1538


para comemorar local conde Maomé orou
com os profetas bíblicos e os anjos.
Domo da Ascensão

❖ Originalmente batistério dos cruzados; destruído e


reconstruído para comemorar Ascensão de Maomé.
Lado norte. Ao leste, Monte das Oliveiras. Entrada
Norte: Entrada do Éden.
Noroeste. Qubbat al-Khader. Minarete de Ghawanima
(construído 1297, reparado em 1327).
Do lado direito: Qubbat al-Arwah (séc. 17), onde
Maomé pregou às almas dos profetas anteriores
Domo da Corrente

❖ Davi julgou os Filhos de Israel por meio de uma corrente de luz


suspensa entre o céu e a terra. A Corrente podia distinguir
quem, num julgamento, estava dizendo a verdade.

❖ A mesma tradição também identifica o Domo da Corrente


como o local onde o profeta encontrou as donzelas do Paraíso.
Domo da Corrente
Domo da Corrente
Bab al-Hitta (Remissão) (2a pos.)

Minarete de Ghawanima

Fonte do Sultão Sulayman

Domo de Salomão
Maqam al-Khidr
Trono de Salomão

27. Qubbat al-Mi‘raj Bab al-Rahma


26. Qubbat al-Nabi
Bab al-Jana’iz (Funeral)
/Al-Buraq
Escadaria de Buraq
Bab al-Sakina / Bab al-Silsila / Bab
al-Mahkama Qubbat al-Silsila

Qubbat Musa
41. Mesquita de al-Aqsa
Bab al-Hitta (Remissão)

Estábulos de Salomão
3. Mesquita dos Maghribis,
Mahd ‘Isa
Minarete al-Fakhriya

4. Bab al-Nabi
5. Bab al-Rahma, Mihrab Maryam
Itinerário de peregrinação
segundo Ibn al-Murajja,
meados do séc. XI.
1a. Al-Balata al-Sawda (Pedra Negra)
1b. Al-Maghara (A Caverna)
1c. Maqam al-Nabi
1d. Bab Israfil
2. Qubbat al-Silsila
3. Qubbat al-Mi‘raj
4. Qubbat al-Nabi
5. Bab al-Rahma
6. Mihrab Zakariya
7. Kursi Sulayman
8. Bab al-Sakina (Portal da Presença
Divina)
9. Bab Hitta (Portal da Remissão)
10. Masjid al-Aqsa. A) Mihrab ‘Umar; b)
Mihrab Mu‘awiya
11. Bab al-Nabi
12. Miyrab Maryam (Mahd ‘Isa: “berço de
Jesus”)
Andaluz Ibn Abd al-Rabbih
(m. 940)
❖ Muro Leste: Porta da Misericórdia - “uma porta, do lado de dentro,
misericórdia, e do lado de fora, a danação”(Vale do Inferno ao leste de
Jerusalém). Alusão ao muro com portas que separará os crentes dos hipócritas
no dia do Julgamento Final (Alcorão, 57,13).

❖ Mihrab Maryam, onde Deus lhe trouxe frutos celestes

❖ Muro leste: Mihrab de Zacarias, onde anjos lhe anunciaram nascimento de seu
filho João Batista, quando estava rezando ali (Alcorão 3:39; 19:11)

❖ Muro Norte: Mihrab de Jacó, Trono onde Salomão orava; Minarete de Abraão.

❖ Placa de Pedra Negra, que “fica sobre um dos portões do Paraíso”. Acredita-se
que essa pedra tenha pertencido ao Paraíso, assim como a Rocha e a pedra
negra na Kaaba.
Ibn Abd al-Rabbih (m. 940)

❖ “No Dia da Ressurreição o Paraíso será trazido como uma


noiva a Jerusalém, e a Kaaba também virá com ela”,
acompanhada por uma procissão matrimonial com a Pedra
Negra

❖ Em Jerusalém, dois profetas (Jesus e Maomé) subiram aos Céus.

❖ Será em Jerusalém onde Jesus derrotará o Anticristo.


❖ Escatologia: Israfil

❖ Ligação com santidade de Meca (fonte de Zamzam em Meca-->


Silwan no Haram al-Sharif)

❖ Poço da Folha (bi’r al-waraqa), dentro do portal principal da


mesq. Al-Aqsa -- Folha retirada do Paraíso no tempo do califa
Umar.
❖ Centro de peregrinação “alternativo”, com rituais semelhantes ao hajj.

❖ Viajante persa Nasir-e Khosro diz que habitantes da Síria-Palestina realizavam os


rituais do hajj lá e ofereciam sacrifícios, com números chegando a 20.000 em
certos anos.

❖ Desafio de Abd al-Malik a ibn al-Zubayr, mas sem contestar primazia da


peregrinação de Meca.

❖ Vários apocalipses judeus veem a “restauração” do Templo por Umar, Mu‘awiya e


‘Abd al-Malik como prelúdio ao Rei-Messias

❖ Textos apocalípticos cristãos do séc. VII veem as atividades de construção como


um arauto da profecia apocalíptica da “Abominação da Desolação” (o Anticristo)
que aparecerá no Monte do Templo antes da Segunda Vinda de Cristo.
❖ Segundo Ibn al-Murajja (séc. XI), circuito ao redor da Rocha
deveria ser anti-horário (oposto ao circuito ao redor da Kaaba).

❖ Na época de ‘Abd al-Malik, o Domo da Rocha provavelmente só


era aberto às segundas e quintas-feiras, antes das quais os
presentes aplicavam óleo perfumado (khalúq) à Rocha e
andavam em procissão ao redor dela, queimando incenso, atrás
de cortinas.

❖ Atribui-se a Mu‘awiya o costume de perfumar a Kaaba com


khalúq, e as portas da Kaaba também só se abriam às segundas
e quintas pelos Quraysh durante a vida do profeta.
❖ Associações de Davi e Salomão ligadas à dinastia omíada.

❖ De acordo com uma tradição, ao entrar em Juersalém, Umar


recitou a Sura Sad (Alcorão 38) e também a sura 17 (“al-masjid al-
aqsa”). Na sura 38, Deus perdoa Davi e o nomeia
“representante” (khalifa) na TErra

❖ O Domo da Corrente, associado à justiça davídica, é ecoado pela


alegação de ‘Abd al-Malik de ser o “califa de Deus” (khalifat allah).

❖ Legitimação religiosa dos omíadas: profetas - Maomé - califas; os


califas eram “meios de salvação”.
A renovação do Sultão
Sulayman
❖ Selim I conquista Palestina em 1516, Egito em 1517.

❖ Seu filho Sulayman al-Qanuni retratado como Davi e Salomão, “imperador messiânico da
era” (hazrat-i hudayegan-i zaman), “califa do senhor glorioso” (halife-i rabb-i celil)

❖ Rivalidade com o imperador Carlos V (r. 1519-58) e o Xá Tahmasp I (r. 1524-76).

❖ Jurista hanafita Ebussuud (m. 1574) reconciliou lei religiosa (shari‘a) e secular (qanun),
grão-mui e confidente de Sulayman, promovia imagem do patrono como “califa de deus na
terra”.

❖ Complexo de Suleymaniye: 1557; revestimento do Domo da Rocha: 969 [1545/6]; 952


[1551/2].

❖ Construiu as muralhas da cidade.

❖ Cobertura do Domo da Corrente em 1561/2; quatro portais do Domo ganham portas de


madeira cobertas de placas de cobre em 972 [1564/5].
Ticiano. Sulayman o
Magnífico e François I.
❖ Janelas de vidro colorido - votos de
vitória (“ó Deus, ajuda e sustenta os
exércitos dos muçulmanos,
prolongando os dias de nosso mestre, o
sultão, possuidor dos pescoços das
nações, o sultão Sulayman, filho do
Sultão Selim Khan, filho de Bayezid”).
Azulejos
❖ Segundo R. Hillenbrand, destruiu algo único (mosaicos) para por no
lugar algo “comum”.

❖ No entanto, exterior já havia sido danificado, inclusive por


terremotos.

❖ Cobertura de azulejos era muito incomum na tradição arquitetônica


otomana, caracterizada por fachadas sóbrias de pedra lisa

❖ Assinado por Abd Allah al-Tabrizi, 959 [1551-1552].

❖ Muhammad ibn Qasim - mi‘marbashi (arquiteto-chefe) encarregado


dos azulejos (‘ala ‘amal al-káshí).