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I - Memórias Desconexas

Acordei sem saber onde estava. Na realidade percebi que ficara certo tempo sem consciência de mim. Algumas lembranças fugidias, desconectadas, nada que me ajudasse a perceber o que ocorrera. Estava em um quarto, com duas camas vazias. Eu dormia com um colchão no chão, e as camas ao meu lado. Um banheiro, um armário. Certamente não estava em uma prisão ou hospital. Mal sabia que era um misto dos dois. Vi que a televisão que ficava no meu velho quarto estava ali, o DVD também. Mas estava um tanto quanto atordoado. Sentia meu corpo pesado. Tentei andar, minhas pernas pesavam toneladas. Fui ao banheiro. Um banho às vezes pode ressuscitar um defunto, ou semi-defunto, como me sentia. Nada de melhoras. O que diabos tinham feito comigo, e que fizera eu para merecer ficar naquele estado deplorável? Enquanto me perdia em divagações, abriu-se a porta do quarto, surgiu uma moça, simpática, vestida de branco. “Bom dia, dormiu bem?” questiona a moça. Ela ainda não tinha percebido que eu estava consciente, por isso se assustou com a minha reação indignada. Indaguei onde estava, quem era ela, porque estava ali, como faria para sair. Ela, percebendo a gravidade da situação, me pediu um minuto, que traria alguém capaz de me explicar a situação. Chegou um homem de branco. Por volta de cinqüenta anos de idade, ar e semblante sérios. Eu começava a ficar desnorteado, falando e perguntando sem parar, dizendo que queria sair dali, querendo notícias da minha família. Me sentia abandonado, em um local estranho, com meu corpo pesando e dificuldade de raciocínio. Mal conseguia encadear as frases e pensamentos. Ele observava minha reação pacientemente, esperando o momento oportuno para intervir. Na “hora certa”, começou a me explicar. Disse que eu estava daquele jeito devido a algumas medicações, mas que não podia ficar agitado. Eu estava ali porque era o melhor para mim, todos estavam querendo me ajudar, inclusive minha família que me trouxera àquela clínica. No fim, exigiu que tomasse uma medicação, para me acalmar. Como fiz menção de recusar, ele disse que caso não tomasse, seria via injeção novamente. Aquilo foi uma tempestade de informações na minha mente. Vá lá que nunca fui das pessoas mais comuns, podia até ter alguns problemas psicológicos-psiquiátricos, mas daí ser internado em uma clínica psiquiátrica? Era muito para eu conseguir entender. E não me lembrava os motivos, não me lembrava o que eu fiz, só sentia um cansaço tremendo. A idéia da injeção parecia um trauma. Fiquei apavorado, e resolvi tomar meia dúzia de comprimidos. Pedi ao médico, doutor Lucas, que me explicasse direito, precisava entender. Ele disse que entenderia, assim que fosse ter minha consulta com ele, em breve, mas que agora precisava atender outros pacientes. A enfermeira, Valéria, uma das que passava as noites velando meu sono, também se despediu de mim dizendo que ficasse calmo, que iria me lembrar de tudo. Carinhosamente, disse que se precisasse ela estaria logo ao lado.

Em uma situação normal aquela doçura e carinho me tocariam, mas logo após eu descobrir que estava internado, sem saber com qual problema, com minhas sinapses lentíssimas, a sensação de ficar sozinho naquele quarto me causou espanto. A solidão é algo apavorante quando estamos sem chão. É a lógica do abandono. Não nos sentimos humanos, nos sentimos um problema. Problema que ninguém parece querer lidar, nem os médicos, nem as enfermeiras, nem a família. Com grande dificuldade de pensamento, me indagava onde estariam meus familiares. Teriam eles me abandonado ali, simplesmente, esperando eu me curar?, de que mal não sabia ainda. Eu tinha uma namorada, disso eu me lembrava. Teria ela consentido com essa decisão absurda, me abandonando ali junto com sei lá que espécies de loucos? Pensei no irmão mais novo. Ele deve estar entendendo menos que eu tudo que ocorre, embora já tenha idade para ter alguma idéia. Como deve sofrer! Ele havia de ser um aliado para me tirar daquela situação. Mas como contactá-lo? Vi que no criado-mudo estava o meu celular. Pensei em ligar para alguém. Meu pai, minha mãe, meus irmãos, meus avós, alguém havia de me dar uma explicação plausível. Resolvi descobrir o que mais havia naquele quarto-prisão. Na geladeirinha, sucos de uva e iogurtes. Alguém que conhecia bem meu gosto tinha deixado ali para mim. Se tivesse uma cervejinha, abriria naquele momento. Mas provavelmente todos aqueles remédios não me deixariam desfrutar os prazeres do álcool. Ainda no criado mudo, um livro de poesias, Vinicius de Moraes. Aquele livro despertou uma série de memórias que esboçavam tudo que tinha ocorrido. Junto com o livro estava meu Playstation Portátil, PSP. Uma avalanche veio em minha mente… Muita informação ao mesmo tempo, não conseguia absorver tudo, então resolvi tomar outro banho. Não tinham passado nem trinta minutos do primeiro. A quantidade de banhos é um indício. Indício de que estava prestes a descobrir algo. Durante o longo banho, a tempestade de lembranças e idéias, a brainstorm, continuou acelerada, mesmo com a lerdeza do meu cérebro, provavelmente afetado pelos remédios. Uma viagem para o Rio de Janeiro. Juiz de Fora, depois. Uma festa. A insônia. A namorada e os pensamentos infiéis. A Musa Inspiradora. Fragmentos de minha própria história que, ao mesmo tempo que me atordoavam, traziam algum sentido àquela situação. Fui interrompido da minha exorcização interna. Minha mãe chegara no quarto. Um alívio. Não estava de todo abandonado. Talvez ela me ajudasse a ligar os elos fragmentários de minhas memórias. Precisava tecer as teias do sentido daquela experiência, até mesmo para poder me ajudar a me ajudarem. Vi o olhar aflito de minha mãe. Ela percebera que novamente eu tomara banho com minha bermuda. Já falara para eu parar com aquilo. Mas ainda molhado lhe dei um abraço emocionado. Nunca tinha sido tão bom encontrá-la. O carinho e a emoção desse encontro, eivaram de esperanças aquele olhar triste e maltratado, de minha mãe. Ela me abraçou, e ao ser bombardeada de perguntas, segurou as lágrimas que teimavam em pular de seus olhos, para tentar me explicar, o mais calmamente

possível, a situação em que me encontrava, e os motivos das atitudes que ela tomou, como me internar ali. Não foi um diálogo fácil. Ainda que eu tenha encontrado algumas memórias perdidas, elas ainda não tinham uma lógica, nem se figuravam para mim como causas de algum mal psiquiátrico. Na realidade eu me tomava sempre como o senhor da verdade, por mais que nem mesmo me lembrasse da metade do que tinha ocorrido. Além disso ainda tinha uma atitude agressiva, condenatória, indagando como ela fora capaz de fazer aquilo comigo, me deixar ali, sozinho, no meio de loucos. Acreditaria ela que eu era como os outros? Drogados, esquizofrênicos, maníacos ou depressivos? Ela tentava se esquivar, tentando me trazer para a realidade, invocando minhas lembranças, algumas das minhas atitudes. Ainda assim tudo estava confuso para mim. Ainda hoje é. Mesmo com o tempo, algumas perguntas permanecem irrespondidas. Talvez nunca encontre as respostas. Mas algumas vezes as perguntas importam mais que as respostas. São as perguntas que nos movem, as respostas podem estagnar. E naquele momento, em que pensava ter de volta a consciência de mim, tudo que queria era perguntar e ser respondido. Mas ainda não era a hora, nem a pessoa adequada para me satisfazer. Percebi isso, e como vi que ela ia embora, perguntei dos meus irmãos, da minha namorada, do meu pai. Todos estavam bem, preocupados, mas bem. Viriam me visitar, quando fosse possível, meus amigos também. Foi um acalanto para meu coração. Realmente não estava sozinho naquele lugar inóspito. Era uma coisa passageira, imaginava, agora que estava bem, em breve reveria todos, tudo voltaria

a seu lugar. Mal imaginava eu os percalços que ainda me esperavam. Como diz o

poeta são as pedras que encontramos no meio do caminho que valorizam a caminhada. Comecei a restaurar em minha mente o que tinha ocorrido. Na realidade tentava buscar o meu eu, restaurar minha identidade que havia sido fracionada. Tinha à essa época vinte e três anos recém completados.

II - Meandros da memória

Com 23 anos, já tinha me formado em História há um ano, e estava com o mestrado em curso. Exatamente esse mestrado que me levou à viagem. Ao Rio de Janeiro. Nessa época ainda trabalhava em um projeto de pesquisa na universidade, e aliando meus interesses de pesquisa e as necessidades desse projeto, resolvi ir ao Rio de Janeiro. Essa cidade sempre me cativara. Ambígua, paradoxal, com suas belezas naturais e desigualdades sociais extravagantes. Já tinha ido para o Rio em algumas ocasiões, uma com amigos, ficando em Copacabana, outra para o histórico show dos Rolling Stones nessa praia, voltando logo após, e ainda outra a trabalho, para uma apresentação na PUC-Rio, em que fiquei no Centro, próximo à Lapa. Todas essas viagens foram rápidas e não tive a possibilidade de conhecer as profundezas da cidade, suas entranhas. Talvez por em todas elas estar acompanhado de muitos

amigos. Sempre fui uma pessoa rodeada de amigos, e só de saber que eles não iriam me abandonar nessa clínica sem os ver, meu coração já se acalentava. Voltemos à fatídica viagem. Dessa vez, viajaria sozinho. Já tinha tido uma experiência muito boa de viajar sozinho, em outra pesquisa no Ceará. Quando se viaja sozinho é que se aprende a conhecer e conviver consigo próprio. A disciplina necessária para pesquisar sem ter um chefe, a liberdade de organizar seus próprios horários. Liberdade porque se tem o dinheiro necessário e pode-se definir como e com que gastá-lo. Uma definição bem capitalista de uma palavra tão bela que vem se esvaindo de significado. Liberdade banalizou-se, sem que entendessem o essencial do seu sentido. Quando se está internado, isso fica bem claro. O plano inicial era ficar uma semana na Cidade Maravilhosa. Talvez não fosse o suficiente para levantar tudo que era necessário nas duas pesquisas, mas era o tempo que o dinheiro que tinha me permitia ficar. Fui de ônibus, sempre aquela viagem estranha, ao lado de uma pessoa desconhecida. Mas com meus livros e minha música sempre me virei bem. Não há solidão quando há palavras. A solidão total é a ausência de palavras. Em todos os momentos da minha vida, sempre tive uma trilha sonora. Até eu conhecer aquele que comporia a grande trilha da minha vida: Vinicius de Moraes. Minha relação com esse poeta vai além de meras palavras encadeadas. É como se o conhecesse, como se ele me aconselhasse, me confortasse, bebesse comigo. Na realidade, ele certamente me acompanhou enquanto estive internado, e ainda me aconselha quais palavras usar. Vinicius, o Rio, saudade, paixão. Combinações deliciosamente explosivas. A saudade era da minha namorada na época. Havia alguns meses que estávamos juntos, nos conhecemos em um Congresso, um amor arrebatador e intenso. Nos envolvemos com uma rapidez impressionante. Mas essa era, ou ainda é?, uma das minhas principais características. A paixão com o mundo, a maneira apressada de viver tudo intensamente antes que acabe, a mania de me entregar de coração aberto para as pessoas. É um modo poético de existência. Exagerado, diria Cazuza. Mas as coisas boas da vida não estariam exatamente nos exageros? Descobri que até com eles é preciso uma dose de moderação. Pois cheguei ao Rio e fui direto para o albergue em que iria ficar, no bairro mais charmoso e boêmio de Santa Tereza. O albergue era numa casa grande, antiga. Toquei a campainha, mas como eram seis horas da manhã, ninguém atendeu. Fiquei por ali, sentado em um banco de pedra, rabiscando alguns pensamentos iniciais da viagem. Depois de cerca de meia hora, jogando PSP e escrevendo, toquei novamente a campainha, e surgiu um sujeito ímpar, atendendo à porta. Era o Darci, grande figura, um beatnik perdido no tempo e no espaço naquela cidade. Travamos uma pequena conversa inicial, fiz o check-in, e fui para o quarto. Para chegar nele tinha de se subir uma escada em espiral, de madeira, que fazia aqueles barulhos, estalos, típicos de casas antigas. O quarto amplo, com três beliches e um banheiro, dois cômodos, estava vazio. Ficaria ali naquela imensidão de quarto

sozinho. Na realidade havia apenas um casal de ingleses hospedados ali, que iria embora na data da minha chegada. Ficaríamos ali eu, Darci, as duas empregadas, a dona, Sandra, e sua filha. Sobre elas, mais tarde lhes contarei. Depois daquela primeira incursão, tomei um banho, a temperatura estava acima dos trinta e cinco graus. Comi algumas frutas e tomei um café, e parti para o primeiro local de pesquisa, a Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Uma pequena caminhada por Santa Tereza até a rua Leopoldo Fróes. Incrustado no pé da montanha, é um grande prazer caminhar nesse bairro, cheio de largos, e com os simpáticos e nostálgicos trilhos do bonde, que ali ainda subsiste. Lá chegando, estava fechada a Academia. Como já tinha estado ali cerca de um ano antes, já sabia que o poeta Gonçalo Ferreira, presidente da ABLC, morava na casa logo em cima. Toquei a campainha algumas vezes, mas como foram vãs tentativas, resolvi retornar ao albergue. Tomei mais algumas doses de café, e resolvi partir em busca da outra pesquisa que me levara ao Rio de Janeiro. Era sobre a esquerda na época do regime militar, as organizações, alguns líderes, tinha que encontrar algum documento, quem sabe imagens sobre eles. Já tinha montado um mapa de pesquisa, com as instituições onde deveria ir. No albergue, mais um breve bate-papo com o Darci, e ele me deu as coordenadas para pegar o metrô e ir ao próximo destino, Botafogo, onde ficava o Arquivo Público. Sei que esmiúço por demais os detalhes, mas é que para entender o inintendível, os detalhes têm sua dose de importância. Cada um deles pode ter ajudado a compor a trama que me trouxe a essa clínica. Esforço-me por lembrar das histórias por completo, mas sei que estou fadado a esquecer algo importante. O importante não está na consciência, mas no inconsciente. É nos meandros da memória que podem estar as pistas para me entender, e entender a situação em que me encontro.

III - Coração Pleno, Mente Confusa

Voltando ao Rio, para chegar a Botafogo, peguei um bonde e um metrô. Interessante o passado e a modernidade conviverem juntos. O Rio é a cidade das antíteses. Sociais, culturais, econômicas, tecnológicas. Tanto o velho bonde, quanto o moderno metrô me foram muito úteis, e rapidamente chegava ao meu destino. Lá, logo de cara, vi uma cena pitoresca. Um sujeito meio velho com alma de novo, “plantando bananeiras” na frente de todo mundo. O velhinho estava muito feliz, mas aquilo não incomodava nem a ele nem a ninguém que passava pelo local. Ele certamente exercitava a mente e o corpo, e pouca diferença lhe fazia o que as pessoas pensavam dele. Noutro dia vi-o de cabeça para cima, mas não ousei travar um diálogo. Oportunidade perdida, pois ele me parecia um poço de sabedoria. Na realidade a sabedoria está onde menos esperamos. A real sabedoria não vem dos livros, mas da vivência e experiência. Lembrei-me do ditado: “O diabo deve ser respeitado, não por ser diabo, mas por ser muito velho!” Sem saber, aquele senhor de cabeça para baixo me confirmou isso. Não foi preciso a palavra. Aliás, certas

horas a palavra só atrapalha. Olhares, gestos, movimentos, dizem mais a um bom observador. Enfim, pulando alguns detalhes, foi um dia intenso e longo de pesquisa no Arquivo Público do Rio, muito bem organizado, e burocrático. Já cansado, fui-me embora antes do fim do expediente, já tinha encontrado muita coisa do que precisava. Mas não são coisas de pesquisas, ou detalhes deslumbrantes de minhas impressões do Rio de Janeiro que importam. O que realmente conta é meu estado psicológico. Como cada experiência daquela viagem atuava em minha mente perturbada. De volta ao albergue, conheceria ela, a dona, Sandra. Uma jovem, de no máximo 30 anos. Belíssima, inteligente, o sotaque nordestino de pernambucana nascida em Recife. Cada um desses ingredientes serviu para me cativar. Como já disse Sêneca, não eram seus olhos, suas pernas ou sua inteligência que me chamavam a atenção, mas o conjunto da obra. O primeiro papo foi rápido, apenas apresentações. Eu tinha pressa em tomar mais um banho, relaxar um pouco e absorver todo o primeiro dia na cidade. Mas mesmo nesses breves instantes ela já se fixara em minha mente. Me trouxe pensamentos perturbadores. Afinal de contas eu tinha uma namorada, ela um namorado. Nada disso impediu-me de fantasiar. Mas não era a hora ainda. Eu ainda não tinha a conhecido totalmente. Em breve conheceria um pouco mais. No dia seguinte finalmente teria a oportunidade de conhecer melhor a Sandra. Se ela já me cativara anteriormente, nesse dia me conquistaria. Vá lá que meu coração é bem aberto, mas ela era, ou ainda é, uma pessoa especial. Ainda que minha namorada não saísse de minha mente, a Sandra ganhou um espaço ali, confundiu-me ao mesmo tempo que me impressionou com seu jeito nordestino, calmo e decidido. Para complicar ainda mais minhas emoções, durante o dia li algumas partes do Calabar, de Chico Buarque. A peça é “O Elogio da Traição”, do brasileiro que se aliou aos holandeses contra os portugueses na invasão do século XVI. Elogiar a traição, elogiar a loucura como fez Erasmo de Roterdam, tudo isso mexeu comigo. Eu queria experiências sensórias, químicas, biológicas e psicológicas distintas. Sem drogas ilícitas. Mal sabia por quais bocados passaria. Mas tudo vale a pena, quando a alma não é pequena, como já ensinava o múltiplo Fernando Pessoa. Depois da pesquisa, de volta ao bar. Sempre o álcool como fiel companheiro dos solitários. Ele é socializante. No bar conversei com vários habitantes do bairro Santa Tereza sobre assuntos diversos. De volta, Sandra me chamou para conversar com ela e uma amiga, na área comum, cheia de plantas, do albergue. Não tinha como recusar. Em breves instantes chegaria mais um companheiro, figura estranha e fora do tempo, espécie de hippie congelado. Essa conversa seria decisiva para minha viagem psicodélica surtada, causada pelas confusões amorosas. Exclusivamente? Talvez não. Diversos são os fatores. Impossíveis de detectar as causas. Voltemos aos fatos, ainda que contra eles haja argumentos. Já estava com certa dificuldade para dormir. A marca deixada pela conversa com a Sandra, uma pessoa que conviveu com Chico Science, fundador do Manguebeat, foi

deveras séria. Abriu um mundo de possibilidades em minha cabeça. Talvez o próprio clima do Rio fosse propício a isso, aquela cidade linda, calor, muita gente, turista, a boemia de Santa Tereza. A tudo isso some-se o ânimo com a pesquisa e as perspectivas que o ano reservava. Talvez fosse muita coisa ao mesmo tempo. Mas sempre fui extremo. Ou tudo ou nada. Até escrevi um poema sobre isso, alguns meses depois. Intenso. Prenhe de sentidos. O Tudo às vezes é o vazio Vazio preenche nada que não quer saber do tudo O tudo é o infinito Infinito enquanto dure

Mas o mistério da existência Não está no tudo nem no nada Está no vazio da existência Esse poema foi escrito depois, num momento de angústia e solidão, mas reflete um pouco do estado bipolar da minha alma. A intensidade com que os sentimentos me invadem, a falta de racionalidade nas minhas escolhas passionais em um mundo tecnocrático e racionalista. A intensidade de uma simples conversa com Sandra me invadiu. No dia seguinte conheci sua pequena filha, de seis anos. Uma princesa, linda como a mãe, criada naquele paraíso do albergue, do Rio, de Santa Tereza. Sandra permaneceria grudada em meu coração por mais tempo que eu imaginaria. Mas eu tinha que continuar minhas pesquisas, apesar das poucas horas dormidas. No Rio, como sempre, não foi possível pesquisar tudo que desejava. Tantos acervos, tanto material, ainda mais com duas pesquisas paralelas: Cordel e Mortos e Desaparecidos Políticos. O excesso. Mas passaram-se os dias, foi-se uma semana. Consegui ir à Academia Brasileira de Literatura de Cordel, e tive uma agradável conversa com o seu presidente, o sábio poeta Gonçalo Ferreira. Precisávamos de uma iniciativa para fixar o cordel em Minas. Precisávamos do ímpeto da juventude que eu tinha. Assumi o compromisso. Iria lutar por um projeto, uma cordelteca, um Centro de Referência em Belo Horizonte. Ele me apoiaria, assim como outros poetas. Sempre que voltei de uma viagem sozinho para o Rio, as coisas desandaram. E os projetos foram adiados. Mas não seria só o Rio dessa vez. Ainda iria a Juiz de Fora. Mas o tempo passava, o dinheiro acabava. Ainda bem que tinha o porto seguro do meu pai ali do lado, em JF. Nem tão seguro assim, eu descobriria. Ainda conversei um pouco com o Darci no Rio, ele me contou que o filho do Allen Ginsberg, poeta beatnick, esteve hospedado lá. Que loucura aquele lugar, uma conhecia o Chico Science, outro o filho do Allen Ginsberg. Realmente ali era um lugar privilegiado. Pessoas bacanas e instigantes. Queria ficar mais, extrair o máximo possível delas. O máximo para a Sandra era bem alto. Mas será que ela

poderia me ceder o que eu queria? Nunca saberia. A falta de coragem não nos trás

as respostas. Mas deixa em aberto possibilidades futuras. O fato é que com a grana

encurtada, parti, dormindo mal outra vez, para a rodoviária.

Paguei uns vinte e cinco reais de táxi, não queria ir de lotação com coisas de valor que não eram minhas, além do peso dos livros comprados. Chegando lá na rodoviária vi que só tinha dinheiro para comprar a passagem mais barata. O ônibus

só partiria duas horas mais tarde, sem ar condicionado. Ossos do ofício, era o que

podia ser feito, o orgulho não me deixava ligar para alguém e pedir uma grana emprestada. Fiquei lá sentado, às vezes perambulando, observando as pessoas, ora lendo, ora escrevendo. Um “flaneur”, vagando na rodoviária. E os pensamentos voavam às vezes. Pensava se devia ter tentado ir mais a fundo com a Sandra, ou se teria agido correto, já que tinha um compromisso e gostava muito da pessoa. Mas poderia não ver nunca mais Sandra, e meu namoro poderia terminar. Ou ainda, se a traição ocorreu em pensamentos, ela já não seria traição? O ato só é fato quando real, ou quando nas idéias ele já existe concretamente? Essas idéias botavam minha cabeça a mil. Certa vez um colega tinha me dito que a verdade só existe quando ela é falada. Apenas a enunciação cria um fato? Muito objetivista essa perspectiva, mas bem adequada a canalhices de toda espécie. Mas eu não era um canalha, nem um pragmático, era romântico, sonhador, utópico. Uma flanada interrompe meus pensamentos, uma bela figura que passa. E foi-se. De volta às indagações, vi que era chegada a hora de mais uma partida. Partia do Rio com o coração pleno, a mente confusa, a saudade antes mesmo da partida daquela cidade com a qual mantive promíscuas e atribuladas relações.

IV - Antes de outra Injeção

Deixava o Rio, mas chegaria em Juiz de Fora, outra cidade agradabilíssima, que tinha me conquistado. Nossa história, minha e daquela cidade, era recente, mas intensa. Ali era um pedaço do Rio, como dizem os mineiros, talvez por isso eu gostasse tanto de lá. Dessa vez, nem as cicatrizes que a estada deixariam, serviriam para me afastar de lá. Por mais que não voltasse com tanta freqüência, aquela cidade, ou melhor, ela e algumas pessoas que lá habitam, também habitam em meu coração. Juiz de Fora representara, alguns anos antes um desafio na minha vida. Simplesmente porque meu pai, depois de voltar de Londres e assumir sua homossexualidade, mudara para lá. Vivia com seu companheiro, Marquinhos, na ONG que montaram, o Movimento Gay de Minas, MGM. Eu já tinha alguma notícia, sabia do trabalho que desenvolviam, mas nunca tinha ido. Lidava bem, aparentemente, com a sua orientação sexual, mas não conhecia seu companheiro oficialmente – já o conhecera na infância como um amigo do meu pai. Era um desafio a superar ir até lá. Não nessa época do Rio. Essa época eu já tinha aquela cidade como um segundo lar. Mas a primeira vez foi por uma feliz coincidência do

destino. Uma viagem de pesquisa me levou a enfrentar o inevitável, e abriu um mundo de possibilidades, a diversidade se expôs nua e crua. Fazia uma pesquisa, no longínquo ano de 2005, sobre a história da farmácia em Minas. Não era um assunto que me chamava atenção à primeira vista, mas prometia render um bom dinheirinho, então embarquei. Com a pesquisa o tema se mostrou fascinante, e a história, dependendo do modo como é feita e contada, é realmente preciosa. Um dos locais que eu e a equipe que trabalhava comigo deveria ir, era Juiz de Fora. Logo me prontifiquei a ir, dizendo que meu pai morava lá. De cara isso suscitou a curiosidade das pessoas, querendo saber o que ele fazia, com que trabalhava. Hesitei num primeiro momento, me esquivando, mas aos poucos revelei a alguns colegas a curiosa história.

Acabei indo sozinho a primeira vez. Antes de chegar a expectativa era grande, como eu reagiria, como era aquele mundo em que meu pai vivia, que nos parece tão distante, o mundo dos gays. Não é tão distante assim. Na realidade em alguns aspectos, como o sentimento de posse, os héteros estão bastante atrasados em relação aos homoafetivos. Afinal de contas, ainda que a cultura seja formadora de mentes, somos todos, gays

e héteros, humanos, acima de tudo. Mas será que existiria uma essência do ser

humano? Essência. E a loucura? Seria causada por alguma essência mal formada? Lembrei-me da teoria dos quatro humores, que explicava a loucura e a melancolia na Idade Média. Será que eu tinha cura? Me perco em devaneios, e quase esqueço

a história que lhe contava. Contava da minha primeira ida à Juiz de Fora. Ah, como

aquela cidade me impressionou bem! Como passou a morar no meu coração. Não somente pelas belas mulheres que por ali gorjeiam, mas pela amabilidade das pessoas. Nada de carioquês, por mais cariocas que eles se considerem. Muito interessante, mas voltemos aos fatos, ou ao que deles me recordo. Fui pesquisar, deparei-me com o inevitável. Mas ele se fez tão caloroso para mim, que o inevitável se tornou o agradável. A receptividade que tive na ONG do meu pai, que também era sua casa, foi impressionante. Aliás, tornou-se também mais uma casa minha. O carinho, sem exageros e ser meloso demais, que recebi ali foi realmente surpreendente. Todos se orgulhavam da minha postura, todos eram curiosos para saber quem era o famoso filho do meu pai. Curioso. Queria poder continuar lhes contando, mas no instante os remédios turvam minha visão. E ainda me chamam para tomar outra injeção. Querem podar a minha criatividade. O que fiz de tão mal? Não consigo lembrar-me. As poucas lembranças são dolorosas. Mas se reconstituirmos o fio dessa narrativa, você e eu, conseguiremos entender o porquê. Os porquês nos movem, e nunca os deciframos. Mas não podemos deixar de tentar.

V - Fragmentos de Lucidez

Acordei. Desta vez sabia bem onde estava… Naquela clínica… Por mais que tentassem, os remédios não podiam me dominar, eu era senhor de mim, mesmo

que os médicos me dissessem o contrário. Desculpe a interrupção, voltemos a Juiz de Fora. Sim, lá recebi um carinho especial, e convivi com a diversidade, uma diversidade gostosa, diferenças em harmonia. E minha cabeça se abria… Lembrava de Sandra, lembrava de Calabar, lembrava da minha namorada… A data era festiva,

e não havia alguém mais animado que eu na ocasião. Tudo era festa. Há sempre

aqueles conservadores que dirão que isto é mais um sinal… Sinal só se for de alegria e felicidade… Eles cismam de taxar de euforia… Certos médicos não suportam o excesso de felicidade alheia… A ciência e suas classificações… Voltemos à festa. Marquinhos, o simpático companheiro do meu pai completava, naquela data quarenta e alguns anos. A festa estava armada… Muitos gays, lésbicas, simpatizantes, o “fervo” se agitava, como eles diziam. Eu começara a regar meu organismo de cerveja desde o fim da tarde. Embalei, em meio a goles e baforadas de cigarros baratos, prosas e mais prosas… E eis que uma figura, talvez uma das figuras-chave para entender como vim parar aqui, me cativou… Não há muito como

explicar, talvez a loucura seja sempre seduzida pela aventura. Mas aquela mulher, Tatiana, sem saber, tirou-me o centro de gravidade. Uma mistura de características

a colaram em minha mente, de um modo que demoraria bastante para sair. Assim

como a Sandra… Tatiana era psicóloga do Movimento Gay Mineiro, o MGM, bonita, mulherão, tinha conteúdo, atitude e conhecimento. Ingredientes apaixonantes não?

Um papo cativante, uma beleza intrigante, um gosto pelo estilo rock´n roll de vida… Ela era uma corporificação dos meus desejos insanos mais escusos. Ou apenas uma pessoa extraordinária? Talvez os dois… Ou nenhum dos dois… O fato é que esta senhorita me encantou. E conversamos por horas, e horas e horas… Talvez nem tenha sido tanto tempo, mas as memórias teimam em escapar da minha mente… É difícil me lembrar dos detalhes, dos seus traços… Sua figura fixou-se como uma miragem em minha mente. Sem forma exata, mas sempre a me encantar. Talvez sejam os remédios. Malditos. Ela tinha uma namorada. Eu tinha uma namorada. Gostosa e saborosa confusão! E Sandra ainda estava em minha mente, devia ter ido além daquela simples conversa. Mas algo dizia que não podia.

E o nobre traidor Calabar… Mais uma cerveja em Juiz de Fora! Não!

Foram-se as luzes no meu quarto. Isso é a falta de liberdade de que lhes falava. Querem até mesmo dizer o horário que você deve dormir numa clínica… Não temos direito a controlar a própria luz. Essa é a moral dos “sãos”. Mas os remédios não me dominam. Nem a falta de luz. Preciso explicar, vocês tem que entender a teia de sentidos. Sem luz não há como. Mas sempre há uma luz. Tamanho o fluxo de idéias em minha mente que não consigo dormir… A enfermeira chega para me

acompanhar na madrugada que entra

forçar… Mas não, talvez não finja… Ainda restam pessoas boas no mundo dos “sãos”… Assim espero… Com ela chegam os remédios, preciso aproveitar o tempo que eles me deixam para continuar a lhes contar… Estava em Juiz de Fora…

Como ela é simpática! Parece às vezes até

A noite foi caindo, e a agitação era cada vez maior… Meus hormônios, pensamentos, sentimentos estavam muito agitados, confusos, tudo passando rápido demais. A música estimulava, no ritmo bate-estaca. Eu fluía. Regado a cada vez mais cervejas, que desciam como água, e cigarros, que inundavam meus pulmões e estimulavam os neurônios. Queria experimentar. Tinha que me permitir experimentar aquilo que queria. Não podia haver culpa, o ambiente era de liberdade, no sentido pleno… A cena estava perfeita, para me libertar das amarras e ceder a todas as tentações e experiências que se apresentavam. Tatiana, bissexual, uma possibilidade em aberto; o MGM em plena festa, eu ali, admirado por todos e encantado ao mesmo tempo com o ambiente… Não podia perder outra chance, como fiz com Sandra… Mais um gole, mais um cigarro… Enquanto tudo isso passava em minha mente, este turbilhão de emoções, elevado à máxima potência pelo álcool, começou um show de drag-queen. Era um evento comum ali, engraçado, descontraído… Eu permaneci sentado, próximo ao bar, olhando sem prestar atenção no show. Meus pensamentos me consumiam mais… Logo após o show, a drag que se apresentou se aproximou de mim e começou a brincar. Entrei no jogo por um tempo, mas não estava interessado naquela

brincadeira, estava interessado nela, que fugia do meu campo visual. A esta altura não pensava mais na namorada, ou em Sandra, minhas energias estavam

direcionadas para aquela conquista

mera conversa provocou aquele descarrego de emoções… E sem mais nem menos, eis que a drag, em meio a suas brincadeiras jocosas, resolve sentar no meu colo e brincar de me alisar… Não consigo me lembrar bem da reação, sei que aquele gesto despertou uma explosão em mim… Uma invasão. Invadido. Foi assim que me senti. Não dera toda aquela liberdade para o rapaz travestido de drag. Ele transpusera uma zona que não devia, e mais, em um momento que eu estava a mil por hora. A combinação explosiva, explodiu. Eu estourei. Fiquei agressivo. Puto, seria mais adequado. O sangue subiu, talhou. Afastaram a drag de mim, eu me isolei da festa. Estava quebrada a euforia do momento, um misto de indignação, raiva, e revolta se apossou de mim. Me isolei com a música. Ninguém compreendeu, nem mesmo você deve estar compreendendo tamanha revolta com uma leviana brincadeira. Nem eu posso entender. Até porque a cena não vem claramente em minha mente, somente flashes de explosão, ameaças de violência, isolamento. Meu pai não entendeu, deu uma de moralista libertário e disse que eu estava sendo um babaca. Talvez até estivesse, mas não podia enxergar. Talvez aquele ato isolado da drag teria quebrado uma cadeia de emoções, invadido meu universo fantasioso, em um momento de libertação dos desejos que eu reprimia, por toda aquela avidez de experiências sensórias e sexuais. E a libertação se transformou em repressão… Talvez aí meu caminho para a Pinel tenha se acelerado. Mas não há causas, apenas processos fragmentários, assim como as memórias que me vêem a mente são constantemente suprimidas pelos medicamentos.

Como ela me perturbou, sem o saber… Uma

VI

- A tentadora loucura e suas deliciosas sensações de poder

A noite caía festiva em Juiz de Fora. Após meu acesso de raiva, de toda a agitação,

pelo que me lembro houve um momento de reconciliação. Me lembro que fui ao camarim, e conversei com a drag por alguns instantes, ela sem os trajes. Vi que

havia o conhecido, o homem por trás da drag, que havíamos conversado antes dele

se produzir… Não sei muito bem o que dissemos, mas sei que tudo se acalmou.

Uma pessoa atuou de forma extraordinária, mediando todo este conflito – interior e exterior – por que eu passava: Tatiana. Talvez por ela ser psicóloga, talvez pela sintonia que eu havia sentido entre nós, ela, e só ela, conseguiu me ajudar naquele instante. Conversou comigo até que a agressividade passasse, me incentivou a não

ligar para o resto da festa, me deu o tempo e as palavras que eu precisava. Por fim, tudo terminou. Não ainda. Parecia ter ficado tudo bem, mas a noite caía, e ela sempre traz à tona outros mundos. Mas por que me fogem tanto as memórias? Seria tão mais fácil se elas estivessem organizadas, acessíveis… E porque teimam em me trancafiar nesta clínica? Será que não percebem o grande engano em tudo isto? Teimam em me medicar, pois sabem que não podem me suportar. Poucos são capazes de suportar a verdadeira verdade. Os loucos são os porta-vozes de uma verdade inacessível aos sãos. Por isso querem me domar. Me lembro de Umberto Eco, “O Nome da Rosa”, a epígrafe: “As crianças e os loucos dizem sempre a

verdade!”

Tatiana ia-se embora, fisicamente, mas não me abandonaria naquela noite. Íam com ela os gays, héteros e simpatizantes, e a festa acabava. O tumulto que provoquei com meu acesso de ira, não diminuiu o brilho da festa. Fui para o meu canto, não queria muito papo com meu pai ou Marquinhos. Eles não me entenderam, me condenaram e tinham me magoado. É o egoísmo reinante dos pontos de vista. Eles

se foram e eu fiquei. Só. Eu e minha agitação interna, deitados em Juiz de Fora.

Minto. Eu, a agitação e Tatiana. Ela parecia estar ali, tentando ainda me acalmar. Ela sabia que eu só me acalmara por fora, o turbilhão continuava por dentro. E minha namorada? Será que eu tinha falado com ela nestes dias? Será que ela sabia

o que estava se passando? Ela era tão amável, gostava tanto de mim.

Possivelmente estávamos conversando sim. Mas como, se eu gostava tanto dela, me encantava tanto com Sandra e com a Tatiana. Por que meus desejos estavam tão intensos, a ponto de não conseguir dormir? Ela não merecia o ato de traição. Muito menos os pensamentos. Pensamentos são mais perigosos que atos. Se são! Os atos terminam ali e podem ser esquecidos. Os pensamentos grudam nos sentimentos e invadem o inconsciente. E nos tornamos meros reféns deles. Mas porque não parava de pensar? Sentia meu coração acelerado, meu cérebro parecia comprimir meu crânio. Minhas pupilas dilatadas. Não! Não havia usado nenhuma droga além do álcool e do tabaco. Mas então porque não conseguia relaxar?

Assim seguimos a noite, eu e a imagem dela, tentando em vão descansar. Como eu

queria naquela noite sentir este cansaço que sinto agora, que a vista turva mas eu teimo em continuar … Devo ter conseguido fechar os olhos umas cinco da manhã.

As seis levanto assustado. Ouvi. Eu ouvi. Ele disse isto. Filhodaputa! Eu não fiz isso.

Porque ele diz isso, se eu não usei nada. Eu não preciso usar isto. São todos uns babacas! Ele, meu pai, ninguém entende que não usei nada. Ele disse: ele não consegue dormir porque cheirou pó. Não cheirei, porra!, disse de novo, eu não

preciso ouvir isto, definitivamente não preciso daqueles hipócritas do quarto ao lado. Preciso continuar a lhes contar, a vocês… a enfermeira chegou, quer conversar, mas eu preciso lhes contar, que ela espere um pouco. Foi aí que tudo começou, na visão deles … Eu ouvi eles falando que eu tinha cheirado pó, cocaína. Mas não tinha feito nada, e isto me revoltou. Arrumei minhas coisas, invadi o quarto aos berros, dizendo que não tinha cheirado, que eles eram mentirosos, que eu não precisava dali, e que ia embora. Meu pai acordou sem entender, Marquinhos tentou argumentar, mas não ouvia. Só lhes xingava e dizia que ia para não voltar. Meu pai quis me dar um dinheiro, eu estava sem nenhum. Não aceitei, não podia aceitar dinheiro dele. Ele deve ter enfiado no meu bolso, não me recordo… Desci enfurecido, meus olhos agora mudaram, e saí andando por Juiz de Fora, atrás de

um táxi. Eles não paravam para mim… Ninguém queria me ajudar… Onde estava a

Tatiana? Só ela podia me ajudar! Ufa… Não consigo ir além… Sinto um peso no corpo, um peso nas pernas… Acho que é o tal do Haldol, o inimigo dos criativos… Preciso me deitar, descansar, a cabeça já está pesando … Mas entendam, que esta situação seria o começo do que chamam de “surto psicótico” … Eu juro que ouvi as vozes me repreendendo, mas eles dizem que as vozes estavam na minha cabeça. Até hoje me lembro do quão reais elas me pareciam. E este novo conflito me alçou a lugares em que ninguém que chegou conseguiu contar… e vocês estão tendo o privilégio de ler em primeira mão … a tentadora loucura e suas deliciosas sensações de poder.

VII - Viagem sem fim

Para que me entendam, devo-lhes explicar quem é o Haldol, este que me impediu

de continuar a lhes contar o que aconteceu. Haldol é um medicamento anti

psicótico, utilizado para controlar a agitação, agressividade e o estado maníaco dos seres humanos. Esta é a explicação fármaco-médica. Eu lhes digo que o Haldol é o remédio daqueles que não suportam as verdades trazidas à tona por quem eles consideram loucos. É o inimigo da criatividade, da criação, é aquele que turva a visão dos que vêm além. Este é o Haldol. Infelizmente os médicos me forçam a tomar esta droga, altamente danosa à minha mente, sem a minha permissão. Quando nos consideram loucos, não nos deixam o direito de escolher quais drogas tomar. Eu sempre preferi o álcool. Ou tomamos, ou… Camisa-de-força. Ainda não é a hora de vocês saberem como é vestir esta camisa… Voltemos à viagem psicodélica de Juiz de Fora a BH.

Depois de ouvir aquelas vozes e de brigar com meu pai e Marquinhos, saí caminhando com minha mala pelas ruas desertas de Juiz de Fora. Não achava um táxi, e não me importava com isso. Caminhava sem rumo, caminhava por caminhar, como se a cada passo aquela raiva, e aquela mágoa, se esvaíssem de mim. Logo eles, em quem confiei tanto, me deixaram na mão. Ousaram dizer que eu tinha cheirado cocaína, eles não me conheciam, não mereciam minha confiança. E a cada pensamento, uma nova baforada, e a fumaça invadia meus pulmões. Finalmente um taxista. Entrei e logo de cara percebi que o taxista estava “ligado”. Seus olhos me olhavam de uma forma lunática, mas ele parecia me entender. Eu estava transtornado, agitado, as pernas inquietas, e ele, sem saber me reconfortava. Fomos até a

rodoviária, mas seus olhos pareciam me invadir. Eram olhos de quem tinha utilizado ácido, dilatados, insinuantes. Eu não conseguia olhar naqueles olhos. Eram muito ameaçadores. Senti um alívio ao chegar na rodoviária. Mas ali outros percalços me esperavam. De repente, e não por acaso, o mundo conspirou contra mim. No guichê, tentaram me enganar, disseram que não havia ônibus para Belo Horizonte, que estavam todos lotados. Mas os olhares eram de espiões. Sim, é claro. Meu pai a esta altura

já tinha ligado na rodoviária, todos sabiam e tentavam impedir minha partida. Mas

eu podia entrar no jogo para revertê-lo. E, de repente, eis que eu ouço a voz do meu pai anunciando a partida do próximo ônibus. Eu sabia! Ele estava por trás de todo aquele teatro. E eu insistia, precisava da passagem, haviam de arrumar um lugar para mim. Finalmente descolaram um lugar em um ônibus que partia às oito. Ainda faltava uma hora.

O que fazer neste tempo? E ali estava a voz do meu pai, anunciando cada chegada

ou partida de um ônibus. Ele me perseguia, tentava me prender, mas ele havia se

enganado. Agora que eu ganhara asas, que me libertara, ele não podia mais me

prender. E comecei a rodar a rodoviária, procurando de onde ele emitia aquela voz que me perturbava. E comecei a ouvir também a voz do Marquinhos. Como me perturbavam. Fui à lanchonete, fumava um cigarro a cada dez minutos. E tentei comprar cervejas, mas não me venderam. Como assim? A lógica é clara, não percebem? Meu pai já havia os avisado para não venderem cervejas para mim. Então eu tomava café. Um atrás do outro. E andava, e sentia. Como sentia por dentro a pressão de todas aquelas vozes, como me sentia injustiçado por aquele julgamento. Se pelo menos eu tivesse realmente cheirado um pó, mas não. Eles não entendiam. Eu não entendia. Não aceitava aquela pseudo-autoridade que tentava me domar. Não. Minhas asas iam além. Talvez ninguém pudesse compreender. Não. Eu via em alguns olhares a compreensão, a identificação, ou seria a pena? Me lembro da garçonete que me vendeu os cigarros…Olhos angelicais.

E onde estavam aqueles que diziam que me amavam? Onde estava minha mãe,

onde estavam os irmãos? A minha namorada? Tatiana? Sandra? Meu quarto. Precisava voltar para lá. Meu universo particular, ali eu me sentiria seguro.

Precisava do violão, não há forma melhor de expressar os sentimentos do que em

um belo dedilhado. As cordas de aço me entenderiam, os livros também. Eu

precisava voltar. Mas o ônibus não chegava, se atrasava, tudo parte do teatro que meu pai armara para tentar me conter. Eu ria, gargalhava daquela cena armada, risadas e mais risadas, seguidas de um imenso vazio. Era como se minha mente tivesse alçado um vôo, sem drogas, sem estimulantes. Um vôo alto, em que a vida terrena se transformara num teatro mágico regido pelos atores que eu elegia para o

meu palco. E eu ria sarcasticamente daquele teatro, pois achava que podia contê-lo.

Ria de desespero, provavelmente. Ria de mim mesmo, das asas da loucura em que

voava. Depois de muito atraso o ônibus chegou. E finalmente eu adentrei-o. E ali se iniciaria uma viagem sem fim. Cujo destino me trouxe até esta clínica em que me trancafiaram…

VIII - A Viagem interior

Os dias passam, eu converso com o Lucas, doutor não é, porque ainda não fez doutorado, e nada muda. Ele permanece com sua secura, se tomando como senhor

da verdade, e nada de deixar eu sair da Clínica Pinel. Mas há um mundo lá fora me esperando, sinto uma necessidade de sair e me dissolver na massa humana que me espera lá fora, no caos urbano. Mas não, ainda querem me trancafiar. Sei que é porque não conseguem suportar as verdades que ouso dizer e as idéias que ouso pensar. Estão além do que estes homens de branco podem compreender. Mas enquanto houver você do outro lado, você, não sei quem, para quem escrevo, daqui do meu lado eu consigo me orientar. Lembrei-me da música. A música foi meu refúgio naquela viagem. Estávamos eu, a música e a escrita naquele ônibus em que parti de Juiz de Fora rumo a BH. Mas não seria uma viagem simples, nem tampouco direta. Dentro de minha cabeça, aquela viagem se expandiu no tempo e no espaço. E maior viagem não era aquela feita no trecho Juiz de Fora – BH, mas aquela por que passou minha mente. Naquele ônibus a bomba que eu me tornara, explodiu de vez. Junto comigo, embarcaram naquele ônibus meu pai, Marquinhos e Tatiana. Várias pessoas teimam em me dizer que eles não estavam lá. Mas eu tenho certeza. Naquele momento, para mim eles estavam. Eu ouvia claramente eles sussurrarem

nos meus ouvidos, me dizendo para me acalmar, ora me chamando, ora me

reprimindo. Ela não. Nunca me reprimia, sempre me acolhia com suas tenras palavras. As outras duas vozes pareciam me perseguir. Eram elas que estavam orquestrando aquela viagem, as vozes tinham o controle do ônibus e do motorista. Eu não podia mais beber café, nem fumar um cigarro, minha mente estava a mil por

hora. O ônibus arrancou, por sorte consegui ficar sozinho com duas cadeiras para

me ajeitar. As vozes começaram a me incomodar, falavam alto demais, queriam me

manipular, manipulavam a viagem. Eu sabia que eles não me deixariam sair de Juiz

de Fora, eles tentaram desde a venda da passagem me impedir. Mas não conseguiriam. Eu tentava não ouvi-los. Mas eles me perturbavam. Então resolvi caminhar pelo ônibus, tentando encontrar onde os donos das vozes estavam escondidos. Como eram vis, se escondendo para tentar deter-me! Eu havia de

encontrá-los. E andava a esta altura pelo ônibus, para lá e para cá, protegido por meus óculos escuros, escutando minha música no PSP, me blindando das pessoas que estavam ali, sempre buscando de onde eles emitiam aquelas vozes.

A viagem assim se foi. Por pouco tempo. Pararam o ônibus na garagem, pediram

para todos descer. Eu não queria. Aquilo era mais um teatro armado, para tentarem impedir minha fuga de Juiz de Fora. Se eu descesse, não conseguiria voltar ao ônibus, seria abandonado ali, até que eles me resgatassem. As vozes riam de mim, sentado, empacado na cadeira, ouvindo Zeca Baleiro. Por fim me convenceram a descer, fiquei andando pela garagem, fumando um cigarro atrás do outro. Tenho certeza que voltei ao mesmo ônibus, que não haviam trocado nenhuma peça. Eu conseguira enganá-los, e seguiria minha viagem de volta a BH. E ainda achava que tinha despistado meu pai e aqueles que o acompanhavam, e não paravam de atormentar minha mente. Mas não. Em pouco tempo na estrada, eu senti tudo de novo. Me perseguiam, riam. Mas não me davam liberdade, pediam para eu voltar, me achavam ridículo. Quando queria esconder deles, ia para o banheiro. Lá era o

local seguro, onde eu ficava o tempo necessário para me sentir melhor, para parar de ouvir. Não a música, ela que sempre foi um dos refúgios. Eu queria parar de sentir, parar de pensar. Meu cérebro comprimia a caixa craniana, parece que o excesso de idéias e sentimentos iria transbordar. Não estranharia se meu cérebro escorresse pelos ouvidos. Tudo seria melhor do que aquela sensação. Voltava do banheiro mais calmo, menos ofegante. Mas tudo aquilo me cansava, eu não conseguia mais me desacelerar. Slow down your minds. E o ritmo dos meus pensamentos ditava a música, que do Zeca Baleiro pulou para o Pink Floyd e o Led Zepellin. Como dizia a canção do Floyd: “The lunatics were in my head”. Neste momento descobri a válvula de escape, a única forma de me expressar, de despejar meu turbilhão interno, de transferir o peso da avalanche que caía sobre mim. A escrita. Em meio da viagem, ao som do psicodelismo, liguei o notebook e comecei a escrever. Não só a escrever, mas a escrever e ler, queria que todos soubessem o que eu sabia, que me ajudassem a acabar com aquela farsa de viagem, que me ajudassem a voltar para BH, que estivessem do meu lado. Escrevi,

e li, declamei, gritei, gargalhei para as vozes daqueles que me ameaçavam. A

catarse se fez completa. Mas isso incomodou a todos do ônibus, que não entendiam, se supreendiam. E o ajudante do motorista começou a querer me reprimir. Pedia para eu parar de gritar, eu não ligava. Ele desafiava meu império sobre mim, queria me impor um comportamento. Eu dizia em alto e bom tom:

Foda-se, eu faço o que quiser. E começamos a discutir, e a coisa pode ter esquentado. Não me lembro. Sei que uma das vezes que voltei do banheiro, meu PSP tinha sumido. Outra vez que voltei ele aparecera. Há quem diga que cheguei a

BH com a cara inchada. Talvez ele tenha me agredido. Eu não lembro. Não sei porque não lembro. Lucas não sabe me explicar. Minha mãe também não. Mas meu pai estava lá. Mas me diz que não estava. Como não estava? Eu sentia sua voz dentro de mim, ressoando em mim a ponto de não agüentar mais ouvi-la? Por fim, após a catarse da escrita-declamação, adormeci. Estas são algumas das palavras que pularam do coração para o papel durante aquele trecho, que parecia não ter fim:

“Pois a vida é mais fácil e mais tranqüila para os felizes. Por isso a felicidade me persegue como uma andorinha que voa baixo. Baixo mas perto. Sempre perto, tentando me alcançar, mas sem nunca chegar. A felicidade está sempre ao nosso redor. Não adianta tentarmos nos esconder dela. Isso é impossível. Ela sempre nos quer e nós a queremos. Mas ela nunca chegará se nós não corrermos atrás. Ela só vem quando a gente quer. E a vida é mesmo isso. Chegadas e partidas. Idas e vindas. Mas continuamos sempre… Para frente, isso deve ser uma verdade. Mas andamos rumo ao incerto. Sem rumo, perdidos. Sem pais, sem mães, sem mulheres, homens, mulatos, negros, brancos, amarelos. Andamos sem rumo, rumo ao infinito, permito o pleonasmo, pois é impossível não cometê-lo. O fim da vida, ou das contas, é sempre o medo. A solidão. Mas sempre ficamos tristes com a possibilidade de partida. Dessa vida ou de outra. Nos ensinaram assim. Infelizmente temos que partir dessa para uma melhor. Ou pior. Ou não. Ou sim. A vida é sempre assim. Triste e contente. Dialética nos termos, mas prática na vida. Ela é assim, pois fomos feitos para amar. Todos e uns aos outros, sem medo de sofrer e de magoar, sem medo de fazermos o que queremos, sem ligarmos para os padrões e o que a sociedade nos informa. Isso é fato. (…). Feita de pais e filhos, feita de tensão, tesão. TESÃO. Isso é o que nós queremos. Isso é o que nos faz viver. Dinheiro para que? Podemos caminhar, pensar, cantar, tocar, não tocar, ou simplesmente ficarmos sós. Solidão é algo angustiante, não devo esconder de você. Mas infelizmente é somente sozinhos que resolvemos nossos problemas. Lembrei Guimarães Rosa, a colheita é junto mas o capinar é sozinho. Ninguém nunca poderá nos ajudar. Pois somos apenas um homem, ou uma mulher. Ou então somos tudo isso junto, ou separado, sei lá. Somos feitos do pó. Ao pó voltaremos. Tristes ou felizes? Depende de nós. Perdoe-me o chavão, mas é assim que a vida funciona. Se é que realmente sei algo dela, pois sou apenas um jovem. Um jovem como qualquer outro, mas que não sabe que rumo tomar. Por isso, digo-lhe faça o que tu queres, pois é tudo da lei, outro chavão. Depois disso, se morreres, meu caro leitor, se é que tu existes, seremos felizes. Aonde? Em qualquer lugar que não seja aqui. Onde estou, como estou, como faço as coisas. Mas isso são apenas devaneios de um pseudo-poeta, falso moralista, tentativa de professor, historiador de meia-tigela. Mas enfim, fazei o que quiserdes e sede felizes. (…) Por que? Se deus existe ele mora dentro do seu coração. E é você quem pode achá-lo, da forma que bem entender. Cada um diz o que pensa. (…) Mas a vida é mesmo dura. Resta-nos a escolha. Viver ou sofrer. Eu prefiro viver sendo feliz. Quando posso.

Quando quero. Quando preciso. Quando não dá pra ser triste. A vida é um grande teatro em que todos somos atores. Atores da Divina Comédia Humana, em que Dante nem existe, desde que você não queira. Tudo depende apenas de uma única pessoa. Você. Eu? Não sou ninguém. Como diria meu xará, aquele que pensa e o chamam de Pensador, eu sou mendigo, indigesto, indigente, indolente, vagabundo. Eu sou o resto do mundo. E você o que faz para mudar seu mundo? Cria sereias e bichos imaginários ou simplesmente não faz nada. Se você consegue ser um desses, eu simplesmente o admiro. Pois que mortal gostaria de trabalhar arduamente de segunda a segunda e ainda ter que escrever essas tristes páginas para desabafar um problema tão comum na vida dos outros. Mas enfim caboclo, isso faz parte da vida. Viva-a intensamente a cada milionésimo de segundo, pois ela passa rápida e o motorista não pára o ônibus. Ai ai…” Adormeci, e quando abri os olhos, pensando estar de volta a Juiz de Fora, chegava em BH. Terminava a viagem sem fim de ônibus, continuava uma outra viagem interior que me levaria rumo à Pinel.

IX - Eu trago harmonia aos loucos… e aos sãos

Desci, ou melhor, aterrisei do ônibus no coração da Savassi, em BH. Valéria, a enfermeira, conversa tão docemente comigo enquanto lhes conto. Ela realmente

cuida de mim, não como aquele senhor-repressor de branco. Valéria tem a candura,

a doçura. Às vezes faz carinho como se eu fosse teu filho, me deixa colocar o

colchão no chão. Talvez ela consiga me entender. Ela me ajuda muito, ajuda a diminuir o peso do encarceramento. Ela e a Sandra, a outra companheira das madrugadas. A ternura no olhar delas, ao me encararem como que diz: eu te

entendo. Só isso já suaviza tudo. Queria poder congelar seus olhares em minha mente, para nunca mais os esquecer. Mas elas têm que me dar os remédios, malditos.

E eu descia da Savassi, ainda eletrificado. Ainda pulsando, ainda no turbilhão. Saí

do ônibus correndo como quem tenta fugir de algo que não sabe o que é. Corri e cantei. Diz velho ditado que quem canta seus males espanta. Eu tentava os espantar, mas nem o canto era suficiente. Desci ainda tentando encontrar onde estavam escondidos os emissores daquelas vozes que ressoavam na minha caixola. Debaixo dos bancos? Não, talvez tivessem escondidos no bagageiro. É isso, dali eles destilavam aquelas mensagens agoniantes. Só podia ser. E fui. Passei na frente de todos, me enfiei entre as malas, cadê eles? Cadê ela? Eu precisava achá-la, ela, Tatiana, só ela com sua beleza e sabedoria poderia me ajudar. Mas eles não estavam lá. Já deviam ter saído. Como eram esguios. Eu precisava achá-los, precisava encontrá-la, precisava beber daquela fonte de vida encarnada – Tatiana, ou fonte T. Peguei minha mala e saí buscando encontrar as vozes. Como podemos encontrar vozes, se elas são ondas eletromagnéticas, freqüências que apenas nosso aparelho

auditivo capta? Meus olhos precisavam vê-las, meu tato tocá-las, minha boca senti-las. As vozes tinham que se materializar, só assim eu me acalmaria. Andei, com meu radar interno ligado, atrás delas. Entrei nos bares, restaurantes, vasculhei as cozinhas, os depósitos. Logo que eu achava o esconderijo delas, elas se mudavam, saíam como cobras, numa rapidez, que me deixava estonteado. Os donos dos bares tentavam me impedir de entrar, de subir nos porões, mas não conseguiam. Eu ia com todo ímpeto atrás do meu pai, da Tatiana e do Marquinhos, que me torturavam por dentro. Ninguém me entendia, e seus olhares repressivos, cheios de ódio, me deixavam ainda mais nervoso. Havia, possivelmente alguns guardiões me ajudando. Não sei quem eram, mas havia. Alguém me protegia, eu sentia isso, mas não podia saber quem era. Podiam ser anjos, que só eu sabia que estavam ali. Mas que estavam, isso é certo. Achei meu repouso em um bar, ali sentei e fiquei com as vozes em paz por certo tempo: Baiana do Acarajé. Local da diversidade, da intelectualidade. Sentei e pedi uma cerveja. Se me lembro bem, minha mãe me ligou, eu disse que chegara, mas não iria para casa. Estava na Savassi, e ali mesmo permaneceria. Estava procurando meu pai. Estes malditos remédios não me deixam lembrar se conversei com a namorada. Ela merecia mais cuidado, mas eu não conseguia pensar nisto. Talvez se ela estivesse comigo as vozes não mais me agitariam. Talvez ela pudesse ser como a Tatiana. Acho que falei com ela, mas estava elétrico, ela certamente não entendeu. Ninguém entende. Ninguém está pronto para entender. Ninguém sabia me ajudar da forma que eu queria. E a música foi me acalmando, a cerveja ia descendo como água, e inundando meu peito. E a Tatiana me deixava mais tranqüilo, ela estava ali comigo. Enquanto o caos interno diminuía, comecei a reparar em todos que estavam em volta. Ali havia gays, lésbicas, héteros, e todos me pareciam um mundo de possibilidades. Todos pareciam me entender, e enquanto escrivinhava algumas coisas, aquele ambiente me trouxe um pouco de paz. Eu queria conversar, mas não ousava abordá-los. Eles estavam ali para me ajudar, e o script dizia que não precisávamos conversar. Somente estar. E nesse momento chegava minha mãe, sabe-se lá como tinha me achado, junto com seu namorado Pedro e meu irmão Léo. Rompia-se a momentânea paz do ambiente, e as vozes voltavam a me incomodar. Valéria pede para eu descansar, me chama para contar mais um pouco sobre sua vida. Ela me tem como um porto-seguro, meu colchão é o seu divã. Ela me ajuda, portanto não posso negar isso a ela. Confesso que às vezes queria ir um pouco além. Ela é bela, tem os cabelos negros e a pele alva. Uma melancolia tenra no

olhar. Preciso ouvi-la, apesar de querer continuar a lhes contar. Ela precisa mais de mim do que eu dela. Talvez por isso me mantenham aqui, enjaulado nesta clínica.

Eu trago harmonia aos loucos ……

e aos sãos.

X - Enfim um colo

Mais uma conversa com o homem de branco, o impassível Dr. Lucas. Ele cisma de manter a pose de doutor, a braveza na fala rude e repreensiva e o olhar de senhor da verdade. Mas até ele tem se dobrado às minhas elucubrações. Hoje saí da sala dele mais leve, ele me disse que em breve sairei dali, me disse que eu não pertencia àquela clínica. Mas será que alguém realmente pertencia àquele lugar? Dentro da Pinel conheci todo o tipo de gente: gênios, drogados, depressivos, esquizofrênicos, neuróticas, maníacos. Acho que não conheci nenhum louco lá.

Todos me pareciam mais sãos do que a maioria das pessoas do lado de fora. O que levava as pessoas para ali era a dificuldade dos outros de lidar com elas. A família,

a sociedade, ninguém conseguia suportar o olhar mais profundo que cada qual a

seu modo lançava sobre a vida. Ninguém ali era medíocre, o mundo exige que nos tornemos medíocres, nivelados na média, ou então… Isolemos o problema, trancafiando-o em uma clínica. Eu não estava longe daqueles meus companheiros de viagem, Lucas se equivocara. Eu havia de mostrar isto para ele. Desde aquele encontro com minha mãe, após a viagem lisérgica de volta à BH, o caminho da internação se construía a largos passos. Quando vi minha mãe chegando, meu coração pululou no peito novamente. Meu pai voltou a sussurrar nos meus ouvidos, tudo voltou numa avalanche de impulsos e emoções. Não sei como minha mãe me descobriu ali, não sei se conversamos no telefone. Sei que eu fugia, mas queria este encontro. Mães sempre serão um aconchego. Por que minha namorada não estava ali também? Ela podia ajudar a encontrar o meu pai, ela e a Tatiana. Nem a Tatiana eu ouvia mais, ela devia ter voltado à Juiz de Fora. Me abandonara. Todas elas. Mas o acolhimento que sentia no Bar Baiana do Acarajé, foi rompido com a chegada de três pessoas queridas, mas deslocadas. A sintonia fora rompida, eu não mais conseguia me conter. Ao ver minha mãe, com aqueles olhos que misturavam desespero e angústia, olhos pesados, o mundo se dividiu em dois dentro de mim. De um lado o ambiente da Baiana, representava o mundo de Juiz de Fora, da festa, da liberdade e quiçá da libertinagem. De outro o mundo de BH – o conservadorismo, a repressão aos desejos, o recalque. Paradoxalmente eu saíra de Juiz de Fora, numa explosão de (res)sentimentos, para buscar acolhimento em BH. Mas a aterrissagem no solo da capital colocou os dois mundos em choque, e minha mente, meu coração, minha alma entraram em processo de big bang? Lembro-me bem dos olhos dos três. Me olhavam como se não me reconhecessem. Me olhavam como se me condenassem. Não os três. Somente minha mãe e seu namorado. Meu irmão, doce amigo, olhava com olhos assustados, vermelhos, chorosos. Mas a ternura de seu carinho e de seu olhar era a minha garantia. Ele estava do meu lado, sem precisar de me entender. E minha mãe começava a falar mal do lugar e das pessoas em volta. Eu comecei a defendê-las, expondo os

preconceitos implícitos na fala. E falava alto, sabendo que os ilustres desconhecidos

à minha volta eram meus compadres. Eles sim me deram acolhimento, não ela. Seu

namorado tentava me ludibriar com piadas sem graça. Ele não estava do meu lado.

As vozes. Preciso achá-las. Preciso do meu pai, do Marquinhos. Estava tudo ao contrário, tudo do avesso, eles precisavam me acolher, não viam que eu estava em um ambiente altamente nocivo? Todo aquele preconceito, aquelas pessoas quadradas nunca entenderiam meus meandros, nunca poderiam me ajudar a abrir as portas da minha percepção. Precisava deles, de Tatiana, de Sandra, da minha namorada. E tudo que tinha eram dois olhares repressores. Preciso encontrá-los, aqueles que estão do meu lado, os donos das vozes, tenho certeza que eles estão por perto. Minha mãe buscava me conter, queria me levar para casa. Como!? Como ela não entendia a busca que eu precisava realizar. Era como um jogo, as vozes deles me diziam o caminho, eu tinha que ir e no fim iria encontrá-los, e cairia nos braços da Tatiana, ela, a única que me entende, a única que pode me ajudar. Talvez outra também pudesse, onde diabos estava minha namorada? Não. Não podia contar com ela. Ela já devia ter sentido a traição dos meus pensamentos e sentimentos. Não merecia, mesmo que não tenha chegado ao ato, a traição já era fato. Definitivamente ela não merecia, ela não entenderia, melhor não contar. Tatiana concordava. Precisava ouvir música, mas não tinha meu PSP. Sim, ele era o elo. O PSP e a música. Sempre foram eles que me mantiveram conectados com as vozes e seus donos. Eles me transportavam daquela realidade inóspita e intragável. Preciso de cigarro, um cigarro de uma tragada infinita, cuja nicotina aplaque toda minha dor. O cigarro da saudade. O cigarro que dá asas. A cerveja que vira água. A excitação da alma. A bipartição do ser. Assim eu me fundia em ao menos dois eus conflitantes. Lembro-me do Fernando Pessoa, que não era um, nem dois, mas infinitos, e do seu livro do Desassossego. Um dos pessoas dentro do Fernando escreveu estas palavras:

“Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da inconsciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos…O sentirmo-nos é então um campo deserto a escurecer, triste de juncos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente entre margens afastadas.” Pergunto à Sandra, doce enfermeira que chega para me fazer companhia, se ela conhece o Fernando. Não. Nem o Vinicius muito bem. Pois bem, vamos conversar um pouco sobre eles. E me deito no seu colo para contar-lhe da bela e triste sina destes poetas.

XI- Prisão domiciliar O colo de Sandra me deu o acalanto que precisava. Não sei porque, mas toda noite, fosse ela ou Valéria que estivesse comigo, sentia necessidade de deitar-me em um colo. Não em um qualquer, mas naqueles colos. Queria mesmo que fosse o colo da

minha namorada. Havia tempo que ela não me visitava, por onde devia andar? Não era o amor o sublime sentimento que passava por cima de tudo e de todos? Doce

ilusão, o amor é tão frágil e belo como um cristal. Ao primeiro tremor, despedaça-se em mil pedaços tão cortantes, que é preferível não juntar os cacos. Assim é o amor, amor-paixão. No colo de minhas companheiras, Sandra e Valéria sentia outra coisa, um acolhimento, uma paz. Paz dentro da loucura, encarcerado dentro da clínica, que leva o nome do honroso psiquiatra Phillipe Pinel. Depois conto sobre ele, pois vocês devem estar ansiosos para entender o caminho que me trouxe do bar da Baiana do Acarajé até aqui. Calma, não me acelere, sabemos que nas minúcias estão as pistas, devo lhes avisar. Pergunto à Sandra, o que ela pensa sobre a minha mãe. Ela me diz: uma mulher formidável e forte. Mulheres, sempre se defendendo. Pobre Sandra, tão amável, mas tão distante da profundidade do mundo. Aquele dia, em que as vozes acendiam meu coração em um bar no coração da Savassi, nem mesmo a chegada de minha mãe pôde me ajudar. Na realidade, muito me atrapalhou, enquanto ela lançava seus olhares malvados, que penetravam em mim, dizendo me que estava fora de mim. Não, ela não entendia, precisava encontrar meu pai, ele estava com meu elo com o mundo dos sãos, o PSP, portador da música. Eu dizia a ela, desesperadamente, preciso encontrar meu pai, ele está com meu PSP, ele disse que vai me devolver. Eles não entendiam. Nenhum dos três: minha mãe, seu namorado e meu irmão Léo. Olhavam em minha mochila e lá estava o PSP. Como podiam entender, eu lhes pergunto, se não sentiam aquela profusão de sentidos, não viam o mundo se abrir em seus pólos dialéticos, não saltavam da realidade sensível para a supra-realidade? A teimosia dos sãos, aliada à sua soberba. Nunca queira ser um são.

E na minha busca pela figura paterna, portador do elo com o mundo, adentrava

novamente bares e restaurantes, conversava com (des)conhecidos, que podiam me dar as pistas para o encontro. E como me torturavam aquelas vozes, meu pai não sussurrava, mas berrava dentro dos meus ouvidos, fazendo a ressonância sufocar

meu cérebro. E dele direto para o coração. Só melhorava quando a Tatiana voltava

a ecoar em mim. Ela me dava as melhores pistas, dizia-me para tomar cuidado com

minha mãe, quão sábia sempre fora. De repente minha mãe mudou sua postura, mudou seu discurso, deixou transparecer sua candura. Me disse que havia conversado com meu pai, que ele realmente estava com meu PSP, que havia deixado-o na portaria de nossa casa. Desconfiei um pouco, seria mais uma das suas táticas para tentar me ludibriar? Afinal de contas meu pai era como eu, a rua era sua morada, a boemia. Ele estava me fazendo procurá-lo tanto por algum motivo, Tatiana devia estar me esperando ao lado dele. Como eu desejava ver minha namorada!, ela não merecia as injustiças que eu cometera com ela, as traições em pensamento. Será que eram somente em pensamento? O que teria eu feito, naquela noite em Juiz de Fora, um dia antes? Ela não merecia isto, e ao me torturar em pensamentos, Tatiana me acalmava, dizendo

ser melhor seguir os instintos do que a razão repressiva. É isso. Ela está certa. E aos poucos fui entendendo que não adiantava brigar com minha mãe, nem seu namorado, por mais recalcados que me parecessem. A melhor tática, aquela que sussurravam em meu ouvido, era jogar o jogo deles. Então assim o fiz. Sem muita insistência de minha mãe, aceitei (?) o que me dissera. Vamos para casa, vamos buscar meu PSP, vamos voltar ao aconchego do meu quarto, meu mundo. Ela achava que isto resolveria, que ali eu estaria a salvo. Ledo engano. Cheguei em casa, e realmente meu PSP estava lá, me esperando na portaria. Ainda que hoje ela me diga que ele esteve o tempo todo em minha mochila, eu sei que não esteve. Eu sei que estava com meu pai, e ele, querendo me levar para casa deixou-o na portaria do prédio. Poder pegá-lo de volta, poder readentrar as canções que embalavam meu ritmo, foi uma alegria instantânea e momentânea. Os instantes podem condensar os paradoxos de uma vida. E aquele assim o foi. Por isso assim dizia Vinícius: “meu tempo é quando”. Mal sabia que o aconchego do meu lar se transformaria em pouco tempo na angústia de uma prisão. Mas é assim que os sãos agem, transformam alegria em dor, liberdade em prisão. Acostumem-se os que continuarem a me acompanhar.

XII - Uma ilha de alegria na Pinel

Viver no mundo sob a lógica tirânica dos sãos pode ser mais confortável, mas para

os inadaptados, aqueles que ganham asas, é torturante. Sim, pois os sãos não

conseguem perceber o autoritarismo com que agem, aceitando apenas aquele nível

de realidade visível aos seus olhos entorpecidos. É como na cena do célebre filme

Matrix, em que Morpheus, não por acaso com este nome, dá ao jovem Neo a opção

de escolher entre duas pílulas. Se tomar a Azul, volta à sua vida superficial e

ilusória, vivendo feliz na plenitude de sua mediocridade, sem lembrar-se de que havia algo além da Matrix ou do mundo dos “sãos”. Se tomar a Vermelha, Neo

ganharia asas, saltando do mundo das aparências para atingir o que há por trás da realidade visível, indo além da Matrix ou adentrando o mundo dos “insanos”. A opção de Neo foi feita, conscientemente pela vermelha. A minha também. E uma vez não nos resignamos, ousamos desejar a liberdade de pensamento, de sentimento e conhecimento, nos tornamos altamente perigosos. Sócrates que o diga, com seu sacrifício na Grécia. Eu também teria que suportar a periculosidade

de tomar a pílula vermelha.

Lembro-me que quando cheguei em casa, finalmente encontrando meu PSP, achei que as vozes e seus portadores voltariam para Juiz de Fora, e eu poderia descansar. Começava a sentir um profundo cansaço. Mas ao deitar-me em minha cama, que deveria ser o maior aconchego, meu quarto pareceu se contrair, o teto abaixou até um palmo antes de minha cabeça, as paredes se contraíram até chegarem ao redor de minha cama. Meu quarto se tornara meu claustro, e agora aqueles que me guiavam, aquelas vozes que gritavam em meu ouvido, berravam

ainda mais alto. Me convocavam ao seu encontro, como um líder, um elo entre mundos: o homo e o hetero, o são e o insano. Eu me sentia bem, mas sentia um fardo. E precisava ir de encontro a eles. Não conseguia mais apenas jogar o jogo de minha mãe. Precisava ver o meu pai, ver Tatiana, ver o Marquinhos. Cansara de somente ouvi-los. Precisava de suas materialidades. Mas de repente não podia mais sair. Minha mãe me impedia de ir atrás deles. Primeiro foi no quarto. Eu deitei, comprimido entre as paredes e o teto, e ouvi-os. Havia uma festa, em algum prédio próximo, que eu não conseguia visualizar, mas somente ouvir a agitação. E o mais importante era distinguir entre as vozes e as risadas, a de Tatiana se fazia presente. Lá estavam meus companheiros de viagem me esperando, celebrando meu retorno ao lar. E me chamavam ao seu encontro. Havia música, um samba, um batuque. Eu precisava sair do meu quarto ir ao encontro deles, celebrar com eles. Encontrá-la. E minha mãe, apesar do amor incondicional, se transformou na instância repressiva fundamental. Se tornava minha vigia. Vigiava cada passo. Eu debruçava na janela, para ouvir melhor a festa que me esperava, para saber o rumo que deveria tomar. Ela abria abruptamente a porta de meu quarto, invadindo meu mundo comprimido, mandando, não pedindo, para eu me afastar da janela. Ela teimava em me dizer que meu pai, Tatiana e Marquinhos não estavam naquela festa. Quanta ousadia, se eu podia distinguir claramente suas vozes, e mais, sentir dentro do meu peito a presença deles me aguardando para festejar. Em minha casa não tinham cervejas. Então eu fumava, e tomava litros e mais litros de água. Aquela água não era apenas um conjunto de moléculas de H2O, era um líquido mágico, era uma poção. Tentei me dirigir à porta, quem sabe?, por ali poderia sair. Estava trancada. Eu tinha as chaves. Não estavam mais na minha mochila. Quanta invasão! Quão absurda minha casa se tornara. Um espaço de vigiar e punir, como diria Foucault. E tudo se tornava pesado, muito pesado, um peso que minhas pernas não agüentavam. Meu refúgio, assim como no ônibus de Juiz de Fora a BH, foi o banheiro. Fui para lá, e vi, como um oásis, o chuveiro, com aquela água revigorante… Aquele não era mais o chuveiro do meu quarto, era uma cachoeira, e eu entrei naquela água gelada, buscando uma saída da minha prisão particular. Sentei. Deixei a água cair sobre meus ombros, sobre minha cabeça. E lá estavam as vozes dos meus companheiros de viagem, me chamando, me convocando. Venha! É sua comemoração! Estou aqui embaixo, te esperando! Ache uma saída, aqui é o reino da liberdade e alegria! E eu estava no reino da neurose e repressão, meu próprio lar. Dicotomias paradoxais. Durante aquela noite devo ter tomado entre cinco e oito banhos, não consigo me recordar. E o banho, que para mim era um refúgio, para as ciências psiquiátricas é um sintoma. Se for um sintoma de inadaptação, assino embaixo. Não quero ser nunca um adaptado. Não era só minha mãe que me vigiava. Seu namorado também. O pobre Léo, meu grande amigo e irmão, não me vigiava. Ele não conseguia entender, ele não podia. Mas não me reprimia. Seu olhar me garantia a única doçura dentro do ambiente de

casa. Minha mãe insistia para eu me deitar, para dormir, mas eu deitava, e o que era uma conversa interna se tornava externa. E eu dialogava com Marquinhos, meu pai e Tatiana, o resto do mundo não podia os ouvir nem sentir, mas eu podia, e eles mereciam uma resposta. Via o desespero de minha mãe, que sentava à beira da porta do meu quarto, sem saber que tentando me ajudar, só me atrapalhava mais. Eu precisava ir ao encontro deles, era a única solução. Mas após tantos banhos e tantos litros de água ingeridos, eu pedia para meu pai e Tatiana me deixarem descansar. Pedia a minha mãe para fazer eles pararem de falar. Eu não conseguiria ir àquela festa montada para me receber, eu sentia o peso do mundo em minhas pernas. Deitei. As paredes foram se afastando, me dando espaço para o descanso. Não sei quanto tempo demorou, mas dormi… Será que ao acordar estaria tudo resolvido, pensava minha mãe…. Os doutores, homens de branco, acham que com sua ciência e conhecimento podem enquadrar as pessoas como loucos, psicóticos, esquizofrênicos, maníacos. Não há conhecimento que supere a vivência. Como podem dar tantos pareceres, como ousam classificar seres humanos, se nunca experimentaram a visão de mundo de seus ditos pacientes? Dr. Lucas, em sua impávida postura, deixava transparecer uma brecha de que sabia disto. Não há verdade que não se dissolva no ar. É apenas uma questão de escolha. A escolha de Neo. E dentro da Pinel, cada

dia mais percebia como meus colegas, amigos de clausura, viam em mim uma

referência. Diferente do meu quarto em casa, meu quarto era uma ilha de alegria na Pinel.

XIII -Dissociações Conexas

Acordei novamente na Pinel, esta clínica que tem se transformado em minha morada. Não que aqui eu tenha aquele sentimento de lar, aquele acolhimento… Não que minha cama, com este estrado estragado, que estraga minha coluna diariamente seja um repouso. Não é o lugar, são as pessoas. Estes autistas,

narcóticos, maníacos e estas depressivas, suicidas, me fazem me sentir em casa.

Me dão o acolhimento que ameniza o encarceramento. Sim, porque clínicas são

eufemismos de prisões, por mais que se diga o contrário. Acordei na Pinel, e busco as lembranças fugidias de quando acordei, após meu sono de volta em BH. Se não me engano foi o nobre poeta Waly Sailormoon quem disse que a memória é uma ilha de edição. A minha foi editada, não fui eu quem a editei. Não há como dosar até que ponto os remédios, até que ponto minha própria psique me “protegeu” de minhas memórias, mas o fato é que elas se esvaem. Escorregam do meu pensamento, mais esguias do que serpentes. Flashes. Desconexos. Intensos. Imagens e avalanches de sentimentos. É assim que estas memórias, mais que desconexas, se projetam quando eu teimo em buscá-las. Edito-as sem a menor pretensão objetiva, pois é o subjetivo que se expressa neste processo de edição e supressão.

Quando acordei em BH, no meu quarto, após o regresso da viagem de Juiz de Fora, nada havia passado. Doce ilusão de minha mãe. Na realidade, ao nos depararmos com um problema inesperado, sempre ansiamos por que ele passe, sem danos, sem causar estragos. Mas neste caso não passou, e o acordar somente me trouxe

novamente ao conflituoso universo em que vivia. Minha mãe ter ficado toda a noite sentada à porta do meu quarto, não me ajudou, tanto quanto ela imaginava. Nem mesmo o real acolhimento do lar, nem o aconchego do meu mundo, meu quarto, puderam fazer desaparecer as vozes daqueles que me acompanhavam, ou acalmar minha mente e meu coração. Ao acordar, voltava a buscar os meus: meu pai, Marquinhos, e, essencialmente Tatiana. Porque teimavam em se esconder de mim,

e apenas sussurrar doces e pesadas palavras em meus ouvidos? Eu sabia que eles

ainda estavam por perto… E dentro do jogo que jogávamos, eu e os três, eu deveria seguir as pistas para encontrá-los. Haviam outras variáveis nesta equação, além de minha mãe, do Léo, havia uma namorada. Não só ela. Junto com ela vinham várias pessoas, vários momentos, vários sentimentos, várias emoções. Talvez ela, mais do que Tatiana, pudesse acalmar minha profusão de sentidos. Mas ainda não a encontraria tão logo. Por mais que desejasse. Desejava o mundo, por mais imundo que o sentisse. E meu próprio lar me privava do mundo. Entre um

banho e outro, um cigarro e outro, um litro d´agua e outro, precisava sair. Precisava encontrá-los, mas me foi privado este direito. Quando fugimos à lógica racional-medíocre, tendem a nos considerar um perigo a nós mesmos e à sociedade… Qualquer semelhança com a caracterização de criminosos não é mera coincidência. Criminosos do pensamento, da mente. Assim somos eu e meus amigos da Pinel. Chegou um momento que nem os banhos, nem os cigarros aplacavam meu sofrimento. Sofria internamente, não queria mais jogar aquele jogo, esperava apenas o (re)encontro. Aquelas vozes não jogavam mais do meu lado, nem elas nem aqueles que as orquestravam. Elas inquietavam meu ser, torturavam meu viver. Deitava, mas não conseguia ficar. Me levantava. Precisava sair, precisava me dissolver no mundo, talvez assim tudo cessasse. Não agüentava mais.

E sinto agora o que senti quando estava deitado em minha cama, e ela

(re)apareceu…Agora não era mais uma miragem, nem mesmo uma projeção de meu pensamento/sentimento. Não era Tatiana. Era a doce donzela que me proporcionara momentos únicos de amor, até minha viagem. Ela não merecia meus pensamentos, minhas pulsões… Eu ansiava por este encontro, e agora que ele se

materializava, sua simples imagem me perturbava ainda mais do que aquelas vozes que tanto me atordoavam. Não que a culpa fosse dela, dona da imagem que me tirou do centro de gravidade que não tinha, mas o encontro foi, mais uma vez bombástico. Talvez o grande drama humano seja entender o amor. Como dizia Vinicius de Moraes, para isto fomos feitos, para amar e ser amados. Mas será que estamos sempre prontos para

a intensidade e o caos deste sentimento? Um amigo adentra meu quarto, preciso

conversar com ele, por mais que não responda. Apenas me ouvir já é mais do que preciso… Devo avisar que não há linearidade daqui para frente. Até porque a linearidade de pensamento, filha do positivismo evolucionista, não é adequada à experiência vivida. Não caminhamos em uma linha reta rumo a algum objetivo. Navegamos em meandros, em multi-temporalidades, em que os nexos são construídos não pelas datas, mas pelos sentidos. E assim se fez meu pensamento e assim se constroem minhas memórias. Associações-livres, dissociações conexas.

XIV - Vivendo e Aprendendo a jogar

Daniel, meu amigo cativo que esteve comigo há pouco, não fala. Sábio, ouve, olha para o alto e ri. Seu diagnóstico, ditado pelos homens de branco, deve ser de autismo. Eu o considero um grande esperto. Não diz, mas ouve tudo à sua volta,

capta a energia de quem está a sua volta e ri ironicamente, um riso sábio. Dizem

que nos deram dois ouvidos para escutarmos mais do que falarmos, nem todos

pensam nisto. Ele é um grande amigo, um bom ouvinte, uma ótima companhia. Jogamos buraco à noite, eu, ele e duas meninas, ele é um esperto, isso sim. Antes dele chegar, contava-lhes do momento em que surgira em meu quarto, ali em BH, antes de ser internado, minha namorada. São dois quartos diferentes, dois mundos

diferentes, fora e dentro da Pinel, mas ambos são opressores, ambos eram prisões. A chegada dela me trouxe uma descarga emocional muito forte. Eu estava em minha cama, deitado depois de já ter tomado uns vinte banhos naquele dia, estava de luz apagada, janela aberta, brigando contra as vozes de pessoas queridas que teimavam em me torturar. Não agüentava mais jogar aquele jogo, não queria mais ouvi-las, minha estafa era imensa, mas minha alma estava perturbada e minha mente não se desligava. E assim ela chegou, neste cenário, que não é por acaso. A janela era minha única comunicação com as vozes, parecia que elas entravam por ali. Uma luz, no prédio em frente, me dava as dicas, se elas estavam de acordo ou

não com o que eu fazia. A luz externa era um sinal. Mas a luz interna, do meu

quarto, era um incômodo, qualquer luz, por isso, mesmo de luz apagada, ficava sempre com meus óculos escuros. Eram minha camuflagem contra minha própria família, que não podia entender o que se passava.

Ela chegou acuada, com um olhar muito abalado. Quando a vi, vieram em minha

mente flashes muito rápidos. Sandra, Tatiana, Movimento Gay Mineiro, Calabar. A avalanche de emoções e pensamentos daquela viagem que fizera se descarregou

sobre mim. Me levantei, abracei-a. Sentia-a gélida, tremia muito, estava com medo,

não conseguia disfarçar. Medo de mim? Medo de algo que ela tinha feito? Medo de

me contar, ou de ouvir algo? O medo paralisa, anestesia, e por mais que tentemos

não

podemos contê-lo. Ele escapa através das pupilas, através do tremor, mesmo

que

interno, que eu podia detectar. Eu conseguia detectar coisas que ninguém mais

podia. E isto não era um dom, era um fardo.

Ela me abraçou, senti não seu corpo mas sua alma tremer, não sua pele, mas seu

coração suar. Tentou conversar, não sei o que dissemos. Sei que deitamos um pouco lado a lado, mas não conseguíamos simplesmente ficar deitados, lado-a-lado. Havia uma tensão insuplantável. Como se o instante se suspendesse, não poeticamente, mas tensamente no ar. A tensão só aumentou quando fomos ao ponto. Não sei quem falou primeiro, mas chegamos ao ponto nevral: traição. Era um ponto sem nó, era talvez o que mais me perturbasse, os pensamentos, as emoções decorridas daquela palavra. Minha

intensidade interna se elevou, reativamente. Não, não tinha a traído, eu bradava.

Ela tremia mais, acho que chorava, se deixou escapar as lágrimas, que deveriam

mais ser rios. Não, e falava e ouvia minha guia, Tatiana em sua voz, deveria estar

em algum ponto lá fora, me aconselhando. Ela dizia a psicologia por trás das

atitudes de minha namorada, como contorná-las. Mas eu não ouvia, eu sentia uma

descarga de ciúmes, raiva, sentimento de ter sido traído.

Você me traiu, você me traiu, pode admitir, eu dizia. Ela negava, amedontrada. Eu

lhe dizia que já sabia, que não podia mais me esconder, que era inútil negar. Seu

corpo denunciava, a ansiedade, as palavras que escapavam por lábios trêmulos. Sim, você me traiu, eu preciso saber com quem. Ela não abria o jogo. Fiquei agitado, nervoso, como ela podia negar o que eu detectara tão claramente. Sim, tinha me traído. Logo eu que pensara no ato de traição, mas me contivera, mesmo sem querer, recebia aquela facada, a certeza da traição. Não, eu não precisava daquilo, ela tinha que se abrir, não havia mais como entender. Comecei a enumerar pessoas, e certa hora me veio um insight, do porque de tanto medo. Ela havia me traído com outra mulher. Só podia ser isso. Ela chorava, tremia, negava, me

abraçava. Era isso, estava tudo tão claro. A voz dela, Tatiana, me confirmava dentro de mim. Meu pai também, me acalentava. Eu tinha uma verdade agora muito clara,

por mais que todos ainda me digam que nada disso tenha ocorrido, que tudo estava

dentro de mim. Projetei nela? As verdades são tão fluídas quanto os pontos de vista.

Ela saiu sem rumo, eu pus meus óculos escuros, liguei minha música, e voltei ao

meu mundo. Mais perturbado que antes, mas com mais uma (in)certeza. Agora só

me restavam as vozes e meu irmão. Os outros, minha família, minha namorada,

amigos, não podiam me entender. Eles estavam em outro plano. Mas não me enganariam, e naquela noite resolvi tentar jogar o jogo deles. Tentar fingir que não sabia de tudo que meus sentidos me faziam saber. Agora minha mãe chegou na Pinel, é hora de entrar no jogo dela e do Dr. Lucas, o homem-de-branco. Eles não podem me trancafiar por tanto tempo, porque lá fora há gente que clama por mim. Eles não percebem, mas um dia hão de me ouvir. Como disse um personagem do cinema, esta clínica me faz pensar: “O que seria pior? Viver como um monstro ou morrer como um homem bom?”. Como diz Elis Regina na música de Guilherme Arantes: Vivendo e aprendendo a jogar.

Sobre médicos e loucos, ou talvez médicos-loucos, digo uma coisa: é tudo uma questão de representação. Hoje entendendo isso, e por mais que ainda permaneça

encarcerado, entendi que tenho que jogar o jogo, para sair. Temos que entrar nele para modificá-lo, para invertê-lo para expor cruamente nossa razão única, nossa visão de mundo diferenciada. Definitivamente eles, homens de branco, familiares, não estão prontos para experimentarem a expansão da mente pelas quais passamos, passei, passo. Descobri, depois do encontro de hoje, com o doutor Lucas, e minha pobre mãe, que eu posso jogar o jogo deles, que sairei daqui e poderei proclamar minhas verdades aos quatro cantos. Na realidade há um universo

lá fora que clama por mim, não com vozes torturantes, mas com o apoio que sinto,

por dentro, em minha alma e meu coração. Em breve vocês entenderão esta

comoção, pois esta não é a primeira vez que me trancafiam. Mas ainda não agora.

O encontro com minha namorada foi devastador. Eu esperava o colo, o aconchego

próprio de quem ama, não mais precisar dos conselhos de Tatiana, cuja voz me torturava mesmo enquanto dormia. Ocorreu o inverso, a descarga emocional,

despejei tudo sobre ela, e as vozes ganharam ainda mais força. Foi devastador para mim, e ela parecia que me abandonaria à própria sorte. Como podia, não via que ela podia me ajudar, me acalmar? Não, não podia ver! Nossas visões são limitadas pelos nossos horizontes de experiência. Eu me sentia como na música do Pink Floyd: shining like a crazy diamond, ou do The Doors: I´ve break on through to the other side. Mas ninguém entendia meu brilho, ninguém passara ao outro lado, da expansão mental para o qual eu passava. Eu era reprimido e recriminado dentro do meu próprio lar. Meu quarto, meu universo se tornara meu mundo, o que por vezes era torturante. Eu queria o mundo, e tinha um quarto. Eu queria todas aquelas mulheres que ficaram pelo caminho, do Rio a BH, Sandra, Tatiana, minha namorada. Tinha o isolamento. Passei a ser considerado uma ameaça por querer liberdade, a rua, pessoas a qualquer custo. Contra a ameaça, há sempre um

psiquiatra!

Mais um flash vem em minha mente. Um período obscuro, não-linear, caótico, muitos sentimentos conflitantes passam em minha mente enquanto escrevo da Pinel. O caminho foi rápido até aqui, mas os fatos, tão desobjetivos, tão fragmentários, escapam por entre os meandros das memórias. É como se eu

tivesse sido apagado. Possivelmente são os malditos remédios dos sãos. Drogas pesadas, comercializadas como soluções que prometem mas criam massas amórficas, letárgicas, viciadas. Lobotomia laboratorial, isso sim.

E como precisava sair, não era um desejo, mas uma necessidade, de ser guiado

pelas vozes em meio à multidão, um psiquiatra deveria cuidar de mim. Louco? Como você ousa dizer isso do seu próprio filho, eu bradava! Se você não me entende, se você tem uma visão limitada, não me taxe de louco! Não me enquadre em classificações, em padrões, deixa eu ganhar as asas da percepção, e voar alto, mais alto que todos já voaram!

Eu estava contrariado, o mundo permanecia cindido em dois pólos: um corporificado pela minha família, minha mãe sendo a personagem principal, conservador e repressor; outro do mundo homo, das vozes que me guiavam, compreendiam e ajudavam, apesar de me cansarem muitas vezes. Esses pólos não eram dialéticos, eram conflitantes, sem resultarem em síntese. E eu sentia a dor de carregá-los sozinho, sentia, como Drummond cravou em seus versos:

“Tenho apenas duas mãos

E o sentimento do mundo

Mas estou cheio de escravos Minhas lembranças escorrem (…) Quando me levantar, o céu Estará morto e saqueado Eu mesmo estarei morto, Morto meu desejo, morto

O pântano sem acordes”

Em meio a tanto sentimento, tanto desejo, tanta vida, queriam que eu fosse ao

merda do psiquiatra. Não sei como, mas me levaram. Sei que me rebelei, xinguei, esperneei, como?, como pseudo-cientistas que nunca haviam vivenciado o que eu passava podiam saber respostas? A vida não se aprende nos livros apenas, mas na experiência. A figura era soturna, um senhor careca, em sua postura de analista, lançando um olhar terrificante. Quanto mais ele me desafiava, mais eu destilava minha desmedida, mais eu queria contrariar. E ele queria me mostrar a falta de lógica no meu raciocínio. Lógica? Quer algo mais lógico do que eu sentado aqui, ouvindo estas baboseiras pseudo-psíquicas, enquanto o mundo lá fora clama por mim? … enquanto há amores a serem vividos, poemas a serem escritos, canções a serem compostas? Que dose de loucura há nisso? Loucura é não ter esta vida medíocre que você tem, se achando o senhor da verdade, medicando pacientes que passam a viver sem emoções, apenas por viver! Se você não ouve as vozes, não

sabe que meu pai está por perto, eu ouço, eu sei. Porque a sua verdade objetiva e rasa deve se sobrepor à minha, alada, criativa e sem limites? Não, suas táticas psíquicas não vão me mediocrizar. Não, não tomarei seus remédios malditos, não

não voltarei aqui. E que você e sua psiquiatria se f… O mundo me espera, e eu

espero ele.

XVI - Confiante na vitória

Como venho lhes dizendo, eu estava tentando aprender a jogar. A melhor forma de resistência é a pacífica, já ensinava Gandhi. Aqui, dentro da Pinel, só preciso entrar no jogo quando converso com o Dr. Lucas. Os enfermeiros e enfermeiras já entraram no meu jogo. Com o violão, conquistei meus colegas. Sinto-me um líder aqui dentro. Todos vêm para o meu quarto, todos me contam suas angústias. Talvez

eu os ajude mais que os homens de branco. Eu poderia desencadear a revolução aqui dentro, mas não. Ainda não é a hora. Eu precisava sair, preparar o mundo lá fora, para então libertar meus amigos do cativeiro. Tinha este papel. A mim fora

atribuído, não por Deus, ou pelo destino, mas eu sentia em mim esta missão. Sentia

e via a reciprocidade dentro da clínica. Realmente eu recolho a admiração nos

olhos, nos gestos, nos cigarros que me dão, no olhar, essencialmente. Há sempre algo a desvendar no olhar. Nem todos podem acessar os segredos da alma através

da retina. Eu podia. Isto me diferenciava, já desde antes de ser privado de minha liberdade e plenitude. Antes, ou talvez depois do psiquiatra, não importam temporalidades, eu estava no sítio de minha vó. Próximo a BH, talvez tenha levado a esperança do encontro com

a

natureza trazer de volta quem eu era antes da viagem. Realmente a natureza tem

o

poder de transmutar os homens, trazer paz, harmonia. Mas eu não fora sozinho,

as vozes, sempre elas, permaneciam retumbando em meus ouvidos. E lá deviam também estar os donos das vozes, e toda a procura infindável seguia. Quando todos meus parentes ali me olhavam, sentia através dos raios refletidos, da dilatação das pupilas, a tristeza, o medo, a angústia. Era algo difícil, estar num paraíso perdido, que sempre fora um refúgio de paz, e sentir todos aqueles olhares, que por vezes, de tanto medo que refletiam se tornavam ameaçadores. Eu tentava jogar o jogo, não me afetar, mas a tortura das vozes, potencializadas pelos olhares me perturbava. Muito. Precisava me desligar, sair de mim. Não, eu não era esse monstro que seus olhos refletiam. Não. Precisava extravasar. Eu, toda minha agitação caótica, e uma bola de futebol. Eu corria, de lá pra cá, jogando, sozinho, chutando com uma potência incrível, que nunca tivera. Descarregava ali. Era mais. Jogava com as vozes, com meus eus particionados, jogava em busca de driblar a mim mesmo. E o chute potente no fim era a expressão maior do meu sofrimento. Colocava na bola a potencialidade de meus desejos insaciados, de Sandra que ficara no Rio, de minha namorada, que não confessava o ato de traição, tampouco conseguia me ajudar. De Tatiana, enfim, musa etérea, que sempre me escapava apesar dos doces sussurros ao pé-do-ouvido. Pobre bola, bola companheira. Não eras culpada, mas tomastes a culpa. E caí. Exausto, exaurido, ainda inquieto, mas sem forças físicas para continuar aquele jogo do eu contra mim. Desde então eu percebi o papel a que me destinei: a liderança. E quanto incomodava a todos ali eu saber e assumir este papel. Primeiro um livro. Minha mãe estava com um, com o título “A doçura do mundo”. Me indignei, como você pôde ler meu livro? Eu o havia escrito, alguém roubara meus escritos e publicara sem minha permissão. Claro! Eles são invasivos, e não colocaram meu nome, nem um pseudônimo. Mas eu havia escrito. Na realidade eu condensava em mim toda a doçura do mundo, por isto me tornara um incômodo. Briguei com ela, até que me desse o livro.

Depois uma partida de futebol na TV. Cada jogador ao entrar no gramado me mandara uma mensagem. Eles estavam comigo, haviam se comovido. Me deram o sinal. Eu estava no comando da partida. Abri o livro, “A doçura do mundo”, fiz o desenho tático dos dois times. Era como jogar um videogame. Onde eu desenhasse

a bola estaria, as jogadas sairiam tal qual meu desejo. E funcionava. Eu comandava aquela partida, com o apoio dos jogadores, que viam em mim uma liderança. Como meus parentes não puderam perceber! Claro, eles são sãos. Não tem a elevação mental necessária. Por isso me condenavam. Mas eu me divertia comandando o jogo. Às vezes os jogadores erravam, não me seguiam, óbvio, apenas para

despistar os outros, mas eu estava no controle. O entretenimento não durou muito e

a tortura das vozes, a necessidade de sair me dominava de novo. “O mundo me

condena e ninguém tem pena”, cantou certa vez Paulinho da Viola. Mas eu sentia que o mundo estava mudando, e começando a pender a meu favor. Eu começava a me libertar dos pesos, ganhava asas, e queria alçar vôos. Mas havia sempre uma repressão. Fui entender muito tempo depois porque eles não podiam me entender. José Ingenieros pôde lidar com isso um século antes de mim:

“Vives apenas devido a essa partícula de sonho que te sobrepõe ao real. (…) Nem todos extasiam, como tu, ante um crepúsculo, nem sonham ante uma aurora, nem vibram ante uma tempestade. (…) É dada a poucos essa inquietude de perseguir avidamente alguma quimera (…) A sanção alheia é fácil para o que concorda com rotinas secularmente praticadas; é difícil quando a imaginação põe maior originalidade no conceito ou na forma” Assim eu me assumia na minha plenipotencialidade, e começava a desfrutar das benesses que minha posição me garantia. Quanto mais eu assumia o líder que era,

mais repressão eu sentia dentro de casa. Na realidade eu não devia mais ter casa, o mundo era minha morada, as pessoas meu trabalho. Hoje, apesar de momentaneamente trancafiado, ainda sinto o mundo clamando por mim, e aqui dentro pratico com meus pares, o que farei com os ímpares. Em breve estarei aí

fora, cumprindo a minha sina. Me sentia como o meu companheiro de ideal, D.

Quixote: “Imaginando-se um predestinado pelo valor de seu braço e de seus nobres propósitos, apressou-se a iniciar a incomparável jornada”, ou ainda como Joana D´Arc, encarcerada, ouvindo os espíritos lhe dizerem: “tem coragem! Serás libertada por uma grande vitória!”.

XVII - Preso por meus próprios braços

Realmente não sei mais o que fazer. Preciso sair, preciso ver o mundo. As conversas não mudam de tom, ficam no mesmo tom e eu sem perspectivas de sair. Porque não dão o braço a torcer, porque não me libertam? Talvez porque eu já tenha saído antes. Me lembro que saí. Lembro da sensação de passar por aquela porta de ferro, ver as árvores lá fora, os carros passando, gente. A primeira respirada, do ar da liberdade enchendo os pulmões. Saí sim, posso me lembrar.

Mas devo ser deveras perigoso, cá estou eu de volta. Num tempo que não passa, será que me prenderão de vez? Será que pensar é tão perigoso? Sentir a intensidade do mundo em seu peito? Adentrar uma supra-realidade, com as asas de um anjo, que se eleva acima da mediocridade? Sim. Isto é muito perigoso, os sãos não estão prontos para isto. Sua ciência, suas normas não enquadram estes seres, como eu. Ou nos encaixamos, ou… Não sei bem como foi, mas lembro quando fui enjaulado pela primeira vez… Lembro não, sinto. Foi depois daquele fim de semana no sítio, não tinha muito tempo que eu havia chegado da fatídica viagem de Juiz de Fora. Minha casa se tornou um cárcere privado, eu não suportava mais ficar ali. Precisava, queria, ansiava por sair, encontrar todo o mundo que sussurrava em meus ouvidos. As vozes tinham que se corporificar. E na ânsia por sair, queria passar pelo que fosse. Eu podia sair mesmo pela varanda, plainaria do oitavo andar, até a rua. Era dela que eu precisava, da rua, do mar de gente que passa por ela. Me impediam de sair. Me diziam que as vozes não existiam. Tinham medo da palavra, possivelmente, mas queriam dizer que eu estava louco. Via o desespero em seus olhos. Via, mas não podia fazê-los entender. Eles tampouco buscavam. Neste conflito explosivo, a solução parecia não existir. Os dias passavam e eu não agüentava mais, nem eles, minha família. Eram meus inimigos, menos meu irmão, Léo. Ele estava acima disto. Mas a guerra era declarada, não aceitava mais o autoritarismo que me impunham. Precisava sair, como não entendiam isto? Como não entendem? Neste meio, veio a solução. Me fizeram, sabe-se lá como, entrar em uma ambulância. Luzes, enfermeiros, de branco, alguém me acompanhava. Eu precisava fugir, era a única brecha. Precisava de um plano. Para onde me levariam? O que fariam comigo? Como podiam ser coniventes com tudo aquilo? Logo aqueles que diziam que mais me amavam. Mas eu não precisava mais deles, nem de Sandra, nem de Tatiana. Nem de minha namorada. Precisava embarcar dentro de mim, era um Eu pleno, uma espécie de super-homem nietszchiano. Desembarcaram-me em um lugar soturno. Não era um hospital, eu tinha certeza. Eu resistia, ou tentava, enquanto me encaminhavam para uma sala. Não sei se estava sozinho, eu e os três enfermeiros, ou se alguém da minha família me acompanhou. Quando chegamos nesta sala, minha plenitude explodiu. Era a hora! Inflei o peito e enfiei um soco no primeiro enfermeiro. Vieram os outros. Soquei, mordi, prendi. Apanhei, como apanhei! Aqueles covardes, malditos de branco! Um me pegou por trás, me pegou pelo pescoço, num mata-leão. Não ainda não tinham me dominado. Tentei bater mais. Urrei, berrei. Filhos-da-puta! O maldito apertava meu pescoço, a ponto de a voz não sair mais. Mas ainda não estava dominado, eu conseguiria acabar com os três. O outro pegou meu braço. Me sentaram numa cadeira. Amarraram meus braços nela. Os dois. E o maldito apertando meu pescoço. Mas eu respirava, ainda tinha vida. Sinto o aperto no pescoço agora, como se aquele braço nunca mais cessasse de me violentar.

Me deram uma injeção. E o desgramado apertando ainda. Eu ficava sem ar. Vieram com uma camisa-de-força. Me enfiaram nela. E o cara apertando. Eu tive que ceder.

Parei de berrar. Pedi, implorei para me soltar. O cara apertando. Eu não tinha mais voz. O cara apertando. Pode me soltar, não consigo mais me mover. O cara aperta ainda mais. Me solta, vou apagar. Mais um aperto. Eu quero minha mãe, minha família, quem deixou você fazer isso comigo? Apertou mais um pouco. Você não percebe que nem falar consigo mais? O último aperto… Quase apaguei. Mas quando recuperei o fôlego, mesmo amarrado na cadeira, preso numa camisa-de-força, eu voltei a gritar. Estas injeções não funcionam em mim! Vocês vão ver comigo, covardes! Venham um de cada vez, acabo com vocês, malditos! Eles iam embora, eu ficava naquele quarto escuro, preso. Gritava, berrava. Cadê todo mundo? Alguém me solta! Fui espancado! Isto é um absurdo! Não sou louco!

Socooooorrrooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo

oo…

Não adiantava, minha garganta ainda me sufocava, as palavras doíam para saírem.

E os berros não tinham resultados. Ninguém vinha. Talvez ninguém viria mais. Só.

Nem as vozes estavam ali para me ajudar. E a sensação de claustro, preso pelos

meus próprios braços, que pela camisa-de-força me abraçavam. Isto, meus próprios braços me prendiam, e eu não me mexia. E o mundo foi pesando. A voz cessou. Apaguei.

XVIII - O potencial revolucionário da loucura

Apagar e acordar. Acender e desligar. Lembrar e esquecer. Lembrar é esquecer.

Nessa dialética entrei desde aquela primeira internação, na clínica Santa Maria. Drogado pelos anti-psicóticos e tranqüilizantes mais pesados, era nessa corda bamba que passaria a viver. E assim se teciam minha lembranças e esquecimentos, meus sentimentos e minhas paixões, meus conflitos e meus tesões. Ainda hoje, na Pinel, uma confusão mental se embrenha quando tento percorrer novamente os caminhos da memória. Os pharmakóns, que em sua origem grega carregam a antítese de remédio/veneno, deletaram certas cenas, personagens, e sentimentos de mim. Mas nunca me apagariam de mim. E nunca apagariam aquela sensação de

estar amarrado em uma camisa-de-força, imóvel, gritando sem ser ouvido.

A mente é mesmo um enigma. Haverão sempre aqueles que dirão que recalcamos

nossas memórias, as selecionamos, inconscientemente, evitando reviver

sofrimentos. Eu os revivo diariamente. São os sofrimentos sofridos que me mantém

vivo, são as lembranças fugidias que me alimentam o desejo de saborear as asas

da liberdade. Aqui, na Pinel, o pouco que tenho já me satisfaz. Tenho raiva dos gorilas de branco. Tenho ódio da soberba dos pseudo-sãos. Acima de tudo tenho uma certeza em mim. A certeza de que estes, que hoje me aprisionam e me torturam, hão um dia de me olhar com outros olhos, hão de perceber o que ainda não podem vislumbrar. Aí sim, estarei solto, flanando no mundo imundo, poeticamente saboreando as benesses da soltura. Em breve, espero.

Não devo ter passado mais que 48 horas naquele submundo que chamam de Hospital Psiquiátrico Santa Maria. Pobre santa, como tantas outras e outros, teve o nome manchado por aquele local, infestado de gorilas de branco, homens que mais pareciam demônios, a torturar seus cativos mentais em seu inferno particular. No dia em que me sufocaram, e me amarraram, eu pude sentir o prazer pululando do olhar dos malditos. Não cumpriam apenas sua função. Tinham um prazer sádico em me dominar, impor sua sanidade sobre minha loucura. O pouco que estive ali, sumiu. Não há lembranças. Dizem que me enturmei logo, em meio a todos aqueles “insanos e drogados”. Movimentava a clínica em meio a agitadas partidas de truco, por mais que muitas vezes não pudesse nem mesmo suportar o peso de meu próprio corpo em pé, ou balbuciar palavras articuladas. Isto é o que dizem, nunca poderei confirmar. Um homem sem memória é sempre refém do ponto de vista de outrem. Não confio em memórias alheias, traiçoeiras que são. A essa altura não sei mais aonde estavam todas aquelas vozes, ou seus donos, Tatiana, meu pai, Marquinhos. Do outro lado, minha família era conivente, tinha me levado àquele submundo, minha mãe, meus parentes… Como podiam aceitar aquilo? Como não podiam perceber que eu precisava de vida, não de isolamento, do mundo, não do imundo. De inspiração, não de injeção. E elas vinham, uma atrás da outra. Nem um leão mais indócil jamais recebera tamanha quantidade de entorpecentes. Eu tentava me manter impávido, não!, não me liquidariam tão fácil! Solidão! Porão! Sub! Em pouco tempo minha mãe veio me pedir para entrar na ambulância, eu iria para um lugar melhor, onde seria bem tratado. Ambulância!!!??!? De jeito nenhum!!! Já caíra nesta ladainha antes, não me arriscaria a perder meus parceiros de truco, nem meus doadores de cigarros. Se não fosse para casa, não sairia dali por nada. Já bastava, podiam me abandonar ali, deixado à própria sorte, não precisava mais da compaixão de todos aqueles que no auge da sua sanidade, pensavam me fazer benesses. A sanidade talvez seja a forma mais extremada de loucura. Quem neste mundo é capaz de ser são, em meio a tanto caos, tanta inversão, tanta manipulação! Fantoches! Eu não seria mais um! Que me largassem. Trilharia meus rumos. Não entraria naquela ambulância, viriam mais agulhas, mais camisas-de-força, mais sofrimento. Eu era um bicho-de-sete-cabeças. Com asas podadas, tentando voar. Não, sem compaixão, sentimento baixo, de fracos, que não assumem postura, só ficam paralisados sofrendo com o sofrimento alheio. Paralisante. Preciso de compreensão, isso sim. Baixem os saltos de suas razões, e entrem nas minhas alucinações. Vejam o mundo sob meu prisma, entendam minha torta razão. Isso sim. Mais uma vez entrei no jogo. Ou fui ludibriado, achando enganá-los? Não sei bem. Meu tio, se não me engano, insistia que seria bom para mim. Perguntei-lhe porque não se internava ele também neste outro lugar, se realmente seria bom. Ele disse que iria comigo sim, se internaria também. Talvez tentando testar até onde ele iria, ou mesmo por aceitar seu argumento, acabei entrando naquela ambulância verde,

indo sabe-se lá para onde. Deixava o submundo de Santa Maria, e entraria no SupraMundo de Phillipe Pinnel. Clínicas psiquiátricas são realmente locais

estranhos. Locais onde os inadaptados, os excluídos da ordem psicossocial, ou os

que ousam romper barreiras invisíveis, se misturam. O potencial revolucionário

destas clínicas ainda está para ser acendido. Ali, ou aqui, na Pinel, eu poderia experimentar um pouco deste louco potencial…

XIX - Flashes entre partidas de buraco

Ao passo que conto da chegada na Pinel, ainda me encontro cativo nesta simpática

clínica. Em meio a Sandras, Valérias, Daniéis, Moniques, Fernandas, e tantos outros companheiros de jornada. Uns que se foram, outros que ficam. E eu que já estive do lado de fora, voltei, e não sei quando sairei novamente. Só me resta escrever, é a única forma de não deixar adormecer o potencial revolucionário dentro de mim, minha resistência pacífica aos remédios, a expressão máxima de mim mesmo. A escrita não é uma opção, é uma necessidade. Assim como eu tinha uma necessidade, quão tola!, de entender o que eu passava, me encaixar em padrões, saber qual tipo de louco eu era: psicótico, maníaco, depressivo, esquizofrênico? Temos esta necessidade. Não nos satisfazemos em ser apenas, precisamos ser encaixados, categorizados. Em minhas conversas com o Lucas, o homem-mor de branco, sempre precisava saber. Afinal, não é aceitável sermos trancafiados sem um atestado de loucura, eu merecia ao menos saber a causa trancafiatis. As respostas eram sempre evasivas, como aqueles que sempre buscam o não-dito no inter-dito. Os lapsos. Mais tarde fui saber do tal DSM – IV, uma espécie de catálogo de todos os transtornos mentais, para “facilitar” os diagnósticos psiquiátricos. Baboseira. Eu me encaixava em vários, e ao mesmo tempo em nenhum. Era um paradoxo sob duas pernas, com uma mente que enxergava além. E incomodava. Nem mesmo ali dentro estavam dando conta de mim. Sarcasticamente, ironicamente, eu desafiava o saber psquiátrico. Exumem Freud, tragam Lacan, evoquem Jung, seus padrões não hão de me enquadrar. O universo da subjetividade, nunca será reduzido a diagnósticos pseudo-científicos. A loucura está a um passo da genialidade, ou a genialidade a um passo da loucura? Ou os dois no mesmo terreno? As clínicas não trazem esta resposta, nem estão prontas para esta pergunta. Causas, sempre precisamos de causas. Relembro da viagem do Rio, Sandra, Sophia, nome do conhecimento, todo o desejo pulsante. Juiz de Fora, Tatiana, meu

pai, Marquinhos, a explosão. A viagem de volta. O reencontro com a família. Com a

namorada. Flashes sem conexão. Não há causalidade, não há linearidade. Há sim uma constelação de sentidos ilógicos, pulsantes, pululantes. Se quiseres buscar uma causa, podíamos retroceder aos traümes de infâncis (sabe-se-lá quais!) ou a uma explicação químico-biológica. Ou nenhum dos dois. Melhor caminho. Mas há sempre um fato ainda não dito, há buscar, que pode ajudar a tecer os sentidos. Me

lembro de um, antes de Juiz de Fora, antes do Rio, antes de chegar até aqui na Pinel. Há quem diga que foi o começo de tudo. Eu não creio em começos, nem meios, nem fins. Tudo são nexos criados e recriados ao nosso bel prazer. Era um sábado de carnaval, eu ainda em BH, preparando a ida para uma roça. Estava com minha namorada, ela mesma, e voltávamos para a minha casa para os

preparativos finais. Parei o carro de qualquer jeito na garagem, a intenção era trocar

o som, e subir rapidamente, para já sairmos. O afã da paixão que nos tomou ao

sairmos do carro, nos levou diretamente ao quarto. E nesse meio tempo, entre beijos e amassos, tocou meu telefone. Meu irmão, o mais velho, chegara e não conseguira estacionar. Exigiu, um tanto exaltado que eu descesse para estacionar corretamente. Uma típica exalação e demonstração da soberba dos sãos. Quiçá da própria estupidez inerente ao egoísmo humano. Me recompus e quando abri a porta, o elevador em frente abriu-se também. Ele saiu destilando sua ira racional em meio a xingamentos e acusações. Imediatamente

fiquei puto. E se seguiram xingamentos, acusações. Talvez fosse a primeira vez que

o retrucasse. Bati de frente. E a batida foi feia. Descemos no elevador, trocando as

mais estapafúrdias palavras, como se nossos testosteronas se exprimissem em palavras. O impulso era destilar um belo soco na cara, acabar com a discussão de uma vez. Segurei-me. Talvez pelo amor fraterno. Mas o impulso do soco se transformava em palavras mais violentas que gestos. O sangue subia rapidamente à cabeça, sentia-o correr rapidamente nas minhas veias a cada palavra mal dita e mal ouvida. As duas, pobres namoradas, olhavam com olhos esbugalhados aquela cena, estáticas, como quem via a épica disputa de Caim e Abel. Entrei enfurecido no carro. Queria descer, xingar mais, estapeá-lo, socá-lo. Ela me segurou. Sai acelerando da garagem, sem rumo, com a raiva transpirando em mim. Parei no primeiro posto, na esquina de casa. Chorei copiosamente. Lágrimas e mais lágrimas acompanhadas de desabafos, palavras ininteligíveis, indecifráveis, sempre acompanhadas de palavras doces da minha companheira. Nada me acalmava. A raiva transmutara-se em decepção, em tristeza, em sofrimento. Não voltaria para aquela casa enquanto ele estivesse ali. Não compartilharia o mesmo teto. Era a hora de tomar meu rumo, era a hora de sair do casulo. Mas ainda havia uma noite antes do carnaval, toda aquela avalanche de sentimentos paradoxais não se curararia em um rio de lágrimas. Se curaria ainda um dia? Resolvi que deixaria minha namorada em casa. Era a hora de imergir em mim mesmo. De ficar só. Deixei-a e segui meu rumo, sem saber qual seria. Alguma causalidade palpável? Alguma ponte que me trouxe de uma briga familiar, pré-carnaval até a Pinel? Não. Os descaminhos não são retos, simples, diretos. Mas muito aconteceria ainda aquela noite. Fatos bem objetivos, marcas indeléveis. A pulsão incontrolável que abriria o mundo em minha mente… Sentimentos são deveras perigosos. Por ora, devo me reunir aos amigos, para mais uma louca partida de buraco neste cativeiro simpático.

XX

- Uma bomba-relógio ambulante

Aqui, na Pinel, os dias são quase sempre iguais, apesar de todas loucuras possíveis

e impossíveis estarem reunidas em um mesmo lugar. Normalmente acordo em meu

colchão no chão, para evitar as terríveis dores de coluna. Olho para cima e ao lado está: ou a melancólica Valéria, ou a carinhosa Sandra, companheiras que se revezam em velar meus sonhos noturnos. Rapidamente colocamos meu colchão na cama, antes que o Sr. Lucas abra a porta para investigar o dormitório. Sinceramente, não sei qual o problema que ele enxerga no colchão no chão. Será que ele pensa que sou louco de abrir mão do conforto? Mesmo encarcerado, o conforto deve falar mais alto! Na sequência uma garrafa de iogurte e uma barra de chocolate, uma bem específica, somente ela serve, que minha mãe trás. Não comeria daquela comida ali, sabe-se lá que tipo de phármakons podem estar escondidos nelas. Deixo o café-da-manhã da clínica para meus ilustres convidados

e amigos de cárcere. Todo dia alguém come aquele café-da-manhã suspeito, para

me provar e tentar me convencer a comê-lo. Prefiro continuar sem comer nada que

seja produzido ali dentro. Alimentação para o corpo, alimentação para a alma. Aqui dentro não tenho meus livros, quase não posso viver o amor. O amor, causa e cura de todos estes males. Ousei amar demais, ainda sinto a pulsão quando penso na atraente Sandra, pernambucana-carioca, que conheci no Rio. Ou em Tatiana, que quase não mais sussurra palavras ao meu ouvido. Em minha namorada, quanto dói pensar nela, eu

aqui dentro, ela já não vem mais. Mas já devo viver outros amores, outras ilusões de felicidade. Logo depois de deixá-la em casa, naquele fatídico carnaval, continuei desorientado.

Os sentimentos que fervilhavam, paradoxos latentes, raiva, tristeza, mágoa,

explosão. Podia voltar em casa, resolver tudo na mão, na violência extirpar tudo aquilo que esvaía em lágrimas raivosas. Mas não. Não era o caminho. Fui a um jogo de basquete, reencontrei velhos conhecidos, bebi várias cervejas enquanto acompanhava o jogo em ritmo alucinante. Um conforto temporário eu teria ali. Mal saía do ginásio, e meu telefone não parava de tocar. Minha mãe já soubera da briga, pedia para eu voltar para casa, para conversarmos, tudo ficaria bem. Eu não

volto, não enquanto este idiota estiver aí, eu bradava nas alturas. E depois chorava copiosamente. Dirigi o carro, sem rumo, parando de buteco em buteco para mais uma cerveja e mais um cigarro. Eram os combustíveis para aplacar minha mágoa.

A noite caíra, eu não mais atenderia o celular. Nem minha mãe, nem minha

namorada. Aquela noite seria somente eu…. e meus demônios interiores. Veio uma idéia. Subir até a Praça do Papa. Contemplar a cidade do alto, regado a cervejas e cigarros. Respirar um pouco de ar puro, se ainda era possível encontrá-lo naquela urbs. Subi a avenida acelerando, a velocidade parecia ser outra forma de colocar para fora todos os paradoxos internos. Velocidade, cerveja, cigarro, velocidade de pensamento, sentimento. Intenso. A praça estava linda, a noite deslumbrante, a lua pairava soberana sobre a metrópole. Mas não aplacou minhas mágoas, meu drama.

Não consegui ficar ali, na contemplação. Precisava de mais velocidade mais intensidade. Descia rapidamente a avenida, quando parei. Uma daquelas moças simpáticas de saia curta, decotes chamativos, parada, encostada em um poste me chamou a atenção. Era isso, eu precisava de sexo! A única via de explodir sem causar maiores estragos. E eu precisava explodir. Era uma bomba ambulante. Pulsante. Rapidamente a moça entrou no meu carro e fomos para um lugar mais tranqüilo. Após alguns toques, e estímulos, a solução do descarrego fora encontrada. Animalidade à flor-da-pele. Os nervos e as neuroses se esvaíam através do ato. Uma catarse. E o telefone tocava sem parar. Já não me preocupava com ele, preocupava em descarregar o máximo do peso que carregava em mim naquele ato. E assim foi feito. Depois conversamos muito, cada um sobre suas mágoas, e ela tirou um saquinho de pó. Queria me vender. Não queria pagar. Após mais muitas conversas, acabou me dando uma boa dose de pó. Como era simpática aquela moça, mal sabia ela o quanto me ajudara. Logo que ela desceu já cheirei uma boa

carreira. Pó. Cocaína. Alegria e energia artificiais. Enquanto decidia se voltava ou

não para casa, cheirei todo o resto. Esperava sentir-me mais leve, esperava mais

energia, esperava, esperava, esperava… Cheguei em casa, combinei com minha namorada, viajaríamos no outro dia pela manhã. Passei a noite em claro, arrumando minhas coisas, pensando no que faria quando voltasse de viagem, onde moraria, que rumo tomaria… De repente já eram seis da manhã, era hora de partir. Nada de sentimentos de culpa, nada de cansaço, nada de tristeza. Na animalidade do coito, teriam se resolvido meus dilemas, e a bomba não estouraria. Por enquanto…

XXI - Necessidade de se apaixonar

Abro meus olhos e, mais uma vez a cena se repete: Valéria deitada na cama ao meu lado, eu no chão, o mesmo quarto, a mesma TV, as mesmas portas. Como

eram iguais aqueles dias, que teimavam em não passar, dentro da clínica-prisão. Já

não agüentava mais a monotonia, a mesmice. Ainda mais que eu tinha saído, tinha

respirado os ares da liberdade por pouco tempo, até me trancafiarem novamente. Tinha flanado pelas ruas… Ah, que falta me faz a massa de pessoas, a beleza de andar sem rumo, espiando cada olhar, catando a inspiração em cada esquina, poetizando o mundo. Era como uma metamorfose, eu me libertava daquela forma

que me prendia, daquela lagarta medíocre e ordinária que fui. Ganhava asas, abria

as portas da percepção, e não mais queria do que apenas ser eu mesmo – flanar e poetizar. Isso era sintoma de insanidade!? Como li em algum lugar, em um mundo louco, os loucos é que são sãos … Fragmentos. Pensamento não linear, conexões. Enxergo além do visível. Não há remédio que me “cure”. Duas portas em meu quarto. Uma, sempre aberta, dá para o corredor, elo com meus camaradas, de todas espécies. Aberta, sempre pronta para

receber uma visita, sejam sãos ou insanos. Ali era a via de acesso ao meu universo, todos estão convidados a passar por esta. A outra porta sempre fechada. Sei o que há do outro lado. A porta fechada é o ícone da segregação e da castração que me tentam impor.

A essa altura, muito já foi dito, maudito, inter-dito, desde a véspera daquele carnaval

em que viajei com minha namorada. Atual ex? Não sei por que caminhos ela anda, obscuras são as minhas lembranças. Ela esteve aqui, não vem mais. Entre um sopro de liberdade e a volta ao cárcere, nos vimos. Lembro de flashes. Não quero que ela se apague de minha memória, ela ainda vive no meu coração. Mas não está mais aqui. Será que não vem mais? Tatiana também não mais está aqui. Nem mesmo sua voz sussurra em meus ouvidos. Nem mais sinto sua presença no arrepiar de minha pele. Me privaram de sua companhia. Nem a doce carioca Sandra, nem mais ninguém… Estava privado dos amores que perturbaram e inflaram meu coração. Mas não estava só, ainda. Na outra porta, a fechada, do outro lado, havia alguém. Não era somente alguém, era alguém especial. Alguém que aplacava a dor de estar. Lembro-me do dia em que estava no pátio, isolado em um dos quiosques, melodiando no violão as mágoas do meu ser. Era sempre um momento de alegria. Eu sentava, em um quiosque qualquer, e dedilhava, cantava, exorcizava minha dor. Compartilhava com que quisesse, e aos poucos um ou outro vinham, cantavam, ouviam, sorriam. Neste dia vi de longe, no outro quiosque. Ela estava lá. Parada, inerte, o olhar melancólico, olhando sem ver, refletindo a tristeza da alma. Eu

tocava, e me fixava nela. Mas as melodias não surtiam efeito sobre ela, não havia harmonia entre ela e o mundo, parecia entorpecida. Por fim, decidi sentar-me, eu o

e violão ao seu lado. Ela me olhou desconfiada. E ali dedilhei mais um pouco,

trocamos algumas palavras. Quão bela era a tristeza refletida nos seus olhos. No outro dia eu esperava sentado abrir-se o portão que dava pro pátio. Ela chegou,

sorrateira, e sentou-se do meu lado. Não falamos muito, somente nos olhamos. E um beijo foi a resposta natural de nossas almas perturbadas. Dali em diante, ela,

Fernanda, se tornou minha companheira no cárcere. E ela estava ali, atrás daquela porta fechada. A porta que separava o último quarto da ala masculina, o meu, do primeiro da ala feminina, o dela.

O simples saber que ela estava ali, do outro lado, aplacava a solidão e a mágoa de

estar isolado, cativo. Mais um ingrediente nesta sopa de loucura. Pobres poetas, escravos de seus corações voláteis, da necessidade de se apaixonar constantemente. Encostado naquela porta fechada, escrevia alguns desabafos, na espera de serem ouvidos um dia:

“No presente momento arrumei uma mulher linda, cujo nome não posso revelar, que poderia ser a mulher da minha vida. Só que as pessoas não nos deixam encontrar. Essa é a sensação de quem vive numa prisão. Homens e mulheres não podem nem conversar em paz. Sem segundas intenções, apenas para passar o tempo juntos

mesmo. Afinal de contas fomos feitos para amar. Cada um ama quem quer e do jeito

que quiser. Só que aqui na Pinel é diferente. (…) Isso é um absurdo, mas tudo bem,

a vida continua. Eu queria vê-la de qualquer forma, parecia que a minha vida

dependia daquela visita inusitada. Mas era apenas o AMOR, voltando a se manifestar na minha vida. Sem pressões, sem psicoses ou neuroses. Apenas o amor na sua mais simples manifestação. Amor pelos amigos que fiz aqui, amor por Ela minha musa inspiradora, que me deu animo para escrever essas páginas. Sem desrespeito ao dono da clínica, ele que vá se fuder! Homens e mulheres merecem companhia do sexo oposto. Mas a vida nas clínicas não é tão simples assim. Existem profissionais pagos para evitar o contato. Eles cumprem seus deveres, e quanto a nós, homens românticos, ficamos desnorteados. O amor é assim, nos pega pelo cotovelo na hora em que menos esperamos. Mulheres me enganam como vocês verão na seqüência. Mas espere um pouco. Quero ela agora, mas não tem jeito. E agora? O que faço? Escrevo. Tento relaxar ouvindo uma boa música.

Fazer o que, né? Fazer nada. Escrever sobre o inescrevivel, tentar desabafar as mágoas de um coração partido, cansado de ser pisado e maltratado.”

E me invadiam os versos imortais do poetinha camarada, Vinicius de Moraes:

“Para isso fomos feitos Para isso fomos feitos:

Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos - Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra. Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer Uma estrela a se apagar na treva Um caminho entre dois túmulos - Por isso precisamos velar Falar baixo, pisar leve, ver A noite dormir em silêncio. Não há muito que dizer:

Uma canção sobre um berço Um verso, talvez, de amor Uma prece por quem se vai - Mas que essa hora não esqueça E por ela os nossos corações Se deixem, graves e simples. Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança no milagre Para a participação da poesia

Para ver a face da morte - De repente nunca mais esperaremos… Hoje a noite é jovem; da morte, apenas Nascemos, imensamente.”

XXII

- Resistir ao domínio Psiquiatrizante

Não

há mais o que dizer da monótona monotonia dos dias de cárcere nesta clínica.

Nem mais o violão, nem mesmo ter conhecido Fernanda, nada aplaca a dor de estar… Porque não é a dor de ser ou de existir, mas a dor de não poder ser plenamente, de existir como uma ave, com asas cortadas e correntes prendendo as

patas. Sem falar nas grades da gaiola que evitam qualquer mínima tentativa de voar.

A Pinel é minha gaiola. Preciso voar, preciso sair, antes que me incorpore totalmente

à lógica lobotômica deste lugar. Antes que me torne mais um fantasma,

perambulando pelos corredores de olhos vidrados, sem sentimento, sem alma, sem desejo, à espera da terapia de eletro-choque. Um dos meus amigos internos, o jovem Thiago, está virando um deles. Fica mudo, encolhido no pátio. O conheci através de sua namorada, Sandra. Ele era um cara do

bem, consciente, crítico, mas nunca se adaptou. Foi diagnosticado como depressivo, como várias outras histórias, a família não deu conta, seu destino, como

o meu, foi ser trancafiado. Depois de muitos tratamentos, foi para a terapia

eletroconvulsiva (eufemismo médico para não dizer que dão choques na cabeça dos pacientes). Na última vez que o vi, se limitou a dizer: faltam só três dias para o choque … Ele dizia se sentir bem melhor depois de correntes elétricas atravessarem seu cérebro. Ficava dias sem aparecer, quando o via novamente, estava como uma ameba feliz. Esta é a lógica reinante nas clínicas: seja com medicamentos, psicotrópicos, eletrochoques, terapias, a “cura” é quase sempre sinônimo de castração da autonomia e adestramento. Eu não podia ser incorporado, não deixaria.

Criava minhas brechas, brincava com minha própria loucura, me fazia às vezes de palhaço. Estratégias para resistir ao domínio psiquiatrizante. Eles queriam me impor

uma verdade. Eu fingia que aceitava, e resistia nos meus ideais e princípios. Minha

visão de mundo, meu universo particular, meu espaço vital, ali eles nunca chegariam. Brigo quase todos os dias com os enfermeiros, meros capachos dos outros homens

de branco. Me pego rindo com as ameaças que faço de invasão da ala feminina, que causam alvoroço neles. E às vezes invado, me sento no sofá e assisto televisão

com as cativas. Uma delas, belíssima, de pele clara e cabelos escuros, grita sem

parar, chora. Eu apenas lanço um olhar para ela, não a condenando, mas ganhando sua confiança. No olhar me coloco em pé de igualdade, e os gritos cessam. Não trocamos palavras, nem precisamos, nos olhamos, ela senta e assistimos TV. Não que a TV em si me interesse. Me interessa romper paulatinamente as barreiras daquela prisão. Ganhar a confiança dos meus pares. A liderança que os machos já

sentiam, frequentando meu quarto, me confidenciando as fofocas internas e me fornecendo cigarros, começo a construir do outro lado, com as fêmeas. Meu maior

interesse em pular para o lado de lá ainda é Fernanda. Não consigo suportar o vácuo de sentimento, o vazio do peito. Ela, minha namorada, parece ter-se ido, mas Fernanda apareceu.

Nem sempre podemos ficar juntos, nem sempre ela quer conversar comigo, nem

sempre consigo invadir a ala feminina, nem sempre ela me olha. Não, ela não pode ser a solução. E isso me dói. Dor sem cura. Somente a liberdade pode impedir que eu sucumba e apodreça por dentro. Pego mais uma vez minhas malas e me sento em frente ao portão, o último obstáculo até a rua. Desta vez ficarei ali, aqui,

irredutível, até que minha liberdade seja restaurada. E também não como mais. Não

é uma questão de escolha, é uma escolha de vida.

Enquanto fico aqui, sentado na minha resistência pacífica, à espera da luz da

liberdade, me lembro do anjo mais-que-torto, o genial Torquato Neto, que escrevia no ano de 1970, encarcerado em um manicômio, assim como eu:

“tudo continua. continua parado no centro de minhas especulações, e não sei dizer

se já consegui me desfazer de qualquer uma delas. estou morrendo. mais uma vez

eu morro soterrado em minhas perplexidades – não sei para o quêestou. e deixo andar. é preciso que eu adquira condições que me permitam sobreviver. o que é

sobreviver? tenho conseguido sobreviver até aqui, mas… o que vivo, o que consigo escrever, o que posso ir sendo são meus bens. não disponho de outros. o que não sou me mata: assim, assado, sempre: tudo continua como sempre, o mesmo esquema para o fim, a mesma vida de côco melado, a mesma merda. só deus pode me salvar, mas não conheço deus nem sei onde procurá-lo. disse que estou morrendo – uma vez mais. vivo só pra isso”

E enquanto me sento em minha mala, durante horas frente a um portão de ferro, me

resta a única esperança, vã ainda que sã, que meus últimos dias de paupérie não

sigam o mesmo traçado dos de Torquato.

XXIII - Antes e depois da Pinel

Como são fingidores os loucos e poetas! Certo estava Pessoa. Fingindo contar as dores, fingem expurgá-las, fingem adequar-se, fingem mediocrizar-se. E todos, e mesmo eles, chegam a crer no fingimento, mero artifício de retórica, mera criação. Mas ao fingir, não é que as dores se esvaem, na catarse do contar, ainda que fingido, do recontar, post-escrito, a alma inquieta, a bipolaridade do ser, as inconstâncias próprias dos desajustados, são diluídas nas palavras. Pobres palavras! Sem serem consultadas, são obrigadas a carregarem o peso de uma dor de existir e estar. Em meio à monotonia dos dias de cárcere, surge uma inesperada conversa. Ele, o homem-mor de branco, a racionalidade científica encarnada em psiquiatra, me chama em um horário nada usual. As doces enfermeiras, lançam seus sorrisos em minha direção. Preparo minhas armas, minhas proteções, para não cair nas

armadilhas psíquicas. Já adaptado, já integrado no convívio da Pinel, pisco os olhos para meus colegas, que me vêem entrando na sala do Dr. Lucas. Os mesmos testes de sanidade, aqueles de sempre, cruéis, são aplicados durante a conversa. Finjo, mas me surpreendo… Uma brecha!? Não creio… O rumo das palavras que saíam da boca daquele homem, pareciam me ludibriar. Não, ele não estava querendo dizer o que dizia. Minha família acreditava ser melhor para mim, deixar a Pinel, continuar a me recuperar em casa? Como assim? Porque agora pensam desta forma? Será que eu havia caído nas teias dos psicotrópicos, e havia abdicado de toda a louca genialidade que atingira? Não podia ser real. Mas logo agora, que aquele cárcere se tornara meu lar. Meus amigos estavam ali. Uma avalanche desceu em minha mente. E um furor de alegria e medo me invadiu. Apertei a mão do Dr., corri para o quarto, arrumei minhas malas. Minha mãe ali estava, me esperando. Meu irmão, lá fora. Todos me aguardavam, lá fora. Lá fora, o mundo. Mas o mundo? Tão imundo, que tanto me maltratara, porque voltar? Conseguiria? Seria eu mesmo? Mas quem eu era, após tantos pharmakóns? Após quase dois meses de cárceres interruptos. Amigos? Ainda existiam? Como olhariam para mim? Que assunto teria eu com tantos seres medíocres?

A porta de ferro se abria, uma lágrima escorria. Pela primeira vez, desde quando me

amarraram numa camisa-de-força, eu respirava e me sentia livre. Me libertara daquela camisa maldita! Agora era ganhar as asas da liberdade, desfrutar do

mundo, viver novos e velhos amores, escrever poesias, dedilhar bossas e sambas nos violões. Estaria pronto para tudo isso? Ali, naquele dia, renascia. Poder-se-ia

dizer

numa vida AP e PP. Antes e depois da Pinel.

XXIV

- Eu, Caçador de mim

E cá estou eu, novamente expurgando minhas dores, pós-Pinel. Sim, aconteceu de

novo. Mas calma, antes de lhe contar tudo que aconteceu nesta nova crise, ou surto

como gostam de dizer os homens de branco, devo lhes contar o meio. O Entre, o

tudo que aconteceu entre estas duas internações. Entre o abrir daquela porta, em

que meus olhos lacrimejavam ao ver a liberdade, e hoje, em que encontro-me

novamente “preso” em casa, pós-surto.

Foram-se quatro anos e meio, muita coisa ocorreu e as causas e efeitos, se é que

existem são muitas e entrelaçadas, e temos que retomar os fios desta trama para

entender a situação presente. Saí da Pinel, naquele maio de 2008, ainda acelerado,

mesmo que sob efeito de pesadas medicações. Como havia lhe dito, camarada,

haviam usado o Haldol, em mim, inimigo dos poetas e loucos. Sãos? Estava

carregado de medicamentos mas em minha mente ainda via o mundo cindido em

seus pólos dialéticos. Ainda carregava a marca dos que sofrem do transtorno

maníaco-depressivo, doença tão antiga quanto a humanidade.

Quando saí, o primeiro passo era ressocializar. Afinal de contas, afastado por quase

dois meses do mundo dos “sãos”, medíocres?, conversando apenas com os

internos, tinha que reaprender a conversar os assuntos, tinha que me tornar

novamente um homu socialis. Mas duas mulheres ainda estavam em minha cabeça.

A doce Carmelita, senhorita Mel, que havia terminado há pouco comigo, rondava

meus pensamentos…. Porque será que ela havia se afastado? Será que eu havia

contado algo que havia magoado ela? Meus pensamentos com Tatiana, Sandra,

será que ela sabia de tudo isto e não quis mais ficar ao meu lado? Era um mar de

interrogações que inundava meus pensamentos, que não encontravam respostas.

Mandei um e-mail para ela. Obtive uma resposta seca. Sem mais contatos futuros,

por favor. Ela estava realmente fechada. Isso me magoava muito, eu queria ela,

queria que ela me ajudasse a readentrar no mundo dos homens, que não me

tornasse um Lobo da Estepe.

Havia ainda em minha cabeça a senhorita Fernanda, que conheci e tive um rápido

relacionamento dentro da Pinel. Fernanda representava para mim uma saída para o

amar e sentir-se amado. Liguei para ela, sabia que já tinha saído também. Em vão.

Novamente a secura foi total. Eu estava totalmente desamparado no campo

amoroso, nenhuma opção me foi resguardada.

Como podem os poetas, os loucos, os bipolares, ou malditos, viverem sem amor?

Quão cruel não será negar-lhes a possibilidade de amarem. Isso me foi um baque.

Mas em meio ao baque eu sentia-me o Juan, e saía com meus amigos à caça, em

busca de novos amores. E poetizava o mundo, em meio à aceleração de meus

neurônios. Cada pedaço de papel, de guardanapo, era uma possibilidade de

escrever um poema para conquistar um novo amor.

O sentimento de plenitude, de potência máxima ainda me invadia, mesmo com

todos os remédios mediocrizantes, e apesar dos belos poemas, e flertes, cada vez

era uma nova frustração em termos amorosos. Parecia que o mundo não me cabia

e eu não cabia no mundo. Começava a pessoar-me, dividindo-me heteronimamente,

fundido em meus eus, em minhas várias facetas, para conviver nos circulos sociais.

Mas era doído, como era doído! O não se encaixar, o inadaptar. Sofria muito no meu

âmago, embora parecesse o mais feliz dos seres.

Depois vieram os efeitos colaterais dos remédios. Síndrome de perseguição.

Dificuldade de ir ao banheiro. Uma luta. Medo. Angústia. O Cenário foi cambiando. E

eu na eterna luta, caçando-me nas beiradas do meu próprio eu.

XXV - Metamorfose

As saidas eram uma forma de socialização. Mas ao mesmo tempo refletiam-se em

mim os meus maiores medos e angústias. O medo da solidão. Os reflexos dos

medicamentos. Os efeitos colaterais eram terriveis. Ir ao banheiro era um desafio.

Eu, meu órgão genital enfrentando aquele mictório, era como se meus fantasmas se

colocassem ali. E não saía nada. E eu ia ficando mais tenso, e não saía o liquido

com os excrementos do meu ser. E em minha cabeça passavam-se as idéias de

perseguição, pensava em meu pai, em Tatiana, na Mel, em Marquinhos, na

Fernanda. E contava até dez, e o liquido não saía. Era um sofrimento.

Respirava. Pensava em coisas boas, no Léo, no Bussunda, meu grande amigo, na

alegria de estar ali, com amigos, vendo um jogo do Brasil contra a Argentina, em

2008. Tantos amigos ali comigo e eu preso naquele banheiro, na solidão do pior

lugar possível, o lugar dos excrementos, do resto, do imundo. Fiquei ali pelo menos

vinte minutos, e não consegui mijar. Sim, mijar, porque urinar é uma palavra

demasiado leve para um processo tão profundo. Mijar e completar o ciclo de retirar

de si coisas, energias, excrementos, tudo que não nos faz bem. E eu simplesmente

não conseguia. Prendia em mim todo este peso, que deveria sair de mim pela minha

genitália. Mas voltei para a mesa, sentei com meus amigos, tentei ser “normal”, se é

que isto me seria possível.

Assistia ao jogo como quem comanda um joguete de marionetes. Sentia em mim,

dentro de minha fantasia, que o jogo estava direcionado ao meu desejo. Uma

mudança não esperada na escalação era uma dica, uma piscada de um jogador.

Pensava, mentalizava o que iria acontecer, e quase acontecia. Estaria eu realmente

ainda louco, fora de mim, ou tinha algum poder sugestivo, que as ondas

eletromagnéticas transmitiam até aqueles jogadores? Estaria eu conectado

realmente com eles, ou teria saído prematuramente da Pinel, e ainda estava vivendo

nas ondas de um surto, surfando nas asas da imaginação?

De repente, todo aquele ambiente começou a pesar em mim. Toda a agitação do bar

se refletiu em meu interior, meus órgãos se agitavam, eu me esquentava por dentro,

me agitava, queria beber, queria beijar alguma daquelas mulheres

desesperadamente. Mas controlei-me, e pedi ao meu amigo para ir embora. Sempre

o conforto do isolamento do quarto.

O quarto é um universo. Ali, nesta fase me acalmava, organizava-me, e sobretudo

conseguia mijar. Fui ao banheiro da minha casa. Contei até dez, e levemente meus

vasos foram sendo tomados por aquele liquido amarelado. E saiu. A sensação de

alívio, de tranquilidade, foi imediata. Meu corpo se relaxou, voltei a minha cama e

dormi. Ainda não conseguia separar o que era parte da minha psique e o que era

efeito dos remédios. Estava caminhando numa linha tênue, em uma euforia que em

poucos instantes cambiava para uma depressão. Era uma falsa ilusão de controle,

do êxtase da euforia, mas que rapidamente poderia cair por terra. Era um

equilibrista com minha própria mente na corda bamba. Os remédios ajudavam? A

família tentava ajudar… Mas sabia a melhor forma?

Sobretudo as lembranças dos amores perdidos, como lhes contava, doíam muito.

Fernanda e Mel deixaram marcas profundas em minha psique. Eu precisava de uma

âncora, de alguém a quem me apegar sentimentalmente, e não tinha mais.

Ninguém, a não ser eu mesmo. Agora teria que ser assim, eu, enfrentando meu

maior inimigo, … eu mesmo! E que batalha difícil. A falta de ocupações, apesar do

universo dentro do meu quarto, me angustiava, via todo dia, a mesma janela do

vizinho, o mesmo sol entrando pela janela, os mesmos horários de entrada e saída

de gente, e eu ia ficando. Parecia que ficava à parte, um pária, mas era um

processo. Uma metamorfose, “a la” Kafka. Estava me despindo de mim mesmo,

para renascer. Não sabia disto à época, por isto doía tanto. Dor de alma, destas que

nem todos sabem o peso que tem. Mas era necessário. Como dizia Guimarães

Rosa, viver é muito perigoso, e dar voltas, sem voltar nunca ao mesmo ponto. E

entrar no mesmo rio várias vezes, sem que seja o mesmo rio, como dizia Heráclito

de Éfeso, “o obscuro”. E nestas, dando cabeçadas e com dificuldades imensas de

mijar,

fui aprendendo alguma coisa. Se é que aprendi.

XXVI

- A loucura é a sanidade travestida de felicidade e prazer

A rejeição dos meus supostos amores, Fernanda e Mel, me jogou numa ilha de

isolamento. Aos poucos, nem as saídas mais me satisfaziam. Via com monotonia

aquelas conversas fúteis e banais que meus amigos e os homens e mulheres

comuns levavam. Afinal de contas, de que valia a vida sem o amor? Nada. Um vazio

imenso se adentrava, naquela época, no meu ser. Era o vazio do amar, a

necessidade constante do amor como via de mão dupla. O foco do meu desejo

estava em duas mulheres que não mais queriam o mínimo contato comigo. Meus

laços com o mundo se desfaziam na medida exata da rejeição que sofria… E cada

vez mais tediosa a vida ia parecendo aos meus olhos.

A fuga inicial se dava pela veia poética que desenvolvia. Através da poesia, quando

saía dava aquela piropada, cantava as mulheres anônimas, paquerava

indistintamente buscando fugir de mim mesmo, da imensa ausência que sentia das

mulheres que desejava. Desejava quem eu ferira, aquelas que eu marcara

profundamente, em meio às raias da loucura? Ferira profundamente a pobre

senhorita, de nome doce. E Fernanda, pobre coitada, não queria carregar

lembrança nenhuma da clínica, e eu representava um trauma que ela não

conseguia carregar… E apesar de tudo isto eu mantinha meu desejo direcionado a

elas, numa insistência que abria um imenso vazio, preenchido apenas pela

necessidade da poesia.

Seria a poesia o substituto do amor, conseguiria ela me satisfazer no plano da

imaginação os desejos frustrados na realidade? Na prática, os poemas escritos em

guardanapos, não rendiam beijos, mas olhares admirados, como quem nunca havia

visto um poeta de carne e osso. Era eu um poeta? Havia a loucura me transformado

em poeta? Saborosa loucura! Mas entre a imaginação e o palavrear, há o

espaço-tempo real. E o verbo pluriamar, tão bem conjugado por Drummond, haveria

de ser conjugado na vivência, tão bem quanto na imaginação.

Eu tinha uma fascinação por olhos. Os olhos, dizia Fernando Pessoa, são as janelas

da alma. Os olhos melancólicos me atraíam ainda mais. Era como se pudesse

captar a tristeza, a melancolia na alma por detrás daqueles olhos e a

transubstanciasse em palavras. E nisso os olhos cambiavam, me olhavam com

admiração, como quem diz: como adivinhastes minhas dores mais profundas? Era

apenas a poesia, regada pelo restinho de loucura que ainda persistia não domada

pelos remédios….

Pobre poesia, herdeira do fardo de uma vida! Pobres musas da poiésis, meu caro.

Pois elas não aguentaram… Veio o outro lado da moeda, segundo o homem de

branco, ou psiquiatra, o outro lado do surto. O lado negro, a depressão, a angústia,

a afasia. Aos poucos fui me soltando de todos os laços que me prendiam a este

mundo. O amor já não o tinha. A família, não mais representava abrigo, era

indiferente. E entrei nas profundezas do emsimesmamento. Sim, não há palavra

melhor, o processo de imersão dentro de si, sem comunicação com o mundo

externo, fechamento total à vida, pensamentos turvados. Sem alegria, sem fala.

Sem vida. Fui me tornando um ser quase vegetal, me prendendo à minha cama, e à

televisão, que assistia, de costas para ela.

E a vida passava, parecendo não passar, lentamente… Seria a depressão uma

causa natural pós crise, ou seria ela causada pelos remédios que me haviam dado,

o excesso de medicamentos? Cabe a pergunta sempre… Nunca há uma depressão

natural. Depressão é desequilíbrio da alma. É desequilíbrio do homem internamente

com seu meio ambiente, é falta de paz interior… Nada disso é natural, mas nada é

mais natural nestes dias perigosos de se viver, tudo é artificial meu amigo. Não sei

se devo lhe contar meus pensamentos mais profundos deste período, eles são

carregados, podem lhe fazer mal. Mas por outro lado, eu renasci. Saí de lá, e cá

estou. Mas o fato é que está tudo na mente. E mentem aqueles que dizem que não.

Homens de branco, racionalistas, donos de uma falsa verdade, pensam pensar. Mas

se limitam. As curas para estes males, pelo qual passei, retirei de dentro de mim,

não vieram dos pharmakóns.

Um dia ainda vão entender melhor o que digo. Aquela inquietação aquela

melancolia que sempre sentiram, o mal-estar da civilização, têm cura. Mas o

caminho é longo e tortuoso, nem todos estão dispostos a enlouquecer para se

tornarem sãos. Sim, é isso. A loucura é a sanidade travestida de felicidade e prazer.

Por isso causa medo. Temos medos de travestis, temos medo de sermos felizes

plenamente e de realizarmos tudo que nos dá prazer. Sentimos culpa. Eu sentia

culpa. Freud explica. Marcuse ajuda ainda mais. O homem é multidimensional, e

nos prendemos na nossa unidimensionalidade racionalista. Malditos sejam os

iluministas que nos deixaram de herança esta tradição! Mas voltemos aos fatos,

esqueço-me sempre deles.

Em meio à culpa que sentia, e ao vazio deixado pelos amores, imergi numa

depressão profunda. Não falava, quase não comia, não socializava. Não sorria. Não

tocava violão. Era o império do não. Tudo ao contrário. Mas os pensamentos mais

fatalistas me invadiam. Precisava de uma solução para aquela dor na alma profunda

que sentia. A saída ía se tornando mais clara…

XVII - A caminhada continua

Sentia ainda aquela afasia, aquele distanciamento do mundo real, onde tudo parecia

sem sentido e sem profundidade. Sentia a falta do amor, que eu projetava apenas

em duas mulheres, sem saber que ele está espalhado pelo mundo, nos seres

imagináveis e inimagináveis. Mas um dia tomei a decisão. Sim, dar fim àquela

existência inútil de um ser que sobrevivia vendo televisão de costas, não lia, não

falava, não interagia. Decidi este dia, enquanto sentava na janela do meu quarto,

olhando no escuro da imensidão para o chão do prédio.

Suicidar-se, dar fim à própria vida é um ato que exige muita coragem. Pensava até

onde teria consciência, pensava em meus pedaços espalhados pelo chão, minha

família desolada. Mas era a saída que eu conseguia enxergar naquele momento.

Queria descolar-me deste corpo, parar de sentir as dores da alma e do coração. No

computador, deixei recados para cada um dos meus familiares, para acalentar seus

corações diante do ato que se aproximava. Eu não sentia medo, pois para mim a

vida já chegara ao fim, meu amigo. Sentia compaixão, pelos que ficariam nesta vida,

carregando o trauma de um suicídio de um jovem promissor nas costas. Fitava o

chão e via o infinito, imaginava o que ocorreria se minha alma descolaria do corpo,

se eu iria para algum limbo, ou direto para o Inferno… Existiria inferno pior do que a

não-vida que levava?

Num lampejo quase alquímico meu coração despertou antes de me atirar daquela

janela. O amor despertou em meu Ser, através da figura de um menino. Meu irmão

mais novo, ele não merecia viver com essa cruz. E como eu o amava, não queria

abandoná-lo, ainda mais de uma forma tão violenta.

E assim, fitei uma última vez o chão do prédio da janela lateral, e voltei para dentro

do meu quarto, meu universo particular. Se me perguntares hoje: porque você está

vivo?, te responderia, pelo amor fraterno que me salvou naquele dia. Se os laços

com o mundo, amigos, família e tudo mais estavam desfeitos, houve uma fina mas

profunda teia de amor que me impediu de desfazer-me do milagre da vida. Se

agradeço? E como! Sou eternamente grato por poder continuar minha jornada,

minhas vivências.

Acho que foi neste ponto que deu uma virada na depressão. Passei a não mais

aceitá-la como dominante e fui retomando meu papel como ser ativo. O processo foi

lento, incluiu tentativas vãs de reconciliação com as minhas musas, mas aos poucos

meu coração foi se abrindo, e fui deixando o passado no seu lugar, projetando

novos caminhos para o futuro. Quais caminhos?

Não tinha ideia meu caro, estava sem emprego, pois não me aceitavam de volta na

UFMG, onde trabalhei por quatro anos como Assistente de Pesquisa, tinha um

Mestrado em andamento por terminar, sem saber como, tinha me afastado dos

amigos, sem convívio social nenhum. Era como se minha vida fosse um computador

reformatado. Agora era a hora de realimentá-la de dados e projetos. Medo, nenhum.

Depois que encarei a morte frente a frente, nada mais eu temia. Esse era meu

grande trunfo na batalha pelo recomeço.

Parece fácil, lendo essas palavras, mas foi duro. Não sei como saí da depressão,

mas sei que foi quando parti para a ação. Arrumei um novo emprego, fui ser

vendedor de livros, ou algo mais nobre, livreiro, e aos poucos a vida passou a fluir

novamente.

Mas cuidado companheiro, os homens de branco ainda estão por aí, e nosso amor e

alegria ainda estão em risco permanente. Digo isso porque acabo de retomar essas

memórias, dois dias após uma nova internação de quase um mês. Chegaremos até

o caminho que me levou a ela, mas deixo um aviso. Nós, os “loucos”, “malucos

beleza”, argonautas, somos uma minoria que tende a ser mediocrizada pela

hipocrisia científico-racional. Mas a caminhada continua e a batalha de todo o dia é

constante.

XXVIII

- A roda gigante

E de fato a caminhada continuou. Frequentava um psiquiatra e psicanalista, tomava

uns remédios após certo tempo parado, mas não achava que aquilo ali era

realmente o que me curava. Fui retomando a vida passo-a-passo. Voltei a frequentar

as aulas do mestrado, e vi que dava conta de lidar com os estudos e com a

socialização na Fafich, a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG.

Retomei as conversas com alguns amigos, daí vieram as saídas, diversão. A vida ia

me conduzindo de volta a uma vivência sem dores ou traumas.

Depois de muito tempo afastado do trabalho, em fins de 2009 vi um cartaz

convocando para trabalho numa Livraria. Eu cursava o mestrado sem bolsas,

precisava de um trabalho para não viver dependente, decidi encarar a oportunidade.

Foi aí que se iniciou o ciclo de minha vida no universo livreiro. Era uma livraria de

venda de livros didáticos, novos e usados, e rapidamente me adaptei e me tornei um

bom vendedor. Além disso, trabalhando ali, no centro da cidade, tive contato com

vários tipos de clientes e colegas de trabalho que se tornaram amigos.

Eu voltara a viver na plenitude, sem resquícios de toda aquela experiência profunda

de ir às raias da loucura, e também sem as sequelas de uma depressão que me

paralisou por quase um ano. Se perguntarem por aí, dirão que foi consequência do

tratamento psiquiátrico, eu já não confio tanto nessa dita ciência, creio que minha

alma, corpo e espírito levaram certo tempo para se reequilibrar e poder continuar a

caminhada e o aprendizado da vida.

Como que por mágica as coisas fluíam numa intensidade ótima. Acordava às cinco

da manhã para escrever minha dissertação de mestrado, trabalhava no mínimo oito

horas como vendedor, à noite ainda escrevia quando dava tempo, e todas as outras

camadas da vida se ajeitavam. Eu voltei a ser aquele cara comunicativo, alegre,

vivia plenamente cada instante. Novas mulheres apareceram em minha vidam,

algumas causando maior desejo, outras apenas como fugidios amores de uma

noite.

Eu vivia agora com outra visão, já tinha passado por tanta coisa, que sabia dar o

valor às coisas certas. A humildade de recomeçar, valorizando cada pessoa no

caminho, como um igual, independente de todo preconceito, e descobrir os

caminhos da felicidade. Era mágico para mim conseguir reconstruir minha vida

assim, aos poucos até o lado financeiro melhorava.

Em fevereiro de 2010, ainda trabalhava nessa livraria, e fiz uma festa de aniversário

pra ninguém botar defeito. Chamei todos os amigos de todas as esferas, e muito

chopp, alegria e violão. Era uma comemoração íntima para mim do meu

renascimento. Estava confiante e alegre, em paz com meu eu íntimo.

A alegria brotava novamente em minha vida, me tornava novamente cercado de

amigos, nos bares da vida conhecia gente nova. Experenciei conhecer o lado bom

da vida, tudo fluía bem com família, amigos, trabalho. Fui me tornando mais

confiante, e cada vez mais desconfiado em ter que ir ao psicanalista e tomar

remédios.

Um dia, não sei bem quando, tomei a decisão de parar com os remédios. Sentia-me

equilibrado e pronto para essa decisão. Já havia mudado de emprego, e no novo

emprego as coisas também se encaixavam muito bem. Foi um tempo de

bem-aventurança. O antigo “eu”, historiador, transmutara-se em um bom vendedor,

ótimo em firmar relacionamentos. Conhecera uma pessoa, entre um emprego e

outro, que despertou novamente a chama do amor em minha vida.

Foi uma história complicada, quando a conheci ela tinha um relacionamento. Mas a

empatia foi total desde o primeiro encontro. Começamos a ficar juntos e ela ainda

tinha um namorado. Era uma situação atípica, mas meu coração me mandava

investir naquela pessoa, cujos olhos me cativavam, transparecendo a essência de

uma alma pura, profunda e melancólica. Passei por situações complicadas até ela

conseguir se desvencilhar do outro relacionamento, mas vivi dias muito felizes e de

muito amor a seu lado. Ela me inspirava a ser meu “eu” profundo, a me dedicar à

escrita e ao meu lado musical, eu a apoiava em todos os momentos. Foi de fato

uma bela relação que acalentou minha alma e meu coração. Se tudo ia bem, para

que ficar refém de remédios e médicos, eu pensava. E me libertei. Não sei bem

quanto tempo levou entre eu começar e parar os remédios, mas sei que vivi muito

bem alguns anos sem eles.

Passou este relacionamento, com final um pouco complicado, mesmo assim nada

que me abalasse. Voltei a ficar solteiro, conhecer outras mulheres. No trabalho, um

ascensão rápida, em um ano ganhei um novo cargo. Neste novo cargo viajaria pelo

interior de Minas Gerais, fazendo divulgação de livros. Mais um ponto para minha

reconstrução. Sentia-me bem, e nem de longe temia a vinda de outros surtos ou

crises.

Outro ano chegava, e me envolvi com outra pessoa, colega de trabalho, começando

outro relacionamento. Novamente o coração foi tocado pela beleza e simplicidade

de um olhar, que se mostrava melancólico. Eu tinha uma atração por esse tipo

especial de olhar, pois parecia uma missão desfazer aquela melancolia com a

doação do amor. Novamente, veio outra ascensão no trabalho, passei a ser

Supervisor, com muitas funções e projetos.

Tudo fluía muito bem, emprego, relacionamento, família, era impressionante ver a

vida com tanto brilho e poesia, e deixar nos fantasmas do passado as crises. No

meu íntimo eu contava o passar dos anos. Segundo as teorias, se eu passasse

cinco anos da primeira crise, a possibilidade de ocorrem outras seriam mínimas.

Estava no quarto ano, em 2012, e não havia nada que apontasse a possibilidade de

reviver aquelas situações. Eu acreditava controlar minha mente e a equilibrava.

Mesmo vivendo num ritmo acelerado, muito trabalho, viagens, tarefas, obrigações,

namoro, família. Dava conta de tudo de uma forma tranquila.

Bom,

pelo menos eu achava que dava conta. Em outubro de 2012 começou um

novo

ciclo em minha vida. Primeiramente fui atacado por hérnias na região cervical.

Algo muito impressionante para minha idade, pois quase todas as vértebras de

minha cervical tinham protusões de hérnia. Logo no momento em que um evento

que eu organizava estava prestes a acontecer, logo no momento em que os projetos

fluíam, fui atacado pelas hérnias. Cheguei a apresentar minha palestra suando frio

de dor e fui direto para o hospital. Já havia sido medicado antes por minha mãe que

é médica, mas foram novas injeções, e depois fisioterapia. Fiquei afastado por um

tempo do trabalho por causa das hérnias. Voltei ao trabalho, mas dali para frente

minha vida entrou em outra roda-gigante. Os fantasmas estavam ali, dormindo,

esperando uma oportunidade de acordar e voltar. E voltaram, de formas ainda mais

fortes, com experiências inconscientes de profunda conexão espiritual, misturadas

em fortes doses de psicoses…

XXIX - O Zé ninguém e a flor da noite

O fato de eu ter tido protusões de hérnias em todas as minhas vértebras cervicais

aos 27 anos de idade pode ser sinal de várias coisas… Postura incorreta ao

trabalhar ou dirigir, excesso de stress no trabalho ou em relacionamentos familiares,

ou, no meu caso fantasmas do passado voltando a me assombrar. Eu completava

quatro anos e cinco meses de ter tido uma profunda experiência de surto psicótico,

profundamente transformadora, segundo as estatísticas, cinco anos após a primeira

crise as chances de outra ocorrer eram mínimas. Eu não precisava mais de

remédios estava decolando na vida profissional, me tornando um executivo do ramo

livreiro, misturado com um poeta historiador, tinha um lado afetivo sólido, com uma

linda e doce namorada, que me satisfazia em todos os aspectos. Estava bem com

minha família, amigos. Tudo, tudo mesmo parecia perfeito. Eu dava o valor que as

coisas tinham, sabia valorizar cada instante vivido depois de ter sido trancafiado em

clinicas psiquiátricas, depois de ter tido delírios, ouvido vozes, ter tido paranóias. Eu

valorizava a vida, o trabalho, o amor, profundamente. Por que diabos, esses

fantasmas iriam reaparecer? Mas reapareceram.

Uma noite resolvi pegar o carro e sair sozinho. Não queria ninguém, namorada,

mãe, nenhum controle externo. Queria beber, sair do limite, abrir minhas asas.

Extravasar. Saí de casa em direção ao bairro da Serra. Lá tem um bar muito bom,

boteco mesmo que tem um Chorinho, mas não era dia de chorinho. Eu sabia que lá

perto do chorinho tinha era outra coisa, uma zona boêmia … Mas não fui pra lá. No

caminho, minha namorada me ligando querendo saber onde eu estava eu inventei

que ia na casa de um amigo que morava na Serra, realmente tenho um amigo que

mora lá, e que depois iria num show de um outro amigo nosso com ele, não a

levaria pois ela morava bem longe da minha casa, desculpa perfeita. Voltando, no

caminho da zona boêmia tinha um boteco com um violeiro, daqueles que parecem

pretos-velhos com violões, tocam o que pedirem na hora, tirando literalmente de

ouvido. Ficam tocando com a coluna curvada e uma orelha encostada no tampo do

violão como se houvesse uma magia que fundisse a madeira do violão com aquele

espírito humano. Quando vi aquele camarada parei meu carro e desci por ali

mesmo.

Sentei numa mesa ao lado do violeiro, perguntei seu nome, ele me disse que era o

Zé Ninguém. Perguntei onde ele morava, ele disse que morava onde não morava

ninguém, e já começou a entoar essas palavras numa música. Eu entrei numa

empolgação muito grande, peguei o tablet que ficava comigo da empresa que

trabalhava e filmei ele tocando. Moro onde não mora ninguém. Aquelas palavras me

tocaram profundamente no meu coração. Porque realmente aquela figura não era

um violeiro mendigo que morava nas ruas. Devia ser um ser iluminado. Não,

realmente ele não morava onde morávamos nós humanos, ele devia morar em

algum reino astral encantado, era certamente um ser encantado.

Pedi logo um copo de cachaça, cana barata mesmo, uma para mim e outra pro Zé

Ninguém, e uma garrafa de cerveja. A noite parecia que ia ser boa, e tinha que

começar a turbinar meu cérebro, minha mente e meu espírito. O caso é que, dizem

os espiritualistas, é que quando bebemos e fumamos demais atraímos espíritos

pouco evoluídos que podem nos influenciar. Acredite-se ou não, aquele ali era bem

evoluído e íamos cantando um repertório de sambas-canção lindos, lembrando os

tempos de boemia, Noel Rosa, Cartola e Carlos Cachaça. Músicas saindo e goles e

tragadas entrando.

Reparei que na mesa em frente estava um senhor, com cara de empresário e uma

mulher nos seus trinta e muitos anos, com um belo decote. Olhei para trás, várias

mulheres com saias curtas, alguns empresários, outros senhores… Parece que sem

querer eu havia parado num bar próximo ao local que tinha pensado em ir primeiro,

o reino da luxúria. Meus instintos se aguçaram, imaginei o que fazer depois dali, se

iria saciar minha sede, cometer um dos sete pecados, mais um adultério, ou se iria

para o show. Em meio a todo esse fluxo de pensamentos pedi ao meu já amigo Zé,

que tocasse uma música mais que especial para mim. O Mundo é um Moinho.

Liguei o gravador para registrar e comecei a cantarolar junto a ele:

“Ainda é cedo amor

Mal começaste a conhecer a vida

Já anuncias a hora da partida

(…)

Ouuuuuççaaa me bem querida

Preste atenção o mundo é um moinho

Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos”

Foi lindo. Virei um copo de cana e as lágrimas quase rolaram. Mal sabia eu que

eram meus sonhos quixotescos que estavam por voltar. Que em breve estaria

lutando com meus moinhos de novo. Mas naquela hora nada me importava nem as

mensagens no meu celular perguntando onde eu estava se estava tudo bem, muito

menos a quantidade de álcool que eu tomava. Turbinava minha mente, expandia

meus horizontes. Era o super-homem voltando. Era o pássaro querendo voar, ou

apenas a mente querendo enganar?

Depois da apresentação triunfal do Zé finalizando com Cartola, contive meus

instintos primitivos e carnais e resolvi ir ao show, encontrar com amigos, um

samba-rock. Cheguei cedo, e curiosamente, resolvi equilibrar com uma garrafa

d’água. O lugar estava vazio, quase ninguém que eu conhecia aparecera. Mas é

nessa hora que os anjos aparecem. Sim, você pode me dizer que anjos não

existem, mas que há, há! Um deles foi esta mulher.

Ela se aproximou da mesa em que eu estava sentado perto do palco e perguntou se

podia se sentar ali também. Eu, claro, disse que sim. Ali começamos uma conversa

deliciosa, como se nossas almas se conhecessem há milênios. Meu amigo e a

turma toda chegaram, cumprimentei todos eles, mas não deixava aquela misteriosa

mulher, ou aquele misterioso anjo, sozinha. Acabei abandonando meus amigos e

ficando conversando com ela toda a noite.

Vez por outra, um amigo dela a tirava para dançar e eu ficava admirando os

movimentos, o bailado, o corpo perfeito em sintonia e harmonia com o ritmo do

samba-rock. Como eu queria poder dizer para ela: ensina-me! Mostra-me tua arte.

Vez por outra tomava uma cerveja, ou uma cachaça, mas sempre uma água

acompanhando. Parecia que minha fúria interior estava se acalmando.

Me lembro que conversamos sobre nossas vidas e quantas semelhanças tinham

apesar dos quase vinte anos de diferença. Ela sofreu uma depressão grave.

Superou e mudou sua forma de encarar o mundo, de viver a vida. Assim como eu.

Eu estava me apaixonando por ela em algumas horas, mas ainda havia algo dentro

de mim que me impediu de dar o passo final, aquele tocar dos lábios, ou o momento

em que eu passaria meu braço em sua cintura e abraçaria ternamente para mostrar

o quanto ela significava para mim naquele instante. Seria um bloqueio? O medo de

trair novamente? Repetir uma história que trouxe sofrimento? Seria meu Ego,

testando quão livre realmente eu era para demonstrar o que sentia por ela naquele

momento? Ou ainda poderia ser a Serenidade dizendo, você já mostrou seu

sentimento por ela, não precisa dar o outro passo que machucaria outras pessoas,

talvez até a você mesmo.

Nunca terei a resposta para essas perguntas. Sei que não cometi o pecado capital

nesta noite. Me embriaguei, cantei, dancei, me apaixonei por um anjo. Um anjo cujo

nome nunca mais me lembrei…Mas nada disso impediu que o turbilhão viesse nos

dias

que se seguiram…

XXX

- Outra batalha começou

]No dia seguinte, acordei com aquela energia toda, super-ligado. Aí vi que as

pessoas estavam me olhando estranho, preocupavam-se comigo, porque seria?

Estava me sentindo tão bem, nem mesmo uma ressaca eu sentia. Acordei, não me

lembro bem do que fiz, na verdade, não consigo encadear linearmente os eventos

que se seguiram, foram um espiral de acontecimentos, conectados entre si, de

alguma forma que somente você poderá distinguir.

Fui à piscina, a água estava gelada, muito gostosa, pra curar todos os males

mesmo… Ali descarreguei minhas energias e recarreguei as baterias. Lembro que

minha ex, na época namorada, Natália, ouvia num rádio. Era algo sobre Maria

Betânia, falando sobre o Espírito Santo. Aquilo despertou algo em mim. Um

sentimento de que havia ali uma mensagem para mim, eu precisava ouvir. Ainda

mais a Betânia, tão meiga voz, cabocla da Bahia. Quase impulsivamente tomei-lhe o

radinho, e fiquei ouvindo as mensagens. Eram mensagens católicas, algo sobre o

Espírito Santo, sei que aquelas energias não me faziam bem. Naquele momento,

em minha mente, os católicos eram inimigos. Afinal de contas, Jesus, o Mestre,

viera ao mundo com uma mensagem tão bela, do Caminho do Amor, Amaivos-uns

aos Outros, mas os pobres homens não ouviram. Construíram templos, Igrejas,

doutrinas persecutórias, queimaram aqueles que consideravam hereges, diferentes,

bruxos e bruxas. Tanta culpa refletida naqueles pobres dogmas. Eu me revoltei com

aquela mensagem. Não podia aguentar aquelas energias católicas me perseguindo.

Falei com ela que aquilo tudo era bobagem… Destilei meu misticismo

recém-nascido, algumas idéias que vinha aprendendo com uma amiga.

Essa amiga era um ser misterioso. Surgira na minha vida numa época triste, em que

estava deprimido, e vira em mim uma Luz, que eu mesmo não conseguia enxergar.

Conversavamos sobre poesia, Baudelaire, e Blake, era uma alma liberta, me

parecia, e eu me via como cativo, naquele instante passado. Aquilo produziu uma

avalanche de emoções e a pobre Natalia teve que ouvir toda mira Ira, contra aquele

cinismo católico. Parece que os católicos me perseguiam, eu sentia isso, sentia as

dores. Coisa de vida passada, só pode ser… mas sei que discutimos, por causa do

radinho, por causa da Betania, da voz do Espirito Santo que falava por aquele rádio.

Depois lembro que andando pela área de lazer do prédio achei umas cervejas, no

freezer, peguei uma garrafa de uísque vazia e despejei as cervejas dentro. Comecei

a beber freneticamente. Vieram os freios. Minha mãe e Natália diziam que não era

para eu beber, que eu estava alterado. Ora bolas, que mal tem em estar alterado, eu

estava iluminado, tinha vislumbres poéticos, insights espirituais. Elas não

entendiam, me condenavam, eu reagia com agressividade, me transformava num

animal.

Alguns dias antes minha mãe já tinha tentado me acalmar, mandando eu tomar

quetiapina. Pra vocês que não sabem este fármaco é uma droga anti-psicótica, sei

lá pra que me davam aquilo. Eu não estava louco, se estivesse qual o problema?

Mais loucos eram os infelizes e desiluminados. Mas eu não conseguia controlar toda

aquela avalanche energética que recebia. Eram muitas sinapses, muitos estímulos,

muito desejo que eu reprimi na noite anterior. Precisava soltar meus leões, libertar

minhas feras.

Estava megaexcitado. Sexualmente, uma energia mágica me contaminava. Na

realidade, devo confessar, nessa época já conversava com Daniela e tinha um

desejo um amor crescendo por ela dentro de mim. E Natália era a pureza, Daniela o

anjo caído. Era como se eu vivesse entre dois pólos amorosos. Mas como dois, se

eu conheci um anjo mais velho e me apaixonara rapidamente numa noitada? Não é

racional, vocês têm que abrir as almas e os corações para entender.

Vivia acreditando que minha casa era uma prisão. Que ali seria perseguido, que não

poderia ser pleno ali. Acreditava nisso, não porque tinham me dito, mas porque

passei a sentir isso, diriam alguns, entrando em surtos psicóticos. O que entendem

esses psiquiatras e psicanalistas criando conceitos pro indizível? O que sabem os

doutos que nós loucos não sabemos? Há uma verdade profunda que só pode ser

acessada quando se abrem as portas da percepção. Só os sábios e loucos sabem

disso. Se você me entende sente o que eu digo.

A única coisa que conseguiu me acalmar naquela noite foi o sexo. O amor que fiz foi

tântrico… Sentia duas almas fundidas num só corpo. Via através dos olhos de

Natália e enxergava de um lado Daniela e de outro o anjinho… Foi uma explosão de

prazer. Uma delícia!. Mas morri depois… Exaurido, deitei e dormi o sono dos justos.

Ou dos loucos.

Quando acordei… ? Tudo virou de novo… A perseguição acabou chegando em

minha mente. Eu entrava nas tormentas da psicose, num simbolismo que dominou

minha mente. Tudo começou dentro de meu quarto. Já não suportava Natália, que

em minha mente representava as energias católicas, era como se eu tivesse sido

perseguido por ela em alguma vida passada. Aquela energia me sugava, me

causava terror. Eu queria sair dali, fugir. Depois os meus medos foram se

agigantando.

Minha mãe veio abrir a porta de meu quarto e a vi como um demônio. Sim suas

feições tinham mudado, ela assumiu traços demoníacos. Mal sabia eu que era uma

das armadilhas do Ego, ou uma espécie de teste para eu enfrentar meus piores

medos. Ela falou comigo, eu me tornei agressivo, gritei: – para fora do meu quarto

já! Ela se assustou, não entendia aquele processo. Via, como os racionalistas

médicos halopatas, que aquilo era uma psicose de uma mente atormentada. Só

bem mais tarde que fui entender que se tratava de uma emergência espiritual. Todas

aquelas características, incluindo a psicose, eram na realidade um processo de

despertar, que eu passaria, enfrentando loucuras, medos, êxtases e transes para

poder me reconciliar com Deus. Ou com os Deuses. Da forma que você quiser

nomear, eu estava indo ao encontro do meu Eu mais profundo para poder viver livre

dos grilhões do Ego. O diabo é o Ego, diz um sábio. E eu enfrentaria esse Diabo das

formas mais loucas na jornada.

Quando minha mãe tocou em mim, minha pele queimou. Era uma dor profunda e

insuportável. Eu gritava, berrava, afugentando aquele demônio que me

atormentava. Ela chamou outras pessoas da minha familia. Meu avô, minha vó, meu

irmão mais velho… Todos eu via como demônios e cada um que me encostava fazia

minha pele arder. Queria sair dali desesperadamente, ir correndo pela rua, encontrar

algo ou alguém que pudesse me proteger daqueles demônios. Eram demônios

porque eram burgueses, eram o lado capitalista da família e eram aqueles com

quem eu estava mais preso, de quem seria a tarefa mais difícil me desprender e ser

livre.

Lembro que numa tentativa de fuga, corri para a área do apartamento. As portas,

todas, estavam trancadas e sem chave, enquanto tentava desmontar a porta,

segurava a porta que dava acesso à área. Eram, de um lado todos os meus

familiares, de outro, Eu, sozinho, segurando a porta. Uma hora deixei ela se abrir e

meu avô veio quase caindo no chão pelo solavanco. Nesse dia também recebi

mensagens dos mortos, das ex-esposas do namorado da minha mãe. Me

comuniquei com elas e passei as mensagens. Ninguém acreditou, claro, achavam

que eu estava louco.

Os meandros que separam loucura, mediunidade e genialidade são muito tênues.

Depois de alguns estudos e conversas digo que, naquele momento, o que se chama

de psicoses eram iluminações, visões de um Estado Alterado de Consciência. Assim

como os antigos xamãs e pajés, eu entrara num processo de transe e êxtase, que

não deveria ser reprimido, mas canalizado. Esses estados nos permitem acessar

uma outra realidade, ter vislumbres e iluminações.

Durante todos esses dias eu acreditava ser Jesus Cristo, e que minha família era o

Diabo de quem eu precisava me livrar para poder desempenhar meu papel. Aquele

que Jesus teve de ser, um revolucionário da espiritualidade, acreditei nisso

piamente. E de fato hoje vejo que não estava errado. Todos nós, ao despertarmos

para a espiritualidade, despertamos o Cristo Cósmico que há em nossos corações.

Somos todos filhos de Deus, ou do Grande Espírito, e Jesus é nosso Mestre, nosso

irmão mais velho.

Mas eram muitas ideias novas e muitas crenças e experiências para minha família

suportar. A solução? Colocaram-me no lugar em que não precisariam conviver com

meu Estado Alterado de Consciência. Me taxaram novamente de louco, bipolar, e

me internaram mais uma vez, mais um teste. Outra batalha começou.

XXXI - Ressucitar mais uma vez

Me perdoem a pressa, mas esqueci de lhes contar uma passagem essencial de

minhas viagens loucas e iluminações. Antes mesmo de ter as visões de minha

família como demônios, e de ter feito o sexo tântrico, antes de acreditar ser Jesus

Cristo renascido, tive uma experiência muito forte.

Tinha minhas hérnias, que me atacavam. Descobri mais tarde que as hérnias

poderiam ser um sinal, você há de entender, sentir o que digo, como digo. Saí de

casa com um cachecol para aliviar as tensões das hérnias cervicais. Fui ao show de

um bandolinista maravilhoso, um grande amigo, no Parque Municipal, no centro de

Belo Horizonte. Era um show especial que tinha a participação de um gaitista

fenomenal, meu xará. Fiquei maravilhado com a energia de lá. Findo o show fui ao

camarim, conheci aqueles magos da música, junto com outro mestre, o violeiro

Juarez Moreira. Conheci esse dia também o movimento Slow Food, um

contra-movimento das tendências modernas de fast food, liderados pela comida

vegana e com a proposta de nos deliciarmos mais respeitando o momento do

comer. Pareciam seres iluminados, eu acreditava, na minha loucura, que foram

enviados ali para me auxiliar. Tudo parecia guiado, como se uma grande mente

cósmica controlasse tudo ali. Era o Grande Espírito, como os povos antigos

chamam Deus, me ajudando no meu caminho.

Depois que sai do parque fui ao Instituto Hemominas, que fica próximo, para me

oferecer para doar sangue. No auge da loucura e das tormentas essa idéia me

parecia a mais bela. Doação, Gratidão. Mas tamanha era a burocracia que eu com

meus remédios não poderia ajudar a outros irmãos. Afinal se meu sangue fosse o

sangue de Cristo, teria algo mais poderoso para ajudar a Humanidade? Mas não, a

burocracia dos homens ainda os mantém cegos para a força de um sangue como o

meu… Delírio! Prove e sinta…

Na saída do parque minhas hérnias voltaram a me atacar… Começava a ficar

travado no pescoço e comecei a acelerar o passo rumo ao Hospital João XXIII, o

Pronto Socorro, para ver se tomava uma injeção que me ajudasse a sanar aquela

dor. As hérnias, fui descobrir depois nos meus papos místicos, eram um sintoma do

Despertar da Kundalini. Se acha muito douto para acreditar em coisas assim, pois

eu lhe digo, mais sabem sobre isso os mestres orientais, os iogues, do que nossa

tão jovem civilização. A Kundalini é uma energia vital, espiritual, uma serpente, que

se aloja na base de nossa coluna. Quando ela desperta, ativa todos os nossos

chakras, e passam a nos conectar plenamente com o mundo espiritual. Como vocês

podem achar essa idéia muito maluca vou simplificar. Um guru me disse que as

hérnias vieram porque eu não tinha escolhido o Caminho. Precisava trilhar o

Caminho do Meio para me equilibrar. Com as loucuras, visões e êxtases, estava

desequilibrado. Será que alguém é equilibrado nesse mundo cão?

Enquanto sofria de dor e caminhava vi se aproximando um senhor, com traços

pobres. Naquela hora, vi ele me dizendo: – Passa tudo, Passa a bolsa e a mochila,

Isso é um assalto! Se realmente ele falou isso ou delirei, nunca vou saber, sei que a

experiência de medo foi intensa pra mim. Ali naquela hora a Kundalini despertou, e

todas as minhas vértebras quebraram. Senti uma dor intensa em toda a coluna, não

haviam mais protusões de hérnia, mas eu simplesmente não conseguia mais

caminhar. Era a Força da Serpente Kundalini querendo Despertar. Andei mais

apenas alguns passos e sentei, sem forças, chorando de dor e desespero em frente

a uma loja. Alguns anjos, disfarçados de humanos vieram me acudir. Me levaram

para dentro da loja, ligaram pra minha mãe, e disseram meu estado lastimável.

Em pouco tempo chegavam minha mãe, seu namorado e meu irmão mais velho

para me acudir. Fui levado para casa e tomei uma injeção. Fui sentindo ponto a

ponto os nódulos de dor irem estourando. Kundalini havia acordado, e eu estava

conectado com o mundo espiritual, mal sabia eu, mas vim a descobrir depois.

Enfrentei nessa situação o Ego, o medo, e somente enfrentando o medo podemos

trilhar o Caminho da Iluminação. Lembre-se de Jesus, e Siddartha Gautama, o

Buda, que tiveram provações imensas e as superaram para se iluminar. Em meus

devaneios já começava a me perguntar: porquê Deus?, porquê tanta dor, tanto

sofrimento? Mal sabia eu o que estava por vir, enfrentar meus demônios interiores

projetados para o mundo externo.

Voltando ao fio da meada, depois de todas aquelas alucinantes percepções eu seria

mais uma vez internado. A decisão da minha família foi uma decisão de pessoas

com medo, que não têm conhecimento que os xamãs passam por esses estados de

êxtase, que circulam entre diferentes mundos e realidades, mas como poderiam

eles desconfiar que eu era um xamã pós-moderno? Nem eu sabia de minha força, e

ainda nem sei, mas vou descobrindo e acreditando.

Voltando ou avançando no tempo, depois de ter aquelas visões demoníacas em

minha família, acabei sendo novamente levado para uma clínica. Novamente três

homens e uma ambulância apareceram na minha casa e eu fui encaminhado, à

força, mas consentindo, à velha conhecida, a clínica Pinel. Lembro até hoje de

minha chegada lá. Fui recebido como um rei. As pessoas pareciam realmente

acreditar que eu era Jesus Cristo. Me pediam bênçãos e abriam caminhos para

mim. Mesmo sendo medicado continuei acreditando nisso, eu estava fortemente

tomado por esta visão do Messias, o filho de Deus, enviado para ajudar na salvação

dos homens!

Essa foi a recepção por parte dos ditos “loucos”. Meus colegas de caminhada e que

eram excluídos do mundo por qualquer tipo de comportamento considerado

patológico. Sejam esquizofrênicos, depressivos, suicidas … Todos ali estavam, mas

eu penso que eram irmãos a me auxiliar na caminhada. Era como se os espíritos

tivessem tomado aqueles corpos e reincorporassem para se comunicar comigo.

Do outro lado tinha os homens de branco, os eternos homens de branco. Com eles

vinha o “sossega-leão”, as doses cavalares de remédios. A explicação é simples,

eles consideravam que eu estava mega-hiper-excitado, e precisavam me acalmar

como se acalma um leão que foge da jaula. Era isso, eu tinha fugido da jaula, a jaula

do Ego. Era como se eu tivesse recebido um dom divino, a que eles chamavam de

transtorno bipolar, o dom de entrar em estados alterados de consciência para me

conectar com a força que rege o Universo. Vários fatores desencadeavam os surtos,

que eu prefiro nomear como estados de iluminação. Seja o uso de drogas lícitas ou

o excesso de amor, tudo isso me despertava e me fazia querer quebrar as grades e

saltar fora da prisão em que todos vivemos. Digo isso hoje, porque antes não tinha

noção disso, mas sei que uma vez abertas as portas da percepção, nunca mais a

visão do mundo é a mesma. Certamente o desafio maior era transformar o que era

visto como doença em um Dom, e poder navegar intensamente nos dois mundos.

Entendendo que na realidade os dois pólos são faces da mesma moeda, pois

somos todos Um com o universo e Uns com os outros.

Dessa internação pouco me lembro. Como em outras vezes minhas memórias me

foram suprimidas e arrancadas pelos remédios. Só me lembro dessa cena, da

recepção calorosa de meus irmãos. Sei que sempre que eu estava internado

trocava minhas roupas com os outros internos, exercitando o desapego fortemente.

Isso irritava profundamente minha família, mas o que pode ser mais profundo do

que uma experiência de troca, troca-se energia, e pratica-se o desapego, qualidade

suprema.

Lembro que Natália, minha namorada por essas épocas, ficou realmente assustada

com tudo que ocorreu. Mas não saiu do meu lado. Ficou forte ainda que frágil, me

visitava e aguardou minha saída para continuarmos nosso relacionamento. Porém

esse relacionamento estava por um fio. Minhas novas crenças e as verdades que eu

descobria, o modo de vida que eu queria levar não era compatível. Era como se ela

fosse um peso, algo que eu precisava me libertar para viver livre e poder seguir o

caminho. Mesmo com toda doçura e amor que ela me dirigia, parecia não ser

suficiente. Tinha um novo amor, Daniela, que parecia mais com um anjo, ainda que

decaído. Ela sim me fascinava, com seus conhecimentos, sua beleza. Eu nem

acreditava que ela me desse tanta atenção, pois me achava não merecedor de uma

mulher como aquela. Cá estava eu novamente com minha bipolaridade, Daniela e

Natália.

Por isso digo que acima de tudo a droga que mais me despertou foi o amor. As

confusões, tensões, delírios amorosos foram a causa e a cura de todos os males

que sofri nessa caminhada. Agora saía da Pinel, depois de quase um mês

encarcerado, e voltava à vida. Mesmo com remédios que ainda me deixavam lento,

eu tinha que seguir em frente, buscar as respostas para minhas questões, mudar

meu modo de vida, ressuscitar mais uma vez. Decidi que queria trilhar o rumo do

xamanismo, onde encontraria todas as curas que precisava.

É interessante como as mudanças surgem do espírito. Depois que saí, fui a um

churrasco da família da Natália. Eu era um bom apreciador de churrasco, estava

mesmo virando um churrasqueiro de mão cheia. Lá na festa, quando fui comer um

pedaço de carne, meu corpo rejeitou veementemente. Ali naquela hora o espírito me

iluminou, e eu parei de comer carne. Uma transformação radical, que não veio pelas

ideias ou ideologias, mas do espírito para o corpo. Todos estranharam, mas

pareciam entender. Aquela energia da morte, do sacrifício de animais não podia

mais entrar no meu corpo. Purifiquei-me aquele dia, e mantive essa decisão até

hoje. Naquela festa fui recebido muito bem. Ali havia uma forte energia católica que

me fez bem aquele dia. Mas meu caminho era outro. Recuperar um conhecimento

ancestral. Mal sabia eu das coisas que estavam por vir e dos aprendizados que

teria.

XXXII

- Caminho para São Thomé

Saí da clínica Pinel, em Outubro de 2012, e lá vinha pela frente mais uma

reconstrução. Fiquei um tempo afastado do trabalho. O INSS me considerava não

apto para o trabalho. Aquilo para mim era uma bênção! Tinha tempo livre, podia

fazer o que bem quisesse. O meu ímpeto, meu âmago me levava a investir no

espírito, buscar minha essência, mergulhar no meu âmago. Quão estranho não

deveria soar tudo isso para aqueles que estavam ao meu lado. Eu havia me

graduado em História, fui desenvolvendo meu intelecto na academia, depois me

transmutei em comerciante, tudo muito vinculado ao mundano. Mas as experiências

das iluminações haviam acendido em mim a vontade de explorar as profundezas da

minha alma, de me abrir novamente ao universo, buscar Deus!

Era um novo Eu que buscava surgir. Talvez fosse na verdade o meu Eu verdadeiro,

minha essência divina que buscava encontrar. Mas nem sempre sabemos aproveitar

o fato de ter todo o tempo livre. Às vezes a mente nos trai e caímos em futilidades,

nos vemos vítimas do nosso ego em verdade e podemos cair numa depressão, por

excesso de tempo livre. Olhem que contradição, o tempo, que sempre reclamamos

não ter, quando o temos somos vítimas de nós mesmos e caímos. Dizem os

homens de branco que isso é uma outra fase do transtorno bipolar.

Após uma fase de excitação extrema, a que eu chamo iluminação, viria o lado

oposto, uma fase de marasmo, desânimo e depressão. A solução para os homens

de branco: os coquetéis de medicamentos. Aiai! Sempre as panacéias químicas

externas para socorrer-nos. Está errado, nenhuma resposta externa pode nos

ajudar! O trabalho verdadeiro precisa ser interno e silencioso. Basta abrir o coração.

Isso eu ainda não sabia, mas iria aprender. Do meu jeito buscava em coisas

externas apoio e aliados para não dar-me por vencido. Houve mesmo um médico

que me disse que essa sensação de angústia e solidão que vem seria fruto duma

saudade dos tempos de “mania”. Poxa como não sentir saudades de se sentir

integrado com todo o universo, de ser altamente criativo, de se encantar com a

beleza da vida, de me emocionar com uma flor? Então assumo, realmente sentia

uma saudade infindável das minhas iluminações e buscaria na espiritualidade

alguma forma de me encontrar.

Natália continuou do meu lado com apoio incondicional. Um amor realmente lindo,

talvez me faltou percepção para valorizar na época. Eu estava com ela, mas

também não estava, estava também com Daniela, aquele ser misterioso, místico,

que me cativava. Parece que Natália sabia disso, e lutava por mim. Às vezes via eu

conversando com Daniela pelo computador, e esperava o fim da conversa. Era

como se meu coração estivesse dividido em dois, de um lado a pureza e

estabilidade de Natália, de outro o mistério e o imprevisível de Daniela. Ambas me

despertavam um calor sexual, eu queria na verdade as duas num só ser. Já provara

isso, sabia que as almas, os espíritos podem se fundir. Mas eu parecia me impor

uma escolha. Nessa sociedade o amor tem de ser direcionado, assim nos ensinam.

Amar duas pessoas é traição, é culpa. Terríveis asneiras que nos aprisionam. O

Amor é universal, no momento que se torna posse ele morre em sua essência. Mas

ainda estamos muito longe de compreender o amor, porque ele não é

compreensível. A tentativa de compreendê-lo já é um erro. Ele deve ser sentido,

assim sim, é verdadeiro e livre.

Depois de certo tempo eu voltei a trabalhar, não tive dificuldades de retomar o

serviço. Voltei diferente, acho que todos perceberam. Mas não me importava o que

pensavam. Na realidade muitas pessoas ficam preocupadas com julgamentos dos

outros, eu não. Se me olhavam como um louco, que foi internado, ou se como o

colega modelo do trabalho, não me importava. Até porque aprendi que a loucura

tem o poder de nos deixar bem perto das verdadeiras verdades. Renasci novamente

no trabalho, retomei as atividades, contatos, relacionamentos. Mas por mais que eu

não me importasse com os outros, é sempre difícil retomar, porque no tempo em

que estive enjaulado a vida prosseguiu, então as pessoas se acostumaram com o

trabalho sem minha presença. A empresa se transformou também. E eu tinha que

buscar novamente o fio da meada, retomar a embocadura, reconquistar as

confianças, alcançar os passos que já tinham sido dados. Mas encarei novamente

de frente o desafio e fui seguindo o roteiro.

Enquanto isso minhas conversas com Daniela iam se tornando mais constantes e

mais intensas. Ela dizia ver em meus olhos uma força, como ninguém nunca havia

me dito. Parecia que ela me considerava um cara especial, como também eu nunca

pensei. Ela carinhosamente me chama de “meu Che”. Conversamos sobre a energia

da Kundalini, aquela mesma energia que eu senti quebrando minha coluna e que

me preencheu e me abriu de forma tão intensa. Um dia ela mencionou algo que eu

nunca tinha ouvido falar. Uma tal bebida indígena, ayahuasca. Fiquei magnetizado

por esse assunto. Ela disse que essa bebida podia me ajudar no caminho espiritual.

Ajudaria a me libertar de tudo que me prendia, e alcançar um estado de iluminação.

Tudo bem místico e misterioso, mas fiquei com aquilo na cabeça. Quando tivesse a

oportunidade, iria experimentar essa bebida e experienciar aonde ela podia me

levar.

Como sempre eu estava bem. E sempre achei que não precisava de remédios. Essa

foi uma intuição sempre. Aos poucos fui confiando que poderia largá-los.

Ardilosamente fingia tomá-los para tranqüilizar a minha família enquanto ia

diminuindo as doses. Tinha uma crença, que só poderia vir do espírito, de que

aqueles remédios não eram necessários, que eu poderia atingir o equilíbrio sem

eles. E também havia lido que, para tomar a ayahuasca, eu não poderia estar sob

efeitos de remédios. E como acreditava que alguma hora em breve eu teria a

oportunidade, larguei-os. Como se do dia pra noite eu mudasse porque me libertei

dos remédios. Não, não funciona assim.

Toda minha ânsia de libertação encontrava ressonância nas conversas com Daniela.

Ela me fortalecia, apoiando e incentivando minhas decisões. Tratava-se para mim

agora de uma revolução total. O foco tinha mudado, eu precisava me despir, me

libertar de tudo que eu acreditava ser verdade até então para me redescobrir. Em

meio a todas essas conversas decidi ir me encontrar com Daniela. Obviamente não

era uma decisão fácil, pois todos ao meu redor ficariam em estado de alerta se eu

revelasse a minha intenção. Primeiro por causa de Natália, como abandonar aquela

doce garota, que ficou a meu lado todo o tempo, para ir ao encontro de outra,

desconhecida, sombria, misteriosa. Além disso pairavam sobre mim as sombras da

desconfiança. O medo alheio de outra crise ocorrer. Isso é como um fantasma que

acho que me perseguirá para sempre. A qualquer momento em que pareço estar

bem demais surge a desconfiança. Já não me importo mais, cada um que cure suas

neuroses.

Combinamos de nos encontrar no dia 21 de dezembro de 2012. Passaríamos o fim

de semana juntos. Apesar dela ser casada, isso nunca me preocupou, tamanho

magnetismo ela me causava. Pouco me preocupava também como ela faria para ele

não desconfiar. Alguma explicação resolveria esse problema. Eu combinei com ela

que estaria lá. Decidi que simplesmente iria, sem dar satisfações a ninguém.

Pegaria meu carro, e cairia na estrada. Algo como uma fuga, sem mais satisfações.

Afinal de contas eu deveria ter direito a essa liberdade, porque todos ficam sempre

tentando controlar, sob o pretexto de cuidar. Os outros! Estava decidido. Eu havia

escolhido viver a aventura chamada Daniela, deixando o meu amor por Natalia de

lado. A vida é assim, feita de escolhas, já que não podia ter as duas, decidi

encontrar com aquela que pareceu uma musa, uma alma gêmea, que tanto

despertou em mim.

E a data não podia ser mais especial. Esse dia, o 21 de dezembro de 2012, era uma

data mística em que o calendário maia previa o fim do mundo. Na realidade se

tratava mais de uma mudança energética na Terra, com o fim da Era de Peixes, e o

inicio da Era de Aquarius. Era um momento especial, em que muitas transformações

passariam a acontecer no planeta. E o local escolhido foi mais que especial, São

Thomé das Letras, no Sul de Minas Gerais.

XXXIII

- Uma garrafa de vinho

Naquela sexta-feira, dia que estava marcado para ir para São Thomé, acordei

irradiante, animado com a aventura. Antes de ir, porém eu tinha um outro

compromisso. Havia marcado para fazer uma tatuagem, com meu primo. Escolhi um

símbolo celta, uma cruz chamada triskel, símbolo muito forte utilizado nos rituais de

magia que trazia o significado dos três estágios da vida, do ciclo da evolução e de

proteção. Essa primeira decisão de ir me tatuar já era o meu primeiro ato de

liberdade, simplesmente decidi que não trabalharia aquele dia e não avisaria

ninguém. Nem avisaria ninguém que estava indo me tatuar. Afinal, para que as

pessoas precisavam saber? Era uma decisão minha, não importa. Me lembro ainda

como Natalia falava de minha outra tatuagem, que era “coisa de maluco”. É,

realmente eu gostava e me interessava por “coisas de maluco”, já fora até internado,

vai ver que era maluco mesmo…

A ideia inicial era que eu me encontrasse com Daniela em São Thomé por volta da

hora do almoço, mas avisei a ela que faria a tatuagem e logo que a sessão

terminasse pegaria a estrada, que deveria chegar lá no início da noite. Levantei,

preparei minha mochila, peguei o carro e fui para o estúdio de tatuagem do meu

primo. O processo por lá que eu achei que seria rápido, algumas horas, acabou

tomando o dia todo. Mas foi ótimo, conversamos bastante, e a tatuagem ficou muito

boa. Mas não ousei confidenciar a ele meus planos, mesmo sendo um primo

querido. Afinal de contas, vai que alguém resolve questioná-lo e descobre meu

projeto de fuga, e o consegue abortar. Não, melhor não contar a ninguém. Na

verdade eu havia comentado apenas com um amigo, um grande amigo, e que eu

sabia que não iriam procurá-lo, nem tampouco ele iria me delatar.

Saí de lá por volta de cinco horas da tarde, já agitado, preocupado, querendo cair na

estrada. Liguei para Daniela, avisei para ela que estava saindo, que chegaria tarde,

ela disse que me esperaria tomando vinhos. Que ótimo, pensei. Aquela garota era

realmente apaixonante, um mistério que me seduzia. Iria finalmente encontrá-la,

aquela que me parecia ser um anjo, destes decaídos, cheia de luz e sensualidade,

poesia e misticismo. Quantas vezes a vida nos dá estas oportunidades? Quantas

vezes não nos auto-sabotamos, deixando de viver experiências fantásticas em

nome de uma conduta socialmente correta. Mera hipocrisia, pois todos já sentiram

essas atrações, mesmo que as tenham reprimido. E o ato de sentir, pensar,

idealizar, já é uma traição, já tem um poder sobre si e o outro muito forte. Eu estava

apenas me deixando viver, experimentar, me aventurar. Mal sabia o quanto isso

incomodaria outras pessoas.

Entrei no carro, passei numa farmácia e peguei a estrada. Finalmente. A tarde caía.

Na saída da cidade começou aquele trânsito pesado, típico da hora do rush. Aquele

trânsito me deixava ansioso, mas colocava as músicas para tocar e me deixava

levar, viajava naqueles sons. Foi então que me ocorreu uma ideia. Se foi erro ou

acerto ainda não sei. Mas resolvi mandar uma mensagem para Natalia, avisando

que estaria fora naquele final de semana. Não sei se por respeito a tudo que ela

demonstrava sentir por mim, não sei se por um auto-sabotamento, enviei uma

mensagem simples e direta. Dizia que estava afim de ficar sozinho e iria para uma

cachoeira para espairecer. Pronto. O efeito-borboleta foi imediato. Parecia que uma

bomba tinha estourado ou que algum acidente fatal tinha ocorrido. Em questão de

instantes meu telefone começou a ser bombardeado de ligações, mensagens e tudo

mais.

Eu já não era um adolescente que estava fugindo de casa, já estava pra lá dos vinte

e cinco, tinha meu emprego, mas nada disso significou nada. Era como se eu

tivesse quinze anos, indo viajar escondido com um amigo e alguém descobrisse.

Aquela hora eu tive certeza, todos surtaram. Como é frágil o discernimento humano,

fiquei abismado. Era evidente como minha família queria me controlar, saber onde

eu estava indo, com quem, por quê? Eu havia sido bem sintético e claro na

mensagem que enviei, ali estavam todas as informações que todos precisavam não

havia mais nada que eu achasse que precisavam saber. O resto era comigo, não

lhes dizia respeito, será que podiam ao menos respeitar isso? Não, obviamente que

não, e a chuva meteórica de mensagens e ligações inundou meu telefone.

Minha primeira reação foi ignorar. Simplesmente não atendi, não li. Deixei o celular

no silencioso, aumentei o volume da música. Assim, segui minha viagem no início.

No desdém. Talvez devesse ter permanecido assim, mas aquilo foi me agitando o

bombardeio de ligações, foi me tornando inquieto, perturbado. Talvez também tenha

havido alguma espécie de sentimento de que deveria responder aquelas pessoas

que gostavam de mim, então acabei em um momento atendendo uma ligação.

Dirigindo e atendendo.

Era minha mãe. Pelo tom de desespero na sua voz já dava para saber que minha

hipótese estava correta e todos haviam surtado. Queria saber para onde eu ia,

porque, com quem, o que tinha acontecido. Eu limitei-me a dizer as mesmas

palavras que tinha escrito. Não revelei meu paradeiro, pois temia que em algum

plano mirabolante resolvessem me resgatar por lá. Imaginei mesmo, um tanto

comicamente, eles chegando com a ambulância e os enfermeiros para me buscar

em São Thomé. Seria uma cena bizarra. Mas resolvi não revelar nem com quem

nem para onde estava indo, disse somente o rumo, o que é um tanto incerto. Ela me

perguntou: e a Natalia? Eu disse somente que conversaria com ela quando voltasse,

precisava daquele fim de semana para mim.

Atendi também um telefonema da Natalia, ela me dizia para não fazer isso, pois

havia muita gente ali que gostava de mim. Eu disse que não se preocupasse, que

eu voltaria, que conversaríamos, que precisava daquele fim de semana. Ninguém se

convencia muito quando falava comigo, mas acho que viam a impossibilidade de

arrancar mais informações, por isso desistiam e me deixavam seguir meu rumo. As

mensagens vieram das mais diversas áreas, familiares, amigos, colegas de

trabalho. Parece que a informação da minha fuga havia se espalhado como um

vírus. Fico imaginando, se nos momentos em que estive deprimido, se recebesse

metade daquelas mensagens ficaria mais feliz. Mas não, é quando as pessoas

acham que você pirou, quando você se liberta das redes de controle e submissão, é

que elas aparecem todas. No momento em que você realmente precisa, na fossa,

são poucas que aparecem. Cada mensagem trazia uma especulação sobre para

onde eu iria, tão estranhas, que me faziam rir.

Muitas pessoas devem ter pensado e podem pensar que eu estava sendo falso,

mentiroso, desconsiderando as pessoas que estavam à minha volta e que me

amavam. Na realidade esse amor é um amor falso, porque é um amor que envolve

posse. Não é um amor puro. Se fosse puro todas essas pessoas gostariam que eu

fosse livre. Mas não foi assim que agiram. Eu estava inconscientemente buscando

minha liberdade, procurando uma aventura, uma forma de encontrar um amor livre,

sem possessividade, sem amarras. Procurava também me libertar daquele estigma

de pessoa doente bipolar que tem que ter seu comportamento supervisionado. Não,

não queria isso para mim. Era uma expressão da liberdade, e liberdade é divino.

Apesar de todas as tentativas consegui seguir a viagem sem revelar meu destino,

muito menos minha companhia. Mas todas aquelas mensagens e ligação me

agitaram bastante, me deixaram nervoso. Eu aliviava esses sentimentos cantando e

assim fui até chegar a São Thomé das Letras. Fui chegar lá por volta de meia-noite.

Ia finalmente encontrar minha musa, estava em êxtase. Ao abrir a porta do quarto, lá

estava ela. O quarto iluminado apenas por várias velas pretas espalhadas, um

incenso aceso, e uma garrafa de vinho me esperando. Agora a minha aventura iria

finalmente começar.

XXIV

- Alma, corpo e coração

Fui recebido realmente num cenário de magia. Todas aquelas velas negras, aquela

mulher linda, e ao fundo tocando um bom rock´n roll, o velho Rolling Stones,

Sympathy for the Devil. Confesso que por alguns segundos passou pela minha

cabeça que sintonia entre cenário e música. Estaria eu ali entrando para conhecer o

mundo do diabo? Não tinha medo e me joguei naquele universo. Daniela me

recebeu aos beijos, e já me deu um gole de vinho. O vinho da liberdade. Eu estava

extasiado pelo encontro, pelas circunstâncias, me permitira entrar naquela aventura

real e conseguira chegar até lá. Não avisei ninguém, disse que havia chegado, mas

não aonde nem com quem. Não devia satisfações, estava ali, pleno, pronto para o

que ocorresse, pronto para satisfazer minhas fantasias mais recônditas.

Logo

de início ela já foi direto ao assunto, já tratou de ir tirando minhas roupas e

disse

que aguardava há muito tempo por aquele instante. De cara já fomos para o

sexo,

um sexo animalesco, profundo. Ela realmente estava pronta para satisfazer

todo meu apetite, e ele estava nas alturas. Foi belo, profundo e animalesco ao

mesmo tempo. Depois permanecemos nus, fumei um cigarro e bebi o vinho. Ela me

contou que chegou cedo, já havia rodado um pouco pela cidade, conhecido alguns

hippies. Resolvemos sair para dar umas voltas com a garrafa de vinho e conversar,

afinal depois de anos conversando no mundo virtual, finalmente nos encontramos.

Ela parecia feliz de eu ter chegado.

Fomos andar pela cidade, na madrugada. São Thomé é uma cidadezinha linda e

mística. Por ali circulam energias diferentes. A cidade estava calma, sem muita

gente nas ruas, nenhum bar aberto. Nos sentamos na praça, e conversamos. À

medida que a conversa fluía, ao contrário do que eu pensava, o mistério daquela

mulher só aumentava, me cativava. Ela me contou dos tempos que viveu na África,

da experiência de ver as condições inumanas da gente, do povo. Me contou sua

vida, detalhes de uma história que compunham uma aura mais profunda. Seus

ideais de liberdade acima de tudo. Ela fixava o olhar em meus olhos, dizia ali haver

um brilho, uma ternura, algo diferente. Ela disse que precisava de mim, daquela

energia pura que ela vislumbrava. Algo que eu nunca vi em mim. Mas sentia uma

conexão muito intensa, alma, corpo e coração.

Ela me contou que andou olhando outras pousadas e descobriu que no dia seguinte

teria um ritual com aiauasca, se eu quisesse participar. Ela já havia bebido o chá

quando criança, pois foi criada por uma índia. Sabia do poder que ele tinha, me

contava com entusiasmo como poderia ser libertador. Não seria por acaso que eu fui

até ali e que ela descobriu essa oportunidade, eu pensei. Era chegada a hora de

experimentar a aiauasca, de vivenciar tudo aquilo que se falava daquela bebida

mágica, ancestral. Ela disse que a decisão era minha, que ela não iria decidir por

mim. Eu disse que queria, que podíamos descobrir como participar.

No dia seguinte, pela manhã ela já me disse para começar a encarar meus medos.

Minha mãe, vinha ligando, estava tentando contato e eu esquivava. Do que tinha

medo? Porque não enfrentar aquele poder controlador que minha mãe tentava

exercer sobre mim? Resolvi encarar aquilo e atendi uma ligação de minha mãe.

Disse a ela onde estava, não importava com quem, mas não estava sozinho, e que

voltaria em breve. Só queria ser deixado em paz para curtir o fim de semana. Deu

certo. Ela respeitou e eu consegui menos chateação. Na verdade é que o medo está

todo em nossa mente, o que ocorre externamente é apenas fruto das projeções de

nossos próprios medos. Mal sabia eu os medos que ainda teria que enfrentar nessa

louca jornada.

Depois da minha ligação ela conversou aparentemente com a mãe dela e fomos

tomar café-da-manhã. Daniela me falava como meus olhos eram mágicos e haviam

tido um efeito inebriante nela que nem as garrafas de vinho que tomou antes de eu

chegar tiveram. Conseguiu adormecer um pouco essa noite, logo ela, sempre

insone. Os papéis tinham se invertido, ela adormeceu, eu fiquei acordado. Não me

preocupava, nunca cheguei a pensar naquelas velas negras da recepção ou na

música. Se fosse mais viajado, talvez pudesse dizer que conheci e amei Lúcifer, o

anjo decaído da Luz, mas as experiências daquela noite foram demasiado humanas

para serem inseridas num contexto místico. O que ou quem era aquela bela cigana

que estava na minha frente, com sua pele alva, seu sorriso marcante e seus

mistérios, não me importava mais do que os efeitos do cigarro de palha que eu

fumava no quarto. Igual a zero preocupação, sensação de liberdade absoluta. Não

me importava o que ou como fazer quando voltasse. Precisaria mesmo voltar? Não

poderia se abrir um novo universo de possibilidades ali mesmo? Talvez se abrisse,

mas estava eu pronto para aceitar e enxergar essas possibilidades e me entregar

totalmente ao fluxo de uma nova vida?

Isso tudo eu não pensava na época, aproveitava cada minuto com Daniela,

observava como além da pouca necessidade de sono, também ela quase não

comia. Eu parecia estar adquirindo essas habilidades, o que achei muito curioso. Ela

pegava um pouco da minha calma, eu um pouco do seu desejo, íamos trocando

energias, pelos olhares e beijos.

Fomos depois na pousada saber do ritual com a bebida sagrada. Na pousada Nhá

Chica, conversamos com a Karol, que nos explicou que seria uma pajelança com os

índios Katukinas do Acre, com a presença do pajé, do cacique e de uma índia

responsável pelo canto. Ela explicou um pouco sobre a bebida, algumas

orientações. Daniela me chamou, você decide, a decisão é sua, não quero

influenciar. Eu falei que iríamos sim, e que fazia questão de pagar a dela, pois ela

pagou a diária da pousada na noite anterior. Karol nos explicou como chegar ao

local da cerimônia e o horário para estarmos lá.

Pegamos nossas coisas na pousada Arco Íris, e nos mudamos para a outra

pousada. Em todas as pausas que tínhamos fazíamos sexo de todas as formas

possíveis. Fomos nesse dia também à cachoeira da Eubiose, onde nadamos nus, e

livres, somente nós aproveitando. Estava um dia delicioso, e as aventuras da noite

já estavam para chegar.

XXXV - Perdido no caminho

22 de dezembro de 2012, no início daquela noite fomos a um bar. Fomos avisados

que não deveríamos tomar álcool antes da cerimônia, mas achei que só um pouco

não poderia fazer mal. Fomos a um bar na praça central de São Thomé das Letras,

onde uma banda tocava alguns clássicos do rock. Cenário ideal. Já não me

preocupava com minha família ou com Natália, estava totalmente imerso naquele

momento. Naquele bar pude sentir como a presença de Daniela era magnética e

atraía outras pessoas. Estávamos sentados em nossa mesa, quando um artesão,

hippie, chegou para conversar com ela. O cara me parecia estar muito chapado,

mas ficou a rodeando, e eu não quis interferir, deixei-os conversar, embora confesso

que estava curioso sobre o assunto. No final parece que ele deu um presente a ela,

me cumprimentou e se afastou. Ela comentou que de alguma forma sempre

conseguia o que queria, e que iria me ensinar isso. Que eu conseguiria tudo o que

queria, numa fala em que ela me pareceu um pouco uma daquelas antigas

feiticeiras.

Ficamos pouco tempo no bar, e fomos tentar achar o local onde seria realizada a

cerimônia com a misteriosa bebida aiauasca, que eu finalmente iria conhecer. Céu

de São Thomé, era o nome do local, tínhamos pegado indicações para chegar.

Fizemos o caminho todo certo, entramos em um sítio, mas pela estrada ruim

achamos que não seria. Saímos, perguntamos a uma senhora de uma casa ao lado

e ela nos disse que era ali mesmo. Voltamos a entrar, pegamos outro caminho,

também ruim, e chegamos… Na hora de parar senti que o carro tinha descido

demais e provavelmente ficaria agarrado. Mas tínhamos chegado, depois daria um

jeito no carro.

Mesmo chegando na hora marcada, vi que chegamos cedo. Apenas duas pessoas

estavam sentadas em volta de uma fogueira. Nos assentamos ali. Conversamos um

pouco com os dois sobre o trabalho, é assim que é chamado por quem participa

desse tipo de cerimônia. Um deles, o Ramon, um negro alto que parecia saber muito

bem lidar com o fogo, disse que já havia tido um trabalho no dia anterior, o

21-12-2012, dia do realinhamento cósmico. O outro, que não me lembro o nome,

falava das proezas que já viu pessoas realizar após trabalhos xamânicos como

esse, até mesmo andar sobre brasas quentes sem queimar o pé.

Deitei no colo de Daniela, ela fazendo cafuné nos meus cabelos, numa cena

realmente linda. Quem quer que olhasse ali veria uma cena de amor genuíno.

Ficamos assim um bom tempo, ouvindo as estórias e as gravações do Ramon do

trabalho anterior, até que começaram a chegar outras pessoas, e num instante

estava cheio o Céu de São Thomé, inclusive com a chegada do pajé e do cacique.

Karol e Diego, da pousada que estava organizando, também tinham chegado. Em

breve se iniciaria o trabalho e eu conheceria os poderes da madre aiauasca.

Logo de início percebi que não estava muito preparado, já que todos traziam

cobertores, e eu e Daniela estavam apenas com a roupa do corpo, não preparados

para tanto frio. Mas já não havia tempo de resolver isso, encararíamos como

estávamos. Sentamo-nos juntos, do lado esquerdo de onde estavam os Katukinas.

Um rapaz, com cara de sacerdote deu breves explicações sobre como seria a

sequência do trabalho, que em breve se iniciaria.

O primeiro a beber a bebida marrom foi o pajé, parece que o cacique e a índia

tomaram também. Não me lembro se as outras pessoas que estavam na

organização do trabalho tomaram, sei que estava ansioso para chegar minha hora.

Vi outras pessoas tomando e fazendo cara ruim. Realmente o aspecto da bebida

parecia que não era uma delícia, bem pelo contrário. Chegou minha vez, tomei um

copinho cheio, de uma vez, e realmente pude sentir o sabor amargo da bebida.

Tomei e me assentei, esperando para ver se viria o efeito. Dani disse para me

concentrar na cantoria indígena, que após a purificação, através do vomito, na maior

parte dos casos, eu sentiria o efeito.

O canto era belo e profundo, com agudos marcantes, porém ainda não me dizia

nada. Apenas admirava a beleza e me concentrava, aguardando algum efeito

aparecer. Enquanto isso vi o Diego e uma outra moça aplicando algum tipo de coisa

nas outras pessoas. Fiquei curioso, e a Daniela perguntou a ele o que era. Eram

outras medicinas indígenas, o rapé e a sananga. Ambos também eram utilizados no

ritual para purificar e ajudar abrir os chakras, centros energéticos humanos. Disse a

ela que queria experimentar. O rapé é um pó, feito à base de tabaco e outras ervas,

e estava sendo aplicado pelo Diego através de um artefato onde se coloca o pó, se

insere uma ponta em uma narina da pessoa a receber, e a outra na boca do

aplicador, que sopra, gerando uma pressão. Me preparei para receber, e de repente,

zum!, aquele tiro de rapé entrou não só no meu nariz mas em toda a minha face.

Depois do outro lado. Lacrimejei bastante e muita secreção foi liberada pelas

narinas.

Agora era a vez da sananga. Esse é um liquido extraído de uma batata e que é

pingado como colírio. Só que sua ação é tão forte que achamos que não vamos

conseguir abrir mais os olhos. E assim foi, já tinha visto o que tinha ocorrido com a

Dani, mas comigo foi a mesma coisa. Por uns bons minutos é impossível abrir os

olhos, eles ardem. Aos poucos o ardor vai cessando e se consegue abrir. Segundo

eles me contaram, a sananga tem o poder de auxiliar na abertura do chakra do

terceiro olho, responsável pela intuição.

Passei por essas duas medicinas ainda sem sentir o efeito da aiauasca. Nesse

momento, o que me parecia um sacerdote com sua barba longa e seu cetro com um

cristal na ponta, disse como seriam feitos os atendimentos do pajé, por ordem de

prioridade, que era para procurar por ele. Fiquei um tempo assistindo o primeiro

atendimento, e logo depois o procurei. Ele perguntou qual havia sido o problema. Eu

disse a ele que tinha tido hérnias na cervical, e que fora internado em hospitais

psiquiátricos. Sobre as hérnias ele disse, que era uma questão de escolha, de qual

lado seguir. Já sobre as internações não falou nada, e me encaminhou para o

atendimento com o pajé.

Fiquei ali sentado esperando acabar um atendimento. Logo depois fui chamado.

Tirei a camisa, e me deitei na frente daquele índio curandeiro. Uma auxiliar me

perguntou o que tinha ocorrido, eu expliquei e ela passou as informações para o

pajé. Ela me disse que ele iria investigar se tinha algum espírito ou algo no meu

corpo que contribuíra para a situação. Pediu que eu me deitasse e o fiz. O pajé

apalpou e escutou meu corpo. Em alguns locais vinha com a boca e dava como um

chupão. Pediu que virasse de costas. Mesmo procedimento. Não foi rápido, mas no

final, ele me disse, através da sua auxiliar que não havia nada, que estava tudo

perfeito.

Tudo perfeito… Eu estava sem tomar remédios há um mês, parara escondido. E

tudo estava perfeito, porque então eu fora internado, porque tantas coisas

aconteceram? Não entendi. Mas disse isso para Daniela, ela gostou e sorriu, me

dizendo algo, como, te disse, fica tranquilo. Nesse momento eu já estava ansioso

para sentir os efeitos da aiauasca, estava achando que tinha algo errado comigo.

Foi nessa hora que eles anunciaram uma segunda dose para quem quisesse tomar.

Me animei, era a oportunidade de mergulhar na sabedoria da aiauasca. Fui até lá e

tomei minha segunda dose. Voltei para a cerimônia, para a cantoria e me concentrei.

Não demorou muito veio como uma rajada a vontade de vomitar. Fui conduzido pelo

sacerdote, que enquanto eu vomitava, piscou o olho para mim. Quando retornei ele

me disse uma frase enigmática, e me deixou: “para encontrar seu caminho é preciso

deixar-se perder no caminho”.

XXXVI - Vencendo o atoleiro

Quando retornei ao local da cerimônia algo havia mudado. Como se um click tivesse

sido dado em minha mente. Agora aqueles cantos, antes ininteligíveis pareciam

fazer um sentido oculto para mim. Algo como se um xamã tivesse chegado, como se

eu fosse um xamã. Fiquei inquieto, não sabia o que fazer, não foram dadas

orientações. Fui sendo tomado pelo medo. Medo de enlouquecer e não mais voltar.

Tempos depois eu viria a saber que estava enfrentando ali o meu Ego, que a

aiauasca nos levava a enfrentar a si mesmo, através desse enfrentamento do Ego.

Voltei e fiquei assistindo à cerimonia, fazendo conexões, acompanhando os cantos

indígenas, e os rituais de cura que o pajé fazia em outras pessoas. Algo me dizia

que tinha de ficar ali, mas uma inquietação extrema surgia em mim. Realmente eu

pensava que estava ficando louco de vez viajando naqueles cantos, sem volta.

Resolvi sair, fui ficar um pouco na mata que tinha em volta do local. Me pareceu que

a floresta tinha algo a me dizer, talvez ali. Me embrenhei na mata, e deitei por lá.

Senti aquelas folhas, me comuniquei de alguma forma com as árvores. Será que eu

estava vivendo a experiência genuína da aiauasca? Ali, naquele recanto de mata

me acalmei um pouco.

Depois resolvi voltar, Daniela falou que já tinha pedido para ser atendida pelo pajé,

mas teria que ser depois. Fui para a fogueira, o Ramon estava lá. Me perguntou se

eu havia tomado o kambô, eu não sabia o que era, então nem entendi a pergunta.

Depois vim a saber que o kambô é outra medicina indígena, extraída de um sapo,

de um poder imenso. Fiquei um pouco na fogueira, mas em pouco tempo voltou

aquela sensação imensa de medo, e me desesperei. Falei com a Dani que tinha que

ir embora, senão iria ficar louco de vez, perdi totalmente o controle. Ela tentou me

acalmar, mas foi em vão. Como companheira, resolveu ir comigo.

Entramos no carro que estava preso pelo jeito que eu havia parado numa vala. Do

nada surgiram duas pessoas que eu não tinha visto e fizeram uma força

sobrehumana e conseguiram desatolar o carro. Saí dali dirigindo desembestado,

totalmente sem rumo e desorientado. Perguntei para a Dani se ela sabia o caminho

de volta, ela me disse que eu teria que decidir, que eram minhas as escolhas e que

ela só estava ali para me apoiar. Peguei a estrada de terra naquela madrugada sem

ter a mínima noção para onde ia, mas achei que sabia o caminho com toda a

certeza.

Durante o percurso eu falava que tinha sede, que tinha vontade de ir ao banheiro.

Daniela me tranquilizava dizendo, isso é apenas sua mente, você está sendo

testado. Não tenha medo. Aos poucos a vontade passava. Eu não aguentava ficar

no silêncio, ligava música no carro. Uma hora chegamos a um ponto onde eu vi que

não conhecia aquela parte da estrada. Uma descida imensa, ribanceira mesmo.

Vacilei um pouco, sabia que aquele não era o caminho, mas acabei descendo, e

andando naquela estrada escura. Desliguei a música, fiquei ouvindo o silêncio, e

conversando com a Daniela que ia me acalmando. Segundo ela, a aiauasca não

teve o menor efeito nela. Mais na frente chegamos num local em que o caminho se

dividia.

Perguntei por onde seguir, ela disse que a escolha era minha. Peguei um caminho à

direita, pensando talvez em dar a volta e chegar em São Thomé. Aos poucos a

estrada foi diminuindo, virou um caminho estreito, até que chegamos numa porteira.

Ali acabava o caminho. Não havia mais para onde ir. Queria abrir a porteira, pedir

ajuda para voltarmos. Dani disse que não seria bom incomodar quem quer que

fosse àquela hora, poderia ser até perigoso.

Decidi voltar para tentar achar o caminho certo. Quando chegamos na ribanceira,

que agora era uma subida, o carro não subia. A chuva havia deixado o chão

enlameado e realmente era impossível subir. Descemos novamente, e seguimos a

estrada, até chegarmos na porteira. Decidimos que passaríamos a noite ali. Dani me

falava sobre os índios. Tiramos nossas roupas e ficamos nus ali, no meio do nada,

perdidos, de madrugada. Tentei fazer uma fogueira, mas os gravetos estavam todos

molhados.

Seguimos conversando, eu fui me acalmando e relaxando. O que poderia

acontecer? Me sentia seguro a essa altura, independente de estar perdido e de todo

atordoamento e medo que tinham sido despertados em mim pela aiauasca. Quando

a madrugada foi acabando falei para voltarmos. Seguimos o caminho de volta e

chegamos à subida. Novamente tentei de todas as formas, mas o carro deslizando

não conseguia passar das valas. Resolvemos deixar o carro ali e seguir a pé até o

sítio onde foi realizada a pajelança. Fomos caminhando e conversando, eu me

sentia muito bem, será que teria passado o efeito do chá, ou estava só começando

a entrar no universo da aiauasca?

Caminhamos, não por muito tempo, e conseguimos chegar ao sítio. Ao chegarmos,

os últimos dois carros estavam voltando para São Thomé, e explicamos o que

aconteceu. Conseguimos carona até a cidade. Daniela tinha que voltar em breve

para a cidade dela, eu ainda teria que resolver como rebocar meu carro. Mas tudo

estava muito bem agora, eu me sentia ótimo, seguro e confiante. Conversei com o

Ramon quando voltamos ao sítio, ele disse que ficaria lá. Eu disse que iria a cidade

resolver o problema do carro e que poderia dar carona a ele para voltar para BH.

Ficamos combinados que eu voltaria ao sitio quando resgatasse o carro. Eu e Dani

entramos no carro e fomos para São Thomé.

Voltamos com um camarada muito gentil, chamado Jonas. Ele nos contou um pouco

da sua vida, da sua relação com a aiauasca. Perguntei onde ele morava, ele riu e

deu uma resposta misteriosa: por aí. Eu estava curioso de saber o que aquelas

pessoas faziam, com que trabalhavam, como sobreviviam, para poder ficar viajando

com os índios. Queria ser como eles, queria viver aquela experiência. Chegamos

em São Thomé e nos despedimos do Jonas.

Fomos, eu e a Dani, na pousada onde estavam nossas coisas. Eu conversei com o

rapaz pedindo para deixar minhas coisas lá até resolver o problema do carro.

Expliquei para ele o que ocorreu, e perguntei se sabia de alguém que tinha um 4 x 4

para puxar meu carro ladeira acima. Ele disse de um senhor na praça da cidade que

talvez pudesse ajudar. Aí começou a peregrinação em busca de alguém para ajudar.

Chegamos à praça, o senhor estava com seu carro. Era um carro para fazer

passeios turísticos. Expliquei para ele onde estava o carro, ele me disse que era

conhecido como Serrinha, mas disse que não poderia ajudar pois tinha medo que

seu carro não aguentasse subir. Mas disse que tinha uma pessoa que tinha um

trator e que resolveria. Fomos atrás desse cara, batemos na porta de sua casa, mas

ele estava na fazenda, talvez quando voltasse. Tudo em vão. Parecia que teria que

deixar o carro pra trás. Voltamos para a praça. Chegou a hora de me despedir da

Daniela. Ela me disse para ficar tranquilo que tudo se resolveria, só ficar aberto e

atento aos sinais.

Pegamos as malas dela e a levei até a rodoviária. Nos despedimos com bastante

paixão. Agora era comigo, estava sozinho, tinha que resolver tudo e ainda voltar e

enfrentar família, namorada e tudo. Resolvi voltar para a praça e conversei com

alguns hippies. Um deles me explicou que havia um jeito de dar a volta pela estrada

que peguei. Era só pegar o caminho do meio, onde eu vi uma bifurcação. Esse

hippie fez uma bela arte num azulejo que comprei para relembrar daqueles

momentos: um homem de braços abertos sob a lua numa floresta.

De certo modo, depois que retornei à praça central da cidade, me sentia conectado

com toda aquela vibração, e com todas as pessoas que estavam ali. Sentei na praça

e já tinha esgotado as possibilidades de solução para buscar meu carro. Conversei

com as pessoas ali, elas buscavam me ajudar de alguma forma para solucionar o

problema. Enquanto conversava com um rapaz que alugava quadriciclos, surgiu a

solução. Perguntei se ele me levaria até o carro, uma vez lá poderia descer e pegar

o caminho que dava a volta para chegar na cidade.

Embarquei na garupa do quadriciclo, e fomos em direção à Serrinha. Já era meio da

manhã e o sol resolveu sair nesse dia. Chegamos lá, ele me deixou na porta do

carro. Nesse instante passou outro carro subindo, e resolvi que tentaria subir

também. Devagar e com jeitinho consegui superar o morro e fui direto ao sítio, Céu

de São Thomé, conversar com o Ramon e quem mais estivesse por lá. Superei um

desafio, me sentia bem e conectado, não sabia se era fruto da aiauasca tudo aquilo

que passei.

XXXVII - A volta de quem não foi

epois de resgatado o carro, a aventura seguia sem a presença da Daniela, o anjo

que me levou até ali. Voltei para o Céu de São Thomé, o Ramon e algumas outras

pessoas ainda estavam lá. Pedi para ver se poderia dormir ali com eles aquela

noite, disseram que não teria problema algum. Eu estava com fome e lá não tinha

rango, então voltei pra São Thomé para comer algo. Não me lembro muito bem dos

detalhes, mas foram um dia e uma noite muito loucos. Cheguei, comi. Dei um rolé

pela cidade, vários malucos-beleza circulavam ali. Conversei com um artesão hippie

e resolvi comprar presentes para levar para minha mãe e minha namorada. Não que

eu quisesse comprar o perdão delas com presentes, seriam só um símbolo de que

eu pensava nelas. Lembrava de fato delas enquanto estava ali vivendo minha

viagem psycodelica. Conversei muito com o hippie ou maluco de estrada como

gostam de ser chamados.

Fiquei por lá, comi qualquer coisa e sentei no buteco …, sempre os butecos, minha

maior perdição. Lá passou um cara vendendo uma flauta dessas de bambu, eu,

óbvio, não sabia tocar, mas como vi o Ramon tocando, achei que podia aprender

com ele e comprei uma de sete furos pra destros …, mas o engraçado é que eu,

mesmo sendo destro, tocava melhor pra esquerda. Saíram uns sonzinhos, mas não

foi aqueeela harmonia. Tinha que treinar mais, é claro, para aprender segundo os

métodos tradicionais dos flautistas autodidatas. Voltei para o Céu de São Thomé. O

pessoal tava fumando um beck lá, estranhei, porque nessa época ainda não sabia

que no Daime tem uma linha que consagra a maconha como sendo Santa Maria.

Dei umas bolinhas mas essa não é muito minha onda. O pessoal estava estranho,

parecia cansado, tinha uma lá que levou mó espanco numa peia. Peia é o processo

de dificuldade de enfrentação dos medos egóicos, um processo que se passa

dentro do ritual da ayahuasca. Fiquei meio sem lugar ali e resolvi voltar para a

cidade. Fui para a Pirâmide, um centro de convergência desses neohippies, vulgos

tilelês, que frequentam São Thomé.

Lá estava eu fumando meu paieiro e admirando o maravilhoso pôr do sol, quando

conheci duas meninas, lésbicas, que estavam por lá também. Batemos um papo e

resolvemos nos encontrar mais tarde para tomar uma cerveja. Claro que por essa

época não sabia dos perigos de se misturar álcool com ayahuasca no corpo. Isso

porque ayahuasca é uma medicina sagrada dos índios e quando ela entra no corpo

expulsa todas as energias ruins, o que é conhecido como processo de limpeza. A

limpeza pode ser feita de duas formas, através do vômito ou das fezes. Como ainda

tinha ayahuasca no meu corpo a combinação com o álcool seria bombástica.

Fiquei conversando um pouco com as meninas e resolvi rodar um pouco para ver se

ainda tinha algum efeito da ayahuasca no meu corpo ou no meu espírito, mas não

conseguia ver nenhum, apenas uma alegria inexplicável, vontade de compartilhar

tudo que vivi ali, e mostrar para os outros, minha família, a força daquela medicina.

O rapé eu não senti nada na hora, mas depois vim a descobrir que é uma medicina

muito forte e também te coloca na força. Estar na força é quando nos conectamos

com todo o universo, Deus, deusas, elementais, seres encantados, através do uso

de algum enteógeno como ayahuasca, rapé ou sananga. Vale lembrar que para

entrar na força temos, normalmente, que participar de algum tipo de ritual,

conduzido por um líder, pajé ou xamã, para estarmos protegidos dos espíritos

obsessores que podem chegar e nos perturbar com nossos medos e os deles

durante o processo de cura espiritual.

Como ia dizendo, desculpe perder o rumo da prosa, mas é que as ideias são

importantes e aparecem sem pedir licença em minha mente, e eu tenho que lhes

contar essa história tintim por tintim para que vocês entendam o tamanho de tudo o

que me aconteceu. Espero que ninguém mais nesse mundo, ou em outros, passe

pela dor que precisei passar pra me curar. Mas voltando para a estória … fiquei sem

rumo depois que minhas companheiras me deixaram, e fiquei rodando pela cidade

procurando conhecer alguém legal. A Dani tinha me abandonado, e fiquei me

sentindo carente de companhia. Nem era pra pegar ou sexo, mas pra prosear

mesmo.

Sei que acabei voltando ao Céu de São Thomé e não achei ninguém lá. Deviam

estar todos dormindo, mas não sabia onde. Daí voltei pra Thomé e dormi no carro,

na praça central da cidade. Acordei e senti que ainda não tinha sido desconectado

da força, parecia que todo o mundo conspirava a meu favor. Era Natal, ou véspera.

E aí acabou que fui ao Céu de São Thomé encontrar o Ramon pra dar a prometida

carona pra ele. Descobri que eles estavam dormindo num lugarzinho escondido, e

estavam levantando naquela hora. Falei com o Ramon que precisava ir embora,

encontrar com a minha família e tudo o mais. Ele disse que iria comigo até Três

Corações e pegaria ônibus para voltar para BH. Ele me contou de um lugar

chamado Fraternidade Kayman onde tem trabalhos de umbanda com daime, e ele

fazia parte dessa casa. Me chamou para ir conhecê-la e eu disse que iria com maior

prazer. Passando pela cidade de São Thomé, reencontrei com minhas amigas da

noite anterior, e uma delas precisava de carona pra ir pra Três Corações. Eu ofereci,

ela aceitou, e fomos então eu ela e o Ramon por o pé, ou a roda, na estrada. Me

sentia extremamente leve e bem, mesmo sem ter tido as ditas mirações, que são as

visões trazidas pela ayahuasca, então tava na dúvida se aquela medicina me ajudou

ou não fez diferença no meu corpo e na minha alma… mal sabia eu o que estava

por vir.

Voltamos conversando na viagem, o Ramon nos passando toda sua sabedoria de

quem já está no daime e no xamanismo há muito tempo. Ele me contou como foi o

resto do ritual, e o kambô, que ele disse ser mágico. Eu queria ter experimentado,

mas não deu. Não naquela vez, não ainda. Chegamos na Rodoviária de Três

Corações que fica pertinho de São Thomé, e fomos tomar um café e comer algo.

Ah, como aquele café descia delicioso e conectava meus neurônios de uma forma

tão boa, … me sentia ligadão … seria o daime?, ou o café? Dúvida impossível de

responder. Ofereci carona para os dois, a menina e o Ramon que iam para BH

também, mas eles não aceitaram, o que me deixou um pouco chateado. Seria bom

rodar uns 300 km, com companhia para conversar sobre aquela experiência mística,

será?, e compartilhar e aprender coisas novas com eles. Como eu sentia um

impulso de beijar aquela garota, mesmo sabendo que ela estava com outra pessoa.

Segurei a onda despedi de ambos e segui a estrada.

Como seria a volta?, pensava eu comigo mesmo, todos estavam preocupados

comigo, familiares, namorada, amigos … pensavam que eu tinha surtado de novo,

mas não tinha nada a ver com surto aquilo. Era apenas uma alegria imensa e um

amor transbordante. Estava louco de vontade de compartilhar com todos as

experiências místicas profundas que tive embalado pela medicina ancestral

indígena. Será que entenderiam? Será que me internariam de novo? Será que teria

algum apoio dentro da minha família? Perguntas que seriam respondidas em breve.

Na estrada a viagem foi embalada por música, alto e bom som, uns rocks básicos, e

pensamentos na Daniela, pensando em como eu queria me casar com uma mulher

como ela, …. , rebelde, inconformada, mística, intelectual, índia disfarçada de

professora de inglês. Ela realmente me cativou e o sexo foi profundo, marcante! E

as histórias dela, que tinha vivido na África, depois na Alemanha, quando casou-se.

Aquela mulher, trazida a mim por Deus através de um site de namoro, parecia ser

minha alma gêmea … meu animus, como diria Jung. Um fragmento de minha alma,

que se reconectava ao meu coração.

Voltei dirigindo bem, acelerando um pouco, confiando na força divina que me guiava

ao encontro dos meus entes queridos, que apesar de saber que estavam

desconfiados e desesperados com minha atitude eu sabia que me perdoariam. A

volta foi uma loucura, muita música, alta velocidade e em três horas cheguei em BH.

Aí viriam os próximos desafios que esse guerreiro da paz teria que enfrentar.

XXXVIII - Sossega Leão!

Assim que cheguei a BH toda a família já estava preocupada, se eu teria surtado, o

que era aquele chá que tomei, que besteiras eu teria feito. Não me lembro muito

bem do desencadear dos fatos, mas de algumas imagens fragmentadas de tudo

que ocorreu naquele dia cabalístico da abertura de uma nova dimensão para nós

terráqueos. O dia 21/12/2012 foi o dia em que encontrei com a Daniela e nos meios

místicos era considerado o dia da abertura de um grande portal que despertaria as

consciências adormecidas, inaugurando a Nova Era, de pleno Amor incondicional.

Depois de resolvidos todos os perrengues com o carro, peguei a estrada com

minhas músicas de companhia e acelerando. Cheguei em BH no dia do Natal, toda

família me esperava com medo de como eu chegaria, já que eles pressupunham

que eu estava surtado. Na realidade sentia-me muito bem e confiante, cada música

me dava um novo ensinamento, e eu estava em paz, apesar de múltiplas conexões

sinápticas simultâneas, levando meu pensamento a um nível de aceleração genial.

Em minha cabeça nada poderia dar errado, eu estava iluminado, conectado com a

Força que rege o Universo, como eles poderiam fazer algo mau, ou me internar se

eu me sentia como Jesus ou Buda. O fato é que muito do que se passava comigo se

situava numa linha tênue entre a psicose e a iluminação espiritual. E como minha

mãe é médica e não acredita no xamanismo e na iluminação, certamente eu corria o

risco de ser interpretado de forma equivocada e ser dado como louco, já que havia

um diagnóstico de bipolaridade, ainda que não houvessem exames ou

psicodiagnósticos que comprovassem tal fato. Somente o histórico.

Cheguei e fui para minha casa. Encontrei minha mãe e meus irmãos que olhavam

para mim com certa desconfiança e sobre minha ex-namorada sempre

perguntavam: – E a Natália o que você vai falar para ela? Eu disse: tudo, não

mentirei e contarei a ela toda a ventura que vivi ao lado de Daniela, que já era

apaixonado por ela antes de conhecer Natalia e enfim, vou ser sincero.

Fomos para a celebração de Natal na casa da minha finada Vó Myriam. A família

toda presente, estavam todos alegres por eu ter voltado bem, talvez desconfiados

por eu estar bem demais, alguns curiosos sobre o tal chá, a ayahuasca que eu havia

tomado. A festa de Natal seguiu normal, eu bastante comunicativo e trocando

energias com todos os primos e primas, tentando tranquilizar a todos que eu não

tinha voltado louco.

De lá fui para a festa de Natal da família do meu pai, no Bairro Santa Tereza, na

casa da minha Vó Nenê. Essa festa foi mágica. Me senti conectado com todos.

Parece que ali o ambiente era mais propício às energias abertas e fui

cumprimentando todos com um selinho, um toque de lábios. Na minha cabeça era

como se eu estivesse distribuindo energias curativas pela boca. Ali houve muita

música, toquei violão, gaita, me integrei plenamente e achei que ali era a família que

me compreenderia. Foi surreal, mágico e transcendental ao mesmo tempo.

Quando cheguei conversei por telefone com a Natália. Ela era um anjinho, no seu

jeito simples e amoroso falou que queria conversar comigo, entender tudo que se

passava e resolver como ficaríamos no futuro. Eu ainda com a memória fresca das

relações que tive com a Daniela, e o lembrete da frase que ela me disse: – Vou te

ajudar a ter tudo o que você quiser na vida. Seria Daniela Lúcifer?, e eu teria feito

um pacto com o Diabo? Não sei, … era grande a confusão na minha mente diante

de tantas novas informações. Deixei para encontrar Natália no dia seguinte. Saí da

festa na casa da minha avó Marlene, sentindo como se todas as rezas e energias

fossem direcionadas a mim, sim, eu pensava que era Jesus, e que aquela

comemoração era para celebrar meu renascimento. Na verdade é comum nas

psicoses o sujeito acreditar ter sido Jesus, Buda ou Krishna, dependendo do

condicionamento cultural. Aprendi posteriormente que Todos Somos Jesus, Buda,

Krishna, num sentido de que carregamos em nós a potencialidade de manifestar o

Amor Puro que esses arquétipos representam. Mas para uma sociedade

desencantada, você dizer eu sou Jesus, certamente vai ser considerado louco, a

não ser que consiga efetuar algum milagre. He he …

Voltei para minha casa, dormi pouco porque estava muito conectado. Não me

lembro do dia seguinte. Sei que conversei com Natália, lembro dela dizer que eu

não podia fazer aquilo de fugir porque tinha muita gente que me amava, que ficava

preocupada com minha sanidade. Eu nem ligava, poderia me perder no mundo,

poderia virar mendigo, mas aquela sensação de êxtase, de conexão profunda com o

universo era a maior aspiração que alguém poderia ter na vida. Seria isso a tal

iluminação? Ou seria apenas uma mania de um bipolar? Se fosse, acho que eu

seria multipolar. Esses diagnósticos psiquiátricos são uma grande furada já que tudo

que é considerado doença por eles é um caminho para um despertar espiritual,

como eu iria aprender posteriormente na comunidade Alma Bipolar.

Lembro também que meu pai me pegou em casa e demos várias voltas de carro

pela cidade, ele me falando das preocupações familiares e eu dizendo que estava

tudo bem, que eu tinha entendido tudo, que a ayahuasca havia me mostrado que

pra descobrir meu caminho eu tinha que me perder no caminho. Tem isso em vários

livros do Novo Testamento, “Todo aquele que quer salvar sua vida pode perdê-la, e

só aquele que aceita perdê-la pode salvá-la”. Ou seja, entrega, aceitação e deixar a

Força me guiar. Tudo muito confuso para meu pai, um ateu, e minha mãe, uma

médica inclinada pro espiritismo. Eu falava uma língua que eles não compreendiam.

Minha agitação foi ficando mais intensa e eles não queriam deixar eu sair de casa,

então comecei a ficar agressivo. Daí o surto tomou conta. Eles não aguentaram, e lá

me veio a solução dos fracos: internação. Poucos dias depois de voltar de São

Thomé fui internado novamente, nem sei se na Pinel ou no Santa Maria. Novamente

considerado louco, fui aprisionado e me deram doses cavalares de sedativos e

antipsicóticos para acalmar minha mente. Jesus foi crucificado por aqueles que

anunciavam sua vinda, os judeus, seria eu crucificado por aqueles que mais me

amavam, minha família?

XXXIX - A tentação de sacanear o sistema

Não conseguia entender porque me internaram. Eu estava extático, totalmente

conectado com tudo e com todos, voltei distribuindo aquela energia ancestral linda

de que tive a glória de fazer parte em São Thomé das Letras. Eu havia conhecido

um mundo fantástico, fui tocado profundamente por aquela experiência com a

madre ayahuasca, por que não me entendiam? Todos os profetas, santos, gurus,

místicos sofrem esse tipo de preconceito. É muito mais fácil internarem e sedarem

aquele que sai da mediocridade do que encarar de frente a Verdade que brota

através dos discursos dos ditos loucos.

Pois mais uma vez eu estava encarcerado, isolado do mundo e da sociedade a fim

de me curar de algo que mais seria um dom que uma doença. Pois xamãs de várias

culturas não tiveram em suas iniciações períodos de contato com outras dimensões

da realidade, estados não-ordinários de consciência?, e ao longo do processo não

voltaram a pôr os pés na realidade? Não poderia ser o meu caso, uma alma de um

xamã que despertava num corpo de um branco, buscando expressão e curas

espirituais através de um processo psicótico? Era demais esperar que minha família

pensasse assim. Eles consideravam que eu tinha uma doença incurável, e que se

não fosse terapeutizado não manteria o equilíbrio.

Mas as internações foram momentos muito importantes no meu caminhar. Dentre os

anos de 2012 a 2017 foram mais de treze, se não me engano. Mas vamos com

calma, entender o caminho que levou a cada uma delas, entender o que se passava

na minha cabeça e porque o mundo não podia me aceitar naquele estado que eu

considerava o máximo de inspiração e produtividade.

Nessa internação pós-natal, eu me lembro de alguns momentos fugidios.

Jogávamos sinuca, eu interagia com todos. Tínhamos terapia ocupacional, e lá

fazíamos alguns artesanatos. Aprendi muito sobre o desapego nessa internação.

Era muito comum entre nós, os loucos, depressivos, entre outros, trocarmos nossas