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Cláudia Viscardi

O teatro das oligarquias


Uma revisão da
"política do café com leite"

Belo Horizonte
2012
Todos os direitos reservados à
Fino Traço Editora Ltda.
© Cláudia Maria Ribeiro Viscardi
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V814t

2.ed. Ebook

Viscardi, Cláudia Maria Ribeiro, 1962-

O teatro das oligarquias : uma revisão da "política do café com leite" / Cláudia Viscardi.
- Ebook - 2.ed. - Belo Horizonte : Fino Traço, 2019.

340p. : il. - (História ; 18)

Inclui bibliogra ia
ISBN 978-85-8054-031-4

1. Oligarquia - Brasil. 2. Elites (Ciências sociais) - Brasil. 3. Brasil - História - República


Velha, 1889-1930. I. Título. II. Série.

11-4733 CDD: 981.05


                     
                        
CDU: 94(81)"1889/1930"
29.07.11 03.08.11 028448

conselho editorial

Coleção HISTÓRIA

Alexandre Mansur Barata | UFJF


Andréa Lisly Gonçalves | UFOP
Iris Kantor | USP
Marcelo Badaró Mattos | UFF
Rosângela Patriota Ramos | UFU
Paulo Miceli | Unicamp
Gabriela Pellegrino | USP

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Sumário

Lista de abreviaturas – Arquivos e acervos históricos........................... 9


Coleções e Arquivos......................................................................................... 9

Apresentação à segunda edição....................................................... 13

Prefácio à primeira edição.............................................................. 15

Introdução.................................................................................... 23
Capítulo 1

Um novo roteiro para a mesma peça................................................ 31


1.1 Federalismo brasileiro: parâmetros atuais de discussão historiográfica......... 31
1.1.1 A “geografia” das oligarquias............................................................ 31
1.1.2 O Papel “Estabilizador” de Campos Sales.......................................... 34
1.1.3 Os parâmetros da aliança café com leite............................................. 37
Os eventos fundadores da aliança............................................................... 38
Os pilares e o sentido da aliança................................................................ 41
Rompendo com o monolitismo da aliança................................................... 45
Bases econômicas da aliança..................................................................... 47
1.2 Federalismo em Corda-bamba: Uma Proposta Alternativa............................ 50
1.2.1 Princípios Norteadores dos Processos Sucessórios.............................. 51
Primeiro princípio norteador .................................................................... 51
Segundo princípio norteador...................................................................... 59
Terceiro Princípio Norteador..................................................................... 66
Capítulo 2

Caem os principais, elevam-se os coadjuvantes.................................. 71


2.1 A Imposição de uma nova ordem: a sucessão de Rodrigues Alves................. 73
Minas Gerais na primeira década republicana............................................ 73
O Governo Rodrigues Alves....................................................................... 77
2.1.1 O “Bloco” como construção de um eixo-alternativo............................. 81
Pinheiro Machado: “o fazedor de reis e o grão-protetor dos presidentes...”.... 81

5
A deflagração do processo sucessório......................................................... 83
Minas tem a chave do processo sucessório.................................................. 87
O fortalecimento da candidatura Afonso Pena............................................. 89
A Bahia adere à dissidência....................................................................... 92
O último fôlego paulista............................................................................. 95
2.2 Candidaturas Presidenciais e Interesses Cafeeiros...................................... 98
2.2.1 O Impacto da Entrevista de Bernardino de Campos............................ 98
2.2.2 A Candidatura Pena e o Convênio de Taubaté.................................. 104
Capítulo 3

O diretor também quer entrar em cena........................................... 113


3.1 A produção cafeeira dos estados de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro........117
3.1.1 A cafeicultura mineira.....................................................................117
3.1.2 A cafeicultura mineira no quadro nacional....................................... 120
3.2 O estado nacional e a crise do café.......................................................... 121
3.2.1 O café e as finanças públicas.......................................................... 121
3.2.2 Crise do café e propostas alternativas.............................................. 129
a) Minas Gerais e as soluções domésticas...................................................131
b) As soluções domésticas dos paulistas e fluminenses............................... 133
3.3 Os limites da autonomia: uma releitura do Convênio de Taubaté................. 137
3.3.1 A iniciativa dos estados...................................................................141
3.3.2 O papel do Parlamento e do Executivo Federal................................. 149
Capítulo 4

A peça entra em cartaz................................................................. 159


4.1 Bases políticas do Governo Afonso Pena....................................................161
4.1.1 Isolamento paulista e hegemonia mineira..........................................161
4.1.2 O “Jardim da Infância” e o Bloco: as primeiras divergências
políticas................................................................................................. 166
a) Tentativa de intervenção federal no Rio de Janeiro................................. 169
b) Renovação da Presidência da Câmara....................................................171
4.2 A Sucessão de Afonso Pena e a candidatura militar...................................175
4.2.1 A candidatura campista e o Convênio de Taubaté..............................175
4.2.2 O advento da candidatura militar.................................................... 181
4.2.3 As tentativas contestatórias............................................................. 186

6
Capítulo 5

Os seguranças invadem o palco!.................................................... 193


5.1 A política salvacionista: o reverso da política dos estados........................... 195
5.1.1 A presença militar no Governo Hermes............................................ 195
a) Montagem do governo e instabilidades políticas..................................... 195
b) As intervenções nos estados: a inversão da lógica de Campos Sales......... 202
5.2 A sucessão de Hermes e o reordenamento de forças.................................. 207
5.2.1 Diversos atores, variados interesses................................................. 207
5.2.2 A candidatura de Pinheiro Machado: uma releitura do Pacto
de Ouro Fino.......................................................................................... 210
a) A chapa mineiro-gaúcha...................................................................... 210
b) A candidatura Campos Sales.................................................................216
c) Re-dimensionando o “Pacto de Ouro Fino”........................................... 218
5.2.3 A escolha de Wenceslau Brás como um projeto conciliatório.............. 220
Capítulo 6

Briga de atores, corte na cena....................................................... 225


6.1 O Governo Wenceslau Brás e o ressurgimento paulista.............................. 227
6.1.1 Composição política e primeiras divergências................................... 227
a) A montagem do governo...................................................................... 227
b) A sucessão no Rio de Janeiro e os reconhecimentos............................... 229
c) O isolamento gaúcho e as lutas pela ocupação do vazio de poder............. 232
d) A presidência mineira na segunda valorização do café........................... 234
6.2 A sucessão de Wenceslau e os óbices da aliança....................................... 236
6.2.1 A escolha de Rodrigues Alves: uma solução consensual.................... 236
6.2.2 A escolha de Epitácio Pessoa: veto às pretensões paulistas................ 238
a) A morte de Rodrigues Alves e a “Regência Republicana”....................... 238
b) A escolha de Epitácio Pessoa............................................................... 240
Capítulo 7

O público ameaça participar.......................................................... 255


7.1 Executivo frágil, legislativo em luta.......................................................... 257
7.2 A difícil aliança Minas–São Paulo........................................................... 261
7.2.1 Os limites políticos da aliança......................................................... 261
7.2.2 Os limites econômicos da aliança.................................................... 264
7.3 A emergência de novos atores no contexto da reação republicana............... 270

7
Capítulo 8

Fim do primeiro ato..................................................................... 285


8.1 O Governo Bernardes e as bases da ruptura entre Minas e São Paulo......... 287
8.1.1 O poder da União sobre os estados.................................................. 287
8.1.2 Os novos limites políticos e econômicos da aliança........................... 289
a) Mudanças na política econômica cafeicultora......................................... 289
b) A sucessão de Bernardes e a garantia da continuidade.......................... 294
8.2 O Governo Washington Luiz: a ruptura da aliança.................................... 297
8.2.1 Os novos parâmetros da renovação.................................................. 297
8.2.2 A conjuntura de crise e a ruptura da aliança.................................... 303
a) O novo plano financeiro....................................................................... 303
b) A monopolização do processo sucessório.............................................. 304
c) A composição de um novo eixo alternativo............................................. 306
8.3 Das urnas às armas.................................................................................313

Conclusão................................................................................... 323

Referências bibliográficas............................................................. 327


Fontes Primárias.......................................................................................... 327
Bibliografia Referenciada.............................................................................. 328

8
Lista de abreviaturas – Arquivos e acervos
históricos

AH: Arquivo Histórico da Universidade Federal de Juiz de Fora

AN: Arquivo Nacional

APM: Arquivo Público Mineiro

CPDOC: Centro de Pesquisa e Documentação de História Contempo-


rânea do Brasil Fundação Getúlio Vargas

FCR: Fundação Casa de Rui Barbosa

IHGB: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

Coleções e Arquivos

AAB: Arquivo Artur Bernardes

AAP: Arquivo Afonso Pena

AEP: Arquivo Epitácio Pessoa

AJP: Arquivo João Pinheiro

APJ: Arquivo Afonso Pena Júnior

ARA: Arquivo Rodrigues Alves

ARB: Arquivo Rui Barbosa

ARJ: Arquivo Ribeiro Junqueira

ARS: Arquivo Raul Soares

9
AWB: Arquivo Wenceslau Brás

CPH: Coleção Jornal “O Pharol”, Juiz de Fora, Minas Gerais

10
Ao Pedro, meu amado filho, por me manter conectada às alegrias da vida.
Apresentação à segunda edição

O Teatro das Oligarquias, publicado pela primeira vez em 2001, resultou


de minha tese de doutorado, defendida dois anos antes de sua publicação.
Na ocasião minha expectativa era a de apresentar uma nova hipótese acerca
da dinâmica de funcionamento do federalismo oligárquico brasileiro, inau-
gurado com a implantação da república. Mais que contestar o trabalho de
várias gerações de historiadores que me antecederam, optei pelo diálogo
com esta historiografia, cotejado por um corpo documental volumoso, na
maioria das vezes, inédito ou muito pouco visitado.
Depois da publicação deste trabalho e de sua ampla divulgação no meio
acadêmico, as percepções que ainda tenho acerca desta área de pesquisa
são: a insuficiência de estudos, a existência de inúmeras perguntas sem res-
postas, a necessidade de revisão de várias teses consolidadas e a premência
pela releitura de vários outros acontecimentos, indivíduos e instituições
com base em novas fontes e novas abordagens. Um levantamento rápido
da produção historiográfica existente sobre a história política da Primeira
República nos últimos 50 anos revelaria uma forte concentração na década
de 1980, em vertiginoso declínio nas décadas subsequentes.
Pode-se aventar que tal panorama tenha resultado do aventado aban-
dono da história política, ou que o período 1889-1930 tenha ensejado mais
estudos no campo da história social ou cultural, por ter se constituído em um
momento de transição para a ordem assalariada-capitalista, cujas intensas
mudanças teriam ocorrido mais nestes dois campos, mais atraentes para
os jovens historiadores. Ou que a ausência de um mercado político mais
competitivo no período deixasse de atrair o interesse dos atuais pesquisa-
dores, dada a sua pouca dinamicidade ou a sua tendência à estabilidade.
O fato é que, passados dez anos da primeira edição, o livro continua
como uma das poucas referências sobre o período, em que pese a ousadia
de suas hipóteses principais. Daí a pertinência em reeditá-lo. Soma-se a isto
o fato de que a primeira edição circulou pouco e foi esgotada brevemente.
Por reiteradas vezes recebo pedidos de colegas ou estudantes para que lhes
envie uma cópia do trabalho.
Espero que a sua maior divulgação, agora facilitada por seu formato tam-
bém digital, possa induzir jovens pesquisadores à retomada do tema, seja para
rever minhas principais conclusões, seja para rearfimá-las sob novos enfoques.

Cláudia Viscardi, julho de 2011.

13
Prefácio à primeira edição

A Primeira República é uma das fases mais estudadas da história do


Brasil. O interesse dos pesquisadores em focalizar as primeiras décadas
do regime republicano tem produzido uma bibliografia já considerável e
que continua a crescer.
Do acervo assim construído, o ponto forte diz respeito à história po-
lítica do período. Embora os historiadores e os cientistas sociais tenham
dado ultimamente maior atenção aos seus aspectos econômicos, sociais e
culturais, é no campo político que se encontram os traços mais notáveis da
Primeira República. De fato, a mudança de regime em 1889 representou a
possibilidade de uma refundação da vida nacional, anunciada pela própria
ideia de República, com sua potencialidade democrática, a que se acres-
centavam a instituição do sistema federativo, a separação entre o Estado e
a Igreja Católica e a adoção do princípio do sufrágio universal. Contudo, os
fatores de continuidade sobrepujaram os fatores de mudança, e o que seria
uma refundação tornou-se recomposição de elites, pelo alto. A República
foi, em grande medida, novo rótulo para uma velha garrafa.
Por isso mesmo é que o estudo do processo político desperta enorme
interesse. E assim as análises da política das oligarquias, do coronelismo
e das relações federativas nos ajudam a entender como se preservou no
regime republicano o sistema de participação restrita com o qual o Brasil
havia inaugurado sua vida independente.
Em busca da lógica do processo, certas caracterizações do período
ganharam relevo pela sua aparente veracidade e por sua aceitação gene-
ralizada. É o que ocorre com a noção de que teria vigorado na Primeira
República um condomínio mineiro-paulista, apelidado de “café com leite”.
Visto como esteio do regime, ao arranjo do “café com leite” se credita a
estabilidade do poder das oligarquias durante várias décadas. E ao rompi-
mento da parceria entre os dois grandes estados se associa, como resultado
inevitável, o colapso do sistema em 1930.
No entanto, a despeito de ideias tão arraigadas como esta, a história
política da Primeira República é matéria bastante complexa, oferecendo
aos pesquisadores campo fértil para testar e eventualmente retificar
interpretações correntes. É o que se conclui da leitura de O Teatro das
Oligarquias, importante contribuição de Cláudia Viscardi ao estudo
do período.

15
Pesquisadora experiente, a autora se debruçou sobre vasta documen-
tação para construir e substanciar uma interpretação alternativa a respeito
da lógica do processo político da República em suas primeiras décadas.
Desse esforço resultou uma obra madura, empiricamente sólida, muito bem
estruturada em termos analíticos, convincente em suas conclusões.
O impulso da investigação de Cláudia Viscardi derivou de sua dúvida
a respeito da tese do “café com leite”. Em que medida se pode falar em
coalizão entre Minas Gerais e São Paulo como eixo da estabilidade do
regime? Para responder a esta questão, a autora procedeu a um minucioso
exame das sucessões presidenciais, reconstituindo a formação das alianças
hegemônicas em tais conjunturas. Sua análise revela que a aludida parceria
não desempenhou a função estabilizadora que se lhe atribui. Na realidade,
ela só vigorou na fase final do regime, e com resultados desfavoráveis para
a ordem federativa vigente.
Sob esse ângulo, a Primeira República abrangeu quatro fases bem dis-
tintas. A primeira foi a da hegemonia militar. A segunda, de 1894 a 1906,
correspondeu à hegemonia paulista, com pouca participação nacional das
elites mineiras. De 1906 a 1918, deu-se o contrário: os mineiros ocuparam
o proscênio, e os paulistas foram relativamente marginalizados. Entre 1919
e 1929, mineiros e paulistas compartilharam o núcleo do poder nacional,
num esquema bastante restrito de domínio sobre o restante do país.
Uma das indicações mais sugestivas de Cláudia Viscardi refere-se,
precisamente, ao sentido desestabilizador da parceria “café com leite” quan-
do ela se concretizou nessa última fase. Isso porque o seu funcionamento,
de cunho duopólico, esvaziou em grande medida a influência dos demais
estados, notadamente aqueles de maior peso político – o Rio grande do
Sul, a Bahia, o Rio de Janeiro e Pernambuco – que até então haviam de-
sempenhado papéis relevantes nos processos sucessórios.
Ora, a lógica do federalismo da Primeira República repousava na incer-
teza periódica da sucessão presidencial. A cada quatro anos a hegemonia
tinha que ser recomposta. Isso se fazia por meio de maquinações políticas
em circuito fechado, que a autora exemplifica com trechos de cartas e decla-
rações de figuras nelas envolvidas. Conversações entre os protagonistas (os
chefes das oligarquias estaduais) tinham lugar, esquemas eram engendrados
para atrair aliados e afastar competidores. Havia aproximações, reaproxima-
ções, vetos, retaliações, não só entre pessoas e grupos, mas entre estados,
como parte de um jogo de xadrez geopolítico. Assim, a instabilidade era
condição para o relativo equilíbrio do jogo das oligarquias.
Tudo isso, evidentemente, era permeado por interesses mais amplos do
que a mera captura de espaços de poder. Uma das hipóteses que orientaram

16
a autora diz respeito à importância da esfera política para a promoção dos
interesses economicamente dominantes, vale dizer, os interesses da cafei-
cultura e do comércio do café. Os poucos estados que produziam café se
empenhavam firmemente em manter o controle do governo federal, arena
decisiva para o setor de agro-exportação. Mas para manter esse controle os
estados cafeeiros precisavam se compor com outros estados poderosos, de
base econômica diversa, o que dava a estes últimos considerável margem de
influência na formação de alianças sucessórias. O papel estratégico exercido
pelos gaúchos ao longo do regime ilustra bem a situação.
Como as alianças de governo eram sempre datadas, valendo para um
mandato, a hegemonia tinha que ser renegociada periodicamente. As impli-
cações políticas desse padrão são bem analisadas por Cláudia Viscardi. Em
primeiro lugar, o caráter plural das composições oligárquicas conferia ao
Estado certa autonomia perante os interesses em jogo. Isso se tornou patente
com o crescente envolvimento governamental na valorização dos preços do
café, em atendimento a demandas do próprio setor cafeeiro. O resultado
foi o fortalecimento do Estado perante os interesses privados dominantes,
processo que prenunciava o modelo de Estado ativo, intervencionista, que
caracterizou o período posterior à Revolução de 1930. Tendo em conta essa
dinâmica, fica mais clara a conexão entre os rumos da Primeira República
e o regime subsequente.
Em segundo lugar, o referido padrão impunha algum limite ao exclusi-
vismo das elites cafeeiras, as quais tendiam a identificar o país com o café.
A diversidade de interesses entre estados cafeeiros e estados cuja economia
se voltava predominantemente para o mercado interno era elemento essencial
da cena brasileira nessa época. No apogeu do sistema de negociação oligár-
quica – entre 1906 e 1918 – o distanciamento entre os primeiros (sobretudo
entre Minas e São Paulo) proporcionou aos segundos condições efetivas de
influir em âmbito federal. Porém, estas condições foram alteradas quando
São Paulo e Minas estabeleceram seu duopólio político, ou seja, quando
de fato operou o esquema do “café com leite”, em detrimento dos antigos
parceiros. Somando-se aos vários fatores de crise que emergiram ao longo
dos anos 20, a dicotomia entre os interesses exportadores e os interesses
ligados ao mercado interno se transformou num fosso que concorreu forte-
mente para inviabilizar o regime. Nesse sentido, Cláudia Viscardi acrescenta
novos elementos de suporte à interpretação política da Revolução de 1930
introduzida por Boris Fausto em estudo clássico do tema.
A autora examina as conjunturas sucessórias com um olhar mais detido
para a lógica da atuação da elite política de Minas. É o terreno mais ade-
quado para submeter a tese do “café com leite” ao crivo analítico desejado,

17
diante do debate existente na literatura a respeito dos interesses (econômicos
ou estritamente políticos?) da oligarquia mineira na indigitada parceria com
os paulistas. A investigação assim conduzida representa uma importante
contribuição à historiografia mineira. Ajuda a esclarecer a questão contro-
versa da diferenciação entre os dois estados no tocante às relações entre
economia e política ou entre o Estado e o sistema produtivo. Cláudia Viscardi
se opõe à perspectiva que identifica em Minas uma oligarquia essencial-
mente burocrática, dissociada do mundo da produção, em contraste com a
oligarquia paulista, organicamente ligada ao café. Propõe, ao contrário, que
a distinção entre os dois estados era basicamente quantitativa, de nível de
desenvolvimento, e não qualitativa, entre um modelo de representação de
interesses e outro burocrático. Ambas as elites atuavam de modo análogo
com o objetivo de promover os interesses de seus produtores.
Nesse ponto cabe assinalar que o caráter diversificado da economia mi-
neira introduz certa complicação ao debate. Minas não era um estado cafeeiro
do mesmo porte de São Paulo. Sua produção era bem menor e, além disso,
a cultura do café estava concentrada em apenas duas áreas, o Sul e a Mata.
Contudo, eram áreas prósperas e de grande peso político na época, o que
dava fundamento à interpretação tradicional do arranjo entre os dois estados
como expressão de interesses de classe (isto é, do setor cafeeiro). Contra esta
ideia é que se construiu a noção de que, do lado mineiro, o arranjo não se
assentava nesses interesses, que não seriam tão relevantes, mas em objeti-
vos eminentemente políticos de preservação da oligarquia por meio do uso
patrimonialista do Estado. Ambas as vertentes pecam pelo reducionismo. A
alternativa café versus política de clientela não condiz com a realidade da eco-
nomia mineira na Primeira República, marcada pela diversidade interna, tanto
entre setores produtivos quanto entre sub-regiões com perfis completamente
distintos, como aliás ocorre até hoje. Se em Minas a centralidade do governo
em relação ao setor privado era maior que em São Paulo, a razão principal
estaria na multiplicidade de interesses a compor, o que logicamente requeria
a ação do Estado e assim fazia expandir a burocracia.
De fato, só quando se leva em conta esta diversidade interna de Minas é
que se pode compreender como foi possível à oligarquia mineira transitar da
aliança com São Paulo nos anos 20 para outra composição que expressava
os interesses da produção de mercado interno contra São Paulo no conflito
terminal da Primeira República. Minas era café e continua sendo, pois há
muito ocupa o primeiro lugar na cafeicultura brasileira. Mas era também
leite, como indicava o apelido “café com leite” em alusão à sua pecuária. E
mais: era arroz, feijão, milho, açúcar, queijos, têxteis, mineração, siderurgia,
águas minerais.

18
A esses comentários, provocados pelo estudo de Cláudia Viscardi,
convém acrescentar um último ponto. O valor de sua pesquisa não resulta
apenas da contribuição que oferece à historiografia da Primeira República.
Igualmente importante é sua percepção do processo político em si. O “teatro
das oligarquias”, para ela, não era um jogo de cartas marcadas, como fica
claro no caleidoscópio das conjunturas sucessórias analisadas. A política
é certamente pautada por contingências, mas é também espaço de opções,
de estratégias, de preferências dos atores. Ao evitar as armadilhas do deter-
minismo e ressaltar o que havia de aberto na história que narra e analisa,
este livro se constitui em trabalho exemplar no âmbito da História Política.

Otavio Soares Dulci

19
O erro básico de todo materialismo político – ma-
terialismo este que não é de origem marxista nem
sequer moderna, mas tão antigo quanto a história
da teoria política – é ignorar a inevitabilidade
com que os homens se revelam como sujeitos, como
pessoas distintas e singulares, mesmo quando em-
penhados em alcançar um objetivo completamente
material e mundano. Eliminar essa revelação – se
isto de fato fosse possível – significaria transformar
os homens em algo que eles não são; por outro
lado, negar que ela é real e tem consequências
próprias seria simplesmente irrealista.

Hannah Arendt
Introdução

Lima Barreto, indo além dos limites de seu próprio tempo, abusou
do ofício, intrinsecamente nacional, de caricaturar seu próprio país, ao
caracterizar a Primeira República Brasileira com a metáfora de um país
inexistente, “A República dos Bruzundangas”. Para Assis Barbosa (1993:8),
o termo expressaria um país de trapalhadas e encrencas, confusamente
manifestadas, através da construção de um sistema institucional, inspirado
no modelo norte-americano, e exercido pelos grandes estados: o dos bois
(Minas Gerais), o dos rios (Rio de Janeiro), o da cana (Pernambuco) e o do
“Kaphet” (São Paulo).
O autor retrata irônica e comicamente uma realidade vivida por ele e
narrada pelos historiadores: um país, cuja marca política principal era a
hegemonia política dos grandes estados. Reproduz criticamente seu mode-
lo de Federalismo; zomba do falseamento das instituições pretensamente
democráticas; ri da elite de seu tempo.
É sobre este modelo político de República que pretendemos aprofundar
a análise. Escolhemos como foco primordial a chamada política do café com
leite, expressão que inspira a hegemonia política dos dois estados cafeeiros:
Minas e São Paulo, durante toda a República Velha. Nossa intenção é ques-
tionar o caráter hegemônico, permanente e isento de conflitos dessa aliança.
O que ora apresentamos ao leitor é uma versão resumida de nossa
tese de doutorado, defendida em 1999, na Universidade Federal do Rio de
Janeiro, sob a orientação da Profª. Drª. Marieta de Moraes Ferreira. Para
esta versão foram excluídas, entre outras, referências específicas à política
interna mineira, as quais venho paulatinamente publicando sob a forma
de artigos.1
A origem da expressão café com leite ainda reina no campo das hipóte-
ses. Armelle Enders (1993:46, nota 40) afirma que a expressão tornou-se

1
VISCARDI, Cláudia M. R. Minas Gerais no Convênio de Taubaté: uma abordagem
diferenciada, CD-ROM dos Anais do III Congresso Brasileiro de História Econômica e IV
Conferência Internacional de História de Empresas, Curitiba: ABPHE, 1999; VISCARDI,
Cláudia M. R. “Minas de dentro pra fora: a política interna mineira no contexto da
Primeira República”, Locus, Revista de História, Juiz de Fora: EDUFJF, volume 5,
número 2, 1999, pp.89-99; VISCARDI, Cláudia M. R. Elites políticas mineiras na
Primeira República brasileira: um levantamento prosopográfico, CD-ROM dos Anais
das Primeiras Jornadas de História Regional Comparada, Porto Alegre: 2000.

23
popular, provavelmente, ao final dos anos vinte do século passado. Cita
a divulgação de um maxixe, datado de 1926, que continha referências
aproximadas à expressão. O mesmo se deu com o samba de Noel Rosa,
que é de 1934, em que se faziam alusões ao fato de Minas produzir leite
e São Paulo, o café.
Antes mesmo das canções citadas, a imprensa divulgou um cartoon
(reproduzido a seguir), no ano de 1929, que contém referências indiretas à
expressão. Mas não se sabe ao certo o período em que ela tornou-se difundida.

W. L. – Café com leite?


Jeca. – Essa história de café com leite já está páo! traga-me um churrasco...
(In: GUIMARÃES et al. 1982:91, vol.1)

Na pesquisa que fizemos, em grande parte das fontes testemunhais dos


acontecimentos do período, não encontramos nenhuma referência à expressão.
Muito embora a imprensa não tenha sido nossa fonte prioritária de pesquisa,
tivemos acesso à parte considerável da mesma, sem naturalmente esgotá-la.
Igualmente não encontramos qualquer referência à relação café com leite.
Sugerirmos a hipótese, a ser comprovada em eventuais pesquisas futu-
ras, acerca do período pós-30, de que a expressão tenha sido divulgada pelo
regime Vargas, com o fim de desqualificar a República Velha, em função
da ruptura pretendida por seu governo, em relação aos eixos básicos do
regime pregresso.
Segundo Pedro Fonseca (1989:133), foi durante o período que interme-
diou a divulgação dos resultados eleitorais e a deflagração do movimento
revolucionário que Vargas começou a alterar o seu discurso, quando se
referia ao regime republicano. Tal mudança do discurso, que se deu no

24
sentido de desqualificar o regime anterior, seria fundamental para o projeto
político varguista nos anos vindouros. Para justificar a implantação de um
estado mais centralizado e autoritário, Vargas precisaria, necessariamente,
romper com o passado e com o regime federativo. Acreditamos que tenha
sido por esta ocasião que se produziu, no discurso, a ideia de que a Pri-
meira República fora monopolizada pela aliança café com leite. Com o fim
de desprestigiar o caráter liberal do regime predominante na Velha Repú-
blica, Vargas denunciaria as distorções de seu Federalismo, a partir daí,
enfocado como um mero revezamento entre dois estados poderosos. Como
os últimos anos da República Velha haviam sido, de fato, dominados por
esta aliança – conforme será visto –, o discurso produzido foi bem aceito e
incorporado pela historiografia.
A estratégia escolhida para a contestação da tese da política do café
com leite foi a análise das sucessões presidenciais. Elas consistiam nos
arranjos políticos mais importantes da Primeira República. Através delas,
é possível perceber como se compunham e se decompunham parcerias
políticas entre as unidades federadas, tornadas autônomas, a partir da
Constituição de 1891.
Ao contestar a existência de uma abordagem que, para a quase tota-
lidade dos historiadores, serviu de fundamento à estabilidade do regime
político da Primeira República, qual seja, o da aliança mineiro-paulista,
torna-se imprescindível apresentar um novo arranjo alternativo, que tenha
conferido ao sistema um grau mínimo de funcionalidade.
Desta forma, sugerimos uma hipótese central a nortear o presente livro.
Ela diz respeito ao modelo político em vigor no período em foco. Afirmamos
que ele teve a sua estabilidade garantida pela instabilidade das alianças entre
os estados politicamente mais importantes da Federação, impedindo-se, a
um só tempo, que a hegemonia de uns fosse perpetuada e que a exclusão
de outros fosse definitiva. Tal instabilidade pôde conter rupturas internas,
sem que o modelo político fosse ameaçado, até o limite em que as princi-
pais bases de sustentação desse modelo deixaram de existir, ocasionando
a sua capitulação.
Para a comprovação dessa hipótese central, partiremos de dois pres-
supostos básicos. O primeiro diz respeito a Minas Gerais. O estado viveu
internamente, durante todo o período em foco, árduas disputas intraelitistas,
que interferiram na luta por sua projeção nacional. Assim, a sua impor-
tância política no período não derivou do apaziguamento interno de suas
divergências, mas, sobretudo, de seu poder econômico, condicionado por
ser o segundo maior exportador nacional de café, aliado ao fato de possuir
o maior contingente eleitoral.

25
O segundo se refere às relações entre o Estado Republicano e a cafei-
cultura. O fato de a economia agro-exportadora, predominante no período
em foco, estar condicionada à ascensão de preços do mercado internacional
para a ampliação de seus lucros, a tornava refém das políticas cambial, fiscal
e monetária estabelecidas nacionalmente. Portanto, a esfera da política se
constituía de importância fundamental para que os interesses econômicos
dos cafeicultores fossem contemplados. Daí, o interesse premente, dos esta-
dos cafeicultores, em manterem-se no poder. Ao mesmo tempo, a necessária
aliança com estados não cafeicultores, aliada à luta constante por hegemonia,
limitou a ação dessas elites na defesa de interesses exclusivistas, garantindo
ao Estado Republicano a detenção de certa margem de autonomia, em se
tratando dos interesses do café.
No decorrer da leitura, o leitor perceberá o enfoque privilegiado sobre
uma das unidades federativas a compor a aliança café com leite, qual seja,
Minas Gerais, o que se deve a várias razões. Minas desempenhou funda-
mental papel na organização e implementação do modelo político em vigor
no período. Participou com a mesma ênfase em sua desagregação. Além de
possuir a maior representação eleitoral no cenário federal, durante toda a
Primeira República, era o segundo maior estado em importância econômica,
por meio de sua produção de café.
Dividimos este livro em oito capítulos. No primeiro, fazemos uma
discussão historiográfica relativa à aliança política do café com leite e de
seus fundamentos econômicos. É apresentada, igualmente, uma aborda-
gem alternativa acerca das bases das alianças políticas processadas no
contexto oligárquico.
O segundo capítulo trata da instalação das bases de um modelo de
relação entre os estados na Primeira República que perduraria ao longo
dos anos. O foco central é a análise do processo sucessório ocorrido no
governo Rodrigues Alves. Esta sucessão teve como marco principal a que-
bra do monopólio paulista sobre o cargo presidencial, que vigorava desde
a sucessão de 1894.
O terceiro capítulo trata especificamente do Convênio de Taubaté. Pro-
curou-se, através da análise das relações políticas, ocorridas em torno da
primeira política de valorização, desmistificar que seu fundamento estivesse
na aliança nacional entre Minas e São Paulo.
O quarto capítulo trata da sucessão de Afonso Pena. Procurou-se
comprovar que, muito embora tivesse ocorrido uma tentativa de aproximação
dos paulistas em relação à candidatura mineira de David Campista, o
candidato não possuía o respaldo dos políticos mais importantes do PRM,
impedindo-se a concretização de uma aliança em torno de seu nome.

26
O quinto capítulo trata do governo Hermes e de sua sucessão. Procurou-
se conferir uma interpretação diferenciada acerca da política de “salvações”,
realçando o papel do Exército como ator político. Ao mesmo tempo, destacou-
se uma análise do “Pacto de Ouro Fino”, desmistificando as teses que
apontaram o evento como o símbolo formal de uma aliança entre Minas e
São Paulo.
O sexto capítulo trata das duas sucessões ocorridas, findo o governo de
Wenceslau Brás. A primeira delas, de caráter consensual, teve uma análise
menos delongada. A segunda, que deu origem à escolha de Epitácio Pessoa,
buscou comprovar as dificuldades existentes nas tentativas de composição de
uma aliança mineiro-paulista. Aborda-se, também neste contexto, a segunda
política de valorização do café, de forma menos aprofundada, já que, em
função do contexto em que foi projetada – o da I Guerra Mundial –, não
ofereceu muitos subsídios que contribuíssem com as análises pretendidas
neste texto.
O sétimo capítulo trata da Reação Republicana, evento ocorrido por
ocasião da escolha de Bernardes à Presidência da República. Este capítulo
se reveste da maior importância. Foi o evento marcado por duas inovações
fundamentais. A primeira diz respeito à concretização de uma aliança
mineiro-paulista, de caráter conjuntural e eivada de conflitos. A segunda
refere-se à emergência de novos atores políticos, formados não só pelas
oligarquias regionais renovadas, como pela presença de setores médios,
militares e trabalhadores. Foram abordados também neste capítulo a terceira
política de valorização do café e os problemas políticos dela advindos e de
sua relação com o processo sucessório.
O último capítulo trata de duas sucessões (a de Bernardes e a de Wa-
shington Luíz) e da Revolução de 1930. A primeira sucessão, em razão de
seu caráter consensual, mereceu uma abordagem também breve. A segunda
foi abordada com maior profundidade, identificando-se as razões da rápida
ruptura da aliança mineiro-paulista. Para isto, foram enfocadas as políticas
econômicas relativas ao café, que foram empreendidas naquele contexto.
Por fim, analisou-se a reação armada contra a eleição de Júlio Prestes,
identificando o seu impacto sobre o desgaste do pacto político republicano,
que se consumaria a posteriori.
Como o leitor poderá perceber, este texto se constitui em uma narra-
tiva segundo a pensa Lawrence Stone. Para o autor, tal estilo consiste em
organizar materiais em sequência cronológica, concentrando o conteúdo em
uma única história coerente, embora envolvendo subtramas. Volta-se sobre
o homem e menos sobre as circunstâncias; trata do particular e não do

27
quantitativo.2 Mesmo assumindo o risco de envolver o leitor em um mundo
de atores, interesses e circunstâncias históricas, os mais diversificados, acre-
ditamos ter sido esse o melhor caminho de exposição de nossos argumentos.
Além de ser uma narrativa, este texto está inserido no campo da Histó-
ria Política. Como o leitor também poderá perceber, ele se encontra a meio
caminho entre uma História Política usualmente produzida no contexto da
“segunda geração” dos Annales e de sua recente renovação. Isto implica em
assumir que, ao tratarmos de fatos históricos predominantemente de caráter
político, buscamos sempre relacioná-los ao contexto econômico, social e,
com menos incidência, ao ambiente cultural no qual foram gestados. Para
que tal objetivo pudesse ser atingido, recorremos a um “velho” conceito,
recentemente retomado sob nova ótica por R. Rémond (1994:16), qual seja,
o conceito de autonomia relativa do político, de autoria de Antônio Gramsci.
Este conceito serviu de parâmetro norteador de toda nossa abordagem acerca
das relações entre as elites políticas e econômicas. De Gramsci também
nos apropriamos do conceito de hegemonia, que consiste numa construção
de grupos aliados que exercem uma direção política, intelectual e ideoló-
gica durante determinado período de tempo, podendo prescindir de uma
dominação econômica, não existindo uma correspondência direta entre a
infraestrutura econômica e a superestrutura política. O vínculo entre as
duas é orgânico e é no seio da estrutura jurídico-política que se resolvem
as principais contradições econômicas. 3
Pode parecer estranho ao leitor o fato de nos utilizarmos de parte das
prerrogativas metodológicas gramscianas, ao mesmo tempo que optamos
pelo uso do conceito de elite e não de classe, categoria adotada por Gramsci.
Acreditamos que o conceito de elite - o qual parte do pressuposto de que
em toda a sociedade existe uma minoria que detém o poder em contrapo-
sição a uma maioria que dele está privada - seja mais apropriado para o
entendimento das relações de poder que queremos analisar na República
Velha. Por estarmos mais interessados nos conflitos que se dão no interior
da própria elite e não nas relações entre elite e massa, a teoria das elites
nos oferece instrumental teórico mais propício. 4

2
STONE, Lawrence. O ressurgimento da narrativa: reflexões sobre uma nova velha
História. Revista de História: dossiê história narrativa, Campinas: IFCH, Unicamp,
1991, p. 13 e 14.
3
A este respeito nos utilizamos dos trabalhos de Portelli (1983), Gramsci (1981),
Sader (1992).
4
Para o conceito de elite adotado ver BOBBIO (1986:385-391). Acerca da teoria das
elites ver Albertoni (1990), Dahl (1970), Martin (1978), Bottomore (1965), Mills (1962).

28
Ao iniciarmos a volumosa pesquisa que resultou em nossa tese de dou-
torado, tínhamos por objetivo realizar uma revisão historiográfica sobre um
modelo de federalismo republicano bastante consolidado pela historiografia
nacional. Ele foi cumprido. Agora, ao trazer a pesquisa a um público maior,
em forma de livro, nosso objetivo também se ampliou rumo à consolidação
de nossa proposta revisionista. Tal objetivo, porém, bem mais ambicioso,
só será realizado na medida em que pesquisas complementares acerca do
tema possam proliferar. Assim, esperamos que este livro contribua para o
despertar de novas dúvidas, novas questões e, sobretudo, novos interesses.

29
Capítulo 1

Um novo roteiro para a mesma peça

Os que clamam por observar fatos sem pressupostos


intelectuais enganam-se a si mesmos. Algumas
generalizações antecipadamente aceitas, em cujos
termos julgamentos de importância podem ser for-
mulados, são necessárias para o historiador, se não
quiser ser envolvido pela enorme massa de detalhes
que confronta. (Mendel apud Wehling, 1994:129)

Este capítulo tem por objetivo discutir as bases do Federalismo Bra-


sileiro que vigorou durante a Primeira República. A partir da análise das
contribuições de vários autores que trataram do tema, de forma direta ou
indireta, e da pesquisa empírica realizada, procuramos definir as bases de
um modelo que perdurou intacto, durante boa parte do regime republicano.
Ao mesmo tempo, procuramos identificar as causas responsáveis por sua
progressiva erosão, ao longo do próprio regime.
Conforme afirmamos na Introdução deste livro, o nosso objetivo pri-
mordial é contestar a existência da aliança café com leite como o eixo de
sustentação da República Velha. O objetivo proposto remete a duas con-
tingências. A primeira é abordar, de forma crítica, como o referido eixo
foi tratado pela historiografia, de modo a justificar a sua desconstrução. A
segunda é propor uma análise alternativa à que estava em vigor.

1.1 Federalismo brasileiro: parâmetros atuais


de discussão historiográfica

1.1.1 A “geografia” das oligarquias

Nos trabalhos acerca da Primeira República, produzidos a partir do seu


término, ou seja, no pós-30, é comum encontrarem-se algumas tendências

31
recorrentes.1 A primeira delas diz respeito à hierarquia dos estados na
Federação. Barbosa Lima Sobrinho foi responsável pela disseminação de
um esquema que dividia as oligarquias estaduais em três classes ou gran-
dezas: Minas, São Paulo e Rio Grande do Sul pertenceriam à primeira; Rio
de Janeiro, Pernambuco e Bahia, à segunda grandeza; os demais estados
brasileiros, à terceira grandeza. As oligarquias dominantes tinham seu
poder fundamentado em uma economia dinâmica, na união interna de suas
elites e na sua grande representação no Parlamento, em função do grande
número de eleitores de que dispunham. As demais caminhavam ao reboque
da História, disputando, entre si, as migalhas de soberania, distribuídas
pelo “triunvirato” hegemônico:

Os quarenta anos de federalismo brasileiro resumem-se a uma luta con-


tínua contra a supremacia de alguns estados. Temos os estados líderes
e os estados satélites; os estados de primeira, de segunda, de terceira
classe, segundo podiam candidatar-se à presidência, à vice-presidência
da República, ou à coisa nenhuma. (Barbosa, 1960:324-325)2

O elo comum entre os vários trabalhos encontra-se na ideia de um


“triunvirato”, composto pelos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio
Grande do Sul, responsável pela condução política do regime.3

1
Dada a extensão dos trabalhos produzidos, optamos por fazer recortes, sem os quais
a tarefa proposta ficaria inviabilizada. Não serão tratados os trabalhos produzidos
antes de 1930. Pela pesquisa que nos foi possível realizar, não encontramos nenhuma
referência à aliança café com leite neste período. Acerca do pós-30, optamos por
realizar uma escolha obedecendo a critérios qualitativos. Selecionamos os autores
que trataram, com determinado nível de prioridade, o tema do Estado Republicano
ou que contribuíram, de alguma forma, com sugestões em prol da construção ou
desconstrução do modelo em vigor.
2
Edgar Carone (1988:273-287) esboçou uma “geografia das oligarquias”, dividindo-
as em oligarquias partidárias (Minas, São Paulo e Rio Grande do Sul) – marcadas
por rígidas estruturas partidárias – e oligarquias pessoais (demais estados) –
fragilizadas pelas facções relacionadas à política de parentela. Iglésias (1993:209)
fala de oligarquias de primeira a quarta classe segundo seus potenciais de intervenção
sobre o a política.
3
Vários autores defendem a ideia de hegemonia do “triunvirato”. Entre eles destaca-
mos: Love (1975:115 e 117) Love (1982:189), Franco (1973:236), Enders (1993:329).
Para Campelo e Souza (1985:188), o triunvirato hegemônico era formado pelo PRM,
pelo PRP e por Pinheiro Machado. Steven Topik (1989:27) afirma que, não obstante
o fato de os três estados juntos não controlarem o Congresso, eles controlavam o
Executivo Federal.

32
Uma segunda tendência recorrente na historiografia tem a ver com o
papel do Rio Grande do Sul na Federação. O estado foi sempre associado
ao cumprimento de um papel desagregador da ordem estável do regime.
Todas as vezes em que a aliança Minas–São Paulo vivenciava uma crise, o
Rio Grande do Sul era apresentado como um tertius.4
Na busca de elementos que levariam os gaúchos a terem uma posição
relativamente autônoma no quadro nacional, os pesquisadores costumavam
relacionar tal postura às especificidades de seus interesses econômicos.
Alegava-se que, por estar o Rio Grande do Sul voltado para uma economia
de mercado interno, seus interesses seriam necessariamente distintos da-
queles dos estados voltados para a economia agroexportadora.5
Não cabe aqui contestar, com profundidade, a diversidade entre os
interesses econômicos dos estados e de sua relação com o desempenho
nacional dos mesmos. Mas o que anunciamos, por hora, a ser abordado no
decorrer deste livro, é que o desempenho político do Rio Grande do Sul, na
esfera federal, não esteve necessariamente condicionado à defesa de políti-
cas nacionais voltadas para a proteção das economias de mercado interno.
Ao mesmo tempo, Minas Gerais dispunha de uma dinâmica economia de
mantimentos que, embora não fosse hegemônica no estado, abarcava a
maior parte de seus municípios rurais. Caso este argumento fosse válido,
o caráter da produção econômica gaúcha, ao invés de afastar gaúchos de
mineiros, contribuiria para a sua aproximação.
Uma outra referência comum ao desempenho federal dos gaúchos
relaciona-se à parceria estabelecida entre eles e os militares. Na condição
de elementos desagregadores, o Exército e os gaúchos costumavam se unir
para fazer contraposição à hegemonia Minas–São Paulo.6
Ao longo deste livro, se perceberá que o poder de intervenção do Rio
Grande do Sul sobre o regime republicano foi muito considerável. Através
do exame de sua atuação, nos processos sucessórios, perceberemos que nem
sempre ela se deu de forma desagregadora ou mesmo alternativa à crise de
hegemonia mineiro-paulista. E também que o Exército nem sempre atuou
ao seu lado, guardando uma relativa margem de autonomia.
Uma outra tendência recorrente na historiografia diz respeito aos papéis
dos diferentes atores políticos do regime. Ao conferir aos estados-atores o

4
Ver Martins Filho (1981:33 e 119), Love (1975:131 e 144), Franco (1955:479),
Peressinotto (1994:204).
5
Ver Peressinotto (1994:214). Esta concepção está presente também em Martins Filho
(1981:126) e em Love (1975:143).
6
Ver Love (1975:115-116), Love (1982:278) e Schwartzman (1972:106).

33
poder de vida e morte sobre os destinos do Estado Nacional, a participação
de outros agentes foi subestimada ou relegada ao mero papel de espectado-
res. Aqui nos referimos ao Exército e ao próprio Estado Nacional.
De ator principal dos primeiros dez anos da República, o Exército pas-
sou a ser abordado como mero coadjuvante nos demais períodos, só voltando
a ter a sua ação destacada na década de vinte, quando sua participação, em
prol da desestabilização do regime, foi realçada. Em geral, o papel a ele
atribuído foi o de caixa de ressonância de interesses oligárquicos ou urbanos
emergentes, sem conferir-lhe autonomia. É comum também encontrarem-se
referências ao controle que as oligarquias tiveram sobre o governo militar
de Hermes da Fonseca (Franco, 1955:653).7
O mesmo problema pode ser encontrado nas referências ao Estado
Nacional. De ator fundamental nos períodos monárquico e do pós-30, o
interregno da Primeira República foi visto como o período de sua ausência
ou fragilização. Sua autonomia como ator político durante o regime foi, por
algumas vezes, negligenciada. Partiu-se do pressuposto de que o Estado
Nacional constituiu-se em mero instrumento, sob o controle das oligarquias
mineiro-paulista, atuando em prol do atendimento das reivindicações das
mesmas.8
Ao inserirmos o Catete e o Exército no conjunto de atores mais proe-
minentes do regime republicano, esperamos resgatar o papel relativamente
autônomo desses dois agentes políticos. Ao mesmo tempo, ao relativizarmos
o grau de interferência dos setores cafeicultores sobre o controle das políticas
públicas, esperamos resgatar os níveis de autonomia do Estado Nacional, o
que será feito na análise das políticas de proteção ao café.

1.1.2 O Papel “Estabilizador” de Campos Sales

Uma outra tendência, encontrada nos trabalhos acadêmicos, diz res-


peito ao papel desempenhado pelo governo Campos Sales sobre o regime

7
Souza também relega os militares ao domínio das oligarquias hegemônicas. Souza
(1985:203 e 224). O mesmo pode ser dito acerca de Faoro (1984:542, vol.2), para
quem o afastamento total do Exército da política conferiu ao regime oligárquico um
tom imobilista, sob o domínio hegemônico da aliança oligárquica entre Minas e São
Paulo. Para João Cruz Costa (1972:67-68) o Exército, afastado pelas oligarquias do
poder, passaria a atuar como um “Poder Moderador”, agindo todas as vezes em que
se fizesse necessário estabilizar as instituições.
8
Embora esta ideia esteja disseminada no decorrer de muitas obras citadas, encontra-
se explícita em Franco (1955:477) e Pang (1979:23).

34
republicano. As referências ao seu governo estiveram voltadas para o êxito
do presidente paulista em conferir estabilidade ao regime, através das
mudanças institucionais por ele realizadas (Lessa, 1988:142). 9
A “política dos estados” de Campos Sales tratou-se de uma expressão
atribuída por ele mesmo a uma nova forma de o Executivo Federal relacionar-
se com os estados-atores. Segundo avaliação própria do regime republicano,
Campos Sales achava que as instabilidades da República tinham por
fundamento as dificuldades de relação existentes entre o Executivo e o
Legislativo Federais e as lutas partidárias que dividiam o Parlamento. O
contexto a que ele se referia era o dos primeiros anos do regime, assolados,
principalmente, por uma conjuntura de crise, provocada pela cisão do Partido
Republicano Federal (PRF), que dividiu o Congresso entre republicanos
e concentrados. Esta divisão havia contribuído para fragilizar o Catete,
tornando a gestão de Prudente de Morais totalmente estéril, segundo sua
avaliação (Salles, 1983:115-119).
A solução apontada por ele implicava em conferir ao Executivo Federal
um maior grau de autonomia em relação ao Parlamento, palco das principais
disputas. Ao mesmo tempo, pretendia desatar os nós górdios geradores das
discórdias no âmbito do Legislativo, através da realização de uma ação
conjunta com os estados, denominada por ele de “política dos estados”, a
qual consistia em mantê-los em harmonia com o Executivo Federal, sem
que abrissem mão de sua autonomia constitucional (Salles, 1983:120).
Pelo que se encontra implícito em seu trabalho, a hegemonia do governo
federal não seria repassada aos estados-atores. Caberia a eles apoiarem
o Catete, fortalecido em seu poder de arbítrio. Dessa forma, o modelo de
Estado Nacional proposto por Campos Sales pairava nas alturas, distante
dos conflitos regionais, relegados aos estados-membros. Daí as referên-
cias que fazia à necessidade de erigir-se um Executivo Federal de caráter
meramente administrativo, infenso às disputas e interesses regionalistas.
A despolitização do Estado Nacional seria contraposta à politização dos
estados-atores, resguardando-se o poder soberano e autônomo do Catete.
Para a resolução dos conflitos que perturbavam a ordem do Congresso,
Campos Sales propôs algumas mudanças no Regimento Interno da Câmara.
Tais modificações visavam conter as disputas partidárias no âmbito do Par-
lamento, que tanto ameaçavam a ordem da gestão Prudente de Morais. Elas

9
O mesmo pode ser visto também em Carone (1975:101). Afonso Arinos afirma que
a política dos governadores foi a concretização do federalismo no Brasil (Franco,
1955:474 e 475). Para Iglésias, a estabilidade do período é vista como sinônimo da
conciliação entre as oligarquias (Iglésias, 1993:207-208).

35
tiveram um impacto político fundamental para a estabilização do regime,
naquele momento. Esta modificação ocorreu através de duas medidas. A
primeira, relativa à eleição da Presidência da Câmara, e a segunda, relativa
ao envio das atas eleitorais para o Congresso.
A partir das reformas de Campos Sales, o Presidente da Câmara Federal
deixou de ser o membro mais idoso, passando a ser o mesmo Presidente da
legislatura finda. Esta mudança foi fundamental, na medida em que cabia
ao presidente da Câmara nomear os cinco membros que compunham a “co-
missão de verificação de poderes”, ou seja, em suas mãos, estava o controle
sobre a renovação do Poder Legislativo. Através dessa fórmula, a Presidência
da Câmara derivaria da indicação do situacionismo e o Executivo Federal
garantiria o seu controle sobre a renovação do Congresso. Ela, porém, não
durou muito. Como será visto, em função de pressões políticas sobre o governo
Afonso Pena, o Regimento foi novamente alterado, voltando a funcionar como
antes. Portanto, esta primeira alteração regimental teve breve duração.
Já a segunda mudança teve um impacto muito maior sobre o regime,
não só pelas suas consequências, como pela sua permanência. Através dela,
o diploma do deputado eleito passou a ser a ata de apuração da eleição,
assinada pela maioria da comissão apuradora, no âmbito do município.
Com esta medida, impediu-se que fossem enviadas ao Congresso duplicatas
de atas, para que o mesmo optasse pela veracidade de uma e a falsidade
da outra. O resultado mais imediato dessa medida foi a transposição dos
conflitos do Congresso para fora dele. Cabia às facções locais a escolha
dos deputados eleitos que comporiam o Legislativo Federal. Não obstante
a votação se desse no município, a filtragem final ficaria sob a responsa-
bilidade dos partidos regionais que, através de suas comissões executivas,
definiriam a composição de suas bancadas. Como dissemos, o conflito
deixava as fronteiras federais e se imiscuía nos estados.
Renato Lessa (1988:106) afirmou que esta medida contribuiu também
para o esvaziamento da soberania do Legislativo Federal, na medida em
que as eleições já vinham decididas, esvaziando-se o poder da comissão
de reconhecimento sobre as mesmas.
Mas na prática, conforme será visto, o esvaziamento da comissão de
reconhecimento não ocorreu. A despeito do envio de uma única lista pelos
estados, a comissão tinha o poder de contestar o diploma. Perdera o poder
de escolha, mas mantivera o seu poder de veto. Tanto é que, ao longo deste
livro, serão observadas diversas situações de árdua disputa, não só pela
Presidência da Câmara, como principalmente pela composição da comis-
são de reconhecimento. E, por diversas vezes, os destinos das bancadas
estiveram nas mãos da “comissão dos cinco”.

36
O exemplo que denota mais veementemente o fato de que não houve
esvaziamento do Parlamento, enquanto locus de hegemonia, encontra-se no
poder de decisão sobre as intervenções federais nos estados. As consequências
das lutas entre facções no interior dos estados eram: a duplicidade de atas
eleitorais, de assembleias legislativas e até de presidências de estado. Tais
duplicidades eram resolvidas no âmbito do Parlamento e do Judiciário Fede-
rais. Cabia ao Poder Judiciário julgar os pedidos de habeas corpus – instituto
normalmente usado para este fim – e ao Poder Legislativo aprovar ou não a
intervenção federal sobre o estado, vítima da dissidência intra-oligárquica.
Dessa forma, ambos os poderes mantiveram-se razoavelmente fortalecidos.
Embora estivesse preocupado com sua própria sucessão, Campos Sales
não propôs uma fórmula permanente, que conduzisse à renovação do Exe-
cutivo Federal. Certamente porque este ainda não era um problema visível
naquela conjuntura. A única referência encontrada a este respeito está na
alusão de que as sucessões deveriam resultar da competição partidária. Mas
de partidos organizados em torno de ideias e não de interesses personalísticos
ou meramente regionais. Na ausência desses partidos, segundo Campos Sales
(Salles, 1983:187-189), caberia ao Catete conduzir o processo sucessório.
Em seu governo, isto foi possível. A partir do apoio conferido por um
seleto grupo de estados-atores – Minas, São Paulo e Bahia – o Catete fez
de Rodrigues Alves o seu sucessor, sem contar com muitas resistências e
à revelia do Partido Republicano Federal (PRF). Esta ação, porém, não
poderia repetir-se na sucessão seguinte, conforme será visto. O modelo de
Campos Sales, com a pretensão de conferir à República considerável grau
de estabilidade, havia deixado de regular o principal elemento disfuncional
do regime republicano, qual seja o fundamento de sua própria renovação.
Isto implica dizer que o grau de estabilidade conferido pela “política dos
estados” à ordem institucional brasileira precisa, no mínimo, ser relativizado.
Esta tarefa, de fundamental importância, escapa, porém, aos limites desse
trabalho. Mas acreditamos poder contribuir para esta necessária renovação,
a partir das referências que estarão presentes nos próximos capítulos.

1.1.3 Os parâmetros da aliança café com leite

A mais sedimentada das tendências entre os historiadores foi construída


em torno da aceitação da hegemonia da aliança mineiro-paulista sobre o
regime oligárquico. Embora existam divergências acerca de alguns aspec-
tos relativos a essa aliança, todos concordam que, até 1930, a estabilidade
do regime foi garantida pela associação hegemônica entre os dois maiores
estados da Federação.

37
Partiu-se do pressuposto de que a construção da aliança mineiro-pau-
lista veio conferir ao regime republicano a estabilidade política que lhe
faltava, desde a extinção do Poder Moderador. Dessa forma, os personagens
desestabilizadores da ordem foram afastados da cena política, em troca de
uma monopolização do poder, por parte de uma aliança que, embora não
fosse isenta de conflitos, era inquestionável.

Os eventos fundadores da aliança

Existem divergências entre os historiadores acerca dos eventos fundado-


res da citada aliança. A este respeito, quatro grupos podem ser delimitados.
O primeiro afirma que a aliança foi construída na primeira década republi-
cana, justamente com o fim de conferir um novo ordenamento institucional
ao regime que se iniciava.10
Tais trabalhos não atentaram para o fato de que Minas Gerais
encontrava-se imersa em ferrenhas lutas internas, que impediam que o
estado tivesse uma efetiva participação nos principais acontecimentos
nacionais, naquele período. Lembre-se, aqui, a posição de neutralidade
convenientemente assumida por Minas, durante o governo Floriano, quando
serviu, inclusive, de opção de exílio para os degredados do regime. Mesmo
os historiadores que se dedicaram prioritariamente ao estudo de Minas no
período reconhecem que o estado permaneceu à margem da política federal
até 1898, período que marcou a ação do presidente Silviano Brandão em prol
da efetivação de um acordo interno entre as elites mineiras, habilitando-as
para uma ação nacional mais realçada.11
Os pertencentes ao segundo grupo afirmam que a aliança surgiu
no governo Campos Sales. Para estes, a aliança foi resultante do pacto
oligárquico ou serviu de fundamento para sua consecução. Nestes casos
não é raro encontrar-se uma confusão de conceitos, provocada pela
associação da “política dos estados”, de autoria de Campos Sales, com
a política do café com leite, de autoria dos próprios pesquisadores. Para
os analistas citados, o acordo interestadual conferia ao regime a sua

10
Hélio Silva (1985:74) afirma que a aliança café com leite fora projetada na
Convenção de Itu, ou seja, antes do próprio advento da República, muito embora
tenha se tornado eficiente a partir do governo de Prudente de Morais. Para Souza,
a aliança mineiro-paulista surgiu após o governo de Floriano Peixoto (Souza,
1985:190-191 e 212). Para Boris Fausto (1994:89) foi a partir da eleição de
Prudente de Morais em 1894.
11
Podemos citar, dentre outras: Wirth (1982), Resende (1982) e Franco (1955).

38
estabilidade, da mesma forma que o fazia a “política dos estados” de
Campos Sales.12
Como será visto no segundo capítulo deste livro, o que proporcionou
relativa estabilidade ao regime republicano foram as medidas tomadas por
Campos Sales, apoiadas pelos maiores estados da Federação. O fato de
Minas Gerais ter composto a chapa presidencial, que sucedeu o governo
de Sales, não implicou que já existisse uma aliança entre os dois estados,
na medida em que houve resistências de ambos em torno da indicação de
Afonso Pena para o cargo de vice-presidente. Além disto, se no período
houvesse uma aliança preferencial, por parte de São Paulo, ela deveria ser
com a Bahia, estado que desempenhava um papel político muito mais ativo
do que o desempenhado por Minas, na ocasião. Tais considerações serão
retomadas, com maior profundidade, no próximo capítulo.
Há um terceiro grupo de historiadores que atestam a origem da alian-
ça Minas–São Paulo entre os governos de Rodrigues Alves e Afonso Pena
(1902-1909). Embora não se refiram ao fato, provavelmente o que motivou
o marco foi a ocorrência, no período, do Convênio de Taubaté, evento que
terá uma análise destacada no capítulo terceiro, do presente trabalho.13
Conforme veremos – nos capítulos dois e quatro, respectivamente –, em
ambas as sucessões citadas, Minas e São Paulo encontravam-se trilhando
direções opostas. Procuraremos realçar, também, que o primeiro programa
de valorização do café não resultou de uma aliança política nacional entre
os dois estados da Federação.

12
Os autores que têm por marco o governo Campos Sales são: Martins Filho (1981:53),
Wirth (1982:232), Love (1982:277), Bello (1972:167-168), Iglésias (1993:208) e
Castro (1982:119). José Maria Belo (1972:167-168) deixa transparecer a citada
confusão, ao tratar as mudanças regimentais operadas por Campos Sales ao mesmo
tempo em que atesta a origem da aliança entre Minas e São Paulo. Martins Filho
(1981:32-33 e 127) afirma que a política do café com leite foi uma exacerbação da
política dos governadores. Surgiram no mesmo período e parecem estar incluídas no
âmbito do mesmo pacto. Cintra (1972:38-39) afirma que a política dos governadores foi
um mecanismo centralizador, engenhado pelas oligarquias dominantes, para garantir-
lhes o controle sobre o Estado nacional. Estes estados eram Minas e São Paulo, que,
unidos, conseguiram transformar seus interesses regionais em nacionais.
13
Para Edgar Carone (1988:305), a política do café com leite se inicia em 1906, no
governo Afonso Pena. Afonso Arinos parece não ter chegado a um acordo consigo mesmo
a respeito do evento fundador da aliança mineiro-paulista. Ele fala de três ocasiões que
deram origem à aliança: a primeira foi na sucessão de Rodrigues Alves, referenciada em
Franco (1955:457); a segunda foi na sucessão de Campos Sales e a terceira no governo
Afonso Pena, referenciadas em Franco (1973:174 e 627), respectivamente.

39
Há um quarto grupo que atrela a emergência da aliança à sucessão de
Hermes da Fonseca, ou seja, ao chamado “Pacto de Ouro Fino”, ocorrido
em 1913. Tais autores partem do pressuposto de que, até então, vencidos
vinte e quatros anos de regime (mais de 50% dele), a aliança entre Minas
e São Paulo ainda não havia ocorrido. Para a emergência do acordo, eles
se basearam em um evento real, ocorrido na cidade de Ouro Fino, Minas
Gerais, entre representantes de cada um dos dois estados, com o fim de
interferirem sobre a sucessão de Hermes da Fonseca.14
Concordamos com Enders acerca do caráter circunstancial da apro-
ximação entre os dois estados, a ser tratada no capítulo cinco deste livro.
Conforme será visto, tal aproximação não chegava a constituir-se em uma
aliança e logo se romperia, no evento sucessório seguinte.
Por fim, há autores que chegaram a falar em “rotativismo”, como se
tivesse havido um planejado revezamento entre Minas e São Paulo na ocupa-
ção dos cargos presidenciais e na efetivação da aliança café com leite. Para
esses autores, o principal fator, responsável pela ocorrência da Revolução
de 30, foi a quebra, por parte de São Paulo, desse revezamento.15
A despeito da diversidade dos marcos originários da aliança, é comum aos
autores a referência a dois momentos de exceção. O primeiro foi a sucessão de
Afonso Pena, que separou paulistas e mineiros em duas candidaturas diferentes,
dando origem à disputa entre hermistas e civilistas. O segundo foi a sucessão
de Washington Luís, que marcou o encerramento da referida aliança. O fato de
contestarmos a aliança café com leite não implica em contestar a ocorrência de
alianças conjunturais entre Minas e São Paulo, ao longo da República Velha.
Pelo que será visto, os dois estados tiveram momentos que iam da aproximação
desconfiada à oposição veemente. O mesmo se deu com outros tipos de alian-
ças estabelecidas por parte de Minas com outros estados. O que se contesta é
que a aliança entre mineiros e paulistas tenha sido preferencial, permanente
e isenta de conflitos. Assim, apontamos que os eventos da Campanha Civilista
e da Revolução de 1930, em que as elites mineiras opuseram-se às paulistas,
não foram eventos excepcionais, mas apenas rotineiros.

14
Enders (1993:416 e 450) afirma que a aliança surgiu no Pacto de Ouro Fino, por
razões meramente circunstanciais, ligadas à intenção de barrar a ascensão de Pinheiro
Machado. O mesmo afirmam Daniel de Carvalho (1957:141) e Assis Barbosa (1960:218).
15
Love (1975:128) fala em “alternância” entre os dois estados, apenas como tendência e não
como regra. (Love, 1982:118) também fala que a revolução de 30 resultou da recusa de São
Paulo em manter a alternância com Minas Gerais. Carone (1988:305) fala em revezamento.
Afonso Arinos abusa desse conceito. Fala em “rotativismo”, em “movimento pendular” e
em “binômio espontâneo” (Franco, 1955:457, 914 e 1013), respectivamente. Hélio Silva
(1971:74) também fala em revezamento entre os presidentes de Minas e São Paulo.

40
Os pilares e o sentido da aliança

A hegemonia mineiro-paulista, segundo os pesquisadores, era funda-


mentada em pilares bastante sólidos. Reconhecem-se pelos menos dois deles.
O primeiro era o grande potencial econômico, representado pela produção
cafeeira de ambos os estados. O segundo era a união interna de suas elites
em torno de partidos monolíticos regionais.
Em geral, Minas Gerais foi colocada na aliança como um parceiro
paradoxal. Ao mesmo tempo em que se constituiu no elo frágil dessa
cadeia, por não possuir uma economia tão dinâmica e avançada como a
dos paulistas, foi o estado que mais obteve ganhos políticos resultantes
dessa parceria.
Tal paradoxo foi resolvido, para uns, pela recorrência a explicações
que realçavam a união interna do PRM como tendo sido responsável pela
obtenção de mais benefícios do Estado Nacional do que, de fato, os mi-
neiros mereceriam. Para outros, pelo realce de suas habilidades políticas
naturais, como pode ser observado nesta citação: “Esta política, graças à
predominância incontrastável do café, (...) derivou naturalmente para uma
aliança mineiro-paulista, onde São Paulo entrava com o peso da sua riqueza
e Minas com o da sua sabedoria, prudência e disciplina tradicionais no
campo de manobras” (Franco, 1955:478).16
A tese predominante afirma que os diferentes níveis de desenvolvimento
de suas economias modelaram um determinado tipo de relação com o Estado
Nacional. Minas Gerais, por ter uma economia decadente ou de “relativa
estagnação”, tendia a relacionar-se com a União em busca do atendimento
de reivindicações majoritariamente extra-econômicas. Já São Paulo, em
função do amplo desenvolvimento de sua economia, teria uma postura di-
ferente. Ou de mera indiferença, resguardada a sua autonomia econômica,
ou o seu contrário, lutando em prol do atendimento de reivindicações de
caráter eminentemente econômico:

Mas a aliança café com leite não se baseava numa genuína reciproci-
dade de interesses, porque Minas era a parte mais fraca e tinha de se
submeter à vontade de São Paulo na política econômica. (...) À medida
que esse hiato aumentava, ficavam mais claros seus objetivos diferen-
tes na arena federal. À parte da política monetária do café, São Paulo
não dependia do governo federal (até a década de 1930) para favores

16
Para Martins Filho (1981:28) a conciliação interna das elites mineiras, ocorrida a
partir do governo de Silviano Brandão, foi responsável pela ascensão federal de Minas
e não o seu poder econômico.

41
econômicos. Minas, ao contrário, tinha uma grande lista de compras.
(Wirth, 1982:252) 17

O que fica patente nesta citação é o realce conferido ao nível de


autonomia dos paulistas em relação ao Estado Nacional. Para tais abor-
dagens, São Paulo havia trilhado uma postura minimalista em relação
à disputa de cargos e proteção do Estado, por prescindir deles. Dotado
de uma economia dinâmica e forte, pôde abrir mão, deliberadamente,
de uma postura mais hegemônica sobre o Estado Nacional, sem que isto
resultasse em prejuízos econômicos que não pudessem ser resolvidos
internamente.18
Caminhando nesta mesma direção, alguns estudos tenderam a desta-
car a ação nacional mineira como conservadora ou obsoleta, contraposta à
ação paulista, considerada mais aberta, dinâmica e modernizadora. Estes
diferentes comportamentos tinham clara relação com o grau de desenvol-
vimento de suas economias.19
Estas considerações não deixaram de estar presentes em obras mais
recentes. Tendo por referência as teses de Azevedo Amaral, Renato Lessa
também associou Minas Gerais ao conservadorismo, ao não contestá-las:

A classificação de Azevedo Amaral distingue, pois, dois estilos anta-


gônicos de condução da coisa pública. De um lado a ‘política paulista’
associada à eficiência administrativa e à modernização; por outro o
padrão governado pela política obsoleta, marcado pelo predomínio de
‘orientações diferentes’.(...) No entanto, é incontornável a evidência de
que de 1906 a 1926 a chamada política obsoleta tem um inequívoco
tom mineiro. (Lessa, 1988:148)

17
Wirth (1982) insiste na tese do clientelismo mineiro em relação à Federação. Para
ele, Minas entrou na aliança em função de seu poder político, garantido por sua
unidade interna. Uma vez na aliança, colocava-se como um fiel executor das diretrizes
econômicas impostas por São Paulo. Ver Wirth (1982: 154, 232, 241, 249 e 309).
18
Love (1982:250) também compartilha dessa visão. Acha que Minas atuava em busca
de favores de clientela e São Paulo não o fazia, por não precisar desses favores. Ao
mesmo tempo, destaca que, para atingir seus objetivos econômicos, São Paulo não
precisava controlar diretamente os postos presidenciais ou ministeriais.
19
A raiz de tal pensamento, sem dúvida alguma, encontra-se nas interpretações do
patrimonialismo brasileiro, a serem tratadas posteriormente, cujo maior representante
para o caso mineiro foi Amílcar V. Martins Filho (1987:3-4, 8, 111). Ver também:
Schwartzman (1972:97-98) e Wirth (1982: 309 e 312).

42
A respeito das considerações arroladas acima, o presente livro pretende
propor algumas ressalvas. A primeira delas diz respeito ao nível de desen-
volvimento econômico diferenciado entre os dois estados, condicionador de
sua relação com a União.
Embora seja incontestável a superioridade econômica de São Paulo em
relação a Minas Gerais, não se pode atribuir o distanciamento paulista do
governo federal, ocorrido durante alguns governos da Primeira República,
à falta de interesse de suas elites em interferirem sobre os rumos do Estado
Nacional.
Conforme veremos, por estar atrelado a uma economia altamente de-
pendente do mercado internacional, São Paulo ficava refém das políticas
cambial, fiscal e monetária, controladas pela União. Conforme também
será visto, nas vezes em que se ausentou do controle do Executivo Federal
não o fez obedecendo a uma estratégia deliberadamente minimalista, mas
por ter sido derrotado politicamente, por alianças que o excluíram. Aqui
nos referimos à participação de São Paulo nos governos de Afonso Pena
ao de Wenceslau Brás. Conforme será demonstrado, entre 1906 e 1914,
São Paulo esteve excluído das principais articulações políticas nacionais.
Uma segunda ressalva refere-se às relações de cooptação que
supostamente Minas Gerais teria mantido com o Estado Nacional, em busca
de benesses exclusivamente extra-econômicas. Ao longo deste livro, teremos
a oportunidade de nos referir a pesquisas mais recentes que apontaram
para um maior nível de dinamicidade da cafeicultura mineira, isentando-a
de relacionar-se com o Executivo Federal apenas com o fim de auferir
do mesmo prebendas políticas. Pretendemos comprovar que seu nível de
relação com o Estado era mais semelhante ao paulista, do que o contrário.
Uma terceira ressalva diz respeito aos motivos que garantiram a Minas
Gerais o exercício da hegemonia política sobre o regime. Embora seja in-
contestável o grau de coesão interna de suas elites, principalmente quando
comparadas às elites baianas e fluminenses, teremos oportunidade de, no
mínimo, relativizar as bases dessa conciliação intra-oligárquica, apontando
para ocasiões em que tais dissidências comprometeram uma efetiva parti-
cipação do estado na política federal.
Partimos do pressuposto de que a força política de Minas não se baseava
exclusivamente no relativo grau de coesão interna, mas na existência de uma
economia forte, associada ao seu grande contingente eleitoral, responsável
por projetar o estado nacionalmente, por meio dos trinta e sete deputados
e três senadores que possuía.
Uma quarta e última ressalva refere-se ao caráter conservador e obsoleto
dos mineiros, que derivou das concepções em debate. Ao compararmos a

43
atuação federal de Minas com a de outros estados, nada autoriza a carac-
terizá-la dessa forma. Nos raros momentos em que os setores oligárquicos
atuaram no sentido de “modernizar” as relações políticas vigentes, os mi-
neiros estiveram presentes, a exemplo da ação dos intelectuais do “jardim
de infância” ou da ação de jovens oligarcas no contexto da Aliança Liberal,
objetos de abordagem nos capítulos quatro e oito, respectivamente.
Contrapondo-se à estabilidade mineiro-paulista, foram relevadas as
instabilidades próprias a estados como Bahia e Rio de Janeiro, normal-
mente alçados como focos de disputas intra-oligárquicas, prejudiciais a
um desempenho político nacional satisfatório. Embora fossem unidades
econômicas dinâmicas e dotadas de considerável representação política
parlamentar, tiveram ressaltadas as suas atuações discretas no cenário
nacional, exatamente por não terem conseguido romper com a luta entre
suas facções internas (Wirth, 1982:237).20
Não se trata aqui de contestar que a união interna entre as elites era
uma condição indispensável para o exercício da hegemonia federal. Os
estados que, nas conjunturas sucessórias, se encontravam mais unidos,
eram aqueles que tinham melhores condições de interferirem no rumo dos
acontecimentos. Porém, o fato de a Bahia e o Rio de Janeiro estarem cons-
tantemente assolados por divisões internas não impediu que estes estados
tivessem uma participação ativa, enquanto atores, nos processos sucessórios.
Marieta Ferreira, em sua análise sobre o Rio de Janeiro, procurou dar
um tratamento diferenciado às dissensões internas do estado. Segundo a
autora, as elites fluminenses tentaram superá-las através de duas saídas.
A primeira foi a tentativa de afastamento estratégico, em relação à política
federal, e a segunda foi a de construir eixos alternativos às situações domi-
nantes. Em ambos os casos, o estado colheu resultados positivos, tendo sua
presença destacada no cenário federal (Ferreira, 1994:141).
Quanto ao sentido da aliança mineiro-paulista, os autores são pródigos
em criar situações que a tornaram contingente. Para Peressinotto, ela
teria surgido em função da falta de institucionalização dos mecanismos
responsáveis pelo arbitramento das sucessões presidenciais. Para Gontijo,
ela fora o equivalente funcional ao Poder Moderador, conferindo ao sistema
o mesmo grau de estabilidade que detinha o regime monárquico. Há aqueles
que afirmam que ela decorrera da fragilidade da democracia brasileira,
incapaz de apoiar-se na livre competição político-partidária. O ponto de
convergência entre estas abordagens está no fato de que a aliança mineiro-

20
Existem importantes considerações explicativas para tais dissidências em Enders
(1993:332- 336).

44
paulista conferiu ao regime razoável grau de estabilidade, resolvendo o seu
maior “Calcanhar de Aquiles”, qual seja o das sucessões presidenciais.21
A partir do momento em que se estabelece um novo olhar sobre o re-
gime político republicano, pode-se perceber que sua estabilidade derivava
muito mais da ausência de alianças permanentes e monolíticas do que do
seu contrário. Ao longo deste livro, procurar-se-á demonstrar que a inexis-
tência da aliança Minas–São Paulo não impediu que o regime republicano
adquirisse consistência e relativa estabilidade.
Conforme afiançamos na Introdução deste livro, a instabilidade das
alianças é que conferiu ao regime a estabilidade necessária, na medida
em que impedia a monopolização do poder, deixando sempre aberta a
possibilidade de sua renovação, mesmo que esta dificilmente ocorresse.

Rompendo com o monolitismo da aliança

Não obstante a proeminência da aliança mineiro-paulista, encontrada


na totalidade dos trabalhos analisados, alguns autores romperam com o
seu monolitismo e apontaram para situações em que a citada aliança fora
colocada em risco. Outros se aproximaram mais do nosso argumento, su-
gerindo que os termos da própria aliança fossem revisados.
Faoro, em seu clássico trabalho, muito embora defendesse a ideia de
que uma aliança café com leite tivesse sido formulada a partir do governo
Campos Sales, destacou os inconvenientes resultantes desse acordo para São
Paulo, ao dar destaque às rivalidades predominantes entre os dois estados.
Segundo Faoro (1984:584-585), ao estabelecer um acordo com Minas, São
Paulo teria que amargar um ostracismo de doze anos e ter condicionada a
sua prosperidade ao apoio mineiro.
J. Love, Martins e Peressinotto, em momentos diferentes e de forma
diversa, destacaram que os elos de ligação entre Minas e São Paulo foram
constituídos pela economia exportadora. No entanto, entre ambos os esta-
dos não houve uma compatibilidade absoluta de interesses, em função das
diferenciações internas, decorrentes do nível de desenvolvimento de cada
modelo agro-exportador. No entanto, os autores não se aprofundaram no
estudo dessas incompatibilidades e de seu impacto sobre a aliança.22

21
Ver Peressinotto (1994:212-213), Carvalho (1968:44), Love (1982:277), respec-
tivamente.
22
Ver Love (1982:129). Martins (1981:61-113) chega a sugerir que novos estudos
sejam feitos neste sentido, por encontrarem-se ainda lacunas. Ver também Peressinotto
(1994:212).

45
Eul-Soo Pang afirmava que a política do café com leite deveria
chamar-se política do “café contra o leite”, pois PRM e PRP eram rivais
em seus interesses econômicos distintos e, na maioria das vezes, adversos:
“Contrariamente às interpretações existentes, a aliança ‘café com leite’
entre São Paulo e Minas não foi um bom casamento político. Deveria ser
chamada, mais apropriadamente, café contra leite” (Pang, 1979: 55 e100).
Apesar de reconhecerem as rivalidades entre Minas e São Paulo e de
apontarem a sua aliança como problemática, esses autores não chegaram
a questionar a sua existência.
Estudos mais recentes procuraram relativizar a hegemonia da alian-
ça mineiro-paulista sobre a nação. Entre eles destacaram-se trabalhos já
citados, que tentaram resgatar a importância política das oligarquias de
“segunda grandeza”, realçando seu poder de intervenção sobre o jogo oli-
gárquico. Introduzindo a noção de “eixo alternativo” ao poder dominante
de Minas e São Paulo, foram resgatadas as atuações do Rio de Janeiro e do
próprio Rio Grande do Sul, como estados que cumpriram um papel deses-
tabilizador sobre a ordem oligárquica, conduzida pela aliança hegemônica.
Ao mesmo tempo, identificou-se uma série de dificuldades inerentes ao
exercício da hegemonia por parte de São Paulo, embora o poder do estado
não fosse contestado.23
É comum encontrar-se nesses trabalhos sugestões de revisão dos termos
da aliança Minas–São Paulo, com o fim de romper com esquematismos. A
referência de Kugelmas é um exemplo dessa preocupação:

A instabilidade constante dos sistemas de alianças tornava cada sucessão


presidencial um evento traumático, como se o regime necessitasse de
uma periódica recomposição; mesmo a aliança São Paulo-Minas jamais
se formalizou e não foi permanente. Seria mais adequado pensá-la
como condição necessária mas não suficiente para canalizar e conter o
potencial conflitivo das disputas. (Kugelmas, 1986:77)

Steven Topik, ainda mais na direção do nosso argumento, apontava


para a aliança como uma ficção, sem base empírica que a comprovasse.
No entanto, limitou-se a sugerir a hipótese, sem fazer parte de seu objeto
de estudo aprofundá-la.

23
Para o caso do Rio de Janeiro, ver: Ferreira (1994:7,8, 24, 112, 143 e 144), Men-
donça (1997:61-62 e 178). Com o destaque para o Rio Grande do Sul ver Enders
(1993:7, 8, 350 a 390). Acerca de São Paulo ver Kugelmas (1986: 3, 76, 77 e 99).
Enders (1993:451) destacou que, embora a aliança parecesse estável, na prática, uma
série de outras articulações e muitos acordos tiveram que ser realizados para mantê-la.

46
A imagem de um bem- sucedido acordo café com leite entre São Paulo
e Minas, um acordo de alternância de presidência entre os dois estados,
não passa de uma idealização de um processo muito mais caótico e
cheio de conflitos.(...) Se for a exceção que prova a regra, o acordo café
com leite estaria provado. Quatro dos cinco presidentes paulistas não
tiveram mineiros como sucessores.(...) Profundas divergências políticas
colocava-os em confronto por causa de diferentes graus de envolvimento
no comércio exterior. (Topik, 1989:28)

Enders destacava, na conclusão de sua tese, que a política do café com


leite merecia passar por uma séria revisão. E Jerry Weiner, em um estudo
biográfico anterior, afirmava que a aliança entre Minas e São Paulo só se
dava quando outras alternativas faziam-se inviáveis, constituindo-se mais
em uma exceção do que em uma regra.24
Como se pôde perceber, o principal argumento desse trabalho se in-
sere mais em uma linha de continuidade do que de ruptura, em relação às
pesquisas mais recentes.

Bases econômicas da aliança

Um outro pilar que serviu de base aos estudos da aliança Minas–São Paulo foi
o de sua relação com o café. Visando a facilitar o acompanhamento do debate que
se travou a este respeito, separamos os autores em três grupos distintos de análise.

O primeiro grupo incorpora trabalhos que, na relação público-privado,


privilegiam o segundo em detrimento do primeiro, ou seja, na análise
entre Estado e grupos de interesse, o aparelho estatal aparece como
um instrumento de expressão de interesses de classe.

Englobam-se, neste grupo, os trabalhos associados às vertentes in-


terpretativas marxista e liberal para o Estado Republicano.25 Em ambas
as vertentes, torna-se visível a apropriação do Estado Republicano pelas
unidades federadas cafeicultoras, que conseguem fazer valer seus interesses
sobre os dos demais estados da Federação. O resultado imediato dessa inter-
pretação é o de conferir à aliança Minas–São Paulo incontestável hegemonia

24
Ver Enders (1993:450), Weiner (1980:175).
25
Entre os vários autores destacamos Barbosa (1960), Basbaum (1975-76), Bello (1972),
Bessone (1968), Calógeras (1957), Cammack (1980), Carone (1988), Costa (1972),
Fausto (1989, Tomo III, vol. 1, livro segundo, capítulo 1), Franco (1973); Furtado (1984),
Iglésias (1993), Lacombe (1986) Love (1982), Love (1975), Silva e Carneiro (1975).

47
política e o subestimar o papel de outros atores, a exemplo das oligarquias
não cafeeiras, dos militares e os do próprio Estado Nacional.
As visões presentes neste grupo resultaram em determinados esque-
matismos. O primeiro foi perceber o Estado como um bloco monolítico, a
serviço dos interesses dominantes, desconhecendo a vastidão de seus atores
e a complexidade de suas relações com os diferentes setores da sociedade.
O segundo esquematismo decorreu da análise das relações desse Estado e
classes dominantes, vistas em sua maioria como harmônicas, omitindo-se
períodos em que o Estado não atuava obedecendo à lógica proposta e as
classes dominantes divergiam entre si, em suas reivindicações.
O segundo grupo é composto por trabalhos que privilegiam o papel do
Estado na relação Estado-Sociedade, subestimando o seu caráter classista,
bem como o potencial organizativo das associações de classe, no encami-
nhamento e na defesa de suas aspirações.
Este grupo é representado pelos “teóricos patrimonialistas” do Estado
Brasileiro, que construíram suas análises em torno de uma leitura crítica das
versões que predominavam, desde a década de 30, na historiografia nacional.26
O que pretendiam contestar era a tese de que o Estado Republicano
era refém dos interesses das oligarquias cafeicultoras, e de que as políticas
públicas, por ele empreendidas, respondiam a interesses privados dos setores
cafeicultores organizados.
O elo comum entre as pesquisas em foco pode ser encontrado na ten-
tativa de resgatar a força do Estado, mesmo em um período histórico em
que a descentralização, resultante do Federalismo implantado pela carta
de 1891, teria esvaziado parcialmente os seus atributos. Para estes autores,
mesmo durante os “interregnos que dissimulam”,27 a União manteve as
suas prerrogativas, reservando-se o poder de cooptação e de controle para
o acesso às sinecuras, tão disputadas pelos agentes da política.
Não se percebem, por parte desses trabalhos, os diferentes setores que
compõem o Estado Nacional e nem a diversidade de interesses que nele se inse-
rem. O poder regional das unidades federadas, conhecidas como de “segunda
grandeza”, foi subestimado e a aliança café com leite foi posta em novos termos.
São Paulo possuía força econômica, mas não tinha poder político. Minas Gerais

26
Para os fins dessa pesquisa, não abarcaremos a totalidade dos trabalhos de inspira-
ção patrimonialista. Interessa-nos apenas analisar os autores que mais se destacaram
no estudo dos casos mineiro e paulista na Primeira República, nos últimos vinte anos.
Aqui nos referimos a Schwartzman (1970; 1972; 1975), Martins Filho (1984; 1987).
27
Expressão usada por Faoro (1984:725, vol.2) para designar a Primeira República
como um período em que o Estado esteve mais fragilizado e descentralizado.

48
tinha força política, mas não tinha poder econômico. A aliança foi resultante
dessa soma conveniente de vantagens e carências. A Minas caberia usufruir
do Estado Nacional as prebendas políticas. E São Paulo, através da aliança,
teria, a seu favor, a garantia de sua autonomia e a promessa de um Estado que
não imporia obstáculos ao desenvolvimento de sua forte e dinâmica economia.
O terceiro grupo, no qual este livro se insere, engloba pesquisas, em
sua maioria produzidas a partir da década de 80, que trazem como ponto
comum a autonomia relativa do Estado, em relação aos interesses econô-
micos hegemônicos, sem desconsiderar a forte presença desses setores, na
definição das políticas públicas implementadas.28
Este grupo é formado por trabalhos que buscaram redimensionar as
relações entre Estado Nacional e interesses econômicos privados, resguar-
dando-se a autonomia relativa do primeiro, sem desmerecer o potencial
organizativo e reivindicativo dos segundos. Conferiram aos setores cafeeiros
a hegemonia sobre o regime, mas puderam, ao mesmo tempo, garantir ao
Estado um papel dinâmico no mercado político.
Para eles, o Estado na Primeira República, mesmo atuando em prol
dos setores mais hegemônicos, não perderia a sua identidade. Ao contrá-
rio, ganharia dinamismo e poder, ampliando, significativamente, as suas
estruturas burocráticas, o que lhe serviu de base indispensável para o
subsequente processo de centralização e autoritarismo.29
A ação direta do Estado em prol do desenvolvimento da cafeicultura não
implicava, pois, numa adesão direta do mesmo aos interesses corporativos do
setor, na medida em que ele próprio atuava em função de motivações e lógicas es-
pecíficas, as quais, nem sempre, coincidiam com os interesses dos cafeicultores.
O que há de comum nos trabalhos desse grupo é a relativização da
autonomia do Estado Republicano, em relação aos interesses dos cafeicul-
tores. Para eles, o Estado na Primeira República não foi, o tempo todo,
refém dos grupos agro-exportadores na implementação de políticas de seu
interesse, mantendo uma margem de autonomia própria. Por outro lado,
isto não implicou em afirmar que o setor cafeeiro não fosse politicamente
hegemônico e que as unidades federativas produtoras de café estivessem
fora do controle do Executivo Federal. O que estes trabalhos pretenderam
atestar é que esta hegemonia, embora incontestável, foi difícil de ser cons-
truída e, por não ser monolítica, teve que abrir espaço para abrigar outros
setores, em seus diferentes interesses. Além do mais, o próprio Estado era

28
Ver Enders (1993), Ferreira (1994), Mendonça (1997), Reis (1985:194-217), Pe-
ressinotto (1997), Topik (1989), Fristch (1988), Kugelmas (1986).
29
Esta análise é de Reis (1985:196 a 206).

49
um ator em jogo, com interesses específicos, nem sempre coincidentes com
os dos setores economicamente dominantes.
O que se conclui das diferentes abordagens desse grupo é que nelas não
só o Estado, mas também os setores privados tiveram a sua força resgatada.
O Estado, diante de proprietários com razoável nível de organização, em
defesa de interesses “racionais”, tornou-se permeável às suas reivindicações,
atendendo-as majoritariamente, mas mantendo certo grau de autonomia,
expressa através de atitudes e comportamentos que, por diversas vezes,
foram de encontro aos interesses desses mesmos proprietários.
O resultado político foi a relativização da hegemonia, não só cafeeira,
como paulista, sobre a nação. O resultado subsequente foi o resgate da
importância de outras oligarquias, até então, tidas como minoritárias e
desimportantes na definição do jogo político.

1.2 Federalismo em Corda-bamba: Uma Proposta Alternativa

Este item consiste em uma análise conjunta dos processos sucessórios da


Primeira República. A partir dela, pretende-se propor uma abordagem alter-
nativa acerca desses processos, a ser testada ao longo dos capítulos seguintes.
Considerando as sucessões presidenciais como episódios recorrentes de
desconstrução e reconstrução de alianças políticas, travadas entre os atores
hegemônicos, na identificação dos princípios recorrentes que nortearam estes
eventos, é possível encontrar-se a lógica responsável pela estabilização do
regime. Claro é que tais princípios não foram explicitados e muito menos
formalizados pelos seus principais executores. A despeito de terem sido en-
contradas, eventualmente, referências explícitas, por parte de alguns agentes
da política, acerca da normatização dos eventos sucessórios, os princípios
que serão expostos aqui derivaram, majoritariamente, da observação das
fontes, que souberam expressar parte da complexidade desses eventos.
A pesquisa que empreendemos sobre os jogos sucessórios nos levou à
percepção de alguns princípios que orientaram a atuação dos atores políti-
cos nestes eventos. Percebeu-se, também, que tais princípios foram sendo
progressivamente formulados, ao longo do tempo, como resultado de experi-
ências acumuladas. E que as tentativas de ruptura desses mesmos princípios
foram responsáveis pelo esgotamento do modelo, gerando o seu fim.
Pelo que observaremos, os princípios estabilizadores do regime em vigor fo-
ram definidos por ocasião da sucessão de Rodrigues Alves. Mantiveram-se ao longo
dos processos sucessórios posteriores. O início de seu progressivo esgotamento se
deu a partir da década de vinte. Seu desgaste final, ao longo da década de trinta.

50
A abordagem alternativa proposta é constituída de três princípios nor-
teadores, a saber:
1. Os atores políticos republicanos são desiguais e hierarquizados entre si;

2. Existe uma renovação parcial entre os atores, rejeitando-se atitudes


monopólicas;

3. As raízes da dissolução do regime se encontram na sua incapacidade de


manter as bases da hierarquia e de preservar a sua parcial renovação.

1.2.1 Princípios Norteadores dos Processos Sucessórios

Primeiro princípio norteador

Os atores políticos republicanos são desiguais e hierarquizados entre si.

A estabilidade do regime republicano baseou-se, sobretudo, na garantia


de que seu elemento motor estivesse nas mãos das oligarquias regionais, cujo
peso político era diretamente proporcional ao tamanho de suas bancadas e
das suas potencialidades econômicas. Esta modalidade de decision making
passava pela diminuição das possibilidades de competição, reduzindo os
marcos do mercado político a uma disputa entre atores mais e menos iguais.
Tal formato foi se definindo ao longo do regime, até atingir níveis de
estabilização compatíveis com as aspirações de seus novos condutores. A
primeira medida implementada, quando do estabelecimento da República,
foi garantir a exclusão da participação dos setores populares, não só pelo
estabelecimento normativo do “voto alfabetizado”, como também, e sobretu-
do, pela formalização da fraude eleitoral, viabilizada por mecanismos apa-
rentemente ingênuos, mas eficazes na redução do grau de competitividade
entre os atores. A segunda medida foi resultante da primeira. Referia-se
aos critérios de recrutamento político, não formalmente institucionalizados,
mas coletivamente assimilados. Minas Gerais compõe um modelo exemplar
dessa prerrogativa. Para fazer parte da elite política mineira, eram necessá-
rios os seguintes requisitos: ser do gênero masculino, ser branco, ter curso
superior, ter laços de parentesco com outros membros da elite política e
ser originário de uma das regiões politicamente importantes do estado.30

30
A este respeito ver Wirth (1982, capítulo 5).

51
Esses pré-requisitos, indispensáveis ao recrutamento, afastaram do exercí-
cio do poder a grande maioria do povo mineiro, cabendo a um reduzido grupo
de elite o controle sobre os destinos políticos do estado. O exemplo mineiro, com
pequenas alterações, pode ser generalizado para os demais estados brasileiros.
Segundo constam nas análises da composição da Câmara Federal de 1909,
formada por deputados de todos os estados, lá também predominavam os ba-
charéis, seguidos dos médicos, militares e engenheiros (Vieira, 1980:26, apud).
O princípio da distribuição desigual do poder, entre os diferentes es-
tados da Federação, fazia com que eles se diferenciassem, não só pelo ta-
manho de suas bancadas, mas também pelo grau de autonomia econômica
em relação aos cofres da União. Assim, os grandes estados eram os que
possuíam associadamente bancadas numerosas e economias relativamente
autossuficientes; os médios, os que possuíam um dos dois elementos; e os
pequenos os que não possuíam nenhum deles. O grau de participação de
cada estado nos processos de decisão era proporcional ao seu tamanho.
Para os fins desta pesquisa, consideramos como estados grandes: São
Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul; como estados médios: Bahia, Rio
de Janeiro e Pernambuco. Os demais compõem a categoria de pequenos
estados, a despeito de seus diferentes níveis de inserção nacional.
A conformação republicana herdou do Império a separação entre pro-
víncias menos e mais importantes. Coube à República, através da Cons-
tituição de 1891, sedimentar esta divisão e redistribuir o poder, segundo
critérios mais atualizados (Barriguelli, 1986).
Pelo quadro a seguir pode-se perceber o crescimento das principais
bancadas, após a transição para a República:

Quadro 1: Percentual de representação do crescimento de deputados na


transição do Império para a República
Estado N0 Dep. % N0 Dep. % Relação Império/
Império República República
São Paulo 9 7,37 22 10,52 + 3,15
Rio Grande 6 4,91 16 7,65 + 2,74
Minas Gerais 20 16,39 37 17,7 + 1,31
Bahia 14 11,47 22 10,52 - 0,95
Rio de Janeiro 12 9,83 17 8,13 - 1,7
Pernambuco 13 10,65 17 8,13 - 2,52
TOTAL 74 60,62 131 62,65 + 2,03
FONTE: Montagem com dados colhidos em: Vieira (1978, anexo 1) e Abranches, Dunshee
(1918, vol. 1)

52
Nota-se que, embora os grandes estados tenham tido crescimento em
números absolutos, nem todos o tiveram em termos relativos. Pela ordem,
São Paulo foi o estado que mais lucrou, em termos de representação nacio-
nal, com o novo regime, seguido pelo Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Os
outros três estados elencados tiveram a sua representação diminuída, após a
República. Nota-se que os estados que tiveram movimentos republicanos mais
consistentes foram os mais bem aquinhoados com a vitória.31 Apesar de os
médios estados terem tido sua representação diminuída, os seis em conjunto
compunham mais de 60% do Congresso e ampliaram o seu percentual de
representação na República, em relação ao período imperial, em 2,03%.
A partir dessa nova distribuição de bancadas por estados, a República
definiu quais estados-atores desempenhariam um papel de relevo sobre
a nova ordem política. Embora não tenham se operado mudanças muito
radicais, o nível de autonomia concedido aos estados, aliado às mudanças
nos critérios de representação política parlamentar, erigiram um sistema
federalista cuja principal marca foi a rejeição da isonomia entre as unidades
federadas.
Os grandes estados travavam relações de cooptação política em relação
aos pequenos. Conhecido foi na República o controle exercido pelo Rio
Grande do Sul sobre os estados de sua região e do nordeste. O mesmo pode
ser dito das relações entre Minas e o Espírito Santo. E das tentativas de
exercício de hegemonia de Pernambuco sobre a Paraíba e sobre os demais
estados nordestinos.
Os próprios atores políticos do regime admitiam que a Presidência do
Brasil deveria necessariamente recair sobre um grande estado. Em geral,
o nome mais indicado era o de seu próprio presidente. Raul Soares, a este
respeito, se referia: “Os estados líderes são Minas, São Paulo e Rio Grande,
mas desses estados só poderão sair os seus respectivos presidentes, porque
só os presidentes reúnem o apoio unânime de todas as correntes da política
interna, condição de êxito da candidatura” (Carta de Raul Soares a Pena
Júnior de 30 de março de 1921. ARS, 21.03.30, CPDOC).
Entre os atores políticos mais destacados estava também o Estado
Nacional, majoritariamente representado pelo Legislativo e pelo Executivo

31
Segundo os dados de Joseph Love (1982:188), São Paulo teve um crescimento con-
siderável em sua representação parlamentar em função do apoio que o PRP dera ao
Governo Provisório. Neste ponto, teve mais êxito que Minas Gerais e Bahia, que eram
estados mais populosos e proporcionalmente sub-representados. Mas com o passar do
tempo, em função do intenso crescimento populacional de São Paulo e a inexistência
de alterações nas representações dos estados, ele passou a ficar subrepresentado.

53
(Catete). O Legislativo Federal retinha uma parcela considerável de hege-
monia sobre o regime. Tal hegemonia se ampliava em duas ocasiões. Nos
períodos em que os processos sucessórios coincidiam com o de reconheci-
mento de poderes e naqueles em que o Catete encontrava-se fragilizado, ou
seja, quando não tinha, atrás de si, uma oligarquia regional de peso que
o sustentasse. Em ambos os casos, o Parlamento ampliava a sua margem
de soberania, passando a ser o seu controle disputado arduamente pelos
principais atores políticos. A primeira circunstância ocorreu nos governos
de Afonso Pena e Epitácio Pessoa. A segunda circunstância ocorreu em
todos os governos militares e nas presidências civis de Prudente de Morais
e Epitácio Pessoa.
Wirth afirma que o Legislativo Federal representava as máquinas esta-
duais e era lá que as alocações de recursos eram decididas. Além de deter
ampliada margem de intervenção sobre os rumos da política oligárquica,
o Parlamento era também o campo em que se disputava a distribuição de
recursos da União pelos estados. Ter uma bancada volumosa e compacta-
da no Congresso era condição indispensável para a apropriação dos bens
públicos. Daí ter sido objeto de intensa disputa a ocupação das comissões
parlamentares, responsáveis pela alocação de bens federais entre os estados
(Wirth, 1982: 245).
O Executivo Federal detinha também uma parcela dessa hegemonia.
Não era mero instrumento nas mãos das oligarquias estaduais. Nos proces-
sos sucessórios, a intervenção do Catete era fundamental. Tinha poder de
intervenção política sobre o Parlamento, de forma a garantir a sustentação
ou a rejeição de candidatos. Steven Topik (1989:28) afirma que, em função
das recorrentes discordâncias entre os três grandes estados, o espaço de
autonomia do Estado Nacional ampliou-se consideravelmente.
Outro instrumento de hegemonia do Estado Nacional tratava-se do
recurso intervencionista, a ele disponibilizado pela Constituição de 1891.
O princípio geral era o da não intervenção, consistindo-se no direito das
situações estaduais gerirem a política local, sem intervenção do governo
federal. Porém, a garantia dessa autonomia estadual, por estar minimamente
institucionalizada no artigo sexto da Constituição, abriu espaço para que
os governos desrespeitassem o instituto, por variadas vezes, aumentando o
grau de poder do Catete sobre as unidades federadas.
Quanto menor o estado, maior a possibilidade de intervenção do Ca-
tete sobre os mesmos. As sucessões estaduais eram ocasiões propícias às
intervenções. Através delas, o Catete pôde controlar o acesso ao poder, por
parte das diferentes facções, segundo seus interesses. Estes casos, como
veremos, se repetiram ao longo de todo o regime.

54
Os grandes estados eram os que corriam o menor risco de intervenção
federal, embora não estivessem dela isentos. São Paulo sofreu ameaças reais
durante o governo de Hermes da Fonseca, tendo que negociar a partilha
de poder com os oposicionistas do PRP, para dela escapar. O Rio Grande
do Sul sofreu interferência direta do governo Bernardes, tendo que realizar
um acordo em bases bastante prejudiciais ao seu situacionismo. Ambos os
exemplos serão analisados, mais profundamente, nos capítulos seguintes.
O que se quer anunciar, provisoriamente, é que o poder de intervenção do
Catete sobre os estados, mesmo que não utilizado, conferia-lhe uma reserva
de soberania a ser utilizada, sempre que necessário.
Assim, um outro requisito importante, indício de força de um estado,
era o controle das lutas entre suas facções internas, por parte das máquinas
partidárias. Quanto mais coeso o estado internamente, menor a possibilidade
de sofrer intervenção federal.
Um outro ator político, de grande importância no período, foi o Exér-
cito Nacional. Dos treze processos sucessórios ocorridos, atuou de forma
intensa, pelo menos em sete deles, ou fortalecendo candidatos situacionistas
ou reforçando as oposições.32
Embora tenham funcionado, ocasionalmente, como caixa de ressonância
de grupos oligárquicos ou setores emergentes médios e subalternos, atua-
ram também na defesa dos interesses próprios da corporação. Em várias
ocasiões, o Exército reforçou a composição de eixos alternativos às tentativas
de monopolização de poder, a exemplo de sua ação política contrária ao
PRC pelas tentativas “salvacionistas” e de sua ação no contexto da Reação
Republicana.33
Diante do papel desempenhado pelo Estado Nacional e pelo Exército
enquanto atores fundamentais do regime, poderemos comprovar que o po-

32
Aqui nos referimos aos processos sucessórios que resultaram nas escolhas de:
Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Prudente de Morais, Hermes da Fonseca,
Wenceslau Brás, Bernardes e Júlio Prestes.
33
Embora os militares não sejam objeto privilegiado desta pesquisa, dada a sua ativa
intervenção política na Primeira República, a sua participação terá que ser eventual-
mente enfocada. Para fundamentar as análises acerca da ação do Exército brasileiro
na política, compartilhamos da concepção interativa, que se coloca a meio caminho
entre as concepções instrumental e organizacional. Dessa forma, acreditamos que
nem a corporação militar foi mero instrumento de interesses a ela externos nem foi
totalmente autônoma a esses mesmos interesses. A corporação militar foi permeada
pelo contexto histórico em que se inseria, mas os condicionamentos próprios da cor-
poração influíram decisivamente sobre a sua participação na política. A este respeito
ver Peixoto (1980:27-42).

55
der de ambos foi inversamente proporcional ao poder dos estados-atores
hegemônicos. Melhor dizendo, quanto maior a instabilidade das alianças
inter-oligárquicas, maior o poder de intervenção do Catete, do Congresso
ou do Exército sobre o regime.
Dadas as reduzidas dimensões do Estado Nacional, a disputa de seu
controle pelos muitos atores políticos foi muito árdua. Do governo Prudente
ao de Afonso Pena, existiram apenas seis ministérios. Nos anos de 1910 a
1930 passou a haver sete: Viação, Justiça, Agricultura, Relações Exterio-
res, Guerra, Marinha e Fazenda. Os mais importantes eram o da Fazenda,
Viação e Justiça. Os dois primeiros tinham grandes orçamentos e eram
instrumentos vitais de promoção de desenvolvimento. O da Justiça presidia
as eleições federais.34
Observando-se o quadro a seguir, percebe-se, com maior clareza, o
controle que os seis maiores estados exerceram sobre o Executivo Federal,
muito embora tais dados, de caráter quantitativo, não expliquem, por si só,
as razões que levaram a tal hegemonia:

Quadro 2: Ocupação ministerial por estado


Estado Índice de ocupação Índice de ocupação Médias entre
geral (%) nos três ministérios colunas A e B
mais importantes (%)
Minas Gerais 28,73 23,14 25,94
Rio Grande 20,69 16,65 18,67
São Paulo 21,39 14,00 17,7
Bahia 18,85 10,55 14,7
Pernambuco 12,33 8,2 10,27
Rio de Janeiro 11,16 5,92 8,54
Fonte: Adaptação de Love (1975:130)

Como se pode notar, entre os seis maiores estados, Minas Gerais foi
o que ocupou mais cargos ministeriais, seguido pelo Rio Grande do Sul e
por São Paulo. Entre os médios estados, a Bahia foi o que se saiu melhor.35

34
Para uma análise mais completa a este respeito ver Lessa (1988:145).
35
É interessante destacar os índices de ocupação ministerial por parte de dois esta-
dos pequenos. Santa Catarina teve um índice de ocupação maior que Pernambuco
e menor que a Bahia (10,53%); o Rio Grande do Norte teve uma média maior que a
de Pernambuco e menor que a do Rio de Janeiro (10,7%) (Love, 1982:130). Estes
casos se explicam pela projeção de líderes nacionais de destaque que, enquanto

56
A análise de um gráfico, que mostra a evolução do desempenho de
cada grande estado ao longo do tempo, ilustra bem o avanço das unidades
federadas sobre o Catete:

Gráfico 1: Evolução dos índices de ocupação ministerial

Pelo gráfico, pode-se notar que a participação de São Paulo em cargos


ministeriais foi estável, ao longo do tempo. A de Minas, ligeiramente cres-
cente e a do Rio Grande do Sul, com intensa ascendência.36 A razão para
tais circunstâncias encontra-se no fato de que os dois estados de trajetórias
ascendentes estiveram, durante a primeira década republicana, assolados por
instabilidades internas que os impediram de atuar politicamente na Federação.
Após terem conseguido homogeneizar, mesmo que parcialmente, as lutas
intra-oligárquicas, partiram para uma ação incisiva de ocupação do Estado. A
diferença entre as trajetórias de gaúchos e mineiros pode ser explicada pelos
diferentes níveis de instabilidade e de agressividade das ações de inserção.
Em relação à ocupação da cadeira presidencial, Minas Gerais e São
Paulo foram os mais hegemônicos, na medida em que, dos treze presidentes
eleitos pelo regime, 70% vieram desses dois estados. Embora, em termos
quantitativos, São Paulo tenha se ocupado por mais vezes da Presidência da

indivíduos, tiveram significativo poder de intervenção sobre o regime, extrapolando


o poder de seus estados de origem. Foram os casos de Lauro Muller e Tavares de
Lyra, respectivamente.
36
A fonte foi a mesma citada acima. Não inserimos no gráfico os outros três estados
(Rio, Bahia e Pernambuco), por apresentarem trajetórias estáveis.

57
República (seis contra três), isto se deve, sobretudo, à ausência de concorrentes
no contexto da primeira década republicana. Passada esta fase, toda tentativa
de monopolização de sua parte foi duramente contestada pelos demais esta-
dos, a exemplo do que ocorreu nas duas sucessões de Rodrigues Alves e na
de Washington Luís, conforme será visto. A este respeito afirma Kugelmas:

Entrincheirados nos recursos políticos e materiais proporcionados pela


autonomia federativa, os paulistas iriam defender seus interesses es-
pecíficos como participantes privilegiados desse complexo sistema de
alianças, mas não necessariamente como monopolizadores do centro
do palco. (Kugelmas, 1986:129)

Além da ocupação dos cargos executivos, um dos mais importantes


indicadores de exercício de poder pelos estados esteve na ocupação das
comissões mais importantes do Parlamento. Analisando o seu desempenho
temos o seguinte quadro:

Quadro 3: Ocupação de presidências de comissões do parlamento por


estado37
Períodos MG BA SP PE RS RJ Outros
1891-1898 8 8 4 4 1 2 5
1899-1906 10 10 5 1 0 0 6
1907-1914 16 0 0 1 3 0 12
1915-1922 19 0 2 3 0 0 8
1923-1930 18 1 5 1 3 0 4
Total 71 19 16 10 7 2 35
% 44,37 11,87 10 6,25 4,37 1,25 21,87
Fonte: Adaptação de dados recolhidos em Wirth (1982:244)

Como se pode observar, houve um grande predomínio de Minas sobre as


comissões do Congresso Federal. Mesmo na primeira década republicana, em
que o estado encontrava-se assolado por disputas internas, sua participação,
apesar de ter sido a menor de sua história, ainda era uma das maiores do
Brasil. Repare-se, também, que a performance do Rio Grande do Sul não foi
a mesma em relação à ocupação de postos no Executivo Federal. O índice do

37
Foram computadas as seguintes comissões parlamentares: obras públicas, finanças,
poderes e justiça.

58
estado no Legislativo manteve-se sempre baixo. Tal fato pode ser explicado
pela sua preferência em ocupar postos executivos, naturalmente mais voltados
para as definições de políticas associadas ao desenvolvimento da economia de
mercado interno. Mas não se pode deixar de realçar que o estado praticamente
monopolizou o controle do reconhecimento do Senado, através das sucessivas
ocupações de sua vice-presidência por Pinheiro Machado.
Outro destaque refere-se à participação da Bahia, que foi marcada pelo
declínio. Segundo Wirth, este fato se deu em função da intervenção contrária
aos políticos daquele estado, exercida pelo líder gaúcho, Pinheiro Machado,
que via a Bahia como uma concorrente ao seu controle sobre as demais oli-
garquias nordestinas (Wirth, 1982:243). O que é também incontestável foi
o progressivo e generalizado declínio político da Bahia, ao longo do regime,
em contraposição ao crescimento do Rio Grande e de Minas Gerais.
Pelo que se nota, também, havia uma clara preferência dos mineiros
pela comissão de obras públicas. Através dela conseguiam carrear para
o estado uma série de recursos da União. Isto explica o fato de 70% das
ferrovias mineiras terem sido construídas com recursos federais. Como o
estado era acusado de sonegar impostos e São Paulo associado ao Distrito
Federal eram as unidades que mais contribuíam com as rendas federais,
Minas teve êxito em abocanhar uma parcela significativa da arrecadação
fiscal dos estados, em seu benefício.38
Apesar da clara hegemonia política e econômica de seis estados sobre o con-
junto da nação, ela não foi suficiente para garantir a estabilidade e a longevidade
do pacto oligárquico. Em muitas ocasiões, conforme veremos, a diferença de
interesses econômicos serviu de obstáculo à formação de alianças ou contribuiu
para a sua fragilização. Este problema começou a tornar-se crônico no início da
década de vinte. A falta de flexibilidade do regime em mudar os critérios de
distribuição de poder entre os atores tornou suas estruturas incompatíveis com
a nova realidade, gerando contestações. É o que veremos mais tarde.

Segundo princípio norteador

Existe uma renovação parcial entre os atores, rejeitando-se


atitudes monopólicas.

A garantia da renovação parcial dos atores implicava na ocupação do


poder Executivo e Legislativo pelos estados hegemônicos, impedindo-se a

38
Acerca das ferrovias, ver Topik (1989:126). Acerca dos impostos, ver Wirth
(1982:295-296).

59
monopolização dos cargos e abrindo espaço à participação parcial dos estados
que compunham o grupo hegemônico. A monopolização, a simples exclusão
ou o mero revezamento excludente seriam fatores de abalo do regime.
A renovação do poder passava pelas sucessões presidenciais. O fal-
seamento das instituições democrático-eleitorais, no contexto do regime
oligárquico, fazia com que a verdadeira disputa entre atores pela parcela
de poder, no restrito mercado político, se desse não durante as eleições,
mas na fase que lhes antecedia, qual seja a da indicação do nome para a
disputa e de seu posterior acatamento por parte das lideranças dos princi-
pais estados da federação. Assim, os mecanismos de escolha escapavam à
institucionalidade posta em vigor a partir da carta de 1891, uma vez que
as deliberações eram tomadas informalmente por um reduzido e seleto
corpo de atores.
Cada sucessão presidencial implicava na realocação de cargos e na
redistribuição de poder. A ausência de partidos gerava a proliferação de
blocos, correntes e tendências difusas. Os elos formados entre os princi-
pais estados-atores eram de caráter pragmático e se faziam e se desfaziam
ao sabor das conjunturas. Não se formaram grupos nacionais duráveis.
Assim, a cada sucessão se estabeleciam coalizões provisórias de partidos
estaduais que rapidamente se desfaziam. Isto conferia ao regime um grau
de competitividade muito baixo.39

Tais coalizões organizavam-se com o propósito expresso de sustentar


uma candidatura presidencial e poucas vezes sobreviviam às eleições.
Raramente a formação de partidos políticos nacionais resultava em
disputas reais. Nas eleições presidenciais, populares da República
Velha, a porcentagem de votos do vencedor esteve abaixo de 70%
somente em três ocasiões o que atesta a natureza não competitiva do
sistema, e, por sua vez, refletia o baixo nível de mobilização política.
(Love, 1975:121)

Segundo Afonso Arinos, três prerrogativas eram indispensáveis para


tornar-se Presidente do Brasil, no contexto da Primeira República: ser uma
liderança, ter sido republicano histórico e se originar de um dos grandes
estados da Federação (Franco, 1955:526).
Mas tais requisitos não bastavam. Havia critérios excludentes que
impediam que um indivíduo, detentor de todas as prerrogativas acima,

39
Afonso Arinos afirma que o Federalismo surgiu no Brasil eivado de restrições ao
partidarismo. Daí a república ter nascido federal, presidencial e sem partidos nacio-
nais (Franco, 1955:475).

60
chegasse ao poder. A este tipo de exclusão referia-se Raul Soares nestes
termos: “Políticos suspeitos na opinião (como Nilo), não poderão subir ao
Catete” (Carta de Raul Soares a Pena Júnior de 30 de março de 1921.
ARS, 21.03.30, CPDOC).
Isto implica em dizer que elementos não confiáveis, por parte dos atores
políticos hegemônicos, eram sumariamente excluídos. Daí se explicam as
reações negativas em relação às candidaturas não só de Nilo Peçanha, como
de Rui Barbosa, de Pinheiro Machado e de David Campista. O que havia
de comum entre estas lideranças para serem sumariamente impedidas de
tornarem-se chefes da nação, já que haviam sido republicanos, vinham de
estados hegemônicos e eram lideranças reconhecidas?
Segundo os relatos dos próprios atores e da análise das fontes, concluímos
que Nilo era considerado suspeito por não manter seus compromissos políticos
e alterá-los segundo suas conveniências pessoais. Rui Barbosa não era con-
fiável por se arraigar às teses liberais e colocá-las acima dos compromissos
políticos. Pinheiro Machado não era confiável, pela mesma razão de Nilo,
aduzida ao fato de ser acusado de caudilho. E David Campista compunha um
grupo político cuja marca era a crítica à prática política dos coronéis mineiros.
Estes exemplos de lideranças eram considerados disfuncionais à ordem do
regime, muito embora dele fizessem parte e com ele contribuíssem.
Chama-se aqui a atenção para o fato de que o conhecido distanciamen-
to entre o Brasil legal e real era encurtado por atalhos capazes de dar ao
processo das sucessões um certo grau de formalidade. No modelo em vigor,
os destinos da Federação eram decididos por um número restrito de atores,
oriundos de um número restrito de estados-membros, eleitos por um corpo
restrito de eleitores, os quais, por sua vez, detinham restrito entendimento
da dimensão de seu voto.
Os políticos do norte tinham a noção exata de seu papel na definição de
candidaturas presidenciais. Um exemplo dessa noção pode ser encontrado na
fala de João Pessoa a Epitácio: “Nós do Norte temos apenas o direito de receber
os nomes para mandar imprimir as chapas” (Carta de João Pessoa a Epitácio em
maio de 1929 In: Lewin, 1993:308, apud). Ou seja, o poder de interferência
dos pequenos estados sobre a definição de candidaturas era bastante reduzido.
Os atores envolvidos nos processos sucessórios eram em número restrito.
Limitavam-se aos presidentes de grandes e médios estados, lideranças do
Parlamento, Presidente da República e alguns ministros. Através da vasta
pesquisa documental realizada, foi-nos possível quantificá-los, mas não com
exatidão. Para a obtenção desses dados, utilizamo-nos das correspondências
privadas, trocadas nos contextos sucessórios, que foram analisados neste
livro. As eventuais lacunas documentais impedem que se obtenham números

61
exatos. Não obstante tais limites, o número médio de participantes envolvidos
era de aproximadamente trinta pessoas por sucessão, para as eleições mais
disputadas, e de dez pessoas, para as de caráter consensual. O número
médio de todas elas esteve em torno de vinte e quatro atores por sucessão.
Os estados mais ativos, ou seja, aqueles em que um maior número de
políticos foi envolvido nos processos sucessórios foram:

Quadro 4: Percentual de participação por estado na escolha prévia das


candidaturas presidenciais
Estado Número de pessoas Percentual
Minas Gerais 69 36,31
São Paulo 32 16,84
Rio Grande do Sul 22 11,57
Bahia 22 11,57
Rio de Janeiro 11 5,78
Pernambuco 4 2,1
Outros 30 15,78
Total 190 100
Fonte: Dados obtidos através da análise de oito processos sucessórios, ocorridos a partir da
primeira sucessão de Rodrigues Alves (1906)

Como se observa, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul e Bahia
foram os mais destacados estados-atores na definição das candidaturas
presidenciais. Embora os estados do Mato Grosso, Goiás e de Santa Cata-
rina tivessem pouca projeção política nacional, mantiveram representantes
ativos, na quase totalidade dos processos sucessórios, através das lideranças
nacionais de Antônio Azeredo, Leopoldo de Bulhões e Lauro Muller, res-
pectivamente. Um outro dado a ser destacado foi que, a partir da segunda
sucessão de Rodrigues Alves (1919), quando foi escolhido o paraibano Epi-
tácio Pessoa, ocorreu um processo lento de mudança de atores, apontando
para uma renovação geracional das elites.
As sucessões presidenciais obedeciam a um ritual próprio. Vencido o
primeiro biênio da gestão, iniciavam-se as articulações, com vistas à escolha
de um nome. Este processo durava, em média, seis meses.40

40
Algumas sucessões iniciaram-se tardiamente, ou seja, no terceiro ano de governo.
Foram elas: a de Hermes da Fonseca, a de Artur Bernardes e a de Washington Luís.
Quanto à duração, muito embora a média fosse de seis meses, a de Rodrigues Alves
(1906) durou cerca de um ano e as três ocorridas entre 1916 e 1921 (Wenceslau,

62
O mandato dos deputados federais tinha a duração de três anos. Em
alguns momentos, o seu reconhecimento coincidia com o das discussões
sucessórias. Quando este fato ocorria, o reconhecimento constituía-se em
objeto de acirradas lutas políticas. Entre as sucessões analisadas, a de
Afonso Pena e a de Epitácio Pessoa coincidiram com a renovação do Con-
gresso. Nos demais casos, sendo o reconhecimento de poderes posterior
aos eventos sucessórios, algumas serviram como mecanismo de punição
das oposições, a exemplo do ocorrido nos governos Hermes, Bernardes e
Washington Luís. Repare-se que estes três governos foram resultantes de
três disputas eleitorais intensas (a que opôs civilistas a hermistas; a que
opôs nilistas a bernardistas; a que opôs liberais a situacionistas, respectiva-
mente), “justificando-se” as punições que lhes foram subsequentes. Dessa
forma, pode-se aventar a hipótese, a ser comprovada por estudos adicionais,
de que a ausência de reconhecimento prévio à escolha das candidaturas
presidenciais tenha atuado como mais um elemento disfuncional ao regime,
abrindo espaço para a emergência de candidaturas de oposição.41
Os nomes dos candidatos deveriam ser alçados por outros estados, e
não aquele de origem do candidato. Esta formalidade visava levar ao mun-
do político uma informação: a de que por trás do nome alçado havia uma
aliança construída entre, pelo menos, dois estados-atores.
Não convinha que um nome fosse lançado muito precocemente. Caso
ele fosse sugerido muito antes de iniciarem-se as discussões, haveria mais
tempo para ser desgastado, pelos eventuais opositores. O contrário tam-
bém era arriscado. Ao ser lançado muito tardiamente corria-se o risco de
encontrar os estados-atores já previamente comprometidos com um nome
anterior. O timing era importantíssimo para fazer uma candidatura vitoriosa.
À imprensa cabia especular sobre as escolhas, uma vez que não tinha
acesso às informações. Os processos eram muito sigilosos. Envolviam um
grande volume de correspondências e reuniões secretas. Muitas correspon-
dências eram inclusive cifradas, para evitar-se qualquer tipo de vazamento
de informações.
Em relação à sucessão de Epitácio, Raul Soares referia-se ao processo
de escolha da seguinte forma:

a segunda de Rodrigues Alves e a de Epitácio Pessoa) duraram apenas dois meses.


41
Não se levou em conta o reconhecimento do Senado Federal por não ter tido o
mesmo impacto que o da Câmara. Os senadores eram em menor número e a extensão
do mandato impedia a recorrência do problema. Além do mais, quando ocorriam,
coincidiam com parte dos reconhecimentos da Câmara, diluindo seu impacto.

63
Os representantes das forças políticas dos estados certamente escolherão
os seus candidatos, os quais serão naturalmente submetidos às urnas.
Nunca se fez de outra maneira; os cambalachos são feitos pela imprensa,
a qual não vencerá as grandes forças conservadoras da política brasileira.
(Esboços de uma entrevista não publicada de Raul Soares em princípios
de 1921. ARS, código RS 21.01.00, ARS, CPDOC)

Na citação, Raul Soares destacava o papel que cabia à imprensa: o de


fazer cambalachos, por estar excluída dos processos de decision making.
Esta visão desconfiada, em relação à imprensa, derivava de seu constante
uso político, principalmente pelas oposições.
Em carta a Pena Júnior, o mesmo político mineiro oferecia mais dados:
“Estados desorganizados, sem cultura política e sem moralidade administra-
tiva, não poderiam oferecer nomes para o governo”. Para ele, os Presidentes
deveriam sair de Minas, São Paulo ou do Rio Grande do Sul, estados que
se constituíam em verdadeiras “escolas de homens públicos” (Carta de Raul
Soares a Pena Júnior de 30 de março de 1921. ARS, 21.03.30, CPDOC).
Uma importante válvula inibidora da monopolização da Presidência
da República era o mecanismo que proibia a reeleição presidencial. Os
estados tinham que necessariamente barganhar, a cada quatro anos. O
maior exemplo contrário a este respeito foi o ocorrido no interior do Rio
Grande do Sul, onde a lei permitia a reeleição, e Borges de Medeiros pôde
perpetuar-se no controle do estado (Franco, 1955:478).
Havia também o inconveniente de o Catete intervir no processo de sua
própria sucessão. A este respeito afirmavam os contemporâneos:

É uma deturpação do regime essa prática que se pretende inaugurar de


o candidato à sucessão – amigo íntimo e conterrâneo do Presidente – ser
apresentado por este desde o segundo ano de governo sem nenhuma
consulta às forças políticas da nação, chamadas apenas a homologar
a escolha. A vingar tal precedente, a presidência de hoje em diante só
sairia de um estado e de um partido local. (Carta de Epitácio a João
Pessoa de 2 de agosto de 1929. AEP, lata 9, IHGB)

Eis aí a consequência do Presidente ter candidato. O primeiro magistra-


do sacrifica a compostura do cargo, entra na luta com todas as paixões
próprias dela, emprega contra um grupo de cidadãos os poderes que a
nação lhe confiou para a defesa dos direitos de todos e reduz assim a
uma comédia ridícula o sistema representativo, que é a base do regime!
(Carta de Epitácio a João Pessoa de 22 de setembro de 1929. AEP,
lata 9, IHGB)

64
O fato de a eleição ser decidida previamente às urnas refletiu-se em bai-
xíssimos níveis de competitividade eleitoral, resultando em desmobilização e
apatia políticas. Em levantamento realizado sobre os índices de comparecimento
às urnas e total de votos obtidos pelos vencedores, percebem-se os limites da
competitividade eleitoral do período. O maior índice de comparecimento foi de
5,7% em 1930. A média geral permaneceu em torno dos 2,65%. Percebe-se,
também, que as votações que apresentaram um maior nível de competitividade
foram as que tiveram candidaturas de oposição e que dividiram mais equitativa-
mente os grandes estados, como foram os casos das eleições de 1910 (Hermes
X Rui), a de 1922 (Bernardes X Nilo) e a de 1930 (Júlio Prestes X Vargas). As
demais foram quase unânimes. Os dados se encontram no quadro a seguir:

Quadro 5: Índices eleitorais das eleições presidenciais da Primeira


República
Ano Presidente eleito Percentual de Percentual obtido
comparecimento pelo eleito
1894 Prudente de Morais 2,2 84,3
1898 Campos Sales 2,7 90,9
1902 Rodrigues Alves 3,4 91,7
1906 Afonso Pena 1,4 97,9
1910 Hermes da Fonseca 3,2 57,1
1914 Wenceslau Brás 2,4 91,6
1918 Rodrigues Alves 1,5 99,1
1919 Epitácio Pessoa 1,5 71,0
1922 Artur Bernardes 2,9 56
1926 Washington Luís 2,3 98
1930 Júlio Prestes 5,7 57,7
Médias _______ 2,65 73,21
Fonte: Adaptação de Cavalcanti (1975:202)

Até 1906, a Presidência da República foi monopolizada por militares


e paulistas. A partir desse período, impediu-se que um estado se repetisse
na ocupação do cargo. Todas as vezes em que o Catete tentou indicar o seu
sucessor, à revelia das consultas prévias, altamente negociadas entre os
estados-atores mais proeminentes, construíram-se oposições contundentes,
na tentativa de impedir que o fato ocorresse. Das eleições posteriores a
1906, a única bem sucedida na quebra desse princípio foi a que alçou ao
poder Artur Bernardes, agravando-se o grau de instabilidade do regime.

65
É importante observar que o princípio da renovação parcial dos
estados-atores não criou mecanismos de acoplamento de setores excluídos
ou emergentes. Esta lacuna aprofundou-se com a ampliação de novos atores
sociais, a partir da I Guerra Mundial. Tal lacuna foi um dos elementos
igualmente responsáveis pelo progressivo desgaste do regime.
O fato de os excluídos não serem integrados ao poder não significa que
deixaram de contestar. É o que veremos a seguir.

Terceiro Princípio Norteador

As raízes da dissolução do regime se encontram na sua incapacidade de


manter as bases da hierarquia e de preservar a sua parcial renovação.

O fato de os atores hegemônicos julgarem como natural a exclusão


das maiorias fazia com que rejeitassem, com todo vigor, qualquer reação
contrária por parte dos excluídos. Não obstante se esforçassem em afastar
do mercado político a competitividade entre seus componentes, nem sempre
conseguiram êxito. Na quase totalidade dos processos sucessórios analisa-
dos, os excluídos tentaram formar eixos alternativos ao poder dominante.
Dessa forma, as contestações foram frequentes e assumiram as mais va-
riadas formas de manifestação. A mais comum era a não aceitação do nome
acordado entre as partes, o que resultava na disputa eleitoral, a qual envolvia,
no máximo, duas candidaturas. O resultado era sempre previsível: vencia o
candidato apoiado pelos atores mais hegemônicos. Foram exemplos desse tipo
de contestação: as candidaturas de Prudente de Morais contra Deodoro da
Fonseca; a de Lauro Sodré em oposição ao mesmo Prudente; a de Rui Barbosa
contra Hermes da Fonseca; a do mesmo Rui contra Epitácio Pessoa; a de Nilo
Peçanha contra Arthur Bernardes; a de Getúlio Vargas contra a de Júlio Pres-
tes. De doze sucessões ocorridas na Primeira República, seis incluíram esta
modalidade de contestação, mesmo reconhecendo-se a ineficácia das mesmas.
Uma outra forma de manifestação de desagravo era o protesto contra os
resultados eleitorais, após a divulgação dos mesmos. Tal protesto assumiu
três diferentes formas: a mera denúncia da fraude eleitoral pela imprensa,
que teve seu maior exemplo nos civilistas, os quais estavam certos de que
haviam sido derrotados pelo “bico-de-pena”; a batalha jurídica, a qual
incluía o uso do instituto do habeas corpus, além da tentativa de formação
de um “tribunal de honra”, utilizados na sucessão de Epitácio Pessoa; por
fim, a revolução armada, que se configurou na Revolução de 1930.
O fato de que algumas sucessões não tenham sofrido nenhum dos tipos
das contestações elencadas não implicou na ausência de disputa e nem que

66
as mesmas tivessem sido resultado de acordos harmônicos. Nestes casos, o
peso da disputa concentrava-se na prévia escolha do candidato. Os exemplos
desse caso foram: as duas sucessões de Rodrigues Alves (a de 1906 e a de
1919) e a sucessão de Hermes da Fonseca (1914).
Das doze sucessões ocorridas, menos de 30% não sofreram nenhum tipo
de contestação ou não tiveram árdua disputa prévia. Foram elas a de Floriano
Peixoto, a de Wenceslau Brás e a de Artur Bernardes. A primeira ocorreu no
período em que nenhum outro estado ousava ameaçar a hegemonia paulista
sobre a Federação. As duas últimas, por terem sido as únicas, em que se reu-
niram, em torno de seus candidatos, os principais estados da Federação, sem
exceção. A primeira refletiu o caráter monopólico do regime em sua fase inicial.
As segundas, a possibilidade do consenso. Assim, temos os seguintes quadros:

Quadro 6: Sucessões não contestadas

Modalidade Sucessões Percentuais


Monopólicas 1894 8,33
Consensuais 1918 e 1926 16,66
Total 03 25

Fonte: Arquivos Privados consultados, referenciados ao final deste livro.

Quadro 7: Sucessões com algum tipo de contestação

Modalidade Sucessões Percentuais


Árdua disputa prévia 1906, 1914 e 1919 25
Disputa eleitoral 1891, 1898, 58,33
1902,1910,1919,1922 e 1930
Protesto na imprensa 1898, 1902, 1910, 1919, 1922 8.3
e 1930
Protesto armado 1930 8,3
Total 9 75

Fonte: Arquivos Privados consultados, referenciados ao final deste livro

A partir da observação dessas tabelas torna-se claro que as sucessões


eram contestadas, em sua grande maioria (75%) gerando instabilidade política.
Ao mesmo tempo, o mecanismo de contestação mais usado foi a disputa elei-
toral, seguida da denúncia da fraude eleitoral pela imprensa, as duas formas,

67
muito relacionadas, quase consecutivas. O recurso jurídico e a revolta armada
foram casos únicos. O primeiro foi o ensaio prévio da segunda, tal o rigor das
lutas, conforme veremos, oportunamente. Das três sucessões que passaram
por árdua disputa prévia, apenas uma delas, a de 1919 (segunda sucessão
de Rodrigues Alves), resultou em disputa eleitoral, ou seja, não conseguiu
conciliar o apoio de todos os médios e grandes estados.
A diferença entre uma sucessão com disputa prévia e uma totalmente
consensual é que a segunda não era fator de instabilidade, e a primeira sim.
Outro ponto a ser destacado é que, conforme afirmamos, “a política dos es-
tados” de Campos Sales, em geral interpretada como a fórmula que garantiu
a estabilidade do regime, não teve relação com as sucessões presidenciais,
na medida em que não previu mecanismos inibidores desses conflitos. Após
o “pacto oligárquico” (1898-1902), as sucessões presidenciais continuaram
a dar margem à instabilidade.
A visualização de um quadro cronológico pode expressar melhor esta ideia.

Quadro 8: Caráter geral das sucessões da Primeira República42

Tipos 1891 a 1902 1906 a 1918 1919 a 1930


Monopólica 1
Consensual 1 1
Disputa prévia 2 1
Disputa eleitoral 3 1 3
Protesto imprensa 1 1 3
Protesto jurídico 1
Protesto armado 1
TOTAL 5 5 10

Fonte: Arquivos Privados consultados, referenciados ao final deste livro.

A partir do que o quadro apresenta, pode-se notar que a maior parte


das contestações ocorreu no terceiro período, ou seja, quando novos atores
sociais entraram em cena, tornando-se necessária uma mudança nos cri-

42
Para a composição desse quadro, agrupamos as sucessões em três períodos distin-
tos. O primeiro vai da eleição de Deodoro da Fonseca à eleição de Rodrigues Alves.
O segundo vai da eleição de Afonso Pena à segunda eleição de Rodrigues Alves. O
terceiro vai da eleição de Epitácio à eleição de Júlio Prestes. Segundo o modelo su-
cessório proposto, os marcos das mudanças nos remeteram a esta divisão.

68
térios de alocação de poder pelo regime, o que não foi feito. Na ausência
de flexibilização do regime, os protestos ampliaram-se, aumentando o seu
grau de instabilidade política.
O fortalecimento da ação alternativa-oposicionista – que foi avançando
progressivamente, do mero protesto à ação armada – contribuiu para o
paulatino desgaste das bases do regime. A alternativa oposicionista derivou
do desgaste dos dois princípios norteadores anteriormente analisados.
Pelo quadro, se nota que os primeiros reflexos do esgotamento do mo-
delo se deram a partir da quarta década republicana. Ela foi marcada por
três mudanças de grande impacto sobre o regime oligárquico. A primeira
foi a emergência de novos atores políticos, decorrentes do desenvolvimento
industrial e urbano do pós-guerra, associada a uma renovação geracional
das elites; a segunda foi o aumento do desnível econômico de São Paulo
em relação ao conjunto da nação, impondo uma contradição de interesses
econômicos do estado em relação aos demais; a terceira foram as tentativas
de monopolização do poder, por parte de Minas, de uma aliança conjuntural
mineiro-paulista e depois exclusivamente paulista, nas sucessões de Wen-
ceslau Brás, Epitácio Pessoa e Washington Luís, respectivamente. Todos
esses eventos serão retomados, oportunamente.

69
Capítulo 2

Caem os principais, elevam-se


os coadjuvantes

Receava-se o cacete,
Mas cacete não há, não!
Vai o Afonso pro Catete:
Eis aí a solução!
(Franco, 1973:548, apud)

O evento em foco no presente capítulo é a passagem da Presidência


de Rodrigues Alves a Afonso Pena. A sua escolha se deve a várias razões.
A primeira delas é por ter sido ele o marco da emergência de novos atores
políticos nacionais, desejosos de compartilharem o poder. Conforme afir-
mamos anteriormente, os primeiros anos do regime haviam sido marcados
pela presença dos militares e pela posterior monopolização da Presidência
da República, por parte da elite civil paulista.
A sucessão de Rodrigues Alves se caracterizou por ter sido o primeiro
evento em que novos estados-atores alteraram as regras de distribuição de
poder em vigor. Entre os mais proeminentes, na efetivação de tais mudanças,
estava Minas Gerais. Após ter passado por um arrefecimento de suas lutas
internas, o estado tornou-se apto a disputar, com São Paulo e os demais
estados, o controle sobre o regime republicano.
Em geral, os trabalhos que tratam da Primeira República afirmam que,
por apenas dois momentos, a aliança Minas–São Paulo teria sido contestada
(1910 e 1930). Sugerimos que a sucessão presidencial, a ser tratada neste
capítulo, se revestiu de uma importância ainda maior que as duas citadas.
Ela se relaciona diretamente à sucessão que lhe foi posterior, a de 1910,
conforme veremos mais adiante, o que faz a sua análise indispensável ao
entendimento da oposição futura entre hermistas e civilistas.
O evento reflete também a entrada de um novo ator político no cenário
das sucessões: o Rio Grande do Sul, estado que representou, neste episódio,
um papel crucial, muitas vezes subestimado pelos analistas do período,
conforme será visto.

71
Uma outra razão que nos levou a escolher este evento, inclusive nos
chamando a atenção para ele, foi o tratamento que lhe foi dado pelos historia-
dores, os quais não deram a devida importância à ordem em que ocorreram
os fatos, do que resultaram generalizações as quais, ao nosso ver, precisam
ser relativizadas. Eduardo Kugelmas, inclusive, chamou atenção para a ne-
cessidade de se identificar o tempo real dos acontecimentos, referindo-se à
dúvida, ainda existente, de quando se deu (caso tenha se dado) um acordo
entre Minas e São Paulo, em que o segundo apoiaria o primeiro, em troca
da viabilização das prerrogativas próprias ao Convênio de Taubaté.

(...) é praticamente unânime, na bibliografia sobre a República Velha,


a ideia de um entendimento pelo qual São Paulo abriu mão deliberada-
mente da quarta presidência consecutiva em troca do encaminhamento
de seu programa econômico. (...) Cremos que tal interpretação necessita
de uma revisão urgente, pois desconhece aspectos cruciais de timing.
(Kugelmas, 1986:127-128)

Pretendemos oferecer uma contribuição para este debate em aberto, não


só buscando suprir a lacuna antes referida, como estabelecendo algumas
revisões que julgamos importantes no entendimento do evento.
Desta forma, na análise desse processo sucessório, objetivamos realçar
a participação de outras oligarquias, tratadas em geral como de segunda
grandeza, destacando sua efetiva participação na definição do jogo político
que se travava. E por fim, pretendemos relativizar a ideia de que a eleição
de Afonso Pena correspondeu à vitória de interesses exclusivamente cafei-
cultores, representados pelas elites políticas paulista e mineira, com o fim
último de fazerem valer as cláusulas do Convênio de Taubaté.
É indispensável dizer que estivemos permanentemente atentos às re-
lações que os mineiros estabeleceram com os paulistas no período que
antecedeu o evento em destaque. Conforme afirmamos, parte dos estudio-
sos acerca do tema identificou a emergência de uma aliança entre os dois
estados antes da gestão Rodrigues Alves, os quais pretendemos contestar.
Defendemos para este caso a ideia de que os mineiros, assolados por intensas
disputas internas, não estabeleceram com os paulistas uma aliança política
nacional. Ao contrário, as relações entre os políticos dos dois estados, nos
dez primeiros anos da República, foram marcadas pela desconfiança e pelo
distanciamento. Para tanto, faz-se necessária uma abordagem, mesmo que
sumária, acerca do período, marcado pela hegemonia militar e paulista
sobre a Federação.

72
2.1 A Imposição de uma nova ordem: a sucessão
de Rodrigues Alves

Ao levarmos em consideração como se processavam as alianças políti-


cas intra-oligárquicas no âmbito federal, durante o período que antecedeu
a gestão de Rodrigues Alves, percebemos que a nação esteve dividida
politicamente em grupos políticos distintos, que conferiam ao regime uma
grande instabilidade. Tais divisões se arrefeceram a partir do final da gestão
de Prudente de Morais (1894-1898), o qual pôde dar fim aos principais
conflitos que assolavam a República, em seu processo de estabilização. A
transferência do governo federal para Campos Sales teve a marca da relativa
estabilização dos conflitos mais acirrados, que ameaçavam a continuidade
do novo regime.
Para o atendimento dos objetivos propostos, analisaremos o período a
partir de duas disputas políticas que se deram no cenário federal. A primei-
ra, ocorrida entre 1891 e 1894, esteve marcada pela oposição entre grupos
deodoristas e grupos florianistas. A segunda disputa ocorreu entre 1894
e 1898, no contexto da gestão de Prudente de Morais. Foi marcada pela
oposição entre antigos florianistas, reunidos em torno do PRF de Glicério,
e anti-florianistas, capitaneados pela liderança de Prudente de Morais. É
indispensável dizer que não faz parte dos objetivos deste livro avaliar com
profundidade o período que antecede a gestão de Rodrigues Alves, mas
apenas enfocar, com prioridade, como se processavam as relações entre
Minas Gerais e São Paulo, por esta ocasião, tendo por objeto preferencial
de análise a política mineira.1

Minas Gerais na primeira década republicana2

Após a Proclamação da República, as elites políticas paulistas estavam


mais aptas a exercerem o controle sobre o novo regime, ao lado dos militares,
do que as mineiras, dadas as instabilidades internas geradas pela indicação,
por Deodoro, do novo governador para o estado de Minas.
A indicação de Cesário Alvim havia sido motivada por laços prévios
de lealdade política existentes entre ele e Deodoro. No entanto, não foi bem

1
Acerca da primeira década republicana ver Abranches (1973), Carvalho (1990),
Castro (1995), Janotti (1986), Oliveira et al. (1986, volumes 1 e 2), Penna (1997),
Queiroz (1986), Schulz (1994), Witter (1999).
2
Para maiores detalhes ver Viscardi (1999).

73
aceita pelas principais lideranças que haviam se responsabilizado pela pro-
paganda republicana no estado. Muito embora o novo governador passasse
a liderar em Minas um setor da elite que conferia sustentação política ao
Presidente da República, contra ele se associou um grupo de republicanos
históricos, provocando o advento de crises políticas sucessivas que impediam
uma participação mais efetiva de Minas no novo regime.
O golpe de Estado dado por Deodoro e sua consecutiva renúncia con-
tribuíram para acirrar ainda mais as disputas internas mineiras. Segundo
levantamentos prosopográficos realizados, após o golpe, a grande maioria
da elite mineira associou-se ao florianismo: 60% de florianistas contra 40%
de deodoristas. Esse quadro levou à renúncia de Cesário Alvim.3
Através de um acordo travado com o novo governador – Afonso Pena
– Floriano garantiu a sua permanência na Presidência de Minas, em troca
do compromisso de manter o estado alheio às disputas nacionais. Minas
manter-se-ia neutra e escaparia ao estado de sítio, estabelecido em decor-
rência da Revolta da Armada. Passaria a ser, inclusive, refúgio de exilados
do regime. 4
A despeito da discreta inserção nacional mineira, em razão das difi-
culdades de compactar o PRM, por ocasião da sucessão de Floriano, os
mineiros já manifestavam o interesse de alterar esse quadro. Não só aventa-
vam a candidatura de Afonso Pena, como criticavam a hegemonia paulista
sobre a Federação, como se pode observar pela citação: “Sei que muitos
têm certa antipatia pela candidatura do Dr. Prudente de Moraes, apesar de
seus grandes merecimentos, por entenderem que vai nela uma pretensão de
São Paulo a exercer certa hegemonia na República” (Carta de Afonso Pena
a Almeida Couto de 24 de janeiro de 1894, AAP, caixa 5, doc. 7.14, AN).5
Conforme aventamos no capítulo primeiro, parte dos historiadores advo-
ga o advento da aliança Minas–São Paulo, por esta ocasião. Mas as profundas

3
Esses dados resultaram de um levantamento prosopográfico, previamente elaborado,
com o fim único de subsidiar a análise dos eventos por ora abordados. Para maiores
detalhes ver: Viscardi (2000).
4
Ver Lacombe (1986:165), Carta de L. Godofredo a J. Pinheiro de 2 de dezembro
de 1891, AJP, caixa 8, série 1055, APM. Carta de Afonso Pena a Rodrigues Alves
de 20 de abril de 1892. AAP, caixa 6, doc. 16.3, AN.
5
Acerca da indicação de Afonso Pena à presidência ver: cartas de Pena a Ubaldino
de 18 de maio, 5 de junho, 6 de julho de 1893, AAP, caixa 5, docs. 7.70, 7.76, 7.83,
respectivamente, AN. Carta de Afonso Pena a Almeida Couto de 24 de janeiro de
1894. AAP, caixa 5, doc. 7.14, AN. Carta de A. Pena a Moura de 24 de janeiro de
1894, AAP, caixa 5, doc. 7.115, AN. Carta de A. Pena a Batista de Lacerda de 15
de fevereiro de 1894, AAP, caixa 5, doc. 7.119, AN.

74
dissidências internas que assolavam Minas impediam o estado de ter uma
participação nacional mais ativa. Além do mais, o controle da Federação
ainda se encontrava nas mãos do Exército, impedindo que as oligarquias
civis exercessem diretamente a sua hegemonia sobre o novo regime. Por
este período, a postura dos mineiros em relação aos paulistas não era de
quem compunha com eles uma aliança nacional, conforme se pode notar
pela citação a seguir. Ela faz referência à substituição do ministro gaúcho
Demétrio Ribeiro pelo paulista Francisco Glicério:

Nas circunstâncias atuais convinha ao governo chamar um homem


que levasse elemento novo para o poder, como de Minas, Rio Grande
ou Norte da República e não um paulista, visto já ter este estado um
representante. Predominando como está no governo o elemento pau-
lista, este fato vai despertar rivalidades com os demais estados, que
se veem assim injustamente preteridos. O que é certo é que S. Paulo
está na ponta e Minas no esquecimento. Precisam tomar uma posição
mais enérgica e pugnarmos com coragem pelos interesses mineiros,
que estão completamente abandonados pelo poder político. (Carta de
Lamounier Godofredo a João Pinheiro de 2 de fevereiro de 1890, AJP,
caixa 3, série 244, APM)

A despeito de suas pretensões, Minas Gerais teve que se conformar com


a indicação do novo presidente paulista, Prudente de Morais. O governo
Prudente (1894-1898) foi marcado pelas tentativas de inibir os conflitos
políticos que dividiam a nação. A tentativa de criação de um partido de
âmbito federal, o PRF, visava a reunir os principais grupos dissidentes, no
jogo político oligárquico.
Aos poucos, o PRF foi ficando maior do que o Catete. As íntimas ligações
de seu maior líder no Congresso, Francisco Glicério, com o florianismo,
constituíram-se em séria ameaça ao Presidente da República. O aumento
da mobilização jacobina e as reações oficiais em prol do controle político
da nação geraram as cisões no âmbito do PRP.
As cisões nacionais tiveram reflexos imediatos sobre a já conturbada
política mineira. Desde a emergência do PRF, os florianistas mineiros ha-
viam cerrado fileiras ao lado do novo partido. Quando ocorreu a dissidência
entre o Executivo Federal e o partido, o quadro mineiro sofreu uma divisão
definitiva. Os florianistas permaneceram ao lado do PRF de Glicério. Os
demais se postaram ao lado de Prudente. Os florianistas (a partir de agora
chamados de “gliceristas”) se concentravam no Congresso Federal, onde
21 deputados mineiros estavam a eles vinculados, contra 16 ligados ao
situacionismo (Resende, 1982:102).

75
Por esta razão, Minas Gerais despontava no Congresso como uma força
política oposicionista, ao lado de lideranças como as de Pinheiro Machado,
Rosa e Silva e muitas outras. Mas a maioria congressual não refletia a real
situação dos florianistas em seu estado. Observando-se o levantamento
prosopográfico realizado, percebe-se a situação de inferioridade numérica
em que se encontravam: 80% de prudentistas contra 20% de gliceristas,
no interior do estado.
No cenário federal os gliceristas mineiros não conciliaram. Contra a
candidatura de Campos Sales, projetada por um setor da elite paulista à
revelia do próprio Catete, erigiu-se uma chapa oposicionista, composta pela
dupla Lauro Sodré–Fernando Lobo. Nota-se que a primeira candidatura
mineira à presidência republicana era de oposição, muito embora as bases
políticas de Fernando Lobo fossem minoritárias no interior do estado.
Derrotados nacionalmente, dada a vitória de Campos Sales, os floria-
nistas mineiros perderam o controle sobre a política interna e foram jogados
no ostracismo. Dois anos após a posse do novo presidente, concretizou-se a
tão sonhada união da bancada mineira. A partir de 1900, toda ela votava
em bloco.
Portanto, foi durante os primeiros anos do governo Campos Sales que
os mineiros passaram a dispor de uma condição indispensável ao seu for-
talecimento nacional, qual seja a união interna de suas elites. As novas
divisões surgidas posteriormente não impediam uma ação conjunta do es-
tado na Federação, embora, em alguns momentos, elas tenham se acirrado,
prejudicando a ação unívoca do estado.
Conforme foi observado no capítulo anterior, para boa parte dos his-
toriadores, a origem da aliança Minas–São Paulo teria se dado a partir do
governo Campos Sales. A este respeito, gostaríamos de destacar que, para
a indicação de Campos Sales, o estado de São Paulo tinha o apoio da quase
totalidade dos governadores da nação, e não só de Minas Gerais. Portanto,
o que se pode afirmar, em relação a este contexto, é que ele foi marcado
por uma aliança nacional em torno de São Paulo e não por uma aliança
exclusiva entre mineiros e paulistas.
Ao contrário do que se afirma, a posição dos mineiros caminhava mais
para a hostilidade do que para a aliança, conforme pode ser observado em
correspondência de David Campista a A. Pena, ao referir-se à eleição de
Campos Sales:

Creio que a União teria tudo a ganhar se fosse buscar os seus homens
no estado, apesar do detestável bairrismo paulista que tanto lá como
aqui, entende que os homens e as coisas de São Paulo são as únicas que

76
ainda valem de alguma coisa no nosso país. Mesmo nas mais elevadas
posições – o paulista é mais paulista que brasileiro; eleva S. Paulo e
sorri do resto. (...) É uma causa que se pode dificilmente suportar a sangue
frio – ouvir o desdém com que falam de outros estados, das iniciativas
e progressos materiais que empreendem e isso da parte mesmo dos
que têm o rigoroso dever de serem antes de tudo brasileiros. (Carta
de Campista a Pena de 3 de abril de 1898, AAP, caixa 8, doc. 19.29,
AN. grifos nossos)

Como se vê pela citação, os mineiros não se sentiam como atores reais


do jogo político nacional e criticavam o controle que São Paulo exercia sobre
o novo regime. A indicação de Rodrigues Alves à sucessão de Campos Sales
só veio a consolidar este sentimento.

O Governo Rodrigues Alves

Rodrigues Alves havia sido eleito com significativa votação, a segunda


maior da Primeira República – a primeira fora a de Washington Luís (Fran-
co, 1973:191). Tendo militado durante o Império no Partido Conservador e
não tendo sido Republicano Histórico, reunia em torno de si, além dessas
duas “mazelas”, o estigma de ter sido contrário à abolição.
Em meio à dissidência paulista, personificada no período pela oposição
entre gliceristas e prudentistas, colocava-se como elemento conciliador,
muito embora tivesse apoiado a chapa de Campos Sales contra a de Lauro
Sodré, conduzida pelo antigo chefe do PRF.
Destacava-se como um estudioso das questões financeiras e por duas
vezes havia exercido o cargo de Ministro da Fazenda, nos governos de
Floriano Peixoto e de Prudente de Morais. Neste campo, era conhecido
por suas ideias ligadas à ortodoxia financeira e, por esta razão, teria sido
indicado, por Campos Sales, para dar continuidade à política econômica
então em vigor.6
Entre seus projetos para o futuro governo estava a manutenção da sa-
lubridade monetária e o investimento no desenvolvimento agrícola, visando
ao aumento da produção. Para este fim último, buscaria resolver o proble-
ma crônico da falta de trabalhadores, incentivando a política imigratória.
Tal incentivo só seria viável, porém, se as condições sanitárias do Brasil
sofressem considerável melhoria. Em vista disso, faziam parte também

6
Conforme nos dá testemunho o próprio Campos Sales (1983:183-197) em seu livro.
Ver também Love (1982:253).

77
de seu plano de governo medidas que viessem melhorar as condições de
saúde do Brasil, essencialmente as do Rio de Janeiro, que, na condição
de capital, apresentava-se como vitrine internacional. Estava prevista uma
série de reformas urbanas na capital nacional, que incluía a remodelação
do Porto do Rio e a “higienização” completa da cidade. Além do já cita-
do, o objetivo maior do saneamento de Rio relacionava-se diretamente à
“salubridade” econômica brasileira. O Brasil queria evitar a propaganda
internacional contrária aos seus produtos, especialmente o café, em função
das péssimas condições sanitárias do país. Não queria ser mais vitimado
pelos cordões de isolamento que o incluíam, prejudicando o comércio in-
ternacional, principal fonte de receitas dos Estados e da União. E precisava
facilitar a própria circulação interna do produto, dificultada pela arquitetura
colonial da antiga corte.
Como se vê, embora o governo de Alves não adotasse, em termos de
política econômica, um programa protecionista diretamente correspondente
aos interesses mais imediatos das oligarquias cafeicultoras, a exemplo da
concessão de créditos, dos investimentos ferroviários, da desvalorização
cambial e demais medidas preteridas pelo setor agro-exportador, sua plata-
forma política contemplava, indiretamente, importantes interesses do setor,
desde há muito reivindicados.
De capital para isto o novo governo dispunha. Vencido o período Campos
Sales, caracterizado fortemente pela política recessiva em relação aos gastos
públicos, com o fim de manter a balança de pagamentos em equilíbrio, o
novo governo teria a seu dispor o superávit necessário para a realização
das obras pretendidas.
O primeiro problema com o qual teve que se defrontar, antes mesmo
de sua posse, foi o da substituição do vice-presidente. A morte do mineiro
Silviano Brandão, há dois meses antes do início de seu governo, deu ensejo
a pequenas turbulências políticas, que foram resolvidas com a indicação de
um outro mineiro, Afonso Pena.7
Assim que Afonso Pena foi indicado para a vice-presidência da Repúbli-
ca e a presidência do Senado Federal, Pinheiro Machado tratou de modificar
o regimento interno do Senado, diminuindo o poder de seu presidente, o

7
Afonso Arinos afirma que a indicação do nome de Afonso Pena partiu de Bernardino
de Campos, o qual já tinha trabalhado com ele, quando fora Ministro da Fazenda de
Prudente de Morais, em substituição ao próprio Rodrigues Alves (Franco, 1973:198).
Arinos também afirma que a indicação não agradou a R. Alves e aos demais setores da
elite paulista, provavelmente pelas ideias econômicas de Pena, já no período conhecidas
como contrárias à ortodoxia financeira.

78
qual ficou limitado à simples rotina de presidir as sessões. Esta atitude do
gaúcho visava fragilizar a ação de Minas Gerais sobre o Congresso, garan-
tindo o poder do Rio Grande do Sul sobre o mesmo.
A escolha de seu Ministério, como de praxe, buscou obedecer a critérios
políticos, ensejando a representação dos estados que alavancaram a candi-
datura de Alves. A opção por Leopoldo Bulhões8 para um dos ministérios
mais importantes – o da Fazenda – atendeu, porém, a critérios relacionados
à política econômica austera que se pretendia colocar em vigor. Bulhões
já era conhecido pela sua contumaz oposição às medidas econômicas do
período do Encilhamento e estaria disposto a dar continuidade à política
de estabilidade e paridade cambiais pretendidas.
Uma outra escolha a ser destacada foi a de J. J. Seabra para o Ministério
do Interior e Justiça, outra pasta reconhecidamente importante, sobretudo
porque a ela estavam submetidas as eleições e também as ações no campo
da saúde, as quais teriam grande relevo no quatriênio que se iniciava. Este
Ministério recebeu a parcela mais significativa de recursos do orçamento
nacional, fortalecendo sobremaneira o seu poder político. 9
As demais pastas foram ocupadas por Lauro Muller (Indústria, Viação e
Obras Públicas) e Rio Branco (Relações Exteriores). Este último Ministério,
que em geral era considerado uma pasta “não política”, para a qual eram
indicados ministros com base em critérios igualmente “não políticos”, teve
importante atuação no período, principalmente no que coube à compra do
Acre pelo Brasil.
Levando-se em conta os pesos dos cargos segundo os padrões avaliativos
da época, os principais ministérios estavam ocupados pelos Estados de Goi-
ás, Bahia e Santa Catarina. Como o primeiro e o terceiro foram escolhidos
com base em critérios técnicos e não políticos, dadas as pequenas dimensões
dos mesmos, Alves pretendia manter o seu governo apoiado pelos estados
de São Paulo, Bahia e Minas Gerais, sendo que este último estado detinha
o cargo de vice-presidente. Os três, em conjunto, eram responsáveis por

8
Leopoldo Bulhões destacou-se como abolicionista e Republicano Histórico. Fez
parte da Assembleia Constituinte de 1891, apresentando-se como um feroz defensor
dos pressupostos federalistas.
9
O baiano Seabra havia se destacado desde o Governo de Prudente de Morais, quando
atuou ativamente na cisão do PRF, sendo o autor da moção que iniciou o processo
de separação entre os dois líderes paulistas, Glicério e Prudente. A este respeito ver
Abranches (1973, vol. 1, primeira parte).

79
quase metade da população nacional no ano de 1900.10 Somados, também
controlavam 38,54% das cadeiras da Câmara Federal.
Um outro ponto a ser destacado é que a política financeira iniciada por
Campos Sales teria continuidade. Apesar de a sustentação política do governo
ser garantida por três estados cafeeiros (a Bahia também produzia café, embora
a índices pequenos e incomparáveis a São Paulo, Minas e Rio de Janeiro), os
interesses econômicos dos cafeicultores seriam relativamente preteridos, na
medida em que a política cambial continuaria a manter o mil-réis valorizado. O
Estado continuaria a não emitir papel-moeda inconversível e o crédito aos produ-
tores continuaria escasso. Rodrigues Alves insistiria em sua política financeira
ortodoxa, não obstante o aumento das dificuldades dos cafeicultores. Os preços
do café estavam em declínio desde meados da década de 1890 e os reflexos
da primeira crise de superprodução seriam sentidos ao final de seu governo.
A intervenção do Estado no comércio do café seria reivindicada, provocando
grave crise de sustentação política, ao final de seu mandato.
Como vimos, a composição da chapa presidencial expressou a primeira
participação efetiva no Executivo Federal, por parte de Minas Gerais. Até
então, o estado só havia ocupado algumas pastas ministeriais e interferido
muito pouco na gestão federal do regime republicano 11. A detenção da vice-
presidência apontava para o advento de uma nova força política a barganhar
pela abertura de espaço na correlação de forças em vigor. Minas Gerais
entrava no esquema, não como um parceiro a ser desprezado. Tinha a maior
população do país e, consequentemente, a maior bancada. Era a segunda
maior economia nacional; o ardor de suas lutas internas havia sofrido certo
arrefecimento; possuía quadros políticos razoavelmente capacitados para o
exercício de funções administrativas. Desta forma, sua inserção no quadro
político nacional veio alterar a composição de forças, até então predominante.

10
Base de cálculo: A população total do Brasil, no recenseamento de 1900 era de
17.318.556 habitantes. A população de Minas Gerais era de 3.594.471 habitantes
(20,75%), a de São Paulo era de 2.282.279 habitantes (13,17%) e a da Bahia era de
2.117.956 habitantes (12,22%). Somando-se os totais percentuais obtemos 46,14% do
total nacional. Fonte: ESTADO DE MINAS GERAIS, Minas segundo o recenseamento
de 1920, Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1924, à página 250.
11
Minas Gerais participou dos ministérios de Deodoro e Floriano na pessoa de Cesário
Alvim e Fernando Lobo, respectivamente. Participou, também, parcialmente, do
Ministério da gestão de Prudente de Morais, no período em que o mesmo se encontrava
afastado, na pessoa de Antônio Olinto dos Santos Pires. E do Ministério de Campos
Sales, quando Olinto Magalhães ocupou a Pasta das Relações Exteriores. Dessa forma,
a única vez, que participou por toda a gestão, a fez em uma pasta considerada pelos
atores políticos da época como “pouco política”.

80
2.1.1 O “Bloco” como construção de um eixo-alternativo

A sucessão presidencial a ser analisada a seguir, ao contrário da maio-


ria, não sofreu nenhum tipo de contestação a posteriori. Afonso Pena foi
candidato único e sua votação, apesar de ter sido uma das menores da
História da República, não foi questionada. Em compensação, as disputas
em torno da prévia escolha do candidato de consenso foi uma das mais
árduas do regime, conforme se verá. O peso da disputa oligárquica recaiu
todo sobre o momento que antecedeu a eleição, permitindo que o processo
eletivo, em si, fosse tranquilo.
Participou diretamente dessa sucessão o conjunto dos maiores estados:
São Paulo, Minas, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Rio Grande do
Sul. Indiretamente, através de suas lideranças representativas, os demais
Estados foram parcialmente envolvidos.12
As conversas acerca da sucessão de Alves iniciaram-se em meados de
1904 e se prolongaram até o final do mês de agosto de 1905, quando seu
nome foi oficialmente lançado através de um manifesto, assinado por vários
políticos, representantes dos estados que o apoiavam.13 No período de um ano
desenrolou-se uma série de acontecimentos que resultaram na escolha final
do nome de Afonso Pena como candidato, os quais detalharemos a seguir.

Pinheiro Machado: “o fazedor de reis e o grão-protetor dos presidentes...”14

A participação do Rio Grande do Sul no processo sucessório foi des-


tacada por quase todos os autores que abordaram o tema, especialmente a
ação de Pinheiro Machado, para muitos, de caráter decisivo. Joseph Love
(1975:147) destacou que Pinheiro teve participação decisiva nos aconteci-
mentos políticos nacionais desde 1905 até a sua morte, em 1915. Pelo que
iremos ver, muito antes de 1905, a sua ação política já era decisiva.
O poder de Pinheiro Machado tinha vários fundamentos. Havia lutado
na Guerra do Paraguai. Fora Republicano Histórico. Ganhara a patente de
general em função de suas amplas ligações com o florianismo. No momento

12
Os personagens que atuaram no evento em foco, muito embora sejam, no decorrer
do texto, citados individualmente, o fizeram como representantes de suas oligarquias
estaduais, na defesa explícita das mesmas, na intensa luta que se travou em torno da
indicação final de Afonso Pena.
13
O manifesto foi publicado em 5 de setembro de 1905.
14
Referência de Rodrigues Alves Filho ao papel de Pinheiro Machado na sucessão
de 1906, AAP, caixa 15, doc. 28.2. AN.

81
da cisão do PRF, manteve-se ao lado dos republicanos, em oposição aos
concentrados, tentando impor o nome de Castilhos como candidato de opo-
sição a Campos Sales. Derrotado, manteve discreto apoio à candidatura de
Lauro Sodré e aderiu rapidamente ao nome vitorioso, tornando-se o prin-
cipal articulador político do novo governo. Nesta função, aprofundou suas
divergências com Pernambuco, uma vez que Campos Sales sofria oposição
direta de seu vice-presidente, o pernambucano Rosa e Silva.
Além do mais, na condição de vice-presidente do Senado Federal, Pi-
nheiro controlava o reconhecimento dos poderes na Câmara Alta.15 Por meio
deste instituto, podia controlar o acesso ao poder dos pequenos estados, os
quais não tinham força política suficiente para reconhecer os seus próprios
representantes. José Maria Bello destaca que o controle de Pinheiro sobre
o Legislativo fez com que, na prática, ressurgisse o PRF, sobre novas bases
(Bello, 1972:196). Por meio desse controle conseguia a sujeição dos gover-
nadores de forma indireta. Caso os governadores fossem de encontro aos
interesses de Pinheiro Machado, perderiam o apoio de suas bancadas, em
geral, servis às ordens do gaúcho, pois dele dependiam seus reconhecimentos.
Segundo outro analista, o reconhecimento fora uma válvula aberta esquecida
pela “política dos estados”, a qual fugia do controle do Executivo Federal
(Pôrto, 1951:117 e 118).
O poder sobre os pequenos estados nas mãos do Rio Grande do Sul,
especialmente os do norte e do nordeste, garantia ao estado um peso sig-
nificativo na Federação. Além disto, sua histórica associação ao Exército,
somada ao tamanho de sua bancada (a sexta maior do país) e a sua força
econômica, fazia do estado um dos mais proeminentes.
Tal poder só era ameaçado pela Bahia e Pernambuco, estados que
também advogavam a posição de centro, em torno do qual vagavam os
satélites setentrionais do Brasil. O poder do Rio Grande era, assim, inver-
samente proporcional ao poder da Bahia e Pernambuco. Daí justificar-se a
progressiva oposição ao nome de Pinheiro Machado por parte de baianos
e pernambucanos.

15
Segundo Armelle Enders (1993), o Senado, base do poder de Pinheiro Machado, era
mais fácil de ser controlado do que a Câmara de Deputados em função da paridade
representativa. O número igual de senadores por estado diminuía o controle dos
grandes estados sobre os pequenos, abrindo espaço para o poder do senador gaúcho. A
aliança estabelecida entre Pinheiro Machado e Antônio Azeredo veio a fortalecer, mais
ainda, o poder do primeiro, uma vez que o segundo era proprietário de importantes
jornais. Conforme Enders (1993:370), esta inserção na imprensa era complementada
por suas boas relações com dois jornalistas de importância, Alcindo Guanabara e
Gilberto Amado.

82
A ação de Pinheiro Machado contra a Bahia manifestou-se na tenta-
tiva de diminuição de seu coeficiente eleitoral, através da eliminação dos
“fósforos”, eleitores fantasmas. A redução do coeficiente eleitoral da Bahia
colocaria o Rio Grande do Sul em melhor posição em número de eleitores.
Além disto, atuava no sentido de ampliar as disputas intra-oligárquicas
baianas, fragilizando o estado em sua participação política nacional.
Muito embora Pinheiro, até então, se colocasse ao lado de São Paulo,
na condição de seu aliado político, mantinha relativa independência, nunca
se colocando como um cliente incondicional dos paulistas, como o seria,
posteriormente, seu sucessor na vice-presidência do Senado, Antônio Aze-
redo (Love, 1975:148). Esta relativa independência começou a ganhar ares
de oposição, no momento da sucessão de Rodrigues Alves.

A deflagração do processo sucessório

O processo sucessório teve início com a visita de Rodrigues Alves, em


meados de 1904, a Minas Gerais para uma inauguração. Como a visita fora
realizada em um período em que normalmente iniciavam-se as conversas e
acordos em torno da sucessão presidencial, a atitude foi interpretada como
uma expressão de apoio, por parte do Catete, à eventual candidatura de Afonso
Pena. Talvez tenham sido estes testemunhos de época e os trabalhos biográficos
responsáveis pela ideia, disseminada por parte da historiografia brasileira,
de que o candidato preferido de Rodrigues Alves era mesmo Afonso Pena.16
Por meio dos inúmeros relatos e correspondências de Rodrigues Alves
que foram consultados, percebe-se que não havia, por parte do situacionismo
paulista, nenhuma intenção de prestar apoio à indicação de Afonso Pena
com sua visita a Minas Gerais.17
Como uma reação à eventual intenção de Rodrigues Alves, propagada
largamente pela imprensa do período, o Rio Grande do Sul lançou o nome
de Campos Sales à Presidência, à revelia do próprio candidato e também do
situacionismo paulista. A intenção dos gaúchos era dividir as hostes do PRP,
na medida em que o nome de Campos Sales encontraria muitas resistências
internas, além de afastar os paulistas da anunciada candidatura mineira.
Porém, Campos Sales condicionou a sua candidatura à aceitação de seu nome
como uma solução de consenso, que envolvesse não só São Paulo, como os
demais estados que compunham o governo, o que dificilmente ocorreria.18

16
Ver Castro (1982:147) e Mota Filho (1941:204).
17
Cartas e demais documentos que compõem o ARA, Lata 806, pasta 48, IHGB.
18
Conforme anotações de Rodrigues Alves, ARA, Lata 806, Pasta 48, IHGB.

83
A atitude de Pinheiro Machado, ao lançar um segundo nome na disputa,
acabou por se constituir na marca de sua atuação nas sucessões presidenciais
subsequentes. Pinheiro usava como artifício a indicação de vários nomes
ao mesmo tempo, complicando o quadro sucessório. Quanto mais nomes
eram lançados, mais divididas ficavam as lideranças e mais fragilizados
tornavam-se os nomes indicados. A indicação de outros nomes mineiros
serviria, mais tarde, para dividir também o PRM.19
Afonso Arinos (Franco, 1955:459-460.) destaca que a intenção dos
gaúchos era evitar que o Catete indicasse o seu sucessor, visão que nos
parece bastante adequada. Na análise que fizemos, percebe-se que a
oposição de Pinheiro não se dirigia propriamente a nomes, mas ao mo-
delo que se fortalecia no regime, o qual previa o controle do Executivo
sobre a sua renovação. A persistir tal prática, o seu próprio nome e a
participação do Rio Grande do Sul estariam vetados ou condicionados
ao aceite de São Paulo, que, até então, monopolizava a Presidência da
República.
De qualquer forma, o Rio Grande teve êxito em seus objetivos. O pri-
meiro paulista a sustentar o nome de Campos Sales foi Arnolfo Azevedo e o
primeiro a se opor a ele foi, nada mais nada menos, que o então presidente
de São Paulo, Jorge Tibiriçá. Em nenhum momento, Afonso Pena chegou
a receber apoio do situacionismo paulista.
Ao que tudo indica, o nome de Bernardino de Campos surgiu no início
de 1905, por iniciativa do governador paulista, como reação às duas can-
didaturas já postas, a de Afonso Pena e a de Campos Sales.20

19
Conforme citado por Franco (1973:540). Pinheiro indicou, segundo o autor, além
de Campos Sales, os nomes de Quintino Bocaiúva, Francisco Sales e Bias Fortes.
20
Conforme anotações de Rodrigues Alves Acerca de sua sucessão, ARA, lata 806,
pasta 48, IHGB. Existem, porém, algumas referências empíricas de que o principal
responsável pela candidatura Bernardino de Campos teria sido Francisco Glicério:
carta de Aarão Reis a Afonso Pena de 18 de janeiro de 1905, AAP, Caixa 13, doc.
25.7, AN e Jornal O Pharol de 28 de outubro de 1905. CPH, AH. Nos contatos
epistolares travados no período, entre os situacionismos mineiro e paulista, R. Alves
afirmava não ter sido o responsável direto pela indicação do nome de Bernardino de
Campos, a qual resultara na intervenção de Jorge Tibiriçá, como uma reação natural
ao lançamento do nome de Campos Sales, com o que concorda Weiner (1980:178).
Atestam os fatos relatados: carta de R. Alves a Afonso Pena de 15 de março de 1905,
AAP, caixa 7, doc. 17.21, AN. e afirmações de Rodrigues Alves Filho, AAP, caixa
15, doc. 28.1, AN. Cartas trocadas entre Francisco Sales e Ribeiro Junqueira, 29 e
30 de abril de 1905, ARJ, códigos 03.02.05 C, CPDOC e Carta de Feliciano Pena a
Afonso Pena de 25 de abril de 1905, AAP, Caixa 12, doc. 24.12, AN.

84
Prontamente, o presidente Rodrigues Alves chamou a si a responsabili-
dade de encaminhar a quarta candidatura paulista, telegrafando mensagens
a vários estados para apresentar o nome de Bernardino de Campos. Segundo
relato já citado, do próprio Rodrigues Alves, a aceitação da indicação por
boa parte dos pequenos estados, à exceção do Paraná, foi um sinal da via-
bilidade da candidatura. Quanto aos grandes, sabia-se que o Rio Grande
do Sul e a Bahia não o acompanhariam; o primeiro por já ter lançado um
nome; o segundo, por encontrar-se em oposição ao governo federal, desde
que a escolha do Ministro oriundo da Bahia, José Joaquim Seabra, havia
recaído sobre um elemento da oposição a José Marcelino, então governador.
Esperava-se, porém, que Minas Gerais acolhesse o nome paulista,
contentando-se com a vice-presidência, para a qual se articulava o nome
do próprio governador do estado, Francisco Sales. Além de Minas, na visão
de Alves, os estados do Rio de Janeiro e Pernambuco certamente estariam
com o Catete.
A posição da Bahia era por demais complexa. O governador do estado
foi o responsável pela colocação de um quarto nome na disputa, o de Rui
Barbosa. Um forte suporte político à candidatura de Rui veio a ser dado por
Antônio Azeredo, que, além de trazer o estado do Mato Grosso, era proprie-
tário do Jornal A Tribuna e do periódico O Malho, que se especializou na
crítica ao governo de Rodrigues Alves, através de seus inúmeros cartoons.
A Bahia, em função de suas acirradas disputas internas, dividia-se entre
as várias candidaturas.
Pernambuco, representado no nível nacional pela liderança de Rosa e
Silva, conforme previa Rodrigues Alves, estava disposto a adotar a candi-
datura oficial, deixando claro, porém, que preferia o nome mineiro, con-
dicionada a sua aceitação pelo próprio Catete. Pernambuco conhecia bem
o alto custo pago por ter permanecido em oposição ao governo federal, no
governo anterior. Seu líder, Rosa e Silva, tinha como principal objetivo
refutar a candidatura de Campos Sales, em função da disputa seca que
travava com Pinheiro Machado pelo controle das oligarquias setentrionais,
além do fato de ter sido opositor a Sales em seu governo presidencial. Até os
primeiros meses de 1905, o processo sucessório, não obstante a existência
de quatro candidaturas (Afonso Pena, Bernardino de Campos, Campos
Sales e Rui Barbosa), parecia caminhar para a solução paulista, através
do nome indicado pelo Catete. O PRP, unido em torno de Bernardino de
Campos e com o aceite de Minas Gerais e Pernambuco, além do apoio de
uma das facções da Bahia, teria força suficiente para reunir os pequenos
estados e viabilizar seu intento. Mas alguns elementos novos alteravam a
composição do cenário. Os três maiores estados, pilares de sustentação do

85
governo federal, estavam divididos. A Bahia entre os nomes lançados; Minas
Gerais entre o apoio ao Catete e a sustentação de Afonso Pena; São Paulo
entre dois paulistas, Bernardino de Campos, indicado pelo situacionismo, e
Campos Sales, indicado pelo Rio Grande, com pequenas adesões paulistas. 21
O abalo na sustentação do governo de Rodrigues Alves não era resul-
tante apenas dessas disputas interestaduais. O ano de 1904 havia sido o
palco de protestos populares e levantes militares contra o projeto de reforma
urbana implementado pelo Presidente, através de seu preposto no Distrito
Federal, o prefeito Pereira Passos.22
Tal desgaste, vencida a primeira metade do quatriênio, ocorria em um
período que, como vimos, se processavam as conversações e acordos em
torno da sucessão presidencial, complicando o controle político do Catete
sobre o processo.
Além disto, as relações entre o Executivo Federal e os estados começaram
também a se complicar. Da Bahia surgiriam oposições veementes, não só de Rui
Barbosa, como do próprio governador José Marcelino, às ações repressivas do
governo federal. O representante do Estado no governo, J. J. Seabra, havia sido
convencido, pelo próprio Rodrigues Alves, a arquivar sua carta de demissão em
razão de discordâncias em relação às medidas de Oswaldo Cruz. O Rio Grande
do Sul, tendo rompido com o Catete após a indicação de Campos Sales à Pre-
sidência, agia no sentido de fragilizar ainda mais o Executivo no Congresso. O
Rio de Janeiro, palco das lutas sociais, concentrava a pirotecnia da oposição ao
governo. Ao mesmo tempo, o Rio de Janeiro já havia se manifestado contrário
à indicação de Bernardino de Campos à Presidência.
Desta forma, a aliança que garantiu a sustentação de Alves na Presidên-
cia, um “triângulo” formado por São Paulo, Minas Gerais e Bahia, estava
desfeito. Perdido o apoio da Bahia, e encontrando-se São Paulo dividido,
restava a Minas Gerais o mais importante papel na sustentação do gover-
no. A análise de um deputado do período era então muito pertinente: “(...)
A Nação, perdido o antigo centro, cindiu-se em corpos de volume e peso
diversos. Atraídos os menores começaram a girar em torno dos maiores e
todos giram em torno do mais pesado, o Estado de Minas” (Relato de Fausto
Cardoso In: Franco, 1955:516).

21
Para Weiner (1980:177), o PRP já estava dividido internamente entre as candidaturas
potenciais de Campos Sales e Prudente de Morais. A indicação de Bernardino de
Campos dividiu mais ainda o partido. Campos Sales era o nome de maior oposição a
Bernardino de Campos, uma vez que este havia sido lançado por Pinheiro Machado.
22
A este respeito ver, entre outros, Benchimol (1992), Carvalho (1989, cap. 4),
Sevcenko (1993).

86
Minas tem a chave do processo sucessório...

No início de 1905, Rodrigues Alves manteve contato com Minas Ge-


rais, visando sedimentar o apoio ao nome paulista. Oferecia a Minas a
vice-presidência. Minas Gerais era, na ocasião, governada por Francisco
Sales, político da região sul do estado. Pelo que nos foi possível averiguar,
o situacionismo mineiro manifestou-se favorável ao nome de Bernardino
de Campos. No entanto, os políticos da Zona da Mata mineira aderiram
prontamente à candidatura de Afonso Pena, dividindo o estado em facções.
A adesão de Minas ao acordo proposto pelos paulistas não seria tão
fácil, como atestava a posição do próprio Afonso Pena:

Reputo profundamente impolítica, por prejudicial à boa harmonia


brasileira, a pretensão dos chefes governistas de monopolizarem para
seu estado a Presidência da República. Iludem-se redondamente de
pensar que esse fato é indiferente aos outros estados: consideram-no
como ofensivo ao seu legítimo amor próprio. (Carta de Afonso Pena a
Rodrigues Alves de 21 de março de 1905, AAP, caixa 6, doc.16.4,
AN. grifos nossos)

No mesmo documento, Pena referiu-se ao fato de Minas Gerais possuir a


maior bancada do país e, em função disto, ter direito a aspirar à Presidência
da República. Pela primeira vez, a hegemonia de São Paulo sobre o regime
estava sendo contestada por um grande estado.
A fala de Bias Fortes, um dos mais influentes pilares de sustentação do
nome de Afonso Pena em Minas Gerais, era ainda mais explícita na expres-
são do sentimento de parte dos mineiros naquele contexto: “Parece-me que
o fiel da balança está com Minas e esta, ao menos agora, deve mostrar-se
altiva, reconquistando uma posição política há muito tempo esquecida,
senão abandonada” (Carta de Bias Fortes a Afonso Pena de 25 de março
de 1905, AAP, caixa 9, doc. 21.26, AN).
Diante da oposição entre paulistas e gaúchos, Bias Fortes percebia o
papel de tertius atribuído a Minas, posição privilegiada, capaz de fazer o
estado retornar ao lugar de prestígio que ocupara no período monárquico.
A situação de Minas Gerais no quadro nacional era bastante deli-
cada. As suas disputas internas dificultavam a reunião em torno de um
dos dois nomes aventados por suas elites: o de Pena ou o de Bernardino
de Campos. Francisco Sales, como chefe do estado e do partido, estava
disposto a aliar-se ao Catete, mas encontrava-se em dificuldades, por não
poder retirar Pena do processo competitivo, sem fragilizar-se no interior
do estado. Por outro lado, o grupo de Pena não tinha força política inter-

87
na suficiente para fazer valer os seus interesses. Iria então buscar estas
forças fora de Minas.23
A falta de uma adesão pronta e rápida do situacionismo mineiro ao
nome de Afonso Pena abria espaço para o surgimento de outros nomes e
afastava de Pena o eventual apoio de outros estados. A posição de Minas
foi avaliada, por um personagem da época, da seguinte forma:

Minas é de sua natureza pacata [e] provavelmente não levará sua aspi-
ração ao ponto de resistir à deliberação que for tomada. Provavelmente,
depois de ter lembrado a candidatura de um mineiro, se resignará a
aceitar outra qualquer. Minas sabe que sua insubordinação não lhe
daria a vitória, mas a condenaria às consequências da má vontade e do
despeito do candidato vitorioso, coisas que são para se recear quando a
gente se lembra de que o estado precisa muitas vezes dos bons ofícios, da
tolerância e dos favores da União. (Correspondência de Feliciano Pena a
Afonso Pena de 3 de março de 1905, AAP, Caixa 12, doc. 24.8, AN )24

Nessa citação, dois fatos são claramente perceptíveis. A primeira é


que o grupo de Pena desejava a Presidência da República e se recusara a
contentar-se com a Vice-Presidência oferecida por São Paulo. O segundo
fato é o de que, em função da resistência do situacionismo em aderir à sua
aspiração, temia não ter fôlego para concretizá-la. A situação econômica
do estado, em função da crise do café em vigor, criava obstáculos a uma
ação independente; além do mais, arriscar-se a permanecer na oposição,
após o pacto oligárquico, poderia resultar em consequências drásticas para
qualquer estado, mesmo que fosse grande.
Francisco Sales, pressionado pelas circunstâncias, pensava ainda ser
possível uma mudança de rumos que afastasse de Minas qualquer possibi-
lidade de dissidência em relação ao Catete ou através do esmaecimento da
candidatura Afonso Pena, ou através de um apoio paulista ao nome mineiro.
Esta última esperança expirou em março de 1905, quando Rodrigues Alves

23
Pelo que nos foi possível averiguar, faziam parte do grupo de sustentação do nome de
A. Pena os políticos mineiros que, em sua maioria, haviam sido Republicanos Históricos
e eram oriundos da Zona da Mata Mineira. Do segundo grupo destacavam-se políticos
majoritariamente oriundos do sul e centro de Minas e responsáveis pelo acordo que
deu origem ao “novo PRM” na eleição de Silviano Brandão à presidência do estado.
24
Ver também: correspondência de Sabino Barroso a João Pinheiro de 22 de janeiro de
1905, AJP, Caixa 11, doc. 1613, APM; correspondências de João Ribeiro e Feliciano
Pena a Afonso Pena, em fevereiro de 1905, caixas 12 e 15 do AAP, docs 24.06 e
28.50, respectivamente, AN.

88
dirigiu-se diretamente aos mineiros, manifestando seu apoio incondicional
à candidatura de Bernardino de Campos. Diante dessa posição firme do
Catete, ao lado de Bernardino de Campos, o grupo de Sales preferiu recuar
a cair na oposição.25 Como surgiram resistências ao fato de Minas abrir
mão de seu próprio candidato, o qual estava tendo boa receptividade, o
resultado foi uma tentativa de Francisco Sales em encaminhar uma proposta
conciliatória, qual seja, a de os mineiros levarem o nome de Afonso Pena
à convenção de setembro, na expectativa de que o mesmo fosse aceito pelo
Catete. Caso contrário, Minas acataria a decisão da convenção e não iria às
urnas para uma disputa aberta contra Bernardino de Campos.26

O fortalecimento da candidatura Afonso Pena

Descontentes com a postura proposta por Francisco Sales, os apoiadores


de Pena reconheceram a necessidade de tomar rumos diferentes. Pensavam
em aliar-se a outras unidades federativas, fragilizando a candidatura de Ber-
nardino de Campos e atraindo, para si, o apoio integral de seu próprio estado.
Como resultado imediato da estratégia adotada, os indícios de um acordo
entre Minas e Rio Grande do Sul apareceram nos primeiros meses de 1905.27
Cientes de que uma oposição articulada contra a candidatura oficial
ganhava espaço na imprensa, o grupo reunido em torno de Afonso Pena
tratou de juntar-se aos elementos dissidentes, em busca de um acordo que
inviabilizasse o intento paulista.28
A iniciativa do Rio Grande em aliar-se a Minas Gerais foi resultante
da desistência de Campos Sales em concorrer.29 Ao Rio Grande do Sul não

25
Conforme carta de Carlos Peixoto a Bias Fortes em 22 de março de 1905, AAP,
caixa 9, doc. 21.26, AN. e carta de Delfim Moreira a Wenceslau Brás de 26 de março
de 1905, AWB, VB, DF, 441, CPDOC.
26
A este respeito ver: correspondências trocadas entre Francisco Sales e Ribeiro
Junqueira em 29 e 30 de abril de 1905, ARJ, código 03.02.05-C, CPDOC.
27
A correspondência, já citada entre Feliciano Pena e Afonso Pena (3 de março
de 1905), remete à necessidade de uma aliança entre estados opositores a
Bernardino de Campos, AAP, caixa 12, doc. 24.8, AN. A carta de Pinheiro
Machado a Afonso Pena, datada de 3 de abril de 1905, AAP, caixa 10, doc.22.78,
AN, já fala sobre a existência de uma “coligação”, que se tornava cada vez mais
prestigiada.
28
“Se não me engano, Minas, Bahia e Rio Grande já poderão se entender e em redor
desse centro virão outros estados” (Palavras de Feliciano Pena, em carta a Afonso
Pena de 20 de março de 1905, AAP, Caixa 12, doc. 24.9, AN).
29
Sales havia comunicado a Pinheiro Machado a sua desistência, no mês de março de

89
interessava um candidato indicado pelo Catete, o qual, se eleito, manteria a
correlação de forças em andamento, que relegava ao Rio Grande um papel
secundário no cenário nacional. Sem candidato próprio, restava a ele ou
aproximar-se do nome mineiro ou do nome de Rui Barbosa. O candidato
baiano não reunia muito apoio, nem mesmo de seu estado de origem, no
qual só dispunha do controle de 1/3 dos municípios. Além disto, a força
política da Bahia era menor que a de Minas Gerais, em função não só do
tamanho de sua bancada, como de sua economia. Assim, Pinheiro dispôs-
se, primeiramente, a agilizar os acordos com Minas, em busca de um
posicionamento comum.30
Estabelecida a aliança com o Rio Grande do Sul, os articuladores
mineiros da candidatura Pena adquiriram um álibi poderoso, que forçaria
Minas Gerais a vir completamente em apoio ao seu nome. Mas o grupo de
Francisco Sales parecia estar cada vez mais próximo de Rodrigues Alves.31
Apesar da crescente perda de apoio por parte do candidato paulista,
a insistência do Catete em viabilizar o seu nome era contínua. Consta
que, em maio de 1905, o Jornal do Comércio fora adquirido pelo PRP,
com o fim de fortalecer o nome de Bernardino de Campos. Longe estava
de São Paulo a suposição de que Minas Gerais se aliaria ao Rio Grande
do Sul, apesar dos contínuos reclames de Rodrigues Alves, em relação
à dubiedade de Francisco Sales. Não podendo assumir uma posição de
franca hostilidade a Afonso Pena, Francisco Sales mantinha-se silencioso,
aguardando o desenrolar dos acontecimentos. Segundo referências de Melo
Franco, a posição de Francisco Sales era própria do Vaticano: “pedra em

1905. Pinheiro recebeu de Sales, porém, o aval para reter a informação, só a divul-
gando em ocasião mais propícia, com o objetivo de usá-la como moeda de troca, em
futuras negociações. A desistência de Sales se dera em função do comprometimento
irreversível do situacionismo paulista com a candidatura de Bernardino de Campos
e o seu desejo em não ser instrumento de divisão de seus conterrâneos (Artigo de
Campos Sales publicado no “Jornal do Comércio” em 19 de agosto de 1905, AAP,
caixa 24, doc. 48.47, AN).
30
Conforme correspondências trocadas entre Campista e Afonso Pena de 5 e 7 de
maio de 1905, AAP, caixa 8, docs. 19.5 e 19.6. AN. Os paulistas só vieram a saber
da desistência de Campos Sales dois meses depois, de acordo com anotações que
constam da agenda de Rodrigues Alves no dia 29 de julho de 1905, Lata 806, pasta
55, ARA, IHGB.
31
A postura de Minas Gerais em indicar Carlos Peixoto como líder da maioria, em
substituição ao gaúcho Cassiano do Nascimento, o qual renunciara por discordar da
indicação de Bernardino de Campos, era um claro sinal de que a situação mineira
mantinha-se fiel às pretensões paulistas.

90
cima e adiamento”, além da estratégia de “embaraçar as escolhas” (Carta
de Melo Franco a João Pinheiro em 4 de setembro de 1905, AJP, caixa
12, doc. 1674, APM).
Na realidade, o medo de Francisco Sales em dissentir dos paulistas
era muito grande e tinha o seu fundamento, conforme ele mesmo afirma
em carta a Afonso Pena:

Antes de o fazer, cumpre-me confessar a V.Excia com a máxima


franqueza, (...) que a nossa precária situação financeira, agravada
neste semestre com a depressão sem exemplo da renda de exportação,
nos impede de assumir posição inteiramente livre na política federal
(...). A nossa situação de dependência é tal no momento – que se
o governo federal nos fechar a porta do Banco da República, não
podemos pagar pontualmente os juros da dívida interna. A própria
posição central de nosso estado nos torna dependente dos outros
em todos os sentidos. (...) Desde que se tem empenho em manter o
crédito do estado antes de tudo, ainda com os maiores sacrifícios,
não nos é lícito dissentir do Governo Federal, que tanto mal nos
pode fazer. Ainda se tivéssemos probabilidade de vitória, afinal,
poder-se-ia fazer uma tentativa de reação. (Carta de Francisco Sales
a Afonso Pena de 22 de maio e 6 de junho de 1905. AAP, Caixa
6, doc 16.196, AN)

Como se vê pela citação, de fato, a situação econômica de Minas não


era das melhores. O estado dependia economicamente das receitas de ex-
portação sobre o café, as quais haviam sido progressivamente depreciadas,
no decorrer dos anos anteriores, em função não só da queda de preço do
produto, como também da valorização cambial implementada pelos dois
últimos governantes paulistas. Esta situação de fragilidade econômica, que
não era só mineira, dificultava a formação de uma reação ao controle paulista
sobre a República, muito embora fosse a mesma desejada, conforme atesta
o último parágrafo da citação da carta de Francisco Sales.
Sabedor de que a composição de uma aliança mineiro-paulista passaria
necessariamente pela exclusão de seu nome, Pena recusava a alternativa
que lhe fora oferecida pelo situacionismo mineiro. A postura de Pena havia
sofrido alterações após as conversas com o Rio Grande do Sul. O candidato
mineiro estava suficientemente forte para opor-se às posições do grupo de
Francisco Sales e exigir de Minas uma postura de maior enfrentamento,
em relação aos paulistas.32

32
Resposta de Afonso Pena a Francisco Sales em 6 de junho de 1905, AAP, Caixa

91
Por outro lado, o nome paulista perdia terreno nos campos civil e militar.
A rejeição dos militares ao governo de Alves explicava-se pela dura repressão
de suas revoltas, no ano de 1904, cujos principais atingidos haviam sido
os elementos remanescentes do movimento jacobino. O Exército, como ator
político, postava-se ao lado da oposição que se articulava (Caderneta de
notas de Rodrigues Alves, ARA, lata 806, pasta 55, IHGB).
A partir do que foi visto, nota-se uma fragilização progressiva de São
Paulo no processo sucessório. A desistência de Campos Sales aproximou o
Rio Grande do Sul do candidato mineiro, fortalecendo-o, em sua disputa
interna pelo apoio do situacionismo mineiro. Antes, os estados dissidentes
reuniam-se em torno de nomes próprios. Agora, o que os unia era um ele-
mento muito mais forte, qual seja a possibilidade de impedir a monopolização
da Presidência da República por São Paulo.

A Bahia adere à dissidência

Duas razões básicas moviam a candidatura de Rui Barbosa. A primeira


era o desejo de barrar o progressivo declínio de poder da Bahia no cenário
federal. Tendo a segunda maior bancada, ao lado de São Paulo, a Bahia
vinha sendo ameaçada de perder representantes para o Rio Grande do Sul,
o qual, através de Pinheiro Machado, denunciava a existência de fraudes
que a levavam a ter um maior número de eleitores do que de fato possuía.
A segunda razão era que, no ano de 1904, a Bahia havia solicitado ao
governo de Rodrigues Alves, através de seus deputados federais, signifi-
cativa ajuda federal para a realização de obras de caráter infraestrutural,
a serem realizadas no estado. Segundo Armelle Enders (1993:375), o não
atendimento destas reivindicações produziu uma série de queixas contrárias
à hegemonia paulista sobre o país, o que resultou no lançamento do nome
de Rui Barbosa como candidato de oposição ao Catete.
No entanto, o nome de Rui não unificava nem mesmo a Bahia, além de
ter perdido o suporte de Nilo Peçanha. Talvez por esta razão, nem mesmo a
historiografia conferiu importância a esta iniciativa da candidatura da Bahia.
Carone chega a considerar a candidatura de Rui Barbosa como simbólica,
na medida em que se prestava apenas a opor-se ao nome de Bernardino
de Campos (Carone, 1988:235).
O importante é perceber que, na luta pelo controle do novo regime, a
Bahia sempre se fizera presente. Em função de sua bancada numerosa, somada

13, doc. 25.49, AN e carta de Afonso Pena a Bias Fortes em 6 de junho de 1905,
AAP, caixa 6, doc. 16.197, AN.

92
à tradição herdada por ter sido importante Província no período imperial,
a Bahia teve ativa participação nos primeiros anos do regime republicano e
aspirava a aumentar este poder. Ocupou a vice-presidência no governo de
Prudente de Morais e, não fosse o súbito e inesperado retorno do Presidente
ao Catete, Manoel Vitorino teria levado a frente à presidência do país, entre-
gue, naquele momento, às hostes florianistas. Portanto, a candidatura de Rui
Barbosa também era a expressão do descontentamento da Bahia em relação
à sua posição no cenário nacional e um protesto ao pretendido monopólio de
São Paulo sobre o novo regime. Simbólico ou não, o lançamento do nome de
Rui Barbosa foi estratégico, pois era a expressão do descontentamento dos
baianos em relação aos critérios de divisão de poder em curso.
A maior estratégia de fortalecimento do nome de Rui Barbosa era o
projeto de anistia aos presos em função dos levantes militar e civil, ante-
riormente citados, os quais seriam punidos com extradição para o Acre.
Os jornais baianos aliaram-se na defesa do projeto, encontrando nele o
caminho para alavancar o nome de Rui Barbosa e ampliar a sua oposição
ao Catete. Este posicionamento da Bahia refletia uma nova divergência em
relação ao governo federal, que se ampliava com o tempo.33
A possível adesão da Bahia a um eventual acordo entre Minas e Rio
Grande, com a retirada do nome de Rui, começou a ser ventilada, em finais
de junho, por iniciativa de Antônio Azeredo, um dos maiores patrocinadores
do nome baiano, conforme pode ser observado pela citação a seguir:

Se, porém, nós, dissidentes firmes, entrarmos em acordo franco, para


uma ação comum, é bem possível que possamos chamar Minas a nossa
aliança, pois acredito que, certa da vitória dissidente, que neste caso será
infalível, não hesitará entre esta e a do Presidente da República, cuja
fraqueza força alguma amparará! (Carta de José Marcelino a Leovigildo
Filgueiras de 6 de julho de 1905, ARB, doc. 575-1)34

A promessa de apoio baiano foi complementada pela adesão do próprio


Campos Sales à candidatura Pena, pondo fim às especulações de que ele

33
Conforme correspondência de Feliciano Pena a Afonso Pena de 8 de julho de 1905,
AAP, Caixa 12, doc. 24.18 A, AN; e caderneta de notas de Rodrigues Alves, ARA,
lata 806, pasta 55, IHGB.
34
Ver também carta de Feliciano a Afonso Pena de 21 de junho de 1905, AAP,
caixa 12, doc. 24.13, AN; carta de Rui Barbosa a José Marcelino em 23 de julho de
1905, AAP, caixa 15, doc. 28.6, AN; carta de Rui Barbosa a Pinheiro Machado da
mesma data localizada no ARB, FCR 848-3, FCR; e carta de Rui Barbosa a Pinheiro
Machado em 23 de julho de 1905, ARB, doc. 848-3, FCR.

93
estava em conversação com os seus conterrâneos. A fragilização do nome de
Bernardino de Campos e a garantia de apoio dos grandes estados, como Rio
Grande do Sul, Bahia, os quais estavam confirmados, e os prováveis apoios
de Pernambuco e Rio de Janeiro dariam a Minas Gerais a garantia da vitória.
O manifesto de desistência de Rui Barbosa foi publicado em agosto de
1905, no qual ele alegava que desistia em prol da Coligação, que surgira
como um protesto contra a maneira como o Catete conduzira o processo
sucessório.35 Rui Barbosa percebia o grau de importância que a Coligação
atingia, na reformulação das bases sobre as quais se apoiava o poder dos
estados. Na citação a seguir, expressava muito bem o que queríamos dizer,
ao nos referirmos à construção do “segundo princípio norteador” do modelo
sucessório proposto:

Só o acanhamento do ângulo visual a que nos afizemos a ver as coisas


públicas nos inibiria de medir o valor da revolução operada na rotina
republicana por este movimento, que, acabando com o oco aparato si-
mulatório e opressivo da antiga convenção, obrigou o vezo imoral da
escolha dos presidentes da República pelo governo a capitular, rendido
antes da batalha, ante ao princípio liberal da transação entre as opiniões
políticas, livremente associadas. (Manifesto do Dr. Rui Barbosa, Jornal
“A Tribuna”, AAP, caixa 24, doc. 48.55, AN; grifos nossos)

O acordo formal entre Afonso Pena e Pinheiro Machado se deu ime-


diatamente após a manifestação da Bahia. Naquele momento, Pinheiro
já garantira o apoio dos estados do Rio Grande, Paraná, Rio de Janeiro,
Amazonas e Rio Grande do Norte.
Nota-se, através da análise do desempenho do grupo de sustentação da
candidatura de Afonso Pena ao longo do processo, que sua estratégia ia se
radicalizando, em razão direta ao apoio que ia recebendo de outros estados.
Inicialmente limitou-se a apresentar seu nome. Mais tarde, reivindicava que
o mesmo fosse apresentado à convenção. Em seguida, exigia que também
fosse levado às urnas, à revelia do governo mineiro; e por fim, que fosse
retirado da convenção e levado apenas às urnas. A mudança, que ia desde a
aceitação inconformada do nome de Bernardino à dissidência final, ocorreu
ao longo de poucos meses, tendo como pano de fundo as conversações com
os outros estados, partícipes ativos na definição final do comportamento do
candidato mineiro.

35
A Coligação era também conhecida como “o Bloco” em provável alusão à aliança
eleitoral feita na França entre os partidos de esquerda, conforme Franco (1955: 464).

94
Esta mudança de posição de Minas não coadunava com a imagem
de “boiada” relativa à bancada mineira, atribuída como tendo origem em
Campos Sales. Nas palavras de Sertório de Castro, Minas abria mão de
sua habitual postura, por influência do Rio Grande do Sul, tornando-se um
instrumento dócil da ação de Pinheiro Machado:

A política de Minas foi sempre, com efeito, muito moderada nos seus movimen-
tos, muito discreta nas suas aspirações. Repugnou sempre à sua índole forçar
a conquista de posições, e nunca deixou de colaborar de bom grado, despre-
tensiosa e modesta, no predomínio de outras unidades. (Castro, 1982:149)

Após este evento, segundo o nosso próprio narrador, “a grande bancada


já não permitia mais a figura da boiada...” (Castro, 1982:150).

O último fôlego paulista

Sabendo do acordo realizado entre os estados, à revelia de São Paulo,


o líder Francisco Glicério viu de perto o risco iminente da derrota do can-
didato paulista. Assim, tentou em vão articular com Pinheiro Machado a
retomada do nome de Campos Sales, dizendo ter, para isto, a garantia do
apoio do Catete à retirada do nome de Bernardino de Campos (Anotações de
Afonso Pena acerca da sucessão de 1905, AAP, caixa 17, doc. 31.6, AN).
Pelo que consta na documentação a que tivemos acesso, a recusa do
Rio Grande do Sul em recuar de seu acordo com a Coligação e as dificul-
dades impostas pelo próprio Rodrigues Alves, em promover a desistência
de Bernardino de Campos, inviabilizaram a última cartada dos paulistas e
acabaram por selar a sua derrota no processo. Um dos principais obstáculos
ao re-arranjo em torno de outro nome paulista estava na recusa de Tibiriçá
em sustentar o nome de Campos Sales. São Paulo havia ficado isolado na
disputa. Historicamente, era a primeira vez que uma aliança entre estados
desafiava a hegemonia paulista, desde o início da República.
Sem apoio do Congresso e sem adesão de nenhum grande estado,
restava a São Paulo ou aderir à Coligação ou manter-se em oposição ao
próximo governo. A opção foi rápida, porém tardia. O recuo de São Paulo
se deu no dia 15 de agosto, quando Bernardino de Campos retirou o seu
nome da disputa, em apoio ao candidato mineiro.36

36
Conforme cartas trocadas entre Francisco Sales e Afonso Pena em 15 de agosto de
1905, AAP, caixa 5, doc. 8.5 e caixa 13, doc. 25.54, AN.

95
A adesão de São Paulo ao acordo, porém, não foi bem recebida pelos
membros da Coligação. Rui Barbosa afirmava em relação ao apoio que:

Em meu entender, [a Coligação] não deve aceitá-lo, deve recusá-lo fran-


camente, declarando que o fermento e as causas do movimento, onde
teve origem a aliança, cujas forças asseguram a vitória da sua candida-
tura, são incompatíveis com os motivos e a natureza dessa cooperação.
(Carta de Rui Barbosa a Pinheiro Machado de 16 de agosto de 1905,
ARB, doc. 848/3, FCR)

O nome de Pena foi lançado por um manifesto redigido por Rui Barbo-
sa e assinado pelos estados coligados. O manifesto prestava-se, ao mesmo
tempo, a criticar o governo Rodrigues Alves, principalmente pela forma
como tentara conduzir a sua própria sucessão. Embora cinco paulistas o
tenham assinado, nenhum membro do situacionismo o fez, não obstante a
atitude do Catete em liberar seus representantes para assumir a posição
que julgassem conveniente. João Pinheiro tentou, em vão, retirar do texto as
críticas mais duras dirigidas ao Catete pelo manifesto (Notas de Rodrigues
Alves acerca de sua sucessão, ARA, lata 806, pasta 48, IHGB). Não tendo
êxito, o situacionismo paulista recusou-se a assiná-lo, bem como os estados
a ele fortemente aliados, como Pernambuco, Maranhão, Paraná e Sergipe.37
A recusa de São Paulo em assinar o manifesto deu ensejo a variadas
dúvidas acerca de sua real adesão ao nome mineiro. Toda a correspondência
alusiva a este período expressa dúvidas em relação à posição do Catete e
um cuidado especial, por parte dos mineiros, em não afastá-los de vez das
negociações. Além disso, o Jornal O País, ligado ao situacionismo paulista,
publicava notas que denunciavam a provável corrupção de Afonso Pena na
gestão financeira do governo anterior.38
Através do exame apurado dos acontecimentos, percebe-se clara-
mente que a adesão de São Paulo à candidatura de Afonso Pena, além
de tardia, não era de fato desejada por eles. A intenção dos paulistas era
a de permanecer com o controle sobre a República e só se afastaram
desse intento por terem sido derrotados por uma inesperada aliança entre
pequenos, médios e grandes estados. Permanecer na oposição era sempre

37
Provavelmente a recusa de Rosa e Silva em endossar o Manifesto deveu-se ao apoio
de Pinheiro Machado ao mesmo.
38
Carta de Feliciano a Afonso Pena de 28 de setembro de 1905, na qual ele acusa
o Catete de estar por trás das acusações sobre Afonso Pena, AAP, caixa 12, doc.
24.22, AN.

96
um risco, que São Paulo não poderia correr. Aderir ao nome mineiro foi
então um mal menor.
A escolha da vice-presidência tem sido apresentada como uma vitória
dos interesses da Coligação contra Afonso Pena.39 No entanto, pelo que
nos foi possível analisar, fazia parte do acordo a neutralidade de Minas
em relação à escolha do nome. Pena aceitou a indicação de Nilo Peçanha
e nada nos permite afirmar que o fez a contragosto.
A escolha de Nilo Peçanha deu à chapa um tom de maior oposição ao
Catete, na medida em que seu nome era bastante hostil ao governo de Alves.
Mas o apoio de Minas à decisão impediu qualquer aventura de protesto, por
parte de São Paulo. Após a escolha do vice, a adesão formal de Pernambuco
à Coligação ocorreu em princípios de setembro e o apoio oficial do PRP só
veio em meados do mesmo mês. 40

39
Acerca da escolha do vice-presidente nos embasamos nos seguintes documentos:
16.52 e 16.207 da caixa 6 e dos documentos 25.55 e 25.67 da caixa 13 do AAP,
AN; além de documentos da pasta 48, lata 806 ARA, IHGB e conforme informações
que constam de cartas trocadas entre A.Pena e Leopoldo Bulhões em 30 de agosto
e 4 de setembro de 1905, AAP, caixa 6, doc. 16.52 e caixa 9, doc. 21.120, AN.
40
Conforme carta de Henrique Diniz a Afonso Pena de 5 de setembro de 1905, AAP,
Caixa 8, doc. 12.13 e carta de Glicério a A.Pena em 13 de setembro de 1905. AAP,
caixa 10, doc. 22.12, AN.

97
2.2 Candidaturas Presidenciais e Interesses Cafeeiros

2.2.1 O Impacto da Entrevista de Bernardino de Campos

Grande parte da historiografia a ser citada aponta que a principal causa


da derrota do nome de Bernardino de Campos teria sido obra de Pinhei-
ro Machado. Segundo tais abordagens, Pinheiro teria articulado com seu
aliado, o jornalista Alcindo Guanabara, uma entrevista com Bernardino
acerca de sua plataforma política. Conhecedor que era das teses ortodoxas
defendidas pelo candidato, Pinheiro planejava granjear, para ele, a oposição
dos setores vinculados à defesa dos interesses do café.
O impacto da entrevista de Bernardino de Campos parece ter sido maior
sobre a historiografia brasileira do que sobre os acontecimentos da época.
Os trabalhos citados destacam que as posições defendidas pelo candidato,
na referida entrevista, eram contrárias aos interesses cafeeiros, por diversas
razões. Primeiro, por não preverem a intervenção do Estado sobre a econo-
mia, especialmente no que diz respeito ao controle do câmbio, uma vez que
Bernardino havia se mostrado um adepto do livre cambismo;41 segundo, por
não apoiarem os projetos de valorização do café e por que o candidato já
tivera, no passado, assinado um contrato de limitação da produção cafeeira;42
terceiro, por oporem-se aos interesses da elite política paulista, ao propor a
substituição do imposto sobre exportação, fonte principal de receita do estado
(Love, 1982:253-254); quarto, por serem ideias contrárias aos interesses do
Catete, ao não darem continuidade à política econômica posta em andamento
por Campos Sales e Rodrigues Alves;43 quinto, por serem opostas aos interesses
dos industriais, pois não viam com bons olhos o auxílio governamental ao
setor (Franco, 1973:544); e por fim, por ter a entrevista causado um impacto
negativo sobre as forças armadas e o povo, os quais tinham grandes prevenções
ao nome de Bernardino de Campos (Lacombe, 1986:262).

41
Ver Fausto (1989:216-217), Bello (1972:195), Carone (1988:230-232), Love
(1982:253-254). Joseph Love (1975:150), em seu livro anterior, afirmou, entretanto,
que a entrevista não teria sido tão anti-intervencionista assim, uma vez que Bernardino
de Campos previa a proteção do Estado sobre as vendas de café no exterior. Eduardo
Kugelmas (1986:129) discorda igualmente do caráter não intervencionista da entre-
vista, alegando que nela são tecidas considerações gerais acerca da economia nacional
e, mesmo tendo por doutrina o livre-cambismo, Bernardino de Campos considerava
a intervenção do Estado sobre a economia indeclinável.
42
Ver Martins Filho (1981:36), Lacombe (1986:262) e Weiner (1980:181).
43
Ver Fleischer (1978:33), Franco (1973:544) e Bello (1972:195).

98
Após esta entrevista, concedida ao final de junho de 1905, o nome
de Bernardino teria se fragilizado e sua candidatura se tornado inviável.
A cisão entre os paulistas teria aberto espaço para o advento de outras
candidaturas, culminando com o apoio dos paulistas ao nome mineiro em
razão de suas conhecidas teses intervencionistas.44
Tendemos a discordar do impacto atribuído à referida entrevista sobre
a candidatura paulista e, ao mesmo tempo, de seu conteúdo ortodoxo. Na
pesquisa que realizamos, não encontramos nenhum documento da época que
se referisse à entrevista de Bernardino de Campos como sendo a responsá-
vel pela fragilização de sua candidatura. A única referência empírica que
encontramos, acerca da referida entrevista, estava na agenda de Rodrigues
Alves, a qual narra que Alcindo Guanabara, após o término da mesma, a
teria apresentado a Rodrigues Alves e ao próprio Bernardino de Campos,
para receber uma prévia aprovação dos mesmos; a qual foi concedida sem
problemas, recebendo Alcindo Guanabara, inclusive, elogios, por ter sido a
entrevista tão bem escrita (Caderneta de notas de Rodrigues Alves relativa
ao dia 17 de junho de 1905, ARA, Lata 806, pasta 55, IHGB).
Caso a mesma tivesse realmente causado danos ao nome do Catete,
certamente Rodrigues Alves, que dedicou muitas páginas à análise das
razões que teriam levado ao fracasso da candidatura, teria levado o fato em
consideração, o que não ocorreu. O mesmo pode ser dito em relação aos
inúmeros contatos epistolares do período. Nas correspondências trocadas en-
tre os diferentes atores envolvidos no processo sucessório, não encontramos
qualquer referência às teses ortodoxas de Bernardino e o impacto negativo
das mesmas sobre sua candidatura. Todas as referências encontradas acerca
da fragilização do nome de Bernardino de Campos referem-se à perda de
apoio do candidato por parte dos grandes estados, processo que havia se
iniciado bem antes da entrevista, o que nos leva a concluir que, de fato, o
seu nome só foi retirado da disputa após o advento da Coligação, a qual
isolou São Paulo na defesa do candidato, inviabilizando a sua vitória eleitoral.
Segundo o relato de Rodrigues Alves, o golpe mortal contra a candi-
datura de Bernardino de Campos fora o posicionamento de Glicério, que,
ao ver o enfraquecimento da mesma, sugeriu que o nome fosse substituído
pelo de Campos Sales, dividindo de vez o situacionismo paulista, o que
ocorreu ao final de julho. Para Alves, mesmo sem o apoio de outros estados,
São Paulo poderia, unido, viabilizar o nome de Bernardino. Mas a elite
paulista dividiu-se a partir do momento em que Glicério retomou o nome de
Campos Sales (Notas de Rodrigues Alves, ARA, lata 806, pasta 48, IHGB).

44
Ver Love (1982:276), Castro (1982:153) e Carone (1988:233),

99
Como vimos, este nome só fora alçado como uma tentativa de fragilizar a
já existente Coligação, afastando dela o Rio Grande do Sul. Não obtendo o
êxito desejado, o nome de Bernardino foi retirado da disputa.
Ao analisarmos a entrevista, percebemos, com maior clareza, o real
conteúdo da plataforma de Bernardino de Campos. O entrevistador ob-
jetivava ter uma visão ampla da plataforma do entrevistado acerca dos
pontos de interesse geral do Brasil no período, e estes interesses estavam
voltados, sobretudo, para a questão monetária e a questão cafeicultora,
ambas associadas ao declínio vertiginoso dos preços do café em curso. Daí
explicar-se uma maior concentração da abordagem do candidato sobre as
questões econômicas.
A citada entrevista consiste em exposição sumária da plataforma polí-
tica do candidato. Durante toda a exposição refere-se ao Relatório de sua
gestão na Pasta da Fazenda, escrito em 1897, no qual se deteve com rigor
nas questões econômicas que afligiam o país, propondo soluções.
Duas premissas básicas norteavam a exposição do candidato. A primeira
era uma avaliação otimista da economia brasileira. O passado, que era visto
criticamente, correspondia aos primeiros anos da República, marcados pela
especulação financeira, decorrente da desvalorização cambial, próprias
do período do Encilhamento. Vencidas as turbulências, o país caminhava,
celeremente, rumo a sua independência econômica, a qual consistia na
diversificação e incremento da produção agrícola, para que o país prescin-
disse de importar gêneros alimentícios que pudessem aqui ser produzidos.
A segunda premissa de sua plataforma era a continuidade política em
relação aos governos paulistas anteriores. Assim sendo, nada justifica a
afirmação de que seu nome teria sido rejeitado pelo próprio situacionismo
paulista, em função da ruptura com os governos anteriores.
Com base nestas duas premissas, o candidato aborda os seguintes te-
mas: a política econômica em relação ao café, à indústria, à mão de obra,
aos impostos e à agricultura em geral; a instrução pública; as relações
exteriores e as forças armadas.
A sua plataforma em relação à economia nacional é o nó górdio da
discussão, e nosso objetivo é avaliar se a plataforma defendida pelo candi-
dato ia ou não de encontro aos interesses dos cafeicultores. De forma geral,
poderíamos resumir os interesses do setor cafeicultor, naquela conjuntura,
em cinco itens:
a) política de intervenção do Estado sobre o mercado do café para
garantia de valorização do produto;

b) política de crédito aos cafeicultores;

100
c) proteção cambial que evitasse uma valorização muito grande da mo-
eda nacional em prejuízo dos exportadores;

d) diminuição de despesas dos cafeicultores através da redução de im-


postos e gastos com fretes;

e) disponibilização de mão de obra.


Quanto ao primeiro item, o da intervenção da União sobre o comércio
do café com fins valorizadores, Bernardino de Campos mostrou-se, em tese,
favorável ao protecionismo econômico através de uma intervenção eficaz do
Estado sobre a economia:

A intervenção da União esclarece, guia, auxilia eficazmente, apoia. Não


é uma tutela: é um auxílio. (...). Proteger é prever, é dirigir, é auxiliar,
é defender o trabalho: obra vasta, complexa e difícil, que não constitui
um programa de governo, porque é mais do que isso: é sobretudo para
executar que o governo existe. (Guanabara, 1905: 2, c.1-7)

Quanto à política de valorização do café, o candidato mostrou-se fa-


vorável à mesma:

(...) o problema aí está concentrado em procurar-se a valorização do


produto. Penso que a intervenção do Estado é indeclinável. Nenhum
país do mundo é indiferente às questões desta importância, confiando à
ação da iniciativa privada o que ela tem sobejamente demonstrado que é
impotente para conseguir. (...) A União deve cooperar para reorganizar
o comércio do café, vigiar a sua venda, fixar o seu tipo, fiscalizar e
corrigir as estatísticas, providenciar sobre seu embarque, organizar o
crédito necessário, abrir novos mercados, aumentar o consumo atual por
tratados de comércio e concessões recíprocas e eficazes. (Guanabara,
1905:2, c.1-7)

Por essa citação pode-se claramente perceber que a plataforma do


candidato atendia aos interesses dos cafeicultores. O candidato se compro-
metia com a intervenção da União sobre o comércio de café com o objetivo
de valorizar o produto.
Em relação ao segundo ponto, o crédito agrícola, Bernardino de Cam-
pos propôs a reorganização deste através do fortalecimento do Banco da
República como centro do sistema de crédito. Caberia à lavoura organizar
caixas rurais de crédito, as quais emitiriam títulos a serem descontados no
Banco da República.

101
Em relação ao terceiro item, política cambial, o candidato manifesta-se
favorável à intervenção do Estado sobre o controle do câmbio, ao contrário
do que afirmam aqueles que atribuem a Bernardino de Campos uma posição
livre-cambista. Refere-se, porém, a uma política de câmbio fixo e estável,
garantido pela continuidade do resgate de papel-moeda inconversível. O
seu objetivo é valorizar ao máximo o câmbio, para que, no menor espaço de
tempo, a moeda nacional atinja o seu valor legal. Defende a continuidade da
política financeira dos dois presidentes paulistas, Campos Sales e Rodrigues
Alves. Diferenciando-se, porém, do segundo, defende o instituto da Caixa
de Conversão, a qual se destinaria ao controle cambial:

Poder-se-ia admitir talvez o mecanismo equivalente ao da Caixa de


Conversão estabelecida na Argentina: poder-se-ia estabelecer as con-
tas correntes para depósitos em ouro. À proporção que o resgate fosse
reduzindo a massa de papel, a taxa cambial fosse registrando a sua
valorização, à proporção que o aumento e a valorização da produção
fossem cobrindo as nossas despesas externas, o ouro iria afluindo para
o país e a emissão de notas representativas dele iria preenchendo as
necessidades de circulação. (Guanabara, 1905, p. 2, c.1-7)

No momento em que foi concedida a entrevista, as teses do Convênio


de Taubaté ainda não estavam definidas e o modelo da Caixa de Conversão
era prerrogativa da Argentina e ainda não havia sido estabelecido para o
caso brasileiro. Como veremos, os paulistas encontraram-se divididos em
relação ao papel da Caixa de Conversão sobre o controle cambial. Campos
Sales e Bernardino de Campos defenderam o instituto. Rodrigues Alves lhe
foi contrário. O que fica claro, neste caso, é que Bernardino de Campos
defendia a estabilidade e paridade cambiais e condicionava a realização
desses objetivos à intervenção do Estado sobre o câmbio. O mesmo pensava
Campos Sales, que, inclusive, veio a ser o diretor da Caixa de Conversão.
Já Rodrigues Alves era favorável ao livre-cambismo, daí explicar-se a sua
oposição à Caixa de Conversão. Todos eram, no entanto, favoráveis, em tese,
à política de valorização do café.
Em relação ao quarto item, o qual se referia à diminuição dos custos
dos lavradores, Bernardino de Campos mostrou-se empenhado em atuar
na melhoria dos meios de transportes, através de construção de ferrovias
e melhoramento dos portos, mesmo que, para este fim, tivesse que usar
recursos do Tesouro.
Quanto ao imposto de exportação, Bernardino o considerava antieco-
nômico, por ser uma tributação indireta sobre a renda do cafeicultor, a qual

102
deveria ser taxada diretamente, através do imposto sobre a renda. Isto não
implicava em ir de encontro aos interesses dos estados que tinham toda
a sua renda associada à captação do referido imposto, na medida em que
procurava garantir nova fonte de renda para os mesmos. Sua discordância
em relação ao imposto de exportação era de princípio, e em nenhum mo-
mento falou em retirá-lo.
Quanto ao quinto e último item, relativo à disponibilização de mão de
obra, de interesse direto da cafeicultura, principalmente a mineira, a qual
progressivamente vinha perdendo mão de obra para as fazendas paulistas,
cujas remunerações eram maiores, o candidato associava a disponibilidade
de trabalho à instrução e à regulamentação das relações capital-trabalho.
Neste item refere-se novamente a necessidade de intervenção do Estado para
atuar na qualificação da mão de obra agrícola e para adequar as relações
de assalariamento no campo.
A partir das próprias respostas concedidas pelo candidato, não há
como avaliá-las como contrárias aos interesses dos cafeicultores. Como
vimos, o candidato mostrou-se favorável às reivindicações básicas do setor,
aproximando-se muito, conforme veremos, das teses defendidas pela plata-
forma política de Afonso Pena.
Outro tema econômico abordado pelo candidato relacionava-se a um
outro setor da economia nacional, diretamente ligado à cafeicultura, que
era o industrial. Sabe-se que a grande reivindicação do setor era a proteção
tarifária sobre os produtos nacionais. Bernardino manifestou-se favoravel-
mente ao tema: “A tarifa aduaneira é o grande instrumento de defesa e de
propulsão para o progresso: este instrumento deve ser utilizado com cautela
mas com firmeza” (Guanabara, 1905:2, c.1-7).
Embora se recusasse a duplicar a tarifa aduaneira, concordava que a
intervenção do Estado se desse no sentido de assegurar mercado para os
produtos nacionais. Ao mesmo tempo, defendia a redução de fretes para o
setor, além de melhorias no transporte marítimo e ferroviário.
Defendia, igualmente, a cobrança dos direitos aduaneiros em ouro, o
que era também uma reivindicação dos setores industriais. Steven Topik
(1989:155), porém, nos alerta que tal medida, além de eventualmente ser
favorável aos interesses dos industriais nacionais, significava, antes de tudo,
uma proteção à receita da União, uma vez que a mesma vivia do imposto
sobre a importação.
Quanto às outras questões gerais de administração, o candidato con-
centrou-se pouco. Defendeu um investimento crescente nas forças armadas,
através da melhoria de armamentos e investimento na instrução militar. Neste
caso, nada foi dito que pudesse gerar oposições do Exército em relação ao seu

103
programa. Como o próprio entrevistado afirmou, suas ideias não eram novas
e estavam sendo defendidas, há muito, pelos outros presidentes paulistas.
Em relação às intenções de Alcindo Guanabara, avaliadas pela maior
parte da historiografia, como sendo as de pôr às claras o conteúdo ortodoxo
do programa de governo do candidato, com o fim de retirar-lhe o apoio dos
cafeicultores, a serviço de seu aliado Pinheiro Machado, duas observações
merecem ser feitas. A primeira é a impossibilidade de comprovar-se tal
intenção. O entrevistador centrou, de fato, suas questões sobre a conjuntura
econômica, o que era perfeitamente explicável, dada a situação pela qual
o Brasil passava, marcada por uma intensa crise de preços do café e de
superprodução. Se tivesse a intenção de retirar o apoio dos cafeicultores
sobre o candidato, não teria submetido o conteúdo da entrevista à crítica
do entrevistado e do próprio Rodrigues Alves. Em segundo lugar, o entre-
vistado, conforme veremos, não correspondeu às pressupostas expectativas
do entrevistador, uma vez que não se manifestou contrário às principais
teses defendidas pelos cafeicultores.
Acreditamos que a relação feita entre o tom ortodoxo da entrevista e
a derrota de Bernardino de Campos está diretamente ligada a uma outra
associação, a nosso ver também equivocada, entre a candidatura Pena e
o Convênio de Taubaté. Segundo as teses predominantes, Bernardino per-
dera o apoio dos cafeicultores por defender teses contrárias ao Convênio
de Taubaté, ao passo que Afonso Pena, conhecido protecionista, passara
a ser o candidato de preferência do setor, por garantir apoio à política de
valorização citada.
Tendemos também a discordar dessa tese. E para este fim, convém
observar os acontecimentos relativos aos interesses cafeeiros do período,
relacionando-os ao processo sucessório.

2.2.2 A Candidatura Pena e o Convênio de Taubaté

Segundo os dados de Steven Topik (1989:75), a cotação do café e,


consequentemente, a da receita pública, caiu 1/3 entre 1895 e 1898, ge-
rando um alarme generalizado entre os diversos agentes envolvidos com a
atividade cafeeira.
Sem estar indiferente a este grande problema nacional, o Congresso
reagia com variadas propostas, que iam desde projetos de abertura de cré-
dito, ao fim do monopólio estrangeiro sobre o processo produtivo. Desde
1897, a imprensa começara a apoiar uma política de intervenção do Estado
em benefício dos cafeicultores, a qual fora fortalecida pela safra monstro
de 1901 (Halloway, 1978:46).

104
A perspectiva de uma safra recorde em 1906 levou os três estados pro-
dutores, à revelia do governo federal, a reunirem-se para evitar o desastre
econômico que se anunciava. A notícia sobre a pretensão dos estados de
Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro de entrarem no mercado do café
surgiu em meados de 1905. Em dezembro do mesmo ano, o Congresso
autorizava o governo federal a entrar em negociação com os estados pro-
dutores. As bases iniciais do convênio foram estabelecidas e assinadas em
fevereiro de 1906 (Halloway, 1978:57).
Com base nestas informações, gostaríamos de destacar que, muito
embora a crise do café já estivesse anunciada, desde o início da gestão
de Rodrigues Alves, a implementação do Convênio se deu em finais de
1905, ocasião em que a escolha de Afonso Pena, como candidato, estava
não só definida, como sedimentada. Conforme foi visto, o lançamento
de sua plataforma havia ocorrido em setembro daquele ano. Portanto,
tendemos a discordar de uma associação, produzida pela historiografia,
entre a candidatura de Pena e o Convênio de Taubaté. O nome de Pena
foi lançado em meados de 1904; recebeu o apoio do Rio Grande do Sul
em maio de 1905 e da Bahia em julho do mesmo ano. O apoio formal de
São Paulo se deu em setembro de 1905. E os primeiros movimentos que
resultaram no Convênio de Taubaté ocorreram em novembro de 1905,
tendo sido ele assinado em fevereiro do ano seguinte. Esta ordenação
cronológica é de fundamental importância para o entendimento desse
processo sucessório. Não haveria condições para que Afonso Pena trocasse
seu apoio às teses do Convênio pela adesão dos paulistas ao seu nome, uma
vez que, na ocasião do Convênio, o mesmo apoio já havia sido dado pelas
elites paulistas. Ao mesmo tempo, não encontramos nenhuma referência
empírica de que São Paulo teria aceitado o nome de Pena, em função de
seus ideais intervencionistas.
Pode-se, porém, aventar a hipótese de que a imagem de um candidato
protecionista em meio à crise do café pudesse angariar apoio dos cafei-
cultores, independentemente de o Convênio estar ainda fora da pauta de
discussão, mas em função de já existirem propostas em tramitação e/ou
debates no Congresso. Acontece que, pelo que nos foi possível observar,
não houve um compromisso do candidato com as referidas teses durante o
processo de escolha de seu nome. Ao mesmo tempo, não houve adesão ao
seu nome em função dessas mesmas teses, por parte do situacionismo pau-
lista, reunido no PRP, o qual se manteve, o tempo todo, em defesa conjunta
de seu próprio candidato. Se de fato a defesa de uma política econômica
de caráter protecionista fosse requisito condicionador do apoio do PRP,
como explicar que, fragilizada a candidatura de Bernardino de Campos, a

105
segunda opção paulista fora a escolha de um segundo nome também ligado
à ortodoxia financeira, como o de Campos Sales?
Através da vasta documentação que pesquisamos acerca desse episó-
dio, nada encontramos que autorizasse a existência de vinculações entre
candidaturas e plataformas econômicas mais ou menos interventivas sobre o
mercado do café. Não encontramos nenhum apoio à candidatura de Afonso
Pena por parte de nenhum membro significativo da elite política paulista,
antes que seu nome tivesse sido consolidado pela Coligação. Ao mesmo
tempo, não encontramos nenhuma referência de paulistas ao Convênio de
Taubaté, depois que vieram a apoiar a candidatura de Afonso Pena. E por
fim, todas as discussões relativas ao Convênio se deram posteriormente à
definição da candidatura presidencial de Pena.
Assim sendo, nada nos permite afirmar que a elite paulista estava
dividida entre Afonso Pena e Bernardino de Campos na sucessão que
enfocamos. A única divisão observada entre eles foi entre dois candidatos
pretensamente ortodoxos, Bernardino e Campos Sales.
Nada permite afirmar, igualmente, que os apoiadores de Afonso Pena
estavam motivados pelo seu passado intervencionista. E nada permite afir-
mar, como vimos, que a entrevista de Bernardino de Campos expressasse
uma plataforma de conteúdo contrário aos interesses dos cafeicultores.
Nossas pesquisas nos levam a crer que esta associação entre estes dois
eventos, a sucessão de Rodrigues Alves e o Convênio de Taubaté, foi for-
çada pela historiografia produzida a este respeito, com o fim de justificar
a existência de uma aliança entre os estados de Minas e São Paulo e deles
com os interesses do café.
Outros documentos do período são igualmente importantes para a sus-
tentação do argumento, além da entrevista de Bernardino de Campos. São
eles: o discurso de Joaquim Murtinho e a Plataforma Eleitoral de Afonso
Pena. A pauta abordada por Murtinho é a mesma da entrevista de Bernar-
dino de Campos e da Plataforma de Afonso Pena.
As únicas referências que encontramos acerca de programas econômi-
cos e candidaturas estavam nas discussões em torno dos discursos a serem
proferidos pelos candidatos, no banquete oferecido a Afonso Pena, quando
sua candidatura já estava definida, inclusive com apoio paulista.45
Joaquim Murtinho, membro efetivo da Coligação, e conhecido por
seus ideais ortodoxos, foi escolhido para proferir o discurso. O discurso de

45
O banquete ocorreu no Cassino Fluminense em 13 de outubro de 1905, com a
participação das mais importantes personalidades políticas do momento.

106
Murtinho é uma plataforma de governo.46 Ele fala em nome da Coligação,
como se tivesse sido autorizado para tal. Segundo as informações de que
dispomos, o seu discurso não era uma peça isolada, elaborada à revelia da
Coligação. Evitando expressar opiniões que viessem de encontro à platafor-
ma política de Afonso Pena, a ser apresentada durante o mesmo banquete,
os membros mais efetivos da Coligação discutiram o discurso previamente,
acordando em dar a ele um tom próximo ao “protecionismo moderado” do
Estado sobre a economia, tom este que também seria dado pela plataforma
de Afonso Pena.47
Conquanto Murtinho se detenha também em questões políticas, prio-
rizaremos apenas as suas considerações econômicas, objeto principal de
análise neste momento.
Murtinho afirma que a Coligação, em tese, não era papelista e via como
necessário o câmbio fixo. Porém, advogava que a conversibilidade total de
nossa moeda era uma meta a ser atingida lentamente. Segundo o discurso,
a paridade deveria ser atingida não em termos artificiais, mas através do
aumento das reservas nacionais em ouro. Critica a proliferação de bancos
emissores, atribuindo esta função à própria Caixa de Conversão. Afirmava
que o livre cambismo era uma aspiração de todos, mas que naquela ocasião
não havia como ser realizado.
Quanto à indústria, fez novamente críticas à política do Encilhamento,
sem citá-lo, na medida em que afirmava que as grandes emissões realizadas
no passado sem garantias em ouro geraram uma profunda desvalorização
da moeda nacional, incentivando as indústrias. Para a solução do problema
propunha uma intervenção protetora do Estado sobre as mesmas, até que
atingissem condições de serem competitivas e autossuficientes:

Esse desequilíbrio, que ameaça a vida de nossas indústrias, é obra


dos poderes públicos; e permanecer indiferente nesta grande questão
não é só eximir-se ao cumprimento de um dever, é, senhores, quase
tornar-se o melhor aliado do protecionismo estrangeiro contra a nossa
indústria nascente.

46
Discurso sobre as Candidaturas de Afonso Pena e Nilo Peçanha à Presidência
e Vice-Presidência da República. IN: SENADO FEDERAL, Ideias econômicas de
Joaquim Murtinho, Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa. 1980, às páginas 295 a
306. As citações que se seguem referem-se a este mesmo documento.
47
Conforme cartas trocadas entre Afonso Pena, Antônio Azeredo e Pinheiro Machado
em finais de setembro e princípios de outubro de 1905, AAP, Caixa 6, doc. 16.9, AN;
AAP, caixa 7, doc. 17.70, AN; AAP, caixa 10, doc. 22.83, AN.

107
As críticas de Murtinho à política econômica do Encilhamento levaram
Rui Barbosa a ameaçar desligar-se da Coligação. Para Rui, as ideias es-
boçadas por Murtinho eram pessoais e não da Coligação. Rui Barbosa foi,
porém, convencido por Pinheiro Machado a permanecer, sob a alegação
de que o discurso de Murtinho só não lhe foi mostrado antecipadamente
em função de ele, Rui, apresentar problemas de saúde. Ao mesmo tempo,
Pinheiro afirmava não perceber as diferenças entre os discursos de Mur-
tinho e Afonso Pena, a não ser na questão das emissões. E deixava claro
que o discurso de Murtinho fora submetido a Pena com antecedência, com
o objetivo de esboçarem um programa harmônico.48
Como se vê, a Coligação reunia-se em torno de um nome e de um
projeto político pragmático. Mas não em torno de um conjunto de ideais
políticos discutidos pelos estados que a compunham. Não havia sequer
uma congruência de interesses. Como vimos, esta observação nos leva
igualmente a questionar as referências historiográficas que relacionam a
Coligação às teses ortodoxas, como forma de oposição às teses protecionistas
de Afonso Pena. Na documentação disponível tal referência não encontra
embasamento empírico.
O discurso de Pena, proferido em seguida ao de Murtinho, discutia
a mesma pauta econômica. Nesta importante peça política, Afonso Pena
mostrou que assumiria uma posição moderada no controle cambial. Não
faria emissões inconversíveis e nem promoveria a imediata conversão do
papel em metal. Coloca a conversão total como uma meta, a ser atingida
paulatinamente, da mesma forma que Murtinho e Bernardino de Campos.49
Colocava a valorização da moeda como um objetivo a ser atingido a longo
prazo, sem prejuízo imediato para os setores já abalados com a crise do café.
Ao mesmo tempo, o candidato deixava claras as suas opções doutrinárias:

A teoria do Estado gendarme, simples mantenedor da ordem e distri-


buidor da justiça, teve o seu tempo, encontrando poucos publicistas que
a sustentem na sua pureza, e é positivamente desmentida pela prática
dos povos civilizados, sem exceção da Inglaterra. Outro é o conceito
dominante: – a alta missão do Estado abrange, também, cuidar do
bem estar e melhorar a condição de vida do povo, exercendo sua ação

48
Cartas trocadas entre Rui Barbosa e Pinheiro Machado em outubro de 1905, Docs.
848/3, ARB, FCR e conforme carta de Pinheiro Machado a Rui Barbosa de 15 de
outubro de 1905, doc. 848/3, ARB, FCR.
49
Programa Político de Afonso Pena proferido em 12 de outubro de 1910, Belo
Horizonte, Imprensa Oficial, 1905, AAP, caixa 17, doc. 31.2, AN. As citações seguintes
se referem ao mesmo documento.

108
benéfica em ramos de atividade social, desde que a iniciativa individu-
al, sob diversas formas, se mostra impotente, ou insuficiente. (...) Em
nenhum país pode qualquer das escolas econômicas – do livre câmbio
e do protecionismo – constituir norma exclusiva de governo para a boa
direção dos negócios públicos. Se o livre câmbio pode ser um ideal
para a humanidade, não é menos certo que as circunstâncias diferem
de povo a povo. (...) não se pode aplicar a todos as mesmas normas de
governo e administração.

Para este fim, indicava, como medidas, aquelas de claro interesse dos
setores cafeeiros, a exemplo da reorganização do Banco da República,
para oferecer crédito à lavoura, e dos investimentos na ampliação ferroviá-
ria. Ao mesmo tempo, comprometia-se em incentivar a indústria nacional,
concedendo-lhe proteção tarifária. Como vimos, estas medidas igualmente
foram defendidas por Bernardino de Campos e Joaquim Murtinho.
Esta plataforma representava não só o pensamento de Afonso Pena,
como o de Rui Barbosa. Consta que foi discutida em conjunto com o repre-
sentante baiano e expressava no todo também as suas ideias.
Como vimos, muito embora Murtinho e Bernardino de Campos estives-
sem comprometidos com uma política financeira mais ortodoxa, manifestada
através de suas atuações públicas como Ministros da Fazenda, Afonso
Pena, da mesma forma, dirigira o Banco da República no governo também
ortodoxo de Campos Sales e fora vice-presidente do governo ortodoxo de
Rodrigues Alves. As três peças analisadas – a entrevista de Bernardino
de Campos, o discurso de Joaquim Murtinho e a Plataforma Eleitoral de
Afonso Pena – não diferiam em suas teses. De fato, Bernardino de Campos
fez elogiosa alusão à plataforma política de Afonso Pena, dando seu apoio
às suas propostas principais. (Carta de Bernardino de Campos a Afonso
Pena de 26 de outubro de 1905, AAP, Caixa 8, doc. 19.36, AN). Todas
advogavam a conversibilidade da moeda como um ideal a ser atingido len-
tamente; todas pregavam a intervenção do Estado para o controle cambial;
todas previam a proteção tarifária à indústria nacional. A única diferença
perceptível é que Bernardino de Campos e Joaquim Murtinho esboçaram
seus ideais em cima de uma crítica ao período do Encilhamento, o que não
foi feito por Afonso Pena, provavelmente com o fim de manter o apoio de
Rui Barbosa ao futuro governo.
Esta análise veio comprovar que a candidatura da Coligação não es-
tava comprometida com nenhum projeto menos ou mais interventor sobre
a economia nacional. Isto sequer havia sido discutido pela Coligação, nem
mesmo no período de lançamento da candidatura e da elaboração de sua
plataforma.

109
As candidaturas se opunham em função de uma divergência de caráter
político bastante cristalino. A Coligação se forjou e se uniu em torno da
oposição ao projeto de monopolização política de São Paulo, o qual feria
um dos pilares básicos de sustentação do pacto republicano.

***

Pretendíamos atingir três objetivos com esta análise. O primeiro era


rejeitar a tese de uma aliança prévia entre Minas e São Paulo, concretizada
através dessa sucessão. O segundo era romper com a associação entre a
candidatura Pena e o Convênio de Taubaté. O último era destacar a emer-
gência de novos princípios norteadores das sucessões presidenciais.
Pelo que foi visto até aqui, não se justifica a defesa da tese de uma
aliança entre os dois Estados – Minas e São Paulo –, os quais, neste episódio,
estiveram em lados opostos. Ao mesmo tempo, nada nos permite afirmar
que o nome de Pena estivesse associado à promessa de defesa de políticas
futuras de valorização do café. As bases de sustentação de seu nome eram
muito diferenciadas, envolvendo protecionistas e antiprotecionistas, estados
cafeicultores e estados voltados economicamente para o mercado interno; a
Coligação não fora construída em torno de um projeto econômico explícito,
mas apenas em torno de uma ideia: a rejeição à monopolização do poder
por parte de São Paulo. Por fim, o monopólio paulista sobre a Federação
havia sido rompido. A partir daqui, todo processo de renovação do poder
deveria obedecer a negociações amplas, travadas entre os principais atores
políticos que, reunidos em alianças pragmáticas e instáveis, disputariam o
poder arduamente, garantindo, através desse procedimento, a estabilização
do regime.
Havia algo muito forte, capaz de reunir parceiros tão díspares e com
interesses tão diferenciados na Coligação. Consistia na intenção de impe-
dir a monopolização do poder por parte de um só estado, uma das regras
básicas que passaria a reger a República. Contra isto se uniram os demais.
Vitoriosos, vangloriaram-se de ter impedido que São Paulo monopolizasse
o seu controle sobre a República.
Porém, pode-se admitir a hipótese de que isto só foi possível em função
da fragilização econômica de São Paulo, em razão da crise da cafeicultura
que se avolumava. O interesse de São Paulo era claro. Queria continuar
no poder, sobretudo diante de uma conjuntura adversa. Mas, para isto, era
necessário que obtivesse o apoio imprescindível dos demais estados da
Federação. Assim, tentou impor, a qualquer custo, o nome de Bernardino
de Campos, só recuando quando se viu derrotado.

110
O interesse de Minas era participar mais efetivamente do controle do
regime. Afastado das lutas, em função de suas próprias mazelas internas, nos
primeiros dez anos da República, esse estado pôde construir internamente
um razoável acordo de trégua que o habilitasse a aspirar a voos mais altos.
Não que estivesse totalmente pacificado; como vimos, as disputas internas
remanescentes quase impediram o estado de atingir o objetivo colimado.
As posturas políticas mais ousadas foram as do Rio Grande do Sul e
Bahia. Após árduas disputas internas, o Rio Grande do Sul emergia como
um novo ator na disputa do poder, porém acoimado, pelos demais parceiros,
como portador de tradições não muito caras à República, como o caudilhis-
mo, o radicalismo e as lutas intra-oligárquicas em tom fratricida. Em função
de suas ligações com o Exército, resquícios do florianismo jacobinista, era
um parceiro mais temido que desejado. Sem romper com suas tradições,
usou de artifícios os mais variados para atingir seus objetivos. Entre eles,
estava o desejo por maior participação política na Federação. Isto implicava
em diminuir o controle da Bahia e Pernambuco sobre os médios e pequenos
estados brasileiros. A partir de uma aliança construída com Rui Barbosa e
Nilo Peçanha, Pinheiro Machado foi elaborando seu “reinado” e projetando
o Rio Grande do Sul para um importante papel a ser cumprido no cenário
nacional. Fez da oposição ao candidato paulista o seu principal trampolim
político. E construiu uma aliança entre grandes, pequenos e médios estados
contra São Paulo. Para atingir este objetivo, teve que abrir mão do exercício
direto do poder. Mas, indiretamente, tinha planos de controlar totalmente
o governo que se iniciava.
A Bahia e o Rio de Janeiro desejavam aumentar igualmente sua parti-
cipação, a qual havia diminuído após a implantação do novo regime. Para
que este fim fosse atingido, opuseram-se ao inimigo comum, em troca da
vice-presidência, no caso do Rio de Janeiro, e da promessa de uma par-
ticipação mais efetiva do situacionismo baiano no novo governo, uma vez
que o espaço reservado a Bahia pelo Governo Rodrigues Alves era relegado
à oposição e não à situação. Como vimos, a postura mais radical coube à
Bahia. Rui Barbosa foi o único a protestar contra a adesão de São Paulo à
candidatura de Afonso Pena, após o êxito da Coligação.

111
Capítulo 3

O diretor também quer entrar em cena...

É isto... Queres sempre ser a abelha-mestra...Já


viste os grandes fazerem esses sacrifícios?...Vê lá se
fazem! Histórias... Metem-se no café que tem todas
as proteções... (Lima Barreto, 1994:89)

Como o título sugere, este capítulo irá enfocar, com prioridade, a par-
ticipação do Estado Nacional como ator político relevante, em um evento
de grande significação para a Primeira República: o Convênio de Taubaté.
Em atenção à terceira hipótese geral deste livro, a qual tem como
foco central a análise das relações entre as elites políticas e os interesses
cafeeiros, este capítulo objetiva perceber de que forma estas elites atuaram
diante da formulação e viabilização do Convênio, buscando prestar uma
contribuição a um debate historiográfico, como veremos, ainda em aberto,
o qual envolve as relações entre setores agro-exportadores e Estado na
Primeira República.
Sob o ponto de vista mais geral, o estudo desse evento tem a sua im-
portância ampliada, por ter o Convênio implicado, pela primeira vez, no
abandono das prerrogativas liberais pelas elites políticas brasileiras. Seu
êxito, mesmo que relativizado por muitos, serviu de motivo para que no-
vas intervenções valorizadoras ocorressem como solução de crises futuras.
Halloway chega a firmar que, antes de 1906, a discussão girava em torno
da conveniência ou não da intervenção. Após o Convênio de Taubaté, a
discussão passou a girar em torno das melhores formas de efetivá-la (Hallo-
way, 1978:100).
Acreditamos que a escolha deste evento constitui em oportunidade
privilegiada de análise do tema, à medida que, em torno dele, projetaram-se
interesses bastante diversificados, cabendo à burocracia estatal significativo
papel na definição dos rumos a serem tomados, em função das pressões
recebidas e do nível de autonomia política de que dispunha.
Muito embora a primeira política valorizadora tenha sido foco de impor-
tantes e densas contribuições por parte de vários estudiosos, acreditamos

113
que o nível de participação de cada estado pactuante precisa ser revisto,
principalmente no que tange a Minas Gerais. Tal revisão se justifica em
atenção aos novos argumentos que o presente livro vem colocando e pelo
uso de informações coletadas em arquivos privados, uma vez que, em sua
maioria, os trabalhos acerca do assunto privilegiaram o uso de fontes oficiais.
Grande parte dos trabalhos existentes acerca do Convênio de Taubaté
afiança que Minas Gerais, em função da precariedade de sua economia
cafeeira, não tinha grande interesse na viabilização do programa valori-
zador. Que a sua participação foi muito restrita e se deu em função da
aliança política que mantinha com São Paulo. Este, por sua vez, poderia
por si mesmo realizar a política de valorização com recursos próprios, mas
teve que se unir aos demais estados produtores, para fortalecer sua posição
política, na defesa de suas prerrogativas e conseguir o endosso da União
ao grande empréstimo de 1908.
Para alguns autores, São Paulo dera início ao programa e fora posterior-
mente deixado sozinho, no momento da negociação do endosso presidencial,
conforme constam nas referências de Boris Fausto acerca do tema. Apesar
disto, a parceria de São Paulo com os demais estados fora conveniente, na
medida em que sua estratégia era a de obstaculizar os ganhos que os dois
estados estavam obtendo na negociação, fazendo pequenas concessões em
troca da arrecadação da sobretaxa pelos mesmos, o que garantiria o em-
préstimo externo (Fausto, 1989: 220).
Halloway igualmente afirma que os estados do Rio de Janeiro e Minas
Gerais só foram convidados a participar da operação para garantir ao plano
uma atmosfera de formalidade. Quando vacilaram, São Paulo seguiu por si
só na condução do mesmo. Quando se predispuseram a participar, tiveram
ação secundária, guiados pelas regras paulistas. Como seus orçamentos
eram menores, temiam entrar em uma operação econômica dos níveis em
que foi estabelecida. Por outro lado, não tinham nada a perder. Se o plano
desse certo, teriam vantagens. Se desse errado, não teriam ônus (Halloway,
1978:61,74, 97-98).1
Segundo J. Love, a crise do café prejudicava mais a economia paulista
do que a mineira ou a fluminense, em função das diferenças entre as relações
de trabalho implantadas em cada unidade federativa. O colonato, instituto
próprio à cafeicultura paulista, não implicava na repartição dos custos ope-

1
Esta postura era compartilhada por Peter Blasenheim (1982:206). Em apoio às
análises, o autor afirma que Minas aderiu ao programa por mera conveniência, uma
vez que São Paulo conduziria o programa por si próprio e Minas só tinha a ganhar,
mesmo sem se envolver.

114
racionais da produção, ao passo que a parceria, relação de trabalho comum
às cafeiculturas fluminense e mineira, propiciava a repartição dos prejuízos
resultantes da crise, onerando menos o produtor dessas duas regiões. Com
base nessa assertiva, Love (1982:264, apud) justificou o maior interesse
de São Paulo por uma política de valorização do café, comparativamente
aos demais estados produtores. Este fato teria levado os estados do Rio de
Janeiro e Minas Gerais a uma postura mais arredia e menos comprometida
com o Convênio, na medida em que suas perdas econômicas com a crise
do café eram menores.
Martins Filho (1981, capítulo 2) alega que a participação de Minas
no Convênio foi restrita, por várias razões, destacando-se, entre elas, a
relutância paulista em incluir, nas negociações de compra, os cafés de
tipos inferiores, levando os mineiros a fazerem uma série de restrições à
operação valorizadora.
Segundo Wirth, “O enfoque mineiro à política do café era uma so-
lução de estado menos afluente, coerente com suas tradições e condições
econômicas, mas menos respeitável” (Wirth, 1982:85). Isto confluiu numa
ação em prol da aprovação do Convênio, enquanto uma mera “carta de
intenções” e da inviabilização prática do mesmo pelo estado, na medida
em que os recursos derivados da sobretaxa foram aplicados em atividades
voltadas para a diversificação agrícola, como foi o caso das cooperativas
criadas pelo governo estadual de João Pinheiro (1906-1908).
Com base nas leituras que fizemos, aferimos que a participação mineira
no programa foi analisada apenas tangencialmente, mesmo por aqueles
autores cujos objetivos principais eram avaliar o grau de interesse e mo-
bilização das elites mineiras em torno dos interesses do café. Tais estudos
não analisaram eventos específicos nos quais esses interesses se cruzaram,
como foi o caso das políticas de valorização.2
Uma das razões que explica tais lacunas está relacionada à adoção acrítica
da aliança Minas–São Paulo e dela com os interesses do café. Como essa tese, em
geral, vem associada à ideia da fragilidade da cafeicultura mineira, a participação
de Minas Gerais no Convênio de Taubaté foi subestimada. Consequentemente, a
atuação de São Paulo foi superestimada, atribuindo-se ao estado não só o inte-
resse exclusivo pela política de valorização, como a inteira responsabilidade pelo

2
Aqui nos referimos a dois trabalhos de Amílcar Martins Filho (1981 e 1987) e um
de Paul Cammack (1980). Tais trabalhos, embora tenham tido por objetivo principal
discutir o nível de intervenção e controle dos setores agro-exportadores sobre o Estado
em Minas Gerais, ou deixaram de focar o Convênio de Taubaté, como foi o caso de
Cammack, ou o enfocaram de forma mais generalizada, como foi o caso de Martins.

115
seu funcionamento, bem como pelos êxitos dela resultantes. Ao Rio de Janeiro
coube o papel não só de espectador passivo, como o de dificultador da operação.
Atribuiu-se à iniciativa de seu representante, Nilo Peçanha, o projeto de criação
da Caixa de Conversão com taxa cambial depreciada, cujo fim único, segundo
algumas abordagens afirmam, era o de inviabilizar a realização do Convênio,
sabedor que era da oposição do então presidente Rodrigues Alves a qualquer
intervenção no mercado para o controle do câmbio.
A partir da pesquisa que realizamos, tais observações não encontraram
sustentação. Defendemos a sub-hipótese de que a participação dos três
estados pactuantes no Convênio esteve diretamente relacionada ao nível de
envolvimento de cada um com a produção e a comercialização do café. Tal
envolvimento diz respeito ao grau de importância que o café possuía para a
economia desses estados, avaliada, sobretudo, pelos níveis de dependência
das receitas fiscais em relação ao produto. Somam-se a isto os potenciais
de pressão política exercidos pelos setores diretamente interessados na
valorização, mensurados pelo seu poder de organização e mobilização e
pelas pressões sobre seus representantes políticos.
No caso específico de Minas, a partir do momento em que as mais recentes
pesquisas comprovaram um maior nível de dinamicidade de sua economia ca-
feeira, os interesses em relação à política de proteção do produto tendiam a ser
também compartilhados pelos setores produtivos do estado. Se eles tiveram ou
não êxito na luta pela defesa de seus interesses, é o que ora pretendemos resgatar.
Em relação ao estado Nacional, sua participação pode ser avaliada como
eivada de restrições. O governo federal sofria pressões dos cafeicultores em
prol da realização do Convênio, de outros setores dominantes não cafeicul-
tores que se opunham ou se mantinham resistentes à operação, além de ter
que atender, com prioridade, aos seus próprios interesses, que nem sempre
coincidiam com os interesses mais imediatistas das unidades federadas.
Cabe ainda destacar que, no interior do próprio setor cafeicultor, os
interesses não eram homogêneos e se diferenciavam em função da posição
que os agentes econômicos assumiam no mercado do café. Como se tratava
de uma política diretamente relacionada ao mercado externo, não se pode
também deixar de levar em conta os interesses dos credores internacionais
e de seus respectivos países na referida operação.
Para os limites deste capítulo, a pesquisa empírica realizada esteve
voltada para a atuação de Minas Gerais no processo. Toda e qualquer
referência a outros estados foi buscada na grande e importante produção
historiográfica sobre o assunto, já existente no Brasil.
Com este fim, optamos por demarcar cronologicamente nossa análise
entre os anos de 1898 e 1913. O primeiro marco corresponde ao ponto

116
inicial da acentuada queda de preços do café que deu origem ao Convênio.
O segundo constitui-se no fôlego final dos resultados do programa.

3.1 A produção cafeeira dos estados de Minas, São Paulo


e Rio de Janeiro

3.1.1 A cafeicultura mineira

A partir de meados do século XIX, as regiões cafeeiras de Minas (Sul e


Zona da Mata) rapidamente se tornaram os pólos econômicos mais proemi-
nentes do estado. Muito embora estivessem voltadas prioritariamente para a
agro-exportação, produziam alimentos para consumo interno, tornando-se
autossuficientes na maior parte do tempo, só recorrendo às importações em
fases de pico do café.
A pecuária era o segundo pilar de sustentação econômica do estado,
mas seu impacto sobre a economia de Minas era muito inferior ao do café.
Durante todo o período da Primeira República, o café constituiu-se na prin-
cipal fonte de riqueza de Minas Gerais. Pode-se perceber esta importância,
a partir dos dados da tabela a seguir:

Tabela 1: Quadro comparativo dos percentuais das exportações mineiras


Produtos 1888(%) 1898(%) 1908(%) Médias(%)
Café 78 68 38 61,33
Outros produtos agrícolas 3 4 12 6,33
Pecuária 12 18 35 21,66
Produtos minerais s/d 7 7 7
Total 93 97 92 94
Fonte: Jacob (1911:411-412, vol.1)

Pelo que se observa, de longe, o café representava o mais importante


produto exportado por Minas. Nota-se que o grau de diversificação eco-
nômica não chegava a 40% do total produzido e exportado pelo estado.
A pecuária tinha uma importância significativa para a economia minei-
ra, mas a sua contribuição para o conjunto das exportações do estado
representava apenas 1/3 da contribuição do café, o que, na condição
de produto isolado, assumia o papel de produto econômico hegemônico.

117
Nota-se também, pela tabela, que o grau de diversificação agrícola no
estado era pouco significativo.
Analisando-se uma outra tabela, composta por dados relativos ao café,
em um período cronológico mais extenso, obtém-se maior clareza acerca
da importância do produto para o estado.

Tabela 2: Percentual do valor da produção do café no conjunto das


exportações mineiras (1890 / 1924)
Períodos Valor exportado Valor do café Percentual do café
(contos) (contos) sobre o total
1889/1893 99.982,450 71.628,535 71,64
1894/1898 186.687,546 128.164,206 68,65
1899/1903 156.343,563 93.228,506 59,63
1904/1908 136.043,725 64.619,539 47,49
1909/1913 191.802,771 84.682,079 44,15
1914/1918 282.952,735 84.909,415 30,00
1919/1923 550.796,920 241.233,057 43,79
1924/1926 939.768,502 505.095,723 53,74
Médias 318.047,277 159.195,133 52,39
Obs: O último período foi composto por três anos, em função da ausência de dados.
Fonte: Alvim (1929:80-83)

Como se observa, ao longo da Primeira República, o café, isoladamente,


representou mais da metade do conjunto das exportações mineiras. Não
obstante, o peso do café no conjunto das exportações apresenta tendência de
queda, o que pode ser explicado pela diversificação da pauta de exportação
de Minas e não de decréscimo do produto, conforme veremos a seguir.
Estes dados refletem também a existência de uma economia cafeeira
dinâmica durante todo o período da Primeira República, contrariando as
teses que afiançavam a decadência da cafeicultura mineira após a abolição.
Portanto, a primeira crise do café, associada à abolição da escravatura,
não teve impacto avassalador sobre a produção mineira. O trabalho escravo
foi substituído por relações de trabalho de caráter transitório, a exemplo da
meação e da parceria. O trabalho imigrante, reivindicação permanente dos
setores produtivos do estado, foi utilizado, em sua maioria, nas atividades
urbanas, cabendo ao trabalhador livre nacional o trabalho no campo.3

3
A este respeito ver Oliveira (1991).

118
As demais crises do café foram vivenciadas com certo grau de dificuldade
pelo estado, a exemplo das demais regiões cafeicultoras do país. A partir do esgo-
tamento dos solos e da diminuição da reserva das matas, o café foi se expandindo
em direção ao norte de Minas. Ao final da década de vinte, a produção foi vivendo
progressivo declínio, perdendo importância no conjunto da economia mineira.
Os dados relativos ao volume do café produzido por Minas comple-
mentam a afirmação.

Tabela 3: Média quinquenal da produção de café em Minas Gerais


(1890/1924)
Quinquênio Produção de café (em arrobas)
1890/1894 5.583.195
1895/1899 8.399.271
1900/1904 10.492.749
1905/1909 10.791.373
1910/1914 8.529.278
1915/1919 10.412.385
1920/1924 12.519.504
Média Total 9.532.536,43
Fonte: Giroletti (1988:37, apud)

Estes dados refletem a tendência de crescimento da produção cafeeira


mineira ao longo da Primeira República, em termos absolutos. Observando-se
a média total da produção mineira, percebe-se que os montantes, produzidos
ao longo dos anos, dela se aproximam, o que significa a ausência de flutuações
bruscas, com a prevalência de estabilidade, conforme ilustra o gráfico a seguir;

Gráfico 2: Evolução da produção cafeeira em Minas Gerais na Primeira República

119
Como se pode observar, à exceção de uma flutuação, ocorrida entre
os anos de 1910 e 1914, a produção de café em Minas Gerais tendeu à
estabilidade, com ligeiro crescimento. Segundo as análises de Anderson
Pires, a citada flutuação teve um caráter mais de desaceleração da produção
do que de queda, e esteve associada à crise de preços, ocorrida a partir de
1898. O autor afirma que, ao longo do período em análise (1890/1924), a
produção cafeeira teve um crescimento de 224% (Pires, 1993:102 e 119).

3.1.2 A cafeicultura mineira no quadro nacional

Comparando-se a produção mineira com os demais estados produtores,


temos o seguinte quadro:

Tabela 4: Produção percentual de café dos principais estados exportadores


brasileiros (1891/1930)
Período São Paulo Rio de Janeiro Minas Gerais Soma
1876/1880 24,3 52,2 20,2 96,7
1881/1890 37,1 37,8 20,8 95,7
1891/1900 60,5 11,5 22,7 94,7
1901/1910 68 7,3 20,4 95,7
1911/1920 70,2 6,1 18,4 94,7
1921/1930 66,5 5,6 20 92,1
Médias 54,43 20,08 20,42 94,93
Fonte: Pires (1993:120, apud)

É importante fazer dois tipos de análise a partir desses dados. O primei-


ro refere-se ao período como um todo, ou seja, desde o final do século XIX
até 1930. O segundo refere-se exclusivamente ao período de 1889 a 1930.
Ao analisar-se o período como um todo, observa-se que a cafeicultura
paulista teve um movimento ascendente, contribuindo, em média, com
mais da metade da produção cafeeira do Brasil. Embora Minas Gerais e
Rio de Janeiro mostrem médias finais semelhantes, a tendência do Rio
de Janeiro é de queda e a de Minas Gerais de estabilidade, com ligeiro
crescimento.
No que diz respeito ao período da Primeira República, a tendência
geral dos três estados foi a de manter a estabilidade em relação ao patamar
atingido no início do período, conforme se observa no gráfico a seguir,
montado com dados exclusivamente relativos ao período 1889/1930:

120
Gráfico 3: Evolução comparativa da produção cafeeira de Minas Ge-
rais, Rio de Janeiro e São Paulo na Primeira república

Como se percebe, a tendência geral é de estabilidade, por parte dos três


estados, com ausência de flutuações bruscas. Após o crescimento intenso
que São Paulo teve, a partir da segunda metade do século XIX, e a queda
no Rio de Janeiro, a tendência durante o período em foco foi a de estabilizar
os níveis atingidos, a partir da década de 1890. Ao observar-se o gráfico,
percebe-se que Minas Gerais manteve-se em posição intermediária entre
Rio de Janeiro e São Paulo.

3.2 O estado nacional e a crise do café

3.2.1 O café e as finanças públicas

Desde a constituição de 1891, a principal renda das unidades federadas


passou a ser o imposto sobre as exportações e a principal fonte de renda da
União, os impostos sobre as importações. Como se observa pela tabela a
seguir, embora seus dados não se refiram à totalidade do período em foco,
pode-se mensurar a importância do imposto de exportação para o conjunto
das finanças estaduais:

121
Tabela 5: Fontes percentuais de receitas das unidades federadas por
categorias de impostos (1914-1923)
Categoria de Impostos 1914 (%) 1923 (%) Média (%)
Taxas de exportação 45,9 36,1 41
Rendimentos de domínio e serviços públicos 11,3 23,2 17,25
Imposto de transmissão 8 9,4 8,7
Indústrias e profissões 6,9 4,7 5,8
Imposto sobre a propriedade edificada 2,2 1,3 1,75
Imposto sobre selo 2,2 2,2 2,2
Imposto territorial 2,4 3 2,7
Outras receitas 21,1 20,1 20,6
Fonte: Adaptação de tabela que consta em Enders (1993:195).

O peso médio das taxas de exportação sobre as receitas dos esta-


dos era de 41%, constituindo-se na maior parte de suas contribuições.
Nos estados tipicamente exportadores, esta média tendia a ampliar-se,
conforme demonstraremos a seguir. Nota-se, igualmente, que o peso do
imposto territorial era muito pequeno. Segundo Enders (1993:216), o
Rio Grande do Sul foi o único estado onde este imposto foi responsável
por garantir a maior parte de suas despesas, o que pode ser explicado,
entre outras razões, pela presença de uma forte economia voltada para
o mercado interno.
Tomando por base os seis grandes estados exportadores, percebe-se, com
maior rigor, a importância das taxas de exportação sobre as finanças estaduais:

Tabela 6: O imposto de exportação no orçamento de seis estados


exportadores brasileiros (1889-1906)

Estado Percentual sobre o orçamento (%)


Amazonas 95
Pará 80
Espírito Santo 75
São Paulo 68
Minas Gerais 62
Rio de Janeiro 61

Fonte: Taunay (1941:12, Vol. X, Tomo 2)

122
Como se vê, o menor percentual relativo ao imposto de exportação
era de 61%, relativo ao Rio de Janeiro, índice muito alto para o conjunto
da receita de um estado. Percebe-se, igualmente, que os três estados, que
futuramente estariam fazendo parte do Convênio de Taubaté, tinham níveis
de dependência fiscal bastante aproximados.
A imprevisibilidade dessas receitas era um outro fator agravante para
as unidades federadas. Tais receitas variavam em função do volume de café
produzido (o qual era sujeito a fatores naturais ou exógenos) e dos preços
atingidos pelo mercado externo, além de estarem sujeitos à política cambial
em vigor.
A opção pela ortodoxia financeira, responsável entre outras coisas
pela apreciação cambial, predominante desde o final do século passado
no Brasil, era um fator complicador das receitas dos estados agro-
exportadores. Tal opção econômica derivava das próprias necessidades
fiscais da União. Como se sabe, a parcela tributária referente ao
governo federal era derivada do imposto sobre as importações. Ao
receber seus impostos em moeda estrangeira e convertê-la em moeda
nacional valorizada, suas receitas estariam garantidas. Já às unidades
federadas, esta política não interessava, na medida em que suas receitas
estavam vinculadas às exportações, sendo sua renda fiscal inversamente
proporcional ao valor da moeda nacional.4 Portanto, toda e qualquer
medida que contemplasse alterações cambiais colocava em lados opostos
União e estados, como foi o caso das alterações do câmbio, em decorrência
da política valorizadora em foco. Aí se encontra mais uma razão para
a importância desse contexto. O Convênio de Taubaté é também um
momento privilegiado para a análise dos conflitos de interesses entre
União e estados pactuantes.
O atrelamento dos cofres mineiros à produção cafeeira do estado pode
ser observado pela tabela a seguir:

4
Para Kugelmas (1986:108 e 132), a ortodoxia financeira era de exclusiva
responsabilidade dos governos federais paulistas. Era reivindicada por consumidores
urbanos, além de comerciantes e industriais e, sem ela, a ruína econômica generalizada
teria prevalecido.

123
Tabela 7: Porcentagem da receita derivada do Imposto de Exportação do
Café sobre a receita global do Estado de Minas Gerais (1898-1913)
Período Receita total Imposto sobre o café %
(mil-réis) (mil-réis)
1898 18.102:189$27 11.553:952$85 63,82
1899 18.724:548$61 11.317:565$08 60,44
1900 14.768:583$96 7.916:202$27 53,60
1901 16.571:036$46 8.698:373$48 52,49
1902 16.983:906$54 7.502:476$74 44,17
1903 16.308:805$05 6.992:306$14 42,87
1904 17.388:172$13 7.231:484$86 41,58
1905 14.071:274$41 4.950:251$16 35,17
1906 14.952:880$28 5.808:584$36 38,84
1907 20.993:508$80 10.850:844$51 51,68
1908 20.105:193$68 8.892:228$83 44,22
1909 21.185:324$88 9.971:177$30 47,06
1910 22.847:438$90 10.806:607$21 47,29
1911 23.371:702$20 8.854:877$13 37,88
1912 29.261:998$69 13.053:443$00 44,60
1913 31.444:220$74 12.409:633$96 39,46
Médias 19.817:549$04 9.175:625$56 46,57
Fontes: Para as receitas: Oliveira e Behrens (1954: 2 e 3). Para os impostos pagos: Alvim
(1929:80 a 83)

Como se pode observar, durante todo o período analisado, os impostos


diretos sobre o café contribuíram, em média, com quase metade da receita
total do estado de Minas, mesmo nos períodos em que houve redução de
alíquota. Nota-se que não estão arroladas na tabela as outras fontes fiscais
derivadas de impostos indiretos sobre o café, o que só contribuiria para
ampliar a importância do produto na sustentação do estado. Mesmo assim,
sua importância durante todo o período foi muito grande. 5

5
O estado recolheu três percentuais diferentes sobre as exportações de café. O primeiro
era de 11%, alíquota proveniente dos tempos imperiais e mantida com o novo regime.
A partir de 1900, tal alíquota foi reduzida em dois pontos percentuais, atendendo às
reivindicações dos cafeicultores. A partir de 1904, a alíquota sofreu nova redução, de meio
ponto percentual, em resposta às mesmas pressões. Tais reduções só foram parcialmente
recompensadas a partir de 1907, quando o estado começou a recolher a sobretaxa.

124
Este fato deixava os cafeicultores em uma posição relativamente confor-
tável, na medida em que a garantia dos preços do café era de interesse não
só dos agentes econômicos a ele ligados, como do próprio estado de Minas.
Um outro dado visível na tabela é o volume crescente das receitas do
estado, em termos absolutos. Isto está diretamente relacionado ao cresci-
mento, também, em termos absolutos, da produção cafeeira do estado de
Minas, conforme foi visto no item anterior.
Observando-se os dados relativos a São Paulo, percebe-se que suas
receitas públicas se vinculavam, ainda mais, aos preços do café e ao volume
de sua produção.

Tabela 8: Porcentagem da receita derivada do Imposto de Exportação do


Café sobre a receita global do estado de São Paulo (1898-1913)

Período Receita total Imposto sobre o café %


(mil-réis) (mil-réis)
1898 26.026:275$273 16.682:842$449 64,1
1899 29.050:730$688 20.248:359$289 69,7
1900 29.282:311$338 20.073:311$804 70,6
1901 31.989:404$656 23.064:360$756 72,1
1902 24.918:583$792 17.069:229$897 68,5
1903 22.145:686$754 14.660:444$631 66,2
1904 24.816:823$829 17.222:875$737 69,4
1905 19.296:639$577 11.867:433$339 61,5
1906 26.195:022$820 17.550:665$289 67
1907 27.981:414$701 18.243:882$385 65,2
1908 22.189:593$925 13.1806:18$791 59,4
1909 33.210:696$576 22.384:009$492 67,4
1910 17.470:489$310 8.315:952$911 47,6
1911 27.597:037$482 13.149:476$878 47,7
1912 36.665:120$243 19.432:513$728 53
1913 40.944:059$846 24.484:547$787 59,8
Médias 27.484:368$175 17.351:907$823 63,13

Fonte: Adaptação de Tabela de Nozoe (1984:19), apud

Como se pode observar, o peso médio do café para as receitas


paulistas era ainda mais significativo do que o índice encontrado

125
para Minas Gerais. Isto se explica pelos maiores níveis de produção
e dinamicidade da cafeicultura paulista. Um outro fator explicativo
relevante esteve na maior taxação imposta aos plantadores. O imposto
de exportação de São Paulo foi, em todo o período, mais alto que o seu
semelhante mineiro. A cobrança da sobretaxa foi aplicada mais cedo
em São Paulo do que em Minas Gerais e esteve duas vezes maior que
a mineira a partir de 1908.6
Segundo Love (1982:339-340), desde 1891, o imposto sobre a transmis-
são de propriedade era a segunda maior fonte de renda do estado, depois do
imposto de exportação. Como veremos mais adiante, em vão foram tentadas
outras alternativas para diminuir este grau de dependência em relação ao
café. Peressinotto (1997:278) chega a afirmar que, em nenhum momento,
o governo de São Paulo levou a sério qualquer proposta de acabar com o
imposto de exportação, mesmo quando tentava criar fontes alternativas de
renda pública.
Não obstante a citada proximidade com o caso mineiro, o volume
absoluto da arrecadação paulista foi-lhe muito superior, como se pode
perceber pelo volume global das receitas, na coluna 1. Esta grande arre-
cadação, derivada da supremacia da produção paulista sobre a mineira,
proporcionava a São Paulo uma flexibilidade orçamentária maior para
lidar com a crise, além de permitir que o estado investisse na melhoria
das condições de produção e circulação do produto, o que não ocorria
em Minas.
Examinando-se a situação orçamentária do terceiro estado promotor
do Convênio, novas conclusões podem ser aventadas.

6
A redução percentual das receitas paulistas, que se observa a partir de 1904,
decorreu da redução da alíquota de exportação de 11% para 9%, em função das
dificuldades do setor. Este decréscimo foi, porém, compensado rapidamente, em
função da cobrança da sobretaxa.

126
Tabela 9: Porcentagem da receita derivada do Imposto de Exportação do
Café sobre a receita global do estado do Rio de Janeiro (1898-1913)
Período Receita total Imposto sobre o café %
(mil-réis) (mil-réis)
1898 10.495703,498 7.355424,397 70,08
1899 9.705760,323 6.371068,912 65,64
1900 7.969327,249 4.838878,559 60,71
1901 9.224166,487 4.896204,470 53,08
1902 6.728199,812 3.506205,763 52,11
1903 6.798716,945 3.518482,344 51,75
1904 8.231276,637 2.959696,598 35,95
1905 7.799245,293 2.231301,849 28,6
1906 8.680574,762 2.498873,098 28,78
1907 7.577854,470 2.308497,944 30,46
1908 7.279366,686 1.757120,942 24,13
1909 6.824112,795 1.932175,959 28,31
1910 9.281570,780 2.094721,202 22,56
1911 9.066692,385 2.561994,164 28,25
1912 11.563291,588 3.354966,426 29,01
1913 12.093861,321 2.505900,946 20,72
Médias 8.707.482,564 3.418.219,598 39,38
Fonte: Ferreira (1994: 42 e 77, n. 23, apud)

Como se vê, a dependência do governo estadual do Rio de Janeiro das


receitas derivadas do café era igualmente muito significativa, apesar de
inferior à de Minas Gerais e à de São Paulo. Observe-se que, nos primeiros
seis anos, quando se iniciaram as discussões em torno da necessidade de
intervenção do Estado sobre o mercado de café, o peso do produto para a
receita fluminense era bem maior, em torno dos 60%, aproximando-o mais
dos casos de Minas Gerais e São Paulo. Isto se explica pelo maior dinamis-
mo da economia cafeeira fluminense no período. A considerável queda, a
partir de 1904, se deve à crise de preços aliada ao progressivo declínio da
cafeicultura fluminense, a qual veio associada ao investimento na diversi-
ficação agrícola, praticado pelo estado no período (Ferreira, 1994:44-47).
Apesar de os preços do café terem subido a partir de 1908, a produção
cafeeira fluminense, em termos absolutos, esteve em declínio, o que não

127
tornou significativo o seu impacto sobre o volume das receitas arrecadadas.7
Outra diferença importante a ser salientada diz respeito ao volume das recei-
tas. Minas Gerais aferiu no período mais que o dobro dos recursos aferidos
pelo governo fluminense, o que garantia ao governo do estado de Minas
uma flexibilidade maior do que a do estado do Rio, para investimentos e
disponibilização de créditos em períodos de crise.
Transpondo os dados referentes às tabelas anteriores em um gráfico, a compa-
ração entre os três estados promotores do Convênio torna-se bastante interessante:

Gráfico 4: Comparação do impacto dos impostos do café sobre a receita


dos três estados

Observando-se o gráfico acima, pode-se perceber que, no início da crise


do café, os percentuais dos três estados estiveram bem próximos. A partir
daí, observa-se uma diferenciação entre eles. São Paulo manteve-se com
percentuais mais altos durante todo o período, equivalendo-se a Minas apenas
em 1910 e 1911, quando o peso do café sobre suas receitas atingiu o seu
menor índice. O Rio de Janeiro apresenta uma clara tendência de queda.
Aproximou-se do patamar mineiro até meados do período, quando Minas
retomou o crescimento e o Rio permaneceu em declínio. Comparando-se os
eixos entre si, Minas é o estado que se encontrava mais próximo à estabilidade.

7
Sônia Mendonça (1977:163) afirma que o aumento de receitas do estado neste período
não foi causado pelo aumento dos preços do café, mas do aumento da pauta tributária.

128
As flutuações do Rio de Janeiro e São Paulo eram mais visíveis. Ao final
do período, São Paulo apresentou uma tendência de crescimento, o Rio de
declínio e Minas de estabilidade.
A partir desses dados, algumas conclusões podem ser antecipadas. A
primeira delas é que os estados cafeeiros tinham suas finanças diretamente
vinculadas aos preços internacionais do produto. Logicamente, a crise de
preços do café teria um impacto muito grande sobre as receitas desses
estados. Uma segunda constatação relaciona-se aos níveis de dependência
das finanças públicas em relação ao café. O mais dependente era São
Paulo, seguido de perto por Minas Gerais e depois pelo Rio de Janeiro.
Tais níveis de dependência se explicam pela importância e dinamicidade
de cada cafeicultura, associada aos índices de taxação pelos seus governos.
Pelo menos no que diz respeito aos dois maiores impostos praticados sobre
o café (exportação e sobretaxa) os plantadores paulistas contribuíram mais
com os cofres públicos do que os mineiros e fluminenses.
Um outro dado importante é que os níveis de dependência dos governos
citados diferenciavam-se ao longo do período. São Paulo apresentou uma
tendência de ampliação da dependência dos cofres públicos em relação ao
café. Minas Gerais apresentou uma tendência de estabilização dos níveis de
dependência em vigor. O Rio de Janeiro apresentou redução desses níveis.
De certa forma, estes patamares se vinculavam aos graus de diversificação
de cada economia. Quanto mais dependente era o estado dos impostos sobre
o café, menor o grau de diversificação econômica dos mesmos.

3.2.2 Crise do café e propostas alternativas

As dificuldades financeiras dos três estados tenderam a se agravar entre


1895 e 1898, quando a cotação dos preços do café produzido pelo Brasil
sofreu um decréscimo de 1/3, causando grande impacto sobre o setor.8
À crise de preços foi somado significativo agravo, através da valorização
cambial de 1898, a qual deixou os cafeicultores e os governos em situação
econômica bastante difícil.
A queda de preços, associada a sucessivas altas cambiais, implicava
para a cafeicultura em redução de lucros. Não dispondo de condições tec-
nológicas que reduzissem custos, o lucro ficava condicionado ao aumento
de preços no mercado internacional. As apreciações cambiais, aliadas à
superprodução ou à retração dos mercados externos, eram fatores determi-
nantes de prejuízo para os cafeicultores.

8
Segundo dados de Topik (1989:75).

129
Muito embora a apreciação cambial fosse interessante aos cofres da
União, o mesmo não pode ser dito em relação à depreciação dos preços do
café. A crise do produto acarretava a redução da capacidade importadora
do país, gerando déficit na balança comercial, acompanhado de reduções
do orçamento público federal. De fato, a queda de preços do café não inte-
ressava nem aos cafeicultores, nem aos estados produtores, e nem à União.
As causas da crise e as soluções apontadas foram apresentadas, de diversas
formas, pelos diferentes agentes econômicos envolvidos com o problema. Para
os produtores de café, os vilões apontados como responsáveis pela crise eram
os intermediários. Inicialmente, os comissários foram eleitos como os grandes
culpados pela queda de preços, na medida em que ganhavam com a especulação.
Na tentativa de eliminar a intermediação, a solução encontrada foi a criação das
casas exportadoras, as quais passaram a comprar o produto diretamente dos
produtores, eliminando a intermediação dos comissários. Mas muitos brasileiros
estavam convencidos de que os preços continuavam a ser manipulados por essas
mesmas firmas, em sua maioria, estrangeiras. 9 A solução que restava consistia
na eliminação dos intermediários, através do monopólio estatal sobre as vendas.
Os setores ligados ideologicamente à ortodoxia econômica e aqueles vol-
tados para a diversificação da economia nacional atribuíam à superprodução
a causa da queda de preços, ganhando o apoio da Sociedade Nacional de
Agricultura (SNA).10 De fato, a prosperidade própria ao período do Encilha-
mento, marcado pelos lucros fáceis, advindos da desvalorização cambial,
levou à ampliação do investimento na produção de café, o que resultaria,
mais tarde, em safras recordes, passado o período entre o plantio e a colheita,
que, em média, era de seis anos. A solução apontada por estes setores era
a redução do plantio de café e o investimento na diversificação agrícola.
De acordo com as mais recentes pesquisas, ambas as visões não eram
suficientes para explicar a crise. Halloway afirma que o aventado monopólio
das firmas estrangeiras sobre os preços praticados no mercado era dispen-
sável, uma vez que a produção nacional, por si só, era grande o suficiente
para gerar a superprodução. Topik afirma que a causa da crise esteve mais
associada à depressão mundial de 1893 do que à superprodução, muito
embora esta tenha contribuído para o seu agravamento. 11

9
Conforme afirma Halloway (1978: 51), das 70 companhias que atuavam neste ramo,
apenas 19 eram brasileiras.
10
Como demonstraram as pesquisas de Sônia Mendonça (1997:111 e seguintes.), a
SNA representava setores mais ligados à diversificação da economia e não os setores
cafeeiros. Daí justificar-se esta posição, que não interessava aos produtores de café.
11
Ver Topik (1989:76) e Halloway (1978:52).

130
As saídas apontadas pelos agentes econômicos ligados à produção de café
estavam na mudança da condução da política monetária em vigor, na ampliação
do crédito externo e na intervenção sobre o mercado, todas, tarefas de responsa-
bilidade da União. Quanto a isto, até os comissários concordavam. Diante de suas
progressivas perdas, passaram a apoiar as iniciativas intervencionistas, tentando
romper com o predomínio das relações diretas entre os produtores e casas de
exportação, responsável pela atual condição de marginalidade que se encontravam.
Todas as saídas apontadas pelo conjunto de atores no contexto de crise
do café, de certa forma, preconizavam uma maior participação da União
no mercado. Neste momento, a salubridade da economia dos três estados
cafeicultores encontrava-se vinculada à ação do Estado Nacional.

a) Minas Gerais e as soluções domésticas

As soluções domésticas, de responsabilidade dos governos dos estados,


foram as primeiras a ser implementadas. No caso específico de Minas Ge-
rais, reduziu-se em 2% a alíquota do imposto de exportação como forma de
diminuir os custos do setor cafeicultor em crise. Para compensar a queda
das receitas derivada da redução da alíquota, o então presidente de estado,
Silviano Brandão (1898-1902), teve que implementar um sério programa de
recuperação das finanças públicas, que incluiu cortes nos gastos públicos,
empréstimos externos e a criação de um novo imposto, o territorial.
A alternativa do imposto territorial tinha como fundamento inicial substituir
todo o imposto de exportação por ele. Por trás desse projeto, estava a ideia de
distribuir mais equitativamente o ônus fiscal pelas diversas regiões do estado.
Wirth afirma que a intenção dos governantes mineiros, ao tentar implemen-
tar o imposto territorial, era a de taxar pesadamente as grandes propriedades
improdutivas, forçando a repartição das mesmas, em unidades médias, garantias
de uma economia mais racional e moderna para Minas. Contra essa estratégia
colocaram-se os grandes coronéis, donos de extensas propriedades, os quais
acabaram sendo vitoriosos em suas prerrogativas (Wirth, 1982:176-177).
Além dessa razão, é comum encontramos referências à necessidade de
substituição progressiva do imposto de exportação pelo territorial, em função
de seu caráter mais equitativo, “científico” e menos antiprodutivo, além de
diminuir a dependência dos cofres públicos ao bem-estar do mercado cafei-
cultor. Segundo as palavras de Wenceslau Brás em 1898, “Bastará uma chuva
sobre a Mata para que o governo não possa cumprir seus compromissos”.12

12
Conforme relato de Wenceslau Brás intitulado: “Congresso Agrícola em Cinco Atos”
(AWB, doc. SI 335 - 1898, CPDOC).

131
Se de fato parcelar as propriedades fora o móvel para a implantação
do imposto territorial, ele fracassou em seu intento. Segundo o Relatório
do Imposto Territorial elaborado pela Diretoria de Fiscalização de Rendas
Mineiras de 1919, após 19 anos de arrecadação do imposto, o número de
contribuintes era de 150.577 a menos que o número inicial, existente quando
de sua instituição, identificando a concentração de propriedades (Relatório
do Imposto Territorial, ARS, doc. RS 21 08 00, CPDOC).
Os ganhos fiscais dos cafeicultores representavam déficits nas receitas
públicas. O montante que o governo deixaria de arrecadar com a redução
do imposto de exportação não foi compensado com a instituição do imposto
territorial.
Analisando a gestão de Silviano Brandão, percebeu-se um Executivo
Estadual esforçando-se em manter as finanças públicas em equilíbrio. Na
medida de suas possibilidades, amparou os cafeicultores, reduzindo sua
carga tributária. Mas, ao mesmo tempo, não abriu mão de cortes no setor de
transportes, no crédito e na política imigratória, cortes estes que implicavam
em prejuízos de curto e médio prazo para os cafeicultores.
O governo seguinte, o de Francisco Sales (1902-1906), procurou seguir
os mesmos padrões, diferenciando-se, todavia, pelo avolumar-se da crise
de preços do café e pelo abandono de soluções caseiras para a resolução
do problema. Desde os primeiros anos de sua gestão, tornou-se claro que
o problema das finanças públicas de Minas e de sua cafeicultura dependia
da intervenção federal.
Para atingir seus objetivos cabia ao governo mineiro, primeiro, discipli-
nar o seu mercado de café, para que pudesse aderir às soluções nacionais
que estavam sendo cogitadas. A mais importante delas era a redução da
produção cafeeira, principalmente dos cafés de qualidade inferior, a partir
da aplicação de taxas diferenciadas (Wirth, 1982:84).
Para este fim, foi organizado o Congresso Agrícola de 1903, sob a co-
ordenação de João Pinheiro, com o objetivo de fortalecer outras atividades
econômicas no estado, como a indústria, a pecuária e a diversificação agrícola.
Em função da mobilização dos cafeicultores em torno do Congresso
Agrícola, os objetivos do governo do estado não puderam ser totalmente
atendidos. No que diz respeito à questão principal, que era a redução do
plantio de tipos inferiores, a proposta foi recusada pelos partícipes, sob a
alegação de que não eram os cafeicultores mineiros os responsáveis pela
crise de superprodução, mas os paulistas, que produziam majoritariamente
cafés de tipos superiores.
Mesmo fracassado no Congresso Agrícola, o projeto de redução do plan-
tio de tipos inferiores de café foi inserido no plano orçamentário de 1904,

132
compensado por uma nova redução de 0,5% no imposto de exportação do
café. Segundo Blasenheim, os deputados fizeram um acordo, na comissão de
orçamento, que resultou na taxação de 20% sobre cafés inferiores em troca
da anunciada redução da alíquota. No plenário, porém, a taxa proibitiva
foi derrotada e a redução da alíquota, mantida. Só no ano seguinte é que
ela se transformou em um estatuto, porém vítima de inúmeras fraudes por
parte dos plantadores, que se recusavam a interromper o plantio dos cafés
de qualidade inferior (Blasenheim, 1982: 241).
Finalmente, em 1905, Francisco Sales conseguiu aprovar uma lei que taxa-
va o café inferior ao tipo 8, na base de 4,5% por saca, lei esta que foi revogada
em agosto de 1906, em função do Convênio de Taubaté (Junqueira, 1929:216).
Apesar de a redução do imposto de exportação ter representado im-
portante ganho para o produtor, foi criada uma nova taxa fiscal de 200 réis
por saca de café, toda vez que o seu valor fosse igual ou superior a 10$000
por 15 kg e proporcional, quando inferior a este preço. Com isto, o governo
deixava claro que pouparia o produtor apenas em períodos de grandes perdas
em função da queda de preços de sua mercadoria (Junqueira, 1929:216).
O governo João Pinheiro (1906-1908) ficou conhecido como o responsá-
vel pela criação de cooperativas de produtores. O estado de Minas chegou a
contar com 56 cooperativas, criadas em 50 municípios. Em 1911, 26 delas
eram cooperativas de cafeicultores, o que correspondia a 46,42%, criadas
com o objetivo de rebeneficiamento, venda e propaganda do café mineiro
no exterior. Para que tais iniciativas tivessem êxito, foram-lhes concedidos
determinados privilégios, a exemplo de concessão de prêmios em dinheiro,
empréstimos a juros mais baixos e isenção de todos os impostos. As coope-
rativas duraram até 1914. 13

b) As soluções domésticas dos paulistas e fluminenses

Medidas governamentais como as citadas não foram prerrogativas ex-


clusivamente mineiras. Em São Paulo, com o fim de inibir o aumento da
oferta de café, em 1903, foi elaborada uma lei orçamentária, que instituía
um imposto sobre novas plantações, pelo prazo de cinco anos. Paralelamente,
os tipos inferiores de café sofreram pesado imposto restritivo, com vistas
à melhoria da qualidade do produto exportado por São Paulo; o qual, um
ano mais tarde, foi suprimido.
Por outro lado, à semelhança do caso mineiro, o governo paulista tam-
bém se esforçava em aliviar os custos dos produtores de café. Em meio à

13
Ver Alvim (1929:70-71) e Jacob (1911:49, vol.1).

133
crise, os impostos de exportação sofreram igualmente uma redução de 2%
em 1904. Foi feita a concessão de outros benefícios para o setor, a exemplo
da supressão do imposto de trânsito, pequenas isenções fiscais e redução de
tarifas ferroviárias. Para compensar a redução tributária, inúmeros outros
pequenos impostos foram implantados, mas com pouco impacto sobre o
volume das receitas estaduais.
O imposto territorial também foi uma alternativa aventada pelo go-
verno paulista, em 1905, limitado a 1% anual sobre o valor estimado da
propriedade. Ao contrário de Minas, porém, este imposto não atingia os
cafeicultores, sob a alegação de que estes já se encontravam suficientemente
onerados pelo imposto de exportação. Além disto, sua aplicação requereria
um levantamento prévio das propriedades existentes, o que desestimulou
a sua viabilização.
O referido imposto tornou-se uma fonte alternativa de receita também
aventada pelo governo do Rio de Janeiro. O imposto passou a ser legalmente
viabilizado em 1898, mas a lei não fora aplicada. Quando começou a ser
cobrado, seu impacto sobre as receitas foi mínimo, equivalente a aproxi-
madamente 5% das mesmas.14
A alternativa encontrada pelas elites fluminenses, face à crise que se
avolumava, foi a contração de empréstimos externos para cobrir o déficit
orçamentário, medida também adotada por Minas e São Paulo. Uma outra
saída foi a diversificação agrícola, incentivada pelos governos de Alberto
Torres e Nilo Peçanha. No entanto, esta diversificação ocorria de forma
complementar e não substitutiva à cafeicultura, a qual continuava sendo a
atividade econômica principal do estado. No final do período em análise,
no ano de 1913, no conjunto de produtos plantados pelos agricultores do
Rio de Janeiro, o café ainda representava 33% do total (Ferreira, 1994:45).
Acabamos de notar, pelas linhas acima, que o os três estados tinham
a sua salubridade financeira condicionada ao bom desenvolvimento da
cultura cafeeira. Que quaisquer alterações no mercado de café refletiam
diretamente sobre suas finanças. Que os níveis de dependência, embora
diferenciados entre si, lhes eram comuns.
Percebemos, igualmente, que, em meio à crise dos cafeicultores e à crise
orçamentária, os três estados tiveram respostas semelhantes. Minas Gerais
reduziu o imposto de exportação em 2,5% e São Paulo o fez em 2%. O imposto
territorial foi implantado nos três estados, mas em São Paulo os cafeicultores não
foram taxados. Em Minas Gerais eles foram taxados, mas foram compensados

14
Cálculo feito com base no percentual médio de recolhimento do imposto entre os
anos de 1904 e 1913 (Ferreira, 1994:77, nota 23, apud).

134
por taxas de exportação mais baixas. No Rio de Janeiro, sua cobrança foi adiada
e, quando em vigor, seu impacto sobre as receitas foi mínimo.
As medidas que buscavam inibir a oferta do café, através da proibição
de novos plantios, antes da realização do Convênio, foram implementadas
com resistências em Minas Gerais e São Paulo. No Rio de Janeiro, não
temos notícia desse tipo de proibição.
Quanto à opção pela diversificação agrícola, como forma de atenuar-se a
dependência fiscal dos três estados em relação ao café, o Rio de Janeiro foi o
estado que mais levou adiante esta alternativa, através de seus presidentes de
estado e dos próprios agricultores, via Sociedade Nacional de Agricultura. O
projeto de diversificação agrícola veiculado pelas elites fluminenses confluiu
na criação do Ministério da Agricultura, exatamente no período em que Nilo
Peçanha assumia a presidência da Nação. Segundo os dados disponíveis, em
torno da criação do Ministério, articularam-se os setores que se opuseram à
realização do Convênio de Taubaté, tentando formar um eixo alternativo de
poder à hegemonia cafeicultora, apostando, justamente, na diversificação da
agricultura como forma de pôr fim a tal hegemonia (Mendonça, 1997:439).
No caso de Minas Gerais, as tentativas diversificadoras não tiveram
êxito e nem sustentação política. Sua maior expressão confluiu no Congresso
Agrícola de 1903 e nas cooperativas não cafeeiras que foram formadas no
governo João Pinheiro. O primeiro marcou a vitória dos interesses cafeicul-
tores sobre os grupos favoráveis à diversificação. As segundas se encerraram
tão logo seu responsável faleceu, período em que coincidiu com os primeiros
êxitos da operação valorizadora, o que, por si só, fragilizava qualquer opção
alternativa para a economia mineira, além do fato de que quase a metade
das cooperativas mineiras eram formadas pelos próprios cafeicultores.
Portanto, pelo que ficou explícito, os três estados tinham interesses na
política de valorização do café. Mesmo no Rio de Janeiro, que dos três era o
menos dependente do imposto de exportação sobre o produto, o peso do café
sobre suas receitas, como produto isolado, não poderia ser negligenciado. Ao
mesmo tempo, os três governos dos estados tentaram aliviar os custos dos
cafeicultores, reduzindo impostos, barateando fretes e promovendo crédito,
na medida de suas possibilidades.
O abandono do café como fonte principal de riqueza pública teve maior
ênfase no Rio de Janeiro, o que se explica pela antiguidade da cultura
e o esgotamento dos solos. Conforme vimos anteriormente, a produção
cafeeira do estado, no período, encontrava-se em decréscimo. São Paulo e
Minas Gerais, na condição de regiões cafeicultoras em ascensão, tendiam
a ter reações semelhantes diante da crise, abrindo mão da diversificação
agrícola. Uma medida, porém, os diferenciava. São Paulo implementou

135
rapidamente um programa de contenção do plantio de café. Minas tentou
fazer o mesmo, mas teve dificuldades em colocá-lo em prática, em função
da resistência dos plantadores. O Rio de Janeiro não chegou a tentar fazê-
-lo. Isto se explica pela diferença do volume e dos tipos de café produzidos
pelos três estados. São Paulo era o maior responsável pela produção na-
cional e, consequentemente, pela crise de superprodução. Com qualquer
medida de retenção de oferta era o estado que teria que arcar, em sua
maior parte. Estando a produção do Rio decadente, em termos absolutos,
os plantadores não se sentiam responsáveis pela crise de superprodução.
Minas Gerais, tendo sua produção crescente em termos absolutos, mas sem
romper demasiadamente com a sua parcela de contribuição em relação à
produção nacional, preferiu reduzir apenas a produção de tipos inferiores.
Mesmo assim, o nível de mobilização dos cafeicultores responsáveis pela
produção desses tipos era a maior de Minas, exatamente em função de
estarem estes cafezais mais antigos, localizados na zona da mata, o que
dificultou a contenção do plantio.
Nas três situações, os governos estaduais não se comportaram obede-
cendo à lógica imediatista dos plantadores de café. Atuaram em defesa das
finanças públicas, fazendo concessões como respostas ao nível da pressão
que sofriam. A não incorporação dos cafeicultores entre os contribuintes
do imposto territorial em São Paulo e as reduções nos seus custos, feitas
de variadas formas, se constituíram em exemplos de conquistas dos se-
tores cafeeiros em suas demandas, diante do estado. No caso de Minas,
as conquistas se refletiram nas reduções do imposto de exportação, na
forma como foi estabelecida a cobrança do imposto territorial, na derrota
das teses diversificadoras e nas dificuldades em limitar-se o plantio de
tipos inferiores.
A despeito de toda esta força e de suas conquistas, a ação política dos
cafeicultores não era marcada só por vitórias. Eles continuaram arcando
com a maior parte das receitas públicas de seus estados. Não dispunham de
um programa de crédito adequado as suas necessidades. Viviam problemas
sérios de falta ou de evasão de mão de obra. A implantação do imposto
territorial não tornou a contribuição fiscal mais equitativa.
Sem abarcar-se a complexidade destes múltiplos interesses e circuns-
tâncias, torna-se difícil entender a posição das elites políticas diante do
programa valorizador. Com o fim de ampliar, ainda mais, tal complexidade,
passaremos, em seguida, a analisar a sua participação frente às alternativas
de caráter nacional que foram apresentadas.

136
3.3 Os limites da autonomia: uma releitura do Convênio de Taubaté

Muito antes de a crise de preços assumir uma dimensão avassaladora, já


em 1895, um deputado da bancada fluminense, Érico Coelho, propôs à União
o monopólio sobre as exportações de café, como forma de resolver a interme-
diação que os comissários faziam, em prejuízo dos lavradores. No mesmo ano, o
Congresso havia criado uma comissão de estudos em torno dessa possibilidade.
Dois anos mais tarde, o deputado Idelfonso Alvim tentou criar uma comissão
na Câmara de Deputados para propor uma lei de ajuda aos cafeicultores. Como
deputado representante da zona da mata mineira, Alvim sempre fora identificado
com os interesses do setor. Ainda em 1897, o conhecido banqueiro Maryink
propôs a emissão de dinheiro para concessão de crédito aos produtores.15
Em 1898, o deputado Alfredo Ellis (SP) propôs a nomeação, pelo gover-
no federal, de uma comissão de especialistas para apontar saídas alternativas
para a crise. Das conversas destacou-se um estudioso de economia, Joaquim
Lacerda, que sugeriu um plano de valorização sob a gerência da União.16
A partir daí, Ellis começou a defender a hipótese de que a causa da
crise não estava na superprodução, mas na intermediação especulativa
dos grupos exportadores. Tal discurso era favorável aos fazendeiros, na
medida em que abria mão de projetos de contenção de plantio, em prol da
intervenção com vistas à regulação da oferta. Esse discurso foi incorpora-
do, em sua totalidade, pelos plantadores mineiros reunidos no Congresso,
ocorrido no mesmo ano, quando se recusaram a realizar qualquer tipo de
contenção de plantios de café.
No mesmo ano, os paulistas já se organizavam em torno da proposta
de estocar café no próprio estado, visando a controlar a oferta do produto e
impedindo a queda de preços. Tal prerrogativa só era possível a São Paulo
graças à vultuosidade de suas receitas. Minas Gerais, com orçamentos aper-
tados, em função da crise de preços, não tinha como realizar a operação
por si só. Daí justificar-se ter partido de um deputado mineiro, dois anos
mais tarde, a proposta de que o controle de preços partisse da ação conjunta
entre governo federal e estados produtores, o que confluiria, posteriormente,
em uma das bases do primeiro programa valorizador.

15
Temos notícia de que no começo da década de 1890 o governo mineiro já havia
colocado à disposição de seus fazendeiros um crédito aberto no Banco de Crédito
Real com recursos do estado e da União (Topik, 1989:78).
16
Para Afonso Arinos (Franco, 1973:451), Alfredo Ellis e Jorge Tibiriçá tornaram-se
adeptos das teorias do referido estudioso.

137
As elites fluminenses também se mobilizaram em favor de seus fazendei-
ros, no nível nacional. O projeto de Quintino Bocaiúva previa a realização de
um acordo entre os estados produtores, em torno da estipulação de um preço
mínimo de venda do produto. O projeto, porém, implicava em grande risco.
Como o mercado estava em baixa, os compradores poderiam simplesmente
recusar a compra, comprometendo, ainda mais, a situação dos produtores.
Eles não possuíam fluxo de caixa suficiente para aguardar o recebimento
dos valores de venda, até que os preços subissem. Este papel, que era feito
pelos comissários, deveria ser feito pelo Estado, em benefício dos produtores
nacionais, conforme acreditava grande parte dos produtores. 17
Em junho de 1903, Alfredo Ellis apresentou um projeto que previa a
intervenção do governo federal sobre o mercado de café, para que o produto
pudesse ser valorizado, projeto este que teve parecer contrário da comissão
de finanças da Câmara. Cândido Rodrigues, outro representante da ban-
cada paulista, reapresentou o projeto na Câmara, com apoio de deputados
paulistas e mineiros. Novamente, a comissão de orçamento vetou o projeto,
com aval, inclusive, de David Campista, que ainda não estava convencido
da oportunidade do mesmo.
Logo em seguida, o comerciante Alexandre Siciliano apresentou novo
projeto de controle do mercado, desta vez, através de um sindicato privado,
responsável pela compra de estoques e liberação dos mesmos para venda,
atrelados a uma política de controle dos preços. Caberia ao governo arrecadar
fundos, através da taxação sobre o café, dinheiro que seria utilizado para au-
mentar o consumo internacional e inibir a produção nacional.18 Somando-se a
Ellis e Lacerda, Siciliano tentava ganhar o apoio de Tibiriçá para o seu plano.
Ciente do projeto de Siciliano, Francisco Sales – então governador de
Minas Gerais – colocou-se prontamente a seu favor, principalmente por
contemplar uma das teses derrotadas no Congresso Agrícola Mineiro de
1903, o da limitação das plantações, em prol da qual havia organizado o
referido evento. Antecipou, no mesmo ano, sua disposição em entrar em
contato com outros estados produtores e com a União para viabilizar me-
didas de valorização do produto. Conforme vimos, esta havia sido uma das
decisões aprovadas no citado Congresso.19

17
Apesar de seus inconvenientes, Blasenheim (Blasenheim, 1982:239) afirma que os
cafeicultores mineiros deram aval ao projeto de Quintino.
18
Acerca do conteúdo do projeto de Siciliano ver Taunay (1941. Vol. X, Tomo 2,
capítulos 58 e 59).
19
Conforme carta de Francisco Sales a Ribeiro Junqueira de 15 de agosto de 1903
(ARJ, código 03.02.05, CPDOC). Blasenheim (1982:240) afirma que, por esta ocasião,

138
Em 1904, o tema voltou a ser discutido no plenário federal, desta vez
ganhando o forte apoio de outro deputado mineiro, Carlos Peixoto. Porém, a
ligeira melhoria dos preços praticados naquele ano retirou a urgência do projeto.
Não obstante os esforços isolados de alguns políticos, a proposta de
valorização, através da intervenção do governo federal sobre o mercado de
café, não se constituía em unanimidade nacional.
Os que a ela eram contrários argumentavam que o aumento de preços,
derivado de uma política contínua de valorização, incentivaria a produção
competitiva, por parte de outros países. Contra esta hipótese, os paulistas
já haviam se precavido, através do envio de um encarregado ao exterior,
para estudar as potencialidades produtivas de eventuais concorrentes. Suas
conclusões animaram os defensores do monopólio. Os concorrentes não se
constituíam em ameaça. Temia-se, igualmente, que o aumento artificial de
preços inibisse a demanda. Contra a retração do consumo, os cafeicultores
contavam com uma forte aliada, a cafeína, e seus prováveis efeitos causa-
dores da dependência (Topik, 1989:82).
Com base em Taunay, Peressinotto destaca que, entre o final do século
XIX e a assinatura do Convênio de Taubaté, as propostas apresentadas se
dividiam em dois grupos. De um lado, os setores que reivindicavam uma
ação interventiva do Estado sobre o mercado do café, através do monopólio
da União, sobre a comercialização do gênero. De outro, iniciativas mais
autonomistas, que apostavam na solidariedade dos setores produtores, como
elemento regulador do mercado, secundados por intervenção oficial, de
forma indireta.
Segundo Peressinotto, a segunda alternativa resultou no Plano Siciliano,
por não prever o monopólio oficial sobre a comercialização do produto (Pe-
ressinotto, 1997:314). Acreditamos que a primeira alternativa tenha resultado
nas bases iniciais do Convênio de Taubaté, as quais, como veremos, não
chegaram a ser postas em prática.
Para Topik, todas as alternativas apontadas pelos dois grupos tinham
um ponto em comum: aumentavam o controle do Estado sobre a economia,
sendo este controle exercido pela União ou pelas burocracias estaduais
autônomas (Topik, 1989:80).
Analisando as diferentes propostas apresentadas, pelos representantes
dos três estados cafeicultores, bem como a adesão dos fazendeiros às mes-
mas, algumas conclusões podem ser aventadas. Diante da crise de preços
em vigor, as respostas dadas pelos governos dos estados foram bastante

o Senado Mineiro aprovou decisão de que o programa valorizador deveria ser feito
pela União, com apoio do governo de Minas.

139
diferenciadas e vincularam-se aos níveis e padrões de desenvolvimento de
cada um. Dividimo-las em três tipos.
O primeiro tipo era formado pelas propostas provenientes dos políticos
paulistas. A sua mobilização, em torno da busca de soluções, se deu com
muita ênfase, tanto no Parlamento Federal, como no Executivo Estadual. As
propostas parlamentares incluíram desde a simples composição de comis-
sões de estudos, que resultaram em análises econômicas mais elaboradas,
à apresentação de propostas de planos valorizadores. O ponto comum entre
as propostas paulistas, apresentadas no Congresso, era o papel relegado
ao governo federal, qual seja o de mero gerente ou discreto apoiador das
iniciativas privadas. O projeto mais representativo neste sentido foi o de Sici-
liano. Ele previa a formação de sindicatos privados para controle de preços
e oferta, com indireta participação pública. Quanto ao governo estadual
paulista, este teve uma atuação efetiva sobre o mercado, através da retenção
de estoques pela compra e da contenção da oferta, pelo estabelecimento
de impostos proibitivos sobre novas plantações. Esta característica, parti-
cularmente paulista, marcada pela coexistência entre um governo estadual
interventivo e uma postura autônoma em relação ao governo federal, pode ser
explicada pelo poder econômico de que dispunha o estado e a consequente
autonomia em relação aos cofres da União.
Já as propostas mineiras foram diferentes. Concentraram-se sobretudo
no Congresso, exigindo-se uma maior participação da União na defesa do
café. Os políticos mineiros falavam em monopólio oficial e foram os primei-
ros a propor uma união entre os estados cafeicultores e Estado Nacional,
com vistas ao estabelecimento de medidas protetoras. Quanto à retenção
de estoques pelo governo estadual mineiro, conforme vimos, as finanças
do estado não possibilitavam este tipo de operação, diminuindo a margem
de autonomia do estado em relação aos cofres da União.
Quanto aos produtores fluminenses, as propostas parlamentares foram
em pequeno número e a ação do governo do estado, menor que os demais.
No Parlamento, a proposta de Quintino de estabelecer preço mínimo para
o café foi rejeitada, não recebendo apoio nem mesmo dos cafeicultores
fluminenses, o que constitui um indício de que os canais corporativos de
representação de interesses do setor, naquela ocasião, não funcionaram. O
nível de autonomia do governo fluminense, para intervir diretamente sobre
o mercado, era ainda menor que o mineiro.
Como vimos, as três posturas assumidas relacionavam-se, diretamente,
ao grau de dinamicidade de cada economia cafeeira e ao nível de organi-
zação de suas elites econômicas. São Paulo possuía a economia cafeeira
mais forte. Em função disto, o governo do estado possuía mais recursos

140
fiscais que permitiam uma intervenção mais autônoma sobre o mercado em
relação à União. Os setores cafeeiros paulistas possuíam diferentes níveis
de envolvimento com o produto, confluindo em uma elite heterogênea, de
interesses diferenciados. Aos setores vinculados à exportação do café não
interessava o monopólio estatal sobre o produto. Aos demais, sim. A con-
junção entre a força econômica do estado de São Paulo e o desinteresse
pela intervenção monopólica do Estado Nacional permitiu que advogassem
posturas mais autônomas em relação à União.
Já no caso mineiro, cuja dinamicidade econômica era significativa, mas
incomparável à paulista, o nível de autonomia do governo do estado era bem
menor. A intervenção da União era reivindicada e a proteção do governo
estadual ocorreu em níveis menos concretos. Como a diferenciação interna
entre as elites econômicas não era comparável à paulista, tendiam a ter
mais homogeneidade e, consequentemente, mais poder de barganha sobre
o governo do estado, obtendo dele respostas mais efetivas as suas pressões.
Quanto ao estado do Rio, a decadência econômica, pela qual passava
a sua cafeicultura, implicava em uma postura mais desinteressada, por
parte dos representantes políticos, em relação à intervenção do governo do
estado no mercado. Não obstante, as poucas vezes em que as elites políticas
estaduais manifestaram-se sobre o tema, o fizeram em prol do monopólio
da União sobre o mercado, em função das mesmas razões mineiras. Quanto
à composição de sua elite econômica, cabe frisar que o maior órgão repre-
sentativo de interesses do setor, a SNA, era controlado por produtores não
cafeicultores, o que dificultava, ainda mais, o poder de reação do café.
Isto explica, em parte, o fato de o governo do Rio ter se mostrado menos
concessivo que o mineiro, em relação à política creditícia e tributária, de
interesse dos cafeicultores.

3.3.1 A iniciativa dos estados

A perspectiva de uma safra recorde em 1906 levou os produtores a


assumirem uma posição mais efetiva, em prol de um programa interventivo.20
Conforme já se aventava, ao longo dos primeiros anos do novo século, o
Convênio de Taubaté foi celebrado nos dias 26 e 27 de fevereiro de 1906,
através de uma reunião entre os chefes dos três maiores estados produtores.
As regras básicas estipulavam que todas as prerrogativas relativas ao Convê-
nio seriam de responsabilidade de uma comissão, formada por um representante

20
Segundo José Maria Bello (1972:193) a safra de 1906 chegou a 22 milhões de
sacas, o que corresponde a um excedente de 16 milhões.

141
de cada estado envolvido, além de um quarto nome, escolhido por eles, para
presidir e desempatar a votação, caso se fizesse necessário. Ficou também de-
finido que a execução do acordo poderia ser atribuída a alguma associação ou
empresa nacional, mas a ideia predominante era que o seu controle fosse oficial.
Estabelecia a fixação de um preço mínimo para a venda do produto no
mercado internacional, o qual variava entre 55 e 65 francos por saca do tipo
7.21 Contemplou, igualmente, a criação de uma “bolsa do café”, responsável
pela avaliação dos tipos produzidos, constituindo-se a mesma em importante
iniciativa de afastar o controle estrangeiro sobre a classificação do produto.
Previa também uma diminuição progressiva do plantio do café, princi-
palmente os tipos inferiores, através de taxas proibitivas, além da ampliação
do consumo, garantida pela propaganda externa do produto. Esta cláusula
era prejudicial aos interesses dos cafeicultores mineiros do leste de Minas
e dos cafeicultores fluminenses. No entanto, a necessidade de viabilizar a
diminuição da oferta e ampliar o consumo externo levou os pactuantes a
investirem não só na drástica redução do plantio, como também, e sobretudo,
na melhoria da qualidade do produto plantado.
O Convênio previa também a obtenção de um empréstimo financiador do
programa, na ordem de 15 milhões de libras, o qual seria negociado por São
Paulo, em nome dos três estados pactuantes. Este empréstimo seria quitado
com recursos da cobrança de um imposto adicional, composto por 3 francos
sobre cada saca de café exportada, a ser arrecadado pela União. Os encargos
resultantes do empréstimo seriam partilhados entre os estados, proporcional-
mente à quota de arrecadação da sobretaxa, com que cada um concorresse.
A entrada de volumoso capital estrangeiro no mercado poderia causar
grande elevação cambial, o que provocaria a absorção de todos os eventuais
lucros derivados da valorização, pela conversão monetária. Para evitar esta
eventual perda, foi criado um instituto regulador do câmbio, conhecido como
“Caixa de Conversão”, para garantia da estabilidade cambial. Este ponto
foi objeto de controvérsias, principalmente por parte das elites políticas
convertidas à ortodoxia econômica.
Como se pode perceber, o Convênio, nos termos em que foi proposto,
não poderia prescindir da participação da União. A criação da Caixa de
Conversão era atributo do Executivo Federal, na medida em que a constitui-
ção de 1891 havia atribuído, exclusivamente a ele, a responsabilidade pelas
políticas cambial e monetária do país. Ao mesmo tempo, caberia à União
arrecadar o novo imposto criado, a sobretaxa, o qual serviria de garantia

21
Segundo citação de Topik (1989:81), os preços praticados entre 1897 e 1905 eram
em torno de 38 francos por saca.

142
ao empréstimo valorizador. Por outro lado, a contração de um empréstimo
volumoso previa o endosso federal como uma de suas garantias.
A criação da Caixa de Conversão significava a intervenção do Estado
sobre o mercado cambial, o que ia de encontro às prerrogativas doutri-
nárias do então presidente, Rodrigues Alves. Consta que, imediatamente
após tomar conhecimento do instituto, comunicou aos banqueiros londrinos
sua oposição à medida (Carta de Bulhões a Afonso Pena de 6 de março de
1906, AAP, caixa 9, doc. 21.131, AN).
Os estados pactuantes tinham pressa na viabilização rápida do plano.
Cerca de um mês após a assinatura do Convênio, os paulistas já se encon-
travam negociando empréstimos na Europa e já haviam iniciado a compra
de cafés com recursos próprios. Qualquer oposição à implementação do
programa lhes seria muito prejudicial (Carta de Tibiriçá a Afonso Pena em
6 de março de 1906, AAP, caixa 15, doc. 27.4, AN.).
Rodrigues Alves manifestou sua oposição a qualquer quebra do padrão
monetário em vigor. Deixava claro desconhecer a inclusão da Caixa de
Conversão nos termos do Convênio, justamente por não ter participado de
nenhuma fase de discussão do mesmo (Caderneta de Notas de Rodrigues
Alves de 7 de março de 1906, ARA, Lata 806, pasta 56, IHGB).
Aos poucos, Rodrigues Alves ia percebendo o isolamento em que se
encontrava em relação ao tema, nas hostes do PRP. Ao saber da adesão
de Campos Sales ao instituto, percebia que o apoio da elite paulista ao seu
governo, em fim de mandato, estava ruindo. Não tardaram as comprovações
de suas suspeitas. Em função de suas antigas ligações com Pinheiro Macha-
do, Francisco Glicério prestou também seu apoio à Caixa de Conversão, ao
lado do Presidente de São Paulo, Jorge Tibiriçá, o qual ameaçava recorrer
à revolução, caso a operação, como um todo, não fosse viabilizada.22
Tudo apontava para o fato de que a aprovação do Convênio não seria
fácil. Além da oposição do Executivo Federal e das incertezas iniciais de
Afonso Pena – futuro presidente –, havia a rejeição às teses do programa, por
parte do maior credor brasileiro, a Casa dos Rothchild, que via na política
de elevação de preços o anúncio de eventuais prejuízos futuros. Não se pode
esquecer de que eles eram os intermediadores da venda do café brasileiro
no exterior. Além deste fato, rejeitavam toda e qualquer medida que viesse
colocar em risco o cumprimento dos compromissos financeiros do Brasil. 23

22
Afonso Pena soube das pressões de Tibiriçá por intermédio de Feliciano Pena,
AAP, caixa 12, doc. 24.23, AN.
23
Conforme atestam correspondências de Feliciano Pena a Afonso Pena de 15 de
abril de 1906, AAP, caixa 12, doc. 24.23, e caixa 10, docs. 22.55 e 22.55 A, AN.

143
Rodrigues Alves recusou-se a tomar iniciativa de convocar o Congresso
para a ele submeter o plano, nos termos em que havia sido pensado. Além do
mais, enviou uma mensagem ao Legislativo, discordando desses mesmos termos,
o que provocou espanto geral. Solicitou, igualmente, que o projeto valorizador
fosse encaminhado separadamente ao da Caixa de Conversão, para que ele
pudesse aprovar o primeiro e vetar o segundo. Em seu relato pessoal afirmava,
porém, que esta alternativa era recusada pelos estados de Minas e Gerais e
Rio de Janeiro, com o fim político de fragilizar o seu nome: “O Dr. Tibiriçá
mandou-me dizer que a questão da moeda, com a qual aliás ele concordava,
podia bem ser separada da valorização, mas que os Presidentes de Minas e
do Rio entendiam o contrário e ele teve de se submeter” (Carta de R. Alves a
Afonso Pena de 26 de abril de 1906, AAP, caixa 7, doc. 17.24, AN ).
Com base nas informações que dispunha, Alves chegou a levantar a
hipótese de que a própria ideia da Caixa de Conversão tivesse partido de
Nilo Peçanha, com o intuito de fragilizar-lhe politicamente, embora o próprio
Tibiriçá lhe confessasse ser totalmente favorável ao instituto.
A mesma hipótese foi aventada pela imprensa do período. Halloway
afirma que Edmundo Bittencourt, conhecido jornalista, havia dito que
Nilo Peçanha propusera a Caixa de Conversão, com taxas cambiais de-
preciadas, como uma forma de inviabilizar a realização do Convênio,
uma vez que as teses aprovadas interessavam exclusivamente a São
Paulo. Ganhando a oposição do Presidente da República ao Convênio,
dificilmente ele seria aprovado. O Jornal do Comércio, meses antes,
havia denunciado que o apoio mineiro ao instituto se dera pela mesma
razão, uma vez que a Caixa de Conversão contaria com a oposição do
futuro governador mineiro, João Pinheiro, o qual era igualmente avesso
a qualquer controle artificial sobre a moeda. Tal atitude foi interpretada
como manifestação de desinteresse pelo Convênio, por parte de Minas
Gerais (Halloway, 1978:63-64). 24
Marieta Ferreira, em seu trabalho acerca das elites fluminenses, com-
partilhou dessa hipótese. Ao avaliar a participação do Rio de Janeiro no
Convênio como ambígua e contraditória, afirmou que Nilo Peçanha, de
fato, teria sugerido a criação da Caixa de Conversão, com taxas de câmbio
depreciadas, com o fim de dificultar a aprovação do programa. Neste senti-
do, teve êxito, já que a sua aprovação fora retardada (Ferreira, 1994:72).25

24
Segundo o autor, a acusação de Bittencourt foi publicada em 13 de junho de 1906.
E a do Jornal do Comércio fora anterior, em 23 de abril do mesmo ano.
25
Tal hipótese, ao que transparece, foi igualmente compartilhada por Afonso Arinos
de M. Franco (1973: 668, n. 2).

144
Em relação à participação mineira, não encontramos nenhum subsídio
que possa confirmar a hipótese de que a criação da Caixa fora proposta com
o fim de inviabilizar o Convênio. O grande empenho de David Campista em
prol da aprovação do mesmo, incluindo-se a Caixa de Conversão, aliado à
manifestação pública de Afonso Pena, favorável a ambos, constitui prova
cabal de que Minas Gerais entrava, com toda a sua força, na viabilização
da primeira operação valorizadora, em sua globalidade.26
Analisando o posicionamento assumido por Tibiriçá, no que tange à
Caixa de Conversão, fica claro que a sua criação era aprovada também pelo
representante paulista no Convênio, não sendo uma prerrogativa isolada dos
estados que supostamente tentavam inviabilizar a operação.
O que pode ser empiricamente sustentado é que os estados de Minas
Gerais e Rio de Janeiro não se opunham ao instituto em si, mas à divisão
do projeto em duas partes, conforme solicitara Rodrigues Alves. Este po-
sicionamento dos estados de Minas e Rio ganha sentido, se levarmos em
conta as questões políticas subjacentes à discussão, naquele período. Como
resultado do processo sucessório ocorrido, estava claro que os membros
da Coligação não se responsabilizavam mais com a sustentação política
do governo Rodrigues Alves. Prova disto é que importantes projetos seus,
relacionados a intervenções nos estados, foram derrotados com os votos das
bancadas de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia, na mesma ocasião.27 Por
trás da recusa em dividir o projeto em duas partes distintas encontrava-se
a oposição ao frágil governo Rodrigues Alves, em fim de mandato, uma vez
que tal proposta havia partido dele. Caso o projeto, em sua íntegra, fosse
enviado ao Congresso, contra a vontade de Rodrigues Alves, a sua aprova-
ção estaria garantida, com os votos dos membros da Coligação, somados
aos votos dos paulistas e de seus aliados, constituindo-se em dura derrota
para o Presidente da República. Tudo indica que era esta a intenção dos
coligados, ao recusarem a separação do projeto em duas partes.
Se Rio de Janeiro e Minas Gerais estivessem, de fato, insatisfeitos com o
programa aprovado na reunião de Taubaté, e quisessem inviabilizá-lo, seria

26
Em relação à oposição de João Pinheiro ao controle artificial da moeda, tal assertiva
não se justifica. A documentação indica que João Pinheiro caracterizou-se como
um adepto do protecionismo e um crítico do livre-cambismo. Em nenhum momento
manifestou-se contra a criação da Caixa de Conversão, conforme atesta sua Primeira
Mensagem ao Congresso Mineiro em 15 de junho de 1907 (Barbosa, 1966:214).
27
A este respeito ver Franco (1973:501-523). A respeito da falta de apoio do governo
no Congresso ver carta de Rodrigues Alves a Afonso Pena de 19 de setembro de
1906, AAP, caixa 7, doc. 17.26, AN.

145
mais fácil não aderir a ele ou modificá-lo em função de seus interesses. Além
de a reunião contar com um representante de cada estado, o que, por si só,
já beneficiaria acordos feitos entre dois deles, politicamente, Rio de Janeiro
e Minas Gerais encontravam-se em melhor situação, na medida em que com-
punham a Coligação e formavam a chapa presidencial do próximo governo.
Uma outra alternativa, caso de fato não se interessassem pelo Convênio, seria
derrotá-lo no Congresso, o que também seria possível naquele contexto.
Diante dessas possibilidades, não nos parece lógica a hipótese de que
a criação da Caixa de Conversão ocorreu apenas com o fim político de
inviabilizar o Convênio de Taubaté. Ao mesmo tempo, esta hipótese não se
sustenta empiricamente. O que vimos acontecer, no período, foi uma atuação
intensa dos políticos mineiros, aliados aos demais membros da Coligação,
em prol da aprovação e viabilização da operação, em atenção a um conjunto
de interesses que anteriormente delimitamos.
A estratégia mineiro-fluminense de recusar a separação do projeto em
duas partes implicava em um sério risco. Rodrigues Alves poderia vetar
a segunda, relativa à Caixa de Conversão, e inviabilizar toda a operação.
Desta forma, a imposição de Alves teve que ser incorporada, a despeito dos
interesses dos dois estados em rejeitá-la. O projeto do Convênio foi para o
Congresso e o da Caixa de Conversão aguardou a posse de Afonso Pena.
A definição final do valor da taxa cambial, para as operações da Caixa,
constituiu-se em novo elemento complicador, na medida em que diversos
interesses diferenciados estavam em jogo. Os setores ligados diretamente à
produção do café reivindicavam uma taxa próxima aos 12 dinheiros por mil
réis, o que implicava em grande desvalorização cambial. Aos setores ligados
à exportação do produto não interessava que a depreciação se desse nesses
níveis. A taxa final estabelecida ficou em 15 d por mil réis. Peressinotto
afirma que a opção por esta taxa foi um acordo de interesses entre os dife-
rentes setores ligados à produção e comercialização do produto (Peressinotto,
1994:75). Ao que tudo indica, esta taxa conciliadora foi de responsabilidade
de Campista. Para o futuro Ministro da Fazenda não importava o valor da
taxa, mas a estabilidade cambial.28 Na prática, a taxa aplicada entre 1906
e 1909 foi de 15 d e de 1910 a 1913, de 16 d (Alvim, 1929:65).
Após a morte de Afonso Pena, Nilo Peçanha tentou elevar a taxa cambial
e diminuir as receitas da Caixa de Conversão. A proposta de seu Ministro,
o ortodoxo Leopoldo Bulhões, era converter a taxa cambial a 18 dinheiros.
Esta aventada apreciação do câmbio contou com significativa pressão con-

28
A respeito da participação de Campista na definição dos valores cambiais ver
Carvalho (1968:99) e Wirth (1982:85).

146
trária, por parte dos cafeicultores, que reivindicavam uma taxa próxima
aos 15 d. O resultado final foi a taxa de 16 d como acordo e o limite de 60
milhões de libras como reserva da Caixa.
As emissões da Caixa foram vinculadas ao padrão-ouro, prática que foi
adotada no Brasil, a partir de 1906, estendendo-se até 1913. Pelas novas
regras, o principal pilar de sustentação das emissões passou a estar na garantia
de fatores exógenos, que sustentassem o crescimento contínuo das exportações,
possibilitando o fluxo normal de capital estrangeiro para o país. Caso contrário,
os resultados da operação seriam catastróficos. Daí em diante, a estabilidade
monetária do Brasil esteve diretamente vinculada ao comportamento de sua
balança de pagamentos (Fritsch, 1989:40). Isto tornava o governo da União
refém do bem-estar da cafeicultura, como um todo, pois ela era responsável
pela maior parte do fluxo de capital estrangeiro para o país.
Muito embora o citado atrelamento ao padrão-ouro tenha sido associa-
do, pela historiografia corrente, à monopolização do Estado pelos grupos
cafeicultores, Fritsch defende a ideia de que sua utilização obedeceu à lógica
própria do Estado, na medida em que funcionava como meio de prevenir
superávits na balança comercial. Assim, a adoção do padrão-ouro era ban-
deira não só do Estado Nacional, como de todas as suas classes produtoras e
também dos banqueiros internacionais. O padrão-ouro era responsável por
garantir o crescimento da base monetária, interesse de todo o setor privado
doméstico e a sua aprovação, pelos banqueiros internacionais, ampliava a
possibilidade de crédito externo para outros setores econômicos.
Em junho de 1906, antes de ser aprovado, o projeto do Convênio teve que
passar por algumas alterações. A documentação pesquisada nos indica que
as modificações foram exigências de Afonso Pena, o qual sugeriu que fosse o
governo federal dispensado de dar o seu aval ao empréstimo externo, crédito
que fomentaria toda a política de valorização. A partir de tais exigências,
Afonso Pena retirava da União todo o risco de ter que garantir financeira-
mente a operação, transferindo-o aos estados-pactuantes. Tal medida, além
de facilitar a aprovação do Convênio pelo Congresso, seria a garantia de que
o equilíbrio das finanças públicas não seria colocado em risco.
Percebe-se que o novo governo também temia a entrada de capital
estrangeiro no país, o que poderia desvalorizar a moeda nacional. Percebe-
se igualmente que, mesmo tendo sido Afonso Pena eleito através de uma
plataforma economicamente protecionista, seus compromissos em defender
os interesses corporativos dos cafeicultores não eram imediatos, apesar das
pressões políticas sofridas por suas bases no estado de Minas, concentradas,
como vimos, na zona da mata. Desde o início, Pena manteve-se resistente
ao endosso e à participação federal na operação. Ao contrário de Rodrigues

147
Alves, posicionou-se a favor da Caixa de Conversão, com o objetivo de
garantir a estabilidade da moeda nacional, mas não abria mão de defender
as finanças públicas e a emissão com lastro. Esta posição, a meio caminho
entre a ortodoxia dos Presidentes paulistas e o papelismo dos primeiros anos
da República, era chamada, por ele próprio, de “protecionismo moderado”.
Das modificações realizadas nos termos iniciais do Convênio, Afonso
Arinos destacou as mais importantes. O preço do café, ao invés de ser fixado
em franco-ouro, passou a sê-lo em mil réis (32 a 36 mil réis por saca, tipo 7,
podendo chegar até 40 mil) (Franco, 1973:461).29 O recolhimento da sobretaxa
passou a ser de responsabilidade dos estados-pactuantes e não mais da União.
O câmbio não seria fixado imediatamente, já que a Caixa de Conversão não
tinha garantida a sua aprovação, adiado que fora o seu envio ao Congresso.
O artigo quinto ganhou nova redação e definia bem as responsabilidades do
polêmico empréstimo externo:

O governo do estado de São Paulo, antes de ultimar as negociações


relativas à operação de crédito de que trata o artigo oitavo do convênio,
submeterá as condições e cláusulas que foram propostas ao conhecimento
e aprovação dos governos dos outros estados contratantes e bem assim do
governo federal, em caso de endosso pela União, a fim de ser determinada
expressamente a responsabilidade de cada um deles na operação que se
realizar, a qual fica dependendo daquela operação. (Taunay, 1941:93)

Este aditamento refletia bem as dificuldades que os estados pactuantes esta-


vam tendo, em função da oposição oficial aos termos gerais do programa de valo-
rização. Todas as mudanças realizadas implicavam em um maior distanciamento
do governo federal em relação ao programa, deixando a cargo dos estados toda a
sua execução. Como se viu, não só Rodrigues Alves preocupou-se em rejeitar boa
parte do programa. O novo governo, ao contrário das expectativas dos cafeicultores,
sinalizava que seu apoio ao mesmo não seria incondicional e que a preocupação
com o equilíbrio das finanças públicas estava em primeiro lugar.
Pelo que se viu, muito embora as bases estabelecidas pelo Convênio, em
fevereiro de 1906, tenham ido ao encontro das propostas aventadas pelos re-
presentantes de Minas Gerais, quais sejam, a de uma maior participação da
União sobre o mercado de café, os aditamentos feitos, quatro meses depois,
agiram em sentido oposto. Dada a recusa do futuro governo federal em participar

29
Segundo Weiner (1980:198), estas mudanças reduziram principalmente o preço dos
cafés produzidos por São Paulo e foram de iniciativa de Afonso Pena e João Pinheiro,
com vistas à defesa dos cafeicultores mineiros.

148
mais diretamente da operação, manifestada através do desejo em não conceder
endossos a futuros empréstimos e de não responsabilizar-se pela cobrança da
sobretaxa, as modificações realizadas resultaram na diminuição da participa-
ção da União sobre o programa valorizador. Elas deixavam claro que a Afonso
Pena não interessava o monopólio oficial do Estado sobre as operações do café.
Tais considerações apontam para o fato de que a ausência do Estado na
condução do programa não se deve exclusivamente à dominância dos interesses
econômicos do grande capital cafeeiro, que temia que seu monopólio sobre o co-
mércio do café fosse substituído pelo monopólio estatal. E tão pouco à dominância
de interesses privatistas e autônomos dos paulistas, interessados em conduzirem
a operação isoladamente.
Tais fatores, embora presentes, estavam associados ao desinteresse do próprio
Estado em participar da operação. Esta atitude se justificava pela necessidade de
contemplar a multiplicidade de compromissos eleitorais antes assumidos, além
das preocupações em manter o êxito da política econômica adotada. Estes fatores,
em conjunto, resultaram no afastamento da União do Convênio.

3.3.2 O papel do Parlamento e do Executivo Federal

Cedo o Convênio havia ganhado o apoio de importante força do novo


governo, a de Pinheiro Machado. Ele havia se tornado o responsável pela
intermediação de interesses entre os paulistas e Afonso Pena, com vistas a
negociações em torno do Convênio. Como foi visto, o fato de São Paulo não ter
integrado a Coligação que elevou o nome de Pena à Presidência da República
havia afastado do novo Presidente os principais próceres do PRP. Ao líder
gaúcho era muito conveniente reaproximá-los do governo federal. (Carta de
Pinheiro Machado a Afonso Pena de 22 de abril de 1906, AAP, caixa 10,
doc. 22.86, AN).
Porém, o apoio de Pinheiro Machado ao Convênio fora uma estratégia
escolhida para fortalecer o seu próprio nome, na medida em que, após a
sua adesão, conseguiu reconhecer todos os deputados que lhe eram afins
politicamente, o mesmo acontecendo com José Marcelino, em relação à
bancada baiana. O apoio ao Convênio tornou-se importante moeda de
troca no Congresso, atestando a força política do novo governo (Carta de
Leovigildo Filgueiras a Rui Filho, em 7 de junho de 1906, ARB, código
575-1, FCR).
O projeto entrou em discussão no Congresso no dia 19 de julho e foi
aprovado, com ampla margem de votos, no mês subsequente.30

30
Não obstante a sua aprovação, o projeto não deixou de sofrer oposições significativas.

149
Apesar das oposições, aprovação do Convênio foi tranquila. Segundo relato
do próprio David Campista, os membros da Coligação que estiveram reunidos
antes da sessão para a discussão dos termos finais do projeto deram-lhe total
apoio. Nas palavras de Campista: “(...) verdade seja que deram afinal mais do
que eu pedia e nem quiseram a restrição que eu próprio apresentara e que,
essa, era uma verdadeira restrição - conforme aí combinamos. (...) Como vê, não
sei o que é que restringiram. Me parece que até alargaram” (Carta de David
Campista a A. Pena de 20 de outubro de 1906, AAP, caixa 8, doc. 19.24, AN).
Campista se referia aos limites de resgate da Caixa de Conversão. Temendo
as reações negativas de Murtinho, membro da Coligação, mas conhecido por suas
teses ortodoxas, não propôs um limite muito alto. Contrariando suas expectativas,
teve plenos poderes para realizar o resgate total, sem limites. A conclusão de
Campista foi a de que os membros da Coligação nada entendiam de finanças.
Na verdade, não era só isto, pois lá se encontravam dois ex-Ministros da Fazenda
(Rui Barbosa e Joaquim Murtinho). A Coligação via, na aprovação do Convênio, a
concretização final de sua intenção, que era a de derrotar politicamente o governo
de Rodrigues Alves, colocando-o contra as suas próprias bases políticas. Para
este fim, concedia plenos poderes ao futuro Ministro da Fazenda.

Uma oposição, não só à Caixa, como ao plano valorizador como um todo, foi a da Casa
Rothchild, a maior credora do governo brasileiro. O Convênio contava também com a
oposição de alguns políticos do Distrito Federal e do Nordeste. Os setores intermediadores
da exportação do café mineiro opuseram-se ao Convênio. A eles não interessava a
valorização do produto, na medida em que poderiam ser prejudicados em suas vendas
no mercado externo. A este respeito ver: carta de R. Alves a Afonso Pena de 26 de
setembro de 1906, AAP, caixa 7, doc. 17.27, AN, carta de Fraga e Sobrinhos a João
Pinheiro em 27 de junho de 1906, AJP, caixa 14, doc. 1930, APM e Love (1982:265).

150
O programa teve início no mesmo ano de sua aprovação com o investi-
mento de um milhão de libras, obtido por São Paulo junto ao banco alemão
“Brasilianische Bank”. Os custos adicionais eram muito altos, com juros na
ordem de 6% sobre o capital antecipado. Consta que as negociações do grande
empréstimo, que viabilizaria toda a operação, estavam sendo intermediadas
pela “Theodor Wille Corporation”, a qual representava os interesses do grupo
“Crossman and Sielcken”, conhecidos especuladores norte-americanos.
Como os recursos disponíveis eram ainda muito restritos, e a compra se
dava majoritariamente com capital paulista, os cafés de qualidade inferior
estavam provisoriamente excluídos da operação. Neste período, os produtores
mineiros e fluminenses ainda não estavam sendo onerados com a cobran-
ça da sobretaxa, enquanto aguardavam pelas negociações, empreendidas
por São Paulo, junto aos banqueiros estrangeiros (Jornal Correio da Tarde,
05/09/1906, Ano 1, número 13, AH).
Com a entrada de um volume de recursos maior, em fins de 1906 (em
torno de 3 milhões de libras), passou-se a cobrar a sobretaxa nos outros dois
estados, não obstante os protestos dos plantadores, os quais passaram a ser
penalizados por um novo imposto, sem ainda desfrutar dos benefícios da
elevação de preços. Até então, não obstante os protestos dos cafeicultores,
os líderes políticos fluminenses e mineiros mostravam-se firmes, sustentando
a operação, ao lado de São Paulo.31
Porém, a reação oficial aos reclames dos cafeicultores veio logo em
seguida. O então Presidente do Rio de Janeiro, Alfredo Backer, propôs ao
Presidente mineiro João Pinheiro uma solução conjunta, uma vez que, até
então, ambos os estados se encontravam excluídos do programa de valoriza-
ção, por produzirem café de qualidade inferior ao paulista. Entre eles ficou
acordado que, caso São Paulo não procedesse à compra de cafés inferiores
ao tipo 7, ambos os estados interromperiam a cobrança da sobretaxa, o
que significava, na prática, o abandono do Convênio pelos dois estados.32
A resposta dos paulistas às ameaças dos outros dois estados pactuantes
era de que o problema estava no governo federal, o qual não havia ainda se

31
Ver Carta de Carlos Peixoto a João Pinheiro de 3 de dezembro de 1906 AJP, caixa
16, doc. 2197, APM; Jornal Correio da Tarde, 07/12/1906 e 26/12/1906, AH; cartas
de Carlos Peixoto a João Pinheiro de 16 de dezembro de 1906, AJP, caixa 16, doc.
2223, caixa 28, doc. 3573, APM; documento de exportadores de café do Rio de
Janeiro a João Pinheiro de 26 de dezembro de 1906, AJP, caixa 16, doc. 2246, APM.
32
Conforme carta de Backer a João Pinheiro em 11 de janeiro de 1907, AJP, caixa
17, doc. 2316, APM; e de João Pinheiro a Carlos Peixoto s/d, AJP, caixa 28, doc.
3633, APM. A ameaça foi feita diretamente aos paulistas por João Pinheiro, conforme
carta deste a Jorge Tibiriçá, AJP, caixa 28, doc. 3640, APM.

151
manifestado favoravelmente ao endosso do empréstimo externo. Segundo
Jorge Tibiriçá, os termos do empréstimo estavam todos acertados com os
bancos estrangeiros. A condição para a compra de café, sem exclusão dos
tipos mineiro e fluminense, era a efetivação do empréstimo, condicionada
ao endosso federal (Carta de J.Tibiriçá a Afonso Pena em 13 de janeiro de
1907, AAP, caixa 15, doc. 27.11, AN).
Como se percebe, embora São Paulo estivesse realizando algumas pe-
quenas compras, a viabilização prática do Convênio dependia do endosso
do governo federal, o que ainda não estava garantido, decorridos seis meses
após a sua aprovação. A forma que os paulistas encontram para pressionar
o governo federal, ocupado por um Presidente mineiro e um vice-presidente
fluminense, fora a não incorporação dos dois estados nas compras realizadas
pelo Convênio, até que o empréstimo fosse concretizado.
Os produtores mineiros, por sua vez reunidos com os lavradores flu-
minenses com vistas a uma solução comum, pressionavam seus governos,
ameaçando com o boicote ao pagamento da sobretaxa até que seus cafés
fossem adquiridos pelos compradores (Jornal Correio da Tarde, 19 de ja-
neiro de 1907, número 210, p. 1, de 22/01/1907, número 212 e de 26 de
janeiro de 1907, AH).
Instado por Tibiriçá e pelos próprios produtores a dar o aval federal
ao pedido de empréstimo externo, Afonso Pena condicionou sua decisão
à análise do comprometimento já havido dos recursos da sobretaxa, desti-
nados, a princípio, para o saldo do referido empréstimo. O Presidente não
queria, sob nenhuma hipótese, colocar a receita da União em risco e muito
menos implementar qualquer medida que redundasse em desvalorização
da moeda nacional.33
Fazendo coro aos reclames dos cafeicultores, Feliciano Pena, senador
por Minas Gerais e politicamente muito próximo ao Presidente, denunciava
que o Convênio não estava cumprindo integralmente o texto aprovado em
lei, ao recusar as produções de Minas e Rio de Janeiro:

Com efeito, cobrar a taxa de 3 francos sobre cafés, repudiados pelos


agentes dos estados convenistas,(...) excede as raias da iniquidade e
dá fundamento para o mais desesperado clamor. Com a orientação
dada às operações de compra é manifesto que a maior parte dos cafés
de Minas e Rio ficará refugada, sendo chamada à forma corrente para

33
Conforme carta de Afonso Pena a Jorge Tibiriçá de 17 de janeiro de 1907, AAP,
caixa 5, doc. 11.2 e carta da Associação Comercial de Santos de 23 de janeiro de 1907,
AAP, caixa 14, doc. 26.74, AN e Correio da Tarde de 11/05/1907, número 304, AH.

152
pagar a taxa. Na letra do Convênio já se encontra implicitamente essa
exclusão, desde que se tomou o compromisso de comprar o tipo 7 (...).
Essa situação, já de si intolerável para Minas e Rio, agravou com o
modo de se definir o tipo 7 que, segundo consta, não é mais do que o
6. (Carta de Feliciano Pena a Afonso Pena de 23 de janeiro de 1907,
AAP, caixa 12, doc. 24.27, AN)

Diante de tantas pressões, a solução aventada por Afonso Pena garan-


tiu a continuidade do programa valorizador. O governo federal concordava
em endossar o empréstimo, desde que duas condições fossem aceitas: a
primeira era de que se comprassem cafés de tipos inferiores; a segunda era
de que os fiscais responsáveis pela classificação dos tipos fossem também
mineiros e fluminenses. Esta proposta foi comunicada primeiramente ao
Presidente do Rio de Janeiro, o qual ficou incumbido de procurar o gover-
nador paulista, para expor-lhe as reivindicações dos dois outros estados e
a insustentabilidade da situação, caso as cláusulas do Convênio não fossem
inteiramente cumpridas.34
A mudança da posição de Afonso Pena em relação à concessão do
endosso possui duas explicações. A primeira se encontra em sua intenção
de equilibrar as finanças públicas nacionais. Uma grave crise financei-
ra externa estava dificultando os empréstimos paulistas para a operação.
Diante disto, o governo federal temia que a diminuição do fluxo de capital
para o país provocasse uma queda maior dos preços do café, aliada ao
esgotamento das reservas da Caixa de Conversão, o que provocaria uma
desmoralização da experiência do padrão-ouro em vigor no novo governo.
Paralelamente à intenção de dar continuidade ao programa valorizador,
colocava-se o interesse em preservar a política macroeconômica pelo novo
governo (Fritsch, 1989: 38-39). A segunda explicação reside na defesa
dos interesses dos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, sustentáculos
do governo federal. A documentação disponível sugere que Afonso Pena
teria se utilizado dessa “concessão”, feita aos paulistas, para veicular os
interesses dos estados membros da Coligação, ao condicionar seu endosso
à incorporação imediata de Minas e Rio de Janeiro na operação.
A partir deste posicionamento do governo Pena, algumas análises
podem ser aventadas. A primeira é que São Paulo não podia, por si só,
dar continuidade às operações de compra exclusiva de seus cafés, pois os

34
Conforme consta em cartas trocadas entre Carlos Peixoto e João Pinheiro de 24
a 26 de janeiro e 18 de fevereiro de 1907, AJP, caixa 17, docs. 2349, 2350, 2352
e 2407, APM. Ver carta de Feliciano Pena a Afonso Pena de 27 de maio de 1907,
AAP, caixa 12, doc. 24.30, AN.

153
recursos externos para viabilizá-las dependiam do aval do Presidente da
República. E este aval só seria dado caso os estados de Minas Gerais e Rio
de Janeiro, à frente do governo federal, fossem beneficiados pelo programa,
o que, até então, não estava ocorrendo. A coincidência de interesses entre
Minas Gerais e Rio de Janeiro estava além do fato de produzirem cafés de
qualidade semelhantes. Desde a vitória da Coligação, ambos os estados
eram politicamente hegemônicos e parceiros políticos. São Paulo começava
a perceber os obstáculos advindos do fato de não ter conseguido eleger o
quarto Presidente paulista.
A continuidade do Rio de Janeiro no Convênio, porém, sofria maiores
riscos. A oposição havia apresentado, na Assembleia do estado, um projeto
mais amplo, o qual previa a suspensão imediata da cobrança da sobretaxa.
Muito embora fosse essa também uma reivindicação dos cafeicultores minei-
ros, o atendimento da mesma implicava em ruptura geral com os termos do
Convênio, o que os governos dos dois estados não pretendiam. A proposta
da oposição foi rejeitada, para felicidade geral dos interessados.35
Contraproposta à posição cambiante do Executivo Federal estava a forte
oposição do Rio Grande do Sul ao endosso ao empréstimo paulista. Para
os gaúchos, a intenção de São Paulo era repassar a dívida para a União,
estourando as finanças públicas, o que redundaria em séria fragilização
política de Afonso Pena, em um período próximo a sua sucessão presiden-
cial. Nota-se claramente, através da posição assumida pelo governo, que
São Paulo estava de fato fora da aliança de sustentação do governo Pena,
e era visto, pela Coligação, como uma ameaça constante a sua hegemonia.
Há indícios, a serem aprofundados no capítulo seguinte, de que o
endosso ao empréstimo só foi concedido pelo governo federal em troca do
apoio de São Paulo à candidatura presidencial de David Campista à sucessão
de Afonso Pena, nome indicado pelo Catete.
Diante de tais circunstâncias, o governo Pena acabou por endossar
o empréstimo, após o estabelecimento das garantias de que a receita da
União não seria ameaçada, de que os cafés de qualidade inferior seriam
comprados e de que a soberania fiscal do país não seria ameaçada. Pelo
que consta, ao final de novembro de 1908, o aval ao empréstimo já havia
sido concedido.36

35
Conforme cartas que compõem o AJP, caixas 20 e 21, docs. 2788, 2801, 2820 e
2821 de agosto e setembro de 1907, APM.
36
Jornal O Pharol de 17 de novembro de 1908, terceira coluna, CPH, AH. Contou, no
entanto, com forte oposição do deputado mineiro Pandiá Calógeras. Jornal O Pharol
de 20/11/1908, “O Empréstimo Paulista”, e de 27/11/1908, CPH, AH.

154
Após a realização do empréstimo, o Convênio, de fato, pôde ser realiza-
do integralmente, contando, a partir daí, com o apoio dos diferentes setores
envolvidos. A partir da efetivação da operação, os cafeicultores mineiros
voltaram a elogiar o Convênio e a própria cobrança da sobretaxa.37
No mesmo ano, o investimento começou a produzir resultados. O preço
do café finalmente começou a subir. As oposições por parte dos governos
francês e norte-americano vieram logo em seguida. Mas o monopólio do
produto e o interesse dos credores estrangeiros garantiram a continuidade
do programa.
Após a obtenção desse empréstimo, o controle sobre a operação saiu
definitivamente das mãos brasileiras e passou para uma comissão que con-
tava com apenas um representante paulista. O Brasil perdia o controle da
operação.
Topik afirma que, em 1913, o consórcio já estava desfeito e o emprés-
timo já estava pago. Esse ano marcou o fim do programa valorizador, cujas
consequências duraram até 1921. A Caixa de Conversão encerrou as suas
atividades em 1914 (Topik, 1989:88).

* * *

A partir da análise que fizemos anteriormente, algumas conclusões


podem ser aventadas. Embora São Paulo tenha sido o estado que mais in-
vestiu na viabilização do Convênio, Minas Gerais não participou da operação
valorizadora na condição de parceira desinteressada. Pelo que foi visto, a
política de valorização era uma reivindicação dos lavradores mineiros e
interessava diretamente às finanças públicas estaduais. Em prol de sua
viabilização, Minas Gerais somou esforços às iniciativas paulistas e o peso
de sua contribuição foi proporcional ao interesse de suas elites políticas em
preservar as finanças públicas, adequada ao grau de mobilização e pressão
de seus cafeicultores e coerente com seu poder político no contexto nacional.
Quanto à alegação de que o impacto da crise do café fora menor em
Minas em função da predominância de relações de produção pré-capitalistas,
acreditamos ter comprovado, anteriormente, que o déficit do estado de Mi-
nas em função da crise de preços foi avassalador. Quanto aos cafeicultores

37
Conforme atesta correspondência de Pena Junior a seu pai de 23 de novembro de
1908, (AAP, caixa 6, doc. 16.163, AN). O próprio Ribeiro Junqueira, conhecido
defensor da extinção do imposto, passou a defender a sua cobrança, o que vem a
comprovar que a ameaça de boicote era apenas um instrumento de pressão contra a
falta de execução global das prerrogativas do Convênio, Jornal O Pharol, 26/11/1908,
“A Sobretaxa em Minas”, CPH, AH.

155
mineiros, em nenhum momento, em suas condutas, transpareceram menos
arruinados que os paulistas ou menos empenhados na busca de soluções.
Topik (1989:77) afirma em seu trabalho que o impacto da crise do café foi
muito maior sobre as regiões antigas – quais sejam as de cafeicultura flu-
minense, e em menor proporção, a produção da zona da mata mineira – do
que sobre a produção paulista. Com o aumento da oferta, a preferência dos
compradores voltava-se para os cafés de qualidade superior, não produzido
pelas regiões mais antigas, o que as colocava em maior dificuldade. Assim,
ao contrário do que foi dito acima, os cafeicultores de Minas e do Rio teriam
maior interesse e necessidade quanto à valorização do produto.
Como vimos, o fato de Minas produzir cafés de tipos inferiores não
excluiu o estado do Convênio. Ao contrário, Minas condicionou sua par-
ticipação nele com a inclusão dos tipos produzidos pelo estado, o que foi
feito pelo governo federal quando da negociação dos empréstimos externos.
Embora São Paulo tivesse condições econômicas de viabilizar, por si
só, uma operação valorizadora, não o tinha em termos políticos. Afastado da
Coligação que elegera Afonso Pena, havia se recusado a compor o Ministério
do novo Presidente. Em função da crise de preços do café, tornou-se refém
da União, à medida que qualquer ação relativa ao produto, tanto cambial
quanto ao crédito externo, estava condicionada ao governo federal. Sem o en-
dosso da União, São Paulo não teria condições de levar à frente o programa.
Pode ser que esta tenha sido a razão determinante, responsável por levá-lo
ao acordo com os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Mas no tocante
a Minas Gerais, a entrada no Convênio não foi simbólica e nem se deu em
razão de uma aliança política com São Paulo. Como foi visto, esta aliança
política não existia até então. Assim, a entrada de Minas no Convênio se
deu em atendimento a seus próprios interesses, sem os quais, dificilmente,
a operação teria êxito, na medida em que, na condução do governo federal,
estava um Presidente da República e um Ministro da Fazenda mineiros, à
frente de uma aliança majoritária na Federação.
Kugelmas deixa claro que os objetivos de São Paulo, em relação à parti-
cipação da União no Convênio, não foram atingidos. A demora em dar o aval
ao empréstimo, bem como o percentual para as operações da Caixa estavam
aquém dos interesses paulistas. O autor afirma que a ostensiva participação
do governo paulista na viabilização do plano tinha como contrapartida a
ausência do governo federal no mesmo. Concordamos integralmente com
esta afirmação e acreditamos ter contribuído para sedimentá-la (KUGEL-
MAS, 1986:126-127).
A principal tese de Halloway, em seu importante estudo acerca do Con-
vênio de Taubaté, é a de que ele, na prática, não significou o cumprimento

156
das prerrogativas estabelecidas em fevereiro de 1906 pelos três estados. O
que de fato ocorreu foi um plano valorizador mais próximo ao apresentado
pelo Conde Siciliano em 1903, que implicava em uma participação residual
do Estado Nacional, ao lado de uma associação entre produtores de café e
consórcios estrangeiros. Concordamos igualmente com esta avaliação. Só
temos a acrescentar que a ausência do governo federal pode ser explicada
por três razões.
A primeira relaciona-se às vicissitudes de uma estratégia autonomista
em relação aos interesses corporativos, em razão da garantia da salubridade
das finanças públicas e do equilíbrio macroeconômico do país. Daí se explica
tanto a relutância de Rodrigues Alves em aprovar a Caixa de Conversão
quanto a resistência de Afonso Pena em endossar o empréstimo externo.
A segunda razão refere-se exclusivamente ao governo Pena. Como foi
visto, a operação valorizadora foi conduzida, no nível nacional, pelos líderes
paulistas, uma vez que os termos assentados em Taubaté estipulavam, como
responsabilidade paulista, a obtenção do empréstimo externo que viabili-
zaria o Convênio; vimos, igualmente, que São Paulo encontrava-se fora do
bloco de poder que sustentava a presidência de Afonso Pena; vimos, por fim,
que não havia uma correspondência imediata entre o grupo de estados que
compunha a Coligação e os interesses dos cafeicultores. Tendo que atender
à multiplicidade de interesses que em torno dele se articulavam, Afonso
Pena não poderia ter uma ação mais interventiva do que realmente teve.38
A terceira razão está relacionada ao controle do “grande capital ca-
feeiro” sobre a operação. Para Peressinotto, a formatação assumida pelo
Convênio implicou em ganhos consideráveis para este setor. A ele não
interessava o monopólio comercial do café pelo governo federal, pois se
tinha, como fonte de lucro principal, a comercialização do produto. Para
o autor, o Estado Nacional encontrava-se desaparelhado para que pudesse
intervir, com mais rigor, na medida em que a valorização era uma experi-
ência inovadora para o Brasil. Coube ao Estado o papel de mero tomador
de empréstimos e garantidor de juros, papel que, inclusive, resistiu em
assumir (Peressinotto, 1997:133-138).
Todos estes fatores, em conjunto, tiveram um peso sobre a definição
dos rumos tomados pelo Convênio, em suas variadas fases, o que reflete a
complexidade de interesses políticos e econômicos envolvidos na operação.

38
A pesquisa de Jerry Weiner (1980:176) confirma a nossa posição. Para o autor,
Pena soube delimitar bem os limites da influência paulista sobre a Federação, só
prestando apoio político e econômico a São Paulo, quando este apoio coincidia com
suas próprias prerrogativas.

157
A despeito do Convênio não ter sido realizado, conforme fora pensado
em fevereiro de 1906, o próprio Halloway afirma que, sob uma perspectiva
imediatista, o plano foi um sucesso. As sobretaxas foram pagas com sacri-
fício, exatamente em um período em que os cafeicultores viviam maiores
dificuldades. Mas rapidamente os produtores puderam ser recompensados,
principalmente com os lucros das altas dos anos entre 1910 e 1913.
Embora concordemos com o fato de que os maiores beneficiados com
a operação tenham sido os setores ligados ao comércio de exportação do
café, tanto nacionais como estrangeiros, seus ganhos não foram exclusivos.
Todos os que trabalhavam com o produto foram beneficiados com a elevação
de preços, inclusive os lavradores. Os estados pactuantes também o foram,
na medida em que tiveram considerável incremento em suas receitas. E o
Estado Nacional também, pois pôde manter a continuidade do padrão-ouro,
na medida em que o fluxo de capital para o país estava garantido, além de
não ter sofrido reduções orçamentárias, uma vez que os serviços de im-
portação também o estavam pelo incremento das atividades cafeicultoras.
Para Enders (1993), a grande vitória dos cafeicultores no evento Taubaté
foi o reconhecimento do café como um problema nacional. Este ganho não
fora imediatista como os anteriores, mas serviu de sustentação para outros
ganhos futuros (Enders, 1993:203).

158
Capítulo 4

A peça entra em cartaz

Se Minas quer manter sua influência na política


federal é preciso que seja unida para ser forte. Na
frase feliz do Dr. Lauro Muller para os mineiros,
neste caso, a união deixava de ser cálculo polí-
tico para tornar-se questão de simples instinto de
conservação. (Correspondência de Afonso Pena a
Bias Fortes em 14 de abril de 1909. AAP, caixa 5,
doc. 12.146. A.N.)

A sucessão de Afonso Pena é vista, pela quase unanimidade dos


historiadores, como um evento excepcional, na medida em que teria
marcado uma primeira ruptura na aliança café com leite. As razões
que levaram ao fracasso da candidatura Campista, a qual poderia uni-
ficar os interesses de Minas e São Paulo, permaneceram nebulosas,
não obstante as contribuições oferecidas por importantes trabalhos.
Em geral, a rejeição ao nome do Ministro da Fazenda de Afonso Pena
esteve associada a características de cunho psicológico de Campista,
tratado por seus biógrafos como uma personalidade não muito afeita às
práticas coronelísticas vigentes, o que teria gerado as oposições a ele
por parte dos principais chefes políticos mineiros. Outra razão apontada
relacionava-se à oposição entre o moderno, representado por Campista,
e o arcaico, simbolizado pelos velhos coronéis mineiros, prevalecendo
os interesses dos segundos sobre os do primeiro.
Embora as razões alegadas sejam pertinentes, por si só, são insuficien-
tes. Qualquer candidatura que reunisse o apoio dos dois maiores estados
da Federação teria êxito. Entender as razões que impossibilitaram a inau-
guração de uma aliança vitoriosa entre Minas Gerais e São Paulo é o que
ora nos propomos a fazer.
Sustentamos a sub-hipótese de que a falência do acordo entre os dois
estados em torno do nome de David Campista se deu em função da asso-
ciação de dois acontecimentos. O primeiro esteve relacionado às divisões
internas mineiras. O nome indicado não unificava as facções de Minas

159
Gerais. Corroborando esta hipótese, Afonso Arinos destacou que o governo
de Afonso Pena contava em Minas com uma base política instável. Tendo
sido a política federal, na visão do autor, condicionada pelos movimentos da
política estadual, muitas das crises vivenciadas pela gestão de Afonso Pena
podem ter suas explicações relacionadas às instabilidades em seu estado
de origem (Franco, 1955:561).
O segundo acontecimento relacionou-se à força política dos demais
estados que compunham a Coligação. A sua ação no sentido de evitar
o controle do Catete sobre o processo sucessório foi fundamental para o
resultado final do processo. Contrariamente a candidatura de Campista se
colocaram os estados da Bahia, do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul,
além do Exército. Cabe aqui destacar o desempenho político dos gaúchos,
que souberam usufruir das dissidências internas mineiras em proveito pró-
prio. Terminado o processo sucessório, viu-se surgir uma Coligação mais
fortalecida, através da recomposição de suas forças.
Um elemento explicativo, a ser realçado acerca deste evento, relaciona-
se às regras tacitamente aceitas pelos atores políticos da Primeira República.
A partir da estabilização dos processos sucessórios, cujo marco inicial foi
o governo de Rodrigues Alves, em todas as vezes que um estado tentou
continuar no poder sofreu ferrenhas oposições por parte dos demais. Neste
caso específico, as ações dos grandes e médios estados, somadas à do
Exército, refletiram-se na tentativa de impedir que a hegemonia mineira
fosse prorrogada. Na recomposição das alianças no interior do Bloco (ou
Coligação), Minas Gerais passou de uma posição hegemônica para uma
posição de parceira menos privilegiada.
No que tange à participação de São Paulo, defendemos a sub-hipótese
de que o estado tentou uma aliança com Minas Gerais para ampliar a
sua participação no poder, consideravelmente restringida após o término
da gestão de Rodrigues Alves. O móvel desta intenção era a necessidade
de ter garantido o cumprimento das prerrogativas ligadas ao Convênio
de Taubaté. Com a divisão do situacionismo mineiro em dois grupos, um
ligado à candidatura de Campista e outro de oposição, São Paulo optou
pelo primeiro e foi derrotado. A dependência de São Paulo em relação ao
endosso federal ao empréstimo de 15 milhões de libras e à continuidade
da Caixa de Conversão tornaram-no refém da candidatura indicada por
Afonso Pena. Diante da falência da candidatura Campista, restou a São
Paulo apostar em um nome de oposição, o que o fez de forma reticente,
conforme veremos.

160
4.1 Bases políticas do Governo Afonso Pena

4.1.1 Isolamento paulista e hegemonia mineira

A montagem do Ministério de Afonso Pena já apontava para a direção


pretendida pelo novo Presidente. Eleito sob os auspícios da Coligação, de-
sejava afastar-se de seu controle e governar à revelia do grupo responsável
por sua eleição. Mas o novo governo teria sérios obstáculos para realizar
seu intento. Faltava-lhe uma base política interna consistente. Como foi visto,
Minas Gerais havia aderido tardiamente à candidatura de Pena e a respon-
sabilidade por sua eleição coubera mais aos membros da Coligação do que
ao situacionismo mineiro. Diante da anunciada fragilidade do novo governo,
a expectativa dos coligados era controlar o conjunto das ações federais.
O primeiro indicativo de que as relações entre o Bloco e o governo
de Afonso Pena seriam conflituosas ocorreu por ocasião da posse de João
Pinheiro, no governo de Minas Gerais. Nos discursos proferidos na ocasião,
Pinheiro Machado discursou em prol da formação de um partido político
de sustentação do novo governo presidencial. Em resposta, Afonso Pena
contestou o líder gaúcho, alegando a necessidade de colocar-se acima das
divergências partidárias. Esta discordância doutrinária era a primeira ma-
nifestação de que Afonso Pena desejava fazer um governo autônomo em
relação ao grupo responsável por sua indicação. No dia seguinte, os jornais
reproduziram o acontecimento, atribuindo a Afonso Pena a frase: “Quem
faz política sou eu”.1
O segundo indicativo de aspiração por autonomia concretizou-se na
montagem do Ministério. Apesar de ter contemplado os estados coligados
com pastas importantes, os nomes foram escolhidos pelo novo Presidente
à revelia dos chefes políticos da Coligação.
Afonso Pena manteve o Ministério das Relações Exteriores nas mãos
de Rio Branco. Tal pasta sempre fora considerada de pouca importância
política. A presença do Barão não correspondia aos anseios políticos da
Bahia. Para as pastas militares foram escolhidos membros que exerciam
liderança expressiva em suas corporações, como foram os casos de Hermes

1
A este respeito ver Carvalho (1957:74-76). A aludida frase, de fato, nunca foi pro-
nunciada. A imprensa a teria divulgado como forma de expressar as intenções auto-
nomistas do novo governo em relação à tutela de Pinheiro Machado, conforme afirma
Ribeiro (1950:72).

161
da Fonseca, elemento muito bem aceito entre seus pares, e de Alexandrino
Alencar, entre os membros da Marinha. Embora a indicação de Hermes
pudesse refletir uma contemplação do Rio Grande do Sul no novo governo,
sua escolha não resultou de sugestão de Pinheiro Machado ou de Borges
de Medeiros.
Para a Pasta da Fazenda foi designado David Campista, um jovem
deputado nascido no Rio de Janeiro e criado na zona da mata mineira
que, desde o início de sua carreira, manteve laços de amizade e lealdade
pessoais com Afonso Pena. A sua escolha para a mais importante pasta
ministerial, naquela conjuntura, não surpreendia nenhum dos atores dire-
tamente envolvidos no processo.
A ocupação das duas outras pastas mais importantes, de fato, surpre-
endeu os membros do Bloco. Para o Interior e Justiça foi escolhido o jovem
nordestino Tavares de Lyra, então governador do Rio Grande do Norte. E
para a Pasta da Viação e Obras Públicas, o jovem baiano Miguel Calmon. O
primeiro provinha de um pequeno estado, que muito pouco contribuíra para
a eleição de Afonso Pena, e de peso político pouco expressivo na Federação.
E o segundo não representava o interesse do principal chefe político baiano
da Coligação, Rui Barbosa. Como se pode observar, São Paulo fora excluído
das pastas ministeriais e dos mais importantes cargos do novo governo.2
Outros cargos importantes foram ocupados, em sua maioria, por mi-
neiros. A Presidência do Banco do Brasil ficou a cargo de João Ribeiro,
acionista e diretor de banco em Juiz de Fora. Edmundo Veiga, genro de
Afonso Pena, foi designado chefe da Casa Civil. Daniel Aarão Reis foi es-
colhido o diretor da E. F. Central do Brasil.
No Congresso, o novo governo tratou de ampliar o seu poder. Carlos
Peixoto Filho, político da região da zona da mata mineira e aliado político
do então governador João Pinheiro, foi escolhido como Presidente da Câ-
mara. Peixoto já havia sido designado, na gestão anterior, para o cargo de
líder do governo, com o fim de inibir o controle de Pinheiro Machado sobre
o Congresso. A sua indicação, por Afonso Pena, atendia a dois objetivos:
frear a ascensão de Pinheiro e reconstruir as bases do governo federal
em seu estado de origem, aliando-se ao governador de Minas. Ao projetar
Carlos Peixoto no cenário nacional, como um pilar de sustentação de seu
governo, Pena demonstrava ao Bloco que seu leque de parceiros políticos

2
Afirma-se que alguns setores baianos, liderados por José Marcelino e Afrânio Peixoto,
em muito influíram para que Calmon fosse o indicado. Conforme correspondência de
Pinheiro Machado a Rui Barbosa em 9 de julho de 1907, ARB, doc. 848/3, CRB e
Ribeiro (1950:101).

162
em Minas Gerais se ampliava. Agravando-se a situação, o líder da maioria,
James Darcy, foi alçado do Rio Grande do Sul, sem que Pinheiro Machado
fosse consultado (Carone, 1988:243 e 244).3
Afonso Pena integrou importantes comissões do Parlamento com aliados
seus.4 Anos mais tarde, o jornal O País, ao elogiar a gestão de João Ribeiro à
frente do Banco do Brasil, ironizava a presença mineira no governo federal:

Confessemos que essa prevenção não deixava de ser justificada, pois o


atual governo mineirizou de tal modo a administração pública, a invasão
de conterrâneos do Sr. Afonso Pena em todos os lugares foi de tal ordem,
que toda a gente começou a preocupar-se com o êxodo da população
do Estado de Minas Gerais, que ficou quase deserto... (Jornal O País
de 2 de abril de 1909, AAP, caixa 25, doc. 51.6, AN)

Em relação às posturas autonomistas de Afonso Pena, surgiram varia-


das explicações. Para José Maria Bello, Afonso Pena fazia pouco caso do
prestígio eleitoral. Desejava realizar um governo de caráter mais técnico
e menos político, reunindo, em torno de si, jovens talentos cansados do
domínio tradicional exercido por Pinheiro Machado. Afonso Arinos tratou
as escolhas como sinal de que o governo Pena seria pouco tradicional, mar-
cado pela aliança entre o velho e o novo. O novo consistia em uma geração
que não participara do republicanismo histórico e que, pela primeira vez,
encontrava espaço aberto de atuação.5
Acreditamos que, antes de qualquer aspiração precoce em dar à buro-
cracia um caráter menos “bacharelesco” e mais “tecnocrático”, Afonso Pena
desejava garantir autonomia em relação à pretendida tutela da Coligação
sobre seu governo.6 Como prescindia de expressiva sustentação política em

3
Lacombe (1986:373) afirma que Afonso Pena pretendia fazer de Carlos Peixoto o
seu Ministro da Justiça. Porém, Peixoto preferira a Presidência da Câmara. Segundo
um dos biógrafos de Carlos Peixoto, Antônio Carvalho (1936:89), o jornalista Alcindo
Guanabara, íntimo aliado de Pinheiro Machado, queria fazer de Peixoto o Ministro
da Fazenda, ao que Peixoto também recusou, sabendo que a vaga era de Campista e,
provavelmente, o intuito do jornalista era interferir, em nome de Pinheiro Machado,
na composição do Ministério.
4
Neste campo cabe citar: João Luís Alves ocupou a comissão de justiça. Melo Franco
ocupou a comissão de diplomacia. João Penido integrou a comissão de saúde pública.
Francisco Veiga integrou a comissão de finanças. Viana de Castelo ocupou a comissão
de contas e Carneiro de Rezende ocupou a comissão de viação.
5
Ver Bello (1972:200) e Franco (1955:480 e 481).
6
A respeito da formação da “tecnocracia” ver Martins (1985, capítulo 1).

163
seu estado, buscou preencher os espaços políticos com membros de sua
confiança, originários, em sua maioria, da zona da mata mineira, região
da qual obteve maior apoio político para sua eleição.7
Pena temia que a Coligação fosse uma reedição do PRF. Na gestão
de Prudente de Moraes, a liderança de Glicério, associada aos demais
florianistas, havia dificultado o exercício autônomo do poder pelo Execu-
tivo Federal. Gestados no regime monárquico, os oligarcas brasileiros, da
primeira geração republicana, não abriam mão da hipertrofia do Executivo,
construída sobre o esvaziamento do Congresso. A hipótese do deslocamento
do locus da soberania do Executivo Federal para o Parlamento constituía-se
em ameaça à estabilidade do regime republicano, na ótica de seus principais
atores políticos.8
Não obstante a postura moderada do Rio Grande do Sul, diante dos
critérios de escolha dos nomes, as relações entre o Bloco e o Executivo
Federal não deixaram de sofrer avarias. Os nomes dos ministros escolhidos
foram divulgados pela imprensa, antes de os mesmos terem seus convites
oficializados. Os grandes chefes da Coligação haviam tomado conhecimento
dos nomes também pelos jornais. O fato de Carlos Peixoto ter sido porta-
dor dos convites oficiais aos futuros ministros deu a impressão de que o
novo Presidente da Câmara havia interferido sobre as escolhas realizadas
(Ribeiro, 1950:101).
A reação baiana foi imediata. A pretensão de Rui Barbosa era indicar,
para alguma pasta ministerial, o seu conterrâneo Augusto de Freitas, que,
indignado com sua exclusão, apelidou o novo grupo de auxiliares de Afonso
Pena de “Jardim da Infância”.

O chefe do Partido Republicano, de quem neste momento nos despedi-


mos saudosos, é um prisioneiro, eu o disse, prisioneiro de políticos de
nova raça aparecidos como de improviso na representação dos poderes
públicos, convertendo este país em verdadeiro “Jardim da Infância”.
Sim, senhores, as esporas de cavalheiro, as dragonas de general, os
postos de comando já não são adquiridos nos combates da vida pública;
eles vão sendo distribuídos pelo Chefe da Nação como uma homenagem
de apreço pessoal, como uma dádiva de anos. (Fleischer, 1978:32, apud)

7
Afonso Pena chegou a alçar ao poder elementos afastados há muito da política mi-
neira, exatamente por terem assumido posições radicais na primeira década do novo
regime, a exemplo de Fernando Lobo, Antônio Olinto dos Santos Pires, Estevão Lobo,
João Ribeiro e Alexandre Stockler.
8
A imprensa já fazia menção a esta relação entre o Bloco e o PRF. Ver Jornal Correio
da Tarde de 14 de Novembro de 1906, número 153, página 1, Editorial. AH.

164
O que fica patente na citação acima é uma crítica aos jovens membros
do novo governo, que se repetiria ao longo dos anos. A ascensão rápida e
o acúmulo de poder nas mãos de uma geração de políticos sem vínculos
diretos com o movimento republicano não era bem recebida pelos oligar-
cas do período. As formas de acesso e o poder a eles conferido rompiam
parcialmente com os critérios de recrutamento político em vigor.
Rui Barbosa protestou junto a Afonso Pena contra o fato de não ter
sido consultado e recusou a indicação de Miguel Calmon, sob a alegação de
que ele fora o único baiano a rejeitar o Convênio de Taubaté. Por meio da
imprensa, empreendeu críticas à baixa cambial pretendida pelo Convênio,
dando mostras de que cairia na oposição ao governo recém-inaugurado.
Como se afirmou, anteriormente, o apoio ao Convênio tornou-se importante
moeda de troca nas articulações políticas do período. Após inúmeras ações
pacificadoras, engendradas por Carlos Peixoto, Pinheiro Machado e Afonso
Pena, Rui Barbosa reuniu a bancada baiana e defendeu, ele próprio, a
indicação de Miguel Calmon para o cargo.9
Diante deste fato, duas inferências se destacam. A primeira foi a falta
de habilidade política de Afonso Pena, que, pretendendo atuar de forma
independente, ameaçou a estabilidade do governo recém-empossado. A
segunda foi a reação de Pinheiro Machado. Mesmo não tendo sido consul-
tado a respeito de nenhum cargo do novo governo, garantiu a sustentação
política do Executivo Federal, evitando que a Bahia saísse da Coligação. Ele
sabia que a única forma de manter o seu poder junto ao novo governo seria
apoiá-lo e não cair na oposição. E que a retirada de importante liderança
da Coligação poderia pôr em risco o seu intento.
As realizações do governo Pena refletiram a juventude de seus ministros
e o seu caráter relativamente mais técnico que os demais. No campo econô-
mico, foram implementadas medidas fiscais em benefício do desenvolvimento
industrial. Buscou-se apoiar a produção para o mercado interno, visando
a diminuir as necessidades de importação. Para este fim, planejou-se a
criação de um novo Ministério, o da Agricultura, o qual só foi posto em
funcionamento na gestão complementar de Nilo Peçanha.10

9
Conforme correspondências trocadas entre 6 de junho e 4 de novembro de 1906, a
saber: ARB, doc. 575-1,1127.1/1, 47/3 (9), FCR; AJP, caixa 15, doc. 2088, APM;
AAP, caixa 10, doc. 22.89, caixa 11, docs. 23.91, 23.92 e 23.93; caixa 14, doc.
26.7; caixa 15, doc. 28.4, AN.
10
Acerca do Ministério da Agricultura, Sônia Mendonça (1997:115,116, 121,124 e
125) prestou importante contribuição historiográfica. A autora afirma que a sua cria-
ção consistiu na resposta concedida pelas classes dominantes, ligadas à cafeicultura,

165
4.1.2 O “Jardim da Infância” e o Bloco: as primeiras divergências políticas

Como vimos, o grupo que servia de sustentáculo ao governo Afonso


Pena, no Executivo e Legislativo Federais, ficou nacionalmente conhecido
como “Jardim da Infância”. Este grupo, que, segundo Afonso Arinos, ainda
é pouco conhecido pela historiografia, teve seu apogeu durante os anos de
1907 e 1908 (Franco, 1955:482).
Era composto, em sua maioria, por mineiros, mas acoplava, em seu
interior, cariocas, nordestinos e gaúchos. Segundo relato de um de seus
membros, o agrupamento teve origem nas conversações entre deputados
e jornalistas mais íntimos de Carlos Peixoto e João Pinheiro. Consta que o
Ministro da Marinha participava das discussões do grupo.11
Segundo avaliação de Leonídio Ribeiro:

O Jardim da Infância não era um partido político mas um agrupamento


de políticos e intelectuais jovens que se aglutinava em torno de João
Pinheiro, após sua vinda ao Rio em 1904. Este grupo se preocupava em
introduzir valores novos na política republicana, a despeito da orienta-
ção dos velhos chefes: inteligência, cultura, patriotismo e honestidade.
(Fleischer, 1978:32, apud)

A exemplo da citação acima, o que predomina na historiografia é uma


análise bastante simpática aos membros do Jardim da Infância. Tal visão,
provavelmente, resultou da observação dos próprios testemunhos de época.
O jornalista Sertório de Castro, exemplo de um destes testemunhos, frisou
que o brilho dos membros da agremiação se devia à ausência de uma elite
política refinada no Brasil. Outro jornalista contemporâneo, Joaquim de
Salles, embora fosse politicamente um adversário do grupo, reconhecia a

a uma de suas frações, formada pelos setores ligados à diversificação agrícola. Sua
criação implicou não só na redistribuição de recursos fiscais da União para outros
setores, como também na ampliação do tamanho do Estado, delegando parte dele a
setores fora do eixo dominante de poder.
11
As reuniões iniciais do grupo se davam no quarto onde residia Carlos Peixoto, no
Grande Hotel da Lapa. Os membros citados como parte do “Jardim da Infância” eram:
João Pinheiro, Carlos Peixoto, Gastão da Cunha, David Campista, João Luís Alves,
Estevão Lobo, Melo Franco, Pandiá Calógeras, James Darcy, Miguel Calmon, Celso
Baima, Primitivo Moacir, Leovigildo Figueiredo, Tavares de Lyra e Elói de Souza.
Tinham a simpatia dos intelectuais: Afrânio Peixoto, Manuel Bonfim e Euclides da
Cunha. Os jornalistas Paulo Barreto e Mário Cattaruzza conferiam também apoio
ao grupo. Conforme relato de Eloy de Souza para Leonídio Ribeiro (1950:99-100).

166
existência de importantes valores políticos defendidos por ele, tais como: a
honestidade das eleições, o refinamento político e a intelectualidade. Um
destacado jornalista ligado ao Jornal Correio da Manhã, Mário Cattaruzza,
conferia seu importante apoio político ao grupo e abria espaço na imprensa
aos membros do “Jardim da Infância”, por meio de reportagens elogiosas.12
Os trabalhos biográficos que lhes foram posteriores reforçaram este
perfil de admiração. Afirma-se que, antes do surgimento deste grupo, Minas
Gerais não tinha líderes políticos de prestígio no Parlamento. Seus chefes
mais importantes preferiam permanecer em suas fazendas, coordenando à
distância a ação de seus representantes na capital federal. Garantiam, desta
forma, a eleição de políticos mais bem formados, para que representassem
seus interesses na capital federal. Segundo esta ótica, o “Jardim da Infân-
cia” teria sido resultado da necessidade de preenchimento desta lacuna. Na
medida em que assumiram posturas contestatórias, que extrapolaram os
limites impostos pelos coronéis, suas carreiras políticas foram dificultadas
ou interrompidas (Carvalho, 1968:83).
Embora se atribua aos membros do “Jardim” o título de intelectuais,
apenas dois deles deixaram obras significativas. Foram eles Pandiá Caló-
geras e João Luís Alves. Provavelmente os demais eram assim chamados
por se utilizarem com maestria das tribunas do Congresso e por terem sido
propagadores de mudanças políticas que só mais tarde ocorreriam.
Apesar de não terem se constituído em um partido político, agiam
politicamente segundo normas previamente acordadas. Consta que se reu-
niam periodicamente e dividiam tarefas com vistas à formulação de um
programa mínimo de governo para o Brasil. Apesar de seu razoável nível
de organicidade, não tiveram a oportunidade de colocar tal programa em
prática (Ribeiro, 1950:104).
Muito embora ainda não se tenha um trabalho mais amplo acerca
deste grupo, pela pesquisa que empreendemos, algumas conclusões podem
ser aventadas. A despeito de ter sido tratado como moderno e renovador,
não se pode deixar de perceber que seus vínculos com as elites agrárias
dominantes no período eram muito grandes. Apesar de criticarem os meca-
nismos eleitorais em vigor, todos eles haviam sido eleitos por esses mesmos
mecanismos. Apesar de pretenderem uma renovação dos quadros políticos,
haviam sido projetados ao poder pelos antigos coronéis, em suas antigas
máquinas partidárias. A sua continuidade política estava na dependência da
manutenção da lealdade política em relação a estes chefes. Tal dependência
limitava seus anseios por autonomia.

12
Ver Castro (1982:150) e Salles (1960).

167
Não obstante o fato de terem tido uma ação política conjunta e de com-
partilharem alguns valores comuns, os membros do “Jardim da Infância”
não formavam um grupo político compacto e interligado por laços de lealdade
pessoal. A nosso ver, havia pelo menos três subgrupos dentro do “Jardim
da Infância”. Um primeiro formado pelos aliados políticos de João Pinheiro,
então governador de Minas Gerais; um segundo aliado diretamente a Afon-
so Pena; e um terceiro formado por membros que simpatizavam política e
intelectualmente com o grupo, mantendo relativa margem de autonomia. A
despeito de suas diferenças internas, os três subgrupos atuaram em conjunto
na sustentação política do Executivo Federal até a morte de João Pinheiro,
quando então se dividiram.
Em sua ação política, muito pouco inovaram. Entre os mineiros, os que
se rebelaram foram excluídos ou lançados no ostracismo. Os que se con-
formaram permaneceram no poder e marcaram a continuidade do modelo
político contra o qual se colocavam. Entre os primeiros podem ser citados:
Carlos Peixoto, David Campista, James Darcy e Gastão da Cunha. Entre
os segundos: João Luís Alves, Pandiá Calógeras e Mello Franco. Dois deles
morreram antes da morte do próprio “Jardim da Infância”: João Pinheiro
e Estevão Lobo.13
O grupo teve vida efêmera, em função de suas próprias contradições
internas. Em vão, tentaram se colocar em oposição aos grandes chefes
políticos. Para os biógrafos, porém, a explicação do declínio do grupo era
outra: “Minas Gerais tem sido madrasta para com os homens de talento”
(Carvalho, 1968:109).
Diferentemente do “Jardim da Infância”, os demais membros que com-
punham a Coligação não formavam um grupo ideologicamente vinculado
entre si. Associaram-se em função de um evento pragmático, a eleição de
Afonso Pena, e mantiveram-se unidos em seu governo. Era composto por
chefes políticos de destaque nos estados que compunham o Bloco. Seu maior
líder era Pinheiro Machado. A partir da presença de Hermes da Fonseca
no grupo, a agremiação tendia a aproximar-se do Exército.
A ideia de Pinheiro Machado era transformar o agrupamento em um
partido político. Rui Barbosa não tinha esta intenção. Acreditava ser ele
uma associação temporária de interesses, a qual seria extinta após o cum-
primento de seus objetivos (Carvalho, 1957:74).

13
Quanto a Calógeras, ele havia sido alçado à política pelas mãos de Francisco Sales.
Atuou politicamente ao lado dos antigos silvianistas. Foi excluído por Artur Bernar-
des da política, por ocasião da Reação Republicana, evento que oportunamente será
tratado.

168
Seu principal órgão na imprensa era o jornal Correio da Manhã. Mas
possuía uma rede de apoio em outros jornais por meio do Jornal do Comércio,
A Imprensa e A Tribuna.14
Os mineiros também integravam o Bloco. O elo que os ligava era o fato
de terem apoiado, tardiamente, a candidatura de Afonso Pena à Presidência
da República, conforme foi visto no segundo capítulo.15
Mediante o exposto, uma primeira conclusão pode ser aventada. Minas
Gerais entrou como um estado desunido na sustentação política do governo
Afonso Pena. De um lado, estava o grupo que integrava o “Jardim da In-
fância”. Era formado pelos setores que apoiaram prontamente a indicação
de Pena para o cargo, acrescidos de líderes emergentes da política mineira,
sob a coordenação do governador João Pinheiro. De outro lado, estavam os
antigos chefes políticos do estado, reticentes à candidatura de Afonso Pena,
mas que o apoiaram em função da aliança estabelecida com os demais
estados coligados. Com o objetivo de contrabalançar a projeção política do
jovem grupo de apoio de Afonso Pena, eles se associaram ao Bloco, em
oposição aos mineiros do “Jardim da Infância”. Entender estas diferenças
iniciais é condição indispensável para a análise das divisões criadas em
torno da indicação de David Campista à sucessão de Afonso Pena.
Por diversas ocasiões os interesses do Bloco se chocaram com os do
Jardim da Infância. Dois momentos foram mais significativos. O primeiro
esteve ligado à proposta de intervenção federal no Rio de Janeiro. E o se-
gundo, de maior gravidade, à renovação da Presidência da Câmara.

a) Tentativa de intervenção federal no Rio de Janeiro

O mandato de Alfredo Backer, à frente do governo estadual fluminen-


se, havia sido estendido até o final de 1910, através de um acordo político
envolvendo os três poderes do Rio de Janeiro. Backer havia assumido a
Presidência do Estado com a ida de Nilo Peçanha para a vice-presidência
e sob seu aval. Porém, Alfredo Backer associou-se politicamente a João
Pinheiro e, por extensão, aos membros do “Jardim da Infância”. Como foi
visto no capítulo anterior, a coincidência de interesses entre Minas Gerais
e Rio de Janeiro, por ocasião do Convênio de Taubaté, aproximou os dois
governantes entre si e deles o governo federal.16

14
O Correio da Manhã se tornaria civilista, mais tarde.
15
Entre eles destacavam-se: Wenceslau Brás, Sabino Barroso, Bernardo Monteiro,
Astolfo Dutra, Carneiro de Rezende, Leopoldo Bressane e Francisco Sales.
16
A este respeito, Marieta Ferreira (1989:155-162) afirma que Backer foi escolhido

169
Uma outra razão responsável pela aproximação política entre o “Jardim
da Infância” e Alfredo Backer foi o interesse dos membros do “Jardim” em
fragilizar a liderança de Nilo Peçanha, que se arvorava em candidatura à
Presidência da República, em provável oposição ao nome de João Pinheiro,
preferido pelo grupo (Ferreira, 1989: 162 e 163).17
A aproximação entre Alfredo Backer e o “Jardim da Infância” fez com
que Nilo Peçanha cancelasse o acordo e decretasse o fim do mandato de
Backer. A Assembleia Estadual Fluminense, atendendo à solicitação de Nilo,
solicitou a intervenção federal para garantir a realização de novas eleições.
Devido à ativa interferência contrária à intervenção, por parte dos membros
do “Jardim da Infância”, esta não foi aprovada.
Embora a imprensa do período tenha avaliado o evento como o primeiro
sinal de derrota do Bloco, seus membros não se sentiram desprestigiados
por Afonso Pena, conforme atestam correspondências do período. Não tendo
atuado diretamente em prol de Nilo Peçanha, não se sentiram derrotados e
nem mesmo desprestigiados pelo Executivo Federal.18 De certa forma esta
avaliação era correta. A posição do Executivo era de aparente neutralidade,
procurando prestigiar os dois pilares de sustentação de seu governo.19
Porém, na disputa pelo controle do Catete, os membros do Bloco per-
diam terreno. Campos Sales havia sido derrotado em suas pretensões su-
cessórias em São Paulo, apesar do apoio discreto de Pinheiro Machado ao
seu nome, tendo vencido o candidato apoiado pelos membros do “Jardim da

Presidente do Rio de Janeiro, com o apoio de Nilo Peçanha, contra a facção opositora
de Oliveira Botelho. Mas Backer procurou agir de forma autônoma em relação a Nilo
Peçanha. A forma encontrada foi aproximar-se do “Jardim da Infância”, já que Peçanha
mantinha-se próximo ao Bloco. Afirma também a autora que o estopim da crise entre os
dois líderes foi a disputa pela cobrança da sobretaxa. Os nilistas teriam se aproximado
dos cafeicultores, no período em que criticavam a cobrança da sobretaxa, (analisado no
capítulo anterior), utilizando-os como instrumento de oposição ao governo de Backer.
17
Afonso Arinos também destacou o interesse de Nilo em ser candidato (Franco,
1955:573).
18
Sobre a derrota do Bloco, veiculada através da imprensa ver: Jornal Correio da
Tarde de 9 de outubro de 1907, número 433, página 1, “Era Uma Vez um Bloco...”,
AH. Acerca do pensamento do Bloco em relação a Afonso Pena ver carta de Pinheiro
Machado a Rui Barbosa de 9 de julho de 1907 (ARB, CR 848/3, FCR) e cartas de
Antônio Azeredo a Rui Barbosa de 13 de outubro e 19 de novembro de 1907 (ARB,
CR 114.3/1-2, FCR). Ver também carta de Feliciano Pena a Afonso Pena em 4 de
março de 1908 (AAP, caixa 12, doc. 24.43, AN).
19
Em apoio a nossa afirmativa encontramos avaliação semelhante por parte de Barbosa
(1960:197).

170
Infância”. O mesmo ocorreu na Bahia, com a vitória de Joaquim Seabra.20
A resposta do Bloco às citadas derrotas se deu através de manobra
política que resultou na renúncia de James Darcy à liderança do governo
no Congresso. Sendo ao mesmo tempo gaúcho e membro do “Jardim da
Infância”, Darcy foi pressionado por Pinheiro Machado a optar entre os dois
grupos. Não tendo como posicionar-se, renunciou, afastando-se definitiva-
mente da política. “Despencou o primeiro galho. Agora vai a árvore”. Assim
se referiu Pinheiro Machado à renúncia de seu conterrâneo, na ocasião de
sua viagem a Porto Alegre.21
O fato deixava à mostra uma fragilidade da maior parte dos integrantes
do “Jardim da Infância”. A despeito dos arroubos de autonomia, conti-
nuavam dependentes eleitoralmente das máquinas partidárias estaduais,
controladas pelos chefes aos quais se opunham.22

b) Renovação da Presidência da Câmara

Outro evento símbolo do açodamento das disputas entre o Bloco e o


“Jardim da Infância” foi a renovação da Presidência da Câmara, que come-
çou a ser discutida nos meses iniciais de 1908. A importância da escolha
residia no controle que o próximo Presidente teria sobre o reconhecimento
dos deputados eleitos na conjuntura da sucessão presidencial. O Presidente
da Câmara era o presidente de sua comissão de reconhecimento. Conforme
afirmamos no primeiro capítulo, nas ocasiões em que as sucessões pre-
sidenciais coincidiam com a renovação do Parlamento, as instabilidades
políticas se ampliavam, aumentando a margem de autonomia do Congresso
sobre o regime.
Mais do que referendar a decisão das urnas, o poder do Presidente

20
Consta que a estratégia “anti-seabrista” tinha por fim viabilizar uma futura
candidatura presidencial de Rui Barbosa. Ver carta de Júlio Brandão a João Pinheiro
de 31 de outubro de 1906, AJP, caixa 15, doc. 2127, APM, carta de Antônio
Azeredo a Rui Barbosa de 6 de novembro de 1907, ARB, FCR 114.1-2, FCR e
Franco (1955:562-563).
21
Ver Franco (1955:563-571), Ribeiro (1950:98).
22
Em lugar de Darcy, Cassiano Nascimento foi indicado como líder do governo.
Lacombe (1986:394) afirma que esta indicação refletiu a vitória do Bloco, pois, além
de o novo líder ser gaúcho, era pinheirista fervoroso, desde os tempos do florianismo.
Vieira (1980:68 e 96) afirma que a escolha partiu de Afonso Pena para conciliar
o Rio Grande, abrandando-lhe a oposição. Mais tarde, o novo líder teve que ser
transferido para o Senado, uma vez que nutria muita simpatia pelo Catete e afastava-
se do pinheirismo.

171
da Câmara extrapolava à mera questão regimental. Ele possuía o poder
simbólico da nomeação. Em suas mãos estava a dependência de inúmeros
postulantes. Principalmente após as mudanças eleitorais, derivadas da
aplicação da Lei Rosa e Silva, que resultaram na possibilidade de elegerem-
se deputados de oposição. A conjuntura sucessória tornava o cargo mais
cobiçado. Através do poder da nomeação, o Presidente da Câmara poderia
barganhar apoios políticos ao nome indicado pelo Catete a sua sucessão.
O “Jardim da Infância” rapidamente arvorou-se em defender a renovação
do mandato de Carlos Peixoto, com o fim de garantir a candidatura presiden-
cial de João Pinheiro à sucessão de Afonso Pena. Porém, tal candidatura não
contava com o apoio do PRM e muito menos dos políticos do Bloco.
As reações de Afonso Pena refletiram as dificuldades em que politi-
camente se encontrava. Tendo sua sustentação garantida por dois grupos
divergentes entre si, procurava manter-se neutro para promover a conciliação
entre ambos. Esta postura se contrapõe à ideia de que o candidato prefe-
rencial de Afonso Pena fosse João Pinheiro. Tal visão foi divulgada pela
produção historiográfica brasileira da década de 50. Segundo esta visão, a
morte de João Pinheiro inviabilizou a única possibilidade de acordo interno
entre as elites mineiras.23
Tendemos a discordar desta afirmativa. Não há comprovação empí-
rica de que Afonso Pena, de fato, desejasse fazer de João Pinheiro o seu
sucessor. A imprensa do período deixou claro que esta indicação partia
de Carlos Peixoto e de seu grupo. Nos arquivos pessoais pesquisados, não
encontramos nenhuma referência a esta intenção relativamente a Afonso
Pena. Compartilhamos da hipótese, já existente, de que Pena desejava,
desde o início, ter o controle absoluto sobre a sua própria sucessão. E de
que o nome pretendido era o de David Campista, mesmo antes da morte
de João Pinheiro.24
Esta postura justifica a posição de neutralidade pretendida pelo Pre-
sidente da República. Caso fragilizasse o Bloco, a candidatura de João
Pinheiro seria vitoriosa. Caso fragilizasse o “Jardim da Infância”, o Bloco
seria soberano na escolha de seu sucessor. Manter os dois grupos em disputa
facilitava a aceitação de um tertius.
A documentação indica que a solução do problema da Presidência da

23
Ver Franco (1955:571-594), Ribeiro (1950:98 e 102), Barbosa (1960:195).
24
Concorda com esta hipótese um dos biógrafos de Afonso Pena Jerry T. Weiner
(1980:204). Weiner afirma que Afonso Pena incumbiria João Pinheiro, em futuro bem
próximo, de encaminhar o nome de Campista. A sua morte o teria obrigado a ter uma
participação mais ativa no processo, o que foi prejudicial à candidatura pretendida.

172
Câmara partiu de um acordo proposto a Afonso Pena pelo Bloco. O acordo
previa a reeleição de Carlos Peixoto em troca de uma alteração regimental,
para que ele não fosse o responsável pela presidência da comissão de re-
conhecimento da próxima gestão. Afonso Pena aceitou a sugestão e tratou
de encaminhá-la. Ao esvaziar o poder de Peixoto sem retirar-lhe o cargo,
o Presidente esperava conciliar os dois lados e arbitrar, por si só, todo o
processo sucessório (Carta de Rui Barbosa a Afonso Pena de 27 de fevereiro
de 1908. ARB, CR 1127-1/1 (1), FCR).
Porém, o acordo proposto, tendo em vista a conjuntura sucessória, era
mais favorável ao Bloco. De nada adiantava manter Peixoto na Presidência
da Câmara, tendo os seus poderes esvaziados, exatamente no momento
em que deles precisaria para conseguir fazer de João Pinheiro o próximo
Presidente da República. A adesão de Afonso Pena ao acordo proposto pelo
Bloco é um indício de que ele não desejava abrir mão de nenhum dos gru-
pos responsáveis por sua sustentação política. Caso o Presidente desejasse
fortalecer a indicação de João Pinheiro a sua sucessão, teria recusado, de
pronto, o arranjo proposto pelo Bloco. A adesão de Afonso Pena à proposta
do Bloco colocava em dúvida a total identificação do Catete com as pretensões
do “Jardim da Infância”, ampliando a sua margem de autonomia.
Como era de se esperar, os membros do “Jardim da Infância” recusaram
o acordo. Como uma atitude clara de recuo, o Bloco propôs o adiamento da
mudança regimental para o ano de 1910. Isto implicava em restabelecer o
poder de Carlos Peixoto sobre o processo sucessório. Ele permaneceria na
Presidência da Câmara e poderia atuar em favor da candidatura de João
Pinheiro.
Não há referências empíricas sobre os últimos contatos travados entre
os membros do Bloco e o Catete que resultaram neste acordo de adiamento.
A solução impôs publicamente ao Bloco uma derrota política. As fontes
evidenciam, porém, que o aceite do Bloco foi negociado em troca da mu-
dança de postura do governo federal em relação ao caso do Rio de Janeiro,
conforme atesta a citação a seguir, reproduzindo parte da carta de Pinheiro
Machado a Afonso Pena, após a aludida conversa entre ambos:

Me parece, pois, conveniente que venham desde já alguns atos demons-


trativos de sua resolução de fazer política no estado do Rio, conforme
prometeu-nos, em favor de Nilo. Assim dar-se-á uma justa e inadiável
reparação àquele nosso amigo, que esteve conosco desde os primeiros
dias da Coligação e que, sendo o seu companheiro de chapa, é a se-
gunda personagem da República, na ordem constitucional. (Carta de
Pinheiro Machado a Afonso Pena de 11 de março de 1908, AAP, caixa
10, doc. 22.90, AN)

173
Como se vê, há indícios de que Afonso Pena teria trocado o apoio do
Bloco ao adiamento da mudança regimental pelo apoio a Nilo Peçanha no
Rio de Janeiro. Isto implicava em ir de encontro a Backer, aliado político
do “Jardim da Infância”. A Afonso Pena não restava outra saída. Tentara,
primeiramente, retirar o controle do reconhecimento das mãos de Carlos
Peixoto, ao aderir à proposta de mudança regimental. Como houve muita
resistência, teve que recuar. Para não perder o apoio do Bloco, negociou
um novo acordo. A fonte acima citada nos leva a supor que o referido
acordo envolvia a situação fluminense. Na ocasião, a proposta de inter-
venção federal no Rio de Janeiro já havia sido derrotada pelo Congresso
Nacional. Como nenhum fato novo surgiu no estado do Rio de Janeiro que
exigisse uma intervenção da União, no período em que se deu o acordo
até a morte de Afonso Pena, não há comprovação empírica suficiente para
atestar se, de fato, tal acordo foi negociado com Pinheiro Machado, em
troca de seu recuo.

174
4.2 A Sucessão de Afonso Pena e a candidatura militar

4.2.1 A candidatura campista e o Convênio de Taubaté

Antes de o novo governo completar um ano, já se falava em sucessão


presidencial. Os nomes indicados refletiam as disputas políticas que se tra-
vavam, em função do controle sobre a gestão de Afonso Pena. Antes de sua
morte, o nome de João Pinheiro aparecia como o de candidato à presidência
e o de José Marcelino à vice-presidência (Carta de Pinheiro Machado a Rui
Barbosa de 13 de julho de 1907, ARB, CR 114.3/1-2, FCR).
Mas os contatos formais acerca da sucessão iniciaram-se em final de
1908, dois anos após a posse do Presidente, o que não fugia à regra em
vigor. O período era marcado por dois eventos de importância. O primeiro
refere-se à morte de João Pinheiro e às articulações internas mineiras com
vistas à escolha de um novo presidente de estado. O segundo, às negocia-
ções em torno do endosso ao empréstimo, relativo ao Convênio de Taubaté.
Como foi aventado, este era o período em que os paulistas encontravam-
se pressionando o Executivo Federal pelo endosso ao empréstimo, que
viabilizaria a primeira política de valorização.
A oposição pública do Rio Grande do Sul ao endosso criava dificuldades,
ainda maiores, para a aprovação do projeto. O estado, sem encontrar-se
na dependência da cafeicultura, tinha condições de posicionar-se mais
autonomamente em relação à questão. Consta que Pinheiro Machado havia
procurado Albuquerque Lins, para oferecer-lhe o aval do governo federal ao
empréstimo. Na mesma conversa teriam tratado da sucessão presidencial. A
posição privilegiada dos gaúchos diante da questão permitia-lhes utilizar o
seu apoio ao Convênio como moeda de troca política. No entanto, os paulistas
não haviam feito nenhum acordo com os gaúchos, assegurando seu apoio
à indicação de Afonso Pena, desde que fosse mantida a política econômica
em vigor no atual governo.25
A partir destas informações, comprovam-se as hipóteses apresentadas
por Weiner e Love acerca da adesão paulista ao nome de Campista. A do-
cumentação sugere que o endosso ao empréstimo de 1908 foi concedido
em troca do apoio paulista ao nome de David Campista.

25
Conforme anotações de agenda de Afonso Pena, AAP, Caixa 5, doc. 14, de 2 de
outubro de 1908, AN e suas anotações e agenda de 9 e 16 de novembro de 1908,
AAP, caixa 5, doc. 14, AN.

175
Segundo Jerry Weiner, “(...) em troca da aprovação de Pena para a
consolidação do empréstimo, Jorge Tibiriçá e Albuquerque Lins prometeram
tomar medidas ativas em apoio à candidatura de Campista” (1980:203).
Joseph Love fez afirmação semelhante:

Pelo menos em uma ocasião, a dívida externa paulista foi fator de


peso nas manobras que antecederam à designação do candidato ofi-
cial à Presidência da República. Isso se deu na sucessão de 1910, já
comentada em outra parte, quando o PRP aceitou o nome de David
Campista, preferido pelo presidente Afonso Pena, em troca do endosso
federal ao empréstimo de 15 milhões de libras, que o governo de São
Paulo necessitava para dar prosseguimento ao programa de valorização.
(Love, 1982:285-286)26

Os dois nomes aventados pela imprensa, além do de David Campista,


foram os de Rui Barbosa e Rodrigues Alves. Ambos foram rapidamente
rejeitados por Afonso Pena, sob a alegação de que Rui estaria encarregado
da redação do Novo Código Civil Brasileiro, no futuro governo, e Rodrigues
Alves era rejeitado pelos próprios paulistas, em função de sua não adesão
à política cambial em vigor (Anotações de Agenda de Afonso Pena de 16
de dezembro de 1908, AAP, caixa 5, doc. 14, AN).
A rejeição por parte do Rio Grande do Sul aos dois nomes anunciados
soava como um fortalecimento da candidatura oficial. Muito embora tivesse
carta branca de Rui Barbosa para discutir o assunto no Catete, Pinheiro
Machado esvaziou o nome baiano, alegando a inconsistência de suas bases
políticas. Ao mesmo tempo, rejeitou o nome paulista, alegando tratar-se,
para o Bloco, de uma candidatura de oposição, na medida em que São
Paulo não integrava o governo em curso. 27

26
O cronista José Vieira (1980:124) foi o primeiro a aventar a hipótese de que o apoio
a Campista por São Paulo teria sido dado em troca do endosso federal ao empréstimo
de 15 milhões de libras relativo ao Convênio de Taubaté.
27
Os documentos que envolvem as conversas entre Pinheiro Machado e Afonso Pena
são: Anotações de Agenda de Afonso Pena de 21 e 30 de novembro, 2 e 20 de
dezembro de 1908, 30 e 31 de janeiro de 1909, 28 de abril de 1909 e 6 e 7 de maio
de 1909, AAP, caixa 5, doc. 14; carta de Feliciano a Afonso Pena de 23 de novembro
de 1908, AAP, caixa 12, doc. 24.72 AN e carta de Rui Barbosa a Pinheiro Machado
de 12 de janeiro de 1908, ARB, CR 848/3, FCR. Ver também entrevista no Jornal
Correio da Manhã de 1 de abril de 1909, AAP, caixa 25, doc. 51.1, AN. Bem como
Anotações de Agenda de Afonso Pena de 2 e 20 de dezembro de 1908, AAP, caixa
5, doc. 14, AN.

176
Apesar da aparente ambiguidade e incerteza, a posição dos gaúchos era
consistente. Recusava os nomes apontados e sugeria variadas combinações.
Rejeitava a candidatura Campista sem, porém, romper definitivamente com
o Catete. Tal fato deixava transparecer que o Bloco, enquanto agremiação,
não se aglutinara, até aquele momento, em torno de nenhum nome. Esta
dispersão do Bloco favorecia a ação do Catete. Contra o nome de Campista
nenhum outro havia sido lançado oficialmente.
O primeiro elemento que se destaca nas inúmeras conversas entabu-
ladas entre Afonso Pena e Pinheiro Machado era a insistência em que o
segundo aludia ao lançamento do nome de Hermes, pelos setores militares.
Por esta ocasião, o líder gaúcho já antevia uma possível candidatura militar,
muito embora a tivesse rejeitado publicamente. A despeito de não haver
comprovação empírica a este respeito, acreditamos que Pinheiro mantivesse
a candidatura Hermes como um trunfo a ser usado, quando necessário.
Como se pode perceber, o Exército, fortalecido pela gestão de Hermes à
frente do Ministério da Guerra, voltava a ter aspirações hegemônicas sobre
a República.28
A intenção de Pinheiro Machado era ampliar o peso político do Rio
Grande do Sul na Federação. Seus acordos e sugestões em torno do processo
sucessório eram mediados por propostas de ampliação da representação do
estado na convenção que indicaria o novo candidato, além de pressionar
para que Borges de Medeiros compusesse a chapa.29
A oposição ao nome de Campista ganhou vigor através da manifestação
pública de Rui Barbosa:

28
A idéia de que o nome de Hermes já fazia parte das conjecturas de Pinheiro Machado,
muito antes de ter sido lançado, encontra apoio em Barbosa (1960:198). Tendemos
a discordar das análises de José Murilo de Carvalho (1990:218) quando afirma
que a candidatura de Hermes da Fonseca à Presidência da República não refletia a
autonomia do Exército, já que seu sucesso fora resultante do apoio das oligarquias civis.
Claro é que, sem o apoio dessas, ela não teria vingado. Aliás, nenhuma candidatura
isolada, melhor dizendo, nenhuma candidatura bancada por um só estado, mesmo
que hegemônico, teria sucesso. A do Exército não fugiria à regra. O que destacamos,
é que a origem da candidatura fora autônoma. A partir da adesão de outros estados-
atores, ela tornar-se-ia hegemônica.
29
Confirma esta afirmativa o trabalho de Carvalho (1968:112). O autor afirma que
Pinheiro Machado teria procurado David Campista para oferecer o seu nome à vice-
presidência. Só depois da recusa de Campista é que Borges teria sido indicado como
uma segunda opção. Ver igualmente Anotações de Agenda de Afonso Pena de 20
de dezembro de 1908 e de 30 e 31 de janeiro de 1909 AAP, caixa 5, doc. 14, AN.

177
Ninguém dele [Campista] cogitaria para o lugar de chefe da nação, a não
ocupar ele atualmente o posto de Ministro. Moço de talento e futuro,
não tem, evidentemente, para o cargo supremo do Estado, experiência,
madureza, autoridade. A sua entrada na última representação de Minas
não lhe foi fácil. O seu reconhecimento, na Câmara, não ocorreu sem
tropeços. No seu próprio estado, portanto, a opinião o não classificava
entre os seus filhos mais beneméritos. (Carta de Rui Barbosa a Afonso
Pena de 16 de dezembro de 1908, AAP, caixa 7, doc. 18.54, AN)

Rui Barbosa parecia conhecer as relações políticas mineiras melhor


do que Afonso Pena. Estava certo de que a candidatura de Campista seria
rejeitada pelos principais chefes do PRM. A rejeição de Rui à indicação
presidencial não se justificava pela falta de experiência ou juventude de
Campista, mas pela forma através da qual estava sendo encaminhada, isto
é, pelo fato de ter tido origem no Catete. O compromisso de Rui Barbosa
com as regras tacitamente compartilhadas entre os principais atores do
processo sucessório poderia igualmente estar encobrindo a mágoa por ter
seu nome preterido.30
As rejeições não paravam por aí. O fato de ter sido Francisco Sales
o primeiro político mineiro a opor-se a Campista pode ser explicado pela
situação política em que se encontrava o ex-governador. Desde a ascensão
de Afonso Pena, Sales havia caído no ostracismo, não obstante ocupar o
Senado Federal. O nome de Campista não representava os interesses do
PRM e partira de uma indicação exclusivista do Executivo Federal, o qual
igualmente se encontrava distante de suas bases, principalmente após a
morte de João Pinheiro. Claro estava que Minas Gerais desejava continuar
à frente do governo federal, desde que o nome indicado representasse, de
fato, os interesses do PRM, o que não ocorreria através da indicação de
Campista. A proposta dos líderes mineiros foi a de que se mantivessem
inativos em relação à candidatura de Campista, levando ao seu gradativo
enfraquecimento.
Não tardou a rejeição oficial do Rio Grande do Sul à candidatura

30
Foi Afonso Arinos (Franco, 1955:489, 557-558, 561, 584-585) quem afirmou
que a rejeição de Rui Barbosa a David Campista se dera em função da juventude
do indicado. Outra referência à rejeição de Rui Barbosa à indicação do Catete pode
ser encontrada em carta de Rui Barbosa a Pinheiro Machado de 2 de dezembro de
1908 ARB, CR 848/3, FCR. Em relação à rejeição de Rui diante da indicação de
seu próprio nome ver carta de Rui Barbosa a Pinheiro machado de 10 de dezembro
de 1908 ARB, CR 848/3, FCR; carta de Francisco Sales a Wenceslau Brás de 15 de
dezembro de 1908 AWB, VB PE 521, CPDOC.

178
Campista e o anúncio de que se vincularia ao nome de Hermes, caso ou-
tro nome não fosse apresentado. Cabe frisar que a declarada oposição ao
Catete por parte do Rio Grande do Sul só ocorreu quando a candidatura
Campista perdeu dois sustentáculos importantes, o da Bahia e o de Minas
Gerais (Pôrto, 1951:136).31
Desconhecendo as importantes rejeições ao seu indicado, Afonso Pena
encarregou Wenceslau Brás, então governador de Minas, de entabular con-
tatos com os estados de São Paulo e Rio de Janeiro, com o fim de oficializar
o apoio ao nome de Campista. A aceitação oficial dos dois estados ao nome
indicado pelo Catete deu novo alento às pretensões presidenciais. Destaca-se
o fato de que, a despeito de o Rio de Janeiro ter aderido ao nome, o aceite
de Alfredo Backer não representava a totalidade das facções fluminenses.
O apoio formal dos dois estados foi seguido do suporte político dos estados
de Pernambuco, Maranhão, Ceará e de parte da Bahia. 32
Especulava-se a respeito das pretensões paulistas em ocupar a vice-
presidência, através do nome de Albuquerque Lins. Mas a chapa Campista-
Lins parecia desagradar até mesmo os aliados de Afonso Pena, conforme
se observa pela citação a seguir:

A candidatura de Lins apresenta a meu ver grandes inconvenientes. Um


deles é que a vice é uma etapa para a Presidência e assim muito facil-
mente se reintegraria S. Paulo na posse velha, apenas interrompida do
governo. Outro inconveniente é o perigo de ser ele chamado ao governo
em período de grandes embaraços financeiros do estado de S. Paulo,
sendo de recear que isso importasse novos e formidáveis sacrifícios
para a União. Nada, absolutamente nada, se deve julgar impossível
neste país. (Carta de Feliciano Pena a Afonso Pena de 22 de março de
1909, AAP, caixa 12, doc. 24.57, AN) 33

31
Consta que foi Dantas Barreto quem trouxe o apoio de Pinheiro Machado para
a candidatura de Hermes da Fonseca, (Pôrto, 1951:142). Afirma-se também que
Dantas Barreto foi o principal responsável por reunir apoios em torno da candidatura
de Hermes. Carta de Feliciano a Afonso Pena de 21 de abril de 1909, AAP, caixa
12, doc. 24.59, AN.
32
A documentação complementar relativa aos contatos ocorridos entre Afonso Pena e
Wenceslau Brás sobre a sucessão são: cartas trocadas entre Afonso Pena a Wenceslau
Brás de 11 de janeiro de 1909, AAP, caixa 5, docs. 12.128 e 12.129; 16 e 28 de
janeiro de 1909, caixa 5, doc. 15; de 22 de janeiro de 1909, caixa 7, doc. 18.05, AN.
33
Ver também: Anotações de Agenda de Afonso Pena, 2 de janeiro de 1909, caixa
5, doc. 14, AN. Falou-se também na possibilidade de Jorge Tibiriçá vir a ser o vice
conforme consta na carta de Feliciano Pena a Afonso Pena de 22 de março de 1909,

179
Embora se temesse a imposição de um vice-presidente paulista, havia
também o receio de que, caso não se efetivasse a combinação, São Paulo
pudesse compor a vice-presidência em outra chapa. Mesmo após a manifes-
tação favorável, por parte dos paulistas, não havia garantias de que o estado
apoiaria incondicionalmente o Catete em suas pretensões. Pela citação acima,
percebe-se o receio dos mineiros diante de uma eventual aliança com São
Paulo. Temia-se que seu retorno ao poder implicasse em utilização dos bens
públicos, em proveito de interesses econômicos regionais.
Diante das manifestações negativas do grupo de apoio a Afonso Pena à
ascendência paulista na Federação, fica mais uma vez comprovada a hipótese
apresentada nos capítulos anteriores, qual seja a de que a eleição de Afonso
Pena se dera em oposição aos interesses paulistas. Outro fato que se tornou
claro é que, não obstante o reconhecimento dos mineiros da importância
em atrair São Paulo para uma aliança política, a força econômica do estado,
acrescida das experiências pregressas de tentativa de monopolização da
Presidência da República, afastava os mineiros da combinação.
A manifestação pública de oposição por parte de Bias Fortes, um dos mais
significativos chefes políticos do estado de Minas Gerais, interrompeu o cresci-
mento célere do nome de Campista. Bias Fortes era um aliado político de Afonso
Pena. Embora existam controvérsias historiográficas acerca das razões de seu
rompimento político com o Presidente da República, sua atitude era a prova cabal
de que Afonso Pena encontrava-se totalmente isolado em seu estado de origem.34
Em resposta à consulta presidencial assim se manifestou Bias Fortes
acerca da indicação de David Campista:

(...) procurado no dia 13 do corrente por um repórter do “País” para


ouvir-me sobre candidaturas à Presidente da República e com a es-
pecialidade sobre o Dr. Campista respondi: que, com esse brasileiro
[estabeleci] as maiores relações de amizade, lhe sendo muito grato
por serviços prestados na Europa, no tempo em que fui presidente
de Minas, mas que não apadrinharia a sua candidatura e nem outra
qualquer que recaísse em secretário de um governo a substituir-se.(...)
(Carta resposta de Bias Fortes a Afonso Pena de 15 de abril de 1909.
AAP, caixa 15, doc. 15, AN)35

AAP, caixa 12, doc. 24.57, AN. A contestação de Afonso Pena, de que tivesse oferecido
a Lins a vice-presidência em Lorena, se encontra em conversa que teve com Pinheiro
Machado em 14 de abril de 1909. Anotações de Agenda, AAP, caixa 5, doc. 14, AN.
34
Acerca das motivações de Bias Fortes ver Lacombe (1986:425) e Franco (1955:592).
35
A entrevista a que Bias se refere foi feita por Alcindo Guanabara. O jornalista
era amigo pessoal de Pinheiro Machado, o que pode atestar um vínculo entre a

180
O relato de uma conversa havida entre Bias Fortes e um emissário
de Wenceslau Brás oferece a ideia exata da oposição mineira a Campista:

E porque adotarmos a candidatura do Sr. David Campista, e que interes-


se poderemos ter em fazer presidente um mineiro? Com seu eleitorado
e sua bancada de quarenta membros – 37 deputados e 3 senadores –
muito mais pode conseguir Minas, e com uma liberdade muito maior de
ação, do que tolhida em torno de um presidente seu. (Castro, 1982:160)

Claro está nesta citação que Afonso Pena era visto como um obstáculo
à ação da bancada mineira. E que os chefes do PRM preferiam abrir mão
da Presidência da República, a perderem o controle interno sobre o estado.
O fato de a rejeição de Bias Fortes ter se tornado pública não só fragilizou
o nome indicado, como deu provas de que Minas Gerais encontrava-se como
um estado dividido e, majoritariamente, em oposição ao Catete. Como fatos
agravantes, os jornais mineiros e os jornais da capital federal combatiam
a escolha de Campista.36

4.2.2 O advento da candidatura militar

Percebendo a impossibilidade de ser incluído na chapa e temendo uma


aproximação de interesses entre Minas Gerais e São Paulo, o Rio Grande
do Sul arquitetou uma aliança entre o Bloco e a candidatura emergente
de Hermes da Fonseca. O acordo em torno de Hermes beneficiaria muito
mais o Rio Grande do Sul. Além de o militar ser gaúcho, Pinheiro tinha
a expectativa de que ele pudesse tornar-se um instrumento dócil em suas
mãos, já que sua indicação e eleição dependiam do seu apoio.

ação de Pinheiro e a postura de Bias Fortes. Segundo o cronista de época José


Vieira (1980:48) os presidentes da República procuravam conquistar a simpatia e a
colaboração jornalística de Guanabara, dada a sua importância política.
36
Destacou-se, neste campo, a mudança de posição do Jornal O País. No início,
concedera total apoio ao nome de Campista, para tornar-se, depois, seu maior opositor.
Como Pinheiro Machado também exercia controle sobre este importante veículo de
comunicação, acredita-se que sua mudança de postura obedecia à estratégia política
do gaúcho. Segundo o seu mais importante biógrafo, Antônio Carvalho (1936:57-58),
Campista teria ganho a oposição do Jornal O País por ter se recusado a perdoar a dívida
do órgão junto ao governo. Leonídio Ribeiro (1950:102-103) afirma que partira de
Carlos Peixoto a ideia de enviar o jornalista até Campista para oferecer-lhe a troca.
Caso a dívida não fosse perdoada, O País faria oposição ao nome de Campista, o que,
de fato, ocorreu.

181
Aproveitando-se da divisão interna mineira, Pinheiro Machado criticou
a ação de Carlos Peixoto nos reconhecimentos da Câmara que estavam sendo
feitos, em prejuízo do Bloco. A ação de Peixoto em relação aos reconhecimen-
tos do Distrito Federal e Goiás foi também criticada pelos políticos mineiros
ligados a Wenceslau Brás. Ao interferir sobre os reconhecimentos, Peixoto
procurava respaldar os interesses da candidatura do Catete no Congresso.
O comportamento dos aliados de Wenceslau Brás dava provas explícitas
a Afonso Pena de que havia ocorrido uma aproximação política entre os
chefes mineiros e o Bloco, à sua revelia e à revelia dos membros do Jardim
da Infância. Tal fato, aliado à retirada de sua sustentação política no cargo,
levou Carlos Peixoto à renúncia.37
Com os apoios do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais a candidatura
militar consolidava-se. À Campista restavam os apoios do Catete, de parte
do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Conforme afirmamos anteriormente, compartilhamos da hipótese de
que a adesão de São Paulo ao nome de Campista se dera em função da
necessidade do estado em viabilizar o empréstimo relativo ao Convênio
de Taubaté. Por ocasião dos reconhecimentos, o endosso ao empréstimo
já havia sido concedido. Desta forma, São Paulo encontrava-se em uma
posição mais autônoma, muito embora não pudesse abrir mão de uma
candidatura que estivesse comprometida com a manutenção da Caixa de
Conversão. Uma outra razão para a citada autonomia refere-se ao aumento
dos preços internacionais do café no período. Esta ampliação de sua margem
de autonomia possibilitou uma postura de adesão reticente à indicação do
Catete (Love, 1982:255).
A citada mudança de postura de São Paulo encontra comprovação em
debate parlamentar travado entre Ellis e Azeredo acerca do evento, meses

37
Em relação aos reconhecimentos, Wenceslau Brás, em relato posterior ao evento
sucessório, denunciava a ação de Carlos Peixoto como tendo sido a grande responsável
pela falência da candidatura Campista, ao ter dividido a bancada mineira. Tal crítica,
partindo de Wenceslau, tem suas explicações. O acordo com o Bloco já havia sido feito
antes dos reconhecimentos. Apontamentos para a Defesa da Atitude de Wenceslau
Brás na Questão das Candidaturas, AWB, VB 02 – 676, CPDOC. Carta de Afonso
Pena a Wenceslau Brás de 29 de abril de 1909 (AAP, caixa 5, doc. 12.150, AN) e
carta de Bernardo Monteiro a Wenceslau Brás de 29 de abril de 1909 (AWB, VB PE
543, CPDOC); carta de Francisco Sales a Wenceslau Brás de 29 de abril de 1909
(AWB, VB PE, CPDOC); carta de Wenceslau Brás a Afonso Pena de 1 de maio de
1909 (AAP, caixa 5, doc. 15, AN). Pôrto (1951:133), Vieira (1980:113) e Castro
(1982:165). No lugar de Peixoto, o mineiro Sabino Barroso, ligado ao Bloco e à
liderança de Wenceslau Brás, assumiu a Presidência da Câmara.

182
depois. Do debate se conclui que São Paulo comprometeu-se em apoiar
Campista durante a negociação do empréstimo e que manteve o compromisso
com a candidatura no ano seguinte, porém de forma menos enfática (Diário
do Congresso Nacional dos dias 2 e 3 de junho de 1909, AAP, caixa 24,
docs. 48.75 e 48.76, AN).
Tudo indica que São Paulo curvava-se à candidatura Hermes até as vés-
peras da convenção que formalizou a candidatura do Marechal. Em debate na
Câmara, Seabra dizia a Galeão Carvalhal que a maioria da bancada paulista
havia aderido ao nome de Hermes, a que o paulista respondeu: “Os deputados
valem é pela qualidade, e não pela quantidade”, em uma alusão a que os gran-
des nomes do PRP não se conformavam com a chapa militar, muito embora a
maioria tivesse a ela aderido (Vieira, 1980:111, 116, 117, 129 e 130).38
Paralelamente a estes fatos, a candidatura de Hermes crescia na impren-
sa. A documentação é pródiga em comprovar que o acordo entre mineiros
e gaúchos foi conduzido por Francisco Sales, representando os interesses
da quase totalidade dos chefes mineiros. Por não ter condições de enca-
beçar a chapa, em função de suas dissidências internas e da oposição do
Bloco, Minas Gerais tratou de resguardar a vice-presidência, entregue a
Wenceslau Brás.39
Hermes condicionou a sua candidatura aos apoios políticos de Rui
Barbosa e Rio Branco. O primeiro negou-se a dar-lhe aprovação, mas o fato
não impediu que o Marechal levasse adiante as suas pretensões.
Diante do que foi visto, reeditando a sucessão anterior, a postura política
dos gaúchos, baianos e fluminenses, aliada às divisões internas mineiras,

38
O principal responsável por manter São Paulo fiel ao compromisso com o Catete foi
o deputado Cincinato Braga.
39
Ver Carta de Bueno Brandão a Wenceslau Brás de 10 de maio de 1909, AWB, VB
02 PE 567, CPDOC, carta de Francisco Sales a Wenceslau Brás de 11 de maio de
1909, AWB, VB 02 PE 553, CPDOC, cartas de Afonso Pena a Wenceslau Brás de
13 e 14 de maio de 1909, AAP, caixa 5, docs. 12.153 e 12.154, respectivamente,
AN, Jornal do Comércio de 13 e 16 de maio de 1909, Ano 14, números 3932 e 3935
de Juiz de Fora-MG, AH. carta de Wenceslau Brás a Sabino Barroso de 17 de maio
de 1909, AWB, VB PE 568, CPDOC, carta de Francisco Sales a Wenceslau Brás de
18 de maio de 1909, AWB, VB PE 569, CPDOC, carta de Wenceslau Brás a Sabino
Barroso de 20 de maio de 1909, AWB, VB PE 574, CPDOC, Segundo Bessone
(1968:125), Francisco Salles trouxera Wenceslau Brás para a chapa de Hermes da
Fonseca. Leonídio Ribeiro (1950:102.) destaca a contribuição do catarinense Lauro
Muller para o arranjo. Logo após a adesão de Wenceslau Brás, ele ganhou na imprensa
o apelido de “Judas-Wenceslau” e o filho de Afonso Pena dedicou muitas páginas de
jornal a criticar a conduta do presidente mineiro.

183
impediu que se concretizasse uma aliança entre Minas e São Paulo, em
torno do nome de Campista. Mais uma vez, a divisão interna do estado im-
pediu a sua projeção política, retomando antigos entraves característicos da
primeira década republicana. Diante da fragilidade de sua posição, Afonso
Pena recuou e o nome de Campista foi retirado da disputa.40
A reação contrária de Rui Barbosa à candidatura militar afastou uma
das facções baianas do Bloco e reaproximou Rui de Afonso Pena. Em con-
tatos posteriores perceberam que haviam sido colocados em lados opostos,
pela interferência dos gaúchos. Na ocasião, Rui havia encarregado Pinheiro
de sugerir, em seu nome, a candidatura de Rio Branco, o que não foi feito
por Machado. Pinheiro dissera a Rui que o nome havia sido descartado
por Pena.41
Embora este fato tenha ocorrido, nada indica que a sugestão de Rui
Barbosa teria sido aceita por Afonso Pena, na ocasião. Conforme tivemos
oportunidade de comprovar, Pena já havia se decidido pelo nome de Cam-
pista e limitava-se a negociar apoios. Ao gaúcho interessava somente um
acordo que envolvesse o Rio Grande do Sul. Mediante isto, a candidatura
de Rio Branco não foi encaminhada como um projeto do Bloco, embora
tivesse o aval de Rui Barbosa (Lins,1996:413).42
Após a renúncia de Peixoto e a retirada do nome de Campista, os
mineiros sentiam-se livres para negociar a sucessão com o Bloco. O inter-
locutor designado para o acordo foi o próprio Francisco Sales. Em casa de
Pinheiro Machado a chapa foi acertada, porém em reunião pouco concorrida,
conforme relato dos presentes (Carta de Júlio Bueno a Wenceslau Brás de
18 de maio de 1909, AWB, VB 02 PE 572, CPDOC).
Sem o apoio do Catete, a combinação Hermes–Wenceslau poderia cor-
rer riscos. Pernambuco estava reticente e o Ceará mostrava-se temeroso. A

40
Carvalho (1968:115) afirma que a primeira proposta de substituição do nome de
Campista por outro partiu do próprio candidato, que, ao lado Carlos Peixoto, procurou
Afonso Pena propondo outros nomes, dadas as dificuldades advindas do episódio
ligado aos reconhecimentos de Goiás e Distrito Federal.
41
Ver Cartas de Afonso Pena a Rui Barbosa de 20 e 24 de maio de 1909, AAP, caixa
6, docs. 16.17 e 16.18 e caixa 17, doc. 33.12, respectivamente AN. A resposta de
Rui Barbosa a Afonso Pena é de 21 de maio de 1909, AAP, caixa 7, doc. 18.58, AN.
42
O autor afirma que Rio Branco fora procurado por Rui Barbosa em princípios de
maio de 1909 para saber de seu interesse em ser indicado candidato. Mas que se
recusou por sentir-se idoso para função e por não contar com o apoio de todos os
setores políticos envolvidos, pois à exceção de Rui Barbosa, nenhum político havia
lhe oferecido a candidatura (Lins, 1996:417-418), o que indica que o lançamento de
seu nome era puro “balão de ensaio”.

184
Marinha, identificada com o Catete através de seu Ministro, tentava resistir
à indicação militar. Wenceslau Brás ainda resistia à indicação de seu nome
para a vice-presidência. A construção de uma nova chapa apresentava certo
grau de dificuldade.
Encontrando novo espaço de atuação, São Paulo aproximou-se do si-
tuacionismo mineiro para tentar um novo acordo em torno de uma nova
solução civil, propondo o adiamento da convenção, marcada para o dia
22 de maio de 1909. Consta que o próprio Afonso Pena empenhou-se na
proposição de um nome e encarregou seu Ministro, Tavares de Lyra, de
representá-lo, sugerindo as indicações de Rodrigues Alves, Campos Sales,
Joaquim Murtinho, Quintino Bocaiúva e Ubaldino do Amaral. Ao que tudo
indica, o acordo não pôde ser concretizado em função da adesão definitiva
do Bloco ao nome de Hermes. Minas Gerais não tinha mais autonomia de
decisão. Seu destino estava cerrado nas mãos de Pinheiro Machado. 43
O Bloco perdeu o apoio de Joaquim Murtinho, importante represen-
tante das oligarquias menos poderosas. A chapa gaúcho-mineira afastava
qualquer possibilidade de ascensão dos pequenos estados. No dizer de
Murtinho a Rui Barbosa:

Esta minha resolução em nada poderá influir na solução da crise política,


porque, além de nenhum valor pessoal, represento um estado que pouco
pesa nos destinos da política federal; e a não ser quando se trata de
um homem excepcional como o seu ilustre amigo, os políticos de nossa
República só valem pelos estados que representam. (Carta de Joaquim
Murtinho a Rui Barbosa de 27 de junho de 1909, ARB, CR 1031(6), FCR)

Murtinho rendia-se à ordem política imposta. Estabelecidos os pa-


râmetros de gestão hegemônica sobre o regime republicano, restava aos
pequenos estados apenas aderir à lógica dominante. Consta que Pinheiro
Machado abriu mão, inclusive, do apoio de Sergipe, como manifestação de
sua onipotência política.44
A reedição da aliança, sob novos termos, que havia sido responsável
pela eleição de Afonso Pena, garantiu também a escolha de seu sucessor. A

43
Ver Carta de Albuquerque Lins a Glicério de 20 de maio de 1909, ARB, CR
777(25), FCR e carta de Wenceslau Brás a Sabino Barroso de 21 de maio de 1909,
AWB, VB PE 575, CPDOC; carta recebida por Afonso Pena em 26 de maio de 1909
comunicando a falência da tentativa de acordo, AAP, caixa 8, doc. 20.3, AN. Ver
também Barbosa (1960:201).
44
Ver Carta de Wenceslau Brás a Bueno Brandão de 5 de junho de 1909 (In: Casasanta,
1958:278).

185
morte de Afonso Pena retirou os eventuais obstáculos que poderiam sofrer
a atuação do Bloco. Nilo Peçanha, Presidente em exercício, embora tenha
se comprometido em permanecer neutro, aderiu à campanha hermista de
forma discreta. Segundo Afonso Arinos, Nilo preferia uma solução civil,
articulada em torno de seu próprio nome, e chegou a se opor à indicação
de Hermes.45
Da Bahia, a candidatura Hermes ganhou o forte apoio de J. J. Seabra.
Pode causar surpresa a adesão de Seabra ao pinheirismo, após ter sido
protegido em seu estado pelos membros do “Jardim da Infância” e ter
sido degolado por Pinheiro Machado, quando eleito senador por Alagoas.
Perguntado sobre a razão de sua mudança, assim se expressou Seabra,
dando o tom de como se processavam as composições políticas do período:

Mas, no cometimento desse abuso [degola], houve uma cabeça e um


braço. Um pensou, arquitetou, urdiu; o outro executou. A cabeça foi o
Sr. Senador Rui Barbosa; o braço foi o Sr. Senador Pinheiro Machado.
Na situação política presente, a cabeça afastou-se do braço, e eu tinha
de tomar partido, ficar com a cabeça ou com o braço; escolhi o braço,
porque a cabeça é mais perigosa. (Vieira, 1980:156)46

4.2.3 As tentativas contestatórias

A facção liderada por Rui Barbosa na Bahia foi responsável pela arti-
culação de uma chapa de oposição, contando com o apoio dos grupos antes
ligados ao “Jardim da Infância”. A pretensão de Rui Barbosa era lançar
Rodrigues Alves. Envolver São Paulo na chapa era a maneira mais adequada
de evitar que o poderoso estado aderisse ao nome de Hermes. Era também
uma nova oportunidade de reunir novamente os antigos apoios do “Jardim
da Infância”, viabilizando, pela primeira vez, uma oposição consistente. O
nome de Rodrigues Alves era muito bem aceito e, certamente, dividiria muito
os apoios já oferecidos à candidatura de Hermes. Mas o antigo presidente
paulista recusou-se a tal.
Diante disto, restava a Rui Barbosa encabeçar a chapa, o que foi pro-
posto por José Marcelino. Barbosa condicionou a sua indicação ao aceite

45
Ver Franco (1973:596) e Franco (1955:609). Ver também: carta de Rui Barbosa a
Bernardino de Campos, s/d. ARB, CR 280/1 (8), FCR.
46
Posteriormente, Seabra assumiu o cargo de líder da Câmara do governo de Nilo
Peçanha.

186
de Albuquerque Lins à candidatura de vice-presidente, tentando, de todas
as formas, garantir a adesão paulista.
Mas a adesão de São Paulo fora cambiante. Primeiro aquele estado
aderiu ao acordo. Logo depois tentou dele recuar, procurando substituir
o candidato à vice-presidência indicado para a chapa. Percebendo as difi-
culdades, Rui Barbosa ameaçou retirar o seu nome da disputa, caso São
Paulo não lhe concedesse forte sustentação política. São Paulo cedeu e
manteve-se na oposição. 47
A postura de São Paulo na chapa civilista precisa ser mais bem analisa-
da. Predomina a hipótese na historiografia de que São Paulo empenhou-se
pela eleição de Campista. Ao ser derrotado, dirigiu todo o seu empenho em
prol da eleição de uma chapa de oposição. Pelo que se pôde observar até
aqui, o empenho de São Paulo em prol de Campista estava fundado em bases
pouco sólidas. E há indícios de que o mesmo tenha se dado em relação ao
nome de Rui Barbosa. São Paulo encontrava-se frágil durante o processo
sucessório, em função de sua dependência em relação à política cambial em
andamento. Ao mesmo tempo, buscava alternativas de ampliar o seu poder
na Federação, perdido desde o final do governo Rodrigues Alves. Tendo
sido excluído de participar do governo Pena, tentou recompor o seu espaço,
através do apoio à candidatura de Campista. Após a falência da mesma,
temia que o Bloco no poder, encabeçado por um político militar oriundo de
um estado economicamente voltado para o mercado interno, implicasse na
alteração da política cambial em vigor, que lhe era favorável. Cabe destacar
que, não obstante o apoio conveniente de Pinheiro Machado ao Convênio de
Taubaté, Borges de Medeiros havia publicamente se manifestado contrário
à política de valorização. E o próprio Pinheiro havia se oposto ao endosso
federal ao empréstimo do Convênio. Restava a São Paulo tentar uma alter-
nativa com Rui Barbosa, mediante o compromisso do baiano em manter a
política cambial em vigor. Sabendo os custos advindos de permanecer na
oposição, São Paulo lançou-se em uma aventura oposicionista, mas com
pouco empenho, temeroso dos resultados de sua opção. 48

47
A este respeito ver Nery (1955:109), Mangabeira (1943:125-134) e Pôrto (1951:144).
Ver também carta de Alves a Rui no dia 13 de agosto de 1909, ARB, CR 56/1, FCR,
carta de Rui Barbosa a Bernardino de Campos de 21 de agosto de 1909, ARB, CR
280(8), FCR, carta de Leopoldo Bulhões a Wenceslau Brás de 31 de maio de 1910,
AWB, VB PE 650, CPDOC.
48
No trabalho de Joseph Love (1982:255) existem referências de que São Paulo
pensou em aderir ao hermismo em função da consolidação desta candidatura e só
não o fez por pressões de Rui Barbosa e por ter a expectativa de poder contar com a
neutralidade de Nilo Peçanha.

187
Alguns setores de Minas Gerais aderiram ao civilismo. Franco afirma
que cerca de 70 municípios mineiros compareceram à Convenção que
escolheu Rui Barbosa. Dos 37 deputados mineiros, cinco aderiram à candi-
datura de Barbosa. Entre eles estava a ala mineira do “Jardim da Infância”,
liderada por Carlos Peixoto. Juiz de Fora e Belo Horizonte somaram grande
apoio à campanha civilista. Dois importantes jornais do estado conferiram
seu apoio a Rui Barbosa: O Pharol e o Correio de Minas. À adesão mineira
ao civilismo, Barbosa atribuiu a expressão “o estouro da boiada”, com o
objetivo de caracterizar as dissidências internas mineiras, não totalmente
controladas pela poderosa tarasca (Franco, 1955:613). 49
A questão cambial voltou a ser discutida antes da eleição de Hermes.
O novo Ministro da Fazenda de Nilo Peçanha era o conhecido ortodoxo
Leopoldo Bulhões. Sua primeira sugestão foi valorizar o câmbio, alterando a
taxa de conversão acordada durante o Convênio. São Paulo viu plenamente
justificados os seus temores quanto ao futuro do café. Porém, a garantia de
que a taxa não seria aumentada consideravelmente estava na presença polí-
tica forte de Francisco Sales no Bloco, o qual se esforçou pela manutenção
de uma taxa inferior à pretendida pelo novo Ministro.50
* * *
Este capítulo teve por objetivo reforçar duas ideias centrais que nor-
teiam o presente livro. A primeira ligada à inexistência da aliança Minas–

49
Existe uma lista completa dos mineiros presentes à Convenção Civilista: Brito
(1949:24 -26). Para os resultados eleitorais em Minas consultar páginas 43 e 44.
A este respeito ver também Iglesias (1987:358). Com relação à adesão dos antigos
membros do “Jardim da Infância” ao civilismo, consta que João Luís tenha se integrado
ao movimento (Franco, 1955:606). Temos, porém, provas empíricas de que ele aderira
prontamente ao hermismo, junto a Calógeras, o que garantiu a continuidade de suas
trajetórias políticas. A este respeito comprovam também as referências de Brito
(1949:41), segundo quem João Luís era fiscal eleitoral de Hermes nas eleições. Suas
ligações com a candidatura Hermes se encontram também em Carvalho (1957:82).
Comprovam ainda as seguintes fontes primárias: carta de João Luís a Wenceslau
Brás de 23 de maio, 27 de junho e 28 de agosto de 1909 (AWB, VB PE 576, VB PE
581 e VB 02 PE 608, respectivamente, CPDOC). A alusão à bancada mineira como
“boiada” é de Artur Rios. Carvalho (1936:32). Acerca da referência de Rui Barbosa
ver Castro (1982:173).
50
Ver Carta de Hermenegildo a Bulhões de 20 de maio de 1910, AWB, VB PE,
CPDOC; carta de Bulhões a Wenceslau Brás de 31 de maio de 1910, AWB, VB PE
650, CPDOC; carta de Calógeras a Wenceslau Brás de 24 de setembro de 1910, AWB,
VB 02 PE 668, CPDOC; carta de Hermenegildo a Wenceslau Brás de 31 de outubro
de 1910, AWB, VB 02, pasta 10.10.31, doc. 743, CPDOC.

188
São Paulo como um evento prevalecente e recorrente na política brasileira
da República Velha. A segunda ligada à existência de acirradas disputas
internas no seio da elite mineira. Com este fim foram aventadas algumas
sub-hipóteses, especificamente relacionadas ao evento da sucessão de 1910.
Dialogamos com as abordagens que atribuíam à sucessão de 1910 um
caráter de excepcionalidade, na medida em que teria sido rompida, pela
primeira vez, uma aliança hegemônica entre os estados de Minas Gerais
e São Paulo.
Demonstramos a inexistência prévia desta aliança, o que, por si só,
já retiraria o caráter excepcional da presente sucessão. Além do mais, foi
demonstrado que a sucessão de Afonso Pena reeditou uma aliança estabe-
lecida previamente, entre Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia e Rio
de Janeiro (os dois últimos divididos), sobre novos patamares. Os parceiros
políticos mineiros foram mudados, e o estado cedeu sua hegemonia ao Rio
Grande do Sul.
Pelo que pôde ser observado, a sucessão de 1910 foi marcada por uma
nova derrota política de São Paulo, a exemplo da anterior. Na sucessão de
Alves, São Paulo, mesmo fortalecido politicamente, foi derrotado ao tentar
impor um candidato próprio aos demais estados. No evento em foco, a
sucessão de Pena, São Paulo encontrava-se mais frágil e menos autônomo,
em razão de sua dependência em relação à política econômica em vigor.
Acabou por lançar-se em uma aventura oposicionista a ter que submeter-se
ao risco de uma presidência militar e gaúcha.
Por mais uma vez, a atuação ativa do Rio Grande do Sul impediu que
uma aliança mineiro-paulista prejudicasse a sua projeção sobre a nação.
Cabe frisar, no entanto, que a intervenção gaúcha só foi possível em função
das divisões internas da elite mineira, e do apoio de parte das facções dos
estados da Bahia e do Rio de Janeiro.
As abordagens existentes são quase unânimes em afirmar que o fracasso
da candidatura Campista foi o fator principal da inviabilização da aliança
Minas–São Paulo. Entre as razões atribuídas a este insucesso predominam
as que recorrem a características psicológicas dos atores envolvidos e/ou a
análises de cunho individualizante.
Tais abordagens, comuns a um tipo de História Política produzida no
Brasil até meados do século passado, foram incorporadas, inclusive, por
historiadores mais recentes. Segundo as abordagens deste tipo, o nome
de Campista teria sido vetado por duas razões: a primeira por ser jovem e
inexperiente; a segunda por não aderir ao esquema de clientela em vigor.51

51
Aqui nos referimos a Bessone (1968:132), Franco (1955:585-588) e Carvalho

189
Um exemplo claro se encontra nas referências a características individuais
de Afonso Pena como tendo sido responsáveis pelo fracasso da candidatura
de Campista (Pôrto, 1951:136).
Embora estas características da individualidade de Campista e de Pena
tenham tido um peso na definição dos acontecimentos, elas são insuficientes
para explicar-lhes como um todo. Demonstramos que a rejeição a Campista
partiu de dois setores: o primeiro ligado à situação mineira; o segundo, aos
membros do Bloco. Os coronéis mineiros não viam Campista como um re-
presentante de seus interesses, em função de sua ação autônoma em relação
ao PRM, durante o governo Afonso Pena. Os coronéis do Bloco o rejeitavam
enquanto símbolo de continuidade dos mineiros no poder. Desde a sucessão
anterior, uma regra tácita fora imposta, qual seja a da impossibilidade de o
Catete fazer o seu sucessor. Somada a estes obstáculos, estava a fragilidade
do Executivo Federal.
Um outro fator recorrente nas citadas análises individualizadas dos
acontecimentos refere-se à atribuição às mortes de João Pinheiro e Afonso
Pena um peso determinante no curso dos acontecimentos. A morte de João
Pinheiro teria impedido a formação de uma aliança interna em Minas Ge-
rais. A morte de Afonso Pena teria viabilizado a vitória eleitoral de Hermes
da Fonseca. 52
Um importante testemunho de época explicita bem esta concepção,
ao referir-se à intervenção da morte de Afonso Pena sobre o curso dos
acontecimentos históricos:

Se Napoleão não houvesse perdido a batalha de Waterloo... Se Marco


Antônio não houvesse conhecido Cleópatra... Os curiosos da História
detêm-se, às vezes, a indagar o que seria deste ou daquele país e do
próprio destino do mundo, se certos fatos, grandes ou pequenos, não
houvessem interceptado o curso dos acontecimentos. Quem olha o pano-
rama da política brasileira, principalmente nos anos que se seguiram à
morte de Afonso Pena, não pode deixar de pensar, com certa melancolia,
que com aquele fracassado Jardim da Infância, desapareceu a melhor
das oportunidades para uma renovação da vida pública, em nosso país.
(Relato de João Luís Alves In: Ribeiro, 1950:107)

(1936:44-46 e 56). Barbosa (1960:195) fala igualmente do choque entre as duas


correntes, a de moços e a de velhos. Ver também Martins Filho (1981:39) e Wirth
(1982:164, 177 e 233).
52
Ver Franco (1955: 581-585 e 607-609) e Venâncio Filho (1972:180). Porto
(1951:127) afirma que a morte de João Pinheiro “deslocou a vida política do país”.

190
Demonstramos que não obstante as citadas mortes tenham contribuído
para alterações na trajetória dos atores envolvidos, elas não foram suficientes,
por si só, para explicar uma nova ruptura entre Minas Gerais e São Paulo.
Primeiro, João Pinheiro não era o candidato a ser indicado pelo Catete.
Segundo, caso o fosse, já havia sido rejeitado pelos gaúchos, o que em
muito dificultaria o êxito de seu nome. Terceiro, ele também não unificava
as elites mineiras, pois, à semelhança de Campista, governava à revelia dos
mais importantes coronéis da tarasca.
Quanto à morte de Afonso Pena, acreditamos que, de fato, tenha
exercido um papel facilitador da eleição de Hermes da Fonseca, já que
o vice-presidente não lhe fazia oposição. De oposicionista, a candidatura
passou a ser situacionista, mediante o apoio de Nilo Peçanha. No entanto,
o desaparecimento de Afonso Pena não foi, por si só, a garantia do êxito da
candidatura militar. A partir do momento em que Hermes da Fonseca obteve
o apoio das principais máquinas partidárias dos estados, a sua eleição já
estava garantida, à revelia do Catete.
Como se viu, este fatores, associados, tiveram um peso muito mais
significativo sobre os rumos dos acontecimentos do que as características
de personalidade ou as idiossincrasias do destino.
As produções bibliográficas mais recentes sugerem que a candidatura
Hermes representaria a ascensão do eixo alternativo à aliança Minas–São
Paulo, formado pelos estados do Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
Ela teria sido o resultado da ação das oligarquias regionais marginais,
decididas a obstaculizar a dominação dos grandes estados.53 Muito em-
bora concordemos quanto ao Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro terem
sido vitoriosos em suas prerrogativas, a eleição de Hermes não implicou
na vitória de um eixo alternativo de poder, na medida em que a aliança
mineiro-paulista ainda não havia se constituído. Não se pode esquecer,
igualmente, de que a maior parte da elite mineira compunha o grupo de
sustentação política de Hermes da Fonseca. Por esta ótica, sugerimos uma
inversão: o eixo alternativo era representado pela campanha civilista, a
qual lutava contra a aliança hegemônica mineiro-gaúcha, estabelecida a
partir de 1906.
Retomando os princípios norteadores dos processos sucessórios, esbo-
çados no primeiro capítulo, percebe-se que o veto a Campista, por parte
dos estados que se reuniram em torno da candidatura militar, se deu no
sentido de impedir que o Catete indicasse o seu sucessor e que Minas Gerais
permanecesse no poder, em uma outra gestão.

53
Ver Ferreira (1994:27) e Enders (1993:390).

191
A força política e econômica de Minas Gerais não se coadunaria fa-
cilmente com uma posição submissa em relação ao Rio Grande do Sul.
Ciente de sua importância, os mineiros pretenderiam assumir o controle
sobre o novo governo. Para isto, o maior obstáculo seria representado pela
preponderância política de Pinheiro Machado. Para vencê-la, os mineiros
teriam que estabelecer novas parcerias políticas. É o que se verá a seguir.

192
Capítulo 5

Os seguranças invadem o palco!

Yayá me deixa eu subir


nessa ladeira
porque eu quero pegar
no bico da chaleira! 1

São dois os objetivos principais a serem atingidos com este capítulo.


O primeiro diz respeito à análise das articulações políticas, ocorridas du-
rante o governo Hermes da Fonseca, com destaque para a participação do
Exército, enquanto ator político relevante. O segundo é entender as razões
que levaram à escolha de Wenceslau Brás à sucessão de 1914, evento que
marcou não só o retorno de Minas Gerais à presidência da nação, como a
ruptura do isolamento paulista do quadro nacional.
O período se reveste da maior importância. Justifica-se a sua análise em
razão da entrada de um novo ator político, o Exército, o qual foi responsável
por engendrar uma nova composição de forças. Esta recomposição teve
uma significativa interferência sobre o processo sucessório de 1914. Além
disto, o evento é visto, pela maior parte da historiografia, como responsável
pelo resgate da aliança entre Minas Gerais e São Paulo, rompida durante
a sucessão anterior e reeditada pelo Pacto de Ouro Fino.
O Pacto de Ouro Fino foi tratado como um encontro informal entre o
representante paulista, Cincinato Braga, e o então presidente mineiro, Júlio
Bueno Brandão, em sua cidade natal, a qual deu origem ao nome. Segundo as
informações disponíveis pela historiografia, o pacto consistiu em uma aliança
entre Minas Gerais e São Paulo, em torno da escolha do sucessor de Hermes
da Fonseca. A chapa, a ser apoiada pelos dois maiores estados da Federação,
partiria de um acordo de lealdade recíproca, contra a interferência do Rio Gran-
de do Sul no processo, representado pelo seu maior líder, Pinheiro Machado.

1
Marchinha de carnaval que fazia referência aos aliados de Pinheiro Machado que
disputavam o privilégio de segurar a chaleira para servir o seu chimarrão, em sua
residência no Morro da Graça. Conforme referências de Fonseca Filho (1961:228).

193
A edição do acordo teria resultado na rejeição da candidatura do gaú-
cho e na divisão do grupo de sustentação política do governo Hermes em
duas correntes, a dos coligados e a dos pinheiristas, também chamados
perrecistas. Minas e São Paulo, pertencentes à primeira corrente, teriam
lançado, com êxito, a candidatura de Wenceslau Brás, por sobre as aspira-
ções hegemônicas perrecistas.
O que nos chamou atenção neste evento foi o fato de não se ter en-
contrado, na volumosa pesquisa empreendida, qualquer tipo de referência
empírica ao citado pacto, principalmente porque o arquivo de um dos
pactuantes, o de Júlio Bueno Brandão, foi pesquisado, bem como os de
outros atores envolvidos diretamente no processo sucessório. Embora esta
falta de sustentação empírica do fato não seja inusitada, na medida em que
o acordo não foi revestido de nenhuma chancela de formalidade, as conse-
quências dele resultantes precisam ser relativizadas, bem como o grau de
importância atribuída ao evento.
Com base nas hipóteses gerais deste livro e nas fontes que foram pes-
quisadas, buscou-se fazer uma releitura dos acontecimentos envolvendo esta
sucessão, o que permitiu o levantamento de novas questões, bem como a
proposição de novas respostas. Desta forma, levantamos acerca do evento
três sub-hipóteses, as quais passaremos a evocar.
A primeira sub-hipótese relaciona-se a uma releitura do Pacto de Ouro
Fino. Afiançamos que a rejeição de Minas Gerais à candidatura de Pinheiro
Machado não derivou de um acordo prévio e exclusivo com São Paulo. Con-
forme veremos, o veto a Pinheiro partiu de um grupo de estados, aliados
a setores do Exército. Desta forma, não se atribui ao pacto a importância a
ele conferida por outros trabalhos. Acredita-se que ele constituiu-se apenas
num acordo a mais, entre muitos outros ocorridos. O que mudou, em relação
às sucessões anteriores, foi a reincorporação de São Paulo no conjunto de
estados pactuantes.
A segunda sub-hipótese é a de que a candidatura de Wenceslau Brás
foi resultado da conciliação entre as partes em luta e não uma vitória de
mineiros e paulistas sobre o Rio Grande do Sul. Ambas as correntes políticas
que se defrontavam na ocasião apoiaram a sua candidatura. Wenceslau era
um aliado político de Pinheiro Machado e teve seu nome por ele endossado.
Cabe aqui lembrar que São Paulo concedeu seu apoio a Brás, após uma
acirrada disputa interna, que não poupou dissidências.
A terceira sub-hipótese é relativa ao retorno político dos paulistas.
Afiançamos que ele só foi possível em razão da fragilização política do Rio
Grande do Sul, resultante da oposição travada contra ele, por parte dos
militares. Desta forma, pretendemos contestar teses antes anunciadas, acer-

194
ca da existência de uma associação permanente entre gaúchos e militares,
enquanto elementos desagregadores do regime.

5.1 A política salvacionista: o reverso da política dos estados

5.1.1 A presença militar no Governo Hermes

a) Montagem do governo e instabilidades políticas

O fato de o governo Hermes ter sido o primeiro a surgir de uma elei-


ção efetivamente disputada na República criou um quadro novo, até então,
não vivenciado pelo novo regime. O governo federal teria, pela primeira
vez, uma oposição organizada, a dos civilistas, tendo à frente dois grandes
estados, São Paulo e Bahia. Além disto, para vencer, teve que construir
alianças com facções oposicionistas nos estados, sobretudo naqueles onde
a situação era civilista, abrindo o leque de alianças políticas, o que impli-
cava, igualmente, na ampliação de compromissos futuros a saldar. Como
elemento agravante, o Exército retornava à cena política, o que não ocorria
desde o governo Floriano.
Em relação às transformações do quadro político, Afonso Arinos afirma:

A manutenção do legalismo fora até então possível na República porque


os presidentes tinham sido eleitos sem competidores, graças a acordos
por vezes forçados, mas sempre acordos. Com a eleição de Hermes e
a oposição de Rui, cinde-se o bloco dirigente e o que alcança o poder
esmaga a lei juntamente com o adversário. Terminava, assim, melan-
colicamente o culto, nem sempre sincero, mas sempre mantido como
ideal, da legalidade. (Franco, 1955:744)2

O início da administração de Hermes foi marcado pela tentativa de


conciliação com seus maiores opositores, os civilistas. Ao escolher seu

2
Embora a citação seja parcialmente verdadeira, na medida em que Campos Sales
e Rodrigues Alves haviam tido competidores, de fato, a oposição entre hermistas e
civilistas, em 1910, foi consideravelmente mais competitiva do que as ocorridas nas
sucessões citadas.

195
Ministério, esforçou-se em ouvir Rui Barbosa, mas não abriu mão de in-
dicar nomes que provinham dos estados que serviram de sustentáculo a
sua eleição, tais como Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco e
parte da Bahia. Hermes fez questão de indicar pessoalmente os titulares
das pastas militares. Os demais ministros foram escolhidos sob o aval do
Rio Grande do Sul.
Tão logo Hermes fora eleito, Minas Gerais preocupou-se em demarcar
qual seria seu espaço real de poder no novo governo, o que se encontra bem
explícito em correspondência de Calógeras a Wenceslau Brás:

Pela força das coisas, pela responsabilidade da apresentação do Hermes,


pela tua eleição à Vice-Presidência, pelo grupo coeso que formamos,
por tudo isso está evidente que o pivô da política federal é Minas, desde
já, e cada vez mais no futuro quatriênio. Já, politicamente, anulamos a
preponderância paulista. Esta quer voltar à tona, negociando acordos
(sobre Caixa de Conversão) que não nos convém aceitar, mesmo para
mantermos nossa hegemonia. São Paulo nada tem que dar; dele não
precisamos e nem dado o devemos querer. Fiquem onde estão. (Carta
de Calógeras a Wenceslau Brás de 7 de agosto de 1910, AVB, VB 02
PE doc. 662, CPDOC; grifos nossos)

O que se nota por esta citação é o desejo de Minas de exercer o controle


político sobre o novo governo, com vistas a conquistar o quatriênio seguinte.
Outro elemento a ser destacado é o desejo de ver São Paulo afastado do
novo governo. Em congruência com nossa principal hipótese, São Paulo
era visto mais como uma ameaça do que como um parceiro preferencial
pelas elites mineiras.
Calógeras desejava ser o Ministro da Fazenda de Hermes. Intelectual
respeitado pelas elites do período, havia se afastado dos membros do “Jar-
dim de Infância” e apoiado a candidatura de Hermes. Certamente, era ele
o nome preferido de Wenceslau Brás para representar Minas no Executivo
Federal. Detendo a Vice-Presidência e a mais importante pasta ministerial,
Minas aspirava ser o estado hegemônico no quatriênio que se anunciava.
Cedo os gaúchos provariam aos mineiros o seu lugar secundário na
aliança. O indicado ao Ministério da Fazenda fora Francisco Sales, à revelia
de Wenceslau Brás e líder de uma facção diferente da sua. 3A indicação

3
Entre 1898 – ano que marca o arrefecimento das instabilidades políticas mineiras – e
1918 – data que marca a ascensão de Bernardes ao poder – a elite política mineira
foi dividida em três grupos, que se reuniram em torno das lideranças pessoais de
Francisco Sales (salistas), Bias Fortes (biistas) e Wenceslau Brás (“viuvinhas”).

196
de Francisco Sales resultara da interferência gaúcha sobre o novo governo.
Havia uma expectativa de que o grupo, liderado em Minas por Brás, fosse
escolhido como o interlocutor preferencial de Hermes da Fonseca. Caso tal
opção fosse feita, a escolha do Ministro da Fazenda recairia sobre Calógeras.
Tal não aconteceu e a escolha contribuiu para levantar suspeitas em torno
do grau de interferência de Minas sobre o regime e criar um clima de des-
confiança na aliança interna que lá reinava, desde a morte de João Pinheiro.
A indicação de Francisco Sales para o Ministério da Fazenda agradaria
os produtores de café. No interregno Nilo Peçanha, o futuro Ministro havia
se posicionado contra a elevação cambial, provando estar comprometido com
a manutenção da política econômica em vigor, assentada desde o Convênio
de Taubaté, do qual fora um dos signatários. Aos amigos de Wenceslau
restou repetir a lição do pinheirismo: recuar e aguardar o momento propício
para novos enfrentamentos.4
Hermes manteve do Ministério anterior apenas Rio Branco, pela terceira
gestão, titular da Pasta das Relações Exteriores. Uma outra pasta importante,
a do Interior e Justiça, foi entregue a Rivadávia Correia, como expressão
da integração do Rio Grande do Sul no governo de Hermes da Fonseca.
O seu nome partiu de indicação pessoal de Pinheiro Machado. Além do
Presidente da República e da presença de Pinheiro, operando, na maioria
das vezes, como uma alter ego do Presidente, o Rio Grande do Sul teria
também o controle sobre uma importante pasta ministerial. Tendo sido o
estado que maior importância teve na falência da candidatura mineira de
David Campista, era natural que surgisse como a maior potência política
no governo que se iniciava. A este respeito a análise de Sertório de Castro
é singular:

O governo que submetia o país àquela tremenda hora de provocação


havia se tornado ainda mais fundamentalmente riograndense do que
era antes. (...) Era um governo acentuadamente regionalista, marcado

4
Sobre as preocupações mineiras em exercer o controle político sobre o governo
Hermes, ver carta de Calógeras a Wenceslau Brás de 3 de abril de 1910, AWB, VB
02 doc. 622, CPDOC; carta de Francisco Sales a Wenceslau Brás de 14 de abril de
1910, AWB, VB PE 625; carta de Calógeras a Wenceslau Brás de 7 de agosto de
1910, AWB, VB 02 PE doc. 662, CPDOC; carta de Júlio Bueno a Wenceslau Brás
de 27 de agosto de 1910, AWB, VB 02, PE doc. 666, CPDOC; carta de Calógeras a
Wenceslau Brás de 24 de setembro de 1910, AWB, VB 02 PE 668, CPDOC; carta
de Júlio Bueno a Wenceslau Brás de 30 de setembro de 1910, AWB, VB 02 PE doc.
668, CPDOC; carta de Sabino Barroso a Wenceslau Brás de 9 de outubro de 1910,
AWB, VB 02 PE, CPDOC.

197
pelo cunho rigidamente pessoal do Sr. Pinheiro Machado. Era, enfim,
um governo de responsabilidade rigorosamente riograndense. (Castro,
1982:202-203)

A pasta da Viação foi entregue a uma das facções baianas comprometida


com o hermismo, a liderada por J. J. Seabra. Dadas as históricas inimizades
que separavam Rui Barbosa e Seabra, a sua indicação interrompeu qualquer
aspiração conciliatória do novo governo em relação aos civilistas.
Como escolhas pessoais do novo Presidente, Dantas Barreto foi esco-
lhido para a pasta da Guerra e Joaquim de Leão para a Marinha. A Pasta
da Agricultura foi entregue a Pedro de Toledo, ligado à facção hermista de
São Paulo. Os demais cargos políticos de importância foram ocupados ou
por jovens ou por membros da família de Hermes.5
Como se vê, o preenchimento dos cargos não fugiu às regras coletiva-
mente aceitas pelos atores políticos da época. O Presidente eleito buscou
prestigiar os maiores estados responsáveis pela sua sustentação política,
sem abrir mão de opções pessoais e nem do nepotismo.
Antes mesmo de o novo governo ser empossado, os articuladores da
campanha hermista reuniram-se na composição de um novo partido político,
o Partido Republicano Conservador (PRC). Desde a falência do PRF, no
governo Prudente de Morais, o mundo político não contemplara a emergên-
cia de partidos de âmbito nacional. O advento de tal organização refletia o
desejo e a preocupação das elites civis em exercerem seu controle sobre o
novo governo, em razão da presença do Exército.
A emergência de um novo partido de caráter nacional torna contingen-
tes as análises comparativas. O PRF começou a ser organizado em 1893,
com o objetivo de fortalecer a candidatura civil de Prudente de Morais. Em
razão das instabilidades políticas, decorrentes da complexa correlação de
forças estabelecida pelos diferentes atores em luta, na primeira década do
novo regime, o Executivo Federal se fragilizou. Quando este fato ocorria,
era natural que o Congresso surgisse como o locus de disputa pelo exercício
da hegemonia sobre o regime, pelos seus atores mais proeminentes.
Não tardou para que o PRF se destacasse no Congresso, através da
liderança de Francisco Glicério, e que seu crescimento político incomodasse
o chefe do Executivo Federal, principalmente em razão das ligações de Gli-
cério com o florianismo jacobinista. A cisão definitiva do partido, iniciada
no ano de 1897, separou lideranças ligadas ao Presidente da República

5
Eram os familiares de Hermes: Fonseca Hermes, Mário Hermes, Percílio da Fonseca
e José Olympio da Fonseca (Souza, 1985:203, n. 51).

198
daquelas que se aglutinaram em torno de Glicério. Embora a divisão pareça
ter um caráter exclusivamente personalista, ela encobria reações diferentes
à condução política da República. Os florianistas, reunidos sob a batuta de
Glicério, formavam, na ocasião, um eixo alternativo ao poder da oligarquia
civil paulista. Em vão, tentaram concretizar a oposição na candidatura de
Lauro Sodré/Fernando Lobo. Antes mesmo de deflagrado o processo suces-
sório, os dissidentes perderam muitas adesões, em função da interferência
do Catete sobre a autonomia do Parlamento.6
O PRC havia sido criado com fins distintos. Visava a reunir um conjunto
de lideranças civis que atuassem como um contrapeso à presença militar na
República. Não chegava a formar um eixo alternativo, na medida em que
permaneceu como partido situacionista, até o seu desmantelamento. Mas
se colocava enquanto uma alternativa civil à presença militar no Catete.
A sua emergência neste contexto, porém, tem uma relação de semelhan-
ça com o advento do PRF. Como afirmamos, a eleição de Hermes implicou
na projeção de novos atores políticos, os militares, afastados do “teatro
dos acontecimentos” desde o governo Prudente de Morais. A presença do
Exército na política implicava na necessidade de redistribuir o poder entre
um grupo maior de atores políticos. Esta disputa assumiu contornos bas-
tante acirrados. O fato de Hermes não atuar politicamente, enquanto um
representante de uma unidade federal, contribuiu para a fragilização do
exercício de seu poder. Estes fatos, aliados à conjuntura de crise econômica,
possibilitaram igualmente o crescimento do Congresso enquanto locus de
disputa de hegemonia entre os estados-atores. Tal conjuntura conferiu ao
novo governo um clima de instabilidade política, caracterizada pela edição
de dois estados de sítio, a contínua renovação de ministros, numerosas in-
tervenções militares e de conflitos sociais de importância. O resultado foi o
fortalecimento da ação política do PRC, e nisto ele se parecia com o PRF. 7
Os princípios políticos da recente agremiação não fugiam àqueles co-
mumente compartilhados pela elite política do período. A oposição à revisão
constitucional; o respeito à autonomia dos estados; a manutenção da esta-
bilidade cambial acompanhada de gradual valorização da moeda; a defesa

6
Para uma análise mais completa acerca do PRF ver Witter (1984) e Lessa (1988,
cap. 3).
7
A comissão executiva do novo partido contava com um representante mineiro, Bias
Fortes. Os demais estados que sustentaram a campanha de Hermes da Fonseca tinham
também a sua representação assegurada na nova agremiação. O Rio de Janeiro ocupava
a presidência do partido através de Quintino Bocaiúva; Dois importantes líderes se
destacavam: Francisco Glicério (SP) e Nilo Peçanha (RJ) (Castro, 1982:178).

199
da indústria nacional e revisão do sistema tributário. Tais princípios em
nada inovavam, na medida em que faziam parte também dos programas
partidários dos partidos regionais.8
O governo de Hermes pode ser dividido em duas fases distintas. A
primeira, ocorrida nos dois primeiros anos, foi marcada pela disputa entre
os militares e o PRC pelo controle do novo governo. A segunda fase foi
marcada pelas disputas sucessórias. O primeiro biênio marcou a vitória
dos militares aliados às facções oposicionistas dos estados. No segundo
biênio, a vitória foi dos setores civis, afastando de vez qualquer pretensão
do Exército em se perpetuar na ocupação do poder.
A participação de Minas Gerais nos dois primeiros anos do governo
foi caracterizada pela reedição de sua ação nos tempos do florianismo. Na
luta travada entre os militares e o PRC, Minas buscou manter-se como um
estado neutro. O vice-presidente Wenceslau Brás isolou-se em sua cidade
natal e pouco interferiu sobre o novo governo, o que deu origem a uma
pérola do jornalista Emílio de Menezes, ao se referir à posterior eleição de
Wenceslau Brás à Presidência da República no quatriênio seguinte: “É a
primeira vez que vejo um funcionário promovido por abandono de emprego”
(Bessone, 1968:140, apud).
O início do governo dava sinais claros de que o período de turbulências
tinha se iniciado. Uma semana após a posse, Hermes da Fonseca teve que
enfrentar uma revolta militar bastante expressiva, a dos marinheiros. Re-
voltados contra a rigidez das normas disciplinares da corporação e contra
o excesso de trabalho, amotinaram-se no controle de dois grandes navios
nacionais e ameaçaram bombardear a capital federal.
Dadas as condições da revolta, o Exército não teve condições de reagir.
Só restava ao novo governo negociar com os rebeldes para obter deles a
rendição. Por intervenção direta dos grandes chefes nacionais (Pinheiro
Machado, Wenceslau Brás, Campos Sales, Rodrigues Alves e Quintino
Bocaiúva), um negociador foi enviado aos navios sublevados, propondo um
acordo que envolvia a anistia aos rebeldes, acompanhada da promessa de
mudança do código disciplinar em vigor. A negociação teve êxito e a revolta
foi parcialmente encerrada.
Os setores militares governistas discordaram da solução, por ter
representado significativa vitória dos amotinados e um consequente
desprestígio do Exército. Além disso, representava uma vitória dos mem-

8
Para mais informações acerca do programa do PRC consultar Silva (1982:103). A
oposição civilista também se organizou em um partido, o Partido Liberal. Seu principal
lema era a revisão constitucional. Sua principal figura, Rui Barbosa.

200
bros civis em luta contra os militares pelo controle do Catete. A ação
dos grupos militares foi a de tentar embargar o processo de anistia no
Congresso e impedir a tramitação da mudança do código disciplinar,
após terminada a revolta. Sem obterem vitória no Congresso, atacaram
duramente os rebeldes, promovendo intenso massacre e exclusões das
fileiras militares dos principais envolvidos. Uma segunda revolta eclodiu
quinze dias depois, a qual foi duramente reprimida pelo governo, antes
que se constituísse em ameaça.
Muito embora não faça parte da pesquisa publicada no presente livro
analisar este conflito em profundidade, interessam-nos as implicações po-
líticas do evento sobre as disputas internas travadas na ocasião.9 Quatro
considerações merecem, pois, ser destacadas neste evento. A primeira foi
a reedição das revoltas militares na República, o que não ocorria desde o
governo Prudente de Morais. Certamente a presença do Exército à frente
do Executivo Federal contribuiu para a emergência de uma nova revolta,
surgida, uma vez mais, no seio da Marinha. Conforme afirma Costa Porto
acerca da interferência militar no governo Hermes:

(...) como se o Exército quisesse retomar a posição dos primeiros dias


da República e como se a propaganda do civilismo houvesse provocado
o surto de energias novas: tendo-se combatido Hermes pelo fato de ser
militar, de ser somente militar, a caserna se agrupava, a fim de dar
uma lição aos homens de casaca... (Pôrto, 1951:153)

A segunda asserção a ser feita é a de que o evento abalou as estruturas


de um governo recém-implantado e fragilizado em decorrência de árdua
disputa eleitoral prévia. A participação das elites civis que apoiavam o go-
verno em prol de uma solução conciliatória deu fim à revolta, mas deixou os
setores do Exército indignados em relação às condições do acordo realizado.
Uma terceira colocação refere-se à abertura de espaço político aos civilistas
derrotados que se arvoraram em defensores dos revoltosos, a exemplo de
Rui Barbosa, principal interlocutor das aspirações do movimento no Con-
gresso. Uma quarta colocação refere-se à derrota dos militares governistas
em relação aos civis. A proposta civil de negociação com os rebeldes que
foi aprovada ia de encontro às aspirações militares. O Executivo Federal
foi derrotado no campo político, uma vez que a anistia foi concedida contra
a sua vontade.

9
Acerca da Revolta da Chibata ver Morel (1979) e Silva (1982).

201
b) As intervenções nos estados: a inversão da lógica de Campos Sales

No interior dos estados, surgia um elemento agravante. Um novo con-


junto de atores, formado pelas facções oposicionistas, também desejava
partilhar do poder, na medida em que muitas delas tinham apoiado a
candidatura Hermes, como uma tentativa de serem integradas na órbita
política da qual estavam excluídas, por serem oposição. A partir de uma
aliança estabelecida com os militares, estes setores se viram fortalecidos
para enfrentar as situações de seus estados. Desta forma, as sucessões
estaduais tornaram-se fontes de instabilidade para o novo governo e palco
de luta entre os dois grupos que o sustentavam: civis ligados à liderança
de Pinheiro Machado e militares associados às oligarquias de oposição.
A criação do PRC viria a atender também a necessidade de fortalecer as
oligarquias sedimentadas contra as emergentes.
As sucessivas intervenções nos estados, conhecidas como “salvações”,
foram a maior expressão das disputas políticas que se faziam entre os grupos
que tentavam assumir o controle sobre o governo de Hermes da Fonseca,
nos primeiros dois anos de seu governo.
Consistiam nas tentativas dos elementos militares do governo, associados
aos familiares do Presidente da República, de interferirem sobre as suces-
sões estaduais, com vistas a se fortalecerem no controle do governo federal.
Os ministros da Viação e da Guerra, ao lado dos familiares do Presidente,
haviam se unido com o intuito de frear o controle do Rio Grande do Sul
sobre o governo. Para este intento, contavam com o apoio secreto do mineiro
Francisco Sales e do catarinense Lauro Muller. Para isto se utilizavam das
disputas internas regionais e até dos movimentos sociais rurais, a exemplo
dos cangaceiros no Alagoas e dos seguidores do Padre Cícero no Ceará:

Entre os ministros, dois eram defensores acesos das recriminações oposi-


cionistas (...): o ministro da Guerra, que queria conquistar Pernambuco,
e o da Viação e Obras Públicas, que alimentava o mesmo propósito,
quanto à Bahia.(...) Hermes vivia constantemente provocado pelos pe-
didos de intervenção de seus dois ministros. (Calógeras, 1957: 466)

Não pretendemos fazer uma análise específica sobre cada uma das
“salvações” ocorridas, mas apenas analisar os resultados políticos delas
resultantes, em seu conjunto.
Afonso Arinos afirma que as “salvações” tiveram um importante sig-
nificado político para o período:

202
As salvações não eram uma improvisação sem base. Representavam
um processo sociológico definido: a luta da oficialidade jovem, com
apoio ou indiferença das classes populares, para deslocar a aristocracia
republicana e instalar-se nas suas posições. (Franco, 1973:616)

A despeito de Afonso Arinos atribuir aos militares o desejo de subs-


tituir as oligarquias civis pelos quadros de sua corporação, o estágio atual
alcançado pelas pesquisas a respeito do tema ainda é insuficiente para
admitir-se que os militares tenham tido, de fato, tais pretensões. A nosso
ver, antes de pretenderem ocupar o poder das oligarquias, os militares
queriam a elas se associar, com vistas a ampliar o seu leque de alianças
políticas, aprofundando a sua inserção na política brasileira.
As intervenções ocorreram por quase todo o país: Bahia, Pernambuco,
Ceará, Alagoas, Sergipe, Amazonas, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Piauí,
Paraíba e Rio Grande do Norte. Tentativas mal sucedidas ocorreram em
São Paulo e no Rio Grande do Sul.
Na maior parte dos estados vitimados, tanto as situações como as
oposições haviam aderido à candidatura de Hermes da Fonseca, após a
sua vitória. A ocasião geradora do conflito, que resultava na intervenção,
era a mudança do governo do estado. Os estados que escaparam da inter-
venção foram aqueles que não passaram por processos sucessórios ou que
conseguiram, através de um acordo interno entre suas facções, impedir a
disputa eleitoral.
O discurso militar que justificava as intervenções e atraía as oligarquias
para uma aliança era o da defesa de uma distribuição de poder mais equi-
tativa entre as unidades federadas brasileiras. Cientes de que os médios e
grandes estados eram os responsáveis pela condução do regime republica-
no, os militares sabiam que a única forma de tornarem-se atores políticos
competitivos seria através da formação de um eixo alternativo de poder,
composto por eles e pelos pequenos estados. Este anseio dos militares era
igualmente partilhado pelas oligarquias que se encontravam marginalizadas
do poder, o que propiciou o advento de uma aliança entre os militares e
as oligarquias emergentes destes estados. Para as últimas, a parceria com
os militares, naquele contexto, seria a única forma de combater seus rivais
locais, comprometidos com os chefes políticos dos grandes estados, que
exerciam o controle político do país desde a gestão de Campos Sales.
Como vem sendo visto ao longo deste livro, as tentativas de se formarem
eixos alternativos ao poder das alianças políticas hegemônicas foram cons-
tantes e variadas ao longo da Primeira República. Desta vez, partiam de
um novo ator político, o Exército, fortalecido pelas oligarquias emergentes.

203
Esta intenção não era estranha aos militares. Desde os primeiros anos do
regime republicano, o Exército esforçou-se em conter o avanço das elites
civis paulistas sobre o regime. Para os militares, a unidade nacional fora
corrompida pelos desvios do excesso de Federalismo (Barbosa, 1960:224).
Exemplos deste tipo podem ser remetidos ao caso de Pernambuco, onde
uma aliança entre o militar Dantas Barreto e os usineiros fora do poder
desbancou o maior oligarca do nordeste, Rosa e Silva (Levine, 1980:133).
Outro exemplo foi no Ceará, onde a oligarquia dos Rabelo, com apoio dos
militares, derrotou o poderoso clã dos Acioli.
Em todas as disputas em que o PRC envolveu-se diretamente, saiu
derrotado, como foram os casos do Ceará e de Alagoas, onde as oligarquias
dos Acioli e dos Maltas, respectivamente, aliados diretos de Pinheiro Ma-
chado, foram substituídas por candidatos militares. Nas disputas travadas
no Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, Pinheiro Machado resguardou-se
de intervir, para não fragilizar mais ainda o seu poder.10
Inicialmente, o Rio Grande do Sul havia se arvorado enquanto líder da
reação contra os militares, na medida em que era o estado mais atingido
pelos “salvadores”, já que mantinha importante base política no norte e
nordeste do país. Minas Gerais e São Paulo procuraram manter-se distantes
dos acontecimentos, só intervindo quando ameaçados em suas prerrogativas
de autonomia. Na medida em que perdia terreno para os militares, o Rio
Grande do Sul ia recuando, evitando enfrentamentos diretos, a exemplo do
que ocorreu em Pernambuco e em São Paulo. Os grandes estados reserva-
vam forças para um enfrentamento futuro que prometia ser mais árduo: o
da sucessão presidencial.
Desta forma, muito embora tenha sofrido consideráveis derrotas políticas
impostas pelos “salvadores”, o poder do Rio Grande do Sul não saiu total-
mente desgastado. O controle sobre o reconhecimento do Senado garantia
a Machado a possibilidade de recomposição de alianças. A opção pelo
não envolvimento em outras intervenções o resguardou de novas derrotas.
Acerca das razões que levaram o Rio Grande a recuperar o seu poder na
Federação, Maria do Carmo Souza afirma:

A recuperação da política riograndense junto ao governo federal ocorreu


mais tarde por várias razões: de um lado, o afastamento dos militares
mais importantes – Dantas Barreto e Clodoaldo da Fonseca, sobretudo

10
Embora Pinheiro Machado não tenha atuado diretamente sobre a sucessão do
Rio de Janeiro, o candidato nilista eleito, Oliveira Botelho, contava com seu apoio
(Ferreira, 1989:175).

204
– aquietados no controle de seus feudos estaduais; além disso, outras
circunstâncias de menor importância como o desentendimento ocorrido
entre Hermes e o grupo familiar e cortesão que o rodeava; por último,
mas não menos importante, o apoio oferecido pelos estados de São Paulo
e Minas, naquele momento mais inclinados a uma ligação com Pinheiro
do que com o “comitê das salvações”. (Souza, 1985:208)

Desde o estabelecimento da “política dos estados”, inaugurada por


Campos Sales, o Executivo Federal buscava não intervir diretamente sobre
as disputas internas dos estados, na medida em que a eleição dos grupos
situacionistas estava garantida. Em decorrência da acirrada disputa eleito-
ral da sucessão de 1910, o panorama político mudara. Não só novos atores
entraram em cena (militares e oligarquias de oposição), como ansiavam por
uma fatia maior de poder. Como o governo federal também se encontrava
dividido em correntes em luta, as sucessões nos estados tornaram-se ins-
trumentos de disputa pelo seu controle. Assim, o governo Hermes trilhava
o caminho inverso perfilhado por Campos Sales. Ao invés de repassar os
conflitos inter-oligárquicos para os estados, mantendo a estabilidade no
nível nacional, os hermistas importaram os conflitos dos estados, naciona-
lizando as disputas regionais e gerando instabilidades no âmbito federal.
Daí atribuirmos ao governo Hermes a características de ter revertido as
bases da “política dos estados”, fazendo ressurgir no cenário político os
problemas próprios à primeira década republicana. Em decorrência disto, o
governo federal saiu fragilizado pelas acirradas disputas internas, as quais
resultaram em sucessivas mudanças ministeriais e diluição das forças de
sustentação governamental.
Os militares, apesar de vitoriosos, saíram fragilizados, pois deram mos-
tras de que, no exercício direto do poder político, desejavam perpetuar-se
no controle da República, o que os afastava dos apoios dos setores civis.
Demonstraram ser capazes de fazer retornar as instabilidades políticas
dos primeiros anos do regime, condenadas por todos os republicanos. O
próprio PRC pressionou por um compromisso formal do Executivo Federal
em não intervir mais nos estados. Na verdade, a autonomia constitucional
das unidades federadas era o arcabouço do regime republicano. Na defesa
deste pressuposto, as oligarquias mais dissidentes poderiam se unir. Além do
mais, entre os próprios militares, existiam setores contrários à participação
deles na política, os quais enviaram um projeto ao Congresso, sugerindo a
formalização desta prerrogativa (Carone, 1988:298).
A tentativa de Dantas Barreto em criar um eixo alternativo militar de
poder no norte e nordeste não encontrou adeptos e tornou-se inviável. Para

205
viabilizá-lo, não poderia abrir mão de alianças com as oligarquias civis, a
exemplo do que fez na Bahia e no Rio de Janeiro. Tais oligarquias, porém,
ou já estavam suficientemente comprometidas com os chefes políticos mais
proeminentes do regime, temendo aventurar-se em novas alianças incertas,
ou temiam a presença militar na condução da República.
A presença militar na política não deixou de causar danos ao poder
dos grandes estados. O Rio Grande do Sul sofreu avarias, na medida em
que perdeu o apoio de algumas oligarquias do norte e nordeste que eram
extensões de seu poder político na Federação. São Paulo, muito embora tenha
se fortalecido na resistência à tentativa de intervenção federal, saiu dividido.
Além de os hermistas controlarem 1/3 das cadeiras do estado, Campos
Sales havia se ligado demais ao governo federal, além de manter os laços
de lealdade política com Pinheiro Machado. Minas Gerais, ao isolar-se de
todas as disputas, foi, dos três estados, o que menos perdas políticas obteve
com as “salvações”. Em nenhum momento teve sua autonomia ameaçada e
buscou não posicionar-se diante dos conflitos em andamento. Enquanto o
acordo interno entre suas facções fosse mantido, o estado era o mais apto
para conduzir o processo sucessório que se anunciava. A Bahia, Pernam-
buco e o Rio de Janeiro haviam sofrido intervenções. Salvador chegou a ser
bombardeado por forças governistas. Estes estados encontravam-se sob o
controle político direto ou indireto dos militares.
Não obstante o desgaste causado sobre três dos mais importantes estados
da Federação, a vitória dos militares foi uma “vitória de Pirro”. Na maior
parte das intervenções, o que se conseguiu foi substituir as antigas oligarquias
por outras, que não estariam necessariamente sob o controle da corporação
militar, no processo sucessório que se anunciava. Conforme foi visto até aqui,
as alianças políticas estabelecidas no Brasil Republicano eram muito tênues e
se compunham e se decompunham ao sabor das conveniências políticas mais
imediatas. Não poderia ter sido diferente em relação aos militares.
Ao final do primeiro biênio, os líderes mais proeminentes do regime
ainda eram Pinheiro Machado, Francisco Sales, Rodrigues Alves, José
Joaquim Seabra, Nilo Peçanha, Antônio Azeredo, Wenceslau Brás e Rui
Barbosa. Nomes já demasiadamente conhecidos das sucessões presidenciais
anteriores. Seriam eles os principais atores políticos no processo sucessório.
Em função das acirradas disputas internas, a sustentação política do
governo Hermes foi sofrendo contínuas e progressivas avarias. Os jornais de
oposição se multiplicavam.11 Tudo isto contribuiu para que o Catete entrasse

11
Eram jornais de oposição: O Correio da Manhã, O Século, A Noite e O Imparcial. O
jornal O País estava sob o controle de Pinheiro Machado.

206
frágil no controle do processo sucessório, abrindo espaço para infindáveis
acordos entre as oligarquias dominantes nos estados.

5.2 A sucessão de Hermes e o reordenamento de forças

5.2.1 Diversos atores, variados interesses

Obedecendo às regras implicitamente aceitas, mas jamais formalmente


assumidas, o processo sucessório iniciou-se no segundo biênio da gestão de
Hermes. Os atores eram os mesmos. Efetivas foram as participações dos
estados de Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro,
Bahia e Pernambuco. Este último, dada a sua histórica importância política
e ao fato de estar, naquele contexto, ocupado por um dirigente militar, era
o único a veicular os interesses da corporação no processo, na medida em
que, conforme veremos, a participação do Catete foi muito restrita.
As articulações políticas com vistas à escolha do sucessor de Hermes
prolongaram-se durante quase todo o ano de 1913. Em relação às demais
sucessões, até aqui analisadas, foi a que durou menos tempo, mas longe
esteve de ter sido a menos complicada. A intensidade e o volume das
articulações foram muito grandes. O esforço em afastar os militares das
decisões e o clima de instabilidade reinante imprimiram um ritmo mais
acelerado ao processo.
Como já foi antecipado, Minas Gerais saiu como um estado fortalecido,
vencido o primeiro biênio do governo Hermes. Internamente, o acordo entre
as facções majoritárias que haviam se aglutinado contra a candidatura Cam-
pista possibilitou o arrefecimento de conflitos inter-oligárquicos. A oposição
era representada pelos civilistas que, em franca minoria, encontravam-se
desarticulados e sem espaço político de atuação. Aspiravam manter o seu
poder na Federação, participando ativamente do processo sucessório e
oferecendo nomes para a composição da chapa. Internamente três nomes
pareciam habilitados para a ocasião: Júlio Bueno Brandão, Presidente do
estado, Francisco Sales, Ministro do governo e Wenceslau Brás, Vice-Pre-
sidente da República.
São Paulo havia ressurgido como uma importante força política. Tendo
permanecido à revelia do centro das decisões no governo anterior, expe-
rimentou o mal-estar decorrente de não compor o poder em períodos de
necessidade, a exemplo do que ocorreu por ocasião do Convênio de Taubaté.

207
Não obstante ter se arvorado, na sucessão de 1910, em um embate eleitoral
intenso, ao lado dos civilistas, construiu uma aliança interna em torno de
uma de suas maiores lideranças, Rodrigues Alves, suficiente para impedir
as tentativas intervencionistas sobre o estado, que poderiam ter resulta-
do no controle dos gaúchos ou dos militares sobre a sua política interna.
Mantendo-se afastado das disputas que opunham perrecistas e militares,
São Paulo ressurgia como um ator importante no processo sucessório. Tinha
dois nomes a oferecer: o próprio Rodrigues Alves, presidente do estado, e
Campos Sales, aliado político de Pinheiro Machado.
O Rio Grande do Sul surgia no cenário sucessório como uma força
igualmente contundente. Unificado internamente desde a entrada de Borges
de Medeiros no poder, era a única unidade federada a ter absoluto controle
sobre suas facções internas, na medida em que não abria espaço às mani-
festações dos descontentes. Esta condição intrínseca, aliada à projeção de
um líder à altura de Pinheiro Machado, cujo fim único era o de monopolizar
a representação dos interesses políticos de seu estado na Federação, tornou
o Rio Grande do Sul um poderoso ator político, sem o apoio do qual, difi-
cilmente, qualquer candidato teria êxito.
Somada a isto, a morte de Quintino Bocaiúva havia deixado o PRC
totalmente sob o controle de Pinheiro Machado. Os estados ainda integrados
ao partido seriam aliados fiéis com os quais o Rio Grande do Sul contaria
nos embates travados para a sucessão. 12
Um outro elemento importante para o poder do Rio Grande do Sul
estava no controle político exercido pelo estado sobre o Mato Grosso. An-
tônio Azeredo, importante liderança política na construção da candidatura
hermista, teria atuação destacada na defesa dos interesses de Pinheiro
Machado no processo sucessório que se anunciava.
Não se pode, porém, deixar de frisar que os gaúchos haviam saído
desgastados das lutas sucessórias nos estados. Muito embora não pudessem
se constituir em um ator desprezível, seu potencial de intervenção havia
sido sensivelmente diminuído, após as disputas travadas contra o Exército.
Os interesses do Rio Grande do Sul eram os mesmos dos demais es-
tados de seu porte. Pretendia intervir diretamente no processo sucessório
a seu favor. Para compor a chapa dispunha apenas de dois nomes: o do

12
Porém, após a morte de Quintino, muitos estados deixaram o PRC para não terem que
se submeter à gerência de Pinheiro Machado (Pôrto, 1951:173). A morte de Quintino
gerou outra alteração importante. A sua vaga no PRC passou a ser ocupada por Nilo
Peçanha, o que serviu para aproximar o líder fluminense do líder gaúcho e fortalecer
as pretensões de Nilo à sucessão de Hermes (Ferreira, 1989:180).

208
próprio Pinheiro Machado e o de Borges de Medeiros, este último tantas
vezes aventado e nunca aceito pelos demais parceiros. Mas o estado tinha
uma desvantagem em relação aos demais. Conforme previam os princípios
norteadores dos processos sucessórios, havia uma predisposição tácita em
não permitir que um estado se repetisse na ocupação da cadeira presidencial.
Hermes era gaúcho. Dificilmente, a um outro gaúcho seria conferido o poder.
Entre os estados de porte médio, o Rio de Janeiro encontrava-se mais
fragilizado. Oliveira Botelho – Presidente do estado – havia se afastado do
pinheirismo e sofreria forte rejeição do PRC, caso tivesse alguma aspiração
política mais ampla. Não obstante, o estado tinha força política suficiente para
participar das articulações sucessórias e ainda poderia oferecer os nomes
de Botelho e do próprio Nilo Peçanha, para uma eventual Vice-Presidência.
A Bahia, apesar de dividida em facções em luta, conseguia se unir em
torno da oposição a Pinheiro Machado. Seabra, seu Presidente, compunha
as hostes anti-pinheiristas e havia se unido ao civilismo, liderado por Rui
Barbosa. Além disto, Mário Hermes, filho do Presidente, tinha na Bahia
bases políticas de defesa dos interesses do Catete e de oposição a Pinheiro
Machado. O objetivo maior da elite baiana era o de frear a atuação do
representante gaúcho. Tal intenção era suficiente para unir as suas mais
divergentes facções internas. O nome de Rui Barbosa era o principal trunfo
baiano. Ante as dificuldades de acordo, o nome era sempre lembrado como
um recurso último para uma eventual disputa eleitoral.13
Por fim, Pernambuco somava aos anti-pinheiristas a sua força, único
estado conduzido politicamente por um militar com participação efetiva no
processo sucessório. Este fato, por si só, seria suficiente para impedir qual-
quer aspiração pernambucana à composição da chapa. Teria, no entanto,
papel importante a ser cumprido nas articulações políticas para evitar que
o PRC conduzisse o processo em prol do Rio Grande do Sul.
Esses estados-atores, com suas potencialidades próprias e motivados
pelos mais diversos interesses, disputariam entre si a construção de fortes
alianças, condição indispensável à vitória de seus interesses. É o que ana-
lisaremos a seguir.

13
Consta que J. J. Seabra havia feito de Mário Hermes deputado pela Bahia e líder da
bancada com o fim de guiná-lo para a oposição a Pinheiro Machado, em uma tentativa
de reedição do “Jardim da Infância”. Por seu lado, Pinheiro Machado elegeu o irmão
do presidente, Fonseca Hermes, deputado e líder da bancada do Rio Grande do Sul.
Mais tarde, levou para o Senado o sogro recente de Hermes, o Barão de Tefé, eleito
pelo Amazonas (Barbosa, 1960:219, n. 15).

209
5.2.2 A candidatura de Pinheiro Machado: uma releitura do Pacto de
Ouro Fino

a) A chapa mineiro-gaúcha

O Rio Grande do Sul foi o primeiro estado a manifestar-se, através


do lançamento de uma chapa composta por Pinheiro Machado e Bueno
Brandão, como candidatos à Presidência e Vice-Presidência da República,
respectivamente. A chapa foi veiculada por Antônio Azeredo e Rivadávia
Correia a Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.
Porém, novos nomes surgiam como eventuais candidatos, a exemplo de
Francisco Sales e de Lauro Muller. O primeiro recusava-se, formalmente, a
se candidatar; o segundo era rejeitado pelos paulistas, em função de seus
ideais econômicos ortodoxos. A combinação de Wenceslau Brás com um
candidato paulista à Vice-Presidência também foi proposta em São Paulo,
por Azeredo. Mas a recusa de São Paulo em ocupar a Vice-Presidência di-
ficultou o encaminhamento da solução aventada. Desta forma, a chapa Rio
Grande do Sul-Minas Gerais, entre as apresentadas, era a que demonstrava
ter mais consistência.14
A combinação Pinheiro/Bueno havia sido bem recebida pelo Catete, mas,
quando comunicada a Minas Gerais, não encontrou boa receptividade. Os mi-
neiros pretendiam indicar um nome seu, muito embora se acautelassem em não
repudiar, de pronto, a fórmula aventada, conforme aparece na citação a seguir,
trecho de uma carta de Bueno Brandão a Wenceslau Brás a respeito do assunto:

14
Ver Carta de Wenceslau Brás a Bueno Brandão de 13 de janeiro de 1913; carta de
Antônio Azeredo a Bueno Brandão de 18 de janeiro de 1913; carta de Ribeiro Junqueira
a Bueno Brandão de 31 de janeiro de 1913; carta de Heitor de Souza a Bueno Brandão
de 1 de fevereiro de 1913; carta de Azeredo a Bueno Brandão em 2 de fevereiro de
1913; carta de Francisco Sales a Bueno Brandão de 3 de fevereiro de 1913; cartas de
Ribeiro Junqueira a Bueno Brandão de 5 de fevereiro de 1913 e uma sem data, do
mesmo ano; todas publicadas (In: Casasanta, 1958:288, 151, 342, 153, 263, 206 e
207, respectivamente); Carta de Delfim Moreira a Wenceslau Brás de 28 de janeiro
de 1913, AWB, VB 03, PE, pasta 10.12.10, doc. 306 e carta de Leopoldo Bulhões
a Wenceslau Brás de 3 de fevereiro de 1913, VB 03, PE, pasta 13.01.26, doc. 404,
CPDOC. Ver também Barbosa (1960:220). Algumas cartas dos arquivos de Bueno
Brandão e Wenceslau Brás se referiam a personagens políticos por pseudônimos para
que ficassem incógnitos. Para decifrar os nomes aos quais se referiram, nos utilizamos
uma chave encontrada por Guerino Casasanta no arquivo de Bueno Brandão, escrita
por Wenceslau Brás. A chave foi publicada em Bessone (1968:107).

210
Diante desta situação e receando que os acontecimentos se precipitem,
pedi ao Bias para vir aqui e da conferência que com ele tive ficou resol-
vido: que Minas continue em posição discreta evitando-se pronunciamen-
tos singulares; que Bueno, delegado do partido, fique armado de poderes
amplos para agir em nome de Minas se for necessária uma providência
urgente; que discretamente fossem os acontecimentos encaminhados
para uma solução mineira, visto não convir neste momento provocar uma
reunião da comissão executiva. (...) Rodrigues Alves tem dito que deseja
estar de inteiro acordo com Minas e que sua terra não tem pretensões.
(...) Pensando que a candidatura de Pinheiro não é a que mais reúne,
no momento atual, é certo que dele não podemos prescindir para uma
solução pacífica. (Carta de Bueno Brandão a Wenceslau Brás de 30
de janeiro de 1913, AWB, VB 04, pasta 14.11.31, doc. 352, CPDOC)

A partir desta citação, pode-se realçar três elementos. O primeiro é que não
havia nenhuma disposição dos mineiros em sustentar a candidatura de Pinheiro
Machado. O segundo é que São Paulo não tinha intenções em indicar nomes
e agiria de acordo com Minas. O terceiro elemento é que qualquer solução
conciliatória teria que passar, necessariamente, pelo aval de Pinheiro Machado.
Para evitar-se uma recusa peremptória da fórmula proposta – o que
poderia criar dissensões inoportunas – Bueno Brandão alegou que, embora
não tivesse nada contra a candidatura aventada, precisava consultar o PRM
sobre o tema, antes de posicionar-se (Carta de Bueno Brandão a Antônio
Azeredo de 7 de fevereiro de 1913 In:Casasanta, 1958:156-157).
Muito embora Pinheiro Machado apregoasse não ser candidato, nada fez
para obstar as ações em favor de seu nome. Porém, deixava claro que, caso
sofresse rejeições, a combinação Wenceslau Brás/São Paulo poderia ser defen-
dida com seu endosso. Tornava-se patente que Pinheiro Machado via Wenceslau
como um aliado e não como um opositor. E que uma chapa mineiro-paulista
não era por ele rejeitada, desde que tivesse controle sobre a mesma.
Em reunião do PRC, convocada por sugestão de Hermes, a chapa Pi-
nheiro Machado-Bueno Brandão foi aprovada, com o aval de Nilo Peçanha
e Sabino Barroso, representantes do Rio de Janeiro e de Minas Gerais no
PRC, respectivamente.15
Por outro lado, a oposição ao nome de Pinheiro Machado ia crescendo
de forma contundente. O primeiro estado a se manifestar foi Pernambuco,

15
Conforme carta de Junqueira a Bueno Brandão de 9 de fevereiro de 1913; carta
de Antônio Azeredo a Bueno Brandão de 12 de fevereiro de 1913 e carta de Antônio
Azeredo a Wenceslau Brás de 13 de fevereiro de 1913 (In: Casasanta 1958:155 e
159, respectivamente).

211
conforme assevera o próprio Dantas Barreto: “Foi Pernambuco, pelos seus
representantes no respectivo governo e no Congresso Federal, que deu o
brado de alerta, cujos ecos vibrantes chegaram imediatamente a São Paulo,
Minas Gerais, Bahia e Ceará” (Pôrto, 1951:180, apud).
Seguiram-se as rejeições dos estados da Bahia, Pará, Alagoas e Paraná. Mas
Pinheiro detinha importante apoio, representado pelos estados membros do PRC, a
saber: Amazonas, Maranhão, Rio Grande do Norte e o próprio Rio Grande do Sul.
As divisões internas mineiras tornavam-se mais acentuadas. Os aliados
de Francisco Sales insistiam em uma candidatura própria, daí oporem-se à
combinação Pinheiro/Bueno, a qual, além de conferir a Minas apenas a Vice-
Presidência, afastava Sales do poder. Já os aliados de Wenceslau Brás recebiam
bem a fórmula Pinheiro/Bueno e pleiteavam por manter Minas Gerais apoiando
o governo Hermes e integrando o PRC, muito embora não desejassem provocar
uma ruptura interna da aliança mineira, opondo-se aos salistas com veemência.
O Presidente do estado, Bueno Brandão, embora tivesse sido historicamente
vinculado ao grupo de Wenceslau, tinha interesses pessoais em ser o indicado,
o que o colocava a meio caminho entre uma e outra proposta.16
Muito embora os políticos mineiros demonstrassem ter travado contatos
com São Paulo acerca do evento sucessório em curso, nada indicava, até
aquele momento, a existência de um acordo fechado entre os dois estados
com vistas a obstar a candidatura gaúcha. Ao contrário, Bueno Brandão
estranhava a posição de São Paulo, o qual se mantinha recuado.

Mesmo São Paulo que sempre manifestou desejos de caminhar ao lado de


Minas nesta questão, se conserva muito retraído, não tendo procurado
entender-se conosco, depois da missão de Azeredo. (Carta de Bueno
Brandão a Ribeiro Junqueira de 19 de fevereiro de 1913 In: Casasanta,
1958: 210, grifos nossos)

Confesso-lhe que tenho estranhado o silêncio de São Paulo para comigo,


depois da missão Azeredo. Não será isto indício de uma contramarcha?
(Carta de Bueno a Francisco Sales de 19 de fevereiro de 1913 In:
Casasanta, 1958: 265, grifos nossos)

Por esta citação fica claro que tinha havido um entendimento prévio
entre os dois estados, explícito através das expressões grifadas. Mas ao que

16
Conforme carta de Delfim Moreira a Wenceslau Brás de 16 de fevereiro de 1913,
AWB, VB 03, pasta 13.01.26, doc. 411, CPDOC; carta de Wenceslau Brás a Bueno
Brandão de 17 de fevereiro de 1913 e Carta de Bueno Brandão a Ribeiro Junqueira
de 19 de fevereiro de 1913 (In: Casasanta, 1958:289 e 210, respectivamente).

212
parece, tal acordo não era revestido do grau de formalidade e consistência a
ele atribuído posteriormente pelos historiadores do fato. Minas não sabia ao
certo qual seria a reação de São Paulo diante da fórmula Pinheiro/Bueno.
Ao contrário de São Paulo, as alianças de Minas com os estados do
Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia e Alagoas eram bem mais explícitas, a
despeito de acordos prévios. Estes estados aguardavam as reações mineiras
para se posicionarem politicamente. No caso específico do Rio de Janeiro, o
governador fluminense desejava opor-se ao nome de Pinheiro Machado. Tal
posicionamento ganhava ares de oposição, na medida em que seu aliado, Nilo
Peçanha, integrava o PRC e se colocara favorável à indicação do líder gaúcho.17
O grupo salista cobrava um posicionamento de Minas contrário à candi-
datura de Pinheiro Machado e em defesa de um nome próprio para a disputa.
Mas o grupo liderado por Wenceslau Brás (os “viuvinhas”) mostrava-se
favorável à chapa Pinheiro/Bueno, dificultando um acordo interno mineiro.
Em carta a Bueno Brandão, afirmava: “Se o nome de Antônio [Pinheiro
Machado] for aceito pela maioria, Minas deve apoiá-lo”.18 O que amedron-
tava os mineiros era a possibilidade do acirramento das disputas internas
em seu estado, o que os fragilizaria no nível nacional.19
Com o tempo, as oposições ao nome de Pinheiro se ampliavam. Pernambuco,
Ceará, Alagoas, Bahia, Pará, São Paulo e Rio de Janeiro já haviam se posicionado
contrários a sua indicação. Muito embora Nilo Peçanha insistisse com Botelho

17
As informações acima encontram comprovação em carta de Bueno Brandão a Wenceslau
Brás de 19 de fevereiro de 1913; carta de Junqueira a Bueno de 20 de fevereiro de 1913 e
carta de Clodoaldo da Fonseca a Bueno Brandão de 20 de fevereiro de 1913 (In: Casasanta,
1958: 295, 212 e 183, respectivamente). Maria do Carmo C. de Souza (1985:211, n.
62), sem aventar a possibilidade de ter havido na ocasião uma discordância entre Oliveira
Botelho e Nilo Peçanha, afirma que a rejeição de Botelho ao nome de Pinheiro derivava da
interferência de Peçanha, quem, associado a Dantas Barreto, pretendia atuar à revelia de
Minas e São Paulo. Por outro lado, Marieta Ferreira (Ferreira, 1989:capítulo 9) afirma que
Nilo se encontrava neutro em relação aos dois grupos em disputa, mas que Botelho, diante
da neutralidade de seu chefe, posicionou-se ao lado do bloco anti-pinheirista. As fontes
empíricas que pesquisamos apontam para outra direção. Comprovam o posicionamento
favorável de Nilo Peçanha ao candidato do PRC e de Oliveira Botelho, ao lado dos mineiros
(facção salista) e de Dantas Barreto, na oposição.
18
A respeito do apoio de Wenceslau à candidatura Pinheiro Machado ver: carta de
Wenceslau Brás a Bueno Brandão de 21 de fevereiro de 1913; carta de Wenceslau
a Antônio Azeredo de 1 de março de 1913 e carta de Wenceslau a Bueno da mesma
data(In: Casasanta, 1958: 292,161 e 296, respectivamente).
19
Ver carta de Bueno de Paiva a Bueno Brandão de 22 de fevereiro de 1913 (In:
Casasanta, 1958:352, 270, 343 e 164, respectivamente). e carta de Delfim Moreira
a Wenceslau Brás, AWB, VB 03, pasta 13.01.26, doc. 416, CPDOC.

213
para que não se manifestasse, o Presidente fluminense ameaçou entregar o seu
cargo, caso o estado do Rio tivesse que aderir ao nome gaúcho. Pinheiro sentia
os resultados das derrotas políticas resultantes das intervenções “salvadoras”
praticadas em detrimento de sua liderança. Não obstante, as articulações em seu
favor eram mantidas nos bastidores da política. Consta que em troca do apoio dos
estados Pinheiro oferecia cargos ministeriais, vagas no diretório do PRC, candi-
daturas à Vice-Presidência e diversas facilidades no findar do governo Hermes.20
Percebe-se que as divisões entre os grupos que apoiavam o governo federal
não haviam arrefecido. Os antigos “salvadores”, fortalecidos pelas oligarquias de
oposição à indicação de Pinheiro Machado, passaram a ser conhecidos, a partir
deste movimento de reação, como “coligados”, em oposição aos “perrecistas”, nome
dado aos membros do PRC, adeptos leais da candidatura de Pinheiro Machado.21
Diante das rejeições ao seu nome, Pinheiro Machado tentou uma nova manobra,
através da indicação do nome de Rui Barbosa, desde que o baiano se comprome-
tesse a abrir mão da revisão constitucional como ponto programático. A resposta de
Barbosa foi imediata. Em entrevista a um jornal, não só recusou a indicação, como
sugeriu um novo nome para a disputa, o de Rodrigues Alves. Mas Alves sabia das
resistências que sofreria por parte do grupo pinheirista. Não obstante o anunciado
apoio dos coligados, recusou a oferta (Mangabeira, 1943:192).22
Para evitar-se um rompimento definitivo de Minas com a candidatura de
Machado – que, apesar de contundentes oposições, ainda não havia sido retirada
– o grupo de Wenceslau Brás solicitava o adiamento da reunião do PRM, na qual
a posição mineira seria definida, para não arcar, por si só, com a fúria de Pinheiro.

20
Ver Carta de Carneiro de Resende a Bueno Brandão de 22 de abril de 1913; carta
de Francisco Sales a Bueno Brandão de 2 de maio de 1913; carta de Heitor de Souza
a Bueno Brandão de 1 de maio de 1913; carta de Antônio Azeredo a Bueno Brandão
de 3 de maio de 1913 (Casasanta, 1958:352, 270, 343 e 164, respectivamente).
21
Afonso Arinos (Franco, 1973:693) afirma que os coligados eram: Francisco Sales (MG),
Dantas Barreto (PE), Oliveira Botelho (RJ), Clodoaldo da Fonseca (AL), Franco Rabelo (CE)
e um representante de São Paulo. Em nossa pesquisa, detectamos que não havia nenhum
representante paulista entre os coligados, os quais disputavam com os perrecistas o apoio de
São Paulo. Acrescentaríamos o nome de Joaquim Seabra (BA) no agrupamento dos coligados.
22
Ver também carta de Carlos Otoni a Rui Barbosa, de 26 de março de 1913 (ARB,
CR 1100/1 [11], FCR) e carta de Delfim Moreira a Wenceslau Brás de 27 de março de
1913 (AWB, VB 03, pasta 14.09.15, doc. 884, CPDOC). A entrevista de Rui Barbosa
foi publicada em 21 de abril de 1913 e encontra-se no ARB, RB PI 30, FCR. Sobre
a insistência para que Alves aceitasse a indicação ver: Cartas de Amaro Cavalcanti a
Rodrigues Alves de 23 e 29 de abril de 1913 (ARA, Lata 808, pasta 54, IHGB); sobre a
insistência de outros setores da elite paulista em fortalecer a indicação de Campos Sales ver
carta de Sabino Barroso a Bueno Brandão de 29 de abril de 1913 (Casasanta, 1958:190).

214
Mas a ala salista detinha a maioria do partido, principalmente depois de associar-
se a Bias Fortes. Apesar da oposição do grupo de Brás, a reunião foi convocada e
o PRM rejeitou oficialmente a candidatura de Pinheiro Machado à Presidência.23
O impacto da reação mineira sobre a candidatura gaúcha foi muito
grande, já que a rejeição oficial punha uma “pá de cal” sobre ela. Caso o
PRM se manifestasse a seu favor, provocaria, no mínimo, uma divisão entre
os estados coligados. Como o partido definiu-se pelo veto, a candidatura
de Pinheiro estava malograda por absoluta falta de sustentação política.
As divisões entre perrecistas e coligados se ampliaram. Na Câmara e no
Senado, os pinheiristas tentavam conduzir a recomposição da mesa diretora a
seu favor e excluíram Sabino Barroso da Comissão de Finanças. Ao mesmo
tempo, Francisco Sales foi afastado do Ministério da Fazenda (Carta de Ribeiro
Junqueira a Bueno Brandão de 8 de maio de 1913 In: Casasanta, 1958:217).
Pinheiro Machado retirou definitivamente o seu nome da disputa. Em res-
posta à insistência de Rivadávia Correia para que mantivesse seu nome, Pinheiro
asseverou: “Bem sei que venceríamos, mas correria sangue e a minha candidatura
não vale o sangue de ninguém” (Mangabeira, 1943:197). Com o fim de manter o
controle sobre o processo sucessório, indicou o nome de Campos Sales.

23
Ver carta de Wenceslau Brás a Bueno Brandão de 2 de maio de 1913; carta de
Bueno Brandão a Hermes da Fonseca de 5 de maio de 1913; resposta de Hermes da
Fonseca a Bueno Brandão de 7 de maio de 1913; carta de Wenceslau Brás a Bueno
Brandão de 9 de maio de 1913; carta de Bueno Brandão a Antônio Azeredo de 13 de
maio de 1913; carta de Bueno Brandão a Hermes da Fonseca de 13 de maio de 1913;
carta de Antônio Azeredo a Bueno Brandão de 18 de maio de 1913 (In:Casasanta,
1958:299, 167, 168, 300, 165, 169, 166, respectivamente).

215
b) A candidatura Campos Sales

Uma vez derrotado o projeto pinheirista, a candidatura de Campos Sales foi


lançada pelos gaúchos. A decisão caberia a São Paulo. Caso o estado aderisse
ao lançamento de um nome seu, não haveria como os coligados o rejeitarem.
São Paulo, sem pertencer às hostes pinheiristas ou anti-pinheiristas era a “bola
da vez”. A sua posição de neutralidade garantia-lhe o bônus de poder decidir,
por si próprio, se queria estar à frente do processo por mais uma vez.24
Pondo fim às expectativas dos coligados, São Paulo optou em sustentar
o nome de Campos Sales, mesmo sabendo que este não unificava o PRP.
Derrotados, aos coligados restava apenas limitar o poder de Pinheiro
Machado, indicando o candidato à Vice-Presidência na chapa encabeçada por
Campos Sales. Toda a disputa travada em torno da indicação do candidato
à Vice-Presidência tinha relação direta com a idade avançada do pleiteante.
Ele próprio já havia advertido quanto às precariedades de sua saúde.25
Durante o mês de junho, inúmeras articulações políticas foram sendo
travadas, com vistas à escolha do companheiro de chapa de Campos Sales.
O nome de Wenceslau Brás foi posto na mesa como aspirante à Vice-
Presidência. Encontrou, porém, resistências. Brás, apesar de ser mineiro,

24
Ver cartas de Junqueira a Bueno Brandão de 9 e 10 de maio de 1913 e carta de
Leopoldo Bressane a Bueno Brandão de 11 de maio de 1913 (In: Casasanta, 1958:289
e 210, 219, 221 e 245, respectivamente).
25
As informações relativas à candidatura Campos Sales foram baseadas nas seguintes
fontes: cartas de Wenceslau Brás a Bueno Brandão de 14 e 18 de maio de 1913; carta
de Francisco Sales a Bueno Brandão de 15 de maio de 1913; cartas trocadas entre
Carneiro de Resende e Bueno Brandão de 16, 22 e 25 de maio de 1913; cartas trocadas
entre Sabino Barroso e Bueno Brandão de 19, 20, 22, 27 e 28 de maio de 1913; cartas
trocadas entre Ribeiro Junqueira e Bueno Brandão de 22 e 27 de maio de 1913; cartas
de Heitor de Souza a Bueno Brandão de 22 e 23 de maio de 1913; carta de Rodrigues
Alves a Bueno Brandão de 24 de maio de 1913; cartas de J. J. Seabra a Bueno Brandão
de 24 e 26 de maio de 1913; carta de Clodoaldo Fonseca a Bueno Brandão de 24
de maio de 1913; cartas de Dantas Barreto a Bueno Brandão de 25 e 28 de maio de
1913; carta de Leopoldo Bressane a Bueno Brandão de 27 de maio de 1913; carta de
Oliveira Botelho a Bueno Brandão de 28 de maio de 1913 (In: Casasanta, 1958:174 a
356); carta de Bernardino de Campos a Rui Barbosa de 25 de maio de 1913, ARB, CR
280/1 (35) FCR; carta de Sabino Barroso a Wenceslau Brás de 26 de maio de 1913,
AWB, VB 03, pasta 13.01.26, doc. 442, CPDOC; carta de Bueno Brandão a Wenceslau
Brás de 27 de maio de 1913, AWB, VB 03, pasta 13.01.26, doc. 442, CPDOC; carta
de Bernardo Monteiro a Wenceslau Brás de 27 de maio de 1913, AWB, VB 03, pasta
13.01.26, doc. 443, CPDOC; carta de Pandiá Calógeras a Wenceslau Brás de 22 de
maio de 1913, AWB, VB 03, pasta 13.01.26, CPDOC.

216
não era tido como um nome pertencente ao grupo dos coligados, em função
de sua proximidade com Pinheiro Machado. A primeira rejeição partiu de
Nilo Peçanha e foi secundada pelo próprio Campos Sales. Muito embora o
nome contasse com o aval do Rio Grande do Sul e do situacionismo paulista,
os estados da Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco e uma das facções mineiras
(a dos salistas) não aceitaram a indicação.26 O nome foi retirado. Por este
fato fica mais uma vez comprovado que Brás não era um nome de confiança
dos coligados e que São Paulo não integrava a agremiação, uma vez que
havia aderido à indicação.27
Percebendo as dificuldades para a viabilização de sua candidatura,
Campos Sales retirou o seu nome, em carta pessoal a Pinheiro Machado.28

26
Ver carta de Pinheiro Machado a Wenceslau Brás de 10 de junho de 1913 (AWB,
VB 03, pasta 13.01.26, doc. 447, CPDOC) e carta de Pinheiro Machado a Wenceslau
Brás de 10 de junho de 1913 (AWB, VB 03, pasta 13.01.26, doc. 447, CPDOC).
Debes (1978:609, nota 1056) afirma que Bias Fortes, em carta à bancada mineira,
afirmava que a bancada dos coligados cindiu-se ao analisar a candidatura a vice de
Wenceslau, ficando reduzida a 53 deputados.
27
A respeito do apoio do Rio Grande do Sul ver carta de Pinheiro Machado a Wenceslau
Brás de 13 de junho de 1913 (AWB, VB 03, pasta 13.01.26, doc. 454, CPDOC).
Acerca da posição do Rio de Janeiro, cabe notar que Nilo Peçanha divergiu novamente
de Oliveira Botelho. O primeiro rejeitou o nome e o segundo o apoiou; ver carta de
Heitor de Souza a Bueno Brandão de 12 de junho de 1913; carta de Oliveira Botelho a
Bueno Brandão de 14 de junho de 1913; cartas de Wenceslau Brás a Bueno Brandão
de 14 e 15 de junho de 1913 (In: Casasanta, 1958:348, 175, 307, respectivamente).
Carta de Bueno Brandão a Wenceslau Brás de 14 de junho de 1913, AWB, VB 03,
pasta 13.01.26, doc. 457 e carta de Teodomiro a Wenceslau Brás, s/d, AWB, VB 03,
pasta 13.01.20, doc. 535, CPDOC. Sobre o posicionamento de Minas Gerais, através
de suas variadas facções ver cartas de Wenceslau Brás a Bueno Brandão de 10, 14 e
15 de junho de 1913; carta de Ribeiro Junqueira a Bueno Brandão de 15 de junho de
1913; carta de Leopoldo Bressane a Bueno Brandão de 16 de junho de 1913; carta de
Bueno Brandão a Rodrigues Alves, s/d (In: Casasanta, 1958:304, 306, 307, 238, 248
e 186, respectivamente). Cartas trocadas entre Bueno Brandão e Wenceslau Brás de
16 de junho de 1913, AWB, VB 03, pasta 13.01.26, docs. 463 e 449. CPDOC; cartas
de Raul Fernandes, José Bezerra, Mário Hermes e Moreira Rocha a Wenceslau Brás
de 16 de junho de 1913, AWB, VB 03, pasta 13.01.26, doc. 462, CPDOC. Sobre a
posição da Bahia: carta de Francisco Sales a Bueno Brandão de 14 de junho de 1913
e carta de Seabra a Bueno de 15 de junho do mesmo ano (In: Casasanta, 1958:274 e
179). Quanto à posição de São Paulo ver: carta de Sabino Barroso a Wenceslau Brás
de 18 de junho de 1913, AWB, VB 03, pasta 13.01.26, doc. 464, CPDOC e carta de
Francisco Sales a Bueno Brandão de 18 de junho de 1913 (In: Casasanta, 1958:275).
28
Ver carta de Campos Sales a Pinheiro Machado de 17 de junho de 1913 em Debes
(1978:608).

217
Dias depois ele faleceria. Sua morte resultou na possibilidade de novas
articulações.

c) Re-dimensionando o “Pacto de Ouro Fino”

Antes de passar-se ao próximo item, uma intervenção acerca do Pacto


de Ouro Fino faz-se necessária. Segundo relato de Sertório de Castro, o
paulista Cincinato Braga, tendo ouvido de um deputado fluminense, em
caráter de sigilo absoluto, acerca das pretensões do Catete em lançar a
candidatura de Pinheiro Machado, teria primeiramente comunicado o fato
a Francisco Sales e depois partido imediatamente para São Paulo com o
fim de impedir que o nome fosse aceito por seu estado. Sob as ordens do
PRP, Braga teria sido enviado à cidade de Ouro Fino, para impedir que
Minas aderisse à candidatura proposta. Naquela ocasião, Minas e São Paulo
teriam travado um pacto, resumido pelo próprio autor citado desta forma:

Minas, de acordo com São Paulo, não aceitaria para presidente, nem o Sr.
Pinheiro Machado, nem o Sr. Nilo Peçanha, nem o general Dantas Barreto.
Minas, em nenhuma hipótese, aceitaria a Vice-Presidência. Firmava-se a
combinação de que nenhum político mineiro ou paulista, que para isso fosse
convidado, aceitaria a candidatura à presidência. (Castro, 1982:218- 219)

Narra igualmente o jornalista que Cincinato Braga advertiu Bueno para


que, ao ser consultado, dissesse que primeiro teria de ouvir o PRM, com
o fim de ganhar tempo e não inviabilizar a eleição de Sabino Barroso à
Presidência da Câmara. Todos os relatores acerca do tema são unânimes em
dizer que o pacto foi firmado no mês de abril de 1913, entre os dias 21 e 25.
Segundo as informações existentes, Minas e São Paulo foram vitoriosos
em suas intenções, na medida em que impediram a candidatura de Pinheiro
Machado. Consta igualmente que, após o pacto, a elite política nacional teria
se dividido entre perrecistas e coligados. Os primeiros estavam reunidos em
torno da candidatura de Pinheiro Machado e os segundos em oposição.29
Conforme se afirmou, em toda a pesquisa empírica realizada, não foi
encontrada nenhuma referência explícita ao Pacto de Ouro Fino. Além disto,
pôde ser percebido que o veto à candidatura de Pinheiro não partiu somente

29
Quando nos referimos aos historiadores que tratam do pacto, além de outros citados
no decorrer deste livro, foram consultados para este fim específico Souza (1985:209-
210), Castro (1982:218- 219), Pôrto (1951:184), Franco (1955:789-790), Franco
(1973:688 e 693) e Bello (1972:230 e 231).

218
dos dois estados-pactuantes, mas foi de iniciativa de Pernambuco, seguido
pelos demais estados de oposição, em aliança com os militares. Desta for-
ma, afirmar que o Pacto de Ouro Fino tenha sido responsável pelo veto à
candidatura de Pinheiro Machado constitui-se em omissão ou subestimação
da influência dos demais estados no processo de fragilização do nome.
Um outro problema refere-se à data em que teria sido realizado o pacto.
Na data aventada pelos historiadores, abril de 1913, a candidatura de Pinheiro
não mais se encontrava em sigilo e já havia sido oficialmente comunicada à
maior parte dos estados brasileiros. Prova disto é que a resposta de Bueno
a Azeredo, acerca do posicionamento de Minas, data do dia 7 de fevereiro,
dois meses antes do referido pacto. Assim, se tal pacto de fato ocorreu, ele
teria que ter se dado em princípios de janeiro, uma vez que a comunicação
formal da fórmula Pinheiro/Bueno foi feita a Minas em 18 de janeiro de 1913.
Outro ponto a ser realçado diz respeito ao conteúdo do que teria sido
o pacto. Se realmente Minas acordou em não aceitar ocupar a Vice-Presi-
dência, rapidamente o estado abriu mão do pacto, já que as elites mineiras
trabalharam arduamente pela indicação de mineiros para a Vice-Presidência
na impossibilidade de o estado encabeçar a chapa. O mesmo descom-
promisso em relação ao pacto pode ser atribuído a São Paulo. Tão logo o
estado foi convidado a aceitar a Presidência, através de um candidato com
possibilidades reais de unificar os dois grupos em luta, disse “sim”, como
no caso da candidatura Campos Sales.
Uma outra discordância que mantemos é em relação à divisão do corpo
político entre coligados e perrecistas, após o lançamento da candidatura de
Pinheiro Machado. Conforme foi visto, esta divisão já existia, desde o primeiro
biênio do governo Hermes. O que ocorreu foi um acirramento da divisão entre
pinheiristas e anti pinheiristas após o lançamento da referida candidatura.
Como se viu, caso o Pacto de Ouro Fino tivesse tido a importância a
ele atribuída pelos historiadores, São Paulo teria recusado a indicação de
Campos Sales para fortalecer a posição mineira. Mesmo sabendo do impacto
negativo sobre as lutas internas do estado, o PRP aderiu ao nome à revelia
da oposição dos coligados.30
Ainda em relação a este fato, discordamos dos autores que incorporam
São Paulo ao grupo dos coligados. O que se percebe é que o apoio de São
Paulo era disputado pelas partes em luta. Qualquer grupo, que tivesse fir-
mada com ele uma aliança, faria maioria no Parlamento. Foi a manutenção

30
Confirmando nossos argumentos, Debes (1978:604-605) publicou carta de Campos
Sales a Pinheiro Machado, onde este ressalta a aceitação de seu nome pelos paulistas
e a resistência dos coligados em aceitá-lo.

219
desta condição de neutralidade que garantiu a São Paulo o desempenho de
um papel muito importante em todo o processo sucessório.
Assim, o presente livro não confere ao Pacto de Ouro Fino a importância
normalmente a ele atribuída. Caso ele tenha de fato ocorrido, tratou-se de
um acordo a mais, entre muitos outros travados pelos diferentes estados. E
conforme será visto, o seu conteúdo foi totalmente descumprido entre as partes.

5.2.3 A escolha de Wenceslau Brás como um projeto conciliatório

As articulações corriam contra o tempo. Voltava-se à estaca zero. Os


coligados haviam dado prova cabal de que qualquer solução teria que passar
pelo seu aval. O PRC não se sentia forte o suficiente para bancar, por si só,
uma candidatura sem evitar novas disputas eleitorais, a exemplo do que
ocorrera na sucessão anterior. Só uma solução conciliatória, que unisse os
dois agrupamentos, seria capaz de evitar nova disputa.
O PRC, porém, informou que a fase de acordos estava terminada e
que o partido lançaria, por si só, um nome próprio, à revelia dos coligados.
Estes reagiram, ameaçando somar forças com a candidatura oposicionista de
Rui Barbosa. Novamente, a República viveria uma disputa eleitoral intensa.
A chapa de reação apresentada pelo Partido Liberal foi a de Rui Barbosa-
Alfredo Ellis, lançada em julho de 1913. Os antigos civilistas de São Paulo
empolgaram-se com a retomada da candidatura de Rui Barbosa e pressionaram
para que o situacionismo paulista a ela aderisse contra o nome a ser lançado
pelo PRC. A chapa contava com o total apoio da situação baiana.
Vendo o crescimento ameaçador da nova chapa, o PRC reconsiderou
o seu posicionamento e ofereceu apoio ao nome de Wenceslau Brás. Aos
poucos, o nome do mineiro foi sendo consolidado e obtendo apoios de im-
portantes estados, a exemplo de Ceará, Alagoas, Pernambuco e Bahia. Os
salistas mineiros, muito embora insatisfeitos com a solução, não tinham como
recusar o nome de Brás, indicado pelo seu próprio Presidente de estado.31

31
Ver cartas de Leopoldo Bressane a Bueno Brandão, s/d e duas cartas de 9 de julho
e uma carta de 14 de julho de 1913; cartas de R. Junqueira a Brandão de 6 e 7 de
julho de 1913; cartas de Bueno de Paiva a Brandão de 7 e 9 de julho de 1913; carta
de Heitor de Souza a Brandão de 10 de julho de 1913; carta de Brandão a Seabra de
12 de julho de 1913; carta de Rodrigues Alves a Brandão de 12 de julho de 1913;
carta de Clodoaldo Fonseca a Brandão de 13 de julho de 1913; carta de Resende a
Brandão de 13 de julho de 1913; carta de Franco Rabelo a Bueno Brandão de 14 de
julho de 1913; carta de Dantas Barreto a Brandão de 14 de julho de 1913 (Casasanta,
1958:250, 251, 252, 235, 234, 332, 331, 349, 188, 173, 184, 362, 185 e 181,
respectivamente). Carta de Seabra a Bueno, s/d, ARB, CR 228, FCR.

220
Os paulistas dividiram-se internamente. Parte de sua elite queria manter
o apoio a Rui Barbosa e outra parte aderir ao nome de Wenceslau. A de-
cisão favorável a Wenceslau contra Barbosa se deu por apenas um voto de
diferença na comissão executiva do PRP. As fontes atestam que a decisão
deixava sequelas na unidade interna paulista, conforme relatava Leopoldo
Bressane a Bueno Brandão:

Tenho a impressão, depois de conversar com diversos deputados pau-


listas, de que eles desejam que da aceitação do acordo Wenceslau pela
Comissão e Governo paulistas não se faça questão fechada. Fechada ou
não, vê-se que não será possível evitar a divisão na política paulista, pois
Galeão, Cândido Mota, Riper e outros romperão. (Carta de Leopoldo
Bressane a Bueno Brandão de 22 de julho de 1913 In: Casasanta,
1958:253.)32

Mas o situacionismo paulista estava com o mineiro e os demais setores


eram minoritários no controle do PRP. Percebendo a inviabilidade de seu
nome, Rui se retirou da disputa. José Maria Bello afirma que ele o fez por
estar apreensivo com a proximidade da guerra. De qualquer forma, a retirada
da candidatura contribuiu para arrefecer as disputas internas paulistas.33
A escolha de Wenceslau Brás não implicaria em derrota para nenhuma
das correntes em luta, daí a facilidade com que o nome foi aceito. Para os
coligados a sua aceitação não era uma derrota. O nome fora indicado pelo
Presidente mineiro que mantinha relações com ambas as correntes. Muito
embora Francisco Sales fizesse parte do grupo dos coligados, o estado,
oficialmente, integrava o PRC e conhecidas eram as ligações de Wenceslau
Brás, Delfim Moreira e Sabino Barroso com Pinheiro Machado. Pinheiro
Machado apressou-se em indicar o candidato à Vice-Presidência. O nome
era o de Urbano dos Santos (do Maranhão), membro cativo do PRC. Como
uma demonstração de que a chapa era de conciliação, foi o próprio Dantas
Barreto quem indicou Pinheiro Machado para presidir a reunião da con-
venção. Dando mostras de estar aberto ao acordo, entregou a direção dos
trabalhos ao Presidente da Câmara, Sabino Barroso.
Mas em Minas, a indicação de Wenceslau implicou em derrotados
e vencedores. O grupo liderado por Francisco Sales foi o derrotado e fez
questão de deixar sua discordância explicitada. O PRC percebeu que Minas
tinha problemas internos em relação à chapa e que a liderança de Francisco

32
Em relação às informações de Afonso Arinos ver Franco (1955).
33
Sobre as razões da desistência de Rui Barbosa ver Bello (1972:231).

221
Sales era ainda hegemônica no estado. Fatalmente, o controle que o PRC
planejava exercer sobre o candidato mineiro sofreria resistências por parte
dos salistas. Minas iniciaria uma segunda gestão presidencial novamente
como um estado desunido.34

* * *

Pelo que foi observado acima, algumas conclusões acerca deste processo
sucessório merecem ser aventadas. Em relação à candidatura de Pinheiro
Machado, procurou-se comprovar que o veto a ela não decorreu somente
de um acordo entre os estados de Minas e São Paulo. Pelo que se pôde de-
monstrar, outros estados já haviam reagido contrariamente ao nome, antes
de o PRM se posicionar, embora a atitude do partido tenha sido o golpe
final contra a pretendida candidatura.
Através da análise empreendida, buscou-se destacar que São Paulo
não aderiu prontamente ao nome de Wenceslau Brás, uma vez que já havia
caminhado celeremente para a candidatura de Rui Barbosa. O recuo e a
adesão ao nome mineiro acirraram as disputas internas entre os paulistas.
Além disto, o apoio mineiro foi também parcial, na medida em que à facção
salista não agradou a escolha realizada. Por outro lado, os políticos ligados
à liderança de Wenceslau Brás, em Minas Gerais, não rejeitavam a chapa
e se esforçavam em manter Minas como estado vinculado ao PRC e aos
interesses do Catete, na medida em que Wenceslau Brás integrava o governo
federal. Assim, a hipótese de que o nome de Brás tenha sido sustentado por
Minas e São Paulo contra o Rio Grande do Sul perde um de seus alicerces.
Acredita-se também que o Pacto de Ouro Fino não se revestiu do grau
de formalidade e eficácia a ele atribuído pela historiografia. São Paulo era

34
Cartas de Wenceslau a Bueno Brandão de 16 e 20 de julho e 28 de agosto de 1913;
carta de Bressane a Brandão sem data; carta de Sabino Barroso e Paiva a Bueno
Brandão de 23 de julho de 1913; cartas de Bueno de Paiva a Bueno Brandão de 24
de julho e 23 de setembro de 1913; cartas de Sabino Barroso a Brandão de 2 de
agosto e 10, 11 e 23 de setembro de 1913; cartas de Junqueira a Bueno de 11 de
agosto, 1 e 8 de outubro de 1913; carta de Bueno Brandão a Ribeiro Junqueira de 24
de outubro de 1913(In: Casasanta, 1958:308, 311, 312, 255, 334, 333, 334, 196,
198, 199, 237, 240, 241 e 243, respectivamente). Carta de Brandão a Wenceslau
de 24 de julho de 1913, AWB, VB 03, pasta 13.01.20, doc. 474, CPDOC; carta de
Astolfo Dutra a Wenceslau de 14 de agosto de 1913, AWB, VB 03, pasta 10.12.10,
doc. 177, CPDOC; carta de H. Rezende para Wenceslau de 17 de agosto de 1913,
AWB, VB 03, pasta 11.05. 23, doc. 321, CPDOC; carta de Alaor Prata a Brás de 10
de setembro de 1913, AWB, VB 03, pasta 11.05.23, doc. 330, CPDOC.

222
mais um estado no amplo leque de alianças formadas em oposição à can-
didatura pinheirista. Buscou-se igualmente datar corretamente o evento.
Se ele tivesse ocorrido no mês de abril, não precisaria ter sido sigiloso. O
que é pior, teria sido tardio.
Nada autoriza a dizer que a candidatura Wenceslau Brás tenha sido
resultante de um acordo entre Minas e São Paulo contra o Rio Grande do
Sul. O que se viu é que ela representou um acordo possível entre as partes em
luta, capitaneadas por Francisco Sales e Pinheiro Machado, em que ambas
saíram parcialmente derrotadas. Prorrogar os embates travados durante toda
a gestão de Hermes seria colocar em risco o próprio regime republicano,
principalmente pela presença acentuada dos militares na política.
Quanto à participação dos militares no processo sucessório, como foi
visto, ela foi menor, em relação à ativa participação que tiveram nos primei-
ros dois anos do governo. Inicialmente, a corporação tentou construir sua
hegemonia sobre a nação através de alianças com os setores civis descon-
tentes. Tiveram êxito em suas pretensões, construindo uma poderosa rede
de alianças nos pequenos e médios estados. Mas por não disponibilizarem
de quadros suficientes e encontrarem resistências por parte das oligarquias
civis e, por consequência, terem que aliar-se às oligarquias de oposição,
não ocuparam diretamente o poder, à exceção de Pernambuco e de outros
pequenos estados, perdendo o controle sobre a situação. A tentativa de
criação do eixo alternativo ao poder dos grandes estados, por parte dos
militares, fracassou. Como resultado, tiveram uma participação menos ativa
na renovação do Catete.
No entanto, a presença dos militares, enquanto atores na política, alterou
o quadro em vigor. A divisão do governo Hermes em dois grupos em luta foi
resultante da intervenção militar na política. O grande leque de candidaturas
disponibilizadas, fora o considerável número de nomes apresentados, indicou
o maior grau de competitividade entre os atores hegemônicos, na luta pela
oportunidade de se candidatar. Este fato resultou da aludida fragilização
do Executivo Federal, marca da presença do Exército no Catete.
Um outro destaque feito relaciona-se à postura neutra assumida por
São Paulo antes e durante o processo sucessório. Tal postura habilitou-o
a encontrar-se em posição de tertius durante o embate, fortalecendo o seu
poder. O maior exemplo da importância adquirida por São Paulo, no período,
é que se chegou a aventar uma chapa formada por dois paulistas (Campos
Sales–Rodrigues Alves), além de uma outra encabeçada pelo próprio
Rodrigues Alves.
Um ponto relevante a ser destacado foi a ampliação do leque de alianças
de Minas Gerais no contexto nacional. Desde o Governo Rodrigues Alves,

223
quando Minas iniciou a sua projeção nacional, São Paulo não fazia parte
das parcerias políticas estabelecidas pelo estado. A partir desta sucessão,
São Paulo passou a fazer parte do grupo de estados com os quais Minas
estabelecia alianças políticas. Este fato teve clara relação com o aumento
do grau de competitividade da disputa prévia, que resultou, por sua vez, de
dois fatores interrelacionados: a presença de um novo ator – o Exército – e
a fragilização de um deles – o Rio Grande do Sul.
Cabe por fim ressaltar que, na abordagem alternativa ao Pacto de Ouro
Fino proposta no presente livro, não se advoga a hipótese de que a aliança
Minas–São Paulo tenha ocorrido a partir deste evento. O que se afirma é
que São Paulo, após um longo período no ostracismo ou na oposição, foi
reintegrado ao grupo de estados politicamente hegemônicos na nação. E
que Minas Gerais passou a desfrutar de um novo parceiro no conjunto de
alianças estabelecidas pelo estado.

224
Capítulo 6

Briga de atores, corte na cena...

A convivência humana... só para dominar; do


contrário, mil vezes a solidão. (Frase atribuída a
Pinheiro Machado, Pôrto, 1951:231, apud)

Artigo Primeiro: Fica extinto o Sr. Pinheiro


Machado; Artigo Segundo: Revogam-se as dispo-
sições em contrário. (Pilhéria do Deputado José
Gonçalves Maia, publicada no jornal A Noite em
setembro de 1915, Love, 1975:184, apud)

Neste item discutiremos uma nova fase da política republicana, inau-


gurada com a incorporação de São Paulo no grupo de estados com os quais
Minas Gerais mantinha alianças políticas mais próximas. Conforme foi
visto, São Paulo teve uma participação ativa na definição da candidatura de
Wenceslau Brás, ao lado dos estados que compunham a coligação e ao lado
daqueles que politicamente se associavam à liderança de Pinheiro Machado.
Juntos, esses dois grupos administrariam o país e seriam responsáveis pela
vivência de dois processos sucessórios imediatamente consecutivos.
Este período foi composto por um conjunto de eventos importantes. A
construção do governo de Wenceslau e sua sucessão é o primeiro deles;
a morte de Rodrigues Alves e a escolha de Epitácio Pessoa é um outro.
Dentro desta conjuntura, uma série de outros acontecimentos importantes
teve curso, a exemplo da segunda política de valorização do café, da morte
de Pinheiro Machado, das intervenções nos estados, etc.
Um elemento a ser destacado, relativamente à indicação de Rodrigues
Alves para a sucessão de Wenceslau Brás, refere-se ao advento de uma
sucessão sem disputa política prévia ou posterior, o que não ocorria desde
o governo de Campos Sales, constituindo-se em importante variável a ser
levada em conta. Outro ponto que merece ser destacado refere-se à indicação
de Epitácio Pessoa, um Presidente oriundo de um pequeno estado, o que se

225
constituiu em exceção durante todo o período relativo à Primeira República.
Tais inovações, por si só, justificam a relevância do objeto a ser tratado.
Para os limites deste item, pretende-se comprovar que, muito embora
São Paulo tenha se tornado um importante aliado político de Minas Gerais
neste período, esta aliança não se deu de forma exclusivista e nem foi isenta
de fragilidades. Através da pesquisa empreendida, pôde-se perceber que
os estados com os quais Minas mantinha alianças históricas continuaram a
fazer parte de seu leque de alianças políticas preferenciais, não obstante a
inclusão de um novo parceiro político de grande importância, como foi São
Paulo. Ao mesmo tempo, pôde-se perceber que esta aliança foi construída
com muitas dificuldades e teve que enfrentar sérios obstáculos.
Especificamente em relação às duas sucessões em análise, buscare-
mos comprovar que a ausência de disputas políticas prévias à escolha de
Rodrigues Alves pode ser explicada por duas razões. Primeiro, pelo abalo
sofrido pelo Rio Grande do Sul em seu desempenho político nacional,
após a morte de Pinheiro Machado. Com o desaparecimento de seu maior
representante na Federação, aquele estado precisou de um tempo para
recompor suas forças e retomar a sua ativa participação. A ausência de um
agente político de peso e com pretensões hegemônicas diminuiu o grau de
competitividade do mercado político. Uma segunda razão diz respeito à
diminuição do número de políticos habilitados para concorrerem ao cargo.
O envelhecimento da primeira geração de políticos republicanos, ao lado
da projeção de novos atores ainda muito jovens, restringiu o recrutamento,
reduzindo as opções políticas disponíveis.
Após a morte de Rodrigues Alves, o primeiro problema, relativo à per-
formance política do Rio Grande do Sul, já se encontrava resolvido. Muito
embora a carência de pretendentes ao cargo presidencial ainda servisse de
embargo ao avanço das articulações políticas, a República teve tempo para
repensar os seus riscos e aproveitar as experiências pregressas.
Acerca desta segunda sucessão, defendemos duas sub-hipóteses im-
portantes. A primeira é que a escolha de Epitácio resultou de um acordo
entre os grandes e médios estados, quando o apoio de Minas ao veto do
Rio Grande do Sul às pretensões hegemônicas paulistas foi fundamental
para a definição da candidatura do líder paraibano. A segunda sub-hipótese
refere-se à origem da associação de interesses entre o Rio Grande do Sul,
a Bahia e o Rio de Janeiro, contra a ameaça do surgimento de uma aliança
entre Minas e São Paulo de caráter exclusivista que, embora não tenha
ocorrido, havia se anunciado. Contra a provável associação dos dois estados
em prejuízo dos demais, formou-se uma “concentração de estados”, que se
ampliaria e se fortaleceria mais tarde, por ocasião da Reação Republicana.

226
Procurar-se-á comprovar que a escolha de um Presidente oriundo de um
pequeno estado resultou também dessa nova articulação de interesses.

6.1 O Governo Wenceslau Brás e o ressurgimento paulista

6.1.1 Composição política e primeiras divergências

a) A montagem do governo

A historiografia diverge acerca do controle exercido pelo PRC sobre a


montagem do governo de Wenceslau Brás. Para a imprensa e os testemunhos
de época, Brás teve que refazer todo o seu Ministério, após ter consultado
Pinheiro Machado acerca dos nomes que havia escolhido. Já os trabalhos
produzidos anos mais tarde alegam que, não obstante a interferência do chefe
gaúcho, Brás procurou manter-se autônomo em relação à escolha dos nomes.1
Pinheiro Machado sugeriu nomes para o Ministério da Fazenda, co-
biçado por todos, e para o Ministério da Guerra, em razão da importância
que seria atribuída a esta pasta, na nova conjuntura internacional de guerra
mundial. Em ambas as prerrogativas não foi contemplado.
O Ministério da Fazenda coube a Minas Gerais, tendo sido ocupado
por Sabino Barroso. Dessa forma, Wenceslau Brás negava a indicação de
Pinheiro, mas o contemplava de forma indireta, na medida em que Sabino
Barroso pertencia às hostes perrecistas. Outro Ministério importante, o da
Viação, coube ao político nordestino Tavares de Lyra, ligado ao PRC e que
teve participação fundamental na eleição de Brás. O Ministério do Interior
foi reivindicado por São Paulo, através de intervenção direta de Rodrigues
Alves. Wenceslau Brás recusou-se também em atender as reivindicações
paulistas e a pasta foi entregue a Carlos Maximiliano, que, apesar de gaúcho,
não pertencia ao grupo perrecista. Neste caso, Wenceslau Brás recusava
a pretensão paulista, mas entregava o cargo pretendido a um opositor de
Pinheiro em seu próprio território. São Paulo foi convidado a ocupar a
Pasta da Agricultura, mas Rodrigues Alves recusou a oferta, alegando não
ter interesse em participar do novo governo, da forma que lhe foi sugerida.

1
O testemunho de época que nos referimos foi: Salles (1960:34). Os trabalhos
posteriores foram: Bessone (1968:181), Cavalcanti (1983:36) e Carone (1988:310).

227
A pasta foi assim entregue a outro mineiro, do grupo de Wenceslau Brás,
Pandiá Calógeras.
Afonso Arinos afirma que R.Alves, um dos principais chefes responsá-
veis pelo êxito da candidatura de Wenceslau Brás, não foi ouvido em nenhum
momento na composição do Ministério. Segundo o autor, os desentendi-
mentos resultantes dessa postura foram significativos. São Paulo procuraria
manter-se autônomo em relação ao governo que se iniciava, muito embora
tivesse tido participação ativa na sua eleição (Franco, 1973:707-711).
As pastas militares couberam a Alexandrino de Alencar (Marinha) e
Caetano de Faria (Guerra). A Pasta do Exterior coube ao catarinense Lauro
Muller, ligado ao agrupamento dos coligados.2
A Presidência da Câmara foi novamente entregue a Minas, através
de um político oriundo da zona da mata mineira, Astolfo Dutra. Quanto à
liderança da maioria, Pinheiro Machado queria indicar um nome perrecis-
ta, o de Fonseca Hermes, que havia sido o líder do governo anterior, mas
foi impedido por uma indicação que partiu diretamente da Presidência da
República, com o apoio de toda a bancada mineira. Foi escolhido para o
cargo o mineiro Antônio Carlos.
Pela composição anunciada, comprova-se a intenção de Wenceslau Brás
em construir uma gestão autônoma em relação as duas maiores forças que
despontavam como as mais proeminentes do período: a dos perrecistas e a
dos coligados. Eleito por ambas, pretendia fazer um governo de conciliação
entre elas. Mas, para evitar o comando do PRC sobre seu governo, percebeu
que o melhor caminho seria aliar-se a São Paulo, sem abrir mão do apoio
do Rio Grande do Sul. Ao certificar-se dessa nova composição política, São
Paulo somaria forças ao grupo anti perrecista.
Por uma ironia do destino, Wenceslau Brás reproduzia o quadro político
da gestão de Afonso Pena. Como foi visto, Pena buscou construir um governo
autônomo para os dois grupos que lhe serviam de sustentação: o do Bloco
e o do Jardim da Infância. Wenceslau tentaria o mesmo caminho. Em seu
favor existiam dois novos elementos: seu grupo de sustentação política no
interior do estado – os “viuvinhas” – era mais consistente e homogêneo que
o de Afonso Pena; e para contrabalançar o poder do PRC, tinha um aliado
novo e muito poderoso, o estado de São Paulo. Toda vez que Minas Gerais

2
O Ministério sofreu alterações durante a gestão. Após a morte de Sabino Barroso, a
Pasta da Fazenda foi ocupada por outros dois mineiros, Calógeras e Antônio Carlos.
Lauro Muller foi substituído por Nilo Peçanha. Calógeras foi substituído por José
Bezerra (PE). Foram indicações de Pinheiro Machado o prefeito e o chefe de polícia
do Distrito Federal.

228
precisasse refrear a ação do PRC, recorreria a São Paulo sem, no entanto,
desfazer-se da histórica aliança com o Rio Grande do Sul. Dessa forma,
a parceria estabelecida com São Paulo assumiu um caráter pragmático.
Servia para contrabalançar a interferência do PRC, garantindo a desejada
independência do governo federal.
Merece também ser destacada a entrega de dois Ministérios a políticos
mineiros, ambos ligados à economia e finança nacionais. Em tempos de
guerra mundial, nada mais adequado do que ter o controle sobre tais pastas.
Além, é claro, do fato de continuar monopolizando a Presidência da Câmara
e manter outro mineiro na liderança da maioria. Wenceslau desejava fazer
um governo autônomo em relação às facções, mas desde que a hegemonia
mineira estivesse garantida.

b) A sucessão no Rio de Janeiro e os reconhecimentos

Wenceslau Brás havia herdado do governo anterior um foco de disputas


políticas, qual seja, a sucessão do Rio de Janeiro. A aproximação entre
o Presidente fluminense e Pinheiro Machado fez com que Nilo Peçanha
lançasse uma candidatura alternativa à sucessão do Rio de Janeiro. O resul-
tado foi a duplicação de atas e o pedido de intervenção sobre o estado, por
parte do grupo perrecista, já que Nilo Peçanha assumira o poder. Como o
evento ocorreu ao final do governo Hermes, o pedido foi arquivado até que
Wenceslau Brás fosse empossado (Ferreira, 1989, capítulo 9).
Wenceslau Brás tentou um acordo que se baseava na renúncia dos dois
postulantes, através da intervenção direta dos chefes políticos dos estados
de São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco. Na impossibilidade de acordo,
as bancadas dos estados coligados propunham a obstrução da matéria no
Congresso e seu consecutivo adiamento, mas não tinham clareza das inten-
ções do Executivo Federal em relação ao assunto.3
Obedecendo a Pinheiro Machado, o Senado aprovou a intervenção no esta-
do, inclusive com o voto do mineiro João Luís Alves. A estratégia dos coligados
foi atrasar a votação na Câmara, para que Nilo ficasse o maior tempo possível
no poder. A morte de Pinheiro deu novo curso à história: com ele, morreu
também esta questão. O projeto de intervenção, quando votado, foi recusado.
Neste episódio, o que se observa é que os antigos estados coligados
continuavam a opor-se a Pinheiro Machado. Neste evento, ganharam um

3
Carta de Wenceslau Brás a Delfim Moreira de 14 de janeiro de 1915, AWB, VB 03,
pasta 14.09.15, doc. 875, CPDOC e carta de Cincinato a Rodrigues Alves de 16 de
janeiro de 1915, ARA, lata 808, pasta 28, IHGB.

229
importante aliado, o governo federal, o qual atuou em prol de Nilo Peçanha,
alegando que agia de acordo com a legalidade, ao cumprir o que determinava
o Poder Judiciário. De nada valeram as pressões do PRC, que ameaçou,
inclusive, retirar do governo os Ministros a ele ligados. Como o Executivo
manteve-se firme, teve que recuar.
Uma nova disputa entre as forças que compunham o governo foi re-
presentada pelo reconhecimento da Câmara. Cabia à “comissão dos cin-
co” definir quais seriam os deputados líquidos, ou seja, aqueles que, por
preencherem todos os requisitos legais, seriam reconhecidos. Para isto,
utilizavam-se das cópias das atas de apuração, que eram como “charadas
pitorescas a serem decifradas”, em função dos interesses representados na
referida comissão (Cavalcanti, 1983:43).
À frente da defesa dos interesses do governo federal na comissão en-
contrava-se Antônio Carlos, na condição de líder da maioria. A posição do
Executivo Federal era por reconhecer todos os diplomados e formar uma
Câmara com maioria independente, o que implicava em impor uma derrota
a pretensões de coligados e perrecistas. (Carta de Brás a Delfim Moreira de
9 de fevereiro de 1915, AWB, VB 04, pasta 14.11.31, doc. 357, CPDOC).
A disputa se iniciou com a composição da comissão. Os perrecistas
fizeram duas exigências: que Pernambuco não fosse integrado à comissão,
por estar controlado ainda pelo grupo dantista e, caso São Paulo o fosse,
que o indicado pertencesse ao PRC e não ao situacionismo paulista.
Para frear a ação perrecista, Wenceslau determinou que São Paulo
fosse representado na comissão pelo situacionismo estadual, através do
nome de Cincinato Braga, e que Pernambuco fizesse parte da comissão,
contrariando as duas solicitações do partido. No entanto, dando curso à
estratégia de autonomia do Executivo Federal, garantiu ao PRC as duas
outras vagas restantes. O quarto nome seria indicado pelo Rio Grande do
Sul e o quinto pela situação maranhense, aliada ao PRC e indicada pelo
Vice-Presidente, Urbano dos Santos.4
A composição não agradou a nenhum dos dois grupos, pois não se
previa a real posição política a ser assumida por Antônio Carlos, conforme
comprova o relato do representante paulista a Rodrigues Alves: “A inde-
cisão umas vezes, o recuo outras vezes, de deliberações importantes, são
o característico do feitio mineiro” (Carta de Cincinato a Rodrigues Alves
de 3 de maio de 1915, ARA, lata 808, pasta 28, IHGB). Da forma como a

4
A comissão ficou assim composta: Antônio Carlos (MG), Cincinato Braga (SP), Manuel
Borba (PE), Cunha Machado (MA) e Soares dos Santos (RS). Conforme informações
de Bessone (1968:192).

230
comissão estava composta, Minas Gerais seria sempre o árbitro das decisões
polêmicas. Estava garantida a interferência do Catete sobre o Legislativo.
Aos poucos, foi-se percebendo que a postura de Antônio Carlos pendia
mais para o bloco perrecista do que para seus opositores. Pinheiro procurou
aproximar-se do líder mineiro e obteve resultados que lhe foram favoráveis,
a exemplo do caso de Alagoas. Naquele estado havia, desde o período das
“salvações”, uma disputa cerrada entre o PRC e os coligados. Antônio Carlos
propôs reconhecer dois nomes de cada facção, e contou com forte reação
contrária por parte de São Paulo. Mas conseguiu aprovar a sua proposta,
revoltando o líder Cincinato Braga.5
Os desagravos não pararam por aí. No período da composição da mesa
diretora da Câmara e das comissões, São Paulo aspirava à primeira Vice-
Presidência e, caso não fosse atendido, não abriria mão de dois lugares na
comissão de finanças. Mas as escolhas foram feitas à revelia dos paulistas.
Além disto, em seu trabalho de preenchimento dos cargos, Antônio Carlos
agiu sem o aval do Presidente da casa, Astolfo Dutra, impondo a Minas
grave crise política interna e fragilizando o poder presidencial.
Através de tais atitudes, Antônio Carlos mostrava que não seria um
aliado incondicional do governo federal. À revelia de Wenceslau Brás, ha-
via promovido acordos com São Paulo acerca da sucessão e, com Pinheiro
Machado, acerca dos reconhecimentos, contra os interesses de São Paulo.
Em agosto de 1915, havia se manifestado abertamente contra a aprovação
de um projeto enviado pelo Executivo Federal ao Congresso. Esses arroubos
de autonomia do líder preocupavam muito o Catete.6
A exclusão de São Paulo da comissão de finanças levou Cincinato a
recorrer à intervenção de Rodrigues Alves, dizendo:

Noto que a consideração a São Paulo está sendo mais aparente que real;
dizendo eu isso mesmo a A.Carlos, disse-lhe também que preferíamos
uma atitude de relativo afastamento sem ostensivas responsabilidades,
sem colocarmos a menor oposição ao governo, mas reservando-nos a
posição, a que a lógica de nossa antecedente posição política nos obrigava.
(Carta de Cincinato a Rodrigues Alves de 3 de maio de 1915, ARA,
lata 808, pasta 28, IHGB. Grifo nosso)

5
Acerca deste episódio do Alagoas ver carta de Rodrigues Alves a Wenceslau Brás
de 6 de maio de 1915, ARA, lata 808, pasta 29, IHGB.
6
O Pharol de 13 de maio de 1916. “Crise Política” e de 7 de agosto de 1915. “A
Acrobacia do Sr. Antônio Carlos”, CPH, AH.

231
Na avaliação do representante paulista, São Paulo deveria manter-se
distante do governo, a exemplo do que vinha fazendo desde a gestão
Afonso Pena, já que não sentia, por parte do novo Executivo, interesse
em ser incluído com privilégios no grupo de sustentação política do
governo federal. Muito embora os paulistas tivessem sido indicados
pelo plenário a ocupar uma secretaria da mesa diretora da Câmara,
recusaram-se a tal, em protesto. (Carta de Cincinato a Rodrigues Alves
de 4 de maio de 1915, ARA, lata 808, pasta 28, IHGB).

Preocupado com o provável afastamento de São Paulo de seu governo, o


que o deixaria refém do PRC, Wenceslau Brás aproximou-se de Rodrigues
Alves, reforçando os laços de lealdade entre ambos os estados, através
da garantia de duas vagas em comissões da Câmara, o que foi aceito por
Rodrigues Alves, a contragosto de Cincinato Braga.7
À semelhança de São Paulo, o Rio Grande do Sul igualmente não se encontra-
va satisfeito com o processo de montagem do governo. Wenceslau Brás, ao tentar
conciliar os interesses dos dois grupos, acabava por não atender a nenhum deles.8
Uma demonstração de força do Executivo Federal consistiu na nomeação
de José Bezerra para o Ministério da Agricultura. Por intervenção do PRC, o
chefe pernambucano não havia sido reconhecido como Senador. Wenceslau
Brás compensou o estado, dando-lhe uma pasta ministerial. Não interessava
ao governo federal perder o apoio do situacionismo pernambucano.
O contragolpe perrecista veio com a eleição de Hermes da Fonseca para
o Senado. Mas, para realizar este intento, teve que dividir as suas próprias
bases políticas no Rio Grande do Sul.

c) O isolamento gaúcho e as lutas pela ocupação do vazio de poder

A situação política de Pinheiro Machado era complicada. No nível nacio-


nal, ia perdendo terreno, muito embora ao governo federal não interessasse
afastá-lo do poder, mas apenas mantê-lo sob seu controle. A imprensa da
capital federal fazia-lhe franca e aberta oposição. Pinheiro vinha recebendo
ameaças de morte e pressões populares contra a sua ação política.

7
Ver carta de Wenceslau Brás a Rodrigues Alves de 4 de maio de 1915, ARA, lata
808, pasta 29, IHGB e cartas de Alves a Cincinato de 5 de maio de 1915 e outra sem
data, ARA, lata 808, pasta 28, IHGB; carta e Cincinato a Rodrigues Alves de 8 de
maio de 1915, ARA, lata 808, pasta 28, IHGB.
8
Ver entrevista de Pinheiro Machado publicada no jornal O Pharol de 4 de maio de
1915, CPH. AH e carta de Pinheiro Machado a Wenceslau Brás de 20 de maio de
1915, AWB, VB 04, 14.09.15, doc. 892, CPDOC.

232
O resultado foi seu assassinato em setembro de 1915. Consta que fora
vitimado por um doente mental. O inquérito policial não aprofundou as in-
vestigações, embora seus aliados suspeitassem da existência de um complô
político para assassiná-lo.9
A morte de Pinheiro teve um impacto político importante, na medida em
que o PRC perdia o seu maior esteio. Todos os historiadores que abordam
o período são unânimes em dizer que a sua morte arregimentou forças em
torno do governo federal, fazendo dos antigos coligados o único sustentá-
culo político do Executivo. Carone afirma que a dualidade de poderes, que
estava estabelecida, deu lugar a uma política de grupos, mais chegada ao
governo. Afonso Arinos afirma que a morte de Pinheiro possibilitou uma
nova aproximação entre Minas e São Paulo, fazendo desaparecer, da Repú-
blica, os resíduos do comtismo castilhista e do florianismo. Morto Pinheiro,
desaparecia o maior obstáculo à hegemonia única do Executivo e de uma
maior aproximação entre Minas e São Paulo.10
A partir da morte de Pinheiro Machado, o Rio Grande do Sul encontra-
va-se isolado, sem um chefe político que o representasse no cenário federal,
muito embora ainda tivesse, sob seu controle, importantes cargos políticos.
Por outro lado, os paulistas se encontravam sub-representados no poder
e almejavam ampliar a sua participação. Nada mais conveniente do que
se aproximarem do Rio Grande do Sul, já que o principal obstáculo desta
aliança, Pinheiro Machado, havia desaparecido.
Porém, ao Rio Grande do Sul não interessava romper sua histórica
aliança com Minas, em prol de uma aproximação com os paulistas. Consta,
também, que a tentativa de aproximação dos dois estados tinha como mentor
intelectual Antônio Azeredo e estava vinculada à indicação de Rodrigues
Alves à sucessão de Wenceslau Brás. Caso os dois estados se unissem em
torno de um nome, dificilmente Minas poderia tentar indicar um nome
seu, prorrogando a sua gestão sobre a República. A este respeito, Joseph
Love afirma que: “Borges de Medeiros não se entusiasmou com a sugestão
aventada por Rodrigues Alves, em 1916, propondo que as duas máquinas
políticas unissem suas forças a nível nacional, presumivelmente em detri-
mento de Minas Gerais” (1982:278).
O acordo não se deu. Borges considerava o isolamento a garantia de
autonomia do Rio Grande do Sul. Além do mais, a íntima colaboração entre
Wenceslau e Borges de Medeiros, em relação aos interesses econômicos
gaúchos, tirou a motivação quanto a uma aproximação entre São Paulo e

9
Acerca do impacto político da morte de Pinheiro Machado ver Borges (2000).
10
Ver Carone (1988:322) e Franco (1973:735).

233
o Rio Grande do Sul, em favor de uma aliança preferencial com Minas
Gerais (Love, 1975:188-189 e 191). A documentação empírica atesta que,
em função da falência do acordo, o nome de Rodrigues Alves teve que ser
lançado através da conciliação entre interesses mais amplos, como os do
governo federal, os do PRC, o dos coligados e o dos paulistas (Jornal O
Pharol de 7 de outubro de 1915. “Reportagem Política”, CPH, AH).

d) A presidência mineira na segunda valorização do café

Nos anos de 1913 e 1914, o país tinha fechado as contas com déficits orça-
mentários. O advento da I Guerra Mundial afetou a demanda externa e o fluxo
de capitais para o país, agravando, mais ainda, o equilíbrio financeiro nacional.
Pela mesma razão, o crédito externo estava momentaneamente inviabilizado.
Com a queda da demanda, os preços externos do café sofreram consi-
derável decréscimo. Embora a premência pela valorização dos preços tivesse
se tornado consensual entre os atores políticos e agentes econômicos da
época, a falta de recursos externos inviabilizava a edição de um programa
semelhante ao de Taubaté. Restava a opção pela emissão de moeda sem
lastro, abrindo mão do padrão-ouro. Certamente, este caminho não era
consensual entre as elites.
Diante da anunciada crise do café, as classes produtivas organizadas reivin-
dicaram a emissão sem lastro. Wenceslau Brás mostrou-se inicialmente contrário
a ela, embora não se omitisse em buscar outras soluções que amparassem o
setor. Sua iniciativa primeira foi a emissão de notas do Tesouro, conhecidas
no mercado pelo nome de “sabinas” em alusão ao Ministro da Fazenda. Esses
títulos especiais do Tesouro visavam, porém, a também saldar compromissos
externos (Jornal O Pharol de 21 de fevereiro de 1915, CPH, AH).
Diante do agravamento do problema, a proposta de Alfredo Ellis,
sempre envolvido na defesa dos cafeicultores, foi a obtenção de um novo
empréstimo externo ou a emissão sem lastro, para que o plantio do café
fosse prontamente amparado. A proposta foi encampada pelo representante
paulista, Altino Arantes, o qual defendia um projeto em andamento, de
autoria do senador mineiro João Luís Alves, acrescido de uma emenda
favorável à emissão sem lastro:

Quanto a isso, peço licença ao meu distinto amigo para declarar que
acima das “injustiças, da má vontade e da quase raiva”, que mencionadas
na sua carta, de alguns políticos quando se trata de medidas protetoras
do café, eu coloco, desassombradamente (sic), o cumprimento do meu
dever na defesa dos interesses de S.Paulo, tão legítimos e respeitáveis

234
como os de qualquer outro estado, porque coincidem perfeitamente
com os altos interesses nacionais. (Carta de Altino Arantes a Wenceslau
Brás, s/d, ARA, lata 810, pasta 61, IHGB)11

Como se vê, os políticos paulistas se mobilizavam na defesa de interesses


regionais, sempre que a cafeicultura era ameaçada, com a justificativa de
serem tais interesses também nacionais. Com o fim de reeditar uma polí-
tica de defesa do café, a exemplo da primeira valorização, foi formado um
Conselho Superior por iniciativa dos paulistas, no qual o estado de Minas
Gerais estaria representado com três vagas (Diário Mercantil de 27 de abril
de 1917, Ano 15, n. 1770 “A Defesa do Café”, AH).
Atendendo às pressões dos setores cafeeiros, o governo federal buscava
acostumar-se com a possibilidade de recorrer a uma segunda emissão sem
lastro, desta vez, direcionada especificamente para o café.
Em atenção às reivindicações do setor, foi feita uma segunda emissão
em 1917 e se iniciou o segundo programa de valorização do café, que durou
de 1917 a 1920. Só o governo de São Paulo adquiriu, por si próprio, três
milhões de sacas de café (Kugelmas, 1986:143).12
A justificativa para a emissão vinculava-se ao sucesso do programa de
Taubaté. Para os cafeicultores, o governo deveria emitir papel como uma
forma de empréstimo valorizador, a exemplo do ocorrido em 1906. Esta era
a única forma de recuperar os preços depreciados pela guerra.
A implementação da segunda política de valorização, apesar de ter
recorrido às emissões sem lastro, obteve sucesso na elevação de preços
do produto. Por volta de 1919, a situação do café já se encontrava mais
favorável. Os preços estavam mais altos e o consumo satisfatório, gerando
euforia para o setor. Os lucros advindos da operação foram divididos com o
governo federal para compensar as emissões sem lastro. Com menos restri-
ções do que antes, as elites políticas mineiras manifestaram-se prontamente
favoráveis à implementação da valorização do produto, embora, em relação
à emissão sem lastro, divergissem entre si.13

11
A este respeito ver também Diário Mercantil de 7 de abril de 1917, Ano 6, n. 1701,
O Momento, AH.
12
Sertório de Castro (1982:238) afirma que no período de 1914 a 1918 as emissões
de papel-moeda somaram o total de 907.900.000$.
13
Artur Bernardes, Calógeras e Antônio Carlos eram conhecidos pelas suas ideias
ortodoxas e posicionaram-se contra a emissão. Francisco Sales e Astolfo Dutra
manifestaram-se prontamente favoráveis. Quando a primeira emissão aconteceu,
Calógeras teve que deixar o Ministério.

235
Acerca do episódio da segunda valorização, alguns destaques merecem ser
feitos. Pressionado pelos cafeicultores e por setores das elites políticas mineiras e
paulistas, o Executivo Federal atendeu, com maior presteza e menos obstáculos,
aos interesses desses agentes. A aproximação política entre paulistas e mineiros
atuou como elemento facilitador do processo, o que não havia ocorrido por oca-
sião do Convênio de Taubaté. Por outro lado, a experiência pregressa, relativa
à primeira valorização, havia convencido os atores políticos brasileiros acerca
da eficácia de medidas reguladoras sobre o mercado do café. A conjuntura de
guerra aumentou o grau de urgência e de necessidade de implementação das
medidas propostas.
A conjunção desses novos elementos tornou a realização da segunda
valorização não só mais palatável às elites políticas, como bem mais ampla,
na medida em que incluía as emissões sem lastro. Certamente, esta última
medida não teria sido aprovada na conjuntura anterior.

6.2 A sucessão de Wenceslau e os óbices da aliança

6.2.1 A escolha de Rodrigues Alves: uma solução consensual

Em meados de 1916, apareceram as primeiras manifestações dos políti-


cos paulistas em relação à sucessão de Wenceslau Brás. Por elas tornava-se
claro que os paulistas não recusariam a possibilidade de retornar à direção
da República e também temiam que Minas se arvorasse em exercer um
novo mandato. A despeito de manter São Paulo como um de seus aliados
no quadro nacional, tal fato não garantia que o próximo Presidente fosse
necessariamente um paulista, conforme comprova a citação a seguir, retirada
de uma carta escrita por Rodrigues Alves a Altino Arantes:

Vou pensar um pouco na atitude atribuída aos mineiros, preocupados já


com a sucessão do atual presidente. É possível que os políticos, que diri-
gem o grande estado, pensem em não abrir mão da grande investidura que
estão merecendo pela segunda vez, administrando talvez a crença de que
os outros não poderão desempenhar o mandato com melhores vantagens
para a República. Isto, porém, depois da última ‘entente’ conosco seria
o cúmulo do mau gosto (...). (Carta de Rodrigues Alves a Altino Arantes
de 20 de junho de 1916, ARA, lata 807, pasta 90, IHGB)

236
Torna-se claro, por esta citação, que São Paulo desejava indicar um
candidato seu e mantinha uma desconfiança em relação às futuras atitudes
mineiras. Amílcar Martins chega a afirmar que Minas pretendia, de fato,
eleger um nome mineiro, mas que a ação impositiva de São Paulo teria lhe
impedido (Martins Filho, 1981:47).
Posteriormente, Rodrigues Alves soube da ocorrência de uma reunião
na casa de Seabra, com as presenças de Nilo Peçanha e Francisco Sales. Ali
se tratou da conveniência de iniciarem-se as conjecturas acerca da sucessão
de Wenceslau Brás. O nome apontado pelo grupo era o do mineiro Delfim
Moreira. A primeira reação paulista foi de indignação, por ver-se excluída
das primeiras combinações. Mas o situacionismo mineiro garantiu-lhe que,
de acordo com o que fora previamente assentado, o tema só seria tratado
em época oportuna.14 A segunda reação paulista foi a rápida indicação
do nome de Rodrigues Alves para o cargo, temendo avanços da provável
candidatura mineira (Carvalho, 1978:117).
Das conversações ocorridas entre o Presidente paulista Altino Arantes e
o ministro mineiro Sabino Barroso resultou a indicação de Rodrigues Alves.
Minas Gerais acatou a sugestão sem impor-lhe obstáculos, embora estra-
nhasse a precipitação dos paulistas e a maneira anômala do lançamento do
nome. A ausência de Pinheiro Machado neste processo sucessório dava-lhe
contornos diferenciados, como bem observou um jornalista contemporâneo:

Pinheiro Machado, combatido, hostilizado pelos seus processos de ab-


sorção pessoal, ainda assim havia habituado o país, em momento como o
que se apresentava, com a segurança de que podia contar com um chefe
que era, por assim dizer, um centro coordenador permanente, dotado da
precisa capacidade para orientar as correntes partidárias – tanto aquela
que dócil e disciplinadamente o seguia, como a que o combatia sem tré-
guas – na solução de todos os seus problemas políticos. (Castro, 1982:253)

O nome não deixou de sofrer restrições por parte dos salistas e dos
grupos ainda ligados a Rui Barbosa. A incorporação da dissidência salista
se deu com a inclusão de Delfim Moreira na chapa, na condição de Vice-
Presidente, por sugestão de Nilo Peçanha. Em resposta à oposição de Rui
Barbosa, o líder paraibano, Epitácio Pessoa, teceu considerações públicas
acerca da pertinência da candidatura paulista. Esse ato o habilitaria, no
futuro, a ser o real sucessor de Brás, após a morte de Rodrigues Alves.

14
Ver escritos Pessoais de Rodrigues Alves: “Intrigas Políticas para a Sucessão
Presidencial”, de 22 de dezembro de 1916, ARA, lata 806, pasta 52, IHGB.

237
Inicialmente, o Rio Grande do Sul compartilhava da indicação de Rui Barbosa.
Mas preferiu apoiar o nome paulista, impedindo a emergência de qualquer força
contrária. Desde a sucessão de Campos Sales, era a primeira vez que a escolha do
nome presidencial se dava sem disputas. Em seguida, vieram os apoios da Bahia e
do Rio de Janeiro. A chapa estava fortemente consolidada. Só contava com a opo-
sição de parte da Bahia e de Pernambuco. Os demais estados do norte e nordeste
foram trazidos à chapa por interferência direta de um ferrenho pinheirista, o paulista
Rodolfo Miranda. Este era mais um indício do definhamento do grupo perrecista.
Decorridos apenas três meses, os chefes políticos já haviam formulado
uma chapa formada por R.Alves/Delfim Moreira, fruto do acordo entre os
diferentes atores políticos envolvidos no processo de escolha. Nunca, até
então, a escolha tinha sido feita em um prazo tão rápido.15
De acordo com Joseph Love, a pressa com que a chapa fora formada resul-
tou em sua fragilidade: “A eleição de dois homens moribundos era sintomática
do fracasso dos republicanos históricos para transferir o poder a uma geração
mais jovem e o partido riograndense compartilhou com responsabilidade da
crise política ao concordar com a nomeação de Alves” (1975:193).
Este fato, por si só, não garantia a total homogeneidade de interesses no seio
do grupo dirigente. Afonso Arinos (1955:915, n. 655) afirma que o candidato
havia sido de iniciativa de São Paulo e tido uma adesão conformada por parte
de Wenceslau Brás. Hélio Silva e Carneiro (1975:39), bem como Joseph Love
(1975:193) afirmam que o apoio mineiro a Rodrigues Alves foi decorrente
mais das disputas internas mineiras do que das disputas de âmbito nacional.
Conforme foi acima aventado, a escolha de Rodrigues Alves não foi
definida apenas pela existência de uma aliança mineiro-paulista de caráter
hegemônico. Outros estados estiveram envolvidos no processo sucessório,
a exemplo do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Bahia e outros de menor
porte. A falta de nomes, aliada à inexistência de interesses divergentes,
tornou esta sucessão uma das mais tranquilas da Primeira República.

6.2.2 A escolha de Epitácio Pessoa: veto às pretensões paulistas

a) A morte de Rodrigues Alves e a “Regência Republicana”

Uma vez eleito, R. Alves procurou compor o Ministério obedecendo


às regras comumente aceitas pelo regime. Arinos afirma, porém, que ele

15
Ver escritos Pessoais de Rodrigues Alves: “Intrigas Políticas para a Sucessão
Presidencial”, de março de 1917, ARA, lata 806, pasta 52, IHGB.

238
buscou restringir a presença mineira em seu grupo de sustentação. Alves
pretendia indicar nomes paulistas para a maior parte das pastas. Mas as
recusas de Washington Luís e Cardoso de Almeida, que pretendiam disputar
a sucessão paulista, impediram o seu intento. Para o Ministério da Fazenda,
Alves indicou um representante de Pernambuco, Amaro Cavalcanti. A pasta
da Viação coube ao mineiro Melo Franco.16
Hélio Silva afirma que a intenção de Rodrigues Alves era indicar,
para o Ministério do Interior, Epitácio Pessoa. Mas o nome foi barrado
internamente, sob a alegação de que não se deviam entregar postos-chaves
a pequenos estados.17
Tão logo eleito, Alves demonstrava ter problemas sérios de saúde, os
quais impediram a sua posse. Com o agravamento de sua doença, alguns
membros do PRP chegaram a propor a sua renúncia, o que foi adiado até
o limite, com o fim de ganhar-se tempo para a escolha de um novo nome.
Delfim Moreira, o Presidente em exercício, não garantia segurança ao
mundo político. Os paulistas temiam a sua permanência no poder, diante
da anunciada morte de Rodrigues Alves. Em Minas, por estar ligado ao
salismo, faltava-lhe base política interna, de caráter homogêneo.
Moreira alegava muitas dificuldades na condução da política nacional.
Por ter mantido o Ministério escolhido por Alves, seus dois ministros princi-
pais, Cavalcanti e Melo Franco não se entendiam, disputando a proeminência
sobre o Executivo. Delfim Moreira também se encontrava envelhecido e
doente, aumentando as apreensões em relação ao futuro político do país.
Após a morte de Rodrigues Alves (que ocorreu em 17 de janeiro de 1919),
em resposta às pressões de Francisco Sales, o Ministério sofreria a primeira

16
Consta que o nome de Calógeras era o preferido de Rodrigues Alves para o cargo,
depois do de Raul Soares, político emergente da zona da mata mineira e primo de
Carlos Peixoto. Soares o recusou, por ter interesse em compor o secretariado do novo
governo de seu estado. Calógeras foi substituído por Melo Franco, por ser este ligado
ao salismo em Minas. Como Rodrigues Alves já se encontrava doente, os paulistas
pretendiam manter boas relações com Delfim Moreira, o Vice-Presidente, também
ligado à facção salista. As demais pastas foram assim ocupadas: a Pasta do Exterior
coube a Domício da Gama. A do Interior, ao Maranhão, na pessoa do próprio Urbano
dos Santos. A da Guerra coube a Alberto C. de Aguiar e a da Marinha coube a A. C.
Gomes Pereira. A Pasta da Agricultura coube ao paulista Pádua Sales. Love (1975:194)
afirma que Rodrigues Alves pediu um nome gaúcho para a vaga de Ministério da
Agricultura, o que foi recusado pelo Rio Grande do Sul. Ao estado não interessavam
postos menores, preferindo manter-se no isolamento.
17
Ver Silva e Carneiro (1975:167) e Carvalho (1978:118-119). Ver também Franco
(1973:836).

239
mudança, com a inclusão de mais um mineiro na mais importante pasta mi-
nisterial. João Ribeiro assumiu o Ministério da Fazenda (Carta de Raul Sá a
Raul Soares, s/d, ARS, código 19.01.00/3, CPDOC). Porém, o Ministro mais
forte passou a ser Melo Franco, que, diante das fragilidades de Delfim Moreira,
assumiu a frente do governo. Por esta razão, o período ficou conhecido como o
da “Regência Republicana”, o qual durou aproximadamente oito meses.

b) A escolha de Epitácio Pessoa

Ao final de 1918, já se falava na possibilidade da renúncia ou de morte


de Rodrigues Alves. Mas os paulistas, fechados em si mesmos, afastavam
qualquer possibilidade de negociação, em torno de uma nova sucessão.
Como elemento agravante, o interlocutor indicado por São Paulo, Álvaro
de Carvalho, não parecia confiável, para grande parte da elite mineira.18
A imprensa fazia larga campanha contra a performance política de Delfim.
Sua sustentação política estava, no entanto, garantida pelo medo de que, em
sua ausência, o poder recaísse nas mãos de Antônio Azeredo, Vice-Presidente
do Senado, cargo que havia assumido após a morte de Pinheiro Machado. Na
ausência do Presidente e do Vice, a presidência do país ficaria nas mãos do im-
portante chefe mato-grossense. Além do mais, após a morte de Pinheiro, Azeredo
havia se aproximado do situacionismo paulista. Em função desta aproximação,
temia-se que ela pusesse em risco a distribuição de poder em vigor no período.
Os mineiros, muito embora tivessem como um de seus parceiros políticos São
Paulo, temiam que o crescimento do poder paulista redundasse em perda do
prestígio político para Minas. Dessa forma, empenhavam-se pela permanência
de Delfim Moreira no controle do processo sucessório com o objetivo de poderem
interferir na escolha de nomes (Carta de Villeroy para Diogo Vasconcelos de 2
de janeiro de 1919, AAB, caixa 34, série 259, doc. 6 A, APM).
Os paulistas também temiam as intenções mineiras. Segundo Afonso
Arinos, estavam seguindo à risca os conselhos de Antônio Azeredo: “Reco-
mendava o senador a união preventiva (entre Minas e São Paulo), a fim de
que, em caso de um fracasso (a morte de Rodrigues Alves, antes da eleição)
se chegasse a um candidato nosso, isto é, não mineiro” (Franco, 1973:806).
Na ocasião, falava-se que o indicado por São Paulo seria o seu próprio Pre-
sidente, Altino Arantes. Insatisfeitos com a indicação, os mineiros apresentavam
dois nomes seus, o de Bernardes – então Presidente de Minas Gerais – e o de
Melo Franco. Este último contava com o apoio do Rio de Janeiro, por lá ter residido

18
Ver carta de Wenceslau Brás a Raul Soares e de Astolfo Dutra a Artur Bernardes de 9 e
10 de dezembro de 1918, ARS, códigos 18.12.09 e 18.12.10, respectivamente, CPDOC.

240
a maior parte de sua vida. Conseguira projeção nacional pelo importante papel
exercido na condução do governo Delfim Moreira (Carta de Diogo de Vasconcelos
a Villeroy de 5 de janeiro de 1919, AAB, caixa 34, série 259, doc. 6, APM).
Até então, os paulistas davam mostras de estarem articulando isolada-
mente um nome para a vaga que, provavelmente, estaria aberta com a morte
de Rodrigues Alves. Omitiam os acontecimentos de Minas, como se pode
observar nas declarações de Bernardes a Melo Franco acerca do assunto:

(...) Temos estado aqui já não direi somente excluídos de possíveis combi-
nações mas sem informes oficiais sobre o que se passa nos bastidores e
o que se procura fazer para remediar a situação. (...) O que desejamos é
que se dê à crise uma solução compatível com os legítimos interesses do
país. Mas Minas, que procura dar bom exemplo de interesse pela sorte
da República e do Brasil, não pode se desinteressar da questão, que,
não fora seu telegrama confidencial, não [saberíamos] como estava sendo
encaminhada. (Carta de Artur Bernardes a Afrânio de Melo Franco
de 5 de janeiro de 1919, AAB, caixa 30, série 253, doc. 66, APM)

Os paulistas acreditavam que, após a morte de Rodrigues Alves, o estado


teria o direito natural de indicar seu substituto. Mas as coisas pareciam ter mudado
um pouco. Como foi visto, o nome de Alves havia sido escolhido em função da
reunião de duas circunstâncias inusitadas: a fragilização do Rio Grande do Sul,
causada pela morte de Pinheiro Machado, o qual sempre se constituíra em ator
político fundamental nos embates sucessórios, e o envelhecimento natural de uma
geração de políticos republicanos, habilitados para o desempenho do cargo. A
ausência de disputa em torno da discussão de nomes resultou na diminuição do
grau de legitimidade do escolhido, uma vez que o nome não havia resultado do
consenso que sucedia a disputa entre os principais estados, como era mais comum.
Na ausência de Alves, os estados dispunham de nomes em iguais condições de
competir. O único “papável”, que restava da velha guarda, era Rui Barbosa. Daí ter
sido rapidamente lançado, tão logo se iniciaram as discussões em torno do assunto.
O Rio Grande do Sul, na ausência de nomes por apresentar, limitou-se a vetar
os prováveis. Por esta ocasião, Borges de Medeiros afiançava que apoiaria o nome
indicado por Minas e São Paulo, desde que o candidato não viesse de nenhum
dos dois estados. Mas os mineiros estavam decididos a não dar apoio a um nome
escolhido, à sua revelia. Minas Gerais havia participado de todas as combinações
sucessórias, desde a sucessão de 1906. Não aceitaria fazer um papel coadjuvante:

Receio muito que as conspirações de bastidores levantem de repente uma


candidatura pesada, que nos imponha depois o sacrifício de a galvanizar,
como foi a do Hermes, que nós bem sabemos quanto nos custou (...).

241
Penso que melhor será a Minas sustentar o princípio de que o povo tem
o direito de eleger livremente o seu primeiro magistrado, do que entrar
compulsoriamente como elemento de apoio a uma combinação que, além
de má, foi feita sem prévia anuência nossa. (Carta de Melo Franco a Raul
Soares de 6 de janeiro de 1919, ARS, código 19.01.05, CPDOC.)19

Como se vê por esta citação, Minas preferia uma escolha popular e livre, a ter
que apoiar um candidato sem sua anuência prévia. Abriria mão de um dos pilares
básicos de sustentação política do regime, qual seja o da restrição dos atores par-
tícipes do jogo político, desde que sua hegemonia estivesse ameaçada. Por outro
lado, pairava no ar a desconfiança dos paulistas em relação às pretensões mineiras.
Acreditavam eles que Bernardes desejava assumir a Presidência, pelo fato de os
mineiros terem fortalecido Delfim Moreira na condução do processo sucessório.
As desconfianças paulistas não deixavam de ter o seu fundamento. Nossa pes-
quisa empírica pôde detectar que, de fato, alguns setores da elite mineira pretendiam
lançar Bernardes. Mas achavam que era cedo para fazê-lo e o nome poderia ser
rejeitado, além do fato de o próprio Bernardes recusar-se a tal. A estratégia escolhida
foi a de manter o silêncio em relação aos nomes aventados (Carta de Melo Franco a
Bernardes de 18 de janeiro de 1919, ARS, código 19.01.18/2, CPDOC).
A despeito dos interesses mineiros e paulistas, após a morte de Rodrigues
Alves, a candidatura que mais crescia era a de Rui Barbosa. Em torno de
seu nome reuniram-se os apoios do Rio de Janeiro, Bahia, Santa Catarina e
Mato Grosso. Porém, havia um novo agravante para o êxito da candidatura
de Rui Barbosa: o avanço da idade. Temia-se a reedição do acontecido com
Rodrigues Alves. Um outro elemento complicador era a urgência das decisões.
As eleições seguintes estavam previstas para abril de 1919, o que limitava a
três meses os acordos em torno da escolha de um sucessor.20
Diante das possibilidades aventadas, os paulistas manifestavam-se mais
favoráveis ao nome de Rui Barbosa, conforme se observa por esta citação:

Nossa opinião visando estabelecer imediata calma na vida política nacional


e que cumpre a Minas e São Paulo tomar a si – com absoluta urgência

19
Ver também carta de Delfim Moreira a Wenceslau Brás de 5 de janeiro de 1919,
AWB, VB 06, pasta 18.11.11, doc. 404, CPDOC e Love (1975:198).
20
Ver carta de Delfim Moreira a Wenceslau de 18 de janeiro de 1919, AWB, VB 06, doc.
18.10.11, doc. 409, CPDOC; cartas de João Luís Alves a Bernardes de 17 e 18 de maio de
1919, ARS, códigos 19.01.17 e 19.01.17, respectivamente, CPDOC. A Sociedade Nacional de
Agricultura (SNA) e a Associação Comercial do Rio de Janeiro manifestaram-se favoravelmente
à candidatura de Rui Barbosa. Cartas da SNA e da Associação Comercial do Rio de Janeiro a
Bernardes de 29 de janeiro de 1919, AAB, caixa 34, série 259, docs. 88 e 89, APM.

242
sem perda de tempo – a candidatura Rui. Qualquer outra candidatura
destruirá perante a Nação a força da aliança Minas e São Paulo, dados
os movimentos e iniciativas já referidos. Continuamos certos dos incon-
venientes dessa solução mas acreditamos que coesos teremos impedido
a ação política em torno de outros nomes menos convenientes. (Carta de
Álvaro de Carvalho, Melo Franco e João Luís a Raul Soares de 19 de
janeiro de 1919, AAB, caixa 34, série 259, doc. 20, APM)

Por ela se percebe que São Paulo via o nome de Rui Barbosa como um
mal menor. Endossava também a necessidade de manter a aliança mineiro-
paulista, contra o Rio Grande do Sul. Na mesma correspondência acima citada,
os nomes de Altino Arantes e de Artur Bernardes não foram descartados,
desde que resultassem do acordo entre os dois estados. São Paulo mantinha
também esperanças em relação à adesão mineira ao nome de Altino Arantes.
A publicação em jornal de telegrama de Álvaro de Carvalho a Bernar-
des, insistindo para que ambos os estados se definissem por um nome – à
revelia dos demais estados – causou impacto muito negativo sobre a opinião
nacional, gerando revolta por parte de outros estados, que, se sentindo
excluídos, ameaçavam reagir contrariamente. Os estados sabiam que uma
aliança exclusivista entre Minas e São Paulo dificultaria qualquer acordo
em torno de um nome que não fosse o escolhido por eles.21
Em reação às pretensões hegemônicas paulistas, que desejavam arrastar
Minas para uma combinação excludente, o Rio de Janeiro se aproximou do
Rio Grande do Sul. Juntos, implementaram a criação de uma “concentração
dos estados” para fazer frente a uma eventual aliança entre Minas e São
Paulo, que os excluísse. Ao seu lado, tinham o apoio de dois importantes
jornais, o Correio da Manhã e O Imparcial.22
A “concentração” foi composta por uma comissão executiva, liderada
por Lauro Muller (SC), Antônio Azeredo (MT) e Chermont de Miranda (PA).
Contava com o importante aval do Vice-Presidente da República, Delfim

21
Ver carta de Melo Franco a Bernardes e de Macedo Soares a Ramiro Berbert de 22
e 23 de janeiro de 1919, AAB, caixa 34, série 259, docs. 42 e 46, respectivamente,
APM; carta de Maggi Salomon a Raul Soares de 28 de janeiro de 1919, AAB, caixa
34, série 259, doc. 84, APM; carta de Delfim Moreira a Bernardes de 29 de janeiro
de 1919, AAB, caixa 34, série 259, doc. 86, APM; Carvalho (1978:140).
22
Ver carta de Júlio Barbosa a João Luís Alves de 26 de janeiro de 1919, AAB, caixa
34, série 259, doc. 73, APM; cartas trocadas entre a concentração dos estados e
Bernardes de 30 e 31 de janeiro de 1919, AAB, caixa 34, série 259, docs. 98 e 121,
respectivamente, APM; carta de Delfim Moreira a Wenceslau Brás, s/d, AWB, VB
03, pasta 14.09.15, doc. 927, CPDOC.

243
Moreira. Em sua primeira reunião, deliberou que seus representantes se co-
municassem com os chefes dos grandes estados, determinando que a escolha
do sucessor de Alves deveria ser feita em Convenção, com representação
igualitária dos estados e das oposições organizadas nos mesmos, quando
existissem. A Convenção foi a saída encontrada pela “concentração”, para
impedir as aspirações hegemônicas paulistas.
Por seu turno, São Paulo pressionava por uma definição de Minas antes
da Convenção. Os políticos perrepistas temiam ser surpreendidos por um
nome que não fosse previamente assentado. A postura pública mineira,
porém, a aproximava dos outros estados. Naquele momento, Minas amplia-
ra seu poder de decisão, na medida em que o Rio Grande do Sul, Bahia,
Maranhão, Pernambuco e Ceará manifestaram-se favoráveis a qualquer
encaminhamento que fosse dado pelo estado. Por esta ocasião, os paulistas
já sabiam que a candidatura de Altino Arantes era rejeitada pelo Rio Gran-
de do Sul, o que complicava, sobremaneira, as suas pretensões futuras.23
Muito embora a decisão coubesse a Minas e os setores representativos
da elite mineira desejassem que o estado se mantivesse no poder, Bernardes
recusou candidatar-se e propôs um acordo entre os três estados, Minas, São
Paulo e Rio Grande, para que um novo nome fosse obtido.24
Não temos referências empíricas acerca dos motivos que levaram
Bernardes a recusar a sua própria candidatura. Pode-se supor que a
decisão tenha resultado do apoio à tese defendida pelo Rio Grande do Sul,
segundo a qual os estados de Minas, São Paulo e Rio Grande deveriam se
abster de indicar nomes, já que estavam à frente das principais articulações
sucessórias.25 Pode-se igualmente aventar que Artur Bernardes tivesse
recuado, temendo que lhe faltassem os apoios de São Paulo e Rio Grande, já

23
Ver carta de Álvaro de Carvalho a Raul Soares de 26 de janeiro de 1919, ARS,
código 19.01.26/2 e carta de Melo Franco a Raul Soares de 27 de janeiro de 1919,
ARS, código 19.01.27/2, CPDOC.
24
Por esta ocasião, um emissário de Francisco Sales propôs que Bernardes fosse
alçado à Presidência com seu apoio em troca de uma vaga para ele no Senado.
Bernardes recusou, alegando que era o governador de duas correntes de Minas, e se
Francisco Sales fosse alçado, apenas uma corrente seria contemplada. Além disto,
tinha avançado muito na organização de uma Convenção, não podendo voltar atrás.
Anotações de Bernardes de 30 de janeiro de 1919, AAB, caixa 34, série 259, doc.
106, APM e carta de Raul Soares a Álvaro de Carvalho de 27 de janeiro de 1919,
ARS, código 19.01.27/3, CPDOC.
25
Hélio Silva (Silva e Carneiro, 1975:59-60) compartilha desta hipótese. Aduz também
que não era conveniente a Bernardes interromper um governo em Minas, que havia
apenas começado.

244
que haviam lançado Altino e Borges, respectivamente. Afrânio de Carvalho
alega que a recusa se deu pela certeza de que a opinião nacional receberia
muito mal qualquer nome mineiro, pelo fato de Delfim Moreira encontrar-se
no exercício da Presidência (Carvalho, 1978:135). Por fim, pode-se aventar
que sua recusa tenha derivado de um acordo prévio entre gaúchos e mineiros
com o fim de barrar a candidatura paulista. O regime, apesar de seus
limites democráticos, tinha algumas regras tácitas, as quais não se podiam
desrespeitar. De qualquer forma, o recuo de Bernardes ampliava o seu grau
de interferência sobre o processo em curso.
Percebendo que o nome de Altino não seria aceito pelos estados envol-
vidos nas negociações, São Paulo aprovou internamente a candidatura de
Rui Barbosa, com apenas três votos contrários no PRP. Tudo apontava para
a escolha de Rui Barbosa na Convenção planejada por Bernardes (Carta de
Melo Franco a Bernardes de 29 de janeiro de 1919, AAB, caixa 34, série
259, doc. 93, APM).
Mas a rejeição formal do Rio Grande do Sul ao nome de Rui tornava
difícil o acordo entre os três maiores estados. O processo de escolha avançava
muito lentamente, e a República parecia sentir a falta de Pinheiro Machado,
conforme afirmava Delfim Moreira:

O Conselheiro Rui Barbosa vai se tornando o candidato nacional e


representa o único elemento político organizado. Depois da morte do
Pinheiro Machado, não se cogitou da organização da política nacional.
(...) Esperava que os líderes da política se congregassem em uma comis-
são central para organizar a Convenção sem dispersão, aproveitando as
opiniões e alvitres do Presidente de Minas; nem isto tem tido o devido
andamento. (Carta de Delfim Moreira a Bernardes de 2 de fevereiro de
1919, AAB, caixa 35, série 259, doc. 133, APM)

O nome de Rui Barbosa começou a sofrer oposições internas e de


alguns pequenos estados do Nordeste. O estado de Minas Gerais, porém,
anunciava não ser refratário a nenhum nome.26 Fora de Minas, o nome de
Rui Barbosa perdia terreno. A elite paulista encontrava-se dividida em
relação a essa candidatura. Álvaro de Carvalho lhe era completamente

26
Ver carta de Wenceslau a Raul Soares de 4 de fevereiro de 1919, ARS, código
19.02.04/2, CPDOC; e carta de Rui Barbosa a Nilo Peçanha de 3 de fevereiro de 1919,
ARB, CR 1153-2/3 (51), FCR; cartas de João Luís a Raul Soares de 6 e 7 de fevereiro
de 1919, ARS, código 19.02.07/1e 8, CPDOC; carta de José Brás a Wenceslau de
4 de fevereiro de 1919, AWB, VB DIV 02, doc. 609, CPDOC; carta de João Luís a
Bernardes do dia 5 de fevereiro de 1919, ARS, código 19.02.05/2, CPDOC.

245
hostil. Carlos de Campos apoiava Barbosa frouxamente. Foi ele o primeiro a
indicar o nome de Epitácio Pessoa, como uma opção alternativa. O político
paraibano havia se destacado em duas situações políticas de abrangência
nacional. A primeira, ao defender a candidatura de Rodrigues Alves, con-
tra as provocações de Rui Barbosa. A segunda, ao representar o Brasil na
Conferência de Paz em Versalhes.
Quando lhe foi feita consulta acerca do nome paraibano, Minas aceitou de
pronto, desde que não fosse responsável pelo seu lançamento, pois não queria sofrer
o ônus de ter inviabilizado o nome de Rui Barbosa. Até então, as combinações
em torno do nome de Epitácio se davam exclusivamente entre Minas e São Paulo.
As dissidências paulistas dificultavam acordos com o situacionismo mineiro.27
Por esta ocasião, Minas Gerais manifestava-se impaciente com as du-
biedades paulistas:

Assim S. Paulo nos deixou sós na solução que encaminhávamos juntos e


nos faz duvidar da firmeza com que horas antes nos falava. É meu parecer
que não devemos recuar ou avançar conforme a volubilidade de outrem.
Estranhei que Álvaro viesse contra Rui e Carlos de Campos a favor. Agora
ambos estão contra, encaminhando outra solução embora Campos se mostre
contrariado de não poder trabalhar com êxito para Rui e concluir dizendo
que irá ainda tentar solução favorável. (Carta de Astolfo Dutra a Bernardes
de 11 de fevereiro de 1919, AAB, caixa 35, série 259, doc. 195, APM)

Na realidade, São Paulo afastava-se cada vez mais do nome de Rui Bar-
bosa e tentava reerguer o nome de Altino Arantes. Conforme atestava Melo
Franco em relação aos paulistas: “Não sei como poderão eles levar avante esse
firme propósito, sem que um movimento geral de toda a política nacional se
tenha realizado preliminarmente em tal sentido, única razão capaz de justifi-
car tão radical mudança de opinião por parte deles” (Carta de Melo Franco
a Bernardes de 16 de fevereiro de 1919, ARS, código 19.06.16, CPDOC).
Por meio de um importante relato da sucessão de acontecimentos, feito por
Raul Soares, pode-se entender, com maior clareza, as dificuldades presentes na
aliança política entre os estados de Minas e São Paulo. Segundo Soares, no início:

(...) a nossa aliança era uma combinação entre os dois estados para que ne-
nhum deles apresentasse nome algum sem entendimento de um com outro e
que Minas Gerais tinha mantido a combinação. Entretanto, São Paulo havia
soltado o nome de Rui sem avisar a Minas Gerais, através de uma reunião

Ver cartas trocadas entre Raul Soares e João Luís de 7 e 8 de fevereiro de 1919,
27

ARS, código 19.02.07/4 e 6 e 19.02.08/1, CPDOC.

246
do PRP.(...) Esclareceram que a nota era resultante de uma ação forçada pelo
Altino. Mas que ele e Álvaro recomendavam uma aliança com Minas Gerais.
(Anotações Pessoais de Raul Soares, ARS, s/d, código 19.02.17/3, CPDOC)

Continuando o relato, Raul Soares afirmava que São Paulo mudara a sua pos-
tura, deixando Minas Gerais, e os demais estados envolvidos, em situação bastante
complicada. Tendo os próprios paulistas sugerido o nome de Epitácio, esvaziaram-no
imediatamente; retomavam o nome de Altino Arantes desde que Minas o lançasse.
A esta altura, São Paulo queria mesmo era lançar um candidato próprio.
Como pode ser observado, os paulistas, em nenhum momento, pensa-
ram em abandonar o nome de Altino Arantes. As idas e vindas em torno
do nome de Rui Barbosa ou do próprio Epitácio Pessoa constituíam-se em
estratégia de viabilização do nome pretendido, além de tentarem aplacar as
dissidências internas paulistas. Paralelamente às negociações com Minas
Gerais, os paulistas iam formando intensa rede favorável ao nome de Altino
Arantes, envolvendo os demais estados da Federação. O grande problema
de Minas era saber se manteria a aliança com São Paulo em torno de Aran-
tes, mesmo com a recusa do Rio Grande do Sul. A elite mineira se dividia
quanto a este aspecto, o que tornava os paulistas desconfiados em relação
a Minas. 28 Por esta ocasião, Borges de Medeiros já se comprometia com
o nome de Epitácio Pessoa, sendo o PRR a primeira máquina partidária a
sustentar efetivamente o nome do paraibano (Love, 1975:198).
A decisão do Rio Grande do Sul de rejeitar Altino Arantes ganhou o apoio
do Rio de Janeiro. Conforme se aventou, ambos os estados já caminhavam
unidos na “concentração dos estados”. Mas o novo agrupamento se dividia
entre os nomes de Epitácio Pessoa, retomado pelo Rio Grande do Sul, e o de
Rui Barbosa, sustentado pelo Rio de Janeiro. Porém, pretendiam levar ambos
os nomes à Convenção, na expectativa de que o nome paulista não fosse aceito.
Caso fossem derrotados, aceitariam o resultado final. A ideia inicial era apenas

28
Ver carta de Álvaro de Carvalho a Raul Soares de 19 de fevereiro de 1919, ARS, código
19.02.19/5, CPDOC. Melo Franco queria Rui Barbosa e não aceitava Altino. Raul Soares
preferia estar com o Rio Grande, à revelia de São Paulo. João Luís e Sabino Barroso
apostavam no nome paulista e Delfim Moreira rejeitava Rui Barbosa. Astolfo Dutra se
empenhava pela aliança entre Minas e São Paulo, mas temia que Epitácio Pessoa, ao ser
escolhido, não entregasse a futura Presidência a Minas, conforme planejavam. Como se
vê, desde a sucessão de Rodrigues Alves, o nome de Bernardes já estava reservado para
a Presidência. Se esta não fosse possível, que o fosse a próxima. Mas no cômputo geral,
Minas Gerais não recusou nenhum candidato. A este respeito ver: Relato do acontecido
por João Luís a Raul Soares de março de 1919, ARS, código 19.01.00/1, CPDOC e carta
de João Luís a Raul Soares de 19 de fevereiro de 1919, ARS, código 19.02.19/6, CPDOC.

247
de marcar espaço, de delimitar forças e não partir para a ruptura. Qualquer
postura mais radical afastaria de vez o eventual apoio mineiro, jogando Minas
nas mãos de São Paulo. A união dos dois maiores estados, à revelia do Rio
Grande do Sul e do Rio de Janeiro, lhes imporia grande derrota.29
Para evitar a dissidência, alguns estados se reuniram na casa de Urba-
no dos Santos, para estabelecer um acordo prévio à Convenção. Estiveram
presentes os seguintes estados: Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do
Sul, Mato Grosso, Bahia, Maranhão e Pernambuco. O consenso se deu em
torno de Epitácio, sugerido pelo gaúcho Vitorino Monteiro, e garantido pelo
apoio mineiro de Raul Soares.30
O apoio de Minas Gerais à candidatura de Epitácio não agradou muito
aos paulistas, que esperavam que o estado fechasse acordo em torno do nome
de Altino Arantes. A indicação de Bernardes para presidir a Convenção
também não foi bem recebida por eles, conforme atesta a citação a seguir,
que se constitui em uma avaliação dos gaúchos acerca da conjuntura:

E, ao passo que se nota uma coesão absoluta entre os elementos que


apoiam essa candidatura, do outro lado, Minas e São Paulo já come-
çaram a se hostilizar. A ninguém no Senado escapou o mau humor, a
incontida irritação com que o Sr. Álvaro de Carvalho recebeu, ontem,
a indicação feita pelo seu velho companheiro de poder, o Sr. Azeredo,
do nome do Sr. Artur Bernardes para presidente da Convenção. Por
outro lado, Minas organiza a defensiva, aliando-se ostensivamente ao Rio
Grande, que tivera a coragem de sumariamente rejeitar a candidatura do
Sr. Altino Arantes(...).A sua intransigência [de Borges de Medeiros] neste
ponto concorreu em grande parte para a solução ontem adotada, com a
eficaz e patriótica colaboração de Minas, que não hesitou em reforçar
nosso pensamento em conferência realizada em nossa residência com

29
Ver carta de Macedo Soares a Bernardes de 20 de fevereiro de 1919, AAB, caixa
35, série 259, doc. 227, APM; carta de João Luís a Bernardes de 20 de fevereiro de
1919, AAB, caixa 35, série 259, doc. 228, APM.
30
Ver carta de João Luís a Bernardes de 20 de fevereiro de 1919, AAB, caixa 35,
série 259, doc. 229, APM; carta de R.Soares a João Luís e carta de Raul Soares a
Bernardes de 20 de fevereiro de 1919, ARS, códigos 19.02.20/3 e 5, respectivamente,
CPDOC; carta de João Luís a Raul Soares de 20 de fevereiro de 1919, ARS, código
19.02.20/8, CPDOC; carta de Raul Soares a João Luís de 20 de fevereiro de 1919,
ARS, código 19.02.20/9, CPDOC. Sobre a rejeição da Bahia a Altino Arantes e de
Rui a Epitácio ver: cartas de Rui Barbosa a Nilo Peçanha de 20 de fevereiro de 1919,
ARS, código 19.02.20/12, CPDOC e ARB, CR 1153-2/3 (54), FCR. Neste documento
Rui Barbosa acusa Altino Arantes de “germanófilo”. Ver também carta de Rui Barbosa
a Macedo Soares de 21 de fevereiro de 1919, ARB, CR 1396 (37), FCR.

248
os ilustres Drs. Raul Soares e Astolfo Dutra, seus legítimos intérpretes.
(Carta de Vespúcio de Abreu a Vitorino Monteiro de 22 de fevereiro de
1919, publicada no jornal O Imparcial, AEP, pasta 42, IHGB)31

O apoio mineiro à candidatura de Epitácio Pessoa impediu o advento de


uma aliança mineiro-paulista, de caráter exclusivista. Ao se aproximar de
antigos parceiros, Minas Gerais deixava São Paulo, uma vez mais, isolado.
Através da pesquisa realizada, ficou claro que a indicação de Epitácio,
promovida pelo Rio Grande do Sul, só se viabilizou em função do apoio
mineiro. E que ambos os estados haviam se reunido previamente, para
garantirem a aprovação do nome de Epitácio, contra as pretensões paulistas
de verem aceito o nome de Altino Arantes. O trecho, reproduzido a seguir,
sintetiza bem a correlação de forças do período:

Minas queria Rui, mas, não sendo este possível, também não queria
Altino. São Paulo era Altino e só Altino. Seabra tudo menos Rui. Rio
Grande, nem Rui, nem São Paulo e nem Minas. Pernambuco embora não
quisesse Rui não se manifestava e aceitava Altino. Maranhão pensava
com o Seabra. (...) Os estados pequenos não tomaram parte no taber-
náculo mas criariam sérios embaraços aliados à Bahia e possivelmente
ao Rio Grande. (Carta de Raimundo de Miranda a Epitácio de março
de 1919, AEP, pasta 41, IHGB)

31
A respeito da reação paulista ver: cartas trocadas entre Vitorino Monteiro e Tavares
de Lyra de 24 de fevereiro de 1919 publicadas no Jornal do Comércio, AEP, pasta 41,
IHGB. Sobre o apoio de Francisco Sales a Epitácio Pessoa ver: carta de Raul Soares a
João Luís de 24 de fevereiro de 1919, ARS, código 19.02.24/2, CPDOC. Para se ter
um relato completo da participação de Minas no evento ver um manuscrito de Raul
Soares intitulado: “Como se deu o processo de escolha de Epitácio”, ARS, 24 de
fevereiro de 1919, código 19.02.24/5, CPDOC e notícia publicada no jornal “Gazeta de
Notícias” da mesma data, encontrado no AEP, pasta 42, IHGB e notícia publicada na
“Gazeta de Notícias” de 25 de fevereiro de 1919, AEP, pasta 42, IHGB. Ver também
Jornal Correio da Manhã de 25 de fevereiro de 1919, AEP, pasta 42, IHGB; carta de
Wenceslau Brás a Raul Soares de 25 de fevereiro de 1919, ARS, código 19.02.25/1,
CPDOC. Nestes três últimos documentos consta que Wenceslau Brás e Delfim Moreira
desejavam a candidatura Rui, mas ficaram neutros no processo e acataram decisão
do PRM. Outras informações em: carta de Alfredo Neves a Epitácio Pessoa de 27 de
fevereiro de 1919, AEP, pasta 41, IHGB; Jornal O Pharol, “A Primeira Etapa”, de 23
de fevereiro de 1919, CPH, AH; carta de Aurelino Leal a Epitácio de 1 de março de
1919, AEP, pasta 41, IHGB; carta de Weinscheuch a Epitácio Pessoa de 4 de março
de 1919, AEP, pasta 41, IHGB; notícia do jornal O Imparcial de 9 de março de 1919
“A Situação Política” AEP, pasta 42, IHGB.

249
A citação deixa igualmente transparecer que a ação dos pequenos e
médios estados, ao lado do Rio Grande do Sul, ou seja, a “concentração
dos estados”, foi o elemento também importante para a escolha de Epitácio
Pessoa.
A atitude de Minas justificava-se no campo da estratégia política. Caso
Altino Arantes fosse apoiado por Minas Gerais, o estado perderia aliados
importantes como o Rio Grande do Sul, a Bahia e o Rio de Janeiro, ao que
Minas Gerais, em função de suas pretensões futuras, não se arriscaria.
Nilo Peçanha não esteve presente na reunião que escolheu Epitácio
Pessoa. Não se sabia, naquela ocasião, qual seria a decisão do Rio de
Janeiro. Aquele estado estava por demais ligado ao nome de Rui Barbosa.
Acontece que Nilo Peçanha desejava opor-se à indicação de um paulista,
daí ter se firmado no nome baiano.
Assim, o nome de Rui Barbosa ainda reunia os apoios do Rio de Ja-
neiro, de parte da Bahia e do Pará. Ficou definido que na Convenção o seu
nome seria também apresentado, o que de fato ocorreu. O resultado final
lhe deu 42 votos contra 139 dados a Epitácio Pessoa. 32 Mesmo derrotado,
Rui Barbosa aventurou-se novamente em uma candidatura de oposição.
Como se viu, a garantia do veto ao nome de Altino Arantes partiu do
Rio Grande do Sul. Reeditando o comportamento de Pinheiro Machado,
os chefes gaúchos impediram, uma vez mais, e com o apoio de Minas, que
São Paulo reassumisse a Presidência da República:

Sem pretender alardear iniciativas fui o único político que combateu


violenta e desassombradamente (sic) a candidatura quase vitoriosa do
regionalismo paulista, que nos cobriria de opróbrio e despertaria intensa
agitação no país, cuja gravidade não se poderia prever onde chegaria.
(Carta de Vitorino Monteiro a Epitácio de 8 de abril de 1919, AEP,
pasta 41, IHGB)

A escolha de Epitácio colocava um ponto final nas desconfianças surgi-


das, no início da década de 20, acerca das tentativas monopólicas dos esta-
dos do sul sobre a Federação, conforme expressava bem a citação a seguir:

32
Ver cartas de João Luís a Raul Soares de 22 de fevereiro de 1919, ARS, código
19.02.22/6 e 7, CPDOC. Acerca dos apoios de Rui Barbosa ver jornal Gazeta de
Notícias de 22 de fevereiro de 1919, AEP, pasta 42, IHGB; carta de Rui Barbosa a
Nilo Peçanha de 25 de março de 1919, ARB, CR 1153-2/2 (57), FCR e entrevista
a jornal transcrita: ARB, RB PI 32, FCR; cartas de Artur Azeredo, A. Bezerra, C.
Machado, M. Sodré e C. de Campos para Epitácio Pessoa de 25 de fevereiro de 1919,
AEP, pasta 41, IHGB.

250
Rejubilei-me deveras com esse fato verdadeiramente auspicioso para
a nossa nacionalidade. Efetivamente ele destrói, a um só tempo, o
prejuízo de que o Chefe de Estado só podia sair, entre nós, de um dos
grandes membros da Federação, e o sentimento, por aí reinante, de
um real antagonismo entre o Norte e o Sul, pela preponderância deste
sobre aquele em tudo. (Carta de Artur Lemos a Epitácio, s/d, AEP,
pasta 41, IHGB)33

Claro ficou a todos que a responsabilidade pela candidatura de Epi-


tácio Pessoa tinha sido mineira e gaúcha. Principalmente mineira, pois os
paulistas tinham como certo o seu apoio. Sem o apoio de Minas ao nome
de Epitácio Pessoa, a candidatura dele estaria inviabilizada. Rui Barbosa
sabia disto e assim se manifestou:

(...) não deixe de lembrar a seus amigos de Minas que à política desse
grande estado é que estará, inevitavelmente, reservada a responsabili-
dade, que eles avaliarão em todo o seu alcance, de infligirem ao país
uma surpresa muito grave. (Carta de Rui Barbosa a Nilo Peçanha de
20 de fevereiro de 1919, ARB, CR 1153-2/3 (53), FCR)

Joaquim de Sales (1960:137), conhecido jornalista da época, também


atribuiu a Raul Soares a escolha de Epitácio Pessoa. Joseph Love (1975:198)
afirma que a responsabilidade coube também a Borges de Medeiros, que,
além de ter assumido o ônus de vetar o nome paulista, havia sido responsável
pela retomada do nome paraibano.
O próprio Epitácio, ausente de todas as combinações, não deixou de
ser surpreendido com sua própria escolha, assim se manifestando:
Nunca aspirei à Presidência da República (...) porque a máquina política
do país estava montada de tal maneira que ao representante de um estado
pequeno, como a Paraíba, não era lícito levar tão longe a sua ambição. De
fato, só as circunstâncias as mais variadas e imprevistas – a oposição do Rio
Grande do Sul a qualquer candidatura paulista ou mineira, as apreensões que
infundia à política dominante dos estados, a candidatura Rui Barbosa, a minha
ausência do país no desempenho de uma missão de alto relevo, a independência
em que sempre me conservara entre os partidos políticos, o meu alheamento
à luta que se travara em torno da sucessão do Conselheiro Rodrigues Alves, e
etc. – tornaram possível a escolha de meu nome. (Pessoa, 1925:43)

33
A respeito da projeção do norte do Brasil em relação ao sul, representada pela
candidatura de Epitácio Pessoa, ver também carta de Raimundo de Miranda a Epitácio
de 31 de março de 1919, AEP, pasta 41, IHGB.

251
Entre os elementos responsáveis pela escolha de Epitácio Pessoa já
elencados no decorrer deste livro, estava a sua ausência do país e a sua
independência política. Na ausência de um acordo entre os três maiores
estados, Minas, Rio Grande do Sul e São Paulo, só a um candidato neutro
poder-se-ia conceder o privilégio de presidir a República. Sobre ele, os
três estados tentariam exercer o controle do seu mandato. O que se saísse
melhor, maiores condições teria de retornar à cadeira presidencial.
A segunda campanha eleitoral de Rui Barbosa não empolgou como a
campanha civilista. Coordenava o trabalho o baiano Miguel Calmon, que
havia sido ministro de Afonso Pena e membro destacado do “Jardim de
Infância”, bem como da campanha civilista. Macedo Soares e Maurício de
Lacerda aproximavam da candidatura os setores mais populares. Rui Bar-
bosa tinha também o apoio do situacionismo paraense. A eleição de Epitácio
Pessoa foi francamente majoritária (Carta de Enéas Martins a Epitácio de
15 de março de 1919, AEP, pasta 41, IHGB).

* * *

Procurou-se, ao longo deste capítulo, comprovar que, ao ser eleito por


dois grupos políticos distintos – coligados e perrecistas –, Wenceslau Brás
procurou fazer uma gestão de conciliação entre ambos. A entrada de São
Paulo no grupo de apoio presidencial fortaleceu o Executivo Federal.
Viu-se, igualmente, que, após a morte de Pinheiro Machado, os estados,
reunidos em torno do poder riograndense, perderam progressivamente sua

252
força. Este fato resultou na indicação de Rodrigues Alves para suceder
Wenceslau Brás, sem que a pretensão paulista sofresse qualquer desafio.
Assim, discordamos das análises que afirmam que a indicação do nome
paulista tenha sido apenas um capítulo a mais da história de uma aliança
permanente entre Minas e São Paulo, revivificada pelo Pacto de Ouro Fino.
Procuramos comprovar que a escolha de Alves se deu como resultado de
um acordo interno entre os estados hegemônicos, cujo marco definidor
principal foi a momentânea fragilidade dos antigos perrecistas no processo.
Um outro indicativo da inexistência de uma aliança exclusiva entre os
dois maiores estados da Federação, Minas e São Paulo, foi a tentativa dos
paulistas de aproximação em relação ao Rio Grande do Sul, contra a hege-
monia mineira. Como foi visto, esta estratégia objetivou garantir a eleição
de Rodrigues Alves, em detrimento de possíveis intenções monopólicas
mineiras. A resistência do Rio Grande do Sul impediu que tal aliança se
concretizasse.
Um outro elemento comprobatório da ausência de uma aliança entre
os dois estados esteve também na composição dos Ministérios de Brás e de
Alves. No primeiro, os paulistas foram excluídos. No segundo, foi a vez dos
mineiros. Na verdade, os dois estados mais se temiam do que se uniam.
Quanto à escolha de Epitácio Pessoa, procuramos comprovar que ela ex-
pressou profundas dificuldades no relacionamento entre Minas e São Paulo.
Durante todo o processo, seus representantes atuavam com desconfianças
mútuas, omitiam informações e agiam nos bastidores, apontando para o
fato de que a parceria entre mineiros e paulistas tinha ares de casamento
em contínua crise conjugal.
Um outro elemento que pôde ser notado foi a existência de um maior
interesse de São Paulo, do que o de Minas, em relação à aliança. Inviabiliza-
da uma aproximação com o Rio Grande do Sul, restava a São Paulo insistir
numa aliança com Minas. Se ela se desse de forma exclusivista, seria ainda
melhor para paulistas e mineiros. Mas, como foi visto, Minas recusou-se a
abrir mão dos apoios de tradicionais estados aliados, mostrando-se sempre
resistente e com temor quanto a uma aliança exclusiva com São Paulo.
Por fim, o nome de Epitácio Pessoa foi escolhido como resultado de um
acordo interno entre os estados. Mas claro estava que a posição mineiro-
gaúcha em prol da rejeição do nome paulista e da viabilização do nome de
Pessoa foram elementos fundamentais na definição da escolha.
Cabe ainda registrar que, diante de uma aliança restrita aos dois maio-
res estados da Federação, os demais se uniram, criando a “concentração
dos estados”. Como se vê ao longo deste livro, a tentativa de formar eixos
alternativos a qualquer forma de monopolização de poder, seja por parte

253
dos militares, seja por parte dos estados, foi frequente na República. In-
teressava aos atores políticos hegemônicos do regime a manutenção das
regras em vigor, as quais serviam de alicerce à manutenção de seu poder.
A “concentração” teve participação ativa no veto ao nome paulista e no
lançamento de dois nomes alternativos a mineiros e paulistas, o de Rui
Barbosa e o de Epitácio Pessoa.
Desta forma, este período de quatro anos pode ser dividido em duas
partes. A primeira vai da montagem do governo Brás à morte de Rodrigues
Alves. A segunda engloba todo o processo de escolha de Epitácio Pessoa.
Na primeira fase, assistiu-se às disputas entre coligados e perrecistas, em
torno do controle do governo federal. A vitória foi do governo federal, o
qual, mantendo-se autônomo em relação às disputas, pôde manter-se forta-
lecido. Após a morte de Pinheiro Machado e o consequente recuo político
do Rio Grande do Sul, em vão, Francisco Sales tentou manter o poder dos
coligados. São Paulo surgia como uma nova força a ocupar o vazio político
deixado, pela ausência do líder gaúcho. Obtendo êxito, elegeu, sem oposi-
ções, um nome seu.
A morte de Rodrigues Alves deu início à segunda fase do quatriênio.
O ressurgimento do Rio Grande do Sul e a retomada de suas antigas par-
cerias políticas impediram a formalização de uma aliança mineiro-paulista
em bases exclusivistas, o que resultou em dois importantes acontecimentos.
O primeiro foi a formação de uma “concentração de estados” contra uma
eventual aliança mineiro-paulista. A segunda foi a eleição de Epitácio Pes-
soa, resultante de ambas as circunstâncias.

254
Capítulo 7

O público ameaça participar

Desta luta Minas sairá vitoriosa, mostrando mais


uma vez ser o centro de gravidade da República.
(Frase proferida por Raul Soares na Estação
Ferroviária Central de Belo Horizonte em 21 de
junho de 1921, ARS, código 21.06.21, CPDOC)

Este capítulo tem como tema central a análise do evento conhecido como
Reação Republicana. Ocorrido ao final do governo Epitácio, consistiu na
formação de uma oposição consistente à candidatura veiculada pelo Catete,
que resultou em uma eleição disputada voto a voto, com ativa participação
dos grupos hegemônicos mais importantes do regime oligárquico, além do
Exército e dos setores urbanos, em intensa mobilização. Pela segunda vez,
as oligarquias dominantes não conseguiram articular um candidato de
consenso, levando às urnas a sua dissidência interna. (A primeira vez havia
acontecido na sucessão de Afonso Pena, resultando na “campanha civilista”).
O evento foi inovador por ter sido a primeira sucessão em que Minas
Gerais se opôs a antigos parceiros, como o Rio Grande do Sul, o Rio de
Janeiro, Pernambuco e a Bahia. Por conseguinte, tratava-se da primeira
experiência oposicionista dos gaúchos.
Outra singularidade a ser destacada diz respeito a uma divisão mais
equitativa entre os dois grupos que se opuseram no evento sucessório. De
um lado, estavam Minas, São Paulo e o Catete. De outro, Rio de Janeiro,
Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e o Exército. Este fato conferia
à disputa eleitoral não só um maior dinamismo, como um maior grau de
competitividade.
A este respeito Marieta Ferreira (1993:10) afirma que o evento teria rom-
pido com a cultura política predominante do regime oligárquico, na medida
em que introduzira novos comportamentos políticos, a exemplo da competi-
tividade política e da abertura à manifestação explícita do conflito. De fato,
a Reação Republicana pôde expressar certa dissonância em relação aos
padrões estruturados de comportamento político, tradicionalmente em vigor.

255
Um outro elemento excepcional esteve no fato de o processo sucessório
ser coordenado por um Presidente que não tinha atrás de si um grande
estado, o que fragilizava o Catete em seu poder de interferência sobre sua
renovação. Situação semelhante havia ocorrido com Hermes da Fonseca,
que, embora fosse gaúcho, não tivera seu nome alçado pelas oligarquias do
Rio Grande do Sul, mas sim pelo Exército. Nem Hermes nem Epitácio teriam
participação ativa na definição dos rumos de suas respectivas sucessões.
Outra inovação trazida pelo evento foi a discussão de diferentes projetos
alternativos a serem desenvolvidos pelo futuro governo. Pela primeira vez,
as alianças foram compostas com base em programas de governo diferentes
entre si, o que era indício de um maior amadurecimento político por parte
das elites dominantes brasileiras. Tal diferenciação derivava da emergência
de novos atores políticos, representados pelos setores médios do Exército e
pelos setores urbanos. Soma-se a isso a concretização de um eixo alternativo
de poder muito mais consistente do que os das experiências passadas, dessa
vez baseado igualmente em um programa de governo específico.
Em relação à emergência de novos atores, sobretudo as classes médias
urbanas, cabe ressaltar a incorporação, pelo programa da Reação Republi-
cana, de algumas reivindicações de caráter liberal desses setores, principal-
mente os vinculados à crítica às fraudes eleitorais. Porém, tal incorporação
fora limitada e sem efeitos práticos imediatos para seus proponentes.
Embora tenha sido característica intrínseca à Primeira República a
associação entre militares e oligarquias civis, com o fim de galgarem maior
espaço de atuação política no quadro do Federalismo, destacou-se, na oca-
sião, um novo papel a ser cumprido pelo Exército: o de caixa de ressonância
dos anseios dos setores urbanos, papel este que vinha se esboçando desde as
revoltas militares ocorridas no governo anterior (Prestes, 1994:36, 41 e 42).
Igualmente, pela primeira vez, a posse do Presidente eleito esteve efetiva-
mente ameaçada, principalmente em razão da oposição do Exército. Não fossem
a poderosa aliança entre os dois maiores estados brasileiros – Minas e São Paulo
– e a garantia de apoio do Catete, Bernardes não conseguiria ser empossado.
As inovações elencadas acima permitem caracterizar o evento como um dos
mais importantes da Primeira República. Consiste no elo intermediário entre ex-
periências sucessórias relativamente consensuais e uma disputa de maior monta,
atingindo patamares revolucionários, como foi o caso da Revolução de 1930.
Para um melhor entendimento das razões que levaram à Reação Republi-
cana, alguns elementos inovadores, que nela estiveram presentes, precisam ser
destacados. Não dispondo o Catete de uma base oligárquica consistente, por
ser seu titular originário de um pequeno estado, de fraco potencial político,
em um regime em que o poder de cada estado era diretamente proporcional

256
ao volume de sua bancada e de sua potencialidade econômica, o locus da
soberania do regime foi transposto do Executivo para o Parlamento Federal.
Este fato teve duas consequências imediatas e correlatas: fragilizou o poder do
Catete e, ao mesmo tempo, ampliou a sua margem de autonomia. A primeira
consequência foi responsável pelo aumento do grau de competitividade do
regime, intensificando as disputas pelo controle do Executivo Federal, por
parte dos grandes estados, no seio do Parlamento. A segunda permitiu o
florescimento e o encaminhamento de projetos políticos alternativos para o
país, por parte do Executivo Federal, não só sob o ponto de vista econômi-
co – diversificação agrícola versus cafeicultura –, como sob o ponto de vista
político – mecanismos de distribuição e alocação de recursos públicos entre
os estados e representação dos mesmos no Parlamento.
Além disso, tendo sido Minas Gerais, ao lado do Rio Grande do Sul, o
principal responsável pela eleição de Epitácio Pessoa, o estado não conteve sua
aspiração hegemônica, ocupando todos os espaços vazios de poder e exercendo
um rígido controle sobre as ações do Catete. Fortalecido por um PRM hegemôni-
co e submisso aos arbítrios de seu chefe, Minas articulou uma poderosa aliança
com os paulistas, recusando-se a recuar em prol de uma solução consensual, que
envolvesse os tradicionais atores políticos. O resultado foi a emergência de uma
das mais acirradas disputas intra-elitistas já vistas pelo regime. Dessa forma,
o fator primordial no desencadeamento da Reação Republicana foi a ruptura,
por parte dos mineiros, de um dos pilares básicos de sustentação do modelo
de sucessões presidenciais em vigor, ao imporem um candidato situacionista,
respaldados pelo controle do Executivo Federal e pela aliança com São Paulo.

7.1 Executivo frágil, legislativo em luta

A eleição de Epitácio Pessoa abriu espaço para a manifestação de anti-


gos anseios nordestinos. Como expressão de tais anseios, seu programa de
governo priorizava o combate à seca do nordeste, além de outros objetivos
correlatos, como o saneamento urbano e a construção de ferrovias na região.
Destacava-se também, em sua plataforma, o investimento na diversificação
agrícola, principalmente em relação à produção de algodão.1
Antes mesmo de sua posse, as elites políticas dominantes cuidaram de
garantir o seu controle sobre um Executivo que se anunciava frágil e de-

1
Ver Jornal da Indústria e do Comércio de 24 de março de 1919, AEP, pasta 41, IHGB e
Manuscrito de Epitácio Pessoa em sua viagem de volta ao Brasil, AEP, pasta 41, IHGB.

257
pendente. A morte de Sabino Barroso, então Presidente da Câmara, abriu
a primeira oportunidade de disputa pelo poder no Congresso, por parte dos
novos atores. Bernardes julgou conveniente que a Presidência da Câmara
coubesse a outro mineiro, Astolfo Dutra, deixando-se a liderança da maioria
para os paulistas. Desta forma, Minas integrava com São Paulo a aliança de
sustentação do governo Epitácio Pessoa e evitava ser acusada de monopolizar
cargos, abrindo espaço para o advento de outros parceiros políticos.
Porém, por ter tido ação decisiva na indicação de Epitácio Pessoa à
Presidência, o Rio Grande do Sul também reivindicou a ocupação do mesmo
cargo, sendo apoiado em suas pretensões pela Bahia e abrindo, assim, uma
disputa contra os mineiros.2
Como se percebe, a então recente aproximação entre Minas e São Paulo
encontrava seu primeiro obstáculo, o Rio Grande do Sul. Por ter sido o principal
responsável pelo veto à candidatura paulista de Altino Arantes, o Rio Grande
do Sul também tinha aspirações hegemônicas em relação ao governo que se
iniciava. Com o fim de conter o arroubo gaúcho, Minas Gerais aproximou-se dos
paulistas, transformando-os em parceiros preferenciais. Delineava-se, assim,
uma nova divisão nas bases de sustentação do governo Epitácio Pessoa. De um
lado, Minas e São Paulo. De outro, Rio Grande do Sul e Bahia. O Presidente da
República, antes de assumir o poder, já tinha suas bases políticas divididas.3
O agrupamento alternativo à hegemonia mineiro-paulista possuía apoio
da imprensa da capital que não poupava críticas aos mineiros. A despeito
das acusações, Minas não abriria mão de continuar exercendo o monopólio
sobre o cargo de Presidente da Câmara.
Ao tomar conhecimento das disputas em curso, Epitácio Pessoa posi-
cionou-se a favor dos gaúchos, deixando claro ao lado de quais parceiros
preferia governar. 4 Minas rapidamente anteviu as disputas que teria pela
frente em relação a Epitácio: “Dona da candidatura, Minas não o era do
candidato” (Franco, 1955:942).

2
Ver carta de Bernardes a Astolfo Dutra de 18 de junho de 1919, AAB, caixa 36,
série 262, doc. 2, APM; carta de Bueno Brandão a Bernardes de 20 de junho de
1919, AAB, caixa 36, série 262, doc. 14, APM; carta de Raul Sá a Bernardes de 21
de junho de 1919, AAB, caixa 36, série 262, doc. 13, APM.
3
Neste evento, a facção salista, por opor-se internamente a Bernardes, aproximou-se
do Rio Grande do Sul.
4
Ver carta de Melo Franco a Epitácio Pessoa de 21 de junho de 1919, AEP, pasta
55, IHGB; carta de Aurelino Leal a Epitácio de 22 de junho de 1919, AEP, pasta 41,
IHGB; carta de Bernardes a Melo Franco de 25 de junho de 1919, AAB, caixa 36,
série 262, doc. 24, APM; carta de Epitácio Pessoa ao seu Ministro da Viação de 24
de junho de 1919, AEP, pasta 41, IHGB.

258
Cientes do apoio de Epitácio às suas pretensões, gaúchos e baianos pro-
punham o adiamento da escolha, até que o Presidente eleito voltasse para o
Brasil, para que o assunto fosse então resolvido. Mas Minas e seus aliados não
admitiriam a interferência do Executivo Federal sobre o processo, atribuindo
ao Congresso o direito autônomo de escolha. Como foi visto, até então, a escolha
do Presidente da Câmara, muito embora fosse uma prerrogativa do Legislativo,
recaía sempre nas mãos do Catete. O fato de Epitácio derivar de um estado
politicamente frágil e ter tido a sua eleição garantida pelos médios e grandes
estados da Federação, interpunha limites claros ao exercício de seu poder.
Os apoios foram disputados bancada a bancada. Mesmo sem os votos
do Rio Grande do Sul e da Bahia, Minas conseguiu obter maioria. Para
atrair o Rio de Janeiro, os mineiros prometeram-lhe a Vice-Presidência da
Câmara. Aderindo à proposta, Nilo Peçanha lhes garantiu o apoio de seu
estado e também o de Pernambuco.
Diante da fragmentação das bancadas, com forte predomínio do bloco
de apoio ao candidato mineiro, Minas Gerais conseguiu impor Astolfo Dutra a
Epitácio, garantindo a continuidade de seu monopólio sobre o cargo. Escolhido
o novo Presidente da Câmara, as dissidências se arrefeceram. Como de praxe,
todos os que haviam se identificado com a oposição reaproximaram-se do eleito.5
Com a volta de Epitácio ao país, iniciaram-se as articulações em torno
da escolha de seu Ministério. A expectativa geral era a de que os nomes
escolhidos fizessem parte dos estados responsáveis por sua eleição, o que foi
feito, na medida em que as pastas foram distribuídas entre os três maiores
estados da Federação: Minas, São Paulo e Rio Grande do Sul.6 A única
inovação consistiu na escolha de nomes civis para as pastas militares. Há
várias justificativas para tal mudança. Edgar Carone afirma que ela resultou
da ameaça, por parte dos militares, de recusarem o preenchimento do posto.

5
Ver cartas de Aurelino Leal a Epitácio, s/d e outra de 27 de junho de 1919, AEP, pasta
41, IHGB; carta de Bernardes a Nilo Peçanha de 27 de junho de 1919, AAB, caixa 36,
série 262, doc. 22, APM; carta de Melo Franco a Epitácio Pessoa de 30 de junho de 1919,
AEP, pasta 55, IHGB; carta de Bueno de Paiva a Wenceslau Brás de 1 de julho de 1919,
AWB, VB 06, pasta 18.11.11, doc. 422, CPDOC; carta de Astolfo Dutra a Bernardes de
8 de julho de 1919, AAB, caixa 36, série 262, doc. 41, APM; carta de Astolfo Dutra a
Bernardes de 6 de maio de 1919, AAB, caixa 30, série 253, doc. 87, APM.
6
O Ministério ficou assim composto: Para o Interior e Justiça, Alfredo Pinto (MG)
e depois o mineiro Pena Júnior; Fazenda: Homero Batista (RS); Viação e Obras
Públicas: Pires do Rio (SP); Exterior: Azevedo Marques (SP); Agricultura: Simão
Lopes (RS) e para as pastas militares: Raul Soares (MG) e Pandiá Calógeras (MG),
depois substituídos por Ferreira Chaves e Veiga Miranda. Ver a este respeito carta de
Aurelino Leal a Epitácio de 13 de julho de 1919, AEP, pasta 41, IHGB.

259
Para José Maria Bello, Epitácio Pessoa pretendia fragilizar a corporação
militar, freando seus impulsos revolucionários. Pelo que pudemos aferir,
o próprio Epitácio Pessoa justificou a sua atitude, alegando ser o cargo de
caráter político e não técnico, a exemplo do que era feito em outros países
europeus, mesmo em conjuntura de guerra. O fato é que a inovação provo-
cou o descontentamento das forças armadas em relação ao novo governo. 7
A despeito de sua participação no Ministério, os mineiros não ficaram
satisfeitos com as escolhas, conforme demonstrava Bueno Brandão:

Penso também que não lhe deve ter passado despercebido o tratamento desi-
gual que Minas tem tido por parte do Presidente, na organização do Ministério.
Quando para o Rio Grande são oferecidas três pastas: Fazenda, Agricultura
e Guerra, (esta recusada pelo Rivadávia) para São Paulo, duas: Exterior e
Viação (...). A Minas se destina a Marinha - posto de grandes responsabilidades
e perigos, por ser o início de uma nova orientação que certamente não será
bem aceita pelas classes armadas. (Carta de Bueno Brandão a Bernardes de
27 de agosto de 1919, AAB, caixa 29, série 252, doc. 6, APM)8

Mesmo insatisfeita, Minas procurou não afastar-se. Migrar para o iso-


lamento ou para a oposição significava abrir mão de seus planos mais ime-
diatos, entre eles destacando-se o de eleger Bernardes sucessor de Epitácio.
Toda a ação de Minas no novo governo foi direcionada em prol deste objetivo.
Os esforços de Epitácio para garantir a autonomia do Executivo Federal
foram muito grandes. O maior exemplo foi a tentativa de interferência sobre
a escolha da liderança do governo no Parlamento, ao indicar os nomes do
mineiro Antônio Carlos – o qual não mantinha relações muito próximas a
Bernardes – e do baiano Torquato Moreira. Mas, novamente, Minas Gerais
imporia limites às aspirações autonomistas de Epitácio, indicando-lhe para seu
governo a liderança do paulista Carlos de Campos (Carta de Astolfo Dutra a
Bernardes de 27 de julho de 1919, AAB, caixa 30, série 253, doc. 113, APM).
Dando-se por vencido em duas batalhas políticas no Parlamento, restou
a Epitácio conformar-se com a sustentação e controle políticos de Minas
sobre seu governo. Ao final de 1919, Epitácio fez saber aos próceres mineiros
que estava muito satisfeito com o apoio ao seu governo:

7
Ver Carone (1988:335) e Bello (1972:246); Anotações Pessoais de Epitácio Pessoa:
Escolha do Ministério, AEP, s/d, pasta 41, IHGB; carta de Raul Soares a Artur
Bernardes de 24 de julho de 1919, AAB, caixa 29, série 250, doc. 2, APM; cópia
manuscrita de artigo a ser enviado a jornal, AEP, s/d, pasta 41, IHGB.
8
Ver também carta de Raul Soares a Bernardes de agosto de 1919, AAB, caixa 29,
série 250, doc. 10, APM.

260
Diga ao Arthur que conto com ele como ele pode contar comigo. Minas
é o pivot da minha política. Com o Rio Grande não se pode contar por
causa dos princípios. Bahia é o que se sabe. Pernambuco idem. São
Paulo infelizmente não tem no governo um representante direto. Com
Minas e São Paulo, mas Minas em primeiro lugar, é que conto para
governar. (Carta de Raul Soares a Bernardes de 31 de dezembro de
1919, AAB, caixa 29, série 250, doc. 22, APM)9

Minas assegurava a sua hegemonia sobre o frágil governo de Epitácio


Pessoa, a exemplo do que fizera a elite civil gaúcha no também frágil governo
de Hermes da Fonseca. O caminho estava pavimentado para o lançamento
futuro da candidatura de Bernardes.

7.2 A difícil aliança Minas–São Paulo

7.2.1 Os limites políticos da aliança

Embora a candidatura de Bernardes à sucessão de Epitácio fosse


considerada óbvia pelo mundo político, o êxito de seu nome não estava
garantido. As incertezas em relação ao apoio paulista, apesar da parceria

9
Ver também: carta de Bueno Brandão a Bernardes de 4 de agosto de 1919, AAB,
caixa 29, série 252, doc.7, APM; carta de Bueno Brandão a Bernardes de 27 de agosto
de 1919, AAB, caixa 29, série 252, doc. 6, APM; carta de Raul Soares a Bernardes
de 25 de novembro de 1919, AAB, caixa 29, série 250, doc. 16, APM.

261
estabelecida entre os dois estados, assolavam os mineiros, como se pode
ver pelas narrativas de Raul Soares a Bernardes:

Estou hoje inclinado a crer que há algum entendimento entre elemen-


tos paulistas e o Sales [ Francisco Sales ]. Este entendimento, é lógico
da parte de Sales, a quem não convém a sua candidatura e é lógico
da parte dos paulistas que em você veem o único adversário possível
contra a candidatura Washington [ Washington Luiz ]. (Carta de Raul
Soares a Bernardes de 13 de março de 1920, AAB, caixa 29, série
250, doc.34, APM)

Soube que São Paulo vai custear ou dar dinheiro para jornais de Minas
fazerem oposição a você. É uma coisa muito grave, cuja veracidade é
difícil apurar, mas não impossível, pois como deve lembrar-se, por
ocasião do civilismo usavam este processo. E quem sabe se São Paulo
não fará isto por intermédio do Sales? Você já verificou quem deu
dinheiro para fundar o jornal oposicionista de Juiz de Fora? Será bom
encarregar alguém de apurar isto(...). Os jornalistas pagos por São Paulo
procuram sempre demonstrar que São Paulo exporta mais que o resto
do Brasil (...). Ora, isto não é verdade, porque as estatísticas em que se
baseiam são da exportação do Porto de Santos, por onde vai, como sabe,
grande parte da produção mineira, além da de vários estados(...). Acho
um desaforo que eles se enfeitem com o nosso trabalho. Sem dúvida a
produção paulista é grande, mas não tanto como pensam e dizem os
seus jornalistas. (Carta de Raul Soares a Bernardes de 21 de março
de 1920, AAB, caixa 29, série 250, doc. 36, APM)

Como se observa, São Paulo era visto mais como um competidor do que um
aliado. Desconfiava-se de sua aproximação com Francisco Sales, inviabilizando
a candidatura Bernardes, através da divisão da elite mineira. Esta experiência já
fora vivida anteriormente pelos mineiros, em sucessões prévias. Ao mesmo tempo,
o nome de Washington Luiz era também cogitado para a sucessão de Epitácio.
Um outro evento que pôs em cheque a aliança com os paulistas se deu
por ocasião dos reconhecimentos. Como a liderança da maioria se encontrava
em mãos paulistas, Minas Gerais contou com a oposição e a hostilidade
do Catete e da bancada paulista no reconhecimento de aliados no Espírito
Santo, estado tradicionalmente incorporado ao domínio mineiro. A decisão
favorável a Minas esteve condicionada aos apoios do Rio de Janeiro e do Rio
Grande do Sul, bem como de seus respectivos aliados. A referência de Melo
Franco à ocasião denotava uma associação entre São Paulo e Pernambuco
em oposição aos interesses de Minas:

262
Os paulistas e pernambucanos estão, talvez, obedecendo a qualquer
orientação, já resultante do encontro do Bezerra [Andrade Bezerra] e
W. Luiz em Poços de Caldas, na semana passada... Não tenho receio
algum de perdermos a questão, mas entendo que é de toda conveniência
termos aqui todos os mineiros, sem exceção. (Carta de Melo Franco a
Bernardes de 13 de junho de 1920, AAB, caixa 33, série 254, doc.
24, APM)10

Incertos quanto ao apoio paulista, a estratégia de fortalecimento da


candidatura de Bernardes passou pela garantia de apoio de outros estados
da Federação. Aproveitando-se das lutas intra-elitistas que historicamente
assolavam a Bahia, Bernardes aproximou-se de Seabra, apoiando sua manu-
tenção no cargo de Presidente do estado, através do envio de armamentos,
quando a sua posse esteve ameaçada. Mesmo sofrendo duras críticas por
parte da imprensa, a intervenção mineira sobre a política baiana visava,
exclusivamente, a garantir o apoio futuro ao nome de Bernardes. 11
Quanto ao Rio de Janeiro, muito embora os mineiros contassem como
certo o apoio do estado, Nilo Peçanha se encontrava fora do país, e seu nome
já era cogitado pela imprensa do Distrito Federal, em meados de 1920, para
o cargo presidencial (Carta de Raul Soares a Bernardes de 31 de maio de
1920, AAB, caixa 29, série 250, doc. 46, APM).
Uma demonstração de que Minas poderia contar com antigos aliados
se deu na indicação de um novo Vice-Presidente, após a morte de Delfim
Moreira. O Rio Grande do Sul e a Bahia empenharam-se para que o novo
nome fosse indicado por Minas Gerais, viabilizando o exercício de sua hege-

10
Ver também carta de Melo Franco a Bernardes de 29 de junho de 1920, AAB caixa
33, série 254, doc. 25, APM.
11
Seabra havia disputado uma eleição contra as facções ligadas a Rui Barbosa. Mesmo
vencendo, teve sua posse ameaçada. Solicitou a intervenção federal, o que foi negado
por cinco Ministros de Epitácio Pessoa. O governo federal, então, propôs-lhe um
acordo que passava pela sua renúncia, o qual não foi aceito. O envio de armamentos
mineiros garantiu o controle de Seabra sobre o estado. O custo político para Bernardes
foi alto, mas o interesse em garantir o apoio baiano a sua candidatura era ainda maior.
Ver carta de Bernardes a Soares de 2 de janeiro de 1920, ARS, código 20.01.02,
CPDOC; carta de Raul Soares a Bernardes de 29 de janeiro de 1920, AAB, caixa
29, série 250, doc. 28, APM; carta de Hermenegildo Rezende para Bernardes de
10 de abril de 1920, AAB, caixa 31, série 253, doc. 253, APM. Ver também Carone
(1977:28-29) e Carvalho (1978:170).

263
monia sobre o governo federal. O nome escolhido foi o de Bueno de Paiva.12
Em razão do apoio previsível do Rio Grande do Sul, Bernardes reiterou
a seus representantes que se aproximassem dos gaúchos, com vistas ao
processo sucessório. Como o apoio de São Paulo era incerto, a aliança com
os gaúchos seria suficiente para garantir o seu êxito (Carta de Bernardes a
Soares de 6 de julho de 1920, ARS, código 20.07.06, CPDOC).
Um outro parceiro fundamental nos processos sucessórios era o Catete.
Um relato de Raul Soares parecia, no entanto, confirmar as apreensões
mineiras:

Disse-me que São Paulo está indignado com Minas ou, antes, não
perdoa a Minas o fracasso da candidatura Altino e que na campanha
presidencial estará contra Minas; mas que nós podemos contar com a
Bahia. Diz ele que o desejo do Presidente da República é arranjar um
grande estado para fazer seu sucessor. Tentou abrir a Bahia para isso
e suas vistas se voltam para o estado do Rio, que ele quer tornar ao
Nilo. (Carta de Raul Soares a Bernardes de 7 de julho de 1920, AAB,
caixa 39, série 270, doc. 5, APM)

Pelo relato, o apoio do Catete e dos paulistas estava em cheque. Em-


bora a candidatura de Washington Luiz estivesse ameaçada pela falta de
conciliação interna entre as facções paulistas, o nome de Nilo Peçanha já
aparecia como o principal concorrente dos mineiros e eles temiam uma
aproximação entre o Catete e os paulistas em torno desta opção (Carta de
Raul Soares a Bernardes de 14 de julho de 1920, AAB, caixa 29, série
250, doc. 49, APM).

7.2.2 Os limites econômicos da aliança

Um fato novo veio a atuar como um elemento complicador da temida


associação de interesses acima citada. Tratava-se do projeto de intervenção
do governo federal sobre o mercado financeiro, de autoria do Executivo

12
São Paulo havia se recusado a ocupar o cargo, apesar das pressões mineiras. Sob o
endosso de Epitácio Pessoa e dos demais estados, Minas manteve-se também na Vice-
Presidência. Ver carta de Bernardes a Wenceslau de julho de 1920, AWB, VB 06, pasta
18.11.11, doc. 434, CPDOC; carta resposta de Wenceslau de 2 de julho de 1920, AAB,
caixa 29, série 249, doc. 32, APM; carta de Bernardes a Raul Soares de 3 de julho
de 1920, ARS, código 20.07.03/1, CPDOC; carta de Raul Soares para Bernardes de
4 de julho de 1920, AAB, caixa 39, série 270, doc. 3, APM; carta de Raul Soares a
Bernardes de 28 de julho de 1920, AAB, caixa 39, série 270, doc. 31, APM.

264
Federal. No Congresso, ele havia sofrido emendas por parte dos represen-
tantes paulistas, angariando a oposição de Epitácio ao mesmo. A principal
mudança, sugerida pelo paulista Cincinato Braga, implicava na emissão de
moeda para auxiliar o café e não para saldar compromissos do Tesouro,
conforme intencionava o projeto inicial de Epitácio Pessoa. A recusa de
Pessoa em contemplar as alterações paulistas provocou o pedido de renúncia
do líder Carlos de Campos.13
Epitácio Pessoa, não se importando com as consequências, tratou de
pedir a Minas que lhe oferecesse um novo líder para a vaga aberta, dando
demonstrações claras de que não se submeteria às exigências paulistas.14
Evitando-se a emergência de dissensões, que poderiam colocar em risco
o projeto hegemônico mineiro, Bernardes imediatamente interveio junto a
Pessoa para evitar a defecção de São Paulo do governo, em prol do atendi-
mento das reivindicações paulistas, alegando que:

Creio que devemos pôr empenho nessa obra de aproximação não só pelo
que ela representa para o bem geral do país, como porque a origem
do projeto, o seu lançamento no seio de uma comissão governamental,
o modo por que a imprensa o recebeu e discutiu, a concomitante pa-
ralisação da reforma do Banco do Brasil e os reclamos da economia
mineira, idênticos aos da de outros estados, levaram a política mineira
a ver no projeto uma tentativa capaz de amparar neste momento a causa
dos produtores e a manifestar esta sua opinião. (Carta de Melo Franco
a Bernardes de 16 de setembro de 1920, AAB, caixa 49, série 272,
doc. 5, APM)15

Percebe-se pela citação que não interessava a Bernardes afastar-se de


São Paulo, o que poderia dificultar as suas pretensões futuras. Somado a

13
Ver carta de Melo Franco a Bernardes de 14 de setembro de 1920, AAB, caixa 49,
série 272, doc. 1, APM; carta de Carlos de Campos a Epitácio de 15 de setembro de
1920, AEP, pasta 55, IHGB.
14
Epitácio Pessoa havia recorrido a Pernambuco para a indicação de um novo líder,
sem que tivesse êxito. Ver carta de Epitácio Pessoa a Bernardes de 16 de setembro de
1920, AEP, pasta 55, IHGB e carta de Bernardes a Melo Franco de 16 de setembro
de 1920, ARS, código 20.09.16, CPDOC.
15
Em carta a Wenceslau Brás, Bernardes afirmava ter interferido diretamente na
melhoria das relações entre o Executivo Federal e o estado de São Paulo, as quais
estavam estremecidas, já que convinha manter a colaboração paulista. Conforme carta
de Bernardes a Wenceslau de 7 de outubro de 1920, AWB, VB06, pasta 18.11.11,
doc. 443, CPDOC.

265
isto estava o interesse, propriamente mineiro, de defesa do café. Com este
fim, Bernardes propôs uma solução conciliatória, a qual previa o adiamento
do projeto, para uma discussão posterior, na qual a emissão direcionada ao
café não fosse descartada. O evento serviu para sedimentar a aliança entre
Minas e São Paulo e para impor ao Catete uma submissão aos interesses
de ambos os estados. A solução para o conflito partiu de uma emenda de
Cincinato Braga ao projeto, limitando a emissão a 200.000 contos e dei-
xando o Executivo Federal livre sobre o emprego do recurso, desde que
fosse destinado a bens exportáveis.16
Um jornal de época fez uma leitura dos acontecimentos que expressava
muito bem as relações interestaduais no período. Consta no jornal que a
intenção de Epitácio Pessoa, ao forçar a destituição de Carlos de Campos,
era a de enfraquecer São Paulo, isolando-o da política nacional, com vistas
a fragilizar o eixo sul e fortalecer os estados setentrionais. Contava, para
isto, com o suposto apoio de Minas e a neutralidade do Rio Grande do Sul.
Mas, o apoio mineiro aos paulistas teria feito seus planos fracassarem. Para
o jornalista, a atitude de Bernardes escondia certa clarividência política, já
que isolar São Paulo seria um prejuízo para seus planos futuros. Quem saíra
mais fragilizado do processo era o próprio Presidente da República (Recorte
de jornal encontrado no AAB, s/d, caixa 49, série 272, doc. 34, APM).
Pode-se aventar a hipótese de que Bernardes agira assim com o fim de
deixar São Paulo submisso a sua vontade e ainda lhe devendo favores. No
processo sucessório que estava por vir, dificilmente São Paulo estaria forte o
suficiente para lançar uma candidatura própria, tendo que necessariamente
apoiar a de Minas.
No final do mesmo ano, Carlos de Campos renunciaria, pela segunda
vez, à liderança da Câmara, por discordar da criação do imposto sobre
a viação, decretado pelo governo federal, com o fim de resolver a crise
nas finanças públicas. Novamente, a renúncia foi prontamente aceita pelo
Presidente.
Setores importantes da bancada mineira discordaram do projeto, jul-
gando-o dispensável aos cofres públicos. O governo federal contava também
com a oposição da bancada riograndense à medida, o que dificultava sua

16
Todos os fatos acima encontram-se narrados em: transcrição de conversa telegráfica
ocorrida em 17 de setembro de 1920 entre Pena Júnior e Júlio Brandão, AAB, caixa
49, série 272, doc. 7, APM; carta de W. Luiz a Bernardes agradecendo a intervenção
mineira no caso, datada de 21 de setembro de 1920, AAB, caixa 49, série 272, doc.
12, APM; carta de Melo Franco a Bernardes de setembro de 1920, AAB, caixa 49,
série 272, doc. 33, APM; cópia da emenda de Cincinato Braga ao projeto 361, AAB,
caixa 49, série 272, doc. 33A, APM.

266
aprovação. Diante de tantas dificuldades, a proposta conciliatória partiria
novamente de Minas Gerais, que ponderou com a possibilidade de efetivar a
cobrança do imposto, dando-lhe, porém, um caráter provisório. A proposta
alternativa foi aprovada, apesar dos votos contrários dos estados do Rio de
Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. A atitude de Minas em relação a
seus principais parceiros políticos, neste evento, se justificava pela neces-
sidade de conservar o Catete ao seu lado, mantendo-se como seu principal
esteio político.17
No ano de 1921, produtores e exportadores de café queixavam-se
da baixa de preços externos do produto, muito embora o volume de café
produzido tivesse sofrido um decréscimo. Em parte, a queda de preços
era explicada pelo aprisionamento de café da Alemanha pelos franceses
durante a guerra, que, após relançado no mercado, havia preenchido a
demanda europeia.
A reivindicação por emissões com fins protecionistas voltou a ser ban-
deira desfraldada pelas elites econômicas cafeicultoras, o que se configuraria
na defesa da criação de um banco emissor. A capacidade de resposta do
governo federal estava, porém, comprometida, pelo aumento do déficit pú-
blico e pelo clima de instabilidade econômica gerado pelas greves operárias.
Embora estivesse sendo pressionado para resolver o problema, o governo
federal recusava-se a endossar o expediente emissionista.
A imprensa paulista pressionava por um empréstimo externo, acusando
o Presidente nordestino de aplicar recursos apenas em sua região de origem,
em detrimento de interesses mais amplos, a exemplo do café. As organiza-
ções representativas de interesses igualmente pressionaram o Presidente por
medidas interventivas. A Sociedade Rural Brasileira endereçou a Epitácio
Pessoa um pedido de intervenção sobre o mercado do café, solicitando
que o governo adquirisse cerca de dois milhões de sacas e as retirasse do
mercado para a garantia de preços. O pedido de intervenção sobre o mer-

17
Ver cartas trocadas entre Carlos de Campos a Epitácio Pessoa de 23 e 24 de
dezembro de 1920, AEP, pasta 55, IHGB; cartas trocadas entre Epitácio Pessoa e
Bernardes de 24 e 25 de dezembro de 1920, AAB, caixa 49, série 274, docs. 17 e
18, respectivamente, APM; resposta de Bernardes a Álvaro de Carvalho de 28 de
dezembro de 1920, AAB, caixa 49, série 274, doc. 29, APM; carta de Camilo de
Moura a Raul Soares de 28 de dezembro de 1920, ARS, código 20.12.28, CPDOC;
cartas trocadas entre Bernardes e W.Luiz de 2, 14, 17 e 21 de janeiro de 1921,
AAB, caixa 49, série 274, docs. 31, 34, 35 e 36, respectivamente, APM; avaliação
de conjuntura de Raul Soares de 7 de janeiro de 1921, ARS, código 21.01.07/2,
CPDOC; carta de Bernardes a Wenceslau Brás de 31 de dezembro de 1920, AWB,
VB 06, pasta 19.02.09, doc. 613, CPDOC.

267
cado foi reafirmado pela Associação Comercial e pelo Centro do Comércio
do Café do Rio de Janeiro, além da Sociedade Mineira de Agricultura. 18
Em resposta às reivindicações, o governo federal optou por intervir
no mercado, mas não de forma isolada. Instou os estados cafeeiros a
colaborarem com recursos financeiros próprios que, associados aos da
União, possibilitariam a retirada do café do mercado mediante warrentagem.
A Sociedade Rural Brasileira discordou desse encaminhamento, mantendo-
se atrelada ao expediente emissionista. Não obstante, o situacionismo dos
estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais e São Paulo
fez com que aderissem integralmente à proposta presidencial, no sentido
de colaborarem com a intervenção no mercado.
Desta forma, caberia aos estados produtores auxiliarem financeiramente
a operação, ao lado da obtenção de um empréstimo externo, sob o aval do
governo federal. A participação dos estados seria proporcional ao volume
de café produzido por cada um deles, ficando assim definido pelo governo:
São Paulo concorreria com quinze mil contos; Minas Gerais concorreria com
quatro mil contos; o Rio de Janeiro com dois mil contos e o Espírito Santo
e a Bahia com quinhentos contos, cada um deles. Os eventuais lucros ou
prejuízos decorrentes da operação seriam proporcionalmente distribuídos
entre os estados partícipes. Todas as compras e vendas seriam controladas
pelo governo federal.
Dando prosseguimento ao novo programa, as negociações de um em-
préstimo externo, relativo à terceira valorização do café, tiveram início
com a proposta de empréstimo da Cia. Inglesa Brazilian Warrants, a qual
disponibilizou um total de dois milhões de libras a juros de 9% ao ano, com
previsão de saques a cada 90 dias. O empréstimo dispensaria o governo
federal de realizar emissões. A companhia inglesa assumiu o compromisso
de intermediar a venda de trezentas mil sacas de café, com razoável margem
de lucro para o governo brasileiro (Carta de Custódio de Almeida a Homero
Batista de 22 de março de 1921, AEP, pasta 49, IHGB).
A atitude do governo recebeu aplausos das associações representativas
de interesses dos setores envolvidos com a produção e comércio do café.

18
Jornal O Dia de 12 de fevereiro e de 30 de março de 1921, “O Café do Brasil nos
Estados Unidos” e “A Baixa do Café”, respectivamente, Juiz de Fora, AH; Jornal O
Dia de 5 de março de 1921, “O Café e o Governo de São Paulo” de autoria de Eloy
Andrade, Juiz de Fora, AH; carta da Sociedade Rural Brasileira a Bernardes de 8
de março de 1921, AAB, caixa 32, série 253, doc. 406, APM; telegrama de 18 de
março de 1921 da Associação Comercial a Epitácio Pessoa, AEP, pasta 49, IHGB;
carta da Sociedade Mineira de Agricultura a Epitácio Pessoa de 18 de março de
1921, AEP, pasta 49, IHGB.

268
Entre março e agosto, os preços do café sofreram elevação, em razão do
programa econômico posto em andamento pelo governo federal. Em começo
de junho falava-se em aumento real de preços do produto.19
Dando continuidade à política protecionista, foi criado um Conselho
Permanente de Defesa do Café, formado por dois Ministros (Fazenda e
Agricultura), além de cinco membros indicados pelo Executivo Federal. O
Conselho visava a estabelecer políticas de compra, crédito e propaganda do
café, dispondo de um capital inicial de 300 mil contos de réis.
No ano seguinte, o deputado Sampaio Vidal elaborou um projeto que
previa a criação do Instituto Permanente de Defesa do Café. Por interferência
direta dos estados não cafeicultores, capitaneados pelo Rio Grande do Sul, o
projeto foi emendado, passando o órgão a defender, de forma generalizada,
a produção nacional.20
Na análise desses acontecimentos prévios à Reação Republicana, cabem
algumas observações conclusivas. Na sustentação política do governo de
Epitácio Pessoa encontrava-se Minas Gerais. Tendo sido um dos estados
responsáveis por sua eleição, garantia-lhe condições de governabilidade.
Por trás dessa estratégia, estava o interesse em obter o apoio do Catete à
indicação de Bernardes como seu sucessor. Com este fim, buscou igualmente
aliar-se a São Paulo e afastar o Rio Grande do Sul do poder, únicos estados
com possibilidades de competir, em igualdade de condições, com Minas
Gerais na disputa sucessória. Através dos diversos eventos analisados, foi
possível perceber o interesse mineiro em manter São Paulo e Epitácio Pessoa
como aliados políticos preferenciais.
Em relação à defesa dos interesses do café, a terceira política de valori-
zação, reivindicada pelos cafeicultores, foi endossada e viabilizada por um
conjunto maior de estados produtores, não sofrendo oposição que merecesse
ser destacada.
Sob o ponto de vista econômico e político, tudo parecia apontar para
uma sucessão sem traumas, em que o nome de Bernardes seria aceito con-
sensualmente entre os mais destacados estados da Federação. No entanto, as
incertezas ainda eram muitas e os nomes de Nilo Peçanha e de Washington
Luiz continuavam na mesa, ao lado do nome de Bernardes.

19
Ver jornal O Dia de 22 e 23 de março, 19 de julho e 1 de setembro de 1921, Juiz
de Fora, AH; jornal O Dia de 1 e 9 de junho de 1921, “O Café”, Juiz de Fora, AH;
jornal O Dia de 24 de agosto de 1921, “A Valorização do Café”, Juiz de Fora, AH.
20
Ver jornal O Dia de 1 de novembro de 1921, “A Defesa Permanente do Café”, Juiz de
Fora, AH e jornal O Dia de 1 de abril de 1922, “A Defesa do Café”, Juiz de Fora, AH.

269
7.3 A emergência de novos atores no contexto da reação republicana

As incertezas ampliaram-se quando o apoio baiano ao nome mineiro


mostrou-se duvidoso. Consta que, por este período, Seabra articulava uma
frente dos estados do norte com o fim de eleger o sucessor de Epitácio Pes-
soa. Caso não fosse viável, ambos os estados apoiariam um nome comum
para a Vice-Presidência. A partir da eleição de Pessoa, tornava-se possível
aos pequenos estados ter pretensões mais ambiciosas e tentar até articular
eixos alternativos de poder aos do centro-sul. Os mineiros estavam cientes
de que Epitácio Pessoa participava, junto à Bahia e Pernambuco, de tais
articulações (Carta de Roussoulières a Bernardes de 4 de abril de 1921,
AAB, caixa 32, série 253, doc. 414, APM).
Ao conhecer as intenções do Catete junto aos estados do norte, a reação
de Raul Soares se fez imediata: “Nem seria razoável que o norte pensasse
na formação do famoso bloco precisamente no quatriênio de um nortista,
feito Presidente pelo sul” (Esboços de uma entrevista não publicada de Raul
Soares, ao final de janeiro de 1921, ARS, código 21.01.00, CPDOC).21
Raul Soares deixava claro que a responsabilidade pela eleição de Epitácio
Pessoa coubera a Minas, tornando o Presidente, refém de seus interesses.
A estratégia política de Minas, para atrair o apoio do bloco do norte
e evitar a formação de um eixo alternativo oposicionista, foi realizar um
acordo que previa a incorporação, no programa de governo de Bernardes,
de um projeto de continuidade às obras que vinham sendo realizadas nos
estados do norte pelo governo federal (Carta de Pena Júnior a Raul Soares
em março de 1921, ARS, código 21.03.15, CPDOC).
Não obstante, as lutas de Epitácio, em defesa dos estados setentrionais
e de sua independência política, continuaram e refletiram-se também atra-
vés de pressões em substituir o Presidente da Câmara por um novo nome,
oriundo de outro estado. Segundo as palavras de Epitácio Pessoa,

Peço licença [para] ponderar que em minha opinião Minas não deve
pleitear este posto: primeiro porque não é justo que num regime demo-
crático um só estado o detenha durante anos seguidos e se crie por esse
modo privilégio cada dia mais difícil [de] abolir; segundo, porque tendo
já Minas [a] Presidência [do] Senado e sendo já notória [a] sua aspiração
[à] Presidência [da] República, [a] disputa [da] Presidência [da] Câmara
poderia gerar [no] seio [de] outras unidades [da] Federação prevenções

21
A expressão “estados do norte” incluía os estados das atuais regiões Norte e Nordeste
do Brasil.

270
[e] desgostos capazes [de] tentar diminuir [a] autoridade moral [deste]
grande estado. (Carta de Epitácio a Bernardes de 21 de abril de 1921,
AAB, caixa 36, série 262, doc. 67, APM)

Sem condições de reagir contrariamente, Minas conferiu seu apoio a


um nome paulista, o de Arnolfo Azevedo. Ao entregar a Presidência da
Câmara, Minas tinha suas bases políticas abaladas no Parlamento, exata-
mente quando mais precisava delas, tornando-se mais dependente dos apoios
políticos do Catete e dos paulistas. Mas a mudança parecia compensatória.
O estado entendia que a cessão do cargo aos paulistas seria feita em troca
de seu apoio definitivo à candidatura Bernardes.22
O próximo passo dos mineiros seria garantir a adesão oficial dos pau-
listas ao nome de Bernardes. Raul Soares foi enviado a São Paulo para
negociar o apoio. Em conversa com Washington Luiz, o Presidente paulista
reafirmou os elos políticos entre ambos os estados sem retirar, porém, o
seu nome nas cogitações. Relembrando a sucessão passada, afirmou que
o nome de Altino Arantes fracassara em função do veto mineiro e que o
mais justo seria a escolha de um paulista para a próxima gestão. Ao mesmo
tempo, condicionou o apoio de São Paulo a Bernardes ao atendimento das
reivindicações econômicas de seu estado.23
Diante das incertezas, o PRM optou por indicar, por si próprio, o nome
do Presidente mineiro à sucessão. A expectativa era de que o Rio Grande
do Sul e o Rio de Janeiro acompanhassem Minas no processo, a exemplo
das ocasiões passadas.
Mas a adesão dos gaúchos mostrava-se também comprometida. Ao ser
consultado, Borges de Medeiros condicionou sua adesão à aprovação prévia
do programa de governo de Bernardes. Além disto, os gaúchos falavam muito
em “solução republicana”, o que implicava na escolha de um candidato que
tivesse sido ligado, de alguma forma, umbilicalmente ao regime. Embora a
exigência fosse vaga, certo estava que Bernardes não se enquadrava neste

22
Ver carta de Raul Soares a Pena Júnior de 30 de março de 1921, ARS, código
21.03.30, CPDOC; carta de Melo Franco a Bernardes de 18 de abril de 1921, AAB,
caixa 36, série 262, doc. 62, APM; carta de Bernardes para Melo Franco de 21 de
abril de 1921, AAB, caixa 36, série 262, doc. 79, APM; carta de Bernardes a Bueno
Brandão de 16 de abril de 1921 (In: Casasanta, 1958:377); carta de Melo Franco a
Bernardes de 23 de abril de 1921, AAB, caixa 36, série 262, doc. 73, APM.
23
Entre elas estava a criação de um banco emissor, desde que não fosse o Banco
do Brasil, contra o qual os cafeicultores paulistas mantinham restrições. Conforme
carta de Sertório de Castro a Raul Soares de 2 de outubro de 1921, ARS, código
21.10.09/2, CPDOC.

271
requisito, por não ter participado do movimento republicano. Provavelmente,
ao impor tal condição, o nome de Nilo Peçanha já se encontrava no horizonte
político do Presidente gaúcho.
Consta que a oposição de Borges se dera em função da exclusão do Rio
Grande do Sul do processo de escolha do candidato. A elite riograndense,
não habituada ao desempenho de papéis coadjuvantes em processos suces-
sórios, reagiria muito negativamente em relação à imposição do nome de
Bernardes, sem que a decisão fosse precedida de consultas e articulações
prévias.24

Informado de tudo pelos nossos representantes no Rio, especialmente


pelo preclaro Senador Vespúcio de Abreu, depôs Borges de Medeiros,
percebi desde logo que não se cogitava de ouvir e acatar a opinião do Rio
Grande, que não se pretendia chamá-lo a uma colaboração verdadeira
e eficaz, mas apenas satisfazer o cumprimento de uma formalidade
para a consecução do nosso apoio eleitoral. (Depoimento de Vespúcio
de Abreu a Borges de Medeiros Magalhães,1973:69, apud)

As condições que vinham sendo impostas pelos estados, em troca de


apoio político a Bernardes, lhe interpunham uma série de dificuldades,
em função das contradições que apresentavam. As emissões bancárias,
reivindicadas pelos paulistas, não seriam facilmente aceitas pelos gaúchos.
Como a aliança preferencial de Minas tinha sido, nas sucessões anteriores,
com o Rio Grande do Sul, conciliar gaúchos e paulistas nunca fizera parte
das preocupações mineiras. Mas, desde o momento em que a aliança com
São Paulo passara a compor o universo político de Minas, reunir os dois
estados transformava-se em uma tarefa hercúlea. Além do mais, os mineiros
temiam que Borges rejeitasse as prometidas obras do norte, condição para
que o Catete e os demais estados setentrionais aderissem à candidatura.25
Algo havia mudado nos critérios de composição de alianças do regime.
Pela primeira vez, trocava-se explicitamente o apoio político pelo atendimento
de reivindicações regionalistas, de caráter imediatista. As lealdades pesso-
ais perdiam espaço para a negociação de apoios, em troca de programas
de governo. De certa forma, esta mudança refletia um amadurecimento
político do regime.

24
Corroboração a esta afirmação pode ser encontrada em Barbosa (1960:287).
25
Ver carta de Raul Soares a Wenceslau Brás de 7 de abril de 1921, AWB, VB 06,
pasta 18.11.11, doc. 49, CPDOC; carta de Raul Soares a Bernardes de 7 de abril de
1921, ARS, código 21.04.07, CPDOC.

272
Tendo como garantia a inclusão de um projeto de criação de um banco
emissor no programa político de Bernardes e a garantia de adesão do Catete
à candidatura, São Paulo finalmente endossou o nome mineiro, indicando
Carlos de Campos como o representante do situacionismo paulista para
encaminhamento do processo sucessório.26
Paralelamente, a agitação crescia no seio do Exército, refletindo a
insatisfação militar em relação ao governo federal. Generais pediram exo-
neração, em protesto contra a intervenção da missão militar francesa na
corporação. Aliavam-se a esta crítica os descontentamentos em relação ao
Ministério civil de Pandiá Calógeras. A tentativa de intervenção do Ministro
nas eleições para o Clube Militar serviu de combustível a novas insatisfa-
ções. A eleição de Hermes da Fonseca para a Presidência do referido clube
projetou o seu nome como uma alternativa à sucessão de Epitácio Pessoa
(Prestes, 1994:48-49).27
Um novo elemento complicador veio contribuir com as dificuldades
de sedimentação da candidatura mineira. Tratava-se da escolha do Vice-
Presidente, que iria compor a chapa com Bernardes. Com o fim de garantir
o apoio do Catete, a indicação do nome foi atribuída a Epitácio Pessoa.
O nome indicado pelo Presidente foi o do maranhense Urbano dos
Santos. Mas tanto a Bahia como Pernambuco pleiteavam o