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ENCONTROS – ANO 14 – Número 26 – 1º semestre de 2015

APONTAMENTOS LITERÁRIOS FEMINISTAS:


Questões de Identidade em Tudo De Bom Vai Acontecer e
Precisamos De Novos Nomes
Ruan Nunes1

Resumo: O feminismo como um movimento tem se adaptado/alterado com o


passar dos anos e recentemente a literatura contemporânea produzida por
escritoras africanas tem oferecido um importante lócus para avaliar como o
movimento favoreceu a abertura do campo. Investigo brevemente aqui dois
romances produzidos por escritoras africanas: Tudo de Bom Vai Acontecer da
nigeriana Sefi Atta e Precisamos de Novos Nomes da zimbabuana NoViolet
Bulawayo. Proponho discutir como o feminismo, em sua condição de diálogo com
o pós-colonialismo, se relaciona com a literatura mencionada acima para oferecer
uma reflexão sobre a posição da mulher como sujeito duplamente colonizado,
com especial atenção à questão da identidade.

Palavras-chave: Feminismo – Literaturas de língua inglesa – Identidade – Sefi


Atta – NoViolet Bulawayo.

1Mestre em Literaturas de Língua Inglesa (UERJ). Certificate in Advanced English (CAE) and
Certificate of Proficiency in English (CPE) by Cambridge University. Professor de Língua Inglesa –
Cultura Inglesa, Colégio e Curso pH e SME-RJ.

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As primeiras imagens que muitos associam ao movimento feminista podem

até ter sido verdadeiras, porém não mais representam o movimento per se.

Queima de sutiãs, ódio por homens, misandria, separatismo – entre outras

imagens – não são parte do movimento feminista contemporâneo, especialmente

quando se pensa nas mais variadas vertentes que o feminismo possui. O que se

busca difundir é um movimento que busca discutir como diversos discursos e

estruturas que ainda perpetuam o subjulgamento e a subordinação da mulher não

foram totalmente erradicados e que precisamos elaborar a importância da

igualdade – hoje incluindo outros movimentos de minoria como negros, LGBT etc.

Ao definir historicamente o feminismo, a professora da Universidade do Texas,

Susan Hekman sublinha o fato de que atualmente não existe um feminismo e que

aqueles que se identificam como feministas não necessariamente concordam em

muitos assuntos que a teoria e a prática englobam. Segundo Hekman, feministas

“precisam encontrar um terreno comum que não pressupõe um conceito

homogêneo de ‘mulher’” (HEKMAN, 2007, p. 100).

Outra perspectiva que complementa a visão de Susan Hekman é a

definição de Thomas Bonnici, professor da Universidade Estadual de Maringá,

que argumenta ser mais apropriado falar em feminismos e não apenas em um

movimento único. Bonnici argumenta que apesar de tentar definir o feminismo

como uma “crença e convicção na igualdade sexual acoplada ao compromisso de

erradicar qualquer dominação sexista e transformar a sociedade.” (BONNICI,

2007, p. 86), é uma tarefa árdua tentar adequar todos os feminismos. Dentre

todas as vertentes feministas existentes, o presente artigo procurará dialogar

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sobre a ligação entre o feminismo e o pós-colonialismo, visto que este estabelece

um paralelo entre a experiência da mulher e a experiência do sujeito colonizado.

Enquanto alguns estudos literários, por vezes, tendem a procurar uma

interpretação unilateral de um texto, na qual a sensibilidade de um crítico é

requisitada para avaliar a qualidade de um texto, leituras feministas buscam expor

como esses relatos tão “honestos” e “verdadeiros” estão imbuídos de ideologias

que dizem como homens e mulheres deveriam ser (COWARD, 1985, p. 227).

Leituras feministas permitem que modos representacionais dominantes sejam

questionados, permitindo portanto que o sujeito feminino seja o foco das

discussões. A partir dessas leituras, podemos “des-doxificar” construções que

parecem tão sólidas que passamos a aceitá-las e naturalizá-las. Pegando

emprestadas as palavras da crítica canadense Linda Hutcheon, “aceitar sem

questionamentos tais representações físicas é concordar e perdoar o sistema

social de poder que valida e autoriza algumas imagens de mulheres.”

(HUTCHEON, 2002, p. 21).

De acordo com a crítica americana Elaine Showalter, em seus primeiros

anos, a crítica feminista se concentrou em “expor a misoginia da prática literária:

as imagens estereotipadas de mulheres na literatura como anjos ou monstros, o

abuso literário ou o assédio textual das mulheres na literatura masculina. E a

exclusão das mulheres da história literária.” (HUTCHEON, 1985, p. 5). À essa

fase seguiu o descobrimento de escritoras cujas obras foram esquecidas e

deixadas de lado por um sistema de valores patriarcais. Esse redescobrimento e

mapeamento de obras produzidas por autoras permitiu trazer à tona a discussão

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sobre a presença da mulher na literatura, especialmente ao analisar obras

produzidas por escritoras de ex-colônias.

A literatura contemporânea produzida por mulheres indica novos rumos

para a crítica feminista. Cada vez mais estudiosos e leitores apontam como

questões de gênero, identidade e diáspora, entre outras, se tornam mais e mais

presentes. A presença destes temas enriquece o debate e permite que a crítica

feminista se faça presente não apenas nos campos teóricos e artísticos, porém

também presente em mudanças do sistema. Linda Hutcheon diz que a arte per

se não pode ocasionar mudanças a não ser que as práticas sociais mudem. A

crítica canadense também relaciona que, apesar da arte não promover a

mudança de sistemas, ela permite que a exposição seja talvez o primeiro passo e

que

artistas feministas e pós-modernos compartilham uma visão de arte


como um signo social inevitavelmente enredado em outros signos em
sistemas de sentidos e valores. Entretanto, eu argumentaria que o
feminismo quer ir além disso para trabalhar pela mudança desses
sistemas e não apenas des-doxificá-los. (HUTCHEON, 2002, p. 148)

A possibilidade de o feminismo ir além e ampliar o debate para além do

texto literário se torna um passo importante para a crítica literária. Como

professor, seria possível argumentar que relacionar aquilo que é lido com as

possíveis realidades torna o texto mais rico e expande os horizontes daquele

leitor.

Entretanto, uma preocupação que a crítica feminista tem insistido em

reconhecer como um foco necessário é como as obras são lidas em termos de

representação/representatividade. Apesar da multiplicidade de leituras dentro de

uma obra, ainda existe uma tendência em criar tipos de uma classe ou um grupo

a partir do texto, conforme Rosalind Coward expõe em seu famoso artigo “Are

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Women’s Novels Feminist Novels?” A professora e jornalista britânica aborda o

fato de que diversas perguntas são ignoradas ou negligenciadas por conta de

uma falta de exploração adequada do texto cujo objetivo seria desmantelar como

ele é construído a partir de práticas ideológicas. Leituras feministas pós-coloniais

oferecem uma revisão não só do sujeito colonizado, mas das estratégias como a

subversão da linguagem e o reconhecimento de uma voz, além de promover a

conscientização da mulher como um sujeito duplamente colonizado. Professora

da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Peonia Viana Guedes aponta tal

conscientização como um fato recente nos estudos pós-coloniais, pois até mesmo

figuras importantes como Fanon e Ghandi não chamaram atenção para a

opressão do sujeito feminino na sociedade patriarcal e que também se manifesta

de maneira ideológica. (GUEDES, 2002, p. 76). Quando escritoras pós-coloniais

buscam trazer à tona questões relevantes como sexualidade ou agência,

podemos acreditar que existe um diálogo com a possibilidade de dar voz à

experiência de sujeitos subalternos, quiçá uma forma parcial de representação.

A compreensão de representação por Deepika Bahri, pesquisadora e

professora da Emory University, dialoga com a “representabilidade” de Coward.

Partindo de um estudo que privilegia o argumento de Gayatri Spivak sobre a

(im)possibilidade do subalterno falar, Bahri explica que a representação é sempre

ficcional ou parcial, “pois ela constrói imaginativamente sua circunscrição (como

um retrato ou uma ‘ficção’) e porque ela pode inadvertidamente usurpar do

espaço daqueles que não são capazes de se representarem.” (BAHRI, 2012, p.

207) Essa compreensão da dificuldade de um sujeito se representar nos aponta

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quão “perigoso” é o território da crítica literária, principalmente pela latente

armadilha dos essencialismos que podem ser gerados a partir da leitura.

Em sua apresentação gravada para a série de conferências intitulada TED

talks, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie relata como precisamos

ter cuidado com aquilo que ela chama de “perigo de uma única história.” Adichie

narra como a sociedade nigeriana ainda se estrutura de maneira patriarcal e

aponta para como ainda se pensa na África como um único lugar onde as

imagens veiculadas midiaticamente são a única coisa a se esperar do continente.

A África como um lugar desértico de imagens de miséria, fome e destruição ainda

permanece como uma fotografia no imaginário popular e o risco dessa foto se

tornar cada vez mais única e imutável é elaborado por Adichie não só na sua

apresentação, mas também em suas obras como Hibisco Roxo e Americanah,

ambos já traduzidos para o português.

Pela própria dificuldade em lidar com termos como representatividade e

representação, a crítica feminista não pode ser compreendida como um mundo

unilateral – podemos até mesmo considerar diversos feminismos. O que é

importante apontar é que a presença do feminismo como um campo crítico e

teórico permite a existência de um Outro cuja voz havia sido apagada ou alterada

na criação de uma imagem essencializada. Através de campos como estudos

feministas – women’s studies no original – e atualmente estudos pós-coloniais,

percebemos um trabalho para diminuir a ausência das perspectivas de mulheres,

minorias raciais, e culturas e comunidades marginalizadas em relatos históricos,

afinal, nas palavras de Bahri,

Aqueles com o poder de representar e descrever outros claramente


controlam como esses outros serão vistos. O poder da representação
como uma ferramenta ideológica tem conseguido tornar esse terreno

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contestável. (...) Assim que críticos feministas começaram suas


intervenções, as perspectivas e as histórias da mulher começaram a
achar voz, mesmo que alguns críticos questionem se achamos um
modelo apropriado para estudar os escritos femininos. (BAHRI, 2012, p.
205)

A presença do Outro nos romances contemporâneos escritos por mulheres

é um inegável avanço que a crítica feminista proporcionou, ainda que esta não

seja exclusivamente a única causa de tal efeito. Talvez possamos também

relacionar como o mercado tem se aproveitado desse movimento para lucrar, pois

cada vez mais se abre espaço para obras cujas personagens ilustram outros modi

operandi. Não se busca aqui julgar se tal movimento editorial poderia ser positivo

ou negativo, porém é tarefa do crítico reconhecer que esse espaço hoje existe e

precisa ser discutido a fim de evitar processos de essencialização de outras

culturas.

Em 1985, Rosalind Coward apontou que um traço dominante da ficção

contemporânea era o romance “confessional” – romances cuja estrutura se baseia

em uma personagem descrevendo e narrando os eventos de sua vida (COWARD,

1985, p. 232). Nesse tipo de romance, diz Coward, a experiência de sair da

adolescência e entrar na vida adulta é quase sinônimo de descoberta da

sexualidade. Coward ressalta que, enquanto em ficção romântica e quase que um

fato nos livros “clássicos” o foco era em eventos que levavam ou atrapalhavam o

casamento, a experiência sexual assume uma centralidade nos romances

contemporâneos. Citando os escritos de Michel Foucault, em especial seus

estudos sobre a sexualidade, a escritora britânica coloca em xeque como “a

sexualidade era dita ser um elemento que revelaria a ‘verdadeira’ e ‘essencial’

natureza das pessoas.” (COWARD, 1985, p. 233).

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Atualmente, a sexualidade se tornou não só um tema escrutinado nas

obras produzidas por mulheres, mas também permitiu outros enfoques como

identidade e amadurecimento. Pode-se argumentar que, por mais que a

sexualidade tenha sido um tema de valor à época, hoje ela não se sustenta per

se: ela está atrelada a outros discursos e áreas. Coward cita autoras como a

canadense Alice Munro, autora de Lives of Girls and Women, e a britânica Doris

Lessing, autora de The Golden Notebook. Essas duas obras específicas,

publicadas em 1971 e 1962 respectivamente, ainda são muito lidas e estudadas

em círculos acadêmicos, além de oferecerem suporte para meu argumento de

que a sexualidade, apesar de ser um tema presente e relevante, não conseguiria

se sustentar sozinha como valor nas obras. Tanto Lives of Girls and Women

quanto The Golden Notebook podem ser lidas como um Bildungsroman onde a

identidade da personagem principal está em devir. A sexualidade é apenas um

tema dentro de vários outros como política, crescimento profissional e mudanças.

Meu argumento é que cada vez mais a literatura produzida por mulheres se

apropria do que se compreende por feminismo e permite uma discussão da

identidade feminina dentro dos mais variados contextos. Segundo Sandra

Almeida, professora de literaturas de língua inglesa da Universidade Federal de

Minas Gerais,

a literatura contemporânea produzida por mulheres tem destacado um


forte questionamento das narrativas convencionais, criando e
mesclando formas que servem aos propósitos de uma literatura que
teoriza novos espaços discursivos e enunciativos [podendo-se citar] a
ficção especulativa contemporânea, as novas formas de narrativas
(autobiográficas, as histórias de vida e os testemunhos e as revisões e
releituras de textos canônicos, sob uma mirada histórica e geopolítica
renovada.” (ALMEIDA, 2015, p. 43-44)

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Esses questionamentos permitem quebrar o silêncio mencionado

anteriormente e discutir a posição da mulher como sujeito em novos contextos

geopolíticos, como por exemplo em contextos diaspóricos. Cada vez mais,

conforme afirma Teresa de Lauretis, professora emérita da Universidade da

California, o que surge na escrita feminista é “um conceito de uma identidade

múltipla, deslocável e frequentemente contraditória”. (LAURETIS, 1986, p. 9).

Lauretis ressalta como a identidade é “composta de representações heterogêneas

e heterônomas de gênero, raça e classe, e também cruzadas por línguas e

culturas.” (1986, p. 9).

O que Lauretis elabora chamando de política de identidade dialoga

sistematicamente com a discussão sobre identidade elaborada por Stuart Hall. O

teórico jamaicano sugere que o feminismo como um movimento não só

questionou “a clássica distinção entre o ‘dentro’’ e ‘fora,’ ‘o ‘privado’ e ‘público’”

com o seu slogan de que o pessoal também era político, porém o feminismo como

movimento também permitiu a contestação de áreas sociais antes tão “intocáveis”

como a família, a sexualidade, o trabalho doméstico. Hall destaca também que o

feminismo foi responsável por enfatizar “a forma como somos formados e

produzidos como sujeitos generificados. Isto é, ele politizou a subjetividade, a

identidade e o processo de identificação como homens/mulheres, mães/pais,

filhos/filhas).” (HALL, 2006, p. 45)

A contribuição do feminismo como um movimento para a abertura de

questões relacionada a identidade é inegável. Sem o feminismo, talvez não fosse

possível hoje, por exemplo, discutir os apontamentos de Judith Butler ou mesmo

expandir a discussão sobre a experiência gendrada de sujeitos diaspóricos. Sem

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o feminismo, talvez não se pudesse (re)construir vozes perdidas na história e que

não tiveram a oportunidade de “falar” no sentido político. Sem o feminismo, não

existiriam personagens como Nazneen de Brick Lane da britânica Monica Ali, ou

mesmo a Agnes Magnusdottir, do romance Ritos de Adeus da australiana Hannah

Kent: Nazneen é forçada a se casar e se muda para Londres onde consegue se

libertar das amarras culturais e se tornar uma mulher independente e Agnes fora

a última pessoa a ser condenada a pena de morte na Islândia e cujos registros

históricos apontam a sua existência como criminosa, porém não como mulher

com um passado.

Elaborando uma ligação entre o movimento feminista contemporâneo, com

especial preço pela crítica pós-colonial, e a política de identidade, proponho uma

breve discussão de dois romances produzidos recentemente por autoras

africanas, a saber Precisamos de Novos Nomes da zimbabuana NoViolet

Bulawayo e Tudo de Bom Vai Acontecer da nigeriana Sefi Atta.

Nascida em 1981 no distrito de Tsholotsho, Zimbábue, NoViolet Bulawayo

foi selecionada como uma das finalistas para o Man Booker Prize de 2013 com

seu romance de estreia, Precisamos de Novos Nomes. O romance narra a

história de Darling, moradora de uma favela no Zimbábue, que migra para os

Estados Unidos para morar com sua tia em Detroit. Apesar da narrativa não ser

datada, é possível compreender que ela se passa nos tempos atuais por conta

das referências culturais utilizadas por Darling e seus amigos – Bin Laden,

Rihanna, Lady Gaga, por exemplo.

Através dos olhos de Darling, a experiência da perda da inocência é

narrada de maneira fragmentada. O primeiro capítulo, “Chegada em Budapeste”,

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cria a sensação de espaços sitiados nos quais apenas algumas pessoas têm

acesso. Darling e seus amigos vagam pelas ruas limpas e casas de Budapeste,

um lugar diferente da favela onde moram, Paraíso, um mar “de zinco que se

estende ao sol” (BULAWAYO, 2014. p. 37). Enquanto roubam goiabas das

árvores, as crianças brincam e discutem como suas escolas foram fechadas após

os professores migrarem para outros países para ganhar dinheiro. O início do

romance é marcado pela distinção entre o uso dos pronomes “eles” e “nós”, “aqui”

e “lá”, “Budapeste” e “Paraíso”. A criação dessas distinções permite criar uma

visão binária do próprio mundo do qual Darling faz parte.

O que inicialmente era uma brincadeira infantil e uma maneira de causar

inveja nos seus amigos se torna real: Darling é levada por sua tia para morar em

“Destroyedmichygen” – o nome como Darling se refere à Detroit, Michigan. Lá,

Darling precisa conviver, além da sua tia Fostalina, com seu primo TK e tio Kojo

que, durante a narrativa, descobrimos não ter os documentos legais para morar

nos EUA, mesmo depois de tantos anos. Kojo também é africano, porém de

Gana, logo não compreende a língua utilizada por Fostalina e Darling em alguns

momentos do romance. Vale ressaltar como, apesar de anos em outro país, Kojo

reproduz certas nuances imperialistas em seu discurso. Em certo momento, Kojo

aponta que em seu país, “as mulheres cozinham refeições quentes todos os dias

para os seus maridos e filhos. E não só isso, elas também lavam e passam e

mantêm a casa limpa.” (BULAWAYO, 2014, p. 140) – um sinal daquilo que ele

espera(va) das mulheres da casa.

A narrativa fragmentada adquire um tom mais sombrio quando Darling

narra a opressão e a repulsa que a cor branca da neve causa nela no capítulo

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“Destroyedmichygen” Ainda abalada pelos contrastes entre os EUA que

imaginava e o país que ela encontrou, Darling comenta que o frio, assim como a

neve, “parece querer matar, como se dissesse, com sua neve, que você devia

voltar para o lugar de onde veio.” (2014, p. 133). Além disso, Darling descreve

minuciosamente as últimas fotos tiradas no Paraíso, na qual ela observa seus

amigos saudosamente.

Esta sou eu na foto, usando a blusa cor-de-rosa; eu ainda estava


morando no meu país nessa época. A tia Fostalina tirou a foto quando
foi me buscar. Pra guardar de lembrança, um dia tudo que você terá
serão estas fotos, foi o que ela me disse. (BULAWAYO, 2014, p. 134)

Sendo jovem, Darling ainda não compreende que não conseguiria mais

voltar para o seu país para ver seus amigos e sua mãe. O que era um sonho, um

desejo, se torna uma força opressora. A América de pessoas famosas e sonhos

imaginada por Darling dá lugar ao espaço frio, nebuloso e triste. Crescer em um

país diferente força Darling a tentar “se moldar” para que possa apagar as suas

raízes.

Quando cheguei a Washington, queria morrer. As outras crianças


implicavam comigo por causa do meu nome, do meu sotaque, do meu
cabelo, do jeito que eu conversava ou dizia coisas, do jeito que eu me
vestia, do jeito que eu ria. Quando implicam com você por causa de
alguma coisa, primeiro você tenta consertar essa coisa para que as
implicâncias parem, mas aquelas crianças malucas implicavam comigo
por tudo, até mesmo as coisas que eu não tinha como mudar, e isso
continuou acontecendo e continuou acontecendo até que no fim
simplesmente tudo parecia errado dentro da minha pele, do meu corpo,
das minhas roupas, da minha língua, da minha cabeça. (BULAWAYO,
2014, p. 149)

Darling procura de todas as formas apagar aquilo que a torna diferente dos

outros; procura se tornar tão homogênea quanto as outras crianças, porém ela

não consegue. Essa busca pelo apagamento reforça como Darling não consegue

compreender as estruturas sociais e as questiona de sua maneira. A experiência

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de ser mulher e migrar para outro país custa caro a Darling, por mais que ela

possua uma aguda percepção de como os papéis são gendrados não só na sua

terra natal, mas também nos Estados Unidos.

O outro romance aqui discutido é Tudo de Bom Vai Acontecer, de autoria

da nigeriana Sefi Atta. Publicado em 2005, o livro recebeu o Prêmio Woley

Soyinka de Literatura e foi rapidamente traduzido para outras línguas. Tudo de

Bom Vai Acontecer retrata a história de Enitan paralela à de Sheri, sua melhor

amiga. A história de Enitan é narrada de maneira fragmentada, através de alguns

importantes em sua vida. A sua relação com os homens nigerianos é descrita

como complicada e difícil, uma vez que Enitan se recusa a cumprir os papéis

sociais esperados, o de uma mulher fiel que terá filhos e cuidará da casa para o

marido. A relação de Enitan com seu pai, um homem aparentemente preocupado

com a liberação feminina, rende boa parte da trama após ele ser preso ao

desafiar o governo, atitude que é aprovada pelo seu escritório de advocacia.

Porém, quando Enitan decide se envolver com um grupo contra o governo, ela é

vista como transgressora e de maneira negativa, pois é a partir desta experiência

que Enitan descobre como a mulher nigeriana ainda é vista de maneira subalterna

e inferior.

A difícil relação de Enitan com sua mãe, que é exacerbadamente religiosa,

é conflituosa até o fim, porém é nela que a personagem principal encontra apoio e

compreensão quando o seu pai, até então idealizado, é preso e desaparece. Até

então, Enitan acreditava que a sua mãe escolhera “depender” de seu pai:

A prova disso eram seus diplomas guardados e empoeirados. Outras


mães saíam todo dia para trabalhar, mas ela não. Agora eu me sentia
como ela, guiando o carro que meu pai comprara para mim. Ele preferiu
me dar um carro a me pagar o suficiente para eu comprar um com meu
dinheiro. Eu merecia ficar com quele carro. Minha mãe merecia ficar

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com uma ou até duas casas. O poder sempre esteve nas mãos do meu
pai. (ATTA, 2013, p. 168)

Perceber que sua mãe não escolheu ficar em casa e cuidar do lar é uma

reflexão importante para Enitan, pois ela compreende que ser tão confrontacional

é uma característica que ela aprendeu desde pequena com os eternos embates

com sua mãe. Seu pai a ensinou a discordar daquilo que fosse necessário, mas

também demonstrou que era o último a tomar as decisões importantes. Em

contrapartida, sua mãe conseguiu alimentar seu espírito questionador através da

exposição das dificuldades em ser mulher e tomar decisões dentro da cultura

nigeriana. É interessante notar como, apesar de se considerar um sujeito à frente

do seu tempo, o pai de Enitan não a remunera adequadamente em seu escritório

de advocacia para que ela possa ter uma vida independente dele e a julga em

momentos com base na sua “conduta,” uma vez que a “mulher deve ser mais (...)

comportada.” (ATTA, 2013, p. 143)

O despertar de Enitan se dá em diferentes níveis: familiar quando se choca

com o pai perpetuador de uma estrutura machista e a mãe que teve sua liberdade

cerceada pela mesma estrutura; educacional quando migra para Londres para

estudar e se choca com suas colegas que achavam que ela morava em uma

cabana na África e que via animais diariamente; sexual quando percebe que,

apesar de ouvir que a sua virgindade era sua, é objetificada por homens tanto na

Inglaterra quanto em sua terra natal, Nigéria; político quando percebe que as

mulheres na Nigéria possuem menos direitos que os homens e se envolve com

grupos de oposição após o desaparecimento de seu pai. Todos esses

despertares são possíveis, pois Enitan se compreende como uma mulher que

precisa se rebelar contra um sistema onde ela não tem voz. A partir de leituras do

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mundo, Enitan consegue quebrar com os paradigmas, mesmo que isso custe, por

exemplo, seu divórcio ou uma fragilização da sua relação com a família.

Um dos resultados da dominação imperialista é o olhar orientalista sobre o

espaço do outro. A África é, infelizmente, homogeneizada de tal maneira que

todas as diferentes práticas culturais são colocadas dentro de um mesmo grupo,

apagando identidades, línguas e práticas. O processo de homogeneização é

criticado pelas duas autoras que buscam desmistificar os estereótipos associados

ao continente africano. Em Tudo de Bom Vai Acontecer, Enitan descreve que,

durante o tempo que morou em Londres, se enfureceu ao perceber que os livros

descreviam uma África cujos certos aspectos eram tomados como representativos

de todo o continente.

(...) livros que descreviam uma África colonial tão exótica que eu
gostaria de conhecer, vestida com roupa de safári, servidas por
um kikuyu silencioso e digno, ou algum outro nativo igualmente
silencioso e digno. Ou uma África sombria, com cobras,
trepadeiras e dialetos uga-uga. (ATTA, 2013, p. 284)

Enitan realça como o foco exacerbado na pobreza, nas guerras, na fome,

no mato ou mesmo na vida selvagem permeavam o imaginário de seus colegas

europeus, especialmente quando ela se encontra em um mundo dividido entre

Oriente e Ocidente, no qual não havia um lugar para a África.

Em Precisamos de Novos Nomes, Darling também fica constrangida

quando é questionada por uma estranha sobre como a África deve ser bonita:

A África é bonita, ela diz, continuando com sua palavra favorita.


Mas não é terrível o que está acontecendo no Congo? Um horror.
Agora ela me olha com essa cara ferida. Não sei o que fazer ou
dizer, então finjo uma tosse comprida só para preencher o
silêncio. Meu cérebro está correndo por toda parte e pulando
cercas agora, tentando lembrar o que exatamente está
acontecendo no Congo, porque acho que estou confundindo com
outro lugar, mas o que posso ver nos olhos da mulher é que é
sério e importante e eu deveria saber, então por fim eu digo, Sim,

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é terrível o que está acontecendo no Congo. (BULAWAYO, 2014,


p. 158-159)

A sensação que Darling tem é de ser incapaz de dialogar com a tal mulher

por sua falta de conhecimento, afinal, a mulher presume que ser africano é

reconhecer todos os eventos do continente como inerentemente seus. Darling

finge saber o que está acontecendo para depois perceber que ela mesma foi um

objeto de fotos da CNN e BBC quando morava no Paraíso. A crítica sobre como a

mídia internacional objetifica o sujeito subalterno está explícita, especialmente

quando em Precisamos de Novos Nomes, Darling nem mesmo reflete sobre o ato

da fotógrafa que nem mesmo pergunta o seu nome, realçando a impessoalidade

na abordagem.

Essas duas obras proporcionam, mesmo que de maneira breve e sucinta

aqui, como a literatura contemporânea produzida por mulheres permite a

discussão de questões importantes para o feminismo. As personagens principais

destes romances passam por experiências que as obrigam a repensar suas

condições como mulher em contextos não só diaspóricos, porém também como

cidadãs em um país. A apropriação do Bildungsroman pelas duas autoras permite

que a identidade de Enitan e Darling seja o foco principal das obras, em especial

quando se analisa a passagem do tempo como pano de fundo para a história

pessoal. Tanto Tudo de Bom Vai Acontecer quanto Precisamos de Novos Nomes

ilustram a necessidade de discutir a ligação não só entre o pessoal e político, mas

também entre os avanços que o movimento feminista permitiu e os novos

desafios contemporâneos que obras feministas precisam lidar a fim de novas

mudanças – assim como Linda Hutcheon sugere: a arte pode des-doxificar os

sistemas, porém precisamos ir além para mudá-los.

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REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Sandra R. Goulart. Cartografias Contemporâneas – espaço, corpo,


escrita. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2015.

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FEMINIST LITERARY NOTES:


Questions of Identity in Everything Good Will Come and We Need
New Names.

Abstract: Feminism as a movement has adapted/changed as time goes by and


contemporary literature produced by female African writers has recently offered a
locus to assess how the movement has favoured the field. Two novels are briefly

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DO COLÉGIO PEDRO II – RIO DE JANEIRO


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ENCONTROS – ANO 14 – Número 26 – 1º semestre de 2015

investigated in this article, namely Everything Good Will Come by Nigerian Sefi
Atta and We Need New Names by Zimbabwan NoViolet Bulwayo. My aim is to
discuss how feminism, in its close-knit relationship with postcolonialism, dialogues
with the aforementioned literature to offer some reflection upon the position of the
woman as a doubly colonised subject, with special attention to questions of
identity.

Keywords: Feminism, English-language literatures, Identity, Sefi Atta, NoViolet


Bulawayo.

Recebido em: 27/05/2016


Aprovado em: 30/06/2016

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DO COLÉGIO PEDRO II – RIO DE JANEIRO


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