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(LAMPIÃO põe o assunto na berlinda. Leia as opiniões de11^ '
FRANCO MONTORO.-
BRUNA L ELICE MUNERATO,
FERNANDA MONTENEGRO'-. HELIO FERNANDES,,
ROBERTO MOURA, HELENA SANGIRARDI,
JOSÉ CARLOS AVELAR, MACKSEN LUIZ,
SÔNIA COUTINHO, e donas de casa, bancários,
operários da-constn.ição civil, etc., etc., etc. .

Abaixo o preconceito!" Copacabana nua


.
(É a mãe de um homossexual (Atenção, gueis do Brasil:.,
quem escreve) o Rio' não é mais aquele)

Neste número
*JOSÉ LOUZE1R0 • JOÃO ANTÔNIO
À1

• AGUINALDO SILVA ANTÔNIO CHRYSOSTOMO
• PETER FRY • JOÀO SILVERIO TREVISAN
o visual de Mansa Caveira.

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AWAItN; sir.iI
ESOU!NA 1

Tem piranha na Amazônia


Se depender dos vorazes donos do poder, é as- manente reciclagem. Além do mais, as árvores
sim que este pais vai ficar: um deserto de areia. são fundamentais para a abundância da água na
Conselho Editorial - Adão; Noticia-se que o governo brasileiro quer vender a região: elas ativam um cicio de transpiração e
madeira da Amazônia para pagar a divida exter- evaporação coe : devolve À atmosfera a água
Acosta, Aguinaldo Silva, Antônio na da nação, que já chega a 40 bilhões de dólares. recebida das chuvas e provocam uma irrigação
Chrysóstomo, Clóvis Marques, Apesar das afirmações contraditórias das au- natural; ou seja, as árvores constituem um ver-
Darcy Penteado, Francisco Bitten- toridades, comenta-se que o governo assinará dadeiro reservatório de água e garantem a exis-
court, Gasparino Damata, Jean- "contratos de risco" com multinacjonajs, donas tência dos rios. Os ecólogos, agrônomos e conser-
de Know-bow e capital. Diz-se que a madeira dos vacionistas em geral apontam várias consequên-
Claude Bernardet, João Silvêrio 320 milhões de hectares da floresta amazônica cias catastróficas, com a devastação que o gover-
Trevisan e Peter Fry. pode render 90 bilhões de dólares. A maior flores- no hrsileiro está patrocinando. Como a Ama-
Coordenador de edição: ta do planeta pagando a divida externa mais es- zônia é o grande pulmão do planeta - pela quan-
Aguinaldo Silva. candalosa do planeta. Ora, apénas 40% dessa tidade de oxigénio que produz e de gás carbónico
Colaboradores: Agildo Gui- divida pertence ao Estado, como resultado de que absorve - sua destruição provocará o
errôneas diretrizes econômicas impostas à revelia aumento de 4 graus centígrados na temperatura
marães, Fredirico Jorge Dantas, do povo. Os restantes 60% são de responsabi- da Terra, graças ao aumento de gás carbônico na
Alceste Pinheiro, Paulo Sérgio lidade das empresas privadas, especialmente atmostera; as calotas polares (onde a temperatura
Pestana, Zsu Zsu Vieira, Lúcia (pasmem)) as multinacionais. Ou seja, um pa- crescerá em mais 8 graus centígrados) se dege-
Rito, José Fernando Bastas, trimônio comum do povo brasileiro e da hu- lario e os oceanos subirão cinco metros, inun
Regina Rito, Henrique Neiva, Leila manidade é hipotecado para saldar uma ' divida dando cidades ribeirinhas. Além disso, o sul do
que,' não é do povo, não foi contraída em seu Brasil (celeiro do pais) passaria a ter quatro meses
Miccolis (Rio); José Pires Barroso beneficio e, pelo contrário, tornou-o ainda mais de seca por ano, ao invés dos três atuais.
Filho, Carlos Alberto Miranda subjugado e empobrecido. Diante de tão grave situação, já começam a
(Niterói), Mariza, Edward MacRae Sabe-se que, antes mesmo da exploração in- ocorrer manifestações de protesto em todo pais.
(Campinas); Glauco Mattoso, Cel- dustrial da Amazônia, dez por cento de sua Houve uma passeata em Manaus. reprimida pela
floresta já está devastada, graças à implantação policia local, sintam; de que a coisa é mesmo
so Cúri, Edélcio Mosto, Paulo dos projetos agropecuárias do governo, que quezas do subsolo.. De fato, o governo acaba de séria. Em São Paulo, estão sendo organizados
Augusto (São Paulo); Amylton Al- provoca um desmatamento anual de 50 mil anunciar 'contratos de risco" (semelhantes comités responsáveis por várias atividades já em
meida (Vitória); Zé Albuquerque quilômetros quadrados na floresta tropical. As àqueles realizados no setor petrolífero) também andamento. Pretende-se conseguir uma grande
(Recife), Gilmar de Carvalho (For- imagens emitidas pelo satélite artificial Lands,at para exploração de minérios na Amazônia. mobilização popular no pais e repercussão no ex-
acusam 4 milhões de hectares desmaiados, numa Essa aÜ-açAo pelo capital estrangeiro é uma terior, através de manifestos, passeatas, debates
taleza); Alexandre Ribondi área pesquisada de 55 milhões de hectares. Além constante dos últimos governos (veja-se o caso públicos e um Dia Nacional de Luta contra a
(Brasília):; Sandra Maria C. de AI- disso, a Amazônia vem sendo vitima de coisas es- recente da compra da Light). Na SRPC de 1975, devastação da Amazônia. Paralelamente, já se
buquerque (Campina Grande); pantosas como o projeto Jari. essa imensa fazenda uma funcionária do governo já infornia . a que os iniciaram também os primeiros preparativos para
Po)fbjo Alvos (João Pessoa); Fran- do tamanho da Bélgica, pertencente ao milionário planos de colonização da Amazônia constitutam mover uma ação popular que ohste os atos de
americano Daniel Ludwig, onde serão derrubados os primeiros passos para exploração industrial em governo, Nela, serão apontados, perante a Jus-
klin Jorge (Natal); Paulo Hecker quatro hectares de mata por dia, para gerar ener- larga escala. O mais espantoso, segundo ela, é tiça, os funcionários do governo diretamente res-
Filho (Porto Alegre); Max Stolz gia, fornecer matéria-prima às fábricas de ce- que tais planos foram impostos quase sem o ponsáveis pela devastação, a começar pelo Sr.
(Curitiba). lulose e abrir espaço para plantações de arroz. O conhecimento dos técnicos brasileiros. Até mes- Rangel Reis, Ministro do lnterior,ACom5s$ode
lar começará a operar em escala industrial ainda mo a Transamazônica foi projetada por técnicos Defesa do Patrimônio da Comunidade, que está
Correspondentes: Fran Tor- em 1979. Em tudo, trata-se de um primeiro teste. americanos, naturalmente ligados às multina- coordenando as atividades é também a respon-
A floresta está sendo oferecida em troca do ca- cionais. Para facilitar as coisas, o governo criou sável pela obstrução do novo aeroporto inter-
nabene (San Francisco) A)len pital que falta. inclusive famoso projeto de "Emancipação" dos nacional de São Paulo em Caucaia. que viria cles-.
Young (Nova lorque); Armarid de Existe uma cortina de fumaça em torno da ex- índios, que o ministro Rangel Reis vem tentando matar aquela região, região. Os interessados em
Fulviá (Barcelona); Ricardo o Her> ploração da Amazônia: um grande mistério e impor A nação; a "emancipação" significa, na assinar a ação popular devem ser brasileiros, for-
tor (Madrid). noticias contraditórias. O que existe exatamente realidade, uma maneira legal de tirar as terras necer uma xerox autenticada do seu título de
na Amazônia? O que de fato pretende o governo dos lndios, para entregá-las às multinacionais. eleitor e entregar uma procuração em nome do
Fotos: Billy Aciolly, Maurício brasileiro? Sabe-se que as multinacionais Enquanto isso, vamos virando deserto. As advogados que estão nominalmente encaminhado
S. Domingues, Dimitri Ribeiro americanas conhecem muito mais sobre as poten- florestas do Paraná já não existem mais, graças à a ação. Pode-se comparecer ou escrever para a
(Rio); Dimas Schitini (São Paulo) e cialidades econômicas da Amazônia do que as exploração indiscriminada; no fim do século Comissão de Defesa do Patrimônio da Comu-
arquivo companhias brasileiras, tanto privadas como passado, esse estado tinha 83,4% de seu território nidade, à Rua 24 de maio, 104, 1° andar São
governamentais. Sem dúvida a Amazônia tem coberto por matas nativas; hoje, apenas 2,3%
Arte: Jô Fernandes, Móm de muito mais do que simples madeira. Mesmo por- dele tem florestas. As de São Paulo faz tempo
Paulo, CEP 01042. e solicitar uma cópia em
branco da procuração.
Sé, Patrício Bisso, Hildebrando de que os clientes internacionais procuram com os foram vendidas. As do Mato Grosso estão em fase
Castro. fornecedores aqueles tipos de madeiras já con- de extinção. Agora chegou a vez da Amazônia, Para muita gente, os conservacionistas não
Arte Final: Edmulson Vieira da sagradas como nobres. Na medida que grande com um sério agravante: quase todo o solo passam de pobres românticos e saudosistas, pois
amazônico é fragilíssimo e muito pobre eni a exploração da Amazônia seria inevitável e opor-
Costa. parte de suas espécies é inteiramente desco-
nutrientes, ao contrário do que pensa. Ele não só tuna para a nação.
LAMPIÃO da esquina é uma nhecida, parece certo que a madeira da Ama- A Amazônia nos perten-
zônia não terá condições ótimas de comerciali- se esgotará rapidamente para o cultivo agrícola, ce a todos. Salvá-la é tanto urna prova de respon-
publicação da Esquina - Editora zação. Então surgem hipóteses intrigantes. Por como não poderá manter stra fertilidade sem a sabilidade histórica do nosso povo quanto um
de Livros, Jornais e Revistas Ltda. exemplo, que o subsolo amazônico conteria floresta. Na verdade, sua camada aproveitável claro gesto de reprovaçào aos vorazes dono do
CGC 29529856/0001-30; Inscrição minérios muito raros, e neles residiria o interesse (para plantio) é de apenas 30cm de profundidade, podei
alimentados pelos nutrientes que a floresta capta
estadual: 81.547.113. real das multinacionais, devastar a mata seria
da atmosfera e bombeia para o solo, em per-
portanto um primeiro passo para chegar às ri- (João Silvério Trevisan)

Endereço para correspondên-


cia: Caixa Posta141031, CEP 20241
(Santa Teresa) Rio de Janeiro,
Incêndio na madrugada
RJ. Na noite de 30 para 31 de dezembro aconteceu que se abriu repentinamente despejou sobre eles mais próxima. Alguém, iniciado nos segredos da
Composto e impresso na mais um incêndio na parte mais antiga do centro grossos rolos de fumaça, e os bombeiros, sem umbanda, começou a pedir proteção aos santos,
Gráfica e Editora Jornal do Comér- da cidade, no Rio. Era mais ou menos uma hora qualquer proteção especial, tiveram de desistir do iniciando uma reza forte. Apesar do tom de farsa,
da madrugada, quando sirenes agitadíssimas combate às chamas daquele lado. a aflição da maioria era a sério. Era como se a
cio S.A. - Rua do Livramento, começaram a tocar perto do Campo de Santana, Por volta de duas horas, com as chamas cada destruição do 55 significasse, para os gueis ali
189/203. onde existe um quartel de bombeiros, do qual vez maiores, Pepe e Juan, alertados pelos bom- reunidos, mais uma restrição À sua liberdade. As-
saíram rarros em disparada. Para as pessoas que, beiros, não tiveram outra salda senão desalojar sim, em pouco tempo a maioria acompanhava em
àquela hora, ainda faziam o footing pelas pe-
Distribuço: Rio - Distri- rigosas madrugadas cariocas, o trabalho dos
seus hóspedes. O desfile insólito começou: das es- siléncio os esforços dos que apelavam para o
misticismo, tentando impedir a propagação das
cadarias do 55, meio aurelados pela fumaça, sur-
buidora de Jornais e Revistas bombeiros seria rapidamente transformado em giam, dois a dois, rapazes de ar sonolento, alguns chamas.
Presidente (Rua da Constituição, um excelente motivo de curiosidade e, em poucos ainda atacando os últimos botões das roupas E isso aconteceu, realmente, para delírio
65/67); São Paulo - Paulino Car- minutos, uma pequena multidão de figuras rapidamente vestidas. A platéia, a essa altura, geral. De repente, o vento encrespou e, sem nada
que o justificasse, passou a soprar em outra
canhetti; Recife - Livraria Reler; noturnas estava postada diante de uma loja de vibrava com o espetáculo. Alguns dos que saiam
direção. Alguém, mais afoito, entoou um cântico
eletrodomésticos que pegava fogo, bem próxima do hotel tratavam de cobrir o rosto e desaparecer
Salvador - Lit&arte; Florianópolis de um endereço que, para a maioria dos que a na esquina mais próxima. Outros, no entanto. a lansã, que logo foi repetido por outros. Os
e Joinville - Amo, Represen- formavam, era bastante conhecido: o Meio-Dia, enfrentavam o "público" com a maior desenvol- bombeiros, animados pela multidão, redobraram
tações e Distribuiç& de Livros e no número 55 da Rua Gomes Freire, onde fun- tura. E houve até um instante de delírio, quando os esforços, certamente a se perguntar que gente
estranha era aquela, para a qual o hotel era tio
Periódicos Ltda; Belo Horizonte - ciona um movimentado hotel "para solteiros". dois rapazes surgiram no último degrau da es-
importante,
O fogo, na verdade, começara numa loja de cadaria de mãos dadas, e assim saíram a ca-
Distribuidora Riccio de Jornais e tubulações plásticas, atingindo imediatamente o minhar pela calçada, como se não houvesse nin-
Quando o dia começou a clarear e as chamas
Revistas Ltda.; Porto Alegre - Palácio do Som e, levado pelo vento que soprava guém a observá-los.
se extinguiram, o n? 55 da Rua Gomas Freira res-
Coojornal; Teresina - Livraria naquela direção, ameaçando em pouco tempo o Quando as chamas, finalmente, começaram a
tava' impávido e intocado, junto aos dois outros
pré di os destruidos. A essa altura, os que li ti-
Corisco; Curitiba - Ghignone; 55. Pepe e Juan, os sempre insones responsáveis devorar o Palácio do Som e a se debruçar sobre o
nham ficado até o fim resolveram partir em bus-
Manaus - Startley Whide. pelo hotel, a essa altura já se haviam juntado À hotel, Juan e Pepe entraram em pinico. O 55, a
ca do primeiro bar que abrisse nas proximidades,
multidão, com a qual acompanhavam o trabalho essa altura vazio, estava cada vez mais próximo
Assinatura anual (doze nú- dos bombeiros. Estes, apesar de todo o esforço, da destruição. E foi então que algumas pessoas
para uma confraternização geral. Enquanto
meros): Cr$ 210,00. Assinatura1 não conseguiam conter as chamas, que cresciam que haviam se colocado cm meio à multidão,
outros preferiam retornar ao hotel liberado pelos
bombeiros e retomar o sono que fora, horas antes,
para o exterior: US$ 15. cada vez mais. Para começar, eles tiveram que velhas freqoentadoras do local, resolveram tomar
interrompido pelo, gritos de.'logol"
subir até uma sacada da pnmeut loja, de onde uma providência. Surgiram, não se sabe de onde,
seria mais fácil combater o fogo. Mas uma janela velas que foram imediatamente acesas na esquina A. Acoota
LAMPIÃO da Esquina

Centro de Documentação
APPAD
di 11 .ir.iti.i ti a LIl(rIdidt
Prof. D Luiz Mott GRUPODIGNIDADE
ESOLJINA 1

LORD CORNBURY? UMA AUDACIOSA


Se ainda hoje existe gente na triturante São
Paulo ou na louquíssima Copacabana (capital do dos quais se sentia desterrado e nostálgico dos
Estado do Rio de Janeiro) que se escandaliza com requintes da Corte. Pessoas que documentaram
os travestis que circulam pelas ruas, imagine-se o sua permanência rio cargo falam dele como um
escândalo que eles deveriam provocar nas provin- perdulário corrupto, jogador, bêbedo, louco,
cianas aldeias do Brasil-colônia. Como não exis iniltil, incompetente, trapaceiro e gastador frívolo
liam? Pasmem, porque eles existiam, sim. Uma (ufa!). Comose vê, os termos py e outros con-
crônica paulistana do início do século XVIII fala siderados pejorativos ainda não tinham sido in-
de um grupo de homens disfarçados de monjas e ventados ou eram tão terríveis que as pessoas os
mulheres com trajes de frades (mau gosto ou evitavam. Porém Cornbury,ali. firme e glorioso no
pobreza, mesmo?), que, acossados e mal vistos seu posto.
Como um bando de ciganos ou leprosos, andavam Apesar de gastar muito consigo mesmo, o
de sua em sila perseguidos pelas milícias. Como governador era tão mesquinho com a esposa que
se sê, as 'precursoras", coitadas, não recebiam (dizem) a coitada via-se obrigada a roubam para
na época o tratamento gentil e delicado que as subsistir. As consider'açôes sobre as condiçes
suas representantes de classe recebem hoje da matrimoniais deles ficam por conta da consciên-
policia... cia de cada leitor, mas, sobre os tais roubos, talvez
Isto, porém, não era válido para todos os a 'ria esteja mal contada ou deturpada. O que
travestis: existiam os privilegiados, Na América PC .ógica se presume é que a outra fosse elep.
do Norte e na mesma época, por exemplo, houve tôtnana mesmo, jogando a culpa sobre o marido,
um que ''pintava e bordava em todas as cores e e que a prima Ana, para se ver livre cia dupla
matizes - , sob proteção da Rainha Ana, da In- iravesclepIom.nM, pelo menos para repousar por
glaterra. Sendo os Estados Unidos uma possessão uns tempos, a tenha despachado para a América.
inglesa, t.ord Cornburv, que era primo da rainha, Mas, se de qualquer forma Cornhurv era mesmo
lora nomeado (.apitão . GeneraL (cruzes!) e gover- "mão fechada" com a mulher, cabe-nos imaginar
nador . geral de New York e New Jerse y : e apro. um dos seus ''pegas'' cotidianos:
veiliu (imaginem a cena) a solene abertura da - Como, mulher? Dinheiro para comprar
Assembléia em V7 02, e posteriormente várias As duas faces de Lord Cornbury: de homem (d esquerda) e de mulher roupas? Em tempos difíceis como este, acha que
reuniões sociais, politicas, paradas militares etc.. mas'a A MpJvda, na Fox, o governador deve ser Posso gastar com suas frivolidades? Ora, use um
para exibir verdadeiros desfiles (individuais) de hury esbaldar-se à vontade, Os botes da época. dos meus vestidos velh,. O Cor-de-rosa com
acrescentado para os bastidores: "Audácia dos mesmo os muito machôes (porque eles sempre
moda, cujos modelos Concorriam nas categorias debruados brancos dá ainda para sair. Faça uma
boles!'' existem e resistem, mesmo nos períodos de
de originalidade e luzo com as pie a prima real reformiiiha e pronto!
Não se explica se a argumentação pegou ou maiores desmunhecaçôes), comumente se ma-
usava cm Londres. Seu período de governo foi apontado pelos
não, mas de qualquer modo, mesmo com muitos qiiilavam tanto ou mais que as mulheres. As
O noticiário da época não dá muitos detalhes, contemporâneos como o mais prejudicial à coroa
desmaios e muitos sais, a excentricidade de Lord perucas eram as mais altas, longas e cacheadas
mas pode-se imaginar as passarelas incríveis que inglesa de toda a dominação. Quando estava para
Comnhurv tese que ser suportada por seis anos, que a elegância já determinou até hoje, e no en-
ele mandava construir para esses desfiles de regressar á Inglaterra, detiveram-no no porto e
até que ele recebesse ordens de voltar à Ingla- tanto eram feitas exclusivamente para os homens.
elegância (ele podia, porque era o capitão-general terra. ele foi conservado preso até pagar todas as di-
e o governador!..). Quando as demais autori- Afinal, em moda, como em tantas outras vidas. Porém.,. Ele era o xodó da rainha, que,
Porém, convenhamos que se era apenas para a coisas, tudo é convenção: o que hoje é bonito.
dades e o aoclety locais se queixaram, ofendidos e apesar do porte corpulento do primo, devia achá-
"tia" se embonecar, não precisava ter levado a amanhã parecerá feio, o que hoje é atributo mas-
escandal i,'ados. Lord Lombo r y respondeu com lo uma graça. Assim, cm 1711 ela o nomeou
situação ao extremo de enfrentar, dessa forma, a culino, amanhã será feminino e vice-versa.
arrogância: — Sois estúpidos se não compreendeis. membro do seu conselho privado. Uns luxo,
opinião pública da colônia, porque a moda Remanescentes dessas antigas perucas são ainda
Neste lugar e nesta ocasião represento uma dizem, a rainha e o primo saindo para as com
barroca previa trajes masculinos bastante ela- hoje usadas na Corte Suprema da Inglaterra,
mulher, sua majestade a Rainha Ana, e devo, sob prinhas e trocando idéias. Sá que quando Lord
borados, com cetiris, tecidos adamascados, Lord Cornhury poréni não deixava por menos
lados os aspectos, representá-la o mais fielmente Comnhurv aparecia acompanhado da esposa, a
galões, jabôs de rendas e muitos lacinhos, o qu e talvez até exagerasse para afrontar a menta-
Possível—. E como a Betie Davis disse quando til. Rainha Ana, por precaução, escondia os anéis
daria, mesmo vestido de homem, para Lord Con- lidade provinciana dos novaiorqsiinos, próximo as tiaras,
(Dftrcy Penteado.

À procura de um emprego
,Será que os homossexuais brasileiros vão sabe que não são bem aqueles motivos, mas o
chegar um dia ao ponto de brigar por uma lei que melhor é partir para outra. madoporestadantes de Psicologia inexperientes e Nos Estados Unidos a briga começou com
os proteja da discriminação no emprego ou na ob- reacionários, que vetam o acesso de qualquer in- de escolas públicas, nas quais os pais
Depois, tem aquele velho clichê: bicha tem ulzviduo que fuja ao que os teses psicológicos Ia professores
tenção de moradia? .4 pergunta é válida, porque que ser cabeleireiro, costureiro, maquiador, ou dos alunos consideram perniciosa a influência de
parece que o movimento guiei norte-americano es- maioria importada dos Estados Unidos, um pais homossexuais confessos no ensino, isso deu mar-
então fazer parte dos trabalhos intelectuais _ ar- ocidental e cristão 1 considerem normalidade.
tá entrando pelo cano de tanto exigir junto ao tistas plásticos, escritores, jornalistas - ou estar gem a um processo jurídico que, pelo menos é a
Congresso a aprrn' 4'ào de leis especificas nesse infalivelmente ligado ao meio teatral, seja ator ou Emfim, a questão do emprego, e como os impressão, levará a um debate amplo da dis-
sentido. simples bilheteiro. Na verdade, o homossexual homossexuais farão para evitar mais esse tipo de criminação no campo de trabalho daquele país.
Explica-se: obtendo algumas vitórias nesse itiuvra essas atividades pos instinto de sobrevi- discriminação, está em aberto. E trata-se de um E nós, nesse capitalismo selvagem onde o devem.
campo, o (zay Iib acabou perdendo a simpatia vência. Como são, na sua maioria, seres de gran- assunto de vital importância, porque é preciso prego é mu ito maior, e o precvnceirro atinge a
da maioria s:te,r cruza que vinha apoiando diz- trabalhar para se poder viver, seja o trabalhador todo mundo, o que faremos arespeito' jEduardo
de sensibilidade e inteligência, geralmente com
cri-lamente a liberaçào bicha e até alguns grupos talento invejava!, "enclausuram-se" nessas es-
homo ou herero.ssexaal, Dais ias)
minoritários igualmente oprimidos começaram a• pécies de guetos profissionais onde as a ptas ha-
achar que os homossexuais estão querendo o bilidades são aceitas com razoável grau de liber-
status de minoria privilegiada, segundo um eis- dade. Mesmo porque esse tipo de trabalho reforça
saio que o semanário conservador lime publicou a imagem de margina/idade - trata-se de
na edição de 8 dejaneiro. "atividades não produtivas", de acordo com os
Bom, e daí' .4 primeira impressão é que nós padrões vigentes- que a sociedade faz questão de
brasileiros pouco temos a ver com tudo isso: atribuirá condição do homossexual,
afinal , se por aqui não se çm nem as garantias .4k, mas existem muitos executivos bichas
mínimas de cidadão, a tudo futuristica de um
grupo de companh ei ras formando
um lobby no
Cngrexsi, nacional para aprova, uma lei em
dirão alguns. E claro que existem, está cheio.
Mas desafio a que me apontem um executivo que
tenha pedido o emprego sem dar uma tremenda
ANTIGUIDADES
defesa do professor-bicha parece simplesmente Galeria Ypiranga
rida-ala.
disfarçada nas suas características pessoais. Bas-
ta dizer que para esse tipo de emprego o can-
Molduras
Mas é um engano. Para começar, sair a pena didato deve se apresentar invariavelmente dentro Feitas com arte, carinho e sensibilidade
discutir esse lema porque esse recurso foi um dos dos padrões "normais" até na vestimenta, isto é,
utilizados pelos gueis dos EUA para lutar contra de terno e gravara. E enquanto não termina o
a opressão. Se é bom ou mau, se adiantará ai' período de experiência, nada de dar bandeira. Só Máscaras decorativas
gama coisa, não sei. No entanto, a parti, dessa com o tempo, e as amizades que irão se foro, an-
discussão poderão surgir natos caminhos para a do. será possível sentir-se um pouco mais à von- De inspiração africana. Más-
luta que as bichas brasileiras, que ao agora co- tade do que os judeus nos campos de concentração caras para teatro e dança exe-
meçam a se organizar, tão ter de realizar mais nazistas. A grande decepção, conforme o caso,
cedo ou mais tarde para defender seus meios de cutadas por artista especiali-
vai surgir na primeira oportunidade de promoção
sobre viuência e moradia. para um cargo melhor. Pessoalmente, conheço zado
Senão vejamos.' a discrirnrn ação nesse campo diversos caras inteligentes e esforçados que foram
está mais do que na cara. E lógico que ela não se preteridos para posições de chefia por serem
Temos artista de longa experiência que restaura
apresenta viSível. E mascarada, fingida, e por isso homossexuais, "Não haveria res p eita às suas or- quadros a óleo, imagens, estatuetas e objetos de arte em
mesmo mais perceptível. lt'psho certeza de que dens"_supõe . se que seja o raciocínio do patrão. geral. Alta responsabilidade e competência.
todo homo.s,çexual sente uma dorzjnha no coração Para operários e técnicos então a barra é ain-
cada vez que s'aj' procurar um emprego. Se a sua da mais pesada. Existe uma série de esquemas
solicitação é rejeitada, o patrão não diz que ele "cata-anormais" para evitar que esses indivíduos.
Galeria Ypiranga de Decorações Ltda.
simplesmente não quer um u'iado, un, indivíduo desde homossexuais e alcoólatras, venham a
"anormal", na sua organização. No máxima in- prejudicar o clima de produção desenfreada da Rua Ipiranga, 46 (Laranjeiras). Rio de Janeiro - 22-0484
forma que o candidato não foi aprovado no teste empresa. O mais manjado desses dispositivos é o
ou que a vaga já foi preenchida. No fundo abicha
tal Departamento de Seleção, muitas vezes for.
LAMPIÃO da Esquina Pàhti 3


lei ~04
Centro de Documentação
APPAD
i - ic
da parada da tliserudcids
Prof. Dr. Luiz Mott GRUPODIGNIDADE
Mk
ESOUINA 1

MARIOCHAVES
oe v r:; Mário Chaves, a Mariza
Caveira, é, na crônica
sub m'rndística do Rio, um
dos últimos sobreviventes de

i. rara espécie de divas da


escuridão, Greta Garbos,
noturnas e míticas cuja
função mais importante era
inquietar as mentes e os
IS corações menos avisados.
Ainda hoje ele pode ser visto
no que restou da Lapa, em
noites de lua cheia, a
esconder sob uma blusa
transparente seus incríveis
seios de menina, passeando
seu cachorro Afgã Hound
e componde com este, uma
figura que faria Salvador Dali
Or morder os bigodes de inveja.
Visão do inferno para uns,
miragem onírica para outras,

1 1: )
Mariza tem servido até de
inspiração a artistas, como
aconteceu, recentemente, na
exposição Ritos de Passagem.
Frederico Guilherme Pontes
de Souza, um dos
expositores, utilizou fotos
1 suas, registrando "a sua
r? — passagem, na transformação
de homem para mulher". A
seqüência de fotos, que aqui
reproduzimos, é magistral, e
deixa bem claro tudo o que
dissemos de Mariza. Ele nos
lembra (atenção, libertárias)
aquele trecho do poema de
Brecht: "o que é certo não é
certo. As coisas nunca ficam
como estão".
Foloí:IUeber R. R. Gumaraes

!IlS(1iO4 Po,nilars.... ......................................................


............... .. .:-.:::::. ..........

Nas bancas o
Mulheres do mundo inteiro...
Cada ano que passa novos latos acontecem.
N,pvas esperanças surgem, antigos sonhos
sexual - seja ele homo ou hetero - sem trau-
mas, frustrações, conflitos, etc.. Quanto tempo
dela, Entretanto, de uma certa forma é aceitável a
ignorância da mulher quanto ao sexo, pois agora
"Gay News"
morrem. Muitas vezes na árdua batalha diária, já levará para que elas se conscientizem de que já é que ela começa a se libertar. Mas o que dizer O antigo Jornal do Gsy, publicação
meio descrentes, vamos nos tornando apáticos, passa da hora de mergulharem em si mesmas e dos homens, maus amantes, que só procuram o
acomodados, alheios. 1978 chegou com uma car- tentarem se compreender sem o falso moralismo, ato sexual com o objetivo do prazer próprio? paulista destinada aos entendidos, mudou de
ga muito grande sobre os ombros era a expec- sem os dogmas incutidos no mais fundo de suas O Homem desde sempre praticou o sexo com nome: agora chama-se Gay News, e apresen
tativa da sucessão presidencial. eram as eleições mentes? total liberdade, e entretanto, nunca deu-se ao ta-se aos seus leitores mais á gil, com uma
de IS de novembro, etc. Também o Ano Inter- Existe entre o povo o conceito de que a trabalho de tentar descobrir o que era melhor paginação mais simpática, e como represen-
nacional da Mulher - Ano 1 da Mulher Brasi- mulher quando chego na faixa doa trinta anos é para a sua parceira. Abordem um homem qual- tante de "um grupo gay internacional". Num
leira. que "este no ponto — . E por que isso? No'llvro A quer sobre o aparelho sexual feminino. Ele nada editorial, seu novo editor, David Wallace
1978 chegou ao fim, fala-se agora nas expec- Mulher - Enigma Palco-sexual, de Pierre Va- sabe! Não sabe sequer do seu, quanto mais do das
Brown. conclama todos os editores da im-
tativas, pos sonhos, nos planos para 1979, que é o chet, encontramos: "Antes dos trinta anos não mulheres.
Ano Internacional da Criança - Ano 1 da Crian- acontece nada de especial. Até ai, no amor, é Também, e principalmente, no sexo homo as prensa gay brasileira "a lazer do Gay News a
ça Brasileira. Inegavelmente, surge em nossos sobretudo zelosa e gentil. Depois disso ela gosta mulheres estão ainda presas a traumas, com- arena dos seus debates-, numa demonstração,
lábios a pergunta: o que foi realizado de bom em realmente do amor e torna-se requintada". E, plexos, conflitos, etc.. Acredito inceramente de que o novo jornal veio para somar, o que é
1978? Quais foram as vitórias que as mulheres citando Mathews Duncan, no mesmo parágrafo. que, quanto mais solto, saudável e completo é o ótimo.
conseguiram neste ano que lhe foi dedicado in- temos: "que é entre os trinta e os trinta e quatro âto sexual, mais livre, seguro e tranqüilo torna-se Partindo dessa conclarnação, lemos ojor.
teirinho 9 Principalmente, quais foram as vitórias que a mulher descobre ou atinge o desejo e o o ser que o realiza. Em Outras palavras, quanto nal com a maior simpatia, mas nos achamos
que as mulheres homossexuais conseguiram? prazer sexual em todo o seu esplendor". mais livre é o ser na cama, mais livre é no convívio na obrigação de esclarecer um equívoco
Posso dizer, que, na minha opiniAo, os fatos Além de toda uma carga de "linha moral" que social. cometido por um dos seus colunistas. O Sr.
mais significativos foram o criaçáo do nosso já jogaram sobre seus ombros para ela seguir, agora LAMPIÃO, inelizmente, está meio oco- \'alentina Guerra, responsável pela seção in-
muito querido LAMPIÃO e a publicação do também exige-se da mulher o gozo. Se ela não snodado. Ele chega todo mas, preeh,he o espaço) titulada Ci Ti Ho*, Nêa?, Ele reclama que
Relatório Hite, que, embora censurado, foi lido consegue atingi-lo, seu parceiro não procura, com e acabou. Ele não provoca brigas (no bom sen- Darcy Penteado, no LAMPIÃO n 6. ao es-
: por muitos. A mulher brasileira, em sua grande ela, descobrir o porquê. Ela logo é rotulada d tido), não nos traz debates, participações mais crever sobre eleições, chamou os homosse-
maioria, ainda não parou para pensar sobre sua anormal. Inclusive pelos "especialistas". He ativas... As mulheres, no Lampa chegaram uma xuais de anormal.. Ora, Sr, Valentina, a ex-
condição inferior - por mais que falem, ela ain- virou moda exigir isso da mulher. No a deixam vez, deixaram seu cheiro e foram embora. Pre. pressão não está no artigo de Darcy , mas sim
da é vista como inferior. Ela ainda não se cons- senti-lo como ela bem o quiser e quando qui- cisamos de algo que nos mexa por dentro,nos faça no de Aguinaldo Silva. E está colocada entre
) cientizou da importância de uma Liberdade pes- ser puder. Traçam para ela uma espécie de "Guia parar para pensar, nos sacuda mesmo. Ë um aspas, gritada, para que fique bem claro que
soal Prático de Como- As Mulheres Devem Sentir o tema, creio, muito valioso para este ano que mal
6 Relatório Hite, mesmo baseado em dados Gozo" - isso foi fartamente demonstrado pelo se iniciou.
se trata de uma referência ao modo costu-
meiro como a palavra é empregada, e com o
sobre a mulher americana, fornece um vu*o Relatório lUte,
material para debatermos. As mulheres sofrem
Rita Foster'Brother qual o autor do artigo absolutamente não con-
Aos homens, é muito mais fácil colocârem a (Atenção, leitores: o artigo deRita Foster Brother corda. Quanto às considerações finais do Sr,
terrivelmente por não terem ainda tentado enten- culpa nas mulheres. Contudo, esquecem que, se a foi o escolhido para publicação neste nómero. Valentina sobre 'a orientação ideológica" de
der seu próprio sexo. Ë quase um milagre encon- mulher não consegue sair bem na relação, a Mandem suas colaborações, entrem na fila; Esta
trarmos u rna mulher que aceite o sexo, o ato LAMPIÃO, e a sua declarada preferência
culpa, ao contrário do que eles pensam, não é Seção éde vocês). pelo programa do Chacrinha, preferimos
•0
. . ...............«.t*Ss\s k.<:.;**as,.,... nada comentar. Afinal, gosto não se discute.
Pi1.s 4 LAMPIÃO da Esquina

** Centro de Documentação
APPAD
da parada da ttivt'rsicladr
Prof. Dr. Luiz Mott GRUPODUGNIDADE

REPORTAGEM
A difícil batalha dos censores contra a realidade

Para o Brasil do ano 2.000. os


"bons costumes" do século XIX
Nos Últimos dias de dezembro o diretor da lisos e até mesmo Politicamente desastrosos", é
flis'isáo de Censura e Diversões Públicas do possível esperar que, no caso do nosso jornal, as
Departamento de Policia Federal, Rogério Nunca, pessoas encarregadas de decidir se ele é aten-
concedeu uma entrevista ao Globo, na qual disse tatório ou não reajam com a mesma contem-
que a legislação a ser cumprida pela censura poraneidade: não é posslvei fabricar pílulas an-
"impõe restrições, de tal forma incoerentes coma ticoncepcionais indiscriminadamente e, ao mes-
moral vigente na moderna sociedade, que o mo tempo, acreditar que os bebês nascem dos
trabalho dos censores acaba se transformando repolhos ou do bico diligente das cegonhas; da
numa constante batalha contra a realidade". mesma forma. não é possível considerar Imoral a
Para as pessoas que fazem LAMPIÃO da Es- luta de um determinado grupo - discriminado
quina, essa declaração do Sr. Rogério Nunca foi sexualmente - para sair do gueto que lhe foi im-
da maior importância, pois é exatamente baseado posto e assumir seu lugar na sociedade, deixando
nestas restrições "incoerentes com a moral vigen- de ser, dessa forma, cidadãos de segunda classe.
te na moderna sociedade" que o I)PF está rea- LAMPIÃO, como informou desde o começo
lizando um inquérito contra esse jornal, tentando aos seus leitores, é um jornal de minorias, que se
enquadrá-lo na Lei de Imprensa sob a acusação lispõe, ao mçsmo tempo, a levantar uma questão
de "ofensa à moral e aos bons costumes", por raramente discutida em Outros órgãos da im-
falar sobre homossexualismo. prensa: a necessidade de assumir o prazer como
Não que LAMPIÃO concorde com a posição am dos direitos fundamentais do homem. A tese
do diretor da Divisão , para o qual os critérios da de que, quanto a essa questão, é de bom tom não
censura deveriam ser apenas atualizados; sê-ia a partir de determinados prismas - o
achamos, ao contrário, que ela deve ser simples- homossexualismo é um deles -' não poderia
mente abolida; mas na medida em que o Sr. nunca ser encampada por nós porque isso seria
Rogério Nunes recebe uns jornalista em seu aceitar o fato - este sim, imoral - de que a tir às pressões, sucumbindo aos que rejeitam sua que atualmente enfeitam tss muros de Pequim, a
gabinete em Brasilia para dizer que "os atuais hipocrisia deve obrigatoriamente fazer parte de preferência sexual como apenas mais uma das seguinte frase: "O que nós Pretendemos é obter o
critérios Ida censura> são extremamente subje- nossas vidas.
formes através das quais se manifesta o esforço direito de praticar o sexo com quem, quando e
Por causa deste silêncio é que se criaram, e humano. A este respeito é sempre bom citar os como quisermos'',
"O Globo": vêm sendo mentidos, muitos mitos em relação ao
homossexualismo Um deles, que este jornal des-
especialistas: lembremos Charloite Wolff, da
Brttish Psvchoiogical Societ y , que, faiando sobre
Também tensos notícias, no Brasil, de uma
onda de liberalização. [)ela viemos colhendo,
de o começo pretende desmoralizar, é aquele o c o mportamento dos homossexuais mais
uma ophi[o Insuspeita segundo o qual os homossexuais são criaturas 10501, escreveu: "Convém lembrar que as reações
pio- desde o fim da primeira metade de 1978, sinais
evidentes. E nela, LAMPIÃO - como outros ór-
pervertidas, sempre dispostas a corromper e a Psicológicas exageradas, neuróticas ou não, são
,I entrevista do diretor da Dlvijào de ('rasura aliciar; se o homossexual vive grande parte de sua gAs da imprensa progressista, dos quais somos
e DiverçõWs Públicas do DPF, Sr. Rogério Nuires, consequência de agravos passados". necessariamente afins - m, obrigatoria mente, 0
vida nas sombras, não é que ele goste disso; é que Numa tentativa de evitar que estes agravos se
publicada ao dia 23.12 prs-swcou, no dia seguinte, lhe foi imposto: se ele compensa sua insegurança seu lugar. Caso contrario, no teremos libera-
uma reação da GLOBO. Em um editorial à perpetuem é que LAMPIÃO veio à luz. E não se lização. mas sim, uns arremedo, Ou seja, esta-
e sua instabilidade transformando-se às vezes em
página 1, aquele jornal emite sua opinião sobre o trata de uni fato isolado —, há outros jornais como remos falando mais uma vez - como linhas
uma caricatura do que a sociedade lhe apresenta o nosso sendo consumidos não apenas no Ociden-
asSuuiro. Fale a pena reler: como padrões ideais - é o caso do Iap.tio e da acima - da imoralidade que é a hipocrisia
te. e não é à loa que, em plena onda de li- transformada em instituição.
Censura bicha-louca -, não é porque isso lhe seja natural,
mas vms, porque nem sempre ele é capaz de resis-
heralijação na China, uns jornalista dcidental
tenha lido num dzibao, uns dos jornais murais Aguinaldo Silva
auto critica
R ECONHECE enfim o próprio Dire-
t or da Divisão de Censura do D.-
portamnso da Policia Federal, Rogério
Cada época com a sua medida
Nunes, que a atual iegiiloçáo da cen- Na época da expansão colonialista os poderes pioraçào econômica de uma classe por outra, es- res . que faz com que a eiperincja social de
sura está distanciada dos Padrões do metropolitanos defrontaram-se com sociedade, ias regras são compartilhadas por todos, e existe uni não corresponda á de outros. Tamanha a
moral vigente no aocieâode mod.rna, com moral e bons costume, bastante diferente, um consenso generalizado sobre o que é certo e o rapidez de mudança social em todos os sentidos,
donde o caráter anacrónico lrr,all.to dos seus. Classificaram tal, sociedade. de que é errado. A noção do homem razoável é com- que a experiência social de uma geração é ra-
e intolerante de muitos decisã.s da. "Primitivas", e se sentiram na obrigação divina parliihada por todo, os membros da sociedade. dicaimenie diferente da de uma outra. E laia é
qual* órgáo, ae impor a iodaz elas suas próprias regras de con• 1. nas sociedades mais complexas, com gran-
diii.. A teoria da evolução cultural serviu para verdade tanto no que diz respeito à classe ope-
O CASO da. artes •m geral, o, de divisão de trabalho e com Instituições difer-en. rária, como is classes media e burguesa. Fiei
N Justificar tanto as tentisas de erradicar os cos- çadaa, certas regras de morai e bons costume.
critérios ".xtr,n'tam.nse subjeti- evidente, portanto, que o que constitui morai e
tumes considerado, "blrbaros", como a ex- chegaram . ser codificadas e escrito., de modo a
vos" dominam o mente • o trabalho bons costume, para uma geração, não o constitui
ploraçio econômica deites povo.. coni(ltuu'em leis. Estas lei, aso reforçada por lii.- para Outra. Poderia cit.r, apenas como um exem-
dos censores, levando-os a ver fantas-
A antropologia social do século XIX se baseou lituições especializadas, talo como a policia e o. plo, a história recente das religiões afro-
mas ao meio-dia e em cedo esquina. nesta teoria e arregimentou informações sobre
p ara o Governo e para o imagem ex- Juizes. Toda uma infra-estrutura eid.te em função brasileiras. li duas décadas os macumbeiros,
povos dito, primitivos pira esmiuçar o traçado deste processo: Faculdades de Direito, escolas de
terno do Brasil, os r.sultodos polilicos candombiezeiros e umbandistai do pais eram, em
unihinear da es ouuçlo cultural, que desembocaria Pol í cia. promotores, prisões e, mala recentemen-
de..e obscurantismo intelectual e lua vasta maioria, negros e pobre.. Seria contra a
nas sociedade, europeias, com as luas instituições te, psiquiatras. Nas sociedades capitalistas morai e os bons costume, da da~ dominante e
artlstico têm sido 'desastrosos", de íamiIli m000gim i ca, de propriedade privada e modernas este enorme aparelho existe, aparen-
P ODERIA o Sr. Rogério Nun•s citar
numerosos exemplos de proibi.
de Estado. Com o &corer do tempo, enirelanto,
a aol ropoiogia social peret co que mia era bem
temente, pira escrever lei., julgar o. que as In-
fringem e puni-los devidamente. Ma,, por mais
branca participar omites rituais. Agora há gran-
de* contingentes de gente branca e rira fluindo
para os terreiros e. longe de ser contrário i morai
089 estapafúrdia, no campo do Isa- assim, e desenvolveu is conceito de relatjij.mo que se codifique.. regras de boa conduta de uma
cultural. Através deste conceito, cada sociedade
e aos bons costume., o candomblé é considerada
tro, do cinema, do música, 6s vexe, determinada sociedade, dessa forma Iran,for- por muito. ric'oa e branco, como até chie.
com o requinto de surgir o veto quando era vista como um todo coerente, com sua moral e mando-as em lei., outras regra, continuam a Agora, para voltar i sexualidade, é digno de
os peças teatrais. o, filmei ló se acho- seus bons costumes próprios. Assim, . antro- existir, sem ser escrita. - continuam existindo nota que o Código Penal brasileira, baseado no
vem liberados e a música já exaustiva- pologia social pode denunciar ai tentativas, por como "moral e bons costumes", reforçadas pelos código napoleônico, nunca chegou a transformar
mente conhecida do público. Náo de- parte de uma sociedade etnocentrista, de Impor mecanismos Informais de controle social, como a todas as regra, da sexualidade em leis. Assim,
vem Ignorar os r.,ponsd y.is por tais sus moral e seu, bons costumei sobre uma outra; 1 fofoca, o fuxico, o boicote, e assim por diante. embora o código declare que é Ilegal um homem
cincada, que só conseguiram aumeri- e através de prolongadas pesquisas de campo Maa existe uma grande diferença entre as casar com mais que uma mulher, que é ilegal
lar a curiosidade e e interess, de gran- forneceu um verdadeiro arsenal de in(orm.çoes sociedades pré-letradas e sem in.tltulções diver- manter relações sex uais com a pessoa que é
de parte do público em torno das obras que mostram a Intrincada relação mire moral e sificadas e as sociedades capitallst.a moderna,, menor de idade, em lugar nenhum fai, a respeito
Poetas no Index, além de exercer-se bons costume, e a estrutura social desta. so- além da presença ou não de leis escritas e tu.- das relações sexual, entre adultos do mesmo sexo,
por ai orna forma de protesto. ciedades. titulções Jurídicas Formais, e esta diferença de- masculino ou feminino.
ALiARIA ex p licar a penas por E tudo lato Ficou claramente evidenciado nas corre, fundamentalmente, da enorme dHeren' Reconhe ce , portanto, o Código Penal, que as
F q ue tanto certeie sobra as dia. regras sobre sexualidade adotadas por cada uma elação social das últimas em relação is primeIras. regras que dizem respeito i homossexualidade
torções do poiltice de censuro, e partir deus, sociedades. Se o padrão de virtude de Se podemos constatar que nas sociedade* sem Es. não pertencem à esfera pública da sociedade, mas
de órgáo encarregado de odmlnl,,ró. sociedade Inglesa do Fim do século XIX foi o tido e diferenças social., a moral e os bons co, sim à esfera privada, e que podem variar de um
palerfamulias m000ginalcsmeníe casado, o herol lumes são c'omp.rliihado, por todos os membros
Ia, r40 lavou e Dparlamente de grupo para outro, de urna classe para outra, de
Policio Federal o promover oportuna. da sociedade Shon, da Rodesla, com a qual coo tia sociedade, Independente de idade, sexo, etc., uma geração para outra, e assIm, de uma ipoça
vivI durante três anos, era o homem coro (rés ou nas sociedades capitalistas modernas esta tona-
mente o renovação • corr.çáo doa pa- para outra. E da natureza da moral e dos bons
rêmetros adotado., ainda hei, em fase mais mulheres. Se nesta mesma sosledade tataçáo. simplesmente, não pode ser feita, pois. costumei que estes sejam fluido, e variável.; .ior'
gim.., Oscar Wilde poderia ser encarcerado o' com a divisão social do trabalho, com a noção da
de anteprojeto, tanto, não e pouisei Incorporá-los ao Código
dois anos por ter sido julgado um pederauta, entre propriedade privada e com a conseqüente dli-
UAN1'O é v1g$lônca mais severo ai Kandlwéu do brauli, um homem que resolve ser
Penal, que estabelece as mesmas - e Imutáveis
Q dos cens.ree poro o ródio e e to. trlbuiçéo desigual dos recursos materiais e não - regras para toda a sociedade.
muiher"é uma Figura abiolutamenie acelia, in - materiais da sociedade entre seus membro.,
l y isdø, cujo monut.nçóo o Sr Rogério tegrada pelo grupo" (vide LAMPI ÃO n? 81 Agora, se a moral e os bons costume., por
Nun., defende, parece svidense que o criam-se classes e categorias de pessoas que, em- definição não fazem parte do cor-pus juris da
Nas sociedades pré-letradami a moral e os ions bora pertencente, á mesma sociedade, experl-
problema no* constitui fato isolado no costume. es Identemenie . não chegaram a ser
sociedade, é mais que contraditório que o .istema
quadra de 1 rr.oiismo • Incoerência em menlam. na de maneiras fundamentalmente legal teme opinir sobre o que é alentalorlo con-
codificados por escrito. Eram noções que cada diferentes. Tomando o Fator classe social. por tra eles. Não invejo o promotor ou o juiz que
que tem vivido e censura, mesmo an-
um adquiriu através da sua socialIzação, e que exemplo, é Inegável que á experiência social do
te. do llberaliioçáo do regime. Tom. tenha que declarar o que é que constituiu moral e
EM reforçados por uma série de Instituições-- brasileiro favelado tem pouco em comum com a
bém, terá que sofrer os odops.gé.s desde corte, for-mal., até acusações de bruxaria.-C
os bons costume, para todo o Hr,IJ. No final dai
preconl~ pelo diretor do DCOP, na experiência social do bra.Uelro dono de contas, o Brasil é multo grande, multo diferen-
o slmpiei '- mas não menos eficaz - uso da
sua b.nvind. Outocrftko. Indústria e morador dom jardina de São çado. E dizem que ele não pode parir.
fofoca e do fuxico. Nestas sociedaíes pouco Paulo ou da Zona Sul do Rio de J.nelro.
diferençadaz e sem Instituições de Estado ou ex• Mas classe aoel.i é apenas um dos Falo- Peter Fry
LAMPIÃO da Esquina Página 5'

Centro de Documentação
APPAD
11.1
ie
liarida
da tiivrrid,iili'
Prof. U. Luiz Mott GRUPODUGNIDADE
REPORTAGEM

Helena Sangírardi dá a receita certa

Ivsâ Mf
1

:
!

Não há nada a discutir e modifica,. MeUi.» contra a realidade", vamos todos dar as mãos e
apagar tudo e fazer de novo. Fase Código de Cm' aterrisar - Com ou pés solidamente no chio a
sura, com 33 anos de existência, se se tratasse de
realidade terá de alforaj'. Não é só a liberdade
uma pessoa, Já teria vivido uma vida inteira. dada aos programas humorísticos com relação à
Teria atingido a maioridade, feito ser, iço militar poIlca e aos políticos que vale. Eu sou uma pci'
e, na idade de Cristo, estaria cana um panorama soa que sé novela, e assunto isso. Então • gente
totalmente diferente do mundo, a menos que fica sabendo: tiveram que matar Ccliii., a
Quem não conhece Helena Sangirardi há lon- crescesse numa prisão de pensamentos tacanhos. mulher do FrankJjn, para que ele pudesse ter um
Oswald de Andrade. Tarsila, Alvaro Moreyra.
go tempo? ['ara dar um único exemplo, um an- Durante esse, 33 anos de vida aconteceram o.
Flávio de Carvalho. Mas então você começou romance com a Carmtnha, como se essa não Fos-
tigo amigo meu colecionou durante toda a segun- Beaties, vieram e acabaram os hippks. O mundo se a receita normal. A Censura com Isso não es-
muito nova ou é muito antiga, me espanto, Res-
da metade da década de 40— ele era uma criança deu uma reviravolta tio grande que culminou
posta: "Hoje o pessoal diminui tanto a idade que tava em 1946, mas selos em 1900, quando se
então, naturalmente - as receitas aue Helena com a revolução do sexo, com a aceitação do ter- Faziam as mesmas coisas, só que mais escondido
todos começaram sua carreira engatinhando. Eu
publicava semanalmente na O Cruzeiro. Jor- ceiro sexo. Houve uma abertura no Rádio, naTV,
me iniciei no jornalismo antes de nascer..." Para do que em 1946, e em 1946 mal; escondido do
nalista tcarteira da ABI de 1945), mestre-cuca no Teatro, no Cinema e na Imprensa mais soltada que em 1979.
o seu excelente aspecto físico ela dá Logo uma ex-
coiiiç&u a lazer culinária na TV em 1952), para o sexo: piadas mais livres, a pimenta mala Não estou discutindo Dancin' Da y s nem
plicação: "É que eu fiz uma plástica em 1962. O
animadora cultural com um programa na Tupi sohs, menoa preocupação em conter os seus pô, outras novelas, mas a inlerferência doa censores
médico só cobrou a barriga, mas acabou fazendo
pelo qual passaram artistas de todas as gerações e como nas novelas, onde multas vezes eu ouço as no trabalho dos noveliat.a eteatriúogos, impondo
tudo: peitos. papada, cara. Acho que está na
escolas, feminista, liberta e libertária, espírito hora de fazer outra". duas siialsaa em vez de uma só... Até o flâvio uma morai e bons costumes que Já era... Feliz'
generoso e atento. ela é, enfim, uma dessas pes- Casalcanti - que é tio circunspecto em sua lin- mal. nunca tive problerrim mm a Cessatxa em nwu
soas que não se fazem mais. Mesmo assim Helena Teve uma época em que Helena foi também guagem - Já disse, em 1979: "Eu já não tenho trabalho, mas quando me refiro à Censura, estou
é modesta: "Nunca consegui ser brilhante es- dona de restaurante, o Suhway. Existe até hoje, mais saco para esse tipo de música! Não tenho reclamando dos critérios usados Já sob o falso
na Avenida Rio Branco, 14, no Rio, mas não é mais saco!"
crevendo, só dando entrevistas". Apesar disso. título de Moral e Bons Costume.. Esse rótulo nos
tem II livros publicados, sobre culinária e assun- mais dela. "Era um luxo, freqüentado por se- Eu acho ótimas essas coisas, não vai nenhuma leva a crer que serve para esconder Imoralidades e
tos femininos. nadores e deputados. As mesas ficavam numas censura nisso. Estou só Falando na Abertura que maus costumes do; que ditaram as normas.
espécies de baias, cada uma delas tinha telefone e vem engaíinhando. Gosto até quando meu neto
Qual a razão de seu sucesso como criadora de Confesso que estou muito feliz com a no-
os fregueses s entavam-se em sofás. Um amigo de 5 anos me ensina algum novo palavrão. Chico
receitas, pergunto. "Eu enlouqueci a culinária. meação de Eudardo Poridia, que é um sujeito
pz » ili.sla chegou lá uma vez, ficou espantado com Buarque de Hollanda, dia destes falando a um
dei á cebola o seu lugar ao sol, ousei coisas que brilhante e Inteligente, e que deveria ser ouvido
a parafernália e não se agüentou: "Só faltam os jornal sobre suas musicas re'censursdas, se per-
nin guém OUSOU, com exceção naturalmente de bidês!" na hora em que fossem elaborar um novo Código
Salvador Dali que, no seu livro Dtnners de Gata guntava se o seu Espéclal da TV Bandeirantes de Eiicsj. Moral e Bons Costumes pais Rádio,
apresentou uma receita de sopa de feijão com Helena Sangirardi já estava na nossa alça de não o seria também, Nesse Especial ele se referis TV, Imprensa, Cinema etc. Por que dissociar o
orelha de porco como hori'd'oeuvre. Imagina 1 suspensão da censura e afirmava que não se Ministério da Educação desse novo código, se é
mira há algum tempo para uma entrevista. Para
você o que não vinha depois". Mas ela criou tam- este número do Lampião, em que debatemos e poderia receber Isso como um favor, mas usai que ele tem de acontecer? Mas pergunto ainda: lá
bém uma "imagem" para a cozinha brasileira, como uma coisa natural, que não se precisa fora, em outros pa inel, como Inglaterra, França,
Pedimos a tantas personalidades sua opinião
deu-lhe o toque estético. Sua preocupação com o agradecer. existe este tipo de código que reage as chamadas
sobre "Moral e bons costumes", achamos que
aspecto dos pratos tornou-se uma obsessão desde seria ideal obter de Helena uma receita sobre o O Presidente João Baptista de figuelredo dlversóea? Seremos obrigados a ele? Então que
que soube que o poeta francês Blaise Cendras, ao assunto, É o que os leitores terão a seguir, como jurou que faria do Brasil uma democracia. Agora venha com a mares de um Intelectual que saiba
visitar o Brasil nos anos 20 e ao ver uma feijoada nos velhos tempos da O Cruzeiro, mas só qua eu pergunto ao Lampião: Diante disso, uma cen- avaliar o quanto dói um corte no seu trabalho
teria gritado: "Mon Dieu, mais c'est de Ia mer- sura de 1946 pode prevalecer ainda? A devolução literário. Numa Democracia é necessária a Cen-
mais bem condimentada. Que façam bom
proveito. do Brasil à democracia deve começar em todas u sura? Respondam-me os que souberem. E viva a
Helena foi amiga de quase todo o pessoal frentes onde algum dia ela deixou de existir. Se o liberdade de Imprensa!
pioneiro da arte moderna: ,Mário de Andrade, próprio diretor da Censura reconhece que o
Francisco flhltencourt trabalho doa censores "é uma constante batalha Helena Sangirardi

"Ma che cosa é questa?


Esta indagação sobre 'moral e bons costu-
mundo. É bem verdade oue não o perdoaram por e na minha cidade, dizia-se que era mau costume
mes" decorre de um lato que está acontecendo arranjem outras justificativas para as opressões.
isso e, como vocês sabem, ele foi crucificado, ten- continuar dando chupeta às crianças depois de
nos salões da Polícia Federal e do qual LAM- Podemos parecer ingênuos, mas não somos in-
do passado antes por um inquérito dos mais li-
PIÃO é o plvot A julgar pelo caráter das pergun- desmanadas, porque entortava os dentes e defor- conscientes, pá! Quem esteja em paz com
nha-dura que a História tem notícia.
tas que nos estão sendo feitas e pela absoluta falta mava o maxilar. Está aí, então, constatado um própria consciência nada tema temer dos hones-
Como tudo hoje evolui e transforma-se muito mau costume, por causar um nil físico muitas
de razões, não restam dúvidas de que, mais do tos e dos justos, a não ser o fato de que a maioria
rapidamente, o código da Censura tornou-se tão vezes irreparável. Outro mau costume é tirar
que uma tentativa para um possível enquadra. obsoleto que o seu próprio diretor, o Dr, Rogério
deles foi silenciada por aqueles que, pelo poder e
mento dentro do previsto pela "moral e bons cos- meleca do nariz e comer. Além de mau, é feio e pela força, arvoraram-se em "donos da verdade".
Nunes, declarou-o incoerente com a moderna anti-estético, Principalmente se praticado por
tumes", trata-se de uma rotineira forma de sociedade e em constante luta com a realidade Atentados à morai? Claro que existem! Porém
opressão que ainda vigora, apesar das aberturas adulto. Mais outro: comer minhocas, como fazia quem é mais atentatório e pernicioso perante a
atual. Apesar disso o tal código, que deveria estar uma menina que brincava comigo; este é um pés-
prometidas e ensaiadas, visando intimidar prin- na vitrine de um dos nossos museus históricos, moral e a consciência de um povo: o travesti-
cipalmente os da imprensa nanica, que pelo seu simo costume, além de anti-ecológico, porque as prostituto que. para subsistir, mesmo levando
continua por aí mandando brasa e sendo utilizado
próprio caráter minoritário não está vinculada minhocas mantêm a unidade e a Fertilidade da muita porrada, explora na rua a fantasia sexual
como instrumento de opressão de idéias e com- terra, e constiuem uma espécie em ext inç ã o a ser
direta ou indiretamente aos meios e às idéias portamentos. Pode? Nós achamos que não, mas dos seus clientes? Ou o político comprovadamen.
oficiais. preservada. te corrupto que, apesar disso, recebe "de mão
eles estão demonstrando que sim. Em todo caso,
Não eixste contra nós nenhum processo for- já que a ordem é para sermos bonzinhos e bem Quando já era mais taludo, aprendi ser mau beijada", com cumprimentos, solenidades e pai.
mado. É um inquérito policial baseado numa comportados, vamos tentar descobrir o que é essa costume masturbar-se mais que uma vez por dia. minhas, um Estado inleirinho para governar?
denúncia feita sabe-se lá por quem, mas que deve coisa mais abstrata que uma tela de Kandisky. Todos concordarão que estes e vários outros, que
ser alguém muito complicado para querer encon- agora seria supérfluo enumerar, são maus porque Já que é para moralizar (a idéia veio de vocês),
chamada "moral e bons costumes". vamos então tentar fazê-lo todos juntos, cabeças,
rar em LÁMPIÀO algo que seja ou pareça prejudicam a saúde. Porém, só ao me tornar
Meus conhecimentos e sentimentos éticas e corações e braços, criando a nova e verdadeira
imoral, a menos que se considere imoralidade adulto foi que percebi que as pessoas têm medo
estéticos não me levam a nenhuma conclusão, a moral, aquela que respeite tanto os direitos da
defender a ecologia, tentar conscientizar homos- das definições diretas e simples, por isso mas-
não ser olhando a coisa pelo lado contrário, isto é. coletividade quanto os do indivíduo, não impor-
sexuais do seu papel atuante na sociedade ou caram chupetas, melecas e minhocas. Aí a minha
analisando o que seja um comportamento amoral tando a sua cor, raça, religião ou preferência
reconhecer os direitos das mulheres e dos indios. cuca embananou e. para conseguir subsistir,
e o que possa ser definido como mau costume. sexual. Se é para moralizar, partamos de uma
Nossos leitores, porém, não devem ficar preo- adotei iam conceito moral único e muito antigo:
Amorais são iodos aqueles indivíduos que vivem premissa honesta: em vez de sair à caça de bruxas
cupados com o jornal e com os conselheiros Iam. "não fazer aos outros o que não quero que me
em harmonia com a própria consciência e, pores- hipotéticas eu procurar com lupas de aumento
piôntcos: nós continuaremos respirando enquanto façam".
lar acima vias contingências impostas pela hi- pelos em ovos, anulemos a ação perniciosa dos
existir Oxigênio,
pocrisia. criam e impõem a sua forma decompor- Ora, fora deste, qualquer conceito de com- fomentadores de preconceitos, dos intolerantes,
O código da (ensura Federal, nascido em lamento, modificando outros e criando, assina. ,'s portamento é pura guloseima. Não me venha al-
194fs, completará brevemente 33 aninhas. Quase dos interesseiros, dos corruptos. Se os "donos da
novos conceitos de moral. guém falar com arrogância e superioridade em verdade" se fazem de cegos e no topam a pro-
tão velho, portanto, como muitas senhores cir- aios atentatórios ou em ofensas i boa moral, nes-
Mau costume é... Mas aqui entre nós, vocês posta, não lena importância; o povo enxergará por
cunspectos e de calvície proeminente que andam
podem imaginar coisa mais hipócrita que isto de -te mundo conturbado e velhaco em que estamos eles.
por aí. Trinta e três anos foi também tempo bas- "bons costumes'! vivendo. Batizem com novos nomes os seus
tante para Cristo pregar a doutrina que mudou o Mas voltemos aos maus: na minha tenra idade preconceitos, os seus pavores e a sua covardia.
Darcy Penteado
P&gJ.a6 LAMPIÃO da Esquina

** Centro de Documentação
APPAD i( e
da parada da cliversidadi.'
*1r
Prof. Dr. Luiz Mott GRUPODIGNIDADE
trangido, sem saber exatamente que tipo de de costumes e moral que não podem ter uns código
[REPORTAGEM] declaração não poderá ser manipulada pelo
"outro lado". Arrisco, ainda assim: o único tipo
fixo. O que era bom para o felicidade humana há
23 anos não é mais, A própria instituição familiar
admissível de censura é aquele que regulo a está arcaica em relação ao capitalismo industrial
idade. Saiu daí é autoritarismo. moderno, sendo inclusive prejudicial à circulação
de mercadorias: as instituições do casamento e da
HÉLIO FERNANDES

O que pensa a (jornalista)

- Toda censuro é uma evidente batalha con-


família prejudicam o consumo. Hoje, é o próprio
capitalismo que não quer o progresso da familia,
nem admite a propriedade privada ou o Estado
nos moldes tradicionais. O capitalismo é hoje
tra a realidade. Os critérios estabelecidos na supraestatal, multinacional e antifansil lar, com a

sociedade civil Constituição de 1946 ainda são vigorosamente


válidos, o que ficou ultrapassado foi o poder dos
governantes, foi a mentalidade dos poderosos e
foi obviamente a atividade dos censores, Ë lógico
propriedade privada despe rsorsalisada em mi-
lhares de donos e sociedades anônimas.
ZUENIR VENTURA
(jornalista)
que há uma brutal contradição entre a censura

sobre o assunto que se faz hoje e a realidade que se vive. Em todos


os setores. Em todos os órgãos de comunicação,
em todas as formas de expressão que são as que se
censuram, E quanto mais atual a força e a Forma
- Em 1946, quando foi assinado o código
vigente, a bomba atômica ainda era uma novi-
dade, o homem não tinha ido à Lua, o biquini era
de expressão, mais brutal a repressão e mais um escândalo, a pilula anticoncepcional um
"A censura cota; por tradição, na Constituição Brasileira. Uma censura às retrógado e ultrapassado o censor. Geralmente pecado impensável e a palavra merda inipuhli-
diversões públicas, em nome da moral e da ordem política. Isto faz parte da tradição não aquele censor que está de lápis na mão, ris- cável fora das paredes dos banheiros, A Guerra
brasileira, emborao império não tenha conhecido, na sua Constituição, a insti- cando às vezes até Furiosamente, mas um outro Fria tentava dividir o mundo entre o céu e o infer-
censor invisível, encastelado num Palácio e que no e, nos filmes, os atores não iam para a cama
tuição da censura. A república, entretanto, estabelece a censura na Constituição, acompanhados. De lá pra cá, a ciência se trans-
mas a censura às diversões públicas, e não às obras de arte, ou às manifestações de não sabe nada da vida. Não viveu antes, não tem
mais condições de viver depois que chega ao formou, os costumes mudaram, o homem evo-
pensamento, como a Imprensa. A liberdade de Imprensa é a primeira das liber- Palácio. Essa a verdadeira, a autêntica, a indis- luiu, o homossexualismo invadiu as instituições
dade." 1C16vis Ramalhete, escolhido pelo General João Baptista de Figueiredo cutível contradição entre os critérios de "moral" e - das esportivas às militares, das esclesiásticas
para ser o Consultor-Geral da República no próximo Governo) "bons costumes" de 30 anos e a vida que se leva às governamentais -e as concepções estéticas
hoje. foram subvertidas: os volumosos seios de iayne
Mansficld deixaram de ser um padrão de beleza.
Levando em conta as declarações do diretor - Por isso, é claro'iógico, óbvio, evidente, in- - A moral, como tudo, não é a mesma hoje e
da Divisão de Censura do DPF. Sr. Rogério discutível, que esses critérios precisam ser revistos nem será amanhã. Conto se pode, então, coro
Nune, as quais deixam bem claro que os critérios e modificadçss. E para serem revistos e modifi- base em um código de mais de 30 anos, julgar o
da censura devem ser discutidos, LAMPIÃO da cados é preciso discuti-los, esmiuçá-los. debatê- que é moral ou imoral agora? Só mesmo nas
Esquina fez a pergunta abaixo a várias pessoas da los. Mas com coragem, sinceridade e humildade, cabeças doentes é possível julgar hoje - seja o
chamada sodedade civil i sem vir antecipadamente condenar os "tempos de que, principalmente moral e costumes - com
- O diretor da Divisão de Censura da Polícia hoje", ou "a vida que se leva agora". Depois de critérios ultrapassados. Essa censura rer6grada
Federal disse, em entrevista ao Globo, que a Einstein, tudo é relativo. A educação também. A não perde por esperar. Na batalha contra a
legislação a ser cumprida pela censura 'impõe moral. Os bons Costumes. Até a censura. Só que realidade, ela não mudo nada. A realidade sim, é
restrições de tal turma incoerentes com a moral por convicção, por princIpio, por formação e por que muda: cabeças, preconceitos e censores.
vigente na moderna sociedade que o trabalho dos vocação sou contra todo tipo de censura. Artística RUBEM MAURO MACHADO
censores acaba se transformando numa constante e moral £tica ou política. Religiosa ou militar. (escritor)
batalha contra a realidade". Você acha que os Quem. não tem competência não se estabelece, se
critérios sobre "mural" e "bons costumes", es. dizia antigamente. E tamE'ém é uma verdade bem
tabefecidos no código de 1946, ainda são válidos antiga, que a censura não tem nenhuma cor"- - Uma das maneiras possíveis de se ver a
para a época em que vivemos, ou é necessário dis- petência. Pode vir armada ou isarmada. Mas Censura é pelo seu aspecto humorístico/ absurdo.
cuti-los e modilicálos" será sempre uma inutilidade. Não deixa de ser engraçado que você - como
Abaixo, o que as pessoas têm a dizer sobre o contribuinte - pague funcionários com a fi-
JOSÉ CARLOS DE CASTRO nalidade de estabelecerem o que você pode ler,
assunto: (bancário) ver, ouvir. Naturalmente o censor, depois do seu
BRUNA LOMBARDI - Eu estou mais preocupado é com meu curso de eapacitaçãcs, tem mais condições do que
(atriz e poeta) salário no fim do mês. você, que não fez o referido curso, de saber por
- Qualquer noção de moral e bons costumes que II Foto de um seio exposto é artística, de
incluída num código já é altamente suspeita. Que JOS1 CARLOS AVELLAR dois seios expostos é im*al 2) Playboy em inglês
autoridade, tem alguém para enquaar cs a na- Icrític p de cinema) ofende a moral e os bons costumes, em.aje5o
tureza? * não (será o idioma alemão menos imoral ou
AZIZ AB'SABER - O problema riSo se prende a uma deter. menos subversivo?). São dois exemplos. Esco-
(professor da Universidade de São Paulo) minada lei de censura. Ë o próprio conceito de lham outros e divirtam-se.
Censura que não faz sentido. Não há como im,
- Atentatório à 'moral e aos bons costumes é Pedir a livre circulação de informações numa SÕN[A COUTINHO
permitir que Manaus seja zona franca para venda sociedade sem entrar em conflito com o natural (escritora)
de quinquilharias, e proibir lá ou em qualquer interesse tias pessoas, Discutir a maior ou menor
outro local do território nacional a realização do adequação de determinados critérios de censura é - Precisam, é claro, ser urgentemente dis-
5? Simpósio Internacional 'da Associação de cair numa armadilha: é admitir algum sentido cutido e modificados para não se cair no ridículo,
Bilogia Tropical, porque as conclusões científicas numa atividade especialmente contrária ao bom como tem acontecido. Há um abismo entre os
sobre as condições naturais da Amazônia po- senso. O que vale discutir é porque um instru- critérios da censura e a realidade brasileira, mes-
deriam modificar os planos do governo de ex- mento tão retrógrado continua presente no corpo mo se levando em contas diferenças regionais
ploração duque[ território, de um Estado que se pretende democrático (ainda do país, em termos de costumes. Isto, para não
que relativamente) e onde o direito comum falar no choque que a gente leva quando sai
CICIL DE OLIVEIRA oferece aos indivíduos os meios de organizar suas daqui. Estou pensando particularmente numa
(operário da construção civil) vidas e de defender os seus padrões de moral. visita que fiz aos Estados Unidos em 1976, a San
FRANCO MONTORO Francisco da Califórnia, à Universidade de Ber-
(senador) JOÃO CARLOS RODRIGUES
- Um dos aspectos mais importantes das - nosso dormitório está cheio de goteiras. keley, onde tive a oportunidade de entrarem con-
Anteontem, choveu o dia inteiro, e a gente (critico de cinema) tato com professores e alunos. Prernciar um livre
transformações sociais do mundo moderno é a - Critérios de 1946 não podem mais ser
' teve que dormir nas camas molhadas. debate de idéias como existe já deixa a gente es-
crise de valores. Aplicar cegamente critérios do válidos em 1979. Depois disso já surgiram Brigitte
passado a problemas do presente é fechar os olhos Ceará, um colega nosso, pegou uma pneumonia. pantada, quase assustada, se sentindo lamen-
Isso eu acho imoral. Mas ninguém se importa. Bardor, Passolini, Maria Beth&nia, Rogéria, Ney tavelmente caipira. Não adianta tentar tra'ns!or- .
À realidade e perder o irem da história. Matogrosso e as Emanueiles da vida. Devem p or- mar isto aqui numa ilha, porque em torno existe o
ELICE MUNE11ATO tanto ser atualiiadàs, se isto quer dizer libera- mundo atual.
(jornalista) lizados. Além do mais, o controle deve ser des-
centralizado. A moral da ilha de Marajó no é a MARIA DO CÉU VIEIRA
- Não me surpreende que o código de "moral mesma da Ilha do Governador e muito menos a (dona-de-casa)
e bons costumes" vigente ainda seja o de 1946. mesma da Ilha do Guarujá. Éisso aí.
Afinal, o Código Civil vem sendo remendado des- - Tem gente que nasceu pra vítima. Os
de 1916 (e o novo anteprojeto está cheio de bar- ANTÓNIO CARLOS DE SOUZA homossexuais são assim: culpam eles por tudo.
haridades). E a CLT, que é do tempo do Estado (comerciário) Agora eu nunca soube que um homossexual
Novo? bom lembrar ainda que nossas leis cos- matasse alguém, praticasse um crime grave; eles é

1 1 tumam ser modificadas apenas quando interessa


a determinado grupo de poder. Es: o trabalho
noturno das mulheres, antes proibido, agora
- Moral e bons costumes? Manda este pes-
soal freqüentar a sauna da ACMI
MACKSEN LUIZ
que são mortos e roubados. Assim, se é pra dis-
cutir o assunto vamos discutir isso: por que a
sociedade não considerava imoral, um atentado
liberado, interessa a quem? E será que adianta aos bons costumes, essa história de aproveitar os
-4 reformular o código de 1946 pra censura saber (crítico de teatro) preconceitos existentes contra os homossexuais
censurar melhor? Ou não está na hora da gente para melhor explorá-los? Uma noite eu ia saindo
começar a discutir que a única "censura" pos- com meu marido do cinema Palácio, na Cinelân-
sivelmente válida seria aquela que recomenda - Não há censura que esconda a realidade.
No teatro, apesar dos longos anos de feroz inves- dia, e si um rapaz ser levado para um carro da
FERNANDA MONTENEGRO determinados espetáculos, publicações 'etc., para tidas contra qualquer resquício de realidade nos polícia debaixo de pancada. Meu marido ficou
(atriz) esta ou aquela faixa de idade? Palcos, a vida continua pulsando. Até mesmo revoltado e perguntou ao policial: "Ei, por que

ROBERTO MOURA
quLndo artifícios de violência são usados contra você está fazendo isso?" A resposta: "porque ele é
- Se o próprio diretor da Divisão de Censura bicha". Isso não imoral?
(crítico de música) as manifestações da vida, o teatro sobrevive.
da Policia Federal conclui que manter esse código Patédca (ou Sangra Picadeira) foi confiscada, e
de 1946 é uma "constante batalha contra a GILBERTO MONTEIRO
- O ideal é não haver censura, nenhuma es- mesmo depois de homologada continua proibida.
realidade", o que nos resta? Perguntar a quem Mas ainda assim, o espisódio Wladimir Herzog
(comerciante)
Interessa o crime, Às instituições? Moral e bons pécie de censura. Este, porém, soa como um es- - O que vocês querem de verdade é saber se
tágio utópico dentro de um sistema imperfeito não conseguiu ser abafado. Um juiz consciente
costumes, no fundo, variam e se modificam como reabriu o caso. A realidade pulsa, o teatro a está há alguma justiça nessa perseguição ao jornal de
saia e decote de mulher, de acordo com os in- como o nosso. Fala-se agora na regionalização vocês, não é? Eu acho que não, e por uma razão
resgistrando. Isto não é um desejo, é a História,
teresses criados, são levantados ou abaixados, dos critérios, o que teoricamente me parece bem simples: a perseguição põe a nu uma coisa
arregaçados ou arrebentados. Muitas vezes es- aceitável mas na prática pode causar uma avalan- ARNALDO JABOR que sempre existiu, só que em estado latente: a
traçalhados. Ou simplesmente arrancados. As che burocrático-administrativa mais deplorável (cineasta) discriminação contra os homossexuais. Só essa
instituições então ai pra garantir, não estio? que o que já se vê por ai. No fundo, no fundo, as - As mudanças econômicas e políticas do discriminação já justifica a existência de um jor-
discussões desse ti p o sempre rue deixam cons- Pais, a industrialização,: provocaram mudancas nal como LAMPIÃO.
LAMPIÃO da Esquina Pégina 7

* li Centro de Documentação
APPAD it
da parada da tlisvri (Ia dr'
Prof. Dr. Luiz Mott GRUPODIGNIDADE
nÁá
[REPORTAGEM]

Copacabana, a enganadora
Uma entrevista com Iodo Antônio
Durante o mês de janeiro que passou, e neste deixando a minha pele e pagando para ver.
fevereiro, milhares de pessoas estarão desembar- Quando vejo, o trabalho sobre Copa está se tor-
cando no Rio em busca do tesouro que, segundo nando muito pessoal, passional mesmo.
as coloridas e anuais reportagens da revista Mais-
ebste, a cidade tem a oferecer: muito sol, muita LAMPIÃO - Mas em seu livro aio há ne-
beleza natural e muito calor humano (quanto a
nhuma declaração de amor ao bairro...
este último Item, entenda-se: calor humano, a
julgar pelas reportagens de Manchete, é uma João Antônio - Claro que não. Eu falava de
coisa somente proprocionável por moças que um bairro sendo ocupado pelos múltiplos espi-
usem tangas e que estejam, de preferência, de gões, por esta coisa indecente em que transfor-
costas). A maioria destes turistas, evidentemente, maram a praia, que é o resultado de um aterro.
vai parar em Copacabana. A eles, recomenda- Há uma Copacabana que vai decaindo, vai per-
To: em vez dos guias turísticos habituais, leiam dendo todas as características do lugar mara-
O Copacabana, o livro de João Antônio que a vilhoso que já foi, vitima de toda sorte de espe-
Editora Civilização Brasileira acaba de lançar: culação. Mas embora eu veja isso e outras pessoas
neste universo de falsas impressões que é o turis- que aqui estão enfiadas também vejam, o fato é
mo, ele é o verdadeiro caminho através do qual se que Copacabana é um mito. No entanto, eu en-
pode descobrir a verdadeira Copa, fascinante xergo nesse mito, que é urna atração nacional e
sim, mas também "injuriada, mal lambida, internacional, uma velhice precoce. Eu vejo
prejudicada, velha antes do tempo, achincalhada Copacabana velha antes do tempo, usada, mal-
até pelos cachorros, marafona lanada
tratada, vilipendiada, aviltada, especulada
João Antônio, ele mesmo morador do bairro e violentamente. Uma falsa classe média mora em
frequentador dos seus buracos, traça uma geral Copacabana, você abre os jornais de domingo e vê
do bairro que vai desde o Leme, das senhoras iodo mundo sublocando, aluga-se e subaluga-se
matriculadas em matinais cursos de ginástica na de tudo: desde perucas a telefones, só falta alugar
a mulher e o cachorro. Ê uma mistura de Hong-
praia, até esse "pasto de energúmenos" que é ai
Galeria Alsski: um roteiro turístico que a Pre- Kong com Chicago, um amontoado de pingentes
humanos.
feitura jamais endossarla, e que é ilustrado pelas
lotos excelentes de Carlos Jurandir e Ubirajara
LAMPIÃO —: Voes acha, eutio, que está
Detmar.
arsateceado uma Iremeada ed.nigesn nem a ia-
Aos leitores do LAMPIÃO - e not sabemos figa Prineesinha do Mar,..
que vindos de todos os Estados, eles invadem o que eu não esperava, determinada mente, escrever
Rio nesta época -. João António, nessa entrevis- melhor, daquilo que é hoje chamado milagre
um livro sobre Copacabana. Não esperava de for- brasileiro. Como é que o homem do povo está
ta, dá uma palinha sobre a antiga Prlaaissl.ha do ma nenhuma. A coisa começou com um material bá. Aatânlo - Esta acontecendo e já acon-
Mas. vendo isso, o que está havendo atrás deste mi- teceu. A Princesinha do Mar dançou há mais de
que tenho sobre a Bahia, um material grande, lagre, se é que ele existe (pelo que estamos vendo, 14 anos. E quem vive nela está profundamente
LAMPIÃO — Como iwglu a Idála de voei, mais de 40 laudas, que seria publicado pela revis- milagre não existe, e sim, um pais que marcha envolvido pela sua decadência que, afinal, reflete
tido e havido ne 'assado esamarMáIIs paulis- ta Repórter-3. AI a revista acabou (aliás, não há para o ano 2000 correndo o sério risco de possuir a própria decadência carioca, uma cidade in-
ta, sntreut*r a sahacopacabaacnse? nada para acabar com tanta rapidez neste pais do toda a tecnologia do mundo e um povo feio, anal- teiramente despreparada diante da superpopu.
que revista que se detém sobre realidades bra- (abeto, desdentado, doente, faminto).
laçio. Assim, o meu texto reflete esse envolvi-
sileiras. Sem dúvida, é um sinal dos tempos). Aí Assim, acabei percebendo que teria que
João Antônio - Primeiro tem que vivo, moro, manto de quem está aqui, sofrendo as coisas por
eu peguei o material e mostrei a Ênio Silveira, começar este painel por alguma região anterior £
ema escondo em Copacabana pelo menos nos út- dentro. E as lotos que acompanham o livro mos-
Então, ele me sugeriu a idéia de fizer um painel Bahia. Quando comecei a trabalhar, parti do Rio, tram com crueza, pela imagem, o que eu retrate
timos onze anos. Depois, marglnMia por mar- brasileiro, uma tentativa de localizar, em várias de Copacabana, uma realidade mais próxima do
ginália. a essência é a mesma. Mas vamos dizer pela palavra: a ilusão perdida que é Copa, c
cidades, o lado de lá do milagre brasileiro, ou alcance de minhas mãos. Afinal, é aqui que estou sonho caldo e a baleia.

Um escritor fala do seu bairro.


Com amor e ódio
A PRA IA
4 (.41L Ri. l

O guarda-vidas, atento, de pé, braços crs-


rados, lindo como o sol, percebe alguém em (,aieria A la.,&a não ,'Ie,ta s) de homossexuuL
dii
fculdade lá depois ia arrebesuação. A esta al- masculinos e femininos. mas de seres híbridos.
tura, já Lá um movimento de interesse e certa Não .sro de gente marrom de sol e suar no verão,
tensão na praia. Guarda-vidgsjá está portanto, misturando-se a marginais e mistérios, ali bem
sendo observado. Então, sai a campo: ou melhor, defronte à 13 Delegacia, numa dessas ironias
à água. Não parte nadando imediatamente, mas dos contrastes de Copa. Há trabalhadores na
correndo e nunca em linha reta, que émaisfácile galena e gente de vida brasa, que chega de outros
rápido ganhar as éguas em diagonal. Ele não leva centros da cidade para defender o seu, ali. Bar-
uma bóia, sem nada. Vai salvar alguém com as beiros, manicuras, balconistas, comerciários. O
mãos e só mergulha já próximo do freguês. diabo é que a galeria está incrustado dentro de
Podendo, quando em quando, ele volta a olhar Copa e não é um templário do família. O que é
para as areias e sente o sucesso do seis papel. família em Copa' Dizem os sambudos e qui.
Todo inundo de pé, fora das barracas e das qulriquis: um reduto de perdidos da noite. Nada.
toalhas, acompanhando o salvamento. Então, O bairro mistura um tudo e leva fama pelo que
claro, ele se empolga e acontece como ninguém. aparece mais. Esó.
Nada de braçadas até chegar mi quase afogado.
Que é retirado das éguas até a praia com imensa .4 NOITE
lentidão e cuidados. O que o pessoal está espiga-
do.
Noite em Copa nunca é uma criança. Não se
rente, nem de leve, nem de longe, comprar um
maço de cigarros depois dos duas da manhã. Es-
A PRAÇA
sas especiarias só são encontradiças na Galeria
.11aska ou no território democrático da Avenida
Prado Júnior, no que resta de botequins para os
Ninguém proteste quanto mis ratos da Ser.
cantos do que já foi o Beco da Fome . Que não
zedelo. Todos os s'êem, mas não são vistos pela
haja ilusão. Para um lado ou para outro do ca-
limpeza pública que, literalmente, não se interes-
mi nho, um assalto é quase certo. Assim, é melhor
sa por ratos. De mais a mais, se na Praça dos
carregar dinheiro, ainda que pouco. Os assaltan-
Paraíbas os roedores mostram um espetáculo de
tes escorregados da noite ou das favelas, em tem-
dança noturna, lá no Mélr é diferente. As ra-
po: Copacabana tem cinco, e todos mal-
tazanas matam crianças. Ratos não significam
encaradas. Pois, saídos dos bueiros cii caídos do
nada diante das boi-atos do nosso bairro. De todos
os tipos, tamanhos. alersi das cores variadas. Os céu, cara de fome e zangados, os da pesada
podem se enfurecer mi não encontrarem grosa
ratos são minoria. Nem são exclusividade da
prontamente. Então. a esparrela, a multa, a es-
Praça dos Paraíbas. Na praça do Lido, o movi-
frega, o chalau, a ripada, a correção, o chá
mento é bem maior e os adolescentes daqueles
lados, em vez de se sentirem ameaçados pelos podem ser dobrados e o cacete no lombo da ví-
tima infeliz cantará. Enfrentar assaltantes a
raros, resolveram driblar o abandono que a hi- dinheiro é melhor do que a seco.
giene pública impõe à praça. Assim, nas noites, -.--
-
armados de suas inocentes espingardas de ar (Trechos selecionados de Ô Copacabuna. As
comprimido e muito espírito de humor, criaram finos de U. Deima.r também foram retiradas do
gm nova lqlo. O tiro mi rato. livro
Pg1na & LAMPIÃO cl. Eãqulna

Centro de Documentação
A PPAD 3
i
da parada da dit'r,uladc
Prof. Dr. Luiz Mott GRUPODIGNIDADE

REPORTAGEM

Mas Copa ainda tem seus cantores


Fotos de Dimitri Ribeiro

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- \( .:':•

Mi

Copacabana esta além do bem e do mal. Nem Éa meca brasileira do amor, da liberdade, da
a chuva consegue estragar seu verão. Ao con- alegria. Nela se vive anonimamente, harulhen-
•. trário, nunca a vi mais cheia, mais esalêndida, tamente, acotovelantemente.
com sua população jovem e ezihicionis, do que
durante alguns dias de janeiro, quando uma que somos muitos, somos milhares existindo
chuva continua transformou a Avenida Atlântica
num cenário surreal e as areias molhadas da praia com urgencia e ezaltaçio numa faixa de terra es.
no livre campo de pouso e exercício para os mais premida entre as montanhas e o mar. Somos
corajosos. E o que dizer entio dos audazes ra- milhões: donas-de-casa, aposentados, cachorros,
pares do surf caiu suas pranchas maravilhosas, gatos, travestis, comerciantes, pivetes, hincio.
que se aventuravam ondas afora, como se estives. nárjos de hotéis de luxo, esmoleiros, ricos e
sem dançando, e que surgiam como deuses das pobres g disseram que se descéssemos todos de
águas e iam se sentar (sob a chuva) nos bares do uma vez de nossas casas, as ruas não poderia
calçadão, para fascínio doa turistas que espiavam receber tanta gente; que se as whulaçes reben-
de dentro dos ônibus?
tassem seríamos afogados num mar de fezes.
Um verão maluco esse, sem sol e calor, que Mas somos os sábios do caos. Empilhados nos
conseguiu extinguir toda a itividade de Ipanema nossos edifícios olhamos da janela a confusão do
' . e Leblon, mas não a de Copacabana, Em Copa, a trânsito; vamos ao sanitário em ordem para rio
vida nunca se extingue. £ como uma chama os esgotos.
votiva em homenagem à vitalidade, à cordiah-
dade e ao prazer. Enqaunto os outros bairros A decad5ncia em Copa ética. As fases da vida
cariocas dormem e ressonam. Copacabana se es- se sucedem harmoniosamente, fio há melancolia
• preguiça e ronrona. Ipanema vive em função do suspensa, na constante surpresa da beleza do ser
- Sol; se chove, perde o charme, à noite é uma vila humano que se renova a cada esquina. Quanto
interiorana com alguns pontos de animação, ar- esforço se fez para transferir essa espécie de en-
_______________________________ tificiais e grã-finos. Copacabana é do povo, nunca trevisio da imortalidade para outros bairros. In-
descansa. Com Sol ou Lua, com chuva ou tempo ventaram a Garota de Ipanema (que, aliás, era de
bom, ela está sempre viva, febricitante, se dando. copacabana), a gerado pier, a banda de
Se a desfiguram, renasce mais vigorosa e bonita. Ipanema, os inocentes do L,eboin e a nova toémia
do Baixo Lehlon. Frágeis quimeras. Quando os
- trâsfugas voltam dessas aventuras, Copacabana.
eterna, os recebe de braços abertos no banho
quente da vida e embala-os ao som furioso dos
motores dos carros e dos -apitos dos guardas, a
música do bairro. Ao fundo, o tique-taque
É con-
le— - tínuo da passagem do tempo. verão, janeiro.

z:::ch verão, Pouca


eiro ac cocô e
ainda se poderá sentir o perfume da maresia.
Foi esse o clima que o fotógrafo Dimitri
R i be iro quis cap tar nas fotos a que esta nota serve

À energia, a intimidade tatuada de um apartamento


conjugado, a eternidade de Copa.
2 ' ' Francisco Bittencourt

ÀS

I
- -

-.

LAMPIÃO da Esquina Pâg!na9

APPAD
i GRUPODIGNIDADE
da parada da diversidade
REPORTAGEM]
Atenção, guem do Brasil: '•t; , •

o Rio não é niais aquele


. __1
-
3

Os moradores mala antigos do Rio de Janeiro


ainda se lembram, certamente saudosos, da
época do "é sol, é sal, é sul", há 15 anos atrás,
quando o verbo carioca, essa mágica estação com
motivo do crime: um arranhão no carro de sua es-
posa que, segundo ele, teria sido feito proposital-
mente pelo filho do advogado. Mais ao sul da
cidade, na bem nascida Ipanema, o comerciário I-4à' fi
i:1_
que sonhavam todos os brasileiro., era anual- Geraldo Cesárlo Costa matou a golpe* de faca e
mente anunciado pelas reportagens coloridas que chave de fenda seus dois filhos, de sete e quatro
Manchete publicava Já no mês de novembro, nu anos, e depoia, com uma faca cravada no peIto,
quais apareciam ai garota, de Ipanema em gravou uma prolongada confissão. O motivo do
generoso. biquinis. Entoo, iouv.vaa, o Jeito crime: a mulher o ameaçava com um pedido de
carioca de viver, a descontraçio e a alegria da desquite. Na vizinha cidade de Petrópoila, uma
cidade, a malandragem dos meus moradores; e tragédia em que todos ow envolvidos eram ca-
tudo cantado com tamanha ênfase que foi preciso riocas: o módico David Geremberg invadiu a ema
criar, para isso, um ritmo ideal: a boas nova. Eu de sua ex-amante, Sônfa Maria Siqueira, matan-
nio posso inc queixar porque, ao chegar ao Rio do-a e à pua filha, Ana Cláudia, de dez anos, e
em 1964, alcancei o fim dessa época; daquele ferindo o pai da mulher, Otaeíilo Siquelra. Uma
tempo ainda guardo lembranças, algumas lu. outra filha de Sônia e sua empregada conse-
sõlitai mas todas amena, e inesquecsvel., come guiram escapar porque se trancaram num quarto.
um passeio de bonde da Tljuca à Praça da Ban tão faladami varandas, são as varandas de uma iii- um assalto "nunca 'isso nada".
O motivo do crime: uma vaga auspelta de que a
delra, num mês de Julho multo frio, com uma mulher o traía. fluildade de vizinhos. É claro que o verão carioca aluda possui,
breve parada à porta de uma casa de chá, para Parece que a descontração do carioca, que sobre o espírito das pessoas bem 1 nascidas,
que o motorneiro e o. passageiro. - aos quais o O que aconteceu com a antiga capital de sua malandragem era, na verdade, um tipo Inegáveis virtudes terapêuticas. Para estes, a
primeiro convidara - pudessam tomar "um Brasil? O que houve com aquela gente sim- muito especial de Ingenuidade, de deficiência amena estação, mesmo que sob amenças, ainda
chocolate quente". pática, descontraída, que deu o mole para tanto. mental. 5e não, como explicar que ele se deixe se renova a cada ano, e tem características es-
A revista Manchete ainda pública, no mis de sambas' Hoje, num sinal da-Avenida Rio Branco, enganar tio facilmente pelas inzobfflárlaa da vida pedal., que incluem mergulhos na pIscina do
novembro, a mesma reportagem sobre, ai garotas às cinco hora, da tarde, e desde que haja sol, é que Use impingem, a preço de assalto, esse tipo Hotel Mérbilen, por exempio Mas para isso é
de Ipsuema. E Paria Slgaud, a exótica colunista possível encontrar o carioca típlcoa diante do de varandas para o mar"?Càmo ãniditar que preciso que ele@ não cheguem peito da amurada

pelo
do Globo, ainda repete, a cada co~ de dezem- sinal vermelho, ele - literalmente - rosna de aquele ser especlalhaimo cantado por tantos sam- que separa a pérgola do hotel do resto da.ddsde;
bro. com tocante penitência, que "no verio impaclêncl,g, geralmente não resiste e se lança por bas se deixasse levar de modo tio sistematico,. é preciso que eles não vmn para a monumental

Pele
carioca tudo é diferente, o tempo se reflete no in- entre os carros numa correria louca, alugando os ponto de permitir que sua cidade fosse voraz- Ma de b,ã— que brigam direito de entrar
terior das pessoas". Mas já sino é Isso o que anun- motorista, qust não diminuem a velocidade para mente devorada pelas piranha, do boom imo- num ônibus, à altura do Leme, á necessário que
cia o Inicio da grande temporada no Rio. deixá-lo passai' e, ao mesmo *esao, ouvindo biliário? (Beiremos o absurdo: como acreditar eles continuem a construir, ~valiosamente,
contrário, nos ultimo, três ano., quando a tem- alugamento.; •mpre multo apressado, ele não que o mais opo.ionlsta de todo, os povos sua cidade encastelada em sonho., e que dispensa
peratura começa a subir, e as encostas passam a tem, no en*lØo, aquela pressa de ganhar di- brasileiro@ acabasse por dar, a cada eleição, aexla*énclade pelo meno,99 da população —
sofrer incêndios que os bombeiros invanlavelmen- nheiro do paulista que - pelo menos',,nunkl maioria ao mais situaclonlsta de todos oe partidos 9S$ % , se lembrarmos que essas pessoas não
te declaram ser causados por "combustão espon- sociedade capitalista como anima - não chega a - o de Chagas Fecham? i, podem dlspeuaar a presença dos criadas. Paras,-
lnea", o mesmo tipo de acontecimento vem mar- ser uma coisa doentia; o carioca, hoje, está sem- Hyram de Afiem, quiroiksnclata, adivinho, e te. bem nascidos, os aladulos, as moradas do
cando o início da antigamente mágica estaçio pre correndo para lugar nenhum, através de certamente não carioca, disse numa de tuas céu, as icafklanas e desoladas ruas de arranha-
carioca: é sempre uma violenta, Inusitada oco- elevados, túneis ou auto-estradas que o conduzem profecias que uma espécie de maldição pesava céus da Barra são sinais de progresso ou, pelo
rrêncl. policial. Foi assim em 1975, quando os sempre a inevitáveis engarrafamentos. sobre o Rio. A Cauandra que a lançou e s susten- menos, do dinheiro que fatalmente cairá em seus
crimes de Barra - supostamente praticados por Mas, dirão o que não vl,itam a cidade há al- ta pode ser vista por todos, basta ir até o Leblon: bolsos.
Maria de Lourdes Leite de Oliveira, a Lou. e seu guns suo., ele sempre tem o conforto da paisa- ela esta diante de um edifício à beira-mar no qual Quanto ao povo carioca e seu tão decantado
noivo, Vanderiei Qulnlio - deixaram a cidade gem. Pois cite. Estes visitantes que experimentem existe - dizem - o apartamento mais caro do comportamento, terminemos com uma história,
traumatizada, foi também assim em 1976, quan- ir pelas pistas de alta velocidade do Aterro rumo a mundo (Cr$ 30 milhões; por coincidência, per- vista num dia qualquer de setembro, em plena
do lodo o movimento do veria girou em torno da Copacabana; onde estio aqueles morros que cir- tence ao Prefeito Marcos Tamo yo): trata-se de Avenida Nossa Senhora de Copacabsna: sobre a
morte violenta de Angela Diniz, a pantera de cundavam Botalogo, em cujas faldas tanto; uma estátua de mulher, sentada sobre um pedes- lama de um canteiro de obras, dois homens ir
Buril).; e a mesma coisa aconteceu cm 1977, casarões se n1nhavam? Já não se pode 5ê-loa; tal, qtie faz, para os passastes, um clássico gesto: atracam e, armadoR de paus e pedras, tentam
quando a morte de ClaudiaLenin e suas con- edifícios de vinte e mais andares coa* onaruido. a braço direito dobrado à altura do cotovelo (no nab or uni ao outro. Carro, param, paasage1ro
âeqilenclai preencheram todas ai conversas da es- revelia do gabarito oficial, em plena .praii qual repousa firmemente a mio esquerda), punho descem de ônibus, pedestres Interrompem a
tação. primeiro, e depois nas ruas adjacentes, acabaram fechado e ligeiramente Impulsionado para a fren- caminhada e, em poucos minutos, debruçada
Em 1978, no entanto alguma coisa se mo- por escondi-tos. Perto da entrada do Túnel Novo, te, ela endereça aos que passam na rua o que vul- sobre vi cerca que rodela o canteiro, a multidão
dificou. E todas as leses destinadas a provar a uma profusão de edifícios espetados na encosta, garmente se chama uma banana. está formada. A briga se arrasta, os dois conten-
sutil mudança ocorrida na Cidade Maravilhosa - um verdadeiro bairro Ironicamente chamado de
tores já cansados. Ninguém sabe o que a motivou,
ela seria hoje uma das mais violentas do mundo, Morada do Sol, conseguem esconder até mesmo Sim. é uma maldição o que faz 44'n dos
Isso Já não interessa. A multidão não estai exa•
com uma qualidade de vida à beira do Insupor- - dependendo do local de onde se olha - o automóveis da cidade estacionarem nas ruas ou
tamente entusiasmada - eis apenas presencia,
lavei - subitamente ganharam força pois a Inevitável Pio de Açúcar. E não é preciso falar sobre as calçadas; é também uma maldição que
apática, o acontecimento. De repente, alguém
violência foi desencadeada antes mesmo que sobre a definitivamente perdida Copscabsna, leva autoridades como o Ministro Blerrembach,
grita, "joga água neles que eles se separam". E a
chega~ o veria. Na verdade, os frios e insisten- nem sobre a ameaçada [panema, nem mesmo do Superior Tribunal Militar, a denunciar "uma
deixa para o funcionário de um botequim
tes ventos de agosto ainda sopravam, e Já o no- sobre os estertores do [eblon. Que se atravesse minoria depravada" existente dentro da polícia
próximo que, encarapltado sobre o balcão de
iIclírIo policial mostrava uma exacerbação que todos esses bairros da antigamente dourada orla carioca: os torturadores que cegam e aietJam pes- cafàrinho, acom panhava tudo. Ele coche um
chegava a índice, até então nunca alcançados: no marítima e se chegue á Barra da Tijuca, onde soas, algumas apenas sob suspeita (a mesma
panelio de água, sai do botequim, aproxima-se
conservador bairro da Tijuca, único reduto fileiras de edifícios vão sendo metodicamente maldição leva o Secretário de Segurança, Ge- doe uWnderta e deuieja tudo de mui vez sobre
arenisla da cidade, o médico legista Antônio construídos, uma após a outra, formando uma neral linum Negreiros, a repetir monocordica-
eles; o@ dota se separam soltando urro, de dor; aos
Olavo matou seu vizinho, o decorador Márcio da autêntica barreira entre o mar e o morro lá atrás. mente que os índica de crimInalidade baixam a
gritos, corre cada um para o seu lado: a água es-
Silva; o motivo cio crime: um- vaga na garagem Ali, o que se vende aos Incautos moradores é liso: cada mês), essa: maldição leva também uma bor-
tava fervendo. A multidão, ao dei-cobrir isso,
do prédio em que os dois moravam Do outro lado a montanha e o mar. Por causa disso os apar- da de ratos de praia a descer diariamente do.
aplaude entusiástica o rapaz do botequim;
da cidade, em Copacabana, o Juiz Jacy Nunca de tamentos chegam à casa dos três bilhões de morros - o verão é, para esses ralos, a tem-
modesto, ele agradece, e retorna ao seu posto. Os
Mirando, 65 anos, descarregou o revólver no seu cruzeirsa com uma facilidade Incompreensível posada de caça - em dos dólares de de.- brigões sumiram. A multidão se dispersou. Rio.
vizinho, o advogado Luis Mendes de Morais Neto, para quem leva a sério essas coisas de renda per contraídos turistas que - ainda - repousam ao
1979: esta sim, é uma típica cena carioca.
67 anos, matando-o e ferindo sua Ilha, CecJla; o capita e PNB; mas na verdade o que se Ti, dai aol, e que, uma vez roubados, descobrem, com
(Erre texto foi angina/mente escrito para a
surda revolta, a capacidade que os cariocas pos-
revista Singular e Plaral).
suem, nessas ocasiões, de se tranformarem em
verdadeiras estátuas de pedra: ai testemunhas de Aguinaldo Silva

Histórias de Amor
Um time completo de marginais

Darcy Penteado, João Silvério Trevisan, Gasparino Damata


e Aguinaldo Silva abordam, juntos, um tema delicado: o amor
Queda de Braço
entre pessoas do mesmo sexo. Aguardem, em maio, o pri-
meiro lançamento da Uma antologia de contistas mal
comportados, danados, iam-
piônicos, satânicos, bêbados,
travessos e nem um pouco
deslumbrados, organizada por
Glaucco Matoso e Nuto Maciel.
Esquina Editora
Com o selo de LAMPIÃO Pedidos pelo Reembolso Postal à
Esquina - Editora de Livros, Jornais e Revistas Ltda.
Caixa Postal 41031, Rio de Janeiro - RI

F*gJaa IIL LAMPJAO da Esquina

** Centro de Documentação
APPAD 1t c
da parada da divcridads'
Prof. Dr. Luiz Mott GRUPODIGNIDADE
ENSAIO
Reconquista do futuro
Este é o último de uma série de três ensaios de José A. Lutzembergpu-
blicados por LAMPIÃO. Eles foram selecionados do seu livro - Fim do
Futuro? (Manifesto Ecológico Brasileiro), publicado pela Editora Movimen-
to, em convênio com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trata-se
de um texto básico para todos os que ivêm na ecologia um novo modo de
viver

s]dade real (to mercado. mas porque ele fortalece de coisas e serviços desnecessários escraviza como minuirá nosso impacto ambiental, aumentará
e promove poder econômico. O sabão facilmente a droga. Só quem de fato abandonou o cigarro nossa qualidade de vicia e aumentarão as chances
se fabrica em pequenos empreendimentos e com sabe como é bom não depender do fumo. A ver- para nossos filhos.
capitais modestos, mas a fabricação do detergen- dadeira riqueza não é proporcional à massa de Masé certo que não devemos ir aoextremo de
te começa no polo petroquímicoe exige tecnologia coisas que aceleramos em seu caminho do super- condenar toda tecnologia complexa e centrali-
sofisticada e concentrada que não está ao alcance mercado ao depósito de liso. A riqueza também zada. como é o caso entre certos jovens e ideó-
do pequeno. A correspondente magnitude do aumenta na proporção em que diminuem as logos da contracultura. Devemos aprender a dis-
capital em questão permite a enxurrada publi- necessidades. Sobra-nos mais tempo e mais tinguir o que hoje se tornou quase indistingiível.
citária, acompanhada de manipulações de dinheiro para atividades realmente humanas, Ciência e Tecnologia são coisas distintas. Con-
preços.. que aplastam a pequena fábrica de sabão. para a contemplação, o contato com a Natureza. denar tecnologias absurdas, ecologicamente per-
O supomercadojá quase acabou como armazém a música, a literatura e as artes plásticas, para a niciosas, escravjzantes ou alienantes, não deve im-
e se prepara para liqüidar o pequeno comércio, O ampliação de nosso horizonte científico, para os plicar à condenação de toda tecnologia' e da
agricultor se transforma cada vez mais em apên- esportes, os contatos sociais e o relacionamento própria Ciência. Ciência é disciplina, honestidão
dice da indústria de maquinárias e agroquímica. humano, para amizades profundas, para a fa- total, pensamento claro, aceitação de novos
A continuarem estas tendências, todo agricultor mília, para a vida, enfim.
p aradiizmas em substituição a paradigmas su-
acabará como aqueles av'iarjstas que são prati- Quando uma proporção significativa da perados, é autocorreção constante e sem perdão.
camente empregados da grande empresa que lhes População mudar de estilo de vida, o poder A Ciência deve voltar a ser o que era para os an-
O ecólogo é muitas vezes criticado por con- fornece o capital para as instalações, os pintos e económico terá que mudar também de atitudes e tigos Gregos - percepção de harmonias, gozo es-
siderar-se qie ele é contra um mundo tecnoló- ração. os remédios. e que recebe os frangos ou os métodos. Quando começarmos a compreender o tético, deleite espiritual, exercício intelectual,
gico. Ecologia, entretanto, apenas abre os olhos ovos, ditando o preço e as condições de compra. logro da efemerização dos objetos, quando pas- Nesta visão saberemos distinguir entre diferentes
para a diferença entre tecnologia predatória e. O criador só fica com os riscos do mercado e das sarmos a não mais comprar alimentos adulte- tipos de tecnologia sofisticada ou gigante e ve-
portanto, insustentável a longo prazo, isto é, tec- enfermidades. Sua situação é algo pior que a de rados pela manipulação excessiva e toxificados remos que nem todax são condenáveis. Um es-
nologia nefasta, e tecnologia antientrópica, que um empregado, pois, tem que pagar sua própria pelos aditivos químicos ou contaminados pelos quema ferroviário. por exemplo, pode ser gigan-
não significa custos transferidos ás gerações previdência social, quando tem. resíduos dos venenos agrícolas, quando preferir- tesco e, no entanto, ele é preferível ao transporte
futuras. A insustentabilidade da megatecnologia Para as grandes empresas não mais se trata de mos o sabão ao detergente, a roupa simples e rodoviário individualizado, tanto pelo menor mi-
em suas formas atuais não mais necessita de- atender exigências reais do mercado. Elas tem e duradoura, adequada ao clima e às condições de pacto ambiental como pela vantagens social.
monstração, mas há outros aspectos, menos usam a força de fazer e manipular seu mercado. vida, às cnações da "última moda", quando Outras tecnologias extremamente complexas e
conhecidos, que devem estar na consciência Assim surgiram o marketlng e a obsolescência preferirmos os esportes sãos e simples aos espor- avançadas têm impacto ambiental mínimo e
pública. planejada. O que realmente interessa é a am- tes com aparelhagens complexas e gastos ele- podem contrihir significativamente para o
À medida que se desenvolve e se alastra a pliação e a concentração do poder econômico. Se vados, a atividade pessoal à assiténcia maciça e enobrecimento cio espírito humano. A eletrônica
megatecoologia. aumenta a concentração eco- nas sociedades escravagistas era necessário o massificadora no estádio gigante, quando nós moderna, com seus circuitos de alta integração,
nômica e burocrática. Além da burocracia hiper- chicote para que o escravo se submetesse, hoje a mesmos soubermos ocupar-nos inteligentemente cuja fabricação já constitui processo que met"-ce o
trofiada dos gwernos, temos hoje as burocracias, megatecnologia facilmente nos domina e ainda e com criatividade, em vez de consumirmos diver- qualificativo de quase hiol5gico, pois seus dis-
igualmente gigantescas, das multinacionais ou nos inculca a crença na inevitabilidade do proces- são, passivamente sentados diante do televisor, a positivos lógicos já são montados, crescem, per-
grandes empresas nacionais. Estas são entidades so. Progressivamente nos proletarizamos todos. indústria, Como por milagre, passará a oferecer mite-nos uma extensão cerebral antes nia1agi-
públicas à parte. Elas não devem lealdade a um As profissões liberais e os pequenos empresários. nova gama de produtos e serviços. Basta ver a in- náveL. Entretanto, dentro do esquema mental
povo, nem se restringem. em geral, a um deter- comerciantes, agricultores ou criadores desa- crível variedade e inventividade dos comércios e atualren te predominante. ésta maravilha con -
minado território, mas elas não são empresas parecerão pouco a pouco ou se tranforma em artesanatos da contracuLtura nos Estados Unidos. tribui. principalmente para -a transmissão de in-
privadas. Seus executivos pouco se distinguem braço obediente dos grandes. Cada vez se torna Sofrerão, é claro, as fábricas de automóveis, os formações fúteis e irrelevantes, quando não
dos burocratas governa mentais, pois eles não menor a proporção de médicos, advogados, en- pólos petroquímicas, as centrais .amicas, os diretan*ste perniciosas. No .campo da mani-
possuem a coisa que gerem. Eles não têm garn- genheiros, arquitetos, etc., que ainda conseguem supermerea405, mas surgirão infinidaae de opor- pulação eTc dados, poderá, se não nos cuidarmos,
tida sua permanência nos postos de mando, e séus viver como profissionais liberais. A regra é que tunidades.para pequenos e médios empreendi- significar tremendos perigos para a nossa liber-
filhos nada herdam do seu poder de decisão. Os sejam todos empregados. A medida que nos tor- mentos, para indivíduos cnat'rvose autônomos. dade pessoal.
empregados destas grandes empresas são fun- namos especialistas cada vez mais estreitos, nos Na mesma proporção em que abandonarmos a
cionários como são os funcionários públicos, tornamos também cada vez mais vulneráveis às megateciologia pelas tecnologias brandas, di- José Luizemberger
Os enfoques e os fins imediatos de cada uma das imposições dos que mais alto se encontram na
grandes empresas ou dos organismos governa- hierarquia, porque nada mais sabemos fazer além
mentais podem ser distintos e pode haver grande daquilo para que fomos treinados.
variação na eficiência das operações mas. fun-
4amentalmente, toda burocracia tem como algo
primordial, ao qual tudo o demais subordina, sua
É freqüente ouvir-se argumentos de econo-
mistas. especialmente quando estes se encontram
em altos postos de governo, que o pequeno
Sem essa de amor maldito!
própria perpetuação e ampliação, o que consegue agricultor alto-suficiente não mais se justifica Oscar Wilde estava certo no seu tempo. Mas as coisas mudaram, e
com tanto mais facilidade quanto maior ela for. porque não usa insumos, não movimenta infra.
Estabelece-se, assim. um círculo vicioso entre estrutura tecnológica, não faz PNH, que ele deve estes autores mostram por que. Leia-os e aprenda: o ex-amor mal-
sofisticação e concentração tecnológica por um ceder lugar à empresa agrícola que movimenta dito agora é uma boa.
lado e poder econômico de outro. A tecnologia maquinárta, adubos, pesticidas, crédito.
mais complexa e mais integrada, mais exigente de
Igualmente o artesão familiar deveria ser subs-
capital, exige maior concentração burocrática:
tituido pela fábrica. Em linguagem mais clara e Os Solteirões Cr$ 80,00
esta, por sua vez, exige e somente promove tec-
honesta isto quer dizer que deve diminuir, tender
nologias sofisticadas e concentr-adoras de poder
a zero, o número de indivíduos independentes, Gasparino Damata
econômico. donos de si mesmo, de gente que decide seu
I claro que, do ponto-de-vista do excutivo ou próprio destino!
do administrador público, is central nuclear é
Preferível a uni esquema descentralizado de cap-
Na pirâmide hierárquica do poder político e Crescilda e Espartanos Cr$ 65,00
econômico, que no fundo São um só, o indivíduo
tação de energia solar. A central nuclear é um oh- se torna simples rodinha numa gigantesca en-
teto de centenas de milhões ou de mais de um grenagem, Mesmo quando chega a executivo ou A Meta Cr$ 80,00
bilhão de dólares, ela se concentra num lugar, administrador público. Continua extremamente
suas linhas de alta tensão, qual tentáculos de um dependente e vulnerável, praticamente não tem
polvo, se estendem a grandes distâncias e sobre opções. Darcy Penteado
imensas áreas. Sua mercadoria, a eletricidade, Devemos fazer tudo e que for possível para in-
facilmente se administra e distribui em esquema
de monopólio, com eliminação total do jogo de
verter esta tendência. O caminho que a atual for-
ma de sociedade industrial nos está impondo não
Primeira Carta aos Andróginos Cr$ 65,00
mercado. Pouco importa que este monopólio seja é uma inevitabilidade técnica ou científica. Isto é
estatal, multinacional, ou pertença a um grupo
econômico local. O usuário está fisgado na ponta
o que se nos procura lazer crer, para que docil-
mente nos submetamos. A grande maioria, por
República dos Assassinos Cr$ 70,00
da linha, tem que aceitar todas as condições im- ignorância dos fatos ou por inércia intelectual,
postas, em nada participa destas decisões.
Por outro lado, uma proliferação de cataven-
acaba submetendo-se. Devemos todos analisar
friamente o esquema em que nos encontramos
O Crime Antes da Festa Cr$ 50,00
tos ou de dispositivos de captação de energia para capacitar-nos a não mais aceitar suas im- Aguinaldo Silva
solar, de pequenos gasômetros de metano que posições teóricas e esquivar-nos na prática. Só as-
usassem a matéria orginica localmente excedente sim começarão a funcionar os freios que poderão
ao mesmo tempo que produzissem fertilizante, levar à inversão. O futuro não está na megatec- Testamento de Jônatas Deixado a Davi Cr$ 65,00
descentralizaria decisões, técnicas e capital. Isto tsologia, está tia tecnologia intermediária, não es-
contraria as ambições do executivo e do adminis. tá no consumo desenfreado, está no uso frugal. João Silvério Trevisan
trador. Não admira, portanto, que durante os úl- com sentido, dos escassos recursos do Planeta, es-
timos vinte anos tenha sido insignificante a pes- tá na descentralização das decisões e da pro- Peça pelo Reembolso Postal à
quisa no campo da energia solar e de outras for- dução, na auto-suficiência, sempre que possível. Esquina - Editora de Livros, Jornais e Revistas Ltda.
mas alternativas de energia. Certamente este fato na diversidade de estilos de vida e de culturas.
não se deve somente à abundância e ao baixo Muitos, entre os que já compreenderam a Caixa Postal 41031
preço do petróleo. O próprio petróleo centraliza o necessidade da mudança de rumo, acham ainda Cep 20241
poder econômico e cria dependências. que nada pode fazer o indivíduo. Mas o indivíduo
L por isso que o detergente desloco o sabão, muito pode fazer e verificará, surpreso e encan-
Rio de Janeiro— RJ
não porque ele venha de encontro a uma neces- tado, come se liberta pessoalmente. O consumo
LAMPIAO da Esquina Página 11

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Centro de Documentação
APPAD ii e
da parada da davt'rvtstude
p.
Prof. Dr. Luiz Mott GRU PODICN IDADE

ÈÃ

Bixórdia
Gringas "pop" tio Carnaval
CARNAVAL CARIOCA - Batam na madeira. Toe, toe, toe. Elton
TENDÊNCIAS
John, o rock star, está ameaçando aparecer de novo por aqui. Dizem que
já preparou a malinha. Acontece que ele é um tremendo baixo astral. No úl-
timo carná, quando aconteceu vestido de marinheiro nos bailes da moda,
-odeado de latagões com a mesma ridícula fantasia, criou muitos problemas
para as bonecas nacionais, que de repente viam seus affaires sendo pra-
o livro
ticamente raptados para a corte do bicho (1).
"Brazil" no Gay Sunshine
Já é bem diferente o caso de Rod Stewart, outro astro pop, também
anunciado para as folias que se aproximam. Rod quase não faz charme de O último número do jornal norte-americano pretende lançar até março deste ano, e que reune
grande diva, suas companhias não precisam fingir que são guarda-costas e Gay Sunihlne, editado cm San Francisco. tem autores latino-americanos homossexuais, com
como assunto principal o Brasil, e conta com a predominância de brasileiros, devidamente se-
ele adora terminar a noite no rebuliço da Galeria Alaska. A turma da boate
participação ativíssima de vários lampiônicoa: lecionados por Leyland durante uma viagem que
Sótão diz que ele é tão magnético quanto o satânico Mick Jagger. Isso, eu Aguinaldo Silva, Darcy Penteado, João Silvério ele fez pelo continente em fins de 197 7 . Foi
não sei não. Uma coisa, porém, é certa: não é feio e desagradável como o l'revisan e Gaspariano Damasa lá estão, com his- durante esta viagem de Leyland ao Brasil. segun-
Elton John. tórias suas traduzidas por Keneth Lane e sele- do a lenda, que nasceu a idéia de se fazer, aqui.
cionadas por Winston Leyland, o editor do jornaL. um jornal de minorias, o que nos levou a LAM-
' E da velha guarda internacional o Rio hospeda, mais uma vez, o barão Além destes. foram selecionados escritores como PIÃO. Now the Volcano será financiada pelo
Edilherto Coutinho e Caio Fernando Abreu, além Natyonai Endownment of Arts, um órgão do
alemão Turn und Tax, fã absoluto das loucuras de Momo. Há quase 20 de poetas e desenhistas brasileiros. O jornal traz Congresso norte-americano que subvenciona
anos, todos os janeiros, ele aqui aporta para se bronzear em Copacabana e ainda um suplemento fotográfico, com lotos projetos desse tipo. Logo após o lançamento do
dar sopa nos bailes da moçda. Me lembro muito bem dele, junto com o tiradas pelo próprio Levland durante o carnaval; livro, Ley land deverá vir ao Brasil, onde tentará
herdeiro da família Krupp (aquele mesmo do filme "Deuses Malditos"), as lotos mostram bem claramente a chamada contatos com editores brasileiros, visando uma
"descontração" do brasileiro, através de figuran- possível tradução. Ao mesmo tempo, ele tentará
paquerando o então estonteante e desconhecido salva-vidas Manei Maris- tes de blocos como o Cacique de Ramos e outros, interessar nossos editores em outros livros por ele
cot, nas areias escaldantes defronte do Copacabana Palace. Turn und Tax, sempre aos pares ou em grupos, a trocar caricias publicados, como o Gay Sunahlne Interslews, que
já naquele tempo, era uma figura esguia e de idade indefinível, exatamente ou afagos, que, nesta época do ano, entre nós reúne entrevistas com, entre outros, os seguintes
como hoje. Dizem que, terminado o carnaval, ele volta para a Europa, onde recebem sempre uma justificativa: "Afinal de escritores: William Burroughs, Jean Genet. AlIen
é conservado em câmara frigorífica. contas, é carnaval..." Ginsberg. Christopher lsherwood, John Rechy,
Gore \'idal e Tenessee Williams, A Esquina

Este número especial do Gay Sunubine, no en- Editora, na verdade, está namorando esse livro há

tanto, é apenas uma chamada para a antologia muito tempo. Se depender de nós, os brasileiros
Now tbe Vokrano, que a Gay Sunshine Press vão lê-]o.
Essa o Glauco Mart'oso jura que aconteceu em São Paulo: a bicha dirigia o seu) carro pela
Avenida Paulista), prestando muita atenção ao Trianon, ao MASP, aos carros que seguiam
ao seu lado e ao movimento nas calçadas. A certa altura, viu o farol avermelhado e ultrapas- Enfim um jornal antimonarquista
sou só por fechação. O guarda também viu, e apitou. A bicha frete Igesto de bicha freando,
no estilo daquele anúncio Que diz "Tão bonita... Pena que esteja cheirando igual a um
homem...). O guarda enconsta no carro, põe Õ cotovelo na janela, olha bem e pede, com
desdém meloso. ­Cadê acarta?" Ea bicha responde, sem se dar porachada: "E eu prometi
O Inimigo do Rei
que ia te escrever?"
Faça sua assinatura: envie cheque nominal ou vale pos-
tal em nome de Antônio Carlos C. Pacheco, no -valor de Cr$
60,00, para Caixa Postal/2540 - 40000, Salvador, Bahia.
- VIVA A GREVE - Assim que ouno meu FR UT,4 VERDE - A praça do Rio
radinho que ia haver uma greve de motoristas de ganhou mais um decorador e perdeu um ator.
A assinatura anual corresponde a seis edições bimensais.
ónibus no Rio, previ que o fato se transformaria O rapaz leio de Portugal. exportado pela
numa lesta para algumas bichas Não deu outra. revoluçõe lá deles, e aqui chegou botando a

A MflRTE_
maior banca de seus talentos. Ele se chama
iConheçre meu eleitorado, como diz Mestra
Fruta e se acha a coisa mais discreta do mun-
Marnbaba 1 Desde manhã bem cedinho as do. Até aí tudo bem. As coisas começaram a
bonecas motorizadas puseram-se a trabalhar no mudar quando Fruta, além de realizar seus
transporte solidário da população masculina e projetos de decora çJo, achou que podia fazer
lovemi da cidade. Se houvesse racionamento de umas-pontinhas nas novelas de TV. Defrsita

TRANS RENTE
genérica e sensaborona ele passou a ser visto
gasolina, teriam gasto a cota de um mês, de
corno um abacaxi espinhento pelos habituais
lanho que correram de baixo para cima, ala- repressores. "Primeiro muda o nome, fi-
radas, oferecendo carona a todo aquele que lhinho ­, exigiram. 'Mas como? Um dos
ihe5 satisfizesse visualmente.

Por sua vez, as chamadas bichas pobres


nomes mais tradicionais de Portugal! ­, im-
plodiu Fruta, cheio de indigna çdo. Excitado,
o pessoal da moral e bons costumes partiu
ESTE FILME TEM MUITOA VER COM VOCE
rliver,ran-se a valer nos raros e apinhados para a grossura: "E tem mais. Com esses pen-
rtnihus da CTC que trafegavam pela cidade. duricalhos e balangandãs no pescoço e nos
braços, nem de vendedor de peixe você
Ni,rica ninguém viajou tanto com tão pouco
aparece nas nossas novelas. ló bastam as
transporte á disposição Trêmulas, rotas, estai dores de cabeça que temos com as lutas da
fadas, voltaram para casa somente ao anoitecer, casa." Fruta não cedeu e foi assim que, se-
mas inteiramente satisfeitas Um único dia de gundo as boas línguas, nos privaram de acom-
i:ireve foi mais proveitoso para a libido das panhar o amadurecimento de uma das
criaturas do que anos e anos de normalidade nos maiores sensibilidades que já pintaram por
r'ansporres urbanos aqui.

Essa aconteceu nos anos 60 com um dos ad! n'res de LAMPIÃO que, naquela época, era
um enrustidão. O referido moço desceu de um avião em Lisboa e, de mala á mão, dirigia-se ã
alfândega quando ouviu uma voz de sotaque prcfundamente lusitano gritar "Olha a bicha!
Olha a bi(,, ha!" Instante de pânico "Cruzes, jP "se descobriram' pensou o rapaz; e só se
acalt/16u quando percebeu que os outros pas' .igeiros, atendendo aos gritos de tafi 'Voz
comais: a formar uma fila, que, em terras lusas, d,, endepelo simpático norvle dv bicha.

fleloneida Srudart, candidata eleita pelo O rapaz, roupa e penteado à Maria


141)8 carioca à Assembléia estadual com o ravoLta, atravessou a porta do 26o West e
UVlO de várias femin I.ttus (eu4isse várias; nilo saiu hailaricando pelo corredor ao som de [iii-
todas), nPM !ornou posse ejá começou a deã- fínt Repisy. G'ilson, o porteiro, que conhece
munhecar. numa entrevista ao jorna! Mo- muito bem seu eleitorado, lançou em direção
'iTltCitlo, a propósito da censura, declarou, ele um olhar devastados e sibilou, entreden.
sem mais nem menos, que "o cínico outro da les: "Já vai, não é?" Ao que ele respondeu:
mulher é o homem , Ileloneida, darli,,g,foi Vou, porque eu sou uma bailarina clássica, e
com este argumento que Aflita Bryant iniciou,
você não passa de umporteir" Sem pes-
nos Estados Unidos, seu campanha anfi-gay.
Além do que, dize ndo coisas desse tipo, quem tanejar dardejou a resposta: " por isso, meu
lhe deu o direito de pensar que está falando Liem, que em matéria de balé o máximo que o
em nome de todas as mulheres? Ébom mudar Brasil consegue é montar o Suíte Quebra-
a lente desses óc(o,s, Helõ.,. Coco. Com estrelas como voçê..

Página 12 LAMPIÃO da Esquina

** C20
Centro de Documenta.-M w^ 1
APPAD e
da parada da diversidade
Prof. Dr. Luiz Mott GRUPODIGNIDADE
No disco
E a MPB, sitiada, ainda resiste
A uma análise menos atenta, o ano que pas-
sou pareceria desastroso para aquilo que se con-
vencionou chamar de música popular brasileira,
ou que, mais apropriadamente, se definiria como
a música criada, produzida e gravada no Brasil,
independentemente de origens, influências ou
preconceitos diversos. Os acontecimentos e dados
infaustos não são poucos, nem de pequena im-
portincia. Primeiro, quase todas as gravadoras
inundaram o mercado, à razão de 2030 novos
LPs por mês, do apelidado oom de diacoteca a
primária batida eletrônica destinada mais aoor•
po do que, propriamente, aos ouvidos de qual-
quer pessoa com um minimo de informação
musical. Não que se tenha nada contra os exer-
lcios de narcisismo coreográfico das noites de
jábado. Pelo contrário, daqui mesmo do LAM- -
zi,
PIÃO, já me denunciei como participante - e
sacolejante travolteador - das alegres e exte-
nuantes peg.çõea ritmicas do Dancin'Days, do
Morro da Urca, Rio. Pelo que, aliás, não tenho
qualquer desculpa a apresentar a quem quer que
seja, a não ser ao meu moido esqueleto nas
manhãs de sábado e domingo. Gosto, pego e
danço e fim. Mas a questão, olhada do ângulo
da saúde da música feita no país é bem mais in- ('ae(ano Vejoso: um disco anódino iva. Lias! iaspiroçdo límpida
Ivam Led Rread&o: desprecoiucrito musical
trincada do que a mera exposição de um gosto cópias vendidas, há pouco mais de um mês do sicais trazidas ou criadas pelo negro no Brasil): do to acústico, Raimundo permanece o mais notável
pessoal pelos sacolejos e namoros discotecantes. lançamento) justa aceitação mesmo dos con- intérprete-compositcr do antigo Pessoal do
Seria bom que todos estivessem informados de compositor, tecladista, arranjados' Wagner Tiso
sumidores mais exigentes; lá Caetano 'Idoso, de (um primor fonográlico; só um pouquinho Ceará.
que, se em 77, a produção musical brasileira obra tão importante - na mesma faixa de con- Capitulo raro num tempo de compositores que
prejudicado por alguns deslizes sinfonicosos);
detinha ojá mirrado percentual de 40% dos dis- sumo estético — quanto a de Milton e Chico, cantam, as intérpretes tiveram vez neste ano que
cos lançados no Brasil, neste ano que passou, de mais "Jital Farias" (surgimento de um impecável
tese, mais uma vez, um ano infeliz, em que falou violonista e compositor nordestino, capaz de pas- passou, Duas estréias brilhantes - OlIvia e Zezé
78, viu-se reduzida ao minguado espaço de 20% demais e produziu, de menos. Seu disco anual. Motta - mostram que, quando as circunstâncias
sear, com emoção e destreza, por todos os gé-
dos suplementos das gravadoras. Pior: destes "Muito", traz a marca decrescente das coisas neros ditos nordestinos). Outros dois compo- deixam 'e as gravadoras permitem, a tradição das
80% destinados pelas fábricas ao lançamento - anódinas (em português claro: que não fedem sitores de áreas diversas, Edu Lobo e Martinho da grandes cantoras brasileiras produz continua.
ou. melhor dizendo, ao despejo de música es- nem cheiram), enquanto o autor se desfaz em doras condignamente inventivas. Icei Brandão
trangeira no mercado nacional, ris 50% foram '.ila. deram competentes voltas por cima: Edu,
declaraçôes escandalosas contra os seus inimigos após um longo tempo de hermetismo e indecisões (esta, também compositora) fixou, em "Meta-
ocupados pelos Taate o( Honey, Tavar.., Macho. reais e imaginá,rios: críticos e artistas entraram des", as proporções de seu despreconceito,
Mana etc., conjuntos tipo praga que dá e passa, formais, partiu, em "Camaleão", para soluções,
no pau das entrevistas de Veloso, mais voltado inclusive de arranjos, tão simples quanto ori- musical. Trata-se, hoje, de uma cantora capaz de
sempre rapidamente substituídos, nos para a autopromoção - de que ele é mestre - ir 10 sambão ao bolero, passar pelo choro, encon-
parades norte-americanos por novos grupos, tio ginais; Martinho, depois de um período de sofis-
do que para alguma consistência de trabalho, ticação instrumental, mostrou o que realmente é: trar caminhos próprios nas canções de sua au-
primários quanto os anteriores, numa enxurrada idéias, sentimentos ou coordenadas criadoras. toria. Excelente cantora, mulher notável dentre
destinada ao consumo, lucros e esquecimento um pagodeiro, mentor de rodas de samba. A
Uma pena, em se tratando de quem se trata. Em dupla Ivan Lins-','itor Martins reafirmou a lim- tantas que se erguem contra os dogmas de sexo e
imediatos. Certo: a discoteca é um avassalador compensação, o quarto desses quatro grandes, o cor, ela consegue misturar estas qualidades no ato
pidez de sua insp iração no LP1interpretado por
modismo mundial; mas o fato é que o Brasil, ter- controvertido, porém. coerente Gilberto Gil, teve de gerar música e poesia.
Ivan) "Nos dias de Hoje", veículo de versos como
ceiro ou quarto mercado consumidor de discos do um dos seus melhores anos: seu álbum-duplo, Para encerrar esses halancetezinho, dois cin-
mundo (não há certeza quanto à colocação, pois "Minha amiga, me visite / Pra eu ficar me en-
gravado no Festival de Montreaux. traz algumas ganando .." Pensando que'eitou vivo" ou, mais tilantes apelos à discoteca - só que desta vez
as gravadoras guardam as estatísticas de vendas a faixas antológicas, em que ficam explicitados os nacionais: as combatidas Frenéticas voltam à
adiante, na música "Aos Nossos Filhos", o pe-
quatrocentas chaves., como alma secreta do seu seus princtpios musicais afro-haiano- mesma olímpica disposição para a alegria, para a
negócio ltissimamente lucrativo) não tem uma dido de que "Perdoem por tantos perigos / Per-
internacional izantes. Ë de se ouvir e recomendar, doem a falta de abrigo ' Perdoem a falta de irreverênria, para o gozo já demonstrada. no
Lei. uma legislaçãozinha para ser driblada. Em "São João, Xangô Menlno"ele se compraz primeiro disco do grupo. A crítica malhou. sob a
amigos / Os eram assim",
sequer, que reserve uma partezinha do gigantesco em fazer a gringalhada déMontreauxse virar, alegação de que o atual LP nada acrescenta ao
mercado comprador interno para o produto aqui mexer e cantar, num autêntico vale-tsjdornusical, No samba, três outros lançamentos acima da primeiro. Confere - e já não é pouco. Aguar-
produzido. O lado menos negro deste quadro em que o seu extraordinário sentido de tempo média: a luminosa estréia da vocalista (seu tim- demos. então, o terceiro disco das meninas pra
contém, porém, um dado alentador: esses exíguos divisão e ritmo rege uma parafernália instrumen- bre é próximo ao da imensa Carmen Costa) e conclusões menos apressadas que as do tipo "é
20% de lançamentos nacionais detêm, contra tal que vai da guitarra roqueira de Pepeu à per- compositora dona Ivone Lara, sob o adequado modismo". "vai acabar logo" etc.
tudo e quase Iodos, aproximadamente 60% (isso cussão afro do super-Djalma Correia, além do título "Samba, Minha Verdade, Minha Raiz" e Outro que botou pra quebrar - ou dançar
mesmo: uns entusiasmanles 60%!) do total de coro de um público audivelmente enlaçado por produção do competente Adelzon Alves; em - em seu melhor LP até o momento foi Ney
vendas de discos em todo o território nacional. E é seu preciso balanço. outro LP, "Axé", o testamento musical do líder Matogrosso, detentor de uma primorosa recons-
nessa faixa de preferência espontânea, da ver- Mas nem só de Gil foi o ano: se houve um íris de raça Candeia, despedida (que tristeza essa tituição, em ritmo e roupagem de discoteca, do
dadeira e enraizada capacidade de resistência rumentista, compositor, arranjaclor, maestro, morte prematura de batalhador tão valoroso da "Não Existe Pecado ao Sul do Equador", de
cultural do povo brasileiro que puderam, então, multimilsico que dominou o período, este foi, música negra) irretocável de quem viveu, pensou, Chico Buarque e Ruy Guerra. Essa mistura
atuar os criadores nacionais. sem dúvida, Egherto Gismonti. Logo nos pri- (cantou e coropôs irrepreensivelmente; por fim, aparentemente incongruente (Ney + Discoteca
A partir daí é que se pode entender a meia es. meiros meses, de 78, lançou o perfeitamente in- uma confirmação. de talento ímpar, o de João + Chico + Ru y ) torna-se a prova de que o
tagnação, o passadismo da música feito aqui em crível "Darsça das Cabeças": obra-prima, esta es- Nogueira que, em "ida Boémia" canta atra- brasileiro é danado da silva quando se trata de
1978: numa faixa tão pequena de produção como pécie de súmula da música brasileira foi gravada sado. quase atravessa o fraseado do seu violão recriar, devorar para resistir - mesmo quando
poderiam atuar eficienter.iente as poucas eti- de improviso, sem arranjos escritos, em apenas torto e, como resultado de tanta esquisitice, deixa se trata da invasão branca, da guerra surda do
quetas e produtores preocupados em lançar novos dois dias, em estúdios noruegueses, tendo como a marca de um estilista sem paralelos entre os mau produto estrangeiro versus a cultura, a liber-
artistas, testar linguagens, incentivar eventuais intérpretes apenas Egberto e o vasto percusionis- sambistas de sua geração. Ainda na área autoral dade de criar de um povo desapoiado por quase
inovadores musicais? Poder-se, por exemplo. Ia pernambucano, radicado na Europa, Naná (mas agora cantando inclusive sambas de Car- tudo e todos, inclusive por uma economia pe-
falar - como se falou, em alguns artigos de '.'asconceltos. Da bossa-nova ao xote, de '.illa. tola) outra confirmação: "Eu Canto", de Fagner riclitante. Resta aguardar o desenrolar de 79 para
críticos dos mais responsáveis - em recesso pas- Lobos à música dos índios do Alto-Xingu, há de traz, de fato, um cantor maduro, sem os fáceis es- saber se, nas dobras da Abertura, há lugar para
sageiro de grandes criadores, como Chico Buar- tudo no disco - como, aliás, na obra recente do tremiliques vocais de discos anteriores; talvez por os que teimam em criar uma arte brasileira -
que e Milton Nascimento: nos LPs "Chico Buar- autor, seguramente o mais bem formado mu- isto, o menos badalado dos seus discos. Sereno, não por acaso localizada no Brasil.
que" e "Clube da Esquina 2" não há, em ver- sicalmente. mais generoso em emoção cristalina. em equilibrado encontro com o acompanhamen-
dade, qualquer passo à frente desses dois abre- dentre os criadores musicais do Brasil atual..
Antônio Chrysóstomo
alas da assim rotulada música da - para - clas-
se média urbana, embora o alto nível dearranjos,
de interpretaçóes, de acabamento industrial dos
dois discos lhes k araivan, já rias 200 nu
Como se não bastasse, em dezembro o mesmo
Egherto voltou à praça com "Nó Caipira", outro
resumo do Brasil-brasileiro, só que desta vez mais
voltado para os eternos - por vezes ternos -
temas populares das pequenas populações do in-
Histórias de Amor
terior do país. Quem quiser sacar, pra valer, a
música brasileira de todas as épocas e regiões
deve escutar, urgente, estes dois discos - mas
com cuidados auditivos à altura do que é apresen-
tado. Nada, na mistura popular-erudita. Darcy Penteado, João Silvério Trevisan, .Gasparino Damata
contemporânea de Egherto, se aproxima os
preconceitos e situações, a música brasileira se e Aguinaldo Silva abordam, juntos, um tema delicado: o amor
resume, se resumiu ou se resumirá às formm do entre pessoas do mesmo sexo. Aguardem, em maio, o pri-
maxixe, do haião, do samba carioca, da modinha meiro lançamento da
mineira, do choro, e assim por diante.
Por falar em choro, 78 serviu ao talento
inovador de bel Nascimento que, com o seu
"Pássaro", mostrou que, além de grande han-
dolinista, sabe também mexer com a harmonia,
com a divisão melódica do choro, sem lhe alterar a
essência. Ainda q1anto a discos de compositores.
houve três estréias tardias, contudo, por isso
mesmo, de perfeita concepção, produção e fi-
Esquina Editora'
nalização do produto, que foram os primeiros
LPs solos de João de Aquino ("Terreiro Grande", Com o selo de LAMPIÃO
reluzente de negritude. embora não necessa-

LAMPIÃO da Esquina
riamente preso a qualquer das estruturas mu- u-
Pa (3

** Centro de Documentação
APPAD ir'
da parada da dist'rsidrid'
Prof. Dr. Luiz Mott GRUPODIGNIDADE
CARTAS
NA MESA

De oria em minoria... Dar a palavra à gente comum


Queridos amigos: é com prazer que escrevo na esquina da minha vida e me deixou tão vidrado Em primeiro lugar, quero manifestar minha para que eles falem de seus amores, tristezas,
esta carta, espero que vocês não reparem. A par. que eu não pude deixar de escrever algumas li- indignação contra a perseguição que vocês vêm desenganos, alegrias? Não é preciso se fazer sem-
tir do n" 7 passei a comprar e ler o nosso LAM- nhas pra dizer a vocês que é realmente grande e sofrendo: neste momento em que tanto se fala em pre entrevistas com artistas, seria até honi, para
I'IÀO. Pensei que seria uma barra pesada para niaravilhoço o trabalho que vêm realizando abertura democrática, é lamentável que a censura que se entendesse que gueis existem em todas as
comprar, ler e guardar o nosso jornal. Eu noen- (lenho certeza que vocês estão cansados de saber continue com os olhos voltados para a imprensa, profissões e atividades humanas. Tenho certeza
contrei esses problemas, não faço como muitos, disso, mas eu precisava dizer). Existe algo mais esquecendo-se de que a imprensa não cria uma que esse tipo de reportagem daria uma dimensão
que compram o jornal, lêem, rasgam e jogam nobre, mais humano e mais cristão (e mais raro). situação, um problema social: apenas os retrata. muito humana ao jornal.
lora, ou então lêem o jornal em casa de amigos. que a luta, de peito aberto, em ;as'or das classes Espero que vocês consigam superar essa crise,,Ë Ufa! Chega de tantos pedidos. Um abraço.
Quando compro o jornal, não vejo a hora de ler oprimidas? Homossexuais. índios, negros, pros- sempre difícil lotar Contra a hipocrisia dos que,a- Carmem Lúcia - Rio.
tudo, é no ónibus. na escola (nos intervalos), fita titutas e amantes da mãe natureza! Exultemos fravés da repressão, tentam encobrir a realidade.
de elevador, enfim, em todos os lugares, mas éem todos nós os minoritários. pois temos agora força Bem, agora vou fazer alguns pedidos. 0 K9
casa que leio sossegado e reflito em tudo. pra gritar alto, através do trabalho heróico de um 1 - Gostaria que vocês abordassem, da mes- - Não tem sido fácil trazva.r com ai
pessoal de fibra, através da nossa voz maior: ma forma que fizeram com os homens, o homos- mulheres, Caminha. ELas enfrentam uma barra
Era o que nós homossexuais precisávamos
"LAMPIÃO da Esquina". P.S.: Biflions of than- sexualismo feminino. Dessa maneira fica pa- multo mais pesada, e por Isso limitara em sair à
para nos unirmos, não par:: mostrar um novo tipo ks por José Lutzemherger. recendo que as mulheres estão à margem desse luz. Além disso, a gente quer uma aproximação
de rebolado mas para mostrar que somos gente, Denn y s M, - Santo André. SP processo de conscientização. '.'ocês poderiam não as com as homossexual,, mas tsmbêrn com as
que muitos de nós trabalhamos, estudamos, en-
fazer uma reportagem sobre isso. Sou univer- feministas. Aos poucos a ganhe chega lá. Ney
fim, levamos uma vida igual a de todo mundo. Só R. - Dennys, meu anjo, nunca é demais sitária e várias colegas de faculdade pensam a
e s pero que vocês continuem com o nosso jornal, Matogrosso é uma entrevista que todos nós
ouvir coisas como essas que você diz, principal- acama coisa. Eu adoro o "jornal da meninada ­ .
isto é, sério, bacana, o nosso amigo para todas as queremos fazer. O rapaz doi lábios de carmim
mente em horas ruças pra nós como as atuais. De mas sinto falta dessa abordagem, lá? Poderiam
horas. No que depender de mim, vocês podem anda meto arredio das transes lamplõniesa, mas
minoria esn minoria a gente chega à massa, não é dar dicas, lugares, etc... nós continuamos a assediá-lo. Histórias Inlres-
contar. '. océs são os irmãos gueis que sempre verdade? O . ianio a Luizemberger, ele é o pri- 2 - Uma entrevista com Ney Matogrosso. santes estão sendo providenciadas. Futebol?
quis ter mas não tenho. Um abraço pra todos, e meiro de is série; queremos abrir nossas pé- 3 - Mais histórias interessantes, Cruzes! Estamos preparando uma série de ao.
até o próximo número, gtnas a todos os maravilhosos porta-vozes da 4 - E a reportagem sobre futebol? trevistas com "pessoas comuns", aguarde: será
Ciro C. de Sou 7.a - São Paulo. ecologia. Quando a você, Cito, a gente lhe manda 5 - Por que vocês não fazem reportagens com uma série dentro do LAMPIÃO. E escreva sem-
Friends uf mv heart! LAMPIÃO pintou aqui um beijo. homossexuais, de uma forma muito humana. pre, que a gente adora.

Pernambuco, imortal Peteca pra lá, peteca pra cá


Bem. filemos primei riu do candidato, o R. - (»a, Zé, houve um erro de interpre-
Haiardo ide Andrade Lima, candidato a depu. taçao, ou então eu não me expliquei bem. O que
tudo federal cri Pernambuco; defendia os homos- Queridos: hoje deparei com uma noticia. no Francisco C. L. - Rio de Janeiro.
eu quis dizer é que a bancada do MDB eleita para
sexuais em soa plataforma; obteve cinco mil votos Globo, sobre o inquérito a que o nosso LAM-
a Câmara Federai em Recife não tinha sido nu- R. - Olha Francisco, sei peteca, por motivos
e não tui eleito) Eu o conheci em 1974, concor- PIÃO da Esquina está sendo submetido. Quero
merosa. Então você acha que ia chamar de Inez-
rendo pelo MOB em defesa do divórcio, mas, através deste bilhete prestar toda a minha soli- alheios à nossa vontade, cair de nossas mãos, ihi-
preiatva. do ponto de vIsta da qualidade, uma
não se: se por queimações injustas ou não, não dariedade e pedir para que vocês não deixem a
bancada que tem, entre seta eleitos, mlnha ces'amente, não cremos que ela fique no chão por
obtive referências boas dele. Novamente em 197 peteca cair. Sou um simples leitor deste jornal
querida antiga Cristina Tavares Osereia,jorn alia .
se candidatou, agora com unia nova plataforma. maravilhoso, muito tempo. Ti todo o mundo jogandol
ta como eu, companheira - ainda que adistên-
Fiquei um pouco cabreiro: não seria nutra ex- clã - de tantas batalhas? Mlii, sobre D'litina,
ploração? Só que o resultado só não foi bom vales pena acrescentar a Informação que você nos
para ele, entende? C r iou-se um clima para
debate, onde nós pudemos aferir, por exemplo, a
manda: "Única mulher eleita no Norte-Nordeste Mães contra o preconceito
para a Cámara Federal" —ova, viva t Ekmereve,
abertura de alguns amigos e a homofobia de e Pernambuco também. Por sinal que eu dei uma
outros, além das paredes pichadas, etc., etc... olhada na relaçéo de nomes que você mandou,e Tenho lido LAMPIÃO desde o n? 4. Ele me rua gritavam à nossa poria, e ele, no auge do
Quero, tamhCm, salientar outro fato: numa cheguei a esta conc t iaio: o time do MDB per- interessa particularmente, pois tenho um filho desespero, inc respondeu que sim,
'rtaeniàr na 4 do n' de LMPiÂO nambucano , na Câmara é pequeno nias da melhor homossexual, o qual, aliás, é quem traz o jornal Por isso, seria bom que LAMPIÃO procurasse
iStis. d.z ruiou. .,. l, oul1i?n5tras i pasel casa l405 os meses. Muita gente fica tir depoimenini de mães como eu, Não que eu
qual dade* Fernandó lêra, Fernauido Odho,
a bancada do partido (MDB) eleita chocada vowigo, porque eu, como mãe, encaro "s" j a propondo a criação de alguma coisa como a
para a Câmara Federal naquele Estado (Pernam Roberto Freira, Marcia Cunha, lisa Carlos Vas- corri naturalidade essa particularidade do meu Associação de Pais de Crianças Excepcionais.
huco. no caso) não foi das mais expressivas", concelos e a propria Cristina: arretadol a filho: ele é homossexual. Eu soube disso há cinco não. Mas é que há o risco de mui:a gente achar
Zé Albuquerque - Recife. .4gulnaldo Silta. anos, quando ele completou IS e houve um pe- que eu sou um caso à parte - afinal, eu estou es-
queno escândalo na rua onde moramos, pois crevendo para o jornal de vocês e estou narrando
rapazes de sua idade descobriram que Tele fre- a minha experiência com um filho homossexual;
Na umbanda, qüentava lugares gayi, e passaram a hostilizá-lo. assim, se outras mulheres aparecerem, quem
Não vou dizer que não tenha sido um choque para sabe : será essa a nossa contribuição - das mães
um tema para estudo mim - foi, sim, porque eu fui criada no seio de
uma tradicional família nernarribuearea, que acha
- para a luta de vocês. Inclusive, só quando foi
preciso dar apoio ao meu filho contra o precon-
Espero que o ano de 179 seja o marco de uma R. - Você sara procurado brevemente, RPM. coisas como essa condenáveis. O problema é que, ceito dos seus colegas é que eu - unia mulher de
jornada profícua e feliz para-todos os diretores e neste caso, era meu filho, e aí as coisas mudaram classe média, com 45 anos e pouca cultura -
Estamos preparando uma ampla matéria sobre a
redatores deste excelente jornal. Congratulo-me de figura. finalmente decnhru : o preconceito é uma coisa
com a direção do LAMPIÃO pelo excelente ausência de repressão, nos cultos africanos, em Bom, o que eu queria dizer a vocês é que o odiosa. qualqu.,. preconceito; e mesmo com essa
trabalho que vem prestando à coletividade no relação au homossexualismo, e gostaríamos de número de mães que passam por experiências idade, sei agora que nunca é tarde quando se quer
sentido de divulgar o movimento de libertação dos igual à minha, e que procuram aceitar seus filhos lutar contra ele, É sempre hora de comparar. Um
ouvi-to a respeito. Aqql no Jornal temos dou ei-
gueis no Brasil. Parabenizo esta maravilhosa como eles são, é bem maior do que se pensa. Mes- beijo - bem maternal - em todos vocês.
peclaliatas no assunto * Peter Frv, que é antro-
equipe pelo brilhante trabalho e pelas incessantes mo que, perante a sociedade, estas mulheres as- Maria das Graças Abreu - Recife.
laias que vem vencendo no sentido de conscien- pólogo e viveu três assoa na Africa, e Adão Acosta,
sumam uma atitude hipócrita, o fato é que, no R. - Dona Maria da, Graças, seu filho pode
luzir o povo sobre este movimento que cresce jun. que não dá um passo sem consultar a Vovó Ino Fundo, elas torcem para que seus filhos homos- dizer a todo o mundo que é um homem de sorte.
lamente com o Brasil, Coloco-me à inteira dis que, alias, faz muito bem...1.-Easa matéria de que sexuais sejam felizes à sua maneira. Afinal, Mãe é sempre uma coisa multo boa: mas uma
posição de vocês para colaborar com esie tomaI. quando o homossexualismo invade nossas casas mãe como a senhorH'.não se encontra todo dia.
falamos icima foi uma das primeira, a ser dl-
Sou formado em teologia. psicologia e atualmente - mesmos sem ser convidado -. a gente des- Um beijo - bem filial— de volta pra senhora.
sou babalorixá tio culto umbandista. Um feliz cutida nas reuniões do conselho editorial de
cobre que ele não é o monstro que se pinta. Eu
19!9 para vocés. LAMPLiO. Depois ela Foi posta de lado, mas adorava meu filho, e não deixei de amá-lo quando
R.P.M. - Rio. agora e nossa Intenção retomá-la. lhe nereuntei se era verdade o nue os rapazes da
Studyo Twenty Four-O
Luz Gonzaga Mosto de Paula Boite - Discothe que
De pilação definitiva LAMPIÃO Advogado
Show - 3" 0. C. e Domingo

Rosto e corpo
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Tratamento. Método: ele- itst intro
Direção de Renata
trocoagulação, com aparelhos
importados, os mais moder-
Celso's Bar Rua das Palmeiras, 240
nos dos Estados Unidos. Não O caminho certo em Curitiba
Aguarde: Sã'o Paulo
deixa manchas nem cica- "Histórias de Amor"
trizes. Ambos os sexos. Onde os amigos da Esqnln Clínicas para cães e gatos -.
Rio: Largo do Machado, Rebouças e Bandeirantes
se encontram As'. Rebouças -861
29/808 Fone 265-0130 Tel.: 282-9931, 282-6176 e282-6084
São Paulo: Alameda Franca, Rua l'rajano Reis - 365 LAMPIÃO: A i'. dos Bandeirantes -2088
616,s/01 Curitiba - Paraná o seu jornal Tel.: 240-4924 - São Paulo
Pagina 14
LAMPIÃO da Esquina

** Centro de Documentação
APPAD Prof. Dr. Luiz Mott
E Uà

ie
iEi patatla da clis':'rsidade
GRUPODIGNIDADE

CARTAS
NA MESA

Duas Anas, da mesma Pauficleia


Redatores queridos: um abraço carinhoso a podres que o sistema precisa ocultar para manter vão parar, eu tenho fé nisso, porque já se los- opinião de vocês?
todos Fiquei muito feliz ao ver minha carta sua força e opressão, liberdade para lutar pelos ouseram e já mostraram seu valor, e nada calará Ana Teresa - São Paulo.
publicada. O n 8 está maravilhoso. Adorei os ar- mais elementares direitos do homem - nos quais a nossa verdade. Com amor, mas muito amor R - Quanto à prlrndra Ana, apenas um
tigos de José Lutzemherger e sobre os Indicia. Na eu incluo esse como primordial: o direito de cada mesmo, comentado: suas cartas nos deixam sempre
matéria sobre os índios, eu achei bacana que além umum manter sua condição sexual própria, em Ana Aparecida de Brito - São Paulo. emocionados; essa é a terceira que ela nos envia e,
de mostrar os problemas que eles sempre enfren- aberto, e com o devido respeito por parte doa Oi, pessoal, Abraços mil. Conheci vocês no o? de tão oportuna, resolvemos publicá-la na ia-
taram, e apontar qual o verdadeiro interesse do outros. 4 e desde então tenho sido urna fiel compradora tegra. Ana 1 é uma daquelas pessoas excepcIo-
Governo ao querer "emancipá-los", ainda nos E abro esse parágrafo especialmente para do jornal. Preciso dizer que vocês são maravi-
dizer o que penso dessa questão de direitos hu- nal., que sabem o .lgnlflcado exato da espraiam
apresentaram um aspecto praticamente inédito: a lhosos. uns amores? A alegria que dá ver o LAM- "direito, humanos" e está dIsposta a lutar por
sua vida sexual uma coisa tão simplificada, tão manos: muita gente pess que "direito humano" PIÃO iluminando as bancas e os espíritos,,.
só concerne a quem es'eja preso por suas convic- eles. Sobre Ana ti, ia respostais vamos repetir
alegre e natural, enquanto nós civilizados fa- Adoro o jornal inteirinho. acima de tudo, pela pela enesima vez, Aninha II, que o jornal está
zemos um cavalo-de-batalha por isso. Tal, eles ções políticas ou religiosas, ou esteja banido ou coragem e pelo bem que ele faz à gente. Gostaria aberto à. mulheres. O que elas têm que fazer é lxi.
são primários no que nós consideramos essencial. exilado, ou é perseguido ou pressionado. Pra de fazer algumas sugestões. Vocês não acham que vadí-lo. Por enquanto • gente publica as cartas
mas justamente no que é elementar eles é que mim, direito humano, além, é claro, dessa con- seria bom publicar mais reportagens com mu- que vocês nos mandam. Mas se pintar um ensaio,
sabem das coisas. Inclusive aconteceu uma coisa dição de uma pessoa ser livre para seguir a opção lheres ou para elas? Sinto cada vez mais a ausên- um artigo, e desde que se enquadre na linha do
muito gozada aqui em casa: eu mostrei a matéria política, social ou religiosa que quiser, também cia nossa no jornal (exceto a maravilhosa en- Jornal, tudo bem. O roteiro de que você tala é
pras minhas irmês, e elas acharam que é uma tem que incluir, não pode nunca deixar de in- trevista com a Lecy). Relacionada com a ausência uma colaa multo delicada; é arriscado, na sI-
imoralidade o caso dos "kudinas", acharam que cluir. o direito dessa pessoa fazer sua opção Jas mulheres, simplesmente lamentável a série tuaçio em que vivemos, tornar deteiininsdos am-
foi uma "tara" que os brancos legaram a eles. sexual por conta própria, e não de acordo com as fotográfica dos garotões da praia. 'Vulgar e dis- bientes "oficiais", principalmente no caso das
Mas o que eu acho mesmo é que eles são tão pressões do sistema. Direito humano tem que pensável, se me permitenr. Por favor, pessoal, não mulheres. O concurso Dancving Gays foi adiado
puros, tão humanos, que souberam entregar-se dizer "respeito a cada ser humano", o resto é esqueçam da gente! para março, mas a gente deacurfiu um pouco a
totalmente àquela que deveria ser uma das ati- demagogia, Que tal publicar um roteiro guei (feminino) de Idéia lesse negócio de iohn Trasolta é uma po-
vidades vitais de nós "civilizados — ... Mas nós Inclusive, vou citar o meu próprio casoeu não São Pauto, com inclusão de cinemas, restauran- breza. . -1. "Histórias de Amor" será apenas o
suprimos a carência sexo-efetiva com a violência, sou lésbica, mas às vezes sofro na carne algumas tes, etc.? E o concurso Dancing Gays? Cadê os primeiro livro d• Esquina Editora. Temo@ mil
o medo e a neurose. coisas bem maldosas, só porque sempre defendi o resultados? Parabéns pelo material sobre os ín- planos que incluem até o Pasolinl, aguarde.
Eu nio concebo sexo sem amor, não imagino direito dos homossexuais. Por outro lado, se às dias. Sucesso para "Histórias de Amor", da Es- "Enrustida e envergonhada" mau se socê é infor-
o verdadeiro amor sem sexo. Estou com vocês nis- vezes sou chamada de louca ou anormal, o que quina. Aliás, são só histórias para uni livro, ou mada, tudo bem; continue sendo, que você saberá
so: discutir o único tema que ainda é tabu no me gratifica é ver o quanto já alcancei em termos vocês pretendem publicar outros livros? Um quando chegar sua hora de se desenruslir sem
Brasil - o prazer. positivos: minha família hoje já aceita essa minha pedido final: CONTINUEM. RESISTAM. Vocês maiores traumas. Fatos & Fotos faz exatamente o
Quero fazer uma reparação: na carta anterior posição o mais importante, a respeita. E já con- são fabulosos. que os Homens querem, ou seja, apresenta os
eu disse que o Pasquim nunca faria uma repor- segui mudar o radicalismo de muita gente, já Tenho 22 anos, sou formada, informada, mas homossexuais como anormais; os machões lêem
tagem séria com um homossexual por ser um jor- consegui mostrar a eles que ruim é ser tarado ou enrustida e envergonhada. O que vocês me acon- aquilo e se tranquilizam. pensando: "Essa gente
nal machista: na verdade eu ainda penso assim, ladrão. selham? Um beijo pra todos vocês não tem nada a ser comigo". Depois, são dormir
mas fiquei emocionada quando li a nota de so- lom, pessoal, pra terminar envio-lhes os meus P.S, - A revista Fatos & Fotos descobriu que e têm aquele eterno pesadelo: um assassino enor-
lidariedade do Jaguar. E acredito iiealmeitte que votos de um 79 muito gratificante e pleno de homossexualismo dá Ibope. Vocês notaram como me os persegue madrugada a dentro, empunhan-
vocês. de LAMPIÃO e de toda a imprensa n- sucesso para cada um de vocês, tanto profissional ultimamente têm saído reportagens decapa sobre do um facão imenso e brilhante que está prestes a
nica, estio no mesmo barco; a luta pela LIBER- quanto pessoalmente. Que cada dia desse ano o assunto? Sensacionalismo, oportunismo, falta se enterrar até o cabo em suaa costas... h pensou,
DADE. liberdade, liberdade. Liberdade de im- lhes traga uma carga redrobrada de 'energias, de caráter ou o quê? Reportagens preconceituosas que Infelicidade, Aninha 11, sonhar com Isso toda
prensa. Liberdade para poder usar esse veículo - para lutar sempre, porque há muita gentê que e "curiosas", vendendo a imagem deturpada. noite e não saber por quê? Coitados dos ma-
a imprensa - para trazer à luz os fatos reais, os precisa hoje de vocês inclusive eu). E vocês não "anormal" e gozativa de sempre. É o fim. Qual a chões...

Nós 'também estamos Uzendo- Histói


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II
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DARCY PENTEADO AS REUÇõES

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APPAD Prof. Dr. Luiz Mott


i t GRUPODIGNIDADE
da ;,.irada da clise'riddt'
1
Confissões de Marlene
Marlene chega em casa depois da meia-noite.
Teatro de Revista. E o seu era dos primeiros:
"Marlene — , Ali estavam as lembranças. As hos
Liga o rádio baixinho, estira-se na cama. A luz lembranças. No dia em que assinou contrato com
que acendeu é fraca, mal dá para ilu minaz o Estes excertos foram retirados de um dos 0 cinema, fez sua despedida do teatro. Grandes
pequeno e atravancado apartamento. Não sabe capítulo, do último livro de José Leuzelro, personalidades do mundo artístico lamentando

Q
porque, sente-se vazia, sem vontade de prosse- O Estranho Hábito de Viver, lançado sua retirada de cena. Sala no momento exato.
guir. De repente, a impressio de ter sido iludida, - . Sempre soubera sair, antes que as Luzes apagas-
explorada, abandonada. Toninho não voltará. recentemente pela Editora Record, e no
sem. Não seria agora que iria acovardar-se.
Alguma coisa lhe diz que o perdeu. Nunca falou qual o autor de Lúcio Flávio, o Passageiro Deteve-se em fotografias com amigasquejá havia
daquele jeito e muito menos na lanchonete, com da Agonia retoma a sua linha flcdonal, esquecido, teve vontade de rir. Como era inve-
todo mundo ouvindo. Simplesmente tentou brin- embora sempre de olho na realidade. jada, como era querida. Nos restaurantes que
car, ser afetuosa, ele não compreendeu. -. freqüentava tinha mesa cativa. Depois de umas
Olha o teto sombrio, conclui que sua vida era . Homossexuala,jrostltutai, policiais
frustados ou corrupto., crimes, desamor: tantas horas os garçons encostavam as cadeiras,
um amontoado de incompreenslo. Cada dia um colocavam a plaquinha: 'reservado". Quando
desgaste, uma decepçlo. Se Toninho achava estar O Estranho lIbkide ETver, seguissio chegava era aquela festa. Os olhares concen-
preocupada apenas com sexo, enganava-se E não Louzeiro, nio é propriamente uma histá - trados nela. Marlene no auge. Vinte e dois anos,
lhe dava dinheiro simplesmente para que a satis-
fizesse. Queria que se gostassem, que um sentisse " á. de delinqüentes. "Eu preferia considerá-lo as noticias a seu respeito provocando escândalos.
como o livro dos que foram levados a Uma revista publicou as fotos e as declarações.
falta do outro, cada manhã surgisse como uma - - No dia seguinte o arcebispo rebateu-as, lembran-
descoberta e uma esperança. A principio, esteve delinquir, e de todos os outros afundados do a moral da família cristA. O teatro lotou e
certa de que correspondia. Mesmo um tanto gros- no marginalismo determinado por Id", diz havia mais gente de pé do que sentada. Entrou no
seiro, sem instrução, chegou a imaginar que se - .lsow com o pé direito. Depois da noite de estréia,
f
entenderiam. E como fez planos, baseada nessa em todas as outras a afluência foi a mesma.
possibilidade. Fot. de Ednai'. Tas.ns
Afinal, por que a prevençio com o homosse-
Agora, neste principio de madrugada, ouvin- xualismo? Quem eram eles para se atrever?
do músicas nostálgicas no rádio de pilhas, tem Quem era o senhor bispo? Ou precisava dizer que
certeza de que fora tudo em vão. Tremenda de- José Louzeiro
até o vice-prefeito a procurou uma vez, no ca
cepçio. Vinha sentindo isso há meses, não queria com ele. O motorista, sem dizer coisa alguma, to. Depois de vestida. Parècla outr. As co- me-rim, a fim de que fossem para um hotel. Como
acreditar. Tornava-se cada ver mais claro que presenciava a cena, esperando o momento de nhecidas faziam provocações , acusavam Marlene o tempo passa. Os amigos mais Intimo., acusan-
Toninho só a procurava por causa do dinheiro. Os fechar a porta. João Carlos tanto insistiu, tanto de estar descabaçando um anjo. Ela sorria com do-a de esbanjamento. Que sentido faria guardar
raros momentos em que ficavam juntos, era uma puxou Marlene pelo braço, que ela terminou in- certo orgulho. Tou criando ele a meu gosto. o dinheiro, se não se pode guardar a juventude? O
espécie de concesxlo da parte dele. Na verdade, do. Que noite estranhal O Mercedes subindo Quando crescer, silo pode reclamar minhas vice-prefeito saiu acabrunhado com a recusa.
não passavam de dois estranhos, estirados na suavemente o arrampado da casa na Barra, João exigências. Isso foi há quatro anos. Passado esse Pobrezinho. E como Lutou para chegar ao ca-
mesma cama, falando Línguas diferentes. período as coisas começaram a se complicar. marim. Foi preciso subornar uns dois ou três fun-
Os olhos se enchem de lágrimas, deixa que es- Carlos e ela no elevador atapetado.
- Quem mora com vocé? Toninho sempre exigindo mais dinheiro, dando cionários. Marlene fecha o álbum, os olhos con-
corram pelo rosto. Chora por Toninho e pelas João Carlos ria, sacudia os braços. As pa- menos amor. Num determinado momento o tinuam rasos d'água. Nio era apenas de si, e sim,
tantas decepções já vividas: Artur, Inaldo, Joáo relacionamento parecia mera troca comercial. do tempo, das coisas, das pessoas que já não exis-
,Carlos. Henrique, Santini. Onde andariam? Que lavras eram vagas, sem sentido. Marlene não en-
tendia. Saíram no corredor de piso reluzente, Vou contigo se me der quinhentos. Fico contigo se tiam. Do Teatro de Revista que desapareceri'. das
mentiras contaram a outras bichas ou Às mu- me der mil. Marlene aceitava mas não gostava, O luzes que se apagaram para sempre. m0
lheres? Marlene sente-se tio amargurada, que chegaram ao salão de móveis de couro e pés
niquelados, limpadas sofisticadas e baixas, João garoto se tornara exatamente o contrário do que apreciaria ter tido oportunidade de falar daqueLs
tem vontade de rir, Corno João Carlos mentia imaginava. Nos dias de folga convidava -o oara ir coisas com Toninhr! impossível. Estava voltado
jol. Como Saiitinl era pouco intelite. [agido,
Carlos tu'Ml to armário de vidro a garrafa de uis-
que es- 'is, pegou com diflcuLcLte dois copos, a' cinema,'ad teatro, ele desconversava. Marlene unicamente para o que via e queria ter. Nada de
o egofimo co'. 1 Henrique, senre queren- sabia: não gostiva de ser visto ao seu lado. Tinha conversas, muito menos de lembranças.
do, mais coisas e se preocupando em que Marlene Marlene querendo recusar, ele insistindo. Vai ter
de beber comigo porque fio se tem nada melhor vergonha. Procurava convenoã-lo. Ali, na Zona - £ romântica. Vive com besteira na cabeça.
conseguisse funções mais rendosas. Artur, Sul, cada um vivia sua vida, ninguém se inco- Não iria compreender jamais. Os tempos são
provavelmente por ser o mais feio, era também o a fazer. Depois, pode olhar a casa, Moro sozinho
com uma empregada maluca e esse motorista que modava com ningifém. Toninho não aceitava. E. outros, temos de admitir; as pessoas estio tocadas
mais sensato. Por que nio foi mais paciente com geralmente, após as contrariedades, passava pelo germe do consumismo. Nio há pausa para
Artur? Vivia um tempo em que se sentia do- não fala nada. Ê uma sombra me acompanhan-
do. semanas sem aparecer. Vinha exatamente quan- reflexão. Só dinheiro interessa e quem mais tem
minadora. Marlene nos jornais por causa doa do estava necessitando de dinheiro. Nunca mais quer. Abre o envelope, na mesma caixa onde
hormônios nos selos, Marleste dos cabelos louros Para não irritar ainda mais João Carlos,
Marlene aceitou o uísque, põe-se a beber, o moço aparecia para Lhe oferecer qualquer coisa, sempre estava o álbum, de dentro dele saem algumas
no Teatro de Revista. Uma fase passageira e para pedir. Marlene com a sensação de que mur- fotografias tiradas na rua. Numa delas aparece
brilhante. Onde andaria Artur? Teria mesmo está inquieto, liga o ar refrigerado, a noite é de
profundo silêncio. Após alguns momentos chava interiormente. Toda sua satisfação, seu com Toninho. O verdadeiro Toninho. Quando
casado com a dona gorducha, a que tinha bigodes amor, o sentimento de solidariedade estavam ainda estava todo esfarelado, sapatos se rasgan-
e um bom emprego na Caixa Econômica? Difícil Marlene se encoraja, faz uma indagação corri-
queira, mais para ter o que dizer. acabando. E. por mais que se esforçasse, passou a do. Calça de brim ordinário, encolhida, uma
saber. Todos se foram, nada deixaram. Só ia- sentir-se a pessoa mais pobre do mundo, a mais camisinha de tricoline fora da moda. Um dos
varam. - Ora, bebo como quem vai Às compras,
como quem freqt?enta praia ou tem amantes. desamparada, mais infeliz. Por que enganar-se primeiros encontros. Rosto magro, cabelo liso
Pega o espelho, acende a limpada de cabe- Qu ando cansar disso, vou fazer um estágio nas tanto e tantos anos, numa busca desesperada e caldo na testa, um sorriso de quem não dizia coisa
ceira, olha os pés de galinha se formando ao redor drogas. inútil? Sentia - se exausta, sem a mlnüna possi- nenhuma. Desde o principio sabia bem com
dos olhos, covas nas bochechas. Em breve neces- - Easaúde? bilidade de prosseguir. Depois de Toninho não quem estava lidando, mas nunca tivera a preo-
sitaria de uma operação plástica. Isso custava - Saúde? Pro interno com saúde! teria mais coragem de recomeçar. cupação de modificar-lhe o caráter. Fecha a
dinheiro e pelo menos uns dez dias numa boa Acha graça. João Carlos tambem sorri. Atira- Há pouco tempo encontrou inaido. Fez que caixa, procurá em outra gaveta o pedaço de
clinica. Sabia como os médicos exploravam, se no almofadão, sobre espesso tapete, puxa-a. nio a reconheceu. Estava no volante do carro es- papel, a caneta. Tem vontade de rir, pois tinha
quando se tratava de um homossexual. Para a Marlene entende as intenções do moço, aflige-se. porte, ao lado da mulher branqueia e o cio de uma amiga que costumava dizer: suicida que não
mulher gil-fina era um preço, para qualquer um Só agora começava a perceber e riAo teria como raça. Marlene passou indignada. Quanta roupa deixa bilhete fio é suicida. Ela ruo deixaria. Es-
deles o dobro. Por que essa prevenção? Qual a enfrentá-lo. Se era aquilo que estava pretenden- dera Àquele sem-vergonha e quanto prato de creveria apenas uma nota À Sandra. Não era justo
diferença? do, enganara-se. João Carlos põe a tirar as comida. Com Toninho era igual ou até pior. Não que se fosse, sem ao menos um adeus. Mas fio
Solta o espelho, apaga a limpada. A música roupas, abraça-se com Marlene. esperava mais nada dele. Devia contar ou não começaria pela lengalenga. Abordaria em pri-
no rádio é melancólica, j'elemhra um tempo lon- - Não fica com pena de mim. Faz como se 'com suas próprias forças? Eis um momento meiro lugar a questão do aluguel, do dinheiro que
g1nqo. Marlene recusa-se a admitir mas, pouco tivesse com raiva. decisivo. Estava. Estava necessitando daquela ainda tinha no banco, do cheque no nome de
a pouco, vai sentindo que a velhice chegou. E, em Recordando essas coisas, tanto tempo depois, análise há muito tempo. Poucas vezes parara para Sandra Duarte. Com ele poderia pagar o mês
nós, é duplamente desastrosa. Arruina o corpo, ainda sente um arrepio percorrendo-lhe o corpo. refletir sobre sua própria condiçãoe o fazia no vencido e o seguinte, até encontrar outra par-
esvazia a mente. Por isso já fio linha sonhos, fio João Carlos se enganara ou ela era a enganada? momento certo. As conclusões - ohl as con- ceira. Na última linha, sim, a tentativa de ex-
fazia projetos. Sem sentir, foi se degradando. Como fora boba. Como se deixara assustavpor ciiusões - eram as piores possíveis. Mas, soman- plicação, sem que parecesse queixume.
Deixou o teatro por causa de um contrato no aquele casarão com tudo que havia de bom e do do prós e contras, não tinha nada do que se ar- "Cada um de nós tem o momento certo de
cinema. Terminado o primeiro filme fio con- melhor. Nos outros encontros entenderia repender. Chegara aos 46, coisa que na verdade parar. O meu chegou. Se alguém me procurar,
seguiu outro, os contratos foram desaparecendo. moço era homossexual perfeito, completo. AI, jamais pudera supor. Muitas outras tombaram diga que viajei. Parti com minha própria sombra.
Um belo dia estava necessitando de trabalho. quem passou a criar problemas foi Marlene. antes, numa luta desigual. E a maioria em ah- Um beijo. Marlene".
Passou dois anos num salio de manicura, o di- Quando terminava a vez de João Carlos' e ele soluta covardia. Abria os jornais, lá estava:
homossexual morto na cama; homossexual es- Põe o papel perto da luz, lê calmamente. Não
nheiro sem dar para coisa alguma. Ai conheceu exigia sua participação Marlene fraquejava. Por
mais que se esforçasse, silo conseguia. Por isso, trangulado no apartamento, no iate. Felizmente acredita tenha esquecido de nada, pois nada
Artur. Quase fio tinha nada a oferecer-lhe.
quantas vezes fora espancadal Onde andaria estava ali, recapitulando o tempo que se fora, e tinha a enumerar. Talvez merecesse apenas um
Quando se deu com Inaldo, estava como garçom
não tinha queixas quanto a violências. Sempre PS. Pega novamente o papel, coloca-o sobre a
no restaurante de luxo. A principio, como se sen- aquele maluco? Teria resolvido seu problema, ou
soubera evitar os sádicos e os masoquistas. Qu an revista, escreve: "Toda minha roupa, que por
tiu envergonhadal O que mais temia era, de ainda estava complicado? Tão rico, tio bonito e
programas recusara, exatamente para não se-tos sinal não é muita, pode enfiar num saco, dar ao
repente, servir numa mesa onde houvesse velhos terrivelmente desesperado. Com Toninho os
arriscar. Escapou pra qué? Pra ficar mirando-se primeiro pedinte."
conhecidos dos tempos artísticos. Se isso acon- problemas iniciais foram poucos. A principio
no espelho e vendo a velhice chegar? Nada disso, Suspende de um lado a colcha, enfia por baixo
tecesse, fio saberia o que dizer; como levar a apesas um garoto assustado, maltrapilho, com
o bilhete e a revista. Torna a cobrir. Olha o re-
coisa na brincadeira. No restaurante deu sorte. umavontade louca de comer. Parava na lan- Teria algo mais a fizer. Seria uma demonstração
total de renúncia e desprendimento. lógio, vê que ainda é tarde. Levantaria a Incora
Passou a ter dinheiro, dispunha do dia todo para chosete, devorava dois hamburgueses, tomava
Teve seu tempo. Bem poucos poderiam or- do seu veleiro quando estivesse para amanhecer.
dormir. Certa madrugada, quando a freguesia dois socos de laranja dos grandes. De noite
gulhar - se disso. Abre a gaveta, tira o álbum. Lá Há muito tempo silo via o amanhecer e aquele
havia saldo, ficou apenas o moço emborcado na aparecia no apartamento. Marlene dava as in-
çstavam as fotos das mil e uma noites. A pas- seria especial por ser o último. Além disso teria
mesa. Os outros garçons se recusaram a ajudar. dicações: faça primeiro assim, depois assado,
sarela luminosa, o público em desvario, fotó- uma outra irnportlncia: seria um pouco antes de
Mandaram que Marlene falasse com o mare. Deixava-se conduzir. Nos meses seguintes passou Sandra aparecer. Talvez isso a livrasse de maiores
Pouco depois ela sairia conduzindo o moço. No a exigir coisas e tinha razão. As roupas estavam se grafos brigando para conseguir os melhores Lii.
gulos, mesas de famosos bares repletas de problemas. Coitada! Cansada de uma noite de
estacionamento, a primeira surpresa: havia um acabando, os sapatos eram uma vergonha. Um
amigos. Desde o entardecer, os nomes cercados sucessivas entregas e ainda ter de aturar uma
Mercedes branco, com motorista particular. João dia saiu com ele, fez compras. Toninho cortou os
de luzes no grande painel cobrindo a fachada do bicha suicida.
Carlos parecia ter melhorado, insistia que fosse cabelos, tomou banho, trocou-se no apartamento.

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