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Reunião de Bruxas

O Livre-Arbítrio é Sagrado

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© 2011, Anúbis Editores Ltda. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Coordenação editorial: Oliveira, Vanessa de
Anúbis Editores Reunião de bruxas : o livre-arbítrio é sagrado /
Vanessa de Oliveira. – São Bernardo do Campo, SP :
Preparação e Revisão: Anúbis, 2011.
Entrelinhas Editorial
ISBN 978-85-86453-31-1
Diagramação:
Entrelinhas Editorial 1. Ficção brasileira I. Título.

11-09840 CDD-869.93

Índice para catálogo sistemático:


1. Ficção : Literatura brasileira 869.93
São Paulo/SP – República Federativa do Brasil
Printed in Brazil – Impresso no Brasil

Este livro segue as novas regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

Os direitos de reprodução desta obra pertencem à Anúbis Editores Ltda. Portanto,


não é permitida a reprodução total ou parcial desta obra, de qualquer forma ou por
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Rua Armando Iezzi, 44 – São Bernardo do Campo/SP
CEP 09895-560 – Tel.: (11)3213-6991

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Vanessa de Oliveira

Reunião de
Bruxas
O Livre-Arbítrio é Sagrado

Primeira Edição
São Paulo
2011

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Quando as Bruxas se reúnem,
algo acontece...

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Agradecimentos

E m primeiro lugar, preciso agradecer à minha mãe, a pessoa que


talvez mais acreditou em mim e neste livro, porque muitas vezes
quando eu caía ela me levantou dizendo: “Vai, escreve!”. Quando eu estive
em um momento em que não acreditei mais ela me disse: “Vai! Escreve!”.
E quando eu pensei em desitir definitivamente ela novamente disse: “Eu
estou indo para aí. Vai, escreve!”.
Então, mãe, obrigada por tudo aquilo que a senhora foi para mim a
vida toda. Talvez, eu não soubesse até hoje lhe agradecer da forma como
deveria. E todos os agradecimentos que eu venha a lhe dizer infinitamente
não serão suficientes por tudo o que fez. Mãe, Eu Amo Você!
Agradeço à minha Maravilhosa Filha, que é um presente das Deusas,
por ela ser do jeitinho que é, por ser tão sábia e especial e, por muitas vezes,
me orientar no melhor caminho a seguir. Às vezes me pergunto como posso
ter recebido um presente tão maravilhoso como a sua presença em minha
vida. Filha, Eu Amo Muito Você!
Agradeço a minha melhor amiga Carine, por sua amizade, lealdade e

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paciência. Por me escutar, ler meus textos e me ajudar sempre que preciso. E
obrigada por ter criado esta imagem de capa genial! Cá, onde vou encontrar
uma amiga tão extraterrena como você? Amiga, Eu Também Amo Você!
Agradeço à minha irmã, exemplo de mulher. Aos meus engraçadíssimos
dois irmãos e ao meu querido pai, Eu Também Amo vocês.

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Teteka, Carol e Tia Tânia, obrigada por terem lido o manuscrito e
contribuído com suas opiniões, aqui tem um pedacinho de vocês também!
Agradeço minhas amigas leais Alessandra Françoise, Andréa Schaefer,
Andréia Sacrifice, Carla Schreiner, Cristina Célia, Cibelle Christina, Cristina
Piffer, D. Vani, Dumara Coltts, Graciela Deon, Kika, Maribel Bernardes,
Marisa Pereira, Patricia Cruz, Priscila Cheng, Sandra Vicente, Simone Sete,
Helô e Toalá Carolina. Vocês são mulheres admiráveis pela atitude que
têm diante da vida!
Este livro também é em agradecimento a todas as bruxas que encontrei
em minha vida e que me trouxeram ensinamentos valiosos.
Desejo que as Deusas continuem a nos iluminar e a iluminar a todas
as mulheres deste planeta!
Shatassá!
Vanessa de Oliveira

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Qualquer semelhança com a realidade é...

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CAPÍTULO I

Joana D’arc
França, 1429

O s pés de Angelique corriam apressados pela rua, ela novamente


estava atrasada. A barra da saia arrastava no chão e, vez por outra,
ela pisava na própria roupa. Passava por entre a multidão afoita, correndo,
esbarrando em algumas pessoas e pedindo licença a outras. Alguns soldados
também estavam atrapalhando seu caminho, precisava dar passagem para
eles, mas a pressa a impedia.
Paris estava com seu exército reforçado nas ruas, com receio de uma
nova tentativa de invasão inglesa. Algumas já haviam acontecido em vão,
e várias outras cidades no país já tinham sido saqueadas e invadidas pela
Inglaterra, que, aos poucos, aniquilava os franceses numa guerra que já
durava décadas.
No caminho, Angelique pensava apenas que já deveria estar na taberna,
pois Madame Mabelle não gostaria de vê-la chegando atrasada e bastante

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desarrumada. Em pouco tempo, a festa das cortesãs começaria, e novamente
ela não estaria no lugar em que deveria estar.
Na verdade, sua maior preocupação não era com o sermão e ameaça
de expulsão que receberia de Madame Mabelle nem com os soldados e al-
deões das proximidades, que logo chegariam, em busca de alguma diversão.

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Para ela, eles não passavam de bêbados grosseiros que demoravam a ir
embora e, ao final da noite, ainda se negavam a pagar uma moeda de ouro
pela noite. De colo em colo, ela ficava, até que um deles, vez por outra, lhe
oferecia algo em troca. A saia havia sido oferta de um dos cavalheiros da
corte duas noites atrás. Não fosse por ela – garantia à Madame Mabelle de
que ela ainda era capaz de valer algo dentro da taberna – e pelas parcas vezes
que Pierre aparecia, talvez ela não estivesse mais lá.
“Pierre! Ele já deve estar lá, se não me encontrar, pode ser que vá em-
bora e demore a voltar. Não posso perdê-lo.” Prometia a si mesma, enquanto
corria pelas ruas de Paris, que não mais se demoraria em largos passeios pela
cidade, embora soubesse que faria exatamente isso assim que acordasse no
dia seguinte. Não suportava ficar na taberna durante o dia, um lugar triste
e monótono, onde só lhe convinha estar pela cama, pela comida e pela
possibilidade de ver Pierre. Havia sempre homens bêbados, que não lem-
bravam o caminho de volta para casa, que por lá dormiam, atirados embaixo
da mesa do salão ou encostados nas paredes dos corredores. Quando saía
de seu quarto, tinha sempre de pular por sobre alguns deles, e havia quem
a segurasse, ainda sob o efeito da bebida e desejando um pouco de diversão
sem perceber que já era dia.
Angelique preferia ver as pessoas no mercado, gostava de contemplar
a praça com toda a sua agitação e adorava passear em torno da igreja, admi-
rando sua beleza e as estátuas de anjos esculpidos em pedra. Ela não tinha
permissão de entrar na Casa de Deus. Se vissem uma cortesã frequentando
a igreja, os guardas seriam chamados para levá-la, mas nem por isso ela
deixava de acreditar Nele. Pérola nutria certa aversão pelo Papa, segundo

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quem ela estaria fadada ao inferno por toda a eternidade.
O único lugar de que Pérola não gostava no centro de Paris era a pra-
ça de execuções, que ficava perto da igreja, e talvez a última coisa que os
executados vissem na hora em que o carrasco cortava a cabeça deles fosse

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a cruz em cima da torre principal. Todos falavam que, na hora da morte, o
que se fazia era olhar para o céu.
Quase todos os dias Angelique caminhava calmamente, até que che-
gasse a hora de regressar. Vez por outra, gostava de sentar-se às margens
do rio Sena e por lá ficar, esquecendo-se de qualquer problema que tivesse
em sua vida, mergulhada em seus próprios pensamentos e na paisagem do
rio. Havia se tornado um hábito perder-se no tempo, e por isso os atrasos
eram recorrentes.
A noite havia chegado, e as ruas começavam a tornar escuras. Angelique
estava correndo quando, ao virar a esquina, foi surpreendida pela presença
súbita de alguém em quem esbarrou, desequilibrando-se. Caída, viu apenas
o vulto do que parecia ser uma senhora encoberta por um capuz negro e
com fartos cabelos grisalhos a se sobressair na altura dos ombros. A senhora
se manteve quase imóvel e, no chão, Angelique se desculpou:
− Perdão, senhora.
Então, a mulher virou-se e ofereceu a mão a Angelique, que a estendeu,
acreditando que estava recebendo ajuda para se levantar. A mão enérgica
da senhora virou-lhe o pulso, puxando o braço dela para perto de si, a fim
de deixar a palma da mão de Angelique exposta. A senhora aproximou seu
rosto, e a claridade da Lua permitiu que Angelique visse os firmes olhos
marcados pelo tempo a lhe fitar severamente, o rosto enrugado, que deixava
o semblante da mulher assustador. Agora sua mão estava presa pelo pulso
por uma das mãos fortes da velha senhora, cujas feições a assustavam ainda
mais. Angelique foi tomada pelo pavor. A outra mão da senhora mantinha a
palma de Angelique estendida. A velha olhou para os traços delineados de

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Angelique e, com uma voz rouca, passou a lhe falar:
− Em outras vidas, usastes a sabedoria dos Livros dos Mistérios Maiores
a seu favor, negando aos outros o conhecimento. Os ciganos do Oriente eram
o seu povo, e você se apresentava como uma bela mulher, a mais formosa
entre tantas, era dona de uma legião de mulheres, que confiavam em você

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e seguiam seus ensinamentos de bruxaria. Portadora de grande conheci-
mento e beleza, usastes disso para colecionar troféus para sua vaidade de
apenas uma noite e destruístes o coração de muitos homens. Nesta vida,
ficarás sozinha e servirás a eles. Os livros não lhe pertencerão e mais de uma
vida será necessária para que a Lei Maior te recebas novamente. Somente
quando o círculo queimar a tua volta estarás liberta. Dela viestes e para Ela
voltarás. Shatassá!
Angelique estava horrorizada, o medo a imobilizara. Então, a velha
lhe disse:
− Você está com medo de mim? Tu és igual a mim!
Por fim, soltou a mão de Angelique e seguiu o seu caminho, perdendo-
-se na noite. Angelique procurava respirar o mais profundamente possível,
a fim de se acalmar. Nunca havia lhe acontecido algo assim. Quando conse-
guiu respirar um pouco melhor, outra lembrança a preocupou. Levantou-se,
então, e voltou a correr em direção à taberna, enquanto pensava nas estra-
nhas palavras daquela velha senhora.
Ela só parou de correr no início da rua, assim que virou à direita, na
rua da mercearia. Após o beco, avistou o grande armazém de bebidas e, ao
lado, a taberna de Madame Mabelle. Alguns cavalos estavam enlaçados às
grades de madeira em frente do estabelecimento, indicando o início do
movimento; percebia-se que naquela noite haveria muitos frequentadores.
Sua esperança era de que, com a movimentação, Madame Mabelle não
reparasse sua ausência.
“Consegui”, pensou enquanto estava parada diante da entrada e sus-
pirava, procurando se recompor da rápida respiração de quem acaba de

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correr. Não pensava mais nas palavras que ouvira tampouco na imagem que
até há pouco lhe vinha à memória sobre a velha senhora que encontrou no
caminho.
Angelique se encolheu no largo marco da porta de entrada, dividindo a
abertura com um soldado bêbado que saía arrastado por dois companheiros,

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e quase foi esmagada contra ela com o tamanho deles, era como se os homens
passassem sem perceber sua presença. Então, ajeitou a roupa e treinou uma
caminhada calma, evitando causar alguma indiscrição, adentrou a taberna,
como se estivesse apenas andando tranquilamente de seu quarto até o salão
principal. O rosto estava suado e os pés encardidos de poeira pela sandália
já maltrapilha e aberta. Os longos fios ruivos de seus cabelos grudados no
suor do rosto eram retirados pelas suas mãos um a um, e a saia, que havia
perdido uma de suas pontas no trajeto, arrastava no chão. Estava com a
costumeira postura desalinhada, totalmente contrária às recomendações e
exigência da proprietária quanto à aparência de suas cortesãs.
Percorreu o estabelecimento e notou que o assunto era praticamente o
mesmo de todas as noites: a guerra entre ingleses e franceses. Um homem
embriagado, bastante gordo e usando uma armadura, levantou-se, segurando
um caneco ao alto e espalhando vinho ao ar sem se importar, e, com a voz
grave, dizia:
− Morte aos porcos ingleses!!!
Muitos se levantaram em sinal de concordância. Um coro de vocife-
rações masculinas ecoou no salão, e algumas cortesãs também se manifes-
taram. Palavras obscenas e ofensivas à Inglaterra eram ditas e repetidas por
toda a taberna.
A aflição tomou conta de Angelique. A casa estava cheia, mas, pelo
seu atraso, possivelmente Pierre não estaria mais lá, se é que chegara a ir.
Fazia alguns dias desde sua última aparição, por isso tinha esperança de
que ele aparecesse novamente. Angelique esticou o pescoço e se manteve
na ponta dos pés, na tentativa de avistar Pierre entre aqueles homens. Seus

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olhos cruzaram diversos olhares desconhecidos e rostos conhecidos, que
a olhavam sem, aparentemente, se importarem com sua presença. Ela não
tinha dotes que pudessem atrair os olhares dos frequentadores, era franzina
e suas vestes, pouco atraentes. Os olhos castanhos pareciam quase sempre
tristes, e sua boca era demasiadamente pequena. Os cabelos compridos e

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ruivos às vezes despertavam o interesse de algum homem, garantindo-lhe
uma noite com ele.
“Onde ele estará, onde ele estará, onde ele est...” − parou abruptamente
de procurar por Pierre tão logo cruzou com o olhar de Madame Mabelle,
logo à sua frente, com uma expressão de desapontamento. Sentiu pela sua
frieza que seria sua última noite na taberna, e que possivelmente estaria
desabrigada antes do sol nascer.
“Chegou o fim de tudo.” Foi a única coisa que conseguiu pensar. A an-
gústia a abateu e, sem dizer palavra alguma, esperou que a proprietária lhe
expulsasse imediatamente. Imobilizada pelo desânimo, ficou imaginando
que o futuro lhe reservaria em breve:
− Angelique, acredito que você sabe qual é seu lugar neste momento,
não?
Não havia o que dizer, mais nenhuma chance lhe seria concedida, con-
forme as conversas anteriores. Não havia resposta a ser dada, e justificativas
para por que havia se perdido nos arredores da cidade não a salvariam. A
justificativa não havia sido aceita das outras vezes e muito menos seria agora.
− Eu sei onde será o lugar desta cortesã, a mais linda de Paris. Será ao
meu lado esta noite.
A voz surgiu entre as duas. Era Pierre, que estava entre os frequenta-
dores, para alívio de uma e surpresa da outra, que logo se transformou em
sorrisos ao vê-lo estender uma das mãos com uma moeda.
− Uma moeda de ouro pela noite com a dama. A moeda você pode me
dar.
− Aqui está sua parte, Madame Mabelle, pode deixar que, com ela, eu

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me acerto. Agora, por favor, passe a chave do quarto.
A aflição se transformou em alegria, e, seguindo o ritmo da música,
Angelique saltitava alegre enquanto segurava a mão de Pierre. Ambos atra-
vessaram o salão principal da taberna para o interior das dependências. Nos
corredores que levavam aos aposentos, havia velas e candelabros presos às

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escuras paredes de pedras. Eles entraram no quarto de sempre, passando
antes por outros, já ocupados com homens e mulheres que não tinham o
menor interesse em trancar as portas, tanto era seu estado de embriaguez.
Viam-se algumas cortesãs desacompanhadas, nuas, jogadas em suas camas,
à espera de alguém. A maioria delas estava ali havia muitos anos. As órfãs
geralmente eram conduzidas a casas de família para serem serviçais, as que
não eram qualificadas para os serviços domésticos eram deixadas nas taber-
nas para ali ganharem um meio de sobrevivência. Foi assim com Angelique.
Ela passava pelos corredores evitando olhar para tudo aquilo, uma vez
que não se sentia parte de nada do que seus olhos viam. E ela continuava
ali por uma única razão.
Entraram no quarto. Havia pouca claridade. O resto de vela que ainda
queimava proporcionava apenas uma iluminação sombria nas paredes. Havia
no aposento uma cama de madeira, uma cômoda pequena junto à parede e
uma mesa com duas cadeiras. Aquele era o menor quarto da casa, e também
servia de dormitório para Angelique. Ela olhou para Pierre:
− Você trouxe as velas, Pierre?
− Apenas uma, pegue e acenda − disse enquanto estendia a vela para
Angelique.
Ela a pegou:
− Onde você acha melhor colocá-la?
− Tente colocar próxima a esta outra, em cima da mesa, assim a luz
ficará melhor.
Ela fez o que ele pediu e, ao voltar-se para Pierre, viu que ele estava
em pé, junto à cama, e despido, pisando sobre a roupa que acabara de tirar:

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− O que você está fazendo? – perguntou Angelique.
− O combinado de sempre, oras – respondeu dando uma pequena
risadinha.
− Não, Pierre, o combinado é: eu primeiro, depois você. Sempre será
assim.

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Angelique se mostrava firme em sua decisão. Ele desanimou, sabia
que ainda teria de esperar pela hora certa. Não conseguia fazer com que ela
mudasse o acordo. Sempre era primeiro ela, depois ele. Pelo visto, assim
seria até que o acordo dos dois não mais existisse.
Angelique estendeu novamente a coberta da cama, e ajeitou com a
ponta dos dedos os pequenos relevos que haviam ficado − assim seria melhor
para a tarefa. Suada, apoiou-se com os cotovelos sobre o colchão de palhas
enquanto se ajoelhava no chão:
− Cadê o papel, Pierre? – Olhou em volta à procura das folhas. – Não
estou vendo.
− Está aqui – falou ele, enquanto sorria e tirava de trás de si as folhas
expostas em uma das mãos.. Angelique se entusiasmou e bateu levemente
com a palma da mão sobre a cama, e indicou onde Pierre deveria entrar:
− Vem aqui do meu lado, com a pena e a tinta. Quais palavras você me
ensinará hoje? – Seu coração acelerara ainda mais.
Pierre, já conformado, sentou-se ao seu lado:
− Não pensei em nada ainda, o que você gostaria de aprender?
− A oração da Ave-Maria.

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CAPÍTULO II

Deusa Cerridwen
Brasil, 2008

P érola chegou alguns minutos antes, pois não sabia se o ritual acon-
teceria. Olhou para o relógio, estava adiantada. No relógio, ainda
faltavam 45 minutos para a meia-noite. Então, estacionou o carro pratica-
mente em frente à loja e olhou para a placa, em que estava escrito, com
letras grandes e iluminada na cor lilás, em estilo romano, templo da lua.
Pensou que, mesmo em uma área comercial, era como se a loja não
pertencesse àquele lugar, tudo nela resplandecia mistério. A porta estava
fechada, mas havia luz no interior. Viu, então, a plaqueta escrito aberto, em
verde, pendurada na maçaneta da porta. Decidiu descer do carro.
Embora sentisse uma agitação dentro de si, caminhou calmamente até
a entrada. A porta estava fechada. Pôs a mão na maçaneta, abrindo-a sem
fazer barulho. Ninguém veio ao seu encontro, e ela, olhando o interior da
loja, ali ficou com a mão ainda apoiada no trinco da porta.

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Lindy estava sentada no centro da loja, em frente ao caldeirão de ferro
negro. Parecia concentrada, como se lesse algo à sua frente, mas nada havia
no interior do grande caldeirão. Sua barriga não aparentava os cinco meses
de gravidez, e Lindy, com seus longos cabelos loiros, tinha ares de uma jo-

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vem mulher de 27 anos. Emília, sua assistente, estava sentada ao seu lado,
apenas à espera de que as coisas acontecessem naquele início de madrugada.
Nenhum barulho se ouvia, exceto o da fonte de água ao lado da porta
de entrada. A estátua de uma mulher seminua segurava um jarro de barro,
de onde provinha a água da fonte. Pérola estava parada, ninguém a notara
ainda no recinto, então, tentando chamar a atenção para si, fez barulho,
como se limpasse os pés no tapete de entrada. Foi nesse momento que Lin-
dy e Clara desviaram os olhos do interior do caldeirão negro e a olharam.
Pérola perguntou:
− Vai haver o ritual hoje?
− Sim, vamos começar exatamente à meia-noite. É chamado o Ritual
do Sabbat Samahin. Você já escreveu todas as coisas que quer retirar da sua
vida e queimar no grande caldeirão?
− Não, vou me sentar no carro sozinha, para refletir e escrever. Já volto.
Diga-me uma coisa, alguém vai ler o que eu escrever no papel?
− Não, isso fica entre você e a Deusa.
− Que Deusa?
− A Grande Mãe. Aquela que iniciou a bruxaria na Terra.
− ok.
Pérola não sabia quem era a Grande Mãe, mas preferiu não perguntar
mais e esperar para ver no momento do ritual. Ela saiu apressadamente,
sentou-se no carro e começou a sua lista:
“Neste momento, retiro de mim tudo aquilo que não serve mais na
minha vida:
− Retiro de mim as mágoas de meu coração.

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− Retiro de mim a falta de perspectiva na vida.
− Retiro de mim a falta de sabedoria.
− Retiro de mim a falta de paciência e tolerância.
− Retiro de mim a preguiça em me exercitar.
− Retiro de mim os péssimos hábitos alimentares.”

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Então, dobrou o papel em quatro partes e o colocou no bolso detrás da
calça. Passaram-se quinze minutos até que terminasse a lista e se certificasse
de que não havia mais nada a acrescentar, pelo menos para uma iniciante
na magia.
Quando entrou na loja, observou a movimentação – antes quase vazia,
e agora havia uma dezena de pessoas, todas desconhecidas, circulando pela
sala. Deviam ter chegado discretamente, enquanto ela estava no carro. No-
tou que eram pessoas comuns, conversando sobre temas não tão comuns,
como rituais, ervas e banhos, e que fisicamente transpareciam o culto ao
mundo místico. A proprietária da loja havia falado que algumas bruxas, e
talvez até magos, estariam presentes no ritual. Mas ninguém ali usava capa
de bruxa, chapéu, vassoura ou qualquer uma daquelas coisas que ela havia
visto em filmes.
Todas eram mulheres e de variadas idades.
Havia agora uma música alegre tocando, diferente de qualquer uma
que ela já tivesse ouvido na rádio. Essa música lhe lembrava as músicas que
eram tocadas em festas na Idade Média. Tinha assistido a alguns filmes e
reconhecido o estilo musical.
Pérola entrou e discretamente se sentou em um canto da sala central
da loja, a fim de observar o encontro. Escolheu um pequeno banco, per-
to da máquina registradora, e se acomodou nele, recostando suas costas
junto à parede. Pôs a bolsa em cima dos joelhos e ficou observando todos
aqueles rostos que ali estavam. Todas eram mulheres comuns, ela diria que
a fisionomia de algumas seria como a de sua mãe, uma simples dona de
casa. Outras, ela diria ser pessoas tão comuns como sua avó ou professora

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da época da escola. Uma delas era bastante jovem, e parecia ter uma
fisionomia tradicional de estudante de classe média, como muitas que já
havia visto nas paradas de ônibus escolares. Ela não saberia descrever a
diferença entre uma bruxa e uma mulher comum. Apenas pelo estereótipo,
era quase impossível.

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Ela ainda não sabia quem era a Deusa Grande Mãe, mas sabia apenas
que teria muito a descobrir, pois até o momento não conhecia quase nada
sobre bruxas e bruxarias. Estava ali por um misto de curiosidade, intuição
e vontade de movimentar sua vida e fazer surgir algo nela, de que tinha
necessidade, mas que, aparentemente, ainda desconhecia.
As pessoas se moviam e falavam umas com as outras como se já se
conhecessem. A pequena sala central da loja parecia agora um local super-
povoado. Ela observara a todos por algum tempo e se cansou de olhá-los,
então, baixou um pouco a cabeça e, ao direcionar o rosto para o outro lado,
viu algo que lhe chamou a atenção. Na prateleira debaixo da mesa do caixa,
havia um volumoso conjunto de cartas viradas para baixo que, pelo aspecto,
pareciam bastante usadas. Elas estavam perto de um livro vermelho de capa
gasta e com folhas que, pelos cantos desalinhados, eram manuseadas há
longa data. Agora ela tinha olhos fixos no conjunto, então, repentinamente,
sentiu um impulso que não sabia explicar e ouviu uma voz dizendo: “Pegue”.
Seu corpo se inclinou para a frente e ela estendeu suas mãos até chegar às
cartas e ao livro. Ela os apanhou. Normalmente não mexeria na prateleira
de um local restrito a quem controla o caixa da loja, mas foi automático e,
quando deu por si, estava com todas aquelas cartas nas mãos, olhando às
diversas figuras de mulheres ali desenhadas. Na capa gasta do livro, estava
escrito tarô das deusas.
Começou a olhar as cartas, uma por uma, e percebeu que cada uma
delas era dedicada a uma Deusa e trazia a imagem delas representada por
uma ilustração. Nem todas as Deusas eram desconhecidas, havia a figura
da Egípcia Deusa Ísis, Deusa Iemanjá, Deusa Oxum. Devia ter aproxima-

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damente uma centena de Deusas ali retratadas. As cartas passavam pelas
suas mãos e, então, ela resolveu escolher em seu íntimo de qual gostava
mais. Ela virava cada uma das figuras e percebia que, de uma forma ou de
outra, todas eram belas. Algumas exibiam uma beleza descomunal, outras
tinham ares de ingenuidade, outras ainda, como a Deusa Afrodite, exalavam

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sensualidade. Havia aquelas que transpareciam idade mais avançada, mas,
no entanto, tinham um olhar calmo e profundo, a ponto de encantar quem
as mirasse. Passou por uma das figuras e não entendeu por que aquela era
considerada uma Deusa. Tratava-se de uma senhora nua, com aparência
cadavérica, envolta na bruma da noite, com suas pernas abertas, mostrando
a púbis, e de lá emergia uma enorme teia de aranha negra que se expandia
em direção a quem olhasse a carta. Nela estava escrito Sheila Na Gig.
Pérola continuou analisando todas aquelas figuras femininas interes-
santes, algumas mais e outras menos, e pensou em encontrar uma que lhe
agradasse mais do que as outras. Pelas mãos passava agora a carta com a
figura de uma mulher idosa segurando um cetro envolto a uma serpente, do
lado direito havia uma matilha de cães brancos e atrás via-se uma encruzi-
lhada. A carta seguinte era da Deusa Lilith, uma mulher seminua e de olhar
expressivo e poderoso, deitada sobre o tronco de uma árvore. Seu nome
não era de todo desconhecido, Pérola tinha uma vaga lembrança de já tê-lo
ouvido, então lembrou-se da Bíblia, onde consta que Lilith foi a primeira
mulher de Adão, que recusou se deitar debaixo dele durante o ato sexual,
insistindo que, por terem sido criados iguais, deveriam fazer sexo de igual
para igual. Como Adão não concordou, Lilith o deixou. Depois, ela passou
a ser considerada um demônio na mitologia judaica. Pérola sempre se per-
guntou qual havia sido o verdadeiro pecado de Lilith para ter sido banida do
Paraíso. As cartas passavam sem lhe despertar interesse incomum além da
curiosidade normal. Por fim, parou em uma. Era a figura de uma anciã, de
aparência serena, com o olhar penetrante. Deteve-se nessa carta por mais
tempo do que nas outras. Acima da anciã, havia a figura da Lua e, em cada

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lado desta, estavam outras três luas, com rostos de mulheres, o que parecia
indicar as fases de uma mulher e as fases da Lua. Ela mexia um grande cal-
deirão à sua frente e embaixo estava escrito: Deusa Cerridwen.
Pérola não conseguia tirar os olhos da figura, e perguntou-se por que,
dentre tantas outras Deusas, muitas com mais juventude e beleza física,

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preferiu aquela. Resolveu abrir o livro e procurar alguma informação sobre
aquela senhora de olhar marcante e sereno que lhe acrescentava algo até
então inexplicável. Folheou algumas páginas e viu que as primeiras se tra-
tavam de uma explicação sobre o ritual de abertura do oráculo. Logo em
seguida havia a explicação de como usar o Oráculo do Tarô das Deusas. Não
se deteve, e continuou a procurar algo que falasse sobre as figuras das cartas.
Explicaçõe sobre cada uma delas, características da Deusa, sua história e o
significado daquela carta foram, então, surgindo.
Ela leu a explicação sobre várias Deusas até chegar a que estava pro-
curando: Deusa Cerridwen. Então começou a ler:

Eu lhe dou a vida


Eu lhe dou a morte
Eu te ensino sobre a Luz
Eu te ensino sobre as Trevas
Te digo que tudo é uma coisa só
E que tudo faz parte de mim
Você percorre o caminho de espirais
O caminho eterno dos ciclos
Que é a infinita existência
Sempre aprendendo
Sempre se transformando
Sempre crescendo
Sempre mudando
Sempre acrescentando

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Nada morre que não nasça outra vez
Nada existe sem ter morrido antes
Quando vier até mim eu lhe darei as boas-vindas
Então lhe acolherei no meu grande caldeirão
O negro e iluminado caldeirão da transformação

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Onde você é transformada
Onde novamente será misturada a si
Onde será peneirada e será separada
Fundida, fervida, cozida
Derretida, triturada, desmanchada
Novamente unida e novamente reciclada
Você sempre volta para mim
Você sempre vai embora renovada
Morte e renascimento
São apenas o ponto de transição
Ao longo do caminho eterno
Partes de você ficam
Partes de mim com você se vão
Eu me desvendo a você
Eu sei tudo sobre o todo
Filha, Eu sou a Grande Mãe.

Ao terminar de ler, estremeceu. Ela estava diante da Grande Mãe.


Lindy se aproximou e a tirou de seu estado de impressão,
pergun­tando-lhe:
− Por que você está com este tarô nas mãos?
− Ah, não sei, escolhi alguma coisa para passar o tempo e peguei este.
Lindy sorriu, levantando as sobrancelhas:
− Você não escolheu o tarô. O tarô é que a escolheu.
Ela olhou para as mãos, e lá estava a carta da Grande Mãe a olhar
para ela.

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Lindy começou a comunicar a todos que se preparassem, pois em breve
seria meia-noite e o ritual começaria:
− Aqueles que não acabaram de fazer sua lista terminem. Assim que
todos estiverem prontos nos reuniremos em volta do caldeirão.

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Pérola manuseou as figuras que faltavam ser vistas e perguntou-se se
mais alguma ali lhe chamaria a atenção tanto quanto a Deusa Cerridwen.
Voltou-se para as cartas, a fim de aproveitar os últimos minutos antes do ritual,
e então se pôs a passar rapidamente uma por uma: Deusa Tara, Deusa Hator,
Deusa Maya, Deusa Kuan Yin, Deusa Ix Chel, mas não havia mais nenhuma
que lhe despertasse um interesse igual ao que sentia pela Grande Mãe. As
figuras passavam à sua frente, até que seus olhos descansaram em outra figura.
Uma mulher de meia-idade, com olhos pintados como as egípcias, usava
um vestido branco egípcio e olhava para o céu, reverenciando, com braços
abertos e mãos estendidas, as estrelas e as três luas cheias. Acima dela, havia
também o contorno de uma pessoa, envolta em estrelas, como se estivesse
abraçando a abóbada celeste. Embaixo da figura, estava escrito Deusa Nut.
A Senhora das Estrelas. Ela havia gostado também de Nut.
Lindy tocava-lhe o braço:
− Vamos? Estamos esperando por você.
Então, ela viu todos em pé, em volta do caldeirão negro, grande e pro-
fundo, que estava apoiado no chão. À sua frente, havia um tripé dourado
com uma estrela de cinco pontas na parte superior, e diversas pétalas de
rosas brancas estavam espalhadas em forma de círculo, ao redor do caldei-
rão. As pessoas davam as mãos, e sobrava apenas um espaço, aquele que
seria ocupado por Pérola.
Ela não sabia o que fazer a partir dali, e se atirou ao desconhecido,
posicionando-se no círculo com todos, mas teve a certeza de que estava
fazendo o que deveria.
No ar, a música se espalhava com uma grande vibração, embora nin-

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guém tivesse aumentado o volume do aparelho de som.
Lindy fechou os olhos, respirou profundamente e começou a invocação
da Deusa Cerridwen, com palavras que não eram entendidas como uma
língua usada nos dias de hoje. E tudo o que Pérola fez, naquele momento,

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foi fechar os olhos e juntar suas mãos às de outros, selando o círculo. Ela
abriu o coração e conversou em pensamentos com a Deusa Cerridwen:
“Obrigada, Grande Mãe, por me permitir estar aqui e deixar morrer o
que precisa morrer. E dar lugar àquilo que precisa nascer...”
Sentiu algo indescritível a invadir-lhe, como um oceano que lhe enchia
a alma. Sentiu uma inundação de emoções vindas como ondas grandes da
praia a lhe pegar desprevenida. Surpreendeu-se com esse sentimento, havia
uma boa energia a lhe envolver. Abriu repentinamente os olhos, queria
saber se algo veria e como seria. Arrependeu-se. A sensação estava indo
embora e nada via senão todos de olhos fechados concentrados. Onde
ela estava era melhor, fechou seus olhos novamente e tentou continuar
exatamente de onde havia parado. Não conseguiu. Tentou se concentrar
novamente e, então, ouviu dentro de si: “Fale através de sua alma e com
o coração”. Então ela começou novamente a conversar através de seus
pensamentos:
“Permita-me que eu tenha a capacidade de aceitar o fim de tudo aquilo
que existe, e que eu saiba acolher o que é novo e o que está por vir. Ajuda-me
a transformar o que hoje para mim é ruim e já não mais me serve naquilo
que necessito ser, ter e aprender...”
Ao fundo ouvia apenas o som de frases intraduzíveis de Lindy que pa-
recia estar em um lugar longínquo. Sentiu também suas mãos se aquecerem
nas mãos das outras duas mulheres, que estavamao seu lado.
Em seguida, seus braços foram erguidos pela força delas. Abriu no-
vamente os olhos e percebeu que todos estavam levantando os braços e
repetindo uma palavra desconhecida a ela:

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− Shatassá! Shatassá! Shatassá!
A cada vez que a palavra era repetida as pessoas no círculo levantavam
os braços de mãos dadas, como se estivessem saudando a Grande Mãe.
Lindy olhou para todos e começou a falar:

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− Um de cada vez pode se aproximar do caldeirão e jogar no centro
dele seu papel contendo a lista de tudo aquilo que não quer mais para sua
vida. Hoje é a primeira noite de inverno, e uma nova fase se inicia. Em
breve, teremos a noite mais longa do ano e, portanto, é chegada a hora do
momento especial, em que a Grande Mãe, Deusa Cerridwen, com sua noite,
engolirá tudo, para depois dar à luz uma nova vida.
Pérola tirou o papel dobrado detrás do bolso da calça, alguns foram
tirando seus pedidos do bolso do casaco. E a começar pela Lindy, um após
o outro depositou no interior do caldeirão as agruras de sua vida listadas no
papel. Ela seria a quinta pessoa a depositar seu papel de pedidos ao fundo
do caldeirão, a ordem ia no sentido horário. Ela contou e viu que eram doze
pessoas ao todo no ritual. Percebeu que Lindy ocupava o espaço que caberia
à meia-noite, e ela a quinta hora.
Quando Pérola se aproximou do caldeirão, viu, no fundo dele, uma vela
lilás, bastante espessa em largura e média em comprimento. Parecia ser uma
grande vela, que estava ali, queimando, há bem mais tempo do que todos
presentes. Ela se abaixou para pôr fogo em sua lista e sentiu de perto o cheiro
das ervas que estavam em volta da vela. Alecrim, boldo e sálvia queimavam
e expandiam seus odores junto à fumaça dos papéis sendo queimados.
Ao encostar sua lista na chama da vela, ela foi engolida rapidamente
pelo fogo e obrigada a ser largada imediatamente. Todos aqueles que já
haviam queimado seus papéis permaneciam com as mãos abertas, em cima
do caldeirão. Levantou-se, pôs suas mãos justapostas da mesma forma que
os outros e esperou a última bruxa largar seu papel. Então, todas deram
novamente as mãos. Ela seguia o que eles faziam, e tudo agora parecia nor-

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mal, como se em todos os dias de sua vida ela tivesse acendido e mexido
caldeirões. As mãos se levantaram, e todas repetiram:
− Shatassá! Shatassá! Shatassá!
E, mesmo sem entender seu significado, percebeu que a palavra era im-
portante de ser dita. O ritual parecia estar terminado, e o círculo desfazia-se

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agora com todas sorrindo umas para as outras, inclusive ela, que sentia uma
estranha leveza e alegria.
Pérola ficou curiosa sobre o significado da palavra desde o primeiro
momento que a ouviu, mas só agora teria a oportunidade de desvendá-la.
Olhou para Lindy e perguntou:
− O que significa Shatassá? É assim que se diz?
Houve silêncio e todas ficaram paradas. Notou certa apreensão no ar:
− Shatassá é Shatassá! – disse Lindy sorrindo e olhando para o grupo.
Com a explicação dela, sentiu um alívio no ar:
− Mas o que isso significa?
Todos continuavam atentos à conversa:
. Ela sorriu dando ares de mistério e se pôs a falar enigmaticamente:
− Shatassá é uma palavra celta. Mas não posso lhe revelar o significado
dela, desculpe-me. Pense apenas em algo que se refere à concretização.
− Mas por que vocês a pronunciaram?
− Como lhe disse, não posso falar.
Ela, então, se virou para todos e convidou-os para a comemoração do
ritual:
− Emília, traga as bandejas de frutas. Vamos celebrar!
A música continuou tocando, e o ambiente alegre e acalorado dava a
impressão de que ali tinha muito, mas muito mais do que doze mulheres.
E uma bandeja com diversas frutas − maçãs, bananas, bergamotas e
uvas − foi oferecida a todas. Pérola se sentou novamente no banquinho
junto à parede, até que alguém que lhe oferecesse as frutas. Viu as opções
e preferiu uma maçã e, enquanto a comia, tomou uma decisão:

27
− Emília, anota um pedido para mim, por favor. Encomenda para mim
um Oráculo das Deusas.
Lindy virou-se para ela e disse:
− Eu não tinha dúvida de que isso fosse acontecer. Pérola, você gostaria
de participar de uma reunião conosco?

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− Do que seria?
− Uma reunião de bruxas. Temos aqui um Coven.
Pérola ficou olhando para ela e fez sinal de que sim com a cabeça,
embora não soubesse bem por que estava aceitando o convite.
− Que bom, você vai gostar. A Clara ligará para você avisando o dia
e a hora.
A celebração continuou, com conversas, músicas e risadas. Uma das
participantes passou, então, com um pote negro de metal, que lembrava o
pote que contém o ouro dos duendes no fim do arco-íris. Dentro dele havia
diversos papéis enrolados, simulando pequenos pergaminhos:
− Cada um pode tirar uma mensagem para si e levá-la para casa.
Pérola, então, estendeu a mão e pegou um do fundo do pote, sentou-se
e foi ler, sem falar com ninguém:
“Eu disse que só há uma coisa acerca do passado que vale a pena
lembrar, é o fato de que ele já passou.”
Terminou de ler. Não acreditava em tamanha coincidência. O recado
caía como uma luva para o que ela precisava ouvir naquele momento. Então
releu. Voltou-se para a integrante que ainda carregava o pote e lhe perguntou:
− Posso tirar mais um?
− Pois não, se você sente que precisa.
Colocou novamente a mão dentro do pote e preferiu escolher novamen-
te um pergaminho que estivesse ao fundo de tudo, como se interiormente
ela tentasse trazer à tona partes desconhecidas de si mesma. Pegou um deles
e achou que aquele seria mais válido. Abriu, e lá dizia:
“É melhor começar hoje, com seriedade, a fazer algo, mesmo que

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medíocre, do que ficar esperando para começar a fazer quando atingires a
perfeição. E lembra-te: elogiar-se é como um burro a carregar livros.”
Era outra mensagem que tinha muito a lhe acrescentar. Guardou os dois
papeizinhos na bolsa e decidiu iniciar um livro naquela noite, há tempos
pensava em escrever um livro, mas não tinha certeza sobre o quê. Tinha

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mandado fazer tempos atrás um manuscrito grande e branco, com folhas
lisas, no qual até agora nada havia começado a escrever, então, decidiu que
começaria naquela noite a escrever um livro sobre bruxas. Logo em segui-
da se despediu de todas. Saiu de madrugada do templo da lua cheirando a
alecrim, boldo e sálvia.

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CAPÍTULO III

O Pacto
Brasil, 2008

K arem havia mandado fazer um vestido lilás para a Festa Celta. O


vestido ia até os pés e tinha mangas compridas, era justo até a altura
do quadril e levemente rodado abaixo dele. Os cabelos negros, escovados
e soltos, iam até a cintura, seus pequenos olhos orientais eram castanhos e
tinham sido pintados com lápis preto ao redor. Ela estava agora em frente ao
castelo e preparava-se para entrar nele. Conferiu com a mão o cordão em
seu pescoço com a estrela de cinco pontas e olhou para a noite estrelada.
A Lua cheia iluminava a escuridão da noite, e ela pensou: “Que os Deuses
e as Deusas estejam conosco nesta noite de alegria”.
Ela parou à porta, ouvia a música que vinha de dentro, enquanto algu-
mas pessoas entravam e outras saíam do castelo. Reconheceu, pelo vestido
preto, os cabelos negros e encaracolados e a costumeira capa preta, sua
amiga Andréa. Foi ao seu encontro e, antes que Karem chegasse até ela,

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Andréa virou-se sorrindo, pois pressentiu a presença da amiga:
– Karem, que bom vê-la. Eu estava esperando por você!
Abraçaram-se, felizes. Os pentagramas se encostaram, e elas se afasta-
ram, segurando uma na mão da outra e iniciando uma dança circular com
alegria, risadas e brincadeiras. Karem perguntou a Andréa:

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– Onde está Priscila?
– Dançando em torno do caldeirão central, vamos para lá?
Elas foram até o grande caldeirão central, onde todos estavam em vol-
ta também, dançando. As duas amigas entraram no círculo, juntando-se a
Priscila, que lhes sorria. Karem e Andréa admiraram e elogiaram a beleza
de Priscila, que, com um longo vestido rosa, parecia-se mais com uma fada
recém-saída dos contos de Cinderela do que com uma bruxa:
– E quem é que disse que as bruxas são feias? – Priscila ria enquanto
respondia ao elogio das amigas.
Havia homens, mulheres e crianças, que se embalavam ao som de uma
animada música medieval. A festa anual das bruxas era uma forte celebração
entre todos aqueles que estudavam a magia em tempos modernos e que
aproveitavam aquele dia para reviverem os tempos medievais.
Clara, com seus cabelos claros, compridos e encaracolados, usava
um vestido amarelo e aproximava-se de todos com pedaços de maçãs en-
voltos em mel e canela em pó. Ela espetava cada pedaço em um punhal
de metal com o símbolo de uma estrela na extremidade e oferecia a todos
individualmente:
− Comemore comigo, os Deuses lhe oferecem a prosperidade! – dizia
ela ao oferecer a maçã.
Vinho era servido e havia também uma grande mesa com frutas e pães
de diversos. A Festa Celta transcorria no pátio central do Castelo Montemar,
um restaurante cujas formas lembravam um castelo. Ele ficava na extremidade
mais alta de um morro, e de lá se podia ver o céu estrelado e toda a cidade.
O vestido lilás de Karem tocava o chão levemente. Um homem, vestindo

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uma capa de mago, sem querer pisou e rasgou-lhe a bainha, pedindo-lhe
desculpas logo em seguida. Ela aceitou, não estava chateada, mas saiu da
grande roda e foi olhar mais de perto o rasgo do vestido, sentou-se em uma
cadeira e ainda viu sua amiga dançando com outras bruxas. Abaixou-se até
os pés, pegou a bainha e levantou a ponta do vestido para cima, a fim de

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vistoriar o tecido rompido. Então, percebeu um corte profundo em seu po-
legar, de onde agora surgia uma enorme gota de sangue. O corte não doía,
mas era profundo. Ela não sabia como havia se cortado. A maçã havia sido
dada diretamente em sua boca. Levou o dedo à boca, sentiu o sangue doce
e, quando retirou o dedo, viu que agora só o corte podia ser visto, pois o
ferimento repentinamente havia fechado.
Voltou para a roda ao redor do caldeirão, que se abriu com a sua che-
gada, estendeu as mãos até as outras duas bruxas e entregou-se à música
até que o sol despontasse no amanhecer.
Quando a festa acabou, despediu-se de todos, a maioria ainda não havia
ido embora. Ela abraçou Andréa, Priscila e Clara, dizendo-lhes:
− Sempre é muito bom estar com vocês, amigas, que assim seja por
muitos séculos.
– Shatassá – foram o que todas disseram juntas.
– Quando reencontraremos nossa outra irmã? – Perguntou Clara.
– Não sei, meus sonhos pouco mostram sobre ela, mas sinto que em
breve estaremos nós cinco novamente juntas – Respondeu Karem.
– Sim, mas o grande dia se aproxima, o que faremos? – Andréa parecia
um pouco apreensiva.
– Vamos manter a fé, ela virá! – Afirmou Karem.
Todas concordaram e aos poucos, uma a uma, foram embora para casa.

Chegando em casa, Karem tirou o vestido, colocou-o sob a poltrona de


seu quarto, tomou um banho rápido e deitou-se para dormir. No outro dia,
estaria de folga do trabalho e poderia descansar até mais tarde.

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Tão logo se deitou, Karem adormeceu.
Ela agora se via sentada no chão. Usava um vestido lilás e, em sua ca-
beça, havia uma coroa de pequenas flores brancas. Atrás de si, havia uma
vassoura. Uma mulher passou por ela, usando um longo vestido branco, e
aquela era a última das cinco bruxas a chegar. Elas estavam na clareira aberta

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de uma casa. No céu estrelado, percebia-se duas luas. Uma maior, cheia e
branca. Outra menor, avermelhada. Estavam as luas próximas uma da outra.
Todas elas estavam agora sentadas no chão com suas vassouras for-
mando um grande círculo por detrás delas. Havia uma taça contendo vinho.
Elas se embalavam, pronunciando repetidamente algumas palavras em
outra língua. A taça de vinho era passada de mão em mão e todas bebiam.
O punhal foi levantado ao ar, e ela apenas via gotas de sangue que caíam.
Quando acordou, Karem estava eufórica, abriu os olhos, tinha a sen-
sação de que tudo o que presenciara no sonho fosse real − as cenas e o que
sentira não eram um sonho como a maioria dos que tinha à noite, confusos
e reflexo do seu dia a dia. Karem sabia que, quando é apenas um sonho
comum, veem-se a situação e os personagens, através dos próprios olhos, de
forma a se estar presente no sonho ou não, apenas visualizando o que ocorre.
Porém, quando se trata de uma experiência real, seja em que dimensão ou
plano, vê-se tudo à sua volta, incluindo a si próprio, por diversos ângulos,
como se a pessoa fosse um personagem integrado na cena. Nesse caso, o
grau de consciência ao se desprender do corpo é maior, permitindo que se
veja o que acontece com uma percepção muito mais ampla do que se visse
apenas com os olhos. Em experiências fora do corpo, de pessoas em coma,
estas também relatam que veem a si próprias deitadas e a todos do recinto,
e Karem havia visto tudo o que ocorrera dessa forma, inclusive ela própria
se viu sentada de costas e em frente do caldeirão.
Karem olhou para a poltrona de seu quarto e viu que ela estava vazia.
Foi nesse momento que percebeu que estava dormindo com o vestido lilás
em seu corpo. Só não entendia como era possível aquilo ter acontecido.

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Recordou-se também da noite anterior, da Festa Celta e de toda a dança
e música, das pessoas vestidas de cavalheiros e de magos. Lembrou-se da
ponta do vestido rasgada e, por fim, do corte no dedo. Então, retirou a mão
de debaixo da coberta. Olhou para o seu dedo polegar a fim de verificar o
machucado. A marca ainda estava lá, embora o corte estivesse fechado. Foi

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então que viu outro corte em seu dedo indicador. Assustou-se. Não estava lá
na noite anterior. E viu no anular outro corte, e foi verificando todos os dedos
da primeira mão. E todos eles estavam marcados pelo fio de uma navalha
certeira. Tremendo, retirou a segunda mão das cobertas e, dedo após dedo,
a abriu, para ver se o mesmo se repetia em todos eles, para então se lembrar
do sonho que tivera. Sabia que em algum momento de sua existência havia
sido batizada e feito algum pacto de sangue, a questão agora era se lembrar
com quem, quando e por quê.

Eu tinha acabado de escrever mais uma página do livro. Pérola e


Angelique são duas personagens intrigantes para mim. Ando bastante
envolvida com suas histórias, penso nelas constantemente, e nem eu
mesma sei o que lhes acontecerá. Simplesmente escrevo conforme vivo
meus dias, desenrolando suas histórias e lhes dando, assim, vida.
Eu não estava me sentindo cansada depois de ter escrito por quase
seis horas seguidas. O que eu precisava era renovar os ares e sair um
pouco de casa, por isso, resolvi dar uma volta na praia. Pensar sobre a
história de Pérola e Angelique me absorve quase todos os pensamentos,
até mesmo porque passo a maior parte do tempo em casa. A verdade
é que o mundo lá fora se tornou muito desinteressante. A TV também.
No fundo, o mais divertido e intrigante em minha vida ainda são meus

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pensamentos, por isso fico tanto com eles. Eu vivo coisas maravilhosas
e emocionantes sem sair de casa. Um universo rico e gigantesco a ser
desvendado dentro de mim. Mas eu sentia a necessidade de respirar um
pouco do que há lá fora, então decidi sair.

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O inverno está um pouco mais rigoroso este ano, por isso me aga-
salhei mais. Estes dias estão realmente frios, mas, mesmo assim, resolvi
dar uma volta a pé até a praia para sentir um pouco mais a natureza. Tal-
vez o que me chamasse até lá fosse exatamente o meu corpo, pedindo
clemência por tantos dias deitada, pensando na vida, ou sentada, diante
da máquina, escrevendo.
A praia é muito bonita, independentemente de estar frio ou calor.
E mesmo no inverno, sempre há algum turista que, empolgado ao ver o
mar, se atira na água apenas de roupa íntima, como se não se importasse
com a temperatura.
Cheguei à praia, depois de caminhar três quarteirões, e, praticamen-
te, a primeira coisa que avistei foram tês turistas, adultos, que mais pare-
ciam crianças brincando na água em um dia de verão. Sentei no banco do
calçadão e fiquei contemplando as pessoas ao meu redor, ora as crianças
fazendo montes de areias, ora os adultos a vigiá-las, ora o próprio mar.
Um sol gostoso começou a me aquecer e perto de mim uma jovem mãe
brincava com uma criança no carrinho de bebê. Como eu estava olhando
para ela, acenou com a cabeça em um gesto de cumprimento, o qual
eu retribui, e pensei que as pessoas simpáticas são mais felizes, ou pelo
menos parecem ser.
Foi quando alguém, pedindo licença, se sentou no banco. Dei es-
paço. Era um homem de meia-idade, que parecia ser distinto, tinha uma
vasta cabeleira, o que é um pouco difícil de encontrar nos homens de
meia-idade. Ele vestia calça, camisa e sapatos brancos, era muito elegante
para quem estava à beira da praia:
− Lindo dia de frio hoje, não é mesmo? – ele falou.

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− É verdade – respondi, apenas por educação, não estava com muita
vontade de conversar com ninguém naquele momento, só de relaxar e
apreciar o mar.
− Você vem sempre aqui?

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Eu não o olhei, apenas sinalizei que não com a cabeça e continuei
olhando o mar, talvez assim ele entendesse que eu queria apenas ficar
em silêncio.
− Eu venho quase todas as manhãs à praia, tenho um intervalo neste
horário, trabalho aqui perto e, então, venho apreciar as coisas belas de
Deus.
− É verdade – respondi.
− Mas, e você, vem sempre aqui? Acho que não, né? Porque senão
eu já teria lhe visto.
− Venho muito pouco, vinha mais. – Uma das últimas coisas que eu
queria naquele momento era alguém puxando conversa comigo.
− Ah, legal. Mas ainda não nos apresentamos. Meu nome é Fhelipe.
Qual seu nome? – ele estendeu a mão em minha direção.
Continuei olhando o mar e não estendi a mão, mas falei:
− Vanessa.
Então, olhei para o outro lado. Eu sabia que não estava sendo nada
simpática.
− Mas, então, Vanessa, o que você faz?
Pelo visto a coisa não pararia por ali e eu resolvi me levantar enquanto
respondia e dava a entender que eu já estava de saída:
− Sou escritora – estiquei os braços no alto me espreguiçando.
− E sobre o que você escreve?
− Sobre o que tenho vontade.
− Legal, Vanessa. Eu gosto de escritores. Bem, estou vendo que
você já vai. Neste horário estou quase sempre por aqui, quando quiser
conversar apareça. Será um prazer.
– Ok, Fhelipe, até mais.

37
Virei-me e saí andando.
− Ei, você não vai perguntar o que eu faço?
Eu continuei andando sem responder, achei que o recado estava dado.

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CAPÍTULO IV

A Reunião
Brasil, 2008

Q uando chegou ao templo da lua, Pérola percebeu que já estava


atrasada. Na sala principal da loja, havia uma pessoa desconhe-
cida que tomava conta do caixa no lugar de Clara. Ela indicava com o dedo
a direção para onde deveria se dirigir. Pérola perguntou-se como ela poderia
saber os motivos que a levavam até a loja. Provavelmente, qualquer pessoa
poderia adentrar ali para adquirir objetos esotéricos ou decorativos.
Pérola caminhou apressadamente até os fundos, seguindo o corredor
principal, e ao passar pela estante de ervas sentiu o aroma de canela. À sua
frente, no final do corredor, viu uma porta semifechada. Seguiu adiante e
diante dela havia vários sapatos sobre um tapete, o que indicava que a sala
estava cheia, e que ela também deveria ficar descalça naquele recinto.
Retirou seus sapatos e os colocou junto aos demais calçados, então,
lentamente, com uma das mãos, afastou a porta para que pudesse entrar na

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sala, tentando interromper o mínimo possível a Reunião de Bruxas.
O ambiente estava iluminado por algumas velas dispostas em castiçais
nos quatro cantos da sala. Via-se a fumaça de incensos formando espirais
que se espalhavam no ar. Tudo o que circundava a sala era ainda enigmáti-
co para Pérola. Algumas mulheres dispostas em um grande círculo estavam

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sentadas em posição de lótus, outras apenas deixavam o corpo repousar
sobre alguma almofada. Viam-se algumas vassouras encostadas nas paredes.
Podiam se ouvir vozes no interior do recinto. O silêncio surgiu no instante
em que Pérola se fez presente, então, Lindy, sentada do outro lado, em frente
ao caldeirão e segurando um grande livro negro, disse:
− Pode entrar, Pérola, seja bem-vinda!
− Boa noite a todas – acenou Pérola com a mão.
A maioria sorriu, e algumas reponderam verbalmente. Então, Pérola
procurou um lugar para se sentar junto a elas, encontrando um espaço entre
duas mulheres, que se afastaram para que ela o ocupasse. Ao seu lado di-
reito, havia uma moça com uma vasta cabeleira negra encaracolada, que a
fitava com o canto dos olhos. Ela se vestia de preto e tinha uma leve cicatriz
próximo à maçã do rosto. Ela começou a arfar, quando Pérola se sentou,
como se tivesse repentinamente ficado nervosa.
Pérola percorria os olhos pelo grande círculo, tentando identificar al-
guma pessoa conhecida ou reconhecer alguém que teria vindo no ritual do
qual ela participara. Reconheceu imediatamente duas mulheres que também
estavam naquele dia e a jovem que parecia ser uma estudante. Foi então que
cruzou seu olhar com o de uma moça sentada próximo a Lindy, de aparên-
cia frágil, pele bastante clara, longos cabelos lisos e olhos orientais. Teve a
impressão de conhecê-la, mas não se recordava dela no dia do Ritual do
Samahin. Ela a olhava penetrantemente, e Pérola desviou seu olhar para se
voltar a Lindy, que, nesta hora, recomeçou de onde havia parado:
− A vida é cíclica, e vemos a importância da existência dos ciclos, que
estão presentes não só em nós, reino animal, mas também na natureza toda,

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nos reinos vegetal e mineral. Temos o ciclo repetitivo das estações do ano, o
ciclo das mudanças de fase da Lua, dos movimentos dos planetas, inclusive
podemos observar a movimentação dos astros, que também é circular, em
torno de si próprios. Enfim, tudo o que há na Natureza obedece sempre a
uma lei cíclica, a de ir e vir. A verdade é que tudo nesta vida obedece ao

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movimento circular, precisa nascer, completar-se, morrer e renascer, para
seguir seu curso até que novamente nasça, se complete e renasça outra vez.
Todas ouviam atentamente os ensinamentos e uma das participantes
pediu a palavra, completando o conhecimento:
− É importante que se respeitem os ciclos em nossa vida, e que eles
tenham a oportunidade de se iniciar e completar. Tudo é uma questão de
nascer e de morrer, consecutivamente. Lembremos, inclusive, da importân-
cia dos movimentos circulares na nossa própria vida, o ciclo menstrual da
mulher, por exemplo.
Outra participante, próxima a Pérola, levantou a mão, pedindo a
palavra. Pérola pensava no quão interessante era o assunto que elas agora
discutiam, nunca antes ela havia pensado sobre isso. Virou-se na direção
da outra participante e, então, percebeu que os mesmos olhos orientais do
outro lado da sala ainda a observavam. Pérola estava intrigada com isso.
Uma mulher madura, com cabelos negros até o ombro e usando um vestido
florido começou a falar:
− Vou me apresentar, porque a maioria de vocês não me conhece ain-
da. Meu nome é Rosana e sou astróloga e taróloga. Faz pouco tempo que
cheguei a este Coven de Bruxas, e queria exemplificar o tarô que utilizo
em meus trabalhos de aconselhamento como um exemplo de movimento
cíclico. A primeira carta do tarô, conhecida pela carta 0, é a carta do Louco,
que representa aquele que nasce, que inicia sua caminhada e que, por isso,
naquele momento, atira-se ao desconhecido em busca do conhecimento. Ele
vai passando por todas as fases da vida, representada pelas outras cartas, até
que a trajetória toda dele culmina na última carta do tarô, que é a carta XXI,

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a do Universo, que indica que ele completou a caminhada e que chegou
ao seu destino. A carta do Universo é a carta da totalidade, da realização e
do sucesso de tudo aquilo que o Louco iniciou um dia. É onde a jornada se
completa. Tudo nesta vida tem um início, um meio e um fim e, quando este
fim chega, um novo início recomeça. Assim o é também para a Astrologia,

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na qual a mandala astrológica é representada por um círculo, que expressa
nela todo o desenvolvimento do ser humano, da hora em que ele nasceu até
o momento de sua morte. Lembrando que o ciclo da vida vai da primeira
inspiração do indivíduo até a última.
Pérola agora sabia com quem se encontraria dentro de alguns dias. Lindy
havia indicado a ela uma astróloga. Aquela mulher lhe transmitira segurança,
e sentiu que ela poderia lhe ajudar a encontrar um caminho para a sua vida,
ou pelo menos a resposta para algumas de suas perguntas.
Uma senhora de cabelos compridos e brancos, aparentando idade
avançada, com um rosto bastante marcado pelo tempo, expôs:
− Notem que a forma circular nos dá a sensação de unidade. E observem
que, de uma forma ou de outra, tudo o que existe está interligado, não há
nada no Universo inteiro que independa do meio em que está. Na verdade,
todos somos um, e estamos sempre diretamente conectados uns aos outros,
por forças que não percebemos. Qualquer movimento nosso sempre impli-
cará alguma consequência para o Universo, sejam nossos pensamentos ou
nossas ações. E todo o movimento do Universo, da mesma forma, implicará
alguma consequência para nós. O leve bater das asas de uma borboleta
poderia causar um tufão do outro lado do mundo, não é isso o que diz a
teoria do caos? Não há nada que façamos que cause consequência somente
a nós, portanto, somos plenamente responsáveis também pela dinâmica do
Universo e totalmente responsáveis pela dinâmica da nossa vida, pois tudo
aquilo que fazemos vai, e um dia volta. Essa é a Lei do Retorno, que é também
como um ciclo a ser completado. Você receberá aquilo que um dia enviou
e que retornará a você em algum momento no decorrer da sua existência.

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Rosana ainda complementou:
− Em essência, todos somos iguais, por isso dizemos que todos somos
um. Estamos conectados entre nós, porque viemos todos da mesma Fonte
Geradora da Vida. O que nos diferencia e nos individualiza uns dos outros
são basicamente as camadas que temos por fora. São os condicionamentos

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que recebemos na vida e os caminhos que escolhemos para fazermos o
regresso novamente ao lar. Na verdade, nós não estamos indo há nenhum
lugar diferente. Nada disso. Estamos neste mundo para aprender e depois
retornar de onde viemos. É um ciclo, um dia voltaremos ao ponto de origem.
Uma moça bastante nova, aparentemente saída da puberdade, pôs-se
a falar. Pérola a reconheceu, ela também participara do ritual:
− O nosso corpo se renova a cada sete anos. No ano zero, somos bebês,
aos sete anos, somos crianças, aos catorze anos, somos adolescentes, aos 21
anos, jovens entrando na fase adulta e, aos 28 anos, por exemplo, adultos
formados. Somos muito diferentes de nós mesmos a cada sete anos. Note
que um adulto de 42 anos é muito mais maduro do que um de 35 anos, e
essa diferença é notória. E, quando amadurecemos em direção às últimas
etapas de sete anos de nossa vida, retornamos lentamente ao início do ciclo.
Quem aqui nunca presenciou os idosos voltando a ter comportamento de
criança, até mesmo querendo receber alimento na boca ou que deem banho
neles? Qual avozinho e avózinha não gosta da companhia de outras crian-
ças? E isso acontece porque eles se identificam! E a maioria das pessoas não
aceita, e até mesmo resiste a fazer mudanças em sua vida; tem dificuldade
em aceitar sair de uma fase e experenciar a outra, mas as mudanças são
normais e necessárias. Elas fazem parte da natureza humana. Envelhecer é
uma oportunidade de se tornar um ser humano melhor. Aliás, só no Ocidente
envelhecer é visto como algo ruim, pois no Oriente envelhecer é visto como
uma dádiva. O natural é que tudo se transforme o tempo todo, isto é o que a
natureza nos pede, e quem não aceita as mudanças adoece física, espiritual
e emocionalmente. Mesmo que a medicina estética camufle externamente

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os efeitos do tempo. A pessoa que não aceita as mudanças não absorveu os
ensinamentos necessários que só são aprendidos com o passar dos ciclos
da vida, que se completam e mudam, pois é através deles que evoluímos.
Todas concordavam com a cabeça. Pérola estava impressionada e
perguntou à moça vestida de preto, sentada ao seu lado, como era possível

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uma jovem de cerca de quinze anos ser detentora de um conhecimento
como aquele. Já com a respiração estabilizada, ela se voltou a Pérola e lhe
respondeu:
− Ísis é seu nome. Na bruxaria é assim, não se pode determinar quem
é uma bruxa velha ou uma bruxa nova apenas pela idade terrena. Às vezes,
a bruxa nova traz um conhecimento milenar muito superior a quem tem
cinquenta anos de estudos nesta vida. O que nós vemos por fora é apenas
um invólucro; o que somos por detrás disso que mostramos superficialmente
é sempre um mistério. Perceba, nós não somos assim, nós apenas estamos
assim − disse enquanto sua mão apresentava a si mesma.
Outra bruxa ergueu a mão e começou a falar:
− E vejam bem, precisamos conectar os ciclos da Natureza em nós, afi-
nal, tudo de uma forma ou de outra está interligado, não é mesmo? E quanto
mais harmonizadas estivermos conosco, mais nos conectamos à Natureza.
Vejam o poder da Lua, comprovado cientificamente, capaz de movimentar
as marés pela força que ela exerce nas águas. O nosso organismo é 70%
feito de água, logo, a própria Lua exerce poder sobre nós. Mas com a vida
agitada não paramos para perceber esses reflexos. Inclusive, há dias em que
temos comportamentos, reações e sensações estranhas, não explicadas por
nós, e tudo pode ser uma influência da Lua sobre nosso corpo. Uma vez
conscientes dessa conexão, tudo se torna mais claro em nossa vida.
Lindy, então, prosseguiu a leitura do livro que estava em suas mãos. Ao
recliná-lo, Pérola percebeu que ele era bastante antigo e havia sido escrito
à mão:
− A pequena proporção da espiral do caranguejo possui a mesma pro-

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porção da espiral de um furacão. E essas são as mesmas proporções da espiral
de uma gigante nebulosa da Via Láctea. Entre outras palavras, a famosa frase
da Oração do Pai-Nosso, que diz: “Assim é na terra como é no céu”, está
dizendo que o macro se repete no micro, e que assim o é em toda a natureza
da criação. O Universo se repete e se replica o tempo todo, nos mundos,

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na Natureza, no nosso corpo, em cada célula dele, afinal, o que é a cadeia
de dna senão a espiral da nossa vida sendo replicada? E o que temos são
diversos mundos dentro de um mesmo mundo, repetindo-se e repetindo-se e
repetindo-se infinitamente. Não somos os maiores, somos uma gota em um
imenso oceano, onde esse mesmo oceano cabe em uma gota.
Pérola, apesar de ter concluído ser esse um pensamento complexo,
entendeu o que a frase dizia e pensou que nunca havia parado para analisar
racionalmente essas possibilidades, mas se lembrou de que, quando era
pequena, tinha a sensação de que, em um pedacinho seu um outro mundo
imenso poderia existir e que nesse mundo imenso um outro maior ainda
poderia estar lá. Por vezes, ela se sentia minúscula como uma formiga e,
por vezes, uma gigante.
Pérola voltou sua atenção para Lindy, esperando que ela continuasse
lendo o livro. Nesse instante, viu que era observada por Clara e por outra
jovem, belíssima, do outro lado da sala, que ora se entreolhavam, ora olha-
vam para ela. Então, Rosana completou:
− Lembram-se do movimento elíptico que ocorre nos átomos? Ele nada
mais é do que elétrons em movimentos cíclicos em torno de um núcleo. E isso
nada mais é do que a perfeita representação do nosso sistema solar, o qual
chamamos de macrocosmos, sendo replicada no que chamamos de micro-
cosmos, representado, no caso, pelo átomo. E quem ali dirá que não poderia
estar presente a representação de um outro mundo? Não exatamente como o
nosso, mas um mundo que obedece a um mesmo princípio de criação e de
replicação dos mundos. A verdade é que temos muitos mundos paralelos inte-
ragindo uns com os outros simultaneamente, entre várias realidades paralelas.

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Houve silêncio. Pérola viu que os olhos orientais intrigantes do outro
lado da sala agora fitavam Rosana. Ela continuou a falar:
− E quem aqui por acaso sabe o que é real? Dizemos que nosso mundo
aqui é o mundo real porque estamos sentindo nossa consciência neste exa-
to momento. Mas o fato é que de nada temos certeza, pois nem ao menos

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sabemos se vivemos aqui ou se vivemos em um outro mundo paralelo, por
exemplo, quando dormimos. O fato é que não sabemos se temos sonhos
ou se sonhamos que estamos aqui. Quando acordamos do lado de cá, é
porque dormimos do lado de lá, e quando acordamos do lado de lá é por-
que dormimos do lado de cá. E esta vida aqui, será que ela não passa de
uma grande ilusão? Uma ilusão válida, claro. Pois sabemos que não somos
daqui, apenas estamos aqui. Inclusive, Lindy, isto aqui pode não ser real,
mas somente um sonho seu.
Pérola agora pensava: “E se eu estiver vivendo constantemente um
sonho meu?”. Rosana ainda falou:
− Já pararam para analisar que talvez o tempo do Universo seja diferente
da noção de tempo que nós temos? Já pensaram na possibilidade de que a
linha do tempo pode não ser exatamente uma linha, e, sim, um círculo no
qual tudo se funde? E se a ordem certa não for passado, presente e futuro,
mas o inverso, e nós, mesmo assim, temos a noção contrária da ordem deles?
E pergunto mais. O tempo daqui, será o mesmo de lá, ou dos outros mundos
paralelos? Pensem em algo, tudo que é relativo na Natureza obedece ao
movimento circular. E eu acredito que o tempo também é circular, mesmo
que não saibamos de que forma isso acontece, com passado, presente e
futuro fundindo-se uns aos outros.
A reunião prosseguia, Pérola arrependeu-se por não ter levado papel e
caneta, para anotar conhecimentos tão distintos do que ela vira até aquele
dia. Pensou em chegar em casa e retratar sua experiência no livro que deci-
dira iniciar. Era a primeira vez na vida que cogitava que nada era definitivo
e válido como verdade absoluta no mundo. Nada poderia ser e, ao mesmo

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tempo, tudo poderia ser.
Uma pausa fora anunciada para as bruxas se servirem de chá, e, nesse
momento, enquanto elas se movimentavam para se levantar e ir até a mesa,
ouviu-se uma delicada voz pedindo por atenção para fazer um importante
comunicado:

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− Eu gostaria de dizer àquelas que estão aqui presentes de que reco-
nheço a pessoa que aparecia em meus sonhos e por quem eu e minhas
amigas já esperávamos. Tantas vezes já conversamos com vocês sobre isso
nesses encontros e esperávamos encontrá-la. E hoje digo a todas, ela está
aqui entre nós!
Algumas exclamações foram ouvidas na sala. Pérola ouvia as palavras
vindas da moça de olhos orientais que a fitara na reunião. Ouviu-se também
um forte suspiro vindo de seu lado, era a moça com os fartos cabelos negros
encaracolados, que agora dizia:
– Ah! Eu sabia! Não era à toa que eu sentia essa energia toda pairando
no ar!
Pérola pensou ser ela própria a pessoa, mas se manteve em silêncio, à
espera de uma confirmação. As bruxas, então, se levantaram e foram até a
mesa de chá pegar a bebida quente, que continha capim limão, anis-estrelado
e alfazema. Algumas pedras de ametistas e de outros cristais podiam ser vistas
ao fundo das canecas de chá, que eram servidas por Emília.
Pérola procurou uma xícara e se manteve em silêncio, observando o
movimento das bruxas.
Quando retornaram à reunião, elas tiveram alguns minutos de medita-
ção em conjunto e, assim que terminaram de discutir os movimentos cíclicos
da vida, uniram-se umas às outras pelas mãos, e todas, com um pensamento
único, mentalizaram a limpeza espiritual das camadas que envolviam o
planeta Terra. Para encerrar o assunto do encontro concluíram que na vida
devemos permitir que coisas morram para que outras possam nascer.
Por fim, todas, juntas, realizaram uma dança circular em torno do cal-

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deirão. Algumas seguravam suas vassouras, outras permaneciam de mãos
dadas, como em uma cantiga de roda. Na dança, reverenciaram a Deusa
Cerridwen e os ciclos da vida. Elas dançavam, riam e se energizavam ao
som de uma mística música bruxal.

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Aos poucos e lentamente elas saíam da sala de Reunião de Bruxas e
seguiam em direção à saída do estabelecimento, enquanto algumas se man-
tinham ainda na parte comercial da loja, conversando sobre bruxaria e os
novos livros que acabaram de chegar. Algumas emprestavam livros bastante
antigos umas para as outras e trocavam receitas de poções e feitiços. Pérola
ouvia duas bruxas de idade bastante avançada conversando. Uma delas dizia
que tinha de saber o que era verdade e o que era mentira em uma história
que lhe havia acontecido:
– Para descobrir uma verdade – uma ensinava a receita à outra –, vá dian-
te do mar, saúde a Deusa das Águas e peça para que ela lave e leve embora
toda a sujeira, toda a obscuridade e toda a mentira, a ponto de você poder
ver a verdade. A Lua ideal para este feitiço é a Lua Nova. Faça um caldeirão
de bruxas na areia próxima da água, cavando um buraco fundo com cerca
de dois palmos, como se ele fosse o interior do caldeirão, acenda seis velas
brancas em seu interior e, enquanto realmente faz o pedido, salpique o fogo
das velas com alecrim, pedindo para limpar a situação e clarear a verdade.
Quando sentir que é a hora, levante sua varinha mágica, saúde todos os se-
res das águas e agradeça a oportunidade de ali estar porque sabe que o que
pediu já foi realizado, depois diga shatassá!
Pérola pensava “Preciso saber mais sobre essa palavra”. Então, calçou os
sapatos e foi até a prateleira de livros, à procura de mais informações sobre
os mundos paralelos ou qualquer outro assunto que pudesse lhe interessar
e esclarecer o significado da palavra Shatassá.
Ela estava com um livro sobre física quântica nas mãos quando ouviu
atrás se si uma voz a lhe perguntar:
− Podemos falar com você?

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Pérola virou-se, sabia quem queria falar com ela:
− Claro.
Então, a moça de olhos orientais, que a observava durante quase toda
a reunião, agora lhe dizia:

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− Eu sou Karem e estas são minhas amigas Priscila, Andréa e Clara, que
você conhece como a assistente da Lindy. – Todas sorriam, cumprimentando-a.
− Prazer, eu me chamo Pérola – cumprimentou-as apreensiva.
− Acredite, Pérola, estávamos esperando por você – falou Andréa, a
moça que na reunião estava ao seu lado vestida de negro.
− Eu? Mas para quê?
− Para continuarmos nossa caminhada juntas. Você não se lembra
de nós?
Pérola estava em silêncio. Balançou negativamente a cabeça.
− Nadinha? – Perguntou Karem, que tinha em seu semblante certa
expectativa na resposta.
− Não.
E, embora Pérola tivesse a sensação de conhecê-las, disse que não tinha
nenhuma recordação de qualquer uma delas.
− Tudo bem, com o tempo e na hora certa o véu será retirado. Péro-
la, você tem algum número de telefone para contato? Podemos conversar
qualquer dia?
– Sim, claro.
Pérola lhes passou o seu número e, em seguida, se despediu de todas
que estavam na reunião, e, antes de sair do templo da lua, passou pelo pote
das mensagens e decidiu retirar mais um papelzinho do caldeirão, que ficava
junto ao altar da loja, próximo ao balcão de entrada. Colocou sua mão ao
fundo dele e escolheu um, desenrolou-o e leu:
“As ondas naquela praia continuam esperando. Na hora certa com
elas você se encontrará e tudo será luz. Tudo tem o seu momento certo para
acontecer.”

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Embora não tenha entendido o significado da mensagem, Pérola guardou-
a no bolso da calça e depois foi para casa. Na ida, enquanto dirigia, pensava
em quanto era estranho como tudo havia começado. Lembrava-se do dia
chuvoso, quando saíra dirigindo aleatoriamente pela cidade enquanto sua
mente era invadida por perguntas sem respostas. Perguntava-se o que estava

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fazendo nesta vida e qual era o sentido de estar viva, por que seu relacio-
namento não havia tido continuidade e por que estava naquele momento
tão perdida, sem saber o que fazer e como reagir à separação que lhe havia
acontecido – um casamento fora deixado para trás e isso havia feito dela uma
grande questionadora da própria vida.
Pérola estava em um momento difícil, e bastante confusa sobre quem
era e o que faria a partir daquele momento. Ela se esforçara em seu relacio-
namento e agora estava solitária, dividindo uma casa com ela mesma. Por
vezes, via-se apegada ao passado, ora se lembrando dos momentos que tivera
enquanto era casada, ora se perguntando se ela teria tido alguma condição de
impedir a separação. Sua vida havia ficado atrelada a vida de outra pessoa,
e muitas coisas perderam o sentido para ela, que agora deveria se conhecer
novamente. “Por que isso aconteceu comigo?” Era uma das perguntas que
se fazia. O que lhe dava força nestes dias difíceis eram os textos que escre-
via com seus pensamentos sobre si, a vida e as pessoas. Ela se entretinha
por horas enquanto escrevia, perdendo a noção do tempo e, muitas vezes,
escrevia quase a madrugada toda, por causa da insônia. Escrever não era só
uma fuga emocional, era também uma forma de se encontrar.
Pérola lembrava-se do dia em que tudo começara, na primeira vez que
entrou no templo da lua. Ela estava vagando pela cidade, depois de dirigir
por algumas horas sem destino. Seus pensamentos estavam voltados para a
desordem de sua vida, lágrimas lhe caíam sem que ela pudesse contê-las.
Ela se sentia sufocada, uma enorme angústia invadia seu peito, e seu choro
agora era convulsivo. Inesperadamente, parou o carro no meio da rua, fechou
os olhos e, sem perceber, se pôs a rezar:

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− Deus, não posso mais suportar este sofrimento, não consigo mais
suportar a dor da perda e de ter a minha vida arrancada da estabilidade do
dia a dia. Sei que não conversei muito com o Senhor nestes últimos anos,
mas, mesmo assim, tenho de dizer que me sinto abandonada, nada fizestes
para me proteger do que me aconteceu, e eu nada fiz para que merecesse

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ser castigada da forma como estou sendo. Meus dias se transformaram em
lágrimas, e não tenho ninguém para me ajudar. Se o Senhor existe e se an-
jos existem, então, peço que façam alguma coisa por mim e me mostrem o
caminho correto a seguir, para a minha felicidade, porque eu não sei mais
como encontrá-la. Eu peço que me ajudem, urgentemente, porque estou
prestes a desistir de mim mesma...
Nesse momento, Pérola ouviu a buzina de carros atrás dela, abriu os
olhos, estava ainda atormentada emocionalmente, mas sabia que precisava
sair do meio da rua. Uma pequena fila de carros havia se formado atrás dela,
então, acelerou e começou a guiar, enquanto motoristas ainda buzinavam,
completamente impacientes. Ela dera passagem para que a ultrapassassem,
enquanto continuava a chorar.
Em dado momento, foi obrigada a estacionar o carro, não era mais
possível dirigir no estado em que se encontrava Procurou um espaço para
estacionar naquela rua. Havia apenas uma vaga, e ela estava bem à frente do
templo da lua, como se aquele espaço estivesse esperando por ela. Mesmo
com aquela chuva, parecia que todas as pessoas resolveram sair naquele dia
de carro e estacionar exatamente naquela rua.
Pérola manobrou num pequeno espaço e ficou por um tempo ainda
entre soluços e lágrimas, e quando se sentiu um pouco mais calma retirou
um lenço de tecido de sua bolsa para enxugar suas lágrimas. As perguntas
que acabara de fazer ainda refletiam em sua mente, “Por quê, por quê, por
quê?”. Uma forte crise existencial tomou conta dela, juntando-se ao fracas-
so pessoal e à dificuldade de encontrar um novo caminho na vida. Alguns
pensamentos sombrios lhe ocuparam a mente. Tentou evitá-los. Ela não tinha

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respostas para suas perguntas tampouco saberia a quem perguntar o porquê
de seu mundo ser e estar da maneira como estava. Foi então que olhou para
o lado e avistou a vitrine da loja. Havia no vidro um cartaz com uma frase
em destaque. Nele se podia ler em letras grandes “pergunte ao tarô”.

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E por mais inusitada que a situação pudesse ser, Pérola sentiu-se em-
pelida a ir até a loja. Ela não pensou muito sobre essa atitude não racional,
se o tivesse feito provavelmente teria ligado o carro e ido para sua casa. Mas
desceu do carro, trancou-o e correu o pouco espaço da calçada até a entrada
da loja, cobrindo-se da chuva com os braços na cabeça.
Pérola entrou, enxugando seus pés no tapete. Ouvia-se uma música
árabe ao fundo.
Uma moça loira, alta, com os cabelos que iam até a cintura e um olhar
calmo a cumprimentou:
− Em que posso ajudá-la?
Pérola nem sabia se alguém podia ajudá-la.
− Ah, eu estou só dando uma olhadinha.
− Fique à vontade, e qualquer coisa pode me chamar.
Ela olhava as várias velas decoradas, havia uma prateleira delas em
diversas cores e tamanhos. Algumas indicavam que eram aromáticas, outras
que eram para ser acesas em pedidos especiais. Nunca imaginou que alguém
acendesse velas alaranjadas ou marrons para qualquer coisa que fosse, mas,
se havia de todas as cores, então, alguém precisava delas. Aproximou o
rosto para observá-las melhor. Algumas tinham perfume de flores, outras, de
frutos, outras ainda eram enormes e tinham em si as sete cores do arco-íris.
Na prateleira próxima das velas, havia estátuas egípcias de Deuses e
Deusas. Pérola notou que uma era a Deusa Ísis, que conhecia dos desenhos
de quando era criança. Ela estava com um joelho ao solo e outro flexionado
enquanto abria longos braços estendidos com asas que lembravam as dos
pássaros. Na cabeça, havia um ornamento, como uma coroa. Tocou com
seu dedo um lado da asa. A vendedora se aproximou dela e falou:

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− Você sabe por que a Deusas Ísis tem asas?
− Não – respondeu.
− Porque ela é a Deusa da Maternidade. É mãe e protetora. Os braços
abertos acolhem e quando estão fechados protegem seus filhos.
− Ah...

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Pérola continuou com os olhos nas prateleiras e viu uma infinidade de
incensos e essências de flores, frutas e algumas ervas. Cada uma delas tinha
sua especificação sobre o assunto para o qual devia ser usado. Camomila
para prosperidade, jasmim para amor, alecrim para purificação, alfazema
para espiritualidade. Era o que estava escrito nas embalagens.
Por fim, chegou até a prateleira dos livros e começou a ler os títulos:
O livro completo de bruxaria do Buckland, Mãos de luz, Wicca, O livro
de Toth, Ensinamentos de quiromancia, Cromoterapia para sua vida, Nu-
merologia moderna, entre outros títulos. Ao final da prateleira, seus olhos
fixaram-se em um livro pequeno em especial, ele dizia com letras largas na
capa: “pergunte ao tarô”.
Pérola ia pegá-lo nas mãos, mas parou. A vendedora se aproximou:
− Pode pegá-lo. Segure o livro com as duas mãos e pense na situação
para a qual você precisa de esclarecimento, uma mensagem. Enquanto isso,
gire-o para diversos lados e, quando sentir que é o momento, abra-o em uma
página e leia o que diz a mensagem.
Embora não houvesse muito sentido lógico no que estava fazen-
do, decidiu tentar. Ela não duvidava de que algo além do mundo físico
existisse, mas nunca se aprofundou no assunto. Fechou os olhos, pensou em
sua separação e no que deveria fazer agora de sua vida, girou o livro para
diversos lados e abriu em uma das páginas. Nela, dizia:
“Existem coisas que não servem para nós. Lutar por elas só atrapalha
a caminhada que nos conduzirá ao encontro do que realmente poderemos
chamar de felicidade. Este parece ser um desses momentos. Existem coisas
que a personalidade acredita ser fundamentais para uma vida feliz, mas a
alma sabe que não possuem valor algum. A fome olha para um pequeno

53
pedaço de pão como um grande banquete. Muitas vezes a vida nos tira, ou
não nos dá, certas coisas para que possamos nos fortalecer e, enfim, receber
o que de grande nos está destinado. Paz e felicidade.”

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Ela estava impressionada e perplexa. Não conseguia dizer uma palavra.
A vendedora lhe perguntou:
− Serviu para você a mensagem?
− Impressionante.
− Eu sei. Elas nunca erram.
Pérola ficou intrigada:
− Elas quem?
− Outra hora você saberá.
Pérola não deu muita importância ao que ela falara. Por fim, perguntou:
− Qual seu nome?
− Lindy. E o seu?
− Pérola – respondeu, olhando ao redor.
− O que mais vocês fazem aqui?
− Temos aula de dança do ventre, cursos esotéricos, encontros místicos,
leitura do tarô e mapa astral, entre outras coisas que um dia, quem sabe,
você conhecerá.
Pérola ficou um pouco intrigada, já ouvira falar de mapa astral, mas o
confundia um pouco com o horóscopo que lia nas revistas femininas:
− Lindy, o que é um mapa astral?
− Mapa astral é uma fotografia do céu no exato momento em que você
nasceu. É o estudo da influência da disposição dos astros no céu na sua vida.
Todo mundo deveria fazer seu mapa astral.
− E para que serve?
− É como se o mapa astral fosse um manual de como você funciona.
Nele temos suas características psicológicas principais, encontramos indícios

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de eventos importantes em sua vida e um direcionamento para aquilo que
viemos fazer aqui nesta vida. É como se nele você lesse qual é a sua missão
e com o que se comprometeu antes de nascer, em termos de aprendizado
e transposição de desafios em sua passagem por aqui.
Pérola se sentiu motivada em fazer o mapa astral:

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− Por favor, Lindy, eu gostaria de fazer um mapa astral. Acredito que
neste momento precise de uma direção. Ando um pouco perdida e preciso
conversar com alguém que, de alguma forma, possa me orientar sobre de-
cisões em minha vida.
− Certo, podemos marcar para você, Pérola. Deixe-me ver na agenda
um dia livre.
− Outro dia não, por favor, tem que ser hoje – Pérola parecia ansiosa
enquanto falava.
− Infelizmente hoje não tem como. O mapa astral é um estudo, é ne-
cessário que sejam feitos cálculos e uma análise minuciosa. O melhor que
posso fazer por você é marcar essa consulta para daqui duas semanas.
Pérola se sentiu frustada:
− Por favor, entenda. Eu não estou bem e neste momento sinto que isso
me ajudaria, embora não conheça muito bem o trabalho de um mapa astral.
− Você vai gostar da Rosana, nossa astróloga. Ela chegou há pouco
tempo na cidade, mas vem realizando um trabalho fantástico. Vamos fazer
o seguinte, eu vou marcar com a Rosana para daqui duas semanas, e a con-
vido para participar de um encontro especial conosco, que será realizado
amanhã à meia-noite. – Lindy a estava convidando para aquele que seria
seu primeiro ritual.
Pérola ficou um pouco apreensiva, o horário era muito diferente do ho-
rário que normalmente a loja atendia o público. Era um convite por demais
incomum, perguntou-lhe:
− Mas por que este horário?
− Não é somente o horário, mas também o dia. Amanhã é um dia es-

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pecial. Comemora-se o Sabbat Maior no Hemisfério Sul, também conhecido
como Samhain, é o início da época do ano em que entraremos na metade
escura. É o primeiro dia de uma época em que é chegado o momento de
introspecção, o tempo de recolhimento, é a hora de refletirmos e apro-
veitarmos a oportunidade de nos livrar de nossas fraquezas. Nessa época,

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a Grande Mãe inicia seu caldeirão de transformação, a fim de mais bem
nos preparar para quando chegar a metade clara do ano, em que haverá o
nascimento, a prosperidade e a renovação. No momento de recolhimento,
nós nos investigamos, limpamos e analisamos tudo aquilo que precisa ser
transformado em nós e em nossa vida. É como a semente que fertiliza na
terra, preparando-se para depois crescer. Há tempo para plantar e para co-
lher. Há tempo de trabalhar e de se restabelecer. A dualidade, assim como
as movimentações circulares, está para tudo no Universo.
Pérola gostou do que ouviu e, depois da explicação, além de se sentir
aliviada, sentiu uma ponta de esperança. Tudo o que seu interior queria
naquele momento era se livrar daquilo que, de forma alguma, lhe trazia
benefício ou tinha razão de ser. Curiosamente, perguntou:
− Mas como faremos isso?
− Amanhã você verá. Escreva apenas o que de fato gostaria de retirar
de sua vida. E depois deixe que a Deusa a auxilie.
Pérola ainda se perguntou: “Deusa?”. Enquanto Lindy telefonava para
Rosana, para marcar o horário do mapa astral, Pérola decidiu olhar a prate-
leira de bruxinhas de diversas formas. Algumas eram gordinhas, carregavam
vassouras e sorriam. Outras eram bruxas com idade avançada, tinham o rosto
franzido e cara de poucos amigos, usavam roupas compridas, mas, mesmo
assim, não deixavam de ter seu encanto. Havia aquelas que traziam o dizer
“Bruxa do Amor”, e junto delas havia um minicaldeirão. Viu a bruxinha da
sorte, vestida de verde e carregando uma vassourinha. Havia várias delas na
prateleira e dos mais variados tipos. Encontrou uma que usava minissaia, um
chapéu de bruxa tradicional, de estereótipo magro e com cabelos vermelhos,
que iam até a altura das costas. Ela era sorridente, tinha as feições do rosto

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delicadas e seus olhos eram verdes. Achou a bruxinha bonita. Não dizia
do que ela se tratava. Olhou o preço. Segurou-a na mão e decidiu levá-la.
Quando pôs a bruxinha em cima do balcão, Lindy estava desligando
o telefone:

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− Falei com a Rosana, ficou acertado para daqui quinze dias, mas você
precisa me trazer até amanhã os seguintes dados: sua data de nascimento,
horário em que nasceu e cidade.
− Tudo bem – Pérola respondera menos aflita. – Ah, e eu vou levar esta
bruxinha. Gostei muito dela.
Lindy sorriu. O olhar era de aprovação:
− Você sabe quem é ela?
− Não achei o nome dela, só algumas têm identificação.
− Não está escrito, mas essa é a Bruxinha da Transformação.
− Ah...
Pérola achou interessante o nome, saiu da loja sentindo-se aliviada e,
quando chegou em casa, colocou sua bruxinha junto à escrivaninha. Abriu a
gaveta, retirou o livro ainda em branco e se perguntou se um dia escreveria
um livro sobre bruxas. Como ainda não tinha o que escrever, fechou-o e o
guardou novamente em sua escrivaninha. O que ela ainda não sabia é que
ele ficaria em branco por pouco tempo, as primeiras linhas surgiriam na
madrugada de sua primeira noite de ritual.

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CAPÍTULO V

A Troca
França, 1429

P ierre respirou fundo, seria necessário algum tempo da noite para


ensinar a oração completa da Ave-Maria para Angelique. Mesmo
se esforçando, ela tinha dificuldade em aprender. No último encontro, ela
levou a melhor, escreveram por mais tempo do que o combinado, então, ele
achou melhor estabelecer limites dessa vez:
– Vou te ensinar a oração da Ave-Maria até uma vela pequena chegar
ao final, depois disso você me ensina a arte de amar, combinado?
Ela consentiu. Era o justo.
Pierre não esperava que uma moça como ela tivesse muita palavra
ou aceitasse igualdades. A maioria das cortesãs que ele conhecera sempre
tentava, de uma forma ou de outra, levar vantagem sobre ele ou qualquer
outro homem que aparecesse.
Este era o seu nono encontro com Angelique, e não teria passado do

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primeiro se não fosse a oportunidade de trocar o pouso e sua companhia
para ensiná-la a ler e escrever. Ela era uma das piores cortesãs de Madame
Mabelle. Angelique praticamente não tinha dom algum tampouco beleza
a ser apreciada, mas, mesmo assim, não deixava de ser uma oportunidade
de aprendizado para Pierre.

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Angelique tentava buscar junto às outras cortesãs do estabelecimento o
conhecimento de que precisava para passar ao seu aprendiz, e cada encontro
carecia de uma nova lição, a fim de que ele não desanimasse e desaparecesse.
A aflição lhe tomava conta toda vez que imaginava sua vida sem Pierre, pelo
menos ele não deveria desaparecer sem que antes ela conseguisse o que queria.
Angelique pouco sabia sobre ele, apenas que era de fora da cidade,
talvez do Sul da França. Ela tinha uma vaga lembrança de ele ter lhe falado
isso em seu primeiro encontro na taverna. Também sabia que ele era pobre,
pois não dispunha de mais moedas de ouro para sair com alguma das outras
moças de Madame, e ela havia sido oferecida a ele como a única possibi-
lidade da noite pela qual ele poderia pagar. Foram para o quarto naquele
primeiro encontro e então descobriram um ao outro:
− O que você faz? – Angelique perguntou, sem muito interesse.
− Sou músico, toco arpa e recito versos de minha autoria.
− Hum, que interessante.
– Sabe, às vezes vou a festas importantes, como os recitais na corte. Eu
escrevo poesias também.
Pierre parecia crescer o peito quando falava sobre isso. Ele via suas
apresentações para o clero e para a corte como os maiores feitos de sua vida.
Angelique ouvira algo importante de Pierre, então, pulou, sua face
iluminou-se e seus olhos brilharam:
− Oh, você sabe escrever!
− Sei, e faço isso muito bem.
Ela suspirou, chegou perto de Pierre com uma expressão no rosto de
quem implora por algo importante e juntou as duas mãos em forma de

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súplica:
− Você me ensinaria a escrever?
− Ah não, não, não...
Ele respondera com certo desdém e afastou-se como quem não dá a
mínima. Para Pierre, por que uma pessoa como ela iria querer aprender a

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ler e escrever? De que isso lhe beneficiaria? Além do mais, pelo visto ela
não teria como pagar por esse serviço.
Angelique, à sua frente, estava inconformada:
− Mas por que não? – respondeu, mostrando-se profundamente
desapontada.
Ele resolveu não lhe falar a verdade, não queria ofendê-la, então, en-
controu uma justificativa qualquer que servisse de explicação:
− Não a ensino porque não tenho tempo para isso – sorriu, tocando a
ponta do nariz dela carinhosamente com um dos dedos.
– Mas você trabalha como músico todas as noites? – Angelique fez
insinuações de desconfiada, cruzando os braços .
− Não, não tenho tido muitos convites ultimamente.
Ele preferiu dizer a verdade. Embora gostasse de se vangloriar da pro-
cura pelos seus versos e músicas, sabia que, para ela, não poderia mentir,
pois mal conseguia pagar pelos serviços de uma cortesã.
− Então, por favor, me ensine, por favor, me ensine. É talvez o que eu
mais deseje neste mundo, aprender a ler e escrever – falava isso enquanto
pulava com os dois braços em volta do pescoço dele.
− Angelique, por que você quer aprender isso?
− Eu não sei por que quero tanto, só sinto que quero e preciso. Encan-
tam-me as letras, as palavras, queria aprender muitas coisas e acho muito
bonito os livros.
− E onde você viu livros?
– Na casa de uma família onde trabalhei quando criança. Eu entrava na
biblioteca de madrugada para admirá-los na estante. Havia livros de vários
tamanhos e com capas decoradas.

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− E por que você não tentou aprender até hoje? – Pierre perguntou
apenas por perguntar, ele sabia o quão raro pessoas pobres conseguiam
aprender a ler. Havia outros fatores que também contribuíam para que isso
não acontecesse, além de pobre e mulher, os aristocratas jamais admitiriam
uma cortesã que soubesse ler.

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− Pierre, por mais incrível que possa parecer, você é a primeira opor-
tunidade que apareceu até o momento. Eu não conheci muitas pessoas que
soubessem ler. E as que conheci, percebi que não me ensinariam. Meu sonho
é um dia escrever um livro.
Pierre riu da pretensão de Angelique e, diante do silêncio dela, recom-
pôs-se. Por fim, lhe falou:
− Desculpe-me, não me leve a mal, mas é que não vou lhe ensinar a ler
e escrever – disse isso de maneira bastante séria. E vamos de uma vez com
isso porque preciso ir embora, ou você vai me deixar dormir contigo aqui
esta noite? Eu estou mesmo precisando de um pouso – falou, enquanto se
deitava, cruzando os braços por detrás da cabeça e os pés.
Angelique viu, então, a possibilidade de persuadi-lo:
−Eu deixo você dormir aqui comigo esta noite se me ensinar a escrever
o meu nome. – Ela falara lentamente e arqueara as sobrancelhas.
Depois que saísse da casa de Madame Mabelle, Pierra ainda teria que
procurar um quarto em alguma pensão na redondeza. Estava também com
poucas provisões, suas citas estavam sendo menos solicitadas, e não seria
nada mal economizar dinheiro por uma noite:
− Tudo bem, eu a ensino a escrever seu nome e você me deixa dormir
aqui com você.
Naquele momento, Angelique parecia a pessoa mais feliz do mundo,
e saltitou pelo quarto como um cabrito, jogou-se na cama com Pierre e,
por fim, o abraçou. Ele se sentiu sufocado entre os dois braços que agora
envolviam fortemente o seu pescoço e pelos cabelos emaranhados de An-
gelique que cobriam-lhe face e o impediam de respirar.

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Passado um pouco da euforia, Angelique perguntou:
− Pierre, você tem papel, tinta e pena?
− Trago-os sempre comigo.
− Então, vamos começar já! Mal posso acreditar!

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E foi assim que iniciou seu aprendizado. Ela treinou várias vezes sobre o
papel a escrita de seu nome, apreciando cada etapa. A tinta sendo absorvida
pela pena era observada por Angelique que, cuidadosamente, fazia seus pri-
meiros traços. Entusiasmou-se após cada letra aprendida e teve palpitações
de alegria ao finalizar a tarefa e conseguir escrever seu nome sem ajuda de
Pierre. Ele a observava e pensava que aquela era a maior perda de tempo,
e que ela não tinha o menor jeito para escrever, muito menos seria algum
dia uma escritora.
No fim, Angelique tirou as roupas e jogou seu pequeno corpo sobre
Pierre, já sem paciência de esperar que ela terminasse a tarefa.
No outro dia, ao acordarem, olharam e cumprimentaram um ao outro.
Depois, Pierre falou:
− Ontem à noite estava pensando sobre nós dois e tive uma ideia. O que
você me diz se continuarmos nos encontrando, porém da seguinte forma:
Eu a ensino a escrever e você me ensina a arte de amar. Eu não lhe cobro
por meu trabalho, mas você também não me cobra pelo seu. O que acha?
Angelique aprovou imediatamente a ideia em seus pensamentos, sorriu
e aquilo significava um “sim”.
− Só há um problema, Pierre. Madame Mabelle precisa receber pela
estadia do quarto.
− Isso eu acertarei com ela, vez por outra lhe darei alguma moeda.
− Então, tudo bem, fica combinado assim entre nós. Eu só tenho uma
pergunta para lhe fazer.
− Diga – respondeu Pierre.
− Por que você quer se aperfeiçoar na arte do amor? Provavelmente

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você se casará com alguma camponesa intocada, e ela não saberá nunca a
diferença entre você e os outros homens.
− Eu sei disso, mas você sabe como é a corte, não? As mulheres lá sa-
bem bem a diferença entre os homens, elas são mais exigentes, e a arte de

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amar pode me trazer algum benefício. Meus favores sexuais podem fazer
valer minhas citas ou até mais do que elas. E se alguma duquesa me quiser
para amante?
Angelique ouviu as palavras de Pierre e manteve-se em silêncio.

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CAPÍTULO VI

As Estrelas
Brasil, 2008

R osana já estava esperando por Pérola quando ela chegou. Elas se


cumprimentaram e se sentaram para conversar sobre o que se segui-
ria diante do estudo da carta natal de Pérola. Fazia duas semanas que Pérola
havia entrado pela primeira vez no templo da lua.
Sentaram-se diante de uma mesa, e nela se podia ver o que seria o
mapa astral de Pérola, um círculo desenhado sobre um papel e, dentro dele,
algumas linhas se cruzavam. Podiam-se ver também pequenos símbolos
desconhecidos por Pérola. Rosana começou a lhe explicar:
− Antes de tudo, você precisa entender que o mapa astral não é uma
profecia para a sua vida, e, sim, a indicação de uma tendência que ela segui-
rá, baseada no seu plano inicial de existência neste mundo, elaborado antes
de você nascer. O mapa lhe dá uma direção, é como um manual pessoal,
mas ele não decide sua vida, quem decide se o seguirá ou não é você.

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Pérola consentia com movimentos afirmativos. Então Rosana continuou:
– Existe uma Lei dentre as Leis do Universo que diz que o livre-arbítrio
é sagrado. Ou seja, você é responsável pelas suas escolhas e tem o direito
de ter opções. Quando viemos para este planeta, Pérola, nós nos com-
prometemos com um plano espiritual. Cada um de nós tem um um plano

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individual predefinido, e a isso chamamos pré-destino. É um plano que terá
nos auxiliará no caminho da nossa evolução, e ele sempre tem um porquê.
– Rosana, eu estou aqui em busca de respostas para os porquês.
– Acredito que você as terá com ajuda do mapa astral, nem tudo está
aqui, mas ele lhe mostrará um sentido para a vida. É preciso que você en-
tenda que esse compromisso que você assumiu antes de nascer é acima de
tudo de você com você mesma, embora outros seres espirituais possam estar
envolvidos. Nós viemos para cá com desafios e missões estipulados, mas o
transcender, ou não transcender, isso é algo que depende de nós, nunca é
preestabelecido, em nossa vida, o cumprimento dele ou não. Ninguém vem
destinado ao fracasso ou ao sucesso.
– Mas, então, por que algumas pessoas atingem os objetivos mais fa-
cilmente do que outras?
– Eu lhe explico. Por exemplo, você vem com fatores que contribuirão
para um ou para o outro, mas fazê-los valer dependerá somente de você.
Uma vez neste planeta, estamos na chamada zona livre, e é de sua livre
escolha optar em seguir ou não o pré-destino. Você é livre para tomar suas
decisões, ser e fazer o que quiser. Por exemplo, ninguém vem ao mundo
predestinado a ser um assassino, até mesmo porque, assim, estaria o próprio
indivíduo eximido de qualquer responsabilidade, uma vez que uma força
maior o coloca nessa situação e o destina a isso. Mas uma pessoa pode vir
predestinada a um desafio e ter em seu meio a pobreza e a distinção social,
que são fatores que contribuiriam para a criminalidade. Mas o que ela faz
a partir disso já é outra questão, e será sempre uma escolha dela. Ela pode
escolher entre transcender ou entregar-se. Para alguns será mais fácil, para

66
outros, mais custoso. Tudo depende de toda a bagagem que você traz con-
sigo para esta vida.
Pérola mantinha-se centrada nas palavras de Rosana, que parou de falar
por um momento. Ela ajeitou sua tiara no cabelo, tentando prender melhor
a franja para trás, e, em seguida, continuou:

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− Pérola, a Astrologia é um estudo sério. Temos muitas personalidades
históricas respeitáveis que acreditavam nela. – Rosana mostrou a figura de
um homem colocando a língua para fora propositadamente em uma foto,
era Einstein. − Uma das ciências que este homem estudava era a Astrologia.
Einstein é um exemplo, e não podemos negar que, além de cientista, ele era
no fundo um grande místico, capaz de fazer viagens astrais, adentrar outras
dimensões e se conectar com outros seres, recebendo, assim, orientação
e intuição para suas pesquisas científicas. Muitas vezes, Einstein tentou
encontrar respostas para seus estudos e, quando cansava, dormia. No outro
dia, ao acordar, conseguia a resposta.
– Mas, então, Einstein recebia mensagens pelos seus sonhos? – Per-
guntou Pérola.
– Mais do que isso, ele ia para o mundo dos sonhos e lá fazia as des-
cobertas com seus amigos espirituais. Nesses outros mundos, ele descobria
suas respostas. Einstein, assim como Nostradamus, tinha a capacidade de
comunicar-se com as outras dimensões e manter certa consciência dessas
experiências. Uma das frases célebres de Einstein é “A experiência cósmica
religiosa é a mais forte e a mais nobre fonte de pesquisa científica”. Inclusive,
Einstein é considerado o ponto de fusão na história, em que a religião e a
ciência andam juntas e se complementam na tentativa de explicar aquilo
que ainda está oculto neste mundo. Ciência e religião não são extremidades
opostas, mas, sim, fatores complementares.
Pérola sempre havia simpatizado com a figura de Einstein. Rosana
continuou:
− É inegável que forças naturais e maiores atuem sobre nós, mesmo

67
que não as percebamos diretamente. Um exemplo disso é o próprio ciclo
dos planetas, que exerce influência e está correlacionado com nossa vida.
– Como assim Rosana? – Pérola não entendera muito bem o que ela
tentava lhe dizer.

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Por exemplo, dura dois anos para Marte dar a volta completa em torno
do Sol, tempo este em que retratamos a paixão terrena, que também dura dois
anos. Na Astrologia, Marte representa não só a ação, mas também a paixão.
Rosana mostrava a ela o símbolo que representava Marte, um círculo
com uma semiflecha apontada para cima. Pérola reconheceu o símbolo
como aquele que indicava o sexo masculino nas aulas de genética. Rosana
continuou:
− É assim com todos os planetas do nosso sistema solar. Cada um deles
representa um aspecto em nossa vida. Plutão vem nos falar sobre as trans-
formações que teremos, Saturno sobre o aprendizado, Vênus sobre o amor,
Júpiter sobre nossa religiosidade e expansão na vida, e assim por diante. E
de acordo com a forma como esses planetas se dispõem em nosso mapa
podemos, junto com outras informações da mandala astrológica, que é o
nome dado a este círculo grande subdividido em doze partes, ver as tendên-
cias que nossa vida terá em relação a diversos setores, como o profissional,
o sentimental, o espiritual, o filosófico, o material e o físico.
Pérola estava pensativa sobre todas as informações que Rosana lhe
passava.
− Portanto, o que vou ver no seu mapa astral é a influência dos as-
tros na sua vida, ou seja, a energia que lhe foi direcionada na hora do seu
nascimento, que compreende exatamente o momento da sua primeira ins-
piração. Essa energia também contribuirá para formar suas características
psicológicas, lembrando, é claro, que você não é só o seu signo solar, mas
também a somatória de tudo aquilo que já lhe aconteceu, somatória das
escolhas pessoais e dos condicionamentos que recebeu do meio em que
viveu. Além do mais, para a Astrologia, existem vidas passadas, e nesta nova

68
experiência você ainda traz um pouco da influência de quem era em sua
última existência.
Rosana levantou-se para trazer uma jarra com água para elas. A consulta
duraria pelo menos duas horas.
− Veja, aqui está seu mapa astral.

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Pérola aproximou-se mais para olhá-lo, enquanto Rosana o explicava.
− Seu mapa astral é o mapa dos escritores. Há muitos fatores aqui que
contribuem para que você se expresse bem em palavras escritas, até mesmo
ditas, e que alcance um grande número de pessoas. Marca também que um
hobby seu, provavelmente de infância, se transformará em um trabalho, que
poderá um dia conduzi-la ao sucesso. Podemos ver essa possibilidade neste
grande trígono entre as casas 2, 6 e 10 da sua carta natal.
Pérola observou que havia um triângulo que unia as divisões do mapa
astral exatamente naquela parte.
Rosana continuou:
− O seu meio do céu está em Leão, ou seja, você tem à sua disposição
o poder. Nesta vida, ele lhe estará disponível. E como falei para você, tudo
é uma questão de escolha. Você poderá usar o poder para o bem ou para o
mal. Veja, por exemplo, Hitler, ele era uma pessoa que nasceu com o meio
do céu no signo de Leão, ou seja, o poder lhe foi dado, mas coube a ele
decidir como o usaria. Ele poderia ter construído em vez de destruído. O
meio do céu, ou casa 10 no signo de Leão, significa também que o Sol rege,
ou seja, que o Sol comanda essa casa.
– O que isso quer dizer, Rosana?
O Sol é o brilho, a iluminação, a força e o poder. A questão é: você pode
usar o Sol para brilhar ou para ofuscar a luz de outras pessoas. Então, uma
vez que você recebeu esse poder, use-o com muita sabedoria. Não estamos
falando de sorte na vida, que você recebeu esse poder por uma causalidade.
Entenda, se você tem esse fator à sua disposição é porque há um motivo,
deve haver um plano para você executar, em que ter poder poderia ajudá-la.
E o Universo dá meios para você conseguir executar seu plano, ninguém

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chega aqui de mãos vazias.
Pérola refletia sobre tudo o que lhe era dito. Havia certo sentido, sim, no
que Rosana lhe dizia. Escrever sempre lhe fora um hobby, o único desde a
infância. Nunca colecionou selos, bonecas ou figurinhas, mas escrevia textos
e os guardava. Quando pequena, gostava de escrever cartas à mão e de se

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corresponder com crianças de outros lugares. Escrever uma carta e depois
esperar a chegada do carteiro com a possível resposta era a melhor parte de
todo o seu dia. Na escola, as carteiras onde ela sentava sempre eram as mais
rabiscadas, ela escrevia poesias durante as aulas e as deixava registradas para
a turma do próximo turno. Rosana retomou a leitura do mapa:
− Na hora em que você nasceu, o planeta Marte encontrava-se em
Aquário, ou seja, você tem à sua disposição fatores na vida voltados para a
revolução. Seja a sua, seja a de outros. Você pode ser uma pessoa revolu-
cionária e fazer grandes mudanças. Espero que você opte pelas revoluções
certas. O elemento que predomina no seu mapa é a água. Posso lhe dizer
duas coisas: a primeira delas, confie na sua intuição, piamente. E entenda
algo: você capta o que acontece nas outras dimensões, então, pode sentir
o que vai acontecer mais à frente, bem como pode, inconsciente ou cons-
cientemente, se comunicar com aqueles que estão do outro lado, seja por
sonhos, por vidência, por inspiração ou por canalização.
– Rosana, há algum alerta em meu mapa astral?
O que me preocupa é a falta de terra em seu mapa astral. O desequilí-
brio do elemento terra nos alerta que você precisa aprender a manter os pés
mais no chão, pois você tem dificuldade em racionalizar a vida. O ideal é
sempre o caminho do meio, nem tanto a água, nem tanto a terra. Use suas
emoções para captar o que acontece extrassensorialmente, mas conduza
sua vida de uma maneira racional, afinal, vivemos na terceira dimensão e
aqui é o plano da matéria. Estamos aqui também para aprender a viver com
esse aspecto da evolução. Nem tudo é paz e amor, você também precisa da
matéria para viver. Precisa buscar uma maneira de sobreviver neste mundo.

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Aliás, somos todos assim, e mesmo que qualquer um de nós tenha um desejo
altruísta para com a humanidade, entenda que, ainda assim, a pessoa tem
de encontrar um meio de sobrevivência material para que tenha condições
de executar seu plano divino.
Pérola ouvia tudo em silêncio. Rosana continuou:

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− Você comentou que está perdida e que não sabe o que deve fazer
nesta vida, não é mesmo?
Pérola apenas consentiu com a cabeça:
– Vou ajudá-la a encontrar a resposta dentro de você mesma sobre o
que você tem de fazer nesta vida, e essa fórmula serve para todas as pessoas.
– Por favor, Rosana, é uma das coisas que mais quero saber neste mo-
mento, o que, afinal de contas, eu estou fazendo nesta vida? Como descubro
por que e para que estou aqui?
– Pérola, quando somos crianças é que sabemos das coisas, pois
sabemos exatamente o que viemos fazer aqui na Terra. Pergunte a uma
criança com menos de sete anos o que ela veio fazer aqui e ela lhe res-
ponderá. As suas brincadeiras geralmente estão ligadas à sua missão. Ela
age intuitivamente e está mais próxima da própria essência do que nós,
adultos. Muitas vezes os pais tolhem determinadas brincadeiras e até in-
terferem nas escolhas das crianças, ditando-lhes o que devem ser quando
crescer de acordo com o que eles julgam certo e o que o mundo aprova.
Mas isso é um grande equívoco, pois somente nós podemos sentir o que
é melhor em termos de missão de vida. Eu costumo dizer que, à medida
que crescemos, tornamo-nos tolos, incorporamos os condicionamentos
de um mundo com valores retorcidos e nos esquecemos de que o mais
importante é o aqui dentro de nós e o que de verdade queremos e não o
que acontece lá fora.
Pérola não falava, apenas suspirava, e por instantes se lembrou de mais
detalhes sobre seus textos na infância e na adolescência, jogados por cima
de sua cama. Ela se sentia imensamente feliz em estar com um caderno e

71
uma caneta, e mais nada no mundo poderia ser melhor do que o mundo
que ela criava. Lembrou de seus amigos imaginários, que cresceram com
ela e lhe fizeram companhia por muitos anos, a ponto de parecerem reais
em determinados momentos. Lembrou-se do dia em que viu uma menina
sorrir para ela em seu quarto quando acordou. Essa menina era exatamente

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igual a ela, usava um vestido branco, seus cabelos eram um pouco mais
compridos e encaracolados, ela trazia uma coroa de miniflores brancas na
cabeça e nada dizia, apenas lhe sorria.
Rosana separou uma das folhas com os cálculos, olhou e continuou:
– Pérola, quando fazemos exatamente aquilo a que fomos predestinados
fazer nesta vida, nos sentimos bem. Mas, quando estamos longe de nossa
missão, sentimos uma inquietação. Ou seja, é a vida dando seus primeiros
alertas, é como se a mandala astrológica estivesse estagnada e não girasse.
E, quando não agimos de acordo com o que nos propomos a fazer, antes
de vir à Terra, a vida começa a dar avisos, como um sinal de “alerta”, e o
segundo alerta depois da inquietude emocional é o início dos problemas.
Por isso, quando os problemas surgirem em sua vida, pare e se pergunte o
que a vida está na verdade querendo lhe dizer. Pergunte-se o que você tem
a aprender com o que está acontecendo. Por falar nisso, Pérola, o que tem
lhe acontecido?
Pérola começou a chorar, ela não tinha muito com quem conversar a
respeito de sua vida:
− Não entendo por que me separei, este é um dos problemas em minha
vida, acho que até hoje não aceitei ter me separado do Pedro. O que de fato
tenho de aprender com essa separação?
Rosana havia atendido muitas outras pessoas na mesma situação, sabia
o quanto era difícil esse momento e que mais importante do que aceitá-lo
era entendê-lo:
− Vamos analisar, Pérola. Como você estava vivendo momentos antes
de se separar? Como era sua vida?

72
− Eu era dona de casa, fazia as tarefas do lar. Eu ia ao mercado, ao
banco, tinha uma vida calma, me sentia bem casada e esperava continuar
sendo feliz dessa maneira. Se fosse assim para sempre, para mim, estaria
bom.

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Rosana entendeu na hora o que aconteceu:
− Ahhhh, você entendeu, Pérola, aonde eu quero chegar? – Ela esten-
dia uma das mãos para o ar com a palma para cima. – Sua função aqui na
Terra não é ficar reclusa em uma vida tradicional, cuidando dos serviços
do lar e banco, isso não foi feito para você. E você mesma, no fundo da
alma, não quer isso. Sua missão não é ser dona de casa, sua missão é, por
intermédio da expressão, transformar o meio em que vive, revolucioná-lo.
Você pode, sim, exercer essas funções do lar: pode ser mãe, esposa, não há
o menor problema nisso. O que não pode acontecer é esquecer-se da sua
verdadeira função e viver só esse outro lado. Você naturalmente será feliz se
viver sua missão, caso contrário chacoalhões como este acontecerão, será a
vida lhe dizendo: “Ei, você precisa fazer as coisas de uma maneira diferente
e começar a fazê-las do modo certo logo”. Esses problemas que surgem e
a levam a fazer mudanças radicais na vida querem dizer: “Morra, antes
que você morra!”. Em outras palavras: transforme-se, antes que você faça
a passagem! Perceba as falhas e corrija-as antes que a vida tenha de bater
na mesma tecla para que você note. Aliás, nós morremos diversas vezes em
uma mesma vida, porque necessitamos de transformações e de mudanças
constantes para evoluirmos.
Rosana alcançou os lenços de papéis para Pérola, que continuava a
derramar algumas láguimas, e perguntou-lhe:
− O que você tem feito da vida depois que se separou?
− Eu continuo cuidando do lar, mas nesse momento também faço coisas
diferentes, tenho participado das reuniões no templo da lua. É verdade que
eu escrevia muito antes de me casar e depois parei, mas voltei a escrever.

73
Agora, minha mesa está repleta de folhas com pensamentos e coisas que
aprendi a respeito da vida nestes últimos dias. Eu encontrei trabalho como
redatora de um jornal da cidade e, por fim, decidi começar um livro. Sempre
tive o projeto de escrever um livro, mas ele tinha ficado somente nos planos
mentais, até que fui ao ritual do Samahin e, então, decidi começar.

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Rosana sorriu:
− Pérola, veja a sua separação como uma oportunidade de se encontrar
com sua missão e não como um problema. Há males que vêm para o bem.
Toda essa sua busca por conhecimento, por respostas na vida e o projeto de
escrever um livro, tudo isso está diretamente relacionado à sua separação, se
ela não tivesse ocorrido, você não estaria agora aqui comigo e muito menos
teria começado um livro.
Pérola refletiu, sabia que Rosana estava certa. A leitura do mapa estava
começando a fazer com que ela entendesse o que se passara, e isso a aju-
daria a aceitar a situação e, a partir daí, buscar novos horizontes. Rosana
ainda perguntou:
– E ele, o que faz nesta vida?
– Ele é médico.
− Ah, mais uma coisa que preciso esclarecer para você, Pérola. Há ca-
sos em que o próprio plano astral afasta uma pessoa da nossa vida. Por um
motivo específico, ela não nos ajuda a melhorarmos como seres humanos
e, de alguma forma, atrapalha nosso crescimento espiritual, seja por ela,
seja por nós, que permitimos nos estagnar. Então, nessas situações, não ter
determinadas pessoas conosco é algo positivo. E se o que você tem a fazer
nesta vida é algo importante para o bem comum, então, o plano astral cuidará
para que você não tenha à sua volta pessoas que a impeçam de cumprir sua
missão. E tem mais, não existe nada nesta vida que seja definitivo, além da
passagem para fora deste mundo. Se ficar junto dele fizer parte de seu pré-
destino e se uma vida a dois voltar a acrescentar para ambos, então, o Uni-
verso se encarregará de uni-los novamente. Mas viva sem essa expectativa,
apenas faça o que você sente que tem de fazer e deixe o resto com a vida.

74
A conversa continuaria por mais duas horas, entre infindáveis explica-
ções de Rosana sobre a mandala da vida e o despertar do que viemos fazer
neste mundo.
Quando a leitura do mapa astral terminou, Pérola sentiu uma espécie de
clique em seu interior, como se uma luz surgisse em meio à escuridão. Era

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como se as respostas para “quem sou?”, “o que faço?”, “para onde vou?” e
“por quê?” estivessem sendo finalmente respondidas, e então tudo começou
a fazer sentido para ela.
Ao se despedir de Pérola antes de conduzi-la até a porta, Rosana
finalizou:
− Não é fantástica a verdade, garota? O conhecimento liberta! O real
motivo de estarmos vivos aqui é o aprendizado, pense sobre isso. É por esse
motivo que o Universo nos leva, às vezes, para alguns caminhos tortuosos,
para aprendermos.
Pérola sorriu, deu-lhe um abraço carinhoso e, então, foi para casa. No
caminho, sabia que chegaria e escreveria as lições de vida aprendidas e seus
pensamentos sobre o mundo, ou mundos. Decidiu também fazer do seu livro
sobre bruxas, a princípio, um segredo para outras pessoas.
Ela pensava o quanto era incrível que uma conversa, ou até mesmo uma
frase, pudesse significar toda a revolução de uma vida. Então, decidiu que seu
livro sobre bruxas seria, assim, o clique que muitas pessoas teriam para mudar
a própria vida para melhor. Seu livro seria ao mesmo tempo revolucionário
e libertador. E Pérola iluminou-se por dentro.

Eu tinha acordado pensativa, um pouco apreensiva tentando en-


contrar respostas para as perguntas que me fiz a vida toda: Quem sou?

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De onde vim? Para onde vou? Deus existe ou estamos todos a Deus dará
neste Universo?
Inclusive, há momentos em que me pergunto sobre as reais caracte-
rísticas Dele e se por acaso tudo não é fruto de nossa necessidade em nos
sentirmos protegidos por Algo, como Alguém que olhe por nós. Talvez

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saber que estamos sozinhos nos dê a sensação de que somos vulneráveis
demais a qualquer coisa, e pensar na possibilidade de não haver Deus
faz com que pensemos que não há Lei no Universo e, uma vez que não
há Lei, não sei sinceramente o que fazer e pelo que esperar.
Nessas horas, sempre prefiro ir até o mar para refletir. Caminhei até a
praia. Pus meus pensamentos sobre as ondas, senti-me sozinha, tudo era
muito grande e eu me sentia muito pequena, algumas lágrimas resolve-
ram aparecer. Era como se eu estivesse perdida, sem nem ao menos ter
alguma ideia de qual sentido tomar para o caminho de casa.
Alguém se sentou ao meu lado, eu continuei chorando sem me
importar, a pessoa me falou:
– Calma...
Quando percebi era o mesmo homem que havia conversado comigo
na praia dia antes, Fhelipe, ao qual pouco havia dado atenção. Ele me
disse:
− Não chore, ou chore, se assim desejar, mas se chorar que seja por
motivos justos.
− Não sei se são justos, eu até mesmo me pergunto o que é justo
e o que não é justo.
− Bem, nem tudo neste mundo é justo, mas tudo o que há aqui
é necessário. Mas posso afirmar para você que Deus é justo, se isso a
tranquilizar.
− Deus?! Nem sei se Ele existe. – Eu tinha ar de deboche e descon-
fiança nesse momento.
− O que você acha?

76
Não respondi, fiquei a fitá-lo por alguns instantes, depois voltei a
olhar para a frente, como se procurasse a resposta no horizonte. Sequei
as lágrimas do rosto com a ponta dos dedos, algumas ainda insistiam em
descer, por fim respondi:

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− Não sei, de verdade não sei. Tenho dúvidas em certos momentos
e, às vezes, prefiro acreditar na ciência e que tudo é obra física, química,
e que a vida é consequência da evolução. Não acredito que tudo tenha
surgido em sete dias pelas mãos de Deus.
− Eu também não creio nisso, mas, veja bem, não poderia Deus
ter propiciado tudo isso através da química, da física e da evolução das
espécies? Não em sete dias, mas em milhares de anos?
− E por que ele levaria milhares de anos para fazer coisas que ele
pode fazer em um piscar de olhos, se Ele é Deus?
− E por que você acha que Ele teria pressa em fazer tudo em sete
dias? Ele tem a eternidade toda, afinal, não existe prazo de entrega para
a obra do Universo. Deus não está correndo contra o tempo. E ele é
extremamente paciente.
Refleti sobre o que Fhelipe disse, e não deixava de ser uma boa
resposta, então, resolvi fazer outra pergunta:
− Mas, se Ele é tão bom quanto falam que Ele é, por que Ele não
criou somente coisas boas e por que o mundo é do jeito que é? Eu sempre
imaginei que um mundo criado por Deus deveria ser algo maravilhoso!
E veja só o que ele fez! Vivemos em um mundo onde há guerra e fome.
Fhelipe se ajeitou no banco, como se estivesse se preparando para
a defesa judicial de Deus, então, voltou-se para mim e disse:
− Imagine um mundo onde só há coisas boas, onde não existe o
mal, como saber o que é o bem, se não existe nada para servir de con-
trarreferência? Você só conhece o que é o bem porque de alguma forma
experimentou o mal e, então, aprendeu sobre a diferença e soube o que

77
é um e o que é o outro. Não imagine Deus como um pai que acolhe todos
os seus filhos embaixo de seus braços e os impede de experimentarem
qualquer coisa do mundo, a fim de protegê-los. O objetivo de Deus não
é enclausurá-la em um mundo criado por Ele, mantê-la em uma bolha de
proteção, mas, sim, libertá-la para que você crie o seu próprio mundo e

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faça as suas escolhas. E para que isso aconteça, você precisa experimentar
as coisas boas e as coisas não tão boas. Portanto, o bem e o mal fazem
parte da criação e da evolução de tudo aquilo que há no Universo, o
que inclui você. É experimentando, escolhendo e tirando suas próprias
conclusões por meio de aprendizados que você evolui. Por isso, Deus lhe
deu o livre-arbítrio. Você está aqui para experienciar, aprender e cocriar.
Eu estava impressionada com a explicação clara e objetiva de Fhelipe,
então, arrisquei fazer mais algumas perguntas. Minhas lágrimas haviam
cessado, fiz, talvez, uma que nunca consegui entender:
− Mas se Ele me deu o livre-arbítrio de escolher entre o bem e o
mal, como pode me fazer cobranças e me castigar por minhas próprias
escolhas, quando opto por algo errado? E a Astrologia, me explica, por
que dizem que minhas ações já estão impressas no Universo desde que
eu nasci? Se é assim, não tenho culpa de meus atos, uma vez que meu
futuro já está escrito nas estrelas. Não é mesmo?
− E quem disse que seu destino está escrito nas estrelas? E se elas
forem só uma indicação do caminho de volta para casa? Aquele trajeto
evolutivo de aprendizado que você deve fazer antes de retornar de onde
veio?
Eu não conseguia tirar os olhos de Fhelipe, enquanto ele continuava
a falar:
− Há outra possibilidade. E se a linha do tempo não for linear como
a maioria das pessoas pensa ser, com uma ordem cronológica de passa-
do, presente e futuro estabelecida em uma sequência, e sim uma linha
do tempo circular, onde passado, presente e futuro se interligam? Essa

78
seria uma hipótese também, não? E se for esta a hipótese certa, então
o que eu digo a você é que nas estrelas o que está escrito pode ser as
ações que você tomará, mas que na verdade já aconteceram. Ou então
são as decisões que você já tomou, só que em outra dimensão. Você
já ouviu a expressão déjà-vu? E se na verdade você, quando tem essa

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sensação de já ter vivido uma situação, em vez de estar atravessando
as dimensões e indo até o futuro como imagina que seja, esteja apenas
retrocedendo em um passado que já aconteceu, mas que no futuro um
dia você experimentaria porque o tempo está interligado em círculos?
Não poderia também ser isso? Passado, presente e futuro estando em
dimensões diferentes, mas conectados entre si. Considere a possibilidade
de serem muitas as variáveis que você nem sequer ousou pensar. O fato
é que a explicação do que realmente acontece ainda não nos foi dada a
saber. Nem mesmo todos aqueles que do lado de lá estão acredito que
saibam. A verdade, Vanessa, é que o Universo está cheio de mistérios,
os Maiores e os Menores.
Eu sentia como se minha mente tivesse dado um nó. Eu não sabia o
que dizer sobre a linha do tempo, até porque aquele novo raciocínio que
me fora apresentado era bastante complexo, eu teria que pensar com
calma, confesso que via sentido nas possibilidades. Fhelipe me perguntou:
− Mas e quanto a Deus, por que você acha que Deus a castiga ou
lhe faz algum tipo de cobrança só porque errou?
− Ora... Todo mundo sabe que Ele faz isso mesmo! É o que todos
dizem, sempre, o tempo todo. Deus julga e cobra de quem não faz as
coisas certas. Se você foi bom, vai para o céu. Se você for ruim, vai para
o inferno.
− Mas não é porque todos dizem isso que seja verdade. Sinceramen-
te, algum dia Deus bateu a sua porta a cobrando ou lhe botou de castigo
de joelhos porque você não se comportou como deveria?
− Você sabe que não. – Eu parecia levemente irritada com a óbvia

79
pergunta dele.
− Esse é um grande equívoco das pessoas, pensar que Deus irá
bani-las, castigá-las, queimá-las na fogueira, julgá-las ou deserdá-las do
Paraíso só porque não cumpriram as suas regras. Entenda, a única coisa

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que a condena é a sua consciência. E é ela que a castiga. Deus nunca irá
castigá-la! Aliás, Deus nem tem regras para castigos!
− Como assim, Deus não tem regras? Deus está cheio de regras, não
posso fazer isso, não posso fazer aquilo, não posso fazer aquele outro
lá. – Eu estava surpresa com a afirmação dele.
− É isso mesmo que você ouviu. Não existe um manual de proce-
dência escrito por Deus do que você tem de fazer ou não, em que diz o
tipo de punição que você receberá de acordo com o delito. Quem faz
isso são os juízes.
Eu o olhava, ele sorriu:
− Aliás, você sabe qual a diferença entre um médico e um juiz?
− Não sei – respondi.
− É que os médicos pensam que são Deus, já os juízes têm certeza!
Eu fui obrigada a rir. Minha companhia tinha senso de humor. Ele
continuou:
− É Vanessa seu nome, não é mesmo? – Sinalizei que sim. – Pois
bem, Vanessa, Deus de verdade não está nem um pouco preocupado se
você está fazendo a coisa certa ou não.
− Como que não?!?! – Agora eu estava mais do que surpresa.
− Não está, simplesmente. Ele não está preocupado se você matou,
roubou, cobiçou, comeu demais, desonrou pai e mãe, invejou alguém, fez
sexo abusivamente, falou mal dos vizinhos, enfim, ele não está nem aí se
você está mergulhada de corpo e alma nos sete pecados capitais, nada
disso o deixa triste ou desapontado. Ele a ama independentemente do
que você faça. Para Deus, Hitler é tão amado e aceito quanto Madre Tereza

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de Calcutá. E todos, incluindo Saddam Hussein, Bin Laden e Bush, são
seus filhos, e, portanto, merecedores de todo o mundo divino também.
Ele sabe que cada um de nós uma hora encontrará o caminho certo. E
também sabe que as pessoas trilham caminhos diferentes, e que não há o
menor problema nisso, pois Ele tem certeza de que uma hora ou outra a

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pessoa acertará e se encontrará com sua verdadeira essência, então, está
tudo bem. E Ele tampouco está preocupado com o tempo que qualquer
um de nós precisará para fazer o percurso de reencontrar-se. Afinal, não
estamos em uma maratona e todo mundo será vencedor, além do mais,
temos a eternidade toda para evoluir. No fundo, Deus só quer que você
exista, porque sabe que de uma forma ou de outra, leve quanto tempo
levar, você vai evoluir. E mesmo que você persista em fazer parte somente
das coisas erradas, ainda saiba que você está aprendendo, e aprender
faz com que encontre o caminho certo. Então, pare de se cobrar tanto,
porque, confia em mim, Deus é superzen.
Eu sorri para Fhelipe, e ele continuou:
− Acredite, Ele não irá cobrá-la, nem em vida e muito menos depois
da morte. Para Deus, tudo bem se você escolher a Luz ou as Trevas, você
é livre desde o momento em que foi criado, além do mais, acredite, as
trevas também servem para levá-la à Luz, então tanto faz se você escolher
um ou o outro. Porque Deus não tem sentimento de posse sobre você
e muito menos está lutando contra as trevas para ter mais guerreiros do
que o Príncipe do Mal, como a maioria das pessoas pensa. Tudo faz par-
te de um todo, mesmo os opostos, e tudo estará sempre unido a uma
única fonte, que é Deus, mesmo que você não perceba isso. Vanessa,
até mesmo o Príncipe do Mal tem a essência divina nele e está ligado a
Deus. Ele poderá retornar para casa quando quiser, e se quiser. E, assim
como todos, será bem recebido.
− Então, Deus tem um lar diferente, como um mundo diferente
deste?

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− Este é um mundo de Deus, criado por Ele. Onde Deus está não
é um lugar, é uma maneira de sentir e ver o mundo. O inferno também
não é um lugar, e, sim, um estado mental. Deus não se encontra em um
lugar distante, inacessível. É você que o vê distante e que erroneamente
aprendeu que Ele está sentado em um trono no meio do céu, olhando os

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vivos e os mortos e esperando pelo dia de julgar a todos ou de destruir
o planeta, porque Ele criou coisas lindas e nós nos rebelamos contra Ele,
crucificando seu filho e destruindo a Natureza. Ele não faz planos desse
tipo. Deus não é vingativo.
– Onde Ele está? Lá? Aqui? Onde O encontro?
– Sinta, Deus não está lá, Deus não está aqui. Ele está neste mar,
nestas flores, nas árvores, dentro e fora de você. Ele está em tudo o
que há.
– Tem algo importante que eu deva saber sobre Ele? Porque eu acho
que não conheço meu Pai direito.
– Ele quer que você evolua tanto quanto ele. E, acredite, um dia
você será criadora de um mundo, assim como Deus é um criador. Ele nos
fez à sua imagem e semelhança, o que quer dizer que tudo aquilo que
Ele pode fazer você também poderá, mas na hora certa. E, olha, um dia
todos evoluiremos e ser Deus como Deus é hoje para nós.
Eu comecei a rir, aquilo não era possível, e Fhelipe estava indo longe
demais com uma teoria como aquela. Agora eu tinha curiosidade em saber
até onde ele seria capaz de chegar. Será que existiria alguma pergunta
da qual ele não teria resposta imediata? Continuei ouvindo-o:
− Não sei se você já parou para pensar, mas o fato é que tudo o que
há está em constante movimento, Vanessa, aliás, preciso dizer a você que
sou da opinião de que não há nada no Universo todo que não esteja em
infinita evolução, o que inclui Deus. E quando Deus propicia que outros
evoluam, Ele também evolui. Ninguém sabe ao certo, mas eu desconfio
que um dia Deus também foi uma criatura, foi criado por um Ser Superior

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a Ele e recebeu condições de evoluir, a ponto de criar um mundo também.
− E quando você acha que Deus deixou de ser um de nós e passou
a ser Deus? – Eu estava curiosa por aquelas explicações que nunca havia
sequer imaginado e queria ver aonde tudo chegaria.

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− Quando Ele experienciou tudo o que há, sob todas as formas pos-
síveis, depois de ter experimentado o bem e o mal, de ter feito escolhas
livres e ter aprendido através delas, então, ele atingiu toda a evolução ne-
cessária, através de bilhões de existências, para passar a ser cocriador de
seu próprio Universo. E quando Deus se tornou Deus, ele criou este mundo.
− Deus, então, teve um Deus antes de ser Deus?
− Eu acredito que sim.
− E como é o momento da criação de um Deus? – Eu estava sorrindo,
mas começando a rir, porque aquilo era hilário.
− Se Deus é tudo o que há e é a origem de tudo, imagine que a
criação de Deus seja o exato momento do big bang deste Universo.
Parei de rir, meus lábios se fecharam, fiquei pensando no que ele
acabara de dizer. Refleti. Havia certo sentido naquilo que ele falava, o
estranho era me imaginar por aí andando como Deus. Então, lembrei-me
da reverência que os iogues faziam uns aos outros, dizendo Namastê, o
que significa “O Deus que habita em mim reverencia o Deus que habita
em você”.
Fhelipe não era de todo um maluco, apesar de suas ideias ser bas-
tante livres. Resolvi fazer mais uma pergunta:
− Existe algo perfeito no Universo todo?
− Tudo o que há é perfeito e está cumprindo sua perfeita missão. As
coisas estão em seu devido lugar, embora não pareça. Há muita perfeição
nas imperfeições do mundo.
− Fhelipe, se Ele não põe regras, não cobra e não julga, então, qual
é a real função de Deus?

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− Única e exclusivamente a de criar o mundo e propiciar o equilíbrio ao
Universo. Entenda algo bem importante, Deus não se intromete em nada.
Eu estava chocada, analisava as palavras de Fhelipe e comparava o
que agora recebia de informação sobre Deus com o que eu sabia sobre
Ele. E o que eu sabia me deixava mais tranquila em relação a Ele, a mim

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e à vida, eu sentia certo alívio em ver Deus sob uma forma mais humana
e bem menos exigente, mas não podia deixar de ficar bastante surpresa
com essas novas possibilidades.
Olhei nos olhos de Phelipe e perguntei:
− Então, não tenho de me preocupar em ser salva?
− Não.
− Então, não tenho de me preocupar com as escolhas erradas que
um dia eu fiz?
− Não.
- Então, Ele não está esperando que eu faça as coisas certas, em vez
de parar de fazer as coisas erradas?
− Exato, Ele não espera nada de você. Lembre-se, Ele quer apenas
que você experiencie, aprenda por meio de suas próprias experiências e
cocrie seu mundo próprio, a seu tempo e segundo o caminho que você
escolher. Entenda, para Deus não existe certo ou errado, não existe pe-
cado. Você sabia que até agora Ele não se pronunciou sobre o que os
homens podem ou não podem fazer?
− Como assim, Ele não disse nada? E a Bíblia? E todas aquelas regras
sobre as Leis de Deus?
− O que tem a Bíblia?
− A Bíblia é o livro, e a palavra de Deus são as suas leis ditadas por
Ele para que as sigamos.
− E você pode me mostrar onde foi que Ele assinou?
Continuei olhando para ele e, por fim, respondi:
− A Bíblia foi o primeiro livro escrito por Deus, foi o que eu aprendi

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na escola e todo mundo sabe disso. Eu tive aula de catequese, fiz primeira
comunhão, clj e crisma, aprendi isso nos cursos da igreja.
− Vanessa, a Bíblia tradicional que você conhece não foi o primeiro
livro a falar em Deus e sobre a criação do mundo, na verdade, a Bíblia é
quase uma cópia fiel do Livro Sagrado judeu, feito pelos judeus, e não

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por Deus. Além do mais, a Bíblia não foi um livro que Deus fez. Ele não
fez livro nenhum para nós nem pretende fazer.
− Ah é? E o Alcorão? Quem fez? Quem fez? Quem fez? Hã? – Eu de
certa forma o estava desafiando.
− Maomé! Ele praticamente plagiou a Bíblia inteira! Se tivessem
direitos autorais naquela época ele estaria ferrado.
− Mas e os dez mandamentos?
− Ah, esse foi Moisés que fez.
− Mas não foi Deus que ditou para Moisés?
− E por que você acredita nisso? Ele não poderia ter subido ao Monte
Sinai, talhado as duas tábuas e descido dizendo que foi Deus?
Parei para refletir, nunca tinha me perguntado sobre a veracidade
dos fatos.
− Então, Fhelipe, você está me dizendo que nada vale e tudo é uma
farsa?!
− Mas, Vanessa, mesmo que tudo isso seja uma completa mentira,
nada disso tira os méritos de Moisés, pois foi algo que ele sentiu neces-
sidade de fazer e o fez por achar que era a coisa certa. E fez muito bem
por sinal. Porque, se formos analisar, ter criado regras para organizar uma
sociedade absurdamente desorganizada naquela época foi algo muito
positivo. E ter dado os créditos autorais para Deus foi algo inteligente,
porque só dessa forma, tementes a Deus, as pessoas obedeceriam às leis
mínimas, que são necessárias para uma sociedade sobreviver. E as pessoas
naquela época eram tão ignorantes que só o medo de um terrível castigo
de algo superior as impediria de continuar cometendo seus delitos. Na

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verdade, Moisés era um ditador radical, mas seu estilo de liderança foi
inteligente e era perfeito para aquela época.
− Mas, então, Deus não deixou nada escrito para eu seguir, simples-
mente me largou no mundo e seja o que Deus quiser?
Agora foi a vez de Fhelipe rir.

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− Sim e não, afinal, Deus nunca disse como você deve agir, mas veja,
ele te deu “armas” para evoluir. Quer um conselho? Não se cobre tanto,
não se castigue tanto, não se julgue tanto e se perdoe o máximo de ve-
zes que puder, porque para Deus você esteve, desde sempre, perdoada,
milhares de vezes, antes mesmo que você fizesse qualquer coisa. Olha,
acredite, Deus é super relax!
− Então, o que devo fazer?
− Somente aquilo que você achar que deve fazer, porque o certo e
o errado são relativos. Siga você mesma, e ouça o seu coração, porque
todas as respostas estão dentro de você.
− Mas e as regras sociais?
− Siga a legislação, porque, querendo ou não, você vive em socie-
dade, mas não se atenha às regras morais. Afinal, Deus não tem moral.
Aquilo soou como um sino dizendo “Acorde!” em minha mente:
− Meu Deus! Não pode ser!
− Mas é...
− Não acredito nisso! Estou besta!
− Tudo bem.
Eu estava eufórica, era como se eu tivesse acabado de receber uma
notícia universal que mudaria o sentido da minha vida como um todo e
a maneira como eu passaria a viver a partir dali. “Deus não tem moral”,
isso é algo óbvio e eu nunca imaginei. Mil coisas passavam pela minha
cabeça naquele momento. Eu queria saber mais e mais sobre Deus e
a vida:
− Fhelipe, e a Lei da Ação e Reação?

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− O que tem ela?
− Ela não é um castigo de Deus, sempre que faço algo errado, uma
coisa ruim acontece comigo, não é assim? Meu vizinho era um ladrão
quando jovem, depois fiquei sabendo que roubaram a casa dele agora
na velhice.

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− O que acontece, Vanessa, é aquilo que expliquei para você, a Lei
de Ação e Reação é meramente um mecanismo criado por Deus para
manter o Universo em equilíbrio. Veja seu vizinho, agora que experienciou
ser roubado, entendeu o quanto é ruim a sensação e, se for inteligente,
não o fará mais. Isso não deve ser encarado como um castigo divino, mas
sim como um aprendizado que a vida lhe dá. Está certo que ele ser rou-
bado não alivia o sofrimento das pessoas que ele roubou um dia, não é?
Mas saiba que o próprio Universo, em seu dinamismo, encontrou meios
de ressarcir essa pessoa prejudicada por ele, e mesmo que A não faça
exatamente o ressarcimento de B, acredite, C virá a fazê-lo. O mecanismo
de equilíbrio do Universo não falha e é incrivelmente justo.
− Mas e aquelas pessoas na Etiópia, por exemplo. Elas não fizeram
nada para ninguém e estão sofrendo, quando o Universo vai ressarci-las?
– perguntei, pois sempre me comovi com crianças indefesas.
− Vanessa, existem muitas coisas por trás dessa única pequena fatia
de bolo que conseguimos ver. Apenas, confie que os motivos reais de
pessoas inocentes sofrerem ainda estão ocultos neste mundo em que es-
tamos, mas saiba que, independentemente de quais forem esses motivos,
não podemos abandoná-las, temos de ajudá-las pois elas precisam, mas
existe sim uma razão para elas estarem lá. Devemos encarar essa situação
como o sábio mecanismo de equilíbrio universal dando-lhes a magnífica
oportunidade de aprenderem coisas valiosas sobre a vida estando naquela
experiência. E, acredite, elas estão lá porque assim decidiram antes de
nascer. Fatos ruins que acontecem em nossa vida não são jamais castigo
de Deus, mas valiosos ensinamentos e ajustes entre você e o Universo.

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E sabe quem impõe esses ajustes a você? Você mesma, uma parte mais
profunda do inconsciente que há em você pede pelo ajuste, para que
você aprenda e devolva ao meio o desequilíbrio que causou. O que o
Universo faz é só responder ao seu comando. Mas, veja bem, Vanessa,
nem sempre estar em uma situação de miséria significa uma opção pessoal

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de ressarcimento com o Universo. Há vezes também em que o espírito
opta por esta situação a fim de aprender com a experiência e testar o
seu desapego com a matéria. Existem espíritos evoluidíssimos andando
como mendigos por aí.
Pelo que Fhelipe falou, imaginei que ele acreditasse na existência
de vidas sucessivas. Perguntei-lhe
− E me diga, por favor, qual é a verdade sobre para onde vamos
depois que morremos?
− Você vai para onde acredita que irá. Se sua consciência lhe mandar
para o inferno, seu estado mental transformará o mundo ao seu redor em
um inferno, até que você próprio já tenha decidido que fora castigado
o suficiente. Se você acreditar profundamente que dormirá por toda a
eternidade, assim será. Se você acreditar que é uma bruxa, você defini-
tivamente nunca morrerá e, entre elas, eternamente viverá. Se acreditar
que virará pó e para sempre desaparecerá, assim será, pois que seja
feita a sua vontade! Se acreditar que irá para uma colônia espírita, para
lá se direcionará. Se acreditar que estará com os orixás após esta vida,
entre os orixás estará. Se acreditar no eterno Paraíso e sua consciência
sentir-se verdadeiramente merecedora, então, para lá irá. Se você achar
que precisará de mil vidas mais, então, assim será. Por isso, cuidado com
aquilo que você deseja e busque no seu mais profundo interior qual é a
verdade que a faz feliz e a leva a Deus, que nada mais é do que você em
comunhão consigo mesma, um estado mental de paz que lhe propicia
ser o criador do teu próprio mundo.
Eu estava impressionada.
Fhelipe disse:

88
− Veja, Deus preza tanto a liberdade de escolhas que você mesma
escolhe a verdade e o caminho que a levam até onde a sua alma quer
chegar.
Então, ele se levantou:

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− Preciso ir, está na minha hora, tenho trabalho para fazer ainda hoje.
Eu estava gostando da companhia dele, não o via mais como um
inoportuno. Suspirei pela sua volta ao trabalho:
− Ah...
Fhelipe riu e, então, perguntei se o veria no dia seguinte:
− Se quiser me encontrar, estarei neste mesmo local às dez horas da
manhã. É o horário do meu intervalo, quase sempre venho aqui.
− Tudo bem, amanhã continuamos nossa conversa – estava feliz,
aliviada e esperançosa com a vida.
Despedi-me dele:
− Tchau, até mais e obrigada pela conversa, estou muito melhor.
Fhelipe acenou com a mão enquanto ia embora. Ele estava alinhado,
e bem cuidado.
Permaneci sentada por mais um tempo, com o olhar voltado para a
praia. O novo amigo faria falta nos minutos seguintes em que permaneci
ali, repousando meus pensamentos no mar.
Sentar-se no banco se tornara agradável depois de toda aquela
conversa libertadora. A pracinha em frente à praia estava sempre lotada
de crianças brincando com a mãe. O sol agora era mais agradável e havia
pássaros pousando para pegar o farelo caído dos pacotes de bolachas de
algumas crianças. Algumas derrubavam suas bolachas propositadamente,
a fim de os verem bicarem o alimento perto de seus pés.
Reconheci a mãe de uma delas que vira no dia anterior. Ela em-
purrava o carrinho de seu filho e me olhava com um olhar interrogativo
sem dizer nada. Devia ter percebido a minha mudança de expressão.

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Naquele momento, eu me sentia mais do que feliz, estava absurda-
mente radiante.
Desviei o olhar e concentrei-me no azul do mar, deixei-me ficar ali,
passando o tempo. Somente quando o sol estava indo embora é que
decidi voltar para casa.

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CAPÍTULO VII

A Fuga
França, 1429

E stavam no quarto, sob luz de velas, transcrevendo alguns poemas que


Pierre havia escrito para a duquesa de Beauvais, com quem tivera
um rápido caso na corte, quando Angelique falou:
– Pierre, esses versos são lindos. Pelo visto você a amou muito! – An-
gelique suspirava.
Ouvia-se ao fundo o som abafado da taberna de Madame Mabelle,
com as vozes altas dos homens, as mesmas risadas das mulheres e a música
alegre tocando.
– Não, nunca! Ela era horrível! – Pierre falou colocando a mão na testa,
como se recordasse algo terrível em sua vida. Por alguns segundos, visuali-
zou mentalmente uma mulher com parcos dentes amarelados puxados para
a frente, lembrando a fisionomia de um cavalo. No rosto havia verrugas, e
a pele apresentava manchas escuras abaixo dos olhos. Sua idade era a de

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uma mulher madura. Lembrou-se da duqueza beijando-o veementemente,
enquanto ele mal conseguia respirar e evitava sair correndo. Por vezes quase
foi flagrado pelo duque. Pierre teria sido levado à prisão e torturado caso
fosse visto nos aposentos da duqueza.
– Mas como você conseguiu pensar em coisas tão belas para ela?

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– Lembrei-me de outra.
Ela não se espantou, conhecia os homens e Pierre parecia ser um ho-
mem bastante comum. Angelique Continuou admirando os textos.
– Esta parte aqui é linda.
Angelique ainda lia com dificuldade, às vezes, soletrava um pouco
antes de formar toda a palavra, mas depois de quatro meses de aprendizado
já apresentava uma boa melhora.
Ela estendeu uma das mãos ao alto, no ar, e com a outra segurava o
papel e recitava com romantismo o poema de Pierre.
– Eu a imagino quando leu este poema Pierre! Ela não deve ter conse-
guido dormir de tanto amor. – Angelique estava agora com a boca semiaberta
e segurava o papel junto ao coração.
 .Pierre não disse nada, apenas se recordou do cordão de ouro que lhe
foi mandado de presente.
Ele estava começando a tirar as botas e Angelique a saia, que armava o
vestido, quando ouviram o bater dos sinos da Igreja, no meio da noite. Pa-
raram estáticos para ouvir. Perceberam que a taberna também silenciara.
Contaram o primeiro toque, depois ouviram o segundo e, em seguida, o
terceiro e mantiveram-se em silêncio, entreolharam-se à espera de que os
toques cessassem. Os olhares assustados se mantinham um no outro. Os
toques continuaram sucessivamente e vieram tantos quantos não poderiam
imaginar, então, nem eles nem ninguém em Paris tinham dúvidas de que
havia novamente uma tentativa de invasão inglesa na cidade.
A taberna voltou a ficar agitada, e o desespero aos poucos tomou conta
de todos. Pela janela fechada, ouvia-se o grito das pessoas nas ruas − já passava

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da meia-noite, e ninguém mais dormiria. O pânico instaurou-se na cidade,
antes adormecida, e Pierre fora até a porta do aposento de Angelique para
ver o que estava acontecendo na casa, abriu a porta:
– Angelique, fique aqui, vou ver o que faremos.

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Angelique estava assustada, e Pierre não conseguiu sair no corredor
pelo movimento desesperado de mulheres aos prantos, algumas se esco-
rando nas paredes. Enquanto isso, homens comuns e soldados pegavam
suas espadas, lanças e o que pudesse servir de arma, corriam em direção
à rua.
Pierre voltou para dentro do quarto e fechou a porta. Tentou abrir a
janela do aposento, mas estava emperrada. Então, olhou em volta e viu a
cadeira, pegou-a, segurou-a sob a cabeça e a chocou contra a janela, que por
fim se abriu. Olhou para a calçada e viu que era a distância entre a janela e o
chão era um pouco grande. Gesticulou para que ela se aproximasse. Então,
segurou Angelique pelos dois braços e disse:
– Vamos sair por aqui. Eu vou levantá-la, apoie-se nas laterais, enquanto
eu a seguro pelas mãos para descer e depois pule, mas me espere junto à
parede.
Ele impulsionou Angelique, pelo seu tamanho era fácil. Então, ele a
segurou pelos braços junto ao parapeito da janela e a soltou. Ao encontrar o
chão, Angelique quase foi levada pela multidão que transitava em diversas
direções da rua estreita da taberna. Pierre gritou:
– Na parede, eu disse colada à parede, Angelique.
Ele se virou, procurou por algumas velas e, ao encontrá-las sobre a
mesa, colocou cinco delas em seu bolso, levou junto uma lamparina acesa
e foi ao parapeito, agora era sua vez de saltar. A altura de mais de um corpo
não seria problema para ele. Segurava a lamparina pela haste. Em pé, já
do outro lado, pegou fortemente Angelique pela mão e seguiu em meio
aos soldados que se preparavam para defender a cidade, mulheres, velhos
e crianças, que corriam desesperadamente em busca de um local para se

93
esconder. Angelique não via quase nada à sua frente, apenas era puxada por
Pierre, que lhe dizia:
– Sei aonde podemos ir e nos esconder, Angelique, no acampamento.
Lá estaremos seguros.
– Que acampamento? Onde fica?

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– Está a algumas horas daqui a pé, vamos pela floresta, seguimos em
direção ao curso do rio e o atravessamos na encosta com o vale. Lá estaremos
protegidos.
– Mas de quem é o acampamento?
– De Joana D’Arc. Ela deve estar vindo nessa direção, para salvar a
cidade.

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CAPÍTULO VIII

A Certeza
Brasil, 2008

P érola havia retornado do trabalho e a luz da secretária eletrônica avi-


sava que havia dois recados. Ela largou a bolsa sob a cadeira enquanto
esperava a mensagem. A secretária fez seu apitar característico e em seguida
ela ouviu: “Olá, Pérola, espero que não tenha problema te ligar depois de
tanto tempo. Gostaria de conversar contigo qualquer dia, sinto-me mal pela
maneira como tudo terminou entre nós. Pelo visto você não está em casa,
então, qualquer dia eu volto a ligar, se você quiser conversar. Fique bem. Até”.
Pérola suspirou, a voz de Pedro ainda mexia com ela. Uma pequena
angústia surgia em seu peito. Ela não queria ter ouvido a voz dele, não que-
ria ter de reviver as mesmas sensações do passado, achava que se ele havia
preferido a separação, quando encontrou outra pessoa e partido de sua vida,
era porque não a amava mais. Não queria vê-lo, porque vê-lo ou ouvi-lo
era como abrir novamente a ferida. Procurou se libertar dos pensamentos

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que envolviam Pedro.
Então, apertou novamente o botão da secretária eletrônica para ouvir a
segunda mensagem. Ouviu uma voz delicada e feminina falando: “Oi, sou
eu de novo. Você tem um tempo para um café? Acho que seria bem legal.
Bem, se você quiser, pode me retornar, vou ficar esperando”.

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Aquele era o sexto dia consecutivo que Pérola chegava em casa e ha-
via um recado de Karem na secretária eletrônica. Das outras vezes, havia
ignorado, mas desta vez resolveu ligar para ela, para pelo menos dizer que
estava cansada e que talvez em outro dia poderiam se encontrar, estava se
sentindo mal por ainda não ter lhe dado algum retorno. Discou o número
do identificador de chamadas e esperou completar a ligação. Karem atendeu
no primeiro toque:
– Oi, Pérola, que bom receber sua ligação, tudo bem?
– Sim, comigo sim, e com você?
– Estou bem também. Ei, queria conversar com você, será que você
tem um tempinho agora?
Pérola não conseguiu dizer “não”, a simpatia e insistência de Karem
a tinham deixado sem graça. Por fim, suspirou e disse que se ela quisesse
poderia ir até sua casa para tomar um café. Karem anotou seu endereço e
falou que em pouco tempo estaria ali.
Trinta minutos depois, o interfone do apartamento de Pérola tocou.
Karem se identificou e então subiu. Entrou sorridente, cumprimentou Péro-
la e viu que ela morava em um lugar simples, mas bastante aconchegante
e organizado. Os móveis da sala eram brancos, feitos em madeira, e as
cortinas eram azul-claras e transmitiam tranquilidade. Na parede, havia
uma tela em óleo com um imenso girassol pintado. E no centro da sala ha-
via uma mesa com quatro cadeiras e um vaso de orquídeas amarelas sobre
ele.
– Legal seu apartamento! – Falou Karem.
– Obrigada. Você aceita alguma coisa? Posso fazer um café.

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– Ah, obrigada. Mas veja o que eu trouxe para nós – Karem retirou al-
guns saquinhos transparentes contendo ervas de dentro da bolsa. – Leve-me
até a cozinha que preparo um chá bem especial.
Pérola gostou da ideia, há alguns dias começou a tomar chá e cada vez
mais apreciava a bebida. Ela levou Karem até a cozinha:

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– Pode preparar nesta panela – Pérola alcançou uma a Karem. – Eu
comprei camomila no templo da lua, se quiser, tenho no armário.
– Ah, camomila é muito bom, é um calmante natural. Mas neste mo-
mento vou fazer um chá mais especial para nós. Você conhece anis-estrelado?
Misturo ele, erva-doce e pedras de cristais.
Pérola aproveitou para perguntar:
– Eu vi que havia cristais no fundo das canecas de chá na Reunião de
Bruxas. Qual a função deles ali?
– Depende do cristal que você usa, quando quiser curar algum dor, por
exemplo, use um cristal de quartzo verde. Se quiser melhorar a depressão
ou aumentar a proteção espiritual, pode usar uma ametista. Se seu problema
é amor ou mágoas do coração, coloque no fundo de sua xícara um cristal
de quartzo rosa. É importante que essas pedras sejam tratadas antes. Elas
têm de ser energeticamente limpas em um banho de sal, depois lavadas em
água corrente, expostas por um dia ao Sol e por uma noite à Lua. Então, elas
estarão limpas e energizadas, preparadas para ser usadas.
Karem havia fervido a água e agora colocava as ervas na panela. Desli-
gou o fogo e pediu uma tampa para fechar e permitir que a fusão acontecesse.
Depois ela colocou as pedras de cristais translúcidos nas canecas de ambas.
– Vamos esperar alguns minutos e depois servimos. Enquanto fiz o chá
pedi harmonia entre nós.
Pérola estava gostando da companhia de Karem. Ela parecia ser bastante
agradável. Elas foram até a sala e se sentaram na mesa enquanto esperavam
o tempo do chá ficar pronto. Karem falou:
– Muito bom poder conversar com você. Eu queria que nos conhecês-
semos melhor. Diga-me, Pérola, há quanto tempo você está na bruxaria?

97
Pérola parou para refletir, não tinha pensado nisso ainda.
– Na verdade, não sei se estou, faz pouco tempo que andei lendo
alguma coisa sobre magia e foi depois que participei daquela reunião e de
um Ritual do Samahin.
– E você está gostando? – perguntou Karem.

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– Acho tudo bastante interessante, mas estou indo com calma. E você?
Há quanto tempo está na bruxaria?
– Desde que nasci – disse Karem com convicção.
As duas riram. E Pérola perguntou:
– Como assim?
– Quando era criança, nunca brincava de príncipe e princesa, sempre
de bruxa e gnomo. Meu passatempo preferido era fazer poções com as plan-
tas do quintal da minha mãe. Eu fui crescendo e naturalmente procurando
pelos assuntos fitoterápicos. Essas coisas sempre estiveram de certa forma
perto de mim. Minha avó lia a sorte para as mulheres que procuravam por
ela e, quando lhe pediam, ela fazia fortes orações. Alguns a chamavam de
bruxa, outros de benzedeira. Muitas coisas eu aprendi com ela. E quando
ela faleceu eu continuei a caminhada sozinha. Um dia, passando na rua, vi
a loja do templo da lua. Parecia que estava sendo atraída por ela, quando vi,
estava lá dentro. Uma moça veio me recepcionar, ela disse “Seja bem-vinda
à sua casa” e era como se lá fosse a minha casa, eu me sentia muito bem.
Em seguida, conheci Andréa, Priscila e Emília.
– Foi a Lindy quem a recepcionou na loja?
– Não, foi sua amiga, Mariana. Ela estava apenas aquele dia na loja
para ajudar Lindy. Logo depois, ela viajou para fora do país. A Mariana está
na Irlanda graduando-se em um Coven de Bruxas e aprofundando seus
estudos sobre o misticismo. Depois ela retorna ao Brasil para repassar seus
conhecimentos às outras bruxas.
– Como é a Mariana?
– Igual a uma bruxa. Ela se veste como tal e respira magia 24 horas

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por dia. Seus cabelos são crespos, negros e fartos, suas sobrancelhas são
espessas como as de uma bruxa, seu corpo é voluptuoso. Seus vestidos são
parecidos com os que as mulheres usavam na Idade Média. Nunca a vi de
calça e camisa.

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– Ela parece ser uma pessoa bem interessante. – Pérola arqueou as
sobrancelhas quando falou.
– Eu gosto bastante dela – sorriu Karem. – Mas há quem tenha medo.
– Por que alguém teria medo?
– Porque ela demonstra claramente que é uma bruxa, e, você sabe,
embora estejamos em 2008, ainda é como se houvesse a Inquisição, existem
pessoas que ainda perseguem e pensam mal das bruxas.
Pérola refletia sobre aquilo, por fim perguntou:
– E suas outras amigas? Clara, Priscila e Andréa, como são? O que elas
fazem? Impressiona-me como Priscila é bela.
– Sim, Priscila é realmente uma moça muito bela e todas elas são ótimas
pessoas também.
– Como você conheceu Clara? – Perguntou Pérola.
– Conheci Clara através de Lindy, ela é sua assistente, ajuda na prepara-
ção de poções e banhos, na organização dos rituais, ajuda a colher as ervas e
atender aspessoas no templo da lua. E Clara era uma antiga vizinha da Lindy.
– E a Priscila?
– Eu a conheci através da Andréa, elas estudaram juntas e, embora sejam
muito diferentes uma da outra em estilo, sempre se aceitaram e se deram
bem. Iniciaram a magia praticamente juntas quando assistiram a um filme
de bruxas na casa da Andréa. Priscila tem fascinação por crianças e gosta
muito de enfeitar-se, ela quer ser assistente social, apenas trancou o último
semestre da faculdade porque não está conseguindo pagá-la.
– E a Andréa? Fale-me sobre ela. – Pérola sentiu uma curiosidade a
respeito delas que a invadira instantaneamente.

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– Andréa é filha de um pastor evangélico, incrível isso, não? E ela se
veste somente de preto em todas as ocasiões. Quando se casou na igreja
apareceu vestida de preto para o espanto de todos. Ela também é vocalista
de uma banda de punk rock e ama música. E de todas nós ela é a que mais

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estuda e tem conhecimento teórico dos rituais. Eu sou responsável pela
intuição e pelos sonhos, a Priscila tem um poder de mentalização muito
forte e a Clara abre portais de outras dimensões. Nós nos completamos, na
verdade. E sempre que podemos nos juntamos para fazer os rituais.
– Nossa, deve ser legal partilhar isso entre amigas. – Pérola estava em-
polgada, não tinha entendido sobre o que Karem havia falado sobre Clara
abrir portais, mas não perguntou, pois imaginou que em algum momento
saberia mais a respeito disso.
– E é sobre isso que eu gostaria de conversar contigo. – Karem agora a
olhava seriamente. – Nós somos quatro amigas bruxas e sabemos, faz algum
tempo, que seríamos cinco. Meus sonhos sempre me mostram um quinto
elemento. A estrela tem cinco pontas e cada uma delas representa um dos
cinco elementos: terra, fogo, ar, água e espírito. No mapa astral de cada uma
de nós predomina um desses elementos mais do que os outros, e a que repre-
senta o espírito está com todos eles em equilíbrio. Sabemos que a pessoa que
esperamos tem a predominância do elemento água em seu mapa astral. Esta
pessoa terá, portanto, uma boa intuição e atravessará dimensões, podendo se
comunicar com o outro lado. Pérola, você já fez sua carta natal?
– Sim – disse enquanto olhava para o vazio.
– E qual foi o elemento predominante em teu mapa?
– Água – ao responder, Pérola cogitou a possibilidade de apenas ser
uma coincidência.
Karem suspirou, quase não lhe restava dúvida de que Pérola seria o
quinto elemento que elas aguardavam e, em seguida, continuou:
– Muito bem, vou contar algo para você. Em alguns meses, estaremos

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próximas de uma data muito importante. O dia 8 de agosto de 2008. Este
planeta, a partir das oito horas da manhã, será irradiado pela luz de Órion
e os portais se abrirão. Órion é uma estrela muito distante que não pertence
a este sistema solar e onde seres de muita luz vêm ajudando este planeta a
evoluir. Neste dia, eles enviarão uma grande energia para a Terra. E, neste

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dia, que será de Lua cheia, os portais se abrirão e teremos um importante
ritual de unificação para fazermos entre nós. É o dia em que, juntas, nos
conectaremos umas às outras e nos fortificaremos mutuamente através des-
sa energia que receberemos de Órion e de outras dimensões. Essa energia
servirá de base para o muito que ainda teremos de fazer juntas e até mesmo
sozinhas na nossa caminhada. Essa energia, de certa forma, é um alimento
espiritual que receberemos, nós e todos no planeta que se conectarem a ela.
Chamamos este importante ritual de Portal 8.
Pérola parecia um pouco impressionada. E também um pouco incrédula:
– E você está tentando me dizer que talvez essa pessoa que vocês es-
peram seja eu e que participarei de um ritual importante com vocês?
– Olha, Pérola, eu sei que pode parecer um pouco surreal, mas eu con-
fio na minha intuição. Quando você entrou na reunião das bruxas, na hora
meu sexto sentido me alertou que era você. Eu não conseguia tirar os olhos
de você, é como se minha mentora espiritual o tempo todo estivesse me
falando: “É ela, é ela, é ela, está chegando a hora”. – Karem colocou a mão
sobre o coração. – Eu sonhei várias vezes com esta pessoa que completaria
o pentagrama, mas não me lembrava de seu rosto, apenas de um detalhe
importante do sonho. Ela escrevia muito e estava fazendo um livro, seu livro
era grande e escrito à mão. Certa vez, em um dos sonhos, perguntei a ela
se ela escreveria sobre nós em seu livro.
Pérola rapidamente se levantou e foi até a escrivaninha, abriu a gaveta e
retirou de lá o livro que iniciara sobre as bruxas, segurou-o aberto na última
página, em que falava da Reunião de Bruxas e de ter conhecido Karem e
suas amigas. Então, ela respondeu:
– Sim, estou escrevendo sobre vocês no livro!
Karem levantou-se, e disse pulando:
– Yesssssssssssssssss!

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CAPÍTULO IX

A Floresta
França, 1429

E les etavam à margem da floresta quando Angelique parou, freando,


assim, Pierre. Ela virou para trás e mirou o olhar na direção da cidade.
Um receio de seguir rumo ao coração da mata a invadiu, como uma grande
nuvem que esconde o sol da coragem. Ouvia ainda, mesmo que muito ao
longe, um barulho vindo da agitação de Paris. No caminho, encontraram
algumas pessoas que corriam na mesma direção, buscando a floresta como
esconderijo. Alguns levavam filhos chorosos nos braços e, por vezes, algum
saco de tecido contendo provimento, como manta de ovelha para se abriga-
rem do frio, pão e botilhas de água. Na sua maioria eram mulheres e crianças,
que lá procuravam um lugar seguro durante a invasão, que provavelmente
seria seguida por uma batalha, caso os ingleses recusassem a sair de Paris. As
enormes árvores transformavam a floresta no mais profundo breu, desde o

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início do anoitecer, e os ingleses não ousariam adentrar na mata fechada para
encontrar os refugiados, uma vez que a cidade se encontrava sitiada por eles.
No entanto, poucos escolheram ir para lá na fuga. A floresta para os
franceses era perigosa e dotada de mistérios, evitada por muitos por ser um

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local de difícil acesso e de difícil retorno aos que se aprofundavam no seu
interior. Além do mais, para lá também se refugiavam as bruxas. Na floresta,
elas faziam suas casas, em busca de abrigo e proteção contra a perseguição da
Igreja Católica e da ameaça de Inquisição, que as levaria à morte na fogueira.
Por alguns segundos Angelique relutou entrar na escuridão do desco-
nhecido. Sentindo que ela se recusava a entrar na mata, Pierre a segurou
firme pela mão. Ele a olhou calmamente enquanto soltava sua mão e segu-
rava seus dois braços a fim de tranquilizá-la:
– Angelique, confie em mim, aqui fora da floresta não teremos a menor
chance de escapar dos ingleses, dentro dela estaremos seguros. Eu conheço
este lugar, por muitos anos, caçei aqui com meu pai. E sei o caminho que
nos levará até a nascente do rio Sena. Eu pescava lá.
Angelique olhava para as pessoas desesperadas entrando aleatoria-
mente no bosque, e sabia que muitas não regressariam se o desespero as
levasse ao interior mais profundo da floresta, pois não encontrariam mais
o caminho de volta. A mata densamente fechada evitava que a luz do sol
resplandecesse no céu e as guiasse na direção certa. Sem orientação, seriam
muitos os perdidos para sempre.
– Pierre, não posso, não consigo. Além do mais, há bruxas morando
na mata, e elas são perigosas.
– Não fale besteiras, Angelique, bruxas não existem! E, veja, os ingleses
estão cercando a cidade. Se Joana e seu exército não chegarem a tempo, esse
será o fim de Paris. Vamos, não temos mais tempo!
Ele tirou as velas do bolso, acendeu uma delas na lamparina e entre-
gou a Angelique. Depois a segurou pela mão, e foi então que ela lançou

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seu último olhar para trás, despedindo-se de Paris, e seguiu Pierre pela
floresta.
O extermínio de franceses e a invasão de suas cidades há décadas
vinham sendo feitos pelos ingleses. Os ataques tornavam-se cada vez mais
constantes. A maioria das cidades francesas estava sob o domínio da Ingla-

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terra, e os franceses eram massacrados e expulsos de suas terras. Os impostos
cobrados eram injustos e os custos da guerra recaíam unicamente sob o
povo. O ar da morte se instalara por toda a França, e as poucas regiões que
ainda restavam não tinham provimentos e exército suficientes para evitar a
invasão por muito tempo. As cidades resistiam com muito custo aos ataques
constantes, e os franceses estavam sendo vencidos nas batalhas.
A França já não tinha mais esperança quando surgiu Joana D’Arc, A
Virgem de Domrémy, uma jovem camponesa que se dizia enviada por Deus
para salvar a França do extermínio inglês. A lenda do Mago Merlin ecoava há
séculos pela Europa, onde se dizia que uma jovem viria em auxílio à França,
quando estivesse em grande perigo de guerra. Muitos esperavam pela sua
vinda. Quando apareceu, Joana D’Arc devolveu aos franceses a esperança de
serem salvos e de o país voltar a ser livre com dignidade.
Ela carregava um estandarte da Igreja junto à cela de seu cavalo, com
as inscrições de Jesus e Maria em fios dourados. No centro, via-se a imagem
do Salvador sentado em um trono acima das nuvens e segurando o globo
em uma das mãos, enquanto a outra mão do Senhor parecia benzer uma
flor-de-lis, em que um anjo a segurava na mão enquanto outro anjo orava.
Os rumores e a fama da donzela espalharam-se rapidamente por toda
a Europa, e todos diziam que, quando Joana D’Arc ia à frente das batalhas,
empunhava uma espada com a mesma coragem de um homem. Havia
poucos meses, ela conseguira junto ao rei Carlos uma reunião, em que se
apresentou, sendo desacreditada por muitos na corte. Mas, quando foi ao
campo de batalha pela primera vez, venceu, ganhando, assim, a confiança
do exército. Nas vilas francesas, nos campos e nas cidades, só se falava no

105
aparecimento de Joana D’Arc. Por todas as partes, diziam que ela os salvaria,
por ser a enviada de Deus.
A Inglaterra havia se retirado do combate em duas cidades, apenas
pela presença da jovem à frente do exército, que intimidava os soldados

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ingleses, temerosos de um castigo divino. E das vezes em que seu exército
foi a combate, contra os ingleses, Joana os derrotou rapidamente.
Ela dizia ouvir as vozes de santa Catarina, santa Margarida e do ar-
canjo Miguel, que lhe ordenavam quando e de que forma ela deveria agir,
encorajando-a a sempre seguir em frente. Ela transmitia essa coragem a
todos de seu exército, e os soldados, a cada combate, tornavam-se cada vez
mais autoconfiantes. Para a França, Deus estava com Joana D’Arc.
A Inglaterra a acusava de heresia. Era considerada uma bruxa para os
ingleses, santa para os franceses e louca para todos os outros países.

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CAPÍTULO X

O Coven

P érola havia chegado, dessa vez na hora certa. No templo da lua,

reuniões eram semanais. Ela entrou e viu que a reunião ainda não
havia começado. Reconheceu a maioria das mulheres presentes, que eram
as

as mesmas da reunião anterior, mas também viu outras.


Karem surgiu do fundo da loja e foi ao encontro de Pérola, então, disse,
sorrindo:
− Ah, Pérola, venha conosco, estamos conversando um pouco sobre
nosso Ritual do Portal 8.
Pérola a seguiu, e Andréa, Clara e Priscila vieram a abraçar.
− Que bom que você apareceu. Eu sempre confiei nas Deusas, mas con-
fesso que meu coração estava um pouco apertado por nunca chegar a hora
de você aparecer. Quando Karem nos comunicou que agora tinha certeza
de que era você, ficamos muito felizes – disse Priscila enquanto a abraçava.
− Bem, eu também estou um pouco apreensiva. Há poucos meses,
eu tinha uma vida completamente diferente desta, nunca imaginei que um

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dia me veria em encontros com bruxas e prestes a realizar um importante
ritual. Se não fossem as coincidências, eu não acreditaria ser a pessoa que
vocês estavam aguardando. Na verdade, uma parte de mim quer e outra tem
receio, é estranho – falava Pérola um pouco sentida e pesarosa em relação
ao seu sentimento contraditório.

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Clara se aproximou dela e explicou:
− É normal. Praticamente todas nós passamos por esse processo. É o
nosso consciente falando de um lado e o inconsciente do outro. Interna-
mente ouvimos a alma dizer “SIM”, mas nossa parte racional tenta nos dizer
“NÃO, seja realista”! Mas permita-se se entregar muito mais ao que você
sente do que ao que você pensa. Sentir é sempre mais importante. A mente
é inteligente, sim! Mas o coração é o mestre, Pérola.
Andréa completou Clara dizendo:
− A maioria das pessoas neste planeta está confusa, porque sentem de
uma forma, mas agem de outra, nos intermináveis choques entre a razão e a
intuição. Se ouvíssemos mais nossa voz interior, então, faríamos mais vezes
a coisa certa e seríamos mais felizes.
Priscila também argumentou:
− Há casos ainda em que a pessoa inconscientemente tenta fugir
da magia, porque tem receio do seu uso e do que possa ter feito dela ao
longo de várias existências, pois sabemos que a responsabilidade sobre o
conhecimento é grande e que, quando o dom é mal usado, ele é cobrado,
e ninguém mais quer se cobrar pelos equívocos, pois sabemos que nossa
consciência pode se tornar nosso maior carrasco. Concordo quando dizem
que viver “dormindo” é mais confortável, mas isso impede nossa evolução.
Pérola ouvia o que elas diziam e, em seu íntimo, concordava e pen-
sava que deveria, sim, ouvir mais a sua voz interior. E estava concordando
também com a lógica do receio de envolver-se com aquilo que a atraía e
ao mesmo tempo a repelia.
Lindy chamou todas para entrarem para a reunião. Ela usava um longo

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vestido negro e os cabelos loiros estavam soltos como de costume. Via-se
em seu dedo anular esquerdo um anel com uma grande pedra negra que
se destacava. Ela segurava uma espécie de cajado cuja extremidade tinha o
formato da cabeça de uma serpente.
Pérola perguntou:

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– O que ela segura?
– É o cetro da Sabedoria. Pertenceu a sua mãe, antes era de sua avó.
Lindy provém da linhagem das Bruxas Celtas, um povo que viveu na Irlanda.
Sua família habitava aquela região até vir para o Brasil. Por isso suas orações
são feitas na língua celta.
– E o anel em seu dedo? – Perguntou Pérola.
– É o anel da iniciação na bruxaria. Ela foi iniciada ainda muito jovem,
quando era virgem. Participava do grupo das Bruxas Mestras desde os catorze
anos de idade. Ela tem conhecimento milenar sobre feitiçaria, encantamentos
e uso de energias. E agradecemos por ela ser uma boa pessoa, pois, com
todo o seu conhecimento sobre o bem e o mal, poderia estar praticando a
magia negra em vez de ajudar as outras bruxas a evoluírem.
– E por que ela se veste de negro?
– Porque a cor preta nos protege, ela bloqueia a pessoa de receber ener-
gias oriundas de diversos canais. Veja, estamos em muitas mulheres hoje, e
não sabemos as reais intenções de todas que estão aqui. Existem pessoas que
são vampiras na arte de sugar energias. Ela deve ter pressentido a presença
de alguém assim no grupo de hoje. Como sabíamos que teríamos algumas
pessoas que viriam pela primeira vez, o preto a protegeria, já que ela lidera
o grupo e, portanto, seria a pessoa de maior evidência na reunião. Preto é a
combinação de todas as sete cores juntas. Quem pratica meditação nunca
pode estar de preto, senão as energias não conseguem lhe penetrar.
Lindy sorria, esperava que elas entrassem também.
Karem disse às suas quatro amigas:
− Ao final do Coven, sentaremos para discutir o ritual e como o faremos.

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Faltam poucos meses e precisamos nos encontrar com mais frequência para
estudá-lo.
Todas concordaram e seguiram para os fundos da sala, retirando seus
calçados e escolhendo um lugar para sentar. Ficaram todas juntas, lado a
lado. Enquanto se acomodavam, Lindy lhes sorria.

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Havia cerca de trinta mulheres nesse encontro. As velas, o incenso e o
caldeirão estavam ali, como parte de tudo o que sempre acontecia naquele
recinto. Nos quatro cantos da sala, haviam sido colocados castiçais com
pentagramas trabalhados em ferro e velas lilás. O grande caldeirão ao centro
queimava as ervas em seu interior – um cheiro suave de alecrim estava no ar.
O grande livro negro diante de Lindy repousava sobre uma almofada, e, ao
que tudo indicava, ele era a base para os ensinamentos na bruxaria. Pérola
perguntou-se de onde ele havia surgido e quem o havia escrito. Olhando
todas se acomodarem, viu quando Rosana chegou, ela lhe acenou do outro
lado da sala, onde se sentou.
Todas ficaram em silêncio e fecharam os olhos, em seguida, Lindy
pronunciou:
− Que o Coven desta noite seja abençoado pela Grande Mãe Cerridwen,
pelos Deuses e Deusas e por todos os seres evoluídos, que nunca nos aban-
donam em nossa caminhada. Que nossos protetores e mentores espirituais
possam estar conosco neste momento e que recebam, assim como nós, a luz
divina do Universo. Que as bruxas e as aprendizes de bruxas aqui reunidas
possam hoje aumentar seu conhecimento através de trocas de experiência
e dos sábios ensinamentos sobre a vida no Livro das Sombras. Eu dou por
aberta a Reunião de Bruxas.
Nesse momento, todas deram as mãos umas para as outras, e Lindy
pronunciou algumas palavras em outra língua enquanto estava de olhos
fechados. Quando terminou, ouviu-se uma voz única em coro:
− Shatassá!
Pérola perguntou a Karem o que ela havia dito:

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− Uma importante oração de proteção recitada na língua celta.
− E o que é o Livro das Sombras do qual ela falou?
− É aquele livro negro que ela segura nas mãos. Ele passou de geração
para geração, e cada bruxa que esteve com ele acrescentou seu conheci-
mento. O Livro das Sombras da Lindy é o mais completo de nosso Conven,

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pertenceu a cinco gerações de bruxas. Observe como ela manuseia cui-
dadosamente suas folhas. Há nele também as receitas de feitiços da alta
magia e a explicação da manipulação das energias. Cada bruxa pode ter o
seu Livro das Sombras e colocar nele, por exemplo, suas receitas de magias
e as observações sobre rituais e experiências próprias. O Livro das Sombras
é o diário de uma bruxa.
Lindy, que estava sentada em uma almofada diante do caldeirão, co-
meçou a falar:
− No nosso encontro de hoje vamos falar sobre os mentores espirituais
de cada um. Esses seres maravilhosos e tão fundamentais no nosso caminho
evolutivo, que nos acompanham através dos tempos. Acreditem, cada um de
nós tem um anjo da guarda e um mentor. Eu, vocês, seus amigos, sua família,
todo mundo que vocês conhecem tem o seu, independentemente da religião.
Nascemos com eles, e eles estarão conosco até o momento da nossa passagem.
Quando somos pequenos, até os sete anos de idade, os anjos da guarda atuam
junto de nós mais diretamente, mas, à medida que crescemos, sua interferência
passa a depender de uma única coisa: nosso livre-arbítrio.
Pérola se lembrava do encontro que tivera com Rosana, em que falaram
sobre a importância das escolhas.
− Eles não podem interferir na vida de vocês ou ajudá-las sem a au-
torização de vocês, sem que lhes peçam, decretem ou desejem. Porque
ninguém é mais beneficiado do que outros no caminho da evolução. Os
Seres Ascencionados obedecem à Lei Maior. O meu anjo da guarda e o meu
mentor me ajudam se eu pedir, os de vocês só os ajudam se vocês pedirem.
Há pessoas que nascem e passam uma vida inteira sem estabelecer cone-

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xão com o mentor e o anjo da guarda. E eles ficam ali, esperando que algo
aconteça. O livre-arbítrio é uma das Leis do Universo, é sagrado e sempre
será respeitado pelos Seres Ascencionados.
Lindy ora lia o Livro das Sombras, ora complementava o discurso com
suas próprias palavras. As bruxas a ouviam com atenção, as que estavam

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aprendendo sobre o assunto se mantinham concentradas, as que já sabiam
algo mais contribuíam com algum conhecimento. Ísis, a jovem bruxa sábia,
falava a todas agora:
− É função dos mentores e anjos da guarda nos ajudar na nossa evolu-
ção. É dessa maneira que eles também evoluem. ilumine, e você será iluminado,
esta é outra das Leis Universais. Mas eles nada farão sem a sua autorização
ou sem conversarmos com eles. O mentor orienta. O anjo da guarda protege.
Existe uma maior complexidade, mas basicamente entendam dessa forma.
A maioria das pessoas nunca parou para pensar, mas o fato é que vivemos
em um constante bbb-espiritual. Portanto, a partir de hoje, antes de dormi-
rem, quando estiverem arrumando suas coisas, sozinhas, tomando banho,
olhando para o nada no meio da madrugada, ou para a imensidão de tudo,
falem com eles, falem com seu mentor e anjo da guarda. Conversem como
se eles fossem seus amigos, porque eles são mesmo. Eu vivo falando com
o meu. Converse francamente e diga a eles que você precisa de ajuda para
resolver tais e tais problemas ou para ser uma pessoa cada vez melhor, que
eles mostrarão o caminho a seguir. Quando você perceber previamente que
algo ruim poderá lhe acontecer ou que alguém a prejudicará, peça também
a eles que a ajudem em seus desafios e em sua missão. E algo bem impor-
tante: ouça a sua intuição sobre que caminho seguir, ouça muito mais a si
própria do que aos outros. Uma das maneiras de nossos protetores falarem
conosco é através da intuição.
Outra aprendiz que estava perto de Pérola falou:
− Mas não sei como ouvir minha intuição, fico na dúvida de quando é
imaginação ou sexto sentido. Como faço para saber quando é um ou outro?

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Ísis ergueu a mão para responder:
− O tempo, o autoconhecimento e uma percepção melhor do mundo
podem auxiliá-la a fazer essa distinção. Conhecendo-se, você definirá melhor
os mecanismos de funcionamento de seu próprio corpo, seus sinais e seu eu
interior. A meditação é um dos métodos mais usados para o autoconhecimento

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e ajuda muito a ampliar a intuição. Muitas pessoas não dão valor a esse im-
portante exercício da mente. E meditar nada mais é do que parar para ouvir os
seus sons interiores. E eles dizem muito sobre você, aliás, dizem muito sobre
quem é você. Os minutos em silêncio, além de acalmarem, dão espaço para
que pensamentos ocultos venham à tona e sejam colocados em ordem. A
meditação é uma arte e deve ser um exercício diário.
− Mas haveria alguma técnica para distinguir a intuição da imaginação?
– perguntou uma senhora que já havia participado de quatro encontros.
Rosana pediu a vez e começou a esclarecer:
− Uma técnica que pode ser realizada com a meditação para melhorar
a intuição e descobrir quando o pensamento é fruto da imaginação ou um
aviso interior é a seguinte: no resultado de uma situação, em que você viu
que aquilo que sentiu era mesmo intuição, volte sua mente para o passado
e procure sentir novamente a sensação daquele momento em que a intuição
veio à tona. Aprofunde-se naquele sentimento que teve àquele momento,
tente vivenciá-lo novamente e perceba melhor o padrão da sensação, as suas
características, para que, das próximas vezes, você o identifique com mais
precisão. Procure perceber como foi o insight. Porque esse insight é a exata
sensação experimentada no momento que a intuição falou com você. E sua
intuição sempre falará com você através do mesmo padrão de sensação.
Você precisa descobrir de que maneira ela fala com você, de que maneira
ela vem à tona, com que tom ela surge, com que intensidade, frequência
e onde você a sente, porque em algum lugar do seu corpo essa sensação
se manifesta – interior do peito, cabeça, garganta, estômago, partes onde
estão localizados nossos chacras. Precisamos criar dentro de nós um ponto

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de referência. E desenvolvê-lo também é uma questão de treino.
Outra senhora perguntou:
− Como podemos fazer para meditar de uma maneira simples e eficaz?
− Meditar sempre é algo simples, você nunca fará muita força, pois, se
fizer, cometerá um erro. Você pode meditar ao acordar, deitada, de frente

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para o mar, em uma igreja, enquanto viaja de ônibus até o trabalho. Basta
que você se volte para dentro de si e procure sentir sua respiração, seus ba-
timentos cardíacos, visualizando algo bom e positivo ou apenas relaxando
a mente e deixando ela vagar pela parte mais bela de nós, a alma. Acredite,
você pode achar que não conhece o caminho até sua alma, mas, se você se
permitir, ela mesma a conduzirá. Quem medita não se abstém de pensar, pois
a mente nunca para. Quem medita volta a mente para outros lados que não
os habituais. Meditar é atravessar um mundo interior, é adentrar em outros
planos e dimensões de forma consciente. É buscar outras faixas de vibração
não perceptíveis enquanto nos detemos a uma vida cotidiana frenética. E
nesse momento aproveitamos para buscar novas fontes de energia, oriundas
de lugares mais ricos e mais soberanos. Para isso, basta que canalizemos
formas positivas na meditação. E canalizar formas positivas começa por ima-
ginar e visualizar-se em lugares positivos, belos e iluminados. Pode ser até
mesmo a visualização mental de um lugar belo para você, como uma praia,
por exemplo, onde você se sinta em paz, com a leve brisa e, aos poucos,
vai se sentindo mais energizado pelo mar. Meditar requer prática. Requer
seriedade. Não é fácil no início, mas é preciso aprendê-la. Era Rosana quem
dava a explicação.
Clara ergueu a mão para perguntar:
− Até que ponto nosso mentor pode interferir no nosso livre-arbítrio?
− Não pode, como foi falado, a Lei Maior não permite. O livre-arbítrio
é um direito divino. O direito de um Ser Superior de intervir em sua vida só
é dado se você autorizar.
Outra mão foi levantada e mais uma pergunta surgia em meio às

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aprendizes:
− E como podemos fazer para conversar com nosso mentor e protetor
espirituais?
− Muitos dos nossos encontros com eles acontecem enquanto dormi-
mos. Nesse momento, eles nos aconselham, e o que falam para nós fica

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guardado no nosso inconsciente, mas nem sempre conseguimos nos lembrar
de suas palavras, embora muitas vezes as sigamos intuitivamente. Há ainda
aquelas pessoas que ao dormir não conseguem atravessar as densas camadas
que nos separam das outras dimensões e, portanto, não se encontram com
eles. São pessoas que estão tão presas à matéria que seu corpo mental pouco
se desprende dessa zona, então, os mentores ficam praticamente sem poder
de atuação. Consequentemente, a pessoa fica sem uma importante ajuda
para seguir sua missão e transpor os desafios desta vida – explicou Lindy.
Rosana, em seguida, pediu a palavra para complementar:
− Destino não existe. missão e desafio sim! Missão é a função com a qual
você se comprometeu antes de nascer e que tem um objetivo específico:
o de dar o salto quântico, ou seja, evoluir através de ações voltadas para o
seu benefício e o da humanidade. Cada uma de nós tem uma função neste
planeta que foi estabelecida como um pré-destino a ser seguido. Por exem-
plo, para alguns, a função é ser médico, para outros é ser escritor, profes-
sores; alguns, ainda, têm como função cuidar de uma fundação. Outros de
ser construtor. Há aqueles que vieram com a função de amparar a família.
Perceba que a humanidade, para estar em equilíbrio, precisa de todas as
funções. Cada um faz a sua parte. Muitas vezes, a missão é um ajuste entre
você e a humanidade. E, acredite, você tem o livre-arbítrio de aceitar ou não
a missão quando está aqui neste planeta. A missão é assim, ela passa na sua
frente como encilhada, se você não subir, ela vai embora, mas uma hora
aparece novamente. E você pode muito bem optar por ignorá-la de novo ou
até mesmo não querer realizá-la nesta vida, afinal, o livre-arbítrio é sagrado,
mas tenha a certeza de que uma hora ela vai voltar e vai rondá-la uma vida

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inteira, esperando que você opte por ela. Os desafios são questões que você
tem de transcender com o objetivo de aprender algo que ficou pendente. Por
exemplo: aprender a se desapegar da matéria. Aprender a perdoar. Aprender
a ter paciência. Aprender a não se vingar. Aprender a não julgar. Aprender
a não mentir. Aprender a controlar o ego. E o desafio vai estar sempre com

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você, como um teste para ver se realmente aprendeu a lição. Não é casti-
go divino, não, é aprendizado. Por exemplo, você nasce em uma família
apegada à matéria, constitui outra família apegada à matéria, encontra no
mundo uma porção de pessoas que dão importância somente à matéria, e
assim por diante. Ou encontra dia após dia pessoas que a magoam e as quais
você tem de aprender a perdoar continuamente. Ou vive situações que lhe
tiram a paciência o tempo todo, como um teste para você ver se aprendeu
ou não. Se seu desafio nesta vida é ter paciência, acredite, ela será testada
constantemente. E na maioria das vezes viemos para cá com no mínimo
dois grandes desafios de vida.
Uma mão foi erguida em meio às bruxas, era de uma mulher que par-
ticipava pela primeira vez do Coven. Ela perguntou:
− Como saber se estou atingindo os objetivos ou cumprindo minha
missão?
Lindy respondeu:
− É simples, quando você se sente bem interiormente, significa que
você está no caminho certo. Quando se sente mal, é sinal de que você pre-
cisa se alinhar com a missão e/ou aprender a lição do desafio. É muito fácil
descobrir a coisa certa a fazer. A atitude certa acalma o coração, mesmo
quando a razão vai contra. A atitude equivocada, por sua vez, mesmo que
a sua razão lhe mostre todas as justificativas possíveis, no seu íntimo, você
sente um incômodo, pois o coração não se acalma, mesmo com a mente
tentando justificar sua escolha.
Rosana deu uma sugestão na reunião para a senhora que havia feito a
pergunta e para as demais bruxas:

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− Prestem bastante atenção nisto que vou dizer, peçam aos seus dois
grandes amigos que as ajudem, lhes indiquem o caminho da sua missão e
lhe deem forças para que possam transcender os desafios. E que vocês per-
cebam esses sinais que eles vão mandar, porque eles realmente mandarão,

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seja por meio da intuição (siga-a sempre!), por sonhos, ou pelo aparecimento
de determinadas pessoas ou situações na sua vida. E, pelo Amor de Deus,
respirem, relaxem, freiem, desliguem o 220 W, porque, nesse frenesi do
dia a dia, correndo contra o tempo ou imersas em pensamentos negativos,
vocês não vão perceber os sinais. E, repito, uma boa maneira de percebê-los
é aprendendo a meditar.
Enquanto isso, Pérola anotava tudo em uma folha. Era muita informa-
ção, mas precisava registrá-la para que, ao chegar em casa, a escrevesse
em seu livro.
Uma aprendiz de bruxa, que usava um pentagrama em seu pescoço,
levantou a mão, pedindo espaço para perguntar:
− O que é exatamente meditar?
Rosana ajeitou-se em sua almofada e, então, respondeu a pergunta:
− Meditar é diminuir a velocidade dos pensamentos, da respiração,
dos batimentos cardíacos. Meditar é voltar-se para dentro de si e ouvir seus
próprios sons. Você tem dois grandes amigos e um poderoso mestre, que
estão dentro de você. A pessoa que mais pode lhe ensinar é você mesmo,
sabia? Será que você pode parar para se ouvir? O inconsciente detém todo
o conhecimento do Universo, toda a sabedoria universal, experimente abrir
alguns dos milhares arquivos dele.
Nesse dia, o número de aprendizes era um pouco maior, e percebia-
se a fome de conhecimento de muitas ali. Uma mulher aparentando seus
quarenta anos e vestindo jeans quis fazer uma pergunta:
− Existe algum momento em que nosso livre-arbítrio recebe interferência?
Lindy lhe explicou:
− Os seres de luz jamais interferem, pois eles entendem, aceitam e

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respeitam a Lei. Quem interfere no nosso livre-arbítrio são os seres inferio-
res, e nós mesmos somos responsáveis por isso. Seja por causa de nossas
ações físicas, nossa magia ou nossa interferência por meio de pensamentos
negativos. O que penso para você emana determinada qualidade de ener-

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gia, ou seja, tudo o que os outros pensam de você atua diretamente no seu
campo de energia. E não é porque não a vemos que ela não existe. O fato
é que estamos submersos em um mar de energias e as trocamos entre nós.
Estamos, sim, submersos em energias da mesma forma como os peixes estão
submersos no oceano, mas não percebemos isso. E, pensem, será que os
peixes também percebem a água à sua volta?
Ísis afastou um pouco sua vassoura para trás, a fim de espalhar-se melhor
na almofada, então, falou:
− Olha, existem pessoas que desejam o mal de outras, e só o simples
desejar envia a essas pessoas a energia negativa de raiva, ódio, rancor. E
isso é um problema para quem recebe, se a pessoa não estiver devidamente
protegida, pois até mesmo suas ideias e ações podem receber interferência
dessas formas de pensamento desqualificadas. E esse é um problema também
para quem envia essa energia negativa. O fato é que tudo aquilo que você dá
ao Universo é exatamente o que você recebe dele. E esse é um acerto que
elas vão ter de fazer com o Universo mais cedo ou mais tarde. dar é receber,
essa é outra Lei Universal. Quem deseja o mal aos outros, terá o mal para si.
Porque o pensamento emitido retorna para você concretizado, não é nenhu-
ma vingança divina. É apenas sua mente pedindo de volta o que ofereceu
ao Universo. Assim, é sua própria mente que aciona os comandos do que
você receberá. E todas as suas informações mentais ficam expressas no seu
campo energético, que atrai para si tudo de acordo com o seu comando.
− E quando a pessoa é boa e em sua vida acontecem muitas coisas ruins?
− Realmente acontece de você ser uma boa pessoa e mesmo assim ser
afetada por ações ou pensamentos de outros, sofrendo interferências no seu

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livre-arbítrio. Porém, você não pode, nunca, justificar que as coisas ruins que
acontecem em sua vida é por culpa dos outros, mesmo que a iniciativa seja
deles. Sabe por quê? Porque sempre será seu dever proteger-se de influências
negativas! E não há nada que aconteça no Universo que nos cerca que não

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tenhamos, de alguma forma, consciente ou inconscientemente, permitido.
Quando o outro interfere em nossa vida, é porque deixamos, seja porque
não tomamos nenhuma atitude, seja porque não nos mantivemos protegidos.
Há, sim, pessoas que fazem magia negra a outras!
− E como posso me proteger? – perguntou uma das aprendizes.
− Orações, pedidos de auxílio a seus protetores, banhos de ervas puri-
ficadores, exercícios mentais de fortificação da áurea, entre outras inúmeras
formas – respondeu Ísis serenamente.
− Existe alguma religião que protege mais do que outra?
− Não, porque a proteção espiritual independe da religião. Ela é o
trilhar da fé de cada um, e a fonte é sempre única, não importa qual seja a
religião, pois é Deusa e Deus.
Pérola estava bastante impressionada com a sabedoria daquela jovem
bruxa, que com apenas quinze anos detinha sábios conhecimentos e tinha
muita personalidade. Ela falava com maestria, enquanto Pérola anotava suas
palavras.
− E como somos bruxas temos mais liberdade, pois podemos ou não
seguir uma religião específica. Isso não tem a menor importância. Ouvimos
as ciências, selecionamos aonde vamos, vemos aquilo que ecoa em vários
cantos e filtramos o que nos serve. A bruxaria nos dá essa possibilidade, e
isso é muito importante, pois, quanto mais livre somos, menos ignorantes nos
tornamos. É essencial que qualquer pessoa busque também um caminho,
seja ele qual for. Escolham sempre as verdades que trazem paz ao coração.
Lindy tomou a palavra:
− A verdade é que há bruxas em todas as religiões. Basicamente o que

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difere a Wicca, Religião das Bruxas, de muitas outras é a nossa profunda
conexão com a Natureza, que nos permite aprender com ela, e é onde bus-
camos proteção. Temos afinidade com a filosofia de vida que diz que somos
uno com tudo o que a Deusa e o Deus criou. Mas há pessoas que precisam

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de outras formas de conexão ou dogmas. E isso sempre deve ser respeitado,
porque é a necessidade daquela pessoa nesta vida.
Rosana completou:
– Por exemplo, religiões muito radicais são necessárias neste mundo.
Por vezes, os espíritos que vêm para uma nova passagem são tão errantes que
eles mesmo procuram inconscientemente esse tipo de filosofia para impedi-
los de saírem da linha novamente. Há espíritos que sentem necessidade de
religiões que lhes imponham limites, pois sua consciência, quando eles fize-
ram a passagem na experiência anterior, cobrou-lhes muito por suas ações, e
eles criaram para si um inferno mental e não querem mais experienciar isso.
Toda forma de fé existente tem o seu valor e, por isso, precisa ser respeitada.
Uma mulher perto de Pérola parecia desconfortável, ela suspirava.
Pérola estava surpresa, virou-se para o lado e perguntou a Karem:
− Existem bruxas em outras religiões?
− Claro que sim, existem freiras que são verdadeiras bruxas, com pode-
res de cura poderosos através de suas orações. Existem bruxas umbandistas
e até evangélicas. Não é o dogma que faz uma bruxa ser uma bruxa. É a
sua fé, sua intenção, seu conhecimento consciente ou inconsciente sobre
a manipulação das energias e de seu poder mental, quando usa a magia,
seja de que forma for.
– Karem, o que é magia? – Pérola lhe perguntou.
– É tudo aquilo que a ciência ainda não explicou.
Pérola levantou a mão, ela agora tinha uma importante pergunta a fazer
ao grupo. Os olhos de todas se voltaram para ela:

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− Afinal, o que significa ser uma bruxa?
− As bruxas são mulheres que buscam a sabedoria através da espiritua-
lidade. São pessoas com capacidade de usarem a espiritualidade e a fé para
transformar o mundo que as cerca, sua vida ou a de outros – respondeu Lindy.
Todas concordaram com a explicação.

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– E como saber quando se é uma bruxa? – Pérola perguntou
– Querida, todas as mulheres são bruxas...
O Coven estava em silêncio, era possível notar que muitas refletiam a
respeito.
Notou-se que uma das aprendizes pedia a palavra:
− Mas nem todas as bruxas são boas! – falou uma das aprendizes.
− É porque nem todas usam seus conhecimentos e dons de uma forma
consciente. Infelizmente, algumas se perdem em meio ao poder. Há ainda as
que iniciam a caminhada com princípios pessoais voltados para o individualis-
mo e a satisfação do próprio ego. Uma bruxa inconsciente, por exemplo, que
tenha adquirido grandes conhecimentos ritualísticos e que opte por praticar
uma magia para fazer chover pode, além de interferir na Natureza, fazer algo
bom só para si, em vez de se perguntar se isso seria bom para todos. Uma
bruxa inconsciente interfere no livre-arbítrio de outras pessoas, fazendo, por
exemplo, rituais de amarrações amorosas e modificando o futuro dos outros,
apenas porque desejou para si alguém como objeto de amor, que nem sequer
lhe era compatível, ou, então, foi procurada por uma terceira pessoa, que lhe
pediu para fazê-lo, o que não a exime da responsabilidade de ter interferido
na Lei Maior – Ísis respondeu.
Outra moça ao lado de Ísis completou:
− A energia está disponível para todos no Universo. Não é preciso uti-
lizar a dos outros. As pessoas precisam compreender que para evoluir não
é necessário que outro caia. O tempo e a energia desperdiçados que uma
bruxa leva para fazer mal a alguém são o tempo e a energia que ela poderia

121
usar para fazer o bem.
− Mas as magias sempre funcionam? – perguntou Pérola, ansiosa.
Lindy já havia deixado o livro de lado e agora colocava seus longos
cabelos loiros para trás:

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− Depende de quem faz e do nível de proteção de quem recebe a magia.
Há pessoas que possuem o que chamamos de corpo fechado, são pessoas
que praticam algum rito de proteção. Inclusive, uma mulher que seja, por
exemplo, católica e ore todos os dias para a Mãe Maria com fé criará um
manto de proteção em torno de sua aura, de seu campo energético. Quanto
mais conectada à fonte divina, mais protegida uma pessoa estará. Por isso,
sempre peçam a proteção aos Deuses e Deusas em seus pensamentos.
Clara, que quase sempre estava nas reuniões em silêncio, optara por
contribuir com seu conhecimento:
− Tem uma frase de Jesus Cristo, o Mestre dos Magos, que diz: “Orai
e Vigiai”. Sabem o que ele quis dizer com isso? Ore e cuide de seus pensa-
mentos. Vigie-os. Não deixem se abalar por pensamentos de má qualidade.
Porque, se você entrar na egrégora de pensamentos não qualificados, você
fará parte deles e se conectará à mesma frequência vibratória. Portanto,
cuide de seus pensamentos. Porque semelhante atrai semelhante. E, se você
estiver negativo, pensando em coisas negativas, aquilo de negativo que lhe
for jogado grudará em você, que se tornará uma espécie de ímã que atrai
para si aquela vibração.
Rosana aproveitou a oportunidade para expor também:
− As pessoas são vistas pela óptica das frequências, e os objetos são
vistos pela óptica das polaridades, por exemplo, a carga negativa e positiva
do imã de geladeira se atraem. No caso de pessoas, é diferente, aquelas que
têm a mesma frequência vibratória tendem a andar juntas, porque se atraem.
Gente negativa anda com gente negativa. Gente positiva anda com gente
positiva. E isso acontece naturalmente, de uma forma espontânea. Jesus Cristo

122
dizia: “Diga-me com quem andas que te direis quem és”. Era nesse sentido
que ele falava − sobre as classificações mentais das pessoas − e não sobre
as classificações sociais delas. Se você elevar seus pensamentos, a própria
dinamicidade da vida fará com que você se afaste do que é ruim, inclusive
terá grandes dificuldades de se encontrar com pessoas que não vibram da

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mesma forma que você. Melhor dizendo, não tem como a pessoa ser positiva
e negativa ao mesmo tempo. Então, não dá para pensar só um pouquinho
negativo, porque só esse pouquinho já faz com que você mude a sua frequên-
cia de positiva para negativa. Eu sei que não é fácil manter a frequência
positiva o tempo todo, mas é preciso se policiar sempre, a fim de evitar que
os pensamentos desçam a uma frequência mais baixa. Eu mesmo, às vezes,
me pego pensando em coisas tristes, mas o importante é perceber isso e
elevar o pensamento na hora.
− E de que forma você faz isso, Rosana? – perguntou Pérola.
− Como faço? É simples. Oro, ouço música, medito, faço mantras,
converso com meu anjo da guarda. Na hora começo a imaginar uma situa-
ção bem feliz e adoto uma atitude fundamental: evito assuntos pequenos,
como fofocas, críticas aos outros ou reclamações. E não paro para ouvir
tragédias televisivas, em que uma nação inteira emana energia de revolta e
ódio por algum crime, por exemplo, senão adentro a egrégora formada por
pensamentos negativos e sou absorvida por ela, sintonizando-me naquela
frequência. Uma egrégora formada por milhares de pessoas é altamente
forte. Uma pessoa pensando desprende determinada qualidade de energia,
imagine milhares fazendo o mesmo.
Andréa completou dizendo:
− Sabem os mantras? São sons repetidos e entoados como orações,
geralmente em sânscrito, que possuem uma energia sonora que movimenta
outras energias, que envolvem quem os entoa. Você não precisa saber o
que determinado mantra significa, basta que saiba a que ele se destina e os
recite, porque milhares de pessoas os recitam e os recitaram, e eles ficam

123
impressos no holograma do Universo, então, se você os recitar, você se
conecta àquela egrégora, formada por pensamentos de energia positiva, e
sua frequência se ajusta a ela. Por isso se diz, e é fato, que recitar mantras
traz inexplicavelmente paz interior. Os hare krishnas não são loucos quan-
do repetidamente entoam seus mantras. Assim o é também para palavras

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como Amém, por exemplo. Quando você a diz, invoca a energia cristã. Há
palavras, ainda, que abrem portais, e, portanto, devem ser ditas de maneira
cautelosa, há palavras concretizadoras tão poderosas que somente deveriam
ser usadas para o bem. As palavras nos conectam a energias específicas. E
há palavras para todos os tipos de energia.
Então Pérola entendeu o poder da palavra Shatassá. Dizê-la significava
adentrar na energia das Bruxas. E, portanto, não deveria ser falada aleatória-
mente e sem razão de ser, tampouco pessoas pouco conscientes poderiam
ter acesso a ela e seu significado.
Rosana acrescentou:
– E digo a todas vocês que tudo começa na nossa mente. O reflexo
do meio em que vocês vivem nada mais é do que a consequência do que
vocês pensam. Portanto, é hora de meditar, de conversar com seus amigos
e de se transformar.
Um momento de silêncio se fez, para que as aprendizes refletissem
sobre como se conectar a seus mentores espirituais. Em seguida, Rosana
falou olhando seriamente para todas:
− Olha, estamos aqui reunidas, e nosso motivo é nobre, pois queremos
nos tornar seres humanos melhores e sabemos que, para isso, temos muito
trabalho pela frente. Evoluir é um caminho muito pessoal, que depende da
própria pessoa. E esse caminho é sempre solitário, único e não tem volta.
Todas concordaram. Pérola, sentada, já havia anotado várias folhas sobre
o que aprendeu, e preparava-se para pegar mais em sua pasta. Aguardava o
momento de chegar em casa e escrever no livro tudo o que lhe ensinaram no
Coven, escrever era o que a motivava todos os dias, e desde que começara o
Livro das Bruxas, uma sensação de paz interior se apossara dela.

124
Lindy prosseguiu:
− Vou repassar agora um ritual simples, mas bastante importante e efi-
caz, por meio do qual vocês poderão entrar em conexão com seus mentores
espirituais e pedir-lhes que as auxiliem a resolver determinado problema, que

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para vocês seja de difícil resolução. Sei que vocês terão bom senso, e sabem
que estamos aqui para aprender a caminhar, mas algumas vezes precisamos
de uma mão para nos guiar. Por isso, a mão de nosso mentor estará sempre
estendida para nos ajudar, basta pedir. Porém saibam que ele não nos coloca
no colo, pois, assim, não aprenderemos a seguir em frente. Portanto, utilizem
este ritual para situações sérias, que requerem verdadeiramente uma ajuda
especial, para as quais vocês tenham dificuldade de resolver sozinhas.
Algumas bruxas pegaram seus cadernos de anotações para registrar o
ritual. Lindy começou a explicar:
− Crie um ambiente calmo, escolha um momento em que você sabe
que não será interrompida. Se preferir, coloque uma música de relaxamento
e use um incenso de sua preferência. Acenda uma vela branca em um pires
e faça a Oração do Pai-Nosso. Peça pela presença de seu mentor espiritual e
seu anjo da guarda, que eles estejam nesse momento presentes e conectados
a você, então, diga-lhes: “Eu abdico de meu livre-arbítrio para que vocês
possam atuar em minha vida e realizar as transformações que são necessá-
rias, que vocês possam intervir na solução de meu problema (falem qual é
o problema e digam por que precisam de ajuda) e tenho a certeza de que
ele será solucionado pelo Plano Maior, pois a partir deste momento tenho
a certeza de que vocês estão atuando junto de mim. Obrigada! Obrigada!
Obrigada! Shatassá!”. Deixe que a vela queime até o fim, coloque-a em
um local acima de sua cabeça e espere pelos sinais. Eles enviarão a você a
solução ou resolverão o problema.
Lindy acabou, e uma voz foi ouvida, era a de uma das participantes:
− Simples assim?

125
− É.
A maioria das aprendizes estava surpresa.
− Não preciso de perna de rã, rabo de gato, pó de morcego?
− Não – Lindy sorria.
− Aqui, neste Coven, trabalhamos muito com alta magia – explicou Ísis.

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A reunião prosseguiu com algumas discussões sobre rituais e a ne-
cessidade de haver complexidade neles ou não. Uma voz explicativa fora
ouvida:
− Entendam que ritual é apenas um conjunto de gestos, de palavras e
de formalidades com um valor simbólico. Os artefatos usados nos rituais
são, na verdade, uma espécie de apoio para que a pessoa se sinta mais bem
conectada. O athame, por exemplo, ajuda a pessoa a visualizar o corte
sendo feito e, assim, ter a sensação do rompimento concretizado quando
ela vai, digamos, fazer um ritual de libertação, cortando as amarraduras
energéticas que a prendem a algo ruim que a acorrenta energeticamente em
sua vida. Os cristais, quando estão inclusos no ritual, são mais do que um
apoio, uma necessidade, porque utiliza-se o poder da energia transformadora
deles presente no momento, e sem eles sua concretização se tornaria mais
difícil. Alguns rituais requerem complexidade, outros não. Mas lembremos
sempre que o que move a concretização do ritual é muito mais a intenção
colocada nele do que o rito em si, e os artefatos que você usará são apenas
complementos – explicou, por fim, Rosana.
Uma jovem mulher com tranças longas levantou-se abruptamente, todas
a olharam, ela parecia estar muitar irritada, por fim falou:
– Vocês não passam de um grupo de loucas. Eu vim aqui conferir de
perto as grandes besteiras que vocês dizem, eu não acredito em bruxas! Não
acredito em bruxas e não acredito em bruxas!!! Entenderam? E se vocês têm
tanto poder e conhecimento assim me destruam agora!!!
O círculo estava surpreso com a reação da jovem mulher e mantinha-se
em silêncio. Então Lindy levantou-se:

126
– Ninguém aqui tem o menor interesse em destruir qualquer ser vivo,
partimos do princípio de que tudo o que é vivo ou inanimado é sagrado.
Acredito que você não compartilha das mesmas crenças que nós, no entanto,
vamos respeitá-la independentemente de nossas diferenças. Agora, peço que
retorne para sua casa e reflita sobre o que está nos dizendo. Não queremos

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provar poder a ninguém tampouco necessitamos disso. Vou lhe acompanhar
até a saída, e desejo que a Deusa te proteja!
A mulher parecia mais irritada ainda, vociferou:
– Não precisa! Eu sei muito bem sair daqui! E não quero que Deusa
alguma me acompanhe, já estou muito bem acompanhada.
Ela se virou e abriu abruptamente a porta. Em passos largos encontrou
a saída e foi embora.
Lindy disse a todas:
– Sim, ela está certa, está acompanhada já, só esqueceu o detalhe de
revelar quem a acompanha. Mas vamos relevar a sua atitude e tomar por
lição de vida o que jamais devemos fazer.
Que a Reunião continue. Lindy voltou ao seu lugar e retomou a reunião
como se nada houvesse acontecido.
Pérola, a partir do que acontecera, entendeu que Lindy estava em cons-
tante comunicação com seu mentor e anjo da guarda. A reunião transcorreu
normalmente até terminar.
Ao final do encontro, Pérola se reuniu com Karem e suas amigas. Elas
acertaram o que cada uma deveria levar para o Ritual do Portal 8. Elas con-
versaram sobre os detalhes de como ele seria. Andréa falou sobre o que
era importante ter no rito e seus motivos. O local ainda seria escolhido por
todas juntas, e Clara falou sobre o fato de não ingerirem carne vermelha
por uma semana antes da grande noite do ritual, e que era importante levar
frutas, água e pães, pois atravessariam juntas a noite e gostariam de celebrar
ao final. Priscila falou sobre levar seu tarô, e cada uma disponibilizou-se
para contribuir com o que fosse necessário.

127
Despediram-se e foram para casa. Antes de sair da loja, Pérola avistou
exposto na prateleira um caldeirão negro de tamanho médio, olhou para
ele e sentiu vontade de levá-lo consigo, sem pensar muito o pegou com as
duas mãos e ficou a olhá-lo. “Vamos para casa!”

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Enquanto Lindy o embrulhava, Pérola lhe falou:
− Eu agora vou usá-lo, só não sei ainda exatamente como.
− Não se preocupe, Pérola, você saberá o que fazer, acredite, não é
a primeira vez que você o utiliza, deixe-se guiar pela sua intuição e tudo
dará certo.

Eu estava irrequieta quando Fhelipe chegou. No fundo, eu espera-


va muito por sua presença na praia. Às vezes fico preocupada com meu
livro e com o fato de encontrar a editora certa para ele. Rondam minha
mente pensamentos tristes em relação a ele e seu futuro incerto, afinal,
eu o escrevo sem ter certeza de publicação. Também me chatea lembrar
de projetos da minha vida que não deram certo, bem como de pessoas
que de certa forma magoei, mesmo sem intenção. Não gosto quando
me lembro disso. Esse foi um dia assim, e, então, pensei em quanto seria
bom ouvir as palavras de Fhelipe.
Sinto uma necessidade extrema de terminar este livro e, por isso,
estou muito ansiosa. Alguns pensamentos de medo e fracasso passam
pela minha cabeça. Há dias que é complicado, porque preciso escrever,
mas também tenho meus problemas pessoais, como as questões práticas
do dia a dia, contas que precisam ser pagas, enfim, coisas que precisam
ser feitas de imediato. O receio de não encontrar uma editora para este
assunto me deixa um pouco tensa em certos momentos, bem como o

128
receio de que eu não consiga atingir meus objetivos. Às vezes me per-
gunto se Joana D’Arc sentia medo.
Estava esperando por Fhelipe havia alguns minutos, era quase dez
horas da manhã, e eu fora à praia com a única intenção de encontrá-lo.

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Suas palavras me faziam tão bem, que fico impressionada. Sinto-me leve
e percebo a vida menos pesada com ele por perto. Fhelipe parece aque-
le irmão mais velho com respostas para tudo, aquele alguém com bom
senso, bom humor e com um dom para dar conselhos.
Quando olhei para o lado, vi Fhelipe se aproximando, sorridente.
Ele se sentou junto a mim, olhou-me fixo e, como se tivesse um raio x no
olhar, me disse:
− Parece que hoje você não está com bons pensamentos.
− Pois é, Fhelipe, estou receosa, com medo de que o livro que estou
escrevendo não tenha uma editora certa ou, então, não tenha uma boa
repercussão. No fundo, temo o futuro.
− Vanessa, você não precisa se forçar e ir além do seu limite. Mante-
nha-se firme no seu trabalho e depois deixe que o Universo se encarregue
do resto. Quando estamos fazendo a coisa certa, que é aquilo com que
nos comprometemos a fazer nesta vida, então, tudo flui. Olha, eu acredito
que escrever livros seja o seu caminho, logo, não será algo tão torturante,
talvez você tenha que romper obstáculos no início, mas terá condições
para isso. Quando o que fazemos é nossa missão, ela pode não ser fácil,
mas no seu íntimo existe uma boa dose de prazer em realizá-la, e a missão
é algo que tende por si só se encaminhar. É como uma necessidade que,
quando realizada, abastece a sua felicidade. Elimine esses pensamentos
que você está tendo hoje porque eles podem interferir no resultado de
seu trabalho.
− De que forma, Fhelipe?
− Tudo aquilo que acontece em seu mundo, acontece primeiro em

129
sua mente. Seu mundo externo nada mais é do que o reflexo do que se
passa em seu mundo interno, ou seja, em sua mente. Se sua mente estiver
boa, coisas boas acontecerão à sua volta. E o mesmo vale para o contrário.
− Essa é a questão, Fhelipe, como manter a mente boa, uma vez que
o universo à minha volta parece não estar bom?

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− É isso o que acontece à maioria das pessoas, elas esperam ficar
boas por dentro depois que o mundo externo delas estiver em ordem.
E isso é um engano. Você quer que seu mundo externo mude?
− Quero e preciso! − disse, enfatizando cada palavra.
− Então, comece primeiro a mudar internamente.
− De que forma isso acontece?
− A mudança deve acontecer primeiro na sua mente, assim ela afe-
tará o seu coração, que afetará o seu corpo, que afetará o seu campo
de energia, que afetará as pessoas à sua volta, que, então, modificarão
o seu próprio mundo e, consequentemente, o resto do Universo. Sabe
quando a gente joga uma pedrinha bem no meio do lago? Acontece
assim conosco, as ondas são propagadas de dentro para fora e atingem
o grande todo.
− E como modificar a mente?
− Antes preciso lhe explicar algo, Vanessa. Nós criamos vícios.
Viciamo-nos em atitudes, pessoas, coisas, datas, rotinas e pensamentos.
Você precisa mudar a forma como pensa e o que pensa. O normal das
pessoas é justamente se apegar no decorrer da vida a coisas que as viciam
e, com isso, formam ciclos. Ao repetirem sempre esses ciclos, viciam-se em
um padrão repetitivo de atitudes, pessoas, pensamentos, datas, rotinas
e coisas. Quando não conseguimos mudar, é porque estamos viciados.
Portanto, cuide para não se viciar em determinados pensamentos, como
o medo e o fracasso.
− Defina vício para mim, Fhelipe. – Não deixava de ser uma pergunta
desafiadora.
− Vício é aquilo que você não consegue parar de fazer. E para largar

130
um vício só há uma saída: quebrar o ciclo repetitivo.
− Mas por que insistimos em repetir esses ciclos?
− Por medo! – disse ele enfático.
− Medo?

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− Medo de perder as coisas as quais estamos acostumados, quimi-
camente ligados devido à sucessão repetitiva dos ciclos. Esse é o drama
da sociedade, a repetição de um vício em um mesmo ciclo. Há pessoas,
por exemplo, que se viciam no passado. Elas vivenciam tanto o que já
passou na própria mente que se tornam codependentes do pensamento.
Há pessoas que se viciam em um padrão de comportamento e, por isso,
não mudam nem quando é necessário. E há pessoas que se viciam em
um mesmo pensamento e, consequentemente, o atrai para si.
Eu apenas fazia afirmações com a cabeça enquanto Fhelipe explicava:
− A vida está acontecendo aqui no presente. Portanto, nunca tenha
medo de abandonar o passado. E muito menos de abandonar pensamen-
tos antigos para começar a pensar em algo novo e diferente. Sabe o que
acontece de mais incrível quando abandonamos um vício? Descobrimos
que poderíamos ter vivido sem ele desde o início. E sabe o que acontece
quando ciclos repetitivos são deixados para trás?
– Hã... O quê?
− Novos ciclos se formam!
Eu começava a ficar um pouco mais animada.
− Não se preocupe nem perca seu tempo pensando ou se martiri-
zando por causa de escolhas que você fez no passado ou pensando em
resultados negativos em relação ao futuro do seu livro, porque isso não
leva a absolutamente nada. E outra coisa, não importa o que você fez.
Importa sempre o que você fará daqui para a frente. As suas escolhas
passadas, foram aquelas que no momento lhe pareciam as mais certas.
Então, está tudo bem. É importante aprender a se perdoar! Você fez o

131
que achou que devia fazer e o que lhe parecia o melhor caminho naquele
momento. Se fracassou uma vez, não significa que fracassará sempre. As
pessoas que mais cresceram nesta vida foram as que mais tentativas fize-
ram e, portanto, tiveram alguns fracassos, até que alcançaram seu objetivo.

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Eu me lembrei das escolhas do passado, das pequenas e das gran-
des. Fhelipe continuou:
− Rejeitar e ser rejeitado faz parte da vida. Amar, ser amado e deixar
de amar também. Fazer escolhas, acertar, errar, perder e vencer é para todo
mundo.
Eu sabia disso, mas era importante ouvir de Fhelipe.
− E veja só, pode até ser que você já tivesse escolhido outra opção,
em vez da que escolheu, e estar também arrependida de tê-la feito. Quem
garante que não? Aliás, quem garante alguma coisa por aqui?
− Verdade, Fhelipe, tudo pode acontecer desde que esteja viva.
Fhelipe continou.
− Nós não temos garantias nem controle sobre as coisas e as situa-
ções. É uma ilusão acharmos que podemos controlar o futuro, as pessoas,
os relacionamentos, as empresas, a nossa família. Você tem controle sobre
alguém ou alguma dessas coisas? De verdade?
Eu pensei um pouco antes de responder.
− Não.
− Exato, Vanessa.
− Sabe o que é, Fhelipe? O mundo cobra a prosperidade financeira.
Há vezes em que as pessoas me cobram uma profissão mais rentosa, algo
mais palpável, como ser uma vendedora, uma corretora, uma enfermeira,
algo que tenha um futuro mais garantido e sólido do que tentar ser uma
escritora e me manter através disso, que é o que mais amo fazer.
− Por que você ouve essas pessoas? Acredite, nada paga a satisfa-
ção de fazer o que realmente viemos fazer. Se você está na sua missão, o

132
Universo estará do seu lado, então, simplesmente prossiga. Até porque,
já disse, nem mesmo as pessoas que escolheram profissões “estáveis”
têm controle sobre o que lhes acontecerá nesta vida. Elas podem perder
o emprego a qualquer momento, não é mesmo?
Eu estava mais uma vez em silêncio, ele falou:

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− Só podemos ter controle sobre uma coisa nesta vida, Vanessa:
sobre nós mesmos!
− Fhelipe, na maioria das vezes isso acontece comigo e não consigo
me controlar.
− Sabe quem são as pessoas verdadeiramente poderosas? As que
têm controle sobre si. As que têm controle sobre suas emoções. Existem
vários tipos de poder, é claro: dinheiro, sexo, influência, conhecimento
e outros, mas o mais poderoso deles é o controle sobre as próprias
emoções e todos os outros podem chegar para você, caso não os tenha
ainda, depois que você conquistar esse controle. E quem não controla
seu estado emocional está viciado nele e, portanto, descontrolado e sem
poder sobre o presente.
− Fhelipe, sempre ouvi dizer que ter dinheiro era ter poder – ajeitei
meus cabelos, que voavam ao vento e espalhavam-se pelo meu rosto.
− Vou lhe explicar algo, Vanessa. Existem muitas formas de poder,
e o dinheiro, inclusive, é uma delas. Mas, de todos os poderes que exis-
tem, ele é o menos valioso. A pessoa verdadeiramente poderosa detém
o poder sobre si mesmo e, com certeza, essa é uma das tarefas mais
árduas que se tem na vida, saber se controlar. Saber se controlar é, antes
de tudo, uma preciosa fórmula para se chegar à sabedoria, que é a maior
de todas as riquezas que qualquer ser, humano ou não humano, desta
ou de outra dimensão, aqui ou em qualquer parte do Universo, pode ser
detentor. E ser sábio não é quem apenas tem conhecimento. Ora, saber
é muito fácil. Qualquer um que encontre bons professores ou leia bons
livros poderá ter acesso ao conhecimento. Sábio é quem tem sabedoria.

133
E ter sabedoria é colocar o conhecimento adquirido em prática, aí é que
está a grande questão.
− E quando ter dinheiro é um problema? – perguntei.
− O problema, Vanessa, não é e nunca foi o dinheiro, o sucesso, a
fama, a riqueza ou o poder. O problema é como você lida com isso e

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como isso transforma você. Não é o que você faz com o dinheiro, mas o
que você permite que o dinheiro faça com você.
Eu o olhava enquanto segurava o cabelo contra o vento. Fhelipe
parou por um momento, repousou os olhos sobre as ondas que iam e
vinham na beira da praia e, então, continuou:
− E aprenda algo, não existe sabedoria sem amor, Vanessa. Então,
para ser verdadeiramente poderosa, antes de encher o bolso com dinhei-
ro, encha o coração de amor, encha a vida de autocontrole emocional e,
então, você se encherá da mais plena e dignificante sabedoria. E através
dela, você terá tudo, e o mais incrível é que você descobrirá que realmente
não precisa de tudo.
Então, ele silenciou. Tudo o que Fhelipe me disse é tão importante
e relevante que eu lamentei não ter um bloco de anotações por perto.
Perguntei-lhe:
− O que devo fazer para controlar melhor minhas emoções?
− Conheça-se primeiro e tudo se fará luz! No dia que as pessoas
se encontrarem dentro delas e saberem quem elas são, irão parar de
buscar freneticamente, no mundo lá fora, o que tanto buscam sem saber
exatamente o que procuram. É impressionante: todas as respostas que
buscamos estão dentro de nós mesmos. Tudo o que buscamos; amor,
paz, felicidade, tudo está dentro de nós. Mas nem sempre sabemos
disso.
− Eu quero encontrar tudo isso dentro de mim, Fhelipe!
− E você encontrará. Corte os vícios e você encontrará. É como eu
falei, nos viciamos em nossas emoções e nos tornamos codependentes
delas. Existem pessoas que se viciam em tristeza. Para estas, eu digo:

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viciem-se em se curar. Viciem-se em se conhecer. Viciem-se em se livrar
dos ciclos e dos vícios. Porque aí, sim, terão a chance de ser felizes. Aliás,
muito felizes! E você sabe por que as crianças são felizes?
− Não tenho ideia, seria porque elas não têm contas a pagar?

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Ele riu.
− É porque as crianças não se apegam, elas nunca se importam com
o passado, elas vivem apenas o presente. A criança não chora hoje se
na semana passada ela ficou sem leite, se ela ficou de castigo ou se não
ganhou o presente. Ela nem lembra disso... Ela só chora se hoje ela estiver
de castigo. E quanto ao futuro? Ela não sabe do futuro, ela desconhece
essa palavra. Eles não se importam com o dia de amanhã. Na verdade,
é você e o mundo que condicionam a existência à preocupação com o
dia de amanhã.
− Eu quero viver como uma criança, Fhelipe! – disse animadamente.
− É tão simples, Vanessa. Atire-se ao desconhecido, ao novo, deixe
que o inesperado aconteça. Não tenha receio de perdas, de quebrar
os ciclos repetitivos e abandone as dores do passado, urgentemente. E
abandone quaisquer pensamentos sobre fracasso. Não tenha medo e
confie no Universo. Apenas saiba e crie a certeza dentro de você de que
as coisas que você precisar estarão lá no dia de amanhã. Acredite no seu
livro. Eu acredito nele.
Eu estava me recuperando, ficando novamente esperançosa. Fhelipe
ainda me falou:
− Lembre-se, o caminho da luz passa antes pelas trevas.
Pensei comigo mesma: “Fhelipe está certo”. O trilhar nem sempre é
fácil, e por vezes parece que caminhamos no escuro, mas isso não impede
que consigamos chegar ao nosso destino. Fhelipe continuou:
− E, Vanessa, apesar de existir momentos difíceis na vida, eu os vejo
como algo que pode nos levar para um patamar muito melhor, porque se

135
não há desafios, nos acomodamos na evolução. E, quando sentimos que
algo não está bem, é porque estamos despertando para algo. A maioria
das pessoas neste planeta está dormindo ou ligado no automático, pois
não percebe sua própria vida. Tome esses momentos de reflexão como
sinal de que você se percebe no mundo, mas não deixe que eles se pro-

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liferem, para não se viciar neles. E tenha uma coisa bem clara para você,
Vanessa, uma pessoa que tem momentos difíceis na vida e aprende com
eles torna-se um sábio.
− Eu vou me lembrar das suas palavras, Fhelipe.
− Que bom, eu sempre me lembro de você e quero saber como você
está. Me tenha como um grande amigo, ok?
− Claro, eu só gostaria de saber como posso ajudá-lo também, você
tem me ensinado coisas preciosas, e eu não sei o que dizer a você a não
ser agradecê-lo muito.
− Não se preocupe com isso, é um prazer estar com você.
Ficamos os dois ali, por mais alguns momentos, até que Fhelipe pediu
licença para sair, já estava na sua hora. Depois que ele se foi, lembrei-me
de lhe perguntar com o que ele trabalhava. Devia ser psicólogo.

136
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CAPÍTULO XI

O Exército
França, 1429

P ierre encontrara um pedaço de lenha, que poderia servir de tocha


para iluminar melhor o caminho por entre a mata. Ele acabara de
atear fogo em uma extremidade com a ajuda da lamparina e do resto de vela
que Angelique tinha na mão. Por cerca de quarenta minutos Angelique o
havia seguido entre as árvores; a luz fraca das velas servira apenas amenizava
fracamente o medo da escuridão que ela sentia. Pierre lhe falou:
− Vamos andar mais rápido, precisamos chegar logo às margens do rio, a
tocha não ficará acesa por muito tempo. Depois, apenas seguiremos o curso
das águas. No trajeto, as copas das árvores estão mais afastadas e, então, nos
orientaremos pela Lua. Ao amanhecer avistaremos a encosta e mais adiante
o acampamento. Tive notícias estes dias de que o exército de Joana estaria
acampado lá, há espaço para centenas de homens, que usam a floresta para
caça, e o rio para pesca e água. Na parte mais ao sul, há uma vasta planície

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que facilita a chegada de mais homens para se juntar ao exército, além de
suprimentos vindos do rei Carlos VII.
Pierre procurava identificar as estrelas por entre algumas frestas das
copas das árvores, ele tinha certa dificuldade em vê-las por causa da mata
fechada. Estava perdido e sabia disso. Angelique caminhava atrás de Pierre

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e estava preocupada com o silêncio dele. Caminhavam por longo tempo e
por vezes ele parava como se não soubesse mais ao certo que caminho se-
guir. Uma claridade prata começou a ser percebida mais adiante, pela fresta
de algumas poucas árvores. Apreensivo como estava, Pierre sentiu alívio
ao perceber que poderia se orientar melhor, porque a noite agora estaria
mais clara. Assim que caminharam mais alguns metros viram uma Lua
enorme despontar no céu, e o luar iluminando tudo à volta deles. Abriram
enormes sorrisos, a mata agora não estava tão fechada na altura em que se
encontravam. Pierre uivou como um lobo nas matas quando encontra a
caça, e Angelique, que por quase todo o percurso se manteve em silêncio,
agora sorria alegremente.
Continuaram caminhando, apertaram o passo, e entusiasmaram-se
com o surgimento da Lua cheia prateada no céu e suas nuances azuladas
ao redor. Então, ouviram um barulho de águas batendo nas pedras, o que
indicava que o rio estava mais perto do que imaginavam. Correram pela
mata, perpassaram galhos de árvores e raízes à sua frente, e chegaram a um
ponto dificultoso de atravessar. Pierre separou o emaranhado de galhos e
folhagens de grandes plantas que encobriam a passagem à frente, abrindo
assim o caminho, e, então, tudo o que viram foi o rio, as estrelas, a Lua gigante
na noite e o caminho da esperança.
Quando alcançaram as águas, Angelique se debruçou para beber alguns
goles. Beber água havia se tornado prazeroso, e a água parecia ter outro sa-
bor quando bebida diretamente do rio. Era fresca e limpa. Pierre observava
Angelique e toda sua sede, então, pôs-se a beber também.
Quando terminaram, ficaram ambos abaixados junto à margem do

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rio, descansando. Angelique observava uma coruja a lhe observar, grande
olhos brilhantes mantinham-se abertos para ela no meio da noite, foi quan-
do perceberam um certo tremor no solo. Havia também um barulho que
se aproximava, semelhante ao trotar de cavalos, e o que começara apenas
como um vago ruído ao fundo, se tornava maior conforme os segundos

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passavam. Dava para sentir a vibração na água, na terra e no ar. Angelique,
que estava descansando ao lado de Pierre, olhou para ele sem entender o
que estava acontecendo. Pierre estava imóvel, olhando para ela. O barulho
aumentava e aproximava-se deles em maior velocidade, então, ele gritou,
enquanto puxava Angelique para perto de si:
− Rápido! Venha comigo!
Pegou-a pelo braço e a levou para a frente de um grande carvalho, que
estava às margens do rio, puseram-se ambos de costas para a árvore. Pierre a
abraçou pelas costas enquanto segurava a tocha ainda acesa, ambos estavam
olhando as águas, ela parecia trepidar, e foi nesse momento que surgiram
dezenas de cavaleiros, montados em seus cavalos, e depois, Pierre e Ange-
lique tiveram a impressão de ser centenas saltando por de trás das árvores,
por cima das imensas raízes, que surgiam da terra. Todos eles vindos do lado
em que estava o acampamento de Joana D’Arc e indo em direção a Paris,
seguindo agora o curso do rio.
Encobertos pela árvore, Angelique e Pierre não foram percebidos
por nenhum deles. Angelique viu homens carregando lanças, espadas e
escudos. Alguns usavam armaduras, cujo brilho do metal era facilmente
reconhecido ao encontrar a luz da Lua. Outros apenas usavam vestimentas
simples. Os cavalos surgiam em ritmo veloz e sumiam pela escuridão da
noite tão rápido quanto apareciam. Um dos cavalos chamara a atenção, ele
era branco e carregava um estandarte preso a sua cela, era guiado por um
corpo delicado, de silhueta feminina, que usava uma armadura prata, em
que se percebiam fartos cabelos claros voando ao vento enquanto o cavalo
seguia a firmes trotes.
Alguns minutos depois, os últimos cavalos passaram por entre as árvo-

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res e desapareceram. Pierre e Angelique estavam com o coração disparado
e a respiração ofegante. Eles, então, se olharam:
− É o exército de Joana a caminho de Paris para tentar impedir a invasão.
− Mas, Pierre, como eles conseguem galopar tão rápido por entre a
mata?

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− Devem ter aberto um caminho não conhecido pelos ingleses.
Os dois permaneceram ali por mais um tempo, até se acalmarem. De-
pois decidiram seguir o curso do rio, pelas margens opostas às que o exército
seguia. Outros deveriam ter ficado no acampamento tomando conta dos
soldados feridos e dos suprimentos.

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CAPÍTULO XII

O Caldeirão
Brasil, 2008

P érola chegou em casa e o colocou em cima da mesa. Ficou olhando


para ele. Negro como todos os outros caldeirões e feito de ferro, por
isso era pesado.
Avistou a secretária eletrônica, havia uma mensagem. Uma sensação
de desconforto se apossou dela sem que ela entendesse o motivo. Então,
apertou o botão e parou para escutar o recado: “Olá, Pérola, vejo que você
não está em casa, queria muito falar com você, se estiver me evitando, vou
entender, senão, por favor, da próxima vez atenda, um beijo e até outro dia”.
Era a voz de Pedro. Agora ela sabia que aquela sensação havia sido enviada
pelo seu sexto sentido.
Ela não gostava daquela sensação, então decidiu voltar sua atenção
para o caldeirão, não queria se perder mais em recordações. Ela fechou as
janelas e pegou algumas ervas que havia trazido do templo da lua. Acendeu

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nove velas lilases no centro do caldeirão e impôs suas mãos sobre a chama.
Sentiu não só o calor do fogo, mas também a energia dele. Foi até a cozinha
e pegou um copo com água, levou-o até a mesa, depois acendeu um incenso
de alecrim. Meditou por alguns instantes, concentrou-se e deixou que sua
intuição a guiasse. As velas queimavam, e ela começou a invocar:

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− Deusa Cerridwen, Mãe de toda as bruxas, vinde até esta casa e
proteja-me de todo e qualquer mal, que a força deste caldeirão seja a sua
força e que nele a minha magia junto a sua possa se realizar. Eu consagro,
Grande Mãe, este caldeirão como teu útero sagrado, onde acolhes suas
filhas e suas intenções, onde recebes meus pedidos e os devolve a mim
concretizados, que eu saiba usá-lo com sabedoria e que eu leve através de
seus ensinamentos, Mãe, minha evolução a patamares mais elevados, que
a magia de Sua Luz se faça presente hoje e sempre. Shatassá!
Ela repousou os olhos sobre as velas queimando, achou bonito o de-
senho que se formava em volta da chama, salpicou-a com as misturas de
ervas que tinha e deixou o alecrim, a guiné e a arruda queimarem junto as
velas. Sentiu o cheiro da fumaça produzida pelo fogo em contato com as
ervas e gostou do aroma que invadia a sua casa. Entreteu-se com o caldei-
rão, era como um amigo com quem ela passaria horas, sem muito a dizer
mas ouvindo tudo.
Colocou um cd de músicas celtas e ficou se deleitando com o queimar
das ervas, conversando com o caldeirão. Pérola lhe falava sobre o muito que
juntos ainda fariam.
O telefone tocou. Ela se levantou, baixou o som e viu pelo identificador
de chamadas que era seu irmão. Atendeu a ligação. Ele parecia um pouco
nervoso pelo tom de voz e estava comunicando que a mãe deles tinha ido
ao pronto-socorro sozinha por ter se sentido mal, com uma dor no peito.
Pérola ficou preocupada.
− E agora? Ela está tão longe, não tenho como ir até sua cidade, são
horas de viagem.

142
− Estou indo até o pronto-socorro agora. Assim que tiver notícia, ligo
para você. – Disse seu irmão.
Eles se despediram e desligaram o telefone, então, Pérola virou-se para
o caldeirão.
− Hora de trabalhar, amigo!

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Foi até a frente dele e começou a pedir que a Deusa fosse até sua Mãe e
providenciasse o que seria necessário para que sua saúde se restabelecesse.
Pérola começou a colocar um grande punhado de alecrim no interior do
caldeirão e imaginou sua mãe banhada pela erva e pela cura. Ela dizia:
− Onde quer que esteja, por quem estiver sendo atendida e o que for
que ela tenha, que a cura e a melhora se apresentem à minha mãe terrena,
e que tudo aquilo de que ela necessita para sua saúde, que neste momento
seja disponibilizado a ela, que a chama dessas velas queimem qualquer
malefício que, de alguma forma, a esteja acometendo. Deusa Cerridwen,
que minha Mãe seja sua filha que você a acolha, enviando o socorro. Rece-
ba esse pedido e devolva-o concretizado. Confio que tudo isso se encontra
desde agora concretizado! Shatassá!
Assim permaneceu por mais um tempo, conversando com o caldeirão
e orando. As velas mudavam suas nuances e queimavam rapidamente. Em
poucos minutos, as nove velas formavam um líquido espesso derretido ao
fundo do caldeirão e misturavam as ervas enquanto o restante dos pavis
ainda queimava.
Passou-se pouco mais de uma hora quando Pérola ouviu em sua mente:
“Ela está chegando em casa agora e está tudo bem com ela”. Achou estranho
ouvir um pensamento em sua mente, mas era dessa forma que descrevia
melhor o que havia acabado de acontecer. Ouvir através do pensamento
era diferente de pensar, mas não saberia explicar de outra modo para si ou
para outra pessoa o que se sucedera.
Então, o telefone começou a tocar, ela atendeu e era novamente seu
irmão.

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− Pérola, acabamos de chegar, está tudo bem com a mãe, eles não
sabem dizer o que aconteceu com ela, porque, quando foram atendê-la, ela
simplesmente estava bem, até os batimentos cardíacos haviam normalizado.
Estamos aqui brincando que ela fez isso só para chamar nossa atenção e
deixar todo mundo preocupado.

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Pérola sorriu e, com o telefone ainda a seu ouvido, olhou para o cal-
deirão e susurrou:
− Obrigada! Obrigada! Obrigada!
Ela ainda falou um pouco com sua mãe e depois desligou o telefone.
Foi até o caldeirão e viu que havia ainda muitas coisas para queimar além
das velas derretidas. As ervas ainda estavam ali, e Pérola deixou o caldeirão
aceso enquanto tomava banho para depois ir dormir. Por um relance, pensou
ser melhor não fazer isso e apagar as chamas das velas. Por fim, resolveu
deixar o caldeirão da forma como estava.
Vistoriou as janelas da casa, trancou a porta e tomou um banho. Estava
se sentindo bastante cansada, quando passou pela sala e deu uma última
olhada nele, cogitou a possibilidade novamente de apagar as velas e de
deixá-las queimando novamente no outro dia, mas logo pensou que não
haveria motivos, o caldeirão era de ferro e, portanto, não derreteria com o
calor. Apagou a luz do ambiente e foi para seu quarto, deixou a porta aberta
e deitou-se. Quando fechou os olhos para começar a orar antes de dormir,
uma semiclaridade invadiu seu quarto, ela abriu os olhos. A luz da sala
havia acendido sozinha.
Isso nunca havia acontecido. Pérola estranhou:
– Há alguém na casa aí?
Só o silêncio havia, e leve tilintar de ervas queimando. Levantou-se,
cuidadosamente, foi até a sala e concluiu que com a casa totalmente tran-
cada não tinha como alguém entrar, então, conferiu novamente as janelas,
apagou a luz da sala, e imaginou que se tratava de um problema de fiação
antiga, era a única explicação plausível, então foi para a cama. Agradeceu

144
em pensamento o seu dia e pediu proteção a quem estivesse a zelar por ela:
“Seja qual for seu nome, zele por mim e esteja comigo sempre, livre-me de
todo mal e do perigo, conduza-me sempre à luz e que eu tenha discernimento
para saber a diferença entre o bem e o mal”.
Tão logo fechou seus olhos, Pérola adormeceu profundamente.

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Eram cerca de três horas da madrugada quando Pérola foi arrancada
de seu sono por uma força descomunal que a erguia para fora da cama,
puxando-a pelo braço, havia sido colocada em pé, ao lado da cama por
aquela força. Ela acordou e começou a tossir, estava apavorada e bastante
confusa, viu que nada visível a segurava pelo braço, embora sentisse uma
forte pressão nele, começou a implorar, olhando para o nada:
− Deixe-me em paz, largue meu braço! O que você quer?
Em pé, diante de sua cama, ela começou a chorar, sentia-se asfixiada e
foi então que percebeu a dificuldade em respirar e uma forte fumaça vindo
da sala. A casa estava muito quente. Pérola tremia de medo, então soltaram
seu braço, mas ela não conseguia respirar. Cobriu a boca e o nariz com uma
das mãos e procurou pela porta de saída. Ao passar pelo caldeirão, viu uma
enorme labareda de fogo sair dele, tinha a altura de um metro, eram as ervas
misturadas à massa derretida das velas que tinham iniciado aquele fogo.
Abriu a porta da sacada desesperadamente, procurou encher seus
pulmões com o ar fresco da noite, respirou um pouco mais, se recompôs,
e, então, entrou novamente em casa. Tossindo abriu a janela da sala e em
seguida pegou um cobertor espesso no seu quarto, molhou-o na pia do
banheiro e, por fim, atirou-o em cima do caldeirão, abafando seu interior e
fazendo com que o fogo se apagasse.
Foi novamente para a sacada, precisava respirar. Permaneceu lá es-
perando que pelo menos boa parte daquela fumaça se esvaísse do local.
Sentou-se no chão e imaginou que se continuasse dormindo um pouco mais
poderia não estar viva agora. Com todo aquele fogo queimando e fazendo
toda aquela fumaça, o pouco oxigênio restante na casa seria consumido em

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breve e ela morreria asfixiada.
Então, disse:
− Obrigada! Quem quer que seja, muito obrigada! Da próxima vez vou
dar mais atenção aos sinais.

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CAPÍTULO XIII

Morada do
Vale de Cristal
França, 1429

E les estavam caminhando havia horas e não chegavam a lugar algum.


A Lua, amenizando a escuridão noturna, permitia-lhes seguir o
percurso do rio, mas o caminho dessa vez parecia ser diferente para Pierre.
Ele voltara a ficar absorto em seus pensamentos. Em alguns momentos, pa-
rava, olhava ao redor, virava-se de costas e analisava o caminho percorrido.
Angelique havia percebido a insegurança de seu amigo.
− Estamos totalmente perdidos. Pode me falar a verdade, Pierre.
Ele queria evitar dizer a verdade para que ela não ficasse muito nervosa.
Seria difícil manter a situação se Angelique entrasse em pânico, ela poderia
ameaçar retornar a Paris e perder-se de vez na floresta.
− Não sei, Angelique, não sei o que há, nunca demorou tanto para

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chegar à encosta do vale, e esse caminho está diferente também, não me
lembro de ter no percurso essa trilha de pedras junto à margem. Mas não
se preocupe, não tem como errar, basta seguir as margens do rio, sempre
foi assim.

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− Mas e se o rio mudou?
− Impossível, Angelique. A paisagem aqui parece intacta ainda, e rios não
mudam da noite para o dia. Ninguém nunca comentou nada a respeito disso
na cidade.
Pierre percebia uma beleza nunca vista por ele naquele caminho, e a
paisagem não estava mais tão acidentada quanto antes. Eles não tinham tanta
dificuldade em caminhar por entre as pedras ao lado do rio, que estavam, de
certa forma, organizadas, indicando um caminho a seguir. Mas quem teria
feito aquele trabalho todo?
Da floresta, ouvia-se o piar das corujas. No silêncio da caminhada, An-
gelique havia visto quase a noite toda a mesma coruja nos galhos de algumas
das árvores, era como se ela os estivesse seguindo desde sempre. Quando
paravam para descansar, ela a via novamente, com seus olhos grandes e
redondos. Se não era a mesm, então havia inúmeras corujas iguais àquela
por onde eles passavam.
Outro receio de Angelique era a possibilidade de algum animal atacá-
los. Poderia surgir do meio do mato um felino ou então uma matilha de
lobos. Pierre havia lhe acalmado dizendo que os animais tinham medo do
fogo que saía da tocha e por isso não se aproximariam deles, mas mesmo
assim ela continuava receosa.
Seguiram em frente, porque não havia outro caminho além daquele,
e retornar não era mais possível, pois não sabiam o que teria acontecido
em Paris e poderiam ser feito prisioneiros caso retornassem e a Inglaterra
tivesse vencido a batalha. Eles acreditavam que Deus estava com Joana, só

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não sabiam até quando. Continuaram caminhando por algum tempo. Por
fim, a tocha se apagou, havia chegado ao fim.
No horizonte despontava a primeira luminosidade do nascer do Sol,
leves nuances avermelhadas no céu indicando que a noite se curvaria em
servidão ao dia. Eles agradeceram pelo dia estar nascendo e começaram a

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caminhar alegremente, quando ouviram o farfalhar de diversas folhas nas
árvores, pararam, buscando reconhecer a origem daquele som espalhado
pelo ar, e em sincronia viram uma imensa nuvem negra que começou a se
formar, saindo dos galhos mais altos. Aquilo que parecia pássaros negros
reuniam-se em bando, voando circularmente pelos céus. Eram os morcegos
retornando a suas cavernas. E eles agora vinham na direção deles.
Angelique e Pierre se abaixaram, procurando proteção. Todos os mor-
cegos voavam em uma única direção, rumo ao interior da floresta, formando
uma longa e extensa cauda negra. Eles passaram por entre Angelique e
Pierre, que se mantinham imóveis. A sensação era desesperadora.
Eles ficaram alguns instantes encolhidos ao chão, com as mãos pro-
tegendo a cabeça, enquanto aguardavam o silenciar do bater das asas e das
revoadas, que passavam muito perto de seus ouvidos.
Angelique pensava que estava novamente em um caminho sem volta,
como sempre, e que não sabia onde ele ia dar, totalmente à mercê da vida,
como havia sido desde a morte de seus pais pela Peste Negra, quando fora
separada dos outros irmãos, e encaminhados cada um para um lar diferente.
Angelique rezava em seus pensamentos. Os morcegos passaram.
Pierre levantou-se primeiro, percebeu Angelique imobilizada pelo medo,
aproximou-se dela e a abraçou, dizendo:
− Pode levantar, eles se foram. Está quase amanhecendo e foi só por
isso que se recolheram em bando, para voltar para o interior da floresta,
provavelmente para alguma caverna. Não tinham intenção de nos atacar.
Angelique levantou-se, em seu rosto pálido, notavam-se gotas de suor
na testa. Pierre as secou:
− Estou muito nervosa e cansada, caminhamos a noite toda, não posso

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mais continuar.
− Tudo bem, vamos parar por aqui e descansar.
Ambos se sentaram nas pedras, à beira do rio. Inclinaram-se para beber
novamente a água fresca. A estação da primavera ajudava, não fazia muito

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frio à noite. Se fosse inverno, sem agasalho, provavelmente congelariam
na floresta.
− Tenho fome e me sinto fraca – falou Angelique.
− Eu também. Vamos ver se conseguimos achar algo para comer, deve
haver alguma fruta nestas árvores, assim que o dia clarear completamente
poderemos colhê-las.
Estavam sentados nas pedras à beira do rio, com os rostos lavados e
apenas esperando o dia raiar no horizonte, quando Angelique notou uma
fumaça vinda de trás das árvores.
− Veja, o que pode ser aquilo?
Pierre olhou, analisou a fumaça cinza e sorriu:
– Angelique! É a fumaça vindo do acampamento de Joana. – O rosto de
Pierre se iluminara, e era como se o cansaço tivesse dado lugar à esperança.
− Vamos! Vamos! Encontramos o acampamento. Lá, estaremos seguros!
Levantaram-se, saltando de alegria, e puseram-se a correr em direção à
fumaça.
A direção de onde estava a fumaça já não era de tão fácil acesso como
a trilha que acompanhava o curso do rio, e parecia que a mata se fechava
impedindo quem quisesse adentrá-la. Não havia um caminho trilhado na
direção vertical ao rio, eles teriam que abrir um.
Eles rondaram a pequena região, e tudo parecia indicar que o acampa-
mento era um local inacessível. Se não fosse a presença da fumaça, jamais
o encontrariam. O acesso parecia intransponível e ambos se perguntavam
como o exército havia encontrado um local como aquele para se refugiar.
Por fim, Angelique encontrou um vão na mata que permitia uma pas-
sagem ao seu interior, era a profunda e vazada raiz de uma árvore gigante,

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encoberta por trepadeiras, que se erguiam em torno do tronco e vinham
desde a altura da copa. Afastando-as, conseguia-se um espaço para um corpo
adulto mediano transpor as folhagens sem muita dificuldade.

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Assim o fizeram, e era como se o espaço estivesse ficando cada vez
menor. Desta vez, Pierre passou primeiro, segurando logo em seguida as
folhagens para que Angelique atravessasse.
− Veja, é como se elas estivessem dessa forma de propósito, escondendo
a única forma de entrar na mata – falou Pierre.
− Só uma dúvida, por onde os cavalos passam?
Depois que transpuseram a raiz, Pierre largou as folhagens, que caíram
novamente sobre o espaço como se fosse uma cortina fechada. Caminharam
mais à frente e olharam ao redor, o dia estava amanhecendo e a paisagem
do outro lado era diferente da paisagem da floresta, havia um terreno pla-
no, cercado por árvores bem dispostas e por ricas flores em minijardins
organizados, que se espalhavam pelo chão. Flores coloridas inalavam seu
perfume pelo ar, uma grama pequena e rasteira cobria o solo, como se fosse
um imenso jardim de uma casa que tivesse sido cuidadosamente aparado.
Olharam admirados e ao mesmo tempo espantados. Caminharam alguns
metros mais à frente, e o que viram era quase inacreditável, havia uma casa
construída em meio à floresta.
− Este com certeza não é o acampamento de Joana – disse Angelique
espantada.
− Angelique, nós estamos na casa das bruxas. – Mas Pierre não conse-
guiu terminar de falar devido ao pavor que o acompanhava nesse momento.
Pierre não acreditava em Bruxas, mas a descrição que um dia ouvira sobre
a Morada Delas não lhe deixava dúvidas.
Os dois foram andando para trás sem se virar, sem querer dar as cos-
tas ao que haviam acabado de descobrir. Pierre tateava o espaço atrás de si

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com uma das mãos, como quem procura uma passagem de volta a outro
mundo, mas ele encontrava apenas o vazio, então, se virou vagarosamente,
fazendo sinal de silêncio com uma das mãos para Angelique, enquanto a
outra indicava para ela que o seguisse. Eles retrocederam alguns metros
e se depararam com a cortina de folhas que encobria o espaço por onde

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haviam entrado. Cuidadosamente, procuraram pela passagem, tateando
todo e qualquer espaço possível. Não encontravam nada que não fosse um
grande e impenetrável emaranhado vegetal, cuja disposição das folhas
e arbustos impedia-os de atravessar. Era como se a passagem pela árvore
houvesse desaparecido. Ambos tinham retornado na mesma direção, mas
não a encontravam mais. Angelique estava tateando de forma desesperada,
chorosa, enquanto Pierre lhe pedia calma, preocupando-se em não chamar
a atenção das moradoras do jardim.
− Não se desespere, Angelique, faça o mínimo de barulho possível,
do contrário, estaremos encrencados – disse enquanto tateava as folhas à
procura da passagem.
Nesse momento, Pierre sentiu um frescor em sua canela, algo úmido
havia lhe tocado a perna e levantado sua calça na altura do tornozelo. As-
sustado e com certo receio de olhar para baixo gritou:
− Ah, meu Deus! Ajude-me!!!!
Angelique, assustada, havia se recostado na cortina verde natural e
deixou-se cair com os braços abertos, quando ouvira o grito de Pierre, em
busca de ajuda, com as costas junto ao muro vegetal, avistou uma grande
porca branca a afastar-se do tornozelo de Pierre, que não ousava olhar para
baixo por medo de descobrir o que era.
Angelique sentiu um alívio tão grande que começou a rir alto, uma
risada que lembrava a de uma criança nas brincadeiras divertidas da in-
fância. Pierre, quando viu o animal também começou a rir, e ambos agora
rolavam ao chão, e permaneceram assim por alguns segundos. Pierre ria e
observava o quanto Angelique ficava bonita sorrindo. Foi quando surgiu à

152
sua frente o que parecia a barra de um vestido lilás, e instantaneamente as
risadas desapareceram, como se ambos as engolissem. Eles sentaram um ao
lado do outro, calados, olharam para cima e viram a imagem de uma jovem,
com fartos cabelos negros e lisos, e de pele muito branca, que se apresentava
diante deles e os olhava calmamente com pequenos olhos orientais cor de

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mel. As feições do rosto da jovem eram delicadas, e o vestido era simples,
com um tramado na cintura que acentuava a silhueta franzina. Ela trazia no
pescoço um colar de sementes que lhe caía abaixo do decote do vestido e
em cuja extremidade havia uma estrela de cinco pontas feita de pequenos
galhos de árvores secas.
Ela sorriu docilmente.
− Sejam bem-vindos à Morada do Vale de Cristal, que minha casa seja
neste momento a casa de você. Venham comigo, vocês devem estar com
fome, tenho pão e frutas para lhes dar de comer.
Ela se virou como quem tinha certeza de que eles a seguiriam. An-
gelique e Pierre ficaram silenciosos diante da surpresa e, assustados, não
ousavam se mexer, então, ela se virou novamente para eles depois de alguns
passos e falou:
− Venham, não podem ficar aí para sempre, a floresta só se abrirá entre
a noite e o amanhecer. As árvores dormem durante o dia, a passagem se
fechou.
A porca branca parecia acompanhá-la na caminhada, virando-se para
eles quando ela também se virava. A jovem continuou caminhando, e Pierre
notou que ela estava descalça. No entanto, podia ver que seus pés estavam
limpos.
Olharam-se, a voz macia com que ela falava acalmara um pouco seus
ânimos. Pierre levantou-se e deu a mão para que Angelique ficasse em pé.
Não havia sentido permanecerem sentados na grama. Eles a seguiram por
entre as árvores bem dispostas que se encontravam no caminho e, mais
adiante, viram a casa, que, ao que tudo indicava, pertencia à jovem.

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No trajeto, passaram por um pequeno lago, de cor azul cristal, com
águas tão límpidas que se podia ver uma enorme variedade de peixes laranja
e azul-turquesa no seu interior, nadando rapidamente entre uns e outros.
Angelique teve a impressão de que, quando ela passou, eles pararam para

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acompanhá-la enquanto caminhava, retomando seu nado sincronizado assim
que ela prosseguiu. Pensando ser uma coincidência, Angelique se virou no-
vamente e os procurou com o olhar, viu então os peixes do lago novamente
pararem e virarem em sua direção. Aquilo a deixou intrigada.
Pierre chamou sua atenção.
− Angelique, apure, não fique para trás.
Ela acelerou os passos e o alcançou. A jovem ia mais à frente, para indi-
car a direção, e um coro de pássaros cantantes podia ser notado na copa das
árvores. Era um lugar belo, que transmitia paz acima de tudo. Uma porção
de margaridas pequenas florescia no chão, e a primavera realçava toda a be-
leza, florescendo pelo caminho e pelos troncos das árvores. A grande porca
acelerou os passos, como para anunciar a chegada dos visitantes.
A jovem voltou a conversar com eles:
– Esta é minha casa e, por enquanto, será o lar de vocês também. Podem
partir quando quiserem, mas os aconselho a ficar aqui até que Joana tenha
resolvido a situação de Paris.
Angelique se perguntou como ela poderia saber o que se passava em
sua cidade, uma vez que estava enclausurada em seu paraíso?
A jovem disse, olhando para Angelique:
– Sabemos quase tudo o que se passa no mundo lá fora, mas isso mais
tarde você entenderá.
Nesse momento, uma coruja marrom voou sobre eles em movimentos
circulares. A jovem estendeu o braço e delicadamente a coruja pousou sobre
ele, recebendo seu carinho sobre as penas. Angelique reconheceu a mesma
coruja que lhes acompanhara a viagem toda.

154
− Qual é o seu nome? − perguntou Pierre à jovem.
− Eu me chamo Winx.
Eles ficaram pensando que esse era um nome muito incomum. De que
origem ele seria? Por fim, Angelique falou:
− Eu sou Angelique e este é meu amigo Pierre.

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Ela sorriu, e eles continuaram andando. A coruja percorreu o braço de
Winx e alojou-se em seu ombro.
A casa estava perto, e dava para perceber melhor seus detalhes. Parte da
casa era feita das mesmas pedras do caminho que percorreram nas margens
do rio. Metade da casa era feita com essas pedras, e a outra metade, a parte
superior, era feita de barro, também claro. As janelas e o telhado haviam sido
talhados por madeira, o que dava a impressão de ser uma casa resistente.
Havia flores das mais diversas cores ao redor, mas predominava uma flor
pequena, similar a margaridas, lilás e branca. Na parte da casa feita de barro,
havia algumas ervas trepadeiras, que subiam pelas paredes, e uma grande
chaminé indicava que o fogo estava aceso no interior da casa. Era simples,
porém muito bela. Ao seu lado esquerdo, havia outra casa menor, feita
também de barro e madeira, como se fosse um depósito, onde havia uma
grande janela fechada. A porta semiaberta mostrava em seu interior o que
parecia ser um lugar usado para estoque de toras de madeira, provavelmente
a provisão de lenha e feno para os rigorosos dias de inverno.
A porca entrou pela porta da frente, empurrando a abertura da entrada
com seu focinho, sem muito esforço, o que demonstrava que a porta era leve.
Assim que entrou, a porta atrás dela voltou para o seu lugar.
Winx deu passagem para os visitantes. Ela fez sinal com a mão indican-
do para que entrassem na casa, então, eles subiram os dois degraus pequenos
e empurraram a porta que estava encostada.
A coruja bateu as asas, levantou voo e postou-se no pico do telhado
da casa, virando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como se
vigiasse a morada.

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Angelique ia à frente e ficou por alguns segundos parada junto ao
marco da entrada, sem ousar pisar lá dentro sem antes ver para onde estava
indo. Olhando o interior da casa, viu uma grande sala, o que parecia ser
a peça principal. Ela percebeu que raios de sol invadiam o lugar e, então,
viu que parte do teto estava aberto e que poderia ver as nuvens dançando

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lentamente no céu mais lindo que ela já vira até aquele dia. Era belo e ao
mesmo tempo estranho de se ver, aquela era a primeira casa que conhecia
que não estava totalmente protegida da Natureza.
Atrás dela estava Pierre, que também olhava, sobre o ombro de Ange-
lique, os detalhes da casa. Algo os surpreendeu. Havia no centro da peça
principal um enorme caldeirão negro de ferro, tão grande que se poderia
cozinhar uma grande porca ou até mesmo uma pessoa inteira dentro dele.
Pierre deu um passo para trás, como se evitasse aproximar-se. A presença
do objeto o intimidava. Ele não tinha mais dúvida de que estava na casa das
bruxas e de que o que ouvia sobre seus rituais macabros ao redor do caldeirão
era verdade. Ele recuou amedrontado. Angelique deu alguns passos para a
frente, a visão do caldeirão a atraía. Ela foi em direção a ele, certo fascínio
a tocava no coração, e seus olhos agora brilhavam. Chegou mais perto e se
sentou à sua frente, observou os detalhes salientes do ferro negro, podia-se
ver nele o relevo de uma estrela de cinco pontas. Seus dedos acariciavam
o formato, acompanhando o desenho como se estivesse desenhando uma
estrela.
Pierre estava encostado junto à entrada da casa, quando Winx lhe pediu
licença para entrar. Ela se aproximou de Angelique e disse:
− Você gosta?
− Sim, este desenho é muito bonito.
– É um pentagrama, o símbolo das bruxas. Ele é usado nas magias do
bem.
− Incrível, acho lindo o formato das estrelas. Mas já ouvi falar que é
usada para o mal.

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− Não no sentido deste desenho que está no caldeirão. Quando é usada
como uma estrela com uma ponta superior em direção ao céu, indica magia
usada para o bem, quando está no sentido inverso, de uma estrela de cabeça
para baixo, com uma ponta para baixo, indica uma intenção voltada para o
mal.

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Angelique não tirava os olhos do caldeirão e o acariciava.
Outra presença foi percebida na casa. Uma segunda jovem, de bela
aparência e com grandes olhos arredondados e negros como a noite, entrou.
Sua pele era escura e ela tinha fartos cabelos negros e encaracolados que
lhe caíam pela altura dos ombros. Na maçã do rosto, via-se a marca de uma
cicatriz. Ela usava um vestido preto, que lhe marcava a cintura e cujas lon-
gas mangas quase lhe cobriam as mãos. Ela entrou na sala principal, vinda
do interior da casa, e trazia uma bandeja de uvas verdes e rosadas. Podia-se
ver em seu pescoço o mesmo colar de sementes que Winx usava, também
com uma estrela de cinco pontas, feita de galhos secos em sua extremidade.
Ela disse:
− Seja bem-vinda à Morada de Cristal. Sou Aliha, sintam como se esta
casa fosse de vocês.
A jovem estendeu as uvas a Angelique, que as pegou.
− É estranho, mas é como me sentisse em minha casa − disse Angelique
colocando uma das uvas na boca.
Ouviu-se um estrondo forte atrás delas, e todas se viraram para olhar.
Era Pierre, que acabara de desmaiar.

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CAPÍTULO XIV

Os Números
Brasil, 2008

P érola havia acabado de contar a Karem o que acontecera com o


caldeirão na noite anterior. Elas estavam indo à casa da Sandra, uma
bruxa numeróloga que Karem conhecia e que já havia ido algumas vezes
ao Coven. Karem falou:
− Se usaram de força física para tirá-la da cama, então, saiba que antes
tentaram muitas outras coisas para acordá-la, pois esse é o último recurso que
um Espírito de Luz usa. Não é permitido a eles fazer isso, uma vez que eles
sabem que não podem interferir em sua vida física, e uma grande energia
teve de ser desprendida. Eles só podem interferir espiritualmente naquilo
que você autorizar, decretar ou pedir. Por que as coisas funcionam assim
é um mistério. E se essa força a salvou, então, das trevas ela não era. Que
bom que você está bem! – disse Karem enquanto a abraçava.
− Por que será que não vi nada? Será que verei algum dia?

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− Não se preocupe. Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece!
Karem retirou de sua bolsa um embrulho, e o entregou a Pérola:
– Quase me esqueço, é um presente para você!
– Sério? Poxa, muito obrigada, o que é?

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– Veja você mesma!
Então, Pérola desenrolou o que parecia ser uma caixa estreita e com-
prida, com uns cinquenta centímetros de comprimento. E de dentro dela
tirou uma varinha:
– Oh, mas ela é linda!!!
– Eu sabia que você ia gostar, quando a vi senti que ela seria sua.
– Uma varinha mágica...
– Sim, para você usar na noite do grande ritual!
Pérola agradeceu muitas vezes o presente, disse que queria comprar-
-lhe algo também. Estava fascinada pela varinha, ela era de madeira natural
e em sua ponta havia um cristal bastante brilhante.
Elas deram os braços uma para outra enquanto caminhavam. Pérola
perguntou:
− Há quanto tempo você conhece a Sandra?
− Há bastante tempo. Ela fez o cálculo numerológico do meu nome e
da minha data de nascimento.
− E o que você achou?
− Muito interessante. Eu vi sentido em tudo o que ela falou a meu res-
peito e de minha vida com base no estudo dos números que formam meu
nome e que acompanham minha data de nascimento. Numerologia é uma
ciência milenar. Sabe como eu a vejo?
− De que forma?
− Como mais um dos sinais divinos em que podemos nos basear para
um dia achar o caminho que nos levará de volta ao verdadeiro lar.
− Explica melhor, Karem.

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− Religar-se a Deus é o verdadeiro caminho de volta para casa. Astro-
logia, Quiromancia, Tarologia, Numerologia, entre outras, são ciências que
nos auxiliam a nos autoconhecer, a nos entender e a nos observar melhor,
pois somente compreendendo a nós mesmos é que conseguiremos encontrar

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Deus em um sentido mais completo. Ele existe em nós. Ninguém chega ao
Paraíso sem ter antes passado por dois lugares: pelo inferno e por si mesmo.
− Você já passou meus dados para ela fazer a análise numerológica
do meu nome?
− Sim, mandei por e-mail, na semana passada. Ela vai lhe entregar tudo
escrito – explicou Karem.
Elas haviam chegado à frente da casa de Sandra e tão logo apertaram a
campainha ela abriu a porta a Pérola e Karem. Era uma mulher bela, madura,
e de fisionomia simpática, bastante sorridente. Quando as cumprimentou,
Pérola percebeu que Sandra tinha um sotaque estrangeiro.
− Sou da Argentina – respondeu a Pérola, quando lhe perguntou.
Elas entraram e foram até uma sala separada da casa, onde Sandra fazia
seus cálculos numerológicos e atendia as pessoas que a procuravam.
Ela se sentou à sua mesa, pegou o material já analisado de Pérola e
começou a explicar-lhe:
− Pérola, preciso lhe dizer algumas coisas antes de falar sobre você e
sua vida. É importante que você entenda o que é a Numerologia, de que
forma ela se manifesta na vida das pessoas e como você pode usá-la para
melhorar sua situação. O pai da Numerologia é Pitágoras. Ele descobriu a
base desse estudo e definiu os arquétipos humanos de acordo com deter-
minados números. Sabemos que Pitágoras, antes de ser um gênio, era um
mago que veio com o objetivo de auxiliar este planeta em sua evolução,
seja porque queria compensar algum desequilíbrio, seja porque estipulou
para si essa missão como um desafio, não importa. Este planeta, depois dele,
nunca mais foi o mesmo.

161
Pérola ouvia atentamente a explicação de Sandra. Ela continuou:
− O que acontece é que existe uma energia emanada toda vez que uma
palavra é pronunciada, quando a chamam pelo nome, estão lhe enviando
energia.
– Sim, imagino também que seja assim mesmo – disse Pérola.

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– E as letras estão associadas aos números, logo, toda vez que você se
expressa com palavras está também se expressando matematicamente. Os
números são a única linguagem universal que existe, tudo muda entre um
país e outro, entre um mundo e outro, só a matemática continua a mesma
para todos.
Pérola consentia com a cabeça, sabia que aprenderia muito naquele
momento.
– E quando você desprende o som matemático de uma palavra – conti-
nuava Sandra –, você está emitindo determinada qualidade de energia, visto
que os chacras que temos em nosso corpo se abrem e se fecham emitindo
vibrações de acordo com a matemática dessas letras. Para cada letra de seu
nome, há um número correspondente. Por isso temos de tomar cuidado
com o que falamos, pois uma grande repetição de uma mesma palavra cria
uma egrégora energética em torno de nós, isso se não nos ligarmos a uma
já existente. Concluindo, se seu nome é repetido diversas vezes pode in-
fluenciar energeticamente a sua vida. E essa energia vai ter uma determinada
qualidade. Você está me entendendo, Pérola?
− Acredito que sim, mas me diga uma coisa, se meu nome não for bom,
o que tenho de fazer?
− Boa pergunta. Deixe-me esclarecer, não existe nome bom ou ruim,
o que existe são nomes que auxiliam em determinadas situações, enquanto
outros são mais apropriados para outras coisas. Existem nomes que predis-
põem certos fatos na vida de uma pessoa e nomes que predispõem outros. O
que precisamos observar é se as suas características pessoais estão de acordo
com seu nome e seus objetivos de vida e a maneira como você lidará com

162
eles. Depois que você tiver consciência sobre o que a cerca, vamos analisar
as possibilidades de melhorar essas energias do seu nome que emanam de-
terminada vibração em você e no meio em que vive. E o que faremos será
criar alguma forma de mudar seu nome, mas só se for necessário.

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Pérola estava gostando bastante do que ouvia. Gostava desse esclareci-
mento, ela achava que esse era o princípio que regia um profissional e uma
pessoa bem-intencionada, o de dar os devidos esclarecimentos sobre o que
seria feito e como seria feito.
Então, Sandra começou a falar a Pérola sobre suas características pes-
soais segundo os cálculos numerológicos, como ela costumava agir com
as pessoas à sua volta e de que forma ela via o mundo. Descreveu seus
primeiros anos de infância até chegar aos tempos atuais. Sandra lhe disse:
− Tudo no Universo de uma forma ou de outra está interligado, não exis-
te uma única ciência que fale toda a verdade, Pérola, tampouco apenas uma
religião verdadeira. No fundo, tudo se completa, se entrelaça e se expande
junto. Veja a Numerologia, ela está ligada também à Tarologia. Cada carta
do tarô corresponde a um número e a um período da fase de evolução de
um indivíduo, e esse período está ligado também à sua data de nascimento.
Você nasceu sob a carta da Roda da Fortuna, o que quer dizer que você dará
reviravoltas significativas na sua vida. Quando você achar que não há mais
saída para uma situação, rapidamente conseguirá mudá-la e se estabilizará
novamente. E você experimentará várias facetas da vida e de diversas formas.
− E isso é bom ou ruim? – perguntou Pérola.
− Pode ser bom ou pode ser ruim, depende do que você fará com isso.
Você pode aproveitar a oportunidade para experienciar a vida por diversos
ângulos e com isso ter aprendizados ótimos, tornando-se uma pessoa com
uma vida interessantíssima, ou pode simplesmente optar em não reagir
quando os momentos ruins vierem e automaticamente se vitimizar pelas
constantes mudanças em sua vida.

163
Pérola nada dizia, olhava quase que fixamente para Sandra, que
continuou:
– Minha querida, você é uma pessoa que hoje pode estar aqui e ama-
nhã do outro lado do mundo. Você é uma pessoa que pode estar sozinha
e amanhã no meio da multidão. Você é uma pessoa que hoje pode não ter

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nada e amanhã ter o mundo para si, para em outro momento perdê-lo sob
seus pés. Se você entender que você por si só se basta e que o que a mantém
feliz e centrada não é o mundo, mas o que você cria a partir de você mesma,
então, poderá estar em qualquer país, de qualquer forma, e ser a pessoa mais
feliz deste Universo, não importa se você perambula por aí sem sapatos e
sem tem onde dormir, pois você se sente feliz internamente. Um mendigo
pode olhar para si e se penalizar, ou ele pode morrer de alegria porque não
precisa de quase nada do que o resto do mundo se mata para ter. E o mais
incrível de tudo é que você é uma pessoa que tem fome de descobrir todos
os lados de tudo e experimentar os diversos gostos que há nesta vida.
Pérola concordou em seu íntimo com o que ela acabara de escutar. Ela
reviu sua vida mentalmente e percebeu que muitas eram as reviravoltas que
já tinha dado e, por vezes, havia saído das extremidades de uma situação e
ido para outra. Sandra continuou:
− Pela sua conta numerológica e fazendo a correspondência com as
cartas do tarô, há pouco tempo você enfrentou em sua vida o Arcano 16,
que é a carta da Torre Ruída de Deus no tarô, ou seja, rupturas bruscas na
sua vida ocorreram no ano desta carta. O arcano – ou, para você entender
melhor, a carta – muda a cada aniversário. É um Arcano por ano. As cartas
do tarô seguem uma sequência, e a Numerologia as acompanha, portanto,
conseguimos prever o que o ano que segue a data do seu próximo aniver-
sário pode oferecer a você.
− Eu me separei faz poucos meses – disse Pérola, com o semblante triste.
− Entendo, Pérola, que não é fácil, mas a vida seguirá firme para você,
e as milhares de voltas que a sua vida dará regularmente lhe trarão novos
rumos e horizontes, além de mais experiências, não é mesmo?

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− Sim, eu já não choro mais. E não penso tanto... Na verdade, sinto
que estou vivendo uma nova fase na minha vida agora.
− Ah, que legal, e o que você tem feito? – Sandra parecia animada e
curiosa para perguntar.

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− Estou escrevendo um livro. Aliás, tem como eu saber qual a melhor
data para publicá-lo e se meu nome é bom para eu usar nele?
− Sim, esse é um dos objetivos de estarmos aqui, melhorarmos a sua
vida e trazermos maiores concretizações a seus objetivos de vida.
Então, Sandra começou a fazer os cálculos matemáticos. Pérola e Karem
apenas se olhavam e esperavam pela resposta. Depois de alguns minutos,
Sandra disse:
− Pérola, você terá de mudar seu nome para que ele seja mais com-
patível com seus objetivos. Encontre um sobrenome cuja soma das letras
seja 17. Fazendo a correlação com a Tarologia, esse seria o Arcano 17, que
representa a Estrela Resplandecente. Ela traz o brilho, o sucesso, a ilumi-
nação e a esperança. A estrela é a ligação entre o cosmo e a alma, ela é a
inteligência cristalina, a visão a longo alcance. Acredite, desde já, que você
é uma estrela, e se for possível publique o livro após a data do seu próximo
aniversário, porque coincidentemente você estará também no ano da Estrela
Resplandecente, então, tudo será luz. Além do mais, na Numerologia, o 17
é nada mais do que 1+7 = 8, e 8 é o número do infinito. As energias estarão
favoráveis para que você conquiste o que deseja.
− Que bom, Sandra, fico muito animada em ouvir isso. Apenas me
pergunto que sobrenome usarei para ter a influência energética do número
17 e da Estrela Resplandecente no meu nome.
− Não se preocupe, o nome surgirá, só me passe quando encontrar
algum de que goste, aí eu calculo para você. Siga os sinais da vida, preste
atenção, porque todas as perguntas que fazemos ao Universo nos são res-
pondidas, de uma forma ou de outra. Você poderá conhecer pessoas com

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esse nome, encontrá-lo em um papel perdido, descobri-lo no meio de seu
nome, enfim, deseje encontrá-lo e o Universo lhe concederá. Quando o
ouvir, perceba se gosta dele, esse é o primeiro passo.
− Vou prestar atenção aos sinais da vida, Sandra.

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− Ouça, Pérola, recebemos sinais do mundo e de nós mesmos o tempo
todo, mas nem sempre prestamos atenção a eles. Nossos principais sinais
vêm por intuição, por “coincidências” ou por sonhos.
– O que você pensa dos sonhos, Sandra?
– Que sonho é algo que somente nós mesmos podemos interpretar.
Porque os sonhos são símbolos do nosso inconsciente e cada pessoa tem
o seu. O inconsciente é único, não é coletivo. Você precisa descobrir den-
tro de você maneiras de se ouvir. O inconsciente tudo sabe, inclusive ele
próprio sabe o nome que você escolherá como escritora. O inconsciente é
detentor do conhecimento deste e de outros mundos, do Universo, do que
nos cerca e do que está dentro de nós. Mas nem a tudo temos acesso nem
nos é permitido saber. Saberemos aquilo que nos fará crescer, e ele virá na
medida exata, no tempo certo e em partes. O conhecimento não é oferecido
de bandeja nem em grandes quantidades. Trata-se de conquistas. É gradativo
e vem em pequenas porções. O inconsciente libera aquilo que é hora de
vir à tona, e tudo isso acontece na hora certa. Porém, o inconsciente pode
liberar o conhecimento e a pessoa não captá-lo, não prestar atenção na hora,
e ele se dissipar. Portanto, mantenha-se atenta.
Elas continuaram conversando sobre Numerologia. As horas voaram e
quando notaram metade da tarde havia se passado. Sandra era outra bruxa,
que também trabalhava com o caldeirão, tinha estudado os livros da Wicca
e acrescentado seu conhecimento a outras filosofias e religiões, incluindo
a Católica. Ela era devota de santo Expedito, e uma grande imagem desse
santo era vista na entrada de sua casa.
No portão, estavam se despedindo quando Sandra perguntou a Pérola:

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− Do que se trata seu livro?
− A nossa história, Sandra, a nossa.
Sandra sorriu, e elas se foram.

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CAPÍTULO XV

O Reencontro
França, 1429

E stavam reunidos em volta da mesa de carvalho, era larga, bastante


espessa e com cadeiras talhadas à mão na mesma madeira. Pierre
observava os detalhes minuciosos do entalhamento. Não eram cadeiras
refinadas, mas eram muito bem trabalhadas, cujas curvaturas eram harmô-
nicas e semelhantes umas às outras, feitas, provavelmente, por algum bom
carpinteiro. Notou que as mãos das jovens eram impecáveis, típicas de quem
não executa trabalhos pesados, portanto, não deveria ter sido nenhuma delas
a responsável pela obra.
Ninguém havia sentado em nenhuma das pontas da mesa. Em um dos
lados, estavam Winx e Aliha olhando os dois visitantes, enquanto ambos
comiam uma sopa de variados legumes e temperos nunca antes experimen-
tados por Pierre e Angelique.
− Que sabor delicioso tem esses temperos, de onde eles são?

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− São da Mãe Terra, colhemos as ervas na floresta. Estão à disposição
para todos, mas poucas pessoas os conhecem ou dão valor. Eles também
podem ser medicinais – explicou Winx.
− A floresta nos dá tudo, alimento, moradia, proteção, saúde e espiri-
tualidade. Aliás, a floresta é um dos lugares mais ricos que o homem tem

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neste mundo. Talvez, o dia que souber disso, pode ser que ele a destrua –
complementou Aliha.
Junto do pote de sopa, estava também uma vasilha de pães doces
cobertos com mel. Angelique refletia sobre como a mesa das bruxas era
farta comparada à mesa dos franceses. Elas pareciam viver em melhores
condições e sem grandes dificuldades para atender a todas as suas neces-
sidades. Nenhuma das duas parecia trabalhar excessivamente ao sol ou
demonstrar estar exausta caçando animais, colhendo frutos das grandes
árvores, cortando madeiras ou fazendo trabalhos pesados de jardinagem,
e isso a impressionava.
Pierre ainda estava intrigado e receoso sobre as duas jovens bruxas, ao
contrário de Angelique, que parecia estar demasiadamente à vontade, o que
o incomodava. Pierre desconfiava de que toda a hospitalidade das bruxas
pudesse ser apenas um preparo para rituais de sacrifício e magia que elas
pensariam em fazer com eles assim que adormecessem. Se não fosse a fome
e a fraqueza que o abatera nas últimas horas, teria evitado comer qualquer
coisa vinda delas ou daquela casa.
Ele olhou para o céu, era lindo vê-lo de dentro da casa, a claridade do
dia iluminava na temperatura exata. Olhou ao seu redor e, então, percebeu
um móvel do lado direito da sala principal, era uma estante em madeira com
cerca de oito prateleiras, e havia vários potes também talhados em madeira
distribuídos uniformemente. Ele sentiu certa curiosidade pelo que poderia
haver dentro dos potes e estava a olhá-los.
Winx levantou-se da mesa e foi até a estante, então, abriu um dos potes
e mostrou seu interior a Pierre.

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− Guardamos aqui nossas ervas, elas nos alimentam, protegem, curam
e ajudam no desenvolvimento de nossa espiritualidade.
Ao lado da estante, havia um espelho grande que refletia uma pessoa
inteira. O espelho estava emoldurado pelo que parecia ser barro esculpido, e
o formato das bordas do espelho imitava o corpo de uma cobra que, na parte

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superior, se enrolava, pondo a cabeça para fora do contorno da moldura,
como quem observa o mundo.
Ao lado do espelho, notava-se uma mesa com quatro pés altos que
sustentavam objetos acima dela em uma altura superior ao tronco de uma
pessoa. Pierre levantou-se para ver melhor a mesa alta, que lembrava um
altar que havia visto nas missas na igreja em Paris.
Percebeu que havia um cálice de vinho de metal, provavelmente feito
de prata, com o mesmo símbolo da estrela. Algumas velas brancas e um pou-
co usadas estavam espalhadas pela superfície, e havia também um recipiente
contendo um pouco de água e o que parecia ser um punhal. Ele se assustou.
− Não se preocupe, isso é apenas um athame. Não usamos para o que
você pensa, ele na verdade tem outra finalidade – disse Winx tentando
tranquilizá-lo.
Pierre continuou a olhar o que havia em cima do altar. Dois objetos não
podiam ser identificados por ele, que se aproximou para melhor enxergar.
Não ousou tocar, mas ficou a fitar os dois galhos de madeira secos que exi-
biam pedras coloridas ao redor.
Pierre não havia visto ainda aquelas pedras em lugar algum, tampouco
se recordava delas nas joias da nobreza na corte. Elas poderiam ser de algum
lugar que só as bruxas soubessem, ficou pensando onde poderiam ter sur-
gido. Talvez na mata. Deviam ser muito valiosas por ser raras. Seu ímpeto
foi colocar as mão nelas.
Aliha falou:
− Não toque em nossas varinhas mágicas!
Pierre recuou ao ouvir a palavra “mágicas”, teve receio de se aproximar

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e algo inexplicável acontecer a ele.
Então virou para o lado e viu o espelho. E como de costume, toda vez
que via um se olhava. O espelho antes estava posicionado de forma que nada
parecia estar refletido nele.

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Winx impediu que ele se aproximasse do espelho tocando o braço de
Pierre e, então, falou:
− Não veja seu reflexo em nossos espelhos, eles são reveladores, e você
pode não gostar do que eles podem lhe dizer. E aquelas são nossas varinhas
de condão, cujas pedras foram trazidas de um lugar muito distante, por nos-
sas amigas Anúbis e Sarah. Vocês vão conhecê-las, devem estar para chegar.
Elas foram curar as crianças doentes em um vilarejo próximo a Domrémy.
Angelique alegrou-se, seu coração parecia estar palpitando de uma
felicidade quase indescritível e da qual não se recordava ter sentido antes,
talvez somente quando aprendeu a escrever as primeiras palavras com Pier-
re. Era como se todas fossem parentes que ela amasse muito e que estariam
para chegar e matar a saudade.
Pierre estava preocupado, sentia-se cada vez menos seguro com outras
bruxas surgindo enquanto eles ainda estavam lá. Olhou para o caldeirão e
imaginou-se sendo servido em pedaços às quatro jovens, isso se Angelique
não se servisse dele também, uma vez que parecia estar tão familiarizada
com elas. Olhou para Angelique, que nesse momento sorria para ele. De
fato, ela parecia estar mais bonita, assim como as outras bruxas eram. Notou
que seus cabelos estavam mais brilhantes, mais ruivos, e a pele agora parecia
estar com melhor aparência.
Winx falou:
− Não comemos carne, respeitamos toda forma de vida e convivemos
com os animais em harmonia. A floresta nos dá tantas coisas que não há
necessidade de sacrificar uma vida para nossa manutenção.
Pierre não sabia se era coincidência Winx ter falado no assunto que ele

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acabara de pensar ou se ela poderia ler pensamentos, o que o assustava muito.
− Quando elas chegarão? – perguntou Angelique, eufórica.
A coruja entrou na casa voando pelo telhado sem proteção. Ela piou e
se posicionou na borda do encosto de uma das cadeiras ainda disponível.

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Tanto Winx quanto Aliha olharam para ela. Parecia que elas se comunica-
vam por telepatia. Então, a coruja abriu as asas e alçou voo pela abertura por
onde tinha entrado .
− Estão próximas, chegarão esta noite, quando o sol se pôr e a floresta
acordar – respondeu Aliha, olhando para Pierre, que havia ficado pálido e
retornado à mesa com receio de desmaiar novamente. Então, Angelique
perguntou:
− Diga-me, por que Morada de Cristal?
− Porque durante o dia este lugar é transparente como um cristal,
ninguém consegue enxergar esta morada. A floresta a esconde, fecha-se
em volta dela quando dorme, aqui, só chegam aqueles que conseguem
encontrar a passagem à noite.
Angelique e Pierre se perguntavam como aquilo era possível.
Eles também observavam que havia flores por quase toda a sala, e todas
elas estavam abertas e exalavam seu perfume. Eram de diversos formatos,
e a maioria era desconhecida de Angelique e Pierre. Até mesmo as flores
exóticas tinham uma estranha beleza que eles não podiam deixar de admirar.
Depois comer, Winx desfazia a mesa, quando lhes falou:
− Vocês precisam descansar, percorreram o caminho das pedras a noi-
te toda e devem estar bastante cansados. Vou providenciar um lugar para
vocês repousarem.
Angelique sorriu, estava satisfeita que, depois de comer, poderiam
dormir um sono tranquilo. Era isso de que ela mais precisava naquele mo-
mento. E se pudesse banhar-se, então, seria perfeito.
Pierre sentia os olhos pesados, sabia que não aguentaria ficar muito

171
mais tempo acordado. Mas, como tinha medo de ficar vulnerável às bruxas
enquanto dormia, pensou que seria melhor dormir longe delas, talvez no
jardim, assim, poderia correr, se precisasse, ou se esconder em alguma
árvore.
Winx perguntou a ele:

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− Pierre, você gostaria de dormir na casa do depósito? Lá é um lugar
limpo e organizado, há uma cama que posso estender e tenho certeza de
que você dormirá muito bem.
– Claro, sem problema algum.
Pierre impressiona-ve muito quando isso acontecia. Era só surgir um
pensamento em relação a elas que em seguida uma resposta verbal à sua
pergunta mental era esclarecida por Winx.
Aliha levou-o até o jardim da casa, depois o direcionou para o depósito,
onde ambos entraram. Havia pilhas de madeiras perfeitamente organiza-
das, cortadas de tamanhos regulares e sobrepostas umas às outras. Perto da
única janela do celeiro, havia uma cama, também entalhada em madeira,
cujo colchão estava com uma bela aparência e convidava para o sono. Era
dia claro, não deveria ainda a manhã ter terminado, mas, mesmo com toda
a claridade, ele seria capaz de dormir devido ao cansaço. O nervosismo das
últimas horas havia lhe tomado todas as energias e cuidar de si e de Ange-
lique durante o caminho exaurira suas forças.
Pierre experimentou o colchão apoiando nele um das mãos, era macio
e aconchegante. Atirou-se sobre ele ainda vestido e sentiu o corpo afundar,
desamarrou as botas ainda deitado, mas não as tirou, estava cansado demais
até mesmo para isso. Um cheiro de ervas tomou conta do ambiente confor-
me seu corpo afundava no colchão.
Aliha lhe explicou que o colchão era feito de flores de camomila, al-
godão, alfazema, pétalas de rosas secas e folhas secas de árvores. Enquanto
ela lhe explicava, Pierre ia fechando seus olhos até, por fim, adormecer
completamente.
Na casa, Winx havia separado um vestido branco para Angelique e

172
agora lhe mostrava para ver se era do seu agrado.
− Sim, eu gosto muito dele! – disse transcorrendo os dedos no tecido.
– Mas para colocar esse vestido em mim seria melhor que eu me banhasse,
atravessamos a floresta durante a noite toda.

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− Temos outro lago de águas límpidas atrás da casa, venha comigo, pode
banhar-se nele. Vou pegar um pano para que você possa se limpar. Você verá
que depois que mergulhar nas águas de cristal se sentirá muito melhor, este
lago, assim como todos os lagos, cachoeiras e mares deste mundo, é energi-
zador e curativo para aqueles que se conectam a ele. Banhe-se pedindo ao
lago que você se restabeleça física, mental e espiritualmente e assim será.
Angelique fazia agora uma expressão de dúvida.
Mas como se conversa com um lago?
– Acreditando que é possível!
Angelique perguntou novamente, porque não entendia como isso
funcionava.
− Conecte-se à sua verdadeira natureza. Não existem palavras mágicas
para isso, há apenas a força da sua intenção. Mentalmente peça para que as
energias desse lago entrem em ação e depois agradeça por ter a certeza de
que assim se concretizará. Se você preferir, diga a palavra Shatassá, assim
que terminar sua conversa com o lago.
Angelique sentia instintivamente que aquilo era uma verdade e, sem
mais nenhuma pergunta, seguiu Winx, que agora a levava até a parte detrás
da casa. Elas pararam próximas às águas. Ao ver o lago, sentiu uma imensa
paz, soltou o laço de seu vestido sujo e amarelado pelo tempo de uso e
deixou-o cair pelo corpo até o solo. Seus pés se soltaram das velhas tiras
da sandália e, então, Angelique pisou na grama verde e macia do jardim.
Havia uma pequena trilha de grama com violetas plantadas em torno dele,
indicando o caminho às margens do pequeno lago. Angelique aproximou-
se e pôde enxergar pequenos peixes que nadavam entre as pedras do fundo

173
e as plantas. Experimentou um dos pés na água e sentiu que ela estava a
uma temperatura ambiente propícia para o banho. Então, sem receio, pôs
o outro pé e lentamente caminhou para o centro do lago, percebendo que
a profundidade dele era a de um corpo seu.

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Angelique seguiu o que Winx havia lhe dito e, mentalmente, começou
a falar com o lago enquanto sentia seu corpo leve, com seus braços estendi-
dos, flutuando na superfície da água.
“Obrigada por tudo o que me concede e por tudo aquilo que sou,
obrigada pela saúde e pelo restabelecimento das minhas forças, sinto-me
cansada, mas confio que assim que sair dessa água deixarei aqui tudo aquilo
de que não preciso e levarei somente aquilo que pode me ajudar a viver me-
lhor. Obrigada, Deus, obrigada, Deusa, por essa oportunidade e por tantas
maravilhas que nos oferecem neste mundo. Shatassá.”
Então, se pôs a se lavar com o pano, limpando todas as partes do seu corpo.
Esfregou suavemente os braços, a barriga, as pernas e o rosto. Conforme ia se
lavando, pensava no seu cansaço sendo deixado na água, como se um enorme
peso se desvencilhasse de seu corpo. Nesse momento, sentia que suas forças
estavam sendo repostas, era como se uma nova energia entrasse em seu corpo
e ela tivesse uma vida toda se energizado dessa forma. Perguntou de onde ela
havia tirado o Deus e a Deusa que, para ela, haviam sido uma oração mental.
Então, refletiu na possibilidade de haver em Deus também uma parte feminina,
ou Ele ser Ela. Por que é que Deus tinha de ser um homem?
Depois mergulhou diversas vezes seus cabelos nas águas cristalinas,
desfazendo cuidadosamente seus cachos com as pontas dos dedos. Lavou
seu rosto e, por fim, ficou mergulhada no silêncio das águas, apenas com
a parte do rosto que lhe permitia ver, respirar e falar exposta na superfície.
Ela conseguia dessa forma ouvir seus sons internos e entendeu o que era
estar conectada à sua verdadeira natureza.
O pôr do sol se aproximava, Winx chamou por Angelique suavemente,

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fazia um longo tempo que ela estava mergulhada no Lago de Cristal. Ainda
permanecia inerte nas águas, mas parecia que Angelique não a ouvia. Winx
aproximou-se da árvore com orquídeas amarelas, pediu-lhe licença e, então,
colheu uma de suas flores. Abaixou-se nas margens do lago e depositou-a
na superfície das águas, empurrando-a em direção ao rosto de Angelique.

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Lentamente a flor seguiu seu destino, parando no momento em que en-
controu seu rosto semimergulhado, cujo leve toque lhe fez despertar do
estado meditativo.
Então, Angelique se virou sorrindo, era como se ela pressentisse que
a aguardavam para algo importante.
Winx lhe falou: 
− Vou aguardá-la junto com Aliha no interior da casa, Angelique. As
outras duas Irmãs Bruxas estão esperando o pôr do sol do outro lado da
floresta para fazerem a passagem.
Angelique sorriu. Winx virou-se e retornou pelo caminho de flores até
a casa. Angelique nadou sob a superfície cristalina até as margens do lago,
apoiou-se na vegetação verdejante ao seu redor e subiu a terra, deixou que
a água escorresse por seu corpo, virou com seu rosto no sentido do sol e
deixou que os últimos raios a secassem. Permaneceu dessa forma esperan-
do o início da noite. Quando parte do céu se tornou escuro, ela colocou o
vestido branco que Winx lhe trouxera e o amarrou, deixando que o longo
laço caísse na lateral.
Angelique agora ouvia um lindo canto que vinha da casa e se voltou
em direção a ela, caminhando confortavelmente pela grama. Quanto mais
se aproximava da casa, mais o som aumentava, eram vozes doces e meló-
dicas que murmuravam uma cantiga estranha, cujas pronúncias eram de
palavras incompreensíveis à língua que Angelique conhecia, mas que lhe
fazia muito bem aos ouvidos.
Ao entrar na casa, viu que pétalas de flores lhe indicavam o caminho a
seguir e, ao chegar à sala, notou a presença de outras duas jovens sentadas

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ao redor do caldeirão, junto com Winx e Aliha. Uma delas, que nesse mo-
mento olhava para Angelique, se vestia de rosa, as mangas largas estavam
presas com fitas ao punho, seus longos cabelos dourados lhe caíam abaixo
da cintura e tinham suas pontas cacheadas, o nariz era pequeno e os olhos

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azuis eram de um tom cintilante, suas feições lembravam a de uma boneca
delicada de porcelana. Ela era demasiadamente bela e trazia ainda um co-
lar de sementes com uma estrela de cinco pontas feita de galhos secos de
árvores na extremidade. Nesse momento, parou de cantar e apresentou-se
sem se levantar:
− Meu nome é Anúbis − disse a jovem bruxa.
Angelique lhe sorriu.
− Eu me chamo Angelique − disse enquanto se dirigia ao único lugar
vazio em torno do grande caldeirão, sentando-se ao lado de Winx.
− Hoje você se descobrirá, Angelique, e então iniciaremos o fechamen-
to de mais um ciclo neste século. Que a grande Deusa, que habita em nós e
que em tudo se encontra nos dê força para que consigamos completar nossa
missão. – Disse Winx, enquanto suas mãos se contorciam em movimentos
sinuosos, voltando-se para o céu.
Percebia-se que a presença da noite engolira o dia, deixando de um
lado, no horizonte, a mancha negra do mistério e, no outro, o sombreado
laranja do pôr do sol.
À frente de Angelique, estava a outra jovem, que se apresentou:
– Sou Sarah e vim de muito longe para esta noite especial. Desde que
tenho consciência de minha missão, espero pelo dia de reencontrar minhas
irmãs todas juntas.
Sarah era uma jovem bela, de cabelos castanhos e compridos, estava
trajando um longo vestido amarelo, como uma grande bata, em que se viam
apenas alguns botões, discretos e pequenos, junto ao decote. No pescoço,
via-se o mesmo colar que as outras usavam.

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Angelique se perguntou se usaria um colar como aquele. Neste mo-
mento, sentiu que Winx passava por seu pescoço algum adorno, e diante
de seus olhos ela pôde ver a estrela de cinco pontas e, então, teve a certeza
de que ela também era uma delas.

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Uma vez com o colar, entregou-se aos cantos e apenas deixou que viesse
à tona tudo aquilo que estava guardado em seu interior, cantando, entoando
e repetindo palavras que, apesar de desconhecidas, já não lhe pareciam mais
tão estranhas. Tudo aquilo era como se fossem segredos que precisassem de
estímulos para ressurgir, ela sentia que um imenso baú era aberto e de lá suas
grandes verdades emergiriam, verdades que até aquele momento da sua vida
ela não tinha a menor consciência de existirem. Nada fazia sentido naquele
momento e ao mesmo tempo tudo fazia sentido.
Uma taça de prata contendo vinho foi erguida por Winx acima da ca-
beça, e em pé olhava as estrelas que surgiam. As palavras eram recitadas em
um tom baixo, ela agora conversava com as estrelas, como uma reza sagrada,
então, Winx tomou um grande gole e passou a taça a Angelique, que bebeu
do vinho tinto, apreciando-o e entregando-o a Sarah, que, então, passou a
Anúbis, chegando por fim a Aliha.
Angelique observou que vassouras eram postas por detrás de cada
uma das jovens. Sarah as posicionava como se elas fechassem um grande
círculo, Winx pegou um punhado de sal grosso em uma vasilha e o salpi-
cou no círculo de vassouras, seguindo o sentido horário, então, começou
energicamente a falar enquanto todas ainda cantavam:
− Eu invoco a Deusa Ceridwen. Eu invoco a Deusa Ceridwen. Eu
invoco a Deusa Ceridwen. Óh Grande Mãe, protetora de tuas filhas, vinde
até nós, abençoa-nos nesta noite, ilumina nossa caminhada e traga luz ao
nosso conhecimento. Mãe Ceridwen, una-nos mais uma vez nesta vida e
fortaleça-nos para que nossa missão seja cumprida. Se nesta nossa passagem
terrena formos impossibilitadas de completar a jornada, Mãe, que através

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de nosso pacto possamos nos reencontrar na próxima vinda a este mundo,
ou em tantas outras vindas mais que forem necessárias, até que consigamos
completar o que aqui viemos fazer.
Todas cantavam em sintonia, e o canto harmonioso tornava-se cada
vez mais belo. Elas olhavam para a mesma direção: o interior do caldeirão.

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A noite estrelada despontava com maior intensidade em todo o céu.
Winx agora falava olhando as estrelas, como que para reunir a força que
vem delas. Com uma das mãos, ela continuou a reverenciar a noite, com a
outra, de trás de seu vestido, retirou um punhal, Angelique o identificou
como sendo aquele que estava no altar e Pierre pensou ser um athame. Ele
parecia bastante afiado e brilhava junto ao reflexo da Lua cheia. Angelique
admirou a Lua, pois notou que ela estava maior e mais brilhante do que em
qualquer outra noite de sua vida. Parecia que a Lua ia adentrar a sala pelo
teto aberto da casa.
Winx levantou os dois braços em direção à Lua e, com a mão direita,
segurando o athame, passou a lâmina na ponta de seus cinco dedos da mão
esquerda. Um fino rio de sangue surgiu, e ela então pôs sua mão no interior
do caldeirão, deixando que os dedos ali depositassem as inúmeras gotas de
sangue que escorriam, enquanto ela proferia as palavras:
− Pelo meu livre-arbítrio, irmãs, escolho reencontrá-las por séculos e
séculos e séculos. Shatassá. E aquelas que por sua vontade assim quiserem
que se reúnam comigo na Missão Divina, através de meu sangue, para todo
o sempre. Que estejamos ligadas pelo corpo e pelo espírito, que possamos,
através de todos os tempos, nos auxiliar no trilhar de nosso caminhos.
Aliha ficou em pé, pegou o punhal da mão de Winx, seus grandes olhos
negros como a noite refletiam a lua prata quando olhou para o céu. Com o
braço estendido, segurando o punhal, ela cumprimentou o mistério da noite:
– Ó Grande Mãe, luz do Universo, que me concedeu o Sagrado Livre-
Arbítrio, eu livremente o uso para aceitar esta missão. Nada me fará mais
feliz do que saber que minhas vidas tiveram um objetivo nobre como este.

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Eu posso, eu aceito, eu quero esta missão e quero encontrar minhas irmãs
bruxas por todos os sagrados séculos. É de minha livre escolha, Shatassá!
Sarah ergueu-se, pegou o athame de Aliha e o apontou em direção à Lua:

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– Deusa, meu Livre-Arbítrio também entrego a esta missão, entrego
a este reencontro e que assim também seja pelos infinitos séculos, que eu
possa ser útil a uma finalidade comum e que possa evoluir pelo que escolhi.
Shatassá!
O sangue lhe escorria pelos dedos, unindo-se ao de Winx e Angelique.
Agora seria a vez de Anúbis, que em pé reverenciou toda a abóboda
celeste, levantando a ponta do athame de norte a sul sob a cabeça, por fim
falando:
– A Deusa que há em mim, pela liberdade que me é concedida, esco-
lhe por reunir-se às irmãs até o final de todos os tempos e escolhe fazer no
trilhar da caminhada o cumprimento desta missão. Que a Deusa e as irmãs
contem com minha escolha, Shatassá!
Anúbis direcionou a ponta do athame para a mão e passou os dedos
pela lâmina, tornando-a ainda mais vermelha. O braço estendido no centro
do caldeirão também permitia o gotejar do seu sangue em seu interior junto
ao das outras.
Angelique encheu-se de certezas e levantou-se. O afiado athame não a
amedrontava. Ela o pegou da mão de Anúbis e levantou-o aos céus, dizendo:
− Eu opto em me entregar ao destino que há séculos escolhi, reúno-
-me a minhas irmãs pelo passar de todos os tempos, e que nossa missão se
cumpra se assim for a vontade Divina. Abençoa-nos Grande Mãe. Shatassá!
Irmãs, eu escolho me unir a vocês através de todos os tempos.
Então, Angelique virou o athame em direção a seus dedos da mão
esquerda e passou o afiado fio em suas pontas, deixando que seu sangue
caísse junto ao das bruxas no interior do caldeirão. Todas permaneciam com

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os braços estendidos enquanto o gotejar e o ritual prosseguiam. Ela era a
última a pactuar com todas. E o que se fez agora estava feito.
O pentagrama agora estava formado diante do caldeirão, as cin-
co pontas da estrela estavam unidas novamente e os dedos de todas se
entrelaçaram, cruzando mais uma vez suas vidas. Enquanto dançavam

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circularmente, algumas ervas eram jogadas ao fundo do caldeirão e o fogo
acesso fazia com que o odor de alecrim, camomila e guiné se misturassem
ao cheiro adocicado do sangue. A alegria contagiava a todas e Angelique
dançava sem perceber qualquer dor em seus dedos, o mesmo parecia acon-
tecer com as outras jovens bruxas. Uma leve fumaça esvaía-se da poção que
se formava e notava-se que ela subia em movimentos espirais, sendo tragada
pela noite. Um vento circular surgiu no centro da sala e, nesse momento,
Angelique sentiu um forte sopro em seu ouvido, como o de uma voz femi-
nina, a lhe dizer: “Seja bem-vinda, minha filha”, que se repetiu por diversas
vezes naquela noite.
No depósito, Pierre ainda dormia alheio ao ritual que se seguia na casa.
O cansaço lhe tomara todas as partes do corpo e ele dormia profundamente.
Um barulho de toras de madeira rolando o chão o despertou por um
breve momento. Ele moveu a cabeça para o lado, suspendeu-a levemente
sobre a cama e, então, viu dois pequenos homens, como se fossem anões, a
empilhar lenhas cortadas. Incrivelmente pareciam anões gêmeos e ambos
usavam roupas similares, estavam com um enorme chapéu verde de uma
ponta, botas marrons, calças verdes e colete da mesma cor. Eles se viraram
na direção de Pierre assim que se movimentou, fazendo barulho sobre as
ervas no colchão. Pierre imaginou se tratar de um sonho e logo virou a
cabeça para o outro lado e voltou a dormir. Os pequenos homens continua­
ram seu trabalho de empilhar toras e assim prosseguiram por toda a noite.
Um terceiro homenzinho entrou no depósito, trazendo outras madeiras
recém-cortadas. Eles não falavam, apenas se olhavam e se faziam entender
entre eles.

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Quando o Sol nasceu, deixou passar sua luz pela janela. Pierre se espre-
guiçava ainda deitado na cama quando se lembrou da noite anterior, teve
uma vaga lembrança de ter visto homens em miniatura fazendo o trabalho
de um lenhador, imaginou se tratar de um sonho, riu de si mesmo e de sua
imaginação, sentou-se na cama, bocejou e, ao se pôr de pé, notou a presen-

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ça de um pequenino machado apoiado nas toras de madeira, que haviam
aumentado em grande quantidade. O que vira não parecia mais se tratar de
sonho. Nesse momento, correu para fora do depósito, confuso e nervoso.
Foi quando viu Angelique e as outras quatro jovens bruxas preparando
cavalos para montaria.
Pierre correu em direção a Angelique, e nervosamente lhe falava,
atrapalhando-se com as palavras:
− Magia, Angelique, este lugar é possuído de magia... Vamos embora,
essas bruxas encolhem os homens que chegam aqui, podem me comer, me
encolher... Vamos fugir.
Winx parou de encilhar seu negro cavalo e olhou para Pierre. A coruja
estava observando tudo de um galho de árvore junto aos cavalos. Winx se
aproximou de Pierre, que se encolhia, fazendo o sinal da cruz com os dedos,
e disse:
− Nunca encolhemos ninguém, muito menos comemos pessoas. Todos
que chegam aqui e que possuem um bom coração são bem recebidos. A flo-
resta não se abriria no Vale de Cristal para nós se nossas intenções fossem
negras. O que você viu são os gnomos, eles são seres da Natureza, são nossos
irmãos, assim como os animais e as plantas. Eles nos ajudam a cuidar deste
lar. Agora trate de virar homem novamente, porque você está quase tão
pequeno como um gnomo, embora a coragem deles seja bem maior do que
a sua altura. Pierre, encilhe um cavalo. À noite, quando a floresta acordar
e a passagem se abrir, iremos em direção ao acampamento de Joana D’Arc,
temos muito trabalho a fazer.
Winx acabou de falar e voltou a trabalhar em seus preparativos. Pierre
continuava cruzando os dedos em sinal de cruz como a espantar demônios.

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Aliha aproximou-se dele e disse:
− Vire um homem ou o transformo em um gnomo!
Prontamente, Pierre se recompôs, enquanto todas riam baixinho. An-
gelique se aproximou dele e passou as mãos pelo seu rosto, acalmando-o.

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− Tranquilize-se, Pierre. ainda sou Angelique, apenas descobri outras
partes de mim mesma. Nenhuma delas faria qualquer coisa para prejudicar
alguém. Confie em mim, tudo ficará bem. Prepare-se para que possamos
seguir nosso caminho!
− Eu não vou há lugar algum com vocês! Não sou louco para ir atrás
de bruxas!
Pierre falava isso e percebia que Angelique estava diferente. Ela estava
mais bonita, e seu semblante havia se tornado mais sereno. Havia um brilho
diferente no olhar dela.
− Pierre, se quiser, fique na Morada de Cristal. Na floresta, você po-
derá se perder, enquanto o rio e a mata mudam de curso, e há também os
animais selvagens. Nós todas iremos ao acampamento de Joana D’Arc −
avisou Sarah.
Pierre refletiu um pouco e viu que não teria condições de encontrar
o caminho até Paris sozinho, pensou na possibilidade de ficar, pelo menos
as bruxas não estariam na Morada de Cristal, o que o tranquilizava. Por fim,
respondeu:
− Eu ficarei aqui protegendo o lugar e partirei quando vocês retornarem.
− Quando eu voltar, Pierre, o levarei pelo caminho correto. Paris fica em
direção oposta ao acampamento de Joana, mas há um atalho desconhecido
por onde a coruja nos guiará − Anúbis lhe falou suavemente, e sua voz era
tão macia e amorosa que lembrava a de uma melodia.
Pierre consentiu.
Até o final do dia se prepararam para a viagem. Armazenaram pães,
frutas, água, mantas para a noite fria e guardaram consigo também alguns
cristais, quatro varinhas e dois athames. Havia sacos presos nas celas

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dos cavalos onde as bruxas colocaram infinidades de ervas que tinham
nas estantes e que haviam colhido durante a estação. Aliha decidiu le-
var consigo um pequeno caldeirão para preparar as ervas e os remédios.
Quando a noite chegou, elas montaram seus cavalos. Angelique galoparia

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em um cavalo branco com uma longa crina. Ele era tão alvo quanto as nu-
vens. Antes de partirem, as bruxas ensinaram a Angelique que era impor-
tante conversar com o animal sempre que precisasse dele, para lhe pedir
permissão e explicar por que é importante sua ajuda. Disseram a ela que
os animais sempre entendem os homens, embora os homens raramente os
entendam. Não existem seres superiores nem seres inferiores para Deus
ou Deusa, quem julga que os animais foram feitos para servir os homens é
o próprio homem, que em sua ignorância acredita que é o ser mais impor-
tante do Universo.
– Winx falou a Angelique:
− Homens e animais têm aqui neste mundo a oportunidade de coexis-
tirem, mas não é dado o direito a nenhum de nós escravizar o outro, ainda
mais se for um ser indefeso.
Apesar de não ser um costume, Angelique entendeu e conversou com
seu cavalo. A Natureza era vista pelas bruxas sem hierarquia. Tudo o que
existia era fruto da Deusa, independentemente de sua origem ou tamanho.
Para elas, a vida de uma formiga também era merecedora de todo o respeito.
Então, quando o último raio de sol se foi, elas estavam diante da cortina
de folhas, esperando que a passagem se abrisse. A escuridão veio rapidamen-
te e, com ela, a floresta despertou.
O primeiro cavalo a passar foi o de Aliha, ele era negro, selvagem e
robusto. Depois passou o de Anúbis, de pelo marrom-claro dourado, longa
crista e uma larga mancha branca, que ia do focinho até a testa, ela o acari-
ciava enquanto faziam a passagem. O cavalo de Sarah veio em seguida, sua
cor avermelhada contrastava com o amarelo de seu vestido, as patas robustas

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davam ao cavalo o passo vigoroso em cada passada. Angelique montada
em seu cavalo branco estava absorta em seus pensamentos, ela não sabia o
que faria, mas pressentia que era importante a viagem, preferiu seguir seu
impulso e deixar-se levar pela intuição. Atrás surgia Winx, com seu corcel

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negro. Ela enfeitara seu cavalo com uma pedra de ametista no meio da testa.
E assim que ela passou, a relva se recolheu.
Pierre sentia-se menos aflito agora que todas haviam partido e, aliviado,
permaneceu imóvel, até ter plena certeza de que elas não voltariam tão logo
adentrassem a floresta. Foi quando Pierre sentiu algo frio e úmido tocar-lhe
os tornozelos, ele já havia experimentado essa sensação. Nesse momento,
a grande porca branca fungou, assustando-o, ele gritou e saiu correndo em
direção à casa. A porca o acompanhava.
Procurando se esconder dela, para que não se aproximasse, Pierre
entrou e fechou a porta da casa com uma tranca de madeira. Então, disse
para si mesmo:
− Aqui você não entra!
Quando se virou, viu oito gnomos espalhados pela sala trabalhando nas
mais variadas tarefas domésticas. Eles regavam as flores dos vasos, varriam
o chão, recolhiam a louça, preparavam uma massa de pão e tiravam o pó
dos móveis. Pierre, imobilizado e assustado, não causou nenhum espanto
nos gnomos, que continuavam seu trabalho sem dar importância para ele.
Alguns o olharam, mas rapidamente se voltavam a suas atividades
Pierre, pé por pé, direcionou-se à porta, retirou a tranca cuidadosa-
mente e saiu da casa. Ao descer os degraus, viu a porca parada, como a
esperar por ele, fungando e roncando. Então, Pierre decidiu não mais ficar
naquela casa, correu o mais rápido que pôde, entrou no estábulo e encilhou
rapidamente o único cavalo que lá estava, um cavalo branco salpicado com
algumas manchas pretas, e saiu galopando em direção à passagem. A porca
branca o seguia.

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Ao chegar diante da cortina de folhas, a floresta se abriu para que ele
e seu cavalo passassem. A porca ficou. Do outro lado, via a Lua a iluminar o
caminho feito de pedras, ela havia tornado a noite demasiadamente clara.

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A galopes largos, ele cavalgou, percorrendo o caminho de pedras brancas
às margens do rio, no único sentido que parecia existir.
Após alguns minutos e ainda assustado, pôde ver os cinco cavalos ga-
lopando normalmente à sua frente. Então, acelerou e foi ao encontro deles.
Ao aproximar-se, foi notado pelas bruxas, que o olharam, como a esperar por
alguma resposta do que ele estava fazendo ali, então, Pierre falou:
− Pensei melhor e não é de bom-tom um cavaleiro deixar cinco bruxas
andarem pela floresta sem a proteção de um homem. Vim para protegê-las
− Aliha e Winx entreolharam-se, enquanto Sara e Anúbis riam. Angelique
lhe disse:
− Seja bem-vindo, nosso protetor!
E agora Pierre as seguia. A coruja sobrevoava o caminho, ela trazia
informações a Winx e lhe dizia por onde seria melhor seguirem.
A viagem durou uma noite e um dia, até chegarem ao acampamento
de Joana D’Arc. No trajeto, pararam apenas para descansarem, darem de
comer e beber aos cavalos e se alimentarem. Anúbis tinha consigo uma
botilha de água que havia pego do lago de cristal, tomou um vagaroso gole
e passou para os demais. Cada um bebia e logo se sentia revigorado. No
caminho, Angelique e Pierre viram as bruxas colherem algumas ervas, elas
as colocavam em sacos menores que eram colocados no saco maior junto da
cela de seus cavalos. Elas conversavam sobre as ervas. Sarah encontrou uma
de aspecto longo, cujos ramos atingiam o tamanho de um recém-nascido,
e havia neles flores brancas e delicadas.
− Ah! Erva de gato!
− Óh! – Maravilhadas, as outras exclamaram.
Winx encontrou um amontoado de extensos galhos que, ao ser movi-

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mentado pelo vento, deixou um forte odor no ar. Ela pegou as folhas desses
galhos e rodopiou com seu vestido, demonstrando estar muito alegre.
Obrigada, Mãe Natureza, obrigada! Irmãs, temos arruda, a Erva das
Bruxas!

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E todas ficaram muito contentes, como se houvessem encontrado pe-
dras preciosas. Colheram o que lhes era permitido, deixando algumas folhas
nos galhos para prover outros seres que daquela planta também precisassem.
Colocaram-na junto às outras ervas e prosseguiram viagem.
Foi ao final de um cansativo dia de viagem que eles avistaram ao ho-
rizonte fumaça em meio à floresta. A coruja sobrevoava o local em voos
circulares enquanto piava, indicando que lá seria o acampamento de Joana.
A visão de rastros deixados pelo caminho, como toras de madeiras cortadas
e fogueiras apagadas, dava-lhes esperança de terem encontrado o local em
pouco tempo.
Adentraram a floresta, pois o caminho das pedras acabava ali, junto ao
início de um pequeno penhasco rochoso. A coruja se aproximou, pousou
no braço de Winx e piou. Winx olhou para suas irmãs e disse que seria ne-
cessário dar a volta pela lateral do penhasco para chegar ao acampamento.
E assim fizeram.
Tiveram certa dificuldade em descer com os cavalos e demoraram
cerca de três horas para completar a descida. Ao se aproximarem, alguns
soldados os interceptaram, tirando as espadas da bainha e apontando-as
para eles. Um robusto homem, com quase dois metros de altura, vestido
com armadura, gritou:
− Que demônios os trazem até o acampamento?
− Viemos ajudar! Nós somos as Bruxas da Morada de Cristal! − res-
pondeu Winx.
O homem robusto guardou a espada na cintura e curvou-se a elas.
Envergonhado, disse:
− Óh, Diabos, sejam bem-vindas! Sou Larie, senhor de guerra de Joana
D’Arc, temos muitos doentes por aqui e precisamos da ajuda das senhoritas.
Alguns estão enfermos pela febre, outros feridos pela guerra. Joana voltará
em dois dias, impediu a invasão novamente de Paris, voltei para o acampa-

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mento com alguns dos prisioneiros de guerra, com os doentes e feridos. Por
todos os demônios do inferno, aos diabos esses ingleses!
Ele observou a presença de Pierre a encolher-se e perguntou:
− Este magricelo é quem?
− Nosso ajudante e protetor de viagem – respondeu Sarah.
Larie não entendeu muito bem porque as bruxas precisavam dele,
mas, como estava com elas, ele seria aceito no acampamento. Larie deveria
pesar o equivalente a meio boi e seu tamanho impressionava a todos. Ele
não parava de blasfemar e gesticular contra os ingleses, falando o quanto
eles estavam massacrando seu povo. Winx o interrompeu:
− Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance, agora nos leve até os
doentes para que possamos começar nosso trabalho.
Larie seguia em frente, anunciando a todos a chegada das bruxas, en-
quanto blasfemava a grande sorte:
− Pelos diabos! Soldados, vejam, as bruxas chegaram!
Elas o seguiam montadas em seus cavalos e percebiam, enquanto caval-
gavam em passadas lentas, alguma centena de pessoas precisando de seus
cuidados, de suas ervas e de sua energia. Alguns moribundos, deitados ao
chão, estendiam a mão, pedindo por auxílio imediato. Elas então desceram
dos cavalos e entregaram as rédeas para os soldados franceses, pedindo que
os alimentassem e providenciassem um local para o descanso dos animais.
Angelique se despediu de seu cavalo branco, assim como as outras bruxas,
agradecendo-os pela jornada. Pierre desceu de seu cavalo e pediu um local
para descansar. Winx virou-se para ele:
− Temos trabalho a fazer, Pierre, e você irá nos ajudar. Providencie entre

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os franceses uma mesa de apoio e peça que uma fogueira seja acesa próxima
de nós. Preciso de água quente e canecas para os chás. Consiga panos para
tratar as feridas e algumas pessoas para ajudar. Traga-nos também papel,
tinta e pena para a escrita.

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Pierre, mesmo contrariado, preferiu seguir as ordens de Winx. Ima-
ginou se encolhendo ou sendo consumido por uma refeição. Então, elas
pegaram os sacos contendo as ervas e puseram-se a organizá-los para melhor
atender a todos.
Pierre logo havia conseguido a mesa, e agora alguns soldados o ajuda-
vam com a fogueira. Também trouxera os panos para limpar as feridas e o
material para a escrita, que ele entregou para Winx.
− Isto não é para mim, Pierre, é para Angelique – disse ela.
− Para mim? − indagou Angelique, espantada. – O que vou fazer com
isso?
− Você vai escrever, contará ao mundo o que se passa nesta época,
contará o que você é capaz de ver com seus próprios olhos e revelará os
segredos da magia que está aprendendo. As Leis Universais da Magia lhe
serão reveladas, é sua missão dividir o conhecimento com o mundo.
.− Mas eu mal sei escrever e pouco entendo sobre magia! – Exclamou
Angelique.
− Você pensa que não, mas há dentro de você um conhecimento maior
do que imagina. Todos somos assim. Cumpra sua missão e aprenda com ela.
O real sentido de estarmos vivos é o de aprender, possibilite isso aos outros,
faça da sua passagem por este mundo algo verdadeiramente produtivo. Foi
para isso que você veio.
Pierre parecia inconformado, foi ele quem havia ensinado Angelique
a escrever, e agora ele teria de fazer o trabalho pesado. Será que as bruxas
não sabiam reconhecer uma importante peça no jogo?
Winx olhou para ele e disse:

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− No moinho sempre pensamos que a roda maior é a mais importante,
mas não podemos nos esquecer de que, sem a roda pequena auxiliando-a,
a grande nada poderia fazer com toda a água, por isso todos nós somos
importantes.

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Pierre sentiu a face enrubescer. Ele agora tinha certeza de que elas
podiam ler pensamentos. Pela primeira vez, ele se envergonhara de seus pen-
samentos. Ficou pensando no quanto as bruxas eram sábias. “Como teriam
aprendido tudo aquilo que sabiam, como era possível ler seus pensamentos?”
Sarah havia acabado de fazer uma poção pastosa com ervas e agora as
colocava sobre o abdome de um soldado ferido por uma espada, quando
parou para falar:
− A pessoa que mais pode nos ensinar somos nós mesmos. Observe as
crianças, elas são sábias, pergunte a uma criança o que ela veio fazer neste
mundo e ela lhe responderá rapidamente, saiba que ela sabe muito bem
qual é a sua missão. Depois crescemos e por algum motivo muitas coisas
são apagadas de nossa mente, mas o conhecimento em algum lugar con-
tinua dentro de nós, mas escondido. O que precisamos fazer é procurá-lo.
Não há ser alguém que não tenha em si a faísca Divina do Deus e da Deusa
pulsando em seu interior. Tudo o que Eles são, nós somos. Tudo o que Eles
podem, nós podemos. Tudo o que Eles sabem, nós todos também sabemos.
A diferença é o quanto você percebe isso e o quanto você permite se ouvir.
A maioria das pessoas passa a vida escutando os outros e não a si mesmas.
Angelique, ouvindo tudo aquilo, começou a escrever e relatou o que
havia aprendido com Sarah e Winx. Assim que terminou, escreveu sobre o
livre-arbítrio e os estranhos caminhos que o próprio Universo tomava para
dar a oportunidade de aprendizado a todos. Então, ela percebeu que ficou
fácil se expressar, encontrar as palavras certas para colocar no papel, e notou
sua escrita fluir. Ela aproveitou para relatar suas experiências pessoais: “Uma
das descobertas incríveis que fiz recentemente é que não devemos julgar,

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porque as reais razões dos caminhos da vida quase sempre são desconhecidas
por nós. Existe um plano maior, sábio, coerente e bondoso. O que se passa do
outro lado, ou o que se passou aqui um dia, só saberemos quando não mais
estivermos aqui. Julgar é uma das grandes tolices do mundo, porque toda vez
que julgamos alguém estamos na verdade fazendo uma comparação dessa

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pessoa conosco. Mas como compararmos algo conosco e fazermos de nós a
base certa a tudo que existe se só há um único nós no Universo todo? As ver-
dades não são únicas. A ignorância e o medo fazem com que nos fechemos
a novas experiências, no entanto, podem ser exatamente essas experiências
que evitamos que nos salvarão. Eu poderia nunca ter experimentado tudo
isso se não tivesse me permitido experimentar o desconhecido”.
Angelique também escreveu sobre sua experiência de perceber melhor
a si mesma, então, escreveu em breves linhas: “Somos o que pensamos que
somos, e o mundo em que viemos é da forma que acreditamos que ele seja”.
Nesse momento, pensou que era como se aquelas ideias não fossem
dela, era como se um texto todo pronto surgisse em sua mente.
Angelique pensou: “E se eu também for a roda menor de um moinho,
cuja roda maior precisa de mim para agir?”.

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CAPÍTULO XVI

O Tarô
Brasil, 2008

P érola estava aprendendo a meditar. Todos os dias, em algum mo-


mento do seu dia, ela tirava pelo menos meia hora para praticar.
Com o passar tempo, ela sentia que estava se tornando um hábito e que
sua mente e seu corpo necessitavam daquele momento. Além de ter ficado
mais calma, ela também via de forma mais clara o mundo a sua volta. Ela
pensava que as pessoas viviam em confusão, sem entender o que de verdade
faziam aqui e o que de verdade tudo isso significa. Um campo maravilhoso
de experiências espirituais.
O momento de meditar chegara, ela se deitou no tapete da sala, um
som de ondas do mar vindas do aparelho de som era ouvido no fundo. En-
tão, ela começou a respirar profundamente, acalmou seus pensamentos e
começou a visualizar uma praia, um lindo céu azul e um mar calmo diante
de si, viu-se tocar a areia, sentiu-a nos pés e aproximou-se das águas. Em um

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longo alcance, jogou-se naquilo que seria o mar, lúcido, límpido, profundo,
protetor, imenso... Sentiu-se parte daquele todo enquanto o todo fazia parte
dela. Nadou lentamente, experimentou a sensação das águas, sentiu-se livre,
percebeu tudo claro em torno de si, seguiu em direção ao fundo. Avistou toda
uma riqueza inexplorada, não dizimada, intocável, que surgia aos poucos

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diante de seus olhos. Deixou que sua mente a conduzisse. Viu peixes de
diversas cores, lindos, pequenos, alguns minúsculos, alguns imensos, nadou
em direção a eles e misturou-se àquilo que sentia, que nada mais era do que
ela mesma, fazendo parte do que tem a sua mesma origem. Percebeu que
eles não tinham medo dela e, assim como ela, eles também a reconheciam
como parte de um grande todo.
Em sua visualização, respirava dentro da água. Ela agora se sentia
submersa e teve a certeza de que tudo era mar à sua volta. Percebeu que a
água era a respiração mais insípida que já teve. Sentiu-a entrando e saindo
como o ar que se respira em um vasto campo. Os cabelos soltos dançavam
na corrente, o vestido misturava-se à leve correnteza marítima, e tudo vi-
rara uma coisa só. Notou que havia paz, que o silêncio era uma sincronia
harmônica do barulho da vida e sentiu-se ínfima, muito grande e muito
pequena diante de tudo. Parou e observou toda a grandeza e a riqueza do
que vivia no mais perfeito equilíbrio. Imagens surgiam à sua frente sem que
ela ordenasse previamente. Havia peixes por todos os lados. Teve o ímpeto
de conversar com eles, saudou-os em sua mente e percebeu que eles tam-
bém a saudavam. Algumas lulas passavam e, vez por outra, esbarravam em
seu vestido, entrelaçando-se em seus cabelos, para, então, continuarem
seu trajeto. A visitante nada mais era do que um ser que ali estava como se
sempre estivesse.
Sua mente agora a levava para o fundo do mar, para ver as estrelas e
sentir a areia sob seus pés. Nadou em direção ao fundo e percebeu que a luz
não diminuía, era tão clara quanto na superfície. Experimentou os dedos na
areia, sentiu o macio do que é singular. Uma areia branca fofa e sustentável.

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Viu uma imensa variedade de plantas e corais, por fim, avistou as estrelas do
mar, surpreendeu-se com as cores mais maravilhosas. Nunca um azul havia
sido tão azul nem o vermelho tão radiante ou cores tão alucinantes quanto
as que vira algum dia em terra, no seu televisor e nas canetinhas de hidrocor.

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Sentiu a imobilidade do momento. Nenhuma sensação em qualquer
instante da sua vida poderia ser comparada com aquela. Tudo em volta re-
cendia vida. Todos estavam vivos, ela nunca havia se sentido tão viva... sua
alma estava experimentando a vida...
Alguns peixes maiores estavam próximos, vez por outra tubarões passa-
vam por ela. Ela estendeu uma das mãos enquanto eles nadavam, acariciou
o dorso das grandes feras e tudo se manteve no mesmo estado...
Continuou seu caminho, nadando calmamente, em alguns momentos;
caminhando sob a areia, em outros. Apreciava cada nova visão que surgia
diante de seus olhos. Alguns seres eram desconhecidos, tinham formas
diferentes, e o que antes lhe parecia estranho agora tinha o sinônimo da
perfeição. Havia uma beleza inigualável. Parou para observar um desses
seres belos que se enterrava lentamente entre os minúsculos grãos brancos.
Aproximou seu corpo da areia para observar melhor.
Nesse momento, sentiu um tufão perto de si, como se um peixe grande
tivesse passado em grande velocidade. Levantou-se. Procurou por ele, não o
encontrou. Então, sentiu outro tufão, vindo do nada e do tudo, avistou o final
da cauda de um grande peixe. Então, passou por ela outro e depois outro
e outro. Então, percebeu que existiam dezenas deles, talvez mais velozes e
maiores, até que um a pegou pela cintura. Ela parecia leve e, quando olhou
para o peixe, avistou que metade dele era uma linda moça, ela estava sendo
levada por uma bela sereia.
Não teve medo, segurou em sua mão e, então, foi puxada para o inte-
rior da imensidão do mar, enquanto via outras centenas de sereias nadarem
todas na mesma direção. Elas eram doces, belas e amorosas.
Quando deu por si, foi deixada diante de um ser, um gigante. Ele estava

193
sentado e carregava em uma das mãos um grande tridente. Suas barbas eram
grandes, brancas, e estavam espalhadas pela água da mesma forma que seu
vestido, as pontas seguiam em várias direções. Ele gargalhava, com tamanha
força, que, apesar de estar dentro do mar, o eco ressoava por todos os lados.

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O Imperador dos Mares continuava a dar gargalhadas, ela se curvou
para ele, reconhecendo sua supremacia e sentiu extrema necessidade de
agradecer por tudo aquilo, pela grande existência, pelas profundezas des-
conhecidas e pela vida, pela magia das águas, pela riqueza dos oceanos e
a presença de tudo o que parecia ser divino, um pedaço de Deus.
Ele continuava a gargalhar. Nenhuma palavra foi pronunciada por
nenhum dos dois, mas eles estavam conectados e nada era preciso ser dito.
Ele a entendia. Ela reconhecia nele o gerador da vida.
As sereias voltaram, com seus colares de conchas, seus cabelos perfeitos
e olhares contemplativos. Eram milenares, mas pareciam jovens. O tempo
dentro dos mares não existia. Nada passava, tudo sempre existira, e o ontem
era também o hoje e o amanhã.
Ela se segurou em uma das caudas e foi arrastada com delicadeza
através de um turbilhão de água. Inexplicavelmente, todas se despediram
dela e, então, ela foi lançada para fora do mar, despertando logo depois.
Pérola se levantou do tapete e ficou sentada, ela sabia que o que havia
começado como uma simples meditação acabara como uma experiência
entre mundos, ficou imaginando qual era o mundo real e qual o irreal. Teve
vontade de viver do lado de lá, mas sabia que, se estava deste lado, algum
motivo existia, seja a necessidade de lidar com a matéria, seja a necessidade
de transpor os desafios, seja a missão a cumprir. Pensou na possibilidade de
irmos de um mundo ao outro conforme as passagens são feitas e evoluímos.
Concluiu que a Terra nada mais é do que apenas um lugar onde todos nós
estamos de passagem por um tempo, mas que de fato ninguém seria da-
qui. Viajantes seria a definição mais correta para todos os habitantes deste

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mundo. Então, resolveu se levantar e colocar no seu livro a experiência do
que acabara de viver e o que tinha aprendido sobre a vida naquela manhã
com o mar.
Ela estava terminando seu texto, quando o telefone tocou. Era Karem:
− Você não vem para o curso de tarô?

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Pérola lembrou-se de que havia se inscrito no curso de Iniciação ao Tarô
e que teria poucos minutos para chegar ao templo da lua. Pegou a chave do
carro e dirigiu até o local.
Quando chegou, Karem havia lhe guardado um lugar ao seu lado. Ela
se sentou, pegou seu caderno e começou a prestar atenção na explicação
de Rosana, que era a professora. Ela ensinava as alunas:
− O tarô é uma forma de autoconhecimento. É uma das maneiras que
temos para ler o que o nosso inconsciente nos diz. Quando nos conectamos
à intenção de colocar o tarô para receber as mensagens internas, estamos
emitindo uma energia e consequentemente enviando e recebendo sinais dessa
energia, ou seja, ter a intenção de colocar o tarô desencadeia o processo todo.
As cartas do tarô nos dizem o que nosso inconsciente permite que saibamos,
o que não nos é dado saber, o inconsciente, com toda a sua sabedoria, nos
fecha a porta para aquela informação. E essas energias que emanam de volta
a nós na intenção de colocar o tarô são formas de contato, assim como o
telefone, que faz a comunicação entre duas pessoas. Mas, no tarô, a ligação
é de nós para nós mesmos, do nosso inconsciente para nosso consciente. E
o tarólogo nada mais é do que o tradutor que conduz a informação. Qual-
quer pessoa pode fazer esse trabalho de autoconhecimento. Não é preciso
ser uma pessoa especial para se orientar através de um tarô. A pessoa pode
começar a prestar atenção em cada uma das cartas e traduzir o significado
que ela acha que aquela carta tem.
− Professora, mas e sobre as pessoas serem influenciadas espiritualmen-
te quando jogam o tarô? O que a senhora tem a dizer sobre isso? – Perguntou
uma das aprendizes que Pérola ainda não conhecia. Ela percebia que a cada

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dia mais e mais pessoas buscavam informações sobre o mundo ainda oculto.
− Pode acontecer de o tarólogo ter em sua consultas um mestre espiritual
o auxiliando. O que significa que o consulente conta com a canalização
de um ser espiritual, além da intuição e técnica do tarólogo, que auxilia a
consulta, inclusive o auxílio pode vir do próprio mentor da pessoa.

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As alunas prestavam atenção, algumas anotavam as explicações. Sobre
a mesa de Rosana, havia tarôs de diversas origens, que seriam explicados
na aula. Havia o tarô cigano, o medieval, o de Crowley, o de Marselha e o
Egípcio. Rosana continuava a ensinar:
− Mas toda a ação de interpretar as cartas é uma questão de treino. O
tarô é só mais um meio de comunicação entre tantos outros que existem.
Por exemplo, potinhos com mensagens não deixam de ser um meio pelo
qual nosso inconsciente fala conosco. O importante é que cada um precisa
estabelecer para si um meio de comunicação consigo mesmo. E, é claro,
não abusar dele, porque, como disse antes, nem tudo nos é dado saber e se
insistirmos demasiadamente em determinado assunto ou consultar persisten-
temente o tarô, então, as mensagens sairão confusas. Recorra ao tarô, ou ao
pote de mensagens, quando sentir que ele o chama. Não faça isso constante
nem repetidamente, pois não vai funcionar. Não se preocupe em entender
o que acabei de dizer, na hora em que o tarô os chamar, vocês saberão.
Karem levantou a mão e perguntou:
− E como o tarô funciona?
− Vou explicar, mas antes queria uma resposta. Alguém aqui sabe como
funciona a eletricidade?
Uma moça de óculos respondeu:
− Funciona através de um cabo condutor pela qual ela passa.
− Sim, isso já sabemos, mas a minha pergunta de uma maneira mais
específica é: De que forma a eletricidade acontece? Qual a lógica de seu
funcionamento?
Ninguém respondeu. Rosana continuou:

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− É a esse ponto que quero chegar. Não existe ainda uma explicação
científica para a eletricidade. Ninguém conseguiu explicar como ela funcio-
na, apenas sabemos que as coisas funcionam através dela. Nenhum cientista
desvendou o mistério da eletricidade. Se nós ligarmos um rádio na tomada,
ele emitirá as ondas que, por sua vez, propagarão o som. Mas ninguém sabe

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exatamente de que forma isso ocorre. Sabemos que a eletricidade é uma
forma de energia e através de uma fórmula podemos mensurá-la. Mas não
a explicamos.
Era verdade. Pérola se lembrou das aulas de Física. A fórmula de calcular
a quantidade de energia existe, mas não existe a explicação de como ela,
de fato, funciona. Rosana continuou:
− Como vocês sabem, estamos em um mar de energia. E não é porque
não a vemos que ela não existe. Tudo no Universo é energia. E energia se
propaga por ondas. E em dado momento essas ondas sofrem transforma-
ções. A ciência ainda não consegue explicar como, mas sabemos que essas
transformações ocorrem. Vejam só a própria voz. Ela é uma onda sonora, e
ninguém a vê, certo? Quando ela chega aos nossos ouvidos, é transformada
em uma onda eletromagnética. E ninguém explica isso.
Ninguém se mexia na aula. Pérola anotava tudo.
− O mesmo ocorre com o tarô. Há certa energia circundando os campos
que nos cercam. E, assim como as outras, também não a vemos, mas sabe-
mos que ela existe. Quando abrimos um baralho de tarô, colocamos ali uma
intenção. Começamos a emitir um sinal energético. Ler o tarô nada mais é
do que receptar esse sinal energético desprendido pela intenção. Você não
precisa saber de que maneira funciona o mecanismo para que ele funcione,
assim como o rádio.
− E como saber que a pessoa que lê para nós é capaz de captar essa
energia e traduzi-la corretamente para nós? Porque charlatões existem aos
montes por aí – disse Paola, uma moça que havia acabado de voltar de uma
viagem de meditação no Grand Canyon.

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− Você precisa saber com que intenção essa pessoa começou a ler o
tarô, se foi por um motivo financeiro ou pelo impulso de que esse era o ca-
minho dela, como uma missão de vida. E há também a intenção envolvida
de quem está fazendo a consulta, se ela é importante ou banal. O tarô não se
revela a pessoas com perguntas banais, ele se torna confuso em sua leitura.

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− Por que nem todas as tarólogas tiram o tarô para elas próprias? –
perguntou Andréa.
− Porque somos seres humanos, suscetíveis a emoções. E quando vemos
o tarô para nós mesmos podemos influenciar sua leitura com nossas energias
e analisar as cartas como gostaríamos que fossem vistas, inclusive podemos
tirar aquelas que gostaríamos. Portanto, para quem lê o tarô, é aconselhável
que só o leia para si quando sentir que o tarô o está chamando. Há ainda
aqueles que não conseguem ver para si porque em outra vida usaram mal
esse conhecimento.
− E quando acontece a pessoa consegue estabelecer as conexões, mas
o que ela previu não acontece? – perguntou Karem.
− Entendam algo bem importante. O tarô fala sobre os acontecimentos
do momento, observando o seu destino a partir do que ocorre com você
naquela circunstância. Mas seu futuro é mutável, porque estamos em cons-
tante atividade, e, é claro, temos o nosso livre-arbítrio. No campo áureo,
que é o campo de energia em torno de nós, mensagens energéticas estarão
impressas. Essas mensagens enviadas são do seu inconsciente. O tarô capta
exatamente essas mensagens. Elas se manifestam para quem está lendo para
você, transmitindo inicialmente a energia da forma como a pessoa que lê
interpreta as cartas.
− Rosana, você poderia descrever a sequência de uma jogada de tarô?
− Sim, seria da seguinte forma. O consulente, que é a pessoa que está
consultando as cartas, está concentrado em uma intenção, essa intenção abre
o inconsciente dele para que a mensagem seja revelada, essa mensagem é
impressa no campo áureo do consulente, que escolherá exatamente as car-

198
tas que transcrevem essa mensagem que ele precisa saber. Uma vez que o
inconsciente é o detentor de toda a sabedoria do Universo, ele já sabe onde
as cartas certas estarão disponibilizadas no tarô e, portanto, vai ao encontro
delas. E essas cartas estão de acordo com as regras que o tarólogo impôs
sobre o que elas representariam quando fossem tiradas por alguém. E o in-

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consciente do consulente capta essas regras do tarólogo no exato momento
em que ambos se conectam à mesma intenção, pois os dois campos áureos
estão interagindo um com o outro.
Tudo estava fazendo sentido para Pérola, inclusive as mensagens que
havia tirado no pote de mensagens do templo da lua. Rosana prosseguiu:
− A origem do tarô é um mistério, sabemos apenas que deriva do Orien-
te. Aliás, este é o ponto onde o Sol nasce, onde o conhecimento nasce, só
depois ele é passado para o Ocidente. Talvez o tarô tenha se originado no
Egito, China ou na Índia. Não se sabe ao certo, mas ele recebe influência
islâmica e da cabala judaica, que é a parte mística do Judaísmo. Os principais
disseminadores dessa arte foram os ciganos que, com suas constantes viagens
pelo mundo, levaram de um continente ao outro a prática. Durante muitos
séculos, essa arte foi esquecida, mas ressurgiu na Europa, no século XIV,
perdendo-se no tempo e ganhando maior notoriedade a partir do século XVI.
Foram feitas alterações ao longo do tempo, mas há cartas que são comuns
a todos os diversos tipos de tarô, independentemente da cultura em que se
originaram. Essas cartas são chamadas de Arcanos Maiores.
Algumas das alunas já tinham ouvido falar dessas cartas. Pérola, embora
não se lembrasse de nada, sentia que o tarô lhe era familiar.
− Os Arcanos Maiores são no total 22 cartas numeradas em sequência
e representam os motivos individuais, que vão desde a carta 0, O Louco,
aquele que inicia a jornada, passando pelas cartas Os Enamorados, A Roda
da Fortuna, A Temperança, A Morte, entre outras, até chegar à carta 21, O
Universo, na qual o ciclo é fechado. No decorrer dessa trajetória, teremos
em cada carta a descrição das diversas fases de nossa vida, a proteção,

199
nossa rebeldia na adolescência, nossos amores, enfrentamentos éticos, mo-
rais, nossas perdas, crises, desesperos, quedas e transformações, para, em
seguida, despertarmos com esperança renovada e seguirmos em direção à
vitória. Segue-se um círculo, em que tudo tem um início, um meio e um
fim. É como se o tarô descrevesse na sequência das cartas a vida como uma

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viagem, mas esse ciclo não é apenas cronológico, acontece várias vezes
durante uma vida. E, independentemente dos detalhes da vida que cada um
possa ter, todos nós atravessaremos essas fases, indistintamente. Os Arcanos
Maiores remetem ao enfoque principal do indivíduo.
Pérola, enquanto isso, pensava que no fundo todos os seres humanos
eram iguais:
− No tarô, há outra divisão, a dos Arcanos Menores. Vocês devem
conhecê-los das cartas do baralho comum, com as quais jogamos pô-
quer, por exemplo. São no total 56 cartas que se subdividem em quatro
naipes: copas, ouros, espadas e paus. Os Arcanos Menores nos darão as
nuances e nos auxiliarão a interpretar melhor o que os Arcanos Maiores
nos comunicam.
− Rosana – pergunta Karem. – Os Arcanos Maiores são mais importantes
do que os Arcanos Menores?
− Não. Todas as cartas fazem parte do tarô e nenhuma delas é mais
importante do que a outra. Uma maneira de você compreender melhor é
olhá-las como se fossem um lindo edifício. Ele pode impressionar pela sua
estrutura, mas não existiria se os tijolos não existissem. Todas as cartas são
necessárias para a criação de um sistema inteiro.
A mulher que havia retornado do Grand Canyon perguntou:
− Consultei tarólogas que usavam apenas os Arcanos Maiores, isso é
possível?
− Sim. Vai da preferência de cada taróloga, cada uma sabe a melhor
forma de interpretar o tarô que tem em mãos.
Rosana pediu tempo para um rápido intervalo e convidou as alunas a

200
observar os diversos tipos de tarô que ela deixou na mesa para elas aprecia-
rem. Algumas saíram em busca de chá e bolachas, outras se amontoaram
na mesa e olharam os tarôs. Algumas alunas abriram o Tarô de Marselha e
observaram suas figuras, comparando os seus desenhos com os desenhos
do Tarô das Bruxas e dos Ciganos.

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Karem estava vendo as cartas do Tarô das Bruxas, e Andréa estava com o
Tarô Medieval em suas mãos. As outras alunas dividiam suas atenções com os
demais tarôs espalhados pela mesa, somente um deles ainda não havia sido
aberto. Pérola pegou-o nas mãos, olhou a inscrição na caixa, estava escrito
Tarô de Crowley, então, tirou as cartas de dentro e passou a olhá-las. Achou-
as magníficas tão logo as viu. Aquele era o maior tarô da mesa, alguns tarôs
eram compostos apenas dos Arcanos Maiores. Ela vislumbrava os detalhes
de cada uma das 78 cartas, e cada uma delas parecia uma obra de arte.
Rosana aproximou-se dela e disse:
− Você gosta deste?
− Muito, ele parece diferente dos demais. E sua simbologia é linda! –
Pérola estava encantada com as cartas.
− Ele é diferente, sim, cada carta foi desenhada por uma artista plástica
chamada Lady Frieda Harris, ela era aprendiz de um dos maiores magos do
século XX, Aleister Crowley. Nesse tarô, ele juntou a Astrologia, a Numero-
logia, a Cabala e o Ocultismo. Uniram talento e conhecimento e, durante
cinco anos, aperfeiçoaram este tarô. Ele é repleto de simbologia e um dos
mais complexos.
− Estas cartas são bastante modernas. – Pérola comentou.
Havia algumas gravuras estilizadas e as cores eram marcantes. A rique-
za dos detalhes era bastante visível, e a impressão era a de que cada carta
poderia ser uma obra de arte e ser exposta em uma parede.
− Ambos os construtores deste tarô eram visionários – explicou Rosana.
– Vamos, embaralhe as cartas e tire uma delas. Vamos ver que mensagem
ela trará para sua caminhada. Deseje isso, eu irei traduzi-la para você. Este
é o meu tarô preferido.

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Então, Pérola fechou os olhos, embaralhou as cartas, pensou sobre o
livro que estava escrevendo e sobre seu futuro, pediu que seu subconsciente
lhe permitisse saber uma perspectiva, se assim fosse possível. Então, com a
mão esquerda, escolheu uma carta e entregou a Rosana. Esta virou a carta

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e a mostrou. Via-se na gravura central uma forma feminina, e cores de um
azul celestial irradiavam luz.
− Pérola, esta é a Carta da Estrela. Ela mostra a Deusa Nut, a Senhora
das Estrelas, responsável por toda a abóboda celeste. Ela está a iluminar a
sí própria e ilumina tudo o que está à sua volta. Ela trilha o caminho e, do
ponto de onde está, enxerga o Universo com clareza e serenidade, reco-
nhecendo em cada micropartícula do espaço a porção divina e iluminada
que liga todos a tudo. Ao alto, encontra-se a Estrela de Babalon, fonte de luz
espiritual e amor divino que é espalhado por todo o Universo. Ao centro,
está a Estrela Vênus, o símbolo da força do amor. A Estrela de David, na
fonte de luz da Senhora das Estrelas, diz que “as coisas são na terra assim
como elas são no céu”.
− Que linda a representação dela e seu significado. Esta carta me é ins-
piradora. – Pérola tomou aquela como a carta mais bela do tarô, segurou-a
das mãos de Rosana e ficou olhando todos os detalhes.
− Pérola, a simbologia dela quer lhe dizer para confiar no futuro e ter
esperança, pois existem boas perspectivas e, quando você se sentir sem
esperança, lembre-se desta carta, ela também significa orientação superior
e harmonia.
O intervalo havia terminado.
Pérola decidiu estudar o Tarô de Crowley. Rosana estava explicando
que era possível usar dois tarôs ao mesmo tempo, para orientação, como
se o segundo fosse utilizado como uma mensagem final. Então, ela se
lembrou do Oráculo das Deusas que havia em sua casa e decidiu unir os
dois, para ajudá-la a se comunicar consigo mesma e para fazer consultas
para quem lhe pedisse ajuda. Karem também decidiu estudar o Tarô de

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Crowley, mas, ao contrário, optou pelo Tarô das Bruxas. Já Andréa esco-
lheu o Tarô Medieval.
No final da primeira aula, elas conversavam:
− Tudo organizado para nosso ritual? – perguntou Pérola.

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− Sim. Depois de meses de preparação, não acredito que o grande dia
esteja chegando! – Exclamava Andréa enquanto sorria e colocava as duas
mãos sobre a face.
− Já falei com Clara e Priscila, está tudo certo também para elas – disse
Pérola.
− Só não sabemos ainda onde faremos o ritual. Karem, você sonhou
com algo?
− Não, tenho feito a oração antes de dormir pedindo esclarecimento,
mas ao acordar não me recordo de nada.
− Eu nem sequer tiver um sinal até o momento – disse Andréa preocupada.
Elas estavam pensativas. Pérola colocou as mãos em seu bolso detrás da
calça para repousá-las, e sentiu um pequeno papel entreos dedos, trouxe-o
para fora, pensando ser um papel de bala. Então, viu um pequeno papel
enrolado. Abriu-o. Havia algo escrito. Leu. Sua face se iluminou com um
sorriso e, então, ela disse:
− Acho que já sei onde faremos.
− Onde? – perguntou Andréa.
Pérola virou a frase para que elas também pudessem ler a mensagem
que tirou do pote do templo da lua em sua primeira visita
“As ondas naquela praia continuam esperando. Na hora certa, com
elas você se encontrará e tudo será luz.”
− Minha Deusa Ceridwen! – exclamou Andréa.
− O Universo sempre responde de uma forma ou de outra! – dizia
alegremente Pérola.

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− Agora é só decidir o ponto exato, mas já temos a referência do lugar
onde o ritual deve ser feito, será na praia – disse Karem.Todas estavam felizes.
Precisavam comunicar Clara e Priscila. Continuaram a conversar.
− Pena que a Clara não pôde fazer o curso conosco – falou Pérola.

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− Tudo tem sua hora, a Priscila, por exemplo, fez antes de nós a ini-
ciação ao tarô.
Elas saíram do curso e foram até a casa de Pérola continuar os estudos
juntas. Quando Rosana as viu saírem um tanto apressadas, teve a sensa-
ção de que algo aconteceria, porque, quando as bruxas se reúnem, algo
sempre acontece...

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CAPÍTULO XVII

O Acampamento
de Joana
França, 1429

A s bruxas continuavam seu trabalho de cura em todos os feridos e


doentes espalhados no acampamento. Eles permaneciam ali a céu
aberto, sob o sol, sob a chuva e a neblina da noite. A falta de abrigo, alimen-
tação adequada e medicamentos havia feito cerca de cem mortos entre os
mais de quatrocentos feridos durante os dias de guerra, e as bruxas para
muitos era a última esperança. Um homem bastante velho estava sentado
no chão entre os doentes. Estava enfermo, tinha se aliado ao exército de
Joana após perder o filho em combate contra os ingleses e de sua família ser
massacrada na invasão da cidade de Orléans. Só, e portando tumores pelo
corpo, o homem velho pedia por ajuda.

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− Qual é o seu nome? – perguntou Winx.
− Jean, Jean de Vigneuse, senhorita. Estou só neste mundo, todos já
se foram, se Deus me levasse, eu seria grato. Há tanta dor em meu corpo
que se elas não pararem apenas peço para morrer logo para não sofrer
mais.

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− Senhor Jean – disse Winx segurando sua mão. − Se ainda está aqui
é porque o seu dever ainda existe neste mundo, nada é por acaso, partirá
quando chegar o tempo que o senhor estipulou antes de nascer. Tenha
paciência, coragem, e oremos aos Deuses para que nos deem força nos
momentos difíceis. Muitas coisas fogem à nossa compreensão. Há porquês
que deste lado ficarão sem resposta, mas que no devido tempo ou depois
de nossa passagem nos serão esclarecidos.
− Senhorita, agradeço sua paciência e bondade com um velho mori-
bundo como eu, mas o que posso fazer para transformar meus piores dias
em dias melhores? Não tenho firmeza em minhas pernas, a fraqueza me
abateu, minha visão está turva e pelo meu corpo está se alastrando essa
terrível doença.
− Vou lhe ensinar uma magia para aliviar a dor. Confie em mim e faça
exatamente o que eu pedir. É um trabalho simples, porém de alta magia, e
o senhor terá de acreditar que o ajudará, é preciso que o senhor tenha fé.
Jean concordou.
− Deite-se com a barriga para cima e acompanhe minhas instruções,
senhor Jean.
Ele se deitou no chão, estendendo o corpo, os braços e as pernas sobre
uma coberta empoeirada que estava com ele havia dias, a fim de protegê-lo
do frio da noite, em seguida, fechou os olhos. Winx começou:
− Concentre-se apenas em seu interior e em minha voz, permaneça
focado em seus sentimentos, mantenha-se em silêncio e não pense em nada
além dessa meditação. Concentre-se em minhas palavras. O que faremos
agora será o que o senhor terá de fazer sempre que começar seu dia.

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Jean permanecia deitado, imobilizado.
− Vamos começar, senhor Jean. Sinta agora todo o corpo relaxado,
braços, pernas, joelhos, barriga e costas. Eles estão moles e é como se a terra
onde o senhor está deitado neste momento os absorvesse de tão relaxados
que estão. Sinta como se seu corpo estivesse derretendo e se misturasse ao

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solo. Relaxe também a cabeça, os olhos, a boca, língua – Winx falava bem
lentamente e com o tom de voz suave. – Agora, enquanto o senhor está
com os olhos fechados, imagine uma luz na cor violeta surgindo do céu e
entrando em seu corpo através de seus pés. Essa luz vai em direção à sua
cabeça, envolvendo-lhe por inteiro. Essa luz violeta gira em movimento
espiral no sentido anti-horário, como se seu corpo estivesse sendo envolvido
por um cone de luz que o circunda e ao mesmo tempo penetra em todo o
seu interior pela parte de dentro e de fora. Perceba que ela vai limpando
todas as impurezas do seu ser, vai limpando as impurezas espirituais, as
impurezas da mente e as impurezas do corpo. Neste momento, pense que
está sendo feita a transmutação, ou seja, a transformação do que é negativo
e ruim naquilo que é positivo e bom. E assim que chegar à sua cabeça, ima-
gine essa luz retornando para o céu, para o Universo, em direção ao cosmo,
em direção ao céu infinito.
Jean seguia as instruções de Winx e pouco a pouco foi percebendo sua
respiração mais lenta com o relaxamento.
E agora que o senhor terminou de usar a luz violeta, faremos a mesma
coisa, mas com a luz em espiral rosa. A luz violeta fez a limpeza. Então,
agora, vamos preencher todo o seu interior com a luz rosa, que é a luz do
amor universal. Imagine ela entrando pelos seus pés em espiral no sentido
anti-horário até chegar à sua cabeça, enquanto isso pense no amor no seu
sentido mais amplo, o amor pelas coisas belas da vida, pelos animais, pelas
pessoas que conhece, por Deus e por si próprio. E depois que o cone tiver
percorrido todo o caminho do seu corpo, perceba essa luz saindo da sua
cabeça e indo em direção ao céu. E assim que terminar com a luz rosa, faça

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a mesma coisa, porém usando a luz branca. Ela será usada para sua proteção,
para que forças externas que não sejam positivas não consigam atacá-lo e
enfraquecê-lo. Ela funcionará como uma armadura de proteção. Todos os
guerreiros precisam de uma, e esta é a sua. E quando sentir que terminou,

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agradeça ao grande Pai e à grande Mãe do Universo pela oportunidade que
lhe foi dada.
O senhor ainda permanecia deitado, com os olhos fechados. Winx teve
a impressão de que ele adormecera. Angelique anotava todas as instruções
de Winx ao homem. Winx então se aproximou dele, para averiguar se não
havia morrido. Ele respirava tão profundamente que mal podia se notar.
Então, ele murmurou:
− Sinto uma bela e profunda sensação de paz. Há muitos anos não me
sentia assim, talvez eu tenha sentido isso quando ainda era uma criança.
Sinto-me livre e sem o peso desta triste vida.
Angelique afastou-se e voltou para as suas anotações. Percebeu Anú-
bis separando uma planta que continha flores e folhas e perguntou a ela
o que era:
− Picão preto, lavarei bem esta erva e depois a espremerei sobre a fe-
rida dos soldados, pingará gotas com uma seiva escura que, rapidamente,
irá cicatrizá-las. Usarei nas feridas de guerra e também nos calos que se
formaram nos pés dos soldados por causa das armaduras.
E assim Anúbis foi fazendo, e, tão logo terminava de aplicar a erva,
empunhava suas mãos sobre a ferida e orava, agradecendo em voz alta:
− Obrigada, porque assim sabemos que você se encontra curado.
Shatassá!
Pierre continuava ajudando, apesar do cansaço, buscando qualquer
coisa que as bruxas lhe pedissem − água quente, canecas, vasos −, e também
cuidava do fogo, servia chás aos doentes, posicionava-os para que as bruxas
melhor pudessem fazer seu trabalho de cura. E uma incrível vontade de ser

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útil se apossou dele. Pierre sentia-se um gigante e de bem consigo mesmo.
Ao final do dia, quase todos os homens haviam sido atendidos, e não
ocorreu mais nenhuma morte desde que elas chegaram ao acampamento.
À noite, Pierre serviu as doses de chá indicadas por elas a alguns do-
entes. Angelique o ajudava entre suas escritas e seus aprendizados de como

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preparar as poções. Ela havia feito uma massa de ervas amassadas para os
locais de muita dor, e Winx também lhe explicara como usar alguns dos
cristais.
− Esta pedra se chama ametista. Ela tem a qualidade da transmutação e é
uma pedra poderosa, pois alivia o mal, quebra a magia negra e os feitiços. É a
pedra do nascimento, traz calma ao espírito e é muito usada na bruxaria para
o bem. Ela nos protege do mundo sem luz e, quando brilha menos, indica
o mal por perto. Veja, há alguns soldados que estão bem no acampamento
e que usam uma pedra de ametista em suas espadas e armadura, ajudando-
-lhes a se proteger do inimigo.
− E por que você a utiliza em alguns locais no corpo dos doentes? –
perguntou Angelique.
− Coloco sobre os chacras que estão doentes, para ajudar a equilibrá-los
e funcionar bem.
− Mas o que são chacras?
− São centros de força que existem nos corpos espirituais das pessoas,
Angelique. Não temos só este corpo que podemos tocar, temos o corpo es-
piritual, no qual podemos sentir o que nos circunda. E, assim como o corpo
espiritual, os chacras também não são vistos, mas se assemelham a rodas
que giram trocando a energia entre a pessoa e o mundo. Algumas pessoas
com o dom da vidência conseguem vê-los. Quando estamos doentes, essas
rodas não giram muito bem e trocam energia de forma desequilibrada. Há
vezes, inclusive, que os chacras não trocam energia alguma com o mundo
ou então jorram toda a sua energia para fora do corpo, deixando a pessoa
mais doente e com suas forças exauridas.

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− Mas as pessoas ficam doentes porque seus chacras ficaram doentes
ou seus chacras ficaram doentes porque a pessoa adoeceu?
− Pode ser uma coisa ou a outra. Na verdade, uma desencadeia a outra.
E uma pessoa aparentemente saudável pode estar espiritualmente doente,
então, nenhum médico consegue curar ou descobrir por que ela se sente

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deprimida, triste, enfraquecida e sem vontade de viver. A reposta é o seu
chacra em mau funcionamento.
− E o que a pessoa tem de fazer? – perguntou Angelique.
− Reequilibrar novamente seus chacras, através de meditação e
energização.
Angelique gostava de aprender com Winx, que, vez por outra, falava
algumas palavras um pouco complicadas, mas mesmo assim ela conseguia
entender do que Winx estava falando. A verdade é que aos poucos ela foi
percebendo que tudo aquilo não era novidade para ela, era como se apenas
recordasse algo esquecido havia muito tempo.

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CAPÍTULO XVIII

O Grande Ritual
Brasil, 2008

E las estavam subindo as pedras, carregando em uma mão suas vassou-


ras e na outra um saco, que continha o objeto que cada uma delas
usaria no ritual.
Pérola levava seu caldeirão de ferro negro, estava pesado para seu pe-
queno corpo, mas era carregado com satisfação. A grande noite havia che-
gado, a vida delas não seria mais a mesma depois que o dia amanhecesse.
Elas subiam as pedras uma atrás da outra, com Andréa à frente para abrir o
caminho por onde deveriam passar.
Elas haviam escolhido uma praia próximo de onde moravam, em
um morro onde o mar se encontrava com as pedras. Ao fundo, viam-
se a vasta mata e as copas altas das árvores. A subida era íngreme e,
algumas vezes, escorregadia por causa da água que vinha das pedras,
oriunda de alguma fonte natural. Apesar do acesso um pouco dificultoso,

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elas assim preferiam, pois estariam sozinhas à noite. Além do lugar ser
de uma beleza indescritível e de conter toda uma diversidade natural,
que ia da água doce do rio próximo à água salgada do mar. Da areia da
praia à terra vermelha da floresta próxima. Das pedras às flores. E as-
sim os elementais seres da Natureza ali com elas estariam, os gnomos,

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as fadas, as ondinas, os silfos, as salamandras e diversos outros seres espi-
rituais deste mundo.
Pérola usava um vestido branco que ia até os pés, enquanto Karem
vestia-se com a cor lilás. Priscila usava um vestido transpassado rosa e
Clara , um vestido amarelo, o mesmo que usava em praticamente todos os
rituais. A negra vestimenta de Andréa confundia-se com a noite enquanto
ela avançava à frente de todas.
Clara foi pedindo licença à Natureza em nome de todas, em voz alta:
− Pedimos permissão, seres divinos, para que aqui estejamos com
vocês. Saudamos a Mãe Natureza e pedimos licença a todos nossos irmãos
físicos e espirituais, habitantes deste lugar. Que Deus e Deusa abençoem a
todos com sua luz.
Quando chegaram ao topo do morro, delimitaram o espaço que usa-
riam, e deixaram suas vassouras e sacos. Então, aproximaram-se das pedras
junto ao mar e contemplaram por longos minutos aquela infinita beleza
que viam ao redor. A negra noite estava sendo iluminada pela Lua cheia,
que agora surgia resplandecente por detrás das nuvens, enquanto o luar se
misturava ao cheiro de mata que chegava com a brisa. O reflexo prata da
Lua derretia-se no mar, e elas não puderam deixar de exclamar e de mais
uma vez se encantar com as belezas de Gaia.
Priscila pegou a mão de Clara e a segurou, sua outra mão pegou a de
Karem, que pegou a mão de Pérola e Andréa. Elas formavam uma corrente
aberta e se postavam diante do mar que banhava as rochas do morro.
Era perto das oito horas da noite, era dia 8/8 de 2008. Aguardaram mais
um minuto e então iniciaram o ritual. Karem começou:
− Saudamos Lunara, a Deusa do Mar, e saudamos Netuno, o Deus

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do Mar. Saudamos a força de Gaia e os quatro elementos aqui presentes.
Saudamos todas as entidades de Luz que estão aqui conosco e saudamos o
Deus e a Deusa por tudo o que existe.
Priscila ergueu a mão esquerda e falou:
− Representando o fogo, saúdo as Salamandras.

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Clara ergueu a mão esquerda e falou:
− Representando o ar, saúdo os Silfos.
Andréa ergueu a mão esquerda e falou:
− Representando a terra, saúdo os Gnomos.
Pérola levantou sua mão esquerda e falou:
− Representando a água, saúdo as Ondinas e as Sereias.
Karem pediu que todas dessem as mãos e disse:
− Representando o espírito, peço pela presença de nossos mentores e
de nossos anjos de guarda nesta noite e por toda esta vida para que nos pro-
tejam. Invoco a presença da Grande Mãe, a Deusa Ceridwen, e a presença
do Arcanjo Miguel, que com sua espada nos proteja de qualquer força que
não seja a da Luz, e que estejamos protegidas dentro do círculo sagrado
que faremos.
Todas juntas fizeram a invocação por três vezes:
− Nós invocamos a Deusa Ceridwen! Nós invocamos a Deusa Ceridwen!
Nós invocamos a Deusa Ceridwen! Nós invocamos o Arcanjo Miguel! Nós
invocamos o Arcanjo Miguel! Nós invocamos o Arcanjo Miguel!
− Que a Divina proteção se estabeleça! – disse Clara, apanhando um
grande punhado de sal grosso de um pote de barro e jogando-o ao redor de
todas, que formou um filete no chão, fechando o círculo consigo dentro.
Elas passaram a dançar circularmente e a cantar segurando suas vas-
souras, invocando as forças da Natureza e celebrando o início do ritual.
Enquanto isso, algumas acendiam incensos e purificavam umas às outras,
circundando os principais chacras para harmonizá-los e abrir o chacra do
terceiro olho, que as ajudaria na conexão com a outra dimensão.
Pérola acendeu velas brancas em torno do grande círculo, e uma enorme

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estrela foi desenhada com pétalas de rosas de diversas cores no chão. Cada
uma ocupou uma das pontas da estrela. Ao centro, foi posto o caldeirão ne-
gro, e as ervas passaram a ser jogadas no seu interior, enquanto eram feitas
as invocações. Cada uma colocava seu punhado de erva e impunha bons
fluidos junto ao caldeirão. O fogo foi acendido, e as mãos se uniram em cima

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dele enquanto emanavam suas energias. Tudo ficou bastante inebriante, e o
mundo ao redor delas começou a mudar de forma.
Pérola segurou sua varinha mágica, a ponta de cristal brilhou junto à
luz da Lua, e a elevou ao alto. Então, dirigiu suas palavras ao mar:
− Lunara, Grande Mãe das Águas, que nos envolve com tuas claras on-
das a proteger-nos, purifica-nos nesta noite, Mãe, purifica-nos, que as ondas
do mar possam vir e lavar nossa alma e nossa vida, que tudo aquilo que não
nos serve mais seja levado embora para o fundo de seu mar, permita-nos,
Mãe, receber a cura do espírito e brinda-nos com todas as suas rosas, Mãe
Lunara.
Pérola mexia a ponta da varinha em movimentos circulares que iam
do mar e envolviam o círculo onde estavam. As águas do mar se tornaram
imediatamente revoltosas, cresceram as ondas em seu tamanho, e seu bater
nas pedras fez com que o mar respingasse como chuva em cima delas. O
fogo não fora apagado e o sinal de que Ela estava junto delas havia sido dado.
Embora não conseguissem ver, um imenso globo de luz azul as envolvia,
como uma cápsula protetora, e acima dele havia um anjo azul com uma
espada e um escudo as protegendo.
Pérola saudou também Netuno e as sereias e agradeceu em nome de
todas a Senhora das Águas, então, ela se sentou e Karem, direcionando o
seu athame ao céu, se levantou. As nuvens haviam se dissipado e a noite
era percebida com todas as suas estrelas, algumas delas passaram a brilhar
mais fortemente, vendo-as ela começou a falar:
− Que esta noite seja um recomeço em nossa vida. Que a Luz magnâ-

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nima de Orium e dos Seres Divinos de Antares esteja neste momento nos
fortalecendo, para que possamos cumprir nossa missão. Que os dons a nós
concedidos nesta vida sejam despertados e usados com sabedoria para o bem
de todos. Auxiliem-nos em nossa missão e que a Energia de Orion emanada
nesta noite para este planeta esteja presente em nossa vida e possa nos dar

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forças no caminho a seguir. Que a mão dos espíritos superiores nos guiem e
nos auxiliem em nossa caminhada, que possamos perceber os sinais e que
nossos caminhos se tornem claros para nós, assim como é a luz das estrelas.
Então, Clara levantou-se e retirou de seu cinto uma pedra de cristal,
direcionando-a para a estrela que, naquele momento, se tornou a mais
brilhante no céu. Proferiu em voz alta as palavras sagradas de abertura do
Portal de Orion, que Karem havia lhe passado conforme seu sonho, e todas
se sentiram aquecidas e envoltas por uma energia que não conseguiam
descrever. Encoberta sobre a invisibilidade, a luz refletida sobre o cristal,
direcionava-se em conjunto ao terceiro olho de cada uma delas.
Andréa se levantou, estendeu suas duas mãos ao alto e falou:
− Grande Mãe, Deusa Ceridwen, receba-nos no seu caldeirão nesta
noite e transforme-nos em seres melhores, permita-nos, Grande Mãe, receber
a oportunidade de renascermos nesta noite de hoje e guia-nos nesta nossa
existência pelos caminhos certos da magia, que possamos, no trilhar da
vida, aperfeiçoar-nos, iluminar e transmutar para melhor não apenas nós,
mas todos aqueles que nos cercam.
Numa dimensão paralela, junto delas, uma grande bruxa com cabelos
esvoaçantes transformava o morro de pedras em um gigante caldeirão negro,
e enquanto gargalhava mexia o caldeirão, misturava, triturava, fundia e trans-
formava, devolvendo ao mesmo lugar as cinco filhas. Uma enorme chuva de
borboletas saía de dentro do caldeirão e agora voava em torno delas.
Priscila esfregou suas mãos, sentiu-as calorosas ao menor toque e as
impôs sobre o caldeirão, dizendo:
− Que minhas mãos possam inundar de amor a vida de todos aqueles
que procurarem por minha ajuda e de todos aqueles que necessitarem.

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Andréa, impondo as mãos no caldeirão, disse:
− Que minhas mãos sejam capazes de trabalhar pelo bem desta huma-
nidade e de todos aqueles que buscarem por minha ajuda.
Clara impôs as mãos no caldeirão e disse:

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− Que minhas mãos sejam capazes de transformar em abundância a
vida de todos à minha volta e de todos aqueles que precisarem.
Karem esfregou suas mãos e as impôs diante do caldeirão dizendo:
− Que minhas mãos possam curar a todos aqueles que precisarem de
minha ajuda e que a mim vierem.
Por fim, Pérola falou, impondo suas mãos no caldeirão:
− Que pelas palavras escritas por minhas mãos eu possa levar o alimento
para o espírito a todos aqueles que necessitarem e buscarem por minha ajuda.
Um estrondoso trovão fora ouvido nos céus, sem que houvesse nuvens,
e todas elas começaram a cantar novamente suas canções celtas. Toda a ma-
gia derramada sobre aquela noite penetrava nelas como estrelas brilhantes
a cair do céu.
O ritual seguiu noite adentro, elas haviam perdido a noção do tempo
e, quando tudo terminou, estenderam-se felizes sobre as pedras para dormir,
sabiam que aquele ritual mudaria a vida de todas elas. Acordaram somen-
te aos primeiros raios de Sol do outro dia e sorriram umas para as outras.
Sentiam que haviam feito a coisa certa e uma imensa paz e tranquilidade
lhes tomou conta.
Agradeceram aos seres da Água, da Terra, do Fogo e do Ar, agradeceram
a seus mentores e a todos os seres que ali com elas estiveram. Recolheram
seus pertences e decidiram que era hora de partir.
Se pudessem, veriam um anjo azul ainda a olhar para elas e uma bruxa
a observá-las. Assim que desceram o morro de pedras, despediram-se dos
habitantes do lugar e agradeceram ao Arcanjo Miguel e à Deusa Ceridwen
por terem estado com elas ali. Quando partiram, o anjo voou em direção

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ao céu e a bruxa deu uma última grande gargalhada antes de desaparecer
em meio ao nada.

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CAPÍTULO XIX

A Batalha
França, 1429

O dia novamente amanhecera lindo, e indicava que um sol radiante


despontaria nas próximas horas. Pierre havia despertado depois
de uma noite de muito atendimento medicinal e averiguações, os outros
ajudantes estavam seguindo as orientações passadas pelas bruxas.
Ele abriu os olhos e a primeira coisa que viu foram as bruxas trabalhan-
do. Ele não entendia de onde vinha tanta energia. Pelos seus cálculos, elas
deviam ter descansado cerca de três horas no máximo.
Angelique foi com elas para a floresta ao nascer do sol. Todas abra-
çaram árvores antigas e majestosas, depois, colocaram seus pés sobre as
raízes dessas árvores, orando e pedindo para que aquela sábia irmã, que
atravessara os tempos sobre a terra, as energizassem, pois precisavam dessa
importante ajuda para poder auxiliar os outros irmãos. Depois, reuniram-
se as cinco bruxas em torno de um grande carvalho, deram-se as mãos em

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volta da árvore e pediram ajuda e força da Mãe Natureza, para seguirem
sua missão no mundo. A coruja, que antes voava no céu, agora pousara
em um dos galhos do carvalho, observando as bruxas e sua energização.
Angelique estava aprendendo o que era a magia das bruxas, temida pela

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maioria das pessoas, e, quando retornou ao acampamento, escreveu em suas
folhas que a bruxaria nada mais é do que uma profunda comunhão com
Deus através da Natureza, e que a feitiçaria era na verdade o conhecimento
além das coisas palpáveis.
Repentinamente, um som que fez a terra estremecer surgiu no acam-
pamento, e o barulho aumentava gradativamente. No horizonte, por trás da
colina, via-se poeira sendo levantada. Era a cavalaria de Joana D’Arc que estava
chegando ao acampamento. Os soldados gritavam dando as boas-vindas, e
a alegria tomava conta de todos. Empunhando um estandarte e cavalgando
em um cavalo branco, surgia Joana, a Virgem de Domrémy, conduzindo o
exército. Com ela, vinham outros feridos, que foram trazidos por soldados,
os prisioneiros de guerra e alguns mortos mais atrás, puxados por carroças,
para que fossem devidamente enterrados. Havia junto dela uma procissão de
cerca de dez padres, que estavam próximos aos campos de batalha, mantendo-
se afastados da luta, eles faziam a confissão dos soldados e de Joana antes do
confronto, orando por e com todos pela vitória no combate.
As bruxas podiam visualizar a fisionomia de Joana D’Arc se apro-
ximando, e todos pararam para olhá-la. Uma jovem de cabelos curtos e
com delicados olhos castanhos, e que se vestia como um homem, surgia
imponente.
Angelique perguntou:
− Por que ela cortou o cabelo e agora tem a aparência de um homem?
− Foi a maneira que ela encontrou para poder lutar e ser respeitada
pelos homens de seu exército. Vestida assim, ela também evita ser molestada
por algum soldado.

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Joana entrou no acampamento seguida por seus generais e conselheiros
de guerra. As bruxas se postaram de pé e, quando Joana se aproximou, elas
levantaram as mãos em cumprimento e disseram:
− Shatassá!

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Joana inclinou a cabeça em cumprimento e lhes sorriu discretamente.
Depois seguiu em frente com seus soldados. Somente as pessoas com o dom
da clarividência podiam ver que, acima de Joana, um anjo azul, segurando
uma espada e um escudo voava, acompanhando-a.
Angelique teve a impressão de ter visto algo como um anjo, mas pen-
sou que estava enganada, fechou seus olhos, imaginando ser o excesso de
claridade ou olhos cansados. Pensou estar ficando extremamente exaurida
dos trabalhos físicos e por isso estava a ver coisas.
Os padres, mais atrás de Joana, ao perceberem a presença das bruxas,
pegaram os crucifixos e puseram-se a orar em voz alta, como se combatessem
as força do mal. Alguns mostravam a elas uma cruz carregando um homem
pregado. Aliha falou:
− Veja o que fizeram com o mestre... E por que gostam tanto de mostrar
o grande mago na sua pior imagem, quando há tantas outras formas lindas
de lembrá-lo?
Angelique escreveu suas observações e as observações de suas irmãs
quanto à postura da Igreja Católica em relação a Jesus Cristo. As folhas
cresciam em números rapidamente. Nos últimos dias, aprendeu mais do
que em sua vida inteira. Angelique perguntou a Winx:
− O que exatamente viemos fazer aqui neste acampamento?
− Exatamente o que estamos fazendo.
− E vocês não pretendem ajudar Joana D’Arc com alguma orientação?
− Não é necessário, ela já é instruída pelo Grande Arcanjo Miguel, seu
mentor nesta vida. Apenas esperamos que ela continue ligada a ele.
− Ouvi dizer que ela é louca e que ouve vozes. Os ingleses dizem que

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ela é bruxa.
− Angelique, Joana não é louca, ela é médium, ou seja, ela consegue
ouvir sons de outros mundos que outras pessoas não conseguem. Inclusive,
há médiuns, por exemplo, que veem em invés de ouvir, mas nem sempre

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acreditam que estão vendo. A missão que Joana assumiu antes de nascer
foi a de libertar um povo, por motivos que ainda não sabemos por que ela
escolheu. E se ela é uma bruxa, qual é o problema? Por acaso existe algum
problema com você?
Angelique fez sinal negativo com a cabeça e retomou sua escrita. Pierre
observava as pessoas acenando e esperando Joana passar para cumprimentá-
las, muitas estendiam as mãos a fim de tocá-la. Pensavam que ela era sagrada
e portadora do dom de curar e abençoar quem lhe tocasse. Joana para os
franceses era uma Santa, mas de carne e osso.
De repente, Pierre viu o senhor com tumores pelo corpo deixando o
local dos doentes, ele parecia um pouco mais forte e agora caminhava até
o acampamento atrás de Joana. Pierre se perguntou o que teria feito aquele
homem se recuperar tão depressa.
Os soldados, recém-macerados pelo combate, eram estendidos ao chão,
na ala dos feridos. Havia dezenas deles que precisavam de atendimentos
imediatos. Um dos padres, acertado no peito pela flecha de um arqueiro
inglês, estava agonizando entre eles.
As bruxas rapidamente o cercaram, Angelique estava com elas, juntas
uniram as mãos através das palmas encostadas umas às outras formando
um círculo. Winx invocava as forças do universo dizendo:
− Grande Deus e Grande Deusa, peço à divina luz de cor verde que
sobre este homem recaia as graças do Universo, imantando-o da luz da cura.
Irmãos Devas, seres curadores das florestas, tragam suas ervas e venham em
nosso socorro, e que o corpo deste homem se reconstitua segundo a vontade
do Senhor e da Senhora.

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Todas se curvaram sobre o homem e impuseram suas mãos sobre o
local do ferimento. Em outra dimensão, via-se um feixe de luz verde que
surgia das matas e envolvia as bruxas e o padre ferido, enquanto seres verdes
de grande estatura e que pareciam ter uma forma fluida não bem defini-
da saíam das profundezas da floresta e traziam em suas mãos a essência

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das plantas. Eles despejavam sobre o ferimento do padre um pó. O padre
imediatamente adormeceu e Winx segurou a flecha com uma das mãos e
cuidadosamente a retirou do corpo do padre ferido. Alguns soldados gri-
tavam para que não fizesse isso pois assim morreria, mas foram acalmados
e segurados pelos companheiros, que lhes diziam que as bruxas sabiam o
que estava fazendo.
Winx estancou com sua mão esquerda o ferimento que sangrava e com
a palma da sua mão direita estendida em direção ao céu captou as forças do
Universo. Sentiu um forte calor, era como se uma energia intensa passasse
através de seu corpo e se direcionasse ao padre ferido.
Um dos padres seguidores de Joana veio correndo na direção das bruxas
empunhando um crucifixo nas mãos dizendo:
− Parem, filhas das trevas, Deus não aceita sua religião!
Angelique, sem tirar as mãos da posição que energizava o padre ferido,
respondeu:
− Senhor Padre, Deus não tem religião!
O padre foi impedido por outros soldados de atacá-las e obrigado a se
retirar da ala dos feridos. Havia um grupo de soldados que não aceitava a
presença das bruxas, mas, como elas tinham recebido a permissão de Joana
para estarem ali, nada faziam.
Assim elas permaneceram por alguns minutos, abençoando e menta-
lizando a cura para o padre. Aliha separou-se do círculo, fez um preparado
de ervas com mel e alcançou Winx, que retirou sua mão do ferimento e pôs
a pasta preparada por Aliha sobre o sangramento, que naquele momento
havia cessado. O padre dormia profundamente, e uma pedra de Cristal

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Verde foi posta próxima à sua cabeça. Outra pedra de cor lilás e de menor
tamanho foi posicionada um pouco abaixo de seu abdômen, e uma receita
de chá de malva cheirosa havia sido repassada a Pierre, para que desse con-
tinuamente ao padre.

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− Ele deve tomar três canecas desse chá ao dia, por sete dias, até que
seu ferimento esteja cicatrizado. O chá irá ajudá-lo a se recuperar mais
rápido.
As bruxas oraram em agradecimento pela cura dos irmãos da mata e
retomaram o trabalho com os outros feridos. Angelique não havia recebido
instruções de como aplicar a energia, mas automaticamente se dirigiu a suas
irmãs. Depois perguntou a Winx:
− Como consegui fazer aquilo? Outras pessoas podem fazer o mesmo?
− Sim, tudo é feito conforme a intenção do coração de quem faz. Se
estende sua mão e deseja a cura de alguém, assim será. Da mesma forma,
pode estender a sua mão e desejar o mal de alguém. Tudo está contido no
que deseja, portanto, policie suas intenções. Você é responsável por elas.
As intenções abrem os portais. A intenção e a fé, somada ao conhecimento,
são a base da magia.
Os dias transcorriam entre os trabalhos de colheitas de ervas na floresta
e a cura e o restabelecimento dos doentes. Pierre olhava para Angelique
com outros olhos, uma admiração por ela começou a crescer. Ele a via tão
dedicada ao trabalho, ora auxiliando no tratamento dos doentes, ora es-
crevendo suas anotações. Ele agora pensava que ela parecia uma escritora.
Angelique notava, vez por outra, quando o olhava discretamente, que ele
sempre a observava. E ela, por sua vez, também o olhava, quando ele estava
junto dos enfermos, e achava uma atitude muito bonita da parte dele. Uma
admiração por Pierre também estava surgindo.
Angelique aprendia mais com o passar dos dias, e suas folhas agora
continham um grande conhecimento sobre a magia universal. Winx e as

222
bruxas lhe falavam sobre as leis que regiam o Universo e sobre os seres de
outros mundos e as estrelas que vinham em auxílio dos que pediam ajuda.
Elas lhe passavam também algumas informações sobre Astrologia e o quanto
somos influenciados por tudo o que nos cerca, inclusive do céu. Falaram
sobre a existência de outros mundos e sobre os oráculos. Angelique pensou

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em reunir todos o seu aprendizado em forma de um livro para poder passar
adiante o conhecimento a outras pessoas. Seu coração alegrava-se toda vez
que pensava no quanto se sentia livre depois que os ensinamentos da magia
chegaram a ela. Não havia mais culpa, a vida passou a fazer sentido para ela
e surgiram algumas explicações para acontecimentos até então não enten-
didos. Aos poucos, tudo se tornava claro, e Angelique queria partilhar isso
com as outras pessoas, além de continuar aprendendo. Quando não estava
auxiliando nos trabalhos de cura, estava escrevendo linhas e linhas sobre
como aquele mundo oculto estava sendo desvendado a ela.
Em um momento, quando Angelique repassava seu aprendizado em
torno da fogueira, Sarah se sentou perto dela para conversar.
− Angelique, tenha sempre muito cuidado com esses papéis, não deixe
que percebam o que você escreve neles, pois se essas folhas escritas caírem
em mãos erradas isso pode custar nossa vida. A Igreja jamais admitirá que
as verdades que ela prega sejam contestadas ou que outra forma de espi-
ritualidade seja apresentada ao mundo como uma opção para os fiéis. A
Igreja não prega o livre-arbítrio em sua verdadeira essência. Além do mais,
a Igreja pode ter muitas perdas materiais se for dividida. Se descobrirem
esses papéis seremos julgadas pelo Papa, depois, torturadas e queimadas
na fogueira por heresia. Aqui, no acampamento de Joana, estamos seguras,
mas, quando tudo isso terminar, retorne para a Morada de Cristal conosco,
lá estaremos protegidas e poderemos continuar nossos estudos. Podemos
enviar o que você escreve ao mundo sem expô-la. Vamos divulgar essas fo-
lhas pela cidade e deixe que o próprio Universo se encarregue de levar seus
textos às pessoas certas, que os entenderão e que realmente necessitam deles.

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Veja, nem todos estão preparados, as pessoas estão em evoluções diferentes
umas das outras e há ainda aquelas que não querem mudar. Assim, seja feita
e respeitada a vontade delas.
Angelique sentiu uma onda de medo a envolver, e uma vontade de estar
na Morada de Cristal se apoderou. Ela nunca teve um lar de verdade, mas

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percebeu que havia ganhado um no dia que encontrou as bruxas. Imaginou-
se correndo pelo gramado, tomando banho no lago e reverenciando as
estrelas nas lindas noites de Lua grande. Ela quase podia sentir o perfume
das flores em volta da casa e do pão sendo assado no forno de barro. A casa
era tão clara, tão limpa e tão pacífica que seu maior desejo naquele momento
era o de voltar para lá com as bruxas, aquelas que ela agora considerava suas
irmãs de sangue.
Sarah se levantou e foi ver os doentes. Pierre se aproximou, sentou-se
ao lado dela e a abraçou, como a lhe proteger do frio ou de qualquer coisa
no mundo que pudesse lhe fazer mal.
− Estou com medo, Pierre – disse Angelique enquanto seus olhos se
enchiam de lágrimas.
− Medo do quê, meu anjo?
− Não sei, é apenas medo, não sei de onde veio , mas sei que é medo.
− Nada vai lhe acontecer, eu estou aqui – disse Pierre enquanto acariciava
os cabelos de Angelique, sob a proteção de seu abraço. Estar com Pierre lhe
parecia bom, e eles permaneceram em torno da fogueira a noite toda.
Quando acordaram, ainda estavam abraçados, só que agora deitados
ao chão. Angelique estava estendida sobre Pierre, que recostava a cabeça
em seu peito. A fogueira havia apagado, mas os raios do sol iluminavam
a manhã e começava a aquecer a todos. Angelique abriu os olhos, tomou
consciência de onde estava e, então, levantou a cabeça, observando Pierre.
Sua fisionomia era serena, ele ainda dormia profundamente, e Angelique
observava o contorno de sua boca. Ela sentiu vontade pela primeira vez de
beijá-lo. Tantas vezes haviam dormido juntos, mas nunca o havia observado
com mais atenção. Havia um sentimento estranho em Angelique, certa eu-

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foria em seu coração surgia, então, aproximou-se lentamente. Esticou seu
pescoço e, ao aproximar sua respiração de Pierre, ele despertou, assustando-
se e derrubando Angelique de cima de si.
− Óh, perdão, Angelique, perdão, não era minha intenção. Você se
machucou? – desculpou-se aflito.

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− Tudo bem, Pierre. Não foi nada, não se preocupe. − disse ela sorrindo.
Eles se olhavam em silêncio quando Anúbis se aproximou dizendo:
− Pierre, por favor, prepare a caneca de chá para o padre – disse, ao
parar diante deles.
Pierre balançou a cabeça em sinal afirmativo, levantou-se e seguiu na
direção do leito improvisado do padre.
Anúbis continuou falando com Angelique enquanto Pierre se afastava.
− Angelique, me ajuda a colher ervas na floresta? Precisamos fazer isso
antes que o sol esteja alto, o poder das ervas aumenta se as colhermos logo
pela manhã.
Winx de longe observara Angelique e Pierre, e agora sorria.
Aquela manhã no acampamento tinha a mesma rotina dos últimos
dias, muitos se encontravam restabelecidos, e ocorreram poucas mortes.
As bruxas estavam preparando as ervas quando um dos soldados trouxe a
notícia de que Joana e seu exército sairiam em combate até a cidade de Ma-
rigny, aos arredores de Compiègne. Os ingleses se preparavam para invadir
e tomar a cidade. Os borgonheses estavam nas imediações para auxiliá-los
contra Joana, caso ela viesse em socorro à cidade.
No centro do acampamento, Joana reunia imediatamente seiscentos
homens guerreiros. Dentre eles, 150 eram arqueiros. Larie convocava a todos.
− Pelos diabos, levantem, homens. Aqueles que têm coragem sigam-me,
temos ingleses para mandar para o inferno!
Joana, com o mapa do território aberto diante de si, reclamava da con-
duta de Larie.
− Em nome de Deus! Não blasfeme, Larie! Já pedi isso a você muitas

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vezes.
− Perdão, Joana, prometo que por diabos não blasfemarei nunca mais
nesta vida! – respondeu Larie constrangido.
− Você blasfemou novamente, Larie! – Disse enquanto revirava seus
olhos para cima demonstrando falta de paciência.

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− Senhora, entenda, é difícil para mim. Fui criado em meio à violência,
aos soldados e homens grosseiros, nunca tive modos nem educação. Não
consigo parar de xingar!
− Então, por favor, troque a palavra “diabos” por “raios”, assim você não
estará no pecado.
− Óh, Joana! Mas como eu nunca pensei nisso? Mas a senhora é um
gênio, muito inteligente! Também é muito bonita! – Dizia Larie enquanto
se iluminava em alegria por ter recebido uma solução para seu problema.
Joana D’Arc e Larie, então, reuniram os soldados e começaram a discutir
o plano de guerra junto aos generais. Definida a estratégia da luta, subiram
em seus cavalos. Joana tomou a frente do exército, enquanto Larie reunia
o restante dos soldados.
− Por raios! Ainda não estão prontos? Vamos, soldados, temos de man-
dar alguns ingleses para o raio que os partam!
Joana, com seu estandarte, percorria toda a fileira da frente de arqueiros
e dizia tão alto quanto pudessem ouvir:
− Em nome de Deus, libertaremos a França. Nós não permitiremos
mais que nenhum inglês, borgonhês ou outro inimigo qualuer massacre
o nosso povo.
Os arqueiros e os soldados das demais fileiras levantavam seus arcos
e espadas em apoio às palavras de Joana. Urros eram ouvidos em cada frase
dita por Joana.
− Soldados, Deus nos guiará rumo à vitória!
As bruxas assistiam a toda movimentação do exército, que levantava
boa parte do acampamento. Eles passariam dias de prontidão nos arredores
de Compiègne até que os borgonheses e ingleses desistissem da invasão e

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aceitassem se retirar do local ou fossem ao combate. A cidade francesa corria
o risco de ser tomada, e era possível que um confronto de dias acontecesse
em Marigny. Sarah falou:

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− Estamos com nossos trabalhos praticamente finalizados neste acam-
pamento, nossos doentes se recuperam muito bem. E o exército em breve
partirá para socorrer a cidade.
− Concordo, porém, se o confronto entre os exércitos acontecer, então,
muito teremos a fazer – respondeu Aliha.
Winx estava pensativa, quando Anúbis lhe perguntou sua opinião.
Então ela respondeu:
− Esta guerra poderá se estender por um século e ainda não ter fim.
Fizemos um bom trabalho aqui, mas poderemos ajudar só por mais um
tempo, depois, todas nós voltaremos juntas para casa. Também precisamos
descansar e continuar com nossas outras atividades. Angelique tem textos
para concluir, e temos nossos estudos e feitiços para fazer.
Angelique pediu a palavra e disse:
− Podemos ir até Compiègne com Joana, para auxiliar os feridos, há
muitos soldados machucados que podem falecer entre o caminho do con-
fronto até este acampamento. Vamos montar uma base de socorro perto da
batalha, quanto mais rápido agirmos mais vidas salvaremos. Depois disso,
poderíamos voltar para casa. Joana devolveu praticamente todas as cidades,
que se consideravam perdidas para os ingleses, à França. Joana poderá seguir
seu caminho, pois sua missão praticamente se encontra cumprida.
− Concordo com Angelique – disse Anúbis, seguida por Sarah, Aliha
e, por fim, por Winx.
Elas, então, decidiram iniciar a preparação para a partida, começaram
a organizar sacos de ervas, instrumentos e cristais, despediram-se dos do-
entes ainda em recuperação e os deixaram sob os cuidados de Pierre, que

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havia encontrado sua verdadeira vocação. Deixaram ervas de cura e receitas
escritas para que ele as preparasse de acordo com cada caso. As bruxas lhe
falaram que seguiriam viagem com Joana até o campo de batalha e que
sairiam antes da metade do dia.
Pierre se despediu de todas.

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− Bendito o dia em que entrei em sua casa, Winx. Agradeço por ter
me auxiliado a encontrar meu caminho. Estou feliz, e por aqui farei o meu
melhor – disse enquanto abraçava Winx.
Depois abraçou Aliha, Sarah e Anúbis. Quando chegou a vez de Ange-
lique, seus olhos se encheram de lágrimas e uma forte emoção tomou conta
dele. Sentiu seu coração apertado e demoradamente a abraçou. Eles tinham
dificuldades em se desvencilhar um do outro. Pierre a afastou levemente
de seu corpo e a segurou pelos dois braços e, por fim, falou:
− Ainda nos veremos. Assim que isso tudo terminar irei até a casa das
bruxas, pois eu gostaria muito de lhe perguntar uma coisa – disse olhando
docemente nos olhos dela.
Ela enrubesceu, suas mãos estavam trêmulas, e Pierre a acalmou, colo-
cando as mãos de Angelique entre as suas. Um sorriso surgia em seus lábios,
e Angelique ficou na ponta dos pés. Seus braços enlaçaram o pescoço de
Pierre, que agora envolvia sua cintura com suas mãos:
− Eu amo você, Angelique.
− Também amo você, Pierre.
E um longo beijo surgiu entre eles. As bruxas, surpresas, deram suspi-
ros e alguns gritinhos de comemoração. Anúbis e Aliha se deram as mãos,
elas pulavam de alegria enquanto Sarah e Winx se abraçavam diante de
Angelique e Pierre.
Então, eles se afastaram, enquanto seus dedos continuavam entrelaça-
dos. Pierre lhe disse:
− Espere por mim, Angelique. Demorei para perceber que a amava e
não quero perdê-la.

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− Eu esperarei por você para sempre, por todos os séculos.
Ela sorriu, e eles soltaram as mãos.
Os soldados trouxeram os cavalos das bruxas, e os mantimentos foram
colocados juntos às celas. Todos partiriam quando o sol estivesse no meio do

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céu. Pierre auxiliou Angelique a montar em seu cavalo e, então, beijaram-se
pela última vez antes de partir. O coração de ambos estava apertado.
Uma coruja sobrevoava os céus. Winx olhou para o alto e sorriu. Agora
as bruxas estavam prontas para acompanhar Joana, que estava mais adiante,
iniciando a cavalgada com o exército. Elas viraram os cavalos em direção a
Compiègne e começaram a galopar. Pierre ainda chamou a atenção de Winx:
− Winx, preciso lhe contar algo. Não tenho mais medo das bruxas, des-
cobri que elas são inofensivas! – disse enquanto acenava longamente e sorria.
− Bom para você! − disse ela sorrindo enquanto se afastava do acampamento.
Angelique virou seu cavalo branco e enviou um beijo para Pierre, ace-
nando um longo adeus. Então, elas se apressaram para se unir aos soldados
de Joana.
Foram dois dias de viagem, e o exército estava cansado, pois tinham
feito poucas paradas até chegarem ao destino. Todos necessitavam de des-
canso. Pararam às margens de Compiègne. Os borgonheses estavam a uma
légua, na cidade de Condin, e os ingleses muito próximos de Joana.
As bruxas se acomodaram no novo acampamento, separando e organi-
zando o espaço para trabalharem. O dia inteiro fora destinado ao descanso
dos homens, enquanto Joana e seus conselheiros discutiam a defesa da ci-
dade e o ataque ao inimigo, se necessário. O dia seguinte foi designado para
a tentativa de acordo, seguida de confronto, se os ingleses se recusassem a
voltar para casa.
Nesse dia, muitos soldados pediam para que fossem energizados antes
da batalha, e as bruxas se reuniram para realizar a energização em conjunto,
impondo suas mãos em direção aos soldados e desejando-lhes luz, força e

229
proteção divina. Mais adiante Joana estava em oração com os padres, eles
benziam os soldados que não acreditavam nas bruxas. Angelique perguntou
a Winx:
− Como ela pode acreditar na Igreja? – Havia ares de inconformismo
nas palavras de Angelique.

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− Ouça, Angelique, não é uma questão de acreditar em uma Igreja,
mas sim de ter fé. O problema não está nas pessoas que acreditam nas leis
do Cristianismo. Entenda, as leis e os ensinamentos de Jesus Cristo são
esplendidos, os ideais cristãos são divinos, não há absolutamente nada de
errado em qualquer coisa que Jesus Cristo disse ou fez. O problema da Igreja
está em sua administração e no que ela faz com o poder que tem, alegando
ser detentora das verdades. Quando Joana ora, não é através da Igreja, mas
da fé em Deus que ela sustenta em si e que também a sustenta. Ela tem de-
zenove anos e sua fé é inabalável. Ela não venera a Igreja, ela se inspira nos
modelos de Jesus e Mãe Maria, e é conduzida por sua missão através da ajuda
de Santa Catarina de Alexandria, São Miguel e Santa Margarida, que são
modelos cristãos. Veja bem, outras religiões que venham algum dia aceitar
Cristo como um modelo também serão cristã, embora não necessariamente
católicas. Uma coisa é a fé nos princípios do Cristianismo e em Deus, outra
coisa é a crença na Instituição da Igreja Católica.
Angelique entendeu o que Winx tentava lhe dizer.
O exército de Joana estava saindo para a linha de confronto, e as bru-
xas estavam a uma distância segura para receber os feridos em combate. O
terreno plano mais ao sul dos limites da cidade foi o ponto escolhido para
encontrar com o inimigo, dar a oportunidade de retirar suas tropas da região,
recebendo o perdão, ou então sofrer as consequências da batalha.
Joana, quando chegou à região de Compiégne, mandou seu escri-
vão Brunot redigir uma carta que ela lhe ditaria, pois, como quase todos os
pobres na França, Joana era analfabeta. Em seguida, mandou que a carta,
presa a uma flecha, fosse enviada aos ingleses, que estavam no lado oposto

230
do campo de batalha. Joana não enviaria mais nenhum dos seus homens
como mensageiros, pois os ingleses haviam se apoderado de um deles e o
torturado, o que feria os princípios de qualquer guerra. Joana se importava
com a vida de seus soldados, e a vida dos ingleses sempre que possível era
poupada. A carta dizia:

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“Você, chefe de guerra dos ingleses, que se diz dono por direito das
terras de Compiègne, obedeçam ao Rei dos Céus e saiam das terras fran-
cesas. Em nome de Deus, eu os expulso deste lugar que não lhes pertence.
Por vontade do Senhor do Céus, digo-lhes que Compiègne pertence ao
Rei Carlos vii, único e legítimo herdeiro da Coroa da França. Eu, Joana, a
donzela enviada por Deus, estou preparada para conceder ao seu exército
o perdão, se retirarem as tropas. Mas, se, ao contrário, se recusarem a sair
e permanecerem nestas terras, invadindo a cidade francesa de Marigny,
então, saibam que eu os combaterei a todos. Se vocês, ingleses, assim qui-
serem retornar a seu país, eu os deixarei passar livremente sem que nada
lhes aconteça, pois em nome do Salvador eu lhes perdoarei. Mas saibam
todos que, se isso não acontecer, vocês enfrentarão o exército do Rei dos
Reis e seus soldados, e, pelas mãos dos franceses, serão massacrados. Peço
que tenham piedade de seus homens e de suas famílias e retornem para o
lugar de onde jamais deveriam ter saído. Deus protege a mim e a todos os
meus seguidores, e recebemos do Senhor forças para seguirmos adiante em
nossa luta, pois a justiça será feita pelas graças do céu. Eu, Joana, a donzela,
lhes escrevo. Sob a proteção de Jesus e Maria.”
Como de costume, Joana mantinha a postura de somente derramar
sangue se fosse preciso. Muitos prisioneiros de guerra eram poupados da
morte, e ela sempre preferia trocá-los em vida por outros de seus homens
aprisionados do que torturá-los. Sua intenção não era a de ceifar vidas in-
glesas, mas apenas de devolver à França a paz que havia sido tirada.
Os ingleses receberam sua mensagem e, ao ler, não se retiraram. Joana

231
ainda pôde ouvir suas palavras de ofensa e de deboche a respeito de sua
pureza. Eles a chamavam de herege, de bruxa, entre nomes baixos, o que a
deixava mais impaciente.
Como não haveria acordo, Joana conformou-se com o fato de ter de lu-
tar com seus homens e posicionou-se em linha de batalha, indicando, assim,

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aos ingleses que o confronto começaria e ela estava preparada para a luta.
Deu ordem para que todos se posicionassem em seus lugares. Os ingleses
também se alinharam, e seus arqueiros se preparavam. Enfileirando-se lado
a lado em três linhas horizontais com cerca de duzentos homens armados
de flechas à frente.
O comando à arquearia inglesa foi dado, e os arqueiros prontamente
lançaram suas flechas contra o exército francês, que se protegeu com es-
cudos, enquanto se reuniam em grupos para aumentar o teto de proteção.
Alguns tiveram os pés e as pernas feridos, outros conseguiram se proteger
completamente.
Joana deu ordem para que seus arqueiros tomassem seus lugares e ati-
rassem suas flechas contra o inimigo. Fogo foi ateado na ponta de algumas
delas. E assim que isso aconteceu, Joana, à frente da linha de batalha de seu
exército, empunhando sua espada, avançou velozmente contra o inimigo,
junto com seus homens. Os ingleses deram seu grito de guerra e também
foram com suas tropas em direção ao exército de Joana. Soldados e cavalos
corriam no campo, e os exércitos se chocaram entre si em meio à planície,
começando um sangrento ataque.
Os horrores da guerra eram assistidos pelas bruxas da parte mais elevada
da planície. Os padres também observavam a guerra de outro ponto alto.
Juntos, eles oravam pelo exército de Joana.
Os feridos que conseguiam se locomover estavam chegando ao local
de atendimento das bruxas. Muitos vinham rastejando, alguns desmaiavam
no caminho ou morriam antes de se aproximar do acampamento improvi-
sado. As bruxas de longe podiam assistir a tudo. Algumas vezes corriam em

232
direção àqueles que desistiam no meio do caminho por falta de força para
caminhar ou rastejar, elas os ajudavam. Em um momento, diante de cena
tão lastimável, Angelique e Winx se deram as mãos, era a primeira vez que
presenciavam uma batalha.

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− Por que tudo isso, se este mundo é tão grande para todos? – perguntou
Angelique com voz trêmula.
− Porque a ganância do homem ainda é maior do que sua inteligência.
– Era a primeira vez que se percebia raiva no tom de voz de Winx.
Conforme os soldados feridos chegavam até as bruxas, eram atendidos;
tecidos eram amarrados e atados sobre as feridas abertas pelas espadas, ada-
gas e machados, a fim de estancar o sangue. Muitos soldados estavam mor-
rendo por hemorragia, o número de feridos era muito superior à capacidade
de socorro, e os primeiros atendimentos eram vitais para a sobrevivência
dos que chegavam.
Enquanto atendiam, viram do alto da planície um segundo exército
se aproximar em auxílio dos ingleses. Eram os borgonheses que, até um
dia atrás, estavam a aproximadamente uma légua, em Condin. Em troca
de favores com a Inglaterra, a Borgonha havia se aliado ao seu exército na
luta contra Joana D’Arc. No céu, imperceptível a todos, via-se uma coruja
sobrevoando os soldados, em movimentos circulares ela observava atenta-
mente tudo o que acontecia.
Os borgonheses avançavam rapidamente contra Joana e seu exército,
agora surpreso e amedrontado pela ajuda de última hora que chegara às
forças aliadas. Os homens resistiam com todas as suas forças, mas estavam
sendo massacrados, eram seiscentos homens do exército de Joana contra
mais de mil homens do exército inimigo, que se unira aos ingleses.
Joana, atenta à chegada de auxílio ao inimigo e vendo a dificuldade em
combater tantos homens, tomou uma decisão: deu ordem para que todos
os seus soldados recuassem em direção à barreira de Compiègne, a fim

233
de conduzir todos os homens de seu exército pela passagem, antes que os
ingleses fechassem a entrada da única cidade protegida como um grande
forte de muros altos e cercada por um lago profundo.
Seus homens foram avisados e rapidamente começaram a recuar. Joana
se manteve na retaguarda, enquanto soldados franceses corriam em direção

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à cidade. Ela era uma das últimas ainda lutando, montada em seu cavalo e
posicionada em retirada de batalha.
Quando percebeu que a maioria de seus soldados já estava em fuga,
partiu também em direção à passagem. Por vezes, Joana D’Arc se virava
contra o inimigo, que lhe perseguia, mas ao vê-la virar-se em sua direção ele
recuava alguns metros assustado. Nesse momento, os homens do exército
inimigo retrocediam, o que dava tempo para mais franceses entrarem na
cidade antes de os portões ser fechados. A simples figura de Joana causava
medo nos ingleses e borgonheses. Do alto da Torre de Marigny, os habitantes
da cidade também podiam ver o massacre francês, e os primeiros soldados
fugindo a cavalo do campo de batalha chegavam até os portões, seguidos
por aqueles que conseguiam ainda correr. Os padres haviam se retirado do
ponto de onde observavam a batalha e suas vestes eram levantadas a altura
dos joelhos para que conseguissem correr para se protegerem. Atrás, vinha
Joana a galope com o exército inimigo a seu encalce. Havia o perigo do
inimigo adentrar os portões da cidade junto com Joana, pouco espaço de
tempo havia entre ela e os soldados ingleses e borgonheses. A entrada da
cidade nesse momento estava sendo fechada antes mesmo de que todos os
soldados franceses conseguissem adentrar os portões, impedindo que alguns
soldados tivessem tempo de entrar, incluindo Joana, que ainda estava em
fuga em direção aos portões. Ela não conseguiu chegar a tempo, e todos
aqueles que ficaram do lado de fora dos portões estavam agora à mercê da
sorte e, provavelmente, da morte.
Do alto da planície, as bruxas viram quando um guerreiro borgonhês
se aproximou de Joana e a derrubou do cavalo. Sem escolha, caída ao chão e
indefesa, ela se rendeu. Imobilizadas pela cena, as bruxas quase não acredita-

234
vam no que viam. E Joana era agora feita prisioneira. Os soldados inimigos
se abraçavam e gritavam em alegria, pois haviam capturado a mulher mais
procurada e caçada do mundo. Elas ainda viram Joana sendo acorrentada
e colocada em um armado feito de madeira, em uma prisão móvel, puxada

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por cavalos. Joana era uma prisioneira de guerra e estava sendo levada para
longe pelos ingleses.
O desespero tomou conta de todos na cidade de Marigny, e, no acam-
pamento improvisado das bruxas, alguns soldados choravam, enquanto
outros ainda estavam totalmente inconscientes depois da tragédia francesa.
Angelique sentiu uma profunda tristeza e o mundo enegreceu diante de
seus olhos. Ela havia começado a escrever sobre Joana e falava sobre seus
desígnios junto aos homens e sua importante missão libertadora, além de
seu sincero parecer sobre as intenções eclesiásticas da Igreja. Angelique
ajoelhou-se e começou a chorar, e com as mãos sobre o rosto não conseguia
conter as lágrimas que lhe caíam dos olhos. Ela percebia a grande perda
que haviam sofrido, e ressentia-se pelo possível fim que Joana D’Arc teria
em pouco tempo.
O pânico e o sentimento de medo que teve dias atrás faziam sentido
agora para Angelique, que sentia tristeza pelo ser humano de Joana e pelo
triste fim que a aguardava. Ela tinha intenção de escrever as verdades sobre
aquela jovem extraordinária, que deveria servir de modelo de fé, coragem
e atitude para muitos, e também queria escrever sobre tudo aquilo do além
mundo que a cercava. Angelique pensava que o mundo não poderia perder
mulheres como Joana.
Sarah estava estremecida quando perguntou:
− O que acontecerá a Joana?
− Os borgonheses irão negociá-la com os ingleses, e depois ela será
queimada na fogueira como herege – respondeu Winx, com voz amarga,
naquela situação de extrema delicadeza.

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− E o que serão dos franceses sem Joana?
− Eles estão a salvo, mas perderam a mulher mais importante da
história deles. Sem ela, a França não existiria. Ela ainda teve tempo de
salvá-los.

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A coruja em um rápido voo veio ao encontro das bruxas. Ela pousou
sobre o braço de Winx. Ambas se olharam. A coruja, então, alçou voo nova-
mente, seguindo em direção ao exército inimigo.
Winx se aproximou de Angelique, colocou a mão no ombro dela e o
apertou, em sinal de apoio.
− Angelique, força, precisamos retirar esses homens feridos daqui antes
que o exército nos descubra. Nosso trabalho ainda continuará na Morada
de Cristal. Vamos depressa colocar aqueles que estão mais feridos sobre os
cavalos.
Então, Angelique se levantou, e todas se puseram a ajudar os homens
machucados que ainda viviam. Muitos dos que chegaram estavam mortos
e não tinham conseguido suportar os ferimentos.
Carregando um a um, de duas em duas, elas conseguiram colocar os
homens em cima de seus cinco cavalos.
Ao longe, viam-se alguns homens aproximar-se em direção ao acampa-
mento, seguindo os corpos dos soldados mortos pelo caminho. Então, elas
espantaram os cavalos do acampamento fazendo com que eles corressem em
direção à floresta. Elas sabiam que os cavalos voltariam instintivamente ao
primeiro acampamento. Elas, ainda saudáveis, poderiam fugir pela planície
e adentrar a mata em busca de esconderijo.
A coruja agora seguia as bruxas e piava avidamente, como que para
alertá-las de algum perigo.
E, percebendo que um pequeno exército estava a pouca distância delas,
puseram-se a correr. Eles vinham a galope em seus cavalos, enquanto elas
fugiam a pé, deixando tudo para trás.

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Instantaneamente, Angelique parou de correr, virou e olhou para o
acampamento.
−Winx, esqueci meus escritos. As folhas para o livro ficaram junto
com as ervas.

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− Agora é tarde, Angelique, vamos salvar nossa vida. Você poderá es-
crever novamente na morada.
Elas estavam entrando na floresta, quando viram que os homens já
haviam chegado ao acampamento de primeiros atendimentos, e agora
vistoriavam se algum dos corpos estendidos sobre a terra ainda tinha vida.
Não encontraram nenhum, os que ali ficaram estavam mortos. Olhando à
frente viram a imagem de cinco mulheres fugindo e adentrando na floresta,
um deles falou:
− São prisioneiras de guerra, vamos capturá-las!
− Não. São apenas mulheres e temos número suficiente de homens
que servirão como escravos.
Um dos homens, observando o tecido com as ervas estendido ao chão
se aproximou. Ele viu também um pequeno caldeirão negro e várias folhas
presas por uma pequena corda e amarradas como se fossem escrituras. Ele as
abriu, estendeu as folhas com suas mãos, e, como era o único que conhecia
a escrita, começou a ler. Seus olhos não desgrudaram das folhas enquanto
não chegou a última linha da primeira página. Parecia assustado, então, seu
olhar brevemente correu por mais algumas partes das outras páginas. Um
dos soldados ingleses lhe perguntou:
− Por que parece tão assustado?
Sua boca semiaberta balbuciou a descoberta:
− Não eram simples mulheres, eram as bruxas da Morada de Cristal,
que estavam ajudando Joana. vamos atrás delas!
As bruxas agora corriam pelo interior da floresta, seus vestidos rasga-
vam nos espinhos das plantas. O pouco tempo que tinham para correr não

237
lhes dava oportunidade para que pudessem atravessar cuidadosamente o
caminho. À frente, a coruja as guiava. Tudo o que elas queriam era se es-
conder para que não tivessem o mesmo provável fim trágico de Joana. Vez

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por outra, uma delas caía ao tropeçar nas raízes das grandes árvores e era
ajudada por suas companheiras.
Elas estavam fugindo havia mais de uma hora e pressentiam a presença
de seus perseguidores atrás delas. O cansaço tomava conta, mas o desespero
dava-lhes força. Mantinham uma distância considerável dos homens que
as caçavam, mas, se parassem para descansar, poderiam ser capturadas.
As horas passavam, e elas fugiram até o final do primeiro dia, quando se
sentiram demasiadamente enfraquecidas. Encostaram-se sob uma grande
árvore, não havia nada que pudessem comer. A noite espreitava e não mais
poderiam continuar, oraram juntas e tentaram dormir, revezando-se para
vigiar o sono das companheiras. Ao acordarem, continuaram a fuga pela
floresta e poucas paradas faziam, o alimento era praticamente inexistente.
Tomaram água do rio, quando encontravam algum pelo caminho, mas por
falta de botilhas de água foram incapazes de levar para o percurso. A sede
as estava exaurindo.
O destino era conseguir chegar à Morada de Cristal, onde não haveria
a menor possibilidade de serem descobertas, talvez o único lugar em toda
a França onde estariam protegidas. Quatro dias se passaram entre a fuga
durante o dia e o descansar durante a noite. Alguns parcos frutos estavam
sendo recolhidos durante o percurso até chegar à Morada de Cristal, e para-
das eram feitas durante o dia para um pequeno descanso. As orações eram
repetidas mentalmente ou em coro. A ajuda da Deusa Ceridwen, da Mãe
Natureza, dos seres elementais e de seus mentores e anjos pessoais eram
repetidamente invocada.
Sujas, rasgadas e machucadas, assim elas estavam. A coruja sempre

238
as guiava por dentro da mata, ora junto delas, ora no céu, observando os
perseguidores, trazendo informações a Winx.
Angelique se lembrava de Pierre e de sua promessa de ir ao seu encon-
tro, pensava que tinha esperado por muito tempo até encontrar o amor e

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que não poderia agora se afastar dele. As lembranças lhe davam força para
persistir na fuga.
Atrás delas, os caçadores se mantinham determinados. Eles as seguiam
através do rastro deixado na fuga. Cães estavam juntos para auxiliar na
captura.
Winx impelia suas irmãs a prosseguirem:
− Os Deuses e Deusas nos guiarão, não desistamos, vamos lutar para
conseguir cumprir nossa missão nesta vida.
− Winx, quanto tempo temos ainda de percurso até o Vale de Cristal?
− Talvez dois dias, mas o mais importante é que temos de chegar lá
enquanto ainda é noite, para que a floresta acorde e a passagem se abra.
Na noite seguinte, uma forte chuva caiu sobre a floresta, elas estavam
sedentas e com frio. Para se aquecerem, abraçaram-se umas às outras, en-
quanto mantinham a boca aberta, a fim de colher o máximo de gotas de
chuva que podiam. Ficaram molhadas até que os primeiros raios de sol sur-
gissem entre as copas das árvores e, com o passar do dia, se aqueceram pela
fuga. À noite, tudo ficava mais frio e sombrio e, se não fosse a presença da
coruja a lhes dar alguma segurança, as noites seriam assustadoras, pois não
dispunham de fogo para se aquecerem, para espantarem as feras da floresta
ou iluminarem seu caminho.
Atrás delas havia a matilha de cães que continuava seguindo seu
rastro, junto com eles, vinham os soldados borgonheses e alguns ingleses
caçadores, que se prontificaram a fazer justiça diante da heresia, enquanto
outros pensavam no retorno em moedas de ouro que poderiam negociar
em troca das bruxas. Na floresta, gnomos procuravam ajudá-las, por vezes,

239
colocavam galhos de árvores aos pés dos caçadores para que eles tropeçassem
e se atrasassem. Alguns cães haviam se soltado da matilha ao ver a presença
dos gnomos atrás das árvores e corriam atrás deles, perdendo-se no meio
da floresta.

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O farejar dos cães era rasteiro e certo. Se fossem rápidos, mais cedo ou
mais tarde, eles as encontrariam, por mais que os gnomos atrapalhassem seu
caminho. Alguns camponeses, que se prontificaram na caça às bruxas, junto
com os soldados, arquitetavam um plano para capturá-las e queimá-las viva
na fogueira antes de entregá-las à Santa Inquisição, pois assim acreditavam
que mais rapidamente eliminariam o mal sobre a face da Terra. Eles trama-
vam lutar contra os borgonheses, que pretendiam vendê-las.
Com mantimentos, botilhas de água e cães, os caçadores das bruxas
se mantinham em vantagem na caçada. Os pedaços de tecidos dos vestidos
eram facilmente encontrados por eles, e os cães as farejavam agora com
maior facilidade.
Cinco dias e quatro noites se passaram, as bruxas estavam exauridas
pelo cansaço. A falta de tempo as impedia de se energizarem na Natureza, de
se alimentarem de frutos ou ervas pelo caminho e também de descansarem,
o mínimo de tempo era poupado.
Quando a coruja se ausentava, voando em direção aos caçadores, os
gnomos auxiliavam as bruxas, indicando o caminho mais fácil a seguir. Os
pequenos seres da natureza as observavam e, com seus minúsculos dedos,
apontavam a direção correta.
− Obrigada, irmãos!
Era tudo o que elas conseguiam dizer durante a fuga, toda a energia
possível era poupada.
Ao final da quinta noite, elas estavam esperançosas, pois faltava pou-
co tempo para chegar à entrada do vale. O latido dos cães indicava que

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os ingleses estavam mais próximos do que elas imaginavam. Estes eram
motivados pela captura e vitória sobre as bruxas, acreditando que rece-
beriam recompensa de Deus se as queimassem. Outros almejavam uma
recompensa financeira.

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Winx seguia à frente, Angelique segurava Anúbis pela mão, que em
determinado momento, quase sem força, falou de desistir, mas foi incenti-
vada pela irmã a prosseguir. Os pentagramas balançavam no pescoço delas
durante a fuga, e por vezes elas se apegavam a eles enquanto oravam. Aliha
estava por último, ela não vira um galho seco do qual as outras se desviaram,
sentiu o rosto sendo perfurado, a maçã de sua face foi rasgada pela madeira
afiada e exposta da árvore. Ela pôs a mão e sentiu o calor úmido do sangue
entre seus dedos. Continuou correndo sem se importar com o machucado.
A dor era camuflada pela adrenalina da fuga.
Os latidos aumentavam. Sarah chorava, sentindo a proximidade dos
cães. Elas atravessaram a madrugada na fuga, com dificuldade em ver o
caminho devido à escuridão da noite. Salamandras surgiam, era a Mãe Na-
tureza a lhes responder, e o caminho à noite fora iluminado por esses seres
elementares, que pareciam pequenas fadas de fogo. Eles batiam suas asas
iluminadas, voando baixo a pouca distância das bruxas e do chão, para que
assim elas pudessem segui-las e ver por onde corriam.
Agora faltava pouco mais de um quilômetro para elas estarem segu-
ras. Em breve, alcançariam a passagem secreta da Morada de Cristal. Aliha
era a última das bruxas a seguir pelo caminho, ao olhar para trás pôde ver
a claridade das tochas vindo na direção delas. Podia-se também ouvir a
movimentação dos galhos sendo quebrados quando os seus perseguidores
passavam com os cães.
Algum dos caçadores gritou:
− As bruxas, vejam! Lá estão elas!

241
O desespero tomou conta de todas. Elas tinham de seguir o mais rápido
que podiam em frente. A coruja rapidamente sobrevoou a cabeça dos caçado-
res, assustando-os. Eles se abaixaram, ela arremeteu voo e preparou-se para
atacá-los novamente. Um dos homens a esperou retornar, ela avançava sobre
eles quando recebeu o golpe fatal de uma adaga. Winx sentiu uma forte dor

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na nuca, chorando ela continuou em fuga, sabia que algo havia acontecido
à sua amiga.
Os gnomos conseguiram atrasar um pouco mais os caçadores, fazendo
com que alguns galhos das árvores caíssem em cima deles, o que os assusta-
va. Os gnomos chamaram as fadas para ajudar, e frutos das árvores também
foram lançados sobre os caçadores. Um dos homens teve a impressão de
ter visto um pequeno homem verde mostrando a língua para ele enquanto
fazia uma careta.
− Meu Deus, caçar as bruxas está me deixando louco! – falou aos outros
caçadores.
Faltavam agora poucos metros para alcançarem a passagem. Winx
lhes dizia:
− Não desistamos, estamos perto! Não desanimem, vamos conseguir!
Estavam nas proximidades, bastava que alcançassem o local certo
ainda durante a madrugada. Caíam, tropeçavam e se levantavam, os cães
agora em disparada contra elas arrastavam seus donos e os soldados, que os
seguravam pela coleira.
Elas corriam desesperadamente, e a luz das pequenas fadas e salaman-
dras guiavam-nas na direção da passagem. Ao chegarem às proximidades da
Morada de Cristal, puderam perceber a áurea solar anunciando o prenún-
cio do nascer dos primeiros raios solares, que invadiria a noite e tomaria
o lugar que lhe era de direito. As bruxas em coro imploravam para que o
sol retrocedesse. Uma luz alaranjada surgia no horizonte. Elas estavam se
aproximando da passagem, e a floresta começava a adormecer, fechando-se
enquanto a luminosidade dos raios do sol fazia com que as primeiras flores

242
do dia abrissem alegremente suas pétalas rente ao chão.
Em frente à passagem, com as pequenas fadas, elas tateavam desespera-
damente, pedindo às árvores que acordassem, imploravam à Mãe Natureza
para que conseguissem entrar, mas já era tarde. Tudo mudou à sua volta.

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A floresta não era mais a mesma, e elas sabiam que não mais teriam outra
chance de ali entrar, a não ser no final daquele dia.
Winx reuniu-as, dizendo:
− Temos de nos esconder, vamos nos proteger entre as rochas que ficam
do outro lado, no abismo, subimos nelas até o topo e depois descemos pela
lateral e, então, nos escondemos na floresta novamente até o anoitecer. É a
única direção para onde podemos seguir e depois retornar para tentar atra-
vessar novamente a passagem sem encontrar com os caçadores pelo caminho.
− E se eles conseguirem nos encontrar entre as rochas? − perguntou
Angelique aflita.
− Não temos alternativa. Se for esse o momento para nossa partida,
nada poderemos fazer. O que nos resta é tentar – explicou Anúbis.
Winx consentiu com a cabeça, e todas a seguiram. A luz do sol surgiu
com intensidade na copa das árvores, clareando o caminho, o que facilitava
para elas seguirem adiante, mas também facilitava para seus caçadores.
Elas chegaram ao ponto de encontro da floresta com as rochas, olha-
ram para o alto e ainda assim puderam admirar a proeminência e beleza
da natureza, que em desordem havia colocado em um desfiladeiro rochas
sobrepostas umas às outras, formando uma montanha de pedras. A imensa
altura assustava as bruxas, mas aquela era a única chance de fuga. Então,
elas se puseram a escalar rumo ao pico, amparando-se umas às outras e
transpondo as pedras que eram, na verdade, grandes obstáculos em seu
caminho. Planejavam que, uma vez no topo da montanha, se esconderiam
e desceriam novamente, seguindo pela lateral, sem ser vistas.
Quando os caçadores chegaram no início das rochas, puderam vê-
las mais adiante escalando. Alguns desistiram de persegui-las, por causa

243
do medo de altura. Outros persistiram, pois desejavam com grande fúria
alcançá-las. Um dos homens falou:
− Vamos nos dividir. Um grupo escala em uma direção, outro grupo
permanece aqui embaixo. Quando nos virem, evitarão descer pela lateral,

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dessa forma, as pegaremos no alto e, em nome da Santa Inquisição, faremos
a vontade do Senhor.
A ideia foi aceita pelos dois grupos, e uma parte dos homens iniciou a
subida − alguns cães os acompanhavam −, enquanto outra parte aguardou
a descida na lateral das pedras.
Rapidamente os homens subiam. Em poucas horas de árdua escalada
e com o ar lhes faltando, as bruxas chegaram ao topo. Cansadas, voltaram
seus olhos para baixo, procurando pelo melhor caminho para fazer a des-
cida, foi quando puderam ver os dois grupos, separados e organizados para
capturá-las. Os homens em seu encalço estavam com uma diferença de
pouco tempo, os homens que as esperavam pela lateral começavam agora
a subir, embora não tivessem tanta pressa, pois sabiam que era questão de
tempo para que elas descessem.
As bruxas olharam ao redor da montanha rochosa. Do alto, a imensidão
da floresta vista do topo parecia não ter fim, o sentimento trazido pela visão
de liberdade as invadira na mesma intensidade que o sentimento de medo
de ser capturadas. De um lado, viam a verdejante copa das árvores, que com
seus imensos troncos e galhos abrigava uma variedade de pássaros, ninhos e
filhotes. Alguns nesse momento içavam voos, fazendo malabarismos aéreos
com a leveza que lhes havia sido dada, pairando no ar como se dançassem
uma valsa. Do outro lado, apenas viam o vazio causado pelo deslizamento
das rochas, que abrira um profundo abismo de pedras e por onde a forte
correnteza do rio seguia. Elas sabiam que, daquela altura, não havia a menor
possibilidade de sobreviverem. Acima, o azul do céu mostrava o resplan-
decer de um lindo dia, e o sol brilhava no horizonte. Elas poderiam ficar

244
contemplando toda aquela magnífica visão por horas, mas sabiam que não
restava muito tempo para que os carrascos as alcançassem.
Os latidos aumentavam, alguns homens gritavam frases amedronta-
doras, a fim de assustá-las, e outros ainda caçoavam de como seria dolorido
sentir a carne do corpo queimando nas brasas da fogueira.

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Elas se entreolhavam, na esperança de que uma delas pudesse ter a so-
lução. Winx estendeu os braços, como para abraçar pela última vez naquela
vida as companheiras de tantos séculos. Uniram-se em um grande abraço,
e Winx falou:
− Se não completamos a missão nesta vida, é porque ainda não era a
hora. O mais importante disso tudo foi nosso reencontro e a certeza de
que sempre teremos umas às outras, e a certeza de que somos amparadas
por seres irmãos que cuidam de nós. O importante é que nesta experiência
mundana mais uma vez aprendemos coisas diferentes. Eu quero dizer que
amo vocês e que será um prazer estarmos juntas do lado de lá e do lado de
cá por toda a eternidade.
Dos olhos de Angelique lágrimas escorriam, ela pensou em Pierre e
lembrou-se do seu primeiro encontro com ele, jamais imaginaria o quão
importante ele se tornaria para ela, lembrou-se das tarefas de aprender a
ler e escrever na taberna, lembrou-se de seu reencontro com as bruxas e
do primeiro e único beijo de amor de toda a sua vida. Abraçada a suas irmãs
ela chorava.
Anúbis apertava seu pentagrama contra o peito com uma das mãos,
ela era incapaz de se revoltar, embora aquele momento fosse talvez o mais
triste que tivera, despedir-se da vida era um dos atos mais dolorosos, por
mais que se soubesse que morrer aqui é o mesmo que nascer do lado de lá.
Aliha se desvencilhou das irmãs e rodopiou, estendendo seu negro
vestido, agora maltrapilho, pelo ar, dizendo:
− Danço com a vida em minha partida. Minhas irmãs e a música foram
uma das coisas mais belas que experimentei neste mundo. Quero voltar para
cá para dançar, cantar e reencontrá-las!

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Winx se aproximou e, com a ponta de seu vestido, limpou o rosto
ensanguentado e machucado de Aliha, dizendo-lhe:
− Pelo menos esteja apresentável para passar para o lado de lá, se tivés-
semos tempo curaríamos seu machucado.

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− Eu não me importo com as marcas da vida!
Ambas sorriam uma à outra.
Sarah virou-se para o horizonte abismal, ao fundo dele, via-se apenas
as águas correntes entre as pedras, sentia-se preparada para a passagem. Ela
se aproximou, estendeu os braços, olhou para suas irmãs e, então, disse:
− Eu amo todas vocês!
Winx dirigiu-se a ela, segurou sua mão, e ambas olhavam para o abismo,
seus pés estavam à beira do precipício. Angelique uniu-se a elas, segurando
a mão de Winx, Sarah segurou a mão de Anúbis e Aliha as acompanhou.
O vento fazia com que seus cabelos voassem e seus vestidos se espalhas-
sem pelo ar. Angelique olhou para Winx, os olhos castanhos se encontraram
com os olhos cor de mel, então, Winx falou:
− Não se preocupe, estaremos juntas na próxima passagem, eu a ajudarei
na sua missão, conte comigo eternamente.
Os latidos aumentavam, elas já não tinham mais tempo. Os homens
chegaram ao topo, espadas e garfos de três dentes eram posicionados para
serem usados. Um dos homens trazia junto de si uma corda, a fim de amarrá-
las. Então, Winx gritou para o Universo:
− Nós voltaremos!
E todas juntas disseram:
− Shatassá!
Então, pularam de mãos dadas ao encontro da morte.
Os caçadores subiram a tempo de vê-las se jogando no precipício. Eles
se mantinham imobilizados, e os cães haviam parado de latir, apenas fareja-
vam o último local onde as bruxas estiveram. Jamais sobreviveriam àquela
altura e à força da correnteza do rio. Havia expressão de inconformismo por

246
parte de muitos deles, que ansiavam pela oportunidade de queimá-las vivas.
No acampamento, Pierre sentiu uma dor profunda no peito, e deixou
cair a caneca de chá que serviria a um doente. Ele sabia que alguma coisa
havia acontecido a Angelique. Então, ele se sentou no solo e chorou.

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CAPÍTULO XX

A Libertação
Brasil, 2008

E las haviam caminhado pela beira da praia como de costume e conver-


sado sobre o ritual que haviam concretizado semanas atrás. Sentiam-se
melhor consigo mesmas, e a cada dia que passava mais estudavam. Pessoas
surgiam na vida de Pérola e deixavam algo que sempre acrescentava lições
de vida e magia para ela. Livros secretos lhe eram emprestados por pessoas
que se aproximavam e lhe diziam:
− Senti que precisava lhe emprestar este livro.
Então, ela os estudava e passava a essência do que aprendera em seus
textos. Ela agora pensava em dar sequência ao romance que escrevia sobre
as bruxas.
Estavam Pérola e Karem caminhando e conversando sobre a possibilida-
de de um dia conhecerem a França, onde poderiam entrar em contato com
a Maçonaria Francesa feminina e, assim, aprender um pouco mais sobre os

247
mistérios da magia.
Elas passaram a estudar juntas e a fazer banhos de ervas para diversas
finalidades, a maior delas para a cura. Entenderam que não bastava apenas
usar as ervas para resolver o problema, mas também a boa intenção e o apoio
espiritual de seres compatíveis com essas intenções se faziam necessários

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para os banhos surtirem efeito. Aprenderam através dos livros e da prática
a invocar os seres divinos da natureza e passaram a preparar os banhos e a
distribuí-los em casas espiritualistas.
Karem disse a Pérola:
− A magia é ofertada a todos neste mundo, faz-se necessário apenas
que a pessoa acorde, que o véu seja retirado de seus olhos e que, então,
ela busque o conhecimento divino sobre a Lei Maior e aprenda a colocar
em prática a filosofia que aprendeu, ou melhor, que recordou, porque, na
verdadem, já nascemos sabendo tudo.
− Nós vamos, sim, à França, Karem. Na hora certa, conheceremos a
Maçonaria Feminina. – Pérola estava muito entusiasmada. Ela tinha ânsia
de conhecimento.
– O que mais gosto na Bruxaria – dizia Karem – é a extrema liberdade
que ela nos dá para irmos em busca do conhecimento sobre as várias formas
existentes e nos mais diversos lugares e culturas. Não há castigo, não há
limites, a verdade é que a Verdade está espalhada sob diversas religiões e que
essa busca por ela se faz necessária para um entendimento mais profundo
sobre este mundo como um todo. O que é verdade ecoa em diversos lugares,
é dito de maneiras diferentes e por religiões e culturas diferentes, em línguas
diferentes e também em idades cronológicas diferentes. Vemos as mesmas
coisas serem ditas o tempo todo, nas mais variadas formas.
– Tenho uma novidade, Karem. Eu comecei a escrever textos e a publicá-
los em um blog na Internet, assim, de alguma maneira, consigo com que
outras pessoas tenham acesso ao conhecimento gratuitamente. Por que nem
todos recebem a oportunidade de aprender a respeito dos ensinamentos

248
sobre as Leis que regem o Universo?
– Qual seu blog?
– www.reuniaodebruxas.blogspot.com.
– Porque tudo é uma questão de preparação, e só na hora certa esses
ensinamentos chegam a nós. Nem todas as pessoas estão prontas, e não

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saberiam dar valor ou beneficiar a si e aos outros com esses aprendizados.
Mas acho muito interessante que você tenha iniciado esse trabalho. Quando
você teve a ideia?
– Foi estes dias, senti que era isso que eu devia fazer e segui minha
intuição. Eu ainda estou escrevendo o livro, mas nada me impede de colo-
car textos ou partes do livro à disposição dos outros. Por que guardar tudo
somente conosco? Não há sentido nisso.
Elas continuavam conversando e estavam passando por uma das ruas
do bairro, perto da casa de Pérola, quando ouviram um discreto batucar
de tambor. Perguntaram se o som vinha de sua imaginação, e, como todas
disseram que também ouviam, concluiram que algo acontecia ali perto.
Continuaram caminhando, e a cada passo que parecia que as batucadas se
tornavam mais altas. Olharam-se com imensa curiosidade. Karem e Pérola
decidiram ir de encontro às batidas, que pareciam ser de tambores.
Começaram a rir, ambas sentiam que era um convite à magia. E não foi
preciso dizer nada, apenas se olharam. Dobraram a esquina em busca do som
e viram uma casa de Umbanda mais adiante, as batidas só podiam vir de lá.
Aproximaram-se. Pessoas entravam e saíam da casa de madeira na
frente. Algumas delas estavam paradas à porta, esperando para entrar, en-
quanto outra pessoa anotava em uma prancheta a ordem de chegada para
o atendimento. Karem e Pérola postaram-se no muro para observar o que
acontecia, viam pela janela aberta um grande amontoado de pessoas a
ocupar os cômodos internos.
– É uma casa de Umbanda – disse Karem.
– O que essas pessoas fazem ?

249
– São médiuns. Elas intermediam as mensagens do plano espiritual para
o plano terreno. E os espíritos que se comunicam por meio desses médiuns
são em sua maioria Preto Velho e Caboclos.
– Quem são eles?

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– Espíritos que tiveram vida terrena, foram escravos ou índios, e de-
têm a paciência do tempo e o conhecimento das ervas. Do outro lado,
prontificam-se a ajudar as pessoas do lado de cá. Eles são os trabalhadores
do Pai e possuem grande conhecimento e humildade. Limpam as energias
maléficas, curam as doenças da alma e do corpo físico e aconselham com
a sabedoria dos ancestrais.
– E por que eles escolheram fazer isso?
– Pérola, o livre-arbítrio perdura no pós-vida, você pode optar pelo
caminho da evolução, iluminando os outros e a si mesmo, ou por involuir e
praticar o mal. E a forma como fará isso também é de sua escolha. Quando
um espírito opta em servir, como um Preto Velho para a Umbanda, geral-
mente, em uma das vidas ele foi um escravo ou tinha afinidade com essa
religião. Mas, saiba, há casos também em que um espírito evoluidíssimo se
apresenta sob essa forma humilde de um velhinho negro porque assim pode
ajudar outros mais facilmente, quando os que precisam sentem afinidade
por ele e a sua simplicidade.
Elas continuavam a observar o interior da casa e viam que pessoas
estavam fazendo consultas em pé diante de outras que lhes falavam. Pérola
olhou para Karem e disse:
– Vamos entrar?
– Sim, não viemos parar aqui por acaso. Nós passamos por essa rua
quase todos os dias e é a primeira vez que ouvimos esses tambores.
– Só que há uma fila muito grande de pessoas esperando, não sei se
conseguiremos.
Karem concordou, e decidiram apenas observar de onde estavam. Nis-

250
so um urro foi ouvido de dentro da casa e em seguida ouviu-se um clamor
de pessoas batendo palmas e saudando o visitante que acabava de chegar.
– Salve o Guardião da Meia-Noite! Salve! – Alguém dizia em alto tom
dentro da casa.

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Havia movimentação entre as pessoas. Um dos médiuns havia recebido
um espírito que urrou, anunciando sua chegada e dizendo quem era. Então,
um espaço entre a multidão fora aberto e, do interior da casa, surgiu um
homem à porta. Ele usava uma grande capa negra e foi até a frente da casa,
os tambores continuavam a ser tocados, e ele andava imperiosamente, e
todos que passavam por ele se curvavam em sinal de respeito. Ele segurava
uma grande garrafa de cachaça em uma das mãos e a emborcou em fartos
goles em sua boca, espirrando em seguida o líquido para fora, banhando
assim o portão de entrada junto ao muro da casa.
Pérola e Karem estavam observando o que acontecia, paradas próximas
ao portão. Ele veio na direção delas e lhe disse:
– Neste lugar, não deixo que o mal entre, esta casa está agora marcada
com a minha proteção, eu vivo na crosta terrestre, mas sirvo a Lei Maior, esta
casa é protegida pela Luz e meu trabalho aqui foi solicitado por causa da
minha força. Sou o Guardião da Meia-Noite e coloco minha legião a proteger
este lugar e todos aqueles que merecem. Não derrubo quem quer subir, mas
não deixo que suba quem faz por descer. Se merecer, terá; se não merecer,
padecerá sobre meu chicote e minha espada. O que me pedem eu faço, sei
dar, mas também sei cobrar. Agora, entrem, que minha princesa as aguarda.
Ele apontou com a mão o lugar por onde Pérola e Karem deveriam
entrar. Seguido por elas, entrou na casa, chegou ao lado de uma mulher
com aparência extravagante que lhe sorriu, ele então as deixou ali com ela e
saiu. Ela tinha em uma das mãos uma rosa vermelha aberta e usava uma saia
rodada com várias pontas que ia até os pés. Ela ria alto e incontidamente,
então, se pôs a falar com Pérola, enquanto Karem ao seu lado ouvia:

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– Sabes quem eu sou? – Perguntava a mulher.
– Não, senhora.
– Sou a Pombagira. Sou conhecida pelo nome de Sete. E sabe o que
você está fazendo hoje aqui, minha filha?
– Ainda não, senhora.

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– Vieste se encontrar com o seu passado – ao fundo os tambores ainda
soavam em ritmo africano.
– Como assim? – perguntou Pérola.
– Há muito tempo, você não se lembra, em uma de suas vidas – disse
fazendo vários sinais de estalar os dedos com a mão –, você firmou um
contrato com a Lei Maior. Você era uma cigana e vivia no Oriente, mas não
cumpriu o contrato, filha, e a vida a cobrou isso duramente na outra vinda
aqui, mas agora você será libertada, quer fazer um novo contrato ou quer
continuar como está?
Pérola olhou para Karem, ela não sabia o que responder. A amiga lhe
disse:
– Isso é com você, Pérola, não sei do que se trata seu passado, e não
consigo sentir por você o que é melhor, essa é uma decisão sua.
Então, Pérola fechou os olhos e buscou uma resposta no fundo de seu
coração. Não sabia exatamente do que se tratavam as palavras daquela mu-
lher nem sobre qual contrato ela falava, mas sentiu que deveria dizer sim.
Então, abriu os olhos e respondeu:
– Sim, eu aceito um novo contrato.
Os tambores continuavam a ser tocados, e via-se que muitas outras
pessoas ainda se consultavam. Então, Sete pediu que Pérola a seguisse, elas
foram acompanhadas por uma moça que trabalhava como assistente de
médiuns na casa. Sete, ao passar por outra médium com uma espada curva
na cintura, convocou-a para ir junto. Todas se dirigiram ao fundo da casa
de Umbanda. Foram levadas por Sete até a parte detrás do terreno, perto de
um mato que se erguia junto a um terreno abandonado. A Pombagira Sete
virou-se para a moça que trabalhava como assistente na casa e lhe disse:

252
– Quero álcool e sálvia.
Então, Sete pegou um toco de madeira e riscou um círculo grande no
chão, onde uma pessoa deitada poderia ficar com braços e pernas esten-
didos, depois, disse a Pérola que ficasse no centro do círculo em pé e que
desenhasse dentro dele uma estrela com cinco pontas. Pérola fez o que ela

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lhe pediu, e, com um pequeno galho que encontrou no chão, desenhou um
grande pentagrama. A outra médium se posicionava fora do círculo, estendeu
seus braços impondo suas mãos sobre Pérola para irradiar energia para ela.
Karem fez o mesmo, posicionando-se do outro lado.
A assistente trouxe a sálvia e uma grande quantidade de álcool. Sete
pegou-as e em torno daquele círculo pôs a erva, inundando-a de álcool.
Então, disse:
– Vou me retirar, mas outra estará aqui no meu lugar, o que a mim
competia fazer foi feito.
Então, ela suspirou profundamente, ficou por alguns segundos em
silêncio e, quando abriu os olhos, não mais parecia ser a mesma. Ouvia-se
agora uma estrondosa gargalhada a se espalhar no ar. Ela estava de costas
para Pérola e fazia ecoar sua chegada aos ouvidos de todas. Havia pouca
claridade da Lua minguante. Ela mexia suas mãos como a espalhar algo pela
noite. Pérola sentiu que deveria fechar os olhos e se concentrou, sentiu uma
forte onda de vibração vinda de suas costas. Não sentia medo e, por isso,
entregou-se aos mistérios do além. Então, a voz forte e estridente, como a
de uma bruxa, falou:
– Você sempre vai embora renovada e sempre volta mais uma vez.
Saúdo a Luz e saúdo as Trevas, tudo faz parte de uma coisa só. Eu ordeno
que os portais entre os mundos sejam abertos. E invoco neste momento
o povo do Oriente e peço que se façam presentes os mentores espirituais
desta mulher. Que sejam desenterrados das profundezas da terra de todos os
tempos os contratos de vidas passadas, que eles ressurjam e sejam entregues
a mim neste círculo. Tragam para cima, servos das trevas que servem a Lei.
Coloque-a sob este círculo. E que agora o fogo os queime, que tudo seja

253
extinguido, dilacerado, destruído e transformado, que o queimar do grande
círculo seja o queimar do ciclo velho que se fechou e que, assim sendo, por
merecimento próprio, que a libertação seja concedida.
Fogo foi ateado no grande círculo, e as chamas envolveram Pérola
sem tocá-la. Subiram na altura de seu corpo, seus cabelos voaram para

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cima com as ondas de calor, e Karem não enxergava mais a amiga em meio
as labaredas, mentalmente, ela pedia por proteção, enquanto Pérola men-
talmente pedia pela libertação dos contratos de vidas passadas e por uma
nova oportunidade de fazer corretamente o que deveria ter feito em outras
vidas. As gargalhadas continuavam altas e estridentes, Pérola mantinha seu
pensamento no pedido de perdão pelas falhas um dia cometidas. Ela sentia
no seu íntimo que algo havia deixado passar e fez um pedido de libertação,
quando, de olhos fechados, Pérola sentiu que algo atravessava o fogo e
postava-se agora à sua frente. Continuou com os olhos fechados e apenas
ouvia a voz falar:
– Pelas sete bruxas, eu liberto você, para que possa seguir esse novo
contrato. O véu será retirado de seus olhos. Você levará o conhecimento à
humanidade, e não usará dele em benefício próprio. Os recursos materiais
vindos dele será para que possa beneficiar os mais necessitados. O segredo
do amor será revelado a você, quando cumprir o seu dever, e os livros terão
todos a marca desta estrela. – Em sua mente, uma estrela distinta, que ela
nunca tinha visto igual, surgiu. – E quando fizer este sinal – Pérola sentiu suas
mãos sendo erguidas e postas em determinada posição diante de sua testa
– estará chamando por nosso auxílio. Saiba que estaremos sempre contigo.
Em pensamento, Pérola agradecia a oportunidade, enquanto ouvia
risadas estridentes, então, sentiu que a bruxa atravessava novamente o fogo,
deixando-a sozinha no círculo, que terminava de queimar. Por ali, ficou
recebendo ainda as ondas de calor da fogueira e estranhamente notou que,
apesar de estar no centro do fogo e de ter sido envolvida por ela como uma
cápsula, ainda assim conseguia respirar sem dificuldade.

254
O fogo foi reduzindo, até que se apagou. Pérola abriu os olhos. Karem,
do outro lado, sorria, e as duas médiuns continuavam impondo suas mãos
sobre elas. Então, tudo foi tomado pelo silêncio da noite, e as médiuns co-
meçaram a voltar a si:
– Você está bem, Pérola? – Perguntou Karem.

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– Sim.
– Incrível o que aconteceu, enquanto estava irradiando luz ao grande
círculo queimante, vi dois seres conosco que nunca havia visto antes. Uma
enorme bruxa estava a suas costas, Pérola, envolvendo-lhe em uma luz
lilás intensa. E a sua frente havia um mago com um imenso capuz branco
cobrindo-se por inteiro, não dava para ver nada nele, nem o rosto nem
as mãos, apenas o vi tocar a sua testa com um cajado e vi que havia um
símbolo com Ele, uma Cruz Malta, e tão logo o fogo se apagou os dois se
foram – falou olhando para Pérola.
A outra médium com a espada curvilínea na cintura comentava:
– Vi a mesma coisa que você! Incrível isso que aconteceu. Estou en-
cantada e ao mesmo tempo surpresa, porque sempre vemos seres diferentes
desses, os que nos visitam aqui ou que procuram nossos trabalhos espirituais
estão de alguma forma ligados à Umbanda, são Caboclos, Preto Velhos,
Exus, Pombagiras e Orixás, em geral. Mas estes não, aqui surgiram inespe-
radamente. De que religião vocês são?
– De nenhuma e ao mesmo tempo de todas – respondeu Pérola.
Pérola perguntou à moça que tinha a espada e que foi chamada por
Sete para ajudá-la:
– O que você faz aqui nesta casa?
– Eu trabalho para a Mulher Guerreira dos Ventos e Ventanias, me cha-
mam de Iansã. Eu ajudo na luta diária daqueles que vêm até mim.
– Você deve ser muito iluminada.
Ela riu, depois falou:
– É justamente o contrário. Na verdade, quanto maior o dom, maior é

255
o compromisso e, portanto, mais se deve nesta vida. Se estou aqui fazendo
este trabalho hoje foi porque tenho a oportunidade de ressarcir a humanidade
de algo que um dia eu fiz em outros tempos. Na maioria das vezes, é assim.
Não pense que sou perfeita e feita somente se luz, porque, na verdade, sou
alguém que está evoluindo através da boa ação. Tenho muito trabalho pela

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frente. Eu me redimo assim com minha própria consciência, mas, acredite,
não vejo isso como um castigo, eu me sinto muito bem com o que eu faço.
Para mim, é uma dádiva estar com a Mãe Iansã nesta caminhada.
Elas agradeceram as trabalhadoras da casa de Umbanda e partiram,
dizendo que, se precisassem de alguma coisa, poderiam chamar por elas,
deixaram o número de telefone de contato e continuaram caminhando de
volta para a casa de Pérola.
– Como ela conseguiu atravessar o fogo sem se queimar? – Pérola
estava curiosa.
– Ela quem? – perguntou Karem.
– A médium – fazendo uma expressão de obviedade.
– Mas ela ficou no mesmo lugar o tempo todo – explicou calmamente
Karem.
Pérola refletia sobre isso enquanto caminhava. Ela tinha certeza de que
havia sentido e ouvido alguém diante de si.
Chegando à casa de Pérola, Karem foi separar as ervas para os próximos
banhos. Enquanto isso Pérola se sentou diante de seu manuscrito para escrever
os novos acontecimentos. Ela fez o sinal sagrado que haviam lhe passado e
sentiu uma presença subliminar perto dela, saudou as bruxas mentalmente
e se pôs a escrever, baixando a cabeça e deixando que o texto viesse à tona.
Rapidamente começou a escrever e, quando terminou, leu:

Os dez princípios universais da magia


• A luz é invencível.
• O livre-arbítrio é sagrado.

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• Tudo está contido na intenção do coração.
• Morte e renascimento é uma coisa só.
• Tudo está interligado.
• Não existe casualidade.
• Dar é receber.

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• A dualidade é divina.
• O tempo é circular.
• Deus é você.

Resolvi desligar a televisão, estava ficando revoltada em assistir às


repetidas notícias de denúncias sobre líderes religiosos, que cometem
delitos contra crianças, mulheres ou, então, que exploram financeira-
mente por meio da fé os fiéis necessitados. Tudo isso me aborrece. Esse
é o principal motivo de eu evitar a televisão e procurar não me vincular
a nenhuma instituição religiosa. Perguntei para mim mesma o que leva
pessoas tão cheias de potencial e oportunidade para fazerem o bem
optarem a usurpar o poder. Será que eles sabem o que estão fazendo?
E, mais ainda, por que a Luz Divina permite que pessoas como estas es-
tejam à frente de trabalhos religiosos? Não só as instituições católicas ou
evangélicas, mas também as de outras religiões, porque em todas elas
há os que praticam delitos e abuso de poder e há aqueles que realizam
trabalhos sérios e íntegros.
Mas as últimas denúncias contra os padres católicos e a pedofilia
na Igreja me deixam bastante revoltada. Pensei nas crianças, em quanto
elas são inocentes e indefesas. Pensei na covardia desses homens. Como
poderiam proferir nas igrejas a palavra de Deus, uma vez que não seguem

257
o que dizem? Não encontrei resposta.
Senti uma angústia tão grande. Preciso de respostas para tudo neste
mundo. Por que o mundo é do jeito que é? Por que as pessoas são como
são? O que as leva a fazer o que fazem? Poderiam elas ser diferentes?

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Pensei em Fhelipe. Ele tem resposta para praticamente tudo. Olhei
para o relógio na parede, vi que passavam alguns minutos das dez horas
da manhã. Cogitei a possibilidade de chegar à praia a tempo de conseguir
conversar com ele no seu intervalo. Eu tirei a sorte grande ao encontrar
um amigo como ele.
Vesti uma roupa qualquer e calcei um chinelo. Ao sair de casa, senti o
vento frio gelar meus pés. Evitei retornar à procura de um tênis por falta de
tempo. Caminhei apressadamente para conseguir vê-lo. Em determinado
momento, comecei a correr, por vezes, o chinelo saía do meu pé e eu tinha
de parar para buscá-lo, mas em seguida voltava a correr.
Ao me aproximar da praia, de longe, pude vê-lo sentado no mesmo
banco de sempre a contemplar o mar. Senti um alívio por ele ainda estar
ali. Parei de correr, estava cansada e ofegante, então, passei a caminhar
vagarosamente, a fim de recuperar o fôlego. Olhei no relógio e vi que
passavam das dez horas, em breve ele teria de retornar ao trabalho.
Novamente caminhei apressada até ele, eu tinha pouco tempo para con-
versar. Quando me aproximei, Fhelipe se virou para mim e, ao me ver, me
cumprimentou sorrindo. Eu lhe perguntei de uma vez:
– Fhelipe, há alguma lógica em líderes religiosos falarem tão bem
de Deus se cometem atos tão contrários ao que pregam?
Eu estava em pé, com os braços semiestendidos, em sinal de incon-
formismo. Ele continuava sorrindo e apenas olhou para meus pés:
– Onde você deixou o outro chinelo?
Então, percebi que havia perdido um deles em algum ponto do

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caminho. Baixei os braços e me sentei ao seu lado sem nada responder.
– Vanessa, vou lhe contar rapidamente uma história que acredito que
a fará entender um pouco o que acontece.
– Por favor, conte-me, Fhelipe, eu preciso entender isso para poder
conter a minha revolta.

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Uma história contada por ele me dava uma grande satisfação, tão
boa quanto estar na sua presença.
– Vanessa, quando Jesus Cristo ainda era vivo e andava na presença
de seus apóstolos, um em especial era muito bravo. Pedro era seu nome.
Inclusive, ele andava sempre a arrastar suas tamancas e a batê-las contra
o chão quando estava revoltado com algo. Um dia Jesus precisava ir até
outra cidade pregar a palavra e convidou Pedro para ir com ele. Chegando
à cidade, eles pregaram a palavra de Deus e depois foram procurar por
algum lugar para dormir. Não encontraram nenhuma pensão disponível,
pois todas elas estavam ocupadas devido a um enorme festival que ocorre-
ria no local. Mesmo assim continuaram a procurar pelo menos um espaço
para se recostarem, a fim de no outro dia seguirem viagem. Andaram por
horas, sem nenhum sucesso, até chegar a uma taberna. Ao entrar nela,
Pedro ficou horrorizado e perguntou a Jesus como podia permitir-se
estar em um lugar como aquele. Procuraram pelo proprietário e Jesus
apresentou-se falando de sua necessidade em ter um pouso. O dono da
taberna lhe disse que os quartos estavam todos ocupados, mas que se
eles quisessem poderiam ocupar duas cadeiras na taberna e esperar a
noite passar. Jesus agradeceu a oportunidade e procurou um lugar perto
da parede, assim poderia se apoiar nela enquanto dormia.
Eu estava achando a história bastante interessante e me pergunta-
va se ela estava na Bíblia ou se Fhelipe a havia tirado do mesmo lugar
misterioso de onde tirava todos aqueles conhecimentos que me trazia.
Ele continuava:
– E assim Jesus fez, recostou-se na cadeira junto à parede e logo

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adormeceu. Pedro manteve-se a noite toda de olhos abertos para observar
tudo o que acontecia na taberna. Ele via homens bêbados com mulheres
extravagantes e ouvia as palavras mais profanas. Pedro revoltava-se com
os inúmeros palavrões que ouvia saindo da boca daqueles homens e as

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frases escabrosas que eles diziam. Por vezes, Pedro olhava para Jesus e
o via ressonar enquanto ele não conseguia pregar o olho.
E continuou:
– Pela manhã, Jesus acordou, agradeceu o pouso ao proprietário
e, então, ambos foram embora. Saindo da taberna, Pedro reclamava da
terrível noite que havia passado e de sua sede, pediu para pararem em
um lugar onde pudessem beber e se refrescar. Jesus nada falou sobre
a taberna, mas disse saber de um lugar onde poderiam fazer isso, mas
antes ele gostaria de dar uma passada no Templo daquela cidade, onde
haveria uma grande pregação naquela manhã, para ambos orarem ao
Pai. E assim os dois foram até o lugar. Chegando lá, procuraram por um
espaço em meio à multidão e se acomodaram para ouvir a palavra. Em
um púlpito maior, havia um senhor de cabelos grisalhos falando sobre
Deus, gesticulava fervorosamente, sua barba era bem aparada e usava
uma túnica branca com um manto vermelho sobreposta a ela. Vendo-o,
Pedro se enfureceu, pois havia reconhecido o orador do Templo como um
dos homens que estavam na taberna na noite anterior fazendo todas as
barbaridades a que havia assistido. Pedro se revoltou instantaneamente e
mal conseguiu orar ao Pai. Jesus orou silenciosamente e, depois, quando
a pregação terminou, Ele convidou Pedro a ir até uma fonte de água.
Na rua, Pedro não se conteve e contou a Jesus o que se passara, não só
suas tamancas falavam sobre sua revolta, como também suas palavras
deixavam claro o quanto estava incrédulo por um homem como aquele
estar proferindo as palavras de Deus. Jesus apenas o ouvia. Ao chegarem
na bica de água, ambos estavam sedentos, beberam, refrescaram-se

260
com a água sobre a cabeça e comentaram como aquela água estava
límpida e maravilhosa, matando sua sede. Jesus observava a satisfação
de Pedro com a água e lhe perguntou: “Pedro, está boa a água?”. E ele
respondeu: “Está divina Mestre, divina”. Jesus ainda lhe perguntou: “E
esta água mata sua sede, Pedro?”. Pedro, enquanto molhava seu rosto

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na bica e bebia a água, respondeu: “E como, Mestre, e como!”. “E esta
água é limpa Pedro?” E Pedro respondia: “Das mais puras, Mestre, pu-
ríssima!”. “Agora, Pedro, veja de onde sai esta bica. E Pedro observou
melhor a saída da água. Havia uma caveira grudada na pedra e da boca
daquela caveira saía a água. Sua sede era tanta que mal havia percebido
a caveira. Então, Jesus lhe disse: “Pedro, assim é o que aconteceu hoje,
não importa quem disse, importa o que foi dito. E quando se abre a boca
para falar de Deus e das coisas Dele, tudo é limpo, e aquela palavra mata
a sede de muitos. Perfeitos eles não serão, mas terão, sim, com o que
contribuir, nada justifica o que fazem, mas não se concentre nos erros
deles, concentre-se no que a palavra deles quer dizer”.
Fhelipe terminou a história e foi se levantando. Eu estava satisfeita
com a moral da história e com o que havia ouvido. Ele ainda me falou:
– Vanessa, o caminho é feito para as pessoas, mas não é feito por
pessoas. Se você escolher um caminho baseado na maioria das pessoas
que o seguem é capaz de não escolher caminho algum. Porque muitas
delas que seguem um caminho ainda não se encontraram de verdade.
Portanto, observe a verdade do caminho e não as pessoas que estão nele.
E escute, nunca, nunca, nunca seja intolerante com a religião do outro,
pois pode ser a única coisa que o outro tem. E ninguém tem o direito
de estabelecer o seu caminho como a única verdade do Universo. Por-
que nunca será assim. Não importa o caminho que a pessoa siga, o que
importa é o que o caminho faça para a pessoa e o que ela está fazendo
a partir daquele caminho. E pode ser que seja aquela a verdade que a
libertará, enquanto a verdade que libertará você será outra. As pessoas

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têm, todas, a mesma essência divina, mas seus condicionamentos são
diferentes e, portanto, trilham caminhos diferentes. Vale lembrar que
todos os caminhos levam para um único ponto, que é o nosso lugar de
chegada e também o nosso lugar de partida: Deus.
– Fhelipe, mas como saber qual é a melhor religião para nós?

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– Será aquela que a transforma em um ser humano melhor, que a faz
uma pessoa mais bondosa, mais tolerante com o mundo e menos apegada
à matéria. Será aquela em que você sente Deus mais perto de você.
Fiquei olhando para ele admirada, sempre tinha tanto a dizer. Estava
na hora de ele ir embora, agradeci suas palavras e ainda comentei:
– Preciso me policiar agora para não ficar mais revoltada com os
líderes religiosos que se aproveitam do lugar que ocupam.
– Apenas pense que aquele é o grau de consciência daquela pessoa.
Agora, preciso ir, minha querida. Não deixe que a revolta domine você,
controle-a e nunca se conforme com as coisas erradas, apenas se abstenha
de ser movida pela raiva, escolha sempre fazer as mudanças em você na
esperança de ver tudo melhor, acredite, o amor sempre transforma!
– Obrigada, Fhelipe, muito obrigada por tudo, obrigada por ser
meu amigo.
– Não precisa agradecer, querida. Além do mais, gosto de ser seu
amigo, me faz muito bem.
Ele se levantou e acenou com a mão, percebi em seu pescoço uma
corrente na qual havia uma cruz de malta, eu acenei também. Vi ele se
afastar e me perguntei de que religião ele seria. Fiquei sentada na praia
olhando o movimento, quase sempre naquele horário encontrava as
mesmas pessoas caminhando ou levando seus filhos à pracinha de areia
na praia. A moça que por vezes eu vi ali empurrando o carrinho de seu
filho agora me olhava intrigada. Eu acenei para ela, que não me acenou
imediatamente, antes olhou para trás, a fim de ver se eu havia cumpri-
mentado outra pessoa que não fosse ela, e, ao perceber minha insistência

262
em tenta cumprimentá-la, então, arriscou-se a acenar para mim também.
Com isso, sorri e ela me sorriu de volta.
Imaginei que mais alguns dias de trabalho e meu livro estaria pronto,
então teria que procurar alguma editora para publicá-lo. Depois da con-
versa com Fhelipe, fiquei mais tranquila sobre o livro, decidi que não mais

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criaria expectativa alguma sobre a minha vida, porque no fundo eu não
tinha como prever o que aconteceria. Assumi um compromisso comigo
mesma de não esperar por mais nada e, ao mesmo tempo, esperar por
tudo nesta vida.
Eu continuava sentada, quando vi a mãe e o carrinho de bebê se
aproximarem. Perguntei-lhe como ela estava e ela prontamente me
respondeu:
– Estou bem, obrigada. Sempre a vejo por aqui, me desculpe pergun-
tar, mas estou intrigada e preocupada, por que você sempre fala sozinha?
Eu não sabia o que responder...

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CAPÍTULO XXI

Onde Tudo
Recomeça
Brasil, 2008

P érola acordou e perguntou para si mesma em que plano estava, es-


perou alguns segundos até se orientar no tempo e no espaço, então,
percebeu que estava dentro da realidade da terceira dimensão. Havia ficado
confusa, o sonho que acabou de ter era tão real quanto a realidade em que
agora estava. Sentou-se na cama e ficou recordando os detalhes do sonho.
Pérola se encontrava em uma sala de cores claras. Uma mulher dançava na
sua frente, usava um vestido vermelho com diversas moedas douradas a lhe
enfeitar, seus cabelos encaracolados e com reflexos dourados se mexiam
conforme a dança. Ela era linda e radiante, parecia-se com uma cigana do
Oriente. Ela parou de dançar enquanto lhe sorria, então, desceu do patamar

265
de onde se encontrava e se aproximou de Pérola, dizendo:
– Eu sabia que nós íamos ser amigas novamente Dama Valente.
Então, mostrou uma mesa onde havia um tarô, pegou-o com uma das
mãos e o dispôs sobre ela, espalhando com habilidade as cartas em uma
única fileira, retirou uma carta e entregou a Pérola, dizendo:

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– Esta carta é para você.
Pérola a segurou, virou-a, surgia à sua frente a carta da Rainha de Copas.
Não sabia como explicar, mas Pérola tinha certeza de que aquela moça
era a mesma menina que viu em seu quarto e que sorria para ela, quando
Pérola a ainda era uma criança, e misteriosamente desapareceu frente aos
seus olhos. Na época, Pérola havia guardado segredo, pois achava que ne-
nhum adulto acreditaria nela.
Ela ficou no meio da madrugada pensando sobre aquela cigana do
Oriente e sobre o motivo de uma cigana ter vindo até ela. Pensou no que
aprendeu no curso de tarô e o que estudou sobre as interpretações das Cartas
de Crowley a respeito da carta da Rainha de Copas, então, lembrou-se de
essa carta estar associada ao elemento água, e que o uso da intuição fazia
parte dela, tanto quanto as emoções que inundam as pessoas com os sen-
timentos mais profundos, lembrou-se também que a carta está relacionada
com a proteção vinda do mar e que a figura feminina central do desenho
representava a mulher misteriosa do oráculo.
Nesse momento, soube que ganhou uma amiga do lado de lá e que
provavelmente ela viria outras vezes em seus sonhos. Por algum motivo, a
cigana do Oriente esteve esperando todos estes anos para que alguma coisa
acontecesse com Pérola. Por fim, concluiu que, por enquanto, não teria
maiores explicações e que mesmo que quisesse pensar por dias inteiros
sobre a lógica a respeito dela, mesmo assim, sabia que não entenderia tudo
o que envolve os mistérios do lado de lá. Sentiu-se feliz em saber que agora
tinha uma amiga como ela, sem nome, mas muito importante. Procurou
voltar a dormir e descansar. Era fim de semana, e ela teria trabalho a fazer

266
no livro assim que acordasse, pois estava escrevendo as últimas páginas.
Faltava muito pouco agora para Pérola finalizar seu livro e ela planejava
em seguida dar início à continuação. Havia recebido inspiração para o pró-
ximo livro. Um grande número de internautas se interessava por seus textos

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em seu blog. Nada ela mantinha somente para si, pois Pérola acreditava que
todo o conhecimento era algo público, e todos deveriam ter acesso a ele.
Karem optou por estudar os Florais de Bach e a Fitoterapia. Ela fazia pastas
e chás para tratamentos de saúde que eram distribuídos em casas filantrópicas.
Uma parte ela vendia a quem pudesse pagar para repor o custo das ervas. Ela
impunha sua mão e suas intenções sobre as pastas e os medicamentos que
preparava. Havia recebido muitos retornos de pessoas que diziam ter recebido
alívio e até mesmo cura para seus problemas de saúde.
Clara e Andréa se uniram para ensinar as pessoas carentes a escolher
uma profissão e assim trazer prosperidade para seus lares. Elas ministravam
cursos de manicure, culinária e pintura a um grupo de mães em uma as-
sociação de bairro. Andréa formou um coral de mães e passou também a
ministrar aulas de música e canto. Parecia que tudo na vida fluía para que
isso acontecesse. Elas haviam conseguido um emprego de meio período
que cobria todas as suas despesas pessoais e ainda propiciava que elas di-
vidissem seu tempo entre a manutenção de sua vida e a oportunidade de
ajudar os outros.
Priscila estava ligada a uma casa para crianças abandonadas na peri-
feria, e parte de seu trabalho era o de dar amor àqueles que não tiveram a
oportunidade de crescer em um lar nesta vida. Ela era a bela mãe que muitas
daquelas crianças gostariam de ter. Ela voltou à faculdade de Assistência
Social e conseguiu um estágio remunerado em um projeto da Prefeitura.
Todas elas concordaram que, além da reunião do Coven, também seria
importante que elas se reunissem uma vez por semana para aprender algo
novo. Batizaram o lugar onde realizavam o Ritual do Portal 8 com o nome

267
de Santuário das Bruxas e, muitas vezes, iam lá para se energizarem. Na
verdade, sabiam que lá muitas vezes retornariam nesta vida e quem sabe em.
Ao terminar as últimas linhas do livro, Pérola suspirou. Fechou seus
olhos e agradeceu mentalmente por tudo o que havia vivido nos últimos
tempos. Não lhe doíam mais os acontecimentos passados, pois ela agora

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entendia que o que ela acreditava ser o mal poderia ter sido a melhor coisa
que poderia ter acontecido em sua vida. Pensou sobre o que teria acontecido
com ela se continuasse na sua vida tranquila, calma, estagnada e aparente-
mente segura com Pedro. Nada de verdadeiramente precioso que naquele
momento ela vivia seria algum dia um fato real se ela continuasse dentro da
suposta cápsula segura. Então se perguntou o que teria acontecido a Pedro e
sobre o fato de não ter sentado com ele para conversar ou esclarecer o que
ficou oculto na separação. O rompimento havia sido repentino e doloroso,
mas ela agora se sentia praticamente curada. Então, decidiu ir até a cozinha
para preparar um chá. Ao se levantar, ela viu que um envelope pardo havia
sido colocado por debaixo de sua porta.
Pegou-o e reparou que não havia remetente. Abriu, era uma carta escrita
em uma folha de caderno dobrada que dizia:
“Querida Pérola,
Não sei muito o que escrever nesta carta. Ao mesmo tempo que tenho
tanto para falar tenho pouco a dizer. Acredito que seja por que não sei por
onde começar. Eu pensei muitas vezes no que diria a você se tivéssemos
a oportunidade de sentarmos para conversar, e acho que minhas primeiras
palavras seriam perdoe-me, eu não queria ter magoado você, deveria ter
acreditado em nós desde o primeiro dia e nunca ter duvidado de que pode-
ríamos dar certo. Eu não deveria ter feito as coisas que fiz e da forma como
fiz, mas, agora que está feito, só posso lamentar ter magoado alguém que
não merecia.
Eu não procurei você com maior insistência nestes últimos tempos por-
que imagino que se tentei entrar em contato primeiramente e não consegui,

268
então, é porque não chegou a hora certa ou talvez você assim deseje que
continuemos e esteja vivendo outras oportunidades na vida, descobrindo
coisas novas, quem sabe até pessoas. De qualquer forma, saiba que torço
muito por você, quero que seja feliz e lhe digo mais, acredito que aquilo que
tiver de ser um dia será, e se a vida nos der outra oportunidade, isso ocorrerá

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quando estivermos prontos um para o outro, se não paciência. Fique bem,
Pérola. No fundo, eu nunca te esqueci.
Com amor, Pedro.”
Pérola terminou de ler a carta e respondeu em voz alta: “Sim, se algum
dia estivermos prontos novamente um para o outro a vida nos unirá!”.
Ela se sentia em paz, e então preparou seu chá. Assim que o bebeu,
decidiu que iria até o Santuário sozinha, pois precisava também agradecer
à Mãe Natureza tudo o que havia acontecido em sua vida, ela sabia que
aquelas águas estariam esperando por ela.
Fechou a casa, pegou seu Athame e dirigiu até o lugar enquanto ouvia
o silêncio de seus pensamentos. Chegando ao Santuário ela subiu no cume
da rocha maior, no ponto mais alto do encontro das pedras com o mar.
Avistou à sua direita os morros verdes e a floresta. Avistou à sua frente o mar
sem fim. Levantou seu athame e saudou a todos os seres existentes no ar,
na terra, no espaço, nas águas e no interior queimante do subsolo de Gaia.
As nuvens sorriam, o Sol luminoso aquecia seus filhos, uma estrela no
horizonte celeste acendeu a luz do dia, a brisa tocou carinhosamente seus
cabelos, o Sol a abraçou e as sereias subiram à superfície, consentindo a
saudação. Por fim, concluiu... viver é algo mágico...
...A vida é a verdadeira magia...

Para saber mais sobre a autora Vanessa de Oliveira, acesse:


www.vanessadeoliveira.net

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Outras publicações

UMBANDA – DEFUMAÇÕES, PRETO VELHO E SEUS


BANHOS, RITUAIS, TRABALHOS ENCANTOS
E OFERENDAS
Evandro Mendonça inspirado pelo
Evandro Mendonça Africano São Cipriano

Rica em detalhes, a obra oferece ao Os Pretos Velhos têm origens africana,


leitor as minúcias da prática dos ritu- ou seja: nos negros escravos contra-
ais, dos trabalhos e das oferendas que bandeados para o Brasil, que são hoje
podem mudar definitivamente a vida espíritos que compõe as linhas africanas
de cada um de nós. Oferece também e linhas das Almas na Umbanda.
os segredos da defumação assim como
São almas desencarnadas de negros
os da prática de banhos. Uma obra
que foram trazidos para o Brasil como
fundamental para o umbandista e para
escravos, e batizados na igreja católica
qualquer leitor que se interesse pelo
com um nome brasileiro. Hoje incorpo-
universo do sagrado. Um livro necessá-
ram nos seus médiuns com a intenção
rio e essencialmente sério, escrito com
de ajudar as almas das pessoas ainda
fé, amor e dedicação.
encarnadas na terra.
A obra aqui apresentada oferece ao
leitor preces, benzimentos e simpa-
tias que, oferecidas aos Pretos Velhos,
sempre darão um resultado positivo e
satisfatório.

ISBN: 978-85-86453-22-9 ISBN: 978-85-86453-26-7


Edição: 2010 Edição: 2010
Formato: 16 x 23 cm – 208 páginas Formato: 14 x 21 – 176 páginas
Papel: off set 75 g Papel: off set 75 g

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Outras publicações

EXU E SEUS ASSENTAMENTOS EXU, POMBAGIRA E SEUS AXÉS


Evandro Mendonça inspirado pelo Evandro Mendonça inspirado
Exu Marabo pelo Sr. Exu Marabô e pela
Sra. PombaGira Maria Padilha
Todos nós temos o nosso Exu
individual. É ele quem executa as A obra apresenta as liberações dos
tarefas do nosso Orixá, abrindo axés de Exus e de PombasGiras de
e fechando tudo. É uma energia modo surpreendente, condensado
vital que não morre nunca, e ao ser e extremamente útil. É um trabalho
potencializado aqui na Terra com direcionado a qualquer pessoa que se
assentamentos (ponto de força), interesse pelo universo apresentado,
passa a dirigir todos os caminhos de no entanto, é de extrema importância
cada um de nós, procurando sempre àquelas pessoas que tenham interesse
destrancar e abrir o que estiver em evoluir em casa, em seus terreiros,
fechado ou trancado. na vida.
E o que são esses axés? “Axé” é força,
luz, poder espiritual (tudo o que está
relacionado com a sagrada religião),
objetos, pontos cantados e riscados,
limpezas espirituais etc. São os
poderes ligados às Entidades.

ISBN: 978-85-86453-23-6 ISBN: 978-85-86453-27-4


Edição: 2010 Edição: 2010
Formato: 14 x 21 – 128 páginas Formato: 14 x 21 – 192 páginas
Papel: off set 75 g Papel: off set 75 g

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POMBAGIRA E SEUS A MAGIA DE SÃO COSME E
ASSENTAMENTOS SÃO DAMIÃO
Evandro Mendonça inspirado pela Evandro Mendonça
Pombagira Maria Padilha
Algumas lendas, histórias e relatos con-
Pombagira é uma energia poderosa e tam que São Cosme e São Damião
fortíssima. Atua em tudo e em todos, passavam dias e noites dedicados a
dia e noite. E as suas sete ponteiras cura tanto de pessoas como animais
colocadas no assentamento com as sem nada cobrar, por esse motivo foram
pontas para cima representam os sincretizados como “santos dos pobres”
sete caminhos da mulher. Juntas às e também considerados padroeiros dos
outras ferramentas, ervas, sangue, médicos.
se potencializam tornando os
Não esquecendo também seu irmão
caminhos mais seguros de êxitos.
mais novo chamado Doúm, que junto
Hoje, é uma das entidades mais
fez parte de todas as suas trajetórias.
cultuadas dentro da religião de
Umbanda. Vive na Terra, no meio das A obra oferece ao leitor algumas preces,
mulheres. Tanto que os pedidos e as simpatias, crenças, banhos e muitas
oferendas das mulheres direcionadas outras curiosidades de São Cosme e
à Pombagira têm um retorno muito São Damião.

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rápido, na maioria das vezes com
sucesso absoluto.

ISBN: 978-85-86453-24-3 ISBN: 978-85-86453-25-0


Edição: 2010 Edição: 2010
Formato: 14 x 21 – 148 páginas Formato: 14 x 21 cm – 136 páginas
Papel: off set 75 g Papel: off set 75 g

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