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Copyright © 2013 Raquel Pagno

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Revisão: Ana Neli Binder
Arte Capa: Décio Gomes
Diagramação: Bruno Lira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Ficha Catalográfica feita pela Editora.)

__________________________________________________
G8985 Pagno, Raquel
Herdeiro da Névoa/ Raquel Pagno - 2ª ed. - São Paulo: Editora Tribo das
Letras, - 2016
304p.
ISBN:
1. Literatura Brasileira 2. Romance I. Título
CDD B869.3
CDU 821.134.3(81)
_____________________________________________________
Índice Catálogo Sistemático
1.Romance Brasileiro B869.3

É proibida a reprodução total e parcial desta obra, de qualquer forma ou por


qualquer meio eletrônico, mecânico, inclusive por meio de processos xerográficos,
incluindo ainda o uso da internet, sem permissão expressa da Editora Tribo das
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“A letra da canção é o que
pensamos entender, mas o que faz
com que acreditemos, ou não,
é a melodia.”

Carlos Ruiz Zafón


Raquel Pagno

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Prefacio
´

Por quem você venderia a sua alma? Tal indagação me


soaria estranha até há pouco tempo.
Eu certamente julgaria a resposta óbvia demais: filhos,
amores, pais… uma leva de entes queridos por quem o faríamos
facilmente. Jamais pensei que a escolha pudesse ser feita para
salvar a vida de um inimigo…
Muitos anos se passaram. Estou sentado na cadeira
dura do meu escritório, num luxuoso hotel no centro de Paris,
diante da minha velha máquina de escrever. ‘François Roux
— Advogado’ é o dizer entalhado na antiga placa de madeira,
por mim pendurada cuidadosamente diante da porta da suíte.
Ainda sinto orgulho deste nome e deste título, embora há
muito tempo não receba nenhum cliente nem tenha mais
energia ou vontade para atender algum.
Observo as gotas de chuva que escorrem pela vidraça
em minha frente, lentas, juntando-se umas às outras. Penso
que as palavras sairão de minha mente como essas gotas de
chuva, com tamanha profundidade e ao mesmo tempo com
uma transparência suficientemente cristalina, tal que se possa
ver através delas.
Aperto os olhos, tentando vencer as sombras da
tempestade que se derrama sobre a cidade. Lá embaixo, um
vulto se move, correndo pela rua alagada em direção ao meu

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Raquel Pagno

prédio. Levanto-me rápido, precisamente a tempo de definir a


silhueta da mulher sob o guarda-chuva: o mesmo belo demônio
que me enfeitiçou.
Quando retorno ao meu assento, a fim de concluir a
missão de escrever minha história, ela já está tão próxima
que posso ouvir seus passos através da porta fechada da suíte
transformada em meu escritório particular. O toc toc dos
saltos pontiagudos sobem impacientes pela escadaria.
De certa forma, creio que o habitual não uso do elevador
seja uma forma implícita que ela arranjou para me anunciar
sua chegada. Como se eu não a sentisse, como se não fôssemos
parte de um mesmo todo, um único ser dividido em duas
partes.
Não quero abrir a porta. Ela me confunde, rouba-me
a inspiração. Tenho de me concentrar nas letras, nas teclas
a minha frente. Não vou levantar-me e deixá-la entrar outra
vez em minha casa para roubar-me as forças e as esperanças,
impedir-me de contar a verdade.
Recolho-me em toda a insignificância de uma criatura
que desafia seu criador. Recolho-me em meu silêncio e ignoro
os nós dos seus dedos que batem insistentemente à porta.
Percebo, pelo tom das batidas, que ela está ansiosa. Sua mão
está trêmula e insegura.
Talvez a verdade que decidi expor seja também a verdade
dela, não tenho certeza. Seus passos estão se distanciando da
porta, voltando pelas mesmas escadas que a trouxeram para
cá, para mim.
Se ela não o quisesse, jamais me permitiria tamanha li-
berdade. Se não desejasse ardentemente que sua história fosse
contada, apenas me impediria. Ela sempre consegue fazer de
mim o que quer.

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— Chloé Champoudry! — a voz ecoou pelo imenso


auditório.
Virei-me. Ouvira falar na família Champoudry, famosa
em toda a França, por sua fortuna e seu poder. Ouvira estórias
assustadoras. Acidentes terríveis, suicídios, decadência
completa… Nunca dei importância a essas estórias. Pessoas
muito ricas como os Champoudry, são sempre alvos para
invenções de mentes perturbadas.
Mudara-me para Paris há pouco tempo. Sequer
compreendia tais estórias completamente. Estudara o idioma
francês enquanto me preparava para a viagem. No entanto,
por mais que o tenha estudado, suponho que nunca o dominei
com perfeição. Dediquei-me ao máximo, queria realizar o
sonho de quase todos os jovens brasileiros da minha época:
estudar na França, mais precisamente na Sorbonne, símbolo
máximo de status que um recém-formado poderia ter.
A garota levantou-se e deslizou suavemente em direção
à professora. Minha cabeça a seguiu, despudoradamente.
Meus olhos vidraram nos cachos de fogo que lhe caíam sobre
os ombros, encobertos apenas por um fino xale de renda
negra, pelo qual transparecia a palidez de sua pele. O vestido,
também negro, era decotado e deixava aparecer as beiradas do
espartilho apertado que lhe demarcava a cintura e espremia

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Raquel Pagno

os seios miúdos. Sua face era um mistério, escondido por trás


de um fino tule, quase transparente, que ocultava a pureza do
rosto feminino, mostrando apenas o cinza profundo dos seus
olhos.
Chloé era a figura mais linda que eu vira na vida. Cheguei
mais perto para ouvir qual seria sua audição e constatei que
Belas Artes era o curso que escolhera. Nem precisava, ela
era tão linda quanto as divas francesas do teatro. Depois de
conferir a papelada, a professora saiu pelo corredor. Chloé
a seguiu. Tive a impressão de que ela me lançara um olhar
curioso quando passou ao meu lado, tão perto que pude sentir o
perfume que se desprendia de sua pele e atiçava-me as narinas.
Eu viera a Paris para estudar Direito. Estava com 21
anos de idade em 1951, quando me surgiu a oportunidade
de ingressar na Sorbonne. Eu não fora um jovem rico. Reuni
minhas economias e parti para a França em busca de boa
formação. Arranjei um pequeno quarto numa modesta pensão
do Marais, não muito longe da Île de La Cité, de onde eu
conseguia enxergar, ao longe, pela janela da frente, as torres
de Notre Dame. Dividiria o minúsculo quarto com outro
estudante, e consegui um trabalho de lavador de pratos que
me garantiria teto e sustento nos anos vindouros.
Cheguei apenas uma semana antes da audição. Não
conhecia a cidade, tampouco sabia o nome das ruas, ou como
encontrar os endereços de que precisava. Por sorte, meu
colega de quarto estivera antes em Paris. Vindo de Londres,
era mais velho e experiente do que eu. Stephen tinha 28 anos,
um conhecimento e uma experiência de vida que me inspirava
e fascinava. Era o tipo de pessoa que se daria bem em qualquer
coisa que fizesse na vida. Viera à França para formar-se em
História, cujos conhecimentos serviriam para escrever um
livro. Entre suas inúmeras habilidades e diversas profissões
que já exercera, era também escritor.
Não era fácil ser aceito, ainda mais como bolsista, nas

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Herdeiro da Nevoa
´

universidades francesas. Eu sempre fora bom aluno. Trouxera


cartas e mais cartas de recomendação dos meus antigos
professores brasileiros. Depois de 22 longos dias de viagem,
enfiado em um arcaico navio movido a carvão, e de percorrer
de trem os mais de 585 quilômetros que separavam Paris de
Bordeux, sentia-me um menino perdido, ao desembarcar na
estação Montparnasse.
Confuso, demorei a encontrar as principais avenidas,
como a Avenue des Champs-Elysées, na margem direita do
Senna, que além de conduzir ao Arco do Triunfo, abrigava
o Consulado do Brasil, onde eu regularizaria minha situação
como bolsista do governo francês.
O que eu não esperava, era depois de ter atravessado
todas as dificuldades, e de conseguir chegar até aonde meu
sonho se iniciaria, eu encontraria um anjo, no exato momento
em que meu nome fora chamado para o teste que decidiria o
meu destino.
— Vaz! Inácio Vaz! — por pouco não perdi a vez.
Mantinha meus olhos fixos na jovem Chloé que se afastava
por entre o corredor abarrotado de homens tão pasmados
quanto eu.
Enfim, acordei do transe e segui minha professora.
Levaram-me para uma sala distinta, na qual me esperavam
dois entrevistadores que avaliariam minhas possibilidades de
ingresso no curso de Direito.
Na hora da pergunta final, depois de julgado qualificado
e merecedor da bolsa de estudos, foi que cometi o engano.
Quando questionado sobre qual dos cursos pretendia,
involuntariamente meus lábios se abriram para a palavra Artes.
Tão logo calei-me, percebi o terrível erro. Estive
tão concentrado em Chloé, que meus sentidos me traíram.
Eu abdicara de meu sonho, para seguir o destino que me
aguardava junto a outro sonho, mais recente e mais ardente,
que me tentara na saleta das audições. Rezei secretamente

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Raquel Pagno

para que Chloé também tivesse sido aceita.


Quando deixei o prédio, sentia-me zonzo. Andei a esmo
pelas ruas desconhecidas durante muito tempo. Não conseguia
acreditar no que acabara de fazer. Minha preocupação principal
era de como eu daria a notícia a meu pai. Percorri as ruas que
cercavam o Quartier Latin, até recuperar a lucidez. Voltei para
meu quartinho, decidido a escrever-lhe uma carta, contando
que acabara de desistir do futuro brilhante que ele sonhara
para seu filho.
Stephen estava deitado. Não pareceu surpreso, quando
lhe contei minha tremenda burrada. Pedi-lhe um conselho
de como contar a verdade a meu pai. Stephen recusou,
esquivando-se da responsabilidade que era unicamente minha,
e saiu rindo às gargalhadas.
Não entendi como ele poderia achar graça de uma questão
tão séria. Talvez, ele que vinha de uma família importante e
que podia escolher o que fazer da vida, preocupando-se apenas
com o seu bel-prazer, não soubesse o que aquilo significava
para alguém como eu. Segurei o papel com força. Não sabia
nem por onde começar. Decidi então sair pé pela cidade, ainda
não tivera tempo de conhecer Paris e certamente a caminhada
e a sensação do vento frio na pele me ajudariam a esquecer o
imperdoável erro.
Percorri a Rue de Rivoli, até encontrar a esquina que me
levaria à Pont d’Arcole. Queria ir à catedral de Notre Dame.
Apesar de estarmos nos últimos dias de fevereiro, o frio do
inverno insistia em não se ausentar de Paris e a primavera
iniciava como se fosse uma irmã siamesa do inverno. Era quase
meio-dia, mas o sol não brilhava. Um aglomerado de nuvens
pálidas e carregadas envolvia o céu da cidade, tornando-a
melancólica. Minúsculas gotas geladas de chuva cobriam meu
rosto, enquanto um vento álgido atravessava-me as vestes e
penetrava em minha pele, fazendo doer os dentes e congelar o
sangue em minhas veias.

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Herdeiro da Nevoa
´

Estava pronto para entrar na catedral, ajoelhar-me e


rezar. Quem sabe Deus não me enviaria a inspiração necessária
para a inevitável carta que escreveria em breve? Caminhei
depressa, sem me importar com a grande quantidade de
pessoas que se aglomeravam nas ruas. Imaginei ter visto os
mesmos cachos de fogo esvoaçando em minha frente, correndo
pela praça, migrando para a igreja.
Corri também. Se Chloé estava ali, então eu já não me
importava com a carta a meu pai, ou com a desculpa esfarrapada
que eu teria de inventar. Só queria olhar novamente para
aquele anjo que mudara o meu destino, perder-me naqueles
olhos cinza de tempestade.
Segui pela Praça Parvis, esbarrando nas pessoas. Vi a
saia esvoaçante de Chloé sumir na gigantesca porta da entrada
principal, que alcancei segundos depois. Perdi-me na beleza
da nave central. Precisei concentrar-me para perceber que
Chloé estava sentada na última fileira à direita, cabeça baixa.
Esperei um tempo, para deixar de ofegar. Segui lentamente e
sentei-me ao lado dela.
— Eu sabia que viria — afirmou, sem mudar de posição,
nem me olhar. Olhei em volta, em dúvida se aquelas palavras
eram mesmo para mim. Não havia mais ninguém ali. Hesitei
um instante, apavorado, e só então respondi.
— Perdoe, mas ouvi quando a professora a chamou, Srta.
Champoudry. Eu… acho… que seremos colegas de turma…
— disse encabulado. Ouvi um leve gemido que imaginei ser
choro, mas ao olhar melhor para seu rosto parcialmente
encoberto pelo véu, vi que sorria timidamente. Ri também,
sentindo-me ridículo e refletindo sobre qual fora a besteira
que eu acabara de dizer.
— Desculpe, eu… — ela levantou totalmente o véu e
me olhou curiosa, certamente esperando pela próxima idiotice
que sairia dos meus lábios. — Bem, eu só pensei que, já que
vamos ser colegas de classe, talvez a senhorita aceitasse tomar

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Raquel Pagno

um café comigo.
— Um café? — repetiu ela, interrompendo-me com ar
zombeteiro.
— Sim, mas, caso não goste de café, poderia ser um
sorvete, ou quem sabe, um suco, ou… — senti meu rosto
em chamas, o que me permitiu avaliar o quão corado ficara,
enquanto tentava engatilhar uma conversa. Pensei se o meu
francês estava tão ruim, a ponto de ela não compreender o que
eu dizia…
— Eu aceito o café! — surpreendeu-me, cortando meus
pensamentos e deixando-me ainda mais nervoso. Eu tinha me
preparado para enfrentar a dor de uma recusa, mas não para
a surpresa que aquele sim me causou. — Mas só se você for à
minha casa.
— À sua casa? — perguntei, em um tom mais surpreso
do que gostaria. — Sim, é claro!
— Venha — disse apenas, segurando-me pelo braço
e puxando-me para fora da catedral. Chloé parecia fugir de
alguém, ou dos olhares maliciosos que a acompanhavam por
onde passava.
Minhas pernas se recusavam a obedecer enquanto Chloé
me puxava. Percorremos uma das pontes, rumo a Boulevard
Saint Germain, de onde entreveramo-nos a oeste, em ruelas
secundárias, até passarmos às áreas nobres de Paris, onde se
erguiam a Tour Eiffel e antigos prédios de moradia de gente
rica e elegante. Não soube exatamente para onde ela me
levaria, era ainda um completo estranho perambulando na
bela Paris.
Estava tão tenso que poderia ter me desequilibrado ou
tropeçado e caído. Só sentia a mão forte de Chloé, que segurava
firmemente o meu braço e me arrastava para o casarão dos
Champoudry, e só enxergava seus cabelos ruivos à minha
frente, que se moviam balançados pelo vento.
Caminhamos apressados, tanto que perdi a conta de

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Herdeiro da Nevoa
´

quanto tempo se passara. Ela sempre a minha frente e eu a


seguindo, guiado por sua mão dominadora. Quando chegamos,
eu mal conseguia respirar, de tão exausto. Chloé não parecia
nem um pouco cansada.
Pensei em como a minha vida poderia ter mudado tanto
em um único dia. Quando acordara naquela manhã, tudo o
que pretendia era ser aceito na Sorbonne, tornar-me advogado
e voltar para casa com o orgulho de um sonho realizado.
Desde o momento em que eu vi Chloé pela primeira vez, essas
coisas perderam toda a importância para mim. Todos os meus
objetivos se transfiguraram em apenas um: decifrar aquela
mulher misteriosa, que me arrastava rua afora, como se o
resto do mundo tivesse deixado de existir.
Subimos a escadaria que antecedia a entrada luxuosa
do casarão. Chloé correu seus dedos até o meu pulso, onde
apertou, puxando-me para trás de si, como se quisesse me
proteger ou me esconder. Então lembrei-me de que ela poderia
ter um pai e que o Sr. Champoudry poderia ser um homem
temeroso, e tive vontade de voltar. Cheguei a dar um passo
atrás, mas a mão de Chloé segurava-me de tal forma, que não
pude livrar-me dela. Eu não disse nada. Só fiquei ali e esperei
que abrisse a porta.
Ninguém nos recepcionou. Ou estávamos sós, ou os
rangidos da porta não podiam ser ouvidos no interior da
construção. Entrei. Olhei para os lados, admirando o espaçoso
salão, habitado apenas por um gato, que dormia sobre o único
móvel do recinto, um piano de cauda. Sobre um ressalto do
piso, um carpete felpudo inteiramente branco e solitário, tal
qual o piano e o gato. As luminárias pendiam do teto como
lágrimas, e os lustres cintilavam uma iluminação amarelada,
que dava ao ambiente uma sensação calorosa e aconchegante,
apesar da amplitude.
No extremo oposto do cômodo, havia uma porta
entreaberta, pela qual eu enxerguei dois corrimãos dourados.

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Raquel Pagno

Chloé dirigiu-se até lá, abrindo-a completamente. Olhou-me


como se me convidasse a subir as escadas. Olhei para ela, e
em seguida para uma pequena passagem que a ladeava pela
direita, tendendo a atravessá-la, imaginando que a cozinha
estivesse do outro lado, atrás da escada.
— Venha comigo — disse, estendendo-me a mão.
Subi o primeiro degrau timidamente, depois o segundo
e finalmente a mão de Chloé segurou a minha e ela me
conduziu até o segundo lance da escada, que acabava em outro
cômodo de dimensões descomunais. O lugar era composto por
enormes prateleiras encostadas em todas as paredes e forradas
de livros, de todos os tamanhos e espessuras. Olhei encantado
para a majestosa biblioteca, os livros com suas capas de couro,
adornos dourados nas lombadas e imaginei-me agarrado a
cada um deles, devorando-os um a um. No centro do aposento
havia pequenas mesas arredondadas, torneadas em madeira
escura, que conferiam ao ambiente um ar misterioso, mas
ao mesmo tempo, confortável. Duas poltronas escoltavam
cada uma delas. E no centro disso tudo, uma lareira redonda
lançava chamas avermelhadas e aumentava a sensação gótica
e sombria do lugar.
Relutei em sair dali, mas Chloé me conduziu novamente
à escada até uma comprida circulação, no terceiro andar. Havia
muitas portas, em ambos os lados, todas igualmente pintadas
de branco, como quase tudo ali. Bem no meio da circulação,
sobre um aparador, repousavam antigos retratos, que pareciam
vindos de alguma época remota. Não tive tempo de reparar
bem neles, mas no pouco que vi, reconheci a imagem de Chloé,
os cachos que me eram tão familiares, apesar de eu conhecê-
los há tão pouco tempo.
Chloé parou diante da última porta do corredor. Segurou
a maçaneta dourada e girou-a rapidamente, empurrando a
pesada madeira da porta. Para minha surpresa, não se tratava
de uma sala de estar, ou de qualquer tipo de ambiente social.

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Herdeiro da Nevoa
´

Chloé me levara para o quarto.


Relutei por um instante. Não era correto entrar, nem era
correto estar ali, sozinho com Chloé. Meus pelos se arrepiaram,
só em pensar na possibilidade de ser pego. Mas ela olhou-
me com seu olhar mais doce, e eu não pude resistir. Deixei
que me tocasse com suas mãos quentes, que me apertavam as
carnes, e espalhavam seu calor reconfortante pelo meu corpo
ofegante, enquanto tirava-me a camisa e depois as calças, para,
em seguida, quase implorar-me para que a possuísse.
Entreguei meu corpo e minha alma àquela mulher que
eu não conhecia e que jamais viria a conhecer totalmente.
Entreguei minha vida e meus sonhos à Chloé, naquele exato
momento, em meio a uma tarde nublada, quando senti o calor
da sua pele em minhas mãos pela primeira vez. E a partir de
então, eu já não era mais eu, Inácio Vaz, e me tornei parte dela.
Uma unidade de duas pessoas, uma única alma.

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Quando saí da casa de Chloé, o sol já se punha. Os


reflexos lançados pelos poucos raios de luz e pelo que ainda
restava do dia, tingiam o horizonte de escarlate, tornando
corado o céu cinza de Paris. Ventava um pouco, o bastante
para despentear meus cabelos mais do que já estavam.
Não quis refazer o caminho, como sempre, temia
perder-me. Segui margeando o rio que alimentava e dava
vida à cidade. Pensava na loucura que fizera. Estava nervoso,
porque me sentia culpado, mas também, incrivelmente feliz.
Eu apaixonara-me por Chloé com todo o meu coração, e
então, refazia a cena em minha mente, milhares de vezes,
repetidamente, e desejava que aquela tarde tivesse durado
para sempre.
Joguei-me na cama, aproveitando a privacidade que a
ausência de Stephen me conferia. Não me preocupei por não
ter ido trabalhar. Nem sequer recordei-me de que minhas
aulas começariam na próxima manhã. Só Chloé habitava meus
pensamentos, ocupando todo o espaço disponível em minha
cabeça. O cheiro da pele branca ainda estava impregnado no
meu corpo. O perfume recusava-se a sair das minhas roupas.
Eu cheirava-me como um louco, tentando sorver o máximo
possível do aroma de Chloé. Adormeci agarrado ao casaco que
vestira naquela tarde.

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Raquel Pagno

Os sonhos vieram logo, nem tão felizes, no entanto.


Sonhei estar perdido, em meio a uma floresta densa, onde
Chloé aparecia-me em forma de fada. Senti medo, mas fiquei
hipnotizado com a beleza daquela visão. Mirei-a nos olhos.
Não encontrei neles o temor das tempestades, mas sim, um
mar azul, tomado por ondas de puro calor. Uma imensidão
espectral e estonteante.
Estendi o braço para alcançá-la. Chloé corria. Eu
maculava a mata virgem a minha frente e seguia correndo
atrás de Chloé. Ela era rodeada por luzes, tão azuis quanto seus
olhos marinhos, que saiam do seu corpo deixando para trás
um imenso rastro. Uma pista para que eu pudesse encontrá-la.
Apertei o passo, tomado por uma agonia própria dos sonhos.
Quando cheguei perto o suficiente para tocá-la, ela
deixara de ser fada e tornara-se uma horrenda bruxa. Seus
cabelos ruivos se transformaram em espetos vermelhos, que
me espinhavam as mãos. Seu corpo, vigoroso e jovial, nada
mais era do que um amontoado de rugas, recoberto de escamas
alaranjadas. Mesmo assim eu a desejava, e sofria imensos
castigos por desejar tão horripilante criatura.
Acordei assustado, com as batidas incessantes na porta
do quarto. A dona da pensão, uma velha gorda e mal-humorada,
vinha todas as manhãs acompanhada da filha Adélie trazer-
nos o café da manhã.
A garota me causava calafrios, era magra demais, pálida
demais, parecia uma morta-viva, ou um vampiro, eu não estava
bem certo quanto a isso. Eu jamais ouvira uma só palavra de
sua boca. Adélie parecia muda, ou assustada demais para falar
com estranhos.
Stephen me observava de pé ao lado da cama. O suor
escorria de minha testa, abundante, e minhas mãos estavam
geladas. Olhei no pequeno relógio de bolso, amarrado ao
casaco que eu trazia junto ao peito. Ainda era cedo demais para
partir. Sentei-me na cama e esperei a revoada de perguntas

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Herdeiro da Nevoa
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que viriam. Stephen era curioso e parecia ler a felicidade


em minhas feições. Contrariando minhas expectativas, ele
permaneceu calado, apenas me observando com a mesma
malícia de sempre, enfiado em um dos seus trajes mais
elegantes. Devido às circunstâncias, não lhe contei o que
ocorrera, embora soubesse que precisaria fazê-lo, mais cedo
ou mais tarde. Apenas o observei enquanto ele abria a porta
para as mulheres com o café da manhã.
Stephen era um cavalheiro. Esperou que o café
fosse servido e depois segurou a mão de Adélie e beijou-a
demoradamente. Eu jamais seria capaz de tal gesto, não
com Adélie. Perguntei-me se Chloé teria preferido ele a
mim. Olhei-o, tão elegante, como sempre. Confiante em cada
movimento, em cada gesto. Desejei ter sido como ele. Ao menos
durante o tempo que passei ao lado de Chloé. Detive meus
pensamentos. Não era bonito sentir inveja das outras pessoas,
principalmente porque éramos amigos, porque teríamos de
sê-lo. Passaríamos alguns anos juntos, e eu não queria torná-
los insuportáveis nem para mim, nem para Stephen.
Arrumei-me e saí. Caminhei pelas ruelas do Marais,
antes de desembocar nas largas avenidas de Paris, atento a
cada ponto de referência que marcara nas saídas anteriores.
A cidade era mesmo linda, muito mais encantadora do que eu
ouvira dizer e mais linda do que eu via nos cartões postais.
As construções medievais, as catedrais… tudo parecia ter
vontade própria e a cada visita que eu fazia a esses lugares,
especialmente à catedral de Notre Dame e ao Jardin Du
Luxembourg, no qual os estudantes se divertiam no final das
aulas, tinha uma visão e uma sensação diferentes, como se o
lugar quisesse me transmitir alguma mensagem.
Cheguei antes da hora na Sorbonne, contornei o prédio,
entrando pela fachada principal da Rue des Écoles. Atravessei
o vestíbulo amplo e majestoso, e andei um pouco pelos
corredores, admirado com a beleza da arquitetura francesa, da
qual eu ouvira maravilhas. Quis conhecer melhor o local em

21
Raquel Pagno

que passaria grande parte da minha vida. Procurei por Chloé.


Era demasiado cedo, não a encontrei.
Depois de percorrer incansavelmente o edifício, tornei ao
lado de fora, onde alguns estudantes começavam a se aglomerar
na praça, diante da capela da universidade. Estranhamente,
alguns deles me cumprimentaram como se fôssemos antigos
colegas. Respondi com educação, mas estranhei a atitude.
O tempo passou. Era hora de seguir para a primeira aula.
Atravessei o longo corredor, subi as escadas. Meu coração
palpitava de ansiedade pela mera possibilidade de ver Chloé
pela segunda vez. Eu não estava preparado para encará-la.
Depois do que acontecera entre nós, não sabia como reagir
diante dela.
Procurei a sala do curso de artes, onde não encontrei
meu nome nem o de Chloé, na lista fixada na porta. Queria
protestar, mas o fato é que eu ficara nervoso demais, e meu
francês já ruim, travou de vez. Permaneci ali, plantado na
porta, esperando que algum dos professores aparecesse para
me salvar.
Para minha surpresa e indignação, não foi isso o que
aconteceu. O professor baixinho e carrancudo que monitoraria
o curso de artes pareceu reconhecer-me imediatamente,
chamou-me por um nome estranho e conduziu-me à sala dos
estudantes de direito. Estranhei a atitude do homem, mas o
segui, com os nervos à flor da pele.
Quando chegamos, outro homem igualmente
carrancudo, mas desta vez alto e magro, ostentando um cabelo
engomado e um elegante terno marrom, recebeu-nos à porta,
provavelmente reclamando do meu atraso. Tentei explicar
que aquilo tudo não passava de um tremendo engano, mas os
dois mal me deixavam falar. O professor de direito agarrou
a listagem colada à porta e mostrou-me um dos nomes na
lista: François Roux. Não entendi o que ele pretendia, mas
levei a mão a um dos bolsos do meu casaco, retirando dele um

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Herdeiro da Nevoa
´

documento. Estendi-o para ele.


O homem segurou o documento em uma das mãos,
aproximou-o dos olhos e depois me pediu para entrar.
Resmunguei, tentando convencê-lo de seu tosco engano. O
homem corou, e pela última vez, mandou que eu entrasse. Não
discuti. Era melhor obedecer agora. Depois, acertaria tudo o
que fosse preciso.
Sentei-me em uma das cadeiras do fundo da sala.
Larguei minha pasta de couro marrom sobre a escrivaninha e
o documento de identidade sobre a pasta. Olhei para o homem
mal-humorado que falava e gesticulava à frente da classe.
Provavelmente um catedrático famoso de Paris. Senti-me
importante por participar daquele seleto grupo de estudantes.
Cheguei mesmo a me imaginar advogado, como se não me
lembrasse da besteira que havia feito no dia anterior.
Segurei meu documento, a fim de guardá-lo novamente
no bolso do casaco. Olhei-o de relance. Quase caí da cadeira,
tamanho foi o susto. O nome escrito em letras adornadas, já
não era mais Inácio Vaz, mas sim, François Roux!
Olhei em volta. Muitos colegas me observavam. Eu
não fora silencioso, e as batidas do meu coração palpitante
latejavam em meus ouvidos de tal maneira, que não ouvi o
som da carteira rangendo, nem de minha pasta caindo ao chão.
Disfarcei, no primeiro momento. Então fora aquela a
confusão? Eu certamente trocara meus documentos em algum
momento que eu não conseguia imaginar qual poderia ter
sido. Por isso, o engano dos professores.
Pedi licença e saí pouco depois de ter me sentado. Segui
até um banheiro, desejando não precisar sair de lá nunca mais.
Estava envergonhado pela confusão, e não estava certo de que
meu engano seria perdoado. Lavei o rosto com água gelada e
molhei os pulsos.
Saquei o documento do bolso e observei-o com atenção.
O que vi me fez passar mal, e quase desfaleci de pavor. A

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Raquel Pagno

fotografia era minha. O nome, de outro. Não consegui pensar


numa possibilidade racional para o que ocorrera. Aquilo era
totalmente impossível! Eu tinha certeza de que era eu quem
aparecia naquela imagem, colada ao documento de outro, mas
não conseguia explicar como tal engano poderia ter ocorrido.
Imaginei-me no dia da expedição do documento. Não. Eu o
conferira várias vezes, e era sempre o meu nome que eu via
impresso nele.
Decidi voltar para o meu quarto. Caminhei os tradicionais
dois quilômetros que separavam a Sorbonne da pensão onde
eu vivia. Eu não confiava nos metrôs, trens que se enfiavam
debaixo da terra e se arrastavam feito minhocas. Também
estava relutante em entrar em qualquer automóvel, e só o fazia
quando era totalmente inevitável. Precisava pensar em como
resolver a situação. Tive medo de ser expulso, mas tive ainda
mais medo de ser preso, condenado por ter usado documento
de outro para tentar vaga na Universidade de Paris.
Sentei-me em minha pequena cama, segurei o documento
mais uma vez, atentando a cada detalhe do rosto que me olhava
na foto. Parecia um pouco mais redondo que o meu, os cabelos
pareciam um tom mais claro. A expressão era um tanto mais
arrogante. Nada que pudesse dizer que não se tratava de uma
fotografia autêntica.
De qualquer maneira, Inácio Vaz não estava em nenhuma
das listas da universidade, e eu não podia voltar para casa sem
ao menos uma desculpa convincente, ou meu pai me mataria.
Retirei um pedaço de papel da minha pasta e um lápis. Comecei
a escrever a carta, contando a minha versão da história, usando
a troca de documentos como única desculpa para não estar
frequentando o curso de direito, como fora combinado. Omiti
a parte em que conhecera Chloé, e também a audição, onde eu
trocara de ideia, jogando fora os sonhos de uma vida inteira.
Quando terminei, pus a carta dentro do envelope e
lacrei-o. Enfiei-a no bolso e saí para postá-la. Eu não sabia

24
Herdeiro da Nevoa
´

como fazer isto, não tinha ideia de onde se situava o correio


em Paris, tampouco se isto funcionaria ali da mesma forma
como no Brasil. Pedi algumas informações, que sempre me
levavam a lugares errados. Andei sem rumo, atentando a cada
loja, restaurante, a cada ponto comercial por que passava.
Finalmente decidi que rumo tomar. Não era mais pelo
correio que procurava, mas sim, tentava refazer cada passo
dado ao lado de Chloé. Queria visitá-la, ver outra vez os olhos
cinzentos que me abriram as portas do paraíso. Queria sentir
a sua pele, tê-la de novo em meus braços, como fizera na tarde
anterior, e, se por acaso encontrasse seus pais, não hesitaria
em pedi-la em casamento.
Percorri o espaço que me separava de Chloé tremendo
de nervosismo e ensaiando as palavras que dirigiria ao pai
da minha doce amada. Ensaiei a cena em meus pensamentos
diversas vezes. Coloquei-me de joelhos perante um pai
protetor, ou de um pai compreensivo. Até mesmo de um pai
burguês, convencido em não ceder a mão de sua filha a um
pobretão como eu.
Apressei o passo, meu corpo ansiava pela companhia
de Chloé. Percorri as ruas cortando o vento que soprava
forte e morno, anunciando uma tempestade. Cruzei uma das
pontes sobre o Sena, alcançando a metade do caminho, até que
finalmente enxerguei o edifício imponente que se levantava
por detrás do movimento parisiense.
Quase explodi ao me deparar com o lugar. Já não era mais
a fabulosa construção que eu vira na tarde anterior. Agora,
não passava de uma velha ruína, abandonada pelo tempo e por
qualquer pessoa que a possuíra, destoando completamente
do ardor da Cidade Luz. Naquele instante, todo o universo
cobriu-se de névoa, a mesma névoa que envolvia a cidade e
ocultava, não muito longe, o topo da Tour Eiffel.
Meus pensamentos vaguearam em uma espécie de
sonho, onde a tontura tomou meu cérebro e uma cortina

25
Raquel Pagno

surreal desceu-me aos olhos, tapando-me a visão, escondendo


o que desejava, camuflando a realidade do dia anterior em
uma mera ilusão. Aquilo me devastou inteiramente. Por mais
que eu procurasse uma explicação razoável, não encontrava
indícios que pudessem levar-me a ela.
Confuso, olhei em volta, procurando um ponto de
referência, tentando convencer-me de que eu errara o
endereço. Estava tudo ali. Exatamente tudo como estivera no
dia anterior. Não pude conceber a ideia de que ficara maluco.
Levei as mãos à cabeça, que nesta altura, parecia querer
estourar.
As marcas das unhas e dos dentes de Chloé ainda estavam
registradas em meu corpo, e isso invalidava a possibilidade de
eu ter simplesmente sonhado. Percorri-as com as mãos, meu
pescoço molhado de suor frio. Elas estavam ali, mais reais do
que minha própria presença naquele lugar.
Fechei os olhos, na tentativa de clarear os pensamentos,
e as lágrimas escorreram involuntariamente pela minha face.
Cobri o rosto com as mãos, sentando-me na calçada, como um
garotinho que acaba de perder um brinquedo novo.
Era curioso o sentimento de perda que se apossara de
minha alma. Como eu poderia ter perdido o que jamais fora
meu? O fato de eu ter estado com Chloé não significava, em
absoluto, que eu a possuía, ou que ela estivesse igualmente
apaixonada por mim. Eu é que fora arrogante ao imaginá-la
minha, eu que fora por demais pretensioso por ousar pensar
em tê-la para sempre.
Mas o fato de Chloé não estar ali para explicar-me o
que acontecera, não invalidava a questão que se instaurara.
As coisas não poderiam mudar daquela forma, da noite para
o dia, e isso ia contra todas as leis que eu conhecia: as leis da
física, da própria natureza, as leis de Deus. Somente alguma
coisa demoníaca poderia transfigurar o mundo tal qual ele é,
para algo destruído, absurdo e inexplicável como o via agora.

26
3

Senti uma presença se aproximando, alguém sentava-se


ao meu lado na calçada fria e suja. Tentei ignorá-la, mas ouvi
a voz de Stephen.
— Não adianta chorar, Inácio, — disse em tom irônico,
que era quase como uma marca registrada de sua voz — ou
devo chamá-lo de François?
— Você soube? — perguntei, derrotado.
— Sim, as notícias correm depressa. Mas isso não é
motivo para ficar tão desolado, mon ami. O que vai fazer?
— Vou desfazer o mal-entendido. Mas antes, preciso
enviar uma carta a meu pai. Sabe onde fica o correio?
Stephen hesitou. Logicamente, tinha a resposta para
minha pergunta, mas parecia decidido a não me responder.
Eu me sentia cada vez mais ridículo. Talvez ele não se desse o
trabalho de responder, tamanha a idiotice da pergunta.
— É isso mesmo que quer fazer?
— Como assim?
— Você sabe quem foi François Roux?
— Deveria saber?
— Não, e nem poderia, chegou a Paris há tão pouco
tempo… — um silêncio reconfortante pairou no ar, por alguns
segundos. Eu tinha a nítida sensação de que Stephen abriria
um segredo terrível, algo que eu não deveria, ou que eu não

27
Raquel Pagno

desejaria saber.
— Bem, François Roux foi um jovem bastardo, filho de
um milionário francês, chamado Gérard Roux. Gérard casara-
se com uma mulher linda, a única herdeira do legado da família
Champoudry. Os dois foram felizes durante alguns anos, mas
quis o destino que ele se apaixonasse por Victória Cosine,
uma pobre italiana fugida da guerra, que se estabeleceu na
França sob a proteção e a generosidade de Gérard. Victória
trabalhara para Gérard durante muitos anos, os dois se
apaixonaram, e deste amor nasceu François. Victória fez
de tudo para ocultar a gravidez e mesmo a existência do
pequeno. Temia ser abandonada por Gérard, ou jogada na rua
com o menino nos braços. Temia principalmente, a reação da
esposa quando soubesse da existência do bastardo. Para sua
surpresa, Gérard não a deixou quando descobriu a gravidez
inesperada, pelo contrário, demonstrou amor pela criança que
nasceria e uma grande e incondicional compaixão por Victória
Cosine. O maior problema foi que Gérard decidiu registrar
a criança, como seu filho legítimo, embora Victória o tivesse
alertado de que não seria uma coisa boa para um homem
casado, reconhecer um herdeiro bastardo. Como as vontades
de Gérard eram incontestáveis, ele fez como bem entendeu, e
levou não só o bebê, mas também a mãe, para a casa onde vivia
com a esposa.
— Que coragem! — sussurrei, sem perceber.
— Mas quando Gérard os acolheu, ele não sabia que
sua esposa estava grávida, e mesmo após receber a notícia
da chegada de um herdeiro legítimo, Gérard não desistiu da
ideia de recolher Victória e seu filho sob aquele mesmo teto.
Diante da felicidade de Gérard com a empregada, e enciumada
com as atitudes do marido quanto ao filho bastardo, a esposa
tentara um aborto desesperado. Chegou a se jogar da sacada
do edifício em que morava, que, por coincidência, é este às
nossas costas…

28
Herdeiro da Nevoa
´

— O quê? François Roux morava neste prédio?


— Ele e toda a família de Gérard. Por que a surpresa?
Pensei que tivesse vindo até aqui em busca de pistas sobre a
identidade de François Roux…
— Eu… bem… eu… é isso mesmo, mas… Por favor,
termine a história. — disfarcei, pensando que não conseguiria
esconder a verdade de Stephen por muito tempo.
— Ninguém jamais viu o filho legítimo de Gérard. Há
quem diga que, como a senhora Roux não conseguiu se livrar
da criança indesejada que habitava seu ventre, tentou o suicídio,
entupindo-se de calmantes, o que trouxe um bebê com sérias
deficiências mentais e físicas. Outros afirmam que o bebê fora
amaldiçoado e por isso nasceu imperfeito. Qualquer uma das
duas hipóteses explicaria o fato de a família tê-lo escondido.
Uma criança anormal teria sido um fardo, talvez pesado demais
para ser carregado diante da sociedade parisiense, e da própria
família Champoudry. Seja como for, Gérard, desesperado com
a doença do filho, abandonou a casa e a mulher, partindo
para a Itália com François e Victória. Mas antes de partir,
sua mulher o amaldiçoou. Se não poderia ser feliz ao seu
lado, jamais viveria na companhia de outra mulher. Se não
podia criar seu único e legítimo filho, não conseguiria criar
o bastardo, filho de Victória. Como se a maldição realmente
o tivesse afetado, Gérard tornou-se alcoólatra. Meteu-se com
jogo, perdeu a maioria da fortuna que constituíra durante toda
a vida, restando-lhe apenas o prédio onde vivera, em Paris.
Victória, sem conseguir controlar a sua ira, negou-se a voltar
para a França junto com Gérard, e foi parar em um cabaré de
quinta categoria, onde foi assassinada alguns meses depois.
— Que destino horrível!
— Com o passar do tempo, a decadência de Gérard
só fazia aumentar. Sua esposa, aproveitando-se de um
desses momentos de embriaguez, seduziu Gérard e tornou
a engravidar. Ela só não contava com a volta de François,

29
Raquel Pagno

que logo depois da morte da mãe, foi deportado para Paris,


para viver ao lado do pai. Então, grávida e pobre, a esposa
de Gérard não teve alternativa, senão, deixar que François
passasse alguns meses morando em sua casa. Logicamente,
ela não pôde suportar o bastardo por muito tempo, e fez com
que o marido arranjasse um pequeno quarto de pensão para
o enteado, alegando que o incômodo fazia-lhe mal para a
gravidez. O marido, que já não tinha noção exata de seus atos,
concedeu. O tempo passou e finalmente a esposa de Gérard
deu à luz uma linda menina.
Gérard, já com a saúde muito debilitada, foi condenado
pelos muitos crimes que cometera durante seu período de
alcoolismo e jogatina. Foi enviado para a Itália, onde passou
seus últimos dias na prisão. Todos os bens que lhe restaram
foram passados para sua esposa, que decidiu batizar a menina
com o seu sobrenome de solteira, de família tradicional e
milionária da França, pretendendo que a filha fosse reconhecida
como herdeira dos bens de seus pais, os Champoudry.
— Champoudry…
— Sim. Algum problema?
— Não… eu só… escutei algumas histórias sobre os
Champoudry quando cheguei a Paris. Acho que fiquei um
pouco impressionado…
— Impressionado? Você ainda nem ouviu a parte
impressionante!
— E tem mais?
— Chloé Champoudry, era o nome da menina. Ela
era linda, cabelos ruivos, olhos incrivelmente cinzas, tão
profundos que qualquer um seria capaz de perder-se para
sempre naqueles olhos. Mas o destino não fora gentil com ela.
Chloé apaixonou-se por seu irmão bastardo, François. Como
a mãe mantivera o irmão de Chloé em segredo durante toda a
sua vida, não imaginou que poderia ser ele o dono do coração
de sua filha. Soube a verdade quando Chloé apresentou-lhe

30
Herdeiro da Nevoa
´

François e pediu sua bênção para o casamento que pretendiam.


Quando viu o garoto chegando ao prédio de mãos dadas com
Chloé, a mãe não resistiu, expulsou o rapaz de sua casa e, pela
segunda vez, amaldiçoou-o.
— Pobre rapaz!
— O destino de Chloé foi ainda pior. Dizem que ela
trancou-se em seu quarto, nunca mais saiu. Outros, afirmam
que a mãe enlouqueceu e manteve a filha prisioneira pelo resto
da vida, e há ainda, boatos de que ela teria matado Chloé,
depois se matando também. Suspeita-se de que a senhora
Roux era exímia praticante de magia negra. Muitas pessoas
afirmaram ver sombras e velas que se acendiam durante as
noites no prédio dos Roux, após a morte de Gérard. Os que
entraram, na tentativa de salvar a pobre Chloé, relataram a
presença abundante de objetos demoníacos espalhadas por
toda a casa. A polícia nunca encontrou o corpo da Senhora
Roux, nem nesta casa, nem na pensão de François, que
simplesmente desapareceu, sem deixar nenhuma pista, sem
levar nenhum dos seus pertences. Segundo os boatos, o quarto
permaneceria intocado até hoje, o que pode explicar a troca de
seus documentos pelos de François Roux.
— Como assim? O que eu tenho a ver com isso?
— Creio que seja o mesmo quarto que alugamos, mon
ami. Aliás, hospedei-me por lá justamente para estudar
melhor a história dessa família. Pretendo contar suas histórias
no meu livro, visto que as mortes nunca foram desvendadas,
tampouco o desaparecimento de François e do outro filho de
Gérard, cujo destino, ninguém em Paris atreve-se a comentar.
— E você pensa que eu peguei os documentos de
François Roux por engano? Eu sequer vi qualquer objeto de
uso pessoal no quarto, desde que cheguei a Paris! Sequer desfiz
as malas! Como os documentos foram parar dentro da minha
pasta? Não vejo explicação racional… A menos, é claro, que
alguém os tenha posto de propósito… Lancei-lhe um olhar

31
Raquel Pagno

acusador. Estava claro para mim que Stephen havia trocado


meus documentos. O que ele pretendia com isso? Fazer de
mim personagem do seu livro idiota?
— Oh, mon ami! Não me olhe deste jeito! Eu não fiz isso!
É certo que procurei os documentos de François, e também
outras coisas que ele poderia ter deixado para trás. Procurei
pistas do desaparecimento, e do seu provável paradeiro,
mas não encontrei nada. Na verdade, o quarto foi limpo, ou
completamente saqueado. Talvez por isso tenha sido tão
difícil consegui-lo. A dona da pensão relutou, e muito, em me
conceder o quarto.
— Então, como isso veio parar nas minhas coisas? E
onde estão os meus documentos verdadeiros?
— Era isso que eu queria lhe perguntar.
— Pois então, nem pergunte! Se você está espantado
com isso tudo, eu estou desesperado! Trata-se da minha vida!
Eu posso ser acusado de crimes, por usar documentos de outra
pessoa! Posso ser deportado, ou pior, preso! Posso perder a
minha bolsa de estudos! Oh, Deus! Nem sei o que dizer de tão
apavorado que estou…
Comecei a chorar. Stephen não disse nada, mas senti a
sua mão pousando em meu ombro.
— Isso pode não ser tão grave assim, meu caro.
— O que quer dizer?
— Que oportunidades como essa, não aparecem na vida
de todo mundo. Você deveria aproveitar a chance que a vida
lhe dá, de ter um novo começo, de ser alguém na vida.
— Está sugerindo que eu troque de nome, que assuma
a identidade de François? Mas, por que eu o faria? Sou um
homem honesto. Meu pai não pôde me dar luxos, mas me deu
valores e honra!
— Só que valores e honra não pagam as contas no final
do mês! E, pelo que eu saiba, você já não está frequentando
o seu trabalho miserável de lavador de pratos. Se François

32
Herdeiro da Nevoa
´

aparecesse vivo, seria o único herdeiro dos bens de seu pai, e


da família de sua ex-madrasta. Você tem noção da fortuna que
isso representa?
— Não me importa o dinheiro. Só quero estudar e voltar
para casa. Quero ser eu mesmo, Inácio Vaz, o pobre João
Ninguém de sempre.
— Mas pense bem, você é muito parecido com François
Roux e, coincidentemente, mora no mesmo quarto em que
ele morava antes de sumir. Ninguém jamais descobriria que a
identidade é falsa! Bastaria que dissesse que fugiu com algum
rabo-de-saia, mas que decidiu voltar para casa. Além do mais,
sua idade é quase a mesma de François. Ao que me consta,
é apenas cinco anos mais jovem do que ele, o que não faz
assim tanta diferença, fisicamente. E você pode deixar a barba
crescer, o que lhe daria uma aparência ainda mais convincente.
— Não, não! De jeito nenhum! Eu jamais pensaria numa
coisa destas! — Stephen olhou-me, surpreso. Certamente
pensara que eu, ao menos, consideraria a hipótese.
— Bem, você é quem sabe — disse finalmente.
Levantou-se, batendo a poeira grudada nas calças, e deu
uma última olhada para o prédio atrás de mim. O imóvel
adquirira um valor incalculável com o passar dos anos e por
si só, representava uma pequena fortuna. Stephen voltou-se
para mim, e piscou olho esquerdo. — Pense bem! — e saiu
andando rua afora, fugindo das primeiras gotas de chuva que
desabavam violentas.

33
Raquel Pagno

34
4

A história de François se entranhara em minha mente,


de forma que eu não pude deixar de avaliar a possibilidade
proposta por Stephen. Imaginei-me rico, dono de uma
fortuna inestimável. Quem sabe assim conseguiria ganhar
definitivamente o coração de Chloé, que afinal, eu sabia estar
mais viva do que nunca.
Vi-me na figura do próprio Stephen, elegante e bem
vestido, cheio de cultura, com formações diversas, e tempo
para me divertir. Quem sabe também escrevesse um livro? Na
certa, isso orgulharia meu velho pai. Pensei na cara de surpresa
que ele faria ao ver-me voltando para casa, rico e culto…
Essa era uma realidade tão distante de mim, que sequer pude
completar o pensamento. Espantei as más intenções de dentro
da minha mente, temendo que avançassem para um território
mais perigoso, o coração, a partir de onde não haveria mais
volta.
Retirei do bolso a penosa carta que escrevera e endereçara
a meu pai. Apertei-a entre os dedos, formando uma pequena
bola de papel amassado. Seria melhor que ele não soubesse,
pelo menos até eu decidir o que fazer. No fundo eu sabia que
merecia uma chance. Stephen estava certo. Aquela poderia ser
a minha única oportunidade de recomeçar a minha vida longe
da pobreza e dos problemas trazidos por ela. Olhei mais uma

35
Raquel Pagno

vez para o papel embolado, antes de atirá-lo no lixo.


Meu pensamento seguia firme: não tomaria o lugar de
outra pessoa. Enquanto isso, a imagem de Chloé se rendendo
aos meus encantos, latejava em meu cérebro. Eu precisava
encontrá-la, nem que fosse apenas para olhar dentro de seus
olhos, procurar naquele olhar obscuro e enigmático a resposta
de que tanto precisava. Não decidiria o que fazer antes de
encontrá-la novamente. Não contaria para Stephen sobre sua
existência, sem que ela assim o desejasse.
Decidi frequentar o curso de direito enquanto resolvia
definitivamente o que fazer da minha vida. Seria uma bela
oportunidade de ver o que perdera ao precipitar-me por conta
de Chloé. Verifiquei mais uma vez os documentos em nome de
François Roux. Eu era realmente parecido com ele, poderia
até jurar que éramos gêmeos.
Tornei à universidade na manhã seguinte. Não encontrei
Chloé pelos corredores durante muitos dias consecutivos. Ela
não frequentara o curso de belas artes para o qual se inscrevera.
Procurei registros da matrícula de Chloé na universidade,
durante um bom tempo. Mas toda vez que eu questionava em
seu nome, era-me dada a mesma resposta, de que Chloé jamais
se matriculara em curso algum da Sorbonne ou de qualquer
outra universidade. Deduzi que ela tinha sido rejeitada na
audição, e que seus documentos haviam sido negligentemente
extraviados.
Depois de uma semana inteira de aulas intensas e
empolgantes, convenci-me de que era chegada a hora de
parar, desistir da farsa na qual eu me entranhara. Um peso
descomunal inundava minha consciência por ter descoberto
que o direito era minha verdadeira vocação. Doeu-me pensar
na possibilidade de continuar, de assumir de vez a identidade
do desaparecido François. Doeu-me ainda mais, o fato de que
ele poderia voltar a qualquer momento para desmascarar-me.
Então tudo estaria definitivamente acabado.

36
Herdeiro da Nevoa
´

— Não seja tolo, Inácio! — argumentava Stephen, a cada


conversa que tínhamos nos fins de tarde, quando eu retornava
para o quartinho e o encontrava se arrumando para esbaldar-
se na noite parisiense, um privilégio que a minha condição
financeira impossibilitava por completo. — Vamos sair, beber
alguma coisa. Quem sabe assim suas ideias brotem com maior
clareza.
— Você sabe que eu não tenho dinheiro para festas.
Muito menos para esbanjar nos cabarés, Stephen.
— Ah, vamos, o que é isso? Você agora é François Roux!
Milionário! Esqueceu-se? Uma saidinha vai-lhe fazer bem.
Nunca o vi divertindo-se, ou enrabichando-se com alguma
moçoila. Você é jovem, mon ami, não perca tempo, pois essa
fase passa rápido. Venha comigo, vou levá-lo a um lugar
maravilhoso, de onde você vai implorar para nunca mais sair!
Diante do argumento de Stephen, não pude resistir. E
de mais a mais, não faria mal tocar em uma mínima fração
do dinheiro de François. Se ele fora embora sem se importar
em deixar tudo para trás, certamente é porque isso não lhe
faria falta. Porém, em minha mente, pairava a dúvida de como
eu poderia acessar a fortuna, visto que François fora dado
como desaparecido há tanto tempo. Temi que todos os bens
da família estivessem bloqueados, mas, para minha surpresa,
não fora isso que constatei, conseguindo, logo na primeira
tentativa, sacar uma alta quantia em dinheiro de uma conta
particular em nome de François Roux no Crédit Lyonnais.
Stephen arranjou-me um de seus melhores trajes. Apesar
de um tanto largo e curto, senti-me como um cavalheiro,
elegante e desejável. Para finalizar, Stephen me emprestara
um chapéu-coco, com o qual não me senti bem, imaginando
que parecia mais um industrial do que um jovem sedento
por aproveitar as maravilhas da noite. Mesmo assim, não o
recusei, na dúvida se o ofenderia.
Saímos pouco depois das nove da noite, quando o vento

37
Raquel Pagno

soprava às margens do Sena, batendo-me no rosto barbeado e


causando-me uma forte sensação de frio, como se meus ossos
fossem congelar. O frio do final de maio ainda era intenso,
especialmente nos finais de tarde e nas noites glamurosas,
apesar da proximidade do verão.
Eu jamais me acostumaria com o clima inconstante, e
por vezes, congelante, da capital francesa. Também não estava
acostumado aos caros ternos de Stephen, e não tinha nenhum
sobretudo, ou casaco, que pudesse ser usado com um traje tão
elegante. Minhas roupas eram velhas e surradas, de forma
que alguém endinheirado jamais usaria. Decidi ir só de terno,
mesmo que passasse frio. Frio era melhor do que vergonha.
Stephen fez questão de chamar um carro de aluguel, e
apesar de eu não estar familiarizado com a engenhoca, que mais
me lembrava uma viatura de guerra, não protestei. Saltamos
na Place de l’Alma e seguimos a pé pela Georges V, passando em
frente a bares animados, nos quais a música inglesa começava
a ganhar espaço entre os jovens.
Achei aquilo animado, a atmosfera que emanava de
tais lugares era de pura descontração. Nas cabeças, nada de
chapéus-coco, como o que eu usava, os cabelos ostentavam
vistosos topetes alinhados com um tipo de goma que
causava uma impressão de zelo e uma boa aparência. Só não
arranquei o chapéu da cabeça, porque temi que minhas orelhas
congelassem.
Logo chegamos ao local que Stephen escolhera para ser
minha primeira atração da noite de Paris. O Crazy Horse era
um cabaré recém-nascido. O ambiente era luxuoso, tanto que
eu relutei em ficar. Sentia-me deslocado. Aquele ambiente com
certeza não fora concebido para pessoas como eu, era o mesmo
que construir uma gaiola para um peixe. Lugares assim só
existiam para pessoas como Stephen.
A esta altura, os espetáculos não haviam iniciado e
sentamo-nos no bar, onde Stephen não hesitou em pedir minha

38
Herdeiro da Nevoa
´

bebida. Quis recusar, embora fosse sábado, e não éramos


obrigados a assistir aulas aos domingos. Stephen insistiu,
afinal, eu estava tenso e seria bom para aliviar a tensão.
Depois do segundo copo eu não recusava mais bebidas.
Stephen me entregava a garrafa cheia do líquido destilado, que
eu não sabia o que era. Bebia-o em grandes goles, reforçando
cada vez mais o estado de embriaguez que se apossara do meu
corpo frágil desde o primeiro copo. Perdi a noção do tempo,
do lugar em que nos encontrávamos. Abri meus segredos para
as belas dançarinas, como se fôssemos melhores amigos, como
se elas fossem as únicas pessoas em quem eu poderia confiar.
Acordei, no dia seguinte às três horas da tarde, depois
de uma noite entre a privada e a pia da cozinha, na qual
descarregava intensas crises de vômito. Minha cabeça ainda
girava e meu estômago se contraia em cólicas dolorosas
e incessantes reforçadas pelo cheiro podre do vômito que
se acumulara no chão e também na cama ao lado do meu
travesseiro.
Stephen aparecera do nada trazendo consigo Adélie
com uma caneca de chá quente feito de alguma erva amarga e
forte. O cheiro do chá nauseou-me ainda mais, mas eu contive
o vômito e sorvi um grande gole da bebida fumegante.
— Obrigado.
— Não me agradeça. — disse Stephen, tirando todo o
mérito da garota — Tenho certeza de que faria o mesmo por
mim. Agora levante-se. Terá muito que arrumar e limpar, pois
a dona da pensão se recusa a fazer tais serviços.
Stephen deixou-me. Adélie permaneceu no quarto por
mais alguns momentos. Achei que aquela era uma boa hora
para puxar conversa. Quem sabe, Adélie não fosse muda,
afinal? Tomei todo o chá e me pus de pé. Quase desfaleci
tamanha a tontura e a dor na cabeça. Acho que a assustei,
quando cambaleei para o seu lado, Adélie saiu correndo.
Agarrei-me ao dossel até me sentir um pouco melhor. Passei

39
Raquel Pagno

o domingo limpando a porcaria ocasionada pela bebedeira,


jurando a mim mesmo que aquilo jamais tornaria a acontecer.
O sol se punha quando terminei minha terrível função
de faxineiro. Saí de casa, precisava tomar ar fresco ou morreria
de ânsias, fechado naquele quarto malcheiroso. A brisa gélida
aliviou minhas tensões estomacais. Ao longe, o céu rugia
lamentos dolorosos e descargas elétricas desciam das nuvens
como se fossem lágrimas do próprio Deus.
Queria encontrar um parque, uma praça, ou um
bosque, onde houvesse algum verde a mais do que já se via
naturalmente pelas ruas do centro da cidade. Mas, meus pés
me levavam involuntariamente em outra direção. O edifício
em que estivera com Chloé parecia ser o único endereço
conhecido. Era para lá que eu rumava, e que rumaria a cada
espaço de tempo que me sobrasse.
Queria desesperadamente entender o que acontecera.
Alguma coisa dentro de minha alma gritava que a resposta
estava trancafiada entre aquelas paredes envelhecidas, e que
se eu conseguisse penetrá-las, tudo se resolveria, os enigmas,
o grande mistério de Chloé.
Apressei-me. A tempestade se aproximava. Atravessei a
calçada da frente e segui para os fundos da construção, onde
uma pequena porta pareceu-me um alvo fácil de arrombamento.
A madeira escurecida e deteriorada pelo tempo esboçava
pequenas imperfeições irregulares, como se já tivesse sido
arrombada algumas vezes.
Enfiei os dedos no buraco onde antes houvera uma
maçaneta. Forcei-a para dentro, mas a porta não se moveu.
Puxei-a levemente. Um suave rangido se soltou de dentro da
casa. Não vinha exatamente daquela porta, que continuava
estática. Temi ser descoberto. Invasão certamente acarretaria
uma pena maior do que falsidade de documentos.
Mirei a lateral do prédio, a rua quase deserta em frente
ao edifício. Poucas pessoas caminhavam naquela rua à noite e

40
Herdeiro da Nevoa
´

estavam completamente alheias a minha presença. Ninguém


se importava com o velho casarão ou com quem, porventura,
estivesse a sua volta tentando arrombá-lo. A tempestade
rugia como um lobo faminto, e o que importava a cada um era
salvar-se da fera que se aproximava.
Reconcentrei-me em minha missão. Entraria naquele
prédio, de qualquer maneira, nem que para isso precisasse
derrubar a porta. Afastei-me alguns metros e projetei-me
contra a madeira podre. A porta cedeu alguns centímetros.
Enfiei o olho pela abertura, tentando decifrar as sombras
que se formavam com os reflexos da lua que concebia figuras
fantasmagóricas na escuridão.
Tomei distância outra vez, com o cuidado de afastar-me
um pouco mais do que antes. Enrijecendo o ombro direito,
avancei a toda velocidade projetando uma violenta pancada na
porta, que se abriu de supetão.
Caí sobre um volume recoberto por um lençol branco.
Senti uma dor aguda sob o peito. Parecia ter quebrado um fio
de costela. Tive de me concentrar para conseguir sorver o ar,
tamanha era a dor que se apossara de meu peito. Apalpei o
local com ambas as mãos, e senti o sangue morno que escorria
do ferimento. A porta se partira. Uma lasca por pouco não me
atingira o coração. Permaneci deitado até que a dor amenizasse
e eu pudesse colocar-me de pé novamente.
O cômodo era amplo, conforme eu me lembrava, mas
ao invés de ser esplêndido, era muito velho e deteriorado,
sem nenhum sinal do luxo que eu presenciara ao lado de
Chloé. Muitos objetos jaziam recobertos por panos que já
foram brancos, alguns rasgados e todos imundos. Das janelas
pendiam fiapos do que um dia haviam sido pesadas cortinas
de veludo.
Atravessei-o com cuidado, ainda segurando a ferida por
onde o sangue escorria pela minha barriga e molhava-me o cós
das calças. Apertei os olhos tentando vencer a escuridão que

41
Raquel Pagno

aumentava conforme eu avançava para o interior do casarão.


Atravessei uma abertura escancarada sob a escadaria.
A lembrança que surgiu em minha mente neste momento foi
tão nítida que eu levantei a mão, esperando pela presença de
Chloé.
Atravessei a passagem e vi o salão frontal. Daquele
novo ângulo, não me pareceu tão grande quanto da primeira
vez. Pelas frestas e buracos das cortinas, infiltravam-se finos
punhais de luz, vindos dos postes acesos na rua. A claridade
dos relâmpagos, por vezes, inundava o cômodo e dissipava as
trevas. Reparei no móvel finamente colocado sobre o ressalto
do piso. O piano, único artefato que enfeitava o ambiente,
também me pareceu ser o único que não fora escondido e
encontrava-se recoberto de uma grossa camada de poeira.
Aproximei-me, imaginando como tão bela raridade
podia ter sido abandonada para morrer no esquecimento, junto
com tudo mais que ali era consumido pelo tempo. Toquei as
teclas esculpidas no mais admirável marfim. Imaginei quanto
valeria o objeto. Sem querer, pousei uma das mãos sobre o
teclado. Ao mesmo tempo em que ouvi um gemido desafinado,
a tampa pareceu se abrir. Um amontoado de pêlos branco
saltou de dentro do instrumento arranhando-me a face e
derrubando a entalhada madeira de volta com um estrondo
quase ensurdecedor. Aliviei-me vendo que ao menos o gato
era real!
Tornei pela escada subindo cada degrau vagarosamente,
com o pensamento tão fixo em Chloé, cuja memória ficava tão
vívida ali, que cheguei a sentir o seu perfume vindo de algum
canto no andar de cima. Vi a biblioteca que jazia abandonada,
não obstante, a poeira se depositara intensamente sobre
as mesas e estantes, corroendo os livros criteriosamente
ordenados. Aproximei-me o bastante para tocar em uma
encadernação feita em couro negro, que se destacava dentre
os outros volumes. No assoalho havia uma camada igualmente

42
Herdeiro da Nevoa
´

espessa e poeirenta que se derramava pelo aposento


ultrapassando a lareira central, até alcançar a janela do lado
oposto à escada, onde as aberturas rasgadas das cortinas
revelavam a luminosidade fantasmagórica vinda da rua.
Assustei-me ao ver que uma sombra atravessara um dos
focos de luz em frente à janela. Virei-me contornando meu
próprio corpo. Vi uma silhueta negra encoberta pelas sombras.
Gritei o nome de Chloé num impulso ridículo e desesperado
de encontrá-la, mas eu conseguira deduzir que não se tratava
do vulto de uma mulher. Sem saber o que fazer, corri para
a janela e agarrei-me às cortinas. Afastei-as e, no mesmo
instante, a biblioteca foi inundada pela luz avermelhada de
uma forte descarga elétrica a qual me fez ver que não havia
marcas ou rastros na poeira do chão que não fossem os meus
próprios. Meus sentidos haviam me traído.
Estava assustado e tomado pela dor latejante que me
afligia o peito, ainda sem nenhuma explicação que me levasse
mais perto do que acontecera. Sem nenhuma notícia de Chloé.
Minha mente perturbada poderia ter inventado aquela sombra.
Aparentemente ninguém além de mim adentrara naquela casa
havia anos.
Olhei mais uma vez para as paredes. As estantes com
suas prateleiras cheias de livros. Senti-me tentado a tocá-
los. Queria afastar a poeira de uma daquelas pequenas mesas
de leitura e engajar uma viagem em qualquer uma daquelas
raridades. O livro negro me encarava, e parecia me chamar
silenciosamente. Guardei aquela sensação comigo durante
todo o tempo em que morei naquela casa.
Resisti. A dor que me consumia era quase insuportável
e minha curiosidade a respeito do quarto onde eu estivera ao
lado de Chloé era ainda maior e mais ávida. Pus-me a correr
pela circulação com os olhos fixos na última porta, no final
corredor. Parei bem perto da entrada com medo de tocar na
maçaneta, cujo metal dourado se deteriorara transfigurando-

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Raquel Pagno

se em apenas um pedaço de ferro descascado e sem brilho.


Meus sonhos acabariam no instante em que eu abrisse
aquela porta. O encanto e a poesia da tarde mais feliz da minha
vida sumiriam para sempre da minha memória, cedendo lugar
à recordação de uma ruína. Restos mortais onde muitas
alegrias e desgraças repousavam enterradas no mais profundo
esquecimento.
Recuei. Não o fiz com ressentimento, recuei por minha
própria escolha, sem me sentir culpado por meu medo. Porém,
quando me retirei daquele lugar, deixando para trás as horas
boas que passara com Chloé, fi-lo com uma ideia na cabeça.
Com a esperança de uma nova vida cheia de oportunidades. E
também de medos, um preço justo a se pagar.

44
5

Meu peito doía demasiadamente, de forma que eu


caminhava um tanto desalinhado, como se fosse um bêbado
cambaleando pela Rue Du Champ de Mars, depois pela Avenue
de La Bourdonnais, até me enfiar em uma estação de metrô,
ignorando a claustrofobia que me causava. Saltei uma estação
antes do que deveria. Se permanecesse trancado naquela
minhoca de madeira e lata mais um minuto que fosse, morreria.
Por mais que eu apertasse o ferimento, não pudera
estancar o sangue que ainda escorria em gotas lentas, deixando
rastros por onde eu passava. Rastros que logo se desfaziam
com o furor da tempestade que lavava as calçadas e as minhas
esperanças.
Precisei esforçar-me para voltar para casa. Sentia muita
dor e temi perder a consciência no meio da rua. A cada passo eu
parecia estar um pouco mais distante de casa, e o frio intenso
tomara-me o corpo como se me encontrasse em estado febril.
Quando toquei a maçaneta da porta de meu quarto, não
consegui mais aguentar a dor e desfaleci. Não pude deduzir
de que forma tudo aconteceu no instante em que perdi a
consciência, mas quando acordei, Adélie estava ao meu lado,
sentada à beira da cama. Segurava um pano umedecido em
água fria, apertando-o em minha testa.
— Oh, François! — exclamava ela lamentando-se

45
Raquel Pagno

e estranhamente, chamando-me pelo nome que não me


pertencia. Ela não era muda, de fato.
Temi que ela também tivesse se enganado quanto à
minha identidade. Se assim fosse, meu disfarce seria mais
convincente do que eu previra.
Quis levantar-me e consolá-la, mas estava gostando tanto
de ter uma mulher ao meu lado, preocupada e cuidadosa, que
preferi manter os olhos fechados por mais alguns momentos.
Ouvi passos se aproximando. Não precisei me esforçar para
saber que se tratava de Stephen. O som dos seus sapatos grã-
finos era-me conhecido.
— Ele acordou? — perguntou.
— Não. Estou começando a me preocupar…
— Não precisa. — interrompeu Stephen — Eu lhe avisei
que ele acordaria logo, e em breve, acordará.
— Sim, mas eu…
— Não diga mais nada. Apenas tome conta do seu belo
adormecido. — a voz de Stephen soou-me ameaçadora. Como
ele ousara tratar a pobre moça daquela maneira?
Perguntei-me se Stephen e Adélie já se conheciam. De
toda forma, não adiantava ficar imaginando conspirações nem
tirando conclusões precipitadas. O melhor seria aproveitar
os momentos em que desfrutaria novamente dos cuidados da
garota e deixar Stephen para depois.
— Vou deixá-los a sós. Tenho assuntos urgentes a
resolver. Voltarei mais tarde para ver como ele está. Comporte-
se.
Esperei até que Stephen saísse, então abri meus olhos
lentamente, fazendo parecer que acabara de acordar.
— François! Querido, você está bem?
— Eu… estou um pouco tonto, mas… sinto-me melhor.
— respondi, ignorando o fato de ela confundir-me com o
outro, incapaz de desfazer o mal entendido.
— Oh, François, como senti sua falta!

46
Herdeiro da Nevoa
´

— É mesmo…? Eu… eu também senti a sua… —


não pude acreditar no que estava dizendo. Menos ainda nas
palavras saídas da boca de Adélie. Como ela podia confundir-
me com o verdadeiro François? E por que nunca me falara
nada até agora? Eu precisava investigar enquanto ela estava
disposta a falar comigo.
— Você e Stephen são amigos? — perguntei, iniciando
minhas investigações.
— Que pergunta estranha, François. Você não se
lembra?
— Não me lembro de muitas coisas do meu passado.
Sofri um acidente terrível, que prejudicou minha memória.
— eu odiava ter que mentir daquela maneira, e não pensava
que estivesse sendo convincente, mas não havia outro jeito de
descobrir a verdade. Dissera a primeira desculpa que surgira
em minha mente. Quem sabe Adélie me daria alguma pista do
paradeiro de Chloé? Se ela conhecera François, era também
provável que tivesse conhecido Chloé e que soubesse de seu
paradeiro.
— Você também se esqueceu de mim? — os olhos de
Adélie brilharam, cheios de lágrimas.
— Como poderia? — não quis partir o seu coração mais
do que já estava partido.
— Oh, François… eu o amo tanto… — suspirou e
inclinou seu corpo sobre a cama, como que para beijar-me.
Não soube o que fazer. Não era certo alimentar as
esperanças de Adélie, porque eu não tinha o mínimo interesse
em envolver-me com tal criatura. Meu coração estava
inundado de amor por Chloé e não havia espaço para mais
ninguém. Senti pena da garota. Não desejava magoá-la,
contudo, já o tinha feito quando a deixei acreditar que eu era
mesmo François Roux.
O beijo foi inevitável. Seus lábios pousaram sobre os
meus, da maneira mais terna que eu poderia imaginar. Eram

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Raquel Pagno

quentes e macios, suaves como a seda, cheirosos como as rosas.


Adélie não era bela como Chloé, nem alimentava dentro de si
o mesmo fogo que eu sentira dentro de Chloé. Em oposição
a isso, tinha os lábios mais amáveis que eu conhecera. Lábios
que deixavam transparecer os sentimentos que trazia dentro
do coração, dentro da sua alma feminina e frágil.
Quisera ter sentido o mesmo amor nos beijos de Chloé.
Trocaria todo o prazer que ela me dera, por um único beijo, se
esse beijo contivesse apenas a metade do amor que eu sentira
no beijo de Adélie.
A porta se abriu, interrompendo Adélie, que mantinha
os lábios imóveis sobrepostos aos meus. Ouvi um suspiro, e
depois a dona da pensão entrou esbravejando algo ininteligível.
Eu ainda não aprendera os xingamentos em francês. As únicas
palavras compreensíveis que eu captara enquanto ela agarrava
Adélie pelo braço e a puxava para fora do quarto, eram crétin
e monsieur François. Ela também parecia convencida de que eu
era mesmo François Roux.
Tentei sentar-me na cama, mas meu peito doeu, como
se uma adaga acabasse de atravessá-lo. Recostei-me aos
travesseiros pensando em uma maneira de trazer Adélie
de volta. Precisava de mais tempo para interrogá-la. Era
engraçado eu sempre tê-la visto como uma garota muda, e
agora, ela parecia ser a única pessoa capaz de contar-me a
verdade.
Continuei em repouso. A ferida em meu peito infeccionou
e a febre me consumiu por mais alguns dias, os quais passei
a perder-me em meus delírios, sonhos quase reais, nos quais
Chloé aparecia e desaparecia continuadamente. Quando tornei
à lucidez, temi que tivesse contado a Stephen, ou pior, a Adélie
e sua mãe, tudo sobre Chloé, ou ter-lhes revelado quem eu
realmente era. Os três revezavam-se a vigiar-me. Cada vez
que eu retomava a lucidez, via algum deles sentado e exausto
aos pés da cama.

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Herdeiro da Nevoa
´

O tempo passava lentamente, arrastando-se a cada


segundo e me arrastando por um labirinto de dúvidas, de
perguntas sem respostas e de saudades. Eu desejava deixar
a cama, sair pelas ruas e percorrer Paris inteira à procura
de Chloé. A cada investida contra a porta, a febre tornava a
apossar-se de meu corpo, derrubando-me à cama outra vez. No
início, temi a morte, mas bastaram-me dois dias aprisionado
naquele quarto, para que eu a desejasse.
Numa manhã de domingo, quando eu já me encontrava
incrédulo da recuperação, vi-me sozinho e preso no quarto,
Chloé veio até mim. Quando a vi, sentada ao lado de meu leito,
agarrada à minha mão semimorta, imaginei que a febre tornara
a subir. Ainda me recordo de ter pensado que morreria ali,
sozinho, mas naquele instante em que a visão de Chloé se fazia
tão real a meus sentidos, eu podia mesmo sentir o perfume que
exalava de seu corpo ou tocar em seus cachos de fogo.
Respirei fundo, sorvendo o ar que entrava dolorosamente
em meus pulmões. Sussurrei palavras, das quais passaria o
resto da vida me arrependendo, não por tê-las pronunciado,
mas pela vergonha que senti de Chloé, quando percebi que ela
era real e que jamais corresponderia a tais palavras.
— Oh, Chloé! Como eu a amo! Não havia vida em meu
corpo antes daquela tarde em que você me mostrou o que é
verdadeiramente viver!
Ela riu, trazendo-me de volta à realidade. Arregalei os
olhos e esfreguei-os, na tentativa de desanuviar a bela figura
que velava meu sono inquieto. Demorei a entender que não
fora minha imaginação fértil que a materializara diante de
mim, mas sim, que ela viera por sua própria vontade. Ela me
procurara como eu a havia procurado, e acabara por encontrar-
me.
Não me envergonho de dizer que me senti o homem
mais feliz do mundo, ainda que essa impressão não tenha
perdurado. Ela me encontrara e era só isso que me importava

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Raquel Pagno

naquele momento, porque a saudade desistia timidamente de


apertar o meu peito ferido.
Não parei para pensar em Stephen, ou em Adélie, como
fizera antes. Ergui-me da cama e beijei-a, como se aquela
fosse a última chance, ou com a intensidade de uma primeira
vez. Emaranhei meus dedos pelos cabelos cuidadosamente
arrumados, despenteando-a, o que a deixou ainda mais linda.
Ela tentou resistir. Eu segurei-lhe a nuca com força,
impedindo-a de se afastar, impedindo que seus lábios se
separassem dos meus. Senti as mãos que antes me repeliram
empurrando-me o peito para longe, agora me abraçando,
tentando puxar o meu corpo para mais junto ao seu. Ignorei
a dor e a possibilidade de a ferida reabrir. Entreguei-me ao
desejo de beber o néctar dos lábios de Chloé.
Instintivamente suas mãos arrancaram-me a camisa,
aquecendo-se em minha pele quente de febre e de desejo. Deixei
que viajassem sem limites pelo meu corpo, correspondendo a
cada carícia, a cada toque e a cada beijo que recebia. Ela me
conduziu como em uma dança lenta e sensual, onde o desejo
fala mais alto que a razão. Deixei que seu corpo cavalgasse
sobre o meu. Entreguei-me de corpo e alma pela segunda vez.
Chloé não disse nenhuma palavra durante toda aquela
manhã. Além de chamar-me pelo nome de François, as
únicas coisas que saíram de seus lábios foram os gemidos
incontroláveis de prazer. Murmúrios que não poderiam ser
calados.
Eu já não me importava se ela me conhecia ou se me
confundia com François Roux. Não me preocupava se teria se
entregado a François ou a Inácio. Eu só desejava tê-la a meu
lado. Para isso eu pagaria qualquer preço. Mesmo a prisão
seria uma paga justa só por ter tido Chloé aquelas duas únicas
vezes.
E assim, enfeitiçado pela beleza de Chloé, completamente
perdido em meu sentimento por aquela garota que adormecera

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Herdeiro da Nevoa
´

em meus braços, recostada em meu peito que ainda ardia


de desejo e de paixão, tomei a minha decisão. Eu estava
convencido de ser para ela o que ela desejasse que eu fosse.
Seria o seu François se isso a deixasse feliz. Tomaria o lugar
do irmão desaparecido se dessa forma pudesse receber um
átimo do amor impossível que ela lhe dedicara.
Permaneci ali por um tempo incontável observando
suas feições serenas e despreocupadas. A beleza estonteante
me conquistara desde o primeiro olhar. Contemplei o arfar
tranquilo de seu peito, cada curva do corpo, desenhadas sob o
lençol da minha cama. Também adormeci.
Chloé se fora tão inesperadamente quanto chegara. Ao
acordar, deparei-me apenas com o travesseiro vazio e a cama
gelada ao meu lado. Apenas o perfume permanecia entranhado
em minha pele. O cheiro de Chloé persistia em mim, como
que para provar-me que não sonhara, ou que não estivera
novamente a delirar de febre.

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Raquel Pagno

52
6

No dia seguinte, retornei à Sorbonne, apesar dos


protestos de Stephen que me aconselhara a permanecer mais
uns dias em repouso. Agora que eu resolvera enfim ocupar o
lugar de François Roux, não podia dar-me ao luxo de perder
as aulas.
Estudar era demasiado difícil para mim, porque eu
precisava fingir o tempo todo que era um autêntico francês.
Por mais que eu me esforçasse, não compreendia as piadas
dos colegas, logo, não fazia brincadeiras e dizia coisas muitas
vezes incompreensíveis. Eu ficara visto como alguém mal-
humorado e de poucos amigos.
Não raro, perguntavam-me por que eu era um sujeito
tão isolado; não participava de festas, não comparecia às
reuniões organizadas pelos colegas de classe, nem frequentava
as associações e movimentos escolares. Vivia enfurnado
dentro da biblioteca. Eu tomava o cuidado de manter sempre
a mesma mentira, com medo de ser descoberto e denunciado.
Dizia que me mudara para longe da França quando ainda era
muito jovem, e por isso, desacostumara-me da língua-mãe.
Alguns pareciam acreditar, outros, nem tanto. Como era
o caso da jovem Camille, uma das poucas mulheres a frequentar
o curso de direito. Camille era um prodígio. Inteligente demais
para sua idade, a melhor aluna da classe, a melhor em tudo o

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Raquel Pagno

que fazia. Estava acostumada a ser mimada pelos professores


e admirada por todos os alunos, não só por sua inteligência,
mas também pela beleza que o ar de intelectual lhe conferia.
Dentro de seu mundo de adoração, Camille parecia uma
celebridade, sempre rodeada de amigos. Sempre conquistando
a quem desejasse.
Eu não me sentia bem perto da garota prodígio. Ela
ressaltava em mim a ignorância e as minhas dificuldades.
Eu procurava ficar afastado, passar despercebido. Talvez
justamente por isso, na segunda semana de aula, Camille se
mudou da primeira fileira para a última, sentando-se ao meu
lado permanentemente.
Camille me lembrava meu pai, em quem eu nunca mais
pensara desde que decidi definitivamente tornar-me François
Roux. Ele sempre me dizia algo como pareço um ímã para atrair
quem eu não amo; ou quem a gente gosta jamais retribui, gostando
da gente igualmente. Eu pensava nisso cada vez que Camille se
aproximava de mim, e sentia-me feliz em pensar que Chloé me
amava com a mesma intensidade que eu a amava, embora eu
soubesse que Camille nutria por mim uma atração à qual eu
nunca retribuiria.
Isto acontecia quase todos os dias, Camille se aproximava,
tentava puxar conversa. Queria chamar minha atenção. Eu
a evitava, respondendo apenas com sim ou não às perguntas
que ela fazia. Então ela reclamava por não conseguir capturar
minha atenção e eu me recordava de meu velho pai, a quem eu
não dignara ao menos escrever contando a verdade. Eu sentia-
me um ímã que atraía a quem eu não amava e jamais amaria.
Pode ser que a vaidade de Camille a tenha convencido
de me conquistar. Ou talvez ela simplesmente tenha decidido
se vingar por eu não ter caído de amores por ela, como todos
os outros. Uma coisa era certa: ela não estava acostumada a
ouvir nãos. A sua insistência em atormentar-me gerou uma
espécie de ciúme doentio em um dos nossos colegas, Enzo,

54
Herdeiro da Nevoa
´

eterno apaixonado de Camille. Enzo passou a perseguir-me e


ameaçar-me desde então.
A insistência de Enzo em seguir cada um dos meus
passos me atrapalhava ainda mais na busca por Chloé. Eu não
havia desistido de descobrir onde ela vivia, ou onde se escondia
de minhas vistas, deixando-me a sofrer completamente
abandonado. Quando ela estava longe, imaginava que deveria
ter- lhe perguntado, mas recordava-me dos bons momentos
que passáramos juntos e me convencia de que jamais poderia
ter quebrado a magia daqueles poucos instantes em que ela
estivera em meus braços.
Acostumei-me com a presença de Enzo em cada lugar
aonde eu ia. Desde os corredores da Sorbonne até a catedral de
Notre Dame, onde passei a orar todos os dias, pedindo a Deus
que me trouxesse Chloé. Via-o como um espectro, uma sombra
que não podia separar-se de meu corpo. Eu não o culpava.
Sabia que o amor que ele sentia por Camille era semelhante,
talvez mais platônico, que meu amor por Chloé. Tive pena do
rapaz inseguro e calado, porque no fundo, sentia que éramos
iguais. Ambos sofríamos por um amor que na realidade não
tínhamos e compartilhávamos da mesma dor: a dor da solidão.
Esperei que me seguisse à Notre Dame e que sentasse a
observar-me da última fileira como sempre fazia. Esperei um
pouco, até perceber que ele se concentrara, baixando a cabeça
para não ser reconhecido por mim. Discretamente, levantei-
me e segui pelo corredor central. Antes de alcançar a porta
de saída, entrei no espaço vazio entre os bancos e sentei-me
a seu lado. Senti seu primeiro impulso de sair correndo, mas
segurei-o pelo braço impedindo a fuga.
— Enzo! Espere! — tentei dizer em voz baixa. As
palavras saíram da minha boca quase como gritos. Enzo olhou
para os lados, depois sussurrou.
— O que você quer, François, além de acabar com a
minha vida?

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Raquel Pagno

— Você está enganado, Enzo. Eu não tenho nada a ver


com Camille, se é a ela que está se referindo, eu…
— Poupe suas palavras, François. Eu já sei o que você vai
dizer. Que são apenas amigos, que não há nada entre vocês…
Só que eu já sei disso!
— Se já sabe, então por que me persegue?
— Porque… eu… preciso ter certeza… — Enzo se
conteve, olhando-me de soslaio, interrompendo a frase com a
ênfase de uma grande revelação.
— Ter certeza? De quê? — insisti.
— De que você não está se encontrando com Camille
às escondidas. — respondeu ele, mas de uma maneira que
me deixou extremamente claro de que não era isso o que
realmente queria dizer.
— Então já sabe. Eu não tenho nada com Camille, além
da mais pura e inocente amizade. Por que diabos continua me
seguindo? — tentei soar o mais irônico possível.
— Eu… bem… — balbuciou, desviando seus olhos dos
meus — Eu só queria ter certeza…
— Então agora que já tem, creio que não necessita mais
fazer isso, não é?
— É. Não preciso mais. — o rapaz gaguejava e apertava
as mãos entrelaçando os dedos compulsivamente. Estranhei
tal atitude. Enzo não parecia ser uma pessoa normal, ou então
estava muito nervoso, como se sua vida dependesse daquela
nossa conversa.
— Então pode ir embora. Mas já sabe: não precisa voltar
a me seguir. Eu lhe garanto que não há nada entre Camille e
mim.
O rapaz saiu tropeçando nos bancos e nas pessoas em
seu caminho. Eu não o ameaçara e sequer fora rude com ele.
Nada acontecera que justificasse tamanho nervosismo. Havia
algo errado com Enzo. Poderia ser alguma doença da qual
sofresse. Síndrome de pânico ou algo semelhante. Eu não

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Herdeiro da Nevoa
´

conseguia imaginar outra justificativa para o estado em que


ele deixara a igreja.
Aliviou-me pensar que a partir de então não estaria
mais sendo vigiado e que o caminho estaria livre para Chloé,
caso ela desejasse visitar-me novamente. Eu retomaria minha
busca, procuraria por ela e havia de encontrá-la onde quer que
se escondesse.

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Raquel Pagno

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7

Passei os dias seguintes rodando pelo comércio


parisiense, fazendo compras de roupas e acessórios, sem me
esquecer das luvas da Maison Fabre. Já que agora eu era o
milionário François Roux, tinha de me vestir como tal. Inspirei-
me em Stephen, sempre escolhendo o tipo de roupa que eu
achava que ele usaria. Ternos e gravatas. Pesados casacos de
lã. Sapatos de verniz. Tudo muito elegante e sofisticado.
Quando me vestia e olhava-me nos espelhos das lojas,
achava que aquilo tudo não combinava comigo. Faltava
alguma coisa; algo que eu demorei a perceber, mas descobri.
Entrei numa barbearia, de onde saí com os cabelos engomados
como os dos rapazes que eu vira no cabaré. Agora sim, sentia-
me um autêntico burguês. Saí da barbearia com o intuito de
voltar para casa. Andava, olhando minha própria imagem
pelos vitrais. Sentia-me satisfeito com o que via.
No meio do caminho, meus passos começaram a rumar
para outra direção. Não voltei para casa. Parei diante do prédio
de Chloé, onde permaneci observando-o longamente. Eu o
queria. E ele era meu, por direito. Precisava de um advogado,
alguém que me ajudasse a recuperá-lo.
— Eu conheço alguém que pode ajudá-lo, mon ami. —
Stephen parecia conhecer metade da cidade — Tome. Neste
cartão tem o endereço, basta você tomar o metrô e chegará ao

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Raquel Pagno

local. Diga que eu o enviei e será muito bem atendido.


Olhei para o papel em minhas mãos, Loan Splauer. O
nome não me parecia francês. Agradeci a Stephen, sempre tão
prestativo, mais uma das inúmeras qualidades que o tornavam
um homem perfeito como eu jamais haveria de ser.
Procurei Loan imediatamente, munido apenas dos
documentos pessoais de François, que era o que eu possuía
no momento. Tomara o cuidado de inventar uma história
enquanto viajava no metrô, a qual eu não tinha certeza se
seria suficientemente convincente, mas que fora a única que
me ocorrera.
Ao contrário do que eu imaginara, Loan não era um
advogado, mas sim, uma advogada. Era estranho encontrar
mulher exercendo o direito, mesmo na França. Confesso que,
no primeiro instante, fiquei um tanto desconfiado, mas logo
que ela começou a falar, senti uma confiança tamanha, que
jamais haveria existido com qualquer outro advogado.
Loan era firme com as palavras, tinha uma aparência
forte, de feições anguladas, cabelos curtos. Vestia calças, quase
como um homem. Assim que tomou em mãos os documentos
de François, afirmou-me veementemente que a casa já era
minha. Não era necessário pedir permissão qualquer para que
eu tornasse a ocupá-la.
Fiquei satisfeito com a descoberta. Agora era só
encontrar uma equipe de limpeza e outra de reforma e
restaurar a casa que seria dali para frente o meu lar e, no que
dependesse de mim, também o lar de Chloé.
Como sempre, recorri ao meu guru Stephen, que não
só sabia exatamente do que eu precisava, como também se
encarregava de tudo para mim. Eu só precisaria encontrar
os trabalhadores na manhã seguinte para dar-lhes as ordens.
Tudo estaria pronto em pouco tempo e eu poderia mudar-me
dentro em breve.
— E você irá morar comigo, não é, Stephen?

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Herdeiro da Nevoa
´

— Eu? Oh, não, mon ami. Preciso ficar aqui, para


continuar o meu livro.
— Terminar o livro? Mas, Stephen, acho que você não
tem mais uma história para contar nele. Se eu sou François
Roux, e se estou de volta, vivo, não precisa mais investigar,
não é?
— Em teoria sim. Mas nós dois sabemos que você não
é François Roux, mon ami. Eu preciso continuar as minhas
investigações. Além do mais, se François, digo, o verdadeiro
François, estiver vivo e resolver dar as caras por aí, isso seria
o seu fim, definitivamente.
— E se você descobrir que ele está vivo, Stephen, o que
vai fazer? E mesmo que ele não deseje voltar, nem retomar a
vida que deixou para trás? E se descobrir que ele está morto?
Vai publicar seu best seller, mesmo se para isso tiver que me
entregar?
— Eu não sei…
— Como assim, não sabe? Você me encorajou a entrar
nesta farsa, Stephen! Você me aconselhou a roubar a vida de
François! Como pode agora dizer que não sabe?
— Seria engraçado, não seria? Imagine só: dois François,
onde antes, não havia nenhum!
— Não vejo nada de engraçado nisso!
— Fique calmo, mon ami, vai dar tudo certo. Eu lhe
garanto que não serei eu quem acabará com seu conto de
fadas. Ou melhor, eu prometo.
— Stephen, se você falar…
— O que é isso, mon ami? Não confia em mim?
Olhei-o com o canto dos olhos. Jamais me ocorrera que
Stephen, depois do quanto me aconselhara a tomar o lugar e a
vida de François Roux, fosse capaz de continuar investigando
seu desaparecimento. Eu não confiava nele depois do que
acabara de me dizer, mas que alternativa eu tinha além de
fingir?

61
Raquel Pagno

— Sim, é claro que eu confio.


— Então vamos, deixe de cisma e vamos sair. A noite é
uma criança! E os cabarés nos aguardam, ou melhor, aguardam
o milionário François Roux!
Avaliei o convite e o aceitei. Seria bom esfriar a cabeça
com alguns drinques. Agora, eu estava preparado e não mais
passaria frio ou vergonha diante dos rapazes alinhados e bem
vestidos de Paris.
A noite passou depressa, ou era eu quem estava tão
sedento por aqueles momentos de diversão, que nem vi a manhã
se aproximar. Quando voltamos para casa, o sol já raiava no
horizonte, iluminando a cidade-luz e desmistificando o que à
noite fora puro glamour. Stephen e eu cambaleávamos pelas
ruas, abraçados, cantarolando palavras incompreensíveis,
agarrados a uma garrafa de champagne.
A embriaguez era-me benéfica, fazia-me esquecer meu
verdadeiro nome, acreditar que eu era mesmo François Roux,
o milionário, que um império aguardava pela minha volta, e
que eu realmente tinha direito a tudo aquilo. Quando eu bebia,
sentia que o destino guardara aquela vida para mim, que se
encarregara de dar sumiço no verdadeiro François, para que
eu pudesse ocupar o lugar que merecia. Acreditava que o amor
de Chloé era meu, só meu, e que nunca fora de mais ninguém.
E chegava a pensar que havia uma força maior guiando todas
as coisas e que o meu caminho já estava traçado antes de eu
nascer.
Quando o álcool se apossava do meu sangue, vertendo
abundante em minhas veias, despertava em mim uma ambição
que eu não tinha quando estava sóbrio: o desejo de correr o
mundo, derrubar as fronteiras e colocá-lo aos meus pés. Tinha
a nítida sensação de que era invencível, que conseguiria tudo
o que desejasse, fosse um advogado excelente para o mundo,
um amante irresistível para Chloé, um amigo inseparável para
Stephen.

62
Herdeiro da Nevoa
´

A autoconfiança nunca fora um dos meus pontos fortes.


Tudo o que fizera na vida fora conter desejos, escondê-los em
meu coração e dizer sim para as escolhas que meu pai fazia para
a minha vida. Nunca tive coragem de desafiar sua vontade,
não brigava, não discutia. Eu fora um bom garoto. Até agora.
A bebida fazia-me esquecer quem eu era e levava embora
a submissão, característica da minha personalidade.
Arrastei Stephen para o casarão Champoudry. Levei-o
pelos fundos, onde eu havia arrombado a porta, dias atrás.
Carreguei-o para dentro, puxando os lençóis que encobriam
os móveis empoeirados, e girando loucamente pelos salões
imensos do prédio.
— Veja isso, meu amigo… — minha voz estava tão
enrolada, que eu mesmo mal conseguia compreender as
palavras que saíam da minha boca — Tudo isso aqui… é
meu… é meu…
— É, doutor Roux. — Stephen estava tão embriagado
quanto eu, porém, falava com uma precisão invejável, parecia
que aprendera a se controlar muito bem.
— Doutor Roux! Gostei! Isso soa muito bem… Doutor
Roux… A partir de agora, vou querer que me chame assim!
Doutor Roux!
— Claro, mon ami.
— Mon ami não… Doutor Roux!
— Doutor Roux. — repetiu Stephen, que não parecia
disposto a brigar com um bêbado idiota como eu.
— Agora melhorou.
Segui retirando os lençóis da mobília, arrancando as
cortinas esfiapadas que pendiam das janelas desgastadas. Abri
algumas delas, mas a luz que entrou ofuscou-me os olhos
cansados, de modo que me afastei, tropeçando não apenas nas
minhas próprias pernas, mas também nos objetos, indo cair
aos pés da escadaria.
Olhei-a longamente. Eu sabia que aquela escada era-me

63
Raquel Pagno

familiar, mas não conseguia lembrar-me por quê. Agarrei o


corrimão e arrastei-me pelos degraus, engatinhando como um
bebê. Senti que Stephen me seguia, de pé, com sua postura
ereta e elegante de sempre, como se o efeito da bebida já o
tivesse abandonado completamente.
Cheguei à biblioteca. Finalmente poderia sentar-me em
uma das pequenas mesas e me deleitar com os volumes e mais
volumes. Isto é, eu pensei que poderia, mas não conseguia
enxergar ao menos onde estavam as cadeiras, logo, não
estava em condições de ler as palavras impressas com letras
minúsculas nos livros, e menos ainda de compreendê-las.
Enquanto eu me esforçava para puxar uma cadeira
e sentar-me, sem cair ao chão, Stephen afastou-se
sorrateiramente e subiu os dois últimos lances, seguindo pelo
longo corredor que levava ao quarto de Chloé. Quando me dei
conta do seu desaparecimento, cambaleei, perseguindo-o. Ao
ver o corredor e a porta que se estendia além, como se fosse o
pote de ouro no final do arco-íris, as recordações renasceram
em minha mente com uma nitidez estonteante.
Não queria que ele entrasse naquele que fora o meu
santuário de amor. Por mais bêbado que estivesse, a memória
do quarto e da pele nua de Chloé insistiam em atormentar-me
e me diziam que aquele segredo eu deveria guardar, mesmo de
um bom amigo como Stephen, ou de qualquer outra pessoa.
Eu não quisera abrir aquela porta no dia em que
arrombara o prédio. Não pude suportar a ideia de ver a ruína
na qual o tempo o transformara, e por isso não achava justo
que Stephen o fizesse.
— Stephen, não! — gritei em desespero.
— O que foi, doutor Roux? Pensei que tivéssemos vindo
aqui para explorar o seu futuro lar.
— Esse quarto aí, não pode ser tocado!
— Ah, é? E por que não?
— Porque… porque… porque esse será o meu quarto!

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Herdeiro da Nevoa
´

Só eu, Doutor Roux, é que posso entrar nele! — Stephen olhou


para mim, e depois para o buraco e para a velha maçaneta da
porta.
— Está bem, mon ami, se é assim que prefere.

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Raquel Pagno

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8

Não sei quanto tempo mais permanecemos no prédio,


até que Stephen finalmente convenceu-me a voltar para casa,
onde estirei-me na cama e não acordei pelo resto do dia. Tive
a impressão de que a bebida não causara a Stephen metade do
mal que causara a mim. Quando acordei, ouvi-o conversando
com Adélie, contando como seu dia havia sido produtivo,
enquanto o meu, não passara de travesseiro e colchão.
Levantei-me com dificuldade, minha cabeça rodava
e latejava parecendo que ia explodir. Adélie correu
imediatamente para amparar-me, apoiando-me em seu ombro.
Ia recusar a ajuda, mas minhas pernas bambearam e resolvi
aceitá-la, sem objeções.
— Stephen, desculpe-me por ontem à noite.
— Está tudo bem, Doutor Roux! — ele abriu-se em uma
longa gargalhada — Não precisa se preocupar.
Stephen trazia no canto da boca uma cigarrilha acesa,
cujo odor causou-me enjoo. Se ele não tivesse percebido e
deixado o quarto no mesmo instante, acho que eu teria coberto
a pobre Adélie de vômito.
— Sente-se aqui. — disse ela e correu até a mesinha de
cabeceira, onde uma xícara de chá amargo me aguardava —
Beba isso. Vai se sentir melhor.
— Obrigado, Adélie.

67
Raquel Pagno

— Stephen me disse que você pretende deixar a pensão.


É verdade?
— É verdade, sim. Vou mudar-me para a casa que foi de
meu pai. — disfarcei, tentando fazer com que as palavras não
soassem, de todo, falsas.
— Vai me levar com você? — A pergunta pegou-me
totalmente de surpresa. Não me passara que o relacionamento
de Adélie e François pudesse ter sido tão sério, a ponto de
fazê-la pensar que viveríamos juntos.
— Levá-la comigo…? Eu…
— Não precisa responder. É claro que você não pensou
em me levar. — A voz de Adélie era triste, e a tristeza
imediatamente transbordou, escorrendo pela face em
minúsculas gotas prateadas.
— Não é isso, mas… eu…
— Pode falar a verdade, François. Eu estou preparada.
No fundo, eu já sabia que isso iria acontecer. Você não esqueceu
a senhorita Champoudry. Eu vejo-a refletida em seus olhos,
toda vez que me procuro dentro deles. Não, eu não estou aí. —
ela encostou a mão suavemente no meu peito. — Pensei que
quando soubesse qual foi o destino de Chloé, você a esqueceria,
que poderia se apaixonar por mim… que poderia me amar.
Como eu fui idiota!
— Não, você não é idiota. Talvez o único idiota aqui seja
eu. Eu não me lembro de muitas coisas, Adélie. E, quando se
refere ao destino de Chloé, não sei do que você está falando.
— Não se lembra? Oh, François! A senhorita
Champoudry foi brutalmente assassinada.
— Assassinada?
— Sim, mon amour. Você não suportou a notícia, e por
isso, sumiu no mundo, sem deixar rastros.
— Alguém avisou a polícia?
— É claro que sim, mas não havia nenhuma pista do seu
paradeiro, embora eu sempre tenha pensado que você voltara

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Herdeiro da Nevoa
´

à Itália, onde viveu com sua mãe, quando criança.


— Desistiram de procurar por mim?
— Eu nunca desisti, mon amour. Mas a polícia desistiu,
sim. Encontraram sangue por toda a casa. Os vizinhos
disseram ter ouvido gritos, pedidos de socorro, e visto fogo
refletindo pelas janelas. Alguns afirmam ter tentado ajudar,
mas, segundo eles, ninguém conseguia sequer chegar perto
das portas, como se alguma força invisível os impedisse. A
polícia o considerou desaparecido, porque não conseguiram
encontrar o corpo e nem provar que aquele sangue todo era
seu. E nem poderiam, não é? Você estava vivo esse tempo todo!
— E o corpo de Chloé, foi encontrado?
— Foi encontrado em estado deplorável, dois dias antes
do seu desaparecimento. Parece que foi vítima de algum tipo
de ritual de magia negra. Não havia nenhuma gota de sangue
no corpo, que jazia branco e frio como gelo.
— E quem poderia ter feito isso?
— Na verdade, você era o suspeito número um. Estou
estranhando a polícia ainda não ter vindo aqui, tomar seu
depoimento. Você não mais foi visto depois da morte da
senhorita Champoudry. Por acaso sabe se alguém comunicou
a polícia sobre a sua volta?
— Não. Quer dizer, eu acho que não.
— Então eu o aconselho a procurá-los. Se não foi você, e
eu sei que não foi, não tem o que temer.
— Como você sabe que não fui eu?
— Porque você esteve comigo naquela noite.
François era um procurado. Estava explicado o motivo
do seu sumiço. Mas quem ele matara, se Chloé Champoudry
estava viva? E, por que Stephen não me dissera nada?
Certamente, Adélie já lhe contara tudo, pois os dois pareciam
amigos.
A conversa com Adélie deixou-me ainda mais confuso.
Tornei a sentir-me culpado, uma sensação que eu já havia

69
Raquel Pagno

superado desde que tomara a decisão de mudar de identidade


definitivamente. Eu procuraria a polícia, conforme ela me
aconselhara. E só seria realmente livre, se conseguisse provar
a inocência de François. Uma ideia para tal acabara de surgir
em minha mente. Precisava encontrar Chloé. Se a levasse
comigo, provaria que estava viva e assim não restaria qualquer
dúvida quanto à inocência de François, ou a minha própria. Se
não o fizesse, cedo ou tarde eles me encontrariam.
— Adélie, e se eu lhe dissesse que Chloé está viva, você
acreditaria em mim? — arrisquei, mesmo correndo o risco de
assustar Adélie.
— Por que está me perguntando isso? É claro que eu
não acreditaria. Eu mesma compareci ao enterro da senhorita
Champoudry, no Cimetière du Père-Lachaise. Eu a vi dentro do
caixão. Não é possível que esteja viva.
— E se eu lhe garantir que estive com ela recentemente?
E se eu lhe disser que ela me levou até a sua casa, ou seja, a
nossa casa, e que tudo estava perfeito, como se o tempo não
tivesse passado, tudo como era antes?
— Então eu diria que está ficando louco, François.
Ou que teve um sonho tão lúcido a ponto de acreditar que
aconteceu de verdade.
— Mas, e se eu não estiver louco? Se Chloé realmente
estiver viva?
— Os mortos não voltam, François, por mais que você
deseje. Eu entendo a sua dor e sei o quanto você a amava, mas
eu a vi sendo enterrada, e nada poderá mudar esse fato.
— É. Você tem razão — achei melhor não discutir mais.
Seria inútil tentar convencer Adélie de que Chloé vivia.
Eu precisava encontrar Stephen, perguntar se ele descobrira
mais alguma coisa. E também precisava encontrar o Cimetière
du Père-Lachaise. Queria ver o túmulo de Chloé com meus
próprios olhos.
Adélie deixou-me sozinho. Remoí tantas possibilidades

70
Herdeiro da Nevoa
´

para o que acabara de ouvir, mas nenhuma me parecera lógica


o bastante. Queria sair imediatamente, percorrer Paris em
busca de pistas, como Stephen deveria estar fazendo naquele
momento, mas estava ainda um tanto indisposto e tinha muitas
coisas para arrumar antes de mudar-me.
Retirei minha velha mala de baixo da cama e comecei
a recheá-la com as minhas velhas roupas, olhando cada peça
atentamente. Eu não precisava mais delas, seriam apenas
lembranças que jamais me deixariam esquecer quem eu era de
verdade. A mala já estava cheia e vi que ainda restavam muitas
coisas a serem guardadas. Procurei ao meu redor alguma
caixa, ou pacote que pudesse me servir de mala. Não havia
nada útil por ali. Precisaria ir às compras outra vez.

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Raquel Pagno

72
9

Mudei-me em uma segunda-feira chuvosa.


A equipe de limpeza ainda fazia o seu trabalho e, em
certos cômodos da casa, as mobílias ainda jaziam escondidas
sob os lençóis. Stephen alugara um carro para levar minhas
coisas. Assim mesmo, quando chegamos, muitas delas se
perderam. As malas ficaram encharcadas, porque precisamos
entrar pelos fundos. A entrada principal já estava interditada
pelos homens da reforma, que martelavam as paredes sem dó
nem piedade, por mais que eu lhes tivesse recomendado que
tudo deveria ser mantido como estava.
Eu não via a hora de finalmente ficar sozinho na casa.
Desejava explorar cada cantinho, cada segredo escondido
naquelas paredes. Mal sabia que as jornadas de trabalho
se prolongariam mais do que o previsto, entre consertos e
reformas, barulho e sujeira. Por outro lado, seria bom que eu
estivesse por perto para evitar que os trabalhadores fizessem
reformas desnecessárias, ou quebrassem mais paredes do que
o previsto.
A única coisa que não me agradava era saber que o quarto
de Chloé seria restaurado, conforme julgamento do próprio
mestre de obras, possuidor de um gosto para a arquitetura
um tanto duvidoso, mas ainda assim, preferi resguardar-me de
ver o cômodo todo destruído.

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Raquel Pagno

Já que eu decidira mudar-me para o prédio tão cedo,


decidi que não seria nada agradável passar muito tempo por
ali, exposto às marteladas, que com o passar dos dias, pareciam
ser dadas dentro do meu cérebro. Fiz uma lista de materiais,
e saí eu mesmo para comprá-los. Por sorte, encontrei tudo de
que precisava não muito longe dali. Escolhi cuidadosamente
as maçanetas, as novas cubas para os banheiros, os metais
e torneiras. Tudo isso, fiz com o propósito principal de
conservar o estilo clássico do casarão, tudo conforme eu vira
naquela única tarde, em que o tempo voltara e o passado se
apresentara diante de meus olhos.
Mais de uma semana se passara, e eu não tornei a sair
do prédio. Fazia minha única refeição do dia, que resumi a um
pedaço de pão e a uma xícara de chá, sentado na escadaria,
longe da sujeira e dos desagradáveis barulhos da obra, que já
se prolongara bem mais que o devido. Às vezes, contornava a
casa até a varanda frontal e olhava perdidamente para todas as
direções, fechava os olhos, sentia o vento que acariciava o meu
rosto e pedia secretamente para que ela voltasse. Mas, eu sabia
que enquanto houvesse alguém além de mim na casa, que era
tão sua por direito quanto minha, Chloé não voltaria.
A saudade machucava cada vez mais o meu coração e a
solidão começava a apossar-se da minha alma ferida. Mesmo
rodeado por centenas de pessoas, todos os dias, indagando-me
sobre o que deveria ser feito a seguir, eu jamais me sentira tão
sozinho. E com a certeza de que a minha mente perturbada
não podia aguentar nenhum dia mais, despedi todos os
homens que trabalhavam na reforma, sem me incomodar com
o argumento de que os serviços ainda não estavam totalmente
concluídos. Também demiti o bando de empregados que
cuidava da limpeza.
Fechei todas as portas e janelas, cerrei as cortinas
recém-colocadas, e permaneci trancado na casa. Eu finalmente
me apossaria do quarto de Chloé e lá esperaria por sua volta.
Não retornaria às aulas, das quais eu já me afastara desde o

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Herdeiro da Nevoa
´

dia da mudança. Não sairia do quarto, até que ela voltasse para
me resgatar. Agora eu era um milionário, e não precisava mais
preocupar-me em conseguir uma boa profissão. A única coisa
da qual eu necessitava, era a companhia de Chloé e, se eu não
a tivesse, optaria por morrer ali, sozinho, trancado naquele
casarão, envolto em lembranças.
Postei-me diante da porta do quarto. Esperei um tempo,
respirando fundo, reunindo coragem para girar a maçaneta.
Cheguei a sentir o perfume no momento em que meus dedos
a giraram. Abri a porta, bem devagar, como se soubesse que
o que veria dentro do cômodo me chocaria profundamente.
Senti medo. Medo de que meu sonho jamais se tornasse real,
medo de morrer ali, perdido na ilusão de ser François Roux,
de ter tudo o que me faltara durante a vida toda, e mesmo
assim, estar tão profundamente infeliz.
Tirei os dedos da maçaneta e a porta deslizou
lentamente, mostrando o interior do dormitório. Haviam-no
pintado inteiramente de branco, refeito as cortinas do dossel,
recomposto a cama finamente ornamentada com as mais caras
rendas de Paris. As paredes lisas refletiam pequenas agulhas
de luz que escorriam pelas aberturas das duas sacadas,
cujos dourados originais dos peitoris, também haviam sido
restaurados.
Caminhei até a cama, onde sentei-me recostado aos
travesseiros. Tudo era exatamente como eu me lembrava.
Toda a mobília era branca, adornada de dourado, como se o
quarto fosse a morada dos anjos. Vi meus olhos refletidos num
pequeno espelho redondo, que flutuava sobre uma penteadeira
recostada na parede oposta à cama. Aquele era o único objeto
do qual eu não recordava. Apertei os olhos, refazendo em
minha mente cada momento que eu passara com minha
amada Chloé. Revi o dossel da cama, a cabeceira imponente,
a penteadeira, mas onde agora estava o espelho, antes apenas
um tecido branco recaía sobre o móvel.

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Raquel Pagno

Permaneci ali até o anoitecer. Pela porta entreaberta da


sacada, vi o sol se pôr. O sono não veio. As luzes se acenderam
na rua em frente, mas dali, eu só via a semi-luminosidade
que era lançada contra a parede frontal, e que escapava
timidamente pela lateral do prédio.
— François! — a voz despertou-me dos meus
pensamentos, levando Chloé outra vez para longe de mim.
Levantei-me num sobressalto. Não reconheci imediatamente
a voz de Stephen. Desci as escadas quase correndo, e da
mesma forma, atravessei o salão do piano, onde eu pusera
algumas poltronas, a fim de ocupar o lugar antes vazio, e dar
ao ambiente uma sensação de aconchego.
— Olá, mon ami. Como tem passado? — Stephen
pareceu-me animado, como sempre. Trajava um sobretudo
preto, e trazia sobre a cabeça o mesmo chapéu-coco que me
emprestara tempos atrás. Stephen não parecia ridículo com tal
acessório. Pelo contrário, a peça deixava-o ainda mais elegante.
— Eu estou bem — respondi, apesar de saber que a
minha fisionomia desnutrida afirmava o contrário.
— Não me convida para entrar?
— Ah, é claro! Que indelicadeza a minha! — senti-
me envergonhado por deixá-lo tanto tempo aguardando na
soleira. Certamente pessoas elegantes como Stephen não
estavam acostumadas a este tipo de tratamento — Por favor,
entre!
Ele entrou. Tirou o casaco e o chapéu e estendeu-
os para mim que, na falta de um cabide ou coisa parecida,
depositei-os sobre o piano. O gato pareceu assustar-se com
o ruído das roupas sendo largadas sobre seu esconderijo
quase secreto e saiu assustado de dentro do piano, mas logo
amansou e aproximou-se de Stephen, esfregando o dorso em
seus tornozelos, como se fossem velhos amigos.
— Gostaria de beber alguma coisa, mais precisamente,
um chá?

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Herdeiro da Nevoa
´

— Um chá? Quer dizer que se muda para esta mansão e


a única coisa que tem a oferecer é chá? — brincou, enquanto
se abaixava para acariciar o gato mimado.
— É que ainda não tive tempo para ir às compras, como
você sabe, as obras têm- me ocupado bastante — menti, como
se Stephen não soubesse que eu havia acabado com a reforma.
— Nossa! O trabalho aqui ficou muito bom, heim! —
observou, apreciando as paredes recém-pintadas, os lustres
restaurados e as janelas que antes estavam quase apodrecidas
pelo furor das intempéries, e que agora exibiam maçanetas
douradas que combinavam perfeitamente com a decoração.
Logo se levantou e fez sinal com a mão, indicando a porta ao
gato, que saiu imediatamente atendendo a sua ordem. — Eu
vou aceitar o chá.
— Oh, eu vou preparar — balbuciei, lançando um olhar à
porta para me certificar de que o gato tinha mesmo obedecido
a Stephen, uma regalia que não concedia nem mesmo a mim.
— Você? Por que não pede a um dos empregados que
enviei?
— Porque eles já acabaram o que vieram fazer e eu achei
melhor dispensá-los. Não precisarei mais deles.
— Mas nem de uma cozinheira, ou uma faxineira?
— Não, ninguém. Eu cuidarei de tudo por aqui.
— Bem, se você acha que consegue… — Stephen deu
de ombros, depois seguiu-me até a cozinha — Adélie tem me
perguntado por você. Disse que prometeu trazê-la para viver
aqui com você, mas que depois de perder a memória, você
voltou atrás.
— Quem prometeu foi François, não eu.
— Dá no mesmo. Aliás, que grande sacada essa do
acidente. Eu mesmo não teria pensado em nada melhor.
— Foi a única ideia que me veio à cabeça. — Stephen
apenas assentiu com um gesto.
— Adélie é uma mulher interessante, mon ami. E está

77
Raquel Pagno

apaixonada por você. Não acha que seria bom ter alguém ao
seu lado? Você está com uma aparência horrível. Sei que não
anda se alimentando direito. Creio que uma mulher como ela
lhe faria muito bem.
— Eu sei me cuidar sozinho — disse, horrorizado pela
possibilidade de Chloé voltar e encontrar Adélie.
— Ah, eu estou vendo… — François pegou a xícara de
chá fumegante e bebericou em pequenos goles.
— Que bom que mencionou Adélie, eu estava mesmo
querendo falar com você sobre ela. — Stephen levantou os
olhos para encarar-me.
— Comigo? O que poderia ser?
— Adélie me contou que François Roux sumiu por que
foi acusado de assassinato. Você já sabia, não é? Por que não
me contou?
— Porque isso não é totalmente verdade.
— O que quer dizer com isso?
— François não foi oficialmente acusado de assassinato.
— Por que você me disse que Chloé havia desaparecido,
quando, na verdade, todos sabiam que ela estava morta? Adélie
me disse que ela mesma compareceu ao enterro da garota. Por
que você mentiu Stephen?
— Eu não menti. Ninguém, além dos policiais que
atenderam ao chamado da vizinhança, viu o corpo de Chloé.
Ninguém a viu, mesmo no dia do enterro, pois o caixão foi
totalmente lacrado. Alguém certamente foi enterrado naquele
túmulo, alguém que possivelmente tomou o lugar de Chloé
Champoudry, mas não existem provas de que ela realmente
morreu.
— Quem são os policiais que a encontraram sem
vida? Você já sabe o nome deles? Podemos ir até a delegacia
e perguntar se eles tinham certeza quando reconheceram o
cadáver de Chloé.
— Isso não é possível, mon ami. Os dois policiais

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Herdeiro da Nevoa
´

morreram logo depois do enterro de Chloé. Foram assaltados


e mortos com dois tiros no peito, cada. Minha opinião é que
foram assassinados. Logicamente alguém não queria que eles
abrissem o bico.
— Você tem certeza de que ninguém mais a viu?
— É claro que sim. Já conversei com todos os vizinhos,
alguns ainda se lembram perfeitamente de tudo o que aconteceu.
Já procurei a polícia também. Eles não têm nenhuma prova
definitiva sobre a morte de Chloé Champoudry, nem sequer
uma única foto de seu corpo. Como afirmar que era mesmo
ela?
— Stephen, eu quero que me acompanhe até o cemitério.
Preciso ver a lápide onde a garota foi enterrada.
— Oh, mon ami, creio que esse passeio não lhe fará bem.
— Eu preciso ir até lá.
— Está bem, mas não compreendo seu interesse por
esse assunto.
— Em breve, todos compreenderão.

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Raquel Pagno

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O túmulo era branco, recoberto de um mármore tão


alvo e perfeito quanto a pele de Chloé. Toquei-o. Meu coração
estremeceu com o frio que se apossou de meus dedos, e não
pude deixar de imaginá-la dentro da sepultura gélida. Sobre
a lápide brilhavam esculturas de querubins, cujas asas haviam
recebido uma tintura prateada. Mirei-os atentamente. Vi a
expressão do rosto de Chloé em cada um deles.
No centro das esculturas, um arcanjo empunhava
uma espada, que apontava para uma moldura oval sob os
pés dos querubins. Dentro da moldura, Chloé sorria, quase
ironicamente. A imagem pareceu-me familiar, tanto que me
agachei, aproximando-me o máximo possível da lápide.
Ela pareceu-me diferente, como se aquela não fosse
Chloé, mas alguém muitíssimo parecida com ela. Os cabelos
não eram cacheados como os dela, e a moça da imagem tinha
as bochechas coradas, que contrastavam muito com a palidez
da pele de Chloé. O vestido também não se parecia em nada
com as roupas usadas pela minha Chloé. A moça da pintura
usava um modelo simples, floral, de cor clara, como o de uma
camponesa italiana, totalmente oposto às vestes negras e
cheias de transparências que Chloé usara em todas as vezes
em que estivéramos juntos.
— É ela? — perguntei.

81
Raquel Pagno

— Sim, mon ami.


— Linda. — afirmei, como se aquela fosse a primeira
vez que eu a via.
— Sim. Uma das jovens damas mais lindas de Paris.
— Essa foto me parece familiar.
— Talvez a tenha visto na sua casa, naquele dia em que
se feriu. Reparei a mesma imagem no aparador do corredor,
quando estive lá com você, naquela manhã antes da reforma.
Só que era uma fotografia, e não uma pintura, como esta aqui.
As palavras de Stephen me trouxeram de volta as
lembranças, não da manhã em que eu estivera bêbado demais
para me lembrar de qualquer coisa que tenha visto, mas da
minha primeira visita àquela casa, quando Chloé levou-me ao
seu quarto. Havia também outras fotografias sobre o aparador
que Stephen mencionara, mas eu não as vira durante os dias
de reforma e limpeza. Precisava encontrá-las.
— Eu acho que vi, sim.
— Então, se está satisfeito com a visita, vamos embora.
Assenti com a cabeça, depois depositei sobre a lápide um
ramalhete de flores que eu comprara na entrada do cemitério.
Corri meus dedos sobre a pintura, contornando a boca de
Chloé, como se quisesse colher dela um último beijo.
Doeu imaginar minha doce Chloé morta, mas aliviou-me
pensar que aquilo tudo não passava de uma mentira. Talvez eu
devesse procurar a polícia, como Adélie me aconselhara, não
apenas para apresentar-me e dizer que François Roux havia
voltado, mas para contar que Chloé Champoudry estava viva.
Caminhei um pouco ao lado de Stephen, mas ele logo me
deixou. Como sempre, tinha coisas importantes a resolver, e
eu esperava sinceramente que isso não tivesse nada a ver com
a verdadeira história de François Roux. Eu tinha medo do
que Stephen poderia descobrir, e mais ainda, do que poderia
escrever em seu livro. Dependendo de como ele contasse a sua
história, não haveria salvação para mim.

82
Herdeiro da Nevoa
´

Decidi seguir até Notre Dame antes de voltar. Há muito


tempo eu não voltara à catedral, ao menos para procurar
Chloé, mas quando me aproximei da entrada, reconheci duas
silhuetas que rezavam ajoelhadas na última fileira. Camille e
Enzo viraram-se, como se sentissem a minha presença. Tentei
disfarçar, mas não tive tempo de sair antes que os dois se
levantassem e viessem na minha direção.
— François! — chamou Camille, só para ter certeza de
que eu a vira. Enzo lançou-me um olhar ameaçador.
— Olá, Camille! Olá, Enzo! — cumprimentei os dois
com as mesmas palavras, tentando manter o mesmo tom de
voz, para não provocar os ciúmes de Enzo. Não queria que ele
pensasse que eu tratava Camille de maneira especial, porque
de fato isso jamais ocorrera.
— Você anda sumido! Por que não frequenta mais as
aulas? Ficamos preocupados. Perdeu muita coisa interessante
esta semana. Se quiser, posso ajudá-lo a recuperar o tempo
perdido.
— Oh, não é necessário. Estive resfriado durante esses
dias e ainda não estou muito bem. — menti, esfregando os
olhos com as costas da mão.
— Ah, então precisa de um médico!
— Não, não é necessário!
— É claro que é, veja como está abatido, não é Enzo? —
Enzo apenas assentiu, dando de ombros.
— Como eu disse, é só um resfriado, e já está passando,
logo eu estarei bem e poderei retornar às aulas.
— Tem certeza? Se quiser, posso lhe indicar um bom
médico.
— Obrigado, mas não é mesmo necessário. Eu estou
bem mesmo. Só preciso de um pouco de ar fresco e ficarei
novinho em folha!
— Então, está bem. Mas se precisar de alguma coisa,
qualquer coisa, pode me chamar!

83
Raquel Pagno

— Eu chamarei. Obrigado. — Enzo lançou-me outro


de seus olhares mais ameaçadores, depois colocou o braço no
ombro de Camille. Os dois saíram quase abraçados.
Enzo ainda me causava arrepios. A figura magra e alta,
com grandes e profundas olheiras arroxeadas, em contraponto
a sua palidez. Parecia um morto- vivo. Eu não me sentia
bem em observá-lo, menos ainda que chegasse muito perto
de mim. Nunca nos tocamos, mas eu imaginava só de olhar,
como a sua pele seria fria e sem vida. De seus olhos negros e
enigmáticos, saltava algo funesto, profundamente deprimente,
que contagiava quem estivesse perto do rapaz. Não era de se
estranhar que Camille não lhe desse atenção.
Na catedral quase ninguém orava àquela hora da manhã.
Os turistas ainda não haviam chegado a aglomerar-se com
suas irritantes máquinas fotográficas. Olhei da entrada até
que Camille e Enzo sumissem pela rua. Enzo ainda lançou-me
um último olhar, depois concentrou-se no caminho e os dois
atravessaram a ponte. Finalmente, fiquei só.
Entrei, mas não para rezar, porque já rezara tanto,
pedindo a Deus que trouxesse Chloé de volta para mim, e
ele não me atendera. Sentei para esperar. Quem sabe hoje ela
apareceria? Eu achei que deveria fazer aquilo todos os dias. Se
ela viera ali algumas vezes, certamente voltaria, e eu queria
estar ali para encontrá-la quando isso acontecesse.
Fiquei ali, sentado naquela última fileira, até o entardecer,
observando as cenas da vida de Cristo representadas nos
vitrais coloridos. Chloé não veio, como era de se esperar.
Voltei para casa, encantado com os raios resplandecentes
do crepúsculo alaranjado que descia sobre a rosácea azul do
braço norte da catedral, e dava à nave central uma aparência
sombria e que seria quase fantasmagórica, não fossem os
inúmeros candelabros acesos em ambas as laterais.
Segui atento. Chloé poderia estar por perto. Talvez
vivesse próximo à catedral, e por isso mesmo, eu a encontrara

84
Herdeiro da Nevoa
´

ali, mais de uma vez. Quando cheguei à rua de minha nova


casa, pensei que aquele fosse o meu dia de sorte. Havia uma
figura feminina recostada ao portão frontal. Imediatamente,
meu coração palpitou. Não pude ver o rosto, mas a minha
intuição e o meu coração ansioso me diziam que era ela.
Quase saí correndo pela calçada, tão excitado com
a chance de ter Chloé novamente em meus braços. Minhas
pernas tremeram tanto, que eu temi perder a consciência ali
mesmo, sem ter a oportunidade de vê-la de perto, de falar
com ela, de sentir o cheiro adocicado de sua pele. Respirei
fundo, tomando fôlego para correr mais de pressa, enquanto
a silhueta dava meia volta, ameaçando partir. Ia gritar o seu
nome, mas antes que eu abrisse meus lábios, a mulher virou-se
de maneira que eu pude reconhecê-la, e acenou para mim.
— Bonne nuit, François!
— Boa-noite, Adélie. — minha voz soou decepcionada,
não pude evitar.
— Esperava alguém em especial? — disse ela,
adivinhando meus pensamentos.
— Não… não… — balbuciei — apenas não esperava
encontrá-la por aqui. Aconteceu alguma coisa?
— E precisa acontecer alguma coisa para visitar os
amigos? Pensei que eu fosse mais bem vinda a sua casa.
— Oh, desculpe, não foi isso que eu quis dizer… —
minha face corou — Vamos entrar.
Abri o portão, depois a porta da frente. Fiz um gesto
para que Adélie entrasse em minha frente, tentei ser gentil
com ela. Ela agradeceu também com um gesto, e entrou.
— Gostaria de beber um chá?
— Um chá?
— Desculpe não ter outra coisa a oferecer, mas eu ainda
não tive tempo para ir às compras. As obras têm- me ocupado
bastante.
— Um chá está ótimo. — respondeu educadamente.

85
Raquel Pagno

— Bem… eu vou preparar. Acompanha-me à cozinha,


ou prefere esperar aqui?
— Eu… — Mal Adélie abriu a boca para responder, o
gato saltou de dentro do piano e pulou sobre ela, emitindo
um miado grave. O animal a havia ferido e depois saiu em
disparada pela fresta da porta que eu deixara relapsamente
entreaberta.
— Você está bem? — perguntei, segurando o braço
arranhado, do qual o sangue escorria violentamente e
começava a pingar no chão. — Não sei o que deu nele, nunca
tinha saído de dentro do piano perante pessoas estranhas,
exceto de Stephen. — detive-me um instante relembrando
o estranho carinho que o gato dedicara a Stephen. Seriam
velhos amigos?
— Não foi nada grave, não se preocupe. — tranquilizou-
me, embora eu visse no rosto a expressão de dor que a possuíra.
— O lavabo fica ali, atrás da escada. É melhor você lavar
bem a ferida, para que não infeccione. Eu vou lá em cima ver
se acho alguma coisa para fazer um curativo.
— Está bem. — concordou ela, estancando o sangue
com a mão.
Subi o primeiro e o segundo lances da escada, apressado.
O segundo andar, cuja mobília havia sido totalmente
descartada, sem possibilidade de conserto por estar muito
danificada, estava completamente vazio, exceto pela biblioteca,
aparentemente intocada. Subi o terceiro e o quarto lances,
desembocando na circulação onde ficava o aparador. Abri as
gavetas do móvel, atrás de algum pedaço de pano, ou de algo
que pudesse usar para estancar o sangue no braço de Adélie,
mas o que encontrei foi algo totalmente diferente: os retratos
de Chloé, que anteriormente serviam de enfeite ao móvel e que
agora, não eram mais do que sucatas, ou relíquias solitárias
amareladas pelo tempo e escondidas naquelas gavetas.
Retirei uma delas, observando-a atentamente. Era a

86
Herdeiro da Nevoa
´

mesma gravura que eu havia visto na lápide do cemitério,


só que não se tratava de uma pintura, e eu pude reconhecer
perfeitamente Chloé. Também ali a vi diferente do que ela
realmente era. O sorriso pareceu-me forçado e irônico, os
trajes estampados não me lembravam em nada a mulher
elegante que eu conhecera. Deduzi que o pintor não fora tão
medíocre, afinal.
A próxima fotografia mostrava Chloé posando ao lado do
jovem François. Ela sorria e eu quase podia sentir a felicidade
que emanava de seu olhar. O vestido branco rendado e a
sombrinha que segurava em uma das mãos pareciam vindos
de uma época muito mais remota que a própria fotografia, de
um tempo de lordes e ladies, de damas e cavalheiros que não
mais se viam naqueles tempos modernos.
Assim que as retirei de cima da terceira fotografia, onde
um homem elegante aparecia usando um chapéu, como o de
Stephen, fui interrompido pela voz de Adélie, que me chamava
do térreo.
— Já estou indo! — gritei de volta, para tranquilizá-la.
Guardei as fotografias novamente na gaveta do aparador
e apressei-me em descer para acudi-la, com a expectativa de
voltar e revirar toda a casa quando estivesse sozinho, em
busca de novas fotografias e outras pistas que poderiam estar
perdidas em meio às velhas mobílias que eu conseguira salvar
da ira da equipe de limpeza.
— Não há nada que possa ser usado. É melhor irmos até
uma farmácia. Você sabe onde tem uma?

87
Raquel Pagno

88
11

Adélie levou três pontos no braço. Acompanhei-a até


sua casa e depois voltei com o intuito de dar ao gato o fim que
ele merecia.
Já anoitecia quando cheguei a casa, e Paris se tornara um
mar de luzes multicoloridas que saltavam dos letreiros e cafés.
Detive-me por algum tempo, observando a alegria que fluía
daqueles lugares que conseguiam ser tão festivos e ao mesmo
tempo tão elegantes. Uma aura mágica envolvia Paris à noite,
especialmente em noites como aquela, de final de primavera,
quando o intenso frio do inverno era mais ameno e deixava de
castigar os corpos dos boêmios.
A rua de minha nova casa perdia-se na penumbra. A
lâmpada do poste em frente à entrada principal encontrava-se
apagada e todas as demais que antes iluminavam o caminho,
inundando o andar superior do casarão de uma fina luz
amarelada. Com o pé direito entrei pela porta do salão do
piano, agora convertido em minha sala de estar, ato que, por
superstição, repetia cada vez que por ali passava.
O blackout também atingira a casa, o que constatei
quando o interruptor ao lado da porta não funcionou. Entrei
tropeçando nas poltronas até o primeiro degrau da escada,
onde me agarrei ferozmente ao corrimão, não havia ainda me
acostumado com a disposição dos móveis. Procurei inutilmente

89
Raquel Pagno

por uma vela ou um lampião ali esquecido. Não havia nada que
eu pudesse usar para combater a escuridão.
Ouvi um estranho ruído vindo do andar de cima, um
som abafado de algo se arrastando pelo assoalho. Gelei
de medo quando o barulho se converteu em som de passos
que, pesados e lentos, se dirigiam à escadaria. Senti minhas
têmporas latejando, o som do meu coração ecoando em meus
ouvidos, e minhas pernas relutaram em me obedecer.
Olhei em volta à procura de algo para me defender, mas
a escuridão inundava a casa e eu não pude encontrar nenhuma
faca, ou objeto ameaçador. Agarrei-me ridiculamente a um
cabo de vassoura, a única coisa que minhas mãos tatearam
no breu, e voltei ao pé da escadaria, pronto para travar uma
batalha de vida ou morte com quem quer que fosse.
Subi atentamente os dois primeiros degraus, com uma
das mãos firmemente agarrada em minha arma fatal e a
outra apoiada ao corrimão. Senti as primeiras gotas de suor
escorrendo pela minha pele gelada, na mesma hora em que dois
sinistros olhos verde-amarelados despontaram no patamar
da escada. Não sabia que eu poderia tomar uma atitude tão
covarde, mas dei um salto em recuo, tão grande que tropecei
e caí sentado no primeiro degrau e fui tomado por uma dor
lancinante.
A fração de segundo que permaneci no chão, e que me
pareceu ter durado horas, foi apenas o suficiente para que o
gato se lançasse sobre mim, tão assombrado quanto eu.
Abismei-me com a potência do grito saído de dentro da
minha garganta. Eu era mesmo mais covarde do que julgara.
Segurei o bichano em uma das mãos, enquanto largava da
minha poderosa arma de madeira. Ele não me atacou, apenas
me encarou com uma admiração semelhante a minha, relaxado
em perceber que eu não era nenhum monstro devorador.
Respirei fundo, sentindo meu coração bater cada vez
mais devagar, e o tremor em minhas pernas desaparecer quase

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Herdeiro da Nevoa
´

que por completo. Levantei-me. O gato saltou de meu colo e


correu para longe, parando em algum ponto às minhas costas,
onde eu não conseguiria encará-lo. Ergui a mão, secando o
suor frio que banhara minha testa cálida.
O miar do gato me tirou imediatamente da minha
condição reconfortante de relaxamento. Apertei os olhos na
escuridão e reconheci uma silhueta humana e um par de olhos
brilhantes que me encaravam do patamar. Assustado, abaixei-
me ligeiramente, tateando o chão em volta, em busca da minha
vassoura, mas só o que toquei foi o gelado assoalho de madeira.
As batidas dos pés nos degraus denunciavam a
descida do estranho. Eu quis correr, mas encontrava-
me perdidamente congelado e impotente. A criatura se
aproximava vagarosamente, descendo um degrau de cada vez,
como se esta lhe fosse uma atividade difícil de executar. O som
que eu ouvi sugeria que um pé era normalmente baixado até
o degrau inferior, enquanto o outro era quase que largado,
como se a perna fosse algo flácido e sem vida, ou se o estranho
carregasse consigo uma bengala de apoio.
O único movimento que eu consegui arrancar de meu
corpo petrificado foram dois pequenos passos para trás, dados
no instante em que a silhueta negra se deixou cair em minha
frente, apoiado ao corrimão. Chegou tão perto que eu vi a
minha própria imagem refletida no castanho flamejante de
seus olhos, e senti o calor que emanava do corpo cansado e
quase tão suado quanto o meu próprio.
Mil sugestões me passaram pela mente, no pouquíssimo
tempo em que permanecemos frente a frente, encarando-nos
como dois animais, cada qual prestes a dar o primeiro golpe.
Acreditei que se tratava de um ladrão, um assaltante em
busca de dinheiro ou de qualquer objeto de valor. Imaginei
Chloé, fazendo-me mais uma de suas agradáveis surpresas,
possibilidade que de pronto abandonei. Cheguei a pensar que
era Stephen a me pregar uma peça. Todas as possibilidades

91
Raquel Pagno

eram nulas perante aquele olhar enigmático de fera faminta.


Preparei-me para morrer. Certamente o invasor
carregava consigo uma arma, provavelmente um tanto mais
fatal do que a minha vassoura. Fechei os olhos e um clarão se
abateu sobre minhas pálpebras cerradas. A luz voltara. Abri os
olhos, pronto para reconhecer a face do meu inimigo. Minhas
pupilas se contraíram bruscamente, e não tive certeza se o que
via era real, ou apenas uma alucinação causada pelo medo.
Eu não o conhecia, nem precisaria, para reconhecer meu
próprio rosto diante de mim como em um espelho. O invasor
era François Roux.
O homem correu assustado, arrastando uma das pernas,
como eu imaginara. Imóvel, observei-o afastando-se até a
porta da cozinha, depois ouvi o ranger da porta dos fundos
se abrindo. Fui incapaz de mover-me, fosse para atacá-lo ou
para segui-lo, porém notei que carregava algo debaixo do
braço, talvez um embrulho ou uma caixa, eu não pude diferir
exatamente.
François estivera em minha casa, ou melhor, François
estivera em sua casa. E justamente eu testemunhara sua
primeira aparição. Não estava morto, tampouco desaparecido,
e provavelmente voltara para reclamar o que era seu: a casa,
os móveis, a herança… a própria identidade da qual eu me
apossara ilicitamente.
Tudo estava irremediavelmente perdido para mim.

92
12

A angústia tomara conta de mim, desde meu infortuno


encontro com François. Não tornei a sair de casa, passando
mais de uma semana enfurnado no quarto, apertando os
travesseiros e rezando secretamente para que Deus me
protegesse do mal que viria, cedo ou tarde.
Perdi mais alguns quilos nesses dias. Quando decidi sair,
podia facilmente ser confundido com uma caveira ambulante
ou com uma vassoura, tal qual aquela que dias atrás me servira
de arma contra François e o gato.
O gato, aliás, estivera muito amistoso durante o meu
confinamento. Subiu ao quarto algumas vezes, aproximando-
se de mim, esfregando-se preguiçosamente em meu corpo
lânguido. Chegara a deitar-se ao meu lado no travesseiro hora
ou outra, onde ronronava parecendo ser meu grande amigo.
As atitudes do bichano eram no mínimo curiosas. Ele jamais
se aproximara de mim antes, e agora reivindicava um carinho
que eu não tinha para dar.
Meus momentos solitários de sofrimento e depressão me
ajudaram a tomar uma decisão: eu não me entregaria à sorte de
François Roux, não lhe devolveria a identidade roubada, nem
o coração de Chloé. Saí da cama decidido a seguir os conselhos
de Adélie e procurar a polícia para declarar-me vivo.
Ao percorrer a circulação até o aparador, recordei-

93
Raquel Pagno

me da imagem de François que sorria estampado no papel


fotográfico. Instintivamente abri a gaveta. Precisava folhear
novamente as imagens da bela Chloé e do homem misterioso,
que eu não pudera ver outro dia.
Para o meu espanto, a gaveta estava vazia. Na hora,
pensei ter-me enganado quanto à posição das duas gavetas.
Agarrei o puxador da próxima e abri-a. Estava igualmente
vazia. Abri as portinholas que se estendiam desde o fundo das
gavetas até o chão. Não havia nada nas prateleiras do móvel,
apenas a poeira e algumas teias de aranha que começavam a
se formar nos cantos escuros e vazios. As fotografias haviam
sumido.
Eu já sabia quem era o ladrão. O próprio François as
levara. Era esse o embrulho que carregara consigo para fora
da casa. Mas por que ele o faria? Eram preciosas lembranças
para ele ou apenas desejava privar-me de conhecer certas
peripécias da sua verdadeira vida? Eu não tinha essas
respostas, mas precisava encontrar François o mais depressa
possível, tinha que descobrir por que voltara depois de tantos
anos e principalmente, por que fugira.
Antes de partir em uma aventura atrás de François, eu
tinha que me certificar de que ele não teria a oportunidade de
requerer o seu lugar de volta e, tão logo consegui pôr-me de
pé novamente, parti em busca das autoridades locais.
Um homem fora encarregado do caso do desaparecimento
de François. Um homem barrigudo e barbudo, sem a mínima
simpatia e que esboçava, à primeira vista, uma tremenda
insatisfação em exercer sua função de investigador.
Sentei-me a sua frente, onde ele ignorou-me durante
longo tempo, com os olhos pregados em uma folha de papel
em branco, como se dela arrancasse os mais ocultos segredos.
Depois me encarou por detrás da grossa lente dos óculos que
exibia criteriosamente apoiados sobre o nariz.
— E então, rapaz? — ele não resistiu ao intenso silêncio,

94
Herdeiro da Nevoa
´

ao perceber que eu não iniciaria nossa conversa por conta


própria.
— Sim, senhor? — indaguei, esperando a pergunta que
viria.
— Se não tem nada a dizer, não deveria ter saído de casa!
Vamos, diga o que veio fazer aqui!
— Bem, eu… — balbuciei, intimidado com a aspereza
do detetive — eu vim apresentar-me, provar que não estou
morto.
— E quem é você?
— François Roux.
O homem largou imediatamente o papel no qual
estivera concentrado e encarou-me incrédulo. A expressão
de desinteresse transformou-se em absoluta curiosidade no
instante em que proferi o nome de François. Eu poderia jurar
que os olhos do investigador haviam brilhado para mim, como
se eu tivesse lhe dado algo que ele procurara há algum tempo,
o único mistério que ainda não conseguira decifrar em muitos
anos de carreira policial.
— François Roux?
— Sim.
— Interessante. Posso perguntar-lhe por onde andou
nos últimos anos, monsieur François?
— Eu… eu voltei para a Itália, onde vivi com minha
mãe quando garoto.
— E depois?
— Sofri um acidente que me prejudicou a memória.
Esqueci-me de muitas coisas, inclusive da minha vida na
França.
— Que interessante, monsieur, porque eu juro que o
procurei por toda a Itália, primeiramente na cidade onde você
e seu pai moraram, e não encontrei nenhum vestígio de que
tenha passado por lá. Sequer o encontrei em um campo de
batalha, como seria natural a um jovem da sua idade, naquelas

95
Raquel Pagno

épocas de guerra.
— Como eu lhe disse, o acidente prejudicou-me a
memória, de forma que no primeiro momento eu me esqueci
até do meu nome, de quem eu era e de onde vinha. Vivi como
um indigente na Itália todo o tempo que lá estive, isso me
manteve fora da guerra e dos campos de batalha. Talvez por
isso o senhor não tenha me encontrado.
— Por que partiu, monsieur Roux?
— Pelo mesmo motivo de todos os que deixaram a
França, detetive: por medo. Quando a França foi derrotada e
invadida pelos alemães, não fui o único a deixar o país.
— E por que a Itália, mais vulnerável e decadente que a
própria França?
— Porque foi lá que eu vivi ao lado de meu pai, que, como
o senhor sabe, foi preso e torturado na Itália, onde passou seus
últimos dias. Eu queria estar perto dele. — Não encontrei
outra desculpa, tive que revirar minha memória em busca
das aulas de história da Europa e da segunda guerra, e ainda
assim, não tive certeza se o que eu dizia era suficientemente
coerente, porque tais datas eu jamais conseguira guardar com
precisão.
Tive que apelar ao sentimentalismo, encarnar o papel
de um filho amável e sedento por estar perto do pai, ainda que
este estivesse morto, fato que eu não tinha a menor ideia se
acontecera antes ou depois do desaparecimento de François.
— Entendo — Por sorte, minha encenação de filho
exemplar e carente pareceu ter dado certo, e o detetive tinha
mesmo um coração por baixo da carcaça emburrada, que eu
havia aparentemente conseguido amolecer — mas ao que me
consta, em 1940 seu pai já estava morto, monsieur Roux. Como
era possível que desejasse tanto estar perto dos seus restos
mortais, a ponto de partir para um verdadeiro inferno para
tal?
— Eu sempre fui muito ligado ao meu pai, como o

96
Herdeiro da Nevoa
´

senhor deve saber.


— É claro, sei que ele abandonou a família por sua
mãe, monsieur. Mas imaginei que depois do nascimento da
mademoiselle Chloé, quando seu pai o abandonou e voltou para
casa, essa condição havia mudado.
— Pois é. Não mudou. — Era hora de acabar com a
conversa, antes que eu me denunciasse. Havia muitas coisas
que o detetive sabia e que me escapava por completo. Tinha
que me encontrar com Stephen o quanto antes e extrair
dele tudo o que sabia sobre François Roux. Certamente
ele tinha conhecimento de detalhes que o próprio detetive
desconhecia, e que eu poderia usar no caso de minha estória
não o ter convencido, e ele voltasse a me procurar para mais
explicações. — Eu vim me apresentar, para que meu nome
seja retirado da lista de desaparecidos. Sinto muito se lhe dei
trabalho, senhor… desculpe, mas não sei o seu nome. Acho
que já fiz o que vim fazer. Aqui está a cópia de todos os meus
documentos. Pode conferir, se quiser.
— Por hora não será necessário, monsieur. Mas não
deixe a cidade sem me avisar, ou o colocarei outra vez na lista
de desaparecidos.
— Certamente não deixarei Paris outra vez.
— Então, au revoir, monsieur Roux.

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Raquel Pagno

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13

— Oh, François! Que surpresa vê-lo por aqui! —


cumprimentou-me. A visita foi realmente inesperada, pois
Stephen trajava apenas suas roupas de baixo e percebi que
uma dama apressou-se em se esconder no interior do aposento.
— Acho que não cheguei numa boa hora. Perdoe-me,
voltarei em um momento mais propício — dei meia volta e
comecei a afastar-me.
— Não, pra que isso, mon ami? A minha acompanhante
já estava mesmo de saída, aguarde apenas um minuto… —
Detive-me à soleira da porta. Stephen a fechou e em seguida,
tornou a abri-la. Perguntei-me seriamente o que ele haveria
de ter feito com a pobre moça que o acompanhava, uma vez
que a única saída além da porta em que eu estava era a janela,
um tanto alta demais para que uma dama a pulasse.
— Que bom que veio, meu caro François. Eu já estava
ficando preocupado, você sumiu de novo, nem tem frequentado
as aulas. Aliás, você está péssimo! Aposto que passou todos
esses dias enfurnado naquela casa!
— Adivinhou.
— Isso não vai lhe fazer bem, mon ami. Mas, a que devo
tão agradável visita?
— Vim contar-lhe as novidades — Stephen olhou-me
incrédulo e desconfiado — e fazer algumas perguntas também.

99
Raquel Pagno

— Nossa, quanto mistério! O que pode ter acontecido


de tão surpreendente enquanto você passava dias e mais dias
fechado em casa, mon ami?
— Muitas coisas, Stephen, nem sei se você vai acreditar.
— Então, pode começar.
Contei a Stephen sobre o blackout e o sumiço das
fotografias que eu havia encontrado no móvel da circulação
superior. Contei sobre o aparecimento e o meu encontro
com o verdadeiro François Roux, e sobre o detetive mal-
humorado, para quem eu me apresentara. Stephen não fez
interrupções, nem questionou-me em nenhum momento,
apenas permaneceu sentado na cama, com as pernas desnudas
encruzadas e escutou a tudo atentamente. Quando acabei,
Stephen apenas encarou-me sem dizer palavra. Sua fisionomia
alegre e zombeteira de sempre o abandonara, dando espaço a
uma carranca tensa e preocupada.
— E então, não vai dizer nada?
— O que eu poderia dizer, mon ami?
— Por que você acha que François voltou, depois de
todos esses anos?
— Eu não sei. — A voz de Stephen era calma e
controlada. Eu oscilei entre a sensação de que ele me escondia
algo importante e a de que apenas estava chocado demais com
minhas revelações e por isso preferia não se manifestar por
enquanto.
— Você tem estudado a fundo a história de François e
de toda a sua família. Tem que saber algo que possa me ajudar.
— Eu já lhe contei tudo o que sabia, mon ami.
— Não, não contou. Preciso saber de detalhes do
relacionamento de François com o pai. Inventei uma estória
sem pé nem cabeça para aquele detetive, mas acho que ele não
acreditou em mim, completamente. Preciso inventar algo que
seja mais convincente. Para isso, preciso saber dos detalhes.
Eu disse que era muito apegado ao meu pai, por isso fugi para

100
Herdeiro da Nevoa
´

a Itália, para ficar perto dele. Não fazia ideia de que o senhor
Roux morrera antes mesmo do desaparecimento de François.
— E você acha que ele vai procurá-lo outra vez?
— É claro que sim. E é aí que você entra, Stephen.
Precisa me ajudar a bolar uma explicação mais racional para
o desaparecimento de François, algo que não deixe dúvidas de
que eu realmente sou François Roux, ou então…— detive-me
justamente quando ia dizer que nós dois estávamos perdidos.
— Ou então?
— Eu estarei perdido.
Stephen levantou-se e começou a se vestir. Observei-o
em silêncio até que duas conhecidas batidas na porta me
tiraram de meus pensamentos infames, nos quais Stephen
simplesmente me abandonava à própria sorte. Adélie viera
trazer o café.
— François, você por aqui? — minha presença também
a surpreendera.
— Olá, Adélie. Como está o seu braço?
— Já está bem melhor. Obrigada por perguntar.
— O que aconteceu com seu braço, Adélie? — perguntou
Stephen.
— Creio que eu não seja o único anfitrião daquela casa,
Stephen. — antecipei-me em resposta.
— Ah! sim, o gato.
Adélie apenas fez um sinal positivo com a cabeça.
— Vou buscar um café para você, François. Está magro,
garanto que não tem se alimentado direito.
— Obrigado, Adélie. — Adélie nos deixou.
— E então, Stephen, lembrou-se de algo que possa me
ajudar?
— Deixe-me ver… Se você afirmou que sofreu um
acidente que lhe afetou a memória, certamente o detetive
vai querer saber mais sobre isso. Diga-lhe que o acidente

101
Raquel Pagno

aconteceu na viagem para a Itália, ou logo que você chegou


lá. Então não terá que dar explicações sobre o estado em que
encontrou seu pai, ou de como recebeu a notícia da sua morte.
— Você está certo. E quanto a François, você acha que
ele vai requerer de volta tudo o que eu roubei dele?
— Creio que não, mon ami. Se ele quisesse fazer isso, já
o teria feito. Por que ele o procuraria, ainda mais para roubar
fotografias ao invés de procurar as autoridades e contar toda
a verdade? Você tem certeza de que foi realmente François
Roux quem você viu?
— Ou era ele, ou era um espelho com a minha própria
imagem.
— Mas estava escuro, você pode ter ficado confuso.
— Era ele, Stephen. Eu tenho certeza. — A desconfiança
de Stephen era compreensível, mas ao mesmo tempo, eu não
esperava que ele duvidasse de mim. Senti-me profundamente
decepcionado com Stephen por ele ter me tratado como um
lunático. — O que mais você sabe sobre a convivência de
François com o senhor Roux?
— Não sei mais nada.
— Ah, não seja cínico, Stephen. Eu sei que você sabe
bem mais do que me contou. Por favor, diga-me o que mais
você sabe sobre François que me possa ser útil.
— François, eu não posso te ajudar. — Stephen
aproximou-se de mim e encarou-me com expressão séria
e dura, como eu jamais vira antes, deixando bem claro que
falava sério quando dizia que não me ajudaria. Eu só não tinha
certeza se ele me dizia a verdade ou se fingia simplesmente
porque não desejava me ajudar. Segurou o meu ombro com
uma das mãos e apertou-o. — Não insista.
Eu não insisti. Adélie voltara com o meu café. Agradeci e
saí sem tocar nas torradas com geleia ou na xícara fumegante
e de aroma delicioso que ela trouxera. Só então me dei conta
de que estava faminto e com saudades do café de Adélie e sua

102
Herdeiro da Nevoa
´

mãe.
Ficara furioso com Stephen. Não era justo que ele
tivesse me incitado a tomar o lugar de François e agora se
recusasse a ajudar-me. Isso contrariava completamente todos
os incentivos que me dera, os conselhos, as ideias. Stephen
estava diferente. Eu tinha certeza de que havia algo de muito
errado em sua atitude. Mas eu não tinha noção do que se
tratava.
Eu teria que resolver meu problema sozinho desta vez.
Isso por si só já representava um problema, porque eu nunca
fora um grande cultivador de ideias. Não podia ignorar a
ajuda de Stephen para inventar uma história. Ele não era um
escritor? Logicamente teria mais ideias do que eu, além do
conhecimento vasto, quase total, sobre a vida de François e
do pai.
Não foi fácil aceitar que estava sozinho a partir de então.
Sozinho e encrencado. Logo que virei a esquina e observei de
longe o portão do casarão, reconheci uma figura masculina
recostada à grade, esperando-me. Estremeci, intuindo que o
detetive voltara, desta vez para prender-me. Parei onde estava
e esperei alguns instantes, na esperança de que ele se cansasse
e me deixasse em paz. Enfim, concluí que de nada adiantava
fugir. O homem sabia onde me encontrar sempre que desejasse
e seria inútil prolongar minha agonia.
— Caro detetive, que surpresa encontrá-lo por aqui!
— meu cumprimento soou falso, mas eu não fiz questão de
disfarçar a insatisfação que tinha em recebê-lo.
— Olá, monsieur Roux. Será que tem mais alguns poucos
minutos para este humilde detetive?
— É claro que sim, detetive. Como lhe expliquei, não
tenho nada a esconder.
Convidei-o a entrar. Ele aceitou, jogando-se
imediatamente em uma das poltronas da sala de estar. Sugeri
o chá. Ele recusou.

103
Raquel Pagno

— Vejo que recuperou seu patrimônio, monsieur Roux.


Que bela casa esta, hein! Também se apossou dos seus outros
bens e imóveis?
— Não… — não fazia ideia da existência de outros
imóveis. Talvez aquela insinuação fosse apenas uma artimanha
do detetive. Pensei rápido e respondi — Eu não me recordo
exatamente dos bens que meu pai possuía. A única coisa da
qual fiz questão imediata foi a casa, afinal, não fazia o menor
sentido permanecer em um quarto de pensão e deixá-la para
os ratos.
— Vejo que não tem a menor ideia do tamanho do seu
legado, não é monsieur Roux?
— Não sei do que o senhor está falando, como já lhe
expliquei…
— Eu me lembro perfeitamente de tudo o que me
explicou, monsieur Roux — interrompeu-me bruscamente —
ao contrário do senhor, não sou um desmemoriado.
— Não foi isso que eu quis dizer, detetive.
— Eu sei que não, meu caro. — o homem levantou-
se e se aproximou. Eu havia permanecido em pé diante dele
durante todo o tempo. Queria causar no detetive uma sensação
de desconforto e fazer com que sentisse o quanto não era bem-
vindo à minha casa. Ele não se abalara. Não caminhou para
a porta de saída, mas para a escada, onde subiu os primeiros
degraus, esticando o olhar para o andar de cima. Eu o segui.
— Veja que maravilha! — referia-se a minha biblioteca
particular, com a qual eu sonhara antes de mudar-me, mas
que agora parecia tão distante dos meus planos, a ponto de eu
ainda não haver tocado em um só volume da coleção.
Observei-o enquanto percorria o cômodo, acariciando
as lombadas com as mãos e olhando cada livro com atenção.
Depois que contornou completamente a biblioteca, retornou
à escada. Eu não pretendia deixá-lo subir. Não queria que
ele maculasse o dormitório de Chloé com suas desconfianças

104
Herdeiro da Nevoa
´

sujas e sua verdade ainda mais suja.


— Acho que o senhor já investigou o suficiente, não é,
detetive? — ele pareceu surpreso com a minha atitude. Olhou-
me desconfiado, depois retomou a subida rumo ao terceiro
piso.
— Por que, monsieur Roux? Há algo lá em cima que eu
não possa ver?
— É claro que não, mas eu gostaria de preservar ao
menos a intimidade do meu quarto.
— Já que mencionou seu quarto, soube que é o mesmo
que pertenceu a mademoiselle Champoudry. Por que escolheu
justamente esse quarto, monsieur? Gosta de relembrar a
tragédia que ocorreu nesse aposento?
— Tragédia?
— Ah, perdão. Esqueci que o senhor perdeu a memória.
Certamente não sabe do que eu estou falando, não é? — a
ironia era evidente nas palavras do detetive. Exagerada, eu
julguei.
— Não sei, não.
— Mademoiselle Champoudry foi assassinada em seu
quarto — Ele fez uma pequena pausa, encarando-me — e o
seu sangue foi encontrado em todas as partes, misturado ao
sangue dela. Sabia que é o suspeito número um? A polícia o
procurou durante todos esses anos. Precisávamos ouvir a sua
versão dos fatos. E por que demorou tanto para se apresentar
à polícia, desde que retornou à Paris? Pretendia terminar seu
curso de direito, antes de aparecer, monsieur? Julga ser tão fácil
assim burlar minhas investigações?
— Se já sabia da minha volta, por que não me investigou
antes, detetive? Permitiu que eu me apresentasse à polícia
feito um completo idiota…
— E quem lhe disse que não o investiguei antes, monsieur?
Tenho acompanhado seus passos desde que se matriculou
na Sorbonne. O senhor não imaginou que um desaparecido,

105
Raquel Pagno

suspeito de assassinato simplesmente se matricularia na


universidade, e a polícia não seria imediatamente comunicada?
Que ingenuidade de sua parte, monsieur Roux!
— Que eu saiba, não fui condenado por nenhum
assassinato, detetive, ou o senhor mesmo já teria me prendido.
E também, creio que cursar a universidade não seja nenhum
crime. Se eu estou errado, por que não me prende logo e acaba
com isso?
— O senhor está confessando o crime, monsieur Roux?
— era inquisitivo.
— Não poderia confessar algo do qual não me recordo.
— Então admite que possa tê-la assassinado?
— Eu não admito nada, detetive — minhas palavras
foram quase gritos. Eu precisava livrar-me daquele homem o
mais rápido possível — queira se retirar, por favor.
— Está me expulsando?
— Não, estou convidando-o a sair da minha casa. —
o detetive arregalou os olhos, e retrocedeu alguns poucos
passos, parando bem perto de onde eu estava.
— Eu vou. Mas eu volto, monsieur Roux. E desta vez
trago um mandato que me autorize a revistar toda esta casa,
independente da sua vontade. — Pequenas gotas de saliva
eram lançadas sobre minha face enquanto ele falava e eu quase
era afogado em seu bafo fétido e podre.
Acompanhei-o até a porta. Finalmente teria paz e
sossego.
— Au revoir, detetive. — Ele não respondeu. Lançou-me
um olhar ameaçador, e perdeu-se na neblina.

106
14

A visita deixara-me nervoso. Eu sabia que o detetive


tornaria a importunar-me, mas não imaginava que fosse tão
rápido. Sequer tive um único dia para preparar minha atuação
e inventar uma estória. Talvez ele não quisesse mesmo me dar
tempo para tal, e por isso tenha vindo logo no início da tarde.
Talvez ele tenha me seguido e eu esperava seriamente que não
o tivesse feito.
A recusa de Stephen e a visita do detetive deixaram-
me exausto. Meus dias de jejum enfraqueceram-me mais do
que meu corpo poderia suportar. Eu precisava subir as escadas
agarrado aos corrimãos. Minha cabeça doía intensamente. O
estresse e a decepção me consumiam, levando embora o meu
apetite e a minha saúde. Quando alcancei o primeiro patamar,
precisei parar para recuperar o fôlego.
Finalmente alcancei a entrada do dormitório, onde
pretendia lançar-me à cama e não sair nunca mais. Inspirei
fundo, puxando o ar para dentro dos pulmões e reunindo o
que me sobrara de forças para abrir a porta.
Empurrei a pesada madeira, que se separou do batente
vagarosamente, expondo meus devaneios enterrados entre as
paredes brancas daquele quarto. Esfreguei os olhos, tentando
desanuviar a visão, que julguei não ser mais do que parte de
um sonho que meu cansaço materializara diante de minhas

107
Raquel Pagno

vistas.
Eu, que já não almejava nenhuma visita inesperada de
Chloé, deparava-me agora com seu corpo nu, envolto nos
lençóis rendados, brancos como sua pele, finamente dispostos
sobre a cama. Fiquei completamente paralisado com a divina
visão. Até hoje me pergunto se consegui conter a saliva
presa dentro da minha boca faminta por aquela pele alva e
perfumada.
Mas a sensação de êxtase durou apenas uns poucos
segundos, enquanto Chloé mantinha seus olhos de lince fixos
nos meus, tão desejosa por mim quanto eu por ela. Logo me
dei conta de que não poderia realizar seus desejos. Estava
fraco demais, e praticamente raquítico.
Aproximei-me, com o intuito de me despedir. Ela
estendeu-me a mão, convidando-me a deitar ao seu lado. Não
quis chegar perto demais. Mantive-me aos pés da cama, sem
ousar tocar um só dedo em Chloé, sem atrever-me sequer a
sentar na cama. Ela não insistiu. Apenas baixou os olhos com
uma dor profunda no olhar.
Eu conhecia aquela dor, era como se uma adaga
atravessasse o seu peito, congelando-lhe o coração,
estilhaçando-lhe as esperanças. A visão de Chloé entristecida
doeu mais dentro de mim do que poderia ter doído nela
própria. Foi como uma espada, cravada no meu coração, uma
dor para a qual o único alívio seria perder-me de uma vez por
todas nos braços de Chloé.
Uma lágrima brilhante e solitária rolou por sua face,
cintilando na pouca luz que banhava o quarto através das
cortinas cerradas, comovendo-me profundamente. Fez com
que me arrependesse de todos aqueles dias que passara
enfurnado no quarto sem sair sequer para alimentar meu
corpo frágil.
Eu não conseguia ficar ali parado, apenas olhando
enquanto Chloé sofria a dor da minha rejeição. Não importava

108
Herdeiro da Nevoa
´

de onde eu arrancaria as forças necessárias para fazê-la feliz,


mas àquela tarde, eu a faria a mulher mais feliz de todo o
mundo.
Saltei sobre a cama e deixei-me levar pelas carícias
apaixonadas de Chloé. Senti-me o homem mais forte e também
o mais satisfeito, durante o tempo em que a tive. Chloé era
demasiadamente carinhosa e não media esforços para prender-
me em seus eternos laços de paixão.
Outra vez ela foi minha, mas acima de tudo, eu fui seu.
Entreguei-me sem me preocupar com meu estado físico. Perdi
por completo a fragilidade e deixei que meu corpo quase
agonizante se perdesse nos mais inebriantes delírios de amor.
E ali, completamente embriagado pelo perfume e o gosto da
pele de Chloé, adormeci.
Quando acordei, ela já não estava ao meu lado. Porém
não me deixara. Suas roupas ainda estavam jogadas sobre uma
das poltronas. Foi a primeira coisa que vi quando abri os olhos.
Não demorou para que retornasse ao quarto. Eu não
me levantei. Estava fraco demais para isso. Chloé trazia uma
bandeja com o café da manhã. Senti-me privilegiado. Aquela era
a primeira vez que ela não me deixava depois de nos amarmos.
Seria a oportunidade perfeita para que conversássemos.
Era estranho imaginar que todas as vezes em que
estivemos juntos não tivéssemos trocado uma só palavra.
Perdemo-nos em carícias, perdemo-nos em nossos corpos
sedentos de desejo. Nunca houve necessidade de conversarmos,
porque cada um já conhecia a alma do outro. Éramos como
duas partes de um único todo. Eu soube disso desde a primeira
vez em que a vi. Exatamente por isso, as apresentações faziam-
se desnecessárias.
— Chloé… — sussurrei ao vê-la entrando no quarto,
enrolada em um dos lençóis. Seus cachos de fogo banhados
pelos primeiros raios de sol da manhã, caíam-lhe desgrenhados
pelos ombros nus, acariciando a pele sedosa. Ela sentou-se a

109
Raquel Pagno

meu lado, soltando a bandeja sobre o criado mudo, e tocou


docemente os meus lábios com a ponta dos seus dedos.
— Psiu! Não diga nada. Precisa descansar.
— Eu estou bem, meu amor. Só preciso de você… ao
meu lado. — Ela olhou-me, e uma sombra negra atravessou
o seu olhar. Parecia que o meu desejo era impossível, que era
algo absurdo demais para que ela acreditasse que aconteceria.
Ela desviou o olhar, percebendo que eu vira a sombra negra
em seus olhos.
— Tome seu desjejum. — A voz soou mais dura do
que antes. Ela alcançou-me a bandeja, finamente decorada
com um guardanapo de renda, que eu não podia adivinhar de
onde viera, e uma rosa meio murcha que ela colhera do jardim
quase morto.
Agarrei a torrada e mordi-a. Depois sorvi um grande
gole do suco de amoras. Meu estômago se revolveu, fazia
muito tempo que eu não ingeria nada além de chá. Disfarcei,
para que Chloé não percebesse meu mal-estar e engoli mais
uma mordida, embebida no suco. Meu comportamento
perdurou até a terceira ou quarta mordida, depois não pude
mais disfarçar. Abandonei a bandeja com a refeição e corri
para o lavabo. Meu estômago se contraíra, fazendo com que
vomitasse ferozmente.
Quando as ânsias finalmente se acalmaram, tentei voltar
para a cama, mas meu corpo se recusava em tornar a levantar-
se. Levei as mãos ao estômago dolorido. Com muito esforço
consegui banhar meu rosto em água fria. Esse gesto fez com
que minhas poucas forças retornassem e consegui voltar ao
quarto onde Chloé amparou-me.
— Oh, François, como está fraco! — Chloé olhou-me
com compaixão. Fiquei feliz em saber que se preocupava
comigo, senti-me amado.
— Eu estou bem… — Minhas palavras não foram mais
do que suaves gemidos.

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Herdeiro da Nevoa
´

— Não poderá ficar aqui sozinho. Cuidarei de você por


estes dias.
Mal consegui acreditar nas palavras que ouvira: Chloé
ficaria comigo! Fui tomado por uma felicidade que jamais
experimentara. Chloé era tudo o que eu mais desejava e agora
que eu a tinha, restava- me concentrar para fortalecer-me e
curar-me depressa para poder aproveitar a oportunidade que
o destino me dera.
A imagem de Stephen apareceu de repente, invadindo
meus pensamentos. Lembrei-me de que precisava encontrá-
lo, contar tudo sobre Chloé, agradecer-lhe pelos conselhos.
Havia sido ele quem me levara ao meu tão sonhado objetivo.
Precisava pedir desculpas pelas desconfianças que eu nutrira
por ele.

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Raquel Pagno

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15

Os dias seguintes se passaram com a velocidade de


um tufão furioso. Eu apreciara tanto a companhia de Chloé,
que não percebera que mais de uma semana se fora, em uma
rápida sucessão de dias maravilhosos. Eu jamais fora tão bem
cuidado quanto fora naquela semana. Jamais havia sido tão
feliz e nunca imaginara que pudesse sê-lo. E não foi o dinheiro
que me trouxe tal felicidade, como eu sempre julgara que
seria. Ela estava em cada gesto de Chloé, em cada palavra,
na simples visão dos seus cabelos emaranhados esparramados
sobre o meu peito a cada novo amanhecer.
Chloé fazia as compras da casa. Não me permitia
acompanhá-la, alegando que eu precisava descansar. Trazia
geleias, sucos e tortas, e até mesmo cozinhava para mim,
embora não fosse um grande ás da culinária francesa. Depois
jantávamos à meia-luz, no segundo andar, sentados em uma
das pequenas mesas da biblioteca, bem perto do vitral frontal.
Chloé sempre preferira as trevas à iluminação artificial. No
início, eu achei um tanto estranha esta obstinação em manter
as luzes apagadas, mas acabei me acostumando e percebendo
como eram aconchegantes as luzes das velas, e a penumbra
que inundava a casa durante a noite.
Após os jantares na escuridão, eu me apossava da
missão de arrumar a cozinha. Cuidava zelosamente da louça

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Raquel Pagno

do jantar e depois arrumava a biblioteca. Ao mesmo tempo,


Chloé se recolhia no quarto e banhava-se nos mais misteriosos
e inebriantes perfumes. Eu jamais descobri quais eram. Eles
lhe conferiam a impressionante brancura da pele. Logo eu
apagava as luzes e a seguia para perder-me em seus braços
naquelas incontáveis noites de puro amor.
E foi assim que a minha felicidade, que eu julgara
eterna, finalmente chegou ao fim. Foi em uma triste manhã de
domingo, quando os sinos de Notre Dame ecoavam ao longe,
anunciando que era chegada a hora de despertar. Abri meus
olhos preguiçosos, respirando o perfume entranhado nos
travesseiros e estendi o braço à procura de Chloé. Meu corpo
se adaptara a envolvê-la pela manhã, a cada despertar. Meu
braço se entrelaçava em seu corpo quase mecanicamente. Eu a
puxava para junto de mim. Nós nos amávamos todos os dias,
como se fosse a primeira vez.
Mesmo depois de transcorridos tantos anos, ainda
guardo dentro do peito as doces lembranças do que foram
aqueles dias. Acho que essa sensação estará tatuada em meu
coração para o resto da minha vida, assim como a lembrança
da mais absoluta solidão que experimentei logo após.
Saí da cama com o coração palpitante. Ponderei a
possibilidade de Chloé ter saído para comprar o nosso café da
manhã, porém havia algo dentro de mim que ressoava como
o sino de Notre Dame; um alarme que me dizia que ela se fora
para não voltar.
— Chloé! — gritei desesperado, enquanto vestia as
calças e, ao mesmo tempo, descia as escadas, tropeçando.
Passei em frente ao piano de onde o gato surgiu como
um espectro lançando-se assustado a minha frente. O animal
agia como se quisesse me impedir de alcançar a porta da frente.
Ergui o braço, lançando-o para longe, alcançando a maçaneta
com a outra mão. A porta estava trancada a chave. Cada
segundo era uma eternidade. Meus movimentos eram todos

114
Herdeiro da Nevoa
´

repetidos em câmera lenta. Eu sentia que era meu próprio


inimigo. Não conseguia me apressar mais, ainda estava um
tanto debilitado, embora tivesse me alimentado bem nos
últimos dias.
Abri a janela que circundava a lateral da parede ao lado
da porta. Vi o vulto negro que se movia apressado do outro
lado da rua, já muito longe para ouvir meus gritos ansiosos,
que se desprendiam involuntariamente da garganta chorosa.
Não tive tempo de arrombar a porta. Subi no piano e atirei-
me pela janela, caindo sobre o emaranhado de roseiras que
cercavam a fachada. Senti minha pele sendo rasgada enquanto
eu me desembaraçava da planta. Transcorri a Rue do Champ de
Mars até a Avenue Bosquet.
Chloé dobrou a esquina seguinte, cuja rua eu jamais
percorrera. Paris era ainda um tanto confusa na minha
percepção, e eu ainda temia perder-me por suas ruas repletas
de bares, cafés, e finas lojas de grifes. Corri o máximo que
pude, mas sabia que não a alcançaria. Aquela era uma boa
oportunidade para descobrir onde ela vivia, onde se escondia
de mim.
Outra esquina, e Chloé deteve-se por um instante.
Aquela era a oportunidade que eu tinha de alcançá-la. Decidi
que não o faria. Esquivei-me em um canto, colocando para
fora todo o ar contido em meus pulmões. Ela olhara para trás.
Esperei até que se distraísse e dei mais alguns passos em sua
direção. Temi perdê-la de vista. Eu me sentia invisível. Ela
apenas tornou a caminhar, apressada.
Caminhamos durante muito tempo. Minhas pernas meio
bambas doíam. Chloé parecia incansável. Depois de muitas
voltas pela cidade, finalmente reconheci a silhueta do Senna,
que despontava diante de Chloé. Ela caminhara em círculos
todo este tempo. Teria me visto a persegui-la? Queria cansar-
me, forçando minha desistência?
Nunca tive as respostas para essas perguntas. De fato,

115
Raquel Pagno

Chloé tentara ocultar seu paradeiro caminhando pelas ruas da


cidade sem rumo certo, sem destino determinado. Finalmente
tomou um caminho que eu conhecia perfeitamente, e que me
conduzia a um lugar ainda mais familiar. Não se tratava da
Sorbonne ou da catedral, onde tivemos nossa primeira conversa,
mas sim, do meu pequeno quarto de pensão. Stephen abriu-lhe
a porta, recebendo-a como a uma velha amiga.
De onde eu estava, espremido detrás de um arbusto,
não consegui identificar a expressão no rosto de Stephen. Vi
quando sua mão agarrou a de Chloé, puxando-a para dentro do
quarto. Esse gesto foi efetivamente inusitado. Não me passara
a ideia de que os dois se conhecessem. Até então eu guardara
segredo sobre a minha relação com Chloé e sobre o fato de eu
saber que ela estava viva. Como Stephen saberia?
Outra traição. Se Stephen a conhecia, ou se a encontrara
durante suas investigações, tinha a obrigação de me informar.
Minha vida poderia depender dessa informação. Eu estava
sendo procurado pela polícia, acusado de assassiná-la. Levei as
mãos aos olhos, tentando me concentrar em algum pensamento
coerente. Não encontrei explicação para o comportamento
infiel de Stephen. Mas e Chloé, saberia que Stephen era meu
único amigo em Paris?
Minha cabeça dava voltas. O enjoo de dias atrás retornara
com toda força. Esfreguei o rosto, massageando minhas
têmporas com as mãos geladas. Minha cabeça começara a doer.
Isso não era nada se comparado à dor que afligia meu coração.
Permaneci atrás daquele pequeno arbusto, sem me importar
com o frio que castigava meu corpo seminu, sem dar atenção à
vergonha perante os olhares indiscretos dos transeuntes que
passavam. Permaneci ali até que a exaustão tomou conta de
mim e eu entreguei-me a ela, apoiando a cabeça em uma das
duras pedras que compunham o muro frontal. Desfaleci.

116
16

A vigília durou até anoitecer. Retomei a consciência no


momento em que a lua cheia clareava a noite sem estrelas e
lançava um intenso frio sobre meu corpo desprovido de vestes.
Demorei alguns instantes até que minha memória clareasse e
eu pudesse recordar o que viera fazer na casa de Stephen.
Não sabia se Chloé permanecia com ele no quarto.
Mesmo assim, esperei. Estava convencido de que não voltaria
para casa sem constatar a ligação que havia entre Stephen e
Chloé. Meus dentes tiritavam de frio e de medo da verdade
que em breve se postaria diante dos meus olhos. Meus pés
estavam tão gelados que eu mal conseguia sentir os meus
dedos amortecidos pelo frio. Pensei que tornaria a desmaiar.
O ranger da porta do quarto e a batida posterior que
a selara, trouxeram-me de volta à lucidez. Chloé deixara o
quarto de Stephen, envolta em uma longa capa negra. O capuz
enfiado na cabeça escondia a beleza da criatura, deixando
aparecer apenas algumas mechas cacheadas dos cabelos.
Carregava consigo um embrulho negro apertado junto ao
peito de onde pendia algo prateado que cintilava à luz da lua.
Esgueirei-me sorrateiramente até a calçada oposta.
Pus-me a segui-la, agora com muito mais cuidado. Seria fácil
constatar minha figura seminua àquela hora da noite, quando
as ruas jaziam quase que completamente desertas.

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Raquel Pagno

Segui Chloé até a frente de uma pequena casa de madeira,


muito longe do nosso ponto de partida. Ali, mais duas figuras
com capa negra, igualmente encapuzadas, pareciam aguardá-
la. Seguiram juntas na caminhada, sem pronunciar uma única
palavra, nenhum cumprimento. Todas seguiram rapidamente,
contornando quase todo o centro de Paris. Em cada ponto de
parada mais encapuzados aguardavam para se unir ao grupo,
sem dizer palavra.
A caminhada prosseguiu até bem tarde da noite,
quando a lua cheia estava prestes a encontrar o centro exato
do céu enegrecido. Os vultos envoltos nas capas flutuavam
como espectros perdidos na escuridão que os tornava quase
invisíveis. Seus passos leves eram inaudíveis. Ninguém dava
conta de suas presenças. A única peculiaridade em comum, que
realmente poderia chamar alguma atenção, eram as medalhas
prateadas penduradas por fora das capas, que se faziam visíveis
iluminadas pela lua.
Chloé seguia à frente do grupo, guiando-os pelo caminho,
indicando a direção a ser seguida. Eu me escondia junto às
sombras das casas. Dava alguns passos quando nenhum deles
olhava para trás, o que acontecia durante quase todo o tempo.
Era evidente que não desejavam ser seguidos, assim como era
evidente que planejavam algo que não poderia ser descoberto.
Andamos até encontrar uma concentração de cavalos,
automóveis e carruagens que aguardavam o grupo de
encapuzados. A cena pareceu-me uma encenação de décadas
passadas. As carruagens não passavam de relíquias, e não era
uma coisa comum encontrá-las ainda em uso.
Na dianteira do comboio, um luxuoso Crysler preto
aguardava Chloé de portas abertas. Todos se detiveram por um
momento, enquanto Chloé os reunia em uma multidão atenta,
para a qual discursava. Não prestei atenção no que dizia, apenas
pensei em uma forma de unir-me a eles. Esgueirei-me até a
traseira de uma das carruagens e entrei no compartimento

118
Herdeiro da Nevoa
´

de carga. Meus joelhos doeram de tão espremidos contra a


madeira do veículo, mas eu estava disposto a suportar a dor,
se esta era a maneira de descobrir a verdade.
Não demorou para que o comboio iniciasse sua jornada,
rumando sempre ao norte. Meus pés se converteram em bolhas
e vermelhidões pelo esforço da caminhada anterior. Depois do
tempo que eu julguei ser de mais de duas horas, a carruagem
parou. Esperei até que as vozes e os passos se afastassem, e
quando já não eram mais do que meros murmúrios, deixei o
cubículo.
Compreendi para onde minha Chloé guiava a multidão
de encapuzados, quando reconheci o negro perfilado de um
castelo. Mas Chloé não estava servindo de guia para turistas.
O grupo passara diante do castelo sem ao menos dignar-se a
admirar sua beleza.
Reconheci Compiègne e a enorme floresta que se abria nos
dois lados da estrada central, partindo dos jardins do castelo
para onde a multidão seguia, alguns seguindo a cavalo, outros
a pé, inexplicavelmente. Aquele passeio parecia-me perigoso
demais para ser feito àquela hora da noite.
A caminhada prosseguiu até que o castelo atrás dos
encapuzados se tornara apenas um longínquo ponto a perder-
se na escuridão. Segui em meio às árvores que cercavam o
caminho, cada vez mais temeroso de encontrar alguma fera
selvagem, pronta para devorar-me. Senti um tremendo alívio
quando Chloé finalmente parou. Mal pude respirar antes que
a caminhada recomeçasse. Desta vez fora da estrada ou de
qualquer carreiro de caça talhado entre a floresta.
O grupo se embrenhara na mata, dificultando minha
perseguição. Os cavalos foram amarrados às árvores mais
próximas, e todos partiram a pé. Novamente, senti que
tinha sido descoberto, que a mudança de caminho teria sido
apenas uma estratégia para despistar-me. Parei onde estava,
mesmo arriscando perder-me na mata, ou perder a pista de

119
Raquel Pagno

Chloé. Parei até ter certeza de que ninguém me vira ou viera


encontrar-me.
Meus pés queimaram como se eu pisasse sobre brasas
flamejantes. Tirei os sapatos tentando livrar-me da dor que
me afligia e logo que minha pele tocou a terra senti-a morna
e não fria, como de costume. Espiei por entre os troncos das
árvores mais altas, atrás das quais eu estivera escondido. Vi
um clarão a poucos metros de distância. Não era um clarão
comum, como um raio de luz lançado pela lua por entre os
galhos e as folhagens. Era uma luz amarela e quente. Era fogo.
Esperei um pouco, enquanto aliviava o cansaço de meus
pés, imaginando que o fogo ateado dentro da mata se alastraria
depressa, e em breve, todos sairiam e retornariam para suas
casas; que logicamente o grupo ao qual Chloé se unira era um
grupo de vândalos destruidores. Mas o tempo passou e o fogo
não se espalhou. Ainda que não pudesse vê-lo do lugar onde
eu estava, conseguia sentir o calor que a fogueira emanava e
que era trazido até mim pela brisa da noite.
Agachei-me saindo detrás das árvores, engatinhando
como um bebê. Escondi-me atrás de uma pedra. Dali eu
enxergava Chloé e seus amigos. Um círculo de fogo fora
formado em torno de uma grande pedra achatada, sobre
a qual vários objetos eram criteriosamente postos pelos
encapuzados. Reconheci alguns cálices prateados que eram
atingidos diretamente pela luz da fogueira, distribuindo-a
para todos os lados.
No centro da pedra havia uma escultura. Uma estátua
com formato nem totalmente humano, nem totalmente
animal. Apesar da escuridão do local, o contorno do macabro
objeto podia ser percebido nitidamente. Eu o percorri com o
olhar, desde a base até o topo. O corpo feminino de curvas
perfeitas trazia-me a lembrança de Chloé despida e largada
sobre minha cama. Acima dos ombros o que se via não era um
colo e uma face de mulher, havia ali uma horrenda cabeça de

120
Herdeiro da Nevoa
´

bode, cujos chifres negros nasciam grossos no pedestal que


os ligava à cabeça e iam se afilando enquanto se dobravam
em ângulo descendente, até chegar ao final, onde as pontas
afiadas eram recobertas por duas capas douradas.
Vi quando Chloé retirou de baixo da sua capa o embrulho
negro que carregara desde o quarto de Stephen. Abriu-o e
só então eu percebi que se tratava de uma caixa negra, da
qual ela retirou algumas velas, em sua maioria vermelhas,
que foram prontamente postas ao redor da nefasta figura da
mulher-bode. Os encapuzados apressaram-se em acendê-las.
Em seguida, Chloé retirou da caixa um grosso livro, também
de capa negra, o qual segurou com as duas mãos e levantou
até a altura máxima que seus braços alcançaram, proferindo
algumas palavras ininteligíveis. Todos os encapuzados se
curvaram diante do livro que, logo em seguida, foi posto diante
da mulher-bode de maneira que ficava totalmente iluminado
pelas velas.
Os encapuzados se postaram de pé ao redor do círculo
de fogo e Chloé proferiu algum tipo de oração, em um idioma
estranho enquanto gesticulava, como se invocasse uma
divindade. Depois estendeu a mão e apontou para um dos
encapuzados. Este aproximou-se do altar improvisado e abriu
o livro em página, aparentemente aleatória. Chloé leu uma
rápida passagem, em voz alta, ajoelhou-se brevemente diante
do altar. Tocou a face do desconhecido arrancando-lhe o capuz
da cabeça. Gritou para que todos ouvissem:
— Diga-nos qual é o seu nome!
— Meu nome é Lumia, minha senhora. — A voz era
feminina, e pareceu-me familiar, mas eu estava atônito demais
para que pudesse reconhecê-la.
— Vocês a reconhecem como Lumia, irmãos e irmãs?
— Sim, nós a reconhecemos! — O uníssono soou
fortemente, ecoando na floresta deserta.
— Lumia, você está plenamente ciente do passo

121
Raquel Pagno

que tomará esta noite? Está ciente de que para se unir a


esta irmandade terá que nos dar provas de sua fidelidade
incondicional para com toda a irmandade, e principalmente,
fidelidade ao nosso mentor, que nos guiará através da longa
caminhada que nos aguarda?
— Sim, estou ciente.
— Sabe que a sua primeira provação acontecerá aqui
mesmo, diante dos olhos da mãe lua, dentro do ventre da
mãe terra, sob a proteção do fogo e do vento, e que uma
vez determinada, a prova não mais poderá ser alterada ou
recusada?
— Sim, eu sei.
— Concorda que o seu sangue será oferecido ao nosso
Padroeiro, em forma de sacrifício, e que será derramado sobre
este altar consagrado por Lúcifer, e que depois disso, sua
alma estará eternamente acorrentada a esta irmandade e aos
espíritos dos 200 anjos caídos que a arrebatarão em vida, e
mesmo depois da morte de seu corpo humano?
Eu mal conseguia acreditar nas palavras saídas dos
doces lábios de Chloé. Aquela não era ela. Era um demônio
ou qualquer outra criatura maligna que falava através dela.
Levantei-me por um momento, pronto para correr até lá e
arrancá-la do meio de toda aquela loucura. Assim que me
pus completamente ereto, reconheci plenamente o rosto da
mulher ajoelhada diante de Chloé e que agora, todos estavam
chamando de Lumia. Era Camille.
— Sim, eu concordo e ofereço meu sangue em sacrifício
ao Padroeiro desta cerimônia, assim como ofereço-lhe o
meu corpo, e o ofereço sucessivamente aos membros desta
irmandade, e o torno agora propriedade de todos os adoradores
de Lúcifer!
Chloé arrancou de dentro de uma das mangas de sua
capa, um punhal prateado. Seus adornos eram finamente
ornamentados com pedras preciosas vermelhas, que

122
Herdeiro da Nevoa
´

cintilavam sob a luz do fogo e das velas. A luz era tão plena que
eu podia vê-las mesmo estando longe. Levantou-o da mesma
forma como levantara o livro no primeiro momento. Proferiu
mais algumas palavras incompreensíveis. Baixou-o em um
movimento rápido e certeiro, atingindo a mulher ajoelhada a
sua frente.
Vi quando o sangue jorrou depois do violento golpe,
molhando de respingos a capa de Chloé. Em meio ao êxtase
provocado pelo transe, levou a lâmina aos lábios e lambeu o
sangue lentamente, até limpá-la por completo.
Meu corpo tornara a tremer com tal violência, que eu
mal podia conter os espasmos convulsionados que o tomavam.
Não sentia mais o frio. Apenas o horror que se instalara em
mim, tão forte, que eu me beliscava tentando acordar do
pesadelo que presenciara.
Queria correr, mas me encontrava congelado. Não
conseguia dominar minhas pernas trêmulas. Senti como se o
mundo despencasse sobre mim. Todos os meus sonhos, tudo
em que acreditara, o motivo principal pelo qual eu assumira
uma vida que não era a minha. Eu arriscava-me a pensar que
até mesmo o amor que eu sentia por Chloé, tudo acabara
quando o corpo flácido de Camille finalmente tocou o chão
gelado aos seus pés.
Ela a matara. Chloé era uma assassina. O anjo que eu
julgara mais doce que o mel, o amor mais puro que a água
cristalina das nascentes, a criatura mais inocente que eu
conhecera… tudo havia sido uma ilusão! Ela era um demônio
assassino!
Recostei-me na pedra, dando as costas aos encapuzados.
Apertei meus olhos, tentando impedir que a luminosidade
daquele fogo maldito atingisse minhas vistas. Tapei os ouvidos
com ambas as mãos. Não aguentava mais ouvir as blasfêmias
pronunciadas por Chloé, blasfêmias saídas dos mesmos lábios
que eu beijara, e que me deram um prazer tão intenso como

123
Raquel Pagno

eu jamais provara e como eu sabia que não tornaria a provar


igual.
Eu chorei. Deixei que as lágrimas molhassem minha
face suja e envergonhada, levando embora o que restara das
minhas esperanças. Esperanças de ser feliz ao lado de Chloé,
que eu ainda alimentava dentro do peito ferido. De todas as
dores que eu sentira em minha vida, nenhuma fora tão grande
quanto a dor de perder Chloé, sem ao menos ter tido a chance
de tê-la por completo. E eu não a perdia para os desencontros
da vida, ou para algum outro homem. Eu a estava perdendo
para algo muito maior e muito mais poderoso. Algo contra o
qual eu jamais poderia lutar.
O cântico que os encapuzados entoavam era tão intenso
que ultrapassava meus ouvidos cerrados. A música era
composta por palavras pronunciadas no mesmo idioma que
Chloé usara anteriormente. Era como uma missa macabra
com orações e cânticos de adoração. Só que o deus cultuado
ali era outro, bem diferente do Deus que eu conhecia.
Respirei fundo e virei-me novamente. Um dos
encapuzados deixara sua posição no círculo e segurava a
pobre Camille nos braços, enquanto Chloé mantinha o punhal
encostado no corpo desfalecido e sussurrava algumas palavras
em seu ouvido. Nesse instante, outro encapuzado surgiu,
vindo de algum canto escuro da floresta. Era uma criatura alta
e magra e carregava nas mãos um objeto metálico que parecia
muito importante, pois quando ele mostrou-o para a multidão,
todos o reverenciaram.
— Seja bem- vindo ao círculo sagrado, Padroeiro,
nosso mestre e senhor! — disse Chloé, estendendo a mão
ao desconhecido e convidando-o a entrar no círculo de fogo.
Depois, apontou para Camille, dizendo:
— Eis aqui o sacrifício que oferecemos como prova de
nossa fidelidade e obediência! Eis o sangue, que é a prova da
nossa gratidão!

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Herdeiro da Nevoa
´

O recém-chegado levantou um dedo, e o encapuzado


que segurava Camille postou-a sobre o altar de pedra e
retirou a capa negra que lhe envolvia o corpo. Ela estava
nua, banhada em sangue. Chloé levantou uma das taças de
prata e, oferecendo-a aos céus, consagrou-a tal qual um padre
o faria. Ofereceu-a ao Padroeiro e depois derramou algumas
gotas do líquido vermelho sobre os lábios de Camille, que
imediatamente abriu os olhos, enquanto seu corpo estremecia,
sofrendo fortes convulsões.
Ninguém se moveu para segurá-la, nem saiu do seu
lugar ao redor do círculo. O padroeiro segurou o objeto que
trouxera e depositou-o sobre o peito inquieto de Camille que
logo ficou imóvel. Era como se o simples contato do objeto
com sua pele a tivesse curado. Apertei os olhos, tentando vê-
lo melhor. Era uma medalha, como as que eu via penduradas
sobre as capas negras de todos os presentes.
O Padroeiro debruçou-se sobre Camille e lambeu-lhe
demoradamente o peito ensanguentado. Depois segurou o
cálice com o líquido que bebera minutos antes e o derramou
sobre o ferimento. Camille gritou, o líquido vermelho parecia
queimá-la e um leve vapor se desprendeu de sua pele. Ela tentou
se levantar, mas Chloé a segurou pelos ombros, impedindo-a.
Seu peito agora arfava com violência. Ela parecia sentir muita
dor. E medo.
O Padroeiro abriu a longa capa. Um pássaro negro
abrindo as asas para atacar finalmente sua presa. Mantendo-se
oculto pelo capuz sobre seu rosto, subiu ao altar, deitando-se
sobre Camille. Ela voltou a debater-se quando ele friccionou
os lábios sobre o ferimento, sorvendo o sangue quente que
jorrava da ferida. Depois lhe beijou os lábios, tingindo-os
com o sangue. Levantou-lhe os braços, abriu-lhe as pernas,
imobilizando-a, e ali, sobre aquele altar que lhes parecia
sagrado, ele a violentou.

125
Raquel Pagno

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17

A visão da violência era impactante demais. Eu não


conseguia manter-me em silêncio. Um urro pavoroso
desprendeu-se da minha garganta, sem que eu tivesse força
para contê-lo. Minha cabeça girou por um momento. Cambaleei
por entre as árvores até um ponto longe o suficiente para não
ver mais aquele horror.
Mais terrível do que a imagem de Camille gritando e
se debatendo enquanto era estuprada, fora a visão de Chloé a
ferindo, segurando-lhe os ombros para o deleite do Padroeiro.
Aquilo ficara impresso em meus olhos, grudara em minha
memória. Eu sabia que permaneceria ali para sempre.
— Vejam! É François Roux! — gritou um dos
encapuzados. Agarrei-me a um dos troncos em minha frente
e me levantei, pronto para correr. Meu grito havia sido
estridente o bastante para que me ouvissem. Agora eu fora
descoberto e certamente seria entregue em sacrifício, assim
como Camille.
Virei-me na direção da estrada, pronto para correr.
Quando dei o primeiro passo, senti uma dor aguda atingir-
me o pé direito. Caí. Na ânsia de salvar minha própria vida,
esquecido de que estava descalço e no meio de uma floresta,
acabei pisando em um galho lascado e pontiagudo.
Sentei-me atrás de um vistoso arbusto, tentando me

127
Raquel Pagno

ocultar nas sombras dos carvalhos e das altas e abundantes


rochas que se espalhavam a minha frente. Esperei ser apanhado.
Meus ouvidos se aguçaram. Meus olhos me proporcionaram
uma visão quase que digna de uma águia. Concentrei-me
para ouvir os passos que se aproximavam do meu esconderijo
improvisado.
— Ali! Peguem-no! — gritou uma voz masculina.
Eu encolhi-me o máximo que pude. Prendi a respiração,
fechei os olhos e, tentando não fazer nenhum ruído, preparei-
me para o pior.
Minha vida inteira apareceu diante dos meus olhos
naqueles poucos segundos percorridos entre o meu pânico e
a sensação de que os passos se afastavam do meu esconderijo.
Ouvi gritos abafados de alguns encapuzados já bem longe de
onde eu estava. Pensei que já tivesse morrido quando ouvi um
deles gritando:
— Peguei! Peguei ele! — mas o tempo continuava
passando e ninguém me pegara.
— Me soltem! O que estão fazendo? — gritava o homem
apanhado pela legião de encapuzados.
Olhei em volta, erguendo a cabeça só um pouco, até
conseguir enxergar sobre as pedras que me protegiam. Dois
dos encapuzados voltavam ao círculo carregando o homem
pelos braços, um de cada lado. Seus pés não tocavam o chão.
Ele gemia como se sentisse dor. Parecia saber que um destino
horrível o aguardava.
— Vejam só quem veio nos visitar! — disse o Padroeiro,
caminhando em círculo ao redor do homem assustado —
Monsieur François Roux!
Os dois encapuzados o soltaram. Ele tentou inutilmente
escapar de dentro do círculo de fogo. Corria de um lado para
o outro, arrastando a perna com dificuldade Era cercado a
cada momento pelos encapuzados que o impediam de sair e
riam dele às gargalhadas. Aquele era mesmo François Roux,

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Herdeiro da Nevoa
´

o verdadeiro.
— Seus malditos! Eu vou acabar com vocês! Malditos!
— Não vai, não! — Chloé finalmente soltara os ombros
de Camille. Levantou-se e tornou a cobrir o corpo com a capa
negra, mas deixou o rosto livre do capuz. Chloé caminhou
alguns passos na direção de François. Ele recuou.
— Oh, por que fugir de mim, mon amour? — o Padroeiro
apenas observava, enquanto Chloé o torturava com suas
palavras. Ele ainda a amava. Ela o havia enfeitiçado tanto
quanto enfeitiçara a mim. O pavor vibrava no olhar brilhante
de François. Tão intenso que eu quase podia senti-lo. —
Vamos, não tenha medo de mim… Deixe que eu mostre como
eu o amo, mon amour. Deixe-me ser sua… mais uma vez…
François deteve-se de sua fuga. Parecia não conseguir
resistir aos encantos de Chloé. Permitiu que ela o beijasse.
Cerrei os punhos de ódio, mas consegui mais uma vez controlar
o meu impulso de correr até lá e salvar Chloé. François correu
as mãos sobre a capa que a envolvia, acariciando cada curva
do corpo de Chloé. Em seguida, com um movimento brusco,
arrancou-a de seu corpo, deixando-a completamente despida.
Ela puxou-o para cima do altar, no mesmo lugar onde
o Padroeiro violentara Camille. Deitou-se de costas na pedra
incentivando-o a pousar seu corpo sobre o dela. François
postou-se de pé ao lado de Chloé. Acariciou o seu corpo com
as mãos, desde os pés até chegar ao pescoço longo e elegante,
onde se deteve por mais tempo. Ela estendeu a mão, tentando
arrancar-lhe a camisa. Num ato desesperado, François agarrou
o cordão que lhe envolvia o pescoço. Arrancou-o, atirando na
minha direção.
— O que você fez? — gritou, cheia de ódio, agarrando
seu punhal. Tentou, sem sucesso, atingir François. O
Padroeiro agarrou-o, segurando os dois braços junto às
costas. Imobilizou-o. Chloé se levantou e encostou o punhal
no pescoço de François.

129
Raquel Pagno

— Não tão depressa! — interveio o Padroeiro. Ela


baixou a arma imediatamente, como se cada pedido daquele
homem fosse uma ordem.
— Ora, ora! Vejo que está um pouco nervoso, mon ami…
— ao ouvir aquela expressão, senti mais uma das muitas
punhaladas que atingiam o meu peito naquela noite nefasta. E
tudo perdeu momentaneamente o sentido para mim.
Aquela era a voz de Stephen. E ‘mon ami’ era a sua
expressão favorita quando se dirigia a mim. Agora eu percebia
que não era exatamente a mim que ele se referia quando me
chamava de ‘mon ami’, porque eu jamais fora seu amigo, mas
sim a François Roux, seu verdadeiro e fiel amigo de quem ele
roubara tudo e que agora estava prestes a roubar também a
vida.
— Ainda não entendeu que não adianta resistir? Não
basta todos os castigos que recebeu, ainda não está contente?
Vejo, então, que eles não foram o bastante para você!
— Stephen, seu maldito demônio! Eu fui seu amigo! Eu
lhe ofereci o meu dinheiro, a minha amizade… até mesmo abri
mão do amor de Chloé… fiz tudo isso por você! Seu maldito!
— Mas negou-me a única coisa que realmente me
interessa em você, mon ami, negou-me a sua alma… —
François cuspiu na cara de Stephen, que simplesmente correu
os dedos sobre a baba que lhe escorria desde os olhos até a
ponta do nariz, e depois lambeu-os.
— Demônio! Você jamais possuirá a minha alma! Minha
alma já tem um dono! E garanto-lhe que, em breve, você terá
uma agradável surpresa!
— Se você prefere assim… Irmãos amarrem-no! — Os
encapuzados apressaram-se em atender a ordem de Stephen.
François foi amarrado a uma árvore, fora do círculo de fogo,
de modo que ficasse atrás do altar de pedras, com os braços
abertos, como se fosse um cristo crucificado — Agora veja! E
divirta-se!

130
Herdeiro da Nevoa
´

— A festa continua! — gritou Stephen, tomando


Camille pelo braço e recolocando-a sobre a pedra-altar. Um
dos encapuzados se aproximou, retirando a capa que a cobria,
e depois a sua própria. Era Enzo. Os outros se aproximaram
despindo-se um a um. A sessão de violências recomeçou.

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Raquel Pagno

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18

A tortura continuou até que todos tivessem violentado


o corpo frágil e machucado de Camille. Chloé seria a última,
mas quando seus dedos tocaram a pele de Camille, Stephen
a conteve. Pelo que eu entendi, sem o medalhão, ela já não
poderia participar do ritual.
O medalhão! Eu havia esquecido que François o lançara
em minha direção e que caíra bem perto de onde eu estava.
Percorri a terra escura com a ponta dos dedos, até senti-los
se entrelaçando no cordão de Chloé. Levantei-o, segurando-o
contra o reflexo da luz que saía da fogueira. A figura de
um pentagrama invertido brilhou dentro de um círculo de
prata crivado de pedras multicoloridas. Havia inscrições em
cada filete que formava a estrela central, mas estas eram
incompreensíveis, escritas em outro idioma. Escondi o
medalhão no bolso, precisava decifrá-lo, tinha que entender o
que tudo aquilo significava.
Desviei o olhar. Não conseguia crer em tamanha
atrocidade. Os gritos de Camille logo cessaram, convertendo-
se em alguns poucos gemidos abafados. François já não dizia
nada, nem se debatia na tentativa de escapar.
— Ei! François! — ouvi um cochicho, que não viera dos
encapuzados, mas sim da direção oposta ao círculo de fogo —
François!

133
Raquel Pagno

Esforcei-me para enxergar alguém no breu da floresta.


Sentia-me atordoado pelas visões do inferno que presenciava
a cada momento. Cheguei a acreditar que a voz vinha de lugar
nenhum, senão de dentro da minha própria alma transtornada.
— François! Aqui! — a voz soou um tanto mais alta
e eu virei-me, temendo que fosse ouvida por algum dos
encapuzados. Finalmente, discerni um pequeno vulto se
movendo na escuridão. Uma mão que balançava para mim,
chamando-me.
Aproximei-me com cuidado, pronto para reagir.
Estava manco devido ao pé ferido, o que me deixava ainda
mais semelhante ao verdadeiro François. Movi-me devagar
imaginando uma maneira de fugir, caso o chamado não
passasse de uma cilada.
— Adélie? — eu não pensara em Adélie durante o
tempo em que estivera escondido naquele lugar. Chegara a
imaginar o detetive, os professores, que todas as pessoas que eu
conhecera em Paris estivessem ali, encapuzados, participando
do massacre de Camille.
Mas Adélie não viera aos meus pensamentos como uma
traidora. Talvez porque fora a única pessoa, entre todas as que
eu conhecera, que não me contara mentiras. Ou pelo menos,
que me contara parte da verdade.
— Adélie, o que está fazendo aqui?
— Acho que o mesmo que você, não é?
— Vá embora. É muito perigoso e…
— Não vou sair daqui sem você!
— Ah! — ia reclamar da atitude de Adélie, insistir que
aquilo tudo era muito perigoso, principalmente para uma
mulher, mas como sabia que meus apelos seriam inúteis,
desisti — Você já sabia disso?
— Dos rituais? Ah, sim. Esta parte da floresta sempre
foi frequentada por bruxas e bruxos, adoradores do demônio.
Mademoiselle Chloé sempre praticou este tipo de ritual. Sua

134
Herdeiro da Nevoa
´

mãe era uma bruxa, e ela, como filha legítima da bruxa e


herdeira do sangue da mãe, não pôde negar-se ao seu legado.
— Você sabia que ela está viva. Por que não me contou?
— Você acreditaria nessa loucura, se não estivesse vendo
com seus próprios olhos?
— Acho que não. — Adélie estava certa. Ninguém
jamais acreditaria em nada daquilo, se não o presenciasse
pessoalmente.
— Por que você não procurou a polícia? Por que não os
denunciou?
— E ser chamada de louca, ou coisa pior? Esses bruxos
são muito poderosos, são capazes de qualquer coisa pela
irmandade. São capazes das mais brutais atrocidades com os
delatores. Eu temi pela minha vida e pela vida de minha mãe.
— Pena de morte?
— Não. A morte seria muito pouco. Libertaria a alma do
traidor. O demônio não quer isso.
— E Camille, também é uma bruxa?
— Agora é. Este é um ritual de iniciação. Camille se
ofereceu ao demônio, em troca de algum favor. Deu seu corpo
e o seu sangue para alcançar algum objetivo que ainda não
conseguiu. Vendeu sua alma. Apesar de não ser uma herdeira
legítima do sangue, uma vez tendo sida tocada e marcada pelo
demônio, ela também se torna uma bruxa, possuidora de todos
os poderes das bruxas, ainda que em menor escala.
— Você já sabia que Stephen estava metido nisso?
— Stephen é um demônio, François. Eu soube desde a
primeira vez que o vi.
— Por que não me contou? Por que não contou para
todos? — minha voz se alterara. Senti raiva de Adélie, por não
ter me contado toda a verdade. Principalmente sobre Stephen.
— Quieto, François! Não quero nem imaginar o que eles
farão conosco se nos pegarem aqui!

135
Raquel Pagno

— Está certo. Mas depois terá que me explicar essa


história direito!
— É claro, agora que você já viu. — Adélie me olhou
com curiosidade — Quem é aquele homem crucificado atrás
do altar?
— Essa também é uma longa história. Prefiro não falar
disso agora. — Temi o que Adélie pensaria de mim quando
soubesse a verdade. Eu não queria perdê-la, ainda mais agora
que já não poderia contar com a amizade de Stephen.
Voltamos para o local do ritual. Camille fora deixada
em paz. Permanecia largada sobre o altar de pedra e parecia
inconsciente. Todos os outros, agora despidos de suas
capas negras e dos capuzes que lhe escondiam as faces,
concentravam-se em uma espécie de dança macabra, saltando
e correndo em torno do círculo. Vez ou outra paravam e
beijavam-se, acariciando-se mutuamente, sem nenhum pudor
e sem distinção entre homens e mulheres.
Stephen os observava do centro exato do círculo,
incentivando-os e proferindo certas orações na mesma língua
estranha que Chloé pronunciara anteriormente. Vez ou outra,
ele voltava-se para a árvore onde François estava amarrado e
gargalhava satanicamente.
De repente, em um salto, agarrou o punhal de Chloé,
que jazia então depositado sobre o altar de pedra, ao lado de
Camille. Imaginei que fosse lhe desferir o golpe de misericórdia
e acabar de uma vez com seu sofrimento, mas ao invés disto,
ele transpôs o círculo de fogo e caminhou lentamente até
François.
— Desta vez eles foram longe demais! Estão sacrificando
vidas humanas… não bastassem os animais…
Stephen não o matou. Cortou-lhe um dos pulsos, encheu
uma taça com o sangue, e bebeu como se fosse um maléfico
vampiro.
— Animais?

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Herdeiro da Nevoa
´

— Sim. Eu os vi sacrificando animais em muitos dos seus


rituais. Costumam degolar bodes principalmente, e depois de
extraírem todo o sangue do animal até a morte, servem-no
em cálices de prata e se fartam enquanto o bebem. É terrível!
— Como eu posso ter me enganado tanto com Stephen…
Eu confiei nele. Acreditei que era o meu único amigo, fiz tudo
o que ele me aconselhou, e agora, estou mais perdido do que
nunca.
— Já te disse, Stephen é um demônio.
— Meu Deus do céu! Como ele pôde! Eu teria dado tudo
a ele, se tivesse me pedido!
— Ele não quer nada que você possa lhe dar. Quer
roubar a sua alma, como a de todos os outros.
— Vamos embora, Adélie.
— Sim, eu conheço um atalho por dentro da floresta.
Eles não nos encontrarão.

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Raquel Pagno

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19

Caminhamos lentamente por dentro da mata. Apoiava-


me ao ombro de Adélie trocando os passos com dificuldade,
arrastando meu pé ferido. Frequentemente, parava para aliviar
a dor que me assolava. Sentava-me em uma pedra enquanto
Adélie avaliava a possibilidade de já estarmos longe do alcance
de Stephen e seus demônios. E por mais que ela insistisse que
estávamos fora de perigo, eu não me sentia seguro no meio da
mata densa e escura.
Adélie conduziu-me até uma clareira que dava em um
caminho mais aberto, um carreiro de caçadores, pelo qual
seguimos até os arredores do castelo, contornando-o pelos
fundos. Enfim, saímos numa rua onde poderíamos encontrar
um transporte e voltar para o centro de Paris, e então, para
minha casa. Amanhecia. Adélie sugeriu que pedíssemos
ajuda. Eu insisti para que continuássemos seguindo a pé e
às escondidas. Ainda poderíamos estar sendo observados.
Andamos por mais algum tempo, até que a dor e a exaustão
me convenceram a procurar ajuda. Fretamos um carro.
Não posso descrever em palavras o alívio que senti ao
chegar a casa. O sol já iluminava o dia quando tranquei as
portas, como se o simples gesto de girar a chave na fechadura
pudesse me livrar de Stephen. Quando fechei aquela porta,
deixei toda a loucura para trás, muito longe da minha

139
Raquel Pagno

realidade. Senti como se ela jamais houvesse existido, não


tivesse passado de um pesadelo do qual eu acordara assim que
minhas mãos giraram a maçaneta.
Adélie amparou-me até uma das poltronas. O ruído do
piano denunciou o gato que despertara com a nossa chegada.
Adélie encolheu-se de medo. A cicatriz em seu braço não
permitira esquecer-se de que ele a ferira. O bichano ouriçou-
se com a presença da moça. Precisei pô-lo para fora da casa.
— Esse gato não gosta de mim. Você já pensou em se
livrar dele?
— Não vejo motivo para tal. Largá-lo à própria sorte
seria uma crueldade. Ele vai acabar se acostumando com você,
Adélie.
— Você tem razão. Como uma pessoa tão boa como você
pode ter-se tornado amiga de Stephen? — Adélie aproximou-
se de mim e se postou de pé ao lado da poltrona na qual me
sentara. Acariciou o meu rosto ternamente. Outra vez eu pude
sentir o amor que ela alimentava por mim, o amor que ela
sentira por François, e tornei a imaginar qual seria sua reação
perante a minha mentira.
— Também não entendo como eu não percebi quem ele
era. Fui tão ingênuo… Estou envergonhado por ter sido tão
inocente, tão incapaz de enxergar a verdade…
— Você é doce demais para enxergar qualquer tipo de
maldade, François. — os olhos de Adélie brilhavam enquanto
ela me encarava acreditando cegamente em minha bondade.
Isso cortava-me o coração, porque aquele homem bom a quem
ela tanto amava não era eu. — E Stephen é ardiloso. Um
verdadeiro lobo em pele de cordeiro.
— E quanto a Chloé? Você já sabia que ela estava viva.
Por que insistiu em mentir que a tinha visto morta? Também
acha que ela é um lobo em pele de cordeiro?
— Mademoiselle Chloé talvez seja pior do que Stephen.
Eu desejei privá-lo de tal companhia, mas vejo que falhei…

140
Herdeiro da Nevoa
´

Ela forjou a própria morte, em um ritual de iniciação como o


de Camille. Aconteceu aqui mesmo nesta casa. Todos juram
que você estava presente, François, pessoas garantem tê-lo
visto e ouvido aqui dentro naquela noite.
— Mas eu não me lembro de nada.
— Oh, eu sei, mon amour, mas infelizmente acho que
os boatos são verdadeiros. Tem certeza de que sofreu um
acidente que lhe prejudicou a memória? Pois eu não acredito.
— Não acredita?
— Não. Depois de tudo o que eu descobri sobre Stephen
e sua irmandade, depois de tudo o que vi, creio que foi ele quem
o enfeitiçou e que arrancou as memórias da sua cabeça.
— Como ele faria isso?
— Eu não sei, mas tenho certeza de que Stephen tem os
seus meios.
— O que ele ganharia com isso?
— Não sei. Talvez o seu dinheiro?
— Mas ele não tocou em um único centavo do dinheiro.
Eu o convidei para vir morar comigo nesta casa mais de uma
vez. Ele sempre se recusou. Se quisesse dinheiro, eu teria dado
a ele de bom grado.
— Sempre há um motivo para tudo o que Stephen faz.
Certamente, ele ganhou algo trazendo-o de volta, limpando a
sua mente de todas as lembranças. Stephen nunca sai perdendo.
— Você fala como se tudo isso fosse um jogo.
— E não deixa de ser. Um jogo maligno, de vida e de
morte. Mas ainda assim, um simples jogo.
— Como pode dizer isso…
— Porque é verdade. Camille entrou nesse jogo por
algum motivo. Ela é uma garota ambiciosa, sempre consegue
tudo o que quer. Pense: qual foi a única coisa que ela desejou e
que não conseguiu ter?
— Eu?

141
Raquel Pagno

— Creio que sim. E quanto a Enzo? Entrou no jogo


porque desejava Camille, que se interessa por qualquer um,
menos por ele.
— E Chloé? Por que Chloé entrou no jogo?
— Talvez você mesmo possa me dizer, François. Sei que
vocês dois estavam se encontrando. Soube desde a primeira
vez em que conversamos, quando você reapareceu. No fundo
eu já esperava por isso. Foi por ela que você entrou no jogo,
não foi? Mesmo que não se recorde, você sente que foi assim.
— Não sei do que está falando.
— É claro que sabe. Acho que não precisamos mais
mentir um para o outro, não é mesmo?
— Ora, Adélie… A verdade pode doer tanto…
— Como está doendo em você, agora que descobriu
quem realmente é Mademoiselle Chloé?
— Sim, como está doendo em mim, agora. — calei-me
por um momento, ponderando se aquele era o momento certo
para contar a verdade para Adélie. Concluí que não haveria
outro momento mais adequado. Respirei fundo antes de
continuar — E como irá doer em você quando eu revelar-lhe
a verdade.
— Do que você está falando?
— De quem eu sou de verdade.
— Mas… eu sei quem você é de verdade, mon amour. —
Adélie voltou a acariciar meu rosto arranhado — Acho que
não há ninguém no mundo que o conheça tão bem quanto eu.
Sei que você é um homem bom, que traz um coração de ouro
dentro do seu peito ferido. E sei que se você cometeu algum
erro no passado, a culpa é inteiramente de Mademoiselle Chloé.
Ela o influenciou. Mas eu também sei que as pessoas não
mudam em sua essência, e você é um homem essencialmente
bom. Isso não mudou, mesmo que você tenha passado todo
esse tempo desaparecido.
— Eu não sou François Roux.

142
Herdeiro da Nevoa
´

— O quê? De que você está falando?


— Isso mesmo que você ouviu. Não sou François Roux.
Meu nome de verdade é Inácio. Inácio Vaz. Eu nem sou francês
de verdade. Não percebe meu sotaque?
— Ora, François, você passou muito tempo longe da
França. Em tais condições é normal adquirir sotaques…
— Não, Adélie! Eu não sou François Roux! Eu tive a
infelicidade de me parecer com ele e a de encontrar Stephen.
Não sou François Roux! Nunca fui! Por isso não me lembro de
nada! Eu nunca soube a verdadeira história de François Roux!
— Não pode ser! Você está mentindo! Eu saberia se não
fosse você… eu… eu o amo, François! Sempre amei e ainda
amo! O que Stephen fez para convencê-lo de que é outra
pessoa?
— Stephen não fez nada. Eu é que fiz. Tomei um lugar
que não era meu, uma vida que não é a minha… este aqui não
sou eu, Adélie… não sou eu…
Não pude conter o pranto que brotou incontrolável
dos meus olhos. Adélie quis fugir do desconhecido que se
debulhava em lágrimas diante de si, mas eu a agarrei e puxei-a
para junto do meu peito desnudo e gelado. Abracei-a. Ela
não resistiu e isso fez com que eu retirasse uma tonelada da
culpa que carregava sobre os ombros desde que me tornara
François Roux.
Seu peito soluçava levemente e eu percebi que também
chorava. Só não sabia exatamente o motivo do pranto. Eu
ainda não lhe contara a pior parte de toda aquela história. Não
lhe dissera que o homem a quem Stephen crucificara era na
verdade o seu François.
Adélie abaixou-se diante de mim e, ajoelhando-se na
minha frente, repousou sua cabeça no meu colo. Emaranhei
meus dedos trêmulos em seus cabelos. Beijei-a covardemente.
Um covarde. Era exatamente isso que eu era, e se até então
não o tinha admitido, admiti quando usei a pobre Adélie como

143
Raquel Pagno

um refúgio para salvar-me de minhas frustrações.


Beijamo-nos com suavidade; a mesma suavidade que
eu sentia presente em tudo o que Adélie fazia, com a ternura
oposta à fúria da paixão de Chloé. Beijamo-nos ali, no chão
daquela sala que já fora palco de tantas tragédias, debaixo
daquele teto que testemunhara as mais terríveis atrocidades,
cujo tom sombrio destoava tanto do amor terno e meigo de
Adélie.

144
20

Adormecemos ali mesmo, no tapete felpudo que recobria


o chão de madeira envelhecida. Acordei a tempo de contemplar
Adélie adormecida. Parecia uma menina. Era inocente e pura
como uma criança. Suas feições eram serenas e ela parecia
desfrutar de um sono tranquilo.
Imaginei-a sonhando com o seu François. Imediatamente
a culpa se apossou de mim. Eu não tinha o direito de me
aproveitar da inocência de Adélie. Não poderia tê-la machucado
ainda mais. Eu não desejava fazê-la sofrer, mas depois do que
se passara entre nós nessa noite, o sofrimento de Adélie seria
totalmente inevitável.
— François? Já está acordado? — a voz sonolenta
arrancou-me dos pensamentos infelizes. Suspirei
profundamente.
— Sim, Adélie. — minhas palavras não foram mais que
um cochicho. Ela sentou-se e encarou-me, olhos nos olhos.
— E então, o que vamos fazer agora? — não soube se
ela se referia a Chloé e Stephen, ou a nós dois.
— Eu estou muito confuso. Acho que preciso me
desculpar, não é?
— Desculpar-se? — os olhos de Adélie brilharam. Não
foi de alegria, creio que tenha sido de decepção. O brilho
cintilante e inconfundível das lágrimas. — Eu o amo, François.

145
Raquel Pagno

O que aconteceu entre nós dois foi a coisa mais linda que eu
vivi em toda a minha vida. Por que precisaria se desculpar por
ter me feito a mulher mais feliz, ainda que apenas por uma
noite?
— Adélie, eu penso que você não compreendeu quando
eu lhe contei a verdade sobre quem eu sou. Eu não estava
brincando. Não sou o seu François. Sou apenas um estrangeiro
muito parecido com ele. Um deslumbrado pelo dinheiro que
eu nunca tive, pela fortuna de François…
— Não, isso não é verdade!
— É verdade, Adélie. Por pior que seja, é a mais pura
verdade. — Acariciei o rosto de Adélie com as costas da mão.
A pele era macia e quente. Destoava de todas as lembranças
que eu tinha da brancura gelada da pele de Chloé.
— Meu coração jamais se enganaria, François.
— Mas desta vez — segurei-lhe as mãos — enganou-se.
— E onde, então, está o verdadeiro François? — ela
finalmente fizera a pergunta que eu temia responder. Já não
poderia negar-lhe a terrível verdade.
— O homem crucificado que você viu…
— Não! Não pode ser! Eu o reconheceria! Eu o teria
reconhecido entre mil pessoas… Você é o meu François!
— Stephen o pegou, Adélie. Não tenho ideia de como
isso aconteceu, ou por que, mas ouvi-os dizendo que ele traiu
a irmandade. Isso representa alguma coisa para você?
— Sim… sim… — balbuciava ela, as lágrimas agora
correndo soltas pela face corada — um traidor da irmandade
seria punido… eternamente. Seria condenado a vagar pelo
mundo como um morto-vivo, nas sombras para sempre.
E outro seria trazido para assumir o seu lugar… — Adélie
interrompeu a frase e, arregalando os olhos, encarou-me como
se agora tudo fizesse sentido para ela.
— Minha nossa… — gemi — Eu sou essa pessoa…
— François…

146
Herdeiro da Nevoa
´

— Adélie, você acha que Stephen me atraiu para ocupar


o lugar de François? — ela levantou-se lentamente. Os olhos
fixos nos meus espelhavam o meu desespero.
— Eu não sei… Stephen é um demônio… assim como a
mademoiselle Chloé. São dois demônios!
— Por que não me contou a verdade, Adélie, por mais
que tivesse sido inacreditável ou que pudesse ter doído.
A verdade teria me livrado de assumir uma vida que não é
minha, e talvez, de ter- me envolvido com Chloé.
Adélie tapou o rosto com as mãos, tentando ocultar o
mar de emoções que brotava dela. Correu para o lavabo. Ouvi
a porta bater com força. Não a segui. Ela precisava ficar só.
Precisava digerir sozinha tudo o que acontecera. Eu também
precisava de um tempo para entender minha estupidez, tentar
aliviar a culpa por ter seduzido a pobre Adélie, por ter traído
meu amor por Chloé.

147
Raquel Pagno

148
21

Sentamo-nos à mesa da cozinha. Adélie já não chorava.


Evitava olhar-me nos olhos. Eu preparara um desjejum com
o que sobrara das geleias e das torradas que Chloé trouxera.
Preparara chá, suco de frutas e também café com leite. Adélie
manteve-se por um longo tempo sem tocar em nada, com
os olhos vitrificados e fixos em algum ponto distante que
transcendia as paredes daquela casa.
Eu sabia onde ela estava. Seu corpo preso comigo, um
completo desconhecido, na casa que fora de seu grande amor.
Sua alma e seu coração presos a François que, vivo ou morto,
jazia em algum lugar onde Stephen o tivesse colocado.
De repente, como se despertasse do transe no qual se
perdera, Adélie quebrou o silêncio.
— O que vamos fazer agora? — fui surpreendido pela
pergunta. Eu não havia pensado no que faria dali por diante,
perante tudo o que acontecera. A realidade mudara, as coisas já
não faziam nenhum sentido para mim. Eu só sabia que queria
proteger Chloé, mas não podia compartilhar essa vontade
com Adélie.
— Eu não sei, Adélie. Acho que preciso mesmo me
desculpar…
— Temos que encontrar uma maneira de salvá-lo. —
interveio cortando a minha frase, deixando bem claro que não

149
Raquel Pagno

tocaria no assunto da noite passada.


— Ah… é… precisamos encontrar uma maneira. Mas
como? Não podemos simplesmente chegar e perguntar a
Stephen onde François vive ou onde ele o escondeu do mundo.
Ele jamais nos contará algo sobre ele ou sobre Chloé.
— É claro que não contará. — Ela pensou um instante
— A menos que não saiba que está contando.
— Como assim?
— Você tem de fingir que ainda é amigo de Stephen,
François… — ela se deteve. O nome saiu de seus lábios quase
com repugnância e o brilho do seu olhar sumiu completamente
ao pronunciá-lo — ou seja lá quem você for. E tem de
encontrar-se com Camille.
— Camille?
— Sim. Camille é a chave que nos levará até François.
Ela é uma recém-chegada na irmandade. Uma bruxa fraca e
inexperiente. Se ela o deseja a ponto de entregar seu sangue
e sua alma em troca do seu amor, certamente não se negará a
fazer o que você lhe pedir.
— Mas, como? Eu não posso simplesmente ir até ela
e pedir que me leve até François! Ela vai desconfiar de mim!
Eu passei a maior parte do tempo na universidade fugindo de
Camille. Não posso simplesmente dizer que mudei de ideia!
— É claro que pode! Ela vai achar que a sua mudança de
opinião é consequência do sacrifício que ofereceu ao demônio
e vai acreditar cegamente em seu súbito interesse por ela! Ela
cairá como um patinho em sua isca!
— Eu não sei, Adélie… E se não der certo? E quanto
a Enzo? Ele é praticamente a sombra de Camille. Como vou
fazer para me aproximar dela sem levantar a suspeita de Enzo?
— Vai ter de dar um jeito. Você é homem, deve saber
como se encontrar às escondidas com uma mulher.
— Não, eu não sei.
— Mas soube como esconder seus encontros amorosos

150
Herdeiro da Nevoa
´

com Chloé…
— Talvez Chloé possa ser a chave.
— Não. Ela jamais o ajudaria.
— Por que não? Você acha que ela não me ama?
— Eu não disse que ela não o ama. Mas ela é uma bruxa
nata, poderosa e astuta. Vai saber se tentar enganá-la.
— Eu não preciso enganá-la. Basta que pergunte a ela
sobre François.
— Ela não lhe dirá. Pelo que eu percebi, ela é o braço
direito de Stephen. Talvez seja a única bruxa de verdade,
descendente de uma linhagem antiga e poderosa. E ela sabe
que você não é o verdadeiro François. Mentiu pra você o
tempo todo, fingindo que não sabia de nada e que acreditava
em você.
— Ela pode ter sido chantageada por Stephen, e por isso
fingiu.
— Ela é tão demônio quanto ele. Os dois se completam,
não percebe?
— Não, Chloé não é como Stephen! Certamente ele a
tem influenciado, obrigado a fazer aquelas coisas…
— Esqueceu-se de que eu também estive lá, e vi tudo o
que aconteceu? Chloé não fez nada obrigada, fez porque quis!
— Não! Ela estava enfeitiçada… Stephen a obrigou…
— Eu não vi a mão de Stephen segurando a dela, quando
apunhalou Camille! — as palavras de Adélie eram demasiado
duras. Eu não queria enxergar a realidade. Precisava acreditar
que Chloé não me enganara, que não era um demônio, como
Stephen. Eu ainda a amava mais que tudo.
— Eu falarei com Camille. — respondi contrariado e
cabisbaixo.
— Isso! Mas tem de ir com calma para que ninguém
desconfie. Principalmente Enzo.
— Pode deixar. Eu saberei persuadi-la. Logo salvaremos

151
Raquel Pagno

o seu François. — Ela sorriu timidamente, tocou a minha mão,


e depois se foi.

152
22

Retornei à faculdade no dia seguinte. Não foi fácil


convencer os professores de que decidira retomar as aulas
depois de tanto tempo de desistência. Inventei uma doença;
estratégia convincente, já que eu estava muito mais magro e
pálido do que antes.
Sentei-me na última fileira, como sempre fazia. Camille
ainda não chegara. Minhas mãos tremiam e eu suava frio.
Enzo encarava-me do extremo oposto da sala de aula. Seu
olhar frio e sério atingia-me com desconfiança. Temi pela
saúde de Camille. O ferimento poderia ter sido grave a ponto
de impedi-la de retornar às aulas.
Não tardou até que minha desconfiança se desfizesse.
Camille adentrara, atrasada, mas sorridente e descontraída.
Pareceu surpresa em ver-me de volta. Sentou a minha frente e
tentou puxar conversa.
— Olá, François! Que bons ares o trazem?
Não soube como reagir. Gaguejei e derrubei meus livros
de cima da mesa. Ficara nervoso só de pensar em Camille.
Agora que eu a via em minha frente, as imagens da noite
anterior recusavam-se em deixar meus pensamentos, como se
aquela criatura doce e frágil que sorria para mim não existisse,
mas sim, uma terrível e horrorosa bruxa seguidora do
demônio. Creio que as palavras de Adélie me impressionaram

153
Raquel Pagno

demais. Eu já não podia me concentrar em Camille. Respirei


fundo. Tive de esforçar-me para responder ao cumprimento.
— O… oi… Camille…
— Você andou sumido, François! O que aconteceu?
— Bom… eu… estive doente. — sabia que minha
resposta soara falsa. Camille fingiu não perceber.
— Oh, pobrezinho… — brincou, acariciando meu
rosto com a palma da mão. Coloquei a minha mão sobre a
dela, afastando-a do meu rosto. Arrependi-me imediatamente
e tornei a segurá-la, entrelaçando meus dedos nos dela. Eu
precisava fingir que estava interessado em sua amizade, sua
companhia. Não poderia repudiá-la ou jamais descobriria o
paradeiro de François — Por que não me chamou? Eu poderia
ter cuidado de você…
— Ah, obrigado, mas, não foi nada muito grave. Eu
estou bem, agora. — Respondi com o pensamento fixo em
Chloé, que tomara conta de mim.
— Que bom!
Camille sorria, como se nada houvesse ocorrido na
noite anterior. Presumi que seu ombro já não doía mais. Ela se
movia normalmente sem emitir nenhum gemido ou indício de
que sentisse qualquer incômodo.
Observei-a pelo resto da aula. Enzo fazia o mesmo
comigo. Seu olhar irado queimava-me como fogo. Lembrei-me
da promessa que lhe fizera de não me aproximar de Camille.
Já não poderia cumpri-la. Enzo sabia disto.
Não voltei a conversar com a garota até o final das aulas.
Segui-a pelos corredores da Sorbonne assim que saiu da sala,
como sempre, escoltada por seu fiel escudeiro. Esperei até que
ele se distraísse. Consegui finalmente trocar algumas poucas
palavras com Camille.
— Camille…
— Sim, François?
— Porque não aparece lá em casa hoje? Poderia ajudar-

154
Herdeiro da Nevoa
´

me com os estudos, já que estou um tanto atrasado com isso.


— É claro, eu adoraria! — disse surpresa. Abracei-a
atingindo o ombro ferido propositalmente. Ela não se contraiu,
não gemeu e nem alterou sua feição sorridente. Teriam as
bruxas o dom da cura?
Já escurecia quando ouvi as batidas inquietas na porta da
frente. O véu de névoa escarlate encobria a cidade, tornando-a
quase diáfana. Abri-a e fingi estar surpreso com a presença
da garota. O contorno da penumbra envolvia a silhueta de
Camille e realçava sua beleza adormecida. Camille apertou
minha mão, beijou-me a face e entrou. Antes de fechar a porta,
olhei para a rua até onde minhas vistas conseguiam alcançar,
só para ter certeza de que Enzo não a seguira.
— Pensei que não viria. — disfarcei, porque na verdade
eu desejara que ela realmente não viesse.
— Eu jamais o deixaria esperando, François. — Camille
encarou-me nos olhos. Um brilho diferente iluminava-lhe o
olhar. Um ruído vindo do piano e o gato apareceu para dar-lhe
as boas- vindas.
— Parece que ele simpatizou com você. — disse,
estranhando a atitude do animal — Quer beber alguma coisa?
Um chá, água… — eu estava tão acostumado a ter somente
chá, que por força do hábito já não oferecia nada diferente às
minhas visitas.
— Oh, não. Obrigada.
— Trouxe os livros? — perguntei estupidamente, pois
bem percebera que ela não trouxera nada consigo e sabia que
sua intenção não era bem de ajudar-me com os estudos.
— Não. Você deve tê-los todos em sua biblioteca.
— Eu? Bem, vamos subir, então.
Subimos as escadas. Camille na frente e eu a seguindo,
atento para ver se em algum momento ela fraquejava ou dava
algum indício de dor. Ela seguiu todos os lances com a mesma
postura de sempre.

155
Raquel Pagno

Eu finalmente teria um motivo para iniciar minha


exploração à biblioteca. Lamentei pelo fato ter- se dado em um
momento tão devastador. Eu sempre o imaginara como algo
agradável e prazeroso, algo que eu faria com uma pessoa a
quem amasse. Agora que a situação finalmente se apresentara,
eu estava tão nervoso que seria incapaz de desfrutar sequer
de um segundo de lazer na minha imensa biblioteca. Olhei de
relance para o livro negro que tanto me atraía, ele teria de
esperar mais um pouco.
Camille dirigiu-se a uma das prateleiras e retirou dela
um volume grosso de capa escura e empoeirada. Arrastou
uma cadeira para a beira da janela e sentou-se, apoiando o
pesado livro no colo.
— Você não vem? — perguntou-me inquieta.
— Oh… é claro! — carreguei outra cadeira para junto
da janela. Sentei-me de frente para Camille. Ela abriu o livro
aleatoriamente e começou a recitar em voz alta, um belíssimo
poema de Shakespeare.
— Acho que essa não foi exatamente a aula que eu perdi.
— disse, desajeitado e em tom zombeteiro. Ela fechou o livro e
encarou-me. Seus olhos fixaram-se nos meus. Camille era uma
serpente e eu a presa a quem ela hipnotizaria.
— Você sabe que não vim aqui para estudar, François.
— Camille, eu realmente perdi muitas aulas e preciso
muito da sua ajuda… — enquanto eu falava, não percebera
que havia me levantado da cadeira e que caminhava para trás
lentamente, em pequenos passos.
— Psiu! — Sussurrou ela. Levantando-se, postou-se
diante de mim e silenciou meus lábios com a ponta dos dedos
— Não diga nada. Apenas feche os olhos…
Meus olhos se fecharam contra a minha vontade. A voz
de Camille não era agressiva, tampouco autoritária; era doce e
sensual. O timbre daquela voz soava-me relaxante. Aos poucos
meus músculos liberaram a tensão que os enrijecia.
— Sinta, François… — continuou ela, circundando o

156
Herdeiro da Nevoa
´

meu corpo em uma dança lenta e rítmica que me trouxera de


volta a dança dos encapuzados em torno do círculo de fogo.
Sua voz não era mais do que um sussurro a ecoar em meus
ouvidos — Sinta o grande amor que eu guardo para você. É
um sentimento poderoso, François. Capaz de qualquer coisa,
capaz de viver para ter você , ou…
— Ou capaz de matar? — não me contive. Abri os
olhos enraivecido pelas lembranças. Arrependi-me no
mesmo instante. Precisava conquistar a confiança de Camille.
Confrontando-a, eu não a teria.
— De matar, ou de morrer. — concluiu, parando em
minha frente, encarando-me nos olhos.
— Se você me ama tanto assim, então não se negaria a
fazer-me um favor, não é?
— Favor? — estranhou ela, mas ao mesmo tempo, uma
fina faísca de esperança cintilou em seus olhos. — Que tipo de
favor?
— Estou procurando uma pessoa, Camille. Um velho
amigo há muito desaparecido. Talvez você possa descobrir
onde ele está.
— E quem é esse amigo?
— Um rapaz muito parecido comigo. Praticamente um
irmão gêmeo.
— E por que você pensa que eu poderia encontrá-lo?
Não tenho mais fontes de informação do que você, querido.
Nosso círculo de amizades é o mesmo.
— Sei que você tem os seus métodos, Camille. —
aproximei-me dela, pousando meus dedos sobre o seu rosto,
acariciando-lhe a face, na tentativa de dar-lhe falsas esperanças.
Eu tinha de fazê-la acreditar que podia conquistar-me, eu
devia isso a Adélie, e devia principalmente a François Roux.
— Mas… como… eu… — Camille disfarçou.
Compreendi que sabia exatamente a quem eu me referira.
— Encontre-o, e junto com ele, você terá meu coração.

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Raquel Pagno

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23

Camille deixou a minha casa determinada a fazer o


que eu lhe pedira. Ela nem questionou sobre o rapaz . Não
tive certeza se ela sabia que eu não era François Roux, ou se
blefara, fazendo-me acreditar que me concederia o favor.
Chegara a hora de fazer uma visita a Stephen. A atitude
de Camille deixara-me esperançoso e temeroso ao mesmo
tempo. Talvez ela fizesse o que eu queria, mas talvez ela
corresse para os braços de Stephen, seu mentor.
Segui apressado, tropeçando pelas calçadas. Meu pé
ferido doía e logo senti que o sangue quente que brotava do
machucado umedecia o sapato. A certa altura do caminho,
precisei parar e retirar o calçado numa tentativa frustrada de
conter a dor que me consumia o pé e se espalhava por toda a
perna.
Quando cheguei à pensão, antes que pudesse bater à
porta de Stephen, ouvi um assovio que me chamava nos fundos
da edificação. Adélie encontrara-me primeiro.
— O que está fazendo aqui? — cochichou.
— Vim visitar Stephen. Temo que Camille esteja com
ele.
— Não, ela não está. — isso aliviou-me profundamente.
Se ela não procurara por Stephen, era por que atenderia ao
meu pedido — Mas há outra pessoa aí com ele.

159
Raquel Pagno

— Quem?
— Não sei. Só sei que é uma mulher porque ouvi a voz.
Não é a voz de Camille.
— Um dos discípulos de Stephen?
— Provavelmente. E então, convenceu Camille a revelar
o paradeiro de François?
— Creio que ela não sabe onde ele está. Tive de prometer-
lhe meu coração para que concordasse em me ajudar.
— O quê? Você fez uma promessa a uma bruxa?
— Foi necessário. Ou era isso ou entregar-me a ela…
— Você é louco! Ela voltará para reivindicar o que
prometeu!
— Não pode obrigar-me a amá-la.
— Mas pode arrancar-lhe o coração do peito!
Literalmente!
Eu não avaliara essa possibilidade. Mas estava crente
de que Camille não o faria. Se realmente me amava, conforme
dizia, não me faria nenhum mal. Eu acreditava profundamente
que o amor era mais poderoso que qualquer feitiço ou maldição.
Entendia que se fosse o contrário, eu já estaria completamente
apaixonado por Camille e teria esquecido Chloé.
— Ela não me fará mal.
— Como pode saber?
— Ela me ama.
— Mas não irá amá-lo para sempre… — o som da
porta se abrindo arrancou-nos da conversa. Aparentemente,
a mulher já fizera o que veio fazer no quarto de Stephen e
partiria.
Encolhemo-nos em um canto escuro, por detrás da
mureta que contornava a pensão. Espichei-me com o intuito
de ver quem era a visitante misteriosa. Não consegui. E
nem precisava, pois as palavras que ouvi e a voz indiscutível
deixaram isso muito claro para mim.

160
Herdeiro da Nevoa
´

— Vá para a floresta, e não retorne até encontrar seu


medalhão! — Stephen ordenara.
— Sim, Padroeiro. Eu juro que o encontrarei. — Chloé
saiu apressada.
Precisei segurar-me para não correr até ela, dizer-lhe
que o que procurava estava em meu poder. Queria levá-la
para minha casa, devolver o que lhe era de direito e fazê-la
prometer que jamais me abandonaria de novo. Se não fosse
pelo braço de Adélie, que se prendia fortemente ao meu, acho
que o teria feito.
Stephen permaneceu a observá-la até que sumisse de
vista. Parecia ter sentido a minha presença, ter adivinhado a
minha intenção e quis se certificar de que sua bruxa não seria
seguida.
Esperei um tempo depois que Stephen fechou a porta,
para que ele tivesse certeza de que eu não encontrara Chloé
pelo caminho. Então despedi-me de Adélie e bati levemente na
madeira envelhecida.
— Olá, mon ami! Se veio interrogar-me outra vez,
adianto-lhe que não temos nada a conversar.
— Não vim interrogá-lo, Stephen. Vim desculpar-me.
— Desculpar-se?
— Sim. Eu nunca deveria ter insistido naquela história.
Afinal, é lógico que você não me entregará à polícia, não é?
Somos amigos, afinal.
— Se quisesse denunciá-lo, já o teria feito, mon ami.
— Agora eu vejo o quanto fui estúpido. Ainda bem que
Camille abriu-me os olhos.
— Quem?
— Ah, desculpe, creio que vocês ainda não se conhecem.
Camille é uma garota da faculdade. Em breve, será mais do
que isso…
— Está apaixonado, mon ami! Que boa notícia! Sempre
achei que aquela casa era grande demais só para você.

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Raquel Pagno

— É. Em breve eu a compartilharei com Camille. Por


isso vim até aqui, Stephen. Não queria começar minha vida
nova sem você, meu único amigo.
— Que bom. Pedido de desculpas aceito.
— Tem mais uma coisa.
— O que quiser, mon ami.
— Quero encontrar François Roux. Preciso certificar-
me de que não voltou para atrapalhar a minha felicidade ao
lado de Camille.
— Acho que podemos dar um jeito nisso.

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24

— Por que você contou a Stephen sobre seu encontro


com Camille? Por que lhe disse que quer encontrar François?
Agora ele irá matá-lo para impedir que você o encontre! Oh,
meu Deus! — Adélie chorava desesperada. Eu compreendia
o seu medo, mas tinha certeza de que Stephen não mataria
François.
— François não morrerá, eu lhe asseguro.
— E como você sabe? Você é um estranho, não conhece
Stephen como eu conheço. Nem imagina do que ele é capaz!
— Eu acho que tenho uma noção do que Stephen é
capaz, sim. Esqueceu-se de tudo o que vimos naquela floresta?
— Parece que você foi quem se esqueceu! Ou será que o
feitiço de Camille realmente surtiu efeito sobre você?
— Adélie, por favor, entenda! Se eu não dissesse para
Stephen que estou atrás de François, Camille o faria, e então
ele teria motivos para desconfiar de meus propósitos e acabar
com François de uma vez por todas! Você sugeriu que eu me
passasse por amigo de Stephen, não é? Pois é exatamente isso
que estou fazendo. Mas para que ele acredite que ainda somos
amigos, precisa estar ciente da minha lealdade, da minha
inocência, e acreditar que o ritual de Camille deu certo.
— Oh, eu tenho tanto medo! — Adélie aproximou-se
pronta para me abraçar. Antes que se atirasse em meus braços

163
Raquel Pagno

outra vez, eu a contive. Não queria perder a cabeça de novo.


Eu amava Chloé. Seria fiel a ela. Não importava se ela era
uma bruxa, ou um demônio, como Adélie insistia. Eu sempre
a amaria.
— Não faça isso, Adélie… por favor…
— Eu só tenho a você, François…
— Eu não sou François! — descontrolei-me,
empurrando-a para longe. Não pude avaliar o quanto era
difícil para ela estar frente a frente comigo, um sósia perfeito
de François.
— Eu sei… — as lágrimas escorriam agora
violentamente de seus olhos.
Sensibilizado com a dor de Adélie, voltei atrás e
aproximei-me, com intenção de envolvê-la em meus braços.
Ela recuou bruscamente.
— Perdoe-me, Adélie. Eu não quis magoá-la. — Adélie
apenas olhou-me, com a dor estampada nos olhos e assentiu
com um gesto. — É muito difícil ter de ser alguém que eu não
sou, ter de fingir que sou amigo de Stephen, e pior, que estou
apaixonado por Camille, quando na verdade sinto asco cada
vez que me aproximo dela.
— Mas não pode descontar suas frustrações em mim,
Fran…
— Inácio. — interrompi — Chamo-me Inácio. Desculpe
se isso faz com que você sinta-se mal.
Adélie desviou o olhar, mirando longamente o chão. Eu
precisava fazê-la entender a verdade, por mais que a magoasse.
Senti que aquela poderia ser minha última chance. Estava
tentando demonstrar autoconfiança, mas por dentro, eu temia
pelo que aconteceria comigo e com Adélie, do que Stephen e a
irmandade seriam capazes de fazer se descobrissem as minhas
verdadeiras intenções e a traição de Adélie.
— Está bem, Inácio, se é assim que você prefere, assim
será. — Ela tornara a encarar-me, de maneira fria e séria — O

164
Herdeiro da Nevoa
´

que vamos fazer, então?


— Veja isto. — retirei do bolso o medalhão que fora
de Chloé, estendendo-o à Adélie — François arrancou isto
do pescoço de Chloé naquela noite. Veja as inscrições nas
linhas que formam a estrela. Devem significar alguma coisa
importante.
— Sim, elas significam os princípios da irmandade.
Os bruxos o têm usado através dos séculos como prova de
sua fidelidade às forças da natureza e às forças das trevas.
São manipuladores dos quatro elementos. As inscrições em
latim aqua, ignis, aeris e terram significam a água, o fogo, o ar,
e a terra. O pentagrama de cabeça para baixo é um símbolo
declarado dos seguidores do demônio.
— E a quinta inscrição, o que diz?
— Deixe-me ver… — Adélie segurou o medalhão,
aproximando-o dos olhos, como se não compreendesse a
palavra escrita exatamente no braço direito do pentagrama.
— Spiritus…
— O quê?
— Spiritus. O espírito. O quinto elemento. E o
pentagrama inverso é o símbolo de Baphomet. Um demônio
metade homem, metade bode, como um fauno. As duas pontas
viradas para o céu representam os chifres. É a besta adorada
pelas bruxas.
— Isso explica a mulher-bode sobre o altar de pedra…
— Isto explica muito mais. O uso deste amuleto identifica
o bruxo perante a irmandade. Uma bruxa sem o seu amuleto
perde os seus poderes, fica banida temporariamente até que
ofereça um sacrifício digno de receber outro pentagrama. Um
sacrifício humano, às vezes de mais de uma pessoa, dependendo
da quantidade de sangue que o padroeiro lhe exigir e de quem
ele exigir.
As palavras de Adélie causaram-me calafrios. As imagens
de Stephen bebendo sangue humano se misturavam dentro da

165
Raquel Pagno

minha cabeça com a visão de François crucificado com o pulso


cortado. Na minha imaginação era o meu sangue que Stephen
desejava, era o meu sacrifício que ele exigira de Chloé.
— Adélie, você acha que Stephen pode exigir de Chloé
o meu sacrifício?
— Certamente, não. Ele não o teria trazido se não
precisasse de você. Por que o mataria?
— E quanto a você?
— Eu? — Adélie sorriu ironicamente — Eu já estou
condenada há muito tempo. Apaixonei-me por François. Por
esse pecado, nós dois fomos condenados pela irmandade.
— Você… você também é uma bruxa, Adélie? Não posso
acreditar que…
— Não! — cortou-me ela — Eu jamais cedi aos assédios
da irmandade! Jamais me deixei levar pelas investidas de
Stephen, e por isso mesmo, ele me caça! Se François não
tivesse se entregado para me salvar, eu já não estaria viva.
— Eu não compreendo. Se Stephen quer
matá-la, por que ainda não o fez? Você é tão frágil,
tão indefesa. Ele tem um exército de bruxos.
Por que ainda não a sacrificou em um dos seus rituais?
— Quando Stephen descobriu minha ligação com
François, ele o persuadiu a entregar-me. Mas François
também estava apaixonado, e traíra Chloé, seu par eterno, pela
irmandade. Apaixonando-se por mim, François amaldiçoou
Stephen e o demônio com o amor que brotara dentro de seu
coração. E enquanto esse amor estiver vivo, nem eu, nem
François poderemos ser mortos.
— Então você sabia que François estava vivo?
— Não. Só soube quando você me contou. Eu imaginava
que o amor de François por mim havia acabado há muito
tempo. François sumiu sem deixar vestígios. Talvez Stephen o
tenha feito prisioneiro durante todo esse tempo. Quando você
chegou e foi direto encontrar-se com Stephen, imaginei que

166
Herdeiro da Nevoa
´

François tivesse retornado à irmandade. Se não me amasse


mais, e se Chloé o perdoasse pela traição, ele seria aceito de
volta. Quando você afirmou ter perdido a memória, calculei
que essa era a prova de que não me amava mais e que Stephen
havia limpado a sua mente de todas as lembranças de que um
dia eu fizera parte da sua vida.
— Então ele ainda a ama?
— Eu espero que sim. Caso contrário, Stephen estará
livre para pedir o nosso sangue. E Chloé haverá de consegui-
lo.
— Ela não seria capaz…
— Você não a conhece, meu caro. Teremos que aproveitar
a oportunidade de pegá-la, sem o amuleto.
— Eu vou devolvê-lo. Não costumo ficar com o que não
me pertence…
— Não é boa hora para colocar seus princípios à prova,
Inácio! Devolva o amuleto de Chloé e estará desperdiçando
nossa única chance de acabar com Stephen e seu reinado de
atrocidades!
— Chloé não me faria mal…
— É claro que faria! Ela o mataria se Stephen lhe
pedisse! Guarde o amuleto com você. Coloque-o em algum
lugar seguro, longe do alcance de Chloé. Guarde-o como se
fosse sua vida.

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Raquel Pagno

168
25

Eu o guardei no lugar que me parecia o mais seguro


de todos: dentro do piano, no esconderijo do gato. Ninguém
o procuraria ali, ninguém jamais cogitaria essa possibilidade.
Doía-me pensar que eu trairia Chloé. Mas nas palavras
de Adélie, eu encontrara, além de desespero, esperança. Se
Stephen não podia lutar contra o amor, minha paixão por
Chloé seria o meu escudo contra ele e a irmandade. E se ela
me amava tanto quanto eu a amava, fato no qual eu acreditava,
mesmo depois de descobrir os horrores dos quais ela era capaz,
sua vida também estaria a salvo, assim como a de François e
Adélie.
Fui despertado do meu transe pelo barulho insistente de
batidas à porta. Temi a volta de Chloé, e de como eu reagiria
perante ela, se conseguiria fingir que nada havia acontecido.
Concentrei-me, respirei fundo, buscando coragem dentro do
peito. Caminhei lentamente até a porta.
— Detetive? Que surpresa!
— Olá, monsieur François, ou devo chamá-lo de Inácio
Vaz?
— Inácio…? Eu… Bem, não sei do que está falando,
detetive. — Eu fora pego de surpresa. Como ele descobrira
quem eu era de verdade? Stephen teria me entregado? Chloé,
talvez? Eu não podia imaginar…

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Raquel Pagno

— Ora, não se faça de inocente, monsieur Inácio Vaz!


O verdadeiro François Roux apareceu. Trouxe-me provas
irrefutáveis de sua identidade. Como isso aqui, por exemplo.
— O detetive atirou um embrulho em minha direção. Eu
o agarrei com ambas as mãos. Desfiz o laço que o prendia
e mal desdobrei o papel pardo, reconheci as fotografias que
François roubara do aparador. — Ele me contou tudo sobre o
seu desaparecimento, sobre o senhor e seus amigos tentarem
tomar-lhe a herança e a própria vida. Creio que esteja bem
encrencado!
— Eu e meus amigos? Mas… quem… como?
— Quer que eu lhe entregue uma lista, monsieur Vaz?
Então, vamos ver: que tal começarmos com mademoiselle
Adélie, aquela da pensão onde viveu. Está lembrado ou o
dinheiro de François Roux apagou-lhe a memória novamente?
— Isso não passa de um grande engano, detetive! Eu
posso explicar! Vamos até a delegacia e eu lhe contarei toda a
verdade!
— Não precisamos formalizar as coisas, monsieur Vaz!
Eu já sei de tudo e tenho provas de que o senhor não é François
Roux! — o detetive arrancou de minhas mãos o embrulho com
as fotografias.
— Isso é impossível!
— Não é, não! E, não se preocupe, eu cuidarei para que o
monsieur tire umas boas férias na prisão antes de ser deportado!
— o detetive saiu batendo violentamente a porta atrás de si.
Fiquei desesperado. François fugira. Entregara-me para
a polícia por acreditar que eu estava do lado de Stephen. Era
lógico. A única pessoa que sabia toda a verdade era Adélie.
Os outros continuavam a acreditar que eu era o verdadeiro
François. Meu disfarce funcionara, mas agora eu estava mais
encrencado que nunca. A verdade finalmente viera à tona,
como eu sabia que viria, mais cedo ou mais tarde.
Não havia alternativa, senão procurar Stephen outra

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Herdeiro da Nevoa
´

vez. Encarar o demônio não era uma tarefa fácil. Ao menos


não, quando ele se escondia em uma face amistosa e confiável,
como a de Stephen. Tanto que eu lhe confiara a minha vida. E
eu estava prestes a confiá-la a ele mais uma vez.
— François, está pálido. O que aconteceu?
— Ah, Stephen, você não vai acreditar! — relatei-lhe
o meu encontro com o detetive. Contei que François Roux
reaparecera, fingindo que aquela era uma grande surpresa
para mim. Por sorte, ele não tinha como perceber se soei
demasiado falso de tão nervoso que eu me encontrava.
— Não se preocupe, mon ami. Este é um problema muito
fácil de resolver!
— Mas como, Stephen? Como vou me livrar desse
detetive? E pior, de François Roux também? — eu temia
aquela resposta.
— Volte para casa. Relaxe, e deixe que eu cuide do resto
para você.
— Ah, Stephen, eu não entendo como relaxar agora
poderá ajudar-me. Não há nada que eu possa fazer… François
Roux voltou para reivindicar o lugar que é dele por direito. E
eu terei de devolver.
— Ora, François, você não confia mais no seu amigo
aqui?
— É claro que confio! Mas não consigo enxergar como
poderia solucionar esse caso.
— Mas eu sei bem, mon ami e lhe asseguro que
encontrarei uma saída. Ainda hoje. Faça o que eu lhe digo, vá
para casa e descanse. Vai se surpreender com o resultado.
— Só espero que eu goste da surpresa. — Stephen
gargalhou e acendeu uma das suas cigarrilhas, cujo odor
empestava o quarto e eu seria capaz de jurar que nunca mais
se soltaria daquelas paredes e cortinas, por mais que Adélie e
sua mãe as esfregassem.

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Raquel Pagno

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26

Segui o seu conselho. Não havia outra coisa a fazer.


Esperei até o anoitecer. Não era tarde quando Camille
visitou-me. Estava muito diferente naquela noite. Além de
especialmente bonita, trazia nos olhos um brilho cintilante,
uma espécie de magia que eu não percebera antes. Entrou na
sala do piano, sentou-se em minha poltrona predileta. Esperou
alguns minutos antes de tirar o casaco e estendê-lo a mim.
Eu permanecia alterado. O nervosismo e o medo de ser
definitivamente punido não se afastavam de mim. Eu chegara
a alimentar a raiva que sentia por Stephen durante o tempo
em que esperei por Camille. Tentei controlar-me ao máximo.
Não podia deixar transparecer a minha ira nem transferi-la à
Camille.
Quando me voltei para ela, depois de depositar o casaco
sobre o piano, trancando o gato lá dentro por tempo indefinido,
reparei na marca que trazia no ombro direito, no local que
Chloé a atingira com o punhal. Era uma mancha avermelhada
e disforme, um pedaço de pele espessa. Aproximei-me e
toquei-a. Aparentemente era insensível.
— O que houve com seu ombro, Camille?
— Oh, nada de mais. Devo ter me machucado. Nem
percebi. — ela sorriu encantadoramente.
Havia algo de Chloé em Camille naquela noite. Algo

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Raquel Pagno

além do brilho nos olhos e do adocicado perfume que exalava


de sua pele. Havia alguma coisa em seus gestos, na sua maneira
de falar e até mesmo na brancura precipitada de sua pele que
a aproximava bastante da minha bela amada. Se eu tivesse
conhecido Camille daquela forma desde o princípio, se eu a
tivesse visto com os mesmos olhos que a via agora, desde o
primeiro encontro, poderia ter- me apaixonado por ela.
Surpreendi-me pensando em Camille com desejo. Eu
não a suportava. A única relação possível que eu via entre nós
dois era a de colegas, e colegas distantes. Só a desejava agora
porque ela se parecia com Chloé. Mas esse era um desejo falso,
um desejo que apenas superficialmente me remetia de volta a
Chloé.
— Você ainda faz chá? — perguntou, interrompendo
meus pensamentos.
— Oh, é claro. Perdoe por não ter oferecido antes.
— Não se preocupe, François. — Camille levantou-
se e andou alguns passos em minha direção. Eu recuei,
instintivamente.
— Vamos, então? — disfarcei.
Seguimos até a cozinha. Camille agia naturalmente,
como se não soubesse de nada, nem conhecesse Stephen.
Esperei que ela o mencionasse. Esquentei a água e preparei o
chá em silêncio. Ela apenas falou sobre coisas banais, como o
tempo e o frio que ainda assolava Paris.
Bebemos encarando um ao outro, e aquele momento
especialmente me lembrou dos dias em que estivera doente
e fora cuidado por Chloé. A lembrança levou-me a convidar
Camille a compartilhar a refeição na biblioteca, a parte da
casa em que a lembrança de Chloé estava mais presente. Ela
estranhou, mas aceitou o convite.
Sentamo-nos em frente à janela, aproveitando a
iluminação vinda de fora. No finíssimo cordão dourado em
seu pescoço pendia a estrela contornada de rubis que refletiam

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Herdeiro da Nevoa
´

raios avermelhados e atingiam meu rosto.


— Você está linda, Camille. — mal pude acreditar que
fizera tal elogio.
— Obrigada, François. — ela levantou e se aproximou,
inclinando-se sobre a mesa de modo a encarar-me. Tocou o
meu queixo suavemente com os dedos e inclinou minha cabeça
para cima. Beijou-me os lábios lentamente.
Eu não quis corresponder ao beijo, mas quando fechei
os olhos, já não era Camille quem me beijava. Era minha doce
e amada Chloé. Envolvi-a em meus braços. Inclinei-me sobre
ela e a beijei com toda a urgência dos meus dias de solidão
e de saudade. Quando nossos lábios finalmente se afastaram,
eu já não via os olhos castanhos e traiçoeiros de Camille, mas
reconhecia neles um misterioso cinza de tempestade.
— François, como eu o amo! O que eu faria para que esta
noite não acabasse nunca? — As palavras de Camille soaram
quase como um suspiro abafado. Elas me trouxeram de volta à
realidade e eu a afastei carinhosamente. Encarei-a.
— Não sei, quem sabe venderia a sua alma? — não
consegui conter-me.
— O quê? De que você está falando? — Camille
arregalou os olhos, surpresa.
— Nada, não. Foi apenas uma brincadeira. — minha voz
soara irônica. Camille acreditou na brincadeira — Encontre
quem eu lhe pedi. Encontre o homem que se parece comigo,
então eu serei seu… para sempre.
— Eu acho que já o encontrei… — disse ela, encarando-
me.
Meu coração saltitou em um misto de medo e alegria.
Alegria por ter a oportunidade de salvar a vida de François
e medo de que Stephen descobrisse minhas verdadeiras
intenções e me punisse.
— Encontrou? Onde ele está?
— Eu não sei ainda, mas sei onde ele estará amanhã à

175
Raquel Pagno

noite.
— Onde? — fiquei tão impressionado ou inseguro, que
agarrei Camille pelos ombros e só depois de ouvir seu pequeno
gemido foi que me dei conta do que fizera.
— Há uma floresta perto de Compiègne. Vamos reunir
um grupo lá, na próxima noite. Seu sósia estará entre nós. —
disse ela, desvencilhando-se de minhas mãos — Se isso é o que
você quer, eu lhe darei.
— Não vai se arrepender. — Camille beijou-me a face
e saiu.

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27

Nem bem o dia amanhecera e eu já aguardava Adélie à


porta da pensão. Provavelmente ela ainda estaria dormindo.
Stephen também. Esse era o principal motivo pelo qual
eu viera tão cedo. Não queria que ele me visse com Adélie.
Stephen precisava acreditar que eu mantivera distância da
garota.
Não demorou até que eu ouvisse o som da chave girando
na fechadura. Era hora de servir o café. Adélie sempre
acompanhava sua mãe naquela tarefa. Espremi-me ao lado da
porta. Espichei os olhos para ver de quem seria o primeiro
rosto a aparecer. Para o meu alívio fora o de Adélie.
— Você?! — quase gritou, levando a mão ao coração,
depois postando-a sobre os lábios — O que faz aqui?
— Tenho novidades.
— Encontrou François? Camille lhe contou onde ele
está?
— Ela não sabe. — Adélie suspirou decepcionada —
Mas me disse onde ele estará esta noite.
— Não me diga que… — Não a deixei completar a frase.
Sabia que Adélie me perguntaria se Stephen pedira o sangue
de François em sacrifício, e isso eu não poderia afirmar. Temia
imensamente que sim.
— Exatamente o que você está pensando. Vamos sair

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Raquel Pagno

daqui, precisamos conversar. — Adélie agarrou o casaco


pendurado ao lado da porta. Partimos para a minha casa, onde
sabíamos que Stephen não apareceria.
— Precisamos deter Stephen. — repetia ela durante o
percurso — Temos que salvar François.
— Ele seria mesmo capaz de matar François? Ele não
era seu grande amigo? Quem sabe por isso tenha poupado sua
vida até agora. — indaguei, mesmo sabendo as respostas para
todas aquelas perguntas. Eu apenas não sabia o que fazer ou
dizer pra consolar Adélie. Eu via o sofrimento refletido em
seu olhar. Desejava ardentemente uma forma de amenizá-lo.
— Você tem razão, Stephen não matará François. Ele
nunca suja suas mãos de sangue. — Adélie pensou um instante,
encarando-me friamente — Ele ordenará a Chloé que o faça!
— Não! — precipitei-me em defesa de Chloé — Você
não a conhece. Chloé é um anjo. Jamais seria capaz de tirar a
vida de alguém.
— Ora, Inácio, você viu o que ela fez com Camille…
— Ela não a matou! — descontrolei-me.
— Não matou o seu corpo, mas condenou a sua alma
eternamente!
— Pra falar a verdade, eu acho que Camille melhorou
bastante depois disso. Estive com ela ontem à noite, e ela já
não me pareceu mais aquela garota mimada que eu conheci
na Sorbonne. Pareceu-me mais doce e mais verdadeira do que
nunca. — Adélie suspirou profundamente, aproximou-se e
tocou levemente o meu rosto.
— Oh, Inácio… Vejo que ela está conseguindo o que
queria de você…
— Não. Ela não está conseguindo nada de mim. E jamais
conseguirá. Ela apenas está diferente.
Um silêncio desolador travou-se entre nós. Arrependi-
me de ter iniciado aquela discussão com Adélie. O que
realmente importava para ambos era encontrar uma forma

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Herdeiro da Nevoa
´

de arrancar François da mira de Stephen e da irmandade. Se


não estivéssemos perfeitamente unidos, não teríamos a menor
chance.
Minha mente voltou a funcionar. Tentei me concentrar
em minha missão. Havia muito pouco tempo para encontrar
uma estratégia. Eu não podia simplesmente aparecer em meio
ao ritual e exigir de Stephen que libertasse François. Tinha que
encontrar uma maneira de me infiltrar entre os encapuzados
sem ser percebido e esperar pelo momento oportuno de salvá-
lo.
— Já sei! — exclamou Adélie de repente — Onde você
pôs o medalhão de Chloé?
— Escondi-o, como você me aconselhou.
— Pois então, apanhe-o. Ele será nossa primeira arma.
Adélie saiu e logo voltou, trazendo as capas negras sob
as quais nos esconderíamos e um pentagrama muito parecido
com o dos bruxos da irmandade. O medalhão não era idêntico
ao de Chloé, mas seria convincente, oculto pela penumbra da
noite.
Abri o piano em busca do medalhão de Chloé. Não
encontrei nem o pentagrama e nem o meu inquilino gato.
Investi contra as cordas do instrumento. O gato poderia
facilmente ter arrastado a medalha para longe. Revirei o
móvel numa última e desesperada tentativa de encontrá-lo.
Não havia mais nada ali, além das bolas de pêlo do felino.
— E agora, o que vamos fazer? — Adélie me encarou,
desconfiada.
— Eu sempre suspeitei desse gato… Na certa Chloé lhe
pediu que entregasse o medalhão…
—Ele é apenas um animal, Adélie. Os animais não
compreendem certas coisas.
— Ele não é apenas um gato, é um demônio de estimação.
— Não respondi às absurdas suspeitas de Adélie. Sua obsessão
em julgar a todos como demônios estava indo longe demais.

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Raquel Pagno

Ela pensou por um minuto — Nós temos que atrair Chloé


para cá. Se o pentagrama sumiu, é bem provável que já esteja
com ela novamente.
— E, de posse da sua medalha, perante a irmandade ela
não precisaria mais sacrificar nenhuma vida, não é?
— Infelizmente não funciona desse jeito. Mesmo que
ela o tenha encontrado, Stephen decidirá, através do sacrifício
oferecido por ela, se ainda é digna de usá-lo.
— Que droga!
— Temos de trazê-la para cá e impedi-la de oferecer o
sacrifício. Só nos resta essa chance!

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28

Eu não acreditava que fosse possível trazer Chloé para


mim. Procurara por ela durante tanto tempo sem sucesso, que
agora duvidava que uma simples palavra de Stephen pudesse
enviá-la para meus braços na mesma hora.
Mesmo assim segui os conselhos da sábia Adélie.
Encontrei Stephen naquela tarde e lhe contei que Chloé estava
viva, como se acreditasse que ele ainda não sabia disso. Disse-
lhe que havíamos nos encontrado e estava perdidamente
apaixonado por ela. Omiti que sabia de tudo, da irmandade,
dos feitiços, e que estava disposto a entregar minha alma para
ela, se assim me pedisse.
Stephen estranhou no começo. Antes eu garantira que
me apaixonara por Camille. Ele me questionou quanto a isso,
extraindo de meus lábios uma única verdade: eu fingira amar
Camille para esconder dele a existência de Chloé. E fizera isso
com medo de perdê-la para os bons modos e a elegância de
Stephen.
Acabei por convencê-lo. Quando retornei a casa, ela já
esperava por mim, no portão.
— Chloé! — envolvi-a em meus braços, e levantei-a do
chão. Aspirei profundamente seu perfume quase arrependido
por traí-la. Beijei seus lábios antes de abrir a porta. Não me
importei com o pentagrama que cintilava junto ao seu peito.

181
Raquel Pagno

Sentia que aquele beijo seria o último.


A noite se aproximava. Meu coração batia descompassado
quanto mais a lua cheia crescia no céu de Paris. Eu vestira a
capa negra e acolchoara meus sapatos na tentativa de amenizar
a dor na sola do pé ferido. A caminhada seria longa.
Adélie e eu prendemos Chloé no quarto que fora seu.
Adélie fê-la perder os sentidos com um lenço embebido numa
substância a qual neguei-me a saber o que era. Amarrei-a com
cuidado. Queria deixá-la o menos desconfortável possível.
Apoiei-lhe as costas e a cabeça nos travesseiros de plumas.
Cobri-a com uma manta branca de cashmere.
Tomei o cuidado de selar as portas da varanda. Debrucei-
me sobre ela e sutilmente retirei-lhe o cordão e a medalha do
pescoço. Chloé realmente parecia um anjo. Curvei-me sobre
seu corpo e toquei seus lábios com os meus. Girei a chave
dourada na fechadura antes de sair. Ela agora era minha
prisioneira, definitivamente.
— Pobre Chloé. Você acha mesmo que isso é necessário?
— É imprescindível!
Não discuti. Chloé ficaria bem.
Adélie ajudou-me a amarrar o cordão no pescoço.
Partimos rumo à floresta, onde nos escondemos no meio
da mata à espera dos discípulos de Stephen. Assim, nos
infiltraríamos sem chamar a atenção do Padroeiro.
— E agora?
— Vamos esperar. Eles virão logo.
— Mas, e se eles desconfiarem de alguma coisa? E se
resolverem vistoriar as redondezas antes de começar?
— Não, isso não vai acontecer. Eles sempre entram
e saem pelas trilhas dos caçadores. Jamais abrem caminhos
novos entre a mata.
Não demorou muito até que ouvíssemos vozes ao longe.
Vinham rindo alto e entoando uma espécie de canto pelo
caminho. Pareciam preparar-se para uma festa. Conforme

182
Herdeiro da Nevoa
´

Adélie previra, todos seguiram pelo mesmo caminho de


sempre.
— Vamos! — Adélie não esperou por uma resposta
minha. Engatinhou até a beira do carreiro e perdeu-se na
escuridão. Tentei segui-la, mas a luz de uma tocha que acabara
de ser acesa, ofuscara-me a visão e eu a perdi em meio à
multidão de encapuzados.
Eu estava apavorado. Aquele lugar me trouxera de volta
as atrocidades feitas com Camille e tornara-se para mim,
símbolo da traição de Chloé e de Stephen. Precisei controlar-
me para não perder o juízo e investir contra o homem que
segurava a tocha e que começara a acender o horrendo círculo
de fogo.
Puxei o capuz de forma a encobrir o máximo possível
o meu rosto. Tentei encontrar Adélie pela ponta do sapato,
a única parte visível de cada pessoa presente. Não consegui.
Ela usara um modelo simples, de couro preto, com a ponta
idêntica a de pelo menos dez que eu encontrara por ali.
O círculo fora totalmente aceso, o altar começara a ser
montado. Eu não sabia o que fazer. Refugiei-me ao lado da
grande pedra e fingi estar ordenando e alinhando os objetos
postados pelos apóstolos de Stephen. Toquei na mulher com
cabeça de bode, nas taças de prata, distintamente postas em
forma de cruz.
Olhei para o livro de capa negra no centro do altar.
Era o mesmo livro que eu vira em minha biblioteca e que me
fascinara. Eu ainda o senti me chamando quando fixei meus
olhos nele por um segundo.
Quando estendi o braço em direção ao livro, fui impedido
por uma mão que me segurou fortemente o pulso. Levantei
um pouco os olhos, o mínimo possível, e reconheci o rosto de
Adélie. Ela soltou-me rapidamente, fazendo um sinal negativo
com a cabeça. Ninguém percebeu nosso contato. Compreendi
que o livro negro não poderia ser tocado.

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Raquel Pagno

Todos os objetos estavam dispostos. A celebração seria


iniciada. Eu sabia o que deveria fazer. Segui para a borda do
círculo e postei-me à beira do fogo, como todos os outros.
Esperei que a frenética dança começasse, mas, ao invés disso,
todos permaneceram nos seus lugares, em silêncio, com as
cabeças abaixadas.
Achei que aquilo não era um bom sinal. O que aconteceria
naquela noite seria ainda pior do que o que acontecera na
iniciação de Camille. Quem sabe os encapuzados estivessem
preparando-se para algo muito pior, muito mais cruel e
sanguinolento? Quem sabe estivessem tão apavorados quanto
eu? Só nos restava esperar e rezar para que o plano desse certo.

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29

O silêncio perdurou durante alguns minutos. Logo


ouvimos gritos vindos de algum lugar no meio da floresta,
não muito distante. Era um homem que clamava por socorro.
Eu nem precisava vê-lo para deduzir que era François.
Adélie começara a se agitar. Os gritos de François
eram perturbadores para mim, e para Adélie, desesperadores.
Desejei poder consolá-la ou apenas acalmar seu coração ferido,
mas ao menor gesto seríamos descobertos.
De repente, percebi algo estranho na voz de François.
Ouvi seus gritos se misturando aos apelos de outra pessoa.
Havia um timbre um tanto mais estridente, um tanto mais
agudo. Concentrei-me tentando reconhecer a voz que me
soava familiar.
Levantei um pouco a cabeça, de forma que meus olhos
pousaram sobre a figura esbelta e elegante de Stephen, que
caminhava lentamente na direção do círculo de fogo. Não sei
de onde ele saiu. Tinha certeza de que não acompanhara o
cortejo de encapuzados pelas estradas de Paris. Eu o teria
reconhecido. Seria impossível não perceber sua presença.
— Caros irmãos! — as palavras saiam lentamente da
boca de Stephen. Ele caminhava em direção ao altar de pedra e
gesticulava com as mãos, como um padre prestes a iniciar uma
missa — Estamos reunidos aqui, hoje, para fazer justiça! Como

185
Raquel Pagno

todos viram, o poderoso medalhão de uma das nossas irmãs


foi roubado! O pentagrama, símbolo de nossa incorruptível
irmandade, foi-lhe arrancado do pescoço!
Alguns suspiraram, outros mantiveram-se em silêncio.
Adélie não reagiu. Estava tão perturbada, que eu podia ouvir
as batidas do seu coração aflito. Preparei-me para contê-la,
imaginando o quanto a revelação que Stephen faria sobre o
destino de François a desolaria.
— Como todos sabem, o traidor será punido. Nossa
irmã será redimida. Mas para isso, sangue será derramado!
Somente o sangue purificará esta irmandade dos ardis dos
traidores! Só o sangue é capaz de devolver as almas que foram
oferecidas de bom grado, e que depois foram arrancadas de
volta, contrariando as leis da irmandade! — Stephen arrancou
o capuz da cabeça e, correndo os olhos sobre cada um dos seus
discípulos, prosseguiu — E que o dia de hoje sirva de lição
para todos vocês!
Stephen afastou-se, estendendo as duas mãos sobre
o livro negro e abrindo-o em uma passagem aleatória. Em
seguida acariciou o corpo da estátua da mulher-bode e proferiu
algumas palavras no habitual idioma desconhecido. Suspeitei
que fosse latim.
— Venham, meus fiéis discípulos! — gritou, estendendo
os braços na direção da mata escura — Tragam a mim vossas
oferendas! Tragam o sangue o qual tanto estimo! Tragam
para mim o sacrifício da redenção!
Dois homens grandes e fortes apareceram por entre
a escuridão. Traziam consigo um homem, cujo rosto jazia
escondido sob um saco de tecido escuro. Suas mãos inertes
estavam amarradas nas costas. A cabeça pendia para frente,
aparentemente inconsciente. Os homens o arrastaram pelos
braços até o círculo de fogo. Jogaram-no lá dentro.
Tive medo da reação de Adélie. Estiquei meus dedos
discretamente e toquei sua mão trêmula. Ela mirou-me de

186
Herdeiro da Nevoa
´

soslaio. As lágrimas prateadas começavam a brilhar em seus


olhos castanhos. Ela desviou o olhar, concentrando-se em
Stephen, que tornava a se aproximar de sua vítima.
— Príncipe das Trevas, Senhor do fogo! Mande-me as
chamas do seu inferno! Traga para mim as chamas! Dê-me o
poder que possui para destruir meus inimigos! — Perante os
gritos descontrolados de Stephen, a vítima pareceu mexer-se.
Fiquei animado com a possibilidade de o homem ainda estar
vivo.
— Ajoelhe-se! — ordenou, e como se uma força
invisível levantasse o corpo do homem, este lhe obedeceu —
Olhem para ele, irmãos! Antes tão arrogante, crente de que
poderia destruir os propósitos desta irmandade. Agora tão
insignificante quanto um rato que habita as latrinas! Este
homem, antes símbolo de autoridade e de poder, agora não
passa de um simples pedaço de carne e sangue. — Stephen
retirou um punhal de dentro de uma das mangas. Adélie
estremeceu, mas não saiu do lugar. Stephen tocou um dos
ombros do homem com o seu punhal prateado.
— Eu o ofereço como prova de lealdade a esta irmandade!
Eu dedico agora o seu sangue e sua vida, pelo propósito maior
de manter unido o que o poder das trevas uniu há muitos
séculos! — Stephen levantou o braço violentamente. Antes
que pudesse tornar a baixá-lo, Adélie não mais resistiu e
saltou ao centro do círculo, agarrando a mão de Stephen.
— Não! — gritou apenas.
— Adélie? Como você veio parar aqui? — Stephen
guardou o punhal e tocou o falso pentagrama no pescoço de
Adélie — Eu deveria ter adivinhado que você tentaria fazer
isso algum dia. Pena que chegou na hora errada. Agora serei
obrigado a sacrificá-la também…
— Pare com isso, Stephen!
— O quê? Você também, François?
— Você sabe muito bem que eu não sou François. —

187
Raquel Pagno

cerrei os punhos com ódio. Minha vontade era de pular na


garganta de Stephen e acabar com toda aquela loucura de uma
vez.
— Sim, eu sei. Mas, e você? Sabe quem verdadeiramente
você é?
— Sou um pobre coitado que pensou ser seu amigo. —
Stephen sorriu. — Apenas mais um inocente que se deixou
levar pelos seus encantos, como tantos outros antes de mim.
— Não, você não é apenas isso! Você é muito mais! Você
é herdeiro da fortuna dos Roux e dos Champoudry!
— Não, Stephen! Isso tudo é apenas uma grande mentira
de sua cabeça! Eu sou, sempre fui e sempre serei apenas Inácio
Vaz!
— Está bem, Inácio Vaz! — Stephen aproximou-se
de mim, lentamente, quase rastejando como uma serpente
maliciosa. — Mas, olhe para você… Está elegante, belo.
Um legítimo milionário francês. Estará mesmo disposto a
abandonar tudo agora?
— Eu nunca deveria ter-me deixado levar…
— Pense bem, mon ami. Lembre-se de tudo o que sofreu
por ser pobre. Lembre-se dos meninos ricos caçoando de você
no colégio, na faculdade… Lembra-se de quando conheceu
Chloé? Alguém como você jamais teria chance com alguém
como ela. Eu posso lhe assegurar com toda certeza deste
mundo! Pense em sua infância cheia de fome e de miséria.
Desejará destino igual aos seus futuros filhos? Eu creio que
não.
As palavras de Stephen ecoaram em minha mente
como uma maldição. Eu realmente não desejava a miséria
da qual fugira durante toda a minha vida, e embora tivesse
consciência da gravidade de meus atos, tinha muito medo de
voltar ao passado e ser novamente engolido pela pobreza que
assombrara minha infância.
Mantive-me em silêncio. Stephen era muito convincente

188
Herdeiro da Nevoa
´

quando desejava. Olhei para Adélie, banhada em lágrimas,


sussurrando o meu nome em desespero. Não soube se
teria coragem de traí-la. Era muito difícil não acreditar na
sinceridade de Stephen. E se ele tivesse razão? Eu mudara
minha vida inteira através de Stephen, seguindo seus
conselhos, imitando suas vestes e os seus atos. Por que seria
errado imitá-lo agora mais uma vez?
— Você tem razão, Stephen.
— Inácio, não! — Adélie suplicava.
— Eu esperei muito para chegar onde eu estou hoje.
E jamais o teria conseguido sem a sua ajuda. Não posso
desperdiçar esta chance de ser feliz. Devo tudo isso a você e à
sua irmandade.
— Muito bem, mon ami. Vejo que não perdeu
completamente a razão.
— Não, eu nunca a perdi. Diga-me o que fazer, Padroeiro
e eu o farei em sua honra e em seu louvor. — dobrei os joelhos,
como em uma antiga reverência.
— Muito bem, mon ami. É assim que tem de ser.
Stephen voltou-se ao altar. Revirou algumas páginas do
livro negro e depois proferiu palavras incompreensíveis, como
uma prece.
— Venha até aqui! — ordenou-me. Eu obedeci sem
questionar. — Segure este punhal. Se deseja mesmo fazer
parte desta irmandade, terá de provar sua lealdade.
Segurei a arma, quase apavorado. Sabia exatamente o
que aconteceria a seguir. Adélie tentou impedir-me de segurar
o punhal. Bastou um mínimo movimento seu e os encapuzados
a seguraram firmemente. Apertei o punhal em minha mão,
quase ferindo a palma esbranquiçada.
— Mate-o! — Stephen fora breve e incisivo. Era simples
assim. Bastava que François fosse morto e tudo estaria
resolvido, como deveria ter estado desde o princípio.
— Mate-o! — repetiam os seus discípulos.

189
Raquel Pagno

Levantei o braço concentrando todas as minhas forças


na mão direita, a que segurava o punhal. Fechei meus olhos,
por um instante. Ao reabri-los, descarreguei todas as minhas
dúvidas no golpe certeiro e preciso.

190
30

Adélie gritou.
Nem eu mesmo conseguia acreditar no que acabara
de fazer. Sabia que minha escolha fora a pior possível,
considerando a situação atual. Eu colocara minha vida em
risco. E também a de Adélie.
Eu atingi exatamente o ponto no qual mirara, desatando
a corda que prendia o rosto do homem ao tecido que lhe
encobria a face. Estava certo de que Stephen não permitiria
que saíssemos dali vivos. Esse pensamento atingiu-me
subitamente e não me dei conta de que o homem que eu
acabara de libertar, não era François Roux.
— Inácio! — o grito de Adélie me despertou. Eu voltei-
me para o homem que continuava ajoelhado diante de nós.
Stephen destilava suas palavras envenenadas amargamente
sobre minha consciência pesada. Ele sorria com ironia e
aplaudia satisfeito porque caíramos em desgraça.
— E então, surpreso mon ami? — ele estendeu as duas
mãos em direção ao homem que se mantinha cabisbaixo.
Aproximei-me. Stephen não tentou me impedir,
tampouco deixou que seus discípulos o fizessem. O homem
levantou a cabeça. Mirou-me assustado e grato. Era o detetive.
O homem que descobrira toda a verdade sobre mim e sobre
François Roux, e que agora também sabia exatamente quem

191
Raquel Pagno

ou o que era Stephen.


Outra vez um manto de pesar e de culpa recaiu sobre
meus ombros. Eu pedira a Stephen para livrar-se daquele
homem inocente e era exatamente isso que ele estava fazendo.
Por minha culpa e de mais ninguém.
— Solte-o, Stephen! Ele não tem nada a ver com isso!
— Mas como, não? Não foi você mesmo quem pediu
para que eu o tirasse do seu caminho? E eu o farei!
— Não! Você não pode matá-lo! Não foi isso que eu lhe
pedi!
— Mas é claro que pediu! E, se eu não posso matá-lo,
faça-o você mesmo! — novamente Stephen estendeu o punhal
em minha direção.
— Eu não sou um assassino! Não sou um demônio, como
você!
— Não mesmo? Pense bem, mon ami… Lembre-se da
inveja que você sentiu de mim desde a primeira vez em que me
viu. De como você se sentia amargurado por não possuir minha
beleza ou inteligência. Lembra-se daquela noite no bordel?
Ah, mas é claro que você se lembra. Aquilo foi inesquecível.
Como você preferiu tremer de frio a não se sentir inferior a
mim. Mas isso não acabou por aí, não é? Quando chegou a
Paris, qual foi a primeira coisa que fez? Apaixonar-se por uma
bruxa, talvez? Um demônio tão, ou mais, perigoso do que o
próprio Lúcifer? — o sarcasmo na voz de Stephen era quase
insuportável. Ele referia-se à Chloé como se ela nada fosse
além de um ser maligno como ele próprio. Eu não podia crer
em tais acusações.
— E depois? Apossou-se de uma fortuna incalculável
que não lhe pertencia. Seduziu esta menina inocente que o
acompanha agora. Condenou este homem à morte pedindo-
me que o tirasse de seu caminho para sempre. Condenou o
próprio François! Não bastasse o que já havia roubado,
apossou-se do medalhão de Chloé, pondo-a em uma situação

192
Herdeiro da Nevoa
´

delicada perante esta irmandade. E o exibe agora diante de


todos, diante dos olhos desta mesma irmandade! A prova
concreta de sua completa insanidade! E pior ainda: não foi
digno nem mesmo para contar a verdade ao seu amado pai,
sequer enviou-lhe um único tostão de todo este dinheiro! Você
se esqueceu de onde veio, mon ami. E se isso não é ser um
demônio, sinceramente eu não sei o que é! — As palavras de
Stephen soavam-me exageradamente duras, entretanto, não
havia nenhuma mentira nelas. Havia para mim a possibilidade
da redenção? Eu não sabia, mas temia que não.
Olhei para o chão, sentindo-me envergonhado por tudo
o que fizera. Orei secretamente a Deus para que me desse
forças. Eu precisava lutar contra o demônio que era Stephen
e contra o demônio que nascera e que crescia dentro de mim.
Eu tinha que, de alguma forma, desfazer todo o mal que fizera,
ou pelo menos, minimizá-lo o máximo possível.
— Stephen, por favor, solte este homem. Ele é inocente.
Não pode ser punido apenas por ter executado com maestria
o seu trabalho. Solte-o.
— Infelizmente, isso não será possível.
— Stephen, eu lhe imploro!
— Uma vez requisitado o sangue de uma pessoa, não
haverá retorno! É assim que as coisas funcionam há séculos!
E assim será! — Stephen virou-se, pondo-se diante do altar.
Adélie quis correr até ele, que iniciara suas orações satânicas.
Imediatamente foi impedida.
Eu fiquei parado, imaginando alguma solução. Meus
pensamentos estavam turvos. Tudo aquilo parecia um
pesadelo. Tentei concentrar-me. Não conseguia organizar
minha mente. Tinha de haver uma solução.
Mantive os olhos fixos no detetive. Suas mãos
continuavam amarradas às costas. Ele parecia estar fraco
demais para fugir, ainda que eu pudesse soltar-lhe as amarras.
Seu rosto exibia hematomas e feridas. Eles o haviam surrado

193
Raquel Pagno

quase até a morte. Ele não encarara Stephen em momento


algum. Olhava para mim, em vez disso. Seu olhar de agonia
fazia com que me sentisse ainda pior. Seus olhos me culpavam
e imploravam-me por uma ajuda que eu certamente não
poderia dar.
— E se eu lhe propuser uma troca? — Stephen virou-se
de imediato.
— Uma troca? Mas, o que você poderia ter que nos
interessasse?
— A sua bruxa: Chloé Champoudry! — Stephen
gargalhou.
— Chloé é agora minha prisioneira. Eu a devolverei se
libertar este homem! E François Roux também!
— Não acredito que escutei tal disparate! — ele
continuou gargalhando, seguido pelos discípulos — Você
prendeu Chloé? Não é possível!
— É possível, e é verdade! E eu estou disposto a matá-la,
caso você ou seus amigos façam mal a qualquer um dos dois!
— É mesmo? Nossa, fiquei até arrepiado agora! —
Stephen levou a mão ao estômago, como se doesse de tanto
rir — Acho que terei de soltá-los, então. Não vejo alternativa
para conter a sua fúria, mon ami. Será que Chloé não desejaria
soltá-los, pessoalmente?
— Eu não estou brincando, Stephen! Solte-os, ou eu a
matarei!
— Eu não estou exatamente preocupado com isso, mon
ami.
Stephen aproximou-se de Adélie e segurou uma mecha
de seus cabelos. Ela se debateu, tentando atingir Stephen. Foi
novamente contida.
— Parece que teremos sangue em dobro! — disse,
deliciando-se com o cheiro dos cabelos de Adélie.
— Nosso pai certamente ficará satisfeito! — Camille, ou
Lumia, respondera.

194
Herdeiro da Nevoa
´

Stephen soltou-a. Postou-se à beira do seu altar maligno,


pousando as duas mãos nas páginas abertas do livro negro.
Abaixou a cabeça e começou a sussurrar palavras retiradas
daquelas páginas sombrias. Quanto mais Stephen lia, mais
a sua voz entoava como um cântico, rítmico e envolvente,
que se tornava gradativamente mais enérgico, incitando os
encapuzados.
Num instante, todos começaram a murmurar. Os sons de
suas vozes misturavam-se em minha cabeça, como uma música
do inferno, que se mesclava malignamente com as preces de
Stephen. Tapei os ouvidos tentando manter a sanidade. As
vozes soavam cada vez mais intensas e logo tornaram-se
gritos, insultos dirigidos a mim e ao detetive.
Alguns se aproximaram do pobre homem indefeso.
Começaram a espancá-lo. Tentei protegê-lo postando-me
entre ele e a multidão enfurecida. Minha tentativa fora inútil
diante do ódio que habitava aqueles corações.
Fui também atingido por alguns golpes. Socos e
pontapés, ainda que o cuidado que os encapuzados tinham em
não me atingir, fosse evidente. O homem caiu e eu debrucei
meu corpo sobre o dele, finalmente contendo o ataque.
Apertei os olhos, sentindo as pancadas diminuírem cada
vez mais, até cessarem completamente. Orei em pensamento
agradecendo por aquele homem ainda estar vivo. Ouvi os
passos de Stephen se aproximando. Ouvi seus aplausos
solitários e também o som da sua risada irônica e sua voz
envenenada.
Sabia que ele falava comigo, mas não entendia nenhuma
palavra do que dizia. Simplesmente mantive meus olhos
fechados e minha cabeça abaixada sobre o peito do detetive
moribundo, enquanto escondia-lhe o rosto ferido e a cabeça
com as minhas mãos ensanguentadas.
Quanto mais eu apertava minhas pálpebras, mais forte
as orações surgiam em meus pensamentos, como se naquele

195
Raquel Pagno

momento eu reencontrasse a fé que há tanto tempo perdera.


E quanto mais essas preces surgiam em mim, mais forte eu
fechava os olhos até finalmente ser consumido pelas dores que
assolavam, não só o meu corpo, mas principalmente o meu
espírito impuro.
— Saia daí, mon ami! Vamos, você está ridículo! Não pode
interferir no destino deste homem! — Eu não respondi. Meu
silêncio fazia aumentar a ira de Stephen, tanto que ele chegou
a aproximar-se e atingir-me com alguns chutes e empurrões.
— Saia daí, Inácio! Ou não vamos poupar sua vida!
— mantive-me imóvel. Stephen bufou de ódio, e finalmente
desistiu, dando-me as costas — Então, se é assim que você
deseja, que assim seja!

196
31

Não abri meus olhos para ver o que ele fez em seguida.
Sabia que se afastara. Ouvi que reiniciara suas orações
demoníacas. Preparei-me para toda a dor que pudesse suportar.
Creio que me preparei até mesmo para os golpes do punhal de
Stephen, para receber a morte em defesa do detetive, se fosse
necessário.
Mas o tempo passou e eu não senti dor alguma. As vozes
tornaram-se mais baixas e finalmente se foram. A floresta
inteira pareceu aquietar-se. Sequer os insetos noturnos
produziam qualquer ruído então. Apenas o crepitar do fogo
que ardia em torno do círculo era audível.
Temi sair de onde estava. Não podia simplesmente
retirar-me e deixar o detetive exposto e desprotegido. Se o som
das vozes dos encapuzados e as orações diabólicas de Stephen
me apavoravam, aquele silêncio aparentemente apaziguador
assustava-me ainda mais.
Abri os olhos e levantei a cabeça alguns centímetros.
Todos os encapuzados estavam imóveis, incluindo Adélie.
Pareciam hipnotizados. Mantinham o olhar fixo no altar de
pedra.
Virei-me um pouco. Observei Stephen, ainda de frente
para o seu livro negro. Sua cabeça permanecia curvada para
baixo, de forma que os seus olhos não eram visíveis. Ele

197
Raquel Pagno

meditava com tamanho afinco que eu os imaginei fechados. Eu


precisava aproveitar aquela oportunidade. Poderia ser a minha
única chance de deter Stephen de uma vez por todas.
Estendi minhas pernas bem devagar, atento à reação dos
encapuzados. Nenhum deles pareceu perceber minha tentativa
de levantar-me. Fixei minha atenção em Stephen. Ele não
desviou os olhos do livro e continuou a sussurrar. Mesmo
quando cheguei bem perto do altar, ninguém ousou sequer
desviar o olhar.
Havia um elemento novo no altar de pedra, ao qual eu
não me ativera. Talvez não estivesse ali momentos antes. Uma
fina luminosidade vermelha e crescente parecia sair do livro
aberto. O punhal de Stephen estava depositado entre as duas
páginas e cintilava, banhando de prata a estátua da mulher-
bode.
A visão da mulher com cabeça de animal era das mais
terríveis. No único segundo em que meus olhos encontraram
os da aberração, eu a vi se mover, pestanejando como se tivesse
adquirido vida. Desviei o olhar. Quando a mirei novamente,
a única coisa que vi foi o ídolo de madeira com seus olhos
pintados de azul. Estava imóvel como sempre estivera.
Eu estava perdendo a sanidade. Talvez estivesse
cedendo aos feitiços dos bruxos que me rodeavam. Por mais
que estivessem silenciosos, lançavam-me as mais terríveis
maldições.
Mais um pequeno passo e eu estava bem atrás de Stephen.
Cruzei os braços sobre o estômago e costelas, temendo ser
apunhalado de surpresa. Stephen parecia não me perceber.
Não se importava com a minha presença.
Estiquei-me para ver melhor o livro e tentar compreender
que tipo de coisa era aquela tão poderosa a ponto de frear
o padroeiro daquela irmandade e todos os outros bruxos. Só
então percebi que uma luz nascia nas páginas amareladas,
cujas letras ricamente ornamentadas eram gravadas a fogo.

198
Herdeiro da Nevoa
´

Aquilo era tão estarrecedor quanto era belo. Stephen


podia facilmente ser confundido com um santo naquele
momento em que uma luz tão límpida iluminava-lhe o corpo e
a noite, tornando-a mais clara do que o próprio fogo que ardia
em torno daquele altar.
Precisei esforçar-me para desviar os olhos da tal luz. A
claridade seduzia-me e parecia prender-me em seu encanto
maligno. Eu entendi que não fora Stephen quem hipnotizara
os encapuzados, mas sim a luz rubra e vibrante que saía do
livro.
Afastei-me alguns passos. Nenhum deles expressou
reação alguma. Abaixei-me e enrosquei o braço do detetive
em volta do meu pescoço, erguendo-o em meus braços. Talvez
aquela fosse a melhor chance de fugir. Talvez fosse a única
chance que teríamos. Mantive-me atento. Caminhei para trás
de forma a não dar as costas a Stephen em nenhum momento.
Quando atravessei a borda do círculo de fogo, senti
meu pé ferido em chamas, como se o fogo maldito o tivesse
tocado, apesar dos meus espessos sapatos de couro forrados.
A mesma sensação atingiu meu outro pé e logo em seguida o
meu corpo inteiro. Pareceu-me que aquilo era parte do feitiço.
Algo pairava do lado de fora do círculo e atingiria qualquer
um que ousasse sair de dentro dele.
Ouvi um gemido bem perto. O detetive parecia
sofrer com dores semelhantes às minhas. Quanto mais nos
distanciávamos do altar, mais o calor e a dor tornavam-se
insuportáveis. Quando alcancei a beira da mata, não pude mais
resistir. Verguei meu corpo largando-o ao chão.
O homem urrou, mas logo seus músculos relaxaram e
a expressão de seus olhos abrandou-se docemente. Não podia
enxergar mais nada além do verde das árvores e dos galhos
que se estendiam sobre nossas cabeças. Seus olhos se fecharam.
Aproximei-me para ver se estava morto. Seu peito ainda
dançava em um vai e vem muito lento e quase imperceptível.

199
Raquel Pagno

Não me envergonho ao admitir que retornei chorando.


Eu enfrentei a dor e o calor que consumiam o mundo além do
círculo de fogo. Aceitei-os como punição pelo meu ato egoísta.
A cada passo que eu dava, a cada centímetro que me levava
para mais e mais perto do altar e de Stephen, quanto mais
o calor me atingia, mais eu me sentia purificado. À beira do
fogo, onde a dor era grande demais para que meu corpo a
suportasse, deixei-me cair sobre a relva, quase desfalecido.
Mirei o céu e as poucas estrelas que o habitavam. Não
havia mais do que duas ou três delas. Procurei a lua que tanto
me inspirara. Não a encontrei em nenhuma direção. Em mim,
já não havia nenhum pedaço de pele que não ardesse. Sentia-
me caído dentro de um braseiro. A dor me fazia pensar se
realmente existia um Deus lá em cima, alguém para quem
eu pudesse realmente pedir ajuda. Alguém que se importasse
comigo e que amenizasse meu sofrimento.
Fechei meus olhos e extraí de meu coração apavorado
as orações espontâneas, que brotaram de dentro de mim. O
que saiu não foi exatamente uma reza. Soou mais como uma
conversa. Eu pedia ajuda com todo o meu coração e com toda
a minha alma. E acreditava verdadeiramente que a ajuda viria.
Nessa altura, a dor era lancinante. Temi estar delirando
quando abri uma fresta de minhas pálpebras e vi uma estrela
cadente. Ela emanava não só o brilho prateado das outras
estrelas, mas também um arco-íris multicolorido. Concentrei-
me naquela imensidão de cores e de formas que o rastro da
estrela desenhava pelo céu.
Imediatamente o ardor em minha pele desapareceu. A
dor sumiu com a mesma urgência inexplicável com que me
atingira. Os murmúrios dos encapuzados haviam recomeçado.
Stephen mantinha-se concentrado no livro. Agora, suas
palavras não eram sussurros, eram gritos demoníacos. Sua
própria voz se transfigurara em um som muito mais agudo e
penetrante.

200
Herdeiro da Nevoa
´

Levantei-me. Sentia-me agora forte e recarregado de


energias. Tornei à beira do altar. Stephen mantinha-se imóvel
na posição inicial, o que o deixara totalmente vulnerável ao
meu ataque. Se havia uma oportunidade de acabar com ele,
teria de ser aquela. Não existiria outro momento tão propício.

201
Raquel Pagno

202
32

Deslizei meus dedos lentamente sobre o livro, com o


cuidado de não tocá-lo em nenhum momento. Os olhos de
Stephen estavam abertos, mas ele parecia não ver nada além
das letras naquelas páginas soturnas. Agarrei-me ao punhal
de prata e preparei-me para atingi-lo diretamente no coração.
Levantei a lâmina acima da cabeça. Apertei-a entre meus
dedos trêmulos. Ninguém se moveu, nem mesmo Stephen.
Não pude evitar um grito. Fechei os olhos e preparei-me para
golpeá-lo.
Meu coração doeu ao imaginar o sangue de Stephen
manchando-me as mãos. Eu jamais cogitara a possibilidade de
tirar a vida de alguém. Ainda mais alguém tão próximo a mim
como ele fora desde minha chegada a Paris. Ainda que aquilo
fosse necessário, ainda que a morte daquele homem servisse
para evitar tantas outras mortes, eu jamais poderia fazê-lo. Eu
não era um assassino, como eles. Eu jamais poderia equiparar-
me a Stephen.
Fraquejei. Deixei que o punhal caísse de minhas mãos,
os dedos agora flácidos. Senti-me derrotado. Um fraco.
Incapaz de fazer o que era preciso. A partir de então eu seria
responsável, não apenas pela vida do detetive, mas também
por todas as outras vidas que Stephen viesse a tirar. Eu havia
tido a chance. Não a aproveitara.

203
Raquel Pagno

A luz vermelha pareceu cintilar com mais força. Caí de


joelhos diante do altar. Stephen agora esboçava um sorriso
sinistro e me encarava. Detive-me, admirando sua frieza.
Desejei ter em mim uma pequena fração do sangue frio de
Stephen. Seus olhos faiscavam maleficamente. Aquele não era
o verdadeiro Stephen. Havia uma criatura maligna incrustada
em seu corpo. Algo que se mostrava através dos seus olhos
chamejantes e seu sorriso espectral.
Ele cessara suas orações. Seu guia já lhe concedera o que
queria: ele estava vivo, e eu, derrotado.
A luz ofuscou-me os olhos, mas isso serviu para que uma
nova luz surgisse dentro de mim. Ainda havia uma esperança.
— Stephen, por favor, leve a mim no lugar de François.
Receba o meu sangue e não o dele. Devolva-lhe o que lhe é de
direito. Eu tenho certeza de que ele não se negará a dar-lhe o
que quiser se fizer isso.
Stephen gargalhou, saindo definitivamente do transe,
assim como os outros.
— Oh, mon ami! Você acha mesmo que eu poderia, ainda
que quisesse? — mais uma gargalhada — Você é tão inocente.
Chega a doer tamanha inocência.
Stephen andou alguns passos parando diante de Adélie.
Tocou seus cabelos com uma das mãos. Ela estreitou os olhos,
e esboçou um pequeno sorriso.
— Adélie, por favor, acorde! — gritei — Adélie, por
favor…
— Ela não está enfeitiçada, mon ami. Ela não passa de
uma traidora, e o trouxe para cá por um único motivo: você
é o presente dela para François. Você viria se não fosse por
ela? Viria se ela não tivesse implorado tão desesperadamente
para que salvasse o seu amiguinho François? Não, você jamais
retornaria a este lugar, depois do que viu, não é mesmo?
Porque você seria covarde demais para isso. Você é o maior
covarde que conheci, e eu posso garantir que houve muitos

204
Herdeiro da Nevoa
´

antes de você.
— Stephen, eu não faço ideia do que você está falando.
Não me importo que tenha enfeitiçado Adélie, nem que siga
em paz com sua crença. Eu estou aqui para levar o detetive
para casa, em segurança. Estou aqui para levar François Roux
e devolver tudo o que é dele. Não me importo com o que você
fará daqui para frente. Eu só quero resolver isso e ir para casa.
Em paz.
— Oh, que nobre da sua parte. Pena que seja tarde
demais para voltar atrás…
— Não pode ser tarde demais! François ainda está
vivo! E eu estou vivo, e ofereço o meu sangue perante esta
irmandade em troca do sangue de François Roux!
— Não! François será sacrificado! Seu sangue será
derramado em honra desta irmandade que ele mesmo criou!
Essa é a prova que eu preciso dar a meu mestre e senhor! Essa
é a prova que me é exigida pelo Príncipe das Trevas! Depois
disso, mon ami, não haverá mais François, nem Adélie, e nem
ninguém que possa atrapalhar os meus planos! Depois disso
só haverá a minha glória e ascensão! — Stephen curvou-se,
como se reverenciasse o altar e depois a escuridão, ao longe.
Olhou-me e sorriu — E se você for ao menos um pouquinho
esperto, mon ami, sabe que precisa se juntar a mim, se quiser
sobreviver!
Uma figura surgira nas trevas. Eu via perfeitamente
a silhueta de alguém assistindo a tudo de longe. Apertei os
olhos, tentando reconhecer a pessoa. Não precisei esforçar-
me, pois a silhueta movia-se na escuridão, escoltada por duas
outras pessoas, e eu notei que vinha em direção ao altar. Alguns
passos depois, eu soube exatamente de quem se tratava. O
arrastar da perna direita não me deixara dúvidas.
— François, é você? — Perguntei inutilmente, pois a
essa altura a luz já iluminava seu rosto suficientemente bem
para que eu o reconhecesse.

205
Raquel Pagno

— O que acha, mon ami?


— Não pode ser… eu ouvi os seus gritos… eu… —
Calei-me.
François foi levado diante de Stephen enquanto este
sorria ironicamente. Suas mãos estavam presas atrás do corpo,
como se também estivesse amarrado. Ele seguia cabisbaixo.
Stephen tocara no livro, e quando sentiu as páginas em suas
mãos, suspirou profundamente. Disse apenas uma palavra.
Então se abaixou, recolhendo o punhal que eu derrubara.
Ergueu-o com ambas as mãos, como eu mesmo fizera
momentos atrás.
— Stephen, não! — gritei.
François virou-se bruscamente, livrando-se dos dois
espectros encapuzados que o seguravam pelos braços.
Desprendeu-se das amarras com uma agilidade quase felina
e saltou sobre Stephen, arrancando-lhe o punhal da mão. Um
dos encapuzados correu para junto de Stephen. Deduzi, pela
enorme estatura, que se tratava de Enzo. Ele agarrou a mão de
François, enquanto tentava inutilmente libertar seu padroeiro.
François livrou-se de Enzo com um único golpe,
arremessando-o para fora do círculo, onde as dores e
queimações o consumiam. Camille tentou acudi-lo, mas bastou
um gesto de François para que congelasse exatamente onde
estava.
Stephen debateu-se na falha tentativa de se desvencilhar
das mãos de François. Ele era fraco demais e François parecia
possuidor de um vigor sobrenatural. A força sobre-humana
não combinava em nada com aquele jovem magro de estatura
mediana e com a perna direita defeituosa.
François apertava o punhal contra o pescoço de Stephen.
Eu vi uma gota de sangue escorrer pela pele clara, manchando-
lhe a capa negra.
— Vocês dois, prendam-no! — ordenou François
aos homens que o trouxeram cativo para Stephen. Ambos

206
Herdeiro da Nevoa
´

obedeceram imediatamente.
Stephen era sedutor e persuasivo, mas sua capacidade
de manipulação não se comparava, em hipótese alguma, à
de François. Todos os discípulos de Stephen já se haviam
entregado a François, pelo simples fato de ele ter conseguido
escapar das garras de Stephen e de ser agora o principal
detentor do poder da irmandade.
Eu era a única pessoa lúcida ali? Ninguém se dignaria a
tentar salvar Stephen? Nenhum encapuzado se compadeceria
com a morte do seu padroeiro? Eu não podia permanecer
estático diante disso. Se ninguém ousava desafiar François,
eu o faria.
— François, vamos conversar. Por favor, abaixe esta
arma. — As palavras eram lógicas e idiotas, mas não me
ocorria argumento para tentar persuadi-lo — Por favor, eu
devolverei tudo o que é seu, se deixar Stephen ir embora.
E Enzo, olhe para o pobre homem, morrendo de tanta dor.
Deixe-me salvá-lo. Deixe todos irem embora, acabe logo com
essa loucura e eu lhe devolverei tudo o que eu lhe roubei.
— Não é possível que você ainda pense que podemos
negociar a vida de Stephen, irmãozinho. Ele é um traidor,
ainda não percebeu? E não há perdão para traidores. Além do
mais, aquela herança já não me faz a menor falta. Ela é tão sua
quanto minha.
— Então por que você procurou o detetive? Por que se
entregou?
— Porque eu sabia que assim você forçaria Stephen a pedir
o meu sangue em sacrifício e esta seria a minha oportunidade
de acabar com ele de uma vez por todas, de recuperar a minha
irmandade e tudo o que Stephen tirou de mim. — os olhos de
François brilhavam de ódio enquanto falava.
Talvez o ódio o tenha distraído. Ele afastou o punhal
do pescoço de Stephen por um átimo de segundo. Stephen
virou-se depressa, mas não o bastante para impedir o golpe de

207
Raquel Pagno

François. Joguei-me sobre ele, lançando-o para fora do círculo.


Stephen gritou, afligido pelas queimações. Apenas François
parecia imune a tais ataques de dor.
François andou até a beira levantando novamente o
punhal. Stephen engatinhou para trás. Parecia não suportar a
dor que aumentava gradativamente quanto mais se distanciava
do fogo.
Aproximei-me, e de um salto, agarrei as mãos de
François. Ele contorceu-se tentando se livrar de mim, ele era
forte e senti que não o seguraria por muito tempo.
— Stephen, fuja! — ele não se moveu. Estava pasmo. —
Adélie, ajude-me!
Senti meus joelhos fraquejarem, meu corpo curvou-se
e eu caí. O punhal se soltara das mãos de François, mas ele
logo tornou a agarrá-lo. Rastejei para trás até a beira do fogo.
Não ousei atravessá-lo mais uma vez. François agachou-se
sobre mim, segurando firmemente o punhal. Acariciou o meu
rosto com a lâmina fria e suja, manchando-me com o sangue
de Stephen.
Fui tomado pelo instinto de sobrevivência, quando
François pousou a lâmina em meu pescoço. Não sei dizer
como o fiz, mas atingi o joelho direito de François, consciente
de que aquele seria seu ponto fraco. Ele gritou, deixando seu
corpo cair para o lado.
Levantei-me e corri em auxílio de Stephen, que
continuava no mesmo lugar, contorcendo-se de dor. Queria
perguntar-lhe onde estava sua arrogância agora, para onde
fora o poderoso padroeiro. Contive-me. Apenas arrastei-o
de volta para o círculo. A dor pareceu deixá-lo e suas feições
voltaram ao normal.
— Desgraçado! — gritou François, agarrado ao altar
onde procurava o apoio necessário para levantar-se. O joelho
estava mais machucado do que eu julgara, e ele tornou a cair.
— Mestre! — disse Adélie, correndo para ajudar

208
Herdeiro da Nevoa
´

François.
— Adélie, não! Ele vai matá-la! — ela olhou-me tomada
pelo ódio. Seus olhos faiscaram tão flamejantes de raiva quanto
o fogo que ardia ao seu redor. Ergueu François pondo-o de pé
ao lado de seu altar satânico.
— Não, Inácio Vaz, — meu nome fora dito com desdém
— ele jamais me mataria! É o sangue de Stephen que está
prometido, e não o meu. E nós vamos reivindicá-lo, custe o
que custar. Não se atreva a tentar impedir isso, ou sua amada
Chloé sofrerá as consequências.
— Chloé está em segurança! Você sabe, ajudou-me a
amarrá-la!
— Não tenha tanta certeza!
— Não, Adélie! Eles a enfeitiçaram! Você jamais seria
capaz…
— Eu não pagaria para ver, se fosse você!
Adélie também me traíra. Como eu não percebera
antes? Ficara assustado com ela quando a conhecera, mas
não confiara em meus instintos. Deixara-me seduzir por suas
maneiras doces e suas feições suaves. Como eu fora tolo!
Eu ainda não juntara todas as peças. Como poderia
François ter sido torturado por Stephen e pela irmandade,
como eu mesmo presenciara, e agora aparecer diante dos
encapuzados como um mentor? As coisas não faziam o menor
sentido e a confusão dentro da minha cabeça aumentara ainda
mais.
— Soltem-no! Deixem-no em paz! — minhas súplicas
eram inúteis diante da fúria dos encapuzados. Stephen estava
deitado sobre o altar, tal qual estivera Camille da primeira vez.
Dois homens amarravam-me os braços. Eram fortes demais
para que eu pudesse lutar contra eles.
— Fique calmo, irmãozinho, — François mancou até
mim — não vai ser tão ruim assim. Nós apenas realizaremos
o seu próprio desejo. Ou estou enganado? Você não tentou

209
Raquel Pagno

matar Stephen apenas alguns minutos atrás?


— Mas eu não matei!
— Como você é bonzinho! Queria saber se ainda seria
tão bonzinho se soubesse toda a verdade. — François suspirou.
— Então conte-me a verdade.
— O que você quer saber? Toda a verdade sobre esta
irmandade? Sobre a minha vida? Sobre a sua própria? Pois
bem, acho que tem o direito a um último pedido.

210
33

— Eu fui um filho bastardo, creio que isso você já saiba.


“Minha mãe não passava de uma empregada de meu pai
e sua verdadeira família. Ela nasceu na Itália, mas sua origem
é de muito longe dali, isso podia muito bem ser constatado
nas suas feições sérias e na morenice da sua pele, apesar dos
seus olhos incrivelmente azuis. Meu avô viveu na África, foi
um poderoso feiticeiro que encarregou-se de ensinar-lhe tudo
o que sabia sobre as artes das trevas. Minha mãe aprendeu
rapidamente todos os seus segredos, e descobriu que carregava
consigo o verdadeiro dom da magia negra.
Os ensinamentos que ela fizera questão de aprender e
aperfeiçoar, tornaram-se muito úteis. Minha mãe enfeitiçou
a Senhora Roux. Tomou-lhe o marido, amaldiçoou seu
primogênito, uma criança na qual meu pai jamais pôs os olhos.
Minha mãe conhecia os segredos das ervas como ninguém, e
sabia preparar as mais diversas poções.
Ela inventou uma poção especialmente para o recém-
nascido, e por várias semanas adicionava pequenas doses na
mamadeira, deixando-o alterado e simulando sintomas de
doença mental. Os médicos logo diagnosticaram diversos
problemas e garantiram que não havia cura ou tratamento
possível para o mal que afligia o menino.
A pobre alma foi mandada para longe, tão longe que

211
Raquel Pagno

ninguém jamais tornou a vê-lo.


Então, sem o bebê obstruindo seu caminho, minha mãe
fez com que todos acreditassem que a Senhora Roux é que era
a verdadeira bruxa. Eu era muito pequeno naquela época, mas
lembro-me muito bem do poder que ela detinha. Lembro-me
das velas coloridas que espalhava pela casa, sob a luz das quais
me ensinava sua crença, sua sabedoria e me orientava sobre
como eu deveria acabar com nossos inimigos.
Com o passar dos anos, a Senhora Roux acabou por
descobrir o romance secreto de minha mãe com meu pai. E
descobriu minha existência. Isso a deixou louca de ódio. Ainda
mais quando meu pai decidiu deixá-la para ir viver na Itália.
Ela o amaldiçoou. E amaldiçoou a mim também.
A maldição deixou-nos assustados. Eu e minha mãe
conhecíamos muito bem a força que nascia do ódio e sabíamos
exatamente o quanto ela era poderosa e poderia ser destrutiva.
Meu pai desafiou os deuses das trevas, rindo e debochando da
maldição de sua esposa, e por isso, ele foi o único de nós três
que realmente foi amaldiçoado. Quanto menos se acredita nas
forças sombrias, mais vulnerável a elas se fica.
Meu pai caiu em decadência e isto ameaçou fortemente
os objetivos de minha mãe. Eu era herdeiro de Gérard Roux,
tanto quanto o filho retardado que a esposa lhe escondera. O
legado era tão meu quanto dele. Precisávamos encontrar uma
maneira de trazer meu pai de volta a Paris, antes que perdesse
até o último centavo. E conseguimos.
Mas minha mãe e eu não contávamos com a astúcia da
esposa, que àquela altura, procurara a ajuda de uma feiticeira
e se iniciara nas artes das trevas. Ela encantou meu pai, assim
que chegamos. Ele tornou-se irreconhecível. Passou a repudiar
minha mãe e a ignorar-me por completo. Já não fazíamos mais
parte da sua amada família. O tempo passou e a Senhora Roux
o fez proibir-me de morar em sua casa. Seduziu-o e concebeu
Chloé.

212
Herdeiro da Nevoa
´

Assim que minha madrasta conseguiu o que queria, sua


mestra e guia voltou para reivindicar o pagamento. Como
recompensa pelos ensinamentos e pelo encanto que a fez
reconquistar o marido, a Senhora Roux ofereceu-lhe o bebê
que gerara por conta dos encantamentos da bruxa. A feiticeira
aceitou de bom grado a oferenda, mas não levou a criança
consigo. Viria buscá-la quando a hora certa chegasse.
Minha mãe, desesperada com o nascimento da garota,
voltou para a Itália. Entregou-se a uma vida miserável e morreu
por causa disso. Chloé nascera bruxa, jamais poderíamos lutar
contra isso. Minha mãe sabia reconhecer quando perdia. Lutar
contra uma bruxa era algo totalmente inimaginável. Ela viu
a força de Chloé desde a primeira vez que pôs os olhos sobre
o bebê.
Eu nunca voltei para a Itália. Permaneci em Paris para
lutar com Chloé pela herança e pelo amor de meu pai, aos quais
eu tinha o mesmo direito que ela. Permaneci escondido em um
pequeno quarto de pensão, o mesmo quarto que pertenceu a
você e que agora pertence a Stephen.
Foi então que conheci Adélie, minha musa inspiradora,
minha adorada mentora. Não pude deixar de render-me aos
seus encantos, à sua doçura. Contei a ela sobre minha mãe,
sobre a decadência de meu pai, e principalmente, contei-lhe
sobre Chloé. Passamos a nos encontrar às escondidas. Sua
mãe me odiava. Não passava de uma velha rabugenta, sempre
entupindo Adélie de serviços naquela pensão imunda, como se
fosse sua empregada. Decidimos mantê-la na mais completa
ignorância sobre nosso amor.
Adélie traçou um plano para seduzir minha jovem irmã.
Juntos, fundamos a irmandade parisiense, baseada nas seitas
africanas que eu conhecera tão bem por intermédio de minha
mãe e de meu avô, e que já naqueles tempos, se espalhavam
em torno do mundo, reunindo os seguidores do Príncipe das
Trevas. Não foi difícil conseguir a legião de discípulos que

213
Raquel Pagno

você vê agora. Bastou mostrar a eles uma pequena prova


do poder e do dinheiro que a irmandade poderia lhes dar.
Ninguém resistiu à tentação.
Chloé também não resistiu. Sua mãe cometera o terrível
engano de ocultar-lhe minha existência. Assim que Chloé
deixou de ser uma menina para se tornar uma linda mulher,
como uma flor que desabrocha para o mundo na primavera, eu
apareci em sua vida. Seduzi-a. Nunca foi tão fácil seduzir uma
mulher. Chloé era uma bruxa poderosa, eu também conseguia
sentir isso, e ao mesmo tempo era totalmente romântica,
carente e vulnerável.
Em menos de uma semana, ela já compartilhava a minha
cama e fazia-me juras de amor eterno que me enjoavam, só de
ouvi-las. Tentei desistir por várias vezes, mas Adélie sempre
me encorajou. Eu perdi muito tempo convencendo Chloé de
que deveria manter segredo sobre nós dois. Ela dizia que
não gostava de mentir para sua mãe, e blábláblá, mas sempre
acabava concordando. Eu insistia para que guardasse segredo,
ou sua mãe proibiria o nosso amor e eu teria de partir para
longe.
Mantivemos nossa relação até o momento em que
minha doce desforra finalmente chegasse: a oportunidade de
aparecer perante a Senhora Roux. Minha vingança já estaria
quase completa apenas em ver o desespero da mãe ao saber
que Chloé se apaixonara perdidamente pelo irmão bastardo a
quem ela tanto odiara, e que pretendia fugir com ele a qualquer
custo. Ah, como eu me fartava com esses pensamentos! Como a
desgraça daquela mulher me deixava infinitamente realizado!
Como prevíramos, ela proibiu o nosso namoro. Prendeu
Chloé no quarto e expulsou-me da casa. Tudo ocorreu como
planejamos. Chloé envenenou a mãe aos poucos, injetando
em suas bebidas mínimas doses de uma mistura de ervas
alucinógenas que eu mesmo preparara. Não demorou muito
para que todos a julgassem louca.

214
Herdeiro da Nevoa
´

Numa noite de lua cheia, noite de iniciação na irmandade,


eu trouxe Chloé para cá e contei-lhe tudo sobre os poderes
que ela herdara quando sua mãe a vendera em troca de poder.
Levei comigo a velha bruxa que desejava tomar Chloé para si
como pagamento da dívida da mãe.
Chloé, que não sabia de nada, ficou desesperada e me
implorou para intervir por ela. É claro que eu o fiz. Pedi à
irmandade o sangue da bruxa, e em troca eu daria a alma
de Chloé. Ela não tinha como recusar a oferta. Entregou a
própria alma sem ao menos pestanejar.
Antes de morrer, a velha bruxa abriu-me um segredo
muito maior e muito mais terrível do que todos os que eu já
havia descoberto. Chloé era sua filha de sangue. A gravidez da
Senhora Roux havia sido uma farsa. Ela própria enfeitiçara meu
pai e se deitara com ele na noite em que Chloé foi concebida. O
ardil serviu para enganá-lo pelo resto de sua miserável vida, e
a todos os outros, inclusive e principalmente a mim.
Isso explicava como Chloé poderia ter nascido com o
sangue das bruxas. Eu é que não me dera conta de que uma
recém-iniciada como a Senhora Roux jamais geraria uma
verdadeira bruxa. A marca que diferenciava Chloé das demais
estava entalhada em sua alma. O dom verdadeiro que crescia
dentro dela refletia-se em seus olhos, independente de sua
vontade, e provinha de uma fonte de poder muito maior do
que eu poderia suspeitar, de uma bruxa infinitamente mais
poderosa que a Senhora Roux.
A bruxa me disse que emprestara Chloé à Senhora Roux,
para que esta reconquistasse o marido e expulsasse minha mãe
do país, assegurando assim que a sua menininha herdasse uma
fortuna que garantiria o resto das suas vidas e de mais algumas
gerações vindouras… É claro que ela também recebeu da
Senhora Roux uma bela casa num recanto cobiçado de Paris e
uma soma razoável em dinheiro. Iria buscá-la quanto chegasse
à idade adulta. Tinha ido buscá-la naquele dia.

215
Raquel Pagno

Mantive a maternidade de Chloé em segredo. Para


Chloé, sua mãe era a Senhora Roux, que a vendera para a tal
bruxa. Ela nunca desconfiou de nada. Fiz nascer em Chloé o
ódio pela Senhora Roux e o alimentei durante muito tempo.
Depois disso, não foi difícil convencê-la a dar um fim na sua
falsa mãe. Chloé me amava mais do que tudo, e não arriscaria
perder-me, mesmo que para isso precisasse abdicar daquela
vida.
Mas ainda tínhamos um grave problema a resolver: a
polícia. Não haveria como explicar o sumiço da Senhora Roux,
e ainda permanecer na França desfrutando da herança do
nosso querido papai. Era lógico que seríamos pegos.
Mesmo assim, não adiamos o ritual. A presença da
Senhora Roux em nossas vidas por mais tempo era inaceitável.
Oferecemos seu sangue como prova da fidelidade de Chloé à
irmandade.
Tomamos o cuidado de incinerar e espalhar as cinzas
da Senhora Roux ao vento. Quanto à Chloé, encontramos
alguém bem parecida com ela, retiramos todo o sangue do
corpo, simulando o que para leigos seria a prova concreta de
um ritual satânico, e o espalhamos pela casa. Uma tentativa
quase perfeita de acusar a mãe pela sua morte. Pensamos que o
meu sangue seria prova suficiente de que também eu morrera.
Demos um jeito de acabar com os policiais que
periciaram a casa e enterramos a garota no lugar de Chloé
o mais depressa possível. Mas o detetive aí, não se deu por
satisfeito. Preferiu duvidar da minha morte, colocou-me nas
listas dos desaparecidos, e todas as suspeitas recaíram sobre
mim. Chloé estava oficialmente morta, e eu já não tinha como
acusá-la ou partilhar a culpa com ela.
Foi então que eu encontrei o nosso caro padroeiro aqui.
Stephen viera a Paris para estudar História, queria
escrever um livro. Tinha muita ambição, tanta que eu o
convenci na primeira tentativa de trazê-lo para a irmandade,

216
Herdeiro da Nevoa
´

depois de contar-lhe a minha versão fascinante da história dos


Roux e dos Champoudry e garantir que poderia contá-la em
seu livro idiota.
Stephen foi um bom irmão. Ele me trouxe a solução,
tão obvia que eu mesmo não conseguira enxergar: eu deveria
encontrar e trazer para França o meu irmão desaparecido.
Dessa forma, poderia acusá-lo dos crimes, cuja motivação
seria tomar-me a herança, que efetivamente, seria somente
minha depois da morte de Chloé.
Nessa época, minha irmãzinha ainda não sabia nada
sobre Adélie, nem desconfiava de nosso relacionamento
e ignorava totalmente a possibilidade de ela ter qualquer
participação nisso tudo. Quando a cumplicidade entre mim e
Adélie tornou-se visível, Chloé quase enlouqueceu. Eu partira
seu coração, pior ainda, ferira seu orgulho feminino trocando-a
por outra mulher. Revoltada, ela tratou de seduzir Stephen e
desviá-lo de seu objetivo final.
Eu confiava em Stephen e não tardou para que eu o
nomeasse Padroeiro da irmandade. Pena que era invejoso
demais, ambicioso demais e fraco perante os encantos de
Chloé. Ela o convenceu a tomar para si o poder, destronando-
me da liderança da irmandade e aprisionando-me. Até hoje.
Adélie não permaneceu estática enquanto Stephen
me arruinava. Enviou mensagens aos líderes da irmandade
mundial, nas quais denunciava a traição do padroeiro. Uma
assembleia foi convocada em segredo. Membros importantes
da irmandade vieram das partes mais remotas da Terra para
julgá-lo. Ele jurou diante de todos que Chloé o desviara dos
caminhos desta irmandade, que ela o enfeitiçara, e que deveria
ser punida. Enfim, ele pediu o sangue de Chloé em sacrifício.
Convocados então os espíritos das trevas, nossos
perpétuos conselheiros, ficou provado que Chloé era uma
bruxa poderosa demais, e que se o seu sangue fosse derramado,
seria o fim absoluto da irmandade.

217
Raquel Pagno

Ficou decidido que eu continuaria liderando a irmandade


de Paris, e que Stephen seria mantido como padroeiro. Para
redimir-se, teria de oferecer sangue em sacrifício e arrecadar
quantas almas pudesse, em honra de nosso pai e guia. Eu não
aceitei que a irmandade pudesse perdoar um traidor como
Stephen. Aquilo não era justo e então permaneci cativo,
fingindo fraqueza para recuperar o que Stephen me havia
tirado.
Foi então que ele me deu algo muito importante.
Stephen sempre foi muito esperto e descobriu o paradeiro
de meu irmãozinho perdido, por quem eu tanto procurara…
E, sem saber, Stephen deu-me você. Você era tudo de que
eu precisava, tudo de que eu precisei desde o início. Stephen
soube disso assim que o viu.
Chloé, persuadida por Stephen, que estava sedento
pelo perdão da irmandade, tomou o cuidado de trocar seus
documentos pelos meus. Então eu sumi completamente da
face da Terra! Você agora era o único e verdadeiro François
Roux, você e a sua ingenuidade quase destrutiva. Faltava
apenas livrar-se de mim, e tudo ficaria perfeito! Com você no
meu lugar, apaixonado por Chloé, que poderia manipulá-lo
o quanto desejasse, Stephen acabaria por ter tudo com que
sempre sonhara: minha fortuna, o tempo que precisasse para
o seu livro e a história perfeita. E de quebra, a amizade de
François Roux.
Somos quase gêmeos idênticos. Você também é um
ambicioso, como eu, Inácio Vaz, também tem sede de poder
como eu tenho. Você era perfeito para assumir o meu lugar, a
minha herança! Você era perfeito, com toda a sua inocência e
seu senso de bondade, para inventar uma história convincente
para a polícia e livrar-me de todas as acusações que recaíram
sobre mim… Mas você colocou tudo a perder, com a sua
bondade ridícula!
Infelizmente, você se deixou levar pela culpa. Culpa por

218
Herdeiro da Nevoa
´

ter ocupado o meu lugar, culpa por ter conseguido a amizade


de Stephen, culpa por ter me traído com Chloé, culpa… oh, os
mártires são sempre assim.
O peso de sua culpa foi a completa ruína para aquele
detetive. Olhe para ele: agonizando… Ele morrerá, Inácio, e
sua morte não virá pelas mãos desta irmandade! Você também
terá de fazer a sua escolha!”.

219
Raquel Pagno

220
34

— Não pode ser verdade! Isso tudo é uma grande


loucura! Vocês são mentirosos! Todos vocês! — explodi.
Aquela verdade era inadmissível. Não havia nenhuma
lógica que a confirmasse. Eu viera de muito longe, sem jamais
saber da existência de François ou das histórias das famílias
Roux e Champoudry. Vivera sozinho com meu pai durante
toda a minha vida e cultivara a vontade de partir para Paris
desde criança.
— Não somos mentirosos não, maninho! Esta é a mais
pura das verdades. Você é meu irmão! Inácio Vaz é apenas
um nome que inventaram para você, um nome diferente, que
não soa nada francês. Um nome comum, para que pudesse
se sentir em casa e não desconfiar de nada. Não foi difícil
encontrar alguém disposto a criar um menino em troca de
algumas poucas moedas.
— François, você é louco!
— Não, eu não sou louco. Você jamais saberia de sua
verdadeira origem, se não se parecesse tanto comigo. Mas, o
sangue de meu pai corre também em suas veias, e você é minha
própria imagem e semelhança. Teria sido muito útil se não tivesse
se iludido com Chloé, ou idolatrado Stephen como se fosse
um verdadeiro deus e seguido seus conselhos cegamente. A
única coisa que você precisava fazer era inventar uma desculpa

221
Raquel Pagno

convincente para a polícia e depois partir, deixando-me livre


para aproveitar aquilo que sempre foi meu.
Respirei fundo, baixando a cabeça, completamente
perdido. As palavras de François soaram-me como a mais
abominável mentira, mas em algum lugar, dentro do meu
coração, eu sentia que elas eram verdadeiras.
Num baque, sintetizei toda a história da minha vida,
mesclando-a em um único pensamento. Agora parecia-me
claro que o homem que me criara não era realmente o meu pai.
Éramos infinitamente diferentes, e eu sequer tinha a memória
de uma mãe. Sempre me fora dito que ela morrera ao dar-
me à luz. Também me fora negada a companhia dos avós, e
a explicação era de que eles moravam longe demais e que a
pobreza não lhes permitia visitar-nos.
Quis chorar, mas segurei-me, impedindo as lágrimas de
rolarem.
Minha vida inteira fora uma mentira.
As lembranças de Chloé em meus braços não foram
acalentadoras desta vez. Eu cometera incesto. Se tudo aquilo
fosse verdade, eu não amaldiçoava apenas a mim mesmo, mas
também a ela.
François voltou-se para Stephen que permanecia
imobilizado sobre o altar. Sorriu. Um sorriso ainda mais
maligno do que o de Stephen. Imaginei que François era a
encarnação do demônio. Eu pensara em Deus, chegara a
acreditar na Sua existência quando vi a estrela cadente que
me tirou as dores, mas da existência do demônio eu sempre
duvidara.
E, se havia mesmo um Deus lá em cima, para os ingênuos
como eu, ele me protegeria e permitiria que me redimisse
salvando a vida de Stephen. Se eu compactuasse com François
ou se simplesmente ficasse parado diante do que aconteceria a
ele em seguida, então já não haveria perdão para mim.
— E por que levar agora seu padroeiro, François? Se

222
Herdeiro da Nevoa
´

ele me trouxe para você, se ele provou mais de uma vez sua
lealdade, por que você o condenará por único passo em falso?
Se a ambição é uma dádiva, como você afirmou há pouco,
Stephen não pode ser condenado. — apelei, distraindo-o e
retirando-o de sua trajetória.
— Eu não preciso mais de Stephen, ou de Chloé. Não
preciso mais de você, tampouco. — François deixara o círculo
de fogo, mas não sentira as terríveis dores e queimações,
apenas caminhou tranquilamente até o ponto onde o detetive
estava — E jamais precisei deste homem. Ele jamais estaria
aqui se não fosse por sua causa, Inácio. Vê o mal que causou
a ele?
— Não, François, quem trouxe o mal para todos, foi
você!
— Você ainda ousa me desafiar? — François ajoelhou-
se e encostou o punhal no pescoço do detetive — E agora,
ainda ousa me desafiar?
Baixei os olhos. Entendi o que ele queria dizer-me. Eu já
arriscara demais a vida daquele pobre homem, e se ainda havia
algum resquício de vida nele, eu faria de tudo para preservá-
la.
— O que foi? Está arrependido? E quanto à Chloé, o que
você fará quando for ela quem estiver sobre este altar, pronta
para ser sacrificada em nome desta irmandade?
—Não, François! Deixe-a em paz, eu lhe imploro!
— Você implora? Mas, tantos já imploraram, e eu vou
lhe dizer: isso não faz a menor diferença!
— O que você quer em troca? — François levantou-se,
encarando-me.
— Agora estamos começando a conversar. O que você
tem a me oferecer?
— O meu sangue, em troca do sangue deles?
— Não acho justo. Por que trocaria sangue por sangue?
Não, não seria vantajoso para a irmandade.

223
Raquel Pagno

— E… se eu lhe oferecer a minha alma?


— A sua alma? Você sequer tem ideia do que está
oferecendo! Se eu aceitasse a sua alma, você teria um dever
perpétuo para com esta irmandade e seus membros.
— Eu me proponho a aceitar isso. Eu viverei em função
da irmandade, se me for designado. — François voltou-se e
agora caminhava em torno de mim, sussurrando em meus
ouvidos.
— Tem certeza? Você compreende o que isso
significaria? Compreende quantas torturas e provações você
teria de enfrentar para isso?
— Sim, eu posso imaginar. Farei o que quiser, se deixá-
los vivos e em paz!
— Interessante. Acho que vou aceitar a sua oferta.
Sangue é fácil de conseguir, sacrifícios se encontram pelas ruas
a todo momento. Mas, pessoas dispostas a entregar a alma, de
boa vontade, estas estão cada dia mais escassas. — Ele pensou
mais um momento — Trato feito!
Imaginei que François me mataria quando levantou
fortemente o punhal e depois golpeou as cordas que me
amarravam os punhos. Em seguida, levantou a lâmina, o
punhal resplandeceu com o reflexo da luz vermelha que ainda
se desprendia das páginas abertas do livro, e cortou com ele o
cordão de Chloé que pendia de meu pescoço.
— Você ainda não é digno de tal amuleto. Terá que
conquistá-lo, e dará sua primeira prova hoje mesmo, para
validar nosso acordo. Segure isto, irmãozinho. — ele entregou-
me o punhal.
Eu o apertei entre os dedos. François envolveu minha
cintura com o braço e conduziu-me à beira do altar. Stephen
permanecia deitado e imóvel. Seus punhos estavam atados,
como os meus próprios estiveram até alguns segundos. A
expressão de ironia sumira completamente de seu rosto,
dando lugar ao pavor. Stephen não era tão atraente quando

224
Herdeiro da Nevoa
´

apavorado.
— Agora, ofereça o sangue para a irmandade. Esta será
sua primeira prova de fidelidade. A partir desta oferenda,
saberemos que você viverá para esta irmandade.
François pôs as mãos sobre o livro, e a luz púrpura
aumentou consideravelmente. Nessa hora eu entendi que
a luz não provinha apenas do livro, quando Stephen tocara
naquelas páginas fúnebres, mas sim, era o poder de François
que incitava tal emanação. François respirou profundamente
e seu corpo pareceu rejuvenescer enquanto se alimentava da
luz.
— Meus irmãos e irmãs — disse, voltando-se aos
encapuzados — hoje será um dia muito especial para todos
nós. Mais especial do que o previsto. Inácio Vaz expressou
desejo de se tornar membro da nossa irmandade, entregar-
se de corpo e alma, em troca da oferenda de hoje. Vamos
libertar o moribundo, vamos nos esquecer de vingar-nos
de nossa irmãzinha Chloé Champoudry. A alma de Inácio
Vaz é infinitamente mais valiosa para nosso pai, e devemos
obedecer-lhe, sem restrições, sempre! — François voltou-se
para mim, mirando profundamente em meus olhos — Venha
Inácio, faça-nos sua oferenda!
Aproximei-me lentamente do altar. Stephen olhou-
me, rogando por misericórdia. Não havia mais nada que eu
pudesse fazer para salvá-lo. Tinha de escolher entre a minha
vida e a dele, e possivelmente, se escolhesse a dele, isso custaria
também a vida do detetive e principalmente a vida de minha
amada Chloé.
— Venha, Príncipe das Trevas, meu senhor e senhor do
fogo! Mande-me as chamas do seu inferno, traga para mim
as chamas da sua morada! Dê a mim o poder que possui para
que eu atinja minhas metas e destrua meus inimigos! — as
palavras usadas por François eram as mesmas que Stephen
usara anteriormente.

225
Raquel Pagno

François segurou as minhas mãos, o punhal preso


entre elas, e aproximou-as do livro negro, relendo as orações
do livro. Quando a lâmina tocou a luz púrpura que brotava
daquelas páginas sombrias, senti um calor intenso atingir-me
as mãos. Tentei puxá-las para junto ao corpo, não suportaria
ser queimado mais uma vez, mas François me segurava
fortemente, e eu senti-me paralisado pelo calor.
— Oremos, meus irmãos e irmãs! — gritou — Oremos
para que o nosso mais novo irmão tenha a força necessária
para esta primeira de muitas provações.
O cântico demoníaco recomeçara. Minhas mãos ainda
queimavam e quanto mais os sussurros aumentavam de
volume, mais o ardor me consumia, espalhando-se pelo meu
corpo, consumindo-me por inteiro.
Finalmente, François soltou-me. Deixei cair o punhal e
Adélie correu imediatamente para juntá-lo recolocando-o em
minhas mãos. Olhei-a com desprezo. De todas as pessoas que
me haviam traído, Adélie fora em quem eu mais confiara, e sua
traição, a que mais me apunhalava o coração.
E minha pobre Chloé, como eu previra, não era um
demônio, como Stephen, ou François revelaram ser. Era
apenas um anjo ferido, e traído, como eu próprio.
A lembrança de Chloé me fizera sentir ódio. Ódio de
Stephen, porque a seduzira, porque mentira. Ódio de François,
porque este talvez lhe tenha sido infinitamente mais nocivo.
Ódio de Adélie, porque ela fora lobo em pele de cordeiro. Ódio
de mim mesmo, por ter me deixado iludir amaldiçoando o
destino de Chloé.
O ódio era justamente o que todos esperavam de mim, e
por isso mesmo, tentei afastá-lo. Mas aquele era um sentimento
poderoso, e eu não conseguiria afastar-me dele tão facilmente.
— Vamos, Inácio… — François estava novamente
sussurrando em meu ouvido — Faça o que tem de fazer. Acabe
logo com ele.

226
Herdeiro da Nevoa
´

— Eu… eu não posso…


— É claro que você pode! Tem plenos poderes sobre
a vida deste verme, agora! Não seja fraco, como sempre foi.
Redima-se de toda a sua fraqueza. Acabe com ele, Inácio, e
terá uma vida longa e plena ao lado da sua Chloé.
Por que ele citara o nome de Chloé? Aquele foi o pior mal
que poderia ter-me feito. Eu pensei nela, pensei em todos os
momentos em que estive com ela. Recordei-me do instante em
que a conhecera no auditório da Sorbonne, do nosso primeiro
encontro, do quanto eu a procurara na Catedral de Notre Dame.
Lembrei-me especialmente daquele último encontro, quando
eu lhe arrancara o medalhão e a amarrara o mais suavemente
possível em sua cama.
Pensei finalmente na terrível verdade que pairava sobre
nós.
Voltei-me para Stephen, tão indefeso agora, sem a
proteção da irmandade, e concluí que sem ele, o sonho que eu
vivera junto a Chloé não existiria. Fora ele quem a instruíra
a trocar meus documentos pelos de François, e fora ele quem
me encontrara e me convencera a tomar uma vida que não era
minha.
Eu deveria odiá-lo. E o odiara, inúmeras vezes, por ser
mais belo do que eu, por ser mais rico e inteligente. E eu o
odiara principalmente por ter traído a confiança de Chloé.
Mas agora, olhando para ele, apenas um verme, conforme
François afirmava, eu já não conseguia odiá-lo.
Não seja covarde, Inácio! As palavras de François ecoavam
em minha consciência, eu sempre fora um covarde. E eu estava
certo de que ainda era. Mas como eu poderia redimir-me,
senão tirando a vida de Stephen covardemente? Um ato de
covardia justificaria uma vida inteira de covardia? Eu seria
redimido?
Olhei profundamente nos olhos chorados de Stephen.
Confesso que foi divertido vê-lo por um momento com medo.

227
Raquel Pagno

Medo justamente de mim, a sua cria, a pessoa a quem ele


sempre menosprezara. O mundo deu muitas voltas desde que
nos conhecemos.
Então eu soube exatamente o que tinha de fazer.
Eu não seria covarde, não desta vez.

228
35

— Coragem, mon amour! — Adélie retornara ao seu


lugar, pronta para assistir ao espetáculo, como todos ali.
Apertei o punhal. O cabo cravejado de pedras preciosas
doeu-me nas mãos. O calor do livro ainda o impregnava, mas
agora o calor não me feria. Era até reconfortante o calor morno
e vermelho que tingia e aquecia minhas mãos, sem feri-las.
— Isso mesmo, Inácio! Pense em tudo o que este homem
lhe fez. Pense em como ele o enganou, o quanto mentiu para
você. Pense no mal que ele fez a sua Chloé. — eu não precisava
das palavras de François para pensar em tudo aquilo, eu não
parava de pensar um segundo sequer.
François sabia como aumentar a raiva que eu sentia
de Stephen. Pensei ter visto seus lábios se mexerem e pedir
perdão por ter-se deixado levar por François e pela sua
irmandade. Fora apenas uma impressão. Ele permanecia
imóvel e apavorado.
— Vamos, Inácio! Faça o que precisa ser feito!
Levantei o punhal com força.
— Isso mesmo, você será o meu próximo padroeiro…
Fechei os olhos por um segundo.
— Bom menino, está ficando corajoso! Nosso pai ficaria
orgulhoso de você!
Respirei bem fundo.

229
Raquel Pagno

— Faça!
A voz em meus ouvidos me influenciava a tal ponto, que
eu não pude mais resistir. Reuni minhas forças e golpeei com
o punhal. Stephen contraiu o rosto, como se assim pudesse
escapar do golpe, fugir da dor que ele tantas vezes infligira às
outras pessoas, mas que jamais esperara para si próprio.
O sangue jorrou, maculando minhas mãos. O sangue
ficaria impresso nelas para sempre. Não era o sangue de
Stephen, mas daquele que era a verdadeira fonte de todo o
mal.
No rosto de Stephen, os respingos do sangue de François
também estariam para sempre. Tudo estava eternamente
acabado.
Os encapuzados demoraram um breve espaço de
tempo para assimilar o que acontecera. Adélie foi a primeira
a se aproximar. Eu ainda segurava o punhal entre os dedos
enquanto olhava estupefato o corpo de François no chão.
Ele ainda vivia. Adélie repousou a cabeça dele em seu
colo, e o beijava. Seus lábios ficaram impregnados com o
sangue que molhava os de François. Ela não se importava. Ela
o amava.
Os outros puseram-se em torno de Adélie, enquanto ela
velava os últimos suspiros de François. O golpe fora certeiro.
O punhal adentrara sob as costelas, e provavelmente, atingira-
lhe o coração.
Temi o que fariam comigo em seguida. Levantei o punhal,
ameaçando a todos, embora ninguém prestasse atenção em
mim, ou em Stephen. Estavam incrédulos e concentrados na
dor de Adélie. Todos compartilhavam a mesma dor.
Voltei-me para o altar. O livro não cintilava mais. Olhei
para Stephen, sem saber o que fazer.
— Como poderei agradecer-lhe? — a voz saíra fraca,
como um suave sussurro.
— Vá embora, Stephen! Leve o detetive com você!

230
Herdeiro da Nevoa
´

Cortei as cordas que o prendiam e ele partiu. Não olhei


em volta para ver se o perseguiriam, não me preocupei se ele
atenderia ao meu pedido, fixei os olhos no livro com a certeza
de que deveria destruí-lo.
O livro era a ferramenta do mal e do poder da irmandade,
isso ficara claro para mim desde que o vira pela primeira vez
emanando sua maligna luz avermelhada. Apontei o punhal
na direção do livro, convicto de que o destruiria. Apertei-o,
como fizera da primeira vez. Fechei os olhos, respirei fundo.
Preparei-me para desferir um golpe ainda mais violento do
que o anterior.
— Inácio, não! — fora Adélie quem gritara. Estava claro
que nenhum dos bruxos permitiria que eu o destruísse, mas
antes que pudessem impedir-me, eu o golpeei com todas as
minhas forças.
A luz púrpura saltou violentamente do livro, aliada a
um vento intenso, como se um furacão se desprendesse de
dentro de cada uma das suas páginas. O sangue de François
pingava sobre o papel amarelado e misturava-se com a tinta
negra, mesclando-se a ela, tornando-se parte do próprio livro.
Ouviu-se um urro intenso. Abri meus olhos com
dificuldade, quase cego pela luz vermelha do livro. Cobri meus
olhos com as mãos, tentando proteger-me.
Milhares de sombras negras saiam de dentro da
encadernação, junto com o vento gélido que contrastava com
o calor da luz. Rostos se formavam nas sombras, parecendo
espíritos aprisionados que se libertavam. Talvez fossem os
espíritos ofertados pela irmandade.
Frio e calor. Eu os sentia a ambos ao mesmo tempo, e
conseguia separar as sensações mútuas. O vento aumentara
a proporções inimagináveis, tão intenso que apagara
completamente o círculo de fogo, as velas coloridas do altar e
derrubara a demoníaca estátua da mulher-bode.
Adélie ainda gritava, implorando a todos que

231
Raquel Pagno

recompusessem o altar. Aquilo fora a vida de François, e ela


não permitiria que acabasse. Alguns encapuzados tentavam
inutilmente recolher os objetos espalhados. A força do vento
não permitia que alguém se aproximasse do altar. Alguns
fugiam, e entre estes eu reconheci Camille e Enzo.
Ouvi um sibilar muito baixo, um pequeno cochicho
ininteligível. Sabia que eram palavras que o próprio livro
sussurrava, e sabia que aquela era a linguagem anteriormente
usada por Stephen para proferir suas diabólicas orações.
Levantei-me, involuntariamente, e dei alguns passos em
direção ao altar. Sentia meu corpo arrastado por uma força
invisível, emanada daquele livro. Já estava bem próximo,
quando o sibilar tornou-se insuportável. O som já não saía
do livro, ou era proveniente de qualquer um dos encapuzados,
o som estava entranhado em mim, grudado em meus
pensamentos para enlouquecer-me.
Tapei os ouvidos, mas não consegui evitar que as palavras
amaldiçoadas ecoassem em minha mente. Elas morariam
dentro de mim para sempre. Caí de joelhos enquanto o volume
aumentava mais e mais num apelo maldito. Eu não sabia que
idioma era aquele, mas a partir daí, passei a compreendê-lo. As
orações, todas elas, eram invocações do mal, o chamamento do
próprio demônio. E eu o reneguei naquela mesma voz, naquele
idioma maldito.
Deitei-me no chão, ao lado de Adélie e François.
— Fu… ja… — alertei, ciente do que viria a seguir, mas
Adélie não deixaria François.
A luz explodiu em minhas pálpebras cerradas. Houve
um grito e depois, apenas as trevas e o silêncio.

232
36

O teto branco parecia cintilar sobre mim, muito embora


eu soubesse que a luz liberada pela alvura daquele teto não
passava de uma impressão, e que meus olhos ainda não estavam
totalmente recuperados. Elevei a mão, tocando com os dedos
meu rosto ferido. Senti os lábios rachados e a pele queimada.
Não sabia o que acontecera.
Não havia mais ninguém no quarto. Apoiei minhas
mãos nos travesseiros na falha tentativa de levantar-me. Só
então percebi as agulhas enfiadas em minhas veias e os dois
reservatórios pendurados ao lado da cama. Meus músculos
estavam flácidos e eu não conseguia controlar totalmente meus
movimentos. O simples ato de recostar-me nas almofadas às
minhas costas carecia de grande esforço.
Pelas janelas entreabertas, eu via a claridade do dia
ensolarado. A temperatura era amena e apenas uma suave
brisa, que trazia um extasiante aroma de rosas, balançava as
finas cortinas de renda.
A atmosfera era serena e acolhedora. Ao meu lado, sobre
o criado-mudo, havia uma jarra com água fresca e uma carta
com uma rosa vermelha sobre o envelope dobrado ao meio.
Estiquei-me para pegá-lo. Minha mão estava envolta em uma
atadura que deixava livre apenas os dedos, enegrecidos.
Procurei o nome do remetente. Não havia nada escrito

233
Raquel Pagno

no envelope. Abri o selo que o lacrava e deparei com uma


caligrafia arredondada e bem desenhada, aparentemente
feminina. Concentrei-me nas letras da primeira linha, que me
saudavam carinhosamente. Li com dificuldade: Meu querido
François,…
François… Aquele nome…
O nome ecoou em minha mente, latejando em meu
cérebro, trazendo de volta as dolorosas lembranças que eu
fizera questão de esquecer. O nome me trouxe de volta outro
nome, Inácio Vaz, e uma infância miserável, uma juventude
cheia de mentiras. Vi a minha vida e o rosto de meu pai, o
completo estranho que me criara.
Não pude deixar de pensar nas possibilidades que me
foram arrancadas. Nas verdadeiras chances de ter uma vida
digna que me foram abruptamente negadas. Arrancaram-
me inclusive o direito de ter alguém a quem chamar de mãe,
enquanto minha verdadeira mãe estava viva. Não teria essa
mulher se arrependido por ter-me abandonado ainda bebê?
Eu não sabia quem eu era. Inácio Vaz era uma mentira,
uma invenção. Eu sequer existia. Não sabia qual era o meu
nome de verdade, não sabia se eu chegara a ter um nome.
Mas, de uma coisa eu tinha certeza: eu nunca fora um filho
retardado e deformado de Gérard Roux.
Ainda levaria muito tempo para que eu começasse
a compreender a história da minha verdadeira vida. O meu
mundo desmoronara assim que a verdade viera à tona. Tudo
o que eu conhecia se transformara inesperadamente, dando
lugar a uma realidade estarrecedora com a qual eu não
conseguia lidar.
Quis chorar, mas as lágrimas se recusaram a nascer em
meus olhos machucados. Eu estava seco por dentro.
Ignorei a dor que me devastava o peito e nublava-me a
visão. Já não tinha vontade de ler a carta deixada em minha
cabeceira. Eu só desejava sumir, desaparecer do mundo para

234
Herdeiro da Nevoa
´

sempre, e sem deixar rastros, como François havia feito um


dia.

Meu querido François,


Sinto que a verdade tenha chegado até você de uma forma
tão violenta e traumatizante. Jamais imaginei que tudo ocorreria
de tal maneira, sempre tive a mais sincera intenção de contar-lhe
o que realmente acontecera antes de sua chegada a Paris. Deduzi
erroneamente que você não estava preparado para ouvi-la.
Creio que você já tenha descoberto o que realmente é verdade, e
o que não passa de uma invenção da imaginação fértil do seu irmão
doente. Agora eu vejo como fui infinitamente ingênua ao entregar
minha vida nas mãos de tal homem… O ódio que ele trazia em seu
coração me contaminou, sufocando meus sentimentos e o amor que eu
sentia pelas pessoas que me rodeavam. O ódio fechou meus olhos para
a verdade, absolutamente, submergindo-me em um mundo de poder
e de sonhos realizáveis, que no final, não passavam de mera ilusão.
Mas, eu não escrevi esta carta para contar-lhe sobre mim ou
sobre a minha vida de enganos e desilusões. Escrevi para arrancar
a culpa que lhe foi posta sobre os ombros, porque essa culpa não é
mais sua do que minha. Escrevi para contar-lhe ao menos a parte da
verdade que me compete.
Afirmo sim, que você também é filho de meu pai, Gérard, e
da mulher a quem eu chamei de mãe durante toda a minha vida,
e que na verdade, não passava de uma usurpadora de heranças e
de almas. Já eu, apesar de ter sido criada com todo o amor que
um pai poderia dedicar a sua filha, nem tenho certeza se sou filha
legítima de Gérard, como me foi dito. Ah! François… foram tantas
mentiras… Mas o tempo passou, e entendo que essa verdade ficou
irremediavelmente enterrada no passado.
Passei muito tempo refletindo sobre o pecado que cometemos.
Cheguei finalmente a uma conclusão. Eu fui a única culpada nessa
história, e você, a minha perfeita e inocente vítima. Peço a você
que não se culpe por isso. Você nunca soube de nada, e apenas a

235
Raquel Pagno

ignorância sob a qual o mantivemos já é o bastante para isentá-lo de


qualquer responsabilidade.
Gostaria que você soubesse o quanto sinto saudades. Você
foi o único que me amou de verdade, e a força do seu amor ainda
vive aqui dentro de mim. Perdoe-me por não conseguir matá-lo,
por mais impuro que esse amor possa ser. Em algum momento você
sentiu como eu também o amei? Quando eu olhava dentro dos seus
olhos, via-me refletida em suas lágrimas puras e brilhantes e quase
não tinha forças para deixá-lo.
Guardarei para sempre as doces lembranças das nossas tardes.
E cá estou eu, de novo, desviando-me do principal intuito
desta carta…
Como você já sabe, a irmandade de Paris foi uma instituição
que alcançou uma influência mundial muito grande, dentro de
muito pouco tempo. Nosso irmão mais velho era um demônio, e o
demônio por vezes pode ser infinitamente mais sedutor do que os
anjos do céu. Ele sempre soube como usar o seu poder de sedução para
angariar mais e mais almas e um número incontável de seguidores
que apoiaram suas ideias desde o princípio.
Talvez Adélie tenha sido a mais útil de todas as pessoas
que o ajudaram. Não sei se você ouviu falar de seu passado, mas
ela foi uma pobre órfã, adotada pela dona daquela pensão suja e
miserável para servi-la como uma empregada doméstica, só que sem
nenhuma remuneração pelos seus serviços, além das surras que lhe
dava diariamente.
Nosso irmão apareceu como um milagroso salvador. Ele lhe
prometeu muitas coisas, como a todos os outros, prometeu riquezas
e o seu amor ilimitado. A pobre Adélie não teve alternativa, senão
segui-lo. Era ainda uma menina quando se juntou a ele e aos seus
planos maléficos. Acredito que ela foi a única que o amou de verdade.
Tanto que abdicou de sua própria vida na vã tentativa de salvá-lo.
Nunca a culpei por ter- se apaixonado por ele. Não posso
julgá-la, uma vez que o meu erro foi inumeravelmente maior que
o dela. Agora que estou livre dos encantos do demônio, chego a me

236
Herdeiro da Nevoa
´

sentir penalizada pelo terrível destino que a levou. Talvez tenha


sido melhor para ela. Talvez…
Quanto a Stephen, meu único desejo é de que não o culpem.
Ele nunca foi mais do que uma marionete, manipulado e governado
pelo nosso maléfico líder, que como eu, foi igualmente enfeitiçado, e
só agora consegue enxergar a verdade por detrás do véu de mentiras
que o meu irmão teceu para enredá-lo.
Stephen não é má pessoa, François. Eu o influenciei a tomar
o lugar do meu irmão na liderança da irmandade. Sabia que
Stephen era uma pessoa infinitamente melhor do que ele. Juntos,
pretendíamos humanizar a irmandade e estabelecê-la como uma
religião aceitável.
Sim, nós prendemos o nosso líder, afastando-o definitivamente
de suas funções. Também confesso que fomos gananciosos, desejamos
mais e mais poder, mas é sempre isso que acontece com quem desafia
as forças tenebrosas da escuridão. Tornamo-nos vampiros sedentos
por sangue, sedentos por sacrifícios, mas, diferente de nosso irmão,
nós apenas aceitávamos o sangue e o corpo de quem o oferecesse
voluntariamente. Assim aconteceu com Camille.
É claro que concedíamos algum benefício em troca da
devoção do iniciado. No caso de Camille, o que ela nos pediu foi o
seu amor, François. Concedemos, embora a irmandade não pudesse
interferir realmente em assuntos do coração. Mas Camille sentiu-se
tão confiante, que eu mesma tive medo de perder você para
ela.
Se eu não soubesse que seu coração era meu, querido François,
eu não me envergonho em dizer que a teria matado.
Aproveito para lhe avisar que, exceto Adélie, os demais estão
todos bem. Um pouco feridos, mas bem. Isso inclui o detetive, que
você salvou. E inclui também o Enzo.
Aproveito também para lhe falar que Enzo foi um capítulo
à parte na história da irmandade. Ele foi o único seguidor que se
manteve fiel a meu irmão, mesmo depois que o capturamos e tomamos
seu poder. Seu maior desejo sempre foi o amor de Camille e ele nunca

237
Raquel Pagno

acreditou que eu ou Stephen pudéssemos fazê-la interessar-se por ele.


Enzo tinha razão. O coração de Camille jamais lhe pertenceu, e eu
temo que jamais pertença.
Como um cão de guarda, Enzo nos espionava por ordem do
seu antigo líder. Eu via seus olhos desconfiados seguindo-me na
escuridão a cada noite e via-o espreitando-me de viés pelos cantos,
todos os dias. Se não fosse pela ajuda de Enzo, nosso irmão jamais
teria conseguido retomar o poder das mãos de Stephen.
Com a morte do nosso irmão e a redenção definitiva de
Stephen, acho que a irmandade estará encerrada para sempre…
Despeço-me de você, meu querido François, com lágrimas
nos olhos e o coração apertado, mas seria impossível permanecer
em Paris e conviver diariamente com as lembranças de um passado
nefasto que eu quero tanto esquecer.
Sinto-me aliviada em saber que não se feriu gravemente.
Gostaria de ter ido pessoalmente entregar-lhe esta carta, mas julguei
desnecessário o sofrimento da despedida. Creio que compreenderá.
Por último, devo expressar as minhas mais sinceras desculpas,
ainda que não traga comigo a certeza de que seu coração possa um
dia me perdoar.

Da sempre sua, ainda que distante,


Chloé Champoudry.

Chloé partiu. Deixou-me as palavras por que eu tanto


ansiara enquanto estivéramos juntos. Eu estava certo quanto
aos seus sentimentos, ela me amava. Eu sempre soube, meu
coração sentira o amor brotando de dentro dela desde o
primeiro dia. Como almas gêmeas.
Eu me tornara um rio de emoções, cuja correnteza
era demasiado violenta para que eu pudesse organizar meus
pensamentos. Sequei as lágrimas nas ataduras que estancavam
os pruridos das minhas mãos feridas.
Recostei-me outra vez nos travesseiros. Numa almofada,

238
Herdeiro da Nevoa
´

notei um fio de cabelo cor de fogo. Dobrei as folhas de papel,


manchadas de lágrimas, e enfiei-as de volta no envelope. Junto,
guardei aquele cabelo de Chloé.

239
Raquel Pagno

240
37

Ouvi três batidas na porta e apressei-me em enxugar a


face. Uma brecha se abriu e uma enfermeira loura atravessou a
entrada com um grande sorriso nos lábios e uma bandeja nas
mãos. Um homem entrou logo atrás. Stephen.
Seu rosto já não esboçava a expressão dura e enigmática
de antes. O sorriso era claro, quase infantil. Seus olhos
brilhavam num tom muito distante do costumeiro cinza.
Parecia-me uma mescla de azul e verde, um prisma de raios
cintilantes que se espalhavam pelo quarto, tanto quanto os
raios do sol que adentravam pelas aberturas da janela lateral.
— Oh, que surpresa! Que bom que está acordado,
François. — Stephen desviou o olhar, envergonhado. Sentou-
se aos pés da cama, onde a enfermeira largou a bandeja com
ataduras e frascos de remédios. Puxou para si uma das minhas
mãos e começou a desenrolar a faixa branca que a envolvia.
— Diga-me o que aconteceu. Eu não me lembro
exatamente… eu… — ele fez um gesto para que a mulher
saísse. Ela obedeceu e Stephen pôs-se a trocar ele mesmo
meus curativos.
— Ah, é normal que se sinta confuso. Você dormiu
durante dez dias, mon ami. — A voz de Stephen também
mudara. Soava-me carinhosa e extrovertida, não mais irônica,
como antes.

241
Raquel Pagno

— Dez dias?
— Sim. Você ficou inconsciente por dez dias. Todos os
médicos que o examinaram concordaram que você estava bem,
apesar das queimaduras. — fez uma pequena pausa, tornando
a encarar-me enquanto limpava as feridas com um líquido que
ardia feito fogo — Precisamos conversar, não é mesmo?
— Acho que a carta de Chloé já me foi bastante
esclarecedora. Ainda não recobrei totalmente a memória.
— Eu posso imaginar. Mas preciso me desculpar
imensamente, mon ami. Devo-lhe a minha vida. Ninguém
em seu lugar seria tão benevolente comigo. Eu poderia estar
morto agora…
— Não tem de me agradecer. Eu apenas agi conforme
julguei ser o certo. Você teria feito a mesma coisa por mim.
— Você sabe que não. — cortou Stephen.
— Você está bem? Não me lembro dos detalhes daquela
noite, mas sei que você foi ferido.
— Eu estou bem, mon ami. Obrigado por perguntar.
Esta é apenas mais uma prova do quanto você é melhor do
que eu. — Stephen suspirou profundamente — E pensar
que fez de tudo para igualar-se a mim… — uma lágrima de
arrependimento percorreu seu rosto. Não soube o que dizer
para consolá-lo. Achei melhor mudar o foco da conversa.
— E o detetive?
— Está melhorando. Os hematomas já desincharam e
não havia nenhum osso quebrado. Está internado no quarto
ao lado, logo virá visitá-lo. Ele não fala em outra coisa. Tem
pressa em vê-lo, quer explicar-lhe algumas decisões que
tomamos na sua ausência.
— Decisões?
— Sim. Deixarei que ele mesmo lhe explique.
Quis comentar sobre a sorte de François e Adélie.
Convenci-me de que o momento não era oportuno.
Stephen estava nervoso, seus dedos tremiam enquanto

242
Herdeiro da Nevoa
´

ele tentava enfaixar-me as mãos. Não quis enfiar o dedo na


ferida e deixei que o silêncio que se travava entre nós fosse
o suficiente para provar-lhe que eu não guardara nenhum
rancor, fosse por mim mesmo, fosse para atender ao pedido
que Chloé me fizera naquela carta.
— Pronto, terminei. — eu jamais vira faixas tão mal
enroladas como aquelas e curativos tão mal arranjados. A
enfermeira certamente os refaria quando Stephen saísse.
Agradeci assim mesmo. Stephen me olhou e riu, achando
graça da minha atitude. Finalmente não se conteve e me deu
um abraço. Pediu perdão secretamente, sussurrando em meu
ouvido. Assenti com um gesto de cabeça.
— Com licença, — um médico nos flagrara ainda
abraçados — avisaram-me que retomou a consciência, senhor
Roux. Devo pedir licença ao seu amigo, mas preciso examiná-lo
imediatamente. Creio que poderá voltar para casa brevemente.
Stephen despediu-se e saiu.
Até então eu ignorara o fato de Chloé ter me chamado
de François em sua carta, a única e perpétua lembrança que
me deixara. Deduzi que Stephen o tenha feito por conta das
despesas hospitalares, a serem pagas com o dinheiro da família
Roux.
Era compreensível.
Fui conduzido a muitas salas diferentes, realizando em
cada uma delas uma pequena parcela da imensa bateria de
exames que o médico me exigira. Não sei quanto tempo se
passou. Só sei que quando retornei ao quarto, pela vidraça vi
que a lua já bordava o céu.
Puseram-me de volta à cama. Serviram-me um caldo
quente e aromático, que meu estômago fez o desfavor de
recusar. Nem mesmo a água fresca era bem-vinda. Bastava um
pequeno gole para me dissolver em fortes cólicas e contrações
estomacais.
Aquilo me fazia pensar que morreria em breve. Meus

243
Raquel Pagno

ossos estavam mais salientes do que nunca. Calculei que devia


estar pesando tanto quanto o gato que morava no piano.
Passei a noite em claro, contorcendo-me de dor.
Depois de dez dias em coma, meu corpo estava enferrujado
e enfraquecido. Meus joelhos latejavam a cada tentativa
frustrada de me levantar. Nem a remexer-me na cama eu
me atrevia, com medo de que minhas veias estourassem e a
enfermeira voltasse com novas agulhas, como se já não me
tivesse retalhado o suficiente.
Estava quase convencido a apertar a campainha
vermelha que pendia sobre a cabeceira, quando ouvi um suave
arrastar de pés que vinham do corredor. Presumi ter chegado
a hora dos amargos comprimidos que me obrigavam a enfiar
goela abaixo. Cheguei a cobrir o rosto com a ponta do lençol,
tentando evitar o inevitável. Não seria possível tratar-me com
injeções, apenas?
Esperei que a malvada loura de branco se aproximasse
com seu macabro potinho de comprimidos. Fechei os olhos
como uma criança, até ouvir o som da porta se fechando. Assim
que tornei a abri-los, havia uma figura pálida e magra, sentada
numa cadeira ao lado de meu leito. A seu lado, pendurado em
uma haste metálica, o soro pingava lentamente.
— François? Está acordado?
— Sim. — respondi. A voz do detetive era inconfundível.
— Como se sente?
— Acho que vou sobreviver. E você?
— Ah, estou quase recuperado. Vaso ruim não quebra.
— o homem sorriu, depois me cumprimentou, segurando com
a mão as pontas dos meus dedos.
— Desculpe aparecer para visitá-lo a esta hora, mas os
enfermeiros não me deixam sair durante o dia. Esperei até
agora para burlar a segurança. Precisava agradecer.
— Não tem de que, detetive. Eu apenas fiz o que julguei
correto. Mas acredito que não precise mais me chamar de

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François, não é mesmo? Assim que eu sair deste hospital vou


procurar a polícia imediatamente e…
— Não, por favor, não faça isso! — interrompeu ele,
quase histericamente. Fitei-o estupefato. Tinha certeza de que
ele se recordava da verdade, sabia quem eu era e havia me
ameaçado. Deveria ser o primeiro a me pedir que assumisse
meu verdadeiro nome e contasse a verdade.
— Como pode me pedir isso, se foi justamente você
quem…
— Ouça-me, por favor. Vou lhe explicar tudo.
Ouvi a explicação do detetive. Um dossiê fora montado,
partindo do pressuposto de que quem morrera naquela noite
junto com Adélie, fora Inácio Vaz. O corpo já havia sido
enterrado e uma carta fora enviada ao homem que me criou,
junto com uma razoável soma em dinheiro.
Chloé recusara a sua parte na herança e partira.
Questionei-o sobre seu paradeiro. Ninguém sabia para onde
ela fora, ou como viveria a partir de então. A revelação doeu-
me mais do que toda a dor física poderia ter doído. Ela me
abandonara definitivamente.
Stephen se arrependera de todas as suas maldades.
Encontrara finalmente a história para o seu livro, a história
de um herdeiro desaparecido que retornou ao lar, destruiu
uma irmandade satânica e finalmente recebeu o que lhe era
de direito. Em seu livro, tudo acontecia muito longe de Paris.
E eu nem precisava ouvir que já não se tratava mais da saga
familiar dos Roux e dos Champoudry.
— Só existe um François Roux, monsieur, e ele está bem
aqui na minha frente.

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Os resultados dos exames demoraram mais alguns dias.


Nesse meio tempo, meu estômago tornara a se acostumar
com a acidez dos alimentos e quando recebi alta hospitalar, já
conseguia tomar um prato cheio de caldo de galinha e beber
alguns goles de suco de frutas, sem contorcer-me em cólicas.
Estava longe de uma recuperação total. Os médicos
garantiam que além da desnutrição e das cicatrizes, não havia
sequelas graves. Mas eu sabia que sim, muito embora elas
não estivessem em minha pele, marcada pelas queimaduras.
Os piores estigmas habitavam o meu peito. O coração jamais
esqueceria Chloé, e a minha alma se inquietava com o fato de
viver sem notícias suas.
Quando voltei para casa, não pude suportar a ideia de
permanecer estático, enquanto Chloé percorria o mundo,
fugindo de um passado doloroso e cruel, mas principalmente,
fugindo de mim. Eu fora a última pessoa a desejar fazer-lhe
algum mal. E justamente eu lhe causara o pior de todos os
males: a culpa.
Eu não conseguia esperar mais. No terceiro dia de
confinamento, remoendo-me de saudades de Chloé, coloquei-
me de pé e saí a sua procura. Ignorei os protestos de Stephen,
que se mudara para minha casa para tomar conta de mim, e do
detetive, que passara a visitar-me todos os dias, religiosamente.

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Raquel Pagno

— Você ainda está muito fraco. Não pode lançar-se a


uma viagem sem destino. Isso é loucura — insistiam.
— Não posso esperar mais. Quanto mais tempo passar,
mais longe Chloé estará e menores serão as possibilidades de
encontrá-la.
— Está bem, mon ami. Mas eu irei com você. — Não
recusei a companhia de Stephen. Acreditei que ele seria fiel.
Reviramos Paris de cabeça para baixo. Stephen levou-
me a lugares escondidos na memória da velha cidade. Lugares
onde a irmandade escondia suas vítimas dos olhos do mundo.
Chloé não estava em nenhum deles.
Minha intuição me dizia que ela fugira da cidade, talvez,
do país.
Depois de muitos meses de buscas mal-aventuradas,
convenci Stephen a partir para a Itália. Ele sabia onde Gérard
vivera com Victória Cosine. Era provável que houvesse
alguma herança para Chloé naquele lugar.
Vasculhamos a Itália. Não havia rastros de Chloé em
Veneza ou Florença. Minhas esperanças estavam quase
perdidas. Minha alma estava estraçalhada. Eu já não tinha
vontade de voltar a Paris, ou migrar para outro lugar. Por
mim, teria ficado na Itália, até a morte. Eu beirava a depressão.
Partimos em busca de pequenas vilas e povoados.
As metrópoles não eram exatamente bons esconderijos.
Cruzamos cada lugarejo. Não encontramos nada. Stephen
encorajava-me a desistir. Dizia que eu não tinha motivos para
seguir em frente. Chloé sumira. Não havia pistas, e sem pistas,
era impossível encontrá-la.
Decidi acatar seus conselhos enquanto atravessávamos
o último vilarejo de camponeses, que eu julguei ser o único
pedacinho da Itália que ainda não havíamos varrido com
nossos olhos de lince.
Seguimos grande parte do caminho a pé, até que uma
visão inesperada chamou-me a atenção. Parei de supetão no

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meio da estrada. Stephen protestou, puxando-me levemente


pelo braço, indagando-me se estava me sentindo bem. Eu
estava tão extasiado que não conseguia responder.
Uma moça seguia alguns metros a nossa frente,
carregando um pequeno cesto de palha. Trazia na cabeça um
chapéu de abas largas, que deixava escapar apenas uma fina
mecha dos cabelos de fogo que eu tanto amara.
Inexplicavelmente, depois de tanta busca, Chloé
aparecera ali, em minha frente, justo quando as minhas
esperanças minguavam e a angústia já me era tão intensa que
se tornara o início da minha morte.
— Chloé! — gritei. Não sei de onde arranquei forças
para correr, mas jamais fora tão veloz em toda a minha vida.
— François… — meu nome saiu de seus lábios como
um suspiro. Atirei-me em seus braços, mas não ousei beijá-la.
— Vamos pra casa.
— Você me perdoa?
— Como não perdoaria? Eu a amo.

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Epilogo
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Formei-me na Sorbonne e construí uma carreira. Ganhei


a fama de ser um bom advogado e uma fama maior de ser um
homem solitário, resguardado e de pouquíssimos amigos.
Meu amor por Chloé não morreu durante todos esses
anos.
Ela ainda me visita, vez ou outra. Acho que seus
sentimentos por mim também sobreviveram, mesmo que
nossos laços sanguíneos tenham impedido perpetuamente
nosso amor. Sinto saudades. Jamais amei outra mulher. Às
vezes fecho os olhos e desejo, do mais profundo da minha alma,
voltar o tempo pra uma época em que não éramos irmãos,
éramos somente um homem e uma mulher. Apaixonados.
O casarão foi demolido, dando espaço ao luxuoso hotel
no qual ainda vivo em comunhão com o passado de sangue e
de morte da antiga casa. Das duas janelas da varanda da suíte
posso ver a Tour Eiffel mudando de cor a cada hora que passa.
O vento quente, que invade a suíte pela janela da frente no
verão, traz consigo o perfume de Chloé. Já as gotas de chuva
são as minhas próprias lágrimas, que só cessam quando eu
escuto o som de seus passos se aproximando pelo corredor
em frente.
Então, quando não resisto e abro a porta para Chloé,
bebemos chá e conversamos, não mais do que cinco minutos.

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Ela fala-me do tempo, fala do que tem feito nos últimos


tempos. Seus olhos falam muito mais. Falam das dores que
ela traz dentro de si, falam do amor, que ainda vive. Então eu
estrago tudo com alguma indagação inconveniente ou deixo
escapar um ‘eu te amo’. E ela se vai.
Vivo cada dia da minha vida só para esperar o momento
de voltar a ouvir os passos no corredor, com a certeza de
que toda a minha vida miserável se justifica naqueles cinco
minutos da companhia de Chloé.
Quando me concentro em meu reflexo brilhando nos
seus olhos, não vejo mais aquele garoto tímido e ingênuo. Vejo
um homem maduro e então tenho a certeza definitiva de que
Inácio Vaz morreu para sempre. François Roux renasceu em
seu lugar.

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