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| ESPECIAL |

O PODER DA MÃO DE BORRACHA SOBRE SUA PERCEPÇÃO DO MUNDO

ANO XIII
No 312

CIÊNCIA
PARA REALIZAR
PLANOS
NÃO IMPORTA QUANTO SEUS PROJETOS
PESSOAIS SÃO BONS, SUA CABEÇA VAI
QUERER SABOTAR VOCÊ. PREPARE-SE
PARA EVITAR ARMADILHAS

DINHEIRO TECNOLOGIA DECISÃO


Pessoas gratas Aparelhos "`iÃ>wœ
lidam iiÌÀž˜ˆVœÃ “i˜Ì>`i
melhor com «œ`i““œ`ˆwV>À fazer a melhor
w˜>˜X>à ˜œÃÜVjÀiLÀœ escolha
carta da editora

Quando ótimas intenções


não bastam

H
á muito tempo cientistas buscam maneiras de auxiliar as pessoas a fazer
escolhas que sejam mais saudáveis, tanto do ponto de vista mental quanto
emocional, o que certamente influi na forma como nos relacionamos com
nosso corpo. Mas a tarefa desses estudiosos, convenhamos, não é das mais fáceis,
já que inúmeras variáveis estão em jogo. Mais fortemente nas últimas duas décadas,
as pesquisas nesse campo têm se intensificado e mostrado que, em grande parte dos
casos, não basta simplesmente entender como determinado comportamento pode
ser prejudicial para mudá-lo. “Passamos mais tempo nos esforçando para alinhar
nossas ações com aquilo que queremos do que transformando algo de fato”, afirma o
psicólogo Martin Hagger, pesquisador da Universidade Curtin, em Perth, na Austrália,
ouvido em um dos textos desta edição. Afinal, é muito mais fácil arranjar justificativas
para evitar ter o trabalho mental (e muitas vezes físico também) de empreender mu-
danças – pois para atingir qualquer propósito é preciso empreender transformações,
o que inevitavelmente exige esforço
Atualmente, pesquisadores trabalham em investigações que vão bem além das
ultrapassadas noções de força de vontade, e muitos deles acreditam que para ter
sucesso é necessário muito mais do que a capacidade de controlar os próprios im-
pulsos. O primeiro passo, considerado essencial, é a consciência de que conseguir
agir de forma diferente daquela a que estamos acostumados realmente não é fácil.
Entender os motivos de determinados comportamentos, no entanto, ajuda a ameni-
zar as dificuldades inerentes ao processo.

Boas descobertas, boa leitura.


GLÁUCIA LEAL, editora-chefe
glaucialeal@editorasegmento.com.br
@glau_f_leal

3
sumário | janeiro 2019

6 Existe escolha certa?


Todos os dias, tomamos milhares de
decisões das mais banais, que passam
despercebidas até aquelas que traçam
os rumos de nossa vida. Entre todas as
nossas opções, a de se comprometer
a fazê-las de forma cuidadosa é
seguramente a melhor

capa
14 Como a ciência pode ajudar 28 Pessoas gratas lidam
você a realizar seus planos melhor com finanças
Quando surgem as dificuldades, os melhores Pesquisadores acreditam que a gratidão
propósitos podem parecer, de repente, muito tem forte relação com o autocontrole,
distantes ou mesmo inalcançáveis. Mas em condição essencial para cumprir metas
geral é nessas fases da vida que é preciso
organizar-se – não só de forma externa, mas 30 O encéfalo e os
também internamente desafios da era digital
Alguns autores apontam as redes sociais
19 Dois passos para a mudança e os videogames interativos como
Muitos de nossos propósitos se perdem pelo principais responsáveis pelas mudanças
caminho porque, no fundo, não tínhamos clareza comportamentais recentes. Com
do que de fato queríamos. Há mais possibilidade ganhos e perdas, chegamos à época da
de sucesso quando entendemos com clareza o que comunicação instantânea e onipresente e
está por trás de nossas intenções novos desafios se manifestam
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Edição no 312, janeiro de 2018,


ISSN 1807156-2.
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psicologia

Existe
escolha
certa?
Todos os dias, tomamos de 2.500 a 10 mil
decisões. Nesse total, estão incluídos desde
os pequenos impasses sobre nossa marca de
café preferida até considerações a respeito
da pessoa com quem queremos dividir (ou
continuar dividindo) a vida. Entre todas as
nossas opções, quaisquer que sejam, a de se
comprometer a fazê-las de forma cuidadosa
é seguramente a melhor

por Gláucia Leal


psicologia

O
s mecanismos que influenciam nossas decisões
têm sido investigados pela ciência há muito tem-
po. Um marco nesse campo foi a troca de cartas
entre dois eminentes matemáticos franceses,
Blaise Pascal e Pierre de Fermat, em 1654. Seus insights sobre
jogos de azar formaram a base da teoria da probabilidade. No
século 20, o tema atraiu a atenção de psicólogos, cientistas
sociais e economistas. Algumas “teorias da decisão” conside-
ram que os seres humanos tendem a pesar cada opção, le-
vando em conta seu valor e probabilidade para, em seguida,
tomar a resolução “mais adequada”. Na prática, porém, não
é bem assim. Talvez seja mais fácil entender como gostaría-
mos de fazer escolhas, guiados por princípios lógicos, do que
como de fato as fazemos.

Desabituados a exercitar o pensamento crítico,


abrimos espaço para preconceitos; em situações
novas ou nas quais temos informação limitada,
muitas vezes baseamos nossas decisões em
conexões aleatórias; cientistas chamam esse
fenômeno de “efeito ancoragem”

A verdade é que uma gama de fatores molda e embasa


nossas opções: tendências inatas, emoções, expectativas,
equívocos, características de personalidade, aspectos cultu-
rais e conteúdos inconscientes. Às vezes, a tomada de deci-
são pode parecer inconsistente ou perversa, e o mais intri-
gante talvez seja o quão frequentemente forças aparente-
mente irracionais nos ajudam a fazer a opção certa – se é que
ela existe.

7
psicologia

Num evento recente sobre o tema, promovido pelo institu-


to independente de pesquisa Ernst Strüngmann Forum, em
Frankfurt, na Alemanha, que reuniu cientistas e pensadores,
foi salientado que, todos os dias, tomamos de 2.500 a 10 mil
decisões. Nesse total, estão incluídas desde as pequenas
preocupações sobre a marca de café que preferimos até
considerações sobre a pessoa com quem queremos dividir
(ou continuar dividindo) a vida.

Raiva, nojo e medo


Não é novidade que nossas emoções podem ser a força mo-
triz nos processos de tomada de decisão. Do ponto de vis-
ta evolutivo, muitas vezes o que sentimos (mais até do que
aquilo que pensamos) nos direcionou para a sobrevivência.
A raiva, por exemplo, pode nos motivar a punir um transgres-
sor, o que, para nos-
sos antepassados, foi
fundamental na ma-
nutenção da ordem e
da coesão do grupo.
Já o nojo nos torna
exigentes e moralis-
tas, levando a esco-
lhas que podem evitar
doenças e o descum-
primento de normas
sociais.
O medo, por sua
vez, nos deixa mais cuidadosos – e, às vezes, nos mantém
vivos. Se pensarmos na reação de seres humanos pré-histó-
ricos diante de um ruído nos arbustos, talvez valha considerar

8
psicologia

que os mais corajosos, que não apostaram na possibilidade


de haver um predador escondido entre as folhagens, tenham
pago com a própria vida pelo erro de avaliação – e, assim, não
conseguiram passar seus genes para a geração seguinte.
Especialistas consideram que emoções nos ajudam a nos
concentrar no que realmente importa em dado momento, já
que até mesmo as situações diárias mais básicas são com-
plexas para nosso cérebro e exigem que inúmeras informa-
ções sejam levadas em conta. Por isso, sempre que possível
é preciso simplificar.

Tendemos a ser muito mais cautelosos quando há a


possibilidade de grandes ganhos ou de perdas pequenas.
No entanto, escolhemos opções arriscadas sem grande
apreensão se existe a probabilidade de pequenos
ganhos ou de perda significativa; temos inclinação para
subestimar eventos raros, mas que podem ser graves
O pesquisador Gordon Brown, da Universidade de War-
wick, no Reino Unido, afirma, porém, que na maioria das ve-
zes tendemos a classificar possibilidades com base em pro-
cessos cognitivamente fáceis, como comparações binárias.
Por exemplo: ao decidir se R$ 5,50 é muito para pagar por um
suco, você pode se lembrar de meia dúzia de ocasiões em
que o mesmo produto custou menos e de apenas duas nas
quais pagou mais, o que o fará colocar essa bebida específica
na categoria “cara” – e, eventualmente, optar por não comprá-
-la. Essa é uma típica “decisão por amostragem”, útil quando
temos à disposição opções simplificadas, mas que pode levar
a decisões ruins quando as informações usadas para classi-
ficar possibilidades estiverem incorretas, forem limitadas ou

9
psicologia

se basearem em crenças falsas. A decisão por amostragem


pode influenciar nossas escolhas até quando enfrentamos
ameaças mais imediatas. Pessoas que vivem em sociedades
com altas taxas de mortalidade, por exemplo, são mais pro-
pensas a decidir colocar-se em risco em comparação com
alguém que tem pouca experiência de perigo.
Ainda do ponto de vista da evolução, por meio da apren-
dizagem podemos aprimorar nossa capacidade de escolher
as informações sobre as quais baseamos nossas decisões. A
seleção natural pode explicar até a intrigante propensão da
maioria das pessoas para evitar fazer escolhas mais amplas –
e simplesmente “seguir o rebanho”. O pesquisador Rob Boyd,
da Universidade da Califórnia em Los Angeles, destaca que
nós, humanos, evoluímos à medida que aprendemos com os
outros e os imitamos – até porque essa é, muitas vezes, uma
boa opção. Na maioria das situações, saber por si só qual é
a melhor coisa a fazer está além da capacidade de um úni-

10
psicologia

co indivíduo. Mas somos bons em reconhecer o que os ou-


tros fazem de forma acertada – e copiar. Resultado: nossas
tendências conformistas em geral nos levam a escolhas sur-
preendentemente eficazes, que nos permitem nos socializar
quando começamos um novo curso ou trabalho e a adquirir
produtos de qualidade mesmo quando não somos experts.

Avaliação de riscos
O lado ruim da situação é que, excessivamente conforma-
dos, corremos o risco de nos desresponsabilizar por nossas
opções e cair nas armadilhas da manipulação, sem sequer
nos darmos conta disso. Desabituados a exercitar o pensa-
mento crítico, abrimos espaço para preconceitos. Assim, em
situações novas ou
nas quais trabalha-
mos com informação
limitada, temos o há-
bito infeliz de basear
nossas decisões em
conexões aleatórias.
Esse efeito, conhe-
cido como “ancora-
gem”, foi apresentado
pela primeira vez pe-
los psicólogos Daniel
Kahneman, da Univer-
sidade Princeton, ganhador do Nobel de Economia em 2002,
e Amos Tversky, já falecido, que participou da pesquisa que
rendeu o prêmio ao colega. Os dois revelaram algumas atitu-
des peculiares em relação ao risco. Por exemplo, tendemos
a ser muito mais cautelosos quando há a possibilidade de

11
psicologia

grandes ganhos ou de perdas pequenas. No entanto, esco-


lhemos opções arriscadas sem grande apreensão se existe a
probabilidade de pequenos ganhos ou de perda significativa.
Essa inclinação para subestimar eventos raros, mas catastró-
ficos, tem sido chamada de “efeito cisne negro”.
O que se pode dizer sem medo de errar é que nossas es-
colhas, quaisquer que sejam, grandes ou pequenas, estão
sujeitas a uma quantidade enorme de influências e variáveis,
nem todas sob nosso controle. Mas tudo indica que a com-
preensão mais clara das forças que sustentam nossas deci-
sões pode nos ajudar a fazer melhores escolhas. Um exem-
plo prático? A descoberta recente de pesquisadores das uni-
versidades Ben-Gurion, em Israel, e Stanford sobre a “fadiga
de decisão”, que faz com que juízes sejam quatro vezes mais
propensos a conceder penas menores de manhã do que à
tarde, poderá persuadir não só os profissionais, mas qualquer
pessoa a ser mais cuidadosa quando se vê diante de um di-
A AUTORA
GLÁUCIA LEAL é lema. E, com certeza, de todas as escolhas que enfrentamos
jornalista, psicóloga
e psicanalista, todos os dias, a de se comprometer a tomar boas decisões é
editora-chefe de
Mente e Cérebro seguramente a melhor.

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capa
capa

Como
a ciência
pode ajudar
você a realizar
seus planos
Quando surgem as dificuldades, os melhores
propósitos podem parecer, de repente, muito distantes
ou mesmo inalcançáveis. Mas em geral é nessas fases
da vida que é preciso organizar-se – não só de forma
externa, mas também internamente
14
capa

A
lguma vez você já abandonou seus projetos em mo-
mentos de crise? Se a resposta é sim, com certeza
você não é o único. Um exemplo: estudos desenvol-
vidos por vários institutos de pesquisa americanos
mostram o mesmo dado: em média, uma em cada quatro pes-
soas desiste de seus planos para o ano seguinte já no fim da
primeira semana de janeiro e outras tantas deixam de lado seus
propósitos nos três meses seguintes. Ou seja, se você fez juras
bem-intencionadas enquanto assistia à queima de fogos há um
mês atrás, é bastante provável que seus propósitos já estejam se
perdendo no horizonte.
E não importa qual seja a proposta – mudar de carreira, arranjar
um novo emprego, ter uma alimentação mais saudável, exerci-
tar-se regularmente, ler pelo menos um livro por mês, ficar mais
perto das pessoas queridas, deixar de comprar por impulso ou
simplesmente manter o armário arrumado, por exemplo – sua
realização requer esforço. E qualquer um que tenha tentado mu-
dar um hábito sabe quanto pode ser difícil e às vezes frustrante
manter a transformação. Mas por que é tão difícil mudar, apesar
de nossas boas intenções? O que sabem aquelas poucas pesso-
as que conseguem o que o resto de nós não entende?
Essas perguntas são tão intrigantes para os cientistas quanto
para nós, interessados em nossos próprios objetivos. E décadas
de pesquisa podem nos dar uma boa ideia das respostas. Mu-
danças de estilo de vida exigem ajustes na mentalidade, moti-
vação e intenção. Sonhar grande pode ser divertido, mas alinhar
as expectativas à realidade ajuda a enfrentar melhor os desafios
e a colocar em prática planos específicos para enfrentá-los. O

15
capa

importante é começar aos poucos, com prazos curtos e metas


alcançáveis para reforçar a autoconfiança. Também é funda-
mental encontrar motivação pessoal e criar novas rotinas que
farão seus comportamentos desejados tão automáticos quan-
to os maus hábitos que pretende eliminar. Difícil? A boa notícia
é que, usando algumas técnicas cientificamente comprovadas,
é possível fazer uma pequena (e produtiva) revolução na pró-
pria vida, sem precisar para isso recorrer a programas ou livros
de autoajuda.

Nova abordagem
Há muito tempo cientistas buscam maneiras de auxiliar as
pessoas a fazer o que é bom para elas. No entanto, nos últimos
15 anos, a maioria das hipóteses não foi adequada para ser tes-
tada no mundo real. Muitos pesquisadores acreditavam que as
pessoas optariam por não fumar se simplesmente entendes-
sem como o hábito é prejudicial, por exemplo. Contudo, não
há evidências de que saber dos efeitos mortais causados pelo
consumo do cigarro tenha de fato provocado grande impacto
nas taxas de desistência. “Passamos mais tempo nos esforçan-
do para alinhar nossas ações com aquilo que queremos do que
transformando algo de fato”, afirma o psicólogo Martin Hagger,
pesquisador da Universidade Curtin, em Perth, na Austrália.
Em outras palavras, é muito mais fácil uma pessoa
arrumar motivos e desculpas que justifiquem
o fato de ainda fumar, alimentar-se mal ou
não passar fio dental antes de dormir do
que eliminar hábitos prejudiciais.

16
capa

Atualmente pesquisadores trabalham em investigações que


vão bem além das ultrapassadas noções de força de vontade, e
muitos deles acreditam que para ter sucesso é necessário mui-
to mais do que a capacidade de controlar os próprios impulsos.
O primeiro passo, considerado essencial, é a consciência de que
conseguir agir de forma diferente daquela a que estamos acos-
tumados realmente não é fácil. Entender os motivos de deter-
minados comportamentos, no entanto, ajuda a amenizar as difi-
culdades inerentes ao processo. “O que torna complicado mu-
dar hábitos é justamente o que os faz tão úteis no dia a dia”, diz
a psicóloga e especialista em comportamento Wendy Wood, da
Universidade do Sul da Califórnia. Eles tornam a vida mais fácil e
ajudam a ganhar tempo por não termos de pensar, por exemplo,

Muitos psicólogos acreditam que manter o


objetivo traçado seria a exceção, principalmente
quando é preciso rever estratégias em razão de
uma nova configuração econômica, social ou
mesmo na vida pessoal
em como colocar os sapatos antes de sair de casa. Só o fato de
estarmos em determinado lugar é suficiente para agirmos de
determinada maneira – fato que, infelizmente, é igualmente ver-
dade para os “pecadinhos” que queremos eliminar.
Um experimento realizado por Wood e seus colegas e pu-
blicado no Personality and Social Psychology Bulletin de-
monstra claramente essa realidade. Os pesquisadores distri-
buíram porções de pipoca fresca e da semana anterior para
pessoas que habitualmente comiam esse alimento no cine-
ma. Eles fizeram o teste em vários ambientes e descobriram
que, embora os voluntários que receberam porções murchas

17
capa

e ressecadas não tivessem gostado, comeram até


o final a quantidade que lhes foi oferecida. A boa
notícia é que esse padrão se manteve apenas quando
estavam assistindo a trailers de filmes na sala de cinema,
mas não enquanto assistiam a vídeos de música em uma sala
de conferências, onde a mudança de disposição anulou o im-
pulso irracional de comer. Planejar com antecedência como
diminuir os “riscos” de situações como essa, que se tornam
verdadeiras armadilhas, é uma maneira de quebrar hábitos. A
pessoa que pretende parar de consumir cafeína, por exem-
plo, pode encontrar outro caminho para o trabalho que não
passe por uma cafeteria.
Ter um novo hábito, como entrar em forma ou ler mais clás-
sicos, por exemplo, geralmente requer escolher entre algo
agradável, familiar e outra coisa que não seja (pelo menos
inicialmente) tão prazerosa assim. O que piora a situação é
que a maioria das pessoas subestima a dificuldade de man-
ter a força de vontade, o que geralmente as coloca em apu-
ros. Diversos estudos publicados na Psychological Science
mostram que os participantes mais decididos a manter sua
opinião foram também mais propensos a ceder à tentação de
voltar a fumar ou comer lanches gordurosos. Por outro lado,
candidatos modestos, com avaliações mais realistas de suas
habilidades, se saíram melhor.

18
capa

Dois passos
para a
mudança

Muitos de nossos propósitos


se perdem pelo caminho
porque, no fundo, não
tínhamos clareza do que
de fato queríamos. Há mais
possibilidade de sucesso quando
entendemos com clareza o que
está por trás de nossas intenções
19
capa

M
udanças duradouras requerem a renovação pe-
riódica de nossas escolhas e dos compromissos
assumidos conosco. “Se a pessoa simplesmente
pensar ‘Eu consigo, basta evitar’, é provável que
falhe porque as situações que se apresentam estão sujeitas
a variáveis mais complexas”, diz Mary Jung, pesquisadora da
Universidade da Colúmbia Britânica, que nos últimos anos tem
se dedicado ao estudo da relação das pessoas com a apro-
priação de comportamentos saudáveis. Ela salienta que faz
toda a diferença o fato de as pessoas compreenderem que
“escorregar” de vez em quando é normal, e isso não deve ser
interpretado como sinal para desistir. “Se você perdeu uma
etapa de exercício, não significa que falhou, mas apenas que
terá de tomar algumas providências para deixar seu treino em
dia”, afirma Mary.
A pesquisadora enfatiza a importância de dedicar algum
tempo imaginando o resultado do sucesso de seus esforços
e os obstáculos específicos que certamente aparecerão ao
longo do caminho. Vamos imaginar que sua meta seja econo-
mizar mais dinheiro neste ano. Em vez de tentar resolver tudo
de forma abstrata, é possível formar duas imagens mentais: a
primeira poderia ser a de maior saldo bancário e a outra de si
mesmo lutando contra a vontade de se juntar com os amigos
no caro restaurante inaugurado recentemente. Vários estudos
mostram que a técnica de dois passos, chamada de oposição
de ideias, ajuda as pessoas a procrastinar menos e a enfrentar
os desafios com mais entusiasmo.
Para aumentar as chances de alcançar um objetivo, em pri-
meiro lugar é preciso descobrir exatamente por que se almeja
– e o que sustenta esse desejo. “Pensamentos do tipo ‘eu de-

20
veria’ poder mantê-lo firme por um ou até dois meses
em seu objetivo, mas em geral não se sustentam por
muito mais do que isso, ou se o fazem é à custa de
muito sacrifício”, argumenta o psicólogo Richard M.
Ryan, da Universidade de Rochester. Ele e seu colega
Edward L. Deci desenvolveram um modelo de moti-
vação chamado teoria da autodeterminação, segundo
a qual as pessoas com necessidades psicológicas se
sentem mais satisfeitas, competentes e capazes de
manter relacionamentos afetivos saudáveis e, o mais
importante, autônomas e com liberdade para esco-
lher o que fazer.
Para atender à necessidade de se sentir competen-
te, uma estratégia eficaz é procurar atividades que fa-
voreçam a sensação de ser bom em algo. Acompanhar
e reconhecer o próprio progresso em alguma atividade
ao longo do tempo, por exemplo, sem cair na tenta-
ção de invalidar as próprias conquistas, é uma maneira
de reforçar o sentimento de realização. Algo que pode
contribuir para reafirmar objetivos é pensar como os
novos hábitos poderão melhorar o seu relacionamento
com pessoas próximas e queridas, bem como ajudá-lo
a estabelecer novos vínculos. Essa linha de raciocínio
nos ajuda a perceber que a realização da meta está
associada à satisfação emocional.
“A vontade intensa de conquistar autonomia, o últi-
mo pilar da teoria de autodeterminação, é forte, mas,
se você estiver motivado apenas por pressão externa,
mais cedo ou mais tarde provavelmente irá se rebelar

21
capa

e sabotar seus próprios esforços”, acrescenta Ryan. Por isso,


encontrar atividades que atendam às suas necessidades pes-
soais, por outro lado, pode aumentar as probabilidades de per-
manecer no propósito.
Porém, tendemos a ignorar a importância de motivadores in-
ternos. É o que aponta uma pesquisa sobre os efeitos de incen-
tivos financeiros para perder peso. Estudos de curto prazo feitos
na década de 70 ofereceram resultados promissores, demons-
trando que pessoas que receberam recompensas financeiras
foram induzidas a perder mais quilos do que aquelas sem o es-
tímulo monetário. “No entanto, estudos mais recentes revelam
que, após a retirada do dinheiro, as pessoas voltaram a engor-
dar”, observa o psicólogo Pedro J. Teixeira, professor da Univer-
sidade Técnica de Lisboa. Teixeira é também coautor de um
artigo no qual descreve uma bem-sucedida intervenção para

Qualquer que seja seu objetivo será necessário


esforço não só para concretizá-lo, mas também
para manter a conquista. O primeiro passo é
saber que mudanças de hábitos exigem ajustes
de mentalidade, motivação e intenção

perda de peso, no periódico científico Medicine and Science in


Sports and Exercise. No estudo, mulheres obesas que haviam
sido incentivadas a explorar motivações pessoais e a escolher
seus próprios objetivos se dedicaram muito mais aos exercícios
físicos e perderam significativamente mais peso. O acompanha-
mento dessas voluntárias mostrou que três anos mais tarde elas
ainda preservavam a autonomia para controlar o peso.
Ainda que o objetivo pareça ter origem externa, é possível
apropriar-se dele, encontrar razões pessoais para persegui-lo

22
capa

e, dessa forma, aumentar as chances de alcançá-lo. Por exem-


plo, se o médico faz várias recomendações a um paciente de
meia-idade, com intuito de baixar suas taxas de colesterol,
ainda que o homem considere um exagero do médico e afir-
me que se sente bem de saúde, ele pode se perguntar como
suas escolhas alimentares atrapalham a conquista de obje-
tivos mais amplos, como passar mais tempo com os netos
ou viajar. Esse processo pode ajudar a encarar o objetivo
(aparentemente) externo como um caminho na transfor-
mação pessoal, na medida em que o envolvimento com
ele aumenta.
Teixeira acredita que o compromisso com as metas é o
caminho para a conquista da autonomia, e somente assim
é possível abrir possibilidades para mudanças duradou-
ras. “Uma das chaves essenciais para a concretização de
nossos planos é descobrir a motivação certa, aquela que
realmente nos move”. Outro segredo para firmar mudan-
ças duradouras é começar devagar e, gradualmente, chegar
a desafios maiores. “As mudanças mais bem-sucedidas são
aquelas em que pegamos o ritmo pouco a pouco durante al-
gumas semanas; com isso é possível ir fazendo ajustes e evitar
a sensação frustrante de se esforçar tanto por algo e depois
falhar”, afirma Mary Jung. “Em relação ao condicionamento fí-
sico, por exemplo, se não tenho certeza de que alguém pode
fazer algo, não é uma boa ideia pedir que comece justamente
com essa tarefa; o ideal é que se atinja o propósito em etapas,
até para que esse comportamento se sedimente no cérebro”.
No entanto, por mais sensato que isso possa parecer, as pes-
soas geralmente fazem o oposto – não raro, entram em dietas
extremas ou exageram na prática de exercícios físicos para os
quais não estão preparadas. Há também aqueles que fazem

23
capa

votos súbitos de praticar piano ou estudar mandarim por uma


hora todos os dias.
A abordagem gradual funciona porque aumenta um ingre-
diente essencial para a realização do objetivo: a confiança. Ape-
sar das reais dificuldades, o sentimento é necessário para ter
sucesso. Esse tipo de motivação é muito diferente do otimis-
mo infundado daqueles que superestimam sua capacidade de
resistir a tentações, explica Mary. Conseguir superar desafios
externos tem menos a ver com força de vontade e mais com
habilidades específicas de enfrentamento, como o gerencia-
mento de problemas e a capacidade de se reerguer depois de
contratempos. Aos poucos, o desenvolvimento dessas habili-
dades e a definição de objetivos modestos que permitam en-
contrar maneiras de lidar com eventuais problemas aumentam
a segurança e as chances de persistir a longo prazo.

Fazer planos específicos sobre como agir diante


de escolhas difíceis costuma ajudar a dizer não
às tentações e seguir firme em direção às metas
É claro que, depois de cada tropeço, a crença em si fica um
pouco abalada. Pessoas que falham repetidamente na tenta-
tiva de alcançar um objetivo tendem a duvidar de sua capaci-
dade de realizar qualquer coisa. Por isso, especialistas insistem:
é preciso ir aos poucos. Por exemplo, se você se esforçar para
manter a casa arrumada, no início deve focar um dos quartos
– ou até mesmo um armário ou escrivaninha. Mantenha a área

24
capa

limpa por uma semana, comemore a conquista e, depois, es-


colha outra área para a próxima semana. Manter uma bancada
em ordem pode parecer extremamente fácil – mas não para
alguém com forte inclinação para a desorganização.

No piloto automático
Em última análise, podemos pensar que mudanças dura-
douras requerem incorporar o novo comportamento, torná-lo
automático, de forma que não nos incomode. Uma maneira
de começar o processo para adquirir um hábito é dizer para
si mesmo, de maneira realista, o que pretende fazer e de que
forma vai se movimentar para pôr o plano em prática. Com isso,
é possível traçar a estratégia para determinar quando, onde e
como pretende alcançar seus objetivos. Hipoteticamente, se
você pretende comer três porções de legumes todos os dias,
poderia dizer a si mesmo: “Assim que sair do trabalho, no cami-
nho de volta para casa, passo no supermercado para comprar
esses alimentos”, diz o psicólogo Peter Gollwitzer da Universi-
dade de Nova York, criador da técnica “se-então”, chamada de
execução de intenção. A intenção é criar um sinal automático
que faça emergir o comportamento que você quer.
Num estudo em psicologia da saúde, Gollwitzer, e seus co-
legas falaram para um grupo de mulheres alemãs sobre
os benefícios para a saúde de comer cinco por-
ções de frutas e vegetais por dia. Também
instruíram algumas participantes a utilizar
a execução de intenção e oposição de

25
capa

ideias mentais. As voluntárias mantiveram a


dieta saudável durante dois anos depois do
estudo, enquanto aquelas que não haviam
recebido a instrução voltaram à antiga forma
de alimentação após poucos meses. Outros es-
tudos mostraram que a execução de intenção reduziu
em 43% a gravidez na adolescência em uma cidade britânica
com taxas acima da média em comparação com um grupo
controle e, da mesma forma, com pré-adolescentes que, de-
pois de dizer para si mesmas como agiriam diante da oferta de
um cigarro, diminuíram o consumo.
É evidente que alguns tipos de execução de intenção fun-
cionam melhor que outros. Gollwitzer descobriu recentemente
que dizer um motivo para seus planos – como “Quando eu
chegar ao refeitório, vou pegar uma salada porque quero ser
saudável” – não funciona porque pensar sobre o motivo in-
terrompe o automatismo. A pesquisa sugere que os objetivos
precisam estar bastante claros antes de o interessado iniciar o
programa. Outra constatação importante é que a execução de
intenção mais eficaz é em forma positiva: “Vou ignorar o tele-
fone” em vez de “Não vou atender ao telefone”, por exemplo.
Adicionar imagens mentais também ajuda. “Assim, a declara-
ção não é apenas escrita ou repetida como um mantra, mas,
na verdade, elaborada na mente”, conclui Gollwitzer.

Grandes objetivos
Algumas dessas estratégias, especialmente as que envol-
vem colocar ênfase em metas realistas, olhar para dentro de si
e fazer planos concretos, são semelhantes às utilizadas na te-

26
capa

rapia comportamental cognitiva para


tratar doenças graves como an-
siedade e depressão. Saber disso
aumenta as esperanças daqueles
com desafios mais modestos.
Algumas dessas ferramentas,
PARA SABER MAIS
porém, podem não ser a melhor
Visual attention and goal
pursuit deliberative and
implemental mindsets affect
opção para todos. Alguns, de fato,
breadth of attention. Oliver
B. Büttner. Frank Wieber. podem se sentir mais confortáveis se
Anna Maria Schulz. Ute C.
Bayer. Arnd Florack. Peter M. tiverem um psicólogo que possa acompa-
Gollwitzer. Personality and
Social Psychology Bulletin,
outubro de 2014
nhá-los, o que não é um problema, trata-se apenas de
Não fui eu, foi meu cérebro! outra forma de buscar atingir objetivos. Pesquisas ante-
Caio Margarido Moreira.
Mente e Cérebro Especial, nº riores mostram que a execução de intenções não fun-
35 – O segredo da decisão,
págs. 10-17, 2012.
ciona tão bem para hábitos profundamente arraigados.
The pull of the past: when do
habits persist despite conflict Pessoas que pretendem derrubar rotinas que perdura-
with motives? David T.
Neal, Wendy Wood, Mengju ram por toda a vida talvez não se beneficiem da técnica,
Wu e David Kurlander em
Personality and Social
Psychology Bulletin, vol.
assim como outras podem achar que seus objetivos não
37, no 11, págs.1428-1437;
novembro de 2011. são facilmente divididos em pequenos passos e depois
Implementation intentions: ligados. O importante parece ser tentar variadas táticas e
strong effects of simple
plans. Peter M. Gollwitzer
em American Psychologist,
encontrar o que funciona melhor em cada situação. Tal-
vol. 54, no 7, págs. 493–503,
julho de 1999. vez o mais importante seja não esperar mudar seu jeito
Self-Determination Theory: de agir do dia para a noite. Sempre pode ser um bom
an approach to human
motivation and personality.
Site da Universidade de
momento para começar a dar passos em direção ao me-
Rochester: www.psych.
rochester.edu/SDT/theory. lhor de nós mesmos. Mesmo no meio da crise.
php.

27
dinheiro

Pesquisadores
acreditam que
a gratidão tem
forte relação com
o autocontrole,
condição essencial
para cumprir metas

Pessoas gratas
lidam melhor
com finanças
dinheiro

C
erto, todo mundo já ouviu dizer que o sentimento
de gratidão nos ajuda a ser mais felizes e abertos
em relação à vida. Agora, a ciência aponta que o
sentimento pode ser também um grande aliado
para abandonar o cigarro, se manter firme na dieta e poupar di-
nheiro. Pesquisadores das Universidades Harvard, Northeas-
tern e da Califórnia pediram a 75 voluntários para escrever
detalhes de um dia típico ou de um evento em que se senti-
ram felizes ou gratos. Em seguida, deveriam graduar (em uma
escala de 1 a 5) o quanto experimentavam esses dois últimos
sentimentos no momento. Depois, tiveram a oportunidade
de escolher uma quantia em
Uma ajudinha, por favor dinheiro: um valor pequeno
Receber opinião de especialistas em finanças, ou (entre US$ 11 e US$ 80) pago
mesmo do gerente do banco, é útil, sem dúvida, imediatamente ou mais alto
mas para algumas pessoas pode pode causar uma
espécie de descompromisso com o gerenciamento
(entre US$ 25 e US$ 85) que
as próprias finanças. O periódico científico Public seria entregue entre uma se-
Library Science divulgou um trabalho mostrando que, mana e seis meses depois.
quando recebemos o conselho de um consultor,
o cérebro tende a desativar áreas associadas à Os resultados, publica-
decisão racional. “É como se abandonássemos dos na Psychological Scien-
a responsabilidade quando confiamos em uma
ce, mostraram que os mais
autoridade”, explica Gregory Berns, professor de
gratos conseguiram esperar
neuroeconomia e psiquiatria da Universidade de
Emory, nos Estados Unidos. mais e, consequentemente,
embolsaram mais dinheiro.
Em média, só abriam mão de ganhar US$ 85 após três me-
ses se recebessem pelo menos US$ 63 no ato, enquanto os
menos gratos aceitaram a partir de US$ 55 nas mesmas con-
dições. Os pesquisadores acreditam que a gratidão tem forte
relação com o autocontrole, condição essencial para cumprir
metas, e apontam para a importância da influência de estados
emocionais positivos na hora de tomar decisões financeiras.

29
tecnologia

O encéfalo
e os desafios da
era digital
Alguns autores apontam as
redes sociais e os videogames
interativos como principais
responsáveis pelas mudanças
comportamentais recentes.
Com ganhos e perdas,
chegamos à época da
comunicação instantânea
e onipresente e novos
desafios se manifestam. A
inclusão do distúrbio de
dependência da internet
chegou a ser considerada
na última edição do Manual
diagnóstico e estatístico de
transtornos mentais (DSM-5)
– a proposta, entretanto, não
foi aprovada

por Jorge A. Quillfeldt


tecnologia

O
encéfalo humano – que reúne dentro da caixa
craniana o cérebro, o cerebelo e o tronco encefá-
lico – é, até prova em contrário, o pedaço de ma-
téria organizada mais complexo em todo o mun-
do conhecido. Muitos o consideram uma espécie de apogeu
da evolução da vida, mas não deixa também de ser um triunfo
da história da matéria que compõe o próprio Universo. Quase
todos os átomos da Tabela Periódica foram gerados por nu-
cleossíntese atômica no interior de antigas estrelas que depois
explodiram como supernovas, liberando essa matéria que, en-
tão, pôde se reorganizar em novas estrelas – agora com pla-
netas e moléculas de todo tipo. Sobre esse substrato material
a vida surgiu e desenvolveu-se, pelo menos em nosso planeta.

A capacidade de executar multitarefas esbarra


na limitação humana e, não por acaso, a
demanda das tecnologias da informação se
torna uma importante fonte de estresse

Daí a poética observação do astrônomo e divulgador da ciên-


cia Carl Sagan: “Somos basicamente a matéria das estrelas
contemplando-se a si mesma”.
Essa minúscula porém inquieta massa de tecido neural pesa
pouco mais de um quilo – cerca de 2% do nosso peso – mas
consome mais de 20% da energia disponível, quase que ape-
nas para manter a custosa comunicação eletroquímica entre
os neurônios. O tecido nervoso difere de todos os outros na
medida em que, nele, a diferenciação é a regra, não havendo
duas células idênticas. Não bastasse isso, próximas ou distan-
tes, todas se conectam aos mais intrincados padrões espaciais,
formando as redes neurais. Diferentemente, os outros tecidos

31
tecnologia

do corpo são compostos por células relativamente homogê-


neas, cada uma fazendo mais ou menos a mesma coisa, e
quase sempre simultaneamente. Ou seja: operam em massa.
No tecido nervoso a ação celular massiva não é comum, ex-
ceto em situações patológicas, como num episódio epiléptico.
Cada um dos mais de 80 bilhões de neurônios dessa ver-
dadeira “galáxia” neural que é o encéfalo humano recebe, de
outros neurônios, milhares de conexões – as chamadas si-
napses, computando o conjunto de sinais recebidos como se
fosse uma “pesquisa de opinião”, e decidindo se enviará um
potencial de ação ao longo de seu axônio rumo a alguns ou
muitos neurônios-alvo. Cada um destes, por sua vez, registrará
essa minúscula contribuição em meio às milhares de outras
que também recebe, decidindo se vai disparar ou não. Existem
cerca de mil diferentes tipos de
células no encéfalo, mas mesmo
as similares podem produzir dife-
rentes atividades devido à forma
como se interconectam, o que
oferece uma ideia da complexi-
dade desse órgão.
O encéfalo é comumente con-
siderado um “computador”, mas
tal analogia, popular há várias dé-
cadas, é pobre e até mesmo pro-
blemática. É pobre porque dis-
positivos cibernéticos até são ca-
pazes de armazenar e processar
muitas memórias, ou emular esta
ou aquela propriedade cognitiva
com maior ou menor eficiência,

32
tecnologia

mas todos esses processos são por demais simples e rígidos


se comparados ao que um verdadeiro encéfalo faz: processar
informações  analógicas  multissensoriais de forma altamente
“paralelizada”, registrá-las em redes neurais dinâmicas cons-
truídas mediante a  plasticidade  das conexões sinápticas, e,
deste modo, modular a execução de comportamentos adap-
tativos, inatos ou aprendidos. É problemática porque analogias
contrabandeiam, como cavalos de troia, uma série de pres-
suposições conceituais que acabam dificultando os avanços
teóricos, já que impõem um modelo que de fato é distante da
realidade biológica. O encéfalo não é, enfim, um computador
como os que conhecemos e, em que pese o ultraotimismo de

A mente humana é um amálgama das


diversas funções cognitivas que, além das
sensações e movimentos, envolve atenção,
capacidade de antecipação, solução de
problemas, emoções memória e linguagem

autores como Raymond Kurzweil, estamos longe de construir


um “computador” comparável ao nosso encéfalo.
A mente humana é um amálgama das diversas funções
cognitivas do encéfalo que, além das sensações e movimen-
tos, envolve atenção, processamento visuoespacial, funções
executivas (antecipação, solução de problemas e tomada de
decisões), emoções (motivação/ inibição), sem se esquecer da
memória e da linguagem. O  Homo sapiens adquiriu essas ca-
pacidades ao longo da evolução por seleção natural, que, ao
contrário do que muitos pensam, não deixou de atuar sobre as
populações humanas (mutações ocorrem o tempo todo) em-
bora algumas pressões seletivas tenham sido efetivamente

33
tecnologia

suprimidas no contexto das


sociedades organizadas.
O encéfalo se alimenta de
informações sensoriais e ver-
te, como produto final, res-
postas motoras – os com-
portamentos. As sensações
capturadas pelos órgãos dos
sentidos convergem ao encé-
falo, mergulhando, segundo a
expressão do neurocientista
inglês Charles Sherrington, no
“grande plexo intermediário”.
Ou num imenso “jardim dos
caminhos que se bifurcam”, para usar outra imagem poderosa
de Jorge Luis Borges, em que vias preferenciais são percorridas,
conexões são plasticamente estabelecidas e/ou interrompidas,
e decisões são tomadas, determinando os comportamentos a
serem executados. Quanto maior e mais complexa essa rede,
mais complexos serão os comportamentos.
No  Homo sapiens, o encéfalo ordena temporalmente as
percepções somatossensoriais (sensações do próprio corpo) e
sensoriais (do ambiente) em um todo coerente que se renova
reiteradamente a cada instante, mantendo uma unidade que
é, de fato, a identidade individual única e indivisível – o ego (ou
“eu”), função conhecida como consciência. A maioria dos ani-
mais, porém, não parece tê-la no mesmo grau, respondendo a
entradas sensoriais principalmente de forma automática, “sem
saber”. A consciência é um agente integrador poderoso, mas
é limitado pelo fato de operar serialmente – faz uma coisa de
cada vez: até podemos executar duas ou mais tarefas simulta-
tecnologia

neamente, alternando-as rapidamente, o que funciona melhor


se as adicionais são automáticas (reflexas), mas, quanto mais
tarefas realizarmos ao mesmo tempo, menos precisas serão
suas execuções. A capacidade de executar multitarefas é uma
limitação humana bem conhecida, e sua alta demanda na so-
ciedade atual – especialmente no terreno das tecnologias da
informação – é fonte de muito estresse.
Uma preocupação crescente nos últimos anos é saber como
o encéfalo humano vem lidando com o novo ambiente onipre-
sente das tecnologias digitais de comunicação – que, embo-
ra tenha revolucionado nossas vidas, cada vez consome mais
tempo e envolvimento das pessoas, pelo menos daquelas que
têm condições financeiras de acessá-lo (já que a maioria da hu-
manidade nem sonha com isso). Na última década vimos uma
explosão de denúncias acerca dos supostos malefícios dessas
atividades. Os ambientes artificiais de hoje não têm preceden-
tes na história evolutiva da humanidade, não fomos seleciona-
dos para muito do que experimentamos, e a adaptação quase
sempre é incompleta e custosa. Alguns autores apontam, entre
os principais responsáveis pelas mudanças comportamentais,
a internet – com destaque para as redes sociais – e os video-
tecnologia

games interativos. E embora estes recursos tenham aspectos


inegavelmente positivos, suas limitações ficam exacerbadas
com o uso prolongado, resultando em estresse crônico e, por
vezes, dependência (análoga ao efeito de drogas). Entre as li-
mitações estão os vínculos não materiais que de fato isolam as
pessoas do contato físico real, o que causa evidente impacto
sobre sua comunicação e sociabilidade. Sempre existiram dife-
rentes formas de alienação, com ou sem auxílio de substâncias
e práticas, mas a insidiosidade da esfera digital é surpreenden-
te. A dependência da internet andou flertando com a quinta e
última edição do  Manual diagnóstico e estatístico de transtor-

A solidão ou a ilusão de companhia


experimentada por muitos de nós
no oceano de indivíduos sem identidade
da grande rede é, sobretudo, fruto da forma
particular como utilizarmos esse recurso
nos mentais(DSM-5), mas acabou não integrando a edição final
por não ser considerado, até aqui, um distúrbio real: disfunções
temporárias e/ou transitórias são comuns, mas raramente evo-
luem rumo a um verdadeiro estado patológico.
Falando em efeitos das tecnologias de comunicação dispo-
níveis, a humanidade percorreu uma longa sucessão de desa-
fios cognitivos no curso de sua história, passando da logosfe-
ra (cultura oral) à grafosfera (cultura escrita), e daí, à videosfe-
ra (cultura imagética) – para usar a terminologia de Regis De-
bray. Em cada um desses níveis pudemos desenvolver capa-
cidades mentais, talhadas de acordo com as novas demandas,
perdendo ou aprimorando habilidades anteriores. Foi desta
forma que a humanidade se erigiu. Agora chegamos à ciber-
tecnologia

videoesfera das relações humanas por comunicação instantâ-


nea e onipresente, e novos desafios se manifestam.
Até há pouco tempo, tal percepção era meramente subjetiva,
mas agora já dispomos de evidências preliminares obtidas em
estudos com usuários pesados de jogos e redes sociais: redu-
ção da atenção, aumento da obesidade, perda da identidade e
autoestima, diminuição de empatia, aumento do estresse e da
depressão e redução da aversão ao risco. Alguns desses fatores
já vêm sendo correlacionados com micromodificações nos en-
céfalos dos usuários, mas isso ainda não quer dizer muito, pois
nossos encéfalos sempre se reorganizam plasticamente ao in-
teragir com o mundo – é exatamente para isso que eles evoluí-
ram. Mesmo assim, já se justifica a realização de novos estudos.
A solidão ou a ilusão de companhia experimentada por mui-
tos de nós no oceano de indivíduos sem identidade da grande
rede é, sobretudo, fruto da forma particular como a utilizarmos.
A comunicação mútua até existe, mas várias de suas dimen-
sões humanas simplesmente desaparecem,
O AUTOR pois, além da palavra escrita, a comunica-
JORGE A.
QUILLFELDT é ção humana também emprega – com enor-
neurocientista e
divulgador da ciência. me importância – o contato visual mútuo, a
Licenciado em física,
mestre em bioquímica linguagem corporal não verbal, as variações
e doutor em fisiologia,
é professor titular na entonação e volume da voz, e o próprio
do Departamento
de Biofísica da contato físico direto (toque, abraço, etc.). “E
Universidade Federal
do Rio Grande do Sul nada disso está disponível no Facebook”, diz
(IB/UFRGS).
Susan Greenfield, uma das principais críticas
desta tendência sociocultural global. Talvez
PARA SABER MAIS
Dependências tecnológicas.
seja hora de refletirmos sobre como lidar com
Igor Lins Lemos. Zagodoni,
2015. essa realidade inédita.
especial

Como uma
mão de borracha
engana o cérebro
Considerado um marco na história da neurociência, o experimento
que é capaz de “enganar” o cérebro demonstrou pela primeira
vez que é possível romper a barreira entre a consciência
que temos de nós mesmos e os objetos que nos circundam
38
especial

O
nde estão os seus pés? A pergunta pode pare-
cer absurda, mas se você está lendo este artigo
é provável que essas duas partes de seu corpo
não estejam exatamente diante dos olhos. Mes-
mo assim, é bem provável que saiba exatamente onde eles
estão. Pode “sentir” a sua posição, perceber sua postura: essa
habilidade, a propriocepção, ou percepção de si, é uma das ca-
pacidades menos evidentes,
porém mais surpreendentes,
do nosso sistema nervoso.
Na realidade, reconhecer as
partes do corpo como “pró-
prias” é resultado de um sis-
tema complexo que integra
informações visuais, proprio-
ceptivas (os impulsos prove-
nientes de fibras nervosas
destinadas exatamente a
O LUGAR DA LEMBRANÇA:
existe relação próxima entre memória de curto prazo e memória operativa,
essa tarefa) e sensitivas (por
funcionamento executivo e inteligência fluida. As áreas fundamentais do
cérebro para o bom funcionamento dessas habilidades se localizam nos exemplo, a pressão do sapa-
lobos frontal e parietal do encéfalo.
to sobre o seu pé).
Há mais ou menos 20 anos, os neurologistas estavam cer-
tos de que todos esses elementos eram necessários para
construir a consciência do próprio corpo e, sobretudo, de
que não era possível enganar o sistema. No entanto, depois
veio a mão de borracha e tudo mudou.

A invenção do truque
Em 1998 saiu na Nature, uma das mais prestigiadas revistas de
ciência, a descrição de um experimento aparentemente sim-

39
especial

ples, para o qual uma pequena página de texto é suficiente. Os


autores são dois neurocientistas do Departamento de Psiquia-
tria e Psicologia da Carnegie Mellon, a famosa Universidade
de Pittsburgh, na Pensilvânia. Chamam-se Matthew Botvinick e
Jonathan Cohen e eram, na época, muito jovens, mas tiveram
uma grande ideia: utilizar a capacidade do nosso cérebro de
deixar-se enganar para entender um pouco mais a fundo como
isso funciona. “No passado, as ilusões foram muito usadas em
psicologia, por isso podem revelar
coisas sobre os processos percep-
tivos”, escrevem no trabalho. “Com
base nisso, desenvolvemos uma ilu-
são na qual a sensação tátil é des-
tinada a uma mão que não perten-
ce ao sujeito, uma mão estranha. O
efeito gerado revela que existe uma
interação em três vias entre visão,
propriocepção e tato e nos dá, por-
tanto, uma demonstração das bases
da identificação do próprio corpo.”
Botvinick e Cohen selecionaram
inicialmente dez voluntários que foram colocados sentados de
frente para uma mesa. O braço esquerdo da pessoa era es-
condido por uma tela, enquanto à sua frente era colocado um
braço de borracha de dimensões semelhantes ao braço real.
Os experimentadores pediram aos participantes que mantives-
sem os olhos fixos no braço de borracha, enquanto, com dois
pequenos pincéis, em perfeita sincronia, tocavam simultanea-
mente o braço real e o falso. Importante: as pessoas sentiram o
pincel sobre a pele do braço que não viam, mas viam o pincel
que se movia, com o mesmo ritmo, no braço de borracha.

40
especial

Após dez minutos de estimulação, foi pedido aos indiví-


duos submetidos ao experimento que respondessem a um
questionário sobre a sua experiência e sobre as sensações
que experimentaram. O resultado foi surpreendente: quase
todos os voluntários afirmaram ter tido a percepção da ilusão
do braço de borracha como uma continuidade de seu corpo.
Um número de indivíduos estatisticamente não significativo
na época – mas sucessivamente ampliado com outros expe-
rimentos idênticos ou similares – afirmou também ter prova-
do sensações estranhas, como uma perda do sentido de pos-
se do próprio braço real e até mesmo a percepção de que a
própria mão estivesse ficando “emborrachada”.

Estímulos em conflito
“A nossa hipótese é que essa ilusão seja fruto de uma concilia-
ção operada pelo nosso cérebro entre estímulos aparentemen-
te discordantes, nos quais estímulos visuais e táteis sejam inte-
grados à custa da propriocepção verdadeira e própria, levando
a uma distorção do senso da posição do corpo”, escreveram
ainda Botvinick e Cohen.
Para confirmar essa interpretação, os dois pesquisadores rea-
lizaram então um segundo experimento: prolongaram os tem-
pos da estimulação e pediram aos participantes que fechassem
os olhos e tocassem, com a mão direita, a própria mão esquerda.
Também nesse caso, os indivíduos agarraram a mão de borra-
cha ou, de qualquer forma, erraram ao tentar alcançar a própria
mão, ficando no meio do caminho entre a verdadeira e a falsa.
Tratou-se, nesse ponto, de avaliar quão precisa deveria ser a es-
timulação para produzir efeito: um grupo de controle foi “pince-
lado” de modo assíncrono, e a ilusão apareceu somente em 7%
dos casos, contra os 42% dos indivíduos cujos estímulos na mão
verdadeira e na falsa foram sincronizados.

41
especial

Jogo de espelhos
O trabalho de Botvinick e Cohen não nasceu do nada: poucos
anos antes, o neurocientista de origem indiana, estabelecido nos
Estados Unidos, Vilayanur Ramachandran havia publicado um
estudo no qual tinha conseguido gerar, num grupo de pessoas
amputadas de um membro, a sensação de que o braço havia rea-
parecido, projetando, graças a um simples jogo de espelhos, o bra-
ço íntegro no lugar onde deveria estar aquele que faltava. E muitos
dos seus pacientes diziam ter tido a sensação de serem tocados
no “braço fantasma” quando o braço existente era tocado.
Também havia alguns estudos, conduzidos em macacos,
que demonstravam a existência, no nível do córtex pré-motor,
de áreas em condições de integrar estímulos táteis e visuais
em relação ao mapa corporal.
O efeito dessa integração é tão intenso que, no experimen-
to dos dois psicólogos da Carnegie Mellon, oito em cada dez
voluntários, ainda antes de serem submetidos ao questionário,
relataram que olharam para o braço de borracha pensando “é
o meu braço”, mesmo sabendo não ser.

42
especial

A ilusão da mão de borracha, ou rubber hand illusion, repre-


senta a primeira demonstração neurocientífica, feita com um
experimento claro, de que é possível romper a barreira entre o
eu e os objetos que nos circundam.
E se, no início, despertou o interesse principalmente dos
neurofisiologistas, porque parecia demonstrar uma prevalên-
cia do sentido da visão sobre todos os outros na construção
da identidade corporal, com o tempo tornou-se um paradigma
importante para estudar a consciência do eu, os seus limites e,
sobretudo, os mecanismos pelos quais ela se constrói.

Fugindo de erros
O mesmo protocolo da mão de borracha foi empregado para
examinar grupos de pacientes com percepções distorcidas do
próprio corpo por causa de patologias como a esquizofrenia
ou a anorexia. Os estudos nessas pessoas demonstraram que
existe provavelmente um “defeito” de integração multissenso-
rial que as torna mais suscetíveis a erros de avaliação. Foi as-
sim que a rubber hand illusion tornou-se um instrumento para
medir a maleabilidade da representação corporal: quanto mais
instável é a representação do eu no cérebro, mais fácil é para
a doença jogar com todos os mecanismos de correções inte-
riores, em parte conscientes e em parte inconscientes, que nos
permitem não incorrer em erros o tempo todo.
Também o conceito de maleabilidade da imagem do eu ain-
da é objeto de discussão, porque nem todos os estudos con-
vergem entre si – como é compreensível se pensarmos que se
trata de fenômenos estudados há menos de duas décadas –
mas, para o momento, se sustenta e parece ser o mais plausível.
Existem, de fato, pesquisas que completaram o quadro des-
crito pela primeira vez em 1998. Por exemplo, G. Lorimer Mo-
sely e Charles Spencer, da Universidade de Oxford, demons-

43
especial

traram em 2008 que o braço verdadeiro de quem vive a ilusão


se torna meio grau mais frio durante o experimento: uma res-
posta fisiológica à sua “alienação” do esquema corporal a favor
do seu substituto artificial.
Outros experimentos demonstraram quão real é a integra-
ção submetendo a mão de borracha a uma série de manifes-
tações dolorosas: alguns a tiveram apunhalada, outros “luxada”
ao dobrá-la de forma não natural. Em todos os casos, o indiví-
duo submetido ao experimento sentiu-se mal, começou a suar
e manifestou todos os sintomas do medo.
No entanto, os limites entre o eu e os outros podem ser ain-
da mais instáveis do que acreditamos: em 2010, Maria Paola
Paladino e seus colaboradores da Universidade de Trento, ins-
pirados pela rubber hand illusion, desenvolveram um experi-
mento semelhante com rostos. Pediram aos voluntários que
olhassem para um vídeo no qual estava enquadrado o rosto de
um desconhecido que era tocado com um pincel, no mesmo

O que é a integração multissensorial?


O mecanismo de integração multimodal, ou discussão ainda permaneça aberta.
sensorial, é usado pelo nosso cérebro para É exatamente a complexidade da integração
juntar as informações sobre um mesmo multimodal que leva, às vezes, a “erros” na
objeto que provêm de diferentes canais, como sobreposição das informações que estão
a visão, a audição, o tato, o movimento, o na origem de diversas curiosas ilusões
paladar, e assim por diante. Para representar corpóreas, mas também de sintomas como
de maneira coerente a natureza de um objeto, as alucinações nas psicoses. Essa hipótese
o cérebro junta aquilo que vem da periferia foi confirmada também por um modelo
de modo atento e preciso. Basta imaginar computacional (ou seja, uma simulação no
o que acontece quando colocamos na boca computador do fenômeno completo) que
uma garfada de comida: vemos o que temos demonstrou como o cérebro humano usa a
no prato e depois, quando introduzimos o inferência bayesiana, um método estatístico,
bocado, temos condições de distinguir a para calcular a probabilidade de que um
diferente consistência e o sabor da comida evento se verifique. Nesse caso, para avaliar
daquele garfo e de seu eventual sabor metálico. a probabilidade de que aquilo que estamos
A visão parece ter uma predominância sobre os vendo e aquilo que estamos experimentando
outros sentidos, ainda que sobre esse ponto a se refiram ao mesmo objeto.

44
especial

ponto e na mesma frequência com que eles mesmos eram


tocados, na realidade. Os voluntários submetidos ao teste de-
clararam que experimentaram um senso crescente de fami-
liaridade com relação ao rosto do vídeo: “Foi ficando cada vez
mais parecido comigo mesma”, declarou uma das voluntárias.

Coisas de louco
Henrik Ehrosson, do Karolinska Institut, de Estocolmo, foi além
e, partindo sempre do mesmo paradigma experimental, usou
a realidade virtual para criar diversas ilusões relativas à percep-
ção de si mesmo. “Podemos fazer coisas malucas”, declarou,
de forma divertida. E realmente conseguiu integrar no esque-
ma corporal das pessoas, graças ao seu vídeo em 3D, todo tipo
de objeto, de bastões a espadas.
Conseguiu fazer homens grandes e gordos acreditarem ser pe-
quenos como crianças, ou então que tinham um corpo feminino
ou até possuir um terceiro braço, invisível. “De uma simples ilusão
perceptiva nasceu um filão inteiro de pesquisa que nos permi-
tiu compreender como construímos a nossa identidade corporal,
que é uma parte importante na consciência do eu”, explica Patrick
Haggard, neurocientista do Institute for Cognitive Neuroscience de
Londres, que contribuiu com muitos estudos para o desenvolvi-
mento desse campo de pesquisa. “Agora que compreendemos
como funciona a integração multissensorial e, principalmente, ago-
ra que temos também uma hipótese sólida sobre as estruturas
anatômicas que, no cérebro, mantêm ativo esse sistema, podemos
nos concentrar sobre os detalhes finos e avançar além, para elabo-
rar hipóteses sobre as conexões entre o corpo e a mente. O certo
é que compreendemos que a consciência não é um fenômeno
exclusivamente central, ligado ao encéfalo e ao córtex, mas que
depende também do corpo e daquilo que vem da periferia.”

45
cinema

A ESPOSA
100 min . Estados Unidos e
Suécia, 2018. Direção: Björn
Runge. Elenco: Glenn Close,
Jonathan Pryce, Christian Slater,
Harry Lloyd, Annie Starke.

A palavra que combate


o invisível
Indicada ao Oscar, Glenn Close, interpreta uma dona de casa
que sufoca seu talento; ao deixar de participar do que Freud
chama de “as grandes tarefas da cultura”, mulheres ficam
socialmente mudas

Não é de hoje que mulheres são desestimuladas a desenvolver competências e,


muitas vezes, a única saída que lhes parece conciliável com o meio machista em que
ZMZIQqIWGSRHIVSWTVzTVMSWXEPIRXSW3½PQIA esposa, baseado no livro homônimo,
escrito por Meg Wolitzer e dirigido por Björn Runge, aborda esse dilema. Glenn Close,
atualmente com 71 anos e indicada para o Oscar de melhor atriz, interpreta Joan, uma
dona de casa de terceira idade que recebe a notícia de que seu marido foi agraciado
com o Nobel por sua obra literária. Durante a viagem do casal para a premiação em
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apoiar o marido Joe Castleman, vivido por Jonathan Pryce, um homem sedutor, que na
juventude foi seu professor de literatura. Assediada por um biógrafo, interpretado por
Christian Slater, empenhado em escrever a “verdadeira história” de Joe, Joan relembra
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ditos claramente, mas que a atormentam.
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46
QYPLIV²%JVEWI IQEMWEMRHEEGVIRpEIQWYEZIVEGMHEHI I\T~ISPYKEVWYFEPXIVRS
de mero suporte, relegado à mulher. Embora hoje seja possível questionar esse lugar
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3 ½PQI TEVIGI GLIKEV IQ FSE LSVE UYERHS EW HMWGYWW~IW EGIVGE HS JIQMRMWQS
(entendido como a luta por direitos iguais de mulheres e homens, sem dominação
HIYQWSFVISYXVS KERLEQGEHEZI^QEMWIWTEpS%½REPETIWEVHEWXVERWJSVQEp~IW
sociais, o lugar de submissão feminina ainda prevalece de forma intensa. A ideia de que
a mulher é intelectualmente inferior ainda se faz bastante presente nos mais variados
meios. O psicanalista Joel Birman lembra, em Feminilidades 'SRXVE'ETE UYI
de um lado, foi fortalecida a ideia do ser frágil, dependente,
“Sem acesso ao poder assexuado e passivo; do outro, prevaleceu a imagem da por
político, as mulheres tadora de um excesso sexual ameaçador que poderia colocar
não teriam meios de em risco o modelo familiar burguês. “No centro desse deba
garantir os outros direitos te, surgiu a preocupação com a sexualidade feminina, pensada
fundamentais para se como ameaça à espécie e à ordem social, um tipo de força
tornar sujeitos de suas bruta, autônoma e próxima da animalidade, que podia explodir
próprias histórias”, a qualquer hora, desvirtuando a passividade do caráter femini
escreve Maria Rita Khel no. Era preciso, portanto, disciplinar a sexualidade feminina, a
½QHIQMRMQM^EVSWVMWGSWHIHIWVIKVEQIRXSIQE\MQM^EVWYE
potencialidade geradora, reprodutiva”, escreve Birman.
Ao aceitar, com passividade, ocupar a posição de mantenedoras da ordem e da har
QSRMEHSPEVEWQYPLIVIWWIMRWGVIZIVEQWSFHYEWJSVQEWHIEPMIREpnSTVMQIMVEQIRXI
EJEWXERHSWIHSIWTEpSWSGMEPQERXMZIVEQWIHMWXERXIWHEWHMWTYXEWHITSHIVUYIHI
½RMVMEQWIYWTVzTVMSWHIWXMRSW)QDeslocamentos do feminino -QEKS 1EVME6MXE
/LIPHIWXEGE±7IQEGIWWSESTSHIVTSPuXMGSEWQYPLIVIWRnSXIVMEQQIMSWHIKEVERXMV
os outros direitos fundamentais para se tornar sujeitos de suas próprias histórias.”
2SlQFMXSWYFNIXMZSWIHjVIRRGMEHEETVSTVMEpnSHIJSVQEWYRMZIVWEMWHITSHIVE
TEPEZVE%SIQYHIGIVIQHIM\EVEQHITEVXMGMTEVHSUYI*VIYHGLEQSYHI±EWKVERHIW
tarefas da cultura”, permanecendo socialmente invisíveis. É o que acontece com Joan,
até que o reconhecimento mundial do trabalho do marido a coloca diante de seus pró
TVMSWGSR¾MXSW¯IETSWWMFMPMHEHI MRG|QSHEQEWRIGIWWjVME HIVIZIVWYEWIWGSPLEW

47
livro | lançamento

Psicanálise e gênero
– Narrativas feministas
e queer no Brasil e na
Argentina. Orgs. Carla
Françoia, Patricia Porchat
e Patrizia Corsetto.
Calligraphie, 2018.
200 págs. R$ 65,00.

Coletânea discute
feminismo e sexualidades
Artigos e entrevistas trazem reflexões sobre as transformações
sociais, identitárias e tecnológicas que forçam psicanalistas a
repensar a compreensão da teórica

M
ais do que nunca, nos tempos atuais se faz necessário
o diálogo. Quando se trata de pensar cultura, afetos,
desejos, relações com o corpo (tanto o próprio quanto
o do outro) é fundamental abrir espaço para diferentes olhares
tangenciados não só por abordagens acadêmicas, mas também
por compreensões que se mesclam com a formação daqueles que
pensam esses temas. O recém-lançado Psicanálise e gênero – Nar-
rativas feministas e queer no Brasil e na Argentina, organizado pelas
psicólogas e psicanalistas Carla Françoia e Patricia Porchat e pela
jornalista Patrizia Corsetto, é um exemplo dessa proposta.
livro | lançamento

A coletânea está organizada em duas partes. A primeira apre-


senta artigos de psicanalistas que, diante de novas questões, si-
tuações e demandas que encontram em suas clínicas, buscam
respostas para além de concepções clássicas da psicanálise freu-
diana e dos desdobramentos que resultaram da releitura de Jac-
ques Lacan. A outra parte traz entrevistas com psicanalistas (qua-
tro argentinas, dois argentinos e uma chilena), feitas por Porchat,
destacando a trajetórias desses profissionais.
A obra considera que o surgi-
“A emergência de novas mento de novos contextos sociais e
teorias, os novos sujeitos culturais, bem como a emergência de
e identidades e as teorias movimentos sociais e transformações
Queer questionam a tecnológicas, propiciam a legitimações
normatização naturalizada identitárias múltiplas. “No desenvol-
da heterossexualidade e se vimento dos estudos de sexualidades,
voltam para as sexualidades devedores que são da psicanálise, com
transgêneros, que implodem imposição de outras reivindicações, a
as desigualdades de gênero”
emergência de novas teorias, novos su-
jeitos e identidades, as teorias Queer
questionam a normatização naturalizada da heterossexualidade
e se voltam para as sexualidades transgêneros, que implodem as
desigualdades de gênero”, escreve a antropóloga e doutora em
psicologia Mara Coelho de Souza Lago, na apresentação do livro.
Nesse contexto, demandas e angústias podem assumir for-
mas inusitadas e a construção de saberes até há pouco tempo
ignorados se faz necessária, o que exige do psicanalista a necessi-
dade de rever o próprio posicionamento e, humildemente, reava-
liar as próprias narrativas.

49
Coleção

LIGHT
História da Pedagogia
P i a g e t • Vi g o t s k i • Wal l o n • Fre i re • Ro u s s e a u • D e w e y

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