Você está na página 1de 66

Sérgio Xavier Tomo

Impactos Sócio-ambientais da Ocupação Espontânea do Vale do Infulene "A" no


Município da Matola (2000 – 2018)

Licenciatura em Ensino de Geografia com Habilitações em Ensino de Turismo

Universidade Pedagógica

Maputo

2018
Sérgio Xavier Tomo

Impactos Sócio-ambientais da Ocupação Espontânea do Vale do Infulene "A" no


Município da Matola (2000 – 2018)

Monografia apresentada ao Departamento de


Geografia, Faculdade de Ciências da Terra e
Ambiente, para a obtenção do Grau Académico de
Licenciatura em Ensino de Geografia com
habilitações em Ensino de Turismo.

Supervisor:

Mestre Apolinário Joaquim Malauene Nhaposse

Universidade Pedagógica

Maputo

2018
Índice

Lista de quadros ......................................................................................................................... v


Lista de figuras .......................................................................................................................... v
Lista de mapas ........................................................................................................................... v
Lista de gráficos........................................................................................................................ vi
Lista de abreviaturas ................................................................................................................ vii
Declaração .............................................................................................................................. viii
Dedicatória................................................................................................................................ ix
Agradecimentos ......................................................................................................................... x
Resumo ..................................................................................................................................... xi
Abstract .................................................................................................................................... xii
0. INTRODUÇÃO ............................................................................................................... 12
0.1. Justificativa e importância do tema .............................................................................. 13
0.2. Problematização............................................................................................................ 14
0.3. Objectivos ..................................................................................................................... 14
0.3.1. Objectivo geral ....................................................................................................... 14
0.3.2. Objectivo específico: .............................................................................................. 14
0.4. Metodologia .................................................................................................................. 15
0.4.1. Método de abordagem ............................................................................................ 15
0.4.2. Procedimentos de pesquisa..................................................................................... 16
0.4.3. Métodos da pesquisa. ............................................................................................. 16
0.4.3.1. Pesquisa Bibliográfica .................................................................................... 16
0.4.3.2. Pesquisa documental ....................................................................................... 17
0.4.3.3. Pesquisa descritiva .......................................................................................... 17
0.4.3.4. Método estatístico ........................................................................................... 17
0.4.3.5. Método cartográfico ........................................................................................ 18
0.4.4. Técnicas de recolha de dados da pesquisa ............................................................. 18
0.4.5. Técnicas de Análise de Dados ................................................................................ 19
0.4.6. População e Amostra .............................................................................................. 20
CAPÍTULO I- QUADRO TEÓRICO E CONCEPTUAL SOBRE IMPACTOS SÓCIO
AMBIENTAIS DA OCUPAÇÃO ESPONTÂNEA DOS VALES ......................................... 21
1.1. Discussão dos conceitos............................................................................................. 21
1.1.1. Ocupação espontânea ......................................................................................... 21
1.1.2. Impacto ............................................................................................................... 22
1.1.3. Impacto social ..................................................................................................... 22
1.1.4. Impacto Ambiental ............................................................................................. 22
1.1.5. Vale fluvial ......................................................................................................... 26
1.1.6. Classificação dos vales ....................................................................................... 27
1.2. Conceito de espaço .................................................................................................... 27
1.2.1. Tipos de espaço .................................................................................................. 30
1.3. Diferenciação do espaço urbano do rural no contexto moçambicano ........................... 34
1.4. Tipos de ocupação espontânea nos vales fluviais ...................................................... 36
1.5. Impactos da ocupação espontânea dos espaços dos vales fluviais ............................ 36
1.6. Medidas para evitar a ocupação espontânea dos vales fluviais ................................. 37
CAPITULO II – ESPECIFICIDADE DA ÁREA DE ESTUDO – BAIRRO DE INFULENE
“A” MUNICÍPIO DA MATOLA ............................................................................................ 39
2.1. Localização geográfica e cósmica do bairro de Infulene “A” ................................... 39
2.2. Limites administrativos.............................................................................................. 40
2.3. Particularidades físico-geográfica. ............................................................................. 40
2.3.1. Geologia, relevo e solos...................................................................................... 40
2.3.2. Clima e precipitação ........................................................................................... 41
2.3.3. Hidrografia.......................................................................................................... 41
2.3.4. Vegetação e fauna ............................................................................................... 42
2.3.5. Potencialidade de recursos naturais do Vale Fluvial. ......................................... 43
2.4. Particularidades sócio-económicas ............................................................................ 43
2.4.1. População ........................................................................................................... 43
2.4.2. Actividades Económicas..................................................................................... 44
2.4.3. Infra-estruturas e serviços sociais ....................................................................... 46
CAPÍTULO III - APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS SOBRE IMPACTOS
SÓCIO-AMBIENTAIS DA OCUPAÇÃO ESPONTÂNEA DO VALE FLUVIAL DO
INFULENE "A", NO MUNICÍPIO DA MATOLA (2000 – 2018) ........................................ 48
3.1. Caracterização da população e amostra do estudo ......................................................... 48
3.2. Idade dos inquiridos ....................................................................................................... 49
3.3. Qualificações académicas .............................................................................................. 49
3.4. Impactos sócio-ambientais da ocupação espontânea do Vale do Infulene .................... 50
3.4.1. Característica e formas da ocupação espontânea dos espaços de vales fluviais de
Infulene “A” ...................................................................................................................... 50
3.4.1.1. Condição de ocupação do terreno/moradia ................................................. 50
3.4.1.2. Formas de ocupação espontânea do espaço no bairro Infulene “A” ........... 51
3.4.1.3. Legalidade da ocupação dos espaços no bairro Infulene “A” ..................... 53
3.5. Forma de obtenção do terreno/moradia ..................................................................... 54
Fonte: autor 2018 .................................................................................................................. 55
3.6. Impactos sócio-ambientais da ocupação espontanea do Vale Fluvial do Infulene
"A"………………………………………………………………………………………….55
3.6.1. Impactos sociais da ocupação espontânea do Vale Fluvial de Infulene “A”...... 55
3.6.2. Impactos ambientais da ocupação espontânea do Vale Fluvial de Infulene “A”56
3.6. Medidas de mitigação nos impactos sócio-ambientais da ocupação espontânea do Vale
Fluvial do Infulene "A" ......................................................................................................... 56
CONCLUSÃO ......................................................................................................................... 58
SUGESTÕES .......................................................................................................................... 59
BIBLIOGRAFIA ..................................................................................................................... 60
Apêndices ................................................................................................................................ 64
v

Lista de quadros

Quadro 1: Classificação dos vales ............................................................................................ 27


Quadro 2: Tipos de espaço ....................................................................................................... 31
Quadro 3: Impactos da ocupação espontânea dos espaços em vales fluviais ........................... 37
Quadro 4: Impactos sócios-ambientais da ocupação espontânea ............................................. 54

Lista de figuras

Figura 1: Espaços agrícolas do Bairro Infulene “A” ................................................................ 43


Figura 2: Prática da Agricultura no Bairro Infulene “A” ......................................................... 43
Figura 3: Espaços agrícolas do vale do Infulene ...................................................................... 44
Figura 4: Estádio da Machava .................................................................................................. 45
Figura 5: Colégio Politécnico ADPP ........................................................................................ 45
Figura 6: Super Mercado .......................................................................................................... 45
Figura 7: Placa descritiva de construҫão de um super mercado ............................................... 45
Figura 8: Estabelecimento Industrial do bairro Infulene “A” .................................................. 46
Figura 9: Escola Primaria Completa 5 de Fevereiro................................................................. 46
Figura 10: Orfanato Ommu Salma ........................................................................................... 46
Figura 11: Bombas de abastecimento de Combustível ............................................................. 47
Figura 12: Escoamento superficial das águas do bairro Infulene “A” ..................................... 47
Figura 13: Latrina familiar ....................................................................................................... 47
Figura 14: Prática da agricultura ao lado das habitações.......................................................... 53

Lista de mapas
Mapa 1: Bairro Infulene “A” .................................................................................................... 39
Mapa 2: Mapa do rio Infulene .................................................................................................. 42
Mapa 3: Mapa de uso do solo do Bairro do Infulene A ........................................................... 51
Mapa 4: Mapa de uso do Solo do bairro de Infulene A ............................................................ 52
vi

Lista de gráficos

Gráfico 1: Género dos inquiridos ............................................................................................. 48


Gráfico 2: Idade dos inquiridos ................................................................................................ 49
Gráfico 3: Qualificações Académicas dos inquiridos............................................................... 49
Gráfico 4: Condição de ocupação do terreno/moradia ............................................................. 50
Gráfico 5: Formas de ocupação espontânea do espaço no bairro Infulene “A” ....................... 51
Gráfico 6: Legalidade da ocupação dos espaços no bairro Infulene “A” ................................. 53
Gráfico 7: Formas de ocupação do terreno ou moradia............................................................ 54
vii

Lista de abreviaturas

DUAT - Direito de Uso e Aproveitamento da Terra

EN1 - Estrada Nacional Número 1

PAV - Programa Alargado De Vacinação

TARV - Tratamento Anti-Retroviral

SMI - Saúde Materna Infantil

UP-Universidade Pedagógica
viii

Declaração

Declaro que esta Monografia é resultado da minha investigação pessoal e das orientações do
meu supervisor, o seu conteúdo é original e todas as fontes consultadas estão devidamente
mencionadas no texto, nas notas e na bibliografia final.

Declaro ainda que este trabalho não foi apresentado em nenhuma outra instituição para
obtenção de qualquer grau académico.

Maputo, Julho de 2018

Sérgio Xavier Tomo

____________________________________________________________
ix

Dedicatória

Dedico esta monografia a minha mae Isabel Francisco Ambrosio e todos meus Irmaos, em
particular ao meu irmao Antonio Xavier Tomo, que sempre me apoiou, esteve presente e
acreditou em meu potencial, me incentivando sempre. A todos aqueles que de alguma forma
doaram um pouco de si para que a conclusão desta Monografia se tornasse possível.

A todos os meus amigos, grandes cúmplices desta vitória, por minhas imensas horas de
dedicação ao trabalho de conclusão do curso, deixando-as de lado para que esta Monografia
pudesse ser concluído com êxito, pois o vosso amor, carinho e estímulo foram armas para esta
vitória. Obrigada por estarem sempre presentes em meu caminho.
x

Agradecimentos

Agradeço primeiramente a Deus por ter me concedido inteligencia, animo e disposiçao para
iniciar e terminar esta Monografia. Ao meu supervisor, Mestre Apolinário Joaquim Malauene
Nhaposse quem posteriormente me inspirou a realizar esta monografia pelo auxílio,
disponibilidade de tempo e presteza, sempre com uma imensa simpatia e um prazer enorme em
me ajudar a caminhar nesta Monografia.
xi

Resumo

A presente monografia, aborda sobre “Impactos Sócio-ambientais da Ocupação Espontânea do Vale do


Infulene "A" no Município da Matola (2000 – 2018)”, surge no âmbito da elaboração da monografia
para a obtenção do grau académico de Licenciatura em Ensino de Geografia com Habilitações em
Ensino de Turismo. O mesmo tem como principal objectivo compreender os Impactos Sócio Ambientais
da Ocupação Espontânea do Vale do Infulene "A" no Município da Matola entre 2000 a 2018. Para o
efeito, usou-se a abordagem mista com o intuito de maximizar a qualidade dos resultados, com recurso
à pesquisa documental, bibliográfica, descritiva, estatístico e cartográfico. Conclui-se que de 2000 a
2018, o Bairro Infulene “A” registou muitas ocupações dos espaços na sua maioria para habitação e para
instalação de estabelecimentos comerciais e industriais. Esta ocupação não foi acompanhada por um
plano de ordenamento territorial, tratando-se de ocupações espontâneas. Esta situação tem trazido
consequências negativadas de âmbito social e ambiental para os residentes do bairro bem como para os
ecossistemas locais.

Palavras chaves: Efeitos sócio-ambientais; Ocupação espontânea; Bairro Infulene “A”.


xii

Abstract

This monograph deals with "Socio-environmental Impacts of Spontaneous Occupation of the


Infulene Valley" A "in the Municipality of Matola (2000 - 2018)", arises from the preparation
of the monograph to obtain the academic degree of Teaching Degree in Geography with
Qualifications in Tourism Teaching. The main objective is to understand the Socio-
Environmental Impacts of Spontaneous Occupation of the Vale do Infulene "A" in the
Municipality of Matola from 2000 to 2018. For this purpose, the mixed approach was used in
order to maximize the quality of results, with the use of documentary, bibliographic,
descriptive, statistical and cartographic research. It is concluded that from 2000 to 2018,
neighborhood Infulene "A" registered many occupations of the spaces mostly for housing and
for the installation of commercial and industrial establishments. This occupation was not
accompanied by a territorial planning plan, in the case of spontaneous occupations. This
situation has brought negative social and environmental consequences for neighborhood
residents as well as for local ecosystems.
Keywords: Socio-environmental effects; Spontaneous occupation; Neighborhood Infulene "A".
12

0. INTRODUÇÃO

A presente monografia científica intitulada: “Impactos Sócio Ambientais da Ocupação


Espontânea do Vale do Infulene "A" no Município da Matola (2000 – 2018) ”, surge no contexto
da aquisição do grau académico de Licenciatura em Ensino de Geografia com Habilitações em
Turismo ministrado pela Universidade Pedagógica. Com este tema, pretende – se analisar o
Impacto sócio-ambiental da ocupação espontânea do Vale Fluvial de Infulene "A" no Município
da Matola. O conhecimento dos impactos sócio-ambientais da ocupação espontânea dos vales
fluviais em uma determinada região faz-se necessário pelo facto de ajudar no desenvolvimento
harmónico da cidade.

No vale fluvial de Infulene "A", a população preocupou-se em ocupar os terrenos sem infra-
estruturas de drenagem e saneamento. No período das chuvas o vale permite de forma
defeituosa o escoamento das suas águas superficiais. Todavia, a população construiu dentro do
vale e que hoje, com pequena precipitação, as casas ficam inundadas porque ocuparam o
caminho por onde as águas passavam.

O estudo focaliza-se na análise dos impactos sócio-ambientais da ocupação espontânea de


Vale Fluvial do Infulene "A" no Município da Matola. Este estudo é somente direccionado ao
Bairro do Infulene “A” e no período de 2000 à 2018, por ser um período no qual o Bairro sofreu
pressão de procura de terrenos das pessoas vindo de várias províncias do país, assim como do
estrangeiro. A ocupação do vale prende-se pelo facto deste encontrar-se proximo da cidade de
Maputo. Uma Cidade que movinta maior fluxo de mao-de-obra.

Com efeito, a pesquisa encontra-se estruturada em três (3) capítulos a saber: primeiro
capitulo, contém o quadro teórico e conceptual sobre os impactos sócio-ambientais da ocupação
espontânea do Vale Fluvial do Infulene “A”. O segundo capítulo vai tratar de características
físico geográficas e Socioeconómicas do Vale Fluvial de Infulene “A”. E reservamos o terceiro
capítulo para a análise e interpretação dos resultados. Por último, temos as conclusões finais e
sugestões, a bibliografia e os apêndices.
13

0.1. Justificativa e importância do tema

O tema é de relevância pessoal por gerar curiosidade e vontade de aprofundar o assunto,


isso porque os cursos de água possuem uma dinâmica natural, cujas águas podem sair do leito
menor e atingir o leito maior nos períodos de constantes chuvas.

A eleição desta área de Geografia justifica-se pelo facto de que o autor tendo formação em
Ensino de Geografia com Habilitações em Turismo na Universidade Pedagógica, ter interesse
particular de tratar assuntos relacionados com impactos sócio ambientais da ocupação de Vales,
que é justamente o caso do Vale de Infulene “A”, um tema que já foi abordado em Moçambique
por Carlos Serra e outros locais sobre ocupação destas áreas. Sendo estudante do curso de
Geografia, percebe-se que o tema tem uma certa afinidade com o curso, porque a disciplina de
Geografia ocupa pelo estudo dos fenómenos naturais e humanos, desde que os mesmos não
criem prejuízo ao meio natural e ao próprio homem.

Este tema abre espaço a debate científico, e servirá de suporte para futuros estudos nas áreas
afins bem como providenciar um conhecimento académico, que servirá de referência e
contributo nas universidades que administram cursos relacionados com a Geografia, nas
cadeiras de Ordenamento Territorial e Gestão Ambiental.

A relevância social é de acautelar os impactos provocados pela sociedade e no mundo


académico. O tema tem importância a partir do momento em que oferece conhecimento dos
riscos que podem ocorrer no Vale do Infulene no período chuvoso.

A escolha do período em estudo, portanto 2000 a 2018, sustenta-se pelo facto de que em
2000, não havia muita ocupação ou construção de residências ao longo do Vale Fluvial de
Infulene “A”, e 2018 foi o ano em que houve uma forte invasão na construção de infra-estruturas
ao longo do vale e os efeitos da ocupação espontânia agravaram.

O tema em estudo é importante pelo facto de ocupar o centro de grande debate na


actualidade no que tange aos impactos que traz a construção de infra-estruturas nas áreas do
curso de água. É também importante na área de ensino para que se faça compreender a sua
relevância, bem como trazer as possíveis medidas de mitigação de impactos sócio ambientais
da ocupação espontânea do Vale Fluvial do Infulene “A”.

Pretende-se com este tema divulgar os impactos sócio ambientais da ocupação espontânea
do Vale Fluvial do Infulene “A”, para que a população e a quem é de direito na Província de
14

Maputo, em particular no Município da Matola, comece a traçar planos de mitigação e de não


permitir que a população instale as suas residências nos Vales Fluviais.

0.2. Problematização

O processo de urbanização, em Moçambique, vem ocorrendo de maneira desordenada. Ele


não considera as características naturais do meio, o que leva a ocorrência de impactos negativos
à sociedade. Esses impactos se reflectem de maneira acentuada nas áreas vulneráveis às
inundações.

O número elevado de construções desordenadas e sobretudo, de construções que não


obedecem as regras dificulta cada vez mais a circulação de águas e sua penetração do solo.
Então, ela escorre pela superfície. Esse processo é designado por impermeabilidade do solo.

Da realidade constatada levanta-se o seguinte problema:

Quais são os impactos sócio-ambientais da ocupação espontânea no Vale do Fluvial de


Infulene "A" no Município da Matola?

0.3.Objectivos
0.3.1. Objectivo geral

Compreender os impactos sócio-ambientais da ocupação espontânea do Vale do Infulene


"A" no Município da Matola entre 2000 a 2018.

0.3.2. Objectivo específico:

 Descrever os aspectos físico-geográficos e socioeconómicos de ocupação espontânea


do Vale Fluvial de Infulene "A", no Município da Matola;
 Caracterizar as formas de ocupação espontânea e seus impactos no vale do Infulene
“A”;
 Explicar os impactos sócio-ambientais da ocupação espontânea do Vale Fluvial do
Infulene "A";
 Propor medidas de mitigação dos impactos Sócio Ambientais da ocupação espontânea
do Vale Fluvial do Infulene "A".
15

0.4. Metodologia

De acordo com Lakatos e Markoni, (2009) método é o conjunto de actividades sistemáticas


e racionais que, com maior segurança e economia, permite alcançar o objectivo, conhecimentos
válidos e verdadeiros, traçando o caminho a ser seguido destacando erros e auxiliando as
decisões do cientista.

0.4.1. Método de abordagem


A modalidade de abordagem no trabalho será mista (qualitativa e quantitativa) com mais
peso na qualitativa. De acordo com MORESI (2003:1003-1005) citando KAPLAN &
DUCHON, (1988:571-586), a ideia de combinar abordagem quantitativos e qualitativos com
intuito de proporcionar uma base contextual mais rica para interpretação e validação dos
resultados. A escolha desta modalidade de abordagem é com intuito de maximizar a qualidade
dos resultados obtidos

Segundo Gil (1999), a pesquisa qualitativa é traduzida por aquilo que não pode ser
mensurável, pois a realidade e o sujeito são elementos indissociáveis. Com a abordagem
qualitativa, a pesquisa tem o ambiente como fonte directa dos dados. Assim, para o presente
estudo, o pesquisador manteve contacto directo com o ambiente e objecto de estudo em questão
necessitando um trabalho mais intensivo de campo no Bairro Infulene “A”. Desta forma, as
questões foram estudadas no ambiente em que elas se apresentam sem qualquer manipulação
intencional do pesquisador no local de estudo.

A preocupação pela quantidade das informações recolhidas na área de estudo é uma


inspiração quantitativa da pesquisa, e de acordo com Rodrigues (2007) a pesquisa quantitativa
traduz em números as opiniões e informações para serem classificadas e analisadas. Um outro
aspecto que revela carácter quantitativo deste estudo é o facto de se utilizar amostra que de
acordo com Moresi (2003:121) citando Barbetta (1999), “para definição desta, recomenda-se
a aplicação de técnicas estatísticas”.

Na linha de pensamento Bello (2005:70), afirma que “torna-se bastante comum a utilização
da pesquisa quantitativa em estudos de levantamento, numa tentativa de entender por meio de
amostra o comportamento de uma população ou fenómeno”.
16

Para esta monografia, a abordagem quantitativa esteve relacionada com o emprego de


recursos e técnicas estatísticas que visaram quantificar os dados colectados para apresentação e
análise de informação em forma de tabelas e gráficos.

0.4.2. Procedimentos de pesquisa


Na presente pesquisa, o pesquisador usou como método de procedimento, o método
monográfico ou estudo de caso.

O método monográfico também designado estudo de caso, nesta monografia foi usado para
análise detalhada dos impactos sócio ambientais da Ocupação espontânea de Vale Fluvial do
Infulene "A" no Município da Matola., visto tratar-se de um caso específico, pois, de acordo
com Lakatos e Marconi (2009:65), este método consiste no estudo de determinados indivíduos,
profissões, instituições, grupos ou sociedade com finalidade de obter generalizações. Assim,
foi possível através deste procedimento obter as características sociodemográficas e
económicas do local de pesquisa.

Fundamentalmente, este procedimento visa “entender determinados factos sociais e trata-


se de um método de pesquisa de campo caracterizado por estudar uma unidade, ou seja um
grupo social, uma família, uma instituição, uma situação específica, empresa entre outros, com
objectivos de compreendê-los em seus próprios termos” (Michel, 2005:19).

Para o estudo, este método foi aplicado a partir de um estudo particular Bairro de Infulene
“A” no Município da Matola, com o objectivo da análise dos impactos sócio ambientais da
Ocupação espontânea do Vale de Infulene.

0.4.3. Métodos da pesquisa.

Um paragrafo

0.4.3.1.Pesquisa Bibliográfica

Segundo Gil (1999:65), a Pesquisa Bibliográfica é desenvolvida a partir de material já


existente ou elaborado, constituído principalmente por livros e artigos científicos. Nesta
monografia, este método foi muito importante na medida em que permitiu a cobertura de uma
gama de fenómenos muito mais ampla do que aquela que poder-se-ia pesquisar directamente.
Para este estudo a pesquisa bibliográfica foi desenvolvida a partir do material encontrado nas
17

principais bibliotecas da cidade de Maputo e outros obtidos na internet para sustentar o


referencial teórico. Este método ajudou na produção do quadro teórico que serviu de
fundamentação desta pesquisa.

0.4.3.2. Pesquisa documental

Este método assemelha-se muito à pesquisa bibliográfica, a única diferença entre ambas
está na natureza das fontes.

De acordo com Gil (1999:66), “enquanto a bibliográfica utiliza fundamentalmente das


contribuições dos diversos autores sobre determinado assunto, a pesquisa documental vale-se
de materiais que não receberam ainda tratamento analítico, ou que ainda podem ser
reelaborados de acordo com os objectivos da pesquisa”.

Destacam-se documentos da primeira mão: documentos oficiais, reportagens de jornais,


cartas, diários, filmes, fotografias; documentos da segunda mão: relatórios de pesquisas,
relatórios de empresas, tabelas estatísticas.

Para o caso desta pesquisa empregou-se tanto os documentos da primeira, bem como da
segunda mão para permitir mais cruzamento de informação e qualidade da pesquisa.

De referir que este método, tal como o bibliográfico, ajudou na elaboração do quadro teórico
que suporta a presente monografia. Especificamente, os dados sobre a população, foram
extraídos dos documentos oficiais do INE; outras informações sobre o local de estudo foram
extraídas dos relatórios do Município da Matola e da sede do Bairro.

0.4.3.3. Pesquisa descritiva

Segundo Gil (2002:42), as pesquisas descritivas têm como objectivo primordial a descrição
das características de determinada população ou fenómeno ou, então, o estabelecimento de
relações entre variáveis.

Na presente pesquisa, usou-se este método para descrever as características da população


do Vale do Infulene “A” através da utilização de técnicas padronizadas de colecta de dados, tais
como o questionário e a observação sistemática donde conseguiu-se descrever as características
tanto físico-geográficas bem como os de natureza social, económica e demográfica.

0.4.3.4. Método estatístico


18

Segundo o método estatístico, os dados colectados foram transformados em números que,


após análise, geraram conclusões que foram generalizadas para todo o universo de pesquisa.
Este tipo de pesquisa, possui amplo alcance; permitiu um conhecimento objectivo da realidade
da facilidade de sistematizar dados em tabelas, gerando informações a partir de gráficos. De
acordo com Rodrigues (2007:127) a pesquisa quantitativa traduz em números as opiniões e as
informações para serem classificadas e analisadas. Este método ajudou na apresentação dos
resultados em forma de gráficos e tabelas para a sua compreensão.

0.4.3.5.Método cartográfico

De acordo com Barros & Kastrup (2012: 57), o método cartográfico visa as conexões as
articulações, na tentativa de explicitar “a rede de forças à qual o objecto ou fenómeno se
encontra conectado, dando conta de suas modulações e de seu movimento permanente”.

Este método, serviu para fazer um enquadramento geográfico da área em estudo, bem como
fazer a análise da dinâmica espacial a partir de imagens de satélite (Google earth), com o
objectivo de a fazer comparação entre os períodos de (2000-2018) e a modalidade das
construções ao longo do vale.

0.4.4. Técnicas de recolha de dados da pesquisa

No que concerne às técnicas de pesquisa aplicou-se a observação directa, a observação


indirecta, a entrevista, inquérito e a técnica cartográfica.

A observação directa é uma técnica de cariz exploratório e descritivo. A observação é um


elemento básico da investigação científica utilizado na pesquisa de campo com abordagem
qualitativa conjugada as outras técnicas e desempenha um papel imprescindível no processo de
pesquisa. Esta técnica foi utilizada na identificação e obtenção de provas a respeito dos
objectivos da pesquisa no Bairro de Infulene “A”.

Assim, a observação directa consistiu na visualização e registo sistemático de fenómeno em


estudo de forma a obter informações sobre o nosso objecto de pesquisa. Este método permitiu
o conhecimento in loco dos fenómenos a abordar.

A observação indirecta foi usada para o estudo da área de estudo a partir de mapas
topográficos e espaciais.
19

A segunda técnica de colecta de dados foi a aplicação de um inquérito utilizado para obter
informações precisas sobre os sujeitos de investigação. Este, “[…] consiste num elenco de
questões que são precisas e submetidas a certo número de pessoas com o intuito de obter
respostas para a colecta de informações” (Fachin, 1993:121). A aplicação deste instrumento
foi realizado de forma individual.

A terceira técnica foi a entrevista do tipo semiestruturada por achar que esta possibilita uma
conversa, favorecendo um diálogo espontâneo; uma maior interacção entre os agentes
envolvidos na pesquisa, uma vez que não é estabelecida como um roteiro fechado, mas sim abre
espaço para novas informações que podem surgir na entrevista, não fugindo do objectivo da
pesquisa.

A entrevista é um instrumento indispensável, por ser capaz de possibilitar ao pesquisador


captar e compreender as opiniões e as impressões pessoais dos entrevistados. Para Bogdan e
Bikle (1994:51) citados por Dantas (2012: 61), este tipo de instrumento de colecta de dados na
pesquisa qualitativa “reflecte uma espécie de diálogo entre os investigadores e os respectivos
sujeitos”.

Para esta pesquisa, as entrevistas foram específicas ao tema e semiestruturadas com


antecedência e as mesmas foram direccionadas aos residentes que fizeram parte da amostra.

0.4.5. Técnicas de Análise de Dados

A análise de conteúdo, além de realizar a interpretação após a colecta dos dados,


desenvolvem-se por meio de técnicas mais ou menos refinadas. A análise de conteúdo consiste
numa técnica de análise de dados que vem sendo utilizada com frequência nas pesquisas
qualitativas (Mozzato & Grzybovski, 2011:733). Ou por outras, para analisar os dados de forma
a apresentar conclusões exaustivas é através dos conteúdos das respostas da entrevista e
questionários, tendo como instrumento perguntas estruturadas.

Para análise dos dados, usou-se a técnica para os estudos qualitativos, que se baseou na
análise dos conteúdos obtidos nos questionários e entrevistas, cruzando com a informação
constante da revisão da literatura e de mais levantamentos bibliográficos que foram necessários
para sustentar a pesquisa.
20

0.4.6. População e Amostra


A pesquisa social possui dois tipos de amostragem: a probabilista e não probabilista (Gil,
1999: 67). Neste estudo usou-se a amostragem não probabilística. Dentro deste tipo de método
existe a amostragem por conveniência e amostragem por quotas. Para a definição do tamanho
de amostragem, optou-se pela amostragem por conveniência. O tamanho de amostragem
corresponde, a quantidade de pessoas que foi possível inquirir dada a circunstâncias encontrada
no local.

Assim, o universo populacional do estudo foi de 23905 pessoas dos quais 11698 do sexo
masculino e os restantes 12207 são do sexo feminino. A população foi agrupada em 4781
famílias do bairro.

A amostra foi de 47 pessoas representantes das famílias, dos quais 26 homens e 21


mulheres. A selecção do público-alvo foi extraída de forma aleatória, olhando para as famílias
que praticam a actividade agrícola e os residentes, com a indicação de Líder comunitário do
Vale Fluvial de Infulene “A”.
21

CAPÍTULO I- QUADRO TEÓRICO E CONCEPTUAL SOBRE IMPACTOS SÓCIO


AMBIENTAIS DA OCUPAÇÃO ESPONTÂNEA DOS VALES

Este capítulo apresenta o quadro teórico sobre os impactos sociais e ambientais da ocupação
espontânea de espaços no Vale Fluvial de Infulene "A" no Município da Matola. Assim,
apresenta-se os principais conceitos inerentes à pesquisa, como conceito de espaço, ocupação
espontânea, vale fluvial e suas classificações, característica e formas da ocupação espontânea
dos espaços, impactos da ocupação dos espaços dos vales fluviais e as medidas para ocupação
dos vales fluviais. O capítulo tem como objectivo, apresentar a fundamentação teórica e as
diferentes abordagens conceptuais adoptadas para sustentar a presente monografia.

1.1. Discussão dos conceitos

Um Paragrafo paragrafo

1.1.1. Ocupação espontânea

A Ocupação Espontânea refere-se a qualquer área que tenha surgido por meio de um
processo informal, constituído inicialmente por habitações improvisadas com padrão
construtivo precário e problemas de infra-estrutura urbana, não importando-se constituída
ilegalmente em terras de terceiros e podendo localizar-se também em regiões centrais da cidade.

De acordo com SANTOS (1992: 59), tem como suas origens assentes em:

 Incapacidade de competição da população de baixa renda no mercado capitalista


habitacional, gerando a exclusão;
 Necessidade de redução dos gastos com residências diante dos baixos salários
(subemprego) ou do desemprego;
 Migração rural, provocadas pela estagnação económica rural, pela modernização das
actividades agrícolas e pela atracção provocada pela expansão industrial nas cidades;
 Empobrecimento gradativo e constante das massas de trabalhadores urbanos.

De acordo com BAHIA (1985) citado por SOUZA & SILVA (2009: 105), a ocupação
espontânea expressa os processos de ocupação à revelia das normas e dos padrões urbanísticos
consagrados formalmente, abrigando uma população que utiliza ou conquista a habitação por
meio de recursos preponderantemente não monetários – trabalho familiar. São processos de
22

flexibilidade de adaptação à escassez da economia familiar e capacidade de desenvolvimento a


partir de valores culturais próprios da condição de baixa renda.

Portanto, as ocupações espontâneas são uma realidade em todo mundo. Contudo, acentua-
se mais nos países mais pobres e com deficientes mecanismos de controlo de áreas
ambientalmente sensíveis e que deviam servir de reserva nos ecossistemas naturais.

1.1.2. Impacto
De acordo com o dicionário da Língua Portuguesa de Costa & Melo (2002: 82), impacto
significa “metido à força, implantado; impelido; choque, embate, encontrão, colisão entre dois
corpos, com a existência de forças relativamente grandes durante um intervalo de tempo muito
pequeno” (do latim “impactu – impelido contra).

Os autores associam impacto a efeito – resultado necessário ou acidental de uma causa;


consequência, realização, intenção; destino, intuito; aplicação, dano, prejuízo; “implicar” -
enredar; fazer supor; envolver; tornar indispensável; contar virtualmente; acarretar
necessariamente uma consequência; “consequência” – resultado natural, provável ou forçoso
de um facto; dedução tirada de um princípio, por meio do raciocínio; ilação; efeito. Para a
presente pesquisa, usou-se o vocábulo impacto como consequência.

1.1.3. Impacto social


O denominador comum de todas as organizações, projectos e negócios sociais é a
capacidade de influenciar de forma positiva a realidade das pessoas que utilizam seus serviços
ou produtos. Para essas iniciativas, propósito e impacto vêm antes de qualquer coisa. Por isso,
o modelo de impacto deve vir antes mesmo do modelo de negócio. Pois, a forma que o negócio
vai operar deve ser guiada pelo seu poder de transformação.

De acordo com a Social Good Brasil (2017), o impacto social é o efeito de uma acção a
médio ou longo prazo, que leve a desenvolvimento ou melhoria social, uma transformação que
deve ser mensurável.

1.1.4. Impacto Ambiental

Impacto ambiental, segundo a Resolução CONAMA 1/86, é " qualquer alteração das
propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente.” Estas alterações podem ser
positivas ou negativas.
23

COSTA & ROCHA, (2010: 25-55), conceitua impacto ambiental como “ uma poderosa
influência exercida sobre o meio ambiente, provocando o desequilíbrio do ecossistema
natural.” O que caracteriza o impacto ambiental não é qualquer alteração nas propriedades do
ambiente, mas as alterações que provoquem o desequilíbrio das relações constitutivas do
ambiente, tais como as alterações que excedam a capacidade de absorção do ambiente
considerado.

MICOA (1996:135) define Impacto Ambiental como qualquer mudança do ambiente


resultante de actividades humanas para melhor ou para pior, especialmente com efeitos sobre
as matérias na natureza (ar, água, solo, biodiversidade, na saúde das pessoas, etc.).

Olhando para os conceitos apresentados pelo MICOA, MURGUEL BRANCO e a


Resolução CONAMA, assume-se que impacto ambiental pode ser qualquer alteração das
propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de
matéria ou energia resultante das actividades humanas que, directa ou indirectamente, afectam
a saúde, a segurança e o bem-estar da população; as actividades sociais e económicas; as
condições estéticas e sanitárias do meio ambientetg e a qualidade dos recursos ambientais.

Os autores anteriormente citados explicam ainda que os vales podem ser interpretados de
acordo com os tipos de leito, de canal e de rede de drenagem. Estas fisiografias possuem uma
dinâmica própria das águas correntes, associada a uma geometria hidráulica específica, geradas
pelos processos de erosão, transporte e deposição dos sedimentos fluviais, quer dizer, Vale
Fluvial é espécie de planalto entre duas montanhas ou colinas. Trata-se, na realidade, de uma
depressão alongada da superfície terrestre entre duas vertentes, com forma inclinada e alargada.
Pela vertente de um vale podem circular as águas de um rio (no caso dos vales fluviais) ou
alojar-se o gelo de um glaciar (vales glaciares).

Discussão do quadro teórico sobre ocupação espontânea

De acordo com DIAS (2004) citado por MACHADO et al (2007:98), as ocupações


espontâneas são uma realidade em todo o mundo e apresentam precariedades nas condições
sócio-ambiental e sócio-económica, influenciando na saúde dos seus moradores e no ambiente
em que eles vivem. Sendo assim, necessário a avaliação da salubridade ambiental em área de
ocupação espontânea.
24

O constante crescimento populacional das regiões urbanas, tem ocasionado diversos


problemas de ordem ambiental, social e de saúde pública. Quando se trata da manutenção da
saúde pública é comum relacionar a mesma à qualidade do ambiente. Sendo isto, justificado
pelo fato de doenças infecto-parasitárias serem frequentes em áreas de ambientes favoráveis às
rotas de contaminação dos indivíduos (SALES, 1979 citado por MACHADO, s/d).

Nesta ordem de ideias, de acordo com SOUZA & SILVA (2009: 65), o ascendente processo
de urbanização e a complexidade dos problemas decorrentes dele apontam um grande desafio
para o desenvolvimento sustentável das cidades, especialmente quanto à organização do espaço
urbano. Para os autores, dentre os factores que dificultam o desenvolvimento harmónico da
cidade, destaca-se o processo de ocupação espontânea. Tal processo leva a uma excessiva
extensão do tecido urbano com baixas densidades de ocupação, inviabilizando a implantação
de infra-estrutura e serviços básicos.

Segundo SOUZA & SILVA (2009, id.), a ocupação espontânea é promovida por iniciativa
da população por meio de invasão de terrenos públicos e áreas de preservação permanente.
Além de contribuir para uma desintegração funcional, a ocupação espontânea dificulta o
planeamento e a implementação das ligações viárias, a localização dos equipamentos
comunitários e a rede de infra-estrutura em bairros e loteamentos.

O crescimento da população de muitas cidades gerou uma urbanização descontrolada, que


resultou na ocupação das áreas impróprios muitas vezes de maneira ilegal. Esse facto “somado
às condições precárias de saneamento básico atinge os ecossistemas lacustres, comprometendo
suas condições sanitárias, estando sujeitos a descarte de lixo, efluentes domésticos e industriais,
assoreamento, erosão e retirada de mata ciliar, dentre outros factores” (SOUZA & SILVA,
2009, ibid.).

Para JACOBI (2003:36), a reflexão sobre as práticas sociais, em um contexto marcado pela
degradação permanente do meio ambiente, deve necessariamente contemplar as inter-relações
do meio natural com o social, incluindo a análise dos diversos actores envolvidos e as formas
de organização da sociedade, que aumentam o poder das acções alternativas de
desenvolvimento, numa perspectiva que priorize um novo perfil, com ênfase na
sustentabilidade sócio-ambiental.
25

Na visão de SOUSA & SILVA (2009, ibidem), apesar desta situação, os aspectos jurídicos
de muitos países inerentes às questões ambientais ainda são complexos em sua maioria, não
havendo uma homogeneidade da legislação, o que dificulta sobremaneira a própria fiscalização.

De acordo com MUKAI (2004:1361-1374), a ocupação e o desenvolvimento dos espaços


habitáveis, sejam eles no campo ou na cidade, segundo não podem ocorrer de forma casual mas
sim de acordo com os interesses privados e da colectividade. São necessários estudos da
natureza da ocupação, sua finalidade, avaliação da geografia local, da capacidade de comportar
essa utilização sem danos para o meio ambiente, de maneira a permitir boas condições de vida
para as pessoas, possibilitando o desenvolvimento económico e social, que harmonize os
interesses particulares e os da colectividade.

Num olhar histórico sobre o surgimento das ocupações espontâneas em áreas de


conservação no mundo, importa referir que ao evoluir da condição de “homem colector” para
“homem produtor”, o Homem passa não apenas a produzir sua própria existência, mas também
um espaço adequado e ajustado às suas novas necessidades. A relação passiva mantida até
então, entre homem e natureza, muda e, ao longo da história, o meio ambiente sofrerá, de forma
permanente, profundas alterações face a evolução social e económica da sociedade, que exigirá
novas configurações espaciais. Desta forma, define CARLOS (1992):

Sociedade e espaço não podem ser vistos desvinculadamente, pois a cada


estágio do desenvolvimento da sociedade, corresponderá um estágio do
desenvolvimento da produção espacial. (...) O espaço construído ou geográfico
não é estático, mas uma produção humana contínua, um fazer incessante
(CARLOS, 1992 apud SOUZA & SILVA, 2009: 81).

Numa visão simplista, pode-se considerar a urbanização de ocupações espontâneas uma


espécie de rendição da população à realidade inafastável de melhorar as condições de
habitabilidade desses espaços citadinos, postura essa adoptada tanto por força da reivindicação
de seus moradores, quanto pela inviabilidade que toma conta da remoção como alternativa, em
virtude de, já nos anos oitenta um número cada vez mais elevado de pessoas terem estabelecido
suas moradias nesses espaços.

SOUSA e SILVA (2009:88) salientam que o uso inadequado de áreas públicas de interesse
ambiental não se restringe apenas às ocupações espontânea, mas atinge bairros considerados
“nobres”, onde ocorrem abusos de incorporação de parcelas de áreas públicas aos imóveis
particulares. O próprio Estado, aqui no sentido lato, patrocina verdadeiros abusos, ao
26

desrespeitar a legislação de forma flagrante, construindo de forma irregular ou mesmo cedendo


áreas de interesse da comunidade para organizações diversas.

SOUSA e SILVA (2009:89), ao comentar essa situação e em jeito de conclusão, chamam


atenção para a postura das autoridades municipais que, geralmente, costumam ceder áreas
pertencentes à colectividade para outros poderes ao destinarem para obras públicas. Tal
comportamento, segundo o autor, decorre da dificuldade que se tem de pensar a cidade como
capital social, esquecendo-se do valor de uso de tais áreas para a comunidade.

1.1.5. Vale fluvial

Vale fluvial é a designação dada ao corredor ou depressão longitudinal, de tamanho e


formas variadas, ocupado pelo curso de água. Constitui-se numa forma topográfica que abrange
talvegue e duas vertentes com dois sistemas de declives convergentes GUERRA & GUERRA,
(2008:123). O vale fluvial caracteriza-se por uma depressão alongada (perfil longitudinal), que
se constitui por um ou mais talvegues e duas vertentes com sistemas de declive convergente,
sendo denominada, igualmente, de planície à beira do rio ou várzea Cunha & Guerra, (2000:
361).

Segundo o dicionário geológico-geomorfológico, vale é um corredor ou depressão de forma


longitudinal (em relação ao relevo contiguo), que pode ter, por vezes, vários quilómetros de
extensão GUERRA &GUERRA, (2008:108). De acordo com estes autores, os vales são formas
topográficas constituídas por duas vertentes com dois sistemas de declives convergentes. O vale
é expresso pela relação entre as vertentes e os leitos (leito menor, leito maior e terraços).
Portanto, vale é uma depressão topográfica alongada, aberta e inclinada numa direcção em toda
sua extensão, podendo ser ou não ocupada por água.

A forma de vale e o seu traçado estão em função da estrutura, da natureza das rochas, do
volume de relevo, do clima e também da fase em que se encontre dentro do ciclo morfológico.
Em ultima análise, a forma de um vale de erosão depende sempre da relação entre a resistência
das rochas e a força da erosão.
27

1.1.6. Classificação dos vales

De acordo com GUERRA & GUERRA (2008), os vales podem ser classificados segundo
vários critérios: quanto à origem; quanto ao valor hidrográfico; quanto à forma do fundo; quanto
à orografia; quanto à forma das vertentes.

Quadro 1: Classificação dos vales

Quanto à origem Quanto à forma Quanto à orografia Quanto à forma das vertentes
da região
Primitivos De fundo chato; Longitudinais Em garganta;
De fundo côncavo; Transversais. Em V ou normal;
Consequentes De fundo em “V”; Em manjedoura ou calha;
Em fundo estreito. Dissimétricos ou monoclinais;
Fonte: Adaptado de GUERRA & GUERRA (2008)

O vale de Infulene “A”, quanto à origem é primitivo, quanto à forma é de fundo chato,
quanto à orografia da região é transversal e quanto à forma das vertentes é normal.

1.2. Conceito de espaço

No contexto contemporâneo da Ciência Geográfica é convencional que o espaço geográfico


seja referenciado enquanto conceito primordial das abordagens. Sendo considerado por vários
autores como o objecto da Geografia. As análises, no entanto, “não se esgotam no conceito em
questão, mas se ampliam no sentido de compreender os territórios, a região, os lugares e as
paisagens, bem como as fronteiras” (Polon & Rondon, 2016:132).

Apesar disso, ainda existem discursos que afirmam que o espaço é um conceito pouco
discutido no âmbito da própria Geografia. É mais discutida a própria ciência e sua
funcionalidade na compreensão das relações entre a sociedade e a natureza, conforme Santos
(2014:18) citado por (Polon & Rondon, 2016:133), “discorrer, ainda que exaustivamente,
sobre uma disciplina, não substitui o essencial, que é a discussão sobre seu objecto”. Assim,
reafirma-se que as discussões teóricas acerca dos conceitos da Geografia não são uma questão
finalizada, mas que possibilitam novas e constantes reflexões. Diversos autores, no decorrer do
tempo, já abordaram sobre os vários aspectos relativos à noção de espaço geográfico, desde
Henry Lefebvre, Richard Hartshorne, Rhalf Magalhães Braga.
28

Para Santos (2008) o papel do intelectual é actualizar os conceitos e realizar uma análise
crítica da sociedade. A partir da década de 1990 Milton Santos concentra os seus esforços em
verificar as contradições e os desdobramentos do processo de globalização e como se
caracteriza o espaço geográfico nesta fase. Desta maneira, define o espaço como:

[...] algo dinâmico e unitário, onde se reúnem materialidade e acção


humana. O espaço seria o conjunto indissociável de sistemas de
objectos, naturais ou fabricados, e de sistemas de acções, deliberadas
ou não. A cada época, novos objectos e novas acções vêm juntar-se às
outras, modificando o todo, tanto formal quanto substancialmente.
(SANTOS, 2008:46).

De acordo com COSTA (2014:34), a palavra dinâmica na obra de Milton Santos é utilizada
para caracterizar o movimento, a transformação e até mesmo as contradições presentes no
espaço. Com referência aos objectos, eles são cada vez mais produtos da acção humana através
do trabalho do que naturais e seu valor no modelo actual está na sua eficácia, na sua contribuição
para a produtividade.

Com a globalização, que “[...] constitui o estádio supremo da internacionalização, a


amplificação em ‘sistema-mundo’ de todos os lugares e de todos os indivíduos, embora em
graus diversos” (SANTOS, 2008:45), ciência, técnica e informação asumem papel
fundamental. Com isso:

A ciência, a tecnologia e a informação estão na base mesma de todas as


formas de utilização e funcionamento do espaço, da mesma forma que
participam da criação de novos processos vitais [...]. Os espaços, assim
requalificados, atendem sobretudo aos interesses dos atores
hegemónicos da economia e da sociedade, e desse modo são
incorporados plenamente as correntes de globalização (SANTOS,
2008:48).

Porém, a ciência, a técnica e a informação não se distribuem de maneira homogénea no


planeta, o que estabelece desigualdades de um novo tipo. Existem áreas de densidade
(‘luminosas’) e áreas quase vazias (‘opacas’), e uma variedade de situações intermediárias. Nas
áreas luminosas, controladas e comandadas por acções hegemónicas, existem pesados
investimentos em ciência e inovação técnica que permitem grande fluidez e velocidade para os
fluxos de capitais, serviços e mercadorias. Nas áreas opacas, os investimentos são pequenos e
os fluxos mais lentos. Assim, no espaço existem convivem fluxos mais velozes e eficientes e
fluxos mais lentos.
29

No entendimento de Santos (2008:101), “os espaços comandados pelo meio técnico


científico são os espaços do mandar, os outros são os espaços do obedecer. O espaço global é
oriundo de todos os objectos e fluxos.” Desta maneira:

[...] o espaço global seria formado de redes desiguais que, emaranhadas


em diferentes escalas e níveis, se sobrepõem e são prolongadas por
outras. [...] o todo constituiria o espaço banal, isto é, o espaço de todos
os homens, de todas as firmas, de todas as organizações, de todas as
acções – numa palavra, o espaço geográfico SANTOS, (2008:50).

O espaço geográfico agrupa horizontalidades e verticalidades. As horizontalidades são


entendidas pelo autor como o domínio de um quotidiano territorialmente compartilhado, um
conjunto de lugares contíguos onde se exerce uma solidariedade. As verticalidades são pontos
a serviço dos atores hegemónicos que estabelecem uma hierarquia entre os lugares que são
controlados a distância.

De um lado, há espaços contínuos, formados de pontos que se agregam sem


descontinuidade, como a definição tradicional de região. São as horizontalidades. De outro, há
pontos no espaço que, separados uns dos outros, asseguram o funcionamento global da
sociedade e da económica. São as verticalidades. Os espaços se compõem de uns e de outros
desses recortes, inseparavelmente SANTOS, (2008: 88).

O autor entende que é necessário criar e inserir uma teoria espacial. Com base no exposto
argumenta que a tarefa actual é elaborar uma teoria das relações espaciais e do desenvolvimento
geográfico no capitalismo que permita explicar a evolução e as funções do Estado, do
desenvolvimento geográfico desigual, das desigualdades inter-regionais, do imperialismo e a
urbanização. Assim: “A geografia histórica do capitalismo deve ser o objecto de nossa
teorização enquanto o método de inquirição deve ser o materialismo histórico-geográfico”
HARVEY, (2006:144).

De acordo com CISTAC & CHIZIANE (2003:95), espaço geográfico é o espaço habitado,
transformado e utilizado pelo ser humano. É a porção da superfície terrestre que abriga as
sociedades, envolvendo também os pontos utilizados para a exploração e extracção de recursos
naturais. Não se trata apenas de um “palco” ou um “produto”, pois ele é resultado e também
resultante das acções humanas. Além do próprio ser humano, compõem o espaço geográfico
todas as suas obras e os meios naturais que interferem em suas actividades, como as cidades, as
plantações e o meio rural, as indústrias, os objectos, os rios, os climas etc.
30

Para CISTAC & CHIZIANE (Id), a produção do espaço geográfico – ou seja, o processo
pelo qual o homem transforma e habita o meio em que vive – depende da natureza. A partir da
exploração e extracção dos recursos naturais, o ser humano desenvolve as suas actividades para
a sua reprodução e sobrevivência. O autor distingue algumas categorias para análise do espaço:

Território: de forma simplista, o território pode ser definido como um espaço delimitado,
de forma que essa delimitação obedeça a uma relação de posse ou de poder. Podem existir
várias formas de território, como o território animal, o território político (as cidades, os países,
os blocos económicos), o território cultural (o das prostitutas ou de um grupo religioso), dentre
outros.

Paisagem: é o espaço da superfície que podemos captar através dos nossos sentidos. É tudo
aquilo que se manifesta diante de nós, aquilo que podemos ver, ouvir, sentir, tocar e cheirar.

Lugar: é um local tal qual o homem o percebe, é o espaço percebido. É aquele ponto ou área
do espaço que o homem identifica e atribui sensações e predicados, sejam eles afectivos ou não.

Região: é um dos conceitos mais complexos da Geografia e possui várias definições. Pode-
se dizer que região é uma área ou porção do espaço dividido conceitualmente pelo homem
conforme suas características (clima, economia, relevo, política, entre outros). As regiões não
existem na natureza, pois se tratam de uma construção intelectual humana. Assim, o homem
pode elaborar diferentes regiões conforme os seus interesses, seja para planear acções, seja para
realizar estudos.

1.2.1. Tipos de espaço

Harvey (2006:145) defende que o espaço é uma palavra-chave, complexa, cujo significado
e conceito deve ser decifrado. Em sua exposição alega que o espaço pode ser avaliado a partir
de três divisões a saber: espaço absoluto, espaço relativo e espaço relacional.

Espaço absoluto, é fixo e é onde são registados ou planificados os eventos. É o espaço de


Newton, Descartes e Euclides. Refere-se ao espaço do mapeamento cadastral, da localização e
posição, da propriedade privada, das cidades, de um condomínio fechado, das fronteiras e
barreiras físicas, de entidades delimitadas como o Estado ou uma unidade administrativa. Tem
papel importante para a localização e representação através de mapas dos pontos fixos Harvey,
(2006:147).
31

Espaço relativo, de acordo com Harvey (Idem), está ligado a Einstein e as geometrias não-
euclidianas e se apresenta em dois sentidos: há múltiplas geometrias que podem ser escolhidas
e o quadro espacial depende do que está sendo relativizado e por quem. O espaço relativo
oferece uma multiplicidade de localizações e o autor cita que é possível fazer mapas
completamente diferentes de localizações relativas em termos de custo, tempo, modo de
transporte.

Do conceito, vê-se que o espaço relativo é o da circulação e dos fluxos, das cartas temáticas,
do movimento, da mobilidade, da aceleração e da compressão do espaço-tempo.

Espaço relacional, está associado a Leibniz. A noção relacional implica a ideia de relações
internas. Um evento não pode ser compreendido a partir de um único ponto, depende de tudo
que ocorre ao seu redor. Nesta formulação, assim como no caso do espaço relativo é impossível
separar espaço e tempo. É o espaço das sensações, desejos, frustrações, sonhos e vertigem.
Também se refere ao ciberespaço, que está sendo cada vez mais objecto de estudo por parte dos
geógrafos Harvey (Idem).

Na avaliação de Harvey a contribuição de Lefebvre é importante ao também definir o espaço


de maneira tripartida: espaço material (o espaço da experiência e da percepção aberto ao toque
físico), a representação do espaço (o espaço como concebido e representado) e o espaço de
representação (o espaço vivido, das sensações, das emoções e significados). Com base no
espaço absoluto, relativo e relacional e inserindo a proposta de Lefebvre de espaço material,
representação do espaço e espaço de representação e dentro da dialéctica marxiana, Harvey
propõe a seguinte matriz.

Quadro 2: Tipos de espaço


Espaço Material Representações do espaço Espaços de representação
(da experiência) (espaço concebido)
Espaço Mercadorias úteis, processo Valores de uso e trabalho concreto. Alienação vs satisfação
absoluto de trabalho concreto, notas e Exploração do processo de trabalho criativa; individualismo
moedas (dinheiro local), (Marx) vs trabalho como jogo criativo; isolado vs solidariedades
propriedade privada, mapas de propriedade privada e de sociais; lealdade ao lugar,
fronteiras do Estado, capital exclusões de classe; mosaico de à classe, à identidades,
fixo, ambientes construídos, desenvolvimentos geográficos etc.; privação relativa,
espaços de consumo, piquete desiguais. injustiça; falta de
de greve, espaços ocupados dignidade; raiva vs
(sit-ins), tomada da Bastilha satisfação.
ou do Palácio de Inverno.
Espaço Troca de material, comércio, Valor de troca (valor em Fetiche da mercadoria
(tempo) circulação e fluxo de movimento). Esquemas de acumulação;
relativo mercadorias, energia, força de cadeias de mercadorias; modelos de
32

trabalho, dinheiro, crédito ou migrações e de diásporas; modelos de e do dinheiro (desejo


capital, percursos periferia- input-output, teorias de ‘fixos’ espaço- perpétuo insatisfeito);
centro da cidade e migração, temporais, aniquilação do espaço pelo ansiedade/ euforia face
depreciação e degradação, tempo, circulação do capital através do à compressão espaço-
fluxo de informação e ambiente construído; formação do temporal; instabilidade;
agitação do fora. mercado mundial, redes; relações insegurança; intensidade
geopolíticas e estratégias da acção e do movimento
revolucionárias vs repouso; ‘tudo que é
sólido desmancha no ar’...
Processo de trabalho Valores-dinheiro. Valores. Hegemonia
Espaço abstracto, capital fictício; O valor como tempo de trabalho capitalista (‘não há
(tempo) movimentos de resistência; socialmente necessário; como trabalho alternativa’); consciência
relaciona manifestações repentinas e humano objectivado em relação com o proletária; solidariedades
l irrupções expressivas de mercado mundial; as leis do valor em internacionais, direitos
movimentos políticos movimento e o poder social do dinheiro universais; sonhos
(antiguerra, 1968, Seattle...), (globalização); esperanças e medos utópicos; um outro mundo
‘o espírito revolucionário revolucionários; estratégias de é possível’
desperta’ mudança.
Fonte: Harvey (2006).

As máquinas, mercadorias, fábricas, estradas, casas, e processos de trabalho real podem ser
compreendidos no âmbito do quadro de espaço e tempo absolutos. O que se refere ao valor de
troca apresenta uma perspectiva de espaço-tempo relacional, pois a troca implica movimento
de mercadorias, de dinheiro, de pessoas e de capital. No quadro relativo o que importa é o
movimento e a troca derruba as barreiras do espaço e do tempo. Já o valor é um conceito
relacional e a única forma de aproximação ocorre via as relações estabelecidas entre as pessoas
e entre as coisas, pois o valor é uma relação social. O espaço relacional abre caminho para a
subjectividade. Para o autor os três quadros espácio-temporais têm que ser mantidos em tensão
dialéctica uns com os outros e não se pode estabelecer nenhuma prioridade.

De acordo com ARAÚJO (2003), distinguem-se em Moçambique dois tipos de espaço: o


urbano e rural.

Espaço rural: as aldeias definem-se a uma escala diferente. Menores em dimensão e em


concentração; regulam-se por uma maior proximidade da natureza da qual dependem. A
agricultura é, geralmente, a base económica que fundamenta a forma do aglomerado, não se
articulando no meio rural as forças complexas que determinam a estrutura urbana. A habitação
dispersa-se, sendo naturalmente constituída por casas isoladas, unifamiliares, com terreno
sobrante, e por pátios e quintais que são utilizados como complemento à actividade agrícola de
maior escala.
33

Espaço urbano: a malha urbana é o reflexo dessa forma de organizar o espaço: grandes vias
de circulação, que ligam os lugares e que relacionam as diferentes funções, articuladas com
locais de estar, praças e pracetas que sustentam uma vivência de lazer; bairros, prédios e
quarteirões que organizam a lógica da habitação na estrutura; elementos que definem um
desenho característico de que resulta, consequentemente, uma forma de ocupar o território e de
organizar os usos do solo.

Segundo ARAÚJO (2003), os atuais espaços urbanos em Moçambique são resultantes de


um processo alógeno, em que a concentração de actividades económicas foi decidida e imposta
em função de interesses exteriores (coloniais), como sucedeu, igualmente, em toda a África
subsaariana. O autor refere que “muitas vezes, nem sequer são interesses económicos directos
que atuam como factor imediato da localização do "situ" urbano mas antes interesses ligados
às necessidades do poder colonial, como sejam o de controlo militar e/ou administrativo e a
exportação de matérias-primas, geralmente provenientes do interior”.

De acordo com ARAÚJO (2003, Id.), este processo transplantou modelos e percepções de
organização do espaço oriundos das realidades das metrópoles coloniais, implantando-os num
território para o qual se mantiveram, durante muito tempo, como corpos estranhos e
antagónicos. Ainda hoje, as cidades e o campo moçambicanos apresentam alguns antagonismos
que apenas o tempo e modelos mais adaptados às realidades e percepções locais vão reduzindo
gradualmente. Por isso, a localização e as características das actuais cidades moçambicanas,
que não chegam a constituir uma rede urbana é o resultado de interesses político-económicos
coloniais, sobre os quais se procurou ajustar, na pós-independência, as políticas nacionais de
desenvolvimento.

Como escrevia Milton Santos, citado por ARAÚJO (2003, ibid.), “os assentamentos
urbanos constituem uma forma particular de organização do espaço que preside às relações
de um espaço maior, que é a sua área de influência, ou a sua região”. É no âmbito destas
relações que se insere o papel da cidade na distribuição territorial da população, assumindo a
função de centro para o qual se dirige uma parte dos habitantes dessa região.

Os estudos existentes em Moçambique, ainda que poucos e muito dispersos, apontam para
uma distribuição territorial da população que progride no sentido de uma maior concentração
em direcção ao centro urbano. É nesta dinâmica que as cinturas peri-urbanas das cidades
moçambicanas funcionam como "zonas de transição" do rural disperso para o urbano
concentrado.
34

Na realidade, as áreas peri-urbanas das cidades moçambicanas, administrativamente


consideradas espaços urbanos, são cinturas de território onde as características da sociedade
rural se misturam com formas económico e socioculturais urbanas. Em vários bairros desta
cintura peri-urbana, a maioria dos seus habitantes sobrevivem da actividade agrícola familiar,
tal como sucedia nas áreas rurais de origem.

Na visão de ARAÚJO (2003, ibidem), para a população imigrante, este espaço funciona,
geralmente, como local de residência transitória, por três razões essenciais:

 Primeiro, porque o objectivo é aproximar-se o mais possível do centro da cidade onde


as possibilidades de trabalho, seja no sector formal, seja no informal, são maiores, não
necessitando de fazer grandes despesas em transporte;
 Em segundo lugar, e como fenómeno recente, porque estas áreas peri-urbanas são muito
procuradas por residentes privilegiados do centro urbano, onde pretendem construir a
sua segunda e terceira residência, sem problemas de espaço, num processo nem sempre
pacífico e onde o elo mais fraco é a família imigrante;
 Um terceiro aspecto é o fato de estas áreas peri-urbanas servirem para a localização de
novas áreas de expansão urbana planificada para a instalação de população retirada de
áreas problemáticas.
A conclusão que se pode chegar neste debate é de que o vale de Infulene “A”, na classificação
de ARAÚJO (2003), é um espaço peri-urbano.

1.3. Diferenciação do espaço urbano do rural no contexto moçambicano

Segundo ARAÚJO (2003), as diferenças entre o urbano e o rural em Moçambique, como


em toda a África, são facilmente percebidas. Formam dois espaços que representam realidades
opostas e que mesmo mantendo uma certa relação, caminham a velocidades desiguais
decorrentes, entre outras razões, do processo de globalização e inserção acelerada de culturas e
hábitos diferentes, e da incapacidade económica, técnica e gerência de acompanhar as bruscas
alterações promovidas pelo intenso movimento migratório campo-cidade.

Para ARAÚJO (2003, Id), a presença portuguesa nos centros urbanos, desde o período
colonial, acabou por influenciar com maior amplitude estas áreas que, destinadas ao controle
administrativo, político e económico, foram providas de infra-estruturas, serviços e actividades
severamente diversos daqueles das áreas rurais. Embora as diferenças entre o urbano e o rural
sejam notadas em todo o mundo, em Moçambique estes antagonismos são fortemente elevados
35

e acabam por produzir espaços incompatíveis e realidades perversas. Os centros das grandes
cidades reflectem o modelo de urbanização colonial português. As ruas possuem uma
implantação ortogonal, são largas e arborizadas. A sectorização dos espaços é bem definida e
tende a facilitar o escoamento da produção. As construções são em alvenaria e reflectem as
influências dos períodos da arquitectura europeia. A infra-estrutura é centralizada e aqui se
encontram com maior intensidade as actividades de comércio, prestação de serviços e indústria.

Quanto às características espaciais, ARAÚJO (Id) refere que as áreas rurais e pequenas vilas
são formadas por casas tradicionais de caniço (capim), barro e palha. Poucas são as construções
que diferem deste padrão. Os assentamentos possuem uma disposição orgânica, mas com
limites facilmente identificáveis por seus moradores. Pequenas construções ao redor do terreno
voltado para o centro, formam os ‘cómodos’ da casa e reflectem a importância da convivência
familiar. A infra-estrutura é praticamente inexistente e há o predomínio da agricultura de
subsistência.

Na comparação de ARAÚJO, os espaços urbanos e os rurais de forma tradicional, ou seja,


espaço urbano é compreendido por uma determinada área administrativa, que concentra
população, serviços e produção, e espaço rural como o espaço restante, as afirmações
apresentadas são facilmente visíveis. Entretanto, tendo em vista o aumento considerável dos
fluxos migratórios (campo-cidade) ocorridos nas últimas décadas em Moçambique, pode-se
observar essas diferenças dentro do próprio espaço urbano.

Entende-se que na busca de melhores condições de vida e possibilidades de trabalho, a


população rural vem à cidade e acaba por deparar-se com situações tão precárias quanto àquelas
do meio de origem.

Na óptica de ARAÚJO as diferenças entre a população imigrada e aquela residente nas


zonas centrais são ainda maiores, alimentando a segregação imposta nos tempos coloniais. Os
subúrbios cresceram sem parar, densificaram-se, de novas e muitas gentes vindas de muitas
partes e de construções sem fim, estenderam-se devorando os campos adjacentes, encheram-se
de muita azáfama, muitas relações, intenso tráfego, uma vida efervescente. Os padrões de vida
dos seus habitantes afastam-se das referências rurais mas também não seguem as citadinas dos
bairros centrais.

As infra-estruturas urbanas e sociais são sobre utilizadas e muito desgastadas, os


investimentos públicos são cada vez mais insuficientes e os recursos ínfimos da maioria da
36

população mal lhes permite sobreviver. As poucas poupanças são investidas na casa, que
constroem pouco a pouco, bloco a bloco.”

1.4. Tipos de ocupação espontânea nos vales fluviais

Segundo LOPES (S/d), são diversos os tipos de ocupação espontânea do homem no


território. De acordo com LOPES (S/d, Id.), funções como a agricultura ou a indústria, o
comércio ou os serviços encontram no tipo de aglomerados os argumentos para o seu
estabelecimento, moldando e transformando a forma destes espaços de espontâneos para
definitivos, estabelecendo relações de cumplicidade. São modos de ocupar o território, distintos
nos seus conceitos e finalidades, que se complementam, sustentando a colonização humana.

Os aglomerados humanos, sendo todos eles diversos e complexos nas suas razões,
relacionam-se e justificam entre si a forma que o homem encontrou para se estabelecer, ocupar
e usar os recursos da natureza. O autor, ainda entende que numa ocupação espontânea gerem-
se funções com características próprias: habitação, numa larga escala, interrelacionada com o
comércio e com os serviços; indústrias articuladas com a cidade.

1.5. Impactos da ocupação espontânea dos espaços dos vales fluviais

Os vales são elementos de suma importância na dinâmica hidrológica. A dinâmica dos vales
fluviais é extremamente sensível às alterações no uso do solo decorrentes dos processos de
urbanização (FELIPPE & JÚNIOR, S/d). Parte integrante do sistema ambiental, essencial na
manutenção do equilíbrio hidrológico dos vales fluviais e do ambiente, estão alteradas em
função da expansão da mancha urbana e do adensamento populacional. O uso e manutenção
dos vales fluviais feita por boa parte da população para a instalação das suas residências e para
a produção contribuem para o surgimento e/ou intensificação de problemas ambientais
interferindo directamente na dinâmica fluvial dos rios.

Para CASSETI (2005: 89) é necessário que se faça a análise da dinâmica fluvial do ponto
de vista do comportamento morfodinâmico da área, pois o mesmo pode ser entendido como as
transformações recentes do relevo na escala histórica, levando em consideração a interacção
dos elementos na paisagem, assim como a intensidade em que ocorrem os processos
morfogenéticos e a intervenção antrópica. A este respeito, para CUNHA (2011: 23) o homem
ao longo de sua evolução histórica vem provocando diversas mudanças na dinâmica fluvial tais
como: o barramento do corpo hídrico, supressão da cobertura vegetal, intensificação de
37

processos erosivos e o assoreamento que estão intrinsecamente associados ao uso e ocupação


agrícola e urbana das margens.

Quadro 3: Impactos da ocupação espontânea dos espaços em vales fluviais


Impactos Consequências gerais no sistema hídrico Consequências para os vales
Aumento da quantidade e da velocidade do Descaracterização dos vales
escoamento superficial;
Impermeabilização Redução da recarga dos aquíferos;
do solo Intensificação dos processos erosivos,
aumento da carga sedimentar para os
cursos de água, assoreamento e
inundações.
Resíduos Poluição das águas subterrâneas. Descaracterização dos vales
(combustível, esgoto,
lixões, etc.)
Retirada de água Rebaixamento do nível freático. Desaparecimento
subterrânea
Intensificação dos processos erosivos, Descaracterização e
Substituição da assoreamento, inundações; desaparecimento dos vales
cobertura vegetal Diminuição da retenção de água;
Aumento da energia dos fluxos
superficiais.
Construções Drenagem de nascentes. Descaracterização e ou
Aterramento de construções desaparecimento do vale
Canalização de rios Alteração no padrão de Descaracterização dos vales e
influência/efluência dos rios. redução da vazão do rio.
Fonte: CASSETI (2005)

1.6. Medidas para evitar a ocupação espontânea dos vales fluviais

O crescimento populacional das cidades, aliado à falta de uma política habitacional eficaz,
provoca uma preocupante situação de uso e ocupação do solo em áreas naturalmente de riscos
à habitação humana, que é agravado, sobretudo, pela constante retirada da cobertura vegetal,
ameaçando a presença da população local em áreas como vales fluviais sujeitas à erosão,
assoreamento, enchentes e inundações. Desse modo, áreas urbanas que deveriam estar
protegidas em virtude de serem classificadas como áreas de reserva são ocupadas. A ocupação
desordenada dos espaços incluindo os vales fluviais é resultante da ocorrência de uma
conjunção de diversos factores como a falta de fiscalização por parte das autoridades públicas,
que por negligência agem somente após a ocorrência de acidentes com perdas de vidas
humanas.

É imperativo e assaz importante ressaltar que a ocupação habitacional nos grandes centros
urbanos ocorre de maneira irracional e infelizmente, vale dizer, sem distinção de classes sociais.
Isto é, a ocupação de áreas de risco nos grandes centros urbanos não é praticada apenas pela
38

parte da população mais desprovida de recursos financeiros, segundo alguns autores


ambientalistas.

As relações do homem com o meio, ambiente há muito, têm chamado a atenção da


comunidade científica. Torna-se cada vez mais importante o estudo e manuseio adequado das
áreas, visando o seu uso racional, minimizando-se os impactos. Assim, varias são as medidas
para se minimizar o impacto da ocupação dos vales fluviais. As medidas para minimizar a
poluição hídrica consistem em:

i. Maiores investimentos para instalação de estações de tratamento de esgoto;


ii. Intensificação da fiscalização de indústrias;
iii. Educação ambiental para a população em geral;
iv. Utilização de produtos químicos na agricultura menos agressivos ao meio ambiente.
39

CAPITULO II – ESPECIFICIDADE DA ÁREA DE ESTUDO – BAIRRO DE


INFULENE “A” MUNICÍPIO DA MATOLA

Neste capítulo, apresenta-se as generalidades do bairro de Infulene “A”, destacando a sua


localização geográfica, particularidades físico-geográficas e socioeconómicas.

2.1. Localização geográfica e cósmica do bairro de Infulene “A”

Infulene “A”, é um dos bairros do Posto Administrativo da Machava localizado no


Município da Matola, Província de Maputo, na região Sul de Moçambique, há 5 km da Cidade
Capital-Maputo, com uma área de 2.96 km2. Localiza-se entre os paralelos 25º 45’00’’, 25º
55’00’’ de latitude Sul e entre os meridianos 32º 30’40’’, 32º 31’00’’ de longitude Este.

Mapa 1: Bairro Infulene “A”

Fonte: Autor 2018


40

2.2. Limites administrativos

De acordo com UBISSE (2005), o Bairro Infulene “A” tem os seguintes limites:

 Norte: Bairro Patrice Lumumba;


 Oeste: Machava Sede e o Vale do Infulene;
 Sul: Bairro Trevo;
 Este: Riacho (continuação das águas do vale e o Bairro Acordos de Lusaka.

2.3. Particularidades físico-geográfica.

Em seguida vao-se apresentar as particularidades ficos geograficas do bairro do infulene.

2.3.1. Geologia, relevo e solos

Quanto à sua estrutura geológica pertence a Fanerorozóico constituída por rochas


sedimentares do quaternário caracterizados por ocorrência de dunas, calcário lacustre, coluvião,
eluvião, eluvião arenosa e argilo-arenoso. Especificamente, o bairro, é constituído por areias
eólicas do pleistocénico superior.

De acordo MUCHANGOS (1999:163), localiza-se na Grande Planície Moçambicana,


“constituída sobre formações sedimentares ceno-antropozóicas, especialmente arenosas onde
aos interflúvios se associam dunas antigas, desmanteladas pela erosão”.

De uma forma geral o território do Bairro, é topograficamente plano, com pequenas


elevações e declives que varia de 0 a 2% a leste. O relevo é acentuado na sua globalidade sendo
que a cota mínima é de 22 metros na baixa dos afluentes do rio Mulauzi e a máxima é de 64
metros na área onde se encontra a administração do Bairro (CMCM , 2010).

Segundo os dados do CMCM (2010), os solos predominantes no Bairro de Infulene são do


tipo “Aa”, que correspondem a solos de áreas de planície arenosa e pertencem ao agrupamento
de solo arenoso amarelado.

Em termos de características dominantes do subsolo, são areias castanhas amareladas e


muito profundas. São solos de topografia quase plana com declive que varia de 0 a 2%. A
textura do solo quer à superfície como no subsolo é de tipo arenosa a arenosa franca. A
profundidade pode ser superior a 1 metro, com uma drenagem relativamente boa.
41

À superfície do solo o pH varia de 3.9 a 6 enquanto que no subsolo varia de 4 a 6.5. Em


termos de matéria orgânica à superfície varia de 0 a 3% (baixa a moderada). À superfície a
salinidade dos solos não é significativa. O bairro de Infulene “A” apresenta algumas encostas
baixas e húmidas, cerca de 200 há, com uma inclinação de 2 a 5%, com boa fertilidade e
humidade, altamente aptas para a prática de agricultura de subsistência.

2.3.2. Clima e precipitação

De acordo com MUCHANGOS (1999), o clima da região Sul de Moçambique é nitidamente


tropical. A maior influência sobre o clima desta região e particularmente no que respeita ao
comportamento da pluviosidade e da temperatura, é exercida pela localização na zona dos
alíseos do Sudeste, pela corrente marítima Moçambique-Agulhas e pelas diferenças altitudinais
e de exposição de cada uma das suas parcelas. No Bairro Infulene “A”, a temperatura média
mensal varia entre 26 °C em Janeiro e 19,27° C em Julho.

As chuvas ocorrem na estação mais quente, com temperaturas médias mensais que nunca
ultrapassam os 18 °C. Em relação a precipitação, os maiores níveis coincidem com os meses
mais quentes – Janeiro e Fevereiro – enquanto as baixas precipitações coincidem com os meses
mais frios – Maio, Junho e Julho. A precipitação mais elevada 652,9 mm – verificou-se em
Fevereiro de 2000, enquanto que a mais baixa verificou-se em Maio de 2007 e 2008, que, apesar
de não ser o mês mais frio, é o mais seco (CMCM 2010).

2.3.3. Hidrografia

O bairro de Infulene é atravessado por dois riachos ou afluentes do vale do Infulene, dos
quais um está mais para o leste fazendo fronteira com o Bairro Acordos de Lusaka e outro esta
mais para o Norte (Ubisse, 2005). Os dois riachos são de regime periódico, de escoamento
superficial, registando subida do caudal na época chuvosa.
42

Mapa 2: Mapa do rio Infulene

Fonte: autor 2018

2.3.4. Vegetação e fauna

Grande parte do Bairro perdeu a sua cobertura vegetal natural. A cobertura é formada por
vegetação herbácea e submersa-ancorada nativa que tende a desaparecer. Existem ainda
vestígios de um número, ainda que bastante reduzido, de árvores de pequeno porte,
nomeadamente mafurreiras, mangueiras, canhoneiros, caniço.

No que se refere a vegetação não nativa, há registo de amendoeira, casuarina, eucalipto. A


fauna predominante existente no bairro, restringe-se essencialmente a grupos como insectos,
répteis, aves e roedores MACUÁCUA (2005).
43

2.3.5. Potencialidade de recursos naturais do Vale Fluvial.

As potencialidades dos recursos naturais que o Vale Fluvial do Infulene oferece, são as
proximidades de rocha geradoras de terras férteis propício para a prática da agricultura, recursos
vegetais geradoras de boa atmosfera ao longo do vale.

Actualmente há uma pequena porção do Vale que não foi ocupada por residências é nesta
porção que a população pratica a agricultura de subsistência e alguns residentes do bairro
adjacente, vide as figuras abaixo.

Figura 1: Espaços agrícolas do Bairro Infulene Figura 2: Prática da Agricultura no Bairro


“A” Infulene “A”

Fonte: Autor (2018) Fonte: Autor (2018)

2.4. Particularidades sócio-económicas


2.4.1. População

O bairro do Infulene “A” pertence ao Posto Administrativo da Machava, que é considerado


o segundo posto mais populoso do Município da Matola. De acordo com os dados preliminares
do Censo (2017), o Bairro de Infulene “A” conta com 23905 habitantes, sendo 11698 do sexo
masculino e 12207 do sexo feminino. No que diz respeito a densidade populacional, o Bairro
de Infulene é considerada média a baixa variando entre 1032 a 4306 Habitantes por quilómetro
quadrado.
44

2.4.2. Actividades Económicas

 Agricultura

Segundo CMCM (2010), a agricultura é praticada em todos os postos administrativos sendo


na Machava (4544,8ha de sequeiro e 27.6ha irrigados), Infulene (5050.7ha sequeiro e 477.1 há
irrigados) e Matola Sede (571.6 Sequeiro e 1.8 Irrigados). De acordo com Macuácua (2005),
no Bairro de Infulene verifica-se a prática de agricultura de subsistência em pequenas unidades,
associações agrícolas ou cooperativas agro-pecuárias, que dedicam-se a produção de hortícolas,
legumes (feijão manteiga e nhemba), oleaginosas (amendoim), tubérculos (principalmente
batata-doce e mandioca), vide a figura abaixo.

Figura 3: Espaços agrícolas do vale do Infulene

Fonte: Autor (2018)

 Turismo

Considerando o Município da Matola como um todo, o sector do turismo ainda é uma área
por explorar, tanto que é necessário fazer muito mais para atrair o investimento neste sector. O
mesmo acontece no Bairro do Infulene que encarra este sector como um desafio. É neste âmbito,
que o Conselho Municipal da Matola está a encorajar o empresariado com vista, por exemplo,
a reabilitação do Parque Hoteleiro degradado, construções hoteleiras de elevada qualidade nas
zonas consideradas estratégicas para o desenvolvimento do turismo (CMCM 2010). Não
obstante esta situação, no bairro de Infulene “A” localiza-se o estádio da Machava e o Colégio
Politécnico ADPP.
45

Figura 4: Estádio da Machava Figura 5: Colégio Politécnico ADPP

Fonte: Autor 2018 Fonte: Autor 2018

O estádio com uma capacidade para 32180 lugares sentados, podendo a pista de ciclismo
ser convertida em peão com capacidade para 20.000 lugares mais, tem a possibilidade de
receber no parque de automóveis cerca de 5.000 veículos com uma área de 300 000 m2.

 Indústria e comércio

Em geral, a população do Bairro enquadra-se nos sectores secundário e terciário da


economia. De entre estes destaca-se o comércio informal de pequena escala, pequenos negócios
de prestação de serviços (carpintarias, serralharias, etc.) e o emprego formal nos sectores
privados e estatal. E dentro do Bairro haverá uma construção de um super mercado e uma loja
pertencente a entidade privada, (vide as imagens em anexo).

Figura 6: Super Mercado Figura 7: Placa descritiva de construҫão de


um super mercado

Fonte: Autor 2018 Fonte: Autor 2018


46

Indústria

As actividades industriais, incluem indústrias de médio porte como a SECAMA, Metalec,


uma Matadouro, e pequenas empresas de prestação de serviços representam um a grande
contribuição e uma grande oportunidade para a criação de postos de trabalho (CMCM, 2010),
vide abaixo um dos estabelecimentos industriais do Bairro.

Figura 8: Estabelecimento Industrial do bairro Infulene “A”

Fonte: Autor (2018)


2.4.3. Infra-estruturas e serviços sociais

 Serviços de Educação

O bairro de Infulene “A” possui dois estabelecimento de ensino primário no qual o segundo
é de gestão privada Escola Primaria completa Machava A e a Escola Primaria Don-Bosco, uma
escola secundaria de regime interno (ADPP), escolinhas e um orfanato com vocação específica
para atender crianças órfãs não somente do bairro de Infulene, mas também recebem crianças
oriundas de diferentes bairros do Município da Matola (UBISSE 2005), (vide as imagens em
anexo).

Figura 9: Escola Primaria Completa 5 de Figura 10: Orfanato Ommu Salma


Fevereiro

Fonte: Autor 2018 Fonte: Autor 2018


47

 Serviços de Saúde

De acordo com dados da Secretaria do Bairro, os serviços de saúde do Bairro contam com
um posto de saúde (posto de saúde de Infulene) e uma clinica privada (clínica Mapinhane) e
com duas farmácias.

 Outros serviços

Ainda segundo os dados da secretaria, o bairro possui uma Bomba de abastecimento de


combustível, Igrejas (Católica, IURD, Velha Apostólica), Escola de Condução, Mercearias, um
edifício onde funciona o circulo do bairro (administração), (ver a imagem em anexo).

Figura 11: Bombas de abastecimento de Combustível

Fonte: autor 2018

 Saneamento
O sistema de saneamento do Bairro de Infulene, funciona através de fossas sépticas
familiares, latrinas, sendo umas melhoradas e outras que não oferecem aceitáveis condições
sanitárias. A drenagem de águas Pluviais é feita naturalmente ao longo das vias asfaltadas e em
terra batida, provocando na maioria dos casos a erosão e destruição dos acessos (Ubisse 2005),
vide as imagens abaixo.

Figura 12: Escoamento superficial das águas Figura 13: Latrina familiar
do bairro Infulene “A”

Fonte: Autor (2018) Fonte: Autor (2018)


48

CAPÍTULO III - APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS SOBRE IMPACTOS


SÓCIO-AMBIENTAIS DA OCUPAÇÃO ESPONTÂNEA DO VALE FLUVIAL DO
INFULENE "A", NO MUNICÍPIO DA MATOLA (2000 – 2018)

Neste capítulo faz-se a apresentação e discussão dos resultados dos dados colectados no
Município. São dados obtidos através da observação das características da ocupação espontânea
do vale do Infulene “A” e seu impacto sócio-ambiental bem como dos resultados obtidos dos
inquéritos e entrevistas aplicadas aos residentes do Bairro, estruturas locais e autoridades
municipais. Depois da apresentação dos resultados, faz-se a discussão dos mesmos.

3.1. Caracterização da população e amostra do estudo

Usou-se amostragem não probabilística e por conveniência, daí que o tamanho de


amostragem corresponde, a quantidade de pessoas que foi possível inquirir dada a
circunstâncias encontradas no local.

A população do estudo foi de 23905 dos quais 11698 são do sexo masculino e os restantes
12207 são do sexo feminino, correspondente ao universo populacional do Bairro. A população
foi agrupada em 4781 famílias do Bairro. A amostra foi de 47 pessoas representantes das
famílias, dos quais 26 homens e 21 mulheres. A selecção do público-alvo foi extraída de forma
aleatória, olhando para as famílias que praticam a actividade agrícola e os residentes, com a
indicação de Líder comunitário do Vale Fluvial de Infulene “A”, vide o gráfico abaixo.

Gráfico 1: Género dos inquiridos

Género dos inquiridos

Mulheres
45% Homens
55%

Fonte: autor 2018

A superioridade numérica dos homens em relação às mulheres deve-se ao facto de a maioria


dos agregados familiares do bairro serem chefiadas por homens.
49

3.2. Idade dos inquiridos

Quanto à faixa etária dos inquiridos, 28 dos entrevistados (17 homens e 11 mulheres) têm
idades compreendidas entre 20 e 40 anos; e 19 entrevistados (9 homens e 10 mulheres) têm
idades compreendidas entre 41 a 64 anos, vide o gráfico.

Gráfico 2: Idade dos inquiridos

60.00%

40.00%

De 20 a 40 anos De 41 a 64 anos

Fonte: Autor 2018

A maioria dos entrevistados são jovens. Isto explica-se pela estrutura etária da população
moçambicana que tem predominância juvenil.

3.3. Qualificações académicas

Quanto às qualificações académicas dos respondentes, 46% fizeram o ensino primário, 49%
fizeram ensino secundário e 5% ensino superior, vide o gráfico.

Gráfico 3: Qualificações Académicas dos inquiridos

46%
39%

10%
5%

Primário Secundário superior Analfabetos


50

No que tange `as qualificações académicas dos residentes do Bairro Infulene “A”, de referir
que a taxa do analfabetismo é baixa (10%) comparando com a cidade da Matola (18%) e
Província de Maputo (27%), de acordo com INE (2013).

3.4. Impactos sócio-ambientais da ocupação espontânea do Vale do Infulene

Os dados resultantes das observações, entrevistas, questionário e das conversas informais


com a população do Bairro de Infulene “A”, permitiu constatar importantes aspectos
relacionados com o impacto sócio-ambiental da ocupação espontânea do Vale de Infulene.
Durante, as observações feitas, verificou-se o impacto negativo da ocupação do espaço devido
aos assentamentos formais, informais/espontâneos e a ocupação para instalações de
estabelecimentos comerciais e industriais.

3.4.1. Característica e formas da ocupação espontânea dos espaços de vales fluviais de


Infulene “A”
3.4.1.1. Condição de ocupação do terreno/moradia

De acordo com os dados do questionário, 36 moradias são de propriedade familiar, 7 de


arrendamento, 4 em regime de emprestado, vide o gráfico.

Gráfico 4: Condição de ocupação do terreno/moradia

76.50%

14.80% 8.50%
0% 0%

Propriedade da Arrendamento Cedido Emprestado Outros


família

Fonte: Autor 2018

A maioria dos terrenos do Bairro de Infulene “A” são propriedades familiares destinadas à
moradia. Nas moradias emprestadas, os ocupantes justificam pela necessidade de estar perto do
seu local de trabalho visto que suas áreas de residência habitual encontram-se fora da cidade da
Matola. Durante a recolha de dados nenhum entrevistado declarou ter cedido o terreno e nem
outra condição da ocupação.
51

Mapa 3: Mapa de uso do solo do Bairro do Infulene A

3.4.1.2. Formas de ocupação espontânea do espaço no bairro Infulene “A”

No vale de Infulene “A” a ocupação espontânea aparece em forma mista, ou seja, por um
lado encontram-se ocupações produtivas destinadas à prática da Agricultura (2), comércio (2),
turismo e outras actividades económicas (2) e por outro, ocupações residenciais (41), vide o
gráfico.

Gráfico 5: Formas de ocupação espontânea do espaço no bairro Infulene “A”


87.20%

4.20% 4.20% 4.20%

Habitação Agricultura Comércio Turismo

Fonte: Autor 2018


52

O espaço no Bairro de Infulene “A” destina-se essencialmente à habitação, contudo, mais


da metade que declararam usar o espaço para a habitação, possuem também pequenas parcelas
para a prática da agricultura. Outros anexaram suas residências com estabelecimentos
comerciais (barracas e mercearias).

Mapa 4: Mapa de uso do Solo do bairro de Infulene A

Constatou-se ao longo da pesquisa que, ao lado das residências pratica-se a agricultura de


subsistência, vide a imagem abaixo.
53

Figura 14: Prática da agricultura ao lado das habitações

Fonte: Autor (2018)

3.4.1.3. Legalidade da ocupação dos espaços no bairro Infulene “A”

Em relação a legalidade da ocupação dos terrenos, 36 possuem declarações do bairro que


legalizam a sua ocupação e os restantes (11) não sabem pois foram emprestados e arrendados e
não têm informação em relação a legalidade do mesmo, vide o gráfico.

Gráfico 6: Legalidade da ocupação dos espaços no bairro Infulene “A”

76.50%

23.50%

Possui declaração do bairro Não sabe

Fonte: Autor 2018

A respeito da legalidade da ocupação dos terrenos, o Município reconhece a existência


destas ocupações. Contudo, nega ter autorizado a sua ocupação e fixação. As autoridades do
Bairro também reconhecem o facto, contudo dizem que as mesmas famílias já têm declarações
esperando apenas da emissão dos DUAT’s pela edilidade porque já faz tempo que estão lá.

Observações feitas no local, constatamos que as ocupações espontâneas no bairro são uma
realidade. Casas habitacionais, estabelecimentos e machambas foram feitas em locais
impróprios. Locais de drenagem das águas pluviais e fluviais foram fechadas para dar espaço a
empreendimentos o que tem provocado inundações em tempos chuvosos.
54

3.5. Forma de obtenção do terreno/moradia

No que tange à obtenção do terreno ou moradia no bairro Infulene “A”, a maioria (25), os
terrenos foram cedidos por familiares, 14 atribuídos pelas autoridades do bairro e 8 por herança
dos pais.

Gráfico 7: Formas de ocupação do terreno ou moradia

53.00%

29.70%
17.20%

Atribuído pelas autoridades Cedido Herança


municipais

Fonte: autor 2018

Os próprios residentes reconhecem ter fixado suas residências em lugares impróprios,


contudo vêm-se sem outra solução, pois os terrenos nas zonas parceladas e de expansão são
muito acima dos seus rendimentos. Os residentes na sua maioria são escolarizados e conhecem
as implicações destas ocupações, mas justificam-se também pela facilidade que têm para
chegarem na cidade da Matola ou Maputo, locais do seu trabalho.

Quadro 4: Impactos sócios-ambientais da ocupação espontânea

Tipos Positivos Negativos

Produção de hortícolas que


Natureza de impactos abastecem a cidade de Maputo Inundações

Novos empreendimentos Perda de bens móveis e imóveis

Criação de novas empresas


Proliferação de doenças
Aumento significativo do fluxo
Aumento do volume do lixo
de veículos
Sociais

Alteração parcial da paisagem


Campanhas de plantio de mudas natural
Impermeabilização do solo
Ambientais
Destruição de Habitats.
55

Redução da infiltração.
Danos a flora e a fauna, devido a
remoção da vegetação típica para a
construção de estabelecimentos
comerciais, casas
Redução de presença de alguns
animais
Remoção da camada fértil do solo.
Destruição da cobertura vegetal
Poluição das águas subterrâneas pela
prática da agricultura
Fonte: autor 2018

3.6. Impactos sócio-ambientais da ocupação espontanea do Vale Fluvial do Infulene "A"

De acordo com FELIPPE & JUNIOR (S/d), a ocupação dos espaços dos vales fluviais
ocasiona inúmeras alterações espaciais e ambientais e, consequentemente, na dinâmica dos
recursos hídricos. Assim, compreender como o meio é transformado, interpretando os processos
que deflagram os impactos, é essencial para a gestão actual e futura dos, ditos, recursos
ambientais.

Os impactos da ocupação espontânea no Vale de Infulene “A” são tanto sociais quanto
ambientais. De referir que os sociais derivam muitas vezes do ambiente, havendo caso que se
complementam.

3.6.1. Impactos sociais da ocupação espontânea do Vale Fluvial de Infulene “A”

Maior parte do espaço dos Vales Fluviais de Infulene “A”, local do estudo, está ocupada,
alterando as condições de infiltração da água pluvial e que se traduz nos seguintes problemas:

Sempre que regista uma queda acentuada da chuva, há inundações e afecta as famílias tanto
nas suas casas como nas machambas.

Em função da ocupação espontânea e da falta de planeamento do território, as populações


ocupam essas áreas e acabam sofrendo com terríveis inundações, perda de bens móveis e
imóveis, proliferação de doenças que emergem sobre estas áreas.

Pelas particularidades das ocupações espontâneas neste bairro, trazem consigo problemas
relacionados com a ausência de saneamento básico, asfaltamento das ruas, iluminação pública
e redes de água tratada, aumento das desigualdades sociais, pois de um lado estão os luxuosos
e “seguros” condomínios fechados, marcados por uma população de alta renda, enquanto nas
56

zonas de ocupação espontânea com uma população carente e desprovida dos recursos da
“cidade urbanizada”.

3.6.2. Impactos ambientais da ocupação espontânea do Vale Fluvial de Infulene “A”

A situação ambiental no Bairro no que toca a poluição do ambiente, ainda não é crítica mas,
se não forem tomadas medidas mitigadoras a curto e médio prazo, a situação da poluição dos
aquíferos na zona agrícola poderá tender a piorar.

O primeiro problema registado deste bairro está relacionado ao sistema de drenagem


deficiente. A falta desse sistema de drenagem em muito contribui para a erosão das vias de
acesso em áreas declivosas. A actividade agrícola também tem contribuído para a poluição dos
aquíferos pela deposição não controlada de fertilizantes e de pesticidas. Poluição sonora gerada
pelas mercearias e ou barracas de venda de bebidas alcoólicas.

A exposição aos riscos ambientais está relacionada ao tipo de solos predominante. O Bairro
possui um tipo de solo relativamente bom e com alta capacidade de permeabilidade. Mas os
acessos nas zonas de areia vermelha podem ser sujeitos a acumulação de águas das chuvas e
tornarem-se intransitáveis.

Sob ponto de vista ambiental destacam-se os seguintes impactos.

 Impermeabilização do solo, o que resultou no aumento de águas superficiais de difícil


escoamento;
 Houve substituição da cobertura vegetal pelas construções de moradias,
estabelecimentos comerciais e industriais;
 Poluição das águas subterrâneas pela prática da agricultura;
 Redução da recarga dos aquíferos;
 Descaracterização do Vale das suas características naturais.

3.6. Medidas de mitigação nos impactos sócio-ambientais da ocupação espontânea do Vale


Fluvial do Infulene "A"

Dois instrumentos legais regem a ocupação de terra em Moçambique: a Constituição da


República e a Lei nº 20/97 de 1 de Outubro.

Constitui objectivo da qualificação dos solos, determinar a extensão e os limites das parcelas
do território com regimes de uso específico ou que imponham restrições a outras actividades
57

que não especificamente previstas, a classificar como zonas de protecção” (CR, 2004). A Lei
nº 20/97 de 1 de Outubro, proíbe a implantação de infra-estruturas habitacionais ou para outro
fim que, pela sua dimensão, natureza ou localização, provoquem impacto negativo significativo
sobre o ambiente, e o mesmo se aplica à disposição de lixos ou materiais resíduos.

A partir da identificação dos problemas, propõe-se que sejam consolidadas políticas


públicas que proporcionem recuperação das áreas ocupadas nos lotes que ainda não foram
ocupados e nas áreas que deverão ocorrer a requalificação amenizando impactos causados pelas
chuvas. E ainda a realização de obras de infra-estrutura como pavimentação de ruas, drenagem
pluvial e a melhoria ao acesso ao Bairro, cada uma executada pelo órgão responsável.

O município tem a necessidade de reduzir as situações de riscos geológicos encontrados e


evitar que novas situações semelhantes se repitam; investir em políticas públicas específicas
que juntamente com a população, monitore e acompanhe essas situações de risco no bairro,
além de acelerar o processo de remoção e contenção das moradias.

No entanto, há também a necessidade da implantação de medidas que atenda as


necessidades básicas da população como: saúde, educação, lazer, moradia, enfim, promover o
desenvolvimento sustentável do Bairro Infulene “A”.

A realização e implantação de programas habitacionais, sendo feitas inquéritos


socioeconómicas e um cadastro da população. Pois usando esses métodos, poderia ser analisada
individualmente a real situação de determinada família, levando em consideração os reais
motivos de viverem no Bairro.
58

CONCLUSÃO

A presente monografia, teve como objectivo compreender os impactos sócio-ambientais da


ocupação espontânea do Vale do Infulene "A" no Município da Matola entre 2000 a 2018. Com
base na abordagem mista, com o intuito de maximizar a qualidade dos resultados obtidos com
o recurso as entrevistas e inquéritos como instrumentos de recolha de dados, foi possível atingir
o objectivo proposto. Após a recolha, análise e interpretação dos dados recolhidos chegou-se
às seguintes conclusões:

A ocupação do espaço no Bairro Infulene “A” no Município da Matola, é mista, ou seja,


por um lado encontram-se ocupações produtivas destinadas à prática da agricultura, comércio
e outras actividades económicas, e por outro, são ocupações residenciais. Estas ocupações são
na sua maioria desordenadas, não obedecendo a nenhum planeamento territorial. Esta mistura
de ocupação é reflexo da natureza das ocupações nos arredores das cidades da Matola e Maputo,
caracterizados por informalidades. Não obstante esta situação, o Bairro dispõe de alguns
serviços básicos como energia, água potável e infra-estruturas sociais.

No horizonte temporal 2000 a 2018, o Bairro Infulene “A” registou muitas ocupações dos
espaços na sua maioria para habitação e para instalação de estabelecimentos comerciais e
industriais. Esta ocupação não foi acompanhada por um plano de ordenamento territorial,
tratando-se de ocupações espontâneas. Esta situação tem trazido consequências negativadas de
âmbito social e ambiental para os residentes do Bairro, bem como para os ecossistemas locais.

Dentre os impactos negativos que advém da ocupação do Vale de Infulene, destacam-se:


enchentes que têm causando problemas nas vias, dificultando o acesso ao Bairro. Proliferação
de mosquitos causadores da malária; contaminação das águas superficiais e subterrâneas pela
prática da agricultura. A actividade agrícola também tem contribuído para a poluição dos
aquíferos pela deposição não controlada de fertilizantes e de pesticidas.

Maior parte do espaço dos vales fluviais de Infulene “A” está ocupada, alterando as
condições de infiltração da água pluvial o que faz com que sempre que há inundações as
famílias são afectadas e provoca danos ao meio e na vida das pessoas. Em função da ocupação
desordenada e da falta de planeamento do território, as populações ocupam essas áreas e acabam
sofrendo com terríveis inundações, que emergem sobre estas áreas
59

SUGESTÕES

Às autoridades municipais

 Evitar a construção de novas moradias e empreendimentos comerciais e industriais sem


observância do plano de ordenamento municipal.
 Abertura e reabertura das valas de drenagem para permitir o escoamento superficial das
águas.
 Incorporação dos aspectos demográficos e consideração dos desastres naturais no
âmbito da elaboração dos planos de ordenamento do território;
 Criação de programas de educação ambiental em parceria com outras instituições para
garantir o uso sustentável das infra-estruturas do Bairro e a conservação do meio
ambiente (tratamento adequado de resíduos sólido, uso de técnicas de cultivo menos
poluentes;

Aos residentes

 Devem evitar a construção de moradias em áreas impropriadas;


 Deve colaborar com o Município para a manutenção permanente dos ecossistemas.
60

BIBLIOGRAFIA

ARAÚJO, Manuel G. Mendes de. Os espaços urbanos em Moçambique. In: GEOUSP.


Espaço e Tempo, São Paulo, N° 14, pp. 165- 182, 2003.

BARROS, L.P., & Kastrup, V. Cartografar é acompanhar processos. Sulina Porto Alegre.
2012.

BELLO. Metodologia Científica. Manual para elaboração de textos académicos.


Monografias, dissertações e Teses. Universidade Veiga de Almeida - UVA. Rio de Janeiro.
2005.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília:


Senado Federal. Centro Gráfico, 1988. 292p.

CASSETI, W. Geomorfologia. Goiânia: Editora da UFG, 2005. Disponível em:


<http://www.funape.org.br/geomorfologia/>. Acesso a 4 de Março de 2018.

CISTAC, G. e CHIZIANE, E. Aspectos Jurídicos, económicos e sociais do uso e


aproveitamento da terra. UEM, 2003.

CMCM (Conselho Municipal da Cidade da Matola). Plano Estrutural da Cidade da


Matola: Análise da situação actual. PEUCM. 2010.

COSTA, F. R. da; ROCHA, M. M. Geografia: conceitos e paradigmas – apontamentos


preliminares. Revista GEOMAE: geografia, meio ambiente e ensino, Campo Mourão, PR:
Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão, Departamento de Geografia, v.1,
n. 2, p. 25-56, jul./ago. 2010.

COSTA, Fábio Rodrigues da. O Conceito de Espaço em Milton Santos e David Harvey:
Uma Primeira Aproximação. Revista Percurso - NEMO Maringá, v. 6, n. 1 , p. 63- 79, 2014.
ISSN: 2177- 3300.

CUNHA, L. (2011) – “Riscos naturais, Ordenamento do território e sociedade. Estudos de


caso nas ilhas de S. Antão e Santiago”. Actas do 15º Congresso da APDR (em CDRom),
Praia, 23 p
61

CUNHA, S. B. da. Geomorfologia Fluvial. In: GUERRA, A. J. T.; CUNHA, S.B. da (org.)
Geomorfologia: Uma atualização de bases e conceitos. 10ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand.

DANTAS, Priscila Ferreira Ramos. Concepções e Práticas Pedagógicas de Professores da


Educação Infantil na Inclusão de Alunos com Deficiência. Dissertação de Mestrado na
Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal/RN. 2012.

FACHIN, Odília. Fundamentos de Metodologia. Atlas. São Paulo. 1993

FELIPPE, Miguel; JUNIOR, Antônio Magalhães. Consequências da ocupação urbana na


dinâmica das nascentes em Belo Horizonte-Mg. In: Mobilidade territorial, espaço e ambiente:
urbanização, metropolização e interiorização - características e impactos ambientais.
Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/267770975. Acesso a 4 de Março de
2018.

GIL, António Carlos. Como Elaborar Projectos de Pesquisa. 4ª Edição. Editora Atlas S.A.
São Paulo. 2002

GIL, António Carlos. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 5a edição, editora Atlas.
Porto.1999.

GUERRA, António Teixeira; GUERRA, António José Teixeira. Novo Dicionário


Geológico – Geomorfológico. 6ª edição. Bertrand Brasil. 2008.

HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. 2ª Edição. Annablume, São Paulo:


2006.

ICE, Social Good Brasil, Impactos Sociais das novas tecnologia, 27 de novembro 2017

JACOBI, P. Meio ambiente urbano e sustentabilidade: alguns elementos para a reflexão. In:
CAVALCANTI, C. (Org.). desenvolvimento sustentável e políticas públicas: Cortez Editora,
2003,

LOPES, Hugo Manuel Soares. Considerações sobre o ordenamento do território.


Disponível em: http://www.ipv.pt/millenium/ect7_hmsp.htm.

MACHADO, Josias Alves; MELO JR, Orlando Augusto, TERRA, Ricardo Pacheco
.Salubridade Ambiental em Área de Ocupação Espontânea na Microrregião de Gargaú, São
62

Francisco De Itabapoana, Rio De Janeiro. In: Anais do VIII Congresso de Ecologia do Brasil,
23 a 28 de Setembro de 2007, Caxambu – MG. Disponível em: http://www.seb-
ecologia.org.br/viiiceb/pdf/1326.pdf. Acesso a 7 de Agosto de 2018.

MACHADO, L.O. (1979) Urbanização e Política de Integração no Norte de Goiás. Tese de


Mestrado em Geografia, IGEO, UFRJ

MACUACUA. S. F. Avaliação da terra na produção das principais hortícolas no vale do


Infulene. UEM. FAEF. Maputo. 2005.

MARCONI, M. A. & Lakatos, E. M. (1996). Técnicas de pesquisa: Planeamento e


execução de pesquisa, Amostragem e técnicas de pesquisa, Elaboração, análise e interpretação
de dados (3.ª ed.). São Paulo: Atlas.

MICHEL, M. Helena. Metodologia e Pesquisa Científica em Ciências Sociais: Um guia


prático para acompanhamento. Editora Atlas. São Paulo. 2005.

MICOA. Programa Nacional de Gestão Ambiental. Maputo, Maio 1996. Ministério da


Justiça, Secretaria de Direito Econômico, Consulta Pública.

MORESI. Metodologia da pesquisa. Pró reitoria de pós graduação -PRPG. Programa de


pós-graduação em gestão do conhecimento e tecnologia da informação. Universidade Católica
De Brasília UCB. 2003

MOZATTO, A. R. & Grzybovski, D. (2011). Análise de Conteúdo como Técnica de Analise


de Dados Qualitativos no Campo da Administração: Potencial e Desafios. Brasil: Copyright.

MUCHANGOS, Aniceto dos. Moçambique: paisagens e regiões naturais, Maputo, 1999.

MUKAI, Sylvio Toshiro. Constitucionalidade da concessão especial para fins de moradia.


Fórum de Direito Urbano e Ambiental – FDUA. Belo Horizonte, ano 3, n. 13, p. 1361-1374,
jan/fev. 2004

POLON, Luana Caroline Künast & RONDON, Cândido. Espaço Geográfico: Breve
Discussão Teórica acerca do Conceito. Rev. Geogr. Acadêmica v.10, n.2 (xii.2016)

RODRIGUES. Metodologia Científica. FAETEC/IST. Paracambi. 2007.


63

SANTOS, M. 1992: a redescoberta da natureza. Estudos Avançados, São Paulo: São Paulo:
Difel, 1980.

SANTOS, Milton. Técnica, Espaço, Tempo: Globalização e meio técnico-científico


informacional. Editora da Universidade de São Paulo. São Paulo: 2008.

UBISSE. O. G. M. Perceções sobre a malaria e mecanismos de prevenção e cura:


Estudo comparativo entre o bairro de Infulene cidade de Maputo e povoado de Mangandlane
no distrito de Magude. UEM. FLCS. Maputo. 2005.
64

Apêndices